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A violência de gênero no âmbito doméstico e familiar na cidade de Manaus:

Análise de conteúdo de abril de 2019 a novembro de 2019.

Francelma Ramos de Oliveira

Raiana Cunha Oliveira de Jesus

Resumo: O estudo analisa documentos divulgados online em mídias oficiais da cidade de Manaus,
interpretando e avaliando o uso da ferramenta como forma de proteção da mulher, vítima de violência
doméstica. As teorias de gênero justificam a violência contra a mulher embasada na diferenciação do
gênero, considerando-a submissa e inferior ao gênero oposto, o masculino, por questões socioculturais.
Considerando a alta influência da mídia no meio social, o estudo analisa a existência de medidas que
visem a redução das violências contra a mulher na cidade de Manaus. A metodologia utilizada foi a
análise de conteúdo de documentos escritos e publicados em jornais online de grande acesso em Manaus,
escritos entre os meses de abril a novembro de 2019, que narram situações ou relatos históricos de
violências contra a mulher. Após a escolha, separação e análise dos dados, constatou-se que a mídia não
adota postura ativa no combate à violência contra mulher, nem utiliza da ferramenta para educação ou
conscientização do leitor/agressor/vítima, mas mantém-se afastada de qualquer forma de prevenção ou
mitigação das desigualdades sociais fortemente enraigadas e nas diferenciações entre os gêneros,
limitando-se a descrever os fatos e depoimentos colhidos após a ocorrência dos fatos sociais “relevantes”.

Palavras-chaves: Violência. Gênero. Mídia. Mecanismos de Proteção.

Abstract: The study analyzes online documents published in official media in Manaus city, interpreting
and evaluating the use of the tool as a way of protecting women, victims of domestic violence. Gender
theories justify violence against women based on gender differentiation, considering her submissive and
inferior to the opposite gender, male, for sociocultural issues. Considering the high influence of the media
in the social environment, the study analyzes the existence of measures aimed at reducing violence
against women in Manaus city. The methodology used was the content analysis of documents written and
published in widely accessible online newspapers in Manaus, written between April and November 2019,
which narrate situations or historical reports of violence against women. After choosing, separating and
analyzing the data, it was found that the media does not adopt an active stance in the fight against
womens violence, nor does it use the tool for education or awareness of the reader / aggressor / victim,
but it keeps away in any way of preventing or mitigating deeply rooted social inequalities and in the
differentiations between genders, limiting themselves to describing the facts and testimonies collected
after the occurrence of the “relevant” social facts.

Keywords: Violence. Gender. Media. Protection Mechanisms.

1. Introdução
O estudo foi produzido com intuito de constatar a influência da mídia no
combate à violência contra a mulher na cidade de Manaus. Sabe-se que os índices de
violência contra a mulher tem aumentado anualmente na cidade, apesar dos diversos e
constantes mecanismos legais de combate e repressão destes crimes.

Em conjunto, são criados grupos de apoio social, psicológico e cultural de


educação e modificação das diferenciações entre os gêneros masculinos e femininos, e a
“superada” visão de submissão da mulher e sua inferioridade.

Por séculos, diversas teorias surgiram para explicar as diferenças biológicas


entre os homens e as mulheres, dando origem aos conceitos atuais de gênero. Com isso,
tais diferenças, para além do caráter biológico, foram adotados como formas de
distanciamento entre o homem e a mulher, destacando vantagens entre os sexos e
criando conceitos culturalmente admitidos de superioridade e funções distintas.

Com isso, por vezes se justificam as agressões e violências contra a mulher, em


virtude da consolidada natureza frágil e submissa, obrigatoriamente voltada para cuidar
do homem, da família e da casa.

Tais características passam por constantes modificações, evoluindo o conceito


de gênero em busca de igualdade material, seja no trabalho, na cidadania ou em outros
direitos fundamentais. Contudo, pelo quadro histórico cultural, ainda se mostra difícil
ao homem admitir dividir o meio em que sempre predominou para mulheres, por tanto
tempo vistas como inferiores.

Aceitar que uma mulher possa exercer com mais zelo e cuidado a mesma tarefa
do homem, acarreta um quadro cada dia maior de violência e desprezo, seja no âmbito
doméstico e familiar ou no âmbito laborativo.

Considerando ainda que a mídia tem hoje significativa importância para a


valorização dos indivíduos, conhecimento amplo de teorias e opiniões, bem como de
fatos sociais relevantes, o trabalho buscou reportagens vinculadas ao tema violência
contra mulher no âmbito doméstico e familiar, dos meses de abril a novembro de 2019,
para analisar o efeito ou utilização da ferramenta como forma de crítica, educação ou
combate a tal forma de degradação e manutenção dos ultrapassados conceitos sociais de
gênero feminino submisso e inferior.

Com isso, pretende-se destacar que a importância dada hoje à mídia online,
também deve ser utilizada como ferramenta para o combate e educação contra as
violências domésticas e familiares contra as mulheres, as consequências e a importante
reavaliação da capacidade e igualdade da mulher frente o contexto social e cultural da
pós modernidade.

2. Materiais e Métodos

A metodologia adotada para o presente artigo é a análise de conteúdo de


reportagens publicadas entre os meses de abril de 2019 a novembro de 2019, escolhidos
de forma aleatória.
A pesquisa será qualitativa, com método de abordagem dialético, com
apontamentos sobre as contradições sociais, opiniões críticas e análise histórico-cultural
dos documentos analisados.
O método de procedimento será o documental, com coleta, tabulação e análise
dos dados através da metodologia hipotético-dedutiva.
Outrossim, na análise do material, busca-se classificá-los em temas ou categorias
que auxiliam na compreensão do que está por trás dos discursos.
Sabe-se que a análise de conteúdo, ao longo dos anos, perpassa diversas fontes
de dados, como: notícias de jornais, discursos políticos, cartas, anúncios publicitários,
relatórios oficiais, entrevistas, vídeos, filmes, fotografias, revistas, relatos
autobiográficos, entre outros.
A conceitualização da análise de conteúdo, pode ser concebida de diferentes
formas, tendo em vista a vertente teórica e a intencionalidade do pesquisador que a
desenvolve, seja adotando conceitos relacionados à semântica estatística do discurso, ou
ainda, visando à inferência por meio da identificação objetiva de características das
mensagens (Weber, 1985; Bardin, 1977).
Salienta-se o caráter social da análise de conteúdo, uma vez que é uma técnica
com intuito de produzir inferências de um texto para seu contexto social de forma
objetiva (BAUER; GASKELL, 2002).
Uma vez de posse das informações, oriundas de diversos jornais locais da cidade
de Manaus, selecionadas de forma aleatória, apenas envolvendo notícias de violência
contra mulheres baseada no gênero, foi realizada uma leitura minuciosa de cada uma
das reportagens disponibilizadas nos sítios eletrônicos da mídia local, bem como a
codificação dos materiais, possibilitando assim identificar os elementos da amostra de
documentos analisados.
Uma vez preparados, os dados serão relidos, com definição da unidade de
análise, que posteriormente será submetido à classificação. As unidades de analises
serão palavras e temas.

3. A violência de gênero no âmbito doméstico e familiar

Nos dias atuais, é notório que a violência contra a mulher tem diversas facetas e
com isso, vem sendo identificado diariamente diversas formas de violência no âmbito
doméstico e familiar, diretamente ligado ao gênero feminino com altos índices.

Contudo, também não se pode ignorar as vitórias alcançada na atualidade, em


especial pela proteção do gênero feminino com mais rigor contra abusos e violências,
destacando a contribuição do movimento feminista para isso, com a crescente difusão
da ideia de que a mulher não deve ser subordinada ao homem e aprovação em âmbito
nacional da Lei 11.340 de 2006 (Lei de Combate à Violência Doméstica e Familiar
contra a Mulher).

Indiscutível as diferenças e disparidades ainda existentes entre os gêneros


masculino e feminino no Brasil, sendo tais conceitos repassados por diversas gerações
de pais para filhos e até mesmo de mães para seus filhos e filhas. No entanto, com a pós
modernidade, o acesso à informação e a facilidade de comunicação face a globalização
e a internet, as mulheres foram ganhando destaque na luta pela independência e na
garantia de direitos à igualdade material, dando aso cada vez mais aos próprios sonhos e
buscando modificar conceitos enraigados na sociedade e no mundo.

Quando se trata de discussões de gênero, esse conceito inovou em diversos


sentidos, eis que constitucionalizou direitos fundamentais, expressos na Constituição
Federal, tais como direitos à igualdade, à cidadania, etc, pressupondo a igualdade entre
os sexos e a distinção entre os gêneros masculinos e femininos.

Ressalte-se que a conceituação de gênero também impulsionou uma mobilização


feminista importante, onde as mulheres conseguiram em vários lugares, romper com
desigualdades formais e legais, entre elas o direito ao voto, à propriedade e o acesso à
educação.
As diversas correntes do pensamento feminista afirmam a existência da
subordinação feminina perante o sexo oposto, mas questionam o suposto caráter natural
dessa subordinação.

No seu livro Poder Simbólico BOURDIEU analisa a classe dominante:


A classe dominante é um lugar de uma luta pela hierarquia dos princípios de
hierarquização: as facções dominantes, cujo poder assenta no capital
econômico, tem em vista impor a legitimidade da sua dominação quer por
meio da própria produção simbólica, quer por intermédio dos ideólogos
conservadores os quais só verdadeiramente servem os interesses dos
dominantes por acréscimo, ameaçando sempre desviar em seu proveito o
poder de definição do mundo social que detêm por delegação; a fração
dominada tende sempre a colocar o capital específico a que ela deve a sua
posição, no topo da hierarquia dos princípios da hierarquização. (1989,
pag.12).

A dominação masculina, segundo Bourdieu (1989), exerce uma "dominação


simbólica" sobre todo o tecido social, corpos e mentes, discursos e práticas sociais e
institucionais; (des)historiciza diferenças e naturaliza desigualdades entre homens e
mulheres. Para Bourdieu a dominação masculina estrutura a percepção e a organização
concreta e simbólica de toda a vida social.

De outro lado, o movimento feminista sustenta que essa subordinação é


decorrente das maneiras como a mulher é construída socialmente. Isto é fundamental,
pois a ideia é a de que o que é construído pode ser modificado. Portanto, alterando as
maneiras como as mulheres são percebidas seria possível mudar o espaço social por elas
ocupado. O pensamento feminista reivindicou a igualdade no exercício dos direitos,
questionando, ao mesmo tempo, as raízes culturais destas desigualdades.

Algumas vertentes do feminismo principalmente as socialistas possuem uma


postura definida no que se refere às causas originais da opressão das mulheres, elas
orientam-se pela ideia de que a divisão de trabalho baseada no sexo implicou
desigualdade ou opressão sexual apenas no momento em que surgiram as classes sociais
baseadas na propriedade privada. Para elas o problema não é a reprodução.

Outras vertentes mostram que considerar o sexo como contradição secundária e a


produção como força motriz principal da mudança social não é suficiente para promover
as mudanças necessárias. De acordo com SCOTT,

O termo gênero pode ser definido de duas maneiras. Primeiro, o gênero como um
elemento constitutivo de relações sociais baseadas nas diferenças entre os sexos,
implicando quatro elementos que se relacionam: os símbolos culturais que estão
carregados de representações simbólicas; os conceitos normativos que expressam a
interpretação dos significados dos símbolos; a noção de fixidez que aparenta uma
permanência intemporal na representação binária do gênero; e o quarto elemento
seria a identidade subjetiva, a existência de diferentes identidades. Segundo a autora,
nenhum desses quatro elementos atua sozinho, pelo contrário, são interrelacionais e
não há hierarquias entre eles. “O esboço que eu propus do processo de construção
das relações de gênero poderia ser utilizado para examinar a classe, a raça, a
etnicidade ou qualquer processo social” (SCOTT, 1995, p. 88).

No seu uso mais recente, o “gênero” parece ter aparecido primeiro entre as
feministas americanas que queriam insistir no caráter fundamentalmente social das
distinções baseadas no sexo. A palavra indicava uma rejeição ao determinismo
biológico implícito no uso de termos como “sexo” ou “diferença sexual”.

O gênero sublinhava também o aspecto relacional das definições normativas das


feminilidades. As que estavam mais preocupadas com o fato de que a produção dos
estudos femininos centrava-se sobre as mulheres de forma muito estreita e isolada,
utilizaram o termo “gênero” para introduzir uma noção relacional no nosso vocabulário
analítico. Segundo esta opinião, as mulheres e os homens eram definidos em termos
recíprocos e nenhuma compreensão de qualquer um poderia existir através de estudo
inteiramente separado.

Na atualidade a violência baseada no gênero envolve a determinação social dos


papéis do homem e da mulher, a sociedade atribui diferentes realidades para ambos os
sexos, o problema se encontra quando estes papéis possuem pesos diferentes e
importâncias diferentes. No caso da nossa sociedade, os papéis masculinos são
supervalorizados em detrimento dos femininos e as origens da opressão feminina foram
sendo gradualmente questionadas e abandonadas na busca de desnaturalizar essa
opressão.

É comum a confusão entre os dois conceitos "gênero" e "mulher" o que é


aceitável e completamente compreensível. Embora o termo gênero já fosse utilizado, foi
a partir da conceitualização da Gayle Rubin no ensaio "O tráfico das Mulheres: Notas
sobre a Economia Política do Sexo" publicado em 1975, que tal conceito teve força.
Rubin (1975), definiu o conceito sexo/gênero como o conjunto de arranjos por meio dos
quais uma sociedade transforma a sexualidade biológica em produto da atividade
humana, e nas quais estas necessidades sociais transformadas são satisfeitas.

A discussão atual sobre o conceito de gênero oscila entre uma crítica e a procura
de saídas sem abandonar os princípios associados à noção de gênero, uma vez que
pensam o gênero como par inseparável de uma distinção binária.
Donna Haraway (2004) expressa uma posição particularmente crítica em relação
ao conceito de gênero, ela aponta um problema central encontrado em todos os
conceitos, eles remetem a uma diferença com o sexo, na qual nem o sexo nem as suas
raízes em cada membro deste par, seriam parte da história ou tomados como absoluto.
Além disso, ela considera que a categoria de gênero está subordinada a todas as outras
que aparecem das políticas de diferença existentes, o problema seria no gênero como
identidade central e não na sua subordinação. Vale lembrar que existe uma diferença
entre sexo e gênero, assim como afirma Laqueur (2001):

A distinção analítica entre sexo e gênero expressa essas alternativas e sempre foi
precária. Além daqueles que eliminariam o gênero argumentando que as chamadas
diferenças culturais são verdadeiramente naturais, houve uma poderosa tendência
entre as feministas de esvaziar o sexo do seu conteúdo argumentando, ao contrário,
que as diferenças naturais são verdadeiramente culturais. (LAQUEUR, 2001,
pág.23).

As ideias da filósofa Judith Buther (2003), autora muito apreciada pelos jovens
pesquisadores brasileiros, desenvolve uma crítica sobre os modos de operação das
relações binárias, a autora confronta os conceitos que apresentam identidades fixas, ela
considera como e de que maneira o sexo e gênero são considerados como dados,
propondo uma pesquisa para mostrar como foi construída a dualidade sexual que desafia
o caráter imutável do sexo, que aparece culturalmente como construído.

Para a autora o gênero seria a estilização repetida do corpo, um conjunto de atos


reiterados dentro de um marco regulador altamente rígido, que se congela no tempo
produzindo a aparência de uma substância, de uma espécie de ser natural.

O problema da desvalorização universal das mulheres depende da análise da


cultura tomada como um tipo especial de processo no mundo. Quando dizemos que em
todo lugar, em cada cultura conhecida, as mulheres são consideradas de alguma maneira
inferiores aos homens, três tipos de dados são suficientes para a constatação dessa
realidade: primeiro o elemento da ideologia cultural e as colocações que constantemente
desvalorizam as mulheres e os papéis, suas tarefas, seus produtos e meios sociais com
menos privilégios do que os relacionados aos homens e suas funções masculinas
correlatas, segundo o poder simbólico, como as avaliações inferiores que lhes são dadas
em muitos ramos da sociedade e por terceiro as classificações sócio-estruturais que
excluem as mulheres da participação e do contato com algum domínio na cúpula da
sociedade.
A desvalorização universal das mulheres pode ser explicada no fato do
determinismo biológico, que torna o homem naturalmente o sexo dominante, o que
faltariam às fêmeas que seriam naturalmente subordinadas e satisfeitas com sua posição
desde que isso lhe desse o sentimento de proteção e valorização dos prazeres maternos,
que são para elas o maior prazer da vida.

No entanto devemos interpretar a subordinação feminina através de outros


fatores universais. A mulher está sendo identificada e usada como um símbolo de algo
ou alguma coisa que cada cultura desvaloriza, algo que determina como sendo uma
ordem de existência inferior a si própria.

As mulheres são identificadas ou simbolicamente associadas com a natureza, em


oposição aos homens que são identificados com a cultura. Uma vez que o plano da
cultura sempre é submeter e transcender a natureza, se as mulheres são consideradas
parte dela, então a cultura achará natural subordiná-las, para não dizer oprimí-las. As
mulheres parecem mais próximas da natureza por causa da função que seus corpos
exercem na procriação inerentes a elas. O corpo feminino parece condená-la a mera
reprodutora da vida, enquanto o homem deve ter criatividade gerada por meio de
símbolos e tecnologia.

Outro problema atribuído ao gênero feminino está na indiscutível aceitação


quase universal da mulher de sua própria desvalorização, que ainda acontece nos dias
atuais, onde algumas mulheres ainda aceitam serem tratadas com desprezo e violência
por seus companheiros.

A associação da mulher com o círculo doméstico contribuiu de várias maneiras


para a concepção desta como mais próxima da natureza sob vários aspectos. Em
primeiro lugar, o simples fato da constante ligação com as crianças; em segundo lugar
certos conflitos estruturais entre a família e a sociedade, que existem em qualquer
sistema social. A noção da unidade doméstica, ou seja, da família biológica
encarregada de reproduzir e socializar novos membros da sociedade se opõe a entidade
pública, onde a estrutura dominadora das relações e alianças que é a sociedade.

A família, e consequentemente, a mulher representa um nível inferiorizado e


socialmente fragmentado, uma categoria particular de interesses, que se opõe a relações
interfamiliares, representando uma categoria de interesses universais e integrativos.
Porém, mesmo assumindo as outras razões práticas e emocionais que conspiram na
manutenção da mulher nesta esfera, é possível demonstrar que suas atividades no
contexto doméstico poderiam colocá-la de modo direto na categoria cultural.
As mulheres desempenham conversões de baixo nível da natureza para a cultura,
porém quando a cultura promove o nível mais lato das mesmas funções, este fica
restrito aos homens, estas diferenças não são inatas ou geneticamente programadas, elas
surgem quase de traços universais da estrutura familiar.

Sobre todo esse pensamento cultural da inferioridade da mulher BOURDIER


assevera:
O princípio da inferioridade e da exclusão da mulher, que o sistema mítico-ritual
ratifica e amplia, a ponto de fazer dele o princípio de divisão de todo o universo, não
é mais que a dissimetria fundamental, a do sujeito e do objeto, do agente e do
instrumento, instaurada entre o homem e a mulher no terreno das trocas simbólicas,
das relações de produção e reprodução do capital simbólico, cujo dispositivo central
é o mercado matrimonial, que estão na base de toda a ordem social: as mulheres só
podem aí ser vistas como objetos, ou melhor, como símbolos cujo sentido se
constitui fora delas e cuja função é contribuir para a perpetuação ou o aumento do
capital simbólico em poder dos homens. (2012, pag.55).

A emotividade ou a irracionalidade, nos demonstra as tradições existentes em


várias partes do mundo nas quais, as mulheres são encaradas como mais práticas,
pragmáticas e mundanas do que os homens. A fisiologia feminina é mais envolvida na
maior parte do tempo com a preservação da vida; a ligação das mulheres com o
contexto doméstico estruturalmente subordinado, responsável pela função de educar
seus filhos e transformá-los de seres primitivos em seres civilizados.

Diante de toda essa contextualização sobre os conceitos e definições das


características da violência de gênero, percebe-se, que ela decorre de uma relação de
poder de dominação do homem e de submissão da mulher; esta relação de poder surgiu
dos papéis impostos às mulheres e aos homens, reforçados pela ideologia patriarcal, os
quais acabam gerando relações violentas entre os sexos, absolvidos pela hierarquia de
poder; a violência ultrapassa a relação pessoal entre homem e mulher, podendo ser
encontrada também nas instituições, nas estruturas, nas práticas cotidianas, nos rituais,
basicamente, em todas as relações sociais; a relação de afetividade conjugal, a
proximidade da vítima e agressor e a habitualidade das situações de violência tornam as
mulheres ainda mais vulneráveis dentro do sistema de desigualdade de gênero, quando
comparado com outros sistemas de desigualdade como classe, geração, etnia etc.

Todo o sistema é uma construção da cultura ao invés de um fato da natureza. A


mulher não está mais próxima da natureza do que o homem, ambos tem consciência e
ambos são mortais.

Porém, há motivos pelos quais as mulheres parecem ter essa proximidade, vários
aspectos da situação feminina contribuem para ela ser considerada assim. Uma
atualidade social diferente pode surgir de uma visão cultural diferente, uma mudança
das instituições sociais, através do estabelecimento de quotas salariais, ou através da
aprovação das leis de igualdade de trabalho e salário, não pode ter efeitos de longo
alcance se a linguagem e as figuras culturais continuam a fornecer uma imagem
relativamente desvalorizada da mulher.

Pelas leis brasileiras, a violência contra a mulher é considerada um crime de


"menor potencial ofensivo" e está sujeita a penalidades que não ultrapassam um ano de
detenção. Desde 1995, o julgamento desses crimes foi transferido para os Juizados
Especiais Criminais com o objetivo de agilizar a punição dos agressores e dar maior
proteção à mulher, contudo, nota-se a insuficiência da proteção estatal.

4. Resultados e discussões

Para Castells (2001, p. 8), a internet é um “meio de comunicação que permite,


pela primeira vez, a comunicação de muitos com muitos, num momento escolhido, em
escala global”.

Contudo, muitas vezes nota-se que a comunicação não é utilizada de forma a


auxiliar o controle ou reeducação social cultural.

Conforme amplamente explanado, o combate à violência doméstica contra a


mulher, originada pela diferença de gênero e ideia de submissão da mulher, depende em
muito da ampla divulgação e convencimento e reinserção de ideias capazes de
influenciar as mudanças de quem as acessas.

Resta claro não se encontrar a suficiência na mídia para tanto, nem um apoio,
considerando a estabilidade desta estrutura social e o amplo alcance, até nos locais mais
remotos.

Contudo, notou-se nas análises dos documentos digitais, que por vezes citam-se:
“casos de feminicídio vêm aumentando em todo Estado do Amazonas”.

Assim como reiteram as informações referentes ao “machismo”, transcrevendo


depoimentos de servidores públicos e as avaliações nacionais e internacionais negativas
quanto ao Brasil e ao Amazonas.

Notou-se que por vezes a criação da Lei Maria da Penha (Lei 11.340 de 2006) é
destacada, mas ressaltando o aumento das violências, evidenciando a ineficiência da lei
e impunidade do agressor, além da ineficácia do sistema jurisdicional e policial.
Conclui-se portanto, que a realidade sociocultural atual do país é a machista e
políticas públicas educacionais, inclusive através das mídias, podem ser medidas
preventivas e repressivas que são aliadas ao direito para modificar esse quadro.

Mas, a criminalização da conduta de matar alguém, em face de ser do gênero


feminino, bem como as constantes alterações e inclusões na Lei Maria da Penha, visa
frear a banalização da sua integridade e da sua vida, vez que o aumento das violências a
que inúmeras mulheres estão sujeitas simplesmente pelo seu gênero são crescentes.

Ademais, apesar de ater-se somente às citações dos funcionários de segurança


pública, as reportagens também divulgam atos públicos de protestos e destacam
informações pouco relevantes para o público alvo, que deveriam ser vítimas e
agressores.

Sabemos que muitas mulheres denunciam seus companheiros apenas para


intimidá-los, depois retiram a queixa e não levam adiante o processo que poderia
resultar em uma punição.

Mas mesmo assim, é importante fazer a denúncia. Ela é um momento de ruptura


em que a mulher se desloca da condição de opressão/submissão, admite que sofre
violência e precisa de ajuda. Pode significar também um primeiro passo para o seu
“empoderamento” e mudança da relação. Por isso, é fundamental que por ocasião da
denúncia ela tenha um bom acolhimento e seja devidamente orientada sobre seus
direitos e necessidade de buscar apoio social, familiar, jurídico e psicológico para sair
da situação de violência.

Não se verificou nas matérias publicadas, nenhum fonte de informação


adicional, ou meios de comunicação de violência, informações claras e objetivas sobre
punições ou o desestímulo a comportamentos que hoje passam a ser rechaçados social e
culturalmente.

A violência de gênero é exercida de várias formas, por meio da influência da


mídia e das redes sociais, algumas propagandas, piadas ou cenas de novela/programa de
TV continuam a propagar, ainda que de forma subliminar, ideias machistas que pregam
a mulher como ser frágil e inferior ao homem e reforçam estereótipos e preconceitos.

Neste âmbito, a televisão é uma das principais difusoras e perpetuadoras dessa


condição, pois, apesar de a internet estar mais acessível para grande parte da população,
a televisão ainda é o meio de comunicação mais popular e mais utilizado no Brasil.
De acordo com Pierre Bourdieu (2017) podemos entendê-la como um tipo de
violência disfarçada, que se exerce não só pela linguagem, mas também pelos
gestos, pelas formas, pelas maneiras de expressar-se, enfim, pelas coisas do mundo
social, auxiliar das relações de força, ela adiciona a própria força a essas relações.
Nesse contexto, podemos destacar o que Bourdieu define como “dominação
masculina”. Para o autor, os dominantes são os grupos sociais ou as etnias, e nesse
caso, os homens. Os mesmos impõem “seus valores e regras ao dominados que os
internalizam inconscientemente, adotam seus esquemas de pensamento e, por isso, a
eles se submetem”. (CATANI et al, 2017, p.156).

Pelas experiências passadas neste contexto, sabe-se que enquanto o aumento da


violência não for controlado, normas mais brandas serão insuficientes.

Bater mais nas reportagens (não atuam na educação e informação dos direitos da
mulher, acaba informando situação que demonstram o agravamento da situação e a
possível impunidade, face o crescente índice de violência).

5. Considerações Finais

Possível concluir-se, que as matérias veiculadas tratam apenas do alto índice e das
reprovações distantes da realidade social daqueles que vivem na cidade de Manaus.

Portanto, claro concluir a ineficácia do meio como mecanismo de combate e


enfretamento das violências contra a mulher, a desconstrução da desigualdade pelo
gênero, bem como a igualdade de direitos entre os sexos.

Matérias meramente narrativas, sem informações construtivas ou educativas,


dificultam ainda mais a desconstrução do quadro de violência, somente demonstrando
cada vez mais que os meios e instrumentos criados para combate de tais atos violentos
tem sido ineficaz e ocasionando relatórios pouco inteligíveis e sem impacto social ou
cultural para os agressores e as vítimas.

As mudanças culturais acontecem através do surgimento da consciência de


grupos masculinos e femininos, ou através de revisões de materiais educacionais e
imagens perante a sociedade, tais episódios, não podem ser bem sucedidos a menos que
a base institucional da sociedade mude para a manutenção e o reforço da visão cultural
modificada desse pensamento arcaico da sociedade.

A ideologia de gênero é um dos principais fatores que levam as mulheres a


permanecerem em uma relação abusiva. Muitas delas internalizam a dominação
masculina como algo natural e não conseguem romper com a situação de violência e
opressão em que vivem.

Além da ideologia de gênero outros motivos também são frequentes, como: a


dependência emocional e econômica, a valorização da família e idealização do amor e
do casamento, a preocupação com os filhos, o medo da perda e do desamparo diante da
necessidade de enfrentar a vida sozinha, principalmente quando a mulher não conta com
nenhum apoio social e familiar.

Algumas mulheres não conseguem denunciar seus agressores por receio de que a
violência aumente, o que acontece em muitos casos, pois a impunidade prevalece
mesmo após a denúncia.

Portanto, citações como: “Casos de Feminicídio vêm aumentando


significativamente na capital e em todo o Estado”, ViolÊncia Perdura nos diferentes
grupos da sociedade como um flagelo generalizado, que põe em perigo suas vidas e
viola os seus direitos”, “(...) celeridade no julgamento dos casos de violência doméstica
e de feminicídio no estado do Amazonas.”, “Brasil é o 5º país onde mais se mata
mulheres em todo o mundo”, ““epidemia” de violência doméstica no país.”, “(...) mais
de 20 tipos de crimes praticados no ambiente doméstico”, “Os casos envolvem uma
questão histórica e, geralmente, envolvem uma relação de afeto entre a vítima e o
agressor”, “Machismo histórico”, “maior proporção de casos de feminicídio a cada
grupo de 100 mil mulheres”, “Crimes nestes moldes são registrados praticamente todos
os dias no Amazonas, quase sempre praticados por um homem, seja ele companheiro,
marido, namorado ou noivo”, “A violência psicológica precede as agressões físicas”,
pouco impactam no meio social de forma a modificar ideologias ou conceitos
historicamente enraigados.

A mera citação de atos públicos, como também se observou e programas de


governo, pouco influenciam na percepção daqueles que não convivem no meio, além de
não ter acesso a tais locais.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BOURDIEU, Pierre. A dominação masculina. 4. ed. Rio de Janeiro: Bestbolso, 2012.


Tradução Maria Helena Kuhner.
BUTLER, JUDITH. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade.
Tradução de Renato Aguiar. Rio de janeiro: Civilização Brasileira, 2003.

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