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A experiência da depressão: uma perspectiva fenomenológica sobre o paradigma

nosológico do DSM-V

É de longe conhecida a assistência que a psicologia forneceu à filosofia,


nos últimos dois séculos e meio, permitindo que ela entrasse em reinos da
mente humana e suas fragilidades em que este última não conseguiu alcançar
adequadamente antes. No entanto, a contribuição da filosofia à psicologia é
menos visível. Em parte, porque a ciência avançou tanto nas últimas décadas e
filosofia parece estar presa nos mesmos problemas postulado pelos gregos a
dois mil anos atrás. Embora isso possa ser verdade, a mão invisível da filosofia
tem ajudado no desenvolvimento de novas perspectivas em psicologia, e
debates multidisciplinar são mais comuns no século XXI.

Entre eles, mais importante, são as conclusões que os psicólogos são


capazes retirar dos próprios debates filosóficos.

Evidente que o estudo da Psicopatologia assere que muitos de nossos


colapsos mentais, psicopatologias e traumas são causados por nossa genética
e desencadeadas pela infância, a maneira como nossos pais nos levantaram,
os professores que tivemos contato e não para dizer os parceiros de amor que
tivemos (etc.) Nesse sentido, as psicopatologias são muitas vezes vistas como
algo para serem estudadas externamente à experiência subjetiva do sujeito.
Como um vírus ou uma doença corporal é estudado por um cientista em geral.
Isto é principalmente porque constituem um objeto de estudo à psicologia por
sua própria complexidade. No entanto, a analogia é perigosa. Pode nos levar a
pensar que as psicopatologias são algo para ser considerado totalmente à
parte do sujeito que a experiencia, mesmo em suas causas. Diferentemente de
um vírus ou de uma bactéria que tem sua própria vida sustentadora para fora
do nosso corpo e pode ser considerada corretamente a causa da doença, as
patologias da mente têm uma forma existencial simbiótica com a mente, o
corpo e os fatores externos. Não pode ser destacado como algo que existe por
conta própria dentro da mente nem pode afirmar que sobrevive ao meio
ambiente independentemente do indivíduo.
O objetivo desse trabalho é abrir a possibilidade de uma análise pautada
na impressão subjetiva da depressão como um fenômeno da própria
constituição da experencia subjetiva do sujeito na sua interpelação mundo,
corpo e mente como componentes estruturais do mesmo fenômeno, afastando-
nos assim de uma análise puramente nosológica característica dos manuais
psiquiátricos.

Para tanto, utilizaremos da Fenomenologia-Existencial como referencial


teórico e explicativo da postulado da primazia da consciência e de suas
estruturas na constituição da experiência do sujeito em primeira pessoa e de
seu adoecimento como uma de suas possibilidades.

Literalmente, fenomenologia é o estudo dos fenômenos como aparecem,


como são em si mesmos ou como são percebidos na consciência. A
fenomenologia, portanto, também é um estudo da intencionalidade, da
propriedade cardial da consciência de sempre ser uma consciência de (para
fora). Em outras palavras, consciência seria a parte da capacidade de
autopercepção, herança cartesiana, mas o argumento fenomenológico nos
explica que a consciência originária não modifica ou percebe a realidade, mas,
antes, a produz como é percebida cognitivamente por nós, seres humanos. Por
isso, de acordo com Husserl (2001), uma ciência objetivamente válida só faz
sentido em um modo de percepção que se estrutura objetivamente, não
existindo objeto fora da consciência. Por isso, o objeto, ainda que algo
específico como uma psicopatologia como a depressão maior, é um
contrassenso lógico afirmar que podemos estuda-la fora da própria experiência
humana que a estrutura em primeiro lugar.

Se eu questiono o eu e o mundo e a experiência do eu como tal, a simples


reflexão intuitiva se volta ao dado na apercepção da experiência
considerada, para mim, revelando o fenômeno dessa apercepção; por
exemplo, o fenômeno 'percepção percebida como minha percepção'
(HUSSERL, 1986, p. 70-71, tradução nossa).

Todo conhecimento deve partir da consciência para sua relação com seu
modo próprio e singular de apreensão. Por consequente, não seria possível
uma realidade ou fenômeno por si ou em si que não seja produto da
intersecção entre o que nos é apresentado por vias da percepção sensorial e
as condições internas pelas quais esses dados são formatados num modo
objetivo e particular cognitivo humano de experenciar o mundo. Nesse sentido,
a grande contribuição da fenomenologia para a psicologia clínica e a
psicopatologia também como ciência autônoma, foi discernir a configuração de
objetos como fenômenos que são representados por ideias, crenças, memórias
ou estruturas formais do pensamento como distinto das coisas mesmas que
eles significam.

A fenomenologia nos oferece um modo de significar as psicopatologias


de modo a superar a tradicional separação mente-corpo (cartesiana), em que
nas descrições nosológicas dos manuais psiquiátricos encontram-se uma
definição psíquica e corpórea de uma série de sintomas que expressam
alguma forma de desordem, ineficiência, afastamento, desequilíbrio no ser
humano vítima dessas anomalias do funcionamento do paradigma cognitivo-
córporeo.

Foi através de Jaspers,Boss... etc... que uma psicopatologia pautada na


experiência interna do sujeito e na relação desse com o mundo que vive, que
foi inaugurado uma mudança na estruturação epistemológica da compreensão
da doença mental, que nos convida a pensar que o sujeito não possui uma
doença e não está doente, mas antes que ele está numa doença. "O paciente
está doente; isso significa, seu mundo está doente", como van den Berg
colocou (1972, p. 46), significando que o paciente não possui uma
psicopatologia em sua mente, mas que seu estar no mundo de alguma forma
está doente. Então, as doenças de natureza mental são, de acordo com essa
perspectiva, alterações da experiência espacial, temporal e situacional com os
outros.

A fenomenologia aplicada ao reino da psicologia clínica e seu escopo de


análise pode ser amplo como a relação espacial, temporal e vivencia do mundo
do sujeito.
No presente artigo, iremos nos atentar para as alterações temporais da
experiência subjetiva características que o sujeito em depressão maior
experiencia e suas e a experiência intra e intercórporea como as alterações
somáticas e emotivas.

O primeiro nos ajudará a entender como a realidade experencial


temporal subjetiva é alterada sob um modo de estar do sujeito que lhe oferece
obstáculos um fluxo temporal contínuo e fluído lhe causando perspectivas
pessimistas acerca do futuro, ansiedade generalizada acerca de possíveis
infortúnios e negação de sentido de suas vivências anteriores. Por isso, nos
pautaremos não controle do fenômeno [depressivo], mas sua compreensão, a
busca do sentido da experiência vivida pelos participantes” (Barbieri, 2010, p.
507).

Secundariamente, para podermos apreciar completamente essa


perspectiva é importante nos afastar do modelo cognitivo da mente herdeiro de
Platão e Descartes que todas as emoções negativas (como....ansiedade, culpa
e vergonha etc.) estão na alma (psique) e que essa é de alguma forma distinta
do mundo experienciado pelo corpo. Alma e corpo teriam seriam de categorias
ontológicas distintas e epistemologicamente não se encontrariam na mesma
estrutura de possibilidade do saber. Sob a perspectiva fenomenológica, esse
distanciamento ontológico desaparece, por conseguinte, qualquer objeto,
situação, crença ou contexto apreendido nada é mais do que um fenômeno ou
aquilo que aparece de um certo modo para a consciência. Esses exemplos são
subprodutos (ou efeito) final de uma estrutura complexa de processos
cognitivos que encontra sua possibilidade na intersecção entre a matriz de
significado que imprimimos às sensações e as condições transcendentais do
pensamento que tornam esse significado possível em primeiro lugar. Por isso,
não é possível dissociar corpo de mente, na verdade, ambos constituem
componentes estruturais do mesmo fenômeno que é ser humano, estar
depressivo, por exemplo, é estar experenciando tais e tais formas de
significado de agir e estar no mundo de modo intencional. Nada mais é do que
uma consciência direcionada ao mundo de uma tal forma que seus próprios
estados se rompem da própria condição de possibilidade que lhe possibilitou
em primeiro lugar ter essa experiencia desses estados. A consciência em sua
capacidade de intencionalidade se desunifica em uma dissonância
mundo/consciência criando uma relação desarmoniosa entre as possibilidades
que o mundo oferece enquanto pura intencionalidade e as experiências que o
sujeito tem dessas possibilidades.

Nesse sentido, a somatização característica da Depressão maior nada


mais é do que uma forma de estar no mundo que causa ao sujeito alguma
forma de distanciamento, reclusão e abandono de um estar-no-mundo (da-
sein) compartilhado por outros sujeitos.

***

Trabalhando ainda... daqui pra baixo

sendo que a forma da consciência originária como uma consciência


também corpórea se relaciona com os fenômenos que lhe são constituídos
emanam várias queixas de cansaço, dores no corpo, paralisia, batimentos
cardíacos alterados, alterações de pressão etc.

 I allude to what Karl Jaspers has coined border


situation (German: Grenzsituation), a notion which can be used to
describe psychiatric disorders as an exceptional state of
existence, converting “situations of daily life”
(German: Alltagssituationen) to border situations, inasmuch as
fundamental alterations of evaluative processes of self- and world-
disclosure are involved (cf. Jaspers, 1925, 1973; Jacobs and Thome,
2003; Fuchs, 2008)

A fenomenológia
The body is embedded in intercorporeality, and thus becomes the

medium of interaffectivity. From this point of view, so-called mental

disorders should rather be regarded as alterations of the patient’s lived

body, lived space, and being-with-others. ‘The patient is ill; this

means, his world is ill’, as van den Berg has put it (1972, p. 46). In this

sense, the illness is not in the patient, but the patient is in the illness, as

it were; for mental illness is not a state in the head, but an altered way

of being in the world. (FUCHS – INTERBODY)

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