OQUEEO ESPIRITISMO

ALLAN KARDEC /l

ALLAN KARDEC

O que é o Espiritismo
NOÇÕES ELEMENTARES DO MUNDO INVISÍVEL, PELAS MANIFESTAÇÕES DOS ESPÍRITOS,
COM O

resumo dos princípios da Doutrina Espirita e resposta às principais objeções que podem ser apresentadas

Contendo a BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC por HENRI SAUSSE

FEDERAÇÃO ESPIRITA BRASILEIRA DEPARTAMENTO EDITORIAL Rua Souza Valente, 17 20941-040 - Rio-R J - Brasil

CIP-BRASIL. CATALOGAÇAO-NA-FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ. K27o 41.ed. Kardec, Allan, 1804-1869 O que é o espiritismo : noções elementares do mundo invisível, pelas manifestações dos espíritos, com o resumo dos princípios da Doutrina Espirita e resposta às principais objeções que podem ser apresentadas / Allan Kardec. — 41 .ed. — Rio de Janeiro : Federação Espírita Brasileira, 1999 "Contendo a biografia de Allan Kardec por Henri Sausse" ISBN 85-7328-113-8 1. Espiritismo, l. Título. 98-0194. 130298 170298 CDD 133.9 CDU 133.7 004668

índice das Matérias
Biografia de Allan Kardec Preâmbulo CAPÍTULO I Primeiro diálogo — O crítico Segundo diálogo — O céptico Espiritismo e Espiritualismo Dissidências Fenómenos espíritas simulados Impotência dos detratores O maravilhoso e o sobrenatural Oposição da Ciência Falsas explicações dos fenómenos — Alucinação — Fluido magnético •— Reflexo do pensamento •— Superexcitação cerebral — Estado sonambúlico dos médiuns Não basta que os incrédulos vejam para que se convençam \... Boa ou má-vontade dos Espíritos para convencer .. Origem das ideias espíritas modernas Meios de comunicação Médiuns interesseiros Médiuns e feiticeiros Diversidade dos Espíritos Utilidade prática das manifestações Loucura, suicídio e obsessão 51 65 66 68 70 71 74 75 9 49

82 86 88 89 93 97 103 105 109 111

ÍNDICE Esquecimento do passado Elementos de convicção Sociedades espíritas Interdição do Espiritismo Terceiro diálogo — O padre CAPÍTULO II 114 117 120 121 -. 122 Noções elementares de Espiritismo — Observações preliminares 151 Dos Espíritos 153 Comunicação com o mundo invisível Fim providencial das manifestações espíritas Dos médiuns Escolhos da mediunidade Qualidades dos médiuns Charlatanismo Identidade dos Espíritos Contradições Consequências do Espiritismo CAPITULO III 157 168 170 175 178 182 183 185 186 Solução de alguns problemas pela Doutrina Espírita — Pluralidade dos mundos 193 Da alma 194 O homem durante a vida terrena 197 O homem depois da morte 207 .

644. 6. rf 81. 17 20941-040 — Rio de Janeiro. ou FAX (021) 589-6838.org.br Pedidos de livros à FEB — Departamento Editorial. 9/1999 Copyright 1944 by FEDERAÇÃO ESPÍRITA BRASILEIRA (Casa-Máter do Espiritismo) Av.N.834 53-AA. 000. fotolitos e impressão offset das Oficinas do Departamento Gráfico da FEB Rua Souza Valente.503 INTERNET http://www. DF — Brasil Composição.ISBN 85-7328-113-8 41! edição Do 41CF. via Correio ou. RJ — Brasil CNPJ n" 33. via rodoviário: por carta. julho de 1859) Capa de CECCONI B.febrasil. .600. em grandes encomendas. telefone (021) 589-6020. L-2 Norte — Q.5-O. 603 — Conjunto F 70830-030 — Brasília.857/0002-84 LÊ.ao 414" milheiro Título do original francês: QVEST-CE QUE LÊ SPIRITISME? (Paris.

. Pois é para honrar Allan Kardec e festejar a sua memória que nos achamos hoje reunidos. permiti-me. Se fácil foi a todos os investigadores conscienciosos inteirarem-se do alto valor e do grande alcance da obra de Allan Kardec pela leitura atenta das suas produções. e um mesmo sentimento de veneração e de reconhecimento faz vibrar todos os corações.BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC (*) Minhas senhoras. no intuito de tentar corresponder a tão legítimo desejo. Nota da Editora. 95/6. intitulado "Kardec e seu nome civil". conforme estudo de autoria de Zeus Wantuil. cujos trabalhos são universalmente conhecidos e apreciados. e cuja vida íntima e laboriosa existência são apenas conjeturadas. pela ausência até hoje de elementos para isso. (*) Seu verdadeiro nome é Hippolyte Iiéon D«nizard Rivail. tão gloriosa e tão bem preenchida. penetrar na vida do homem íntimo e segui-lo passo a passo no desempenho da sua tarefa. que vos entretenha alguns momentos com esse Mestre amado. bem poucos puderam. as informações que desejariam conhecer. pp. sobre aquele a quem chamamos Mestre. inserto em "Reformador" de abril de 1963. Em respeito ao fundador da filosofia espírita. e de não saberem onde encontrar. meus senhores: Muitas pessoas que se interessam pelo Espiritismo manifestam muitas vezes o pesar de não possuírem senão muito imperfeito conhecimento da biografia de Allan Kardec. tão grande.

sua esposa. com o nome de Rivail. A inveja e o ciúme semearam sobre ela os mais evidentes erros. juiz. "Testemunhas maiores: "Syriaque-Frédéric Dittmar. mais elevado.° 76. o grande iniciador de quem nos desvanecemos de ser discípulos. aquele que devia mais tarde ilustrar o nome de Allan Kardec e conquistar para ele tantos títulos à nossa profunda simpatia. residentes em Lião. auto do nascimento de Denizard Hippolyte-Léon Rivail. com luz mais verdadeira. a 3 de outubro de 1804. 85. . esforçar-me por mostrar-vos.10 BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC Não somente a biografia de Allan Kardec é pouco conhecida. a justo título. Eis aqui a esse respeito um documento positivo e oficial: "Aos 12 do vindemiário (*) do ano XIII. pág. esse filósofo sábio. as mais grosseiras e as mais impudentes calúnias. clarividente e profundo. (*) Veja-se "Reformador" de abril de 1947. rua Sala n. magistrado. Foi. filho de Jean Baptiste-Antoine Rivail. e Jean-François Targe. rua Saint-Dominique n. que. em Lião. nasceu de antiga família lionesa. para um adiantamento intelectual e moral seguros. mesma rua Sala. de ter visto nascer entre seus muros esse pensador tão arrojado quão metódico.° 78. ao nosso filial reconhecimento. portanto. senão que ainda está por ser escrita. nascido ontem às 7 horas da noite. impelindo-a para um ideal mais são. Todos sabeis que a nossa cidade se pode honrar. e Jeanne Duhamel. esse trabalhador obstinado cujo labor sacudiu o edifício religioso do Velho Mundo e preparou os novos fundamentos que deveriam servir de base à evolução e à renovação da nossa sociedade caduca. diretor do estabelecimento das águas minerais da rua Sala. à requisição do médico Pierre Radamel. "O sexo da criança foi reconhecido como masculino. com efeito. Vou.

não foi. Rivail Denizard fez em Lião os seus primeiros estudos e completou em seguida a sua bagagem escolar. assim como o Maire da região do Sul. para fundar institutos semelhantes ao de Yverdun.BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC 11 "Feita a leitura. "O presidente do Tribunal. também ele. 67." O futuro fundador do Espiritismo recebeu desde o berço um nome querido e respeitado e todo um passado de virtudes. por seu talento. quando Pestalozzi era chamado pelos governos. com o célebre professor Pestalozzi. grande número dos seus antepassados se tinham distinguido na advocacia e na magistratura. com os louros e as glórias da sua familia. Era bacharel em letras e em ciências e doutor em medicina. . conhecia a fundo e falava corretamente o alemão. as testemunhas assinaram. e podia facilmente exprimir-se nesta língua. o italiano e o espanhol. colaborador inteligente e dedicado. Parecia que o jovem Eivail devia sonhar. o inglês. desde o começo da sua juventude. a capacidade requerida para dar boa conta da tarefa que lhe era confiada. além de tudo. de todo o coração. tendo feito todos os estudos médicos e defendido brilhantemente sua tese ( * ) . ele se sentiu atraído para as ciências e para a filosofia. pág. de honra. O discípulo tornado mestre tinha. (*) ver "Reformador" de marco de 1958. conhecia também o holandês. de probidade. Assim. em Yverdun (Suíça). confiava a Denizard Rivail o encargo de o substituir na direção da sua escola. porque. (assinado): Mathiou. saber e escrupulosa probidade. Aplicou-se. Muitíssimas vezes. Linguista insigne. porém. um pouco de todos os lados. com os mais legítimos direitos. à propaganda do sistema de educação que exerceu tão grande influência sobre a reforma dos estudos na França e na Alemanha. de quem cedo se tornou um dos mais eminentes discípulos.

gentil e graciosa. se firmou em Paris o contrato de casamento de Hippolyte-Léon-Denizard Rivail. Rivail requereu a liquidação do Instituto. Rivail tinha a paixão do jogo. Tendo-o a conscrição incluído para o serviço militar. o pensador sábio e profundo. filha de Julien-Louis Boudet. mas na aparência dir-se-ia ter menos dez que ele. O registro civil nos informa que: "Amélie Gabrielle Boudet. diretor do Instituto Técnico à rua de Sèvres (Método de Pestalozzi). veio fundar em Paris. O sócio do Sr. em 6 de fevereiro de 1832. sob a franca e comunicativa alegria do homem amável. à rua de Sèvres n.° 35. Rivail. um estabelecimento semelhante ao de Yverdun. filho de Jean-Baptiste Antoine e senhora. residentes em Paris. nego- . residentes em Château-du-Loir.12 BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC Denizard Rivail era um alto e belo rapaz. o qual era seu sócio capitalista. e de Julie Louise Seigneat de Lacombe. de cuja partilha couberam 45. e Sra. humor jovial na intimidade. quando. dois anos depois. aos 2 do Frimário do ano IV (23 de novembro de 1795). Rivail. de maneiras distintas. professora com diploma de l. Essa soma foi colocada pelo Sr. classe. Ò Sr. irmão de sua mãe. mas bem proporcionada. que aliava grande dignidade à mais esmerada urbanidade. pois." A senhorita Amélia Boudet tinha. Pequena.. nasceu em Thiais (Sena). Denizard Rivail encontrou aa senhorita Amélia Boudet.000 francos a cada um deles. Jeanne Duhamel. Rivail em casa de um dos seus amigos íntimos. em quem adivinhou. que frequentava em Paris. com Amélie-Gabrielle Boudet. ela soube por seu sorriso e predicados fazer-se notar pelo Sr. Para essa empresa se associara a um dos seus tios. proprietário e antigo tabelião. ele obteve isenção e. perdendo grossas somas em Spa e em Aix-la-Chapelle. arruinou o sobrinho. 35 rua de Sèvres. bom e obsequioso. No mundo das letras e do ensino. filha de Julien Louis e senhora Julie Louise Seigneat de Lacombe. rica por seus pais e filha única. mais nove anos que o Sr. inteligente e viva.

por concurso. mas em 1824. em 1831 fez aparecer a Gramática francesa clássica. em 1846 o Manual dos exames para obtenção dos diplomas de capacidade. Não foi em 1829. de 1835 a 1840. — Nota da Editora. o Sr.000 francos por ano. aritméticas. (*) Houve engano dos biógrafos. Organizou também em sua casa. esse trabalhador infatigável escrevia à noite. encontramos o Sr. o Curso prático e teórico de aritmética. em 1828. em 1831. cursos gratuitos de química. em 1849. segundo o método de Pestalozzi. ao serão. e que eram muito frequentados. págs. e Sra. Ele encontrou e pôde encarregar-se da contabilidade de três casas. frequentados por discípulos de ambos os sexos do faubourg Saint-Germain. soluções racionais das questões e problemas de aritmética e geometria. 77 e 79. Em uma obra muito apreciada resume seus cursos. ele publicou. Ditados especiais sobre as dificuldades ortográficas. Ver "Reformador" de 1952. gramáticas. Membro de várias sociedades sábias. para uso das mães de família e dos professores. em 1829 ( * ) .BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC 13 ciante. Química e Física. foi premiado. por ordem cronológica: Plano apresentado para o melhoramento da instrução pública. à rua de Sèvres. pela apresentação da sua notável memória: Qual o sistema de estudo mais em harmonia com as necessidades da época? Dentre as suas numerosas obras convém citar. Astronomia. . finalmente. em 1848 foi publicado o Catecismo gramatical da língua francesa. Rivail professor no Liceu Polimático. traduzia obras inglesas e alemãs e preparava todos os cursos de Levy-Alvarès. e depois publica: Ditados normais dos exames na Municipalidade e na Sorbona. regendo as cadeiras de Fisiologia. e. notadamente da Academia real d'Arras. astronomia e anatomia comparada. Longe de desanimar com esse duplo revés. Rivail lançaram-se corajosamente ao trabalho. livros para estudos pedagógicos superiores. terminado o seu dia. que lhe produziam cerca de 7. física. que fez maus negócios e cuja falência nada deixou aos credores.

com o qual mantinha relações. tê-lo-iam impelido para o misticismo. Rivail poderia viver feliz. como teremos muitas vezes ocasião de o evidenciar. em razão dos seus estudos sobre o Magnetismo. eu acreditarei quando vir e quando me tiverem provado que uma mesa tem cérebro para pensar. magnetizando-a. e ela responde. ele sempre se mostrou à altura da missão gloriosa que lhe estava reservada. Seu nome era conhecido e respeitado. Rivail. tal o encontraremos muitas vezes. o juízo reto. uma modesta abastança. Fortier. Foi em 1854 que o Sr. replicou o Sr. Prosseguindo em sua carreira pedagógica.14 BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC Tendo sido essas diversas obras adotadas pela Universidade de França. a uma obra maior. seus trabalhos justamente apreciados. nervos para sentir. e que se pode tornar sonâmbula. suas aspirações. mas a educação. tais nos devemos mos- . mas pedindo provas e querendo ver e observar para crer. o Sr. permita-me que não veja nisso senão uma fábula para provocar o sono. magnetizador. honrado e tranquilo. muito antes que ele imortalizasse o nome de Allan Kardec. Seus pendores. é uma outra questão. não negando coisa alguma por parti pris. e. Tal era a princípio o estado de espírito do Sr. o Sr. Rivail ouviu pela primeira vez falar nas mesas girantes." — Isso. Interroga-se. a observação metódica. mas também se pode fazê-la falar. e vendendo-se abundantemente. graças a elas e ao seu assíduo trabalho. O Sr. Rivail conseguir. Como se pode julgar por esta muito rápida exposição. pôde o Sr. a princípio do Sr. estando a sua fortuna reconstruída pelo trabalho perseverante e pelo brilhante êxito que lhe havia coroado os esforços. Rivail. mas a sua missão o chamava a uma tarefa mais onerosa. Rivail estava admiravelmente preparado para a rude tarefa que ia ter que desempenhar e fazer triunfar. Até lá. Fortier lhe disse um dia: "Eis aqui uma coisa que é bem mais extraordinária: não somente se faz girar uma mesa. conservaram-no igualmente ao abrigo dos entusiasmos desarrazoados e das negações não justificadas.

Ele foi o primeiro a falar-me da intervenção dos Espíritos. de uma mesa falante. "No ano seguinte — era no começo de 1855 — encontrei o Sr. Nada tinha ainda visto nem observado. * Até agora. às leis da Natureza e que minha razão repelia. de natureza ardente e enérgica. veremos isso mais tarde. Fortier. Roger. contrário. Eis aqui como Allan Kardec nos revela as suas dúvidas. um novo horizonte se rasga para esse pensador profundo. seu magnetizador. autor pedagógico de renome. respondi-lhe eu —. Carlotti era corso de origem. professor emérito. não vos falei senão do Sr. "Daí a algum tempo. no ciclo de um fato inexplicado. Nessa época. que discorreu acerca desses fenómenos durante mais de uma hora. as experiências feitas em presença de pessoas honradas e dignas de fé me firmavam na possibilidade do efeito puramente material. um amigo de há vinte e cinco anos. longe de me convencerem. estive. que a fama levará a todos os cantos do globo. — Não digo que não. não me entrava ainda no cérebro. com o entusiasmo que ele punha em todas as ideias novas. mas a ideia. Então o nome de Rivail se obumbra. com o Sr. para esse sagaz observador. — Você um dia será dos nossos — disse-me ele. Pâtier e a . pois. Rivail. pelo mês de maio de 1855. para ceder o lugar ao de Allan Kardec. Carlotti. na aparência. porém. eu tinha sempre distinguido nele as qualidades que caracterizam uma grande e bela alma. de 1854 a 1856. mas desconfiava da sua exaltação.BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC 15 trar sempre no estudo tão atraente das manifestações do Além. Lá encontrei o Sr. e contou-me tantas coisas surpreendentes que. da sua vida. que todos os ecos repetirão e que todos os nossos corações idolatram. O Sr. as suas hesitações e também a sua primeira iniciação: "Eu me encontrava. em casa da sonâmbula Sra. aumentaram as minhas dúvidas.

pela primeira vez. de caráter grave. produziu-me viva impressão. . menos ainda por efeito de revelações que por observação. mas noutro tom. pelo encadeamento lógico dos fatos. como até então o tinha feito. Minhas ideias estavam longe de se haver modificado. "Foi aí que fiz os meus primeiros estudos sérios em Espiritismo. senão quando ela podia resolver todas (*) Esta data ficou em branco no manuscrito de Allan Kardec. sua linguagem pausada. deduzia as consequências. sob essas aparentes futilidades e a espécie de divertimento que com esses fenómenos se fazia. fiz conhecimento com a família Baudin. dos efeitos procurava remontar às causas pela dedução. que saltavam e corriam. A entrevista foi marcada para a terça-feira ( * ) de maio. frio e calmo. às 8 horas da noite. rua Grange-Batelière n. observava atentamente. de certa idade. não admitindo como válida uma explicação. Em um dos serões da Sra. muito assíduo. Plainemaison. e isso em condições tais que a dúvida não era possível. Apliquei a essa nova ciência. O Sr. O Sr. Entrevi. que morava então à rua Bochechouart. o método da experimentação.16 BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC Sra. nunca formulei teorias preconcebidas. e. que me falaram desses fenómenos no mesmo sentido que o Sr. Pâtier era funcionário público. Plainemaison. desde esse momento. "Aí vi também alguns ensaios muito imperfeitos de escrita mediúnica em uma ardósia com o auxílio de uma cesta. "Foi aí. isenta de todo entusiasmo. homem muito instruído. que a mim mesmo prometi aprofundar. aceitei com solicitude.° 18. comparava. Plainemaison. "A ocasião se me ofereceu e pude observar mais atentamente do que tinha podido fazer. que testemunhei o fenómeno das mesas girantes. mas naquilo havia um fato que devia ter uma causa. alguma coisa de sério e como que a revelação de uma nova lei. Baudin fez-me oferecimento no sentido de assistir às sessões hebdomadárias que se efetuavam em sua casa. — Nota do Autor. quando ele me convidou para assistir às experiências que se realizavam em casa da Sra. Carlotti. e às quais eu fui.

"Só o fato da comunicação com os Espíritos. para mim. O segundo ponto. Cedo. a chave de uma multidão de fenómenos inexplicados. era já um ponto capital. nem a soberana ciência. ensinar-nos tudo. o que quer que eles pudessem dizer. uma completa revolução nas ideias e nas crenças. para me não deixar arrastar pelas ilusões. pois. reconhecida desde o começo. desde o princípio. . evitou-me o grave escolho de crer na sua infalibilidade e preservou-me de formular teorias prematuras sobre a opinião de um só ou de alguns. não menos importante. ser positivista e não idealista. desvendava-me uma fase desse mundo. Compreendi. "Um dos primeiros resultados das minhas observações foi que os Espíritos. a gravidade da exploração que ia empreender. coordenados e confrontados entre si. Cumpre ao observador formar o conjunto. Foi assim que sempre procedi em meus trabalhos anteriores. exatamente como se chega a conhecer o estado de um país interrogando os habitantes de todas as classes e condições. Entrevi nesses fenómenos a chave do problema tão obscuro e tão controvertido do passado e do futuro. podendo cada qual nos ensinar alguma coisa e nenhum deles podendo. colecionados. um imenso campo franqueado às nossas explorações. individualmente. com o auxílio dos documentos recolhidos de diferentes lados. em uma palavra. não sendo senão as almas dos homens. se fazia agir com circunspeção e não levianamente. desde a idade de quinze a dezesseis anos. e que a sua opinião não tinha senão o valor de uma opinião pessoal. Esta verdade. preciso. era. era conhecer o estado desse mundo e seus costumes.BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC 17 as dificuldades da questão. em razão de sua posição pessoal e de seus conhecimentos. observei que cada Espírito. portanto. que o seu saber era limitado ao grau do seu adiantamento. se assim nos podemos exprimir. não tinham nem a soberana sabedoria. a solução do que havia procurado toda a minha vida. provava a existência de um mundo invisível ambiente. Eu. agi com os Espíritos como o teria feito com os homens: eles foram.

Carlotti. O Sr. convém acrescentar que a princípio o Sr. Sardou. e que facilmente levaria a termo. Baudin não tinham nenhum fim determinado.38 BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC desde o menor até o mais elevado. Rivail. que não conseguiam pôr em ordem. Ele se chamava. Rivail. membro da Academia das Ciências. e o sábio enciclopedista recusava-se a essa tarefa enfadonha e absorvente. René Taillandier. diz ele próprio. Allan Kardec. colhidas nas Obras Póstumas de Allan Kardec. da psicologia e da . longe de ser um entusiasta dessas manifestações e absorvido por outras preocupações. fazer resolver os problemas que me interessavam sob o ponto de vista da filosofia. prometia-lhe esse Espírito secundá-lo na tarefa muito importante a que ele era chamado. esses senhores lhe enviaram os cadernos. assinalou as lacunas a preencher. por um médium. seu Espírito protetor. suprimiu as repetições e pôs na respectiva ordem cada ditado. anotou-os com cuidado.. então. em razão de outros trabalhos. pois. que acompanhavam havia cinco anos o estudo desses fenómenos e tinham reunido cinquenta cadernos de comunicações diversas. editor. quando. esteve a ponto de as abandonar. e Didier. e preparou as perguntas necessárias para chegar a esse resultado. o que talvez tivesse feito se não fossem as instantes solicitações dos Srs. na qual lhe dizia. Após atenta leitura. e. as obscuridades a aclarar. os arranjasse. pedindo-lhe que deles tomasse conhecimento e os pusesse em termos —. Conhecendo as vastas e raras aptidões de síntese do Sr. em virtude das lacunas e obscuridades dessas comunicações. meios de colher informações e não reveladores predestinados. lançou-se à obra: tomou os cadernos. Rivail. cada relatório de sessão. Este trabalho era árduo e exigia muito tempo. "Até então. pai e filho. tê-lo conhecido em uma precedente existência. deu-lhe. Z." A estas informações. como a amizade que lhe havia votado só fazia aumentar. viviam juntos nas Gálias. aí. as sessões em casa do Sr. Uma noite. propus-me. ao tempo dos Druidas. uma comunicação toda pessoal. entre outras coisas. Tiedeman-Manthèse.

mas a pedido dos Espíritos. Foi assim que mais de dez médiuns prestaram seu concurso a esse trabalho. nas sessões ordinárias. "Não me contentei com essa verificação. tive o pensamento de o publicar. Japhet. classificadas e muitas vezes refeitas no silêncio da meditação. Roustan. foi continuado em sessões particulares. e para que fosse consagrado mais cuidado." Em 1856. entre os assistentes. ficavam as sessões como que tolhidas. com Mlle. a princípio. mais atenção a esse exame. E foi da comparação e da fusão de todas essas respostas. coordenadas. profundeza e de modo lógico. . mais tarde." (•) Arranjada em forma de bico. que obtinha como médium comunicações muito interessantes. encontravam-se pessoas sérias que tomaram vivo interesse pelo trabalho. toda vez que se oferecia ocasião. Se me acontecia faltar. que formei a primeira edição de O Livro dos Espíritos. Foram essas mesmas questões que. em casa do Sr. sucessivamente desenvolvidas e completadas. para instrução de todos. Esse trabalho foi efetuado. diz ainda Allan Kardec. Rivail frequentou as reuniões espíritas que se realizavam à rua Tiquetone. A princípio eu não tinha em vista senão a minha própria instrução. sonâmbula. tendo as questões fúteis perdido o atrativo para o maior número. o Sr.BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC 19 natureza do mundo invisível. quando vi que tudo aquilo formava um conjunto e tomava as proporções de uma doutrina. fez examinar por esse médium as comunicações obtidas e postas precedentemente em ordem. eu a aproveitava para propor algumas das questões que me pareciam mais melindrosas. com o auxílio da cesta aguçada ( * ) . e. — Nota do Tradutor. Comparecia a cada sessão com uma série de questões preparadas e metodicamente dispostas: eram respondidas com precisão. a qual apareceu em 18 de abril de 1857. Tendo-me as circunstâncias posto em relação com outros médiuns. que os Espíritos me haviam recomendado. fizeram a base de O Livro aos Espíritos. Desde esse momento as reuniões tiveram caráter muito diferente.

porque está aqui. escreve Allan Kardec. — Com que fim. Sua mulher. — Queria comunicar-se contigo. em virtude dos seus trabalhos anteriores. Allan Kardec reeditou-a em 1858 (*) sob a forma atual in-12. ao fundo. No momento de publicá-lo. Sendo o seu nome muito conhecido do mundo científico. procurou. in-4. No dia 25 de março de 1856 estava Allan Kardec em seu gabinete de trabalho. ele adotou o alvitre de o assinar com o nome de Allan Kardec que. A 2» edição foi Impressa em 1860. mas sem resultado. P. . e nfio 1858. procuraram. talvez mesmo prejudicar o êxito do empreendimento. o autor ficou muito embaraçado em resolver como o assinaria. (*). a causa disso. — Podes perguntar a ele mesmo. para as respostas. então. em duas colunas. entrando cerca das dez horas.° 8. se com o seu nome — Denizard-Hippolyte-Léon Rivail. ou com um pseudónimo. uma para as perguntas e outra. sendo dia de sessões em casa do Sr. quando ouviu ressoarem pancadas repetidas no tabique. P. vinha ele bater assim? R. segundo lhe revelara o guia. Moravam. — Nota da Editora (FEB). e podendo originar uma confusão. "No dia seguinte. revista. de onde podiam eles provir. em frente. — Podereis dizer-me o que queria ele? R. ouviu os mesmos ruídos. podereis dizer-me a causa dessas pancadas que se fizeram ouvir com tanta insistência? Resposta: — Era o teu Espírito familiar. no segundo andar. Baudin. correta e consideravelmente aumentada. Pergunta: — Ouvistes o fato que acabo de narrar. contei o fato e pedi a explicação dele. à rua dos Mártires n. sem descobrir. A obra alcançou tal êxito que a primeira edição foi logo esgotada.20 BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC Esse livro era em formato grande. em via de compulsar as comunicações e preparar O Livro dos Espíritos. ele tivera ao tempo dos Druidas. e em seguida tornou a pôr mãos à obra.

quem quer que sejais. NOTA — O que eu escrevia era precisamente relativo aos estudos que fazia sobre os Espíritos e suas manifestações. ou. é um guia que te há de auxiliar e proteger. — O nome de Verdade que tomais é uma alusão à verdade que procuro? R. — Sim. mas não prometo senão uma vez por mês. quanto a respostas escritas em tua casa. — Eu mesmo não estava muito satisfeito com esse capítulo e o refiz hoje. durante um quarto de hora. — Não importa. P. Essa inutilização não impede que subsista o erro. P. para que eu te assista pelo pensamento. estarei aqui. tínheis alguma coisa de particular a dizer-me? R. agradeço-vos terdes vindo visitar-me. e todos os meses. R. — Meu Espírito familiar. Quereis ter a bondade de dizer-me quem sois? R. — Rasguei o que tinha feito ontem. quando batestes. — Está melhor. — O que eu tinha a dizer-te era sobre o trabalho que fazias. P. Lê da terceira à trigésima linha e reconhecerás um grave erro. Relê e verás. — Talvez. não será tão cedo que as poderás obter. P. o que escrevias me desagradava e eu queria fazer-te parar. — Podereis vir mais frequentemente que todos os meses? R. . — Sobre o capítulo de ontem: faço-te juiz dele. Está melhor? R. Torna a lê-lo esta noite.BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC 21 P. mas não muito bom. — A vossa desaprovação versava sobre o capítulo que eu escrevia. P. P. — Para ti chamar-me-ei a Verdade. pelo menos. ou sobre o conjunto do trabalho? R. — Posso evocar-vos em minha casa? R. P. — Sim. até nova ordem. reconhecer-lhe-ás os erros e os corrigirás. mas. enquanto eu trabalhava. à tua disposição. — Ontem.

também. Ele se manifestou frequentemente a Allan Kardec. que ela ignorava. Allan Kardec perguntou aos seus guias. Tiedeman. Numerosas comunicações. por intermédio de Mlle.22 BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC P. Esse aviso. sendo intermediário o Sr. para solicitar-lhe o concurso pecuniário. Havia-se dirigido ao Sr. por intermédio da Srta. a 12 de abril de 1860. médium. procedentes dos mais diversos pontos. Finalmente. mas este não estava resolvido a tomar parte nessa empresa. confirmou as duas comunicações precedentes. pela médium Mlle. fixada para cada comunicação do Espírito Verdade. Urgido pelos acontecimentos e pelos documentos que tinha em seu poder. pela inspeção das linhas da mão de Allan Kardec. obtida na ausência de Allan Kardec. Allan Kardec apressou-se a reler o que escrevera e pôde verificar o grave erro que com efeito havia cometido. Croset. Roustan. era obstado por uma causa qualquer e imprevista. raramente foi observada. — Disse-te que para ti eu era a Verdade. essa missão foi novamente confirmada em uma comunicação espontânea. mas não em sua casa. Assim. a Sra. em razão do êxito de O Livro dos Espíritos. Animastes alguma personagem conhecida na Terra? R. Dehan." De volta a casa. A dilação de um mês. o projeto de criar um jornal espírita. o que deveria . não saberás mais que isto. Japhet. em casa do Sr. que Allan Kardec recebeu a primeira revelação da missão que tinha a desempenhar. Foi a 30 de abril de 1856. que a isso se vinha opor.. a princípio muito vago. médium. foi precisado no dia 12 de junho de 1856. Allan Kardec formara. A 6 de maio de 1857. em casa do Sr. o que da tua parte devia importar discrição. vieram reafirmar e corroborar a primeira comunicação obtida a esse respeito. Aline C. E. onde durante cerca de um ano não pôde este receber nenhuma comunicação por médium algum e. Cardone. no dia 15 de novembro de 1857. se deu a respeito do seu pseudónimo. Dufaux. cada vez que ele esperava obter alguma coisa.

pois. todas as emulações. Só. — Quais são as causas que me poderiam fazer fracassar? Seria a insuficiência das minhas aptidões? R. — 12 de junho de 1856: P. Essa comunicação e as reflexões de que as anotou Allan Kardec nos mostram. diz Allan Kardec. em lutas incessantes contra obstáculos. como ele mesmo relata e como lhe fora anunciado ao ser-lhe revelada a sua missão. esse jornal se me tornou em poderoso auxiliar. mas fazem também ressaltar o grande valor do fundador do Espiritismo e o seu mérito em ter sabido triunfar: Médium.° de janeiro. a situação naquela época. porém.° de janeiro de 1858. enquanto que um estranho interessado teria pretendido impor-me as suas ideias e a sua vontade e poderia embaraçar-me a marcha. nem sócio capitalista. Mlle. Aline C. sob um prisma pouco lisonjeiro. porque é ao mundo inteiro que se trata de agitar e de trans- . "Apressei-me em redigir o primeiro número. mais tarde. a tua é rude. como o previra o Espírito." E essa tarefa devia ir sempre crescendo em labor e em responsabilidades. — Não. Foi-lhe respondido que pusesse a sua ideia em execução e que não se inquietasse com o resto. esse enérgico trabalhador se elevava. Fi-lo. fosse a minha tarefa. e. também. os números se sucederam sem interrupção. porque o êxito ultrapassou a minha expectativa. Reconheci. por mais onerosa que. nessa Revista Espírita. mas a missão dos reformadores é cheia de escolhos e perigos. porque estava mais livre. ele afrontou todas as tempestades.BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC 23 fazer. à altura dos acontecimentos. como trabalho. inteiramente por minha conta e risco. que a lide se tornava mais áspera. e durante onze anos. previno-te. perigos de toda sorte. que nunca o surpreenderam. sem nada dizer a pessoa alguma. A partir de 1. que era uma felicidade para mim não ter tido um sócio capitalista. eu não tinha que prestar contas a ninguém. Não tinha um único assinante. e não tive de que me arrepender. À medida. todos os ciúmes que não lhe foram poupados. que acabamos de ver como começou tão modestamente. emboscadas. e o fiz aparecer no dia 1.

não encontra sob seus passos senão espinhos. e que. urdidas por aqueles que se diziam a meu favor. Para lutar contra os homens. É preciso antes de tudo. da calúnia. é preciso te mostrares no conflito. porque tu não viverás muito tempo. dois livros. . e verifico que ela se realizou em todos os pontos. A Sociedade de Paris tem sido um contínuo foco de intrigas. dez livros. mostrando-se amáveis em minha presença. "Vês que a tua missão está subordinada a condições que dependem de ti. contra ti se açularão terríveis ódios. desinteresse. modéstia. sucumbirás mais de uma vez ao peso da fadiga. é necessário coragem. Pois bem. abnegação. e estar pronto para todos os sacrifícios. da tua saúde e mesmo da tua vida. têm sido publicados contra mim infames libelos. tenho sido traído por aqueles em quem depositara confiança. mesmo daqueles que te parecerão mais dedicados. Espírito Verdade. Mais de um recua quando. Não creias que te seja suficiente publicar um livro. é preciso. em lugar de uma vereda florida. da inveja e do ciúme. estarás exposto à calúnia. também. ter prudência e tato para conduzir as coisas a propósito e não comprometer-lhes o êxito por medidas ou palavras intempestivas. porque experimentei todas as vicissitudes que nela me foram anunciadas. implacáveis inimigos tramarão a tua perda. porque abatem os orgulhosos e os presunçosos. humildade. agudas pedras e serpentes. para agradar a Deus. Tenho sido alvo do ódio de implacáveis inimigos. e ficares tranquilamente em tua casa. da injúria. dez anos e meio depois que esta comunicação me foi dada. à traição. é uma luta quase constante que terás de sustentar com o sacrifício do teu repouso. perseverança e firmeza inquebrantáveis." NOTA — (É Allan Kardec que assim se exprime) : "Escrevo esta nota no dia l» de janeiro de 1867. devotamento. é preciso. enfim. em uma palavra.24 BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC formar. as minhas melhores instruções têm sido desnaturadas. Para tais missões não basta a inteligência. as tuas melhores instruções serão impugnadas e desnaturadas. da tua tranquilidade. e pago com a ingratidão por aqueles a quem tinha prestado serviços. não.

Mas era preciso.BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC 25 me detratavam na ausência. então." Quando se conhecem todas essas lutas. tem-se-me alterado a saúde e comprometido a vida. Dufaux. o pioneiro ousado. sem me preocupar com a malevolência de que era alvo. e tudo se verificou. Até então. Dufaux. todas as torpezas de que Allan Kardec foi alvo. Tornando-se. que sem cessar me têm dado provas manifestas de sua solicitude. enquanto que o de Allan Kardec. esse local muito acanhado e não querendo onerar Allan Kardec com todos os encargos. alguns dos assistentes se propuseram formar uma sociedade espírita e alugar um outro local em que se efetuassem as reuniões. graças à proteção e à assistência dos bons Espíritos. e que tenho constantemente prosseguido na minha tarefa com o mesmo ardor. aí reuniu ele mais de trinta. "Entretanto. sou feliz em reconhecer que não tenho experimentado um único instante de desfalecimento nem de desânimo.° de abril de 1858. quanto ele se engrandece aos nossos olhos e como o seu brilhante triunfo adquire mérito e esplendor! Que se tornaram esses invejosos. mais de uma vez. Segundo a comunicação do Espírito Verdade. Disseram que aqueles que adotavam o meu partido eram assalariados por mim com o dinheiro que eu arrecadava do Espiritismo. obter o reconhecimento e a autorização da Polícia. esses pigmeus que procuravam obstruir-Ihe o caminho? Na maior parte são desconhecidos os seus nomes. O Sr. que . E. Cedo. sucumbi. o intrépido lutador. à rua dos Mártires. para se poderem reunir. com Mlle. ou nenhuma recordação despertam mais: o esquecimento os retomou e sepultou para sempre em suas sombras. eu devia contar com tudo isso. o seu salão poderia conter de quinze a vinte pessoas. sob o excesso do trabalho. A Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas foi fundada a 1. como principal médium. passará à posteridade com a sua auréola de glória tão legitimamente adquirida. as reuniões se realizavam em casa de Allan Kardec. Não mais tenho conhecido o repouso.

além daqueles que conheceis. enquanto que pelo processo ordinário teria exigido meses. Não podendo lá permanecer por mais tempo. ora. o general X. quer para o preparo. que era favorável às novas ideias. época em que se instalou em sede própria. reunia-se todas as sextas-feiras em um dos salões do restaurante Douix. e. galeria Valois. que a minha tarefa está terminada e que o impulso está dado. mesmo a de diretor dos estudos. pág. quer para a coordenação e a passagem a limpo.° de abril de 1859.° de abril de 1859 a 1. porque.° 59.26 BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC conhecia pessoalmente o prefeito de polícia de então. que posso dizer laboriosas. toda a solicitude e toda a dedicação de que era capaz. de 1. devo inteirar-vos da resolução que tomei. pela extensão das minhas relações. do ponto de vista administrativo. que aumentam todos os dias. que exigem longos e laboriosos estudos e não absorverão menos de dez anos. com que me sentirei sempre feliz e honrado.. Reclamam assiduidade muitas vezes prejudicial às minhas ocupações pés- . no local que fora alugado no Palais-Royal. regularmente constituída e reunia-se todas as terças-feiras. "A Sociedade foi. esforcei-me por manter nas sessões uma ordem rigorosa e por imprimir-lhe um caráter de gravidade. de 1. a autorização foi obtida em quinze dias. Agora." Depois de haver dado conta das condições em que se formou a Sociedade e da tarefa que teve a desempenhar. O motivo da minha determinação está na multiplicidade dos meus trabalhos. preparo outros trabalhos mais consideráveis. 169) : "Empreguei em minhas funções. os trabalhos da Sociedade não deixam de tomar muito tempo. sem grande probabilidade de êxito. graças ao ministro do Interior. não ambiciono senão um título — o de simples membro titular. 1859.° de abril de 1858 a 1.° de abril de 1860. encarregou-se de dar os passos para esse íim. Aí ficou durante um ano. sem o qual o prestígio de assembleia séria teria cedo desaparecido. então. galeria Montpensier. no Palais-Royal. de renunciar de futuro a toda espécie de função na Sociedade. Allan Kardec assim se exprime (Revista Espirita. à rua e passagem SanfAna n.

vendo que os seus . se não fora o temor de produzir uma perturbação na Sociedade. apresso-me em vos dar parte da minha resolução. e que por toda parte lhe compreendem o alcance e as consequências futuras. lamentando com frequência que os membros eminentemente esclarecidos que possuímos nos privassem das suas luzes. especialmente em Sens. Retirando-me no meado do ano. Há. menos um voto e uma cédula em branco. a minha tarefa até ao fim. que esses motivos cessaram. dela se ocupam de modo sério. no interesse do Espiritismo. em todo lugar em que se demorou. e especialmente ao Sr. e eis aqui como a ela fez referência na Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas: "O Sr. Tê-lo-ia feito mais cedo. mas. é que em parte alguma viu que dela se fizesse um divertimento. que eu devo o ter tantas vezes tomado a palavra. Desde muito tempo alimentava o desejo de demitir-me das minhas funções: manifestei-o de modo muito explícito em diversas ocasiões. sem dúvida." Apressemo-nos a acrescentar que essa demissão não foi aceita e que Allan Kardec foi reeleito por unanimidade. Mácon. Allan Kardec fez uma viagem de propaganda à nossa região. os progressos consideráveis da doutrina. que. ele se submeteu e se conservou em suas funções. Lião e Saint-Etienne. mas os mote j adores diminuem sensivelmente. pois que se torna indispensável a iniciativa quase exclusiva que me tendes deixado.BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC 27 soais. sendo os mais encarniçados os inimigos interessados. quer aqui. Em setembro de 1860. Ledoyen. Observou. ao contrário. Diante desse testemunho de simpatia. É justo que cada um tenha a sua parte nos encargos e nas honras. Allan Kardec dá conta do resultado da viagem que acaba de fazer. quer em particular a muitos dos meus colegas. poderiam acreditar em uma deserção. e era preciso não dar esse prazer aos nossos adversários. e felicita-se pela cordialidade do acolhimento que por toda parte encontrou. porém. hoje. É a esse motivo. mas o que sobretudo é digno de nota. portanto. meus senhores. Desempenhei. muitos adversários. para não embaraçar a escolha que fareis.

admiram a moral que deles decorre. para eles. próprias a nos interessar. do qual eis aqui algumas passagens. o que ainda vale mais. e assim se calam. mas estava longe de imaginar que o número fosse tão considerável. porque é por centenas que eles se contam. porém. Mas. e que auxiliam mais do que impedem o progresso das novas crenças. é sobretudo em Lião que são mais notáveis os resultados. e. antes de tudo. numerosos em todas as classes. o Espiritismo é simplesmente para eles uma série de fatos mais ou menos interessantes." No decurso dessa viagem. Há. não se contentam de admirar a moral: praticam-na e aceitam-lhe as conse- . não o faz menos pela qualidade. Lião se distingue pelo número. os fenómenos. sob o ponto de vista da ordem. compreendem o seu alcance filosófico. começam a compreender que nada ganham com isso e que consomem o seu espírito em pura perda. compreendendo a doutrina sob seu verdadeiro ponto de vista. Uma frase muito característica parece ser em toda parte a ordem do dia. no banquete realizado a 19 de setembro de 1860. e nada mais. aí. finalmente. e é esta: o Espiritismo está no ar. Os segundos vêem outra coisa nele além dos fatos. Os terceiros. da moral e das ideias religiosas. "Se. a nós que aspiramos a substituir dignamente esses trabalhadores da primeira hora: "A primeira coisa que me impressionou foi o número de adeptos. em pouco tempo — eu o espero —. só por si desenha ela o estado das coisas. A Doutrina Espírita tem exercido sobre os operários a mais salutar influência. Allan Kardec pronunciou um discurso magistral. três categorias de adeptos: uns que se limitam a crer na realidade das manifestações e que procuram. a caridade cristã é uma bela máxima. meus senhores. Por toda parte não encontrei senão espíritas sinceros. e na classe operária contam-se por centenas.28 BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC sarcasmos não colocam do seu lado os gracej adores. eu sabia perfeitamente que Lião os contava em grande escala. em resumo. mas não a praticam. Os espíritas são. já se não poderão contar mais. a propagação do Espiritismo marcha com a mais animadora celeridade.

Bem convencidos de que a existência terrestre é uma prova passageira. sobre os espíritas lioneses de sua época. a caridade é. posto que dos mais obscuros. é para nós uma grande honra. quando eu lhes exprimia a minha surpresa: "Por que te admiras disso? Lião foi a cidade dos mártires. Allan Kardec não se contentava em atirar flores sobre nossos companheiros. por terem. tanto como os indivíduos. por nossa vez. Honra. sábios conselhos. Mas. conformando com elas o nosso proceder. terá suas consequências. ou . meus senhores. há muitos da terceira categoria. e não é sem razão — eu o vejo — que os Espíritos me responderam noutro dia. em toda ocasião. deveremos meditar. ou. dava-lhes. a crer no que me dizem. nenhum adepto da primeira categoria. os espiritas-cristãos. esforçam-se por aproveitar esses curtos instantes.BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC 29 quências. Este exemplo não será perdido. a fé aí é vivaz. sobretudo. aos espíritas lioneses." Essa opinião de Allan Kardec. mas deve ser também uma regra de conduta. em parte alguma vi que se ocupassem do Espiritismo por mera curiosidade. Lião será o coração. com frívolos intuitos. entrado largamente nessa senda progressista. empenhando-se em fazer o bem e em reprimir as suas más inclinações. sem a qual o Espiritismo não teria objetivo. as suas relações são sempre seguras. Se Paris é a cabeça. sobre os quais. sobretudo. "Vindo dos Espíritos o ensino. aprofundando por nossa vez as lições do mestre e. eu vo-lo digo com satisfação: ainda não encontrei. aí. saibamo-nos recordar sempre disso e conservar alto e firme o estandarte do Espiritismo. se acham sob a influência de certos Espíritos que presidem aos seus trabalhos. as intenções são sérias. ela fornecerá apóstolos ao Espiritismo. melhor. por toda parte o fim é grave. e. a regra da sua conduta: são esses os verdadeiros espíritas. por um dos vossos médiuns mais dedicados. os diferentes grupos. Devemos esforçar-nos por merecer esses elogios. diz um adágio. pois. porque as suas convicções os afastam de todo pensamento do mal. assim. para marchar na senda do progresso que lhes traçam os Espíritos. "Pois bem. Noblesse oblige.

aí está uma das maiores dificuldades. fugir ao entusiasmo que cega. é preciso que tudo seja friamente examinado. Se esses Espíritos não se acham de acordo. antes de tudo. tem seus escolhos que se não podem evitar senão pela experiência. o ensino peca pelas qualidades essenciais. Só um falso . e a esse respeito a questão de identidade é inteiramente secundária. humildade — esperam fazer passar os mais grosseiros absurdos e é o que acontece muitas vezes. "Acontece muitas vezes que. para fazer adotar certas utopias. sob um nome respeitável.30 BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC os dirigem moralmente. segundo o provérbio: que quatro olhos vêem melhor do que dois. Para escapar à cilada. Regra geral: o nome nunca é uma garantia. será. em todos os pontos. o que é muitas vezes mais prudente. fraternidade. Se tudo nesse ensino é bom. se desconfiamos do próprio julgamento. tanto da parte dos Espíritos. e. evitar o deixar-se seduzir pelas aparências. um meio mais certo: é afetar as exterioridades da virtude. ora. Os Espíritos enganadores tudo podem imitar. em uma palavra. a questão está em saber qual é o que merece maior confiança. aquele cuja teoria não pode provocar nenhuma objeção séria. evidentemente. pois. exceto o verdadeiro saber e o verdadeiro sentimento. mas. nunca se disse que o Espiritismo fosse uma ciência fácil. confrontadp. alguns Espíritos lazem alarde de um falso saber e pensam impô-las. pouco importa o nome que toma o Espírito. ainda. a verdadeira garantia de superioridade é o pensamento e a maneira por que é ele expresso. racional. é preciso. aquele que. é preciso recorrer a outras pessoas. quanto da dos homens. a única. Eles têm. quando se não está precavido. eu o confesso. dá maior número de provas de superioridade. podeis imediatamente concluir que é um nome apócrifo e que é um Espírito impostor ou galhofeiro. escolhendo no arsenal das palavras técnicas tudo o que pode fascinar aquele que é facilmente crédulo. Se. com o auxílio das grandes palavras — caridade. maduramente pesado. tudo. É preciso. ao orgulho que leva certos médiuns a acreditarem-se os únicos intérpretes da verdade.

que apareceu na primeira quinzena de janeiro de 1861. ainda. na Revista Espírita: "Procuramos neste trabalho. é sempre a vereda mais segura. O mestre expõe a sua razão de ser nos seguintes termos." O Livro dos Médiuns é. então. um alucinado. com imprudência. "O Espiritismo experimental está cercado de muito mais dificuldades do que se acredita geralmente. o vade-mécum de quantos se querem entregar com proveito à prática do Espiritismo experimental.BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC 31 amor-próprio ou uma obsessão podem fazer persistir em uma ideia notoriamente falsa e que o bom-senso de cada um repele. por esse novo terreno. a explicação teórica dos diversos fenómenos e condições em que eles se podem produzir. e essa regra de conduta. em O Livro dos Médiuns. O nosso fim foi acautelar os investigadores contra tais dificuldades. estabelecida no começo. é o que produz tanta decepção aos que dele se ocupam sem ter a experiência e os conhecimentos necessários. nem sempre isentas de inconveniente para quem quer que se aventure. mas a parte concernente ao desenvolvimento e ao exercício da mediunidade foi. objeto de atenção toda especial. são numerosos. Não podíamos desprezar um ponto tão capital. sobretudo. É ainda o . de acordo com os Espíritos. nem pela observação. fruto de longa experiência e de laboriosos estudos. editado pelos Srs. mais prudente. e o tratamos com cuidado igual à sua importância. ele contém. a única a seguir por aqueles que se querem ocupar do Espiritismo." Eis os conselhos tão sábios e tão práticos dados por aquele que quiseram fazer passar por um entusiasta. ainda não foi invalidada. que aí se encontram. nem pelos acontecimentos. e os escolhos. nada apareceu de melhor nem de mais completo nessa ordem de ideias. esclarecer todas as questões que se prendem à prática das manifestações. um místico. de nossa parte. Allan Kardec trabalhava.. Didier & Cia. livreiros-editores.

que apareceu na primeira quinzena de janeiro de 1861." O Livro dos Médiuns é. nem pela observação. na Revista Espírita: "Procuramos neste trabalho. esclarecer todas as questões que se prendem à prática das manifestações. Não podíamos desprezar um ponto tão capital. ele contém. O mestre expõe a sua razão de ser nos seguintes termos. "O Espiritismo experimental está cercado de muito mais dificuldades do que se acredita geralmente. sobretudo. Allan Kardec trabalhava. estabelecida no começo.BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC 31 amor-próprio ou uma obsessão podem fazer persistir em uma ideia notoriamente falsa e que o bom-senso de cada um repele. objeto de atenção toda especial. de acordo com os Espíritos. Didier & Cia." Eis os conselhos tão sábios e tão práticos dados por aquele que quiseram fazer passar por um entusiasta. mas a parte concernente ao desenvolvimento e ao exercício da mediunidade foi.. mais prudente. a única a seguir por aqueles que se querem ocupar do Espiritismo. é o que produz tanta decepção aos que dele se ocupam sem ter a experiência e os conhecimentos necessários. o vade-mécum de quantos se querem entregar com proveito à prática do Espiritismo experimental. fruto de longa experiência e de laboriosos estudos. É ainda o . ainda. nem pelos acontecimentos. então. que aí se encontram. são numerosos. por esse novo terreno. em O Livro dos Médiuns. editado pelos Srs. ainda não foi invalidada. um alucinado. é sempre a vereda mais segura. com imprudência. nada apareceu de melhor nem de mais completo nessa ordem de ideias. nem sempre isentas de inconveniente para quem quer que se aventure. e essa regra de conduta. livreiros-editores. e os escolhos. um místico. a explicação teórica dos diversos fenómenos e condições em que eles se podem produzir. de nossa parte. O nosso fim foi acautelar os investigadores contra tais dificuldades. e o tratamos com cuidado igual à sua importância.

chefe de oficina. No ano de 1861. já se não contam. sem perigo. tem feito adeptos em todas as classes. no qual pudemos verificar essa faculdade desenvolvida no mais alto grau. para melhor dizer. sem contar grande número de reuniões particulares. em Vaise. Então. que acreditamos dever consagrar aos operários a maior parte do nosso relatório. ao contrário. formaram-se outros em diferentes pontos da cidade: em Guillotière. essa classe se voltaria para eles. E isto tem sido o meio mais seguro de perderem as suas simpatias e fazê-la engrossar as nossas fileiras. querem tirar-Ihe exatamente aquilo que a ajuda a carregar o seu fardo de miséria. ou. que aí se contam os espíritas. só havia um único centro de reunião. mas. diz ele. . o terreno da mediunidade. não é mais por centenas. e isso não é de admirar: sendo essa classe a que mais sofre. etc. e verificou que em nossa cidade o Espiritismo atingira a maioridade. O que vimos com os nossos próprios olhos é de tal modo característico e encerra ensino tão grande. em Perrache. como há um ano. o dos Brotteaux. Allan Kardec fez uma nova viagem espírita a Sens. seguindo a mesma progressão. depois. em Croix-Rousse. em um só grupo vimos cinco escreverem simultaneamente. e sua mulher. em Saint-Just.32 BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC mais seguro guia de que nos podemos servir para explorar. havia apenas dois ou três médiuns neófitos. igualmente. Mácon e Lião. Se aqueles que clamam contra o Espiritismo lhe oferecessem outro tanto. um rapaz muito bom médium vidente. aí. "No ano passado. volta-se para o lado que lhe oferece maior consolação. mas é sobretudo na classe operária que se tem propagado com maior rapidez. e pode-se calcular que. hoje os há em todos os grupos e muitos são de primeira ordem. Vimos. "Com efeito. dentro de um ano ou dois eles serão mais de trinta mil. é por milhares.. O Espiritismo. dirigido por Dijoux.

de passagem. mas o que mais vale ainda do que o número é a qualidade. jovens. quanto à ordem. muitas vezes longas. ódios apaziguados. que lhes dão as comunicações espíritas. grande satisfação em registrar.BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC 33 -i "Sem dúvida. de agora em diante inabalável. temos. jamais uma única criança perturbou por instantes o silêncio das nossas reuniões. velhos. há homens. em uma palavra. "Mas. paixões acalmadas. cega. isto não é tudo: o número das metamorfoses morais é. No dia 19 de setembro de 1860 os convivas eram apenas uns trinta. de que saem reconfortados contra a adversidade. que se consideram todos como membros de uma grande família. raciocinada e não. sob qualquer tempo. ao recolhimento e à atenção que prestam às instruções dos seus guias espirituais. o que — diz o Mestre —." Por ocasião dessa viagem. as mais legítimas virtudes cristãs desenvolvidas. declaramo-lo bem alto: não vimos. A maioria dos assistentes era composta de operários e toda gente notou a perfeita ordem que não cessou de reinar um só instante. entre os operários. crianças mesmo. muito é para desejar que se multipliquem os adeptos. mas a baseada sobre uma convicção profunda. senhoras. tudo arrostando para não faltarem a uma sessão. "representando os diferentes grupos. e isso pela confiança. inverno ou verão. é uma felicidade para eles assistirem a essas instruções. é que neles não há a fé vulgar. reuniões espíritas mais edificantes do que as dos operários lioneses. muitos chegam a galgar mais de uma légua. em parte alguma. É que os verdadeiros espíritas põem sua satisfação nas alegrias do coração e não nos prazeres ruidosos". pareciam quase tão ávidas quanto seus pais. entre os quais não existe sombra de ciúme e de rivalidade. em recolher as nossas palavras. a 19 de setembro de 1861 o número era de cento e sessenta. no futuro em que não acreditavam. cuja atitude respeitosa contrasta com a sua idade. 2 . Pois bem. quase tão grande quanto o dos adeptos: hábitos viciosos reformados. um banquete novamente reuniu sob a presidência de Allan Kardec os membros da grande família espírita lionesa. lares tornados tranquilos.

Refiro-me ao auto-de-fé levado a efeito em Barcelona. Essas obras. dizendo que era preferível para a propaganda do Espiritismo deixar essa ignomínia seguir o seu curso. o dissuadiram disso. Além das viagens e dos trabalhos de Allan Kardec. . mas também os direitos aduaneiros ficaram em poder do fisco espanhol. mas a sua reclamação foi de nulo efeito. Os Espíritos. fundamentou a sua recusa com a seguinte resposta: "A Igreja Católica é universal. mas a entrega das caixas não se fez: o bispo de Barcelona. semeava a boa-nova e fazia germinar a fé no futuro. em número de trezentas aproximadamente. Uma vez que não queriam entregar essas obras ao destinatário. e sendo esses livros contrários à fé católica. e o bispo de Barcelona. como em todas as cidades por que passava. com uma declaração em ordem do conteúdo das caixas. Allan Kardec reclamou a sua devolução. O Sr.BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC A 14 de outubro do mesmo ano encontramos Allan Kardec em Bordéus. Allan Kardec poderia promover uma ação diplomática e obrigar o governo espanhol a efetuar o retorno das obras." E não somente esses livros não foram restituídos. erigindo-se em policiador da França. porém. onde. tendo julgado esses livros perniciosos à fé católica. o governo não pode consentir que eles passem a perverter a moral e a religião de outros países. para as expor à venda e fazer propaganda da nova filosofia. foram os direitos da alfândega cobrados ao destinatário e arrecadados pelos agentes do governo espanhol. fez confiscar a expedição pelo Santo-Ofício. e em que foram queimadas pela fogueira dos inquisidores trezentas obras espíritas. Maurício Lachâtre estava nessa época estabelecido corno livreiro. À sua chegada à Espanha. em Barcelona. esse ano de 1861 permanecerá memorável nos anais do Espiritismo por um fato de tal modo monstruoso que quase parece incrível. Assim. pediu a este que lhe enviasse certo número de obras espíritas. em relações e em comunhão de ideias com Allan Kardec. foram expedidas nas condições ordinárias.

por ordem do bispo desta cidade foram queimados trezentos volumes e brochuras sobre o Espiritismo. as obras incriminadas. pelo mesmo. Eis aqui. "A História de Joana d'Arc. ditado pelo Espírito de Mozart. pelo Doutor Grand. por Allan Kardec. diretor Allan Kardec. Ermance Dufaux. "O que é o Espiritismo. "Carta de um católico sobre o Espiritismo. "A realidade dos Espíritos demonstrada pela escrita direta. "A Revista Espiritualista.BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC 35 Renovando os fastos e as fogueiras da Idade Média. "Uma multidão incalculável aglomerava-se nos passeios e cobria a esplanada em que ardia a fogueira. "Assistiram ao auto-de-fé: "Um padre revestido de hábitos sacerdotais. pelo Barão de Guldenstubbé. o padre e os seus ajudantes se reti- . a título de documento histórico. "Um agente da alfândega. encarregados de alimentar o fogo. o processo verbal dessa infâmia clerical: "Aos nove dias de outubro de mil oitocentos e sessenta e um. representando o proprietário das obras condenadas pelo bispo. "Quando o fogo consumiu os trezentos volumes e brochuras espíritas. "O Livro dos Médiuns. pela mão do carrasco. na outra. às dez horas e meia da manhã. pelo mesmo. o bispo de Barcelona fez queimar em praça pública. "Um tabelião encarregado de redigir o processo verbal do auto-de-fé. "O Livro dos Espíritos. por ela mesma ditada a Mlle. "Fragmento de Sonata. diretor Piérart. "Um empregado superior da administração das alfândegas . trazendo em uma das mãos a cruz e. a saber: "A Revista Espirita. uma tocha. "Três mozos (serventes) da alfândega. "O escrevente do tabelião. no lugar em que são executados os criminosos condenados à pena última. na esplanada da cidade de Barcelona.

alegrar-nos com o grande reclamo que esse ato odioso operou em íavor do Espiritismo. pois. O ano de 1862 foi fértil em trabalhos favoráveis à difusão do Espiritismo. pois. e não aos que têm fé e a quem essa fé é suficiente.36 BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC raram cobertos pelos apupos e as maldições dos numerosos assistentes. ponde a luz em evidência. conquistou. de qualquer comunhão que seja. A propósito." Seria diminuir o horror de tais atos. como todos os de Allan Kardec. porque com os que crêem não sereis bem sucedidos. pág. não façais violência à fé de ninguém. a todos os espíritas: acolhei com solicitude os homens de boa-vontade. simples e sobretudo práticos. como o haviam os Espíritos previsto. porque semeareis em campos áridos. nunca deveremos esquecer estes conselhos do Mestre (Revista Espírita. Repetiremos. oferecei a luz aos que a procuram. da propaganda que nós mesmos devemos fazer da nossa filosofia. constatemos somente que ao clarão dessa fogueira o Espiritismo tomou um incremento inesperado em toda a Espanha e. 367): "O Espiritismo se dirige aos que não crêem ou que duvidam. como o fez Allan Kardec. muito mais quanto ao clero que aos seculares. aí. cumpre que deles nos recordemos e os aproveitemos oportunamente. e nisto é consequente com os princípios de tolerância e de liberdade de consciência que professa. Por esse motivo não poderíamos aprovar as tentativas feitas por certas pessoas para converter às nossas ideias o clero. Só podemos." Estes conselhos. um número incalculável de adeptos. são claros. para que a vejam os que quiserem ver. No dia 15 de janeiro apareceu . que gritavam: Abaixo a Inquisição! "Em seguida muitas pessoas se acercaram da fogueira e apanharam cinzas. ele não diz a ninguém que renuncie às suas crenças para adotar as nossas. mostrai os frutos da árvore e deles dai de Comer aos que têm fome e não aos que se dizem saciados. acompanhá-los com a narrativa dos comentários. porém. 1863.

por ocasião do ano-novo. porque deve ser agora evidente para vós que uma sociedade única seria quase impossível. eis aqui como respondeu o Mestre a esse testemunho de simpatia: "Meus caros irmãos e amigos de Lião: "A manifestação coletiva que tivestes a bondade de transmitir-me. porque Ele os ouve todos os dias. um histórico do Espiritismo e uma ideia suficiente da doutrina dos Espíritos. foi encontrar. porque a pequena brochura se espalhou em profusão. em quadro muito resumido. meus bons amigos. o que me causou maior prazer. devendo muitos a esse excelente trabalho o terem compreendido o fim e o alcance do Espiritismo. é apresentar. produziu-me vivíssima satisfação. provando-me que conservastes de mím uma boa recordação. representantes de quase todos os grupos. Tendo os nossos predecessores no Espiritismo transmitido a Allan Kardec. eles me são tanto mais agradáveis quanto sei que partem do coração. a expressão dos seus sentimentos de gratidão. e são os que Deus atende. em minha . Pela clareza e simplicidade do estilo. procuramos pô-lo ao alcance de todas as inteligências. os votos que fazeis por mim. de ver aquela a que me tenho dedicado engrandecer e prosperar. para que lhe auxiliem a propagação. entre as numerosas assinaturas que nele figuram. Sou feliz por ver que compreendestes perfeitamente o fim dessa organização. proporcionando-me a extraordinária satisfação no estabelecimento de uma nova doutrina. Ficai. "O fim desta publicação. para permitir ser compreendido o seu fim moral e filosófico. pois. satisfeitos. "Agradeço. por ocasião do Ano-Novo. cujos resultados desde já podeis apreciar. Contamos com o zelo de todos os verdadeiros espíritas. nesse ato espontâneo de vossa parte.BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC 37 a pequenina e excelente brochura de propaganda: O Espiritismo em sua mais simples expressão." — Este apelo foi ouvido. diz Allan Kardec. porque é um sinal da harmonia que reina entre eles. mas.

vida, com uma rapidez maravilhosa; considero um grande favor do céu ser testemunha do bem que ela já produz. "Esta certeza, de que recebo diariamente os mais tocantes testemunhos, me paga com usura todos os meus sofrimentos, todas as minhas fadigas; não peço a Deus senão uma graça, e é a de dar-me a força física necessária para ir até ao fim da minha tarefa, que longe se encontra de estar concluída; mas, como quer que suceda, possuirei sempre a maior consolação, pela certeza de que a semente das ideias novas, espalhada agora por toda parte, é imperecível; mais feliz que muitos outros, que não trabalharam senão para o futuro, é-me permitido contemplar os primeiros frutos. "Se alguma coisa lamento, é que a exiguidade dos meus recursos pessoais me não permita pôr em execução os planos que concebi para um avanço ainda mais rápido; se Deus, porém, em sua sabedoria, entendeu dispor de modo diferente, legarei esses planos aos nossos sucessores, que, sem dúvida, serão mais felizes. A despeito da escassez dos recursos materiais, o movimento que se opera na opinião ultrapassou toda a expectativa; crede, meus irmãos, que nisso o vosso exemplo não terá sido sem influência. Recebei, portanto, as nossas felicitações pela maneira por que sabeis compreender e praticar a Doutrina. "No ponto a que hoje chegaram as coisas, e tendo em vista a marcha do Espiritismo através dos obstáculos semeados em seu caminho, pode dizer-se que as principais dificuldades estão superadas; ele conquistou o seu lugar e está assente sobre bases que de ora em diante desafiam os esforços dos seus adversários. "Perguntam como uma doutrina, que torna feliz e melhor, pode ter inimigos; é natural; o estabelecimento das melhores coisas choca sempre interesses, ao começar. Não tem acontecido assim com todas as invenções e descobertas que têm revolucionado a indústria? As que hoje ;;ão consideradas como benefícios, sem as quais não se poderia mais passar, não tiveram inimigos obstinados? Toda lei que reprime um abuso não tem contra si todos is que vivem dos abusos? Como quereríeis que uma

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doutrina que conduz ao reino da caridade efetiva não fosse combatida por todos os que vivem no egoísmo? E sabeis que são eles numerosos na Terra! "No começo contaram sepultá-la com a zombaria; hoje vêem que essa arma é impotente e que, sob o fogo dos sarcasmos, ela prosseguiu o seu caminho sem tropeçar. Não acrediteis que se confessem vencidos; não, o interesse material é tenaz. Reconhecendo que é uma potência com que é necessário de hoje em diante contar, vão dirigir-lhe assaltos mais sérios, mas que só servirão para melhor atestar a fraqueza deles. Uns a atacarão diretamente por palavras e atos, e a perseguirão até na pessoa dos seus adeptos, que eles se esforçarão por desalentar a poder de embaraços, enquanto que outros, secretamente e por caminhos disfarçados, procurarão miná-la surdamente. "Ficai prevenidos de que a luta não está terminada; fui avisado de que eles vão tentar um supremo esforço. Não tenhais, porém, receio: o penhor da vitória está nesta divisa, que é a de todos os verdadeiros espíritas: Fora da caridade não há salvação. Arvorai-a bem alto, porque ela é a cabeça de Medusa para os egoístas. "A tática, posta já em prática pelos inimigos dos espíritas, mas que eles vão empregar com novo ardor, é tentar dividi-los criando sistemas divergentes e suscitando entre eles a desconfiança e o ciúme. Não vos deixeis cair no laço, e tende como certo que quem quer que procure um meio, qualquer que seja, para quebrar a boa harmonia, não pode ter boa intenção, É por isso que vos recomendo useis da maior circunspeção na formação dos vossos grupos, não somente para vossa tranquilidade, como no próprio interesse dos vossos labores. "A natureza dos trabalhos espíritas exige calma e recolhimento. Ora, não há recolhimento possível se se está preocupado com discussões e com a manifestação de sentimentos malévolos. Não haverá sentimentos malévolos se houver fraternidade; não pode, porém, haver fraternidade em egoístas, ambiciosos e orgulhosos. Entre orgulhosos, que se suscetibilizam e ofendem por tudo, ambiciosos que se sentirão mortificados se não tiverem

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a supremacia, egoístas que não pensam senão em si, a cizânia não pode tardar a introduzir-se, e com ela a dissolução. É o que desejariam os nossos inimigos, e é o que eles procuram fazer. "Se um grupo quer estar em condições de ordem, de tranquilidade e de estabilidade, é preciso que nele reine o sentimento fraternal. Todo grupo ou sociedade que se formar, sem ter caridade efetiva por base, não tem vitalidade; enquanto que aqueles que forem fundados de acordo com o verdadeiro espírito da doutrina olhar-se-ão como membros de uma mesma família que, não sendo possível habitarem todos sob o mesmo teto, moram em lugares diferentes. A rivalidade entre eles seria um contra-senso; ela não poderia existir onde reina a verdadeira caridade, porque a caridade não se pode entender de duas maneiras. "Reconhecei, pois, o verdadeiro espírita na prática da caridade por pensamentos, palavras e obras, e persuadi-vos de quem quer que nutra em sua alma sentimentos de animosidade, de rancor, de ódio, de inveja ou de ciúme, mente a si próprio se tem a pretensão de compreender e praticar o Espiritismo. "O egoísmo e o orgulho matam as sociedades particulares, como matam os povos e a sociedade em geral..." Tudo mereceria citação nestes conselhos, tão justos quão práticos; mas é preciso que nos limitemos, em razão do tempo de que podemos dispor.
*

A pedido dos espíritas de Lião e de Bordéus, Allan Kardec fez, em setembro e outubro, uma longa viagem de propaganda semeando por toda parte a boa-nova e prodigalizando conselhos, mas somente aos que lhos pediam; o convite feito pelos grupos lioneses estava subscrito por quinhentas assinaturas. Uma publicação especial deu conta dessa viagem de mais de seis semanas, durante a qual o Mestre presidiu a mais de cinquenta reuniões em vinte cidades, onde por toda parte foi alvo

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do mais cordial acolhimento e se sentiu feliz por verificar os imensos progressos do Espiritismo. A respeito das viagens de Allan Kardec, como certas influências hostis houvessem espalhado o boato de que eram feitas a expensas da Sociedade Parisiense de Estudos Espiritas, sobre cujo orçamento igualmente ele sacava de antemão todos os seus gastos de correspondência e de manutenção, o Mestre rebateu, assim, essa falsidade: "Muitas pessoas, sobretudo na província, pensaram que as despesas dessas viagens oneravam a Sociedade de Paris; tivemos que desfazer esse erro quando se ofereceu a ocasião; aos que ainda o pudessem partilhar, recordaremos o que afirmamos houtra circunstância (número de junho de 1862, página 167, Revista Espírita), que a Sociedade se limita a prover às suas despesas correntes e não possui reservas; para que pudesse acumular capital, ser-lhe-ia preciso que tivesse em mira o número; e isto é o que ela não faz nem quer fazer, porque o seu fim não é a especulação e porque o número nada acrescenta à importância dos trabalhos. Sua influência é toda moral e está no caráter de suas reuniões, que dão aos estranhos a ideia de uma assembleia grave e séria; aí está o seu mais poderoso meio de propaganda. Ela, pois, não poderia prover tal despesa. Os gastos de viagem, como todos os que as nossas relações reclamam para o Espiritismo, são tirados dos nossos recursos pessoais e das nossas economias, aumentadas com o produto das nossas obras, sem o qual nos seria impossível prover a todos os encargos, que são para nós a consequência da obra que empreendemos. Isto é dito sem vaidade e unicamente para render homenagem à verdade, e para edificação daqueles aos quais se afigura que nós capitalizamos." Em 1862 Allan Kardec fez também aparecer uma Refutação às criticas contra o Espiritismo (*), no ponto de vista do materialismo, da ciência e da religião.
( » ) Allan Kardec, no livro "Voyage Spirite en 1862" (Ledoyen, Paris, 1862, gr.in-8», 64 pp.), revela ter desistido da ideia

371) e que seria intitulado "Réfutation dês critiques contre lê Spiritisme au point de vue matérialiste.° de agosto de 1865. Os admiráveis êxitos do Espiritismo. quanto aos estudos sérios e continuados. e as razões que motivaram essa situação. com a explicação das máximas morais do Cristo. às numerosas correspondênde publicar o opúsculo que anunciara um ano antes (Revu« Splrlte. e é hoje O Evangelho segundo o Espiritismo. recorda o que já havia dito em Lião. em que nenhum se arrogue a supremacia sobre os outros. sua aplicação e sua concordância com o Espiritismo. em qualquer estação. desde que a bandeira é uma só e que todos se dirigem para um mesmo fim. mas. O Mestre possuía uma vontade de ferro. Allan Kardec fez aparecer uma nova obra — O Céu e o Inferno ou a Justiça Divina segundo o Espiritismo. portanto. no mundo espiritual e na Terra. na qual são mencionados numerosos exemplos da situação dos Espíritos. do que uma única sociedade que a todos reunisse. também. a tarefa de Allan Kardec.. Esse f racionamento em nada pode prejudicar a unidade dos princípios. Expondo aos espíritas belgas o seu modo de ver acerca dos grupos e sociedades espíritas. . No dia 1. desde às 4 horas e meia. um poder de combatividade extraordinários. à proporção que ele se foi engrandecendo. dez. aumentou." As sociedades numerosas têm sua razão de ser sob o ponto de vista da propaganda. 1861. às polémicas veementes dirigidas contra o Espiritismo. Allan Kardec fez em setembro de 1864 uma viagem a Antuérpia e a Bruxelas. em 1861: "Vale mais. Aproveitando-se da época das férias. seu desenvolvimento quase incrível. é preferível constituírem-se grupos íntimos. respondia a tudo. p.42 BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC Em abril de 1864 publicou a Imitação do Evangelho segundo o Espiritismo. Nota da Editora (FEB) à 16» edição. haver em uma cidade cem grupos de dez a vinte adeptos. em 1975. sclentifique et religieux". era um trabalhador infatigável. de pé. O título dessa obra foi depois modificado. criaram-lhe inúmeros inimigos e. contra ele próprio.

por meio do qual espera imprimir mais vigor. ele contraiu com o Crédit Foncier um empréstimo de 50. na Vila Ségur. mais ação à filosofia de que se fez apóstolo. e a constituição que elabora tem precisamente por fim prover às necessidades futuras da Doutrina Espírita. que sucederia a breve trecho à sua próxima desencarnação. porém. alimentava a doce esperança de recolher-se a uma delas. com o produto das suas obras pedagógicas. atrás dos Inválidos.666 metros quadrados de terreno na avenida Ségur. a firn de obrigá-lo a poupar a saúde. por isso ele não quer perder ocasião alguma de dar ao Espiritismo tudo o que pode. atendia à direção da Revista Espírita e da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas. A Génese. em seguida põe novamente mãos à obra. Ele. Desde os primeiros anos do Espiritismo. porque constitui. a síntese dos quatro primeiros volumes já publicados. de um projeto de organização do Espiritismo. Esse excesso físico e intelectual esgotou-lhe o organismo. sabe que não deve durar mais que uns dez anos ainda: numerosas comunicações o preveniram desse termo e lhe anunciaram mesmo que a sua tarefa não seria concluída senão em nova existência. 2. Allan Kardec havia comprado. procurando desenvolver-lhe o lado prático e fazer-lhe produzir seus frutos. em janeiro de 1868. Tours e Orleans. sob o ponto de vista científico. O objeto constante das suas preocupações é saber quem o substituirá em sua obra. em força e vitalidade. Tendo essa compra esgotado os seus recursos. à organização do Espiritismo e ao preparo das suas obras.BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC 43 cias que lhe eram dirigidas. e repetidas vezes os Espíritos precisam chamá-lo à ordem. e torná-la-ia depois da sua morte . com jardim. É das mais importantes esta obra.000 francos para fazer construir nesse terreno seis pequenas casas. Allan Kardec ocupa-se. em seguida. porque sente que o desenlace está próximo. Em 1867 faz uma curta viagem a Bordéus. os milagres e as predições segundo o Espiritismo. para publicar.

pág. cujo contrato de arrendamento na passagem SanfAna estava quase a terminar. na idade de 65 anos. sucumbindo da ruptura de um aneurisma.44 BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC asilo a que se pudessem recolher na velhice os defensores indigentes do Espiritismo. em nome da Sociedade Espírita de Paris. Em 1869 a Sociedade Espírita era reconstituída e tornada sociedade anónima. Essa perda foi imensa para o Espiritismo. rua e passagem SanfAna. brilhará como um meteoro fulgurante na aurora do Espiritismo. que não fez somente um esboço do caráter de Allan Kardec e do papel que cabe aos seus trabalhos (*) Ver "Reformador" de abril de 1957. a segunda. e numerosíssima concorrência acompanhou ao Père Lachaise(*). com o capital de 40. Camilo Flammarion. quando a 31 de março a doença de coração que o minava surdamente pôs termo à sua robusta constituição e. pelo Sr. dividido em quarenta ações. pelo Sr. Unânimes sentimentos acolheram a dolorosa notícia. 59. o arrebatou à afeição dos seus discípulos. sua derradeira morada. 93. que via desaparecer o seu fundador e mais poderoso propagandista. Allan Kardec. através dos tempos. pois.a circunscrição e mairie de Ia Banque. . a fim de trabalhar mais ativamente nas obras que lhe restava fazer e cujo plano e documentos se achavam já reunidos. como um raio.° 7. Levent. à rua de Lille n. 2. em 31 de março de 1869.° de abril. contava retirar-se para a Vila Ségur.000 francos. Hippolyte-Léon-Denizard Rivail — Allan Kardec — faleceu em Paris. em todos os preparativos de mudança de domicílio. e lançou em profunda consternação todos os que o haviam conhecido e amado. para a exploração da livraria. da Revista Espírita e das obras de Allan Kardec. A nova sociedade devia instalar-se no dia 1. os despojos mortais daquele que fora Allan Kardec. daquele que. Estava. Quatro orações foram proferidas à beira do túmulo do Mestre: a primeira.

"Vimo-lo deitado num simples colchão. um exame da situação das ciências físicas. assim. Em seguida. Eis aqui. e possuía um talento todo particular em fazer os outros partilharem do seu bom-humor. imprimem como que um reflexo da pureza de sua alma sobre o corpo que abandonaram. o que a esse respeito escrevia o Sr. Não era. e. chamava-se Rivail e morreu na idade de 65 anos. depois. depois de haver discutido pontos mais difíceis da psicologia e da metafísica transcendental. em virtude dos seus trabalhos. a 21 de janeiro. se extinguiu. tranquilos quanto ao resultado de uma vida honesta e laboriosamente preenchida. das forças naturais desconhecidas. esforçando-se por distrair os convidados que ele frequentemente recebia na Vila Ségur. sabia adubá-las com o nosso velho sal gaulês em rasgos de causticante e afetuosa bonomia. e sobretudo. Allan Kardec devia ser uma personagem sempre fria e austera. largo e comunicativo. A senhora Allan Kardec tinha 74 anos por ocasião da morte de seu esposo. em nome da família e dos seus amigos. Erraria quem acreditasse que. conservando-se sempre digno e sóbrio em suas expressões. da existência da alma e da sua indestrutibilidade. entretanto. Pagès de Noyez. tomou a palavra o Sr. no ponto de vista do mundo invisível. Sobreviveu-lhe até 1883. ano em que. no meio da sala das sessões a que há tantos anos ele presidia. vimo-lo com o semblante calmo como se extinguem aqueles a quem a morte não surpreende e que. no Journal de Paris. Todos os jornais da época se ocuparam da morte de Allan Kardec e procuraram medir-lhe as consequências. em nome dos espíritas dos centros afastados. Alexandre Delanne. mostrava-se expansivo. dirigiu ao morto querido os últimos adeuses. na idade de 89 anos. Muller. . de 3 de abril de 1869: "Aquele que por tão longo tempo ocupou o mundo científico e religioso sob o pseudónimo de Allan Kardec. sem herdeiros diretos.BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC 45 no movimento contemporâneo. mas ainda. Gostava de rir com esse belo riso franco. a título de lembrança. Esse grave filósofo. o Sr. E.

inúmeros discípulos tinham vindo lançar um derradeiro olhar àqueles lábios descorados que. lhes falavam a linguagem da Terra. Com ele terminou o prólogo de uma religião vivaz. e por que consagrar uma linha a esses fragmentos de ora em diante mergulhados no turbilhão imenso das moléculas? Allan Kardec morreu na sua hora própria. nada mais restava de um passado que devia renascer sobre novas bases. "Para que referir os detalhes da morte? Que importa o modo por que se partiu o instrumento. Se "o estilo é o homem". e pela convicção da imortalidade da alma. Outros. que. tinham vindo ajudar-lhe a alma a desprender-se da matéria. retirava-se da luta cotidiana. A Sociedade fundada por esse grande vulgarizador do Espiritismo acabava de desaparecer. à qual era necessário sacrificar as longas vigílias que alimentam o espírito. cedo terá iluminado toda a Humanidade. Ninguém melhor que ele podia conduzir a bom termo essa obra de propaganda. para não ver senão a irradiação do futuro. mais jovens — intrépidos — deveriam continuar a obra e. a paciência que educa com o correr do tempo. Abandonado o local.46 BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC "Resignados pela fé em uma vida melhor. "A morte de Allan Kardec é notável por uma coincidência estranha. quais. já a consolação de além-túmulo: o Espirito de Allan Kardec veio dizer-Ihes quais haviam sido as suas comoções. está há . para se consagrar inteiramente ao estudo da filosofia espiritualista. Mas eles recebiam. quais as suas primeiras impressões. No fim da última sessão. preenchida a sua missão. fundado o dogma pressentido pelas mais antigas sociedades. ainda na véspera. retirados os móveis. a abnegação que afronta a estultícia do presente. o presidente fizera as suas despedidas. impor a verdade por sua convicção. apreciado como o de um homem de bem. aqueles que conheceram Allan Kardec em vida não podem deixar de ficar emocionados pela autenticidade dessa comunicação espírita. dos que o haviam precedido no além-túmulo. irradiando todos os dias. fortes por sua virilidade. Seu nome. "Allan Kardec terá. com suas obras.

que já não existe. não se pode submeter a essa ideia de transição. que ele sente existir além do túmulo. é ai que se reúnem todos os anos. porque o nosso entendimento." Um ponto sobre o qual não atraí a vossa atenção. estende a mão ao amigo. dando-lhes a certeza da prova' e a consolação do futuro. que o vulgo deixará passar indiferente. "Os espíritas choram hoje o amigo que os deixa. os adeptos que têm guardado fideli(*) Ver "Reformador" de abril de 1957. o primeiro tributo a essa inferioridade do nosso organismo. é a pedra tumular enchendo esse imenso vácuo que o materialismo cavara aos nossos pés e sobre o qual o Espiritismo esparge as flores da esperança. e que esta ainda menos conheceu os botes que à outra atiravam aqueles para quem o reconhecimento é um fardo excessivamente pesado. . reanima muitas consciências doloridas. mas que devo assinalar. convencido de que o seu Espírito nos protege sempre. O Espiritismo destrói muitos abusos. e os corajosos. não hesitarão em se evidenciarem. por isso. dele se pode dizer que a mão esquerda ignorou sempre o bem que fazia a direita. por bem da grande causa. "O presidente da Sociedade Espírita de Paris está morto. um grande fato para a Humanidade. é a caridade verdadeiramente cristã de Allan Kardec. sob modesta lápide erigida pela piedade dos seus discípulos. "Esta morte. em Paris. o pensador ergue a cabeça e através desse mundo invisível. Não é mais o sepulcro de um homem. O despojo mortal de Allan Kardec repousa no Père Lachaise.BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC 47 muito tempo vulgarizado pelos que crêem e pelos que receiam. pago. insultos. difamações sistemáticas. material. pág. por assim dizer. porém. traições. Cartas anónimas. É difícil praticar o bem sem chocar os interesses estabelecidos. nada foi poupado a esse intrépido lutador. mas o número de adeptos cresce todos os dias. 93. desde 1869 (*). os quais pelo respeito ao Mestre se deixavam ficar no segundo plano. não deixa de ser. a essa alma grande e varonil que penetrou integralmente na imortalidade.

minhas senhoras. o 27« aniversário do decesso de Allan Kardec. meus senhores: Honra! Honra e glória a Allan Kardec! (*) Henri Sausse. — Nota do Tradutor. ( * ) Conservamos no presente trabalho a forma de conferência que lhe deu o autor. . a 31 de marco de 1896. lendo-a por ocasião da solenidade com que os espíritas de Lião celebraram. E já que um sentimento análogo nos reúne hoje. repitamos bem alto.48 BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC dade à memória do Mestre e conservam preciosamente no coração o culto da saudade.

por não ter a aridez da dogmática. . Antes de empreenderem essa tarefa. a refutação dos principais argumentos de seus contraditares.P R E Â M B U L O As pessoas que só têm conhecimento superficial ao Espiritismo são. é. e. Sob a forma de diálogos. para nós. Esta forma nos pareceu a mais conveniente. No segundo capítulo. na falta de uma instrução teórica completa. do que se trata e se vale a pena ocupar-se com tal coisa. naturalmente. porém. encontrar em um estudo mais aprofundado dele. sobre as quais. o observador novato deve fixar a sua atenção para poder julgar com conhecimento de causa. o primeiro capitulo deste volume encerra respostas às observações mais comumente feitas por aqueles que desconhecem os princípios fundamentais da Doutrina e. das ideias falsas. damos uma exposição sumária das partes da ciência prática e experimental. uma primeira iniciação. cuja solução podiam. tempo ganho sobre o que tínhamos de gastar a repetir constantemente a mesma coisa. isto será. inclinadas a formular certas questões. bem assim. a vontade lhes faltam para se entregarem a observações seguidas. o tempo e. feitas. um resumo de "O Livro dos Médiuns". achamos útil apresentar resumidamente as respostas a algumas das principais perguntas que nos são diariamente dirigidas. quase sempre. sem dúvida. sobre aquilo que se não conhece 'bem. "a priori". para o leitor. muitas vezes. aproximadamente. Por isso. muitos desejam saber. As objeções nascem. pelo menos.

senão. desde já e sumariamente. em quadro restrito e sob um mesmo ponto de vista.. os princípios que devem sempre estar presentes à sua memória. à pergunta formulada no titulo deste opúsculo. COMPREENDE TODAS AS CONSEQUÊNCIAS MORAIS QUE DIMANAM DESSAS MESMAS RELAÇÕES. diremos que: O ESPIRITISMO Ê. . bem como de suas relações com o mundo corporal. e. de certo número de problemas do mais alto interesse. pela Doutrina Espírita. moral e filosófica. UMA CIÊNCIA DE OBSERVAÇÃO E UMA DOUTRINA FILOSÓFICA. Estes resumos não somente são úteis aos principiantes. além disso. comparem suas respostas com as dadas por este. No terceiro capítulo. quais as que melhor satisfazem à razão. que neles poderão. em pouco tempo e com pouca despesa. AO MESMO TEMPO. e digam quais são as mais lógicas. publicamos um resumo ãe "O Livro dos Espíritos". COMO CIÊNCIA PRATICA ELE CONSISTE NAS RELAÇÕES QUE SE ESTABELECEM ENTRE NÓS E OS ESPÍRITOS. tal é o fim deste pequeno trabalho. . por encontrarem reunidos. COMO FILOSOFIA. de ordem psicológica. também.Retificar essas ideias é prevenir as objecoes. com a solução. que diariamente são propostos. beber as noções mais essenciais da Doutrina Espírita. . Podemos defini-lo assim: O Espiritismo é uma ciência que trata da natureza. e aos quais nenhuma filosofia deu ainda resposta satisfatória. Procurem resolvê-los por qualquer outra teoria. origem e destino dos Espíritos. Para responder. sem a chave que nos fornece o Espiritismo. aos adeptos. pois lhes fornecem os meios para responderem às primeiras óbjeções que não deixarão de lhes apresentar.

O que é o Espiritismo

CAPITULO I

Pequena conferência espírita
^RIMEIRO DIÁLOGO O CRITICO Visitante. — Confesso-vos, caro senhor, que a minha razão recusa admitir a realidade dos fenómenos estranhos atribuídos aos Espíritos, persuadido que estou de estes não terem senão uma existência imaginária. Entretanto, eu me curvaria diante da evidência, se disso tivesse provas incontestáveis; por isso desejo merecer-vos a permissão de assistir somente a uma ou duas experiências, para não ser indiscreto, a fim de convencer-me, caso seja possível. Aliem Kardec. — Desde que a vossa razão repele o que nós consideramos irrecusável, vós a credes superior às de todos quantos não compartilham de vossas opiniões. Longe de mim o pensamento de duvidar do vosso talento e a pretensão de supor minha inteligência superior à vossa; admiti, pois, que eu esteja iludido, é a vossa razão quem vo-lo diz: e não falemos mais nisso.

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V. — Entretanto, se conseguísseis convencer-me, conhecido que sou como antagonista das vossas ideias, isto seria um milagre eminentemente favorável à causa que defendeis. A. K. — Lamento-o, caro senhor, porém não tenho o dom de fazer milagres. Julgais que uma ou duas sessões bastariam para adquirirdes convicção? Seria, realmente, um verdadeiro prodígio; eu precisei mais de um ano de trabalho para ficar convencido; o que prova que não cheguei a esse estado inconsideradamente. Além disso, não realizo sessões públicas e parece-me que vos enganastes sobre o fim das nossas reuniões, visto não fazermos experiências com o fito de satisfazer à curiosidade de ninguém. V. — Não procurais, pois, fazer prosélitos? A. K. — Para que buscarmos fazer-vos prosélito, quando não o quereis ser? Não pretendo forçar convicção alguma. Quando encontro pessoas que sinceramente desejam instruir-se e dão-me a honra de pedir-me esclarecimentos, folgo e cumpro um dever respondendo-lhes nos limites dos meus conhecimentos; quanto aos antagonistas, porém, que, como vós, têm convicções arraigadas, não tento um passo para delas arredá-los, atento a que é grande o número dos que se mostram bem dispostos, para que possamos perder o nosso tempo com aqueles que o não estão. Estou certo de que, diante dos fatos, a convicção há de vir, mais tarde ou mais cedo, e que os incrédulos hão de ser arrastados pela torrente; por ora, alguns partidários, de mais ou de menos, nada alteram na pesagem; pelo que nunca me vereis incomodado para atrair, às nossas ideias, aqueles que, como vós, sabem as razões que têm para fugir delas. V- — Há mais interesse em convencer-me do que o supondes. Permitis que me explique com franqueza e

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prometeis-me não ver ofensa alguma nas minhas palavras? São as minhas ideias sobre a coisa em si e não sobre a pessoa a quem me dirijo; posso respeitar a pessoa, sem participar de suas opiniões. A. K. — O Espiritismo me tem ensinado a desprezar essas mesquinhas suscetibilidades do amor-próprio, e a me não ofender com palavras. Se as vossas expressões saírem dos limites da urbanidade e das conveniências, apenas concluirei que sois um homem mal-educado, mas não irei além. Quanto a mim, antes quero que os outros fiquem com os defeitos, do que compartilhar deles. Vedes, só por isso, que o Espiritismo já serve para alguma coisa. Já vos disse, senhor, não tenho a pretensão de vos fazer adotar a minha opinião; respeito a vossa, se é sincera, como desejo que respeiteis a minha. Acreditando ser o Espiritismo um sonho sem sentido, dissestes, sem dúvida, vindo a minha casa: Vou ver wm louco. Confessai-o francamente, pois com isso não me escandalizarei. Todos os espíritas são loucos, é coisa sabida. Pois bem! se julgais assim, eu tenho escrúpulo de transmitir-vos a minha enfermidade mental; e causa-me espanto ver-vos, com tal pensamento, buscar uma convicção que vos vai colocar no número dos loucos. Se já estais persuadido de que não conseguiremos convencer-vos, o passo que destes é inútil, visto que só terá por fim a curiosidade. Abreviemos, pois, por favor, porque me falta tempo para perder em conversações sem objeto. y. — - O homem pode enganar-se, deixar-se iludir, sem que, por isso, «eja louco. A. K. — Dizei logo: acreditais, como muitos, que isto é moda que durará certo tempo; mas deveis convir que um passatempo que, em alguns anos, tem conquistado milhões de partidários, em todos os países, que

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conta entre seus adeptos sábios de toda ordem, que se propaga de preferência nas classes mais esclarecidas, é mania singular, que merece examinada. V. — Tenho minhas ideias a respeito, é certo, porém elas não se acham tão absolutamente firmadas, que não consinta em sacrificá-las à evidência. Disse-vos que teríeis certo interesse em me convencer. Confesso-vos que tenciono publicar um livro em que me proponho demonstrar ex 'professo (sic) a minha opinião sobre o que considero um erro; e como esse livro deve produzir efeito, dando um golpe no Espiritismo, eu deixaria de publicá-lo, caso ficasse convencido da realidade da vossa doutrina. A. K. — Eu sentiria que ficásseis privado do que vos pode proporcionar um livro que deve produzir tanto efeito; além disso, não tenho interesse algum em impedir a sua publicação: ao contrário, desejo-lhe grande circulação, porque assim ele nos servirá de prospecto e anúncio. A nossa atenção é sempre chamada sobre aquilo que vemos atacado; há muita gente que quer ver os prós e os contras, e a crítica faz aparecer a verdade, mesmo aos olhos daqueles que não a procuravam aí; é assim que muitas vezes, sem querer, se faz reclamo do que se quer combater. A questão dos Espíritos é, por outro lado, tão palpitante de interesse, choca a tal ponto a curiosidade, que basta assinalá-la à atenção, para que nasça o desejo de aprofundá-la. V. — Então, no vosso entender, a crítica para nada serve, a opinião pública nada vale? A. K. — Não considero a crítica como expressão da opinião pública, mas como juízo individual, que bem pode enganar-se. Lede a história e vereis quantos trabalhos importantes foram, ao aparecer, criticados, sem que isso os

é preciso que justifique a opinião por uma demonstração clara e categórica. Esquecia-me. a verdadeira opinião pública decidirá da justeza dos vossos conceitos. uma coisa é má. como os que. não há elogio que a torne boa. vosso livro não será mais que uma apreciação pessoal. o que exige saber calcular. aquilo de que fala. é uma verdade. porém. se. da vacina. que íeis tratar a questão ex professo. foram publicados contra as teorias da circulação do sangue. Como poderá fazê-lo. Devo crer que tal se deu. etc. Que juízo formaríeis de um homem que. analisastes e comparastes as diversas opiniões. lestes tudo o que sobre a matéria se tem escrito. que vistes tudo o que se pode ver. sem o que. Se mais tarde reconhecerem que vos enganastes. não há muito. se erigisse em censor de uma obra literária ou de um quadro? É de lógica elementar que o crítico conheça. Procurarão examinar. sem conhecimento de literatura.O QUE É O ESPIRITISMO 55 excluísse do número das grandes obras. porém. Se o Espiritismo é uma falsidade. se sois um homem sério. baseada sobre os princípios da arte ou ciência a que pertence o objeto da crítica. ele cairá por si mesmo. o que equivale a dizer que a estudastes sob todas as suas faces. vosso livro se tornará ridículo. Ao nosso modo de ver. mão há diatribe que possa fazer dele uma mentira. etc. quando não conhecer esses princípios? Não tendo ideia da mecânica.. que durante anos lhe consagrastes vigílias. sem ter estudado a pintura. que vos achastes nas melhores condições de observação pessoal. em suma: que nada desprezastes para chegar à verdade. Para combater um cálculo é necessário opor-se-lhe outro cálculo. quando. a fundo. sua opinião não tem valor. porque somente aquele que fez tudo isso pode dizer que fala com conhecimento de causa. ou os defeitos de determinada máquina? . O crítico não se deve limitar a dizer que tal coisa é boa ou má. porém. não superficialmente. mas. podereis apreciar as qualidades.

ser aprobativa ou desaprobativa. A cada passo sereis apanhado em flagrante delito de ignorância. não pode ter mais valor que o que. por uma ou duas vezes. mas. se antes de abrir o . portanto. porém. emitísseis sobre a aludida máquina. ainda mais. Pois bem: o vosso juízo acerca do Espiritismo. K. me sirva de vossa luneta. deixai que. o que será suficiente para ficar sabendo tanto quanto vós. pois. expondo-vos. falar de Espiritismo? Como podereis compreender essas experiências e. satisfatório ou não. desmentido pouco lisonjeiro ao vosso amor-próprio. nas condições acima. a receber. quem empreende essa tarefa. senhor. dizendo-lhe: "Senhor. porque aqueles que têm estudado a matéria verão logo que a desconheceis. deve fazê-lo sem ideias preconcebidas. nem a Astronomia. donde concluirão que não sois um homem sério ou que agis de má-fé. ela significa julgar. que vosso projeto é absolutamente a mesma coisa que. não conhecendo a fundo a metalurgia? Permiti-me dizer-vos. julgá-las." É somente por extensão que a palavra criticar se tornou sinónima de censwrar. por exemplo. quando não estudastes os princípios em que elas se baseiam? Como apreciaríeis o resultado. de ensaios metalúrgicos. — E julgais que isto vos baste para poder. A. não tendo estudado a Matemática. apreciar. A crítica pode. em sua acepção própria e segundo a etimologia. ex professo. V. quer noutro caso. como desconheço os menores rudimentos dessa ciência. que aliás não conheceis. — É precisamente para evitar esse perigo que vim pedir-vos permissão para assistir a algumas experiências. Fazer a crítica de um livro não é necessariamente condená-lo. quer num. vos apresentásseis a um dos membros do Observatório.56 ALLAN KARDEC Não. quero escrever um livro sobre Astronomia e provar que o vosso sistema é falso.

já o condena em pensamento. A maior parte dos que seriamente têm estudado a questão. K. sobretudo quando se ocupam com teorias novas. A consequência foi que seu julgamento feriu em falso. Até . Apenas sobre o nome formaram uma opinião. vi pessoas escreverem o que. e mais de um adversário se tem tornado adepto do Espiritismo. convencido de que nisso há charlatanismo. V. por certo. K. •— Nada. A. e que. estou. K. — Não acrediteis que minha opinião se tenha formado levianamente. Tal o caso da maioria dos que têm falado contra o Espiritismo. A. — A tão judicioso raciocínio não tenho outra resposta a dar senão que. mudou de ideia. o exame não pode ser imparcial. — Ora. A. — Falais do exame dos livros em geral. porém.O QUE É O ESPIRITISMO 57 livro. — Quanto vos cobraram para mostrar-vos essas coisas? V. quando reconhece que o seu objetivo é muito diverso daquele que supunha. que vão reabilitar o nome da sua classe. lhes ditavam os Espíritos. é preferível produzir um só trabalho bom a fazer dez maus. quando nos falta o tempo para fazer conscienciosamente uma coisa. em vez de persuadir. segundo diziam. que lhe seria preciso aprofundar e verificar? Seria o mesmo que exigir de um impressor que ele lesse todas as obras saídas de sua prensa. ocasionaram riso. acreditais que seja materialmente possível a um jornalista ler e estudar todos os que lhe passam pelas mãos. é melhor não fazê-la. aí tendes charlatães de uma espécie singular. fazendo qual juiz que proferisse uma sentença. Vi mesas girarem e produzirem sons como de pancadas. V. sem antes examinar as peças do processo.

mas. Coisa muito diversa seria se se tratasse de uma especulação. porque a tentação do ganho é má conselheira. só pelo gosto de fazer que creiam em uma coisa que ele sabe ser falsa. agarrado a uma mesa. Por sua novidade e mesmo por sua natureza. ora. com que fim se fariam elas cúmplices de uma mistificação? Direis que com o fim de recrear a sociedade.. o Espiritismo se presta a abusos. Por vender-se vinho falsificado. é preciso indagar que interesse havia em enganar. Concordo em que uma vez se prestassem a tal brinquedo. ou a religião pelos dos sacerdotes que iludem seu ministério. O gosto não equivaleria à pena. imóvel. porém. alguém vá passar horas inteiras. será crível que as outras pessoas presentes pactuassem com ele? Demais. do que o é a ciência médica pelos atos dos charlatães que impingem suas drogas. admitindo mesmo que. definindo claramente seu verdadeiro caráter e afastando de si toda a solidariedade com aqueles que o viriam a explorar ou desviar do seu fim exclusivamente moral. Não é provável que. porém. não se deve concluir que não existe vinho puro. porque de tudo se pode abusar.5g í? ALLAN KARDEC ao presente não se tinha ainda visto charlatães desinteressados. O Espiritismo não é mais responsável pelos atos daqueles que abusam desse nome e o exploram. ele. julgo que o mistificado é o próprio mistificador. não deixareis de convir que há pessoas que se não coadunam com a mais leve suspeita de embuste. . para transformá-lo em meio . Antes de julgar isso uma fraude. ficasse bem comprovado um manejo fraudulento. pessoas cujo caráter já é uma garantia de probidade. Suponhamos que um gaiato de mau gosto tenha querido uma vez divertir-se assim. isso em nada ofenderia a realidade do princípio. fornece os meios para que os reconheçam. quando esse brinquedo dura meses e anos. neste último caso.

de . todos têm completa liberdade de aprovar ou censurar os princípios do Espiritismo. alterarem a verdade? Aqueles que atribuem ao Espiritismo o que é contrário à sua mesma ciência. pinta em seu quadro um cavalo branco. Quando usa desses meios. E. se. dizem com gravidade: eis o que é o Espiritismo. cairá o ridículo? Será sobre o saltimbanco que usa do seu ofício? Será sobre o Espiritismo. Em resumo. má-fé. não faltará quem diga que essa cor faz aí mau efeito. e do fato mais positivo nem todos tiram as mesmas consequências. o que aceita e o que repudia. por terem encontrado saltimbancos adornando-se sob o nome de espíritas. o que está ou não em suas atribuições. neste último caso. que a cor negra conviria mais. cavalheiro. Desde que o Espiritismo mesmo traça os limites em que se encerra. senhor. Sobre quem. em definitiva. para chamar concorrência. não nos revoltamos de forma alguma contra os que não pensam como nós. O que é evidente. cada qual julga as coisas debaixo de certo ponto de vista. eles se colocam na posição do historiador que. mesmo depois de as haver estudado. sobre os críticos que falam do que não sabem ou de. no interesse de sustentar um partido ou uma opinião. é o que faz a maioria dos nossos adversários. cientemente. vendo que o cavalo é branco. o julgam pelas aparências e que. o partido fica desacreditado e não consegue o seu fim. no segundo. cuja doutrina escrita desmente tais asserções? ou. e nisto não se comete erro. define o que pode ou não dizer ou fazer. alterasse os fatos históricos. para nós. não se dando ao trabalho de estudá-lo. toda a falta recai sobre aqueles que. porém.O QUE É O ESPIRITISMO 59 de vida. Notai bem. que eu não pretendo que a crítica deve necessariamente aprovar nossas ideias. Se um pintor. no primeiro caso há leviandade. fazem-no por ignorância ou má intenção. por exemplo. afirmar que é negro. em instrumento de adivinhação ou de investigações fúteis. antes. cometer-se-á. pode não ser para vós outros.

eu vo-la reconhecerei. visto que seus aparelhos estão espalhados pelas cinco partes do mundo. Quando a fraude for provada. desde Tertuliano. a que já respondi. se descobrirdes fatos demonstrados de embuste. — Voltemos. Devemos também convir que o seu processo é assaz delicado e sutil. até o presente ninguém conseguiu ver e descrever tal mecanismo? V. é um abuso de outro género. ele deveria gozar de grande celebridade. — Eis o que vos ilude. por favor. para poder adaptar-se à primeira mesa que se apresenta. às mesas que se movem e falam.60 ALLAN KARDEC deduzir deles as consequências boas ou más que lhes aprouver. que as mesas estivessem preparadas. Ora. V. não será possível que elas sejam preparadas com algum artifício? A. porque é uma calúnia. fustigai-os e eu desde já vos declaro que não irei defendê-los. Admitindo. Porém. que já tratava das mesas giratórias e falantes. — É sempre a mesma questão de boa-fé. ora. como dissestes. K. porém a consciência impõe ao crítico a obrigação de não dizer o contrário do que ele sabe que é. como não é ainda conhecido o nome do hábil artista que os fabrica? Entretanto. lançar sobre elevado número de pessoas honradas a reprovação que só cabe a alguns indivíduos isolados. generalizar essas acusações. especulação ou abuso de confiança. e quem assinalar tais abusos o auxilia no trabalho de preveni-los e lhe presta importante serviço. charlatanismo. Como é que. para isso. era preciso que o mecanismo empregado fosse bem engenhoso para fazê-las produzir movimentos e sons tão variados. sem deixar sinal algum exterior que o denuncie. porque o Espiritismo sério é o primeiro a repudiá-los. a primeira condição é não falar do que não conhece. Um célebre cirurgião reconheceu que certas pessoas podem. pela contração de .

pág. . notando certa analogia entre esse efeito e o que essas mesas produzem. sem mais amplo exame concluiu. ele observou um efeito fisiológico anormal em alguns indivíduos que nunca se ocuparam de mesas batedoras. Uma vez que cada qual explica a seu modo essa pretendida fraude. a quarta. desconfiava que esse músculo possuísse tanta virtude (R&vue Spirite. K. finalmente. levantá-la. a terceira. devem ter a propriedade de fazer estalar o músculo curto-perônio. da teoria indicada. a segunda. e. sejam eles príncipes ou artífices. às mesas falantes. que é necessário dar-se a esse músculo estalador uma propriedade bem maravilhosa. Respeito a ciência desse sábio cirurgião. recebam ou não um pagamento. 141: Lê muscle araqueur). conservá-la suspensa sem ponto de apoio. fechá-la. teria estudado o fenómeno da tiptologia sobre os indivíduos que os produzem? Não. para que as mesas falem. A primeira é que é singular que essa faculdade. se tenha tornado comum. que todos os que concorrem. e não são mais que embusteiros. com toda a autoridade de sua ciência. abri-la. para fazer estalar o músculo durante duas ou três horas consecutivas. donde concluiu que os médiuns se divertem à custa da credulidade dos assistentes. não é então a mesa que está preparada. de que falais. O célebre cirurgião. para que ele possa mover uma pesada mesa. A. que eu não compreendo bem como pode esse músculo responder às portas e paredes em que as pancadas se fazem ouvir. fazê-la despedaçar-se ao cair. finalmente. e.O QUE Ê O ESPIRITISMO 61 um músculo da perna. e somente acho que se apresentam algumas dificuldades na aplicação. quando disso não resulte a quem assim procede senão fadiga e dor. fica reconhecido que a verdadeira causa não é sabida. até o presente excepcional e olhada como um caso patológico. produzir um ruído semelhante ao que atribuís à mesa. — Se é um estalido do músculo. que é preciso ter-se robustíssima vontade de mistificar. junho de 1859. Ninguém. por certo.

porque recearia que ele não julgasse o meu mal com mais perspicácia. K. do contrário. Já que esse juízo é uma das autoridades em que pareceis querer apoiar-vos para esmagar o Espiritismo. não mais com elas se ocuparam. — Entretanto. Não será esse juízo assaz comprometedor para um sábio? Quem pensa hoje nessa opinião? Confesso-vos que. Por que se dá isso. como meio de instruir-se. Para as pessoas fúteis. Quando estes nada mais tiveram a aprender no giro das mesas. essas pessoas que o consideram como coisa grave. ele ficaria convencido da insuficiência do seu processo. Porém. que nada querem aprofundar. esse fenómeno era um passatempo. o fenómeno da tiptologia em todas as suas fases? Verificou. quando é uma coisa séria? A. sucedeu-lhe o da observação. em pleno Instituto. então. hoje já ninguém se ocupa com elas. porque. que abandonaram quando dele se aborreceram. um divertimento. do máximo interesse para os homens que refletem. O Espiritismo entrou. •— Porque das mesas girantes saiu uma coisa ainda mais séria: uma ciência completa. uma perfeita doutrina filosófica. por meio desse estalido muscular. que não o toma como objeto de divertimento.62 ALLAN KARDEC Estudou ele. fico completamente inteirado da força dos outros argumentos que quereis validar. se podia produzir todos os efeitos tiptológicos? Não. O período de curiosidade teve seu tempo. mas. julgou-se no caso de proclamar a sua descoberta. V. não se prestam a qualquer experiência de curiosidade. apesar disso. ao menos. hesitaria muito em confiar-me a esse médico. sim. bem vedes que já passou a moda das mesas girantes que durante certo tempo fizeram furor. a menos que os não vades beber em fontes mais autênticas. se me tivesse de sujeitar a uma operação cirúrgica. e ainda menos a satisfazer a daqueles que se apre- . no domínio da gente séria. são pessoas com as quais a ciência não conta.

ao passo que tais fatos não têm sentido para quem os observa superficialmente ou por simples curiosidade. como não brincam. ensinais a quem já sabe. — Uma coisa é estar convencido e outra estar disposto a convencer-se. somente a experiência pode convencer. e não aos que julgam humilhação vir escutar o que eles chamam ilusões. para prová-lo. são reconhecidos por outros sinais que não apenas o desejo de ver uma ou duas experiências: esses querem trabalhar seriamente. uma confirmação. seja movido pela curiosidade.O QUE Ê O ESPIRITISMO 63 sentam com pensamentos hostis. e ainda mais quando se vem com o espírito prevenido. Com estes eu não me ocupo. A convicção só se adquire com o tempo. o melhor modo que têm. deixai que vos diga. eu pertenço a esse número. K. As provas abundam para o observador assíduo e refletido: uma palavra. . mesmo aquele que. Os fenómenos espíritas diferem essencialmente dos das ciências exatas: não se produzem à vontade. quando não se está familiarizado com as condições em que se pode encontrá-las. é para ele um raio de luz. — No entanto. é observando muito e por muito tempo que se descobre uma porção de provas que escapam à primeira vista. A. é preciso que os colhamos de passagem. um fato aparentemente insignificante. eis por que não me presto a fazer experiências sem resultado provável. é mostrar perseverança. Quanto aos que manifestam sincero desejo de esclarecer-se. é aos desta última classe que me dirijo. sobretudo. V. em começo. Se só trabalhais na presença de pessoas convictas. por meio de uma série de observações feitas com cuidado todo particular. absolutamente. não se prestam a servir de brinquedo para os outros.

Aqueles que acidentalmente poderíeis ver. direi: "Não se pode fazer um curso de Espiritismo experimental como se faz um de Física ou de Química. seriam pouco inteligíveis para vós. quando se vos apresentar a ocasião de observar ou operar pessoalmente. o pouco que vêem não é suficiente para lhes destruir as prevenções. mas que deseja esclarecer-se. K. se elas não encontram logo o que parecem buscar. mas que vos voltarão à memória. e. frustrarem-se todas as nossas previsões. quando não lhe facultais os meios para isso? A. pela narrativa de grande número de fatos espontâneos de que pudestes ser testemunha sem os compreender. e que as inteligências desses agentes fazem. atento que nunca se é senhor de produzir os fenómenos espíritas à vontade. O aprendiz. não apresentando nexo algum. — Eu faço grande distinção entre o incrédulo por ignorância e o incrédulo por sistema." . nem ligação necessária.64 ALLAN KARDEC V. — Enfim. nada me custa esclarecê-lo. que nada sabe. Instruí-vos primeiramente pela teoria. julgam mal os resultados obtidos e os transformam em objeto de zombaria. pessoas em quem a vontade de instruir-se não é senão aparente. porém. encontrareis a descrição de todos os fenómenos. A quem deseja instruir-se. vós vos fortificareis contra todas as dificuldades que possam surgir e formareis. uma primeira convicção moral. há. compreendereis a possibilidade deles pela explicação que elas vos darão. qualquer que seja a ordem em que os fatos se mostrem. muitas vezes. Então. porque. e que talvez as incomodasse. tudo deve ter começo. pelo que não há utilidade em lhos fornecer. quando descubro alguém com disposições favoráveis. porque nada vereis de estranho. com estas perde-se o tempo. compreendereis. se aparecesse. nelas aprendereis os princípios. que nada viu ainda. desse modo. lede e meditai as obras que tratam dessa ciência. como poderá fazê-lo.

O Espiritismo prende-se a todos os ramos da Filosofia. Como predisposição pessoal. em particular. — Terei grande satisfação. cavalheiro. pela resposta que dão. não tenho a pretensão. e. A. a utilidade do estudo preliminar de que acabais de falar. meu amigo. para uso geral. há partidários e adversários dele. além disso. O Espiritismo é uma ciência que acaba de nascer e da qual resta ainda. para mim ao menos. entretanto. que vos confesso a minha ignorância a respeito. grande presunção de minha parte pretender levar de vencida todas as dificuldades. uma resposta à maior parte das questões que lhe venham 3 . meu caro senhor. — Compreendo. da Metafísica. da Psicologia e da Moral. e propunha-me submeter-vos algumas das objeções que foram feitas em minha presença e que me parecem de certo valor. sempre que forem feitas com sinceridade e sem pensamento oculto. dir-vos-ei que não sou a favor nem contra o Espiritismo. a seu respeito tenho ouvido argumentos muito contraditórios. pois. em responder às perguntas que me quiserdes dirigir. Em prévia leitura cada qual encontrará. Compreendeis que me seria materialmente impossível repetir de viva voz e a cada pessoa. não poderei dizer mais do que sei. tudo quanto tenho escrito sobre essa matéria.O QUE É O ESPIRITISMO 65 Eis. seria. é um campo imenso que não pode ser percorrido em algumas horas. Entre as pessoas de meu conhecimento. de poder responder a todas. o que aconselho a todos que dizem querer instruir-se. mas esse assunto me excita o interesse no mais alto grau. K. muito a aprender. é fácil conhecer se neles há alguma coisa mais que curiosidade! SEGUNDO DIÁLOGO O CÉPTICO V.

A. aquele ou >aquela pessoa cuja doutrina é oposta ao materialismo. depois dela. não lhe teria especificado o obieto. V. qual a necessidade da criação de novos termos: espírita e espiritismo. limitar-nos-emos. Se o permitirdes. Espiritismo e Espiritualismo Pergunto-vos. o esclarecimento não oferecerá mais dificuldade. além da matéria. o que não implica a crença nos Espíritos e nas suas manifestações. a algumas questões genéricas. sempre que eu dela me afaste. para substituir: espiritualista e espiritualismo. que são da língua vulgar e por todos compreendidos? Já ouvi alguém classificar tais termos de barbarismos. porque. ainda existirem dúvidas ou pontos obscuros. é espiritualista. em primeiro lugar.66 ALLAN KARDEC à mente. Para as novas coisas são necessários termos novos. porque já se possui um ponto de apoio e não se tem necessidade de perder tempo em rever os princípios mais elementares da Doutrina. sem desmentir-lhe o . Todas as religiões são necessariamente fundadas sobre o espiritualismo. essa leitura tem a dupla vantagem de evitar repetições inúteis e de provar um desejo sincero de instruir-se. tende a bondade de chamar-me à ordem. por ora. — Seja. quando se quer evitar equívocos. Como o podereis distinguir daquele que tem esta crença? Ver-vos-eis obrigado a servir-vos de uma perífrase e dizer: É um espiritualista que crê ou não crê nos Espíritos. — De há muito tern já a palavra espiritualista uma acepção bem determinada. Se. é a Academia que no-la dá: Espiritualista. Aquele que crê que em nós existe outra coisa. K. Se eu tivesse dado à minha Revista a qualificação de espiritualista.

com certeza. que apareceram os termos espírita. por espírito de contradição. porém. Se adotei os termos espírita. aqueles que no princípio os classificavam de barbarismos. é porque eles exprimem. porque as falsas ideias. afeeionividade. logo. a propósito de uma obra filosófica. seu uso está tão generalizado que os próprios adversários. essas palavras não são mais bárbaras que as outras que as ciências. havia utilidade em adotar termos especiais para designar o que a eles se refere. um artigo em que se dizia tê-la o autor escrito do ponto de vista espiritualista. no começo e por algum tempo. e têm sido empregadas nos Estados Unidos desde que começaram a surgir as manifestações dos Espíritos. espiritismo. mas nem todos os espiritualistas são espíritas. confiantes nessa indicação. etc. as ideias relativas aos Espíritos. também delas se serviram na França.O QUE í! O ESPIRITISMO 67 título. ora. sem equívoco. como as verdadeiras. e até combatê-los. os partidários dos Espíritos ficariam singularmente desapontados se. não empregam outros. devem ser expressas por termos próprios. criticam tudo que não provém delas. Agarrar-se a tais bagatelas é demonstrar falta de boas razões. Já há algum tempo. Ainda que os Espíritos fossem uma quimera. as artes e a indústria diariamente estão criando. aqueles que assim provocam tão pequeninas chicanas. Os sermões e as pás- . e foram imediatamente aceitos pelo público. bem poderia nada dizer nela sobre os Espíritos. acreditassem encontrar alguma concordância entre o que ela ensina e as ideias por eles admitidas. como: Secretividade. Todo espírita é necessariamente espiritualista. li num jornal. espiritismo. tomando ares de oposicionistas. elas não o são mais do que aquela que Gall imaginou para a sua nomenclatura das faculdades. só revelam o acanhamento de suas ideias. compreendeu-se a sua utilidade. Há pessoas que. Além disso. As palavras espiritualismo e espiritualista são inglesas. alimentividade. Hoje.

não são hoje mais empregadas senão pelos adeptos da escola americana. sem afetar o fundo. feitas em todos os países. favoráveis ou contrárias. o Espiritismo hoje possui a sua nomenclatura. Dizei-me. para exprimir os fenómenos especiais dessa ciência. ela apenas se limita ao modo de encarar alguns pontos da doutrina. aplicadas às manifestações dos Espíritos. em seu começo. é. que tal divergência só existe na forma. não deu nascimento a dissidências. — Essa diversidade. K. tínhamos necessidade de termos especiais. a sua condenação. porém. As palavras espiritualismo e espiritualista.68 ALLAN KARDEG torais que fulminam o Espiritismo e os espíritas viriam produzir enorme confusão. e não constitui um antagonismo radical nos princípios. se fossem dirigidos ao espiritualismo e aos espiritualistas. são os únicos empregados em todas as publicações. primeiramente. Eles ocupam o vértice da coluna da nomenclatura da nova ciência. — A isso responderei. não deveria ser a mesma na América e na Europa? A. tal como a Química. qual a ciência que. como afirmam os nossos adversários. Se ela se baseasse em fatos positivos. parece-me. esses termos estão hoje incluídos na língua usual e em todas as línguas da Europa. Dissidências V. Bárbaros ou não. realmente. até que seus princípios ficassem claramente assentados? Não encontramos as mesmas dissidências nas ciências melhormente constituídas? Estarão os sábios de perfeito acordo sobre todos os pontos ? Não tem cada qual seus sistemas particulares? As sessões das Academias apresentam sempre o quadro de perfeito e cordial entendimento? . na crença do a que chamais uma ciência. sem ter estudado a questão.

com exceção de algumas individualidades que. Para aniquilá-lo. não deixariam de fazê-los valer. e é o que ninguém ainda fez. Ê fato verificado e reconhecido por seus próprios adversários. porém. cada pessoa tivesse um sistema e houvesse encarado os fatos de um modo particular ? Onde estão hoje esses sistemas primitivos? Caíram todos ante uma observação mais completa. é que nada pôde deter-lhe a marcha ascendente e que. . dilaceraram a Igreja e que ainda hoje a dividem? Ê realmente curioso ver as puerilidades a que recorrem os adversários do Espiritismo. seria necessário demonstrar categoricamente que os fenómenos não se produzem. não será natural que. nesta como em todas as coisas. se apegam às ideias primitivas e morrem com elas. nunca de um só argumento peremptório. negações. isto é um absurdo. ele já conta tal número de adeptos como ainda nenhuma seita contou depois de um século de existência. Qual a ciência. e que prende a imensa maioria dos adeptos. Qual o recurso de que lançam mão? Zombarias. quando eram ignoradas as leis que os regem. Bastaram apenas alguns anos para que ficasse estabelecida a unidade grandiosa que hoje prevalece na Doutrina. e a prova de ainda lhe não terem achado um ponto vulnerável. durante tantos séculos. não tem produzido cismas entre os que querem adiantar-se e os que desejam estacionar? Referindo-nos ao Espiritismo. qual a doutrina filosófica ou religiosa que oferece um exemplo igual? Apresentou o Espiritismo a centésima parte das cisões que. não era bastante dizer: isto não se dá. ao surgirem os primeiros fenómenos. em qualquer ciência. não podem produzir-se. calúnias. não indicará isso uma falta de argumentos sérios? Se eles os tivessem.O QUE fi O ESPIRITISMO 69 Em Medicina não há a Escola de Paris e a Escola de Montpellier? Cada descoberta. apenas com dez anos de vida.

— Por ser uma coisa suscetível de imitação. alguns fenómenos de mediunidade. K. segue-se que ela não exista? Que direis da lógica daquele que pretendesse. podia servir a explorações. bradando: Eis aí o que é o Espiritismo! Quando se mostrou em cena a engenhosa aparição dos espectros. Só a malevolência e uma rematada má-fé puderam confundir o Espiritismo com a magia e a feitiçaria. ficariam sabendo que os espíritas não se ocupam de fazer aparecer espectros nem de ler a buena-dicha.estudo. as fórmulas e . ser todo vinho desta espécie apenas água de Seltz? Isto é privilégio de todas as coisas que apresentam a possibilidade de engendrar falsificações. mesmo pouco acurado. e todos os gaiatos os aplaudiram. tê-los-ia certificado de serem completamente outras as condições em que se dão os fenómenos espíritas. como já tinham simulado a clarividência sonambúlica. quando aquele repudia o fim. Acreditaram alguns prestidigitadores que o nome de espiritismo. e certificar se há identidade real entre a imitação e a coisa imitada. não se proclamou que naquilo recebia o Espiritismo um golpe mortal? Antes de pronunciar tão positiva sentença. deve-se refletir que as asserções de um escamoteador não são palavras de um evangelho. por se fabricar com água de Seltz vinha de Champanha. além disso. mais ou menos grosseiramente. — Não estará provado que. as práticas. por causa da sua popularidade e das controvérsias de que era objeto. Um. Ninguém compra um brilhante sem primeiro estar convencido de não ser uma pedra d'água. esses mesmos fenómenos podem produzir-se? E disso não podemos concluir que eles não têm a origem que os espíritas lhes atribuem? A. eles. e para atrair a multidão simularam. fora do Espiritismo.70 ALLAN KARDEC Fenómenos espíritas simulados V.

Se eu encontrasse por aqui algum desses loucos. há muita gente inconsciente. vou saber agora como as coisas se passam. longe de sofrer com tais ataques. então. tenho assistido a centenas de reuniões espíritas. os reclamos provocaram o exame e contribuíram para lhe aumentar o número de adeptos. ao lado de um jornalista que ele não conhecia. meu amigo. porque se reconheceu. como esses que acabais de citar. Um espírita. tem crescido pelos reclamos que lhe fazem. mas. é justamente o que precisava para o meu próximo artigo. perguntar-lhe-ia se ele se reconhece no quadro que tem ante os olhos. ele era coisa séria. ele ouviu o vizinho dizer: — "Belo! Vamos assistir a uma sessão espírita. e posso asseverar-vos que nada vejo que se lhe pareça. cujas opiniões têm certo peso? . nas quais se espera o soar da meia-noite." Muitos críticos não têm bases mais sólidas. Alguns chegaram mesmo a comparar as reuniões espíritas às assembleias do sdbbat. em vez de brincadeira. a não ser sobre aqueles que caminham tão estonteadamente ? Quanto ao Espiritismo. disse-lhe o espírita. chamando para ele a atenção de muita gente que nem sequer pensava nele. entre os detratores do Espiritismo. que. ao lado deles.O QUE É O ESPIRITISMO 71 as palavras místicas destas. assevero-vos que ele não primará pela veracidade. assistia um dia a uma representação de Macbeth. — Convenho que. e nelas nada encontrei que se assemelha a isto. não se encontrarão também homens de real valor. Quando chegou a cena das feiticeiras. para que os fantasmas apareçam. Impotência dos detratores F. Se é aqui que vindes colher argumentos para o vosso artigo." — "Eu sou um deles. seu crédito. Sobre quem cairá o ridículo.

que inutiliza todas as suas combinações. seja ele o mais obscuro folhetinista. além disso. já hoje. os prejuízos. Um fato peremptório responde. apesar de todo o saber. a essa objeção. todos. porém. e não podem achar o motivo por não o busca- . é a prova de serem a expressão da verdade. Admiram-se de ver o desenvolvimento dessa doutrina. para que se cumpra a lei do progresso da humanidade. Isto se tem dado sempre com todas as ideias novas. não são convincentes. A isso respondo que o Espiritismo também conta em suas fileiras muitos homens de não menos real valor. só a má-fé pode dizer que seus adeptos são recrutados entre as mulheres simples e as massas ignorantes. não há um só dos seus contrários. que se não tenha lisonjeado com a ideia de dar-lhe um golpe mortal. os abusos que elas vêm destruir. sem exceção. entretanto. apesar de tudo o que fazem pela conter. de todo o poder oficial. que a imensa maioria dos espiritas se compõe de homens inteligentes e de estudos. que avança impávida através da chuva de dardos que lhe atiram. forçosamente elas encontram obstáculos. que talvez seja um desses grandes movimentos irresistíveis que. ninguém consegue deter o Espiritismo na sua marcha. sem querê-lo. nada as poderá deter. pois que as que lhe opõem. chegada a hora. é que. concorreram para a sua vulgarização. como já disse. — Não o contesto. mais. como estão nos desígnios de Deus. Essa impotência dos adversários do Espiritismo prova primeiramente. Uma ideia que resiste a tantos assaltos. que lhes faltam boas razões. K. chamadas a revolucionar o mundo.72 ALLAN KARDEC A. de tempos a tempos. porque lutam contra os interesses. abalam as sociedades para transformá-las. não provará a sua força máscula e a segurança das bases em que se firma? Não será esse fenómeno digno da atenção dos pensadores? Também. digo-vos. e. ela dimana ainda de outra causa. muitos deles avançam que deve haver nisso alguma coisa de real.

em todos os países. que surgem em todos os pontos do globo para desmentir os detratores e confirmar os princípios da Doutrina. é de encontro a essa força que todas as negações se vêm quebrar. porque não há lugar em que os Espíritos se não possam manifestar. são eles próprios que obtêm tais resultados? É possível fazê-los crer que eles se mistifiquem a si mesmos. O erro de todos está em crerem que a fonte do Espiritismo é uma só. e que se baseia na opinião de um só homem. que agrada muito mais que as que se lhe opõem. daí a ideia de que poderão arruiná-lo. mais forte que Deus. na própria natureza do Espiritismo cuja força não provém de uma só fonte. escamoteação. charlatanismo. aos que sentem a ação dos raios solares. assim como os que desconhecem as leis dos fenómenos elétricos não compreendem a rapidez com que se transmite um despacho telegráfico. nos palácios e nas choupanas. porque elas se equiparam às asserções de quem pretendesse afirmar. Como persuadir a milhões de indivíduos que tudo isso não é mais que comédia. outros. prestidigitação. e. que assim se apresenta mais forte que eles. Uns crêem encontrá-lo no grande poder do diabo. sem o concurso de estranhos. quando. eles procuram na Terra uma coisa que só achariam no Espaço. Fazendo abstração das qualidades da Doutrina. que o Sol não existe.O QUE É O ESPIRITISMO 73 rem onde ele realmente está. mas permite a cada qual receber diretamente comunicações dos Espíritos e por elas certificar-se da veracidade do fato. que a si mesmos procurem enganar fazendo o papel de charlatães e escamoteadores? Essa universalidade das manifestações dos Espíritos. mesmo. refutando essa opinião. A verdadeira causa está. vede nisso a causa dos insucessos dos que tentam deter-lhe . é uma força que não podem explicar aqueles que desconhecem o mundo invisível. essa fonte do Espiritismo não iS8 acha num ponto. pois. no aumento da alucinação humana. mas em toda parte.

que a si mesmos procurem enganar fazendo o papel de charlatães e escamoteadores? Essa universalidade das manifestações dos Espíritos. que o Sol não existe. na própria natureza do Espiritismo cuja força não provém de uma só fonte. nos palácios e nas choupanas. prestidigitação. assim como os que desconhecem as leis dos fenómenos elétricos não compreendem a rapidez com que se transmite um despacho telegráfico. Fazendo abstração das qualidades da Doutrina. pois. O erro de todos está em crerem que a fonte do Espiritismo é uma só. charlatanismo. vede nisso a causa dos insucessos dos que tentam deter-lhe . aos que sentem a ação dos raios solares. é uma força que não podem explicar aqueles que desconhecem o mundo invisível. porque elas se equiparam às asserções de quem pretendesse afirmar. mas permite a cada qual receber diretamente comunicações dos Espíritos e por elas certificar-se da veracidade do fato. que assim se apresenta mais forte que eles. refutando essa opinião. escamoteação. é de encontro a essa força que todas as negações se vêm quebrar. essa fonte do Espiritismo não iS8 acha num ponto. mesmo. são eles próprios que obtêm tais resultados? É possível fazê-los crer que eles se mistifiquem a si mesmos. mais forte que Deus. que agrada muito mais que as que se lhe opõem. que surgem em todos os pontos do globo para desmentir os detratores e confirmar os princípios da Doutrina. porque não há lugar em que os Espíritos se não possam manifestar. outros. no aumento da alucinação humana. Uns crêem encontrá-lo no grande poder do diabo. quando. mas em toda parte. sem o concurso de estranhos. eles procuram na Terra uma coisa que só achariam no Espaço. e que se baseia na opinião de um só homem. Como persuadir a milhões de indivíduos que tudo isso não é mais que comédia.O QUE É O ESPIRITISMO 73 rem onde ele realmente está. em todos os países. A verdadeira causa está. e. daí a ideia de que poderão arruiná-lo.

nesta questão. porque é exigir que se acredite nas superstições e nos erros populares. mas cessa de o ser desde que passe a ser uma verdade reconhecida. mostrando o que há de real ou de falso nas crenças populares. K. A questão está em saber se os Espíritos se manifestam. — Uma ideia só é supersticiosa quando falsa. já condenados pela razão. os fatos. Eis o motivo por que os espíritas. no século positivo em que vivemos. para que triunfassem. isso não pode ser tachado de superstição. como alguns pretendem. os que crêem e que não são nenhuns mentecaptos invocam também as suas razões e. procura. nós só o fazemos depois de. por muito tempo. ao contrário. a . antes que. Acresce que o Espiritismo esclarecido. O maravilhoso e o sobrenatural V. evidentemente. além disso. ligam tão pouca importância às manobras dos seus adversários. A. Vou mais longe e digo que é precisamente o positivismo do nosso século que faz com que adotemos o Espiritismo. era-lhes mister impedir que os Espíritos se manifestassem. àquele a rapidez da sua propagação. ora. ou não. — O Espiritismo tende. isto me parece difícil. porém. e que este deve. é o futuro — como tem sido em todas as questões científicas e industriais classificadas como absurdas e impossíveis em sua origem. ora. eles têm por si a experiência e o peso dos fatos. Pretendeis julgar a priori segundo a vossa opinião. em parte. antes de ficar provado que não existem espíritos.74 ALLAN KARDEC marcha. ter visto e observado. fruto da ignorância e dos preconceitos. para que lado se deVe pender? O grande juiz. Direis: a minha razão não aceita essas comunicações. a fazer reviver as crenças fundadas no maravilhoso e no sobrenatural. como o é hoje. denunciando o que nelas existe de absurdo. destruir as ideias supersticiosas.

a descoberta dessa nova lei traz consequências morais. ele não faz milagres nem prodígios. Ele amplia. o mesmo acontece com os outros fenómenos espíritas. ao mesmo tempo. igualmente. entre dois indivíduos separados por uma distância de cem léguas. no que se refere ao seu futuro. dezembro de 1861. 21. e é nisto que ele próprio se torna uma ciência. 393. mas. O Espiritismo repudia. ela agrada ao espírito positivo do nosso século. certos efeitos.) Oposição da Ciência V. assim. o código das consequências faz dele. todo efeito maravilhoso. dissestes. pois bem: o Espiritismo vem revelar uma nova lei. a sua possibilidade. e como a sua teoria do futuro repousa sobre bases positivas e racionais. II. como o que se dá por intermédio da eletricidade. e janeiro de 1862. (O Livro dos Méd/iams.O QUE É O ESPIRITISMO 75 uma recrudescência do amor ao maravilhoso e ao sobrenatural. É o que compreendereis. porventura. demonstrando. segundo a qual a conversação com o Espírito de um morto é um fato tão natural. Rewwe Spirite. ele corresponde às aspirações do homem. pág. porém. — Vós vos apoiais em fatos. em virtude de uma dessas leis. cap. da Filosofia e da Razão. fora das leis da Natureza. nos limites do que lhe pertence. antes explica. "mas opõe-se-vos a opinião dos sábios que os contestam. . como. ele as conhece a todas? Em todos os tempos foram reputados sobrenaturais os fenómenos cuja causa não era conhecida. os explicam de modo diferente do vosso. o domínio da Ciência. O sobrenatural desaparece à luz do facho da Ciência. pág. O positivismo nada admite que escape à ação dessas leis. uma doutrina filosófica. como os deuses do paganismo ante o brilho do Cristianismo. Deste último ponto de vista. isto é. ou. quando vos derdes ao trabalho de estudá-lo. Sobrenatural é tudo o que está fora das leis da Natureza.

isto em todos os países. que se agrupam ao redor da sua bandeira..76 ALLAN KARDEC Por que não fixaram eles sua atenção sobre o fenómeno das mesas girantes? Se nisso tivessem notado alguma coisa de sério. cumpre-me corrigir um grave erro que cometestes dizendo que todos os sábios são contra nós. Não repeliu ela como quimeras tantas descobertas que. Os sábios não serão o farol das nações. no entanto. porém. parece-me que não desprezariam fatos tão extraordinários e nem os repeliriam com desdém. antes de responder à vossa judiciosa observação. não são pessoas em quem se não deva reconhecer uma certa dose de ilustração. Mas. já ele conta entre seus adeptos grande número de médicos de todas as nações. que eles o tenham esquecido em mais de uma circunstância. os eclesiásticos. os professores. e ninguém nega que os médicos sejam homens de ciência. é precisamente na classe ilustrada que o Espiritismo faz maior número de prosélitos. a experiência prova o contrário. sua opinião nesse sentido teria grande peso na balança. merecerá ser condenado? Se nunca a Ciência se houvesse enganado. quando se lhes apresentava tão bela ocasião de revelar ao mundo a existência de uma nova força? A. etc. os magistrados. os altos funcionários. os homens de letras. Como vos disse há pouco. K. os oficiais. Admite-se erroneamente que os sábios só se encontram na ciência oficial e nos corpos constituídos. são todos eles contra vós. Pelo fato de ainda não ter o Espiritismo adquirido direito de cidade na ciência oficial. é pena. — Traçastes o dever dos sábios de modo admirável. mais tarde. e não têm o dever de esclarecê-las? A que atribuís que tenham deixado de fazê-lo. se tornaram título de glória para os seus autores? . os artistas. infelizmente. os grandes dignitários.

sobretudo no que se refere a ideias novas. sem. que confiou o exame imediato ao Instituto. quando se trata de uma questão de teologia. alguém irá pedir a solução a um químico ou a um astrónomo ? Não. em virtude do seu saber. não decidiu este que aquilo era uma utopia. A. Os do Espiritismo têm. certas pessoas se comprazem em prodigalizar-lhes? Certo que não. contudo. As ciências vulgares repousam sobre as propriedades da matéria. deixar de reconhecer que eles não são infalíveis e. à vontade. como agentes.O QUE E O ESPIRITISMO 77 Não foi devido a uin parecer do nosso primeiro corpo sábio que a França se absteve da iniciativa do vapor? Quando Fulton veio ao campo de Bolonha apresentar o seu plano a Napoleão I. com o que se não devia ocupar? Devemos daí concluir que os membros do Instituto são ignorantes e que sejam justificados os epítetos triviais que. portanto. e que. também. que ninguém pode ser bom juiz naquilo que está fora da sua competência. que se pode. far-vos-eis sangrar por um arquiteto ? Quando estais a braços com um processo. cada um tem a sua especialidade. não há pessoa sensata que não faça justiça ao seu saber eminente. que as suas sentenças não estão isentas de apelação. ides consultar um dançarino? Finalmente. os fenómenos que ela produz têm por agentes forças materiais. sua opinião vale alguma coisa. — Admito perfeitamente que eles não sejam infalíveis. à força de mau gosto. confiareis esse trabalho a um músico? Se estiverdes enfermo. Se quiserdes edificar uma casa. inteligências que têm independência. V. mas não é menos verdade que. daria grande peso ao vosso sistema. livre-arbítrio e não estão sujeitas . K. — Concordai. manipular. se ela estivesse do vosso lado.

os membros dessas corporações a aceitarão sob o poder dos fatos. ficam fora dos domínios da ciência propriamente dita. chamam loucos aos crentes. e notai que agora chamo sábios aos homens de estudo e saber. e depois. e os efeitos mais vulgares podem conduzir-mos à solução dos mais difíceis problemas. foi o mesmo que se deu com os que acreditavam no movimento de rotação da Terra. tenham ou não tenham um título oficial. Muitos fizeram o seguinte raciocínio: "Não há efeito sem musa. embora lhe fosse favorável. um erro fazê-las juiz dela. levando os prejuízos do seu obstinado amor-próprio. como experimenta uma pilha voltaica. porém.78 ALLAN KARDEC aos nossos caprichos. As corporações sábias não podem nem jamais poderão pronunciar-se nesta questão. amanhã. não tem o poder de forçar convicções. restará a vergonha do erro de se haverem levianamente pronunciado contra o poder infinito do Criador. foi mal sucedida como devia sê-lo. A Ciência enganou-se quando quis experimentar os Espíritos. e. porque agiu visando uma analogia que não existe. desde então. sem ir mais longe. pois. como já tem emendado outros. ela está tão fora dos limites do seu domínio como a de decretar se Deus existe ou não. concluiu pela negação. juízo temerário que o tempo se encarregou de ir emendando diariamente. por isso eles escapam aos nossos processos de laboratório e aos nossos cálculos. Deixai passar esta geração. àqueles que o preferiram. é. Hoje. e vereis que se há de dar com o Espiritismo o mesmo que se deu com tantas outras verdades. e. julgaram do mesmo modo. . Nem todos os sábios. tão combatidas e de que hoje seria ridículo duvidar. Quando a opinião pública se tiver formado a respeito. O Espiritismo é uma questão de crença pessoal que não pode depender do voto de uma assembleia. será a vez dos que não crerem. porque esse voto.

O QUE É O ESPIRITISMO 79 "Se Newton não tivesse prestado atenção à queda de uma <maçã. . o hábito das coisas positivas. encerre algiu\ns desses segredos da Natureísa." Eles disseram ainda: "Já que tanta gente se ocupa com eles. que. talvez. eu penso igualmente. para certa sociedade. com receio de receber. quando esta lhe falou das rãs que dançavam <no prato. e. K. busquei explicar-me tudo. pois. notai. mas duvida. de negar a possibilidade do que não compreendemos. ora. porque não costumo aceitar ideia alguma sem lhe conhecer o como e o porquê. uma ilusão. qual é a base em que se firma a crença na existência dos Espíritos e. quando se tem a chave para explicá-los. — Perfeitamente. se Galvami tivesse repelido s>ua serva e lhe chamasse visionária e louca. o desmentido que desabomaria nossa perspicácia. não pode ter esse caráter de generalidade. se o quiserem. — Essa crença apóia-se sobre o raciocínio e sobre os fatos. mais cedo ou mais tarde. eis aí um sábio raciocinando com sabedoria e prudência. porém. perscrutei esta nova ciência nos seus mais íntimos refolhos. Eu próprio não a adotei senão depois de meticuloso exame. e homens notáveis fizeram deles o objeto do seu estudo. seria divertimento para certo círculo. não é mais ridículo que a dança das rãs.. é preciso que alguma coisa de verdade se encontre em tais fenómenos. que ele nada afirma. talvez ainda 'estivéssemos sem conhecer a ^admirável lei da gravitação universal e as fecundas propriedades da pilha elétrica. revolucionam a Humanidade. Tendo adquirido. "O fenómeno. sem ser sábio. "Guardemo-nos. "mas não daria a volta ao mundo. e. na sua comunicação conosco? A. burlescamente designado sob o nome de damça das 'mesas. sobretudo." V. uma farsa. no estudo das ciências exatas. sondei.

por que não poderão comunicar-se conosco? Se estão em relação com os homens. com o vapor produzido por um pouco de água fervente. em alguns minutos. nos acontecimentos da vida destes. Quem sabe se eles não constituem uma das potências da Natureza. devem desempenhar um papel no seu destino. são inteligentes. é uma revolução nas ideias. atravessar-se a França. e de dizer que Deus nada mais nos pode revelar? "Se esses seres invisíveis que nos rodeiam. acaso. outrora incrédulo e hoje fervoroso adepto: "Dizem que seres invisíveis se comunicam. mas que valor tem isso. por que negá-lo ? "Antes de inventar-se o microscópio. e tirarmos da água os meios de iluminar-nos e aquecer-nos. "Quanta luz pode projetar essa descoberta? Quantas coisas misteriosas explicadas? "Os crentes são ridiculizados. tratado como insensato? "São ideias tão estranhas. dizem. em algumas horas. a ridícula pretensão de saber tudo. ela é mais que vima descoberta. . um navio avançar contra o vento.80 ALLAN KARDEC Eis o raciocínio que me fazia um sábio médico. suspeitava alguém que existissem esses milhares de animálculos que causam tantos estragos à economia? "Onde a impossibilidade material de haver no espaço seres que escapem aos nossos sentidos? "Teremos. que não se lhes deve dar crédito. quando o mesmo se tem dado a respeito de todas as grandes descobertas? "Cristóvão Colombo não foi repelido. uma dessas forças ocultas de que nem suspeitávamos ? 'i "Que novo horizonte vai abrir-se ao pensamento! Que campo tão vasto de observação! "A descoberta do mundo dos invisíveis tem muito mais alcance que a dos infinitamente pequenos. estabelecer-se correspondência entre dois pontos opostos do nosso planeta. mas a isso se pode responder que data de meio século a possibilidade de. sobrecarregado de desgostos.

averiguá-la pela observação dos fatos. "Será isso. essa observação não é . sem partido fixo. isto não pode ser a verdade. nela deixaram seu invólucro material ? "Não se achará neste fato a explicação de tantas crenças que existem desde os mais remotos tempos? "São coisas que bem merecem estudo aprofundado. V. K. se tivesse proposto iluminar toda a cidade de Paris em um instante e com um só reservatório de uma substância invisível. apenas conseguiria fazer rir de si. providos de todos os nossos órgãos e funcionando como nós. Quem. coisa mais prodigiosa que o espaço ser povoado pelos seres pensantes que. não superficialmente e de ânimo prevenido. eu digo que há mais dificuldade em conceber a nossa razão seres de tal tenuidade. Ora.O QUE É O ESPIRITISMO 81 "Quem. elas são igualmente feitas por muitos outro? homens esclarecidos. por tanto tempo. estudaram seriamente. pois." Eis as reflexões de um sábio. acreditais que todos esses homens sisudos as tivessem adotado? Que. há meio século. Resta. há bem pouco. porventura. desde que uma coisa não é impossível. depois de haverem vivido na Terra. cuja pequenez extrema nos confunde a imaginação? Ora. pois. estes viram. do que admitir aqueles a quem damos o nome de Espíritos. A. impossibilidade material de existirem seres invisíveis para nós. e esta só consideração devia bastar para exigir mais circunspeção. pudessem ser vítimas de uma ilusão? Não há. e tiveram a modéstia de não dizer: não compreendemos. mas de um sábio sem pretensão. Sua convicção formou-se pela observação e pelo raciocínio. poderia pensar que uma só gota de água límpida encerrasse milhares de seres. — Sem dúvida. não devemos concluir que exista. porque a razão não a repele. povoando o espaço. Se essas ideias fossem uma quimera. já ela avançou. mas não podeis deixar de convir que. mas por ser uma coisa possível. — Ê exato.

82 ALLAN KARDEC nova: tanto a história sagrada quanto a profana provam a antiguidade e a universalidade dessa crença. senão com precauções misteriosas que o tornavam inacessível ao vulgo. Falsas explicações dos fenómenos Ahucmação. e admitamos a mais completa boa-fé. tudo prova que os antigos o conheciam tão bem. e se mostra. — Ignoro que já se tenha claramente explicado o mecanismo da alucinação. K. — Reflexo do pensamento. — É contra os fenómenos provocados que principalmente a crítica se levanta. entre os mais selvagens povos. ou talvez melhor que nós. — Estado sonambúlico dos médiwns. . barulhos e movimentações de objetos. Ponhamos de lado toda suposição de charlatanismo. não será possível que os médiuns sejam vítimas de uma alucinação? A. visto como tudo se submete às leis imutáveis da Natureza. sem causa material. ela não deixa de ser um efeito singularíssimo e digno de estudo. porque não admitimos o sobrenatural. V. Da forma como querem defini-la. —l Sivperexcitação cerebral. tão frequentes. pois. no estado de ideias inatas e intuitivas. e grande número de efeitos insólitos que olhávamos como sobrenaturais e hoje nos parecem simples. Entre os primeiros estão as visões e as aparições. abandonado de propósito no lamaçal da superstição. eles são de duas naturezas: uns espontâneos e outros provocados. Os fatos provocados são os obtidos por intermédio de médiuns. os ruídos. somente ele não era ensinado. — Fluido magnético. O Espiritismo. não é uma criação moderna. Quanto aos fatos. que se perpetuou através de todas as vicissitudes por que tem passado o mundo. e tão gravadas no pensamento como a do Ente Supremo e a da existência futura.

." Poderão tais fenómenos ser produzidos por um fluido. fatos que escapam a essa hipótese: quando a mesa ou outro objeto se move. mas que é uma inteligência quem os faz mover. ou bate. sem se admitir que esse fluido seja dotado de inteligência ? Quando vedes os aparelhos do telégrafo fazerem sinais transmitindo o pensamento. não há dúvida de que poderiam ser assim explicados. — Tal foi o primeiro pensamento que tive. K. de ferro ou de madeira. ao mesmo tempo. se ergue. Se tudo se limitasse a esses efeitos materiais. que aqueles que por meio dela pretendem dar conta dos fenómenos espíritas. porém. bem compreendeis que esses aparelhos. Será admissível que todos os presentes sejam. foi-se levado a tirar a seguinte conclusão: "Se todo efeito tem uma causa. vítimas da mesma vertigem? E quando o mesmo fato se reproduz por toda parte. — Admitindo a realidade do fenómeno das mesas que giram e falam. quando ela se destaca do solo e se suspende no espaço. tudo isso não pode ser o efeito de uma alucinação. por um produto da sua imaginação. além disso. ao cair. à vontade. se despedaça. por exemplo? A. Há. não possam antes apresentar a explicação deles. como tantos outros. sem ponto de apoio. o efeito inteligente tem uma causa inteligente. creia ver o que não existe. enfim. V. porém. Suponho que o médium. essa alucinação seria prodígio maior que o próprio fato. em todos os países? A ser assim. passeia por uma câmara. do magnético. quando a dita mesa. quando esses movimentos e golpes nos deram provas de inteligência. não será mais racional atribuí-lo à ação de um fluido qualquer.O QUE É! O ESPIRITISMO 83 É pena. não são inteligentes. quando se reconheceu que respondiam ao pensamento com inteira liberdade. quando. sem que pessoa alguma lhe toque.

V. K. porque. Pois quê! o pensamento poderá refletir-se sobre uma superfície. se há um efeito inteligente. ou não. mas é desmentida por um conjunto de fatos tão concludentes que. ou o desta ou daquela outra? Tal sistema é insustentável. Dão-se.84 ALLAN KARDEC Dá-se o mesmo com as mesas a que nos referimos. desejos e opiniões. porque. seria muito mais prodigioso. ou mesmo dos assistentes. segundo suas ideias particulares e baseadas. a cada passo. seja de quem interroga. longe de ser simplificado. ou escrevem na sua própria quando não sabem ler nem escrever? Ã primeira vista. é impossível duvidar. — É ainda um erro. será o pensamento desta ou daquela que é refletido. Como conciliar essa tese com as respostas obtidas. E depois ainda o maravilhoso seria maior. a resposta recebida estava sempre rio pensamento de alguém. . como a luz. dizem. quando muito. essa opinião nada tem de irracional. em observação superficial. não deixariam de reconhecer. A. o som. achando-se presentes vinte pessoas. seja do médium. a independência absoluta da inteligência que se manifesta. efeitos inteligentes? Esta a questão. convenho. tão fora do alcance intelectual e da instrução do médium? respostas que vão de encontro às suas ideias. o fenómeno. são pessoas que nada viram ainda e se apressam a concluir. Se os que assim pensam se tivessem dado ao trabalho de estudar o fenómeno em todas as suas fases. — Pode-se responder que. diante deles. havia nisto um motivo para a Ciência exercer a sua sagacidade. mesmo admitindo-se essa teoria. filho da falta de observação. Os que contestam. ou que destroem completamente as previsões dos assistentes? Quando os médiuns escrevem em uma língua que não conhecem. o calórico?! Em verdade. Além disso. este pode ser um reflexo da inteligência.

presente então à sessão? Será por efeito do mesmo género que uma mesa responde com precisão às questões propostas. que lhe dá a percepção sonambúlica — espécie de dupla vista —. parece-me difícil crer que a mesa seja sonâmbula. as comunicações obtidas pelos médiuns não vão além do alcance das que nos dão os sonâmbulos? A. K. . se admitirmos que o médium se ache em estado magnético. — Ê ainda esse um desses sistemas que não resistem a um exame aprofundado. Q médium nem se acha em crise nem dorme. cem vezes mais extraordinárias e incompreensíveis do que aquelas que se lhes apresenta. mas está perfeitamente acordado. qual o sonâmbulo que fez alguma vez sair um pensamento de um corpo inerte? Qual deles pôde produzir aparições visíveis e. sem ponto de apoio? Será por efeito sonambúlico que certo médium desenhou. sendo a independência do seu pensamento demonstrada por fatos da maior evidência. mesmo feitas mentalmente? Certamente. retrato reconhecido pelo próprio pai da jovem. Abstraindo das comunicações escritas. segundo querem alguns. quem se não limitar a julgar as coisas.O QUE É O ESPIRITISMO 85 Ê realmente curioso ver-se os contraditores empenharem-se na busca de causas. morta havia dezoito meses e a quem ele não conhecera. que não permite confundi-lo com o sonâmbulo. porém. um dia. em minha casa e na presença de vinte testemunhas. que o médium se ache em estado de crise e goze certa lucidez. — Não será admissível. agindo e pensando como os outros. tangíveis? Qual fez que um corpo pesado se mantivesse suspenso no ar. reconhecerá sem dificuldade que o médium é dotado de uma faculdade particular. Certos efeitos particulares deram lugar a essa suposição. por uma só face. sem nada apresentar de extraordinário. que aliás nos pode explicar a ampliação momentânea de suas faculdades intelectuais? Por que. dizem. V. mesmo. o retrato de uma jovem.

pedem. a sua falta de fé. são sempre perigosos os juízos precipitados. ao que respondem. por causa da idade da pessoa por quem ele perguntava. ainda vive. rua tal. que os médiuns só falam com clareza daquilo que é conhecido.. — O que os incrédulos desejam ver. dizem eles. Eles querem que os fatos obedeçam à sua ordem e a Espíritos não se pode dar ordens. porque eles podem ser desmentidos pelos fatos que ainda se não observaram. e na maioria das vezes não se lhes fornece.86 ALLAN KARDEC Dizem. era ainda deste mundo. K. muito bom médium escrevente. mora em Paris. nada tem conseguido ver? Apresentam-lhes como motivo. número tanto. havia quinze anos. é preciso esperar pela boa-vontade deles. — É simples a razão. "Sim. deixar que . Não basta que os incrédulos vejam para que se convençam V. vemos respostas combinarem com o pensamento de quem pergunta. Se todos testemunhassem esses fatos. ainda." Ele foi e encontrou a pessoa no lugar indicado. Seria isso uma ilusão? Seu pensamento poderia sugerir-lhe tal resposta. A. havia toda a probabilidade de ela não existir mais? Se. a dúvida não mais seria permitida. Como é que tanta gente. apesar de sua vontade. perguntou a um Espírito se uma pessoa que ele tinha perdido de vista. Como explicar o fato seguinte e cem outros da mesma espécie? — Um dos meus amigos. quando. é necessário ter-se a vontade de perseverar. Não basta dizer: Mostrai-me tal fato e eu crerei. em certos casos. são os fatos positivos. será racional concluirmos que isso seja uma lei geral? Nisso como em todas as coisas. e com razão: que não podem ter fé antecipada e que se lhes deve dar os meios para poderem crer. foi-lhe respondido.

tendo formado uma opinião. que são inteligências muito mais independentes que as dos animais. porque bem sabe que o animal não lhe obedecerá. dizendo que o que viram nada prova? Essas pessoas só servem para trazer perturbação ao seio das reuniões. que. porém. com mais forte razão. engana-se redondamente. depois de haverem visto. e. Que faz o naturalista quando quer estudar os hábitos de um animal? Mandá-lo-á fazer tal ou qual coisa. O simples bom-senso mostra que. por isso. por terem de ferir seu amor-próprio com a confissão de se haverem enganado. por não querermos com elas perder nosso tempo. espera-as e colhe-as na passagem. aquele que mais desejais será. sem que elas mesmas lucrem coisa alguma. deve proceder-se do mesmo modo com os Espíritos. há cépticos que negam até a evidência e aos quais os próprios prodígios não convenceriam. para fazer que a máquina ande. pretendem por ela explicar tudo. que nada viram. e o que quereis se apresentará. Ê erro crer que se exija fé antecipada de quem quer estudar. mas quem acreditar que basta tocar a manivela. outros. talvez. Quantos deles. para com vagar observá-lo à sua vontade? Não. estes não compreendem . Muitos até ficariam incomodados. quando menos o esperardes. é melhor deixá-los tranquilos e dizerem tanto quanto quiserem. o que se exige é boa-fé. deixamo-las à margem. Que se pode responder a quem não vê por toda parte senão ilusão e charlatanismo? Nada. mesmo.O QUE fi O ESPIRITISMO 87 os fatos se produzam espontaneamente. sem pretender forçá-los ou dirigi-los. aliás coisa diversa. precisamente o que não obtereis. virão. ora. Aos olhos do observador atento e assíduo surgem eles inumeráveis. não persistem ainda em explicar os fatos a seu modo. Ao lado desses cépticos endurecidos estão os que querem ver a seu modo. mas espreita as manifestações espontâneas do instinto do animal. que nada se pôde ou se quis mostrar-lhes. se se vissem forçados a crer. corroborando-se uns aos outros.

não devem fornecer provas às pessoas a quem não ligam a importância que elas pretendem ter. — É por julgarem que. Quem de boa-fé deseja observar. observar com paciência infatigável. não digo crer sob palavra. são f utilidades a seus olhos. Disponde vós de tal paciência? Não. que nos parece tão longo. colocarmo-nos no seu ponto de vista. cuja opinião teria grande influência? A. a distância. pois ninguém a tal vos obriga. convenho. naquele momento. limitada pela estreiteza do círculo em que vivemos. é para eles um instante. mas abandonar toda ideia preconcebida e não querer comparar coisas incompatíveis. não faleis mais nisso. esta condição é também favorável aos que se tornam adeptos. Então não vos ocupeis. pois que não são eles . eles vêem. aos meios de convencer certas pessoas. seguir. os Espíritos têm sua maneira de julgar as coisas. deve. cumpre-lhe aguardar. ao passo que a nossa vista é circunscrita pela matéria. por que não se prestam. o tempo. — Os Espíritos devem almejar fazer prosélitos. e direis: por falta de tempo. um simples passo. eles abrangem o conjunto. a qual nem sempre se coaduna com a nossa. não sabem ou não querem colocar-se nas condições precisas para obtê-los. É isso pouco lisonjeiro. e certos pormenores. melhormente. Boa ou má-vontade dos Espíritos para convencer V. pois que ela prova não haverem formado levianamente a sua convicção.88 ALLAN KARDEC que os fenómenos se possam dar contrariamente ao seu desejo. para nós de importância extrema. ligam às vezes importância a coisas cujo verdadeiro alcance nos escapa. em compensação. porém não temos o direito de impor-lhes a nossa opinião. pensam e agem segundo outros elementos. K. Para compreendê-los é preciso nos elevarmos pelo pensamento acima do horizonte material e moral.

para estes multiplicam eles as fontes de luz. sim. duvidar da sua veracidade. — Como dissestes. em primeiro lugar. neste último caso. porque o seu dia também chegará. essa questão tem importância. mas subirmos nós até eles. porque. as consequências dele emanadas também o seriam. quando o não traduzam por palavras. Notai. que essa marcha seria totalmente ilógica. é o sentimento de hostilidade e descrédito que exista em seus pensamentos. Origem das ideias espíritas modernas N V. Por isso vos dizia eu que não é a f é antecipada o que pedimos. se o princípio fosse uma quimera. — Uma coisa que eu desejava saber. mas as coisas não se passaram assim. supondo essas ideias nascidas de uma crença antecipada. A. é admissível que a imaginação possa nisso ter desempenhado seu papel. é o ponto de partida das ideias espíritas modernas. De fato. no ponto de vista em que vos achais. serão elas filhas de uma revelação espontânea dos Espíritos. Por sua causa os Espíritos nada fazem. a boa-fé. que a imaginação pudesse produzir todos os resultados materiais observados. poder-se-ia. ainda que seja difícil acreditar-se. o que os afugenta não é a dúvida que nasce da ignorância. Os Espíritos gostam dos observadores assíduos e conscienciosos. é o que nos ensinam o estudo e a observação. com alguma aparência de razão. é a fatuidade desses pretensos observadores que nada observam. porque. meu amigo. K. que desejam colocá-los no banco dos réus e fazê-los moverem-se como títeres.O QUE É O ESPIRITISMO 89 que devem descer ao nosso nível. os Es- . se o Espiritismo fosse fundado no pensamento preconcebido da existência dos Espíritos. mas. pouco se importando com o que possam dizer ou pensar. ou o resultado de uma crença prévia na existência deles? Compreendeis a importância de minha pergunta.

declarando pertencer aos seres incorpóreos chamados Espíritos. que achassem explicação provável na existência de seres invisíveis. até aí. não foi ele uma hipótese imaginada com o fim de explicar certos fenómenos. a completa independência da inteligência que se manifesta. Nada.. de propriedade ainda desconhecida. Assim. longe de que os Espíritos fossem uma ideia preconcebida. como já igualmente vo-lo disse. a primeira suposição feita. foi a de uma causa material. do que se concluiu. etc. para chegar a eles. a reconhecer nesses ruídos e movimentos um caráter intencional e inteligente. pode-se procurar-lhe a causa. todo efeito inteligente tem uma causa inteligente. somente a observação conduziu à causa espiritual. possível conceber o pensamento da existência dos Espíritos. Esta inteligência não podia estar no objeto. partiu-se. . Não se podendo. que: Se todo efeito tem uma causa. Pois bem! não foi mesmo deste modo que nasceu tal pensamento. movimentos de objetos. e ela demonstrou por provas irrecusáveis. autorizava a buscar-se-lhes a causa fora da ação de um fluido magnético ou outro qualquer. pois. realizando-se sob a influência de certas pessoas. se efeitos não se tivessem mostrado. porque a matéria não é inteligente. Não era. Ela não pertencia. Seria o reflexo da pessoa ou das pessoas presentes? Assim se julgou no começo. nem ao objeto nem à pessoa. pois. isto é. por este meio explicar tudo. pois sabemos que essa crença é tão velha quanto o mundo. tais como ruídos estranhos. quando se vê um efeito. Eis a marcha das coisas: fenómenos espontâneos se produziram. mas não é natural imaginar-se uma causa antes de lhe ter visto os efeitos. porém. Não se tardou. só a experiência podia pronunciar-se. como já o disse. Falo das ideias espíritas modernas.90 ALLAN KARDEC píritos são a causa e não o efeito. Quem era então? Ela própria respondeu. porém. pancadas. sem causa ostensiva conhecida. em muitas circunstâncias. do ponto de vista materialista.

e podia-se adquirir o conhecimento dos seus costumes. a seu respeito. não nasceu do cérebro de ninguém. teríamos interrogado e eles teriam respondido. e Deus sabe quantos surgiram! Uns creram ser os Espíritos superio- . apesar de nunca os havermos visto. que desejavam comunicar-se. foi-nos por eles ensinado. o campo das conjeturas e dos sistemas esteve aberto. quantas coisas curiosas não ficaríamos sabendo sobre eles! Suponhamos que. insuficientes e incómodos. Foi o que se deu nas relações com o mundo invisível: as manifestações materiais foram sinais e meios de aviso que nos conduziram a comunicações mais regulares e mais seguidas. antes da descoberta da América. e que na sua extremidade europeia se houvessem produzido alguns sinais inteligentes. condições de sua existência e seu papel no mundo visível. e tudo o que soubemos depois. usos e modos de ser.O QUE fi O ESPIRITISMO 91 A ideia dos Espíritos não preexistia. mas. renuncia à linguagem dos sinais. recuperando a palavra. nem mesmo lhe foi consecutiva. mas nos foi dada pelos Espíritos mesmos. pôde-se entreter conversações seguidas e obter informações sobre a natureza desses seres. estranhos à Humanidade? Eram bons ou maus? Foi ainda a experiência quem se encarregou da solução de tais problemas. Quem eram os habitantes desse mundo? Eram seres à parte. E — coisa notável — à medida que meios de mais fácil comunicação se acham ao nosso dispor. Ficaríamos assim com a certeza da sua existência. qual o mudo que. até que observações numerosas tivessem derramado luz sobre o assunto. os Espíritos abandonam os primitivos. um fio elétrico estivesse estabelecido através do Atlântico. Se assim pudéssemos interrogar os seres do mundo dos infinitamente pequenos. Uma vez revelada a existência dos Espíritos e estabelecidos os meios de nos comunicarmos com eles. e ter-se-ia logo concluído que na outra extremidade se achavam seres inteligentes. em uma palavra.

também. pode tornar-se momentaneamente visível e mesmo tangível. em certos casos e por uma espécie de condensação ou de disposição molecular. que. no sentido absoluto da palavra. invisível no estado normal. nos acotovelam sem cessar. Foi o que aconteceu com os Espíritos. de natureza excepcional e. uns tenham dito muito boas coisas. Ficou-se sabendo. onde deixaram seu invólucro corpóreo. imateriais. que uns são muito felizes e outros muito desgraçados. reconhecer seus parentes e amigos e os que conhecera na Terra. e observar sua situação segundo o género de morte e modo pelo qual viveram na Terra.92 ALLAN KARDEC rés em tudo. era só por suas palavras e atos que podiam julgá-los. neles só viram demónios. vaporoso. mas. e. foi assim que se reconheceu entre eles todos os graus de bondade e malvadez. sim. desde o instante em que abandonam o corpo. outros. ficou explicado o fenómeno das aparições e do contacto. desde então. nos cercam. o verdadeiro do falso em suas relações conosco. possuem um invólucro. de saber e ignorância. cada qual pode. cabe à nossa prudência distinguir o que é bom do que é mau. dentre eles. ter-se-ia logo concluído que entre eles havia bons e maus. soube-se que eles não são entes abstratos. de que acabamos de falar. e. absolutamente como procedemos a respeito dos homens. . sobre a sua natureza e sobre o que podemos chamar estado fisiológico. a que chamamos perispírito. Enfim. diáfano. pode-se acompanhá-los em todas as fases de sua existência de além-túmulo. Uma vez bem informados acerca dos defeitos e das boas qualidades que entre eles se encontram. por eles mesmos. Suponhamos que dentre os desconhecidos habitantes transatlânticos. espécie de corpo fluídico. as almas daqueles que já viveram na Terra. por sinais incontestáveis. e que hoje povoam os espaços. A observação não nos esclareceu somente sobre as qualidades morais dos Espíritos. que não são seres à parte. ao passo que outros se faziam notar pelo cinismo da linguagem.

K. O mais vulgar — o que se pode chamar universal — consiste na intuição. Mas o pouco que eu vos disser. — Falastes de meios de comunicação. que é a mesma coisa. abreviadamente. o corpo morre. sobretudo. quando. contudo. porém. porque isto exigiria prolongado desenvolvimento. Meios de comunicação F. Quanto aos meios. bastará para facilitar-vos a compreensão do mecanismo e servirá. pelos quais ele se nos manifesta. mais ou menos apurada dos Espíritos. É esse invólucro semimaterial do Espírito que lhe serve de meio para a produção de diferentes fenómenos. a história do Espiritismo. e reconhecereis ainda melhor quando o tiverdes estudado a fundo. bem vedes. cavalheiro. Tal é. sem. são muito variados e dependem tanto da natureza. abandona-o. assim como o fruto despojado do invólucro cortical conserva ainda o perisperma. para vos dar uma ideia de algumas das experiências. a alma ou o Espírito. para só conservarmos as interiores. esse invólucro é um laço que o prende ao Espírito. deixar o primeiro envoltório. que tudo nele é o resultado da observação e não de um sistema preconcebido. nas . contudo. A existência desse envoltório semimaterial é já uma chave para a explicação de muitas coisas e mostra-vos a possibilidade de certos fenómenos. a que podereis assistir. isto é. antes de começar a vossa iniciação. podereis dar-me disso uma ideia.O QUE fi O ESPIRITISMO 93 Enquanto dura o corpo. que encontrareis minuciosamente em O Livro dos Médiuns. porquanto é difícil compreender como podem esses seres invisíveis conversar conosco? A. agora. vou fazê-lo. quanto das disposições peculiares às pessoas que lhes servem de intermediárias. do mesmo modo como despimos as peças exteriores da nossa roupa. em poucas palavras. — De boa-vontade.

O médium coloca as mãos sobre esse objeto. segurando. etc. respondendo por sim ou por não. movimentos de corpos. é este. pela voz do médium. ao qual transmite a influência que recebe do Espírito. reconheceu-se a inutilidade desse intermediário. este último pode escrever. a que melhor . Serviu-se no começo. falantes. videntes. a independência do médium. porém. ou designando as letras que devem formar as palavras. cujo único mérito está em demonstrar. Assim. Certos Espíritos se comunicam por pancadas. há médiuns auditivos. uma cestinha. e é obtida de diferentes maneiras. por exemplo. aptos para produzir fenómenos materiais. Depois. músicos. seja no ar. de uma mesa. Os Espíritos manifestam-se ainda e podem transmitir seus pensamentos por sons articulados. de modo mais palpável. como uma prancheta. por desenhos. que se fazem ouvir. propriamente falando. a escrita substituiu-o. escreventes. e o lápis traça os caracteres. ao qual se adapta um lápis. de um objeto móvel. Os médiuns possuem. isto é. desenhadores. aptidões especiais que dependem de sua organização. pela vista. cuja ponta pousa sobre o papel. sem que estes se movimentem. que bate com o pé. ele mesmo. pela música e por muitos outros meios que um estudo completo torna conhecidos. As pancadas podem ser obtidas pelo movimento de oscilação de um objeto. e serve-se ainda algumas vezes. para esses diferentes modos de comunicação. seja no interior do órgão auditivo. mais que um apêndice da mão. outros existem mais materiais. na generalidade dos casos.. uma caixa.94 ALLAN KARDEC ideias e pensamentos que eles nos sugerem. que não é senão uma complicação de meios. Esse modo primitivo é demorado e dificilmente se presta a comunicações de certo desenvolvimento. Esta última faculdade é a mais comum. Muitas vezes se fazem ouvir nas próprias substâncias dos corpos. como pancadas. uma espécie de porta-lápis. um meio pouco apreciável. temos médiuns de efeitos físicos. o lápis. A natureza e a substância do objeto são indiferentes. O objeto assim empregado não é.

é necessário saber-se o modo pelo qual se opera o fenómeno. neste caso. Somente. elas não estão isentas de inconvenientes e. O Espírito atua. Poderia eu mesmo experimentá-lo? A. de perigos. que transmite um pensamento que não é o seu e que. e sem que ele tenha consciência do que escreve: é o médium escrevente mecâmoo. Outras vezes. por ser a que permite comunicações mais frequentes e rápidas. para os que não têm a necessária . diretamente sobre a mão do médium. aconselho-vos vivamente a não tentardes ensaio algum antes de acurado estudo. a experiência ensina a distingui-los com facilidade. tereis o melhor meio de vos convencer. Obtêm-se comunicações igualmente boas por esses dois géneros de médiuns. porque não podeis duvidar da vossa boa-fé. Ainda que. Para compreendê-las. seu papel é exatamente o de um intérprete. à qual dá um impulso totalmente independente da vontade deste. Demais. portanto. a vantagem dos que são mecânicos é proveitosa sobretudo para as pessoas que ainda não estão convencidas. nas comunicações que recebe. — O processo parece-me dos mais simples. digo mais: se possuirdes a faculdade mediúnica. O médium escrevente apresenta numerosas variedades. V. antes que nos meios de execução. As comunicações do além-túmulo são cercadas de mais dificuldades do que se pensa. — Perfeitamente. o pensamento do Espírito e o do médium se confundam algumas vezes. das quais duas são muito distintas. K. algumas vezes. atuando sobre o cérebro do médium. então. tem consciência mais ou menos nítida do que obtém: é o médium intwtivo. ele deve compreender. se bem que escrevendo de modo involuntário.O QUE É O ESPIRITISMO 95 se desenvolve pelo exercício e também a mais preciosa. mesmo. a qualidade essencial de um médium está na natureza dos Espíritos que o assistem. seu pensamento se comunica com o deste que.

ou nas pessoas que nos cercam. V. não se encontrar algum em qualquer dos membros de nossa família. sua causa moral está na vontade do Espírito que se comunica. que encontre no médium um instrumento apropriadç à sua natureza. que todo médium pode perder ou ver suspender-se a sua faculdade. a idade e o temperamento são indiferentes. 2.°. quando não o sejamos. — Até ao presente não se conhece um diagnóstico para a mediunidade. donde resulta: 1. pois. correria o risco de queimar os dedos. . que sua posição ou suas ocupações lho permitam. quando isto lhe apraz. a fira de se poder explicar as variações que esse fenómeno apresenta.°.°. que nem todos os Espíritos podem comunicar-se indiferentemente por todos os médiuns. e não segundo a nossa vontade. doentes e pessoas sadias. ao passo que ela é essencialmente móbil e fugidia. quando ele menos o esperar. isto implicaria a permanência da faculdade. K. um erro crer que todo Espírito possa vir responder ao apelo que lhe é feito.°.96 ALLAN KARDEC experiência. Para que um Espírito se comunique. os médiuns são muito numerosos e é raríssimo. são sem valor. e se comunicar pelo primeiro médium de que se lance mão. Estas poucas palavras bastam para mostrar que há nisto um sério estudo a fazer-se.°. experimentar é o único meio de saber se a faculdade existe. velhos. mais ou menos fácil. O sexo. que lhe convenha fazê-lo. eles aparecem entre os homens e mulheres. todos os que julgamos descobrir. dos fluidos perispirituais do encarnado e do Espírito desencarnado. Seria. Além disso. — Há algum sinal pelo qual se possa reconhecer a posse dessa aptidão? A. Se a mediunidade se traduzisse por um sinal exterior qualquer. É o mesmo que aconteceria àquele que. 3. tentasse fazer manipulações químicas. sem saber Química. entre crianças. Sua causa física está na assimilação. 2. é preciso: 1.

nestas circunstâncias. há muita gente que deseja ter certeza de que não 4 . como fariam estudantes em uma assembleia de doutos. segundo a sua simpatia pelas pessoas que os chamam. calam-se e conservam-se afastados para escutar. sem por isso serem essencialmente maus. zombando. Os Espíritos sérios só comparecem nas reuniões sérias. com os mais elevados como com os mais vulgares. podemos comunicar-nos com os Espíritos de todas as categorias. para onde os chamam com recolhimento e para coisas sérias. Os Espíritos denominados batedores e. eles vêm mais ou menos de boa-vontade segundo as circunstâncias e. lançam mão dos atrasados. como nós nos servimos dos trabalhadores para os serviços pesados. de alguma sorte especial. possuem uma aptidão. independente das condições individuais de possibilidade. quando aqueles precisam que tais efeitos se dêem. depois da morte não o fazem também.'para os efeitos materiais. muitas vezes. dos assistentes. e respondendo a tudo sem se importarem com a verdade. fazendo de tudo divertimento. são de ordem inferior. sobretudo. não se incomodariam com elas. se eles. geralmente. Nas reuniões frívolas eles tomam a desforra. Os Espíritos frívolos andam por toda parte. nem também a experiência alguma. ou com um fim fútil. não se prestam a responder a perguntas de curiosidade. nas reuniões sérias.O QUE Ê O ESPIRITISMO 97 Em princípio. porém. assim como os sábios da Terra não se entregam a exercícios de força muscular. porém. os Espíritos superiores não se ocupam com essas coisas. com os nossos parentes e amigos. Médiuns interesseiros V. — Antes de empreender um estudo de longo fôlego. todos os que produzem manifestações físicas. quando na Terra. e não pelo pedido do primeiro que tenha a fantasia de evocá-los por um sentimento de curiosidade. de prova.

supondo que eles consintam nisso. senhor. mesmo obtido a peso de ouro. é antes guiado pela curiosidade. não gostam dos curiosos. A. sobretudo. encontram um divertimento maldoso em frustrar as combinações e os cálculos do seu evocador. assim como eu. que pelo desejo real de se instruir. certeza que lhe poderia provir do fato concludente. em todos os casos só se prestariam a isso Espíritos de classe inferior. é fazer ideia bem falsa das nossas relações com o mundo espiritual. — Aquele que não se quer dar ao trabalho de estudar. porquanto dependem da vontade dos Espíritos. nada lhe garante obter uma manifestação em dado momento. antipática. As comunicações de além-túmulo são assunto muito grave e respeitabilíssimo para serem assim exibidas. e estes mesmos. com razão se poderia suspeitar que o médium retribuído simulasse quando o Espírito não o auxiliasse. crer que Espíritos superiores como Fenelon. muito pior seria se neles encontrassem o estímulo do interesse. Além disso. a cobiça é-lhes. os Espíritos.98 ALLAN KARDEC vai perder o tempo. a que ela sirva de profissão. à vista de sua depen- . a tanto por hora. pouco escrupulosos a respeito de meios. pois que ele desejaria de qualquer forma ganhar dinheiro. Sabemos que os fenómenos espíritas não se produzem como o movimento das rodas de um mecanismo. A natureza da faculdade mediúnica opõe-se. muitas vezes. Não. mesmo admitindo-se que um indivíduo possua aptidão mediúnica. Além de que o desinteresse absoluto é a melhor garantia de sinceridade. Pascal. Santo Agostinho. Bossuet. e que não merecem confiança alguma. o que é mais que duvidoso. ora. e eles recusam-se a prestar-lhe qualquer serviço. repugnaria à razão evocar por dinheiro os Espíritos das pessoas que nos são caras. Se os incrédulos são inclinados a suspeitar da boa-fé dos médiuns em geral. pois. K. se ponham às ordens do primeiro que os chame.

que precisa de fatos que o convençam.O QUE fi O ESPIRITISMO 99 dência de vontade estranha à do médium. admitindo mesmo inteira boa-fé. não seja indenizado quando esse tempo é roubado ao trabalho de que precisa para viver ? A. é porque não lhe satisfazia. em um novo. se produzisse exatamente aquele que desejávamos ver para nos convencermos. Ê absolutamente o mesmo que se se dissesse ser no interesse da Humanidade que o padeiro fabrica o pão. . seria puro acaso se. salvo se ele a suprir pela astúcia. — Compreendo esse raciocínio do ponto de vista moral. K. deixá-lo em falta. que se não pode comprá-la. e por esperar ganhar mais. entretanto. não é justo que aquele que emprega seu tempo. não se pode deixar de compreender que não lhes agradam as solicitações de alguém que tenha a ideia de servir-se deles para ganhar dinheiro. deve provar aos Espíritos sua boa-vontade por uma observação séria e paciente. não o é menos. — Primeiro: será mesmo no interesse da causa que ele o faz. se deseja ser auxiliado. Porém. essa dádiva. no momento preciso. que viria desnaturar a intenção e transformá-la em violento desejo de lucro. procuraria ganhar a vida de outro modo. seria antes um motivo para que ele fosse mal sucedido. a bem da causa. ou ter menos fadigas. A mediunidade não é o único recurso. Quando se está bem compenetrado desta verdade — que a afeição e a simpatia são os mais poderosos móveis de atração para os Espíritos —. ou no seu próprio? Se ele deixou seu modo de vida. se ele não a tivesse. V. em sessão paga. pois. Não há sacrifício algum no empregar o tempo em uma coisa de que se espera tirar lucro. Aquele. desde que os fenómenos não se produzem à vontade. pois se é uma verdade que a fé não se impõe. e de lhe poder ela. Dai cem mil francos a um médium e não conseguireis que ele obtenha que os Espíritos façam o que não querem.

apesar de serdes incrédulo. que compreendem e tomam a peito a dignidade. eles não consagram à mediunidade senão o tempo que lhe podem dar. para um que fosse leal. ou. qualquer que seja a forma ou disfarce com que se apresente. eles se mostram devotados. Convinde. pois. senhor. É. nesse trabalho mais útil. fariam o imaior dano ao Espiritismo. quando não possuem uma existência independente. reprovam toda espécie de especulação. apresentar-se-iam cem charlatães que. Os médiuns sérios e sinceros — e eu dou este nome aos que compreendem a santidade do mandato que Deus lhes confiou — evitam até as aparências do que poderia fazer pairar sobre eles a menor suspeita de cobiça. concordai que vendo-o antes animado de um verdadeiro sentimento religioso. quando mesmo fosseis admitido por favor. o que é muito raro. ao demais. os médiuns mercenários pululariam e os jornais viriam sempre cheios de seus reclamos. ora. que um médium nessas condições faria sobre vós uma impressão totalmente diversa da que sentiríeis. um princípio: todos quantos vêem no Espiritismo coisa diferente de uma exibição de fenómenos curiosos. ainda que estes ofereçam todas as garantias desejáveis. estimulado pela fé somente e não pelo desejo do ganho. Se não fosse o descrédito que acompanha esse género de exploração. . empregando parte do tempo destinado aos divertimentos e repouso. sem prejuízo de outras ocupações. tornam-se apreciados e respeitados. para o que me felicito de muito haver concorrido. se soubésseis que atrás de tudo aquilo havia uma questão de dinheiro. procuram recursos no trabalho ordinário e não abandonam suas profissões. A multiplicidade dos médiuns nas famílias torna. inúteis os médiuns de profissão. consideração e os verdadeiros interesses da doutrina. eles consideram uma injúria a acusação de tirarem qualquer lucro da sua faculdade. abusando de uma faculdade real ou simulada.100 ALLAN KARDEC Os médiuns verdadeiramente sérios e devotados. se lhe tivésseis pago para vê-lo trabalhar.

para dizer que é nisso que consiste o Espiritismo. se ela só tivesse intérpretes interessados. Já vedes. escrúpulos que não nos embaraçam. eles são desconhecidos na maioria dos centros espíritas da província. e disso se aproveitam os mal-intencionados. confundem o abuso com a realidade. y. encontrareis mil como este. porque não há motivo algum para suspeitardes da sua lealdade. na falta de Espíritos. Pois bem! caro senhor. pois. porém. onde a reputação de mercenários bastaria para que os excluíssem de todos os grupos sérios. tram por toda parte. não contaria a quarta parte dos adeptos que possui hoje. quando buscamos aquele que recebe uma paga. esperando por esse meio. mas os médiuns desinteressados não se acham ao dispor de qualquer e sentimo-nos constrangidos de incomodá-los. o Espiritismo sério tem razão de não aceitá-la. da borra de café. f acuidade que lhes falta. convencido de que não lhe . ao passo que. há falsos médiuns que tudo aproveitam. etc. a fim de contentar a todos os gostos. contra um que não esteja nas mesmas condições. Para suprir. — Tudo isso é muito lógico. há pessoas que. senhor.. inspirar-vos-á mais confiança. que se encon-. pelo menos em França. e é esta uma das causas que mais têm concorrido para o crédito e propagação da doutrina. servindo-se das cartas. seja a insuficiência da clientela. Se eles unicamente a si prejudicassem. seja a . atrair os que ainda crêem nessas tolices. e onde para eles o ofício não seria lucrativo. da clara de ovo. concordo. por causa do descrédito de que se tornariam objeto e da concorrência de médiuns desinteressados. sem nada aprofundarem. que se a exploração da mediunidade conduz a cometer abusos prejudiciais à doutrina.O QUE É O ESPIRITISMO 101 involuntariamente o respeito por ele se vos impunha. de repelir o seu auxílio. o mal não seria grande. seja embora ele o mais humilde proletário. É perfeitamente compreensível que os médiuns de profissão sejam excessivamente raros.

— Se os médiuns públicos. e suponho que exista a mais completa lealdade. Muita gente que se deseja convencer. isto é o que não se encontra em médium algum. Aquele que. Para que um médium de profissão possa oferecer toda segurança às pessoas que o venham consultar. os progressos da ciência espírita. seja entre os desinteressados. a dificuldade material que se apresenta à sua produção. . e satisfazer a todas as evocações que lhe sejam pedidas. Ao lado. que ele se possa comunicar facilmente com qualquer Espírito e a todo momento. que vos citei. fazendo-nos melhor conhecer as condições em que se produzem as manifestações. não é por assistir a uma sessão que se ficará convencido. e talvez sem vontade alguma de prosseguir num estudo em que nada se viu de sério. como lhes chamais. como um médico. Buscá-los-iam antes como divertimento. hoje. não destrói os de muito mais gravidade. coisa de que ninguém a princípio suspeitava: a necessidade de afinidades fluídicas entre o Espírito evocado e o médium. mais tarde ou mais cedo. para ouvir a buena-diaha. como poderiam ser úteis para • levar alguém à convicção ? O inconveniente que assinalais. porém.102 ALLAN KARDEC vamos roubar o tempo. A. e isto por causas independentes da vontade do Espírito. Ponho de lado todo pensamento de fraude e embuste. das considerações morais. deseja convencer-se encontra os meios. seja entre os outros. ora. sai-se menos disposto à convicção. acharia muito mais facilidade se existissem médwms públicos. isto é. do que como meio de instrução. K. para estar constantemente à disposição do público. se tiver perseverança e boa-vontade. por se trazer dessas sessões uma impressão desfavorável. porém. quando não se está preparado para tal. seriamente. não oferecem as garantias precisas. mostram-nos. Prova a experiência que. é necessário que ele possua uma faculdade permanente universal.

— Desde que a mediunidade não é mais que um meio de entrar em relação com as potências ocultas. Não concluo. cujas variantes são múltiplas. Médiuns e feiticeiros V. que. do que tenho dito. repelimos a exploração da mediunidade. a assimilação fluídica entre o Espírito e o médium só se estabelece depois de algum tempo. que.O QUE É O ESPIRITISMO 103 o que não posso desenvolver aqui. . Se. Limito-me a dizer-vos que as afinidades fluídicas. não é nem por capricho. digo somente que a ambição do ganho impele ao charlatanismo e autoriza a suspeita de velhacaria. podendo existir do médium para tal Espírito. não se pode negar que isto é um obstáculo para a mediunidade de profissão. que lhe paga. e a quem o desejo de satisfazer à clientela. A mediunidade. cavalheiro. princípio do qual dimanam as faculdades mediúnicas. às quais todo médium está sujeito. mas porque os próprios princípios que regem as nossas relações. ora. que todos os médiuns interesseiros sejam charlatães. médiuns e feiticeiros são mais ou menos a mesma coisa. primeiro que tudo. como vedes. as mais das vezes. as comunicações são incompletas. porque não estou fazendo um curso de Espiritismo. nem por sistema. pois. sem essas afinidades. são individuais e não gerais. arrasta ao abuso. Quem deseja convencer-se deve. falsas ou impossíveis. ou somente uma vez em dez acontece que ela seja completa desde a primeira vez. pois que a possibilidade e a exatidão das comunicações são um produto de causas que não dependem do médium nem do Espírito. de alguma sorte orgânicas. com o mundo invisível. é subordinada a leis. se opõem à regularidade e precisão necessárias naquele que se põe à disposição do público. e não para tal outro. procurar elementos de sinceridade.

goria que se podem divertem. amuletos e talismãs. e. provém do erro em que estão. Tais fenómenos porque há Espíritos de baixa cateprestar à sua produção e que se já terem sido prestidigitadores na . mas a maioria dos críticos não se quer dar a esse trabalho. do que se conclui que os médiuns não são feiticeiros. F. nisto eles estão perfeitamente com a verdade. explorando-a. pelo simples fato de produzirem fenómenos insólitos e incompreendidos. Longe de fazer reviver a feitiçaria. engrimanços. foi o mesmo que se deu com a maioria dos sábios que dispunham de conhecimentos acima do vulgar. foram qualificados de feiticeiros e acusados de pactuarem com o diabo. mais ou menos ilustre. A ignorância exagerou seu poder e. A semelhança que certas pessoas pretendem estabelecer. não são. senão charlatanice ? A. para conhecermos a diferença. daí a justa reprovação que os feriu. talvez por digo em absoluto. — Em todos os tempos houve médiuns naturais e inconscientes que.104 ALLAN KARDEC A. fazer comparecer o Espírito de tal ou tal personagem. o Espiritismo a aniquila. de suas fórmulas. ao vosso ver. repugna à sua razão crer que um -indivíduo qualquer possa. — Neste caso. sem sair das leis naturais. à vontade. todos os efeitos que certos médiuns acreditados obtêm. e reduzindo a seu justo valor os fenómenos possíveis. Basta-nos comparar o poder atribuído aos feiticeiros com a faculdade dos verdadeiros médiuns. à vontade. se tivessem dado ao trabalho de estudá-lo. que ninguém pode. muitas vezes. veriam que ele diz positivamente que os Espíritas não estão sujeitos <aos caprichos de ninguém. à vontade e em público. constrangê-los a responder ao seu chamado. K. eles mesmos abusaram da credulidade pública. K. — Não o não são impossíveis. se antes de apedrejarem o Espiritismo. julgando que os Espíritos estão às ordens dos médiuns. despojando-a do seu pretenso poder sobrenatural.

também há médiuns especialmente próprios para esse género de manifestações. A obtenção desses fenómenos à vontade. libertos dos prejuízos terrenos. Não é certamente aí que se deve ir beber instruções sérias sobre o Espiritismo. deixando o envoltório corporal. confesso-vos que não compreendo essa diferença. A controvérsia que se estabelece a respeito provoca em muitas pessoas um estudo mais aprofundado. o que não é muito próprio para dissipar dúvidas. limita-se a produzir sempre o mesmo fenómeno.O QUE É O ESPIRITISMO 105 vida terrena. nem sobre a filosofia da doutrina. Diversidade dos Espíritos V. representar palhaçadas e fazer escamoteações para divertimento dos curiosos. e sobretudo em público. neste caso a mediunidade e a prestidigitação se tocam tão de perto que é difícil muitas vezes distingui-las. sobre todas as verdades que nos são ocultas. devemos observar minuciosamente e ter em conta. porém. parece-me que. sérios ou frívolos. por menos elevados que sejam. e que eles ficam. o vulgar bom-senso repele a ideia de virem os Espíritos. quando mediunidade nisso exista. . salvo pequenas variantes. antes de vermos nisso a ação dos Espíritos. é sempre suspeita. Deve-se notar que esse género de mediunidade. é um meio de chamar a atenção dos indiferentes e obrigar os recalcitrantes a falarem dele. O desinteresse absoluto é a melhor garantia de sinceridade. — Falais de Espíritos bons ou maus. eles produzirão bom resultado. que a luz se deve fazer para eles. quer o caráter e os antecedentes do médium. como efeitos mediúnicos. porém. por darem voga à ideia espírita. Qualquer que seja o grau de veracidade desses fenómenos. os Espíritos se despojam das imperfeições inerentes à matéria. quer um grande número de circunstâncias que só o estudo da teoria dos fenómenos espíritas nos pode fazer apreciar.

quando morrerdes. — Ê o mesmo que perguntar por que todos os alunos de um colégio não estão cursando a aula de Filosofia. um princípio elementar do Espiritismo que existem Espíritos de todos os graus de inteligência e moralidade. até que o tempo e novas provas os venham esclarecer. as imperfeições morais são do Espírito e não do corpo. não constituem espécies distintas. algumas vezes. não haja distinção alguma entre o vosso Espírito e o de um selvagem? Assim sendo. O mundo corporal e o mundo espiritual estão em contínuo revezamento. das dores e enfermidades corporais. será tanto quanto vós? O progresso dos Espíritos faz-se gradualmente e.106 ALLAN KARDEC A. É possível admitirdes que. Entre eles alguns há que. É. as diferenças que os separam. vêem as coisas sob um ponto de vista mais justo do que quando estavam encarnados. K. pois. porém. V. os homens não são perfeitos por serem encarnações de Espíritos mais ou menos adiantados. — Sem dúvida eles ficam livres das imperfeições físicas. mas exprimem diversos graus de adiantamento. Os Espíritos não são perfeitos. pelo contrário. depois da morte. Seria erro acreditar que os Espíritos. os mesmos preconceitos e erros. isto é. Entre eles há alguns que são mais ou menos adiantados. Todos os Espíritos têm a mesma origem e o mesmo destino. de que vos serviria ter trabalhado para a vossa instrução e melhoramento. pela mesma razão. deixando o corpo material. e. K. •— Por que não são perfeitos todos os Espíritos? Tê-los-á Deus assim criado em tão diversas categorias? A. quando um vadio. Notai bem que o que digo é fruto da experiência. com muita lentidão. que não atingiram também a perfeição. pela morte . por seu grau de aperfeiçoamento. moral e intelectualmente. colhido no que eles nos dizem em suas comunicações. conservam ainda as mesmas paixões. porque não são mais do que as almas dos homens. outros. recebem logo a luz da verdade.

como distinguir-se o erro da verdade? Não descubro a utilidade dos Espíritos. e cuja missão é guiar os homens pelo bom caminho. muitas vezes. A. que só têm em vista o bem. raciocinadores. todas as opiniões políticas e religiosas têm entre eles representantes. o mundo corporal fornece seu contingente ao espiritual. apenas a sua opinião pessoal. — Sendo assim.O QUE Ê O ESPIRITISMO 107 do corpo. Os Espíritos que formam a população invisível da Terra são. nem o que ganhamos em conversar com eles. Acima dessa turba de baixa esfera. ele o deixa. K. como se não se despissem de seus prejuízos. o Espírito dá maior ou menor passo no caminho do progresso. há entre eles sábios. para ir viver em mundo mais elevado onde vai aprender novas coisas. existem os Espíritos superiores. e que se adquire os meios de afastar os Espíritos enganadores. cada um fala segundo suas ideias. e o que eles dizem é. sistemáticos. cumpre-nos sabê-los apreciar e compreender. prudentes e levianos. só isto seria de grande importância para quantos ainda duvidam que tenham uma alma e ignoram o que será deles depois da morte. pelos nascimentos. quando adquiriu na Terra a soma de conhecimentos e a elevação moral que o nosso globo comporta. o reflexo do mundo corporal. filósofos. — Quando eles apenas servissem para dar-nos a prova de sua existência e de serem as almas dos homens. ignorantes e charlatães. V. eis o motivo por que se não deve crer cegamente em. esta exige longos estudos e minuciosas observações. e. Em cada nova existência. apresenta-se imensa dificuldade: nesses conflitos de opiniões diversas. este alimenta a humanidade. de alguma sorte. Estes nos vêm ensinar grandes coisas: mas não julgueis que o estudo dos outros seja . Como todas as ciências filosóficas. tudo o que dizem os Espíritos. neles se encontram os mesmos vícios e as mesmas virtudes. é só assim que se aprende a distinguir a verdade da impostura.

K. realmente. que o nosso pensamento se exercite. e só por esse preço adquiriremos a ciência. Vós mesmos tendes a prova disso. não podem saber tudo. — Essa reflexão é ainda uma consequência da ignorância do verdadeiro cará ter do Espiritismo. absolutamente como se dá entre nós. que peso pode ter para nós a opinião daqueles que sabem. o Espiritismo tem por objeto estudá-los. Os Espíritos não estão encarregados de trazer-nos a ciência já feita. Aquele que supõe nele achar meio fácil de saber tudo. A divergência de suas opiniões. então o bom-senso repelirá as falsas doutrinas. pensáveis que bastava aos Espíritos deixarem seu envoltório corpóreo para que ficassem isentos de todas as suas imperfeições. Compreendo que. são as comunicações com eles que nos ensinaram que isto não se dá. — A minha observação subsiste sempre no ponto de vista das questões científicas e outras que podemos submeter aos Espíritos. quando não podemos distinguir quem erra ou quem tem razão? Vale tanto dirigirmo-nos aos homens como aos Espíritos. . Deus quer que trabalhemos. pois que todos temos que ir para lá. sobre as teorias que dividem os sábios. labora em grande erro. os Espíritos não vêm libertar-nos dessa necessidade: eles são o que são. A. eles desaparecem por si mesmos. então. não possuindo todos o mesmo grau de instrução. mas. deixa-nos na incerteza.108 ALLAN KARDEC inútil. de tudo descobrir. Quanto aos erros que se podem originar da divergência de opiniões entre os Espíritos. para bem conhecer um povo é necessário estudá-lo sob todas as faces. ora. seria. os sábios dos ignorantes. que a todos nós interessa no mais alto ponto. muito cómodo se nos bastasse pedir para sermos logo servidos. V. ficando assim dispensados do trabalho de estudar. os sinceros dos hipócritas. à medida que se aprende a distinguir os bons dos maus. e fizeram-nos conhecer o verdadeiro estado do mundo espiritual.

nós. sua ação oculta sobre o mundo visível. . Deste ponto de vista. e não para dele tirar qualquer vantagem material. nunca lhes perguntemos o que eles não podem ou não devem revelar. não há Espírito algum cujo estudo não nos traga alguma utilidade. fiquemos sabendo o que seremos um dia. e não wma arte de aãivimJMr e especular. prepara para si estranhas decepções da parte dos Espíritos galhofeiros. a ignorância mesmo. que nos iniciam na natureza íntima desse mundo. e quando eles não nos instruam. Utilidade prática das manifestações F. estudando-os. as relações que nos prendem a elas. A experiência nos ensina a julgar do grau de confiança que lhes devemos conceder. querer ir além é sujeitarmo-nos às manifestações dos Espíritos frívolos. e não para nos fazer conhecer o que nos deve ser oculto. qual a sua utilidade prática? Não se tendo sentido a sua falta até ao presente. Quanto aos Espíritos esclarecidos. os defeitos. em uma palavra. contentemo-nos com o que nos dizem. por analogia. parece-me que se podia continuar a dispensá-lo. são outros tantos objetos de observação. sempre dispostos a falar de tudo. as suas imperfeições. o Espiritismo reconhecido como realidade. esses nos ensinam. o Espiritismo é uma ciência de observação. nos instruímos. a incapacidade. alguma coisa aprendemos sempre com todos eles. como fazemos quando observamos os costumes de um povo desconhecido para nós. muito tranquilamente. e aquele que se vangloria de obter deles certos segredos. e viver sem ele. muito.O QUE É O ESPIRITISMO 109 a fim de que. Tampouco os Espíritos são leitores da buena-dicha. — Admitamos que a coisa esteja comprovada. porém sempre nos limites do possível. ou revelar-nos as coisas antes do tempo próprio. Nós o estudamos com o fim de conhecer o estado das individualidades do mundo invisível.

O camponês. antes que se conhecesse o mundo microscópico e outras tantas coisas. até então insolúveis. para viver e fazer brotar seu trigo. nem mesmo fornecer inventos já prontos e no estado de serem explorados. antes da descoberta dos novos planetas. Supondo que a isso se limitasse a sua utilidade. comercialmente falando! Os homens passavam igualmente bem. — Podíamos dizer o mesmo das vias férreas e do vapor. como a Astronomia nos ensina as que ligam os astros à Terra. ajuda o desenvolvimento da inteligência. já não seria de grande importância a revelação de uma tal potência. antes que se soubesse ser a Terra e não o Sol que se move. fazer fortuna. se entregam os sábios a esses estudos? Há alguém que ouse dizer que eles perdem o tempo? Tudo que serve para erguer uma ponta do véu que nos envolve. Para que. arrecadar heranças. e o Espiritismo nos faz conhecê-lo. abstraindo-se mesmo de toda a sua doutrina moral? De nada valerá um mundo inteiro novo que se nos revela. é dai* meios de passar boa vida. para vós. pois. ele não pode produzir altas e baixas na Bolsa. Ora. o mundo dos Espíritos existe em virtude de uma dessas leis naturais.110 ALLAN KARDEC A. Se utilidade prática. libertar-se do trabalho de estudar. conhecer o futuro. sem os quais também se vivia muito bem. não precisa saber o que seja um planeta. quando ele nos inicia nos mistérios do além- . ele nos mostra a influência que o mundo invisível exerce sobre o visível e as relações existentes entre eles. o Espiritismo não na tem. fazendo-nos melhor compreender as leis da Natureza. quantas ciências deixariam de ser úteis! Quantas delas não oferecem vantagem alguma. descobrir minas de carvão ou tesouros ocultos. Sob tal ponto de vista. nem transformar-se em ações de Bancos. K. ele no-lo faz ver como sendo uma das forças que regem o Universo e contribuem para a manutenção da harmonia geral. quando o conhecimento dele nos conduz à solução de tão grande número de problemas. alarga o círculo das ideias.

o Espiritismo veio destronar os adivinhos. as ciências. a destruição do materialismo. da sua imortalidade. Não convém pedir-lhe senão o que ele pode dar. conquanto não resista ao mais ligeiro exame. é. as artes." Não é. — Certas pessoas consideram as ideias espíritas como capazes de perturbar as faculdades mentais.O QUE É O ESPIRITISMO 111 -túmulo. a respeito dessa loucura. fornecem o seu contingente. para a magia. Todas as grandes preocupações do espírito podem ocasionar a loucura. A loucura provém . Antes dos progressos sérios da Astronomia. pois. — Deveis conhecer o provérbio: "Quem quer matar o cão — diz que o cão está danado. o raciocínio de um louco. porém. empregam-no logo. mais positiva: é a natural influência moral que exerce. pois. visto que todos nós. Será razoável dizer-se que a Astronomia para nada serve. tarde ou cedo. porque já não se pode encontrar na influência dos astros o prognóstico do destino? Assim como a Astronomia destronou os astrólogos. Loucura. a religião mesmo. K. os feiticeiros e os que liam a bu&na-dicha. e nunca o que está fora dos limites do seu fim providencial. suicídio e obsessão V. Ele é a prova patente da existência da alma. não pelo raciocínio. da sua individualidade depois da morte. temos de transpor esse marco fatal? O Espiritismo possui. como este lhes pareceu próprio para despertar temores e suscetibilidades. da sua sorte futura. estranhável que os inimigos do Espiritismo procurem agarrar-se a todos os pretextos. portanto. que nos devem interessar de algum modo. a Química para a Alquimia. Ele é. mas por fatos. o que é a Astronomia para a Astrologia. acreditava-se na Astrologia. pelo que acham prudente deter-lhes a propagação. A. Ouvi. uma outra utilidade.

dos anjos. já ele havia dado provas de excentricidade nas suas ideias. nós somos todos dignos de um hospital de doidos. que então se torna ideia fixa. do poder. e todos os países do mundo um número ainda muito maior. sua loucura teria seguido outro rumo.000 espíritas da localidade em questão eram considerados como loucos. só em uma localidade da América. o pensamento fica alterado. se o Espiritismo fosse a sua preocupação dominante. esta poderá ser a dos Espíritos. Existindo uma predisposição para a loucura. de cujo nome não me recordo. 4. pois. que torna o cérebro mais ou menos acessível a certas impressões. instrumento do pensamento. da maternidade. segundo um trocadilho bem espirituoso dos nossos adversários. mas se esquecem que. do diabo. ao passo que outras enlouquecem sob o influxo da menor excitação.112 ALLAN KARDEC de um certo estado patológico do cérebro. A loucura é. de um sistema político ou social. lhe fizeram girar a cabeça). desde que tal moléstia vai invadindo as classes mais elevadas da sociedade. Falam muito do caso de Vítor Hennequin. por consequência. mas é também sabido que os nossos adversários têm a ideia fixa de se crerem os únicos dotados de razão. de uma ciência. os Estados Unidos contam centenas de milhares. e. é uma esquisitice como outra qualquer. se as mesas girantes não tivessem então aparecido (as quais. e isto é tão real que encontrareis pessoas que pensam excessivamente e não ficam loucas. antes de se ocupar com os Espíritos. num ir. toma esta o caráter de preocupação principal.000 casos de loucura espírita. como poderá ser a de Deus. Dessa espécie. Para eles. cuja causa primária é uma predisposição orgânica. Esse gracejo de mau gosto começa a não ter valor.divíduo que deles se tenha ocupado. . Ê certo que um jornal disse que se contavam. os 4. da fortuna. É provável que o louco religioso se tivesse tornado um louco espírita. um efeito consecutivo. estando o instrumento desorganizado.

Ele sabe que os dissabores da vida são provas que servirão para o seu adiantamento. porque sua recompensa será proporcional à coragem com que as houver suportado. Sabe-se o número de vítimas que se tem feito. Ê um dos grandes resultados do Espiritismo. Entre as causas mais numerosas de excitação cerebral. só causa medo às crianças. capricham em tornar mais assustador. devemos também colocar o medo. e este quadro é bem de molde a fazê-lo refletir. é um freio para corrigi-las. como o papão e o lobisomem. esta não provém de lesão alguma cerebral. pois. que já tem desarranjado mais de um cérebro. mas. dizem. afeta-o mediocremente. Ora. Aquilo que em outro qualquer produziria violenta comoção. mas da . Em o número das causas de loucura. devemos contar as decepções. ferindo as imaginações fracas com esse painel que. que as contêm por algum tempo. de uma causa incessante de loucura e de suicídio. também é considerável o número dos que por esse meio têm sido detidos nesse funesto declive. Não confundamos a loucura patológica com a obsessão. Ele sabe. ele é um preservativo contra a loucura e o suicídio. a sorte deplorável dos que abreviam voluntariamente os seus dias. por detalhes horrorosos. tornando-se elas piores que antes. uma resignação que o preserva do desespero e. que o Espiritismo não tem privilégio algum. bem compreendido. Suas convicções dão-lhe. quando lhes perdem o medo.O QUE É O ESPIRITISMO 113 Eu digo. pelo espetáculo que lhe dão as comunicações com os Espíritos. por consequência. as afeições contrariadas. as quais são também as mais frequentes causas do suicídio. O diabo. os desastres. em troca desse pequeno resultado. o verdadeiro espírita vê as coisas deste mundo de um ponto de vista tão elevado. nesse sentido. principalmente do diabo. pois. não contam as epilepsias que têm sua origem nesse abalo de cérebros tão delicados. sim. se as sofrer sem murmurar. além disso. mas vou ainda além: afirmo que. que as tribulações não são para eles senão os incidentes desagradáveis de uma viagem.

eu não compreendo como este poderia aproveitar as lições da quarta classe. deste modo. muito frequente. está sempre a recomeçar. Fazendo conhecer esta nova causa de perturbação orgânica. do que podemos concluir que os nossos pensamentos morrem com cada uma das nossas existências. ao passo que recordando as nossas faltas. perdemos a memória de tudo quanto fizemos no dia anterior. todas as obje- . mas sobre o Espírito obsessor. e que. uma entidade nova. têm as aparências da loucura propriamente dita. Neste caso. ao mesmo tempo. Suponhamos que cada dia. é uma espécie de aniquilamento. o Espiritismo nos oferece. — De pergunta em pergunta. levar-me-eis a fazer um curso completo de Espiritismo. K. Esta afecção. na Terra. esforçar-nos-emos por evitá-las. inaptidões e punições que disso nos provieram. A. de alguma sorte. O Espiritismo é o remédio e não a causa do mal. para renascer em outra. — Não consigo explicar a mim mesmo como pode o homem aproveitar da experiência adquirida em suas anteriores existências. quando chegássemos aos setenta anos. não se lembrando do que aprendeu na anterior. o único meio de vencê-la. Essas soluções de continuidade na vida do Espírito interrompem todas as relações e fazem dele. desde que lhe faJta essa reminiscência. ao despertar. Esquecimento do passado V. não estaríamos mais adiantados do que aos dez. quando não se lembra delas. com o aluno de um colégio. é independente de qualquer crença no Espiritismo e existiu em todos os tempos. a medicação comum é impotente e mesmo prejudicial. Para me servir da comparação que fizestes do homem. cada existência é para ele qual se fora a primeira.114 ALLAN KARDEC subjugação que Espíritos malévolos exercem sobre certos indivíduos. pois que. muitas vezes. sem consciência do que fomos. agindo não sobre o enfermo.

relativa ao aniquilamento do pensamento. amadurecido na escola do sofrimento e do trabalho. que lhe importa saber quando foi castigado por preguiçoso e insubordinado? Ê assim que. então poderá julgar do caminho que se- . contrária à justiça e à sabedoria de Deus. mediante estudo sério. pode encontrar-lhes respostas muito mais explícitas do que as que posso dar em sumária explicação que. com isso nada perde ele das suas aquisições. mas que. longe de ter de recomeçar tudo. não tem base mais segura. o homem traz por intuição e como ideias inatas. porque esse olvido só se dá durante a vida corporal. Digo em moralidade porque. A segunda parte da vossa objeção. Servindo-me ainda da comparação supra com o aluno. apenas esquece o modo por que as conquistou. o que adquiriu em ciência e moralidade. por certo. vê-se que seus princípios emanam uns dos outros. e. ele possui um fundo que vai sempre crescendo e sobre o qual se apoia para fazer maiores conquistas. quando passa para a classe seguinte. o Espírito recobra a lembrança do seu passado. servindo-se mutuamente de apoio. o que parecia uma anomalia. terá mais firmeza. direi que pouco importa saber onde. por isso. Se os castigos o tornaram laborioso e dócil. se tornará melhor quando voltar. então. Se em cada uma de suas existências um véu esconde o passado do Espírito. reencarnando. uma vez que as saiba. se torna natural e vem confirmar essa justiça e essa sabedoria. se no curso de uma existência ele se melhorou. com que professores ele estudou as matérias de uma classe. não farei aqui senão tocar levemente o assunto. e. Tal é o problema do esquecimento do passado. quando se toma o conjunto. Tudo se encadeia no Espiritismo. como. seu Espírito. que se prende a outras questões de não menor importância e. se soube tirar proveito das lições da experiência.O QUE É O ESPIRITISMO coes que apresentais são naturais em quem ainda nada conhece. uma vez terminada ela. deve sempre ir provocando novas questões.

Quantos homens desejariam assim poder. é para vós um novo ponto de partida. ser-vos-ia agradável a lembrança de ter sido outrora enforcado por vossa maldade? Não vos perseguiria a vergonha de saber que o mundo não ignorava o mal que tínheis feito? Que vos importa o que fizestes e o que sofrestes para expiar. cumprindo-vos ter cuidado de não contrair outras. cuja recordação seria muito penosa e viria aumentar as angústias e tribulações da vida presente. lançar um véu sobre os seus primeiros anos! Quantos. não têm dito: "Se eu tivesse de recomeçar. sois hoje um homem de bem. que é a vida normal do Espírito. em uma nova existência. o que eles não podem fazer nesta mesma vida. que seria se a ele se juntasse a lembrança do passado? Vós. Espírito arrependido. Suponhamos ainda — o que é um caso muito comum — que. e que. meu amigo. de modo que não há essa solução de continuidade em sua vida espiritual. ao chegar ao termo de sua carreira. muitas vezes. por exemplo.116 ALLAN KARDEC guiu e do que lhe resta ainda fazer. em vossas relações. seu Espírito trará. por . vossas dívidas anteriores estão pagas. veio encarnar-se em vosso meio. ou desonrou em outra existência. não faria mais o que fiz!" Pois bem. as boas resoluções que tiver tomado. a fim de reparar suas faltas para convosco. a experiência só se adquire. quando hoje sois um homem estimável? Aos olhos do mundo. Se os sofrimentos da vida parecem longos. em estado de intuição. em vossa família mesmo se encontre um indivíduo que vos deu outrora muitos motivos de queixa. que talvez vos arruinou. É assim que se efetua gradualmente o progresso da humanidade. viveis com mais liberdade. ligar-se a vós pelos laços de família. Livre da reminiscência de um passado importuno. e aos olhos de Deus um Espírito reabilitado. mas talvez devais isso aos rudes castigos que recebestes pelos malefícios que hoje vos repugnariam à consciência. fá-lo-ão em outra. Esse esquecimento temporário é um benefício da Providência. por provas rudes e terríveis expiações. sois um homem novo. durante a vida.

Quereis uma prova? Supondo que um indivíduo condenado às galés tome a firme resolução de tornar-se um homem de bem. — Convenho. a lembrança do passado nada tem de penosa. se ele mesmo os esquecesse. ora. Quanto à lembrança do que fizeram em mundos inferiores. a Doutrina Espírita é perfeitamente racional. os ódios se eternizariam. A. e. em vez de ser obrigado a curvá-la sob o peso da vergonha do que não pode olvidar. todavia. todos desconhecessem os seus antecedentes. Disso resulta que a reminiscência do passado perturbaria as relações sociais e seria um tropeço ao progresso. e não deveis achar extraordinário o desejo que vos manifestam de testemunhá-los. poderia ser honesto e andar de cabeça erguida. só reinando o bem. se ambos vos lembrásseis de vossas passadas inimizades? Em vez de se extinguirem. é a realidade destes que muita gente contesta. K. sobretudo. não vos acharíeis mutuamente na mais embaraçosa posição. a respeito dos mundos superiores ao nosso planeta. como nós nos recordamos hoje do que ontem fizemos. compreendê-los. mas fica sempre de pé a questão das manifestações. para melhor observá-los e. ora. Isto está em perfeita concordância com a doutrina dos Espíritos. que do ponto de vista filosófico. que acontece quando ele termina o cumprimento da pena? A sociedade o repele. quem não . explico em que condições convém que cada um se coloque. Se. Elementos de convicção V. porém. nos quais. que não pode ser resolvida senão por fatos. eis por que seus habitantes se recordam da sua existência precedente. e essa repulsa o lança de novo nos braços do vício. — Acho-o muito natural.O QUE É O ESPIRITISMO 117 seu devotamento e afeição. ele seria bem acolhido. ela produz neles a impressão de um mau sonho. ilustre amigo. como eu procuro que eles sejam aproveitados.

é feito por outros. é logo admitido por ter uma razão de ser. ao passo que uma simples resposta escrita venceu todas as dúvidas. mais suspeitas desperta e mais o pensamento se esforça para lhe dar uma causa vulgar.118 ALLAN KARDEC aceita essas condições. se um é verdadeiro. ao menos. porém. sem que nós mesmos os façamos. Certamente as explicações que vos acabo de dar. Os elementos de convicção não são os mesmos para todos. não tiveram a paciência e a perseverança exigidas. e. Seja como for. que seria singular que tão racional filosofia tivesse saído de fatos ilusórios e controvertidos. Quando se vê um fato que não se compreende. ou. é certo. não se pode colher frutos. Convireis. onde não há árvores. até mais ampla averiguação. mas. Notei que em algumas pessoas os mais importantes fenómenos não produziram a menor impressão. podeis aceitá-la como aceitaríeis outra qualquer. Mas isso também se dá com todas as ciências: o que uns não fazem. É. é preciso um pouco de tudo. a realidade do efeito implica a da causa que o produz. um engano crer-se que as experiências físicas sejam o único meio de convencer. sumárias como são. o que convence a uns. Nem todos. e com tal pessoa é inútil perdermos tempo. for compreendido. mostra não ter sério desejo de esclarecer-se. se as circunstâncias vos fizerem testemunhar . também. se ele. todos os dias aceitamos o resultado dos cálculos astronómicos. porque. conservando vossa opinião sobre as vias e meios que a ela conduziram. desaparecendo o maravilhoso e o sobrenatural. estou persuadido de que vos levarão a refletir. se achais a filosofia boa. porém. nesta conversa. quanto mais extraordinário ele é. a outra não pode ser falsa. longe estão de ser completas. não produz impressão alguma em outros. porque não se colocaram nas condições precisas para observá-los. testemunharam os fatos. não a admitindo senão a título de hipótese. Em boa lógica. assim sendo.

caro senhor. Acreditais que esse número seria o que é hoje. — Nisso vos contesto. Ele foi totalmente deduzido do ensino dos Espíritos. É o que explica o número de adeptos que a simples leitura de O Livro dos Espíritos produziu. .fJLtUTlS. Agora vejo quanto é vasto o campo aberto pelo vosso sistema. Ora. eles a vêem tão grande. tão racional. observei. o fundo é a doutrina. eu sou todos os dias visitado por pessoas que ainda nada viram e crêem tão firmemente como eu. fato encarado como simples objeto de curiosidade. à parte o fato das manifestações.iyiU 1» 1 alguns fatos de manifestação. vê-los-eis com menor prevenção. conquanto em estado de confusão. dar-lhes corpo. para elas o fenómeno das manifestações é acessório. a doutrina não deixaria de ser sempre a que melhor resolve uma multidão de problemas reputados insolúveis. que nela encontram tudo quanto pode satisfazer às suas aspirações interiores.U yUJU B U JlJS. e longe estava eu de suspeitar as consequências que surgiram de um. a ciência. dais-me subida honra atribuindo-me esse sistema quando ele não me pertence. pelo só estudo que fizeram da parte filosófica. K. O Espiritismo veio coordená-las. Eu vi. e foi para eles como um raio de luz. — O senhor tinha razão de dizer que âas mesas giratórias e falantes saiu uma doutrina filosófica. esta é a parte que me cabe. porque possuireis uma base onde firmar o vosso raciocínio. Há duas coisas no Espiritismo: a parte experimental das manifestações e a doutrina filosófica. supondo não existissem as manifestações. do que concluem que. A. coordenei e procuro fazer compreender aos outros aquilo que compreendo. se nunca tivéssemos passado das mesas giratórias e falantes? V. Quantos me disseram que essas ideias estavam em germe no seu cérebro.

mas não é uma escola nem um curso de ensino elementar. a de ter-se sobre ele ao menos ideias mais firmes do que as vossas. — Tendes uma sociedade que se preocupa com esses estudos: ser-me-ia possível fazer parte dela? A. a uma ou duas sessões. com discussões intempestivas ou com o espírito de contradição. nem os que. mais ou menos esclarecidos. não simpatizando com seus princípios e convicções. como tantas outras. podereis assistir. naquele que me atribuís. eu. ao lado dos quais somos simples átomos. como visitante.120 ALLAN KARDEC Há entre o Espiritismo e outros sistemas filosóficos esta diferença capital. que . que se ocupa de aprofundar os diferentes pontos da ciência espírita e procura esclarecer-se. Ê uma sociedade científica. ela decidirá se vos deve admitir. Como a Sociedade não deseja ser perturbada nos seus estudos. de Descartes. eu não tenho o mérito da invenção de um só princípio. do contrário. contudo. pois que valor pode ter um nome em assunto de tamanha gravidade? O Espiritismo tem auxiliares de maior preponderância. felizmente. ainda não. quando as vossas convicções estiverem fortalecidas pelo estudo. para ser nela recebido. necessidade de ser doutor em Espiritismo. com a condição de não fazer reflexão alguma de natureza a melindrar quem quer que seja. ao passo que. Mais tarde. é o centro ao qual convergem ensinos colhidos em todas as partes do mundo e onde se elaboram e coordenam questões que se relacionam com o progresso da Ciência. nunca se poderá dizer: a doutrina de Allan Kardec. de Leibnitz. ela não admite os que lhe viriam fazer perder tempo com questões elementares. — Por ora. lançariam a desordem no seu seio. há. K. porque se não há. Sociedades espíritas V. Enquanto esperais. e isto. que estes são todos obra de homens. Diz-se: a filosofia de Platão.

Se as manifestações espíritas fossem privilégio de um homem. infelizmente para os adversários. Como não faz demonstrações com o fim de satisfazer curiosidades. Interdição do Espiritismo V. então está em a Natureza. como vo-lo disse. impedir-lhe a propagação? A. as pessoas que não conhece. não há dúvida que. não creais. não poderiam eles interditar-lhe a prática e as sociedades e. sem que para isso se esforcem tanto. incorreria na censura dos meus colegas. ele cairá por si mesmo. e que não consentiria. — Solicito-vos uma última resposta: O Espiritismo tem poderosos inimigos. se poria um termo às manifestações. cuja maioria se recomenda pela superioridade do seu saber e posição social. e só uma coisa séria pode causar temor. Aqueles. pois. Se. que supõem ir aí achar uma distração e uma espécie de espetáculo. Se o Espiritismo é uma quimera. é uma realidade. no que quer que seja. Aí encontrareis uma reunião de homens graves e de boa sociedade. ou aquelas cujas disposições hostis são notórias. se o perseguem é por que o temem.O QUE É O ESPIRITISMO 121 vos vou apresentar. tudo se passa às . que ela convide o público e chame o primeiro recém-vindo para assistir às suas sessões. mesmo como simples visitantes. pois. e a porta vos seria interdita. ao contrário. Eis por que ela recusa admitir. porque a violência é o argumento daqueles que não têm boas razões. nada oculto. e ninguém com um traço de pena pode revogar uma lei natural. por esse meio. elas não são mistério para pessoa alguma. se afastarem das conveniências. àqueles que recebe em seu seio. arredando-se esse homem. aí não há segredos. — Seria um modo de perder a partida um pouco mais cedo. K. ela afasta com cuidado os curiosos. ficarão desapontados e melhor farão se lá não forem.

— De boa mente. TERCEIRO DIALOGO O PADRE Um abade. nos dois hemisférios. tenha comunicações com os Espíritos. desde que todos podem ser médiuns. que de nenhuma sorte são necessárias. Em resumo. cumpre-me declarar que não tenho a pretensão de vos converter às nossas ideias. que um prisioneiro em seu cárcere. Se chegassem a destruir todos os livros espíritas. por minha vez. antes de responder a elas. Se desejardes conhecê-las pormenorizadamente. — Permitir-me-eis. que um indivíduo no silêncio do seu gabinete. reverendo.122 ALLAN KARDEC claras. dirigir-vos. não tem sua fonte entre os homens. quando não há país algum. K. é na intimidade. conseguirá também que o não façam na de seus vizinhos. é assaz sabido que não é em público que elas mais se dão. encontrá-las-eis . algumas perguntas? A. mas. ele é obra dos Espíritos. no mundo inteiro. governo seja forte bastante para impedi-los de trabalhar em suas casas. quem impedirá que uma família no seu lar. Primeiro que tudo. senhor. Podem interdizer-lhe o exercício público. se resignem a vê-lo ao seu lado. ele já conquistou o seu lugar na opinião pública e entre as doutrinas filosóficas. ê pois preciso que aqueles. restando-lhes a liberdade de recusá-lo. que um. que não podem ser queimados nem encarcerados. em que não se encontrem médiuns? O Espiritismo. mesmo nas barbas da polícia e sem que esta o saiba? Admitamos. Ele consiste na crença individual e não nas sociedades. creio útil fazer-vos conhecer o terreno em que me devo colocar perante vós. os Espíritos ditariam outros. entretanto. além disso. ora. elas estão à disposição de todo o mundo e se produzem desde o palácio até a mansarda. a quem ele não convém. o Espiritismo é hoje um fato consumado. porém.

o Espiritismo responde que não se impõe a pessoa alguma e que não vem forçar nenhuma convicção. assim como não procuramos violentar-vos a consciência. Tal é. mesmo que seja errónea. ela então se tornará nociva e pode ser combatida. de si mesma inocente. quando sincera e não permita ao homem fazer mal ao próximo. e o número desses não é pequeno. mas. A liberdade de consciência é consequência da liberdade de pensar. e o Espiritismo. que é o Sol que gira ao redor da Terra. porém. toda crença. ele se dirige. pois. porém. A seus olhos. dei-lhes as explicações necessárias. fui procurá-los no propósito de lhes abalar a fé por meio de qualquer pressão. Se alguém fosse por sua consciência arrastado a crer. nunca. àqueles que em nada crêem ou que de tudo duvidam. porque isso não fará que esses dois astros troquem os seus papéis". . por serem todos os homens livres em suas apreciações. a linha de conduta que tenho seguido com os ministros dos diversos cultos que a mim se hão dirigido. é respeitável. dele não têm necessidade. por exemplo. uma crença.O QUE É O ESPIRITISMO 123 nos livros em que estão expostas. se não a respeitasse. fornecendo provas patentes da existência da alma e da vida futura. Àquele que diz: "Eu creio na autoridade da Igreja e não me afasto dos seus ensinos. em instrumento de perseguição. como muito bem sabeis. que é um dos atributos do homem. Se transformardes. O Espiritismo tem por fim combater a incredulidade e suas funestas consequências. os que têm fé religiosa e a quem esta fé satisfaz. neles podereis estudá-las à vontade e aceitá-las ou rejeitá-las. respeitai também a nossa. senhor abade. Quando eles me interpelaram sobre alguns pontos da Doutrina. estaria em contradição com os seus princípios de liberdade e tolerância. abstendo-me de discutir certos dogmas de que o Espiritismo não se quer ocupar. nós lhe diríamos: "Acreditai-o se quiserdes. sem nada buscar além dos seus limites".

os sermões que têm sido pregados. como vo-lo disse — respeita a liberdade de consciência. Sempre lhes tenho dito: Semeai no campo dos incrédulos. a maioria dos discursos proferidos por seus membros e publicados em nome da religião. vendo levantar-se uma nova doutrina. K. ele sabe também que toda crença imposta é superficial e não desperta senão as aparências da fé. O Espiritismo não se impõe. premunindo os fiéis contra o que ela considera erro? A. porém. nós temos consciência de não havê-la provocado. Se hoje há luta entre a Igreja e o Espiritismo. porque. julga dever condenar. — Se a Igreja. Ele expõe seus princípios aos olhos de todos. ao que nos repele. de modo a cada um poder formar opinião segura. que também reclamamos para nós outros. porque não concordo com os que se arrogam a missão de converter o clero. — De modo algum podemos contestar esse direito. Do alto do púlpito. nunca. cujos princípios. nós o acolhemos como tal. onde há colheita a fazer. deixamo-lo em paz. porém. podeis contestar-lhe o direito de discuti-los e combatê-los. Os que lhe aceitam os princípios. a fé sincera.324 ALLAN KARDEC Àquele que nos procura como irmão. nada haveria de melhor. lede. mas nós não ficamos querendo mal aos que se afastam da nossa opinião. Se ela se houvesse encerrado nos limites da discussão. não temos sido anatematizados e rejeitados pela Igreja. não temos sido — os espíritas — qualificados de inimigos da sociedade e da ordem pública. sacerdotes ou leigos. em consciência. e vereis neles a injúria e a calúnia transbordando por toda parte e os princípios da doutrina sempre indigna e perversamente desfigurados. É o conselho que não tenho cessado de dar aos espíritas. Padre. o fazem livremente e pelos achar racionais. sob o pretexto de que é melhor ser incrédulo do que crer-se em Deus e na alma pelos ensinos do Espiritismo ? .

porventura. a ponto de fazer que sejam nas ruas perseguidos e injuriados? Não se tem imposto a todos os fiéis que os evitem como pestíferos. . até cegos. ao mal com o mal? Não. K. — Convenho. entrarão na classe dos pouco esclarecidos os príncipes da Igreja? Vede a pastoral do bispo de Argel e de alguns outros. se ela patrocina a publicação de escritos injuriosos e difamatórios contra uma classe inteira de cidadãos. A. senhor abade. é porque as aprova. não se poder atear para os espíritas as fogueiras da Inquisição? Em certas localidades não têm sido assinalados à animadversão de seus concidadãos. mas. por serem eles espíritas? Não se têm despedido de alguns hospitais. como muitos maridos de suas mulheres. — Todo homem sensato deplora esses excessos. será isso uma discussão leal? Os espíritas responderam. A tudo opuseram eles sempre a calma e a moderação. à injúria com a injúria. retirado o pão do trabalho a operários e recusado caridade aos necessitados. pelo fato de não quererem abjurar sua crença? Dizei-me. e impedido que os criados entrem a seu serviço? Muitas mulheres não têm sido aconselhadas a separarem-se de seus maridos. A consciência pública já lhes faz a justiça de reconhecer não terem sido eles os agressores. Padre. mas a Igreja não pode ser responsável pelos abusos cometidos por alguns de seus membros pouco esclarecidos. hoje. e se não se opõe às perseguições exercidas em nome da religião. Não foi um bispo quem ordenou o auto-de-fé de Barcelona ? A autoridade superior eclesiástica não tem todo o poder sobre os seus subordinados? Se ela tolera esses sermões indignos da cadeira evan gélica. tudo por causa do Espiritismo? Não se têm tirado lugares a empregados.O QUE É O ESPIRITISMO 125 Não lamentam muitos.

assim como na promovida contra um cismático de qualquer religião. Combatendo o materialismo. quando se encerra no foro íntimo da consciência de pessoas esclarecidas. a simples dúvida sobre outra vida. são os maiores estimulantes do egoísmo. já nada sejamos ? A negação do futuro. mas sim uma doutrina que. quando amanhã. é uma chaga social. a fraternidade. nos constrangermos e nos sujeitarmos a privações hoje. Para que nos molestarmos. quem o proclamou nova religião. não atacamos os indivíduos.126 ALLAN KARDEC Em resumo. livre de crer no que quiser ou de não crer em coisa alguma. em suma. donde a máxima: "Cada um por si durante a vida terrena. foi a Igreja quem lhe deu maiores proporções. mas a paixão não raciocina melhor. pela natureza e violência dos seus ataques ela ampliou a discussão e conduziu-a para um terreno novo. O materialismo é uma crença como outra qualquer. forçou-os a retroceder. apresentando-o como inimigo formidável. leva-o a considerar como um disparate o sacrifício do seu bem-estar presente. A crença de tudo acabar para o homem depois da morte. se é inofensiva para a sociedade. foi ela. por que negar-lhe a liberdade que concedeis a todas as outras? A. certamente. — Há pouco proclamastes a liberdade de pensamento e de consciência. e declarastes que toda crença sincera é respeitável. sem nenhuma razão de ser. a Igreja." A caridade. origem dá . a moral. K. repelindo sistematicamente os espíritas que a buscavam. e não toleraríamos mais uma perseguição contra aquele que acredita no nada depois da morte. porque com ela tudo se acaba. se vier a generalizar-se. enfim. em proveito de outrem. talvez. ficam sem base alguma. Foi um passo errado. que toda solidariedade cessa com a extinção da vida corporal. — Cada um é. O Espiritismo era apenas uma simples doutrina filosófica. Um livre pansadar.

e porque. é um dever propagá-la e combater a crença contrária. religiosamente falando? Ela prega. os quais não lhe produziram o menor abalo. É o que faz o Espiritismo. o homem antes quer ter a certeza de viver e poder ser feliz em um mundo melhor. mostrando a perpetuidade das relações entre os homens. K. para compensação das misérias deste mundo. ela nos manda crer. sem remissão. por que há tantos incrédulos. •— Se a religião ensina o bastante. estabelece entre eles uma solidariedade que não se quebra na tumba. como a sua realidade é fato adquirido pela experiência. donde vêm essas provas? Da manifestação dos Espíritos. decididamente. qual é hoje a necessidade de uma nova doutrina? A. mesmo no interesse da ordem social. essa crença muda o curso das ideias. de ver os filhos e os entes que lhe são mais caros perdidos. não duraria senão um tempo curto. até agora foi suficiente. porque fornece provas. O pensamento de ser aniquilado. Além disso. acreditai-me. sorri a um bem limitado número. O Espiritismo prova e faz ver o que a religião ensina em teoria. É necessário possuir alta dose de virtude para não seguir a corrente do vício e do crime. — A religião ensina tudo isso. Padre. e o faz com êxito. mas há muita gente que não crê por simples afirmação. quando para isso não se tem outro freio além do da própria força de vontade. mas. . A crença na vida futura. é verdade. mas não contém aquele que não dá importância à opinião pública. desse modo. Se essa crença fosse um simples espantalho. é o motivo do tão pequeno êxito obtido pelos ataques dirigidos contra o Espiritismo. em nome da incredulidade. O respeito humano pode conter o homem do mundo.O QUE E O ESPIRITISMO 127 maioria dos males da Humanidade. do que a de morrer para sempre.

Longe disso: os Espíritos proclamam um Deus único. nas questões gerais. — Ora. — Concordo que. os judeus. como a todas as religiões do mundo. da sua individualidade e imortalidade. o mesmo em relação aos dogmas? Não contradiz ele alguns princípios que a Igreja nos ensina ? . senhor abade. não será uma consolação? Essa grandiosidade da vida espiritual. recompensado ou punido pelo bem ou pelo mal que houver feito. tanto quanto os católicos. Padre. é uma impiedade repeli-lo. Se o Espiritismo negasse a existência de Deus. comparada às mesquinhas preocupações da vida terrena. — Não podeis. A. em todos os pontos. dar-se-á. das penas e recompensas futuras.128 ALLAN KAEDEC Ora. porém. soberanamente justo e bom. não pensar senão em si. não será própria a elevar a nossa alma e a fortalecer-nos na prática do bem? Páãre. de acordo com a religião. da alma. do livre-arbítrio do homem. se. os muçulmanos. que é a nossa essência. se ele ensinasse que cada um só deve viver para si. pois. é provável que os Espíritos só se manifestem com o consentimento de Deus. não só seria contrário à religião católica. Deus em sua misericórdia envia aos homens esse socorro para afastá-los da incredulidade. base das sociedades humanas. ele seria ainda a negação de todas as leis morais. Não são estes os fundamentos da religião? Essa certeza do futuro. todas as religiões dirão a mesma coisa: os protestantes. contestar que o Espiritismo não está. colocam acima de todas as virtudes a caridade evangélica e a seguinte regra sublime ensinada pelo Cristo: fazer aos outros como queremos que nos seja feito. eles dizem que o homem é livre e responsável por seus atos. entretanto. o Espiritismo é conforme às grandes verdades do Cristianismo. K. de se ir encontrar aqueles a quem se amou.

uma ciência. numa certa ordem de ideias. nesse ponto de vista. seres que nos cercam e incessantemente exercem sobre os homens. Na ignorância da sua verdadeira causa. como a eletricidade o é sob outro ponto de vista. Esta ciência tem consequências morais como todas as ciências filosóficas. formado pelos seres incorpóreos que povoam o espaço e que não são mais que as almas daqueles que viveram na Terra. uma grande influência. os homens os atribuíam a causas mais ou menos racionais. Façamos primeiro um termo de comparação: a eletricidade. Somente. A descoberta da eletricidade e de suas propriedades veio lançar por terra um punhado de teorias absurdas. São os seres a que chamamos Espíritos. e desempenham papel muito ativo no mundo moral. . até certo ponto. não cogita de questões dogmáticas. O Espiritismo funda-se na existência de um mundo invisível. O Espiritismo está. livre curso à sua imaginação. produziram-se em todos os tempos. é ele uma potência. Algumas pessoas se iludem sobre o verdadeiro caráter do Espiritismo. existiu em todo tempo e produziu sempre os efeitos que hoje observamos e muitos outros que ainda não conhecemos. em a Natureza e podemos dizer que. ou em outros globos.O QUE E O ESPIRITISMO 129 A. em sua ignorância. — O Espiritismo é. sem que estes o percebam. e deram. e como ainda a gravitação é uma outra. e mesmo. os homens explicavam esses efeitos de um modo mais ou menos extravagante. de que o mundo invisível é a fonte. pois. O que fizeram a eletricidade e as ciências físicas para certos fenómenos. essas consequências são boas ou más? Pode-se julgá-las pelos princípios gerais que acabo de expor. antes de tudo. nos quais deixaram seus invólucros materiais. como se deu com a eletricidade. eis aí por que a história de todos os povos faz deles menção. Os fenómenos. no físico. estando na Natureza. A questão é de grande importância e merece alguns1 desenvolvimentos. espargindo a luz por sobre mais de um mistério da Natureza. K. o Espiritismo o fez para outros de ordem diferente.

K. Podemos exprobrá-lo por isso? Cada um pode formar de suas opiniões uma religião e interpretar à vontade as religiões conhecidas. porque cremos em Deus e sabemos que nada se faz neste mundo sem sua permissão. protestantes de todas as seitas. os cristãos são os mais aptos para compreendê-lo em sua verdadeira essência. quando a Igreja os não repele. o sentimento religioso domina nas evocações e em nossas reuniões. a distância é grande. até hoje insolúveis ou mal compreendidas. Seu verdadeiro caráter é. o de uma ciência e não de uma religião (*). . e a prova disso é que ele conta entre os seus aderentes homens de todas as crenças. e. que por esse fato não renunciaram às suas convicções: católicos fervorosos que não deixam de praticar todos os deveres do seu culto. não são feitas segundo uma fórmula religiosa? A. Suas consequências morais são todas no sentido do Cristianismo. mas daí a constituir nova Igreja. procedemos em nossos trabalhos com calma e recolhimento. que eles não virão sem que Deus o permita. — As evocações. de todas as seitas religiosas do mundo. muçulmanos e mesmo budistas e bramanistas.130 ALLAN KARDEC Mais bem observado depois que se vulgarizou. pois. o Espiritismo vem derramar luz sobre grande número de questões. Nós os chamamos em nome de Deus. mas não temos fórmula sacramental: para os Espíritos o pensamento é tudo e a forma é nada. pág. em princípios independentes das questões dogmáticas. e. 217. israelitas. razão pela qual. — Realmente. Ele repousa. porque de todas as doutrinas é esta a mais esclarecida e pura. por conseguinte. qualquer que (*) Ver "Reformador" de 1949. Padre. em segundo lugar. portanto. entretanto. porque essa é uma condição necessária para as observações. — Nota da Editofa. porque sabemos o respeito que se deve àqueles que não vivem mais sobre a Terra.

que um Espírito esclarecido. Padre. Acreditais. animar certas práticas. porque. Que prova tudo isto? Que não somos ateus. K. por exemplo. Quanto aos segundos.' porque seria repelido. estes são proclamados por todos os Espíritos. se eu lhes pedir para aconselharem-me se devo ser católico. Suponhamos que eu não tenha religião alguma e queira escolher uma. seja por convicção pessoal. e que ele será condenado se não se fizer cristão? Não o fará. irá inabilmente dizer-lhe que Maomet é um impostor. não se preocupam com essas questões de minúcia. — Pois bem! Que dizem os Espíritos superiores a respeito da religião? Os bons nos devem aconselhar e guiar. comuns a todas. para não assustar as consciências timoratas. podem preconizar esta ou aquela forma. maometano ou mórmon. a melhor de todas as religiões é aquela que só ensina o que . — Há dois pontos a considerar nas religiões: os princípios gerais. Os primeiros são os de que falamos há pouco. seja por prudência. dirigindo-se a um muçulmano. eles se limitam a dizer: Deus é bom e justo. protestante. conhecendo que há bons e maus. judeu. qualquer que seja a sua classe.O QUE í! O ESPIRITISMO 131 seja sua condição. se a isso não são solicitados por alguma consideração especial. fosse mesmo Fenelon. desejamos que estes últimos não venham tomar parte fraudulentamente nas comunicações que recebemos. seja porque conservaram as ideias da vida terrena. feliz ou infeliz. o que não quer dizer que sejamos professos de religião reformada. e os princípios particulares de cada uma delas. Em geral. fazemos um apelo aos bons Espíritos. os Espíritos superiores. no mundo espiritual. não quer senão o bem. os Espíritos vulgares. podem ter preferências. sem ser maus. qual será a resposta deles? A. anglicano. quáquer. opiniões.

que condena todo mal feito ao próximo. se ela os não desviar da prática do bem. ser prejudicial à -salvação daqueles que. que dá de Deus a maior e a mais sublime ideia e não O rebaixa emprestando-Lhe as fraquezas e as paixões da humanidade. — Certamente que não. por exemplo. e Deus olha mais os pensamentos que os atos. em nome da qual se comete menos mal. se ela os tornar duros e egoístas. de faltar à caridade com o próximo. que não autoriza a injustiça sob qualquer forma ou pretexto que seja. porque uma boa religião não pode servir de pretexto a nenhum mal. aquela. aquela que procura melhor combater o egoísmo e lisonjear menos o orgulho e a vaidade dos homens. por que então não praticam segundo a lei de Deus. que a fé possa ser proveitosa a um homem que. Padre. finalmente. a consideram artigo de fé e a praticam? A. que nada prescreve de contrário às leis imutáveis da Natureza. ao passo que a mais bem fundada crença os prejudicará evidentemente. nem diretamente. se ela antes os incitar a isso. supondo mesmo que esses princípios sejam erróneos. Quem poderá sustentar o contrário? Acreditais. ela não lhe deve deixar porta alguma aberta. poderá tal crença. K. porque Deus não se pode contradizer. segundo a opinião dos ditos Espíritos. aquela cujos ministros dão o melhor exemplo de bondade. crendo perfeitamente em Deus. caridade e moralidade. julgai e escolhei. que torna os homens bons e virtuosos e lhes ensina a amarem-se todos como irmãos. — Creio que certos pontos da doutrina católica são contestados pelos Espíritos que considerais superiores. Vede. riem por interpretação. se lhes fornecer ocasião de fazer o mal.132 ALLAN KARDEC é conforme à bondade e justiça de Deus. errando ou acertando. pratique atos inumanos ou contrários à caridade? Não haverá sempre mais culpa naquele que mais meios tinha de esclarecimento? .

convireis que nem todos assim sempre compreenderam a santidade do seu ministério. Os Espíritos superiores. a aparição do homem na Terra. tais como. Se a religião corresse qualquer perigo. Podre. transformando-a em arena de paixões humanas e explorando-a em proveito de sua ambição. deveria a responsabilidade cair sobre os que dão dela falsa ideia. a reencarnação. onde quer que ele se ache. se só tiver piedade aparente. — Dissestes que o Espiritismo não discute os dogmas. a existência dos demónios. Ora. antes de Adão. se. não foi o Espiritismo quem os pôs em litígio. e. que escrupulosamente cumpre com os deveres do seu culto. abusos que fazem nascer o pensamento de poder ser ela substituída por outra melhor. bela e respeitável. — Não. K. mas. mil vezes sim. se for hipócrita. se isso é para ele uma questão de consciência. os encarregados do progresso da Humanidade. entre os seus ministros. sim. K. se ele o faz com sinceridade. mesmo entre os teólogos. declararam-se contra todos os abusos que podem retardar esse progresso. não é censurado pelos Espíritos? A.O QUE É O ESPIRITISMO 133 Paãíre. por exemplo. Os Espíritos combatem o mal. que a fazem grande. o católico fervoroso. . ele admite certos pontos combatidos pela Igreja. A. o purgatório e o fogo do inferno. entretanto. são pontos sobre alguns dos quais ha controvérsia. — Assim. há muitos que desempenham sua missão com devotamento inteiramente cristão. — Já de há muito que esses pontos estão sendo discutidos. será atacá-la? Ela não tem inimigos piores que aqueles que defendem esses abusos. assinalar os abusos da religião. não se pode negar que a religião nem sempre esteve isenta de abusos. e que só o futuro julgará. nega a eternidade das penas. qualquer que seja a natureza deles e quaisquer que sejam os indivíduos ou as classes que deles se aproveitem.

só impõe uma coisa: a necessidade de fazer o bem e evitar o mal. apesar disso. se assim tiver de ser. Enquanto a luz não se faz para vós sobre essas questões. que é a lei superior. nas chamas e torturas materiais. quanto às questões secundárias. teríeis visto que ele se limita a dar-lhes uma interpretação mais lógica e racional do que a que vulgarmente se lhes dá. estais convencido de haver Josué feito parar o Sol. crede. como no-lo prova o estado dos Espíritos que conosco se comunicam. outra parte. E que direis se um dia a Geologia demonstrar. reverendo. não são. O Espiritismo. a Terra nos apresenta a prova do contrário. Se tivésseis lido tudo quanto tenho escrito a respeito. não as tornará mais reais se elas não existirem. que são a confirmação e a prova dos grandes princípios da religião. dizeis que a data da vinda do homem à Terra não vai além de 6. a anterioridade do homem. em tudo que vos aprouver. Notai bem. porém. porém. ele as abandona à consciência de cada um. mesmo na existência do diabo. É uma ciência de observação que. que alguns dos pontos divergentes de que acabastes de falar. como doutrina moral. em princípio. tem consequências morais. mas. se tal crença vos puder tornar bom. contestados pelo Espiritismo. o que não dá lugar a que deixe de ser a Terra que gira. .134 ALLAN KARDEC Um grande princípio domina a todos: a prática do bem. essa crença. apesar de o não quererdes. por traços patentes. mas isto não impede de renascerdes aqui ou em. se julgais que isso impede que pratiqueis o mal. escrita em suas camadas geológicas. humano e caridoso para com os vossos semelhantes. não priva que os fatos vos contradigam. se o quiserdes. Acreditais que não temos mais de uma existência corporal. a condição sine cpua nem do nosso futuro. credes que o mundo todo foi criado em seis vezes vinte e quatro horas. como já tem demonstrado tantas outras coisas ? Crede. pois. repito.000 anos: isto.

Eis. uma volta sincera ao bem. Uma condição inerente à inferioridade do Espírito é não ver o termo da sua situação e crer que há de sofrer sempre — o que é para ele um castigo. por exemplo. demonstra sua necessidade e justiça. o Espírito culpado. porém. que o fogo que ali se consome é um fogo moral. se fosse possível pôr-se a votos tal questão. pelo contrário. o que avança a Doutrina Espírita a tal respeito: A duração do castigo é subordinada ao melhoramento do Espírito culpado. por certo. ela diz muito bem que isto é uma simples figura. Esta doutrina é. sofreria sempre.O QUE É O ESPIRITISMO 135 É assim. mas ele será assim também compreendido pela alta teologia? Evidentemente. seus esforços para fazer o bem os minoram ou abreviam. e concede-lhe graça desde que ele volte ao bom caminho. Deus lhe faz entrever um raio de esperança. mesmo entre os mais religiosos se veria para que lado penderia a maioria. vai mesmo além: ele o define. antes. que não se arrependesse e nunca se melhorasse. Sendo a duração da pena subordinada ao arrependimento. para se conhecer a opinião íntima de todos os homens que raciocinam e se acham no caso de compreendê-la. sua pertinácia no mal prolonga-lhe os sofrimentos. não. Nenhuma condenação por tempo determinado é pronunciada contra ele. sua alma se abra ao arrependimento. porque a ideia de uma eternidade de suplícios é a negação da infinita misericórdia de Deus. O inferno foi descrito como imensa fornalha. que pune. enquanto o culpado persiste no mal. demais. Quem imaginou essa teoria? Seríamos nós? . mais conforme à justiça de Deus. a expiação e a reparação. em uma palavra. símbolo das maiores dores. um melhoramento sério e efetivo. O que Deus exige. Desde que. para pôr um termo aos sofrimentos. Quanto à eternidade das penas. é o arrependimento. e para ele então a pena seria eterna. O Espírito é assim o árbitro de sua própria sorte. Essa eternidade de penas deve ser entendida no sentido relativo e não no absoluto. que ele não nega o purgatório.

K. pois. uma figura. antes que de uma filosofia que ele não pode compreender? A. ou. e então aqueles que não aprofundam as coisas. quem me afiança que o resto seja verdadeiro? Se. Comete um erro de época quem espera conduzir os homens de hoje pelo medo do demónio e das torturas eternas. as penas futuras. aos quais não fazia mossa o medo do inferno. se me deram uma imagem. não julgais que o vulgo precisa de imagens mais impressionantes. A religião ganhará sempre em seguir o progresso das ideias. a fé se fortifica. pois que são eles mesmos que nos vêm descrever seus próprios sofrimentos. o pensador filósofo pode aceitá-lo. dizem eles: se me ensinaram como verdade incontestável um ponto que é falso. porque nele nada repugna à razão. — Admitindo esse raciocínio. Os Espíritos não negam. crescendo.136 ALLAN KARDEC Não. e este quadro nos toca mais que o das chamas perpétuas. é quando os homens querem avançar e ela deseja ficar estacionária. são os Espíritos que a ensinam e provam. sem eles. que não pode vir de Deus? . como lhes era pintado. porque. — A Igreja. a razão. Padre. Compreende-se que isto é possível. com efeito. pelos exemplos que diariamente nos fornecem. se alguma vez ela corre perigo. Eis por que as crenças espíritas têm conduzido ao bem muita gente. que assim deve ser. Pax&re. pelo menos. porque tudo nele ê perfeitamente lógico. mesmo entre os materialistas. pela realidade. reconhece hoje que o inferno material é uma figura. — Ê isso um erro que tem lançado mais de um homem no materialismo. rejeitam o todo. não aceitando uma parte. mas isso não exclui a existência dos demónios. que essa situação é uma consequência natural das coisas. afastado mais de um homem da religião. pelo contrário. como explicar a influência do mal. nada tem a repelir. Chega o momento em que essas imagens não impressionam mais.

K. a realidade das manifestações. quaisquer que eles sejam. porque a palavra dan/môn. Seja como for. se comunicam. somente ele diz não serem eles seres à parte. como afirma a Igreja para motivar a proibição. é possível que Ele só o tivesse permitido aos maus? Como?! deixando a estes toda a liberdade de virem enganar os homens. e desse mundo não estão excluídos os bons. são seres atrasados. — O Espiritismo não admite os demónios no sentido vulgar da palavra. Aqui. feita por ela. rejeita assim a ideia de só podermos entrar em relação com os maus Espíritos. o Evangelho. de se comunicar com os Espíritos. significa génio. Seguramente. que admite a conversão de Satã. não seria pôr em dúvida seu poder e bondade. grega. Ora. e fazer de Satã um rival da Divindade? A Bíblia. Notai também que a palavra detmâmo não implica a ideia de mau Espírito. a Igreja. que não valem mais do que aqueles e que fazem igualmente o mal. suscitando maus pensamentos. Deus poderia impedir que os bons lhes viessem fazer um contrapeso. hoje ela exprime um Espírito mau. A questão está em saber se são eles os únicos que se comunicam. alusão ao melhoramento dos maus Espíritos. ainda imperfeitos. porém. havemos hoje de excluí-los? Além disso. em princípio. que lhe é dada pela acepção moderna. Nisso concorda o Espiritismo com a Igreja Católica Grega. os Padres da Igreja reconhecem perfeitamente a possibilidade das comunicações com o mundo invisível.O QUE fi O ESPIRITISMO 137 A. inteligência. quando nos trabalhos obtidos só . criados para o mal e perpetuamente votados a isto. os maus Espíritos. pois. nós invocamos o raciocínio e os fatos. Se os Espíritos. admitir a comunicação dos maus Espíritos é reconhecer. sim. não pode ser senão com a permissão de Deus. mas aos quais Deus reservará o futuro. espécie de párias da criação e algozes do género humano. por que. neutralizar suas doutrinas perniciosas? Crer que seja assim. admitindo a autenticidade de certas aparições e comunicações de santos.

a abnegação. sagaz e ardiloso. A.138 ALLAN KARDEC encontramos coisas boas. — Satã. quanto é possível ser-se. compreende-se que se dirija àqueles que estão no bem para induzi-los ao mal. a orar. tendo em vista intimidar. que deixe escapar aqueles que já estavam em suas redes. isto é. e. mas. quando nos pregam neles a mais pura e sublime moral evangélica. na questão do Espiritismo. A Igreja apega-se à letra dessa figura alegórica. Uma vez que seu fim é alimentar de vítimas o inferno e arrebatar almas do poder de Deus. segundo belíssima alegoria. chega a um resultado totalmente contrário. por um instante. o desinteresse e o amor ao próximo. quando neles se combate o mal. a submeter-se à vontade do Criador. — O Evangelho ensina que o anjo das trevas. é a personificação do Mal. Admitamos. como Saturno era outrora a do Tempo. segundo o provérbio: Quem muito quer provar. à destruição. não é um ser real. ora. à força de exagerar seu poder. excitá-los a voltar a Deus. mas também da crença em tal personagem. Ela o representa como eminentemente fino. se veja obrigado a transformar-se. será racional crer-se que o Espírito maligno assim proceda? Padre. é uma questão de opinião que eu não discutirei. ou Satã. que ele hipocritamente simule a virtude. isto é. para tal fim. que Satã seja um ser real. não somente do medo. são dele. mas. animá-los a renunciar ao mal. nada prova. qualquer que seja o aspecto sobre que se mostre. fá-lo desempenhar o papel de louco ou de tolo. se transforma em anjo de luz para seduzir os homens. K. a Igreja. que desprezam a prece e vivem mergulhados no vício. mostrando-lhes a felicidade dos ésco- . é o que não se pode compreender. segundo o Espiritismo e a opinião de muitos filósofos cristãos. em anjo de luz. nada mais lhe resta fazer para sepultá-los no lamaçal. Os que não admitem Deus nem a alma.

ao bem os que praticavam o mal. se deva interdizer-nos qualquer relação com o mundo invisível. em que se apoiam as seitas cristãs. é a judaica a que faz menos oposição ao Espiritismo. se ela for mais judia que cristã. Se as prescrições bíblicas são o código da fé cristã. como sendo formalmente condenadas pelo Evangelho e por Moisés.O QUE fi O ESPIRITISMO 139 Ihidos e a triste sorte que aguarda os maus. sejam auxiliares de Satã. é porque elas são contrárias à religião. pronunciando a pena de morte contra essas práticas. mais estúpido que o de dar liberdade a aves que estejam numa gaiola. prova quanto elas são repreensíveis aos olhos de Deus. de todas as religiões. ela se acha somente na lei moisaica. que consolam os aflitos. na doutrina da comunicação exclusiva dos demónios uma contradição que fere todo homem sensato. assim será. dão força e coragem aos fracos. Este último. Trata-se de saber se a Igreja coloca a lei moisaica acima da evangélica. pela sublimidade de seus ensinos. nem com o sentimento de pie- . contra cujas evocações ela não invocou a lei de Moisés. que. e de entre os quais o de que tratamos era objeto de abusos. e que. elevam a alma acima da vida material. Há. — Peco-vos perdão. K. nunca se persuadirá alguém que os Espíritos que reconduzem a Deus aqueles que o renegavam. mas essa proibição não se encontra em parte alguma do Evangelho. —• Se a Igreja proíbe as comunicações com os Espíritos dos mortos. A. por este motivo. Não se evocava então os mortos pelo respeito e afeição tributados a eles. por que proíbem a leitura da Bíblia? Que diriam se se proibisse a um cidadão o estudo do código das leis do seu país? A proibição feita por Moisés tinha então a sua razão de ser. seria ato de um simplório. pois. com o pensamento de apanhá-las de novo. Devemos mesmo notar que. por certo. Padre. porque o legislador hebreu queria que o seu povo rompesse com todos os hábitos trazidos do Egito.

se a Igreja proíbe a evocação dos Espíritos. Esta pena passa a ter uma origem tão sagrada como a interdição. do contrário essa interdição seria inútil. sim. como a Igreja pretende. Além disso. 2. Se a interdição da evocação aos mortos vem do próprio Deus. É. a lei civil ou disciplinar. por que não as observam ainda? Se a lei de Moisés é para a Igreja um artigo de fé sobre um ponto. é uma prova de que eles podem vir. lei que foi conservada porque é divina. a que Jesus se sujeitou e que não aboliu? Havia na lei moisaica duas partes: 1. também quanto à pena de morte. entre outras a da circuncisão. Se. resumida nas tábuas do Sinai. a lei de Deus. e a proibição de Moisés já não tem razão de ser. apropriada aos costumes do tempo. mas. por que não a conservam também? Todas as leis de Moisés são promulgadas em nome e por ordem de Deus. entre pessoas que nunca se ocuparam com o Espiritismo? e antes de ele ser divulgado não se davam tantas delas? Outra contradição: Se Moisés proibiu evocar os Espíritos dos mortos. e que o Cristo aboliu. poderá também impedir que eles venham sem ser chamados? Não estamos vendo diariamente manifestações de todos os géneros.140 ALLAN KARDEC dade. e o Cristo não fez mais que desenvolvê-la. Hoje as circunstâncias são outras. e repelem-na no que não julgam conveniente? Qual o motivo de não seguirem todas as suas prescrições. podiam eles entrar em relação com os homens.'.". como meio de adivinhar. neste caso. deve também ser Deus quem marcou a pena de morte contra os delinquentes. em seu tempo. era pródiga a sua legislação. um erro apoiar-se na severidade do castigo para provar-se o grau de culpabilidade da evocação dos mortos. explorado pelo charlatanismo e pela superstição. é que eram precisos meios rigorosos para conter esse povo indisciplinado. como objeto de tráfico vergonhoso. nessas condições. se crêem que Deus seja o autor delas. Se ele pronunciou contra esse abuso uma penalidade severa. Moisés teve razão de proibi-lo. pois. por que deixa de sê-lo sobre os outros todos? Por que recorrem a ela naquilo de que precisam. .

— Eis a magna questão. Antes de tudo. Padre. é verdade. então. do que atribuí-la ao demónio. não são exclusivamente demónios. A. estão em contradição com essas leis. os muçulmanos como os católicos. Galileu foi acusado de heresia e de ser inspirado pelo demónio. como Galileu. e se. porém. K. Os Espíritos ensinam. A questão está em saber se um artigo de fé pode anular uma lei natural. se são Espíritos de mortos. de modo diverso do que ela ensina. Ora. é porque. e. revelar-nos novas leis da Natureza. foi condenado e excomungado. que há penas e recompensas futuras. bem sei que ela é diversamente interpretada pelos teólogos. os Espíritos vêm. porém. crendo-se na posse exclusiva da verdade absoluta. não será mais racional adaptar a interpretação do dogma a ela.O QUE S O ESPIRITISMO 141 ainda hoje o podem. Se os Espíritos tivessem. como na velha crença de girar o Sol ao redor da Terra. — A Igreja não nega que bons Espíritos possam comunicar-se. pois reconhece que os santos também se têm manifestado. . — Deixemos a questão dos demónios. se eles não proclamassem a liberdade de consciência e não condenassem certos abusos. portanto. olham como obra do demónio qualquer doutrina que não é inteiramente ortodoxa. só ela pode julgar o que eles pregam e. devemos ser lógicos. sobre todos os pontos. provando o erro de uma crença julgada inatacável. e. abundado no sentido exclusivo da Igreja. Se alguns pontos de fé sofrem com isto. Padre. porque vinha revelar uma lei da Natureza. não considera bons aqueles que vêm contradizer seus princípios imutáveis. teriam sido todos bem-vindos e não os qualificariam de demónios. ela. mas. sendo essa lei reconhecida. Tal é também a razão por que todas as religiões. distinguir os bons dos maus. não derribar a religião. que é obra de Deus. do seu ponto de vista.

e 1. caps. os dos animais aquáticos.) Era uma espécie de espantalho para os simples. conforme a culpabilidade. difere essencialmente da metempsicose. — Não é esta a ocasião própria de discutir uma questão que exige tão longos desenvolvimentos: vós a encontrareis tratada em Ô Livro dos Espíritos e no Evangelho seffwndo o Espiritismo (vede Õ IÂVTO dos Espíritos.142 ALLAN KARDEC porém o sistema da reencarnação parece-me mais difícil de conciliar com os dogmas. A transmigração pelos corpos dos animais não era considerada como condição inerente à natureza da alma humana.. Depois de alguns milhares de anos. A metempsicose dos antigos consistia na transmigração da alma do homem nos animais. mais ou menos. mesmo como castigo. pois que ele não é mais que a renovação da metempsicose de Pitágoras. segundo o Espiritismo. n. A encarnação animal não era. em não admitir aquele a encarnação da alma humana nos corpos de animais. para neles receberem castigos." A pluralidade das existências. por Pezzani. mas como punição temporária. os antigos diziam aos criminosos: "Vós vos tornareis em lobos". 222 e seg. essa doutrina não era o que vulgarmente se crê. o lobo vos comerá".° 166 e seg. A. os das aves. Suas dife- . K. Os Espíritos ensinam que a alma não retrograda. Demais. uma condição absoluta. as dos preguiçosos e ignorantes. as dos inconstantes e estouvados. IV e V ) . não acrescentarei senão duas palavras. O Evangelho. as dos impudicos. (Vede Pluralidade dos existências lote alma. e hoje se diz: "O diabo vos agarrará e levará para o inferno. antes que um artigo de fé para os filósofos. expostas ao desprezo e às injúrias. mas progride sempre. é assim que se admitia que as almas dos assassinos iam habitar os corpos dos animais ferozes. pois.010. Assim como dizemos às crianças: "Se fordes más. e a prova é que a punição dos homens tímidos consistia em passar a corpos de mulheres. o que implica uma degradação. como se vê. os porcos e javalis. voltava à humanidade. ela. a alma. saindo dessa espécie de prisão. aliava-se à encarnação humana.

Para provar que ela não existe. que fará a Igreja? Em resumo: a reencarnação não é um sistema imaginado para satisfação das necessidades de um ideal. nem uma opinião pessoal. ou recomeçar o que fez errado.O QUE É O ESPIRITISMO 143 rentes existências corpóreas se cumprem na humanidade. Quanto à questão de saber se a pluralidade das existências da alma é ou não contrária a certos dogmas da Igreja. Deus lhe permite continuar. é uma lei da Natureza. ou não. Aqueles que não queiram aceitar a interpretação ficam perfeitamente livres. mas a essas leis. limito-me a dizer o seguinte: Ou a reencarnação existe. Se está demonstrado que certos efeitos existentes são materialmente impossíveis sem a reencarnação. seria necessário demonstrar que vai de encontro. não pode ser anulada por uma opinião contrária. em razão de sua extrema lógica e conformidade com a justiça de Deus. de crer que é o Sol que gira ao redor da Terra. sendo cada uma um passo que a alma dá na senda do progresso intelectual e moral. pois. o que ela não pôde acabar em outra. é ou não um fato. Além disso. A expiação na vida corporal consiste nas tribulações que nela sofremos. explicando as questões que só ela pode resolver. não aos dogmas. de destruir. logo. se existe. e que há outra mais clara e logicamente melhor que ela. muitas vezes abreviada por causas acidentais. é o que pela força das coisas será feito mais tarde. Não podendo adquirir um desenvolvimento completo em uma só existência. é fácil demonstrar que certos dogmas encontram nela sanção racional. em nova encarnação. A ideia da pluralidade das existências se vulgariza com pasmosa rapidez. o que é coisa muito diversa da metempsicose. Não se trata. hoje aceitos por aqueles que os repeliam outrora. Quando ela for reconhecida como verdade natural e aceita por todos. é preciso admitirmos que eles soa « consequência desta. como ainda hoje o são. se está em a Natureza. mas de interpretar. . por falta de compreensão.

— Permiti-me. em não sair do vosso ponto de vista e em considerar sempre a Igreja como o único critério dos conhecimentos humanos. ao passo que os Espíritos se contam por milhares e se contradizem. uns dizendo que é branco o que outros afirmam ser negro. já desde o começo. alguns desses princípios que mudam a face do mundo. bem como daqueles que. não faz a sorte futura do homem subordinar-se a condições alheias à vontade deste. e em vez de por isso apedrejá-lo. visto como antes que este viesse e hoje. meu amigo. Não seria melhor deixarmos os Espíritos tranquilos e contentarmo-nos com o que já temos? A. — Errais. durante ainda muito tempo. Ao menos o Cristo era só. os Espíritos que nos instruem não são assim tão pouco lógicos. morrerão sem tê-la? Poderá Deus cerrar-lhes as portas do futuro ? Não.144 ALLAN KARDEC Padre. quem não crê neles nem nas suas manifestações. desde que os Espíritos só ensinam os princípios de moral encontrados no Evangelho. K. sua doutrina era única. . o Espiritismo não podia dizer outra coisa. Não seria o mesmo se os Espíritos viessem ensinar algumas grandes verdades novas. não tiveram possibilidade de possuí-la. dizer-vos que. K. como o Cristo: Fora. deve ser menos aquinhoado na vida futura? A. então. seus partidários formam muitas seitas. como fez o Cristo. podíamos e podemos alcançar a salvação. que seria daqueles que. desde o começo do mundo. eles não nos pregam que fora do Espiritismo não possa haver salvação. não vejo qual possa ser a utilidade do Espiritismo. — Se esta crença fosse indispensável à salvação dos homens. mas sim. — Segundo os Espíritos. sem ser por ele. Padre. da camdaãe não há salvação. do que resulta que. eles nos dizem: Deus é soberanamente justo e bom. Se o Cristo disse a verdade.

prevendo que os homens iriam nela enxertar suas paixões e prejuízos. apartado do caminho traçado pelo Cristo? Seus preceitos de moral serão escrupulosamente observados? Não se lhe têm desnaturado as palavras. O Cristo teria dito. combatidas pela incredulidade. quando elas lealmente condenam isso? Ora. Qual delas conseguiria arrebanhar todos os dissidentes? Deus. Igualmente inconsequente é ela quando qualifica de demoníaco um ensino que se apoia sobre a mesma autoridade e que proclama a missão divina do fundador do Cristianismo. à estrita observância de seus preceitos. qual delas? a romana. será por isso que o qualificam de obra satânica? . completar e explicar o que o Cristo propositadamente não fez senão tocar. teria revelado tudo? Não. sem dúvida. Mas. a fim de que possam servir de apoio à ambição e às paixões humanas. que vem confirmar. Por outro lado. Direis. fora dos limites particulares de qualquer culto. o Espiritismo. por todas as vozes de Além-Túmulo.O QUE É O ESPIRITISMO 145 deve-se acolhê-lo como poderoso auxiliar. os diversos cultos cristãos não se terão. que é sábio. que a proclamaram por todos os pontos do globo. época em que o homem está maduro para compreendê-lo. as verdades fundamentais da religião. seus mensageiros. a fim de que ela possa aplicar-se a todos. em coisa alguma. mas que a Igreja se ligue ao materialismo contra ele. ou não disse senão sob a forma alegórica. é por isso que eu vos falo em parábolas." O Espiritismo vem hoje. aqueles que dela se arredam. vem chamar. cada uma explicaria a seu modo e reivindicaria o privilégio de dar essa explicação. pela voz dos Espíritos enviados de Deus. Que o materialismo o combata. a grega ou a protestante? Como não estão elas de acordo. mas vós não podeis compreendê-las. explica-se facilmente. é um fato menos concebível. que à Igreja competia dar essa explicação. e nenhum a transforme em objeto de exploração. visto que ele próprio disse: "Eu teria ainda muitas coisas a dizer-vos. não lhes quis confiar o cuidado desta nova revelação: deu-a aos Espíritos.

antes da descoberta de todos os novos planetas. detestando-se intimamente e anatematizando-se em nome do seu divino Mestre. Não é de admirar que no começo de uma ciência. Podem constituir escolas que expliquem certos fatos a seu modo. como também se podia passar sem muitas das descobertas científicas. antes que se tivesse calculado os eclipses. pois. que os divide. Dissestes que se podia passar sem ele. porém. Não fizesse ele mais que substituir a máxima: Fora cía caridade não há salvação. Riscai. direis vós.146 ALLAN KAKDEC Vós vos iludis dando o nome de seitas a algumas divergências de opiniões relativas aos fenómenos espíritas. Os homens certamente viviam bem. repousam sobre pontos de minúcias e não sobre o princípio fundamental. ao contrário. transforme a Humanidade como por encanto? Vamos à questão da utilidade. Ê um erro: ele ensina. etc. A quantas seitas não tem o Cristianismo dado nascimento. Seja. para que a sua vida marcasse uma nova era à Humanidade. essas teorias. como não o são os diferentes sistemas que dividem os sábios nas ciências exatas: em medicina. a palavra seita. então. desde a sua origem ? Por que não teve bastante poder a palavra do Cristo para impor silêncio a todas as controvérsias? Por que é ela suscetível de interpretações que ainda hoje dividem os cristãos em diferentes igrejas. em física. como quereis que o Espiritismo triunfe subitamente dessa fraqueza. muito àqueles que não se limitam a um estudo superficial. que não pregou senão o amor e a caridade? Fraqueza dos homens. que é imprópria ao nosso caso. concordo. que reúne os homens. Dizeis que o Espiritismo nada revela de novo. àquela: Fora da Igreja não há salvação. porém. não são seitas. antes que se conhecesse' o . quando ainda as observações eram incompletas para muitos. tenham surgido teorias contraditórias. pretendendo todas elas possuir exclusivamente a verdade necessária à salvação.

mostram a necessidade do bem e as consequências inevitáveis do mal. pela fé cega que se diz ao materialista que nem tudo se acaba com o corpo. Ora. qual o maior inimigo da religião? O materialismo. Além disso. um apoio nele. que homem sensato ousará avançar . a sua influência moral. o camponês. já não seria muito a revelação de tal potência? Vejamos. a ambição. que a vêem integralmente na doutrina do fogo eterno. facilita-a firmando-nos no caminho do bem. ora. entretanto. fortifica-as nos que as têm incertas. o Espiritismo se prende essencialmente às ideias religiosas. para viver e fazer germinar o trigo. sem ser uma religião. pois. ninguém nega que todas essas coisas alargam o círculo das ideias e nos fazem compreender melhor as leis da Natureza. a cobiça.O QUE É O ESPIRITISMO 147 mundo microscópico e cem outras coisas. o Espiritismo engrandece e eleva as ideias. na letra mais que no espírito. desenvolve-as naqueles que não as possuem. Suponhamos que a isso se limitasse a sua utilidade. agora. é pelos fatos que se lhe mostram visíveis e palpáveis. Em uma palavra. porque o materialista não crê em coisa alguma. mas quem terá a coragem de defendê-los e se declararem seus campeões? Se ele não é indispensável à salvação. o quadro vivo daqueles que nos precederam nela. que já não tem razão de ser. Não será isso um pequeno serviço prestado à humanidade e à religião ? Porém não é ainda tudo: a certeza da vida futura. o mundo dos Espíritos é uma dessas leis que o Espiritismo nos faz conhecer. não tem necessidade de saber o que é um cometa. combate os abusos engendrados pelo egoísmo. o Espiritismo é a negação do materialismo. mas para aqueles que a vêem segundo a grandeza e a majestade de Deus. Não é mais pelo raciocínio. Admitamos que ele nada ensine. Eis por que. não para as pessoas de vistas estreitas. A religião encontra. ele nos ensina a influência que esse mundo exerce sobre o corpóreo. sob este ponto de vista. e.

sob o ponto de vista de suas consequências religiosas: 1. não admite certas partes do dogma? 2. no rigor da palavra. como também sentiríamos escrúpulo em ir perturbar a consciência dos que. a quantos combatem o Espiritismo.148 ALLAN KARDEC que a falta de ortodoxia é mais repreensível." O que não é ortodoxo. julgamo-nos sempre felizes pelas aquisições que fazemos. deve contar menos com a salvação. que é bom e indulgente para com o próximo. tendo crenças que os satisfazem. aos olhos de Deus. Se não tivésseis vindo. . eu não vos teria ido procurar. mas. mas faz o bem que pode." Quem terá melhor quinhão na vida futura — aquele que não crê em coisa alguma. às questões e objeções que me dirigistes." Qual terá mais valor aos olhos de Deus: a prática das virtudes cristãs sem a dos deveres da ortodoxia. como vo-lo disse no começo. Não quer isto dizer que desprezássemos a vossa adesão aos nossos princípios. ou aquele que. que o ateísmo ou o materialismo? Apresento claramente as questões seguintes. crente das verdades gerais. limitando-me tão-somente a fazer-vos encarar o Espiritismo sob seu verdadeiro aspecto. sem intenção alguma preconcebida de conduzir-vos às nossas ideias e de mudar as vossas convicções. do que aquele que crê em tudo. egoísta e baldo de caridade? 4. mas é duro. não venham espontaneamente ao nosso encontro. Não só não temos o direito de exercer constrangimento sobre quem quer que seja. caso ela se verificasse. as quais têm para nós tanto maior valor quanto mais livres e voluntárias são. senhor abade.* O protestante e o cismático serão confundidos na mesma reprovação que o ateu e o materialista? 3. leal em suas relações sociais. longe disso. ou a destes últimos sem a da moral? Respondi.

como: O Evan. ou que se em ideias preconcebidas. Se desta leitura nascer o desejo de continuar. onde ss princípios da estão completamente desenvolvia^. com isso. e soão facilmente compreet^1' didos. existe algo de Nesta rápida exposição esforçaní-nos por indicar os pon J-~ tos sobre que particularmente se deve fixar a atenção d<"-° observador. para a parte experimental.' e querem julgar o que não comprendem. etc. apresenta o conjunto e os pontos mais salientes da cia. As nossas piblicações são feitas n *° intuito de favorecer esse estuí. A ignorância dos aíncípios fundamentais e a causa das falsas apreciações Ia maioria daqueles qu .O QUE É O ESPIRITISMO Dissemos que o melhor meio de se esclarecerem o Espiritismo é estudarem previamente a teoria. eis aqui a ordem qu ae aconselhamos. ler O Lvoro das Espíritos. no todo. compreeder os fenómenos. O Li/vro doMédiMns. com aos que quiserem bem. destinado a servia de guia aos que desejarem opersr por si mesmos. já se pode fazer dela uma ideia ficar-se convencido de que. qualquer 'que seja a oièa em que as circunstâr^1" cias os façam vir. depois. naturalmente. os virão depois. . pois.--gelho segundo o Espiritisimo. 'Q Céu e o Inferno o Espiritismo. depois as diversas obras onde sia desenvolvidas as apli " cações e as consequências da doutrina. A primeira leitura a fazew é a deste resumo.

se originam da ignorância das causas dos fenómenos e das condições em que estes se produzem. pelo menos. nem o seu modo de ação. Quem não conhece o Espiritismo. esses indi- . Quem não admite no homem a existência da alma ou Espírito. e portanto. também não a aceita fora dele. como princípio. com uma ideia preconcebida que os desvia de uma observação séria e imparcial. quase sempre. como se faz uma experiência de física ou de química. uma espécie de curso. Não admitindo. de modo completo. negando a causa. Daí a pretensão de sujeitá-los à sua vontade e a recusa de se colocar nas condições necessárias para os poder observar. na maioria. para que se tornem convictos. retomando as coisas desde o princípio.CAPITULO II Noções elementares de Espiritismo OBSERVAÇÕES PRELIMINARES 1. ou. porque seria preciso fazer-se. para cada um. O estudo prévio tem como resultado evitar-se essas objeções que. Os contraditores se apresentam. a existência e a intervenção dos Espíritos. 2. não conhecendo nem a sua natureza. supõe que se podem produzir fenómenos espíritas. É um erro crer-se que basta a certos incrédulos o testemunho de fenómenos extraordinários. e levantam questões e objeções a que é impossível responder-se logo. nega implicitamente os efeitos.

e quem quer esclarecer-se não deve colher ensinos de uma. O Espiritismo também tem aprendizes. seja para produzir a convicção. concluem que não há Espíritos. não podemos deixar de convir. de algumas mesmo. Colocando-se em um ponto de vista diferente. Nem sempre as reuniões que têm por objeto tratar de manifestações espíritas se acham em boas condições. as coisas. de uma pessoa pela sua caricatura. Nisso não são eles mais lógicos que aqueles que pretendessem julgar de uma arte pelas primeiras provas de um aprendiz. de que foram testemunhas. Ainda que certos fenómenos possam ser provocados. seja para obter resultados satisfatórios. todos nós. só provará ignorância ou má-fé. nestas condições. seremos Espíritos. depois da morte. apanhá-los em sua passagem. não se acham absolutamente à disposição de quem quer que seja. e colocar-se nas condições indispensáveis. e. só fonte. doutra forma. e. é quando são menos esperados que se apresentam os fatos mais interessantes e concludentes. É preciso esperá-los. também estaríamos pouco dispostos a servir de joguete. Aquele que seriamente deseja instruir-se. . os incrédulos saem menos convencidos do que o eram quando entraram. muitas vezes. nisto como em tudo. ter paciência e perseverança. ou de uma tragédia pela paródia. deve. e quem se disser capaz de obtê-Ios. é melhor não se preocupar com isso. lançando em rosto. eles. compreender-se-á que.152 ALLAN KARDEC víduos se comportam como se operassem sobre a matéria bruta. porque só pelo exame e pela comparação se pode firmar um juízo. muitas vezes ridículas. desde que não obtêm o que pedem. não sendo os Espíritos mais que almas dos homens. 3. pelo fato de provirem de inteligências livres. 4. e que. aos que lhes falam do carater sério do Espiritismo. para satisfação das fantasias dos curiosos. sempre que queira.

que existam tais obras prejudicando a verdadeira ciência. As reuniões frívolas têm o grave inconveniente de dar aos noviços. como supõem muitas pessoas. sobre as mais sérias coisas. o maior mal. negar os Espíritos seria negar a alma. a separar o bom do mau. seria preferível que só as houvesse boas. Aquele que admite a sobrevivência da alma ao corpo. que a elas assistem. Não vemos. a existência dos Espíritos.O QUE Ê O ESPIRITISMO 153 5. estão no mesmo caso. o Espiritismo. nesse sentido. Todas as artes. pelo mesmo motivo. Sem dúvida. 6. não podem tomar a sério uma coisa que eles vêem tratada irrefletidamente pelos próprios que se dizem adeptos. dizem. Os que só têm frequentado reuniões dessa espécie. DOS ESPÍRITOS 7. ou que o praticam de modo contrário aos seus preceitos. despidas do seu invólucro corporal. Um estudo antecipado lhes ensinará a julgar do alcance do que vêem. saberiam o que ele admite e o que rejeita. além disso. assim como não o faz a poesia por aqueles que produzem maus versos. que dele apenas dão uma ideia incompleta e ridícula. uma ideia falsa do caráter do Espiritismo. . O Espiritismo sério não pode responder por aqueles que o compreendem mal. sobretudo em seu começo? Se os que o criticam não tomassem as aparências por base do seu juízo. todas as ciências. O mesmo raciocínio se aplica aos que julgarem o Espiritismo pelo que dizem certas obras excêntricas. admite. uma classe à parte na criação. Ê deplorável. consiste em não se darem ao trabalho de estudá-las todas. Os Espíritos não são. daqueles que viveram na Terra ou em outros mundos. aparecerem tratados absurdos e cheios de erros? Por que seria privilegiado. porém. e não lhe lançariam em conta o que ele repele em nome da razão e da experiência. porém as almas.

como alguns acreditam.354 ALLAN KARDEC 8. Há. não lhe resta mais que o seu corpo etéreo. princípio inteligente em que residem o pensamento." O corpo. nem fantasmas como os pintam nos contos das almas do outro mundo. imponderável. e uma vez libertado desse fardo. leve e indestrutível. seres vagos e indefinidos." A alma ou Espírito. . o outro fluídico. grosseiro e destrutível — o corpo. Quando a alma está unida ao corpo. que a alma abandona. 13. 10. no homem três elementos essenciais: 1. Faz-se geralmente uma ideia muito errónea do estado dos Espíritos. eles não são. que lhe permite percorrer o espaço e transpor as distâncias com a rapidez do pensamento. conservando porém seu corpo fluídico ou perispírito. 9. leve. como o faz a borboleta com a crisálida. a vontade e o senso moral. pois. nem chamas semelhantes a fogos-fátuos. durante a vida. tomba e o Espírito o abandona. como se deixa um vestido velho que já não pode servir. A morte do corpo desembaraça o Espírito do laço que o prendia à Terra e o fazia sofrer. mas fluídico e invisível no estado normal. São seres nossos semelhantes. Quando o invólucro exterior está usado e não pode mais funcionar. servindo de laço e de intermediário entre o Espírito e o corpo. 2. invólucro fluídico. 3. 11. em uma palavra. ela tem duplo invólucro: um pesado. chamado peris/pírito. a serpente da pele.° O perispírito. como o fruto se despoja da sua semente. é o que se designa pelo nome de morte. a árvore da casca. A morte é apenas a destruição do envoltório corporal. invólucro material que põe o Espírito em relação com o mundo exterior. 12. tendo como nós um corpo.

cercando-nos por toda parte. OBSERVAÇÃO — A alma é assim um ser simples. é essencial fazer-se a diferença. donde se segue que se. eles formariam uma população. aos quais só falta serem visíveis para se assemelharem aos humanos. Seria mais exato reservar a palavra alma para designar o principio inteligente. filosoficamente. excetuando-se aqueles que. 15. despojados desses corpos. em dado momento. mas. no uso. formam o mundo espiritual ou invisível que povoa o espaço e no meio do qual vivemos. como vivemos no meio do mundo dos infinitamente pequenos. se acham temporariamente nas trevas. indiferentemente empregadas uma pela outra. . porque as suas faculdades não estão amortecidas pela matéria. uma vila composta de tantas famílias. nem o perispírito sem ser animado pelo princípio inteligente. vagos e indefinidos. Os Espíritos revestidos de seus corpos materiais constituem a Humanidade ou mundo corporal visível. porém. o Espírito um ser duplo e o homem um ser triplo. Para eles não há obscuridade. Os Espíritos possuem todas as percepções que tinham na Terra.O QUE É O ESPIRITISMO 155 14. é a figura que consiste em tomar a parte pelo todo. a alma e o perispírito separados do corpo constituem o ser chamado Espírito. do mesmo modo por que se diz que uma cidade é povoada de tantas almas. eles têm sensações desconhecidas por nós. 17. e o termo Espírito para o ser semimaterial formado desse princípio e do corpo fluídico. pudesse ser levantado o véu que no-los esconde. entes abstratos. porém em grau mais alto. portanto. A união da alma. do perispírito e do corpo material constitui o homem. 16. as palavras alma e Espírito são. por punição. como não se pode conceber o princípio inteligente isolado da matéria. de que não suspeitávamos. sem disso desconfiar. Os Espíritos não são. vêem e ouvem coisas que os nossos sentidos limitados nos não permitem ver nem ouvir. antes da invenção do microscópio. mas seres concretos e circunscritos.

constituem. conduzem à prova irrecusável da existência da alma. A experiência. não mais o podemos depois da sua desencarnação. 19. que folgam em se juntarem àqueles a que amaram. o conhecimento do Mundo Espiritual. é racional que as suas afeições continuem. ao nosso lado. isto é. (O Livro dos Espíritos. de modo que o que podíamos esconder a alguém. de sua sobrevivência ao corpo. desempenham um papel importante no mundo moral. em suma. se o podemos dizer. para isso. eles são os agentes de diversos fenómenos. que venham para junto de nós e se sirvam. de fato. durante a vida terrena.) 18. por isso ele é a negação das . e eles os lêem como em um livro aberto. O Espiritismo tem por fim demonstrar e estudar a manifestação dos Espíritos. Pois que os Espíritos podem ir a toda parte.156 ALLAN KARDEC Todos os nossos pensamentos neles se repercutem. seu futuro. de sua vida futura. ainda nos amem depois da morte. sendo averiguadas. sem o que. no físico. durante a vida terrena. é igualmente racional admitir-se que aqueles que nos amaram. as almas dos nossos parentes e amigos seriam. pela morte. de sua individualidade depois da morte. acotovelando-nos e observando-nos sem cessar. 20. prova que os Espíritos conservam as afeições sérias que tinham na Terra. mostram indiferentes para com quem só lhes vota indiferença. dos meios que encontrem à sua disposição. Desde que se admita a sobrevivência da alma ou do Espírito.° 237. uma das forças da Natureza. Essas manifestações. n. é o que confirma a experiência. Os Espíritos estão em toda parte. Por sua presença incessante entre nós. totalmente perdidas para nós. suas faculdades. sobretudo quando são por estes atraídos pelos sentimentos afetuosos que lhes dedicam. sua situação feliz ou infeliz. ao passo que se. e. até certo ponto.

que conquistam os conhecimentos que lhes faltam. entre os que não conhecem o Espiritismo. é a de crer que os Espíritos. maus e vingativos. como seria contrário à justiça de Deus supor que ele continue perpetuamente em inferioridade. de bondade e malvadez. possuem as mais sublimes virtudes e o saber em grau desconhecido na Terra. Essa diversidade nas qualidades dos Espíritos é um dos pontos mais importantes a considerar. estar de posse da sabedoria suprema. 21. É um grave erro. não tanto por meio de raciocínios. e. outros são mentirosos. fraudulentos. pelo contrário. dá-se o mesmo com os Espíritos. XXTV. mas principalmente por fatos. Escala Espírita — O Livro dos Mêãmns. Seria tão ilógico admitir-se que o Espírito de um selvagem ou de um criminoso se torne de repente sábio e virtuoso. os Espíritos não adquirem a perfeição logo que deixam o envoltório terrenal. n. (O Livro dos Espvritos. é em distingui-las que devemos empregar todo o nosso cuidado. e não é senão paulatinamente que se despojam das suas imperfeições." 100. Seu progresso só se faz com o tempo. outros. cap. Uma ideia quase geral.) COMUNICAÇÃO COM O MUNDO INVISÍVEL 22. Como há homens de todos os graus de saber e ignorância. devem saber tudo. Alguns destes são apenas frívolos e travessos. por explicar a natureza boa ou má das comunicações que se recebem. pelo simples fato de estarem desprendidos da matéria. uma vez estabelecido o fato das relações entre os mun- . o Espiritismo reduz-se a uma só questão principal: Serão possíveis as comunicações entre as almas e os inventes? Essa possibilidade foi demonstrada pela experiência. a sobrevivência e a individualidade da alma. Não sendo mais que as almas dos homens.O QUE ffi O ESPIRITISMO 157 doutrinas materialistas. hipócritas. Sendo admitidas a existência.

o princípio e o modo dessas relações. por meio de efeitos apreciáveis aos sentidos. houve também Espíritos. Vivendo o mundo invisível no meio do visível. uma coisa vaga. vir atestar sua existência e revelar-nos sua situação feliz ou infeliz. deviam tê-lo feito em todas as épocas e entre todos os povos. a considerarmos ainda unida a um corpo fluídico. as suas relações com os viventes nada têm de incompatível com a razão. as manifestações dos Espíritos tomaram grande desenvolvimento e adquiriram maior caráter de autenticidade. mas para lugar tão distante que se custa a compreender que ela possa tornar à Terra. Fazendo cessar a dúvida sobre o futuro. permitindo. é a ideia falsa que fazem do estado da alma depois da morte. sugerindo-lhes pensamentos e influenciando-os. mediante provas evidentes. . nestes últimos tempos. 24. de modo perceptível. apenas apreensível ao pensamento. e que se estes têm o poder de manifestar-se. uma fumaça. abriu-se um novo campo à observação e encontrou-se a chave de grande número de problemas. que se evapora e vai não se sabe para onde. aos que deixaram a Terra. espontâneas ou provocadas. 25. com o qual está em contato perpétuo. Figuram ser ela um sopro. 23. formando com ele um ser concreto e individual. porque estava nas vistas da Providência pôr termo à praga da incredulidade e do materialismo. o Espiritismo é poderoso elemento de moralização. ao contrário.158 ALLAN KARDEC dos visível e invisível. O que faz nascer na mente de muitas pessoas a dúvida sobre a possibilidade das comunicações de Além-Túmulo. semimaterial. Se. As relações entre os mundos visível e invisível podem ser ocultas ou patentes. e bem assim demonstra que. bem como conhecidos a natureza. Os Espíritos atuam sobre os homens ocultamente. Entretanto. desde que houve homens. dá em resultado uma incessante reação de cada um deles sobre o outro.

música. dão-se por intermédio de certos indivíduos dotados para isso de faculdades especiais. pela escrita. . Lê chiffommier de Ia rue dês Noyers. — Idem. o Espírito pode fazê-lo sofrer uma espécie de modificação molecular que o torna visível e mesmo tangível. 184. 115. 219. se torna visível por condensação. (Revue Spirite. muitas vezes. 236.) 28. as atribuem a causas sobrenaturais. 76. caindo. o perispírito é matéria etérea. 27. — Idem. UEsprit frappew de Bergzabe^n. produzindo ruídos e movimentos de corpos. — Idem. desenho. móveis lançados ao chão. Alguns não se limitam a ruídos moderados. pela audição. págs. mas produzem bulhas imitando louças que se quebram. pág.O QUE É O ESPIRITISMO 159 As manifestações espontâneas se verificam inopinadamente e de improviso. Os Espíritos que se tornam visíveis apresentam-se. os Espíritos se manifestam espontaneamente por pancadas e ruídos. As vezes. Ainda que invisível para nós no estado normal. pelo tato. 125. não tendo meios de explicá-las. entre as pessoas mais estranhas às ideias espíritas. pág. portas que se abrem e fecham com estrondo. pág. e alguns chegam mesmo a causar uma perturbação real e verdadeiros estragos. é como se produzem as aparições — fenómeno que não é mais extraordinário que o do vapor que. Em certos casos. pág. tal como nós. as quais. Lê boulánger de Dieppe. UEsprit fraipp&ur de Dibbelsdo>rf. é muitas vezes um meio que empregam para atestar sua presença e chamar sobre si a atenção. com as aparências que tinham em vida e que os podem tornar conhecidos. invisível quando muito rarefeito. Lê Fabricwnt de Smnt-Pétersbourg. 1860. e designados pelo nome de médiuns. Os Espíritos podem manifestar-se de muitas maneiras diferentes: pela vista. — Idem. 26. quase sempre.1858. As que são provocadas. etc. produzem-se. quando batemos para avisar que está alguém à porta. 153.

como para adverti-los de já não estar na Terra. A vidência permanente e geral de Espíritos é muito rara. quando deixa o corpo. o Espírito. não possuindo corpo tangível para atuar ostensivamente. parece ter pressa de ir ver seus parentes e amigos. falarem ou desenharem. hoje. durante o sono. ficou-se sabendo como eles se produzem e que pertencem à classe dos fenómenos naturais. seja produzindo golpes inteli- . sobretudo em ocasiões de morte. sem que os percebêssemos convenientemente. o Espírito serve-se do corpo do médium. senão também de dia e em completo estado de vigília. a ciência espírita nos forneceu meios de explicá-los. produzindo ruídos. Era por meio do perispírito que o Espírito agia sobre o seu corpo quando vivo. o vapor e a eletricidade. e dizer-lhes que ainda vive. mesmo. como o ar. desde que. por um eflúvio com que ele os envolve e penetra. se considerarmos que. seja fazendo-o mover-se sem significação determinada. movimentos de mesas e outros objetos que ele levanta. veremos quantos fatos autênticos. é ainda pelo mesmo meio que o Espírito age sobre o móvel. entre nós. porém. Esse fenómeno nada terá de surpreendente. fazendo-os agir como se fossem seus.160 ALLAN KARDEC 29. No fenómeno designado pelo nome de mesas gvramtes e falcmtes. quando ele se quer manifestar. da dos imponderáveis. 30. derruba ou transporta. não só de noite. se deram conosco. de cujos órgãos se apossa. Ê igualmente por meio do perispírito que o Espírito faz os médiuns escreverem. dessa ordem. Outrora consideravam tais fatos como sobrenaturais e maravilhosos e os atribuíam à magia e à feitiçaria. e é ainda com esse mesmo fluido que ele se manifesta agindo sobre a matéria inerte. 31. os incrédulos os classificam como um produto da imaginação. os mais poderosos motores se alimentam dos fluidos de maior rarefação e. porém as aparições isoladas são assaz frequentes. Se passarmos em revista as nossas reminiscências.

penetrando a mesa. pelo fluido com que a penetra. mas ao lado do móvel. Quando a mesa persegue alguém. como o faz o ar com os balões e papagaios. ou . vendo manifestar-se-lhes um ser querido. indicando as letras do alfabeto para formar palavras e frases. praticam um ato ridículo. mas não se identifica com ela. Por ocasião das comunicações dessa ordem. São simples comparações estas. e somente lhe dar. Quando a mesa se levanta do solo e permanece no ar. o Espírito não se acha na mesa. Nas pancadas que se fazem ouvir na mesa. para mostrar a analogia dos efeitos e nunca uma absoluta semelhança das causas. dirigindo-lhe a mão ou transmitindo-lhe o seu pensamento por uma corrente fluídica. ou se a madeira se tivesse tornado Espírito. Quando a mesa descansa no solo. e sim pela aça o de uma atmosfera fluídica com que ele a envolve e penetra — fluidos que neutralizam o efeito da gravitação. A mesa não é senão um instrumento de que ele então se serve. O mesmo podemos dizer relativamente àquelas que dirigem a palavra à mesa. dando-lhe vitalidade momentânea. As pessoas que. dá-lhe momentaneamente maior leveza específica. presas de emoção. Esse fluido. por uma corrente fluídica. sem ponto de apoio. como o faria se fosse vivo. porque é absolutamente o mesmo que abraçar a bengala de que se servisse um indivíduo para bater. se nessa ocasião ele pudesse tornar-se visível. como o faz com o lápis para escrever.O QUE É O ESPIRITISMO 161 gentes. abraçam a mesa. segundo a sua vontade. não é o Espírito que corre. fenómeno este designado pelo nome de tiptotogia. acha-se em caso análogo ao da campânula pneumática em que se fez o vácuo. não é com força braçal que o Espírito a suspende. Dá-se o mesmo com as comunicações por escrito. como se o Espírito se achasse encerrado na madeira. porque ele pode ficar tranquilamente em seu lugar. o impulso preciso para que ela se mova. o Espírito coloca-se ao lado do médium. e aí o veríamos.

E uma só a lei que regula tais fenómenos. Pelo pouco que dissemos. ele lança. pode-se ver que as manifestações espíritas. . nada mais apresentam esses fatos que repugne à razão. julgados sem solução. uma vez conhecida. as descobertas da Ciência. provam. um jato de fluido que produz o efeito de um choque elétrico e modifica os sons. que falam do que não conhecem. porém. lei tão natural quanto as da eletricidade. só por isso. Pertencendo à Natureza. Assim. sobre o ponto donde parte o ruído. 33. a lei que as dirige. vem explicar-nos grande número de problemas. pois. não é o Espírito quem bate com a mão ou com algum objeto. são fenómenos que se produzem em virtude da lei que rege as relações do mundo visível com o invisível. nada têm de maravilhoso e sobrenatural. Afastado o prisma maravilhoso. 32. transportar um objeto de um para outro lugar. O Espiritismo é a ciência que nos faz conhecer essa lei. como se pode modificar os que são produzidos pelo ar. que acusam o Espiritismo de ressuscitar o maravilhoso. eram reputados sobrenaturais todos os efeitos cuja causa não se conhecia. que o conhecimento da nova lei veio aniquilar. Aqueles. pois que assim passam a ocupar o seu lugar no meio dos outros fenómenos naturais. a óptica as da luz. etc. como a mecânica nos ensina as do movimento. como levantar um móvel qualquer. Nos tempos de ignorância. ou atirá-lo a qualquer parte. etc. da gravitação. as manifestações espíritas se deram em todos os tempos. facilmente se compreende a possibilidade de o Espírito erguer no ar uma pessoa. ela é a chave de uma multidão de fenómenos explorados e amplificados pela superstição.162 ALLAN KARDEC em outra parte qualquer. sucessivamente foram restringindo o círculo do maravilhoso. de qualquer natureza.

" A experiência demonstra a sabedoria desse conselho. sem se importar com a verdade. a qual pode ser justa ou errónea. principalmente. acerca de muitas coisas. por não ser ainda dado ao homem tudo conhecer. Da diversidade de qualidades e aptidões dos Espíritos. os outros consistem na troca regular de pensamentos por meio de sinais. profundas ou frívolas. e ainda dentro dos limites do que lhes é permitido dizer-nos. da escrita. 35. mas eaxminai se eles são de Deus. responderá de qualquer forma. Os primeiros são os fenómenos materiais ostensivos. (O Livro dos Médimns. segundo o seu estado de adiantamento. resulta que não basta dirigirmo-nos a um Espírito qualquer para obtermos uma resposta segura 1 a qualquer questão. Se ele é prudente. porque. ruídos. os que se mostram ignorantes e maus. consoante a natureza dos que se manifestam. 36. diz: "Não creiais em todas os Espíritos. mas que com o tempo hão de progredir. Há imprudência e leviandade em aceitar sem exame tudo o que vem dos Espíritos. da palavra e. João. etc. transportes de objetos. Os Espíritos só podem responder sobre aquilo que sabem. As manifestações dos Espíritos são de duas naturezas: efeitos físicos e comunicações inteligentes. se é orgulhoso. apresentará suas ideias como verdades absolutas.. É por isso que S.O QUE fi O ESPIRITISMO 163 34. Os que dão provas de sabedoria e erudição. justas ou falsas. ele não nos pode dar mais que a sua opinião pessoal. porque há coisas que eles não devem revelar. o Evangelista. n. são os ainda atrasados. são Espíritos adiantados no caminho do progresso. tais como os movimentos." 267. É de necessidade que bem conheçamos o caráter daqueles que estão em relação conosco. As comunicações que recebemos dos Espíritos podem ser boas ou más. não deixará de confessar sua ignorância sobre o que não conhece. se é frívolo ou mentiroso.) .

nela se respira a sabedoria. alguns há que são apenas ignorantes e levianos. as provas de grande força são executadas por saltimbancos e não por sábios. obra dos Espíritos inferiores. 40. 39. 38. eles não têm das coisas senão uma ideia muitas vezes falsa e incompleta. além disso. toda manifestação de malevolência. entre nós. Os Espíritos inferiores são. Os Espíritos inferiores não são todos. todo conselho ridículo. por isso. ignorantes ou orgulhosos. Todo pensamento evidentemente falso. toda expressão grosseira. mais ou menos. ela é concisa e despida de redundâncias. como. enfim. que eles tomam. Os Espíritos superiores não se ocupam senão de comunicações inteligentes que nos instruam. vulgarmente designados sob o nome de Espíritos batedores. Ao lado desses encontram-se. essencialmente maus. são incapazes de resolver certas questões. E podem induzir-nos em erro. a benevolência. sabendo manejar a sátira fina e mordaz. e. ignorantes. seu horizonte moral é limitado. espirituosos e divertidos. sobre aquilo que nem eles mesmos compreendem. são sinais incontestáveis da inferioridade dos Espíritos. conservam-se ainda sob o império dos prejuízos terrestres. mais especialmente. outros pilhéricos.164 ALLAN KARDEC 37. toda máxima contrária à sã moral. a dos Espíritos verdadeiramente bons e superiores é sempre digna. o vácuo das ideias é quase sempre preenchido pela abundância de palavras. por isso. lógica e isenta de contradições. a modéstia e a mais pura moral. . Na dos Espíritos inferiores. de presunção ou arrogância. trivial ou simplesmente frívola. às vezes. todos os géneros de perversidade e todos os graus de superioridade intelectual e moral. as manifestações físicas ou puramente materiais são. como na Terra. perspicácia restrita. Reconhece-se a qualidade dos Espíritos por sua linguagem. nobre. por verdades. voluntária ou involuntariamente. no mundo espiritual.

O QUE É O ESPIRITISMO 165 41. 43. quando entrarmos em comunicação com os Espíritos. a ninguém é dado fazê-los manifestar-se quando não o queiram. semelhança de gostos. e não ficarão satisfeitos se os tratarem com pouca atenção. como um sábio da Terra não vai a uma assembleia de rapazes levianos. sem objetivo sério. se não forem atendidos. podem entrar no mundo dos Espíritos. combater os vícios. então. 42. com quem lhes convém e quando as suas ocupações lho permitem. reconduzir ao bom caminho os que dele se iam afastando. faltam a um dever. retiram-se. caracteres e intenção dos que desejam a sua presença. nem dizer o que desejem calar. Forma juízo completamente erróneo aquele que crê que Espíritos sérios se prestem a responder a futilida- . de sorte que ninguém pode afirmar que tal Espírito há de responder ao seu apelo em dado momento. Outro ponto igualmente essencial a considerar é que os Espirites são livres e só se comunicam quando querem. os que as compõem esquecem-se de que. é somente com o fim de dar um conselho salutar. nunca se deve perder de vista que eles são as almas dos homens e que é inconveniente fazer do seu trabalho um passatempo ou pretexto de divertimentos. maior respeito ainda nos devem merecer como Espíritos. Devemos sempre estar calmos e concentrados. Só o charlatanismo tem princípios infalíveis. Os Espíritos superiores não vão às reuniões fúteis. ou que há de responder a tal ou tal pergunta que se lhe dirigir. não estão às ordens e à mercê dos caprichos de quem quer que seja. Os Espíritos são atraídos pela simpatia. porém. Se lhes respeitamos os despojos mortais. O simples bom-senso nos diz que isso não pode ser de outro modo. eles aí se mostram algumas vezes. As reuniões frívolas. Asseverar o contrário é demonstrar ignorância dos princípios mais elementares do Espiritismo. se acaso. de um momento para outro.

Pelo mesmo motivo que os homens graves e sérios não comparecem às assembleias de medíocre importância. para convencer os incrédulos. gravidade e recolhimento.166 ALLAN KARDEC dês. não pode ver uma coisa séria naquilo de que se zomba. mortos. 46. Vivos. A frivolidade das reuniões dá como resultado atrair os Espíritos levianos que só procuram ocasião de enganar e mistificar. pode convencê-lo. os Espíritos sérios só comparecem às reuniões sérias. Do que precede. resulta que toda reunião espírita. em recolhimento. e ainda menos que eles venham dar-se em espetáculo para desfastio dos curiosos. Em vão se alega a utilidade de certas experiências curiosas. frívolas e divertidas. é diante de suas palavras graves e solenes. porém. 45. a que depois de desencarnados ainda têm mais direito. a instrução. O incrédulo. não a curiosidade. O que. Ê nessas assembleias que os Espíritos superiores dão ensinamentos. que o vemos comover-se e empalidecer. ter-se-ia com eles todas as considerações. para ser proveitosa. é a um resultado contrário que se chega. retira-se sempre com má impressão das reuniões fúteis e levianas. religiosidade e dignamente. Convém não esquecer que se esses mesmos Espíritos aí se tivessem apresentado. nem pode respeitar o que lhe não é apresentado de modo respeitável. onde não encontra ordem. devendo aí proceder-se com respeito. se se quer obter o concurso habitual dos bons Espíritos. que têm por fim. a questões ociosas em que se lhes manifeste pouca afeição. quando encarnados. deve. também o não fazem. falta de respeito e nenhum desejo de se instruir. é a prova da presença de seres cuja memória lhe é cara. já propenso a escarnecer das mais sagradas crenças. como condição primacial. ser séria. . 44. por isso. de suas revelações íntimas. eles não o fariam. sobretudo.

3 do outro mundo e no teatro que aparecem os mortos descarnados. elas ainda concorrem para a convicção de algumas pessoas. envoltos em mortalhas e fazendo chocalhar os ossos. prestam-se à crítica dos detratores. a todos os respeitos. É só nos romances. incrédulo como é. Ainda que menos necessárias hoje. além de que. sua consciência repele essa aliança do sério com o ridículo. que nunca fez milagres. da qual deram a chave. por isso tacha tudo de charlatanismo e. deverá dissipar tal erro. porque afastam da doutrina maior número de pessoas do que atraem. saindo dos sepulcros. no meio de mesas que dançam e das gatimanhas dos Espíritos brincalhões. muito melhores resultados. o ser espiritual. sai menos convicto do que entrou. que assim acham fundados motivos para zombarias. se não têm a importância do ensino filosófico. do religioso com o profano. algumas crêem que elas consistem em fazer sair da tumba os mortos. Quando o corpo está na tumba. De nenhum modo. muitas vezes. convenceriam com mais facilidade e produziriam. não produz este e jamais pretendeu fazer reviver um corpo morto. fica chocado e escandalizado ao vê-la mostrar-se em uma assembleia irreverente. aí não se . O Espiritismo. 47. Certas pessoas fazem uma ideia muito falsa das evocações.O QUE É O ESPIRITISMO 167 Mas. porém. pelo fato mesmo de ele ter respeito. porém. fluídico e inteligente. são elas incompatíveis com a ordem e a decência que deve haver nessas reuniões experimentais. As reuniões dessa natureza fazem sempre mais mal que bem. 48. O pouco que a respeito temos dito. nos contos fantásticos de alma. com todo o aparato lúgubre. veneração e amor à pessoa cuja alma se lhe apresenta. se sempre as praticassem convenientemente. têm sua utilidade do ponto de vista dos fenómenos. pois que são o alfabeto da ciência. Erra quem considera brinquedo as manifestações físicas. não sairá mais dela.

sem conhecê-lo. se dessem ao trabalho de estudá-lo. e dar aos crentes ideias mais justas sobre o futuro. que o emprego de qualquer sinal ou objeto material. para nos comunicarmos com os Espíritos. A crítica malévola representou as comunicações espiritas como mescladas pelas práticas ridículas e supersticiosas da magia e da nigromancia. uma vez operada essa separação. não existem fórmulas nem palavras sacramentais ou cabalísticas. não há dias. sem que saiam do estado normal. seja para repeli-los. 49. horas e lugares mais propícios uns que os outros. se esses homens que falam do Espiritismo. é a única coisa que se recomenda às pessoas sérias que desejem entrar em relação com Espíritos sérios. finalmente. não exerce efeito algum.168 ALLAN KARDEC acha com esse grosseiro invólucro. com respeito e recolhimento. Só o chsrlatanismo pode inventar o emprego de modos excêntricos e acessórios ridículos. do qual se separou no momento da morte. que os médiuns recebem as comunicações. e. nada mais há de comum entre eles. que. para evocá-los. e. seja para atraí-los. teriam poupado esses desperdícios de imaginação. O apelo aos Espíritos faz-se em nome de Deus. bastando só o pensamento. tão simples e naturalmente como se fossem ditadas por uma pessoa viva. que não se precisa para isso de preparação alguma. O fim providencial das manifestações é convencer os incrédulos de que tudo para o homem não se acaba com a vida terrestre. . que só servem para provar sua ignorância ou má-vontade. nem de iniciação. As pessoas estranhas à ciência cumpre-nos dizer que. FM PROVIDENCIAL DAS MANIFESTAÇÕES ESPIRITAS 50.

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Os bons Espíritos nos vêm instruir para nosso melhoramento e avanço e não para revelar-nos o que não devemos saber ainda, ou o que só deve ser conseguido pelo nosso trabalho. Se bastasse interrogar os Espíritos para obter a solução de todas as dificuldades científicas, ou para fazer descobertas e invenções lucrativas, todo ignorante podia tornar-se sábio sem estudar, todo preguiçoso ficar rico sem trabalhar; é o que Deus não quer. Os Espíritos ajudam o homem de génio pela inspiração oculta, mas não o eximem do trabalho nem das investigações, a fim de lhe deixar o mérito. 51. Faria ideia bem falsa dos Espíritos, quem neles quisesse ver auxiliares dos leitores da buema-dicha. Os Espíritos sérios se recusam a ocupar de coisas fúteis; os frívolos e zombeteiros tratam de tudo, respondem a tudo, predizem tudo o que se quer, sem se importarem com a verdade, e encontram maligno prazer em mistificar as pessoas demasiado crédulas. Neste caso, é essencial conhecer-se perfeitamente a natureza das perguntas que se podem dirigir aos Espíritos. (O Livro aos Médiuns, n." 286: Perguntas que se podem fazer aos Espíritos.) 52. Fora do terreno do que pode ajudar o nosso progresso moral, só há incerteza nas revelações que se podem obter dos Espíritos. A primeira consequência má, para aquele que desvia sua faculdade do fim providencial, é ser mistificado pelos Espíritos enganadores que pululam ao redor dos homens; a segunda é cair sob o domínio desses mesmos Espíritos, que podem, por pérfidos conselhos, conduzi-lo a adversidades reais e materiais na Terra; a terceira é perder, depois da vida terrestre, o fruto do conhecimento do Espiritismo. 53. As manifestações não são, pois, destinadas a servir aos interesses materiais; sua utilidade está nas

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consequências morais qilas dimanam; não tivessem, elas, porém, como resu senão fazer conhecer uma nova lei da Natureza, dstrar materialmente a existência da alma e sua irridade, e já isso seria muito, porque era largo caminJvo aberto à Filosofia. DO3DIUNS 54. Os médiuns antam numerosíssimas variedades nas suas aptidõejue os torna mais ou menos próprios para obtenção ;al ou tal fenómeno, de tal ou tal género de comuão. Segundo essas apti distinguimo-los por médiuns de efeitos físicos, de ocoações inteligentes, videntes, falantes, auditivos, sens, desenhadores, -poliglotas, poetas, músicos, escrev, etc. Não devemos esper médium aquilo que está fora dos limites da sua face. Sem o conhecimeias aptidões mediúnicas, o observador não pode a a explicação de certas dificuldades ou de certas isibilidades que se encontram na prática. (O Livro dddxwis, cap. XVI, n.° 185.) 55. Os médiuns eitos físicos são mais particularmente aptos paravocar fenómenos materiais, como movimentos, pan< etc., com o auxílio de mesas e outros objetos; quaísses fenómenos revelam um pensamento ou obedea uma vontade, são efeitos inteligentes que, por mesmo, denotam uma causa inteligente: é um doslos por que os Espíritos se manifestam. Por meio de um mi de pancadas convencionadas, obtêm-se as respostas ,u não, ou, então, a designação das letras do alfabeto servem para formar palavras ou frases. Esse meio ]tivo é muito demorado e não se presta a grandes dolvimentos. As mesas falanteam a estreia da ciência; hoje, porém, que se possueiros de comunicação tão rápidos

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e completos como entre os viventes, ninguém mais recorre àqueles senão acidentalmente e como experimentação. 56. De todos os meios de comunicação, a escrita é, ao mesmo tempo, o mais simples, o mais rápido, o mais cómodo, e que permite mais desenvolvimento; é também a faculdade que se encontra mais frequentemente. 57. Para obter a escrita serviram-se, no princípio, de intermediários materiais, como cestinhas, pranchetas, etc., munidas de um lápis. (O Livro dos Médmms, capítulo XIII, n."s 152 e seguintes.) Mais tarde, reconheceu-se a inutilidade desses acessórios e a possibilidade, para os médiuns, de escrever diretamente com a mão, como nas circunstâncias ordinárias. 58. O médium escreve sob a influência dos Espíritos, que se servem dele como de um instrumento; sua mão é arrastada por um movimento involuntário, que, o mais das vezes, não pode dominar. Certos médiuns não têm consciência alguma do que escrevem, outros a têm mais ou menos vaga, ainda quando o pensamento lhes seja estranho; é o que distingue os médiuns <m0oânioos dos médiuns intuitivos ou semimecámiicos. A ciência espírita explica o modo de transmissão do pensamento do Espírito ao médium, e o papel deste últimos nas comunicações. (O Livro dos Médiuns, cap. XV, n.°s 179 e seguintes; cap. XIX, n.°s 223 e seguintes.) 59. O médium não tem mais que a faculdade de se poder comunicar, mas a comunicação efetiva depende da vontade dos Espíritos. Se estes não quiserem manifestar-se, aquele nada obterá; será qual instrumento sem músico que o toque. Visto que os Espíritos só se comunicam quando querem ou podem, não estão sujeitos ao capricho de ninguém; nenhum médium tem o poder de forçá-los a se apresentwem. Isto explica a intermitência da faculdade nos melhores médiuns, e as interrupções que sofrem, às

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vezes, durante muitos meses. Seria, pois, um erro comparar a mediunidade a uma propriedade do talento. O talento adquire-se pelo trabalho, quem o possui é sempre dele senhor; ao passo que o médium nunca o é de sua faculdade, pois que ela depende de vontade estranha. 60. Os médiuns de efeitos físicos que obtêm, regularmente e à vontade, a produção de certos fenómenos, admitindo que nãç> haja embuste, estão em relação com Espíritos de baixa esfera que se comprazem nessa espécie de exibições, e que talvez foram prestidigitadores quando na Terra; seria, porém, absurdo pensar que Espíritos, mesmo de pouca elevação, se divirtam em executar farsas teatrais. 61. A obscuridade necessária à produção de certos efeitos físicos, presta-se, sem, dúvida, à suspeita, mas nada prova contra a realidade deles. Sabemos que em Química algumas combinações não podem ser operadas à luz; que muitas composições e decomposições se produzem sob a ação do fluido luminoso; ora, todos os fenómenos espíritas são resultantes de uma combinação dos fluidos próprios do Espírito com os do médium; desde que esses fluidos são matéria, não admira que, em certas circunstâncias, essa combinação seja contrariada pela presença da luz. 62. As comunicações inteligentes realizam-se igualmente pela ação fluídica do Espírito sobre o médium, sendo preciso que o fluido deste último se identifique com o do Espírito. A facilidade das comunicações depende do grau de afimctade existente entre os dois fluidos. Cada médium é assim mais ou menos apto para receber a impressão ou a impulsão do pensamento de tal ou tal Espírito; podendo ser bom instrumento para um e péssimo para outro. Resulta daí que se achando juntos dois médiuns, igualmente bem dotados, poderá o Espírito manifestar-se por um e não por outro.

Os Espíritos buscam. ou mesmo durante alguns minutos. comunicações de qualquer Espírito. visto que. porque. e mesmo muitos dias antes se for possível. de preferência. impor-lhes o primeiro médium que tenhamos à mão. pelo recolhimento e pela prece. nem com aptidão para produzir todos os fenómenos. qualquer que rial por que ela se faça. fi um erro acreditar-se que basta ser médium para receber. se trata pensamento do Espírito. que só pode nascer da assimilação fluídica. Em todo o caso. em vez do Espírito que se deseja. da transmissão do seja o meio mate- 67. convindo deixar-lhe a escolha do instrumento. pode ela tocar qualquer instrumento. seria o mesmo que obrigar uma pianista a tocar violino. é necessário que o médium se identifique previamente com o Espírito. supondo que. Sem a harmonia. com igual facilidade. 66. os instrumentos que lhes sejam mais apropriados. as comunicações são impossíveis. algumas vezes. outras vezes — e é o caso mais comum — ela não se estabelece senão gradualmente e com o tempo. 64. totalmente impossível entre certos Espíritos e certos médiuns. Podem ser falsas. necessária nas coescrita. de modo a . por saber música. Não se pode impor um médium ao Espírito que se quer evocar. A assimilação fluídica é. é o que explica a maior facilidade com que os Espíritos se manifestam pelo médium com que estão mais habituados. Não existem médiuns universais para as evocações. não faltam outros sempre prontos a manifestarem-se e que pouco se importam com a verdade. incompletas ou falsas. e também porque as primeiras comunicações atestam quase sempre certo constrangimento e são menos explícitas. A assimilação fluídica é tão municações pela tiptologia como pela tanto num como noutro caso. 65.O QUE É O ESPIRITISMO 173 63.

-ignorante ou orgulhoso. (O Lwro aos Médiuns. 68. quanto é importante ser o médium bem assistido. o pensamento não vem senão em segunda mão. pela natureza dos Espíritos que ele atrai a si. mas. a prática do Espiritismo. essas simpatias não ficam. é essencial saber distinguir as diferentes naturezas dos Espíritos que se podem manifestar. a influência do meio. neste caso. demonstradas pelos nomes. 69. Os mais indignos médiuns podem possuir poderosas faculdades. Quando as condições fluídicas não são propícias à comunicação direta do Espírito ao médium. se ele o for por um Espírito obsessor. pedindo o impossível.) . de forma. apresenta numerosas dificuldades e não é isenta de inconvenientes para quem não tem a experiência necessária. É um meio de se atenuar a dificuldade. a fim de que se não perca tempo. mais ou menos imponentes. pelo fundo constamtemente bom das mesmas. ela pode fazer-se por intermédio do guia espiritual deste último. as condições em que se podem produzir. os obstáculos que lhe podem ser opostos. sim. isto é.174 ALLAN KARDEC provocar e ativar a assimilação fluídica. Qualquer que seja o modo de comunicação. etc. ora. das disposições morais." parte. conhecer a causa de todos os fenómenos. quer se seja simples observador das experiências de outrem. depois de haver atravessado dois meios. Quer se experimente mesmo. algwma. Compreende-se. 2. porém. Não é menos necessário conhecer todas as condições e escolhos da mediunidade. a comunicação será necessariamente adulterada. revestidos pelos Espíritos que assinam as comunicações. Aqui as qualidades pessoais do médium desempenham forçosamente um papel importante. porque. então. do ponto de vista experimental. os mais seguros são os que a esse poder reúnem as melhores simpatias no mundo espiritual.

XXIII. isto é. o médium tem perfeitamente consciência de não obter coisa alguma boa. mais indispensável é ao médium. a ponto de impedi-lo de julgar as comunicações que recebe. considerar mau todo conselho e toda observação crítica. a quem fornece os meios de prevenir um inconveniente que lhe poderia trazer bem desagradáveis consequências. do qual o médium se liberta. O Espírito que o domina apodera-se de sua confiança. <a fascinação e a subjugação. Este caso não oferece gravidade alguma: é um simples incómodo. é útil para o observador. acaba por se retirar. pode enganar-se sobre a causa e natureza de qualquer mal. deixando momentaneamente de escrever. pode ser iludido pelas aparências. o domínio que certos Espíritos podem exercer sobre os médiuns. "Um dos maiores escolhos da mediunidade é a obsessão.O QUE É O ESPIRITISMO ESCOLHOS DA MEDIUNIDADE 175 70. a repelir e. Se o estudo prévio. não conhecendo os caracteres desse fenómeno. porque nela o médium é completamente iludido. como aquele que. fazendo-lhe achar sublimes os maiores absurdos. justo e verdadeiro senão o que ele escreve. neste caso. cap. A obsessão apresenta três graus principais bem característicos: a obsessão simples. Assim. (O Làwro 'dos Médiwns. cansando-se de não ser ouvido. é pouca toda a recomendação para que o estudo preceda à prática. mesmo. impondo-se-lhes sob nomes apócrifos e impedindo que se comuniquem com outros Espíritos. preferindo romper com os amigos a convencer-se de que está sendo enganado. O Espírito. O caráter distintivo deste género de obsessão é provocar no médium uma excessiva suscetibilidade e levá-lo a não acreditar bom. ele não se ilude acerca da natureza do Espírito que se obstina em se lhe manifestar. No primeiro. a encher-se de inveja contra . A fascinação obsessional è muito mais grave.) 71. Ê também um obstáculo que se depara a todo observador novato e inexperiente que. e do qual deseja desembaraçar-se. desconhecendo a medicina.

Resulta daí que a impressão que em nós produzem os maus Espíritos é sempre penosa. 73. Ela se limita. os bons nunca se impõem. na subjugação. às vezes. muitas vezes. Este estado difere essencialmente da loucura patológica com que erradamente a confundem. Essa atuação do Espírito pode chegar ao ponto de ser o indivíduo conduzido a dar os passos mais ridículos e comprometedores. ela provoca uma agitação febril. a simples impressões desagradáveis. muitas vezes. e. branda e agradável. a querer impor-se nas reuniões espíritas. atos insensatos. mas não pode abster-se. onde só havia uma causa moral. determinar o aparecimento de uma verdadeira loucura. é um constrangimento físico exercido sempre por Espíritos da pior espécie e que pode ir à neutralização do livre-arbítrio do paciente. pelo contrário. compreende o ridículo. essa causa é externa. Na loucura propriamente dita. a dos bons.176 ALLAN KARDBC os outros médiuns cujas comunicações sejam julgadas melhores que as suas. importa restituir o organismo ao seu estado normal. sendo diversa a causa. muitas vezes provoca movimentos desordenados. porém uma força . palavras injuriosas ou incoerentes. pois na possessão não há lesão orgânica alguma. A aplicação do processo ordinário das duchas e tratamentos corporais poderá. designada outrora sob o nome de possessão. das quais se afasta quando não pode dominá-las. porém. se não são atendidos. Um dos caracteres distintivos dos maus Espíritos é a imposição. gritos. outros devem ser também os meios de curá-la. e tem-se necessidade de libertar o doente de um inimigo invisível. é calma. 72. a causa do mal é interna. movimentos bruscos e desordenados. 74. eles dão ordens e querem ser obedecidos. não lhe opondo remédios materiais. fatigante e muitas vezes desagradável. A subjugação óbsessiomal. de que o subjugado. dão conselhos. retiram-se.

e que ela se encontra. só o Espiritismo pode dar os meios de combatê-lo. de todos os graus. Pela mediunidade o ente maléfico denuncia a sua presença. porém. Indicando a verdadeira fonte do mal. não admitem essa causa oculta. (O Lwro dos Medi/uns. ela pode apresentar caráter epidêmico. designados sob o nome de demónios. muitas vezes. em grande número de pessoas que nunca ouviram falar de Espiritismo. se manifestaria por outros efeitos. mas. qualquer que seja a sua natureza. sem ela. que escapam às investigações da medicina. sem a mediunidade. 77. que então fica livre. muitas vezes atribuídos a enfermidades misteriosas. por conselhos prudentemente dirigidos. quando a . A subjugação obsessional é ordinariamente individual. fazendo a educação moral do Espírito obsessor.) 75. têm sempre exercido a mesma influência. A experiência prova que nunca. pelo que podemos dizer com certeza que todo médium obsidiado sofre de um modo qualquer e. os efeitos dessa influência que. chega-se a torná-lo melhor e a fazê-lo renunciar voluntariamente à atormentação do enfermo. — La jeune obséãée de Marmcunde. tendo existido em todos os tempos. é um inimigo oculto. é independente da mediunidade. Os que repelem tudo que não afete os nossos sentidos. os Espíritos. uma falange de Espíritos maus se lança sobre uma povoação. quando. — Revue Spvrite. em tal caso. fevereiro. Foi um fenómeno desse género que se verificou ao tempo do Cristo. De fato. nos atos mais comuns da sua vida. os exorcismes produziram resultado satisfatório: antes agravaram que minoraram a situação. março e junho de 1864. de quem se não desconfia." 279. e restituir a calma às suas vítimas. n.O QUE É O ESPIRITISMO 177 moral superior à dele. 76. Um fato importante a considerar-se é que a obsessão. principalmente do último. só um poder moral superior podia então domar esses entes malfazejos. a mediunidade não é uma causa. mas simples modo de manifestação dessa influência.

excelentes comunicações.) QUALIDADES DOS MÉDIUNS 79. algumas vezes. que não . (O Livro dos Médiuns. XXIV. Não se dá. pois. 80. será um novo caminho aberto ao progresso e a chave de grande número de fenómenos até hoje mal compreendidos. torna-se um ponto essencial o saber reconhecer-se a natureza dos que se apresentam. O conhecimento prévio dos meios de distinguir os bons dos maus Espíritos é. Ele o é também ao simples observador. um poder que reage sobre as coisas físicas. assim como sobre as morais. mas o prevenido percebe o menor sinal suspeito. vendo que nada pode fazer. 78. A boa ou má qualidade de um médium não deve ser julgada pela facilidade com que ele obtém comunicações. reconhecerá na ação do mundo invisível que nos cerca. ela se nos mostra. cap.178 ALLAN KARDEC Ciência tiver saído da senda materialista. Os médiuns menos moralizados recebem também. Os Espíritos bons se comunicam mais ou menos de boa-vontade por esse ou aquele médium. mas por sua aptidão em recebê-las boas e em não ser ludibriado pelos Espíritos levianos e enganadores. retira-se. e o Espírito. segundo a simpatia que lhe votam. que pode. apreciar o justo valor do que vê e ouve. e no meio do qual vivemos. o mesmo com a preferência que os Espíritos bons dão ao médium. Como a obsessão nunca pode ser produto de um bom Espírito. como nos mais indignos. O médium não esclarecido pode ser enganado pelas aparências. desenvolvida. indispensável ao médium que se não quer expor a cair num laço. tanto nos mais dignos. 81. porém. A faculdade mediúnica é uma propriedade do organismo e não depende das qualidades morais do médium. por esse meio.

deixam-no logo que encontram outro que lhes seja mais afim e melhor se aproveite de suas lições. porque os bons Espíritos permitem mesmo. cuja bondade é infinita. vem de uma fonte má. primeiro. não faz mais que os bons Espíritos com os médiuns imperfeitos. tão bela no começo e que assim devia ter sido conservada. muitas vezes. para não ter algum lado fraco. porém. pessoa assaz perfeita. qualquer que seja o nome que o apadrinhe. com algumas decepções. o que não deve ser motivo de espanto: é muitas vezes no interesse dos médiuns e com o fim de dar-lhes sábios conselhos. querendo dar um ensino útil a todos. os que não procuram emendar-se. Retirando-se os bons Espíritos. De outra sorte. Essas mistificações ainda podem ser uma prova para a paciência e perseverança do espírita. afinal. pelo qual dê acesso aos maus Espíritos. O virtuoso missionário que vai moralizar os criminosos. não aceitando cegamente e sem exame tudo quanto nos venha dos Espíritos. os conduzem à ruína e às maiores desgraças. servem-se do instrumento que têm à mão. os inferiores. porque não há ainda. porque são eles que lavram a sua própria condenação. maior será a sua culpa. tarde ou cedo são presas dos maus Espíritos. porém. Se eles os desprezam. às vezes. mesmo na vida terrena. Os médiuns de mais mérito não estão ao abrigo das mistificações dos Espíritos embusteiros. que pouco se importam com as más qualidades morais do médium. Quanto à sua faculdade. a fim de exercitarmos a nossa razão. 82.O QUE Ê O ESPIRITISMO 179 podem vir senão de bons Espíritos. Resulta daí que os médiuns imperfeitos. entre nós. e. aprendermos a distinguir a verdade do erro e ficarmos de prevenção. perverte-se pelo abandono dos bons Espíritos. segundo. dão . que. nunca. um Espírito bom nos virá enganar. e aqueles que desanimam. médium ou não. os bons Espíritos. moralmente falando. não pode recusar assistência àqueles que mais necessitam dela. que os maus venham. Deus. desaparece. acham então o campo livre. o erro.

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prova aos bons Espíritos de que não são instrumentos com que eles possam contar. 83. Não nos deve admirar ver maus Espíritos obsidiarem pessoas de mérito, quando vemos na Terra homens de bem perseguidos por aqueles que o não são. É digno de nota que, depois da publicação de O Livro dos Médiuns, o número de médiuns obsidiados diminuiu muito; os médiuns, prevenidos, tornam-se vigilantes e espreitam os menores indícios que lhes podem denunciar a presença de mistificadores. A maioria dos que se mostram ainda nesse estado não fizeram o estudo prévio recomendado, ou não deram importância aos conselhos que receberam. 84. O que constitui o médium, propriamente dito, é a faculdade; sob este ponto de vista, pode ser mais ou menos formado, mais ou menos desenvolvido. O médium seguro, aquele que pode ser realmente qualificado de bom médium, é o que aplica a sua faculdade, buscando tornar-se apto a servir de intérprete aos bons Espíritos. O poder que tem o médium de atrair os bons e repelir os maus Espíritos, está na razão da sua superioridade moral, da posse do maior número de qualidades que constituem o homem de bem; é por esses dotes que se concilia a simpatia dos bons e se adquire ascendência sobre os maus Espíritos. 85. Pelo mesmo motivo, as imperfeições morais do médium, aproximando-o da natureza dos maus Espíritos, tiram-lhe a influência necessária para afastá-los de si; em vez de se impor, sofre a imposição destes. Isto não só se aplica aos médiuns, como também a todos indistintamente, visto que ninguém há que não esteja sujeito à influência dos Espíritos. (Vede acima, números 74 e 75.) 86. Para impor-se ao médium, os maus Espíritos sabem explorar habilmente todas as suas fraquezas, e,

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entre os nossos defeitos, o que lhes dá margem maior é o orgulho, sentimento que se encontra mais dominante na maioria dos médiuns obsidiados e, principalmente, nos fascinados. É o orgulho que faz se julguem infalíveis e repilam todos os conselhos. Esse sentimento é infelizmente excitado pelos elogios de que são objeto; basta que um médium apresente faculdade um pouco transcendente, para que o busquem, o adulem, dando lugar a que ele exagere sua importância e se julgue como indispensável, o que vem a perdê-lo. 87. Enquanto o médium imperfeito se orgulha pelos nomes ilustres, frequentemente apócrifos, que assinam as comunicações por ele recebidas e se considera intérprete privilegiado das potências celestes, o bom médium nunca se crê assaz digno de tal favor; ele tem sempre uma salutar desconfiança do merecimento do que recebe e não se fia no seu próprio juízo; não sendo senão instrumento passivo, compreende que o bom resultado não lhe confere mérito pessoal, como nenhuma responsabilidade lhe cabe pelo mau; e que seria ridículo crer na identidade absoluta dos Espíritos que se lhe manifestam. Deixa que terceiros, desinteressados, julguem do seu trabalho, sem que o seu amor-próprio se ofenda por qualquer decisão contrária, do mesmo modo que um ator não se pode dar por ofendido com as censuras feitas à peça de que é intérprete. O seu caráter distintivo é a simplicidade e a modéstia; julga-se feliz com a faculdade que possui, não por vanglória, mas por lhe ser um meio de tornar-se útil, o que faz de boamente quando se lhe oferece ocasião, sem jamais incomodar-se por não o preferirem aos outros. Os médiuns são os intermediários, os intérpretes dos Espíritos; ao evocador e, mesmo, ao simples observador, cabe apreciar o mérito do instrumento. 88. Como todas as outras faculdades, a mediunidade é um dom de Deus, que se pode empregar tanto para o bem quanto para o mal, e da qual se pode abusar. Seu fim é pôr-nos em relação direta com as almas da-

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queles que viveram, a fim de recebermos ensinamentos e iniciações da vida futura. Assim como a vista nos põe em relação .com o mundo visível, a mediunidade nos liga ao invisível. Aquele que dela se utiliza para o seu adiantamento e o de seus irmãos, desempenha uma verdadeira missão e será recompensado. O que abusa e a emprega em coisas fúteis ou para satisfazer interesses materiais, desvia-a do seu fim providencial, e, tarde ou cedo, será punido, como todo homem que faça mau uso de uma faculdade qualquer. CHARLATANISMO 89. Certas manifestações espíritas facilmente se prestam à imitação; porém, apesar de as terem explorado os prestidigitadores e charlatães, do mesmo modo que o fazem com tantos outros fenómenos, é absurdo crer-se que elas não existam e sejam sempre produto do charlatanismo. Quem estudou e conhece as condições normais em que elas se dão, distingue facilmente a imitação da realidade; além disso, aquela nunca pode ser completa e só ilude o ignorante, incapaz de distinguir as diferenciações características do fenómeno verdadeiro. 90. As manifestações que se imitam, com mais facilidade, são as de efeitos físicos e as de efeitos inteligentes vulgares, como movimentos, pancadas, transportes, escrita direta, respostas banais, etc.; não se dá o mesmo, porém, com as comunicações inteligentes de subido alcance; para imitar aquelas, bastam destreza e habilidade; ao passo que, para simular as últimas, se torna necessária, quase sempre, uma instrução pouco comum, uma superioridade intelectiva excepcional, uma faculdade de improvisação universal, se assim nos permitem classificá-la.

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91. Os que não conhecem o Espiritismo, são geralmente induzidos a suspeitar da boa-fé dos médiuns; só o estudo e a experiência lhes poderão fornecer os meios de se certificarem da realidade dos fatos; fora disso, a melhor garantia que podem ter está no desinteresse absoluto e na probidade do médium; há pessoas que, por sua posição e caráter, estão acima de qualquer suspeita. Se a tentação do lucro pode excitar à fraude, o bpm-senso diz que o charlatanismo não se mostra onde nada tem a ganhar. (O Livro dos Médiuns, cap. XXVIII; Charlatanisimo e embuste, médiuns vnteressevros, fraudes espíritas, n." 300. — Revue Spirite, 1862, pág. 52.) 92. Entre os adeptos do Espiritismo, encontram-se entusiastas e exaltados, como em todas as coisas; são, em geral, os piores propagadores, porque a facilidade com que, sem exame, aceitam tudo, desperta desconfiança. O espírita esclarecido repele esse entusiasmo cego, observa com frieza e calma, e, assim, evita ser vítima de ilusões e mistificações. À parte toda a questão de boa-fé, o observador novato deve, antes de tudo, atender à gravidade do caráter daqueles a quem se dirige. IDENTIDADE DOS ESPÍRITOS 93. Uma vez que no meio dos Espíritos se encontram todos os caprichos da humanidade, não podem deixar de existir entre eles os ardilosos e os mentirosos; alguns não têm o menor escrúpulo de se apresentar sob os mais respeitáveis nomes, com o fim de inspirarem mais confiança. Devemos, pois, abster-nos de crer de um modo absoluto na autenticidade de todas as assinaturas de Espíritos. 94. A identidade é uma das grandes dificuldades do Espiritismo prático, sendo muitas vezes impossível verificá-la, sobretudo quando se trata de Espíritos superiores, antigos relativamente à nossa época.

para fixar as nossas ideias. essas provas são superabundantes. linguagem e até locuções familiares. que ele satisfaça às perguntas diretas que lhe são feitas a esse respeito. de modo incontestável. se um Espírito se comunicar com o nome de S. muitos não têm nomes para nós. tanto pode ser ele como outro da mesma ordem. cujo caráter e hábitos sejam conhecidos. o erro . caráter. nada nos prova que seja precisamente o apóstolo desse nome. como ainda um enviado seu. Pedro. patenteadas nas comunicações. Ela se revela ainda nos detalhes íntimos em que entra espontaneamente. senão imperfeitamente. da mesma categoria da sua. por exemplo. são insuficientes e podem induzir a erro. 95. então. se esta o subscreveria ou repeliria: eis a questão. que geralmente emprega para isso quem não conhece o Espiritismo. Quando se evoca um parente ou um amigo. é muito raro. se é bom ou mau. digno ou indigno da personagem que o assina. 96. A identidade é de mais fácil verificação quando se trata de Espíritos contemporâneos. porque é por esses mesmos hábitos e particularidades da vida privada que a identidade se revela mais seguramente e. inteiramente secundária e seria pueril atribuir-lhe importância. O Espírito demonstra a sua identidade como quer e pode. sobretudo se elas partirem de pessoas que lhe são indiferentes. A questão da identidade é. com intuito de curiosidade ou de prova. eles podem tomar o de um Espírito conhecido. os meios. muitas vezes. segundo o género de faculdade do seu intérprete e. mas. é a personalidade que interessa. porém. nas quais se refletem seus hábitos. e então é muito natural buscar-se reconhecer a identidade.184 ALLAN KARDEC Entre os que se manifestam. O Espírito revela sua identidade por grande número de circunstâncias. o que importa é a natureza do ensino. com as pessoas a quem ama: são as melhores provas. de modo que. às vezes. neste caso. porém.

cap.) CONTRADIÇÕES 97. Por pouco que se esteja iniciado nos mistérios do mundo espiritual. mas os Espíritos superiores nunca se contradizem. como deseja o evocador. Somente os Espíritos inferiores mudam de linguagem com as circunstâncias. As contradições que frequentemente se notam. não podem causar admiração senão àqueles que só possuem da ciência espírita um conhecimento incompleto. disso com segurança se pode inferir que se duas comunicações. é então que ele recusa sujeitar-se às exigências. sobre aquilo que ainda não conhecem. particularmente no que diz respeito a questões científicas e à origem das coisas. 82: Fait d'id0ntí. trazem o mesmo nome respeitável.té. 99. uma delas é necessariamente apócrifa. é submeter todas as comunicações ao exame severo da razão. pois. na linguagem dos Espíritos. eles não emitem mais que a sua opinião pessoal. pág. para dar mais peso às suas palavras. — Revue Spirite. que pode ser mais ou menos acertada. em que nem sempre estejam de acordo. (O Livro dos Méditutns. sabe-se com que facilidade certos Espíritos adotam nomes diferentes. há de surpreendente. do bom-senso . radicalmente contraditórias no fundo. sendo que muitos podem saber menos que certos homens. Nada. Espantam-se de encontrarem comunicações contraditórias assinadas por um mesmo nome. como já dissemos. não sabem as coisas senão na razão do seu adiantamento. Identidade dos Espíritos. Dois meios podem servir para fixar as ideias sobre as questões duvidosas: o primeiro. outros forjam sistemas seus. 1862. 98. que. e conservar ainda um reflexo dos prejuízos terrestres de que se não despojaram. pois são a consequência da natureza mesma dos Espíritos.O QUE Ê O ESPIRITISMO 185 está em querer que ele as dê. XXIV. Sobre grande número de pontos.

O segundo critério da verdade está na concordância do ensino. 99: Autorité de Ia doctrine spirite. abril 1864. o estudo do Espiritismo? Para provar materialmente a existência do mundo espiritual. Descrevendo-nos seu estado e situação. XXVII. pág. — Revue Spirite. Quando o mesmo princípio é ensinado em muitos pontos por diferentes Espíritos e médiuns estranhos uns aos outros e isentos de idênticas influências. — O Evangelho segundo o Espiritismo — "Introdução". (O Livro dos Médwms. então. nisto temos a prova das penas e recompensas futuras. que é indefinida. Passando assim a vida futura do estado de teoria vaga e incerta ao de fato conhecido e positivo. em proveito da vida futura. Suponhamos que um homem de vinte anos tenha a certeza de morrer aos vinte e cinco anos. As almas que se manifestam. durante a vida presente. que é tão curta. abstêm-se de fazê-la os maus. aparece a necessidade de trabalhar o mais possível.186 ALLAN KARDEC e da lógica. cap. perguntarão: para que serve. resulta de sua admissão a prova da existência da alma e sua sobrevivência ao corpo. segundo o modo por que empregaram o tempo de vida terrena. que fará ele . nos revelam suas alegrias ou seus sofrimentos. é uma recomendação que fazem todos os bons Espíritos. Contradições e mistificações. as almas ou Espíritos retificam as ideias falsas que faziam da vida futura e.) CONSEQÍJÊNCIAS DO ESPIRITISMO 100. pois sabem não ter senão a perder com esse exame sério. principalmente. Ante a incerteza das revelações feitas pelos Espíritos. acerca da natureza e duração das penas. pode-se concluir que ele está mais próximo da verdade do que aquele que emana de uma só fonte e é contradito pela maioria. pelo que evitam discussão e querem ser cridos sob palavra. Sendo o mundo espiritual formado pelas almas daqueles que viveram.

não só os bens materiais como as honrarias. o homem. e assim. por qualquer preço. porém. nada esperando. por isso. o passo é simples. não vê senão na morte o termo dos seus sofrimentos. a atual se torna para o homem a coisa capital. ao qual ele tudo subordina. durante longos anos. A certeza da vida futura e de suas consequências muda-lhe totalmente a ordem de ideias e lhe faz ver as coisas por outro prisma. processos. elevar-se acima dos outros. O mesmo se dá com aquele que tem a certeza da'vida futura. acreditando ser uma tolice submeter-se a fadigas e privações. porque nada mais vê além. o que o vizinho possui. daí ódios. Com a dúvida sobre o futuro. procurará gozar o mais possível. aspira a brilhar. o único objeto de suas preocupações. seu procedimento será outro. Sem a vida futura. Os abalos violentos que experimenta. eclipsar os vizinhos por seu fausto e posição. . Se. querelas. A importância que se dá aos bens materiais excita a cobiça. repercutem-lhe no cérebro e são a fonte da maioria dos casos de loucura. a inveja e o ciúme do que tem pouco contra aquele que tem muito. daí a ambição desordenada e a importância que liga aos títulos e a todos os efeitos da vaidade. acabrunhado nesta vida pelo desgosto e pelo infortúnio. pelos quais ele é capaz de sacrificar a própria honra. procura pelo suicídio a aproximação desse termo.O QUE E O ESPIRITISMO 187 nestes cinco anos que lhe restam? trabalhará para o futuro? certamente que não. A dúvida relativamente a esse ponto conduz naturalmente a tudo sacrificar aos gozos do presente. sem proveito. Sem esperança de futuro é natural que o homem seja afetado e se desespere com as decepções por que passa. porque então compreenderá a necessidade de sacrificar alguns instantes do repouso atual para assegurar o repouso futuro. quer gozar a todo custo. Da cobiça ao desejo de adquirir. ele tiver a certeza de viver até aos oitenta anos. daí ligar-se excessiva importância aos bens materiais. guerras e todos os males engendrados pelo egoísmo.

mesquinho. afasta numerosos casos de loucura e desvia forçosamente o pensamento do suicídio. impreterivelmente. e ficamos pasmos de haver dado importância a coisas tão efémeras e pueris. por consequência. O exame daqueles que já viveram.188 ALLAN KARDEC é um véu que se levanta descobrindo imenso e esplêndido horizonte. compreenderão que a lei da caridade ensinada pelo Cristo é a fonte da felicidade. tirando todo motivo de desespero. com a dúvida perde a paciência. este. imprime em quantos estão bem convencidos dessa verdade uma tendência. comparadas às desordens e tormentos a que nos sujeitamos. em uma palavra. como o grão de areia ao lado de uma montanha. uma tranquilidade que já constituem uma felicidade. mesmo neste mundo. procurarão os homens não mais se molestarem uns aos outros. a vida terrena some-se. Tudo se torna pequeno. quando ela professar esses princípios e praticar o bem. no meio dos acontecimentos da vida. e assim basearão as leis civis sobre as leis da caridade. o homem espera e se resigna. como um segundo na contagem dos séculos. é a revelação de uma das forças da Natureza e. com o fito de nos elevarmos acima dos outros. provando que a soma da felicidade futura está na razão do progresso moral efetuado e do bem que se praticou na Terra. porque nada espera do presente. a chave de grande número de fenómenos até . que a soma de desditas está na razão dos vícios e más ações. Quando a maioria dos homens estiver convencida dessa ideia. uma calma. assaz natural. Com a certeza do futuro. uma indiferença que. Diante da infinidade e grandeza da vida de Além-Túmulo. também. Daí. triunfará do mal aqui na Terra. para fazer o bem e evitar o mal. A demonstração da existência do mundo espiritual que nos cerca e de sua ação sobre o mundo corporal. regularão suas instituições sociais — tendo em vista o bem de todos e não o proveito de alguns. daí. para as vicissitudes e decepções.

O QUE É O ESPIRITISMO 189 agora incompreendidos. ora. sobre um ponto de ciência. os professores ensinam a existência da alma e seus atributos. será uma alavanca para o progresso. tanto na ordem física quanto na moral. como. cujo dever é provar a seus discípulos que eles têm uma alma. eles infiltrarão na mocidade o contraveneno das ideias materialistas. mas que de tal fato não têm prova alguma? Quando um sábio emite uma hipótese. produzirá o efeito da descoberta de um agente inteiramente novo. Quando a Ciência levar em conta essa nova força até hoje desconhecida. nos fenómenos da Natureza. Suponhamos que os Espíritos sejam incapazes de ensinar-nos alguma coisa além do que já sabemos. Com o auxílio da lei espírita. Quando do alto de suas cátedras os sábios proclamarem a existência do mundo espiritual e sua participação nos fenómenos da vida. em vez de predispô-la à negação do futuro. um professor de filosofia. ou do que por nós mesmos poderemos saber. Nas lições de filosofia clássica. eles as repilam e classifiquem de superstições? Não será isso o mesmo que confessar a seus discípulos que eles lhes ensinam a existência da alma. segundo as diversas escolas. uma revolução nas ideias não pode deixar de produzir . procura com empenho e colhe com alegria tudo o que possa demonstrar a veracidade dessa hipótese. o horizonte da Ciência se alargará. pois. mas sem apresentar provas materiais. despreza os meios de lhes fornecer uma patente demonstração ? 101. Não parece estranho que. O conhecimento dessa nova causa. como se alargou com o da lei da gravitação. quando se lhes fornecem as provas que não tinham. retificará imenso número de erros provenientes de atribuir tudo a uma única causa: a matéria. vê-se que só a demonstração da existência do mundo espiritual conduz forçosamente a uma revolução nas ideias.

esses germens que. sendo fundadas sobre leis naturais. a fim de só se lhe pedir o que ela pode dar e do modo por que o pode fazer. se elas exigem minuciosas precauções para se lhes comprovar a exatidão. ultrapassando esses limites é que nos expomos a ser enganados. As menores causas podem produzir grandes efeitos. ou mesmo nenhuma. como não descobriu o mundo espiritual. saltando num prato.190 AIJLAN KARDEC outra na ordem das coisas. porém. conseguiram desenvolver. em virtude do axioma — nada há de nova debaixo ao Sol. as rãs. pelo que encontraremos. revelaram a potência galvânica. existiram de todos os tempos. mediante estudo mais completo e mais atentas observações. todavia. não é menos real que os Espíritos esclarecidos — quando sabemos interrogá-los e quando lhes é permitido —• podem revelar-nos fatos ignorados. a queda de um fruto fez descobrir a lei que rege os mundos. 104. As verdades ensinadas pelo Espiritismo são antes consequências que descobertas. as que o Espiritismo prega. É esta revolução que o Espiritismo prepara. em alguns anos. O Espiritismo não descobriu nem inventou os Espíritos. O Espiritismo ensina poucas verdades absolutamente novas. ele o prova por . desta. sobretudo. que o estudo sério e completo da ciência espírita é indispensável. É nisto. Os Espíritos. 102. fazem mais que isso. se as suas revelações são rodeadas de certas dificuldades. fez a volta do mundo e pode regenerá-lo pela verificação da realidade da vida futura. assim como de um grãozinho pode brotar uma árvore imensa. e. no qual se acreditou em todos os tempos. Só as verdades eternas são absolutas. em todas as épocas. dar-nos a explicação do que não compreendemos e encaminhar-nos para um progresso mais rápido. também do fenómeno vulgar das mesas girantes saiu a prova da existência do mundo invisível. 103. uma doutrina que.

O QUE É O ESPIRITISMO 191 fatos materiais e o apresenta em sua verdadeira luz. filhos da dúvida e da incredulidade. o caráter das manifestações e o grau de confiança que podem inspirar. segundo as circunstâncias. desembaraçando-o dos preconceitos e ideias supersticiosas. OBSERVAÇÃO — Estas explicações. incompletas como são. bastam para mostrar a base em que se assenta o Espiritismo. .

Se os mundos são povoados. 65: Plwralité dês mondes. Os diferentes mwmdos que circulam no espaço. nem pelo seu volume. 1858. por Flammarion. Além disso. Se o meio for diverso.CAPITULO m Solução de alguns problemas pela Doutrina Espírita PLURALIDADE DOS MUNDOS 105. e nada justificaria o privilégio exclusivo de ser habitada. poderiam eles viver entre nós. Deus não teria criado milhares de globos. mais ou menos. pág. a mesma. A Terra não ocupa no Universo nenhuma posição especial. nem por sua colocação.° 55. n. (O Livro dos Estpfoitos. serão seus hábitiaintes.) 106. em tudo. semelhantes aos da Terra? Em uma paZcrere. tanto mais que o maior número deles se acha fora de nosso alcance. 7 . — Renuue Spirite. como os peixes são feitos para viver na água e as aves no ar. terão habitantes como a Terra? Todos os Espíritos o afirmam e a razão diz que assim deve ser. como tudo leva a crê-lo e como parece demonstrá-lo as observações astronómicas. com o fim único de recrear-nos a vista. e nós óntre eles f A forma geral poderia ser. mas o organismo deve ser adaptado ao meio em que eles têm de viver.

intelectual e fisicamente. as artes e as ciências já atingiram um grau de perfeição que foge à nossa apreciação. finalmente. Na série progressiva dos mundos. em seu estado normal. Qual a sede da alma? A alma não está. a organização física. moléstias e enfermidades. isentos dos desgostos. outros ainda mais adiantados. (Reme Spirrite. HE. — Idem. Isto é confirmado por todos os Espíritos. — O EvamgeIho segundo o Espiritismo. mais que um desdobramento. não está sujeita aos sofrimentos. eles possam mudar de mundo com os mesmos corpos.194 AIXAN KARDEC a organização deve ser diferente. onde o invólucro corporal. 67. neles. se aproxima cada vez mais da natureza dos anjos. mais material e mais propensa ao mal. 107. um encaixado no outro. AdmAtimido que esses mwnãas sejam povoados. 1860. outros são mais atrasados. como geralmente se crê. págs. . 108 e 223. Podemos figuradamente supor dois corpos semelhantes na forma. sendo sua humanidade mais bruta. localizada num ponto particular do corpo. cuidados. aflições e necessidades que os apoquentam na Terra. de alguma sorte. quase fluídico. pois. o mal moral é desconhecido. o nosso nem ocupa o primeiro nem o último lugar. penetrável. 1858.) DA ALMA 108. Pelo contrário. sem buscar o prejuízo uns dos outros. cap. ela forma com o perispírito um conjunto fluídico. não é. sob o ponto de vista intelectual e "moral? Segundo o ensino dos Espíritos. outros são muito mais adiantados moral. alguns estão no mesmo ponto que o nosso. mas é um dos mais materializados e atrasados. Há. págs. menos material. 318 e 320. do qual a morte não é. os mundos se acham em graus de adiantamento muito diferentes. aí os homens vivem em paz. assimilando-se ao corpo inteiro. com o qual ela constitui um ser complexo. provável que. estarão na mesma colocação que o nosso.

109. isto é. De duas uma: ou a alma existia. como o provam a observação e os fenómenos sonambúlicos. Será a alma. não podem deixar dúvidas a esse respeito. transportar-se ao longe e aí manifestar sua presença. a preexistência da alma. 111.O QUE fi O ESPIRITISMO 195 confundidos durante a vida e separados depois da morte. ao passo que o outro subsiste. Se a átomo. seria como se não existisse. ela é a única capaz de explicar uma multidão de problemas até hoje insolúveis. ou anteriormente a este f Depois da questão da existência da alma. ao mesmo tempo. Ela é. ou estava estacionária? . e os fatos. 110. encontram-se tropeços a cada passo. e. porque de sua solução dimanam as mais importantes consequências. antes da suia união com o corpo tinha ela sua individualidade e consciência de si? Sem individualidade e sem consciência de si mesma. como a lógica. podendo mesmo isolar-se do corpo. Antes da sua união com o corpo. Os Espíritos resolveram a questão afirmativamente. interna e externa. por não se ter nela acreditado. Nessa ocasião um deles é destruído. e veremos aplainar-se a maioria das dificuldades. criada ao -mesmo tempo cfue o corpo. Durante a vida a alma age mais especialmente sobre os órgãos do pensamento e do sentimento. Com a preexistência da alma tudo se explica lógica e naturalmente. sem ela. já existia. certos dogmas da Igreja ficam sem justificação. mesmo.. já tinha a alma feito algtim progresso. não pode haver meio-termo. é esta uma das questões mais capitais. Admita-se. irradia exteriormente. o que tem conduzido muitos pensadores à incredulidade. ao menos como hipótese. ou não existia antes da formação do corpo.

por que dispensaria ele do trabalho umas. como eocpUcar a diversidade de aptidões e predisposições naturais que notamos entre os homens. mas com igual aptidão para tudo. no estado de alma propriamente dita. As almas mais adiantadas. Sendo todas as criaturas obra sua. o estudo dos diferentes graus de adiantamento do homem. quando o impõe a outras para alcançarem a felicidade eterna? A desigualdade das almas em sua origem seria a negação da justiça de Deus. são as que têm vivido mais e mais progredido antes de sua encarnação. na Terra. (O Livro dos Espíritos.) 115. A princípio. n. na Terra? Essa diversidade é a consequência do progresso feito pela alma. não conciliaria essa preferência com a justiça. ou em precedente existência. 114. Qual o estado da alma em s\ua origem? As almas são criadas simples e ignorantes. 113. sem vontade própria e sem consciência perfeita de sua existência. isto é. corporal ? Além do ensino dos Espíritos sobre esse ponto. prova que o progresso anterior da alma deve . ou fê-las mais 'perfeitas e inteligentes umas que as outras? Se Deus as houvesse feito umas mais perfeitas que as outras.196 ALLAN KARDEC O progresso anterior da alma é simultaneamente demonstrado pela observação dos fatos e pelo ensino dos Espíritos.°s 114 e seguintes. sem ciência e sem conhecimento do bem e do mal. Fez a alma esse progresso anterior. em inteligência e moralidade. Criou Deus as almas iguais moral e intelectualmente. Se as almas são criadas iguais. antes da sua união ao corpo. encontram-se numa espécie de infância. 112. Pouco a pouco o livre-arbítrio se desenvolve. ao mesmo tempo que as ideias.

das disposições precoces. segundo o grau a que ele chegou. abril. a união então é completa e definitiva. . mas não se podem manifestar senão proporcionalmente ao desenvolvimento dos órgãos. abstração feita da instrução? As ideias inatas não podem ter senão duas fontes: a criação das almas mais perfeitas umas que as outras.) O HOMEM DURANTE A VIDA TERRENA 116. Este laço se estreita cada vez mais. no caso de serem criadas ao mesmo tempo que o corpo. páginas 97 a 106. mas. Qual o estado intelectual da alma da criança no momento de nascer? Seu estado intelectual e moral é o que tinha antes da união ao corpo. ocasião em que ela se torna completa. está. o Espírito sente uma perturbação que cresce sempre. o Espírito. — Revue Spirite. por um cordão fluídico. à medida que o corpo se vai desenvolvendo. em razão da perturbação que acompanha a mudança de estado. Qual a origem das ideias inatas. 118. n. preso ao corpo com o qual se deve unir. Como e em que momento se opera a wnião da alma ao corpo? Desde a concepção. ainda que errante. das aptidões instintivas para uma arte ou ciência. Elas se vão esclarecendo aos poucos. isto é. a prova disto está na observação dos fatos que diariamente estão sob os nossos olhos. mais ou menos numerosas.°s 166 a 222. o Espírito perde a consciência de si e não recobra as ideias senão gradualmente. suas ideias se acham momentaneamente em estado latente. 1862. ao aproximar-se do nascimento. 117. Desde esse momento. (O Livro dos Espíritos. a alma possui todas as ideias anteriormente adquiridas. a partir do momento em que a criança começa a respirar.O QUE É O ESPIRITISMO 197 fazer-se em uma série de existências corporais.

Como se podem revelar génios mas classes da sociedade inteiramente privadas de cultura intelectual? É um fato que prova serem as ideias inatas independentes do meio em que o homem foi educado. Por que de dois filhos do mesmo pai. um homem de g\ênio'? É um fato esse que vem em abono da origem das ideias inatas. mas não no-las podem dar. apesar dos bons conselhos que recebem? É o resultado do progresso moral adquirido. 120. educados nas mesmas condições. como lhes transmitem o princípio das qualidades corporais. se assim não fosse. são ideias que se conservaram no estado de intuição. um bom e o outro mau? Por que o filho de um homem de génio é. além disso. 121. como as ideias inatas são o resultado do progresso intelectual. Na geração. Sendo a primeira hipótese incompatível com a justiça de Deus. de sorte alguma. um é às vezes mteligente e o outro estúpido. prova. A educação pode fornecer a instrução que falta. em virtude do axioma que a parte é da mesma natureza que o todo. da dos pais. 119. os pais transmitiriam aos filhos as suas qualidades e defeitos próprios. só fica de pé a segunda. somente o . quando este não exista. Por que encontramos crianças instintivamente boas em um meio perverso. <um tolo. O homem de génio é a encarnação de um Espírito adiantado que muito houvera já progredido.198 ALLAN KARDEC ou um progresso por elas adquirido anteriormente à encarnação. apesar dos maus eocemplos •que colhem. para servirem de base à aquisição de outras novas. e o de um tolo. ao passo que outras são instintivamente viciosas em um meio bom. As ideias inatas são o resultado dos conhecimentos adquiridos nas existências anteriores. que a alma do filho não procede. mas não o génio. algumas vezes. O ambiente e a educação desenvolvem as ideias inatas.

nascidas em." 379. Se as almas são independentes umas das mitras.O QUE Ê O ESPIRITISMO 199 corpo procede do corpo. enquanto outras. sendo por isso punidos. Qual a causa das simpatias e amtipatias que se manifestam entre pessoas que se vêem. mas as almas são independentes umas das outras. que vem juntar-se àqueles a quem amou no mundo espiritual ou em suas precedentes existências. Por outro lado.) 124. só apresentam instintos de baixem? Ê uma reminiscência intuitiva da posição social que o Espírito já ocupou. algumas vezes. n. 122. muitas vezes. os pais têm por missão ajudar o progresso dos Espíritos que encarnam como seus filhos. (Revue Spirite. 125. Deus lhes inspira uma afeição mútua. muitos.) 123. faltam a essa missão. para excitá-los a isso. a um é dado um mau filho. (O Lwro dos Espíritos. e. 270: La Peime ãu ttalian. Por que há maus pais e maius filhos? São Espíritos que não se ligaram na mesma família por simpatia. pela primeira vez? São quase sempre entes que se conheceram e. Por que encontramos em certas pessoas. para punição do que foram em existência anterior. porém. 1861. tal ou tal família não é um efeito do acaso. aonde v&m o amor dos pais pelos filhos e o destes por aqueles? Os Espíritos se ligam por simpatia. e o nascimento em. mas depende muitas vezes da escolha feita pelo Espírito. . pelo mesmo motivo. um mau pai. e que. porque também ele o foi. condição servil. mas com o fim de servirem de instrumentos de provas uns aos outros e. pág. a fim de que sofram a pena de talião. se amaram em uma existência anterior. nascidas nas classes superiores. e do seu caráter na existência precedente. a outro. Da Infância. instintos de dignidade e grandeza.

experimentam. resoluções que ele. é o atributo que a divindade imprime àquele e o eleva acima de todas as outras criaturas. de relações anteriores. Toda punição seria uma injustiça. ou está sujeito à fataUdaOe? Se a conduta do homem fosse sujeita à fatalidade. uns pelos outros. baseia-se na . pelo contacto desses fluidos. duas almas. Tem. lêem uma na outra. pág. são atraídos um para o outro. impressão que pode ser agradável ou desagradável. o homem o livre-aarbítno. nem mérito do bem que pratica. É assim que se pode explicar o fenómeno da transmissão de pensamento. Pelo contacto desses fluidos. Por que não conserva o 'homem a lembrança de suas anteriores emstências? Não será ela necessária ao seu progresso futuro? (Vede a parte que trata do Esquecimento do "passado. sem se falarem. de algum modo. As antipatias instintivas provêm também. muitas vezes. Ê isto tão real que a estima dos homens. 128. toda recompensa um contra-senso. formando uma espécie de atmosfera impregnada das qualidades boas ou más do Espírito encarnado. a impressão sensitiva. 114. 126. O livre-arbítrio do homem é uma consequência da justiça de Deus. muitas vezes. não haveria para ele nem responsabilidade do mal.) 127. O perispírito irradia ao redor do corpo. segundo sua natureza semelhante ou dessemelhante. elas se adivinham e compreendem. Qual a origem do sentimento a que chamamos consciência ? Ê uma recordação intuitiva do progresso feito nas precedentes existências e das resoluções tomadas pelo Espírito antes de encarnar. Duas pessoas que se encontram. os fluidos tendem a confundir-se ou a repelir-se. Esses dois sentimentos podem ainda ter uma outra causa. esquece como homem.200 ALLAN KARDEC encontrando-se nesta.

cujos habitantes são. quanto à predominância deste. O homem nasce bom ou mau. embriaguez ou idiotismo. pág. de observar ou infringir as leis de Deus. porém. Qual a origem do bem e do mal na Terra e por que este predomina? A imperfeição dos Espíritos que aqui se encarnam. pág. porém suscetível. 1861. 132. livre-arbítrio e. de seguir o bom ou o mau caminho. nem sempre as observam. provém da inferioridade do planeta. na maioria. reduz o homem ao estado de máquina. 1862. onde só encarnam Espíritos depurados. por consequência. O homem já nasce bom ou ma/u? É preciso fazermos uma distinção entre a alma e o homem. isto é. 97: Phrénologie spirritualiste. Será Deus o criador do mal? Deus não criou o mal. seria perfeitamente feliz. nem boa nem má. 130. e estas são sempre boas. é a origem do mal na Terra.) 129. O materialista que faz todas as faculdades morais e intelectuais dependerem do organismo. 131. A alma é criada simples e ignorante. sem responsabilidade do mal e sem mérito do bem que pratica. 76. os Espíritos. em razão do seu livre-arbítrio. dos males (fwe afligem. Em mundos mais adiantados. Ele estabeleceu leis. Espíritos inferiores ou que pouco têm progredido. tendo seu livre-arbítrio. quem. sem. o mal não existe ou está em minoria. segundo seja ele a encarnação de um Espírito adiantado ou atrasado. aquele que as observasse fielmente. a huma- . loucura. La tête de Gnríbaldi — Idem. por outra. ou. porque Ele é soberanamente bom. e é dessa infração que provém o mal. nidade? Qual a causa. é lastimado ou desprezado.O QUE É O ESPIRITISMO 201 admissão desse livre-arbítrio. por uma enfermidade. perde acidentalmente essa faculdade. (Revue Spírite.

surdas. como escola de Espíritos pouco adiantados e cárcere de Espíritos criminosos. Por que vemos tantas vezes o menu prospera/r. «mudas ou afetadas de moléstias memoráveis. que fez ela para merecer tais aflições. o mesmo com quem admite a pluralidade das existências e pensa na brevidade de cada uma delas. que as aflições do homem de bem são. eles se infelicitam reciprocamente e punem-se uns aos outros. porém. 133. Por que nascem alguns na indigência e outros na opulência? Por que vemos tantas pessoas nascerem cegas. Os males da nossa humanidade são a consequência da inferioridade moral da maioria dos Espíritos que a formam. por suas imprudências ou por excessos. isto deve parecer clamorosa injustiça. vive em aflição? Para aquele cujo pensamento não transpõe as raias da vida presente. a Providência não existiria. seja punido por onde pecou: porém. Não se dá. enquanto owtsras possuem todas as vantagens físicas? Será um efeito do acaso. se a alma é criada ao mesmo tempo que o corpo. para quem a acredita única.202 ALLAN KARDEC O nosso mundo pode ser considerado. seguidas de uma felicidade. ou wm ato da Providência. ou para ficar isenta delas? . em relação à eternidade. ao mesmo tempo. não lhe será mais que um dia mau em uma existência próspera. enquanto o homem de bem. Compreende-se que quem se torna miserável ou enfermo. pelo contrário.? Se fosse do acaso. 134. perguntamos como se conciliam esses fatos com a sua bondade e justiça? É por falta de compreensão da causa de tais males que muitos se arrojam a acusar Deus. a Providência. Admitida. quanto mais resignadamente ele soube suportá-las. O estudo do Espiritismo prova que a prosperidade do mau tem terríveis consequências em suas seguintes existências. Pelo contacto de seus vícios. desde o seu mascimento. tanto maior e duradoura. porém.

pois. na qual fez mau uso da fortuna que Deus o encarregara de gerir. desde o nascimento até a morte. entregues aos maus-tratos e à humilhação a que submeteram os outros. ao embrutecimento e ao desprezo. foi rico e considerado em uma existência anterior. Por que foi. muitas vezes é prova escolhida pelo Espírito.O QUE É O ESPIRITISMO 203 Se admitimos a justiça de Deus. sujeitos àqueles a quem trataram com dureza. Nem sempre uma vida penosa é expiação. necessidade de a alma já ter vivido. Por miserável que seja a condição em que o homem nasça. porém. e se esta causa não se encontra na vida presente. também o exemplo dos que viveram. são votados. nascido na abjeção. não podemos deixar de admitir que esse efeito tem uma causa. conforme a coragem com que saiba suportá-la. demonstra ser ela uma prova em que a vitória é mais difícil. foi anteriormente orgulhoso e prepotente. A diferença das posições sociais seria a maior das injustiças — quando não seja o resultado da conduta atijal — se ela não tivesse uma compensação. há. 135. porque em todas as coisas a causa deve >preceãer ao efeito. Esses estudos no-los fazem ver. pelas tentações que dá e pelos abusos que enseja. para eles não há compensação possível. nos dá força para suportarmos as vicissitudes da vida e aceitarmos a nossa sorte. sem invejar a dos outros. deve achar-se antes desta. Por que há homens idiotas e imbecis? A posição dos idiotas e dos imbecis seria a menos conciliável com a justiça de Deus. que mais de um. que vê um meio de avançar mais rapidamente. abusou do poder para oprimir os fracos. que mais <ie um homem. ele poderá sair dela por sua inteligência e trabalho. de fato. A convicção que dessa verdade adquirimos. sua alma criada idiota? . na hipótese da unicidade da existência. mas muito mais perigosa que a miséria. nascido na miséria. A riqueza é também uma prova. para que possa merecer uma expiação. o idiota e o imbecil. muitas vezes. pelo Espiritismo. Os estudos espíritas nos mostram. então.

O QUE É O ESPIRITISMO 203 Se admitimos a justiça de Deus. muitas vezes. porém. sua alma criada idiota? . pois. ele poderá sair dela por sua inteligência e trabalho. nascido na miséria. demonstra ser ela uma prova em que a vitória é mais difícil. nos dá força para suportarmos as vicissitudes da vida e aceitarmos a nossa sorte. na qual fez mau uso da fortuna que Deus o encarregara de gerir. então. há. foi rico e considerado em uma existência anterior. Nem sempre uma vida penosa é expiação. o idiota e o imbecil. entregues aos maus-tratos e à humilhação a que submeteram os outros. nascido na abjeção. Os estudos espíritas nos mostram. conforme a coragem com que saiba suportá-la. mas muito mais perigosa que a miséria. sem invejar a dos outros. e se esta causa não se encontra na vida presente. que mais <ie um homem. abusou do poder para oprimir os fracos. sujeitos àqueles a quem trataram com dureza. pelo Espiritismo. pelas tentações que dá e pelos abusos que enseja. necessidade de a alma já ter vivido. A riqueza é também uma prova. são votados. de fato. que vê um meio de avançar mais rapidamente. 135. Por que foi. desde o nascimento até a morte. muitas vezes é prova escolhida pelo Espírito. porque em todas as coisas a causa deve >preceãer ao efeito. A diferença das posições sociais seria a maior das injustiças — quando não seja o resultado da conduta atijal — se ela não tivesse uma compensação. Por miserável que seja a condição em que o homem nasça. Esses estudos no-los fazem ver. na hipótese da unicidade da existência. para que possa merecer uma expiação. para eles não há compensação possível. não podemos deixar de admitir que esse efeito tem uma causa. ao embrutecimento e ao desprezo. Por que há homens idiotas e imbecis? A posição dos idiotas e dos imbecis seria a menos conciliável com a justiça de Deus. também o exemplo dos que viveram. que mais de um. foi anteriormente orgulhoso e prepotente. A convicção que dessa verdade adquirimos. deve achar-se antes desta.

. 1860. (R&ime Spirite. mas o Espírito não dorme. pág."s 400 e seguintes. sono. Durante a vida. qualquer que seja a distância a que se transporte. — Revue Spinte. (O Livro dos Espíritos: E<mandpação da alma. provam que suas almas são tão inteligentes como as dos outros homens. letairgia. 1860. o Espírito goza de toda a liberdade e da plenitude das suas faculdades. feitos acerca dos imbecis e idiotas.) 136. aproveita-se do repouso do corpo.204 ALLAN KARDEC Os estudos espíritas. 137. — O Livro dos Médiuns: Evocação das pessoas vwas. quando. . vista dupla. dos momentos em que este lhe dispensa a presença. talvez. etc. em laços que não podem quebrar. tenham sido tão considerados em encarnação precedente. às vezes. Qual a oausa dos sonhos? Os sonhos são o resultado da liberdade do Espírito durante o sono. que essa enfermidade é uma expiação infligida a Espíritos que abusaram da inteligência. e sofrem cruelmente por se sentirem presos. sonhos.) 138. — Idem. UEsxprit d'wn idiot. n. pág. •— Idem. são a recordação dos lugares e das pessoas que o Espírito viu ou visitou nesse estado. Qual o estado da alma durante o sono? No sono é só o corpo que repousa. 81: Étwàe sw l'Esprit dês personnes vivantes. pág. 311: Lês crétms. Só a morte rompe esse laço. sonambulismo. quando a sua presença se torna necessária. o Espírito fica sempre preso ao corpo por um cordão fluídico. que serve para chamá-lo. para agir separadamente e ir aonde quer. Donde vêm os pressentimentos? São recordações vagas e intuitivas do que o Espírito aprendeu em seus momentos de liberdade e algumas vezes avisos ocultos dados por Espíritos benévolos. pág." 284. e pelo desprezo de que se vêem objeto. nessas condições. 1860. 1861. As observações práticas provam que. n. 173. 11: L'Esprit d'wi cote et lê corps de 1'aiutre.

com o tempo. não encarnando mais que uma. que a alma. o que seria a negação da sua justiça. o mesmo grau da alma esclarecida. quantas vezes temos diante de nós a prova do contrário! Com efeito. Além disso. era preciso explicar: _1. Por que há na Terra selvag<ens e homens cwilizados? Sem a preexistência da alma. é um fato material que prova o progresso que uns já fizeram e que os outros têm de fazer. 140. . esta questão é insolúvel. Se fosse de outro modo. Admitindo para as almas um mesmo ponto de partida — única doutrina compatível com a justiça de Deus —. faça o seu progresso no estado de Espírita ou em outras esferas? Esta proposição seria admissível.°. como todos os dias morrem selvagens. a alma do selvagem fique perpetuamente em estado de inferioridade. na Terra. a razão recusa admitir que. mas. bem como se ache na mesma elevação que a do homem esclarecido. Não será admissível. ora. seguindo todos os graus intermediários a esses dois extremos. se todos os habitantes da Terra se achassem no mesmo nível moral e intelectual. depois da morte. cada vez mais aperfeiçoadas e apropriadas ao seu adiantamento. caso em que se poderia dizer ser a Terra destinada a determinado grau. quando vemos almas mais adiantadas encarnadas ao lado dele. não é compreensível que o selvagem não pudesse conseguir civilizar-se aqui na Terra. a menos que admitamos tenha Deus criado almas selvagens e almas civilizadas.O QUE B O ESPIRITISMO 205 139. seguindo 'pensam. vez<. A alma do selvagem atingirá. pois. a presença simultânea da selvageria e da civilização. do que resulta a possibilidade da pluralidade das existências terrenas. por que só a Terra teria o monopólio das encarnações. essa alma não pode atingir esse grau senão em encarnações sucessivas. demonstrada por exemplos que temos à vista. algwmas pessoas.

que encarnam em um meio simpático e. e onde estão deslocados. na vida atual. saídos das raças bárbaras. por que razão. sem negar a Deus os atributos de bondade e justiça. a do criminoso e a do homem de bem são tão novas uma como a outra. pergunta-se por que têm elas costumes mais brandos e inteligência mais desenvolvida? Se na morte do corpo a alma deixa definitivamente a Terra. no mesmo meio em que podem satisfazer as suas inclinações. OBSERVAÇÃO — Não é possível admitir-se. pergunta-se. 141. como estaria um rústico colocado de repente numa cidade adiantada. como a dos homens da Idade Média. e. as dos homens de hoje são tão novas. o mesmo ponto de partida que a de um homem cheio de virtudes. 143. ainda. Um chinês. nela se apresentam almas encarnadas de todos os graus. Donde vem o caráter distintivo dos povos? São Espíritos que têm mais ou menos os mesmos gostos e inclinações. se mostram seres de ferocidade comparável à dos mais bárbaros selvagens? São Espíritos muito inferiores. uma delas é boa e a outra má? 142. Par que.206 ALLAN KARDEC 2. por que. se este tivesse de ser recomeçado com as almas novas que diariamente chegam? Os Espíritos encarnam em um meio simpático e em relação com o grau do seu adiantamento. qual seria o fruto do trabalho feito para melhoramento de um povo. desde então. que progredisse suficientemente e não encontrasse mais na sua raça um meio . no meio das sociedades civilizadas. muitas vezes. Como progridem e como degeneram os povos? Se a alma é criada juntamente com o corpo. tendo esse monopólio. que a alma do criminoso endurecido tenha. tão primitivas. por exemplo. então.°. Se a alma não é anterior ao corpo. que experimentam reencarnar em meio que não é o seu.

— Revtie Spirite. Como se opera a separação <da alma e do corpo? É brusca ou gradual? O desprendimento opera-se gradualmente e com lentidão variável. afinal.O QUE fi O ESPIRITISMO 207 correspondente ao grau que atingiu. atrai por simpatia Espíritos mais avançados. os mesmos que já haviam vivido no mesmo país e que. 97: Per/ecíibilité de Ia roce nègre. OBSERVAÇÃO — Essas questões provocam outras que encontram solução no mesmo princípio. os quais são. uma nação avança. segundo os indivíduos e as circunstâncias da morte. tudo se apresenta confuso. dele se tinham afastado. pág. que vê? Que experimenta ela? No momento da morte. e. encarnará entre um povo mais adiantado. 1862. por seu progresso. •— Idem. mediatamente depois da morte do oorpo? Tem ela instantaneamente a consciência de si? Em uma palavra. n. cor exemplo. À medida que uma geração dá um passo para frente. é assim que. ela con- . e tanto menos rapidamente quanto mais a vida foi material e sensual.) 145. é-lhe preciso algum tempo para se reconhecer. o povo acabaria por degenerar. por extinguir-se. pág.° 155. 1862. passo a passo. n«s 776 e seguintes. na Terra? — Há raças rebeldes ao progresso? — A raça negra é suscetível de subir ao nível das raças europeias? — A escravidão é útil ao progresso das raças inferiores? — Como se pode operar a transformação da Humanidade? — (O Livro dos Espíritos: Lei de progresso. donde vem a diversidade de raças. (O Lwro dos Espíritos. diariamente e não mais descessem a um meio inferior.) O HOMEM DEPOIS DA MORTE 144. Os laços que prendem a alma ao corpo não se rompem senão aos poucos. talvez. 1: Doctrine dês unges dêchus. Se a maioria dos seus novos habitantes fosse de natureza inferior e os antigos emigrassem. Qual a situação da alma.

pode ser de algumas horas somente. esse momento é cheio de ansiedade e de angústias.208 ALJLAN KAKDEC serva-se tonta. Para aquele cuja consciência não é pura e amou mais a vida corporal que a espiritual. porém. entretanto. meses ou. sequente à morte. sensações e percepções que nos são desconhecidas. a perturbação. 1862. para aqueles que. sequente à morte. então. e o Espírito sente-se feliz por não mais experimentar as dores corporais que o atormentavam alguns instantes antes. se identificaram com o seu estado futuro. fica-se como que livre de um fardo. 244: Morrt d'wn Spvrite. (R&iMe Spitrite. desembaraçado. porque então sente medo e certo terror diante do que vê e sobretudo do que entrevê. é a de grande alívio e de imenso bem-estar. 332: Lê réveil de 1'Esprit. Em sua nova situação. é calma e em tudo semelhante à que acompanha um despertar plácido. de muitos anos. a alma vê e ouve ainda outras coisas que escapam à grosseria dos órgãos corporais. à medida que se destrói a influência da matéria de que ela acaba de separar-se. no estado do homem que sai de profundo sono e que procura compreender a sua situação. A lucidez das ideias e a memória do passado lhe voltam. que vão aumentando à medida que ele se reconhece. 1859. 129 e 171: Obsèques de M. não . idem. — Idem. e que se dissipa o nevoeiro que lhe obscurece os pensamentos. como aquele a quem tirassem as cadeias que o prendiam. porque esses compreendem imediatamente a sua situação. A sensação a que podemos chamar física. O tempo da perturbação. A sensação que a alma experimenta nesse momento é também muito variável.) OBSERVAÇÃO — Estas respostas e todas as relativas à situação da alma depois da morte ou durante a vida. é tanto mais longa quanto mais materialmente o indivíduo viveu. 1860. mesmo. pág. págs. É menos longa. Sanson. Tem. pág. — Idem. sente-se livre. como de muitos dias. enquanto vivos. é muito variável. nada tem de penosa para o homem de bem.

A individualidade da alma é mostrada de modo material. mais que em nenhuma outra época. isto. falando da vida futura. A alma que deiom o corpo. tem a alma. estão envolvidos numa espécie de nevoeiro que O oculta a seus olhos. por assim dizer. e Deus o permite hoje. seria o mesmo que não existirem. Se Deus está em toda parte. porém. consciência de sua mdwidualidade? Como a constata e como podemos constatá-la ? Se as almas não tivessem sua individualidade depois da morte. e que se não dissipa senão à medida que eles se desmaterializam e se purificam. mas de estudos diretos feitos sobre milhares de indivíduos. observados em todas as fases e períodos da sua existência espiritual. pela . pois são precisamente os que nela já se acham. como último aviso à incredulidade e ao materialismo. género de morte. 148. 146. o que os encarnados são.O QUE E O ESPIRITISMO 209 são o resultado de uma teoria ou de um sistema. os Espíritos atrasados. podendo dizer-se que o Universo está mergulhado na divindade. porque ninguém no-lo veio contar. 147. a respeito. Muitas vezes diz-se. não teriam caráter algum distintivo. Os Espíritos inferiores são. que. que não se sabe o que nela se passa. segundo seus hábitos durante a vida terrena. para elas. nos vêm instruir. como para nós. Depois da morte. pode ver a Deus? As faculdades perceptivas da alma são proporcionais à sua purificação: só as de escol podem gozar da presença de Deus. como nós o estamos na luz solar. porque em toda parte Ele irradia. donde resultaria não haver interesse algum em fazermos o bem. desde o mais baixo ao mais alto grau da escala. par que nem todos os Espíritos podem vê-lo? Deus está em toda parte. é um erro. a do criminoso estaria na mesma altura que a do homem de bem. em relação aos Espíritos: verdadeiros cegos. em relação a Deus. etc. nas manifestações espíritas. pela vista.

mas. pois é tão desolador quanto o materialismo. Graças ao Espiritismo experimental. não merece mesmo o nome de Espiritualismo. porém o resultado da observação. O reservatório comum do conjunto universal equivaleria ao aniquilamento. 149. umas sábias e outras ignorantes. formando dela a nossa alma e restituindo-a depois da morte à massa comum. fica como que tonto com a mudança nele efetuada.210 ALLAN KARDEC linguagem e qualidades próprias de cada qual. verificando ainda a sua individualidade por seu invólucro fluídico ou perispírito. Na morte natural. . o que prova evidentemente não estarem confundidas em um todo homogéneo. A própria alma reconhece sua individualidade. começando mesmo antes que a vida esteja extinta. do qual uma parte absorveríamos ao nascermos. isso sem falar das provas patentes que nos dão. a individualidade da alma não é mais uma coisa vaga. espécie de transição. porque tem pensamento e volição próprios. Na morte violenta. Este sistema. porquanto ali não haveria mais individualidades. uma vez que elas pensam e agem de modo diferente. os laços são partidos bruscamente. que faz dela um ser distinto. OBSERVAÇÃO — Há quem pense poder fugir à pecha de materialista por admitir um princípio inteligente universal. O género de morte inflnti no estado da alma? O estado da alma varia consideravelmente segundo o género de morte. onde com outras se confundiria. o Espírito. por suplício. surpreendido. e não acha explicação para a sua situação. que distinguem umas das outras. espécie de corpo limitado. suicídio ou acidente. umas são boas e outras más. de terem animado tal ou tal indivíduo na Terra. o desprendimento se opera gradualmente e sem abalo. tal como gotas dágua no oceano. sobretudo. querendo umas o que outras não querem. segundo a natureza dos hábitos durante a vida.

1859. 319." 165. 1858. 1862. pág. (Revue Spiríte. fora dos casos de morte violenta. mais ou menos constante em tal caso. Para onde vai a alma depois de deixar o corpo? Ela não vai perder-se na imensidade do infinito. idem. 326: Un Esprit au convoi de son oorps. — Idem. 97: François Simon Lowvet. — Idem. — Idem. quando fala. por isso-vem satisfeita ver os parentes e amigos e sente-se feliz com a lembrança deles. idem. 1863. podendo essa ilusão durar muitos meses e mesmo muitos anos.O QUE É O ESPIRITISMO 211 Um fenómeno. (O Livro dos Espíritos. 184: Lê Zouave de Magenta. de que se julgam felizes . n. como geralmente se supõe.) 152. Conserva a alma as afeições que tinha na vida terrena? Guarda todas as afeições morais e só esquece as materiais. pág. não estar morto. 151. ele se locomove. em muitos indivíduos. pág. pág. Un Esprit qui ne se croit pás rmort. Neste estado. sobretudo. que já não são de sua essência. e mostra-se espantado de não lhe responderem. é a persuasão em que ele se conserva de. Essa ilusão também se nota.) 150. 1859. 341: Lês amis ne naus oublient pás dans l'autre monde. que amou. aimda mteresse pelos trabalhos que não pôde completar? Depende da sua elevação e da natureza desses trabalhos. pág. 166: Lê suicide de Ia Sa-maritaine. Conserva a àtima a lembrança do que fez na Terra? Tem ela. erra no espaço e. julga ocupar-se dos seus negócios. pág. no meio daqueles que conheceu e. pág. 1860. o mais das vezes. — Reme Spirite. podendo instantaneamente transportar-se a distâncias imensas. 132. 1858. como se ainda estivesse no mundo. Os Espíritos desmaterializados pouco se preocupam com as coisas materiais. cuja vida foi absorvida pelos gozos e interesses materiais.

OBSERVAÇÃO — Nas comunicações espíritas. entre a alma do sábio e a do ignorante. e ajudam-na a desprender-se dos laços terrenos. adota a linguagem infantil. algumas vezes. pois.212 ALLAN KARDEC por estar livres. aqueles que mais a amam vêm recebê-la à sua chegada no mundo espiritual. não sofre modificação nas faculdades. algumas vezes. Encontra a alma no mamão dos Espíritos os parentes que ali a precederam? Não só os encontra. como também a outros muitos. punição para os culpados. 155. suas faculdades são o que eram antes da sua encarnação. 153. 17: Mère! Je stiAs lá. segundo sua importância e utilidade. pág. porque pode ser Espírito adiantado. (Revue Spirííe.. livre desse invólucro. 1858. Qual. depois da morte. Que diferença há. 154. o Espírito de um menino pode. Quanto aos trabalhos que começaram. como durante a vida? O incompleto desenvolvimento dos órgãos da criança não dava ao Espírito a liberdade de se manifestar completamente. não tendo feito mais que passar alguns instantes na vida.) Podendo a mesma questão ser formulada acerca do estado intelectual da alma dos imbecis. O Espírito. entre a do selvagem e a do homem civilizado? . o estado intelectual e moral da alma da criança morta em tenra 'idade? Suas faculdades conservam-se na infância. seus conhecidos de outras existências. encontra-se a solução no que precede. inspiram a outros o desejo de terminá-los. idiotas e loucos depois da morte. falar como adulto. na outra vida. é para não tirar à mãe o encanto que sempre está ligado à afeição de um ente frágil. Geralmente. Se. Entretanto. a privação de ver as almas mais caras è. delicado e adornado com as graças da inocência.

porém. A sorte do homem. e algumas se adiantam muito. por longo tempo. o que adquiriram em ciência e moralidade. crêem-se dispensados de estudar e trabalhar mais. na vida futwrn. pág. idem. há muitos que.) 157. porque a entrada no mundo dos Espíritos não dá à alma todos os conhecimentos que lhe faltavam na Terra. idem. em sua . 186. 156. julgando-se assaz perfeitos. idem. pág. por que morrem os homens em idades diferentes. pág. depois da morte? Progridem mais ou menos. intelectualmente. pág. imbecis. porque há muitos que não puderam esclarecer-se suficientemente na existência terrena. 344: Un ancien charretier. idem. selvagens e de elevado número de crianças que morrem sem ter entrevisto a vida. UEsprit et lês héritiers. há muitos que. 1858. 82: La reine d'Qude. Lê tambour de Ia Bérésina. pág. Mesmo entre os homens esclarecidos. Sendo o progresso proporcionado à vontade do Espírito. pouco mais ou menos. segundo sua vontade. 1861. 1859. sem falar dos idiotas.O QUE E O ESPIRITISMO 213 A mesma. e por que. seria a negação absoluta da justiça e da bondade de Deus. as que progrediram. que existia entre elas durante a vida. idem. 142. alcançam uma encarnação de ordem mais elevada. 1860. As que ficaram estacionárias. depois da morte. recomeçam uma existência análoga à que deixaram. conservam os gostos e as inclinações que tinham durante a vida. têm necessidade de pôr em prática. 383: Progrès dês Esprits. e não é isto prova que Deus nos dá de sua bondade. Progridem as almas. durante a vida corporal. (Revwe Spvrite. está vrrevogamelmente fiaoada depois da marte? A fixação irrevogável da sorte do homem. pág. o permitir que o homem faça amanhã o que não pode fazer hoje? Se a sorte é irrevogavelmente fixada. 126: Progrès d'un Esprit pervers. e prosseguem nas mesmas ideias.

entretanto. ao mesmo tempo . pois. tenra idade? Esta questão é uma das que melhor provam a justiça e a necessidade da pluralidade das existências. e futuramente o que vier a merecer em suas existências ulteriores. prova a impossibilidade. não se teria tornado um homem de bem. admitida a justiça divina. Uma existência logo^em começo interrompida. Uma alma que só tiver vivido alguns instantes. essa alma Seja chamada a gozar da bem-aventurança dos anjos. e Deus. Qual. na vida futwra. ter consequência alguma para a alma. 158. ela <deve ter wn destino qualquer. tem por sorte atual o que mereceu da existência anterior. Um estado misto. ou Espíritos. de ser a sorte da alma irrevogavelmente fixada depois da morte. 159. não poderia aprová-la na espiritual. seria igualmente uma injustiça. pois.214 ALLAN KARDEC justiça. não pode merecer prémio nem castigo. se vivesse até aos sessenta? Por que Deus lhe tira assim os meios que concede a outros? Só o fato da diversidade das durações da vida e do estado moral da grande maioria dos homens. a sorte das crianças qw morrem em. Têm as almas ocupações na outra vida? Pensam elas em outra coisa. que condena essa falta na vida corporal. sem trabalho. têm ocupações em relação com o seu grau de adiantamento. por toda a eternidade. segundo a máxima do Cristo — cada um é jnvnído ou recompensado conforme suas obras — é tão ilógico como contrário à justiça de Deus admitir-se que. sem fazer nem bem nem mal. ou que desta se veja privada. a não ser em suas alegrias e sofrimentos ? Se as almas não fizessem mais que tratar de si durante a eternidade. não concede Deus a todos o tempo de produzir a maior soma de bem e reparar o mal que fizeram? Quem sabe se o criminoso que morre aos trinta anos. As almas. não podendo. seria egoísmo.

n. eles. se avarento. porém. apesar de não serem o resultado de um fogo material. se foi orgulhoso. para isso. não define a natureza dos sofrimentos. em transes perpétuos. o que lhe é uma tortura. lugar determinado e circunscrito. em certos casos. e. uma imperfeição moral. de ser humilhado. há as penas e provas materiais que o Espírito. é assim que certos assassinos são obrigados a conservarem-se no próprio lugar do crime e a contemplar suas vítimas incessantemente. deixam de ser mais terríveis. que efetivamente não poderia queimar almas imateriais. . por esse meio. seu reverso e suas consequências naturais. não há necessidade de um. Além dos sofrimentos espirituais. (O Livro aos Espíritos. que não tenha. segundo a natureza e o grau das faltas cometidas. podemos apreciá-los e convencer-nos de que. hoje. etc. Essas penas não são uniformes: variam infinitamente. e. se não está depurado. com medo que os roubem. nem por isso. As comunicações espíritas colocam os sofrimentos sob os nossos olhos. sendo quase sempre essas mesmas faltas o instrumento do seu castigo. outros se conservam junto aos tesouros que enterraram. em uma palavra. infeliz com seus filhos. experimenta numa nova encarnação.) 160. na qual é colocado em condições de sofrer o que fez a outrem sofrer. depois da morte? Irão as almas crmmosas ser tortwradas em chamas materiais f A Igreja reconhece perfeitamente. que certos avarentos julgam sofrer o frio e as privações que suportaram na vida por sua avareza. se foi mau filho. que o fogo do inferno é todo moral e não material.O QUE fi O ESPIRITISMO 215 que procuram instruir-se e melhorar-se. Em que consistem os sofrimentos da alma. não há um defeito. no mundo espiritual. que o homem de gostos sensuais e materiais conserva esses pendores juntamente com a impossibilidade de satisfazê-los. Onde quer que se ache o Espírito perverso. um ato mau.° 558: Ocupações e missões dos Espíritas. o inferno estará com ele. miserável.

A felicidade dos bons Espíritos consiste em conhecer todas as coisas. idem. pág. experimenta um consolo. pág. 275: Lê père Crépin. idem. quando encontra pessoas que compartilhem de suas dores. pág. A prece será útil os almas sofredoras? Todos os bons Espíritos a recomendam e os imperfeitos a pedem como meio de aliviar os seus sofrimentos. 53: Suicide d'wn athée. idem. — Revue Spirite. (O Livro dos Espíritos.) 161.": Esperanças e consolações. até aquele em que atinge a perfeição. 1858. idem. pág. Parte 4. 166: Lê suicide ãe Ia Samaritaine. pela prece o exortamos ao arrependimento e ao desejo de fazer o necessário para ser feliz." 237: Percepções. Penas e gozos futuros. idem.216 ALLAN KARDEC Como dissemos. melhorando-se suficientemente para merecer habitação em mundo melhor. Effets de Ia prière sur lês Espri. 61: Esteia Regnier. para os Espíritos dessa natureza. I. não sentir ódio. a Terra é um dos lugares de exílio e de expiação. Em que consistem os gozos das almas felizes? Passam. elas a eternidade em contemplação? A justiça quer que a recompensa seja proporcional ao mérito. há. idem. pois. 1861. por quem se pede. 315: Entrée d'un coupable dans lê monde dês Esprits. 1860. pág. nem . porque vê na prece um testemunho de interesse. idem. 316: Lê châtiment. cap. 384: Châtiment de 1'egoiste. pág. A alma. e o infeliz é sempre consolado. 79: Uassassm Lemaire.° 664 — Revue S-pirite. 1859.) 162. pág. quando ele. idem. de seu lado.. idem. 331: Bensatwns •dês Esprits. do qual cada um se pode libertar. n. 315. página 270: La peine ãu talian.ts souffrants. página 247: Lê suicide de Ia rue Quinocumpoia. idem. pág. é neste sentido que se pode abreviar-lhe as penas. como a punição à gravidade da falta. (O Livro dos Espíritos. desde o instante em que ela entra no caminho do bem. graus infinitos nos gozos da alma. pág. sensações e sofrimentos dos Espíritos. n. o favorece com a sua boa-vontade. wn purgatório. pág. idem. De outro lado. 1859.

pág. nem os sofrimentos. O amor que os une é. uma solução mais lógica. nem ambição. de serem seus agentes no governo do Universo — missões essas proporcionadas ao seu adiantamento. nem inveja." 558: Ocupações e missões dos Espíritos. 1861.O QUE É O ESPIRITISMO 217 ciúme. O estado de contemplação perpétua seria uma felicidade estúpida e monótona. seria a ventura do egoísta. de uma atividade incessante pelas missões que os Espíritos recebem do Ser Supremo. dos problemas acima apresentados. idem. por outro princípio qualquer que não seja o da pluralidade das existências. — Revue Spirite.) OBSERVAÇÃO — Convidamos os adversários do Espiritismo e os que não admitem a reencarnaçao a darem. para os bons Espíritos. 321 e 322: Lês purs Esprits: Lê séjour dês lAenhewreux. nem qualquer das paixões que desgraçam os homens. porque lhes fornece ocasiões de serem úteis e de fazerem o bem. pois não experimentam as necessidades. (O Livro dos Espíritos. n. 179: Madame Gourdon. 1860. ao contrário. a fonte de suprema felicidade. e cujo desempenho os torna felizes. nem as angústias da vida material. uma existência interminavelmente inútil. págs. A vida espiritual é. .

" . Escrito mediante ditado de Espíritos Superiores. O grande mérito de Kardec foi o realizar ele o gigantesco trabalho de ordenar e distribuir metodicamente os assuntos em 1. justapondo.Livros da Federação Espírita Brasileira Allan Kardec O LIVRO DOS ESPÍRITOS É o livro básico da Doutrina Espírita. dizendo: "Nele pusemos as bases de um novo edifício que se eleva e que um dia há de reunir todos os homens num mesmo sentimento de amor e caridade. Os Espíritos se referiram ao livro. comentários e notas. amiúde. constituindo verdadeiro tratado filosófico espiritualista que responde a inquietantes questões da vida e da morte. é a expressão do pensamento deles.019 perguntas e respostas. indubitavelmente a obra-prima do Espiritismo.

"Síntese Histórica do Espiritismo no Brasil". A FEB coloca nas mãos dos leitores uma obra de reconhecido valor e cuja utilidade é manifesta a todos os que se interessam pelo estudo da Doutrina. "Allan Kardec. também. sobretudo iniciantes. é. o Consolidador". assuntos tais como as origens.Pedro Franco Barbosa ESPIRITISMO BÁSICO Esta obra procura reunir o máximo de conhecimentos em um volume só e expô-los em linguagem clara e acessível. de assuntos vários. seus princípios básicos. permitindo-lhes uma ideia de conjunto da Terceira Revelação. obra de consulta para todos os estudiosos. o Codificador do Espiritismo". que nele encontram. de maneira simples e didática. como "As Religiões e o Progresso Espiritual do Homem". Óíima para adoção em cursos sistemáticos de Espiritismo. a Codificação em seus três aspectos. A primeira parte da obra trata. a natureza e as características da Doutrina. bem explanados. "Primórdios do Espiritismo". "Léon Denis. de maneira a atender interessados na Doutrina Espírita. a constituição e o destino do homem e uma apresentação geral da literatura espírita. .

do mesmo género. Em grosso volume de 404 páginas.Carlos Imbassahy O ESPIRITISMO À LUZ DOS FATOS Em realidade. opondo cerrada argumentação às objeções formuladas à parte científica de nossa Doutrina. demonstra o Autor a realidade insofismável do Espiritismo. Bem poucas obras estrangeiras. se igualam no conjunto a esta do Dr. é das obras mais vigorosas do conhecido e inigualável polemista. . os autores que se vêm manifestando contra o Espiritismo e lhe negando a parte que lhe cabe no quadro das ciências. sendo mirados de preferência os autores que procuram desmoralizar a prática da Doutrina Espírita. com as mais robustas provas e numa linguagem leve e cativante. Carlos Imbassahy. São refutados. através dos maravilhosos fatos que o atestam. ou lhe contestando o fundamento que possui para inscrever-se naquele quadro. Todo espírita deve ler este livro e oferecer um exemplar aos amigos descrentes.

a reencarnação etc. Seu autor. os dogmas da Igreja. sua autenticidade e sentido oculto. são alguns dos temas comentados por Léon Denis. nesta ele teve o objetivo de ressaltar a grandeza do Cristianismo.Léon Denis CRISTIANISMO E ESPIRITISMO Leitura utilíssima para todo espírita estudioso e que não pode conceber a Doutrina Espírita senão vinculada ao Evangelho do Cristo. . Por todos esses títulos é que recomendamos vivamente essa obra a todos os nossos leitores. A origem dos Evangelhos. Autor de outras notáveis obras. foi o pujante espírito que se conta entre os seguidores de Allan Kardec. mas dissecando também o corpo de deturpações e deformidades que nele foram introduzidas pelos dogmas do Catolicismo Romano e suas fórmulas ritualísticas. Léon Denis.. os fenómenos espíritas da Bíblia. o Espiritismo e a Ciência. a comunhão dos primeiros cristãos com os Espíritos dos mortos. que traduz fielmente o pensamento do grande escritor francês. que o secundaram na grande obra de divulgação dos ensinos revelados pelos Espíritos Superiores. A tradução em português é de Leopoldo Cirne.

o sábio investigador dos fenómenos espíritas. colocando. recolhidos em todo o Mundo. César Lombroso HIPNOTISMO E MEDIUNIDADE É obra que produziu grande agitação nos meios intelectuais e científicos. de vários sábios da época. . Lombroso demonstra a diferença entre esses dois conhecimentos. com uma argumentação incontestável e vitoriosa. é "a obra mais importante e mais completa que se escreveu acerca do Espiritismo. e da qual bom número é também devido às observações e experiências do próprio Autor.Alexandre Aksakof ANIMISMO E ESPIRITISMO Aksakof. pois que escrita por um sábio de renome universal. Em 700 páginas de composição compacta. o livro encerra uma multidão de fatos maravilhosos. mostrando-lhes o seu nenhum valor. apresenta nesta obra a sua resposta ao mais famoso filósofo da época. célebre por seus trabalhos criminológicos. apresentando numerosas observações e experiências realizadas por ele e por outros sábios europeus. o Dr. Através de longo e minucioso estudo sobre Hipnotismo e Mediunidade. durante muitos e muitos anos de investigação. no ponto de vista científico e filosófico". No conceito de muitos estudiosos. Eduardo von Hartmann. as teorias antiespíritas no seu devido lugar.

A origem dos Evangelhos. Seu autor. sua autenticidade e sentido oculto. nesta ele teve o objetivo de ressaltar a grandeza do Cristianismo. Autor de outras notáveis obras. . Por todos esses títulos é que recomendamos vivamente essa obra a todos os nossos leitores. foi o pujante espírito que se conta entre os seguidores de Allan Kardec. que o secundaram na grande obra de divulgação dos ensinos revelados pelos Espíritos Superiores. Léon Denis. a comunhão dos primeiros cristãos com os Espíritos dos mortos. que traduz fielmente o pensamento do grande escritor francês.. A tradução em português é de Leopoldo Cirne. os fenómenos espíritas da Bíblia. mas dissecando também o corpo de deturpações e deformidades que nele foram introduzidas pelos dogmas do Catolicismo Romano e suas fórmulas ritualísticas. os dogmas da Igreja.Léon Denis CRISTIANISMO E ESPIRITISMO Leitura utilíssima para todo espírita estudioso e que não pode conceber a Doutrina Espírita senão vinculada ao Evangelho do Cristo. são alguns dos temas comentados por Léon Denis. o Espiritismo e a Ciência. a reencarnação etc.

durante muitos e muitos anos de investigação. o Dr. César Lombroso HIPNOTISMO E MEDIUNIDADE É obra que produziu grande agitação nos meios intelectuais e científicos. No conceito de muitos estudiosos. de vários sábios da época. e da qual bom número é também devido às observações e experiências do próprio Autor. mostrando-lhes o seu nenhum valor. Em 700 páginas de composição compacta. apresentando numerosas observações e experiências realizadas por ele e por outros sábios europeus. Através de longo e minucioso estudo sobre Hipnotismo e Mediunidade.Alexandre Aksakof ANIMISMO E ESPIRITISMO Aksakof. é "a obra mais importante e mais completa que se escreveu acerca do Espiritismo. o livro encerra uma multidão de fatos maravilhosos. as teorias antiespíritas no seu devido lugar. Eduardo von Hartmann. célebre por seus trabalhos criminológicos. apresenta nesta obra a sua resposta ao mais famoso filósofo da época. no ponto de vista científico e filosófico". com uma argumentação incontestável e vitoriosa. . recolhidos em todo o Mundo. colocando. o sábio investigador dos fenómenos espíritas. pois que escrita por um sábio de renome universal. Lombroso demonstra a diferença entre esses dois conhecimentos.

. dezenas de ilustrações e numerosas e preciosas informações sobre a vida de Kardec e daqueles que constituíram o seu pequeno e valoroso contingente de colaboradores diretos no plano físico. sobre a data do seu nascimento e sobre a controvertida questão de ele ter sido ou não formado em Medicina. Ao final há um apêndice que elucida a respeito do nome civil de Kardec.) "temos agora nova e completa visão do Codificador (. (Transcrito de "O Médium".Zeus Wantuil e Francisco Thiesen ALLAN KARDEC Publicada em 1979 e 1980. a continuidade do Movimento. O volume II trata da missão de Kardec. ano 49 — n2 486 — fevereiro de 1981. de Juiz de Fora (MG). o que sensibiliza e emociona a quem lê. num total de 896 páginas. O volume III abrange as obras espíritas de Allan Kardec. as lutas e a abnegação dos seus continuadores. essa obra 'Veio enriquecer. O volume l apresenta uma visão muito nítida da formação moral e intelectual de Hippolyte Léon Denizard Rivail no Instituto Yverdon. O apêndice final traz uma série de elucidações sobre vários pontos importantes. A perfeita concatenação dos fatos. São três volumes. do método pestalozziano e da obra de Rivail como educador emérito. o Movimento Espírita brasileiro e a destinação do nosso país como Pátria do Evangelho.) . traçando um panorama que se inicia em Hydesville até as primeiras perseguições contra o Movimento Espírita nascente.). a sua desencarnação.. sobremaneira. facilitando ao leitor a assimilação de um tão grande número de informações. Todos os espíritas devem ter essa obra". os periódicos do seu tempo. as letras espíritas e deu ao Codificador da Doutrina Espírita a sua real dimensão na história da Humanidade.. a forma como são apresentados num estilo claro e objetivo tornam a leitura dos três volumes muito agradável. A figura de Allan Kardec ressalta dessa magistral obra na grandiosidade de sua missão. Com este alentado trabalho (..

desconcertando os negativistas e clareando as indagações dos que acreditam e aspiram à vida superior. . A lógica e o bom-senso de Allan Kardec aí se evidenciam. No terceiro capítulo. um céptico e um padre. por Hei.O QUE E O ESPIRITISMO Allan Kardec Obra sempre atual. como também àqueles que desejam conhecer a natureza do Espiritismo e a definição de seus pontos fundamentais. útil aos adeptos da Doutrina Espírita.-í Snusse. traz respostas àqueles que desconhecem os princípios básicos da Doutrina. bem como apropriadas refutações aos seus contraditares. moral e filosófica. Divide-se em 3 capítulos: O primeiro. com a solução. caracterizando-se como um resumo de O Livro dos Médiuns. sob a forma de diálogos com um crítico. é publicado o resumo de O Livro dos Espíritos. O segundo capítulo. de problemas de ordem psicológica. expõe partes da ciência prática e experimental. Contém também a biografia de Allan Kardec. apontada pela Doutrina Espírita.