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GRÉCIA CLÁSSICA: O modo de vida grego sem o moralismo positivista

Alanis dos Santos Oliveira


Universidade do Estado do Rio de Janeiro
Graduação em História
RESUMO:
Este artigo tem como finalidade apresentar os costumes e modo de vida em Atenas e em
Esparta, como as relações sexuais e a religiosidade, com uma leitura diferenciada dos autores
positivistas do início do século XX. Além disso, apresenta o conceito e a prática da moral no
ambiente grego sem a autocensura que se mostra presente nos textos positivistas. O conteúdo
deste artigo também demonstra a relevância do estudo da moral vista pelos gregos no ensino
básico e a tentativa de buscar propostas para auxiliar no ensino sobre a Grécia Clássica.
PALAVRAS-CHAVE: Moral; Positivista; Grécia Clássica; Esparta; Atenas; Costume.

ABSTRACT:
The goal of this manuscript is to discuss the habits and lifestyle in Athens and Sparta, with
focus on aspects of the sexual relationships and greek mitology with a different interpretation
of the positivist authors from the beginning of century XX. In addition, this manuscript
introduces the concept and practice of the morals in the ancient Greece without
self-censorship observed in positivist texts, demonstrating the importance to study about
morals under the Greek`s perspective and the need to find novel strategies to support teaching
about Classic Greece.
KEY WORDS: Morals; Positivist; Classic Greece; Athens, Sparta; Costume.

1. INTRODUÇÃO:
Esse artigo baseia-se na obra: “Sobre alguns aspectos ideológicos da leitura positivista
da cidade grega”, de José Antonio Dabdab Trabulsi que retrata a visão positivista em alguns
aspectos da Grécia Antiga do período clássico, como o anti-feminismo, raça e cidade,
nacionalismo, moralismo e dentre outros (TRABULSI, 2004, p.81).
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Neste texto, estudo um aspecto específico do problema, a saber, alguns elementos da


ideologia que informa a leitura histórica que eles fazem acerca da cidade grega, tais
como as relações entre ‘raça’ e cidade, superioridade cultural e colonização,
antifeminismo, moralismo, entre outros. Ele faz parte de um conjunto de textos onde
estudo vários aspectos desta cidade grega dos positivistas (TRABULSI, 2004, p.
82-83).

Apesar dos diversos temas abordados pelo autor, o foco deste artigo é sobre o
moralismo e a preocupação ‘moral’ dos pensadores positivistas a respeito da religiosidade,
das relações amorosas e sexuais nas cidades gregas, como Atenas e Esparta. Segundo
Trabulsi, “A preocupação moral é muito forte nos positivistas, e vêmo-los passar com muita
facilmente da moral ao moralismo” (TRABULSI, 2004, p. 110). De fato, a autocensura sobre
contar aspectos da vida grega, como por exemplo, a relação entre Zeus e Ganimedes, jovem
que serve ao deus, foi considerada um tipo de precaução ‘moral’ estabelecida (TRABULSI,
2004, p.110).No entanto, cabe ressaltar que cada comunidade com sua cultura apresenta um
tipo de moral, valores considerados do ponto de vista do bem ou do mal (CHAUÍ, 2000, p.
436).
Cada comunidade tem a sua identidade com valores próprios, permitindo pensar de um
ser particular até em um coletivo(GUARINELLO, 2016, p.8). Para o entendimento da
identidade coletiva, é necessário saber da memória social(GUARINELLO, 2016, p. 9) pois
auxilia no estudo de História Antiga, ensino que se tem muita dificuldade de material didático
(FUNARI; GARRAFFONI, 2004, p. 1) e o objetivo deste artigo ser também um complemento
de estudo para o ensino de Grécia Clássica através de uma perspectiva diferente dos
positivistas do século XX.

2. RELIGIOSIDADE GREGA:
Trabulsi apresenta a visão dos positivistas sobre a religião grega, como a de M.
Croiset, um dos autores que critica a religião grega como insuficiente, exemplificado na frase:
“cabe examinar desde logo esta religião, apesar de ser grosseira em muitos aspectos não
continha certos traços de moralidade”( M.CROISET, 1922, p. 34 apud TRABULSI, 2004, p.
110). Aymard encara a religiosidade grega como contendo uma lacuna espiritual (1953, p.274
apud TRABULSI, 2004, p. 111) pois as religiões politeístas facilitam a ignorância e não
tiveram o sucesso que o cristianismo obteve ( AYMARD, 1953, p. 345-348 apud TRABULSI,
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2004, p. 111). Para entendermos um pouco sobre a religião grega, falaremos aqui a sua
origem.
No período arcaico, quando os gregos começam a ir os Bálcãs para se estabelecerem
acabar por influenciar o desenvolvimento de uma língua na região dos gregos. No período do
Bronze, desenvolve-se a escrita cretense (linear A) como componente de controle das pessoas.
Os pré-gregos tinham uma estrutura palaciana diferente dos gregos. A religião micênica
esteve presente na vida de muitas pessoas pois a religião fazia parte do Estado, com santuários
e anexos de tesouros reais, feitas de ouro e de prata. Alguns deuses micênicos são os mesmo
do período arcaico e continuam no Clássico, como Zeus, Poseidon- o mais importante do
panteão para os micênicos- Hermes, Dionísio e Hera (TRABULSI, 1993, p. 136-137).

Se fizermos uma comparação entre este panteão e o que encontramos mais tarde, a
partir do período arcaico, constatamos ausências como a de Apolo e Afrodite;
porém, o que impressiona é o inverso,'uma grande continuidade. Mas o equilíbrio do
panteão é bem diferente: Zeus assumirá o papel primordial de Poseidon; deuses
importantes não sobreviverão senão como epítetos de outros, como Zagreus em
relação a Dioniso( TRABULSI, 1993, p. 137).

As divindades gregas eram seres que apresentavam desejos, sentimentos, praticavam


erros e acertos, ou seja, eram figuras parecidas com os seres humanos. Porém, diferentemente
dos humanos, eram seres imortais (FUNARI, 2002, p. 57).

Os vícios, as paixões, os amores e os ódios, a obediência, a revolta, o castigo e os


presentes, além do sexo, importante sempre, pela presença e até pela ausência, tudo
contribui para fazer do mundo divino dos gregos em uma transposição do mundo
humano. O homem no centro das preocupações, medida de todas as coisas; o
impulso decisivo deste traço essencial do mundo grego se encontra desde o inicio do
arcaísmo pelo menos ( TRABULSI, 1993, p. 142).

Segundo Pedro Paulo Funari, a religião grega apresenta valores diferentes do


judaico-cristão pois não se trata de uma figura de um Deus Todo-Poderoso, figura única e um
ser perfeito que não se abala com as emoções humanas (2002, p. 57). Devido às divindades
gregas serem figuras parecidas com os humanos [com emoções, desejos, sentimentos e outros
aspectos], os positivistas atribuíram a imagem de uma religião sem conceitos morais. Um
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exemplo é o trecho de J. Laurent, que fala sobre a falta de exemplo dos deuses gregos
(LAURENT, 1933, p.79-81 apud TRABULSI, 2002, p.112).
“Zeus cometeu todos os crimes, até a sodomia; Hera e Venus se tinham glorificado de
seus adultérios; todos praticavam mais ou menos o rapto, o estupro, o assassinato, a
vingança”. As ações dos deuses não auxiliavam na construção de uma moral para a vida dos
gregos (LAURENT, 1933, p.79-81 apud TRABULSI, 2004, p. 112). Laurent fala da cidade
de Esparta, onde ocorria casamentos entre irmãos e a limitações dos nascimentos mas ele
justifica essas ações pois os espartanos não conheciam a moral de Cristo (LAURENT, 1933,
p. 110-115 apud TRABULSI, 2004, p. 112).
Em virtude dos fatos mencionados, os autores positivistas demonstraram uma opinião
contrária a religião grega que passava facilmente de uma simples preocupação moral para um
moralismo, acompanhante do preconceito(TRABULSI, 2004, p. 110-116).

3. AS RELAÇÕES SEXUAIS E AMOROSAS SEM AUTOCENSURA:


Para Pedro Paulo Funari, “Sexualidade é uma noção inventada modernamente e
refere-se à maneira como se expressam as relações entre os sexos e os seus desejos.” Essa
citação quer dizer que na Grécia do período clássico não se tinha noção do que seria a
sexualidade. Para o cristianismo tradicional, a atividade sexual era somente para fins
reprodutivos (2002, p. 52). O judaísmo-cristão foi o ponto de referência moral para os autores
positivistas para criticar as relações sexuais e amorosas na Grécia Clássica (TRABULSI,
2004, p. 110).
Pinto Corino cita a influência judaica-cristã na visão sobre a Grécia Clássica como um
lugar muito pecaminoso, como no trecho: “Graças ao olhar judaico-cristão de muitos
estudiosos do mundo antigo, em diversos momentos a Grécia foi estudada e caracterizada
como lugar de “orgias”e sodomia” (CORINO, 2006, p. 19). Os positivistas eram um exemplo
de estudiosos que continham esse olhar. Um deles se chama Jarde e isso se mostra explícito
no trecho: “ É uma pena que demasiadas vezes o banquete se termina em orgia: é preciso uma
cabeça bem sólida para resistir à embriaguês quando, como em Atenas, se começa
esvaziando as pequenas taças e que se termina com grandes taças” (JARDE, 1914, p. 236-237
apud TRABULSI, 2004, p. 113).
Julgamentos sobre os costumes existentes grego no período clássico, como o
positivista Jarde, não devem ser aplicados. O ideal é tentar entender as peculiaridades
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culturais dos gregos clássicos -como os atenienses e espartanos- com a perspectiva de um


olhar histórico (CORINTO, 2006, p. 19). Para os gregos clássicos, as relações amorosas e
sexuais faziam parte de suas vidas e eram socialmente bem aceitas (FUNARI, 2002, p. 56).

Já disse que os gregos não sentiam culpa, nem encaravam o sexo como algo
cientificamente analisável: para eles o sexo era algo ligado à natureza das coisas e,
portanto, às forças divinas. Não é à toa que acreditassem em diversos deuses ligados
à sexualidade e ao amor: Afrodite, a Vênus dos romanos, era, sem dúvida,
considerada a deusa mais importante. Por isso mesmo, a palavra para designar as
relações amorosas era, em geral, aphrodisia, "o que está sob domínio de Afrodite"
(FUNARI, 2002, p.56).

As relações sexuais e amorosas da Grécia Clássica, além de “estarem sob o domínio de


Afrodite”, eram feitas para a formação de uma família (FUNARI, 2002, p. 56). Além da
gestação de filhos, os homens se relacionam entre si com o objetivo de reprodução de
conhecimento de guerra e filosófico (CORINO, 2006, p. 20). Em Esparta, uma comunidade
guerreira, os homens se relacionam entre si como parte do treinamento e disciplina militar
(CORINO, 2006, p. 20)
Em Tebas, colônia espartana, existia o Pelotão Sagrado de Tebas, tropa de elite
composta unicamente de casais homossexuais. Eram extremamente ferozes, pois
lutavam com muita bravura para que nada acontecesse a seus parceiros. Em campo
de batalha eram quase imbatíveis. Assim, podemos ver que a homossexualidade dos
espartanos em nada influenciava sua condição de homens e guerreiros (CORINO,
2006, p. 20-21).

Já em Atenas, as relações homoafetivas entrelaçam com o desenvolvimento


intelectual, chamada de pederastia. Pederastia é quando o erastes, homem mais velho, se
relaciona com o eromenos, jovem com menos de 18 anos, para ensiná-lo sobre a vida e os
saberes filosóficos. Relações entre homens de mesma faixa etária eram consideradas
antinaturais, pois o homem assume um papel de passivo e um cidadão ateniense deve ser ativo
(CORINO, 2006, p. 20-22).Os banquetes eram locais onde esse ensinamento de cidadania
ateniense poderiam acontecer. Essa relação entre o erastes e o eromenos era acompanhada
pela comunidade ateniense no intuito de se afastar de violência, agressão- chamada pelos
atenienses de hybris- e não se distanciar do cunho pederástico (SOUSA, 2013, p.1-2).
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Nem todos se comportavam sexualmente do mesmo modo. A imensa maioria de


camponeses não participava da cultura sexual da elite, embora, mesmo entre eles,
não houvesse qualquer reprovação moral às eventuais relações sexuais entre pessoas
do mesmo sexo já que, como se disse, o desejo sexual era tido como algo divino
(FUNARI, 2002, p. 56).

É importante ressaltar que a pederastia e a cultura sexual era algo recorrente da


aristocracia ateniense porém não impediam os camponeses de terem as relações amorosas e
sexuais homoafetivas, já que o desejo sexual era algo da deusa Afrodite (FUNARI, 2002, p.
56).
Levando em consideração todos esses aspectos, o modo positivista descreve as
relações amorosas com um aspecto de autocensura sobre a vida grega utilizando o eufemismo
como mecanismo disfarçado de elegância estilística, deixando de detalhes sobre a relações
sexuais, como por exemplo, a homoafetividade, que era algo frequente na Esparta e Atenas
Clássica (TRABULSI, 2004, p. 110).

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS:
Tendo em vista o conteúdo apresentado, o objetivo deste artigo é demonstrar uma
versão sobre os costumes da Grécia Clássica, sobretudo de Esparta e Atenas, diferentemente
dos textos positivistas do século XX. Nestas considerações finais, falaremos detalhadamente
sobre como que o conteúdo pode auxiliar no ensino sobre a Grécia Clássica no nível básico.
Sabe-se que tem muitas dificuldades sobre o ensino de História Antiga pela falta de
documentos didáticos para o complemento do ensino (FUNARI; GARRAFFONI, 2004, p. 1).
Funari e Garraffoni apresentam em sua coletânea diversas maneiras de se trabalhar o
mundo antigo em sala de aula, como a interdisciplinaridade entre História e as outras
disciplinas, mapas do território grego e o uso de fontes primárias para a complementação da
aula (FUNARI; GARRAFFONI, 2004, p. 2-3). Um exemplo dessa abordagem a partir da
ideia de artigo poderia ser a interdisciplinaridade entre História e Filosofia sobre o conceito, a
visão de ‘moral’ para os gregos do período clássico e vestígios da vida cotidiana dos
atenienses e espartanos -forma que poderia ser utilizada para alunos do ensino médio, já que
entram em contato maior com as ciências sociais, como Filosofia e Sociologia. Porém, com a
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nova reforma curricular da BNCC, as ciências humanas perdem espaço no ensino médio
(DANTAS, 2018, p. 106).
Outro mecanismo de ensino de História se faz presente no Parâmetros Curriculares
Nacionais, voltado para o ensino fundamental, com o objetivo levar um educação baseada no
respeito e na tolerância, posicionando-se contra qualquer discriminação cultural, religiosa,
étnica ou de outras características próprias, além de auxiliar na formação crítica dos alunos.
Assim, os alunos aprendem a ter um olhar crítico mas sem desrespeitar outras culturas e
histórias (PCN, 1998, p. 7).
Dessa forma, para se estudar os costumes e estilo de vida da Grécia Clássica, deve ser
ter mente que a moral é formada por valores que variam de acordo com a comunidade e o
tempo(CHAUÍ, 2000, p. 436). Na obra de Norberto Guarinello, chamada de História Antiga,
o autor trabalha em um capítulo, intitulado de História e Memória, sobre a memória ser
construída através de um movimento político e cultural mais amplo, com aspectos e práticas
culturais que são diferentes de acordo com cada sociedade. A História Antiga é um tipo de
memória social, sendo ela fundamental para a construção de uma identidade. Segundo
Guarinello, o local crucial para a produção e reprodução social de memória é a escola, por
meio de livros didáticos e currículos obrigatórios, a escola influencia a memória social dos
brasileiros(GUARINELLO, 2016, p. 8-10).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
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alguns aspectos ideológicos da leitura "positivista" da cidade grega antiga. Boletim do CPA
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CHAUÍ, Marilena. Convite à filosofia. São Paulo: Ed. Ática, [1994] 2000.
CROISET, M. La civilisation de la Grèce antique. IN: DABDAB TRABULSI, José Antônio.
Sobre alguns aspectos ideológicos da leitura "positivista" da cidade grega antiga. Boletim do
CPA (UNICAMP), v. 17, p. 81-130, 2004.
DABDAB TRABULSI, José Antonio. Religião e política na Grécia. Das origens até a pólis
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DABDAB TRABULSI, José Antônio. Sobre alguns aspectos ideológicos da leitura


"positivista" da cidade grega antiga. Boletim do CPA (UNICAMP), v. 17, p. 81-130, 2004.
DANTAS, Jéferson. O Ensino Médio em disputa e as implicações da BNCC para a área de
Ciências Humanas. Universidade e Sociedade, Florianópolis:ANDES/SN n. 61, p. 106-115,
2018.
FUNARI, Pedro Paulo. Grécia e Roma. São Paulo: Editora Contexto, 2002.
FUNARI, Pedro Paulo; GARRAFFONI, Renata. História Antiga na sala de aula- Textos
Didáticos, n. 51. Campinas: IFCH/UNICAMP, 2004.
GUARINELLO, Norberto. História Antiga. São Paulo: Contexto, 2016.
LAURENT, J. Essais d’histoire sociale. La Grèce antique. IN: DABDAB TRABULSI, José
Antônio. Sobre alguns aspectos ideológicos da leitura "positivista" da cidade grega antiga.
Boletim do CPA (UNICAMP), v. 17, p. 81-130, 2004.
PARÂMETROS CURRICULARES NACIONAIS. Terceiro e quarto ciclos do fundamental-
História, Brasília: MEC, 1998.
PINTO CORINO, Luiz Carlos. Homoerotismo na Grécia Antiga-homossexualidade e
bissexualidade-mitos e verdades. Biblos, Revista do Departamento de Biblioteconomia e
História, Rio Grande, v.19, p.19-24, 2006.
SOUSA, Luana Neres de. A pederastia ateniense no período clássico:Uma proposta de
análise do banquete de Platão e Xenofonte, 2013, p.1-6. Doutorado-UFG, Goiânia, 2013.

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