Você está na página 1de 9

Se ele tivesse cuidado menos das insatisfações ocultas daqueles que

vivem nos clubes das faculdades e mais da vida dos que jamais esti-
veram em um desses clubes, com cerr= teria visto que a discussão
não se dá entre humanistas e cientistas, mas entre tecnologia e rodas
as outras pessoas. Isso não quer dizer que "rodas as outras pessoas"
reconheçam isso. Na verdade, a maioria das pessoas acredita que a
tecnologia é uma amiga leal. Há duas razões para isso. Primeiro, a
tecnologia é uma amiga. Torna a vida mais fácil, mais limpa e mais Ü JUlGAMENTO
longa. Pode alguém pedir mais de um amigo? Segundo, por causa de
;seu relacionamento longo, íntimo e inevitável com a cultura, a
r· tecnologia não convida a um exame rigoroso de suas próprias conse-
DE lHAMlJS
qüências.~ o tipo de amigo que 'pede confiança e obediência, que a
maioria das pessoas está inclinada a dar porque su,; dádivas são ver-
f' dadeiramente generosas. Mas, é claro, há o lado ·nebuloso desse ami-
I',',
'r ') go. Suas dádivas têm um pesado custo. Exposto nos termos mais
'~
drarnáticos, pode-se fazer a acusação de que o crescimento descon-
ocê encontrará em Fedro de Platão uma história sobre
trolado da tecnologia destrói as fontes vitais de nossa humanidade.
Cria uma cultura sem uma base moral. Mina certos processos men- ··"·"'"-""· Thamus, o rei de uma grande cidade do Alto Egito. Para
pessoas como nós, inclinadas (na frase de Thoreau) a ser ferramentaS
tais e relações sociais que tornam a vida humana digna de ser vivida.
Em suma, a tecnologia tanto é amiga como inimiga .. de nossas ferramentas, poucas lendas são mais instrutivas do que
esta. A história, como Sócrates contou para seu amigo Fedro, desen-
Este livro tenta descrever quando, como e por quê a tecnologia
rolou-se da seguinte maneira: um dia Thamus recebeu o deus Theuth,
tornou-se um inimigo particularmente perigoso. A questão já foi
que foi o inventor de muitas coisas, inclusive do nú.tnero, do cálcu-
discutida muitaS vezes antes por autores de grande saber e convicção
lo, da geometria, da astronomia e da escrita. Theuth exibiu suas
- em nossa era, por Lewis Mumford, Jacques Ellul, Herberr Read,
invenções para o rei Thamus, afirmando que elas deviam ser ampla-
Arnold Gehlen, Ivan Illich, para nomear alguns. A discUssão foi in-
/ mente conhecidas e disponíveis aos egípcios. Sócrates continua:
terrompida apenas por breves momentos pelas irrelevâncias de Snow,
e continuou até nossa época com um senso de urgência, torn~do Thamus indagou sobre o uso de cada uma delas, e, enquanto
ainda mais obrigatório pela eSpetacular demonstração de superiori- Theuth discorria sobre elas, expressava aprovação ou desa-
dade tecnológica da América, na guerra com o Iraque. Não estou provação, à medida que julgasse as afirmações de Theuth bem
dizendo aqui que a guerra foi injustificada ou que a tecnologia foi ou mal fundamentadas. Levaria tempo demais repassar tudo
mal usada; digo apenas que o sucesso americano pode servir como o que se relatou sobre o que Thamus disse a favor ou contra
confirmação da idéia cataStrófica de que, tanto na paz como na guer- cada invenção de Theuth. Mas quando chegou na escrita,
ra, a tecnologia pode ser nossa salvadora. Theuth declarou: "Aqui está uma realização, meu senhor rei,
que irá aperfeiçoar tanto a sabedoria como a memória dos
egípcios. Eu descobri uma receita segura para a memória e

f2 n
fetas de um olho só que vêem apenas o que as novas tecnologias
para a sabedoria''. Com isso, Thamus replicou: "Theuth, meu
podem fazer e são incapazes de imaginar o que elas irão desfazer.
exemplo de inventor, o descobridor de uma arte não é o me-
Podemos chamar essas pessoas de tecnófilos. Elas olham para a
lhor juiz para avaliar o bem ou dano que ela causará naqueles
tecnologia como um amante para a amada, vendo-a sem defeitos e
que a pratiquem. Portanto, você, que é o pai da escrita, por
não sentindo apreensão alguma quanto ao futuro. Por conseguinte,
afeição a seu rebento, atribuiu-lhe o oposto de sua verdadeira
elas são perigosas, e devem ser abordadas com cuidado. Por outro
função. Aqueles que a adquirirem vão parar de exercitar a
memória e se tornarão esquecidos; confiarão na escrita para lado, alguns profetas de um só olho, como eu (ou pelo menos é do
trazer coisas à sua lembrança por sinais externos, em vez de que me acusa.-n), estão inclinados a falar apenas de fardos (ao modo
fazê-lo por meio de seus próprios recursos internos. O que de Thamus), e se calam sobre as oportunidades que as novas
você descobriu é a receita para a recordação, não para a me- tecnologias tornam possíveis. Os tecnófilos precisam falar por si, e o
mória. E quanto à sabedoria, seus discípulos terão a reputa- fazem por toda a parte. Minha defesa é a de que às vezes é- preciso
ção dela sem a realidade, vão receber uma quantidade de in- uma voz discordante para moderar a gritaria feita pelas multidões
formação sem a instrução adequada, e, como conseqüência, entusiásticas. Se temos que errar, é melhor errar pelo lado do ceticis-
serão vistos como muito instruídos, quando na maior parte mo de Thamus. Mas, ainda assim, é um erro. E eu poderia observar
serão bastante ignorantes. E como estarão supridos com o que, com exceção de seu julgamento sobre a escrita, Thamus não
conceito de sabedoria, e não com a sabedoria verdadeira, se- repete esse erro. Ao reler a lenda, você pode notar que ele dá argu-
rão um fardo para a sociedade". 1 mentos a favor e contra cada invenção de Theuth. É, pois, inevitável
que cada cultura precise negociar com a tecnologia, fazendo-o de
Começo meu livro com essa lenda porque na resposta de Thamus
maneira inteligente ou não. Chega-se a um acordo no qual a
há vários sólidos princípios, com os quais podemos começar a apren-
tecnologia dá e toma. O sábio sabe muito bem disso e raras vezes se
der a pensar com sábia circunspecção sobre a sociedade tecnológica.
Na verdade, há inclusive um erro no julgamento de Thamus, com o impressiona com as dramáticas mudanças tecnológicas, e jamais se
enche de satisfação. Aqui temos Freud, por exemplo, sobre a ques-
I/ qual também podemos aprender algo importante. O erro não esrá
tão, de seu sombrio Civilization and its Discontents:
em sua afirmação de que a escri_ra i~_~udicar_g_mew.ó.ria..e...criar
·lJEla falsa sabedoria.E demons~'l:e.Lq!-!.e .,_<escrit;l,_te_l}l_tido.esse..efei- Gostaríamos de perguntar: então não há nenhum ganho po-
/ ro. O erro de Thamus está em sua cre~ em g_Jle. a..es_crita.será_um...
I sitivo no prazer, nenhum aumento inequívoco em minha sen-
fardo para a sogg_aãd.e, e nat!3__~i;qE.e.JJJ:71./_azdp. Com roda..a-soo,/ sação de felicidade, se posso ouvir, quantas vezes quiser, a voz
sabedoria, ele falha ao não imaginar quais poderiam ser os benefíéios de um filho meu que está vivendo a centenas de quilômetros
da escrita, que, como sabemõs, têm sido consideráveis. Podemos de distância, ou se posso saber no tempo mais curto possível
aprender com isso que é un:' erro supor que qualquer inovação que um amigo chegou a seu destino e que percorreu a longa e
tecnológica rem um efeito m:lilateral apenas. Toda tecnologia tanto é difícil viagem são e salvo? Não significa coisa alguma que a
um fardo como uma bênção; não uma coisa ou outra, mas sim isto
medicina tenha tido um enorme sucesso na redução da mor-
e aquilo. /
talidade infantil e no perigo de infecção para mulheres em
Nada poderia ser m~s óbvio, é claro, especialmente para aqueles
trabalho de parto e em aumentar consideravelmente a média
que pensaram mais de 1dois minutos sobre a questão. Não obstante,
de vida do homem civilizado?
atualmente estamos cercados por multidões de zelosos Theuth, pro-
/
15

L
1.4
Freud sabia muito bem que os avanços técnicos e científicos não cluir em seu julgamento uma profecia sobre os poderes que a escrita
deviam ser encarados com leviandade, motivo pelo qual ele começa ampliaria. Há um cálculo da mudança tecnológica que requer uma
essa passagem reconhecendo-os. Mas ele terniina lembrando-nos do medida de imparcialidade.
que eles desfizeram: Chega do erro de omissão de Thamus. Há uma o urra omissão
digna de nota, mas que não é um erro. Thamus simplesmente
Se não houvesse nenhuma estrada de ferro para conquistar as
aceita como cerro- e, por conseguinte, não acha necessário di-
distâncias, meu filho jamais teria saído de sua cidade natal, e
zer - que a escrita não é uma tecnologia neutra, cujo bem ou
eu não precisaria de telefone para ouvir a voz dele; se não
dano depende do uso que se faça dela. Ele sabe que os usos de
tivesse sido iniciada a viagem de navio pelos oceanos, meu
qualquer tecnologia são determinados, em grande parte, pela es-
aniigo não teria embarcado em sua viagem pelo mar·e eu não
trutura da tecnologia em si, isto é, que suas funções resultam de
precisaria de telegrama para aliviar minha ansiedade em rela-
sua forma. Esse~ o motivo pelo. qual Thamus não está preocupa-
ção a ele. De que adianta reduúr a mortalidade infantil quan-
do com o que as pessoas vão escrever; ele está.preocupado com o
do é precisamente essa redução que nos impõe a maior limita-
fato de que as pessoas irão escrever. É absurdo imaginarThamus
ção para gerar mais filhos, de forma que, em geral, ainda as-
avisando, à maneira do tecnófllo-padrão de hoje, que os malefícios
sim não temos mais filhos do que nos tempos an.tes do reina-
da escrita poderiam ser minimizados, desde que ela fosse usada
do da higiene, ao passo que ao mesmo tempo criamos condi-
apenas para a produção de certos tipos de textos (digamos que
ções difíceis para nossa vida sexual no casamento ... E, por
para a literatura dramática, mas não para a história ou para a
fim, de que nos serve uma vida longa, se ela é difícil e pobre
filosofia). Ele veria tal aviso como uma extrema ingenuidade. /C"\
de alegrias, e se é tão cheia de desgraça que só podemos aco-
Imagino que ele permitiria que se impedisse uma tecnologia de ~'_t)
lher a morte como uma !iberradora?2
entrar em uma cultura. Mas podem~s ~prer:der o seguinte ~om /I': .· /
Ao analisar o custo do progresso tecnológico, Freud assume uma Thamus: uma vez que uma recnolog1a e aceita, ela atua de 1me-1: ( ,/
postura bastante depressiva: a de alguém que concorda com a obser- diato; faz o que está destinada a fazer. Nossa tarefa é compreen- I! V'
vação de Thoreau, de que nossas invenções nada mais são que meios der o que é esse desígnio; vale dizer que, quando aceitam?s uma/ f
aperfeiçoados para se chegar a um fim não melhorado. Sem dúvida o tecnologia nova, deve!I)OS fazê-lo com os olhos bem abertos. )\
tecnófilo responderia a Freud dizendo que a vida sempre foi pobre Podemos deduzir tudo isso do silêncio de Thamus. Mas pode-
de alegrias e cheia de desgraça, mas que o telefone, os navios de/ mos aprender mais ainda com o que ele diz do que com o que não
carreira e em especial o reino da higiene não apenas aumentaram o diz. Ele observa, por exemplo, que a escrita mudará o significado
tempo de vida, mas também tornaram-na uma proposta mais agra- das palavras "memória' e "sabedoria'. Ele receia que a memória vá
dável. Esse é, com certeza, UI:(! argumento que eu apresentaria (desse ser confundida com o que ele chama desdenhosamente de "recorda-
modo, provaria que não sou. um tecnófobo de um olho só), mas ção", e se preocupa com que a sabedoria não possa ser diferenciada
nesse momento não é necessário seguir essa linha. Eu trouxe Freud do mero conhecimento. Devemos levar a sério esse julgamento, posto
para a conversa apenas para demonstrar que um sábio - mesmo que é uma cerr= que as tecnologias radicais criam novas definições
alguém com um semblante tão triste - precisa começar sua crítica para velhos termos, e que esse processo ocorre sem que tenhamos
à tecnologia reconhecendo seus sucessos. Se o rei Thamus fosse tão plena consciência dele. Desse modo, é insidioso e perigoso, bem
,, sábio como demonstrava sua reputação, não teria esquecido de in- diferente do processo em que novas tecnologias introduzem novos
i),
.li
Y6 17

·~~.
termos na linguagem. Em nosso tempo, temos acrescentado, de for-
ma consciente, à nossa linguagem, milhares de palavras e frases no- implicações desse fato. Harold Innis, o pai dos estudos da comuni-
vas que têm a ver com tecnologias novas ·_ "VCR", "dígito biná- cação moderna, falou repetidas vezes dos "monopólios do conheci-
rio", "software~: "tração nas rodas dianteiras", "janela de oponunida- mento" criados por importantes tecnologias. Ele referia-se precisa-
de", "walkman" etc. Não somos tomados de surpresa por isso. Coi- mente ao que Thamus tinha em mente: aqueles que têm o controle
sas novas requerem palavras novas. Mas as coisas novas também do funcionamento de uma tecnologia particular acum';:1amp;;-der e,
modificam palavras velhas, palavras que rêm significados com pro- de maneira inevitável, formam uma espécie de c~tração contra "'c
fundas raízes. O telégrafo e o jornal diário mudaram o que antes aqueles que não têm acesso ao conhecimento espc~zado, tornado
?~·
chamávamos de "informação". A televisão muda o que antes cha- disponível pela tecnologia. Em seu livro The Bias ofCommunication, (
mávamos de "debate político", "notícia" e '(opinião pública". O com- Innis oferece muitos exemplos históricos de como uma tecnologiai
. putador muda a "informação" mais uma vez. A escrita mudou o que nova "dissolveu" o monopólio de um conhecimento tradicional e I
aJltes charriávimos de ''verdade"'e "lei"; a imprensa mudou-as mais criou um novo, presidido por um grupo diferente. Uma ou;,a ma- ) '. ·-;)

uma vez e agora a televisão e o computador tornam a mudá-las. neira de dizer isso é que os benefícios e déficits de uma tecnologia ·.
Essas mudanças ocorrem com rapidez, sem dúvida, e em certo sen- · • 1

1
nova não são distribuídos por igual. Há, por assim dizer, ganhadores
tido em silêncio. Os lexicógrafos não fàzem plebiscitos sobre a ques- 'e perdedores. É intrigante e comovente que em muitas ocasiões os
tão. Não se escrevem manuais para explicar o que está acontecendo, perdedores, por ignoráncia, tenham aplaudido os vencedores, e al-
e as escolas estão desatentas a isso. As velhas palavras ainda parecem guns ainda aplaudam.
ser as mesmas, ainda são usadas nos mesmos tipos de frases. Mas Vamos tomar como exemplo o caso da televisão. Nos Estados
não têm mais os mesmos significados; em alguns casos, têm o signi- Unidos, onde a televisão se firmou mais profundamente do que em
ficado oposto. E é isso o que Thamus nos deseja ensinar - que a qualquer outro lugar, muitas pessoas acham-na uma bênção, sobre-
tecnologia se apodera imperiosamente de nossa terminologia mais tudo aquelas que nela conquistaram carreiras bem pagas e gratifi-
importante. Ela redefine ''liberdade", ''verdade", '(inteligêncià', "fato", cantes, como executivos, técnicos, locutores e artistas de programas
':sabedoria", "memória'', "história" - todas as palavras com que vi- de variedades. Não deveria surpreender ninguém o fato de essas pes-
vemos. E ela não pára para nos contar. E nós não paramos para soas que formam um novo monopólio do conhecimento aplaudi-
perguntar. ·o:. ~ rem, defenderem e promoverem a tecnologia da televisão. Pdr outro
Esse faro sobre a mudança tecnológica requer alguma elaboraçãó' . 1 lado, a longo prazo, a televisão pode pôr um fim gradual nas carrei-
e voltaremos ao assunto em um capítulo mais adiante. No momen- .~· ,\ ras dos professores, posto que'a escola foi uma invenção da prensa
to, há vários outros princípios a serem explorados pelo jul,o-amento ~~- . tipográfia/e deve-se manter de pé ou cair conforme a importância
de Thamus, que precisam ser mencionados porque pressagiam tudo que tenha a palavra impressa. Durante quatrocentos anos os profes-
sobre o que escreverei. Por exemplo, Thamus adverte que os discí- sores fizeram parte do monopólio do conhecimento criado pela prensa
pulos de Theuth irão desenvolver uma reputação de sabedoria não tipográfica, e agora estão testemunhando o colapso desse monopó-
merecida. Ele quer dizer que aqueles que cultivam a competência no lio. Ao que parece, eles pouco podem fàzer para impedir esse colap-
uso de u.rna tecnologia nova tornam-se um grupo de elite ao qual so, mas com certeza há algo de perverso nos professores entusiasma-
aqueles que não têm essa competência garantem autoridade e prestí- dos corn o que está acontecendo. Esse entusiasmo sempre evocou
gio imerecidos. Há maneiras diferentes de expressar as interessantes em minha mente a imagem de algum ferreiro da virada do século,
que não apenas canta os elogios ao automóvel, como também acre-
·18

l 19
dira que seu negócio crescerá com de. Nós sabemos agora que o a maioria das quais rem apenas relevância marginal para a qualidade
negócio dele não cresceu; tornou-se obsoleto, como ralvez o soubes- de vida dos perdedores, mas que mesmo assim são impressionantes.
sem os ferreiros lúcidos. O que eles poderiam fazer? Chorar, se não Em dado momento, os perdedores capitulam, em pane porque acre-
tivessem outra opção. ditam, como profetizou Thamus, que o conhecimento especializado
Temos uma situação semelhante no desenvolvimento e difusão dos mestres de uma tecnologia nova seja uma forma de sabedoria. E,
da tecnologia do computador, pois aqui também há vencedores e como Thamus também profetizou, os mestres também passam a
vencidos. Não pode haver discussão sobre o faro de o computador acreditar nisso. O resultado é que cenas questões não são levanta-
rer aumentado o poder de organizações de larga escala, como as for- das. Por exemplo, a quem a tecnologia dará maior poder e liberdade?
ças armadas, ou as empresas aéreas, bancos e órgãos coletores de E o poder e a liberdade de quem serão reduzidos por ela?
', . impostos. E também está claro que agora o computador é indispen- Talvez eu tenha feiro tudo isso parecer uma conspiração bem
sável para pesquisadores de alto .nível na física e em outras ciências planejada, como se os vencedores soubessem muito bem o que está
naturais. Mas em que extensão a tecnologia do computador rem sendo ganho e o que está sendo perdido. Mas não é bem assim que
sido uma _vantagem para as massas-? Para os operários siderúrgicos, acontece. Em culturas que têm um espírito democrático, tradições-
proprietários de quitandas, professores, mecãnicos de carro, músi- relativanJ.ente fracas e alta receptividade a tecnologias novas, rodo o 1
cos, pedreiros, dentistas e a maioria das pessoas cujas vidas o com- mundo está inclinado a se entusiasmar com a mudança tecnológica, ·-;
putador está invadindo agora? Seus assuntos particulares foram ror- acreditando que seus beneficios se espalharão, em um dado momen- '
nados mais acessíveis para instituições poderos"-?. Eles são seguidos e to, por igual sobre toda a população. Sobretudo nos Estados Uni- ,
controlados com mais facilidade; são submetidos a mais exames; são dos, onde não rem limites a ânsia pelo que é novo, encontramor'
mistificados cada vez mais pelas decisões remadas sobre eles; muitas mais amplamente difundida essa convicção infantiL De faro, na
vezes são reduzidos a merõs objeros numéricos. ~~n_undados por América, raras vezes a mudança social de qualquer tipo é vista como
~orres~J:!d_ê!lC.Í;J,_inútiL São alvos fáceis das agências de jlubÍicidaCle · resultando em vencedores e perdedores, condição essa que se origina
edd ~rgâll~ç6es. políticas. & escolas ensinam seus filhos a operar em parte do otimismo muiro documentado dos americanos. Quan-
sistemas computadorizados, em vez de ensinar coisas mais valiosas to à mudança causada pela tecnologia, esse otimismo nativo é explo-
\ para crianças. Resumindo, para os perdedores não acontece quase rado por empresários, que trabalham duro para instilar na popula-
\.!.lada do que precisam. E é por isso que são perdedores. " ção uma unidade de esperança improvável, postO que sabem que do
Espera-se que os vencedores estimulem os perdedores a se entu- ponto de vista econômico não é sábio revelar o preço a ser pago pela
siasmar com a tecnologia do_computador. É a maneira de ser dos mudança tecnológica. Então, poder-se-ia dizer que, se há conspira-
vencedores, e assim às vezes éles dizem para os perdedores que com ção de algum tipo, é a de uma cultura conspirando contra si mesma.
o computador pessoal a média das pessoas pode verificar o saldo no Além disso, e mais importante que tudo, nem sempre está claro,
talão de cheques com mais exatidão, pode acompanhar melhor re- pelo menos nos estágios iniciais da invasão de uma tecnologia em
ceitas e fazer listas de compras mais lógicas. Tambén:1 dizem que suas uma cultura, quem ganhará mais e quem perderá mais. Isto se dá
vidas serão conduzidas com mais eficiência. Mas discretamente dei- porque as mudanças forjadas pela tecnologia são sutis, quando não
xam de dizer do ponro de vista de quem será garantida a eficiência, são completes mistérios; e poder-se-ia dizer que são imprevisíveis.
ou qual pode ser seu custo. Se os perdedores ficam céticos, os vence- Entre as mais imprevisíveis estão aquelas que podem ser rotuladas
dores os ofuscam com as maravilhosas façanhas dos computadores, de ideo-lógicas. É o tipo de mudança que Thamus tinha em mente,

l 20 21
:':< "]

"".,
O)
os números. Acredita.rn que sem eles não podem atingir ou expres-
quando advertiu que os escritores passariam a confiar em sinais ex- " sar o conhecimento autêntico.
ternos em vez de confiar em seus próprios recursos internos, e que \!..;

S' Não vou discutir aqui se essa idéia é estúpida ou perigosa, apenas
iriam receber grandes quantidades de informação sem instrução ade-
:~ que é peculiar. O que é mais peculiar ainda é que muitos de nós não
quada. Ele quis dizer que as novas tecnologias mudam aquilo que ;
'l acham essa idéia peculiar. Dizer que alguém devia estar fazendo um
entendemos como "conhecimento" e "verdade"; elas alteram hábitos < .,trabal.l,.o melhor porque tem um Ql de 134, ou que alguém tem 7 ;2.
de pensamento profundamente enraizados, que dão a uma cultura
-~ap:s.~ala de sensibilidade, ou que o ensaio de Fulano sobre o cresci-
, , .· seu senso de como é o mundo- um senso do que é a ordem naru-
~ do capitalismo merece nota 1O e o de Beltrano merece 6,
_, :' ., · · ral das coisas, do que é sensato, do que é necessário, do que é inevi-
teria pa_[!:_cido alg;uavia para Galileu, Shakespeare ou Thomas
"i ~-- tável, do que é reaL Como ess;,_, coisas são expressas em sentidos
Jefferson. Se faz sentido para nós, é porque nossas mentes foram
. modificados de velhas palavras, deixarei de lado, até discussão poste-
condicionadas pela tecnologia dós nú;neros, de forma que vemos o
rior, a maciça transformação ideológica que está ocorrendo agora
mundo de maneira diferente da deles. Nosso entendimento do que
nos EUA Por enquanto, gostaria de dar apenas um exemplo de como
é real é diferente - o que é uma outra maneira de dizer que toda
a tecnologia cria novas concepções do que é real e, durante o proces-
ferrarnenta está impregnada de um viés ideológico, de uma predis-
so, mina as concepções mais velhas. Refiro-me à prática aparente-
posição a construir o mundo como uma coisa e não como outra, a
mente inofensiva de atribuir notas ou graus às respostas que os estu-
valorizar u...T..a coisa mais que ou~ra, a amplificar um sentido ou ha-
' dantes dão nos exames. Esse procedimento parece tão natural para a
bilidade ou atitude com mais intensidade do que outros.
\ maioria de nós que mal temos consciência de seu significado.
Foi isso que Marshall McLuhan quis dizer com seu famoso
Podemos achar dificil imaginar que o número e a letra sejam
aforismo "O meio é a mensagem''. Foi o que Marx quis dizer quan-
ferramentas, ou, se quiserem, uma tecnologia; contudo, quando
do afirmou: ':A tecnologia revela a maneira como o homem lida com
usamos tal tecnologia para julgar o comportamento de alguém, faze-
a natureza" e cria as "condições de intercurso" com as quais nos rela-
mos algo peculiar. Na realidade, o primeiro exemplo de se dar nota a
cionamos uns com os outros. Foi o que Wittgenstein quis dizer quan-
papéis dos estudantes ocorreu na Universidade de Cambridge, em
do afirmou, ao referir-se à nossa tecnologia mais fundamental, que a
1792, por sugestão de um tutor chamado William Farish.3 Nin-
linguagem não é apenas um veiculo do pensamento, mas tan;ibém o ,
guém sabe muita coisa sobre Willia.tn Farish; apenas um punhado
de pessoas já ouviu falar dele. No entanto, sua idéia de que um valor/ motorista. E foi o que Tharnus quis que o inventor Theuth visse. 11 r'-11',,
quantitativo deveria ser atribuído aos pensamentos humanos foi ,um Resumindo, essa é urna sabedoria an.tiga e persistente, expressada '·I[ V1 !_

talvez da maneira mais sirnples no velho adágio, segundo o qual . I \'


grande passo em direção à cop.strução de um conceito matemático
tudo p..Ere.ce_p.Lego_p_aJ:a_lJ.ll:LQQill!'.m_c_o.m_urn martelo. Sem sermos '
de realidade. Se se pode dar uín número à qualidade de pensamento,
~s demais, podemos e5tende;Qrruísmo: p._;:a um homem com I
então, pode-se atribuir um número à qualidade da compaixão, do
amor, da beleza, do ódio, da criatividade, da inteligência e até mes- uma caneta, tudo parece uma lista. Para um homem com uma câmera,
tudo parece uma imagem. Para um homem com um computador,
I
j
!
i

mo da sanidade. Quando Galileu disse que a linguagem da natureza


estava escrita em matemática, ele não tencionava incluir o senti- tudo parecem dados. E para alguém com urna folha pautada, tudo __J/
parece número. ·
mento humano, a realização ou a perspicácia. Mas agora a maioria
No entanto, tais preconceitos nem sempre são aparentes no co-
de nós está inclinada a fazer essas inclusões. Nossos psicólogos, soció-
logos e educadores acham quase impossível fazer seu trabalho sem meço de urna jornada da tecnologia, motivo pelo qual ninguém pode

2';
22
conspirar com segurança para ser o vencedor numa mudança cozinha, tornava cada cristão seu próprio teólogo- pode-se inclu-
tecnológica. Quem iria imaginar, por exemplo, que interesses e que sive dizer seu próprio sacerdote ou, melhor ainda, do pomo de vista
visão de mundo avançariam em última instâricia com a invenção do de Lutero, seu próprio papa. Na luta entre a unidade e a diversidade
relógio mecânico? O relógio tem sua origem nos mosteiros de crença reiigiosa, a imprensa fàvoreceu esta última, e podemos
beneditinos dos séculos XII e XIII. O impulso por trás da invenção supor que essa possibilidade jamais ocorreu a Gutenberg.
era proporcionar uma regularidade mais ou menos precisa nas roti- Thamus entendeu muito bem as limitações dos inventores para
nas dos mosteiros, que requeriam, entre outras coisas, sere períodos compreender a tendência social e psicológica- isto é, ideológica-
de devoção no decorrer do dia. Os sinos do mosteiro deviam ser de suas próprias invenções. Podemos imaginá-lo dirigindo-se a
tocados para anunciar as horas ·canônicas; o relógio me~nico era a Gutenberg da seguinte maneira: "Gutenberg, meu exemplo de in-
tecnologia que poderia proporcionar precisão para esses rituais de ventor, o descobridor de uma arte não é o melhor juiz do bem ou
devoção. E de fato proporcionou. Mas o que os monges não previ- dano que pode ser causado àqueles que a pratiquem. Portanto, você,
ram foi que o relógio viria a ser um meio não apenas para acompa- que é o pai da imprensa, por afeição a seu rebento, passou a acreditar
nhar as horas, mas também para sincronizar e controlar as ações dos que ele favorecerá a causa da Santa Sé Romana, ao passo que na
homens. E, assim, em meados do século XIV; o relógio foi além das verdade vai propa,crar a discórdia entre os fiéis; irá danificar a auten-
paredes do mosteiro, levando uma nova e precisa regularidade à vida ticidade de sua amada Igreja e destruirá seu monopólio".
do trabalhador e do mercador. "O relógio mecânico", como Lewis Podemos imaginar que Thamus teria observado para Gutenberg,
Mumford escreveu, "tornou possível a idéia da produção rc;,<>ular, como fez para Theuth, que a nova invenção criaria uma vasta popu-
das horas de trabalho regular e de um produto padronizado." Resu- lação de leitores que "irão receber uma qua.tltidade de informação
mindo, sem o relógio teria sido impossível haver capitalismo. 4 O sem a instrução adequada. .. [que estarão] supridos do conceito de
paradoxo, a surpresa e a curiosidade foi que o relógio foi inventado sabedoria e não da sabedoria verdadeira"; em outras palavras, que a
por homens que queriam dedicar-se mais rigorosamente a Deus; ele leirura irá competir com outras formas de aprendizado. Este é outro
terminou como a tecnologia de maior uso para os homens, que de- princípio da mudança tecnológica que podemos deduzir do julga-
sejavam dedicar-se à acumulação de dinheiro. Na eterna luta entre mento de Thamus: as novas tecnologias competem com as antigas
Deus e os bens materiais, o relógio favoreceu estes últimos, de ma- -pelo 'empo, por atenção, por dinheiro, por prestígio, mas sobre-
neira bastante imprevisível. tudo pela predominância de sua visão de mundo. Essa competição é
Conseqüências imprevistas estão no caminho daqueles que pen~· implícita, uma vez que reconheçamos que um meio contém uma
sam que vêem, com clareza, a direção pata a qual uma nova tecnologia tendência ideológica. É uma competição feroz, como apenas as com-
nos levará. Nem mesmo aqudes que inventam uma tecnologia po- petições ideológicas. conseguem ser. Não é mera. questão de ferra-
dem presumir que são profe~as confiáveis, como Thamus advertiu. menta contra ferram ema- o alfàbeto atacando a escrita ideográfica,
Gutenberg, por exemplo, foi em todos os aspectos um católico de- a prensa tipográfica atacando o manuscrito iluminado, a fotografia
voto que teria ficado horrorizado ao ouvir que o execrável herege atacando a arte da pintura, a televisão atacando a palavra impressa.
Lutero descreveu a imprensa como "o ato de graça mais alto de Deus, Quando a mídia fàz guerra entre si, é um caso de visões de mundo
com o qual a causa do Evangelho foi impulsionada para a freme". em colisão.
Lutero compreendeu, ao contrário de Gutenberg, que o livro pro-· Nos Estados Unidos podemos ver essas colisões por toda a parte

.
duzido em massa, ao colocar a Palavra de Deus na mesa de cada - na política, na religião, no comércio -mas as vemos com mais

24 25

l
..
'
v
Il't
dadeiro deviam ser comunicados. A imprensa enfatizao aprendiza-
I
clareza nas escolas, onde duas grandes tecnologias confrontam-se
em uma perspectiva descomprometida pelo controle das mentes dos do individualizado, a competição e a autonomia pessoaL Durante
'! . estudantes. Por um lado, há o mundo da palavra impressa, com sua quatrocentos anos, os professores, enquanto enfatizavam a impren-
'
,\ \,. !ênfase na lógica, na seqüência, na história, na exposição, na objetivi- sa, permitiram que a oralidade ocupasse seu espaço na sala de aula e,
•i:
~1

·~ \ vr'/ dade, na imparcialidade e na disciplina. Por outro lado, há o mundo por conseguinte, atingiram uma espécie de paz pedagógica entre es-
, da televisão, com sua ênfase na fantasia, na narrativa, na presença, sas duas formas de aprendizado, de tal modo que pudesse ser
·. na simultaneidade, na intimidade, na gratificação imediata e na res- maximizado aquilo que era apreciado em cada forma. Agora chega o
posta emocional rápida. As crianças vão para a escola depois de ha- computador, carregando mais uma vez a bandeira do aprendizado
', ver sido profundamente condicionadas pela influência da televisão. privado e da solução individual do problema. Será que o uso difun-
. Lá elas encontram o mundo da palavra impressa. Ocorre uma espé- dido dos computadores derrotará de uma vez por rodas as preten-
,,cie de baralha psíquica, e há muitas baixas- crianças que não co n- sões do discurso comuna!? Irá o computador elevar o egocentrismo
/ 5eguem ou não querem aprender a ler, crianças que não conseguem à categoria de virtude?
organizar seu pensamento em uma estrutura lógica mesmo em um / Esses são os tipos de perguntas que a mudança tecnológica traz à
único parágrafo, crianças que não conseguem prestar atenção às au- mente quando se percebe, como Thamus percebeu, que a competi-
las ou às explicações orais por mais de alguns minutos de cada vez. ção tecnológica desencadeia uma guerra total, que significa que não
São fracassos, mas não porque sejam esrúpidas. São fracassos porque é possível confinar os efeitos de uma tecnologia nova em uma esfera
está havendo uma guerra da mídia, e elas estão do lado errado - limitada da atividade humana. Se essa metáfora apresenta a questão
pelo menos, por enquanto. Quem sabe como as escolas serão daqui •
1
de maneira brutal demais, podemos tentar uma mais suave e delica-
, a vinte e cinco anos? Ou cinqüenta? Até lá, o tipo de estudante que \ s· .~: da: a mudança tecnológica não é nem aditiva nem subtrativa. É eco-
no momento é um fracasso pode ser considerado um sucesso. O \{ .' I lógica. Refiro-me à "ecológica" no mesmo sentido em que a palavra
tipo que agora é bem-sucedido p'ode ser visto como um estudante ' \ -i} é usada pelos cientistas do meio ambiente. Uma mudança significa-
deficiente - lento na resposta, desapaixonado demais, carente de / tiva gera uma mudança total. Se você retira as lagartas de dado habitat,
emoção, incapaz de criar imagens mentais da realidade. Considere: o < você não fica com o mesmo meio ~"'Ilbiente menos as !agarras, mas
que Thamus chamou de "conceito de sabedoria"- o conhecimento com um novo ambiente e terá reconstituído as condições da sobre-
irreal adquirido por meio da palavra escrita - em dado momento vivência; o mesmo se dá se você acrescenta lagartas a um ambiente
tornou-se a forma de conhecimento preeminente apreciada pelas es:' que não tinha nenhuma. É assim que a ecologia do meio ambiente
r'll
I colas. Não há nenhuma razão para supor que tal forma de conlleci- funciona. Uma tecnologia nova não acrescenta nem subtrai coisa
'í mento deva ser sempre apreciàda em alta conta. alguma. Ela muda tudo. No ano de 1500, cinqüenta anos depois da
li
1'..
Para tomar um outro exef\lplo: ao introduzir o computador pes- invenção da prensa tipográfica, nós não tínhamos a velha Europa
soal na sala de aula, estaremos rompendo uma trégua de quatrocen- mais a imprensa. Tínhamos uma Europa diferente. Depois da tele-
tos anos entre o gre,o-arismo e a abertura, fomentados pela oralidade, visão, os Estados Unidos não eram a América mais a televisão; esta
e a introspecção e o isolamento, fomentados pela palavra impressa. deu um novo colorido a cada campanha política, a cada lar, a cada
A oralidade dá ênfase ao aprendizado ·em grupo, à cooperação e a um escola, a cada igreja, a cada indústria. E é por esse motivo que a
sentido de responsabilidade social, que é o contexto dentro do qual \ competição entre os meios de comunicação é tão feroz. Cercando
Thamus acreditava que a instrução adequada e o conhecimento ver- \_ cada tecnologia estão instituições cuja organização- para não men-

26 27
t,

· cionar sua razão de ser- reflete a visão de mundo promovida pela nossa concepção da realidade, o relacionamentO enrre ricos e pobres,
tecnologia. Por conseguinte, quando uma tecnologia velha é atacada a idéia de felicidade em si. Um pregador que se confina para pensar
por uma nova, as instituições ficam ameaçadas. Quando as institui- como um meio de comunicação pode aumentar sua audiência dei-
i ções são ameaçadas, uma cultura se encontra em crise. Trata-se de
xará de notar a questão significativa: em que sentido um novo meio
um assunto sério, que é o motivo pelo qual nada aprendemos quan- de comunicação altera o significado de religião, de igreja e até mes-
do os educadores perguntarn: os estudantes aprenderão matemática mo de Deus? E se o político não consegue pensar além das próximas
melhor com computadores ou com livros didáticos? Ou quando os eleições, então remos que nos perguntar sobre o que o novo meio de
homens de negócios perguntam: por que meio podemos vender comunicação faz com a idéia de organização política e com o concei-
mais produtos? Ou quando os pregadores perguntam: podemos atin- to de cidadania.
gir mais pessoas por IJ?-eio da televisão ou do rádio? o,;. quando os Para ajudar-nos a fazer isso temos o julgamento de Thamus, que,
·políticos perguntam: que eficiência têm as mensagens enviadas pe- à maneira das lendas, nos ensina o que Harold Innis tentou à sua
los diferentes meios de comunicação? Essas perguntas têm um valor maneira ensinar. As novas tecnologias alteram a estrutura de nossos
prático imediato para aqueles que as fazem, mas são dispersivas. Elas interesses: as coisas sobre as quais pensamos. Alteram o caráter de
desvia;n nossa atenção da séria crise social, intelectual e institucional nossos símbolos: as coisas com que pensamos. E alteram a natureza
que o novo meio fomenta. da comunidade: a arena na qual os pensamentos se desenvolvem.
Talvez aqui uma analogia ajude a sublinhar a questão. Ao falar Como Thamus falou para Innis através dos séculos, é essencial que
sobre o ;ignificado de um poema, T. S. Eliot observou que o princi- ouçamos a conversa deles, que entremos nela, que a revitalizemos.
,,
I pal uso do conteúdo patente da poesia é "satisfazer um hábito do Pois aconteceu na América algo que é estranho e perigoso, e só há
leitor, manter sua menre distraída e quieta, enquanto o poema tra- uma percepção va,o-a e aré estúpida do que foi - em parte porque
balha nele: assim como o ladrão imaginário está sempre munido de não tem nenhum nome. Chamarei de tecnopólio:
um belo pedaço de carne para o cão da casa'. Em Outras palavras, ao
fàzerem suas perguntas práticas, os educadores, empresários, prega-
dores e políticos são como o cachorro da casa, que masca pacifica-
Notas
mente a carne enquantO a casa é saqueada. Talvez alguns deles sai-
bam disso e não tomem nenhum cuidado especial. Afinal de contas, ' Platão, p. 96.
um belo pedaço de carne oferecido de graça resolve o problema dé ' Freud, pp. 33-9.
3 Esse faro é documentado em "The Examination, Disciplinary Power :and Rarional
como conseguir a próxima refeição. Mas para nós outros não é a:éei-
Schooling", de Keith Hoskin, in History of Education, voL VIII, n 2 2 (1979), pp.
tável que a casa seja invadida sem protesto ou pelo menos sem 135-46. O prof. Hoskin apresenta a seguinte história sobre Farish: Farish era pro-
:[
conscientização. fessor de engenharia em Cambridge, e desenhou e instalou uma parede divisória
O que precisamos para refletir sobre o computador nada tem a móvel em sua casa em Ca.mbridge. A parede movia-se em roldanas enrre o andar de
baixo e o de cima. Uma no ire, enquanto trabalhava até tarde e sentindo frio, Farish
:lI! i ver com sua eficiência como ferramenta de ensino. Precisamos saber puxou a divisôri::t para baixo. Isso não é lá uma história, e não foi revelado o que
,.ji
de que maneira ele vai alterar nossa concepção de aprendizado e aconteceu em seguida. Tudo isso mostra quão pouco se sabe sobre William Farish.
~,,I como, em conjunção com a televisão, ele minará a velha idéia de
escola. Quem se importa com a quantidade de caixas de cereal que
4 Para uma detalhada exposição da posição de Mumford sobre o impacto do rd6gio

mecânico, veja sua obra Technics and Civilizatü:ln.

li: pode ser vendida pela televisão? Precisamos saber se a televisão muda

28 29

Você também pode gostar