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R N

O C

M E

A

UM MAR DE ROSAS

RAQU
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“Qualquer semelhança entre factos e personagens* não é uma mera

coincidência. Este romance é um retrato fiel de um dos acontecimentos mais infelizes que se passaram na minha família em princípios de 2000 e do qual todos os intervenientes saíram profundamente afectados. Mas tal como em qualquer outra família, os laços que unem uma mãe a uma filha dificilmente são destruídos. São antes eternos e capazes de ultrapassar os maiores obstáculos. Por isso, um conselho que ofereço a todos os que lerem este romance é que aproveitem cada página porque todas elas me trouxeram risos, lágrimas e um prazer inenarrável de escrita…”

* Apenas os nomes das personagens são fictícios.

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CAPÍTULO I
As chuvas torrenciais e as fortes trovoadas não a deixaram dormir durante a noite, e para o cúmulo dos cúmulos, quando estava prestes a adormecer, o despertador tocou ruidosamente. Seis horas e quarenta e cinco minutos. Infelizmente tinha chegado a hora de levantar, tomar um banho e acordar os filhos para a escola. Essa era a rotina de Madalena Soares, uma mulher de quarenta anos, cabelos castanhos um pouco abaixo dos ombros, olhos escuros bem delineados, uma excelente forma física tamanho trinta e oito e que já havia superado um divórcio e todas as frustrações que rodearam a sua vida durante os anos em que esteve casada com Jorge Albuquerque. Jorge era um advogado de quarenta e dois anos que ganhava a vida a defender empresários corruptos e outras pessoas de carácter no mínimo duvidoso. Bem, na verdade, também ele tinha um carácter duvidoso, o que não deixava de ser um dos requisitos fundamentais para ser o melhor na sua profissão, e Madalena descobriu esse carácter ao fim dos dezasseis anos em que esteve casada com ele. Traições, faltas de respeito e negócios esquivos envolvendo uma assinatura sua, ditaram o fim de um casamento que tinha tudo para dar certo. Mas infelizmente não deu. Infelizmente terminou e não deixou nada de bom a não ser os dois filhos do casal, Sara, de quinze anos e Daniel de dez. Muitas vezes, em frente ao espelho da casa de banho enquanto analisava os primeiros fios de cabelo branco, Madalena dava-se consigo a pensar se realmente tinha feito tudo o que estava ao seu alcance para manter um casamento, que apesar de há muito não ser feliz, era no entanto estável e confortável. Será que tinha jogado todas as cartas que possuía na manga? Será que não deveria ter engolido o pouco do orgulho que lhe restava e tentar salvar as cinzas de um amor que parecia adormecido aos seus olhos e aos olhos do ex. marido? E os filhos? Também não deveria ter pensado neles? Na verdade, ela passou anos e anos a pensar nos efeitos que a sua separação teria em Sara e Daniel, até porque o seu único objectivo era oferecer-lhes uma família “normal”. Mas como poderia oferecer essa família se o ex. marido se mostrava muito mais preocupado com o próprio umbigo, com o trabalho e com as amantes que arranjava aqui e ali? Diante de tudo isto, realmente não restou outra alternativa a Madalena a não ser pedir os papéis e tentar encontrar alguma paz de espírito.

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- Não tenho fome – foram as primeiras palavras de Sara quando entrou na cozinha e encontrou a mãe a preparar o pequeno-almoço. - Nem penses que vais sair de casa sem comer – respondeu Madalena poisando o fervedor de leite sobre a mesa. - Eu como lá na escola. - Já disse que não! Senta-te e come como deve ser! Após um longo suspiro, Sara viu-se obrigada a acatar as ordens da mãe. – Queres cereais ou uma tosta mista? – perguntou Madalena não se deixando intimidar pelo olhar de ódio que a filha lhe lançou. - Tosta mista. - Eu também quero – interferiu Daniel, o elemento mais novo da família. - Já estás a comer os cereais por isso não tens espaço para a tosta – respondeu Madalena alcançando a embalagem do pão de forma. – Sara, queres a tosta com duas fatias de fiambre ou só uma… - Sabes, pensando melhor, acho que prefiro os cereais – respondeu a jovem alcançando os Kellogs sobre a mesa. – É mais rápido. - Mas eu já ia … - Cereais, mãe! Já disse que vou comer cereais. Ao ouvir a resposta da filha, Madalena deu-se por vencida e voltou a guardar a embalagem do pão de forma num dos muitos armários da cozinha. Depois disso, tal como já vinha acontecendo há meses, contou até dez e continuou a preparar o pequeno-almoço a toda a velocidade. E enquanto ignorava o barulho ensurdecedor dos desenhos animados que passavam na televisão e do mp3 que Sara fez questão de ouvir aos altos berros, ela percebeu que havia pelo menos seis meses que a filha fazia questão de a contrariar em tudo. É da adolescência, tentava convencer-se disso. Mas a verdade é que Madalena não se lembrava de ter sido uma adolescente tão problemática e muito menos de ter dado tanto trabalho aos seus pais. Com quinze anos tudo o que fazia de mais escabroso era faltar às aulas de vez em quando para passear pelas lojas da cidade com as suas amigas. De resto, nunca ousou levantar a voz aos pais e muito menos desrespeitá-los diante de quem quer que fosse. Seria pedir muito que a sua filha também fizesse o mesmo consigo? O pequeno-almoço da família foi degustado em meia hora e depois disso seguiu-se a correria em direcção ao carro debaixo de um frio de cortar à faca. Portas abertas, cintos de segurança colocados e o trânsito infernal na segunda circular, foram os ingredientes para começar bem o dia enquanto o rádio divulgava as primeiras notícias da manhã e os ponteiros indicavam que havia pelo menos vinte minutos que estavam presos numa fila de quase dez quilómetros. – Não era hoje que ias ter um teste? – perguntou Madalena parando o carro diante de um sinal vermelho. A pergunta não obteve qualquer resposta, já que mais uma vez Sara se encontrava com os malditos auscultadores nos ouvidos. – Ouviste-me – insistiu a mãe sacudindo-lhe o braço. - O quê?! - Perguntei se não era hoje que ias ter um teste. - Sim – respondeu Sara baixando o volume do mp3. - Estudaste?! - Não sei. Acho que sim.
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- Achas?! Ou se estuda ou não se estuda. Ninguém acha que estudou. - Mãe, não me apetece falar. - Porque não?! - Porque não me apetece – respondeu Sara fulminando-a com os olhos. - Posso te fazer uma pergunta? O silêncio da filha fê-la avançar nos seus propósitos. – Porque é que estás tão irritadiça nestes dias? - Eu não estou irritadiça. - Estás sim! Já viste a maneira como tens andado a falar comigo ultimamente? Quase com quatro pedras na mão. Diz! Fiz-te alguma coisa? - Não. - Porque se fiz, podes dizer-me e nós podemos conversar sobre isso para tentar… - Vamos passar o fim-de-semana em casa do pai? - Não sei – respondeu Madalena passando as mãos pelos cabelos quando percebeu a vontade de Sara em mudar de assunto. – Ele ainda não ligou a avisar se vos vem buscar ou não. - Eu deixei a minha Playstation lá – interferiu Daniel esgueirando o pescoço em direcção aos bancos da frente. – Preciso ir buscá-la. - Sabes que eu até acho que foi muito bom teres esquecido aquela maldita Playstation na casa do teu pai!? – respondeu Madalena. – Assim pelo menos passaste menos tempo em frente à televisão e estudaste mais. Devias esquecê-la mais vezes para ver se me consegues levantar as notas a Português e a Matemática. - Se o pai não nos vier buscar este fim-de-semana, eu peço-lhe para me trazer a Playstation! Não passo mais uma semana sem ela, senão fujo de casa… - declarou Daniel sob as risadas da mãe. - És mesmo parvo – adiantou-se Sara empurrando-o contra os bancos de trás. As notícias no rádio transformaram-se na banda sonora perfeita para que Madalena levasse os filhos à escola, e a primeira paragem, por ser a mais próxima, foi o colégio de Sara. – Boa sorte – exclamou ela quando a filha abandonou o carro levando a mochila às costas. - Para quê? - Oras, para quê?! Para o teste… - Não precisas desejar-me sorte. - Vou torcer por ti! - Já disse que não é preciso – respondeu Sara atravessando a rua sem sequer olhar para trás. Um acidente numa das pequenas ruelas da cidade obrigaram Madalena a optar por um outro caminho infinitamente mais longo em direcção à floricultura que dirigia ao lado da melhor amiga e que outrora havia pertencido à sua mãe. Passava já das nove quando ela conseguiu chegar ao local pretendido, e ao abrir a porta, surgiu-lhe à frente a visão sempre assustadora da correspondência acumulada durante o fim-de-semana. Sem outro remédio, ela abaixou-se e alinhou as cartas e jornais com um suspiro de cansaço por uma semana que só na altura tinha começado. Água. Seguro. Publicidade. Realmente nada a que já não estivesse habituada durante os seis anos em que dirigia aquele negócio.
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O espaço era amplo, iluminado e ficava situado em plena Avenida de Roma, uma das avenidas mais nobres da cidade lisboeta repleta de buzinas dos carros em hora de ponta, da movimentação frenética das pessoas e dos prédios, que apesar de serem antigos, primavam pelo bom gosto e pelo requinte de quem não se importava de pagar muito para viver bem. A floricultura de Madalena era também uma das mais visitadas da avenida, até pela excelente relação que a sua mãe mantinha com as clientes mais antigas e que fez questão de cultivar ao longo dos quarenta e cinco anos de existência da loja. Mas um súbito ataque cardíaco e posteriormente a sua morte trouxeram à filha um dilema que poucos apostaram que ela fosse conseguir resolver. Manter ou não manter o negócio da família? Mediante o aconselhamento do pai, de resto, uma das poucas pessoas que sempre acreditou nas suas capacidades, Madalena decidiu aceitar o desafio e para isso contou com a preciosa ajuda da sua melhor amiga, Alice Santos, que na altura também se encontrava desempregada e à espera de dias melhores. Obviamente que os apoios não foram muitos, especialmente os vindos do ex. marido de Madalena pois ele desejava ardentemente que a mulher continuasse a ser a perfeita dona de casa sempre atenta às suas necessidades e às dos filhos. Mas a verdade é que Madalena não foi na conversa e conseguiu levar a sua adiante livrando-se das amarras que a mantinham presa a uma casa quase sempre vazia. Cortadas essas amarras, veio um certo sentimento de alívio e uma necessidade de auto afirmação que nunca pensou existir dentro de si. Impressionante como um casamento nos pode fazer perder a nossa própria identidade, era o que muitas vezes dizia à melhor amiga. Anos depois, o casamento terminou, mas a floricultura deixada pela mãe, esta ainda continuava a gerar lucros atrás de lucros. Todos os dias surgiam encomendas, aniversários, casamentos ou outras datas especiais que as pessoas faziam questão de celebrar com flores. Mas por mais irónico que parecesse, havia pelo menos dois anos que Madalena não recebia flores de ninguém. Não seria esse facto demasiado deprimente para a dona de uma floricultura? Ela achava que sim, mas o que poderia fazer se até à data não havia encontrado nenhum homem minimamente interessante para lhe oferecer flores? – Até que enfim chegaste – disse uma voz jovial entrando pela loja adentro. - O mesmo digo eu de ti – respondeu Madalena terminando de analisar a correspondência sobre a secretária. - Para a tua informação, eu já tinha chegado há muito tempo. Só estava ali no café a tomar o pequeno-almoço. - Pois eu atrasei-me a levar os miúdos à escola. - Ainda bem que não tenho filhos – exclamou Alice pendurando o casaco no bengaleiro. - Nem sabes como te invejo – riram-se as duas. - A D. Beatriz já telefonou? - Não! Porquê?! – perguntou Madalena largando as cartas sobre a secretária. - Porque ela ficou de cá vir para escolher uns arranjos para o casamento da filha. - Tinha-me esquecido completamente desse casamento. - É daqui a quatro meses se não estou em erro. Temos já que começar a contactar com os fornecedores para termos tudo pronto a horas. Louca do jeito como a D. Beatriz é, ainda é capaz de nos furar os tímpanos se não tivermos todos os arranjos feitos dentro do prazo. - Hoje mesmo vou ligar ao fornecedor.
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- Por favor, faz isso! Temos uma reputação a manter… – riram-se as duas amigas. O casamento de Joana Dias estava marcado para dali a quatro meses, e tal como se era de esperar, foi a mãe, Beatriz Dias, a responsável pela organização de todo o evento. O vestido foi adquirido numa viagem que fizeram a Paris, o local da boda reservado numa Quinta em plena vila de Sintra, e a igreja escolhida para que os cerca de duzentos e cinquenta convidados por Beatriz, uma legítima tia falida do jet-set. De facto, o único detalhe a acertar era o arranjo das flores e a decoração da igreja, algo que Beatriz fez questão de discutir com a floricultura contratada para o efeito. Ao ouvirem as suas ideias, argumentos e alguns comentários mais ou menos hilariantes, muitas vezes Madalena e Alice foram obrigadas a concordar com tudo o que ela dizia: E sim. Sim. Sim. Tudo iria ser feito para a agradar, sendo que naquela segunda-feira não foi excepção. – Tudo tem que estar perfeito… – dizia Beatriz. – O vestido, a boda e também as flores que vamos utilizar na decoração da igreja. Quero que saibam que só aceitei trabalhar com esta floricultura porque conhecia a mãe da Madalena há muitos anos e foi ela quem me arranjou as flores para o meu terceiro casamento. Mas agora que ela já não está aqui entre nós, que Deus a tenha, espero não me vir a decepcionar… - É claro que não se vai decepcionar, D. Beatriz – adiantou-se Alice beliscando o braço de Madalena a fim de tentar trazê-la de volta à realidade. – Não é, Lena? - Hã, …claro – respondeu a última apertando a caneta que tinha nas mãos. – Tudo vai ser feito como o combinado. Flores do campo, não foi o que disseram?! - Sim! A cerimónia vai ser de manhã, por isso é bom que sejam flores do campo em tons neutros, claros e suaves – informou a noiva. – Além disso, estávamos também a pensar em utilizar arruda ou trigo no meio dos arranjos. - Trigo?! Porquê? - É uma superstição – respondeu Beatriz à pergunta de Alice. – Todas as mulheres da nossa família sempre escolheram arranjos de trigo porque simbolizam sorte e prosperidade. Não sabiam? - Por acaso não. - Pois ficam a saber! E ficam também a saber que vão ter que arranjar algumas espigas para colocar nos arranjos da igreja e também no local onde se vai realizar a boda. Outra coisa, e pelo amor de Deus, não se esqueçam de nos arranjar suportes para os arranjos… - Não, quanto a isso não se precisam preocupar – respondeu Madalena apontando todos os pedidos num pequeno bloco de notas. – Os nossos fornecedores fabricam esses suportes sem custos adicionais. A conversa prolongou-se por mais algumas horas, ou pelo menos as suficientes até que Madalena e Alice deixassem as divagações das duas clientes falar mais alto. A boda, a luade-mel e outros assuntos tão interessantes como o modelo da lingerie que a noiva estava disposta a vestir na sua noite de núpcias, foram dissecados até à exaustão e fizeram as duas funcionárias da floricultura revirarem os olhos vezes sem conta. Mas por sorte, a entrada de um outro cliente na loja apressou a saída de Beatriz e Joana e trouxe de volta a paz de espírito que Alice e Madalena perderam durante aquela interminável conversa. – Voltamos a falar daqui a duas semanas para saber como é que está a correr a história das flores – disse Beatriz levantando-se de uma cadeira onde esteve sentada durante três horas.
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- De qualquer maneira, ainda temos muito tempo até ao dia do casamento – respondeu Madalena levando mãe e filha em direcção à porta. - Não é assim tanto tempo – exclamou Joana retirando os óculos escuros da mala. – Ainda temos muitos outros detalhes a acertar, não é mãe? - Claro. Ainda agora vamos falar com a empresa que está a organizar a decoração da igreja e depois vamos também tratar da impressão dos convites. São mais de duzentos e com certeza vai sair um balúrdio. Por sorte, os pais do meu genro é que estão a pagar todas as despesas, senão imagina o que era?! Íamos logo à falência. - Claro – murmurou Madalena não querendo relembrar à sua cliente que ela já estava na falência há muitos anos e que o único motivo para aquele casamento tão apressado era o facto de não se querer afundar ainda mais. Na sexta-feira seguinte, ao fechar uma das janelas da sala, Madalena observou o carro do ex. marido a estacionar em frente ao jardim. Deveria ficar contente por vê-lo? Obviamente que não, até porque a vontade de estar com Jorge era nula, assim como o desejo de lhe ouvir a voz ou até mesmo o barulho das chaves que ele fazia questão de manter nas mãos enquanto ordenava a Sara e ao Daniel para que se despachassem e não o fizessem esperar em demasia numa sala que durante quinze anos também foi sua. – Meninos! O pai já chegou. Não se demorem – gritou Madalena aos filhos quando ouviu a campainha tocar. Já vai, foi a resposta ouvida, e depois disso seguiu-se uma rápida caminhada em direcção à porta. – Chegaste cedo – abriu ela a porta. - Oito e um quarto – respondeu Jorge lançando os olhos ao seu relógio de pulso. – Nem um minuto a mais, nem um minuto a menos. - Entra lá! - Bem, que educação… - Não me irrites – resmungou Madalena lançando os olhos ao carro do ex. marido. Apesar da chuva miudinha foi visível que o motor ainda estava trabalhar. – Deixaste as luzes acesas? – perguntou ela. - Sim – respondeu Jorge, encabulado. – Tenho alguém lá dentro. - Alguém!? - Uma amiga. - Uma amiga!? – indagou Madalena levando a mão ao peito. – Que tipo de amiga? - …uma amiga. - Escuta Jorge! Eu não quero que ponhas os meus filhos a conviver com as tuas amigas. - Os nossos filhos queres tu dizer. - Que seja! Simplesmente não quero. O olhar da ex. mulher foi peremptório e não deixou outra escolha a Jorge a não ser baixar os braços e aguardar a chegada dos filhos à sala. – Já estava a ver que nunca mais – disse ele recebendo um beijo de cada um. – Então!? Já estão prontos? - Já – respondeu Sara levando a mochila às costas. – Podemos ir? - Claro. - Portem-se bem – adiantou-se Madalena sugando as bochechas de Daniel enquanto ele vestia o casaco a uma velocidade fantasmagórica. – Não fiquem acordados até tarde, façam os trabalhos de casa e comam todas as refeições, ou melhor, obriguem o vosso pai a fazervos todas as refeições.
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- Está bem, mãe. - Ligo amanhã para falar com vocês. - Não precisas ligar – disse Sara abrindo a porta. – O pai traz-nos no domingo à noite. São só dois dias. - Mesmo assim! Amanhã eu ligo. - Vamos, meninos – exclamou Jorge lançando um último olhar à ex. mulher. – Tchau, Lena! - Tchau, Jorge. Quando a porta da rua se fechou com um pequeno ruído, Madalena aproximou-se da janela e observou a caminhada do ex. marido e dos filhos em direcção ao carro. Ainda tentou forçar um pouco mais a vista e tentar vislumbrar os traços físicos da mulher que estava sentada no banco da frente, mas infelizmente os seus intentos não surtiram qualquer efeito no momento em que o carro arrancou e a rua tornou a ficar deserta. Quem seria ela? Uma namorada? Um caso de uma noite? Ou simplesmente uma amiga como ele fez questão de lhe frisar? Ao sentar-se no grandioso sofá com uma almofada sobre o colo, Madalena lançou os olhos as paredes e sentiu-se pela milésima vez sozinha. Sim. A sua melhor amiga tinha razão quando lhe disse que era mil vezes mais fácil para os homens refazerem a sua vida após um divórcio do que para uma mulher depois dos quarenta. Cansada era como Madalena se sentia cada vez que olhava para si e para o que a sua vida se tinha transformado desde que assinou os papéis do divórcio. Cada dia que passava, cada semana ou cada mês, era um tempo que não voltaria a recuperar ainda que quisesse, e era também um sinal de que não valia a pena lutar contra o inevitável, pois acabaria sozinha e sentada naquele sofá até ficar velha e caquéctica. Diante daquela possibilidade no mínimo assustadora, duas lágrimas caíram-lhe dos olhos e ela não teve outro remédio a não ser detê-las com as mãos. Março, Abril, Maio e Junho foram os meses que passaram a passo de caracol, e foi também o tempo necessário para que o calor regressasse em força em todos os pontos do país. Nessa altura, Jorge resolveu levar os filhos para duas semanas de férias ao Algarve, e apesar da relutância, Madalena viu-se obrigada a baixar as guardas e a concordar que Sara e Daniel seguissem viagem com o pai e também com a nova namorada que ele lhe fez questão de esfregar à cara quando foi buscar os filhos. Alta como uma torre, loira e com as curvas perfeitas de uma top model, de facto, Vanessa Figueiredo era o apogeu que todos os homens acima dos quarenta sonhavam apresentar às ex. mulheres. – Olá, muito prazer – sorriu ela estendendo a mão a Madalena. - Muito prazer – respondeu Madalena aceitando o cumprimento de uma forma muito menos efusiva. - Confesso que estava curiosa para a conhecer. - Porquê?! - Oras… - riu-se Vanessa. – Porque o Jorge está sempre a falar de si e dos vossos filhos. - Nem tanto assim – defendeu-se o advogado tentando esquivar-se aos olhares aterradores que a ex. mulher lhe lançou. – Só falo de vez em quando. - Não sejas mentiroso, amor! Estás sempre a falar dela… – adiantou-se Vanessa voltandose novamente para a Madalena. – Madalena o seu nome, não é?! - Sim! Madalena.
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- Madalena quero que saiba que a admiro imenso! Sou a sua fã número um… - A sério?! - A sério. Sinceramente não sei como é que consegue manter essa forma depois de ter dado à luz dois filhos. Está perfeita…! - Obrigada. - Conheço várias mulheres que depois que tiveram filhos, bem… transformaram-se em autênticos monstros de tão gordas e flácidas que ficaram… – riu-se Vanessa sob o olhar incrédulo de Jorge. – Por isso é que eu nunca quis ter filhos e nem estou a pensar em ter. Crianças!? Enfim, realmente não são o meu forte! Dou-me bem melhor com adolescentes. Rapazes de preferência! - Acredito que sim – murmurou Madalena levando a mão ao peito. - Sabe que eu até estive a dizer ao Jorge para a levar connosco. - Levar para onde? - Para o Algarve.!Iria ser divertido passarmos as férias todos juntos. - Hã… não me parece – respondeu Madalena tentando desenvencilhar-se daquele convite no mínimo inoportuno. - Porquê?! - Porque… - Porque ela tem um negócio para gerir, Vanessa – adiantou-se Jorge temendo que a namorada pronunciasse mais alguma loucura. – Eu disse-te que ela era dona de uma floricultura, lembraste!? - Hã, claro! Esqueci-me. - Infelizmente este ano não vou poder ter férias – concluiu Madalena cruzando os braços. - Não acredito! Bem, deve estar arrasada, não?! Amor, já viste o que era passarmos um ano inteirinho sem férias?! Acho que morria… - Pois eu acho que vou conseguir sobreviver. - Os miúdos ainda vão demorar muito? – perguntou Jorge ignorando o sorriso irónico que a ex. mulher lhe lançou. - Acho que não! Eu vou lá acima despachá-los. - Faz isso porque não quero chegar muito tarde ao Algarve. Era a quinta vez que Madalena observava a entrada dos filhos, da namorada e do ex. marido no carro, mas era sem sombra de dúvida a primeira vez que não se sentia minimamente enciumada com a cena. Vanessa, a tal loira mais alta que uma torre e com as medidas perfeitas de uma top model não passava de um corpo desprovido de cérebro ou qualquer outro sinónimo que pudesse fazer jus à sua beleza física. Deus! Como se rebaixou por tão pouco? Como é que sequer desejou um corpo igual àquele quando Deus a havia favorecido com algo que Vanessa nunca iria ter por mais cirurgias plásticas que fizesse: Inteligência e bom senso. – Estás a gozar?! Ela é assim tão burra? – perguntou Alice, a melhor amiga de Madalena, quando ambas jantaram juntas naquela noite. - Define-me burra – riram-se as duas. - Coitado do Jorge! Será que ele está assim tão desesperado? - Provavelmente – respondeu Madalena bebendo um gole de vinho. – Mas lá diz o ditado que cada um tem aquilo que merece, não é!? Pois então! Ele só está a ter aquilo que merece.
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- E tu estás a adorar. - É assim tão evidente – respondeu Madalena arrancando uma leve gargalhada à melhor amiga. - Mas tens razão, aliás, tens toda a razão em ficar tão contente com a desgraça do teu ex. marido! Especialmente depois de tudo o que ele te fez… - Nem me digas nada! Só de me lembrar do dia em que a polícia me bateu aqui à porta, até fico toda arrepiada. - Eu também e olha que nem foi comigo – disse Alice devorando o soufflé de camarão cozinhado por Madalena. - Às vezes fico a pensar se ele não fez de propósito. - O quê?! Ter depositado aquele dinheiro na tua conta só para ires presa? Não, eu acho que não. Eu acho que ele só fez aquilo para se conseguir safar e também porque é um otário de primeira. - E a lata dele em forjar a minha assinatura no banco e ainda fazer uma carinha de inocente à frente dos polícias como se não fizesse a mínima ideia de onde aquele dinheiro tinha saído. Não, isso foi o cúmulo dos cúmulos… - O que é que aconteceu ao dinheiro? - Foi confiscado, claro! Era dinheiro sujo dos negócios que ele fazia com os clientes dele. - Podias pelo menos ter ficado com algum – riu-se Alice, animada. - Olha, nem com isso fiquei! Só fiquei com os cornos, com os filhos e com esta casa a cair aos bocados enquanto ele se pavoneia no Algarve com a Vanessa loira burra. Aliás, se queres realmente que te diga, eu é que sou burra! Burra por ter aguentado tanta nojeira e ainda acabar com uma mão à frente e outra atrás. - Eu bem te avisei. Infelizmente Madalena foi obrigada a concordar com as palavras da sua amiga e também com a certeza de que tudo continuava exactamente igual naquela cozinha. De facto, nada tinha mudado. – Estou sozinha – disse ela por fim. - E eu?! Sou um fantasma? - Sabes bem o que eu quis dizer. Alice também foi obrigada a concordar com um silêncio. – Ele está lá no Algarve, até pode estar com a mulher mais burra do mundo, mas pelo menos está lá a divertir-se e a viver uma vida que eu também queria viver – discursou Madalena tentando controlar as lágrimas que teimaram em cair-lhe dos olhos. – E eu estou aqui jogada às traças para mais de dois anos e sem a mínima hipótese ou a mais remota possibilidade de… - Voltar a fazer sexo outra vez – concluiu Alice bebendo um gole de vinho. - Não é só sexo. - Então é o quê!? - Sei lá! Sinto falta de… ter alguém com quem conversar. Alguém que me possa ouvir, abraçar-me e fazer-me sentir segura. Alguém! Um homem de preferência. - Eu também sinto falta – respondeu Alice deixando escapar os seus pensamentos mais secretos. – Mas o que é que havemos de fazer, não é?! Nem todas as mulheres nasceram para ter um homem que as possa ouvir, abraçá-las e fazê-las sentirem-se seguras. - Tens razão – concordou Madalena limpando as lágrimas quando percebeu que também ela fazia parte daquele vastíssimo leque.
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- Sabes, houve uns tempos em que eu estava tão desesperada que até cheguei a arranjar encontros na Internet. - A sério?! - Sim – respondeu Alice forçando uma gargalhada que não foi de todo correspondida pela melhor amiga. - Porque é que nunca me contaste? - Naquela altura ainda estavas casada com o Jorge e eu senti-me ridícula só de pensar na ideia de tocar nesse assunto contigo. Com certeza irias pensar que eu era uma pobre coitada… - E deu certo algum desses encontros? – perguntou Madalena não escondendo a sua curiosidade. - Tive dois – confessou Alice bebendo um gole de vinho. – No primeiro o gajo era um idiota de todo o tamanho e até chegou a fingir que tinha esquecido a carteira em casa apenas para não pagar o jantar. - Que horror – riram-se as duas. - No segundo, confesso que até tive algumas esperanças! À primeira vista o gajo parecia ser simpático, inteligente e até era bonito, mas o problema é que era demasiado filosófico e atirava cada frase que eu até ficava com os cabelos em pé. - Que tipo de frases? - Assim tipo… - riu-se Alice enquanto se tentava recordar de alguma. – Gostaria de ser um sábio africano apenas para desvendar os segredos mais misteriosos da humanidade, encantar as pessoas com os meus dons e encontrar uma fórmula secreta para ser imortal… - O quê?! – indagou Madalena soltando uma ruidosa gargalhada. - Agora imagina-me ouvir frases dessas durante todo o jantar numa sexta-feira treze? Saí do restaurante mortinha de medo e nunca mais lhe atendi a nenhuma chamada. - Meu Deus! Ainda existem gajos desses no planeta terra? - Podes crer que existem e eu já saí com muitos. Por isso é que desisti desses encontros virtuais. A única coisa que fazem é levantar as nossas expectativas, mas depois quando conhecemos as pessoas, desilusão é a palavra de ordem. - Só espero nunca chegar a esse ponto. - Obrigadinha pela parte que me toca! - Não me leves a mal, mas acho que prefiro continuar solteira a andar com um sábio africano – riram-se as duas amigas completamente indiferentes ao adiantado das horas. Os arranjos florais para o casamento de Joana Dias e Rafael Saraiva primaram pelo requinte e tudo graças ao bom gosto de Beatriz, a mãe da noiva, que fez questão de escolher pessoalmente as flores e os suportes de decoração que iriam estar presentes na igreja e também no local da boda. Na verdade, para aquela tia do jet-set nada poderia dar errado pois não era somente o nome da sua filha que estava em jogo, mas sim o de toda a sua família que via nos laços do matrimónio a oportunidade ideal para se livrar das privações monetárias e outros apertos resultantes da sua falência desde há gerações. Estaria o amor intimamente ligado ao casamento? Bem, se estivesse era óptimo, mas caso contrário, não fazia qualquer diferença.

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No dia seguinte, a vinte e quatro horas do tão aguardado casamento, Madalena e Alice abandonaram o veículo da floricultura e regalaram-se com a magnífica vista do Mosteiro dos Jerónimos, um imponente monumento que impunha admiração até aos olhos dos mais leigos. De facto, os noivos souberam escolher o local perfeito para uma ocasião também ela perfeita, visto o Mosteiro considerado como um dos edifícios mais emblemáticos da cidade lisboeta. – Era aqui onde eu gostaria de me ter casado – disse Alice abrindo as portas da carrinha. - Sabes que este mosteiro nunca me disse nada?! - Estás a gozar? - A sério – respondeu Madalena poisando no chão o primeiro arranjo floral que retirou do interior do veículo. – Sempre o achei um pouco sombrio e cinzento. - E eu que me tive que contentar com uma capelinha em Alvalade… - Já não é mau. - Sim! É óptimo. Por isso é que o meu casamento não demorou muito – respondeu Alice levando as mãos à testa encharcada de suor. – Bem, eu vou lá dentro ver se encontro alguém para nos ajudar a tirar essas flores cá para fora. - O.k! - Não saias daí. - Um pouco difícil, não achas?! Provavelmente deve ter morrido lá dentro, foram as palavras que Madalena utilizou para caracterizar a excessiva demora de Alice quando ao olhar para o relógio de pulso viu que nele estavam assinaladas dezoito horas e trinta e dois minutos. Nessa altura, os últimos raios de sol começaram a desaparecer no horizonte e a brisa trazida pelo rio retirou as réstias do calor sentido durante o dia. Diante daquela paisagem tão interessante, embalada pelos jardins de Belém e pela torre imponente, Madalena cruzou os braços e encostou-se à carrinha pensando em tudo menos nas flores que deveria retirar do porta-bagagem. Pensou nos filhos, em como eles se deveriam estar a divertir no Algarve e nas saudades que sentia deles apesar de apenas se terem passado vinte e quatro horas desde a última vez que os vira. Era uma mãe galinha, sorriu. Uma mãe que não sabia quando dar espaço e privacidade aos filhos, que lhes vasculhava todas as gavetas numa tentativa desesperada de encontrar algo escabroso e que passava praticamente todas as horas do dia a pensar neles, isto para não falar da facilidade quase sobre humana que tinha em incluir os seus nomes em todas as conversas. – Trouxe ajuda – ouviu-se finalmente a voz de Alice. Os olhos de Madalena não conseguiram esconder o fascínio quando viram à frente um dos seres mais belos do planeta terra. Todo ele exalava beleza, elegância e uma masculinidade difícil de explicar, até mesmo para ela. Características físicas? Altíssimo, cabelos escuros perfeitamente aparados, olhos tão verdes como duas esmeraldas, traços faciais definidos, um nariz esculpido à lupa e dois lábios bem delineados. Mas ao vê-lo diante de si, Madalena não conseguiu acreditar que ele era real. Como era belo, meu Deus! E de onde tinha saído aquela perfeição? – Encontrei este senhor simpático lá dentro e ele foi o primeiro a oferecer-se para nos ajudar – informou Alice trazendo a sua amiga de volta à realidade. - Olá – disse o desconhecido forçando um sorriso a Madalena.
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- …olá. - Já vi que precisam mesmo de ajuda. - Nem sabe o quanto – respondeu Alice mostrando-lhe os inúmeros arranjos florais no interior da carrinha. – Acha que nos pode ajudar a levar tudo isto à capela? - Claro que sim. Mas não me peçam para ajudar na decoração porque não percebo nada disso – respondeu ele arrancando um sorriso tímido a Madalena. – Só sou um dos fotógrafos contratado para a cerimónia. - Não se preocupe porque nós também não percebemos nada de decoração – interferiu Alice. - Só viemos trazer as flores – concluiu Madalena recuando dois passos quando ele se agachou e levantou do chão o primeiro arranjo. - São bonitas. - Obrigada! Mais um olhar e mais uma vontade descomunal de Madalena em atirar-se para os braços daquele desconhecido que em poucos segundos conseguiu algo que nenhum outro homem havia conseguido em dois anos. Ou seja, prender a sua atenção e deixar-lhe as pernas completamente bambas. Enquanto ele caminhava em direcção à capela com dois grandes arranjos florais nas mãos, um pouco mais atrás, foi impossível para Madalena não reparar nas suas costas bem formadas, nos seus ombros largos e nas pernas ligeiramente arqueadas que lhe conferiam um ar demasiado sexy para ser apenas um simples mortal. Não parecia ter mais do que trinta e cinco anos e muitas experiências para contar visto o seu olhar transparecer uma inocência digna de um adolescente de dezasseis. Raios. Realmente não deveria estar a observá-lo com tanta atenção porque a qualquer momento ele poderia voltar-se para trás e surpreendê-la com os olhos postos em si. – Que bom que chegaram… – disse Beatriz caminhando em direcção a Madalena e Alice assim que as duas entraram na capela. À sua volta encontravam-se cerca de duas dezenas de pessoas em movimentos frenéticos tentando desesperadamente terminar os últimos detalhes da decoração da igreja, enquanto na sacristia, a noiva e a mãe do noivo trocavam as últimas palavras com o padre que iria presidir à cerimónia. – Trouxemos os arranjos tal como o combinado – respondeu Alice forçando um sorriso a Beatriz. - Ainda bem! Já estávamos todos impacientes à espera deles. - Aonde é que podemos colocar as flores? – perguntou Madalena sustendo um enorme suporte nas mãos. - Podem colocá-las junto ao altar que depois os responsáveis da decoração tratam do resto. As ordens de Beatriz foram imediatamente obedecidas não só por Madalena, por Alice, mas também pelo fotógrafo que teve a amabilidade de as ajudar a tirar da carrinha todos os arranjos florais sem sequer pestanejar ou oferecer algum comentário menos agradável. Muito pelo contrário. Até parecia que o estava a fazer por prazer, e a cada esbarro com Madalena perto do altar, um sorriso irrompia-lhe o rosto pronto a fazê-la corar de vergonha. Contudo, na última vez que Madalena sorriu, uma voz imperiosa invadiu a igreja deixando todos os presentes estupefactos com a irritação que ela trazia. No fundo do corredor, completamente descontrolado, encontrava-se um homem que não aparentava ter mais do
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que vinte e oito anos, cabelos loiros e uns olhos azuís inchados de tanto chorar. Quem era, foi o que todos se perguntaram quando o viram a caminhar em direcção ao altar com uma expressão verdadeiramente aterradora. – Aonde é que ela está? – perguntou ele fora de si. - Rafael!? – indagou Beatriz tentando acalmar o ímpeto do seu futuro genro. – O que é que aconteceu contigo, meu filho? Estás todo desgrenhado, todo transpirado… - Aonde é que está a sua filha, Beatriz!? Eu quero falar com ela agora – gritou ele assustando todos os presentes. - Tem calma! A Joana está na sacristia com a tua mãe. As duas estão a falar com o padre. - Então vá chamá-la! - Para quê?! - Chame a sua filha agora antes que eu perca a paciência… Beatriz nunca vira aquela expressão nos olhos do genro e muito menos pensou que em algum dia ele iria ousar levantar a voz contra si. Teria acontecido alguma coisa? Sim. Claro que tinha, até mesmo porque Rafael sempre fora um rapaz sensato, equilibrado e totalmente imune à palavra escândalo. – Está bem! Eu vou chamá-la – concordou Beatriz ignorando os olhares de todos os funcionários presentes na capela. – Mas talvez seja melhor conversarem na sacristia ou noutro local. Aqui não é o lugar ideal e tu estás muito nervoso… - Chame a sua filha agora – interrompeu o noivo não se deixando levar pelos argumentos da futura sogra. Os momentos que se seguiram foram tensos e tudo porque Rafael não arredou pé do local onde estava. Sempre com as mãos nos bolsos, com um olhar perdido e uma das pernas a tremer, ele aguardou a saída da sua noiva da sacristia repetindo para si mesmo: Nem por decreto de lei a vou perdoar. Nunca a vou perdoar. E na verdade, bem tinha todas as razões do mundo para não o fazer, já que durante cinco anos de relacionamento, tudo o que Joana lhe ofereceu foram mentiras e traições. – Amor! Tu por aqui – exclamou ela chegando ao altar acompanhada pela sogra e pela mãe. – Pensei que tinhas dito que ias ficar preso numa reunião. - Precisamos falar. - O que é que aconteceu, filho? – perguntou a mãe de Rafael pressentindo-lhe a cólera no olhar. – Houve algum problema lá na empresa? E o teu pai? Não falaste com ele antes de saíres do… - Mãe, eu não vim aqui para falar do pai! Eu vim falar com a Joana. Silêncio foi a palavra de ordem, enquanto Joana tentava ignorar os olhares curiosos de todas as pessoas presentes na capela. – O que é que se passa, amor!? - Não me chames de amor – gritou ele assustando-a com a sua voz imperiosa. – Nunca mais te atrevas a chamar-me de amor, sua ordinária…! - Rafael!? - Eu já descobri tudo. - Tudo, o quê? – indagou Beatriz esbugalhando os olhos. - Não sabia, D. Beatriz?! Não sabia que a sua filha andava a ter um caso com o melhor amigo? Ou será que sabia? Claro. Com certeza devia saber, pois que o seu único objectivo era casar a Joana com um homem rico. Com o primeiro otário que lhe aparecesse à frente e que tivesse uma conta bancária choruda. Não era esse o vosso plano?
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Enquanto ouviam o discurso confuso daquele pobre rapaz, Madalena e Alice não deixaram de trocar um olhar constrangedor. – Só que o otário aqui abriu os olhos a tempo – concluiu Rafael não se deixando amolecer pelos olhos chorosos da sua noiva. – E podem crer que não me vão arrancar nem mais um tostão. - Rafael, tu só podes estar a brincar – respondeu Joana limpando as lágrimas e tentando retirar sobre si a vergonha de estar a ser publicamente humilhada pelo noivo. – Não podes estar a falar a sério! Não podes estar-me a fazer isso a vinte e quatro horas do nosso casamento… - Será que ainda não percebeste, Joana!? Será que ainda não percebeste que a tua máscara caiu diante desta gente toda? Eu já descobri a verdade, já sei de tudo e nem adianta sequer inventares mais uma das tuas milagrosas desculpas porque o Eduardo confessou tudo quando eu o encostei à parede hoje à tarde. - A culpa foi dele. - A culpa foi tua – gritou Rafael calando-lhe os argumentos. – A culpa foi toda tua! Foste tu que estragaste tudo e agora não adianta fazeres esse ar de arrependida porque eu já não acredito em mais nenhuma palavra que venha de ti. - Rafael… - Estás a ver tudo isto – vociferou ele arrancando as fitas decorativas presas nos bancos da capela. – É lixo! Tudo isto é lixo e não vai servir para mais nada. - Pára – exclamou Joana tentando controlar-lhe os braços furiosos. – Pára com isso! - Acabou! Acabou tudo! Já não vai haver porcaria de casamento nenhum… Fitas, velas e flores, tudo foi totalmente destruído por Rafael e pela fúria que se apossou de si no interior daquela igreja. Mas na verdade, ele só estava a fazer todo aquele escândalo para tentar extravasar a vergonha sentida quando descobriu que durante cinco anos havia sido traído pela noiva e pelo melhor amigo. Ele que sempre fez tudo para a fazer sorrir, para a tornar na mulher mais feliz do mundo e aquela era a paga que recebia depois de lhe ter entregado o seu coração e a sua conta bancária de mão beijada. Como se enganou com Joana? Como se arrependia do dia em que a tinha conhecido e como queria nunca a ter pedido em casamento. – Rafael, por favor… - dizia ela, desesperada. – Pára com isso! - Sinto nojo de ti – gritou ele com os olhos marejados de lágrimas. - Estás nervoso! Não sabes o que dizes. - Não me toques! - Rafael… - Não me toques – vociferou ele atirando-lhe o suporte de uma vela com o único intuito de a matar. Como não o conseguiu da primeira vez, tentou uma segunda, mas por sorte, Joana abaixou-se a tempo e livrou-se de um dos maiores azares da sua vida. Um azar que consequentemente acertou em cheio na testa de Alice e a fez cair junto ao altar ainda sem saber o que realmente tinha acontecido. Perplexidade foi o sentimento geral, assim como os primeiros murmurinhos e a voz imperiosa do padre que comandou imediatamente a retirada de Rafael de um recinto que para ele ainda continuava a ser sagrado. Depois disso, a vítima foi imediatamente socorrida. – Estás bem? – perguntou Madalena observando o ferimento na testa da melhor amiga. - …acho que sim – respondeu Alice passando as mãos pela testa e deparando-se com uma mancha de sangue nos dedos. – Porra – exclamou. – O gajo partiu-me a cabeça toda!
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- É melhor irmos para o hospital – interferiu o fotógrafo analisando-lhe o corte profundo na testa. – Não sou um especialista, mas acho que vai precisar de alguns pontos. A vela acertou mesmo em cheio. - Peço desculpas – disse Rafael mostrando-se envergonhado pelo seu acto. – Não a queria magoar, peço desculpas… - Você é louco, é o que é – respondeu Alice levantando-se do altar com a ajuda da melhor amiga. – Lá porque levou cornos da sua noiva, isso não significa que também eu tenha que ficar com um alto na testa. - Alice, tem calma – pediu Madalena tentando acalmar-lhe a cólera. – Vamos embora! Vamos fazer o que… - Sérgio – adiantou-se o fotógrafo lançando-lhe um olhar intenso. - Sim! Vamos fazer o que o Sérgio disse. Vamos ao hospital tratar desse corte antes que se torne nalgo mais grave. - Eu posso ir com vocês – disse ele. – Quer dizer, acho que estão demasiado nervosas para conduzir, por isso… - Tudo bem – concordou Madalena levando a melhor amiga nos braços. Apesar dos vários pedidos de desculpa que recebeu dos noivos enquanto caminhava pelo corredor da igreja, Alice manteve-se resoluta em não aceitar nenhum. Era só o que faltava depois de ter sido agredida, humilhada e metida numa confusão que nem era sua, aceitar impávida e serena ao pedido de desculpas de duas crianças infantis e imaturas que não sabiam resolver os seus próprios problemas sem envolver pessoas estranhas e alheias ao caso. Mas o pior nem era isso. O pior era a dor descomunal que estava a sentir na sua testa quando passou as mãos por ela e recebeu um lenço de Madalena para estancar o sangue que ainda lhe continuava a jorrar da cabeça e que se tornava cada vez mais intenso à medida que Sérgio conduzia a carrinha da floricultura em direcção ao hospital mais próximo. Foram precisos cerca de vinte minutos para que as portas automáticas das urgências se abrissem, e quando isso aconteceu, Madalena tentou encontrar alguém que a pudesse ajudar a socorrer a melhor amiga. Por sorte, encontrou uma enfermeira, mas também lhe foi informado que teria que preencher uma ficha de entrada antes que se pudesse efectuar qualquer tipo de tratamento a Alice. – Ela já foi atendida? – perguntou Sérgio aproximando-se de Madalena quando finalmente conseguiu estacionar a carrinha no parque de estacionamento do hospital. - Levaram-na agora lá para dentro – respondeu ela esgueirando o pescoço em direcção à enfermaria. – Acho que foi levar pontos. - Bem… - riu-se ele timidamente. – Confesso que nunca me tinha visto numa cena daquelas. - Nem eu – respondeu Madalena lançando os olhos às paredes da sala de espera. – E acho que tão cedo não a vou esquecer. - Muito menos a sua amiga que acabou por ficar com um galo na testa. A resposta de Sérgio não pretendia ser irónica, Madalena percebeu, mas ainda assim foi impossível para ela conter um riso abafado. – O que foi? – perguntou ele. - Desculpe! Desculpe, mas é que… - Disse alguma piada?
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- Não, claro que não – respondeu Madalena tentando controlar os risos cada vez mais intensos. – Mas é que…, aliás, eu sei que não deveria estar a rir da desgraça alheia, especialmente porque se trata da minha melhor amiga, mas o que você disse teve piada. E a cena também! Ao olhá-la mais uma vez, Sérgio sorriu e abanou a cabeça. – Está a ser má para a sua amiga, sabia?! - Eu sei! Peço desculpas. Um novo silêncio irrompeu a sala, mas desta vez foi completamente impossível para Sérgio resistir aos risos abafados de Madalena. Levar a mão à boca, baixar o rosto e até virá-lo, esses foram alguns dos estratagemas utilizados por ela para se conseguir controlar. Mas a verdade é que nada surtiu efeito. E sim. A única coisa que fez foi aumentar ainda mais o fascínio que Sérgio sentiu por ela logo no primeiro minuto em que a viu. – Ainda não sei o seu nome – disse ele. - Madalena Soares – respondeu ela compondo os cabelos quando o seu olhar se cruzou novamente com o dele no meio daquela sala tão grandiosa. - Acha que a sua amiga ainda se vai demorar muito? - Não sei. Ela entrou há pouco. - O.k…! - Mas se precisar ir embora, por favor, sinta-se à vontade… – concluiu Madalena ao perceber que muito provavelmente já havia abusado da boa vontade daquele fotógrafo desconhecido. – Eu sei que eu e a minha amiga já tomámos muito do seu tempo e que com certeza você deve ter alguma coisa para fazer, afinal de contas, estava a trabalhar quando… - Eu trabalho por conta própria. - Ai é?! - Tenho um estúdio de fotografia – respondeu Sérgio colocando o casaco sobre o colo. - É fotógrafo profissional!? - Sim. - Deve ser uma profissão interessante – murmurou Madalena tentando fugir àqueles olhos verdes tão lancinantes. - Eu acho que é… – respondeu ele arrancando-lhe um sorriso. – Ou pelo menos hoje tornou-se. - Concordo. - E você? Para além de aparecer em casamentos recheada de flores, o que é que faz? - Digamos que a minha vida é recheada de flores. - Como assim?! - Sou dona de uma floricultura – respondeu Madalena sentindo-se completamente perdida quando ele sorriu novamente para si. – Quer dizer, eu e a minha amiga somos sócias, embora a loja tivesse pertencido à minha mãe antes de ela morrer. - A sua profissão é que deve ser interessante. - O quê? - Vender flores. - Hã… nem tanto – riu-se Madalena, encabulada. – É igual às outras. Não tem nada de interessante. - Tem a certeza? – perguntou Sérgio fulminando-a com aqueles malditos olhos verdes.
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Silêncio foi a resposta dela. – Se fosse assim tão desinteressante não estaríamos aqui neste hospital, não acha!? – concluiu ele. Sérgio era realmente divertido e sedutor, e para encontrar todas essas características, Madalena não precisou de muito tempo e nem de muito esforço. Raios. Ele era tudo isso e muito mais, mas também possuía qualquer coisa que a intrigava a deixava quase sem fôlego. Talvez fossem os olhos verdes, a barba aparada, o nariz esculpido, ou talvez fossem as três coisas misturadas numa só, mas realmente havia qualquer coisa que não a fazia tirar os olhos dele. – Tem razão – concordou ela após um longo minuto de silêncio. – A minha profissão é realmente muito interessante, tal como a sua. - Eu também acho – respondeu Sérgio arrancando-lhe um outro sorriso tão ou mais encantador que o primeiro. Meia hora foi o tempo que as enfermeiras precisaram para suturar os ferimentos na testa de Alice, e quando ela finalmente se viu livre daquela tarefa tão desagradável, o médico de serviço receitou-lhe alguns antibióticos para que as dores e o inchaço diminuíssem em poucas horas. – Então?! – perguntou Madalena saltando da cadeira quando Alice surgiu na sala de espera com a cabeça totalmente enfaixada. – Já está tudo? - Sim. - Como é que te sentes? - Dói-me tudo até o último fio de cabelo! Só quero ir para casa antes que pense em cometer suicídio… As portas automáticas das urgências abriram-se novamente, e por ela, saíram Alice, Madalena e Sérgio no mais absoluto silêncio. Com a cabeça encostada ao ombro da melhor amiga, Alice desejou encontrar a sua cama quando regressasse a casa e desejou também esquecer todos os azares que lhe haviam acontecido durante o dia. Sim. Porque de todas as pessoas presentes naquela maldita igreja, porque é que foi ela a única escolhida para receber aquela valente pancada? - Não precisam de mais nada? – perguntou Sérgio quando chegaram à carrinha. - Não – respondeu Madalena ajudando Alice a entrar no carro. – Acredite que já fez muito por nós. - Que é isso. - Obrigada por tudo – interferiu Alice mal conseguindo manter os olhos abertos. – Foi um verdadeiro cavalheiro ao contrário do estupor que me atirou a vela. - Digamos que fica com uma história para contar aos seus netos. A resposta do fotógrafo não poderia ter sido mais insultuosa e isso ficou provado pelo olhar fulminante que Alice lhe lançou do interior do carro. – Ela não tem filhos e muito menos netos – afirmou Madalena voltando-se para Sérgio ainda com o casaco nas mãos. - Hã… peço desculpas! Eu não quis … - Não faz mal – riram-se baixinho. – Digamos que essa foi a sua única gafe para connosco. - Confesso que estava a fazer de tudo para não cometer nenhuma. - Ninguém é perfeito, não é?! – respondeu Madalena deixando-se mergulhar pelo olhar que Sérgio lhe lançou. Nessa altura, talvez por o sol já se ter posto, o verde-esmeralda deu lugar a um verde acinzentado e isso só deixou os olhos dele mais lindos do que naturalmente eram. – Bem, obrigada mais uma vez! Ficamos-lhe a dever uma… - Quem sabe um dia não venha a cobrar esse favor.
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- Sinta-se à vontade para fazê-lo – respondeu Madalena não tardando muito a enfiar-se no interior da carrinha sob o olhar atento de Sérgio. Mar de Rosas, Avenida de Roma, loja 132 F, foi o que o fotógrafo leu quando o veículo desapareceu do parque de estacionamento levando consigo uma das mulheres mais bonitas e interessantes que lhe haviam atravessado caminho até à data.

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CAPÍTULO II
O telefone tocou ao fim de quarenta e oito horas de um silêncio ensurdecedor, e ao saber bem quem era, Madalena largou a chávena de chá sobre a bancada da cozinha desejando ouvir as vozes das duas pessoas mais importantes da sua vida. Sara e Daniel. Eram eles. Enquanto lhes ouvia as peripécias dos primeiros dias de férias no Algarve, muitas foram as vezes que Madalena tentou controlar a voz embargada e as lágrimas de desespero por se ver tantos dias longe dos filhos. Daniel era o mais animado de todos e foi também aquele que mais falou sobre os banhos de piscina, os passeios pela vila e os presentes que a cada duas horas recebia do pai e de Vanessa loira burra, um apelido carinhoso que Madalena encontrou para caracterizar a nova namorada do ex. marido. – O pai quer levar-nos a Marrocos… – saltou essa frase no meio de uma conversa amena que Daniel estava a ter com a mãe. - A Marrocos?! – indagou Madalena esbugalhando os olhos. - Sim! Deixas-nos ir? - Mas não tinha ficado combinado que as férias iriam ser até ao Algarve? - O pai disse que havia uma promoção bué fixe na agência de viagens e que podíamos prolongar as férias por mais alguns dias. - Vocês só podem estar a gozar comigo, não?! – afirmou Madalena passeando pela cozinha completamente esbaforida. – Daniel! Passa-me o telefone ao teu pai. Ele está aí ao pé? - Está. - Então passa-lhe o telefone agora! Aqueles foram os cinco segundos mais longos de toda a sua vida, mas ainda assim, enquanto esperava por eles, Madalena não desistiu dos intentos em falar com o ex. marido e tentar trazer-lhe à realidade. E essa realidade era a de que ela não queria passar mais nenhum dia estritamente necessário para voltar a estar com os filhos. – Sim – respondeu voz de Jorge com um longo suspiro. - Será que eu ouvi bem aquilo que o Daniel disse ou provavelmente devo ter batido a cabeça nalgum móvel aqui na cozinha?! - Lena, não queiras ser irónica porque isso não faz minimamente o teu estilo. - Por que raios queres levar os meus filhos para Marrocos? - Nossos filhos – corrigiu Jorge refugiando-se na varanda do hotel para que ninguém ouvisse mais uma discussão com a ex. mulher. – A Sara e o Daniel também são os meus filhos, lembraste?! - Tens tanta lata. - Lena, sinceramente não percebo qual é o problema de irmos todos a Marrocos. É mesmo aqui ao pé e vamos de barco.

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- Vamos?! Quer dizer, a minha opinião não importa para nada, não é? Já é um assunto tão resolvido com a tua querida namorada mais inteligente que uma porta que nem sequer te interessa a minha permissão… - Hã, já percebi – riu-se Jorge secamente. - Percebeste o quê? - Estás a morrer de ciúmes. - Eu?! – indagou Madalena levando a mão ao peito. - Sim! Tu. Não suportas a ideia de estarmos todos a divertir-nos enquanto estás aí a secar em Lisboa. - Não sejas ridículo, Jorge. - Pois eu falei com os nossos filhos e eles mostraram-se muito contentes com a ideia de conhecer Marrocos. - Só por cima do meu cadáver. - Cuidado! Olha que milagres acontecem – respondeu Jorge tentando espicaçar a ex. mulher. – Lena, eu só estou a pedir para que sejas razoável. Que mal é que tem? São só mais duas semanas. Além disso, se as crianças voltassem a Lisboa, o que é que iriam fazer para além de ficarem sentados em frente à televisão enquanto tu vais cuidar das tuas flores!? - Impressionante como não perdes uma oportunidade para menosprezar o meu trabalho. - Desculpa – riu-se Jorge. – Mas pensa bem no que te estou a dizer. Conhecer Marrocos é uma oportunidade única que nem todas as crianças conseguem ter. Vá lá! Tu sabes que a Sara e o Daniel iriam adorar… Silêncio foi a resposta de Madalena enquanto ela meditava acerca de proposta do ex. marido. – Então!? O coronel dá-nos licença para abandonarmos o país sem sermos perseguidos na fronteira? - …e quando é que voltavam de Marrocos? - Antes do final do mês. É como te disse! São só mais duas semanas. Ninguém vai morrer por causa disso, nem mesmo tu. Além disso, devias aproveitar essas férias para incrementar a tua vida social e esquecer um pouco o papel de mãe galinha. Aproveita para sair, conhecer novas pessoas. Aposto que te ia fazer muito bem. - E se fosses à merda, Jorge!? - Estás a ver?! Estás a ver como é que falas comigo quando eu… O discurso de Jorge até poderia ter continuado não fosse o ímpeto de Madalena em desligar o telefone e atirá-lo contra o lava-loiça enquanto o seu queixo tremia de raiva e os seus braços se cruzavam numa tentativa desesperada de não partirem qualquer objecto no interior daquela cozinha. Idiota, foi o primeiro nome que lhe apeteceu chamar, embora o telefone tivesse interrompido os seus pensamentos a tempo. Só pode ser ele outra vez. – Tu nem penses que eu… - Hei! Olha que assim me assustas – disse-lhe uma voz suave no outro lado da linha. - Hã… és tu, pai! Desculpa, eu pensei que fosse o… - O Jorge. - Exactamente – respondeu Madalena levando a mão à cintura. – Ainda há pouco estava a falar com ele e nem vais acreditar… - O que foi!? Não me digas que discutiram outra vez?
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- Quase! Descobri que ele quer levar os meus filhos a Marrocos. Achas isto normal? - Será que não há maneira de vocês se entenderem? Pelo menos pelo bem dos vossos filhos. - Quem sabe um dia quando os ponteiros do relógio começarem a girar ao contrário. - A mesma frase da tua mãe – riu-se Afonso Soares quando se recordou de uma das muitas citações da sua falecida esposa. – Já vi que são iguaizinhas. - E tu? Como é que tens andado? - Bem! Infelizmente não me aconteceu nada de emocionante nas últimas duas semanas, mas cá me vou aguentando. - Precisas de alguma coisa? - E achas que só te telefono quando preciso de alguma coisa? - Claro que não – respondeu Madalena encostando-se à bancada. – Apenas perguntei porque me preocupo contigo. - Eu sei, mas já te disse que não precisas preocupar-te. Ainda continuo rijo como um pêro! A voz do pai trouxe algum conforto a Madalena e isso ficou provado pelas inúmeras risadas que ela soltou enquanto falava com ele pelo telefone. De facto, Afonso era o seu porto seguro, a única pessoa com quem podia contar incondicionalmente e também o único homem que nunca teve coragem de a decepcionar em toda a sua vida. Desde que nasceu, tudo o que ele lhe ofereceu foi amor sem cobranças, sem restrições e também a infância que todas as crianças desejavam ter. O único abalo sofrido na relação de ambos aconteceu aquando da morte da sua mãe e do tremendo sofrimento pelo qual o pai foi obrigado a vivenciar durante meses a fio. Leonor Soares era sem sombra de dúvidas o pilar que sempre sustentou a família, e sem ela, as bases estremeceram. - Quando ela morreu eu pensei seriamente em levar o meu pai lá para casa – confessou Madalena. - E porque é que não levaste? – perguntou Alice evidenciando fisicamente que ainda não se havia recuperado da pancada que sofrera na cabeça quatro dias antes. - Na altura, o meu casamento estava insuportável! Depois veio a separação, o divórcio e a sensação de que me tinha que focar nos meus filhos para não os traumatizar. - Eu até acho que os teus filhos reagiram bem à tua separação com o Jorge. - É, talvez… – respondeu Madalena deixando a caneta cair-lhe das mãos. – Mas eu sinto que a Sara guarda rancores, especialmente de mim. - Isso é porque ela não sabe o verdadeiro sacana que o pai dela é! Devias contar a verdade. - Não posso fazer uma coisa dessas. - Porque não?! - Porque não tenho o direito de destruir a imagem que ela tem do pai. - Sabes, às vezes acho que se tu não existisses, terias que ser inventada. - Um clone meu era tudo o que o planeta terra não precisava! - Aí é que te enganas, minha cara – respondeu Alice levantando-se da secretária quando pressentiu a entrada de mais um cliente na loja. – De mais pessoas como tu é que o mundo precisava. Enquanto a melhor amiga atendia um dos inúmeros clientes que habitualmente passavam pela loja, Madalena não deixou de se perguntar se o mundo de facto necessitava de outras pessoas iguais a si, ou se pelo contrário, se mais exemplares seus apenas estragariam um
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planeta já por si mesmo estragado. Na verdade, seria muita presunção sua pensar que fazia falta a quem quer que fosse. Talvez nem fizesse aos filhos já que eles preferiam uma estúpida viagem a Marrocos do que estar consigo. Raios. Teria o ex. marido razão? Será que ela estava realmente a morrer de inveja da felicidade alheia? Ao tentar responder essa pergunta pela vigésima vez, Alice interrompeu-lhe os pensamentos e informou que iria aproveitar a hora de almoço para passar pela farmácia, já que os seus antibióticos contra as dores tinham terminado sem qualquer aviso prévio. – Queres que te traga alguma coisa da rua? – perguntou ela alcançando o casaco no bengaleiro junto à porta. - Não, não precisas preocupar-te – respondeu Madalena analisando a tabela dos fornecedores no seu computador. – Quando voltares eu como qualquer coisa ali no café da esquina. - Está bem então! Vemo-nos daqui a uma hora. - Até já. A porta voltou a fechar-se com algum estrondo, mas nem isso retirou a concentração de Madalena em frente ao computador pois era urgente terminar a tabela dos fornecedores e também os preços dos novos produtos da floricultura. Para isso, ela muniu-se de uma calculadora, dos seus óculos de leitura e também do silêncio que se apoderou da loja enquanto a pouco e pouco as unhas roídas evidenciavam que a hora de almoço estava a passar sem qualquer acontecimento importante. Mas quando o relógio marcou treze horas e vinte e cinco minutos, esse acontecimento entrou pela floricultura adentro trazendo consigo um perfume que rapidamente se entranhou em todos os cantos da loja. Era ele. O fotógrafo. Meu Deus. Como é que a descobriu ali? - Olá – disse Sérgio Almeida retirando as mãos dos bolsos assim que ela se levantou da secretária surpresa por o ver ali. - …olá. - Espero não ter vindo numa má hora. - Claro que não – respondeu Madalena desfazendo-se dos óculos de leitura. – Mas que coincidência vê-lo por aqui! Eu… - Então este é que é o “Mar de Rosas” – murmurou Sérgio lançando os olhos àquele espaço repleto de flores, luz e um encanto fora do normal. – Confesso que é exactamente como eu imaginei que era. - Veio comprar alguma coisa? – saltou essa pergunta estúpida dos lábios de Madalena. - Hã… sim – respondeu ele aproximando-se lentamente dela. – Queria comprar flores para uma pessoa especial. - Que tipo de flores? - Não sei bem! Na verdade, não percebo muito desse assunto, mas acho que você me pode ajudar. - Claro – respondeu Madalena levando-o em direcção à bancada onde estavam depositados os melhores arranjos da loja. – Bem, se não for muita indiscrição minha perguntar, gostaria de saber se pretende oferecer flores a algum familiar, à sua namorada ou até mesmo à sua esposa… - Não, eu não sou casado – riu-se Sérgio. – E as flores são para uma amiga. Quer dizer, ela ainda não é bem uma amiga, mas eu gostaria que fosse.
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- Então nesse caso sugiro estas tulipas brancas. São perfeitas para demonstrar respeito e afectividade a quem quer que seja. - A sério?! - Ou se não gostar de tulipas, posso também mostrar-lhe estas orquídeas. - Hum! Acho que ainda continuo um pouco indeciso. Não quero errar na escolha, percebe?! - Claro! Então diga-me quais são as características dessa sua amiga. Quer dizer, da pessoa que você quer que se torne sua amiga… - Bem… na verdade não a conheço muito bem, mas acho que ela é uma mulher forte, fascinante e com uma personalidade vincada. Parece ser doce também, embora tente não demonstrar essa qualidade logo à primeira, especialmente com pessoas que não conhece. Hum! Vejamos o que mais!? É simpática, claro, e tem um sorriso absolutamente esmagador… - Um sorriso esmagador – murmurou Madalena sabendo perfeitamente que esse sorriso era o seu. - Sim! Quando ela sorri, os olhos dela brilham tanto, mas tanto, que é quase impossível resisti-los. - Bem, pela discrição que me ofereceu, parece-me que você quer que ela seja muito mais do que uma amiga. - Fui assim tão indiscreto? - Um pouco – respondeu Madalena mostrando-lhe um vaso de orquídeas. – Tome! Estas são as flores ideais para essa mulher. - Se o diz, sou obrigado a concordar. As mãos experientes de Madalena conseguiram fazer um embrulho perfeito para o vaso de orquídeas que Sérgio escolheu sob sua orientação, e enquanto elas trabalhavam à velocidade da luz, ele atreveu-se a perguntar: - Já almoçou? - Não – respondeu Madalena rasgando-lhe um sorriso. – Estou à espera que a minha amiga chegue da hora de almoço dela. - Por falar nisso, como é que ela está depois da pancada que levou na cabeça? - O galo desceu – riram-se os dois. – Ela está bem agora. - E… quando ela vier, você vai almoçar nalgum restaurante aqui perto? - Tem um café ali na esquina. Como não estou com muita fome apenas vou comer uma sandes ou algo assim. - Então eu convido-a para almoçar comigo – respondeu Sérgio parando-lhe o movimento das mãos com aquele convite tão inesperado. - Almoçar consigo? - Sim. Porque não!? - Bem, é que… - Eu ainda tenho que fazer umas compras de um material fotográfico aqui por perto, mas devo estar despachado em menos de uma hora. O que é que me diz? Um almoço e escolhe você o restaurante. A proposta não poderia ser mais tentadora, assim como o sorriso que ele lhe ofereceu em seguida, mas Madalena sabia que se aceitasse aquela proposta irrecusável nada mais seria como antes, pois cada minuto que passava ao lado de Sérgio era uma eternidade difícil de
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aguentar. Tudo nele gritava perigo, excitação e novidade. Mas será que valia a pena enfrentar todos esses perigos? Diante de mais um sorriso que ele lhe ofereceu, ela teve a certeza que sim. – Posso escolher o restaurante? - Claro que sim – respondeu Sérgio recebendo-lhe o embrulho de orquídeas das mãos. - Então está bem! Encontramo-nos daqui a uma hora no restaurante no final desta avenida. Chama-se “Luminosa” e as portas são de madeira. - Acho que já sei qual é. - O único problema é que não me posso demorar muito. - Não faz mal! Eu também não. Sem mais palavras para lhe dizer e depois de ter aceitado o pagamento das flores, Madalena acompanhou o seu único cliente em direcção à porta desejando que os próximos sessenta minutos passassem o mais depressa possível. – Encontramo-nos daqui a uma hora então – ele disse. - Daqui a uma hora – respondeu ela mantendo a porta entreaberta. - Obrigado pela ajuda! Sem si não saberia como escolher as flores. - Tenho a certeza que a sua amiga irá gostar muitíssimo delas. - Ela ainda não é minha amiga, lembra-se?! - Depois destas flores, tenho a certeza que irá querer ser. Tal como o esperado, os sessenta minutos seguintes passaram lentamente, e para ajudar à festa, mais uma vez Alice atrasou-me. – Até logo – foram as últimas palavras de Madalena antes de abandonar a floricultura a uma velocidade fantasmagórica e atravessar a rua sem sequer olhar para trás. Depois disso, seguiu-se uma caminhada interminável pela avenida e a certeza que a sua pressa para almoçar prendia-se com tudo menos com a fome que disse estar a sentir à melhor amiga. Será que Sérgio já se encontrava no interior do restaurante? Será que ele tinha sido pontual e cavalheiro o suficiente para não a deixar à espera? Claro que sim, e ela pôde ter essa certeza quando o viu instalado numa mesa próxima à janela. O olhar perdido enquanto falava ao telemóvel ainda a fizeram hesitar em aproximar-se, mas quando os seus olhares se cruzaram, Madalena sentiu que não havia outra escapatória a não ser caminhar em direcção à mesa e forçar-lhe um pequeno sorriso, algo que foi imediatamente correspondido. – Espero não ter interrompido nenhuma conversa importante – disse ela quando Sérgio desligou a chamada e poisou o telemóvel sobre a mesa. - Não, claro que não! Coisas relacionadas com o trabalho. - Ainda bem. - Estava a combinar fazer uma sessão fotográfica com uma modelo e ela telefonou-me para saber se a sessão ainda continuava de pé. - E continua? - Claro! Normalmente não costumo voltar atrás quando dou a minha palavra. - É bom saber isso. - Tome! São para si – disse Sérgio entregando-lhe o ramo de orquídeas assim que ela se sentou à mesa. – A dona da floricultura disse-me que essas eram as flores ideais para oferecer a uma amiga especial e eu confiei nela! Espero que não se tenha enganado. - É claro que ela não se enganou – respondeu Madalena recebendo o arranjo com um doce sorriso. – Obrigada.
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- Não tem de quê! Bem… quer beber alguma coisa? - Um sumo de manga, por favor. - Então eu também vou tomar o mesmo. O almoço entre os dois desconhecidos revelou-se mais agradável do que se poderia esperar quando a refeição foi trazida à mesa por um dos empregados do restaurante e a conversa amena os embalou durante vários minutos. Foi também a primeira vez que Madalena se sentiu absolutamente à vontade na companhia de um homem do qual não sabia muito mais que o nome ou a profissão, e enquanto conversava com ele e se deixava perder pela sua sensualidade casual, os ponteiros do relógio pararam no tempo. – Digame… - pediu Sérgio. – Há quanto tempo tem a sua floricultura? - Na verdade, a floricultura era da minha mãe e já existia há muitos anos, até mesmo antes de eu nascer … - Então com certeza não existia há tantos anos assim. - Obrigada pelo elogio – riram-se os dois. – Mas a loja tem realmente muitos anos. Quase quarenta e cinco. - Deve ser uma autêntica mina de ouro, não?! - Sim, eu acho que é! Pelo menos para mim – respondeu Madalena compondo os cabelos soltos. – Tem um significado especial porque pertenceu à minha mãe e é uma das poucas lembranças que ainda tenho dela. - Morreu?! - Sim. Há seis anos atrás. - E você ficou à frente do negócio? - Digamos que sim. Quer dizer, a loja está no nome do meu pai, mas sou eu quem dirige aquilo tudo. É quase como se fosse uma sociedade. Eu tenho quarenta e cinco por cento, ele tem cinquenta e a minha amiga, a Alice… - A que ficou com um galo na testa. - Exactamente – riram-se novamente. – Ela tem cinco por cento. - Confesso que fiquei encantado com o local e também com o nome. “Um mar de Rosas”. Foi a sua mãe que escolheu? - Sim. Eram as flores que ela mais gostava. - E você?! Quais são as flores que mais gosta? - …muitas – respondeu Madalena deixando-se encantar por aquela conversa tão amena e agradável. – Mas talvez orquídeas. - Já estava à espera dessa resposta – disse Sérgio forçando um sorriso. - Pouco original da minha parte, eu sei. Pela primeira vez desde há anos, Madalena regressou a casa com um sorriso nos lábios e nem sequer se importou com o facto de não ter os filhos consigo, e pela primeira vez também desde há anos, ela caiu no sofá como uma pluma deixando para trás a mala, os sapatos e o casaco de malha. Impressionante como se estava a sentir tão bem, pensou. Tão livre e ciente de que a vida lhe tinha voltado a sorrir após tantas tristezas. Impressionante também era o facto de saber que em menos de vinte e quatro horas todo o peso que sentia sobre os ombros desapareceu sem deixar rastro deixando apenas uma estranha sensação de doçura nos lábios. Seria normal sentir-se assim só por causa de um almoço informal com um fotógrafo do qual não conhecia muito mais que o nome?
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Não, de facto não era, mas talvez o jantar que tinha combinado com Sérgio no Sábado seguinte fosse a razão primordial para aquela alegria tão espontânea. – Comprei-te algumas coisas – disse Madalena abrindo a porta do frigorífico quando o pai a visitou a poucas horas do seu encontro com Sérgio Almeida. – Ponho-te tudo num saco para levares. - Não precisavas preocupar-te com isso! Já te disse que me arranjo. - Estou-te a achar muito magro! Tens a certeza que te estás a alimentar como deve ser? - Estou-me a alimentar muito bem se queres que te diga – respondeu Afonso acendendo um cigarro junto à janela. - De cigarros já estou a ver. - E existe algum alimento melhor? - Não brinques com coisas sérias – afirmou Madalena colocando as compras do supermercado em dois grandes sacos. – Já te disse várias vezes que devias deixar de fumar, especialmente por causa da tua idade. - Só tenho sessenta e oito e tratas-me como se já tivesse passado dos oitenta. - Não, muito pelo contrário! Eu trato-te como trato o Daniel porque psicologicamente ainda nem chegaste aos dez. - Está bem, está bem – riu-se Afonso enquanto levava o cigarro à boca. – Por falar nos miúdos, como é que eles estão lá de férias com o pai? - Estão bem, eu acho! Falei com eles ontem à noite e ainda estavam no Algarve. Só na segunda-feira é que vão para Marrocos. - Fizeste bem em deixá-los ir com o Jorge. - Sinceramente não sei – respondeu Madalena fechando a porta do frigorífico com força. - Afinal de contas eles também precisam do pai. - Impressão minha ou tu ainda continuas a adorar o Jorge apesar de saberes que ele é um idiota de todo o tamanho?! - Ele não é um idiota! - Ai não?! Pois deixa-me que te diga que se fosse só por causa do teu querido ex. genro, a uma altura dessas a tua filha ainda estaria presa por um crime cometido por ele. - Também não foi assim. - Sim, realmente a minha estadia na esquadra foi apenas uma imaginação da minha cabeça. - O Jorge é uma boa pessoa – afirmou Afonso cerrando os olhos quando o fumo do tabaco lhe atravessou os olhos. – Claro que tem defeitos, mas quem não tem, não é?! - É! Quem não tem – disse Madalena num tom debochado. - Só que ele sempre foi prestativo para mim e para a tua mãe e também sempre foi um bom genro. É por isso que não tenho queixas dele, e se queres que te diga, por mim vocês ainda continuavam casados. - O quê?! - Acho que foste demasiado precipitada em pedir o divórcio. - Não, tu só podes ter bebido antes de cá vir – afirmou Madalena fechando as alças dos sacos de compras. - Tu sabes que eu não bebo a não ser em ocasiões especiais. Uma risada foi a resposta de Madalena, e depois disso ela sentiu-se tentada a revelar algo muito importante ao pai. Na verdade, não precisou de muitos rodeios até porque Afonso era o seu grande conselheiro e também uma das poucas pessoas a quem se sentia
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totalmente segura para contar todos os segredos que rodeavam a sua vida. – Sabes de uma coisa?! - O quê? - Hoje tenho um jantar. - Com a Alice? - Claro que não – respondeu Madalena fulminando o pai com os olhos. – Com um homem. - Homem!? Que homem? - É uma história comprida que talvez um dia te venha a contar. Mas por agora a única coisa que precisas saber é que vou jantar fora com uma pessoa muito simpática e interessante, tudo o que o Jorge não é e nem nunca foi. - Hum! Não estou a gostar nem um pouco dessa história. - Por isso, aqui tens a tuas compras da semana! Leva-as e deixa-me preparar para o meu grande jantar. - E aonde é que vai ser esse tal grande jantar? - Ainda não sei! Ele ficou de escolher o restaurante. - Vê lá o que é que fazes, minha menina – afirmou Afonso puxando-lhe o nariz tal como fazia quando ela era pequena. – Juízo! - Vou tentar. Ao olhar-se no espelho da casa de banho depois de escolhido um dos primeiros vestidos que lhe passou pelas mãos, Madalena chegou à conclusão que aquela realmente não era a melhor opção para si e nem para a noite que prometia ser bastante especial tendo em conta a sua companhia. Por isso, sem hesitações, ela voltou a abrir as portas do roupeiro e encontrou um novo vestido, branco, cintado e perfeito para uma mulher que não saía para jantar fora há pelo menos seis meses. De resto, os cabelos e a maquilhagem primaram pela simplicidade, assim como os brincos que fez questão de colocar à frente do espelho do corredor. Foi nessa altura que a campainha tocou e lhe provocou um pequeno sobressalto. Chegou. Ele chegou e já não havia mais nada a fazer a não ser abrir a porta e permitir-lhe a entrada. Um novo retoque nos cabelos, no decote do vestido e ela sentiu-se pronta a encarar o rosto de Sérgio Almeida. – Olá! - Olá – respondeu ele desarmando-a com o seu sorriso. Trajado com umas simples calças de ganga e uma camisola preta, Sérgio exalava uma simplicidade fora do normal. De resto, uma simplicidade bastante apreciada por Madalena. - Entra – disse ela. - Dás-me licença? - Claro. Sérgio aceitou o convite com um sorriso e não tardou a chegar à sala onde a arrumação, os móveis sofisticados, os tapetes e cortinados claros eram a palavra de ordem na nova decoração que Madalena fez questão de produzir após o seu divórcio. E sim. Dos antigos móveis comprados pelo ex. marido não restou absolutamente nada ou qualquer réstia da sua presença. – Tens aqui um belo património – confessou Sérgio enterrando as mãos nos bolsos das calças. - Obrigada. - Estes são os teus filhos? – perguntou ele alcançando um porta-retratos sobre a mesinha. Nele encontrava-se uma fotografia de Sara e Daniel.
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- Sim. - São bastante parecidos contigo. - Obrigada! Quer dizer, partindo do pressuposto que seja um elogio… - É claro que é um elogio – riram-se os dois. A resposta de Sérgio trouxe um novo olhar e também um sorriso que Madalena fez questão de lhe oferecer enquanto se perdia na magnitude daquele momento. – Talvez seja melhor irmos andando antes que se faça mais tarde – disse ela tentando esconder o nervosismo. - Claro! Vamos. O restaurante escolhido por Sérgio era simples, casual e encontrava-se situado numa das ruas mais movimentadas da cidade. No seu interior, havia uma quantidade exorbitante de clientes, mas a verdade é que nem o barulho das pessoas, da televisão ou das cadeiras a arrastar conseguiram desviar a atenção de Madalena e Sérgio, que submersos numa conversa amena, continuaram a degustar a refeição escolhida e o vinho especialmente indicado por um dos empregados do restaurante. Dela, ele tudo queria saber, e dele, ela fez questão de dissecar todos os detalhes. Soube que ele morava num pequeno apartamento nos arredores de Lisboa, nunca fora casado, filhos não teve, ou pelo menos nenhum que soubesse, e passava a maior parte dos dias enfiado no estúdio de fotografia que abrira com a ajuda de um amigo muito especial. Para além disso, era órfão desde os dois anos e o único familiar vivo que lhe restava era um avô que morava no Alentejo e que ele fazia questão de visitar sempre que podia. – Fico feliz por saber que o teu avô cuidou de ti durante esse tempo todo – confessou Madalena poisando o guardanapo sobre o colo. - Só fomos obrigados a separarmo-nos quando eu vim para Lisboa fazer o curso de fotografia. - E vocês vêem-se com muita frequência? - Não tanto quanto gostaria, mas sempre que tenho algum tempo faço questão de aparecer por lá – respondeu Sérgio poisando os braços sobre a mesa após o término do jantar. – Ele mora numa pequena casinha toda pintada de azul e branco. É uma casa simples, aliás, muito simples, e ele até tem dinheiro para comprar uma melhor, mas o problema é ser demasiado apegado às lembranças do passado, especialmente às lembranças da minha avó e da minha mãe. Diz que jamais seria capaz de sair de uma casa onde a mulher deu à luz a filha. - Uau – exclamou Madalena compondo os cabelos no meio de um sorriso. – É realmente muito querido da parte dele. - Quem sabe um dia não te levo lá. - Eu?! - Sim! Porque não? - Bem, confesso que me apanhaste de surpresa. - Tenho a certeza que irias gostar da vila – afirmou Sérgio não se deixando distrair por mais nada naquele restaurante a não ser pelo sorriso dela. – Sempre que me sinto cansado do trabalho e quero descansar um pouco, fujo para lá e passo os dias a pescar com o meu avô. - Parece ser um programa interessante.
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- Podes acreditar que é! E quando voltamos da pescaria com… um peixe e meio nos baldes… – Madalena não resistiu a soltar uma ruidosa gargalhada. - …vamos para o quintal e assamos o nosso jantar. - Eu gostaria muito de conhecer o teu avô. Ele parece ser igual ao meu pai. - A sério?! - O meu pai também é o meu melhor amigo. Acho que não conseguiria imaginar a minha vida sem ele. - Tens ar de menina do papá. - E sou – riu-se ela alegremente. – Sou mesmo! Confesso que sempre fui muito mimada pelos meus pais, especialmente pelo meu pai, até por ser filha única e essas coisas todas, mas ele sempre me deu todo o carinho do mundo. - Deve ter sido muito difícil quando a tua mãe morreu, não?! - Uff – suspirou Madalena largando os ombros. – Foi a pior fase da minha vida. - Ela morreu do quê?! – perguntou Sérgio com alguma cautela. - Teve um ataque cardíaco repentino. Na verdade, ninguém estava à espera que aquilo acontecesse, até porque ela sempre foi uma mulher saudável, cheia de energia, mas… tal como te disse, foi repentino. - Sinto muito. - Eu também – respondeu Madalena tentando esconder a tristeza que lhe assombrou o rosto. – Mas pelo menos ainda me resta o meu pai, não é?! - E os teus filhos. - Sim, os meus filhos também. - Como é que se chamam? - A mais velha chama-se Sara e tem quinze anos e o rapaz chama-se Daniel e tem dez. - Um casal! Perfeito – sorriu Sérgio levando a mão ao queixo. - Eu também acho. Nesse aspecto tive muita sorte. - E… se não for muita indiscrição minha perguntar… és casada? A pergunta de Sérgio não a tomou de assalto e tudo porque Madalena já esperava que mais cedo ou mais tarde ele a fosse fazer. Sim. De facto, era só uma questão de tempo e sentido de oportunidade e ele soube aproveitar essa oportunidade na perfeição. Deu tempo para que se conhecessem, para que conversassem sobre assuntos triviais e também para que ela se sentisse suficientemente confortável para tocar naquele assunto tão delicado e pessoal. - …não! Sou divorciada. - Óptimo! A seguir ao golo que o Benfica marcou há bocado, essa foi a melhor notícia da noite – disse ele arrancando-lhe uma gargalhada ruidosa. Foi com uma música bem conhecida a tocar no rádio que Sérgio levou Madalena a casa. Nessa altura, o relógio assinalou vinte e três horas e quarenta e cinco minutos, o tempo propício para que a noite pudesse ser encerrada e para que ela absorvesse as luzes da cidade que teimavam em invadir-lhes o carro. De facto, a noite tinha sido maravilhosa em todos os aspectos, e pela primeira vez desde há muito, o seu único desejo era que ela se prolongasse por mais algumas horas. – Entregue – disse Sérgio quando Madalena abriu o portão de casa. - Obrigada! Aliás, obrigada por tudo. - Espero que tenhas gostado do jantar.
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- Gostei imenso. - Será que… - ele hesitou. - …podemos repetir um dia destes? - O quê!? O jantar? - Um jantar, um almoço ou até mesmo um café. Qualquer coisa! - Por mim tudo bem. - Ligo-te ainda esta semana. Pode ser?! - Pode – respondeu Madalena sentindo-se como uma verdadeira adolescente quando ele se debruçou e a beijou na face. - Boa noite! Dorme bem. - Tu também. Ao vê-lo a desaparecer pelos portões e a enfiar-se no carro estacionado a poucos metros da sua casa, Madalena sorriu e levou a mão ao peito numa tentativa desesperada de manter o coração ali dentro. Ele que estava a bater acelerado, descompassado e tudo por causa de Sérgio que sem querer acabou por o trazer de volta à vida. Cinco dias foi o tempo que Madalena teve que esperar para voltar a ter notícias de Sérgio, isto para não falar das inúmeras vezes que lançou os olhos ao telemóvel ansiando uma mensagem de texto ou até mesmo um toque que lhe trouxesse um sinal da existência do fotógrafo. Na floricultura, enquanto atendia algum cliente, muitas eram as vezes em que se dava consigo a olhar para o visor. Durante a condução para casa, deixava o aparelho sobre a caixa de velocidades e quase tinha acidentes quando os seus olhos saíam da estrada. E em casa, qualquer ruído era suficiente para que pensasse que era o telefone a tocar. Mas nada. Nenhuma chamada importante a não ser a dos filhos para contar as maravilhas que estavam a viver em Marrocos. Após mais um dia exaustivo de trabalho onde foi obrigada a levar vários caixotes pesados ao armazém ao lado de Alice e do motorista que trouxera as encomendas dos fornecedores, Madalena deu-se por vencida e fechou a loja mais cedo do que o habitual. Depois disso, despediu-se da melhor amiga e caminhou apressada em direcção ao carro ansiando chegar a casa, tomar um banho, comer alguma refeição ligeira e cair na cama sem pensar em mais nada a não ser no dia seguinte. Mas teriam os seus planos algum tipo de fundamento? Ao ouvir o telemóvel tocar no bolso do casaco e mais tarde o nome da pessoa que a estava a telefonar, um sorriso atravessou-lhe os lábios e fê-la recuar nos seus intentos de um banho, uma refeição em casa e uma cama vazia. – Será que liguei numa má hora? – perguntou Sérgio com uma voz absolutamente irresistível. - Não! Claro que não – respondeu Madalena moderando os passos ao longo da avenida. - Sei que é meio em cima da hora, mas estava a pensar em convidar-te para sair hoje à noite. - Sair para onde? - Para dançar – respondeu ele. - Dançar?! - Sim! Bairro Alto. O que é que te parece? - Tu sabes há quanto tempo eu não vou ao Bairro Alto!? - Semanas? Meses? Anos?

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- Décadas – respondeu ela arrancando-lhe uma leve gargalhada. – Antes de a minha filha ter nascido. - Pois hoje vamos dançar e eu não aceito um não como resposta. - Sérgio, eu não sei … - Disseste-me que os teus filhos estavam a passar férias com o teu ex. marido, por isso não tens desculpas. Eu quero dançar e quero dançar contigo! Não aceito outra companhia… Era uma loucura, Madalena sabia-o, mas ainda assim houve algo na voz de Sérgio que a fez hesitar e querer seguir em frente com aquela loucura tão deliciosa. – A que horas? - Vou-te buscar assim que sair do estúdio. Por volta das dez e meia! Pode ser? - Pode – respondeu ela abrindo as portas do carro. – Mas só espero não dormir antes de chegares. - Prometo que não me vou demorar muito. - Então está bem! Fico à espera. - Prepara-te! - Não te preocupes porque eu vou estar mais do que preparada. Quando se viu no interior de um dos bares mais requisitados do Bairro Alto, Madalena foi obrigada a respirar fundo e a assimilar tudo aquilo que lhe estava a acontecer. Sim. De facto, havia décadas que não pisava um local daqueles, um local repleto de gente jovem, fumo de cigarros, outras drogas ilegais, mesas e cadeiras degradadas e a música rock a ecoar-lhe nos ouvidos como se fossem verdadeiras bombas atiradas lá para os lados do Iraque. – Estás bem? – perguntou Sérgio percebendo-lhe o desconforto patente nos olhos. - Estou, mas… - Mas o quê?! - Tal como te disse, não estou muito habituada a este tipo de ambientes. - Podemos ir embora se quiseres. - Não – adiantou-se ela tocando-lhe no peito sem querer. – Não é nada disso. - Podemos procurar um outro bar menos movimentado! Existem muitos por aqui. - Eu não queria que… - Até acho que isto está cheio demais! Nem sequer têm mesas vazias e iríamos acabar por ter que ficar no balcão. Vamos para um outro bar aqui ao pé. Havemos de encontrar algum que seja mais interessante. - Está bem – respondeu Madalena sentindo-se aliviada quando abandonou aquele bar propício para mulheres que ainda não haviam passado dos vinte e que desejavam urgentemente engatar o primeiro homem que lhes aparecesse pela frente. De resto, o facto de se ter esbarrado com uma dessas mulheres à saída apenas veio a cimentar as suas convicções. Não. Aquele realmente não era o local ideal para si. – E este? – perguntou Sérgio quando entraram num bar completamente diferente do anterior. - Este é perfeito – respondeu Madalena voltando-se para ele com um sorriso radiante. A perfeição do recinto ficou marcada pela sua decoração tipicamente tradicional, pelas mesas e cadeiras sofisticadas e por um ambiente muito menos explosivo. Apesar de ser frequentado por pessoas mais velhas, Madalena sentiu-se no seu verdadeiro habitat quando Sérgio a ajudou a sentar-se numa das poucas mesas vazias e caminhou em direcção ao balcão pronto a pedir as primeiras bebidas da noite. Uma Cosmopolitan para ela e um whisky para si. – Toma – disse ele voltando à mesa alguns minutos mais tarde.
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- Obrigada. - Confesso que nunca tinha entrado neste bar e olha que já frequento o Bairro Alto há anos. - É um pouco escondido, não é?! - Sim! Mas eu gostei imenso. Pelo menos dá para conversar sem termos que berrar aos ouvidos um do outro. - Lá isso é verdade – riu-se Madalena enquanto bebia o primeiro gole da sua Cosmopolitan. - Então conta-me lá como é que foi o teu dia. - Foi normal! Absolutamente normal. - Mas mesmo assim eu quero saber. Quero saber tudo o que te aconteceu desde que saíste da cama até à hora que te telefonei a marcar este encontro – respondeu Sérgio não tirando os olhos dela um só segundo. E quando o fez, Madalena sentiu-se nua. Literalmente nua, não tendo outro remédio a não ser contar as pequenas tarefas que realizou durante o dia. Abrir a sua floricultura, atender clientes, telefonar a fornecedores, pagar algumas contas, almoçar, atender novos clientes, receber as encomendas da carrinha que dia sim, dia não lhe surgia à frente da porta da loja, e por fim, encerrar o expediente com a nítida certeza que faria exactamente a mesma coisa no dia seguinte. – A minha vida é uma seca, podes dizer – concluiu ela entre risos. - Claro que não! Adorei saber tudo o que fazes. - És um cavalheiro e é por isso que não dizes a verdade. - Para mim só o facto de saber que respiras já é o suficiente para achar a tua vida fascinante… - respondeu ele encontrando-lhe o pulso sobre a mesa. – Queres dançar? - Agora?! - Sim! Está a passar uma música que eu gosto muito e que não quero desperdiçá-la de maneira nenhuma. O sorriso de Sérgio convenceu Madalena a oferecer-lhe a mão e a seguir com ele em direcção à pista de dança, onde por sorte ou não, já se encontravam outras pessoas a dançar “At Last” da cantora norte-americana Etta James. Uma música absolutamente irresistível, segundo as palavras do fotógrafo – Esta música é do meu tempo, sabias!? – disse Madalena quando se viu envolvida numa balada verdadeiramente romântica. - Não existem músicas do nosso tempo! Existem músicas intemporais e esta é uma delas. - Tens razão. Sem mais palavras para lhe dizer, Sérgio encostou Madalena contra si e permitiu que ela fechasse os olhos sem se importar com as pessoas à sua volta ou com o adiantado das horas. Ali, naquele bar tão acolhedor e destinado a seres humanos acima dos trinta, tudo deixou de ter importância quando as mãos dele percorreram-lhe as costas e se enterraram nos seus cabelos soltos. Um arrepio na espinha foi o que Madalena sentiu, e depois disso, encostou a cabeça nos ombros de Sérgio deixando-se levar pelo momento mais especial da noite. – Danço muito mal, não danço? – perguntou ela voltando a encarar-lhe o rosto. - Nem por isso – respondeu ele fazendo-a girar sobre os pés. – Para mim danças perfeitamente. - Tu também não ficas atrás. - Obrigado pelo elogio. - Aonde é que aprendeste?
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- Confesso que não aprendi em lado nenhum – respondeu ele arrancando-lhe uma leve gargalhada. – Digamos que é um talento natural. - Uau! Não és nem um pouco convencido. - E tu? Aonde é que aprendeste a dançar assim? - Eu costumava praticar ballet quando era mais nova – respondeu ela envolvendo-lhe os braços à volta do pescoço. – Talvez tenha aprendido aí, não sei… - Então quer dizer que tenho aqui nas minhas mãos uma verdadeira bailarina!? Madalena sorriu. – E querias-me convencer que não sabias dançar? Aposto que só estás a dizer isso para não me fazer sentir mal. - Claro que não – respondeu ela não contendo os risos. - Diz! Podes confessar. Perto de ti sou um verdadeiro aprendiz, não sou?! - Já disse que danças muito bem. - Só acredito se me disseres isso ao ouvido. Naquele momento, Madalena não pensou duas vezes em acatar-lhe o pedido, até porque a dança tinha conseguido um feito inédito. O feito de livrá-la de todas e quaisquer inibições relativamente à sua idade, ao seu estado civil e também ao seu desejo de aventurar-se nos ouvidos de um homem que mal conhecia. – Danças muito bem – sussurrou ela. Três horas e vinte e cinco minutos foi a hora que Madalena abriu os portões da sua casa após uma noite maravilhosa passada ao lado de Sérgio. Ambos, um pouco embriagados, quanto a isso não havia dúvidas, ainda continuavam a cantar um dos temas mais marcantes do serão, e mesmo ela tendo tentado desviar-se dos braços dele à volta da sua cintura, a verdade é que foi completamente impossível resistir-lhe à voz rouca e desafinada nos ouvidos. – És louco – riu-se ela quando Sérgio lhe caiu sobre os ombros. - Não acreditas nas minhas palavras? - Não são as tuas palavras. É a letra de uma música. - Não! São as minhas palavras e eu estou a cantá-las para ti… - É melhor ires – respondeu ela tentando resistir àqueles olhos verdes. - Isso quer dizer que a nossa noite terminou? - Eu acho que sim. - Que pena – respondeu Sérgio arrancando-lhe um novo sorriso. – Por mim continuava a dançar contigo até de manhã. - Já é quase de manhã e eu acordo cedo. Quer dizer, acho que nem sequer me vou deitar porque… - Posso beijar-te?! – interrompeu ele. - O quê?! - Estou-te a perguntar se te posso beijar. A mão levada ao peito e o virar do rosto em direcção ao quintal do vizinho foram alguns dos indícios que fizeram antever a resposta de Madalena, mas ainda assim, Sérgio não tinha todo o tempo do mundo para esperar por ela. Não tinha e nem queria sair daquele jardim sem fazer algo pelo qual havia ansiado desde o início da noite. Beijá-la. Beijá-la não uma, não duas, mas sim inúmeras vezes até conseguir saciar o desejo e a vontade de tê-la só para si. Por isso, pé ante pé, ele aproximou-se dela e tomou-a nos braços com um beijo absolutamente esmagador, enquanto Madalena, ainda surpresa pela audácia dele, manteve-se de olhos abertos numa tentativa desesperada de convencer-se que nada daquilo
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estava a acontecer. É um sonho, pensou. Um sonho do qual vou acordar daqui a cinco segundos e não me vou lembrar de absolutamente nada. – Pára – pediu ela desesperadamente. – A sério! Pára…! - Desculpa – disse ele. – Exagerei?! - Um pouco. - Fiz mal?! - Não – adiantou-se ela. – Quer dizer… sim! - Sim ou não?! - Talvez – riram-se os dois, baixinho. – Eu sei que devo parecer ridícula… - Não, claro que não. - Uma mulher divorciada, mãe de dois filhos adolescentes… - O que é que queres dizer com isso? – perguntou Sérgio, intrigado. - Que se calhar com a minha idade eu não deveria reagir tão mal por causa de um beijo. Sérgio sorriu. – O que foi? - Já reparaste que passas a vida a falar da tua idade? - Eu?! - Sim – respondeu ele desarmando-a novamente com o seu olhar. – Estás sempre a insinuar que és muito mais velha que eu, que és divorciada e que tens dois filhos adolescentes… - Só estou a constatar um facto. - Pois bem! Então deixa-me que te diga que não é esse facto que me vai fazer afastar de ti. - Sérgio… – murmurou ela. - Diz! - O que é que tu queres de mim? - A pergunta é: o que é que tu queres que eu queira de ti? Ao ver-se metida num verdadeiro dilema, Madalena sorriu e não evitou pensar que deveria estar em todos os lugares menos ali. Deveria estar na cama há horas, deveria estar a pensar nos filhos e também na floricultura que teria que reabrir de manhã…, enfim! Deveria estar a pensar em tudo aquilo, mas a verdade é que não estava. Estava antes diante de um dos homens mais fascinantes que lhe haviam atravessado o caminho e a sua única vontade era voltar a enterrar-se na boca dele e sugar-lhe todo o sabor que ele a fizera provar momentos antes. E não é que foi isso que fez? Sem pensar nas consequências, ela puxou Sérgio contra si e realizou todos os desejos que manteve escondidos durante a noite. Voltou a beijá-lo e pela primeira em toda a sua vida tomou a iniciativa de se atirar para os braços de um homem que não o seu marido. - Queres entrar? - Na tua casa? - Também, mas não só… – respondeu ela arrancando-lhe uma ruidosa gargalhada. Submersos em beijos, abraços e tropeções, Madalena e Sérgio entraram pela casa adentro sem se importarem com mais nada. Nem sequer com o tapete do corredor que quase os fez escorregar junto ao bengaleiro. E foi ali, no meio de uma escuridão avassaladora, que Madalena se deixou encostar à parede permitindo que Sérgio a livrasse do vestido que ela utilizou para o fascinar durante toda a noite. Como sonhou descobrir o que estava por debaixo dele, foram os pensamentos do fotógrafo quando o tecido caiu ao chão. – Isto é de doidos… - suspirou Madalena sentindo-se prestes a cair num abismo.
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- O quê?! – perguntou Sérgio devorando-lhe o pescoço. - Eu nunca fiz isto. - Isto, o quê? - Ir para a cama com um homem que mal conheço – respondeu Madalena soltando um outro suspiro quando ele mordiscou a sua orelha direita. – Ai, meu Deus! Não faças isso… Quando os primeiros raios de sol se impuseram nas janelas e demonstraram que era altura de voltar à realidade, Sérgio e Madalena despediram-se à porta de casa com um longo beijo e com a promessa de tornarem a reencontrar-se assim que possível. De resto, as horas de prazer que passaram juntos não deixaram outra alternativa. Precisavam ver-se, precisavam sentir-se e precisavam urgentemente ter-se um ao outro sem pensar nas consequências que aquele caso poderia trazer às suas vidas. – Adorei … - confessou Sérgio. - Eu também. - Adorei cada minuto, cada segundo… - Cada milésimo de segundo – riu-se Madalena ainda colada aos lábios dele. - Quero repetir tudo outra vez! - Nós vamos repetir tudo outra vez. - Prometes?! - Prometo. - Então eu vou – disse ele beijando-a novamente. – E assim que puder eu ligo-te. - Ligas hoje? - Ligo. - Então se for assim eu deixo-te ir. - Tchau! - Tchau… - respondeu Madalena permitindo que Sérgio se afastasse com um largo sorriso e encontrasse o carro estacionado a poucos metros da sua casa. Depois disso, ela voltou a fechar a porta e deixou que uma onda de histeria lhe invadisse o corpo em forma de gritos, esperneios e uma dança absolutamente ridícula ao longo do corredor. Contudo, na altura, nada disso importou. Não lhe importou a sua triste figura enquanto subia as escadas pois tudo o que ela queria era continuar a sentir os lábios de Sérgio, os braços musculados que ele tinha e a forma como se deixou entregar a ele durante horas a fio. Como é que poderia dormir se nada daquilo lhe saía da cabeça? Aliás, como poderia sequer pensar em trabalhar quando a sua única vontade era continuar ali deitada para sempre de olhos postos no tecto? Ou estariam antes postos no céu? De facto, não sabia. - Aleluia – foi a reacção de Alice na manhã seguinte quando Madalena lhe contou todos os detalhes que rodearam a sua noite com o Sérgio. - Nunca pensei que pudesse acontecer tão rápido. - Nem eu! Confesso que até já tinha perdido esperanças que ele te voltasse a ligar. - Disse que tinha tido muito trabalho durante a semana e que por isso não teve tempo para me ligar antes – respondeu Madalena levando a mão ao queixo. – Achas que deva acreditar? - Claro que sim. Ele não tinha razões para te mentir. - Bem, mas realmente não é isso que importa! O que importa é que ontem saímos para dançar, passámos uma noite fantástica e … eu fiz sexo – exclamou Madalena arrancando

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vários pulos de alegria por parte da sua melhor amiga. – Acreditas nisto?! Eu fiz sexo! Fiz sexo. Sexo… - Estou tão contente como se tivesse acontecido comigo. - Acho que se morresse hoje, morria feliz. - Não – afirmou Alice sentando-se à frente dela. – Tu não podes morrer nunca, será que não percebes?! Tu és a prova viva que uma mulher acima dos quarenta, divorciada e com filhos consegue arranjar um homem que se interesse por ela. E que homem, minha amiga! Que homem! - Eu sei – riram-se alegremente. Os dias que se seguiram não trouxeram nada de novo a não ser os encontros fortuitos de Madalena e Sérgio ao final da tarde que muitas vezes culminavam com um jantar e uma noite de prazer na casa dela. E assim, a pouco e pouco, a carta de alforria que ela havia conseguido quando os filhos partiram de viagem foi-se esgotando no prazo de validade. Faltavam apenas vinte e quatro horas para que Sara e Daniel regressassem de Marrocos e para que a vida de Madalena retomasse o curso habitual. Acordar cedo, preparar os filhos para a escola, abrir a floricultura, sair a tempo de buscar o filho mais novo ao colégio e voltar para casa onde a preparação do jantar era a palavra de ordem. Contudo, a simples ideia de que as coisas voltassem a ser o que eram antes, provocava-lhe um verdadeiro ataque de histeria, principalmente por saber que não teria tanto tempo para estar com Sérgio e muito menos a possibilidade de o levar para a sua casa e fazer amor com ele no corredor, no sofá e no quarto. Não. Diante da chegada dos filhos, tudo isso faria parte do passado, ou pelo menos escondido até que tivesse coragem de lhes contar que a mãe finalmente havia encontrado alguém para lhe aquecer os pés nas noites frias de Inverno e para lhe destapar os lençóis nas noites quentes de Verão. Naquela sexta-feira, após um dia cansativo na floricultura, Madalena aceitou o convite de Sérgio para conhecer pela primeira vez o estúdio fotográfico que ele dirigia. Na verdade, era uma proposta irrecusável e ela aceitou-a sem pestanejar já que os filhos só chegariam a Lisboa no Sábado de manhã repletos de histórias para contar e presentes que juraram ter adquirido para si. Com o endereço nas mãos, não foi muito difícil para Madalena encontrar o estúdio de Sérgio que ficava exactamente situado num dos pontos mais movimentados da cidade. A Rua do Carmo. Uma rua famosa pelos seus prédios antigos, um pouco degradados, mas com imensas histórias para contar. E foi exactamente à procura de uma história que ela subiu as escadas do edifício onde se encontrava instalado o estúdio de Sérgio. Mais tarde, olhando novamente para o papel que tinha nas mãos, percebeu que tinha chegado ao destino. Um toque, dois toques e a porta foi aberta por uma jovem altíssima, de cabelos loiros, saltos altos e uma lingerie que tapava apenas o essencial. Sim. Lingerie e Madalena pôde ter essa certeza quando a observou dos pés à cabeça. - …eu acho que me enganei. - Está à procura de…?! – perguntou a jovem passando as mãos pelos cabelos com uma descontracção fora do normal. - Hã! Do estúdio de um fotógrafo chamado Sérgio Almeida. Ele deu-me o endereço, mas tal como disse, acho que me enganei. - Não, não se enganou! É aqui mesmo. - É?! – indagou Madalena esbugalhando os olhos.
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- Sim. Entre! Na verdade, a única vontade de Madalena era fugir e fingir que nunca estivera ali, até mesmo porque essa seria a atitude mais sensata a tomar tendo em conta as pernas bem definidas e o busto daquela modelo que não aparentava ter mais do que vinte e cinco anos. Era como se algo lhe gritasse aos ouvidos para desaparecer, para criar alguma vergonha na cara e para não se iludir com um homem que parecia viver rodeado de modelos belas e esculturais. – Ele está a fotografar uma outra rapariga… - informou a jovem caminhando com Madalena pelo pequeno corredor quase às escuras. – Você também veio fotografar? - Eu?! Não! Definitivamente não. - Chegámos – exclamou a modelo parecendo ignorar a última frase de Madalena quando abriu a porta e a encandeou com as luzes vindas do estúdio. Na aparelhagem soava igualmente uma música bastante insinuante que muito lembrou a hora Coca light, um famoso anúncio televisivo dos anos noventa. I just wanna make love to you. De facto, nada poderia ser mais provocante e explícito, assim como as poses sensuais que a modelo fotografada fazia questão de oferecer às lentes de Sérgio. – Inclina um pouco mais a cabeça, por favor… - dizia ele totalmente concentrado no que estava a fazer. – Isso! Isso mesmo! Agora reflecte a perna e olha para mim… - Assim!? – perguntava a modelo sem sequer se aperceber dos olhares aterradores que Madalena lhe fez questão de lançar de longe. - Sim. Muito bom! Estás óptima. - Isto é para quê? – perguntou Madalena aos ouvidos da modelo que lhe havia aberto a porta minutos antes. - Uma campanha de lingerie. - Uau! - Gosta? – questionou ela mostrando o fio dental sobre uma das mesas do estúdio. - É giro – respondeu Madalena segurando nas mãos um pequeno pedaço de tecido. – Quer dizer, é minúsculo, mas é giro. - São os novos fios dentais da Vitoria Secret. Tem que comprar. - Obrigada, mas eu não costumo usar fios dentais. - Pois devia – respondeu a modelo bebendo um gole de água com a ajuda de uma palhinha fluorescente. – Esses são muito bons para nos levantar o rabo. - Vou pensar no caso – murmurou Madalena desejando desaparecer o mais rapidamente possível, pois quando Sérgio a convidou para conhecer o seu estúdio fotográfico, tudo o que ela não imaginava era encontrar duas mulheres seminuas que em muito lhe faziam lembrar os seus vinte e cinco anos. Sim. Porque apesar de tudo, ela também já tinha tido vinte e cinco anos. - Desculpa! Já chegaste?! Não te vi entrar – disse Sérgio quando finalmente se apercebeu da presença de Madalena no estúdio. Ainda tentou beijá-la, mas por sorte ela desviou-se a tempo para que as duas modelos não descobrissem a sua verdadeira identidade. - Olá! - Está tudo bem? - Está tudo óptimo. Eu é que acho que vim numa má hora.

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- Claro que não – respondeu ele poisando a máquina fotográfica sobre uma mesa repleta de cabos, computadores e outros aparelhos electrónicos que utilizava para trabalhar. – Já tínhamos combinado, lembraste?! - Ainda vai demorar muito a sessão? - Só falta fotografar a Natália e depois fico despachado por hoje. Importaste de ficar à espera só mais uma hora?! É que nos atrasámos por causa das luzes e também porque a equipa da maquilhagem e dos cabelos só nos apareceu por aqui depois das quatro. - Não, tudo bem. Eu espero – respondeu Madalena lançando os olhos àquela sala desarrumada. – São simpáticas. - Quem?! - As tuas modelos. É a primeira vez que trabalhas com elas? - Com a Natália não, mas com a Vera sim. Ao lançar os olhos para o cenário improvisado, Madalena não resistiu a observar a forma como Vera bebia a água pela garrafa. Era uma jovem bonita, quanto a isso não havia dúvidas, mas ainda assim, ao olhá-la com um pouco mais de atenção, Madalena percebeu que não era apenas a beleza a única característica que a diferenciava de Natália. Vera parecia muito mais segura de si, imponente e profissional o quanto bastante para nem sequer lhe dirigir a palavra ou esboçar qualquer expressão facial quando os seus olhares se cruzaram pela vigésima vez. Para além disso, era também perceptível que a presença de Madalena a incomodava mais do que qualquer outra coisa, especialmente quando a viu tão perto de Sérgio e percebeu que algo os unia. Seriam namorados? Amigos? Ou qualquer outra coisa pelo meio? De qualquer maneira não devia ser nada sério visto ela aparentar ser mais velha que ele.

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CAPÍTULO III
O aspirador foi desligado na sala quando faltavam poucos minutos para as onze da manhã e tudo porque a porta da rua se abriu sem qualquer aviso prévio trazendo consigo as duas pessoas que Madalena mais desejava ver na altura. Daniel e Sara. Os seus filhos que após um mês de férias resolveram regressar a casa e brindá-la com as suas risadas e brincadeiras. – Mãe – exclamou Daniel correndo em direcção à sua progenitora e aninhando-se nos braços dela. - Ai que saudades! - Eu também tive saudades tuas. - Estás todo bronzeado. - Fomos à praia todos os dias – respondeu ele, animado. – E vimos golfinhos, mãe! Foi bué fixe! - Que bom que se divertiram – disse Madalena rasgando alguns olhares à sua filha que ao contrário do irmão nem sequer se dignou a cumprimentá-la com um abraço. – Então, Sara?! Não me vais dar um beijo? - Claro – respondeu ela obedecendo ao pedido sem muito entusiasmo enquanto o pai arrastava as malas para o interior da moradia. - Estás bonita. - Obrigada. - Olá, Lena – disse Jorge forçando-lhe um sorriso. - Olá! - Como vês, voltámos todos são e salvos. - Ainda bem – respondeu Madalena compondo-se na sua camisola de malha. – E a… Vanessa? Não veio com vocês? - A Vanessa está no carro. - Porque é que não a convidaste para entrar? - Porque ela veio um pouco mal disposta da viagem. - Tivemos que parar duas vezes no caminho para ela vomitar – disse Daniel recebendo alguns afagos na cabeça por parte da mãe. - A sério? Porque é que não passaram por um hospital? - Deve ser coisas de mulheres – respondeu Jorge não querendo adiantar muitos detalhes acerca do assunto. - Mesmo assim, vocês deviam ter… - Mãe, o pai já disse que não foi nada importante – resmungou Sara sob o olhar incrédulo de Madalena. – Porque é que tens sempre que te meter aonde não és chamada?
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- Sara?! - Que raiva! Se soubesse tínhamos ficado mais uns dias no Algarve. Estas foram as últimas palavras de Sara antes de agarrar nas suas malas e subir as escadas em direcção ao quarto. Um local onde pretendia trancar-se durante vinte e quatro horas e não sair de lá nem por decreto de lei. Não. Não iria almoçar, não iria jantar e nem queria sequer responder às perguntas da mãe que com certeza seriam as mesmas. Aonde é que foram? O que é que fizeram? Como é que o pai se portou? Comeram todas as refeições? Não. Ela realmente não tinha paciência nenhuma para as responder. – Daniel! Sobe e vê se tomas um banho antes do almoço – pediu Madalena trocando um olhar cúmplice com o ex. marido. – Preciso falar com o pai. - Está bem – respondeu o último subindo as escadas a correr. - O que foi? – perguntou Jorge sabendo à partida que iria ser criticado por algo que ainda nem sabia o que era. - Tu viste como é que a Sara falou comigo? - E… - E?! Ainda perguntas… e…?! Ela nunca me enfrentou dessa maneira. - E o que é que vais dizer? Que a culpa é minha? - É claro que é tua – respondeu Madalena tentando manter a voz baixa. – Foi contigo que ela esteve nestas últimas quatro semanas e olha só como é que ela voltou?! - Lena, eu não tenho a culpa que tu e a Sara nunca se tenham dado lá muito bem. - Nós sempre nos demos bem. - Tens a certeza!? - Jorge, eu estou a jogar limpo contigo, aliás, eu sempre joguei! Mas não queiras colocar os nossos filhos contra mim porque eu não vou admitir uma coisa dessas. - Eu nunca coloquei os nossos filhos contra ti – respondeu ele largando os braços. – Que raios! De onde é que foste tirar uma ideia dessas? - Só te estou a avisar. - Sabes qual é o problema da Sara contigo? Madalena calou-se. – O problema é que tu a tratas como se ela fosse uma criança, mas ela já não é uma criança. - Ela só tem quinze anos. - Por isso mesmo! É uma adolescente e não uma criança. Será que não percebes que é essa tua mania de a quereres proteger de tudo e de todos, de a encheres de mimos e de a sufocares com regras que a está a fazer afastar-se de ti? – discursou Jorge tentando trazer a ex. mulher à razão. – Com o Daniel até pode resultar, afinal de contas ele ainda é uma criança, mas com a Sara já não resulta e tu tens que meter isso na cabeça. - Sai – exclamou Madalena abrindo a porta de rompante. - Boa! Quando sentes que perdes a razão, reages sempre assim… - Eu não perdi a razão! Eu tenho razão. Agora sai! - Claro – riu-se Jorge secamente. – Então continua assim para ver se a Sara não se afasta de ti de vez. - E tu irias adorar se isso acontecesse, não era?!

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- Apesar de não acreditares, não, eu não iria adorar. Mas para que tenhas um rasgo de clarividência, deixa-me dizer-te que durante estas férias a nossa filha pediu para morar comigo. A revelação de Jorge não podia ser mais bombástica e prova disso foi o recuo de dois passos por parte de Madalena. – O quê?! - Isso mesmo que ouviste! Ela quer morar comigo. - Jorge, se tu me levares a Sara daqui, eu mato-te! - Eu não quero tirar a Sara de ninguém, já disse! Mas eu entendo o porquê de ela se quer ir embora cá de casa. Sabes porquê!? Porque tu és insuportável. - E eu odeio-te! - Advinha lá!? O sentimento é recíproco… – respondeu Jorge saindo porta fora. Apesar de ter tentado controlar as lágrimas que teimaram em cair-lhe dos olhos, para Madalena foi completamente impossível realizar tal tarefa, pois a discussão com o ex. marido continuou a ecoar-lhe nos ouvidos durante a tarde toda. E a verdade é que estava tão submersa nos seus pensamentos que nem sequer se apercebeu do telemóvel a vibrar sobre a bancada da cozinha. Uma chamada não atendida, um número perdido e a raiva que sentiu ao final da noite quando descobriu que a pessoa que lhe tinha tentado ligar era Sérgio. – Desculpa – pediu ela retornando a ligação assim que terminou de arrumar a loiça do jantar. – Só vi a tua chamada agora. - Não faz mal – respondeu ele. – Imaginei que estivesses com os teus filhos. - É, eu estava – murmurou Madalena tentando esconder o facto de não ter visto a filha mais velha desde a hora do almoço quando ela resolveu trancar-se no quarto com uma música rock aos altos berros. - Como é que foi a viagem? - Acho que correu bem. Pelo menos eles vieram animados. - Isso é o que importa. - E tu? Como é que te correu o dia? - Estive a trabalhar – respondeu Sérgio analisando algumas das fotografias que tirou durante a tarde. – Nada de especial! Agora estou para aqui a ver se consigo melhorar as fotos para a campanha da Vitória Secret. - Aquela campanha de ontem? - Sim! Tenho que entregar tudo pronto na semana que vem. - Tenho a certeza que te vais sair muito bem! És um excelente fotógrafo. - Obrigado pelo elogio – riram-se os dois. Nessa altura, Sara entrou na cozinha e surpreendeu a mãe encostada ao lava-loiça completamente submersa numa conversa telefónica. Com quem estaria a conversar, perguntou-se. - …claro – disse Madalena tentando esquivar-se aos olhares lancinantes que a filha lhe lançou enquanto abria a porta do frigorífico. – Escuta, infelizmente vou ter que desligar. Podemos falar mais tarde? - Algum problema?! - Não, nenhum. Eu ligo-te depois. - Está bem – respondeu Sérgio desligando a chamada quando se deu por vencido. - Não precisavas ter despachado a pessoa com quem estavas a falar só por minha causa… – afirmou Sara servindo-se de um copo de sumo sobre a mesa da cozinha.
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- Não foi por tua causa – disse Madalena largando o seu telemóvel sobre a mesa. – Mas ainda bem que te ponho os olhos em cima porque precisava esclarecer uma coisa contigo. - O quê?! - Estive a conversar hoje com o teu pai. - Ai é?! - E tu sabes bem qual foi o assunto. - Sei?! - Não te faças de desentendida, Sara! Ele contou-me que tu pediste para ir morar com ele. É verdade? - Sim – respondeu a jovem com toda a calma do mundo. - Achas bem aquilo que fizeste?! - O que é que foi que eu fiz? - Nem sequer falaste comigo sobre os teus planos quando sabes muito bem que sou eu quem tem a tua guarda e a guarda do Daniel. - Eu tenho todo o direito de querer escolher com quem quero ou não morar – respondeu Sara poisando o copo de sumo sobre a mesa. – Lá porque tu decidiste que eu e o Daniel tínhamos que ficar contigo, isso não significa que nós queiramos realmente ficar contigo. Podemos ter uma opinião diferente, nunca te passou isso pela cabeça? - Que opinião?! - Apesar de odiares a ideia de que eu adore o meu pai, a verdade é que eu adoro e tu vais ter que te habituar a essa ideia. - Sara… - Foste tu que o escolheste para ser o nosso pai, lembraste?! Não fomos nós. - Eu não acredito que me estejas a dizer uma coisa dessas. - Eu quero passar uns tempos em casa do pai. - Tu não vais a lado nenhum! - Não me podes impedir de morar com ele! Ele é o meu pai. - Não me levantes a voz, Sara – imperou Madalena calando-lhe os argumentos. – Nunca mais na tua vida te atrevas a levantar-me a voz. Silêncio foi a resposta de Sara embora os seus olhos estivessem a vermelhar de raiva. - Qual é o teu problema, hã – vociferou Madalena aproximando-se bruscamente dela. – Diz lá! Não tens tudo aquilo que precisas? Não tens um tecto, comida, um quarto só para ti, roupas, sapatos e computadores!? O que é que queres mais? - Eu quero que morras… A resposta efusiva de Sara tomou Madalena de assalto, mas nem por isso a inibiu de oferecer à filha uma valente bofetada no rosto que a fez recuar dois passos e suster a face com a mão. O olhar de ódio disse tudo. – Se estás à espera de um pedido de desculpas, é melhor esperares sentada… – afirmou Madalena tentando manter a expressão aterradora que tinha no rosto. - Não! Se tu estás à espera de um pedido desculpas, tu é que vais ter que esperar sentada, porque eu ainda continuo a querer que morras – respondeu Sara abandonando a cozinha sem sequer terminar o sumo que deixou sobre a mesa e deixando Madalena a sentir-se o pior ser humano à face da terra. Porque é que se estava a sentir assim, foi a pergunta que imperou no ar enquanto os seus olhos mais uma vez lutavam contra as lágrimas.
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- Sinceramente não sei o que fazer… - foi o desabafo de Madalena à melhor amiga várias semanas mais tarde. – Não lhe devia ter dado aquele estalo. - É claro que devias – ripostou Alice ajeitando um ramo de margaridas encomendadas pela manhã. – Onde já se viu?! Ninguém deve desejar a morte da própria mãe, nem mesmo a brincar. - Eu só queria saber o que é que se passa com ela. Desde há uns meses para cá tem andado estranha e fala com as pessoas como se as quisesse bater. - A adolescência é assim, Lena! - A minha adolescência não foi assim e a tua também não. - Porque os tempos eram outros! No nosso tempo, ai de nós se levantássemos a voz aos nossos pais! Era logo um par de estalos e assunto encerrado. - Achas que a culpa é minha? – perguntou Madalena encostando-se ao expositor da loja. - Culpa do quê? - Culpa do comportamento da Sara. Achas que eu sou uma má mãe? - Claro que não, Lena! De onde é que foste tirar uma ideia dessas? - O Jorge disse-me que a culpa era minha porque eu ainda não me tinha dado conta que a Sara já não era uma criança e que não adiantava nada enchê-la de mimos e regras porque isso só faria com que ela se afastasse ainda mais de mim… – discursou Madalena cruzando os braços. – Achas que ele tem razão? - O Jorge é um idiota. Mas diz lá qual é o problema concreto desta vez! - A Sara quer morar com o pai. - Estás a gozar!? – riu-se Alice enquanto terminava o arranjo de margaridas. – E tu estás preocupada com isso? - Claro que estou. Eu não quero que ela vá morar com o Jorge sabendo bem que ele é um irresponsável de todo o tamanho. - Pois eu acho que devias. - O quê?! - Deixá-la ir morar com o pai. - Alice!? Estás louca?! - Garanto-te que se a Sara fosse morar com o pai, em menos de duas semanas estava de volta. Quando ela tiver que cozinhar, tratar da roupa e das compras do supermercado, volta para casa com o rabinho entre as pernas e ainda te trata a pão-de-ló. - Achas?! – perguntou Madalena não muito segura das palavras da melhor amiga. - Faz uma experiência! Diz que aceitas que ela vá morar com o pai e que não te opões em nada. Se ela quiser ir, ela que vá! Apesar de nunca ter tido filhos, acredita que de adolescentes eu percebo bem e sei que quanto mais nos mostrarmos contra alguma coisa, mas eles a querem fazer. - Bem, lá isso é verdade. - Quando ela perceber o traste do pai que tem – riu-se Alice. - …volta a correr para a maravilhosa mãe que anda a desperdiçar. - Tu és uma caixinha de surpresas – afirmou Madalena sugando-lhe a face. – Devias ter tido filhos, sabias!? - Infelizmente nunca tive essa sorte, ou esse azar, não sei. Mas se tivesse uma filha como a Sara, era exactamente assim que iria reagir.
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A conversa foi interrompida com a chegada de um cliente à loja, mas nem por isso Madalena se esqueceu das palavras de Alice enquanto o atendia. Sim. Ela tinha razão. Não valia a pena opor-se à ideia de Sara em morar com o pai pois ela continuaria a fazer-lhe a vida negra caso se mostrasse contra aquela resolução estapafúrdia. Por isso, assim que chegasse a casa naquela noite, diria que tinha pensado melhor e que era totalmente a favor da sua partida. Ponto final. Mas e se a filha não voltasse? E se ela continuasse a morar com o pai para sempre? Não. Claro que não. Alice estava certa quando disse que todas as tarefas domésticas recairiam sobre os ombros de Sara enquanto ela estivesse em casa de Jorge, e logo ela que sempre foi preguiçosa até para fazer a própria cama, com certeza não aguentaria mais do que duas semanas. Duas semanas era o prazo que Madalena tinha estipulado para aguentar aquela prova de fogo, mas se mesmo assim os seus planos saíssem furados, ela não hesitaria um segundo em arrancar a filha da casa do pai com as próprias mãos. – Estás-me a dizer que eu posso ir morar com o pai… - foi a surpresa de Sara quando a mãe lhe informou sobre a sua decisão após o jantar. - Sim! Podes. - E posso saber porque é que mudaste de ideias? - Pensei melhor – mentiu Madalena. – Ou não me digas que já não queres ir? - É claro que quero. Já te tinha dito isso há quase dois meses. - Pois então! Fala com o teu pai e combinem um dia para ele te vir buscar. - O.k! Então amanhã vou ligar ao pai – afirmou Sara não cabendo em si de contente por finalmente se ver os seus desejos concretizados. – E quem sabe me vá embora já esta semana. Quando recebeu o telefonema da filha no dia seguinte, Jorge mal conseguiu acreditar que o seu pior pesadelo se tinha concretizado sem qualquer aviso prévio. E logo ele que sempre pensou que a ex. mulher nunca iria ceder às chantagens de Sara ou sequer permitir que ela saísse de uma casa onde tinha nascido e crescido. Raios. O que devia fazer para descalçar aquela bota? Ao desligar o telefone do escritório, ele lançou os olhos a um quadro pendurado na parede e por momentos tentou encontrar uma maneira de se livrar daquele problema. A Sara lá em casa? Uma adolescente de quinze anos em sua casa? Uma casa que normalmente costumava levar as suas amigas para umas noitadas de copos, para umas visitas turísticas ao seu quarto e também onde passava as poucas horas livres que o trabalho lhe deixava durante o dia sem sequer se preocupar em lavar a loiça, limpar o pó ou fazer a própria cama? Diante daquela catástrofe apenas comparada à Segunda Guerra Mundial, a única coisa que lhe restava era tentar convencer a ex. mulher a convencer a filha de que a sua saída lá de casa realmente não era a melhor ideia. Sim. É isso mesmo que vou fazer, decidiu Jorge enquanto digitava o número da loja de Madalena. – É o teu falecido – sussurrou Alice passando a chamada. - Diz Jorge – exclamou Madalena recebendo o auscultador das mãos da melhor amiga. - Olá, tudo bem?! Escuta! A Sara ligou-me há pouco, mas eu fiquei sem entender uma coisa… - O quê!?
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- Bem, provavelmente devo ter percebido mal. Sabes como é que são os jovens quando querem realmente uma coisa. Inventam mentiras, desculpas… - Jorge, abrevia por favor – interrompeu Madalena percebendo bem qual era o estratagema do ex. marido. Afinal de contas já o conhecia há tantos anos que não foi muito difícil para si descobrir o verdadeiro motivo daquela chamada telefónica tão inapropriada. - A Sara disse-me que tinhas concordado com a ideia de ela vir morar comigo. É verdade? Silêncio foi a resposta de Madalena. – Estás aí? - Estou – respondeu ela passando as mãos pelos cabelos soltos. – Sim! É verdade. - Estás a gozar, não?! - A gozar porquê? - Quer dizer, primeiro disseste que me matavas caso eu me atrevesse a tirar a Sara lá de casa e agora ela liga-me toda contente a pedir para que eu a vá buscar nesta sexta-feira. O que é que se passa? Qual é o teu esquema? - O meu esquema?! Eu não tenho esquema nenhum – respondeu Madalena tentando ignorar as risadas de Alice quando colocou a chamada em conversação alta. - Então queres convencer-me que queres realmente que a Sara venha morar comigo? É isso?! - Porque não!? Ela não te adora tanto? Se a Sara quer morar contigo, a única coisa que eu posso fazer é apoiá-la, além de que estavas certo quando disseste que eu tenho que parar de a tratar como se fosse uma criança. Quem sabe tu me podes ajudar a fazer isso? O que é que achas?! – discursou Madalena sob uma ruidosa gargalhada que Alice não conseguiu evitar. – Tenho a certeza absoluta que uns dias na tua casa apenas lhe iriam fazer bem. Quero ver-te com a Sara vinte e quatro horas sobre vinte e quatro horas, Jorge! Tenho a certeza que vais adorar. Sexta-feira foi o dia em que Jorge percebeu que já não lhe restava nenhuma outra alternativa a não ser buscar a filha à casa da ex. mulher. Apesar de tudo, os seus planos e desculpas saíram furadas levando-o àquela verdadeira situação de desespero, e enquanto abria os portões da moradia, a única coisa que quis foi que a relva do jardim o engolisse. Por azar, isso não aconteceu. – Ela já está pronta? - Está lá cima a terminar de fazer as malas – respondeu Madalena permitindo-lhe a entrada. - Fizeste de propósito, não foi!? - Eu?! - Sim e não faças essa cara de sonsa – exclamou Jorge caminhando apressado em direcção à sala onde encontrou o filho mais novo a jogar Playstation. - Porque é que eu também não posso ir? – perguntou Daniel para grande desespero do pai. - Por enquanto vai só a Sara, filho. - Fogo! Eu também queria ir. Um olhar aterrador foi o que Jorge voltou a lançar a Madalena enquanto Sara descia ao primeiro piso sala carregada com duas enormes malas e uma mochila preta que a acompanhava todos os dias à escola. – Demoraste, pai – disse ela. - É, eu sei – respondeu Jorge passado as mãos pelos cabelos aparados. – Apanhei um trânsito infernal no caminho. Mas já estás pronta? - Sim. - Então vamos.
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- Não! Tenho mais uma outra mala lá em cima que não consegui trazer junto com estas. - Outra mala?! – indagou Jorge esbugalhando os olhos. – Mas já estás com duas na mão. - O que é que queres?! Tenho que levar as minhas coisas nalgum lado, não achas?! - Está bem, está bem! Eu vou lá acima buscá-la. Foram precisos apenas cinco minutos para que Jorge regressasse novamente ao primeiro piso e tivesse a seu cargo cerca de três malas para arrastar em direcção ao carro. Depois disso, saiu e nem sequer se dignou a despedir da ex. mulher, sendo que essa tarefa enfadonha recaiu inteiramente sobre os ombros de Sara. – Vê lá se ligas… - pediu Madalena tentando controlar as lágrimas quando percebeu que a partida da filha era inevitável. - Eu ligo daqui a dois, três dias. - Está bem. - Tchau – disse Sara despedindo-se da mãe com um beijo na face e do irmão com um pequeno empurrão nos ombros. Depois disso, afastou-se sem sequer olhar para trás e enfiou-se no carro do pai enquanto ele terminava de ajeitar as malas. Portas fechadas, cintos de segurança colocados e a partida, foram algumas das cenas que Madalena observou de longe enquanto o seu coração se apertava e a companhia de Daniel era a única coisa que não a deixava desmoronar. Pela primeira vez desde sempre o lugar de Sara não foi ocupado durante o jantar, e pela primeira vez, Madalena assustou-se com a terrível ideia de que a sua filha havia partido para sempre quando fechou a porta do quarto e deu por terminada a noite. Depois disso, tomou um banho e vestiu uma camisola confortável com o intuito de dormir como uma pedra e esquecer-se do dia em que viu a filha escapar-se-lhe por entre os dedos sem nada poder fazer. Ela vai voltar, tentou enfiar essas palavras na sua cabeça e acreditar no que Alice lhe dissera dias antes quando a aconselhou a baixar as guardas e permitir a saída de Sara lá de casa. Nessa altura, enquanto estava completamente submersa nos seus pensamentos, o telemóvel vibrou sobre a mesinha de cabeceira e fê-la estender o braço em direcção a ele. Quem sabe não seria Sara para lhe dizer que queria voltar? De qualquer maneira não custava nada sonhar. – Já que Maomé não vai à montanha… – afirmou Sérgio com a mesma voz jovial de sempre. - Desculpa – sorriu Madalena percebendo imediatamente a sua gafe. – Desculpa por não ter ligado nesses dias. - Problemas?! - Sim! Filhos. Sabes o que isso é? - Infelizmente não. - A minha filha foi morar com o pai. - A sério?! - Foi-se embora hoje e eu tenho medo que nunca mais volte. - É claro que ela vai voltar. - Quem me dera poder acreditar nisso. - Diz-me – interrompeu Sérgio caminhando calmamente pela rua. – O que é que eu posso fazer para animar essa voz? - Podias fazer tantas coisas – riram-se os dois. – Mas infelizmente estás longe.
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- Quem disse!? Silêncio e surpresa foram as reacções de Madalena. – Sai à janela – pediu ele. E mais palavras não foram precisas para que ela subisse os estores e se deliciasse com a figura de Sérgio sob o portão. Uma das mãos nos bolsos das calças, o telemóvel nos ouvidos e o sorriso estampado no rosto, eram essas as características que melhor o definiam. – És louco – disse Madalena ouvindo-lhe as risadas através do telefone. - Desce! Estou à tua espera. Tal como sempre as escadas que ligavam os dois pisos encontravam-se às escuras, mas Madalena recusou-se a acender as luzes, talvez por preguiça, talvez para não acordar o filho, mas a verdade é que ela resolveu utilizar as mãos para saber onde estava. Por sorte, conseguiu alcançar o corredor sem se esbarrar em nenhum móvel, e quando abriu a porta de saída, a visão de Sérgio foi a primeira coisa que a fez sorrir naquela sexta-feira particularmente triste e sombria. – Que bom que estás aqui – disse ela enterrando-se nos braços dele e tentando absorver-lhe todo o calor do corpo. - Não consegui aguentar de saudades. - Eu também morri de saudades tuas. Quando voltou a encarar-lhe o rosto iluminado pelas luzes das escadas, Sérgio afundou-se nos lábios de Madalena e beijou-a com toda a paixão que possuía dentro de si. Na verdade, não lhe importou absolutamente nada a não ser tê-la nos braços e matar todas as saudades que sentira desde a última vez que estiveram juntos. Tinha sido apenas há uma semana, mas no entanto parecia uma eternidade. – Eu juro que te convidava a entrar – disse ela segurando-lhe a face com firmeza. – Mas não posso. - Eu sei. - Mas foi bom teres vindo! Nem sabes como estava a precisar de um beijo teu. - Li os teus pensamentos – riram-se os dois, baixinho. – Foi por isso que vim. - Temos que combinar alguma coisa. - O quê?! - O meu pai vem almoçar no domingo e eu estava a pensar em deixá-lo a tomar conta do meu filho por algumas horas. - Algumas horas?! Hum! Parece-me interessante. - Algumas horas é tudo o que eu preciso para matar as saudades que sinto de ti. - Pois eu iria precisar de semanas, meses, anos… - O.k - riu-se Madalena. – Então fica assim combinado? No domingo depois do almoço? - Claro! Assim conheces a minha casa. Ainda não foste lá, não é!? - Não – respondeu ela com um sorriso malicioso. – Mas estou ansiosa para ir. O dia amanheceu ensolarado e foi com algum custo que Sara se dirigiu à cozinha crente de que iria encontrar um belíssimo pequeno-almoço à sua espera. Pura ilusão? Talvez, pois as únicas coisas o que viu à sua frente foram loiças sujas do jantar, algumas migalhas de pão sobre a bancada e o frigorífico às moscas. O que é que eu vou comer? Realmente nada tendo em conta o que viu nos armários e nas gavetas vazias. – Pai! Tu não tens nada que se coma aqui dentro. - Raios – exclamou Jorge levando as mãos à cabeça quando entrou na cozinha. – Esquecime de passar pelo supermercado esta semana. - E o que é que eu vou comer para o pequeno-almoço?
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- Café – respondeu ele aproximando-se da máquina sobre a bancada. – Gostas dele forte ou com leite? - Eu não bebo café. - Então bebe sumo! Acho que ainda tem o resto do frango do jantar. Podes aquecê-lo no microondas se quiseres. - Vou comer frango ao pequeno-almoço?! Só podes estar a gozar – resmungou Sara não vendo outro remédio a não ser obedecer às ordens do pai. – Tens que ir ao supermercado. - Hoje não posso – respondeu Jorge retirando uma chávena de café dos armários. – Vou passar o dia todo no escritório às voltas com uns arquivos que tenho que rever. Mas podes ir tu ao supermercado se quiseres. Eu deixo-te dinheiro. - E o que é que eu vou comprar lá? - Oras, o que é que se compra num supermercado? Comida. - Eu nunca lá fui sozinha. - Não acredito que a tua mãe nunca te tenha levado ao supermercado – respondeu Jorge alcançando o pote de açúcar sobre a bancada. – Além disso, ir ao supermercado é a coisa mais fácil do mundo e tens um aqui mesmo ao pé. Em cinco minutos estás lá. - Mas pai… - Compra carne, massas, arroz, bolachas, fruta. Essas coisas! - Mas pai… - Aproveita que hoje não tens aulas e vai! Jorge demorou apenas cinco minutos para engolir o café que fizera, e depois de vestir o casaco às pressas, despediu-se da filha deixando-lhe o cartão de multibanco e a certeza de que não voltaria a casa antes de o anoitecer. - E o que é que eu faço para passar o tempo? – perguntou Sara acompanhando-o à porta. - Podes fazer o quiseres. - Posso?! - Sim. - Posso sair? Combinar alguma coisa com as minhas amigas? - Claro – respondeu Jorge beijando-lhe a face. – Depois do supermercado, estás livre para fazer aquilo que quiseres. - O.k! - Até logo. - Até logo – respondeu Sara fechando a porta com um largo sorriso e com a certeza que a sua estadia em casa do pai iria ser no mínimo maravilhosa. Sim. Podia fazer tudo aquilo que quisesse. Podia ouvir música aos altos berros, dançar sobre o sofá como uma louca e vasculhar todas as gavetas lá de casa sem medo de ser apanhada por alguém. – Não acredito! Que pervertido… - riu-se ela às gargalhadas quando descobriu quantidade exorbitante de filmes pornográficos e oito caixas de preservativos na mesinha de cabeceira do pai. A curiosidade foi aguçada ao abrir uma das embalagens, e antes que desse por si, ela viu-se pela primeira vez a tocar num preservativo. Cheirou-o, enjoou-se com o cheiro, intrigou-se com a oleosidade, e por fim, desenrolou-o numa tentativa desesperada de perceber como aquele objecto funcionava. E quando finalmente percebeu, a sua única vontade foi de experimentá-lo.

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Infelizmente naquele Sábado as horas demoraram a passar, e mesmo tendo a tarde livre para fazer o que quisesse, a verdade é que Sara não conseguiu a companhia de nenhuma das suas amigas da escola. A primeira tinha ido passar o fim-de-semana ao Douro. A segunda estava nos treinos de judo e não se iria despachar antes das sete tarde, e a terceira, não tinha a permissão dos pais para sair de casa sem a presença de alguém mais velho. Assim sendo, a única alternativa que restou a Sara foi devorar todos os filmes pornográficos do pai enquanto devorava também as pipocas que havia comprado no supermercado da esquina. – Cheguei – gritou Jorge da porta sem sequer imaginar que a poucos metros a filha se encontrava na sala a esconder os filmes que lhe havia retirado do quarto. - Pensei que fosses demorar mais – respondeu Sara escondendo as caixas de DVD por detrás das almofadas do sofá. - Consegui despachar-me mais cedo do que estava à espera. - Fui ao supermercado – disse ela assim que ele entrou na sala. - Olha, uma boa notícia – exclamou Jorge espreguiçando-se com vontade. – Bem, acho que vou tomar um banho porque estou a estoirar de dores de cabeça. - Posso pôr a lasanha no forno se quiseres. - Isso era óptimo! Assim quando saísse do banho já tinha alguma coisa para comer. Alguns minutos mais tarde, quando entrou à socapa no quarto do pai e ouviu o barulho do chuveiro a trabalhar, Sara não teve dúvidas de que aquela era a altura ideal para repor os filmes que lhe havia retirado da mesinha de cabeceira. Por sorte, Jorge não desconfiou de nada e nem sequer teve a brilhante ideia de abrir as gavetas para se certificar que o seu pequeno tesouro que demorou dois anos a ser construído não tinha sido drasticamente usurpado pela própria filha. E assim, após ter a certeza que se tinha livrado de boa, Sara voltou a sair do quarto e encostou a porta com um longo suspiro. Aliviada foi o que se sentiu. Tal como sempre, Afonso Soares foi pontual para o almoço em casa da filha. Vestiu uma das suas melhores indumentárias, agarrou no seu velho Opel Corsa e estacionou-o a poucos metros da vivenda onde a filha e o neto moravam. Aquele era um ritual que fazia praticamente todos os domingos e daí a pouca surpresa de pequeno Daniel quando abriu a porta e se deparou com a figura do avô. – Então rapaz… - exclamou Afonso afagando os cabelos do neto e entrando pelo corredor adentro sem quaisquer cerimónias. – Andas-te a portar bem? - Mais ou menos – respondeu Daniel seguindo-o em direcção à cozinha onde Madalena se encontrava a ultimar os preparativos do almoço. - Hã… já vieste pai?! - Cheguei cedo? – perguntou ele recebendo um beijo da filha. - Não! Chegaste na hora. Só me falta fazer a salada. - A Sara?! - A Sara já não mora mais connosco – respondeu Daniel para grande surpresa do avô. - Como assim? Para onde é que ela foi? - Ela foi passar uns dias com o pai – informou Madalena provando o molho da carne assada junto ao fogão. – Mas volta! - Volta mesmo?!
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- Claro que volta. Depois do almoço, Madalena despediu-se de Afonso e Daniel dizendo que demoraria apenas algumas horas para ajudar a sua amiga Alice a mudar alguns móveis lá de casa. Não precisam de ajuda, foi a pergunta do pai. Não, respondeu ela esboçando-lhe um sorriso malicioso que disse tudo. Era uma mentira pegada, Afonso percebeu no minuto em que a filha saiu à rua e se enfiou no carro estacionado na garagem. Depois disso, Madalena desapareceu do quarteirão e rumou ao centro da cidade com o único intuito de cair nos braços de um fotógrafo que já não lhe era tão desconhecido quanto isso. Na verdade, Sérgio tinha-se transformado em algo mais, aliás, em muito mais. Em apenas dois meses, tinha-se transformado no seu amante, no seu melhor amigo e também no seu grande confidente. – O.k – riu-se ela quando ele atendeu o telemóvel. – Acho que estou perdida. - Aonde é que estás? - Hã… numa rua chamada Alecrim. Conheces?! - Então já estás mesmo aqui ao pé – respondeu Sérgio saindo à varanda. – Consegues ver uns prédios verdes? - Sim, acho que sim. - O meu fica atrás. Tens que dar a volta. - Está bem! Já agora diz-me outra vez o número do prédio e o andar. - Número cento e cinquenta e dois, terceiro esquerdo. - O.k! Até já. - Até já… - respondeu ele desligando a chamada com um largo sorriso. Madalena precisou de quinze minutos para conseguir estacionar o carro. Mas quando conseguiu esse milagre lisboeta em pleno fim-de-semana, correu apressada em direcção à rua de Sérgio pronta a descobrir o número cento e cinquenta e dois e também o andar que ele lhe indicara momentos antes. Por sorte, a tarefa não foi tão difícil quanto isso, pois o fotógrafo permaneceu na varanda apenas para ter a certeza que a sua visita não se iria perder pela segunda vez. E ao vê-la, foi impossível não acenar de longe e receber um outro aceno de volta. Três andares depois e a porta abriu-se. – Meu Deus – exclamou Madalena às gargalhadas quando ele a arrastou directamente para o quarto. – Não podias ter escolhido uma rua mais escondida para morar? - Tu sabes que eu gosto de me esconder. - Ainda bem – respondeu ela ajudando-o a desfazer-se da camisa. – Porque quanto mais escondido estiveres, mais te tenho só para mim… - Tu já me tens só para ti. - Olha que eu acredito. - Pois podes acreditar – respondeu ele sugando-lhe o pescoço. – Aliás, deves acreditar! Um sorriso radiante foi o que Madalena ofereceu a Sérgio, e depois disso, um beijo tão ou mais apaixonado que o primeiro enquanto se deixava levar em direcção à cama sem se importar com o barulho das obras do vizinho do segundo andar. Sempre em movimentos contínuos e frenéticos, os dois amantes tiveram-se um ao outro e deixaram os seus sentidos perderem-se naquela habitação minúscula dotada de poucos móveis e com uma simplicidade que conferia a Madalena toda a paz e conforto pelo qual havia ansiado durante semanas. E sim. Era ali que ela se sentia segura, protegida e ciente de que nada e nem ninguém a poderia separar de Sérgio.
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- Estas cerejas estão maravilhosas – confessou ela devorando um dos que ele lhe colocou na boca. - Comprei especialmente para ti. - Obrigada – riram-se os dois. – Obrigada também por me tirares da cabeça todos os meus problemas. - Ainda a história da tua filha? - Sim – respondeu Madalena deitando a cabeça sobre a almofada. – Acreditas que desde que ela foi morar com o pai nem sequer me ligou? - Porque é que não ligas tu? - Porque prometi que não faria isso! Quero que ela sinta saudades minhas, embora seja óbvio que ela não sente. - Impossível não sentir saudades tuas – respondeu Sérgio arrancando-lhe um sorriso – Eu por exemplo passo a minha vida a sentir saudades tuas. - Eu também – disse Madalena aconchegando-se no peito dele e fechando os olhos sem se importar com o irritante toque da campainha. – Estás à espera de alguém? - Não – respondeu Sérgio apressando-se a encontrar as calças de ganga no meio das inúmeras roupas espalhadas pelo chão. – Deve ser algum vizinho ou assim. - Seja quem for, não deixes entrar no quarto. - Porquê?! - Porque eu não quero que me apanhem assim toda descascada – respondeu Madalena arrancando-lhe uma leve gargalhada. – Vai lá! Pela pressa parece ser importante. Dois minutos foi o tempo que Sérgio precisou para sair do quarto e caminhar em direcção à porta com uma enorme vontade de esganar o vizinho inoportuno que teve a desfaçatez de interromper o seu descanso ao lado de Madalena. Mas ao olhar através do espelho da porta, ele reconheceu imediatamente a sua visita. Era ela. Era ela outra vez. – Vera! - Olá – respondeu a modelo esboçando um doce sorriso assim que a porta lhe foi aberta pelo fotógrafo. – Desculpa vir sem avisar, mas é que tínhamos combinado ver aquelas fotos da sessão, lembraste?! Como nunca mais disseste mais nada, eu resolvi aparecer hoje outra vez. Fiz mal? - Não, mas é que… - respondeu Sérgio, encabulado. - É rápido! Só queria umas cópias para colocar no meu book. - Tudo bem – respondeu ele abrindo-lhe passagem em direcção à sala onde se encontrava o seu computador portátil e também a Pen drive repleta de fotografias que havia tirado a Vera semanas antes. – Queres todas as fotos? - Queria escolher algumas. - São muitas. Vai demorar – disse Sérgio sentando-se à secretária e ligando o computador com uma expressão no mínimo entediada. - Não tenho pressa – respondeu Vera debruçando-se sobre ele enquanto prendia os seus longos cabelos com a mão e se deixava deliciar pela maravilha que era vê-lo em tronco nu. Está suado, foi a primeira coisa que reparou. Os cabelos também se encontravam desalinhados e as costas vermelhas pareciam ter sido marcadas por unhas de uma mulher. Teria interrompido alguma coisa? – Espero não ter vindo numa má hora… - disse ela recorrendo ao seu sexto sentido quase sempre infalível. - Não, já disse que não.
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O barulho ensurdecedor no quarto deixou Madalena impaciente e fê-la caminhar pé ante pé em direcção à sala onde lhe pareceu ter ouvido algumas vozes. A primeira reconheceu-a de imediato porque era a de Sérgio, mas a segunda só o conseguiu fazer quando entrou na sala e se deparou com a figura da modelo a quem havia encontrado semanas antes no estúdio dele. Vera. Infelizmente também se lembrava do nome dela e também de todos os seus atributos físicos. – Hã… desculpem! Não sabia que estavam aí … A expressão facial de Vera pareceu mudar radicalmente quando ao voltar-se para trás a figura de Madalena encandeou-lhe a visão. – Não! Eu é que peço desculpas. Sérgio. Devias ter-me dito que estavas ocupado. Eu voltava numa outra hora ou então procurava-te no estúdio. - Que é isso – afirmou Madalena percebendo o embaraço da modelo. – Podes ficar à vontade, Vera! Não vieste buscar as tuas fotos? - Vim, mas… - Então?! Se te vieste até aqui, pelo menos devias levá-las. Senão era um desperdício de tempo, não achas!? - Claro – respondeu a jovem voltando-se novamente para o ecrã do computador quando pressentiu que Madalena havia descoberto o seu disfarce em pouco menos de cinco segundos. E assim, vinte minutos mais tarde, depois de ter escolhido as fotografias tiradas por Sérgio, recebeu-as num CD despedindo-se com um sorriso e com a certeza de que nunca mais voltaria a uma casa sem ser convidada. – Desculpa – pediu Sérgio regressando à sala depois de a ter acompanhado à porta. - Desculpa porquê?! – perguntou Madalena. - Por essa visita inesperada. - Costumas receber as tuas clientes cá em casa? - Claro que não – respondeu ele forçando um sorriso que não foi de todo correspondido por Madalena. – O que foi? O que é que estás para aí a pensar? - Nada – respondeu ela desviando-se dele. - Como nada? E essa cara? - Só achei estranho… - Estranho o quê?! - Estranho o facto de essa rapariga ter aparecido do nada. Aliás, como é que ela sabia onde moravas? Já aqui esteve alguma vez? - Sim – respondeu Sérgio com toda a calma do mundo. – Veio com a Natália. - As duas estiveram cá?! - Sim. Estiveram! - Quando? - Há algumas semanas atrás. Fomos tomar um café e como lhes disse que as fotografias tinham ficado muito boas, elas pediram para vê-las. As revelações de Sérgio realmente não caíram nada bem a Madalena e prova disso foi o longo suspiro que ela lançou a fim de acalmar os estúpidos ciúmes que estava a sentir. – O que foi? - Só não quero que me enganes – respondeu ela voltando-se para ele. - Mas eu não te estou a enganar.
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- Porque se isto for um caso sem importância, eu prefiro que me digas. Pelo menos assim vou saber no que é que me estou a meter. - Lena, que conversa é essa? - Uma conversa que se calhar já deveríamos ter tido há mais tempo – respondeu ela cruzando os braços. – Eu não quero criar expectativas, aliás, não tenho mais idade para criar expectativas e nem quero fazer papel de idiota. Não quero que gozem comigo! Nem tu, nem as tuas amigas e muito menos essa… Vera… - Eu não acredito que estejas a pensar que estou a gozar contigo. - Então o que é que um homem como tu quer de uma mulher como eu?! Porque é óbvio que tu podes ter qualquer uma que te passe pela frente, aliás, nem precisas sair de casa porque elas batem-te à porta e cercam-te como se fosses… - Sabes qual é o teu problema? Madalena manteve-se em silêncio. – A tua insegurança – respondeu Sérgio à sua própria pergunta. – O facto de não acreditares nas tuas qualidades, na tua inteligência e de julgares que todas as mulheres são melhores que tu! Infelizmente já percebi que o teu ex. marido conseguiu convencer-te disso durante os anos em que vocês estiveram casados e é uma pena que ainda continues a pensar assim mesmo depois de te teres separado dele. Enquanto passeava por aquela sala minúscula e se dava conta da triste figura que fizera momentos antes, Madalena tapou o rosto com as mãos e desejou que um buraco se abrisse por debaixo dos seus pés. Sim, ela pensou. As palavras que Sérgio lhe dissera tinham sido cruéis, mas infelizmente também tinham sido verdadeiras e foi isso que a levou ao mais profundo desespero. – Talvez tenhas razão – interrompeu ele. – Talvez já devêssemos ter tido esta conversa há mais tempo. - Desculpa – pediu ela mantendo-se de costas para ele. – Fui uma idiota! Não devia ter dito aquilo que disse. - Será que não percebes que estou contigo porque gosto de ti? Porque gosto realmente de ti e não quero estar com mais nenhuma outra mulher? A surpresa fez com que Madalena se voltasse novamente para ele. – Mas eu também não quero passar a vida toda a tentar enfiar-te isso na cabeça e nem quero ver as tuas desconfianças sempre que me aparecer uma mulher de vinte anos à frente. - Eu sei. - Tu tens quarenta e eu tenho trinta e dois. E daí? Será que a idade importa assim tanto? Será que não consegues ver mais nada em mim para além do meu bilhete de identidade? Porque eu consigo ver muitas coisas em ti para além disso, para além dos dois fios de cabelo branco que tens aí à frente, das rugas que te aparecem no canto dos olhos quando sorris ou da celulite que tens nas pernas. Eu consigo ver a mulher com quem quero estar, com quem quero fazer amor e a quem quero apresentar a todos os meus amigos como sendo a minha namorada… - Namorada?! - Hã… esqueci-me! Mulheres acima dos quarenta também não podem namorar. - Não é nada disso, mas é que… - respondeu Madalena não escondendo a sua surpresa perante uma palavra que já não ouvia há muitos anos. - …eu não sabia que estávamos a namorar.

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- Pois nós estamos a namorar – informou Sérgio trazendo-a contra si. – Ou ainda não tinhas reparado nisso? - Por acaso não – riu-se Madalena, baixinho. - Eu não quero ser o tal com quem só estás uma vez por semana quando arranjas algum tempo na tua agenda. Quero ser muito mais do que isso. Quero participar na tua vida, ouvir os teus problemas, conhecer os teus filhos, o teu pai e até o idiota do teu ex. marido se for preciso. Eu quero tudo isso porque … - ele pareceu hesitar. - … porque eu te amo. Pronto. Estava dito. Estava feito, e apesar de se ter odiado por ter sido o primeiro a dizêlo, a verdade é que Sérgio não pensou duas vezes em proferir aquelas palavras que manteve guardadas a sete chaves no seu coração. Todas elas foram transpostas sob o olhar incrédulo de Madalena enquanto os ouvidos dela tentavam assimilar aquela declaração no mínimo surpreendente. – Eu também te amo – confessou ela por fim. – Eu também te amo muito. - Acreditas agora em mim? - Acredito – respondeu Madalena atirando-se para o colo de Sérgio sem se importar com mais nada à sua volta e nem com as palavras duras que trocaram minutos antes, até porque diante da imensidão daquele momento, tudo pareciam apenas detalhes sem qualquer importância. – Leva-me para o quarto – pediu ela ansiando que o seu pedido fosse realizado o mais rapidamente possível.

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CAPÍTULO IV
Era a primeira vez que iria chegar atrasada à escola e tudo porque ninguém a acordou e o despertador recusou-se a tocar. Mas ainda assim, Sara saltou da cama, vestiu-se às pressas e arrumou a mochila enquanto o relógio da mesinha de cabeceira assinalava dez para as oito. Depois disso, seguiu-se uma rápida caminhada em direcção à cozinha e o desespero de encontrar o pai para que ele a levasse à escola. – Quem és tu? – perguntou Sara surpreendendo-se com a figura de uma mulher perto do fogão. - Hã… deves ser a filha do Jorge, não?! - O meu pai? - Ele está a tomar banho – respondeu a mulher bebendo um gole de sumo. – Olá! Eu sou a Carla. - Ele vai demorar muito? – perguntou Sara ignorando-lhe o cumprimento. - Não sei! Acho que não. - Eu preciso que ele me leve à escola senão chego atrasada. - Já estou pronto, Carlinha… – interrompeu Jorge entrando pela cozinha longe de sequer imaginar que a sua filha também ali estava. – Filha?! Ainda por aqui? Pensei que já tivesses saído. - Como é que eu podia sair?! Preciso de alguém que me leve à escola e precisava também de alguém que me acordasse – respondeu Sara lançando um olhar aterrador à nova amante do pai. – Vou chegar atrasada por tua causa. - Esqueci-me. - Então?! Levas-me ou não? - Escuta querida… - pediu Jorge aproximando-se de Sara com alguma cautela. – E se o pai te pagasse um táxi para ires à escola, hã? - Um táxi!? - Sim! É que eu já tinha prometido levar a Carla a casa e olha que ela mora no outro lado do rio. Se fosses de táxi irias despachar-te muito mais depressa, garanto-te! - Tu preferes levar a… Carla a casa do que levar-me à escola? – perguntou Sara, incrédula. - Não é nada disso, querida. Não estás a compreender o que o pai está a tentar… - Deixa lá! Eu vou de autocarro. Apesar dos inúmeros chamamentos de Jorge, Sara abandonou a cozinha como a mochila às costas e com a certeza de que todas as coisas para o pai eram mais importantes do que ela. Saiu sem sequer olhar para trás e atreveu-se também a bater com a porta quando o fez. Depois disso, alcançou o elevador e desceu à rua pronta a encontrar o primeiro autocarro
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que a pudesse levar ao destino pretendido: Escola. Era lá onde deveria permanecer as oito horas seguintes e aprender Inglês, Geometria e Física, conversar com as suas amigas nos intervalos e comportar-se como uma jovem de quinze anos cujo maior erro foi ter pedido à mãe para morar com o pai. Mas será que era mesmo isso que queria fazer? Ao passar de autocarro por uma Sex Shop, Sara teve dúvidas e por isso desceu na paragem seguinte. Mais tarde, caminhou dez metros em sentido contrário e viu-se com os olhos postos na montra da loja enquanto tentava decifrar o que eram todos aqueles objectos e também para que serviam. Ali, completamente alheia ao movimento das pessoas, ela deixou-se ficar e só se afastou quando um dos funcionários da loja saiu à rua para fumar um cigarro. – Isto não é para a tua idade, menina – disse-lhe ele. – Não devias estar na escola? Sara assustou-se quando ouviu a pergunta e tentou igualmente passar despercebida no meio da multidão enquanto os olhos do funcionário continuaram a segui-la pela avenida a fora. Adolescentes, murmurou ele abanando a cabeça. Faltavam apenas alguns minutos para as onze quando Madalena atendeu o seu terceiro cliente do dia. Este, que tal como todos os homens à face da terra, não percebia nada de flores, ficou-lhe extremamente grato pela indicação de um ramo de camélias japonesas acabadinhas de chegar. Só então ele ficou a saber que essas eram as flores ideais para pedir perdão à esposa. – Ele traiu-a e ela descobriu – disse Alice assim que o cliente abandonou a loja. - Não faças juízos sem saberes a verdade – respondeu Madalena. - Lena, um homem que chega aqui a dizer que precisa de umas flores para a mulher que simbolizem arrependimento, isso só significa uma coisa. Traição! E traição da grossa. - De qualquer maneira, não nos compete a nós julgar! Cada um sabe de si. - Dizes isso porque agora és só sorrisinhos, paz e amor – riu-se Alice, animada. - Como assim?! - Desde que começaste a andar com o tal fotógrafo que já não falas mal dos homens, tratas todos os clientes a pão-de-ló e passas a vida a suspirar pelos cantos, isto para não falar das vezes que olhas para o telemóvel à espera que ele toque. - É assim tão evidente? - Define-me evidente – riram-se as duas amigas. - Tu nem acreditas, Alice… - Só acredito se me contares. - Ontem estive com ele – discursou Madalena deitando no caixote de lixo as fitas que utilizara para fazer o embrulho das camélias japonesas. – Fui conhecer-lhe a casa. - Uau! Mas isto já vai assim? - E tu nem sabes o que ele me disse. - O quê? - Que me amava – revelou Madalena deixando-se contagiar pelas gargalhadas da melhor amiga. – O que foi? Não acreditas? - Acredito. Claro que acredito – respondeu Alice levando a mão ao queixo. – E tu? O que é que lhe disseste? - Oras! Disse que também o amava. - Gostava de ser uma mosquinha para ter visto a cena.
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- Achas que fiz bem!? Quer dizer, eu gosto dele e pelos vistos ele também gosta de mim, mas será que não foi demasiado rápido? - Não foi ele o primeiro a dizer que te amava? - Foi. - Então?! Não tens responsabilidade nenhuma. Se acontecer alguma coisa, ele disse primeiro e tu só respondeste por educação – respondeu Alice arrancando uma ruidosa gargalhada a Madalena. Naquela tarde, Sara faltou a todas as aulas sem qualquer justificação, e depois de ter passado o dia inteiro a passear pelas ruas da cidade, regressou a casa, trancou-se no quarto e visionou os restantes filmes pornográficos que o pai fazia sempre questão de esconder na sua mesinha de cabeceira. Foi também a primeira vez, enquanto os via, que ela atreveu a acariciar-se por debaixo das cuecas e a experimentar um prazer que nunca pensou sentir nos seus tenros quinze anos. E se experimentasse ter relações sexuais a sério, passou-lhe essa pergunta pela cabeça. Com um rapaz da sua escola? Ou até mesmo com qualquer um que estivesse disposto a ajudá-la a superar a curiosidade que se havia apossado de si desde que descobriu a pornografia e os prazeres que ela trazia consigo? Subitamente, algo que deveria ser apenas um divertimento para passar a tarde, transformou-se num vício demasiado perigoso que a perseguia para onde quer que fosse. Na casa de banho, na cama e até nas escadas de serviço do prédio do pai, todos esses lugares serviram para que Sara se masturbasse e tentasse remover todo o stress de cima dos seus ombros. Não estaria ela a levar aquilo demasiado a sério? Não estaria a ficar viciada em sexo e pornografia? - Ficas bem cá em casa? – perguntou Jorge chegando à sala após duas horas a tentar escolher a roupa perfeita, o penteado perfeito e o perfume perfeito para a uma noite que prometia também ser perfeita. - Fico – respondeu Sara fingindo estar mais interessada a ler a revista que tinha nas mãos. - Prometo que não me vou demorar muito. - Com quem é que vais jantar desta vez? Com a Vanessa? A Carla ou a Antónia? - Vou fingir é que não ouvi o que acabaste de dizer – respondeu Jorge vestindo o casaco às pressas. – Então? Como é que estou? - Bem. - Qualquer coisa e liga-me para o telemóvel! Vou mantê-lo sempre ligado pela via das dúvidas. Mas não te esqueças também de telefonar à tua mãe – discursou Jorge alcançando as chaves do carro sobre a mesinha. – Não quero que ela pense que sou eu quem te está a impedir de lhe ligar. - Se me lembrar, eu ligo. - Vai! Porta-te bem. - Tu também. - O pai porta-se sempre bem – respondeu ele piscando o olho e deixando a filha completamente sozinha em casa. A vontade de Sara de sair foi imperiosa, assim como a de conhecer um lugar onde já havia passado várias vezes durante o dia. O Intendente. Uma pequena localidade no centro de Lisboa conhecida pela sua antiguidade, mas também pela sua má fama, pois era ali onde se reuniam a maioria das prostitutas, drogados e imigrantes ilegais numa estreita colaboração com o crime e a má vida. E sim. Ao ver-se à saída do metro, Sara sentiu que tinha
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cometido uma loucura quando resolveu lá colocar os pés. As ruas algo desertas, sujas e com intenso cheiro a urina e outros dejectos humanos, apenas conseguiram embrulhar-lhe o estômago e fazê-la perguntar-se que raios estava a fazer quando a sua única vontade era fugir e fingir que nunca ali estivera. Contudo, enquanto lutava contra a sua indecisão, uma mulher de meia-idade atreveu-se a chamá-la. Trazia consigo uma mini-saia vermelha, meias de renda pretas e um top decotado que deixava transparecer o soutien em tons de cor de rosa choque. – Tens cigarros? – perguntou ela encostando-se a uma porta de madeira degradada, enquanto ao seu lado, permaneciam duas mulheres um pouco mais novas intoxicadas de perfumes e outras roupas provocantes. - Não – respondeu Sara hesitando alguns segundos a responder. - …mas tenho pastilhas de menta. Querem? - Por acaso estás a insinuar que temos mau hálito? – interferiu uma das prostitutas lançando-lhe um olhar desafiador. - Não! Só ofereci porque não tenho cigarros. - Pastilhas também servem – afirmou a mais velha permitindo que Sara se aproximasse lentamente da porta onde estavam encostadas. Depois disso, as mãos foram estendidas e as pastilhas entregues àquela que parecia ser a líder do grupo. – Escuta! O que é que andas a fazer por estas bandas? Não és daqui! - Só estava a passar – respondeu Sara à cautela. - Porquê?! - Estava a ir para casa. - Eu não devia estar-te a dizer isto, mas desaparece daqui enquanto é tempo. Isto não é lugar para miúdas como tu. - Vocês são … - Putas?! – indagou com uma gargalhada a que parecia ser mais nova. – O que é que achas, querida? Achas que só estamos aqui encostadas por desporto?! É claro que somos putas. Até porque este é um lugar para putas ou ainda não tinhas percebido isso? - Milene, não assustes a coitada da miúda. - É bom que ela se assuste mesmo – respondeu a última sem desviar os olhos de Sara. - Eu não me assustei. - Corajosa! - Vocês costumam ter muitos clientes por aqui? Quer dizer, aparecem muitos homens a querer ter sexo com vocês? - Além de corajosa é curiosa também… – riram elas sob o olhar atento daquela jovem que aparentava ter toda a segurança e experiência do mundo. Mas como podia ela ter se não deveria ter mais do que dezasseis anos e também muita lata para meter conversa com três prostitutas em pleno horário de serviço. – O que é que queres saber, diz lá! - Se têm muitos clientes ou não. - Depende – respondeu Milene levantando o braço para cumprimentar um velho conhecido da zona. Era mais um dos inúmeros drogados a passar no outro lado da rua, e ao voltar-se para trás, Sara pôde ter essa certeza. – Há dias que rende mais, há dias que rende menos. Depende dos excelentíssimos clientes que apanhamos.

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- Excelentíssimos… – riu-se a prostituta mais velha. Chamava-se Arlete, nome inscrito no colar que trazia no pescoço. – Já ouvi chamarem-lhes muitas coisas, mas excelentíssimos!? Essa é nova cá no bairro. - E vocês cobram para irem para a cama com eles? – perguntou Sara tentando ignorar as risadas que ecoaram por toda a rua. - Estás a gozar não!? – respondeu Milene levando a mão à cintura. – Achas que vou abrir as pernas de graça para qualquer um que me apareça à frente? Eu sou puta, não a Madre Teresa de Calcutá. Quem quiser tem que pagar e tem que pagar bem porque não ando aí a fazer favores a ninguém. - Já se está a gabar só porque é a que cobra mais caro – resmungou Arlete enfiando uma pastilha elástica na boca. - E não é verdade?! Olhem bem para mim – disse Milene girando sobre os pés e mostrando todos os atributos que Deus lhe ofereceu ao longo dos seus vinte e seis anos de vida. – Eu sou a estrela do bairro, minhas amigas… - Eu tenho que ir – interferiu Sara ao perceber que já estava ali a mais. - Espera – chamou Arlete. – Para quê que querias saber quantos clientes tínhamos por dia e quanto lhes cobrávamos? - Por nada – respondeu a jovem compondo os cabelos. – Só estava curiosa. - Não me digas que estás a pensar em juntar-te aqui ao clube VIP!? - Não! Eu não seria capaz de cobrar para ir para a cama com alguém. - Então não tens pedalada para isto! Vai lá, rapariga! Vai para casa porque este não é o lugar mais indicado para ti. - Nem tudo o que reluz é ouro – concluiu Milene evidenciando no rosto os anos de uma das profissões mais ingratas do mundo. – Lá porque estamos para aqui a rir e a contar piadas, não penses que somos felizes por termos cinco homens por noite e pouco mais de quinhentos euros de manhã. Aproveita a tua juventude, a escola e esquece isto! Esquece isto porque isto é uma merda… As palavras de Milene permaneceram-lhe nos ouvidos durante largos minutos, e enquanto se afastava dela e lhe observava os últimos traços físicos, Sara deu-se por vencida e abandonou aquela rua semi-deserta completamente coberta pelo casaco que fez questão de levar consigo. Sim. Elas estavam certas ao dizer que aquele não era lugar para si e nem para ninguém. Era um lugar sujo, triste e guardava na fachada dos prédios toda a decadência humana de pessoas que tinham perdido totalmente a vontade de viver. – Queres coca? - Não – respondeu ela desviando-se de um dos inúmeros traficantes. - Queres trabalhar para mim? - Não – ela voltou a responder. Minutos depois, as luzes da avenida ofuscaram-lhe os olhos e trouxeram igualmente o ar que há muito ela havia deixado de respirar enquanto esteve metida naquele bairro tão degradado. Estava salva, pensou. Salva e pronta a regressar para uma casa, onde, apesar de não se sentir muito bem-vinda, sempre tinha algum conforto e segurança. - Queres boleia? A voz grossa vinda do interior de um carro parado a poucos metros do passeio foi o impulso que Sara precisou para se voltar para trás e encarar o rosto daquele homem de
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meia-idade, barba aparada e um sorriso desenhado nos lábios. – Não, obrigada – respondeu ela. - Estás com frio, já deu para reparar. Porque é que não entras? Entrar ou não entrar, essa foi a questão que durante vários minutos rondou a cabeça de Sara enquanto ela se tentava decidir e tentava igualmente fugir à forte ventania produzida pela noite. Mas os olhares esguios, o virar do rosto e a sensação de que não estaria a fazer nada de mal se aceitasse uma boleia de um perfeito desconhecido, fizeram com que ela retirasse uma das mãos do bolso e alcançasse a porta do carro sem pensar nas consequências daquele acto no mínimo irreflectido. Mais tarde, devidamente instalada no banco da frente, rasgou-lhe um olhar assustado e correspondeu-lhe ao sorriso. – Meu nome é Paulo – ele disse. - Olá! Sara. - Muito prazer, Sara. - Obrigada. - Posso saber o que fazes sozinha a essas horas da noite? - Vim visitar uma amiga – mentiu ela. - Nesta zona?! - Porquê?! O que é que tem? - Nada – respondeu Paulo enfiando a chave na ignição do carro. – Diz-me! Para onde queres que te leve? - Para casa. - E onde é que moras? - Parque das Nações. Paulo Figueira tinha quarenta e cinco anos, era professor universitário, divorciado e pai de duas filhas com a mesma idade de Sara, facto que fez questão de salientar durante a condução pelas ruas da cidade. No fundo, até parecia ser boa pessoa, bastante educado, cordial e seguro do que dizia. Mas enquanto o ouvia falar sobre assuntos perfeitamente triviais para duas pessoas que mal se conheciam e que tinham uma diferença abismal de idades, Sara sentiu um calor percorrer-lhe as pernas, e as mãos que fez questão de manter sempre apoiadas sobre o colo, começaram a suar desalmadamente. Sim. De facto, ele era velho demais para si, mas talvez tenha sido esse facto que mais a fascinou naquele senhor de meia-idade que em muito lhe fazia lembrar o seu professor de Química. – Estás entregue. - Posso voltar a vê-lo – saltou essa pergunta dos lábios de Sara enquanto se desfazia do cinto de segurança. - Claro – respondeu ele apressando-se a encontrar um cartão no porta-luvas. – Toma! Tens aqui o meu número de telefone e também da universidade onde dou aulas. - Está bem. - Podes ligar quando quiseres. - Assim que puder eu ligo – respondeu Sara encontrando no cartão a deixa perfeita para abandonar o carro de Paulo e atravessar a rua em direcção ao prédio onde morava. Nessa altura, a portaria abriu-se ruidosamente, ela voltou-se para trás e correspondeu ao aceno do professor com a clara certeza que estaria para muito breve um novo encontro dos dois.

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O telefonema de Sérgio tomou Madalena de assalto enquanto ela terminava de arrumar a cozinha e retirava do congelador a carne que iria assar no dia seguinte. Mas nem o frio arrepiante que se fazia sentir lá fora conseguiu demovê-la da ideia de aceitar o convite do fotógrafo quando soube que ele se encontrava a poucos metros da sua casa, enfiado no carro e à sua espera. – Daniel, vou pôr o lixo lá fora – exclamou ela passando pelo corredor como um foguete. – Ouviste? - Hã…!? - Vou pôr o lixo lá fora. - Está bem – respondeu ele mostrando-se muito pouco interessado naquela tarefa tão rotineira. Liberdade foi o que Madalena sentiu quando alcançou os portões do jardim e caminhou apressada em direcção ao contentor de lixo mais próximo. Mais tarde, deitou nele um saco minúsculo e correu em direcção ao carro da única pessoa que a poderia levar à rua àquela hora. – Que saudades – confessou ela conseguindo finalmente enterrar-se nos braços dele. - Eu também morri de saudades tuas – respondeu Sérgio beijando-a no interior do carro. - Pensei que não nos fossemos ver hoje. - É que eu tive que deixar uns rolos na casa de um amigo, e como ele morava aqui ao pé, resolvi fazer-te uma surpresa. - Adorei – respondeu ela voltando a sugar-lhe os lábios. – A surpresa é claro. - Os teus filhos? Como é que estão? - O Daniel está bem! Estava agarrado à Playstation dele, o que foi óptimo porque assim não tive que dar muitas desculpas para sair de casa – riram-se. – Mas a Sara não sei. Há pelo menos quatro dias que não sei nada dela. - Deve estar bem com o pai. - É – respondeu Madalena não muito convicta disso. – Mas eu queria que ela estivesse aqui comigo. - Eu sei! Mas bem, mas esquece esse assunto – pediu Sérgio voltando a encontrar-lhe os lábios. – Não vim aqui para te deixar triste, muito pelo contrário. - Tu nunca me deixas triste. - E quando é que vamos deixar de nos encontrar às escondidas dentro do meu carro? - Nós não nos estamos a encontrar às escondidas. - Tens a certeza?! Se não tivéssemos nada a esconder, eu teria tocado à tua porta, tu tinhasme deixado entrar para conhecer o teu filho e estaríamos agora os três sentados no sofá a ver televisão ou a jogar Playstation, não sei. - Sérgio… - Eu não quero me esconder, Lena – afirmou ele acariciando-lhe a face enquanto os seus olhos mergulhavam nos dela. – Lembras-te daquilo que te disse no outro dia? Que não quero ser o tal que só vês quando tens algum tempo na tua agenda? - E nem eu quero que sejas esse tal. - Então?! O que é que te está a impedir de me deixares entrar na tua vida? Madalena optou pelo silêncio como forma de resposta, mas depois voltou a reerguer o rosto em direcção a Sérgio. – Dá-me só mais algum tempo … – pediu ela. – Pelo menos até a minha filha voltar para casa e as coisas regressarem à normalidade. Depois disso, juro que te apresento aos meus filhos e vamos ficar os quatro sentados no sofá a ver televisão.
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Havia pelo menos uma semana que Sara não colocava os pés na escola, e tudo porque encontrava sempre coisas mais interessantes para fazer, como passear pelas ruas da cidade sem se importar com as choras de chegar a casa, dormir até quando quisesse, comer ou não as refeições e continuar a assistir a filmes pornográficos quase todos tirados da Internet. De facto, aquele era o seu pequeno vício, uma coisa que adorava fazer quase todas as horas do dia e do qual não parava de pensar especialmente quando se lembrava de Paulo Figueira, o professor universitário que lhe ofereceu um boleia dois dias antes. Numa dessas vezes em que pensou nele, imediatamente após se ter masturbado pela terceira vez consecutiva naquela tarde, resolveu fazer algo há que muito se tinha predisposto. Telefonar. Telefonar a um homem que tinha idade para ser seu pai e tentar marcar um encontro com ele. – Podemos combinar um café para amanhã ao final da tarde – foi a resposta que obteve no outro lado da linha. - Por mim tudo bem – disse ela tentando acalmar a voz trémula. – Aonde?! A faculdade de Paulo ficava no Alto da Ajuda e foi por isso que Sara concordou encontrarse com ele numa pequena esplanada perto de Algés, onde reinava a boa disposição dos clientes, na sua maioria turistas, e uma brisa de final de Verão que em tudo embalou os pensamentos dela enquanto esperava impacientemente pela sua companhia. Dez minutos mais tarde essa companhia chegou trajada com um elegante fato, os mesmos cabelos grisalhos e a barba aparada. – Olá! Espero não me ter demorado muito – disse ele. - Não – respondeu Sara esboçando um sorriso quando Paulo se sentou à sua frente. – Eu também cheguei quase agora. - Já pediste alguma coisa? - Não. - Então vou pedir dois cafés para nós. - …eu não bebo café – confessou ela tentando acalmar as mãos nervosas ao colocá-las por debaixo da mesa. - Então peço um sumo. Pode ser? - Pode. Ao sabor de um delicioso sumo de pêra, os dois personagens, que nada tinham em comum para além de serem dois seres humanos, conversaram durante largas horas e esqueceram-se de tudo o resto que os rodeava. Paulo era um excelente conversador e demonstrava toda a sua inteligência através de um discurso claro, conciso e bastante sedutor. Trazia também um à vontade e um carisma difícil de explicar aos olhos de uma adolescente de quinze anos cujo maior desejo era continuar a ouvi-lo e perceber o que é que ele tinha de tão especial para a fascinar. – Gostas de ler? – perguntou Paulo no meio da conversa. - Gosto – respondeu ela. - Então se quiseres posso emprestar-te alguns livros que tenho lá em casa. - Iria adorar. - Marcamos um outro encontro e eu trago-tos! - Está bem – concordou Sara deixando-se encantar pelo sorriso que Paulo lhe lançou. Na semana seguinte, apesar das inúmeras tentativas que Madalena efectuou para trazer a filha de volta a casa, Sara recusou-se terminantemente a voltar dizendo que se encontrava bastante feliz a viver com o pai. Mas a verdade é que o verdadeiro motivo da sua recusa prendia-se única e exclusivamente com Paulo Figueira, o professor universitário que
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conheceu por um mero acaso, mas que agora não se imaginava a viver sem ele. De resto, os telefonemas quase diários e troca de algumas confidências apenas fizeram Sara sonhar com um possível relacionamento entre os dois. Sonhou também fazer amor com ele embora tivesse a plena consciência que a diferença de idades que os separavam iam muito além de uma mera faixa etária. Provavelmente ninguém compreenderia as razões que a faziam suspirar por um homem de quarenta e cinco anos quando deveria interessar-se somente por rapazes da sua idade. Seria apenas uma fixação? Uma cisma? Um desejo? Talvez. Talvez fossem todas essas coisas, mas a verdade é que se voltasse para a casa da mãe jamais teria a chance de voltar a encontrar-se com Paulo e muito menos de levá-lo ao apartamento vazio do pai. – Entra – disse ela deixando que ele invadisse o corredor. – Não repares na desarrumação! O meu pai é mesmo assim. - Não te preocupes! Já vi coisas piores. Não te esqueças que também moro sozinho. - Claro – riram-se os dois enquanto chegavam à sala. – Bem, queres beber alguma coisa? - O que tiveres para me oferecer. - Tenho sumo, café ou chá. - Aceitava um chá. - Então eu vou fazer – respondeu Sara abandonando a sala sob o olhar atento de Paulo. O chá foi servido em poucos minutos num pequeno tabuleiro e em duas chávenas de porcelana que Sara fez questão de escolher nos armários da cozinha. E não. Na verdade ninguém diria que àquela tinha sido a primeira vez que se atrevera a fazer um chá. Mas a verdade é que o fez, e a outra verdade é que os seus intuitos saíram na perfeição quando Paulo elogiou o sabor e a temperatura. Depois disso, seguiu-se uma conversa interessante sobre novos escritores contemporâneos, o prazer da leitura e a certeza de que as horas tinham deixado de passar para os dois. - …não te achas bonita? – foi a surpresa de Paulo quando Sara lhe falou sobre as suas inseguranças relativamente à sua aparência física. - Não – respondeu ela arrepiando-se quando ele lhe tocou suavemente na mão. - Pois devias! És uma rapariga muito bonita. Aposto que todos os rapazes lá da tua escola devem correr atrás de ti. - Eu não me interesso por rapazes da minha idade. - Não?! - Não – respondeu Sara voltando a sentir o mesmo arrepio quando Paulo lhe encontrou os dedos e entrelaçou a mão neles. - Gostas de homens mais velhos? - Mais ou menos. - Quão mais velhos!? - Não sei. - Da minha idade? A resposta foi dada com um aceno positivo. – Fico contente por saber isso – disse ele. O hálito de Paulo sabia a menta e as mãos não tardaram a percorrer as costas de Sara num movimento lento e contínuo em direcção às pernas. Ela tremia, ele pôde perceber isso quando a deitou sobre o sofá e lhe afagou os cabelos lisos. Depois disso, seguiu-se um olhar absolutamente esmagador que só culminou com um novo beijo e a loucura de Sara em permitir que um homem de quarenta e cinco anos a tocasse como nenhum outro homem a havia tocado até então. Completamente despida, ela entregou-lhe a única coisa
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preciosa que há muito sonhava entregar a alguém. A sua virgindade. – De quem é este livro? – perguntou-lhe o pai quando descobriu um exemplar do escritor Paulo Coelho sobre a mesa da sala. Onze Minutos era o nome da obra. - Hã… foi uma amiga que mo emprestou – respondeu Sara apressando-se a arrancar o livro das mãos do pai. - Este livro não é para a vossa idade, sabias!? - Ainda não o li. - E nem devias! Olha, a tua mãe ligou-me hoje lá para o escritório. Diz que precisa falar connosco. - Pai, eu não quero voltar para casa! Eu quero ficar aqui. - Eu sei, mas não custa nada ouvir o que a tua mãe tem para dizer, não é?! Além de que parecia irritada. Aquela seria a última vez que iria pisar a casa do ex. marido, foi o que Madalena decidiu durante a sua condução pelas ruas da cidade. Após a leitura de uma carta escolar que dava conta das sucessivas faltas de Sara às aulas, e de uma conversa com directora de turma, Madalena percebeu que já não lhe restava outra alternativa a não ser arrancar a filha das garras do pai. Jorge sempre fora um pai irresponsável, ausente e sem as mínimas condições morais para tomar conta dos filhos, especialmente de Sara. Mas vendo bem, a culpa não era só dele. Era também sua por permitir a loucura da filha em ir morar com o pai. - Vieste cedo – disse Jorge deparando-se com a figura de Madalena especada sobre o patamar de entrada. - Sabes o que é isto!? - O quê? - Uma carta da escola da tua filha… – respondeu Madalena atirando-lhe o envelope ao peito. – Ou devo dizer antes, da tua companheira de quarto? - O que é que estás para aí a dizer? - O que eu estou a dizer Jorge, é que a Sara está prestes a ultrapassar o limite de faltas injustificadas do primeiro período e a culpa é tua, inteiramente tua – vociferou Madalena apontando-lhe o dedo. - Tem calma! Olha os vizinhos aí do lado – disse ele puxando-a para o interior do seu apartamento. – Queres o quê? Que toda a gente oiça as tuas histerias? - Não são histerias. É um facto! Uma realidade! A Sara está quase a chumbar por faltas e tu estás pouco te importando com isso. - Eu nem sequer sabia que ela andava a faltar às aulas. - Porquê? Não a tens levado à escola? - Não, eu… - Meu Deus – exclamou Madalena soltando uma gargalhada seca a fim de acalmar os nervos que se apossaram de si. – Tu és ainda mais demente, mais mentecapto e mais irresponsável do que eu pensava. O que é que aconteceu contigo quando nasceste, hã? Será que a tua mãe te atirou contra a parede? - Hei – imperou Jorge não gostando nem um pouco da ironia. – Tem calma! Não venhas ofender-me aqui dentro da minha própria casa. - Aonde é que está a Sara?
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- Não sei, ela saiu. - Saiu para onde? - Não sei, já disse – respondeu ele abrindo os braços. – Saiu de manhã para fazer umas compras. - E tu acreditaste?! Ou melhor, deixaste ela sair de casa sozinha? - Querias o quê? Que lhe prendesse o pé à mesa da sala? - O meu maior erro foi ter deixado a Sara vir morar contigo e está-me a cheirar que ainda me vou arrepender muito mais desse erro daqui para a frente. - Vamos esperar ela voltar da rua! Quando ela vier, nós falamos com ela. - Não existe nada para falar – imperou Madalena gesticulando furiosamente os braços. – A Sara vai voltar comigo e ponto final! Aqui ela não fica nem mais um dia. A fechadura sofreu uma ligeira pressão quando faltavam poucos minutos para as dezoito horas, mas já nessa altura, nem Madalena e nem Jorge tiveram forças para esboçar qualquer movimento corporal. Durante horas permaneceram sentados em diferentes sofás sem trocar uma palavra, um olhar e desejando apenas que a chegada da filha lhes trouxesse respostas paras as dezoito faltas a Português, doze a Matemática, oito a Química e cinco a Geometria que ela conseguiu arrecadar em apenas dois meses. – Olá… - disse Sara surpreendendo-se com a presença da mãe ali. - Começa já explicar – exclamou Madalena levantando-se do sofá. – Aonde é que te meteste? - Fui passear. - Aonde? - À Baixa – mentiu Sara despindo o seu casaco de ganga. – Já tinha dito ao pai! Lembraste pai?! - Sara, a tua mãe está chateada contigo e tem boas razões para isso. - Não digas que eu estou chateada com ela – interrompeu Madalena voltando-se para o ex. marido. – Nós estamos chateados com ela, ou pelo menos também tu devias estar se te preocupasses minimamente com a tua filha. - Pronto! Vai começar… - Eu só quero que me apoies uma vez na vida e não fujas com o rabo à seringa apenas para não ser o mau da fita. - O que é que se passa? – perguntou Sara interrompendo a discussão dos pais. - O que se passa é que a tua directora de turma me ligou lá para casa a dizer que estás em perigo de chumbar o ano – respondeu a mãe atirando-lhe a carta para as mãos. – Lê! Lê e vê qual foi o resultado das tuas brincadeiras. A expressão de Sara não se alterou nem um pouco quando leu as informações expostas naquela carta e talvez tenha sido esse facto que mais tenha irritado Madalena. – Não vais dizer nada em tua defesa? - Eu não tenho nada para dizer. - Sara, tu não brinques comigo! - Sara – interrompeu Jorge. – A tua mãe tem razão! Não é certo andares a faltar às aulas porque essa é a tua única obrigação para connosco. Se te damos tudo, o mínimo que deves fazer é ir à escola e tirar boas notas. É para isso que eu e a tua mãe andamos a trabalhar, ou não?! Para te dar a ti e ao Daniel um futuro melhor e tu estás a desperdiçar tudo isso.
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- O.k – respondeu ela largando os braços. – Desculpem lá! - Desculpem lá – repetiu Madalena num tom sarcástico. – Tu achas que é só pedires desculpas e está tudo resolvido? - E o que é que queres que eu faça?! Que me ajoelhe aos teus pés e te peça perdão? - Sara, não fales assim com a tua mãe – interferiu Jorge saindo em defesa da ex. mulher. - Sinceramente não sei o que é que vieste cá fazer – disse a jovem desviando-se bruscamente de Madalena. – Não bastava teres ligado? Mas não, não é! Tinhas que aparecer para dar o teu show de mãe dedicada e extremosa. - Eu só vim chamar-te à razão! Dizer que está errado aquilo que fizeste e que não estás autorizada a repeti-lo! Foi para isso que eu vim. - Já pedi desculpas. - Vai arrumar as tuas coisas ao quarto! Voltas hoje comigo para casa. - O quê – foi a reacção intempestiva de Sara. - Isso mesmo que ouviste e nem adianta espernear porque eu já conversei com o teu pai e juntos chegámos a um acordo – respondeu Madalena não se deixando intimidar pelo olhar de ódio que a filha lhe lançou. – Tu vais voltar lá para casa e ponto final. - Eu não vou. - Sara, já disse para não brincares comigo! - Pai – suplicou Sara alcançando os braços do progenitor a fim de encontrar um aliado contra a mãe. – Não deixes que ela me leve daqui! Não deixes! Será que não vês que ela está a fazer isso de propósito para nos separar? Ela não gosta de ti e também não quer que eu goste de ti. É tudo um plano, não vês?! - Sara… - Pai… - Eu acho que a tua mãe tem razão – afirmou Jorge para grande desespero da filha que sem outro remédio viu-se obrigada a afastar-se dele e a deixar duas enormes lágrimas caíremlhe dos olhos. – Eu não tenho … como é que hei-de dizer…! Eu não tenho condições para te ter cá em casa. - Queres que me vá embora, é isso?! - É claro que não, filha. Eu adoro ter-te cá em casa, mas o problema é que não tenho tempo para cuidar de ti como a tua mãe tem. Trabalho até tarde, tenho sempre encontros com clientes de última hora e até já cheguei a desmarcar várias viagens de trabalho apenas para não te deixar sozinha. - Tu queres que eu me vá embora. - Já disse que… - Queres sim – gritou Sara, esbaforida. – Tu não gostas de mim. - Nunca mais voltes a dizer uma barbaridade dessas. - Se gostasses não me deixavas ir com a mãe quando sabes muito bem que nós nunca nos demos bem e que eu a odeio de morte. Mas tu só queres saber de ti, não é?! Só queres trazer as tuas namoradas cá para casa e não ter ninguém que te atrapalhe… - Sara… - Pai, se tu me deixares ir com a mãe, eu nunca mais falo contigo. Silêncio foi a resposta de Jorge. – Ouviste, pai?! Nunca mais falo contigo! - …é melhor ires com a tua mãe, Sara! Com ela vais ficar melhor.
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As palavras do pai soaram-lhe como uma bomba aos ouvidos e por vários segundos foi inevitável para Sara não derramar as últimas lágrimas que lhe restavam de uma relação que pensava ser perfeita, mas que a tinha traído no momento em que mais precisava dela. Sim. Jorge traiu-a. Traiu-a diante da sua mãe e por isso ela nunca mais o iria perdoar. – Vai arrumar as tuas coisas ao quarto – disse Madalena interrompendo os olhares de ódio que a filha lançou ao pai e deixando-a sair da sala completamente esbaforida. - Ela odeia-me – murmurou Jorge. - Bem-vindo ao clube – respondeu Madalena largando os braços. Enquanto passeava pelo quarto, Sara tentou encontrar várias soluções para o grande sarilho em que estava metida. Não. Não posso voltar para a casa, era tudo o que pensava enquanto roía as unhas e tentava encontrar uma maneira miraculosa de se livrar das garras da mãe. Claro, fez-se luz. Vou ligar ao Paulo. Ele vai-me ajudar. Talvez fosse ele a ajuda que tanto necessitava e o anjo da guarda que desde o primeiro momento pareceu ser na sua vida. Mas a verdade é que nada disso pareceu ter qualquer fundamento quando Sara se atreveu a digitar-lhe o número de telemóvel. O número que marcou não está atribuído, foi a resposta que obteve após oito tentativas consecutivas. Depois disso, veio um sabor amargo a derrota e a engano que a levou às lágrimas. O número já não existe. O número já não existe, repetiu várias vezes a si própria enquanto tentava convencer-se que tudo aquilo não passava de um pesadelo. Paulo não podia ter desaparecido sem deixar rastro, não após de tantas juras amor que lhe segredou aos ouvidos ou depois de lhe ter entregado a sua virgindade. Não depois de ter prometido que a levaria a morar consigo caso a relação dos dois resultasse ou de ter jurado enfrentar os seus pais apenas para ficar com ela. Não. Não depois de tudo aquilo. Meia hora mais tarde, por ter conseguido encontrar outra solução, Sara aproximou-se do carro da mãe, enquanto no porta-bagagem foram-lhe colocadas as três malas que tinha levado para morar com pai. De resto, foi o próprio que se encarregou de tal tarefa, deixando a ex. mulher livre para enfiar a mochila da filha no banco de trás. – Não querem que vos leve? – perguntou ele. - Não – respondeu Madalena, resoluta. – Nós vamos bem sozinhas. Até que enfim chegaram, foram as palavras de Afonso Soares quando a porta se abriu, e por ela entraram a sua filha, Madalena, e a sua neta, Sara, no mais profundo silêncio. – Pai! Ajudas-me a trazer as malas que estão no carro? – pediu Madalena. - Claro! E tu? – perguntou Afonso voltando-se para a neta. – Achas bem aquilo que fizeste? Achas bem andar a faltar às aulas? - Não me chateies – respondeu Sara para grande surpresa do avô. Mais tarde, alcançou o corrimão das escadas e subiu em direcção ao quarto onde foi audível o estrondo violento de uma porta a fechar. - A miúda está louca. - Sinceramente não sei o que fazer com ela – suspirou Madalena levando as mãos à cabeça. – Está cada vez pior e estes dias na casa do pai só a pioraram ainda mais. - Precisas impor-lhe disciplina! Pelo menos, no meu tempo era assim que se educavam as crianças. - Achas que sou uma péssima mãe, não é!?

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- É claro que não – respondeu Afonso segurando os ombros da filha. – Tu és uma boa mãe, não é isso que está em causa. Mas a Sara precisa de limites, de ter medo de alguém e há muito tempo que ela já não tem medo de ti. - Se ao menos aquele imprestável do Jorge servisse para alguma coisa – disse Madalena limpando as tímidas lágrimas que teimaram em cair-lhe dos olhos. – …garanto-te a minha tarefa era bem menos complicada. - Bem, vamos lá buscar as malas ao carro! As semanas foram passando, a temperatura arrefecendo, os dias tornando-se mais curtos e tristonhos e Sara percebendo que nunca mais voltaria a ter notícias de Paulo Figueira, o falso professor universitário que a única coisa que quis foi retirar-lhe a virgindade como se de um prémio se tratasse. Por vezes, enquanto se encontrava sentada sobre o alpendre da janela do quarto, ela perdia-se em justificações sem fundamento para não se sentir tão ingénua e usada. Chorava, odiava-se e repetia a si própria que nunca mais voltaria a confiar em quem quer que fosse, especialmente num homem. Mas por outro lado, o desejo sexual experimentado com Paulo continuava a dominar-lhe a mente, assim como a sua vontade em devorar toda a espécie de pornografia que encontrava na Internet. Estaria ela doente por passar a vida a pensar em sexo ainda que fosse na escola, enquanto voltava para casa no carro da mãe e especialmente à noite quando se trancava no quarto e utilizava o computador para satisfazer a sua curiosidade? De facto, não sabia. Não sabia também se essa vontade descontrolada de se tocar iria passar com o tempo, ou se pelo contrário, prolongar-se durante anos e anos. Mas de uma coisa tinha certeza. Precisava fazer sexo. Fosse com quem fosse. Sexta-feira foi o dia do aniversário do Sérgio e por isso Madalena estava excitadíssima. Na verdade, a relação de ambos, mesmo tendo sido mantida em segredo, primava pelo amor, pelo companheirismo e pela paixão que a cada semana crescia ainda mais nos seus corações. Ele adorava-a, ela adorava-o e não havia nada melhor do que terem-se um ao outro para se confortarem com palavras carinhosas repletas de amor. Por sorte, Sérgio era um homem compreensivo. Nunca forçou a sua entrada na vida de Madalena e era por isso que ela lhe era tão grata. Com os problemas de Sara a atormentarem-lhe os pensamentos, de facto sobrava pouco tempo para se dedicar a ele, embora Sérgio muitas vezes pedisse para que se vissem todos os dias. Impossível, ele sabia, mas ainda assim não custava nada tentar ter um pouco mais de espaço na vida de Madalena quando a sua única vontade era tê-la só para si. E sim. O dia do seu aniversário era a ocasião ideal. Por sorte e após muito esforço, Madalena conseguiu convencer o seu pai a buscar os netos à escola e ficar com eles durante a noite, e tudo para que ela pudesse passar um maravilhoso serão ao lado de Sérgio. Seria um jantar romântico no apartamento dele, provavelmente repleto de champanhe, boa comida e outras coisas que ela corou só de o ouvir falar ao telefone. – Pontual como sempre – disse ele abrindo a porta com um largo sorriso e com uma garrafa de champanhe nas mãos. Depois disso, a rolha saltou para o tecto e Madalena bateu palmas maravilhada. - Bem! Que recepção… - E tu ainda nem viste nada – respondeu Sérgio entregando-lhe a taça de champanhe após um longo beijo. – Entra!
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- Obrigada – disse ela saboreando o primeiro gole da bebida. - Está bom? - Está óptimo. - O nosso jantar já está pronto! Só falta tirar do forno. - Foste tu que cozinhaste? – perguntou Madalena, divertida. - Claro ou o que é que pensas?! Nunca te falei sobre os meus dotes culinários? - Os dotes que eu conheço são outros – respondeu ela enterrando-se nos lábios dele enquanto se deixava levar em direcção à sala. O jantar primou pela simplicidade, pela conversa amena e também pelas velas que Sérgio fez questão de acender sobre a mesa enquanto Madalena se ria às gargalhadas e lhe confessava não se lembrar da última vez que degustara uma refeição às escuras. Mas a verdade é que naquela chuvosa noite de sexta-feira, ela degustou. Degustou não só a refeição, mas também os lábios de Sérgio quando dançou com ele a mesma música que ambos tinham dançado no início da sua relação. Uma relação que tinha todos os ingredientes para ser apenas um amor de Verão, mas que se prolongou até o Outono e tinha esperanças de ultrapassar o Inverno. – Estive a pensar… - O quê? – perguntou Sérgio enterrando-se no pescoço dela. - …em levar-te a conhecer o meu pai e os meus filhos – respondeu ela após um pequeno suspense. - Aleluia – riram-se os dois. - Agora que as coisas estão um pouco mais calmas lá em casa, que a minha filha já não anda a faltar às aulas, eu acho que posso começar a pensar um pouco mais em mim. Aliás, um pouco mais em nós. - Fico muito contente por ouvir isso – respondeu Sérgio mexendo-lhe nos cabelos soltos. - Achas que vais conseguir? - O quê? - Ultrapassar a prova de fogo que vai ser conhecer as minhas três pestinhas!? - Por ti sou capaz de ultrapassar tudo. - Veremos – respondeu Madalena não resistindo a desabotoar-lhe os primeiros botões da camisa. – Veremos se não vais fugir a sete pés quando os vires enfileirados à frente do sofá. - E tu queres que eu fuja? - Claro que não. Quero que fiques e me ajudes a enfrentá-los também. - E quando é que vou ter a honra de conhecer as tuas três pestinhas? – perguntou Sérgio colocando-lhe os cabelos atrás dos ombros. - Primeiro vou falar com eles, e depois, quando conseguir um sinal verde, combinamos um jantar ou um almoço em minha casa. - Não demores a conseguir esse sinal verde, ouviste?! - Podes deixar – respondeu ela mergulhando-lhe nos lábios e também naquela sensação tão fantástica que era tê-lo só para si. Tê-lo perto, sentir a humidade da sua boca, os braços fortes à volta da sua cintura e o corpo completamente colado ao seu. Depois disso, o mundo parou e não foram precisas mais palavras para que ela entendesse tudo o que ele queria fazer naquele momento.

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Submersos, os dois amantes deitaram-se no sofá e retiraram as respectivas roupas enquanto a música que os embalou na dança continuou a tocar durante minutos a fio. - Este foi sem dúvida o melhor aniversário que já tive – confessou ele encarando-lhe o rosto após a ter possuído sem quaisquer restrições. - Ainda falta o meu – riram-se baixinho. Uma semana foi o tempo que Madalena precisou para conversar com o pai a respeito de Sérgio, explicando-lhe primeiro como se conheceram, o que ele tinha para a fazer tão feliz e os motivos que a faziam querer apostar numa relação mais séria e duradoira com o fotógrafo. E Afonso, apesar de ter ficado um pouco surpreso com todas aquelas revelações, não viu outro remédio a não ser apoiá-la. Se ele te faz feliz, força, foram as palavras de encorajamento que ditou a Madalena e que a deixaram muito mais aliviada. Contudo, ao contrário do que esperava, a reacção de Sara não foi nem um pouco agradável e a de Daniel primou pelo embaraço de não saber se aquela era uma boa notícia ou não. - Está tudo certo – disse Madalena quando falou com Sérgio ao telefone no final da noite. - Contaste-lhes sobre nós? - Contei! - E eles? – perguntou Sérgio sem conseguir esconder o nervosismo. - Fizeram uma cara como se tivessem acabado de ser atropelados por um camião, mas o meu pai ajudou-me a controlar os danos – respondeu Madalena ouvindo uma leve risada no outro lado da linha. - Que bom! - Para a semana já podemos marcar o jantar. Achas que vais poder vir na próxima quartafeira? - Prometo que vou fazer tudo para ir. - Óptimo – murmurou Madalena com um sorriso radiante. - Bem, nem sabes o peso que me tiraste dos ombros. Hoje não consegui parar de pensar noutra coisa a não ser na conversa com os teus filhos. Pensei que eles se fossem opor, ficar contra nós ou assim… - Também não estão a favor – confessou ela. – Mas pelo menos não se negaram a conhecer-te, o que vendo bem, especialmente por causa da Sara, já é um bom caminho para nos mantermos optimistas. - Optimismo é o que não me falta – respondeu Sérgio arrancando-lhe uma leve gargalhada. O jantar foi marcado para quarta-feira, as compras foram feitas no supermercado mais próximo e a mesa da cozinha decorada com algumas flores que Madalena trouxera da sua floricultura. E não. Nada poderia dar errado para aquele que prometia ser o jantar mais importante da sua vida e também a única e derradeira oportunidade para que os filhos e o seu pai caíssem de amores por Sérgio e se deixassem encantar por ele. O mundo dava muitas voltas, pregava inúmeras partidas e reservava as maiores surpresas para uma mulher que havia perdido totalmente a esperança de amar e ser amada em proporções iguais. Mas Sérgio apareceu. Apareceu como um anjo caído do céu e era ele a única razão para que Madalena estivesse enfiada naquela cozinha a ultimar os preparativos do jantar. – O moçoilo nunca mais chega – resmungou Afonso lançando os olhos ao seu relógio de pulso enquanto a filha terminava de temperar a salada a uma velocidade fantasmagórica.
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- Ele ligou-me há pouco. Acho que se atrasou a sair do estúdio e apanhou algum trânsito pelo caminho. - Já não começa bem. - Pai – exclamou Madalena fulminando-o com os olhos. – Comporta-te, por favor! - Olha lá, o Jorge por acaso sabe que estás a namorar com outro homem? - Porque é que ele haveria de saber?! - Porque é o teu ex. marido e pai dos teus filhos. - O Jorge não tem mais nada a ver com a minha vida e nem tu devias estar a falar dele já que daqui a poucos minutos vais conhecer o meu novo namorado – afirmou Madalena guardando o azeite num dos armários da cozinha. – Por isso, tal como já disse, comportate! Não quero que fales do Jorge, aliás, não quero que fales, que penses ou sequer que te lembres dele! Este jantar tem que ser perfeito, e quando digo perfeito, digo perfeito em todos os sentidos. - Está bem, está bem. - Bem… acho que não me esqueci de nada! Pratos, copos, talheres, guardanapos… - Não te estás a esquecer do vinho? – interferiu Afonso encontrando um maço de cigarros no bolso das calças. - Claro! O vinho – lembrou-se Madalena correndo em direcção ao frigorífico. As suas mãos estavam trémulas, Sérgio pôde senti-las quando abriu o portão da casa de Madalena e se preparou para lhe conhecer o pai e os filhos. O que será que eles iriam pensar de si? Iriam adorá-lo? Detestá-lo? Isso era uma incógnita até para os deuses lá de cima, mas a verdade é que ele estava disposto a fazer de tudo para que as pessoas mais importantes da vida de Madalena também gostassem de sim. – Eu atendo – gritou ela apressando-se pelo corredor quando a campainha tocou. Mais tarde, depois de um longo suspiro e de ter composto os cabelos soltos, girou a maçaneta e encontrou o seu convidado especial carregado com um sorriso, um ramo de rosas, duas caixas de chocolate e uma garrafa de vinho comprada pelo caminho. – Estás todo carregado – riu-se Madalena enquanto repartia com Sérgio o peso dos presentes. - Por pouco e não comprava o supermercado todo. - Entra! - Obrigado – respondeu ele acedendo-lhe o pedido com alguma cautela e também com um aperto discreto na mão esquerda. Mais tarde, seguiu-se a caminhada em direcção à cozinha onde se encontravam os três pestinhas da família, segundo as palavras de Madalena enquanto o empurrava pela costas e o fazia ganhar forças para enfrentar a maior prova de fogo que alguma vez havia enfrentado em toda a sua vida. Conhecer os filhos e o pai de uma namorada? Não. De facto, aquilo nunca lhe tinha acontecido até porque todas as namoradas que teve durante os seus trinta e poucos anos de vida sempre foram solteiras, emocionalmente inexperientes e sem qualquer bagagem familiar. A cozinha cheirava bem. Cheirava a pato assado, a arroz e batatas fritas, para além do calor que o forno fazia questão de lançar naquela grandiosa habitação composta por inúmeras mobílias sofisticadas, duas janelas amplas e também por três pessoas que nem sequer se aperceberam da chegada de Sérgio e Madalena. Sara encontrava-se de olhos postos na televisão, Daniel a jogar na sua playstation portátil e Afonso a espreitar o pato trinchado sobre a bancada.
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Ao vê-los, Sérgio pensou seriamente em fugir, pois as mãos começaram a suar, o coração bateu mais forte e as pernas permaneceram paralisadas sobre o alpendre da porta pedindo qualquer tipo de socorro diante daquela situação tão constrangedora. – Pessoal – exclamou Madalena. – Este é o Sérgio! As cabeças de Afonso, Sara e Daniel viraram-se imediatamente em direcção àquele desconhecido que agora também iria fazer parte das suas vidas. Analisaram-nos dos pés à cabeça e por momentos fizeram-no sentir como um verdadeiro extraterrestre vindo de um planeta distante. – Sérgio – disse Madalena apressando-se a fazer as apresentações e a terminar-lhe com aquele calvário. – Os meus filhos! Daniel e Sara… - Olá Daniel – exclamou o fotógrafo estendendo-lhe a mão quando se aproximou da mesa. - Olá – respondeu o jovem aceitando o cumprimento com alguma cautela. - Olá Sara. - Olá – respondeu ela pensando que pelo menos a sua mãe tinha bom gosto. - E este é o meu pai… – afirmou Madalena alheia aos pensamentos da filha. – O senhor Afonso Soares que já há muito te queria conhecer. - Lá isso é verdade – respondeu Afonso aceitando o aperto de mão por parte de Sérgio. - Muito prazer, senhor Afonso! - O prazer é todo meu, acredite! Fico contente que tenha aceitado jantar connosco. - Eu é que agradeço o convite. - E ele trouxe presentes – interferiu Madalena empenhando duas caixas de chocolate e as flores trazidas pelo namorado. - Os chocolates são para a Sara e para o Daniel – adiantou-se Sérgio tentando esconder o nervosismo que ainda estava a sentir. – O vinho é para o senhor Afonso, e as flores… - São para mim – interrompeu Madalena não escondendo o seu sorriso de orelha a orelha. - É, são! Confesso que queria trazer orquídeas, mas como não consegui encontrar e depois também já estava a ficar um pouco tarde, não quis chegar mais atrasado do que cheguei. - Não faz mal! Também adoro rosas. O jantar foi servido às nove horas em ponto, e na mesa sentaram-se cinco pessoas no mais completo silêncio prontas a partilhar uma refeição cozinhada por Madalena. Sérgio estava nervoso, ela reparou, mas Afonso também, e foi por isso que o ex. militar tentou acalmar o namorado da filha com perguntas leves e humoradas. Queria saber tudo. A idade, profissão, detalhes sobre a família e pequenas curiosidades como o facto de estar sempre rodeado de modelos profissionais. Um sonho de qualquer homem, diga-se de passagem. - Não te cansas de fotografar mulheres bonitas? - Por acaso não – riu-se Sérgio, encabulado. – É o meu trabalho, por isso… - Bem que eu gostaria de ter tido um trabalho igual ao teu quando tinha a tua idade. - Pai – exclamou Madalena fulminando Afonso com os olhos. - O que foi? Só estava a elogiar-lhe o trabalho. - É, eu sei bem o que estavas a fazer. Sérgio, não ligues! Tal como já te tinha dito, o meu pai é um rapazinho de dezoito anos preso num corpo de sessenta e oito. - Eu é que gostaria de ter um espírito jovem igual ao seu, senhor Afonso – afirmou Sérgio largando os talheres sobre o prato. - Obrigado! Bem, pelo menos alguém que sabe avaliar as minhas qualidades – riu-se o ex. militar levando uma taça de vinho aos lábios.
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A conversa entre os três adultos prolongou-se por vários minutos deixando Daniel e Sara de fora, mas ainda assim, sempre que podia, Sérgio volta-se para eles e sorria-lhes como se ainda estivesse à procura de algum sinal de aprovação. Um sinal que Sara estava mais do que disposta a oferecer quando os seus olhos se cruzaram com os dele pela última vez naquela mesa repleta de alimentos, bebidas, mas também de luxúria e pecado. E enquanto bebia um gole de sumo, vários calores começaram a subir-lhe pelas pernas e encontraramse nos seios e nas pontas dos dedos das mãos. Eram calores estranhos, calores que a acompanhavam desde há muito, nomeadamente quando descobriu o sexo e a pornografia na casa do pai, e calores que a fizeram cometer uma das maiores loucuras da sua vida quando se atreveu a tirar o pé do sapato esquerdo e levá-lo em direcção as pernas de Sérgio que, por coincidência ou não, encontrava-se exactamente à sua frente. Ao encontrar-lhe o sexo, ela sorriu e o fotógrafo quase que desmaiou de susto. Depois disso, ele arrastou a cadeira, derrubou o resto do vinho sobre a mesa e lançou um olhar esmagador à filha da sua namorada numa tentativa desesperada de encontrar justificações para aquele acto no mínimo leviano. - Estás bem? – perguntou Madalena poisando-lhe a mão sobre o ombro. - …estou – respondeu ele tentando ignorar os risinhos de Sara. – Desculpa! Aliás, desculpem. Eu não sei o que é que me aconteceu. Sujei a toalha toda. - Não faz mal. Está tudo bem – disse Madalena levantando-se da cadeira onde estava sentada. – Vou buscar um pano para não manchar a mesa. - Acidentes acontecem – interferiu Afonso sob o olhar assustado fotógrafo. Desculpas atrás de desculpas foi o que Sérgio inventou para se livrar daquele malfadado jantar, sendo que quase todas elas se encontravam relacionadas com o trabalho. Mas seria mesmo aquele o motivo para que se quisesse ir embora? Obviamente que não, até porque a única coisa que ele não queria era continuar a olhar para a cara de Sara e lembrar-se da loucura que ela cometera à mesa quando o apanhou completamente desprevenido. O que lhe teria passado pela cabeça para fazer uma coisa daquelas? O quê? A pergunta parecia não ter qualquer resposta e nem mesmo depois de ter sido levado à rua por Madalena, ela lhe desapareceu do pensamento. – Queria tanto que pudesses ficar mais tempo – disse ela encontrando-lhe a mão. - Eu também – mentiu Sérgio. – Mas amanhã tenho uma sessão bem cedo e queria dormir pelo menos oito horas para… enfim… ter mais disposição para fotografar. Entendes, não entendes!? - Claro! Claro que entendo. - Mas obrigado pelo jantar. Gostei muito. - O que é que achaste do meu pai? - Um senhor fantástico – respondeu Sérgio arrancando-lhe um novo sorriso. – Agora já sei a quem puxaste. - E os meus filhos!? O que é que achaste deles? O Daniel parece ser um bom rapaz, mas a tua filha Sara é uma maluca de todo o tamanho, foi essa a resposta que Sérgio se sentiu tentado a oferecer à namorada. Contudo, após um pequeno período de reflexão achou melhor manter a sua opinião guardada a sete chaves não fosse ela estragar uma noite que apesar de tudo até foi especial. – Gostei muito deles – voltou ele a mentir. – São duas crianças maravilhosas.
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- Nem acredito que deu tudo certo – disse Madalena enterrando-se nos braços de Sérgio. - Porque é que não haveria de dar? - Sei lá! Fiquei com medo que acontecesse alguma coisa. Mas por sorte não aconteceu e eu até acho que eles gostaram de ti. - Eu também acho que sim. - Ligas-me quando chegares a casa? - Claro – respondeu Sérgio deixando-se beijar por ela. – Eu ligo, podes deixar. - Temos que começar a pensar num novo jantar, ou melhor, num almoço para o próximo fim-de-semana. O que é que achas? A expressão embaraçada do namorado deixou Madalena apreensiva, mas nem por isso retirou o sorriso que ela fez questão de estampar no rosto. Se tinha dado tudo certo, se os seus filhos e o seu pai adoraram Sérgio, então porque não promover uma maior aproximação entre eles? Na altura, era o que ela mais queria. – Depois combinamos melhor – foi a resposta do fotógrafo. Os três dias que se seguiram foram vitais para que Sérgio se conseguisse convencer que o que acontecera à mesa com Sara não tinha sido mais do que um mal entendido e que não valia a pena levar em consideração as brincadeiras de uma menina de quinze anos. De qualquer forma, o amor que sentia por Madalena era forte demais para que se deixasse levar por todas aquelas desconfianças sem sentido. Ele amava-a, quanto a isso não havia a menor dúvida, mas para tê-la por inteiro teria que amar os seus filhos e fazer de tudo para se dar bem com eles. Por isso, aceitar um convite para almoçar no domingo foi irrecusável. Algo que realmente não deveria ter feito, chegou a essa conclusão quando no final do almoço, enquanto Madalena atendia uma chamada telefónica da melhor amiga no corredor da casa, Sara aproximou-se de si na cozinha e perguntou-lhe aos ouvidos. – Não queres fazer sexo comigo? - Sara… - suspirou ele largando as travessas sujas no lava-loiça. – Tu és uma criança. Não devias estar a pensar nessas coisas. - Eu não sou uma criança! Já tenho quinze anos e em Janeiro faço dezasseis. - Mesmo assim! Para mim ainda és uma criança. - Se não fizeres sexo comigo eu digo à minha mãe que tentaste estuprar-me – disse Sara. - Não te preocupes! Eu próprio vou contar-lhe assim que ela chegar à cozinha. E na verdade foram precisos apenas poucos minutos para que Madalena se conseguisse livrar da conversa ditada por Alice e entrar na habitação com um largo sorriso nos lábios. No seu rosto era visível uma felicidade extrema por ter tudo aquilo que sempre quis ter na sua vida. Os seus filhos, a melhor amiga, a prosperidade nos negócios da floricultura e o namorado mais lindo do mundo. – Já estão a arrumar a loiça? – perguntou ela não imaginando sequer que tudo aquilo que tinha não passava de uma mera ilusão. - Mais ou menos – respondeu Sérgio lançando um olhar lancinante a Sara. – Na verdade estávamos à tua espera para te dizer uma coisa… Ao perceber que o namorado da mãe estava realmente disposto a contar a verdade dos factos, Sara adiantou-se: - Vou para o quarto. - Então?! Não me vão contar? – riu-se Madalena. - Não há nada para contar – foram as palavras da sua filha antes de desaparecer da cozinha. - O que é que deu nela?
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- Não sei – respondeu Sérgio forçando um sorriso. - E o que é que vocês me queriam contar? - Hã… era uma coisa engraçada que tinha passado ali na televisão. Nada de especial! - Fico contente que tu e a Sara se estejam a dar tão bem. - É – respondeu Sérgio. – Mas acredito que a partir de hoje nos vamos dar ainda melhor. De facto, a frase do fotógrafo não poderia ter sido mais acertada e tudo porque depois daquele malfadado domingo Sara nunca mais se atreveu a colocar-lhe propostas ordinárias aos ouvidos. Passou a respeitá-lo como futuro padrasto, mal o conseguia encarar de frente quando se cruzavam no corredor e esqueceu completamente as loucuras de ir para a cama com o namorado da mãe. Mas ainda assim a palavra sexo não lhe saiu da cabeça até o Natal. E já que Sérgio não queria ser a vítima então ela teria que arranjar outra.

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CAPÍTULO V
Era a segunda vez que colocava os pés naquele local, e era também a segunda vez que dava consigo a desviar-se de três toxicodependentes, um traficante à porta de um café e duas prostitutas de serviço completamente alheias ao tempo e ao espaço. Na verdade, esse cenário repetia-se todos os dias e não trazia nada de novo para as centenas de pessoas que habitavam o bairro do Intendente. Talvez trouxesse para Sara, uma jovem de dezasseis anos acabados de fazer que ainda continuava a ter sonhos eróticos todas as noites e que desejava experimentar a sensação de ter sexo com todo e qualquer homem que mostrasse minimamente interessado em nela. E sim. De facto, o Intendente era o local propício para encontrar alguém assim, não precisando ele de ser bonito, inteligente, rico ou proveniente de uma raça previamente estipulada. Na verdade, só precisava satisfazê-la e nada mais. Era meio-dia, tinha faltado às aulas e estava no centro de um bairro degradado quando de longe uma mulher a avistou e percebeu que aquela não era realmente a primeira vez que tinha visto Sara ali. Tinham-se passado várias semanas, mas ela continuava a lembrar-se perfeitamente do rosto da jovem por não ser muito comum adolescentes como ela pisarem aquele local. O que estaria à procura? O que fora fazer quando a avisou que tudo era melhor do que estar ali? Sem conseguir encontrar resposta às suas perguntas, a mulher levou o cigarro à boca e enfiou o isqueiro na mala a tiracolo. Depois disso, calmamente e sem quaisquer pressas, atravessou a rua e encontrou a sua presa. – Tu por aqui outra vez!? - Hã …olá – respondeu Sara abrindo um sorriso quando reconheceu a pessoa que a levara ali. - Olá! - Lembra-se de mim?! - Claro que me lembro – respondeu a prostituta levando mais uma vez o cigarro à boca. – E tu? Lembraste daquilo que te disse? - O quê? - Que isto não era lugar para miúdas como tu. A expressão séria que Milene fez questão de colocar no rosto não deixou sombra para dúvidas. Aquele realmente não era o lugar indicado para raparigas como Sara, mas ainda assim, apesar de todos os riscos, era ali que ela queria estar. – Será que podíamos conversar num outro sítio? – perguntou Sara após um longo período de meditação. - Eu não tenho nada para conversar contigo. Estou a trabalhar! - É só um minuto. - O que é que queres? – questionou Milene rispidamente.
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- …falar sobre trabalho. - Que tipo de trabalho? - O mesmo trabalho que você faz – respondeu Sara surpreendendo-a com a sua resposta. A pensão onde costumava alugar um quarto para se encontrar com os seus clientes foi o local escolhido por Milene para aquela conversa que prometia ser no mínimo interessante, e ao subir as barulhentas escadas daquele edifício a cair aos bocados, Sara sentiu-se prestes a cair num abismo. Estava ali. Finalmente tinha arranjado coragem para estar ali e no fundo não se sentia nem um pouco arrependida da escolha que tinha feito pois havia pensado nela durante semanas a fio e só não a havia concretizado por receio de perder o que na verdade já não tinha. Pudor e vergonha de admitir que era viciada em sexo. - Entra – disse Milene largando a porta assim que chegaram ao quarto. Era pequeno, Sara reparou. Era também desprovido de móveis luxuosos, de cortinados e a cama desfeita demonstrava que ainda não havia passado muito tempo desde a última vez que Milene se deitara ali com outro homem. Um cliente, pois claro. Para além disso, as paredes encontravam-se sujas, gastas, tal como o tapete junto à cama. – Desculpa a desarrumação… - disse Milene quando observou os olhos curiosos de Sara a olhar para os cantos do quarto. – Não tive muito tempo para ajeitar as coisas. - Não faz mal. - Disseste que querias falar comigo sobre o meu trabalho. - Sim – respondeu a jovem largando a mochila no chão. - E o que é que queres saber sobre o meu trabalho para além do que já sabes? Sara pareceu hesitar por alguns instantes e Milene percebeu essa hesitação quando lhe encarou o rosto sério e os olhos assustados. – Fala – imperou ela terminando o quinto cigarro do dia. – O que é que queres saber? - Eu quero que me ajudes – respondeu Sara cortando-lhe as palavras. - Ajudar-te?! - Sim. Quero que me ajudes a… a trabalhar aqui! - Trabalhar no quê? – questionou Milene franzindo o sobre olho. - Como… prostituta. A resposta de Sara conseguiu arrancar uma ruidosa gargalhada por parte de Milene. Trabalhar como prostituta? Ela repetiu a pergunta enquanto se ria a bom rir e levava uma das mãos ao peito. Na verdade, a oferta de Sara era de tal maneira descabida que nem sequer deveria ser levada em consideração, e foi isso que Milene tentou fazer durante vários minutos. Não a levou em consideração, não quis acreditar nela e recusou-se a aceitar o facto de que uma jovem de dezasseis anos, que aparentemente tinha todas as regalias e todos os mimos dos pais, se quisesse realmente submeter a uma profissão tão humilhante como a prostituição. Mas por fim, quando os seus olhos se cruzaram com os dela naquele quarto e percebeu que a expressão de Sara permaneceu impávida e serena, a surpresa deu lugar à estupefacção. - Tu estás mesmo a falar a sério? - Estou. Eu quero trabalhar aqui. - Como prostituta!? - Como prostituta.

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- Espera aí… - riu-se Milene nervosamente enquanto passeava pelo quarto. – Deixa-me ver se estou a perceber. Tu, que nem sequer tens dezoito anos, queres ser prostituta e queres também que eu te ajude a arranjar clientes! É isso? - Sim – respondeu Sara voltando-se para ela. – Podemos fazer um acordo. - Que acordo!? - Se me ajudares a arranjar clientes, podes ficar com todo o dinheiro que eu conseguir. Uma ruidosa gargalhada foi a resposta de Milene: - Estás-me a propor que eu me torne na tua chula? - Eu não quero o dinheiro para nada, aliás, eu não preciso dele. - Então o que é que queres? - Só queria experimentar. - Se queres experimentar porque é que não arranjas um namorado? Garanto-te que ele te iria tratar muito melhor do que certos clientes costumam tratar as prostitutas que vão para a cama com eles – Sara calou-se. – Escuta! Eu também já tive a tua idade, também já fui curiosa, mas não penses que essa profissão é pêra doce. Não penses que é divertido abrir as pernas para o primeiro que aparece ou então para aquele pagar mais. É preciso ter-se muito estômago para aguentar certos homens, certas coisas que eles nos pedem para fazer e para não vomitares com o cheiro de alguns. Estás iludida! Andaste a enfiar coisas na tua cabeça que não correspondem à realidade, mas quando descobrires e viveres essa realidade, garanto-te que vais ficar desapontada! Muito desapontada. - Mesmo assim eu quero experimentar – afirmou Sara, resoluta. - Sem receber um tostão por isso!? - Sim! Se eu gostar, continuo. Se não gostar, vou-me embora… Quando o cigarro terminou, Milene apagou-o num dos cinzeiros sobre a cómoda e lançou um olhar desafiador àquela jovem que parecia ter toda a experiência do mundo. Não seria muita pretensão dela achar que iria gostar de ser prostituta? Será que ainda não se havia dado conta dos perigos que estava a correr ao entrar numa vida completamente desregrada, sombria e desleal? Na verdade, ela tinha algumas dúvidas, mas ainda assim quis desafiar Sara com uma pergunta: - E quando é que queres começar? - Pode ser amanhã?! - O.k! Amanhã – respondeu Milene aproximando-se lentamente dela. – Arranja-te bem! Depila-te em todas as partes do corpo porque quanto menos pêlos tiveres menos contacto físico tens com o cliente. Trás também alguns produtos de higiene para te lavares, e pede para que ele se lave antes de sequer se atrever a colocar-te as patas em cima – Sara acenou com a cabeça embora os seus olhos ainda demonstrassem algum medo – Outra coisa! Nada de beijos na boca mesmo que te peçam, nada de sexo oral se não os conheceres ou então ires para a cama com eles pelo menos umas três vezes. Escusado será dizer que o mesmo se aplica ao sexo anal. - Claro. - Hã… outra coisa importante que já me ia esquecendo, mas que tu nunca te podes esquecer. Preservativos. Usa sempre preservativo e não te deixes ir naquela conversa de que sem ele é melhor. Quem não consegue manter uma erecção com preservativo, que vá para casa foder com a mulher porque nós não estamos aqui para apanhar as doenças deles. Elas que se casaram, elas que apanhem! E… o que mais? Hã, os encontros são sempre
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feitos em locais escolhidos por ti. Mesmo que te convidem para ir a hotéis luxuosos, não aceites. Este bairro é a nossa salvação e vais encontrar sempre alguém para te ajudar caso aconteça alguma coisa… - Aconteça o quê? – perguntou Sara, assustada. - Caso alguém tente espancar-te, violar-te ou obrigar-te a consumir drogas – respondeu Milene afastando-se calmamente. – Nesta pensão eles não se vão atrever porque temos alguns amigos especiais que tomam conta de nós na recepção. Para isso, basta ofereceres uns troquinhos antes de subires e tens a vida salva. As explicações de Milene continuaram durante largos minutos, e enquanto a ouvia com a máxima atenção, Sara deu-se consigo a perguntar se não estaria realmente a cometer uma loucura ao enfiar-se na toca do lobo. Tinha pensado tanto tempo sobre o assunto, feito tantos planos, mas no entanto havia algo que a fazia hesitar e Milene foi a primeira pessoa a reparar nessa hesitação perfeitamente normal para uma iniciante. – Ainda estás a tempo de desistir. - …não. Eu não vou desistir! - Sabes que se a bófia te apanhar por estas bandas, a corda vai arrebentar para o meu lado, não sabes!? - A polícia não me vai apanhar. - Nunca te atrevas a atender um cliente na rua e também nunca te atrevas a denunciar-me à polícia, porque se fizeres isso, eu vou dizer que não te conheço de lado nenhum e que tu simplesmente enlouqueceste. - Eu sei! Podes ficar descansada. Faltavam poucos minutos para as duas da tarde quando Sara se despediu de Milene com a promessa de voltar no dia seguinte e iniciar a profissão que tinha escolhido para si. Não. Não o estava a fazer por carências financeiras, não queria saber do dinheiro para nada até porque tinha ficado acordado com Milene que seria ela a receber todos os lucros, e nem esperava sequer encontrar ali o seu príncipe encantado. Na verdade, a única coisa que lhe interessava era ter alguém que a quisesse e a desejasse nem que fosse apenas por alguns minutos. Alguém que lhe retirasse do peito aquele sentimento horrível de vazio e carência afectiva, que a achasse bonita e que não tivesse olhos para nenhuma outra mulher a não ser para ela. E talvez, ali, em pleno Intendente, ela conseguisse encontrar alguém assim. – Se não vieres amanhã, eu vou compreender… - disse-lhe Milene à saída da pensão. - Eu venho – respondeu Sara desaparecendo do bairro com a sua mochila às costas. Algumas horas depois e enquanto a mãe preparava o jantar na cozinha, Sara resolveu trancar-se na casa de banho com o intuito de fazer aquilo que Milene lhe pedira durante a tarde. Depilar-se. Depilar-se dos pés à cabeça e preparar-se psicologicamente para o que a esperava no dia seguinte, mesmo não tendo a mínima ideia de como seria o seu primeiro cliente, de como reagiria quando ele a tocasse e como ficaria o seu estado de espírito depois de se entregar a um perfeito desconhecido em troca de dinheiro. Mas surpreendentemente, só de pensar na ideia, a excitação apoderou-se do seu corpo. - Deixa-me entrar – disse Daniel batendo à porta da casa de banho. – Estou aflito e preciso ir à casa de banho. - Agora não dá – gritou Sara passando o chuveiro pelas pernas depiladas. – Vai à outra lá em baixo!
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Naquela noite, tal como já vinha acontecendo há várias outras, o jantar foi silencioso apenas interrompido pelo bater dos talheres nos pratos. A televisão teimou em não calar-se e os olhos de Sara muitas vezes se cruzaram no rosto despreocupado de Madalena. Não desconfia de nada, pensou a jovem. Não desconfia de nada e nem nunca iria desconfiar. De facto, era completamente impossível para uma mãe imaginar que a sua filha estava a vinte e quatro horas de se prostituir pela primeira vez. Seria demasiado sórdido sequer pensar numa coisa dessas. – Hoje o teu pai ligou para falar contigo – disse Madalena. - Eu não quero falar com ele. - Sara, até quando vais continuar com essa ideia absurda de não querer falar com o teu pai? Já se passou tanto tempo desde que saíste da casa dele e tens que convir que foi melhor assim. - Quem é que te disse isso? - Eu – respondeu Madalena levando as loiças sujas em direcção ao lava-loiça. – O teu lugar é cá em casa comigo e com o teu irmão. - Contigo, com o meu irmão e também com o teu querido namorado que agora não sai cá de casa. - O Sérgio é muito simpático para ti e para o Daniel! Ele trata-vos muito bem. - Pois… - resmungou Sara terminando a tangerina que tinha nas mãos. – O único problema é ser quase dez anos mais novo que tu. A resposta da filha deixou Madalena surpresa. – O que é que queres dizer com isso? - Nada! Só acho ridículo que uma mulher da tua idade se ande a prestar a um papel destes. - Eu não me ando a prestar a papel nenhum. - Tens a certeza?! Sim, porque não sou só eu quem pensa assim. O pai também acha ridícula a tua relação com esse Sérgio, e o avô, apesar de fingir que adora o teu namorado e que acha super normal a filha andar com homens mais novos, também deixou escapar no outro dia que não acredita lá muito que o vosso namoro vá dar certo. - Sara, eu acho melhor ires-te deitar! Amanhã ainda é dia de aulas e não convém chegares atrasada – afirmou Madalena fitando-a furiosamente. - Só te quis avisar – respondeu a jovem abandonando a cozinha sob o olhar magoado da mãe. - Não ligues – disse Daniel tentando animar a mãe. – Ela é parva e o Sérgio é fixe. No dia seguinte, ao entrar na pensão onde tinha combinado encontrar-se com Milene, Sara foi interceptada por um homem mal-encarado, magro, de olhos e cabelos escuros. Na boca, trazia um palito e no corpo um fato de treino verde que em tudo lhe acentuava os ossos das pernas. – O que é que queres? - Vim ter com a Milene – respondeu Sara recuando dois passos. - O que é que andam a tramar? - Nada! Então?! Posso subir ou não? - Podes. Mas é bom que não me tragas nenhuma confusão e muito menos a bófia. - Não vou trazer ninguém – foi a resposta de Sara enquanto subia as escadas a correr e se preparava para aquela que seria a sua primeira experiência no mundo da prostituição. Minutos depois, a porta do quarto de Milene surgiu-lhe diante dos olhos e tocar nela foi inevitável. – Vieste – exclamou a prostituta ao abrir a porta. - Eu disse-te que vinha.
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- Entra lá! Sem hesitações, Sara acedeu ao pedido e aproximou-se da cama onde estava estendido apenas um lençol branco e duas almofadas cansadas pelo uso. – Fiz aquilo que me mandaste – disse Sara largando a sua mochila sobre a cama. - O quê!? - Depilei-me e trouxe sabonete, gel de banho, toalhas e tudo o resto. - És boa ouvinte – respondeu Milene acendendo um cigarro. – Mas eu também fiz aquilo que me pediste. - O quê? - Arranjei o teu primeiro cliente. - A sério?! - Sim. Está no segundo piso e é um dos meus melhores clientes também. Paga bem, vem-se depressa e não pede para que lhe façam muitas coisas esquisitas. - Como é que ele se chama? – perguntou Sara à cautela. - Para quê que isso te interessa? Não precisas saber o nome, a profissão ou sequer o estado civil. É só um cliente. - Está bem. - Se ele quiser, ele diz-te o nome! Se ele não disser, também não perguntes – afirmou Milene calçando os seus saltos em frente ao espelho do quarto. – Eu já falei com ele. Disse que só tinhas dezasseis anos e o gajo excitou-se todo. Depravados esses homens pá! Só querem saber de carne fresca. Quem já passou dos trinta que se lixe. - Aquela tua amiga… - adiantou-se Sara curiosamente. - Quem!? - A Arlete, a que estava contigo na primeira vez que cá vim. Quantos anos é que ela tem? - Hã, essa – riu-se Milene. – Cinquenta e dois. - E ainda continua a ser prostituta? - O que é que queres?! Quem entra nesta vida já não sai, especialmente se não tem família, filhos ou qualquer outra coisa interessante. - Ela tem muitos clientes também? - Uns gatos-pingados … – respondeu Milene ajeitando os cabelos compridos em frente ao espelho. – Mas uma coisa que tens que saber é que uma prostituta depois dos trinta e cinco já não tem muitas opções de escolha. Por isso é que quando somos novas temos que abrir os olhos e fazer um pé-de-meia para nos sustentarmos. Essa Arlete armou-se em parva e acabou sem nada. É por isso que ainda anda na vida, mas eu, quando chegar aos trinta, fecho a loja e desapareço sem deixar rastro. Nunca mais ninguém aqui neste bairro vai ouvir falar de mim. Enquanto observava Milene arranjar-se ao espelho e a compor a maquilhagem, Sara não soube como, mas subitamente passou a admirá-la, querendo um dia ser como ela. Queria ter aquele corpo absolutamente escultural, aquela sensualidade que parecia transpirar-lhe de todos os poros e a confiança de uma mulher que apesar de saber que era prostituta, nunca perdia a pose e a dignidade. Assim era Milene e era assim que Sara também gostaria de ser. – Bem, vou buscar o gajo! Estás pronta? - Acho que sim – respondeu a jovem demonstrando alguma ansiedade na voz. - Por acaso não és virgem, pois não?!
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- …não. - Menos-mal – respondeu Milene alcançando a porta do quarto. – Até já! Os minutos que se seguiram foram de algum nervosismo, e tudo porque Sara não conseguiu controlar as mãos trémulas, as pernas bambas e o coração que mais parecia que iria saltar pela boca. O pânico apoderou-se de si, apoderou-se mais do que poderia imaginar e qualquer ruído ou movimento da porta era um sobressalto seu. Por fim, quando finalmente se conseguiu sentar na cama, a fechadura sofreu uma ligeira pressão e a porta abriu-se, sendo que a primeira pessoa a entrar foi Milene e logo a seguir, o cliente. Era alto, foi a primeira coisa que Sara reparou. Não era muito bonito, não parecia ser muito simpático, mas pelo menos estava bem vestido e aparentava não ter passado dos trinta e cinco. Seria ele o seu primeiro cliente. – Bem… - adiantou-se Milene. - …era desta rapariga que te estava a falar. - Parece ser interessante – respondeu ele lançando um olhar intenso a Sara que a gelou dos pés à cabeça. – Como é que te chamas? Silêncio foi a resposta que obteve. – Chama-se Luísa – mentiu Milene. - Quantos anos tens, Luísa? - Dezasseis – respondeu Sara, assustada. - Tens a certeza? - Queres o BI? – perguntou Milene voltando-se rispidamente para o cliente. – Ou vais-me dizer que não acreditaste quando te disse que a gaja ainda era menor? - Tem calma, princesa. Não estou a desconfiar de ti! - Hã pensei. - Só queria confirmar. A miúda parece ter mais idade do que aquela que me disseste. - Então?! Queres ou não? - …é claro que quero – respondeu ele observando Sara dos pés à cabeça. Sim. Ele queria-a. Queria-a não só pela idade, pelo corpo, mas também pelo rosto inocente que ela aparentava ter. Realmente não era todos os dias que uma rapariga daquelas lhe passava pelas mãos e desperdiçá-la seria burrice. – Quanto é? - Duzentos euros! Ou melhor, duzentos e cinquenta – respondeu Milene batendo o pé no soalho. - Duzentos e cinquenta!? Estás a gozar com a minha cara? - Qual é?! Vais reclamar do preço? Estou-te a fazer uma oferta dessas e tu ainda reclamas? Já olhaste bem para a cara da miúda? O corpo? Tens sorte é de estar-te só a pedir duzentos e cinquenta, porque noutro lado, o preço duplicava ou triplicava – discursou Milene demonstrando bem todos os anos de experiência que conseguira adquirir para si. – Mas tu é que sabes! Se não quiseres ou não tiveres dinheiro para pagar, eu arranjo outro cliente num piscar de olhos. É só descer lá em baixo e… - O.k – interrompeu o cliente alcançando a carteira no bolso das calças. – Tudo bem eu pago. A carteira abriu-se e do seu interior saíram duas notas de cem e uma de cinquenta. Pensava em oferecê-las a Sara, afinal de contas era ela quem lhe iria prestar o serviço, mas assim que ele estendeu o braço, Milene adiantou-se dizendo: - Obrigada! - Agora viraste chula, é?!

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- Não te metas aonde não és chamado – respondeu ela enfiando as notas no decote da camisola. – E vê lá se tratas bem a minha colega, ouviste?! É uma gaja fixe! Por isso, se te portares mal, já sabes o que te acontece. O Nuno está lá em baixo. Quando a porta do quarto se fechou com um pequeno estrondo e Sara se viu completamente sozinha naquele quarto ao lado de um desconhecido que tinha praticamente idade para ser seu pai, uma onde de nervosismo voltou a atravessar-lhe o corpo e os pensamentos. Seria tarde demais para fugir? Tarde demais para se arrepender de um pecado que nem sequer havia cometido? Sim. Era tarde e isso ficou provado pela ordem do cliente: - Despe-te! Foi horrível do princípio ao fim, foi doloroso, e durante largos minutos, Sara viu-se metida num verdadeiro inferno sem tempo e sem hora para acabar. O cliente não foi nem um pouco cuidadoso com ela, pois na verdade, não era essa a sua intenção. A intenção era a de se aliviar e de retirar dos ombros todo o stress a que foi submetido durante a semana. Depois disso, veio a sensação de alívio e a vontade de desaparecer daquele quarto para voltar ao trabalho. – Não deves deixar que a Milene te explore – disse ele a Sara enquanto vestia as suas roupas. – Essas putas são muito espertas e aproveitam-se de novatas como tu. - Ela não me está a explorar – respondeu ela enrolando-se no lençol da cama. - Em todo o caso é um aviso que te dou! Se quiseres continuar nesta vida tens que abrir os olhos – entregou-lhe uma nota de cinquenta euros. – Toma! Guarda para ti. - Não é preciso. Já pagaste. - Não sejas parva – respondeu ele enfiando-lhe a nota nas mãos. – Guarda! A primeira coisa que Sara fez quando o cliente desapareceu foi enfiar-se por debaixo do chuveiro e retirar do corpo todas as marcas e vestígios que ele lhe deixara no corpo durante os quarenta minutos em que a possuiu como se ela fosse apenas um mero pedaço de carne. Lavou os cabelos com o Shampoo que trouxe de casa, esfregou os braços, as pernas, o pescoço e atirou-se novamente para o chuveiro para se consciencializar de que se tinha realmente prostituído pela primeira vez. Mais tarde, veio uma sensação de alívio, de calmaria e o enxugar do corpo com uma toalha. Os chinelos foram calçados para que não tivesse que pisar o chão imundo da casa de banho e a roupa interior vestida em silêncio enquanto regressava ao quarto. – Ai! Que susto… - exclamou ela quando se deparou com a figura de Milene a devorar a comida chinesa comprada num dos muitos restaurantes asiáticos do bairro. - Não sabia que era assim tão feia – respondeu a última levando dois pauzinhos à boca. - Não é nada disso! Só não estava à espera de te encontrar aqui. - És servida!? - Não, obrigada. - Como é que foi? - Como é que foi o quê!? - Estás a gozar comigo, não?! O que é que acabaste de fazer? - Foi normal – respondeu Sara encontrando a suas calças de ganga sobre o cadeirão. - Ele foi muito bruto contigo? - Mais ou menos.

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- O.k – conformou-se Milene com a falta de pormenores fornecidos pela jovem. – Não queres falar sobre o assunto não fales. - Hoje não vais trabalhar? - Não! Hoje estou de folga. - Não sabia que vocês tiravam folgas durante a semana. - Pelo menos essa é uma das vantagens de se ser puta – respondeu Milene bebendo um gole de cerveja pelo gargalo da garrafa. – Tu é que fazes os teus próprios horários! Não tens nenhum patrão chato para te dar ordens e também não tens que descontar para a segurança social. Não pago rendimentos mínimos a ninguém… - Nunca tiveste um emprego a sério? - E achas que esse não é um emprego a sério – riram-se as duas enquanto Sara terminava de se vestir em frente à cama. – Queres um emprego mais cansativo do que estar deitada numa cama de pernas abertas à espera que o teu cliente se venha? Isto quando não é de pé num beco qualquer! A sorte é que a maioria não se aguenta mais do que vinte minutos. - Não respondeste à minha pergunta. - Que pergunta?! - Se nunca tiveste um emprego a sério? A miúda é esperta, Milene percebeu isso em poucos minutos. Percebeu também que por mais magistral que tivesse sido a sua desculpa para fugir à questão Sara não se deu por vencida. - …já – respondeu ela após um longo silêncio. - Trabalhaste no quê? - Num restaurante lá para os lados de Odivelas. - E porque é que saíste de lá? Uma outra hesitação foi a resposta oferecida por Milene. – Foste despedida? - …sim. - Porquê?! - És curiosa, hã?! - Se não quiseres não contes – respondeu Sara sentando-se numa das pontas da cama quando terminou de se vestir. - Fui despedida porque fiquei grávida. - Tiveste um filho? - Uma filha – emendou Milene largando a sua cerveja sobre a mesinha. - Foste despedida só por causa disso? - O filho da mãe do meu patrão despediu-me quando descobriu que a miúda era dele. Não quis que a mulher soubesse, até porque ela também trabalhava no restaurante, e deu-me um pontapé no rabo. - E tu? - Eu, o quê? - O que é que fizeste? - Ele queria que eu fizesse um aborto – respondeu Milene continuando a devorar o almoço improvisado. – Até me deu dinheiro para isso desde que desaparecesse e nunca mais me pusesse a vista em cima. Eu aceitei o cheque claro, e se queres que te diga, até estava disposta a fazer a porcaria do aborto só para me livrar da criança. Mas… - ela pareceu hesitar.
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- Mas o quê?! - Na hora H não tive coragem. Sei lá, acobardei-me! Tive medo de morrer, de ficar doente sem ter ninguém que cuidasse de mim e tive medo de perder a minha filha. - Aonde é que ela está? - No Porto com a minha mãe! Chama-se Daniela e tem seis anos. A miúda é a minha cara… – riram-se. – A sério! É toda espevitada, tem mania que sabe tudo e anda sempre a ver se me consegue sacar as roupas e os sapatos. - A tua mãe sabe que tu és… - Sabe – interrompeu Milene não escondendo a voz amarga. – Mas para ela desde que mande dinheiro todos meses para me tomar conta da miúda, quer lá saber! Posso morrer com Sida, ser espancada ou parar à prisão, mas o que importa é o dinheirinho sempre conta no primeiro dia do mês. Quando regressou a casa após uma tarde inteira passada no Intendente, Sara lançou um suspiro e quase que desejou cair no corredor de tão cansada que estava. Só tinha atendido um cliente, mas ainda assim parecia que um batalhão lhe tinha caído em cima. E não era só isso. Era também a sensação de que o cheiro dele estava entranhado na sua pele, mas não de uma boa forma, a sensação de que tinha feito algo de mal embora não soubesse bem o quê e, por fim, a estúpida sensação de querer repetir aquela experiência assim que possível. - Aonde é que te meteste? – interrogou Madalena assim que ela entrou na sala e se deparou com a figura sempre exasperante do namorado da mãe. - Estive com umas amigas – mentiu a jovem. - Olá Sara – disse Sérgio lançando-lhe um breve aceno. – Tudo bem? - Tudo! Bem, vou subir para o meu quarto. - Não demores muito a descer. O jantar já está pronto. - Eu não tenho fome. - Mas também não vais dormir sem comer – respondeu Madalena vendo a filha a desaparecer da sala sem sequer olhar para trás ou responder à sua ordem. - Como é que ela se está a portar nesses dias? – perguntou Sérgio após o longo suspiro lançado pela namorada. - Bem, eu acho! Mas com a Sara tudo é imprevisível. Nunca sei o que ela está a pensar, o que vai fazer…! Enfim! É uma autêntica caixinha de surpresas. - A adolescência passa. - Ainda bem – riram-se baixinho. – Então?! Ficas para jantar? - Se for convidado. - Tu não precisas ser convidado – afirmou Madalena mostrando-lhe um doce sorriso. – Já és cá de casa. - Ai é!? Muito bom ouvir isso, sabias?! - …e em breve também vais poder dormir cá. - No teu quarto? - Sim! No meu quarto. - Mal posso esperar por isso – respondeu Sérgio beijando-lhe os lábios. – Sabes, estive a pensar numa coisa… - Que coisa? - Em passarmos um fim-de-semana fora de Lisboa.
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- Fora de Lisboa!? - Sim! Queria levar-te a conhecer o meu avô ao Alentejo. Lembraste quando te disse que um dia te iria apresentar a ele? Pois então! O senhor Luís quer conhecer-te. - Falaste-lhe sobre mim? – perguntou Madalena não escondendo a sua surpresa. - Várias vezes, aliás, desde que te conheci que não lhe tenho falado sobre outra coisa. - Eu adoraria conhecer o teu avô, tu sabes disso! Mas o problema são os meus filhos. Não posso ausentar-me durante um fim-de-semana inteiro. - Porque é que não deixas a Sara e o Daniel com o teu ex. marido ou até mesmo com o teu pai!? - Durante o fim-de-semana todo? - São só dois dias – respondeu Sérgio mexendo-lhe nos cabelos lisos. – No domingo à noite já estamos de volta. E vai ser divertido! Vou-te ensinar a pescar, vamos fazer grandes passeios, apanhar ar puro, ajudar o meu avô no pomar que ele tem. Então?! O que é que me dizes? - Um fim-de-semana – suspirou Madalena sentindo-se bastante tentada a aceitar aquele convite tão aliciante. – No Alentejo… - Exactamente! Queres coisa melhor? - Não – riu-se ela. – E quando é que íriamos? - Na sexta-feira à noite e voltávamos no Domingo. - Então eu vou falar com o Jorge amanhã. Vamos ver se ele me consegue ficar com os miúdos. - É claro que ele fica – respondeu Sérgio oferecendo-lhe um outro beijo. – Vais ver! O nosso fim-de-semana vai ser inesquecível. - Eu também acho – concordou Madalena deixando-se levar pelos braços dele em direcção à cozinha. Apesar da relutância inicial, Jorge aceitou tomar conta dos filhos durante o fim-desemana. Ouviu as explicações de Madalena, mordeu o lábio inferior quando ela confessou que iria passar dois dias no Alentejo na companhia do namorado e tentou igualmente esconder os ciúmes que sentiu quando percebeu que a ex. mulher havia encontrado alguém que se interessasse por ela. Foi um milagre de facto, não porque Madalena não fosse uma mulher bonita e interessante, muito pelo contrário, pois apesar de já ter chegado aos quarenta, continuava a radiar uma beleza igual ou superior à de muitas mulheres de vinte. E enquanto falava com ela ao telefone, Jorge lembrou-se de todas estas características que durante anos lhe passaram despercebidas. Na verdade, foi um choque o pedido de divórcio que Madalena fez questão de lançar em tribunal e um choque também encontrar as suas malas à porta de casa quando estava certo que ela o perdoaria por ter passado uma noite inteirinha na prisão. Mas a verdade é que Madalena não perdoou. Tinha sido a gota de água, tinha sido a humilhação máxima ser presa por um crime cometido pelo marido e por ele nem sequer se ter dignado a comparecer à polícia enviando apenas um outro advogado com as instruções exactas para que não o comprometesse. Depois disso, o dinheiro extraviado de uma empresa de telecomunicações foi devolvido ao Estado, Madalena livrou-se das acusações e pediu igualmente o divórcio ao marido com a clara certeza que nunca mais o voltaria ver com os mesmos olhos. – Estás aí?!

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- Hã… estou – respondeu Jorge voltando ao planeta terra quando ouviu a voz no outro lado da linha. - Então podes vir buscar os miúdos este fim-de-semana? - Na sexta-feira só se for depois das seis e meia. - Tudo bem. Não há problema – disse Madalena observando os movimentos dos seus clientes na floricultura. – Fico à tua espera então. Tudo estava combinado, decidido e tratado. Madalena e Sérgio iriam passar dois dias na pequena vivenda do avô dele e aproveitar toda a paz, calmaria e tranquilidade que a região do Alentejo oferecia aos seus visitantes. Para isso, ela arrumou uma pequena mala assim que chegou a casa e enfiou no seu interior apenas roupas práticas, alguns objectos pessoais e uma máquina fotográfica com a qual pretendia fotografar todas os momentos especiais da viagem. E de facto, esses momentos iriam ser muitos, ela tinha certeza. – Queres que comece já a levar as coisas para o carro? – perguntou Sérgio arrastando as malas em direcção ao corredor. - Se calhar era melhor – respondeu Madalena descendo os estores da janela. - Mãe, o pai não vem? – foi a pergunta de Daniel quando entrou na sala com cara de poucos amigos - Deve estar quase a chegar, querido! Tem só mais um pouco de paciência. - Ele chega sempre atrasado. - Escuta, onde é que a tua irmã se meteu? Ela já arrumou as coisas dela? - Não sei – respondeu Daniel sentando-se no sofá de braços cruzados. – Está trancada no quarto. A mochila estava pronta e o casaco sobre a cama, mas ainda assim Sara encontrou tempo para telefonar à sua nova amiga Milene. Ou será que não seria demasiado precipitado chamá-la de amiga? Na verdade, o que as unia era uma relação estritamente profissional. A prostituta arranjava-lhe clientes e ela satisfazia as suas vontades sexuais quase diárias. Depois disso, entregava o dinheiro ganho e abandonava o quarto da pensão sentindo-se imunda, mas com uma enorme vontade de voltar. – A minha mãe vai viajar este fim-desemana… - começou ela por dizer a Milene. – Vou ficar com o meu pai, mas ele é muito mais liberal que ela. - E daí? - Daí que estava a pensar em passar hoje à noite pelo bairro. Achas que me consegues arranjar algum cliente? - Hoje não vai dar – respondeu Milene observando com atenção o movimento dos carros não fosse um deles parar com um cliente lá dentro. – Tenho uma festa para ir. - Festa?! Que festa? - Nada de especial. É só uma festa que costumam organizar num clube de streap lá para os lados do Bairro Alto. Todas as semanas vamos lá à cata de algum ricalhaço que esteja disposto a pagar bem. Ouve-se boa música, temos bebidas de graça e os clientes são um pouco mais civilizados que os de cá. - Não me podes levar a essa festa? - Estás louca – riu-se Milene com uma gargalhada seca. – Não tens idade para lá entrar.

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- Se for contigo tenho a certeza que ninguém vai desconfiar que eu ainda não tenho dezoito anos. Ouviste o que o gajo disse no outro dia? Que eu pareço muito mais velha do que sou. Então?! Leva-me contigo! Prometo que não te vou atrapalhar. - Tu já me atrapalhas. - Vá lá – pediu Sara encarecidamente. – Leva-me a essa festa! As malas da viagem foram colocadas no porta-bagagem do carro e para isso Sérgio precisou apenas de dois braços e alguma força de vontade. Aliás, na altura, força de vontade era tudo o que não lhe faltava, especialmente quando sabia bem que aquela seria uma das oportunidades raríssimas para ter Madalena só para si durante dois dias, sem filhos, sem o stress de uma cidade tão agitada e barulhenta como Lisboa e também sem olhar para o relógio. O fim-de-semana iria ser especial e ele pôde ter essa certeza quando tornou a fechar o porta-bagagem sob o olhar atento de um homem de estatura elevada, olhos claros e cabelos castanhos. Não foi preciso muito esforço para perceber quem ele era, pois apesar de nunca se terem cruzado antes, as parecenças com Daniel e Sara fizeram-no antever que era o pai deles e consequentemente o ex. marido de Madalena. – Boa tarde – disse Jorge com uma cara de poucos amigos. – Boa tarde – respondeu Sérgio observando-lhe a entrada pelos portões da casa. Não parecia muito simpático, isso era um facto, mas também era compreensível que não fosse tendo em conta aquele encontro no mínimo constrangedor em frente a uma casa que um dia também foi sua. – Até que enfim chegaste – disse Madalena abrindo a porta ao ex. marido. - Sei que estás louca para o teu fim-de-semana, mas também tens que compreender que eu tenho compromissos e que trabalho… – respondeu Jorge não conseguindo esconder os seus ciúmes quando Sérgio também entrou pelo corredor adentro. - Eu sei que tens compromissos e que trabalhas, mas eu também tenho compromissos e também trabalho tanto quanto tu – respondeu Madalena fechando a porta enquanto os dois homens se fitavam vorazmente. - Os miúdos!? - Já estão prontos à tua espera. - Então eu vou chamá-los porque não me quero demorar muito por estas bandas. A viagem ao Alentejo correu sem quaisquer sobressaltos e só terminou perto da meianoite quando Sérgio estacionou o carro em frente a uma pequena moradia pintada de azul e branco. Não era uma casa muito grande ou luxuosa, mas ainda assim, ao ver-se diante dela, Madalena não conseguiu evitar o sorriso que lhe atravessou o rosto e a sensação de que tinha acabado de chegar ao paraíso. O tempo estava ameno, as árvores não evidenciavam qualquer sinal de que estavam a ser levadas pelo vento e as estrelas no céu fizeram os seus olhos brilhar de alegria e emoção. – Vamos entrar? – perguntou Sérgio levantando do chão as malas que trouxeram de Lisboa. - Será que o teu avô já não dormiu? - Não! Ele está à nossa espera. Não viste que a luz da sala continua acesa? - Meu Deus – riu-se Madalena. – Será que ele vai gostar de mim? - É claro que vai. Porque é que não haveria de gostar?

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- Tens razão. Porque é que não haveria de gostar – respondeu ela seguindo-lhe os passos em direcção à porta principal enquanto o seu coração voltava a bater mais forte e Sérgio se esfalfava para encontrar as chaves que guardara no bolso do casaco. Por sorte, a porta abriu-se sem muito esforço, e depois disso, as malas foram colocadas a um canto do corredor. Sérgio sorriu, encontrou o casaco de Madalena e pendurou-o no bengaleiro atrás da porta, enquanto a poucos metros, na sala, ouviu-se o barulho de uma pequena cadeira de descanso guinchar ruidosamente. Era como se ela estivesse à espera do momento exacto para o fazer e como se encontrasse a paciência necessária para não o ter feito antes. – Até que enfim, homem – exclamou uma voz grossa irrompendo o corredor. Ao ouvi-la, Sérgio abriu um largo sorriso e rapidamente se apressou a cumprimentar o avô oferecendo-lhe um longo abraço e também um beijo na face. Eram muito unidos, foi a primeira impressão de Madalena quando lhes ouviu as risadas e se sentiu um verdadeiro peixe fora de água à espera de ser salvo da morte certa. – Vô, esta é a Madalena! A pessoa de quem tanto te falei – fez Sérgio as apresentações. – Madalena, este é o meu avô! O grande senhor Luís Restelo. - Muito prazer, senhor Luís – disse ela estendendo-lhe a mão com um largo sorriso enquanto desejava que ele não a deixasse ali especada. Contudo, ao contrário do que ela estava à espera, o cumprimento de Luís não veio com um aperto de mão, mas sim com um inesperado abraço, algo que a deixou deveras surpresa. - Já estava a ver que nunca mais a conhecia – exclamou ele. - Bem …eu também estava muito ansiosa para o conhecer! O Sérgio falou-me imenso a seu respeito – respondeu Madalena retirando a expressão esbugalhada dos olhos. - Falou bem, espero?! - Claro! Claro que falou bem. - Achas que ia falar mal de ti, vô? – interferiu Sérgio poisando-lhe a mão sobre o ombro. - Também era o que mais faltava depois de te ter trocado as fraldas desde que nasceste. - Vai-me jogar esse facto à cara para o resto da minha vida – respondeu Sérgio voltando-se para Madalena com uma felicidade que não passava despercebida a ninguém. - Bem, mas vocês devem estar cansados da viagem, não?! – adiantou-se Luís levando os seus convidados em direcção à sala. - Nem tanto – respondeu Sérgio largando o casaco de cabedal sobre o sofá enquanto Madalena tentava dissecar discretamente toda a decoração existente naquelas quatro paredes. Adorou. Adorou os móveis velhos clássicos, os pequenos barquinhos de madeira sobre as estantes, um quadro pintado a óleo e as centenas de livros amontoados a um canto da sala. Não havia dúvida de que aquela casa era habitada por um homem ligado ao passado e às recordações de uma vida que nem sempre teve momentos felizes. E prova disso era os dois porta-retratos que ele fazia questão de manter sobre a mesinha junto à janela. Uma da sua falecida mulher e outra da sua falecida filha, a mãe de Sérgio. – Não querem beber um chá? – perguntou ele interceptando os olhares perdidos de Madalena. - Queres um chá, amor?! - Quero – respondeu ela à pergunta de Sérgio e Luís com um largo sorriso. – Aliás, agradecia. - Então vou pôr a chaleira no lume! Já venho – disse o dono da casa desaparecendo da sala.
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- O teu avô é muito simpático. - O que é que eu te disse? – indagou Sérgio envolvendo os braços à volta da cintura de Madalena. – Não precisavas ter medo de nada. Se ele não tivesse gostado de ti, com certeza já te teria jogado esse facto à cara. - Ainda bem que não jogou – riram-se baixinho. - Estou muito contente que estejas aqui comigo. - Eu também – confessou Madalena encontrando-lhe os lábios no meio daquela sala desprovida de quaisquer luxos desnecessários. – Eu também estou muito contente de estar aqui contigo, longe de tudo, de todos… - Longe dos problemas. - Também – riram-se eles ainda com os lábios colados no outro. Ao contrário das estrelas no céu que o Alentejo apresentou, naquela noite, em Lisboa, o céu tornou-se carregado e cheio de nuvens. Mas nem a promessa de uma possível tempestade impediu Sara de sair do quarto e fechar a porta com cuidado para que o pai e o irmão mais novo não se apercebessem dos seus planos mais secretos. Trajada com uma mini-saia, meias de renda pretas e um casaco que lhe cobria o corpo todo, ela encontrou as chaves e saiu com o único intuito de passar uma noite completamente diferente a todas que havia passado até então. Apanhou o último metro da noite e em pouco tempo viu-se no local onde havia combinado encontrar-se com Milene. Será que ela vem, passou-lhe essa pergunta pela cabeça enquanto lançava os olhos ao relógio de pulso via que nele estavam marcadas doze horas e cinquenta e nove minutos. Mas por sorte, Milene não a deixou esperar em demasia naquela rua deserta e ventosa, vindo acompanhada por mais duas colegas de profissão visivelmente embriagadas. – Meninas, esta aqui é a Sara – fez ela as apresentações. – Ela também vai connosco. - Boa – riu-se uma das prostitutas. – Mais uma para a concorrência. - Trouxe-te um BI falso – disse Milene retirando da mala um cartão com a fotografia e o nome de uma mulher de vinte e um anos. - Para quê? – perguntou Sara compondo os cabelos soltos. - Ainda perguntas!? Com a tua idade não estás autorizada a entrar em clubes de streap, querida. Se a bófia faz uma rusga por lá estás lixada e eu também. Quanto aos porteiros tens que ter cuidado quando eles te pedirem o BI… - Isto se lhe pedirem – interferiu uma das prostitutas. – Quantos anos é que ela tem? - Dezasseis – respondeu Sara. - Só?! E já tens esse corpo? - Mesmo assim – disse Milene que de todas era a que mais jogava pelo seguro. – Se te pedirem o BI, mostras sempre com um dos dedos sobre a fotografia e passas rápido para que eles não fiquem a olhar muito tempo para o cartão. - O.k – respondeu Sara aceitando a identificação com alguma cautela. O clube situava-se numa das ruas mais recônditas do Bairro Alto, e mesmo Sara tendo passado por aquela zona umas milhares de vezes, muitas vezes acompanhada pelo pai ou pela mãe, nunca imaginou que aquele estabelecimento sempre fechado durante o dia tratava-se de um clube de streap frequentado à noite por pessoas das mais variadas raças e estratos sociais.

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A fila de espera para entrar estendia-se para lá dos dez metros e quase todos os clientes aguardavam a sua vez, animados pela noite e também pela música barulhenta que se fazia ouvir no interior do edifício. – Olha quem é ele – exclamou Milene abrindo um sorriso radiante quando um homem se aproximou de si a surpreendeu um longo abraço. – Desaparecido! - Sabes como é que é – respondeu ele rasgando alguns olhares curiosos a Sara. – Agora ando mais lá para os lados do Algarve a tratar dos meus negócios. Só vim buscar as minhas mercadorias e vou-me embora no domingo que é quando as estradas estão mais vazias. - A bófia é uma seca, não é – riu-se Milene enquanto levava uma garrafa de whisky à boca. - E esta rapariga quem é? – perguntou o desconhecido não escondendo a sua curiosidade por Sara. Nunca a tinha visto, por isso era natural que quisesse saber quem era, para além de fisicamente também o ter agradado bastante. - Uma… amiga – respondeu Milene hesitante. – É a Sara! Sara, este é o Marco. - Olá – disse ele cumprimentando-a na face. – És nova por aqui? - Mais ou menos – respondeu Sara tentando esconder a timidez que sentia cada vez que um homem se aproximava de si, especialmente se fosse bonito, como caso de Marco. Marco era um jovem mulato, musculado e que trazia consigo uma confiança que poucos homens brancos possuíam. Demonstrava também não ter medo de nada, algo perfeitamente compreensível para um homem de vinte e sete anos que passara a maior parte da adolescência em bairros degradados e em esquemas criminosos longe do conhecimento da polícia. – Estão na fila para entrar? – perguntou ele. - Estamos – respondeu uma das prostitutas que acompanhava Milene. - Então venham comigo. Ponho-vos lá dentro num instante! Em pouco mais de uma hora, todos os clientes conseguiram entrar no clube e o divertimento tornou-se ainda maior. A pista encheu-se de pessoas, a música tornou-se cada vez mais barulhenta, e pela primeira vez, Sara deixou-se levar pelos braços de Marco quando ele a levou para um canto recôndito. Depois disso, seguiram-se vários beijos, alguns apalpões habituais em cada esquina do clube e a sensação de que a pouco e pouco ambos se estavam a envolver. – És muito bonita – segredou-lhe Marco aos ouvidos. E ela respondeu dizendo. – Obrigada. - Se quiseres posso ser o teu cliente. Pago bem! Vamos?! - Para onde? – perguntou ela apreensivamente. - Tenho um sítio perfeito para nós. - Avisaram-me para nunca aceitar encontros em locais que não conheço. - Não confias em mim? A pergunta de Marco tomou Sara de assalto. – Não confias?! - Não sei – respondeu ela com um longo suspiro. - Vem comigo! Foram precisos apenas trinta minutos para que Marco retirasse as roupas de Sara num dos muitos quartos em que guardava as suas mercadorias para serem levadas ao Algarve, mercadorias essas que eram nada mais, nada menos, que pequenas doses de cocaína, pastilhas ecstasy e haxixe. Mas quando ele as atirou ao chão e deitou Sara sobre a cama, tudo o resto deixou de importar, inclusive a chuva a cair no tejadilho da janela, o cheiro a mofo das almofadas e a presença de uma arma de fogo sobre a mesinha de cabeceira.
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Foi ali, naquele quarto minúsculo, que Sara se entregou a ele pela primeira vez não sentindo de maneira nenhuma que o estava a fazer como prostituta, mas sim como uma mulher que encontrara o verdadeiro prazer nos braços de um traficante de droga. - Há quanto tempo andas nisto? – foi pergunta de Marco quando acendeu o terceiro cigarro da noite. - Só comecei na semana passada! A Milene arranjou-me os primeiros clientes. - E porque é que entraste na vida? Os teus pais expulsaram-te de casa? - Não – respondeu Sara. – Eles são separados, mas eu moro com a minha mãe. - Então não estou a perceber porque é que… - Só entrei para experimentar. Queria saber como é que era! - Para quê!? - Então?! Para saber. - Então quer dizer que és prostituta porque gostas. É isso? - Mais ou menos – respondeu ela observando-lhe a expressão surpresa. – Gosto de fazer sexo. Gosto de estar com homens e só penso nisso a toda a hora. - Bem – riram-se os dois. – A isso é que se chama ter amor à profissão. - Eu não vejo isto como uma profissão. - Queres uma passa? – perguntou Marco mostrando-lhe o cigarro que tinha em punho. - Não sei! Nunca fumei. - Vais gostar. É bom para relaxar. Apesar de alguma hesitação, Sara aceitou o cigarro das mãos de Marco e levou-o à boca ansiando experimentar pela primeira vez qual era a sensação de fumar. Na escola, várias amigas suas já fumavam, mas ela nunca se atreveu a cometer tal acto. Talvez por culpa da mãe, do pai, ou talvez até mesmo por culpa sua. Mas sim. Se já tinha experimentado coisas tão bizarras como fazer sexo com desconhecidos em troca de dinheiro, qual era o mal de fumar uma passa? Quando os primeiros vestígios do dia começaram a surgir, Marco levou Sara a casa. Um favor que pela primeira vez fez a uma prostituta, mas que na verdade não se arrependeu nem um pouco. De facto, Sara era diferente de todas as outras. Tinha um ar mil vezes mais angelical, era doce, bonita e trazia nos olhos a inocência de uma menina que infelizmente se tinha perdido na vida. – Pronto! Já estás entregue – exclamou ele desligando o motor do carro assim que o estacionou em frente ao prédio que Sara lhe indicara. - Vou voltar a ver-te? – perguntou ela desfazendo-se do cinto de segurança. - Porquê!? - Porque quero. - Eu não moro cá em Lisboa. Só venho de vez em quando. - Mesmo assim. Quando vieres, procura-me… O sorriso de Sara trouxe algumas hesitações a Marco, até porque ele não sabia até que ponto ela tinha levado aquela noite em consideração. Tinha sido só sexo. Sexo entre um cliente e uma profissional e nada mais. Mas raios. Havia algo nela e naqueles olhos inocentes, algo que o fez hesitar e cometer uma das maiores loucuras da sua vida – Vou-te dar o meu número. - E eu dou-te o meu… – adiantou-se Sara. - Mas não me ligues a toda a hora, senão troco logo a porcaria do número.
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- Podes deixar. - Toma – afirmou Marco oferecendo-lhe um papel rasgado e também um beijo na boca. A cozinha cheirava a café quando Sérgio e Madalena entraram nela de mãos dadas e com um sorriso rasgado no rosto. Por sorte, tinham dormido maravilhosamente bem no quarto de hóspedes preparado por Luís e mal esperavam para começar o dia com um longo passeio pela vila. Ansiavam também conhecer todos os cantos turísticos e passar um dia no mínimo agradável sem olhar para os ponteiros do relógio, sem se importarem com o trabalho e muito menos com o facto de serem obrigados a voltar a Lisboa no dia seguinte. - Acordaram? – foi a primeira pergunta de Luís assim que entraram na cozinha. - Um pouco tarde, mas acordámos – respondeu Sérgio arrastando uma cadeira a Madalena. Esta, com um sorriso, agradeceu a gentileza e sentou-se à mesa perguntando em seguida ao dono da casa se este precisava de ajuda. – Não, nem pensar – respondeu ele. – Para mim um hóspede é sagrado, especialmente uma hóspede tão bonita como você. Madalena riu-se alegremente. – E dizes tu que o teu pai parece uma criança de oito anos. Já viste bem o meu avô? – interferiu Sérgio servindo dois cafés em frente à bancada. - Estavas certo quando disseste que os dois se pareciam imenso – respondeu ela. - Vou tentar levar isso como um elogio – disse Luís levando o pão fresco à mesa. – Muita fome, Madalena? - Não muita! Confesso que de manhã não costumo comer muito. - Pois vais ter que comer – interrompeu Sérgio entregando-lhe o café em mãos. – Hoje temos um longo passeio pela frente. - Aonde é que vão? - Vamos visitar o centro da vila, depois passear pelo parque e quem sabe se o tempo ajudar terminamos o passeio no lago. - Não se matem hoje – respondeu Luís servindo-se do chá de ervas que costumava beber todas as manhãs. – Apesar de tudo ainda têm o dia de amanhã. - Sim, mas amanhã queria que ensinasses a Lena a pescar. - Eu?! – indagou ela voltando-se para Sérgio – Pescar? - Vais gostar, garanto-te – respondeu ele. – E o meu avô é um grande professor. - Bem, eu não quero desapontá-lo senhor Luís, mas acho que vai ter um grande trabalhão comigo – disse Madalena arrancando uma risada geral. - Aposto que não vou ter mais trabalho do que tive aqui com o meu neto. Além de que a pesca é uma boa forma de relaxamento. Leva-nos os pensamentos para longe e faz-nos pensar nas coisas com mais clareza… O passeio pela vila tomou-lhes toda a manhã, e enquanto visitavam os locais onde Sérgio havia passado grande parte da sua infância, Madalena não se escusou a tirar inúmeras fotografias para registar uma das viagens mais interessantes que fizera pelo país. Ela que se considerava uma portuguesa de gema e conhecedora de quase todas as cidades de Portugal, rapidamente percebeu que lhe faltava conhecer tanta coisa em apenas um fim-de-semana relâmpago. Faltava conhecer a igreja da região trabalhada em arte barroca, o mercado repleto de feirantes que vendiam de tudo um pouco, desde frutas a produtos artesanais. Faltava aventurar-se pelas ruelas estreitas, absorver a beleza das casas caiadas, muitas delas pintadas com cores alegres e suaves. Faltava cheirar a terra molhada, admirar as pessoas à sua volta que ao contrário das que moravam em Lisboa caminhavam sem pressa
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de chegar a algum lugar e com a certeza que o mundo não acabaria no dia seguinte, e faltava-lhe também sonhar em um dia terminar os seus dias num lugar assim. – …espero que voltes comigo aqui outra vez – disse Sérgio quando as suas taças se tocaram sobre a mesa à hora do almoço. - Eu também quero cá vir muitas vezes. - Não estás a perceber. - O quê?! - Quero que venhas morar comigo aqui nesta vila. Madalena riu-se. – Estás a gozar, não?! - Porquê!? Não gostavas de morar num local onde não existe hora de ponta, stress, poluição, problemas… - Sérgio, eu tenho a minha vida toda em Lisboa. Tenho os meus filhos, a minha floricultura… enfim! Tenho tudo. - Mas eu não estou a dizer para nos mudarmos agora – adiantou-se ele. – Daqui a alguns anos, quando os teus filhos estiverem crescidos, casados e não nos restar absolutamente mais nada para fazer em Lisboa. - E será que até lá ainda vamos estar juntos? - É claro que vamos – respondeu Sérgio com uma expressão séria. – Nós vamos ficar juntos para sempre. - Queria muito acreditar nisso, mas… - Mas o quê? - Mas também quero manter os pés no chão – respondeu Madalena poisando a sua taça de vinho sobre a mesa. - Como assim?! - Sérgio, eu sei que me amas, eu também te amo muito, mas… existem coisas que um dia vais querer e eu não te vou poder dar. - O quê, por exemplo? - Filhos – respondeu ela sem desviar os olhos dele. – Uma família… - Mas nós já somos uma família – interrompeu Sérgio encontrando-lhe o pulso sobre a mesa. – Quer dizer, eu sei que a Sara não vai lá muito com a minha cara, mas isso é uma questão de tempo até eu conseguir conquistar a confiança dela. E quanto ao Daniel e ao teu pai, eles já gostam de mim tal como eu também gosto deles. Para mim, vocês já são todos da minha família. - Eu sei, mas… - O meu avô também te considera uma neta. - No máximo teria idade para ser a filha dele. - Então é isso, não é?! – indagou Sérgio largando-lhe a mão. – Mais uma vez estás a falar da nossa diferença de idades. - Não é nada disso, Sérgio! Eu só estou a constatar um facto. E esse facto é de que daqui a uns anos tu vais querer ter os teus próprios filhos e eu não tos vou poder dar. Por mais que eu queira, por mais que eu tente, não tos vou poder dar e tu vais acabar por me jogar esse facto à cara. - Tu sabes que eu nunca faria isso. - Mas pensarias e só isso já me faria sentir mal.
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Durante vários minutos, o silêncio apoderou-se da mesa onde Madalena e Sérgio estavam sentados, e durante vários minutos apenas se ouviram o barulho das conversas dos clientes que se encontravam igualmente a almoçar duas mesas atrás. Ela olhou-o, ele desviou o olhar e assim a refeição terminou com um sabor amargo de derrota. – Não vamos estragar o nosso dia – pediu Madalena voltando a encontrar-lhe a mão sobre a mesa. – Estava a ser tão bom. - Tu é que estragaste, lembraste? - Não te queria chatear. Desculpa! Infelizmente Sérgio foi obrigado a fazê-lo. – Está bem. - O que é que vamos fazer agora? - Quero mostrar-te o lago onde costumava brincar quando era criança. Fica a poucos minutos se formos de carro. - E porque é que me queres levar a esse lago? - Quando lá chegarmos vais perceber. Em poucos minutos, Madalena percebeu todas as razões que fizeram Sérgio levá-la àquele lago, quando ao retirar as roupas atirou-se para a água e sentiu-se a mergulhar até a um metro e meio de profundidade. Sim. Era a primeira vez que cometia uma loucura na sua vida, mas também era a primeira vez que tinha a oportunidade de se atirar de cabeça ao desconhecido sem pensar nas consequências que esse acto poderia acarretar. Depois disso, voltou novamente à superfície e encontrou nos braços de Sérgio o conforto perfeito para se apoiar. – Isto parece um sonho – confessou ela. - Isto é um sonho – respondeu ele sugando-lhe os lábios no interior de um lago onde havia passado a maior parte da sua adolescência. O mundo parou. O barulho dos pássaros deixou de ser ouvido, o sol voltou a brilhar quando as nuvens desapareceram do horizonte e os corpos dos dois amantes conjugaram-se na perfeição. Ele era belo, ela pôde ter essa certeza quando lhe encarou o rosto depois de o ter pertencido sem quaisquer restrições. E ela era a mulher da sua vida, passou essa certeza pela cabeça de Sérgio quando a viu sorrir para si. – A água está a ficar fria – riu-se Madalena. – Nem por isso! Está óptima – respondeu Sérgio. Algumas horas mais tarde, Sérgio e Madalena regressaram a casa e encontraram à sua espera o cherne grelhado na brasa preparado por Luís Restelo. Além disso, ele montou uma mesa improvisada no jardim das traseiras, enquanto mais tarde, na cozinha, Madalena se encarregou de fazer a salada e de retirar as loiças dos armários. Por sorte, o tempo ameno permitiu que a refeição fosse servida sem quaisquer atrasos. Está uma delícia, foi o elogio que Luís ouviu de Madalena quando ela degustou a primeira garfada do cherne acompanhada de um gole de vinho. E de facto, o avô de Sérgio não poderia ter ficado mais contente com o elogio da namorada do seu neto. Luís adorou a simplicidade de Madalena, a sua beleza e a candura que o seu sorriso transparecia a quilómetros de distância. E nem mesmo o facto de saber que ela era mais velha que Sérgio conseguiu diminuir a admiração que sentiu ao conhecê-la pessoalmente. – Nunca pensou em morar noutro local que não aqui? – perguntou Madalena voltando-se para o dono da casa. - Não! Nunca tal ideia me passou pela cabeça. Nasci aqui, cresci também e não iria saber mexer-me noutro sítio.

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- Quem sabe um dia não nos vai visitar a Lisboa – disse ela, radiante. – Acredite que teria muito gosto em recebê-lo na minha casa e assim você até poderia conhecer o meu pai. Aposto que histórias em comum não vos iriam faltar. - Quem sabe um dia não faço isso. - Bem! Já conseguiste um milagre, amor… – exclamou Sérgio voltando-se para Madalena com um largo sorriso nos lábios. - Que milagre?! - Conseguiste que o meu avô prometesse uma ida a Lisboa. - Não sejas exagerado – defendeu-se Luís encabulado com os risos dos seus convidados. A noite terminou em beleza com um poema lido por Luís, cujo principal divertimento para ocupar as longas horas, dias, meses e anos de solidão, era sem dúvida a leitura e a escrita de vários sentimentos que guardava dentro de si. Depois disso, ele sentia-se muito mais leve e apto a aguentar uma vida repleta de percas e desgostos, tais como a morte da sua mulher e da sua única filha. Mas apesar de tudo ele sabia ainda lhe restava o neto, ainda lhe restava a única razão que o havia impedido de cometer suicídio quando à sua volta tudo pareceu ruir. E naquela noite em especial, enquanto olhava para Sérgio e o via completamente embevecido por Madalena, pela primeira vez Luís percebeu o porquê de ter conseguido arranjar forças para se manter vivo. Foi para ver a felicidade estampada no rosto do neto. Aquela felicidade que parece colar-se à nossa pele e não nos deixar um só segundo. Depois de a ver, aí sim já poderíamos morrer felizes.

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CAPÍTULO VI
O fim-de-semana tinha chegado ao fim, foi o que Jorge pensou quando estacionou o seu carro a poucos metros da casa da ex. mulher. Depois disso, acompanhou os filhos em direcção ao portão principal e viu-se metido num enorme dilema interno. Entrar ou não entrar? Enfrentar ou não Madalena e o novo namorado que ela tinha feito questão de lhe esfregar na cara semanas antes? Com certeza ambos já haviam regressado do maldito fimde-semana no Alentejo e com certeza que a felicidade estampada no rosto da ex. mulher iria ser algo difícil de suportar. Após o divórcio, onde ele adquiriu a certeza absoluta que Madalena nunca se iria conseguir refazer da separação e muito menos encontrar outro homem que se mostrasse interessado por ela, Jorge começava a chegar à conclusão que as suas certezas foram infundadas e precipitadas. Percebeu também que tinha cometido um grande erro ao destruir casamento de dezasseis anos, e que aos poucos e poucos, essa percepção estava a matá-lo por dentro. - Até que enfim – foram as palavras de Madalena quando abriu a porta e se deparou com a figura dos filhos e do ex. marido sobre o alpendre. – Pensei que viessem mais cedo. - Nós é que pensámos que viesses mais tarde – respondeu Jorge observando a entrada dos filhos pelo corredor adentro. - Daniel! Sara! Vão já lavar as mãos – gritou Madalena enquanto eles subiam as escadas a correr. – Mas não se demorem porque senão o jantar arrefece. - Está bem – responderam os dois quase em uníssono. Depois disso, fez-se um silêncio ensurdecedor no corredor, as portas dos quartos fecharam-se com estrondo e Madalena encontrou forças para voltar a encarar o rosto de Jorge. – O que foi? – perguntou ela ao vê-lo a olhar fixamente para si. - Nada – respondeu ele enfiando as mãos nos bolsos das calças. – Então?! Como é que foi o tal fim-de-semana romântico no Alentejo? - Foi bom. - Foi bom!? Pela tua cara deve ter sido horrível. - Não, Jorge! O meu fim-de-semana foi realmente muito bom, aliás, foi o melhor fim-desemana que já tive até hoje. - Duvido – respondeu ele surpreendendo-a com tal afirmação. - Duvidas porquê?! - Porque o melhor fim-de-semana que tiveste até hoje foi comigo, lembraste!? O primeiro que passámos juntos quando começámos a namorar. Levei-te à casa de férias de um amigo meu e passámos quarenta e oito horas no quarto a … bem, tu sabes bem a fazer o quê!
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- Desculpa, mas eu realmente já não me consigo lembrar desse fim-de-semana – respondeu Madalena poisando as mãos na cintura. - Há quanto tempo tu e esse rapaz estão a namorar? - Em primeiro lugar o Sérgio não é um rapaz. - É muito mais novo que tu, por isso é um rapaz. - Ele não é assim tão mais novo que eu. - O.k – riu-se Jorge num tom sarcástico. – Já percebi que esse assunto te incomoda. - Não, por acaso não me incomoda nem um pouco. O que me incomoda é o facto de estar a falar sobre esse assunto contigo. - Porquê?! - Porque é algo que não te diz respeito. A resposta de Madalena não poderia ter sido mais cruel, mas mais do que a resposta, cruel foi o olhar que ela lançou ao ex. marido. Frio, severo e sem a mínima margem de manobra para que ele continuasse a fazer-lhe mais perguntas. – Bem … eu já vou indo. - Claro – disse Madalena sustendo a porta com as mãos. - Telefono depois para saber dos miúdos. - O.k! Boa noite. - Boa noite também para ti – respondeu Jorge afastando-se da porta sob o olhar atento da ex. mulher. E mesmo ele tendo pensado várias vezes em voltar-se para trás e encarar-lhe o rosto pela última vez, uma força oculta conseguiu levá-lo ao carro de costas voltadas. Nas semanas seguintes, raras foram as vezes que Sara colocou os pés no interior de uma sala de aulas. Muito pelo contrário, pois a sua vida, os seus novos amigos e vícios, encontravam-se todos numa das zonas mais degradadas de Lisboa. O Intendente. Era lá onde ela passava várias horas do dia e deambulava pelas ruas ao lado de Milene, Arlete e outras prostitutas do bairro. Era habitual para quem passava por lá observar-lhes as gargalhadas, as roupas extravagantes e também a procura de clientes, enquanto do lado de fora do bairro, o tempo e o espaço pareciam completamente alheios à decadência que ali se vivia. Mas por mais estranho que parecesse, era ali que Sara se sentia bem. Era ali que ela não se sentia julgada, não recebia ordens e conselhos de ninguém e vivia conforme as suas vontades e desejos. Em pouco tempo, talvez pela sua idade ou aparência física, passou a angariar cada vez mais clientes, despertando a inveja de algumas das prostitutas mais experientes da zona, excepto de Milene, a única que parecia nutrir um especial apreço por aquela jovem perdida na vida. – Amanhã vou ao Porto – disse ela saindo da casa de banho enrolada numa toalha. - Fazer o quê? – perguntou Sara curiosamente. - Vou ver a minha filha! A minha mãe ligou-me a dizer que a miúda estava doente. - É alguma coisa séria? - Acho que não – respondeu Milene apressando-se a vestir as cuecas. – Gripe! Mas sabes como é que a minha mãe é! Faz um bicho-de-sete-cabeças só para que eu vá ver a miúda. De certeza que deve estar a precisar de dinheiro, senão nem sequer tinha ligado. - Quando é que achas que vamos voltar a ver o Marco? - Que Marco?! - O que esteve connosco naquela festa no Bairro Alto. Ele disse que morava no Algarve. - Esse Marco?! Só podes estar a gozar, não? Desse gajo quero mais é distância.
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- Porquê?! - Ele não te contou qual é a cena dele no Algarve? - Não – respondeu Sara apreensivamente. – Só nos falámos duas vezes por telefone e foi assim meio rápido. - Ele é traficante de droga, querida! E não é um traficante qualquer. É um da pesada. Coisa para gente adulta, não sei se me entendes. - Como é que sabes?! - Toda a gente conhece a fama dele – respondeu Milene vestindo uma camisola de malha em frente ao espelho. – O gajo nunca foi flor que se cheire, mas meteu-se com gente errada e acabou por fugir para o Algarve quando lhe mataram o irmão no bairro onde ele morava. Acho que a bala era para ele, mas como era de noite, confundiram os dois irmãos e o mais novo é que acabou por morrer no lugar dele. - Que horror. - Por isso é que ele só vem a Lisboa de vez em quando, mas não pára muito tempo para não ser apanhado… Sara sentiu-se atordoada ao ouvir o discurso de Milene, mas pior ainda ficou quando percebeu que Marco não era o homem ideal para qualquer mulher. A sua vida, cheia de actos criminosos e outras histórias escabrosas por contar, não parecia de maneira nenhuma conjugar-se com a dela. Mas ainda assim, havia qualquer coisa que não a deixava esquecelo. O que seria? Ou melhor, seria normal? No fundo, Sara sabia que não, até porque há muito que a palavra normalidade tinha deixado de fazer parte do seu vocabulário. – Bem, deixa-me ir andando – interrompeu-lhe Milene os pensamentos. - Aonde é que vais? - Vou-me encontrar com um cliente no hotel Ritz. - Uau! Que chique – riram-se as duas. - O gajo é podre de rico, tens que ver! Conheci-o há dois anos numa festa e desde então nunca mais me largou. - É giro?! - Não muito – respondeu Milene escovando os cabelos molhados. – Tem quase idade para ser o meu pai, mas pelo menos é simpático, paga bem e trata-me como uma verdadeira rainha. Depois do serviço gosta de conversar sobre política. - Estás a gozar, não?! – riu-se Sara animadamente. - Que me dera, mas não! E logo eu que não percebo nada disso. Mas o gajo sabe tudo. Também é presidente de uma empresa multinacional e tem uma data de conhecimentos. Quando começa a divagar, eu só aceno com a cabeça que sim e finjo que o estou a ouvir. Acho que o gajo nem percebe que a minha única vontade é desaparecer de lá com o dinheiro na mão. Tal como todas as noites, o jantar foi servido às oito horas por Madalena, e o convidado especial encarregou-se de colocar a mesa sob o barulho ensurdecedor da televisão da cozinha. Era a terceira vez naquela semana que Sérgio privava da companhia da namorada e dos filhos dela, restando poucas dúvidas de que também ele já fazia parte da família. Aos poucos e poucos, a sua amizade com o pequeno Daniel e o pai de Madalena foi-se consolidando, mas o mesmo não se podia dizer de Sara, que ainda continuava a ver no namorado da mãe um verdadeiro alvo a abater.
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Na verdade, o desejo da jovem em vê-lo pelas costas era imperioso desde o terrível incidente em que ela lhe colocou os pés por debaixo da mesa. Foi um acto irreflectido, os dois sabiam-no bem, mas o clima continuava tenso sempre que se viam nos corredores da casa ou eram obrigados a privar de uma refeição familiar. Depois do jantar, normalmente quando todos se refugiavam na sala a ver televisão, os olhares que Sara lançava aos constantes carinhos trocados pelo futuro padrasto e pela sua mãe eram esmagadores e ditavam uma verdade irrefutável: Ela odiava ver-lhes a felicidade estampada no rosto. - O Sérgio vai dormir cá em casa hoje – avisou Madalena já perto do final da noite. - Vou-me deitar – disse Sara desaparecendo da sala com uma expressão aterradora. Desde essa noite, várias foram as vezes que o fotógrafo pernoitou em casa de Madalena. Normalmente aparecia à hora do jantar, após um dia cansativo a fotografar nos estúdios e trazia consigo pequenas guloseimas para os filhos da namorada. Além das guloseimas, foram também trazidas as primeiras mudas de roupa, a escova de dentes e outros objectos pessoais que faziam claramente antever a sua mudança. Não achas que é demasiado cedo, foi a pergunta de Alice à melhor amiga, e Madalena, sempre com um sorriso, respondia que não e que se encontrava totalmente segura na sua relação com Sérgio. Mas a verdade é que essa relação não era bem vista por todos, especialmente por Sara, que só encontrava um aspecto positivo para o facto de o fotógrafo passar as noites em sua casa, e esse aspecto era o de ela conseguir escapulir-se a meio da madrugada para se encontrar com os seus novos amigos sem medo de ser apanhada pela mãe. Muitas vezes, encontrava-se com esses eles em bares nocturnos pouco apropriados para a sua idade, nos arredores do bairro e em cafés da zona onde clientes e prostitutas misturavam-se com o cheiro dos cigarros e da luxúria. Sexta-feira era o dia da semana mais movimentado no bairro do Intendente. Era usual os cafés e os bares encontrarem-se abarrotados de gente, e também era usual a polícia fazer algumas rondas pela zona apenas para se certificar que tudo estava a decorrer dentro da normalidade. Sempre que apareciam, Sara conseguia a ajuda necessária para se esconder e só voltava a surgir aquando do desaparecimento dos agentes de autoridade. Sim. Eram momentos de algum aperto, mas por sorte ela conseguia sempre fugir com a ajuda de Milene. Aquela noite não foi excepção. Os polícias fizeram as rondas habituais, pediram a identificação de várias pessoas estranhas ao local e logo desapareceram pelas ruas do bairro trazendo de volta o alívio a quem não tinha sido apanhado. – Anda – disse Milene fazendo um sinal a Sara para que ela pudesse sair da pensão onde permaneceram escondidas durante trinta e cinco minutos. – Os gajos já se foram embora. - Tens a certeza? – perguntou Sara olhando para todos os lados. - Claro. Anda lá! Foram precisos apenas alguns minutos para que Milene e Sara atravessassem a rua em direcção a um dos bares mais movimentados da zona. Mais uma vez, o estabelecimento encontrava-se apinhado de gente. Na aparelhagem soava uma música rock infernal e na única televisão do bar colocada na parede, passava um filme não muito conhecido. Aliás, o filme era tão pouco conhecido, que quase ninguém presente no local se dignou a levantar o rosto em direcção ao ecrã.

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Estavam todos entretidos em conversas informais, a beber e a confraternizarem entre si. Outros dançavam, riam-se às gargalhadas e tentavam esquecer-se de todos os problemas que rodeavam as suas vidas. Milene e Sara foram algumas dessas pessoas. – Ainda te lembras de mim? A voz não lhe era estranha, e ao voltar-se para trás com uma garrafa de cerveja nas mãos, Sara abriu um sorriso radiante. Era ele. Era Marco. Após dois meses de ausência onde apenas se comunicaram através do telefone, parecia quase um sonho tornar a vê-lo novamente. – Nem acredito! És mesmo tu? - Carne e osso – respondeu Marco levantando os braços. - Pensei que não viesses a Lisboa tão cedo. - Vim tratar de uns negócios, mas no domingo já estou de volta ao Algarve. E tu? O que é que andas a fazer por estas bandas? - Eu sou destas bandas, lembraste?! - Ainda na vida?! - E tem algum mal nisso? - Por mim não – respondeu ele pedindo uma imperial ao empregado do bar. – Só tenho pena que uma miúda como tu ande para aí a deitar-se com qualquer um. Especialmente com os gajos que passam por este bairro. Mereces melhor. O discurso de Marco mereceu um sorriso por parte de Sara. – Queres que te pague uma outra cerveja? - Claro. Pode ser – respondeu ela terminando a sua num só gole. Completamente alheios ao tempo e ao espaço, foi assim que Sara e Marco se sentiram enquanto conversavam perto do balcão acompanhados pelas suas respectivas cervejas, pelo barulho infernal da música e a movimentação das pessoas à volta. Obviamente que nenhum deles falou sobre assuntos importantes, não conversaram sobre a família, os amigos e muitos menos projectos futuros, mas ainda assim sempre que os seus olhares se cruzavam era como se o mundo parasse e tudo deixasse de ter significado. – Queres ir para outro lado? Isto aqui está barulhento – disse ele ignorando um telefonema inoportuno. - Tudo bem. Podemos ir. Pagas as bebidas, Marco e Sara saíram de mãos dadas e só voltaram a largá-las quando interceptados por Milene à saída. – Aonde é que vão? – perguntou ela, curiosa. - Vamos dar uma volta – respondeu Marco levando o cigarro à boca. – Porquê?! - Vão dar uma volta aonde? - Qual é a tua, Milene?! Viraste puritana agora, é? Ou vais-me dizer que resolveste adoptar a Sara como filha? - Eu só não quero que ela se meta em confusões. - Eu não me vou meter em confusões – interrompeu Sara sob o olhar aterrador de Milene. - Acho melhor ires para casa, Sara! Eu peço a um amigo meu para te levar. - Ela não vai com nenhum amigo teu – interferiu Marco puxando Sara contra si. – Vai comigo. - Sara… - Eu vou com ele – respondeu a jovem, resoluta. – Tchau, Milene! Depois falamos.

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O cheiro a tabaco tinha-se entranhado nos estofos do carro de Marco, mas nem o odor intenso ou o espaço reduzido dos bancos de trás, acalmaram o desejo e a excitação de Sara por ele. Submersa naquela pele achocolatada e naqueles braços musculados marcados por duas tatuagens, ela entregou-se e permitiu-se ser possuída sem quaisquer restrições. Com Marco era diferente, ambos sabiam-no bem. Com ele não o fazia por dinheiro, por luxúria, mas sim por um sentimento estranho que ela nunca pensou sentir por alguém. Seria amor? Não. Ainda era demasiado cedo para sentir uma coisa dessas, mas havia realmente algo que a prendia a Marco e a deixava completamente rendida a ele. - Posso voltar a ver-te antes de ires para o Algarve? – perguntou ela quando ele a levou a casa. - Vou no domingo. - Podemos ver-nos amanhã. O que é que achas? - Eu ligo-te depois – disse Marco apressando-se a retirar uma nota de cinquenta euros da carteira. – Toma! Para ti. - Eu não quero que me pagues – respondeu Sara indignada por tal gesto. - Não é um pagamento. Só não quero que te falte nada. - Tu estás-me a pagar – foram as últimas palavras dela antes de abandonar o carro e fechar a porta com força, e ao vê-la a caminhar apressada em direcção aos portões de casa, Marco seguiu-a e alcançou-lhe os braços pedindo desculpa. – Tu achas que eu sou igual a todas as outras. - Não é nada disso… – defendeu-se ele. - Mas talvez eu seja mesmo! Talvez eu seja só mais uma prostituta a quem todos os homens pagam para irem para a cama. Porque é que irias pensar que eu era diferente? Já me conheceste nesta vida, não é?! - Sara, esquece! Não queres os cinquenta euros azar o teu. Mas também não penses que te vou passar a mão pela cabecinha ou sentir-me mal por te ter oferecido dinheiro. És puta mesmo, não és?! Não estás sempre a encher a boca para dizer que vais para a cama com homens porque gostas? Porque é que queres ser tratada de maneira diferente? - Eu não quero ser tratada de maneira… - Quem está na chuva é para se molhar. - Tudo bem – respondeu ela estendendo a mão com um olhar aterrador. – Paga-me! Apesar de se ter sentido surpreso com a reacção de Sara, Marco acatou a ordem e entregou-lhe uma nota de cinquenta euros. – É pouco – afirmou ela não desviando os olhos dele. - Queres mais, é?! - Quero aquilo que mereço. - O.k – respondeu ele oferecendo-lhe uma outra nota de cinquenta. – Já te chega? A humilhação tinha sido imensa, mas ainda assim Sara arranjou forças para abrir os portões e correr em direcção a casa sem sequer olhar para trás ou observar a expressão mortificada de Marco. E mesmo tendo tentado controlar as lágrimas, a verdade é que não conseguiu tal feito quando chegou ao quarto e caiu na cama como um verdadeiro peso morto. Depois disso, agarrou-se à almofada e fechou os olhos inchados numa tentativa desesperada de adormecer.

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O domingo amanheceu ensolarado e foi por essa razão que Sérgio resolveu regar o jardim com a ajuda de Daniel. Entretanto, na cozinha, Madalena ultimou os preparativos do almoço que contaria não só com a presença do namorado, uma presença habitual lá em casa, mas também com a do pai, Afonso Soares. – Já separaste as tuas roupas sujas para pôr na máquina? – perguntou ela à filha quando a viu a entrar na cozinha. - Já – respondeu Sara abrindo a porta do frigorífico. - Não te esqueças também de fazer a tua cama de lavado. - Faço mais tarde. - Porque é que não aproveitas para a fazer antes do almoço? Já que não estás a fazer nada. - Como é que sabes que eu não estou a fazer nada? - Porque estás aqui à minha frente – respondeu Madalena cortando os legumes sobre a bancada. A resposta trouxe um pesado suspiro por parte de Sara, mas ainda assim a jovem achou por bem acatar as ordens da mãe. Bebeu um copo de água, atirou-o contra o lava-loiça e por fim preparou-se para sair da cozinha não fosse a figura de Sérgio ter-se atravessado no seu caminho. – Tens uma visita lá fora, Sara – afirmou ele desfazendo-se das luvas de borracha que utilizou para regar as plantas e a relva do jardim. - Quem!? - Não me disse o nome – respondeu Sérgio sob o olhar atento de Madalena. – Apenas disse que era um amigo e que precisava falar contigo. Seria algum cliente, passou essa pergunta pela cabeça de Sara. Não. Não poderia ser, já que ela nunca se atreveu a fornecer a sua verdadeira morada a ninguém, muito menos a desconhecidos. Assim sendo, a única alternativa que lhe restava era sair ao jardim e ver com os seus próprios olhos quem tinha tido a audácia de a procurar, e essa pessoa, ao contrário de todas as suas expectativas, era Marco. – O que é que estás aqui a fazer? - Vim te ver – respondeu ele apoiando-se sobre os portões. – Porquê? Fiz mal? - Pensei que já tivesses voltado para o Algarve – afirmou Sara tentando manter uma expressão fria e altiva. - Só vou hoje à noite. - Então… o que é que queres? - Pedir-te desculpas – respondeu Marco. – Eu sei que fui um bocado parvo contigo na sexta-feira passada. Ficaste chateada, não foi? - Não, nem um pouco. - Mesmo assim! Não queria sair de Lisboa sem te pedir desculpas primeiro. - Estão aceites. - Não queres dar uma saída? Levava-te a almoçar num sítio qualquer. - Não – respondeu Sara com poucas palavras. – Não posso sair agora. - Por causa dos teus pais?! - Não é por causa deles. E o homem que viste aqui no jardim não é o meu pai. - Não?! Pensei que era. - Ele é só o namorado da minha mãe. - O.k – disse Marco tentando ignorar os olhares de Madalena e Sérgio atrás das cortinas da janela. – Então nesse caso acho melhor ir andando. - Eu também acho.
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- Posso ligar-te um dia destes? - Para quê?! - Para saber de ti – respondeu ele encolhendo os ombros. – Então?! Posso ligar ou não? - …podes. A despedida foi rápida e fria, mas deixou Sara especada sobre os portões com os olhos postos em Marco. Enquanto ele caminhava calmamente em direcção ao carro, ela poisou as mãos sobre a cerca e permitiu que os seus pensamentos voassem dali para fora. Deveria sentir-se feliz com aquela visita? Talvez sim, talvez devesse ter-se atirado para os braços de Marco e dito que o adorava acima de tudo. Mas a verdade é que não o fez. Reprimiu esse desejo e no fim odiou-se por isso. – Quem era aquele rapaz? – foi a primeira pergunta que Sara ouviu da mãe assim que entrou em casa. - Era só um amigo – respondeu ela subindo as escadas a correr. - Tens a certeza que era só um amigo? A pergunta não obteve qualquer resposta quando Sara voltou a trancar-se no quarto fechando a porta com força. – Ela disse que era só um amigo – afirmou Madalena entrando novamente na cozinha. - Se ela disse isso é porque era mesmo só um amigo – respondeu Sérgio começando a colocar a mesa do almoço. - Eu não sei. Achei estranho. - Estranho o quê?! - A conversa dos dois. E também não gostei nada do ar dele. - Por ser preto?! - Não, claro que não – defendeu-se Madalena de imediato. – Eu não sou nada preconceituosa em relação a esse assunto. Mas não sei! É o jeito dele, entendes?! Bati os olhos e não gostei. - São só coisas da tua cabeça – respondeu Sérgio beijando-lhe os cabelos. - E de onde é que a Sara o conhece? - Se calhar da escola. - Não – afirmou Madalena instintivamente. – Ele parece ser muito mais velho! E também duvido que com aquela pinta ainda ande na escola. - Lena esquece esse assunto! Estás a fazer um bicho-de-sete-cabeças de uma coisa absolutamente natural. Quantos e quantos rapazes não foram à tua procura quando tinhas a idade da Sara? - Não foram tantos assim. Eu era uma menina muito bem-comportada se queres que te diga. - Bem-comportada, é?! Duvido… - Pois não devias – respondeu Madalena envolvendo-lhe os braços à volta do pescoço. – Eu fui a adolescente mais bem-comportada do mundo. Nunca dei trabalho aos meus pais e também nunca fiz nada de errado… - Meu Deus! Que mentirosa – riram-se os dois às gargalhadas. Faltavam poucos dias para a Páscoa quando um verdadeiro milagre aconteceu. Após inúmeros telefonemas e convites, Madalena conseguiu convencer Luís Restelo, o avô de Sérgio a passar a comemoração festiva em sua casa, e o último, sentindo-se honrado, não teve outro remédio a não ser aceitar o convite e a prometer uma visita sua para dali a uma
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semana. E a verdade é que essa semana passou a uma velocidade fantasmagórica. As amêndoas foram compradas, o cabrito adquirido e os vinhos guardados no frigorífico para a ocasião especial. – É melhor ires andando, amor! Não deixes o teu avô à espera na estação – afirmou Madalena enquanto ultimava os preparativos para o grande almoço de família. - Já vou andando – respondeu Sérgio vestindo o casaco às pressas. – Queres que te traga alguma coisa da rua? - Não, não é preciso. - A Sara ainda não chegou? - Não! Disse que ia entregar um presente a uma amiga que fazia anos mas que não se ia atrasar para o almoço. - Bem, então nesse caso vou indo. - Hã… esqueci-me – berrou Madalena levando as mãos à cabeça. – O meu pai. - O que é que tem o teu pai? - Será que eras capaz de o apanhar? Ele telefonou-me ontem à noite para me dizer que o carro dele deu o berro e que está a arranjar na oficina. Eu não queria que ele apanhasse transportes públicos para vir almoçar connosco. - Podes deixar – respondeu Sérgio beijando-a nos cabelos. – Eu vou buscá-lo. - Obrigada! És um anjo. O percurso em direcção à estação de camionetas poderia ter sido mais fácil se não fosse um aparatoso acidente ao qual Sérgio tentou contornar por um outro caminho mais demorado. Nessa altura, o relógio assinalou onze horas e quarenta e cinco minutos e o trânsito pura e simplesmente parou. O meu avô vai-me matar, foram as palavras que o fotógrafo repetiu vezes sem conta enquanto as buzinas dos carros começavam a ecoar naquela rua verdadeiramente estreita. Alheio a tudo o que se estava a passar à sua volta, ele encontrou o telemóvel sobre a caixa de velocidades e digitou o número de Madalena. Um, dois, três toques e ela atendeu a chamada. – Estou?! - É só para te avisar que estou muito, mas mesmo muito atrasado – disse Sérgio largando as mãos sobre o volante. - O que é que aconteceu? - Apanhei um acidente no caminho e resolvi mudar o percurso. O pior é que não valeu de nada! Estou preso numa outra rua por causa de umas obras que estão a fazer. Não sei se me vou conseguir despachar a tempo de ir buscar o meu avô e o teu pai. - Não acredito – resmungou Madalena. - Não consegues ir buscar o teu pai? - Eu não sei. Tenho o cabrito no forno, lembraste? O pior é que a Sara também ainda não chegou. Já tentei ligar-lhe para o telemóvel uma data de vezes e dá sempre no serviço voice mail… As lamúrias de Madalena continuaram a ecoar-lhe nos ouvidos, mas já nessa altura, Sérgio concentrou todas as suas atenções para uma cena chocante que se estava a passar diante dos seus olhos. Ainda tentou forçar a vista, convencer-se a si próprio que o que estava a ver era fruto da sua imaginação ou então uma terrível coincidência, mas a verdade é que lhe restaram poucas dúvidas de que aquela jovem que tinha acabado de sair de uma pensão nos braços de um outro homem mais velho, era nada mais, nada menos, que Sara, a filha
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da sua namorada. – Estás aí? – perguntou Madalena após um longo silêncio que ele fez questão de lhe oferecer ao telefone. - Hã… estou. Escuta! Eu já te ligo, está bem – respondeu Sérgio observando a figura de Sara a desaparecer pela rua acima. O telemóvel foi desligado e atirado novamente contra a caixa de velocidades, mas ainda assim, quando Sérgio lançou a cabeça para fora da janela, Sara e o senhor desconhecido que a acompanhava desapareceram sem deixar rastro. Raios. Aonde é que se tinham metido? Faltavam poucos minutos para a uma da tarde quando Madalena sentiu a campainha tocar. Seria Sara? Seria a sua melhor amiga, Alice, que também foi convidada para o almoço, ou teria Sérgio conseguido o milagre de trazer o avô e o pai dela em tempo recorde? – Daniel, vai atender – pediu ela ao filho enquanto levava o cabrito novamente ao forno. Ao ouvir a ordem da mãe, Daniel saltou da cadeira da cozinha e correu a abrir a porta. Pai foi a palavra que Madalena ouviu enquanto fechava a porta do forno, e depois disso, alguns passos vindos do corredor. Raios. Era Jorge. O seu ex. marido. O que é que ele tinha lá ido fazer? - Olá Lena… - disse ele entrando na cozinha alguns minutos mais tarde. - Olá – respondeu ela largando uma toalha sobre a bancada. – Que surpresa ver-te por aqui. O que é que vieste cá fazer? - Oras! Vim ver os meus filhos. É Pascoa, lembraste?! - Eu sei. - Cheira bem – disse Jorge apontando para o forno. - Cabrito. - Já vi que não perdeste o jeito. - Olha, a Sara não está – afirmou Madalena não se deixando afectar pelos elogios baratos do ex. marido. - Aonde é que ela foi? - Disse que ia entregar um presente de aniversário a uma amiga da escola. Mas o pior é que já devia ter voltado. - Já lhe ligaste para o telemóvel? – perguntou Jorge apoderando-se de uma maçã sobre a fruteira da cozinha. - Claro! O problema é que está desligado. Só estou à espera dela para ir buscar o meu pai a casa – respondeu Madalena escorrendo a água da massa. - Já vi que toda a gente foi convidada para este almoço, menos eu – resmungou Jorge trincando a maçã enquanto observava os gestos da ex. mulher à volta do lava-loiça. - E porque é que haverias de ser convidado?! - Pensei que também fizesse parte da família. - Não da minha família. - A sério?! Pensei que a Sara e o Daniel fossem os nossos filhos. - Jorge, eu não quero e nem vou discutir contigo agora! Tenho uma quantidade enorme de coisas para fazer. Por isso, se não te importares de sair da frente do armário, eu preciso de uma panela… - Se quiseres posso ir buscar o teu pai – afirmou Jorge para grande surpresa de Madalena. - Não é preciso.
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- Mas eu faço questão! Já passa da uma e tu sabes que o teu pai gosta de almoçar cedo. Sabes lá a que horas é que a Sara pode aparecer por aqui… A proposta do ex. marido era deveras tentadora, mas ainda assim Madalena hesitou em aceitá-la. – O que foi?! Trago o teu pai num instante. - Eu não sei. - Vá lá, Lena! Até parece que nunca fiz isso antes. Quando éramos casados cansava-me de ir buscar o teu pai e a tua mãe a casa. - E eu lembro-me que não gostavas nem um pouco de fazer isso. - Águas passadas – riu-se Jorge enquanto terminava de comer a sua maçã. – Então?! Posso ir buscar o Sr. Afonso? - …está bem – concordou Madalena. – Mas não se atrasem, pelo amor de Deus! - Podes deixar – respondeu ele voltando-se para Daniel. – E tu, oh pestinha!? Não queres vir com o pai?! - Só se for no banco da frente. - Está bem! Vais no banco da frente então. Anda lá! A visão através da janela da cozinha dos dois homens da família a entrarem no carro fez com que Madalena voltasse a recordar os anos em que esteve casada com Jorge. Foram muitos, quase dezasseis, mas ainda assim não lhe trouxeram qualquer saudade. Jorge fazia parte do passado. De um passado repleto de discussões, traições e faltas de respeito, mas também de não dar mostras de querer desaparecer tão cedo. E Madalena pôde ter essa certeza quando ao lançar os olhos à bancada da cozinha foi obrigada a deparar-se com os restos da maçã que o ex. marido deixou antes de sair. Continua o mesmo, murmurou ela levando o caroço ao caixote de lixo. A primeira pessoa a chegar para o almoço foi Alice, a melhor amiga de Madalena, e consigo trouxe duas sobremesas especialmente adquiridas numa pastelaria perto da sua casa. Para além disso, levou igualmente a boa-disposição que lhe era característica em momentos festivos. – Bem, esmeraste-te… - disse ela ajudando a colocar a mesa da sala. - Nem tanto assim – respondeu Madalena distribuindo os talheres pelos pratos. - Tudo só porque o avô do Sérgio vem cá almoçar? - Claro que não – riram-se as duas. – Quer dizer, …um pouco. Ele tratou-me tão bem quando fui passar aquele fim-de-semana à casa dele que eu queria retribuir-lhe a gentileza. - Nunca te vi tão animada. - Nota-se assim tanto? - A quilómetros de distância! Não há dúvidas de que o Sérgio te está a fazer muito bem. A resposta de Alice culminou com a entrada de Sara na sala e também com o olhar aterrador que Madalena fez questão de lançar à filha quando se deu conta do seu atraso imperdoável. – Até que enfim! Aonde é que estiveste? - Já te tinha dito – respondeu Sara rasgando alguns olhares a Alice. – Fui ter com uma amiga. - Pois! Mas disseste também que não te irias demorar. Saíste daqui às dez. Já viste que horas são? Quase duas da tarde. - Lena, coitada da rapariga – interferiu Alice continuando a colocar a mesa. – Também não se atrasou tanto assim. Com certeza deve ter ficado à conversa com a amiga e as duas perderam a noção das horas.
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- Posso subir? – perguntou Sara num tom debochado. - Podes – respondeu Madalena percebendo-lhe o sarcasmo na voz. – Mas vê se tomas banho antes de desceres para o almoço. Foram precisos vários minutos até que a porta se voltasse a abrir com as chaves levadas por Daniel, e atrás de si, vieram o avô e o pai envolvidos numa conversa divertida, algo não muito incomum entre dois homens que sempre se deram muito bem e que nunca esconderam a admiração mútua que sentiam um pelo outro. – Olá, pai – disse Madalena correndo a cumprimentar Afonso quando todos entraram na sala. – Como é que estás? - Estou óptimo – respondeu ele despindo o casaco. – E tu? - Cansada, mas bem! O almoço já está pronto. Vieste na hora certa. - Então vamos almoçar. Estou a morrer de fome. - Não, ainda não. Ainda vamos ter que esperar mais alguns minutinhos – respondeu Madalena rasgando alguns olhares ao ex. marido. – Falta ainda o Sérgio e o avô dele. Os dois apanharam algum trânsito pelo caminho, mas o Sérgio ligou-me há pouco para me dizer que já estão quase a chegar. - Hã… claro. - Bem, nesse caso, eu já vou andando – disse Jorge quando se deu conta que a sua presença não era muito bem-vinda. - Porquê?! – interrompeu Afonso. – Fica para almoçar connosco. - Eu?! - Claro! Foste tão gentil em ter-me trazido até cá. O mínimo que podias fazer era dar-nos o prazer da tua companhia, não achas? Por momentos, Madalena pensou estar a sonhar quando ouviu o discurso do pai e o convite estapafúrdio que este fez a Jorge sem sequer a consultar. Será que Afonso tinha perdido totalmente a noção da realidade? Será que ele não a ouvira a dizer que o seu novo namorado e o avô dele estavam a poucos minutos de chegar à sua casa? - Bem… - disse Jorge, encabulado. - …eu não sei se a sua filha concorda com o seu convite, Sr. Afonso! - É claro que ela concorda. Não concordas, Lena?! O silêncio mantido por Madalena foi deveras constrangedor. – Não concordas? – insistiu Afonso fulminando-a com os olhos. – As crianças iriam gostar de passar a Páscoa com o pai. Não foi preciso esperar muito tempo para que Sérgio Almeida e Luís Restelo tocassem à campainha e para que Madalena lhes abrisse a porta com um largo sorriso imediatamente correspondido pelos dois. Depois disso, seguiram-se os cumprimentos habituais perto do corredor e a tentativa de fazer Luís sentir-se em casa. – Atrasados, nós sabemos – disse Sérgio. – Mas a culpa não foi minha. - Eu sei! A culpa foi do trânsito – respondeu Madalena forçando um sorriso ao avô do fotógrafo. – Espero que tenha feito uma boa viagem, Sr. Luís. - Não foi tão má como pensei que seria. Apenas alguns solavancos no caminho, mas por sorte não cheguei partido. - Que bom! Mas entre, por favor. Fique à vontade.

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- Obrigado – respondeu Luís aceitando o convite com alguma cautela. Nessa altura, Sérgio encarregou-se imediatamente de lhe guardar o casaco e o chapéu no bengaleiro. – Será que era possível ir à casa de banho? - Claro, vô – respondeu Sérgio apontando-lhe uma porta ao fundo do corredor. – É ali. - Obrigado – agradeceu Luís seguindo a direcção apontada. - Desculpa ter-te deixado sobrecarregada com os preparativos do almoço, mas é que nem fazes a mínima ideia de como é que estava o trânsito lá para os lados das Amoreiras. - Não, tudo bem – respondeu Madalena impedindo Sérgio de sair do corredor quando lhe alcançou os braços. - O que foi? - É que… eu precisava contar-te uma coisa antes de irmos para a sala. - O quê?! A expressão doce e sorridente de Sérgio fê-la sentir-se pior do que mal, mas a verdade é que Madalena não tinha outra opção a não ser contar que a lista de convidados se havia estendido para além do previamente estipulado. – Estás-me a dizer que o teu ex. marido também veio almoçar? - Eu sei que parece uma loucura, uma coisa ridícula. Aliás, não parece, é – interrompeu Madalena segurando-lhe o pulso com força. – Mas tens que acreditar que a culpa não foi minha! Foi o meu pai que o convidou. - E porque é que o teu pai o convidou? - …o Jorge veio ver o Daniel e a Sara, e eu sem querer acabei por lhe dizer que precisava de alguém para ir buscar o meu pai porque tu me tinhas ligado a avisar que estavas atrasado. Então ele ofereceu-se para ir buscar o meu pai e… - E tu aceitaste? – perguntou Sérgio tentando controlar os ciúmes que se apossaram de si. - Só porque não tive outra opção. A Sara ainda não tinha chegado da rua, eu tinha o almoço no lume e também não podia deixar o Daniel sozinho em casa. - O.k! - Então quando eles chegaram, eis que o meu pai teve a brilhante ideia de convidar o Jorge para almoçar connosco. Eu não queria, mas… - Tudo bem, Lena! Esquece. - Desculpa – disse ela observando-lhe a expressão desagradada. – Eu sei que é uma situação horrível, principalmente por causa do teu avô, mas eu não tive culpa. Foi algo que fugiu ao meu controle. Acredita em mim…! - Eu vou lavar as mãos à cozinha – afirmou Sérgio deixando-a especada no corredor a remoer todas as culpas por aquela situação no mínimo caricata. Tal como se era de esperar, o almoço tornou-se sombrio para Sérgio e Madalena, já que a visão de Jorge sentado à mesa retirou-lhes todo o apetite e trouxe um certo desconforto a Luís Restelo por perceber o desconforto do neto diante daquela verdadeira afronta a que ele tinha submetido. Talvez Afonso e as crianças não tivessem percebido o pouco à vontade dos restantes convidados, talvez estivessem demasiado entretidos com as piadas contadas por Jorge, mas a verdade é que nenhuma dessas piadas surtiu efeito para Madalena, Sérgio, Luís ou Alice. – Ainda não perdeste o jeito para a cozinha, Lena… – foi a gota de água dita pelo advogado no final do almoço. - Bem, eu vou buscar as sobremesas – respondeu ela recolhendo as loiças sujas.
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- E eu ajudo-te – interferiu Alice desejando sair daquela mesa tanto quanto a sua melhor amiga. Quando chegaram à cozinha, o estrondo das loiças a caírem no lava-loiça fizeram antever todo o ódio que Madalena estava a sentir, não só pelo seu ex. marido, mas também pelo seu pai, o responsável por toda aquela situação no mínimo caricata. – Eu devia suicidarme… – disse ela. - Toma – respondeu Alice entregando-lhe um facalhão. - Obrigada pelo apoio moral. - Eu até acho que o almoço não está a correr assim tão mal. - Só podes estar a gozar – disse Madalena abrindo a porta do frigorífico a fim de retirar as sobremesas que havia prometido aos seus convidados. - Achas que o teu pai fez de propósito? - O que eu acho é que ele está a ficar velho e senil. - Para mim a culpa é do Jorge. - A sério?! Não me digas. Nem tinha percebido uma coisa dessas. - Aposto que foi ele que manipulou o teu pai durante o caminho para que ele o convidasse para o almoço. É a cara do Jorge fazer uma coisa dessas! O gajo nem sequer consegue disfarçar que está a morrer de dores de cotovelo. - Dores de cotovelo porquê?! - Lena, não me digas que ainda não percebeste? Ele está louco para atrapalhar o teu namoro com o Sérgio – respondeu Alice colocando as taças das sobremesas no interior do tabuleiro. – Aposto também que ele quer voltar para ti. - Shiuuuu! Fala baixo! - Que mal é que tem? Está na cara de todos. Só um cego é que não consegue ver que o Jorge ficou cheio de dores de cotovelo quando soube que havia um outro homem interessado em ti. Isso é perfeitamente natural nos ex. maridos! Pensam sempre que nós nunca nos iremos conseguir recuperar do divórcio, que vamos acabar secas, sozinhas e a fazer tricô no sofá da sala, enquanto eles ficam livres e soltos para aproveitar a vida com rapariguinhas de vinte anos. Diz lá qual é a novidade nisso? Já era assim no tempo da minha avó. - Só me sinto mal por causa do Sérgio e do avô dele – disse Madalena levando as sobremesas à mesa da cozinha. – Imagino a impressão que Sr. Luís teve ter tido de mim. Ele deve pensar que eu sou uma descarada. Que ando com dois homens ao mesmo tempo. - Claro que não – riu-se Alice alegremente. – Acredita que deixaste bem claro à mesa que odeias o teu ex. marido de morte. - Deus queira que sim! Era a segunda vez que a observava a sair da sala e era também a segunda vez que lhe passava pela cabeça confrontá-la com o que vira horas antes. Foi por isso que Sérgio interceptou Sara à frente das escadas que ligavam o primeiro piso ao segundo e parou-lhe todos os movimentos com uma frase rápida e seca. – Vi-te hoje. Surpresa com a interpelação, a jovem voltou-se para trás e encarou-lhe a expressão séria. - Desculpa?! - Vi-te hoje numa rua perto de Campolide! Estavas a sair de uma pensão com um homem que tinha quase idade para ser o teu pai.
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- E o que é tu tens a ver com isso? - O que é que estavas a fazer com ele? - Não é da tua conta – respondeu Sara apoiando-se sobre o corrimão das escadas. - Pensei que tinhas dito à tua mãe que ias entregar um presente a uma amiga. Por acaso essa amiga morava naquela pensão? - Já disse que não é da tua conta. - Tu andas a relacionar-te com homens mais velhos, é isso?! - E se estiver? O que é que tu tens a ver com isso? Também não te andas a relacionar com mulheres mais velhas? - Sara, não queiras distorcer as coisas… - Eu se fosse a ti preocupava-me mais com a tua vida e menos com a vida dos outros. Ou será que ainda não percebeste que durante o almoço tu e o teu avô estavam ali a mais!? Silêncio foi a resposta de Sérgio enquanto Sara continuava o seu discurso venenoso. – A minha única alegria é saber que falta bem pouco para a minha mãe te dar um pontapé no rabo e voltar para o meu pai! Falta um pouquinho assim, oh! Apesar do mal-estar inicial que a presença de Jorge provocou, o almoço decorreu sem quaisquer outros incidentes. Sentados nos sofás e em algumas cadeiras espalhadas pela sala, os convidados deliciaram-se com as sobremesas confeccionadas por Madalena e divertiram-se com as conversas animadas de Afonso Soares. O ex. militar, cuja idade era praticamente idêntica à de Luís Restelo, o de avô Sérgio, não hesitou em contar a todos os presentes algumas das peripécias passadas durante a guerra colonial. E para a surpresa das surpresas, Luís também contou histórias iguais. Nessa altura, poucas dúvidas restaram relativamente à afinidade dos dois senhores e à excelente ideia de Madalena em juntá-los no mesmo espaço. Pela primeira vez desde a morte da mulher e da sua única filha, a mãe de Sérgio, Luís sentiu-se entre amigos e afastou dos ombros a sombra da solidão. Era bom poder conversar com outras pessoas, projectar as suas experiências, conhecimentos e deixar de olhar os ponteiros do relógio à espera que por milagre eles andassem mais depressa. De facto, naquele domingo particularmente ventoso, as horas pareceram voar, e quando deu por si, faltavam poucos minutos para as sete da tarde. Infelizmente tinha chegado a hora de voltar ao Alentejo e à sua vida reclusa. – Tem a certeza que não quer passar a noite connosco? – perguntou Madalena observando os gestos de Luís a vestir o casaco junto ao bengaleiro do corredor. - Não, mas obrigado pelo convite. E obrigado também pelo almoço. Passei uma tarde bastante agradável. - Obrigada eu por ter vindo – respondeu ela apertando-lhe as mãos com força. – E desculpe qualquer coisa. - Desculpar o quê?! O sorriso confiante e paternal de Luís permitiu que Madalena se sentisse menos culpada pela presença do ex. marido e também para que percebesse que nem mesmo esse acontecimento menos feliz destruiu a boa imagem que o avô de Sérgio tinha de si. – Tem razão! Espero que faça uma boa viagem então. - Eu vou levar o meu avô a casa – interferiu Sérgio abrindo a porta da rua. - Ao Alentejo? – perguntou Madalena não escondendo a sua surpresa. - Sim! E provavelmente vou lá dormir para não vir a conduzir tão tarde.
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- Eu pensei que … o Sr. Luís fosse voltar de camioneta. - Eu também – respondeu Luís enfiando o chapéu na cabeça. – Até já tinha comprado bilhete ida e volta, mas o Sérgio quer levar-me a casa. Já vi que não há santo que lhe consiga mudar de ideias. - Claro – disse Madalena forçando um sorriso quando percebeu os verdadeiros motivos para que o fotógrafo quisesse levar o avô a casa. – Eu também acho melhor que vá com o seu neto, Sr. Luís! À noite as estradas são um pouco perigosas. - Falamos amanhã – foram as últimas palavras de Sérgio a Madalena antes de se afastar dela com uma expressão fria e carregada. Naquela noite, Madalena não pregou olho. Virou-se na cama, uma, duas, três vezes, mas ainda assim o sono teimou em não aparecer. Foi só nessa altura que ela chegou à conclusão que o que lhe estava a faltar eram os braços de Sérgio e o peito dele para que pudesse encostar a cabeça. Mas era óbvio que os acontecimentos daquele horrível almoço de Páscoa ditaram o afastamento do fotógrafo da sua cama. Era óbvio também que ele se havia magoado com a presença de Jorge e com a certeza que o ex. marido de Madalena ainda fazia parte daquela família. Mas será que não fazia? Será que Sara tinha razão quando disse que faltava muito pouco para que Madalena e Jorge voltassem ao casamento de ambos? Foram essas algumas das perguntas que também retiraram o sono de Sérgio em casa do avô, e embora as estrelas no céu levassem para longe alguns dos seus pensamentos mais sombrios, a verdade é que nem todas conseguiram tal feito. Sentado sobre o alpendre da porta com um chocolate quente nas mãos, o fotógrafo lançou os olhos ao céu e tentou encontrar motivos para continuar a lutar por Madalena. Amava-a, quanto a isso não dúvidas, mas será que só isso bastava? Será que só isso chegava para que continuasse a lutar por ela? Diante de tudo o que tinha acontecido naquela tarde, ele começou a ter algumas dúvidas. – Pensei que já te tinhas ido deitar – disse-lhe o avô. - Não! Perdi o sono. - O que é que se passa, rapaz? - Nada – mentiu Sérgio interiorizando a serenidade que aquele quintal lhe trazia. - Fugiste de Lisboa porquê? - Eu não fugi de Lisboa. Só precisava de… algum tempo para recompor as minhas ideias e pensar no que devo fazer. - É a Madalena, não é?! Ficaste chateado por ver o ex. marido dela no almoço. - Chateado não é bem o termo – respondeu Sérgio permitindo que o seu avô se sentasse ao seu lado nas escadas. – Magoado, talvez. - Magoado porquê? - Por me ter sentido a mais! Por ter sentido que era eu o intruso e não ele. - De onde é que foste buscar uma ideia dessas? Por acaso a Madalena tratou-te como se fosses um intruso? - Não, ela não, mas… - Então qual é o problema não estou a perceber. Sérgio baixou o rosto. – A filha dela odeia-me, o ex. marido também, e o pai, embora seja simpático comigo, eu sei que no fundo ele torce para que a filha volte para o ex. genro.

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- Não sabia que estavas a namorar com essas pessoas todas – respondeu Luís. – Pensei que estivesses a namorar só com a Madalena. - As coisas não são assim tão fáceis, vô… - São sim! É só com a opinião de Madalena que te deves preocupar e nada mais. Tudo o resto são detalhes. - E qual será a opinião dela? – perguntou Sérgio voltando-se para o avô. - Não sabes?! - Não. - Então pergunta-lhe – respondeu Luís abandonando o quintal e também todas as dúvidas que o neto carregava dentro do peito. Após quarenta e oito horas sem qualquer notícia ou telefonema de Sérgio, Madalena resolveu engolir o seu orgulho e procurá-lo à hora de almoço. Por sorte, Alice disponibilizou-se a tomar conta da floricultura, por sorte naquela tarde o trânsito ajudou e por sorte ela conseguiu chegar ao estúdio do fotógrafo em apenas vinte e cinco minutos. Ao subir os degraus das escadas, o seu coração disparou, as mãos começaram a suar e os nervos a apoderaram-se de si, mas ainda assim, ela conseguiu arranjar forças para subir e para também tocar à campainha. Foram precisos apenas dois toques. – …olá… - disse ela quando os seus olhos se cruzaram com os de Sérgio. - Desculpa! Eu devia ter ligado. - Estás muito ocupado? - Não, entra – pediu ele abrindo-lhe passagem em direcção ao estúdio. Os momentos que se seguiram foram preenchidos com um silêncio ensurdecedor e com a certeza de que havia muita coisa a ser esclarecida desde o último almoço de domingo. O maldito almoço de Páscoa, pensou Madalena enquanto se livrava da mala e do casaco que tinha nas mãos. – Porque é que não me ligaste? - Precisava de tempo – respondeu Sérgio. - Tempo?! Tempo para quê? - Não sei. Tempo para pensar, para ficar sozinho… - E porque é que querias pensar e ficar sozinho? - Porque eu pensei que também precisavas pensar e ficar sozinha. - Já te disse que a culpa não foi minha – afirmou Madalena largando os braços. – Não fui eu que convidei o Jorge para almoçar. Foi o meu pai… - Pode até ter sido o teu pai, mas a verdade é que não fizeste nada para o impedir. - O que é que eu podia fazer? - Não sei – respondeu Sérgio não escondendo a sua fúria. – Que tal ter dito ao teu ex. marido que era ridículo sequer imaginar a ideia de o sentar à mesma mesa comigo e com o meu avô!? Quer dizer, põe-te no meu lugar! Tu humilhaste-me … - Não, eu não … - Tu humilhaste-me e tens consciência disso porque senão não tinhas cá vindo – afirmou Sérgio calando-lhe todos os argumentos. - Desculpa – pediu Madalena correndo ao encontro dele. – Desculpa! Eu não queria ter feito o que fiz. Desculpa! - Eu não queria ter que te desculpar. A única coisa que eu queria era ter a certeza que o teu ex. marido já não faz parte da tua vida. Que ele não tem acesso directo à tua casa e que não
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aparece lá sempre que lhe apetece. Era só isso que eu queria, mas parece que tu não estás disposta a fazer isso por mim. - Mas o Jorge já não faz parte da minha vida – respondeu Madalena num tom desesperado. - Tens a certeza? Diante da pergunta de Sérgio, ela teve dúvidas. – Eu amo-te. - Eu também, Lena! Mas eu não sei se vou conseguir lidar com isto tudo. Não sei se vou conseguir lidar com o facto de ser obrigado a olhar para a cara do teu ex. marido sempre que ele resolve aparecer ou então com a vontade do teu pai em querer que voltes para ele. Isto para não falar da Sara! Todos eles estão a torcer para que a nossa relação não dê certo e o pior é que tu estás a deixar que isso aconteça… - E o que é que queres que eu faça? – gritou Madalena, esbaforida. - Eu não sei – respondeu Sérgio aos gritos dela. – Eu não sei. Foi por isso que eu me resolvi afastar. - Boa! E depois a culpa é minha?! E depois eu é que estou a fazer de tudo para que a nossa relação não resulte? - Lena, eu não quero discutir. - Nós já estamos a discutir! Ao ver-se pela primeira vez sem argumentos, Sérgio encostou-se à secretária e levou as mãos à cabeça. Estava esgotado, quanto a isso não havia dúvidas. Esgotado por aquela discussão, pelos seus medos, receios e inseguranças, mas principalmente, por uma relação que lhe estava a consumir todas as forças. – Não termines comigo – disse Madalena levantando-lhe o rosto com as mãos. – Eu amo-te. - Se tu soubesses como me tenho esforçado para que isto dê certo, as coisas eu que tenho aguentado… - murmurou ele com os olhos rasos de lágrimas. – Tu nem sabes… - A única coisa que eu sei é que eu te amo e que não quero ficar sem ti – respondeu ela amparando-lhe uma lágrima com os lábios. – Eu não quero ficar sem ti – repetiu. – Não quero. - Eu também não, mas… - Então vamos esquecer tudo o que aconteceu neste domingo. Vamos colocar uma pedra sobre o assunto. Eu prometo que vou fazer de tudo para afastar o Jorge de nós. Prometo! A promessa da Madalena pareceu ter surtido efeito quando Sérgio lhe encontrou os lábios e os beijou com toda a paixão que possuía dentro de si. Depois disso, nada mais importou. Ele envolveu-a nos braços, ela deixou-se envolver e os dois acabaram caídos no divã à espera que os beijos e as carícias pudessem apagar todas as palavras amargas que disseram momentos antes.

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CAPÍTULO VII
Os dias seguintes trouxeram alguma calmaria perdida após aquele fatídico domingo de Páscoa. Madalena seguiu à risca as promessas que fez, Sérgio tentou dissipar a suas dúvidas relativamente ao ex. marido dela, e assim o casal continuou a projectar planos para um futuro que apesar de tudo parecia promissor. De resto, o aniversário de Madalena provou isso mesmo. Com um jantar romântico à luz de velas num restaurante italiano chamado Cipriani, Sérgio conseguiu definitivamente conquistar o coração dela ao oferecer-lhe um maravilhoso anel de compromisso. – Estás-me a pedir em casamento? - Ainda não – respondeu ele esboçando um sorriso carinhoso. – Mas é um passo importante para isso. Ao ver-se com aquele discreto, mas lindíssimo anel no dedo, Madalena não conseguiu esconder a emoção. – É lindo! - Achei que fosses gostar. - Adorei – riram-se os dois apertando as mãos sobre a mesa. – Obrigada. - Não tens que agradecer. Só o tens que usar. - Não vou tirá-lo do dedo nunca. - Acho bem – respondeu Sérgio beijando-lhe a mão direita. - Mas só com uma condição. - Que condição? - Que venhas viver comigo – respondeu Madalena tomando-o de assalto com aquele convite inesperado. - Viver contigo?! - Sim! Eu quero que te mudes para a minha casa definitivamente. Quero dormir ao teu lado todas as noites e acordar contigo todas as manhãs. - E os teus filhos? - Eu vou falar com eles, é claro. Mas eu tenho a certeza que nenhum deles se vai opor. - Nem mesmo a Sara? - O.k – riram-se os dois, baixinho. – Talvez ela se vá opor um pouco, mas eu sei como lhe dar a volta. - Tens mesmo a certeza que é isso que queres? - Tenho – respondeu Madalena sem quaisquer hesitações. – Eu quero muito. - Olha que eu sou muito desarrumado. - A sério? Nem tinha percebido uma coisa dessas. - Nunca me lembro de levantar a tampa da sanita, tenho o péssimo hábito de deixar a toalha molhada sobre a cama e quase nunca dobro as minhas camisas…
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- O.k! Pensando melhor… - riram-se os dois. - Não, não penses – disse ele arrancando-lhe uma leve gargalhada. – Eu também quero morar contigo. - Então vamos morar juntos – respondeu Madalena entrelaçando os dedos nos dele. - Vamos. A mudança de Sérgio aconteceu duas semanas mais tarde, e embora não tivesse sido aprovada pela maioria, o facto é que aconteceu e pouco ou quase nada houve a fazer por Sara que mais uma vez viu na presença do fotógrafo uma afronta especial oferecida pela sua mãe. Como é que ela se atrevia a colocar um perfeito desconhecido lá em casa, foi a pergunta que a jovem gritou aos ouvidos de Madalena vinte e quatro horas antes de Sérgio se mudar de armas e bagagens. Mas a verdade é que nem os gritos histéricos da filha impediram Madalena de levar os seus planos adiante. Chega, disse-lhe. Chega de passar a vida a pensar nos outros, a pensar no bem-estar dos filhos e a viver em função deles. Dali para frente, ela iria tentar ser feliz, e a sua felicidade, feliz ou infelizmente, encontrava-se ao lado daquele perfeito desconhecido. Depois disso, a porta do quarto de Sara fechou-se com um enorme estrondo e não se ouviu mais nenhum barulho durante a noite. – Achas que este espaço te chega? – perguntou Madalena abrindo as portas do seu roupeiro a Sérgio. - Está óptimo. - Deixei-te também duas gavetas livres e uma outra na casa de banho. - Não te precisas preocupar com isso – afirmou Sérgio envolvendo-lhe os braços à volta da cintura. – Já te disse que me arranjo. - Nem pensar. Eu quero que te sintas em casa, aliás, eu quero que sintas que esta é a tua casa. - Eu sei! E eu já sinto isso. - Ainda bem – respondeu Madalena sugando-lhe os lábios no meio de um sorriso radiante. A semana não poderia ter começado melhor para Sara quando recebeu um telefonema de Marco a meio da madrugada. Tal como sempre, ele estava no Algarve metido nos seus inúmeros negócios esquivos e pretendia regressar a Lisboa no final da semana para entregar algumas mercadorias ilícitas. Um facto que passou completamente despercebido o Sara enquanto o ouvia com atenção e se deliciava com a sua voz grave e grossa ao telefone. – Não queres vir comigo ao Algarve? – perguntou ele já perto do final da conversa. - Ir ao Algarve? Quando? - Devo aparecer aí por Lisboa na próxima sexta-feira e volto no mesmo dia. Sei lá! Combinávamos num sítio qualquer e eu levava-te comigo. - E quando é que voltávamos? - No domingo. - …eu não sei se vou poder ir – disse Sara sentindo-se mais do que tentada a aceitar aquele convite no mínimo inesperado. - Por causa da mamã?! - Não, claro que não! Por tua causa. - Por minha causa? - Sim – respondeu ela sorrindo ao telefone. – Porque não sei se és de confiança.
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- É claro que eu sou de confiança. Alguma vez te deixei ficar mal? - Não. - Então?! Vem comigo e eu prometo-te que vais passar um fim-de-semana inesquecível. - …está bem – respondeu Sara dando-se por vencida. – Eu vou fazer tudo para ir contigo. O plano parecia ser perfeito, mas também arriscado, Sara sabia-o melhor do que ninguém e sabia também que quando voltasse do seu fim-de-semana com Marco, tudo iria desmoronar à sua volta tendo em conta a histeria da mãe. Mas a paixão que sentia por ele valia a pena? De certo que sim. – Tu não sabes com quem te estás a meter – avisou-lhe Milene a dois dias da fuga. - Escuta! Eu sei que o Marco anda metido em negócios estranhos, mas isso não significa que ele seja má pessoa – respondeu Sara saltando da cama. – Se queres que te diga, ele trata-me muito bem! Não me trata como uma prostituta, ao contrário dos outros. - Ele não presta! Estás iludida. - O.k! Se eu estiver iludida, desiludo-me. - O problema é que quando fizeres isso já vai ser tarde demais – afirmou Milene vestindo o seu casaco às pressas. – Mas tudo bem. Queres pagar para ver? Paga! Tal como já me disseram, eu não sou a tua mãe, por isso não me deves satisfações e nem eu te devo conselhos. - Aonde é que vais? - Vou trabalhar. - Eu também tenho um cliente marcado para as três e meia. Vou-me encontrar com ele no Campo Grande. - Ouve lá – disse Milene voltando-se para Sara. – Os teus pais por acaso não desconfiam que andas a faltar às aulas para vir para cá? - Não! Eu consigo sempre apanhar as cartas da escola no correio. De qualquer maneira, o que é que isso importa? Já estou chumbada mesmo – riu-se a jovem. - Maluca – exclamou Milene empurrando-lhe as costas. – Anda lá! Não me posso atrasar. Infelizmente, naquela sexta-feira, as compras do supermercado prenderam Madalena mais tempo do que estava à espera, e para ajudar à festa, o trânsito infernal que apanhou durante o caminho apenas lhe trouxe uma enorme dor de cabeça. A chegada a casa aconteceu quando faltavam poucos minutos para às oito, mas nessa altura, Sérgio já havia iniciado os preparativos de um jantar no mínimo improvisado enquanto Daniel se entretinha a jogar na sua playstation portátil em frente à televisão da cozinha. – Desculpem! Desculpem – pediu Madalena entrando pela cozinha adentro carregada de sacos de compras. – Atrasei-me. - Não faz mal – respondeu Sérgio entregando-lhe uma colher à boca. – Prova o molho! Vê se está bom? - Hum! Está óptimo. - Esparguete à bolonhesa. A minha especialidade. - Já vi que sim – respondeu Madalena apressando-se a beijar a face do filho. – E tu, amor? Como é que foi a escola? - Normal. - Estás com uma cara! O que é que aconteceu? - Estou chateado – respondeu Daniel afastando-se bruscamente da mãe.
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- Chateado porquê? - Acho que é por isso – interferiu Sérgio entregando a Madalena um bilhete escrito por Sara horas antes. E a última, ao reconhecer a letra, encostou-se à mesa para melhor o ler: -“ Mãe! Fui passar o fim-de-semana com o pai e volto no Domingo. Não precisas ligar. Está tudo bem.” - O Jorge veio buscá-la? – perguntou Madalena depois de ter lido o bilhete vezes sem conta. - Não sei! Quando chegámos ela já não estava cá em casa – respondeu Sérgio. - Porque é que o pai não me levou também? – interrogou Daniel não escondendo a sua irritação. - Isto está-me a cheirar muito mal – murmurou Madalena correndo a alcançar o telefone sobre a bancada. O número de Sara foi imediatamente digitado, mas tal como sempre, encontrava-se fora de área. Depois disso, seguiu-se número do ex. marido e a sorte que foi em ele ter ouvido a chamada. – A Sara está aí contigo? - Desculpa?! - Estou-te a perguntar se a Sara está aí contigo – repetiu Madalena, impaciente. - Ela não está aí contigo? - Jorge! Responde à minha pergunta, por favor… - Não, não está – disse ele tentando desenvencilhar-se dos braços de uma mulher. – Porque é que a Sara haveria de estar comigo? - Porque ela deixou um bilhete escrito a dizer que ia passar o fim-de-semana contigo e que eu não precisava preocupar-me em ligar! Jorge, se ela estiver aí contigo e tu a estiveres a encobrir… - Qual encobrir qual quê – exclamou ele levantando-se da cama. – Alguma vez fui buscar a Sara e o Daniel sem te avisar primeiro? Na verdade não, foi a conclusão a que Madalena chegou após ter reflectido pela primeira vez. Mas se a filha não estava com o pai, então com quem ela estava? – Já lhe tentaste ligar para o telemóvel? – perguntou Jorge. - Claro que sim, mas está desligado. Tens a certeza que não sabes nada da Sara? - Não, já disse que não! Não falo com ela desde quarta-feira. - Então aonde é que ela se meteu, meu Deus?! - Não sabes de alguma amiga com quem ela possa estar? Encontra um número – afirmou Jorge começando a ficar preocupado com o súbito desaparecimento da filha. – Olha, eu estou a ir para aí! Qualquer coisa entretanto e não hesites em ligar-me. - Está bem – respondeu Madalena desligando o telefone sem muitas delongas. - Aonde é que vais? – perguntou a mulher que estava na cama de Jorge. - Desculpa Catarina, mas vou ter que ir à casa da minha ex. mulher. Aconteceu um problema. - Um problema?! - A minha filha desapareceu – disse Jorge enfiando-se nas suas calças. – Disse à mãe que estava comigo, mas tal como deves calcular, mentiu. Não sei aonde é que aquela maluca se meteu. - E tu vais-me deixar aqui sozinha?
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- Não tenho outra escolha. Escuta! Se quiseres dou-te boleia até a uma praça de táxis mais próxima. - Jorge, eu não sou uma prostituta – afirmou Catarina levantando-se da cama, esbaforida. - Que é isso, princesa?! É claro que eu sei que não és uma prostituta. Como é que podes pensar uma coisa dessas? - Que tal porque me estás a tratar como uma? - Eu sinto muito, mas tenho mesmo que ir! A minha filha desapareceu, já te disse. Não posso ficar aqui contigo sem saber o que realmente aconteceu com ela. - Bem que me tinham dito que tu não eras de confiança – resmungou Catarina apressandose a encontrar a suas roupas espalhadas pelo chão. - Quem é que te disse isso?! - Jorge, a tua fama já corre pela cidade inteira ou ainda não sabias?! Seguindo os conselhos do ex. marido, Madalena subiu ao quarto de Sara e apressou-se a encontrar qualquer objecto que contivesse números de telefone de pessoas próximas à filha. Amigas da escola, amigas da escola, foram as palavras que repetiu vezes sem conta enquanto revistava gavetas e armários com a ajuda de Sérgio. Mas a verdade é que estava tão cega e obcecada em encontrar o que procurava, que nem sequer se apercebeu ou se deu conta de uma grandiosa caixa de cartão escondida no fundo do roupeiro. Sérgio foi o único a encontrá-la, e quando a abriu com alguma discrição para que a namorada não se apercebesse do que estava a fazer, os seus olhos esbugalharam-se de surpresa e consternação. – Encontrei – exclamou Madalena erguendo uma pequena agenda cor-derosa. – Graças a Deus encontrei! - Tens a certeza que é isso? - Sim, é! Olha, tem aqui o número da Mariana. Eu conheço-a. É da turma da Sara. - Então liga-lhe. - Vou ligar da sala – respondeu Madalena correndo em direcção à porta. – Não vens? - Não! Eu vou ficar para ver se consigo encontrar outros números… - Tudo bem. Quando a porta do quarto se encostou com cuidado e os passos de Madalena se perderam pelo corredor, Sérgio voltou a abrir as portas do roupeiro a fim de encontrar a caixa de cartão que continha alguns dos objectos mais íntimos de Sara. Sim. Ao segurá-los nas mãos, ele deixou de ter dúvidas. Eram dezenas de filmes pornográficos, preservativos, lingerie provocante e outros artigos escabrosos que nenhuma rapariga de dezasseis anos deveria ter em sua posse. Mas a verdade é que Sara tinha, e a outra verdade é que Sérgio começava a chegar à conclusão que existiam muitas mais coisas para além do comportamento rebelde da jovem. Coisas que ninguém sabia e que ninguém tinha coragem de imaginar, coisas que até ele não queria imaginar quando se lembrou que dias antes a havia visto a abandonar uma pensão ao lado de um homem muito mais velho. Além disso, o facto de ter encontrado quinhentos euros em notas de vinte, cinquenta e cem, apenas veio a cimentar a suas desconfianças. O que estaria Sara a fazer para ganhar tanto dinheiro? - Estou – foram as primeiras palavras de Madalena quando a sua chamada foi atendida por uma das melhores amigas da sua filha. – Mariana?! Sou eu, a mãe da Sara! Desculpa estarte a ligar a estas horas, mas é que eu precisava saber se a Sara por acaso não está aí contigo…
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- Hã, não! Eu há muito tempo que não a vejo, D. Madalena. - Como não?! Vocês não são da mesma turma? Ocorreu um silêncio ensurdecedor no outro lado da linha. – Mariana, a Sara não tem ido às aulas? Enquanto ouvia a resposta de Mariana através do telefone, Madalena apenas teve forças para se encostar ao sofá e levar uma das mãos à cabeça. Aquilo era mais do que podia suportar, pensou. Mais do que conseguiu imaginar nos seus piores sonhos e uma realidade que apesar de cruel, parecia também ser a mais provável. – Há dois meses que a Sara não põe os pés na escola – afirmou ela voltando-se para Sérgio, boquiaberta. – Chumbou por faltas a meio do segundo período. - Tem calma – disse Sérgio tentando alcançar-lhe os ombros embora Madalena se tivesse desviado a tempo. - Como é que… como é que eu não percebi isso antes?! Eu não recebi nenhuma carta. Nenhum telefonema da directora de turma… - Tens a certeza que ela não tem ido às aulas? - A Mariana acabou de me confirmar isso – respondeu Madalena ignorando o olhar curioso de Daniel sobre si. – A Sara chumbou de ano. Chumbou por faltas! E o pior é que eu não me posso dizer surpresa porque no primeiro período recebi uma carta da escola a avisar-me que ela estava em perigo de chumbar. Mas … eu pensei que tinha conseguido resolver esse problema quando a tirei da casa do pai. Meu Deus! Será que eu estava cega? - Tem calma, Lena – disse Sérgio pressentindo o seu desfalecimento. - Porque eu ia levá-la todas as manhãs à escola, entendes?! Eu via-a a entrar nos portões. - Isso não quer dizer nada. - Daniel, tu sabias disso? A tua irmã disse-te alguma coisa? - Não – respondeu o pequeno assustando-se quando ouviu a campainha tocar. - Será que é ela? - Eu vou lá atender – disse Sérgio correndo em direcção à porta enquanto na sala Madalena tentava convencer-se a si própria que tudo aquilo não passava de um horrível pesadelo. - A minha filha já apareceu? – foi a pergunta ríspida de Jorge quando Sérgio lhe abriu a porta. - Não. Ainda não. - Posso entrar?! - Claro – respondeu Sérgio percebendo-lhe um certo tom de sarcasmo na pergunta. Os passos nervosos e descontrolados de Madalena deixaram Jorge alerta no minuto em que ele pisou a sala. Encontrou-a com as mãos sobre a cabeça, os olhos marejados de lágrimas e um desespero patente por não ter a mínima ideia de onde a sua filha se tinha metido. Contudo, também o desespero tomou conta do advogado quando terminados todos os números da lista de contactos de Sara, ninguém sabia do seu paradeiro. Nessa altura, o relógio assinalou vinte e duas horas e o esparguete à bolonhesa cozinhado por Sérgio esfriou sobre o fogão. Ninguém tocou ou se lembrou dele, pois o desejo de encontrar Sara era mais forte do que tudo. – Vou ligar para a polícia – disse Jorge encontrando o telemóvel no bolso das calças. - Não é melhor ligar primeiro para os hospitais? – interferiu Sérgio.

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- A polícia encarrega-se de fazer isso por nós – respondeu Jorge tentando controlar a imensa vontade de ver o namorado da ex. mulher pelas costas. Foram precisos poucos minutos para que a polícia tomasse conhecimento do desaparecimento de Sara e também para que se deslocassem à moradia de Madalena para recolher algumas informações adicionais e fotografias recentes da jovem desaparecida. Depois destes procedimentos legais, despediram-se dos donos da casa e prometeram empenhar-se na procura de Sara, o que de todo não deixou Madalena menos preocupada. A única boa notícia era o facto de saber que a filha não havia sido registada em nenhum hospital público da cidade. – O que é que fazemos agora? – perguntou Madalena quando os policiais se foram embora. - Esperamos – respondeu Jorge passeando pela sala. - Esperamos até quando?! - Até recebermos alguma informação da polícia. - E se não recebermos nenhuma informação da polícia?! - Lena, não compliques pelo amor de Deus! Estamos todos nervosos, mas não vale a pena entrarmos em desespero antes da hora. - Eu já estou desesperada. - Tornaste a ligar ao teu pai? Às vezes ela pode estar com ele. – interferiu Sérgio. - Já liguei – respondeu Madalena voltando-se para o fotógrafo com os olhos inchados de tanto chorar. – Ela não está com ele. Aliás, ele até queria vir, mas eu disse-lhe que não era preciso. O silêncio apoderou-se da sala por largos minutos, e embora ninguém quisesse transparecer qualquer tipo de desespero, a verdade é que as horas passadas deixavam poucas dúvidas de que Sara tinha desaparecido sem deixar rastro. Aonde é que ela está, foi a pergunta que os pais, o irmão e Sérgio se fizeram entre si. Cada um tentava se lembrar de um local onde ela poderia estar. Alguém que pudesse ter alguma ideia do seu paradeiro ou até mesmo um mínimo sinal de vida oferecido pela jovem, que alheia a tudo o que se estava a passar em Lisboa, deixou-se cair nos braços de Marco numa das praias mais movimentadas do Algarve. Ali, a poucos minutos das duas horas da madrugada, ela mergulhou no mar e encontrou nele o amparo necessário para se esquecer da loucura que tinha cometido ao fugir de casa sem qualquer aviso prévio aos pais. – Tens frio? - Um pouco – respondeu Sara envolvendo as pernas à volta da cintura de Marco enquanto as ondas do mar teimavam em levar-lhes para longe. - Não faz mal! Eu aqueço-te. - E como é que vais fazer isso? - Adivinha – respondeu Marco encontrando-lhe os lábios. - Posso te fazer uma pergunta? - O quê?! - O que é que nós somos? - O que é que nós somos?! - Sim – respondeu Sara passando-lhe as mãos pelo peito musculado. – Somos amigos, namorados ou… - Eu nunca namorei com ninguém.
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- Não queres namorar comigo? - Eu não iria conseguir namorar com uma gaja que vai para a cama com qualquer um. Se fosses a minha namorada, irias ter sair da vida! Não gosto nada de dividir aquilo que é meu. - E se eu saísse da vida?! Namoravas comigo? Marco sorriu. – Ouve! Eu não sou o tipo de gajo ideal para ti. - Eu sei. Eu sei dos teus esquemas! Sei que andas metido na droga e que o teu irmão mais novo foi assassinado porque o confundiram contigo. Eu sei de tudo isso. - Quem é que te contou? Aposto que foi a otária da Milene… - Foi ela sim, mas ela não fez por mal, eu é que perguntei. - Então se já sabes de tudo isso, o que é que estás aqui a fazer comigo? - Será que ainda não percebeste que eu não me importo?! Eu gosto de ti – respondeu Sara sem desviar os olhos dele. – Eu quero ser a tua namorada. Apesar de Marco não ter feito o pedido oficial, de resto, algo absolutamente impossível para um homem como ele fazer a qualquer mulher, Sara sentiu-se como a sua legítima namorada quando foi apresentada no dia seguinte a alguns dos seus amigos mais próximos. Quase todos pareceram gostar dela, e ela também gostou de todos, embora tivesse percebido alguns olhares menos simpáticos por parte de duas raparigas presentes no bar onde Marco a levou. Mas nem mesmo esse facto fez com que Sara esmorecesse ou sequer largasse a mão do seu novo namorado pois era com ele que ela queria estar. Era ele quem a mantinha naquele perfeito estado de euforia e era também o único que a fazia sentir-se feliz, bonita e desejada. – Toma – disse-lhe ele entregando-lhe um majestoso fio de ouro e uma pulseira de diamantes. – É teu. - É um presente? – perguntou Sara colocando o fio em frente ao espelho do quarto. - Sim. Gostaste? - Adorei! Mas isto deve custar uma fortuna. - A mim não me custou nada – respondeu Marco sugando-lhe o pescoço perfumado. - É roubado?! - Digamos que foi adquirido sem muito esforço. - E tu costumas oferecer presentes destes a todas as raparigas com quem andas? - Não. Só às mais especiais! - Então quer dizer que eu sou especial? - O que é que achas? - Que sou especial – riu-se Sara quando ele a beijou nos lábios. Vinte e quatro horas sem pregar olho fizeram de Madalena um verdadeiro zombie andante. Cada minuto parecia uma eternidade, qualquer barulho na porta a certeza de que Sara tinha regressado a casa e o toque do telefone uma réstia de esperança de a filha tinha sido encontrada por vivalma. Mas a verdade é tudo isso não passavam de fantasias quando confrontada com a dura realidade, e essa realidade era a de que Sara tinha desaparecido. - Devíamos ligar à polícia – dizia Afonso a cada dez minutos. – Pode ser que já tenham notícias. - Não vale a pena – respondeu Jorge levantando-se do sofá. – Eu vou dar mais uma volta de carro pelas redondezas. - Eu vou contigo – disse Afonso seguindo o ex. genro em direcção à porta.
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- Queres que faça alguma coisa para comer? – perguntou Sérgio a Madalena assim que a porta da rua se fechou com algum estrondo. - Eu não consigo comer nada – respondeu ela continuando a passear pelos quatro cantos da sala. – Enquanto não encontrar a Sara nada me vai descer pela garganta. - Tens que descansar! Não podes ficar nesse stress senão não aguentas. - Aonde é que ela se meteu, meu Deus?! Aonde? Já ligámos para toda a gente, já falámos com a polícia, contactamos hospitais, esquadras…! Ninguém sabe de nada. Parece que ela evaporou no ar. - Eu tenho a certeza que ela vai voltar – disse Sérgio para grande surpresa de Madalena. - Como é que podes ter certeza disso? - Se ela tivesse fugido para não voltar, teria levado todas as roupas dela e outros objectos pessoais, não achas? Mas ela não levou quase nada. Só uma mochila. Ninguém iria fugir só com uma mochila às costas. - E se alguém a levou? E se ela foi raptada? - Lena, pensa bem! Ela deixou-te um bilhete. Ninguém a obrigou a escrever aquilo. - Eu não sei. - Com certeza a Sara deve ter ido passar o fim-de-semana com uma amiga… ou com… um amigo… - Claro – exclamou Madalena voltando-se bruscamente para trás. – Aquele rapaz… - Que rapaz?! - Aquele rapaz que apareceu aqui uma vez à procura dela. Lembraste?! Eu disse-te que não tinha gostado nem um pouco dele e tu disseste que eram só coisas da minha cabeça. Mas quem sabe a Sara não está com ele? - Pode ser. É uma ideia. - Ele não te disse como é que se chamava? - …não sei – respondeu Sérgio tentando recorrer à sua memória. – Mas também não falámos muito! Ele só me perguntou se a Sara estava em casa e se ele podia falar com ela. Eu respondi que sim, mas depois entrei em casa para a avisar. Não! Lembrando agora, ele não me disse o nome. - O meu coração está-me a dizer que ela está com esse rapaz. Ela fugiu com ele. - Tem calma! Não nos vamos entrar em julgamentos precipitados. - Merda – murmurou Madalena não conseguindo conter as lágrimas quando Sérgio a abraçou com força. - Vamos esperar mais algumas horas. Se a Sara continuar sem dar notícias, contamos à polícia sobre esse rapaz. - Ainda te lembras da cara dele? - Lembro, claro – respondeu Sérgio tentando acalmá-la com um outro abraço. - Vamos esperar só até à meia-noite então! Só até lá. - O.k! Tal como o combinado, à meia-noite em ponto, Sérgio e Madalena forneceram outra pista à polícia relativamente ao desaparecimento de Sara. A cada hora que passava, a probabilidade da jovem se encontrar na companhia daquele rapaz desconhecido era quase certeira, e se assim fosse, não havia tempo a perder. Era preciso fazer um retrato robot e tentar encontrar-lhe o paradeiro, algo que Sérgio fez exemplarmente quando tentou
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recorrer à sua memória fotográfica. O rapaz tinha 1,80 m, a cabeça praticamente rapada, era mestiço, trazia dois brincos nas orelhas, calças de ganga um pouco largas, uma t-shirt azul escura e vinha a conduzir um BMW conversível. Os olhos também eram escuros, os lábios não muito grossos e o nariz comprido. - Tem a certeza que não se esqueceu de mais nada? – perguntou um dos policiais destacados para o caso. – Acho que não – respondeu Sérgio seguro de tudo o que havia dito. - Vão à procura desse rapaz, não vão?! – interferiu Jorge impacientemente. - Claro que sim – respondeu o agente. – Se ele tiver cadastro, vai ser muito fácil conseguirmos localizá-lo. Por sorte, naquele domingo, as estradas que ligavam o Algarve a Lisboa encontravam-se praticamente vazias, e enquanto seguiam por elas, Marco e Sara não resistiram a trocar várias gargalhadas, beijos e brincadeiras dignas de dois adolescentes completamente alheios aos problemas e responsabilidades. E na verdade, era assim que Sara se sentia cada vez que estava com Marco. Perdia a noção do tempo, do espaço e do perigo que um homem como ele poderia trazer à sua vida. – Pára – dizia ele cada vez que ela tentava lhe desviar o volante das mãos. - Tens que me ensinar a conduzir. - Ainda és muito nova para andar com uma máquina dessas. - Posso aprender… As últimas palavras de Sara coincidiram com uma brusca inversão de marcha que Marco fez em plena auto-estrada. Razão para ele ter cometido tal loucura? A presença da polícia numa das portagens à entrada de Lisboa. – O que foi? – perguntou Sara, assustada. - Cala-te e mete-me a merda do cinto de segurança – gritou Marco deixando-a completamente petrificada quando ao voltar-se para trás a visão de dois carros de polícia e as suas sirenes ruidosas tomaram conta da auto-estrada. Foi a primeira vez que ela se viu metida num verdadeiro filme de terror. Foi também a primeira vez que chorou de medo por se ver diante da morte iminente e por perceber que mostrador de velocidade do carro de Marco havia atingido os duzentos quilómetros por hora enquanto ele se desviava de alguns dos automóveis que circulavam em sentido contrário. O último culminou com um aparatoso capotamento no meio da auto-estrada e com o alívio que Marco sentiu ao ver que os carros da polícia haviam permanecido presos no acidente. Pronto. Estava feito. Ele tinha-se conseguido safar mais uma vez e a saída em direcção a Santarém trouxe-lhe de volta a calma perdida. - Sai – ordenou ele abandonando o carro num descampado. - Aonde é que estamos? - perguntou Sara completamente desnorteada. - Anda! Vou-te meter no primeiro táxi e vais para casa. Hoje ninguém me vê em Lisboa! - E tu? Como é que vais voltar? Vais deixar o teu carro aí? - Esse carro já não existe mais – respondeu Marco arrancando a matrícula e furando os quatro pneus, algo que já estava habituado a fazer em vários outros automóveis. Depois disso, abriu o porta-bagagem e retirou do seu interior a mochila que Sara tinha levado para aquele malfadado fim-de-semana. – Toma as tuas tralhas! Vamos… Apesar de ter jurado não derramar uma lágrima sequer após o maior susto que apanhou na sua vida, a verdade é que durante a viagem em direcção a Lisboa, várias foram as vezes que Sara se viu obrigada a limpar as lágrimas e a engolir o choro para que o taxista não se
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apercebesse de nada. – He lá! Ainda não o tiraram dali – disse ele quando passou pelo local do acidente provocado por Marco. O carro que havia capotado duas horas antes encontrava-se completamente destruído, e ao forçar um pouco mais a vista através da janela do táxi, Sara apercebeu-se da dimensão da tragédia que ela e Marco haviam causado. Uma longa fila de carros, inúmeros polícias à volta do local, duas ambulâncias, e deitado no chão, coberto com um manto branco, o corpo do condutor que havia tido a infelicidade de lhes atravessar caminho momentos antes. – Shiiiii! Morreu – exclamou o taxista levando uma das mãos à cabeça. – Meu Deus! Faltavam poucos minutos para as sete da tarde quando Sara finalmente se viu diante da sua casa. Naquela altura, apesar de ter plena consciência do que a esperava, a jovem não podia desejar um outro lugar para se esquecer dos verdadeiros momentos de horror a quem tinha sido submetida. – Tome – disse ela entregando o pagamento ao taxista. - Espere, menina! Falta o troco. - Pode ficar com ele. - São vinte euros. - Já disse que pode ficar com ele – respondeu Sara fechando a porta e voltando-se para os portões da sua casa. Entrar ou não entrar?! Essa foi a questão que Sara se colocou durante vários minutos. Nessa altura, pareceu-lhe sentir o peso do mundo sobre os ombros e uma enorme vontade de desaparecer. Pareceu-lhe também ouvir uma voz interior a confirmar toda a sua irresponsabilidade e falta de bom senso, quando na verdade já era tarde demais para sentir qualquer coisa parecida. Ela tinha errado, e agora, a única coisa que lhe restava era pagar pelos seus erros. Quando a fechadura sofreu uma ligeira pressão e mais tarde se ouviu o guincho da porta, Madalena, Jorge, Sérgio, Afonso, Daniel e até Alice que lá tinha aparecido para oferecer algum apoio moral à sua melhor amiga, saltaram dos seus respectivos lugares e puseram-se alerta. Depois disso, ouviram-se passos lentos vindos do corredor, e por fim, a visão de Sara com uma mochila nas mãos. Os seus olhos amedrontados não deixaram sombra para dúvidas. Estava assustada e não tinha a mínima noção de qual iria ser a reacção dos seus pais. – Filha – exclamou Jorge correndo a tomá-la nos braços. – Meu Deus! Ainda bem que não te aconteceu nada. Ainda bem! - Aonde é que te meteste? – interferiu Afonso fazendo os possíveis para se conseguir aproximar da neta. – Estávamos aqui todos a morrer de preocupação. - Não era preciso. - Aonde é que estavas? – perguntou Jorge sacudindo-lhe os ombros. - Fui passar o fim-de-semana ao Algarve – respondeu Sara para surpresa de todos. - Ao Algarve? O que é que foste fazer ao Algarve? Aliás, com quem é que foste? - Com ninguém – respondeu ela desviando-se dos braços do pai. – Fui sozinha. Pela primeira vez desde que chegou à sala, os olhos de Sara cruzaram-se com os da mãe, e esse momento foi absolutamente arrepiante para as duas. No rosto, Madalena envergava as quarenta e horas que passou sem dormir, os olhos inchados de tanto chorar e a mesma roupa que trouxe vestida desde sexta-feira. Mas ainda assim, havia qualquer coisa no olhar dela que obrigou Sara a recuar dois passos. Algo maléfico, gélido e que se mostrava cada vez mais aterrador à medida que ela se aproximava da filha. Por fim, e quando todos
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estavam menos à espera, ouviu-se o valente estrondo de Sara a cair sobre uma das mesinhas da sala. Tinha levado um estalo. O maior estalo de toda a sua vida que a fez inclusive sangrar da boca. – Nunca mais voltes a fazer o que fizeste… – imperou Madalena. – Porque da próxima vez, eu mato-te de pancada! - Eu não vou pedir desculpas se é isso que estás à espera – gritou Sara com os olhos vermelhos de raiva. - Sara, não levantes a voz – disse-lhe o pai veemente. – Quer dizer, desapareces sem qualquer explicação, deixas-nos à beira de um ataque de nervos e ainda achas que tens razão?! Tens a noção da gravidade do que acabaste de fazer? E se te tivesse acontecido alguma coisa? E se tivesses sido raptada, morta?! - Eu já disse que fui passar um fim-de-semana ao Algarve. - Com quem!? – perguntou Madalena perdendo as estribeiras. - Não é da tua conta. - Foi com aquele rapaz que apareceu cá em casa no outro dia, não foi? - Já disse que não é da tua conta. - É mesmo hoje que te mato – gritou Madalena lançando-se contra a filha com todas as forças que possuía dentro de si. - Podes bater-me à vontade! Eu não vou dizer nada. Os momentos que se seguiram foram tensos, mas ainda assim Sérgio conseguiu impedir que Madalena levasse os seus intentos adiante quando a segurou pelos braços e permitiu que Sara fugisse da sala. Mais tarde, a jovem subiu as escadas que ligavam o primeiro piso ao segundo e trancou-se no quarto numa tentativa desesperada de manter o fio de lucidez que lhe restava. – Isto não vai ficar assim – disse Madalena libertando-se dos braços de Sérgio e seguindo a filha a toda a velocidade. - Lena! - Eu vou lá – exclamou Jorge adiantando-se ao namorado da ex. mulher. Ao ver-se diante da porta do quarto da filha, Madalena não hesitou um segundo em soquear-lhe vezes sem conta. Tentou também girar a maçaneta, mas tal como se era de esperar, Sara teve a brilhante ideia de se trancar no interior do quarto. – Sara! Abre a porta! Abre-a agora imediatamente! Silêncio foi a resposta. – Trancou-se aí dentro? – perguntou Jorge encontrando a ex. mulher no meio do corredor. - Sim e não quer abrir. - Sara, abre a porta – imperou o advogado. – Se não a abrires, eu arrombo-a! Não se soube se foi a voz do pai ou a sua ameaça, mas a verdade é que as mãos de Sara atreveram-se a destrancar a fechadura. Depois disso, a jovem deparou-se com a visão assustadora dos seus progenitores sobre o alpendre da porta e com a certeza de que apenas agora os seus problemas estavam a realmente começar. – Começa já a explicar qual foi a loucura que te passou pela cabeça para sair de Lisboa sem a nossa autorização – imperou Madalena entrando pelo quarto adentro na companhia de Jorge. - Eu já disse! Só queria passar um fim-de-semana fora. - Porque é que não avisaste então? – perguntou-lhe o pai. - Porque eu já sabia que vocês não iriam deixar, ou pelo menos, que a mãe não iria deixar.

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- É claro que eu não iria deixar – interferiu Madalena, raivosa. – Tu não tens idade para andar sozinha por aí. Não tens idade para passar fins-de-semana sem a supervisão de um adulto e muito menos para sair da cidade sei lá com quem! Porque é óbvio que tu não foste sozinha ao Algarve. Foste com alguém. - Com que é que tu foste, filha? - Não fui com ninguém – respondeu Sara largando os braços, esbaforida. – Fui sozinha, já disse. Porque é que não acreditam em mim? - Porque tu não nos dás motivos para acreditar em ti – interrompeu Madalena. – Aliás, tu só nos dás motivos para desconfiar do teu carácter e da tua falta de responsabilidade. - O.k! - Ou pensas que já não sabemos que chumbaste o ano por faltas? A pergunta da mãe tomou Sara de assalto. – O que foi? Ficaste surpreendida? Ou será que pensavas que nós nunca iríamos descobrir que andavas a faltar às aulas para fazer sabe-se lá o quê?! Julgaste muito esperta, não é?! Fazes o que te apetece, mandas e desmandas cá em casa, viajas sem dar satisfação a ninguém…! É uma alegria! - Sabes porque é que eu fui passar o fim-de-semana ao Algarve? - Não – respondeu Madalena cruzando os braços num gesto de deboche. – Mas iria adorar saber. - Eu fui porque precisava ficar dois dias sem olhar para a tua cara e sem olhar para a cara daquele homenzinho que resolveste colocar cá em casa. - Não te atrevas a falar assim do Sérgio! - Eu falo como eu quiser! Não sou obrigada a gostar dele e muito menos a fingir que acho normal uma mulher da tua idade andar com um homem muito mais novo, e pior, ainda enfiá-lo cá em casa. Uma casa que é do meu pai, e que se não fosse por ele, não terias sequer como sustentá-la… - Sara! Cala-me essa boca imediatamente – imperou Jorge para grande surpresa da filha. - Sinceramente eu não sei o que fiz para me odiares tanto – disse Madalena tentando controlar as lágrimas que teimaram em cair-lhe dos olhos. - Tu destruíste a minha vida, será que não entendes?! É por tua causa que eu e o Daniel deixámos de ter uma família – respondeu Sara não se deixando amolecer pelas lágrimas da mãe. – É por tua causa que todos os fins-de-semana temos de andar de um lado para o outro sem saber aonde e a quem pertencemos. Porque tu não pensaste nem um segundo nós quando te resolveste separar do pai. Só pensaste em ti. Só pensaste no teu bem-estar e na vontade que tinhas em voltar a ser solteira outra vez … - Isso não é verdade. - É sim! E tu sabes que é. - Não, não é – interrompeu Jorge calando os gritos da filha. – Não fales de coisas que não sabes, Sara! A tua mãe e eu pensámos muito, mas mesmo muito, antes de nos decidirmos a assinar os papéis do divórcio. Foi por vossa causa que estivemos casados durante tanto tempo, porque senão, já nos tínhamos separado muito antes. Eu traí a tua mãe. Várias vezes… - os olhos de Sara cerraram-se. – E ela sempre me perdoou porque queria que tu e o Daniel crescessem numa família minimamente estável. A juntar a isso, e tal como se não bastasse, utilizei a assinatura dela para um negócio que estava a fazer com alguns sócios meus na altura. O problema é que o tal negócio não deu certo e… a polícia judiciária
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descobriu algumas irregularidades numa conta offshore que eu tinha. Só que essa conta estava no nome da tua mãe, coisa que ela não sabia porque eu não lhe contei, e ela acabou por… ser presa no meu lugar! Foi só uma noite, mas acho que foi a suficiente para que ela se fartasse de mim e pedisse a separação – discursou Jorge rasgando alguns olhares a Madalena. – Portanto, como vês, fui eu o único culpado pela nossa família ter terminado. A tua mãe não teve culpa de nada! - O que é que isso importa?! – perguntou Sara largando os braços, desesperada. – Está tudo destruído, não está?! - Com a tua ajuda está – respondeu Madalena abandonando o quarto debaixo das lágrimas que a filha não conseguiu conter. Entre mortos e feridos salvaram-se todos, foram as últimas palavras de Afonso Soares no final daquela tarde particularmente cinzenta e tumultuosa. E a verdade é que o ex. militar não poderia estar mais certo. Apesar das discussões, dos estalos e dos gritos, a calmaria voltou a rondar a casa quando Sara regressou sã e salva. Madalena conseguiu pela primeira vez engolir algo comestível e Jorge desapareceu com a clara certeza de que já deveria ter contado a verdade à filha há muito tempo. Foi fraco ao não fazê-lo, talvez por medo que ela deixasse de o ver como um herói, mas sim. Seria demasiado egoísta da sua parte se todas as culpas acerca do término do seu casamento recaíssem sobre os ombros da ex. mulher. Quem sabe com o tempo Sara não entendesse? Quem sabe ela não percebesse que nem sempre as relações entre adultos eram fáceis, transparentes e vitoriosas? Nem sempre elas são como queremos que sejam, e nem sempre, por mais que tentemos, somos capazes de superar as nossas fraquezas interiores. - Estás bem? – perguntou Sérgio encontrando Madalena sentada sobre as escadas que ligavam os dois pisos da casa. - Não – respondeu ela permitindo que ele se sentasse ao seu lado. Nessa altura, o relógio marcou meia-noite e quarenta e cinco minutos. - Pelo menos acabou tudo bem. - Será que acabou mesmo!? - A Sara já está cá em casa, não lhe aconteceu nada. Por isso, sim. Acabou tudo bem. - Ela odeia-me – exclamou Madalena voltando-se para Sérgio com os olhos inchados de tanto chorar. - Ela não te odeia. - Ela odeia-me sim! E eu não posso fazer nada para que ela deixe de me odiar. - É só uma fase. Vai passar! Quando ela crescer, quando ela perceber a mãe maravilhosa que tem, essa fase vai passar. E não. Ela não te odeia. Ela ama-te muito e é por isso que faz estas coisas só para chamar a tua atenção. A casa amanheceu silenciosa, um claro contraste tendo em conta a noite anterior, e Madalena foi a primeira pessoa a levantar-se para preparar o pequeno-almoço na cozinha. Na verdade, as forças para fazer tal tarefa eram praticamente nulas, mas ainda assim ela conseguiu aguentar as fortes dores de cabeça e a vontade quase incontrolável de passar o dia inteiro na cama sem olhar ou falar com vivalma. – Bom dia – disse Sérgio beijando-lhe os cabelos quando se deparou com a mesa do pequeno-almoço totalmente composta. - Bom dia. - Melhoraste da dor de cabeça?
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- Mais ou menos. - Mãe! Vais-me levar à escola? – perguntou Daniel. - Hoje a mãe está um pouco mal disposta, Dani – respondeu Sérgio servindo-se de uma chávena de café. – Eu levo-te. As últimas palavras do fotógrafo coincidiram com a chegada de Sara à cozinha e também com o constrangimento de Madalena ao vê-la diante de si. Contudo, tanto a mãe como a filha encontravam-se tão cansadas de lutar, que foi completamente impossível para elas trocarem qualquer palavra mais amarga àquela hora da manhã. E assim, os seus olhares se desviaram. Sara escolheu uma cadeira à mesa para se sentar e Madalena voltou-se de frente para o lava-loiça. – O que é que queres comer? – saiu-lhe essa pergunta a muito custo. - Cereais – respondeu Sara baixando o rosto, envergonhada. Passou-se uma semana e Sara percebeu que estava de castigo quando lhe foram retirados do quarto, o computador, o leitor de CD e a televisão. Para além disso, também não estava autorizada a sair de casa e muito menos a comunicar-se com qualquer pessoa através do telefone. Prisioneira talvez fosse a palavra que melhor a definiria durante três semanas, e o pior é que ela nada podia para contrariar a decisão da mãe devido ao apoio incondicional que o seu pai lhe ofereceu aquando do castigo. Desta forma, os dias eram passados no interior de um quarto completamente desprovido de tecnologia. Eram passados a meditar em todas as coisas de errado que fez e também em Marco. Como será que ele estava depois dos dois quase terem sido apanhados pela polícia? Será que ele chegou a saber que o condutor do carro que capotou morreu por culpa da irresponsabilidade dos dois? Diante de tantas dúvidas, Sara começou a sentir-se confusa e ansiosa. Impaciente também, pois as horas custavam a passar e o seu vício aflorava-se a cada minuto. Sexo. Começou a pensar em sexo e na falta que aquele acto que costumava praticar todos os dias lhe fazia. Mas tal como qualquer outro dependente, Sara mantinha as suas reservas escondidas a sete chaves, numa caixa de cartão escondida no fundo do roupeiro, uma caixa a qual só ela tinha acesso e que muitas vezes lhe trazia o prazer que não conseguia alcançar com indivíduos do sexo oposto. Contudo, ao contrário de todas as suas expectativas, naquela tarde, a caixa não se encontrava mais lá. - Não acredito nisto… – foram as palavras que ela murmurou enquanto os olhos e as mãos reviravam todo o roupeiro. – Não acredito! As minhas coisas…! Não acredito… A procura desesperada continuou por todo o quarto, mas a pouco e pouco, Sara começou a perder as esperanças de encontrar a sua preciosa caixa. Alguém a havia tirado dali, ela percebeu. Será que tinha sido a mãe? Não. Com certeza, Madalena teria dito alguma coisa ou feito um escândalo. Só podia ser outra pessoa. Mas quem?! Quem? Desesperou-se. Claro. O Sérgio. – Eu quero a minha caixa – foram as primeiras palavras de Sara assim que o fotógrafo chegou da rua e a encontrou sozinha em casa. - Eu não sei do que é que estás a falar. - Sabes sim! Foste tu que andaste a mexer nas minhas coisas! Roubaste-me a caixa. - Eu só deitei fora aquela porcaria – respondeu Sérgio largando o seu equipamento fotográfico no chão. – Aquilo era nojento, principalmente para uma rapariga da tua idade. - Nojento ou não, era meu e tu não tens o direito de mexer em nada do que é meu! - Um dia vais-me agradecer.
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- Eu nunca te vou agradecer por nada – gritou Sara, raivosa. - Escuta! Porque é que estás tão irritada? Eram só alguns filmes pornográficos, vibradores e outras coisas. Podes muito bem viver sem isso ou não?! - Isso não é da tua conta. - Ou será que estás tão obcecada por sexo que a simples ideia de te veres sem a tua caixa te deixa assim?! Sara calou-se. – Tu estás doente, Sara – disse Sérgio incendiando-lhe o olhar. – Precisas tratar-te e eu estou a falar a sério. E precisas também deixar de te prostituir… - Cala-te – gritou ela completamente descontrolada. - Já pensaste no desgosto da tua mãe quando ela descobrir a verdade? Quando ela descobrir que a filha dela se anda a prostituir, não porque precisa, mas porque quer?! - Cala-te! Tu não sabes o que dizes… - Eu sei muito bem o que estou a dizer – respondeu Sérgio enfrentando-lhe os olhos raivosos. – E tu também sabes. Só que ao contrário dos teus pais, eu consigo ver as coisas do lado de fora e podes crer que não precisei de muito esforço para juntar todas as peças deste puzzle. Tu és dependente de sexo, tal como um toxicodependente é dependente de droga. Aliás, o sexo é a tua droga, não é?! - Cala-te – afirmou Sara recuando dois passos. - E como não já não consegues sair de casa, já não tens a tua caixa, estás a começar a entrar em ressaca. - Eu odeio-te! - Tu és ninfomaníaca. Ali estava. A verdade nua e crua da qual Sara não podia escapar e que infelizmente lhe foi jogada à cara pela pessoa que mais odiava no mundo. Mas sim. Pensando melhor, talvez Sérgio tivesse razão. Apesar de nunca ter encontrado a verdadeira definição para o seu desejo sexual compulsivo, Sara sabia que ele existia e que a pouco e pouco já havia controlado toda a sua vida. Sabia também que esses sintomas começaram meses antes quando descobriu a pornografia em casa do pai. A príncipio tentou levá-la como uma simples brincadeira, uma curiosidade, mas em muito pouco tempo, essa brincadeira e essa curiosidade apossaram-se não só da sua mente como também do seu corpo. Fizeram com que cometesse loucuras atrás de loucuras, que se deitasse com inúmeros homens e que vendesse o seu corpo, não por dinheiro, mas por um prazer que queria ver saciado. – Vais contar à minha mãe? – perguntou ela. - Não! Eu queria que fosses tu contar. - Eu nunca vou fazer isso. - Então não me deixas outra escolha – disse Sérgio alcançando o corrimão das escadas. Passaram-se cinco dias e o círculo estava pouco e pouco a fechar-se. O prazo que Sérgio dera a Sara para contar a verdade a Madalena esgotou-se, e ela, que já não sabia o que fazer, desesperou-se. A mãe nunca iria compreender as razões que a levavam a querer sexo tanto quanto um ser humano desejava ar para respirar. Nem a mãe e muito menos o pai, daí a vergonha, o sentimento de repulsa que todos iriam sentir de si quando soubessem a verdade. Por isso, Sara decidiu que não iria contar. Nunca iria contar. Nunca ninguém iria saber da sua doença e ela passaria despercebida aos olhos de todos até o final dos seus dias.

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Mas seriam as coisas assim tão simples? No fundo, ela tinha consciência que não, pois a presença de Sérgio em sua casa lembrava-lhe que estava entre a espada e parede. Cada vez que se encontravam nos corredores, nas escadas, cozinha ou até mesmo na sala, era como se o fotógrafo lhe lançasse olhares fulminantes com mensagens claras e peremptórias: Conta. Conta. Conta. Mas ela não contou e essa ideia nem sequer lhe passou pela cabeça. A única coisa que sabia era que teria que afastar Sérgio da sua vida de uma vez por todas e consequentemente todas as ameaças que ele fazia questão de lhe incutir. - Tens alguma roupa branca para lavar? – perguntou Madalena enquanto Sérgio se preparava para tomar um duche na casa de banho. - Só esta camisola – respondeu ele tirando-a do corpo. - Dá-ma! Vou pô-la na máquina. - Vê lá se não te demoras muito! Prometeste que me irias fazer companhia no banho. - É só me despachar da máquina que venho a correr – respondeu ela cedendo-lhe um longo beijo nos lábios. - Não te demores. - Podes deixar. Estas foram as últimas palavras de Madalena antes de sair da casa de banho levando consigo várias roupas nas mãos e também a certeza de que assim que se despachasse da tarefa enfadonha de as colocar na máquina, iria correr para os braços de Sérgio e presenteálo com um final de tarde no mínimo inesquecível. E sim. O desejo parecia ser recíproco quando Sérgio abriu o chuveiro da cabina e se enfiou lá para dentro sentindo os primeiros pingos de água quente caírem-lhe sobre o rosto e o corpo desnudo. Nessa altura, a porta da casa de banho sofreu uma ligeira pressão e abriu-se sem que ele se apercebesse disso. Com a pressão da água a cair sobre o polibã, foi impossível ouvir o barulho do robe a cair sobre o tapete, os passos lentos e quase silenciosos de um corpo esbelto e a abertura da cabina pelas suas mãos delicadas. – Foste rápida… - exclamou Sérgio abrindo um sorriso de orelha e orelha quando sentiu dois braços à volta da sua cintura. - Pois fui – respondeu uma voz angelical que o fez gelar dos pés à cabeça. Nada pôde exemplificar o terror sentido por Sérgio quando ele percebeu que a pessoa que tinha acabado de entrar na cabina não era Madalena, mas sim Sara. Ali estava a filha da sua namorada, completamente desnuda, com olhos de quem o queria comer e sem qualquer pingo de remorso por ter cometido um acto no mínimo insano. – O que é que estás aqui a fazer? – perguntou Sérgio abandonando a cabina e encontrando uma toalha com a qual se pudesse tapar. – Estás louca? - Eu?! Louca? Claro que não! Só te queria fazer uma surpresa. - Veste-te – ordenou ele entregando-lhe o robe caído sobre o tapete. - Não – respondeu ela com um sorriso maléfico que o irritou de imediato. - Sara, veste-me esse roupão agora! - Já disse que não. Aquilo já tinha passado todas as marcas, foram as palavras de Sérgio enquanto enfiava a filha da sua namorada no robe que ela havia retirado minutos antes de o surpreender no banho. Mas os gritos de Sara para se tentar livrar dos braços do fotógrafo não tardaram a ecoar por toda a casa, sendo que quando isso aconteceu, Madalena voou em direcção ao

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segundo piso pronta a inteirar-se do que se estava a passar. – O que foi, mãe? – perguntou Daniel surpreendendo a sua progenitora no corredor. - Não sei – respondeu ela. – Mas fica aí no teu quarto. Não saias! Ao ouvir as ordens da mãe, Daniel tornou a encostar a porta e ignorou os gritos de Sara que a cada minuto tornavam-se mais agudos e intensos. Mãe, ela chamava com todas as forças, tal como se estivesse a ser espancada ou violentada por alguém. – O que vem a ser isto? – murmurou Madalena sentindo-se quase sem ar para respirar quando encontrou o namorado e a filha completamente atracados na casa de banho. - Lena, não é nada disso que estás a pensar… - respondeu Sérgio largando os braços de Sara e deixando-a quase semi-nua sobre a sanita. - O que é isto?! – repetiu Madalena, incrédula. - Eu posso explicar. - Então explica! Explica porque eu não estou a perceber. - Eu não sei como é que aconteceu, mas …eu estava a tomar banho e de repente a Sara entrou na cabina. Acho que deve ter sido por engano. Eu assustei-me, ela também e eu estava a tentar a… - Sérgio, tu achas que a minha mãe vai acreditar numa coisa dessas? – interrompeu Sara para grande espanto e surpresa do fotógrafo. – Porque é que não lhe contas a verdade? - Essa é a verdade. - Não, não é – respondeu Sara enfrentando o olhar confuso de Sérgio. – A verdade é que tu me chamaste para vir ter contigo, lembraste?! - Isso não é verdade. - Porque é que não contas à minha mãe? Porque é que não lhe contas que me andas a assediar desde que nos conhecemos?! - Eu nunca te assediei – vociferou Sérgio sentindo-se prestes a perder a sua sanidade mental. E a verdade é que o mesmo se estava a passar com Madalena, que ali, no interior daquela casa de banho, sentiu como se o mundo tivesse acabado de desabar sobre os seus ombros. – Lena! Tu tens que acreditar em mim. Eu nunca tive nada com a tua filha. Ela é louca. - Eu é que não queria ter nada a ver contigo – interrompeu Sara compondo-se no seu roupão. – Tu é que me obrigaste! Eu bem tentei fugir, disse que não podia ter nada contigo porque era o namorado da minha mãe, mas tu disseste que isso não te importava. No fundo querias ficar com as duas. Foi por isso que resolveste morar cá em casa. Eu era só uma criança e tu sabias muito bem disso quando me obrigaste a ir várias vezes para a cama contigo… - Isso não é verdade – vociferou Sérgio voltando-se para ela. – Eu nunca tive nada contigo. Tu não passas de uma criança… - Eu era uma criança até tu teres feito o que fizeste. - Eu não tenho estômago para continuar a ouvir isto… – murmurou Madalena abandonando a casa de banho com os olhos rasos de lágrimas. - Viste o que acabaste de fazer, minha louca? – disse Sérgio agarrando o braço de Sara com força. - Eu disse-te para não te meteres no meu caminho, mas tu não me quiseste ouvir, o que é que eu posso fazer?
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Não adiantava nada continuar a trocar palavras vãs e dementes com uma rapariga também ela vã e demente, foi a conclusão a qual Sérgio chegou quando a olhou pela última vez e se deu conta que Sara realmente não conhecia a palavra limite. Por isso, sem tempo a perder, ele abandonou a casa de banho ainda enrolado numa toalha e correu ao encontro de Madalena no quarto divido pelos dois. Tal como esperava, encontrou-a em frente à janela, de costas voltadas e completamente imóvel. Parecia ter sido atingida por um raio, ou algo semelhante, e parecia também ter entrado numa dimensão só dela. Uma dimensão a qual só ela tinha acesso e que Sérgio não sabia se poderia entrar. – Lena… - murmurou ele tentando alcançar-lhe os ombros com as mãos. - Não me toques – foi a resposta que o fez recuar dois passos. - Lena, tu não podes acreditar naquilo que a Sara disse! Eu nunca tive nada com ela e nem nunca seria capaz de a tocar. Tu sabes disso. - Será que eu sei? – perguntou Madalena voltando-se para ele com uma expressão mortificada. - Como assim? O que é que estás para aí a dizer? - Porque vendo bem, o que é que eu sei sobre ti!? - Lena…- murmurou Sérgio, incrédulo. – Tu conheces-me! - Há quanto tempo? Nove, dez meses… Sérgio manteve-se calado. – Eu não sei nada sobre ti e hoje cheguei a essa conclusão. Acho que estava tão cega, tão… apaixonada que não ouvi o que as outras pessoas me disseram. Pus um perfeito desconhecido dentro da minha casa, a conviver com os meus filhos e nem foi preciso muito tempo para perceber que cometi um grande erro – discursou Madalena com os olhos rasos de lágrimas. - Tu não acreditas em mim. - Põe-te no meu lugar! Em quem acreditarias? No teu namorado que só conheces há poucos meses ou na tua filha que já conheces há dezasseis anos? - …tens razão – concordou Sérgio baixando o rosto. – Eu não mereço que acredites em mim. - Vai-te embora, por favor – disse Madalena sentindo-se completamente morta por dentro. - Eu não te queria dizer isto, mas… um dia vais perceber que cometeste um grande erro. Não por não teres acreditado em mim, mas sim por não veres algo que está mesmo à frente do teu nariz! Mas quando perceberes esse erro, acho que já vai ser tarde demais… Da janela do quarto, Sara observou os movimentos de Sérgio a enfiar as suas malas no carro. Viu as suas mãos fecharem o porta-bagagem com força e mais tarde a sua entrada no banco da frente. Dois minutos depois, o veículo arrancou e a rua tornou a ficar deserta. A almofada sobre a cama não precisou de muito tempo para ficar totalmente encharcada com as lágrimas de Madalena, e quando isso aconteceu, ela agarrou-se ao edredão numa tentativa desesperada de acalmar a dor que estava a sentir. Era uma dor que parecia ter-selhe entranhado por todo o corpo, que a deixava quase sem ar para respirar e que a matava por dentro a cada minuto que se lembrava das palavras de amor que Sérgio tantas vezes lhe sussurrou aos ouvidos. Como se pôde enganar tanto com elas? Como é que pôde acreditar nelas e entregar a Sérgio tudo o que de melhor possuía dentro de si?

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Talvez devesse ter sido mais cuidadosa em não oferecer o seu coração, o seu corpo e a sua alma a um perfeito desconhecido. Mas por outro lado, como é que se podia recriminar se tudo o que Sérgio lhe havia dito parecia tão real? Se tudo o que ele fazia parecia tão real. Ele que lhe devolveu novamente a alegria de viver, que a fez voltar a acreditar no amor e que lhe prometeu o céu e as estrelas apenas em troca de um beijo? Mas não. Nada disso realmente aconteceu, pois o céu e as estrelas pareceram desabar sobre a sua cabeça quando ela o encontrou nos braços da filha naquela maldita casa de banho. Há quanto tempo aquilo estava a acontecer, foi a pergunta que Madalena se fez ao limpar as novas lágrimas que teimavam em cair-lhe no rosto. – Era por causa disso que eu não gostava dele – ouviuse a voz de Sara sob o alpendre da porta. Sem forças para sequer erguer a cabeça, Madalena continuou deitada e fechou os olhos inchados de tanto chorar. – E ele também não gostava de ti – continuou a jovem ansiando qualquer reacção por parte da mãe. – Foi melhor ter-se ido embora! Agora vamos voltar a ser uma família outra vez. - Deixa-me sozinha – respondeu Madalena com uma voz rouca. - Já se passaram três semanas. O meu castigo já acabou? - Já. Podes fazer o quiseres… Ao ouvir as palavras da mãe, Sara afastou-se da porta e fechou-a com algum cuidado. Depois disso, fez-se um silêncio ensurdecedor e Madalena desligou a luz da mesinha de cabeceira ansiando que o comprimido que havia tomado surtisse efeito e a fizesse dormir.

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CAPÍTULO VIII
Era a primeira vez desde há semanas que Sara podia sair de casa sem a supervisão da mãe ou os constantes telefonemas do pai, e tal como se era de esperar, o local escolhido para comemorar a sua liberdade foi o bairro do Intendente, onde logo à entrada encontrou alguns amigos de longa data. Estava animada, isso podia notar-se a quilómetros de distância cada vez que acenava a velhos amigos e retomava um quotidiano que já conhecia tão bem. Para além disso, os seus passos rápidos em direcção a uma pensão que habitualmente frequentava não deixaram dúvidas de que o seu maior desejo era reencontrar uma pessoa que lhe era muito especial. – Desaparecida – disse Milene abrindo-lhe a porta do quarto. - Posso entrar? - Claro. - Estive de castigo – afirmou Sara entrando com um largo sorriso. - Bem, o castigo deve ter sido óptimo, não?! - Tu nem sabes o que é que me aconteceu nestas três semanas. - Não me queres contar? E foi o que Sara fez minutos mais tarde. Contou a Milene todos os detalhes do louco fimde-semana que passou ao lado de Marco no Algarve, do acidente que provocaram em plena auto-estrada, a reacção dos pais quando regressou a Lisboa, e por fim, a forma magistral como se livrou da presença do futuro padrasto lá em casa. Mas o mais intrigante de tudo era perceber que ela não se tinha arrependido nem um pouco do que fizera. - Tu és louca – foram as palavras que Milene murmurou vezes sem conta. - Porquê!? - Coitada da tua mãe! Não tens pena dela? - Pena porquê?! Eu até lhe fiz um favor. O namorado dela era um otário e estava a um passo de lhe contar que me ando a prostituir. O que é que querias que eu fizesse? Ele não me deu outra escolha. - Às vezes eu acho que tu não és deste planeta. - A minha mãe é forte! Ela vai saber esquecer esse Sérgio num estalar de dedos. - Mas diz-me uma coisa – interrompeu Milene acendendo um cigarro e atirando o isqueiro contra a cama. – Tu e o Marco andam mesmo a namorar ou é só uma brincadeira? - Ele disse que queria que eu largasse a vida – respondeu Sara com um largo sorriso. – Diz que não admite dividir a mulher dele com ninguém. - E tu vais deixar a vida por causa dele?
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- Porque não!? Se ele quiser, largo mesmo. - Não vês que o gajo só te anda a fazer de otária? Ele anda com todas as gajas que lhe aparecem pela frente ou pensas que um idiota como ele só se contenta com uma miúda de dezasseis anos?! Tu vais largar a vida, mas ele vai continuar com a dele. Não sejas parva. - Tu não acreditas mesmo que ele gosta de mim, não é?! - Tu acreditas!? - Eu acho que é possível um homem gostar de mim pelo que eu sou. Pelas minhas qualidades – respondeu Sara arrancando uma ruidosa gargalhada de Milene. – O que foi? Achas piada? - Não passas de uma criança! Ainda tens muito que aprender. - Mas só tem um problema… - disse Sara atirando-se contra a cama. - Qual? - Eu prometi ao Marco que iria deixar de me prostituir, mas não sei se vou conseguir manter a minha promessa. Milene sorriu. – Eu gosto dele – continuou Sara. – Mas também gosto de sexo e ele está sempre longe. Não sei se vou conseguir ficar um mês sem ir para a cama com ninguém. - Tu só pensas nisso, já reparaste?! - O ex. namorado da minha mãe disse que eu era ninfomaníaca! Sabes o que isso é? - Já ouvi falar – respondeu Milene fumando mais uma passa do seu cigarro. – Conheci uma gaja que também era assim. Vinha muitas vezes ao bairro porque dizia que o marido não a conseguia satisfazer na cama. Então um dia, o marido seguiu-a e apanhou-a numa pensão aqui perto. Foi o maior escândalo. Houve tiros e tudo… - A sério? – riram-se as duas. - A sério! A bófia veio, levou o pessoal para a esquadra e a gaja nunca mais apareceu por estas bandas. Mas há uns meses atrás a Arlete encontrou-a na rua e ela disse-lhe que se tinha curado. Procurou um psicólogo e descobriu que era ninfomaníaca. - Então acho que se calhar também preciso de um psicólogo. - Não – riu-se Milene. – Precisas é de um colete-de-forças. Atendida que estava a segunda cliente da tarde, Madalena despediu-se dela com um sorriso forçado e voltou a encostar a porta da sua floricultura. Tinham-se passado três dias desde o término do seu namoro com Sérgio, mas ainda assim as feridas continuavam por cicatrizar. Cada lembrança dele era um suplício, cada minuto era difícil de suportar e a certeza de que nunca mais o voltaria a ver destroçava-lhe o coração. Porque é que tudo terminou daquela forma tão abrupta? Porque é que uma história de amor que tinha todos os ingredientes para dar certo evaporou-se no ar sem qualquer razão aparente? Por mais justificações que Madalena tentasse encontrar, nenhuma delas lhe trazia de volta a paz de espírito. - Tens mesmo a certeza que foi isso que aconteceu? – perguntou Alice quando ela lhe contou a cena grotesca que vira na sua casa de banho. - O que mais pode ter acontecido? - Não sei. Que tal a Sara ter mentido!? - A Sara não iria inventar uma coisa dessas – respondeu Madalena limpando as últimas lágrimas da tarde. – Ela pode ter muitos defeitos, mas eu sei que ela não iria mentir sobre uma coisa tão séria.
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- Lena, eu não sei! O Sérgio não parece ser desse tipo… - Eu vi, Alice! Eu vi com os meus próprios olhos ele a agarrá-la. Não foi imaginação, não foi um boato, foi a verdade… - Sinceramente não sei o que te dizer. - Não digas nada – respondeu Madalena assoando-se com um lenço de papel. – Acabou! Agora só quero esquecer essa história e seguir em frente. É só isso que eu quero. - Tudo bem – disse Alice segurando-lhe as mãos frias. – O Sérgio está fora da tua vida, mas e a Sara? O que é que vais fazer com ela? - Como assim?! - Não podes deixar que ela continue assim, Lena! Não podes deixar que ela assuma o controlo da situação e te faça a vida num inferno. Se o Sérgio foi culpado por tudo aquilo que aconteceu, deixa-me que te diga que ela também foi. Ele não agiu sozinho, e mesmo se a tivesse obrigado a ir para a cama com ele, uma, duas ou três vezes, ela não te contou nada. Agiu nas tuas costas e traiu-te também. - Ele estava a obrigá-la, será que não entendes?! - Lena, apesar de não quereres aceitar a realidade, a Sara já não é nenhuma criança de colo. Ela sabia muito bem o que estava a fazer. - E o que é que queres que eu faça!? Eu não posso pô-la para fora de casa tal como fiz com o Sérgio. Ela é a minha filha – respondeu Madalena, desesperada. – Por mais que ela me odeie, por mais que me faça a vida negra, eu não posso abandoná-la. - Às vezes os pais têm que abandonar os filhos para que eles aprendam a dar-lhes valor. - Eu não sei! Eu não sei se com a Sara não será pior. - E até quando vais continuar a viver nesse inferno? - Não sei! Até quando conseguir… – respondeu Madalena encolhendo os ombros. O Verão trouxe novamente consigo os dias de sol e de calor, mas ao contrário dos anos anteriores, Sara não teve direito a férias. O seu comportamento escolar, mas principalmente o familiar, deixaram muito a desejar, e os pais, cientes de que a filha precisava de um castigo, privaram-na de qualquer tipo de divertimento que não se cingisse a Lisboa. Apenas Daniel foi convidado a acompanhar o pai numas pequenas férias a Madrid, algo que ele aceitou de bom grado. – Façam uma boa viagem – disse Madalena observando a animação do filho quando Jorge o foi buscar. - Obrigado – respondeu o advogado rasgando alguns olhares à ex. mulher. Ainda estava triste, os seus olhos e a sua expressão facial não mentiam, e embora nunca tivesse sabido o verdadeiro motivo para que Madalena e Sérgio se tivessem separado, a verdade é que Jorge não podia ter ficado mais contente pela notícia. Quem sabe ela não voltaria a vê-lo com outros olhos? Quem sabe ela não perceberia que durante meses o seu maior desejo era voltar para casa e para o casamento de ambos? De qualquer maneira, não custava nada sonhar com essa possibilidade. – Era bom se pudesses vir connosco. - Sabes bem que não posso deixar a Alice a tomar conta da floricultura sozinha. E também tem a Sara… - Eu sei – disse Jorge segurando malas do filho. – De qualquer maneira foi só um convite. - Mas eu tenho a certeza que tu e o Dani se vão divertir imenso sem mim – afirmou Madalena afagando os cabelos do filho. - Bem! Vamos pestinha?! Senão perdemos o voo.
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- O.k – respondeu Daniel despedindo-se da mãe com um longo abraço seguido de um beijo na face. – Tchau, mãe! - Porta-te bem! Não faças asneiras e obedece ao teu pai. - Está bem. - Tchau, Lena – disse Jorge forçando-lhe um sorriso carinhoso. – Ligamos assim que chegarmos ao hotel. - O.k! Boa viagem. Depois de um breve aceno e de se ter assegurado que o carro do ex. marido partira sem deixar rastro, Madalena fechou a porta e lançou um longo suspiro. Duas semanas. Iria passar duas semanas com Sara na mesma casa. Sozinha. Sem ninguém para a amparar e sem certezas do comportamento da filha que a cada semana piorava gradualmente. De férias, raras eram as vezes que Sara parava em casa, e quando voltava, quase sempre ao príncipio da noite, fugia para o quarto sem dar quaisquer explicações acerca do seu desaparecimento. Nas primeiras vezes, Madalena tentou impor horários rígidos e perguntou sempre para onde ela tinha ido, mas com o passar do tempo e com a perca de forças, ela desistiu de tal coisa. Não valia a pena pois Sara chegava a casa cada vez mais tarde e também recusava-se a passar os fins-de-semana com o pai desde que soube que fora ele o responsável pelo término da família. Assim sendo, não havia absolutamente nada que Madalena pudesse fazer para voltar a controlá-la, e essa certeza tornou-se incontornável quando pela primeira vez a filha passou a noite fora de casa. - Olha quem é ele – exclamou Arlete, uma das prostitutas mais antigas do bairro, ao ver à sua frente a figura de Marco, um dos delinquentes mais temidos do bairro. – Até que enfim apareces por estes lados… - Sai-me da frente, Arlete – respondeu ele empurrando-o contra a porta do bar. - Hei! Vê lá, puto! Tenho quase idade para ser a tua mãe. - Tens quase idade para ser minha avó, queres tu dizer! Diz lá! Aonde é que a Sara se meteu? - A tua namoradinha é?! - Diz antes que eu perca a minha paciência… - Tem calma – respondeu Arlete assustando-se com a agressividade do jovem. – Ela está lá dentro com a Milene. Sabes bem que as duas não se largam. A resposta da prostituta trouxe a Marco o ímpeto que ele precisava para entrar no bar sem quaisquer cerimónias. Depois disso, depois de se ter desviado de várias pessoas e retirado algumas cadeiras da sua frente, encontrar a visão de Sara sentada na mesma mesa que Milene e outros dois homens desconhecidos foi inevitável, assim como a cólera que se apossou dos seus olhos. – Ai estás aqui, minha puta?! - Marco – exclamou Sara surpresa por o ver ali. – Não estavas no Algarve? A resposta do jovem foi dada com um valente soco no estômago que a fez cair e derrubar uma cadeira das inúmeras cadeiras colocadas em frente ao balcão. Nessa altura, vários homens que se encontravam no bar insurgiram-se a Marco por aquele acto de violência no mínimo gratuito, enquanto no chão, Milene apressou-se a socorrer a sua amiga temendo que Sara tivesse desmaiado com o impacto do golpe. – Animal – gritou ela voltando-se para Marco.
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- Levanta-te daí, Sara – exclamou ele alcançando-lhe os braços e fazendo-a levantar-se do chão quase à força. – Ainda temos muito que conversar. - Não a vais levar daqui – adiantou-se Milene puxando a amiga contra si. - Queres uma aposta como vou? - Se levares, eu chamo a polícia! - Ai chamas a polícia?! Então chama que eu quero ver – respondeu Marco enfrentando a fúria da prostituta. – Chama a bófia que eu tenho a certeza que todo o pessoal que está aqui vai adorar. Mas não te esqueças de uma coisa. Se chamares, a primeira a ir em cana és tu… - Eu?! - Sim. Tu, minha cabra! Ou achas que ninguém vai contar que andas a chular uma miúda de dezasseis anos? - Eu não ando a chular ninguém – afirmou Milene não se deixando intimidar pelas palavras de Marco. - Andas a chular sim que eu sei! A miúda trabalha, abre as pernas e tu ficas com metade dos lucros dela. Ou ainda achas que isso não é chular? Fica quietinha mais é que é para não sobrar para ti. Sem que ninguém o impedisse, Marco levou Sara pelo braço e deixou todos os presentes estupefactos com a cena que tinham acabado de assistir. Nessa altura, Milene mordeu os lábios e sentiu o sangue fervilhar-lhe nas veias por não ter tido a coragem de livrar a melhor amiga das garras daquele homem tão perigoso. – Eu avisei-te para afastares a Sara daqui – afirmou Arlete compondo o decote do seu vestido. – Agora ela vai apanhar e bem que é para aprender a não meter cornos num traficante de droga. - Cala-te! Só dizes merda tu… – respondeu Milene encontrando a sua mala sobre a mesa. - Ai eu é que digo merda!? Tu melhor do que ninguém sabe do que esse Marco é capaz, lembraste?! Partiu-te toda há uns tempos atrás e vai acabar por fazer o mesmo com essa pobre coitada. Se ela morrer, a culpa é tua! Arlete não podia estar mais segura das suas palavras, pois os seus cinquenta e dois anos de vida deram-lhe a sabedoria necessária para saber que com homens como Marco não era permitido brincar. Ele não conhecia limites, não tinha nada a perder e há muito que deixara de conhecer palavras como: compaixão, perdão e humanidade. Num beco escuro do bairro, enquanto pontapeava e soqueava Sara, nada lhe pareceu importar, nem sequer a remota possibilidade de ser apanhado por alguns dos seus inimigos ou então pela polícia. Na verdade, tudo o que ele queria era extravasar o ódio que sentiu quando lhe foi informado que Sara continuava a prostituir-se com qualquer homem que lhe aparecesse à frente. E ao saber dessa verdade irrefutável, ele regressou propositadamente a Lisboa para tirar a história a limpo. Mesmo tendo prometido que iria ser só sua, Sara enganou-o, traiu-o e fê-lo sentir-se a chacota do bairro, logo ele que constantemente lhe enviava jóias e dinheiro através do correio. Mas ela não merecia nenhuma dessas jóias e muito menos esse dinheiro. A única coisa que merecia era o seu desprezo e também a sua ira. – Vaca – exclamou ele encostando-lhe o rosto à parede. – Pensavas o quê?! Que eu não ia descobrir nada? Que não ia saber que me andavas a meter os cornos com outros? Pois fica sabendo que aqui dentro deste bairro eu tenho informações diárias. Sei tudo o que se passa…

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Impressão sua ou ela estava a rir-se, foi a pergunta que Marco se fez quando ouviu um ligeiro risinho proveniente da boca de Sara. Ainda pensou estar enganado, mas não. Ela estava realmente a rir-se e aquilo não era uma alucinação sua. – Andas a gozar com a minha cara, sua cabra?! - Não – respondeu ela voltando-se para ele completamente marcada nos braços e nas pernas. – Só gostei de saber que tens ciúmes de mim. - Já vi que és daquelas que gosta de apanhar. - E gosto mesmo! Mas só gosto de apanhar de ti. - Então fica assim combinado – respondeu Marco segurando-lhe o queixo com força. – A partir de hoje só apanhas de mim. Ouviste!? - O.k. - Ouviste?! - Ouvi – respondeu Sara entregando-se de corpo e alma a um homem que minutos antes a havia espancado brutalmente. Mas nem isso pareceu importar quando ele a tomou nos braços e fê-la sentir-se nas nuvens. Os beijos, os abraços e o toque das suas mãos foram muito mais marcantes do que os murros e os pontapés que ele lhe ofereceu. Marco podia não ser o homem mais romântico do mundo, ela sabia-o, pois tinha nódoas no corpo que podiam comprovar essa teoria, mas no entanto era o único que a fazia sentir-se genuinamente desejada e especial. Era com ele que ela sonhava todas as horas, era com ele que ela desejava passar os dias, as noites e a quem dedicava todos os seus sentimentos mais profundos. Assim sendo, que se lixasse tudo o resto. Ele podia espancá-la à vontade pois nem mesmo isso iria mudar aquilo que ela sentia por ele. Faltavam poucos minutos para as seis da manhã quando Sara abriu a porta de casa. No corpo ainda trazia as marcas deixadas por Marco, mas nos olhos, a certeza que tinha passado a noite inteira em bebedeiras e outros actos menos lícitos. Foram esses os motivos que a fizeram caminhar pé ante pé pelo corredor e fazer todos os possíveis para não acordar a mãe que, surpreendentemente ou não, encontrava-se deitada no sofá da sala tapada com um pequeno cobertor. Tinha adormecido cansada de tanto esperar, Sara percebeu, mas nem isso a demoveu do intuito de chegar ao quarto e trancarse a sete chaves. Não. Não queria explicar a Madalena onde tinha passado as últimas dezasseis horas, com quem e muito menos a fazer o quê, pois na altura a única coisa que queria era cair na cama e esquecer-se de todos os acontecimentos menos felizes que rodearam a sua noite. Conseguido esse milagre, a jovem adormeceu e só acordou às duas da tarde com a agradável surpresa de que a sua mãe tinha saído para trabalhar apenas deixando um bilhete sobre a mesa da cozinha: “ Tens o almoço no forno”. - Não sei como é que consegues aguentar uma situação dessas – foram as palavras de Alice quando Madalena lhe contou que mais uma vez a filha não tinha dormido em casa. - O que é que queres que eu faça? - Sei lá! Enfia-a num colégio interno – respondeu Alice terminando os arranjos de margaridas sobre a bancada da floricultura. – Faz qualquer coisa. - Já estou a perder as forças. - O problema é mesmo esse! Ela sente que tu estás a perder as forças e vai ficando cada vez pior.

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- Então o que é que eu faço? Diz-me porque eu já não sei – discursou Madalena largando os braços, desesperada. – Já briguei, já proibi, castiguei, bati, fiz tudo o que estava ao meu alcance, mas ela simplesmente não me houve. - O Jorge? O que é que ele tem a dizer sobre isto tudo? - O Jorge!? Achas mesmo que eu posso contar com ele? - Devias – respondeu Alice furiosamente. – Ele é o pai, não é? Pelo menos a ele a Sara deve ter algum respeito. - Acho que já nem ao pai ela respeita! Desde que ele lhe contou a razão do nosso divórcio ela nunca mais quis passar o fim-de-semana com ele. - Mais cedo ou mais tarde ela iria ter que saber a verdade. - Eu sei – respondeu Madalena passando as mãos pelos cabelos. – E talvez a culpa tenha sido minha. Sempre a quis proteger, sempre fiz de tudo para que ela não descobrisse o sacana que o pai dela era, e agora olha só no que é que deu?! - Eu tenho pena de ti, minha amiga! Realmente não gostava de estar na tua pele. - Tu é que fizeste bem em não ter filhos – disse Madalena arrancando-lhe uma leve risada. - A quem o dizes. - Filho criado trabalho redobrado. - Depende! Olha que o Daniel não te dá trabalho nenhum. - Ainda – respondeu Madalena caminhando em direcção à sua secretária. – Mas se me der só metade do trabalho que a Sara me está a dar, eu juro que já vou ficar satisfeita. O jantar foi silencioso e não constituiu qualquer surpresa para Madalena e Sara, já que havia pelo menos cinco dias que mãe e filha não trocavam qualquer palavra no interior daquela casa. E não. Simples bons dias e boas noites não contavam para aquilo a que se poderia chamar de uma conversa interessante. Aos poucos e poucos, as duas afastaram-se, deixaram de ter interesses comuns e viam na outra a encarnação do pior pesadelo. O que teria mudado tanto? Meses antes, Sara disse a Madalena que havia sido ela a destruir a sua vida e a possibilidade de ter uma família normal, mas não estaria também ela a destruir a vida da mãe e a impedir-lhe de ter uma família normal? Enquanto pensava no assunto, Madalena tornou a levar uma colher de sopa à boca e sem querer lançou os olhos ao braço da filha. Subitamente pareceu-lhe ver uma nódoa negra e um pequeno arranhão, embora a camisola de Sara estivesse estrategicamente colocada para os tapar. – O que é que tens aí no braço? - No braço, o quê?! - Essa nódoa – respondeu Madalena tentando alcançar-lhe o pulso. Por sorte, Sara desviou-se a tempo dizendo: – Caí. - Caíste aonde!? - Ontem quando estava a correr para apanhar o metro. Caí nas escadas rolantes. Embora não tivesse ficado minimamente convencida com aquela desculpa esfarrapada, Madalena achou por bem não levantar mais questões. Mas a verdade é que pela primeira vez os seus sentidos gritaram-lhe para estar alerta e para não ignorar as evidências. As marcas no corpo de Sara não pareciam ser fruto de uma simples queda nas escadas rolantes. Pareciam antes ter sido feitas por alguém e propositadamente. E só de imaginar essa ideia, o coração de Madalena disparou de medo.

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Dois dias mais tarde, Jorge e Daniel regressaram de férias trazendo consigo caras felizes e também vários presentes, quase todos oferecidos a Madalena. E a última, sabendo bem que havia sido o ex. marido o principal impulsionador de todas aquelas compras, agradeceu-lhe com um sorriso e permitiu que ele a acompanhasse em direcção à sala. Estava mais magra, Jorge reparou enquanto a seguia pelo corredor, mas ainda assim ele manteve essa impressão guardada a sete chaves para não ser inconveniente. – Como é que estão as coisas por aqui? - Bem – mentiu Madalena depositando os presentes sobre o sofá. - A Sara? Como é que ela se portou nestas semanas? - …portou-se bem. - Tens a certeza? – perguntou Jorge encontrando na voz da ex. mulher uma certa hesitação. - Tenho. Claro que tenho. - Ainda bem então. Pode ser que aos poucos e poucos ela comece a entrar nos eixos. - Esperemos bem que sim. - Ela não está em casa? Gostava de falar com ela e entregar-lhe os presentes. Quer dizer, não é que ela mereça, mas mesmo assim não consegui resistir. - A Sara não está em casa. - Não?! Aonde é que ela foi? - Deve ter saído com amigas, não sei – respondeu Madalena cruzando os braços. - O.k! Então eu deixo os presentes e depois entregas. - Está bem. - E tu? Como é que estás? - Estou óptima. - Estás mais magra – ele não resistiu a fazer essa observação. - Impressão tua – respondeu ela compondo-se na sua camisola azul. – Estou na mesma. - Eu e o Daniel divertimo-nos imenso. Foi uma pena tu e a Sara não nos terem acompanhado. - Ai é?! Fizeram o quê? - Muita praia! Visitámos monumentos, museus, demos uma escapadela a Barcelona. E hã, conhecemos o estádio Santiago Bernabéu… - discursou Jorge, animado. - E esse estádio é…?! - É um estádio de futebol. Do Real Madrid. - Hã… claro – respondeu Madalena forçando um sorriso. - Eu sei que o futebol nunca foi o teu forte. - Lá isso é verdade. - Mas o Daniel estava ansioso para conhecer. Assistimos a um treino e no final até conseguimos autógrafos de alguns jogadores. O Dani depois mostra-te. - Está bem. - Bem, eu já vou indo! Ainda tenho que organizar algumas papeladas para amanhã. Tenho uma audiência que adiei e que agora não posso faltar. - Claro. - Acompanhas-me à porta?! Madalena acenou que sim e em seguida conduziu-o em direcção à saída.

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Nessa altura, Jorge arranjou forças para abrir a porta e também para dizer algo que já havia ensaiado várias vezes durante as duas semanas que passou em Madrid: - Podes não acreditar, mas ultimamente tenho sentido muitas saudades tuas… - Não Jorge… - foi a resposta desesperada de Madalena. - Eu sei que tens todas as razões para não acreditares no que te estou a dizer, provavelmente no teu lugar também não acreditaria, mas… eu ainda acho que existe uma possibilidade de voltarmos a ser uma família outra vez. Tenho sentido muita falta de ti, dos miúdos, da nossa casa… - Esta casa já não é tua – respondeu ela calando-lhe os argumentos. - Lena… - Por favor, Jorge! Vai! A expressão dura da ex. mulher apenas trouxe uma certeza a Jorge, e essa certeza era de que não havia a mais remota possibilidade de ela o aceitar de volta. Assim sendo, não lhe restou outra alternativa a não ser afastar-se da porta e deixá-la especada sobre o alpendre. Olhou-a mais uma vez, foi inevitável, e tentou encontrar nela toda a doçura e inocência que ela detinha quando se casaram e prometeram diante do altar amarem-se, respeitarem-se e nunca se abandonarem, fosse na pobreza, na riqueza, na saúde e na doença. Mas não. Infelizmente Jorge não conseguiu encontrar essa mulher, pois ela já não existia. Morreu ao longo dos dezasseis anos de casamento que mantiveram. Na primeira manhã de Agosto, Sara acordou mal disposta. Tinha a cabeça à roda, o estômago apertado e uma vontade descomunal de vomitar, algo que fez assim que saltou da cama e se trancou na casa de banho. Raios. Nunca se havia sentido tão mal em toda a sua vida e nem sabia sequer o que teria causado tamanha indisposição. Talvez alguma coisa que comera na noite anterior? Ou seria antes a ressaca por ter bebido duas garrafas de whisky numa festa? Sem conseguir resposta às suas perguntas, a jovem puxou o autoclismo e manteve-se inerte no chão durante vários minutos. Depois disso, voltou ao quarto e respirou fundo sentindo-se grata por ter conseguido sobreviver àquela autêntica prova de fogo. – Marquei uns exames para a semana – disse-lhe Milene ainda naquela tarde. - Exames de quê?! - Exames ginecológicos, ao sangue, à urina… ao HIV. - Para quê?! - Oras! Para saber se está tudo bem – respondeu a prostituta calçando as suas sandálias sentada na cama. – Faço sempre esses exames de seis em seis meses para não ter nenhuma surpresa desagradável. E tu também devias começar a fazer… - Não me podes marcar os exames?! Ao ouvir o pedido de Sara, Milene revirou os olhos e lançou um pesado suspiro. – Tenho sempre que fazer tudo por ti, já reparaste?! - Marca no mesmo dia. Eu vou contigo. Fazemos os exames juntas! E assim foi. Na semana seguinte, Sara e Milene deram entrada na clínica onde a última costumava fazer exames periódicos. Preencheram as fichas oferecidas pela recepcionista e mais tarde escolheram duas cadeiras discretas para se sentarem. Por sorte, naquela tarde, não havia muitas pessoas para realizar exames e Milene foi a primeira a ser chamada pela assistente de serviço. Sem cerimónias, ela despediu-se de Sara e entregou-lhe os seus
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pertences para que os vigiasse. Depois disso, agradeceu a passagem cedida pela assistente e desapareceu com ela pelos corredores da clínica, deixando Sara a olhar para o relógio pendurado na parede. Quinze horas e trinta e cinco minutos. Só espero que isto não demore, pensou. – Então?! Como é que foi? – perguntou ela assim que Milene pisou a sala de espera. - Normal! O de sempre – respondeu a prostituta vestindo o casaco às pressas. - Sr.ª Sara Albuquerque!? – chamou a assistente do corredor. - Sou eu – respondeu Sara saltando da cadeira. - Venha comigo, por favor! - Vai – ordenou Milene empurrando a jovem pelas costas quando lhe pressentiu algum nervosismo. – Não custa nada. Fisicamente não custou, mas psicologicamente, enquanto ouvia os sermões do médico de serviço acerca da sua conduta sexual não muito aconselhável e da sua tenra idade para realizar exames como àquele (HIV), Sara sentiu-se incomodada. Porque é que ele não se cala, pensou. Por sorte, os exames não demoraram a ser feitos, e por sorte, Sara conseguiu desaparecer do consultório com a clara certeza que não voltaria ali a pôr os pés tão cedo. Podem vir buscar os exames daqui a oito dias, disse-lhes a recepcionista. – Aquele médico era um otário – resmungou a jovem à saída da clínica. - O que é que querias que ele te dissesse? É claro que te iria pregar um sermão. - Perguntou-me se os meus pais sabiam que eu tinha vindo fazer um teste de HIV… - E o que é que tu respondeste? - Que eles até me tinham aconselhado a fazê-lo – respondeu Sara às gargalhadas. - Coitado do velho! Deve ter ficado com os cabelos em pé quando lhe disseste isso. - Mas porque é que temos que esperar oito dias até os exames ficarem prontos? - Sei lá – respondeu Milene acendendo um cigarro assim que viraram a esquina. – É sempre assim. - Não tens medo dos resultados? - Não! Ao contrário de certas malucas que andam para aí, eu cuido-me bem. - Pois eu tenho medo. - Só deves ter medo se não te cuidares. O silêncio de Sara deixou Milene alerta. – Olha lá – exclamou ela segurando-lhe o braço com força. – Tu não me digas que tens andado a trabalhar sem preservativo? - É claro que não – respondeu Sara desviando-se bruscamente. – Quer dizer… às vezes com o Marco esqueço-me… - Porra, pá – gritou Milene chamando a atenção de algumas pessoas que iam a passar na rua. – És parva ou fazes-te?! - Tem calma! Eu disse que é só às vezes e é só com o Marco. - Nem que tivesse sido só uma vez e muito menos com o Marco. Sem preservativo, nunca! Nem em sonhos! - Tem calma… - Escuta aqui – exclamou Milene apontando-lhe o dedo ao rosto. – Se estiveres numa de estragar a tua vida, fazer coisas estúpidas só para provar que és a maior e que ninguém pode contigo, por mim estou-me a lixar. Mas não contes comigo para te amparar em todas
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as tuas merdas porque eu já não tenho idade para isso, e se queres saber, nem paciência também! - Milene… Tarde demais foi o que Sara percebeu quando ao chamá-la pela última vez Milene pura e simplesmente desapareceu sem deixar rastro. Nessa altura, não lhe restou outra alternativa a não ser voltar para casa e dar-se conta da grande asneira que tinha cometido, não só por ter tido relações sexuais sem qualquer protecção, mas também por levar uma vida desregrada cheia de más companhias e outras histórias escabrosas para contar. Se ao menos as pessoas fizessem a mínima ideia de como ela se estava a sentir miserável. Se não menos elas parassem um pouco só para lhe perguntar o porquê de ter tomado as decisões que tomou. Mas ninguém parecia estar minimamente preocupado consigo e também já não havia como voltar atrás. Os oito dias que se seguiram foram longos, extenuantes e stressantes. Não houve uma única noite em que Sara tivesse conseguido pregar os olhos enquanto esperava pelo resultado das análises. E se estivesse doente? E se tivesse apanhado o HIV? Eram as perguntas que lhe assombravam os pensamentos todas as horas do dia. Por fim, quando finalmente chegou a altura de receber os exames, encheu-se de coragem e tornou a procurar Milene combinando com ela um local onde se pudessem encontrar. – Ainda estás chateada comigo? - Não estou chateada – respondeu Milene apressando os passos em direcção ao metro mais próximo. – Não sou a tua mãe, lembraste?! - Não consegui parar de pensar no resultado dos exames! Estou a morrer de medo. - Pensasses nisso antes de te teres armado em parva. Agora já não há como voltar atrás. O que está feito está feito. As palavras de Milene permaneceram nos ouvidos de Sara quando ambas entraram na clínica onde estavam depositados os exames. Mais uma vez, as duas amigas dirigiram-se à recepcionista e aguardaram que ela procurasse nos arquivos dois grandes envelopes castanhos. Um no nome de Milene dos Santos e o outro de Sara Soares Albuquerque. Recebidos que estavam os exames, as duas amigas voltaram a sair à rua no mais completo silêncio. – Estou limpa – exclamou Milene depois de ter analisado os seus exames com a máxima atenção. - Não tens nada? - Não! E tu? Não vais abrir o teu? Ao olhar para o envelope que tinha de encontro ao peito, Sara hesitou. – Dá-me cá esta merda – disse Milene arrancando-lhe o exame das mãos. – Quer dizer, para umas coisas és corajosa, agora para outras… Os momentos que se seguiram foram expectantes, tanto para Milene, mas principalmente para Sara, que sem conseguir aguentar tanta pressão, sentou-se num pequeno pilar junto ao edifício da clínica. Por momentos, começou a sentir a sua cabeça a andar à roda, as pessoas na rua pareceram-lhe desfocadas e as suas mãos suaram como se estivessem a ser encharcadas por uma torneira aberta. – Estás lixada – exclamou Milene aproximando-se dela. - O que foi?! Tenho Sida? - Não! Pior! Estás grávida.
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- Não acredito – murmurou Sara arrebatando-lhe o envelope das mãos. – Não pode ser. - Eu sabia que esta cena dos exames iria dar merda. Eu sabia! Tipo sexto sentido estás a ver?! - Bem, pelo menos não tenho Sida. - Bem, entre Sida e gravidez venha o Diabo e escolha, não?! – respondeu Milene apressando-se a acender um cigarro para acalmar os nervos. – Tu ainda não percebeste a gravidade da situação!? Estás grávida, rapariga! Grávida! Vais ter um bebé. - Será que os exames não estão errados? - É! Devem estar mesmo errados. Vai confiando nisso que daqui a nove meses vais ver o erro – respondeu Milene levando uma das mãos à cintura. – O pior é que tu nem sabes quem é o pai, não é?! - Só pode ser o Marco. - E se não for? - Eu tenho a certeza que é. - Então se for, estás lixada! Ele não vai assumir a criança e ainda é capaz de te mandar fazer um aborto. - Ele não faria isso – murmurou Sara não conseguindo esconder os seus olhos assustados. - Ui, não faria, queres ver! Porque é que achas que até hoje ele nunca foi pai? Sorte, não?! - O que é que eu faço? Silêncio foi a resposta de Milene. – O que é que eu faço? – repetiu Sara. - Ai agora perguntas-me a mim? Eu sei lá o que é que fazes! Não tenho nada a ver com isso. Não te fiz o filho. - Não me vais abandonar agora, não é?! - O meu maior erro foi ter-te dado ouvidos naquele dia em que me foste procurar para ser prostituta. Aonde é que eu estava com a cabeça, meu Deus? Era certo e sabido que iria acabar por sobrar para mim. - Só preciso de uma luz. - Olha aqui a luz, minha cara – exclamou Milene segurando-lhe a face com força. – A luz é que vais chegar a casa, contar à tua mãe que estás grávida e decidir se queres ou não ter o bebé. - Eu não posso fazer isso! A minha mãe iria matar-me. - Então o que é que queres fazer? Um aborto? Se quiseres fazer isso, é só pedires o número de uma clínica a qualquer prostituta lá do bairro. Garanto-te que números não te vão faltar. - E dói fazer um aborto?! - Sei lá! Nunca fiz nenhum – respondeu Milene voltando a largar-lhe o rosto. – A única vez que fiquei grávida tive a criança. Depois disso, abri as pestanas e nunca mais me armei em parva de engravidar outra vez. - Acho que vou falar com o Marco primeiro. - Não vai valer de nada, já te disse! Ele não te vai ajudar. Eu conheço-o. - Às vezes parece que o conheces até demais – afirmou Sara interceptando-lhe os passos. - O que é que foi? Ainda te estou a tentar ajudar e tu vens-me com essas cenas?! - Só acho que sabes mais coisas do Marco que eu não sei. - É natural! Já o conheço há muitos anos e ele também já foi meu cliente. - Já foi teu cliente?!
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- Sim – respondeu Milene revirando os olhos quando percebeu que tinha falado demais. - Porque é que nunca me contaste isso antes? - Porque nunca veio ao caso! Tens a noção da quantidade de clientes que já tive? - Mas o Marco é diferente! Tu sabes que nós namoramos. - Um namoro muito torto se queres que te diga – respondeu Milene fumando mais uma passa do seu cigarro. – Escuta Sara, eu só quero que abras os olhos e deixes de ser ingénua. O Marco nunca te vai ajudar se resolveres ter essa criança, muito pelo contrário. Ele não presta, nem como namorado, nem como homem e muito menos com pai. Se resolveres ter o bebé, podes crer que todas as responsabilidades vão cair sobre os teus ombros, ou melhor, sobre os ombros dos teus pais porque tu nem sequer tens idade para arranjar um emprego decente. - Eu sei – murmurou Sara limpando as tímidas lágrimas que lhe caíram dos olhos. - Agora não adianta chorar, não é!? O mal já está feito. Pela primeira vez naquela semana, Sara chegou a casa antes de o anoitecer, e pela expressão facial marcada não foi muito difícil perceber que tinha também passado a tarde inteira a chorar e a lamentar-se da sua triste sorte. O que é que iria fazer dali por diante, perguntou-se. Grávida aos dezasseis anos de um homem que era tudo menos de confiança e com um grande dilema nas mãos: Contar ou não a verdade aos seus pais. Com certeza que nenhum deles iria compreender. Fariam um escândalo, principalmente a sua mãe, e a sua vida nunca mais teria paz e sossego. Mas por outro lado, que mais alternativas lhe restavam? Tal como Milene lhe dissera horas antes, ela não tinha ninguém a quem recorrer, não tinha idade para arranjar um emprego decente, para se sustentar e muito menos sustentar uma criança que não foi de todo planeada ou desejada. Diante daquela situação no mínimo catastrófica, a única opção que lhe restava era continuar a pensar. Pensar no que fazer, como fazer, e principalmente, quando fazer. - Hã… já chegaste – disse-lhe a mãe ao vê-la a entrar na cozinha. – Que milagre! Até para estranhar. - Estou doente – respondeu Sara abrindo a porta do frigorífico. - O que é que tens? - Gripe. - Se não andasses na rua até tarde não apanhavas doenças. - O.k, mãe… – murmurou a jovem servindo-se de um copo de água. - Toma – disse Madalena atirando-lhe uma caixa de compridos. – E não bebas a água do frigorífico! Só te faz mal à garganta. Sara aceitou os comprimidos com alguma cautela, mas quando a mãe se voltou para o fogão, ela guardou-os discretamente no bolso das calças. Na verdade, não estava doente e nem nada que se parecesse. A sua única doença era não saber o que fazer quando todos descobrissem que estava grávida. – Daqui nada entramos em Setembro… – disse-lhe Madalena enquanto provava o molho do frango na panela. – Vais ter que meter os papéis da matrícula na escola. - Depois vejo isso. - Não é depois! Vais ter que tratar desse assunto o quanto antes para não perderes vaga. E este ano nem penses que te vou dar descanso! Muito pelo contrário. Vou andar sempre em cima de ti para me certificar que não andas a faltar às aulas.
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- Tu já andas sempre em cima de mim. - Imagina se não andasse – respondeu Madalena voltando-se para o fogão. - Vou para o meu quarto. - Não te tranques lá dentro! O jantar está quase pronto. Que estúpida! Ainda não dá para ver nada, foram as palavras que Sara proferiu baixinho enquanto examinava a sua barriga à frente do espelho do quarto. Mas de facto, desde que soube que estava grávida, houve qualquer coisa em si que mudou. Não sabia muito bem o que era, não sabia até que ponto aquele filho iria mudar a sua vida, mas o simples facto de saber que ele existia e que estava no interior do seu ventre, trouxe-lhe uma calmaria difícil de explicar. Quem sabe Marco até não fosse gostar da ideia de ser pai, passou-lhe essa ideia maluca pela cabeça enquanto enfiava uma almofada por debaixo da camisola e se imaginava com nove meses de gestação. Com um misto de sensações diferentes, Sara caiu na cama e fechou os olhos tentando imaginar a reacção de Marco. Imaginou que ele a fosse tomar nos braços, dizer que a amava e que juntos iriam criar o filho que fizeram. No fundo, não seria uma loucura tão grande imaginar um desfecho risonho para aquela verdadeira história de terror. A notícia da gravidez de Sara foi recebida com alguma apreensão por parte da maioria das prostitutas do Intendente. Algumas alertaram-na para o destino cruel que a esperava, outras optaram por a parabenizar, e outras ainda, aventuraram-se na procura dos primeiros nomes. Se for rapariga chama-lhe isto, se for rapaz chama-lhe aquilo, e no fim, tal como se era de esperar, ninguém conseguiu chegar a nenhum consenso. – Estás muito contente – disse Milene a Sara quando ambas se sentaram numa das esplanadas mais frequentadas do bairro. Na mesma mesa também se encontrava Arlete. - Acho que já me habituei à ideia – respondeu Sara observando a chegada do empregado de mesa. - O que é que vão pedir, meninas?! - Para mim pode ser uma imperial – respondeu Arlete abanando-se com a mão. – Está um calor de rachar. - E tu, Milene? - Uma imperial também! De qualquer maneira não há nada melhor nessa espelunca. - Hei! Isto aqui é um estabelecimento de primeira, estão a ouvir?! – resmungou o empregado quando ouviu as gargalhadas das três prostitutas. – Sara, diz lá o que é que queres! - O mesmo que elas. - Nem pensar – interferiu Arlete. – Estás grávida, lembraste? Não podes beber. - Mas… - A velha tem razão – concordou Milene. – Mulher grávida não bebe. - Velha é a tua mãe – defendeu-se Arlete ameaçando uma bofetada enquanto Milene e Sara se riam a bom rir. – Mania pá! Tomara muitas mulheres nos cinquenta estarem assim como eu. - Ui! Clientes é o que não te faltam… – riu-se Milene. - Por acaso! Olha que até hoje não tenho tido muitas razões de queixa.

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A animação e as risadas das três prostitutas continuaram por vários quartos de hora, e enquanto Sara saboreava o seu sumo de laranja natural, Arlete perguntou: - E então, Sarita?! Quando é que vais contar ao Marco que ele vai ser papá? - Estou-me a preparar para a próxima semana – respondeu Sara, sorridente. – Combinámos que ele vinha ter comigo. - Ele desconfia de alguma coisa? – perguntou Milene. - Não, nem faz ideia sequer! Eu quero que seja surpresa. - E vai ser cá uma surpresa – exclamou Arlete terminando a sua imperial. – Sinceramente não gostava de estar na tua pele. - Porquê?! - Arlete, fecha o bico – imperou Milene. - Está bem, está bem! Já não está aqui quem falou. - Vocês sabem alguma coisa do Marco que eu não sei, não é?! – perguntou Sara franzindo o sobre olho e encarando os rostos constrangidos das duas prostitutas. – Sabem e não me querem contar. - Ninguém sabe de nada – respondeu Milene levantando-se da mesa enquanto terminava o último gole da sua cerveja. – Bem meninas! Tenho que ir. O dever me chama. - Aonde é que vais? - Tenho um cliente daqui a quinze minutos e ainda tenho que me preparar para o receber. Física e mentalmente, não sei se me entendem. - Boa sorte – riram-se Sara e Arlete, e depois disso, Milene atravessou a rua. Os dias seguintes trouxeram alguma ansiedade a Sara e tudo porque ela continuava sem saber qual iria ser a reacção de Marco à sua gravidez. Ficaria contente? Ficaria confuso? Irritado? Furioso? De facto, não havia como prever a sua reacção, mas naquela sexta-feira de Agosto particularmente friorenta e cinzenta, ela esperava encontrar todas as respostas às suas perguntas. Esperava também encontrar nos braços de Marco a confirmação de que tudo iria correr bem e de que podia contar com ele para o que quer que fosse. Depois disso, ela voltaria a casa, contaria a verdade aos pais e quem sabe até moraria com Marco no Algarve onde embalados num clima paradisíaco os dois criariam o filho. Morri de saudades tuas, foram as primeiras palavras que ele disse quando viu Sara diante de si. Nessa altura, o relógio assinalou vinte e três horas e o dono da pensão entregou-lhes a chave do quarto dezoito com um aviso claro e severo para que não fizessem muito barulho tendo em conta o adiantado das horas. Acedida à ordem, Sara e Marco subiram as escadas aos beijos e abraços e não tardaram a abrir a porta do quarto para ali dentro matarem todas as saudades que tinham sentido um do outro. – Espera – disse ela. - O que foi? – perguntou Marco, impaciente. - Tem calma! Temos a noite toda. - Já te disse que hoje não vou poder dormir em Lisboa. - Porquê?! – perguntou Sara, apreensiva. - Uns gajos andam atrás de mim por causa de uma mercadoria que não consegui devolver a tempo. Pensam que fiquei com a cena e com o dinheiro, entendes?! - E ficaste? Marco esboçou um sorriso e logo se apressou a retirar a sua arma por detrás das costas. - Ficaste?! – insistiu Sara.
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- O que é que isso importa? - Marco, esse pessoal é perigoso! - E se esquecesses esse assunto, hã? – respondeu ele puxando-a contra si. – Eu não vim aqui para falar nesses filhos da mãe! Vim para estar contigo. - Marco… - Porquê?! Não queres estar comigo? - É claro que quero. - Então cala-te e beija-me! Sem outro remédio à vista, Sara viu-se obrigada a obedecer às ordens de Marco e a brindálo com um longo beijo nos lábios. Mas a verdade é que enquanto o fazia, o seu coração apertou-se de tal forma que por momentos foi-lhe praticamente impossível respirar. Claro que ela odiava o facto de Marco andar em negócios estranhos, mas odiava ainda mais perceber que muitas vezes ele perdia a noção do perigo por ser tão ganancioso e inconsequente ao ponto de brincar com traficantes de droga. – Espera – exclamou ela livrando-se dos braços dele. - O que foi?! Bem, tu hoje estás com muitos truques. - Não é nada disso! Mas é que… eu tenho uma coisa para te contar. Uma coisa que descobri há duas semanas. - O quê? – perguntou Marco apoiando os cotovelos sobre a cama. - Prometes que não ficas chateado? - Hiii! Já não estou a gostar nada da brincadeira. O que é que foi? Andaste a fazer coisas que não devias, é isso? - Só conto se prometeres que não ficas chateado. - O.k! Eu prometo – respondeu ele revirando os olhos. – Diz lá! - Há dias atrás eu e a Milene fomos fazer uns exames só para saber se estava tudo bem connosco. Coisa de rotina, sabes como é que é! A Milene está cansada de fazer esses exames e disse que eu também os devia fazer para… - Sara, abrevia porque eu não tenho muito tempo. - Está bem – respondeu ela sentando-se numa das pontas da cama. – Na semana passada fomos buscar os exames, e… eu soube que… estava grávida… - Grávida?! – exclamou Marco levantando-se bruscamente da cama. - Sim. Grávida! - De quem?! - Oras, de quem!? De ti… – respondeu Sara surpreendendo-se com tal pergunta. - De mim? - Sim! De ti! Eu tenho a certeza porque a data coincide com uma vez que estiveste cá em Lisboa. - E tu estás à espera que eu acredite nisso? - Eu não estou à espera de nada. Tu tens que acreditar nisso. - Olha bem para mim, Sara… - pediu Marco colocando-se à frente dela. – Olha bem para mim e diz se eu tenho escrito na testa a palavra otário!? - Marco!? - Tu nem sabes quem é o pai dessa criança. Pode ser qualquer um que tenha passado pelo bairro.
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- Marco… - Ou vais negar? – perguntou ele lançando-lhe um olhar desafiador. – Vais negar que durante esse tempo todo não tens trabalhado como prostituta? - Há semanas que não tenho ido para a cama com ninguém. A última vez foi contigo e eu disse-te que ia largar a vida por tua causa. Tu fizeste-me prometer isso. - E achas mesmo que eu acredito em ti? - Marco, eu estou-te a dizer que este bebé é teu. Eu não tenho razões para te mentir! - Sara, eu vou-te dar um conselho! Podes já começar à procura de outro palhaço para sustentar o teu filho porque eu estou fora… – afirmou Marco encontrando a sua arma sobre a mesinha e o seu casaco sobre a cama. - Tu não podes fazer isso – exclamou ela segurando-lhe o braço. - O que é que foi? Estavas à espera que eu ficasse contente? Que te fosse pedir em casamento e ainda escolher o nome do puto? Acorda, otária! De gajas como tu, já ando eu farto. Não és a primeira e nem vais ser a última a tentar dar-me a volta. Se engravidaste, problema teu! Resolve. Enquanto ouvia o discurso amargo de Marco, Sara sentiu duas enormes lágrimas rolaremlhe pela face. Sentiu também como se o mundo tivesse desabado por debaixo dos seus pés e que não houvesse absolutamente nada para a amparar. Como se enganou com ele, pensou. Como se iludiu com um homem que não conhecia nada de si e que nem sequer estava disposto a conhecer. Durante meses, ela deu-lhe tudo o que podia, colocou-o num pedestal e chegou inclusive a sonhar com um futuro promissor ao lado de um traficante de droga. Mas ali, naquele quarto de pensão e de volta à realidade, ela percebeu que tudo não tinha passado de um sonho infantil. De um sonho de uma miúda de dezasseis anos que se julgava muito esperta, mas que na verdade não conhecia nada da vida. Aliás, o que é que ela sabia da vida? Do mundo que a rodeava? Das pessoas que a rodeavam? Não sabia nada, chegou a essa conclusão. Não sabia absolutamente nada e talvez nunca viesse a saber. – Já vi que perdi o meu tempo – disse Marco, por fim. – Aliás, se eu soubesse que era por causa disso, nem sequer tinha vindo. Quando o viu a desaparecer pela porta, o desespero tomou conta de Sara e ela não teve outro remédio a não ser segui-lo pelas escadas da pensão completamente lavada em lágrimas e implorando-lhe para que ele não a abandonasse. – Sara! Sara – disse ele sacudindo-lhe os ombros quando ambos saíram à rua. – Acabou! Mete isso na tua cabeça. Acabou! - Eu tiro o bebé – afirmou ela segurando-lhe a manga do casaco. – Eu tiro. Se não quiseres eu tiro! - Mesmo se tirares. Acabou! A sério! Foi divertido enquanto durou, gostei de estar contigo, mas isto já se está a tornar demasiado sério para o meu gosto. Eu não fui feito para ser pai! Nem para ser pai e muito menos para me prender a uma gaja da vida – respondeu Marco terminando-lhe com todas as esperanças de um possível romance entre os dois. – Mas eu se fosse a ti tirava mesmo o bebé! Ainda és muito nova para ser mãe e irias acabar por te arrepender mais tarde. - O filho é teu – murmurou Sara com os olhos rasos de lágrimas.

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- Pode até ser – respondeu ele encolhendo os ombros enquanto se afastava lentamente dela e a deixava sozinha no meio daquela rua deserta. – Mas eu não o quero! E tu não me podes obrigar a querê-lo… MARCO, ouviu-se um berro no outro lado da rua. E foi nessa altura que ele se voltou para trás sendo posteriormente surpreendido com cinco de tiros de caçadeira, quase todos cravados no seu peito. Depois disso, ao vê-lo cair inanimado no chão, o carro que continha os três mandatários do crime arrancou a alta velocidade deixando para trás um rastro de destruição, sangue e os gritos de Sara. Tinha sido um abate perfeito, sem margem para erros e que retirou a vida de Marco, um jovem traficante de droga, de vinte e oito anos cujo último desejo em vida foi o de não querer ser pai. Ao ouvir os tiros vindos da rua, Milene afastou-se do cliente e saltou da cama atordoada. Não. De facto, aquela não era a primeira vez que escutava tiros no bairro, mas ainda assim, quando os ouviu, o seu coração parou de bater por breves instantes. Pé ante pé, ela aproximou-se da janela e abriu o vidro para tentar perceber que raios se estava a passar. Viu pessoas a correrem de um lado para o outro, ouviu os estores dos prédios a subirem a uma velocidade fantasmagórica, e por fim, talvez a cena mais chocante de todas, a sua amiga Sara lavada em lágrimas com a cabeça de Marco sobre o colo. Meus Deus, ela murmurou levando a mão à boca. Meu Deus. – Hei! Vais-me deixar assim? – perguntou o cliente quando ela voltou ao quarto e encontrou as suas roupas espalhadas pelo chão. - Será que não percebeste o que é que se passou? Mataram um homem lá em baixo. - Mas eu paguei. - Toma a merda do dinheiro, imbecil – respondeu Milene atirando-lhe as duas notas de cem euros. – Não preciso dele para nada. Dito isto, ela abriu a porta e saiu do quarto ainda a tentar calçar as sandálias. Correu pelas escadas da pensão, quase tropeçou no tapete à entrada, mas por sorte conseguiu chegar à rua onde um aglomerado de pessoas já se havia juntado à volta de Sara e do corpo de Marco. A jovem chorava, gritava e não permitia que ninguém lhe retirasse o pai do seu filho dos braços. Para ela, Marco não tinha morrido. Estava apenas a dormir. Profundamente, mas a dormir. – Sara – chamou Milene tentando trazê-la de volta à realidade. – Sara, larga-o! Ele está morto. - Não – gritou ela enfrentando o rosto da amiga. – Ele não está morto! Não está…! Ele não está morto. Não está morto…! As sirenes da polícia e da ambulância não tardaram a ser ouvidas no bairro, enquanto algumas pessoas, com um cadastro um pouco mais duvidoso, procuraram um local perfeito para se esconder. Mais tarde, a área à volta do crime foi delimitada, procuraram-se identificações, testemunhas e recolheu-se o corpo da vítima. Foi também a primeira vez que Sara se deu conta que Marco tinha realmente morrido, e para isso bastou apenas as portas da ambulância fecharem-se com um enorme estrondo. - Vai ter que nos acompanhar, menina – disse um dos policiais aproximando-se dela após todas as burocracias resolvidas. - Porquê?! - Porque era a única pessoa presente na rua na altura do crime, e além disso, não tem idade para aqui estar. Por acaso os seus pais sabem que está aqui?
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- Não – respondeu Sara limpando o rosto marcado pelas lágrimas. - Sr. agente! Será que não era possível resolvermos essa situação sem meter os pais dela no meio? – perguntou Milene recebendo um abraço desesperado de Sara. - Porquê?! - Eu acho que eles não iriam entender. - Já vi que vocês se conhecem muito bem. - De vista – mentiu Milene. – Eu só conhecia o namorado dela, o que acabou por morrer. - Eu sinto muito mas as coisas vão ter que ser feitas dentro da lei! Como ela é menor, é a nossa obrigação contactar os pais assim que chegarmos à esquadra. Então menina?! Vem connosco? - Sim – respondeu Sara afastando-se de Milene com um estranho aperto no coração. - Queres que vá contigo? – perguntou a prostituta sob o olhar atento do polícia. - Não! Não é preciso. - Boa sorte! Foram precisos apenas cinco minutos para que Sara fosse levada pelos policiais e o corpo de Marco transportado na ambulância para um hospital mais próximo. Depois disso, deixaram-se de ouvir as sirenes no Intendente e tudo o resto voltou à mais completa normalidade. À mesma normalidade que existia quando Sara ainda não frequentava o bairro, ainda não se tinha perdido na vida e muito menos conhecido a maioria dos habitantes da zona. – Achas que ela vai voltar algum dia? – perguntou Arlete aos ouvidos de Milene enquanto os carros da polícia desapareciam a alta velocidade. - Não sei – respondeu Milene limpando uma tímida lágrima. – Já não sei de mais nada. - Não fiques assim, rapariga! - Só me pergunto até quando… - Até quando o quê?! - Até quando vamos continuar a viver nesta merda – respondeu Milene tentando engolir o nó que lhe atravessou a garganta. – Até quando, meu Deus?! Porque eu já não sei se aguento muito mais… Era a primeira vez que se abraçavam e choravam juntas desde que se tinham conhecido. Coincidência ou não, naquela noite, fazia precisamente sete anos. Sete anos de luta, de tristezas, amarguras e um rol infinito de outros acontecimentos que para sempre iriam ficar gravados nas suas memórias. Enganados estavam todos aqueles que pensavam que elas gostavam do que faziam. Que não tinham sonhos, projectos e muito menos sentimentos. Que não sonhavam ter uma vida igual à de todas as outras mulheres. Que não desejavam encontrar um grande amor, casar, ter filhos e viver felizes para sempre. Até porque, qual era o ser humano que não desejava uma coisa dessas? Mas a vida às vezes é demasiado cruel para certas pessoas e nem sempre a felicidade bate à porta de todas. Nem sempre é possível ter-se tudo aquilo que se deseja ou todas as pessoas que amamos. Por vezes somos obrigados a fazer escolhas, a tomar caminhos errados e a aprender com os nossos próprios erros, e na maioria dessas vezes, pagamos bem caro por eles. – Anda – disse Arlete levando Milene encostada ao ombro. – Vamos para casa! O telefone sobre a mesinha de cabeceira tocou ruidosamente, e por momentos, Madalena acordou sobressaltada imaginando quem seria. O relógio assinalava duas horas e vinte e
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quatro minutos, Sara ainda não havia regressado a casa, e por isso, tudo apontava para que fosse ela. – Estou – respondeu Madalena tentando encontrar forças para abrir os olhos e reconhecer a voz grossa e formal no outro lado da linha. – A minha filha, o quê?! Atordoada com todas as revelações feitas pelo agente de autoridade, Madalena saltou da cama e tentou controlar o pavor que sentiu ao saber que Sara estava presa por ter sido a única testemunha de um homicídio. Mais tarde, conseguido esse feito, apressou-se a encontrar o número do ex. marido na agenda com a certeza que só ele a poderia ajudar numa emergência daquelas. Era advogado, raios. Como advogado saberia enfrentar aquela situação bem melhor do que ela. – Não te preocupes. Já estou a ir para lá – foi a resposta de Jorge assim que ela lhe explicou todo o sucedido. - Vens-me buscar para irmos juntos?! - Não, é melhor não! Fica em casa! Eu resolvo isto. Foram as duas horas mais longas da sua vida. À espera de notícias, Madalena desceu à sala e aguardou que a porta da rua se abrisse a qualquer momento. Mas os seus desejos pareciam difíceis de serem concretizados quando ao olhar para o relógio viu que nele estavam assinaladas quatro horas e vinte e oito minutos. Assim sendo, não lhe restou outra alternativa a não ser passear por todas as habitações da casa e desesperar-se entre lágrimas e soluços. O que teria acontecido para que Sara se tivesse desvirtuado daquela maneira, perguntou-se vezes sem conta. Aonde foi que errou, como errou e porque é que errou? - Entra – disse uma voz grave após a abertura da porta. Era a voz de Jorge, Madalena pôde ter essa certeza quando voou em direcção ao corredor. Mais tarde, para além do ex. marido, ela encontrou também Sara com os olhos inchados de chorar e uma t-shirt marcada pelo sangue de Marco. E foi essa t-shirt, precisamente essa tshirt, que fez o coração de Madalena gelar como nunca. – O que é que aconteceu? - Acho melhor irmos para a sala – respondeu Jorge conduzindo a filha pelo braço enquanto um pouco mais atrás Madalena os seguiu cautelosamente. – A Sara tem muitas coisas para nos explicar. - Sara, o que é que aconteceu? – perguntou-lhe a mãe, aflita. A pergunta não sofreu qualquer resposta quando Sara se afastou dos braços do pai e encontrou na mesa um local perfeito para se apoiar. Depois disso, ela tornou a lançar um olhar vazio aos seus progenitores e manteve-se inerte. Não tinha absolutamente nada para lhes dizer, pensou. Não tinha e nem queria explicar que naquela noite perdera uma das pessoas mais importantes da sua vida e também da vida do filho que estava à espera. Na verdade, para quê explicar esse facto quando era notório que os pais não a conheciam minimamente e nem sequer faziam ideia do horror a que ela tinha sido submetida quando viu o seu namorado ser brutalmente assassinado a poucos metros de si? Madalena e Jorge não iriam compreender. Nunca iriam entender o que aconteceu e muito menos perceber que uma parte de si tinha também morrido naquela noite. – O que é que aconteceu, Sara? – insistiu a mãe. – Por favor, diz-nos…! - Se ela não conta, eu conto – interferiu Jorge com uma expressão nada amigável. – Um amiguinho dela foi morto à caçadeira e parece que ela foi a única testemunha do crime. Mas o pior nem foi isso! Sabes aonde é que a polícia a encontrou?! - Aonde? – perguntou Madalena, apreensiva. - No Intendente.
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- O quê?! - Isso mesmo que ouviste. A nossa filha estava no Intendente. Achas isto normal? - Sara, o que é que tu estás a fazer num lugar daqueles? – perguntou Madalena voltando-se bruscamente para a filha. – Enlouqueceste?! Será que não sabes que nesse lugar só há bandidos, drogados e prostitutas? Enquanto ouvia o discurso moralista dos pais e todas as verdades que eles fizeram questão de lhe jogar à cara durante vários minutos, Sara cerrou os olhos e deixou de os ouvir. A príncipio foi como se tivesse entrado numa outra dimensão ou tivesse sido transportada para um lugar longínquo. Mas depois, quando regressou à realidade e a voz estridente da mãe continuou a ecoar-lhe aos ouvidos, não foi preciso muito tempo para que uma onda de histeria lhe invadisse o corpo e a fizesse soltar um berro ameaçador: - Deixem-me em paz! - Sara, tu não te atrevas a falar connosco nesse tom – imperou o pai. - Vocês sabem muito bem o que é que eu estava a fazer no Intendente. - Sara… - Mas a única coisa que não querem é admitir a vocês próprios algo que está e sempre esteve diante do vosso nariz! - O que é que está diante do nosso nariz? – perguntou Madalena temendo ouvir a resposta. - Tu sabes. - Não, não sei… - Tu sabes! Mas se quiseres eu posso dizer-te com todas as letras – respondeu Sara gesticulando furiosamente os braços. – Eu sou prostituta! PROS-TI-TU-TA! Um esforço sobre-humano foi o que Madalena teve que fazer para se conseguir manter em pé após a revelação da filha, e embora nunca lhe tivesse passado pela cabeça que Sara se estivesse a prostituir, a verdade é que ela estava certa quando lhe disse que a realidade estava mesmo diante do seu nariz. Durante meses, Madalena tentou enganar-se, tentou convencer-se a si própria que o comportamento da filha era perfeitamente normal para uma adolescente de dezasseis anos, e que com o tempo, com paciência, as coisas iriam melhorar. Mas não. Nem o tempo e nem a paciência fizeram de Sara uma pessoa melhor. Muito pelo contrário, pois a cada dia, a cada semana, a cada mês, ela mostrava-se um ser humano odioso e repugnante. – Tu só podes estar a gozar – murmurou Jorge também ele estupefacto com tudo o que tinha acabado de ouvir. - Achas mesmo, pai!? Achas mesmo que eu estou a gozar? – respondeu Sara mostrandolhe um sorriso maléfico. – Eu sou prostituta sim, e sou porque gosto, porque quero e porque o que me dá mais prazer na vida é ir para a cama com homens. Pronto! Aí está a verdade que vocês tanto queriam saber. Satisfeitos!? A pergunta de Sara culminou com uma valente bofetada de Jorge e com o olhar aterrador que ele lhe lançou em seguida. – Eu não andei a criar uma filha para a ver perdida no Intendente. - Engraçado – respondeu Sara levantando o rosto desfigurado. – Os homens nunca criam as filhas para as ver no Intendente, mas no entanto vão lá para procurar as filhas dos outros… - Jorge, não – gritou Madalena quando o ex. marido se lançou contra a filha a fim de extravasar todo o ódio e toda a repulsa que a resposta dela lhe trouxe. E a verdade é que pela primeira vez, em dezasseis anos, ele ousou bater em Sara, pensando enquanto o fazia,

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que a culpa de tudo aquilo era sua, pois nunca se mostrou um pai presente, nunca lhe impôs limites e sempre fechou os olhos às loucuras cometidas por ela. Contudo aquela noite veio a provar que já era tarde demais para retomar o seu papel de pai. Sara perdera-lhe todo o respeito, admiração, e o que sobrara da menina doce e inocente que ele um dia carregou ao colo, tinha desaparecido sem deixar rastro. – A partir de hoje já não te considero a minha filha… - disse ele deixando-a caída no tapete da sala. – E também não quero que me consideres o teu pai! Sob o olhar desesperado da ex. mulher, Jorge alcançou o casaco sobre o sofá e saiu da sala. De facto, já não lhe restava mais nada a fazer naquela casa quando era certo que tinha acabado de perder tudo o que lhe era mais querido na vida. Foi também nessa altura que ele percebeu que a sua filha já não existia, que tinha morrido há muito tempo e que ele foi o último a dar-se conta desse facto irrefutável. – Vai – gritou ela interceptando-o no corredor. – Vai-te embora! Não foi sempre isso que fizeste durante toda a tua vida? Pelo menos agora já não precisas fingir que és pai. Ditas estas palavras, Sara alcançou o corrimão das escadas e voou como um foguete em direcção ao quarto. Depois disso, a porta fechou-se violentamente e os vidros da janela agitaram-se trazendo consigo uma dor aterradora que Jorge nunca pensou sentir em toda a sua vida. – Jorge… - chamou Madalena aproximando-se lentamente dele naquele corredor às escuras. – Jorge… - Olha só no que é que a nossa filha se transformou… - disse ele fazendo um esforço sobre humano para não derramar duas lágrimas que se haviam apossado dos seus olhos. - Eu sei – murmurou Madalena não conseguindo conter as lágrimas quando o ex. marido abriu a porta e atravessou o jardim em direcção ao carro. Nessa altura, tudo pareceu desmoronar, tudo deixou de fazer sentido e uma sensação de desespero invadiu-lhe o coração já por si destroçado. Não sabia o que fazer, chegou também a essa conclusão. Não sabia o que fazer para reencontrar a filha que perdera meses antes, que decisões tomar dali por diante e como superar aquele inferno que estava a viver. Na verdade, a única coisa que sabia era que precisava de ar para respirar e foi isso que tentou encontrar quando se sentou junto à porta de saída. Nessa altura, enfiou a cabeça por entre as pernas e tentou sufocar o choro compulsivo de uma mãe desesperada. Uma mãe tão desesperada que naquela madrugada não viu outra alternativa a não ser trancar todas as portas de casa para impedir que a filha voltasse a sair por elas. Era uma medida extrema, Madalena sabia, mas também a única forma de impedir Sara de cometer mais loucuras. Faltavam poucos minutos para as seis da manhã quando Sara voltou a descer ao primeiro piso. Nas mãos, trazia uma mala e uma mochila, e na mente, a vontade incondicional de sair daquela casa. Era o fim, pensou. Já não tinha mais nada a fazer ali, já não pertencia àquela família e nem sequer nutria qualquer tipo de sentimento pela mãe, pelo irmão ou pelo pai que naquela noite fez questão de lhe dizer com todas as letras que já não se considerava o seu progenitor. – O que é isto? – murmurou ela tentando abrir a porta com vários safanões. Assustada com a ideia de se ver presa naquela casa, Sara correu em direcção à cozinha a fim de encontrar uma outra escapatória. Não, tornou a murmurar. A porta também se encontrava fechada, assim como a que dava acesso às traseiras. Nem as várias tentativas
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para forçar a fechadura resultaram e esse facto apenas acrescentou ainda mais o ódio que ela estava a sentir dentro de si. Tinha sido ela. Tinha sido a sua mãe a trancar todas as portas só para a prender ali adentro. Mas ela que não pensasse que a iria prender no interior de uma casa onde não desejava estar. Ela que não pensasse sequer numa coisa daquelas. – Dá-me a chave – gritou Sara entrando pelo quarto da mãe com uma expressão aterradora. - O que é que estás aqui a fazer? – perguntou Madalena acendendo a luz da mesinha. - Dá-me a chave da porta! Eu quero sair. Quero ir-me embora. - Tu não vais a lado nenhum – respondeu Madalena levantando-se da cama. - O que foi? Vais-me tornar na tua prisioneira, é isso?! - Sara, volta para o teu quarto! - Eu quero a chave, já disse – gritou a jovem estendendo a mão com um olhar aterrador. - E eu já te disse que não ta vou dar. - Tu não me podes obrigar a ficar nesta casa. - Enquanto fores menor e estiveres sobre a minha responsabilidade, eu posso sim obrigar-te a fazer aquilo que eu quiser e aquilo que eu achar que é melhor para ti. - Dá-me a chave! - Não – respondeu Madalena recuando vários passos quando a sentiu demasiado perto de si. - Dá-me a chave! - Já disse que não. A resposta negativa de Madalena trouxe novamente a fúria de Sara e consequentemente a sua audácia em atirar-se para cima da mãe sem temer as consequências do seu acto irreflectido. Sim. Aquele tinha sido o princípio do fim. O fim de todo o respeito que mãe e filha ainda sentiam pela outra, o fim de uma relação de dezasseis anos e a certeza que dali para a frente as coisas nunca mais iriam voltar a ser as mesmas. A barreira foi quebrada, e foi também nessa altura que as duas abandonaram o quarto aos empurrões, estalos e gritos. Gritos que fizeram acordar o pequeno Daniel. – Chama o pai, filho – gritou Madalena enquanto se tentava desenvencilhar dos braços de Sara. – Chama o pai! Sem esperar segunda ordem, Daniel correu ao telefone que se encontrava no quarto da mãe e digitou o número de Jorge. Um, dois, três toques e o advogado finalmente atendeu para grande alívio da criança. – Pai! A Sara vai matar a mãe, pai! A Sara vai matar a mãe! As últimas palavras de Daniel coincidiram com um estrondo gigantesco vindo das escadas, e ele, sem se lembrar que ainda estava ao telefone com o pai, largou o auscultador pronto a inteirar-se do que se estava a passar. Do cimo das escadas, enquanto se aproximava pé ante pé, ele viu os corpos da mãe e da irmã estatelados no corredor e não tardou a perceber que ambos tinham caído devido à luta. – Mãe… – ele gritou. E tal como um milagre, ao ouvi-lo, Madalena mexeu a perna. Não. Nenhuma das duas tinha morrido ou tão pouco sofrido lesões mais graves visto as escadas não serem inclinadas. A única coisa que suplantou a dor da queda foi o susto, mas isso foi algo rapidamente esquecido por Sara quando ela tentou agarrar as pernas da mãe e a impedi-la de fugir em direcção à sala. – Dá-me a chave – era o que gritava como uma louca.

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- Larga-me – imperou Madalena conseguindo encontrar numa hesitação da filha a oportunidade ideal para correr em direcção à sala. - Porque é que não me dás a chave, hã?! Tens prazer de me ver a correr atrás de ti, é isso? É por causa disso? – perguntou Sara encontrando a mãe encostada à mesa ainda com a respiração ofegante. - Tu estás louca! Completamente louca. - Se me tivesses dado a chave, nada disto teria acontecido. Mas não, não é?! Mais uma vez quiseste mostrar que és tu que mandas! É sempre assim, D. Madalena! Tudo tem que ser feito quando você quer, como você quer e ninguém está autorizado a contrariá-la… - Sara, o que é que foi que eu te fiz?! Onde foi que eu errei para que te tivesses transformado nesta… pessoa… – discursou Madalena não conseguindo controlar as lágrimas. – Eu só queria que tu me dissesses para que eu pudesse entender. Se eu errei, se te fiz algum mal, não foi por querer. Não foi de propósito. Mas no entanto parece que me odeias e que queres fazer tudo para me destruir e para destruir a minha vida. Eu não mereço isto! Eu sei que apesar de tudo eu não mereço o que me estás a fazer. Sempre te dei tudo o que estava ao meu alcance, sempre te pus em primeiro plano e sempre abri mão de tudo em prol da tua felicidade… - Estás a falar do Sérgio, não é?! – interrompeu Sara surpreendendo-a com tal pergunta. - O que é que…? - Porque se quiseres podes voltar para ele! Já que me vou embora desta casa, ele pode muito bem voltar. Eu não me importo, aliás, nem quero saber sequer… Perante a resposta da filha, Madalena manteve-se calada. – Tudo o que eu queria era que ele desaparecesse. Foi só por isso que eu inventei que ele me tinha violado. - O quê!? – murmurou Madalena, incrédula. - O Sérgio nunca tocou num fio de cabelo meu! Fui eu que apareci na casa de banho para que nos apanhasses e pensasses que ele me estava a estuprar. E tu, burra como sempre, acreditaste. Preferiste acreditar em mim em vez de acreditar nele e agora olha para ti?! Estás sozinha e vais ficar assim até ao final dos teus dias porque eu também me vou embora… - Tu és um monstro, Sara! Um monstro. Ao olharem-se pela última vez, nem Madalena e nem Sara conseguiram reconhecer-se no interior daquela sala. Na verdade, estava tudo destruído. Não restava mais nada a não ser um misto de ódio e rancor entre duas pessoas completamente distintas. E não. Nem mesmo os laços sanguíneos que as uniam iriam conseguir reatar aquela relação doentia. – Aqui tens… – afirmou Madalena atirando-lhe as chaves contra o peito. – Estás livre para fazeres o que quiseres com a tua vida porque para mim morreste. Não hoje, ao contrário do que o teu pai te disse, mas há muito tempo! Com as chaves nas mãos, Sara abriu a porta e não resistiu a lançar um último olhar ao irmão que se encontrava sentado nas escadas assustado com tudo o que tinha assistido momentos antes. Contudo, ao contrário do que ele estava à espera, ela esboçou-lhe um leve sorriso antes de fechar a porta e desaparecer de uma casa onde tinha vivido durante dezasseis anos. Ouvido o estrondo, veio um silêncio ensurdecedor e a certeza de que o inferno finalmente tinha terminado. – Aonde é que ela está? – foi a primeira pergunta de Jorge quando chegou à casa da ex. mulher.
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- Foi-se embora – respondeu Madalena alcançando o corrimão das escadas com os olhos marcados de tanto chorar e uma voz amarga. – Foi-se embora de vez. Os passos lentos e arrastados de Madalena fizeram Jorge entender que tinha chegado tarde, não só naquela madrugada, mas sim em todos os momentos em que ela fez questão de lhe chamar a atenção enquanto pai. Mas a verdade é que ele nunca percebeu os intentos dela e agora ambos estavam a pagar bem caro por isso. De volta a um bairro que tão bem conhecia, o Intendente, Sara percebeu que era ali que teria que recomeçar do zero. Sem família, sem conforto e com um bebé na barriga, restaram-lhe poucas alternativas de sobrevivência e ninguém com quem pudesse contar a não ser: – Tu… – disse Milene abrindo a porta do seu quarto com olhos de quem tinha passado a noite toda em branco. - Saí de casa – respondeu Sara mostrando-lhe as malas. – Deixas-me entrar?

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CAPÍTULO IX
Passaram-se cinco dias sem que Madalena se tivesse conseguido levantar da cama. Cinco dias em que ela mergulhou na mais profunda depressão, sem comer, sem dormir e sem mexer qualquer músculo corporal para além do estritamente necessário. Por vezes, chorava, outras lamentava-se, e muitas vezes, fechava os olhos numa tentativa desesperada de esquecer todas as palavras horríveis que Sara lhe dissera momentos antes de sair de casa. Era como as ouvisse vinte e quatro horas sobre vinte e quatro horas. Pareciam gravadas na sua memória e traziam-lhe um sentimento angustiante de derrota, embora quase todos fossem unânimes em afirmar-lhe que a culpa não era sua. Mas pior do que o sentimento da derrota, era talvez o desgosto de saber que a filha se prostituía sem ter qualquer razão plausível para isso. Sou prostituta porque quero, porque gosto e porque o que me dá mais prazer na vida é ir para a cama com homens, foram as últimas palavras de Sara, e cada vez que Madalena se lembrava delas, maior era a vontade de morrer. – Já não sei o que é que hei-de fazer com ela – disse Afonso Soares descendo à cozinha com o ex. genro. - Está a ser muito difícil para todos nós – respondeu Jorge não escondendo a tristeza estampada no rosto. - Não tiveram mais nenhuma notícia da Sara? - Nada. Nem sabemos sequer para onde é que ela foi. - Que tragédia – suspirou Afonso levando as mãos à cabeça. – Como é que ela se foi perder desta forma, meu Deus!? Está certo! Sempre teve um feitio difícil, mas… isto?! - Eu também não sei. Eu também não sei como é isto pôde acontecer, mas a verdade é que aconteceu e não há nada que possamos fazer. A Sara escolheu o caminho dela. - Acho melhor levares o Daniel para passar uns dias contigo. - Eu já tinha pensado nisso – respondeu Jorge limpando uma lágrima que teimou em cairlhe dos olhos. - Do jeito como a minha filha está, duvido muito que consiga tomar conta do Daniel. - Eu vou levá-lo hoje! Mas também não queria deixar a Madalena sozinha. - Não te preocupes – respondeu Afonso segurando-lhe o ombro esquerdo. – Eu fico aqui com ela. Qualquer coisa e aviso-te com antecedência. Tal como disse, Jorge levou Daniel para a sua casa e deixou Afonso livre para cuidar de Madalena, algo que só ele como pai o podia fazer exemplarmente. Só ele poderia fornecer o carinho e o apoio que a filha necessitava na altura, e era exactamente isso que pretendia fazer não fosse o pedido dela para mais uma vez ficar sozinha.
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Mesmo não tendo concordado com a ideia, Afonso achou por bem não levantar mais questões e acatou o desejo de Madalena encostando a porta com cuidado. Depois disso, desceu à sala e encontrou um livro para passar o tempo. Abriu-o na página marcada e mergulhou na leitura durante horas a fio tentando pensar em coisas abstractas, em passagens simbólicas que não lhe fizessem lembrar a tristeza em que a sua família estava submersa e o desejo de um dia tudo voltar à normalidade. – Filha – disse ele surpreendendo-se com a figura de Madalena sob o alpendre da porta. – Levantaste-te!? - Vou ter que sair, pai. - Aonde é que vais? – perguntou Afonso poisando o livro sobre o sofá. - Procurar uma pessoa. - Tens a certeza? Olha que já está tarde. - Não me vou demorar muito – respondeu Madalena abandonando a sala sob o olhar atento e preocupado de Afonso. Mas o que poderia ele fazer perguntou-se. Se era o desejo da filha sair, a única alternativa que lhe restava era acatar a decisão e esperar que ela não cometesse nenhuma loucura. Vários foram os pensamentos que atravessaram a mente de Madalena enquanto conduzia pelas ruas da cidade e se lembrava de um dos maiores erros que tinha cometido num passado não muito longínquo. Na verdade, o erro de não ter acreditado no homem que amava. De ter duvidado do seu carácter, do amor que ele dizia sentir por si e de o ter expulsado da sua vida sem qualquer razão. Mas será que Sérgio estaria disposto a perdoála? Será que ele iria compreender os motivos que a fizeram não acreditar nele, mas sim na sua filha? Ao ver-se diante do prédio onde muitas vezes se encontraram e passaram várias tardes de amor, Madalena teve algumas dúvidas. Sentiu também que não tinha qualquer direito de procurá-lo ou sequer de lhe implorar perdão, mas precisava fazê-lo. Precisava olhar-lhe o rosto, tocá-lo e tentar encontrar uma única razão para se manter viva. Talvez, quem sabe, só assim conseguisse recuperar a sua sanidade mental. – Lena… - Descobri tudo – foram as primeiras palavras dela assim que Sérgio abriu a porta de casa e se surpreendeu com o seu rosto marcado pelas lágrimas e por tantos meses de angústia. - Entra! Aberta a porta, Madalena aceitou o convite e entrou no apartamento do fotógrafo. Continuava o mesmo, reparou. Continuava pequeno, caloroso, mas também o lugar mais pacífico e confortável do mundo. – Estás bem? – perguntou Sérgio levando-a em direcção à sala. - Não – respondeu Madalena mal conseguindo encontrar forças para o encarar de frente. - Queres um chá?! Faço num instante. - Está bem. - Fica aqui. Já volto – disse Sérgio. Ao ver-se sozinha naquela sala repleta de móveis e aparelhos fotográficos, Madalena depositou a sua mala sobre o sofá e lançou os olhos a um quadro pendurado na parede. Na verdade, era o único objecto que lhe era estranho. Parecia ter sido pintado a óleo e trazia consigo a imagem de um velho pescador sentado à beira mar. Aonde é que Sérgio o havia comprado? Ou teria sido oferecido por alguém especial? Talvez pelo avô quem sabe.

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- Vem… – exclamou Sérgio interrompendo-lhe os pensamentos. – Vamos tomar o chá na cozinha. É melhor – Madalena acedeu com um sorriso. Sentados nas suas respectivas cadeiras, Madalena e Sérgio serviram-se do chá e permaneceram em silêncio durante largos minutos. Tanta coisa tinha mudado, ambos sabiam-no bem. Desde a última vez que se viram e trocaram as derradeiras palavras, o tempo foi peremptório em passar. Passaram-se dias, semanas, meses até, mas ainda assim as feridas continuavam por cicatrizar. Ainda assim, Sérgio parecia ter a mesma mágoa no olhar e Madalena não sabia o que fazer para conseguir encontrá-lo naquela cozinha tão minúscula. - …devia ter acreditado em ti… - foram as palavras que saltaram dos lábios dela. – Devia ter feito isso, mas… não fiz! - Eu sei. - Não quis enxergar a realidade e muito menos perceber no que é que a minha filha se tinha transformado. Porque para mim ela ainda continuava a ser a minha menina, entendes?! - Entendo – respondeu Sérgio aquecendo as mãos na sua chávena de chá. - Aquela mesma menina que eu costumava levar a passear ao parque, que adorava vestir de cor-de-rosa e de fazer totós no cabelo… - discursou Madalena não conseguindo mais uma vez controlar as lágrimas e os risos nervosos. – Eu lembro-me bem do dia em que ela nasceu. Foi o mais feliz da minha vida. Tinha tudo preparado. Tinha comprado todo o enxoval e levei todas as coisas para a maternidade porque não queria que lhe faltasse absolutamente nada. Acho que… estava tão contente por saber que iria ter uma menina que nem sequer me importei com as dores do parto. Era mesmo uma menina que eu queria, e quando as enfermeiras ma deram nas mãos, eu senti como se tivesse encontrado uma razão para viver. Ela era tão linda. Pequenina, tinha muito cabelo, preto, e os olhos eram redondos, escuros, iguais aos meus. Toda a gente dizia que éramos muito parecidas e eu lembro-me que ficava tão orgulhosa quando ouvia alguém dizer isso. Mas… os anos foram passando e… aquela menina que todos adoravam agarrar ao colo e que se ria por tudo e por nada deixou de existir. Desapareceu. Morreu. E não sobrou absolutamente nada dela… - Lena… - Costumam dizer que os filhos são a projecção dos pais… - interrompeu ela. – Que eles são aquilo que nós fazemos deles e eu até costumava acreditar nisso. Mas …eu não quero acreditar que a Sara seja uma projecção minha. Eu não sou essa pessoa horrível em que ela se transformou. Eu sei que não sou… - E não és – interrompeu Sérgio segurando-lhe a mão sobre a mesa. – A culpa não foi tua, Lena! A Sara está doente, ela precisa de ajuda, mas antes disso, ela é que tem que querer essa ajuda. Tu já fizeste tudo o que estava ao teu alcance, e se queres que te diga, fizeste bem mais do que a maioria das mães fariam se estivessem no teu lugar. - Então porque é que me sinto uma verdadeira fracassada? - Tu não és uma fracassada. - Desculpa – pediu ela tentando esconder os olhos inchados de tanto chorar. – Desculpa por tudo o que te fiz passar, pelas coisas que tiveste de aguentar por minha causa, por causa da minha filha. Eu não tinha o direito de te ter metido nesta embrulhada. - Não me meteste em nada! Eu faria tudo de novo se fosse preciso. - Será que… és capaz de me perdoar?

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- Eu já te perdoei há muito tempo – respondeu Sérgio beijando-lhe as mãos frias. – Não precisas preocupar-te com isso. - Mas acabou, não acabou?! Sérgio pareceu hesitar quando fitou os olhos brilhantes de Madalena e viu nela a mulher a quem um dia chegou a amar mais do que a própria vida. Mas a verdade é que poucas dúvidas lhe restavam quanto ao desfecho daquela história de amor. – Neste momento não temos nada para nos dar um ao outro – respondeu ele. – Precisamos de tempo, de espaço… - Eu sei – concordou ela com um sorriso imensamente triste. - Mas quem sabe um dia se o destino não nos trocar as voltas. - Eu amo-te. - Eu também – sorriram os dois. Passaram-se cinco meses, o ano mudou, e aos poucos e poucos, a vida começou a retomar o seu curso. A rotina do trabalho, do único filho que lhe restou e dos pequenos acontecimentos que preenchiam o seu dia-a-dia, foram factores importantes para que Madalena recuperasse a alegria de viver. Uma alegria que por momentos pareceu desaparecida aquando do desaparecimento de Sara, mas que dava mostras de um novo fulgor. Apesar de todos os acontecimentos trágicos do passado, Madalena ainda ansiava por dias melhores. Dias em que pudesse sorrir sem pensar no dia seguinte, em que pudesse aproveitar uma refeição agradável ao lado da melhor amiga e uma conversa amena com o pai ao final da noite. De facto, nada daquilo era demasiado entusiasmante, mas ainda assim conferia-lhe um certo conforto e estabilidade que há muito não encontrava. Para além disso, a presença sempre constante do ex. marido e as suas várias tentativas de aproximação faziam-na sentir-se menos sozinha e a pensar se valeria ou não a pena oferecer-lhe uma segunda chance. – Outra caixa de chocolates – exclamou Alice abrindo um sorriso de orelha a orelha quando Madalena regressou à loja após ter recebido a encomenda de um office boy. - E desta vez vem com um bilhete. - Lê! Ao ouvir o pedido da melhor amiga, Madalena esboçou um sorriso malicioso e rapidamente se apressou a retirar o cartão do interior do envelope. Um cartão que cheirava a rosas e que trazia a caligrafia desajeitada do ex. marido: - “Espero que esta caixa de chocolates seja suficiente para adoçar o teu dia, tal como o meu também ficou apenas com a lembrança de um sorriso teu. Beijos, Jorge. Hã… PS- Aceitas um convite para jantar?” - Quem é que escreve PS num bilhete romântico!? – riram-se Alice e Madalena às gargalhadas. - O Jorge, minha amiga! O Jorge. - E tu vais aceitar? - Não sei – respondeu Madalena depositando a caixa de chocolates e o bilhete sobre a secretária. - Não perdes nada se aceitares. - Impressão minha ou estás a torcer para que eu aceite esse convite? - Não é torcer! Só acho que não tem mal nenhum jantar com o teu ex. marido. Quer dizer, é só um jantar, não é?! - Sinceramente não te estou a reconhecer! Logo tu que sempre detestaste o Jorge…
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- Eu sei que fui uma grande impulsionadora na tua separação daquele imprestável, mas… as pessoas mudam! E eu acho que o Jorge mudou. Enquanto se compunha à frente do espelho, várias foram as vezes que Madalena pensou em desistir do seu jantar com Jorge. É uma loucura, dizia. Estou a confundir tudo. Vou voltar a um passado que só me fez mal e que não me trouxe nada de bom, repetia-se vezes sem conta. Mas a verdade é que nenhum destes pensamentos conseguiu demovê-la da ideia de cancelar um jantar que apesar de tudo lhe preencheu o imaginário desde manhã. E foi assim, ainda submersa num verdadeiro dilema, que ela terminou de se analisar ao espelho trazendo no corpo um vestido preto pelos joelhos e os cabelos soltos um pouco acima dos ombros. Estava perfeita, ou senão, bem perto disso, foram os elogios que ouviu do pai e do filho quando chegou à sala. Mais tarde, a campainha tocou ruidosamente e ela correu a abrir a porta deparando-se com a figura do ex. marido acompanhado de um sorriso e também de um lindo arranjo de orquídeas. – Ainda me lembro que são as tuas flores preferidas – disse ele. - Obrigada – respondeu Madalena recebendo o ramo com alguma cautela. – Entra! - Cheguei na hora certa? - Claro! Nem um minuto a mais, nem um minuto a menos. - Estás todo janota, Jorge – exclamou Afonso ao ver o ex. genro a entrar na sala com as mãos nos bolsos. - Sabe como é que é, Sr. Afonso! A sua filha não merece menos – respondeu o advogado arrancando algumas risadas a Daniel e Afonso. - Bem, e se fossemos andando, Jorge? Não quero voltar muito tarde – disse Madalena encontrando o seu casaco sobre o sofá. - Claro. - Pai! Daniel! Não durmam tarde e nem fiquem a ver televisão até às tantas. Apesar de tudo, amanhã é dia de escola. - O.k, Sr. general – respondeu Afonso abrindo os braços sobre o sofá. – Iremos cumprir as suas ordens à risca. - Porta-te bem, filho. - Está bem – respondeu Daniel tentando desviar-se dos beijos de Madalena. – Mas agora vai. - Não queres os meus beijos?! - Estás sempre a dar-me beijos, lembraste? - O.k – defendeu-se ela enquanto levantava os braços. – Já não te vou dar mais nenhum. - Ainda bem. Apesar da promessa, Madalena não conseguiu conter-se e surpreendeu o filho com um longo e demorado beijo que fez todos os presentes rirem-se às gargalhadas, inclusive Daniel. Não. De facto, era impossível para ela passar um minuto que fosse sem demonstrar ao filho que o amava acima de tudo, e se o tivesse que provar com beijos, então que assim fosse. – Bom jantar – exclamou Afonso observando a saída de Madalena e Jorge da sala e mais tarde do interior da casa. - Achas que eles vão voltar, vô? - Espero bem que sim – respondeu o ex. militar afagando os cabelos do neto. – Espero bem que sim!
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O restaurante escolhido por Jorge primava pelo requinte e pela sofisticação, algo a que o advogado estava amplamente habituado nos seus extensos anos de profissão quando se reunia com clientes importantes. Ficava situado no Lapa Palace e era frequentado por um grupo restrito de pessoas a quem tudo era feito para agradar. Mas naquela noite particularmente especial, a única pessoa que Jorge queria agradar era Madalena. Pela primeira vez, os seus olhos não se desviaram da ex. mulher um só segundo e a sua atenção centrou-se nela durante toda a refeição. Impressionante como nunca se tinha dado conta de como ela era bela, sensual e inteligente. Era simples também. Falava tudo aquilo que lhe vinha à cabeça e movimentava-se com uma destreza e segurança fora do normal, algo que há muito ele não via em qualquer outra mulher. – O que foi? – perguntou Madalena bebendo um gole de vinho tinto. - Nada – respondeu Jorge forçando-lhe um sorriso carinhoso. – Só me estava aqui a lembrar da primeira vez que saímos para jantar. - Sentimentalismos baratos, Jorge?! - Claro que não! Tu sabes que eu nunca fui sentimentalista. - Então não mudes, por favor – pediu ela voltando a depositar a taça de vinho sobre a mesa. - Mas às vezes é impossível não nos lembrarmos de coisas tão boas, não achas?! Madalena sorriu. – Lembraste que tivemos que pagar a conta do jantar a meias? - Ui! Se me lembro – riu-se ela forçando uma gargalhada seca. – Lembro-me também que no dia seguinte contei a uma amiga e ela disse-me que o melhor que eu tinha a fazer era fugir de ti. - Mas não fugiste. - É! Infelizmente não fugi. - Naquela altura era um teso, eu sei. Não tinha dinheiro nem sequer para te levar ao cinema. Mas mesmo assim tu ficaste comigo e aceitaste o meu pedido de casamento com um anel de plástico da feira popular. - O anel era lindo. Foi por isso que eu aceitei o teu pedido de casamento. - Mas eu tive sorte – disse Jorge deixando-se iluminar pelos olhos de Madalena quando eles se cruzaram com os seus. – Logo que nos casámos fui aceite numa firma de advogados e ganhei a primeira causa. Depois foram sempre voos maiores, outras causas importantes, mais dinheiro, mais prestígio… - E foi então que o nosso casamento começou a piorar. - Já não tinha tempo para ti, eu sei! Estava sempre tão obcecado com o meu sucesso profissional que me esqueci da minha família e da mulher maravilhosa que andava a desperdiçar. - Percebeste isso um pouco tarde, não achas!? - Será?! – perguntou Jorge alcançando-lhe a mão sobre a mesa. – Será que é assim tão tarde? - Jorge… - Podes não acreditar, Lena, mas eu nunca me esqueci de ti! Nunca deixei de sentir saudades tuas, da nossa casa, dos nossos filhos, nem mesmo quando andava com outras mulheres. Nenhuma delas me conseguiu dar o que me deste nestes dezassete anos. Nenhuma chegou sequer aos teus pés… - Eu daria tudo para ter ouvido isso há cinco anos atrás. Mas hoje já não sei se vale a pena.
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- Esta história que aconteceu com a Sara fez-me abrir os olhos para uma serie de coisas que me eram totalmente estranhas. Fez-me perceber o porquê de muitas vezes brigares comigo, de me tentares chamar à razão e de me fazer entender que para se ser um bom pai não é preciso dizer sim a tudo. É muito mais que isso. É estar presente, é tentar proteger os nossos filhos e… ser chato. Antes, eu não queria ser um pai chato! Queria que o Daniel e a Sara me vissem como um pai espectacular capaz de lhes concretizar todos os desejos. Mas só hoje vi o quanto errei, e… o quanto esse erro te prejudicou a ti e à nossa filha. - Fico feliz que tenhas percebido isso – respondeu Madalena tentando esquecer a sombra que atravessou o seu peito quando se lembrou da existência de Sara. - Eu mudei muito, Lena! Acredita em mim. - Será!? - Mudei mesmo. - Então um brinde à tua mudança. - Um brinde – afirmou Jorge tocando a sua taça na de Madalena. – E um brinde a tudo o que já vivemos, ao que estamos a viver neste momento e… ao que iremos viver daqui para a frente. - Um brinde! As luzes apagadas fizeram antever que não havia absolutamente ninguém acordado naquela casa. Após longas horas de ausência, Madalena e Jorge regressaram ao ponto de partida, e não o fizeram apenas no espaço, mas também no tempo. Um tempo onde as suas vidas se conjugavam na perfeição, onde havia planos, sonhos e desejos a serem concretizados. Mas infelizmente, na altura, o destino trocou-lhes as voltas. Afastou-os de uma forma irreversível e quase que os obrigou a continuar assim, não fosse esse mesmo destino tornar a juntá-los naquela noite tão especial. Ao entrar no quarto que um dia também foi seu, Jorge deslumbrou-se com a grandiosidade daquele momento e experimentou uma das sensações mais avassaladoras que um homem poderia experimentar ao lado de uma mulher. Madalena era essa mulher. Foi ela a responsável por tudo o que de bom lhe havia acontecido até à data e era também com ela que pretendia passar o resto dos seus dias. Prova disso? O arrepio que sentiu em todos os poros do corpo quando lhe desceu o fecho do vestido. Depois disso, ouviu o tecido cair no chão e Madalena suster a respiração descompassada. Parecia um sonho. Algo difícil de explicar. Algo superior às suas forças e também à sua existência. Por momentos, foi assim que se sentiu até Madalena o levar em direcção à cama e brindá-lo com um longo beijo enquanto o fazia. Mais tarde, os dois deitaram-se sobre os lençóis de linho, despiram as respectivas roupas e entregaram-se um ao outro durante horas a fio sem se importar com os carros que passavam a alta velocidade pela rua deserta. – Quem diria… - O quê? – perguntou Madalena esboçando um sorriso envergonhado quando Jorge lhe percorreu os braços desnudos. - Estarmos aqui os dois depois de tudo. - É muito estranho, eu sei! - Estranho mas bom, não é?! - Estranho, mas bom… – respondeu ela deixando-se mergulhar no beijo que Jorge lhe ofereceu nos lábios.

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Os dias que se seguiram não trouxeram nada de novo a não ser as visitas sempre constantes de Jorge lá a casa. Normalmente, ele chegava ao final da tarde com a desculpa de querer estar com o filho. Depois, ficava para jantar, disponibilizava-se para colocar a mesa, lavar a loiça, algo que nunca fizera em anos e anos de casamento, e só se dava por vencido quando Daniel subia ao quarto e Madalena forçava enormes bocejos numa tentativa desesperada de o fazer olhar para o relógio. Mais uma vez, aquela noite não foi excepção. – Pensaste no que te disse? – perguntou ele quando ela o levou à porta. - Estou a pensar – respondeu Madalena encostando a cabeça à parede. - E então?! Já chegaste a alguma conclusão? - Já te disse que preciso de mais tempo, Jorge! Não posso decidir uma coisa dessas de ânimo leve. Preciso pensar! Preciso pensar muito. - Eu sei – respondeu ele acariciando-lhe a face rosada. – Mas não te esqueças que desta vez é a sério! Se me deres uma nova chance prometo que não te vou desiludir. - Não prometas coisas que não podes cumprir. A resposta de Madalena fez Jorge recuar dois passos e baixar a cabeça num claro sinal de desespero. Porque será que ela continuava sem acreditar nas suas palavras? Porque é que ela tinha um prazer especial em criar uma verdadeira muralha entre eles? – Acho melhor ires – afirmou Madalena encontrando-lhe a mão direita. – Já está tarde. - Vou viajar este fim-de-semana. - Para onde? - Uma viagem de trabalho. Vou para Bruxelas e devo lá ficar umas duas semanas no máximo. - Está bem. - Mas quando voltar quero uma resposta – disse Jorge brincando-lhe com os dedos das mãos. – Quero que me digas se posso voltar cá para casa. - Estás-me a dar um prazo? - Mais ou menos! Quer dizer…, sim! Estou-te a dar um prazo. - Vai – murmurou ela afastando-o da porta. – Depois falamos. - Pensa! - Eu vou pensar – riram-se os dois quando ele atravessou o jardim em direcção ao carro e não tardou mais do que três minutos a arrancá-lo. Depois disso, Madalena fechou a porta, deparou-se com o vazio daquela casa e soltou um pesado suspiro ao sentir-se pela primeira vez confusa quanto ao desfecho da sua história com Jorge. Durante os três anos em que estiveram legalmente separados, muita coisa se passou e muitas vezes ela disse que o amor e a paixão que os unia tinha terminado sem deixar rastro. Os papéis do divórcio foram assinados sem um pingo de remorso, as suas vidas tomaram rumos diferentes, mas no fundo sempre existiu uma estranha ligação entre os dois. Talvez por causa dos filhos, talvez pelos dezasseis anos em que estiveram casados, ou quem sabe por nada disso. Mas enquanto passeava pelas habitações de uma casa anteriormente repleta do barulho das crianças, das festas de aniversário, do Natal, Ano Novo, Páscoa e outras celebrações familiares que compunham o ano, Madalena percebeu que sentia falta delas. Percebeu também que há muito não ouvia qualquer barulho e que a possibilidade de nunca mais ouvir estava-se a tornar demasiado evidente. Quem sabe se voltasse ao ponto de partida? Quem sabe se a volta de Jorge não lhe traria de volta algum do barulho perdido?
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Tal como o estipulado, no fim-de-semana seguinte, Jorge partiu para Bruxelas e deixou um ultimato a Madalena para que ela se decidisse a dar-lhe uma segunda oportunidade. Duas semanas, era o prazo, e ela, apesar de se encontrar ainda um pouco confusa, resolveu aceitar o desafio proposto pelo ex. marido. Disse-lhe que iria pensar cuidadosamente no assunto, e que assim que ele voltasse, a resposta lhe estaria na ponta da língua. Foi com essa promessa que Jorge viajou prometendo telefonar assim que tivesse um minuto livre na sua agenda preenchida de reuniões e congressos. - Adoras vê-lo a sofrer, não é!? – riu-se Alice divertida quando Madalena lhe contou a conversa que tivera com o ex. marido a poucas horas da sua partida. - Claro que não! Só preciso de tempo, a sério… - Mas queres ou não voltar ao vosso casamento? - Eu não sei – respondeu Madalena não escondendo a sua indecisão. – Uma parte de mim quer, entendes?! Mas uma outra parte continua a gritar-me aos ouvidos que se eu voltar para o Jorge tudo vai ser como era antes. Traições, negócios atrás das minhas costas e mentiras. E eu não quero passar pelo mesmo, aliás, nem sei sequer se tenho forças para passar pelo mesmo. - Tu sabes que eu nunca fui com a cara do Jorge, não sabes?! - Nem precisas dizer – riram-se as duas. - Mas eu acho que ele mudou – concluiu Alice captando os olhos de Madalena. – Acho que ele cresceu, não só como homem, mas também como ser humano. Às vezes esses milagres acontecem com as pessoas que menos esperamos e com o Jorge aconteceu. Eu realmente acredito que ele está arrependido de todas as coisas que fez no passado. Acredito mesmo que ele te ama e que está disposto a concertar todos os erros, que não foram poucos, nós sabemos, mas que apesar de tudo ainda têm concerto. - Tu surpreendes-me sempre, sabias?! - Eu sei – riu-se Alice. – Sou uma caixinha de surpresas. - Mas as coisas não assim tão fáceis – respondeu Madalena com um longo suspiro. – Eu ainda continuo a pensar no Sérgio. - No Sérgio?! - Sim! Podes não acreditar, mas até hoje eu continuo a pensar nele, no que poderia ter sido e não foi, no que poderíamos ter vivido e não vivemos… - Por culpa da Sara – interrompeu Alice terminando a decoração da montra da loja. - Sabes, por muito tempo eu culpei a Sara, sim! Mas hoje, olhando para trás, vejo que a culpa foi inteiramente minha. Fui eu que não quis acreditar no Sérgio mesmo quando ele me disse que nunca tinha tocado num fio de cabelo dela. Eu tinha duas escolhas: Acreditar nele ou acreditar na Sara, e … eu escolhi acreditar na minha filha. Não posso culpar ninguém por essa escolha a não ser a mim própria. - Nunca mais tiveste notícias do Sérgio? - Desde a última vez que o procurei, não. - Pois eu acho que o devias procurar outra vez – afirmou Alice saltando da montra. - Não! Claro que não… - A sério! Acho mesmo. Se queres realmente saber se deves voltar para o Jorge, eu acho que deves procurar o Sérgio e esclarecer a vossa história de uma vez por todas. Saber se ele

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ainda continua a gostar de ti, se continua a pensar em vocês ou se já está noutra. Só assim vais poder virar essa página da tua vida e seguir em frente… Os conselhos de Alice deixaram Madalena confusa, mas por outro lado, alertaram-na para uma verdade incontornável, e essa verdade era a de que enquanto não resolvesse a sua história com Sérgio iria ser praticamente impossível reatar a sua história com Jorge. Foi por isso que naquela friorenta noite de segunda-feira, ela resolveu cometer uma das maiores loucuras da sua vida. Por outras palavras, telefonar a Sérgio e marcar um encontro onde ambos pudessem conversar sem a mínima possibilidade de serem interrompidos. Quando o relógio sobre a mesinha de cabeceira marcou vinte e três horas e trinta minutos, Madalena percebeu que já não havia mais tempo a perder e digitou um número que um dia chegou tão bem a conhecer. Um toque, dois toques, três, quatro, cinco, seis e não houve qualquer resposta. Será que mudou de número, foi a pergunta que imperou no ar quando ela desligou a chamada e voltou a poisar o telefone sobre a mesinha. Nessa altura, uma onda de pânico percorreu-lhe o corpo. Uma onda de dúvidas atravessou-lhe os pensamentos e a certeza de que tinha cometido um erro pareceu mais iminente do que nunca. Aonde estava com a cabeça? Porque não esquecia Sérgio de uma vez por todas? Seria assim tão difícil quanto isso? O toque do telefone fê-la dar um pulo sobre a cama, mas mais do que o toque em si, foi o facto de ter visto o número de Sérgio no visor. Era ele. Meu Deus. Era ele. Como era estranho voltar a ver o nome dele após tantos meses de ausência, após se ter convencido que nunca mais o tornaria a ver e de que as suas vidas tinham tomado rumos diferentes. Sim. Era realmente muito estranho. O primeiro dia de Março amanheceu chuvoso, friorento e começou com a chegada de uma carrinha de encomendas feitas pela floricultura. – Já veio – gritou Alice correndo a abrir a porta, enquanto um pouco mais atrás, Madalena seguiu-lhe os passos tentando abrigar-se da chuva. Mais uma vez, o motorista da carrinha não tardou a abrir as portas e a mostrar-lhes as flores encomendadas. – Estão frescas – disse ele com um sorriso que imediatamente contagiou as duas funcionárias. Depois disso, os três carregaram as flores para o interior da loja e depositaram-nas perto do balcão. Seguiu-se uma rápida conversa, uma gorjeta ao motorista e a partida do último com a promessa de voltar dali a três dias. Nessa altura, a porta fechou-se e tornou a abrir-se com duas caras também elas conhecidas. – Olá, minhas queridas! - D. Beatriz!? – disseram Alice e Madalena sem esconder a surpresa por a ver ali. - Há quanto tempo, não é?! - Há muito tempo – respondeu Alice apressando-se a cumprimentá-la com um beijo na face. Depois disso, um pouco contidamente, voltou-se para a filha e perguntou: – Olá Joana. Como estás? - Estou óptima – respondeu ela não escondendo o seu sorriso radiante. – Mas antes de mais queria pedir-lhe desculpas por tudo o que aconteceu. Sei que foi horrível ter levado com aquela vela na cabeça quando foram levar as flores para o meu casamento. - É, realmente não foi uma experiência lá muito agradável! Mas que mal vos pergunte, chegou a haver casamento?

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- Claro que não – respondeu Beatriz passando as mãos pelos cabelos da filha. – Acham mesmo que a minha querida Joaninha iria casar-se com um idiota como àquele? Ela merecia muito melhor e foi óptimo ter desmanchado o noivado antes de cometer o maior erro da vida dela. - Que bom – respondeu Madalena forçando-lhes um sorriso. - Até porque ela agora está noiva de um empresário árabe multi-milionário – concluiu Beatriz, radiante. - Árabe?! – indagou Alice, surpresa. - Sim! Conhecemo-lo num cruzeiro pelo Oriente há seis meses atrás e ele encantou-se tanto pela Joana que nunca mais a quis largar. Desde então só tem sido amor, amor e amor. Os dois são completamente apaixonados um pelo outro e até já marcaram a data de casamento para o próximo Verão. - Bem, que rápido – murmurou Alice recebendo um discreto beliscão por parte de Madalena. – Quer dizer, quando o amor é assim tão… intenso, não é, as coisas tendem a ser rápidas. - Ele é um gentleman – afirmou Joana mostrando o seu anel de noivado cravado a ouro e diamantes. – Faz tudo para me ver feliz e também para me mimar. Sinceramente não podia ter encontrado um noivo melhor. - Isto tudo para vos dizer que esta vai ser a última vez que cá vimos – concluiu Beatriz. - Porquê?! - O Atif, o meu noivo, convidou-nos para irmos morar com ele e com os pais a Dubai. Parece que eles têm lá uma propriedade gigantesca, e como aquilo está às moscas, ele achou por bem que eu e a minha mãe ocupássemos a casa até o dia do casamento. - Uau! Não é para todos – riu-se Alice. - Pois não! Só para quem tem sorte e um rosto lindo como a minha Joaninha – respondeu Beatriz mostrando um sorriso radiante à filha. – Mas bem, não foi só por causa disso que viemos à loja. Queríamos encontrar um arranjo lindo para uma amiga que faz anos hoje. Será que têm alguma coisa? - Tiveram sorte – interferiu Madalena levando mãe e filha em direcção à bancada da floricultura. – Acabámos de receber novas encomendas. - Uau! Estas túlipas são lindas – exclamou Joana não resistindo a tocá-las. – Devíamos levá-las, mãe! Tenho a certeza que a Carmo iria adorar. Tal como sempre, a floricultura encerrou às dezanove horas, e para prová-lo, Madalena aproximou-se da porta e virou a placa ao contrário: Fechado. Volte amanhã. Finalmente chegara a altura pela qual ela havia ansiado durante meses e nada e nem ninguém a iria fazer atrasar-se àquele encontro. Nem os seus clientes, nem o trânsito caótico que todos os dias inundava a cidade e muito menos o temporal a cair violentamente sobre o pára-brisas do carro. Na verdade, tudo isso eram pequenos detalhes perto da imensidão do que iria acontecer quando chegasse ao local combinado. Uma casa de chás situada no centro de Lisboa repleta de pessoas de todos os estratos sociais, era o local. Para além disso, essa casa trazia consigo um ambiente ameno, caloroso e bastante agradável. Era uma das mais antigas da cidade, talvez tivesse uns vinte anos de existência, mas o aprumo das mesas, cadeiras e azulejos pintados à mão ressaltavam a sua elegância. Depois dessa elegância, vinha a agitação e a correria dos empregados que faziam de tudo para atender os clientes.
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Sempre com um sorriso nos lábios, anotavam os pedidos à mesa, fugiam para o interior da cozinha e voltavam com chás fumegantes, bolos frescos e outras iguarias não muito encontradas em outros estabelecimentos da cidade. E sim. Foram esses os motivos que levaram Madalena a escolher aquela casa de chás para se encontrar com Sérgio Almeida, um fotógrafo que meses antes havia aparecido na sua vida como um anjo e a virado de pernas para o ar. Foi ele quem lhe mostrou que nem tudo estava perdido, que havia vida para além do divórcio e que nunca era tarde para se acreditar num amor tão ou mais intenso que o primeiro. Impressionante. Impressionante como Madalena nunca havia percebido isso até conhecê-lo e entregar-se a ele. Mas infelizmente o destino foi cruel e separou-os no momento em que ela menos estava à espera, sendo que depois dessa separação, nada mais voltou a ser o mesmo. O tempo passou, as suas vidas tomaram rumos diferentes e criou-se uma estranha percepção de que ainda havia pontos a serem esclarecidos numa relação que apesar de tudo foi intensa, bonita e apaixonante. – Desculpa o atraso… - disse ela encontrando a mesa escolhida por Sérgio. - Não faz mal! Também só cheguei há cinco minutos – respondeu ele observando-a a arrastar uma cadeira. Nessa altura, Madalena sentou-se à mesa, arranjou os cabelos molhados pela chuva e ainda teve tempo para sorrir. Um sorriso que continuava idêntico ao que era, Sérgio reparou. Límpido, jovial, mas acima de tudo sincero. – Então?! Já pediste alguma coisa? - Estava à tua espera para pedirmos juntos. - Ouvi dizer que aqui servem uns maravilhosos bolinhos de coco e óptimos chás de menta. - Então podemos pedir isso se quiseres – respondeu Sérgio chamando gentilmente um dos inúmeros empregados da casa. Depois disso, fez os pedidos em nome dos dois e aguardou que o funcionário se retirasse da mesa com o mesmo sorriso que trouxe. – Estás encharcada. Apanhaste muita chuva enquanto estavas a vir para cá? - Não muita – respondeu Madalena tentando esconder o nervosismo de estar outra vez à frente do único homem que a conseguiu envolver após o seu divórcio. – Só tive que correr imenso porque não consegui arranjar um sítio aqui perto para estacionar. - Claro. - Bem, ainda nem te perguntei como é que estás. Faz tanto tempo que não nos vemos… - É, realmente faz muito tempo – respondeu Sérgio desarmando-a com o seu sorriso e com os seus olhos verdes. – Mas eu não me esqueci de ti. - Eu também não. - Espero que esteja tudo bem com o teu pai, com o teu filho… - Está tudo bem com eles! O meu pai está agora a morar comigo. - Ai é?! Que bom – sorriu Sérgio. - Eu pedi para que ele ficasse lá em casa. Está a ocupar o antigo quarto que era da… - Sara. - Sim! Da Sara – respondeu Madalena não escondendo o constrangimento sempre que falava da filha. - Mas tu estás óptima. - Tu também não estás nada mal – riram-se os dois. – Estás mais gordo. - Devo levar isso como um elogio!? - Claro que sim.
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Os chás e os bolos de coco não tardaram a ser trazidos à mesa pelo mesmo empregado que os havia atendido minutos antes, e mais uma vez, Madalena e Sérgio agradeceram a gentileza do funcionário enquanto escolhiam as suas respectivas chávenas e tentavam arranjar espaço numa mesa não muito gigantesca. Era óbvio o nervosismo demonstrado pelos dois, um certo desconforto até, mas ainda assim, cada vez que se olhavam nos olhos, parecia que tinham tantas coisas em comum e tantas palavras para se dizerem um ao outro. Quem começaria primeiro? - Deves ter ficado surpreso quanto te telefonei ontem à noite, não é!? – disse Madalena bebendo um gole do seu chá de menta. - Confesso que fiquei um pouco. Não estava nada à espera. - Nem eu. - Nem tu? Então porque é que me ligaste? – riu-se Sérgio. - Primeiro porque… queria ouvir a tua voz, e segundo porque… precisava ter a certeza de uma coisa. - Que coisa?! Ela sorriu nervosamente. – Que ainda não me tinhas esquecido, assim como eu também nunca me esqueci de ti. As palavras de Madalena contrastaram com a expressão séria de Sérgio e com o desejo que ele sentiu em contar-lhe toda a verdade antes que ela abrisse o seu coração de uma forma irreversível. Mas a verdade é que o fotógrafo não conseguiu interrompê-la a tempo. Não porque não quisesse, mas sim porque não teve forças para isso. – Eu sei que já se passou muito tempo… - continuou ela. - …que provavelmente já deves ter refeito a tua vida, mas eu precisava ver-te mais uma vez. Sei lá! Ouvir a tua voz, …ver o teu rosto e ter a certeza que nada do que vivi contigo foi um sonho. Porque foi real, não foi? - Claro que foi – respondeu Sérgio afastando a chávena de si. - Eu também acho que foi! Foi uma das coisas mais reais que aconteceram comigo e eu tenho medo que nunca mais volte a acontecer. Foi por isso que eu resolvi procurar-te de novo… - Lena… - Porque eu preciso saber, eu preciso mesmo saber se a nossa história terminou. Se não existe a mais remota possibilidade de me quereres de volta e de me perdoares por não ter acreditado em ti na altura que eu devia ter acreditado. Porque se tu me disseres que… existe essa possibilidade, quem sabe… não sei! Quem sabe… - discursou Madalena sentindo-se quase sem fôlego. - Lena, eu nunca me esqueci de ti, e se me perguntares ou se alguém me perguntar, duvido muito que algum dia vá esquecer. E tens razão, o que vivemos não foi um sonho. Foi real, foi muito real e inesquecível! Mas o tempo passou e não eu sei como conseguiu passar tão depressa. Mas a verdade é que passou e… - E…?! - E os nossos caminhos afastaram-se muito! Mais do que eu queria que se afastassem. - Como assim?! - Não sei se te lembras da Vera… - Que Vera!? – perguntou Madalena tentando manter-se firme perante as revelações que se avizinhavam.
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- Uma modelo que eu tinha fotografado no início do nosso namoro. Ela apareceu uma vez em minha casa enquanto lá estavas e tu ficaste desconfiada que tínhamos algum envolvimento. - E tinham?! - Na altura não! Claro que não… – respondeu Sérgio temendo ser mal interpretado. – Mas depois que terminámos por causa daquela história da Sara, eu encontrei-me com ela num desfile de moda. Foi algo muito casual. Conversámos, trocámos números de telefone e fomos nos conhecendo melhor. Não era para ser importante, aliás, na altura eu estava tão magoado que nem sequer me passava pela cabeça ter alguma coisa séria com quem quer que fosse. Mas a verdade é que foi acontecendo … - Apaixonaste-te por ela?! - Não foi bem apaixonar – respondeu Sérgio observando-lhe os olhos cintilantes. – Aliás, até hoje não sei se sou apaixonado por ela, entendes?! Mas sei que gosto da companhia dela. Ajudou-me imenso quando me senti em baixo, fez-me sorrir nos momentos em que me apetecia chorar e tornou-se numa pessoa importante na minha vida. Devo-lhe muitas coisas… - Mas não a amas. - Não! Não a amo. - Então porque é que estás com ela? – perguntou Madalena sentindo-se confusa. - Porque ela está grávida, e tal como deves calcular, eu sou o pai… – respondeu Sérgio terminando com todas as dúvidas que ainda assombravam os pensamentos de Madalena. – Descobri isso há pouco tempo. Quatro semanas! De facto, a revelação não poderia ser mais bombástica, e enquanto a tentava assimilar, várias foram as vezes que Madalena pensou cometer suicídio ou então abrir um buraco para se esconder por debaixo da mesa. Mas infelizmente nenhum dos seus desejos se concretizou e a visão de Sérgio aos poucos e poucos tornou-se cinzenta e deturpada. Era o fim, pensou. O fim dos sonhos que ela transportou durante vinte e quatro horas, o fim do que poderia ter sido e não foi, e o fim de uma história que tinha tudo para dar certo. Meu Deus! Como o mundo dava voltas e como o destino era tão cruel. – Vais ser pai… - foi tudo o que ela conseguiu murmurar enquanto os seus olhos se enchiam de lágrimas. - Vou – respondeu Sérgio encontrando-lhe a mão sobre a mesa. – Desculpa! Eu não te queria magoar. - Não tens que pedir desculpas. Aconteceu! Essas coisas acontecem a toda a gente e eu disse-te que um dia iria acontecer contigo, lembraste?! - Lembro. Sem mais nada para lhe dizer, Madalena encolheu os ombros e lançou os olhos ao movimento frenético das pessoas à sua volta pensando como era impressionante que ainda ninguém se tivesse dado conta da maior tragédia ocorrida na sua vida. Ninguém teve a brilhante ideia de olhar para si e confortá-la com alguma palavra ou até mesmo com um abraço. E não. Sérgio não contava, até porque se ele continuasse a olhar para si ou se atrevesse a proferir qualquer outra palavra de arrependimento, ela desmoronaria como um baralho de cartas. Durante a condução para casa, onde praticamente deixou ver o asfalto da estrada devido às lágrimas que teimaram em cair-lhe dos olhos, várias foram as vezes que Madalena tentou
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convencer-se de que a sua história com Sérgio tinha terminado e de que não lhe restava mais nada a não ser lamentar-se da sua triste sorte. Depois dessa certeza, ela abriu a porta de casa completamente encharcada e largou as chaves sobre a mesinha. - Já chegaste!? – perguntou Afonso vendo a filha passar pelo corredor como um foguete sem sequer responder à pergunta. – Será que aconteceu alguma coisa com a tua mãe? - Não sei – respondeu Daniel enfiando o rosto no livro que estava a ler. Preocupado com o comportamento intempestivo da filha, Afonso saltou do sofá e alcançou o corrimão das escadas pronto a descobrir que raios se tinha passado com ela. E mesmo apesar das pernas cansadas e do esforço de um pobre velho de sessenta e nove anos, não foi muito difícil chegar ao quarto de Madalena e tocar-lhe à porta. – Posso?! - Podes – respondeu ela apressando-se a limpar as lágrimas junto à janela. - O que é que aconteceu? Algum problema? - Não, pai! Não há problema nenhum! O único problema é a minha vida em si. Mas acho que para isso não existe solução, não é?! Só tenho que me habituar a ela. - Preciso contar-te uma coisa que vi hoje. - Hoje não, pai – suspirou Madalena voltando-se para ele. – Hoje não! - Tenho a certeza que vais querer saber. A expressão séria de Afonso fê-la hesitar. – O que foi? - Vi a Sara. - Não, por favor … - Encontrei-a na zona do Areeiro – continuou Afonso enquanto Madalena passeava atordoada pelo quarto. – Estava com duas amigas muito mais velhas e parecia que iam a entrar no metro! Bem, não sei se me viram ou não, mas a verdade é que quando fui atrás delas as três desapareceram sem deixar rastro. - Talvez assim tenha sido melhor. - Eu não acho. - Pai, eu realmente não quero saber da Sara! Sei que é horrível uma mãe dizer uma coisa dessas, mas a verdade é que desde que ela saiu cá de casa a minha vida melhorou e eu não quero ter que voltar ao ponto de partida. As coisas que ela me disse na noite em que se foi embora até hoje estão-me gravadas na memória e eu nunca vou conseguir esquece-las ou sequer perdoá-las… - Mas ela é tua filha. - Que seja, pai! Tu sabes que eu fiz tudo o que estava ao meu alcance para impedir que a Sara saísse de casa, mas o que é que querias que eu fizesse mais?! Eu estava cansada de a tentar chamar à razão, cansada de a impedir de sair à noite e de a ver chegar bêbada às tantas da madrugada – afirmou Madalena gesticulando furiosamente os braços. – Eu tenho a certeza que nenhuma mãe teria aguentado a metade do que eu aguentei. Nenhuma mãe teria aguentado o facto de saber que a filha se andava a prostituir em troca de nada… - Ela está grávida – interrompeu Afonso parando-lhe todos os movimentos. - O quê?! - A Sara está grávida. - Pai, tu tens a certeza do que me estás a dizer?

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- Bem, eu sei que só tenho sessenta e nove anos, mas acho que consigo perceber quando uma mulher está grávida ou não – respondeu ele encarando a expressão surpresa de Madalena. – A Sara está grávida sim, e pela barriga, já deve ir nos seis ou sete meses. - Eu não acredito nisto. - Se achas que não tens qualquer responsabilidade para com a Sara, tudo bem, eu até entendo. Mas para com o teu neto!? Ele não tem culpa de nada, Lena! É o teu neto. Mais lágrimas foi o que Madalena sentiu a brotarem dos seus olhos. – Este é o pior dia da minha vida – gritou ela atirando o candeeiro da mesinha contra a parede. Em duas ruas paralelas, Madalena e o seu pai, Afonso, interceptaram todas as pessoas que iam a passar debaixo dos seus chapéus-de-chuva. Era quarta-feira, chovia torrencialmente, o trânsito mais uma vez estava caótico e as esperanças de encontrar quem tanto procuravam tornou-se remota com o passar das horas. Contudo, nem mesmo o desespero patente nos rostos de Madalena e Afonso conseguiram demover-lhes da vontade incomensurável de seguirem em frente. Com uma fotografia na mão, continuaram a descer a avenida e continuaram também a perguntar se ninguém havia visto uma jovem de dezassete anos, grávida, de cabelos compridos, olhos escuros e pele clara. Infelizmente a maioria das respostas foi negativa, mas ao chegarem ao final da avenida Almirante Reis, Afonso interceptou um indivíduo de aspecto algo duvidoso. Parecia ser toxicodependente, até pelas vestes que trazia consigo e pela barba há muito não aparada, e aparentava também ainda não ter passado dos trinta. Gentilmente, Afonso aproximou-se dele e em seguida mostrou-lhe uma fotografia que continha a imagem de Sara: - Conhece esta menina? – foi a pergunta. E apesar de a foto estar molhada, o indivíduo não teve dúvidas: - Claro que conheço. É a Sarita! O pessoal lá do bairro chama-a assim. - E sabe aonde é que ela está? – perguntou Madalena não escondendo a sua ansiedade. - Sei, mas… - Mas?! - Ia precisar de um agrado, madame! Sabe como é que é! Já são sete horas e um gajo ainda não conseguiu juntar dinheiro suficiente para jantar. - Tome – respondeu Afonso entregando-lhe uma nota de dez euros. – Acho que isto deve chegar para o jantar à maneira, não?! - Por acaso – disse o indivíduo mostrando-se bastante satisfeito com a recompensa. – Bem, há muito tempo que não vejo a Sara. Só as amigas dela. Mas acho que ainda deve estar a morar com a Milene na pensão. Se quiserem posso mostrar-vos! É mesmo aqui ao pé… - Claro, claro – respondeu Afonso de imediato. – Leve-nos até lá, por favor! - Sigam-me – exclamou o toxicodependente fazendo um gesto engraçado e permitindo que Madalena e Afonso se colocassem à sua frente. – Mas que mal vos pergunte, o que é que vocês querem com a Sarita?! Olhem que é uma gaja fixe! Não lhe vão fazer mal, pois não?! - Claro que não – respondeu Afonso perante o desconforto patente nos olhos e nos movimentos de Madalena. – Eu sou o avô dela, e esta senhora aqui é a minha filha, a mãe da Sara! Viemos conversar com ela. - Ai é?! – respondeu o indivíduo coçando levemente os cabelos. – Eu pensei que ela não tivesse família.
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- Porquê!? - Sempre a vi sozinha lá no bairro e ela também nunca falou nada. - Como é que é o seu nome, rapaz? - Vítor – respondeu ele abrindo um sorriso enquanto estendia a mão a Afonso. Surpreendentemente ou não, o seu cumprimento foi imediatamente correspondido pelo ex. militar. Depois disso, seguiu-se a vez de Madalena, que ao contrário do pai, demorou algum tempo a apertar-lhe a mão. – Eu não mordo, madame! - Eu sei – respondeu ela encarando-lhe a expressão irónica. A caminhada em direcção ao bairro do Intendente demorou alguns minutos, e quando finalmente avistaram a entrada, um misto de sensações e sentimentos atravessaram o coração de Madalena. Era a primeira vez que estava ali, meu Deus. Era a primeira vez em quarenta e dois anos que se atrevia a pisar um local como aquele, repleto de lixo espalhado pelo chão, prostitutas encostadas às portas das pensões enquanto seguravam os respectivos chapéus-de-chuva e compunham a pequenez das mini saias, vários toxicodependentes a cambalear pelas ruas, e por fim, a visão de imigrantes dos mais variados países. Infelizmente, todos eles compunham o cenário no mínimo degradante onde Sara tinha escolhido ser a protagonista. – É aqui, oh – exclamou Vítor alcançando a porta da pensão que tanto tinham procurado. – Mas não garanto que a Sara e a Milene estejam aí! Podem ter saído! - Obrigado pela ajuda, rapaz – respondeu Afonso permitindo que Madalena entrasse primeiro. – Nem sabemos como lhe agradecer… - Eu sei – afirmou Vítor estendendo novamente a mão. – Agora é para a sobremesa, vô! Afonso não viu outro remédio a não ser oferecer uma outra nota de dez euros àquele pobre rapaz que apesar de tudo nem parecia ser má pessoa. Nessa altura, despediu-se dele com um novo aperto de mão e acompanhou a sua filha em direcção às escadas sujas e escuras que ligavam os quatro pisos daquela pensão. – Hei – ouviram uma voz grossa a sair da recepção. E ao voltarem-se para trás, um homem de estatura média, vestido com um fato de treino azul e uma expressão facial nada amigável assombrou-lhes a visão. – Aonde pensam que vão? - Desculpe, amigo – respondeu Afonso mantendo Madalena um pouco mais atrás de si a fim de preservar a sua identidade. – Não sabíamos que estava aqui alguém. - Pois, mas estava! Eu sou o dono desta pensão e aqui ninguém entra sem passar primeiro por mim. Agora digam lá! Quem são vocês? - Nós viemos procurar uma rapariga chamada Sara e uma outra chamada… - Milene – concluiu Madalena quase gelando dos pés à cabeça quando os seus olhos se cruzaram com os do proprietário da pensão. - Hã, essas duas! Conhecem-nas, é?! - Sim! Somos amigos. - Bem, elas estão lá em cima… – respondeu o dono da pensão mostrando-se um pouco mais calmo por perceber Afonso e Madalena não eram pessoas ameaçadoras ao seu negócio. – Mas para vos deixar subir, vou ter que avisá-las primeiro. - Não! Nós gostaríamos que fosse uma surpresa, entende?! – interferiu Afonso. - Sei! Uma surpresa?
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- Sim. Há muito tempo que não nos vemos e eu tenho a certeza que elas iriam ficar muito mais contentes se nos vissem lá em cima… de surpresa. - Pois, mas para ser surpresa, é mais caro. - Como assim?! - Se me derem vinte euros, eu deixo que façam a tal surpresa e até finjo que não estava cá quando subiram! Mas se não derem… - Não, pai! Deixa – exclamou Madalena impedindo que Afonso retirasse mais uma nota da carteira, até porque desta vez, era ela quem fazia questão de pagar. – Aqui tem os vinte euros. - O quarto fica no terceiro andar e é o número dois. - Obrigada! Sob o barulho ensurdecedor das escadas, Afonso e Madalena contaram os degraus até o terceiro piso e muitas vezes se viram submersos numa escuridão aterradora. Para além disso, o cheiro a humidade emanado pelas paredes, a sujidade entranhada em todos os cantos não lhes deixaram quaisquer dúvidas de que Sara tinha escolhido um dos piores lugares do mundo para viver, e Madalena pode ter essa certeza quando se viu pela primeira vez à frente do quarto apontado pelo dono da pensão. O número dois. O número que para sempre iria ficar gravado na sua memória, assim como o encontro com a filha após seis meses em que estiveram afastadas e não mantiveram qualquer tipo de contacto. – Não vais bater à porta? – perguntou Afonso percebendo a hesitação de Madalena. - Deixa-me… - suspirou ela. - …deixa-me ganhar alguma coragem. A porta sofreu dois toques quase seguidos, algo que prendeu de imediato a atenção de Milene e que a fez largar a revista que tinha nas mãos. Depois disso, lançou um olhar à cama onde Sara estava deitada e percebeu que a febre e os tremores da jovem ainda não haviam cessado apesar dos antibióticos. Raios. O que mais poderia fazer para que a amiga se recuperasse da pneumonia contraída cinco dias antes? Nem mesmo as emergências do hospital, os inúmeros remédios que foi obrigada a adquirir na farmácia de serviço ou os panos húmidos para acalmar as febres altas conseguiram melhorar o estado de saúde de Sara. E para piorar o cenário, ela estava grávida, o que também poderia prejudicial para o bebé. Enquanto pensava em todas estas tragédias, Milene ouviu um terceiro toque na porta e finalmente deu-se por vencida. Quem quer que fosse não a iria deixar em paz, pensou. E foi por isso que sem muitas cerimónias ela saltou do divã encontrando no espelho o único local para compor os cabelos e o decote da sua camisola preta. Depois disso, tornou a afastar-se da cómoda e alcançou a maçaneta da porta girando-a de uma só vez. A visão que lhe surgiu à frente foi realmente surpreendente. Uma mulher de cabelos castanhos pelos ombros vestindo uma gabardina preta e um lenço cor de laranja ao pescoço, e logo atrás dela, um senhor de meia-idade trajado com um casaco verde-escuro e calças de ganga aprumadas. – Pois não?! - Você é que é a Milene? – perguntou o senhor. - Sim, sou eu – respondeu a prostituta cautelosamente. – Porquê? Algum problema? - Eu sou a mãe da Sara – interrompeu Madalena para grande surpresa de Milene. Esta, ainda atordoada perante tal revelação, não conseguiu produzir qualquer movimento corporal a não ser manter a mão sobre a porta. – Podemos entrar?
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- Claro – respondeu ela após alguns segundos em suspenso. – Entrem! O convite foi imediatamente aceite por Afonso e Madalena, e em seguida, a porta do quarto fechou-se com algum cuidado. Ao vê-los ali diante de si, Milene sentiu-se mais nervosa do que nunca, aliás, aquela era a primeira vez que se sentia tão nervosa perante a presença de pessoas desconhecidas. Sempre fora tão segura, independente e imune à opinião dos outros que era estranho ver-se metida numa situação daquelas. Era estranho imaginar-se tão pequena, vulnerável e insegura na presença de Madalena, quando na verdade, não tinha quaisquer razões para se sentir assim. - Ela está assim desde sexta-feira… – disse Milene quando Madalena e Afonso avistaram o corpo de Sara deitado sobre a cama. – O médico que a assistiu disse que provavelmente era pneumonia. Mas como não havia camas vagas no hospital, mandou-a para casa e receitou uns medicamentos que tive que comprar ali na farmácia. - É grave? – perguntou Afonso debruçando-se sobre a neta enquanto lhe mexia nos cabelos soltos. - Espero bem que não, mas a febre continua alta! Já não sei o que fazer para a baixar. Nem mesmo os antibióticos estão a fazer efeito. Enquanto ouvia o discurso de Milene, Madalena lançou os olhos a Sara e por momentos quase não a reconheceu. Apesar da gravidez, ela tinha emagrecido bastante, os cabelos estavam mais compridos e o rosto de menina inocente transformou-se no de uma mulher obrigada a crescer à força. Infelizmente, da Sara que todos conheciam, já não restava mais nada e foi isso que assustou Madalena. O facto de a sua filha já não existir. – Nós viemos buscá-la – exclamou ela voltando-se para Milene. - Eu não sei se ela vai querer ir – respondeu a prostituta cruzando os braços. - O lugar dela não é aqui e você sabe disso! A afirmação de Madalena não poderia ter sido mais acertada, Milene percebeu isso quando baixou o rosto e perguntou: – Para onde é que vocês a querem levar? - Para casa, claro – respondeu Afonso. – Lá é que é o lugar dela! - Tudo bem! Eu entendo. - Eu vou buscar o carro lá acima – disse Afonso voltando-se para a filha. – Lena! Importaste de ficar aqui a preparar a Sara enquanto trago o carro para a levarmos? - Claro que não, pai! Vai lá! - Então já vou indo para não perdermos mais tempo. Foram precisos poucos minutos para que Afonso abandonasse o quarto e deixasse Madalena e Milene de olhos postos em Sara. Depois disso, fez-se um silêncio perturbador, e Madalena não resistiu a lançar um novo olhar àquelas paredes vazias, desprovidas de qualquer luxo ou outros elementos decorativos. E só de pensar que tinha sido ali que a sua filha tinha passado os últimos seis meses de vida. – Quer tomar alguma coisa? – perguntou Milene prendendo-lhe a atenção. - Hã… não. Obrigada! - Sei que deve estar a pensar horrores deste lugar, não é?! - Eu não estou a pensar nada – respondeu Madalena observando os gestos de Milene a retirar as roupas de Sara dos armários.

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- Está a pensar sim, mas eu não a recrimino! Eu também sei que este lugar não é nada especial. Mas foi aqui que a Sara escolheu ficar, não foi?! Vá-se lá perceber porquê! Com uma casa de sonho, uma família que a tratava bem, ninguém em sã consciência iria perceber os motivos que a fizeram largar tudo aquilo para vir morar no Intendente. Confesso que até hoje eu nunca entendi. - Vocês são amigas? - Somos – respondeu Milene lançando um olhar a Madalena enquanto dobrava algumas peças de roupas e as colocava na mala de Sara. – A sua filha é quase como uma filha para mim embora a nossa diferença de idades não seja assim tão grande. Mas de qualquer maneira, fui eu que tomei conta dela durante estes meses todos. Não fiz um grande trabalho, lá isso é verdade, mas pelo menos fiz o melhor que sabia. Pelo menos ela nunca foi apanhada por nenhum drogado, nunca foi espancada por nenhum chulo, teve sempre o que comer, o que vestir e foi obrigada a ir a todas as consultas pré-natais mesmo quando não queria. A resposta de Milene trouxe um novo silêncio e também um novo olhar de Madalena aos cantos daquele quarto. – Eu vou chamar um amigo para vos ajudar a levar a Sara e as coisas dela até ao carro. - Não é preciso – respondeu Madalena de imediato. - O seu pai até pode ser forte, mas ele não vai conseguir aguentar sozinho com o peso da neta e muito menos com as malas dela, não é?! – retorquiu Milene percorrendo a sua lista de contactos através do telemóvel. – Esse meu amigo vem cá num instante! Ele vive aqui ao pé. Por estar quase inconsciente devido às fortes febres, Sara nem sequer se apercebeu quando foi carregada ao colo por um dos habitantes do bairro e as suas malas foram levadas pelo avô em direcção ao primeiro piso da pensão. Nessa altura, poucas dúvidas restaram quanto ao seu destino. Voltaria para casa, para os seus familiares mais próximos e recuperar-se-ia de todos os fantasmas que durante meses a atormentaram. Diante daquele facto irrefutável, parecia que a sua história tinha tido finalmente um final feliz. – Espere – exclamou Milene interceptando a saída de Madalena do quarto. - …eu sei que provavelmente deve achar que eu sou a culpada de tudo o que aconteceu à sua filha, mas... eu gosto muito da Sara e nunca quis que nada de mal lhe acontecesse. - Eu sei – respondeu Madalena encarando-lhe a expressão mortificada. - E só para terminar… queria também que soubesse que a admiro imenso! Nem sabe o que eu daria para que a minha mãe também me tivesse vindo buscar ao Intendente. As últimas palavras de Milene coincidiram com a saída de Madalena e com as lágrimas que não conseguiu suportar perante a partida da sua melhor amiga. Sim. De facto, durante os meses que passaram juntas, Sara transformou-se na única amiga que um dia teve, na sua companheira, confidente e também a única pessoa a quem ousava contar alguns dos seus maiores segredos. Todas as alegrias que passaram juntas, tristezas e discussões, ficaramlhe gravadas na memória, mas mais do que isso, no seu coração, sendo que dali para a frente iria ser praticamente impossível voltar a ver o bairro com os mesmos olhos pois Sara tinha retirado dele todo o encanto. Faltavam poucos minutos para o anoitecer quando a fechadura sofreu uma ligeira pressão e a porta se abriu ruidosamente. Nessa altura, sabendo bem quem eram as pessoas que
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tinham chegado a casa, Daniel saltou do sofá e encontrou a visão do avô, da mãe e da sua irmã ao fundo do corredor. Não foi preciso dizer nada. Aliás, ninguém disse absolutamente nada pois o regresso de Sara era algo já há muito esperado. Com as poucas forças que lhe restavam, Afonso levou a neta até ao quarto e colocou-a na cama, enquanto a poucos centímetros, Madalena retirou-lhe os ténis e as meias brancas. Mais tarde, seguiram-se as roupas e a certeza de que Sara estava realmente grávida. A contar pela sua enorme barriga, não era muito difícil imaginar que lhe faltariam poucas semanas para dar à luz o seu primeiro filho, e consequentemente, o primeiro neto de Madalena. Neto. Neto. Era a única palavra que ecoava nos ouvidos de Madalena e que por momentos a deixou à beira do desespero por não saber como lidar com aquela nova etapa da sua vida. Obviamente que sempre lhe passou pela cabeça ter netos, ver os seus filhos casar, formar uma família e serem felizes tal como ela um dia também foi, mas o que ela não contava era que as coisas fossem acontecer daquela forma tão rápida, desastrosa e pouco corrente. O que não contava era ser obrigada a buscar a sua filha a um bairro como o Intendente e não fazer a mínima ideia de quem era o pai do seu neto. Era só com isso que não contava, embora essa fosse a realidade nua e crua. Para acalmar a febre e os delírios de Sara, Madalena resolveu enfiá-la numa banheira de água morna e lavar-lhe o corpo com ervas medicinais que a sua mãe costumava guardar na floricultura. Era remédio santo, dizia Leonor quando ainda era viva, e por ter experimentado essas ervas várias vezes durante a sua infância, Madalena achou por bem utilizá-las em Sara, esfregando-lhe não só as costas, os braços, mas também as pernas. Depois disso, penteou os longos cabelos da filha e passou o chuveiro por eles para que a água retirasse toda a sujidade acumulada durante semanas. Estava limpa, foi o último pensamento de Madalena quando por fim a conseguiu enrolar numa toalha branca e levá-la novamente ao quarto. Nessa altura, a cama encontrava-se pronta para a receber, e o pijama vestido provou que era altura de Sara se sentir finalmente em casa, perto dos seus familiares, das pessoas que mais a amavam e que nutriam por ela um amor incondicional. - Vais ficar aí? – perguntou Afonso quando se aproximou do alpendre da porta. - Só mais um pouco! Até ter a certeza que a Sara dormiu – respondeu Madalena. - Então vemo-nos na sala. - Está bem. Até já! - Até já – disse Afonso encostando a porta com cuidado e deixando Madalena sozinha naquele grandioso quarto com os pensamentos a mil à hora. Parecia um sonho, ela pensou. Um sonho ter a filha de volta e saber que apesar de tudo não lhe aconteceu nada de mal. Ela estava viva, grávida e ainda tinha muito para viver dali para a frente. - Mãe…- ouviu-se um murmuro. - O que foi? – perguntou Madalena correndo ao encontro de Sara com o coração aos pulos. - Mãe… Apesar de só ter conseguido ouvir aquela palavra, Madalena não precisou de mais nada para se sentir a mulher mais feliz do mundo e para ter a certeza que todos os seus esforços não foram em vão quando resolveu procurar a filha e trazê-la de volta a casa. Até porque se pudesse faria tudo de novo. Sofreria as mesmas angústias, passaria as mesmas tristezas e ouviria todas as coisas que nenhuma mãe desejava ouvir nem no pior dos seus pesadelos.
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Mas a verdade é que…: O que não a matou tornou-a mais forte, o que não a destruiu ajudou-a a reconstruir-se. E o que perdeu?! Bem, isso nem chegava aos pés do que ganhou quando passou as mãos pela barriga da filha. Depois disso, veio um enorme sentimento de paz manifestado por Sara, que muito atabalhoadamente, se aconchegou nos braços da mãe e se deixou adormecer pela primeira vez sem pensar em mais nada.

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CAPÍTULO X
Os dois meses que se seguiram foram atribulados, cheios de surpresas, alegrias e culminaram com o dia do parto de Sara, um acontecimento devidamente presenciado por todos os membros da família Soares, e também por Alice, a melhor amiga de Madalena. A preparação do parto foi efectuada por algumas das enfermeiras de serviço, que muito pacientemente explicaram a Sara todos os procedimentos tidos em conta numa ocasião tão especial como àquela. A respiração, a calma, e acima de tudo, muita força para conseguir expulsar o bebé para fora. Mas Sara, talvez pela sua inexperiência ou pelo pânico das dores, não conseguiu assimilar nenhuma dessas explicações. Apenas gritava, pedia ajuda a quem quer que se aproximasse de si e desejava que aquele pesadelo terminasse o mais depressa possível. – Não, mãe – gritou ela estendendo a mão a Madalena a fim de a impedir de sair do quarto. – Não te vás embora! Não vás… - Eu vou estar lá fora, filha – respondeu segurando-lhe as mãos com força. – Vai correr tudo bem. - Não! Não me deixes aqui sozinha. Fica aqui! - Sara… - Eu tenho medo de morrer, mãe! Fica aqui. As últimas palavras de Sara, sendo intencionais ou não, fizeram com que Madalena ficasse alerta. Tenho medo de morrer. O que será que a filha quis dizer com aquilo? Não seria apenas um medo normal de uma adolescente prestes a dar à luz? No fundo do seu coração, Madalena desejou que sim e foi por isso que se voltou para as enfermeiras de serviço perguntando-lhes: - Posso assistir ao parto? - Claro – respondeu uma delas recebendo um sinal através do BIP. – Bem, a sala já está pronta. Vamos, Sara?! Chegou a hora! As cinco horas que se seguiram foram de grande angústia para todos os que estavam presentes na sala de espera. Tanto Jorge, como Afonso, Alice e o pequeno Daniel desesperaram-se com a falta de notícias, mas principalmente com os gritos que de vez em quando irrompiam a sala sem qualquer aviso prévio. Sempre que isso acontecia, fazia-se silêncio, imprimiam-se novas orações e olhava-se para o relógio pendurado na parede. E foi precisamente às dezanove horas e trinta e quatro minutos que se ouviu o primeiro berro do mais novo elemento da família. – Graças a Deus – exclamou Afonso levantando as mãos ao alto. - Nasceu – disse Jorge não cabendo em si de contente quando abraçou Daniel com força e se atirou para os braços de Alice. Em seguida, ainda emocionado, encontrou nos braços do

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ex. sogro o apoio necessário para extravasar toda a adrenalina que estava a sentir pelo nascimento do seu primeiro neto. – Nasceu! Os momentos de euforia inicial deram lugar a uma relativa calma, e mais tarde, a uma sensação de que faltavam notícias para confirmar que tudo tinha corrido bem. Nervoso, Jorge olhou mais uma vez para o relógio e retirou as mãos dos bolsos das calças. Porque é que ninguém saía daquele quarto para lhes trazer notícias, foi a pergunta de Afonso enquanto Alice esfregava as mãos de ansiedade e rasgava alguns olhares para uma porta fechada há mais de cinco horas. – E então?! – perguntou Jorge assim que ela se abriu e a figura de Madalena lhe surgiu diante dos olhos. – Como é que foi? Como é que está a Sara? O bebé? Nasceu? Está bem? - Tem calma – riu-se Madalena alegremente. – Está tudo bem. - Meu Deus! Pensei que o meu coração não fosse aguentar. Perante a revelação do ex. marido e do gesto engraçado que fez ao levar uma das mãos ao peito, Madalena atirou-se-lhe para os braços e permitiu que ele a levantasse do chão. Mais tarde, seguiram-se outros cumprimentos igualmente efusivos ao pai, à melhor amiga e ao filho, para além da certeza de que aquele tinha sido o dia mais feliz das suas vidas. – É uma menina – disse Madalena passada a confusão. – É linda! - A Sara?! Como é que ela está? – perguntou Alice não escondendo a felicidade estampada no rosto. - Cansada, claro! O parto foi longo, ela estava muito nervosa, cheia de medo e não tinha forças para puxar o bebé. Quer dizer, forças até tinha, mas vocês sabem que ela sempre foi um pouco preguiçosa… – riram-se todos. – Mas as enfermeiras ajudaram-na imenso, o médico também e por sorte correu tudo bem! Aliás, as duas estão bem… - Quando é que as vamos poder ver? – perguntou Jorge, impaciente. - Agora estão a limpar a bebé! Depois a Sara vai ser colocada num quarto normal e as duas vão ficar lá até lhes ser dada alta. Ainda não sabemos muito bem quando é que vai ser, mas como o parto foi natural e não houve quaisquer complicações, até o final da semana espero já estarmos todos em casa. - Que bom – exclamou Alice correndo a abraçar a melhor amiga. – Parabéns, avó! - Acreditas nisto?! Já sou avó. - E ainda nem chegaste aos quarenta e cinco! Isso é bom. Assim quando a tua neta crescer, vocês vão poder passear pela rua sem ninguém perceber essa tragédia. - Podes crer – riu-se Madalena. - E não vai aqui uma palavra de conforto ao avô?! – perguntou Jorge interrompendo a animação das duas amigas. – Afinal de contas eu também fui avô antes dos quarenta e cinco. - O.k, avô – disse Alice oferecendo-lhe um novo abraço. – Aqui tens o teu conforto! - Bem, eu nem me pronuncio – interferiu Afonso levantando os braços. – Afinal de contas, o que é que conta ser-se bisavô nessa família, não é?! - Oh pai – exclamou Madalena sugando-lhe a face enrugada. – Tu vais ser um bisavô fantástico assim como o Daniel também vai ser um tio excelente. - Era mais fixe se tivesse nascido rapaz – resmungou Daniel não vendo na sobrinha uma boa companhia para jogar à bola. - Não! Chega de homens neste mundo – disse Alice. – Estamos a precisar é de mulheres!
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Quando a porta se mexeu com um pequeno guincho, Sara esgueirou o pescoço através da cortina e aguardou ansiosamente a entrada dos seus familiares no quarto. Nessa altura, todas as dores sofridas durante o parto tinham desaparecido, a sua filha já se encontrava deitada num pequeno berço ao lado da sua cama e as primeiras horas da maternidade começavam lentamente a infiltrar-se na sua mente. Impressionante. Impressionante como em tão pouco tempo a sua vida mudou apenas com a existência de um novo ser. Como todas as coisas que anteriormente não faziam sentido passaram a fazer e como desejava entregar à sua filha tudo o que tinha de melhor. Durante muito tempo ela esteve cega ao não dar valor à sua mãe e só agora começava a perceber o quanto errou ao não fazer isso, pois Madalena foi a primeira pessoa a estenderlhe a mão nos momentos em que mais precisou, foi a primeira a salvá-la dos perigos e também a primeira a perdoá-la quando tudo o que deveria ter feito era ignorar a sua existência. Mas a verdade é que ela não ignorou e a outra verdade é que Sara começava a perceber o porquê. Porque nenhuma mãe consegue ignorar a existência de um filho faça o que ele fizer. – Agora é que vais ver o quanto custa ser mãe – disse-lhe Alice enquanto todos paparicavam os gestos e as mãozinhas delicadas da bebé. - Eu sei. - Não, não sabes! Mas vais saber. - Já escolheste o nome? – perguntou Jorge completamente embevecido pela neta. - Estive a pensar – respondeu Sara ajeitando os lençóis sobre o colo. – E também já tinha falado com a mãe mais ou menos sobre o assunto… - Só espero que não seja Gertrudes – brincou Alice. - Não – riram-se todos. – Eu queria que se chamasse Leonor! O nome da avó. A homenagem não poderia ter sido mais nobre e foi por isso que Afonso não se conseguiu conter. Emocionado, o ex. militar tirou um lenço do bolso das calças e tentou esconder as lágrimas para que ninguém o visse a chorar. – Oh avô! Não fiques assim – disse Sara correndo a abraçá-lo sobre uma das pontas da cama. – Era para teres ficado contente. - Ele ficou contente, filha – afirmou Madalena mantendo a neta no colo. - Que chorão que você me saiu, hã Sr. Afonso – exclamou Jorge tentando desanuviar o ambiente do quarto. – Qualquer coisa e chora logo! - Já não tenho idade para estas coisas – respondeu ele arrancando uma risada geral. Ao contrário de todos os outros, Madalena decidiu passar a noite na clínica para ajudar a filha em tudo o que ela precisasse. Assistiu também ao primeiro banho, à primeira mamada e observou Sara dormir como uma pedra durante horas sem sequer acordar quando a pequena Leonor abriu o berreiro um pouco antes das quatro da manhã. – Ela acordou? – foi a primeira pergunta que a jovem mãe fez ao ver Madalena a passear a bebé pelo quarto. - Agora mesmo! Mas não acho que seja fome. Já se acalmou. - Dá-ma! - Não, deixa estar! Eu fico com ela. Descansa. - Impressionante – riu-se Sara. - O quê!? - Não a largas para nada! Parece que ficaste viciada nela. - Havias de me ver contigo quando nasceste – respondeu Madalena correspondendo ao sorriso da filha. – Não te largava nem sequer para ir à casa de banho. Levava-te para todo o
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lado e as pessoas até chegavam a perguntar-me: Não te cansas de a ter sempre no colo? Não queres ter uma vida própria? - E tu?! O que é que respondias? - Que a minha vida eras tu. Perante a resposta de Madalena, Sara sorriu e deixou-se contagiar por algumas lágrimas teimosas. – Queria pedir-te desculpas… - disse ela num tom de voz quase sumido. - Porquê?! - Por todas as coisas que te fiz, por todas as coisas que te disse! Eu não sei o que é que me passou pela cabeça. Acho que… só queria provar a mim mesma que não precisava de ti e que podia muito bem viver sem a tua ajuda. Eu sei que foi horrível, estúpido e egoísta da minha parte, mas foi assim que me senti – Madalena manteve-se calada. – Eu quero tratarme – ela continuou com os olhos rasos de lágrimas. – Quero curar-me e ser uma boa mãe para a minha filha tal como tu também sempre foste uma boa mãe para mim. Quero que a Leonor tenha orgulho de mim… - Ela vai ter – respondeu Madalena forçando-lhe um sorriso. - E depois quero voltar à escola, terminar o décimo segundo, ir para a faculdade, arranjar um emprego que dê muito, mas mesmo muito dinheiro… - Meu Deus – riram-se as duas. – Não faças tantos planos de uma só vez. - Vais-me ajudar a fazer tudo isso, não vais?! - É claro que vou! Vou-te ajudar em tudo o que precisares… – respondeu Madalena oferecendo-lhe a mão e sentindo nela um calor especial de um beijo. O baptizado da pequena Leonor foi comemorado seis meses mais tarde com toda a pompa e circunstância, e contou com a participação de inúmeros convidados, entre os quais, amigos, familiares próximos, colegas de trabalho e um número quase incalculável de animadores infantis contratados para a ocasião. De facto, Jorge e Madalena esmeraram-se na preparação da festa, que tal como se era de esperar, foi realizada no grandioso jardim da casa, onde já haviam sido vivido alguns dos momentos mais felizes das suas vidas. A destacar: os baptizados de Sara e Daniel, as festas de aniversários, os churrascos domingueiros, natais, passagens de ano e vários outros acontecimentos sempre relembrados em álbuns de família e afins. Mas agora os tempos eram outros. Agora todos tinham atingido um patamar completamente diferente, tinham crescido enquanto pessoas, adquirido novas experiências e utilizado essas mesmas experiências para seguirem em frente e reparar os erros do passado. Sara principalmente. Aos dezassete anos, prestes a completar dezoito, e com uma filha nos braços, já não havia mais espaço ou tempo para errar. A primeira tentativa era a única e dali para a frente iria ser sempre assim, foi a conclusão tirada por ela quando Leonor se enterrou nos seus ombros e a figura de duas pessoas muito especiais atravessaram os portões da casa. Eram elas. Tinham aceitado o seu convite apesar das relutâncias e trouxeram consigo não só vários presentes como também uma bela menina de sete anos, repleta de cabelos cacheados, pele morena e um vestido azul clarinho que em muito acentuavam a sua beleza e inocência. Contudo, não foi o vestido que mais chamou a atenção de Sara, mas sim a semelhança que aquela menina parecia ter com a sua filha.

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Era como se estivesse a ver Leonor dali a sete anos, com os mesmos cabelos cacheados, a mesma pele mulata e o mesmo sorriso. – Milene! Arlete! Que bom que vieram… - foi o cumprimento de Sara às suas amigas. - Tínhamos que vir! Afinal de contas não é todos os dias que… senhoras como nós são convidadas para baptizados, não é?! – respondeu Arlete mostrando um pequeno embrulho a Sara. – Toma! Para a bebé. - Obrigada. - Então esta é que é a famosa Leonor!? - Pois é. - Posso segurá-la ao colo? - Claro – respondeu Sara entregando a sua filha nos braços de Arlete. - Há tanto tempo que não agarrava numa bebé, pá! Até acho que já perdi o jeito. - E tu, Milene?! – indagou Sara voltando-se para trás. – Esta é que é a tua filha? - Sim. A Daniela! Uma outra famosa. Daniela dá lá um beijinho à amiga da mãe. Envergonhadamente, Daniela obedeceu ao pedido da mãe e beijou a face de Sara, enquanto a última, com um sorriso carinhoso, afagou-lhe os cabelos compridos dizendo: - És muito bonita, Daniela. Sabias?! - Sabia – respondeu a criança arrancando uma risada geral. - Bem, aquela mesa de doces está-me a chamar – interrompeu Arlete compondo os seus cabelos volumosos. - Vai lá – disse Sara. – Serve-te à vontade. - Leva a Daniela também – pediu Milene. - Daniela e Leonor! Ai, o meu destino – riu-se Arlete enquanto se afastava em direcção a uma das inúmeras mesas de doces espalhadas pelo jardim e deixava Sara e Milene de olhos postos na outra à espera de forças para terem uma conversa que há muito já deveriam ter tido. - A Daniela é a filha do Marco, não é?! - É – respondeu Milene baixando os olhos. - Porque é que nunca me contaste? - Porque eu não queria que ele soubesse e também… não queria que tu soubesses. - Podias ter-me contado. - Se eu te contasse tu irias contar ao Marco. - Não, não ia… - Ias sim – interrompeu Milene encarando-lhe o rosto. – Na altura estavas apaixonada por ele e irias acabar por contar, mesmo se essa não fosse a tua intenção. E eu não queria que o Marco soubesse que eu tinha tido uma filha dele. - Então aquela história de teres engravidado do teu patrão no restaurante onde trabalhavas… - Era tudo mentira! Foi uma mentira que eu inventei lá no bairro para que ninguém soubesse a verdade, principalmente o Marco – respondeu Milene compondo os longos cabelos. – Quando eu descobri que estava grávida, até tentei contar-lhe, mas naquela noite ele tinha bebido demais por causa da morte do irmão e… acabou por descarregar as frustrações em cima de mim. Bateu-me! Bateu-me mesmo muito! Quase morri e quase que perdi o bebé também – discursou Milene com um longo suspiro. – Foi então que eu
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conheci a Arlete. Ela encontrou-me na rua e levou-me para o hospital. Foi a única que ficou a saber da verdade. Depois, fugi para o Porto, para a casa da minha mãe, e tive lá a Daniela. Só que eu e a minha mãe nunca nos demos lá bem e eu também não estava para aturar as cenas dela, por isso voltei outra vez para Lisboa. Trabalhei numas porcarias, ganhei misérias de ordenados e já estava a ver a minha vida a andar para trás até encontrar a Arlete outra vez. Ela disse-me que eu podia ganhar bem mais a trabalhar como prostituta e eu aceitei porque estava desesperada e também porque a minha mãe não parava de me pedir dinheiro para continuar a tomar conta da miúda. E foi assim que entrei na vida. Por isso, tal como vez, as nossas histórias não são assim tão diferentes… - Então quer dizer que as nossas filhas são irmãs!? - São – riu-se Milene para não chorar. - Tal como nós. - Tal como nós… Enquanto se abraçavam e se tentavam abstrair do barulho infernal inerente àquele jardim, tanto Sara como Milene finalmente encontraram a paz e o conforto que durante meses procuraram incessantemente. Antes, haviam-nas procurado nos braços de vários homens, em bebedeiras e em festas desregradas, mas esqueceram-se que a verdadeira paz e conforto, essas só podiam ser encontradas dentro delas próprias e ao lado das pessoas que sinceramente as amavam. – Vou largar a vida – disse Milene após o longo abraço que recebeu de Sara. - Verdade?! - Verdade! Decidi-me há coisa de um mês. De qualquer maneira, já estou quase a chegar aos trinta, já juntei um bom dinheiro que me vai safar até encontrar um emprego decente e… quero começar a aproveitar a minha filhota. - Fazes bem. - Bem, acho melhor irmos ter com a Arlete senão ela acaba com os doces. - Tens razão – concordou Sara aceitando-lhe a mão e atravessando com Milene todo o jardim em direcção à mesa dos doces, onde tal como se era de esperar encontravam-se todas as crianças e também Arlete, uma das únicas adultas suficientemente infantis para se maravilhar com um bolo recheado de chocolate. Era a primeira vez que conseguia apanhar a ex. mulher a sós desde o início da festa, e por esse milagre, Jorge congratulou-se. Ali estava Madalena a arrumar os pratos e os copos de plástico sujos pelos convidados quando ele se aproximou e lhe segredou aos ouvidos uma frase que tinha vindo a projectar desde há meses: - Ainda não me deste a resposta. - Que resposta? – perguntou ela deliciando-se com a voz do ex. marido atrás de si. - Tu sabes bem. Não te faças de desentendida! Desde a minha viagem a Bruxelas que tens andado a fugir. Primeiro por causa da volta da Sara, depois, por causa do nascimento da nossa neta, e agora, não tens mais escapatória. - Eu acho melhor esperarmos até a Leonor ir para a faculdade. - Lena, não sejas má – riram-se os dois, baixinho. - O.k, tudo bem! Eu dou-te a resposta. - Até que enfim. - Mas não agora – respondeu ela passando-lhe as mãos pela camisa. - Não?!
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- Não! Hoje à noite, depois da festa, depois de todos já estarem a dormir, aparece no meu quarto. Lá eu dou-te a resposta. Ao perceber quais eram os intentos da ex. mulher, Jorge sorriu e afastou-se dela com a máxima discrição. Depois disso, voltou-se novamente para trás e acenou de longe ansiando que Madalena correspondesse de igual forma, o que de facto não tardou a acontecer. - Não acredito que ainda andas a enrolar o gajo… - exclamou Alice interrompendo os olhares do ex. casal quando se aproximou da melhor amiga e a surpreendeu com um sorriso malicioso nos lábios. - Eu não ando a enrolar ninguém. - Tens a certeza? - Só precisava de tempo para me decidir! Mas esse tempo demorou mais tempo do que eu estava à espera – respondeu Madalena arrancando uma ruidosa gargalhada a Alice. - Sabes de uma coisa?! - O quê? - Se continuares assim ainda vais acabar sozinha. - Mas quem disse que eu estou sozinha? - Não estás? - Claro que não – afirmou Madalena passando um dos seus braços pelo ombro da melhor amiga. – Em primeiro lugar, tenho os meus filhos… - Sim. - Tenho a minha neta que é a coisa mais linda do mundo. - Lá isso é verdade – riram-se as duas. - Tenho o meu pai. - Também. - E se mesmo assim não me restar mais ninguém, tenho-te a ti! - Uau – exclamou Alice arrancando-lhe uma leve risada. – Obrigada por me teres colocado em último lugar. Mãe ouviu-se a voz de Sara. – Anda! Vamos tirar uma foto de grupo. Anda tu também, Alice! Rápido! Sem cerimónias e enquanto se riam a bom rir, Madalena e Alice correram ao local e não tardaram a misturar-se com as cerca de oitenta pessoas especialmente convidadas para assistir ao baptizado da pequena Leonor. E mesmo o jardim sendo pequeno para tantos convidados, a verdade é que sobrou um espaço enorme nos corações de todos aqueles que ficaram eternamente registados naquela fotografia.

Fim
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