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O Código de Ética

Médica
Profª. Vera Lúcia Hoffmann Pieritz

Indaial – 2020
1a Edição
Copyright © UNIASSELVI 2020

Elaboração:
Profª. Msc. Vera Lúcia Hoffmann Pieritz

Revisão, Diagramação e Produção:


Centro Universitário Leonardo da Vinci – UNIASSELVI

Ficha catalográfica elaborada na fonte pela Biblioteca Dante Alighieri


UNIASSELVI – Indaial.

P618o

Pieritz, Vera Lúcia Hoffmann

O código de ética médica. / Vera Lúcia Hoffmann Pieritz. –


Indaial: UNIASSELVI, 2020.

268 p.; il.

ISBN 978-65-5663-275-9
ISBN Digital 978-65-5663-271-1

1. Ética médica. - Brasil. II. Centro Universitário Leonardo da Vinci.

CDD 174.2

Impresso por:
Apresentação
Olá, acadêmico! Eu sou a sua professora e autora desta disciplina
de O Código de Ética Médica e me chamo Vera Lúcia Hoffmann Pieritz,
sou Doutoranda no curso de Administração e Gestão em Saúde Pública na
Universidad Columbia Del Paraguay – PY, com mestrado em Desenvolvimento
Regional, especialista em Direito Médico e Hospitalar, Educação a Distância:
Gestão e Tutoria; MBA Profissional em Gestão Administrativa e Marketing,
graduação em Direito e Serviço Social. Com experiência profissional em
coordenação de Cursos de Graduação na área Social e jurídica.

A disciplina “O Código de Ética Médica” pretende realizar uma


reflexão sobre os fundamentos e principais características da ética e do
código de ética médica, como também refletir sobre o código de processo
ético-profissional.

Na Unidade 1, proporcionaremos uma reflexão dos “fundamentos


e principais características da ética”, em que destacaremos os sentidos da
ética, refletindo sobre a problemática da moralidade e ética, o significado e a
formação do sujeito ético-moral, como também desvelaremos os fundamentos
éticos. Aprofundaremos os conhecimentos acerca da ética na vida cotidiana,
buscando compreender as diferenças da ética e moral, como também
elucidar as questões relativas à consciência moral no desenvolvimento
humano e à conduta moral do ser humano, refletindo sobre o bem e o mal,
o certo e o errado. Ampliaremos a percepção referente aos valores e a moral,
proporcionando um momento de discussão a respeito da essência da moral
e dos valores e princípios morais. Discorreremos sobre a questão da ética
na atualidade, perpassando por algumas questões polêmicas referente à
ética na contemporaneidade, além de fazer algumas reflexões sobre a ética,
a liberdade e o compliance.

Na Unidade 2, propiciaremos um contato com as premissas do


“código de ética médica” em si, no qual destacaremos o preâmbulo e os
princípios fundamentais do código de ética, bem como abordar as questões
pertinentes aos direitos dos médicos. Ofereceremos subsídios a você para
compreender a questão da responsabilidade profissional, dos direitos
humanos, das relações profissionais, da relação com os pacientes e familiares,
também discutiremos a relação entre médicos, para, assim, compreender
melhor este universo profissional dos médicos.

Proporcionaremos uma reflexão sobre a remuneração, sigilo


profissional, documentação médica, auditoria e perícia médica e debateremos
a questão da publicidade médica. Destacaremos os aspectos complementares
ao código de ética médica, abordando as questões relativas ao ensino e pesquisa
médica, a doação e transplante de órgãos e tecidos, também as disposições
gerais do código de ética médica e suas legislações complementares.
Na Unidade 3, desenvolveremos um debate em torno do “código de
processo ético-profissional”, procuraremos demostrar a questão do processo
em geral, desde as disposições gerais, perpassando pela sindicância,
conciliação, Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) e a interdição cautelar
do exercício da medicina. Refletiremos sobre o processo em espécie, iniciando
uma discussão a respeito da instrução do processo ético-profissional,
debatendo sobre as provas, a audiência de instrução, o julgamento do PEP
no CRM, os recursos em geral, o julgamento do PEP no CFM, a execução
das penas, dos impedimentos e da suspeição e as nulidades processuais.
Destacaremos ainda a questão da prescrição, debatendo as regras de prescrição
da pretensão punitiva e a prescrição da pretensão executória. Estudaremos a
revisão do processo, verificando as regras gerais e a reabilitação profissional.
Por fim, demostraremos as disposições processuais finais do processo ético-
profissional, apresentando uma discussão acerca da fluência dos prazos e a
entrada em vigor do código de processo ético-profissional.

Pronto para começar a estudar o Código de Ética Médica?

Então vamos começar, bons estudos!

Profª. Msc. Vera Lúcia Hoffmann Pieritz

NOTA

Você já me conhece das outras disciplinas? Não? É calouro? Enfim, tanto para você que
está chegando agora à UNIASSELVI quanto para você que já é veterano, há novidades em nosso
material.

Na Educação a Distância, o livro impresso, entregue a todos os acadêmicos desde 2005, é o


material base da disciplina. A partir de 2017, nossos livros estão de visual novo, com um forma-
to mais prático, que cabe na bolsa e facilita a leitura.

O conteúdo continua na íntegra, mas a estrutura interna foi aperfeiçoada com nova diagra-
mação no texto, aproveitando ao máximo o espaço da página, o que também contribui para
diminuir a extração de árvores para produção de folhas de papel, por exemplo.

Assim, a UNIASSELVI, preocupando-se com o impacto de nossas ações sobre o ambiente,


apresenta também este livro no formato digital. Assim, você, acadêmico, tem a possibilidade
de estudá-lo com versatilidade nas telas do celular, tablet ou computador.
 
Eu mesmo, UNI, ganhei um novo layout, você me verá frequentemente e surgirei para apresentar
dicas de vídeos e outras fontes de conhecimento que complementam o assunto em questão.

Todos esses ajustes foram pensados a partir de relatos que recebemos nas pesquisas institu-
cionais sobre os materiais impressos, para que você, nossa maior prioridade, possa continuar
seus estudos com um material de qualidade.

Aproveito o momento para convidá-lo para um bate-papo sobre o Exame Nacional de De-
sempenho de Estudantes – ENADE.
 
Bons estudos!
LEMBRETE

Olá, acadêmico! Iniciamos agora mais uma disciplina e com ela


um novo conhecimento.

Com o objetivo de enriquecer seu conhecimento, construímos, além do livro


que está em suas mãos, uma rica trilha de aprendizagem, por meio dela você
terá contato com o vídeo da disciplina, o objeto de aprendizagem, materiais complemen-
tares, entre outros, todos pensados e construídos na intenção de auxiliar seu crescimento.

Acesse o QR Code, que levará ao AVA, e veja as novidades que preparamos para seu estudo.

Conte conosco, estaremos juntos nesta caminhada!


Sumário
UNIDADE 1 — FUNDAMENTOS E PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DA ÉTICA................ 1

TÓPICO 1 — OS SENTIDOS DA ÉTICA........................................................................................... 3


1 INTRODUÇÃO..................................................................................................................................... 3
2 A PROBLEMÁTICA DA MORALIDADE E ÉTICA...................................................................... 4
3 O SIGNIFICADO, FUNDAMENTOS E A FORMAÇÃO DO SUJEITO
ÉTICO-MORAL .................................................................................................................................... 8
RESUMO DO TÓPICO 1..................................................................................................................... 21
AUTOATIVIDADE............................................................................................................................... 23

TÓPICO 2 — A ÉTICA, VALORES, PRINCÍPIOS E A MORAL NA VIDA


COTIDIANA................................................................................................................. 25
1 INTRODUÇÃO................................................................................................................................... 25
2 COMPREENDENDO AS DIFERENÇAS DA ÉTICA E MORAL.............................................. 27
3 A ESSÊNCIA DA MORAL ............................................................................................................... 34
4 OS VALORES E PRINCÍPIOS MORAIS ...................................................................................... 37
5 A CONSCIÊNCIA E O SENSO MORAL NO DESENVOLVIMENTO HUMANO................. 40
5.1 OS ESTÁGIOS DA CONSCIÊNCIA ÉTICA E MORAL: AS ETAPAS DA
EVOLUÇÃO HUMANA.............................................................................................................. 43
5.1.1 Primeiro estágio: medo, punição e obediência . .............................................................. 45
5.1.2 Segundo estágio: recompensa............................................................................................. 46
5.1.3 Terceiro estágio: aprovação social...................................................................................... 48
5.1.4 Quarto estágio: manutenção da ordem social.................................................................. 49
5.1.5 Quinto estágio: proteção do bem-estar coletivo............................................................... 50
5.1.6 Sexto estágio: zelo pelos princípios éticos universais..................................................... 52
6 A CONDUTA MORAL: O BEM E O MAL, O CERTO E O ERRADO..................................... 54
RESUMO DO TÓPICO 2..................................................................................................................... 63
AUTOATIVIDADE............................................................................................................................... 66

TÓPICO 3 — A QUESTÃO DA ÉTICA NA ATUALIDADE......................................................... 69


1 INTRODUÇÃO................................................................................................................................... 69
2 ALGUMAS QUESTÕES POLÊMICAS SOBRE A ÉTICA NA
CONTEMPORANEIDADE .............................................................................................................. 70
2.1 OS DILEMAS NO ÂMBITO DA FAMÍLIA................................................................................ 73
2.2 REFLEXÕES SOBRE A SOCIEDADE CIVIL.............................................................................. 74
2.3 PONDERAÇÕES SOBRE OS DILEMAS DO ESTADO ........................................................... 75
3 REFLEXÕES SOBRE A ÉTICA E LIBERDADE............................................................................ 76
LEITURA COMPLEMENTAR............................................................................................................. 83
RESUMO DO TÓPICO 3..................................................................................................................... 88
AUTOATIVIDADE............................................................................................................................... 90

REFERÊNCIAS....................................................................................................................................... 91
UNIDADE 2 — O CÓDIGO DE ÉTICA MÉDICA.......................................................................... 93

TÓPICO 1 — PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS DO CÓDIGO DE ÉTICA............................... 95


1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................................. 95
2 PREAMBULO DO CÓDIGO DE ÉTICA MÉDICA..................................................................... 97
3 PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS DO CÓDIGO DE ÉTICA.................................................... 101
4 DIREITOS DOS MÉDICOS........................................................................................................... 114
RESUMO DO TÓPICO 1................................................................................................................... 122
AUTOATIVIDADE............................................................................................................................. 123

TÓPICO 2 — RESPONSABILIDADE, DIREITOS E RELAÇÕES PROFISSIONAIS.............. 125


1 INTRODUÇÃO ................................................................................................................................ 125
2 RESPONSABILIDADE PROFISSIONAL ................................................................................... 126
3 DIREITOS HUMANOS................................................................................................................... 136
4 RELAÇÃO COM PACIENTES E FAMILIARES......................................................................... 139
5 DOAÇÃO E TRANSPLANTE DE ÓRGÃOS E TECIDOS....................................................... 144
6 RELAÇÃO ENTRE MÉDICOS....................................................................................................... 145
RESUMO DO TÓPICO 2................................................................................................................... 154
AUTOATIVIDADE............................................................................................................................. 155

TÓPICO 3 — REMUNERAÇÃO, SIGILO, DOCUMENTAÇÃO, AUDITORIA


E PUBLICIDADE........................................................................................................ 157
1 INTRODUÇÃO................................................................................................................................. 157
2 REMUNERAÇÃO PROFISSIONAL............................................................................................. 158
3 SIGILO PROFISSIONAL................................................................................................................ 159
4 DOCUMENTOS MÉDICOS........................................................................................................... 163
5 AUDITORIA E PERÍCIA MÉDICA.............................................................................................. 168
6 ENSINO E PESQUISA MÉDICA ................................................................................................. 171
7 PUBLICIDADE MÉDICA .............................................................................................................. 172
8 DISPOSIÇÕES FINAIS DO CÓDIGO DE ÉTICA MÉDICA.................................................. 176
LEITURA COMPLEMENTAR........................................................................................................... 178
RESUMO DO TÓPICO 3................................................................................................................... 182
AUTOATIVIDADE............................................................................................................................. 184

REFERÊNCIAS..................................................................................................................................... 186

UNIDADE 3 — O CÓDIGO DE PROCESSO ÉTICO-PROFISSIONAL.................................. 189

TÓPICO 1 — DO PROCESSO ÉTICO EM GERAL...................................................................... 191


1 INTRODUÇÃO ................................................................................................................................ 191
2 DAS DISPOSIÇÕES GERAIS DO CPEP..................................................................................... 193
3 DA SINDICÂNCIA ......................................................................................................................... 200
4 CONCILIAÇÃO, TERMO DE AJUSTAMENTO DE CONDUTA (TAC)
E INTERDIÇÃO CAUTELAR DO EXERCÍCIO DA MEDICINA........................................... 204
4.1 CONCILIAÇÃO........................................................................................................................... 204
4.2 TERMO DE AJUSTAMENTO DE CONDUTA (TAC)............................................................ 205
4.3 INTERDIÇÃO CAUTELAR DO EXERCÍCIO DA MEDICINA............................................ 206
RESUMO DO TÓPICO 1................................................................................................................... 214
AUTOATIVIDADE............................................................................................................................. 216
TÓPICO 2 — DO PROCESSO EM ESPÉCIE................................................................................. 217
1 INTRODUÇÃO ................................................................................................................................ 217
2 DA INSTRUÇÃO DO PROCESSO ÉTICO-PROFISSIONAL................................................. 218
3 JULGAMENTO DO PEP NO CRM............................................................................................... 231
RESUMO DO TÓPICO 2................................................................................................................... 246
AUTOATIVIDADE............................................................................................................................. 249

TÓPICO 3 — DA PRESCRIÇÃO, DA REVISÃO DO PROCESSO E DAS


DISPOSIÇÕES GERAIS........................................................................................... 251
1 INTRODUÇÃO ................................................................................................................................ 251
2 DA PRESCRIÇÃO............................................................................................................................ 251
3 DA REVISÃO DO PROCESSO..................................................................................................... 257
LEITURA COMPLEMENTAR........................................................................................................... 263
RESUMO DO TÓPICO 3................................................................................................................... 264
AUTOATIVIDADE............................................................................................................................. 266

REFERÊNCIAS..................................................................................................................................... 267
UNIDADE 1 —

FUNDAMENTOS E PRINCIPAIS
CARACTERÍSTICAS DA ÉTICA
OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de:

• aprofundar os conhecimentos acerca dos sentidos da ética;


• compreender a problemática da moralidade e ética;
• desvelar o significado e a formação do sujeito ético-moral;
• ampliar a percepção referente aos fundamentos éticos;
• perceber as nuances da ética na vida cotidiana;
• compreender as diferenças da ética e moral;
• elucidar a consciência moral no desenvolvimento humano;
• refletir sobre a conduta moral, o bem e o mal, o certo e o errado;
• desenvolver uma compreensão sobre os valores e a moral;
• perceber a essência da moral;
• compreender os valores e princípios morais;
• elucidar a questão da ética na atualidade;
• compreender algumas questões polêmicas sobre a ética na
contemporaneidade;
• fazer reflexões sobre a ética e a liberdade;
• elucidar o compliance no cotidiano profissional.

PLANO DE ESTUDOS
Esta unidade está dividida em três tópicos. No decorrer da unidade, você
encontrará autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo apresentado.

TÓPICO 1 – OS SENTIDOS DA ÉTICA

TÓPICO 2 – A ÉTICA, VALORES, PRINCÍPIOS E A MORAL NA VIDA


COTIDIANA

TÓPICO 3 – A QUESTÃO DA ÉTICA NA ATUALIDADE

CHAMADA

Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e vamos


em frente! Procure um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá
melhor as informações.

1
2
TÓPICO 1 —
UNIDADE 1

OS SENTIDOS DA ÉTICA

FIGURA 1 – OS DIVERSOS SENTIDOS DA ÉTICA

FONTE: <https://www.previsc.com.br/etica/images/etica.png>. Acesso em: 3 nov. 2020.

“Ética é a concepção dos princípios que eu escolho, moral é a sua prática”.


Mario Sergio Cortella

1 INTRODUÇÃO
Prezado acadêmico, neste tópico, será realizada uma discussão acerca dos
sentidos da ética, perpassando por uma reflexão a respeito da problemática da
moralidade e ética, desvelando o significado e a formação do sujeito ético-moral
e seus fundamentos éticos.

Ofereceremos subsídios a você, para compreender a questão da ética na


vida cotidiana, apresentando elementos para elucidar as diferenças da ética e
moral, pois isso se torna vital para que possamos viver e conviver em sociedade.

Nessa discussão, outro aspecto fundamental é a questão relativa à


consciência moral no desenvolvimento humano, para que o ser humano possa
desenvolver uma vida diga e respeitosa perante a sociedade a qual faz parte, já
que a conduta moral do ser humano faz toda a diferença no desenvolvimento de
sua qualidade de vida, refletindo na sua dignidade, pois é importante sabermos
o que faz bem ou mal, o que é certo e errado em nossas ações cotidianas perante
nossos grupos sociais, bem como diante de toda a sociedade.

3
UNIDADE 1 — FUNDAMENTOS E PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DA ÉTICA

Realizaremos uma discussão acerca dos valores e da moral, desmistificando


suas características, conceitos e diferenças, para, assim, podermos verificar como é
importante decodificar a essência da moral e dos valores e princípios morais na vida
de cada cidadão brasileiro. Todos nós temos uma concepção e desenvolvimento de
vida diferente, todos nós temos uma visão de mundo diferente e, por fim, todos nós
temos uma base moral advinda dos laços familiares diferentes uns dos outros, isso
gera o nosso comportamento ético perante a sociedade a qual pertencemos.

Por fim, verificaremos, ainda neste tópico, algumas questões relativas à


ética na atualidade, discutindo e refletindo algumas questões polêmicas da ética
no cotidiano da vida em sociedade, além de fazer algumas reflexões referentes à
ética, à liberdade e ao compliance.

Vamos lá, compreender sobre os sentidos da ética!

2 A PROBLEMÁTICA DA MORALIDADE E ÉTICA


No que tange às questões relativas à ética e à moralidade, nota-se que ambas
estão atreladas implicitamente na própria condição de ser, do agir das pessoas
mediante o meio social em que vivem e convivem cotidianamente. A consciência
moral do certo e do errado, do bem e do mal é formada pela composição histórica
dos nossos costumes e das nossas ações em sociedade, formando uma moralidade
e uma ética implícita nas ações do ser humano e refletida no seu convívio social.

Nesse sentido, pode-se expor que a moral e a ética estão presentes


na nossa vida o tempo todo, pois nossas decisões cotidianas estão repletas de
valores morais e éticos, segundo Tavares (2013, p. 4) “no nosso dia a dia, a ética
tem presença garantida, porque ela faz parte do ser humano em todas as suas
atividades, funções, espaço, ou seja, na família, no trabalho, no lazer, enfim, onde
o ser humano interage com outro, a ética aí se faz presente”.

Então, a questão da ética e da moral está além dos seus conceitos preeminentes,
já que é um conceito vivo, moldando-se no nosso comportamento diário que permuta
o conceito para a prática das relações humanas e sociais, pois, na visão de Tomelin e
Tomelin (2002, p. 89) “a ética é uma das áreas da filosofia que investiga sobre o agir
humano na convivência com os outros [...]” e, assim, nosso comportamento ético e
moral são objetos do estudo da própria filosofia, que busca investigar a racionalidade
do comportamento humano perante a sociedade e procura compreender os princípios
fundamentais dos seres humanos que permeiam a nossa vida cotidiana.

Ressalva-se ainda que a ética, segundo Cunha (2011, p. 140), é o “ramo


do conhecimento cuja finalidade é estabelecer os melhores critérios para o agir”.
Critérios estes, que são estabelecidos socialmente e que norteiam o convívio
do ser humano em sociedade, pois a ética é compreendida como “normas e
princípios que dizem respeito ao comportamento do indivíduo no grupo social a
que pertence” (GUIMARÃES, 2016, p. 377).

4
TÓPICO 1 — OS SENTIDOS DA ÉTICA

De acordo com Leyser (2018, p. 3), “na linguagem comum, frequentemente


utilizamos as palavras ética e moral (e antiético e imoral) de forma intercambiável.
Isto é, falamos da pessoa ou ato como ético ou moral”.

Segundo Solomon (2006, p. 12), “estudar ética não é escolher entre o bem
e o mal, mas é se sentir confortável diante da complexidade moral”, buscando
aprofundar o conhecimento acerca do nosso agir perante a sociedade em que
vivemos, faz-se necessário realizar um estudo das nossas atitudes éticas e morais,
para, assim, podermos refletir e entender essas questões balizares das nossas
atitudes e comportamentos.

Mediante esse contexto inicial, Pieritz (2013, p. 3) expõe que:


Com relação aos problemas éticos e morais do comportamento
humano, observamos que a ética não é facilmente explicável, ao sermos
indagados, mas todos nós sabemos o que é, pois está diretamente
relacionada aos nossos costumes e às ações em sociedade, ou seja, ao
nosso comportamento, ao nosso modo de vida e de convivência com
os outros integrantes da sociedade.

Assim, pode-se expor que é na convivência humana e social que refletimos os


nossos valores éticos e morais, que foram construídos historicamente na sociedade
e grupo social da qual fazemos parte, esses valores éticos e morais são concebidos
de acordo com a visão de mundo de cada um, dentro do seu contexto social, pois
cada um de nós possui uma visão do que é o bem e o mal, do que é certo e errado.

Leyser (2018, p. 4) nos complementa expondo que:


Quando falamos de pessoas como sendo morais ou éticas, geralmente
queremos dizer que elas são pessoas boas, e quando falamos delas
como sendo imorais ou antiéticas, queremos dizer que elas são
pessoas más. Quando nos referimos a certas ações humanas como
sendo morais, éticas, imorais ou antiéticas, queremos dizer que elas
estão certas ou erradas. A simplicidade dessas definições, contudo,
termina aqui, pois como definimos uma ação certa ou errada ou uma
pessoa boa ou má? Quais são os padrões humanos pelos quais tais
decisões podem ser tomadas? Estas são as questões mais difíceis que
constituem a maior parte do estudo da moralidade [...].

Contudo, essa consciência moral do ser humano, segundo Pieritz (2013,


p. 4), “é determinada por um consenso coletivo e social, ou seja, o conjunto da
sociedade é que formula e compõe as normas de conduta que o regem”. Permitindo,
assim, um regramento comportamental empírico, ditado pelos comportamentos
éticos e morais e pelos regramentos e normativas institucionais, balizados em
regras e normas legais do legislativo, executivo e judiciário. Todas as normas de
comportamento social se encontram balizadas na Constituição Federal.

5
UNIDADE 1 — FUNDAMENTOS E PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DA ÉTICA

DICAS

Caro acadêmico, na esfera dos regramentos e normativas institucionais,


convido-lhe a aprofundar os seus conhecimentos relativos aos princípios e valores
constitucionais. Nesse sentido, sugerimos a leitura dos Artigos 1º, 3º e 5º da Constituição
da República Federativa do Brasil, promulgada em 1988. Acesse o site: http://www.planalto.
gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm.

Segundo Leyser (2018, p. 4), “o importante é lembrar aqui que moral, ética,
imoral e antiético significam, essencialmente, o bom, o certo, o mau e o errado,
com frequência dependendo se alguém está se referindo às próprias pessoas ou
as suas ações”.

Então, nessa discussão, acerca da problemática da moralidade e da


ética, estamos oferecendo subsídios para compreender que existem dois lados
da mesma moeda, quando falamos do comportamento ético e moral dos seres
humanos, essas direções podem ser observadas e compreendidas no Quadro 1,
que expõe os dois campos dos problemas teóricos da ética e da moral. Vejamos!

QUADRO 1 – CAMPOS DO PROBLEMA TEÓRICO DA ÉTICA E DA MORAL


CAMPOS CARACTERÍSTICAS
Tais como:
• Liberdade;
PROBLEMAS GERAIS E • Consciência;
FUNDAMENTAIS • Bem e Mal;
• Valor;
• Lei e outros.
Na aplicação concreta, como
os problemas da:
• Ética profissional;
PROBLEMAS • De ética política;
ESPECÍFICOS • De ética sexual;
• De ética matrimonial;
• De bioética etc.

FONTE: Adaptado de Valls (2003, p. 8)

Deste modo, destaca-se que a ética e a moral permeiam em nossas vidas


cotidianas, desde nossas ações mais fundamentais e básicas, que é o processo
de decisão do que é o certo e o errado a se fazer, dos nossos valores e princípios
morais, até nas ações mais específicas, que estão refletidas no nosso modo
operante de fazer as coisas e se relacionar com o outro em sociedade.

6
TÓPICO 1 — OS SENTIDOS DA ÉTICA

Resumindo, a questão da ética e moral é a base norteadora das nossas


relações humanas e sociais, pois, é mediante esses princípios que agimos no meio
social em que vivemos e convivemos com o outro.

E
IMPORTANT

Contudo, como saber o que é certo e errado? Se estamos fazemos o bem ou o mal?

FIGURA – O QUE É CERTO E ERRADO?

FONTE: <https://pt.vecteezy.com/arte-vetorial/428683-escolha-moral-etica-nos-negocios-e-
tentacao>. Acesso em: 24 nov. 2020.

Acadêmico, esse é um bom questionamento, não achas?

Vale refletirmos o seguinte!

Os problemas éticos são os mesmos problemas morais?

Vejamos: devemos compreender que a problemática da ética e da moral


possuem características genéricas que as distinguem uma da outra, como podem
verificar suas diferenças e aspectos comuns no Quadro 2.

QUADRO 2 – CARACTERÍSTICAS GENÉRICAS DA MORAL E DA ÉTICA

CARACTERÍSTICAS
QUESTÃO
ESPECÍFICAS COMUNS
• O que há de
• A moral se caracteriza pelos PRO-
comum entre elas
MORAL BLEMAS DA VIDA COTIDIANA.
é fazer o homem
• A moral faz pensar as
pensar sobre a
CONSEQUÊNCIAS GRUPAIS,
RESPONSABILI-
adverte para normas culturalmente
DADE das
formuladas ou pode estar
consequências de
fundamentado num princípio ético.
suas ações.

7
UNIDADE 1 — FUNDAMENTOS E PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DA ÉTICA

• A ética faz pensar sobre


as CONSEQUÊNCIAS
UNIVERSAIS, sempre
ÉTICA priorizando a vida presente e
futura, local e global.
• A ética pode, desta forma, pautar
o comportamento moral.
FONTE: Adaptado de Tomelin e Tomelin (2002, p. 90)

Assim, pode-se verificar que na desmistificação das propriedades


conceituais da ética e da moral, observamos que ambas possuem características
genéricas e comuns, tanto na ética como na moral é a questão da responsabilidade
das consequências de nossas ações que refletem o nosso agir perante a sociedade
em que estamos inseridos, sejam elas de âmbito micro (grupo intrafamiliar e
amizades pessoais) ou macro (regional, comunitário, empresarial e social).

Segundo Leyser (2018, p. 3):


A moralidade reivindica nossas vidas. Faz reivindicações sobre cada
um de nós que são mais fortes do que as reivindicações da lei e tem
prioridade sobre o interesse próprio. Como seres humanos que vivem
no mundo, temos deveres e obrigações básicas. Há certas coisas que
devemos fazer e certas coisas que não devemos fazer. Em outras palavras,
há uma dimensão ética da existência humana. Como seres humanos,
experimentamos a vida em um mundo de bem e mal e entendemos
certos tipos de ações em termos de certo e errado. A própria estrutura da
existência humana dita que devemos fazer escolhas. A ética nos ajuda
a usar nossa liberdade de maneira responsável e a compreender quem
somos. E, a ética dá direção em nossa luta por responder às perguntas
fundamentais que questionam como devemos viver nossas vidas e
como podemos fazer escolhas certas.

Nesse sentido, tanto a ética como os princípios morais nos devem auxiliar na
reflexão sobre a responsabilidade das consequências advindas de nossas ações perante
o meio familiar e social a que vivemos e convivemos, norteando as nossas decisões de
fazermos o que é certo ou errado, o que faz bem ou mal para nós e para o outro.

3 O SIGNIFICADO, FUNDAMENTOS E A FORMAÇÃO DO


SUJEITO ÉTICO-MORAL
Agora, realizaremos uma reflexão a respeito do campo da ética em si,
perpassando pelo seu significado e como se dá a formação do sujeito ético-
moral. Assim, poder-se-á desmistificar as características conceituais da ética, para
podermos compreender como a ética permeia a nossa vida cotidiana em sociedade.

Pronto? Vamos lá!

8
TÓPICO 1 — OS SENTIDOS DA ÉTICA

Segundo Pieritz (2013, p. 5, grifos nossos):


Todos os homens fazem parte de uma sociedade, de um grupo social,
portando, podemos dizer que os homens em sociedade convivem em
grupo. Cada grupo social possui diferentes características culturais
e morais, como, por exemplo: os povos indígenas, os orientais, os
africanos, os alemães, os franceses, os italianos, os americanos, os
brasileiros, entre muitos outros. Cada sociedade possui suas normas
de conduta comportamental e seus princípios morais, ou seja, cada
grupo social constituiu o que é certo e errado, o que é o bem e o mal
para o seu povo, portanto, nem sempre o que é certo para nós pode ser
certo para outro grupo social e vice-versa.

Importante compreendermos que se fazemos parte de uma comunidade, de


um grupo social ou grupo familiar, ou seja, de uma sociedade, devemos entender
que todos nós somos diferentes e possuímos valores e princípios éticos e morais
diferenciados, sendo que cada etnia possui seu próprio jeito de ser e conviver,
instituindo regras sociais, políticas, econômicas e jurídicas de convivência.

Então, caro acadêmico, a compreensão do que é certo e errado e do que


é fazer o bem ou o mal para um grupo ou etnia, pode ser diferente para a outra
composição social. Tudo depende da formação dos valores e princípios éticos
e morais sócio-históricos da comunidade a que pertencemos. Segundo Tavares
(2013, p. 3), “a ética e a moral são os condutores para a sustentabilidade de
uma sociedade mais humana, mais justa, mais igualitária. É o bem comum que
subsidia as condições para as condutas morais, para a manutenção de valores que
coadunam com o interesse coletivo”.

NTE
INTERESSA

“[...] Existem algumas sociedades indígenas em que a mãe, ao dar à luz,


embrenha-se na mata sozinha e se o filho não for perfeito, segundo os seus princípios
morais, ela o abandona a sua própria sorte. À luz de nossos princípios morais, esta ação
seria considerada um crime de abandono” (PIERITZ, 2013, p. 6).

Demostramos, assim, que de acordo com o desenvolvimento sócio-


histórico dos valores e princípios éticos e morais de um determinado grupo social,
essa comunidade em si, desenvolve seu próprio jeito de ser, seu comportamento
social e moral, formatando socialmente sua tradição, costumes, hábitos e cultura.

Vejamos, na Figura 2, um exemplo visual da diversidade cultural do povo


brasileiro:

9
UNIDADE 1 — FUNDAMENTOS E PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DA ÉTICA

FIGURA 2 – DIVERSIDADE CULTURAL

FONTE: <https://definicao.net/wp-content/uploads/2019/05/diversidade-cultural-1.jpg>.
Acesso em: 4 nov. 2020.

DICAS

Se você quiser saber mais sobre o comportamento moral desses grupos


sociais/povos, pesquise, na internet, a cultura de cada povo. Assim, você poderá observar
as diferenças culturais de cada um e identificar seus princípios morais.

Agora que você já compreendeu que cada grupo social possui uma
composição diferente de costumes e valores éticos e morais, e que ele foi construído
historicamente pelos integrantes do seu provo, resta compreender o significado
intrínseco da ética.

Nesse sentido, indagamos:

10
TÓPICO 1 — OS SENTIDOS DA ÉTICA

Vejamos!

De acordo com Leyser (2018, p. 3, grifos nossos):


Ética vem do termo grego ethike que provém de ethos, que por sua
vez deriva de duas matizes distintas, uma que designa costumes
normativos e outra que ensina constância do comportamento, hábito
ou caráter. Na verdade, o termo ethos é uma transposição metafórica
de um termo que denota a morada dos animais (VAZ, 2006). Os gregos
antigos ao fazerem essa transposição queriam se referir ao mundo
humano, quanto aos seus costumes e o próprio agir humano que
constituiria sua morada e, simultaneamente, seu caráter.

Nesse sentido, Tomelin e Tomelin (2002, p. 89) complementam expondo


que “a palavra ética provém do grego ethos e significa hábitos, costumes e se
refere à morada de um povo ou sociedade. A palavra moral provém do latim
morális e significa costume, conduta”. Demonstrando que:
A principal função da ética é sugerir qual o melhor comportamento
que cada pessoa ou grupo social tem ou venha a ter. Indicando o que
é certo ou errado, o que é bom ou mau. Porém, este comportamento
sempre partirá do ponto de vista dos princípios morais de cada
sociedade, ou seja, seu grupo social. A ética auxilia no esclarecimento e
na explicação da realidade cotidiana de cada povo, procurando sempre
elaborar seus conceitos conforme o comportamento correspondente
de cada grupo social (PIERITZ, 2013, p. 7).

Assim, pode-se compreender que a ética reflete os hábitos e costumes gerais


de uma sociedade, suas normativas e convenções, que fora institucionalizada
pelo coletivo social, e a moral é a forma que conduzimos nossos atos perante o
outro, ou seja, é a conduta em si.

Desse modo, o Quadro 3 apresenta a definição de ética.

QUADRO 3 – O QUE É ÉTICA?

• ESTUDO DOS JUÍZOS de apreciação que se referem à conduta


humana, do ponto de vista do bem e do mal.
ÉTICA é:
• Conjunto de NORMAS E PRINCÍPIOS que norteiam a boa
conduta do ser humano.
FONTE: Adaptado de Houaiss (2009, p. 324)

Vázquez (2005, p. 20) complementa expondo que “o ético transforma-se


assim numa espécie de legislador do comportamento moral dos indivíduos ou da
comunidade”, em outros termos, a ética verifica a conduta dos homens em sociedade,
pois “a ética é teoria, investigação ou explicação de um tipo de experiência humana
ou forma de comportamento dos homens [...]” (VÁZQUEZ, 2005, p. 21).

11
UNIDADE 1 — FUNDAMENTOS E PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DA ÉTICA

De tal modo, que “o valor de ética está naquilo que ela explica – o fato
real daquilo que foi ou é –, e não no fato de recomendar uma ação ou uma atitude
moral” (PIERITZ, 2013, p. 7), pois, a ética está posta para nos explicar o nosso agir
junto à comunidade e grupo social em que vivemos e convivemos.
Ética é a ciência da conduta humana, segundo o bem e o mal, com
vistas à felicidade. É a ciência que estuda a vida do ser humano, sob o
ponto de vista da qualidade da sua conduta. Disto precisamente trata
a Ética, da boa e da má conduta e da correlação entre boa conduta e
felicidade, na interioridade do ser humano. A Ética não é uma ciência
teórica ou especulativa, mas uma ciência prática, no sentido de que
se preocupa com a ação, com o ato humano (ALONSO; LÓPEZ;
CASTRUCCI, 2006, p. 3).

No entanto, a ética é considerada uma ciência que estuda a conduta


humana, suas normas e comportamentos reais, para proporcionar a melhoria da
qualidade de vida dos seres humanos.

Salienta-se ainda que “existem grandes transformações históricas


no decorrer dos tempos em nossa sociedade. Com estas mudanças, o nosso
comportamento também muda e, consequentemente, os nossos princípios morais
também” (PIERITZ, 2013, p. 7).

Essas transformações sociais ao longo da história da humanidade advêm


da própria existência humana, pelas suas relações sociais com o outro, pois a ética
vem demostrando pelo seu estudo e regulação, que determinadas ações e atitudes
morais devam ser revistas e adaptadas à nova realidade social, pois estamos em
constantes transformações humanas e sociais.

Outro fator que não podemos esquecer, segundo Pieritz (2013, p. 7), “é a
questão de julgar o comportamento dos outros grupos sociais, pois a realidade
cotidiana destes foi formada por outro conjunto de normas e princípios morais,
diferente dos nossos. Mesmo que em alguns aspectos esses princípios se pareçam
com os nossos”.

Após, estas breves reflexões sobre a ética, vale ressaltar que se pode definir
a ética sobre três vertentes, expostas no Quadro 4, vejamos!

QUADRO 4 – VERTENTES DO CONCEITO DE ÉTICA

Que corresponde a JUÍZO DE VALOR, ou seja, quem tem


boa conduta pode ser considerado como uma pessoa ética,
A ética é
ou seja, uma pessoa virtuosa e íntegra.
DESCRITIVA
Enquanto quem não condiz com as expectativas sociais pode
ser considerado ‘sem ética’.

12
TÓPICO 1 — OS SENTIDOS DA ÉTICA

Nesse sentido, a ética assume uma ideia simplista reduzida a


um VALOR SOCIAL, ou apenas um adjetivo.

A ética como “SISTEMA DE NORMAS MORAIS ou a um


CÓDIGO DE DEVERES” (SOUR, 2011, p. 19), ou seja, os
padrões morais que deveriam conduzir categorias sociais ou
A ética é
organizações passam a se chamar de CÓDIGO DE ÉTICA.
PRESCRITIVA
Nesse sentido de prescrição a ética e moral tornam-se
SINÔNIMO INDISTINGUÍVEL.

Que corresponde à TEORIA DE UM ESTUDO


SISTEMÁTICO como objeto de INVESTIGAÇÃO que, ao
transitar por diferentes áreas, pode ser considerada como:
A ética é
• ÉTICA FILOSÓFICA – que reflete sobre a melhor maneira
REFLEXIVA
de viver (ideais morais).

• ÉTICA CIENTÍFICA – que estuda, observa, descreve e


explica os fatos morais (a moralidade como fenômeno).

FONTE: Adaptado de Tavares (2013, p. 7)

E
IMPORTANT

Prezado acadêmico, segundo Tavares (2013, p. 7, grifos nossos):

“A ética filosófica quer refletir sobre a maneira de viver”.


“A ética científica quer observar e descrever a maneira de viver”.

No que tange aos ideais éticos, principalmente a investigação dos seus fun-
damentos, da sua essência, devemos compreender que a ética está além das normas
socialmente constituídas, pois existem muitos elementos norteadores do compor-
tamento humano, podemos apresentar na Figura 3 algumas de suas características
balizares, para assim elucidar o que compõe o conceito holístico da ética.

13
UNIDADE 1 — FUNDAMENTOS E PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DA ÉTICA

FIGURA 3 – CARACTERÍSTICAS BALIZARES DA ÉTICA

FONTE: A autora

Todas essas características expostas na Figura 3, fundamentam a essência


da ética humana como um todo, numa visão holística, pois, como já discorremos
anteriormente, a ética faz com que o ser humano reflita e indague sobre seus atos,
comportamentos e costumes, para, assim, poder agir no seu meio social.

E
IMPORTANT

A ética não se restringe somente a normas e leis instituídas pelos poderes


legislativos, executivos e judiciário!

A ética vai além das normativas impostas, pois leva em consideração a construção
histórica do comportamento humano em sociedade, sua conduta, hábitos e costumes.

Outro aspecto pertinente nesse debate sobre as concepções do conceito da


ética, vem da indagação de Valls (2003, p. 43) em que ele faz esta provocação para
podermos refletir sobre o nosso comportamento ético: “será que agir moralmente
significaria agir de acordo com a própria consciência?”

Será?

Vejamos:

14
TÓPICO 1 — OS SENTIDOS DA ÉTICA

É salutar compreender que o nosso agir deve ser consciente e estar


conectado com a realidade do mundo em que vivemos, ou seja, precisamos
perceber em que contexto social, político e econômico estamos, quais são as
regas e normativas vigentes, quais são nossos direitos e deveres, quais são as
nossas responsabilidades e obrigações, para assim podermos agir coerentemente,
respeitando as convenções socialmente construídas.

De tal modo, são as nossas escolhas que refletem a nossa conduta, do certo
e errado, do bem e do mal, do ético ou do antiético.

Assim, mediante essa reflexão, ampliamos a percepção relativa ao


significado da ética, no qual, pode-se perceber que a ética oportuniza uma reflexão
do nosso jeito de viver e conviver historicamente em sociedade, compreendendo
os nossos costumes de hoje, de ontem e como poderá se moldar amanhã.

Para encerrarmos o Tópico 1, convidamos você, acadêmico, a fazer a


leitura do texto Ética e moral de Sandro Denis.

ÉTICA E MORAL

Sandro Denis

Existe alguma confusão entre o Conceito de Moral e o Conceito de Ética.


A etimologia destes termos ajuda a distingui-los, sendo que Ética vem do grego
ethos, que significa modo de ser, e Moral tem sua origem no latim, que vem de
“mores”, significando costumes.

Esta confusão pode ser resolvida com o estudo em paralelo dos


dois temas, sendo que, Moral é um conjunto de normas que regulam o
comportamento do homem em sociedade, essas normas são adquiridas pela
educação, pela tradição e pelo cotidiano. É a “ciência dos costumes”. A Moral
tem caráter normativo e obrigatório.

Já a Ética é “conjunto de valores que orientam o comportamento do


homem em relação aos outros homens na sociedade em que vive, garantindo,
assim, o bem-estar social”, ou seja, Ética é a forma que o homem deve se
comportar no seu meio social.

A Moral sempre existiu, pois todo ser humano possui a consciência


Moral que o leva a distinguir o bem do mal no contexto em que vive. Surgindo
realmente quando o homem passou a fazer parte de agrupamentos, isto é,
surgiu nas sociedades primitivas, nas primeiras tribos. A Ética teria surgido com
Sócrates, pois se exige maior grau de cultura. Ela investiga e explica as normas
morais, pois leva o homem a agir não só por tradição, educação ou hábito, mas
principalmente por convicção e inteligência. Ou seja, enquanto a Ética é teórica e
reflexiva, a Moral é eminentemente prática. Uma completa a outra.

15
UNIDADE 1 — FUNDAMENTOS E PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DA ÉTICA

Em nome da amizade, deve-se guardar silêncio diante do ato de um


traidor? Em situações como essa, os indivíduos se deparam com a necessidade
de organizar o seu comportamento por normas que se julgam mais apropriadas
ou mais dignas de ser cumpridas. Tais normas são aceitas como obrigatórias e,
desta forma, as pessoas compreendem que têm o dever de agir desta ou daquela
maneira. O comportamento é o resultado de normas já estabelecidas, não sendo,
então, uma decisão natural, pois todo comportamento sofrerá um julgamento.
A diferença prática entre Moral e Ética é que esta é o juiz das morais, assim,
Ética é uma espécie de legislação do comportamento Moral das pessoas.

Ainda podemos dizer que a ética é um conjunto de regras, princípios


ou maneiras de pensar que guiam ou chamam para si a autoridade de guiar, as
ações de um grupo em particular ou, também, o estudo da argumentação sobre
como nós devemos agir.

A simples existência da moral não significa a presença explícita de uma


ética, entendida como filosofia moral, pois é preciso uma reflexão que discuta,
problematize e interprete o significado dos valores morais.

Podemos dizer, a partir dos textos de Platão e Aristóteles, que, no


Ocidente, a ética ou filosofia moral se inicia com Sócrates.

Para Sócrates, o conceito de ética iria além do


senso comum da sua época, o corpo seria a prisão
da alma, que é imutável e eterna. Existiria um “bem
em si” próprios da sabedoria da alma e que podem
ser rememorados pelo aprendizado. Esta bondade
absoluta do homem tem relação a uma ética anterior
à experiência, pertencente à alma e que o corpo para a
reconhecer terá que ser purificado.

Aristóteles subordina sua ética à política,


acreditando que, na monarquia e na aristocracia,
encontrara-se a alta virtude, já que esta é um

16
TÓPICO 1 — OS SENTIDOS DA ÉTICA

privilégio de poucos indivíduos. Também diz que na prática ética, nós somos
o que fazemos, ou seja, o homem é moldado à medida que faz escolhas éticas e
sofre as influências dessas escolhas.

O Mundo Essencialista é o mundo da contemplação, ideia compartilhada


pelo filósofo grego Aristóteles. No pensamento filosófico dos antigos, os seres
humanos aspiram ao bem e à felicidade, que só podem ser alcançados pela
conduta virtuosa. Para a ética essencialista, o homem era visto como um ser
livre, sempre em busca da perfeição. Esta, por sua vez, seria equivalente aos
valores morais que estariam inscritos na essência do homem. Dessa forma, para
ser ético, o homem deveria entrar em contato com a própria essência, a fim de
alcançar a perfeição.

Costuma-se resumir a ética dos antigos ou ética essencialista, em três


aspectos: 1) o agir em conformidade com a razão; 2) o agir em conformidade com
a Natureza e com o caráter natural de cada indivíduos; e 3) a união permanente
entre ética (a conduta do indivíduo) e política (valores da sociedade). A ética
era uma maneira de educar o sujeito moral (seu caráter) no intuito de propiciar
a harmonia entre ele e os valores coletivos, sendo ambos virtuosos.

Com o cristianismo romano, através de São


Tomás de Aquino e Santo Agostinho, incorpora-se a
ideia de que a virtude se define a partir da relação
com Deus e não com a cidade ou com os outros. Deus,
nesse momento, é considerado o único mediador
entre os indivíduos. As duas principais virtudes são
a fé e a caridade.

Através deste cristianismo, afirma-se na ética


o livre-arbítrio, sendo que o primeiro impulso da
liberdade se dirige para o mal (pecado). O homem
passa a ser fraco, pecador, dividido entre o bem e o mal. O auxílio para a melhor
conduta é a lei divina. A ideia do dever surge nesse momento. Com isso, a ética
passa a estabelecer três tipos de conduta; a moral ou ética (baseada no dever), a
imoral ou antiética e a indiferente à moral.

As profundas transformações que o mundo


sofre a partir do século XVII, com as revoluções
religiosas, por meio de Lutero; científica, com
Copérnico e filosófica, com Descartes, oprimem um
novo pensamento na era Moderna, caracterizada
pelo Racionalismo Cartesiano – agora a razão é o
caminho para a verdade e para chegar a ela é preciso
um discernimento, um método. Em oposição à fé,
surge o poder exclusivo da razão de discernir,
distinguir e comparar. Esse é um marco na história

17
UNIDADE 1 — FUNDAMENTOS E PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DA ÉTICA

da humanidade que, a partir daí, acolhe um novo caminho para se chegar ao


saber: o saber científico, que se baseia num método e o saber sem método é
mítico ou empírico.

A ética moderna traz à tona o conceito de que


os seres humanos devem ser tratados sempre como
fim da ação e nunca como meio para alcançar seus
interesses. Essa ideia foi contundentemente defendida
por Immannuel Kant. Ele afirmava que: “não existe
bondade natural. Por natureza somos egoístas,
ambiciosos, destrutivos, agressivos, cruéis, ávidos de
prazeres que nunca nos saciam e pelos quais matamos,
mentimos, roubamos”.

De acordo com esse pensamento, para nos tornarmos seres morais, era
necessário nos submetermos ao dever. Essa ideia é herdada da Idade Média na
qual os cristãos difundiram a ideologia de que o homem era incapaz de realizar o
bem por si próprio. Por isso, ele deve obedecer aos princípios divinos, cristalizan-
do, assim, a ideia de dever. Kant afirma que se nos deixarmos levar por nossos
impulsos, apetites, desejos e paixões não teremos autonomia ética, pois a Natu-
reza nos conduz pelos interesses de tal modo que usamos as pessoas e as coisas
como instrumentos para o que desejamos. Não podemos ser escravos do desejo.

No século XIX, Friedrich Hegel traz uma nova


perspectiva complementar e não abordada pelos
filósofos da Modernidade. Ele apresenta a perspectiva
Homem – Cultura e História, sendo que a ética
deve ser determinada pelas relações sociais. Como
sujeitos históricos culturais, nossa vontade subjetiva
deve ser submetida à vontade social, das instituições
da sociedade. Desta forma, a vida ética deve ser
“determinada pela harmonia entre vontade subjetiva
individual e a vontade objetiva cultural”.

Através desse exercício, interiorizamos os valores culturais de tal


maneira que passamos a praticá-los instintivamente, ou seja, sem pensar. Se
isso não ocorrer, é porque esses valores devem estar incompatíveis com a nossa
realidade e, por isso, devem ser modificados. Nesta situação, podem ocorrer
crises internas entre os valores vigentes e a transgressão deles.

Já, na atualidade, o conceito de ética se fundiu nestas duas correntes de


pensamento: A ética praxista, cuja visão o homem tem a capacidade de julgar,
ele não é totalmente determinado pelas leis da natureza, nem possui uma
consciência totalmente livre. O homem tem uma corresponsabilidade frente as
suas ações.

18
TÓPICO 1 — OS SENTIDOS DA ÉTICA

A ética Pragmática, com raízes na apropriação de coisas e espaços, na


propriedade, tem como desafio a alteridade (misericórdia, responsabilização,
solidariedade), para transformar o Ter, o Saber e o Poder em recursos éticos para
a solidariedade, contribuindo para a igualdade entre os homens: “distribuição
equitativa dos bens materiais, culturais e espirituais”.

O homem é visto como sujeito histórico-social, e como tal, sua ação não
pode mais ser analisada fora da coletividade. Por isso, a ética ganha novamente
um dimensionamento político: uma ação eticamente boa é politicamente boa
e contribui para o aumento da justiça, distribuição igualitária do poder entre
os homens. Na ética pragmática, o homem é politicamente ético, – “todos os
aspectos da condição humana têm alguma relação com a política” – há uma
corresponsabilidade em prol de uma finalidade social: a igualdade e a justiça
entre os homens.

Na Contemporaneidade, Nietzsche atribui a


origem dos valores éticos, não à razão, mas à emoção.
Para ele, o homem forte é aquele que não reprime
seus impulsos e desejos, que não se submete à moral
demagógica e repressora. Para coroar essa mudança
radical de conceitos, surge Freud com a descoberta
do inconsciente, instância psíquica que controla
o homem, burlando sua consciência para trazer à
tona a sexualidade represada e que o neurotiza. Em
momento algum Freud afirma dever o homem viver
de acordo com suas paixões, apenas buscar equilibrar e conciliar o id com o
super ego, ou seja, o ser humano deve tentar equilibrar a paixão e a razão.

Hoje, em uma era em que cada vez mais se fala


de globalização, da qual somos todos funcionários
e insumos de produção, o conhecimento de nossa
cultura passa inevitavelmente pelo conhecimento de
outras culturas. Entretanto, essa tarefa antropológica
não é suficiente para o homem comum superar a crise
da ética atual conhecendo o outro e suas necessidades
para se chegar a sua convivência harmônica. Ao
contrário, ser feliz hoje é dominar progresso técnico e
científico, ser feliz é ter. Não há mais espaço para uma
ética voltada para uma comunidade. Hoje se aposta no
individualismo, no consumo, na rapidez de produção.

No momento histórico em que vivemos, existe um problema ético-político


grave. Forças de dominação tem se consolidado nas estruturas sociais e econômicas,
mas através da crítica e no esclarecimento da sociedade, seria possível desvelar
a dissimulação ideológica que existe nos vários discursos da cultura humana,
sabendo disso, essas mesmas forças têm procurado controlar a mídia.

19
UNIDADE 1 — FUNDAMENTOS E PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DA ÉTICA

Em lugar da felicidade pura e simples, há a obrigação do dever e a


ética fundamenta-se em seguir normas. Trata-se da “Ética da Obediência”.
Que impede o Homem de pensar e descobrir uma nova maneira de se ver, e
assim encontrar uma saída em relação ao conformismo de massa que está na
origem da banalidade do mal, do mecanismo infernal em que estão ausentes o
pensamento e a liberdade do agir.

Assim determina Vásquez (1998) ao citar Moral como um “sistema de


normas, princípios e valores, segundo o qual são regulamentadas as relações
mútuas entre os indivíduos ou entre estes e a comunidade, de tal maneira que
estas normas, dotadas de um caráter histórico e social, sejam acatadas livres e
conscientemente, por uma convicção íntima, e não de uma maneira mecânica,
externa ou impessoal”.

Enfim, Ética e Moral são os maiores valores do homem livre. O homem,


com seu livre arbítrio, vai formando seu meio ambiente ou o destruindo, ou
ele apoia a natureza e suas criaturas ou ele subjuga tudo que pode dominar, e
assim ele se forma no bem ou no mal neste planeta.

FONTE: Adaptado de <Http://Circulocubico.Wordpress.Com/2008/04/04/Tica-E-Moral/>.


Acesso em: 17 nov. 2020.

20
RESUMO DO TÓPICO 1
Neste tópico, você aprendeu que:

• Propiciamos uma compreensão da problemática da moralidade e ética,


verificamos que a consciência moral do certo e do errado, do bem e do mal é
formada pela composição histórica dos nossos costumes e das nossas ações
em sociedade.

• A moral e a ética estão presentes na nossa vida cotidiana o tempo todo, pois
nossas decisões diárias estão repletas de valores morais e éticos.

• A questão da ética e da moral está além dos seus conceitos postos, já que é um
conceito vivo, moldando-se no nosso comportamento diário que permuta o
conceito para a prática das relações humanas e sociais.

• O nosso comportamento ético e moral é objeto do estudo da filosofia, que


procura investigar a racionalidade do comportamento humano perante a
sociedade, procurando compreender os princípios fundamentais dos seres
humanos, que permeiam a nossa vida cotidiana.

• É na convivência humana e social que refletimos os nossos valores éticos e


morais, e que eles foram construídos historicamente na sociedade e grupo
social da qual fazemos parte.

• Esses valores éticos e morais são concebidos de acordo com a visão de mundo
de cada um, dentro do seu contexto social, pois cada um de nós possui uma
visão do que é o bem e o mal, do que é certo e errado.

• A ética e a moral permeiam em nossas vidas cotidianas, desde nossas ações


mais fundamentais e básicas, que é o processo de decisão do que é o certo e o
errado a se fazer, dos nossos valores e princípios morais, até nas ações mais
específicas, que estão refletidas no nosso modo operante de fazer as coisas e
se relacionar com o outro em sociedade.

• A ética e a moral são a base norteadora das nossas relações humanas e sociais,
pois é mediante esses princípios que agimos no meio social em que vivemos
e convivemos com o outro.

• No que tange às propriedades conceituais da ética e da moral, ambas possuem


características genéricas e comuns, mas tanto na ética como na moral é a
questão da responsabilidade das consequências de nossas ações que refletem
o nosso agir perante a sociedade em que estamos inseridos, sejam elas de
âmbito micro (grupo intrafamiliar e amizades pessoais) ou macro (regional,
comunitário, empresarial e social).

21
• Tanto a ética como os princípios morais nos devem auxiliar na reflexão sobre
a responsabilidade das consequências advindas de nossas ações perante o
meio familiar e social em que vivemos e convivemos.

• Fazemos parte de uma comunidade, de um grupo social ou grupo familiar,


ou seja, de uma sociedade, a qual devemos entender que todos nós somos
diferentes e possuímos valores e princípios éticos e morais diferenciados,
sendo que cada etnia possui seu próprio jeito de ser e conviver, instituindo
regras sociais, políticas, econômicas e jurídicas de convivência.

• A concepção do certo e errado, do fazer o bem ou o mal para um grupo


ou etnia, pode ser diferente para a outra composição social. Tudo depende
da formação dos valores e princípios éticos e morais sócio-históricos da
comunidade a que pertencemos.

• De acordo com o desenvolvimento sócio-histórico dos valores e princípios


éticos e morais de um determinado grupo social, essa comunidade em
si, desenvolve seu próprio jeito de ser, seu comportamento social e moral,
formatando socialmente sua tradição, costumes, hábitos e cultura.

• A ética reflete os hábitos e costumes gerais de uma sociedade, suas normativas


e convenções, que fora institucionalizada pelo coletivo social, e a moral é a
forma que conduzimos nossos atos perante o outro, ou seja, é a conduta em si.

• A ética está posta para explicar o nosso agir junto à comunidade e grupo
social em que vivemos e convivemos.

• A ética é considerada uma ciência que estuda a conduta humana, suas normas
e comportamentos reais, para proporcionar a melhoria da qualidade de vida
dos seres humanos.

22
AUTOATIVIDADE

1 Na atualidade, o que tange às questões relativas à ética e à moralidade,


vimos que ambos os conceitos fazem parte do dia a dia das populações
civilizadas e ambas estão atreladas implicitamente na própria condição de
ser, do agir das pessoas mediante o meio social em que vivem e convivem
cotidianamente. A consciência moral do certo e do errado, do bem e do mal é
formada pela composição histórica dos nossos costumes e das nossas ações
em sociedade, formando, assim, uma moralidade e uma ética implícita nas
ações do ser humano e refletida no seu convívio social. Sobre o conceito de
ética, assinale a alternativa CORRETA:

a) ( ) Ética é o ramo do conhecimento cuja finalidade é estabelecer os melhores


critérios para o agir. Critérios que são estabelecidos socialmente e
que norteiam o convívio do ser humano em sociedade, pois a ética
é compreendida como as normas e princípios que dizem respeito ao
comportamento do indivíduo no grupo social a que pertence.
b) ( ) Ética é o ramo do conhecimento cuja finalidade é estabelecer os
princípios de fragilidades do comportamento humano e os critérios
para o agir. Critérios que são estabelecidos pela Constituição Federativa
do Brasil.
c) ( ) Ética é o ramo do conhecimento da psicologia que estuda os desvios de
conduta dos cidadãos na sociedade, assim como as formas de tratamento.
d) ( ) Ética é o ramo do conhecimento que estuda e define as formas de agir e
princípios transmitidos pelas diversas religiões existentes. Busca trazer
os conceitos puramente na visão filosófica das religiões.

2 A ética é um dos grandes valores que as pessoas têm e, por isso, vemos,
na atualidade, uma população desacreditada em diversas áreas como as
políticas, bancárias, entre outras que, historicamente, trazem condições
conflitantes com os bons costumes e diretrizes éticas das pessoas. Com
base no exposto, analise as sentenças a seguir:

I - Estudo dos juízos de apreciação que se referem à conduta humana, do


ponto de vista do bem e do mal.
II - Conjunto de normas e princípios que norteiam a boa conduta do ser
humano.
III - Tem caráter normativo e obrigatório e são definidos pelas leis existentes
nos países.

Assinale a alternativa CORRETA:


a) ( ) As sentenças I e II estão corretas.
b) ( ) Somente a sentença II está correta.
c) ( ) As sentenças I e III estão corretas.
d) ( ) Somente a sentença III está correta.

23
24
TÓPICO 2 —
UNIDADE 1

A ÉTICA, VALORES, PRINCÍPIOS E A MORAL


NA VIDA COTIDIANA

FIGURA 4 – A ÉTICA E A MORAL NA VIDA COTIDIANA

FONTE: <https://gestaodesegurancaprivada.com.br/etica-moral-e-cidadania-o-que-sao/>.
Acesso em: 4 nov. 2020.

“Na ética o mal é uma consequência do bem, assim na realidade da


alegria nasce a tristeza. Ou a lembrança da felicidade passada é a angústia de
hoje, ou as agonias que são têm sua origem nos êxtases que poderiam ter siso”.
Edgar Allan Poe

1 INTRODUÇÃO
Prezado acadêmico, agora que já compreendes os diversos sentidos
conceituais da ética, suas principais características e fundamentos, sua
problemática junto às questões da moral e a formação do sujeito ético-moral,
chegou o momento para desvelar e compreender as nuances relativas à ética e à
moral na vida cotidiana do ser humano em sociedade.

Vamos relembrar!

25
UNIDADE 1 — FUNDAMENTOS E PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DA ÉTICA

FIGURA 5 – PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DE ÉTICA E MORAL

FONTE: A autora

Pautados nas supracitadas características, este tópico trabalhará os


conhecimentos relativos à ética e à moral na vida do dia a dia das pessoas, que
vivem e convivem em grupos sociais, buscando compreender as diferenças entre
a ética e a moral, como também esclarecer as questões da consciência moral no
desenvolvimento humano e a conduta moral do ser humano, refletindo sobre
o bem e o mal, o certo e o errado, ou seja, as responsabilidades individuais e
coletivas do agir humano.

Assim, aprofundaremos o nosso conhecimento acerca dos Fundamentos


ontológico-sociais da dimensão ético-moral da vida social e seu rebatimento na
ética profissional.

Acadêmico, neste tópico, ainda desenvolveremos uma análise referente


aos valores e à moral, proporcionando um momento de discussão a respeito da
essência da moral e dos valores e princípios morais.

FIGURA 6 – VALORES MORAIS E SUA IMPORTÂNCIA NA SOCIEDADE

FONTE: <http://meon.com.br/files/media/originals/maos_unidas_representando_os_valores_
morais.jpg>. Acesso em: 4 nov. 2020.

26
TÓPICO 2 — A ÉTICA, VALORES, PRINCÍPIOS E A MORAL NA VIDA COTIDIANA

“Mesmo que tenham filosofias diferentes, as religiões defendem valores


semelhantes para a conduta ética e trazem a mesma mensagem de amor,
compaixão e perdão”.
Dalai Lama

Demonstrando assim, sua importância para a sociedade em que estamos


inseridos, pois a intensão aqui é desvelar os conceitos e características pertinentes
aos valores e virtudes morais, evidenciando que eles é que formam os princípios
norteadores da ética, como já estudamos anteriormente.

Vamos lá, acadêmico, compreender sobre a ética, valores, princípios e a


moral na vida cotidiana das pessoas!

2 COMPREENDENDO AS DIFERENÇAS DA ÉTICA E MORAL


Para iniciarmos esta discussão, faz-se necessário sedimentar os diversos
aspectos conceituais que proporcionam o entendimento das diferenças entre
a ética e a moral. Nesse sentido, pode-se dizer que “a ética estuda e investiga
o comportamento moral dos seres humanos e essa moral é constituída pelos
diferentes modos de viver e agir dos homens em sociedade, que é formada por
suas diretrizes morais da vida cotidiana, transformando-se no decorrer dos
tempos” (PIERITZ, 2013, p. 19).

Demostrando, assim, que a ética e a moral permeiam em nosso agir


perante a sociedade, desde o estudo do comportamento até a sua prática real
cotidiana das relações humanas e sociais.

Afinal, o que é a moral?

Segundo Aranha e Martins (2003, p. 301, grifos nossos):


A moral vem do Latim mos, moris, que significa “costume”, “maneira
de se comportar regulada pelo uso”, e de moralis, morale, adjetivo
referente ao que é “relativo aos costumes”. Portanto, podemos
considerar que a moral é “um conjunto de regras de conduta admitidas
em determinada época ou por um grupo de pessoas.

Vejamos, no Quadro 5, o que Cunha (2011) nos expõe sobre o que é a ética
e a moral:
QUADRO 5 – O QUE É A ÉTICA E MORAL

• Ciência cujo objetivo é a moral.


ÉTICA é: • Ramo do conhecimento cuja finalidade é estabelecer os
melhores critérios para o agir.

27
UNIDADE 1 — FUNDAMENTOS E PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DA ÉTICA

• Conjunto de regras e princípios morais.


MORAL é: • A dimensão ideal da moralidade.
• Relativo à dignidade, ao decoro e à honra.
FONTE: Adaptado de Cunha (2011, p. 140-196)

Diante desta visão conceitual de ética e moral, ficou demonstrado que


ambos estão correlacionados a uma ciência, um estudo do comportamento e
das normas de conduta, e que esse conjunto de regras e princípios éticos-morais
propiciem a honra, o decoro e a dignidade da pessoa humana.

No entanto, segundo Cunha (2011, p. 197), a moralidade é um “processo


social costumeiro, concernente à melhor forma de comportamento”. Sendo que
esta conduta moral só é possível, se tiver um estudo dos hábitos e costumes do
homem em sociedade no seu convívio histórico-social. É a ética que realiza esta
ciência das dimensões morais, propiciando transparecer nos diversos códigos
de condutas, regramentos e legislações como devemos proceder e se comportar
perante o meio social em que vivemos e convivemos.

Essa é uma condição socialmente construída ao longo da história da


humanidade. Sendo aprimorada conforme o desenvolvimento humano. Depois
dessas reflexões iniciais, já podemos buscar elementos que apresentem algumas
diferenças entre a ética e a moral. Vejamos:

QUADRO 6 – DIFERENÇAS ENTRE ÉTICA E MORAL

FONTE: <https://bit.ly/39MHBlE>. Acesso em: 3 dez. 2020.


ÉTICA MORAL
• É o modo de viver e agir de cada
• É a ciência que estuda a moral. povo, em cada cultura.
• É a reflexão sistemática sobre o • É o conjunto de normas, prescrição e
comportamento moral. valores reguladores da ação cotidiana.
• É a parte da filosofia que trata da • Varia no tempo e no espaço.
reflexão dos princípios universais • São os valores concernentes ao bem
da humanidade. e ao mal, permitindo ou proibindo.
• São os valores humanos universais • Conjunto de normas e regras regu-
e fundamentais. ladoras da relação entre os homens
• É a teoria do comportamento moral. de uma determinada comunidade.
• É a compreensão subjetiva do ato • Nasce da necessidade de ajudar
moral. cada membro aos interesses
coletivos do grupo.
FONTE: Adaptado de Tomelin e Tomelin (2002, p. 89-90)

28
TÓPICO 2 — A ÉTICA, VALORES, PRINCÍPIOS E A MORAL NA VIDA COTIDIANA

O quadro das diferenças entre a ética e a moral, só comprova o que já


colocamos até o presente momento, de que o comportamento ético-moral é
estudado como ciência, para proporcionar melhor qualidade de vida ao cidadão
brasileiro e mundial.

Então, demonstramos que é a nossa consciência das obrigações e deveres


morais, ou seja, o caráter e o modo de ser dos homens em sociedade que formam
a ética. Assim, compreendemos que a ética é a ciência que procura estudar e
compreender as nuances relativas aos princípios morais, que são constituídos
historicamente.

Já a moral retrata nossos costumes e hábitos cotidianos, pois seu caráter é


social e está pautado na história, cultura e natureza dos seres humanos, pois a moral
está compreendida como um conjunto de normativas, regras, leis, regulamentos
e princípios que são instituídos pelo coletivo social, mas individualizada na
consciência dos homens e mulheres que vivem e convivem em sociedade.

Então, destacamos que moral são princípios comportamentais adquiridos


com a herança histórica da humanidade e preservados pelas pessoas que vivem
em grupos sociais.

Assim, no Quadro 7 demostraremos um balanço comparativo da ética e


moral, do que estudamos até agora.

QUADRO 7 – BALANÇO COMPARATIVO ENTRE ÉTICA E MORAL

FONTE: A autora

Esse balanço comparativo entre a ética e a moral demonstra que as duas


estão amplamente conectadas, mas apresentam sutis diferenças, porque a ética
denota um conceito subjetivo e teórico sobre a consciência das regras sociais,
já a moral se apresenta mais de cunho prático e objetivo, proporcionando uma
tratativa da conduta humana por intermédio de regras e códigos de condutas
socialmente constituídos.
29
UNIDADE 1 — FUNDAMENTOS E PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DA ÉTICA

A ética sempre procurará conhecer as formas das tratativas do bem e do


mal no âmbito holístico, do coletivo social, já a moral busca tratar o agir humano
de forma individualizada, tratando o certo e o errado nos seus regulamentos e
normas institucionalizadas.

Contudo, ressalva-se que os seres humanos não nascem com os


conhecimentos éticos e postura moral, eles se tornam éticos no decorrer do seu
desenvolvimento intelectual ao longo de sua história e colocam seus princípios
morais de acordo com o empoderamento de suas conotações e convívio sociais.
É na socialização e interação com o outro em sociedade que construímos a nossa
postura ética individual e profissional.

Vale destacar ainda que a ética é aprendida pelo estudo do comportamento


humano em sociedade, e a moral necessita ser imposta pelos regramentos sociais
de convívio humano. A ética é manifestada a partir do interior das pessoas, de sua
consciência, já a moral expressa-se no exterior do indivíduo, na conduta dos seus atos.

Como vivemos em constantes transformações humanas e sociais,


percebe-se que a ética e a moral sempre estarão em evolução, aprimorando-se
constantemente, pois o comportamento humano muda e suas regras de conduta
também mudam ao longo da história.

NTE
INTERESSA

Lembre-se que um dia a escravidão já foi considerada um comportamento


“normal” e hoje a escravidão é considerada um crime. Demostrando, assim, que as regras
mudam conforme a mudança do comportamento e normativas socialmente constituídas.

Na prática da vida cotidiana, como se apresentam as questões éticas e


morais?

Convidamos você a refletir sobre algumas situações do dia a dia,


demostrado em algumas charges, para refletir sobre o nosso comportamento
ético-moral. Vejamos!

FIGURA 7 – ÉTICA

30
TÓPICO 2 — A ÉTICA, VALORES, PRINCÍPIOS E A MORAL NA VIDA COTIDIANA

FONTE: <https://br.pinterest.com/pin/431641945509586866/>. Acesso em: 20 jun. 2020.

FIGURA 8 – UM SÁBADO QUALQUER

FONTE: <https://br.pinterest.com/pin/455637687295581746/>. Acesso em: 20 jun. 2020.

FIGURA 9 – MOISÉS CHARGES E CARTOONS

FONTE: <https://br.pinterest.com/pin/716283515704220437/>. Acesso em: 20 jun. 2020.

31
UNIDADE 1 — FUNDAMENTOS E PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DA ÉTICA

FIGURA 10 – ÉTICA E MORAL: CONCEITOS, DIFERENÇAS E EXEMPLOS

FONTE: <https://bit.ly/3odSAc7>; <https://bit.ly/3mqnsp1>. Acesso em: 20 jun. 2020.

As charges apresentadas anteriormente demostram algumas situações,


muitas vezes, corriqueiras em nosso convívio social da vida cotidiana, que nem
nos damos conta, desvirtuando os preceitos ético-morais socialmente constituídos.

Se você parar para pensar um pouco, em cinco minutos, quantas situações


similares aparecem em sua mente? Muitas, com certeza!

Levando-nos a refletir sobre outra questão, o outro lado dessa moeda


ética-moral, a ausência e os contrários à ética e à moral.

Nesse sentido, discutiremos agora os sentidos inversos da moral e da


ética, mas, antes, verifique sua terminologia no Quadro 8.

QUADRO 8 – AUSÊNCIA E CONTRÁRIOS A ÉTICA E A MORAL

FONTE: A autora

Assim, podemos compreender que quando falamos da ausência de alguma


coisa, estamos nos referindo a falta, a deficiência, a carência e a insuficiência.

Levando esses conceitos supracitados para a ética e a moral, pode-se


perceber que essa ausência denota:
32
TÓPICO 2 — A ÉTICA, VALORES, PRINCÍPIOS E A MORAL NA VIDA COTIDIANA

• Na ética: uma pessoa aética, ou seja, um indivíduo que não possui ou é


deficiente da consciência do coletivo, dos atos e costumes gerais do meio
em que vive e convive. Possui insuficiência ou carência da compreensão dos
estudos históricos da composição dos juízos de valores.
o Aqui a palavra-chave é a consciência do todo.

• Na moral: uma pessoa amoral, ou seja, um indivíduo que não possui ou é


deficiente na forma que conduz seus atos perante a sociedade que vive e
convive, pele simples fato de lhe faltar a compreensão de como agir perante
os regramentos impostos. Possuindo assim, insuficiência ou carência na sua
forma de agir, na sua atitude e conduta, na sua aplicação da norma, pois não
a compreende.
o Aqui a palavra-chave é a atitude individual.

Já quando falamos na questão das pessoas que são contrárias a alguma


coisa, estamos nos referindo a seres humanos que são adversos, antagônicos,
avessos, desfavoráveis e opostos a alguma situação.

Repassando esses conceitos supracitados para a ética e a moral, pode-se


perceber que essas atitudes contrárias a alguma coisa denotam:

• Na ética: uma pessoa antiética, ou seja, um indivíduo que possui argumentos


no sentido contrário da consciência coletiva do que é certo e errado, do que
é fazer o bem ou o mal, demostrando estar em oposição aos atos e costumes
gerais da sociedade em que está inserido, como também é avesso ao estudo
dos juízos de valores constituído historicamente.
o Aqui a palavra-chave é a contrariedade.

• Na moral: uma pessoa imoral, ou seja, um indivíduo que não segue as regras
de conduta socialmente constituídas pelo coletivo social, pelo seu livre
arbítrio. É fazer, ser oposto ou querer o contrário das normas. São avessas a
qualquer código de conduta, por consciência de querer contrariá-la.
o Aqui a palavra-chave é a atitude consciente.

Por fim, agora que aprofundamos nosso conhecimento acerca dos dois
lados desta moeda ética-moral, é importante sedimentarmos esses conhecimentos
adquiridos numa síntese conceitual.

Assim, segue o quadro síntese para a sua reflexão final das concepções e
diferenças da ética e moral.

33
UNIDADE 1 — FUNDAMENTOS E PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DA ÉTICA

QUADRO 9 – SÍNTESE DAS PRINCIPAIS CATEGORIAS DA ÉTICA E MORAL

FONTE: A autora

Nessa síntese das categorias analíticas da ética e moral, pode-se perceber


as nuances relativas às diferenças e semelhanças entre elas, mas o principal é
que ambas estudam e regulam o nosso agir pessoal e profissional e que são
constituídas historicamente nas relações humanas e sociais.

3 A ESSÊNCIA DA MORAL
Aqui realizaremos um debate entorno da essência da moral, mas com
embasamentos éticos para a vida cotidiana das pessoas que vivem em sociedade,
procurando desvelar o cerne e coração dessa questão da moral do ser humano.

Segundo Pieritz (2013, p. 35), “partimos do entendimento de que todo


homem pode ser considerado um ser ético e que nossas raízes éticas advêm da
nossa própria história por meio do trabalho”, assim, pode-se questionar como se
dá a sua forma de ser e conviver com o outro. Em outros termos, indaga-se:

• Qual a natureza da moral do ser humano?


• Por que a moral é necessária para a vida cotidiana?
• E como a moral é?

Partimos do princípio de que sabemos que “a (re)produção da vida social


coloca necessidades de interação entre os homens, modos de ser constitutivos da
cultura, produtos do trabalho, tais como a linguagem, os costumes, os hábitos, as
atividades simbólicas, religiosas, artísticas e políticas” (BARROCO, 2000, p. 25).

Diante deste contexto, no Quadro 10, apresentaremos alguns exemplos


dessa necessidade humana de interação e contato com os outros.

34
TÓPICO 2 — A ÉTICA, VALORES, PRINCÍPIOS E A MORAL NA VIDA COTIDIANA

QUADRO 10 – EXEMPLOS DAS NECESSIDADES DE INTERAÇÃO ENTRE OS HOMENS PARA A


REPRODUÇÃO DA VIDA COTIDIANA
QUESTÃO DE
NECESSIDADE
PARA A CARACTERÍSTICAS BÁSICAS
REPRODUÇÃO DA
VIDA COTIDIANA
• Observa-se que toda região do Brasil, como no
mundo, desenvolve-se ao longo de suas próprias
histórias diversos grupos, que são ligados por seus
costumes e hábitos da vida cotidiana, tais como:
LINGUAGEM, O O nosso tipo de comida.
HÁBITOS E o O estilo de vida.
COSTUMES o As atitudes.

• A qual, estes costumes e hábitos propiciam a


determinação do nosso convívio social. Desenvolvendo
assim, uma linguagem e dialeto próprio.
• Aqui o lúdico de uma realidade abstrata e simbólica
positivada, denotam um aspecto muito importante
para o desenvolvimento das pessoas, para assim
ATIVIDADES poderem se espelhar naquela atividade.
SIMBÓLICAS
• Pois, a simples aplicação de leituras de histórias
de conto de fadas serve para o desenvolvimento
emocional de crianças.
• As cenas representativas dos atos da vida cotidiana
reforçam aspectos intrínsecos da personalidade das
pessoas.
ARTÍSTICA • Assim, qualquer atividade artística, como por
exemplo a dança, a pintura, o teatro exercem sobre
o ser humanos, a possibilidade do desenvolvimento
criativo e a liberação do imaginário.
FONTE: A autora

De acordo com o conjunto de possibilidades e necessidades de cada grupo


socialmente constituído, ter-se-á a criação e desenvolvimento dos valores, seja
individual ou coletivos, institucionalizando um padrão do que é considerado
certo ou errado, bom ou mau.

Então, o que poderemos considerar como configurações de ser da moral?

Vejamos!

Barroco (2000, p. 25-26) expõe que:

35
UNIDADE 1 — FUNDAMENTOS E PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DA ÉTICA

[...] o campo da moral é um espaço de criação e realização de normas e


deveres, de atitudes, desejos e sentimentos de valor. Na vida cotidiana,
julgamos as ações práticas como corretas ou incorretas; fazemos juízo
de valor sobre nosso comportamento e dos outros; nos deparamos com
situações em que ficamos em dúvida sobre a melhor escolha; projetamos
nossa vida a partir de valores que julgamos positivos e negamos as
ações que se orientam por valores que consideramos negativos.

Nesse cenário da vida cotidiana da nossa existência, observa-se pessoas


“que não respeitam as normas de conduta da sociedade em que vivem, por
isso, elas possuem um comportamento imoral ou antiético, ou seja, negam as
normas e diretrizes morais constituídas e legitimadas pela própria sociedade”
(PIERITZ, 2013, p. 36). Demostrando, assim, que existem os dois lados da moeda
do comportamento moral, os que são adeptos do comportamento ético-moral e os
contrários a ele, demostrando a liberdade da escolha da conduta humana.

Assim, de acordo com Barroco (2000, p. 26):


Todos esses julgamentos, sentimentos, escolhas e desejos constituem o
campo da moral; referem-se a valores, normas e deveres que orientam o
comportamento dos indivíduos em sociedade, reproduzindo um dever
ser que possa fazer parte do seu ethos, de seu caráter, determinando
sua consciência moral, influenciando as escolhas, os projetos, as ações
práticas dirigidas à realização do que se considera bom. É também
no âmbito da moral que falamos do senso moral, pois se considera
que os indivíduos estão socializados quando têm capacidade para se
autodeterminar em face de situações de conflito, podem distinguir o
que é bom e o que não é, podem ser responsabilizados pelos seus atos.

Complementando, Pieritz (2013, p. 38) expõe que se pode perceber “que


a moral sugere, constantemente, a valorização de nossas ações e de nossos
comportamentos em sociedade, mas é a moral que determina quais são os nossos
direitos e deveres perante a sociedade em que vivemos”. Assim, regulando o
nosso agir perante o grupo social a que pertencemos.

Todavia, salienta-se que tanto os direitos como os deveres e obrigações


socialmente constituídos, denotam responsabilidade sobre os atos praticados, pois
ambos estão diretamente associados ao nosso modo de ser e conviver em sociedade.

Que responsabilidades são estas?

São as responsabilidades sobre nossos:

• sentimentos;
• escolhas;
• desejos;
• atitudes;
• posicionamentos diante da realidade;
• juízo de valor;
• senso moral;
• consciência moral.
36
TÓPICO 2 — A ÉTICA, VALORES, PRINCÍPIOS E A MORAL NA VIDA COTIDIANA

Em outros termos, somos responsáveis diretos por todos os nossos


atos, sejam de ação ou omissão. Segundo Pieritz (2013, p. 39), “não podemos
esquecer que a moral, seus hábitos, princípios e costumes são constituídos
em sociedade e no decorrer de nossa história. Essas construções são baseadas
no dia a dia das relações sociais que compõem a produção e reprodução da
vida em sociedade”. O qual, compreendemos que todas as pessoas possuem
consciência e responsabilidade sobre os atos que praticam no seu cotidiano, tanto
individualmente como socialmente.

4 OS VALORES E PRINCÍPIOS MORAIS


Realizaremos, neste momento, uma discussão relativa aos valores e
princípios morais, o qual, é importante, neste primeiro momento, segundo
Pieritz (2013, p. 39), “compreender o significado de valor, pois ao refletir sobre
ética, também falamos dos nossos valores e virtudes e, consequentemente, no
comportamento dos homens”. Sendo que, ao discutirmos as questões éticas-
morais, estamos nos reportando diretamente à “vida moral dos homens, e esta
moralidade social é permeada de valores, valores estes também constituídos em
sociedade” (PIERITZ, 2013, p. 39).

No entanto, o que pode ser considerado um valor dos princípios morais?

Vejamos!

José Paulo Netto coloca-nos que Agnes Heller menciona que “valor é tudo
aquilo que contribui para explicar e para enriquecer o ser genérico do homem,
entendendo como ser genérico um conjunto de atributos que constituiriam a
essência humana” (PAULO NETTO,1999 apud BONETTI et al., 2010, p. 22-23).

Nesse sentido, valor é aquele atributo essencial do comportamento ético-


moral, que explica a subjetividade humana, suas preferências e modo de ser.
Esses atributos na perspectiva de Heller são:

QUADRO 11 – ATRIBUTOS NA PERSPECTIVA DE HELLER

• Que expressa prioritariamente por intermédio do


trabalho.
OBJETIVAÇÃO
• Que proporciona sair do subjetivo e passar para o
real e concreto.

• Que se expressa com a convivência com o outro, em


grupo.
SOCIALIDADE
• Aprendizagem com o outro.
• Assimilação de normas sociais.

37
UNIDADE 1 — FUNDAMENTOS E PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DA ÉTICA

• Tomar ciência dos fatos ou de alguma coisa.


• Reconhecimento da realidade.
CONSCIÊNCIA
• Descoberta de algo.
• Capacidade de perceber as coisas.

• Universal.
UNIVERSALIDADE • O todo.
• Fazer parte de um determinado grupo.

LIBERDADE • Livre-arbítrio.
FONTE: Adaptado de Paulo Netto (1999 apud BONETTI et al., 2010, p. 23)

Entretanto, você sabe as diferenças entre os valores e os princípios?


Destacaremos as nuances relativas às concepções conceituais dos valores e dos
princípios, para poder visualizar suas diferenças.

• Valores: é o sentido intrínseco da moral e do comportamento, o seu conjunto


de qualidades individuais, que transmite o modo de ser das pessoas, ou seja,
cada um de nós possuímos subjetividades que alimentam a conduta humana
em sociedade, propiciando a definição da personalidade e preferência das
pessoas. Por exemplo, a humildade, bondade, respeito e assim por diante.
• Princípios: são os parâmetros, preceitos, normas, leis e marcos de referência
universais, que definem as regras de conduta social e consente a medição
das consequências do comportamento humano. É um pressuposto que está
conectado diretamente à nossa consciência e modo de agir. Por exemplo, o
princípio da igualdade, imparcialidade, moralidade, liberdade etc.

E
IMPORTANT

“Estes atributos, segundo muitos estudiosos, são os elementos constitutivos do


ser humano, do ser social” (PIERITZ, 2013, p. 41).

Mediante esse debate, pôde-se compreender que “a ética é formada pelo


estudo e investigação do comportamento e dos juízos de valores, estabelecendo
ponderações de valor para o que está de acordo ou não com as normas e regras de
convivência dos homens em sociedade” (PIERITZ, 2013, p. 41), demostrando que
são os valores e princípios ético-morais que moldam a postura comportamental
do ser humano.

No entanto, o que são os valores sociais?

Segundo Pieritz (2013, p. 41, grifos nossos):

38
TÓPICO 2 — A ÉTICA, VALORES, PRINCÍPIOS E A MORAL NA VIDA COTIDIANA

Diariamente, analisamos e fazemos julgamentos de valores tanto


de coisas como dos seres humanos. Por exemplo, “Aquela flor tem
muitos espinhos, pode me machucar”. “Este sabonete é ruim para
mim, pois me dá alergia”. “Este chocolate é ruim, pois derrete fácil”.
“Gosto muito daquele chocolate, porque é muito gostoso”. “Acho que
a Samanta agiu bem ao ajudar você no trabalho de aula”. “Aquele
profissional é competente”. Essas afirmações se referem ao juízo de
valor da realidade em que estamos inseridos, pois quando partimos
do fato que a flor, o sabonete, o chocolate, a moça e o profissional
existem realmente, atribuímos algumas qualidades a eles, que podem
nos atrair ou repelir.

É a qualidade que empregamos as coisas e ações, que definem seus


valores.

No nosso dia a dia, de acordo com Pieritz (2013, p. 41), “empregamos


diversos tipos de valores, tais como: utilidade, estético, afetividade, do bem e mal,
religiosos, aspectos econômicos, sociais e políticos”.

Vejamos, agora, nas Figuras 11 e 12, alguns exemplos de virtudes ou


valores humanos, como também de princípios e valores.

FIGURA 11 – EXEMPLOS DE VIRTUDES OU VALORES HUMANOS

FONTE: < https://demodelando.files.wordpress.com/2014/05/valores.gif?w=450&h=217>.


Acesso em: 4 nov. 2020.

FIGURA 12 – EXEMPLOS DE PRINCÍPIOS E VALORES

FONTE: <http://www.kipique.com.br/imagens/vantagens.jpg>. Acesso em: 4 nov. 2020.

39
UNIDADE 1 — FUNDAMENTOS E PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DA ÉTICA

5 A CONSCIÊNCIA E O SENSO MORAL NO DESENVOLVIMENTO


HUMANO
Agora, adentraremos numa breve discussão da gênese da consciência e
do senso moral, discutindo a questão da necessidade deles no desenvolvimento
humano em sociedade.

Para isso, ofereceremos subsídios relativos às origens, constituição, formação,


geração ou bases e princípios fundamentais da existência humana, em outros
termos, a gênese da consciência e do senso moral do homem que vive e convive em
sociedade, aquilo que nos possibilita sermos considerados seres humanos.

Contudo, é salutar lembrar de um velho ditado popular, no qual expõe


que “O homem é homem, porque é um ser racional!”. “A questão não é tão
simples assim, pois não podemos dizer que a ética só depende da razão e que a
racionalidade é o seu fator constituinte” (PIERITZ, 2013, p. 21).

Esta racionalidade advém da consciência e empoderamento dos valores


e princípios éticos-morais adquiridos no decorrer da história da humanidade e
refletem diretamente no senso e na consciência moral do ser humano.
Entretanto, antes de tudo, precisamos compreender o significado das
ações ético-morais na vida dos seres humanos, indagando se o simples
fato de pensar e estabelecer normas de conduta da realidade cotidiana
pode ser compreendido como a realização de uma atividade prática em
sua vida, ou seria possível que a vida dos homens fosse estabelecida
apenas por sua racionalidade ou pela composição de regras, normas e
valores sociais? (PIERITZ, 2013, p. 21-22).

Lembre-se que nós seres humanos vivemos num mundo real, palpável,
pulsante e em constantes transformações, e que constantemente estamos
estabelecendo novas e diversas relações com a própria natureza, este contato
propicia sua própria transformação, modificando-a de acordo com suas
necessidades reais de sobrevivência.

Segundo Pieritz (2013, p. 22):


Os seres humanos estão ligados à natureza e dela dependem para
se constituírem como seres sociais, pois, à medida que utilizam sua
consciência sobre a natureza, desenvolvem necessidades práticas
de sobrevivência, ou seja, não basta apenas pensar e observar, faz-
se necessário que os homens ajam sobre sua realidade cotidiana,
realizem seus desejos e vontades e transformem a sua vida conforme
suas necessidades e as necessidades de sua sociedade.

Nesse sentido, Marx e Engels (1987, p. 22) nos colocam que:


[...] o primeiro pressuposto de toda existência humana e, portanto, de
toda história, é que os homens devem estar em condições de viver para
poder fazer história, mas para viver, antes de tudo comer, beber, ter
habitação, vestir-se e algumas coisas a mais. O primeiro ato histórico

40
TÓPICO 2 — A ÉTICA, VALORES, PRINCÍPIOS E A MORAL NA VIDA COTIDIANA

é, portanto, a produção dos meios que permitam a satisfação destas


necessidades, a produção da própria vida material, e de fato este é um
ato histórico, uma condição fundamental de toda a história, que ainda
hoje, como há milhares de anos, deve ser cumprida todos os dias e
todas as horas, simplesmente para manter os homens vivos.

De tal modo, a realização de nossas atividades e necessidades humanas é


entendida como um fato social, que é historicamente constituído, este fato relativo
à relação e convívio social, torna-se primordial para compreendermos a própria
existência humana.

Agora, aprofundaremos nosso conhecimento acerca da própria existência


da ética na nossa vida cotidiana. Para isso, a filósofa Marilena Chauí, agracia-nos
com uma linda reflexão, apresentando-nos algumas situações da vida cotidiana
trazendo um debate relativo ao senso moral e à consciência moral.

QUADRO 12 – REFLEXÃO DA EXISTÊNCIA ÉTICA


NOSSOS SENTIMENTOS E NOSSAS AÇÕES EXPRIMEM NOSSO
SENSO MORAL

• VIVEMOS CERTAS SITUAÇÕES, ou sabemos que foram


vividas por outros, como situações de extrema aflição e
angústia, situações felizes e de prazer.
• Denotando a consciência destas situações advindas dos fatos
SITUAÇÕES históricos vividos pelo homem, a qual, buscamos no espirar
de vida e moldar.
• Situações como essas - mais dramáticas ou menos dramáticas
– de alegria e de tristeza – de sucessos e fracasso - surgem
sempre em nossas vidas.
• NOSSAS DÚVIDAS quanto à DECISÃO CERTA A TOMAR
não manifestam nosso senso moral, mas também põem a
prova nossa consciência moral, pois exigem que decidamos
o que fazer, que justifiquemos para nós mesmos e para os
outros as razões de nossas decisões e que assumimos todas
as consequências delas, porque somos responsáveis por
DECISÕES nossas opções.
na vida • Quantas vezes, levados por algum impulso incontrolável ou
por alguma emoção forte (medo, orgulho, ambição, vaidade,
covardia), fazemos alguma coisa que, depois, sentimos
vergonha, remorso, culpa. Gostaríamos de voltar atrás no
tempo e agir de modo diferente.
• Esses sentimentos também exprimem nosso SENSO
MORAL.

41
UNIDADE 1 — FUNDAMENTOS E PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DA ÉTICA

SENSO MORAL CONSCIÊNCIA MORAL

Conjunto de AVALIAÇÕES de
conduta que nos levam a tomar
Conjunto de SENTIMENTOS de
decisões por nós mesmos, a agir em
indignação, de administração ou de
conformidade com elas e a responder
responsabilidade por nossa conduta
por elas.
ou de outros.
CAPACIDADE DE DECIDIR o
MANEIRA como avaliamos a conduta
que fazer, de justificar as razões
e a ação de outras pessoas.
de nossas decisões e de assumir as
consequências delas.

O senso moral e a consciência moral referem-se a:

• VALORES de justiça, honradez, espírito de sacrifício, integridade,


generosidade.
• SENTIMENTOS provocados pelos valores, de admiração, vergonha, culpa,
remorso, contentamento, cólera, amor, dúvida, medo.
• DECISÕES que conduzem a ações com consequências para nós e para os
outros.

Embora os conteúdos dos valores variem, podemos notar que estão se referindo
a um valor mais profundo, mesmo que apenas subentendido: o bom ou o bem.

O SENSO E A CONSCIÊNCIA MORAL dizem respeito a


valores, sentimentos, intenções, decisões e ações referidos ao bem e ao mal e
ao desejo de felicidade.
Dizem respeito às relações que mantemos com os outros e, portanto,
NASCEM E EXISTEM COMO PARTE DA NOSSA VIDA SUBJETIVA.

Dizem o porquê as coisas são o que são, como são e por


JUÍZO DE FATO
que são.

São avaliações sobre coisas, pessoas e situações, e são


JUÍZO DE
proferidos na moral, nas artes, na política, na religião. Se
VALOR
referem ao que devem ser.

AGENTE Homem, dotado de razão, capaz de ver, julgar e agir na


MORAL realidade em que está inserido.

A EXISTÊNCIA ÉTICA é constituída por dois polos internamente relacionados:


• o AGENTE ou O SUJEITO moral (o homem); e
• os VALORES MORAIS ou os FINS ÉTICOS.
Além disso, é constituída também pelos MEIOS MORAIS.
FONTE: Adaptado de Chauí (2016, p. 312 e 319)

42
TÓPICO 2 — A ÉTICA, VALORES, PRINCÍPIOS E A MORAL NA VIDA COTIDIANA

No quadro anterior, a filósofa Marilena Chauí (2016) expõe com sensatez


como as nossas emoções, anseios, ações e sentimentos exprimem o nosso senso
ético-moral nas diversas situações da vida cotidiana, além de desmistificas as
nuances relativas à consciência e senso moral.

No senso e na consciência moral dos seres humano estão estampados


nossas intenções e desígnios, como também nossos valores, emoções e sentimentos,
relativos à concepção do bem e do mal.

5.1 OS ESTÁGIOS DA CONSCIÊNCIA ÉTICA E MORAL: AS


ETAPAS DA EVOLUÇÃO HUMANA
Refletiremos, agora, a questão da classificação dos estágios da consciência
ética e do julgamento moral dos seres humanos, desvelando e buscando
compreender as etapas e níveis da evolução humana.

Primeiramente, vejamos o que Alves (2017, p. 1) indaga nessa discussão:

• “Como nos tornamos seres morais?”


• “Como aprendemos distinguir entre o certo e o errado?”

Alves (2017, p. 1) complementa, expondo que “as respostas filosóficas são


tão díspares quanto interessantes”.
Agostinho afirmava que já nascemos depravados e inclinados a
naturalmente escolher o mal, enquanto Rousseau contesta que
originalmente o ser humano é bom, mas nos corrompemos mediante
o contato social. Mais tarde, em uma abordagem psicodinâmica, Freud
dava explicações, como a repressão das pulsões (a influência do superego)
para a origem da moral. O psicólogo Jean Piaget deu um grande passo ao
notar que a formação moral é construída e difere entre a construção da
moralidade extrínseca e a internalizada (ALVES, 2017, p. 1).

Assim, tudo depende da consciência que o ser humano tem dos seus
próprios atos e ações perante o meio em que vive e convive, e que eles são
constituídos historicamente pela sua socialização junto a outras pessoas que estão
ao seu entorno.

Nesse sentido, Aveline (2019, p. 1) expõe que “o psicólogo norte-


americano Lawrence Kohlberg (1981) afirma que o desenvolvimento moral do
ser humano tem seis estágios, mas, atualmente, são poucos os que alcançam o
patamar mais elevado”. Esses estágios da consciência ética são desenvolvidos
durante o percurso histórico da evolução humana e psicológica de qualquer
pessoa, independentemente de raça, cultura ou etnia.

Complementando, Alves (2017, p. 1) expõe que:

43
UNIDADE 1 — FUNDAMENTOS E PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DA ÉTICA

Em um notável experimento, Kohlberg (1981) descobriu que a


construção da moral ocorre por estágios, paralelos aos estágios
desenvolvimentais então estudados por Piaget. Ainda mais, para uma
criança atingir certo estágio de desenvolvimento moral, deveria antes
alcançar um estágio intelectual que a permitisse assimilar as questões
morais e produzir seu próprio raciocínio.

De tal modo, pode-se considerar que a base destes seis estágios da


consciência ética e do julgamento moral dos seres humanos se encontra na fase do
desenvolvimento intelectual do mesmo, para assim possibilitar o discernimento
e compreensão dos fatos e das coisas, possibilitando seu empoderamento do
intelecto e tomadas de decisão, do que é certo ou errado, do que é fazer o bem
ou o mal. Vale frisar que “os seis estágios também coexistem entre si. A vida é
contraditória. Cada pessoa possui vários níveis de motivos para agir corretamente,
e diversos tipos de definição do que é correto” (AVELINE, 2019, p. 1).

Logo, Aveline (2019, p. 1) expõe que “em cada indivíduo ou grupo


social, há alguns níveis de consciência ética que predominam sobre os outros”,
possibilitando, assim, que todos nós possamos ser diferentes, pois temos o livre
arbítrio da escolha do caminho que desejamos seguir, mediante o desenvolvimento
da nossa consciência ética e moral. Na Figura 9, serão expostos os seis estágios
da consciência ética e do julgamento moral que foram propostos por Lawrence
Kohlberg (1981), o qual demostrarão as motivações que levam para cada nível e
estágio do desenvolvimento humano.

FIGURA 13 – KOHLBERG E OS ESTÁGIOS DA CONSCIÊNCIA ÉTICA

FONTE: <https://www.filosofiaesoterica.com/Kohlberg (1981)-e-os-estagios-da-consciencia-etica/>.


Acesso em: 6 nov. 2020.

Contudo, antes de aprofundar nossos conhecimentos acerca de cada um


destes seis estágios da consciência ética e moral que foram propostos por Kohlberg
(1981), devemos compreender que eles foram classificados em três grandes níveis,
que são denominados de pré-convencional, convencional e pós-convencional.

44
TÓPICO 2 — A ÉTICA, VALORES, PRINCÍPIOS E A MORAL NA VIDA COTIDIANA

QUADRO 13 – CLASSIFICAÇÃO GERAL DOS NÍVEIS DOS ESTÁGIOS DA CONSCIÊNCIA ÉTICA E


MORAL PROPOSTOS POR KOHLBERG (1981)

Nível 1 ou A Nível 2 ou B Nível 3 ou C

Raciocínio e Moralidade Raciocínio e Moralidade Raciocínio e Moralidade


PRÉ-CONVENCIONAL CONVENCIONAL PÓS-CONVENCIONAL
Nível PRÉ-MORAL, Nível da CONFORMI- Nível da ACEITAÇÃO
estágio mais básico e DADE com os papéis dos princípios morais
inferior sociais universais

Estágio 1 e 2 Estágio 3 e 4 Estágio 5 e 6


Raciocinam para
Sem código de conduta Leal as regras e normas
melhorar o mundo
• Ainda não • Teve plena
compreende o que internalização das
é certo e errado, o • Segue as regras normas e convenções
que é fazer o bem e e as normas de sociais.
o mal. condutas socialmente
• Não se baseia nos
constituídos pela
• Não teve padrões dos outros.
sociedade que estão
internalização inseridas. • Baseia-se nos seus
das normas e princípios individuais
convenções sociais. abstratos.
FONTE: A autora

Agora que observamos que os seus estágios são classificados em três


grandes níveis, convido-lhes a compreender cada um desses seis estágios da
consciência ética e moral que foram propostos por Kohlberg (1981).

5.1.1 Primeiro estágio: medo, punição e obediência


Esse primeiro estágio da consciência ética e do julgamento moral dos seres
humanos, que foi proposto por Kohlberg (1981), busca compreender o nível mais
básico da consciência, do raciocínio do intelecto da própria evolução humana.

De acordo com a pirâmide de Kohlberg (1981), a ação do ser humano


é “motivada pelo medo da punição e pela obediência” (AVELINE, 2019, p. 1,
grifos nossos), como também, está considerada no primeiro nível da classificação
geral, possuindo um raciocínio e moralidade consideradas pré-convencionais,
conforme exposto no Quadro 13.

45
UNIDADE 1 — FUNDAMENTOS E PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DA ÉTICA

Nesse primeiro nível, as pessoas ainda não compreendem o que é certo e


errado, o que é fazer o bem e o mal. Como também, não tiveram a internalização
das normas e convenções sociais instituídas legalmente e que não seguem um
código de conduta. Esse primeiro estágio da consciência e raciocínio da evolução
humana, foi denominado como a fase do medo, punição e obediência, pois,
segundo Alves (2017, p. 1), “as consequências das ações determinam o certo e
o errado”, e, de acordo com Aveline (2019, p. 1, grifos nossos) “a ação certa é a
ação que não é punida”, pois “a prioridade é não ser punido, e por isso há uma
obediência. A ação errada é aquela que recebe castigo. Se não houver castigo, não
haverá consciência de que algo errado foi feito” (AVELINE, 2019, p. 1).

Assim, pode-se verificar que a base da pirâmide está norteada por


orientações de obediência, para, assim, evitar a punição, demostrando que o
medo de não obedecer ao socialmente posto, gera temor do castigo que possa ter,
e assim segue com um comportamento de obediência, pois tem medo que seja
descoberto algo considerado errado pela sociedade que vive e convive.

As questões desse primeiro estágio são as seguintes:

• Se não obedecer, serei punido ou castigado?


• Quais serão as consequências de minha ação ou omissão?

Desse modo, segundo Carvalho (2011, p. 1), no Estágio um, “a criança


obedece literalmente a regra, pois sua interpretação é que, obedecer a autoridade
é evitar castigo. Cumpre, portanto, por obediência ao adulto e para não sofrer
sanções, nesse caso, o castigo.”

Salienta-se que são as consequências das ações que demostram o


comportamento em si, a ação comportamental, ou seja, não é a ação que
predomina, e sim o medo das consequências que a ação poderá gerar. Gerando
obediência por medo de punição e castigo.

A palavra aqui é obediência à regra posta!

5.1.2 Segundo estágio: recompensa


O segundo estágio da consciência ética e moral das pessoas no seu convívio
social, que foi sugerido por Kohlberg (1981), busca também compreender o nível
basilar da consciência, do raciocínio do intelecto da própria evolução do ser humano.

Segundo a pirâmide de Kohlberg (1981), a ação do ser humano é “motivada


pela obtenção e recompensa” (AVELINE, 2019, p. 1, grifos nossos), como também,
está considerada no primeiro nível da classificação geral, possuindo um raciocínio
e moralidade consideradas pré-convencionais, conforme exposto no Quadro 13.

46
TÓPICO 2 — A ÉTICA, VALORES, PRINCÍPIOS E A MORAL NA VIDA COTIDIANA

Reforça-se que nesse primeiro nível, os indivíduos ainda não compreendem


o que é certo e errado, o que é fazer o bem e o mal. Como também não tiveram a
internalização das normas e convenções sociais instituídas legalmente e que não
seguem um código de conduta.

Vale salientar, que neste estágio da evolução do intelecto e comportamento


humano, foi denominado como a fase da recompensa, pois, segundo Alves (2017,
p. 1), no estágio dois, as ações estão pautadas no “hedonismo instrumental ingênuo.
O individualismo e a transação passam a serem consideradas”. “A ação correta é
definida como ‘aquela que serve aos interesses de cada um’. O objetivo é obter uma
recompensa. Ocorre aqui o ‘toma lá, dá cá’. Vale a negociação caso a caso, a troca de
favores, o apoio mútuo em ações de curto prazo” (AVELINE, 2019, p. 1).

NOTA

Vejamos seus significados:


Hedonismo – “Tendência a considerar que o prazer individual e imediato é a finalidade da
vida” (FERREIRA, 2008, p. 448, grifos nossos).
Ingênuo – “Sem malícia, franco. Em que há inocência, pureza, singelo, pueril” (FERREIRA,
2008, p. 478, grifos nossos).
Egocêntrico – “Que ou quem refere tudo ao próprio eu. Egoísta (FERREIRA, 2008, p. 334,
grifos nossos).

Esse desejo imediato da realização individual do prazer é compreendido


como um instrumento egocêntrico do ser humano, para sua própria satisfação.
No segundo estágio da consciência ética e moral das pessoas no seu convívio
social, a orientação comportamental aponta para o contentamento dos próprios
desejos ou de outros.

As questões do segundo estágio são as seguintes:

• O que posso ganhar ou obter com minha ação ou omissão?


• O que ganho em troca?

Assim, as ações humanas, no seu convívio social, estão pautadas no prazer


individual, desprovida de malícia, e na transação ou negociação de barganha para
conseguir o que deseja — ações única e exclusivamente para satisfação pessoal.

Segundo Carvalho (2011, p. 1), esse segundo estágio denota que o ser
humano “age pelo próprio interesse (individualismo), [pois] a obediência consiste
em fazer só aquilo que lhe interessa e até na relação com os outros não é movido
por respeito ou por lealdade, mas pelo interesse de ‘uma mão lava a outra’, uma
troca de favores”.

47
UNIDADE 1 — FUNDAMENTOS E PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DA ÉTICA

Nesse sentido, ressalva-se que, o objetivo desse comportamento é a


reciprocidade restrita em obter uma recompensa.

A palavra aqui é buscar recompensa!

E
IMPORTANT

Segundo Aveline (2019, p. 1, grifos nossos), “os dois estágios iniciais da moralidade
humana são chamados de ‘pré-convencionais’, porque neles não há um código de conduta.
As ações são vistas de modo mais ou menos isolados. Predomina o casuísmo”.

5.1.3 Terceiro estágio: aprovação social


O terceiro estágio da consciência ética e do julgamento moral dos seres
humanos, que foi proposto por Kohlberg (1981), denota que tenhamos um
raciocínio ético-moral convencional, pois propicia ser um nível conectado com a
conformidade dos papéis sociais, ou seja, a lealdade dos homens com as regras e
normas socialmente constituídas.

De acordo com a pirâmide de Kohlberg (1981), a ação do ser humano é


“motivada pela aprovação social” (AVELINE, 2019, p. 1, grifos nossos), como
também está considerada no segundo nível da classificação geral, possuindo
um raciocínio e moralidade consideradas convencionais, conforme exposto no
Quadro 13.

Ressalva-se que nesse segundo nível, as pessoas procuram seguir as


regras e as normas de condutas socialmente constituídos pelo grupo social a qual
faz parte. São leais às regras e normas.

Neste sentido, esse terceiro estágio da consciência e raciocínio da evolução


humana foi denominado como a fase da aprovação social, pois, segundo Alves
(2017, p. 1, grifos nossos), este é o estágio das “relações interpessoais. [Onde
existe] o ideal de ‘bom garoto’, ou seja, o que agrada aos outros é bom”.

Aveline (2019, p. 1) complementa expondo que, neste terceiro estágio:


A criança (ou o adulto) demonstra ter bom caráter. É a etapa do “bom
garoto”. A meta é a aprovação social, ou o apoio sincero dos mais
velhos e dos mais poderosos. Aqui vale a frase “faça aos outros o que
gostaria que eles lhe fizessem”. A pessoa desenvolve um sentido de
justiça e reciprocidade. A compaixão é compreendida e até certo ponto
vivenciada. Também pode ocorrer um conformismo: mas existe um
sentido de compromisso ético verdadeiro (grifos nossos).

48
TÓPICO 2 — A ÉTICA, VALORES, PRINCÍPIOS E A MORAL NA VIDA COTIDIANA

Demostrando que nas relações interpessoais, buscar ser considerado uma


boa pessoa é um bom negócio, para ter um convívio social pleno e ser aprovado
socialmente.

Aqui, procuramos nos orientar pelos valores socialmente constituídos,


manter-nos íntegros, conforme as normativas, regras e legislações vigentes, mas,
sempre no intuito de agradar o grupo social a que fazemos parte, e não pelo
simples fato de seguir as normas.

As questões desse terceiro estágio permeiam em:

• Se seguir as normas sociais, estou agradando e sou aprovado socialmente?


• Como sou considerado nas minhas relações interpessoais, agrado a todos?
• Será que tenho bom caráter, se sigo fielmente a legislação vigente?

De tal modo que nossa atitude em relação às ações humanas deva estar
pautada nas normativas socialmente constituídas, e que nos orientam se podemos
ser considerados bons ou maus seres humanos, e se assim agradamos e somos
aprovados socialmente.

Vale salientar que, as ações que agradam o coletivo são consideradas


boas, e que o caráter humano é reconhecido por estes atos compartilhados e
positivados nas relações interpessoais. A palavra aqui é agradar o outro!

5.1.4 Quarto estágio: manutenção da ordem social


No quarto estágio da consciência ética-moral das pessoas que vivem e
convivem em sociedade, que foi apresentado por Kohlberg (1981), o qual é possível
propiciar a você, que este estágio do raciocínio da ética e da moral é convencional,
para demostrar que este nível está conectado com a harmonia dos papéis sociais,
ou seja, a lealdade dos homens com as regras e normas socialmente constituídas.

Segundo a pirâmide de Kohlberg (1981), a ação do ser humano é “motivada


pela manutenção da ordem social” (AVELINE, 2019, p. 1, grifos nossos) e está
considerada no segundo nível da classificação geral, possuindo um raciocínio e
moralidade consideradas convencionais, conforme exposto no Quadro 13.

Pontua-se que nesse segundo nível, os seres humanos procuram seguir as


regras e as normas de condutas socialmente constituídos pela sociedade em que
vivem e convivem. São leais às regras e normas.

Assim sendo, este quarto estágio da consciência e raciocínio da evolução


humana, foi denominado como a fase da manutenção da ordem social, pois, de
acordo com Aveline (2019, p. 1, grifos nossos) “o quarto estágio é o da Lei e da
Ordem. Nesse ponto o respeito ao líder, ao chefe, ao professor, é algo central. O

49
UNIDADE 1 — FUNDAMENTOS E PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DA ÉTICA

importante é cumprir o dever. Cabe respeitar as normas e obedecer às autoridades


– sem questioná-las”. Importante salientar que é a “autoridade [que] mantém a
ordem social. Atitude deontológica, cumprir os deveres” (ALVES, 2017, p. 1).

Pode-se destacar que nesta etapa, o nosso comportamento social é


orientado pelas normas, leis, regras e ordem social. Procurando manter os
valores e princípios socialmente constituídos.

Aqui, é a manutenção das leis e normas e o respeito às lideranças que


propiciam a promoção do bem-estar social da população, já que as questões do
quarto estágio estão em torno das seguintes indagações:

• Se seguir as normas vigentes, estou mantendo a ordem e o bem-estar social?


• Será que estou respeitando minhas lideranças e suas decisões?
• Estou cumprindo meus deveres e minhas obrigações sociais?

Ainda, torna-se importante refletirmos na questão da Lei e da Ordem, pois:


Quem está nesse estágio realmente acredita que a lei, a ordem social, a
justiça e outros valores são reais, são partes do gênero humano, neste
sentido o correto é cumprir seu dever na sociedade, preservar a ordem
social, e manter o bem-estar da sociedade ou do grupo (CARVALHO,
2011, p. 1, grifos nossos).

Aqui, o importante sempre será o cumprimento da Lei e da Ordem,


cumprindo nossos deveres e obrigações para com a sociedade em que fazemos
parte, além de respeitar os processos decisórios de nossos gestores, pois assim,
proporcionaremos a promoção do bem-estar social.

As palavras aqui são respeito e cumprimento das leis, da ordem e da


liderança!

E
IMPORTANT

De acordo com Aveline (2019, p. 1, grifos nossos), “As etapas três e quatro são
chamadas de ‘convencionais’, porque nelas o indivíduo é sinceramente leal às normas e
às orientações coletivas”.

5.1.5 Quinto estágio: proteção do bem-estar coletivo


Este quinto estágio da consciência ética e do julgamento moral dos seres
humanos, que foi proposto por Kohlberg (1981), busca compreender a questão do
raciocínio e da moralidade no âmbito pós-convencional, no nível da aceitação dos
princípios morais universais, em que os seres humanos procuram raciocinar para
melhorar a qualidade de vida no mundo.
50
TÓPICO 2 — A ÉTICA, VALORES, PRINCÍPIOS E A MORAL NA VIDA COTIDIANA

Portanto, de acordo com a pirâmide de Kohlberg (1981), a ação do ser


humano, no quinto estágio, é “motivada pela proteção do bem-estar coletivo”
(AVELINE, 2019, p. 1, grifos nossos) e está considerada no terceiro nível da
classificação geral, possuindo um raciocínio e moralidade consideradas pós-
convencional, conforme exposto no Quadro 13.

É importante destacar que, no terceiro nível da classificação geral da


pirâmide de Kohlberg (1981), devemos compreender que as pessoas já possuem
plena internalização das normas e convenções sociais, e que não se baseiam nos
padrões dos outros, mas se baseiam nos seus princípios individuais abstratos.

Aqui, no terceiro nível, devemos partir do princípio de que “agora as crianças


ou adultos respeitam às normas, leis e convenções, mas ao mesmo tempo enxergam
além delas e procuram aprimorá-las” (AVELINE 2019, p. 1, grifos nossos).

Vale fazermos uma reflexão!

Prezado acadêmico, reflita conosco o que Sigmund Freud (2005, p. 53,


grifos nossos) escreveu:
[…] Não é necessário ser um anarquista para ver que as leis e as normas
não podem ser consideradas como algo sagrado ou inquestionável,
ou para compreender que elas são com frequência formuladas de
modo inadequado e ferem o nosso sentido de justiça, ou virão a ser
injustas dentro de algum tempo, e que, considerando a lentidão das
autoridades, muitas vezes o único meio de corrigir estas leis tolas
é tendo a coragem de violá-las. Além disso, se desejamos manter o
respeito pelas leis e normas, é aconselhável só promulgá-las quando
se pode vigiar e saber se são obedecidas.

Você conseguiu observar na fala de Freud (2005), que as leis e normas


podem ser reformuladas e modificadas no decorrer da própria evolução humana,
por conta da transformação social? Que elas podem ter sido feitas de formas
equivocadas, não atingindo seu propósito? Que podem ter perdido sua validade,
por conta do tempo de promulgação?

Que bom que você compreendeu essa questão! Pois, isso é fundamental
para compreender este estágio, como o sexto também.

Nesse sentido, este quinto estágio da consciência e raciocínio da evolução


humana, foi denominado como a fase da proteção do bem-estar coletivo, pois,
na visão de Aveline (2019, p. 1, grifos nossos), esta é uma fase que demonstra o
“desenvolvimento ético, [onde] o indivíduo percebe que as leis e os costumes
estabelecidos podem ser injustos. [E], quando necessário, ele busca uma mudança
para melhor. Faz isso através de meios legítimos, democráticos, moralmente
aceitáveis, eticamente responsáveis”. Demonstrando que é possível realizar a
mudança normativa, desde que devidamente justificada e legal, pois quem está
nesta fase, consegue enxergar além das normativas postas, pois procura aprimorar
o contrato social posto.

51
UNIDADE 1 — FUNDAMENTOS E PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DA ÉTICA

Aqui, neste estágio, as pessoas se orientam pela melhoria constante do


contrato social e suas normativas institucionalizadas, procurando o exercício
do respeito aos direitos civis, sociais e individuais, no intuito de protegê-las e
verificarem sua eficácia, para angariar a promoção do bem-estar do coletivo social.

Segundo Alves (2017, p. 1), o contrato social é compreendido como


“acordos democraticamente alcançados sobre se os valores são bons, cabendo ao
indivíduo determinar o certo e o errado dentro dos parâmetros desses valores”.

Nessa concepção, esse aprimoramento legislativo do contrato social


denota os seguintes questionamentos:

• Será que podemos ir além do contrato social instituído, tendo uma visão
ampliada de sua eficácia e propor aprimoramento, quando necessário?
• Como podemos exercer nossa cidadania para proteger o bem-estar coletivo?

Já Carvalho (2011, p. 1) complementa expondo que as pessoas desse


estágio possuem uma “visão que no mundo as pessoas são diferentes, têm
opiniões, direitos e valores também diferentes e o correto é apoiar os direitos,
valores e contratos jurídicos de uma sociedade, mesmo quando estão em conflito
com as normas concretas do grupo”. Ou seja, procuram ir além do socialmente
posto, para poder contribuir a melhoria de qualidade vida dos cidadãos, pois
entendem que somos todos diferentes.

As palavras aqui são proteção do bem-estar coletivo e melhoria do


contrato social.

NTE
INTERESSA

Exemplos desse nível de moral (assim como do sexto nível) são Mahatma
Gandhi, na Índia, Martin Luther King, nos Estados Unidos e, no Brasil, Chico Mendes, o
defensor da Floresta Amazônica. Os três líderes sociais deram um exemplo de altruísmo
e foram assassinados precisamente por defenderem ideais nobres e uma ética superior,
contrariando as estruturas da ignorância organizada. Na quinta etapa, busca-se um contrato
social eficiente e justo para todos (AVELINE 2019, p. 1).

5.1.6 Sexto estágio: zelo pelos princípios éticos universais


Por fim, o sexto e último estágio da consciência ética-moral das pessoas,
que foi apresentado por Kohlberg (1981), procurou presentar uma reflexão
relativa ao raciocínio e à moralidade no âmbito pós-convencional, no nível da
aceitação dos princípios morais universais, em que os seres humanos procuram
raciocinar para melhorar a qualidade de vida no mundo.

52
TÓPICO 2 — A ÉTICA, VALORES, PRINCÍPIOS E A MORAL NA VIDA COTIDIANA

Nesse sentido, a pirâmide de Kohlberg (1981) demonstra que a ação


do ser humano, no sexto estágio, é “motivada pelo zelo dos princípios éticos
universais” (AVELINE, 2019, p. 1, grifos nossos) e está considerada no terceiro
nível da classificação geral, possuindo um raciocínio e moralidade consideradas
pós-convencional, conforme exposto no Quadro 13.

Vale frisar que neste terceiro nível da classificação geral da pirâmide de


Kohlberg (1981), é importante compreender que as pessoas já possuem plena
internalização das normas e convenções sociais, e que não se baseiam nos padrões
dos demais cidadãos, mas baseiam-se nos seus princípios individuais abstratos.

Portanto, neste terceiro nível, partiremos do princípio de que “agora as


crianças ou adultos respeitam as normas, leis e convenções, mas ao mesmo tempo
enxergam além delas e procuram aprimorá-las” (AVELINE, 2019, p. 1, grifos nossos).

Assim, o sexto estágio da consciência e raciocínio da evolução humana, foi


denominado como a fase do zelo dos princípios éticos universais, pois, segundo
Aveline (2019, p. 1), “na sexta etapa de desenvolvimento moral, o indivíduo –
ou o povo – vive os princípios universais da consciência ética. Hoje são pouco
numerosos os seres humanos firmemente estabelecidos neste estágio. São os
precursores. Preparam o futuro. Abrem o caminho”.

As questões do sexto e último estágio estão em torno das seguintes


indagações:

• Qual o caminho que podemos trilhar para zelar os princípios éticos universais?
• Com podemos aprimorar os preceitos éticos e morais, para ir além do
socialmente posto?

Aqui, nesta fase, as pessoas se orientam pelos princípios éticos universais,


a qual procuram zelar pelos valores éticos-morais ao longo da história da
humanidade. Lembre-se que a ética reflete os hábitos e costumes gerais de
uma sociedade, suas normativas e convenções, que fora institucionalizada pelo
coletivo social, e a moral é a forma que conduzimos nossos atos perante o outro,
ou seja, é a conduta em si.

Alves (2017, p. 1) coloca-nos que “os princípios de justiça e ética são parte da
consciência, sendo questões de escolhas individuais dentro de princípios axiológicos
universais, mesmo que contra as leis e regras socialmente estabelecidas”. Vale
lembrar que “a pessoa desenvolve um padrão moral baseado nos direitos humanos
universais. Quando confrontado com um conflito entre a lei e a consciência, a
pessoa seguirá a consciência, ainda que essa decisão envolva risco pessoal, e tem a
capacidade de ver-se no lugar do outro” (CARVALHO, 2011, p. 1).

Assim, somos incitados a zelar por esta consciência dos princípios éticos
e de justiça universais que refletem as nossas condutas na sociedade em que
estamos inseridos.

53
UNIDADE 1 — FUNDAMENTOS E PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DA ÉTICA

Lembre-se de que estamos aqui para melhorar o mundo em que vivemos,


mas precisamos compreender e zelar os nossos valores e princípios éticos-morais
que foram historicamente concebidos pelo coletivo social.

As palavras aqui são zelo dos valores e princípios éticos-moras e


universais, pois a ética é para o coletivo social, para todos.

E
IMPORTANT

Prezado acadêmico, para Kohlberg (1981) “nem todos progrediam por esses
estágios. Somente uns poucos (citou Gandhi, Thoureau e Martin Luther King) chegam ao
Estágio 6, mas todos em potencial podem alcançar esses estágios, que progridem conforme
a idade” (ALVES, 2017, p. 1). De acordo com Carvalho (2011, p. 1):

Kohlberg (1981) acreditava que estes níveis e estágios ocorrem


numa sequência:
• Antes dos nove anos, a maioria das crianças seguem
caminhos pré-convencionais (nível 1).
• Na primeira adolescência, eles raciocinam de uma maneira
mais convencional (nível 2). A maioria no Estágio 3, com
apenas sinais dos Estágios 2 e 4.
• No início da fase adulta, um pequeno número de indivíduos
arrazoa (raciocinam) de maneira pós-convencional.

6 A CONDUTA MORAL: O BEM E O MAL, O CERTO E O


ERRADO
No que tange a nossa conduta moral, em relação ao fazer o bem ou o mal,
em fazer o certo ou o errado, pode-se dizer que chegamos agora num dilema, pois
no nosso próprio comportamento ético-moral é a nossa consciência, das coisas e
dos fatos, que irá determinar o caminho a seguir, pois indaga-se:

• Como saber o que devemos fazer? Para que lado ir?


• O que é certo ou errado perante a sociedade?
• O que é fazer o bem e como evitar o mal?

Respondendo a esses três questionamentos, Valls (2003, p. 67-68) expõe que:


Agir eticamente é agir de acordo com o bem. A maneira de como se
definirá o que seja este bem, é um segundo problema, mas a opção
entre o bem e o mal, distinção levantada já há alguns milênios, parece
continuar válida. [...] Neste sentido, poderíamos continuar dizendo
que uma pessoa ética é aquela que age sempre a partir da alternativa
bem ou mal, isto é, aquela que resolveu pautar seu comportamento
por uma tal opção, uma tal disjunção. E quem não vive dessa maneira,
optando sempre, não vive eticamente.

54
TÓPICO 2 — A ÉTICA, VALORES, PRINCÍPIOS E A MORAL NA VIDA COTIDIANA

Assim, se agirmos no intuito de fazer o bem, estamos agindo com uma


postura ética-moral, ela proporcionará uma conduta direcionada para o certo,
mas sempre pautada no que fora instituído socialmente. Então, pode-se dizer
que os seres humanos são aquelas pessoas que desenvolvem uma conduta ou um
comportamento baseado em alternativas, podendo escolher em fazer o bem ou o
mal, que quem faz o bem é considerado ético, e quem faz o mal é antiético.

De acordo com Pieritz (2013, p. 23-24):


Para efetuarmos um julgamento concreto sobre alguma situação da
vida em sociedade, devemos nos pautar sobre todos os pressupostos
éticos daquela sociedade em si, ou seja, seus princípios morais e seus
costumes. Entretanto, sem esquecer que o que todo ser humano busca
em suas ações cotidianas na sociedade é fazer sempre e somente o bem,
pois é por causa e em nome deste bem maior que eles realizam tudo.

De tal modo, que necessitamos compreender a realidade social, política


e econômica do grupo social a que pertencemos, principalmente seus preceitos
éticos-morais para, assim, podermos tomar a decisão de que postura teremos em
relação aos outros que vivem e convivem conosco.
[Pois], sempre que uma decisão ou uma escolha deve ser feita com
relação ao comportamento, a decisão moral será aquela que trabalha
para a criação de confiança e integridade nos relacionamentos. Deve
aumentar a capacidade dos indivíduos para cooperar, e aumentar a
sensação de autorrespeito no indivíduo. Atos que criam desconfiança,
suspeita e mal-entendidos, que constroem barreiras e destroem a
integridade, são imorais. Eles diminuem o senso de autorrespeito
do indivíduo e, ao invés de produzir uma capacidade de trabalhar
juntos, separam as pessoas e rompem a capacidade de comunicação
(KIRKENDALL, 1961, p. 6).

Nesse sentido, é importante compreender que:


Todas as nossas ações possuem um propósito, ou seja, um fim. Este
fim somente é alcançado quando os homens realizam uma atividade
para alcançá-lo, vão em busca de seus objetivos e metas. Portanto, se
realmente existe um motivo que visa tudo o que fazemos, este fim só
poderá ser realizado se nós, seres humanos, o realizarmos através de
ações/atividades. Elas, por sua vez, sempre estão na busca constante
da realização do bem e da verdade e procurando a felicidade e o prazer
(PIERITZ, 2013, p. 24).

Neste contexto indaga-se: o que é a moralidade?

A moralidade, segundo Cunha (2011, p. 197), é compreendida como o


“processo social costumeiro, concernente à melhor forma de comportamento”. A qual,
exprime a qualidade do comportamento moral do cidadão, suas regras e princípios.

Nesse sentido, segundo Pieritz (2013, p. 35), “a moralidade dos homens é


um reflexo direto do modo de ser e conviver em sociedade, no qual o caráter, os
sentimentos e os costumes determinam o seu comportamento individual e social,
que foi ou está sendo perpetuado num espaço de tempo”.

55
UNIDADE 1 — FUNDAMENTOS E PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DA ÉTICA

Assim, adentramos na questão do princípio da moralidade, mas você


sabe o que é um princípio?

Um princípio, segundo Ferreira (2008, p. 654), é “o momento ou local


ou trecho em que algo tem origem.” Então, pode-se expor que o princípio da
moralidade exprime a origem do comportamento moral de nossa sociedade
ou grupo social, pois, o princípio da moralidade denota que as pessoas estão
vinculadas pelas normas e diretrizes do comportamento moral. É o agir segundo
os preceitos éticos e morais socialmente constituídos.

Caro acadêmico, sugerimos que faça a leitura do texto de Israel Alexandria,


intitulado Ética e moral uma reflexão sobre a ética e os padrões de moralidade ocidental.

ÉTICA E MORAL
UMA REFLEXÃO SOBRE A ÉTICA E OS PADRÕES DE MORALIDADE
OCIDENTAL

Israel Alexandria

1 A MORALIDADE ENQUANTO OBJETO DA ÉTICA

Gosto não se discute. Correntemente essa frase é utilizada quando se quer


estabelecer a ideia de que gosto é algo radicalmente subjetivo e imutável. Ora,
a imensa variedade de sujeitos com preferências e opiniões distintas entre si e o
fato de um mesmo sujeito mudar de preferências e opiniões fazem prova de que a
complexa estrutura psíquica humana é capaz de aprender e de modificar o que se
aprendeu. Subjetividade não combina com imutabilidade, logo a frase em questão
é contraditória.

Diz-se também que personalidade vem da natureza. Quando atribuímos


à natureza a existência de alguma coisa, estamos simplesmente dizendo que esta
coisa não foi criada pela cultura, nasce-se com ela. Não há necessidade de aprender
o que é natural. O natural é inato. Essa coisa chamada personalidade é inerente
à pessoa. Pessoa e personalidade vêm da mesma palavra: persona. Ninguém
nasce pessoa. Ninguém se refere a um bebê como "aquela pessoa", pois sabe-se
que personalidade tem a ver com um sistema mais ou menos definido de gostos,
preferências que se vai adquirindo com o tempo.

Embora as preferências e as condições que formam a personalidade sejam


tão subjetivas e mutáveis, há uma constante que não podemos desprezar. É o
princípio do prazer. Todo ser dotado de sensibilidade tem a propensão natural
de afastar o que lhe está associado à dor e buscar o que lhe é prazeroso. O gato
morde o homem que lhe pisa a cauda e o vegetal cresce em direção ao sol. Para o
gato é bom que não lhe pisem na cauda. Para a planta, é bom crescer em direção
ao sol. O ser humano não foge a essa regra. O bebê humano é capaz de manifestar
sua percepção de prazer e dor e essa capacidade não se perde com a idade. O que

56
TÓPICO 2 — A ÉTICA, VALORES, PRINCÍPIOS E A MORAL NA VIDA COTIDIANA

muda é a forma como se dá essa manifestação e o objeto do prazer ou o da dor


que, por sua vez, dependem das circunstâncias. O que permanece imutável é o
fato de os sujeitos estarem sempre buscando o que lhes parece bom, e afastando o
que lhes parece mal. É sobre esses dois conceitos que trata a ética.

A ética é uma ciência comprometida com a busca aprofundada das relações


entre o homem e os conceitos de bem e de mal. Trata-se de uma ciência da qual
não podemos nos esquivar, pois o bem e o mal, o certo e o errado impregnam
nossa conduta prática. Embora a maioria não pense no assunto, o comportamento
humano é uma contínua resposta às questões éticas. É nesse ponto que nasce a
distinção entre ética e moral.

O dicionarista e pensador Nicola Abbagnano (1901-1990) afirma que moral


é "atinente à conduta" (1982, p. 652) enquanto a ética é "a ciência com vistas a dirigir
e disciplinar a mesma conduta" (1982, p. 360). A moral seriam as regras práticas
e a ética, o fundamento teórico da moral. Dizem-se moral aristotélica, moral
kantiana para enfatizar os respectivos aspectos práticos; ética aristotélica, ética
kantiana estariam mais relacionados aos seus aspectos teóricos. Alguns autores,
entretanto, ressaltam que, embora haja uma infinidade de morais: moral cristã,
moral judaica, moral platônica, moral kantiana etc., a ética seria uma só. É que,
sendo esta uma ciência, trabalha apenas com conceitos universais. Basicamente,
são três os modelos de moralidade: aristocrático, utilitarista e kantiano.

2 A MORAL ARISTOCRÁTICA

A moral aristocrática visa fazer com que o indivíduo se aproxime, cada vez
mais, de um homem ideal e transcendente. Nesse sentido, são morais aristocráticas
a moral judaica, baseada no modelo de homem de fé (Abraão), a moral cristã, no
amor ao próximo (Jesus), a moral platônica, no ascetismo (filósofo-rei), a moral
budista, na eliminação dos desejos (Buda).

Na maioria das vezes, esses modelos ideais são apenas descrições sem
referências a nomes de personagens históricos. A moral aristocrática propõe que
cada indivíduo seja dotado das virtudes adequadas (a palavra virtude vem de
virtu, que significa força) para imitar o modelo ou um ideal de vida proposto. A
felicidade plena é obtida quando o indivíduo realiza o ideal proposto. Quanto
mais virtuoso for o indivíduo, maior o seu grau de felicidade.

Sócrates (470-399 a.C.) inventou o ideal cínico (palavra derivada de canino),


cuja principal virtude é o desprezo às comodidades, às riquezas e às convenções
sociais, enfim a tudo aquilo que afasta o homem da simplicidade natural de que
dão exemplo os animais (no caso o cão). Cínico é aquele que vive o descaramento
da vida canina. Relata-se que Sócrates caminhava nos mercados apenas para saber
do que ele não precisava. Outros curiosos relatos envolvendo Diógenes, tais como
o da "visita do imperador", "a mão e a cuia", "a lanterna" etc. indicam que este teria
sido o maior cínico da história.

57
UNIDADE 1 — FUNDAMENTOS E PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DA ÉTICA

Platão (428-348 a.C.) propôs o ideal asceta. A prática da ascese consiste


em viver na contemplação do mundo das ideias ao tempo que se afasta de tudo
o que é corpóreo. "É evidente que o trabalho do filósofo consiste em se ocupar
mais particularmente que os demais homens em afastar sua alma do contato
com o corpo" (PLATÃO, 1999, p. 125). O sábio educa-se para a morte, ou seja,
para o dia em que sua alma se separará definitivamente do corpo, migrando
para o outro mundo.

Aristóteles (384-322 a.C.) definia o homem ideal como aquele que consegue
pôr em prática tanto a sua animalidade natural como a sua sociabilidade natural,
pois o homem é um animal social por natureza. "Mesmo quando não precisam
da ajuda dos outros, os homens continuam desejando viver em sociedade"
(ARISTÓTELES, s.d., s.p.). Reprimir a animalidade ou a sociabilidade distancia o
homem da felicidade. Para encontrar um termo médio entre essas duas naturezas,
o homem vale-se da razão.

Os estoicos são outro exemplo de moral aristocrática. No século IV a.C.,


acredita-se que o nome estoico tenha sido inspirado no local onde Zenão de Cício
(335-263 a.C.) ensinava: os pórticos (stoa, em grego). Costuma-se atribuir a razão
do surgimento dessa doutrina ao fato da cidade de Atenas haver perdido sua
independência para os macedônicos, prolongada depois pelo império romano.
O estoicismo foi uma espécie de refúgio espiritual, uma via filosófica para se
conseguir a independência em nível individual. Não obstante, o estoicismo
atravessou séculos, sendo adotado pelos cristãos e até pelo imperador romano
Marco Aurélio (121-180 d.C.). Segundo os estoicos, nenhum evento acontece por
acaso (teoria da necessidade). Até mesmo o trajeto de uma folha que se desprende
da árvore já foi milimetricamente traçado pelo Logos, princípio inteligente do
cosmos. O ideal de sabedoria estoica é a completa apatia: indiferença-acomodação
diante dos acontecimentos da vida, é o que revela Sêneca (4 a.C. 65 d.C.) um dos
expoentes do estoicismo.

Toda a vida é uma escravidão. É preciso, pois, acostumar-se à sua condição,


queixando-se o menos possível e não deixando escapar nenhuma das vantagens que
ela possa oferecer: nenhum destino é tão insuportável que uma alma razoável não
encontre qualquer coisa para consolo. Vê-se frequentemente um terreno diminuto
prestar-se, graças ao talento do arquiteto, às mais diversas e incríveis aplicações, e
um arranjo hábil torna habitável o menor canto. Para vencer os obstáculos, apela
à razão: verás abrandar-se o que resistia, alargar-se o que era apertado e os fardos
tornarem-se mais leves sobre os ombros que saberão suportá-los (1973, p. 216).

Não se interprete indiferença por alienação: um sábio pode engajar-se na


vida política até mesmo porque estava escrito. Nesse ponto, os povos muçulmanos
parecem estar em franco acordo com a doutrina estoica pois regularmente repetem
a expressão maktub (estava escrito), particípio passado do verbo catab (escrever). A
virtude do sábio é o controle absoluto de suas emoções. Segundo sua parenética
(termo que diz respeito aos aconselhamentos práticos), quando as circunstâncias
tornam impossível o controle das emoções, é aconselhável a prática do suicídio.

58
TÓPICO 2 — A ÉTICA, VALORES, PRINCÍPIOS E A MORAL NA VIDA COTIDIANA

Epicuro de Samos (341-270 a.C.) criou o modelo de sábio epicurista: o


homem que pratica plenamente a virtude da ataraxia (despreocupação; ausência
de aborrecimentos, de dores ou medos).

Nem a posse das riquezas nem a abundância das coisas nem a obtenção
de cargos ou o poder produzem a felicidade e a bem-aventurança; produzem-
na a ausência de dores, a moderação nos afetos e a disposição de espírito que se
mantenha nos limites impostos pela natureza.

A ausência de perturbação e de dor são prazeres estáveis; por seu turno,


o gozo e a alegria são prazeres de movimento, pela sua vivacidade. Quando
dizemos, então, que o prazer é fim, não queremos referir-nos aos prazeres
dos intemperantes ou aos produzidos pela sensualidade, como creem certos
ignorantes, que se encontram em desacordo conosco ou não nos compreendem,
mas ao prazer de nos acharmos livres de sofrimentos do corpo e de perturbações
da alma (EPICURO, 1993, p. 25).

Efetivamente, a ideia de que os epicuristas pregavam a volúpia do corpo


é falsa. Eles praticavam uma espécie de otimismo profilático que se aproxima
muito do famoso "jogo do contente" da personagem Poliana. Eram iconoclastas
em relação aos mitos sobre morte, religião e política. Isolados em jardins afastados
das agitações da vida citadina, cultivavam a amizade (a prática de viver em
seletos círculos de amigos era considerada condição fundamental na vida do sábio
epicurista). O modus vivendi de Epicuro e seus discípulos foi chamado de áurea
mediocritas (mediocridade dourada) por Horácio.

3 A MORAL UTILITARISTA

A moral utilitarista caracteriza-se pela ausência do transcendente e de


modelos a priori a serem imitados. Todas as ações devem ser medidas pelo bem
maior para o maior número.

Ao definir o utilitarismo, o filósofo irlandês Francis Hutcheson (1694-1746)


assim se expressa: "a melhor ação é aquela que produz a maior felicidade ao maior
número de pessoas". O utilitarismo é a moral dos números.

Nicolau Maquiavel (1469-1527), pensador italiano, tem sobre si a culpa de


haver defendido que os fins justificam os meios embora, segundo o Dicionário de
Filosofia de Abbagnano (1962, p. 614), tal máxima tenha origem jesuíta. A injustiça
que recai sobre Maquiavel vem da dificuldade que se tem de separar o mero
descrever e o opinar. Ele tinha horror a governos de ocasiões, golpes sucessivos,
casuísmos, enfim à política do dia a dia que tanto permeava a agitada vida nos
bastidores políticos de Florença. Em O Príncipe ele faz uma descrição em forma
de aconselhamento, com base em seus conhecimentos de história, da conduta
do governante que pretende permanecer no poder por um tempo relativamente
longo, mas chega mesmo a confessar que, para atingir tal permanência, o ideal

59
UNIDADE 1 — FUNDAMENTOS E PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DA ÉTICA

seria que as coisas não ocorressem da forma como a história demonstrara. Não
obstante, a tradição nos legou o termo maquiavélico como designativo de um
modelo que se firmou como um dos marcantes exemplos de moral utilitarista: a
que visa um maior número de dias no poder.

Thomas Hobbes (1588-1679), filósofo inglês, parte do princípio de que


quanto menor for o número de invasões, mortes violentas e desapossamentos
mútuos, mais feliz será a espécie humana. Esta condição só pode ser arranjada
com a existência de um contrato social e de um Leviatã. Vamos explicar melhor:
para Hobbes, o homem é, naturalmente, o lobo do homem (homo homini lupus),
ou seja, não é um ser naturalmente cordial e sociável, não está naturalmente
aparelhado para sentir-se incomodado com a dor alheia quando sua sobrevivência
está em jogo. "Se dois homens desejam a mesma coisa, ao mesmo tempo que é
impossível ela ser gozada por ambos, eles se tornam inimigos" (HOBBES, 1651,
p. 43). Relegados ao estado de natureza, os homens promovem uma guerra de
todos contra todos (bellum omnium contra omnes), guerra inútil porque põe em risco
a própria conservação humana. Os homens, portanto, perceberam e admitiram
entre si a vantagem em cada um reprimir sua animalidade natural em prol de
uma mútua convivência pacífica, bem mais útil, produtiva, confortável e segura.
A civilização nasce desse contrato social. Essa nova situação, entretanto, só pode
ser mantida com a existência de um Leviatã (monstro amedrontador e forte) que
se expressa preferencialmente na figura de um rei, comandante autoritário e único
que gera em todos o sentimento generalizado de medo da punição, garantindo
assim a continuidade do estado civil.

A base da moral utilitária de Hobbes sofreu inúmeras críticas, a principal


partiu de Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), filósofo suíço, que via na animalidade
humana não lobos e sim cordeiros. Tais quais cordeiros livres, os homens, no
estado de natureza, vivem em plena felicidade. Foi a civilização que fez com que
muitos cordeiros se tornassem violentos e pensassem ser lobos. A soberania do
Leviatã não é desejável porque além de retirar do homem a sua liberdade natural
impossibilita a construção de uma liberdade civil, que só é possível quando a
vontade geral é soberana. A conquista da liberdade civil estaria na reeducação
por meio de leis "corderiais" que, metaforicamente, fizessem com que os cordeiros
reconhecessem que são cordeiros.

Ainda a respeito da dicotomia lobo/cordeiro, há outras observações


curiosas. Para Frederich Nietzsche (1844-1900), filósofo alemão, a natureza
produz homens-lobos e homens-cordeiros e não podemos ignorar que lobos
estão aparelhados para devorar cordeiros. Quando só restarem lobos, as forças
naturais produzirão superlobos que devorarão antigos lobos numa progressão
infinita de vidas cada vez mais fortes. A moral nietzschiana é a da exuberância da
força e do vitalismo das potências naturais ou super-humanas. É uma moral que
pretende ir além do bem e do mal (se é que isso é possível). Nietzsche afirma que
dicotomia entre bem e mal não passa de invencionice resultante do ressentimento
e da fraqueza dos cordeiros. "Toda moral é [...] uma espécie de tirania contra a
'natureza' e também contra a 'razão'" (NIETZSCHE, 1886, p. 110).

60
TÓPICO 2 — A ÉTICA, VALORES, PRINCÍPIOS E A MORAL NA VIDA COTIDIANA

Michel Foucault (1926-1984) diria que lobos e cordeiros habitam cada um


de nós e ambos teriam desenvolvido estratégias de sobrevivência que tornariam
extremamente complexa a luta entre os dois, uma complexidade tal que o cordeiro,
em determinados momentos, poderia estar sob a condição de ataque. Nesse caso,
a questão moral só poderia ser definida dentro de um contexto muito específico
onde se levariam em conta os sujeitos envolvidos, suas estratégias, suas relações
de poder... Foucault é o criador da microética.

4 A MORAL KANTIANA

A moral kantiana é a concebida por Immanuel Kant (1724-1804), filósofo


prussiano. Sua intuição principal foi que o indivíduo deve estar livre para agir "não
em virtude de qualquer outro motivo prático ou de qualquer vantagem futura,
mas em virtude da ideia de dignidade de um ser racional que não obedece a outra
lei senão àquela que ele mesmo simultaneamente se dá" (KANT, 1785, p. 16). A
ação moral exige a autonomia do agente. Ser autônomo é obedecer a si mesmo
ou ao que vem de dentro. É o inverso do heterônomo (o que obedece a ordem do
outro, obedece ao que vem de fora). Não se pode falar em ética sem autonomia
pois a ação heterônoma (cuja vontade vem de fora) não é uma ação ética. A moral
aristocrática e a utilitarista não são eticamente válidas porque dependem de algo
exterior: a primeira, de ideais transcendentes e a segunda, de ideais imanentes.

Para realizar a autonomia, a ação moral deve obedecer apenas ao


imperativo categórico: o bom senso interior que todos nós temos de perceber
que não somos instrumentos e sim agentes. Nunca instrumentalizar o homem é
a exigência maior do imperativo categórico. Kant fornece uma regra para saber se
uma decisão nossa obedece ou não ao imperativo categórico: indague a si mesmo
se a razão que te faz agir de determinada maneira pode ser convertida em lei
universal, válida para todos os homens. Se não puder, esta tua ação não é digna
de um ser racional, não é eticamente boa porque falta-te a autonomia, estás agindo
premido por circunstâncias exteriores a ti. O bem ético é um bem em si mesmo.

Ao realçar a exigência da autonomia da ação moral, Kant desperta a


questão da liberdade ética. O conceito de liberdade ética parte da distinção
entre ação reflexa e ação deliberada. A ação deliberada é aquela que resulta de
uma decisão, de uma escolha, é o mesmo que ação autônoma. A ação reflexa
é "instintiva", independe da vontade do agente. Apenas as ações deliberadas
podem ser analisadas sob o ponto de vista ético. Voltemos ao exemplo do gato
que morde o homem que lhe pisou a cauda. O gato tentou afastar o que lhe
era um mal, mas não podemos dizer que ele escolheu morder o homem. Logo,
não se pode dizer que o gato agiu de forma imoral ou antiética. A questão da
liberdade ética pode ser assim resumida: Levando-se em conta que somos
animais e ocasionalmente agimos de forma reflexa, em que condições nossa
ação pode ser considerada uma ação deliberada?

61
UNIDADE 1 — FUNDAMENTOS E PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DA ÉTICA

Henri Bergson (1859-1941) e Jean-Paul Sartre (1905-1980) respondem a


essa pergunta de forma radical: O livre-arbítrio é a qualidade que melhor define
o homem. A própria condição humana exige que todo ato humano seja um ato de
escolha, seja uma ação deliberada. O homem está condenado à liberdade porque
nunca pode decidir não escolher. Diante da consciência de que nos vemos forçado
a realizar algo por imposição exterior, passamos a ter liberdade de escolher entre
entregar-se à ação ou ir de encontro a ela.

FONTE: Adaptado de <http://ialexandria.sites.uol.com.br/textos/israel_textos/etica_e_moral.htm>.


Acesso em: 20 jun. 2020.

62
RESUMO DO TÓPICO 2
Neste tópico, você aprendeu que:

• A ética e a moral permeiam em nosso agir perante a sociedade, desde o estudo


do comportamento, até a sua prática real cotidiana das relações humanas e
sociais.
• A ética e a moral estão correlacionadas a uma ciência, um estudo do
comportamento e das normas de conduta.
• A moral retrata nossos costumes e hábitos cotidianos, pois seu caráter é social
e está pautado na história, cultura e natureza dos seres humanos.
• A moral está compreendida como um conjunto de normativas, regras, leis,
regulamentos e princípios, que são instituídos pelo coletivo social, mas
individualizada na consciência dos homens e mulheres que vivem e convivem
em sociedade.
• A moral são princípios comportamentais adquiridos com a herança histórica
da humanidade e preservadas pelas pessoas que vivem em grupos sociais.
• O balanço comparativo entre a ética e a moral demonstrou que as duas estão
amplamente conectadas, mas apresentam sutis diferenças, porque a ética
denota um conceito subjetivo e teórico sobre a consciência das regras sociais,
já a moral se apresenta mais de cunho prático e objetivo, proporcionando uma
tratativa da conduta humana por intermédio de regras e códigos de condutas
socialmente constituídos.
• A ética sempre procurará conhecer as formas das tratativas do bem e do mal
no âmbito holístico, do coletivo social, já a moral busca tratar o agir humano
de forma individualizada, tratando o certo e o errado nos seus regulamentos
e normas institucionalizadas.
• Os seres humanos não nascem com os conhecimentos éticos e postura moral,
eles se tornam éticos no decorrer do seu desenvolvimento intelectual ao longo
de sua história.
• A ética é aprendida pelo estudo do comportamento humano em sociedade, e
a moral necessita ser imposta pelos regramentos sociais de convívio humano.
• A ética é manifestada a partir do interior das pessoas, de sua consciência, já a
moral expressa-se no exterior do indivíduo, na conduta dos seus atos.
• Uma pessoa aética, é um indivíduo que não possui ou é deficiente da
consciência do coletivo, dos atos e costumes gerais do meio em que vive
e convive. Possui insuficiência ou carência da compreensão dos estudos
históricos da composição dos juízos de valores.

63
• Uma pessoa amoral, é um indivíduo que não possui ou é deficiente na forma
que conduz seus atos perante a sociedade que vive e convive, pele simples
fato de lhe faltar a compreensão de como agir perante os regramentos
impostos. Possuindo, assim, insuficiência ou carência na sua forma de agir,
na sua atitude e conduta, na sua aplicação da norma, pois não a compreende.
• Uma pessoa antiética, é um indivíduo que possui argumentos no sentido
contrário da consciência coletiva do que é certo e errado, do que é fazer o
bem ou o mal. Demostrando estar em oposição aos atos e costumes gerais da
sociedade em que está inserido, como também é avesso ao estudo dos juízos
de valores constituído historicamente.
• Uma pessoa imoral, é um indivíduo que não segue as regras de conduta
socialmente constituídas pelo coletivo social, pelo seu livre arbítrio. É fazer,
ser oposto ou querer o contrário das normas. São avessas a qualquer código
de conduta, por consciência de querer contrariá-la.
• Fizemos uma breve discussão da gênese da consciência e do senso moral,
discutindo a questão da necessidade deles no desenvolvimento humano em
sociedade.
• Estudamos a questão da classificação dos estágios da consciência ética e do
julgamento moral dos seres humanos, desvelando e buscando compreender
as etapas e níveis da evolução humana.
• A base dos seis estágios da consciência ética e do julgamento moral dos
seres humanos se encontra na sua fase do desenvolvimento intelectual,
para possibilitar o discernimento e compreensão dos fatos e das coisas,
possibilitando seu empoderamento do intelecto e tomadas de decisão, do que
é certo ou errado, do que é fazer o bem, ou o mal.
• Os seis estágios da consciência ética e moral que foram propostos por Kohlberg
(1981), são:
o Primeiro estágio: medo, punição e obediência: denominado como a fase do
medo, punição e obediência, que está norteada por orientações de obediência,
para, assim, evitar a punição, demostrando que o medo de não obedecer ao
socialmente posto, gera temor do castigo que possa ter, e assim segue com
um comportamento de obediência, pois tem medo de ser descoberto que
possa ter feito algo considerado errado pela sociedade que vive e convive.
o Segundo estágio: recompensa: denominado como a fase da recompensa,
estão pautadas no prazer individual, desprovida de malícia, e na transação
ou negociação de barganha para conseguir o que deseja. Ações única e
exclusivamente para satisfação pessoal. O objetivo desse comportamento é a
reciprocidade restrita em obter uma recompensa.
o Terceiro estágio: aprovação social: denominado como a fase da aprovação
social, demostrando que nas relações interpessoais, buscar ser considerado
uma boa pessoa é um bom negócio, para ter um convívio social pleno e
ser aprovado socialmente. Aqui, procuramos nos orientar pelos valores

64
socialmente constituídos, buscando mantê-los íntegros, conforme as
normativas, regras e legislações vigentes, mas sempre no intuito de agradar
o grupo social a que fazemos parte, não pelo simples fato de seguir as
normas. As ações que agradam o coletivo são consideradas boas, e que o
caráter humano é reconhecido por estes atos compartilhados e positivados
nas relações interpessoais.
o Quarto estágio: manutenção da ordem social: denominado como a fase da
manutenção da ordem social, pois, nesta etapa, o nosso comportamento
social é orientado pelas normas, leis, regras e ordem social. Procura manter os
valores e princípios socialmente constituídos. Aqui, é a manutenção das leis
e normas e o respeito às lideranças que propiciam a promoção do bem-estar
social da população, pois, o importante, aqui, sempre será o cumprimento
da lei e da ordem, cumprindo nossos deveres e obrigações com a sociedade
em que fazemos parte, além de respeitar os processos decisórios de nossos
gestores, pois assim proporcionaremos a promoção do bem-estar social.
o Quinto estágio: proteção do bem-estar coletivo: denominado como a fase
da proteção do bem-estar coletivo, demonstrando que é possível realizar
a mudança normativa, desde que devidamente justificada e legal, quem
está nesta fase, consegue enxergar além das normativas postas, pois
procuram aprimorar o contrato social posto. Aqui, neste estágio, as pessoas
se orientam pela melhoria constante do contrato social e suas normativas
institucionalizadas, procurando o exercício do respeito aos direitos civis,
sociais e individuais, no intuito de protegê-las e verificarem sua eficácia, para
angariar a promoção do bem-estar do coletivo social. As pessoas procuram
ir além do socialmente posto, para poder contribuir a melhoria da qualidade
de vida dos cidadãos, pois entendem que somos todos diferentes.
o Sexto estágio: zelo pelos princípios éticos universais: denominado como
a fase do zelo pelos princípios éticos universais, cujas pessoas se orientam
pelos princípios éticos universais, a qual procuram zelar por esses valores
éticos-morais ao longo da história da humanidade, pois se lembra que a
ética reflete os hábitos e costumes gerais de uma sociedade, suas normativas
e convenções, que fora institucionalizada pelo coletivo social, a moral é a
forma que conduzimos nossos atos perante o outro, ou seja, é a conduta em
si. Assim, somos incitados a zelar por esta consciência dos princípios éticos
e de justiça universais que refletem as nossas condutas na sociedade em que
estamos inseridos.

65
AUTOATIVIDADE

1 A ética e a moral muitas vezes são confundidas em sua definição, mas


tem nuances importantes a serem entendidas pelos profissionais. Todos
precisamos estar cientes que precisamos viver em sociedade e por isso
mesmo precisamos agir de forma moral e termos uma ética a zelar. Sobre
os conceitos de ética e moral, associe os itens, utilizando o código a seguir:

I- Ética
II- Moral.

( ) É a ciência que estuda a moral.


( ) É o conjunto de normas, prescrição e valores reguladores da ação
cotidiana.
( ) É a reflexão sistemática sobre o comportamento moral.
( ) Conjunto de normas e regras reguladoras da relação entre os homens de
uma determinada comunidade.
( ) Retrata nossos costumes e hábitos cotidianos, pois seu caráter é social e
está pautado na história, cultura e natureza dos seres humanos
( ) É a parte da filosofia que trata da reflexão dos princípios universais da
humanidade.

Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA:


a) ( ) I – II – I – II – II – I .
b) ( ) II – I – II – I – I – I .
c) ( ) I – II – II – II – II – I.
d) ( ) II – II – I – I – II – II.

2 Assistimos constantemente nos telejornais situações relacionadas a


descaminhos que diversas pessoas têm na sociedade, como roubos, subornos,
perversões diversas acometidas contra o outrem, situações muitas vezes
corriqueiras em nosso convívio social da vida cotidiana, que nem damos conta,
desvirtuando os preceitos éticos-morais socialmente constituídos. Sobre estes
conceitos, associe os itens apresentados, utilizando o código a seguir:

I - Aético.
II - Amoral.
III - Antiético.
IV - Imoral.

( ) Ausência de ética.
( ) Contrário a ética.
( ) Contrário a moral.
( ) Ausência de moral.

66
Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA:
a) ( ) IV – I – III – II.
b) ( ) II – I – III – IV.
c) ( ) I – III – IV – II.
d) ( ) III – II – I – I V.

67
68
TÓPICO 3 —
UNIDADE 1

A QUESTÃO DA ÉTICA NA ATUALIDADE

FIGURA 14 – DILEMAS ÉTICOS

FONTE: <http://arquidiocesebh.org.br/noticias/etica-entre-o-conhecimento-e-a-acao/amp/>.
Acesso em: 5 nov. 2020.

“Os axiomas éticos são encontrados e testados não muito diferentemente


dos axiomas da ciência. A verdade aparece com o teste da experiência”.
Albert Einstein

1 INTRODUÇÃO
Prezado acadêmico, neste tópico, realizaremos uma reflexão dos dilemas
éticos que vivemos no nosso cotidiano da vida pessoal e profissional, discutindo
a questão da ética na atualidade, perpassando por algumas questões polêmicas
sobre a ética na contemporaneidade, além de fazer algumas reflexões sobre a
ética, a liberdade e o compliance.

Também procuraremos abordar a questão do livre-arbítrio, da escolha


e suas consequências e responsabilidades, para, assim, perceber a liberdade
como uma das capacidades humanas, bem como algumas questões consideradas
polêmicas referentes à ética, como a ética na atualidade, na família, na sociedade
civil e no estado.

Vamos lá, mas antes, reflita!

“Liberdade, essa palavra que o sonho humano alimenta: que não há


ninguém que explica e ninguém que não entenda”.

Cecília Meireles

69
UNIDADE 1 — FUNDAMENTOS E PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DA ÉTICA

2 ALGUMAS QUESTÕES POLÊMICAS SOBRE A ÉTICA NA


CONTEMPORANEIDADE
Acadêmico, neste momento, refletiremos sobre algumas polêmicas e
dilemas éticos na contemporaneidade.

Antes, vejamos o que Valls (2003, p. 70) nos apresenta:


[...] a ética foi reduzida a algo de privado. [...] Ora, nos tempos da
grande filosofia, a justiça e todas as demais virtudes éticas referiam-
se ao universal (no caso, ao povo ou à polis), eram virtudes políticas,
sociais. Numa formulação de grande filosofia, poderíamos dizer que o
lema máximo de ética é o bem comum. E se hoje a ética ficou reduzida
ao particular, ao privado, isto é um mau sinal.

Sob este bem comum, na visão de Valls (2003), estamos saindo das
concepções universais, do todo, para um comportamento individualizado,
privado, centralizando nossas ações aos fatos particulares de nossa vida em
sociedade e não somente no contexto ético-moral universal.

Assim, segundo Pieritz (2013, p. 49-50):


Não se pode esquecer que os valores, os hábitos e os princípios formam
a consciência moral dos seres humanos, e esta consciência moral torna-
se um fator preocupante nos dias de hoje, pois os indivíduos possuem
suas responsabilidades individuais e coletivas perante a sociedade em
que vivem, contudo, muitas vezes, o dever ético respalda muito mais
no indivíduo do que na coletividade, mesmo que os valores éticos
sejam constituídos pela sociedade como um todo.

Denotando, assim, que o ser humano está muito mais preocupado com
seus direitos e deveres individuais, deixando, muitas vezes, o coletivo de lado,
lembre-se de que os princípios éticos-morais foram constituídos pelo coletivo
social a que pertencemos. Assim, o nosso agir individual continua pautado nessas
normativas sociais universais.

Agora, questionamos:

• O que é ter uma vida ética nos dias de hoje?


• Você conhece alguns dilemas éticos?

Antes de responder, vejamos alguns exemplos dos dilemas éticos e


morais que vivenciamos em nossa sociedade nos tempos de hoje:

Dilemas éticos e morais:

• compliance;
• as formas de reprodução humana, como a reprodução assistida;
• o aborto;
• a inteligência artificial;

70
TÓPICO 3 — A QUESTÃO DA ÉTICA NA ATUALIDADE

• a clonagem;
• a corrupção, sonegação;
• a transfusão de sangue nos pacientes de certas religiões;
• o suicídio assistido – eutanásia;
• os alimentos transgênicos, que são geneticamente modificados.
• ter filhos apenas como um meio de ganhar alguma coisa;
• filho órfão já na concepção, por intermédio da reprodução humana além da
vida de um dos pais, a fertilização in vitro;
• a substituição do ser humano pela tecnologia;
• cirurgia robótica;
• terapias alternativas;
• a histerectomia.

Poderíamos estender esta lista de exemplos, mas não é o caso, o importante


é fazer com que você compreenda que a nossa sociedade está permeada por
dilemas éticos-morais, nas mais diversas esferas, e que eles são frutos do livre-
arbítrio das escolhas humanas.

UNI

Convidamos você a fazer um exercício de reflexão!

Atividade: pegue um bloco de anotações e coloque, no mínimo, cinco dilemas éticos e


morais que você possa detectar no seu bairro, município e estado.

Esta atividade é para você poder refletir sobre eles com seus colegas no próximo encontro!

Boa reflexão e debate!

Nesse sentido, Valls (2003, p. 71) expõe que “a liberdade se realiza


eticamente dentro das instituições históricas e sociais, tais como a família, a
sociedade civil e o Estado”. Portanto, possuímos a liberdade de escolher fazer o
certo ou o errado, fazer o bem ou o mal, mas sempre pautados pelos princípios
éticos-morais universais do nosso contexto social. Muitas vezes adentramos num
dilema, indagando-nos a qual caminho devemos seguir?

Compreendemos que um dilema é “uma situação difícil, na qual é preciso


escolher entre duas alternativas contraditórias ou antagônicas ou insatisfatórias”
(FERREIRA, 2008, p. 319). Essas situações de conflito, em que temos que escolher
é realmente um grande dilema ético-moral para a humanidade, pois sempre
teremos vários caminhos a percorrer, mas sempre devemos fazer três indagações
antes de agirmos, como:

71
UNIDADE 1 — FUNDAMENTOS E PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DA ÉTICA

• Eu quero fazer ou não?


• Eu devo fazer ou não?
• Eu posso fazer ou não?

Esses questionamentos ajudarão no posicionamento da nossa postura


ética-moral, colaborando no esclarecimento do dilema das escolhas que podemos
ou devemos fazer.

Vale ressaltar que, nos dilemas das escolhas éticas-morais, perpassam três
questões fundamentais, que são os dilemas dos valores, destinatários e meios.
Vejamos!

• Dilema dos valores: aqui, apresentam-se os conflitos dos valores éticos-


morais, ou seja, as escolhas dos valores éticos, de ser ético ou antiético. Este
é o dilema da escolha de seguir ser leal, de honrar o compromisso, de ser
solidário, tolerante ou não. Ser justo ou injusto. Ser honesto ou desonesto.
Também são os vários caminhos a seguir, por exemplo: honrar o nosso
compromisso de pagar uma conta, uma dívida ou com este mesmo recurso,
colaborar com a melhoria de qualidade de vida de uma família em situação
de vulnerabilidade social, deixando, assim, de cumprir com um compromisso
pessoal para amparar o outro.
• Dilema dos destinatários: são aqueles dilemas e situações difíceis
correlacionadas com as pessoas que irão se beneficiar com a ação da tomada
de decisão, ou não. É relacionada aos agentes envolvidos, cuja situação
conflitante está na escolha do destinatário da ação ou omissão, ou seja, quem
será beneficiado ou prejudicado.
• Dilema dos meios: aqui, o fator gerador da escolha da alternativa contraditória
está única e exclusivamente na maneira de se alcançar o resultado desejado, ou
seja, o meio, mecanismos e instrumentos utilizados para realizar a atividade e
atingir seu fim. Esses meios são classificados por sua validação e legitimidade
ética-moral.

Esses dilemas, concernentes aos valores, destinatários e meios, devem ter


por premissa o coletivo social, ou seja, devem prevalecer os interesses universais
sobre os grupais e individuais, mesmo se as instâncias destes grupos menores
possam ser feridas.

Nesse processo de tomada de decisão individual ou coletiva, ainda temos


mais dois aspectos a compreender, que são os sensos do dever e da importância
da decisão a ser tomada:

• Senso do dever: denota uma ética relacionada ao cumprimento dos deveres,


tarefas e obrigações, ou seja, a consciência do dever de fazer ou não fazer
alguma coisa.
• Senso da importância: transmite uma ética permeada pelo seu desígnio,
propósito e razão, denotando para que resultados queremos ter com nossa
ação ou omissão, e qual a importância desses resultados para a vida cotidiana.
72
TÓPICO 3 — A QUESTÃO DA ÉTICA NA ATUALIDADE

Assim, os sensos do dever e da importância da decisão a ser tomada são


muito importantes nessa discussão dos dilemas éticos-morais que vivenciamos
o tempo todo, para podermos mediar o nosso comportamento nas relações
humanas e sociais.

2.1 OS DILEMAS NO ÂMBITO DA FAMÍLIA


Agora, realizaremos uma breve reflexão de algumas questões polêmicas
sobre a ética na contemporaneidade no âmbito da família, oferecendo um
momento para retratar as situações difíceis e algumas indagações que permeiam
em nossa sociedade contemporânea.

Iniciaremos essa discussão a partir de alguns questionamentos, vejamos!

QUADRO 14 – INDAGAÇÕES REFLEXIVAS SOBRE A FAMÍLIA

INDAGAÇÕES REFLEXIVAS SOBRE A FAMÍLIA

Em relação à família, hoje se colocam de maneira muito aguda as questões das


exigências éticas do amor.

O amor não tem de ser LIVRE?


O que dizer então da noção tradicional do amor livre?
Ele é realmente livre?

E como definir, hoje, o que seja a VERDADEIRA FIDELIDADE, sem identificá-


la como formas criticáveis de possessividade masculina ou feminina?

Como fundamentar, a partir dos progressos das ciências humanas, os


compromissos do amor, como se expressam na resolução (no sim) matrimonial?

E como desenvolver uma nova ética para as novas formas de relacionamento


heterossexual?

E como fundamentar hoje as preferências por formas de vida celibatária, casta


ou homossexual?

Fonte https://www.cubatel.com/blog/actualidad/cuando-llegara-el-nuevo-codigo-de-familia-
-a-cuba/
FONTE: Adaptado de Valls (2003, p. 71)

73
UNIDADE 1 — FUNDAMENTOS E PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DA ÉTICA

São tantas indagações, certo!

Pois bem! É assim mesmo! Já que estamos em constantes transformações


humanas e sociais e essas mudanças refletem diretamente na relação entre pais e
filhos e nas composições e configurações das novas estruturas familiares.

Não trataremos das configurações familiares aqui, pois a intensão é


somente demostrar que existe uma série de dilemas e indagações inerente à própria
existência do homem na terra, principalmente nas suas relações intrafamiliares.

Neste contexto, podemos observar que:


As transformações histórico-sociais exigem, hoje, igualmente
reformulações nas doutrinas tradicionais éticas sobre o relacionamento
dos pais com os filhos. Novos problemas surgiram com a presença
maior da escola e dos meios de comunicação na vida diária dos filhos.
As figuras tradicionais, paterna e materna, não exigem, hoje, uma nova
reflexão sobre os direitos e os deveres dos pais e dos filhos? Em especial,
a reflexão sobre a dominação das chamadas minorias sociais chamou a
atenção para a necessidade de novas formas de relacionamento dentro
do próprio casal. O feminismo, ou a luta pela libertação da mulher,
traz em si exigências éticas, que até agora não encontraram talvez as
formulações adequadas, justas e fortes. A libertação da mulher, a
libertação de todos os grupos oprimidos, é uma exigência ética, das mais
atuais. E, como lembraria Paulo Freire, em seu Pedagogia do Oprimido,
a libertação não se dá pela simples troca de papéis: a libertação da
mulher liberta igualmente o homem (VALLS, 2003, p. 72).

Assim, pode-se perceber que os valores e princípios éticos e morais vão


sendo renovados e reconfigurados conforme a própria evolução humana na terra,
pois a humanidade vem se transformando ao longo da sua história.

DICAS

Convidamos você a compreender mais essas novas configurações familiares.


Nesse sentido, procure pesquisar sobre o tema e leve os resultados de sua pesquisa para o
seu próximo encontro de sua turma.

No entanto, procure debater esse assunto à luz dos princípios éticos e morais já estudados.

2.2 REFLEXÕES SOBRE A SOCIEDADE CIVIL


O objetivo, aqui, é fazer algumas reflexões polêmicas da ética-moral do
dia a dia da sociedade civil, aprofundando o conhecimento acerca dos dilemas
concernentes ao mundo do trabalho e à propriedade.

74
TÓPICO 3 — A QUESTÃO DA ÉTICA NA ATUALIDADE

Nesse sentido, Valls (2003, p. 72) expõe o seguinte:


Como falar de ética num país onde a propriedade é um privilégio
tão exclusivo de poucos? E não é um problema ético a própria falta
de trabalho, o desemprego, para não falar das formas escravizadoras
de trabalho, com salários de fome, nem da dificuldade de uma
autorrealização no trabalho, quando a maioria não recebe as condições
mínimas de preparação para ele, e depois não encontram, no sistema
capitalista, as mínimas oportunidades para um trabalho criativo e
gratificante? Num país de analfabetos, falar de ética é sempre pensar
em revolucionar toda a situação vigente.

Pieritz (2013, p. 51) expõe que nesse contexto se faz “necessário algumas
reformas políticas e éticas, no que tange às regras de conduta referente ao
modo de aquisição da propriedade e do trabalho. Essa reforma deve partir da
reformulação dos nossos princípios morais e éticos e através da vontade política
de nossos governantes”.

Ainda, segundo Valls (2003, p. 73):


Crítica atual insiste muito mais, agora, sobre a injustiça que reside no fato
de só alguns possuírem os meios da riqueza, e a crítica à propriedade se
reduz sempre mais apenas aos meios de produção. [...] A propriedade
particular aparece agora, nas doutrinas éticas, principalmente como
uma forma de extensão da personalidade humana, como extensão
do seu corpo, como forma de aumentar sua segurança pessoal, e de
afirmar a sua autodeterminação sobre as coisas do mundo.

DICAS

Prezado acadêmico, convidamos-lhes a compreender mais essas novas


configurações do mundo do trabalho e suas relações trabalhistas. Assim, procure
pesquisar os dilemas profissionais da profissão que você está exercendo hoje, e leve os
resultados de sua pesquisa para o próximo encontro de sua turma.

Contudo, procure debater esse assunto à luz dos princípios éticos e morais já estudados.

2.3 PONDERAÇÕES SOBRE OS DILEMAS DO ESTADO


Proporcionaremos, agora, uma reflexão de algumas questões polêmicas
sobre o comportamento ético-moral na contemporaneidade relativo ao Estado.
O Estado denota “ser muito mais complexo, pois os ideais políticos são um tanto
mais complicados de se compreender” (PIERITZ, 2013, p. 51).

Sobretudo, quando abordamos da questão liberdade. De acordo com Valls


(2003, p. 74):

75
UNIDADE 1 — FUNDAMENTOS E PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DA ÉTICA

[...] a liberdade do indivíduo só se completa como liberdade do cidadão


de um Estado livre e de direito. As leis, a Constituição, as declarações
de direitos, definição dos poderes, a divisão destes poderes para evitar
abusos, e a própria prática das eleições periódicas aparecem hoje como
questões éticas fundamentais. Ninguém é livre, numa ditadura [...].

Assim, indaga-se: qual é a função do Estado?

Valls (2003, p. 75) complementa expondo que “os Estados que existem de
fato são a instância do interesse comum universal, acima das classes e dos interesses
egoístas privados e de pequenos grupos. [...] Em outras palavras, o Estado real
resolve o problema das classes, ou serve a um dos lados, na luta de classes?”.

3 REFLEXÕES SOBRE A ÉTICA E LIBERDADE


Primeiramente, gostaríamos de contar a história A águia e a galinha, uma
adaptação da fábula contada por Leonardo Boff no livro a Águia e a galinha.

A ÁGUIA E A GALINHA

Numa tarde sonolenta de verão, voltava um criador de cabras do alto


de uma planura verde. Quando passava ao pé de uma montanha, encontra
um ninho de águias todo estraçalhado. Semicoberta por gravetos, havia uma
jovem águia ferida na cabeça, parecia morta. Era uma águia-harpia brasileira,
ameaçada de extinção no Brasil.

Recolheu a águia com cuidado e pensou em levá-la ao seu vizinho, que


empalhava animais. Ele ficou admirado por se tratar de uma águia-harpia.
Também supôs que estivesse morta e a colocou ternamente debaixo de uma cesta.

Na manhã seguinte, teve grata surpresa. Percebeu que a águia mexia


levemente. Havia feridas em várias partes do corpo e a águia estava cega.

Sentiu muita pena da jovem águia. Por misericórdia, quase quis sacrificá-
la. Até encontrava razões para isso, visto que matam muitos animais pequenos,
especialmente macacos, preguiças, lebres e patos. Sabia que, na Austrália, as
águias são mortas às centenas por serem prejudiciais aos cangurus e outros
animais pequenos.

Pensou muito, mas lembrou-se da tradição espiritual de Buda e veio-lhe


à mente: “escolha a vida e viverá”.

76
TÓPICO 3 — A QUESTÃO DA ÉTICA NA ATUALIDADE

Por todos esses argumentos, decidiu preservá-la e tratá-la com carinho.


Todo dia partia-lhe pedaços de pão e carne e a alimentava com dificuldade.
Depois de um ano, começou a perceber que os sentidos despertavam para a
vida. Primeiro os ouvidos. Depois, começou a se mover por si mesma. Andava
pela sala e pelo jardim. Recuperou sua voz, mas continuava cega. Os olhos são
tudo para uma águia. Seu olhar vê oito vezes mais que o olho humano.

Por fim, o empalhador decidiu colocá-la junto às galinhas. Durante dois


anos circulava cega entre elas. Andava com dificuldade, pois suas garras não
foram feitas para andar. Eis que um dia, a águia começou a enxergar. Depois de
três anos de paciente cuidado, ela recuperara seu corpo de águia, porém, vivia
como uma galinha.

Certo dia, um casal de águias passou por ali. Deu voos rasantes. Ao
perceber as águias no céu, a águia-galinha espalmava as asas e sacudia a cauda.
Seu coração de águia voltava a pulsar aos poucos.

Passado algum tempo, o empalhador recebeu a visita de um naturalista,


que ficou perplexo ao ver a águia-galinha. Decidiram fazer um teste. O
empalhador colocou-a no braço e falou-lhe:

— Águia, nunca deixará de ser águia, estenda suas asas e voe. Vendo
as galinhas, a águia deixou-se cair pesadamente. Fizeram nova tentativa, no
terraço de sua casa, mas não funcionou.

Aí ambos se lembraram da importância do sol para uma águia e a


levaram no alto da montanha, de frente para o sol. O empalhador sustentou
fortemente a águia sob o olhar confiante do naturalista e disse:

— Águia, você é amiga da montanha, filha do sol, eu lhe suplico:


desperte de seu sono! Revele sua força interior. Abra suas asas e voe para o alto!

A águia ergueu-se soberba sobre o próprio corpo, abriu as longas asas,


esticou o pescoço e alçou voo. Voou na direção do sol nascente. Voou até fundir-
se no azul do firmamento.

FONTE: BOFF, L. A águia e a galinha. In: TOMELIN, J. F.; TOMELIN, K. N. Do mito para a razão:
uma dialética do saber. 2. ed. Blumenau: Nova Letra, 2002. p.129-130.

Nesta história da águia e a galinha, podemos verificar que a vida é feita


de escolhas, e elas nos conduzirão para o nosso destino, mas a essência humana
fala mais alto, ou seja, os valores e princípios éticos e morais são os nossos guias
de comportamento e são eles que revelam a nossa força interior.

77
UNIDADE 1 — FUNDAMENTOS E PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DA ÉTICA

Caro acadêmico, faça como a águia, abra suas asas e voe para o alto! Tenha
seu livre-arbítrio em suas escolhas! Compreendendo seus princípios éticos-
morais para ter um comportamento socialmente condizente com os preceitos
preestabelecidos.

Afinal, o que é esta tal liberdade?

QUADRO 15 – O QUE É LIBERDADE?

O que é a liberdade?
Luísa Guimarães

Liberdade é um conceito encarado


com bastante controvérsia. Um assunto que
é discutido por muitos, os quais procuram
uma resposta que parece inalcançável.
Sempre foi, é, e penso que sempre será,
uma das maiores questões da humanidade.
Somos livres ou é uma mera ilusão? Temos
limites e o outro tem limites?

Todos procuramos a liberdade, sendo que a falta desta apresenta uma das mais
temíveis ameaças. Será que somos realmente livres?

O livre arbítrio é um apelo a essa liberdade, que se traduz no direito de agir


de segundo própria vontade, na sensação de não depender de ninguém e no prazer
de poder escolher, analisando antes as hipóteses que se encontram ao nosso dispor e
ponderando sobre a nossa decisão final.

Este é um tema que, mesmo podendo não parecer, é bastante complexo, até para
alguns filósofos. Ninguém aparenta ter a capacidade para responder à “simples” questão:
O que é a liberdade? uma pergunta intrigante que revela a complexidade de toda uma
realidade com a qual não estamos habituados a conviver. Quando fazemos este tipo de
questões a nós próprios, apercebemo-nos de que talvez não prestemos a devida atenção
à maioria dos assuntos que nos rodeiam, dos mais simples aos mais labirínticos e, por
vezes, desprezamo-los quando, na verdade, podem ser dos mais importantes.

A liberdade está intimamente relacionada com a Ética uma vez que, agindo
livremente, nós devemos ser responsabilizados pelos nossos atos e por isso devemos
comportarmo-nos, em sociedade, da melhor forma para que ninguém seja prejudicado.

Este é um assunto que deve ser discutido por todos nós para que possamos ter
um contacto mais cuidado e atento com as diferentes realidades que dão vida ao nosso
mundo e para que possamos entender o outro e agir da melhor forma.
FONTE: <https://osraciociniosdeninguem.blogspot.com/2019/04/o-que-e-liberdade_22.html>.
Acesso em: 25 jun. 2020.

Assim, compreendemos que a liberdade é uma capacidade humana de


tomar decisões perante os grupos sociais a que pertencemos, pois, segundo
Pieritz (2013, p. 52):
78
TÓPICO 3 — A QUESTÃO DA ÉTICA NA ATUALIDADE

Devemos sempre partir do princípio de que a ética denota regras,


normas e responsabilidades, mas também não podemos esquecer que
a ética é um espaço de reflexão sobre a nossa vida cotidiana. Esta vida,
que está pautada nos alicerces da moral humana em sociedade, deve
também supor que todos os homens sejam livres.

A partir disso tudo, o que é liberdade?

QUADRO 16 – LIBERDADE

FONTE: <https://bit.ly/36ztu13>. Acesso em: 18 nov. 2020.


A LIBERDADE é:
• A capacidade de determinar.
• A posse das próprias faculdades.
• Poder agir segundo próprio discernimento.
• É o direito de fazer tudo quando quanto as leis permitem.
• A obediência à lei que nós mesmos nos prescrevemos.
• A faculdade de só obedecer a leis externas às quais pude dar o meu
assentimento.
• A segurança tranquila no exercício do direito.
FONTE: Adaptado de Cunha (2011, p. 185)

Pieritz (2013, p. 52) complementa expondo que:


Quantas vezes tivemos o sentimento de estarmos presos, ou seja,
não tendo liberdade para fazer aquilo que realmente desejamos;
ou simplesmente poder escolher entre uma ou mais opções; ou
ainda sentir-se livre para querer realizar as nossas mais subjetivas
necessidades, tais como: escolher uma boa comida, comprar aquela
roupa desejada, fazer aquele curso desejado e não imposto pela família
ou sociedade, andar de bicicleta, fazer um esporte etc.

Nesse contexto, observemos, no Quadro 17 e no texto a seguir, alguns


aspectos importantes referentes à liberdade e às concepções da ética:

79
UNIDADE 1 — FUNDAMENTOS E PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DA ÉTICA

QUADRO 17 – CONCEITO DE ÉTICA

FONTE: <https://bit.ly/36ztu13>. Acesso em: 18 nov. 2020.


A ÉTICA é:
• A moral individual ou subjetiva, por oposição à moral social.
• A filosofia da moral.
• É a ciência cujo objeto é a moral.
• O ramo do conhecimento cuja finalidade é estabelecer os melhores critérios
para o agir.
FONTE: Adaptado de Cunha (2011, p. 140)

Vejamos, agora, uma breve leitura sobre a liberdade e a ética.

Boa leitura!

Liberdade e ética

Liberdade e ética, binômio fascinante. A mentalidade medíocre vê


apenas uma face do ser humano. A mentalidade sábia vê o ser humano em
todos os seus aspectos. A mediocridade é disjuntiva: liberdade ou ética, ética ou
liberdade. A sabedoria é conjuntiva: liberdade com ética é ética com liberdade. A
visão estreita fragmenta o ser humano. A visão ampla é arquitetônica. Engloba
liberdade e ética.

Liberdade e ética possuem reciprocidade positiva. Intercomunicam-


se e se interfecundam. A liberdade acelera a ética e a ética tonifica a liberdade.
Interligadas, estimulam a “mútua criação”.

A ética pressupõe a liberdade. A pedra, a planta, o animal e o


homem coagido não exercem ato ético, porque não dispõem de liberdade
para a atividade ética. Por outra parte, sem ética, a liberdade pode adotar
procedimentos tortuosos. A liberdade requisita referenciais éticos para mover-
se com legitimidade. A ética oferece balizas aos passos livres. Valores éticos
são flechas que apontam rumos à liberdade. A ética sinaliza trânsito aberto ou
fechado para a arrancada da liberdade.

Liberdade e ética não são infalíveis. Podem tropeçar no percurso da


vida. Estão sujeitas a falhas e a deformações. O eticismo é vazio de sentido.
O autoritarismo ético veta inovações. A ética negativa proíbe iniciativas

80
TÓPICO 3 — A QUESTÃO DA ÉTICA NA ATUALIDADE

construtivas e condena atitudes lícitas. O fundamentalismo ético revela


rigorismo patológico. Por outra parte, o libertarismo torna ilimitável pretensões
abusivas da liberdade. E não leva em conta a liberdade e os direitos dos outros.
Também a liberdade pode ensandecer na irracionalidade.

A ética ditatorial avisa: “Aqui mando eu”. E a liberdade destemperada


ameaça: “Sou livre e faço o que quero”. Ora, a ética tem a função de encaminhar
a liberdade, e não de bloqueá-la arbitrariamente. E, por sua vez, a liberdade nem
sempre pode justificar-se a si mesma, porque acerta, mas também desacerta.
Não basta ser livre para ter o direito de fazer tudo o que é executável. Com
liberdade fazem-se maravilhas, mas também se faz o pior. Se bastasse ser livre
para agir retamente, então matar com liberdade, estuprar com liberdade e
rapinar dinheiro público com liberdade seriam procedimentos legítimos, mas
são execráveis. Apesar de livres, são totalmente imorais. Pico della Mirandola,
protagonista do “humanismo orgulhoso”, confessa que se pode fazer “uso
funesto da livre escolha”. Todo ser humano honesto reconhece que o direito à
liberdade não sanciona ações criminosas praticadas livremente.

Sartre mostra que a liberdade é inerente ao ser humano. E, ao mesmo


tempo, aponta o caráter ético da liberdade ao escrever que o “homem é livre
porque, lançado no mundo, é responsável por tudo quanto fizer”. A liberdade
possibilita a ética, e a ética salvaguarda a liberdade. Liberdade madura não
dispensa a ética, e ética lúcida não amordaça a liberdade. O sujeito humano
unifica, em si, liberdade e ética. Não se deve divorciá-las. Há que mantê-las
organicamente articuladas.

Orientar eticamente a liberdade não é aprisioná-la, mas consolidá-la.


O mundo atual pede mais liberdade e mais ética. Juntas, contribuem para
que a humanidade seja autônoma e justa. Sem liberdade, a humanidade é
submetida à escravidão. E, sem ética, é submetida a crueldades repugnantes.
Rousseau diz que “só a liberdade moral torna o homem senhor de si mesmo”. A
humanidade, quanto mais livre, deve ser mais ética. E quanto mais ética, deve
ser mais livre. E concretizemos, com o pensamento e as mãos, a utopia de uma
nova humanidade livremente ética e eticamente livre.

“O que mais irrita um tirano é a impossibilidade de pôr a ferros também o


pensamento do homem”.
Poul Volarey.
FONTE: Adaptado de <http://www.qir.com. br/?p=6180>. Acesso em: 18 nov. 2020.

De acordo com Pieritz (2013, p. 54):


Sabemos que todos os homens necessitam de liberdade. Os animais
também precisam dela. A liberdade pode ser entendida como um
processo de poder fazer escolhas. Estas escolhas devem ser sempre
pautadas sobre os nossos princípios morais e éticos, para que, assim,
não possamos prejudicar os outros.

81
UNIDADE 1 — FUNDAMENTOS E PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DA ÉTICA

Barroco (2000, p. 54) complementa expondo que:


A liberdade como capacidade humana é, portanto, o fundamento de
ética. Assim, agir eticamente, em seu sentido mais profundo, é agir
com liberdade, é poder escolher conscientemente entre alternativas,
é ter condições objetivas para criar alternativas e escolhas. Por sua
importância na vida humana, a liberdade é também um valor, algo
que valorizamos positivamente, de acordo com as possibilidades
de cada momento histórico. Por tudo isso, podemos perceber que a
liberdade é também uma questão ética das mais importantes, pois
nem todos os indivíduos sociais têm condições de escolher e de criar
novas alternativas de escolha.

Nesse contexto, Pieritz (2013, p. 54) expõe ainda que:


O formato da vida em que estamos inseridos demonstra a situação
de que os homens estão sempre tomando decisões sobre onde, como,
para onde, o que estão fazendo ou vão realizar. A nossa própria
existência pode ser considerada instável e incerta, porque mudamos
de opinião o tempo todo. O mundo está em constante transformação
e, por consequência, os nossos hábitos e costumes também, devido ao
fato de que os seres humanos estão o tempo todo em movimento.

Segundo Pieritz (2013, p. 54), “não sabemos se choverá amanhã ou fará sol,
não sabemos realmente o que pode acontecer no dia seguinte e nem o caminho
que vamos tomar daqui para frente”.

De acordo com Tomelin e Tomelin (2002, p. 128):


Posso existir se constitui a cada dia, pois o homem não é algo pronto e
acabado, é um ser em movimento e que tem possibilidades de escolha. O
nosso existir revela uma escolha. Uma escolha de nossos pais, ao terem
um filho e uma escolha nossa, de optarmos todos os dias pela vida.

Ainda, de acordo com Pieritz (2013, p. 54):


Podemos compreender que somos livres, temos o poder de escolha
entre as inúmeras possibilidades que o universo nos proporciona.
Só que não podemos esquecer que toda escolha denota uma
responsabilidade, não vivemos isolados, mas numa sociedade e,
perante ela, podemos, de certa maneira, influenciar os outros conforme
as nossas próprias escolhas.

Vale ressaltar que toda escolha que fazemos determinará a nossa própria
existência junto ao grupo social que fazemos parte.

Por fim, de acordo com Pieritz (2013, p. 55):


A moral, por meio das normas de conduta, determina como devemos
agir perante a sociedade em que vivemos. E se devemos agir deste modo,
conforme as diretrizes morais e éticas, é porque existe a possibilidade de
as pessoas fazerem o contrário, ou seja, não agirem conforme as normas
de conduta preestabelecidas pela sociedade. [...] Temos a liberdade
de escolha, pois muitas vezes nos indagamos se realmente devemos
obedecer ou não a estas regras, pois cabe a cada um de nós decidirmos o
que é certo ou errado, o que é fazer o bem ou o mal. É claro, esta decisão
deve ser tomada à luz de nossos valores e princípios éticos, que foram e
são constituídos pela sociedade como um todo.

82
TÓPICO 3 — A QUESTÃO DA ÉTICA NA ATUALIDADE

LEITURA COMPLEMENTAR

Prezado acadêmico, para encerrar a Unidade 1, trazemos uma leitura


complementar sobre o compliance, aqui, está apenas uma síntese, um extrato
do artigo completo estará disponível para você, quando estudares o Estudo
Transversal VI – Compliance.

Boa Leitura!

Msc. Dra. Vera Lucia Hoffmann Pieritz

Compliance é um termo que tem tido grande repercussão nos últimos anos,
principalmente pelos fatos que têm ocorrido nos meios políticos e com as suas
relações com as empresas. O termo Compliance possui a sua origem do inglês do
verbo to comply, que conforme o Dicionário Collins define, é agir conforme ou
de acordo com uma regra definida, uma norma interna, um comando ou uma
instrução passada.

Os princípios e ideias-bases do compliance surgem com a evolução da


sociedade moderna e a industrialização, e esses princípios foram amadurecendo
conforme surgiam casos/escândalos que chocavam a comunidade ou, ainda, por
questões políticas relacionadas a controles necessários para o bem-estar da população.

Conforme destacado por Ribeiro e Diniz (2015, p. 87), compliance tem como
o âmbito o foco empresarial e é uma expressão que se volta para as “ferramentas
de concretização da missão, da visão e dos valores de uma empresa”. As autoras
ainda complementam que “Não se pode confundir o Compliance com o mero
cumprimento de regras formais e informais, sendo o seu alcance bem mais amplo”.

Conforme a ABBI – FEBRABAN (2019), um dos primeiros documentos que


iniciou a ideia de programas de Compliance teve sua origem nos Estados Unidos, no
ano de 1913, quando fora criado o Federal Reserve System (Banco Central dos EUA),
o qual teve como foco principal desenvolver um sistema financeiro mais estável,
seguro e adequado às leis americanas, evitando assim fraudes no sistema bancário.

83
UNIDADE 1 — FUNDAMENTOS E PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DA ÉTICA

Com a promulgação no congresso Brasileiro da Lei nº 12.846/2013 (Lei


Anticorrupção Empresarial – também conhecida como LAC), o termo Compliance
vem sendo mais utilizado por nós, brasileiros, e somente mais recentemente devido
aos problemas de escândalos em nível político, que gerou como consequência
uma nova visão jurídica tanto em nível empresarial como político, gerando
uma conscientização para uma nova realidade jurídica nacional de repressão à
corrupção.

Apesar dessa nova empreitada empresarial e jurídica, vimos o Compliance


amadurecendo no país de forma consistente há alguns anos, com as agências
reguladoras, Banco Central e leis criadas para regular questões nos mais variados
âmbitos e que trabalham para proteger a população, as empresas e os integrantes
dos governos sobre a égide da ética e boa governança das ações como um todo.

Para controlar e gerir todas essas questões legais e desenvolver a política


de compliance nas organizações, elas têm desenvolvido o conceito de Governança
Corporativa e a sua eficiência deve se basear:
[...] numa análise criteriosa da adequação dos processos, da cultura
e da disciplina organizacional, recursos humanos e tecnologia, e
na aplicação de controles rigorosos, preventivos e detectivos no
gerenciamento dos Riscos. Deve pautar-se, ainda, em uma atuação
conjunta com os gestores na avaliação, gestão e monitoração dos
mecanismos de medição de informações de desempenho (ABBI –
FEBRABAN, 2019, p. 8).

Conforme Perez e Brizoti (2016), ABBI – Febraban (2019), Ribeiro e Diniz


(2015), ao desenvolver uma política de compliance, a organização trabalha o dever
de respeitar, de estar em conformidade (conforme terminologia utilizada na ISO
9000 e em meios jurídicos) para fazer cumprir por todos os seus funcionários e
colaboradores tanto os regulamentos internos da organização, como os externos,
leis e diretrizes de mercado que podem ser uma regulação – fiscal-financeiro-
contábil, sempre com transparência e ética, conforme são os preceitos determinantes
às atividades em que a organização empresarial desenvolve os seus trabalhos.

Temos diversas referências que citam as principais leis, normas e


regulamentos, que um compliance deve se basear dependendo da área de ação
da organização. Assim, as principais são apresentadas no Quadro 1.

QUADRO 1 – EXEMPLOS DE POLÍTICAS, NORMAS INTERNAS, LEIS PARA REFERÊNCIA AO


COMPLIANCE

Políticas e Normas internas – produzidas pela organização:


• Códigos de Conduta.
• Política de Segurança Corporativa.
• Normas Internas.
• Normas ISSO.
• Termos de Responsabilidade.

84
TÓPICO 3 — A QUESTÃO DA ÉTICA NA ATUALIDADE

• Termos de Confidencialidade.
• Termos de Aceitação e Uso.
• Políticas de Responsabilidade Social e Ambiental etc.

Legislação Nacional e Regulamentar – Leis, Decretos, Portarias, Resoluções,


Instruções Normativas, Pareceres:
• Lei Anticorrupção Brasileira (12.846/2013).
• Lei de Acesso à Informação (Lei nº 12.527/2011).
• Lei de Conflito de Interesses (Lei nº 12.813/2013).
• Lei das Estatais (Lei nº 13.303/2016).
• Lei das S.A. (6.404/1976).
• Código de Processo Civil (13.105/2015).
• Código Civil (10.406/2002).
• Lei de Informática e Automação (8.248/1991).
• Lei do Desenvolvimento e Inclusão Social (13.146/2015).
• Leis e normas que regulamentam Condomínios residenciais e comerciais etc.

Regulação de Mercado Nacional e Internacional:


• Código de Melhores Práticas de Governança Corporativa do IBGC.
• Instruções Normativas da CVM (Comissão de Valores Mobiliários).
• Instruções Normativas da RFB (Receita Federal Brasileira).
• Instruções Normativas Setoriais (ANS, ANSINE, IBAMA, INSS etc.).
• Código Brasileiro de Autorregulamentação Publicitária CONAR.
• Práticas exigidas, baseadas na Lei Norte-Americana FCPA (Foreign Corrupt
Practices Act) anticorrupção.
• Diretrizes da OCDE sobre governança corporativa para empresas de
controle estatal etc.

Normativas Técnicas Nacionais e Internacionais – produzidas por Entidades


e Institutos:
• Normas Técnicas ABNT NBR – ISO/IEC e as internacionais.
• Norma IFRS (International Financial Reporting Standards) para práticas de
contabilidade em padrão internacional.
• Norma COPC® (Metodologia para gestão de Call Center).
• Padrão Normativo MPS-br (Modelo para qualidade definido como
“Melhoria de Processos do Software Brasileiro” – baseado nas normas ISO/
IEC 12207 e ISO/IEC 15504 e compatível com o CMMI).
• Padrão PMBOOK (Project Management Body of Knowledge): guia baseado
em um conjunto de práticas para a gestão de projetos, organizado pelo
instituto PMI.
• Padrão PCI DSS (Payment Card Industry Data Secutity Standart) é um
amplo requerimento para quem opera cartões de crédito.

85
UNIDADE 1 — FUNDAMENTOS E PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DA ÉTICA

• Requisitos Normativos BM&FBOVESPA Supervisão de Mercados


(BSM).
• Padrão Normativo CERFLOR para manejo florestal (CERFLOR conta com
acervo normativo, e utiliza normas internacionalmente aceitas como as
Diretrizes para auditorias de sistema de gestão (ABNT NBR ISO 19011):
• NBR 14789:2012 – Manejo Florestal – Princípios, Critérios e Indicadores
para Plantações Florestais.
• NBR 14790:2014 – Manejo Florestal – Cadeia de Custódia (baseada na PEFC
ST 2002:2013).
• NBR 14792 – NBR 14793:2008 – NBR 15789:2013 – NBR 16789:2014 – NBR
15753:2009 – NBR 17790:2014 etc.
FONTE: Adaptado de Perez e Brizoti (2016, p. 9 -11)

Como você pôde ver no Quadro 1, são muitos os marcos legais nos quais
uma organização precisa se aprofundar para desenvolver o setor de Compliance, e
esse quadro só traz uma amostra para o seu conhecimento ao iniciar a trabalhar,
se esse for o seu caso.

Assim, o desenvolvimento do compliance dentro das organizações


empresariais deve envolver todos os seus funcionários e gestores para
desenvolverem um trabalho ético e reto, mas nessa visão está claro que o exemplo
precisa vir de cima, dos diretores e executivos das empresas, como também
ressalta a responsabilidade apregoada na lei anticorrupção.

Com relação aos controles internos e à estrutura da organização, Peres e


Brizoti (2016, p. 11) descrevem:
A Estrutura da Organização (EO) deve apresentar quatro categorias de
objetivos, o que permite às organizações se concentrar em diferentes
aspectos dos controles internos (CI), como segue:
Segurança – Esse aspecto está relacionado aos processos operacionais,
de divulgação e de conformidade, promovendo a avaliação contínua
de riscos e sua gestão, nas medidas preventivas de proteção, dos
ambientes corporativos, das tecnologias empregadas, da segurança das
informações, dos recursos humanos e na manutenção da continuidade
dos negócios para a perenidade da organização.
Operacional – Esse aspecto relaciona-se à eficácia e à eficiência das
operações da empresa, inclusive as metas de desempenho financeiro e
operacional e a salvaguarda de perdas de ativos.
Divulgação – Esse aspecto relaciona-se a divulgações financeiras e
não financeiras, internas e externas, podendo abranger os requisitos
de confiabilidade, oportunidade, transparência ou outros termos
estabelecidos pelas autoridades normativas, órgãos normatizadores
reconhecidos, ou às políticas internas da organização.
Conformidade – Esse aspecto relaciona-se ao cumprimento de leis,
normas e regulamentações às quais a organização está sujeita.

86
TÓPICO 3 — A QUESTÃO DA ÉTICA NA ATUALIDADE

Logo, o compliance deve ser trabalhado constantemente para mitigar


futuros problemas devido a possíveis desvios que possam ocorrer, e em grandes
organizações, mesmo os pequenos desvios podem gerar prejuízos enormes em
diversas frentes para o negócio.

A Gestão de Compliance, trabalhando em conjunto com as outras áreas


da organização, formam os pilares da Governança Corporativa, bem como um
Sistema de Controles Internos e externos efetivos desenvolvem um sistema
robusto de compliance empresarial, dando maior segurança jurídica ao negócio.

Podemos concluir que o desenvolvimento das práticas de Compliance


permitem que as organizações, conforme expresso por Peres e Brizoti (2016),
permite identificar de forma proativa os possíveis desvios operacionais e de
conduta humana, permitindo assim serem corrigidos, de modo que sejam
minimizados os impactos no negócio, seja por perda de tempo, falhas em
processos, desvios financeiros e, principalmente, de imagem no mercado.

FONTE: PIERITZ, V. L. H. Compliance. Indaial: Uniasselvi, 2020.

87
RESUMO DO TÓPICO 3
Neste tópico, você aprendeu que:

• Estamos saindo das concepções universais, do todo, para um comportamento


individualizado, privado, centralizando nossas ações aos fatos particulares
de nossa vida em sociedade e não somente no contexto ético-moral universal.

• O ser humano está muito mais preocupado com seus direitos e deveres
individuais, deixando, muitas vezes, o coletivo de lado, mas lembre-se de
que os princípios éticos-morais foram constituídos pelo coletivo social a
que pertencemos e assim, o nosso agir individual continua pautado nessas
normativas sociais universais.

• Alguns exemplos dos dilemas éticos e morais que vivenciamos em nossa


sociedade nos tempos de hoje, tais como: compliance; as formas de reprodução
humana, como a reprodução assistida; o aborto; a inteligência artificial; a
clonagem; a corrupção, sonegação; a transfusão de sangue nos pacientes de
certas religiões; o suicídio assistido – eutanásia; os alimentos transgênicos, que
são geneticamente modificados; ter filhos apenas como um meio de ganhar
alguma coisa; filho órfão já na concepção, por intermédio da reprodução
humana além da vida de um dos pais, a fertilização in vitro; a substituição
do ser humano pela tecnologia; cirurgia robótica; terapias alternativas; e a
histerectomia.

• Possuímos a liberdade de escolher fazer o certo ou o errado, fazer o bem ou o


mal, mas sempre pautados pelos princípios éticos-morais universais do nosso
contexto social. Muitas vezes adentramos num dilema, indagando-nos a qual
caminho devemos seguir?

• Situações de conflito em que temos que escolher é realmente um grande


dilema ético-moral para a humanidade, pois sempre teremos vários caminhos
a percorrer, mas sempre devemos fazer três indagações antes de agirmos:
o Eu quero fazer ou não?
o Eu devo fazer ou não?
o Eu posso fazer ou não?

• Os dilemas das escolhas éticas-morais perpassam três questões fundamentais,


que são os dilemas dos valores, destinatários e meios.

• O dilema dos valores apresenta os conflitos dos valores éticos-morais,


ou seja, as escolhas dos valores éticos, de ser ético ou antiético, e que este
é o dilema da escolha de seguir ser leal, de honrar o compromisso, de ser
solidário, tolerante ou não. Ser justo ou injusto. Ser honesto ou desonesto.
Também são os vários caminhos a seguir, como por exemplo: horar o nosso

88
compromisso de pagar uma conta, uma dívida ou, com este mesmo recurso,
colaborar com a melhoria de qualidade de vida de uma família em situação
de vulnerabilidade social. Deixando assim de cumprir com um compromisso
pessoal para amparar o outro.

• O Dilema dos destinatários são aqueles dilemas e situações difíceis


correlacionadas às pessoas que irão se beneficiar com a ação da tomada de
decisão, ou não. É relacionada aos agentes envolvidos, em que, a situação
conflitante está na escolha do destinatário da ação ou omissão, ou seja, quem
será beneficiado ou prejudicado.

• No dilema dos meios o fator gerador da escolha da alternativa contraditória


está única e exclusivamente na maneira de se alcançar o resultado desejado, ou
seja, o meio, mecanismos e instrumentos utilizados para realizar a atividade e
atingir seu fim. Esses meios são classificados por sua validação e legitimidade
ética-moral.

• Os dilemas concernentes aos valores, destinatários e meios, devem ter por


premissa o coletivo social, ou seja, deve prevalecer os interesses universais
sobre os grupais e individuais, mesmo se as instâncias destes grupos menores
possam ser feridas.

• Nesse processo de tomada de decisão individual ou coletiva, ainda temos


mais dois outros aspectos a compreender, que são os sensos do dever e da
importância da decisão a ser tomada:
o Senso do dever: denota uma ética relacionada ao cumprimento dos
deveres, tarefas e obrigações, ou seja, a consciência do dever de fazer ou
não fazer alguma coisa.
o Senso da importância: transmite uma ética permeada pelo seu desígnio,
propósito e razão, denotando para que resultados queremos ter com
nossa ação ou omissão, e qual a importância destes resultados para a vida
cotidiana.

• Os sensos do dever e da importância da decisão a ser tomada são muito


importantes na discussão dos dilemas éticos-morais que vivenciamos o tempo
todo, para podemos mediar o nosso comportamento nas nossas relações
humanas e sociais.

CHAMADA

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AVA, e veja as novidades que preparamos para seu estudo.

89
AUTOATIVIDADE

1 A humanidade e as pessoas neste limiar de século estão vivenciando diversos


limites éticos tanto em nível pessoal como na própria convivência em grupos.
Isso nos traz diversos dilemas vivenciais que geram conflitos pessoais.
Disserte sobre o tema Dilemas e conflitos pessoais na contemporaneidade.

90
REFERÊNCIAS
ALONSO, F.; LOPEZ, F. G.; CASTRUCCI, P. L. Curso de ética em administração.
São Paulo: Atlas, 2006.

ALVES, L. M. Os estágios morais de Kohlberg (1981). Ensaios e Notas, 2017.


Disponível em: https://wp.me/pHDzN-3To. Acesso em: 20 jul. 2020.

ARANHA, M. L. A.; MARTINS, M. H. P. Temas de filosofia. 3. ed. São Paulo:


Moderna, 2005.

AVELINE, C. C. Kohlberg (1981) e os estágios da consciência ética: compreendendo


as etapas da evolução humana. Filosofia Esotérica. 2019. Disponível em: https://
www.filosofiaesoterica.com/Kohlberg (1981)-e-os-estagios-da-consciencia-etica/.
Acesso em: 2 jul. 2020.

BARROCO, M. L. S. Ética e sociedade. Brasília: CFESS, 2000.

BITTENCOURT, S. Comentários à lei anticorrupção: Lei nº 12.846, de 1 de


agosto de 2013. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2014.

BONETTI, D. A. et al. Serviço social e ética: convite a uma nova práxis. 11. ed.
São Paulo: Cortez, 2010.

BRASIL, Lei ordinária nº 12.846, de 1 de agosto de 2013. Dispõe sobre a respon-


sabilização administrativa e civil de pessoas jurídicas pela prática de atos contra a
administração pública, nacional ou estrangeira, e dá outras providências. Disponí-
vel em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2013/ lei/l12846.htm.
Acesso em: 18 nov. 2020.

CARVALHO, F. A ética segundo Kohlberg (1981). 2011. Disponível em: https://


blogdoenem.com.br/a-etica-segundo-Kohlberg (1981)-filosofia-enem/. Acesso
em: 25 jul. 2020.

CHAUÍ, M. Iniciação à filosofia. São Paulo: Ática, 2016.

CUNHA, S. S. Dicionário Compacto de Direito. 10. ed. São Paulo: Saraiva, 2011.

FERREIRA, A. B. H. Miniaurélio: o minidicionário da Língua portuguesa. 7. ed.


Curitiba: Ed. Positivo, 2008.

FREUD, S. No ensaio The Question of Lay Analysis. In: FREUD, S. (Org.). The
Question of Lay-Analysis: an Introduction to Psycho-Analysis 1947. London:
Imago Publishing Co, 2005. Disponível em: http://www.yorku.ca/dcarveth/
LayAnalysis.pdf. Acesso em: 18 nov. 2020.

91
GUIMARÃES, D. T. Dicionário Técnico Jurídico. 19. ed. São Paulo: Rideel, 2016.

HOUAISS, A. Dicionário Houaiss de Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva,


2009.

KIRKENDALL, L. A. Premarital intercourse and interpersonal relationships. New


York: Julian Press, 1961. Disponível em: https://goo.gl/8W46Tk. Acesso em: 18 ago.
2020.

KOHLBERG, L. Essays On Moral Development. Volume 1. The Philosophy Of


Moral Development. São Francisco, Harper & Row, 1981.

LEYSER, K. D. dos S. Ética. Indaial: Uniasselvi, 2018.

PIERITZ, V. L. H. Compliance. Indaial: Uniasselvi, 2020.

PIERITZ, V. L. H. Ética profissional em serviço social. Indaial: Uniasselvi, 2013.

SOLOMON, R. C. Ética e excelência. Cooperação e integridade nos negócios.


São Paulo: Civilização Brasileira, 2006.

TAVARES, F. R. Ética, política e sociedade. Indaial: Uniasselvi, 2013.

TOMELIN, J. F.; TOMELIN, K. N. Do mito para a razão: uma dialética do saber.


2. ed. Blumenau: Nova Letra, 2002. p. 89-90.

VALLS, A. L. M. O que é ética. São Paulo: Brasiliense, 2003.

VÁZQUEZ, A. S. Ética. 26. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005.

92
UNIDADE 2 —

O CÓDIGO DE ÉTICA MÉDICA

OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de:

• compreender os princípios fundamentais do código de ética;


• estudar as questões pertinentes aos direitos e deveres dos médicos;
• compreender a questão da responsabilidade profissional, dos direitos
humanos, das relações profissionais, da relação com os pacientes e
familiares, como também da relação entre médicos, para compreender
melhor este universo profissional dos médicos;
• refletir sobre a remuneração, sigilo profissional, documentação médica,
auditoria e perícia médica, como também a questão da publicidade médica;
• destacar os aspectos complementares ao código de ética médica,
estudando as questões relativas ao ensino e pesquisa médica, a doação e
transplante de órgãos e tecidos e as disposições gerais do código de ética
médica e suas legislações complementares.

PLANO DE ESTUDOS
Esta unidade está dividida em três tópicos. No decorrer da unidade, você
encontrará autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo apresentado.

TÓPICO 1 – PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS DO CÓDIGO DE ÉTICA

TÓPICO 2 – RESPONSABILIDADE, DIREITOS E RELAÇÕES


PROFISSIONAIS

TÓPICO 3 – REMUNERAÇÃO, SIGILO, DOCUMENTAÇÃO, AUDITORIA


E PUBLICIDADE

CHAMADA

Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e vamos


em frente! Procure um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá
melhor as informações.

93
94
TÓPICO 1 —
UNIDADE 2

PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS DO CÓDIGO DE ÉTICA

FIGURA 1 – CÓDIGO DE ÉTICA MÉDICA

FONTE: <https://bit.ly/3fWwuYD>. Acesso em: 9 nov. 2020.

“O céu estrelado por sobre mim e a lei moral dentro de mim”.


Immanuel Kant

1 INTRODUÇÃO
Prezado acadêmico, na unidade anterior fizemos uma análise filosófica
da ética e aprendemos as diversas visões sobre o tema, trabalhamos alguns dos
principais autores da área, além de levá-lo a uma reflexão pessoal sobre o assunto.
Vimos que existem muitos dilemas éticos, que são característicos de determinadas
comunidades e profissões.

Neste tópico, trabalharemos uma discussão mais técnica, sob o tema de


Ética Médica, tomando como base o Código de Ética Médica, também conhecido
nos meios acadêmicos, jurídicos e hospitalares como CEM.

Esta unidade irá aprofundar os diversos artigos que compõe o Código


de Ética Médica (CEM) conforme a Resolução do Conselho Federal de Medicina,
CFM n° 2.217, de 27 de setembro de 2018, modificada pelas Resoluções CFM
nº 2.222/2018 e nº 2.226/2019. Debruçaremo-nos sobre os principais artigos do
CEM e os analisaremos de forma técnica, para que você possa utilizar estes
conhecimentos em seu labor, ajudando e orientando os profissionais que
necessitarem de orientações sobre o tema.

95
UNIDADE 2 — O CÓDIGO DE ÉTICA MÉDICA

O Brasil, na égide da ética médica, traz uma história bastante dinâmica,


acompanhando as evoluções técnicas e as novas realidades da humanidade.
Barros Júnior (2019) apresenta sucintamente a evolução do Código de Ética
Médica no Brasil:
Do ponto de vista histórico, a profissão médica no Brasil estará sob a
égide do seu nono código de ética. No Império, foi adotado o Código
de Ética da Associação Médica Americana. Na República, durante o VI
Congresso Médico Latino-Americano, em 1929, adotou-se o primeiro
Código, copiado de Cuba, intitulado Código de Moral Médica. Dois
anos depois, durante o 1º Congresso Médico Sindicalista (em 1931),
realizado no Rio de Janeiro, foi aprovado o Código de Deontologia
Médica. Em 1945, por meio do Decreto-Lei n° 7.955/45, que instituiu
os Conselhos de Medicina, foi oficializado o Código de Deontologia
Médica, que havia sido aprovado pelo 4º Congresso Sindicalista
Médico Brasileiro (ocorrido em 1944). A Associação Médica Brasileira,
em 1953, adotou o Código de Ética Médica, o qual foi recepcionado
pela Lei nº 3.268/1957 (ainda em vigor), que disciplinou os Conselhos
de Medicina. O Conselho Federal de Medicina publicou o seu
primeiro Código de Ética Médica em 1965. A seguir vieram o Código
Brasileiro de Deontologia Médica (1984), o Código de Ética Médica
(1988 – Resolução CFM nº 1.246/88), o Código de Ética Médica (2009
– Resolução CFM nº 1.931/2009, que começou a valer em 13 de abril
de 2010) e o novo Código de Ética Médica (2018, Resolução CFM
nº 2.217/2018, modificada pela Resolução CFM n° 2.222/2018), que
passará a valer a partir de 30 de abril 2019.

O Conselho Federal de Medicina publicou a Resolução CFM nº


2.217/2018, no Diário Oficial da União (Seção I, p.179), em 1º de
novembro de 2018, que estabelece o novo Código de Ética Médica
(CEM), trazendo inovações com relação à versão anterior (de 2009),
decorrentes de propostas formuladas no período de 2016 a 2018 pelo
próprio corpo de conselheiros do CFM, pelos Conselhos Regionais de
Medicina, pelas demais entidades médicas, por instituições científicas
e universitárias e pelos médicos em geral. O novo CEM incorpora
e modifica o texto de artigos que abordam temas relacionados às
inovações tecnológica, comunicação e relações sociais, mantendo,
entretanto, os princípios deontológicos basilares da profissão. Dentre
eles, vale mencionar o absoluto respeito ao ser humano e a atuação do
médico em prol da saúde individual e coletiva, sem discriminações de
qualquer natureza (BARROS JÚNIOR, 2019, p. 10).

No Quadro 1, apresentaremos uma categorização das características de


cada código de ética médico brasileiro.

QUADRO 1 – CARACTERÍSTICAS DE CADA CÓDIGO DE ÉTICA MÉDICA BRASILEIRO

Código de Ética Médico/Ano Característica


1931 Autoritarista
1945 Paternalista
1953 Humanitarista
1965 Paternalista-Humanista

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TÓPICO 1 — PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS DO CÓDIGO DE ÉTICA

1984 Autoritarista
1988-2009-2018 Humanitarista solidário
FONTE: Adaptado de França (2019)

Apesar do CEM de 2018 ser relativamente novo, escrito em tom moderno


na visão da medicina, sabemos que ele sofrerá mudanças e atualizações mais
contínuas, principalmente influenciadas pelas questões tecnológicas relacionadas
à medicina, tais como as mais recentes ligadas à telemedicina, a robôs cirurgiões,
a vacinas, entre outras.

Vamos, agora, ao estudo e aprofundamento do Código de Ética Médica


(CEM).

2 PREAMBULO DO CÓDIGO DE ÉTICA MÉDICA


O Código de Ética Médica (CEM) de 2018 é uma conquista de todos os
médicos, que esperavam uma atualização mais realista das vivências médicas
atuais, bem como a regularização das condutas médicas frente às novas
tecnologias médicas, além de referências às questões de marketing tão em voga
na atualidade.

A Resolução que define o Código de Ética Médica precisa obedecer a todos


os ritos legais estipulados pela legislação brasileira, logo, ela deve ser publicada
no Diário Oficial da União, e será de onde referenciaremos o CEM.

DICAS

Caro acadêmico, você poderá consultar o texto original do Código de Ética


Médica diretamente no Diário Oficial da União, do dia 27 de setembro de 2018,
disponível no site: https://www.in.gov.br/materia/-/asset_publisher/Kujrw0TZC2Mb/content/
id/48226289/do1-2018-11-01-resolucao-n-2-217-de-27-de-setembro-de-2018-48226042.

FIGURA – CÓDIGO DE ÉTICA MÉDICA

FONTE: Adaptada de <https://bit.ly/3qgZkYh>. Acesso em: 18 nov. 2020.

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UNIDADE 2 — O CÓDIGO DE ÉTICA MÉDICA

Você ainda poderá acessá-lo no site do Conselho Federal de Medicina (CFM) em: https://
portal.cfm.org.br/images/PDF/cem2019.pdf.

FIGURA – CÓDIGO DE ÉTICA MÉDICA: RESOLUÇÃO CFM N° 2.217, DE 27 DE SETEMBRO


DE 2018

FONTE: < https://bit.ly/3qhsLcV >. Acesso em: 18 nov. 2020.

FONTE: CFM. Código de ética médica: Resolução CFM nº 2.217, de 27 de setembro de 2018,
modificada pelas Resoluções CFM nº 2.222/2018 e 2.226/2019. Brasília: Conselho Federal de
Medicina, 2019. Disponível em: https://portal.cfm.org.br/images/PDF/cem2019.pdf. Acesso
em: 18 nov. 2020.

Boa leitura!

Na sequência temos a introdução da Resolução CFM nº 2.217, de 27 de


setembro de 2018, que apresenta as considerações iniciais do Código de Ética
Médica (CEM) brasileira, para você compreender em que parâmetros o CEM foi
concebido. Vejamos!

CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA

RESOLUÇÃO Nº 2.217, DE 27 DE SETEMBRO DE 2018

Aprova o Código de Ética Médica.

O CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA, no uso das atribuições


conferidas pela Lei n° 3.268, de 30 de setembro de 1957, regulamentada pelo
Decreto n° 44.045, de 19 de julho de 1958, modificado pelo Decreto n° 6.821,
de 14 de abril de 2009 e pela Lei n° 11.000, de 15 de dezembro de 2004, e
consubstanciado na Lei nº 6.828, de 29 de outubro de 1980, e na Lei n° 9.784, de
29 de janeiro de 1999; e
CONSIDERANDO que os Conselhos de Medicina são ao mesmo tempo
julgadores e disciplinadores da classe médica, cabendo-lhes zelar e trabalhar,
por todos os meios ao seu alcance, pelo perfeito desempenho ético da medicina
e pelo prestígio e bom conceito da profissão e dos que a exerçam legalmente;

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TÓPICO 1 — PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS DO CÓDIGO DE ÉTICA

CONSIDERANDO que as normas do Código de Ética Médica devem


submeter-se aos dispositivos constitucionais vigentes;
CONSIDERANDO a busca de melhor relacionamento com o paciente e
a garantia de maior autonomia à sua vontade;
CONSIDERANDO as propostas formuladas ao longo dos anos de 2016
a 2018 e pelos Conselhos Regionais de Medicina, pelas entidades médicas,
pelos médicos e por instituições científicas e universitárias para a revisão do
atual Código de Ética Médica;
CONSIDERANDO as decisões da III Conferência Nacional de Ética
Médica de 2018, que elaborou, com participação de delegados médicos de todo
o Brasil, um novo Código de Ética Médica revisado;
CONSIDERANDO o decidido pelo Conselho Pleno Nacional reunido
em 27 de setembro de 2018;
CONSIDERANDO, finalmente, o decidido em sessão plenária de 27 de
setembro de 2018, resolve:

Art. 1° Aprovar o Código de Ética Médica anexo a esta Resolução, após sua
revisão e atualização.
Art. 2° O Conselho Federal de Medicina, sempre que necessário, expedirá
resoluções que complementem este Código de Ética Médica e facilitem sua
aplicação.
Art. 3° O Código anexo a esta Resolução entra em vigor cento e oitenta dias após
a data de sua publicação e, a partir daí, revoga-se o Código de Ética Médica
aprovado pela Resolução CFM nº 1.931/2009, publicada no Diário Oficial da
União no dia 13 de outubro de 2009, Seção I, página 90, bem como as demais
disposições em contrário (BRASIL, 2018, grifos do autor).

CARLOS VITALTAVARES CORRÊA LIMA


Presidente do Conselho
HENRIQUE BATISTA E SILVA
Secretário-Geral

Neste sentido, podemos expor que, na primeira parte do texto da


Resolução CFM n° 2.217 de 2018, todas as prerrogativas legais levadas em
consideração e pesquisas com as entidades de classe e médicos realizadas para
a escrita e posterior aprovação pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) deste
documento, compõe o CEM (2018).

Vale ressaltar o Artigo 2°, que apesar de atualizado e aprovado o CEM,


o Conselho Federal de Medicina já aventa que poderão ocorrer, sempre que
necessário, novas resoluções que complementem este Código de Ética Médica
para facilitar a sua aplicação. Também reforçamos, aqui, as questões de novas
tecnologias que estão surgindo para dar apoio ao médico, tanto em sua organização
(prontuário eletrônicos), quanto aos tratamentos dos pacientes.

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UNIDADE 2 — O CÓDIGO DE ÉTICA MÉDICA

O vacatio legis desta resolução, conforme o seu Artigo 3º foi de 180 dias,
iniciando-se o prazo no dia 2 de novembro de 2018 (1º dia da contagem, pois foi
publicada em 1º de novembro de 2018) e entrando em vigor em 1° de maio de 2019.

NOTA

Vacatio Legis: período entre a promulgação de uma lei/norma no mundo


jurídico e a sua entrada em vigência (e passa a produzir efeitos no mundo jurídico)

Vejamos agora o que consta no preâmbulo do Código de Ética Médica


(CEM) de 2018:

PREÂMBULO

I - O presente Código de Ética Médica contém as normas que devem ser seguidas
pelos médicos no exercício de sua profissão, inclusive nas atividades relativas
ao ensino, à pesquisa e à administração de serviços de saúde, bem como em
quaisquer outras que utilizem o conhecimento advindo do estudo da medicina.
II - As organizações de prestação de serviços médicos estão sujeitas às normas
deste Código.
III - Para o exercício da medicina, impõe-se a inscrição no Conselho Regional do
respectivo estado, território ou Distrito Federal.
IV - A fim de garantir o acatamento e a cabal execução deste Código, o médico
comunicará ao Conselho Regional de Medicina, com discrição e fundamento,
fatos de que tenha conhecimento e que caracterizem possível infração do
presente Código e das demais normas que regulam o exercício da medicina.
V - A fiscalização do cumprimento das normas estabelecidas neste Código é
atribuição dos Conselhos de Medicina, das comissões de ética e dos médicos
em geral.
VI - Este Código de Ética Médica é composto de 25 princípios fundamentais
do exercício da medicina, 10 normas diceológicas, 118 normas deontológicas e
quatro disposições gerais. A transgressão das normas deontológicas sujeitará
os infratores às penas disciplinares previstas em lei (BRASIL, 2018, grifo nosso).

FONTE: <https://www.in.gov.br/materia/-/asset_publisher/Kujrw0TZC2Mb/content/id/482262
89/do1-2018-11-01-resolucao-n-2-217-de-27-de-setembro-de-2018-48226042>. Acesso em: 9
nov. 2020.

Os preâmbulos do Código de Ética Médica têm como função ser a parte


preliminar em que se anuncia a promulgação de uma lei ou decreto, descrevendo
algumas características iniciais destes, aqui ela traz esta introdução, deixando
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TÓPICO 1 — PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS DO CÓDIGO DE ÉTICA

claro que esse Código de Ética Médica deve ser seguido pelos médicos no
exercício de sua profissão, inclusive nas atividades relativas ao ensino, pesquisa e
administração de serviços de saúde, bem como em quaisquer outras que utilizem
o conhecimento advindo do estudo da medicina.

Gostaríamos de destacar ainda, o III dispositivo apresentado no Preâmbulo


do Código de Ética Médica que diz:

III - Para o exercício da Medicina, impõe-se a inscrição no Conselho Regional do


respectivo estado, território ou Distrito Federal” (BRASIL, 2018, grifo nosso).

Todo médico, para exercer a sua profissão, necessita estar registrado e


vinculado a um Conselho Regional de Medicina no respectivo estado, território
ou Distrito Federal, fato este também expressado no Decreto nº 44.045, de 19 de
julho de 1958, o qual aprova o Regulamento do Conselho Federal e Conselhos
regionais de Medicina a que se refere a Lei nº 3.268, de 30 de setembro de 1957.

Precisamos atentar ainda que no preâmbulo, temos questões relacionadas


à fiscalização e quem infringir o Código de Ética Médica (CEM) estará sujeito a
punições previstas em lei.

Ele dispõe ainda da fiscalização pelos Conselhos de Medicina e termina


trazendo um resumo do CEM, o qual é composto de 25 princípios fundamentais
do exercício da medicina, 10 normas diceológicas, 118 normas deontológicas e
quatro disposições gerais.

3 PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS DO CÓDIGO DE ÉTICA


Quando falamos de princípios, estamos nos referindo a algo inicial, a
uma base para todo o resto que está por vir ou a construir, assim é esta parte da
resolução para o Código de Ética Médica. Os princípios são a sustentação básica
do profissional de medicina em todo o seu comportamento profissional, seja com
os pacientes (primordial), seus familiares, com seus pares (outros médicos) e com
toda a estrutura de suporte (profissionais auxiliares em seu labor e entidades),
além das questões relacionadas à pesquisa e educação.

Conforme descrito por França (2019, p. 12):


Enquanto os princípios fundamentais representam o sedimento
de uma doutrina aceita como um compromisso ético do médico no
exercício de sua profissão, os dispositivos seguintes, inseridos nos
demais capítulos do código, representam situações factíveis, cuja
desobediência implica necessariamente graus de sanções previstas na
lei especial.

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UNIDADE 2 — O CÓDIGO DE ÉTICA MÉDICA

Assim, temos no Capítulo 1 do Código de Ética Médica (CEM), a


apresentação dos princípios fundamentais básicos que referenciaram à elaboração
dos demais capítulos.

CAPÍTULO I

PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS

I - A medicina é uma profissão a serviço da saúde do ser humano e da


coletividade e será exercida sem discriminação de nenhuma natureza (BRASIL,
2018, grifos do autor).

A medicina é definida como uma profissão e a Lei nº 12.842, publicada


em 10 de julho de 2013, dispõe sobre o exercício da medicina, retratando os
detalhes da profissão na visão legal. Neste princípio, temos o reforço de que os
profissionais devem, pelo CEM, exercer a profissão prezando o serviço da saúde
do ser humano e da coletividade. E quando alega, ainda, “sem discriminação
de nenhuma natureza”, temos as prerrogativas da Constituição Federal de 1988,
complementado por leis como a Lei nº 7.716, de 5 de janeiro de 1989 que define os
crimes resultantes de preconceito de raça ou de cor. A base da medicina é tratar a
todos sem nenhuma discriminação de qualquer nível, pois o foco é a saúde.

II - O alvo de toda a atenção do médico é a saúde do ser humano, em benefício


da qual deverá agir com o máximo de zelo e o melhor de sua capacidade
profissional (BRASIL, 2018).

A saúde é o foco da ação médica, mas temos outros parâmetros que


influenciam a saúde, como as condições de vida da pessoa, que podem intervir em
suas questões relacionadas a saúde. Logo, questões ambientais de sobrevivência
da pessoa tem grande influência em sua saúde, e o médico não possui influência
sobre isso, pode somente tratar de suas enfermidades.

Temos uma influência ainda nas questões tecnológicas disponíveis para o


tratamento do paciente, assim como o conhecimento e aprimoramento do médico
que podem influenciar o melhor de sua capacidade profissional.

IV - Ao médico cabe zelar e trabalhar pelo perfeito desempenho ético da


medicina, bem como pelo prestígio e bom conceito da profissão (BRASIL, 2018).

A ética é uma premissa sine qua non, pois é o que rege a sociedade moderna
e o labor profissional, enquanto falar sobre prestigio e bom conceito da profissão
é algo que vem lá dos primórdios da profissão e reforçados na era moderna, com
todo um status e prestigio aos médicos.

102
TÓPICO 1 — PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS DO CÓDIGO DE ÉTICA

V - Compete ao médico aprimorar continuamente seus conhecimentos e usar


o melhor do progresso científico em benefício do paciente e da sociedade
(BRASIL, 2018).

No momento atual da sociedade, com a tecnologia e informação vigente e


ampla, o médico precisa se atualizar e se especializar na sua área, pois os avanços
tecnológicos são numerosos nas mais diversas áreas da medicina.

Atualmente, temos robôs cirúrgicos, tecnologias de exames clínicos e de


imagens, pesquisas em remédios de alta tecnologia com nanotecnologia, cirurgias
a laser, telemedicina etc. Os médicos precisam aprimorar seu conhecimento e
usufruir das novas tecnologias para não ficarem defasados.

FIGURA 2 – NOVAS TECNOLOGIAS EM MEDICINA, ROBÔ CIRÚRGICO

FONTE: <https://www.h9j.com.br/suasaude/PublishingImages/robotica.jpg>.
Acesso em: 2 set. 2020.

Um dos pontos a ressaltar em relação às novas tecnologias está na questão


de aprovação e liberação do seu uso geral pelos órgãos competentes e, em alguns
casos, inclusive, com criação de leis específicas.

Logo é importante acompanhar a ANVISA, CRM, CFM e a legislação


referente às novas tecnologias médicas.

VI - O médico guardará absoluto respeito pelo ser humano e atuará sempre


em seu benefício, mesmo depois da morte. Jamais utilizará seus conhecimentos
para causar sofrimento físico ou moral, para o extermínio do ser humano
ou para permitir e acobertar tentativas contra sua dignidade e integridade
(BRASIL, 2018).

O respeito pelo ser humano é intrínseco ao CEM e está bem consolidado


em toda a legislação brasileira, reforçado pela Constituição Federal (CF) de 1988
e leis complementares.
103
UNIDADE 2 — O CÓDIGO DE ÉTICA MÉDICA

NOTA

Prezado acadêmico, a Constituição Federal (CF) de 1988, também conhecida


como Carta Magna do Brasil ou como uma Carta Cidadã, trouxe uma nova visão em
sua legislatura, porém deixou diversos pontos em aberto que foram complementados
com legislação infraconstitucional, elaborada e promulgada nos anos vindouros que
regulamentam as lacunas constitucionais.

VII - O médico exercerá sua profissão com autonomia, não sendo obrigado
a prestar serviços que contrariem os ditames de sua consciência ou a quem
não deseje, excetuadas as situações de ausência de outro médico, em caso de
urgência ou emergência, ou quando sua recusa possa trazer danos à saúde do
paciente (BRASIL, 2018).

Este princípio está inicialmente consistente com o apregoado pela CF em


seu Artigo 5º, item 13, que traz:

CF Artigo 5°
XIII: “é livre o exercício de qualquer trabalho, ofício ou profissão, atendidas as
qualificações profissionais que a lei estabelecer (CÉSPEDES; ROCHA, 2020, p.
4, grifos nossos).

Salvo situações de urgência ou emergência, poderá ser exigida uma ação


dele para tratar ou salvar uma vida.

Fora esta condição extraordinária, o médico possui total autonomia para


executar o seu trabalho.

VIII - O médico não pode, em nenhuma circunstância ou sob nenhum pretexto,


renunciar à sua liberdade profissional, nem permitir quaisquer restrições ou
imposições que possam prejudicar a eficiência e a correção de seu trabalho
(BRASIL, 2018).

Aqui, entramos nas questões da liberdade profissional, mas também as


questões legais relativas à profissão, como as estipuladas pela Lei n° 3.268, de
30 de setembro de 1957, que dispõe sobre os Conselhos de Medicina, e dá outras
providências em seus Artigos 17 e 18:

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TÓPICO 1 — PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS DO CÓDIGO DE ÉTICA

Art. 17. Os médicos só poderão exercer legalmente a medicina, em qualquer de


seus ramos ou especialidades, após o prévio registro de seus títulos, diplomas,
certificados ou cartas no Ministério da Educação e Cultura e de sua inscrição
no Conselho Regional de Medicina, sob cuja jurisdição se achar o local de sua
atividade. (Vide Medida Provisória nº 621, de 2013).
Art. 18. Aos profissionais registrados de acordo com esta lei será entregue uma
carteira profissional que os habitará ao exercício da medicina em todo o País
(BRASIL, 2018).

Logo, todo médico atuante na profissão deve ter o seu registro junto ao
CRM da sua região de atuação.

IX - A medicina não pode, em nenhuma circunstância ou forma, ser exercida


como comércio. (BRASIL, 2018).

A medicina não pode ser entendida por um comércio, porém cada médico,
conforme a sua especialidade tem o direito de cobrar pelos serviços prestados
pela sua especialidade e para o sustento familiar.

X - O trabalho do médico não pode ser explorado por terceiros com objetivos de
lucro, finalidade política ou religiosa (BRASIL, 2018).

Os serviços médicos não podem ser explorados por terceiros, e temos


aqui alguns elementos contraditórios na execução de serviços promocionais por
alguns laboratórios farmacêuticos, buscando gerar vínculo com o médico. Temos
também que levar em consideração, que os serviços gerados por estes laboratórios
são de vital importância quanto à divulgação de novos tratamentos e remédios
para as doenças, mas sempre devemos prezar neste relacionamento a divulgação
e não a exploração por terceiros com objetivos de lucro.

XI - O médico guardará sigilo a respeito das informações de que detenha


conhecimento no desempenho de suas funções, com exceção dos casos previstos
em lei (BRASIL, 2018).

Este princípio tem fundamental importância na atualidade, pois as


informações médico-paciente são sigilosas entre eles, sendo que nenhum deles
tem o direito de divulgar informações prestadas em uma consulta.

Atualmente, temos ainda a questão de segurança digital de informações


dos pacientes, pois muitos médicos estão migrando para prontuários digitais,
logo, a sua segurança é fundamental.

105
UNIDADE 2 — O CÓDIGO DE ÉTICA MÉDICA

Neste sentido, temos a Lei nº 13.709, de 14 de agosto de 2018, também


conhecida como a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD) trata este
tema mais aprofundadamente.

FIGURA 3 – LEI GERAL DE PROTEÇÃO DE DADOS PESSOAIS (LGPD)

FONTE: <https://bit.ly/2Jsyzjd>. Acesso em: 2 set. 2020.

Este tema é de suma importância nas questões atuais da medicina, já


que temos a telemedicina em discussão e sistemas médicos e de protocolos dos
pacientes já popularizando nos meios da medicina.

XII - O médico empenhar-se-á pela melhor adequação do trabalho ao ser


humano, pela eliminação e pelo controle dos riscos à saúde inerentes às
atividades laborais (BRASIL, 2018).

Atualmente, o foco de eliminação e controle de riscos à saúde em ambientes


laborais é fundamental a todos os trabalhadores e no tocante aos profissionais
da medicina, pois os riscos são grandes e, por isso, é necessário ter os cuidados
ambientais conforme a Norma Regulamentadora NR 32:

PORTARIA N° 485, DE 11 DE NOVEMBRO DE 2005


NR 32 – SEGURANÇA E SAÚDE NO TRABALHO EM SERVIÇOS DE
SAÚDE

32.1 Do objetivo e campo de aplicação


32.1.1 Esta Norma Regulamentadora – NR tem por finalidade estabelecer as
diretrizes básicas para a implementação de medidas de proteção à segurança
e à saúde dos trabalhadores dos serviços de saúde, bem como daqueles que
exercem atividades de promoção e assistência à saúde em geral.
32.1.2 Para fins de aplicação desta NR entende-se por serviços de saúde qualquer
edificação destinada à prestação de assistência à saúde da população, e todas
as ações de promoção, recuperação, assistência, pesquisa e ensino em saúde em
qualquer nível de complexidade (MTE, 2005, grifos nossos).

106
TÓPICO 1 — PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS DO CÓDIGO DE ÉTICA

XIII - O médico comunicará às autoridades competentes quaisquer formas de


deterioração do ecossistema, prejudiciais à saúde e à vida (BRASIL, 2018).

Em consonância com a NR 32 e outras Normas da Anvisa, e do próprio


CFM, é fundamental o alerta e comunicação de qualquer situação de risco ou que
possam ser prejudiciais à saúde e à vida as autoridades competentes.

XIV - O médico empenhar-se-á em melhorar os padrões dos serviços médicos


e em assumir sua responsabilidade em relação à saúde pública, à educação
sanitária e à legislação referente à saúde (BRASIL, 2018).

O médico é um fomentador da saúde pessoal e pública, devendo estar


atento e contribuir com a sociedade em que está inserido.

XV - O médico será solidário com os movimentos de defesa da dignidade


profissional, seja por remuneração digna e justa, seja por condições de trabalho
compatíveis com o exercício ético-profissional da medicina e seu aprimoramento
técnico-científico (BRASIL, 2018).

Este princípio externaliza que o médico deve participar de movimentos


justos da sociedade, dentro de seu limite ético-profissional.

XVI - Nenhuma disposição estatutária ou regimental de hospital ou de


instituição, pública ou privada, limitará a escolha, pelo médico, dos meios
cientificamente reconhecidos a serem praticados para o estabelecimento
do diagnóstico e da execução do tratamento, salvo quando em benefício do
paciente (BRASIL, 2018).

O médico é livre para escolher o melhor tratamento disponível para


seus pacientes, sempre prezando pela sua eficácia e tecnologia disponível ao
tratamento. Podem-se observar protocolos validados pelo Ministério da Saúde,
ANVISA, CFM ou Organização Mundial da Saúde (OMS), e escolher aplicá-lo,
mas nunca de forma impositiva por nenhuma entidade em si.

XVII - As relações do médico com os demais profissionais devem basear-se no


respeito mútuo, na liberdade e na independência de cada um, buscando sempre
o interesse e o bem-estar do paciente” (BRASIL, 2018).

107
UNIDADE 2 — O CÓDIGO DE ÉTICA MÉDICA

Dependendo do tratamento que o paciente tenha que receber, é comum


que uma equipe de médicos e profissionais o realizem, e é importante o respeito
mútuo entre os profissionais, bem como a sua liberdade para achar o melhor
tratamento ao paciente e isso somente é possível com a ação independente de
cada um para achar o melhor caminho de tratamento, sempre trabalhando em
consenso nos tratamentos.

A independência de ação aqui expressa é no pensar, no achar solução a


qual deve ser tomada concomitantemente com a equipe que está tratando o caso,
sempre buscando o interesse e o bem-estar do paciente.

Para se definir os limites de atuação médica em suas áreas privativas e


áreas de Convergência temos a lei regulamentadora:

Resolução do CFM 1627/2001

Artigo 1° - Definir o ato profissional de médico como todo procedimento técnico-


profissional praticado por médico legalmente habilitado e dirigido para:
I - a promoção da saúde e prevenção da ocorrência de enfermidades ou
profilaxia;
(prevenção primária);
II - a prevenção da evolução das enfermidades ou execução de procedimentos
diagnósticos ou terapêuticos (prevenção secundária);
III - a prevenção da invalidez ou reabilitação dos enfermos (prevenção terciária).
§ 1° - As atividades de prevenção secundária, bem como as atividades de
prevenção primária e terciária que envolvam procedimentos diagnósticos de
enfermidades ou impliquem em indicação terapêutica (prevenção secundária),
são atos privativos do profissional médico.
§ 2° - As atividades de prevenção primária e terciária que não impliquem
na execução de procedimentos diagnósticos e terapêuticos podem ser atos
profissionais compartilhados com outros profissionais da área da saúde, dentro
dos limites impostos pela legislação pertinente (CFM, 2001, grifos nossos).

Outro ponto importante está na questão dos limites éticos e profissionais


que forem ultrapassados e, nessa condição, o médico deverá imediatamente
denunciar por escrito o profissional não médico que pôs em risco o paciente,
sendo que a conduta do médico delator é um dever inquestionável, pois conforme
o inciso IV dos Princípios Fundamentais do CEM 18, cabe ao médico “zelar e
trabalhar pelo perfeito desempenho ético da Medicina, bem como pelo prestígio
e bom conceito da profissão” (BRASIL, 2018).

XVIII - O médico terá com os colegas, respeito, consideração e solidariedade, sem


se eximir de denunciar atos que contrariem os postulados éticos (BRASIL, 2018).

108
TÓPICO 1 — PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS DO CÓDIGO DE ÉTICA

O respeito profissional é mister para a profissão médica, cujos


conhecimentos especializados se juntam para desenvolver o melhor tratamento e
o bem-estar do paciente. Nesse sentido, também vem a questão ética do médico
em relação aos atos que contrariem os postulados éticos do CEM, fato este que
deve também seguir os ritos estipulados.

Aqui é mister o inciso IV dos Princípios Fundamentais do CEM/2018,


analisando também a ação dos seus pares.

A legalidade dos atos do médico para consigo e com seus pares se faz ponto
fundamental para o exercício ético da profissão, buscando sempre desenvolver a
saúde e, principalmente, o bom atendimento ao paciente.

O respeito entre colegas de profissão é essencial, porém o zelo ético


profissional, além da primordialidade pessoal e ética, é também um desígnio legal.

XIX - O médico se responsabilizará, em caráter pessoal e nunca presumido, pelos


seus atos profissionais, resultantes de relação particular de confiança e executados
com diligência, competência e prudência (BRASIL, 2018).

A responsabilidade intrínseca de seus atos é única e exclusivamente do


médico e ele responderá por eles e, em caso de judicialização de demandas, o
resultado será conforme proposto pela decisão do magistrado, devendo o médico
obedecê-la ou encaminhar para reanálise em instância superior.

A judicialização desses atos geralmente está relacionada aos erros médicos


ou, ainda, a questões contratuais do atendimento.

DICAS

Prezado acadêmico, acessando a Biblioteca Virtual da Uniasselvi, através de


seu AVA, você encontrará o livro didático específico sobre o tema Direito Médico Hospitalar.

FONTE: PIERITZ, V. L. H. Direito Médico hospitalar. Indaial: Uniasselvi, 2020.

Os erros médicos são tratados conforme a CF, legislação Civil e Penal e


na área administrativa junto ao CRM/CFM, já, quando tratamos das questões
de atendimento/contrato à legislação a ser trabalhada, é o Código de Defesa do
Consumidor (CDC).

109
UNIDADE 2 — O CÓDIGO DE ÉTICA MÉDICA

No CEM/2018 o CFM neste Inciso deixa claro que a responsabilidade ética


do profissional da medicina será apurada, sem exceção, com base nos ditames
jurídicos considerando a responsabilidade subjetiva do médico cuja obrigação é
de caráter pessoal, não podendo ser transferida para quem quer que seja.

XX - A natureza personalíssima da atuação profissional do médico não caracteriza


relação de consumo (BRASIL, 2018).

A prestação de serviços médicos é geralmente contratual e, por isso,


como já mencionamos, segue os preceitos jurídicos do CDC. Essa relação é de
natureza personalíssima, de forma intuitu personae (baseada na confiança pessoal),
imprescindível na relação médico-paciente.

Na visão jurídica do relacionamento médico-paciente, conforme o CDC,


juridicamente (e judicialmente), o médico é fornecedor; o paciente é o consumidor
e a atividade médica é serviço prestado. Com esses pressupostos assumidos
no âmbito judicial tanto na área civil como criminal, temos caracterizada que
a relação médico-paciente é uma relação de consumo na visão jurídica com os
preceitos do CDC.

XXI - No processo de tomada de decisões profissionais, de acordo com seus ditames


de consciência e as previsões legais, o médico aceitará as escolhas de seus pacientes
relativas aos procedimentos diagnósticos e terapêuticos por eles expressos, desde
que adequadas ao caso e cientificamente reconhecidas (BRASIL, 2018).

Neste Inciso, dar-se-á autonomia ao paciente para participar das decisões


de tratamentos, porém existem limites técnicos e temos um limite à autonomia do
paciente. No entanto, a liberdade e a autonomia profissional do médico, apesar
de ser mais ampla, não é absoluta, devendo ser suplantada pela Constituição
Federal e outras legislações pertinentes ao tema.

Temos questões relacionadas à autonomia de decisão junto aos princípios


da bioética, fortalecendo a ligação entre a conduta do médico e a dignidade do
paciente.

Temos o conflito presente em diversas situações relacionadas à saúde e


continuidade da vida dos pacientes.

XXII - Nas situações clínicas irreversíveis e terminais, o médico evitará a realização


de procedimentos diagnósticos e terapêuticos desnecessários e propiciará aos
pacientes sob sua atenção todos os cuidados paliativos apropriados (BRASIL, 2018).

110
TÓPICO 1 — PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS DO CÓDIGO DE ÉTICA

O Inciso XXII é bastante controverso e, muitas vezes, conflitivo, mas ele


tenta trazer segurança jurídica em casos médicos complicados, em situações
clínicas irreversíveis e terminais, buscando tornar a “vida” do paciente mais
tranquila e menos sofrível. Infelizmente, sempre teremos este tipo de decisão nos
ambientes hospitalares e o médico deve sempre prezar o bem de seus pacientes.

A Resolução CFM nº 1.805/2006, publicada no Diário Oficial da União


(D.O.U.) em 28 de novembro de 2006, trata sobre o tema:
Na fase terminal de enfermidades graves e incuráveis é permitido ao
médico limitar ou suspender procedimentos e tratamentos que
prolonguem a vida do doente, garantindo-lhe os cuidados necessários
para aliviar os sintomas que levam ao sofrimento, na perspectiva de
uma assistência integral, respeitada a vontade do paciente ou de seu
representante legal (BRASIL, 2006, grifos nossos).

RESOLUÇÃO CFM Nº 1.805/2006, publicada no Diário Oficial da União


(D.O.U.) em 28 nov. 2006

[...]

CONSIDERANDO o Art.1º, inciso III, da Constituição Federal, que


elegeu o princípio da dignidade da pessoa humana como um dos fundamentos
da República Federativa do Brasil.
CONSIDERANDO o Art. 5º, inciso III, da Constituição Federal, que
estabelece que “ninguém será submetido a tortura nem a tratamento desumano
ou degradante”.
CONSIDERANDO que cabe ao médico zelar pelo bem-estar dos
pacientes.
[...]
CONSIDERANDO que incumbe ao médico diagnosticar o doente como
portador de enfermidade em fase terminal.
Art. 1° É permitido ao médico limitar ou suspender procedimentos e
tratamentos que prolonguem a vida do doente em fase terminal, de enfermidade
grave e incurável, respeitada a vontade da pessoa ou de seu representante legal.
§ 1° O médico tem a obrigação de esclarecer ao doente ou a seu
representante legal as modalidades terapêuticas adequadas para cada situação.
§ 2° A decisão referida no caput deve ser fundamentada e registrada no
prontuário.
§ 3° É assegurado ao doente ou a seu representante legal o direito de
solicitar uma segunda opinião médica.
Art. 2° O doente continuará a receber todos os cuidados necessários
para aliviar os sintomas que levam ao sofrimento, assegurada a assistência
integral, o conforto físico, psíquico, social e espiritual, inclusive assegurando-
lhe o direito da alta hospitalar (CFM, 2006, grifos nossos).

111
UNIDADE 2 — O CÓDIGO DE ÉTICA MÉDICA

O tema é bastante controverso e exige muita atenção ao se tomar qualquer


decisão, deve-se levar em conta o sofrimento do paciente e sua possibilidade de
curabilidade.

XXIII - Quando envolvido na produção de conhecimento científico, o médico


agirá com isenção, independência, veracidade e honestidade, com vista ao maior
benefício para os pacientes e para a sociedade (BRASIL, 2018).

O médico em seus afazeres profissionais também pode estar envolvido


com a criação de conhecimento médico em seu dia a dia, devendo, nesse sentido,
sempre obedecer às tratativas expostas no Código de Ética, mesmo em situações
experimentais e ou educacionais. Sempre estaremos envoltos em indagações ético-
morais quando falamos de produção de conhecimento científico em medicina.

XXIV - Sempre que participar de pesquisas envolvendo seres humanos ou qualquer


animal, o médico respeitará as normas éticas nacionais, bem como protegerá a
vulnerabilidade dos sujeitos da pesquisa (BRASIL, 2018).

Reforçando o princípio XXIII, o médico pesquisador deve obedecer aos


preceitos éticos e morais e bioéticos, bem como proteger a vulnerabilidade dos
sujeitos da pesquisa.

NTE
INTERESSA

Prezado acadêmico, verifique a situação ocorrida na pandemia da Covid-19.


No seu início, muitos médicos tratavam a doença de forma empírica, pesquisando com os
pacientes que vinham se somando em UTIs espalhados no mundo todo. Conforme o tempo
foi passando, muitos aprendizados foram compartilhados e vidas humanas foram salvas,
mas, no início das pesquisas/tratamentos, muitas vidas foram perdidas, até se chegar a um
melhor tratamento (protocolo) para a doença. Este caso é um exemplo prático de pesquisa
conjunta com o tratamento médico, em uma questão crítica vivenciada recentemente.
Para isso, acesso o link: https://tododia.com.br/regiao-tem-mais-9-mortes-por-covid/.

FIGURA – CORONAVÍRUS – COVID-19

FONTE: <https://bit.ly/3msMCna>. Acesso em: 18 nov. 2020.

112
TÓPICO 1 — PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS DO CÓDIGO DE ÉTICA

XXV - Na aplicação dos conhecimentos criados pelas novas tecnologias,


considerando-se suas repercussões tanto nas gerações presentes quanto nas futuras,
o médico zelará para que as pessoas não sejam discriminadas por nenhuma razão
vinculada à herança genética, protegendo-as em sua dignidade, identidade e
integridade (BRASIL, 2018).

Um dilema ético da medicina está nas novas tecnologias e, principalmente,


nas questões relacionadas à manipulação genética, sobre este fato teremos que
acompanhar as questões legais que irão surgir, principalmente com embriões,
clonagem, criação de órgãos etc.

O fator tecnológico é um catalizador de geração de saúde, mas também é


colocado como um dos principais complicadores nas questões éticas da medicina
no futuro.

Neste tópico, devemos acompanhar mais de perto as evoluções legais e


éticas, pois a tecnologia em relação à medicina está caminhando a passos largos.

XXVI - A medicina será exercida com a utilização dos meios técnicos e científicos
disponíveis que visem os melhores resultados” (BRASIL, 2018).

A evolução da medicina está caminhando em ritmo acelerado e, hoje,


vemos diversas áreas do conhecimento humano se conversando, como a
biologia, a biologia sintética, clonagem, estudo do DNA, a área de Tecnologia da
Informação (TI), equipamentos de imagens e outras tecnologias que melhoram
muito a obtenção de análises e resultados de tratamentos médicos.

Devemos, aqui, reforçar o que escrevemos no inciso anterior, ou seja,


devemos acompanhar mais de perto as evoluções legais e éticas, pois a tecnologia
em relação à medicina está caminhando em passos largos.

Não temos como limitar a evolução tecnológica, só temos que cuidar com
as questões éticas e legais.

Terminamos com a análise dos princípios estipulados no CEM (2018),


apresentamos um compêndio mais sucinto, mas poderíamos aprofundar bastante
cada um deles, entrando em diversos meandros legais, técnicos e éticos, porém
iríamos aumentar demais estas páginas.

Os objetivos aqui trabalhados são para reforçar o seu conhecimento


sobre o CEM a fim de aplicá-lo na sua prática diária, e, para isso, estamos lhe
proporcionando o acesso à ferramenta analítica necessária.

113
UNIDADE 2 — O CÓDIGO DE ÉTICA MÉDICA

4 DIREITOS DOS MÉDICOS


Este capítulo do Código de Ética Médico é uma inovação em relação aos
CEM anteriores a esta edição, traz referência aos direitos que os médicos possuem
em sua profissão.

França (2019, p. 43) descreve que:


Havia, por parte dos médicos uma certa insatisfação por existirem
apenas deveres e obrigações nos Códigos de Ética que tiveram vigência
entre nós, e nunca seus direitos.
[...] São direitos consagrados nos princípios constitucionais, nas
diversas declarações internacionais adotadas pela Associação Médica
Mundial, no Código Internacional de Ética Médica, em Resoluções
aprovadas em Assembleia Geral das Nações Unidas, em Resoluções
e Pareceres provados pelo Conselho Federal de Medicina e pelos
ganhos adquiridos na luta pelos requisitos essenciais do exercício
da cidadania e dos princípios liberais para o pleno desempenho da
atividade profissional da medicina.

É importante ressaltar que o médico, pela sua profissão, não quer ser mais
que qualquer outro cidadão brasileiro, mas sim quer ter seus direitos também
reconhecidos como qualquer outra profissão, além de ele igualmente seguir o que
prega a Constituição Brasileira, nem mais nem menos.

DICAS

Prezado acadêmico, este capítulo do CEM também tem como referência o


material produzido pela Associação Médica Mundial (World Medical Association, também
conhecido como WMA). Seus sites são:
• https://www.wma.net/
E no Brasil é representado em:
• https://amb.org.br/wma/

FIGURA – MANUAL DE ÉTICA MÉDICA DA WMA

FONTE: <https://www.wma.net/wp-content/uploads/2016/11/ethic_manual.jpg>.
Acesso em: 10 nov. 2020.

114
TÓPICO 1 — PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS DO CÓDIGO DE ÉTICA

E
IMPORTANT

Prezado acadêmico, quando surgir qualquer situação que gere problema com
relação aos Direitos que os médicos possuem, eles têm o livre arbítrio para tomarem a
melhor decisão para si e para o paciente, devendo sempre precaver-se das questões legais e
comunicar imediatamente sua decisão ao Conselho Regional de Medicina, principalmente
se gerar condições que firam o apregoado nas legislações brasileiras, nas resoluções
da ANVISA e do Ministério da Saúde e das NRs, especialmente a NR 32, relacionada à
biossegurança.

Vamos, agora, conhecer os direitos dos médicos apregoados no Capítulo


II do CEM:

Capítulo II
DIREITOS DOS MÉDICOS

É direito do médico:

I - Exercer a medicina sem ser discriminado por questões de religião, etnia, cor,
sexo, orientação sexual, nacionalidade, idade, condição social, opinião política,
deficiência ou de qualquer outra natureza (BRASIL, 2018).

Este direito é fundamental e faz parte da base da CF, no Brasil, em


nenhuma circunstância se pode aceitar qualquer tipo de discriminação, bem
como em nenhuma conjuntura profissional do médico.

II - Indicar o procedimento adequado ao paciente, observadas as práticas


cientificamente reconhecidas e respeitada a legislação vigente (BRASIL, 2018).

A primeira fonte de referência é a legislação vigente, nenhuma pessoa ou


profissional está acima da lei no Brasil, logo, todo procedimento a ser utilizado
deve estar adequado ao paciente e a sua enfermidade, devendo ser observadas
as práticas cientificamente reconhecidas, porém em medicina temos ainda um
quesito relacionado às questões da evolução tecnológica na área médica e às
questões aprovadas tanto pelos Conselhos de Medicina como da Anvisa.

A questão de preparação técnica do médico é de fundamental importância


para exercício da medicina, principalmente devido às constantes evoluções na área.

A tecnologia na área médica é uma variável que hoje é fundamental na cura


e tratamento de doenças, por isso é tão importante o aperfeiçoamento constante
do médico.
115
UNIDADE 2 — O CÓDIGO DE ÉTICA MÉDICA

III - Apontar falhas em normas, contratos e práticas internas das instituições em


que trabalhe quando as julgar indignas do exercício da profissão ou prejudiciais a
si mesmo, ao paciente ou a terceiros, devendo comunicá-las ao Conselho Regional
de Medicina de sua jurisdição e à Comissão de Ética da instituição, quando houver
(BRASIL, 2018).

É um direito importante do médico indicar as falhas em normas, contratos


e práticas internas das instituições em que trabalhe, pois temos toda uma questão
de segurança a ser considerada a todos que estão utilizando o ambiente de
saúde, principalmente quando as julgar indignas do exercício da profissão ou
prejudiciais a si mesmo, ao paciente ou a terceiros.

Temos um conjunto de NRs que buscam referenciar a segurança desses


ambientes e do trabalho dos profissionais de medicina, como a NR 5, NR 32, entre
outras.

NOTA

Prezado acadêmico, muitas vezes vemos o sistema hospitalar público e


os ambientes de trabalho médico aquém do necessário, não devemos nos conformar
com tais situações, mas buscar um mínimo de condição para atender à população mais
necessitada. Temos visto melhorias nesses ambientes, muitas vezes forçadas pela opinião
pública, verdadeiros trabalhos jornalísticos de apoio à população necessitada, além de
trabalhos de médicos e dos CRMs.
É o trabalho conjunto que faz as coisas acontecerem.

FIGURA – PROBLEMAS EM HOSPITAIS

FONTE: <https://bit.ly/36sF2mS>. Acesso em: 8 set. 2020.

Muitos médicos encontram problemas de atendimento, principalmente


em ambientes hospitalares públicos, entre os quais, podemos citar:

• Falta de médicos.
• Sobrecarga de trabalho.

116
TÓPICO 1 — PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS DO CÓDIGO DE ÉTICA

• Biossegurança.
• Ambiente hospitalar (principalmente salas cirúrgicas, ambulatórios).
• Falta de estrutura hospitalar.
• Espaço precário para atendimento.
• Segurança pessoal e dos pacientes.
• Tecnologia e equipamentos disponíveis.
• Medicamentos disponíveis.
• Superfaturamento e corrupção etc.

Esses são só alguns dos problemas encontrados pelos médicos,


principalmente em hospitais públicos. Precisamos agir com bom senso para
sanarmos esses problemas.

Destacamos a Resolução do CFM nº 2.152/2016 que foi publicada no


D.O.U. de 10 de novembro de 2016, a qual “Estabelece normas de organização,
funcionamento, eleição e competências das Comissões de Ética Médica dos
estabelecimentos de saúde”:

Assim a Resolução do CFM nº 2.152/2016 em seu Artigo 1° descreve:

Art. 1° Todos os estabelecimentos de assistência à saúde e outras pessoas jurídicas


onde se exerça a medicina, ou sob cuja égide se exerça a medicina em todo o território
nacional, devem eleger, entre os membros de seu corpo clínico, Comissões de Ética
Médica os termos desta Resolução.
§ 1° A eleição será supervisionada pelo CRM de sua jurisdição;
§ 2° Compete ao diretor clínico encaminhar ao Conselho Regional de sua jurisdição
a ata da eleição da Comissão de Ética Médica (BRASIL, 2018).

IV - Recusar-se a exercer sua profissão em instituição pública ou privada onde as


condições de trabalho não sejam dignas ou possam prejudicar a própria saúde ou
a do paciente, bem como a dos demais profissionais. Nesse caso, comunicará com
justificativa e maior brevidade sua decisão ao diretor técnico, ao Conselho Regional
de Medicina (BRASIL, 2018).

O médico possui o livre arbítrio de decidir seu futuro profissional,


bem como escolher o ambiente adequado para o seu exercício profissional. Ele
pode não aceitar trabalhar em um ambiente que não lhe forneça as condições
mínimas de segurança. Temos as NR 5, NR 32 e outras que devem ser levadas em
consideração, assim como resoluções da ANVISA e Ministério da Saúde.

117
UNIDADE 2 — O CÓDIGO DE ÉTICA MÉDICA

V - Suspender suas atividades, individualmente ou coletivamente, quando a


instituição pública ou privada para a qual trabalhe não oferecer condições adequadas
para o exercício profissional ou não o remunerar digna e justamente, ressalvadas
as situações de urgência e emergência, devendo comunicar imediatamente sua
decisão ao Conselho Regional de Medicina (BRASIL, 2018).

Ter condições adequadas para o exercício profissional e uma remuneração


digna e justa, é o mínimo esperado ao profissional da medicina, ressalvadas as
situações de urgência e emergência a que o profissional pode ter em seu labor.

VI - Internar e assistir seus pacientes em hospitais privados e públicos com caráter


filantrópico ou não, ainda que não faça parte do seu corpo clínico, respeitadas as
normas técnicas aprovadas pelo Conselho Regional de Medicina da pertinente
jurisdição (BRASIL, 2018).

O médico possui o direito de internar e assistir seus pacientes em hospitais


privados e públicos com caráter filantrópico ou não, ainda que não faça parte
do seu corpo clínico, respeitando as normas técnicas aprovadas pelo Conselho
Regional de Medicina da pertinente jurisdição, pois o médico tem o dever de
prezar pela saúde de seus pacientes e buscar forma de garantir.

A hospedagem dos pacientes nos ambientes de saúde, portanto deve


seguir as normas técnicas do CRM, mas que é um ditame normal às instituições
de saúde.

VII - Requerer desagravo público ao Conselho Regional de Medicina quando


atingido no exercício de sua profissão (BRASIL, 2018).

Quando ocorrer um agravo ao médico em relação ao exercício de sua


profissão e este não se fundamentar, ele pode recorrer ao CRM para requerer um
desagravo público. Este dispositivo se baseia na CF em seu Inciso V, do Artigo 5°,
em que se lê:

V - É assegurado o direito de resposta, proporcional ao agravo, além da indenização


por dano material, moral ou à imagem (BRASIL, 2018).

Esse Inciso é o que permeia e dá validade legal ao dispositivo VII do CEM.

118
TÓPICO 1 — PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS DO CÓDIGO DE ÉTICA

VIII - Decidir, em qualquer circunstância, levando em consideração sua experiência


e capacidade profissional, o tempo a ser dedicado ao paciente sem permitir que
o acúmulo de encargos ou de consultas venha prejudicar seu trabalho (BRASIL,
2018).

O tempo de consulta médica é definido pelo médico em relação a sua


experiência e da doença e detalhes específicos relacionados a cada paciente, não
havendo definição de tempo de atendimento em nenhum órgão ou legislação.
O número de atendimentos a pacientes diários não é especificado em nenhum
documento legal e depende muito da especialidade médica e do caso em análise.

IX - Recusar-se a realizar atos médicos que, embora permitidos por lei, sejam
contrários aos ditames de sua consciência (BRASIL, 2018).

O médico deverá obedecer às questões legais em relação ao seu atendimento


aos pacientes e seguir a sua consciência em seus atos buscando sempre trabalhar
em favor da vida e da saúde do paciente.

X - Estabelecer seus honorários de forma justa e digna (BRASIL, 2018).

Os honorários dos médicos são relativos ao seu serviço e a sua capacidade,


assim como pode ser influenciado pela sua habilidade técnica e especialização,
como qualquer outra profissão avulsa e especialista.

As justezas dos honorários estão associadas também à lei da oferta e


procura no mercado em que o médico está oferecendo os seus serviços.

XI - É direito do médico com deficiência ou com doença, nos limites de suas


capacidades e da segurança dos pacientes, exercer a profissão sem ser discriminado
(BRASIL, 2018).

É direito do médico exercer a sua profissão nos limites de sua capacidade,


principalmente quando este é acometido de deficiência ou doença, desde que
não infrinja seus limites e de tal forma que ele possa exercer a profissão sem ser
discriminado, conforme proclamado inclusive na Constituição Brasileira.

Assim, terminamos a primeira parte da análise do CEM 1988, vamos,


agora, à leitura do artigo Princípios da ética médica, em seguida, ao resumo deste
tópico e a um exercício de revisão.

119
UNIDADE 2 — O CÓDIGO DE ÉTICA MÉDICA

PRINCÍPIOS DA ÉTICA MÉDICA

Ética é o conjunto de valores morais e conhecimentos racionais a respeito


do comportamento humano, princípios que norteiam a conduta humana na
sociedade. Já a Moral, estabelece regras, e cada pessoa tem o dever de assumi-
las para viver bem consigo mesmo e com os outros. O próprio nome distingue
as duas, Ética vem do grego ethos, que significa modo de ser, e Moral vem do
latim mores, significando costumes.

A moral existe há muito mais tempo, pois todos possuem a consciência


moral que leva a distinguir o bem do mal no contexto que vivemos. A Ética
investiga e explica normas morais, pois nos leva a agir não só por tradição,
educação ou hábito, mas mais ainda por convicção e inteligência.

Ela faz uma reflexão filosófica sobre a moral, procura justificá-la e seu
objetivo é guiar e orientar racionalmente a vida humana. A ética e a moral são os
maiores valores do homem que possui liberdade; elas se formam numa mesma
realidade e ambas significam “respeitar e venerar a vida”.

É necessário ter uma ética aplicada, que deve ser específica, dividida em
ramos, para que determinadas situações sejam melhores analisadas, entrando o
papel da ética em diversas profissões, que tem como um dos objetivos fazer as
pessoas entenderem que suas ações possuem consequências não só para si, mas
também para os outros e isso não pode ser encarado apenas de um ponto de vista.

Princípios da ética médica

• Não maleficência: o princípio da não maleficência estabelece que o médico


deve qualificar-se para o atendimento e habilitar-se para a comunicação.
Não se preocupar somente com os fatores objetivos, mas também com os
subjetivos, ou seja, nesse sentido, o médico deve falar só sobre o que sabe,
só fazer o que está capacitado, ter respeito à própria autonomia, justificar
a não aplicação de conduta diagnóstica, comunicar-se sobre o que está
acontecendo e reivindicar infraestrutura adequada. O médico deve tomar
decisões que causem o menor dano ao seu paciente.
• Autonomia: a autonomia é o direito que o paciente tem de emitir sua opinião,
rejeitar ou aceitar o que o médico lhe propõe, podendo agir de forma livre,
voluntária e esclarecida. No entanto, essa autonomia serve também para
os médicos, pois possuem o direito de emitir sua opinião sobre o que o
paciente lhe propõe, podendo rejeitar solicitações que sejam contrárias a
sua consciência e ao seu conhecimento. O médico deve se resguardar de
danos profissionais com os atos médicos sendo autorizados pelos pacientes.
• Beneficência: é praticar o bem para o outro, portanto, as ações profissionais
da saúde devem ser de acordo com o melhor interesse do paciente. Ou seja,
aumentar os benefícios e reduzir o prejuízo. O médico deve assegurar de
que as técnicas aplicadas sejam sempre para o bem do paciente.

120
TÓPICO 1 — PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS DO CÓDIGO DE ÉTICA

• Justiça: a Justiça estabelece o princípio da equidade como condição essencial


da Medicina, ou seja, disposição para reconhecer imparcialmente o direito
de cada um e atender os pacientes na maneira correta. A imparcialidade de
nortear os atos médicos, impede que aspectos discriminatórios interfiram na
relação entre médico e paciente. Um médico precisa exercer sua profissão com
honestidade, transparência, dignidade, espírito de amizade, solidariedade,
compaixão, entre outras características, mas, mesmo assim, estará sempre
sujeito a cometer erros médicos. Não existe médico sem paciente, ambos fazem
parte e objetivam a beneficência do conhecimento científico e a capacitação
operacional; a prática acontece em uma relação humana.
• Segredo médico: o sigilo médico é uma das mais tradicionais características
da profissão médica. É um segredo profissional, que pertence ao paciente e o
médico é quem o guarda. A única possibilidade de revelá-lo é com a autorização
expressa do paciente e situações de dever legal e justa causa. Se o segredo for
revelado fora dessas possibilidades, é considerado antiético e até crime.

FONTE: <https://etica-medica.info/principios-da-etica-medica.html>. Acesso em: 18 nov. 2020.

121
RESUMO DO TÓPICO 1
Neste tópico, você aprendeu que:

• O Código de Ética Médica (CEM) ficou definido na Resolução CFM n° 2.217,


de 27 de setembro de 2018, modificada pelas Resoluções CFM n° 2.222/2018
e n° 2.226/2019.

• O Código de Ética Médico de 2018 é uma conquista de todos os médicos.

• O CEM/2018 traz uma atualização mais realista às vivências médicas atuais,


bem como a regularização de suas condutas considerando, principalmente, as
novas tecnologias para a medicina que estão surgindo.

• As normas do Código de Ética Médica devem submeter-se aos dispositivos


constitucionais vigentes.

• Garantir o melhor relacionamento com o paciente é a garantia de maior


autonomia a sua vontade.

• Apesar de atualizado e aprovado o CEM, o Conselho Federal de Medicina


aventa que poderão ocorrer, sempre que necessário, novas resoluções que
complementem este Código de Ética Médica para facilitar a sua aplicação.

• O presente Código de Ética Médica contém as normas que devem ser seguidas
pelos médicos no exercício de sua profissão, nas atividades de ensino, pesquisa
e administração de serviços de saúde.

• Todas as organizações de prestação de serviços médicos estão sujeitas às


normas deste Código.

• Para o exercício da medicina o médico necessita se inscrever no Conselho


Regional do respectivo estado, território ou Distrito Federal.

• No CEM, temos ainda questões relacionadas à fiscalização e quem infringir o


CEM estará sujeito a punições previstas em lei.

• Os principais Princípios da Ética Médica estão baseados na Não maleficência;


Autonomia; Beneficência; Justiça e no Segredo médico.

122
AUTOATIVIDADE

1 O Código de Ética Médica (CEM) ficou instituído na Resolução CFM n°


2.217, de 27 de setembro de 2018, e foi modificado pelas Resoluções CFM n°
2.222/2018 e n° 2.226/2019, sendo uma conquista de todos os médicos. É uma
atualização bem quista pela sociedade médica e mais realista às vivências
médicas atuais, bem como traz uma modernização quando regulariza
condutas médicas considerando, principalmente, as novas tecnologias
médicas que estão surgindo. Um dos capítulos norteadores do CEM (2018),
é o Capítulo dos Princípios. Sobre os principais princípios definidos no
CEM (2018), assinale a alternativa CORRETA:

a) ( ) Não maleficência, Autonomia, Beneficência, Justiça e Segredo médico.


b) ( ) Maleficência, Não Autonomia, Eficiência, Justeza e Segredo médico.
c) ( ) Não maleficência, Autonomia, Eficiência, Justiça e Inexistência de
Segredo médico.
d) ( ) Maleficência, Não Autonomia, Beneficência, Justiça e Inexistência de
Segredo médico.

123
124
TÓPICO 2 —
UNIDADE 2

RESPONSABILIDADE, DIREITOS E RELAÇÕES PROFISSIONAIS

FIGURA 4 – RESPONSABILIDADES PROFISSIONAIS DO MÉDICO

FONTE: <https://bit.ly/3obr3Ib>. Acesso em: 9 nov. 2020.

“Lembre que desde o átomo ao dinossauro, tudo foi desenvolvido pelo


Criador. Viva responsavelmente e não amargarás as consequências em sua colheita”.
Jwanka

1 INTRODUÇÃO
A evolução do CEM (2018) trouxe normativas consistentes com a CF de
1988 e as novas legislações brasileiras e, neste tópico, faremos uma discussão dos
artigos relacionados aos capítulos sobre a responsabilidade profissional, direitos
humanos, relação com pacientes e familiares e a relação entre médicos.

São temas de suma relevância ao exercício profissional e a boa convivência


pessoal, também relacionada aos quesitos legais, deixando uma segurança legal
a todos os envolvidos em relação ao assunto saúde, seja o médico, o paciente ou
o ambiente de saúde.

Vimos um amadurecimento profissional dos médicos com relação aos


seus direitos e deveres após a promulgação do CEM de 2018, ocasionando uma
motivação para melhorias nas diversas frentes de trabalho desde as questões
ambientais, de comportamento e segurança nos atendimentos.

125
UNIDADE 2 — O CÓDIGO DE ÉTICA MÉDICA

FIGURA 5 – RESPONSABILIDADE PROFISSIONAL DOS MÉDICOS

FONTE: <https://bit.ly/39JNXCH>. Acesso em: 11 set. 2020.

As questões relacionadas aos direitos humanos também receberão


atenção especial, destaca-se ainda a questão do relacionamento médico com seus
pacientes e familiares, que muitas vezes se torna melindroso devido às questões
de doença dele ou de tratativas pessoais que podem ter seus rompantes e que
muitas vezes escambam pra judicialização.

Vamos aos estudos destes detalhamentos.

2 RESPONSABILIDADE PROFISSIONAL
A Constituição Federal de 1988 e as suas diversas leis complementares
trouxeram um novo arcabouço legal, trazendo assertividade a muitos pontos
nebulosos existentes nas legislações anteriores, deixando claro muitos meandros
legais. Uma das referências legais que trouxe esta nova interpretação foi o Código
de Defesa do Consumidor, que levou à qualificação de suas normas, como
sendo de ordem pública, isto é, os preceitos e pontos que nele estão contidos
prevalecerão, mesmo que contra a vontade das partes.

Temos que levar em consideração a doutrina clássica da responsabilidade


civil baseada na culpa, compreendidas questões relacionadas à imperícia, à
negligência e à imprudência e ainda ao nexo causal, trazendo aos ditames legais
à chamada responsabilidade subjetiva. O código de defesa do consumidor
(CDC) em contrapartida desenvolve a teoria da responsabilidade objetiva, a qual
prescinde de culpa, através do Artigo 14, que expõe os seguintes termos:

CÓDIGO DE DEFESA DO CONSUMIDOR

Art.14 O fornecedor de serviços responde, independentemente da existência de


culpa, pela reparação dos danos causados aos consumidores por defeitos relativos
à prestação de serviços, bem como por informações insuficientes ou inadequadas
sobre sua fruição e riscos.

126
TÓPICO 2 — RESPONSABILIDADE, DIREITOS E RELAÇÕES PROFISSIONAIS

§ 1° O serviço é defeituoso quando não fornece a segurança que o consumidor


dele pode esperar, levando-se em consideração as circunstâncias relevantes, entre
as quais:
I - o modo de seu fornecimento;
II - o resultado e os riscos que razoavelmente dele se esperam;
III - a época em que foi fornecido;
§ 2° O serviço não é considerado defeituoso pela adoção de novas técnicas.
§ 3° O fornecedor de serviços só não será responsabilizado quando provar:
I - que, tendo prestado o serviço, o defeito inexiste;
II - a culpa exclusiva do consumidor ou de terceiro;
§ 4° A responsabilidade pessoal dos profissionais liberais será apurada mediante a
verificação de culpa (CÉSPEDES; ROCHA, 2020, p. 654).

Quando lemos atentamente o Artigo 14 do CDC, vemos claramente que o


médico se enquadra na definição de fornecedor de serviços e que está sujeito às
questões legais atribuídas a ele.

DICAS

Prezado acadêmico, deixaremos como dica de leitura o texto desenvolvido


sobre o Código de Defesa do Consumidor e normas correlatas, você poderá acessá-lo no
site: https://www2.senado.leg.br/bdsf/bitstream/handle/id/533814/cdc_e_normas_correlatas
_2ed.pdf.

FIGURA – CÓDIGO DE DEFESA DO CONSUMIDOR E NORMAS CORRELATADAS

FONTE: <https://bit.ly/33znkMz>. Acesso em: 18 nov. 2020.

Vamos agora analisar o que está prescrito no CEM em relação a


responsabilidade profissional do médico.
127
UNIDADE 2 — O CÓDIGO DE ÉTICA MÉDICA

Código de Ética Médico

Capítulo III

RESPONSABILIDADE PROFISSIONAL

É vedado ao médico:

Art. 1° Causar dano ao paciente, por ação ou omissão, caracterizável como


imperícia, imprudência ou negligência.
Parágrafo único. A responsabilidade médica é sempre pessoal e não pode ser
presumida (BRASIL, 2018, grifos nossos).

Este artigo é bem claro, pois o erro médico não é aceitável, pois ele trata
com vidas humanas:

CONSTITUIÇÃO FEDERAL

Título II
Dos Direitos e Garantias Fundamentais

Capítulo I
Dos Direitos e Deveres Individuais e Coletivos

Art. 5° Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza,
garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade
do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos
seguintes (CÉSPEDES; ROCHA, 2020, p. 3, grifos do autor).

Veja também o Artigo 14 do CDC, apresentado anteriormente.

DICAS

Prezado Acadêmico, segue um artigo muito interessante para a sua leitura: A


responsabilidade civil no Código de Defesa do Consumidor, de Abraão Cícero Carneiro.
Acesse o link: https://abraaoadv.jusbrasil.com.br/artigos/188562259/a-responsabilidade-
civil-no-codigo-de-defesa-do-consumidor.

128
TÓPICO 2 — RESPONSABILIDADE, DIREITOS E RELAÇÕES PROFISSIONAIS

Art. 2° Delegar a outros profissionais atos ou atribuições exclusivas da profissão


médica (BRASIL, 2018).

Tem atos ou atribuições que são exclusivas da profissão médica e não se


pode delegar a terceiros tais responsabilidades. O CEM no artigo a seguir, deixa
claro que, quem o fizer corre os riscos previstos em lei.

Art. 3° Deixar de assumir responsabilidade sobre procedimento médico que


indicou ou do qual participou, mesmo quando vários médicos tenham assistido o
paciente (BRASIL, 2018).

O médico é o único responsável sobre os procedimentos médicos que


indicou ou do qual participou, não podendo se eximir da responsabilidade de
seus atos. Novamente, verificar as questões legais na CF e no Código Civil (CC).

Art. 4° Deixar de assumir a responsabilidade de qualquer ato profissional que


tenha praticado ou indicado, ainda que solicitado ou consentido pelo paciente ou
por seu representante legal (BRASIL, 2018).

Assim como temos a responsabilidade dos atos médicos com seus pares
e assistentes expressados no artigo anterior, esse artigo está assumindo que o
médico deverá ser o responsável por seus atos, mesmo que ele tenha sido
solicitado ou consentido pelo paciente ou por seu representante legal.

Art. 5° Assumir responsabilidade por ato médico que não praticou ou do qual não
participou (BRASIL, 2018).

A responsabilidade do médico é intransferível, assim como não é aceitável


assumir a responsabilidade por um ato médico o qual não tenha praticado ou
do qual não participou, por melhor que sejam as suas intenções. Não se pode
assumir possíveis erros profissionais de outrem legalmente.

Art. 6° Atribuir seus insucessos a terceiros e a circunstâncias ocasionais, exceto nos


casos em que isso possa ser devidamente comprovado (BRASIL, 2018).

Do mesmo modo que no item anterior, em que um médico não pode


assumir um erro por outro médico, neste artigo, imputa-se que um médico não
pode atribuir um erro seu a terceiro e a circunstâncias ocasionais, sendo tal fato
somente cabível quando o médico possuir provas concretas de tal ato danoso,
pois caso contrário, o médico poderá incorrer em outros processos de crimes, seja
por falsidade ideológica ou outros crimes previstos em lei, conforme o caso.

129
UNIDADE 2 — O CÓDIGO DE ÉTICA MÉDICA

Art. 7° Deixar de atender em setores de urgência e emergência, quando for de


sua obrigação fazê-lo, mesmo respaldado por decisão majoritária da categoria
(BRASIL, 2018).

O médico não pode paralisar as atividades dos setores de urgência


e emergência de uma unidade de saúde, mesmo quando o setor médico fizer
alguma paralização de classe.

Este artigo é de comprimento incondicional para a classe médica, pois a


população não pode ficar desassistida em uma emergência ou urgência.

Art. 8° Afastar-se de suas atividades profissionais, mesmo temporariamente, sem


deixar outro médico encarregado do atendimento de seus pacientes internados ou
em estado grave.

Art. 9° Deixar de comparecer a plantão em horário preestabelecido ou abandoná-lo


sem a presença de substituto, salvo por justo impedimento.

Parágrafo único. Na ausência de médico plantonista substituto, a direção técnica


do estabelecimento de saúde deve providenciar a substituição (BRASIL, 2018).

Nestes dois artigos, trabalha-se a questão do afastamento do médico,


devendo sempre providenciar outro médico para substituí-lo em seus
atendimentos, seja de seus pacientes internados ou em estado grave, para
comparecer ao plantão em horário preestabelecido ou no meio de seu plantão
caso for necessário.

Temos sim a ressalva nestes artigos por justo impedimento, pois acima de
tudo, o médico é uma pessoa e pode ser acometido de uma doença, e ele também
tem seus problemas particulares, entre outros de força maior.

Art. 10 Acumpliciar-se com os que exercem ilegalmente a medicina ou com


profissionais ou instituições médicas nas quais se pratiquem atos ilícitos (BRASIL,
2018).

Temos visto e acompanhado nos jornais, diversos casos de falsos médicos


exercendo ilegalmente a medicina em suas mais diversas formas, os médicos
precisam lutar contra essas práticas e não as acobertar ou acumpliciar-se a esses
bandidos, prezando pela classe médica e pelas boas práticas.

130
TÓPICO 2 — RESPONSABILIDADE, DIREITOS E RELAÇÕES PROFISSIONAIS

Art. 11 Receitar, atestar ou emitir laudos de forma secreta ou ilegível, sem a devida
identificação de seu número de registro no Conselho Regional de Medicina da
sua jurisdição, bem como assinar em branco folhas de receituários, atestados,
laudos ou quaisquer outros documentos médicos (BRASIL, 2018).

Fornecer receitas, atestados, laudos ou quaisquer outros documentos


médicos sem a identificação do médico e de seu registro no CRM é crime, punível
na forma da lei.

Temos algumas leis específicas que legislam sobre o tema, as quais são:

• Lei nº 5.991, de 17 de dezembro de 1973. Dispõe sobre o Controle Sanitário do


Comércio de Drogas, Medicamentos, Insumos Farmacêuticos e Correlatos, e
dá outras Providências. Na íntegra em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/
LEIS/L5991.htm.
• Lei nº 13.732, de 8 de novembro de 2018. Altera a Lei nº 5.991, de 17 de
dezembro de 1973, que dispõe sobre o Controle Sanitário do Comércio de
Drogas, Medicamentos, Insumos Farmacêuticos e Correlatos, para definir
que a receita tem validade em todo o território nacional, independentemente
da unidade federada em que tenha sido emitida. Na íntegra em: http://www.
planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2018/Lei/L13732.htm.
• Lei nº 14.028, de 27 de julho de 2020. Altera a Lei nº 13.979, de 6 de fevereiro de
2020, para garantir que o receituário médico ou odontológico de medicamentos
sujeitos a prescrição e de uso contínuo tenha validade pelo menos enquanto
perdurarem as medidas de isolamento para contenção do surto da Covid-19,
na forma que especifica. Na íntegra em: http://www.planalto.gov.br/
ccivil_03/_Ato2019-2022/2020/Lei/L14028.htm. (Verificar a validade da lei no
momento de sua leitura, pois foi anexada neste material para deixar claro ao
acadêmico que, em situações específicas e especiais, pode-se editar leis para
atender estas condições).

São muitas as leis e normativas que tratam o tema dependendo da visão


específica, seja do trabalhador, do cidadão comum, ANVISA entre outros.

Art. 12 Deixar de esclarecer o trabalhador sobre as condições de trabalho que


ponham em risco sua saúde, devendo comunicar o fato aos empregadores
responsáveis.

Parágrafo único. Se o fato persistir, é dever do médico comunicar o ocorrido às


autoridades competentes e ao Conselho Regional de Medicina (BRASIL, 2018).

O médico precisa zelar pela saúde do trabalhador e se tiver algum fato


identificado que possa estar influindo, o médico deverá comunicar imediatamente
aos responsáveis e/ou persistindo os fatos, deverá informar o ocorrido às
autoridades competentes e ao Conselho Regional de Medicina.
131
UNIDADE 2 — O CÓDIGO DE ÉTICA MÉDICA

Nessa condição, o médico deverá também averiguar as condições expostas


nas Normas Regulamentadoras do Ministério do Trabalho.

DICAS

Prezado Acadêmico, indicamos a leitura das NRs para uma maior compreensão
das condições necessárias em ambientes de trabalho.

Conforme exposto no site do ENIT:

As Normas Regulamentadoras (NR) são disposições complementares ao Capítulo V da CLT,


consistindo em obrigações, direitos e deveres a serem cumpridos por empregadores e
trabalhadores, com o objetivo de garantir trabalho seguro e sadio, prevenindo a ocorrência
de doenças e acidentes de trabalho. A elaboração/revisão das NR é realizada pelo Ministério
do Trabalho, adotando o sistema tripartite paritário por meio de grupos e comissões
compostas por representantes do governo, de empregadores e de empregados.

FONTE: <https://enit.trabalho.gov.br/portal/index.php/seguranca-e-saude-no-trabalho/sst-
menu/sst-normatizacao/sst-nr-portugues?view=default>. Acesso em: 14 set. 2020.

Você poderá acessar a todas NRs na íntegra pela ENIT: https://bit.ly/3nI2HWl e pelo sit.
trabalho.gov.br: https://bit.ly/3lQ0ibu.

Boa leitura!

Art.13 Deixar de esclarecer o paciente sobre as determinantes sociais, ambientais


ou profissionais de sua doença (BRASIL, 2018).

É um fato notório da profissão do médico esclarecer ao paciente sobre


as enfermidades que possui e, principalmente, em situações que apresentem
riscos a outros, informando possíveis determinantes de comportamento sociais,
ambientais ou profissionais de sua doença, sobretudo quando ocorrem riscos de
contágio ou proliferação.

Art. 14 Praticar ou indicar atos médicos desnecessários ou proibidos pela


legislação vigente no País (BRASIL, 2018).

Um médico nunca poderá indicar atos médicos desnecessários ou


proibidos pela legislação vigente aos pacientes para não infringir a lei em todas
as suas instâncias desde a CF, CC e Código Penal (CP), além do CEM e ANVISA.

132
TÓPICO 2 — RESPONSABILIDADE, DIREITOS E RELAÇÕES PROFISSIONAIS

São muitas as legislações em que um ato deste pode ser autuado, pois a
primazia é nas técnicas reconhecidas, as quais são numerosas e tem protocolos
claramente definidos na maioria dos casos.

Mesmo com o advento de novas tecnologias e medicamentos, a ANVISA e


o CFM têm disponibilizado normativas e protocolos atualizados constantemente,
fato este pode ser claramente visto na evolução dos tratamentos em relação ao
coronavírus.

Art. 15 Descumprir legislação específica nos casos de transplantes de órgãos ou


de tecidos, esterilização, fecundação artificial, abortamento, manipulação ou
terapia genética.

§ 1º No caso de procriação medicamente assistida, a fertilização não deve conduzir


sistematicamente à ocorrência de embriões supranumerários.
§ 2º O médico não deve realizar a procriação medicamente assistida com nenhum
dos seguintes objetivos:
I - criar seres humanos geneticamente modificados;
II - criar embriões para investigação;
III - criar embriões com finalidades de escolha de sexo, eugenia ou para originar
híbridos ou quimeras.
§ 3º Praticar procedimento de procriação medicamente assistida sem que os
participantes estejam de inteiro acordo e devidamente esclarecidos sobre o
método (BRASIL, 2018).

O Artigo 15 é muito controverso, pois a tecnologia atual tem aberto muitos


caminhos para estar influindo nas questões relacionadas a transplantes de órgãos ou
de tecidos, esterilização, fecundação artificial, abortamento, manipulação ou terapia
genética, atualmente o CEM é muito restritivo a estes procedimentos. Temos muitos
questionamentos religiosos, éticos e morais ligados a esses assuntos, mas vemos muitos
questionamentos também das comunidades científicas espalhadas pelo mundo.

Não queremos tecer opiniões sobre o tema, nem favoráveis nem contra, e
sim que a lei brasileira é clara e apresenta essas restrições ao uso médico dessas
tecnologias (salvo condições muito específicas) e experiências científicas.

DICAS

Prezado acadêmico, no Brasil, os procedimentos de procriação, medicamente


assistidos, são regidos pela Lei de Biosseguranca Nacional (Lei nº 11.105/2005) e pela
Resolução nº 2.168/2017 do Conselho Federal de Medicina, os quais recomendamos a você
a sua leitura em caso de buscar mais informações sobre o tema.

133
UNIDADE 2 — O CÓDIGO DE ÉTICA MÉDICA

Lei de Biosseguranca Nacional (Lei nº 11.105/2005), acesse o link: http://www.planalto.gov.


br/ccivil_03/_ato2004-2006/2005/lei/l11105.htm.

Resolução 2.168/2017 do Conselho Federal de Medicina. Acesse o link: https://sistemas.cfm.


org.br/normas/visualizar/resolucoes/BR/2017/2168.

Boa leitura!

Art. 16 Intervir sobre o genoma humano com vista à sua modificação, exceto na
terapia gênica, excluindo-se qualquer ação em células germinativas que resulte
na modificação genética da descendência (BRASIL, 2018).

Este tema ainda está no centro das discussões médicas, pois a intervenção
no genoma humano é um grande tabu em que toda a humanidade está debruçada,
e o que é ético e o que não é, pois sempre sobram os dissídios da sapiência do
que é a capacidade do ser humano, o que ele pode fazer, quais são os limites do
desenvolvimento humano e da ciência. É uma reflexão dos limites humanos na
pesquisa e conhecimento.

FIGURA 6 – GENÉTICA E A LEGISLAÇÃO BRASILEIRA

FONTE: <https://nace.igenomix.com.br/wp-content/uploads/sindrome-genetica-1024x597.jpg>.
Acesso em: 14 set. 2020.

A realidade é que, atualmente, na legislação brasileira, e novamente nos


remetemos à lei de Biossegurança Nacional (Lei nº 11.105/2005) e as demais leis
que versam sobre o tema.

Art. 17 Deixar de cumprir, salvo por motivo justo, as normas emanadas dos
Conselhos Federal e Regionais de Medicina e de atender às suas requisições
administrativas, intimações ou notificações no prazo determinado.
Art. 18 Desobedecer aos acórdãos e às resoluções dos Conselhos Federal e
Regionais de Medicina ou desrespeitá-los (BRASIL, 2018).

134
TÓPICO 2 — RESPONSABILIDADE, DIREITOS E RELAÇÕES PROFISSIONAIS

Obedecer às leis federativas do Brasil, assim como as normas do CFM, é


condição sine qua non a todo médico que desenvolve o seu labor com ética, moral
e dentro dos bons costumes sociais, buscando sempre zelar pela profissão e o seu
crescimento social.

Art. 19 Deixar de assegurar, quando investido em cargo ou função de direção, os


direitos dos médicos e as demais condições adequadas para o desempenho ético-
profissional da medicina (BRASIL, 2018).

O médico, quando assume um cargo ou função de direção, principalmente


em instituições de saúde, deve assegurar os direitos dos médicos e as demais
condições adequadas para o desempenho ético-profissional da medicina,
obedecendo as leis brasileiras relacionadas à área e ao CEM (2018).

A função de gestão não exime a responsabilidade, ao contrário, ele reforça


ainda mais, já que está cuidando de todo um contexto de responsabilidades de
ambientes e operacionais que devem buscar a segurança como um todo. Temos,
ainda, as NRs, principalmente as NR 5, NR 32, e as demais referentes à segurança
e à gestão de ambientes de saúde.

DICAS

Acadêmico, no Livro Didático de Direito Médico Hospitalar (PIERITZ, 2020) que


está disponível na Biblioteca On-line da UNIASSELVI, você pode acessar a Unidade 3 através
do seu AVA, lá apresentamos uma discussão sobre o tema de Gerenciamento, prevenção de
riscos, vigilância e biossegurança.

Boa leitura!

FIGURA 7 – ADMINISTRAÇÃO EM SAÚDE.

FONTE: <https://www.wareline.com.br/wp-content/uploads/2019/05/2019-05-06-Post4-2.png>.
Acesso em: 14 set. 2020.

135
UNIDADE 2 — O CÓDIGO DE ÉTICA MÉDICA

Conforme apresentado por Pieritz (2020), a administração é o principal


responsável pelos resultados alcançados no ambiente de saúde, pois é quem
define os seus rumos e toma as decisões para alcançá-los, mas sempre deverá
seguir as normas legais vigentes.

Art. 20 Permitir que interesses pecuniários, políticos, religiosos ou de quaisquer


outras ordens, do seu empregador ou superior hierárquico ou do financiador
público ou privado da assistência à saúde, interfiram na escolha dos melhores
meios de prevenção, diagnóstico ou tratamento disponíveis e cientificamente
reconhecidos no interesse da saúde do paciente ou da sociedade (BRASIL, 2018).

O médico é o único responsável pelo tratamento de seus pacientes, não


podendo ser influenciado pelos interesses pecuniários, políticos, religiosos
ou de quaisquer outras ordens, do seu empregador ou superior hierárquico
ou do financiador público ou privado da assistência à saúde, pois seu objetivo
primordial é zelar pela saúde de seus pacientes através de utilização de melhor
técnica e tratamento homologado disponível.

Art. 21 Deixar de colaborar com as autoridades sanitárias ou infringir a legislação


pertinente (BRASIL, 2018).

O cuidado à saúde pode apresentar diversos casos que podem gerar


problemas relacionados à biossegurança, a questões de epidemia, pandemias
entre outras situações; vide caso recente do coronavírus; por isso os médicos
devem colaborar e notificar as autoridades sanitárias obedecendo às legislações
pertinentes.

Estes são os artigos que tratam da responsabilidade profissional do


médico, fizemos uma avaliação dos artigos na visão legal, mas fica a ressalva que
existem muitos outros quesitos legais, normativas do próprio CFM.

3 DIREITOS HUMANOS
Todo médico, como cidadão, deve prezar pelas condições do ser humano
em sua essência, por isso temos todas as questões relacionadas ao direito humano,
seja pela Declaração universal dos Direitos Humanos de 1948 da Organização
das Nações Unidas (ONU), ou pelas questões relacionadas à Carta Magna do
Brasil (Constituição Federal de 1988) que tratam os Direitos Humanos.

O CEM desenvolveu os seus diversos artigos tratando do assunto, os


quais estão compreendidos no seu Capítulo IV e o detalha entre os Artigos 22 e
30, adaptando-os à realidade médica.

136
TÓPICO 2 — RESPONSABILIDADE, DIREITOS E RELAÇÕES PROFISSIONAIS

Apresentamos a seguir os artigos em sua integra.

Capítulo IV

DIREITOS HUMANOS

É vedado ao médico:

Art. 22 Deixar de obter consentimento do paciente ou de seu representante legal


após esclarecê-lo sobre o procedimento a ser realizado, salvo em caso de risco
iminente de morte.
Art. 23 Tratar o ser humano sem civilidade ou consideração, desrespeitar sua
dignidade ou discriminá-lo de qualquer forma ou sob qualquer pretexto.
Parágrafo único. O médico deve ter para com seus colegas respeito, consideração
e solidariedade.
Art. 24 Deixar de garantir ao paciente o exercício do direito de decidir livremente
sobre sua pessoa ou seu bem-estar, bem como exercer sua autoridade para limitá-lo.
Art. 25 Deixar de denunciar prática de tortura ou de procedimentos degradantes,
desumanos ou cruéis, praticá-las, bem como ser conivente com quem as realize
ou fornecer meios, instrumentos, substâncias ou conhecimentos que as facilitem.
Art. 26 Deixar de respeitar a vontade de qualquer pessoa, considerada capaz física
e mentalmente, em greve de fome, ou alimentá-la compulsoriamente, devendo
cientificá-la das prováveis complicações do jejum prolongado e, na hipótese de
risco iminente de morte, tratá-la.
Art. 27 Desrespeitar a integridade física e mental do paciente ou utilizar-se de
meio que possa alterar sua personalidade ou sua consciência em investigação
policial ou de qualquer outra natureza.
Art. 28 Desrespeitar o interesse e a integridade do paciente em qualquer instituição
na qual esteja recolhido, independentemente da própria vontade.
Parágrafo único. Caso ocorram quaisquer atos lesivos à personalidade e à saúde
física ou mental dos pacientes confiados ao médico, este estará obrigado a
denunciar o fato à autoridade competente e ao Conselho Regional de Medicina.
Art. 29 Participar, direta ou indiretamente, da execução de pena de morte.
Art. 30 Usar da profissão para corromper costumes, cometer ou favorecer crime
(BRASIL, 2018, grifos nossos).

Como você pôde ler, esse capítulo trouxe a visão dos direitos humanos em
toda a sua essência para as atividades profissionais do médico, como exemplo,
veja a íntegra e as normativas similares ao Artigo V da Declaração Universal dos
Direitos Humanos em relação à legislação Brasileira (CF) e ao CEM.

Declaração Universal dos Direitos Humanos – Artigo V


Ninguém será submetido à tortura nem a tratamento ou castigo cruel, desumano
ou degradante (ONU, 2009, p. 6).

137
UNIDADE 2 — O CÓDIGO DE ÉTICA MÉDICA

Temos ainda na CF:

CF – Artigo 5°:
III - ninguém será submetido a tortura nem a tratamento desumano ou degradante;
(CÉSPEDES; ROCHA, 2020, p. 3).

No CEM, lemos:

Art. 25 Deixar de denunciar prática de tortura ou de procedimentos degradantes,


desumanos ou cruéis, praticá-las, bem como ser conivente com quem as realize
ou fornecer meios, instrumentos, substâncias ou conhecimentos que as facilitem
(BRASIL, 2018).

No CEM, temos o reforço das questões explanadas na Declaração Universal


dos Direitos Humanos, assim como na CF, deixando claro que se o médico
identificar questões relacionadas à tortura ou a procedimentos degradantes,
desumanos ou cruéis, ele deve denunciá-lo, assim como não pode facilitá-lo em
qualquer circunstância.

DICAS

Caro acadêmico, segue material complementar para você ampliar o seu


conhecimento referente aos Direitos Humanos:

FIGURA – DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS HUMANOS DA ONU

FONTE: <https://bit.ly/35K3Pm4>. Acesso em: 18 nov. 2020.

138
TÓPICO 2 — RESPONSABILIDADE, DIREITOS E RELAÇÕES PROFISSIONAIS

FIGURA – LIVRO: DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA

FONTE: <https://bit.ly/35Iaihe>. Acesso em: 18 nov. 2020.

FONTE: PIERITZ, V. L. H.; BONETTI, J. C. S.; FRANZMANN, N. M. Direitos humanos e cidadania.


Indaial: Editora: Uniasselvi, 2016.

Assim como esse artigo do CEM, todos os outros artigos da Declaração


Universal dos Direitos Humanos da ONU que estão relacionados a alguma questão
médica ou que podem ser atendidos por ele também foram compreendidos no
Código de Ética Médica, conforme apresentamos acima.

4 RELAÇÃO COM PACIENTES E FAMILIARES


Um momento crítico do médico é o relacionamento com os pacientes e
familiares, principalmente em questões mais críticas de saúde, pois ninguém quer
receber notícias críticas sobre a sua enfermidade, especialmente sobre questões
relacionadas à vida e à morte.

Não somente em situações tão críticas o médico necessita se precaver em


sua consulta e diagnósticos, pois vimos muitas situações que o paciente pode
se sentir intimidado ou com a sua intimidade invadida, porém temos exames
mais críticos neste sentido e por isso mesmo deve-se tomar todas as precauções
possíveis para garantir a lisura por parte do médico e inibir qualquer suspeita
que poderá surgir.

Veremos, no Capítulo V dos CEM, 12 artigos (do 31º ao 42º) que tratam o
tema Relação com pacientes e familiares:

139
UNIDADE 2 — O CÓDIGO DE ÉTICA MÉDICA

CAPÍTULO V

RELAÇÃO COM PACIENTES E FAMILIARES

É vedado ao médico:

Art. 31 Desrespeitar o direito do paciente ou de seu representante legal de decidir


livremente sobre a execução de práticas diagnósticas ou terapêuticas, salvo em
caso de iminente risco de morte (BRASIL, 2018, grifos nossos).

O respeito ao paciente ou a seu representante é fundamental. É um dos


preceitos também difundidos na CF, devendo, inclusive, participarem da decisão
livremente sobre a execução de práticas diagnósticas ou terapêuticas, salvo em
caso de iminente risco de morte, que geralmente surgem em emergências.

Art. 32 Deixar de usar todos os meios disponíveis de promoção de saúde e de


prevenção, diagnóstico e tratamento de doenças, cientificamente reconhecidos e
a seu alcance, em favor do paciente (BRASIL, 2018).

O médico deve propiciar todos os meios tecnológicos possíveis para


ajudar o paciente em seu tratamento e cura, fato este já apresentado em diversos
momentos deste material, e aqui também é expresso como um dos direitos do
paciente, gerando a imperícia médica.

Art. 33 Deixar de atender paciente que procure seus cuidados profissionais em


casos de urgência ou emergência quando não houver outro médico ou serviço
médico em condições de fazê-lo (BRASIL, 2018).

Conforme apresentado por França (2019, p. 138), “das incondicionalidades


do atendimento médico, a mais imperiosa delas é, sem dúvida, a do atendimento
ao paciente que procura o médico em casos de confirmada urgência ou emergência
médica”. Tal fato é reforçado neste artigo, colocada a condição de quando não
houver outro médico ou serviço médico em condições de fazer este atendimento
de urgência ou de emergência.

Art. 34 Deixar de informar ao paciente o diagnóstico, o prognóstico, os riscos


e os objetivos do tratamento, salvo quando a comunicação direta possa lhe
provocar danos, devendo, neste caso, fazer a comunicação a seu representante
legal (BRASIL, 2018).

140
TÓPICO 2 — RESPONSABILIDADE, DIREITOS E RELAÇÕES PROFISSIONAIS

É imperativo deixar o paciente ou seu representante legal informado de


todos os procedimentos a serem executados, assim como qualquer situação que
possa influenciar no tratamento do paciente. França (2019, p. 142) descreve que “o
certo é que o direito de saber a verdade começa a ser mais e mais exigido, de forma
insistente, por enfermos e familiares”.

Art. 35 Exagerar a gravidade do diagnóstico ou do prognóstico, complicar a


terapêutica ou exceder-se no número de visitas, consultas ou quaisquer outros
procedimentos médicos (BRASIL, 2018).

O exagero é sempre prejudicial, em qualquer que seja a circunstância e não


é diferente na tratativa médico paciente, devendo-se sempre tratar as questões
médicas na maior justeza possível para não se incorrer em crime, pois contra a
verdade não existe desculpa e na relação médico paciente não é diferente.

Art. 36 Abandonar paciente sob seus cuidados.


§ 1° Ocorrendo fatos que, a seu critério, prejudiquem o bom relacionamento
com o paciente ou o pleno desempenho profissional, o médico tem o direito
de renunciar ao atendimento, desde que comunique previamente ao paciente
ou a seu representante legal, assegurando-se da continuidade dos cuidados e
fornecendo todas as informações necessárias ao médico que o suceder.
§ 2° Salvo por motivo justo, comunicado ao paciente ou a sua família, o médico
não o abandonará por este ter doença crônica ou incurável e continuará a assisti-lo
e a propiciar-lhe os cuidados necessários, inclusive os paliativos (BRASIL, 2018).

O abandono dos pacientes pelo médico é considerado um caso grave,


mas podem ocorrer situações legais que podem ensejar o afastamento do médico
do atendimento, em tal caso de renúncia, é necessário fazer todo um trâmite de
comunicação tanto ao paciente como ao seu representante legal para que não
ocorra ressalva legais.

Tal fato precisa ter um motivo justo, comunicado ao paciente ou a sua


família, porém em contrapartida o médico não poderá abandonar o paciente
por este ter uma doença crônica ou incurável devendo continuar a assisti-lo e a
propiciar-lhe os cuidados necessários, inclusive os paliativos.

Art. 37 Prescrever tratamento e outros procedimentos sem exame direto


do paciente, salvo em casos de urgência ou emergência e impossibilidade
comprovada de realizá-lo, devendo, nesse caso, fazê-lo imediatamente depois de
cessado o impedimento, assim como consultar, diagnosticar ou prescrever por
qualquer meio de comunicação de massa.

141
UNIDADE 2 — O CÓDIGO DE ÉTICA MÉDICA

§ 1º O atendimento médico a distância, nos moldes da telemedicina ou de outro


método, dar-se-á sob regulamentação do Conselho Federal de Medicina.
§ 2º Ao utilizar mídias sociais e instrumentos correlatos, o médico deve respeitar
as normas elaboradas pelo Conselho Federal de Medicina (BRASIL, 2018).

O CFM está atento às novas tecnologias de comunicação como as mídias


sociais e correlatos, porém ainda não instituiu o atendimento médico a distância,
nos moldes da telemedicina ou de outro método, assim como ainda não constituiu
a prescrição de tratamento e outros procedimentos sem exame direto do paciente,
ressalvados casos de urgência ou emergência e que exista a impossibilidade
comprovada de se realizá-lo, devendo, nesse caso, fazê-lo imediatamente depois
de cessado o impedimento.

Art. 38 Desrespeitar o pudor de qualquer pessoa sob seus cuidados profissionais


(BRASIL, 2018).

No dicionário on-line Dicio (2020, s.p.), temos o seguinte significado da


palavra pudor:
Sentimento de vergonha; sensação de mal-estar e de timidez
provocadas pelo que se opõe aos bons costumes, à inocência.
Constrangimento causado pelo desrespeito à decência, à honestidade;
pejo.
Sentimento e comportamento resultantes de uma educação severa
que, geralmente baseada em preceitos religiosos, faz com que alguém
se sinta envergonhado ao mostrar certas partes do corpo em público.
Excesso de vergonha que, normalmente causada por um fator cultural,
provoca um constrangimento ao ter que falar e/ou praticar certas
ações relacionadas com sexualidade, funções corporais, sentimentos
particulares, sensações; recato.
Etimologia (origem da palavra pudor). Do latim pudor.oris.

No exercício da medicina, podem surgir momentos de foro íntimo tanto


para homens quanto para mulheres e sempre é importante preservar o pudor
dentro das condições técnicas prescritas no bom comportamento e dignidade
das pessoas, pois muitas vezes pode ser constrangedor para o paciente, mas
necessário para a consulta médica.

O pudor é fundamental para o bom convívio entre médicos e pacientes,


mesmo assim vemos muitos médicos extrapolando os bons costumes.

Art. 39 Opor-se à realização de junta médica ou segunda opinião solicitada pelo


paciente ou por seu representante legal (BRASIL, 2018).

142
TÓPICO 2 — RESPONSABILIDADE, DIREITOS E RELAÇÕES PROFISSIONAIS

Todo paciente tem direito a realização de junta médica ou solicitação de


uma segunda opinião sobre o seu caso.

Art. 40 Aproveitar-se de situações decorrentes da relação médico-paciente para


obter vantagem física, emocional, financeira ou de qualquer outra natureza
(BRASIL, 2018).

Assim como reza a CF, o CEM também define que legalmente os médicos
não podem se aproveitar de seus pacientes para obter vantagem física, emocional,
financeira ou de qualquer outra natureza.

A ética e a moral no relacionamento médico paciente são fundamentais.

Art. 41 Abreviar a vida do paciente, ainda que a pedido deste ou de seu


representante legal.
Parágrafo único. Nos casos de doença incurável e terminal, deve o médico oferecer
todos os cuidados paliativos disponíveis sem empreender ações diagnósticas ou
terapêuticas inúteis ou obstinadas, levando sempre em consideração a vontade
expressa do paciente ou, na sua impossibilidade, a de seu representante legal
(BRASIL, 2018).

No Brasil, é proibido ao médico abreviar a vida do paciente, novamente


entrando nas questões legais da CF e, por consequência, podendo ensejar em um
crime à vida e assim ser elencado o CC, Código Penal (CP) e o CEM.

A gravidade dos casos depende das circunstâncias identificadas e devem


ser analisadas pormenorizadamente caso a caso pelas instâncias cabíveis.

Art. 42 Desrespeitar o direito do paciente de decidir livremente sobre método


contraceptivo, devendo sempre esclarecê-lo sobre indicação, segurança,
reversibilidade e risco de cada método (BRASIL, 2018).

O paciente tem direito de escolher o método contraceptivo que melhor lhe


convém, porém o médico deve expor todos os pontos correlatos sobre a melhor
indicação, segurança, reversibilidade e risco de cada método.

Este capítulo do CEM é bastante melindroso, vimos muitos problemas


legais relacionados a essas questões, por isso, é de boa prática os médicos zelarem
pela sua segurança jurídica, trabalhando de forma ética e moral e assistido por
profissionais que lhe darão maior segurança, principalmente sobre pacientes
mal-intencionados.

Vamos, agora, adentrar em outro tema capcioso, que são a doação e


transplantes de órgãos e tecidos.

143
UNIDADE 2 — O CÓDIGO DE ÉTICA MÉDICA

5 DOAÇÃO E TRANSPLANTE DE ÓRGÃOS E TECIDOS


A evolução da medicina possibilitou novas incursões nos campos de
transplantes de órgãos e tecidos para o ser humano.

Conforme apresentado por Simers (2017, s.p.):


No começo do século 20, já eram feitos transplantes de órgãos não
vitais, como enxertos de pele e córnea. A partir de 1933, foram feitas
várias tentativas de transplante renal, mas os órgãos eram rejeitados
pelos pacientes. Foi apenas em 1954 que o primeiro transplante de um
órgão humano vital teve sucesso. O médico cirurgião Joseph Murray
fez o transplante de rim entre irmãos gêmeos idênticos para evitar o
perigo de rejeição.

Desde os primórdios, muito já se evoluiu nessa área de transplantes


de órgãos, e o CFM precisou determinar parâmetros legais que definissem
procedimentos na questão de doação e transplantes de órgãos e tecidos no Brasil,
os quais estão descritos no Capítulo VI do CEM que apresentamos a seguir:

Capítulo VI

DOAÇÃO E TRANSPLANTE DE ÓRGÃOS E TECIDOS

É vedado ao médico:

Art. 43 Participar do processo de diagnóstico da morte ou da decisão de suspender


meios artificiais para prolongar a vida do possível doador, quando pertencente à
equipe de transplante.
Art. 44 Deixar de esclarecer o doador, o receptor ou seus representantes legais sobre
os riscos decorrentes de exames, intervenções cirúrgicas e outros procedimentos
nos casos de transplante de órgãos.
Art. 45 Retirar órgão de doador vivo quando este for juridicamente incapaz,
mesmo se houver autorização de seu representante legal, exceto nos casos
permitidos e regulamentados em lei.
Art. 46 Participar direta ou indiretamente da comercialização de órgãos ou de
tecidos humanos (BRASIL, 2018, grifos nossos).

Como você pôde ver nesses quatro artigos, o CEM normatiza mais os
quesitos legais relacionados às questões éticas e morais da doação, protegendo o
médico em suas decisões com o seu paciente e em relação à dignidade do doador.

Outro ponto importante relacionado no Artigo 46°, é a definição clara que,


no Brasil, é proibido a comercialização de órgãos e tecidos humanos.

144
TÓPICO 2 — RESPONSABILIDADE, DIREITOS E RELAÇÕES PROFISSIONAIS

Atualmente, esse tema tem uma relevância cada vez mais importante na
medicina, pois vemos ocorrendo transplantes de tecidos, fígado, coração, pulmão,
rim etc. e com certeza novos horizontes surgirão, assim como novas questões
éticas e legais também.

6 RELAÇÃO ENTRE MÉDICOS


É mister, na atualidade, a cortesia profissional em toda e qualquer área
de trabalho e não se apregoa situação diferente no relacionamento entre os
profissionais de medicina.

A boa relação profissional é fundamental em todas as profissões, mas por


nuances técnicas o CFM listou no CEM questões recorrentes de conflitos entre os
profissionais e, por isso, temos um capítulo exclusivo tratando este tema com 11
artigos específicos.

Por serem artigos claramente definidos e entendíveis sem jargões e


detalhes mais técnicos em nível jurídico, não iremos detalhar todos os artigos de
forma individual.

Vamos aos artigos no CEM:

Capítulo VII

RELAÇÃO ENTRE MÉDICOS

É vedado ao médico:

Art. 47 Usar de sua posição hierárquica para impedir, por motivo de crença
religiosa, convicção filosófica, política, interesse econômico ou qualquer outro
que não técnico-científico ou ético, que as instalações e os demais recursos da
instituição sob sua direção sejam utilizados por outros médicos no exercício da
profissão, particularmente se forem os únicos existentes no local.
Art. 48 Assumir emprego, cargo ou função para suceder médico demitido ou
afastado em represália à atitude de defesa de movimentos legítimos da categoria
ou da aplicação deste Código.
Art. 49 Assumir condutas contrárias a movimentos legítimos da categoria médica
com a finalidade de obter vantagens.
Art. 50 Acobertar erro ou conduta antiética de médico.
Art. 51 Praticar concorrência desleal com outro médico.
Art. 52 Desrespeitar a prescrição ou o tratamento de paciente, determinados
por outro médico, mesmo quando em função de chefia ou de auditoria, salvo
em situação de indiscutível benefício para o paciente, devendo comunicar
imediatamente o fato ao médico responsável.

145
UNIDADE 2 — O CÓDIGO DE ÉTICA MÉDICA

Art. 53 Deixar de encaminhar o paciente que lhe foi enviado para procedimento
especializado de volta ao médico assistente e, na ocasião, fornecer-lhe as devidas
informações sobre o ocorrido no período em que por ele se responsabilizou.
Art. 54 Deixar de fornecer a outro médico informações sobre o quadro clínico de
paciente, desde que autorizado por este ou por seu representante legal.
Art. 55 Deixar de informar ao substituto o quadro clínico dos pacientes sob sua
responsabilidade ao ser substituído ao fim do seu turno de trabalho.
Art. 56 Utilizar-se de sua posição hierárquica para impedir que seus subordinados
atuem dentro dos princípios éticos.
Art. 57 Deixar de denunciar atos que contrariem os postulados éticos à comissão
de ética da instituição em que exerce seu trabalho profissional e, se necessário, ao
Conselho Regional de Medicina (BRASIL, 2018, grifos nossos).

Vimos, nesses artigos, relatos de boa conduta profissional administrativa,


sobre concorrência entre médicos, assim como questões relacionadas à questão
ética dos profissionais como quando apresentado no seu Artigo 50.

Art. 50 Acobertar erro ou conduta antiética de médico (BRASIL, 2018).

Complementado ainda pelo Artigo 57:

Art. 57 Deixar de denunciar atos que contrariem os postulados éticos à comissão


de ética da instituição em que exerce seu trabalho profissional e, se necessário, ao
Conselho Regional de Medicina (BRASIL, 2018).

Nesse último artigo, deixando claro que é antiético e pode ser denunciado
ao CRM, o médico que não denunciar o seu par quando este fere o CEM por
qualquer ato que cometeu.

É um ato de lisura quando um médico apresenta fatos que um outro


médico está cometendo, que fere o Código de Ética Médico e, principalmente, ao
seu paciente devendo ser prontamente comunicado, ressalvado as questões de
veracidade dos fatos e de existência das provas que comprovem tais fatos.

Esperamos que as discussões apresentadas sobre esses artigos do CEM


tenham contribuído com o seu aperfeiçoamento profissional do tema, iremos, na
sequência, estudar os demais pontos do CEM, mas antes vamos apresentar uma
leitura do Decreto nº 9.175/2017, e para terminar este tópico, faremos um breve
resumo e traremos um pequeno exercício de revisão.

146
TÓPICO 2 — RESPONSABILIDADE, DIREITOS E RELAÇÕES PROFISSIONAIS

DECRETO Nº 9.175, DE 18 DE OUTUBRO DE 2017

Regulamenta a Lei nº 9.434, de 4 de fevereiro de 1997, para tratar da disposição


de ÓRGÃOS, TECIDOS, CÉLULAS E PARTES DO CORPO HUMANO para
fins de TRANSPLANTE E TRATAMENTO.
(Extrato do Decreto)

[...]

CAPÍTULO II

DA AUTORIZAÇÃO

Seção I

Da Autorização de Estabelecimentos de Saúde e Equipes Especializadas

Art. 11. O transplante, o enxerto ou a retirada de órgãos, tecidos, células e partes


do corpo humano somente poderão ser realizados em estabelecimentos de
saúde, públicos ou privados, por equipes especializadas, prévia e expressamente
autorizados pelo órgão central do SNT.

§ 1º O pedido de autorização formalmente apresentado pela CET poderá ser


formulado para cada atividade de que trata este Decreto.
§ 2º A autorização para fins de transplantes, enxerto ou retirada de órgãos,
tecidos, células e partes do corpo humano deverá ser concedida conjunta ou
separadamente para estabelecimentos de saúde e para equipes especializadas de
transplante, enxerto ou retirada.
§ 3º A retirada de órgãos, tecidos, células e partes do corpo humano poderá
ocorrer em quaisquer estabelecimentos de saúde, desde que realizada por equipes
especializadas autorizadas e com a anuência formal da CET.
§ 4º Em qualquer caso, no pedido de autorização, os estabelecimentos de saúde
e as equipes especializadas firmarão compromisso no qual se sujeitarão à
fiscalização e ao controle do Poder Público, facilitando o acesso às instalações,
aos equipamentos e aos prontuários, observada sempre a habilitação dos agentes
credenciados para tal, tendo em vista o caráter sigiloso desses documentos.
§ 5º As autorizações serão válidas pelo prazo de até quatro anos, renováveis por
períodos iguais e sucessivos, verificada a observância dos requisitos estabelecidos
neste Decreto e em normas complementares do Ministério da Saúde.
§ 6º A renovação a que se refere o § 5º deverá ser requerida pelas equipes
especializadas e pelos estabelecimentos de saúde ao órgão central do SNT no
prazo de até noventa dias antes do término da vigência da autorização anterior.
§ 7º Os pedidos de renovação apresentados após o prazo estabelecido no § 6º
serão considerados como pedidos de nova autorização, situação que implica a
cessação dos efeitos da autorização anterior após o término de sua vigência.

147
UNIDADE 2 — O CÓDIGO DE ÉTICA MÉDICA

Art. 12. Os estabelecimentos de saúde deverão contar com os serviços e as


instalações adequados à execução de retirada, transplante ou enxerto de órgãos,
tecidos, células e partes do corpo humano, atendidas as exigências contidas em
normas complementares do Ministério da Saúde e comprovadas no requerimento
de autorização.

§ 1º A transferência da propriedade, a modificação da razão social e a alteração


das equipes especializadas pela incorporação de outros profissionais, igualmente
autorizados, quando comunicadas no prazo de até noventa dias da sua ocorrência,
não prejudicarão a validade da autorização concedida.
§ 2º O estabelecimento de saúde autorizado na forma deste artigo somente poderá
realizar transplante se observar, em caráter permanente, ao disposto no § 2º do
art. 13.

Art. 13. A composição das equipes especializadas será determinada em função


da modalidade de transplante, enxerto ou retirada de órgãos, tecidos, células e
partes do corpo humano para a qual solicitou autorização, mediante integração
de profissionais também autorizados na forma desta Seção.

§ 1º Os critérios técnicos para concessão de autorização e de renovação da


autorização de equipes especializadas e de estabelecimentos de saúde serão
definidos em normas complementares do órgão central do SNT.
§ 2º Será exigível, no caso de transplante, a definição, em número e habilitação, de
profissionais necessários à realização do procedimento.
§ 3º A autorização será concedida para cada modalidade de transplante, enxerto
ou retirada de órgãos, tecidos, células e partes do corpo humano e o pedido deverá
ser formalizado para o conjunto dos seus membros, indicando o estabelecimento
ou os estabelecimentos de saúde de atuação.

Art. 14. Além da habilitação profissional, as equipes especializadas deverão


instruir o pedido de autorização ou de renovação de autorização de acordo com
as normas expedidas pelo órgão central do SNT.

Seção II

Das Disposições Complementares

Art. 15. O pedido de autorização de estabelecimentos de saúde, de equipes


especializadas, de laboratórios de histocompatibilidade e de bancos de tecidos será
apresentado às Secretarias de Saúde do Estado ou do Distrito Federal pelo gestor
local do Sistema Único de Saúde - SUS, que o instruirá com relatório circunstanciado
e conclusivo quanto à necessidade do novo serviço e à satisfação das exigências
estabelecidas neste Decreto e em normas complementares, no âmbito de sua área
de competência, definida pela Lei nº 8.080, de 19 de setembro de 1990 .

148
TÓPICO 2 — RESPONSABILIDADE, DIREITOS E RELAÇÕES PROFISSIONAIS

§ 1º Os estabelecimentos de saúde e as demais instâncias cujo funcionamento


esteja condicionado à autorização pelo órgão central do SNT deverão respeitar
o Plano Estadual de Doação e Transplantes estabelecido no Capítulo VII, no
âmbito da gestão local de saúde, inclusive quanto à necessidade de sua criação e
implementação.
§ 2º A Secretaria de Saúde do Estado ou do Distrito Federal diligenciará junto ao
requerente para verificar o cumprimento das exigências a seu cargo.
§ 3º A Secretaria de Saúde do Estado ou do Distrito Federal remeterá o pedido
de autorização ao órgão central do SNT para expedição da autorização caso haja
manifestação favorável quanto à presença de todos os requisitos estabelecidos
neste Decreto e em normas complementares.

Art. 16. O Ministério da Saúde poderá estabelecer outras exigências que se tornem
indispensáveis à prevenção de irregularidades nas atividades de que trata este
Decreto.

CAPÍTULO III

DA DISPOSIÇÃO POST MORTEM

Seção I

Da Disposição Post mortem de Órgãos, Tecidos, Células e Partes do Corpo


Humano para Fins de Transplante ou Enxerto.

Art. 17. A retirada de órgãos, tecidos, células e partes do corpo humano poderá
ser efetuada após a morte encefálica, com o consentimento expresso da família,
conforme estabelecido na Seção II deste Capítulo.

§ 1º O diagnóstico de morte encefálica será confirmado com base nos critérios


neurológicos definidos em resolução específica do Conselho Federal de Medicina
- CFM.
§ 2º São dispensáveis os procedimentos previstos para o diagnóstico de morte
encefálica quando ela decorrer de parada cardíaca irreversível, diagnosticada por
critérios circulatórios.
§ 3º Os médicos participantes do processo de diagnóstico da morte encefálica
deverão estar especificamente capacitados e não poderão ser integrantes das
equipes de retirada e transplante.
§ 4º Os familiares que estiverem em companhia do paciente ou que tenham
oferecido meios de contato serão obrigatoriamente informados do início do
procedimento para diagnóstico da morte encefálica.
§ 5º Caso a família do paciente solicite, será admitida a presença de médico de sua
confiança no ato de diagnóstico da morte encefálica.

Art. 18. Os hospitais deverão notificar a morte encefálica diagnosticada em suas


dependências à CET da unidade federativa a que estiver vinculada, em caráter
urgente e obrigatório.

149
UNIDADE 2 — O CÓDIGO DE ÉTICA MÉDICA

Parágrafo único. Por ocasião da investigação da morte encefálica, na hipótese


de o hospital necessitar de apoio para o diagnóstico, a CET deverá prover os
profissionais ou os serviços necessários para efetuar os procedimentos, observado
o disposto no Art. 13.

Art. 19. Após a declaração da morte encefálica, a família do falecido deverá ser
consultada sobre a possibilidade de doação de órgãos, tecidos, células e partes do
corpo humano para transplante, atendido o disposto na Seção II do Capítulo III.

Parágrafo único. Nos casos em que a doação não for viável, por quaisquer motivos,
o suporte terapêutico artificial ao funcionamento dos órgãos será descontinuado,
hipótese em que o corpo será entregue aos familiares ou à instituição responsável
pela necropsia, nos casos em que se aplique.

Seção II

Do Consentimento Familiar

Art. 20. A retirada de órgãos, tecidos, células e partes do corpo humano, após
a morte, somente poderá ser realizada com o consentimento livre e esclarecido
da família do falecido, consignado de forma expressa em termo específico de
autorização.

§ 1º A autorização deverá ser do cônjuge, do companheiro ou de parente


consanguíneo, de maior idade e juridicamente capaz, na linha reta ou colateral,
até o segundo grau, e firmada em documento subscrito por duas testemunhas
presentes à verificação da morte.
§ 2º Caso seja utilizada autorização de parente de segundo grau, deverão estar
circunstanciadas, no termo de autorização, as razões de impedimento dos
familiares de primeiro grau.
§ 3º A retirada de órgãos, tecidos, células e partes do corpo humano de falecidos
incapazes, nos termos da lei civil, dependerá de autorização expressa de ambos
os pais, se vivos, ou de quem lhes detinha, ao tempo da morte, o poder familiar
exclusivo, a tutela ou a curatela.
§ 4º Os casos que não se enquadrem nas hipóteses previstas no § 1º ao §3º
dependerão de prévia autorização judicial.

Art. 21. Fica proibida a doação de órgãos, tecidos, células e partes do corpo
humano em casos de não identificação do potencial doador falecido.

Parágrafo único. Não supre as exigências do caput o simples reconhecimento de


familiares se nenhum dos documentos de identificação do falecido for encontrado,
exceto nas hipóteses em que autoridade oficial que detenha fé pública certifique
a identidade.

150
TÓPICO 2 — RESPONSABILIDADE, DIREITOS E RELAÇÕES PROFISSIONAIS

Seção III

Da Preservação de Órgãos, Tecidos, Células e Partes do Corpo Humano

Art. 22. Constatada a morte e a ausência de contraindicações clínicas conhecidas,


caberá às equipes assistenciais do hospital onde se encontra o falecido prover o
suporte terapêutico artificial, de forma a oferecer a melhor preservação in situ
possível dos órgãos, tecidos, células e partes do corpo humano até que a família
decida sobre sua doação.

Parágrafo único. As CET e a sua rede de procura e doação de órgãos, tecidos,


células e partes do corpo humano para transplante, no âmbito de suas
competências, deverão acompanhar o trabalho das equipes assistenciais dos
hospitais, subsidiando-as técnica e logisticamente na avaliação e na manutenção
homeostática do potencial doador.

Art. 23. Cabe à rede de procura e doação de órgãos, tecidos, células e partes do
corpo humano para transplante, sob a coordenação da CET, e em consonância
com as equipes assistenciais e transplantadoras, proceder ao planejamento, ao
contingenciamento e à provisão dos recursos físicos e humanos, do transporte e
dos demais insumos necessários à realização da cirurgia de retirada dos órgãos e
dos demais enxertos.

Parágrafo único. A CNT participará da coordenação das atividades a que se


refere o caput sempre que houver intercâmbio de órgãos, enxertos ou equipes
cirúrgicas entre as unidades federativas.

Art. 24. Quando indicada a preservação ex situ de órgãos, tecidos, células e partes
do corpo humano, esses serão processados obrigatoriamente em estabelecimentos
previamente autorizados pelo órgão central do SNT, em conformidade com o
disposto neste Decreto e nas normas complementares.

§ 1º A preservação de tecidos ou células deverá ser realizada em bancos de tecidos


humanos.
§ 2º A preservação de órgãos deverá ser realizada em centros específicos para
essa finalidade.

Seção IV

Da Necropsia

Art. 25. A necropsia será realizada obrigatoriamente no caso de morte por causas
externas ou em outras situações nas quais houver indicação de verificação médica
da causa da morte.

151
UNIDADE 2 — O CÓDIGO DE ÉTICA MÉDICA

§ 1º A retirada de órgãos, tecidos, células e partes do corpo humano poderá ser


efetuada desde que não prejudique a análise e a identificação das circunstâncias
da morte.
§ 2º A retirada de que trata o § 1º será realizada com o conhecimento prévio
do serviço médico-legal ou do serviço de verificação de óbito responsável pela
investigação, e os dados pertinentes serão circunstanciados no relatório de
encaminhamento do corpo para necropsia.
§ 3º O corpo será acompanhado do relatório com a descrição da cirurgia de retirada
e dos eventuais procedimentos realizados e a documentação será anexada ao
prontuário legal do doador, com cópia destinada à instituição responsável pela
realização da necropsia.
§ 4º Ao doador de órgãos, tecidos, células e partes do corpo humano será dada
a precedência para a realização da necropsia, imediatamente após a cirurgia de
retirada, sem prejuízo aos procedimentos descritos nos § 2º e § 3º.

Seção V

Da Recomposição do Cadáver

Art. 26. Efetuada a retirada de órgãos, tecidos, células e partes do corpo humano
e a necropsia, na hipótese em que seja necessária, o cadáver será condignamente
recomposto, de modo a recuperar tanto quanto possível a sua aparência anterior.

CAPÍTULO IV

DA DOAÇÃO EM VIDA

Seção I

Da Disposição do Corpo Vivo

Art. 27. Qualquer pessoa capaz, nos termos da lei civil, poderá dispor de órgãos,
tecidos, células e partes de seu corpo para serem retirados, em vida, para fins de
transplantes ou enxerto em receptores cônjuges, companheiros ou parentes até o
quarto grau, na linha reta ou colateral.

Art. 28. As doações entre indivíduos vivos não relacionados dependerão de


autorização judicial, que será dispensada no caso de medula óssea.

Parágrafo único. É considerada como doação de medula óssea a doação de outros


progenitores hematopoiéticos.

Art. 29. Somente será permitida a doação referida nesta Seção quando se tratar de
órgãos duplos, de partes de órgãos, tecidos, células e partes do corpo cuja retirada
não impeça o organismo do doador de continuar vivendo sem risco para a sua
integridade e não represente grave comprometimento de suas aptidões vitais e
de sua saúde mental e não cause mutilação ou deformação inaceitável.

152
TÓPICO 2 — RESPONSABILIDADE, DIREITOS E RELAÇÕES PROFISSIONAIS

§ 1º A retirada nas condições estabelecidas neste artigo somente será permitida se


corresponder a uma necessidade terapêutica, comprovadamente indispensável
para a pessoa receptora.
§ 2º O doador vivo será prévia e obrigatoriamente esclarecido sobre as
consequências e os riscos decorrentes da retirada do órgão, tecido, células ou
parte do seu corpo para a doação.
§ 3º Os esclarecimentos de que trata o § 2º serão consignados em documento
lavrado e lido na presença do doador e de duas testemunhas.
§ 4º O doador especificará, em documento escrito, firmado por duas testemunhas:
I - o tecido, o órgão, a célula ou a parte do seu corpo que doará para transplante
ou enxerto;
II - o nome da pessoa beneficiada; e
III - a qualificação e o endereço dos envolvidos.
§ 5º O Comitê de Bioética ou a Comissão de Ética do hospital onde se realizará
a retirada e o transplante ou o enxerto emitirá parecer sobre os casos de doação
entre não consanguíneos, exceto cônjuges e companheiros, reconhecidos nos
termos da lei civil.
§ 6º A doação de medula óssea de pessoa juridicamente incapaz somente poderá
ocorrer entre consanguíneos, desde que observadas as seguintes condições:
I - se houver autorização expressa de ambos os pais ou de seus representantes
legais, após serem esclarecidos sobre os riscos do ato;
II - se houver autorização judicial; e
III - se o transplante não oferecer risco para a saúde do doador.
§ 7º Antes de iniciado o procedimento, a doação poderá ser revogada pelo doador
a qualquer momento.
§ 8º A gestante não poderá doar órgãos, tecidos e partes de seu corpo, exceto
medula óssea, desde que não haja risco para a sua saúde e a do embrião ou do feto.
§ 9º A gestante será a responsável pela autorização, previamente ao parto, de
doação de células progenitoras do sangue do cordão umbilical e placentário do
nascituro.

Art. 30. O autotransplante dependerá somente da autorização do próprio receptor


ou de seus representantes legais.

Art. 31. Os doadores voluntários de medula óssea serão cadastrados pelo órgão
central do SNT, que manterá as informações sobre a identidade civil e imunológica
desses doadores em registro próprio, cuja consulta estará disponível sempre que
não houver doador compatível disponível na família.

Parágrafo único. O órgão central do SNT poderá delegar a competência prevista


no caput para outro órgão do Ministério da Saúde ou para entidade pública
vinculada a esse Ministério.

FONTE: Adaptado de <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2017/decreto/D9175.


htm>. Acesso em: 19 nov. 2020.

153
RESUMO DO TÓPICO 2
Neste tópico, você aprendeu que:

• O serviço prestado pelos médicos pode ser enquadrado no Artigo 14 do CDC,


no qual temos a definição de fornecedor de serviços.

• Um dos primeiros pontos que um médico deve atentar-se é de não causar


dano ao paciente, por ação ou omissão, caracterizável como imperícia,
imprudência ou negligência.

• A responsabilidade médica é sempre pessoal e não pode ser presumida.


o Tem atos ou atribuições que são exclusivas da profissão médica e não se
pode delegar a terceiros.

• O médico não pode paralisar as atividades dos setores de urgência e


emergência de uma unidade de saúde.
o O médico precisa sempre seguir a legislação específica nos casos de
transplantes de órgãos ou de tecidos, esterilização, fecundação artificial,
abortamento, manipulação ou terapia genética.

• Os médicos devem obedecer aos acórdãos e às resoluções dos Conselhos


Federal e Regionais de Medicina.
o O médico é o único responsável pelo tratamento de seus pacientes.

• O médico não pode ser influenciado em suas decisões pelos interesses


pecuniários, políticos, religiosos ou de quaisquer outras ordens, do seu
empregador ou superior hierárquico ou do financiador público ou privado
da assistência à saúde.

• Todo médico, deve prezar pelas questões relacionadas ao direito humano.


o Um momento crítico do médico é o relacionamento com os pacientes e
familiares.
o Um médico não pode abandonar os pacientes sob seus cuidados, salvo
questões previstas em lei.

• O médico deve sempre respeitar o pudor de qualquer pessoa sob seus


cuidados profissionais.
o A boa relação profissional entre pares é fundamental na profissão médica.
o Um médico não pode acobertar erro ou conduta antiética de outro médico.

154
AUTOATIVIDADE

1 As ciências médicas tem evoluído muito nos últimos anos com


desenvolvimento de diversas tecnologias que vão desde novos procedimentos
médicos e cirúrgicos, assim como novas análises laboratoriais, tanto de
imagem, químicas, como em genética e até de cirurgia robótica, mas um
dos grandes avanços tem sido na área de doação e transplantes de órgãos
e tecidos. Atualmente, ocorrem transplantes dos mais diversos órgãos em
diversas instituições hospitalares do Brasil, e todas devem seguir a legislação
específica em vigor, entre elas o CEM e o Decreto nº 9.175, de 18 de outubro
de 2017. Disserte sobre o exposto, justificando o Artigo 43° do CEM.

“Art. 43 Participar do processo de diagnóstico da morte ou da decisão de


suspender meios artificiais para prolongar a vida do possível doador, quando
pertencente à equipe de transplante” (BRASIL, 2017).

155
156
TÓPICO 3 —
UNIDADE 2

REMUNERAÇÃO, SIGILO, DOCUMENTAÇÃO, AUDITORIA E


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FIGURA 8 – SIGILO, AUDITORIA E DOCUMENTAÇÃO MÉDICA

FONTE: <https://bit.ly/3qim2zr>. Acesso em: 9 nov. 2020.

“Um projeto político verdadeiramente popular só se constrói com princípios


éticos inegociáveis”.
Frei Betto

1 INTRODUÇÃO
Vamos começar agora a análise dos capítulos e artigos do CEM que tratam
de alguns assuntos menos invasivos, mas que são importantes a toda sociedade
e aos médicos.

Estes tópicos também têm validade legal para dirimir possíveis questões
que possam ser judicializadas sobre esses temas.

Iniciaremos os trabalhos com os temas do CEM relacionados à remuneração


profissional, sigilo profissional, documentos médicos, auditoria e perícia médica,
ensino e pesquisa médica, publicidade médica e, para encerrar, as disposições gerais.

São temas importantes ao dia a dia do profissional de medicina e orienta seu


comportamento legal, fato este que se tornou um marco importante conquistado
pela categoria com este novo Código de Ética, mostrando uma preocupação
constante de toda a classe médica preocupada em seu agir dentro dos ditames da
lei vigente e em consonância com as normativas do Conselho de classe.

Vamos, agora, aprofundar as nossas análises sobre esses temas. Bom


estudo!
157
UNIDADE 2 — O CÓDIGO DE ÉTICA MÉDICA

2 REMUNERAÇÃO PROFISSIONAL
O tema remuneração profissional é bastante amplo e, aqui, advém as leis
de mercado, principalmente relacionadas à oferta e à procura, o qual pode ser
extrapolado às questões pecuniárias em relação à remuneração profissional.

Assim como em todas as profissões, o ganho está relacionado a diversos


fatores que vão desde a questão de quantidades de médicos atuando na região, a
especialização do médico, a questões relacionadas ao status de resultados obtidos
por ele em sua especialidade.

Foi-se o tempo do médico de família, surgindo o especialista trazendo um


novo foco na remuneração profissional pelo conhecimento especializado.

Vamos conhecer o que diz o CEM em relação à remuneração profissional.

Capítulo VIII

Remuneração profissional

É vedado ao médico:

Art. 58 O exercício mercantilista da medicina.


Art. 59 Oferecer ou aceitar remuneração ou vantagens por paciente encaminhado
ou recebido, bem como por atendimentos não prestados.
Art. 60 Permitir a inclusão de nomes de profissionais que não participaram do
ato médico para efeito de cobrança de honorários.
Art. 61 Deixar de ajustar previamente com o paciente o custo estimado dos
procedimentos.
Art. 62 Subordinar os honorários ao resultado do tratamento ou à cura do
paciente.
Art. 63 Explorar o trabalho de outro médico, isoladamente ou em equipe, na
condição de proprietário, sócio, dirigente ou gestor de empresas ou instituições
prestadoras de serviços médicos.
Art. 64 Agenciar, aliciar ou desviar, por qualquer meio, para clínica particular
ou instituições de qualquer natureza, paciente atendido pelo sistema público
de saúde ou dele utilizar-se para a execução de procedimentos médicos em sua
clínica privada como forma de obter vantagens pessoais.
Art. 65 Cobrar honorários de paciente assistido em instituição que se destinam
à prestação de serviços públicos, ou receber remuneração de paciente como
complemento de salário ou de honorários.
Art. 66 Praticar dupla cobrança por ato médico realizado.
Parágrafo único. A complementação de honorários em serviço privado pode ser
cobrada quando prevista em contrato.

158
TÓPICO 3 — REMUNERAÇÃO, SIGILO, DOCUMENTAÇÃO, AUDITORIA E PUBLICIDADE

Art. 67 Deixar de manter a integralidade do pagamento e permitir descontos ou


retenção de honorários, salvo os previstos em lei, quando em função de direção
ou de chefia.
Art. 68 Exercer a profissão com interação ou dependência de farmácia,
indústria farmacêutica, óptica ou qualquer organização destinada à fabricação,
manipulação, promoção ou comercialização de produtos de prescrição médica,
qualquer que seja sua natureza.
Art. 69 Exercer simultaneamente a medicina e a farmácia ou obter vantagem
pelo encaminhamento de procedimentos, pela prescrição e/ou comercialização
de medicamentos, órteses, próteses ou implantes de qualquer natureza, cuja
compra decorra de influência direta em virtude de sua atividade profissional.
Art. 70 Deixar de apresentar separadamente seus honorários quando outros
profissionais participarem do atendimento ao paciente.
Art. 71 Oferecer seus serviços profissionais como prêmio, qualquer que seja sua
natureza.
Art. 72 Estabelecer vínculo de qualquer natureza com empresas que anunciam
ou comercializam planos de financiamento, cartões de descontos ou consórcios
para procedimentos médicos (BRASIL, 2018, grifos nossos).

Novamente, você pôde ver nos quinze artigos apresentados que foram
elaborados em uma forma bastante clara e precisa, não necessitando maiores
detalhamentos em sua explicação.

Os artigos descrevem claramente que fica proibida a exploração de outros


profissionais, bem como executar cobranças indevidas sob as mais diversas
formas ou conciliar suas receitas às farmácias especificas ou remédios de marcas
especificas, salvo inexistência de similares, entre outras questões pecuniárias
que possam favorecer exclusivamente o médico sem cabimento legal da relação
médico paciente.

Sempre é importante ao profissional seguir as diretrizes legais em relação


as suas questões financeiras.

3 SIGILO PROFISSIONAL
O sigilo profissional entre médico e paciente é um dos pontos mais
recorrentes, polêmico e controverso em deontologia.

159
UNIDADE 2 — O CÓDIGO DE ÉTICA MÉDICA

DICAS

Prezado acadêmico, é a primeira vez que estamos utilizando esta terminologia,


mas ela é bastante utilizada nos meios jurídicos relacionados às questões médicas e
pacientes, vamos entender o significado da palavra deontologia:

Substantivo feminino
Ciência dos deveres; moral.
Conjunto das normas que guia uma profissão, seguindo um código determinado.
[Medicina] Reunião dos preceitos que norteia a prática de um médico, regulamentada num
documento específico.
[Filosofia] Teoria moral que afirma ser inerente ao ser humano a busca pelo prazer e a fuga
da dor; deontologismo.
expressão
Deontologia médica. Parte prática da medicina que trata das relações do médico com os
colegas e pacientes.

FONTE: <https://www.dicio.com.br/deontologia/>. Acesso em: 16 set. 2020.

As questões relacionadas à saúde de uma pessoa só têm a ver com ela e o


médico, não pode torná-la pública, exceto pelas questões legais. O médico deverá
comunicar às autoridades específicas, principalmente quando envolver doenças
contagiosas ou ligadas à saúde pública, ainda mantendo o sigilo do paciente.

Inclusive temos no Código Penal Brasileiro (CP) referenciado que é crime


revelar informações sigilosas se a ela foi obtida em razão de função, ministério,
ofício ou profissão, nas questões médicas são consideradas assunto tratado por
questões profissionais, conforme o Artigo 154º do CP, apresentado a seguir:

CÓDIGO PENAL BRASILEIRO


Art. 154 - Revelar alguém, sem justa causa, segredo, de que tem ciência em razão
de função, ministério, ofício ou profissão, e cuja revelação possa produzir dano a
outrem (CÉSPEDES; ROCHA, 2020, p. 397, grifos nossos).

Vamos conhecer, agora, o Capítulo IX do CEM que trata sobre o Sigilo


Profissional:

Capítulo IX

SIGILO PROFISSIONAL

É vedado ao médico:

160
TÓPICO 3 — REMUNERAÇÃO, SIGILO, DOCUMENTAÇÃO, AUDITORIA E PUBLICIDADE

Art. 73 Revelar fato de que tenha conhecimento em virtude do exercício de sua


profissão, salvo por motivo justo, dever legal ou consentimento, por escrito, do
paciente.
Parágrafo único. Permanece essa proibição: a) mesmo que o fato seja de
conhecimento público ou o paciente tenha falecido; b) quando de seu
depoimento como testemunha (nessa hipótese, o médico comparecerá perante
a autoridade e declarará seu impedimento); c) na investigação de suspeita de
crime, o médico estará impedido de revelar segredo que possa expor o paciente
a processo penal.
Art. 74 Revelar sigilo profissional relacionado ao paciente criança ou adolescente,
desde que estes tenham capacidade de discernimento, inclusive a seus pais ou
representantes legais, salvo quando a não revelação possa acarretar dano ao
paciente.
Art. 75 Fazer referência a casos clínicos identificáveis, exibir pacientes ou imagens
que os tornem reconhecíveis em anúncios profissionais ou na divulgação de
assuntos médicos em meios de comunicação em geral, mesmo com autorização
do paciente.
Art. 76 Revelar informações confidenciais obtidas quando do exame médico
de trabalhadores, inclusive por exigência dos dirigentes de empresas ou de
instituições, salvo se o silêncio puser em risco a saúde dos empregados ou da
comunidade.
Art. 77 Prestar informações a empresas seguradoras sobre as circunstâncias da
morte do paciente sob seus cuidados, além das contidas na declaração de óbito,
salvo por expresso consentimento do seu representante legal.
Art. 78 Deixar de orientar seus auxiliares e alunos a respeitar o sigilo profissional
e zelar para que seja por eles mantido.
Art. 79 Deixar de guardar o sigilo profissional na cobrança de honorários por
meio judicial ou extrajudicial (BRASIL, 2018, grifos do autor).

Este capítulo, como um todo, em seus sete artigos, é muito fácil de ser
entendido e os seus artigos tratam do sigilo que o médico deve manter em relação
aos seus pacientes, que vão desde situações com paciente criança, a questões de
pacientes adultos e quando ocorre a necessidade de um responsável legal, como
em questões de ensino com relação ao sigilo do aluno em relação ao paciente,
sobre sigilo quando do exame médico de trabalhadores, inclusive por exigência
dos dirigentes de empresas ou de instituições entre outros casos.

Conforme Barros Júnior (2019, p. 551), “sigilo é a regra; a possibilidade


de sua quebra e consequente revelação é exceção, por isso, devem ter razões
comprovadas, fundamentadas e devidamente documentadas, sempre que
possível, por escrito, e levando em consideração o interesse de todos os
envolvidos”.

Outro ponto importante que temos de ressaltar é quanto à colocação da


Classificação Internacional de Doenças (CID) em atestados médicos. A Resolução
CFM nº 1.819/2007 que foi publicada no Diário Oficial da União (D.O.U.) em 22

161
UNIDADE 2 — O CÓDIGO DE ÉTICA MÉDICA

maio de 2007, e modificada pela Resolução CFM nº 1.976/2011, define e Proíbe a


colocação do diagnóstico codificado (CID) ou tempo de doença no preenchimento
das guias da TISS de consulta e solicitação de exames de seguradoras e
operadoras de planos de saúde concomitantemente com a identificação do
paciente e dá outras providências.

A resolução traz:

Resolução CFM nº 1.819/2007 atualizado pela Resolução CFM nº 1976/2011

Art.1º Vedar ao médico o preenchimento, nas guias de consulta e solicitação


de exames das operadoras de planos de saúde, dos campos referentes
à Classificação Internacional de Doenças (CID) e tempo de doença
concomitantemente com qualquer outro tipo de identificação do paciente
ou qualquer outra informação sobre diagnóstico, haja vista que o sigilo
na relação médico-paciente é um direito inalienável do paciente, cabendo ao
médico a sua proteção e guarda.
Parágrafo único. Excetuam-se desta proibição os casos previstos em lei.
(Redação modificada pela Redação CFM nº 1976/201)
Art. 2º Considerar falta ética grave todo e qualquer tipo de constrangimento
exercido sobre os médicos para forçá-los ao descumprimento desta resolução
ou de qualquer outro preceito ético-legal.
Parágrafo único. Respondem perante os Conselhos de Medicina os diretores
médicos, os diretores técnicos, os prepostos médicos e quaisquer outros médicos
que, direta ou indiretamente, concorram para a prática do delito ético descrito
no caput deste artigo (CFM, 2007, grifos do autor).

FIGURA 9 – SIGILO MÉDICO

FONTE: <https://bit.ly/2Vv47qR>. Acesso em: 16 set. 2020.

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TÓPICO 3 — REMUNERAÇÃO, SIGILO, DOCUMENTAÇÃO, AUDITORIA E PUBLICIDADE

DICAS

Prezado acadêmico, um dos elementos novos que estão sendo colocados em


voga na questão de sigilo profissional de médicos com seus pacientes está no sigilo de dados
eletrônicos dos pacientes mantidos pelos médicos, consultórios e hospitais.
Para conhecer mais sobre o tema, sugerimos a consulta à Lei nº 13.709, de 14 de agosto de 2018
e à Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD). (Redação dada pela Lei nº 13.853, de 2019).
FONTE: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2018/lei/L13709.htm>. acesso
em: 26 nov. 2020.
Boa leitura!

A questão do sigilo profissional entre médicos e pacientes sempre esteve


presente nos meandros judiciais e de conflitos de interesses, sendo que o próprio
CEM 2018, assim como outras leis brasileiras, contribuíram para minimizar
os questionamentos e o CFM tem sido muito resoluto nesta questão, dando
segurança jurídica ao médico e aos pacientes.

4 DOCUMENTOS MÉDICOS
No Código de ética Médica de 2018, temos o termo generalista de
“documentos médicos” que descreve todo e qualquer tipo de declaração que
foi emitida pelo médico, durante o seu atendimento profissional ao paciente.
Podem ser entendidos como documentos médicos os atestados médicos, receitas,
declarações, laudos, pareceres, homologações, relatórios, prescrições diversas etc.

Todos os documentos emitidos por um médico devem ser analisados na


questão do sigilo profissional, quando se trata de informações sobre o paciente ou
comunicados públicos e ou autorizados.

Os documentos emitidos pelos médicos têm validade legal e são de cunho


pessoal e intransferível ao paciente específico, não podendo ser utilizado por outrem.

Vamos conhecer a legislação como apresentado no CEM-2018.

Capítulo X

DOCUMENTOS MÉDICOS

É vedado ao médico:

Art. 80 Expedir documento médico sem ter praticado ato profissional que o
justifique, que seja tendencioso ou que não corresponda à verdade (BRASIL,
2018, grifos nossos).

163
UNIDADE 2 — O CÓDIGO DE ÉTICA MÉDICA

O médico somente poderá expedir documento de ato médico praticado e


que corresponda a verdade.

No Brasil, temos muitas situações, principalmente na área trabalhista


relacionada ao atestado, que não apresentam o fato ocorrido com o paciente, e
que podem gerar litígios legais ao médico e ao paciente.

Art. 81 Atestar como forma de obter vantagem (BRASIL, 2018).

Tudo que não for real, não pode ser atestado pelo médico, os quais muitas
vezes são atestados com vantagens pessoais para atestar de forma tendenciosa
e irreal para um paciente ou empresa de forma específica e ilegal. Novamente,
expressamos a possibilidade de litígios legais ao médico, ao paciente ou a
instituição.

Art. 82 Usar formulários institucionais para atestar, prescrever e solicitar


exames ou procedimentos fora da instituição a que pertençam tais formulários
(BRASIL, 2018).

Muitas instituições possuem formulários específicos para uso do médico e


fica vedado o uso destes, se não for única e exclusivamente utilizado pelo médico,
quando estiver atuando na ou para a instituição, sob risco de estar cometendo um
ato ilegal se não for nesta condição.

Art. 83 Atestar óbito quando não o tenha verificado pessoalmente, ou quando


não tenha prestado assistência ao paciente, salvo, no último caso, se o fizer como
plantonista, médico substituto ou em caso de necropsia e verificação médico-
legal (BRASIL, 2018).

Não se pode prestar declaração de atestado de óbito se o médico não


tenha verificado pessoalmente.

A Lei nº 11.976, de 7 de julho de 2009, é a lei que dispõe sobre a Declaração


de Óbito e a realização de estatísticas de óbitos em hospitais públicos e privados.

Art. 84 Deixar de atestar óbito de paciente ao qual vinha prestando assistência,


exceto quando houver indícios de morte violenta (BRASIL, 2018).

164
TÓPICO 3 — REMUNERAÇÃO, SIGILO, DOCUMENTAÇÃO, AUDITORIA E PUBLICIDADE

O médico deve atestar o óbito ao paciente ao qual vinha prestando assistência


e na Resolução CFM nº 1.779/2005, publicada no D.O.U., 5 dezembro de 2005 trata e
Regulamenta a responsabilidade médica no fornecimento da Declaração de Óbito.
Temos nesta resolução a definição dos tipos de mortes como segue:

RESOLUÇÃO CFM nº 1.779/2005

Art. 1º O preenchimento dos dados constantes na Declaração de Óbito é da


responsabilidade do médico que atestou a morte.
Art. 2º Os médicos, quando do preenchimento da Declaração de Óbito,
obedecerão às seguintes normas:
1) Morte natural:
I. Morte sem assistência médica:
a) Nas localidades com Serviço de Verificação de Óbitos (SVO): A Declaração
de Óbito deverá ser fornecida pelos médicos do SVO.
b) Nas localidades sem SVO: A Declaração de Óbito deverá ser fornecida pelos
médicos do serviço público de saúde mais próximo do local onde ocorreu o
evento; na sua ausência, por qualquer médico da localidade.
II. Morte com assistência médica:
a) A Declaração de Óbito deverá ser fornecida, sempre que possível, pelo
médico que vinha prestando assistência ao paciente.
b) A Declaração de Óbito do paciente internado sob regime hospitalar deverá
ser fornecida pelo médico assistente e, na sua falta por médico substituto
pertencente à instituição.
c) A declaração de óbito do paciente em tratamento sob regime ambulatorial
deverá ser fornecida por médico designado pela instituição que prestava
assistência, ou pelo SVO.
d) A Declaração de Óbito do paciente em tratamento sob regime
domiciliar(Programa Saúde da Família, internação domiciliar e outros)
deverá ser fornecida pelo médico pertencente ao programa ao qual o paciente
estava cadastrado, ou pelo SVO, caso o médico não consiga correlacionar o
óbito com o quadro clínico concernente ao acompanhamento do paciente.
2) Morte fetal:
Em caso de morte fetal, os médicos que prestaram assistência à mãe ficam
obrigados a fornecer a Declaração de Óbito quando a gestação tiver
duração igual ou superior a 20 semanas ou o feto tiver peso corporal igual
ou superior a 500(quinhentos) gramas e/ou estatura igual ou superior a 25 cm.
3) Mortes violentas ou não naturais: A Declaração de Óbito deverá,
obrigatoriamente, ser fornecida pelos serviços médico-legais.
Parágrafo único. Nas localidades onde existir apenas 1 (um) médico, este é o
responsável pelo fornecimento da Declaração de Óbito (CFM, 2005).
Art. 85 Permitir o manuseio e o conhecimento dos prontuários por pessoas não
obrigadas ao sigilo profissional quando sob sua responsabilidade (BRASIL,
2018, grifos do autor).

165
UNIDADE 2 — O CÓDIGO DE ÉTICA MÉDICA

O prontuário é um documento médico e por isto ele é sigiloso e não pode


ser manuseado por pessoas que não são obrigadas a manter o sigilo profissional.

Art. 86 Deixar de fornecer laudo médico ao paciente ou a seu representante


legal quando aquele for encaminhado ou transferido para continuação do
tratamento ou em caso de solicitação de alta (BRASIL, 2018).

É obrigação do médico fornecer um laudo ao paciente ou a seu representante


legal para a continuação do tratamento em outros domicílios ou médico para
continuação de tratamento ou quando ele receber alta dos procedimentos.

Art. 87 Deixar de elaborar prontuário legível para cada paciente.


§ 1° O prontuário deve conter os dados clínicos necessários para a boa condução
do caso, sendo preenchido, em cada avaliação, em ordem cronológica com
data, hora, assinatura e número de registro do médico no Conselho Regional
de Medicina.
§ 2° O prontuário estará sob a guarda do médico ou da instituição que assiste
o paciente.
§ 3° Cabe ao médico assistente ou a seu substituto elaborar e entregar o sumário
de alta ao paciente ou, na sua impossibilidade, ao seu representante legal
(BRASIL, 2018).

O prontuário é um dos principais documentos legais, tanto para o médico,


quanto aos pacientes, e por isto o médico deverá mantê-lo atualizado e o mais
detalhado possível de forma legível, devendo ser fornecido ao paciente ou ao seu
representante legal sempre que solicitado.

FIGURA 10 – LEI GERAL DE PROTEÇÃO DOS DADOS – MÉDICO

FONTE: <https://bit.ly/37w1iMa>. Acesso em: 19 nov. 2020.

Devemos sempre relembrar a nova legislação sobre proteção de dados, já


que vemos atualmente uma migração do consultório médico e de todos os seus
afazeres profissionais para os meios eletrônicos que devem estar embasados na
Lei Geral de Proteção de Dados, também comumente referenciada como LGPD,
sendo que os softwares de trabalho pelos médicos devem ser homologados.

166
TÓPICO 3 — REMUNERAÇÃO, SIGILO, DOCUMENTAÇÃO, AUDITORIA E PUBLICIDADE

DICAS

Caro acadêmico, indicamos um vídeo que apresenta mais informações sobre


a LGPD, disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=etFdp9_ssrk.

FIGURA – IMPACTO DA NOVA LEI DE PROTEÇÃO DE DADOS NA SAÚDE

FONTE: Adaptada de <https://www.youtube.com/watch?v=etFdp9_ssrk>. Acesso em: 19


nov. 2020.

Art. 88 Negar ao paciente ou, na sua impossibilidade, a seu representante


legal, acesso a seu prontuário, deixar de lhe fornecer cópia quando solicitada,
bem como deixar de lhe dar explicações necessárias à sua compreensão, salvo
quando ocasionarem riscos ao próprio paciente ou a terceiros.
Art. 89 Liberar cópias do prontuário sob sua guarda exceto para atender a
ordem judicial ou para sua própria defesa, assim como quando autorizado por
escrito pelo paciente.
§ 1° Quando requisitado judicialmente, o prontuário será encaminhado ao juízo
requisitante.
§ 2° Quando o prontuário for apresentado em sua própria defesa, o médico
deverá solicitar que seja observado o sigilo profissional.
Art. 90 Deixar de fornecer cópia do prontuário médico de seu paciente quando
de sua requisição pelos Conselhos Regionais de Medicina.
Art. 91 Deixar de atestar atos executados no exercício profissional, quando
solicitado pelo paciente ou por seu representante legal (BRASIL, 2018).

Estes artigos expressam que o médico deve fornecer o prontuário do


paciente quando solicitado por ele ou pelos seus representantes e em situações
específicas ao CRM/CFM ou quando ocorrer alguma solicitação judicial.
Preenchido dentro dos padrões exigidos pelo CFM ou normativas específicas.

167
UNIDADE 2 — O CÓDIGO DE ÉTICA MÉDICA

NOTA

Prezado acadêmico, os médicos precisam estar atentos à LGPD, mas


principalmente estar com seus prontuários sempre atualizados, pois é um documento
muito importante com registro de todas as intervenções com os clientes.

FIGURA – PRONTUÁRIO MÉDICO

FONTE: <https://bit.ly/3lq1D7P>. Acesso em: 19 nov. 2020.

A documentação médica é um elemento importante para o médico e seus


pacientes, devendo preservar sempre o sigilo profissional e conter somente a
realidade dos fatos ocorridos, sem rasuras para não incorrer em um problema legal.

5 AUDITORIA E PERÍCIA MÉDICA


Um campo importante de trabalho para os médicos, na atualidade, está
na área específica de auditoria e perícia médica e o CEM (2018) apresenta um
capítulo específico sobre o tema que está apresentado a seguir:

Capítulo XI

AUDITORIA E PERÍCIA MÉDICA

É vedado ao médico:

Art. 92 Assinar laudos periciais, auditoriais ou de verificação médico-legal caso


não tenha realizado pessoalmente o exame.
Art. 93 Ser perito ou auditor do próprio paciente, de pessoa de sua família ou
de qualquer outra com a qual tenha relações capazes de influir em seu trabalho
ou de empresa em que atue ou tenha atuado.
Art. 94 Intervir, quando em função de auditor, assistente técnico ou perito, nos
atos profissionais de outro médico, ou fazer qualquer apreciação em presença
do examinado, reservando suas observações para o relatório.

168
TÓPICO 3 — REMUNERAÇÃO, SIGILO, DOCUMENTAÇÃO, AUDITORIA E PUBLICIDADE

Art. 95 Realizar exames médico-periciais de corpo de delito em seres humanos


no interior de prédios ou de dependências de delegacias de polícia, unidades
militares, casas de detenção e presídios.
Art. 96 Receber remuneração ou gratificação por valores vinculados à glosa ou
ao sucesso da causa, quando na função de perito ou de auditor.
Art. 97 Autorizar, vetar, bem como modificar, quando na função de auditor ou
de perito, procedimentos propedêuticos ou terapêuticos instituídos, salvo, no
último caso, em situações de urgência, emergência ou iminente perigo de morte
do paciente, comunicando, por escrito, o fato ao médico assistente.
Art. 98 Deixar de atuar com absoluta isenção quando designado para servir como
perito ou como auditor, bem como ultrapassar os limites de suas atribuições e
de sua competência.
Parágrafo único. O médico tem direito a justa remuneração pela realização do
exame pericial (BRASIL, 2018, grifos nossos).

Os sete artigos que tratam sobre o tema são claros e delimitam as principais
funções relacionadas à atividade do médico em trabalhos de auditoria e perícia.

DICAS

Prezado acadêmico, elencamos algumas obras como sugestão de leitura.

• Código de ética médica: comentado e interpretado: Resolução 2.217/2018, Capítulo


11, com o tema Auditoria e perícia.
• Perícia Médica.
• Manual de perícia médica oficial.

FIGURA – CÓDIGO DE ÉTICA MÉDICA

FONTE: <https://m.media-amazon.com/images/I/41JFd9JArhL.jpg>.
Acesso em: 19 nov. 2020.

BARROS JÚNIOR, E. de A. Código de ética médica: comentado e interpretado. Timburi:


Editora Cia do e-book, 2019. Disponível em: http://www.saude.ufpr.br/portal/epmufpr/
wp-content/uploads/sites/42/2019/05/CEM-2018-EDMILSON-PROTEGIDO.pdf. acesso
em: 19 nov. 2020.

169
UNIDADE 2 — O CÓDIGO DE ÉTICA MÉDICA

FIGURA – PERÍCIA MÉDICA

FONTE: Adaptada de < https://portal.cfm.org.br/images/stories/biblioteca/periciamedica.


pdf >. Acesso em: 19 nov. 2020.

FONTE: RODRIGUES FILHO, S. et al. Perícia médica. Brasília: Conselho Federal de Medi-
cina; Conselho Regional de Medicina do Estado de Goiás, 2012. Disponível em: https://
portal.cfm.org.br/images/stories/biblioteca/periciamedica.pdf. Acesso em: 19 nov. 2020.

FIGURA – MANUAL PERÍCIA MÉDICA OFICIAL

FONTE: Adaptada de <http://www.saude.df.gov.br/wp-conteudo/uploads/2018/04/Ma-


nual-de-Pericia-M%C3%A9dica-Oficial-do-GDF.pdf>. Acesso em: 19 nov. 2020.

FONTE: Manual de perícia médica oficial. Brasília: Patrimônio Cultural da Humanidade,


2013. Disponível em: http://www.saude.df.gov.br/wp-conteudo/uploads/2018/04/Manu-
al-de-Pericia-M%C3%A9dica-Oficial-do-GDF.pdf. Acesso em: 19 nov. 2020

As auditorias e perícias médicas vêm tomando uma maior importância


nos momentos atuais da economia e reforçando a atuação dos médicos em
diversas novas frentes de trabalho focadas nas questões sociais e de saúde para a
população e empresas.

170
TÓPICO 3 — REMUNERAÇÃO, SIGILO, DOCUMENTAÇÃO, AUDITORIA E PUBLICIDADE

6 ENSINO E PESQUISA MÉDICA


O CEM também define normativas aos médicos que trabalham com o
ensino e a pesquisa médica, pois estes também devem ter um cuidado ainda mais
primaz em relação ao sigilo e, principalmente, à segurança quando se trata de
pesquisa médica.

O Capítulo XII do CEM trata deste assunto:

Capítulo XII

ENSINO E PESQUISA MÉDICA

É vedado ao médico:

Art. 99 Participar de qualquer tipo de experiência envolvendo seres humanos


com fins bélicos, políticos, étnicos, eugênicos ou outros que atentem contra a
dignidade humana.
Art. 100 Deixar de obter aprovação de protocolo para a realização de pesquisa
em seres humanos, de acordo com a legislação vigente.
Art. 101 Deixar de obter do paciente ou de seu representante legal o termo
de consentimento livre e esclarecido para a realização de pesquisa envolvendo
seres humanos, após as devidas explicações sobre a natureza e as consequências
da pesquisa.
§ 1° No caso de o paciente participante de pesquisa ser criança, adolescente,
pessoa com transtorno ou doença mental, em situação de diminuição de sua
capacidade de discernir, além do consentimento de seu representante legal, é
necessário seu assentimento livre e esclarecido na medida de sua compreensão.
§ 2° O acesso aos prontuários será permitido aos médicos, em estudos
retrospectivos com questões metodológicas justificáveis e autorizados pelo
Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) ou pela Comissão Nacional de Ética em
Pesquisa (Conep).
Art. 102 Deixar de utilizar a terapêutica correta quando seu uso estiver liberado
no País.
Parágrafo único. A utilização de terapêutica experimental é permitida quando
aceita pelos órgãos competentes e com o consentimento do paciente ou de seu
representante legal, adequadamente esclarecidos da situação e das possíveis
consequências.
Art. 103 Realizar pesquisa em uma comunidade sem antes informá-la e
esclarecê-la sobre a natureza da investigação e deixar de atender ao objetivo
de proteção à saúde pública, respeitadas as características locais e a legislação
pertinente.
Art. 104 Deixar de manter independência profissional e científica em relação a
financiadores de pesquisa médica, satisfazendo interesse comercial ou obtendo
vantagens pessoais.

171
UNIDADE 2 — O CÓDIGO DE ÉTICA MÉDICA

Art. 105 Realizar pesquisa médica em sujeitos que sejam direta ou indiretamente
dependentes ou subordinados ao pesquisador.
Art. 106 Manter vínculo de qualquer natureza com pesquisas médicas em seres
humanos que usem placebo de maneira isolada em experimentos, quando
houver método profilático ou terapêutico eficaz.
Art. 107 Publicar em seu nome trabalho científico do qual não tenha
participado; atribuir a si mesmo autoria exclusiva de trabalho realizado por
seus subordinados ou outros profissionais, mesmo quando executados sob sua
orientação, bem como omitir do artigo científico o nome de quem dele tenha
participado.
Art. 108 Utilizar dados, informações ou opiniões ainda não publicadas, sem
referência ao seu autor ou sem sua autorização por escrito.
Art. 109 Deixar de zelar, quando docente ou autor de publicações científicas,
pela veracidade, clareza e imparcialidade das informações apresentadas, bem
como deixar de declarar relações com a indústria de medicamentos, órteses,
próteses, equipamentos, implantes de qualquer natureza e outras que possam
configurar conflitos de interesse, ainda que em potencial.
Art. 110 Praticar a medicina, no exercício da docência, sem o consentimento
do paciente ou de seu representante legal, sem zelar por sua dignidade e
privacidade ou discriminando aqueles que negarem o consentimento solicitado
(BRASIL, 2018, grifos nossos).

Um ponto importante está na aplicação do Comitê de Ética em Pesquisa


(CEP) ou da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (CONEP) em questões
relacionadas à segurança dos dados da pesquisa e divulgações de outros dados,
inclusive em relação a prontuários de pacientes que participam da pesquisa.

A educação e a pesquisa são elementos importantes para a evolução da


medicina e surgimento de novas tecnologias e de novos médicos.

7 PUBLICIDADE MÉDICA
Um tema bastante controverso aos médicos é a questão da publicidade
médica e o CFM vem orientando os médicos sobre isso diuturnamente, deixando
no CEM, Capítulo XIII, delineamentos legais.

Assim, temos em seu Capítulo XIII:

Capítulo XIII

PUBLICIDADE MÉDICA

É vedado ao médico:

172
TÓPICO 3 — REMUNERAÇÃO, SIGILO, DOCUMENTAÇÃO, AUDITORIA E PUBLICIDADE

Art. 111 Permitir que sua participação na divulgação de assuntos médicos, em


qualquer meio de comunicação de massa, deixe de ter caráter exclusivamente
de esclarecimento e educação da sociedade.
Art. 112 Divulgar informação sobre assunto médico de forma sensacionalista,
promocional ou de conteúdo inverídico.
Art. 113 Divulgar, fora do meio científico, processo de tratamento ou descoberta
cujo valor ainda não esteja expressamente reconhecido cientificamente por
órgão competente.
Art. 114 Anunciar títulos científicos que não possa comprovar e especialidade
ou área de atuação para a qual não esteja qualificado e registrado no Conselho
Regional de Medicina.
Art. 115 Participar de anúncios de empresas comerciais, qualquer que seja sua
natureza, valendo-se de sua profissão.
Art. 116 Apresentar como originais quaisquer ideias, descobertas ou ilustrações
que na realidade não o sejam.
Art. 117 Deixar de incluir, em anúncios profissionais de qualquer ordem,
seu nome, seu número no Conselho Regional de Medicina, com o estado da
Federação no qual foi inscrito e Registro de Qualificação de Especialista (RQE)
quando anunciar a especialidade.
Parágrafo único. Nos anúncios de estabelecimentos de saúde, devem constar
o nome e o número de registro, no Conselho Regional de Medicina, do diretor
técnico (BRASIL, 2018, grifos nossos).

A publicidade médica é um tema melindroso em si, e o próprio CFM na


resolução n° 1.974/2011 define regras da publicidade médica e traz o seu conceito
no Artigo 1°, apresentado a seguir:

RESOLUÇÃO CFM Nº 1.974/2011

Art. 1° Entender-se-á por anúncio, publicidade ou propaganda a comunicação


ao público, por qualquer meio de divulgação, de atividade profissional de
iniciativa, participação e/ou anuência do médico (BRASIL, 2011, grifos do autor).

Com esta definição exposta, a resolução ainda apresenta quais devem ser
os requisitos para uma publicidade médica em seu Artigo 2°:

173
UNIDADE 2 — O CÓDIGO DE ÉTICA MÉDICA

RESOLUÇÃO CFM Nº 1.974/2011

Art. 2° Os anúncios médicos deverão conter, obrigatoriamente, os seguintes


dados:
a) Nome do profissional.
b) Especialidade e/ou área de atuação, quando registrada no Conselho Regional
de Medicina.
c) Número da inscrição no Conselho Regional de Medicina.
d) Número de registro de qualificação de especialista (RQE), se o for.
Parágrafo único. As demais indicações dos anúncios deverão se limitar ao
preceituado na legislação em vigor (BRASIL, 2011, grifos do autor).

Como você pôde ver no Artigo 2°, em toda a publicidade médica tem que
ficar claro os dados profissionais cadastrados junto ao CRM, para que não haja
nenhuma dúvida sobre o médico que está fazendo a publicidade, bem como as
suas especialidades.

Já as regras que apresentam as situações vedadas ao médico com relação


à publicidade, estão apresentadas no Artigo 3°:

RESOLUÇÃO CFM Nº 1.974/2011

Art. 3º É vedado ao médico:

a) Anunciar, quando não especialista, que trata de sistemas orgânicos, órgãos ou


doenças específicas, por induzir a confusão com divulgação de especialidade.
b) Anunciar aparelhagem de forma a lhe atribuir capacidade privilegiada.
c) Participar de anúncios de empresas comerciais ou de seus produtos, qualquer
que seja sua natureza, dispositivo este que alcança, inclusive, as entidades
médicas sindicais ou associativas; (alterado pela Resolução CFM n°. 2.126/2015)
d) Permitir que seu nome seja incluído em propaganda enganosa de qualquer
natureza.
e) Permitir que seu nome circule em qualquer mídia, inclusive na internet, em
matérias desprovidas de rigor científico.
f) Fazer propaganda de método ou técnica não reconhecida pelo Conselho
Federal de Medicina como válido para a prática médica. (alterado pela Resolução
CFM n°. 2.126/2015)
g) Explorar figura de seu paciente como forma de divulgar técnica, método
ou resultado de tratamento, ainda que com autorização expressa do mesmo,
ressalvado o disposto no Art.10 desta resolução.
h) Anunciar a utilização de técnicas exclusivas.
i) Oferecer seus serviços por meio de consórcio e similares.
j) Oferecer consultoria a pacientes e familiares como substituição da consulta
médica presencial.

174
TÓPICO 3 — REMUNERAÇÃO, SIGILO, DOCUMENTAÇÃO, AUDITORIA E PUBLICIDADE

k) Garantir, prometer ou insinuar bons resultados do tratamento.


l) Fica expressamente vetado o anúncio de pós-graduação realizada para a
capacitação pedagógica em especialidades médicas e suas áreas de atuação,
mesmo que em instituições oficiais ou por estas credenciadas, exceto quando
estiver relacionado à especialidade e área de atuação registrada no Conselho de
Medicina (BRASIL, 2011, grifos do autor).

Todos estes 12 quesitos devem ser observados pelos médicos, assim como
pelas agências de publicidade quando realizarem uma publicidade médica, e
caso fique alguma dúvida, poderá ser solicitado uma avaliação ao CRM/CFM.

DICAS

Acadêmico, você poderá consultar a Resolução CFM nº 1.974/2011, que


“Estabelece os critérios norteadores da propaganda em Medicina, conceituando os
anúncios, a divulgação de assuntos médicos, o sensacionalismo, a autopromoção e as
proibições referentes à matéria”. Disponível, na íntegra, em: https://sistemas.cfm.org.br/
normas/visualizar/resolucoes/BR/2011/1974.

FIGURA – RESOLUÇÃO CFM Nº 1.974/2011

FONTE: Adaptada de <https://sistemas.cfm.org.br/normas/visualizar/resolucoes/


BR/2011/1974>. Acesso em: 19 nov. 2020.

O próprio CFM, para dirimir possíveis dúvidas sobre a Resolução CFM nº 1.974/2011, publicou
um manual explicando em detalhes está resolução, acesse, na íntegra, em: https://portal.
cfm.org.br/publicidademedica/arquivos/cfm1974_11.pdf.

175
UNIDADE 2 — O CÓDIGO DE ÉTICA MÉDICA

FIGURA – MANUAL DE PUBLICIDADE MÉDICA

FONTE: Adaptada de <https://portal.cfm.org.br/publicidademedica/arquivos/cfm1974_11.


pdf>. Acesso em:

Boa Leitura!

Discorremos, aqui, sobre os principais pontos relacionados ao CEM


(2018), apresentando-lhes diversas legislações complementares e literaturas sobre
o tema. Vamos às disposições finais.

8 DISPOSIÇÕES FINAIS DO CÓDIGO DE ÉTICA MÉDICA


As disposições finais apresentadas no CEM (2018) exprimem de forma
sucinta o objetivo final de sua escrita:

Capítulo XIV

DISPOSIÇÕES GERAIS

I - O médico portador de doença incapacitante para o exercício profissional,


apurada pelo Conselho Regional de Medicina em procedimento administrativo
com perícia médica, terá seu registro suspenso enquanto perdurar sua
incapacidade.
II - Os médicos que cometerem faltas graves previstas neste Código e cuja
continuidade do exercício profissional constitua risco de danos irreparáveis ao
paciente ou à sociedade poderão ter o exercício profissional suspenso mediante
procedimento administrativo específico.
III - O Conselho Federal de Medicina, ouvidos os Conselhos Regionais de
Medicina e a categoria médica, promoverá a revisão e atualização do presente
Código quando necessárias.
IV - As omissões deste Código serão sanadas pelo Conselho Federal de Medicina
(BRASIL, 2018, grifos nossos).

176
TÓPICO 3 — REMUNERAÇÃO, SIGILO, DOCUMENTAÇÃO, AUDITORIA E PUBLICIDADE

Temos aqui as últimas orientações nessas quatro disposições e os quatro


temas principais são referentes aos médicos com problemas pessoais de saúde,
médicos que cometem faltas graves e que o CFM e o CRM são responsáveis pelas
atualizações do Código de Ética Médica, bem como de dirimir possíveis omissões
que possam surgir sobre o tema.

Ufa! É um tema bem interessante, mas bastante extenso. Haveria muito


mais considerações e legislações para apresentar, isso fica para você pesquisar
nas bibliografias e materiais apresentados quando houver necessidade.

Vamos encerrar esta unidade com uma leitura complementar, seguida do


seu resumo e das questões de revisão.

DICAS

Olá, acadêmico!
Deixamos esta última dica, por considerarmos ser importante para você. Acesse o primeiro
Código de Ética do Estudante de Medicina (CEEM) no Brasil, do Conselho Federal de Medicina
no link: http://www.flip3d.com.br/web/pub/cfm/index9/?numero=23&edicao=4442#page/1.

Boa leitura!

177
UNIDADE 2 — O CÓDIGO DE ÉTICA MÉDICA

LEITURA COMPLEMENTAR

CFM LANÇA CÓDIGO INÉDITO PARA PROMOVER PADRÃO ÉTICO


ENTRE ESTUDANTES DE MEDICINA

FIGURA – CÓDIGO DE ÉTICA DO ESTUDANTE DE MEDICINA

FONTE: <https://portal.cfm.org.br/images/stories/capas/ceem_capa.jpg>. Acesso em: 19 nov. 2020.

Organização de trotes responsáveis, respeito ao sigilo, uso ético de


cadáveres durante as atividades de ensino e prevenção ao assédio moral e às
relações abusivas nas escolas. Esses são alguns dos temas abordados no primeiro
Código de Ética do Estudante de Medicina (CEEM) no Brasil, uma iniciativa
inédita do Conselho Federal de Medicina (CFM) que oferece ao universo do
sistema formador desta profissão um conjunto de princípios para balizar as
relações dentro e fora das salas de aula.

O documento – lançado nesta terça-feira (14), durante a III Conferência


Nacional de Ética Médica, realizada em Brasília (DF) – tem foco nos acadêmicos
que se preparam para exercer futuramente a Medicina. O CEEM brasileiro
preenche lacuna, em nível nacional, e se inspira em experiências de códigos
semelhantes editados em outros países, como Inglaterra, Estados Unidos e
Canadá. Anteriormente, no Brasil, algumas instituições de ensino e Conselhos
Regionais de Medicina haviam elaborado textos com o mesmo objetivo, mas com
abrangência local.

Diferentes eixos – O Código de Ética do Estudante de Medicina contém 45


artigos organizados em seis diferentes eixos, os quais ressaltam atitudes, práticas
e princípios morais e éticos. O trabalho de elaboração desse texto teve início há
dois anos e foi concluído durante fórum específico, organizado pelo CFM e que
contou com a participação de representantes de várias entidades que mantêm
interface com o tema.

178
TÓPICO 3 — REMUNERAÇÃO, SIGILO, DOCUMENTAÇÃO, AUDITORIA E PUBLICIDADE

Além dessas representações institucionais, durante o processo de


elaboração do CEEM médicos, estudantes, academias e outras entidades da
sociedade civil também puderam contribuir com as formulações, encaminhando
suas sugestões por meio de uma plataforma eletrônica criada especificamente
com esse objetivo. Ao todo foram recebidas 272 contribuições.

O CEEM funciona como orientação não somente aos alunos, mas também
para os professores e responsáveis pelas instituições de ensino, encarregados da
formação do profissional. “A formação dos futuros médicos na graduação deve
proporcionar aos estudantes o incentivo ao aperfeiçoamento da capacidade
de lidar com problemas nos campos da moral e da ética em sinergia com as
atividades relacionadas ao ensino e à prática profissional”, afirmou o presidente
do CFM e coordenador da Comissão Nacional de Elaboração do Código de Ética
do Estudante de Medicina, Carlos Vital.

Segundo Vital, o CFM e as entidades estudantis vinculadas ao ensino nessa


área do conhecimento entendem que era “oportuno elaborar uma carta de princípios
universais, aplicáveis a todos os contextos, para estimular o desenvolvimento de
uma consciência individual e coletiva propícia ao fortalecimento de uma postura
honesta, responsável, competente e ética, resultando na formação de um futuro
médico mais atento a esses princípios fundamentais da atividade profissional e
da vida em sociedade”.

A previsão é de que a partir de setembro o novo Código de Ética do


Estudante de Medicina seja encaminhado para as mais de 320 escolas em atividade
em todo o País. O documento ficará disponível para download no site do CFM e
deve ser distribuído numa versão impressa, em formato de bolso.

Respeito e Sigilo – A preocupação com os casos de trotes violentos foi


um dos pontos que pautou a discussão patrocinada pelo CFM, com o apoio dos
Conselhos Regionais de Medicina (CRMs). A autarquia compreende como um
direito o estudante participar da recepção dos ingressantes, mas alerta: tudo deve
ser promovido em um ambiente saudável e não violento. Nesse sentido, o CEEM
estabelece ainda ser um dever do estudante “posicionar-se contra qualquer tipo de
trote que pratique violência física, psíquica, sexual ou dano moral e patrimonial”.

A proteção do direito à privacidade e confidencialidade também foi abordada


com destaque no documento. Segundo o novo Código, o estudante de medicina deve
manusear e manter sigilo sobre informações contidas em prontuários, papeletas,
exames e demais folhas de observações médicas. Da mesma forma, cabe aos alunos
ajudar na limitação ao acesso dessas informações, contidas nos prontuários, a outras
pessoas e profissionais que não tenham a obrigação do sigilo médico.

“A proteção de todas as informações que chegam ao conhecimento do


profissional é parte fundamental da prática médica. Para a classe médica, o
segredo é algo que não se pode dissociar do exercício da sua profissão. Constitui-
se no âmago da relação médico-paciente”, destaca o secretário-geral e integrante
da Comissão Nacional de Elaboração do CEEM, Henrique Batista e Silva.
179
UNIDADE 2 — O CÓDIGO DE ÉTICA MÉDICA

Além desses tópicos, quatro artigos foram dedicados à relação dos


estudantes com os demais profissionais de saúde. Segundo o CEEM, os acadêmicos
devem se relacionar com os integrantes das equipes de maneira adequada e gentil,
respeitando a atuação de cada um no atendimento multiprofissional ao paciente.
“A boa convivência entre os profissionais deve estar presente desde a formação,
persistindo por toda a vida profissional”, completou o conselheiro Leonardo Sérvio
Luz, coordenador-adjunto da Comissão Nacional de Elaboração do CEEM.

Outra situação abordada pelo documento é o trato com cadáveres.


Segundo o documento, o aluno deve guardar respeito ao cadáver, no todo ou
em parte, incluindo qualquer peça anatômica, assim como modelos anatômicos
utilizados com finalidade de aprendizado. “O estudante deve aprender que o ser
humano merece e precisa ser respeitado e não considerado apenas como mero
instrumento de estudo”, defendeu Luz.

Trabalho conjunto – O Código de Ética do Estudante de Medicina é fruto


de trabalho de uma comissão criada em fevereiro de 2016. O grupo, composto
por representantes de diferentes organizações nacionais, se debruçou sobre esse
desafio por quase dois anos, entregando ao final o documento com objetivo de ser
um orientador para a vida dos alunos inscritos nas escolas médicas.

A função do Código é ser um instrumento pedagógico para estimular a


reflexão ética do estudante de medicina. “Deve-se considerar que códigos de ética não
devem ser vistos como ferramentas estritamente punitivas, mas como documentos
de orientação voltados a normatizar o comportamento ético. Este, o Código de Ética
do Estudante de Medicina é estritamente de princípios; objetiva harmonizar a relação
entre o acadêmico, sua escola, seus professores, garantindo a excelência de sua
formação e a da assistência ao paciente e a segurança social”, explicou Lúcio Flávio
Gonzaga, coordenador da Comissão de Ensino Médico do CFM.

Além dos conselheiros do CFM, integraram a comissão representantes da


Associação Médica Brasileira (AMB), da Associação dos Estudantes de Medicina
do Brasil (AEMED-BR), da Direção Executiva Nacional dos Estudantes de
Medicina (DENEM), da Associação Brasileira de Educação Médica (ABEM), da
Associação Nacional de Médicos Residentes (ANMR), da Associação Brasileira
de Ligas Acadêmicas em Medicina (ABLAM), além da seccional do International
Federation of Medical Students Association (IFMSA-Brazil).

QUADRO – PRINCIPAIS PONTOS DO CÓDIGO DE ÉTICA MÉDICA DO ESTUDANTE

Tema O que diz o texto


Orienta o estudante a guardar sigilo a respeito das informações
Sigilo Médico obtidas a partir da relação com os pacientes e com os serviços
de saúde. E veda ao acadêmico a quebra do sigilo.
Orienta o estudante a se posicionar contra qualquer tipo de
Assédio moral assédio moral ou relação abusiva de poder entre internos,
residentes e preceptores.

180
TÓPICO 3 — REMUNERAÇÃO, SIGILO, DOCUMENTAÇÃO, AUDITORIA E PUBLICIDADE

Compreende como um direito o estudante participar da


recepção dos ingressantes, mas em um ambiente saudável.
Trotes
Também destaca como dever a denúncia de qualquer prática de
violência física, psíquica, sexual ou dano moral e patrimonial.

Proíbe o acadêmico identificar-se como médico, podendo


Exercício ilegal qualquer ato por ele praticado nessa situação ser caracterizado
como exercício ilegal da medicina.

O estudante de medicina não pode receber honorários ou


Remuneração salário pelo exercício de sua atividade acadêmica institucional,
com exceção de bolsas regulamentadas.

Relação com Destaca o respeito com o cadáver, incluindo qualquer peça


cadáver anatômica utilizados com finalidade de aprendizado.

Supervisão Instrui que a realização de atendimento por acadêmico


obrigatória deverá obrigatoriamente ter supervisão médica.

Respeito pelo Orienta o estudante a demonstrar empatia e respeito pelo


paciente paciente.

Respeito no
Destaca como dever do estudante dedicar sua atenção ao
atendimento
atendimento ministrado, evitando distrações com aparelhos
e aparelhos
eletrônicos e conversas alheias à atividade.
eletrônicos

Garante o respeito a privacidade, que contempla, entre


Privacidade
outros aspectos, a intimidade e o pudor dos pacientes.

Permite o uso de plataformas de mensagens instantâneas


Mensagens para comunicação entre médicos e estudantes de medicina,
WhatsApp em caráter privativo, para enviar dados ou tirar dúvidas
sobre pacientes.

Equipe Orienta os estudantes a se relacionarem de maneira respeitosa


multidisciplinar e a respeitarem a atuação de cada profissional da saúde.

FONTE: <https://portal.cfm.org.br/index.php?option=com_content&view=article&id=27780:-
2018-08-14-15-36-11&catid=3>. Acesso em: 19 nov. 2020.

FONTE: Adaptado de CFM lança código inédito para promover padrão ético entre estudantes
de Medicina. CFC, 14 ago. 2018. <https://portal.cfm.org.br/index.php?option=com_content&-
view=article&id=27780:2018-08-14-15-36-11&catid=3>. Acesso em: 19 nov. 2020

181
RESUMO DO TÓPICO 3
Neste tópico, você aprendeu que:

• A remuneração profissional do médico também está atrelada às leis de


mercado, principalmente a relacionada à oferta e à procura e suas prerrogativas
legais estão estipuladas no CEM 2018.
• O profissional deve seguir as diretrizes legais com relação as suas questões
financeiras.
• O sigilo profissional entre médico e paciente é um dos pontos mais recorrentes,
polêmica e controversa em deontologia.
• Deontologia é conjunto das normas que guia uma profissão, seguindo um
código determinado, reunião dos preceitos que norteia a prática de um
médico, regulamentada num documento específico.
• As questões relacionadas à saúde de uma pessoa só têm a ver com ela e o
médico, não podendo torná-la pública, exceto pelas questões legais definidas
no CEM ou legislação específica.
• O médico deverá comunicar as autoridades específicas, principalmente
quando envolver questões de doenças contagiosas ou ligadas à questão de
saúde pública, ainda que mantendo o sigilo do paciente.
• O Código Penal brasileiro (CP), em seu Artigo 154º, descreve que é crime revelar
informações sigilosas se ela foi obtida em razão de função, ministério, ofício
ou profissão, e nas questões médicas trata-se como assuntos profissionais.
• É proibida a colocação do diagnóstico codificado (CID) em atestados médicos,
salvo solicitação e anuência escrita do paciente ou seu responsável legal.
• Documentos médicos são todos e quaisquer tipos de declaração que foram
emitidas pelo médico durante o seu atendimento profissional ao paciente.
• Podem ser entendidos como documentos médicos os atestados médicos,
receitas, declarações, laudos, pareceres, homologações, relatórios, prescrições
diversas etc.
• Todos os documentos emitidos por um médico devem ter seu sigilo
profissional garantido.
• Os médicos, quando do preenchimento da Declaração de Óbito, obedecerão às
seguintes normas definidas na Resolução CFM nº 1.779/2005, classificados como:
o Morte natural.
o Morte fetal.
o Mortes violentas ou não naturais.

182
• Nas localidades onde existir apenas um médico, ele é o responsável pelo
fornecimento da Declaração de Óbito.
• O prontuário é um documento médico e por isso é sigiloso e não pode ser
manuseado por pessoas que não são obrigadas a manter o sigilo profissional.
• O prontuário médico deve ser legível e individual para cada paciente.
• A Lei Geral de Proteção de Dados, também conhecida como LGPD, deve ser
obedecida pelos médicos com relação à proteção dos dados de seus pacientes.
• As auditorias e perícias médicas vêm tomando maior importância em relação
à atuação dos médicos em diversas novas frentes de trabalho focadas nas
questões sociais e de saúde para a população e empresas.
• Os Comitês de Ética em Pesquisa (CEP) ou pela Comissão Nacional de Ética
em Pesquisa (CONEP) em questões relacionados à segurança dos dados da
pesquisa e divulgações de outros dados, inclusive em relação a prontuários
de pacientes que participam da pesquisa.
• A educação e a pesquisa são elementos importantes para a evolução da
medicina e surgimento de novas tecnologias e de novos médicos.
• Publicidade médica pode ser entendida como a comunicação ao público,
por qualquer meio de divulgação, de atividade profissional de iniciativa,
participação e/ou anuência do médico.
• Art. 2º Os anúncios médicos deverão conter, obrigatoriamente, os seguintes
dados:
o nome do profissional;
o especialidade e/ou área de atuação, quando registrada no Conselho
Regional de Medicina;
o número da inscrição no Conselho Regional de Medicina;
o número de registro de qualificação de especialista (RQE), se o for (As
demais indicações dos anúncios deverão se limitar ao preceituado na
legislação em vigor).
• O Conselho Federal de Medicina, ouvidos os Conselhos Regionais de Medicina
e a categoria médica, promoverá a revisão e atualização do presente Código
quando necessárias.
• As omissões com relação ao CEM-2018 serão sanadas pelo Conselho Federal
de Medicina.

CHAMADA

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183
AUTOATIVIDADE

1 As questões relacionadas à saúde de uma pessoa só têm a ver com ela e


o médico, sendo o sigilo médico um dos preceitos mais básicos deste
relacionamento. O médico não pode torná-la pública, exceto pelas questões
legais definidas no CEM ou legislação específica. Sobre o sigilo médico,
assinale a alternativa CORRETA:

a) ( ) É vedado ao médico revelar fato de que tenha conhecimento em virtude


do exercício de sua profissão, salvo por motivo justo, dever legal ou
consentimento por escrito do paciente.
b) ( ) É permitido ao médico revelar fato de que tenha conhecimento em
virtude do exercício de sua profissão, mesmo sem autorização por
escrito, do paciente em qualquer circunstância.
c) ( ) Somente é permitido ao médico divulgar dados do paciente em juízo.
d) ( ) Não é permitido divulgar dados do paciente sob nenhuma circunstância,
sendo algo sigiloso e somente de conhecimento dos dois, médico e
paciente.

2 A publicidade no ramo médico é bastante restrita e deve seguir as


orientações apresentadas no Código de Ética Médica (CEM), normativas
e legislações complementares. Referente à publicidade na área médica,
analise as sentenças a seguir:

I - É vedado ao médico anunciar, quando não é especialista, que trata de


sistemas orgânicos, órgãos ou doenças específicas, por induzir a confusão
com divulgação de especialidade.
II - É vedado ao médico permitir que seu nome seja incluído em propaganda
enganosa de qualquer natureza.
III - É permitido ao médico em suas campanhas de publicidade garantir,
prometer ou insinuar bons resultados do tratamento.

Assinale a alternativa CORRETA:


a) ( ) As sentenças I e II estão corretas.
b) ( ) Somente a sentença II está correta.
c) ( ) As sentenças I e III estão corretas.
d) ( ) Somente a sentença III está correta.

3 A educação em medicina é um fator primordial para a formação dos


médicos, tão necessários para a manutenção da saúde da população
brasileira. O Conselho Federal de Medicina (CFM), contribuindo com o
setor acadêmico, lançou recentemente o Código de Ética do Estudante de
Medicina (CEEM), descrevendo estritamente princípios gerais que busca
harmonizar a relação entre o acadêmico, sua escola, seus professores,

184
tratando a todos os envolvidos com a excelência necessária a sua formação,
além da assistência ao paciente e à segurança social necessária no processo
como um todo. Sobre o Código de Ética do Estudante de Medicina (CEEM),
assinale a alternativa CORRETA:

a) ( ) Proíbe o acadêmico identificar-se como médico, podendo qualquer ato


por ele praticado nessa situação ser caracterizado como exercício ilegal
da medicina.
b) ( ) É permitido ao acadêmico identificar-se como médico, podendo
qualquer ato por ele praticado ser claramente aceito pelo paciente.
c) ( ) Instrui que a realização de atendimento por acadêmico tem mesmo
valor que um atendimento médico, mesmo sem supervisão.
d) ( ) Orienta o estudante a não demonstrar empatia e respeito pelo paciente.

185
REFERÊNCIAS
BARROS JÚNIOR, E. A. Código de ética médica: comentado e interpretado.
Timburi: Cia do e-book, 2019. Disponível em: http://www.saude.ufpr.br/portal/
epmufpr/wp-content/uploads/sites/42/2019/05/CEM-2018-EDMILSON-PROTE-
GIDO.pdf. Acesso em: 31 ago. 2020.

BRASIL. Resolução nº 2.226, de 21 de março de 2019. Revoga a Resolução CFM


nº 1.649/2002, os artigos 4º e 5º e seu parágrafo único da Resolução CFM nº
2.170/2017 e altera o artigo 72 do Código de Ética Médica, que proíbem des-
contos em honorários médicos através de cartões de descontos e a divulgação
de preços das consultas médicas de forma exclusivamente interna. Disponível
em: https://www.in.gov.br/materia/-/asset_publisher/Kujrw0TZC2Mb/content/
id/70264483. Acesso em: 19 nov. 2020.

BRASIL. Resolução nº 2.217, de 27 de setembro de 2018. Aprova o Código de


Ética Médica. Disponível em: https://www.in.gov.br/materia/-/asset_publisher/
Kujrw0TZC2Mb/content/id/48226289/do1-2018-11-01-resolucao-n-2-217-de-27-
de-setembro-de-2018-48226042. Acesso em: 19 nov. 2020.

BRASIL. Lei nº 12.842, de 10 de julho de 2013. Dispõe sobre o exercício da


Medicina. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-
2014/2013/lei/l12842.htm. Acesso em: 19 nov. 2020.

BRASIL. Lei nº 11.976, de 7 de julho de 2009. Dispõe sobre a Declaração de


Óbito e a realização de estatísticas de óbitos em hospitais públicos e privados.
Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2009/lei/
l11976.htm#:~:text=LEI%20N%C2%BA%2011.976%2C%20DE%207%20DE%20
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C3%A7%C3%A3o%20de,Art. Acesso em: 19 nov. 2020.

BRASIL. Lei nº 7.716, de 5 de janeiro de 1989. Define os crimes resultantes de


preconceito de raça ou de cor. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/cci-
vil_03/leis/l7716.htm. Acesso em: 19 nov. 2020.

BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Disponível


em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2013/ lei/l12846.htm.
Acesso em: 19 nov. 2019.

BRASIL. Decreto nº 44.045, de 19 de julho de 1958. Aprova o Regulamento do


Conselho Federal e Conselhos regionais de Medicina a que se refere a Lei nº
3.268, de 30 de setembro de 1957. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/
ccivil_03/decreto/1950-1969/d44045.htm. Acesso em: 19 nov. 2020.

186
BRASIL. Lei nº 3.268, de 30 de setembro de 1957. Dispõe sobre os Conselhos de
Medicina, e dá outras providências. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/
ccivil_03/leis/l3268.htm. Acesso em: 19 nov. 2020.

CÉSPEDES, L.; ROCHA, F. D. Vade mecum tradicional. 29. ed. São Paulo: Sarai-
va Educação, 2020.

CFM. Código de Ética Médica: Resolução CFM n° 2.217, de 27 de setembro de


2018, modificada pelas Resoluções CFM nº 2.222/2018 e 2.226/2019. Brasília:
CFM, 2019. Disponível em: https://portal.cfm.org.br/images/PDF/cem2019.pdf.
Acesso em: 19 nov. 2020.

CFM. Resoluções CFM nº 2.222, de 23 de novembro 2018. Corrige erro material


do Código de Ética Médica (Resolução CFM nº 2.217/2018) publicado no D.O.U.
de 1º de novembro de 2018, Seção I, p. 179. Disponível em: https://sistemas.cfm.
org.br/normas/visualizar/resolucoes/BR/2018/2222. Acesso em: 19 nov. 2020.

CFC. Resolução CFC n º 2.168, de 21 de setembro de 2017. Adota as normas éti-


cas para a utilização das técnicas de reprodução assistida – sempre em defesa
do aperfeiçoamento das práticas e da observância aos princípios éticos e bioéti-
cos que ajudam a trazer maior segurança e eficácia a tratamentos e procedi-
mentos médicos –, tornando-se o dispositivo deontológico a ser seguido pelos
médicos brasileiros e revogando a Resolução CFM nº2.121, publicada no D.O.U.
de 24 de setembro de 2015, SeçãoI, p.117. Disponível em: https://sistemas.cfm.org.
br/normas/visualizar/resolucoes/BR/2017/2168. Acesso em: 19 nov. 2020.

CFM. Resolução do CFM nº 2.152, de 10 de novembro de 2016. Estabelece


normas de organização, funcionamento, eleição e competências das Comissões
de Ética Médica dos estabelecimentos de saúde. Disponível em: https://sistemas.
cfm.org.br/normas/visualizar/resolucoes/BR/2016/2152. Acesso em: 19 nov. 2020.

CFM. Resolução CFM nº 1.974, de 14 de julho de 2011. Estabelece os critérios


norteadores da propaganda em Medicina, conceituando os anúncios, a divul-
gação de assuntos médicos, o sensacionalismo, a autopromoção e as proibições
referentes à matéria. Disponível em: https://sistemas.cfm.org.br/normas/visuali-
zar/resolucoes/BR/2011/1974. Acesso em: 19 nov. 2020.

CFM. Resolução CFM nº 1.819, de 17 de maio de 2007. Proíbe a colocação do


diagnóstico codificado (CID) ou tempo de doença no preenchimento das guias
da TISS de consulta e solicitação de exames de seguradoras e operadoras de
planos de saúde concomitantemente com a identificação do paciente e dá outras
providências. Disponível em: https://sistemas.cfm.org.br/normas/visualizar/re-
solucoes/BR/2007/1819. Acesso em: 19 nov. 2020.

CFM. Resolução CFM nº 1.805, de 9 de novembro de 2006. Na fase terminal de


enfermidades graves e incuráveis é permitido ao médico limitar ou suspender
procedimentos e tratamentos que prolonguem a vida do doente, garantindo-lhe

187
os cuidados necessários para aliviar os sintomas que levam ao sofrimento, na
perspectiva de uma assistência integral, respeitada a vontade do paciente ou de
seu representante legal. Disponível em: https://sistemas.cfm.org.br/normas/visu-
alizar/resolucoes/BR/2006/1805. Acesso em: 19 nov. 2020.

CFM. Resolução CFM nº 1.779, de 11 novembro de 2005. Regulamenta a res-


ponsabilidade médica no fornecimento da Declaração de Óbito. Revoga a Re-
solução CFM nº 1.601/2000. Disponível em: https://sistemas.cfm.org.br/normas/
visualizar/resolucoes/BR/2005/1779. Acesso em: 19 nov. 2020.

CFM. Resolução do CFM nº 1.627, de 23 de outubro de 2001. Define o ato


profissional de médico. Disponível em: https://www.legisweb.com.br/legisla-
cao/?id=97427. Acesso em: 19 nov. 2020.

DEOTOLOGIA. In: DICIO, Dicionário on-line de português. Porto: 7 Graus, 2020.


Disponível em: https://www.dicio.com.br/deontologia/. Acesso em: 16 set. 2020.

FRANÇA, G. V. Comentários ao código de ética médica. 7. ed. Rio de Janeiro:


Guanabara Koogan, 2019.

MTE. NR 32: Segurança e saúde no trabalho em serviços de saúde. 2005. Dispo-


nível em: https://enit.trabalho.gov.br/portal/images/Arquivos_SST/SST_NR/NR-
32.pdf Acesso em: 16 ago. de 2020.

ONU. Declaração universal dos direitos humanos. 2009. Disponível em: https://
brasil.un.org/pt-br/resources/publications. Acesso em: 19 nov. 2020.

PIERITZ, V. L. H. Direito Médico hospitalar. Indaial: Uniasselvi, 2020.

PIERITZ, V. L. H.; BONETTI, J. C. S.; FRANZMANN, N. M. Direitos humanos e


cidadania. Indaial: Uniasselvi, 2016.

PUDOR. In: DICIO, Dicionário on-line de português. Porto: 7Graus, 2020. Dis-
ponível em: https://www.dicio.com.br/pudor/. Acesso em: 10 nov. 2020.

SIMERS. Grandes invenções da medicina: você sabia que o primeiro transplan-


te de órgãos vitais bem-sucedido foi feito entre gêmeos? 2017. Disponível em:
http://www.simers.org.br/noticia/voce-sabia-que-o-primeiro-transplante-de-or-
gaos-vitais-bem-sucedido-foi-feito-entre-gemeos. Acesso em: 14 set. 2020.

188
UNIDADE 3 —

O CÓDIGO DE PROCESSO ÉTICO-


PROFISSIONAL
OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de:

• compreender o Código de Processo Ético-Profissional (CPEP) da


medicina;
• estudar as questões pertinentes aos processos administrativos relativos
à profissão médica;
• compreender a questão sobre a sindicância da responsabilidade
profissional dos médicos;
• conhecer as etapas dos processos médicos;
• compreender conceitos básicos relacionados ao processo em espécie;
• capacitar o acadêmico a identificar procedimentos básicos de uso em
processos éticos profissionais;
• conhecer os meandros de um processo médico no CRM e no CFM.
• aprofundar os conhecimentos acerca da legislação específica relacionada
ao processo médico;
• destacar os aspectos complementares ao código de processo médico;
• conhecer detalhes sobre a prescrição de um processo;
• identificar questões pertinentes a revisões dos processos médicos.

PLANO DE ESTUDOS
Esta unidade está dividida em três tópicos. No decorrer da unidade, você
encontrará autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo apresentado.

TÓPICO 1 – DO PROCESSO ÉTICO EM GERAL


TÓPICO 2 – DO PROCESSO EM ESPÉCIE
TÓPICO 3 – DA PRESCRIÇÃO, DA REVISÃO DO PROCESSO E DAS
DISPOSIÇÕES

CHAMADA

Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e vamos


em frente! Procure um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá
melhor as informações.

189
190
TÓPICO 1 —
UNIDADE 3

DO PROCESSO ÉTICO EM GERAL

FIGURA 1 – JUSTIÇA

FONTE: <https://bit.ly/37qpvn0>. Acesso em: 12 nov. 2020.

“Por conseguinte, a justiça é algo essencialmente humano”.


Aristóteles

1 INTRODUÇÃO
Prezado acadêmico, na unidade anterior discutimos e analisamos o
Código de Ética Médico (CEM) em suas nuances e influências relacionadas às
legislações diversas que foram promulgadas desde a nova Constituição Federal
de 1988, Resoluções do CFM, entre outras, que podem influenciar os processos e
procedimentos éticos relacionados aos médicos.

Nesta unidade, estudaremos mais detalhadamente o Código de Processo


Ético-Profissional (CPEP) dos médicos, o qual foi instituído pelo Conselho Federal
de Medicina (CFM) no ano de 2016 através da Resolução CFM nº 2.145/2016, e foi
publicada no Diário Oficial da União em 27 de outubro de 2016.

O CPEP é um conjunto de normas o qual descreve um conjunto de ritos e


questões processuais que regulamentam as questões ligadas a sindicâncias realizadas
sobre profissionais de medicina, assim como detalha as questões relacionadas aos
processos ético-profissionais e o rito dos julgamentos nos Conselhos Regionais de
Medicina (CRM) e no Conselho Federal de medicina (CFM).

Neste tópico, estudaremos o capítulo específico do CPEP que trata o


assunto “Do processo em geral”, ele possui 31 artigos explanando sobre o tema.

191
UNIDADE 3 — O CÓDIGO DE PROCESSO ÉTICO-PROFISSIONAL

Um ponto importante está no fato de que o CPEP tem o sigilo das


apurações éticas em todas as suas instâncias que vão desde a sua sindicância, até
a fase processual propriamente dita.

FIGURA 2 – A BALANÇA DA JUSTIÇA NO PROCESSO MÉDICO

FONTE: <https://bit.ly/39yNp25>. Acesso em: 19 nov. 2020.

Ressaltamos ainda que o CPEP de 2016 traz presente o novo regramento


institucionalizado com o novo Código de Processo Civil (CPC) que foi instituído
pela Lei nº 13.105, de 16 de março de 2015 e o Código de Processo Penal (CPP)
que foi promulgado pelo Decreto-lei nº 3.689, de 3 de outubro de 1941 e ainda se
encontra em vigor.

FIGURA 3 – CÓDIGO DE PROCESSO PENAL, 1941

FONTE: Adaptada de <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/del3689compilado.


htm>. Acesso em: 19 nov. 2020.

192
TÓPICO 1 — DO PROCESSO ÉTICO EM GERAL

Assim, as normas expressas no Código de Processo Ético-Profissional


(CPEP) visam disciplinar a todos referente aos procedimentos éticos e profissionais
dos médicos através da apuração e posterior julgamento das possíveis infrações
que um médico possa ter incorrido no exercício de sua profissão ou em nome dela
decorrentes de violação do CEM e demais condutas deste labor, assim como das
demais leis.

Vamos conhecer os meandros legais do primeiro capítulo do Código de


Processo Ético-Profissional (CPEP).

2 DAS DISPOSIÇÕES GERAIS DO CPEP


O Conselho Federal de Medicina (CFM), no auto de suas atribuições
legais, publicou no ano de 2016 a resolução que define e trata dos meandros legais
referentes ao Processo Ético-Profissional (PEP).

Temos como preâmbulo legal as diversas considerações aplicadas na


definição da Resolução CFM nº 2.145/2016 que “aprova o Código de Processo
Ético-Profissional (CPEP) no âmbito do Conselho Federal de Medicina (CFM) e
Conselhos Regionais de Medicina (CRMs)”.

CAPÍTULO I
PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS

RESOLUÇÃO CFM Nº 2.145/2016


(Publicada no D.O.U. de 27 out 2016, Seção I, p. 329)
MODIFICADA
Resolução CFM nº 2.158/2017,
Resolução CFM nº 2.275/2020
Resolução CFM nº 2.278/2020

Aprova o Código de Processo Ético-Profissional (CPEP) no âmbito


do Conselho Federal de Medicina (CFM) e Conselhos Regionais de
Medicina (CRMs).

O CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA, no uso das atribuições conferidas


pela Lei nº 3.268, de 30 de setembro de 1957, regulamentada pelo Decreto nº
44.045, de 19 de julho de 1958, modificado pelo Decreto nº 6.821, de
14 de abril de 2009, e pela Lei nº 11.000, de 15 de dezembro de 2004, e,
consubstanciado nas leis nº 6.838, de 29 de outubro de 1980, e nº 9.784, de 29 de
janeiro de 1999; e
CONSIDERANDO que as normas do processo ético-profissional devem
submeter-se aos dispositivos constitucionais vigentes;
CONSIDERANDO as propostas formuladas pelos Conselhos Regionais de
Medicina para a atualização e revisão do Código de Processo Ético-Profissional;

193
UNIDADE 3 — O CÓDIGO DE PROCESSO ÉTICO-PROFISSIONAL

CONSIDERANDO que os Conselhos de Medicina são, ao mesmo tempo,


julgadores e disciplinadores da classe médica, cabendo-lhes zelar e trabalhar,
utilizando todos os meios a seu alcance, pelo perfeito desempenho ético da
medicina e pelo prestígio e bom conceito da profissão e dos que a exerçam
legalmente;
CONSIDERANDO o que ficou decidido na sessão plenária de 17 de maio de
2016,
RESOLVE:
Art. 1°Aprovar o Código de Processo Ético-Profissional (CPEP) anexo, que passa
a fazer parte desta resolução.
§ 1° Tornar obrigatória sua aplicação em todo o território nacional no âmbito dos
Conselhos Federal e Regionais de Medicina.
§ 2° As normas do novo Código de Processo Ético-Profissional (CPEP) são
aplicadas de imediato às sindicâncias e aos processos ético-profissionais (PEP)
em trâmite, sem prejuízo da validade dos atos processuais realizados sob a
vigência do Código anterior.
Art. 2° Este Código de Processo Ético-Profissional (CPEP) entrará em vigor
após decorridos 90 (noventa) dias, a partir da data de sua publicação no Diário
Oficial da União e no sítio eletrônico do CFM, revogando a Resolução CFM
nº 2.023/2013, a Resolução CFM nº 1.987/2012(Interdição Ética Cautelar) e
Resolução CFM nº 1.967/2011(Termo de Ajustamento de Conduta –TAC) (CFM,
2016, grifos nossos).

Brasília-DF, 17 de maio de 2016.

CARLOS VITAL TAVARES CORRÊA HENRIQUE BATISTAE SILVA


LIMA
Presidente Secretário-geral

Nesta primeira parte do CPEP, temos a legitimidade exigida aos textos


legais. Apresentando todas as considerações e pontos preponderantes para a
criação e institucionalização da Resolução para que não ocorram interpelações
futuras de questionamento de sua legalidade.

E
IMPORTANT

Caro acadêmico, como já abordamos em diversos momentos nesta


disciplina, a preocupação do CFM em relação à legalidade de suas Resoluções, que aqui
eles descrevem: “CONSIDERANDO que as normas do processo ético-profissional devem
submeter-se aos dispositivos constitucionais vigentes” (CFM, 2016).

194
TÓPICO 1 — DO PROCESSO ÉTICO EM GERAL

Em todas as questões que se referenciam a algo ou a um fato que possa


incorrer em questões legais ou alguma chance de judicialização, devemos sempre
nos antepor às questões legais relacionadas às leis básicas, ou seja, ao Código
Civil, Código Penal, entre outras leis e sempre se referenciar a Carta Magna como
última instância, pois ela é a base para todas as demais leis, e é o que o CEM e o
CPEP o fazem, pois sempre têm estas leis em sua base constituinte.

No Capítulo 1 do CPEP, temos a primeira seção que trata sobre Das


Disposições Gerais, que detalharemos a seguir. Vejamos:

CÓDIGO DE PROCESSO ÉTICO-PROFISSIONAL

CAPÍTULO I
Do Processo em Geral

Seção I
Das Disposições Gerais

Art.1° A sindicância e o processo ético-profissional (PEP) nos Conselhos


Regionais de Medicina (CRM) e no Conselho Federal de Medicina (CFM) serão
regidos por este Código de Processo Ético-Profissional (CPEP) e tramitarão em
sigilo processual. (Alterado pela Resolução CFM nº 2.158/2017)
Parágrafo único. As sanções confidenciais, previstas no art. 22, letras “a” e
“b” da Lei nº 3.268/1957, não poderão ser tornadas públicas, mesmo após a
conclusão definitiva do PEP (CFM, 2016, grifos do autor).

Veja na íntegra o que dispõe o Art. 22 da Lei n° 3.268/1957:

LEI Nº 3.268, DE 30 DE SETEMBRO DE 1957.

Dispõe sobre os Conselhos de Medicina, e dá outras providências.

Art. 22. As penas disciplinares aplicáveis pelos Conselhos Regionais aos seus
membros são as seguintes:
a) advertência confidencial em aviso reservado;
b) censura confidencial em aviso reservado;
c) censura pública em publicação oficial;
d) suspensão do exercício profissional até 30 dias;
e) cassação do exercício profissional, ad referendum do Conselho Federal
(BRASIL, 1957, grifos do autor).

195
UNIDADE 3 — O CÓDIGO DE PROCESSO ÉTICO-PROFISSIONAL

Este artigo primeiro do CPEP deixa claro que toda e qualquer sindicância ou
processo ético-profissional, também conhecido como PEP, que ocorram nos CRMs
e no CFMs, tem como base o presente código (CPEP) e, principalmente, tramitarão
sempre em sigilo, pois enquanto não houver a decisão definitiva do processo, ele
precisa transcorrer em sigilo processual para que ocorram todas as sindicâncias e
diligências necessárias, sem influências externas e sem juízo de valor ou influências,
até para não constranger ninguém e nem gerar problemas nos trâmites.

O sigilo é fundamental nesta fase para fazer os levantamentos corretos a fim


de que não haja prejuízos sem fundamento para ninguém, principalmente ao médico.

NOTA

Caro acadêmico, muitos processos ético-profissionais que são recebidos pelo


CRM são extintos, por não se comprovar em sindicâncias que tais fatos são verossímeis e,
por isso, muitas vezes, ocorre apenas a comunicação ao médico e solicitação e cuidados em
relação ao tema, não gerando nenhuma punição.
Precisamos ser conscientes que nem tudo o que achamos sobre uma consulta médica, é um
ato ilegal ou é um fato elegível a um processo administrativo no CRM ou em uma instancia
jurídica, só por informação pouco aprofundada de pessoa não especialista na área. Um
advogado especialista na área médica é a pessoa indicada para análises mais aprofundadas
sobre o tema.

Art. 2° A competência para apreciar e julgar infrações éticas é do CRM em que


o médico esteja inscrito ao tempo da ocorrência do fato punível.
Parágrafo único. A competência para instaurar sindicância, analisar seu
relatório e, se for o caso, instaurar o PEP e sua instrução é do CRM onde
o fato punível ocorreu, ainda que o médico não possua inscrição na
respectiva circunscrição; ou, tendo sido inscrito, já tenha sido transferido
para a circunscrição de outro CRM (CFM, 2016, grifos nossos).

Sempre o processo ético-profissional será instaurado no Conselho Regional


de Medicina (CRM) cujo fato ocorreu, mesmo que o médico já tenha mudado de
região e tenha registro em outra localidade.
Por este art. 2º, caput, compete9 ao órgão de classe regional apreciar a
sindicância, bem como instruir e julgar o processo ético-profissional.
Observe que a norma estabelece a circunscrição alcançada pelo
respectivo CRM (mesmo limite territorial dos estados e do Distrito
Federal) e que deverá ser considerada a data do fato antiético em
consonância com a inscrição regular do médico. P. ex., se na data
do fato tido por antiético o médico era inscrito no CRM do Paraná,
neste órgão regional deverá ser instaurada eventual sindicância e
consequente processo, ainda que o médico esteja, na data do início das
investigações, residindo e/ou atuando profissionalmente no CRM do
Amazonas (OLIVEIRA, 2019, p. 20).

196
TÓPICO 1 — DO PROCESSO ÉTICO EM GERAL

DICAS

Prezado acadêmico, gostaríamos de deixar uma dica de leitura bem interessante


sobre o tema, o livro do Oliveira com o título Primeiros comentários ao Código de Processo
Ético-Profissional dos Conselhos de Medicina, o qual pode ser encontrado na íntegra em:
http://www.flip3d.com.br/pub/cfm/index6/?edicao=4701.

FIGURA – PRIMEIROS COMENTÁRIOS AO CÓDIGO DE PROCESSO ÉTICO-


PROFISSIONAL DOS CONSELHOS DE MEDICINA

FONTE: <https://bit.ly/2JrnHSE>. Acesso em: 19 nov. 2020.

FONTE: OLIVEIRA, A. C. N. de. Primeiros comentários ao Código de Processo Ético-


Profissional dos Conselhos de Medicina: aprovado pela Resolução CFM nº 2.145/2016.
Brasília: Conselho Federal de Medicina. 2019. Disponível em: < http://www.flip3d.com.br/
pub/cfm/index6/?edicao=4701>. Acesso em: 21 set. 2020.

Boa leitura.

No Artigo terceiro do Código de Processo Ético-Profissional (CPEP),


temos que:

Art. 3° A apreciação de sindicância ou o julgamento do PEP poderá ser


desaforada por decisão fundamentada da plenária ou da câmara respectiva,
com a remessa dos autos ao Conselho Federal de Medicina” (CFM, 2016).

Em situações especificas de um processo definidas em plenária do CRM,


um PEP poderá ser encaminhado ao foro superior da entidade, ou seja, o CFM.

197
UNIDADE 3 — O CÓDIGO DE PROCESSO ÉTICO-PROFISSIONAL

Art. 4° A sindicância e o PEP terão forma de autos judiciais, com as


peças anexadas por termo e os despachos, pareceres, notas técnicas, petições
e decisões ou acórdãos juntados em ordem cronológica, sendo vedada a
juntada de qualquer peça ou documento no verso de folhas já constantes
nos autos (CFM, 2016).

Conforme Oliveira expõe sobre o supracitado Artigo 4° do Código de


Processo Ético-Profissional (CPEP):
Este dispositivo não traz nenhuma dificuldade de compreensão.
Trata-se de instauração de autos para a documentação em papel
(físico) ou digital (eletrônico) de tudo que for encontrado sobre os
fatos, à semelhança do que ocorre com os autos judiciais, de modo
que todos os que militam com processos administrativos ou judiciais
já o conhecem bem. Assim, no âmbito dos CRMs, a sindicância e o
processo ético serão instaurados na forma de autos judiciais, tomando,
vale dizer, a mesma forma física dos processos judiciais.
Os elementos materiais que compõem os autos do processo, tais como
despachos, pareceres, notas técnicas, petições e decisões ou acórdãos,
devem ser juntados em ordem cronológica – ou seja, na ordem em que
vão sendo produzidos. Com isso, evita-se que peças processuais sejam
juntadas aos autos de forma aleatória ou desorganizada. Por outro
lado, não se admite que documentos produzidos em data posterior
sejam anexados ou colados no verso de peça ou documento já constante
dos autos em datas anteriores. P. ex., proíbe-se que a carta com aviso
de recebimento seja juntada no processo no verso do ofício de citação
que já está documentado há vários dias ou em folhas antecedentes.
Proceder como exemplificado implica na perda de cronologia dos atos
processuais e facilita a confusão, tendo por consequência possíveis
nulidades. Portanto, os documentos e peças devem ser anexados ao
processo à medida que vão sendo produzidos, obedecendo-se a ordem
cronológica da encartação (OLIVEIRA, 2019, p. 25).

Fato este que é corroborado pela legislação brasileira, a qual possui o


mesmo procedimento judicial de ajuntamento de provas e documentos.

Art. 5° O processo e julgamento das infrações às disposições previstas no Código


de Ética Médica (CEM) são independentes, não estando em regra, vinculado a
processo e julgamento da questão criminal ou cível sobre os mesmos fatos.
§ 1° A responsabilidade ético-profissional é independente da criminal.
§ 2° A sentença penal absolutória somente influirá na apuração da infração ética
quando tiver por fundamento o art. 386, incisos I (estar provada a inexistência
do fato) e IV (estar provado que o réu não concorreu para a infração penal) do
Decreto-Lei n° 3.689/1941(CPP) (CFM, 2016).

198
TÓPICO 1 — DO PROCESSO ÉTICO EM GERAL

Conforme apresentado no presente Artigo 5° do Código de Processo


Ético-Profissional (CPEP), os processos éticos lato sensu sejam de sindicância ou
de PEP transcorrem independentemente de qualquer outro tipo de processo que
possa estar sendo impetrado ao médico, seja em processos criminais ou civis, não
importando ao CRM/CFM os resultados destes, quer seja por julgado e finalizado
ou por acordo, pois estes resultados não afetam a apreciação do processo de
ética instaurado nos Conselhos de Medicina, pois estes sempre agirão em
independência das suas decisões não sendo influenciado por outras instâncias
criminal, civil e administrativa.

Estes fatos de independência entre instâncias são enunciados nas seguintes


legislações brasileiras, como o Art. 935 do Código Civil (CC) e dos Arts. 66 e 67
do CPP. Na Constituição Federal (CF) visos resolução similar no seu Art. 2° da
CF, a qual descreve que os poderes da República são independentes entre si, não
necessitando assim que o CFM seja obrigado a seguir o mesmo entendimento que
a das outras instâncias.

Art. 6° A apreciação de sindicância e a instrução e o julgamento do PEP que


envolva conselheiro obedecerá às seguintes regras:
I - a sindicância será instruída pelo CRM onde o fato ocorreu e sua apreciação,
por decisão fundamentada da plenária, poderá ser desaforada, com a remessa
dos autos ao CFM;
II - decidida a instauração do PEP, a instrução ocorrerá no CRM onde o fato
ocorreu, que o remeterá ao CFM para desaforamento do julgamento (CFM, 2016).

Este Artigo 6° do Código de Processo Ético-Profissional (CPEP) faz alusão


ao regramento ético de que uma falta ética praticada por algum conselheiro do
CRM não possa ser analisado e julgado pelo CRM de que o conselheiro é membro,
para que este não influencie nos resultados, buscando, assim, preservar a isenção
do veredito e justeza de ação pelos CRMs para com os seus membros.

Art. 7° O presidente dos Conselhos Federal e Regional de Medicina poderão


delegar aos corregedores a designação do conselheiro sindicante, instrutor,
relator e revisor.
Art. 8° A sindicância será analisada em câmara específica.
Art. 9° O PEP será julgado diretamente pelo pleno nos CRMs que não possuírem,
regimentalmente, câmaras de julgamento.
Art. 10. Os servidores dos CRMs, obrigados ao sigilo processual, poderão receber
delegação para a prática de atos de administração de mero expediente sem caráter
decisório;
Art.11. O CRM poderá suspender o curso do prazo processual nos dias
compreendidos entre 20 de dezembro e 20 de janeiro, inclusive (CFM, 2016).

199
UNIDADE 3 — O CÓDIGO DE PROCESSO ÉTICO-PROFISSIONAL

Os Artigos 7º ao 11º do Código de Processo Ético-Profissional (CPEP) são


regimentais sobre o tema de processo ético-profissional e são claros e entendíveis
em si e falam sobre sua organização, sigilo e expedientes.

Assim, acabamos a análise desta primeira seção do Capítulo 1 do CPEP,


sobre as disposições gerais.

3 DA SINDICÂNCIA
Antes de começarmos a analisar a segunda seção que fala dos processos
de sindicância, vamos compreender o seu significado.

NOTA

Significado de sindicância
Substantivo feminino
Inquérito; conjunto das atividades, análises e ações que visam apurar a verdade dos fatos
apresentados.
Inquérito que tem o objetivo de apurar qualquer irregularidade num órgão público.

FONTE: <https://www.dicio.com.br/sindicancia/>. Acesso em: 21 set. 2020.

Logo, como podemos ver pelo significado da palavra que dá título a esta
seção, ela é dedicada a definir todo o conjunto das atividades, análises e ações que
visam apurar a verdade dos fatos apresentados ao CRM sobre a atuação de seus
membros.

Como expressado por Oliveira (2019, p. 35-36):


Assim, por ser um meio sumário de investigação e não ter por finalidade
aplicar sanções, a sindicância não precisa de procedimento formal
rígido. Em seu bojo não é exigido o contraditório, muito menos a ampla
defesa, podendo, inclusive, ser dispensada a própria manifestação do
sindicado; aliás, a sindicância poderá se desenvolver sem que se tenha
um sindicado; nem mesmo a publicidade dos atos se faz necessária.
Portanto, trata-se de procedimento meramente investigativo, que não
pode dar ensejo a penalidades disciplinares, e que é realizado apenas a
título de convencimento primário da administração (conselhos) acerca
de indícios da ocorrência ou não de determinada irregularidade ética
e de sua autoria.

Só isso já mostra a preocupação do conselho sobre a atuação ética de seus


profissionais, e mais, ele age de forma exemplar. Assim temos:

200
TÓPICO 1 — DO PROCESSO ÉTICO EM GERAL

Seção II

Da Sindicância

Art. 12. A sindicância será instaurada:


I− de ofício pelo próprio CRM;
II− mediante denúncia escrita ou verbal, com identificação completa do
denunciante, na qual conste o relato circunstanciado dos fatos, e quando possível,
a qualificação completa do médico denunciado, com a indicação das provas
documentais;
§ 1°A denúncia verbal deverá ser tomada a termo por servidor designado.
§ 2° A denúncia deverá ser dirigida ao CRM, devidamente assinada pelo
denunciante, seu representante legal ou por procurador devidamente constituído.
§ 3° Caso a denúncia esteja deficiente a ponto de comprometer sua exata
compreensão em relação aos fatos e provas, o corregedor poderá conceder ao
denunciante prazo de 15 dias para sua complementação.
§ 4° Se o denunciante não cumprir o disposto no parágrafo antecedente, o
corregedor levará a denúncia para apreciação da câmara de sindicância, onde
poderá ser arquivada ou determinada a instauração de sindicância de ofício, para
apurar os fatos nela contidos.
§ 5° A sindicância poderá ser arquivada por desistência da parte denunciante
a critério de decisão da Câmara do CRM e, somente será admitida nos casos
em que não envolvam lesão corporal de natureza grave (Art. 129, §§ 1º a 3º do
Código Penal), assédio sexual ou óbito do paciente.
§ 6°A denúncia anônima não será aceita (CFM, 2016, grifos do autor).

O Artigo 12º do Código de Processo Ético-Profissional (CPEP) descreve


as diretrizes gerais para instaurar uma sindicância no CRM em relação aos seus
membros. Um ponto importante a ser destacado está na questão de que denúncias
anônimas não serão aceitas pela instituição.

Conforme Oliveira (2019, p. 42), escreve sobre as denúncias anônimas que:


Entende-se, principalmente por força do princípio da legalidade,
que a administração pública, o Estado e o CRM estão compelidos a
verificar os critérios objetivos de admissibilidade da denúncia contra
os profissionais de medicina regularmente inscritos no CRM (peça
escrita, com a necessária identificação e, quando possível, o endereço do
denunciante e do denunciado). A ausência de um desses elementos pode
resultar no arquivamento sumário da denúncia. Com efeito, a denúncia
apócrifa não poderá sequer ser recebida, menos ainda utilizada como
instrumento apto a dar início à atividade apuratória, materializada
com a instauração de sindicância e posterior processo ético-disciplinar
formal. Esta vedação também encontra substrato no Art. 5º, inciso IV, da
CF, que autoriza a livre manifestação do pensamento e ideias, porém
proíbe o anonimato (OLIVEIRA, 2019, p. 42).

201
UNIDADE 3 — O CÓDIGO DE PROCESSO ÉTICO-PROFISSIONAL

Temos ainda por Fonseca e Fonseca (2016, p. 509) que o princípio da


legalidade expressada anteriormente “é um dos mais importantes para a
administração pública” e está previsto no Artigo 5º da CF e no Artigo 37.

Constituição Federal
Art. 37. A administração pública direta e indireta de qualquer dos Poderes
da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios obedecerá aos
princípios de legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência
(CÉSPEDES; ROCHA, 2020, p. 20).

Outro ponto importante a frisar é que o artigo se referência ao CP através


de seu Art. 129°, §§ 1° a 3° em casos de lesão grave.

Art. 13. Determinada a instauração de sindicância, o corregedor nomeará


conselheiro sindicante para apresentar relatório conclusivo que deverá conter
obrigatoriamente:
I - identificação completa das partes, quando possível;
II - descrição dos fatos e circunstâncias em que ocorreram;
III - indicação da correlação entre os fatos apurados e a eventual infração ao
Código de Ética Médica;
IV - conclusão indicando a existência ou inexistência de indícios de infração ao
Código de Ética Médica;
§ 1° Na parte conclusiva, o relatório deve apontar os indícios da materialidade
e da autoria dos fatos apurados, de modo específico a cada artigo do CEM
supostamente infringido.
§ 2° A sindicância tramitará no CRM do local da ocorrência do fato por até 180
dias, podendo, por motivo justificado, esse prazo ser excedido.
(CFM, 2016).

Este Artigo 13 do Código de Processo Ético-Profissional (CPEP) trata da


estrutura mínima para o relatório de uma sindicância, assim como os prazos de
sua conclusão reiterando que na parte conclusiva dele, o relatório deve apontar
os indícios da materialidade e da autoria dos fatos apurados, de modo específico
a cada artigo do CEM supostamente infringido.

Art. 14. Se com a denúncia forem oferecidos elementos fáticos e documentais


suficientes, o corregedor determinará a abertura de sindicância. Neste caso, o
sindicante elaborará imediato relatório que será levado à câmara de sindicância
para apreciação (CFM, 2016).

202
TÓPICO 1 — DO PROCESSO ÉTICO EM GERAL

Quando uma denúncia apresenta detalhadamente elementos fáticos e


documentais adequados e suficientes, a sindicância pode ocorrer de forma mais
acelerada já que os elementos necessários para a elaboração do relatório conclusivo
estão disponibilizados. Nesta situação, não existe a necessidade de colher outros
elementos prévios de convencimento em torno de indícios de materialidade e
autoria e assim o conselheiro sindicante pode passar diretamente para a fase de
conclusão, acelerando o processo em si.

Art. 15. A comissão de ética médica dos estabelecimentos de saúde deverá


encaminhar ao CRM as denúncias e/ou condutas antiéticas que tiver ciência,
nos termos da resolução específica.
Parágrafo único. Na inexistência da comissão de ética médica nos
estabelecimentos de saúde, caberá ao diretor clínico fazer a comunicação
prevista no caput.
Art. 16. A pessoa jurídica, pública ou privada, poderá exercer o direito de denúncia,
devendo ser representadas por quem a lei ou os respectivos estatutos indicarem,
ou no silêncio destes, pelos seus diretores ou sócios-gerentes (CFM, 2016).

Estes dois artigos supracitados do Código de Processo Ético-Profissional


(CPEP) trazem que, além das condições normais de denúncias realizadas por
pacientes dos médicos, podem ainda as comissões de ética médica de hospitais e
clínicas, assim como pessoa jurídica, pública ou privada, também realizar o processo
de denúncia no CRM, obedecendo o procedimento padrão definido no CPEP.

Art. 17. O relatório conclusivo da sindicância, devidamente fundamentado, será


levado à apreciação da câmara de sindicância, com o seguinte encaminhamento:
I propor conciliação, quando pertinente;
II propor termo de ajustamento de conduta (TAC), quando pertinente;
III arquivamento: se indicar a inexistência de indícios de infração ao Código de
Ética Médica;
IV instauração de PEP: se indicar a existência de indícios de infração ao Código
de Ética Médica, cumulada ou não de proposta de interdição cautelar. Neste caso,
os autos serão encaminhados ao corregedor a quem competirá assinar portaria de
abertura de PEP; bem como nomear conselheiro instrutor;
V instauração de procedimento administrativo para apurar doença incapacitante,
nos termos de resolução específica.
§ 1° Havendo necessidade de qualquer diligência, os autos serão remetidos ao
conselheiro sindicante para que a cumpra na forma em que for deliberada pela
câmara, no prazo de 30 (trinta) dias.
§ 2° Qualquer membro da câmara, não se sentindo apto a se manifestar, poderá
pedir vistas dos autos pelo prazo de 30 (trinta)dias.
§ 3° O relatório conclusivo da sindicância que determinar a instauração de PEP,
na forma do art. 17, inciso IV, acompanhará o mandado de citação do denunciado.

203
UNIDADE 3 — O CÓDIGO DE PROCESSO ÉTICO-PROFISSIONAL

§ 4° Em caso de divergência ao relatório do sindicante, o voto divergente deverá ser


formalizado e juntado aos autos.
§ 5° A instauração de PEP, quando cumulada com interdição cautelar, é da
competência exclusiva do pleno do CRM.
§ 6° O processo administrativo para apurar doença incapacitante tramitará em
autos próprios, com a suspensão do PEP por até 90 (noventa) dias prorrogáveis
uma única vez por igual período (CFM, 2016).

Neste último artigo da Seção II da sindicância, temos expressado que


conclusos os trabalhos de relatório da sindicância, ele será levado à apreciação da
câmara de sindicância, com os diversos encaminhamentos listados nesta.

4 CONCILIAÇÃO, TERMO DE AJUSTAMENTO DE CONDUTA


(TAC) E INTERDIÇÃO CAUTELAR DO EXERCÍCIO DA MEDICINA
Vamos, agora, estudar os artigos que expressam as possíveis formas de
solução de um PEP, os quais estão descritos nas seções de mesmo nome no Código
de Processo Ético-Profissional (CPEP).

4.1 CONCILIAÇÃO
Em situações em que o Conselheiro Sindicante identifica uma situação
de grau menor de severidade e que não envolvam lesão corporal de natureza
grave, conforme os Art. 129°, § 1° a 3° do Código Penal, assédio sexual ou óbito
do paciente, ele pode sugerir uma conciliação entre as partes, desde que ainda não
tenha ocorrido a aprovação do relatório conclusivo da sindicância.

Temos que reforçar ainda que a conciliação é um instituto que permite às


partes conflitantes chegar a um acordo consensual com desfecho amigável sobre
determinado fato e, assim, provocar o arquivamento da sindicância. Sempre que
ocorre uma conciliação, o conflito é considerado terminado pelo CRM.

Seção III

Da Conciliação

Art. 18. A conciliação entre as partes somente será admitida nos casos em
que não envolvam lesão corporal de natureza grave (art. 129, §§ 1° a 3° do
Código Penal), assédio sexual ou óbito do paciente, e dependerá de proposta
do conselheiro sindicante ou de outro membro da Câmara, com aprovação da
câmara de sindicância.

204
TÓPICO 1 — DO PROCESSO ÉTICO EM GERAL

§ 1° Após a aprovação do relatório conclusivo da sindicância, não será mais


cabível a proposta de conciliação.
§ 2° É vedado qualquer acerto pecuniário no âmbito da conciliação.
§ 3° Proposta e aceita a conciliação pelas partes, após sua homologação pela
câmara de sindicância, não caberá qualquer recurso.
§ 4° No caso de a conciliação não obter êxito, a sindicância prosseguirá em seus
termos (CFM, 2016, grifos do autor).

4.2 TERMO DE AJUSTAMENTO DE CONDUTA (TAC)


Vamos analisar as questões relativas ao Termo de Ajustamento de Conduta
(TAC), conforme apresentado na Seção IV do Código de Processo Ético-Profissional
(CPEP).

Seção IV

Do Termo de Ajustamento de Conduta (TAC)

Art. 19. O Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) é o ato jurídico pelo


qual a pessoa, física ou jurídica, em regra, reconhecendo implicitamente que
sua conduta ofende ou pode ofender interesse ético individual ou coletivo,
assume, perante órgão público legitimado, o compromisso de eliminar a
ofensa ou o risco, através da adequação de seu comportamento às exigências
legais e éticas, mediante formalização de termo.
§1° O TAC depende de proposta do conselheiro sindicante ou de outro membro
da câmara, após a apresentação de seu relatório conclusivo, e será firmado após
aprovação pela câmara de sindicância.
§2° O TAC será admitido nos casos em que não envolvam lesão corporal de
natureza grave (Art. 129, §§ 1º a 3º do Código Penal), assédio sexual ou óbito do
paciente (CFM, 2016, grifos do autor).

Temos, no Artigo 19 do CPEP, a definição de TAC, na visão do CFM,


ressalvando-se sempre que é uma ferramenta jurídica e logo tem validade legal em
todos os seus termos, devendo ser executado a sua adequação pelo responsável. O
TAC será firmado somente após a execução do relatório conclusivo da sindicância
e aprovação pela câmara de sindicância.

Art. 20. O TAC é sigiloso e será assinado por membro da câmara de sindicância
que o aprovar ou o corregedor e o médico interessado, tendo como
embasamento legal a Lei n° 7.347/1985 e inciso II do Art. 17 deste CPEP.§ 1° O
CRM figurará no TAC como compromitente e o médico interessado
como compromissário (CFM, 2016).

205
UNIDADE 3 — O CÓDIGO DE PROCESSO ÉTICO-PROFISSIONAL

No Artigo 20 do Código de Processo Ético-Profissional (CPEP), temos


a reafirmação de que o TAC também é um documento sigiloso, como todos os
demais documentos médicos, e traz ainda sobre as assinaturas dele.

Art. 21. São cláusulas obrigatórias do TAC, dentre outras:


I− objeto: descreve o(s) fato(s) imputado(s) ao médico;
II− cláusula de comportamento: impõe ao médico portar-se de acordo com o
determinado no TAC;
III− cláusula de suspensão da sindicância: fixa o prazo de suspensão da
sindicância, com atenção aos prazos prescricionais estabelecidos no CPEP;
IV− Cláusula de fiscalização: define como será feita a fiscalização do TAC e
como deverá o médico compromissário demonstrar o cumprimento das metas
e obrigações assumidas (CFM, 2016).

O Artigo 21 do Código de Processo Ético-Profissional (CPEP) define os


itens mínimos que devem constar em uma TAC a ser aplicada e define a questão
de fiscalização dele.

Art. 22. O TAC não pode ser firmado nos autos da sindicância que tenha no
polo ativo a figura do denunciante.
§1° A fiscalização do cumprimento dos termos contidos no TAC caberá à
corregedoria do CRM respectivo.
Art. 23. O descumprimento dos termos e condições contidas no TAC implicará
a abertura de PEP.
Art. 24. O médico que aderir a um TAC ficará impedido de firma novo TAC,
sobre qualquer assunto, pelo período de cinco anos.
(CFM, 2016).

Estes três últimos artigos sobre o TAC do Código de Processo Ético-


Profissional (CPEP), falam sobre se ocorrer o seu descumprimento, implicara
na abertura de um PEP e que o médico que aderir ao TAC não poderá ter mais
nenhum TAC emitido pelo período de cinco anos.

4.3 INTERDIÇÃO CAUTELAR DO EXERCÍCIO DA MEDICINA


A Interdição cautelar do exercício da medicina é mais uma forma de
punição instituída pelo CPEP do CFM, buscando preservar a sociedade e a
própria instituição do CRM/CFM em relação a possíveis atos de médicos que
possam prejudicá-los.

O CPEP traz diversos artigos que normatizam a Interdição cautelar do


exercício da medicina:

206
TÓPICO 1 — DO PROCESSO ÉTICO EM GERAL

Seção V

Da Interdição Cautelar do Exercício da Medicina

Art.25. O pleno do CRM, por maioria simples de votos e respeitando o quórum


mínimo, poderá interditar cautelarmente o exercício profissional de médico cuja
ação ou omissão, decorrentes do exercício de sua profissão, esteja notoriamente
prejudicando seu paciente ou à população, ou na iminência de fazê-lo.
§ 1° A interdição cautelar poderá ser aplicada quando da instauração do PEP,
ou no curso da instrução, na sessão de julgamento ou na fase recursal;
§ 2° Os casos de interdição cautelar serão imediatamente informados ao CFM
pelo CRM de origem (CFM, 2016, grifos do autor).

Conforme podemos ver, o Artigo n° 25 do Código de Processo Ético-


Profissional (CPEP) permite ao CRM interditar cautelarmente o exercício
profissional de um médico cuja ação ou omissão, decorrentes do exercício de
sua profissão, comprovadamente, esteja notoriamente prejudicando seu paciente
ou à população ou na iminência de fazê-lo. Aqui, vale ressaltar ainda a questão
de gerar prejuízo pelo médico ao paciente e a população, o que por si é um fato
grave, pois o ele deve zelar pela saúde de todos, como vimos diversas vezes na
unidade anterior.

Oliveira (2019, p. 62) descreve:


A interdição cautelar do exercício da medicina não encerra uma
penalidade. Logo, em sentido estrito, não há de falar-se em
proporcionalidade ou razoabilidade na sua aplicação. Não há nenhum
tipo de variação de grau na aplicação da medida (a não ser no que
diz respeito a sua extensão – total ou parcial). Portanto, preenchidos
os requisitos, a sua aplicação constitui-se num dever-poder dos
Conselhos de Medicina em prol da sociedade.
O CFM detém competência legal para zelar pelo melhor desempenho
ético e técnico da medicina. E nisto se insere, à luz da teoria dos poderes
implícitos, o sobrestamento acautelatório de condutas potencialmente
nocivas à população de forma geral e aos pacientes em específico. Desse
modo, da atenta leitura das alíneas do Art. 15 da Lei nº 3.268/1957, percebe-
se que compete ao CRM: (a) deliberar sobre a inscrição e cancelamento
no quadro do Conselho; (b) manter um registro dos médicos, legalmente
habilitados, com exercício na respectiva região; (c) fiscalizar o exercício
da profissão de médico; (d) conhecer, apreciar e decidir os assuntos
atinentes à ética profissional, impondo as penalidades que couberem;
(e) promover, por todos os meios a seu alcance, o perfeito desempenho
técnico e moral da medicina e o prestígio e bom conceito da medicina,
da profissão e dos que a exerçam; (f) exercer os atos de jurisdição que
por lei lhes sejam cometidos.

207
UNIDADE 3 — O CÓDIGO DE PROCESSO ÉTICO-PROFISSIONAL

Art. 26. A interdição cautelar ocorrerá desde que existam nos autos elementos
de prova que evidenciem a probabilidade da autoria e da materialidade da
prática do procedimento danoso pelo médico, a indicar a verossimilhança da
acusação, e haja fundado receio de dano irreparável ou de difícil reparação
ao paciente, à população e ao prestígio e bom conceito da profissão, caso ele
continue a exercer a medicina.
§ 1° Na decisão que determinar a interdição cautelar, o CRM indicará, de modo
claro e preciso, as razões de seu convencimento.
§ 2° A decisão de interdição cautelar terá efeito imediato e implicará o
impedimento, total ou parcial, do exercício da medicina até o julgamento final
do PEP, que deverá ser obrigatoriamente instaurado.
§ 3° A interdição cautelar poderá ser modificada ou revogada a qualquer tempo
pela plenária do CRM ou, em grau de recurso, pela plenária do CFM, em decisão
fundamentada.

O artigo supracitado do Código de Processo Ético-Profissional (CPEP)


traz a sua importância ao destacar os fundamentos da interdição cautelar, ou seja,
materialidade da prova prática do procedimento danoso pelo médico; razões
claras da aplicação; efeito imediato e poderá ser modificada ou revogada pela
plenária do CRM ou CFM.

A aplicação de uma interdição cautelar é algo melindroso e o CRM em seus


ritos internos busca elucidar todas as evidências antes de uma decisão tão crítica,
mas como se diz na prática jurídica “contra fatos não há argumento”, pois o CRM
precisa zelar pela boa imagem de seus profissionais e expurgar do sistema os maus.

Art. 27. O médico interditado cautelarmente do exercício total ou parcial da


medicina será notificado da decisão, sendo contado o prazo recursal de 30 (trinta)
dias a partir da juntada aos autos do recebimento da ordem de interdição, sem
efeito suspensivo.
Art. 28. Recebido o recurso no CFM, o corregedor o remeterá à Coordenação
Jurídica (COJUR) para exame de admissibilidade e emissão de Nota Técnica
(NT) no prazo de 15 dias, caso seja arguida alguma preliminar processual.
Parágrafo único. Com ou sem NT, o recurso será imediatamente distribuído
a um conselheiro-relator que terá 30 dias para elaborar seu relatório e voto,
devendo ser pautado para julgamento na sessão plenária subsequente.
Art. 29. A decisão de interdição cautelar terá abrangência nacional e será
publicada no Diário Oficial e no sítio eletrônico dos Conselhos de Medicina,
com a identificação das partes.
Art. 30. A decisão de interdição cautelar deverá ser comunicada aos
estabelecimentos onde o médico exerce suas atividades.
Art. 31. O PEP no bojo do qual tiver sido decretada a interdição cautelar do
exercício da medicina do médico denunciado, deverá ser julgado no prazo de 6
(seis) meses, prorrogável por igual período uma única vez.

208
TÓPICO 1 — DO PROCESSO ÉTICO EM GERAL

Parágrafo único. O prazo do caput deste artigo não será considerado quando
o atraso da prática de qualquer ato processual for causado, sem motivo justo,
pelo médico interditado (CFM, 2016).

Os artigos supracitados do Código de Processo Ético-Profissional (CPEP)


expressam mais detalhes do rito processual em relação à aplicação da interdição
cautelar, identificando suas etapas e deixando claro que eles devem ser notificados
no CFM e publicados no Diário Oficial da União (D.O.U.) e no sítio eletrônico dos
Conselhos de Medicina.

FIGURA 4 – EXEMPLO DE INTERDIÇÃO CAUTELAR PUBLICADO NO D.O.U.

FONTE: Adaptada de <https://www.in.gov.br/web/dou/-/aviso-de-penalidade-196351232>.


Acesso em: 19 nov. 2020.

Acadêmico, para encerrar o Tópico 1, sugerimos a leitura do artigo


Interdição cautelar médica: pena ou prevenção?

209
UNIDADE 3 — O CÓDIGO DE PROCESSO ÉTICO-PROFISSIONAL

INTERDIÇÃO CAUTELAR MÉDICA: PENA OU PREVENÇÃO?

Igor de Lucena Mascarenhas


Ana Paula Correia de Albuquerque da Costa
Eduardo Dantas

O ato médico pode ser julgado eticamente pelo Conselho Regional de


Medicina e o médico poderá, ao final do processo ético profissional, obter os
seguintes resultados*:

a. Absolvição.
b. Advertência confidencial em aviso reservado.
c. Censura confidencial em aviso reservado.
d. Censura pública em publicação oficial.
e. Suspensão do exercício profissional até 30 dias.
f. Cassação do exercício profissional, ad referendum do Conselho Federal.

Acontece que, na atual conjuntura, o Conselho Regional de Medicina


e o Conselho Federal de Medicina têm inaugurado uma nova pena, qual seja:
interdição cautelar médica.

A medida, baseada estritamente em fundamento infralegal,


diferentemente das penas do Conselho, é objeto de discussão, pois não teria
um respaldo legal direto, mas restaria, tão somente, fundada no poder de
polícia dos Conselhos. Ademais, conforme defende Edmilson Barros Júnior,
medidas cautelares seriam típicas do Poder Judiciário, não cabendo aos órgãos
autárquicos a adoção de tais medidas.

Sobre a natureza cautelar da medida, acredito que não haja grandes


divergências, todavia, tendo a discordar da impossibilidade de medidas
cautelares no âmbito administrativo, uma vez que o próprio sistema de Medicina
utiliza medidas cautelares como as interdições éticas do trabalho médico (IEM).
A IEM representa a "proibição, pelo respectivo Conselho Regional de Medicina,
de o profissional exercer seu trabalho em estabelecimentos de assistência
médica e hospitalização por falta de condições mínimas para a segurança do ato
médico". Nesse sentido, o próprio Judiciário já referendou a possibilidade de tal
medida, o que, a princípio, analogamente, alcançaria a interdição cautelar.

Em verdade, medidas cautelares não possuem natureza punitiva, na


medida em que visam evitar novos danos de natureza irreparável ou de difícil
reparação ao paciente, à população e ao prestígio e bom conceito da profissão,
caso ele continue a exercer a Medicina.

210
TÓPICO 1 — DO PROCESSO ÉTICO EM GERAL

Ocorre que, na contemporaneidade, a interdição cautelar tem sido


utilizada como uma antecipação da pena em grau mais gravoso que a
suspensão profissional trazida na alínea "d" do Art. 22 da Lei n° 3.268. E pior:
sem a possibilidade de rediscussão no Judiciário, na medida em que se trata de
mérito administrativo.

Enquanto o enfermeiro pode ser suspenso por até 90 dias, nos termos da
Resolução COFEN n° 564/2017, e o advogado, por exemplo, pode ser suspenso
por um período de até 12 meses, nos termos da Lei n° 8.906/1994, a penalidade de
suspensão por até 30 dias aplicável ao médico, por vezes, mostra-se inadequada
para o caso concreto.

Não há um meio termo condenatório, ou seja, caso se entenda que o


quadro analisado é grave, ou se condena com uma suspensão de 30 dias ou se
cassa o profissional ad eternum e sem possibilidade de reabilitação profissional.

Diante dessa disparidade condenatória, o CFM/CRMs tem utilizado a


interdição cautelar como mecanismo condenatório antecipado e agravador da
pena de suspensão tradicional, na medida em que pode perdurar por seis meses,
prorrogáveis por igual período, nos termos do Art. 31 do Código de Processo
Ético Profissional. Ou seja, é uma medida que pode perdurar por até um ano.

No curso da Covid-19, inúmeros foram as hipóteses de publicidade


abusiva, enganosa e de atos de desinformação, notadamente em redes sociais,
em que diminuem os efeitos da pandemia ou defendem soros de imunidade /
medicamentos / plantas sem eficácia comprovada.

Tais atos devem ser severamente investigados e punidos, porém o que


deve ser questionado é a pretensa extensão do dano a justificar uma interdição
ética cautelar.

Por vezes, a interdição cautelar poderia servir para evitar novos danos
concretos, a exemplo do ocorrido com Denis César Barros Furtado, conhecido
como Dr. Bumbum, que havia sido cassado pelo Conselho Regional de
Medicina do Estado de Goiás, porém, considerando que a decisão precisaria ser
referendada pelo Conselho Federal de Medicina, continuou atuando e gerou
prejuízos irreversíveis para Lilian Calixto, que faleceu após a intervenção do
médico.

Atualmente, conforme dados públicos extraídos do sítio institucional do


CFM, o Brasil possui 15 médicos interditados cautelarmente de forma integral e
sete médicos interditados parcialmente por decisão ética.

Todos esses profissionais, de fato, devem estar impedidos de exercer a


profissão em sua plenitude?

211
UNIDADE 3 — O CÓDIGO DE PROCESSO ÉTICO-PROFISSIONAL

Edmilson Barros Júnior aponta para a subjetividade das penas éticas


no âmbito do CFM, na medida em que não há uma correlação prévia entre
os artigos e as possíveis penas. Desta forma, pode ser considerada hipótese
de interdição a potencial violação a qualquer um dos 117 artigos presentes
no Código de Ética Médica. Tal medida, para além de uma loteria decisional,
importa em flagrante violação à ampla defesa e contraditório, posto que não há
base concreta objetiva para aferir se a decisão é adequada ou não.

A falta de uma hierarquia formal entre os artigos existentes no CEM


não importa na ausência de uma hierarquia axiológica, na medida em que
algumas infrações não admitem TAC ou Conciliação, o que denota uma maior
preocupação para com a violação dos referidos tipos éticos.

O Superior Tribunal de Justiça já reconheceu que a suspensão do


exercício profissional oriunda de processo judicial pode ter natureza cautelar,
a depender do caso concreto, a exemplo de um médico acusado de fraude e
que teria causado prejuízos à operadora de plano de saúde na ordem de R$ 3,3
milhões apenas no ano de 2017.

Todavia, prejuízos financeiros ou reprovabilidade de determinados


casos, por si só, não podem gerar um juízo punitivo prévio. Diversos são os
exemplos em que o profissional é interditado cautelarmente e, ao final do
processo, sua condenação formal não passa de uma censura pública.

O critério da medida cautelar deve ser o de se evitar novos danos,


notadamente em razão da gravidade e extensão que o exercício médico pode
causar. O desvio das causas reais da interdição cautelar gera um questionamento
acerca da real adequação das penas de interdição cautelar, sobretudo por
eventual disparidade entre a pena formal e a pena material ao final do processo
ético profissional.

É importante, neste ponto, destacar que não há sequer pena concreta,


ainda que não transitada em julgado, a ser antecipada, a despeito do que se
observa, por exemplo, na execução antecipada de penas privativas de liberdade.
A interdição ética é pautada em um regime de extraordinariedade, mas que,
infelizmente, tem se mostrado mais recorrente do que se exige e em um cenário
que se apresenta desnecessário. Diante desse quadro apresentado, tendemos a
considerar os seguintes aspectos:

1. A pena de interdição cautelar deve ser usada, com o perdão do trocadilho,


com muita cautela e parcimônia.
2. As penas médicas necessitam, com urgência, de uma atualização e
readequação com o objetivo de não cassar profissionais que deveriam ser
apenas suspensos por um período mais longo, seja para adequar a medida
cautelar de suspensão a casos extremamente necessários e relevantes e com
respaldo legal e não apenas infralegal.

212
TÓPICO 1 — DO PROCESSO ÉTICO EM GERAL

3. A interdição cautelar não pode se convolar em uma execução antecipada de


pena inexistente, sob pena de afronta ao princípio do contraditório, ampla
defesa e devido processo legal.

FONTE: MASCARENHAS, I. de L.; COSTA, A. P. C. de A. da; DANTAS, E. Interdição cautelar


médica: pena ou prevenção? Migalhas, 27 jul. 2020. Disponível em: https://migalhas.uol.com.
br/coluna/direito-e-bioetica/331182/interdicao-cautelar-medica--pena-ou-prevencao. Acesso
em: 19 nov. 2020.

213
RESUMO DO TÓPICO 1
Neste tópico, você aprendeu que:

• O Código de Processo Ético-Profissional (CPEP) dos médicos foi instituído


pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) no ano de 2016, através da
Resolução CFM nº 2.145/2016, e publicada no Diário Oficial da União em 27
de outubro de 2016.
• O CPEP é um conjunto de normas o qual descreve os ritos e questões
processuais que regulamentam as questões ligadas às sindicâncias realizadas
sobre profissionais de medicina.
• O capítulo “Do Processo em Geral” do CPEP possui 31 artigos explanando
sobre o tema.
• O CPEP reforça que o sigilo das apurações éticas em todas as suas instâncias
vai desde a sua sindicância até a fase processual propriamente dita.
• As penas disciplinares aplicáveis pelos Conselhos Regionais aos seus
membros são:
o advertência confidencial em aviso reservado;
o censura confidencial em aviso reservado;
o censura pública em publicação oficial;
o suspensão do exercício profissional até 30 dias;
o cassação do exercício profissional, ad referendum do Conselho Federal.

• A competência para instaurar sindicância, analisar seu relatório e, se for o caso,


instaurar o PEP e sua instrução é do CRM cujo fato punível ocorreu, ainda
que o médico não possua inscrição na respectiva circunscrição ou, tendo
sido inscrito, já tenha sido transferido para a circunscrição de outro CRM.
• O processo ético profissional será instaurado no Conselho Regional de
Medicina (CRM) onde o fato ocorreu, mesmo que o médico já tenha mudado
de região e tenha registro em outra localidade.
• O processo e julgamento das infrações às disposições previstas no Código de
Ética Médica (CEM) são independentes, não estando em regra, vinculado ao
processo e julgamento da questão criminal ou cível sobre os mesmos fatos.
• Sindicância pode ser entendida como um conjunto de atividades relacionadas
a análises e ações que visam apurar a verdade dos fatos apresentados.
• A sindicância será instaurada:
o I- de ofício pelo próprio CRM;
o II- mediante denúncia escrita ou verbal, com identificação completa do
denunciante, na qual conste o relato circunstanciado dos fatos, e quando
possível, a qualificação completa do médico denunciado, com a indicação
das provas documentais.
214
• A sindicância poderá ser arquivada por desistência da parte denunciante a
critério de decisão da Câmara do CRM e, somente será admitida nos casos
em que não envolvam lesão corporal de natureza grave (art. 129, §§ 1º a 3º do
Código Penal), assédio sexual ou óbito do paciente.
• Não serão aceitas as denúncias anônimas.
• A administração pública direta e indireta de qualquer dos Poderes da
União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios deverá obedecer
aos princípios de legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e
eficiência.
• O relatório conclusivo da sindicância, devidamente fundamentado, será levado
à apreciação da câmara de sindicância, com o seguinte encaminhamento:
o I - propor conciliação, quando pertinente;
o II - propor termo de ajustamento de conduta (TAC), quando pertinente;
o III - arquivamento: se indicar a inexistência de indícios de infração ao
Código de Ética Médica;
o IV - instauração de PEP: se indicar a existência de indícios de infração ao
Código de Ética.

• A conciliação entre as partes somente será admitida nos casos em que não
envolvam lesão corporal de natureza grave (Art. 129, §§ 1º a 3º do Código
Penal), assédio sexual ou óbito do paciente, e dependerá de proposta do
conselheiro sindicante ou de outro membro da Câmara, com aprovação da
câmara de sindicância.
• O Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) é o ato jurídico pelo qual a pessoa,
física ou jurídica, em regra, reconhecendo implicitamente que sua conduta
ofende ou pode ofender interesse ético individual ou coletivo, assume,
perante órgão público legitimado, o compromisso de eliminar a ofensa ou
o risco, através da adequação de seu comportamento às exigências legais e
éticas, mediante formalização de termo.
• O pleno do CRM, por maioria simples de votos e respeitando o quórum mínimo,
poderá interditar cautelarmente o exercício profissional de médico cuja ação
ou omissão, decorrentes do exercício de sua profissão, esteja notoriamente
prejudicando seu paciente ou à população, ou na iminência de fazê-lo.

215
AUTOATIVIDADE

1 Em seu Art. 13, a CPEP descreve “Determinada a instauração de


sindicância, o corregedor nomeará conselheiro sindicante para apresentar
relatório conclusivo que deverá conter obrigatoriamente”. Sobre o relatório
conclusivo, analise as sentenças a seguir:

I - Identificação completa das partes, quando possível.


II - Detalhamento completo da sindicância.
III - Descrição dos fatos e circunstâncias em que ocorreram.
IV - Indicação da correlação entre os fatos apurados e a eventual infração ao
Código de Ética Médica.
V - Identificação dos advogados da acusação.
VI - Conclusão indicando a existência ou inexistência de indícios de infração
ao Código de Ética Médica;

Assinale a alternativa CORRETA:


a) ( ) I – II – III – IV.
b) ( ) I – II – IV – V.
c) ( ) I – III – IV – VI.
d) ( ) I – II – III – V.

2 Um marco para os médicos foi a promulgação pelo Conselho Federal de


Medicina do Código de Ética Médico (CEM) e do Código de Processo Ético-
Profissional, trazendo instrumentos novos e interpretações atualizadas ao
comportamento médico para a sociedade em geral, resolvendo e mitigando
dúvidas a todos. Em relação à sindicância e ao PEP, considerando o CPEP
2018, assinale a alternativa CORRETA:

a) ( ) A sindicância e o Processo Ético-Profissional (PEP) nos Conselhos


Regionais de Medicina (CRM) e no Conselho Federal de Medicina
(CFM) serão regidos pelo Código de Processo Ético-Profissional
(CPEP) e tramitarão em sigilo processual.
b) ( ) A sindicância e o Processo Ético-Profissional (PEP) nos Conselhos
Regionais de Medicina (CRM) e no Conselho Federal de Medicina
(CFM) serão regidos pelo Código de Processo Ético-Profissional
(CPEP) e tramitarão sem sigilo processual.
c) ( ) A sindicância tramitará em sigilo processual e o Processo Ético-
Profissional (PEP) nos Conselhos Regionais de Medicina (CRM) e
no Conselho Federal de Medicina (CFM) e não tramitará em sigilo
processual.
d) ( ) Somente o processo ético-profissional (PEP) tramitará nos Conselhos
Regionais de Medicina (CRM) e no Conselho Regional de Farmácia
(CRF) serão regidos por este Código de Processo Ético-Profissional
conjunto da Farmácia e Medicina (CPEPFM) e tramitarão em sigilo
processual.

216
TÓPICO 2 —
UNIDADE 3

DO PROCESSO EM ESPÉCIE

FIGURA 5 – PENSANDO

FONTE: <https://bit.ly/2JGvHyL>. Acesso em: 12 nov. 2020.

“Antes de fazer alguma coisa, pense, quando achar que já pode fazê-la, pense
novamente”.
Pitágoras

1 INTRODUÇÃO
Prezado acadêmico, estamos iniciando o estudo do Tópico 2 desta
unidade e trataremos o tema relacionado aos procedimentos dos processos em
si em relação aos Processos Ético-Profissionais juntados ao Conselho Regional de
Medicina sob a égide da conduta ético profissional do médico.

Entre a apresentação da queixa por um denunciante (pessoa física, pessoa


jurídica ou um conselho de ética de um hospital ou outro órgão em que o médico
atua), a sindicância e a abertura do PEP, temos todo um procedimento a ser
seguido para a execução do processo em si no CRM/CFM.

FIGURA 6 – AUDIÊNCIA EM JÚRI

FONTE: <https://bit.ly/36sX20w>. Acesso em: 19 nov. 2020.

217
UNIDADE 3 — O CÓDIGO DE PROCESSO ÉTICO-PROFISSIONAL

Neste tópico, estudaremos e detalharemos o Capítulo II do Código de


Processo Ético-Profissional (CPEP) de 2018, cujo tema é Do Processo em Espécie,
estudando os seus detalhes.

Neste tópico, estudaremos:

• Da Instrução do Processo Ético-Profissional.


• Das Provas.
• Da Audiência de Instrução.
• Do Julgamento do PEP no CRM.
• Dos Recursos em Geral.
• Do Julgamento do PEP no CFM.
• Da Execução das Penas.
• Dos Impedimentos e da Suspeição.
• Das Nulidades Processuais.

Este capítulo do Código de Processo Ético-Profissional (CPEP) é o mais


extenso e com mais artigos e detalhes a serem estudados, pois traz todos os
meandros operacionais do PEP, sendo um capítulo importante do CPEP, pois
estipula todo o regramento processual a que está suscetível o PEP.

2 DA INSTRUÇÃO DO PROCESSO ÉTICO-PROFISSIONAL


Prezado acadêmico, vamos conhecer os detalhes relacionados ao processo
ético-profissional, que estão estipulados no CPEP, sendo que essa primeira parte do
capítulo trata das normativas iniciais da Instrução do Processo Ético-Profissional.

Capítulo II

Do Processo em Espécie

Seção I

Da Instrução do Processo Ético-Profissional

Art. 32. Aprovado o relatório da sindicância, na forma do art. 17, inciso IV, deste
CPEP, o conselheiro instrutor conduzirá o processo dentro dos parâmetros de
razoabilidade, atentando-se para os prazos prescricionais.
Parágrafo único. O conselheiro sindicante não poderá ser designado como
instrutor de PEP por ele proposto (CFM, 2016, grifos do autor).

Inicia-se a Instrução do Processo Ético-Profissional no Artigo 32 do Código


de Processo Ético-Profissional (CPEP) já informando que o conselheiro instrutor
deve agir dentro da razoabilidade e aos prazos prescricionais definidos.
218
TÓPICO 2 — DO PROCESSO EM ESPÉCIE

Conforme Oliveira (2019, p. 73):


Conduzir o processo com razoabilidade significa agir dentro do que se
espera de um homem médio ponderado e equilibrado; portanto, sem
extremismos. A palavra “razão”, assim, pode significar: “capacidade
que cada ser humano tem de ponderar”, “conformidade dos fatos com
a justiça” e, “no cartesianismo, faculdade que permite a distinção entre
o certo e o errado, entre o falso e o verdadeiro ou entre o bem e o mal;
bom senso” (OLIVEIRA, 2019, p. 73).

Art. 33. O PEP não poderá ser extinto por desistência da parte denunciante.
Nesta hipótese, ele seguirá de ofício.
§ 1° Comprovado o falecimento do médico denunciado, mediante a juntada da
certidão de óbito nos autos, será extinta a punibilidade em relação a ele, mediante
despacho do corregedor.
§ 2° Comprovado o falecimento do denunciante, mediante ajuntada da certidão
de óbito nos autos, o PEP seguirá de ofício, mediante despacho do corregedor.
§ 3° Havendo requerimento do cônjuge ou companheiro (a), pais, filhos ou
irmãos do denunciante falecido, nessa ordem, ele poderá ser admitido como
parte denunciante, assumindo o processo no estado em que se encontra.
§ 4° O procedimento administrativo, para apurar doença incapacitante, observará
resolução específica. Quando também estiver sendo apurada infração ética, sua
conclusão deverá ocorrer antes do julgamento do PEP (CFM, 2016).

O Processo ético-profissionalizante (PEP) após ter passado pelo processo


de sindicância e aberto no CRM, não poderá ser extinto por desistência da parte
denunciante, pois já foram realizados os processos de análise e se encontrou
fundamento para a sua abertura, mas se ocorrer a desistência pelo denunciante,
nessa hipótese, ele seguirá de ofício.

Da Modificação ou Adição ao Relatório Conclusivo da Sindicância

Art. 34. Encerrada a instrução probatória ou no curso desta, surgindo novas


evidências, fatos novos ou detectado algum erro material constante do relatório
conclusivo da sindicância o conselheiro instrutor poderá modificá-lo ou aditá-
lo para, de forma fundamentada, corrigi-lo, inserir outros fatos e artigos, bem
como incluir outros denunciados.
Parágrafo único. A modificação ou aditamento deverá ser aprovado pela câmara
de julgamento ou pleno do CRM, assegurando-se ao denunciado a ampla defesa
e o contraditório (CFM, 2016, grifos do autor).

O PEP pode ser alterado sob circunstâncias específicas como correção,


novas provas, evidências entre outros que podem influenciar o resultado, mas
toda e qualquer modificação ou aditamento deverá ser aprovado pela câmara de
julgamento ou pleno do CRM, assegurando-se ao denunciado a ampla defesa e o
contraditório, mostrando-se a lisura nos processos, ditame fundamental ao CRM.
219
UNIDADE 3 — O CÓDIGO DE PROCESSO ÉTICO-PROFISSIONAL

Da Citação do Denunciado

Art. 35. Citação é o ato pelo qual o médico denunciado é convocado para integrar
a relação processual, dando-lhe ciência da instauração de PEP e imputando-lhe
a prática de infração ética, bem como lhe oferecendo a oportunidade para se
defender.
Art. 36. O mandado de citação deverá conter obrigatoriamente:
I- o nome completo do denunciado;
II- o endereço residencial ou profissional do denunciado;
III- a finalidade da citação, bem como a menção do prazo e local para apresentação
da defesa prévia, sob pena de revelia. Parágrafo único. Cópia do relatório
conclusivo da sindicância e do voto divergente, se houver, deverá acompanhar
o mandado de citação.
Art. 37. A citação inicial, na forma do art. 35, poderá ser feita em qualquer lugar
em que se encontre o denunciado e será realizada:
I- pelos Correios, com Aviso de Recebimento, ou outro meio de comprovação
oficial de recebimento fornecido pelos Correios;
II- por servidor ou conselheiro do CRM devidamente habilitado ou pelos
Correios, via Aviso de Recebimento por Mãos Próprias (ARMP);
III- por Carta Precatória, quando frustradas as hipóteses previstas nos incisos I
e II deste artigo;
IV- por edital, quando frustradas as hipóteses anteriores.
§ 1° Nas clínicas, nos consultórios e nos hospitais será válida a entrega do
mandado de citação à secretária ou outro funcionário da recepção ou da portaria
responsável pelo recebimento de correspondência.
§2° Nos condomínios edilícios ou nos loteamentos com controle de acesso, será
válida a entrega do mandado de citação a funcionário da portaria responsável
pelo recebimento de correspondência.

Da Citação por Edital

Art. 38. São requisitos da citação por edital:


I a certidão do servidor do CRM informando acerca da frustração das tentativas
de citação pessoal do denunciado;
II a publicação do edital, no Diário Oficial e no sítio eletrônico do respectivo
CRM, que deve ser certificada nos autos;
III a determinação, pelo corregedor ou conselheiro instrutor, do prazo para
apresentação de defesa prévia, que será 30 (trinta) dias, fluindo da data da
publicação;
IV a advertência de que será nomeado defensor dativo em caso de revelia (CFM,
2016, grifos do autor).

220
TÓPICO 2 — DO PROCESSO EM ESPÉCIE

Do Artigo 35 ao Artigo 38 do Código de Processo Ético-Profissional (CPEP)


nos apresenta as formas de citação e procedimentos a serem cumpridos pelo
CRM ou CFM com relação ao anúncio de Citação ao médico denunciado, sendo
convocado para integrar a relação processual, dando-lhe ciência da instauração
de PEP e imputando-lhe a prática de infração ética, bem como oferecendo-lhe a
oportunidade para se defender.

Defesa Prévia

Art. 39. Na defesa prévia, o denunciado poderá arguir preliminares processuais


e alegar tudo o que interesse a sua defesa, oferecer documentos e justificações,
especificar as provas pretendidas e arrolar até cinco testemunhas, que deverão
ser qualificadas com nome, profissão e endereço completo.
§ 1° O prazo para apresentação da defesa prévia será de 30 dias, contados a
partir da juntada aos autos do comprovante da efetivação da citação.
§ 2° Ao denunciado ou a seu defensor será garantido o direito de vista dos
autos na Secretaria do CRM, bem como a extração de cópias, físicas ou digitais,
mediante recolhimento da taxa correspondente.
§ 3° A defesa prévia deve vir aos autos acompanhada de procuração, quando
subscrita por advogado, que conterá obrigatoriamente seu telefone fixo e/ou
móvel, bem como os seus endereços eletrônico e não eletrônico para fins de
futuras intimações.
Art. 40. O denunciante poderá no prazo de 30 dias, contados da juntada aos
autos do aviso de recebimento da intimação da decisão de abertura do PEP,
oferecer documentos e justificações, especificar as provas pretendidas e arrolar
até cinco testemunhas, que deverão ser qualificadas com nome, profissão e
endereço completo (CFM, 2016, grifos do autor).

O denunciante e o médico denunciado tem um prazo de 30 dias, contados


da juntada aos autos do aviso de recebimento da intimação da decisão de abertura
do PEP, para juntar e oferecer documentos e justificações, especificar as provas
pretendidas e arrolar até cinco testemunhas, que deverão ser qualificadas com
nome, profissão e endereço completo que farão parte do processo.

A defesa prévia é o primeiro momento em que o médico denunciado tem


para apresentar a sua defesa e se manifestar nos autos em relação ao PEP após a
sua citação, sendo um ato processual obrigatório no PEP.

Das Intimações

Art. 41. Nas intimações do denunciado, do denunciante, da testemunha e demais


pessoas que devam tomar conhecimento de qualquer ato será observado, no que
for aplicável, o disposto no Art.37 e incisos e Art. 38 e incisos deste CPEP.
§ 1° As notificações e intimações serão feitas às testemunhas, às partes ou aos
seus advogados.

221
UNIDADE 3 — O CÓDIGO DE PROCESSO ÉTICO-PROFISSIONAL

§ 2° A intimação do defensor dativo, do advogado do denunciado ou do


denunciante, poderá ser feita para o endereço indicado na forma do Art. 39, § 3°
ou por qualquer outro meio idôneo.
Art. 42. Constitui dever das partes e interessados, declinar, no primeiro momento
que lhes couber falar nos autos, o endereço residencial ou profissional, por onde
receberão intimações.
Parágrafo único. Presumem-se válidas as intimações dirigidas ao endereço
constante dos autos, ainda que não recebidas pessoalmente pelo destinatário.
Art. 43. A intimação poderá ser feita por servidor habilitado, ou conselheiro,
quando frustrada a realização pelo correio.
§ 1° A certidão de intimação deve conter:
I- a indicação do lugar e a descrição da pessoa intimada, mencionando, quando
possível, o número de seu documento de identidade e o órgão que o expediu;
II- a declaração de entrega do objeto da intimação;
III- a nota de ciente ou a certidão de que o interessado não a apôs no mandado.
§ 2° Caso necessário, a critério do instrutor, a intimação poderá ser efetuada por
edital (CFM, 2016, grifos do autor).

Do Artigo 41 ao 43 do Código de Processo Ético-Profissional (CPEP),


temos referências de como se procede sobre as intimações dos PEP, as notificações
e intimações serão feitas às testemunhas, às partes ou aos seus advogados
obedecendo-se a estes artigos.

FIGURA 7 – INTIMAÇÃO

FONTE: <https://bit.ly/2HZlcGm>. Acesso em: 19 nov. 2020.

Os artigos apresentados também expressam de forma clara o processo de


intimação a ser usado em um PEP pelo CRM ou CFM, os quais também seguem
os preceitos legais do Brasil.

Revelia

Art. 44. Considera-se revel o médico denunciado que, regularmente citado,


deixar de apresentar defesa prévia no prazo legal, nem constituir defensor.

222
TÓPICO 2 — DO PROCESSO EM ESPÉCIE

Parágrafo único. Caso o denunciado ou seu defensor manifeste nos autos que
não deseja fazer sua defesa prévia, não será considerado revel.
Art. 45. Ao médico denunciado declarado revel será nomeado um defensor
dativo para apresentação de defesa prévia no prazo do Art. 39, § 1º e a prática
dos demais atos processuais que visem a sua defesa, incluindo eventual recurso.
§ 1° No CRM e no CFM, o defensor dativo será um advogado, que receberá
sua devida remuneração pelo desempenho de sua função, cujo valor deverá
ser fixado mediante edição de resolução própria ou realização de convênio com
instituições públicas ou privadas.
§2° O defensor dativo que deixar de cumprir a função para a qual foi nomeado,
deverá ser substituído, sem prejuízo de ser expedido ofício para seu órgão de
classe para tomar as medidas cabíveis.
§ 3° O comparecimento espontâneo do denunciado aos autos, pessoalmente ou
por procurador, em qualquer fase do processo, cessa a revelia e o concurso do
defensor dativo, assumindo o processo no estado em que se encontra.
Art. 46. No exercício de sua função, o defensor dativo se manifestará de forma
fundamentada e terá ampla liberdade para fazer requerimentos e produzir
provas que entenda pertinente.
Art. 47. A atuação do defensor dativo se encerra com a apresentação de recurso
para o CFM (CFM, 2016, grifos do autor).

Do Artigo 44 ao 47 do Código de Processo Ético-Profissional (CPEP),


temos o tema relacionado a Revelia. O significado de revelia em direito, conforme
Cunha (2011, p. 262), “situação do processo criada a partir da falta de defesa por
parte do réu (CPC 319; CLT 844; CPP 366; CPPM 411)”.

Inclusive, o Artigo 45 declara que se o médico denunciado for declarado


revel, será nomeado um defensor dativo pelo CRM para apresentação de defesa
prévia no prazo.

NOTA

Prezado acadêmico, o conceito de Defensor Dativo, conforme Cunha (2011, p. 103),


é o “defensor custeado pelo poder público ou por ele designado à falta de designação pelo réu”.

Conforme apresentado por Oliveira (2019, p. 94):


Por se tratar de processo administrativo sancionador, a revelia não
tem as mesmas consequências jurídicas do processo civil. Logo, a
sua decretação não tem o condão de presumir a verdade dos fatos
não impugnados. Aliás, os princípios maiores da presunção de
inocência e do contraditório determinam que seja nomeado defensor
dativo quando o denunciado não fizer sua defesa pessoalmente nem
constituir defensor nos autos.

223
UNIDADE 3 — O CÓDIGO DE PROCESSO ÉTICO-PROFISSIONAL

O defensor dativo terá ampla liberdade de ação para fazer requerimentos


e produzir provas que entenda pertinente desde que de forma fundamentada e
ele encerra a sua atuação com a apresentação de recurso para o CFM.

Vamos conhecer os artigos que falam sobre as provas no CPEP.

Seção II

Das Provas

Disposições Gerais

Art. 48. As partes têm o direito de empregar todos os meios legais para provar a
verdade dos fatos e influir eficazmente na convicção dos conselheiros julgadores.
Art. 49. O conselheiro-relator formará sua convicção pela livre apreciação das
provas produzidas nos autos do PEP, não podendo fundamentar sua decisão
exclusivamente nos elementos informativos colhidos na sindicância.
Art. 50. A prova da alegação incumbirá a quem a fizer, sendo, porém, facultado
ao conselheiro instrutor de ofício:
I- arrolar testemunhas;
II- ordenar a produção antecipada de provas consideradas urgentes e relevantes,
observando a necessidade, adequação e proporcionalidade da medida;
III- determinar, no curso da instrução do PEP, a realização de diligências para
dirimir dúvida sobre ponto relevante.
Art. 51. O conselheiro instrutor poderá, fundamentadamente, indeferir as
provas consideradas irrelevantes, impertinentes ou protelatórias.

Das Provas Ilícitas

Art. 52. São inadmissíveis, devendo ser desentranhadas dos autos do PEP, as
provas ilícitas, assim entendidas as obtidas em violação a normas constitucionais
ou legais (CFM, 2016, grifos do autor).

Este é um momento muito importante para as partes, pois é o momento


de se anexarem as provas probatórias tanto da defesa quanto do denunciante,
devendo sempre as partes apresentarem provas lícitas para comprovação dos fatos.

Aqui, como em qualquer situação de judicialização no território brasileiro,


precisamos obedecer aos quesitos legais sobre as provas e seus meios de aquisição,
correndo o risco de provas ilícitas ou obtidas de forma ilícita sejam descartadas e
assim não válidas no PEP.

224
TÓPICO 2 — DO PROCESSO EM ESPÉCIE

DICAS

Prezado acadêmico, se você quiser se aprofundar mais sobre o tema “Provas”,


sugerimos a consulta às seguintes leis:

• Código Civil (CC): Artigo 212 da Lei nº 10.406, de 10 de janeiro de 2002. Disponível em:
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2002/L10406compilada.htm#:~:text=LEI%20N%20
o%2010.406%2C%20DE%2010%20DE%20JANEIRO%20DE%202002&text=Institui%20o%20
C%C3%B3digo%20Civil.&text=Art.,e%20deveres%20na%20ordem%20civil.
• Código Processo Civil (CPC): Artigo 369 da Lei nº 13.105, de 16 de março de 2015.
Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13105.htm.
• Código de Processo Penal (CPP): Artigo 155 do Decreto-Lei nº 3.689, de 3 de outubro de
1941. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/del3689.htm.
• Consolidação das Leis do Trabalho (CLT): Artigo 818 do Decreto Lei nº 5.452, de 1º de maio
de 1943. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/del5452.htm.

Para encerrarmos, reforçamos que é inadmissível o uso de provas ilícitas


ou obtidas de modo ilícito, devendo ser excluídas dos autos do PEP.

Do Parecer Técnico de Câmara Especializada

Art. 53. O parecer de câmara técnica especializada poderá ser requisitado em


matéria de complexidade científica servindo como elemento de esclarecimento
ao conselheiro instrutor sem caráter pericial ou decisório, dando ciência às partes
para, se desejarem, apresentar manifestação, no prazo comum de 15 dias (CFM,
2016, grifos do autor).

O Artigo 53, do Código de Processo Ético-Profissional (CPEP) escreve que


em situações mais complexas podem ser utilizados um parecer técnico de câmara
especializada como prova nos autos.

Vamos conhecer a Seção III do Código de Processo Ético-Profissional


(CPEP), que nos traz os artigos relacionados à audiência de instrução.

Seção III

Da Audiência de Instrução

Art. 54. No dia e na hora designados, o conselheiro instrutor declarará aberta a


audiência de instrução e mandará apregoar as partes e, se houver os respectivos
advogados, bem como outras pessoas que dela devam participar.

225
UNIDADE 3 — O CÓDIGO DE PROCESSO ÉTICO-PROFISSIONAL

Art. 55. A audiência será iniciada após a identificação e qualificação de todas as


partes, com a presença do conselheiro instrutor, dos colaboradores de apoio do
CRM e dos patronos das partes, quando houver.
Art. 56. As partes, após intimação pelo conselheiro instrutor, são obrigadas a
apresentar as testemunhas que arrolarem, independentemente e da intimação
destas, para serem ouvidas nas datas designadas.
Art.57. Adiado, por qualquer motivo, o ato processual, o conselheiro instrutor
marcará desde logo, na presença das partes e testemunhas, dia e hora para seu
prosseguimento, do que se lavrará termo nos autos.
Art. 58. O conselheiro instrutor, ou seu substituto, designado pelo corregedor,
preside a audiência e lhe incumbe:
I manter a ordem e o decoro na audiência, dentro de suas prerrogativas;
II ordenar que se retirem da sala de audiência os que se comportarem
inconvenientemente;
III registrar em ata, com exatidão, todos os requerimentos apresentados em
audiência.
Art. 59. As provas orais serão produzidas em audiência, ouvindo-se, nesta
ordem:
I o denunciante;
II as testemunhas arroladas pelo denunciante, pelo conselheiro instrutor e, por
fim, as testemunhas arroladas pelo denunciado;
III o denunciado.
§ 1° As provas poderão ser produzidas numa só audiência e, dependendo das
circunstâncias, poderão ser designadas várias datas e horários.
§ 2° As testemunhas arroladas pelo conselheiro instrutor poderão ser ouvidas
em qualquer fase processual, garantindo-se o contraditório.
Art.60. Após a qualificação e antes de iniciado o depoimento, as partes poderão
contraditar a testemunha ou arguir circunstâncias ou defeitos, que a tornem
suspeita de parcialidade. O conselheiro instrutor fará consignar a contradita ou
arguição e a resposta da testemunha.
Parágrafo único. A testemunha impedida ou suspeita, nos termos dos Artigos
102 e 103 deste CPEP, somente poderá ser ouvida como informante.
Art. 61. As perguntas serão formuladas pelas partes diretamente à testemunha,
não admitindo o conselheiro instrutor aquelas que puderem induzir a resposta,
não tiverem relação com a causa ou importarem na repetição de outra já
respondida.
§ 1° Sobre os pontos não esclarecidos, o conselheiro instrutor poderá
complementar a inquirição.
§ 2° O conselheiro instrutor não permitirá que a testemunha manifeste suas
apreciações pessoais, de cunho subjetivo, salvo quando inseparáveis da narrativa
do fato.
Art. 62. Na redação do depoimento, o conselheiro instrutor deverá cingir-se,
tanto quanto possível, às expressões usadas pela testemunha.
Art. 63. Serão consignadas no termo da audiência as perguntas que os depoentes
deixarem de responder.

226
TÓPICO 2 — DO PROCESSO EM ESPÉCIE

Art. 64. A parte poderá desistir da inquirição de qualquer das testemunhas


arroladas, ressalvado o direito de o conselheiro instrutor ouvi-las se entender
pertinente (CFM, 2016, grifos do autor).

Os Artigos 54 ao 64 do Código de Processo Ético-Profissional (CPEP), da


seção sobre “Da Audiência de Instrução”, traz todo o regramento e procedimentos
a serem seguidos, sendo muitos destes ritos similares aos processos comuns,
e o mais importante, devem seguir todos os preceitos legais válidos no Brasil,
conforme firmados nas leis oficiais.

Os artigos apresentados são autoexplicativos e de fácil compreensão, você


não achou? Vamos continuar!

Do Depoimento do Denunciante e do Denunciado

Art. 65. O denunciante será qualificado e perguntado sobreas circunstâncias


em que ocorreram os fatos, quem seja ou presuma ser o responsável, as provas
testemunhais e documentais que possa indicar, tomando-se por termo as suas
declarações.
Parágrafo único. Se houver mais de um denunciante, cada um será ouvido
separadamente, sendo facultada a presença dos seus defensores.
Art. 66. O denunciado será devidamente qualificado e, depois de cientificado do
relatório conclusivo da sindicância, será informado pelo conselheiro instrutor,
antes de iniciar o depoimento, de seu direito de permanecer calado e de não
responder perguntas que lhe forem formuladas.
§ 1° O silêncio do denunciado, que não importará em confissão, não poderá ser
interpretado em prejuízo de sua defesa.
§ 2° O denunciado será indagado se conhece o denunciante e as testemunhas
arroladas e o que tem a alegar acerca dos fatos contidos no relatório conclusivo
da sindicância.
§ 3° Se houver mais de um denunciado, cada um será ouvido separadamente,
sendo facultada a presença de todos os defensores.
Art. 67. O denunciante ou denunciado que já tiver sido ouvido poderá permanecer
na sala e acompanhar o depoimento dos demais, inclusive formular perguntas.
§ 1° O denunciante ou denunciado que morar fora da circunscrição do CRM será
inquirido pelo CRM do lugar de sua residência, expedindo-se, para esse fim,
carta precatória, com prazo razoável, intimadas as partes no CRM de origem.
§ 2° No caso do parágrafo anterior, a inquirição das partes poderá ser realizada
por meio de videoconferência ou outro recurso tecnológico de transmissão de
sons e imagens em tempo real, permitida a presença dos defensores (CFM, 2016,
grifos do autor).

227
UNIDADE 3 — O CÓDIGO DE PROCESSO ÉTICO-PROFISSIONAL

Os Artigos 65 ao 67 do Código de Processo Ético-Profissional (CPEP)


tratam sobre os depoimentos dos denunciantes e dos denunciados, deixando
claro todos os procedimentos e tratativas legais para a ocorrência destes.

Conforme Oliveira (2019, p. 113-114) expõe sobre o denunciado:


O denunciado, que sempre será o médico acusado de alguma infração
ética, devendo ocupar o polo passivo da sindicância ou do PEP,
não é obrigado a responder às indagações que lhe forem feitas. Ou
seja, o denunciado poderá simplesmente permanecer calado, já que
o seu silêncio não pode ser interpretado como admissão (confissão)
dos fatos tais como narrados na denúncia (§ 1º deste artigo). Aliás,
a norma é clara quando informa que o conselheiro-instrutor deverá
informar ao denunciado, depois de sua qualificação e antes de iniciar
o depoimento, que ele não é obrigado a responder as perguntas que
lhe forem feitas. Essa norma encontra respaldo no Art. 5º, LXIII da
Constituição Federal, e deverá ser expressamente consignada na ata
de audiência.
O depoimento de qualificação é obrigatório, e não poderá ser recusado
pelo médico. O que não é obrigatório, com fundamento constitucional,
é o depoimento de mérito.

Todo o rito segue dentro dos padrões legais brasileiros e em situações que
o denunciante ou o denunciado tiverem residência fora da área de circunscrição
do CRM em que o PEP tramita, eles têm o direito de serem ouvidos por carta
precatória, fato comum na atualidade devido à grande mobilidade que existe,
tanto dos pacientes como dos médicos.

Das Testemunhas

Art. 68. A testemunha fará a promessa de dizer a verdade do que souber e


for perguntado, devendo declarar seu nome, idade, estado civil e residência;
sua profissão, lugar onde exerce sua atividade; se é parente, e em que grau, de
alguma das partes, ou quais suas relações com qualquer delas; e relatar o que
souber, explicando sempre as razões de sua ciência ou as circunstâncias pelas
quais seja possível avaliar sua credibilidade.
Parágrafo único. As testemunhas serão inquiridas separadamente, de modo
que umas não saibam nem ouçam os depoimentos das outras, devendo o
conselheiro instrutor adverti-las das penas cominadas ao falso testemunho
previsto no art. 342 do Código Penal.
Art. 69. O depoimento será prestado oralmente, não sendo permitido à
testemunha trazê-lo por escrito, não sendo vedada, entretanto, breve consulta
a apontamentos.
Art. 70. O conselheiro instrutor, quando julgar necessário, poderá ouvir outras
testemunhas, além das indicadas pelas partes.
Art. 71. O depoimento da testemunha será reduzido a termo, assinado por ela,
pelo conselheiro instrutor e pelas partes, caso estejam presentes. Se a testemunha
não souber assinar, ou não puder fazê-lo, pedirá a alguém que o faça por ela,
depois de lido na presença de ambos ou aposição de sua digital.

228
TÓPICO 2 — DO PROCESSO EM ESPÉCIE

Art. 72. Caso o denunciante ou o denunciado apresente comportamento


inadequado, intimidando a testemunha ou desrespeitando e não acatando as
determinações do conselheiro instrutor, este poderá determinar a sua retirada,
prosseguindo na inquirição, com a presença de seu defensor, quando houver.
Parágrafo único. A adoção de qualquer das medidas previstas no caput deste
artigo deverá constar do termo, assim como os motivos que a determinaram.
Art. 73. As pessoas impossibilitadas por enfermidade de comparecer para
depor serão inquiridas onde estiverem se o conselheiro instrutor entender
conveniente para a instrução.
Art. 74. O médico regularmente intimado pelo instrutor que não comparecer
para depor nem apresentar motivo justo ficará sujeito às disposições previstas
no Código de Ética Médica.
Art. 75. A testemunha que morar fora da circunscrição do CRM será inquirida
pelo CRM do lugar de sua residência, expedindo se, para esse fim, carta
precatória, com prazo razoável, intimadas as partes no CRM de origem.
Parágrafo único. Na hipótese prevista no caput deste artigo, a oitiva de
testemunha poderá ser realizada por meio de vídeo conferência ou outro
recurso tecnológico de transmissão de sons e imagens em tempo real, permitida
a presença das partes e dos defensores (CFM, 2016, grifos do autor).

Os Artigos 68 ao75 do Código de Processo Ético-Profissional (CPEP)


discorrem sobre a testemunha e seus ritos com relação ao PEP e suas oitivas,
detalhando condições específicas quando a testemunha é um médico, mas sempre
salvaguardando as condições legais.

Os depoimentos das testemunhas são considerados sempre um meio de


aquisição de prova no processo administrativo (PEP) pelo CRM e CFM, e, por
este motivo, deverá sempre ser colhido sob o compromisso de dizer a verdade,
em caso de perjúrio, corre o risco de incidência penal previsto no Art. 342 do
Código Penal.

A oitiva das testemunhas é um momento importante para a formação do


Juízo em relação ao caso e consolidar a realidade dos fatos para a promulgação
de uma pena ou o arquivamento do PEP.

Da Acareação

Art. 76. A acareação será admitida entre denunciantes, denunciante e testemunha,


denunciados, denunciados e testemunha, testemunhas e testemunhas, sempre
que divergirem, em suas declarações, sobre fatos ou circunstâncias relevantes,
de acordo com decisão do conselheiro instrutor, aos esclarecimentos sobre o
mérito do processo.
Parágrafo único. Os acareados serão reperguntados, para que expliquem os
pontos de divergências, reduzindo-se a termo o ato de acareação (CFM, 2016,
grifos do autor).

229
UNIDADE 3 — O CÓDIGO DE PROCESSO ÉTICO-PROFISSIONAL

Em caso de dúvida, o conselheiro instrutor poderá agendar uma acareação


para esclarecimento dos pontos divergentes, conforme apresentado anteriormente
no Artigo 76 do CPEP.

NOTA

Prezado acadêmico, conforme expressado no Artigo 76, quando escreve


“reduzindo-se a termo o ato de acareação”, a palavra “a termo” significa que os resultados
da acareação serão documentados e esse documento será a apresentação oficial sobre
os resultados da acareação.

Conforme a legislação prevê, a acareação pode ser requerida pelas partes


envolvidas ou pelo conselheiro-instrutor quando se quer dirimir possíveis dúvidas
factuais sobre o processo, principalmente quando ocorrer quaisquer depoimentos
contraditórios ou divergentes entre as testemunhas ou outros participantes do
processo.

Por questões legais, em um processo de acareação, deve-se respeitar o


direito do acusado de permanecer em silêncio, não se autoacusar ou como sempre
reforçado na jurisprudência, “não gerar provas contra si”.

Da Prova Emprestada

Art. 77. É lícita a utilização de prova emprestada para instrução do PEP, desde
que submetida ao contraditório.
Parágrafo único. A prova emprestada ingressará nos autos como prova
documental e deverá ser analisada como tal.

Das Degravações

Art. 78. As gravações apresentadas pelas partes, para serem admitidas nos
autos, deverão estar acompanhadas de sua respectiva transcrição e submetidas
ao contraditório.
Parágrafo único. As gravações juntadas aos autos de ofício deverão ser
degravadas pelo CRM (CFM, 2016, grifos do autor).

Sobre as provas emprestadas de outros processos, eles são válidos desde


que seja submetida ao contraditório e ajude no esclarecimento dos fatos.

Já, quando falamos de provas gravadas, elas precisam sofrer um processo


de degravação, ou seja, tem que ser feita a sua transcrição e passadas em papel
para ser ajuntado às provas do PEP. Em casos específicos, pode ser solicitada uma
perícia de originalidade das gravações.
230
TÓPICO 2 — DO PROCESSO EM ESPÉCIE

Do Encerramento da Instrução

Art. 79. Concluída a instrução, será aberto o prazo sucessivo de 15 (quinze) dias
para apresentação das alegações finais; primeiramente ao denunciante e, em
seguida, ao denunciado.
§ 1º Havendo mais de um denunciante ou mais de um denunciado, o prazo será
comum aos denunciantes ou aos denunciados.
§2º Estando as partes ou seus procuradores presentes à última audiência, elas
poderão ser intimadas para apresentação das alegações finais escritas, podendo
fazê-la, a critério do conselheiro instrutor, de forma oral e reduzida a termo na
própria audiência, ou declinar de sua apresentação.
Art. 80. Após a apresentação das alegações finais, os autos deverão ser remetidos
à Assessoria Jurídica para análise e parecer quanto a eventuais preliminares e
regularidade processual. Em seguida, o conselheiro instrutor apresentará termo
de encerramento dos trabalhos que será encaminhado ao corregedor.
Art. 81. Até a data da sessão de julgamento, o conselheiro corregedor,
verificando a existência de qualquer vício ou irregularidade processual, poderá
intervir nos autos e, por meio de despacho fundamentado, devolver o processo
ao conselheiro instrutor com determinação específica para a realização ou a
retificação de atos processuais a serem executados, com a devida intimação das
partes (CFM, 2016, grifos do autor).

Transcorrendo tudo na legalidade e o conselheiro instrutor identificando


que todos os procedimentos foram realizados dentro das conformidades, ele
pode encaminhar o encerramento das instruções, obedecendo os Artigos 79 a 81
que são autoexplicativos.

Deve-se atentar ao Artigo 81, que se identificado algum vício ou


irregularidade processual que poderá intervir nos autos, o Conselheiro corregedor
pode pedir a retificação de atos processuais.

3 JULGAMENTO DO PEP NO CRM


Estamos ainda desenvolvendo o Capítulo II do Código de Processo Ético-
Profissional (CPEP) que trará os detalhes envolvidos no processo em si chamado
de “Do Processo em Espécie”, e, aqui, discorreremos e analisaremos da Seção IV
até a Seção IX que trata sobre as Nulidades Processuais.

Assim temos na seção IV:

231
UNIDADE 3 — O CÓDIGO DE PROCESSO ÉTICO-PROFISSIONAL

Seção IV

Do Julgamento do PEP no CRM

Art. 82. O conselheiro corregedor, após o recebimento do processo, devidamente


instruído, designará os conselheiros relator e revisor, os quais ficarão
responsáveis pela elaboração dos respectivos relatórios.
§ 1° O relatório deverá conter o nome da parte, a identificação do caso, com a
síntese do conteúdo do relatório conclusivo da sindicância e a síntese da defesa
prévia e/ou alegações finais, bem como o registro das principais ocorrências
havidas no andamento do processo.
§ 2° O conselheiro sindicante não poderá ser designado como relator ou revisor
do PEP, mas poderá participar do julgamento e emitir voto.
§ 3° O conselheiro instrutor poderá ser designado relator ou revisor e participar
do julgamento com emissão de voto.
§ 4° O relator ou revisor poderá, mediante despacho fundamentado, requisitar
ao conselheiro corregedor que remeta os autos ao conselheiro instrutor para
novas diligências, indicando quais as providências cabíveis e estabelecendo
prazo de 30 (trinta) dias para seu cumprimento.
§ 5° Na hipótese do § 4º deste artigo, o prazo estabelecido poderá ser prorrogado
uma única vez, mediante justificativa escrita.
Art. 83. Designados relator e revisor, o conselheiro corregedor determinará a
inclusão do processo na pauta de julgamento.
Art. 84. As partes serão intimadas da data de julgamento com a antecedência
mínima de 10 (dez) dias.
Art. 85. A sessão de julgamento terá início com a leitura da parte expositiva
do relatório elaborado pelo relator, seguindo-se, em ato contínuo, pela leitura
do relatório do revisor, podendo este se limitar a concordar com o relatório do
conselheiro-relator; sem manifestação, em um ou outro, quanto à conclusão de
mérito.
§ 1° Ao início da sessão de julgamento, o conselheiro-relator, com manifestação
prévia da Assessoria Jurídica, escrita ou oral, deverá propor a apreciação de
ofício ou a requerimento, das nulidades absolutas - prejudiciais ao mérito -, que
deverão ser discutidas e votadas antes da análise do mérito. Nesta hipótese,
será concedido às partes 10 (dez) minutos para defender o acolhimento ou a
rejeição das preliminares.
§ 2° Superada a fase das preliminares e após a leitura dos relatórios, será
concedido às partes o prazo de 10 (dez) minutos para sustentação oral em
relação ao mérito, sucessivamente ao denunciante e denunciado.
§ 3° Havendo mais de um denunciante ou denunciado, o prazo do § 2º deste
artigo será contado individualmente.
§ 4° Encerrada a sustentação oral a que se refere o § 2º deste artigo, os conselheiros
poderão solicitar esclarecimentos sobre o processo ao relator ou ao revisor e, por
intermédio do presidente da sessão, às partes, seguidos dos debates sobre o mérito.
§ 5° Encerrada a fase de debates quanto ao mérito, será concedido o prazo de 5
(cinco) minutos às partes para suas considerações finais orais, sucessivamente

232
TÓPICO 2 — DO PROCESSO EM ESPÉCIE

ao denunciante e ao denunciado. Se for o caso, aplicar-se-á o disposto no § 3º


deste artigo.
§ 6º A sustentação oral pelas próprias partes ou seus respectivos defensores na
sessão de julgamento não é ato processual obrigatório (CFM, 2016, grifos do
autor).

Todo o rito do processo de julgamento do PEP no CRM estão definidos


nestes artigos, o primeiro artigo da seção discorre sobre designação da estrutura
de trabalho no PEP e o conselheiro corregedor, após o recebimento do processo,
devidamente instruído, designará os conselheiros relator e revisor, os quais
ficarão responsáveis pela elaboração dos respectivos relatórios.

Oliveira (2019, p. 129) descreve sobre o tema:


No âmbito dos Conselhos de Medicina, o conselheiro--corregedor
ocupa papel de destaque na condução do PEP. Assim, ao receber o PEP
do conselheiro-instrutor com o termo de encerramento da instrução,
o conselheiro-corregedor deverá designar um conselheiro-relator
e um conselheiro-revisor, conforme normas internas do respectivo
Conselho. Geralmente, mas não obrigatoriamente, o conselheiro-relator
é designado levando-se em consideração a sua especialidade médica,
isto é, a depender da natureza técnica dos fatos envolvidos no PEP, será
designado um relator de determinada especialidade ou próxima a ela.

A legalidade dos procedimentos do julgamento, apesar de especificados


aqui no Código de Processo Ético-Profissional (CPEP) do CFM, também segue aos
ritos comuns utilizados em julgamentos comuns relacionados ao CP, CC, entre
outros, ressalvados às particularidades e à legalidade constitucional dos atos.

Um ponto importante a relatar é que o conselheiro que atuou como


sindicante não poderá ser designado às funções de relator ou revisor do PEP, visto
que o CPEP tem como pressuposto que o conselheiro que atuou na sindicância
formulou algum juízo de valor sobre e poderá acarretar uma falha processual.

Do Pedido de Vista

Art. 86. Após a leitura da parte expositiva dos relatórios elaborados pelo
relator e revisor, no momento que antecede a leitura dos seus votos, qualquer
conselheiro poderá solicitar a suspensão do julgamento para:
I requerer vista dos autos do processo, apresentando-o com relatório de vista
em até 30 dias, para continuidade do julgamento;
II requerer a baixa dos autos do processo em diligência, com aprovação
da maioria dos conselheiros presentes à sessão de julgamento, caso em que
especificará as providências que devam ser tomadas pelo conselheiro instrutor
no prazo de 30 dias, que poderá ser prorrogado uma única vez, mediante
justificativa escrita.

233
UNIDADE 3 — O CÓDIGO DE PROCESSO ÉTICO-PROFISSIONAL

§ 1° Cumpridas as diligências solicitadas, as partes serão intimadas para


manifestação no prazo de dez dias.
§ 2° Decorrido o prazo do § 1º deste artigo, com ou sem a manifestação, as
partes serão intimadas da data da sessão para a continuidade do julgamento.
§ 3° Quando da nova sessão de julgamento, não será necessária a participação
do mesmo número e dos mesmos conselheiros presentes à sessão anteriormente
suspensa.
§ 4° Reiniciada a sessão de julgamento será necessária nova leitura do relatório
dos conselheiros relator e revisor e, quando for ocaso, do relatório de vista
(CFM, 2016, grifos do autor).

NOTA

Prezado acadêmico, o pedido de vistas de um processo é um procedimento


comum a diversos órgãos, que vão desde questões judiciais a conselhos de classes e em
diversos órgãos. Assim, temos que em qualquer processo em andamento, quando um
dos julgadores ficar em dúvida sobre ele e não se sentir apto a dar seu voto, ele poderá
pedir vista do processo a qualquer momento para melhor analisá-lo e entendê-lo antes de
expressar seu voto.

Conforme expressado por Oliveira (2019, p. 142):


Os conselheiros que não tiveram contato direto com os autos do
PEP (diferentemente do relator e revisor) e não se sentirem aptos a
participar do julgamento com a emissão de voto (por conta de dúvida
ou preocupação probatória em relação ao caso julgado) têm direito
de pedir vistas do processo para melhor estudá-lo e formar a sua
convicção. Para tanto, a sessão de julgamento deverá ser suspensa, e o
conselheiro disporá de até 30 dias para devolver os autos com voto de
vistas. Ressalte-se, contudo, que mesmo que dissipe todas as dúvidas
e preocupações iniciais, o conselheiro vistor pode não emitir qualquer
manifestação escrita – nessa hipótese, deverá acompanhar o relatório
e o voto do relator e/ou do revisor.

Art. 87. Inexistindo pedido de vista dos autos ou a necessidade de realização


de diligências, o presidente da sessão tomará o voto do conselheiro-relator e,
após, do conselheiro revisor de forma escrita e integral, que deverá ser lido
nesta ordem:
I quanto às preliminares relativas;
II quanto à culpabilidade;
III quanto à capitulação;
IV quanto à pena a ser aplicada, se for o caso.
§ 1° Em seguida, o presidente da sessão indagará aos conselheiros se há voto
divergente.

234
TÓPICO 2 — DO PROCESSO EM ESPÉCIE

§ 2° Caso haja divergência em relação às preliminares, o voto deverá ser


proferido de forma escrita. Em seguida, o presidente da sessão tomará o voto
individual dos conselheiros presentes à sessão, devendo consignar em ata o
resultado.
§ 3° Caso haja divergência em relação ao mérito, o voto divergente deverá ser
proferido de forma escrita e integral, que deverá ser lido obedecendo à ordem
do art. 87 e incisos. Em seguida, o presidente tomará o voto individual dos
conselheiros presentes à sessão, devendo consignar em ata o resultado.
§ 4° Quando houver divergência entre três ou mais votos, dar-se-á a votação
obedecendo-se a seguinte ordem:
I culpabilidade: condenação com a capitulação dos artigos ou absolvição;
II cassação do exercício profissional (Art. 22, "e" da Lei nº 3.268/57);
III penas públicas (Art. 22, "c" ou "d" da Lei n° 3.268/57) ou reservadas (art. 22,
"a" ou "b" da Lei n° 3.268/57).
§ 5° Em todas as hipóteses previstas no caput deste artigo, o voto deverá ser
proferido e considerado de forma integral.
§ 6° O presidente da sessão votará sequencialmente e, havendo empate,
proferirá o voto de desempate.
Art. 88. O conselheiro presente ao julgamento, respeitando o quórum previsto
em lei, não poderá abster-se de votar.
Art. 89. A votação deverá ser colhida nominalmente de cada conselheiro, em
todos os julgamentos, consignando-se em ata o resultado.
Art.90. Proferidos os votos, o presidente anunciará o resultado do julgamento,
designando para redigir o acórdão o conselheiro autor do voto vencedor.
Art. 91. As partes ou seus procuradores, bem como o defensor dativo, se houver,
serão intimados da decisão nos termos do art. 43, § 1° deste Código.
Parágrafo único. No caso de decisão absolutória, no processo instaurado de
ofício, e o denunciado ou seu patrono esteja presente ao julgamento, o presidente
poderá declarar, ao final, o trânsito em julgado da decisão.
Art. 92. O julgamento ocorrerá a portas fechadas, sendo permitida apenas
a presença das partes e seus defensores, membros do CRM, o integrante da
assessoria jurídica do CRM e funcionários responsáveis pelo procedimento
disciplinar necessário para o bom funcionamento do Tribunal de Ética Médica
até o encerramento da sessão.
Art. 93. As penas disciplinares aplicáveis pelo CRM são as previstas no Artigo
22 da Lei n° 3.268/1957 (CFM, 2016).

Os Artigos 87 a 93 do Código de Processo Ético-Profissional (CPEP) tratam


sobre diversos assuntos relacionados ao concluso do julgamento e citam as penas
que podem ser atribuídas ao médico, falando desde a sua absolvição até as penas
previstas no Artigo 22 da Lei nº 3.268/1957.

Verificamos que o rito de fechamento e concluso do julgamento estão


claramente definidos nesses artigos e, novamente, segue aos ritos legais instituídos
no Brasil.

235
UNIDADE 3 — O CÓDIGO DE PROCESSO ÉTICO-PROFISSIONAL

DICAS

Prezado acadêmico, segue para o seu conhecimento os Artigos 21 e 22 da Lei


nº 3.268, de 30 de setembro de 1957 que dispõe sobre os Conselhos de Medicina, e dá
outras providências:

Art. 21. O poder de disciplinar e aplicar penalidades aos médicos compete exclusivamente
ao Conselho Regional, em que estavam inscritos ao tempo do fato punível, ou em que
ocorreu, nos termos do art. 18, § 1°.
Parágrafo único. A jurisdição disciplinar estabelecida neste artigo não derroga a jurisdição
comum quando o fato constitua crime punido em lei.

Art. 22. As penas disciplinares aplicáveis pelos Conselhos Regionais aos seus membros são
as seguintes:
a) advertência confidencial em aviso reservado;
b) censura confidencial em aviso reservado;
c) censura pública em publicação oficial;
d) suspensão do exercício profissional até 30 (trinta) dias;
e) cassação do exercício profissional, ad referendum do Conselho Federal.

§ 1° Salvo os casos de gravidade manifesta que exijam aplicação imediata da penalidade


mais grave a imposição das penas obedecerá à gradação deste artigo.
§ 2° Em matéria disciplinar, o Conselho Regional deliberará de oficial ou em consequência
de representação de autoridade, de qualquer membro, ou de pessoa estranha ao Conselho,
interessada no caso.
§ 3° A deliberação do Comércio precederá, sempre, audiência do acusado, sendo-lhe dado
defensor no caso de não ser encontrado, ou for revel.
§ 4° Da imposição de qualquer penalidade caberá recurso, no prazo de 30 (trinta) dias,
contados da ciência, para o Conselho Federal, sem efeito suspenso salvo os casos das
alíneas c, e e f , em que o efeito será suspensivo.
§ 5° Além do recurso previsto no parágrafo anterior, não caberá qualquer outro de natureza
administrativa, salvo aos interessados a via judiciária para as ações que foram devidas.
§ 6° As denúncias contra membros dos Conselhos Regionais só serão recebidas quando
devidamente assinadas e acompanhadas da indicação de elementos comprobatórios do
alegado.

FONTE: BRASIL. Lei n° 3.268/1957, de 30 de setembro de 1957. Dispõe sobre os Conselhos


de Medicina, e dá outras providências. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/
LEIS/L3268.htm>. Acesso em: 19 nov. 2020.

A Seção V do Código de Processo Ético-Profissional (CPEP) trata dos


recursos em geral com relação ao julgamento e resultados deste.

Seção V

Dos Recursos em Geral

Art. 94. Caberá recurso administrativo, no prazo de 30 (trinta) dias, contados a


partir da juntada do comprovante de intimação da decisão nos autos:

236
TÓPICO 2 — DO PROCESSO EM ESPÉCIE

I à câmara de sindicância do CFM contra o arquivamento de sindicância no


âmbito do CRM;
II ao pleno do CRM, de ofício e/ou voluntário, da decisão proferida por sua
câmara que aplicar a pena de letra "e" do Art. 22, da Lei nº 3.268/1957;
III à câmara do CFM contra a decisão proferida no PEP pelo CRM que absolver
ou que aplicar as penas de letras "a", "b", "c" ou "d", do Art. 22, da Lei nº
3.268/1957;
IV - da decisão tomada pela maioria da câmara do CFM, caberá recurso ao
pleno do CFM.
V- ao pleno do CFM, de ofício e/ou voluntário, da decisão proferida no PEP
pelo pleno CRM; ou por câmara do CFM, que aplicar a pena de letra "e" do Art.
22, da Lei nº 3.268/1957;
§ 1° Na hipótese do inciso I deste artigo, quando houver recurso do denunciante
em relação a um ou alguns dos denunciados, a corregedoria o instruirá com
cópia integral dos autos e o remeterá ao CFM, ficando os autos principais
tramitando no CRM em relação aos demais denunciados.
§ 2° Os recursos terão efeito devolutivo e suspensivo.
§ 3° Somente poderá ocorrer o agravamento da pena imposta se houver recurso
do denunciante nesse sentido.
§ 4° O pleno do CRM ou do CFM poderá, além dos aspectos pertinentes às
razões recursais, analisar toda a matéria discutida no processo.
§ 5° Além dos recursos previstos no caput e incisos deste artigo, não caberá
qualquer outro de natureza administrativa, salvo o previsto no Art. 27 deste
CPEP.
Art. 95. Após o protocolo do recurso a outra parte será intimada para, querendo,
apresentar as contrarrazões, no prazo de 30 dias, contados a partir da juntada
do respectivo comprovante de intimação nos autos.
Parágrafo único. Com ou sem as contrarrazões o processo deverá ser remetido
ao CFM no prazo de até 90 dias.
Art. 96. O corregedor do CRM, por decisão fundamentada, negará seguimento
a recurso intempestivo ou quando verificada a ocorrência de prescrição da
pretensão punitiva.

Da Reclamação para o CFM

Art. 97. Da decisão que negar seguimento a recurso intempestivo ou reconhecer


a prescrição caberá reclamação para uma das câmaras do CFM, no prazo de 30
(trinta) dias, contados a partir da juntada do comprovante de intimação nos
autos.
§ 1° O CRM não poderá negar seguimento a reclamação proposta nos termos
deste artigo.
§ 2° No CFM o julgamento da Reclamação seguirá, no que couber, as normas
previstas na Seção VI, do Capítulo II, deste CPEP (CFM, 2016, grifos do autor).

237
UNIDADE 3 — O CÓDIGO DE PROCESSO ÉTICO-PROFISSIONAL

As normativas com relação aos recursos e reclamações que possam


ocorrer para o CFM são apresentadas nos Artigos 94 ao 97 do Código de Processo
Ético-Profissional (CPEP) e, novamente, vemos referenciado o Artigo 22 da Lei nº
3.268/1957.

Vimos, aqui, todo um rito propagado para a entrada de recursos pelas


partes em um PEP, e, por isso, reforçamos a justeza no seguimento legal das
diretrizes definidas no CPEP e outras legislações relacionadas ao desenvolvimento
de um processo legal.

A busca desses parâmetros legais para a execução de um julgamento


administrativo justo e legítimo é, muitas vezes, referenciado, pois é melindroso
quanto às questões do exercício médico e, às vezes, o paciente, familiares e
responsáveis legais não possuem toda a visão dos fatos, principalmente em
situações de urgência e emergência médica.

Seção VI

Do Julgamento do PEP no CFM

Art. 98. O conselheiro corregedor, após o recebimento do processo com recurso


o remeterá ao Setor Jurídico para exame de admissibilidade e emissão de Nota
Técnica (NT), caso seja arguida alguma preliminar processual.
§ 1º Com a Nota Técnica ou sem ela, o processo retornará à corregedoria que
nomeará relator e revisor para emissão de relatório e voto, bem como inclusão
do processo na pauta de julgamento.
Art. 99. O julgamento no âmbito do CFM seguirá, no que couber, as normas
previstas na Seção IV, do Capítulo II, deste CPEP (CFM, 2016, grifos do autor).

Na Seção VI do Código de Processo Ético-Profissional (CPEP), temos dois


artigos que retratam os procedimentos para o julgamento do PEP no CFM, eles
estão apresentados de forma simples e autoexplicativos.

A Seção VII do CPEP traz os artigos que detalham sobre a execução das
penas:

Seção VII

Da Execução das Penas

Art. 100. A decisão será executada no prazo de 90 (noventa) dias, a partir


certificação do trânsito em julgado, sem prejuízo do disposto no Art. 116 deste
CPEP.

238
TÓPICO 2 — DO PROCESSO EM ESPÉCIE

Art. 101. A execução da penalidade imposta pelo CRM ou pelo CFM será
processada nos estritos termos do acórdão da respectiva decisão, e a penalidade
anotada no prontuário do médico.
§ 1° As penas previstas nas letras "a" e "b", do art. 22, da Lei nº 3.268/1957, além
da anotação no prontuário do médico infrator, serão comunicadas formalmente
ao apenado.
§ 2° As penas previstas nas letras "c", "d" ou "e", do Art. 22, da Lei nº 3.268/1957
serão publicadas no Diário Oficial do Estado, do Distrito Federal ou da União,
em jornal de grande circulação, jornais ou boletins e sítio eletrônico do CRM.
§ 3° No caso das penas previstas nas letras "d" e "e", do Art.22, da Lei nº
3.268/1957, e no caso de interdição cautelar total, além da publicação dos editais
e das comunicações endereçadas às autoridades interessadas, será apreendida
a carteira profissional e a cédula de identidade de médico (CFM, 2016, grifos
do autor).

Das penas, vimos, novamente, a base na Lei nº 3.268/1957 e os artigos


supracitado apresentam de forma clara a aplicação das penas cabíveis em caso de
penalidade do médico condenado em julgado.

Vimos, assim, que transcorrido o prazo recursal, todas as decisões se


consolidam e tornam-se imutável no âmbito do CRM/ CFM e se reforça o que a
doutrina administrativa conhece como coisa julgada e a execução da penalidade
imposta ao médico denunciado.

Seção VIII

Dos Impedimentos e da Suspeição

Dos Impedimentos

Art. 102. Há impedimento do conselheiro, sendo-lhe vedado exercer suas


funções na sindicância ou no PEP:

I - em que interveio como mandatário das partes, atuou como perito ou prestou
depoimento como testemunha;
II - quando nele estiver postulando, como defensor público, advogado ou
membro do Ministério Público, seu cônjuge ou companheiro, ou qualquer
parente, consanguíneo ou afim, em linha reta ou colateral, até o terceiro grau,
inclusive;
III - quando for parte no processo ele próprio, seu cônjuge ou companheiro, ou
parente, consanguíneo ou afim, em linha reta ou colateral, até o terceiro grau,
inclusive;
IV - quando for membro de direção ou de administração da pessoa jurídica que
tiver interesse direto no PEP;

239
UNIDADE 3 — O CÓDIGO DE PROCESSO ÉTICO-PROFISSIONAL

V - em que figure na sindicância ou no PEP, colega ou cliente do escritório de


advocacia de seu cônjuge, companheiro ou parente, consanguíneo ou afim, em
linha reta ou colateral, até o terceiro grau, inclusive;
VI - esteja litigando, judicial ou administrativamente, contra uma das partes
ou respectivo cônjuge ou companheiro; ou parente consanguíneo ou afim, em
linha reta ou colateral, até o terceiro grau, inclusive.

§ 1° Na hipótese do inciso II, o impedimento só se verifica quando o defensor


público, o advogado ou o membro do Ministério Público já integrava o processo
antes do início das funções do conselheiro sindicante ou instrutor.
§ 2° É vedada a criação de fato superveniente a fim de caracterizar impedimento
do conselheiro sindicante, instrutor, relator ou revisor.
§ 3° O impedimento previsto no inciso II também se verifica no caso de mandato
conferido a membro de escritório de advocacia que tenha em seus quadros
advogado que individualmente ostente a condição nele prevista, mesmo que
não intervenha diretamente no processo.
§ 4° O conselheiro que incorrer em impedimento deve comunicar o fato ao
corregedor ou ao Presidente do Conselho, em qualquer fase do processo, ou ao
presidente da sessão de julgamento, abstendo-se de atuar.

Da Suspeição

Art. 103. Há suspeição do conselheiro, na sindicância e no PEP:


I - quando for amigo íntimo ou inimigo de qualquer das partes ou de seus
advogados;
II - quando qualquer das partes for sua credora ou devedora, de seu cônjuge ou
companheiro ou de parentes destes, em linha reta até o terceiro grau, inclusive;
III - quando interessado no julgamento do PEP em favor de qualquer das partes.

§ 1° O conselheiro que por motivo de foro íntimo declarar-se suspeito deverá


registrar esta condição nos autos, abstendo-se de atuar.
§ 2° Será ilegítima a alegação de suspeição quando:
I houver sido provocada por quem a alega;
II a parte que a alega houver praticado ato que signifique manifesta aceitação
do arguido.

Do Incidente de Impedimento ou de Suspeição

Art. 104. O impedimento poderá ser alegado a qualquer tempo antes do trânsito
em julgado da decisão, em petição específica, na qual indicará, com clareza, o
fundamento da recusa; podendo instruí-la com documentos em que se fundar
a alegação e com rol de testemunhas, se for o caso.
Art. 105. A suspeição poderá ser alegada, no prazo de 15 (quinze) dias, a contar
do conhecimento do fato em petição específica, na qual indicará, com clareza, o
fundamento da recusa; podendo instruí-la com documentos em que se fundar
a alegação e com rol de testemunhas, se for o caso.

240
TÓPICO 2 — DO PROCESSO EM ESPÉCIE

§ 1° Se reconhecer o impedimento ou a suspeição ao recebera petição, o


conselheiro sindicante, instrutor, relator ou revisor comunicará imediatamente
ao Corregedor, que nomeará substituto; caso contrário, apresentará por escrito,
no prazo de 15 (quinze) dias, suas razões, acompanhadas de documentos e de
rol de testemunhas, se houver.
§ 2° Na hipótese do não reconhecimento do impedimento ou da suspeição, a
sindicância ou o PEP tramitarão regularmente, devendo esta matéria ser posta
em destaque para apreciação da câmara específica ou do plenário, que têm
competência para deliberar sobre o mérito da questão.
§ 3° Se a suspeição e/ou impedimento forem arguidos no recurso ou de forma
oral na sessão de julgamento, serão apreciados como matéria preliminar antes
da análise do mérito (CFM, 2016, grifos do autor).

Na Seção VIII do CPEP, temos descrito todos os parâmetros legais


impostos pelo CFM que podem resultar em Impedimentos ou a Suspenção de
um membro no PEP, cuidado este já citado diversas vezes nesta unidade, que são
condições básicas para a manutenção da lisura do processo em si, não gerando,
assim, nenhuma brecha jurídica que possa ser interposta pelas partes para gerar
a nulidade legal do PEP.

A legalidade em todo o rito do PEP é uma constante dentro do CRM e


CFM, e a imagem a preservar pela instituição é fundamental, isto é, buscado em
todas as instâncias da instituição.

Novamente, temos que assumir publicamente que os artigos escritos deste


CPEP/2018 estão claramente escritos e facilmente entendíveis e o mesmo ocorre
aqui nestes artigos analisados.

Seção IX
Das Nulidades Processuais

Art. 106. Nenhum ato será declarado nulo se dá nulidade não resultar prejuízo
para as partes.
Art. 107. Nenhuma das partes poderá arguir nulidade a que haja dado causa,
ou para que tenha concorrido, ou referente à formalidade cuja observância só à
parte contrária interesse.
Art. 108. Não será declarada a nulidade de ato processual que não tenha influído
na apuração da verdade substancial ou na decisão da causa.
Art. 109. As nulidades serão consideradas sanadas:
I se não forem arguidas em tempo oportuno;
II se, praticado por outra forma, o ato atingir suas finalidades;
III se a parte, ainda que tacitamente, aceitar seus efeitos.
Art. 110. Os atos cuja nulidade não tenha sido sanada na forma do artigo
anterior serão renovados ou retificados.

241
UNIDADE 3 — O CÓDIGO DE PROCESSO ÉTICO-PROFISSIONAL

Parágrafo único. Declarada a nulidade de um ato, serão considerados nulos


todos os atos dele derivados.
Art. 111. A nulidade dos atos deve ser alegada na primeira oportunidade em
que couber à parte se manifestar nos autos, sob pena de preclusão.
Parágrafo único. A nulidade absoluta pode ser alegada a qualquer tempo ou
fase do processo (CFM, 2016, grifos do autor).

A nulidade processual é um quesito comum nos meios jurídicos em todas


as instâncias, e a legislação apresentada no CPEP detalha os diversos meandros
desses processos que podem gerar as nulidades desses PEP.

A nulidade pode ser gerada por uma ineficácia do ato ou de alguma relação
processual, principalmente ocasionada pela não observância de uma questão legal
prescrita na lei.

Acabamos de estudar o Capítulo II do CPEP, que traz todo um orientativo/


normativo das instruções para execução do Processo Ético Profissional tomado
como foco de trabalho do CRM e CFM. É o capítulo mais extenso e traz nas
minúcias dos artigos para dirimir todas as dúvidas processuais pelo profissional
de medicina, bem como descreve como deverá ser seu comportamento nas diversas
fases do processo. Espero que você tenha gostado de conhecer a legislação e os
detalhes aqui apresentados.

Encerraremos o Tópico 2 com a leitura do fragmento do artigo Novo código


do processo ético-profissional médico entra em vigor, publicado em 2017, por Luciano
Correia Bueno Brandão.

[...]

COMO FUNCIONA O PROCESSO ÉTICO-PROFISSIONAL MÉDICO

Recebida a denúncia pelo CRM, instaura-se um procedimento preliminar


denominada sindicância.

Um relator designado deverá produzir um relatório em que qualificará


as partes envolvidas, descreverá os fatos e apontará se, dos fatos narrados,
se vislumbra possível descumprimento de algum preceito ético previsto no
Código de Ética Médica pelo denunciado.

Na fase de sindicância, a manifestação do médico não é obrigatória,


embora seja de praxe que alguns CRMs notifiquem o profissional para que
tenha esta possibilidade.

242
TÓPICO 2 — DO PROCESSO EM ESPÉCIE

Embora o próprio médico possa fazer suas manifestações em sede


de defesa, é recomendável que possa contar já nesta fase com o apoio de um
advogado. Dependendo da conclusão do relatório inicial, a sindicância poderá:

1) Ser desde logo arquivada, caso não haja evidência de infração ética.
2) Ser proposta conciliação ou termo de ajustamento de conduta. Ou
3) Ser instaurado o processo ético-profissional, caso haja evidência de que
possa ter ocorrido infração ética por parte do médico denunciado.

Destaque-se que a conversão da sindicância em processo ético-


disciplinar não significa automaticamente que o médico fez algo de errado, mas
que há circunstâncias que precisam ser melhor esclarecidas para que se chegue
à verdade.

Caso seja instaurado o processo ético-profissional, o médico será citado


para apresentar sua defesa escrita no prazo de 30 dias.

A citação é o ato formal pelo qual o médico é cientificado de que existe


um processo ético-profissional contra si e que deve se defender. Normalmente,
a citação é feita pelos Correios, com Aviso de Recebimento. Nesta fase, é
extremamente recomendável que o médico esteja assistido por um advogado.

O momento da apresentação da defesa escrita pelo médico é


importantíssimo, pois é aqui que deverá indicar sua versão dos fatos, poderá
impugnar fundamentadamente as infrações éticas que lhe estejam sendo
imputadas, justificar sua conduta, apontar eventuais circunstâncias atenuantes,
indicar provas e arrolar testemunhas que possam lhe ser favoráveis.

Após a apresentação de defesa escrita, será designada a audiência


de instrução processual. Nessa audiência, serão ouvidos o denunciante, as
testemunhas do denunciante e do denunciado e, por fim, o próprio médico.

Em seguida, será aberto prazo sucessivo de 15 dias para apresentação de


alegações finais escritas, primeiro pelo denunciante e depois pelo denunciado.

Encerrada a instrução, será finalmente designada a sessão de julgamento,


data na qual serão apresentados os relatórios (resumos do processo) pelo
conselheiro relator e pelo conselheiro revisor. As partes (e/ou seus advogados),
poderão fazer sustentação oral perante os julgadores.

O comparecimento do médico não é obrigatório, embora seja conveniente


que esteja presente. Eventualmente, poderá ser chamado a se manifestar sobre
algum ponto específico esclarecendo aspectos suscitados pelos conselheiros.

É importante que o profissional esteja calmo e procure responder aos


questionamentos dos conselheiros de forma clara e objetiva.

243
UNIDADE 3 — O CÓDIGO DE PROCESSO ÉTICO-PROFISSIONAL

Finalmente, os conselheiros irão proferir um a uns seus respectivos


votos quanto à culpabilidade do denunciado, à efetiva existência de infração
ética e, eventualmente, quanto à pena a ser aplicada ao médico denunciado.

As penas disciplinares aplicáveis pelo CRM são as previstas no artigo


22 da Lei nº 3.268/1957 e variam entre advertência e censura confidenciais,
censura pública, suspensão do exercício profissional por até 30 dias e, em casos
extremos, a cassação do exercício profissional (esta última pena depende de
convalidação do CFM).

No caso de condenação, o médico denunciado pode interpor recurso


administrativo no prazo de 30 dias, o qual será dirigido ao Pleno do CRM ou ao
CFM, dependendo do caso.

QUAIS AS GARANTIAS DO MÉDICO

Embora o processo ético-profissional possa ser considerado um processo


administrativo, o médico denunciado tem a sua disposição todos os direitos e
garantias assegurados na Lei e na Constituição para defesa de seus interesses,
destacando-se:

• Princípio da presunção de inocência: o ônus da prova é de quem acusa,


não sendo admitida a inversão do ônus da prova em desfavor do médico
como ocorre no caso do Código de Defesa do Consumidor. No processo
ético-disciplinar vigora o princípio in dubio pro reu. Na dúvida, absolve-se o
denunciado, assim como no processo penal.
• Princípio do devido processo legal: no desenrolar de todo o processo ético-
profissional, devem ser observados os trâmites expressamente previstos na
legislação, prazos e ritos, sob pena de nulidade.
• Princípio do contraditório e ampla defesa: o médico deve ter assegurada
defesa no decorrer do processo (inclusive por meio de defensor dativo,
no caso de denunciado revel), acompanhando a produção de provas, ter
a oportunidade de contestar as alegações da parte denunciante, usar dos
recursos cabíveis etc. Tal direito é pilar do Estado Democrático de Direito.

INTERVENÇÃO DA JUSTIÇA NOS PROCESSOS ADMINISTRATIVOS

Como regra, as esferas judicial e administrativa são autônomas e


independentes. No entanto, caso o CRM não observe o trâmite legal previsto
ou não respeite as garantias e direitos processuais do médico, o denunciado
poderá recorrer ao Judiciário.

A Justiça não irá adentrar no mérito da discussão (dizendo, por exemplo,


se o CRM está certo ou errado ao decidir de determinada maneira).

244
TÓPICO 2 — DO PROCESSO EM ESPÉCIE

Ao contrário, o juiz se limitará a avaliar a legalidade do processo ético-


profissional, se houve violação de alguma garantia ou princípio assegurado ao
médico denunciado se foram observados os prazos (inclusive prescricionais
para processamento), entre outros.

Caso se verifique que houve violação a tais princípios e garantias, o


processo ético-profissional eventualmente poderá ser anulado pela Justiça.

[...]
FONTE: Adaptado de: <https://jus.com.br/artigos/55444/novo-codigo-de-processo-etico-pro-
fissional-medico-entra-em-vigor>. Acesso em: 19 nov. 2020.

245
RESUMO DO TÓPICO 2
Neste tópico, você aprendeu que:

• Aprovado o relatório da sindicância, o conselheiro instrutor conduzirá o


processo dentro dos parâmetros de razoabilidade, atentando-se para os
prazos prescricionais.
• O conselheiro sindicante não poderá ser designado como instrutor de PEP
por ele proposto.
• O PEP não poderá ser extinto por desistência da parte denunciante, se ocorrer,
ele seguirá de ofício.
• Encerrada a instrução probatória ou no curso desta, surgindo novas
evidências, fatos novos ou detectado algum erro material constante do
relatório conclusivo da sindicância, o conselheiro instrutor poderá modificá-
lo ou aditá-lo para, de forma fundamentada, corrigi-lo, inserir outros fatos e
artigos, bem como incluir outros denunciados.
• Citação é o ato pelo qual o médico denunciado é convocado para integrar a
relação processual, dando-lhe ciência da instauração de PEP e imputando-lhe
a prática de infração ética, bem como lhe oferecendo a oportunidade para se
defender.
• A citação inicial, na forma do Art. 35, poderá ser feita em qualquer lugar em
que se encontre o denunciado e poderá ser realizada pelos Correios, com Aviso
de Recebimento, por servidor ou conselheiro do CRM devidamente habilitado;
por Carta Precatória; por edital, quando frustradas as hipóteses anteriores.
• Quando nas clínicas, nos consultórios e nos hospitais será válida a entrega
do mandado de citação à secretária ou outro funcionário da recepção ou da
portaria responsável pelo recebimento de correspondência.
• Nos condomínios edilícios ou nos loteamentos com controle de acesso, será
válida a entrega do mandado de citação a funcionário da portaria responsável
pelo recebimento de correspondência.
• Na defesa prévia, o denunciado poderá arguir preliminares processuais e
alegar tudo o que interesse a sua defesa, oferecer documentos e justificações,
especificar as provas pretendidas e arrolar até cinco testemunhas, que deverão
ser qualificadas com nome, profissão e endereço completo.
• Considera-se revel o médico denunciado que, regularmente citado, deixar de
apresentar defesa prévia no prazo legal, nem constituir defensor.
• O denunciado ou seu defensor que manifesta nos autos que não deseja fazer
sua defesa prévia, não será considerado revel.

246
• As partes têm o direito de empregar todos os meios legais para provar
a verdade dos fatos e influir eficazmente na convicção dos conselheiros
julgadores.
• São inadmissíveis provas ilícitas, devendo ser desentranhadas dos autos do PEP.
• São consideradas provas ilícitas as obtidas em violação a normas
constitucionais ou legais.
• A audiência será iniciada após a identificação e qualificação de todas as
partes, com a presença do conselheiro instrutor, dos colaboradores de apoio
do CRM.
• A testemunha fará a promessa de dizer a verdade do que souber e for
perguntado.
• A acareação será admitida sempre que divergirem, em suas declarações, sobre
fatos ou circunstâncias relevantes, de acordo com decisão do conselheiro
instrutor e que ajudem aos esclarecimentos sobre o mérito do processo.
• É lícita a utilização de prova emprestada para instrução do PEP, desde que
submetida ao contraditório.
• Qualquer conselheiro poderá solicitar a suspensão do julgamento para
requerer vista dos autos do processo.
• Quando houver divergência entre três ou mais votos, dar-se-á a votação
obedecendo-se a seguinte ordem:
o I - culpabilidade: condenação com a capitulação dos artigos ou absolvição;
o II - cassação do exercício profissional (Art. 22, "e" da Lei nº 3.268/57);
o III - penas públicas (Art. 22, "c" ou "d" da Lei nº 3.268/57) ou reservadas
(Art. 22, "a" ou "b" da Lei nº 3.268/57).

• As penas disciplinares aplicáveis pelos Conselhos Regionais aos seus


membros são:
o advertência confidencial em aviso reservado;
o censura confidencial em aviso reservado;
o censura pública em publicação oficial;
o suspensão do exercício profissional até 30 dias;
o cassação do exercício profissional, ad referendum do Conselho Federal.

• Caberá recurso administrativo, no prazo de 30 dias, contados a partir da


juntada do comprovante de intimação da decisão nos autos
• A execução da penalidade imposta pelo CRM ou pelo CFM será processada
nos estritos termos do acórdão da respectiva decisão, e a penalidade anotada
no prontuário do médico:
o As penas previstas nas letras "a" e "b", do Art. 22, da Lei nº 3.268/1957,
além da anotação no prontuário do médico infrator, serão comunicadas
formalmente ao apenado.

247
o As penas previstas nas letras "c", "d" ou "e", do Art. 22, da Lei nº 3.268/1957
serão publicadas no Diário Oficial do Estado, do Distrito Federal ou da
União, em jornal de grande circulação, jornais ou boletins e sítio eletrônico
do CRM.
o No caso das penas previstas nas letras "d" e "e", do Art.22, da Lei nº
3.268/1957, e no caso de interdição cautelar total, além da publicação dos
editais e das comunicações endereçadas às autoridades interessadas, será
apreendida a carteira profissional e a cédula de identidade de médico.

• A nulidade absoluta pode ser alegada em qualquer tempo ou fase do processo.

248
AUTOATIVIDADE

1 Após julgado um Processo Ético Profissional de um médico, ele, conforme a


banca de sindicância, irá receber uma pena disciplinar aplicado pelo CRM o
qual obedecerá às penas instituídas no Código de Processo Ético Profissional
(CPEP). Sobre as penas disciplinares aplicáveis pelos Conselhos Regionais
aos seus membros, assinale a alternativa CORRETA:

a) ( ) Advertência confidencial em aviso reservado; censura pública em


aviso reservado; censura reservada em publicação oficial; suspensão
do exercício profissional até 30 dias; cassação do exercício profissional,
ad referendum do Conselho Federal.
b) ( ) Advertência confidencial em aviso reservado; censura confidencial em
aviso reservado; censura pública em publicação oficial; suspensão do
exercício profissional até 90 dias; cassação do exercício profissional, ad
referendum do Conselho Federal.
c) ( ) Advertência confidencial em aviso reservado; censura confidencial em
aviso reservado; censura pública em publicação oficial; suspensão do
exercício profissional até 30 dias; cassação do exercício profissional, ad
referendum do Conselho Federal.
d) ( ) Somente existe a cassação do exercício profissional, ad referendum do
Conselho Federal.

2 (IADES, 2018) A sindicância e o processo ético-profissional (PEP) nos


Conselhos Regionais de Medicina (CRM) e no Conselho Federal de
Medicina (CFM) são regidos pelo Código de Processo Ético-Profissional
(CPEP), previsto na Resolução CFM n° 2.145/2016. Com base nesse tema,
assinale a alternativa correta:
FONTE:< https://www.qconcursos.com/questoes-de-concursos/provas/iades-2018-cfm-as-
sistente-administrativo>. Acesso em: 19 nov. 2020.

a) ( ) A sindicância pode ser instaurada de ofício pelo próprio Conselho


Regional de Medicina.
b) ( ) O conselheiro sindicante poderá propor a conciliação entre as partes,
sendo responsável por arbitrar qualquer acerto pecuniário existente.
c) ( ) O conselheiro relator do processo ético-profissional pode fundamentar
a própria decisão exclusivamente nos elementos informativos colhidos
na sindicância.
d) ( ) Em determinados casos, as provas ilícitas podem ser admitidas nos
processos ético-profissionais.
e) ( ) No processo ético-profissional, os depoimentos das testemunhas
podem ser levados por escrito por elas.

249
250
TÓPICO 3 —
UNIDADE 3

DA PRESCRIÇÃO, DA REVISÃO DO PROCESSO E


DAS DISPOSIÇÕES GERAIS

FIGURA 8 –TEMPO

FONTE: <https://bit.ly/39yhsqH>. Acesso em:13 nov. 2020.

“O tempo é a imagem móvel da eternidade imóvel.”


Platão

1 INTRODUÇÃO
Este é o último tópico desta unidade. Estudaremos os últimos assuntos
relacionados ao Código de Processo Ético-Profissional que tratam da prescrição,
da revisão do processo e das disposições finais sobre o CPEP.

Quando falamos de prescrição, juridicamente significa que a administração


pública perdeu a pretensão (direito de agir) relativa ao direito de punir devido
ao decurso de prazo. O fato de poder ocorrer a prescrição de prazo para um fato,
incentiva que o titular do direito tome as providências em um período previsto
em lei.

Outro ponto importante é sobre a revisão do processo o qual está


compreendido em 8 artigos do CPEP e que iremos estudar um pouco mais adiante.

Vamos começar!

2 DA PRESCRIÇÃO
A prescrição de prazos legais é um fato jurídico que traz equilíbrio sobre
as responsabilidades jurídicas das instituições publicas e legais, pois cabe a estes
a responsabilidades de abrirem processos sobre direitos legais, financeiros etc.

251
UNIDADE 3 — O CÓDIGO DE PROCESSO ÉTICO-PROFISSIONAL

O Código de Processo Ético-Profissional (CPEP) detalha as normas/regras


da prescrição temporal e causas factuais de interrupção conforme apresentado
nas Leis n° 6.838/1980 e n° 9.873/1999.

NOTA

Prezado acadêmico, segue para o seu conhecimento as Leis nº 6.838/1980


e n° 9.873/1999.

Lei n° 6.838, de 29 de outubro de 1980. Dispõe sobre o prazo prescricional para a


punibilidade de profissional liberal, por falta sujeita a processo disciplinar, a ser aplicada
por órgão competente.

Art. 1° A punibilidade de profissional liberal, por falta sujeita a processo disciplinar, através
de órgão em que esteja inscrito, prescreve em cinco anos, contados da data de verificação
do fato respectivo.

Art. 2° O conhecimento expresso ou a notificação feita diretamente ao profissional faltoso


interrompe o prazo prescricional de que trata o artigo anterior.

Parágrafo único. O conhecimento expresso ou a notificação de que trata este artigo


ensejará defesa escrita ou a termo, a partir de quando recomeçará a fluir novo prazo
prescricional.

Art. 3° Todo processo disciplinar paralisado há mais de três anos pendente de despacho ou
julgamento, será arquivado ex offício ou a requerimento da parte interessada.

FONTE: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/1980-1988/L6838.htm>. Acesso em:


20 nov. 2020.

Lei n° 9.873, de 23 de novembro de 1999. Estabelece prazo de prescrição para o


exercício de ação punitiva pela Administração Pública Federal, direta e indireta, e dá outras
providências.

Art. 1° Prescreve em cinco anos a ação punitiva da Administração Pública Federal, direta e
indireta, no exercício do poder de polícia, objetivando apurar infração à legislação em vigor,
contados da data da prática do ato ou, no caso de infração permanente ou continuada, do
dia em que tiver cessado.

§ 1° Incide a prescrição no procedimento administrativo paralisado por mais de três anos,


pendente de julgamento ou despacho, cujos autos serão arquivados de ofício ou mediante
requerimento da parte interessada, sem prejuízo da apuração da responsabilidade funcional
decorrente da paralisação, se for o caso.
§ 2° Quando o fato objeto da ação punitiva da Administração também constituir crime, a
prescrição reger-se-á pelo prazo previsto na lei penal.
Art. 1°-A. Constituído definitivamente o crédito não tributário, após o término regular do
processo administrativo, prescreve em 5 (cinco) anos a ação de execução da administração
pública federal relativa a crédito decorrente da aplicação de multa por infração à legislação
em vigor. (Incluído pela Lei nº 11.941, de 2009).

252
TÓPICO 3 — DA PRESCRIÇÃO, DA REVISÃO DO PROCESSO E DAS DISPOSIÇÕES GERAIS

Art. 2° Interrompe-se a prescrição da ação punitiva: (Redação dada pela Lei nº 11.941, de
2009)
I - pela notificação ou citação do indiciado ou acusado, inclusive por meio de edital;
(Redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009).
II - por qualquer ato inequívoco, que importe apuração do fato;
III - pela decisão condenatória recorrível.
IV - por qualquer ato inequívoco que importe em manifestação expressa de tentativa de
solução conciliatória no âmbito interno da administração pública federal. (Incluído pela Lei
n° 11.941, de 2009)

Art. 2°-A. Interrompe-se o prazo prescricional da ação executória: (Incluído pela Lei nº
11.941, de 2009)
I - pelo despacho do juiz que ordenar a citação em execução fiscal; (Incluído pela Lei nº
11.941, de 2009);
II - pelo protesto judicial; (Incluído pela Lei nº 11.941, de 2009);
III - por qualquer ato judicial que constitua em mora o devedor; (Incluído pela Lei nº 11.941,
de 2009);
IV - por qualquer ato inequívoco, ainda que extrajudicial, que importe em reconhecimento
do débito pelo devedor; (Incluído pela Lei nº 11.941, de 2009);
V - por qualquer ato inequívoco que importe em manifestação expressa de tentativa de
solução conciliatória no âmbito interno da administração pública federal. (Incluído pela Lei
n° 11.941, de 2009);

Art. 3° Suspende-se a prescrição durante a vigência:


I - dos compromissos de cessação ou de desempenho, respectivamente, previstos nos
Artigos 53 e 58 da Lei nº 8.884, de 11 de junho de 1994.

Art. 4° Ressalvadas as hipóteses de interrupção previstas no art. 2o, para as infrações


ocorridas há mais de três anos, contados do dia 1o de julho de 1998, a prescrição operará
em dois anos, a partir dessa data.
Art. 5° O disposto nesta Lei não se aplica às infrações de natureza funcional e aos processos
e procedimentos de natureza tributária.
Art. 6° Ficam convalidados os atos praticados com base na Medida Provisória no 1.859-16,
de 24 de setembro de 1999.

Art. 7° Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação.

Art. 8° Ficam revogados o art. 33 da Lei no 6.385, de 1976, com a redação dada pela Lei
no 9.457, de 1997, o art. 28 da Lei no 8.884, de 1994, e demais disposições em contrário,
ainda que constantes de lei especial.

FONTE: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9873.htm#:~:text=LEI%20No%209.873
%2C%20DE%2023%20DE%20NOVEMBRO%20DE%201999.&text=Estabelece%20
prazo%20de%20prescri%C3%A7%C3%A3o%20para,indireta%2C%20e%20d%C3%A1%20
outras%20provid%C3%AAncias.>. Acesso em: 20 nov. 2020.

Essas duas leis são a base legal de referência para os artigos relacionados à
prescrição de prazos legais que são base para o Código de Processo Ético-Profissional
(CPEP). Vamos conhecer, então, os artigos relativos à prescrição de prazos.

253
UNIDADE 3 — O CÓDIGO DE PROCESSO ÉTICO-PROFISSIONAL

Capítulo III

Da prescrição

Seção I

Das Regras de Prescrição de Pretensão Punitiva

Art. 112. A punibilidade por falta ética sujeita a PEP prescreve em cinco anos,
contados a partir da data do efetivo conhecimento do fato pelo CRM (CFM,
2016, grifos do autor).

O Artigo 112 do Código de Processo Ético-Profissional (CPEP), descrevem os


meandros das Leis nº 6.838/1980 e nº 9.873/1999, deixando claro que a punibilidade
por falta ética de um médico o qual está em um PEP no CRM prescrevem em cinco
anos a partir do conhecimento do fato pelo CRM.

Conforme temos presente na Lei nº 3.268/1957 que dispõe sobre os Conselhos


de Medicina, e dá outras providências, vemos descrito em seu Artigo 15 que:

Art. 15. São atribuições dos Conselhos Regionais:


a) deliberar sobre a inscrição e cancelamento no quadro do Conselho;
b) manter um registro dos médicos, legalmente habilitados, com exercício na
respectiva Região;
c) fiscalizar o exercício da profissão de médico;
d) conhecer, apreciar e decidir os assuntos atinentes à ética profissional,
impondo as penalidades que couberem;
e) elaborar a proposta do seu regimento interno, submetendo-a à aprovação do
Conselho Federal;
f) expedir carteira profissional;
g) velar pela conservação da honra e da independência do Conselho, livre
exercício legal dos direitos dos médicos;
h) promover, por todos os meios e o seu alcance, o perfeito desempenho técnico
e moral da medicina e o prestígio e bom conceito da medicina, da profissão e
dos que a exerçam;
i) publicar relatórios anuais de seus trabalhos e a relação dos profissionais
registrados;
j) exercer os atos de jurisdição que por lei lhes sejam cometidos;
k) representar ao Conselho Federal de Medicina Aérea sobre providências
necessárias para a regularidade dos serviços e da fiscalização do exercício da
profissão (BRASIL, 1957).

254
TÓPICO 3 — DA PRESCRIÇÃO, DA REVISÃO DO PROCESSO E DAS DISPOSIÇÕES GERAIS

Conforme expresso no Art. 15, alínea d, fica claro que o CFM precisa
“conhecer, apreciar e decidir os assuntos atinentes à ética profissional, impondo
as penalidades que couberem”, deixando claro, neste artigo, e em todo o CPEP a
eficiência do exposto na lei.

Art. 113. Após o conhecimento efetivo do fato pelo CRM o prazo prescricional
será interrompido:
I pelo conhecimento expresso ou pela citação do denunciado, inclusive por
meio de edital;
II pelo protocolo da defesa prévia;
III por decisão condenatória recorrível (CFM, 2016).

O conhecimento do fato de falta ética de um médico, com a solicitação de


uma sindicância ou abertura de um PEP, provoca o interrompimento do prazo
prescricional, pois o CRM toma conhecimento e inicia todo o processo legal para
a sua punição ou absolvição, conforme descrito neste CPEP.

Art. 114. A sindicância ou PEP paralisado há mais de três anos, pendente de


despacho ou julgamento, será arquivado de ofício ou por requerimento da
parte interessada, sem prejuízo de ser apurada a responsabilidade decorrente
da paralisação (CFM, 2016).

O CRM e ou CFM não podem deixar uma sindicância ou PEP paralisado


por mais de três anos pendente de despacho ou julgamento, pois após este
período, ele será arquivado de ofício ou por requerimento da parte interessada.

NOTA

Prezado acadêmico, o autor Oliveira (2019) tem uma discussão e exposição


bem interessante sobre este artigo em seu livro, compreendido entre as páginas 193 e
195, que lhe recomendamos a leitura na íntegra em: <http://www.flip3d.com.br/pub/cfm/
index6/?edicao=4701>.

Art. 115. Deferida medida judicial de suspensão da apuração ética, em qualquer


fase, o prazo prescricional fica suspenso enquanto perdurar seus efeitos, quando
então voltará a fluir (CFM, 2016).

Conforme descrito por Oliveira (2019, p. 195-196):

255
UNIDADE 3 — O CÓDIGO DE PROCESSO ÉTICO-PROFISSIONAL

Esta é uma hipótese de suspensão do prazo prescricional não prevista


em lei estrita, mas criada pela força da jurisprudência dos tribunais.
Assim, deferida a medida judicial para a paralisação da sindicância
ou do PEP, por razões de lógica e integridade do sistema normativo,
também deve ficar suspenso o prazo da prescrição enquanto viger a
ordem judicial. Assim que a eficácia da ordem judicial for suspensa,
voltará a correr o prazo prescricional pelo restante do prazo faltante.
Acolhendo a mesma razão, o Art. 115 do CPEP incluiu como causa de
suspensão da prescrição a superveniência de ordem judicial que obste
a persecução da falta ética ou a execução da sanção.

Seção II

Prescrição da Pretensão Executória

Art. 116. A execução da pena aplicada prescreverá em cinco anos, tendo como
termo inicial a data da intimação do denunciado da decisão condenatória (CFM,
2016, grifos do autor).

A pena aplicada prescreverá em cinco anos, tendo como termo inicial a


data da intimação.

DICAS

Prezado acadêmico, para encerrar este tema, gostaríamos de deixar mais três
artigos para a sua leitura, que aprofunda o tema da prescrição. Acesse os links:

• https://www.direitonet.com.br/artigos/exibir/11672/Da-prescricao-e-da-decadencia-
no-Direito-Civil.

• http://genjuridico.com.br/2018/04/05/efeitos-da-inercia-e-do-decurso-do-tempo-
prescricao-e-decadencia/.

• https://www.direitonet.com.br/artigos/exibir/11311/A-falta-medica-disciplinar-e-a-
prescricao-da-pretensao-punitiva.

Boa leitura!

Esse foi um tema mais rápido, mas de muita importância, pois os CRMs e
o CFM devem tomar muito cuidado para que não ocorram prescrição dos prazos
legais e problemas reais não sejam punidos de fato por esta falta interna.

Vamos, agora, estudar a Revisão do Processo.

256
TÓPICO 3 — DA PRESCRIÇÃO, DA REVISÃO DO PROCESSO E DAS DISPOSIÇÕES GERAIS

3 DA REVISÃO DO PROCESSO
A revisão do processo é prevista no Código de Processo Ético-Profissional
(CPEP), principalmente respaldado nas legislações nacionais, pois pode ter
ocorrido alguma intercorrência que de suporte legal a este fato, para que ocorra
uma nova averiguação e revisão processual de fato já julgado.

Assim nós temos no CPEP:

Capítulo IV

Da Revisão do Processo

Seção I

Das Regras Gerais

Art. 117. Caberá a revisão da decisão condenatória, pelo CFM, a qualquer


tempo, a partir de sua publicação.
§ 1° A revisão da decisão transitada em julgado será admitida quando forem
apresentadas novas provas que possam inocentar o médico condenado, ou ficar
demonstrada que a condenação foi baseada em prova falsa.
§ 2° O pedido de revisão deve ser instruído com todos os elementos de prova
necessários ao deslinde do feito (CFM, 2016, grifos do autor).

Conforme disponível em todas as instâncias legais, todo processo pode


sofrer uma revisão, principalmente quando surgirem novos fatos, ou comprovar
que provas apresentadas nos processos eram falsas.

O Artigo 117 do Código de Processo Ético-Profissional (CPEP) também


tem a sua redação clara e de fácil compreensão.

Art. 118. O pedido de revisão da decisão, transitada em julgado, será dirigido


ao presidente do CFM, sob protocolo, que o encaminhará à Corregedoria.
Art. 119. O conselheiro corregedor remeterá o pedido de revisão, após seu
recebimento, ao Setor Jurídico, para exame de admissibilidade e emissão de
Nota Técnica (NT).
§ 1° Com a NT ou sem ela, o processo retornará à Corregedoria, que emitirá
juízo de admissibilidade acerca dos pressupostos estabelecidos no § 1º do Art.
117 deste CPEP.
§ 2° Estando configurada a admissibilidade, será nomeado um relator para
elaborar relatório a ser apresentado à câmara do CFM nos casos previstos nas
letras "a", "b", "c" ou "d", do Art. 22, da Lei nº 3.268/1957 e ao pleno do CFM nos
casos previstos na letra "e" do Art. 22, da Lei nº 3.268/1957 (CFM, 2016).

257
UNIDADE 3 — O CÓDIGO DE PROCESSO ÉTICO-PROFISSIONAL

Os Artigos 118 e 119 do Código de Processo Ético-Profissional (CPEP)


apresentam os procedimentos a serem executados no CFM em relação ao pedido
de revisão de decisão de uma PEP já julgada.

Quando se configura a admissibilidade em relação à revisão de decisão


julgada, será nomeado um relator para elaborar relatório a ser apresentado à
câmara do CFM nos casos previstos nas letras "a", "b", "c" ou "d", do Art. 22, da
Lei n° 3.268/1957 e ao pleno do CFM nos casos previstos na letra "e" do Art. 22, da
Lei n° 3.268/1957.

Art. 120. O pedido de revisão não terá efeito suspensivo (CFM, 2016).

O pedido de revisão não terá efeito suspensivo da pena já imposta, até o


novo julgamento, conforme CFM.

Art. 121. São partes legítimas para requerer a revisão:


I o profissional punido, pessoalmente ou por intermédio de procurador
habilitado;
II o cônjuge ou companheiro, descendente, ascendente e irmão, no caso de
falecimento do condenado, obedecendo-se esta ordem;
III o curador, se interdito.
Parágrafo único. Quando, no curso da revisão, falecer o profissional requerente,
ele poderá ser substituído por qualquer das pessoas referidas no inciso II deste
artigo; caso contrário, o pedido de revisão será arquivado (CFM, 2016).

O Artigo 121 do CPEP, apresenta as partes legítimas para requerer a


revisão de um PEP.

Art. 122. Julgando procedente a revisão, o CFM poderá anular a decisão


condenatória, alterar sua capitulação, reduzir a pena ou absolver o profissional
punido.
Parágrafo único. Do pedido de revisão não poderá resultar agravamento de
penalidade CFM (2016).

O Artigo 122 do Código de Processo Ético-Profissional (CPEP) postula


sobre os resultados da revisão, mas deixa claro que do pedido de revisão não
poderá resultar agravamento de penalidade.

Art. 123. No julgamento da revisão serão aplicadas, no que couber, as normas


prescritas na Seção VI, do Capítulo II deste CPEP (CFM, 2016).

258
TÓPICO 3 — DA PRESCRIÇÃO, DA REVISÃO DO PROCESSO E DAS DISPOSIÇÕES GERAIS

Artigo se referenciando às normas de processo e julgamento já estipuladas


neste CPEP para servir de base ao julgamento desta revisão.

Seção II

Da Reabilitação Profissional

Art. 124. Decorridos oito anos após o cumprimento da pena e sem que tenha
sofrido qualquer outra penalidade ético-profissional, poderá o médico requerer
sua reabilitação ao CRM onde está inscrito, com a retirada dos apontamentos
referentes a condenações anteriores.
Parágrafo único. Exclui-se da concessão do benefício do caput deste artigo o
médico punido com a pena de cassação do exercício profissional, prevista na
letra "e", do Art. 22 da Lei nº 3.268/1957 (CFM, 2016, grifos do autor).

Esse artigo possibilita que o médico solicite após oito anos do cumprimento
da pena e sem que tenha sofrido qualquer outra penalidade ético-profissional,
requerer sua reabilitação ao CRM em que está inscrito, com a retirada dos
apontamentos referentes a condenações anteriores, excetuando-se o médico
punido com a pena de cassação do exercício profissional.

Assim, discorremos sobre os principais capítulos e artigos do Código de


Processo Ético Profissional dos médicos, porém ele tem muitos meandros que
podem ser estendidos em sua análise.

Vamos, agora, ao fechamento do CPEP, em que se apresenta as Disposições


Processuais Finais:

Capítulo V

Das Disposições Processuais Finais

Seção I

Art. 125. Ao conselheiro corregedor, sindicante ou instrutor caberá prover os


atos que entender necessários para a conclusão e elucidação do fato, podendo
requerer ou requisitar a órgãos da administração pública direta, indireta e
fundacional, da União, dos estados, dos Municípios, do Distrito Federal e de
instituições privadas, quaisquer documentos, peças ou informações.

Seção II

Da Fluência dos Prazos

259
UNIDADE 3 — O CÓDIGO DE PROCESSO ÉTICO-PROFISSIONAL

Art. 126. Os prazos deste CPEP são contínuos e ininterruptos e serão contados a
partir da data da juntada aos autos, da comprovação do recebimento da citação,
intimação ou notificação.
Parágrafo único. Havendo mais de um denunciante ou mais de um denunciado,
o prazo será contado individualmente para cada um, a partir da certidão de
juntada aos autos da respectiva citação, intimação ou notificação.

Seção III

Da Entrada em Vigor deste Código

Art. 127. À sindicância e ao PEP em trâmite será aplicado, de imediato, este


novo Código de Processo Ético-Profissional (CPEP), sem prejuízo da validade
dos atos processuais já realizados sob a vigência do código anterior. A norma
processual não retroagirá.
Art.128. Este Código de Processo Ético-Profissional (CPEP) entrará em vigor
após decorridos 90 dias, a partir da data de sua publicação no Diário Oficial
da União e no sítio eletrônico do CFM, revogando as Resoluções CFM nº
1.967/2011, nº 1.987/2012, nº 2.066/2013, nº 2.023/2013 e as demais disposições
contrárias (CFM, 2016, grifos do autor).

Os quatro artigos do Código de Processo Ético-Profissional (CPEP),


apresentados na disposição final, são conclusos e no Artigo 125 do CPEP temos
que, conselheiro corregedor, sindicante ou instrutor pode requisitar as provas e
documentos necessários; desde que dentro da legalidade; para a execução de seus
trabalhos relacionados ao PEP.

No Artigo 126 do CPEP, ele discorre sobre os prazos do PEP que são
contínuos e ininterruptos e serão contados a partir da data da juntada aos autos.

Para encerrarmos, os Artigos 127 e 128 do Código de Processo Ético-


Profissional (CPEP) tratam dos prazos e validades para entrar em vigor em todo
o território nacional, conforme rege a legislação nacional para colocação em
vigência legal.

Terminamos, aqui, esta disciplina. Você deve ter notado a grande carga
de leitura da legislação sobre o tema, pois não tem como falarmos do CEM e do
CPEP dos médicos sem trazermos a discussão e interpretação dessas normativas.

260
TÓPICO 3 — DA PRESCRIÇÃO, DA REVISÃO DO PROCESSO E DAS DISPOSIÇÕES GERAIS

DICAS

Segue indicação de algumas bibliografias para aprofundar o seu conhecimento


na área do direito médico.

FONSECA, P. H. C.; FONSECA, M. P. Direito do médico: de acordo


com o Novo CPC. Belo Horizonte: Editora D’Plácido, 2016.

KFOURI NETO, M. Responsabilidade civil do médico. 10. ed. São


Paulo: Editora Revista dos Tribunais Ltda, 2019.

DANTAS, E. Direito médico. 4. ed. Salvador: Editora JusPodivm,


2019.

FRANÇA, G. V. de. Comentários ao código de ética médica. 7. ed.


Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2019.

261
UNIDADE 3 — O CÓDIGO DE PROCESSO ÉTICO-PROFISSIONAL

FRANÇA, G. V. de. Direito médico. 14. ed. Rio de Janeiro: Forense,


2017.

MELO, N. D. de. Responsabilidade civil por erro médico: doutrina


e jurisprudência. 3. ed. São Paulo: Atlas, 2014.

FRANÇA, G. V. de. Medicina legal. 10. ed. Rio de Janeiro: Guanabara


Koogan, 2015.

GONÇALVES, C. R. Responsabilidade civil. 18. ed. São Paulo:


Saraiva, 2019.

Vamos ao encerramento deste tópico e do livro didático, mas antes


queremos indicar uma última leitura complementar, logo após apresentaremos
um resumo do tópico e os exercícios finais.

262
TÓPICO 3 — DA PRESCRIÇÃO, DA REVISÃO DO PROCESSO E DAS DISPOSIÇÕES GERAIS

LEITURA COMPLEMENTAR

PRAZO PARA PRESCRIÇÃO DE AÇÃO POR ERRO MÉDICO SE INICIA


QUANDO O PACIENTE SE DÁ CONTA DA LESÃO

O prazo para prescrição do pedido de indenização por erro médico se


inicia na data em que o paciente toma conhecimento da lesão, e não a data em
que o profissional comete o ilícito. A decisão é da Quarta Turma do Superior
Tribunal de Justiça (STJ), que concedeu a uma vítima de erro médico, de São
Paulo, a possibilidade de pleitear indenização por uma cirurgia realizada em
1979. A paciente teve ciência da falha profissional 15 anos depois.

A paciente se submeteu a uma cesariana em janeiro de 1979 e, em 1995, foi


informada de que havia uma agulha cirúrgica em seu abdômen. A descoberta foi
feita a partir da solicitação de exames radiográficos para avaliar o deslocamento dos
rins em decorrência de uma queda sofrida. Até então, ela afirma que nada sentia.
Em 2000, em razão de dores no corpo, teve a recomendação de extrair a agulha.

O juízo de primeira instância considerou que o prazo para prescrição do


pedido de indenização passou a contar da data que ocorreu o ilícito, em 10 de
janeiro de 1979. Por isso, extinguiu a ação com base na prescrição. O Tribunal de
Justiça estadual manteve o mesmo entendimento, com o argumento de que não
haveria como contar a prescrição de 20 anos, prevista pelo Código Civil, da data
do final de 1995, e haveria inércia por parte da vítima.

O relator no STJ, ministro João Otávio de Noronha, esclareceu que a


situação deve se aplicar o princípio da actio nata [ou seja, prazo prescricional para
propor ação de indenização é contado a partir do conhecimento do fato], pelo
qual não é possível pretender que alguém ajuíze uma ação sem ter exata ciência
do dano sofrido. Esse entendimento, segundo ele, é aplicado em situações em que
a vítima tem ciência do dano, mas desconhece sua extensão.

O ministro apresentou precedente da Segunda Turma (REsp 694.287), cujo


relator foi o ministro Franciulli Netto, no qual foi determinado como termo inicial
para contagem da prescrição para fins de indenização a data do conhecimento
da lesão de um paciente com instrumento cirúrgico esquecido em sua coluna
vertebral teve.

FONTE: Adaptado de <http://www.sintese.com/noticia_integra_new.asp?id=184491>. Acesso em:


25 set. 2020.

263
RESUMO DO TÓPICO 3
Neste tópico, você aprendeu que:

• A prescrição de prazos legais é um fato jurídico que traz equilíbrio sobre as


responsabilidades jurídicas das instituições públicas e legais.

• A punibilidade por falta ética sujeita a PEP prescreve em cinco anos.

• Após o conhecimento efetivo do fato pelo CRM, o prazo prescricional será


interrompido:
o I - pelo conhecimento expresso ou pela citação do denunciado, inclusive
por meio de edital;
o II - pelo protocolo da defesa prévia;
o III - por decisão condenatória recorrível;

• A sindicância ou PEP paralisado há mais de três anos, pendente de despacho


ou julgamento, será arquivado de ofício ou por requerimento da parte
interessada, sem prejuízo de ser apurada a responsabilidade decorrente da
paralisação.

• O CRM e ou CFM não podem deixar uma sindicância ou PEP paralisado por
mais de três anos.

• A execução da pena aplicada prescreverá em cinco anos, tendo como termo


inicial a data da intimação do denunciado da decisão condenatória.

• Caberá a revisão da decisão condenatória, pelo CFM, a qualquer tempo, a


partir de sua publicação.

• O pedido de revisão da decisão, transitada em julgado, será dirigido ao


presidente do CFM, sob protocolo, que o encaminhará à Corregedoria.

• O pedido de revisão não terá efeito suspensivo.

• São partes legítimas para requerer a revisão:


o I - o profissional punido, pessoalmente ou por intermédio de procurador
habilitado;
o II - o cônjuge ou companheiro, descendente, ascendente e irmão, no caso
de falecimento do condenado, obedecendo-se esta ordem;
o III - o curador, se interdito.

264
• O médico que solicitar após oito anos do cumprimento da pena e sem que
tenha sofrido qualquer outra penalidade ético-profissional, requerer sua
reabilitação ao CRM em que está inscrito, com a retirada dos apontamentos
referentes a condenações anteriores, excetuando-se o médico punido com a
pena de cassação do exercício profissional.

CHAMADA

Ficou alguma dúvida? Construímos uma trilha de aprendizagem


pensando em facilitar sua compreensão. Acesse o QR Code, que levará ao
AVA, e veja as novidades que preparamos para seu estudo.

265
AUTOATIVIDADE

1 Todo processo jurídico ou relacionado à ética profissional possui prazos de


prescrição da punibilidade. O CPEP detalha as normas/regras da prescrição
temporal e causas factuais de interrupção, conforme apresentado nas Leis nº
6.838/1980 e nº 9.873/1999. No Artigo 112 do CPEP temos relacionado entre
as Regras de Prescrição da Pretensão Punitiva a qual descreve o período de
prescrição da punibilidade por falta ética sujeita a PEP, contados a partir
da data do efetivo conhecimento do fato pelo CRM. Em relação aos anos
que o Artigo 112 do CPEP descreve que prescreve a punibilidade, assinale
a alternativa CORRETA:

a) ( ) Dois anos.
b) ( ) Três anos.
c) ( ) Cinco anos.
d) ( ) Dez anos.

2 Após o conhecimento efetivo do fato pelo CRM, o prazo prescricional


poderá ser interrompido por diversos fatos consumados de forma legal,
estipulado dentro do próprio Código de Processo Ético-Profissional. Com
relação aos fatos que podem interromper o prazo prescricional, conforme o
Artigo 113 do CPEP, analise as sentenças a seguir:

I - Pelo conhecimento expresso ou pela citação do denunciado, inclusive por


meio de edital.
II - Quando o médico tem mais de 60 anos.
III - Pelo protocolo da defesa prévia.
IV - Por decisão condenatória recorrível.
V - Pelo decurso de prazo para aquisição de provas ao PEP.

Assinale a alternativa CORRETA:


a) ( ) I – II – III.
b) ( ) I – IV – V.
c) ( ) II – IV – V.
d) ( ) I – III – IV.

266
REFERÊNCIAS
BARROS JÚNIOR, E. Código de ética médica: comentado e interpretado. Timburi:
Cia do eBook, 2019. Disponível em: http://www.saude.ufpr.br/portal/epmufpr/wp-
content/uploads/sites/42/2019/05/CEM-2018-EDMILSON-PROTEGIDO.pdf. Acesso
em: 20 nov. 2020.

BRASIL. Lei nº 13.105, de 16 de março de 2015. Código de Processo Civil.


Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/
l13105.htm. Acesso em: 20 nov. 2020.

BRASIL. Lei Ordinária nº 12.846, de 1º de agosto de 2013. Dispõe sobre a


responsabilização administrativa e civil de pessoas jurídicas pela prática
de atos contra a administração pública, nacional ou estrangeira, e dá outras
providências. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-
2014/2013/lei/l12846.htm. Acesso em: 20 nov. 2020.

BRASIL. Lei nº 9.873, de 23 de novembro de 1999. Estabelece prazo de prescrição


para o exercício de ação punitiva pela Administração Pública Federal, direta e
indireta, e dá outras providências. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/
ccivil_03/leis/l9873.htm. Acesso em: 20 nov. 2020.

BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Disponível em:


http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/Emendas/Emc/emc19.htm#art3.
Acesso em: 12 nov. 2020.

BRASIL. Lei nº 6.838, de 29 de outubro de 1980. Dispõe sobre o prazo


prescricional para a punibilidade de profissional liberal, por falta sujeita a
processo disciplinar, a ser aplicada por órgão competente. Disponível em: http://
www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/1980-1988/L6838.htm. Acesso em: 20 nov. 2020.

BRASIL. Lei nº 3.268, de 30 de setembro de 1957. Dispõe sobre os Conselhos de


Medicina, e dá outras providências. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/
ccivil_03/leis/l3268.htm. Acesso em: 20 nov. 2020.

BRASIL. Decreto-lei nº 3.689, de 3 de outubro de 1941. Código de Processo


Penal. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/del3689.
htm. Acesso em: 20 nov. 2020.

CFM. Resolução CFM nº 2.217, de 27 de setembro de 2018. Aprova o Código de


Ética Médica. Disponível em: https://portal.cfm.org.br/images/PDF/cem2019.
pdf. Acesso em: 20 nov. 2020.

267
CFM. Resolução CFM Nº 2.145, de 17 de maio de 2016. Aprova o Código de
Processo Ético-Profissional (CPEP) no âmbito do Conselho Federal de Medicina
(CFM) e Conselhos Regionais de Medicina (CRMs). Disponível em: https://sistemas.
cfm.org.br/normas/visualizar/resolucoes/BR/2016/2145. Acesso em: 20 nov. 2020.

CUNHA, S. S. Dicionário compacto do direito. 10. ed. São Paulo: Saraiva, 2011.

DEONTOLOGIA. In: DICIO, Dicionário on-line de português Disponível em:


https://www.dicio.com.br/deontologia/. Acesso em: 20 nov. 2020.

FONSECA, P. H. C.; FONSECA, M. P. Direito do médico: de acordo com o Novo


CPC. Belo Horizonte: D’Plácido, 2016.

LENIESKY, F. A falta médica disciplinar e a prescrição da pretensão punitiva:


abordagem sobre prescrição da pretensão punitiva em relação à falta médica
disciplinar. 2019. Disponível em: https://www.direitonet.com.br/artigos/
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LOBO, P. Efeitos da inércia e do decurso do tempo: prescrição e decadência.


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Disponível em: https://enit.trabalho.gov.br/portal/images/Arquivos_SST/SST_
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OLIVEIRA, A. C. N. Primeiros comentários ao Código de Processo Ético-


Profissional dos Conselhos de Medicina: aprovado pela Resolução CFM nº
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SIMERS. Grandes invenções da medicina: você sabia que o primeiro transplante


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