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EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA

Português

LICENCIATURA EM

Espanhol

LITERATURA PORTUGUESA 2

PONTA GROSSA - PARANÁ

2011

Jefferson Luiz Franco Rosana Apolonia Harmuch Silvana Oliveira

CRÉDITOS

João Carlos Gomes Reitor

Carlos Luciano Sant’ana Vargas Vice-Reitor

Pró-Reitoria de Assuntos Administrativos Ariangelo Hauer Dias – Pró-Reitor

Pró-Reitoria de Graduação Graciete Tozetto Góes – Pró-Reitor

Divisão de Educação a Distância e de Programas Especiais Maria Etelvina Madalozzo Ramos – Chefe

Núcleo de Tecnologia e Educação Aberta e a Distância Leide Mara Schmidt – Coordenadora Geral Cleide Aparecida Faria Rodrigues – Coordenadora Pedagógica

Sistema Universidade Aberta do Brasil Hermínia Regina Bugeste Marinho – Coordenadora Geral Cleide Aparecida Faria Rodrigues – Coordenadora Adjunta Silvana Oliveira – Coordenadora de Curso Marly Catarina Soares – Coordenadora de Tutoria

Colaborador Financeiro Luiz Antonio Martins Wosiack

Colaboradora de Planejamento Silviane Buss Tupich

Projeto Gráfico Anselmo Rodrigues de Andrade Junior

Colaboradores em EAD Dênia Falcão de Bittencourt Jucimara Roesler

Colaboradores em Informática Carlos Alberto Volpi Carmen Silvia Simão Carneiro Adilson de Oliveira Pimenta Júnior

Colaboradores de Publicação Márcia Monteiro Zan – Revisão Gideão Silveira Cravo – Revisão Natália Moreira Eloy – Diagramação

Colaboradores Operacionais Carlos Alex Cavalcante Edson Luis Marchinski Thiago Barboza Taques

Todos os direitos reservados ao Ministério da Educação Sistema Universidade Aberta do Brasil

Ficha catalográfica elaborada pelo Setor de Tratamento da Informação BICEN/UEPG. Fanco, Jefferson Luiz F825l F825l
Ficha catalográfica elaborada pelo Setor de Tratamento da Informação BICEN/UEPG.
Fanco, Jefferson Luiz
F825l
F825l
Literatura Portuguesa 2 / Jefferson Luiz Franco, Rosana Apolônia
Literatura Portuguesa 2 / Jefferson Luiz Franco, Rosana Apolônia
Harmuch, Silvana Oliveira. Ponta Grossa : UEPPG/NUTEAD, 2011.
Harmuch, Silvana Oliveira. Ponta Grossa : UEPPG/NUTEAD, 2011.
120 p. : il
Licenciatura em Português / Espanhol - Educação a distância.
1. Literatura portuguesa - poesia. I. Harmuch, Rosana Apolônia. II.
Oliveira, Silvana. III.T
CDD : P469.1

UNIVERSIDADE ESTADUAL DE PONTA GROSSA Núcleo de Tecnologia e Educação Aberta e a Distância - NUTEAD Av. Gal. Carlos Cavalcanti, 4748 - CEP 84030-900 - Ponta Grossa - PR Tel.: (42) 3220-3163 www.nutead.org

2011

APRESENTAÇÃO INSTITUCIONAL

A Universidade Estadual de Ponta Grossa é uma instituição de ensino superior estadual, democrática, pública e gratuita, que tem por missão responder aos desafios contemporâneos, articulando o global com o local, a qualidade científica e tecnológica com a qualidade social e cumprindo, assim, o seu compromisso com a produção e difusão do conhecimento, com a educação dos cidadãos e com o progresso da coletividade. No contexto do ensino superior brasileiro, a UEPG se destaca tanto nas atividades de ensino, como na pesquisa e na extensão Seus cursos de graduação presenciais primam pela qualidade, como comprovam os resultados do ENADE, exame nacional que avalia o desempenho dos acadêmicos e a situa entre as melhores instituições do país. A trajetória de sucesso, iniciada há mais de 40 anos, permitiu que a UEPG se aventurasse também na educação a distância, modalidade implantada na instituição no ano de 2000 e que, crescendo rapidamente, vem conquistando uma posição de destaque no cenário nacional. Atualmente, a UEPG é parceira do MEC/CAPES/FNED na execução do programas Pró-Licenciatura e do Sistema Universidade Aberta do Brasil e atua em 38 polos de apoio presencial, ofertando, diversos cursos de graduação, extensão e pós-graduação a distância nos estados do Paraná, Santa Cantarina e São Paulo. Desse modo, a UEPG se coloca numa posição de vanguarda, assumindo uma proposta educacional democratizante e qualitativamente diferenciada e se afirmando definitivamente no domínio e disseminação das tecnologias da informação e da comunicação. Os nossos cursos e programas a distância apresentam a mesma carga horária e o mesmo currículo dos cursos presenciais, mas se utilizam de metodologias, mídias e materiais próprios da EaD que, além de serem mais flexíveis e facilitarem o aprendizado, permitem constante interação entre alunos, tutores, professores e coordenação. Esperamos que você aproveite todos os recursos que oferecemos para promover a sua aprendizagem e que tenha muito sucesso no curso que está realizando.

A Coordenação

SUMÁRIO

SUMÁRIO

PALAVRAS DOS PROFESSORES

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OBJETIVOS E EMENTA

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A ÉPICA CAMONIANA

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SEÇÃO 1 - Camões e Os lusíadas

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SEÇÃO 2 - Episódios analisados

21

CESÁRIO VERDE

67

SEÇÃO 1 - A modernidade dum ocidental

68

SEÇÃO 2 - As mulheres no poema ‘O sentimento dum Ocidental’

80

FERNANDO PESSOA, OS HETERÔNIMOS E MENSAGEM 87

SEÇÃO 1 - Os heterônimos e Alberto Caeiro, o mestre

89

SEÇÃO 2 - Os heterônimos: Álvaro de Campos e Ricardo Reis

97

SEÇÃO 3 - Mensagem, de Fernando Pessoa

107

PALAVRAS FINAIS

114

REFERÊNCIAS

116

NOTA SOBRE OS AUTORES

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PALAVRAS DOS PROFESSORES

PALAVRAS DOS PROFESSORES

Bem-vindo ao estudo da Literatura Portuguesa II! Aqui você encontrará três grandes representantes da poesia portuguesa:

Luiz Vaz de Camões, Cesário Verde e Fernando Pessoa, dos quais você certamente já possui muitas informações, por conta da importância deles no conjunto de toda a produção poética em Portugal. Naturalmente há muitos e muitos outros excelentes representantes da poesia em terras lusitanas e esperamos que você, embalado(a) por estes, procure ler e estudar muitos outros. Para melhor aproveitamento da disciplina, recomendamos que você adquira um volume de Os lusíadas, para acompanhar o estudo de alguns episódios desse poema épico que, como foi escrito no século XVI, se utiliza de alguns vocábulos pouco comuns na contemporaneidade. Do mesmo modo, as referências a fatos históricos e à mitologia não devem ser vistas como escolhos na sua leitura, pelo contrário, esperamos que você se sinta motivado(a) a, de fato, aproveitar esse momento tão importante na sua formação profissional. Para facilitar um pouco, na plataforma você encontrará um glossário com algumas informações mais específicas a respeito do poema camoniano. Em relação a Cesário Verde, como centramos o estudo em um poema, não é necessária a compra do livro , embora você possa fazê-lo (até para ampliar sua biblioteca pessoal) ou baixá-lo do site www.dominiopublico.gov.br. O mesmo vale para Os lusíadas. É importante ainda que você adquira também um exemplar do livro Mensagem, de Fernando Pessoa, tema da última unidade da disciplina. Boas leituras e um ótimo aproveitamento das orientações que preparamos aqui para você.

OBJETIVOS E EMENTA

OBJETIVOS E EMENTA

ObjetivOs

Apresentar alguns textos significativos da poesia portuguesa, estabelecendo

relações entre os mesmos e oferecendo ferramentas para uma análise crítica

desse conjunto.

Ler e analisar textos dos autores selecionados, reconhecendo as características

definidoras dessa produção.

ementa

Estudo da obra dos autores portugueses Luiz Vaz de Camões, Cesário Verde e

Fernando Pessoa.

A épica camoniana

Jefferson Luiz Franco Rosana Apolonia Harmuch Silvana Oliveira

ObjetivOs De aPRenDiZaGem

Refletir sobre as condições de produção, circulação e recepção da obra Os

lusíadas.

produção, circulação e recepção da obra Os lusíadas. ■ Estabelecer e discutir as relações dos textos
produção, circulação e recepção da obra Os lusíadas. ■ Estabelecer e discutir as relações dos textos
produção, circulação e recepção da obra Os lusíadas. ■ Estabelecer e discutir as relações dos textos
produção, circulação e recepção da obra Os lusíadas. ■ Estabelecer e discutir as relações dos textos
produção, circulação e recepção da obra Os lusíadas. ■ Estabelecer e discutir as relações dos textos
produção, circulação e recepção da obra Os lusíadas. ■ Estabelecer e discutir as relações dos textos
produção, circulação e recepção da obra Os lusíadas. ■ Estabelecer e discutir as relações dos textos
produção, circulação e recepção da obra Os lusíadas. ■ Estabelecer e discutir as relações dos textos

Estabelecer e discutir as relações dos textos selecionados para este livro

com outros tipos de discurso e com os contextos que os inserem.

Relacionar os textos literários a serem lidos com os problemas e concepções

dominantes na cultura do período em que foram escritos e com os problemas

e concepções do presente.

ROteiRO De estUDOs

SEÇÃO 1 - Camões e Os lusíadas

SEÇÃO 2 - Episódios Analisados

Universidade Aberta do Brasil

SEÇÃO 1

CAMÕES E OS LUSÍADAS

Aberta do Brasil SEÇÃO 1 CAMÕES E OS LUSÍADAS Luiz de Camões Créditos: George J Hagar
Aberta do Brasil SEÇÃO 1 CAMÕES E OS LUSÍADAS Luiz de Camões Créditos: George J Hagar

Luiz de Camões Créditos: George J Hagar (1847-1921) Dominio Público, via Wikimedia Commons

1. Camões e Os lusíadas A partir deste momento, você tem a oportunidade de realizar um contato direto com um dos textos mais importantes não apenas da Literatura Portuguesa, mas dos constituídos em Língua Portuguesa. Os lusíadas faz parte do que podemos chamar de patrimônio coletivo, ou seja, ocupa um lugar de destaque no conjunto de riquezas, como diz Umberto Eco, imateriais que os seres humanos vão produzindo ao longo da sua existência. Você, com certeza, já ouviu falar bastante sobre essa tão importante obra da literatura em Língua Portuguesa. E, claro, já sabe que essa importância atravessou, inclusive, as fronteiras do idioma. A partir deste momento do seu curso de Letras, você tem, portanto, a maravilhosa oportunidade de se debruçar sobre ela e, sem abrir mão do prazer da leitura, refletir profissionalmente sobre os aspectos que tornam essa epopeia tão significativamente parte do que somos todos, inclusive nós brasileiros do século XXI, aparentemente tão distantes não apenas da época da produção do texto (a publicação data de 1578), como também do período ali figurado (a descoberta do caminho marítimo para a Índia). Se você consultar o Dicionário de termos literários, do professor Massaud Moisés, encontrará a seguinte definição para a poesia épica:

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Literatura Portuguesa 2

“deve girar em torno de assunto ilustre, sublime, solene, especialmente vinculado a cometimentos bélicos; deve prender-se a acontecimentos históricos, ocorridos há muito tempo, para que

o lendário se forme e/ou permita que o poeta

lhes acrescente com liberdade o produto da sua fantasia; o protagonista da ação há de ser um

herói de superior força física e psíquica, embora de constituição simples, instintivo, natural; o amor pode inserir-se na trama heroica, mas em

forma de episódios isolados. (

da estrutura, o poema épico se desdobraria em

três partes autônomas: a proposição, a invocação

e a narração. A narração deve obedecer a uma

) Do ponto de vista

sequência lógica; entretanto, à ordem cronológica seria preferível a artificial, que surpreende a ação em meio (in medias res).” (2004, p. 184)

Feita a leitura da obra, é possível pensar se esses preceitos foram ou não seguidos por Camões. Mas é claro que você precisa, para efetivar esse exercício de modo adequado, lembrar que ir ao dicionário e fazer essa verificação só é possível porque estamos tratando de uma obra produzida quando os modelos clássicos estavam vigentes. Para uma revisão sobre os modos como a crítica literária aborda os textos, reveja seus estudos de Teoria Literária. Também é importante que você retome as considerações feitas no livro anterior de Literatura Portuguesa quando as reflexões sobre o fazer literário estavam, muito frequentemente, inseridas no corpo do texto ficcional, no que os estudos de Teoria Literária convencionaram chamar de ‘ironia romântica’ (as muitas digressões presentes em Viagens na minha terra, assim como a caricatura do poeta romântico, efetivada no personagem Tomás de Alencar, de Os Maias e, finalmente, o permanente refletir de Alberto Soares, sobre o livro de memórias que compunha, em Aparição foram os exemplos mais detidamente estudados para demonstrar como a crítica literária, a partir do final do século XVIII, passou a ser exercida, em grande medida, pelos próprios autores). Assim, você terá condições de compreender que, no mundo em que Camões viveu, escrever bons textos significava, como ficou claro na definição apresentada acima, pelo professor Massaud Moisés, obedecer a uma série de regras, visto que a beleza estava na simetria, na harmonia entre as partes. E que mundo é esse em que Camões viveu, para entendermos os padrões de beleza lá vigentes. O século XVI, em termos de narrativa,

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Universidade Aberta do Brasil

retomou as epopeias do chamado mundo antigo, quando, mais ou menos entre o século XII e o VIII antes de Cristo, ouvir trechos da Ilíada ou da Odisseia era algo tão corriqueiro quanto é para nós acessarmos a internet ou irmos ao cinema e assistirmos a filmes ou documentários sobre determinada época passada. Da mesma forma que reconhecemos um modo de fazer filmes de ficção no nosso mundo (reconhecemos imediatamente um estilo próprio do contemporâneo, diferentemente do que percebemos ao ver cinema mudo, por exemplo), os cidadãos

do mundo antigo reconheciam no verso um modo muito específico de registrar os feitos de seus antepassados (como você bem sabe, Os lusíadas, recuperando essa forma de registro, foi produzido em versos). Tanto a Ilíada quanto a Odisseia são considerados poemas épicos naturais ou primitivos, já que foram produzidos espontaneamente e de forma anônima. Eram cantos populares que começaram a circular pouco tempo depois da guerra entre gregos e troianos, na tentativa de expressar

o pensamento de grupos para os quais a noção de Estado ainda não

estava definida. Por volta do século VIII, os fragmentos dessas narrativas de guerra teriam sido unificados por um suposto aedo ou cantor popular

a que a tradição deu o nome de Homero.

ou cantor popular a que a tradição deu o nome de Homero. O poeta grego Homero,

O poeta grego Homero, ladeado por Dante (à esquerda) e pelo romano Virgílio, em afresco do pintor Rafael, no Palácio do Vaticano Crédito: Wikkimedia Commons

Essas epopeias tiveram uma enorme influência na cultura romana, sobretudo na época do nascimento de Cristo, quando se funda o Império como forma de organização política em Roma, tanto que, preocupado em legitimar os valores de Roma pela arte, o imperador Otávio Augusto encomendou ao poeta Virgílio (um dos três maiores poetas romanos da

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Literatura Portuguesa 2

época, juntamente com Horácio e Ovídio, todos dependentes da proteção de Mecenas ou do próprio imperador) um poema épico que fosse semelhante aos homéricos. E assim foi produzida a Eneida, narrativa das aventuras de Eneias, herói troiano que, depois de ter sua cidade

destruída pelos gregos, foi obrigado a buscar um lugar seguro para si e seus seguidores. É desse modo que ele chega ao Lácio, de onde partirão

os fundamentos para a posterior grandeza de Roma. Se os textos homéricos são, como se disse, espontâneos, os da

Eneida são feitos sob encomenda com claros objetivos políticos e possuem, portanto, um autor a quem coube colocar em ordem, ainda que artística, a história e os mitos daquele povo. De forma similar, quando Camões produz Os lusíadas há um interesse em registrar as origens de Portugal até a expansão mercantilista vivida durante o Renascimento, com destaque para a descoberta do caminho marítimo para as Índias, ocorrida entre 1497 e 1499, sob o comando de Vasco da Gama. Naturalmente Camões não foi o único escritor interessado em louvar as honras de Portugal. O italiano Angelo Poliziano se ofereceu

a D. João II (responsável pela descoberta do Cabo das Tormentas,

levada a efeito por Bartolomeu Dias, em 1478) para compor em latim um poema que narrasse a história de Portugal. No Cancioneiro Geral, de

Garcia de Resende, de 1516, também há referências nesse sentido. Mas

o interesse não era apenas dos poetas, pois também alguns historiadores

propriamente ditos se manifestaram, como foi o caso de João de Barros (1497-1562), que pretendeu compor uma espécie de enciclopédia a partir dos feitos dos portugueses na Europa, na África, na Ásia e na América. Não há precisão a respeito do nascimento de Camões, que deve

ter ocorrido em 1525. O mesmo é possível dizer sobre a sua formação:

não há registros oficiais, mas é muito provável que ele tenha frequentado

a Universidade de Coimbra. O que se sabe com certeza é que foi um

homem que desde muito jovem acumulou uma imensa erudição, que incluía conhecimentos de literatura, mitologia, história, geografia e astronomia. Era também, como atesta tanto a sua produção lírica (não contemplada diretamente nesta disciplina) quanto Os lusíadas, um profundo conhecedor dos sentimentos humanos. Camões permaneceu como poeta palaciano por algum tempo na corte de D. Manuel e depois partiu para o Oriente. Lá ficou por quase

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Universidade Aberta do Brasil

vinte anos, inclusive boa parte de Os lusíadas foi escrita em Goa. Em 1570, o poeta volta em definitivo para Portugal onde, patrocinado pelo rei D. Sebastião (1554-1578), publica em 1572 o poema épico Os lusíadas.

(1554-1578), publica em 1572 o poema épico Os lusíadas. A cidade indiana de Goa, que já

A cidade indiana de Goa, que já foi parte dos territórios portugueses na Índia Crédito: Wikkimedia Commons

Apesar de o poema ter muito claramente um ideário político- ideológico, ou seja, evidenciar a concepção de que Portugal tinha uma missão civilizadora que incluía impor sua religião e sua doutrina política, é preciso que não se perca de vista o fato de que ele alcança uma extraordinária elevação artística. Se o ponto de partida é a viagem de Vasco da Gama à Índia, eventos anteriores a ela serão narrados (como por exemplo o famoso episódio conhecido como o Velho do Restelo); assim como os que se darão durante o deslocamento (aqui o mais conhecido

é o do Gigante Adamastor) e, naturalmente, os que organizam a volta

para Portugal (o episódio da Ilha dos Amores, em que Camões descreve

a máquina do Mundo, é o mais representativo desse momento). Muitos

desses eventos, como se pode perceber, são revestidos de fantasia, de referências à mitologia, de um modo de narrar que autoriza que se referende o lugar ocupado por esse texto no conjunto de produções excepcionais no universo literário. Mais que a história de Portugal, Os lusíadas registra o humano que há em todos nós, mesmo quando se trata, como é aqui o caso, de cidadãos do século XXI. Como é comum em todas as obras literárias que sobrevivem ao tempo, o que temos é a representação das grandezas e das fragilidades de homens incumbidos de encontrar um sentido para a sua existência, daí a busca pelo desconhecido e, claro, por conhecer os próprios limites. Pensando numa comparação um tanto temerária, desvendar e dominar o

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Literatura Portuguesa 2

mar, nos séculos XV e XVI, equivale, guardadas as devidas proporções, às tentativas contemporâneas de conquista espacial; equivale, portanto,

à representação do homem na tentativa de vencer a si mesmo e suas

limitações. Referências ao mar e seus perigos, lendas pagãs, celebração do sexo,

o exotismo do mundo oriental, recriação de lendas do passado português,

intrigas e amores entre os deuses, tudo se funde na narração do feito de Vasco da Gama. Valorização da força física e da arte da guerra também são temas recorrentes, por isso é importante compreender, sob pena de julgar Camões com os olhos contemporâneos, que não é a violência que é ali colocada em lugar de destaque, mas sim as normas do gênero épico, ou seja, as qualidades guerreiras do povo escolhido como tema precisam ser destacadas. Além dessa questão de gênero literário, também é preciso lembrar que o mundo em que Os lusíadas foi composto vivia a expansão do Cristianismo, o que se confundiu, muitas vezes, com o ideal de guerra santa. Para o leitor do mundo contemporâneo, em geral, os episódios considerados líricos (tanto aqueles em que as agruras do amor são trazidas para o centro, quanto aqueles em que as incertezas humanas ocupam esse lugar) de Os lusíadas agradam mais, visto que os movimentos em prol da expansão de território e de crença são hoje interpretados com alguma ressalva. É o caso, por exemplo, dos episódios de Inês de Castro, do Velho do Restelo, do Gigante Adamastor e da Ilha dos Amores, que veremos mais adiante.

1.1 ESTRUTURA Os lusíadas impressiona por variados motivos, um deles, a estrutura, que pode ser resumida em números: o poema é dividido em 10 cantos, distribuídos em 1102 estrofes, todas de oito versos (oitavas) decassílabos. São, portanto, 8816 versos, rigidamente metrificados e rimados (o esquema de todas elas é ABABABCC). Os ideais clássicos de simetria e harmonia foram, como se vê, levados muito a sério por Camões. Essa rigidez se revela também em outros aspectos: a Ilíada, a Odisseia, assim como a Eneida se iniciam com uma proposição e uma invocação, ou seja, começam com a apresentação dos propósitos, dos objetivos, o anúncio propriamente dito do assunto a ser ali tratado, seguido de um pedido, quase uma oração, às musas, para que garantissem a inspiração necessária

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Universidade Aberta do Brasil

para levar a efeito o que havia sido apresentado. Em Os lusíadas não é

diferente. Acompanhe as três primeiras estrofes do poema:

As armas e os barões assinalados, Que da ocidental praia Lusitana, Por mares nunca de antes navegados, Passaram ainda além da Taprobana, Em perigos e guerras esforçados,

Mais do que prometia a força humana,

E entre gente remota edificaram

Novo Reino, que tanto sublimaram;

E também as memórias gloriosas

Daqueles Reis, que foram dilatando

A Fé, o Império, e as terras viciosas

De África e de Ásia andaram devastando;

E aqueles, que por obras valerosas

Se vão da lei da morte libertando; Cantando espalharei por toda parte, Se a tanto me ajudar o engenho e arte.

Cessem do sábio Grego e do Troiano As navegações grandes que fizeram; Cale-se de Alexandro e de Trajano

A fama das vitórias que tiveram;

Que eu canto o peito ilustre Lusitano,

A quem Neptuno e Marte obedeceram:

Cesse tudo o que a Musa antígua canta, Que outro valor mais alto se alevanta.

Como você pode perceber, nas duas primeiras estrofes temos um

único período, em que se enumera o que o verbo no futuro do presente

‘espalharei’ (penúltimo verso da segunda estrofe) afirma: divulgar, em

forma próxima da música (Cantando), as grandezas dos portugueses: os

nobres guerreiros, os reis expansionistas, assim como os heróis e reis que

se imortalizaram através de outras obras (E aqueles que por obras valerosas

/ Se vão da lei da morte libertando:). Na terceira estrofe, os escolhidos

são os navegantes portugueses, comparados aos maiores navegantes da

Antiguidade, para, como seria de se esperar, colocar os lusitanos acima de

todos os outros: repare na sequência de uso dos verbos ‘Cessem’, ‘cale-se’

e ‘Cesse’. Tudo, portanto, que se sabia ou que se havia louvado até então

pode ser minimizado, já que ‘outro valor mais alto se alevanta’.

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Literatura Portuguesa 2

Nas duas estrofes seguintes, as da Invocação, o que se faz é pedir

uma ajudinha nessa tão grande empreitada:

E vós, Tágides minhas, pois criado

Tendes em mim um novo engenho ardente, Se sempre em verso humilde celebrado

Foi de mim vosso rio alegremente, Dai-me agora um som alto e sublimado, Um estilo grandíloquo e corrente, Porque de vossas águas, Febo ordene Que não tenham inveja às de Hipoerene.

Dai-me uma fúria grande e sonorosa,

E não de agreste avena ou frauta ruda,

Mas de tuba canora e belicosa, Que o peito acende e a cor ao gesto muda; Dai-me igual canto aos feitos da famosa

Gente vossa, que a Marte tanto ajuda; Que se espalhe e se cante no universo, Se tão sublime preço cabe em verso.

O vocativo ‘Tágides minhas’ (referência às entidades portuguesas

que, à maneira das ninfas da mitologia, habitariam o Tejo) vem

acompanhado do pedido: ‘Dai-me agora um som alto e sublimado’; logo

na estrofe seguinte: ‘Dai-me uma fúria grande e sonorosa,’. O uso do

‘agora’ permite que percebamos que a voz enunciadora afirma já ter

recebido auxílio das Tágides inspiradoras, para outro tipo de texto (releia

o terceiro e o quarto versos), mas agora o assunto é outro, por isso as

referências a ‘estilo grandíloquo’, a ‘fúria grande e sonorosa’, ‘de tuba

canora e belicosa’. A Invocação se encerra com o desejo de que não

apenas se alcance o proposto, mas que o canto ‘se espalhe e se cante no

Universo’, o que não há dúvidas de que se efetivou.

A partir da sexta estrofe, tem início a dedicatória do poema , em que

o ‘eu’ que narra se dirige a Dom Sebastião, tecendo-lhe elogios e, mais

precisamente, tentando garantir o que de fato se deu: o apoio financeiro

para a publicação. Até a estrofe de número 18, temos a louvação de

Portugal, mas sobretudo do jovem rei que, à época, tinha 18 anos e era

obcecado pela ideia de conquistar grande parte do mundo, começando

pelo norte da África. Não deixe de acompanhar em seu volume de

Os lusíadas a forma como o texto colabora no engrandecimento, na

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Universidade Aberta do Brasil

idealização da nação portuguesa, incitando o rei a levar adiante o projeto de garantir a autonomia política do país e a difusão do Cristianismo entre povos considerados pagãos. Com a estrofe 19, Camões nos apresenta os navegantes já no meio da viagem, em pleno oceano Índico. A estrutura se dá, portanto, na forma que a teoria literária convencionou chamar de in medias res, expressão latina que significa, ao pé da letra, ‘no meio das coisas’. Só bem à frente, no Canto IV, no já mencionado episódio do Velho do Restelo, é que são narrados os eventos relativos ao momento da partida de Portugal, de modo que a narrativa começa pelo meio da viagem.

de modo que a narrativa começa pelo meio da viagem. Edição de “Os lusíadas” datada de

Edição de “Os lusíadas” datada de 1609. A primeira edição, de 1572, teve apenas 200 exemplares hoje raríssimos Crédito: Wikkimedia Commons

Num ritmo acelerado de surpresas e aventuras, somos apresentados ao assunto geral do poema, a viagem de Vasco da Gama, mas também à interferência dos deuses da mitologia greco-latina, assim como às lendas dos primeiros habitantes da Lusitânia, à formação do Estado português por Afonso Henriques, aos empreendimentos dos treze primeiros reis portugueses até chegar a D. Manuel (1469-1521), responsável por incumbir Vasco da Gama de desbravar os oceanos.

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UNIDADE 1
UNIDADE 1

1.

Dom Afonso Henriques (1106-1185) 2. D. Sancho I (1154-1211)

3.

D. Afonso II (1185-1223) 4. D. Sancho II (1209-1248) 5. D. Afonso

III (1211-1279) 6. D. Dinis (1279-1325) 7. D. Afonso IV (1291-1357)

8. D. Pedro I (1320-1367) 9. D. Fernando (1345-1383) 10. D. João I

(1356-1433) 11. D. Duarte (1391-1438) 12. D. Afonso V (1432-1481)

13. D. João II (1455-1495)

Literatura Portuguesa 2

Há, portanto, dois planos muito evidentes em Os lusíadas: um histórico e outro mítico, que se cruzam ao longo da viagem. Historicamente, Camões cria uma estratégia: coloca os navegantes fazendo uma parada em Melinde, na costa africana, onde são recebidos pelo rei, a quem Vasco da Gama narra, cronologicamente, a história de Portugal desde sua fundação até o momento em que está se dando a viagem. No plano mítico, destaca-se a figura de Vênus, deusa do amor, e a de Baco, deus do vinho. Em polos opostos, ela protege os portugueses, porque os acha semelhantes aos latinos, enquanto Baco tenta impedi-los de chegar à Índia, temendo perder seus súditos nas terras indianas. Como se sabe, a viagem será um sucesso, tanto que, na volta para casa, Vênus os premia com a visita à mítica Ilha dos Amores, em que os prazeres da carne serão acompanhados de um prêmio de caráter intelectual: o conhecimento da máquina do Mundo como se verá mais adiante.

SEÇÃO 2

EPISÓDIOS ANALISADOS

como se verá mais adiante. SEÇÃO 2 EPISÓDIOS ANALISADOS 2.1. INÊS DE CASTRO O leitor é

2.1. INÊS DE CASTRO O leitor é claramente uma das preocupações nesse episódio de evidente vinculação histórica narrado em Os lusíadas, visto que o poema toma o partido de Inês, estimulando a piedade em relação a essa personagem que se tornou parte da cultura portuguesa. A união real de Inês de Castro com o príncipe D. Pedro I (lembre-se de que o nosso D. Pedro I, o que proclamou a nossa independência, era, em Portugal, D. Pedro IV) não foi aceita pelo poder português (ela era espanhola), representado pelo rei D. Afonso IV e seus conselheiros, que determinaram que ela fosse executada. Acompanhe em seu volume, no Canto III, estrofes 98 a 135. O texto narra antecedentes históricos à tragédia de Inês: o reinado de D. Afonso IV foi marcado por duas grandes guerras, a primeira contra Castela (ver em especial a estrofe 99, Canto III) e a segunda que ficou conhecida como a Batalha de Salado (estrofes 107-117, Canto III). Essa batalha aconteceu no dia 28 de outubro de 1340, na cidade de Tarifa, na

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Universidade Aberta do Brasil

Andaluzia, às margens do rio Salado, contra as forças muçulmanas, ou

seja, mesmo estando Portugal e Castela em permanente conflito, nesse

caso, em nome de um bem comum (a manutenção do Cristianismo)

juntam-se e derrotam o inimigo. Confira nas estrofes 103-105, do Canto

III, o discurso da rainha de Castela, pedindo ajuda ao rei português,

momento de grande relevância, visto que Camões, uma vez mais, coloca

os portugueses em posição de superioridade.

Na economia narrativa, é logo após a vitória na Batalha de Salado,

momento em que o rei retorna a Portugal, feliz e satisfeito, que se dá o

“caso triste e Dino de memória / Que do sepulcro os homens desenterra, /

Aconteceu da mísera e mesquinha / Que despois de ser morta foi rainha.”

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UNIDADE 1
UNIDADE 1

(estrofe 118, Canto III).

OS FATOS REAIS DA TRAJETÓRIA DE INÊS: 1320: Em Coimbra, a 8 de abril, nasce
OS FATOS REAIS DA TRAJETÓRIA DE INÊS:
1320: Em Coimbra, a 8 de abril, nasce o príncipe D. Pedro,
filho de D. Afonso IV, rei de Portugal.
1340: D. Afonso IV participa na batalha do Salado ao lado
de Afonso XI de Castela, é a vitória decisiva da cristandade
sobre os mouros da Península Ibérica. Inês de Castro, dama
galega, vem para Portugal no séquito de D. Constança, noiva
castelhana de D. Pedro; paixão adúltera e fulminante de
Pedro por Inês.
1345: Nasce D. Fernando, filho de D. Constança e de D.
Pedro.
1349 ?: Morte de D. Constança.
1354: Influenciado pelos Castro (irmãos de Inês), D. Pedro
mostra-se disposto a intervir nas lutas dinásticas castelhanas.
1355: A 7 de janeiro, com o consentimento d’el-Rei D.
Afonso IV, nos paços de Santa Clara (Coimbra), Diogo Lopes
Pacheco, Pedro Coelho e Álvaro Gonçalves degolam Inês de
Castro; revolta de D. Pedro contra o pai.
1357: Morte de D. Afonso IV; D. Pedro sobe ao trono e manda
executar os assassinos de Inês de Castro.
1361: Do Mosteiro de Santa Clara (Coimbra) para o Mosteiro
de Alcobaça, D. Pedro I manda trasladar os restos mortais de
Inês de Castro.
1367: A 18 de janeiro morre D. Pedro I, em Estremoz.

Literatura Portuguesa 2

Literatura Portuguesa 2 Túmulos de Inês e de D. Pedro, no mosteiro de Alcobaça, em Portugal
Literatura Portuguesa 2 Túmulos de Inês e de D. Pedro, no mosteiro de Alcobaça, em Portugal

Túmulos de Inês e de D. Pedro, no mosteiro de Alcobaça, em Portugal Crédito: Wikkimedia Commons

A partir da estrofe 119, temos a escolha do modo como a história

real de Inês de Castro foi contada por Camões: o tratamento dado ao

ocorrido coloca em destaque as forças do amor, personificado, como

responsável pela tragédia dos amantes. Os eventos políticos que cercaram

o assassinato são escassamente explorados. Confira:

119

“Tu só, tu, puro Amor, com força crua,

Que os corações humanos tanto obriga, Deste causa à molesta morte sua, Como se fora pérfida inimiga. Se dizem, fero Amor, que a sede tua Nem com lágrimas tristes se mitiga,

É porque queres, áspero e tirano,

Tuas aras banhar em sangue humano.

120

“Estavas, linda Inês, posta em sossego,

De teus anos colhendo doce fruto, Naquele engano da alma, ledo e cego, Que a fortuna não deixa durar muito,

Nos saudosos campos do Mondego, De teus fermosos olhos nunca enxuto, Aos montes ensinando e às ervinhas

O nome que no peito escrito tinhas.

121

“Do teu Príncipe ali te respondiam As lembranças que na alma lhe moravam, Que sempre ante seus olhos te traziam, Quando dos teus fermosos se apartavam:

De noite em doces sonhos, que mentiam,

23

Universidade Aberta do Brasil

De dia em pensamentos, que voavam.

E quanto enfim cuidava, e quanto via,

Eram tudo memórias de alegria.

122

“De outras belas senhoras e Princesas Os desejados tálamos enjeita,

Que tudo enfim, tu, puro amor, despreza, Quando um gesto suave te sujeita. Vendo estas namoradas estranhezas

O

velho pai sesudo, que respeita

O

murmurar do povo, e a fantasia

Do filho, que casar-se não queria,

123

“Tirar Inês ao mundo determina, Por lhe tirar o filho que tem preso, Crendo co’o sangue só da morte indina Matar do firme amor o fogo aceso. Que furor consentiu que a espada fina, Que pôde sustentar o grande peso Do furor Mauro, fosse alevantada Contra uma fraca dama delicada?

124

“Traziam-na os horríficos algozes Ante o Rei, já movido a piedade:

Mas o povo, com falsas e ferozes Razões, à morte crua o persuade. Ela com tristes o piedosas vozes, Saídas só da mágoa, e saudade Do seu Príncipe, e filhos que deixava, Que mais que a própria morte a magoava,

125

“Para o Céu cristalino alevantando Com lágrimas os olhos piedosos,

Os olhos, porque as mãos lhe estava atando Um dos duros ministros rigorosos;

E depois nos meninos atentando,

Que tão queridos tinha, e tão mimosos, Cuja orfandade como mãe temia, Para o avô cruel assim dizia:

24

126

- “Se já nas brutas feras, cuja mente

Literatura Portuguesa 2

Natura fez cruel de nascimento,

E nas aves agrestes, que somente

Nas rapinas aéreas têm o intento,

Com pequenas crianças viu a gente Terem tão piedoso sentimento,

Como coa mãe de Nino já mostraram,

E colos irmãos que Roma edificaram;

127

- “Ó tu, que tens de humano o gesto e o peito (Se de humano é matar uma donzela Fraca e sem força, só por ter sujeito

O coração a quem soube vencê-la)

A estas criancinhas tem respeito,

Pois o não tens à morte escura dela; Mova-te a piedade sua e minha, Pois te não move a culpa que não tinha.

128

- “E se, vencendo a Maura resistência,

A morte sabes dar com fogo e ferro,

Sabe também dar vicia com clemência

A quem para perdê-la não fez erro.

Mas se to assim merece esta inocência, Põe-me em perpétuo e mísero desterro, Na Cítia f ria, ou lá na Líbia ardente, Onde em lágrimas viva eternamente.

129

“Põe-me onde se use toda a feridade, Entre leões e tigres, e verei Se neles achar posso a piedade Que entre peitos humanos não achei:

Ali com o amor intrínseco e vontade Naquele por quem morro, criarei Estas relíquias suas que aqui viste, Que refrigério sejam da mãe triste.” -

130

“Queria perdoar-lhe o Rei benino, Movido das palavras que o magoam; Mas o pertinaz povo, e seu destino (Que desta sorte o quis) lhe não perdoam. Arrancam das espadas de aço fino Os que por bom tal feito ali apregoam. Contra uma dama, ó peitos carniceiros,

25

Universidade Aberta do Brasil

Feros vos amostrais, e cavaleiros?

131

“Qual contra a linda moça Policena, Consolação extrema da mãe velha, Porque a sombra de Aquiles a condena, Co’o ferro o duro Pirro se aparelha; Mas ela os olhos com que o ar serena (Bem como paciente e mansa ovelha) Na mísera mãe postos, que endoudece, Ao duro sacrifício se oferece:

132

“Tais contra Inês os brutos matadores No colo de alabastro, que sustinha As obras com que Amor matou de amores Aquele que depois a fez Rainha; As espadas banhando, e as brancas flores, Que ela dos olhos seus regadas tinha, Se encarniçavam, férvidos e irosos, No futuro castigo não cuidosos.

133

“Bem puderas, ó Sol, da vista destes

Teus raios apartar aquele dia, Como da seva mesa de Tiestes,

Quando os filhos por mão de Atreu comia. Vós, ó côncavos vales, que pudestes

A

voz extrema ouvir da boca fria,

O

nome do seu Pedro, que lhe ouvistes,

Por muito grande espaço repetisses!

134

“Assim como a bonina, que cortada Antes do tempo foi, cândida e bela, Sendo das mãos lascivas maltratada Da menina que a trouxe na capela,

O cheiro traz perdido e a cor murchada:

Tal está morta a pálida donzela,

Secas do rosto as rosas, e perdida

A branca e viva cor, coa doce vida.

135

“As filhas do Mondego a morte escura Longo tempo chorando memoraram, E, por memória eterna, em fonte pura

26

Literatura Portuguesa 2

As lágrimas choradas transformaram;

O nome lhe puseram, que inda dura,

Dos amores de Inês que ali passaram. Vede que fresca fonte rega as flores, Que lágrimas são a água, e o nome amores.

136

“Não correu muito tempo que a vingança Não visse Pedro das mortais feridas,

Que, em tomando do Reino a governança,

A tomou dos fugidos homicidas.

Do outro Pedro cruíssimo os alcança,

Que ambos, imigos das humanas vidas,

O concerto fizeram, duro e injusto,

Que com Lépido e António fez Augusto.

137

“Este, castigador foi rigoroso De latrocínios, mortes e adultérios:

Fazer nos maus cruezas, fero e iroso, Eram os seus mais certos refrigérios. As cidades guardando justiçoso De todos os soberbos vitupérios, Mais ladrões castigando à morte deu, Que o vagabundo Aleides ou Teseu.

138

“Do justo e duro Pedro nasce o brando, (Vede da natureza o desconcerto!) Remisso, e sem cuidado algum, Fernando, Que todo o Reino pôs em muito aperto:

Que, vindo o Castelhano devastando As terras sem defesa, esteve perto De destruir-se o Reino totalmente; Que um fraco Rei f az fraca a forte gente.

Ao escolher personificar o Amor (grafado alegoricamente com

maiúscula), Camões coloca Inês no mesmo patamar de outras grandes

apaixonadas da humanidade, espalhadas pela literatura de diversos

países: Dido, Cleópatra, Julieta, Lindoia, Moema, Iracema, Lucíola,

Emma Bovary, Ana Karenina e muitas outras. Para tornar o episódio

ainda mais comovente, Camões lança mão de um expediente que confere

esse tom dramático ao texto (Aristóteles, que tanto valorizou o terror e

a piedade, certamente teria aprovado essa escolha): a partir da estrofe

27

Universidade Aberta do Brasil

126, a própria Inês assume a fala. Discursa em nome de sua inocência,

advogando em favor dos filhos que tivera com Pedro, netos, portanto, de D.

Afonso, diante do próprio rei, o que, se na realidade dos fatos não caberia

(o rei mandou matá-la, naturalmente não estava presente no momento da

execução), no texto literário funciona muito bem. Morre Inês, enaltecida

pelo amor e pela coragem de enfrentar de cabeça erguida a sentença real

(estrofes 131 e 132, Canto III).

Da estrofe 136 até a 138, do Canto III, temos a narrativa da sangrenta

vingança de Pedro que, após se tornar rei, mata os assassinos de Inês,

assim como do modo violento como passou a castigar os súditos que, no

entender dele, mereciam também a morte. Não foi à toa que D. Pedro

ganhou o epíteto de Pedro, o cru (cruel). O episódio termina (estrofe 138)

com a menção ao herdeiro do trono, D. Fernando “Que todo o reino pôs

/ Que um fraco rei faz fraca a forte gente”, e portanto

com a clara tomada de posição (algo equivalente ao que chamamos de

narrador intruso) da voz narrativa, que faz questão de sublinhar que

a tentativa de impedir que um dos filhos de Inês assumisse o trono

português revelou-se uma vitória de Pirro (rei de Épiro, atual Macedônia,

que em 280 a.C. derrotou os romanos em uma famosa batalha vencida

com alto custo em perdas humanas e financeiras. Desde então seu nome

é associado a vitórias potencialmente causadoras de prejuízos).

A lenda de que D. Pedro teria exumado o corpo de Inês e obrigado

um sacerdote a oficiar o casamento entre eles gerou o famoso ditado “Inês

é morta”, para se referir a situações em que qualquer providência que

possa ser tomada já não alterará o acontecido. Mas, você deve imaginar

o quanto essa história se tornou cara aos portugueses; a trágica história

dos amantes se tornou parte da cultura do povo lusitano e, naturalmente,

inspirou muitas outras obras. Confira algumas no box ao lado.

em muito aperto; (

)

A Castro ou Tragédia muy sentida e Elegante de Dona Inês de Castro, de António Ferreira é a primeira tragédia clássica portuguesa, tendo por base a vida e morte de Inês de Castro, publicada em 1587. Em 1997, foi publicado Inês de Portugal, um romance histórico de autoria do escritor português João Aguiar, inicialmente escrito como roteiro para o filme Inês de Portugal. Em 1803, em Milão, Niccolò António Zingarelli apresentou a ópera Inês de Castro, inspirada nos amores de Pedro e Inês.

28

UNIDADE 1
UNIDADE 1

Literatura Portuguesa 2

2.2. VELHO DO RESTELO – CANTO IV

Contrariando o espírito laudatório, característica maior do discurso

das epopeias, o episódio do Velho do Restelo (assim o Epílogo) nos

apresenta uma série de críticas ao governo português, em seu ideal

expansionista e consequente descuido com os problemas internos do

país. O expediente camoniano foi, aqui no Canto IV, recuar o tempo

do enunciado para o momento da partida: a praia do Restelo (local de

onde partiram os navegantes, no dia 8 de julho de 1497) é escolhida

para figurar as reações daqueles que ficavam em Portugal, sobretudo

mulheres, crianças e idosos, enquanto os homens saíam em busca de

riqueza e poder.

A ARMADA DE VASCO DA GAMA ERA COMPOSTA POR QUATRO NAUS: SÃO GABRIEL, DE VASCO
A ARMADA DE VASCO DA GAMA ERA COMPOSTA POR
QUATRO NAUS: SÃO GABRIEL, DE VASCO DA GAMA;
SÃO RAFAEL, DE PAULO DA GAMA E BÉRRIO, DE
NICOLAU COELHO; UMA QUARTA NAU TRANSPORTAVA
OS ALIMENTOS
NICOLAU COELHO; UMA QUARTA NAU TRANSPORTAVA OS ALIMENTOS Chegada de Vasco da Gama em Calicute, em

Chegada de Vasco da Gama em Calicute, em 1498 Crédito: Wikkimedia Commons

Não deixe de dar atenção ao fato de que aqui as vozes são (como no

caso de Inês) dadas aos que não são protagonistas da viagem.

A partida propriamente dita começa na estrofe 84 (confira em seu

exemplar), com a procissão solene e as despedidas. Na 94 é que se inicia

a fala desse que é um dos personagens mais ilustres de Os lusíadas:

29

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UNIDADE 1

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94

“Mas um velho d’aspeito venerando,

Que ficava nas praias, entre a gente, Postos em nós os olhos, meneando Três vezes a cabeça, descontente,

A voz pesada um pouco alevantando,

Que nós no mar ouvimos claramente, C’um saber só de experiências feito, Tais palavras tirou do experto peito:

95

- “Ó glória de mandar! Ó vã cobiça

Desta vaidade, a quem chamamos Fama!

Ó

C’uma aura popular, que honra se chama! Que castigo tamanho e que justiça Fazes no peito vão que muito te ama! Que mortes, que perigos, que tormentas, Que crueldades neles experimentas!

fraudulento gosto, que se atiça

96

- “Dura inquietação d’alma e da vida,

Fonte de desamparos e adultérios, Sagaz consumidora conhecida De fazendas, de reinos e de impérios:

Chamam-te ilustre, chamam-te subida, Sendo dina de infames vitupérios; Chamam-te Fama e Glória soberana, Nomes com quem se o povo néscio engana!

97

- “A que novos desastres determinas

De levar estes reinos e esta gente? Que perigos, que mortes lhe destinas Debaixo dalgum nome preminente? Que promessas de reinos, e de minas D’ouro, que lhe farás tão facilmente? Que famas lhe prometerás? que histórias? Que triunfos, que palmas, que vitórias?

98

- “Mas ó tu, geração daquele insano,

Cujo pecado e desobediência, Não somente do reino soberano Te pôs neste desterro e triste ausência, Mas inda doutro estado mais que humano Da quieta e da simples inocência, Idade d’ouro, tanto te privou, Que na de ferro e d’armas te deitou:

30

Literatura Portuguesa 2

99

- “Já que nesta gostosa vaidade

Tanto enlevas a leve fantasia, Já que à bruta crueza e feridade Puseste nome esforço e valentia,

Já que prezas em tanta quantidades

O desprezo da vida, que devia

De ser sempre estimada, pois que já Temeu tanto perdê-la quem a dá:

100

- “Não tens junto contigo o Ismaelita,

Com quem sempre terás guerras sobejas? Não segue ele do Arábio a lei maldita,

Se tu pela de Cristo só pelejas? Não tem cidades mil, terra infinita, Se terras e riqueza mais desejas? Não é ele por armas esforçado, Se queres por vitórias ser louvado?

101

- “Deixas criar às portas o inimigo,

Por ires buscar outro de tão longe, Por quem se despovoe o Reino antigo, Se enfraqueça e se vá deitando a longe? Buscas o incerto e incógnito perigo Por que a fama te exalte e te lisonge, Chamando-te senhor, com larga cópia, Da Índia, Pérsia, Arábia e de Etiópia?

102

- “Ó maldito o primeiro que no mundo

Nas ondas velas pôs em seco lenho, Dino da eterna pena do profundo, Se é justa a justa lei, que sigo e tenho! Nunca juízo algum alto e profundo, Nem cítara sonora, ou vivo engenho, Te dê por isso fama nem memória, Mas contigo se acabe o nome e glória.

103

- “Trouxe o filho de Jápeto do Céu

O fogo que ajuntou ao peito humano,

Fogo que o mundo em armas acendeu Em mortes, em desonras (grande engano).

Quanto melhor nos fora, Prometeu,

E quanto para o mundo menos dano,

Que a tua estátua ilustre não tivera Fogo de altos desejos, que a movera!

31

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104

- “Não cometera o moço miserando

O

carro alto do pai, nem o ar vazio

O

grande Arquiteto co’o filho, dando

Um, nome ao mar, e o outro, fama ao rio. Nenhum cometimento alto e nefando, Por fogo, ferro, água, calma e frio, Deixa intentado a humana geração. Mísera sorte, estranha condição!”

O discurso imponente e corrosivo não deixa dúvidas quanto ao

ponto de vista desse que representa, metonimicamente, a voz de muitos

dos descontentes. Ressalta-se a imprudência da viagem e os reais motivos

por trás da motivação religiosa: cobiça, glória, poder. Apresentado como

“de aspeito venerando” e “cum saber só de experiências feito” (estrofe

94), o Velho ganha então a imediata simpatia do leitor, que ‘ouve’

respeitosamente a sua fala que, entre outras associações, aproxima a

aventura portuguesa de toda a trajetória humana. Adão é, por exemplo,

utilizado como amostra das consequências da desobediência: “Mas, ó tu,

geração daquele insano / Cujo pecado e desobediência” (estrofe 98). Da

mesma forma, na estrofe 103, outro desobediente famoso é trazido à cena:

trata-se do mito de Prometeu, filho de Jápeto, era um dos Titãs revoltosos

contra o reinado de Júpiter. Depois de ter feito uma estátua de barro,

Prometeu roubou o fogo dos deuses para dar vida à sua criatura; seu

castigo foi ter o fígado permanentemente sendo comido pelos abutres e

reconstituído. O Velho do Restelo chega a desejar que Prometeu nunca

tivesse feito o que fez, assim o homem não teria sido tentado com o desejo

de criar.

Como estamos diante de um poema de moldes clássicos, o texto

nos autoriza a pensar no Velho do Restelo e nos demais personagens que

ficam à margem da viagem como uma representação do coro tradicional

grego, cuja função nas tragédias antigas era justamente a de promover

uma reflexão, através de comentários de caráter filosófico, moral, ético etc.

Assim, a fala do Velho do Restelo se dirige ao rei de Portugal à época, mas

também a mim e a você que lê este texto neste momento. A advertência é

ao humano de modo muito amplo.

Mas, do ponto de vista estrutural, não se pode esquecer que

todos os Cantos do poema se encerram de modo muito similar, trata-

se do epifonema, um procedimento retórico que se caracteriza por ser

32

Literatura Portuguesa 2

exclamativo e servir como uma espécie de arremate reflexivo. Confira

essa presença dos epifonemas relendo os finais dos Cantos do poema.

No romance Memorial do convento, do escritor português José Saramago (único de língua portuguesa a
No romance Memorial do convento, do escritor português
José Saramago (único de língua portuguesa a receber
um Nobel de Literatura e que faleceu recentemente),
encontramos a seguinte passagem: “E se para isso tiveram
tempo, quadrilheiros houve que se gozaram das mulheres dos
presos, que a tanto se sujeitaram as pobres para não perder
os seus maridos, porém desesperadas os viam depois partir,
enquanto os aproveitadores se riam delas (
).
Já vai andando
a récua dos homens de Arganil, acompanham-nos até fora da
vila as infelizes, que vão clamando, qual em cabelo, Ó doce e
amado esposo, e outra protestando, Ó filho, a quem eu tinha
só para refrigério e doce amparo desta cansada já velhice
minha, não se acabavam as lamentações (
),
e então uma
grande voz se levanta, é um labrego de tanta idade já que
o não quiseram, e grita subindo a um valado que é púlpito
dos rústicos, Ó glória de mandar, ó vã cobiça, ó rei infame,
ó pátria sem justiça, e tendo assim clamado, veio dar-lhe
um quadrilheiro uma cacetada na cabeça, que ali mesmo o
deixou por morto”. (SARAMAGO, 1999, p. 284). Como você
percebe, há aqui um claro exercício intertextual entre este
trecho e o episódio do Velho do Restelo.
entre este trecho e o episódio do Velho do Restelo. O escritor português José Saramago Crédito:

O escritor português José Saramago Crédito: Mario Antonio Pena / Wikkimedia Commons

2.3. GIGANTE ADAMASTOR

Outro episódio igualmente famoso, até popular é possível afirmar,

em Os lusíadas é o do surgimento, quando os navegantes estão muito

próximos do Cabo das Tormentas, local de grande perigo (hoje renomeado

para Cabo da Boa Esperança), de uma assustadora criatura de imensas

33

UNIDADE 1
UNIDADE 1

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proporções. Tudo começa nas estrofes 37 e 38, do Canto V, em que ocorre

o que podemos chamar de introito do episódio: em meio à calmaria, os

navegantes percebem algo de errado, julgam estar diante da formação

de uma terrível tempestade, quando são surpreendidos pelo gigante.

Tamanha é a surpresa e o medo que o próprio capitão, Vasco da Gama,

não hesita em demonstrar sua inquietação e pede ajuda divina (confira,

especialmente os quatro últimos versos da estrofe 38).

CANTO V

37

“Porém já cinco Sóis eram passados Que dali nos partíramos, cortando Os mares nunca doutrem navegados, Prósperamente os ventos assoprando, Quando uma noite estando descuidados, Na cortadora proa vigiando, Uma nuvem que os ares escurece Sobre nossas cabeças aparece.

38

“Tão temerosa vinha e carregada, Que pôs nos corações um grande medo; Bramindo o negro mar, de longe brada Como se desse em vão nalgum rochedo. - “Ó Potestade, disse, sublimada! Que ameaço divino, ou que segredo Este clima e este mar nos apresenta, Que mor cousa parece que tormenta?” -

39

“Não acabava, quando uma figura Se nos mostra no ar, robusta e válida, De disforme e grandíssima estatura,

O rosto carregado, a barba esquálida,

Os olhos encovados, e a postura

Medonha e má, e a cor terrena e pálida, Cheios de terra e crespos os cabelos,

A boca negra, os dentes amarelos.

40

“Tão grande era de membros, que bem posso Certificar-te, que este era o segundo De Rodes estranhíssimo Colosso, Que um dos sete milagres foi do mundo:

34

Literatura Portuguesa 2

Com um tom de voz nos fala horrendo e grosso, Que pareceu sair do mar profundo:

Arrepiam-se as carnes e o cabelo

A

mi e a todos, só de ouvi-lo e vê-lo.

41

“E disse: — “Ó gente ousada, mais que quantas No mundo cometeram grandes cousas, Tu, que por guerras cruas, tais e tantas,

E por trabalhos vãos nunca repousas,

Pois os vedados términos quebrantas,

E navegar meus longos mares ousas,

Que eu tanto tempo há já que guardo e tenho, Nunca arados d’estranho ou próprio lenho:

42

- “Pois vens ver os segredos escondidos

Da natureza e do úmido elemento,

A nenhum grande humano concedidos

De nobre ou de imortal merecimento, Ouve os danos de mim, que apercebidos Estão a teu sobejo atrevimento, Por todo o largo mar e pela terra, Que ainda hás de sojugar com dura guerra.

43

- “Sabe que quantas naus esta viagem

Que tu fazes, fizerem de atrevidas, Inimiga terão esta paragem Com ventos e tormentas desmedidas.

E da primeira armada que passagem

Fizer por estas ondas insofridas, Eu farei d’improviso tal castigo, Que seja mor o dano que o perigo.

44

- “Aqui espero tomar, se não me engano, De quem me descobriu, suma vingança.

E não se acabará só nisto o dano

Da vossa pertinace confiança; Antes em vossas naus vereis cada ano, Se é verdade o que meu juízo alcança, Naufrágios, perdições de toda sorte, Que o menor mal de todos seja a morte.

35

Universidade Aberta do Brasil

45

- “É do primeiro Ilustre, que a ventura Com fama alta fizer tocar os Céus,

Serei eterna e nova sepultura, Por juízos incógnitos de Deus. Aqui porá da Turca armada dura

Os soberbos e prósperos troféus; Comigo de seus danos o ameaça

A destruída Quíloa com Mombaça.

46

- “Outro também virá de honrada fama,

Liberal, cavaleiro, enamorado,

E consigo trará a formosa dama

Que Amor por grã mercê lhe terá dado.

Triste ventura e negro fado os chama Neste terreno meu, que duro e irado Os deixará dum cru naufrágio vivos Para verem trabalhos excessivos.

47

- “Verão morrer com fome os filhos caros,

Em tanto amor gerados e nascidos; Verão os Cafres ásperos e avaros

Tirar à linda dama seus vestidos; Os cristalinos membros e perclaros

A calma, ao frio, ao ar verão despidos,

Depois de ter pisada longamente Co’os delicados pés a areia ardente.

48

- “E verão mais os olhos que escaparem De tanto mal, de tanta desventura, Os dois amantes míseros ficarem Na férvida e implacável espessura. Ali, depois que as pedras abrandarem Com lágrimas de dor, de mágoa pura, Abraçados as almas soltarão Da formosa e misérrima prisão.” -

49

“Mais ia por diante o monstro horrendo Dizendo nossos fados, quando alçado

Lhe disse eu: — Quem és tu? que esse estupendo Corpo certo me tem maravilhado.-

A boca e os olhos negros retorcendo,

36

Literatura Portuguesa 2

E dando um espantoso e grande brado,

Me respondeu, com voz pesada e amara, Como quem da pergunta lhe pesara:

50

- “Eu sou aquele oculto e grande Cabo,

A quem chamais vós outros Tormentório,

Que nunca a Ptolomeu, Pompónio, Estrabo, Plínio, e quantos passaram, fui notório. Aqui toda a Africana costa acabo Neste meu nunca visto Promontório, Que para o Pólo Antarctico se estende,

A

quem vossa ousadia tanto ofende.

51

- “Fui dos filhos aspérrimos da Terra,

Qual Encélado, Egeu e o Centimano; Chamei-me Adamastor, e fui na guerra

Contra o que vibra os raios de Vulcano; Não que pusesse serra sobre serra, Mas conquistando as ondas do Oceano, Fui capitão do mar, por onde andava

A armada de Netuno, que eu buscava.

52

- “Amores da alta esposa de Peleu

Me fizeram tomar tamanha empresa. Todas as Deusas desprezei do céu, Só por amar das águas a princesa. Um dia a vi coas filhas de Nereu Sair nua na praia, e logo presa

A vontade senti de tal maneira

Que ainda não sinto coisa que mais queira.

53

- “Como fosse impossível alcançá-la Pela grandeza feia de meu gesto, Determinei por armas de tomá-la,

E a Doris este caso manifesto.

De medo a Deusa então por mim lhe fala; Mas ela, com um formoso riso honesto, Respondeu: — “Qual será o amor bastante De Ninfa que sustente o dum Gigante?

37

Universidade Aberta do Brasil

54

- “Contudo, por livrarmos o Oceano

De tanta guerra, eu buscarei maneira,

Com que, com minha honra, escuse o dano.” Tal resposta me torna a mensageira. Eu, que cair não pude neste engano, (Que é grande dos amantes a cegueira) Encheram-me com grandes abondanças

O

peito de desejos e esperanças.

55

- “Já néscio, já da guerra desistindo,

Uma noite de Dóris prometida, Me aparece de longe o gesto lindo Da branca Tétis única despida:

Como doido corri de longe, abrindo Os braços, para aquela que era vida

Deste corpo, e começo os olhos belos

A lhe beijar, as faces e os cabelos.

56

- “Ó que não sei de nojo como o conte!

Que, crendo ter nos braços quem amava, Abraçado me achei com um duro monte De áspero mato e de espessura brava. Estando com um penedo fronte a fronte, Que eu pelo rosto angélico apertava Não fiquei homem não, mas mudo e quedo, E junto dum penedo outro penedo.

57

- “Ó Ninfa, a mais formosa do Oceano,

Já que minha presença não te agrada, Que te custava ter-me neste engano,

Ou fosse monte, nuvem, sonho, ou nada? Daqui me parto irado, e quase insano Da mágoa e da desonra ali passada,

A buscar outro inundo, onde não visse

Quem de meu pranto e de meu mal se risse,

58

- “Eram já neste tempo meus irmãos

Vencidos e em miséria extrema postos;

E por mais segurar-se os Deuses vãos,

Alguns a vários montes sotopostos:

E como contra o Céu não valem mãos,

38

Literatura Portuguesa 2

Eu, que chorando andava meus desgostos, Comecei a sentir do fado inimigo Por meus atrevimentos o castigo.

59

- “Converte-se-me a carne em terra dura, Em penedos os ossos sefizeram, Estes membros que vês e esta figura Por estas longas águas se estenderam; Enfim, minha grandíssima estatura Neste remoto cabo converteram Os Deuses, e por mais dobradas mágoas, Me anda Tétis cercando destas águas.” -

60

“Assim contava, e com um medonho choro Súbito diante os olhos se apartou; Desfez-se a nuvem negra, e com um sonoro Bramido muito longe o mar soou. Eu, levantando as mãos ao santo coro Dos anjos, que tão longe nos guiou, A Deus pedi que removesse os duros Casos, que Adamastor contou futuros.

que removesse os duros Casos, que Adamastor contou futuros. A colossal estátua de bronze dedicada ao

A colossal estátua de bronze dedicada ao Sol que guardava a entrada do porto de Rodes foi erguida cerca de 300 anos antes de Cristo. Tinha aproximadamente 30 metros de altura e era considerada por gregos e romanos uma das sete maravilhas do mundo. As outras eram: a Pirâmide de Quéops (única construção da lista que resiste até hoje); os Jardins suspensos da Babilônia; a Estátua de Zeus em Olímpia; o Templo de Ártemis em Éfeso; o Mausoléu de Halicarnasso e o Farol de Alexandria Crédito: Wikkimedia Commons

39

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Como você percebeu, a partir da estrofe 39, até a 59, o episódio

centra-se em Adamastor. Temos, primeiramente, a descrição do gigante

(estrofes 39 e 40), cujo aspecto é de fato assustador (ele é comparado

ao Colosso de Rodes); a seguir, o próprio Adamastor fala (estrofes 41

a 59), apresentando profecias terríveis para o futuro dos navegantes

portugueses.

O gigante menciona, especificamente, três acidentes que aconteceram depois da viagem de Vasco da Gama (1497- 1499) e antes da publicação de Os lusíadas:

1. a morte de Bartolomeu Dias, em 1500. Ele descobrira, em

1487, o Cabo das Tormentas.

2. a morte de D. Francisco de Almeida, primeiro vice-rei da

Índia, ocorrida em uma guerra contra os africanos, no Cabo das Tormentas. 3. a morte de Manuel de Sousa de Sepúlveda, em um naufrágio, em 1552, e depois contando a triste história de amor que o transformou (ele era um dos Titãs) no gigante que se coloca diante dos lusitanos.

Não deixe dar bastante atenção à estrofe 49, em que o valente capitão

Vasco da Gama, num ímpeto de imensa coragem, interpela o gigante,

pedindo explicações a ele. Temos, então, na narração de Adamastor,

uma outra comovente e trágica história de amor, em mais um episódio

em que a épica (não nos esqueçamos de que o gigante é colocado por

Camões no exato lugar que representava o maior perigo, ou seja, vencer

o gigante equivale a vencer os percalços da natureza) e a lírica se unem.

Adamastor, um dos Titãs que se rebelou contra Júpiter (seus irmãos se

chamavam Encélado, Egeu e Centímano), encarregou-se de enfrentar o

Oceano, numa tentativa de se aproximar da ninfa Tétis, esposa de Peleu,

filha de Nereu e Dóris, por quem estava perdidamente apaixonado.

Usando a mãe da ninfa como intermediária, Adamastor ameaça guerrear

contra o Oceano, se não fosse correspondido. Enganado, ele comparece

a um suposto encontro com Tétis, mas, ao abraçá-la, percebe estar diante

de um rochedo, o que o metamorfoseia no Cabo das Tormentas. Traído

e infeliz, na estrofe de número 60, Adamastor parte, chorando, o que,

mais uma vez, nos coloca diante da grandeza e importância do poema:

Camões, que nos apresentara uma criatura da qual navegantes e leitores

só poderiam sentir medo, provoca, mais uma vez, terror e piedade.

40

UNIDADE 1
UNIDADE 1

Literatura Portuguesa 2

Da mesma forma que Inês de Castro, Adamastor é colocado como

mais uma vítima do Amor, o que, neste caso, permite uma aproximação

com a narrativa de A Bela e a Fera (embora aqui se possa pensar num

contraste também no próprio gigante, entre sua feiúra e sua suavidade).

E, como se percebe na leitura do episódio, há, no caso de Adamastor, um

fortíssimo componente erótico, seu desejo pelo corpo da ninfa o condena.

Em resumo, o episódio se utiliza de elementos muito antagônicos: de

um lado, a louvação do poder e da coragem dos portugueses, de outro, a

melancolia presente na narrativa amorosa; conquista de um lado, perda

do outro.

Adamastor continua muito presente na literatura: você verá, na Unidade III deste livro, a obra
Adamastor continua muito presente na literatura: você
verá, na Unidade III deste livro, a obra Mensagem (1934),
de Fernando Pessoa, na qual o autor recria essa mitológica
figura, através de um procedimento que podemos chamar de
paródico. Trata-se do poema ‘O Monstrengo’.
Mas, antes mesmo de Fernando Pessoa se apropriar da
comovente figura, o poeta brasileiro Olavo Bilac escreveu,
em 1898, um poemeto heroico intitulado Sagres, em
comemoração ao quarto centenário da descoberta do caminho
marítimo para as Índias, em que Adamastor é citado como
um vencido pela força conquistadora dos portugueses.
Ainda na literatura brasileira, temos na coletânea de contos
Primeiras estórias, de João Guimarães Rosa, publicada em
1962, um conto intitulado ‘Os irmãos Dagobé’, em que um dos
personagens principais é descrito como enorme e violento.
Trata-se de Damastor Dagobé, assassinado por Liojorge, um
indivíduo muito pacato. Os irmãos de Damastor, Doricão,
Dismundo e Derval, de quem se espera uma vingança
terrível, optam pelo contrário: não só não se vingam de
Liojorge, como o deixam ajudar a carregar o caixão de
Damastor. Aqui também, como se vê, a força descomunal é
vencida pela coragem.
Mais recentemente, na própria literatura portuguesa,
Adamastor fez mais uma aparição. Trata-se do já aqui
citado Memorial do convento, de José Saramago; confira:
“Uns dias antes dera-se em Mafra um milagre, que foi ter
vindo do mar uma grande tempestade de vento e deu com a
igreja de madeira em terra, mastros, tábuas, vigas, barrotes,
de confusão com os panos, foi como o sopro gigantesco de
Adamastor, se Adamastor soprou, quando lhe dobravam o
cabo dos seus e nossos trabalhos”. (SARAMAGO, 1999, p.
128).

41

UNIDADE 1
UNIDADE 1

Universidade Aberta do Brasil

2.4. ILHA DOS AMORES

Esse é, sem nenhuma dúvida, o episódio mais sensual de Os

lusíadas. Nele Camões exercita seu poder de sedução com a linguagem em

elevadíssimo grau: os portugueses, ao voltar para casa, recebem de Vênus,

sua permanente protetora, uma espécie de prêmio (um happy hour, diriam

os contemporâneos) depois dos numerosos esforços (lembremos que dos

148 homens que partiram, apenas 55 retornaram à terra natal; dos quatro

navios que iniciaram a viagem, somente um retornou): uma visita à mítica

Ilha dos Amores, habitada por belíssimas e seminuas ninfas. Mas, antes que

se pense que se trata unicamente de sexo, é preciso considerar que Vasco

e seus comandados receberão, da ninfa Tétis, a líder de todas as outras, o

maior de todos os prêmios: verão a máquina do Mundo. Além, portanto, do

alimento para o corpo, os escolhidos terão acesso, em forma de alegoria, ao

que podemos chamar, comparativamente, de a ‘face de deus’, pois verão as

engrenagens do universo em pleno funcionamento, verão o que a nenhum

outro homem foi concedido: o conhecimento máximo. Você percebe, portanto,

a importância de que se reveste esse episódio, mais que chegar à Índia, os

portugueses chegam ao nível mais elevado de compreensão do cosmos. Não

deixe de perceber que a Máquina descrita no poema obedece ao modelo

ptolomaico do universo (geocêntrico), pois, apesar de Galileu já ter afirmado

(e antes dele Copérnico), naquela época, que a Terra girava em torno do Sol

e não o contrário, essa posição ainda não era aceita com muito conforto.

Ptolomeu foi um astrônomo egípcio, embora cidadão romano. Viveu no século II d.C e desenvolveu a tese de que a Terra era o centro do universo. Galileu Galilei (1564-1642), italiano, afirmou o contrário: o sistema era solar, ou seja, a Terra é que gira ao redor do Sol. Ele chegou a ser preso e precisou, publicamente, desdizer suas afirmações para escapar a uma condenação à morte.

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para escapar a uma condenação à morte. 42 UNIDADE 1 Complexa representação dos movimentos dos corpos

Complexa representação dos movimentos dos corpos celestes segundo a organização geocêntrica do sistema solar imaginada por Ptolomeu Crédito: Wikkimedia Commons

Literatura Portuguesa 2

A importância do episódio também pode ser medida pelo espaço

que ocupa na epopeia, pois em torno de vinte por cento do texto todo é

destinado à Ilha dos Amores. O início se dá na estrofe 18, do Canto IX

e vai até o final desse Canto, na estrofe 95. Prossegue, no Canto X, da

estrofe 1 até a 143, quase no final do Canto, e de Os lusíadas são, como

se vê, quase dois Cantos inteiros. Naturalmente, a parte mais famosa e

comentada é a que corresponde às estrofes 54-83, ora mais, ora menos,

conforme a apreciação do leitor, onde se dá o ápice do erotismo, numa

verdadeira festa dos sentidos. Até a estrofe de número 63, os sentidos são

convocados a apreciar a beleza natural do lugar, a exuberante natureza

que se apresenta aos olhos dos marinheiros; da 64 em diante, o centro

passa a ser a beleza feminina e, consequentemente, o sexo. Não deixe de

aproveitar a oportunidade para refletir sobre um importante aspecto dos

estudos literários em geral: como diferenciar uma obra de arte de simples

pornografia ou discurso apelativo? Lembremo-nos de que sexo sempre foi

um tema constante na arte e, claro, também na literatura, o que torna a

nós, profissionais de Letras, de certa forma obrigados a pensar sobre essa

diferenciação.

Canto IX

66

Mas os fortes mancebos, que na praia Punham os pés, de terra cobiçosos, Que não há nenhum deles que não saia De acharem caça agreste desejosos, Não cuidam que, sem laço ou redes, caia Caça naqueles montes deleitosos, Tão suave, doméstica e benigna, Qual ferida lha tinha já Ericina.

67

Alguns, que em espingardas e nas bestas, Para ferir os cervos se fiavam, Pelos sombrios matos e florestas Determinadamente se lançavam:

Outros, nas sombras, que de as altas sestas Defendem a verdura, passeavam Ao longo da água que, suave e queda, Por alvas pedras corre à praia leda.

43

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68

Começam de enxergar subitamente Por entre verdes ramos várias cores, Cores de quem a vista julga e sente Que não eram das rosas ou das flores, Mas da lã fina e seda diferente, Que mais incita a força dos amores, De que se vestem as humanas rosas, Fazendo-se por arte mais formosas.

69

Dá Veloso espantado um grande grito:

“Senhores, caça estranha, disse, é esta! Se ainda dura o Gentio antigo rito, A Deusas é sagrada esta floresta. Mais descobrimos do que humano espírito Desejou nunca; e bem se manifesta Que são grandes as coisas e excelentes, Que o mundo encobre aos homens imprudentes.

70

“Sigamos estas Deusas, e vejamos Se fantásticas são, se verdadeiras.” Isto dito, velozes mais que gamos, Se lançam a correr pelas ribeiras. Fugindo as Ninfas vão por entre os ramos, Mas, mais industriosas que ligeiras, Pouco e pouco sorrindo e gritos dando, Se deixam ir dos galgos alcançando.

71

De uma os cabelos de ouro o vento leva Correndo, e de outra as fraldas delicadas; Acende-se o desejo, que se ceva Nas alvas carnes súbito mostradas; Uma de indústria cai, e já releva, Com mostras mais macias que indignadas, Que sobre ela, empecendo, também caia Quem a seguiu pela arenosa praia.

72

Outros, por outra parte, vão topar Com as Deusas despidas, que se lavam:

Elas começam súbito a gritar, Como que assalto tal não esperavam. Umas, fingindo menos estimar

44

Literatura Portuguesa 2

A vergonha que a força, se lançavam

Nuas por entre o mato, aos olhos dando

O

que às mãos cobiçosas vão negando.

73

Outra, como acudindo mais depressa

A vergonha da Deusa caçadora,

Esconde o corpo n’água; outra se apressa Por tomar os vestidos, que tem fora. Tal dos mancebos há, que se arremessa, Vestido assim e calçado (que, coa mora De se despir, há medo que ainda tarde)

A matar na água o fogo que nele arde.

74

Qual cão de caçador, sagaz e ardido, Usado a tomar na água a ave ferida, Vendo no rosto o férreo cano erguido Para a garcenha ou pata conhecida, Antes que soe o estouro, mal sofrido Salta n’água, e da presa não duvida, Nadando vai e latindo: assim o mancebo Remete à que não era irmã de Febo.

75

Leonardo, soldado bem disposto, Manhoso, cavaleiro e namorado,

A quem amor não dera um só desgosto,

Mas sempre fora dele maltratado,

E tinha já por firme pressuposto

Ser com amores mal afortunado, Porém não que perdesse a esperança De ainda poder seu fado ter mudança,

76

Quis aqui sua ventura, que corria Após Efire, exemplo de beleza,

Que mais caro que as outras dar queria

O que deu para dar-se a natureza.

Já cansado correndo lhe dizia:

“Ó formosura indigna de aspereza, Pois desta vida te concedo a palma, Espera um corpo de quem levas a alma.

77

“Todas de correr cansam, Ninfa pura,

45

Universidade Aberta do Brasil

Rendendo-se à vontade do inimigo, Tu só de mi só foges na espessura? Quem te disse que eu era o que te sigo? Se to tem dito já aquela ventura,

Que em toda a parte sempre anda comigo,

Ó não na creias, porque eu, quando a cria,

Mil vezes cada hora me mentia.

78

“Não canses, que me cansas: e se queres Fugir-me, por que não possa tocar-te, Minha ventura é tal que, ainda que esperes,

Ela fará que não possa alcançar-te. Espora; quero ver, se tu quiseres, Que subtil modo busca de escapar-te,

E notarás, no fim deste sucesso,

Tra la spica e la man, qual muro è messo.

79

“Ó não me fujas! Assim nunca o breve

Tempo fuja de tua formosura! Que, só com refrear o passo leve,

Vencerás da fortuna a força dura. Que Imperador, que exército se atreve

A quebrantar a fúria da ventura,

Que, em quanto desejei, me vai seguindo,

O

que tu só farás não me fugindo!

80

“Pões-te da parte da desdita minha? Fraqueza é dar ajuda ao mais potente. Levas-me um coração, que livre tinha? Solta-me, e correrás mais levemente. Não te carrega essa alma tão mesquinha, Que nesses fios de ouro reluzente Atada levas? Ou, depois de presa, Lhe mudaste a ventura, e menos pesa?

81

“Nesta esperança só te vou seguindo:

Que, ou tu não sofrerás o peso dela, Ou na virtude de teu gesto lindo Lhe mudarás a triste e dura estrela:

E se se lhe mudar, não vás fugindo,

Que Amor te ferirá, gentil donzela,

E tu me esperarás, se Amor te fere:

46

Literatura Portuguesa 2

E se me esperas, não há mais que espere.”

82

Já não fugia a bela Ninfa, tanto Por se dar cara ao triste que a seguia,

Como por ir ouvindo o doce canto, As namoradas mágoas que dizia. Volvendo o rosto já sereno e santo, Toda banhada em riso e alegria, Cair se deixa aos pés do vencedor, Que todo se desfaz em puro amor.

83

Ó

que famintos beijos na floresta,

E

que mimoso choro que soava!

Que afagos tão suaves, que ira honesta,

Que em risinhos alegres se tornava!

O que mais passam na manhã, e na sesta,

Que Vénus com prazeres inflamava, Melhor é experimentá-lo que julgá-lo, Mas julgue-o quem não pode experimentá-lo.

84

Desta arte enfim conformes já as formosas

Ninfas com os seus amados navegantes, Os ornam de capelas deleitosas De louro, e de ouro, e flores abundantes. As mãos alvas lhes davam como esposas; Com palavras formais e estipulantes Se prometem eterna companhia Em vida e morte, de honra e alegria.

85

Uma delas maior, a quem se humilha Todo o coro das Ninfas, e obedece,

Que dizem ser de Celo e Vesta filha,

O que no gesto belo se parece,

Enchendo a terra e o mar de maravilha,

O Capitão ilustre, que o merece,

Recebe ali com pompa honesta e régia, Mostrando-se senhora grande e egrégia.

86

Que, depois de lhe ter dito quem era, Com um alto exórdio, de alta graça ornado, Dando-lhe a entender que ali viera

47

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Por alta influição do imóvel fado, Para lhe descobrir da unida esfera Da terra imensa, e mar não navegado, Os segredos, por alta profecia,

O

que esta sua nação só merecia,

87

Tomando-o pela mão, o leva e guia Para o cume dum monte alto e divino, No qual uma rica fábrica se erguia

De cristal toda, e de ouro puro e fino.

A maior parte aqui passam do dia

Em doces jogos e em prazer contino:

Ela nos paços logra seus amores, As outras pelas sombras entre as flores.

88

Assim a formosa e a forte companhia

O dia quase todo estão passando,

Numa alma, doce, incógnita alegria, Os trabalhos tão longos compensando. Porque dos feitos grandes, da ousadia

Forte e famosa, o mundo está guardando

O prémio lá no fim, bem merecido,

Com fama grande e nome alto e subido.

89

Que as Ninfas do Oceano tão formosas, Tethys, e a ilha angélica pintada, Outra coisa não é que as deleitosas Honras que a vida fazem sublimada. Aquelas proeminências gloriosas, Os triunfos, a fronte coroada De palma e louro, a glória e maravilha:

Estes são os deleites desta ilha.

90

Que as imortalidades que fingia

A antiguidade, que os ilustres ama,

Lá no estelante Olimpo, a quem subia Sobre as asas ínclitas da Fama, Por obras valorosas que fazia, Pelo trabalho imenso que se chama Caminho da virtude alto e fragoso, Mas no fim doce, alegre e deleitoso:

48

Literatura Portuguesa 2

91

Não eram senão prémios que reparte Por feitos imortais e soberanos

O mundo com os varões, que esforço e arte

Divinos os fizeram, sendo humanos. Que Júpiter, Mercúrio, Febo e Marte, Eneias e Quirino, e os dois Tebanos, Ceres, Palas e Juno, com Diana, Todos foram de fraca carne humana.

92

Mas a Fama, trombeta de obras tais, Lhe deu no mundo nomes tão estranhos De Deuses, Semideuses imortais, Indígetes, Heroicos e de Magnos. Por isso, ó vós que as famas estimais, Se quiserdes no mundo ser tamanhos, Despertai já do sono do ócio ignavo, Que o ânimo de livre faz escravo.

93

E

ponde na cobiça um freio duro,

E

na ambição também, que indignamente

Tomais mil vezes, e no torpe e escuro Vício da tirania infame e urgente; Porque essas honras vãs, esse ouro puro Verdadeiro valor não dão à gente:

Melhor é, merecê-los sem os ter, Que possuí-los sem os merecer.

94

Ou dai na paz as leis iguais, constantes, Que aos grandes não deem o dos pequenos; Ou vos vesti nas armas rutilantes, Contra a lei dos inimigos Sarracenos:

Fareis os Reinos grandes e possantes,

E todos tereis mais, o nenhum menos;

Possuireis riquezas merecidas, Com as honras, que ilustram tanto as vidas.

95

E fareis claro o Rei, que tanto amais,

Agora com os conselhos bem cuidados, Agora com as espadas, que imortais Vos farão, como os vossos já passados; Impossibilidades não façais,

49

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Que quem quis sempre pôde; e numerados Sereis entre os Heróis esclarecidos,

E nesta Ilha de Vénus recebidos.

CANTO X

75

Despois que a corporal necessidade Se satisfez do mantimento nobre,

E na harmonia e doce suavidade

Viram os altos feitos que descobre, Tétis, de graça ornada e gravidade, Pera que com mais alta glória dobre As festas deste alegre e claro dia,

Pera o felice Gama assi dizia:

76

- “Faz-te mercê, barão, a Sapiência Suprema de, cos olhos corporais, Veres o que não pode a vã ciência Dos errados e míseros mortais. Sigue-me firme e forte, com prudência, Por este monte espesso, tu cos mais.” Assi lhe diz e o guia por um mato Árduo, difícil, duro a humano trato.

77

Não andam muito que no erguido cume Se acharam, onde um campo se esmaltava

De esmeraldas, rubis, tais que presume

A vista que divino chão pisava.

Aqui um globo vêm no ar, que o lume Claríssimo por ele penetrava, De modo que o seu centro está evidente, Como a sua superfícia, claramente.

78

Qual a matéria seja não se enxerga, Mas enxerga-se bem que está composto De vários orbes, que a Divina verga Compôs, e um centro a todos só tem posto. Volvendo, ora se abaxe, agora se erga, Nunca s’ergue ou se abaxa, e um mesmo rosto Por toda a parte tem; e em toda a parte Começa e acaba, enfim, por divina arte,

50

Literatura Portuguesa 2

79

Uniforme, perfeito, em si sustido, Qual, enfim, o Arquetipo que o criou. Vendo o Gama este globo, comovido De espanto e de desejo ali ficou. Diz-lhe a Deusa: — “O transunto, reduzido Em pequeno volume, aqui te dou Do Mundo aos olhos teus, pera que vejas Por onde vás e irás e o que desejas.

80

“Vês aqui a grande máquina do Mundo, Etérea e elemental, que fabricada Assi foi do Saber, alto e profundo, Que é sem princípio e meta limitada. Quem cerca em derredor este rotundo Globo e sua superfícia tão limada, É Deus: mas o que é Deus, ninguém o entende, Que a tanto o engenho humano não se estende.

81

“Este orbe que, primeiro, vai cercando Os outros mais pequenos que em si tem, Que está com luz tão clara radiando Que a vista cega e a mente vil também, Empíreo se nomeia, onde logrando Puras almas estão daquele Bem Tamanho, que ele só se entende e alcança, De quem não há no mundo semelhança.

82

“Aqui, só verdadeiros, gloriosos Divos estão, porque eu, Saturno e Jano, Júpiter, Juno, fomos fabulosos, Fingidos de mortal e cego engano. Só pera fazer versos deleitosos Servimos; e, se mais o trato humano Nos pode dar, é só que o nome nosso Nestas estrelas pôs o engenho vosso.

83

“E também, porque a santa Providência, Que em Júpiter aqui se representa, Por espíritos mil que têm prudência Governa o Mundo todo que sustenta (Ensina-lo a profética ciência,

51

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Em muitos dos exemplos que apresenta); Os que são bons, guiando, favorecem, Os maus, em quanto podem, nos empecem;

84

“Quer logo aqui a pintura que varia Agora deleitando, ora ensinando, Dar-lhe nomes que a antiga Poesia

A seus Deuses já dera, fabulando;

Que os Anjos de celeste companhia Deuses o sacro verso está chamando, Nem nega que esse nome preminente Também aos maus se dá, mas falsamente.

85

“Enfim que o Sumo Deus, que por segundas Causas obra no Mundo, tudo manda.

E tornando a contar-te das profundas

Obras da Mão Divina veneranda, Debaxo deste círculo onde as mundas Almas divinas gozam, que não anda, Outro corre, tão leve e tão ligeiro Que não se enxerga: é o Móbile primeiro.

86

“Com este rapto e grande movimento Vão todos os que dentro tem no seio;

Por obra deste, o Sol, andando a tento,

O dia e noite faz, com curso alheio.

Debaxo deste leve, anda outro lento, Tão lento e sojugado a duro freio, Que enquanto Febo, de luz nunca escasso, Duzentos cursos faz, dá ele um passo.

87

“Olha estoutro debaxo, que esmaltado De corpos lisos anda e radiantes, Que também nele tem curso ordenado

E nos seus axes correm cintilantes.

Bem vês como se veste e faz ornado Co largo Cinto d, ouro, que estelantes Animais doze traz afigurados, Apousentos de Febo limitados.

52

88

“Olha por outras partes a pintura

Literatura Portuguesa 2

Que as Estrelas fulgentes vão fazendo:

Olha a Carreta, atenta a Cinosura, Andrómeda e seu pai, e o Drago horrendo; Vê de Cassiopeia a fermosura

E do Orionte o gesto turbulento;

Olha o Cisne morrendo que suspira,

A Lebre e os Cães, a Nau e a doce Lira.

89

“Debaxo deste grande Firmamento, Vês o céu de Saturno, Deus antigo; Júpiter logo faz o movimento,

E

Marte abaxo, bélico inimigo;

O

claro Olho do céu, no quarto assento,

E

Vénus, que os amores traz consigo;

Mercúrio, de eloquência soberana; Com três rostos, debaxo vai Diana.

90

“Em todos estes orbes, diferente

Curso verás, nuns grave e noutros leve; Ora fogem do Centro longamente, Ora da Terra estão caminho breve, Bem como quis o Padre omnipotente, Que o fogo fez e o ar, o vento e neve, Os quais verás que jazem mais a dentro

E tem co Mar a Terra por seu centro.

91

“Neste centro, pousada dos humanos, Que não somente, ousados, se contentam De sofrerem da terra firme os danos, Mas inda o mar instábil exprimentam, Verás as várias partes, que os insanos Mares dividem, onde se apousentam Várias nações que mandam vários Reis, Vários costumes seus e várias leis.

92

“Vês Europa Cristã, mais alta e clara Que as outras em polícia e fortaleza. Vês África, dos bens do mundo avara, Inculta e toda cheia de bruteza; Co Cabo que até’aqui se vos negara, Que assentou pera o Austro a Natureza. Olha essa terra toda, que se habita

53

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Dessa gente sem Lei, quási infinita.

93

“Vê do Benomotapa o grande império, De selvática gente, negra e nua,

Onde Gonçalo morte e vitupério Padecerá, pola Fé santa sua.

Nace por este incógnito Hemispério

O metal por que mais a gente sua.

Vê que do lago donde se derrama

O

Nilo, também vindo está Cuama.

94

“Olha as casas dos negros, como estão Sem portas, confiados, em seus ninhos, Na justiça real e defensão

E na fidelidade dos vizinhos;

Olha deles a bruta multidão, Qual bando espesso e negro de estorninhos, Combaterá em Sofala a fortaleza, Que defenderá Nhaia com destreza.

95

“Olha lá as alagoas donde o Nilo Nace, que não souberam os antigos; Vê-lo rega, gerando o crocodilo, Os povos Abassis, de Crista amigos; Olha como sem muros (novo estilo) Se defendem milhor dos inimigos; Vê Méroe, que ilha foi de antiga fama, Que ora dos naturais Nobá se chama.

96

“Nesta remota terra um filho teu Nas armas contra os Turcos será claro; Há-de ser Dom Cristóvão o nome seu; Mas contra o fim fatal não há reparo. Vê cá a costa do mar, onde te deu Melinde hospício gasalhoso e caro;

O Rapto rio nota, que o romance

Da terra chama Obi; entra em Quilmance.

54

97

“O Cabo vê já Arómata chamado,

E agora Guardafú, dos moradores,

Onde começa a boca do afamado

Literatura Portuguesa 2

Mar Roxo, que do fundo toma as cores; Este como limite está lançado Que divide Asia de Africa; e as milhores Povoações que a parte Africa tem Maçuá são, Arquico e Suaquém.

98

“Vês o extremo Suez, que antigamente Dizem que foi dos Héroas a cidade (Outros dizem que Arsínoe), e ao presente Tem das frotas do Egipto a potestade. Olha as águas nas quais abriu patente

Estrada o grão Mousés na antiga idade. Ásia começa aqui, que se apresenta Em terras grande, em reinos opulenta.

99

“Olha o monte Sinai, que se ennobrece Co sepulcro de Santa Caterina; Olha Toro e Gidá, que lhe falece Água das fontes, doce e cristalina; Olha as portas do Estreito, que fenece No reino da seca Ádem, que confina Com a serra d’Arzira, pedra viva, Onde chuva dos céus se não deriva.

100

“Olha as Arábias três, que tanta terra Tomam, todas da gente vaga e baça, Donde vêm os cavalos pera a guerra, Ligeiros e feroces, de alta raça; Olha a costa que corrre, até que cera

Outro Estreito de Pérsia, e faz a traça

O Cabo que co nome se apelida

Da cidade Fartaque, ali sabida.

101

“Olha Dófar, insigne porque manda

O mais cheiroso incenso pera as aras;

Mas atenta: já cá destoutra banda De Roçalgate, e praias sempre avaras, Começa o reino Ormuz, que todo se anda Pelas ribeiras que inda serão claras Quando as galés do Turco e fera armada Virem de Castelbranco nua a espada.

55

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102

“Olha o Cabo Asaboro, que chamado Agora é Moçandão, dos navegantes; Por aqui entra o lago que é fechado De Arábia e Pérsias terras abundantes.

Atenta a ilha Barém, que o fundo ornado Tem das suas perlas ricas, e imitantes

A cor da Aurora; e vê na água salgada

Ter o Tígris e Eufrates üa entrada.

103

“Olha da grande Pérsia o império nobre,

Sempre posto no campo e nos cavalos,

Que se injuria de usar fundido cobre

E de não ter das armas sempre os calos.

Mas vê a ilha Gerum, como descobre

O que fazem do tempo os intervalos,

Que da cidade Armuza, que ali esteve, Ela o nome despois e a glória teve.

104

“Aqui de Dom Filipe de Meneses Se mostrará a virtude, em armas clara, Quando, com muito poucos Portugueses, Os muitos Párseos vencerá de Lara. Virão provar os golpes e reveses De Dom Pedro de Sousa, que provara Já seu braço em Ampaza, que deixada Terá por terra, à força só de espada.

105

“Mas deixemos o Estreito e o conhecido Cabo de Jasque, dito já Carpela, Com todo o seu terreno mal querido Da Natura e dos dões usados dela; Carmânia teve já por apelido. Mas vês o fermoso Indo, que daquela Altura nace, junto à qual, também Doutra altura correndo o Gange vem?

106

“Olha a terra de Ulcinde, fertilíssima,

E de Jáquete a íntima enseada;

Do mar a enchente súbita, grandíssima,

E a vazante, que foge apressurada.

A terra de Cambaia vê, riquíssima,

56

Literatura Portuguesa 2

Onde do mar o seio faz entrada;

Cidades outras mil, que vou passando,

A vós outros aqui se estão guardando.

107

“Vês corre a costa célebre Indiana Pera o Sul, até o Cabo Comori, Já chamado Cori, que Taprobana (Que ora é Ceilão) defronte tem de si. Por este mar a gente Lusitana, Que com armas virá despois de ti, Terá vitórias, terras e cidades, Nas quais hão-de viver muitas idades.

108

“As províncias que entre um e o outro rio Vês, com várias nações, são infinitas:

Um reino Mahometa, outro Gentio,

A quem tem o Demónio leis escritas.

Olha que de Narsinga o senhorio Tem as relíquias santas e benditas Do corpo de Tomé, barão sagrado, Que a Jesu Cristo teve a mão no lado.

109

“Aqui a cidade foi que se chamava Meliapor, fermosa, grande e rica; Os Ídolos antigos adorava Como inda agora faz a gente inica. Longe do mar naquele tempo estava, Quando a Fé, que no mundo se pubrica, Tomé vinha prègando, e já passara Províncias mil do mundo, que ensinara.

110

“Chegado aqui, pregando e junto dando

A doentes saúde, a mortos vida,

Acaso traz um dia o mar, vagando, Um lenho de grandeza desmedida. Deseja o Rei, que andava edificando, Fazer dele madeira; e não duvida Poder tirá-lo a terra, com possantes Forças d’ homens, de engenhos, de alifantes.

111

“Era tão grande o peso do madeiro

57

Universidade Aberta do Brasil

Que, só pera abalar-se, nada abasta; Mas o núncio de Cristo verdadeiro Menos trabalho em tal negócio gasta:

Ata o cordão que traz, por derradeiro, No tronco, e fàcilmente o leva e arrasta Pera onde faça um sumptuoso templo Que ficasse aos futuros por exemplo.

112

“Sabia bem que se com fé formada Mandar a um monte surdo que se mova, Que obedecerá logo à voz sagrada,

Que assi lho ensinou Cristo, e ele o prova.

A gente ficou disto alvoraçada;

Os Brâmenes o têm por cousa nova; Vendo os milagres, vendo a santidade, Hão medo de perder autoridade.

113

“São estes sacerdotes dos Gentios Em quem mais penetrado tinha enveja; Buscam maneiras mil, buscam desvios,

Com que Tomé não se ouça, ou morto seja.

O principal, que ao peito traz os fios,

Um caso horrendo faz, que o mundo veja

Que inimiga não há, tão dura e fera, Como a virtude falsa, da sincera.

há, tão dura e fera, Como a virtude falsa, da sincera. Estátua romana representa a luta

Estátua romana representa a luta amorosa entre um sátiro e uma ninfa, do museu Capitolini, na Itália Crédito: Wikkimedia Commons

Um dos argumentos que podemos utilizar em favor do fato de que

Camões constrói uma obra de arte, mesmo quando fala explicitamente

58

Literatura Portuguesa 2

de sexo, é a linguagem. Lembre-se da máxima criada por Horácio: ut

pictura poesis, ou seja, a poesia é como a pintura e releia algumas das

estrofes desse episódio, tentando fazer essa associação. Há quem diga

que Camões realmente se inspirou em uma iluminura persa, do século

XIV, para ‘desenhar’ a sua Ilha dos Amores. Jamais saberemos isso com

certeza, mas o fato que importa é que o termo plasticidade se aplica

perfeitamente às descrições efetuadas por ele.

Não deixe de perceber o que já foi referido sobre os finais dos

Cantos: a presença do epifonema, a espécie de arremate reflexivo com o

qual eles se encerram. Na estrofe 93, do Canto IX, isso é feito de forma

muito evidente (você já deve ter esbarrado nessa estrofe em algum outro

lugar, que não em Os lusíadas, visto que ela é muito citada, como exemplo

de moralidade).

No Canto X, após um banquete oferecido por Tétis, ela os conduz

ao alto de um monte, para que vejam, como foi dito aqui, a máquina do

Mundo. A dúvida aqui, de qualquer leitor atento, seria como é possível

que seres mitológicos atribuíssem o funcionamento do mundo a uma

máquina, à ciência, portanto, e não a eles mesmos, que desde o início

da epopeia tentam ora ajudar, ora atrapalhar as aventuras dos intrépidos

representantes do desejo justamente de possuir mais conhecimento e

assim ultrapassar limites. Mais uma vez, Camões nos oferece seu imenso

talento, colocando na voz de Tétis a explicação de que eles, os deuses,

nada mais são do que ornamentos para a poesia, instrumentos para

embelezar a arte, de modo que o humano é que ali ganha posição de

destaque.

Mas, como se sabe, e Camões também sabia, os homens nem sempre

sabem o que fazer com o conhecimento que lhes é dado, o que explica o

tom melancólico do epílogo. Acompanhe a seguir.

2.5. EPÍLOGO – CANTO X

144

Assi foram cortando o mar sereno, Com vento sempre manso e nunca irado, Até que houveram vista do terreno Em que naceram, sempre desejado. Entraram pela foz do Tejo ameno, E à sua pátria e Rei temido e amado

59

Universidade Aberta do Brasil

O

prémio e glória dão por que mandou,

E

com títulos novos se ilustrou.

145

Nô mais, Musa, nô mais, que a Lira tenho

Destemperada e a voz enrouquecida,

E não do canto, mas de ver que venho

Cantar a gente surda e endurecida.

O favor com que mais se acende o engenho

Não no dá a pátria, não, que está metida No gosto da cobiça e na rudeza Düa austera, apagada e vil tristeza.

146

E não sei por que influxo de Destino

Não tem um ledo orgulho e geral gosto,

Que os ânimos levanta de contino

A ter pera trabalhos ledo o rosto.

Por isso vós, ó Rei, que por divino Conselho estais no régio sólio posto, Olhai que sois (e vede as outras gentes) Senhor só de vassalos excelentes.

147

Olhai que ledos vão, por várias vias,

Quais rompentes liões e bravos touros, Dando os corpos a fomes e vigias,

A ferro, a fogo, a setas e pelouros,

A quentes regiões, a plagas frias,

A golpes de Idolátras e de Mouros,

A perigos incógnitos do mundo,

A naufrágios, a pexes, ao profundo.

Dirigindo-se diretamente ao rei, o discurso aqui reitera a coragem

dos navegantes, dispostos, como “liões e bravos touros”, a morrer pela

pátria, mas reitera também o cansaço diante dos esforços empreendidos,

assim como a decepção diante do estado em que se encontrava Portugal.

O excesso de empenho em acumular riquezas através das conquistas

no ultramar trouxe sérios problemas econômicos ao país, a queda na

produção agrícola obrigou-os a importar excessivamente, de modo que

as dívidas se acumularam. Além disso, uma enorme quantidade de

homens envolvidos nas viagens morriam, gerando uma também enorme

quantidade de mulheres e crianças abandonadas que, sem opção de

60

Literatura Portuguesa 2

trabalho e sobrevivência, eram colocadas na miséria.

De forma bastante elegante, o discurso afirma ter “a lira

destemperada” (estrofe 145), ou seja, associa, mais uma vez, o poema

à música. Lembre-se de que essa referência estava já presente na

primeira estrofe, como convém a um texto com tão claras influências das

epopeias clássicas, afinal, ao menos as duas primeiras (Ilíada e Odisseia)

sobreviveram através do canto popular.

Vamos aqui fazer uma pausa no estudo da épica camoniana, para

nos referir a um poeta brasileiro, do século XX (que você certamente

estudará em maiores detalhes na disciplina de Literatura Brasileira)

e que foi muito influenciado pela obra de Camões. Trata-se de Carlos

Drummond de Andrade e, para ilustrar essa tão intensa presença do

poeta português na poesia do mineiro, acompanhe o poema intitulado

justamente A Máquina do Mundo:

E como eu palmilhasse vagamente

uma estrada de Minas, pedregosa,

e no fecho da tarde um sino rouco

se misturasse ao som de meus sapatos que era pausado e seco; e aves pairassem no céu de chumbo, e suas formas pretas

lentamente se fossem diluindo

na escuridão maior, vinda dos montes

e de meu próprio ser desenganado,

a máquina do mundo se entreabriu

para quem de a romper já se esquivava

e só de o ter pensado se carpia.

Abriu-se majestosa e circunspecta, sem emitir um som que fosse impuro nem um clarão maior que o tolerável

pelas pupilas gastas na inspeção contínua e dolorosa do deserto,

e pela mente exausta de mentar

toda uma realidade que transcende

a própria imagem sua debuxada

no rosto do mistério, nos abismos.

61

Universidade Aberta do Brasil

Abriu-se em calma pura, e convidando

quantos sentidos e intuições restavam

a

quem de os ter usado os já perdera

e

nem desejaria recobrá-los,

se em vão e para sempre repetimos os mesmos sem roteiro tristes périplos,

convidando-os a todos, em coorte,

a se aplicarem sobre o pasto inédito da natureza mítica das coisas,

assim me disse, embora voz alguma ou sopro ou eco ou simples percussão atestasse que alguém, sobre a montanha,

a outro alguém, noturno e miserável,

em colóquio se estava dirigindo:

“O que procuraste em ti ou fora de

teu ser restrito e nunca se mostrou,

mesmo afetando dar-se ou se rendendo,

e a cada instante mais se retraindo,

olha, repara, ausculta: essa riqueza sobrante a toda pérola, essa ciência sublime e formidável, mas hermética,

essa total explicação da vida, esse nexo primeiro e singular, que nem concebes mais, pois tão esquivo

se revelou ante a pesquisa ardente

em que te consumiste

abre teu peito para agasalhá-lo.”

vê, contempla,

As mais soberbas pontes e edifícios,

o

que nas oficinas se elabora,

o

que pensado foi e logo atinge

distância superior ao pensamento, os recursos da terra dominados,

e

as paixões e os impulsos e os tormentos

e

tudo que define o ser terrestre

62

ou se prolonga até nos animais

e chega às plantas para se embeber

Literatura Portuguesa 2

no sono rancoroso dos minérios, dá volta ao mundo e torna a se engolfar, na estranha ordem geométrica de tudo,

e o absurdo original e seus enigmas,

suas verdades altas mais que todos monumentos erguidos à verdade:

e a memória dos deuses, e o solene

sentimento de morte, que floresce no caule da existência mais gloriosa,

tudo se apresentou nesse relance

e me chamou para seu reino augusto, afinal submetido à vista humana.

Mas, como eu relutasse em responder

a tal apelo assim maravilhoso,

pois a fé se abrandara, e mesmo o anseio,

a esperança mais mínima — esse anelo

de ver desvanecida a treva espessa que entre os raios do sol inda se filtra;

como defuntas crenças convocadas presto e fremente não se produzissem

a de novo tingir a neutra face

que vou pelos caminhos demonstrando,

e como se outro ser, não mais aquele habitante de mim há tantos anos,

passasse a comandar minha vontade que, já de si volúvel, se cerrava semelhante a essas flores reticentes

em si mesmas abertas e fechadas; como se um dom tardio já não fora apetecível, antes despiciendo,

baixei os olhos, incurioso, lasso, desdenhando colher a coisa oferta que se abria gratuita a meu engenho.

A treva mais estrita já pousara

sobre a estrada de Minas, pedregosa,

e a máquina do mundo, repelida,

63

Universidade Aberta do Brasil

64

se foi miudamente recompondo, enquanto eu, avaliando o que perdera, seguia vagaroso, de mãos pensas.

Há semelhanças muito evidentes entre os dois poemas, não é mesmo?

Repare na rigorosa composição métrica e estrófica do poema, mas também

no clima de tensão que se estabelece logo no início, um fim de tarde que

se anuncia como escuro e assustador. Somos quase levados a acreditar

que surgiria ali um novo Adamastor (há inclusive a presença da “estrada

pedregosa”), mas o que vemos é um indivíduo a quem é a máquina do

mundo se abre, gloriosa (repare no longo trecho entre aspas, em que ela

é descrita). E aqui as diferenças entre os dois poemas se revelam bastante

contundentes, pois, ao contrário dos navegantes portugueses, premiados e

eufóricos, este, legítimo representante do homem contemporâneo, recusa

o acesso a esse privilégio. A recusa, aliás, é formalmente anunciada ao

se grafar máquina do mundo em minúsculas, ao contrário do que faz

Camões; há aqui, portanto, um modo muito distinto de se conceber a

máquina, ela não se reveste da mesma importância que recebeu no mundo

clássico, um mundo muito crente nas esperanças de que o conhecimento

levaria o homem a uma vida mais digna e mais justa. Descrente desse,

digamos, avanço, que o humano poderia ter experimentado, a máquina

de Drummond não consegue seduzir. Por isso o eu-lírico baixa os olhos

e segue, negando-se à máquina. São duas visões filosóficas muito

distintas que nos são apresentadas nos dois textos, nesse exercício tão

claro de intertextualidade (afinal, é perfeitamente possível ler o poema

de Drummond sem nunca ter lido o episódio da Máquina do Mundo de

Camões e vice-versa, mas é preciso reconhecer que o conhecimento dos

dois enriquece nosso modo de compreendê-los).

dos dois enriquece nosso modo de compreendê-los). Estátua do poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade,

Estátua do poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade, localizada no Rio de Janeiro Crédito: Wikkimedia Commons

Literatura Portuguesa 2

Literatura Portuguesa 2 1 - Você vai ler a seguir a primeira estrofe da obra Caramuru,

1 - Você vai ler a seguir a primeira estrofe da obra Caramuru, cujo subtítulo é ‘Poema épico do

descobrimento da Bahia’, publicado em 1781, pelo brasileiro Frei José de Santa Rita Durão. Compare-a com a primeira estrofe de Os Lusíadas, de Camões, e aponte as similaridades que podem ser notadas entre elas. Na sua opinião, pode-se afirmar que Durão se utilizou do texto camoniano?

De um varão em mil casos agitado, Que as praias discorrendo do Ocidente Descobriu o recôncavo afamado Da capital brasílica potente; Do Filho do Trovão denominado, Que o peito domar soube à fera gente, O valor cantarei na adversa sorte, Pois só conheço herói quem nela é forte.

2 - Releia em seu volume de Os lusíadas, no Canto V, as estrofes 81 a 84. Explique a importância delas no contexto geral da obra, considerando a imponente homenagem que Camões promove nessa epopeia portuguesa.

65

Universidade Aberta do Brasil

Universidade Aberta do Brasil 66 UNIDADE 1

66

UNIDADE 1

Cesário Verde

Jefferson Luiz Franco Rosana Apolonia Harmuch Silvana Oliveira

ObjetivOs De aPRenDiZaGem

Refletir sobre as condições de produção, circulação e recepção da poesia

de Cesário Verde.

circulação e recepção da poesia de Cesário Verde. ■ Estabelecer e discutir as relações dos textos
circulação e recepção da poesia de Cesário Verde. ■ Estabelecer e discutir as relações dos textos
circulação e recepção da poesia de Cesário Verde. ■ Estabelecer e discutir as relações dos textos
circulação e recepção da poesia de Cesário Verde. ■ Estabelecer e discutir as relações dos textos
circulação e recepção da poesia de Cesário Verde. ■ Estabelecer e discutir as relações dos textos
circulação e recepção da poesia de Cesário Verde. ■ Estabelecer e discutir as relações dos textos
circulação e recepção da poesia de Cesário Verde. ■ Estabelecer e discutir as relações dos textos
circulação e recepção da poesia de Cesário Verde. ■ Estabelecer e discutir as relações dos textos
circulação e recepção da poesia de Cesário Verde. ■ Estabelecer e discutir as relações dos textos

Estabelecer e discutir as relações dos textos selecionados para este livro

com outros tipos de discurso e com os contextos que os inserem.

Relacionar os textos literários a serem lidos com os problemas e concepções

dominantes na cultura do período em que foram escritos e com os problemas

e concepções do presente.

ROteiRO De estUDOs

SEÇÃO 1 - A modernidade dum ocidental

SEÇÃO 2 - As mulheres no poema ‘O sentimento dum Ocidental’

Universidade Aberta do Brasil

SEÇÃO 1

A MODERNIDADE DUM OCIDENTAL

Aberta do Brasil SEÇÃO 1 A MODERNIDADE DUM OCIDENTAL A partir desta segunda unidade, estudaremos a

A partir desta segunda unidade, estudaremos a obra do poeta

Cesário Verde, que viveu no final do século XIX, bem distante, portanto,

de Camões, o que nos coloca diante de uma produção distinta, mas igualmente importante, inclusive como forma introdutória à produção

que será estudada na última parte deste material, a de Fernando Pessoa.

O título desta seção é um evidente trocadilho com o poema mais

famoso do poeta português Cesário Verde (1855-1886): O sentimento dum Ocidental, ao qual daremos aqui mais atenção. Gestado durante seis meses, o poema foi finalmente publicado em 10 de junho de 1880 em Portugal a Camões, publicação extraordinária do Jornal de viagens e, contrariando as expectativas do autor, não causou impacto. Magoado, ele desabafou em uma carta de 29 de agosto de 1880, a António de Macedo Papança, Conde de Monsarás, também poeta:

Ah! Quanto eu ia indisposto contra tudo e contra todos! Uma poesia minha, recente, publicada numa folha bem impressa, limpa, comemorativa de Camões, não obteve um olhar, um sorriso, um desdém, uma observação. Ninguém escreveu, ninguém falou, nem um noticiário, nem uma conversa comigo; ninguém disse bem, ninguém disse mal! Apenas um crítico espanhol chamava às chatezas dos seus patrícios e dos meus colegas – pérolas – e afirmava – fanfarrão! – que os meus versos ‘hacen malisima figura em aquellas páginas impregnadas de noble espiritu nacional.’ (SERRÃO, 1957, p. 210-211).

Na mesma carta, chegou a afirmar: “Literariamente parece que Cesário Verde não existe”. Adiantado para seu tempo, Cesário Verde não poderia mesmo obter reconhecimento naquele momento. Foram necessários vários anos e muitas leituras de sua obra para que seu lugar, hoje garantido, de destaque na poesia portuguesa fosse ocupado. Há que se destacar que esse reconhecimento se iniciou justamente com dois outros poetas: Mário de Sá-Carneiro e Fernando Pessoa, embora ainda

68

Literatura Portuguesa 2

no século XIX alguns poucos críticos tenham tido sua atenção voltada

para os textos de Cesário, mas as reações se dividiram. Por um lado, em

um enorme desprezo, como a sugestão de um articulista do Diário de

Portugal, de que Cesário não deveria se esquecer de que todos os poetas

devem ter uma enorme gaveta dedicada ao bom senso, destinada ao

sacrifício de determinados textos. Por outro, em uma tão grande surpresa

que provocava um elogioso silêncio. Um exemplo é o depoimento de

Fialho de Almeida, em carta ao editor Manuel Gomes, que lhe pedira

que prefaciasse uma edição de O livro de Cesário Verde:

se te disser, meu caro Gomes, que ao começar a escrever dele a mão me treme, e o espírito me divaga sob uma cor de medo religioso, se te contar que há quatro noites redigi notas para elucidar este prefácio, sem que até agora nenhuma me explique cientificamente o sonho por onde visionava o seu talento, farás ideia talvez da fascinação que esse extraordinário rapaz lançou no meu juízo, e da angústia rude que o teu pedido derrama (RODRIGUES, p. 46).

A obra de Cesário teve que esperar algum tempo para que a crítica

literária se sentisse melhor equipada para lidar com ela. O século XX,

sobretudo a partir de sua segunda metade, se encarregou disso. De

fato foi preciso que se consolidasse, entre outras coisas, o conceito de

modernidade para que Cesário fosse melhor compreendido.

Essa noção de modernidade se explicita no poema que

acompanharemos a partir daqui: O sentimento dum Ocidental.

I. Ave-Maria Nas nossas ruas, ao anoitecer, Há tal soturnidade, há tal melancolia, Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.

O

céu parece baixo e de neblina,

O

gás extravasado enjoa-me, perturba;

E

os edifícios, com as chaminés, e a turba

Toldam-se duma cor monótona e londrina.

Batem carros de aluguer, ao fundo, Levando à via-férrea os que se vão. Felizes! Ocorrem-me em revista, exposições, países:

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Universidade Aberta do Brasil

Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo!

Semelham-se a gaiolas, com viveiros, As edificações somente emadeiradas:

Como morcegos, ao cair das badaladas, Saltam de viga em viga os mestres carpinteiros.

Voltam os calafates, aos magotes, De jaquetão ao ombro, enfarruscados, secos; Embrenho-me, a cismar, por boqueirões, por becos, Ou erro pelos cais a que se atracam botes.

E evoco, então, as crónicas navais:

Mouros, baixéis, heróis, tudo ressuscitado! Luta Camões no Sul, salvando um livro a nado! Singram soberbas naus que eu não verei jamais!

E o fim da tarde inspira-me; e incomoda!

De um couraçado inglês vogam os escaleres;

E em terra num tinir de louças e talheres

Flamejam, ao jantar alguns hotéis da moda.

Num trem de praça arengam dois dentistas; Um trôpego arlequim braceja numas andas; Os querubins do lar flutuam nas varandas; Às portas, em cabelo, enfadam-se os lojistas!

Vazam-se os arsenais e as oficinas; Reluz, viscoso, o rio, apressam-se as obreiras;

E num cardume negro, hercúleas, galhofeiras,

Correndo com firmeza, assomam as varinas.

Vêm sacudindo as ancas opulentas!

Seus troncos varonis recordam-me pilastras;

E algumas, à cabeça, embalam nas canastras

Os filhos que depois naufragam nas tormentas.

Descalças! Nas descargas de carvão,

Desde manhã à noite, a bordo das fragatas;

E

apinham-se num bairro aonde miam gatas,

E

o peixe podre gera os focos de infecção!

II. Noite Fechada Toca-se às grades, nas cadeias. Som

Que mortifica e deixa umas loucuras mansas!

O Aljube, em que hoje estão velhinhas e crianças,

70

Literatura Portuguesa 2

Bem raramente encerra uma mulher de <<dom>>!

E eu desconfio, até, de um aneurisma

Tão mórbido me sinto, ao acender das luzes;

À vista das prisões, da velha Sé, das Cruzes,

Chora-me o coração que se enche e que se abisma.

A

espaços, iluminam-se os andares,

E

as tascas, os cafés, as tendas, os estancos

Alastram em lençol os seus reflexos brancos;

E a Lua lembra o circo e os jogos malabares.

Duas igrejas, num saudoso largo, Lançam a nódoa negra e fúnebre do clero:

Nelas esfumo um ermo inquisidor severo, Assim que pela História eu me aventuro e alargo.

Na parte que abateu no terremoto, Muram-me as construções rectas, iguais, crescidas; Afrontam-me, no resto, as íngremes subidas,

E os sinos dum tanger monástico e devoto.

Mas, num recinto público e vulgar, Com bancos de namoro e exíguas pimenteiras, Brônzeo, monumental, de proporções guerreiras, Um épico doutrora ascende, num pilar!

E eu sonho o Cólera, imagino a Febre,

Nesta acumulação de corpos enfezados; Sombrios e espectrais recolhem os soldados; Inflama-se um palácio em face de um casebre.

Partem patrulhas de cavalaria Dos arcos dos quartéis que foram já conventos:

Idade Média! A pé, outras, a passos lentos, Derramam-se por toda a capital, que esfria.

Triste cidade! Eu temo que me avives Uma paixão defunta! Aos lampiões distantes, Enlutam-me, alvejando, as tuas elegantes, Curvadas a sorrir às montras dos ourives.

E mais: as costureiras, as floristas

Descem dos magasins, causam-me sobressaltos; Custa-lhes a elevar os seus pescoços altos

E muitas delas são comparsas ou coristas.

71

Universidade Aberta do Brasil

E eu, de luneta de uma lente só,

Eu acho sempre assunto a quadros revoltados:

Entro na brasserie; às mesas de emigrados,

Ao riso e à crua luz joga-se o dominó.

III. Ao gás

E saio. A noite pesa, esmaga. Nos

Passeios de lajedo arrastam-se as impuras.

Ó moles hospitais! Sai das embocaduras

Um sopro que arripia os ombros quase nus.

Cercam-me as lojas, tépidas. Eu penso Ver círios laterais, ver filas de capelas, Com santos e fiéis, andores, ramos, velas, Em uma catedral de um comprimento imenso.

As burguesinhas do Catolicismo Resvalam pelo chão minado pelos canos;

E lembram-me, ao chorar doente dos pianos,

As freiras que os jejuns matavam de histerismo.

Num cutileiro, de avental, ao torno,

Um forjador maneja um malho, rubramente;

E de uma padaria exala-se, inda quente,

Um cheiro salutar e honesto a pão no forno.

E eu que medito um livro que exacerbe,

Quisera que o real e a análise mo dessem; Casas de confecções e modas resplandecem; Pelas vitrines olha um ratoneiro imberbe.

Longas descidas! Não poder pintar

Com versos magistrais, salubres e sinceros,

A

esguia difusão dos vossos reverberos,

E

a vossa palidez romântica e lunar!

Que grande cobra, a lúbrica pessoa, Que espartilhada escolhe uns xales com debuxo! Sua excelência atrai, magnética, entre luxo, Que ao longo dos balcões de mogno se amontoa.

E aquela velha, de bandós! Por vezes,

A sua traîne imita um leque antigo, aberto,

Nas barras verticais, a duas tintas. Perto, Escarvam, à vitória, os seus mecklemburgueses.

72

Literatura Portuguesa 2

Desdobram-se tecidos estrangeiros; Plantas ornamentais secam nos mostradores; Flocos de pós-de-arroz pairam sufocadores,

E em nuvens de cetins requebram-se os caixeiros.

Mas tudo cansa! Apagam-se nas frentes Os candelabros, como estrelas, pouco a pouco; Da solidão regouga um cauteleiro rouco; Tornam-se mausoléus as armações fulgentes.

“Dó da miséria!

E, nas esquinas, calvo, eterno, sem repouso, Pede-me esmola um homenzinho idoso, Meu velho professor nas aulas de Latim!

Compaixão de mim!

IV. Horas mortas

O tecto fundo de oxigénio, de ar,

Estende-se ao comprido, ao meio das trapeiras; Vêm lágrimas de luz dos astros com olheiras, Enleva-me a quimera azul de transmigrar.

Por baixo, que portões! Que arruamentos! Um parafuso cai nas lajes, às escuras:

Colocam-se taipais, rangem as fechaduras,

E

os olhos dum caleche espantam-me, sangrentos.

E

eu sigo, como as linhas de uma pauta

A

dupla correnteza augusta das fachadas;

Pois sobem, no silêncio, infaustas e trinadas, As notas pastoris de uma longínqua flauta.

Se eu não morresse, nunca! E eternamente Buscasse e conseguisse a perfeição das cousas! Esqueço-me a prever castíssimas esposas, Que aninhem em mansões de vidro transparente!

Ó nossos filhoes! Que de sonhos ágeis,

Pousando, vos trarão a nitidez às vidas! Eu quero as vossas mães e irmãs estremecidas, Numas habitações translúcidas e frágeis.

Ah! Como a raça ruiva do porvir,

E as frotas dos avós, e os nómadas ardentes,

Nós vamos explorar todos os continentes

E pelas vastidões aquáticas seguir!

73

Universidade Aberta do Brasil

Mas se vivemos, os emparedados, Sem árvores, no vale escuro das muralhas! Julgo avistar, na treva, as folhas das navalhas

E

os gritos de socorro ouvir, estrangulados.

E

nestes nebulosos corredores

Nauseiam-me, surgindo, os ventres das tabernas; Na volta, com saudade, e aos bordos sobre as pernas, Cantam, de braço dado, uns tristes bebedores.

Eu não receio, todavia, os roubos; Afastam-se, a distância, os dúbios caminhantes;

E sujos, sem ladrar, ósseos, febris, errantes,

Amareladamente, os cães parecem lobos.

E os guardas, que revistam as escadas,

Caminham de lanterna e servem de chaveiros; Por cima, as imorais, nos seus roupões ligeiros,

Tossem, fumando sobre a pedra das sacadas.

E, enorme, nesta massa irregular

De prédios sepulcrais, com dimensões de montes,

A

Dor humana busca os amplos horizontes,

E

tem marés, de fel, como um sinistro mar!

Retratando um longo passeio pelas ruas de Lisboa, como você viu, o

poema é dividido em quatro grandes blocos: Ave-Marias; Noite Fechada;

Ao gás e Horas Mortas. Há nessa divisão uma clara sequência temporal

delimitada por esses subtítulos, representativos, ao mesmo tempo, do

avanço da noite sobre a cidade cada vez mais industrializada e também

da suspeita crescente de fracasso do projeto de progresso racionalista

característico da segunda metade do século XIX.

Essa desconfiança permeia todo o texto e é apenas uma das marcas

da evidente dualidade constante do poema. Colocado diante de um

mundo em transição, no qual a velha ordem era subjugada e escorraçada

para dar lugar aos ícones industriais do século XX (máquinas, aço e

eletricidade), o poeta trabalha para englobar a dinâmica desse cenário

em mudança acelerada dentro de uma estrutura formal rígida.

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Literatura Portuguesa 2

CHARLES BAUDELAIRE (1821 - 1867) É CONSIDERADO O HOMEM QUE MUDOU A LITERATURA MODERNA. FOI
CHARLES BAUDELAIRE (1821 - 1867) É CONSIDERADO
O HOMEM QUE MUDOU A LITERATURA MODERNA.
FOI TRADUTOR, POETA, CRÍTICO DE ARTE E LITERATO,
PARA MUITOS, O PONTO MAIS ALTO DO SÉCULO XIX,
NAS LETRAS.
Baudelaire retratado pelo fotógrafo
Gaspard-Félix Tournachon
Crédito: Wikkimedia Commons

Cada um dos quatro blocos é constituído por 11 estrofes de quatro

versos cada, somando um total de 44 quartetos, sempre com decassílabos

iniciais seguidos de três alexandrinos, obedecendo ao esquema de rimas

A-B-B-A. A rigidez na construção do poema é bastante reveladora, parece

sugerir uma tentativa desesperada de impor alguma ordem à realidade

que circunda o caminhante, como se os olhos não dessem conta de

apreender o novo que se descortinava. Baudelaire, em seus escritos

iniciais, havia se mostrado fascinado por esse admirável mundo novo;

mais tarde, ele próprio percebeu o alto preço pago pela sociedade para

que esse projeto se concretizasse, ou seja, percebeu quão enganadora era

essa ideia de progresso, já em 1855, no ensaio sobre a moderna ideia de

progresso aplicada às belas artes, citado pelo teórico Marshal Berman:

Existe ainda outro erro muito atraente, que eu anseio por evitar, como ao próprio demônio. Refiro- me à ideia de ‘progresso’. Esse obscuro sinaleiro, invenção da filosofância hodierna, promulgada sem a garantia da Natureza ou de Deus – esse farol moderno lança uma esteira de caos em todos os

Tome-se qualquer

objetos do conhecimento (

bom francês, que lê o seu jornal, no seu café, pergunte-se-lhe o que ele entende por progresso, e ele responderá que é o vapor, a eletricidade e a luz do gás, milagres desconhecidos dos romanos,

).

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UNIDADE 2
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testemunho incontestável de nossa superioridade sobre os antigos. Tal é o grau de escuridão que se instalou nesse cérebro infeliz! (1986, p. 135).

Com certeza você se lembrou da máquina do mundo de Drummond, não é mesmo? A semelhança não é coincidência, é a visão de mundo que coincidia. Voltemos ao poema: na segunda estrofe da quarta parte de O sentimento dum Ocidental, Horas mortas, quando o silêncio da

madrugada já se sobrepôs ao burburinho do entardecer, o eu-lírico nos diz: “Um parafuso cai nas lajes, às escuras: / Colocam-se taipais, rangem

as fechaduras”, evidenciando a frágil estrutura dessa sociedade. Fascínio

e assombro se mesclam ao longo do poema, tentando atingir uma possível

(ou impossível?) síntese.

Pensando ainda no aspecto arquitetônico de O sentimento dum Ocidental, ele explica, ao menos em parte, o estranhamento causado pelo autor. Cesário literalmente constrói seu poema, na esteira de Poe, traduzido por Baudelaire, ou seja, insere a noção de artefato, em que a linguagem é trabalhada de modo que as palavras não percam sua essência

material de objetos. Cesário vai ao cerne da questão poética: como dizer,

só com palavras, que estão sempre aquém dos desejos? Por isso, Cesário

rompe com seu tempo ao problematizar o conceito de poesia, por isso ele praticamente pinta as ruas de Lisboa para nós leitores (novamente o ut pictura poesis), por isso o tradicionalmente feio ganha estatuto de beleza, por isso ele lamenta não possuir outra postura diante da arte, como fica

evidente, por exemplo, nos seguintes versos da terceira parte: “E eu que medito um livro que exacerbe. / Quisera que o real e a análise mo dessem;

(

)

Longas descidas! Não poder pintar / Com versos magistrais, salubres

e

sinceros, / A esguia difusão dos vossos reverberos. / E a vossa palidez

romântica e lunar!” O uso da palavra pintar é bastante sintomático da busca do poeta por essa visualização do poema. Os versos revelam também o desejo de adotar uma postura mais racional, resultante do real e da análise desse real, como queriam os seguidores de Flaubert (autor de Madame Bovary) e de Zola (autor de

Germinal). Esse caminho lhe está vetado, como também está o romântico.

O eu-lírico vê (e registra) a beleza da noite e da lua, símbolo tão caro

aos românticos, mas confessa não poder pintar apenas isso, há mais, muito mais. Há a violência, a miséria, ratoneiros imberbes, exploração,

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Literatura Portuguesa 2

prostituição e a beleza também reside nesses elementos. E, embora haja

a confissão metalinguística de que “E eu, de luneta de uma lente só, / Eu

acho sempre assunto a quadros revoltados;” isso é questionável, ou pelo menos gera belas contradições, já que há momentos em que o fascínio escapa das mãos do poeta e se revela, como por exemplo, na estrofe que segue, a terceira da segunda parte, um dos momentos mais plásticos do

poema: “A espaços, iluminam-se os andares, / E as tascas, os cafés, as tendas, os estancos / Alastram em lençol os seus reflexos brancos; / E a lua lembra o circo e os jogos malabares.” A noite fechada deixa de ser fechada, artificialmente ela passa a ser iluminada, dizemos nós pobres mortais, Cesário diz que os reflexos brancos se alastram formando um lençol de luz, o que dá à rua um aspecto circense, assume-se que ela é

o novo palco dos homens, onde se darão os novos embates, como o da

família que se deslumbra diante do luxo no poema Os olhos dos pobres, de Baudelaire e como o do professor de latim que pede esmolas em O sentimento dum Ocidental, esses os heróis da modernidade, conceito bastante explicitado por Baudelaire:

A maioria dos poetas que se ocuparam de temas

realmente modernos contentaram-se com temas

conhecidos e oficiais – esses poetas ocuparam-se de nossas vitórias e de nosso heroísmo político. Mesmo assim fazem-no de mau grado e só porque

o governo ordena e lhes paga os honorários.

E, no entanto, há temas da vida privada bem

mais heroicos. O espetáculo da vida mundana

e das milhares de existências desregradas que

habitam os subterrâneos de uma cidade grande

provam que precisamos apenas abrir os olhos para reconhecer nosso heroísmo. (BENJAMIN, 1989, p. 77).

(

)

Apesar das muitas semelhanças, o depoimento de Jorge Listopad, tradutor de Cesário para o francês, dá a medida da importância da ruptura promovida por esse poeta, inclusive em relação a Baudelaire:

O seu baudelairismo, proclamado por ele próprio

e tão proclamado por seus exegetas, a sua estética simbolista e outras derivantes, as suas contradições entre o romantismo e o realismo e até entre as suas raízes aldeãs e a sua inspiração citadina, tudo isso se nos revela parcialmente verdadeiro e apenas para os poemas menores,

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como disse tão bem Jacinto do Prado Coelho,

Baudelaire

e seus consortes não me bastavam, nem sob o

ponto de vista linguístico, nem semântico, nem da estrutura do verso, nem sentimentalmente

A estética febril e intensa do genial poeta

francês não tem nada em comum com os poemas mais fortes de Cesário, que sabia como um dos primeiros na poesia mundial, talvez como Heine, dar às palavras mais correntes, mais cotidianas, mais banais e até manifestamente mais anti-poéticas, uma força criadora do real e mais do que real. Em resumo ele soube libertar a palavra e, com a palavra, os sentimentos, como só tentaram fazer mais tarde os poetas do século XX. (RODRIGUES, p. 85).

totalmente falso para os outros. (

)

). (

O verso que aparece ao final de O sentimento dum Ocidental, na

primeira estrofe de Horas mortas, é um verdadeiro achado e creio servir como um bom exemplo dessas imagens revitalizadoras da palavra: “Vêm lágrimas de luz dos astros com olheiras”. Essa plasticidade, ou esse Impressionismo como querem muitos, se verifica muito claramente em O sentimento dum Ocidental, por vários motivos, podemos citar alguns.

a) A cidade é mostrada por Cesário em vários momentos diferentes, do fim da tarde à madrugada, de modo que a luz que incide sobre ela vai sofrendo alterações. Exemplos de cada uma das quatro partes que compõem o poema: Ave-Marias “O céu parece baixo

e de neblina, (

/ E os edifícios, com as chaminés, e a turba, /

Toldam-se duma cor monótona e londrina.” Noite fechada “A espaços iluminam-se os andares,” Ao gás “Não poder pintar (

) /

A esguia difusão dos vossos revérberos” ou “Apagam-se nas frentes

/ Os candelabros, como estrelas, pouco a pouco;” Horas mortas “O teto fundo de oxigênio, d’ar, / Estende-se ao comprido,” ou “E nestes nebulosos corredores”.

)

b) O ritmo da cidade, das pessoas é mostrado em processo, em movimento, ou seja, como se fossem pequenos flashes, daí porque outra associação muito comum desse poema é feita com o cinema, como se os olhos do caminhante fossem uma câmera tentando registrar inclusive as alterações desse ritmo, já que a cidade vai se

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Literatura Portuguesa 2

aquietando lentamente. Como na pintura impressionista, o externo

é visto em constante modificação, em permanente fragmentação. É a

solidificação daquilo que Baudelaire já havia dito: “A Modernidade

é

o transitório, o efêmero, o contingente, é a metade da arte, sendo

a

outra metade o eterno e o imutável.” (1996, p. 25)

c)

Assim como para os poetas realistas, também para Cesário e

os impressionistas, a realidade é o foco de interesse, o que muda

é o que fazer com ela. A tentativa é de registrar o que o objeto

desencadeia no observador, num claro desejo de fusão entre sensibilidade e razão. Isso explica a permanente oscilação entre a objetividade e a subjetividade, tão marcantes em O sentimento dum Ocidental, como acontece, por exemplo, nos seguintes versos: “O bulício, o Tejo, a maresia / Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.”, “Levando à via férrea os que se vão. Felizes! Ocorrem-me

em revista, exposições, países: Madri, Paris, Berlim S. Petersburgo,

o mundo!”, “E eu desconfio, até, de um aneurisma / Tão mórbido me

sinto, ao acender das luzes; / À vista das prisões, da velha Sé, das cruzes, / Chora-me o coração que se enche e se abisma.”, “E aquela velha, de bandos! Por vezes, / A sua traîne imita um leque antigo, aberto, aberto, / Nas barras verticais, a duas tintas.”, ou ainda “E eu sigo, como as linhas de uma pauta, / A dupla correnteza augusta

das fachadas; / Pois sobem, no silêncio, infaustas e trinadas, / As notas pastoris de uma longínqua flauta.”

d) Na busca de traduzir sensações, detalhes, são comuns as frases

curtas, as muitas referências cumulativas, as sinestesias, que, no conjunto, nos fornecem um mundo que precisa ser redimensionado no momento da leitura, precisa ser materializado, até porque não há por parte dos artistas a intenção de promover nenhum juízo, nenhuma investigação, a ideia é que o receptor seja estimulado (sequer importa que o estímulo seja real ou não) a vivenciar suas próprias sensações a partir das do criador. Em O sentimento dum Ocidental, predominam, é claro, as sugestões visuais, mas há também as olfativas, auditivas e táteis: ao cair das badaladas, num tinir de louças e talheres, / e os sinos de um tanger monástico e

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devoto, / um sopro que arrepia os ombros quase nus, / ainda quente, um cheiro salutar e honesto a pão no forno, resvalam pelo chão minado pelos canos; / Da solidão regouga um cauteleiro rouco; / Um parafuso cai nas lajes, às escuras.

cauteleiro rouco; / Um parafuso cai nas lajes, às escuras. Mulheres chinesas trabalham como mineiras em

Mulheres chinesas trabalham como mineiras em foto de fins do século XIX Crédito: Wikkimedia Commons

SEÇÃO 2

AS MULHERES NO POEMA ‘O SENTIMENTO DUM OCIDENTAL’

2 AS MULHERES NO POEMA ‘O SENTIMENTO DUM OCIDENTAL’ A modernidade de O sentimento dum Ocidental

A modernidade de O sentimento dum Ocidental se revela também

na

eleição da figura da mulher como um dos símbolos desse novo mundo.

O

tema foi comum em Baudelaire, embora nele a imagem tenha sido

buscada na Grécia, como se a mulher merecedora do status de heroína fosse a lésbica, combinação de erotismo viril e grandeza do mundo antigo. Em Cesário, em especial em O sentimento dum Ocidental, são muitas as mulheres, de classes sociais distintas, de belezas igualmente distintas, e, como em muitos outros poemas dele, todas parecem acentuar ou ao menos manter a distância entre elas e o seu observador. É como se Cesário ressaltasse na nova sociedade a manutenção de um jogo de poder entre homens e mulheres, já que elas ocupam o espaço público da rua, e não necessariamente para se prostituir, passam fazer parte da força de trabalho, são fortes e ao mesmo tempo não perdem a sensualidade, embora

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Literatura Portuguesa 2

muitas vezes sejam descritas como fúteis, luxuosas, excessivamente preocupadas com a moda. Nas duas primeiras partes do poema, Ave-Marias e Noite fechada, surgem dois grupos de mulheres trabalhadoras voltando para suas casas.

Um formado por aquelas que exercem uma atividade mais pesada:

“apressam-se as obreiras; / E num cardume negro, hercúleas, galhofeiras, / Correndo com firmeza, assomam as varinas, / Vêm sacudindo as ancas opulentas! / Seus troncos varonis recordam-me pilastras; / E algumas,

à cabeça, embalam nas canastras / Os filhos que depois naufragam nas

tormentas. / Descalças! Nas cargas de carvão, / Desde manhã à noite,

a bordo das fragatas; / E apinham-se num bairro aonde miam gatas, /

E o peixe podre gera os focos de infecção!”, e outro por costureiras e floristas. O poeta parece fazer questão de registrar que as mulheres não apenas trabalham fora de suas casas, mas também que muitas o fazem numa atividade que exige força, vigor físico, atributos tradicionalmente masculinos. É interessante perceber que apenas ao primeiro grupo é mencionada a maternidade e apenas o segundo causa sobressaltos no eu-lírico. Mantém-se, portanto uma clara oposição entre os dois, fruto é claro da distinção social que é acentuada ainda mais quando são citadas as elegantes diante das vitrines, observando joias. Essas causam outro sentimento: “Aos lampiões distantes, / Enlutam-me, alvejando, as tuas elegantes, / Curvadas a sorrir às montras dos ourives.” Em Ao gás, surgem, pela primeira vez no poema, as impuras que se arrastam no lajedo. A escolha do verbo para tentar dar conta do movimento delas é significativa, já que não parece haver muito entusiasmo nele. São citadas também, ironicamente, as burguesinhas do Catolicismo,

equilibrando-se no chão molhado durante uma procissão, o que desperta no eu-lírico a lembrança das freiras que os jejuns matavam de histerismo. Essa não é a única referência crítica em relação à religião católica, há várias ao longo do texto. E surgem ainda mais duas mulheres igualmente luxuosas, ambas fazendo compras. A primeira é descrita como a “grande cobra, a lúbrica pessoa, / Que espartilhada escolhe uns xales com debuxo! / Sua excelência atrai, magnética, entre luxo,” Mais uma vez, as passantes, tão citadas por Baudelaire, fascinam o observador. A segunda

é uma senhora de fitas nos cabelos, bastante diferente das velhinhas

baudelairianas: “Por vezes, / A sua traîne imita um leque antigo, aberto,

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/ Nas barras verticais, a duas tintas. Perto, / Escarvam à vitória, os seus meclemburgueses.” Em Horas mortas, quando o eu-lírico experimenta um devaneio romântico, um desejo de perfeição, surgem as mulheres estereotipadas pela literatura romântica e, claro, pela ideologia burguesa, imagina castíssimas esposas, mães e irmãs estremecidas, mas para ele elas são parte do delírio de constituição de um futuro impossível “Nós vamos explorar todos os continentes / E pelas vastidões aquáticas seguir!”, como se essas mulheres fossem parte de um passado que não pode mais ser reconstruído, tal qual o passado de glórias dos navegantes portugueses. Ao contrário de Baudelaire, que quer a exclusão, quer marcar a diferença em relação aos outros homens, Cesário sonha, deseja ser incorporado. E, finalmente, as últimas mulheres citadas, nessa madrugada, são, novamente, as imorais, nos seus roupões ligeiros, / Tossem, fumando, sobre a pedra das sacadas. Mais uma vez, as prostitutas são mostradas de um modo deprimente, pouco ou nada sedutor. Cesário, mais até do que Baudelaire, parece se deixar seduzir pelo luxo feminino, embora registre a beleza apenas aparentemente contraditória da miséria de muitas das prostitutas.

contraditória da miséria de muitas das prostitutas. No quadro “O sofá” do pintor francês Henri de

No quadro “O sofá” do pintor francês Henri de Toulouse-Lautrec, datado de 1896, duas prostitutas aguardam clientes Crédito: Wikimmedia Commons

Essa constante referência ao universo feminino pode sugerir a metaforização da cidade descrita pelo poeta como sendo também uma mulher, palmilhada, explorada, buscada, mas a longa caminhada se encerra com um grande pessimismo, com a certeza da ausência de saída para o ser humano, pois a luz do progresso é não apenas, mas também, uma ilusão, já que ela, se por um lado tornou os caminhos mais claros,

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por outro mostrou a inexistência de um caminho único, de uma verdade única “Mas se vivemos, os emparedados, / Sem árvores, no vale escuro ”

A cidade sufoca e, em meio aos prédios, o homem

continua sua busca infrutífera “E, enorme, nesta massa irregular / De prédios sepulcrais, com dimensões de montes, / A Dor humana busca os amplos horizontes, / E tem marés, de fel, como um sinistro mar!”. Essa é a última estrofe do poema e nela, assim como na palavra vivemos da estrofe anterior, Cesário faz questão de universalizar a dor, incluir-se entre os que buscam uma saída nos amplos horizontes, faz comunhão com a dor, propositadamente em maiúscula. Se a Paris de Baudelaire foi descrita por ele como atroz, cruel, a Lisboa de Cesário também o é, mas é sobretudo triste, até porque o poeta português nega a si mesmo o distanciamento de um mero observador, um flâneur individualista e superior (resquícios do Romantismo). É claro que Cesário Verde compôs muitos outros poemas e você pode, depois dessas considerações sobre O sentimento dum Ocidental, lê-los e tentar perceber ressonâncias desses elementos aqui expostos. Quanto maior é a nossa familiaridade com os textos poéticos, mais fácil fica trabalhar com eles, seja em atividades para disciplinas como esta, seja nas aulas que preparamos para nossos alunos.

das muralhas!

nas aulas que preparamos para nossos alunos. das muralhas! 1 - Apresente uma análise do poema

1 - Apresente uma análise do poema a seguir, de Cesário Verde, considerando em especial os aspectos formais (métrica, estrofação, rimas etc) e a plasticidade.

DESLUMBRAMENTOS Milady, é perigoso contemplá-la, Quando passa aromática e normal, Com seu tipo tão nobre e tão de sala, Com seus gestos de neve e de metal.

Sem que nisso a desgoste ou desenfade,

Quantas vezes, seguindo-lhe as passadas, Eu vejo-a, com real solenidade,

Ir impondo toilettes complicadas!

Em si tudo me atrai como um tesouro:

O seu ar pensativo e senhoril,

A sua voz que tem um timbre de ouro

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Universidade Aberta do Brasil

E o seu nevado e lúcido perfil!

Ah! Como me estonteia e me fascina

E é, na graça distinta do seu porte, Como a Moda supérflua e feminina,

E tão alta e serena como a Morte!

Eu ontem encontrei-a, quando vinha, Britânica, e fazendo-me assombrar; Grande dama fatal, sempre sozinha,

E

com firmeza e música no andar!

O

seu olhar possui, num jogo ardente,

Um arcanjo e um demônio a iluminá-lo;

Como um florete, fere agudamente,

E afaga como o pêlo dum regalo!

Pois bem. Conserve o gelo por esposo,