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Max Weber

ECONOMIA
E SOCIEDADE
Fundamentos da
sociologia compreensiva

VOLUME 2

Tradução de
Regis Barbosa e Karen Elsabe Barbosa

Revisão técnica de .
Gabriel Cohn

EDITORA

E:jEJ Iimprensaoficial
UnB

São Paulo, 2004


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pelo menos, o mundo relativamente melhor, em virtude da divina providência, e


porque o indivíduo melhor conhece seus próprios interesses: a glorificação
carismática da "razão" (que encontrou sua expressão característica na apoteose de
Robespierre) é a última forma que assumiu o carisma em seu caminho, por meio
dos mais diversos destinos. É claro que aquelas reivindicações de igualdade jurí-
dica formal e liberdade de ação econômica prepararam, por um lado, a destruição
de todos os fundamentos específicos das ordens jurídicas patrimoniais e feudais,
em favor de um cosmo de normas abstratas, isto é, indiretamente em favor da
burocratização, enquanto, por outro lado, favorecem, de modo específico, a ex-
pansão do capitalismo. Do mesmo modo que a ascese intramundana, adotada
pelas seitas por motivos nem sempre idênticos, e a natureza da disciplina eclesi-
ástica das seitas criaram a disposição psíquica para o capitalismo e o "homem
profissional", que atua racionalmente e do qual precisa o capitalismo, os direitos
humanos e fundamentais oferecem as condições prévias para a livre ação do
capital, com sua tendência a valorizar bens materiais e seres humanos.

Seção 7

A DOMINAÇÃO NÃO-LEGíTIMA (TIPOLOGIA DAS CIDADES)

§ 1. Conceito e categorias da cidade

A natureza econômica da "cidade": estabelecimento de mercados; "cidade principesca".


- Tipos da "cidade de consumidores", "cidade de produtores" e "cidade de comerciantes".
- Relações com a agricultura; "cidades de agricultores". - A "economia urbana" não é
"etapa econômica". - O conceito político-administrativo de cidade. - Fortaleza e guar-
nição. - A cidade como unidade de fortaleza e mercado. - Caráter de associação da
"comunidade" urbana e qualificação estamental do "cidadão" no Ocidente. - Ausência de
ambos os conceitos no Oriente.

Pode-se tentar definir "cidade" de formas muito diversas. Apenas uma coisa
têm em comum todas as definições: que se trata, em todo caso, de um assenta-
mento fechado (pelo menos relativamente), um "povoado", e não de uma ou
várias moradias isoladas. Ao contrário, nas cidades (mas não apenas nestas) cos-
tumam as casas encontrar-se muito perto uma da outra, hoje em dia, em regra,
geminadas. A idéia corrente associa também com a palavra "cidade" característi-
cas puramente quantitativas: é um povoado grande. A característica em si não é
imprecisa. Do ponto de vista sociológico, significaria o seguinte: um povoado,
isto é, um assentamento com casas contíguas, as quais representam um conjunto
tão extenso que falta o conhecimento pessoal mútuo dos habitantes, específico
da associação de vizinhos. Segundo isto, somente povoados relativamente gran-
des seriam cidades, e depende das condições culturais gerais a partir de que
tamanho, mais ou menos, se aplica esta característica. Àqueles assentamentos
que no passado tinham o caráter jurídico de cidades, esta característica não se
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aplicava na maioria dos casos. E na Rússia atual há "aldeias" que, com vanos
milhares de habitantes, são bem maiores do que algumas "cidades" antigas (por
exemplo, no território polonês colonizado do Leste alemão), as quais contavam
com apenas algumas centenas de habitantes. Em todo caso, o decisivo não é
apenas o tamanho. Se se tenta definir a cidade do ponto de vista puramente
econômico, seria um povoado cujos habitantes, em sua grande maioria, não vi-
vem do produto da agricultura, mas sim da indústria ou do comércio. Mas não
seria conveniente chamar todos os assentamentos deste tipo de "cidade". Aquele
tipo de povoados que se compôem de membros de um único clã, com um único
empreendimento industrial, de fato hereditário - as "aldeias industriais" da Ásia
e da Rússia - , não pode ser incluído no conceito de "cidade". Deve-se acrescen-
tar, como outra característica, a de certa "variedade" das indústrias exercidas. Mas
também esta característica em si não parece apropriada para constituir, somente
ela, uma característica decisiva. Em princípio, uma cidade pode basear-se em dois
fundamentos. Estes são: a) a existência de uma sede senhorial-territorial, sobretu-
do uma sede principesca, como centro, para cujas necessidades econômicas ou
políticas trabalham as indústrias, com especialização da produção, e o comércio
adquire bens. Mas um oikos senhorial-territorial ou principesco, mesmo acompa-
nhado de um povoado muito grande de artesãos e pequenos comerciantes obri-
gados a serviços e tributos, não se costuma chamar de "cidade", se bem que
historicamente uma parcela muito grande das cidades mais importantes tenha sua
origem nesse tipo de povoado, e a produção para uma corte principesca tenha
permanecido para muitas delas (as cidades principescas) uma fonte de renda
sumamente importante, muitas vezes a mais importante, dos habitantes. A segun-
da característica que se tem que acrescentar para se poder falar de uma "cidade"
é b) a realização de uma troca de bens não apenas ocasional mas regular, na
localidade, como componente essencial das atividades aquisitivas e da satisfação
das necessidades dos moradores: a existência de um mercado. Mas nem todo
"mercado" transforma o lugar em que se realiza em uma "cidade". As feiras peri-
ódicas e aquelas do comércio a distância (feiras anuais), nas quais se reúnem em
determinados momentos comerciantes que vêm de fora, para vender suas merca-
dorias em grandes ou pequenas quantidades entre si ou aos consumidores, ocor-
riam muitas vezes em localidades que chamamos de "aldeias". Somente queremos
falar de "cidade" no sentido econômico, tratando-se de um lugar onde a popula-
ção local satisfaz no mercado local uma parte economicamente essencial de suas
necessidades cotidianas, e isto principalmente com produtos que a população
local e dos arredores produziu ou adquiriu para a venda no mercado. Toda cida-
de no sentido aqui adotado da palavra é "localidade de mercado", isto é, tem um
mercado local como centro econômico do povoado, mercado no qual, em virtude
da existente especialização da produção econômica, também a população não-
urbana satisfaz suas necessidades de produtos industriais ou artigos mercantis ou
de ambos, e, como é natural, também os próprios moradores da cidade trocam
entre si os produtos especiais e satisfazem as necessidades de consumo de suas
economias. Originalmente, era normal que a cidade, onde se apresentava como
complexo distinto do campo, fosse ao mesmo tempo sede de um senhor territorial
ou príncipe e localidade de mercado, possuindo centros econômicos de ambos
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os tipos - oikos e mercado - , e freqüentemente nela ocorressem, periodica-


mente, ao lado do mercado local, feiras de comerciantes viajantes, vindos de
longe. Mas a cidade (no sentido aqui adotado da palavra) é um assentamento
com mercado permanente.
A existência de um mercado baseia-se, muitas vezes, numa concessão e na
garantia de proteção do senhor territorial ou do príncipe, que tem interesse, por
um lado, na oferta regular de artigos mercantis e produtos industriais estrangei-
ros do comércio a distância nos direitos alfandegários, taxas de escolta e prote-
ção, direitos de mercado e de justiça que provêm dele e, por outro lado, no
estabelecimento local de artesãos e comerciantes tributáveis, além de poder es-
perar receitas na forma da renda do solo que entrará ao formar-se um povoado
em torno do mercado - oportunidades cuja importância aumenta pelo fato de
tratar-se de receitas monetárias que fazem crescer seu tesouro de metais precio-
sos. Pode ocorrer que uma cidade careça do apoio, também no sentido da proxi-
midade local, de uma sede senhorial-territorial ou principesca, que nasça como
simples povoado, com mercado num lugar apropriado para o comércio, em virtu-
de da concessão de senhores territoriais ou príncipes não-residentes no local ou
em virtude da usurpação própria dos interessados. Isto pode acontecer de tal
modo que se dê a um empresário uma concessão para estabelecer um mercado e
atrair habitantes. Isto era particularmente freqüente na Idade Média, especial-
mente nas fundações de cidades no Leste, Norte e Centro da Europa, mas aconte-
cia no mundo inteiro durante toda a história, ainda que não fosse o normal. Mas
uma cidade podia também nascer, sem o apoio de cortes ou concessões princi-
pescas, mediante a união de intrusos estranhos, piratas, colonos comerciantes
ou, por fim, de interessados no comércio intermediário local, e esta situação era
bastante frequente no litoral mediterrâneo, nos inícios da Antiguidade eem cer-
tas épocas nos inícios da Idade Média. Uma cidade deste tipo podia então ser
pura localidade de mercado. Mas, não obstante, era mais freqüente a coexistência
de uma grande gestão patrimonial principesca ou senhorial-territorial, por um
lado, e de um mercado, por outro. A corte senhorial-territorial ou principesca,
como um dos pontos de apoio da cidade, podia então satisfazer suas necessida-
des, predominantemente à maneira da economia não-monetária, mediante os ser-
viços ou entregas em espécie dos artesãos ou comerciantes locais dependentes,
ou então podia ela, sobretudo, abastecer-se, em proporção maior ou menor, no
mercado urbano, como freguês de maior capacidade aquisitiva. Quanto maior a
proporção em que acontecia isto, tanto mais passava ao primeiro plano a base de
mercado da cidade, e esta deixava de ser um mero acessório, uma simples locali-
dade de mercado ao lado do oikos, tornando-se, apesar de apoiar-se nas grandes
gestões patrimoniais, uma cidade de mercado. Na maioria dos casos, a expansão
quantitativa das antigas cidades principescas e o aumento da importância econô-
mica aconteciam paralelamente ao aumento da satisfação das necessidades no
mercado por parte das grandes gestões patrimoniais e das gestões a elas agrega-
das, como as cortes dos vassalos ou altos funcionários.
Próximas do tipo da cidade principesca, isto é, de uma cidade cujos habi-
tantes dependem, em suas oportunidades aquisitivas, sobretudo, de modo direto
ou indireto, da capacidade aquisitiva das grandes gestões patrimoniais, das prin-
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cipescas e das outras, encontram-se aquelas cidades nas quais a capacidade aqui-
sitiva de outros grandes consumidores, isto é, dos rentistas, determina decisiva-
mente as oportunidades aquisitivas dos artesãos e comerciantes locais. Estes gran-
des consumidores podem pertencer a tipos muito diversos, dependendo da for-
ma e da origem de suas receitas. Podem ser 1) funcionários que gastam ali suas
receitas legais ou ilegais ou 2) senhores territoriais e detentores de poder político
que fazem isto com as rendas obtidas de suas terras situadas fora da cidade ou
com outras receitas, em especial as politicamente condicionadas. Em ambos os
casos, a cidade está muito próxima do tipo da cidade principesca: fundamenta-se
em receitas patrimoniais e políticas como base da capacidade aquisitiva dos gran-
des consumidores (um exemplo da cidade de funcionários é Pequim, e da cidade
de rentistas, Moscou antes da abolição da servidão). Destes casos cabe diferenci-
ar, em princípio, o caso aparentemente semelhante, em que rendas do solo urba-
nas, condicionadas pelo monopólio da "localização favorável ao tráfico" dos ter-
renos urbanos, tendo sua fonte, portanto, indiretamente no artesanato e comér-
cio urbanos, se concentram nas mãos de uma aristocracia urbana (muito freqüen-
te em todos os tempos, especialmente na Antiguidade, desde seus primórdios até
a época bizantina, e também na Idade Média). Do ponto de vista econômico, esta
cidade não é cidade de rentistas, mas sim, dependendo do caso, cidade de co-
merciantes ou de artesãos, sendo aquelas rendas o tributo pago pelos economi-
camente ati vos aos proprietários dos prédios. A separação conceítual entre este
caso e aquele das rendas não-condicionadas pela obrigação tributária dos artesãos
e comerciantes urbanos, mas sim por propriedades situadas fora da cidade, não
pode impedir que na realidade ambos os casos, muitas vezes, se interpenetrassem
no passado. Os grandes consumidores podem também ser rentistas que conso-
mem na cidade receitas de negócios, hoje em dia sobretudo juros provenientes
de títulos e valores, dividendos e participações no lucro: a capacidade aquisitiva
baseia-se, neste caso, principalmente, em fontes de renda condicionadas pela
economia monetária, sobretudo a capitalista (exemplo: Arnhern), ou então baseia-se
ela em pensões estatais, pagas em dinheiro, ou outras rendas públicas (por exem-
plo, uma "pensionópolis", como Wiesbaden). Em todos estes casos e em muitos
semelhantes, a cidade é, em grau maior ou menor, cidade de consumidores, pois
para as oportunidades aquisitivas dos artesãos e comerciantes é decisivo que
residam em sua cidade aqueles grandes consumidores, pertencentes a categorias
económicas variadas. Pode acontecer também o contrário: a cidade é cidade de
produtores, baseando-se o crescimento de sua população e da capacidade aquisi-
tiva desta no fato de que - como ocorre em Essen ou Bochum - nela se encon-
tram fábricas, manufaturas ou indústrias caseiras que abastecem regiões situadas
fora da cidade: há o tipo moderno e o asiático, antigo ou medieval, no qual
existem no local indústrias artesanais cujos produtos são enviados para fora da
cidade. Os consumidores do mercado local recrutam-se, em parte, como grandes
consumidores, da camada dos empresários - caso residam no local, o que nem
sempre é o caso - , em parte e principalmente, como grande massa de consumi-
dores, das camadas dos trabalhadores e artesãos e, parcialmente como grandes
consumidores, da camada dos comerciantes e rentistas, indiretamente alimenta-
dos pelos primeiros. Do mesmo modo que esta cidade industrial se opõe à cida-
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de de consumidores, por fim, a cidade mercantil, uma cidade, portanto, na qual


a capacidade aquisitiva de seus grandes consumidores se baseia na venda lucra-
tiva a retalho de produtos estrangeiros no mercado local (como os cortadores de
panos na Idade Média) ou na venda lucrativa para fora de mercadorias locais ou
pelo menos de mercadorias conseguidas por produtores locais (como os aren-
ques da Hansa) ou na aquisição de produtos estrangeiros e, com ou sem
armazenamento no próprio local, sua venda para fora da cidade (cidades de co-
mércio intermediário). Ou então - e isto é muito freqüente - as cidades combi-
nam tudo isto: a commenda e a societas maris dos países mediterrâneos significa-
vam, em grande parte, que um tractator (comerciante viajante) transportava aos
mercados do Levante, com o capital que, em parte ou completamente, lhe entre-
gavam os capitalistas locais, produtos da cidade ou comprados no mercado da
cidade - muitas vezes deve ter-se dirigido lá também sem carga alguma - ,
vendendo-os ali e comprando com o dinheiro obtido mercadorias orientais para
trazê-las ao mercado de sua cidade, onde eram vendidas, e o resultado era dividi-
do, na proporção combinada, entre o tractator e os capitalistas. Também a capa-
cidade aquisitiva e tributária da cidade mercantil baseia-se, portanto, do mesmo
modo que a da cidade de produtores e, em contraste, à cidade de consumidores,
em empresas aquisitivas locais. Das empresas dos comerciantes dependem as
oportunidades aquisitivas das empresas de despachos e transportes e dos nume-
rosos empreendimentos secundários, grandes e pequenos. Mas no caso desta
cidade, das atividades aquisitivas que constituem essas empresas apenas aquela
da venda a retalho local realiza-se completamente no mercado da cidade, en-
quanto o comércio a distância se realiza, em parte considerável ou predominan-
temente, fora da cidade. Significa algo, em princípio, semelhante quando uma
cidade moderna (Londres, Paris, Berlim) é sede dos financiadores nacionais ou
internacionais e dos grandes bancos ou quando é sede (Düsseldorf) de grandes
sociedades anônimas ou centrais de cartéis, pois hoje em dia, mais do que nunca,
a maior parte dos lucros das empresas flui a lugares distintos daqueles onde
foram produzidos. E, por outro lado, uma parte cada vez maior dos lucros não é
consumida pelos beneficiários nas grandes cidades onde se encontram as sedes
de suas empresas, mas sim, fora destas cidades, em parte em bairros nobres do cinturão
verde, em parte e com maior freqüência em casas de campo, hotéis internacionais, etc.
Paralelamente a este fenômeno, surgem as cities que, exclusivamente ou quase exclu-
sivamente, se compõem de prédios comerciais, tratando-se, na maioria das vezes, de
determinado bairro da cidade. Não pretendemos entrar, neste lugar, numa especificação
e casuística mais detalhadas, que seria tarefa de uma teoria rigorosamente econômica
das cidades. Parece óbvio que quase todas as cidades empíricas representam tipos
mistos e, por isso, somente podem ser classificadas segundo seus componentes
econômicos predominantes.
A relação entre as cidades e a agricultura de modo algum era unívoca.
Havia e ainda há "cidades de agricultores", isto é, lugares que, como localidade
do tráfico de mercado e sede dos típicos ofícios urbanos, estão muito distantes
do tipo médio da aldeia, mas onde uma ampla camada dos cidadãos locais satis-
faz suas necessidades alimentares em economia própria e até produz para a ven-
da. Certamente, é normal que os habitantes, quanto maior a cidade, tanto menos
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dispõem de terras de cultivo que guardem uma proporção razoável com suas
necessidades alimentares e estejam reservadas para a produção de alimentos,
nem têm o direito, na maioria dos casos, a uma utilização suficiente e exclusiva
de pastos e florestas, tal como oferece a "aldeia".
A maior cidade alemã da Idade Média, Colõnia, carecia, por exemplo, quase
por completo e evidentemente desde o começo, de um terreno comunitário, que
não faltava em nenhuma aldeia normal daquela época. No entanto, outras cida-
des alemãs e estrangeiras da Idade Média tinham pelo menos extensos pastos e
florestas que estavam à disposição dos seus cidadãos como tais. E quanto mais
descendemos ao sul e voltamos à Antiguidade, tanto maior a freqüência com que
encontramos nos arredores das cidades extensas terras de cultivo que faziam
parte delas. Enquanto hoje em dia consideramos, quase sempre com razão, o
"citadino" típico de uma pessoa que não satisfaz suas necessidades alimentares
no próprio solo, aplica-se à grande maioria das cidades típicas (poleis) da Antigui-
dade precisamente o contrário. Veremos que o cidadão urbano da Antiguidade
com plenos direitos, em oposição àquele da Idade Média, se caracterizava origi-
nalmente pelo fato de possuir um kleros, fundus (entre israelitas: chelek), um lote
que o alimentava: o cidadão pleno da Antiguidade é um "cidadão agricultor".
E muito mais ainda encontravam-se propriedades agrícolas nas mãos das
camadas de grandes comerciantes das cidades, tanto na Idade Média - mas tam-
bém nesta época mais no Sul do que no Norte - quanto na Antiguidade. Propri-
edades agrícolas, às vezes de tamanho exorbitante, às vezes dispersas aqui e ali,
encontramos nas cidades-estados medievais e da Antiguidade, sob a dominação
política ou senhorial-territorial das autoridades de cidades poderosas ou incorpo-
radas à propriedade fundiária de cidadãos nobres individuais: exemplos são o
domínio de Milcíades em Quersoneso ou as propriedades políticas e senhoriais-
territoriais de famílias da nobreza urbana da Idade Média, como as ultramarinas e
na Provença dos Grimaldi genoveses. No entanto, estas propriedades e direitos
senhoriais interlocais de cidadãos urbanos individuais não eram, em regra, obje-
to da política económica urbana como tal, apesar de surgir uma peculiar situação
mista onde objetivamente a propriedade é garantida aos indivíduos pela cidade,
na qual figuram entre os honoratiores mais poderosos, onde é adquirida e defen-
dida com a ajuda indireta do poder urbano e onde a cidade participa em sua
exploração económica ou política - o que era muito freqüente no passado.
A relação entre a cidade, como portadora da indústria e do comércio, e o
campo, como fornecedor dos alimentos, constitui apenas uma parte de um com-
plexo de fenómenos que se denominou "economia urbana" e se diferenciou,
como "etapa económica" especial, por um lado, da "economia própria" e, por
outro, da "economia nacional" (ou de uma pluralidade de etapas estabelecidas de
modo semelhante). Mas neste conceito misturam-se medidas da política econõ-
mica com categorias puramente económicas. A razão disso se encontra na cir-
cunstância de que o mero fato da concentração local de comerciantes e artesãos
e a satisfação regular das necessidades cotidianas no mercado em si não definem
suficientemente o conceito de "cidade". Onde isso se dá, onde, portanto, dentro
dos povoados fechados somente a proporção entre a satisfação própria das neces-
sidades pela agricultura e as atividades aquisitivas não-agrícolas e a existência e
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inexistência de mercados constituem a diferença, falaremos de localidades indus-


triais ou mercantis e de "manchas de mercado", mas não de "cidades". O fato de
que a cidade não é apenas uma acumulação de moradias mas também uma asso-
ciação econômica, com bens de raiz próprios e economia de receitas e despesas,
também não a distingue da aldeia, que conhece os mesmos fenômenos, por maior
que possa ser a diferença quantitativa. Por fim, não era característico da cidade
que, pelo menos no passado, não fosse apenas associação econômica, mas tam-
bém associação reguladora da economia, pois também a aldeia conhece a regulação
do cultivo nos campos e da utilização dos pastos, a proibição da exportação de
madeira e palha e outras regulaçôes da economia: trata-se de uma política econô-
mica da associação, como tal.
Peculiares eram nas cidades do passado apenas a natureza e, sobretudo, os
objetos desta regulação na área da política econômica, por parte da associação, e
a grande quantidade de medidas características que abrangia. Certamente, conta-
va esta "política econômica urbana", numa parte considerável de suas medidas,
com o fato de que, nas condiçôes de tráfico do passado, a maioria de todas as
cidades do interior- pois as cidades litorâneas desempenhavam um papel dife-
rente, conforme prova a política cerealista de Atenas e Roma - dependia do
abastecimento da cidade pela agricultura dos arredores, que precisamente estas
regiões representavam o natural campo de venda das indústrias urbanas - não
de todas - e que o processo de troca local, resultado natural desta situação,
encontrava no mercado urbano um de seus lugares normais, ainda que não o
único, especialmente para a compra de alimentos. Contava, além disso, com o
fato de que a parte predominante da produção industrial se realizava, tecnica-
mente, como artesanato e, do ponto de vista da organização, como pequena
empresa especializada, com pouco capital ou sem capital algum, com número
limitado de ajudantes treinados em um aprendizado demorado, e, por fim, do
ponto de vista econômico, como trabalho por salário ou trabalho por preço para
determinados fregueses, e que também as vendas do comércio a retalho eram,
em grande parte, vendas a fregueses fixos. A chamada "política econômica urba-
na", no sentido específico da palavra, caracterizava-se, principalmente, pelo fato
de tentar fixar, mediante a regulação da economia e no interesse da conservação
da continuidade e barateza da alimentação das massas e da estabilidade das opor-
tunidades aquisitivas dos artesãos e comerciantes, aquelas condições, naquela
época em grande parte naturalmente surgidas, da economia urbana. Mas, confor-
me ainda veremos, esta regulação da economia não constituiu o único objeto e
sentido da política econôrníca urbana, nem existiu, onde historicamente aparece,
em todos os tempos, mas, pelo menos em estado plenamente desenvolvido, ape-
nas em determinadas épocas - isto é; sob a dominação política das corporações
-, e muito menos, por fim, pode ser provada, de modo geral, como fase transi-
tória de todas as cidades. Em todo caso, porém, essa política económica não
representa nenhuma etapa universal da economia. Apenas pode dizer-se que o
mercado local urbano, com seu intercâmbio entre produtores agrícolas e não-agríco-
las e comerciantes locais sobre a base da relação de fregueses e da pequena empresa
especializada e desprovida de capital, representa uma espécie de contraste baseado
na economia de troca diante das economias dependentes especializadas na distribui-
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ção planejada de serviços e tributos e associadas ao oikos, que, por uma vez, se
baseia na acumulação e cooperação na propriedade senhorial, mas sem intercâmbio
interno; e que a regulação das relações de troca e produção na cidade constitui um
contraste diante da organização das contribuições das economias reunidas no oikos.
O fato de que estávamos obrigados a falar nestas observações de uma "po-
lítica econômica urbana", um "território urbano" e "autoridades urbanas" já indica
que o conceito de "cidade" ainda pode e deve ser incluído em outra série de
conceitos, além das categorias econômicas até agora mencionadas exclusivamen-
te - a saber, nas categorias políticas. Verdade que o portador da política econô-
mica urbana pode ser também um príncipe, de cujo território politicamente domi-
nado fazem parte, como objetos, a cidade e seus habitantes. Neste caso, a política
econôrníca da cidade é realizada, quando o é, para a cidade e seus habitantes, e
não por ela. Mas não precisa ser assim. E mesmo que o seja, a cidade deveria ser
considerada uma associação autônoma, em algum grau uma "comuna" com insti-
tuições políticas e administrativas especiais.
Em todo caso, cabe ter em conta que se deve distinguir o conceito econômico
da cidade, até agora considerado, do conceito político-administrativo. No senti-
do político-administrativo, pode-se considerar cidade uma localidade que não
teria direito a esta denominação do ponto de vista econômico. Na Idade Média,
havia "cidades", no sentido jurídico, cujos habitantes, nove décimos ou mais, em
todo caso uma proporção bem maior do que em muitas localidades consideradas
juridicamente "aldeias", viviam exclusivamente da agricultura própria. Natural-
mente, é totalmente impreciso o limite entre semelhante "cidade de agricultores"
e a cidade de consumidores, de produtores ou mercantil. Só que todo povoado
que, do ponto de vista administrativo, é diferente da aldeia e considerado cidade
costuma distinguir-se, em um aspecto, da situação no campo: a maneira como se
regula a situação dos bens de raiz é diferente da constituição fundiária rural. Nas
cidades, no sentido econômico da palavra, isto está condicionado pela natureza
especial da base da rentabilidade que oferecem os bens de raiz urbanos: a propri-
edade consiste em prédios, sendo o terreno apenas um acessório. Do ponto de
vista administrativo, porém, a situação especial dos bens de raiz urbanos explica-
se, sobretudo, pelos princípios tributários diferentes, e na maioria das vezes tam-
bém por uma característica decisiva para o conceito político-administrativo da
cidade, a saber, pelo fato de que a cidade do passado, da Antiguidade e da Idade
Média, tanto dentro quanto fora da Europa, era um tipo especial de fortaleza e
guarnição. Na atualidade, esta característica perdeu-se completamente. Mas tam-
bém no passado não existiu por toda parte. Assim, por exemplo, não se apresen-
tou quase nunca no Japão. Do ponto de vista administrativo, pode-se, portanto,
dar razão a Rathgen e duvidar da existência de "cidades" nesse país. Na China, ao
contrário, cada cidade estava cercada por muros gigantescos. Mas ali também
parece terem possuído muros, desde sempre, povoados que, do ponto de vista
econômico, tinham caráter puramente rural e nem sob aspectos administrativos
são cidades, isto é (conforme será exposto mais adiante), não são sede de auto-
ridades estatais. Em algumas regiões mediterrâneas, por exemplo na Sicília, quase
não se conhecia uma pessoa que residisse fora dos muros da cidade, nem haven-
do trabalhadores agrícolas que morassem no campo: conseqüência de longos
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séculos de insegurança. Na antiga Hélade, ao contrário, a polis de Esparta orgulhava-


se da ausência de muros, aplicando-se, porém, a ela, em sentido específico, a carac-
terística de "guarnição": justamente por ser o permanente acampamento aberto dos
guerreiros espartanos, considerava os muros dispensáveis. Apesar de ainda continu-
ar a discussão sobre a questão de por quanto tempo Atenas tenha ficado sem muro,
esta cidade possuía com a Acrópolis um castelo sobre rochas, tal como deve ter
existido, com exceção de Esparta, em todas as cidades helênicas, do mesmo modo
que Ecbatana e Persépolis eram castelos reais com povoados em volta. Em todo caso,
o castelo ou o muro faz parte, em regra, da cidade oriental e da mediterrânea da
Antiguidade, bem como do conceito normal da cidade medieval.
A cidade não era a única nem a mais antiga fortaleza. Em regiões fronteiriças
disputadas ou em estado de guerra crônico, toda aldeia constrói suas fortifica-
ções. Assim, os povoados dos eslavos, cuja forma nacional parece ter sido há
muito tempo a aldeia encadeada, adotaram, evidentemente, sob a pressão do
perigo constante de guerra entre os rios Elba e Oder, a forma da aldeia em círcu-
lo, com cerca viva e um único acesso, que podia ser fechado e pelo qual entrava
todas as noites o gado. Ou se erguiam, no mundo inteiro, tanto na Cisjordânia
quanto na Alemanha, aquelas circunvalações em lugares elevados, nas quais se
refugiavam os desarmados e o gado. As chamadas "cidades" de Henrique I no
Leste alemão nada mais eram que fortificações sistemáticas deste tipo. Na Ingla-
terra da época anglo-saxônica, todo condado tinha uma cidadela (borough) da
qual retirava sua denominação, e os serviços de vigilância e de segurança, como
mais antigo gravame especificamente "burguês", estavam vinculados a determina-
dos homens e terrenos. Se estes lugares não ficavam totalmente desocupados em
tempos normais, mas abrigavam vigilantes ou guerreiros como guarnição perma-
nente, que recebiam uma remuneração ou terras, esta situação conduzia, por
várias etapas intermediárias, à cidadela anglo-saxônico, uma "cidade de guarnição",
conforme a teoria de Maitland, com burgenses como habitantes, cujo nome, tanto
aqui quanto em outros lugares, se origina no fato de que sua situação jurídico-
política, do mesmo modo que a natureza jurídica, relacionada com a primeira, de
sua propriedade fundiária e predial - propriedade especificamente burguesa -
estava determinada pelo dever de conservar e vigiar a fortaleza. Do ponto de
vista histórico, porém, as aldeias ou fortalezas provisórias com paliçadas não são
os mais importantes precursores da cidade fortificada, mas outra coisa, a saber: o
castelo senhorial, uma fortaleza habitada por um senhor e seus guerreiros, sendo
estes funcionários ou membros de seu séquito pessoal, junto com a família do
primeiro, as famílias dos guerreiros e os criados.
A construção de castelos para fins militares é muito antiga, mais antiga, sem
dúvida, do que o carro de guerra e também que o uso militar do cavalo. Do
mesmo modo que, por toda parte, o carro de guerra, em algum momento, deter-
minou o desenvolvimento da condução da guerra cavaleirosa e real, assim, na
China dos cantos clássicos, na índia dos Veda, no Egito e na Mesopotâmia, em
Canaã, o Israel do cântico de Débora, no tempo das epopéias homéricas, entre os
etruscos, celtas e irlandeses, a construção de castelos e o principado que reina
neles têm sido fenômenos universais. As antigas fontes egípcias conhecem o
castelo e seu comandante, e pode ser considerado comprovado o fato de que os
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castelos eram, originalmente, as sedes de outros tantos príncipes pouco podero-


sos. Na Mesopotâmia, conforme se pode deduzir dos documentos mais antigos, o
desenvolvimento das realezas maiores está precedido por um principado residen-
te em castelo, do mesmo tipo que existiu no oeste da Índia nos tempos dos
Vedas, no Irã, provavelmente, nos tempos do antiqüíssimos Gâtbâs, e evidentemente
por toda parte durante a desintegração política no norte da Índia, na região do rio
Ganges: o velho Kshatriya, que as fontes mostram como peculiar figura intermédia
entre rei e aristocrata, é evidentemente um príncipe de um destes castelos. Nos tem-
pos da cristianização, existiu na Rússia, na Síria na época da dinastia Tutmósis e
naquela da confederação israelita (Abimelech), e também a antiga literatura chinesa
permite supor, com alguma certeza, sua existência nos tempos antigos.
Os castelos litorâneos helênicos e da Ásia Menor existiam, sem dúvida, por
toda parte onde havia pirataria: deve ter sido uma época intermédia de pacifica-
ção particularmente profunda que permitiu a construção dos palácios cretenses
sem fortificações, em vez de castelos murados. Castelos como o de Deceleia,
importante na guerra do Peloponeso, eram antigamente fortalezas que abrigavam
linhagens nobres. Do mesmo modo, o desenvolvimento medieval do estamento
senhorial politicamente autônomo começa com os castelli na Itália, e a autono-
mia dos vassalos no norte da Europa, com suas numerosas construções de caste-
los, cuja importância fundamental ilustra a seguinte observação de Below: ainda
na Época Moderna, pertencer à câmara dos representantes estamentais, na Ale-
manha, dependia da circunstância de a família possuir um castelo, mesmo que
fosse uma ruína miserável. A disposição sobre um castelo significava a domina-
ção militar do país, e a questão era apenas quem a tinha em suas mãos: o dono
individual do castelo, em seu próprio benefício, uma confederação de cavaleiros
ou um senhor que podia contar com a confiabilidade do feudatário, ministerial ou
oficial ali residente.
A cidade-fortaleza, na primeira fase de seu desenvolvimento em direção a
um complexo político especial, era ou abrigava um castelo deste tipo, ou apoiava-se
nele, sendo o castelo a fortaleza de um rei ou senhor nobre ou de uma associa-
ção destes últimos, o qual ou os quais ali residiam ou mantinham uma guarnição
de mercenários, vassalos ou servidores. Na Inglaterra anglo-saxôníca, o direito de
possuir um baw,uma casa fortificada, dentro de um burb era um direito concedi-
do mediante privilégio a determinados terratenentes dos arredores, do mesmo
modo que na Antiguidade e na Itália medieval a casa urbana dos nobres existia
ao lado de seus castelos rurais. Os habitantes do castelo ou da vizinhança - ora
todas as camadas, ora determinada parte delas - deviam, como cidadãos
(burgenses) , ao senhor militar da cidade determinados serviços militares, sobretu-
do a construção e manutenção dos muros, vigilância e defesa, mas às vezes tam-
bém outros serviços (o de mensageiro, por exemplo) ou fornecimentos de impor-
tância militar. Na medida em que e por que o cidadão participa na associação
militar da cidade, ele é, neste último caso, membro de um estamento. Com niti-
dez especial, Maitland mostrou isto no exemplo da Inglaterra: as casas do burb-
isto constitui a diferença em fase da aldeia - pertencem a pessoas cujo dever
principal é a manutenção da fortaleza. Ao lado da paz de mercado, garantida pelo
rei ou outro senhor, que abrange o mercado da cidade, existe a paz militar do
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castelo. O castelo pacificado e o mercado militar-político da cidade, local de


exercícios e reuniões do exército e, por isso, também dos cidadãos, por um lado,
e por outro o mercado econômico pacificado da cidade existem muitas vezes
lado a lado em dualismo plástico. Nem sempre se trata de dois lugares diferentes.
Assim, a pnyx ática é bem menos antiga do que a âgora, que originalmente servia
tanto para o tráfico econômico quanto para os atas políticos e religiosos. Mas em
Roma existem desde sempre o comitium e o campus Martius ao lado dos fora
econômicos, e na Idade Média, em Siena, a Piaza di Campo (praça de torneios e
ainda hoje local das corridas dos bairros), na frente do palácio municipal, e o
mercato, nos fundos do palácio, e analogamente encontramos nas cidades islâmicas
a kasba, o acampamento fortificado dos guerreiros, e num lugar separado o ba-
zar, e no sul da Índia, a cidade dos notáveis (políticos) ao lado da cidade econô-
mica. A questão da relação entre a guarnição, os cidadãos políticos da fortaleza,
por um lado, e, por outro, a população burguesa economicamente ativa é uma
questão fundamental muitas vezes complicadíssima, mas sempre de importância
decisiva, da história constitucional urbana. É claro que onde existe um castelo
vêm morar, chamados ou não, artesãos para satisfazer as necessidades da casa
senhorial e dos guerreiros, que a capacidade de consumo de uma corte guerreira
e a proteção que oferece atraem os comerciantes, que, por outro lado, o próprio
senhor está interessado em atraí-los, por estar então em condições de conseguir
receitas em dinheiro, arrecadando impostos do comércio e das indústrias ou par-
ticipando nestas atividades em virtude do capital que adianta ou exercendo ou
até monopolizando o comércio, além de poder participar, como dono de um
castelo litorâneo ou de navios ou como senhor do porto, no lucro da pirataria ou
do comércio marítimo pacífico. Na mesma situação encontram-se seus sequazes e
vassalos residentes no local, desde que o senhor permita isto voluntária ou
forçadamente, porque depende de sua boa vontade. Nas antigas cidades helênicas,
como Cirene, encontramos em vasos imagens do rei assistindo à pesagem de
mercadorias (Silphion); no Egito, encontramos, no começo das notícias históri-
cas, a frota mercantil do faraó do Baixo Egito. Em muitos lugares do mundo
inteiro, particularmente ainda que não exclusivamente em localidades litorâneas
(mas não apenas em "cidades") onde o comércio intermediário podia ser contro-
lado com maior facilidade, dava-se o seguinte fenômeno: ao lado do monopólio
do chefe local ou príncipe do castelo cresceram o interesse das linhagens guerrei-
ras locais na participação própria nos lucros comerciais e seu poder de garantir
para si esta última, até quebrantar o monopólio do príncipe (quando existia). Se
isto acontecia, o príncipe costumava ser considerado, por toda parte, apenas um
primus inter pares, ou então acabava sendo incorporado completamente ao círcu-
lo dos clãs urbanos terratenentes que participavam no comércio pacífico apenas
com capital, na Idade Média especialmente com capital de commenda, ou pesso-
almente na pirataria e nas guerras marítimas; muitas vezes era eleito por pouco
tempo e, em todo caso, radicalmente limitado em seu poder. É um fenômeno que
se dava tanto nas antigas cidades litorâneas, desde a época homérica, com a
conhecida transição gradativa para a magistratura anual, quanto, de modo seme-
lhante, em várias ocasiões nos inícios da Idade Média: assim particularmente em
Veneza com respeito aos Doges e - só que com frentes muito diversas, segundo
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O senhor da cidade fosse um conde real, um visconde, um bispo ou outro qual-


quer - em outras cidades mercantis típicas. Em todos estes casos, cabe distin-
guir, em princípio, os interessados comerciais capitalistas da cidade, que finan-
ciam o comércio, os honoratiores específicos da cidade, nos inícios da Antigui-
dade e na Idade Média, dos portadores locais antigos ou recém-chegados do
"empreendimento" mercantil, os comerciantes propriamente ditos, ainda que muitas
vezes estas camadas se interpenetrassem. Mas com isto já chegamos a antecipar
aspectos a serem expostos mais adiante.
No interior, o começo, o final ou o cruzamento de vias fluviais e de carava-
nas (como, por exemplo, Babilónia) podem passar por um desenvolvimento se-
melhante. O príncipe secular de um castelo ou de uma cidade encontra nestes
processos cada vez mais concorrentes entre os sacerdotes dos templos e os senho-
res sacerdotais das cidades, pois os distritos dos templos de deuses muito conhecidos
oferecem proteção sagrada ao comércio intertribal e, portanto, politicamente
desprotegido, e em tomo destes distritos pode formar-se um povoado com caráter de
cidade que, do ponto de vista econômico, se alimenta das receitas dos templos
de maneira semelhante que a cidade principesca dos tributos pagos ao príncipe.
A questão de se e em que grau preponderava o interesse do príncipe em
receitas monetárias obtidas pela concessão de privilégios a artesãos e comercian-
tes que exerciam uma atividade aquisitiva independente da corte do senhor e
pagavam impostos ou se, ao contrário, predominava seu interesse na satisfação
de suas necessidades por mão-de-obra própria e na monopolização do comércio
em suas mãos encontrava em cada caso individual uma solução diferente: quan-
do o senhor atraía forasteiros com estes privilégios, tinha que levar em considera-
ção, em grau e sentido muito diversos, os interesses e a capacidade econômica de
prestação, importante para ele próprio, da população local, dependente dele como
senhor político ou territorial. Mas a todas estas diferenças acrescenta-se ainda a gran-
de diversidade da estrutura político-militar das associações de dominação, dentro
das quais se realizava a fundação ou o desenvolvimento das cidades. Temos que
examinar os contrastes principais, daí resultantes, do desenvolvimento urbano.
Nem toda "cidade", no sentido econôrníco, e nem toda fortaleza submetida,
no sentido político-administrativo, a um direito especial dos habitantes era uma
"comuna". Ao contrário, somente o Ocidente conheceu uma "comuna" urbana,
no sentido pleno da palavra, como fenômeno freqüente. Fora deste, uma parte
do Oriente Próximo (a Síria e a Fenícia, e talvez a Mesopotâmia), e este apenas
temporariamente e em germe, pois para isto era necessário que se tratasse de
povoados com caráter artesanal-comercial pelo menos relativamente desenvolvi-
do, que apresentassem as seguintes características: 1) uma fortificação, 2) um
mercado, 3) um tribunal próprio e pelo menos parcialmente um direito próprio,
4) caráter de associação e, ligadas a este, 5) autonomia e autocefalia pelo menos
parciais e, portanto, uma administração realizada por autoridades, em cuja nome-
ação participassem de alguma forma os cidadãos como tais. No passado, direitos
deste tipo costumavam assumir a forma de privilégios estamentais. Por isso, o que
caraterizava a cidade, no sentido político, era um estamento especial de cidadãos,
como portador destes privilégios. Medidas com este padrão, em sua extensão
plena, também as cidades da Idade Média ocidental eram apenas, em parte,
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autênticas "comunas urbanas" e, daquelas do século XVIII, apenas uma parte,


insignificante. Mas, segundo os fatos hoje conhecidos, as cidades da Ásia, abstra-
indo-se de algumas possíveis exceções isoladas, não eram nada disso, ou então
apenas em germe. Certamente tinham todas elas mercados, e também eram forta-
lezas. Em oposição ao Japão, as grandes sedes do comércio e da indústria na
China, e a maioria das pequenas, tinham fortificações. O mesmo se aplica às
sedes do comércio e da indústria do Egito, do Oriente Próximo e da Índia.
Também não era raro que as grandes sedes do comércio e da indústria desses
países constituíssem distritos judiciais separados. Sempre eram sedes das autoridades
das grandes associações políticas na China, no Egito, no Oriente Próximo e na Índia,
enquanto precisamente esta qualidade faltava ao tipo característico das cidades oci-
dentais dos inícios da Idade Média, particularmente no Norte. Mas as cidades asiáticas
não conheciam um direito material ou processual especial, próprio dos cidadãos
como tais. Somente o conheciam na medida em que as corporações e castas (na
Índia), as quais de fato tinham somente ou preferencialmente sua sede em
cidades, eram portadoras da criação de tais direitos ou tribunais especiais. Mas
esta localização nas cidades daquelas associações era algo juridicamente casual.
Eram-lhes desconhecidos ou apenas conhecidos em germe a administração autô-
no ma da cidade e, sobretudo - e isto é o mais importante - , o caráter de
associação da cidade e o conceito do cidadão urbano, em oposição ao morador
do campo. Também estes fenômenos existiam apenas em germe. Na China, o
habitante da cidade pertencia juridicamente a seu clã e, por meio deste, à sua
aldeia de origem, onde se encontrava o templo dos antepassados e com a qual
ele mantinha zelosamente o contato, do mesmo modo que o russo que nasceu
numa aldeia e trabalhava na cidade continuava sendo juridicamente "camponês".
Na Índia, o habitante da cidade era, além disso, membro de sua casta. Mas even-
tualmente eram os moradores da cidade, e isto constituía a regra, também mem-
bros de associações e corporações profissionais locais, com sede especificamente
urbana. Por fim, eram membros de determinados distritos administrativos, bairros
ou quarteirões, nos quais a polícia oficial dividira a cidade, e tinham dentro des-
tes determinados deveres e às vezes também direitos. Particularmente, podia o
distrito urbano ou o quarteirão responder coletivamente, de forma litúrgica, me-
diante a garantia de paz, pela segurança das pessoas ou por outras tarefas poli-
ciais. Por isso, podiam ser unidos em comunidades com funcionários eleitos ou
anciões hereditários: como no Japão, onde acima das comunidades de quartei-
rão, com sua administração própria, encontrava-se como instância suprema um
ou vários corpos administrativos civis (machi-bugyo). Mas um direito de cidadão
urbano, no sentido da Antiguidade e da Idade Média, não existia, e também era
desconhecido um caráter corporativo da cidade como tal. Eventualmente, era a
cidade, como um todo, um distrito administrativo especial, como era também o
caso no reino merovíngio e no carolíngio. Mas, enquanto no Ocidente medieval
e da Antiguidade a autonomia e a participação dos habitantes nos assuntos da
administração local da cidade, isto é, uma localidade relativamente grande com
caráter industrial-comercial, estavam mais desenvolvidas do que no campo, acon-
tecia ali quase sempre exatamente o contrário. Nas aldeias da China, por exem-
plo, a confederação dos anciões era, em muitos assuntos, quase onipotente, depen-
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dendo, portanto, o taotai, de fato, da cooperação com eles, apesar de o direito


ignorar isso. A comunidade de aldeia, na índia, e o mir russo tinham compe-
tências de grande alcance, as quais, de fato, administravam praticamente de
forma autônoma até o tempo mais recente, na Rússia, até a burocratização reali-
zada sob Alexandre III. Em todo o Oriente Próximo, os "anciões" (em Israel,
os sekenim), o que significa, originalmente, os anciões do clã e, mais tarde, os
chefes dos clãs notáveis eram representantes e administradores dos povoados e
dos tribunais locais. Mas isto não era o caso na cidade asiática, pois esta era, em
regra, sede dos altos funcionários ou príncipes do país, encontrando-se direta-
mente sob a vigilância de sua guarda pessoal. No entanto, esta cidade era forta-
leza principesca, sendo por isso administrada por funcionários (em Israel, sarim)
e oficiais principescos que também exerciam o poder judicial. Em Israel da época
dos reis, pode-se observar claramente o dualismo entre os funcionários e os an-
ciões. No reino burocrático, vencia por toda parte o funcionário real. Certamente
não era onipotente. Ao contrário, tinha que contar, muitas vezes em grau surpre-
endente, com a disposição da população. Sobretudo o funcionário chinês estava
em muitas ocasiões completamente impotente diante das associações locais, os
clãs e as associações profissionais, quando se uniam no caso concreto, perdendo
ele seu cargo quando havia resistência coletiva séria. Obstrução, boicote, fecha-
mento de lojas e greve dos artesãos e comerciantes, na ocasião de repressões
concretas, eram fenômenos cotidianos que impunham limites ao poder dos funcio-
nários. Mas estes eram de natureza completamente indefinida. Por outro lado,
encontramos na China e na índia determinadas competências das corporações ou
de outras associações profissionais ou pelo menos a necessidade efetiva, para os
funcionários, de chegar a um acordo com estas. Acontecia que os chefes destas
associações exerciam amplos poderes coativos também sobre terceiros. Mas em
todos estes casos trata-se - em geral - somente de competências ou de poder
efetivo de determinadas associações isoladas em algumas questões limitadas que
dizem respeito aos interesses concretos do grupo. Mas não existe - em regra -
uma associação comum que represente uma comunidade de cidadãos urbanos
como tais. Este conceito falta por completo. 'Faltam sobretudo qualidades especi-
ficamente estamentais dos cidadãos urbanos. Estas simplesmente não existem na
China, no Japão e na índia, e apenas em germe no Oriente Próximo.
No Japão, a estruturação estamental era puramente feudal: os samurai (mon-
tados) e os kasi (ministeriais não-montados) existiam diante dos camponeses
(no) e dos comerciantes e artesãos, em parte unidos em associações profissio-
nais. Mas faltavam tanto o conceito de "burguesia" quanto o de "comuna urbana".
Na China da época feudal, a situação era a mesma, mas desde a época da domi-
nação burocrática os letrados com diploma, de diversos graus, existiam diante
dos iletrados, e além disso havia as corporações dos comerciantes, dotadas de
privilégios econômicos, e as corporações profissionais dos artesãos. Mas também
ali faltavam os conceitos de comuna e burguesia urbanas. De uma "autonomia
administrativa" dispunham tanto na China quanto no Japão as corporações pro-
fissionais, mas não as cidades, em oposição radical às aldeias. Na China, a cidade
era fortaleza e sede oficial das autoridades imperiais, e no Japão não existiam
"cidades" neste sentido da palavra. Na índia, as cidades eram sedes reais ou da
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administração real, fortalezas e localidades de mercado. Além disso, existiam as


corporações dos comerciantes e as castas, que, em grande parte, coincidem com
as associações profissionais, ambas com autonomia muito forte, sobretudo com
criação de direitos e justiça próprias. Mas a organização da sociedade indiana em
castas hereditárias, com sua separação ritual das profissões, exclui tanto o desen-
volvimento de uma "burguesia" quanto o de uma "comuna urbana". Existiam e
ainda existem várias castas de comerciantes e muitas de artesãos, com inúmeras
subcastas. Mas nenhum conjunto de muitas castas podia ser equiparado
ao estamento burguês ocidental, nem podiam as castas unir-se em algum comple-
xo que correspondesse à cidade corporativa medieval, já que o afastamento entre
elas impedia qualquer confraternização. Certamente na época das grandes religi-
ões de salvação, as corporações, chefiadas por seus sbresbtbes (anciões), forma-
vam associações em muitas cidades, e como remanescentes daquela época exis-
tem ainda hoje algumas cidades (Ahmedabad) governadas por um sbresbtb co-
mum, que corresponde ao prefeito ocidental. Também existiam no tempo ante-
rior aos grandes reinos burocráticos algumas cidades politicamente autônomas e
governadas por um patriciado recrutado dos clãs, que forneciam elefantes ao
exército. Mais tarde, porém, este fenômeno desapareceu quase completamente.
A vitória do afastamento ritual entre as castas rompeu a união das corporações, e
a burocracia real, em aliança com os brâmanes, anulou definitivamente estes pri-
meiros passos, com exceção dos remanescentes no noroeste da índia.
Na Antiguidade egípcia e do Oriente Próximo, as cidades são fortalezas,
sedes reais ou de autoridades, com privilégios de mercado concedidos pelos reis.
Mas na época da dominação dos grandes reinos careciam de autonomia, de uma
constituição municipal e de uma burguesia com privilégios estamentais. No Egito,
durante o Império Médio, reinava o feudalismo de cargo e, durante o Império
Novo, a administração burocrática dos escribas. Os "privilégios urbanos" eram
concessões feitas aos detentores feudais ou prebendais do poder oficial de cada
localidade (bem como os antigos privilégios episcopais na Alemanha), mas não
em favor de uma burguesia autônoma. Pelo menos até hoje, não foi possível
detectar algum germe de um "patriciado urbano". Na Mesopotâmia e na Síria,
sobretudo na Fenícia, ao contrário, encontramos, já nos inícios, a realeza urbana,
típica das localidades com comércio marítimo e de caravanas, em parte de caráter
religioso, porém em parte (na maioria dos casos) de caráter secular, e em seguida
o poder ascendente, igualmente típico, das linhagens patrícias na "casa da cida-
de" (bitu nas inscrições de Tell-el-Amarna), na época dos combates com carro de
guerra. A confederação das cidades cananéias era uma união dos cavaleiros urba-
nos, combatentes em carros, que mantinha os camponeses numa servidão de
dívidas e clientela, do mesmo modo que acontecia nos inícios da polis helênica.
Claramente parecida era a situação na Mesopotâmia, onde o patrício, isto é, o
cidadão pleno terratenente e economicamente capaz de portar armas, se distin-
gue do camponês e o rei garante às capitais determinadas imunidades e liberda-
des. Mas, quanto mais cresce o poder da realeza militar, estes fenômenos vão
desaparecendo também ali. Cidades politicamente autônomas e um estarnento
burguês, como o do Ocidente, não existem, mais tarde, na Mesopotâmia,
tampouco um direito especial urbano ao lado da lei real. Somente os fenícios
ECONOMIA E SOCIEDADE 423

conservaram a cidade-estado, governada pelo patriciado local, que participava


com seu capital no comércio. As moedas de Tiro e Cartago com as imagens do
'am Sôr e do 'am Karthadast dificilmente indicam uma dominação do demos, e,
mesmo que este fosse o caso, seria na época tardia. Em Israel, Judá tornou-se
cidade-estado, mas os sekením (anciões), que inicialmente dirigiam a administra-
ção das cidades, como chefes dos clãs patrícios, passaram ao segundo plano sob
a dominação real; os gibborim (cavaleiros) tornaram-se sequazes do rei e solda-
dos, e precisamente nas grandes cidades governavam, em oposição ao campo, os
sarim (funcionários) reais. Somente após o exílio surgiu, como instituição sobre
um fundamento confessional, a "comuna" Ckahal) ou "corporação" Ccheber), mas
sob a dominação das linhagens sacerdotais.
Mas pelo menos encontramos aqui, no litoral mediterrâneo e no Eufrates,
pela primeira vez, verdadeiras analogias da polis da Antiguidade, aproximada-
mente na mesma fase em que Roma se encontrava no tempo da adoção da Gens
Claudia. Em todos estes casos reinava um patriciado residente nas cidades, cujo
poder se baseava em patrimõnios monetários, primeiro adquiridos no comércio e
depois investidos em bens de raiz, escravos de dívidas pessoais e outros escravos
e, do ponto de vista militar, em seu treinamento guerreiro na luta cavaleirosa,
freqüentemente lutando entre si, mas interlocalmente presente e aliado, com um
rei como primus inter pares ou liderado por sbôpbetim ou sekením - como a
nobreza romana com seus cônsules - e ameaçado pela tirania de heróis guerrei-
ros carismáticos que se apoiavam em guardas pessoais recrutados CAbimelech,
Jephthah, David). Antes da época helenística, este estágio não foi superado em
nenhum lugar, ou pelo menos não por muito tempo.
Reinava, evidentemente também, nas cidades do litoral árabe no tempo de
Maomé e conservou-se nas cidades islâmicas, desde que não fossem aniquilados
completamente, como ocorreu nos grandes Estados, a autonomia das cidades e
seu patriciado. Mas, em muitos lugares, parece ter continuado, sob a dominação
islâmica, a condição da Antiguidade oriental. Neste caso, encontramos uma rela-
ção de autonomia pouco estável das linhagens urbanas diante dos funcionários
principescos. A riqueza destas linhagens, baseada na participação nas chances
aquisitivas urbanas e quase sempre investida em bens de raiz e escravos, era
neste caso o fundamento de sua posição de poder com que tinham que contar os
príncipes e seus funcionários, mesmo sem qualquer reconhecimento formal-jurí-
dico, para a possibilidade de execução de suas ordens, do mesmo modo que o
taotai chinês tinha que contar com a obstrução dos anciões nas aldeias e com
aquelas das corporações de comerciantes e de outras associações profissionais
nas cidades. Mas, nestes casos, a "cidade" não constituía, necessariamente, uma
associação autônoma, em algum sentido desta palavra. Muitas vezes acontecia o
contrário. Vejamos um exemplo. As cidades árabes, por exemplo Meca, apresen-
tam ainda na Idade Média e quase até a atualidade o aspecto típico de um povo-
ado formado por linhagens. A cidade de Meca, conforme mostra a descrição plás-
tica de Snouck Hurgronjes, estava rodeada dos bilâd: terras senhoriais, ocupadas
por camponeses, clientes e beduínas em relação de proteção, que eram proprie-
dade dos dewí's, os clãs hasânidas descendentes de Ali e outros clãs nobres. Os
bilâd encontravam-se na área de cultivo de vários produtos agrícolas. Um deu/i
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era todo clã que contava com um sberif entre os antepassados. O sherif, por sua
vez, pertencia, desde o ano 1200, à família Katadâs, descendente de All, e tinha
que ser nomeado, segundo o direito oficial, pelo governador do califa (que mui-
tas vezes era um homem não-livre, sendo um deles, sob Hârún ar-Rashid, um
escravo berbere), mas de fato era determinado um membro da família qualifica-
da, mediante eleição dos chefes dos deuii's, residente em Meca. Por isso, e por-
que a residência em Meca oferecia a oportunidade de participar na exploração
dos peregrinos, os chefes dos clãs (ernfres) residiam na cidade. Entre eles havia
"alianças", isto é, acordos sobre a conservação da paz e a repartição daquelas
oportunidades lucrativas. Mas estes acordos eram revogáveis a cada momento, e
sua revogação significava o começo da luta dentro e fora da cidade, para a qual
eles se serviam de suas tropas de escravos. Os vencidos tinham que evitar a
cidade, mas havia a cortesia, em virtude da comunidade de interesses em relação
a estranhos, todavia existente entre as linhagens inimigas e observada sob pena
da revolta geral também dos próprios partidários, de poupar os bens e a vida das
famílias dos exilados, bem como os de seus clientes. Na cidade de Meca existiam,
na Época Moderna, as seguintes autoridades oficiais: 1) somente no papel, o
conselho administrativo colegial estabelecido pelos turcos Cmedsblts): 2) como
autoridade efetiva, o governador turco, que exercia a função de "senhor prote-
tor" (antigamente exercida quase sempre pelo soberano do Egito); 3) os quatro
cádis dos ritos ortodoxos, sempre cidadãos distintos de Meca, provindo o mais
distinto (o cbâfi'ita), durante séculos, da mesma família, nomeado pelo sherif ou
indicado pelo senhor protetor; 4) o sherif, ao mesmo tempo chefe da corporação
da aristocracia urbana; 5) as corporações, sobretudo a dos guias de peregrinos,
além daquelas dos açougueiros, comerciantes de cereais, etc.; 6) os bairros com
seus anciões. Estas autoridades competiam em vários aspectos entre si, sem ter
competências fixas. A parte queixosa num processo escolhia a autoridade que
lhe parecia a mais favorável e cujo poder parecia ser mais eficaz diante da parte
acusada. O governador não podia impedir o apelo ao cádi, que competia com ele
em todas as causas que envolviam o direito eclesiástico. Os habitantes considera-
vam o sherif a verdadeira autoridade; de sua boa vontade dependia o governa-
dor, especialmente em todas as questões que diziam respeito aos beduínos e às
caravanas dos peregrinos, e a corporação da nobreza desempenhava, como tam-
bém em outras regiões árabes, um papel decisivo, particularmente nas cidades.
Um desenvolvimento que lembra a situação no Ocidente revela-se no fato de
que, no século IX, na luta entre os tülúmidas e os sbafâridas em Meca, tornou-se
decisiva a opinião das corporações mais ricas, dos açougueiros e dos comercian-
tes de cereais, enquanto ainda no tempo de Maomé teria contado, sem reservas,
somente a opinião das linhagens nobres quraisbitas, em assuntos militares e
políticos. Mas nunca chegou a surgir um regime corporativo: as tropas de escra-
vos, sustentadas com as participações lucrativas das linhagens urbanas, parecem
sempre ter defendido a posição decisiva destas últimas, à semelhança do Ociden-
te medieval, onde o poder efetivo nas cidades italianas sempre de novo tendia a
passar às mãos das linhagens cavaleirosas, como portadoras do poder militar.
Faltava em Meca qualquer associação que pudesse transformar a cidade
numa unidade corporativa, e nisto reside a diferença característica em relação ao
ECONOMIA E SOCIEDADE 425

synoileismós das poleis da Antiguidade e às commune dos inícios da Idade Média


italiana. Mas, de resto, temos motivos suficientes para considerar as condições na
Arábia - abstraindo-se dos traços especificamente islâmicos, antes expostos, ou
transformando-os em traços cristãos - bem típicas, e para o tempo anterior ao
nascimento da associação comunal, totalmente típicas também de outras cidades
mercantis marítimas, especialmente as ocidentais.
Em todo caso, segundo o conhecimento seguro que temos sobre os assen-
tamentos asiáticos e orientais com caráter econômico de cidades, a situação nor-
mal era esta: somente os clãs, e eventualmente, ao lado destes, as associações
profissionais, mas não o grupo dos cidadãos como tal, eram portadores das ações
de associação. Naturalmente, existem também aqui formas intermédias. Mas pre-
cisamente os maiores centros, que abrangem centenas de milhares de habitantes,
ou até milhões, apresentam este fenômeno. Na Constantinopla bizantina da Ida-
de Média, os representantes dos bairros, que ao mesmo tempo financiavam as
corridas no circo (como ainda em Siena, as corridas de cavalos), eram portadores
de partidos diferentes: a rebelião de Nika, sob Justiniano, tem sua origem nesta
divisão local da cidade. Também na Constantinopla da Idade Média islâmica -
isto é, até o século XIX - encontramos, ao lado das associações puramente
militares dos janízaros e dos sipabis e das organizações religiosas dos ulemas e
dos dervixes, somente as corporações de comerciantes como representantes dos
interesses burgueses, mas nenhuma representação da cidade. Já na Alexandria
bizantina tardia, a situação era semelhante, pois, ao lado dos poderes conco-
rrentes do patriarca, apoiado no monacato bastante belicoso, e do governador,
apoiado na pequena guarnição, existiam apenas as milícias dos bairros, dentro
das quais os partidos circenses dos "verdes" e dos "azuis" representavam as orga-
nizações liderantes.

§ 2. A cidade do Ocidente

Direito fundiário e situação jurídica pessoal. - . Formação da polis por confraternização.


- Impedimento desta no Oriente: limitações de tabu e outras limitações mágicas na
constituição dos clãs; rompimento destas limitações como pressuposto da confraterniza-
ção. - Significação do clã para a cidade da Antiguidade e da Idade Média. - Confrater-
nização baseada em juramento no Ocidente. - Conseqüências jurídicas e políticas. -
Sentido sociológico da unificação urbana: a) as conjurationes na Itália; b) confraterniza-
ção no norte germânico; c) capacidade guerreira dos cidadãos em virtude da constituição
militar, como fundamento positivo do desenvolvimento urbano ocidental.

É patente o contraste, particularmente em relação às condições asiáticas,


das cidades do Ocidente medieval, e entre estas especialmente as cidades ao
norte dos Alpes, onde se desenvolveram com pureza típica ideal. Esta cidade era
uma localidade de mercado, como também a asiática e a oriental, sede de comér-
cio e indústria, como a primeira, e fortaleza, como a segunda. Corporações de
comerciantes e artesãos existiam tanto aqui quanto ali, e a criação de estatutos
autônomos para seus membros é um fenômeno universal, só que em grau diver-
so. Do mesmo modo abrigava a cidade ocidental da Antiguidade e da Idade

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