OQUEEO ESPIRITISMO

ALLAN KARDEC /l

ALLAN KARDEC

O que é o Espiritismo
NOÇÕES ELEMENTARES DO MUNDO INVISÍVEL, PELAS MANIFESTAÇÕES DOS ESPÍRITOS,
COM O

resumo dos princípios da Doutrina Espirita e resposta às principais objeções que podem ser apresentadas

Contendo a BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC por HENRI SAUSSE

FEDERAÇÃO ESPIRITA BRASILEIRA DEPARTAMENTO EDITORIAL Rua Souza Valente, 17 20941-040 - Rio-R J - Brasil

CIP-BRASIL. CATALOGAÇAO-NA-FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ. K27o 41.ed. Kardec, Allan, 1804-1869 O que é o espiritismo : noções elementares do mundo invisível, pelas manifestações dos espíritos, com o resumo dos princípios da Doutrina Espirita e resposta às principais objeções que podem ser apresentadas / Allan Kardec. — 41 .ed. — Rio de Janeiro : Federação Espírita Brasileira, 1999 "Contendo a biografia de Allan Kardec por Henri Sausse" ISBN 85-7328-113-8 1. Espiritismo, l. Título. 98-0194. 130298 170298 CDD 133.9 CDU 133.7 004668

índice das Matérias
Biografia de Allan Kardec Preâmbulo CAPÍTULO I Primeiro diálogo — O crítico Segundo diálogo — O céptico Espiritismo e Espiritualismo Dissidências Fenómenos espíritas simulados Impotência dos detratores O maravilhoso e o sobrenatural Oposição da Ciência Falsas explicações dos fenómenos — Alucinação — Fluido magnético •— Reflexo do pensamento •— Superexcitação cerebral — Estado sonambúlico dos médiuns Não basta que os incrédulos vejam para que se convençam \... Boa ou má-vontade dos Espíritos para convencer .. Origem das ideias espíritas modernas Meios de comunicação Médiuns interesseiros Médiuns e feiticeiros Diversidade dos Espíritos Utilidade prática das manifestações Loucura, suicídio e obsessão 51 65 66 68 70 71 74 75 9 49

82 86 88 89 93 97 103 105 109 111

ÍNDICE Esquecimento do passado Elementos de convicção Sociedades espíritas Interdição do Espiritismo Terceiro diálogo — O padre CAPÍTULO II 114 117 120 121 -. 122 Noções elementares de Espiritismo — Observações preliminares 151 Dos Espíritos 153 Comunicação com o mundo invisível Fim providencial das manifestações espíritas Dos médiuns Escolhos da mediunidade Qualidades dos médiuns Charlatanismo Identidade dos Espíritos Contradições Consequências do Espiritismo CAPITULO III 157 168 170 175 178 182 183 185 186 Solução de alguns problemas pela Doutrina Espírita — Pluralidade dos mundos 193 Da alma 194 O homem durante a vida terrena 197 O homem depois da morte 207 .

julho de 1859) Capa de CECCONI B. . em grandes encomendas.febrasil. ou FAX (021) 589-6838.ISBN 85-7328-113-8 41! edição Do 41CF. via Correio ou. RJ — Brasil CNPJ n" 33.600.834 53-AA.N. telefone (021) 589-6020. 17 20941-040 — Rio de Janeiro. L-2 Norte — Q.857/0002-84 LÊ.503 INTERNET http://www. 9/1999 Copyright 1944 by FEDERAÇÃO ESPÍRITA BRASILEIRA (Casa-Máter do Espiritismo) Av.644. fotolitos e impressão offset das Oficinas do Departamento Gráfico da FEB Rua Souza Valente.5-O. 603 — Conjunto F 70830-030 — Brasília. via rodoviário: por carta.br Pedidos de livros à FEB — Departamento Editorial.ao 414" milheiro Título do original francês: QVEST-CE QUE LÊ SPIRITISME? (Paris. 6. DF — Brasil Composição. rf 81.org. 000.

pela ausência até hoje de elementos para isso. as informações que desejariam conhecer. que vos entretenha alguns momentos com esse Mestre amado. Em respeito ao fundador da filosofia espírita. conforme estudo de autoria de Zeus Wantuil. intitulado "Kardec e seu nome civil". tão grande. tão gloriosa e tão bem preenchida. Nota da Editora. e de não saberem onde encontrar. 95/6. pp. . bem poucos puderam. cujos trabalhos são universalmente conhecidos e apreciados. meus senhores: Muitas pessoas que se interessam pelo Espiritismo manifestam muitas vezes o pesar de não possuírem senão muito imperfeito conhecimento da biografia de Allan Kardec. inserto em "Reformador" de abril de 1963. no intuito de tentar corresponder a tão legítimo desejo.BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC (*) Minhas senhoras. (*) Seu verdadeiro nome é Hippolyte Iiéon D«nizard Rivail. permiti-me. sobre aquele a quem chamamos Mestre. e um mesmo sentimento de veneração e de reconhecimento faz vibrar todos os corações. e cuja vida íntima e laboriosa existência são apenas conjeturadas. Se fácil foi a todos os investigadores conscienciosos inteirarem-se do alto valor e do grande alcance da obra de Allan Kardec pela leitura atenta das suas produções. Pois é para honrar Allan Kardec e festejar a sua memória que nos achamos hoje reunidos. penetrar na vida do homem íntimo e segui-lo passo a passo no desempenho da sua tarefa.

que. com efeito. mesma rua Sala. a justo título. para um adiantamento intelectual e moral seguros. e Jeanne Duhamel. portanto. juiz. sua esposa. nasceu de antiga família lionesa. Eis aqui a esse respeito um documento positivo e oficial: "Aos 12 do vindemiário (*) do ano XIII. rua Saint-Dominique n. em Lião. e Jean-François Targe. filho de Jean Baptiste-Antoine Rivail. Vou.10 BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC Não somente a biografia de Allan Kardec é pouco conhecida. o grande iniciador de quem nos desvanecemos de ser discípulos.° 76. A inveja e o ciúme semearam sobre ela os mais evidentes erros. de ter visto nascer entre seus muros esse pensador tão arrojado quão metódico. com o nome de Rivail. à requisição do médico Pierre Radamel. (*) Veja-se "Reformador" de abril de 1947. 85. senão que ainda está por ser escrita. clarividente e profundo. impelindo-a para um ideal mais são. as mais grosseiras e as mais impudentes calúnias. magistrado. esse filósofo sábio. aquele que devia mais tarde ilustrar o nome de Allan Kardec e conquistar para ele tantos títulos à nossa profunda simpatia. ao nosso filial reconhecimento. diretor do estabelecimento das águas minerais da rua Sala. Todos sabeis que a nossa cidade se pode honrar. "O sexo da criança foi reconhecido como masculino. nascido ontem às 7 horas da noite. esse trabalhador obstinado cujo labor sacudiu o edifício religioso do Velho Mundo e preparou os novos fundamentos que deveriam servir de base à evolução e à renovação da nossa sociedade caduca. residentes em Lião. pág. Foi. rua Sala n. com luz mais verdadeira. mais elevado. auto do nascimento de Denizard Hippolyte-Léon Rivail. . esforçar-me por mostrar-vos. "Testemunhas maiores: "Syriaque-Frédéric Dittmar. a 3 de outubro de 1804.° 78.

um pouco de todos os lados. porém. O discípulo tornado mestre tinha. o italiano e o espanhol. Muitíssimas vezes. tendo feito todos os estudos médicos e defendido brilhantemente sua tese ( * ) . além de tudo. por seu talento. com os louros e as glórias da sua familia. de honra. e podia facilmente exprimir-se nesta língua. colaborador inteligente e dedicado. (*) ver "Reformador" de marco de 1958. Parecia que o jovem Eivail devia sonhar. de probidade. ele se sentiu atraído para as ciências e para a filosofia. de todo o coração. conhecia a fundo e falava corretamente o alemão. Linguista insigne. não foi. 67. à propaganda do sistema de educação que exerceu tão grande influência sobre a reforma dos estudos na França e na Alemanha. para fundar institutos semelhantes ao de Yverdun. saber e escrupulosa probidade. com o célebre professor Pestalozzi. com os mais legítimos direitos. desde o começo da sua juventude. o inglês. Rivail Denizard fez em Lião os seus primeiros estudos e completou em seguida a sua bagagem escolar. de quem cedo se tornou um dos mais eminentes discípulos. "O presidente do Tribunal. quando Pestalozzi era chamado pelos governos. Assim. as testemunhas assinaram.BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC 11 "Feita a leitura. grande número dos seus antepassados se tinham distinguido na advocacia e na magistratura. pág. (assinado): Mathiou. porque. confiava a Denizard Rivail o encargo de o substituir na direção da sua escola. Aplicou-se. em Yverdun (Suíça). Era bacharel em letras e em ciências e doutor em medicina. também ele." O futuro fundador do Espiritismo recebeu desde o berço um nome querido e respeitado e todo um passado de virtudes. assim como o Maire da região do Sul. conhecia também o holandês. . a capacidade requerida para dar boa conta da tarefa que lhe era confiada.

filha de Julien Louis e senhora Julie Louise Seigneat de Lacombe. Ò Sr. Rivail tinha a paixão do jogo. aos 2 do Frimário do ano IV (23 de novembro de 1795). quando. em 6 de fevereiro de 1832. residentes em Château-du-Loir. inteligente e viva. humor jovial na intimidade. de maneiras distintas. Essa soma foi colocada pelo Sr.12 BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC Denizard Rivail era um alto e belo rapaz. filha de Julien-Louis Boudet. No mundo das letras e do ensino. Pequena." A senhorita Amélia Boudet tinha. O sócio do Sr.. mas na aparência dir-se-ia ter menos dez que ele. o qual era seu sócio capitalista. Rivail requereu a liquidação do Instituto. nego- . ele obteve isenção e. Rivail em casa de um dos seus amigos íntimos. e Sra. Para essa empresa se associara a um dos seus tios. nasceu em Thiais (Sena). Denizard Rivail encontrou aa senhorita Amélia Boudet. Tendo-o a conscrição incluído para o serviço militar. arruinou o sobrinho. que frequentava em Paris. gentil e graciosa. em quem adivinhou. de cuja partilha couberam 45. O registro civil nos informa que: "Amélie Gabrielle Boudet. 35 rua de Sèvres. o pensador sábio e profundo. Jeanne Duhamel. classe. dois anos depois. mas bem proporcionada. professora com diploma de l.000 francos a cada um deles. à rua de Sèvres n. com Amélie-Gabrielle Boudet. pois. Rivail. um estabelecimento semelhante ao de Yverdun. que aliava grande dignidade à mais esmerada urbanidade. filho de Jean-Baptiste Antoine e senhora. sob a franca e comunicativa alegria do homem amável. irmão de sua mãe. se firmou em Paris o contrato de casamento de Hippolyte-Léon-Denizard Rivail.° 35. residentes em Paris. Rivail. perdendo grossas somas em Spa e em Aix-la-Chapelle. bom e obsequioso. mais nove anos que o Sr. proprietário e antigo tabelião. diretor do Instituto Técnico à rua de Sèvres (Método de Pestalozzi). veio fundar em Paris. ela soube por seu sorriso e predicados fazer-se notar pelo Sr. e de Julie Louise Seigneat de Lacombe. rica por seus pais e filha única.

Rivail lançaram-se corajosamente ao trabalho. Química e Física. pela apresentação da sua notável memória: Qual o sistema de estudo mais em harmonia com as necessidades da época? Dentre as suas numerosas obras convém citar. frequentados por discípulos de ambos os sexos do faubourg Saint-Germain.BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC 13 ciante. (*) Houve engano dos biógrafos. . que lhe produziam cerca de 7. e que eram muito frequentados. terminado o seu dia. por concurso. aritméticas. 77 e 79. astronomia e anatomia comparada. livros para estudos pedagógicos superiores. Não foi em 1829. para uso das mães de família e dos professores. o Sr. em 1846 o Manual dos exames para obtenção dos diplomas de capacidade. Rivail professor no Liceu Polimático. em 1831 fez aparecer a Gramática francesa clássica. encontramos o Sr. esse trabalhador infatigável escrevia à noite. Ditados especiais sobre as dificuldades ortográficas. e. Astronomia. finalmente. que fez maus negócios e cuja falência nada deixou aos credores. em 1849. ao serão. Membro de várias sociedades sábias. Organizou também em sua casa. cursos gratuitos de química. ele publicou. mas em 1824. notadamente da Academia real d'Arras. em 1831. soluções racionais das questões e problemas de aritmética e geometria. traduzia obras inglesas e alemãs e preparava todos os cursos de Levy-Alvarès. e Sra. págs. física. — Nota da Editora. o Curso prático e teórico de aritmética. Longe de desanimar com esse duplo revés. regendo as cadeiras de Fisiologia. por ordem cronológica: Plano apresentado para o melhoramento da instrução pública. em 1828. Ele encontrou e pôde encarregar-se da contabilidade de três casas. gramáticas. Ver "Reformador" de 1952. foi premiado. segundo o método de Pestalozzi. e depois publica: Ditados normais dos exames na Municipalidade e na Sorbona. em 1829 ( * ) . à rua de Sèvres. Em uma obra muito apreciada resume seus cursos. de 1835 a 1840.000 francos por ano. em 1848 foi publicado o Catecismo gramatical da língua francesa.

graças a elas e ao seu assíduo trabalho. o juízo reto. mas a educação. não negando coisa alguma por parti pris. seus trabalhos justamente apreciados. magnetizador. Rivail conseguir. e que se pode tornar sonâmbula. Rivail estava admiravelmente preparado para a rude tarefa que ia ter que desempenhar e fazer triunfar. tais nos devemos mos- ." — Isso. Rivail ouviu pela primeira vez falar nas mesas girantes.14 BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC Tendo sido essas diversas obras adotadas pela Universidade de França. replicou o Sr. estando a sua fortuna reconstruída pelo trabalho perseverante e pelo brilhante êxito que lhe havia coroado os esforços. em razão dos seus estudos sobre o Magnetismo. O Sr. pôde o Sr. com o qual mantinha relações. Seu nome era conhecido e respeitado. a observação metódica. e ela responde. muito antes que ele imortalizasse o nome de Allan Kardec. o Sr. Seus pendores. nervos para sentir. Prosseguindo em sua carreira pedagógica. tê-lo-iam impelido para o misticismo. eu acreditarei quando vir e quando me tiverem provado que uma mesa tem cérebro para pensar. Rivail. tal o encontraremos muitas vezes. Foi em 1854 que o Sr. Interroga-se. como teremos muitas vezes ocasião de o evidenciar. a princípio do Sr. mas pedindo provas e querendo ver e observar para crer. Fortier. Tal era a princípio o estado de espírito do Sr. a uma obra maior. Como se pode julgar por esta muito rápida exposição. e vendendo-se abundantemente. mas a sua missão o chamava a uma tarefa mais onerosa. conservaram-no igualmente ao abrigo dos entusiasmos desarrazoados e das negações não justificadas. permita-me que não veja nisso senão uma fábula para provocar o sono. magnetizando-a. é uma outra questão. mas também se pode fazê-la falar. honrado e tranquilo. Fortier lhe disse um dia: "Eis aqui uma coisa que é bem mais extraordinária: não somente se faz girar uma mesa. Até lá. e. suas aspirações. o Sr. uma modesta abastança. ele sempre se mostrou à altura da missão gloriosa que lhe estava reservada. Rivail. Rivail poderia viver feliz.

que todos os ecos repetirão e que todos os nossos corações idolatram. da sua vida. não vos falei senão do Sr. às leis da Natureza e que minha razão repelia. com o entusiasmo que ele punha em todas as ideias novas. mas a ideia. Roger. porém. * Até agora. Então o nome de Rivail se obumbra. "No ano seguinte — era no começo de 1855 — encontrei o Sr. de uma mesa falante. professor emérito. Nessa época. para ceder o lugar ao de Allan Kardec. no ciclo de um fato inexplicado. que discorreu acerca desses fenómenos durante mais de uma hora. Pâtier e a . Carlotti. aumentaram as minhas dúvidas. na aparência. em casa da sonâmbula Sra.BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC 15 trar sempre no estudo tão atraente das manifestações do Além. as suas hesitações e também a sua primeira iniciação: "Eu me encontrava. estive. e contou-me tantas coisas surpreendentes que. contrário. Nada tinha ainda visto nem observado. de natureza ardente e enérgica. um amigo de há vinte e cinco anos. respondi-lhe eu —. O Sr. Lá encontrei o Sr. Rivail. autor pedagógico de renome. mas desconfiava da sua exaltação. de 1854 a 1856. para esse sagaz observador. Fortier. "Daí a algum tempo. as experiências feitas em presença de pessoas honradas e dignas de fé me firmavam na possibilidade do efeito puramente material. seu magnetizador. não me entrava ainda no cérebro. — Não digo que não. pois. um novo horizonte se rasga para esse pensador profundo. Ele foi o primeiro a falar-me da intervenção dos Espíritos. — Você um dia será dos nossos — disse-me ele. com o Sr. Carlotti era corso de origem. longe de me convencerem. pelo mês de maio de 1855. veremos isso mais tarde. eu tinha sempre distinguido nele as qualidades que caracterizam uma grande e bela alma. que a fama levará a todos os cantos do globo. Eis aqui como Allan Kardec nos revela as suas dúvidas.

observava atentamente. o método da experimentação. fiz conhecimento com a família Baudin. "Foi aí que fiz os meus primeiros estudos sérios em Espiritismo. quando ele me convidou para assistir às experiências que se realizavam em casa da Sra. Em um dos serões da Sra. sua linguagem pausada.° 18. rua Grange-Batelière n. dos efeitos procurava remontar às causas pela dedução. pela primeira vez. mas naquilo havia um fato que devia ter uma causa. que saltavam e corriam. que morava então à rua Bochechouart. e. . sob essas aparentes futilidades e a espécie de divertimento que com esses fenómenos se fazia. Apliquei a essa nova ciência. deduzia as consequências. nunca formulei teorias preconcebidas. muito assíduo. isenta de todo entusiasmo. alguma coisa de sério e como que a revelação de uma nova lei. Carlotti. que a mim mesmo prometi aprofundar. e isso em condições tais que a dúvida não era possível. "A ocasião se me ofereceu e pude observar mais atentamente do que tinha podido fazer. senão quando ela podia resolver todas (*) Esta data ficou em branco no manuscrito de Allan Kardec. O Sr. Plainemaison. comparava. de caráter grave. Entrevi. Plainemaison. e às quais eu fui. frio e calmo. de certa idade. Pâtier era funcionário público. desde esse momento. Baudin fez-me oferecimento no sentido de assistir às sessões hebdomadárias que se efetuavam em sua casa. — Nota do Autor. mas noutro tom. não admitindo como válida uma explicação. que me falaram desses fenómenos no mesmo sentido que o Sr. pelo encadeamento lógico dos fatos. menos ainda por efeito de revelações que por observação. Plainemaison. aceitei com solicitude. produziu-me viva impressão. que testemunhei o fenómeno das mesas girantes.16 BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC Sra. Minhas ideias estavam longe de se haver modificado. A entrevista foi marcada para a terça-feira ( * ) de maio. como até então o tinha feito. homem muito instruído. "Aí vi também alguns ensaios muito imperfeitos de escrita mediúnica em uma ardósia com o auxílio de uma cesta. O Sr. "Foi aí. às 8 horas da noite.

para me não deixar arrastar pelas ilusões. não sendo senão as almas dos homens. preciso. provava a existência de um mundo invisível ambiente. desde a idade de quinze a dezesseis anos. e que a sua opinião não tinha senão o valor de uma opinião pessoal. exatamente como se chega a conhecer o estado de um país interrogando os habitantes de todas as classes e condições. observei que cada Espírito. pois. a solução do que havia procurado toda a minha vida. desde o princípio. "Um dos primeiros resultados das minhas observações foi que os Espíritos. ser positivista e não idealista. em uma palavra. evitou-me o grave escolho de crer na sua infalibilidade e preservou-me de formular teorias prematuras sobre a opinião de um só ou de alguns. agi com os Espíritos como o teria feito com os homens: eles foram. Eu. se assim nos podemos exprimir. se fazia agir com circunspeção e não levianamente. O segundo ponto. não tinham nem a soberana sabedoria. "Só o fato da comunicação com os Espíritos. ensinar-nos tudo. com o auxílio dos documentos recolhidos de diferentes lados. em razão de sua posição pessoal e de seus conhecimentos. era já um ponto capital. Foi assim que sempre procedi em meus trabalhos anteriores. era. que o seu saber era limitado ao grau do seu adiantamento. Cedo. podendo cada qual nos ensinar alguma coisa e nenhum deles podendo. a gravidade da exploração que ia empreender. para mim. era conhecer o estado desse mundo e seus costumes. coordenados e confrontados entre si. Esta verdade. o que quer que eles pudessem dizer. uma completa revolução nas ideias e nas crenças. não menos importante. Cumpre ao observador formar o conjunto. nem a soberana ciência. Entrevi nesses fenómenos a chave do problema tão obscuro e tão controvertido do passado e do futuro. individualmente. portanto. Compreendi. um imenso campo franqueado às nossas explorações. reconhecida desde o começo. desvendava-me uma fase desse mundo.BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC 17 as dificuldades da questão. colecionados. a chave de uma multidão de fenómenos inexplicados. .

prometia-lhe esse Espírito secundá-lo na tarefa muito importante a que ele era chamado. Allan Kardec. propus-me. e Didier. Tiedeman-Manthèse. como a amizade que lhe havia votado só fazia aumentar. lançou-se à obra: tomou os cadernos. e. esses senhores lhe enviaram os cadernos. Rivail. "Até então. seu Espírito protetor. na qual lhe dizia. aí. tê-lo conhecido em uma precedente existência. diz ele próprio. então. e preparou as perguntas necessárias para chegar a esse resultado.38 BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC desde o menor até o mais elevado. e que facilmente levaria a termo. Rivail. longe de ser um entusiasta dessas manifestações e absorvido por outras preocupações. as sessões em casa do Sr. suprimiu as repetições e pôs na respectiva ordem cada ditado. pedindo-lhe que deles tomasse conhecimento e os pusesse em termos —. deu-lhe. convém acrescentar que a princípio o Sr. Rivail. o que talvez tivesse feito se não fossem as instantes solicitações dos Srs. quando." A estas informações. colhidas nas Obras Póstumas de Allan Kardec. pois. editor. Ele se chamava. e o sábio enciclopedista recusava-se a essa tarefa enfadonha e absorvente. uma comunicação toda pessoal.. fazer resolver os problemas que me interessavam sob o ponto de vista da filosofia. assinalou as lacunas a preencher. que acompanhavam havia cinco anos o estudo desses fenómenos e tinham reunido cinquenta cadernos de comunicações diversas. anotou-os com cuidado. em razão de outros trabalhos. os arranjasse. cada relatório de sessão. ao tempo dos Druidas. Baudin não tinham nenhum fim determinado. Uma noite. as obscuridades a aclarar. da psicologia e da . membro da Academia das Ciências. esteve a ponto de as abandonar. pai e filho. viviam juntos nas Gálias. Este trabalho era árduo e exigia muito tempo. O Sr. Carlotti. Z. em virtude das lacunas e obscuridades dessas comunicações. por um médium. Após atenta leitura. Sardou. meios de colher informações e não reveladores predestinados. que não conseguiam pôr em ordem. René Taillandier. Conhecendo as vastas e raras aptidões de síntese do Sr. entre outras coisas.

" (•) Arranjada em forma de bico. classificadas e muitas vezes refeitas no silêncio da meditação. o Sr. diz ainda Allan Kardec. com o auxílio da cesta aguçada ( * ) . Foi assim que mais de dez médiuns prestaram seu concurso a esse trabalho. "Não me contentei com essa verificação. . tendo as questões fúteis perdido o atrativo para o maior número. que obtinha como médium comunicações muito interessantes. sucessivamente desenvolvidas e completadas. Desde esse momento as reuniões tiveram caráter muito diferente. em casa do Sr. e para que fosse consagrado mais cuidado. profundeza e de modo lógico." Em 1856. sonâmbula. coordenadas. encontravam-se pessoas sérias que tomaram vivo interesse pelo trabalho. Comparecia a cada sessão com uma série de questões preparadas e metodicamente dispostas: eram respondidas com precisão. que formei a primeira edição de O Livro dos Espíritos. com Mlle.BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC 19 natureza do mundo invisível. Se me acontecia faltar. tive o pensamento de o publicar. Esse trabalho foi efetuado. ficavam as sessões como que tolhidas. Rivail frequentou as reuniões espíritas que se realizavam à rua Tiquetone. E foi da comparação e da fusão de todas essas respostas. para instrução de todos. Japhet. mais tarde. quando vi que tudo aquilo formava um conjunto e tomava as proporções de uma doutrina. mas a pedido dos Espíritos. toda vez que se oferecia ocasião. fizeram a base de O Livro aos Espíritos. fez examinar por esse médium as comunicações obtidas e postas precedentemente em ordem. e. Foram essas mesmas questões que. A princípio eu não tinha em vista senão a minha própria instrução. Roustan. que os Espíritos me haviam recomendado. a princípio. entre os assistentes. a qual apareceu em 18 de abril de 1857. — Nota do Tradutor. eu a aproveitava para propor algumas das questões que me pareciam mais melindrosas. nas sessões ordinárias. mais atenção a esse exame. foi continuado em sessões particulares. Tendo-me as circunstâncias posto em relação com outros médiuns.

— Nota da Editora (FEB). — Com que fim. No dia 25 de março de 1856 estava Allan Kardec em seu gabinete de trabalho. sendo dia de sessões em casa do Sr. mas sem resultado. . revista. — Podes perguntar a ele mesmo. vinha ele bater assim? R. — Queria comunicar-se contigo. Sendo o seu nome muito conhecido do mundo científico. ouviu os mesmos ruídos.° 8. P. quando ouviu ressoarem pancadas repetidas no tabique. entrando cerca das dez horas. ao fundo. em via de compulsar as comunicações e preparar O Livro dos Espíritos. Allan Kardec reeditou-a em 1858 (*) sob a forma atual in-12. de onde podiam eles provir. Moravam. correta e consideravelmente aumentada. o autor ficou muito embaraçado em resolver como o assinaria. e podendo originar uma confusão. A 2» edição foi Impressa em 1860. No momento de publicá-lo. Sua mulher. a causa disso. em frente. uma para as perguntas e outra. em duas colunas. se com o seu nome — Denizard-Hippolyte-Léon Rivail. contei o fato e pedi a explicação dele. porque está aqui. no segundo andar. (*). e nfio 1858. em virtude dos seus trabalhos anteriores. procurou. A obra alcançou tal êxito que a primeira edição foi logo esgotada. podereis dizer-me a causa dessas pancadas que se fizeram ouvir com tanta insistência? Resposta: — Era o teu Espírito familiar. talvez mesmo prejudicar o êxito do empreendimento. e em seguida tornou a pôr mãos à obra. Pergunta: — Ouvistes o fato que acabo de narrar. segundo lhe revelara o guia. para as respostas. ele adotou o alvitre de o assinar com o nome de Allan Kardec que.20 BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC Esse livro era em formato grande. sem descobrir. Baudin. "No dia seguinte. — Podereis dizer-me o que queria ele? R. à rua dos Mártires n. procuraram. então. ele tivera ao tempo dos Druidas. escreve Allan Kardec. in-4. P. ou com um pseudónimo.

— Meu Espírito familiar. ou. P. até nova ordem. não será tão cedo que as poderás obter. quanto a respostas escritas em tua casa. Lê da terceira à trigésima linha e reconhecerás um grave erro. — Rasguei o que tinha feito ontem. P. ou sobre o conjunto do trabalho? R. o que escrevias me desagradava e eu queria fazer-te parar. e todos os meses. — A vossa desaprovação versava sobre o capítulo que eu escrevia. Está melhor? R. Quereis ter a bondade de dizer-me quem sois? R. Relê e verás. Torna a lê-lo esta noite. — O que eu tinha a dizer-te era sobre o trabalho que fazias. P. tínheis alguma coisa de particular a dizer-me? R. — Sim. mas não muito bom. Essa inutilização não impede que subsista o erro. à tua disposição. para que eu te assista pelo pensamento. agradeço-vos terdes vindo visitar-me. — Podereis vir mais frequentemente que todos os meses? R. reconhecer-lhe-ás os erros e os corrigirás. quem quer que sejais. P. durante um quarto de hora. — Eu mesmo não estava muito satisfeito com esse capítulo e o refiz hoje. — Para ti chamar-me-ei a Verdade. é um guia que te há de auxiliar e proteger. mas. — Não importa. R. — Posso evocar-vos em minha casa? R. . — Ontem. mas não prometo senão uma vez por mês. NOTA — O que eu escrevia era precisamente relativo aos estudos que fazia sobre os Espíritos e suas manifestações. P.BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC 21 P. — Talvez. P. — O nome de Verdade que tomais é uma alusão à verdade que procuro? R. P. pelo menos. — Sobre o capítulo de ontem: faço-te juiz dele. estarei aqui. — Sim. quando batestes. — Está melhor. enquanto eu trabalhava.

a princípio muito vago. em casa do Sr. Allan Kardec perguntou aos seus guias. pela médium Mlle. médium. sendo intermediário o Sr. foi precisado no dia 12 de junho de 1856. vieram reafirmar e corroborar a primeira comunicação obtida a esse respeito. a 12 de abril de 1860. fixada para cada comunicação do Espírito Verdade. Allan Kardec apressou-se a reler o que escrevera e pôde verificar o grave erro que com efeito havia cometido.22 BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC P. Dufaux. confirmou as duas comunicações precedentes. Aline C. por intermédio da Srta. o que da tua parte devia importar discrição. obtida na ausência de Allan Kardec. o projeto de criar um jornal espírita. a Sra. Numerosas comunicações. em razão do êxito de O Livro dos Espíritos. Havia-se dirigido ao Sr. Foi a 30 de abril de 1856. não saberás mais que isto. essa missão foi novamente confirmada em uma comunicação espontânea. Croset. Urgido pelos acontecimentos e pelos documentos que tinha em seu poder. para solicitar-lhe o concurso pecuniário. mas não em sua casa. também. por intermédio de Mlle. Cardone. Tiedeman. raramente foi observada. que ela ignorava." De volta a casa. cada vez que ele esperava obter alguma coisa. mas este não estava resolvido a tomar parte nessa empresa. que a isso se vinha opor. no dia 15 de novembro de 1857. procedentes dos mais diversos pontos. se deu a respeito do seu pseudónimo. onde durante cerca de um ano não pôde este receber nenhuma comunicação por médium algum e. pela inspeção das linhas da mão de Allan Kardec. era obstado por uma causa qualquer e imprevista. Roustan. — Disse-te que para ti eu era a Verdade. Ele se manifestou frequentemente a Allan Kardec. Assim. A 6 de maio de 1857. Finalmente. A dilação de um mês. Dehan.. médium. Allan Kardec formara. Japhet. Animastes alguma personagem conhecida na Terra? R. o que deveria . que Allan Kardec recebeu a primeira revelação da missão que tinha a desempenhar. Esse aviso. em casa do Sr. E.

diz Allan Kardec. e não tive de que me arrepender. como trabalho. porque é ao mundo inteiro que se trata de agitar e de trans- . Aline C. — 12 de junho de 1856: P. nessa Revista Espírita.° de janeiro. a situação naquela época. fosse a minha tarefa. sob um prisma pouco lisonjeiro. esse jornal se me tornou em poderoso auxiliar. que nunca o surpreenderam. por mais onerosa que. a tua é rude. — Quais são as causas que me poderiam fazer fracassar? Seria a insuficiência das minhas aptidões? R. os números se sucederam sem interrupção. porém. que a lide se tornava mais áspera. sem nada dizer a pessoa alguma.BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC 23 fazer. e durante onze anos. porque estava mais livre. A partir de 1. inteiramente por minha conta e risco. esse enérgico trabalhador se elevava. perigos de toda sorte. Fi-lo." E essa tarefa devia ir sempre crescendo em labor e em responsabilidades. — Não. Essa comunicação e as reflexões de que as anotou Allan Kardec nos mostram. como o previra o Espírito. como ele mesmo relata e como lhe fora anunciado ao ser-lhe revelada a sua missão. que acabamos de ver como começou tão modestamente. nem sócio capitalista. todas as emulações. previno-te. porque o êxito ultrapassou a minha expectativa. mas fazem também ressaltar o grande valor do fundador do Espiritismo e o seu mérito em ter sabido triunfar: Médium. Só. mas a missão dos reformadores é cheia de escolhos e perigos. Não tinha um único assinante. e o fiz aparecer no dia 1. à altura dos acontecimentos. ele afrontou todas as tempestades.° de janeiro de 1858. também. mais tarde. enquanto que um estranho interessado teria pretendido impor-me as suas ideias e a sua vontade e poderia embaraçar-me a marcha. eu não tinha que prestar contas a ninguém. "Apressei-me em redigir o primeiro número. À medida. pois. emboscadas. em lutas incessantes contra obstáculos. e. Foi-lhe respondido que pusesse a sua ideia em execução e que não se inquietasse com o resto. que era uma felicidade para mim não ter tido um sócio capitalista. Mlle. Reconheci. todos os ciúmes que não lhe foram poupados.

em lugar de uma vereda florida. Pois bem. Espírito Verdade. urdidas por aqueles que se diziam a meu favor. é preciso. A Sociedade de Paris tem sido um contínuo foco de intrigas. tenho sido traído por aqueles em quem depositara confiança. e pago com a ingratidão por aqueles a quem tinha prestado serviços. é preciso. mostrando-se amáveis em minha presença. e estar pronto para todos os sacrifícios. humildade. e que. Mais de um recua quando. porque tu não viverás muito tempo. não. porque experimentei todas as vicissitudes que nela me foram anunciadas. implacáveis inimigos tramarão a tua perda.24 BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC formar. da injúria. em uma palavra. ." NOTA — (É Allan Kardec que assim se exprime) : "Escrevo esta nota no dia l» de janeiro de 1867. porque abatem os orgulhosos e os presunçosos. da tua tranquilidade. sucumbirás mais de uma vez ao peso da fadiga. é necessário coragem. estarás exposto à calúnia. para agradar a Deus. as tuas melhores instruções serão impugnadas e desnaturadas. Tenho sido alvo do ódio de implacáveis inimigos. ter prudência e tato para conduzir as coisas a propósito e não comprometer-lhes o êxito por medidas ou palavras intempestivas. e ficares tranquilamente em tua casa. da tua saúde e mesmo da tua vida. enfim. Não creias que te seja suficiente publicar um livro. dois livros. Para lutar contra os homens. abnegação. da calúnia. não encontra sob seus passos senão espinhos. perseverança e firmeza inquebrantáveis. devotamento. É preciso antes de tudo. têm sido publicados contra mim infames libelos. também. agudas pedras e serpentes. as minhas melhores instruções têm sido desnaturadas. à traição. é preciso te mostrares no conflito. dez anos e meio depois que esta comunicação me foi dada. contra ti se açularão terríveis ódios. é uma luta quase constante que terás de sustentar com o sacrifício do teu repouso. e verifico que ela se realizou em todos os pontos. modéstia. desinteresse. "Vês que a tua missão está subordinada a condições que dependem de ti. da inveja e do ciúme. mesmo daqueles que te parecerão mais dedicados. Para tais missões não basta a inteligência. dez livros.

Dufaux. as reuniões se realizavam em casa de Allan Kardec. eu devia contar com tudo isso. para se poderem reunir. com Mlle." Quando se conhecem todas essas lutas. obter o reconhecimento e a autorização da Polícia. mais de uma vez. sob o excesso do trabalho. esse local muito acanhado e não querendo onerar Allan Kardec com todos os encargos. esses pigmeus que procuravam obstruir-Ihe o caminho? Na maior parte são desconhecidos os seus nomes. ou nenhuma recordação despertam mais: o esquecimento os retomou e sepultou para sempre em suas sombras. E. Dufaux. Mas era preciso. sucumbi. A Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas foi fundada a 1. o pioneiro ousado. sem me preocupar com a malevolência de que era alvo. e que tenho constantemente prosseguido na minha tarefa com o mesmo ardor. Tornando-se. Até então. Disseram que aqueles que adotavam o meu partido eram assalariados por mim com o dinheiro que eu arrecadava do Espiritismo.° de abril de 1858. o seu salão poderia conter de quinze a vinte pessoas.BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC 25 me detratavam na ausência. que sem cessar me têm dado provas manifestas de sua solicitude. o intrépido lutador. tem-se-me alterado a saúde e comprometido a vida. enquanto que o de Allan Kardec. alguns dos assistentes se propuseram formar uma sociedade espírita e alugar um outro local em que se efetuassem as reuniões. O Sr. Segundo a comunicação do Espírito Verdade. como principal médium. Não mais tenho conhecido o repouso. "Entretanto. e tudo se verificou. passará à posteridade com a sua auréola de glória tão legitimamente adquirida. quanto ele se engrandece aos nossos olhos e como o seu brilhante triunfo adquire mérito e esplendor! Que se tornaram esses invejosos. à rua dos Mártires. graças à proteção e à assistência dos bons Espíritos. Cedo. sou feliz em reconhecer que não tenho experimentado um único instante de desfalecimento nem de desânimo. então. todas as torpezas de que Allan Kardec foi alvo. que . aí reuniu ele mais de trinta.

e. pág. enquanto que pelo processo ordinário teria exigido meses. o general X. sem o qual o prestígio de assembleia séria teria cedo desaparecido. que exigem longos e laboriosos estudos e não absorverão menos de dez anos. no local que fora alugado no Palais-Royal. então.° de abril de 1859 a 1. 1859. época em que se instalou em sede própria. não ambiciono senão um título — o de simples membro titular. reunia-se todas as sextas-feiras em um dos salões do restaurante Douix. à rua e passagem SanfAna n. de 1. quer para o preparo. galeria Valois. "A Sociedade foi.° de abril de 1859. a autorização foi obtida em quinze dias. Agora. os trabalhos da Sociedade não deixam de tomar muito tempo.° de abril de 1858 a 1. encarregou-se de dar os passos para esse íim. Reclamam assiduidade muitas vezes prejudicial às minhas ocupações pés- .. mesmo a de diretor dos estudos. além daqueles que conheceis.26 BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC conhecia pessoalmente o prefeito de polícia de então. do ponto de vista administrativo. preparo outros trabalhos mais consideráveis. Não podendo lá permanecer por mais tempo. no Palais-Royal." Depois de haver dado conta das condições em que se formou a Sociedade e da tarefa que teve a desempenhar. que era favorável às novas ideias. que aumentam todos os dias. quer para a coordenação e a passagem a limpo. galeria Montpensier. devo inteirar-vos da resolução que tomei. de 1. que a minha tarefa está terminada e que o impulso está dado.° de abril de 1860. de renunciar de futuro a toda espécie de função na Sociedade. ora. esforcei-me por manter nas sessões uma ordem rigorosa e por imprimir-lhe um caráter de gravidade. toda a solicitude e toda a dedicação de que era capaz. regularmente constituída e reunia-se todas as terças-feiras. 169) : "Empreguei em minhas funções. Aí ficou durante um ano. porque.° 59. Allan Kardec assim se exprime (Revista Espirita. pela extensão das minhas relações. que posso dizer laboriosas. sem grande probabilidade de êxito. com que me sentirei sempre feliz e honrado. O motivo da minha determinação está na multiplicidade dos meus trabalhos. graças ao ministro do Interior.

É a esse motivo. e felicita-se pela cordialidade do acolhimento que por toda parte encontrou. dela se ocupam de modo sério. ao contrário. poderiam acreditar em uma deserção. Allan Kardec dá conta do resultado da viagem que acaba de fazer. mas. que. menos um voto e uma cédula em branco. Mácon. e era preciso não dar esse prazer aos nossos adversários. se não fora o temor de produzir uma perturbação na Sociedade. em todo lugar em que se demorou. Tê-lo-ia feito mais cedo. Diante desse testemunho de simpatia. no interesse do Espiritismo. quer aqui. pois que se torna indispensável a iniciativa quase exclusiva que me tendes deixado. Allan Kardec fez uma viagem de propaganda à nossa região. especialmente em Sens. para não embaraçar a escolha que fareis. hoje. e especialmente ao Sr. mas o que sobretudo é digno de nota." Apressemo-nos a acrescentar que essa demissão não foi aceita e que Allan Kardec foi reeleito por unanimidade. Lião e Saint-Etienne. porém. É justo que cada um tenha a sua parte nos encargos e nas honras. Retirando-me no meado do ano. ele se submeteu e se conservou em suas funções. Desde muito tempo alimentava o desejo de demitir-me das minhas funções: manifestei-o de modo muito explícito em diversas ocasiões. sem dúvida. que esses motivos cessaram. sendo os mais encarniçados os inimigos interessados. vendo que os seus . muitos adversários. mas os mote j adores diminuem sensivelmente. Observou. os progressos consideráveis da doutrina. Desempenhei. apresso-me em vos dar parte da minha resolução. Ledoyen. Há. e que por toda parte lhe compreendem o alcance e as consequências futuras. que eu devo o ter tantas vezes tomado a palavra. a minha tarefa até ao fim. quer em particular a muitos dos meus colegas.BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC 27 soais. meus senhores. Em setembro de 1860. lamentando com frequência que os membros eminentemente esclarecidos que possuímos nos privassem das suas luzes. é que em parte alguma viu que dela se fizesse um divertimento. portanto. e eis aqui como a ela fez referência na Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas: "O Sr.

compreendem o seu alcance filosófico. os fenómenos. começam a compreender que nada ganham com isso e que consomem o seu espírito em pura perda. em pouco tempo — eu o espero —. compreendendo a doutrina sob seu verdadeiro ponto de vista. porém. eu sabia perfeitamente que Lião os contava em grande escala. do qual eis aqui algumas passagens. e que auxiliam mais do que impedem o progresso das novas crenças. "Se. e na classe operária contam-se por centenas. porque é por centenas que eles se contam. e nada mais.28 BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC sarcasmos não colocam do seu lado os gracej adores. é sobretudo em Lião que são mais notáveis os resultados. o Espiritismo é simplesmente para eles uma série de fatos mais ou menos interessantes. e assim se calam. no banquete realizado a 19 de setembro de 1860. Há. já se não poderão contar mais. e. não se contentam de admirar a moral: praticam-na e aceitam-lhe as conse- . numerosos em todas as classes. antes de tudo. em resumo. Allan Kardec pronunciou um discurso magistral. próprias a nos interessar. e é esta: o Espiritismo está no ar. três categorias de adeptos: uns que se limitam a crer na realidade das manifestações e que procuram. Os segundos vêem outra coisa nele além dos fatos. o que ainda vale mais. finalmente. a caridade cristã é uma bela máxima. a propagação do Espiritismo marcha com a mais animadora celeridade. Por toda parte não encontrei senão espíritas sinceros. Mas. sob o ponto de vista da ordem. mas não a praticam. A Doutrina Espírita tem exercido sobre os operários a mais salutar influência. Os terceiros. Uma frase muito característica parece ser em toda parte a ordem do dia. a nós que aspiramos a substituir dignamente esses trabalhadores da primeira hora: "A primeira coisa que me impressionou foi o número de adeptos. para eles." No decurso dessa viagem. mas estava longe de imaginar que o número fosse tão considerável. admiram a moral que deles decorre. só por si desenha ela o estado das coisas. aí. da moral e das ideias religiosas. meus senhores. Os espíritas são. não o faz menos pela qualidade. Lião se distingue pelo número.

meus senhores. em parte alguma vi que se ocupassem do Espiritismo por mera curiosidade. é para nós uma grande honra. mas deve ser também uma regra de conduta. tanto como os indivíduos. Honra. ou." Essa opinião de Allan Kardec. ou . aí. terá suas consequências. conformando com elas o nosso proceder. os espiritas-cristãos. sobre os quais. Devemos esforçar-nos por merecer esses elogios. diz um adágio. há muitos da terceira categoria. por nossa vez. dava-lhes. a caridade é. Noblesse oblige. Allan Kardec não se contentava em atirar flores sobre nossos companheiros. em toda ocasião. entrado largamente nessa senda progressista. sobre os espíritas lioneses de sua época. nenhum adepto da primeira categoria. Se Paris é a cabeça. quando eu lhes exprimia a minha surpresa: "Por que te admiras disso? Lião foi a cidade dos mártires. "Vindo dos Espíritos o ensino. Lião será o coração. os diferentes grupos. as suas relações são sempre seguras. por toda parte o fim é grave.BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC 29 quências. assim. com frívolos intuitos. posto que dos mais obscuros. a fé aí é vivaz. sábios conselhos. sobretudo. porque as suas convicções os afastam de todo pensamento do mal. "Pois bem. ela fornecerá apóstolos ao Espiritismo. aos espíritas lioneses. melhor. e. empenhando-se em fazer o bem e em reprimir as suas más inclinações. para marchar na senda do progresso que lhes traçam os Espíritos. Bem convencidos de que a existência terrestre é uma prova passageira. por terem. Mas. a regra da sua conduta: são esses os verdadeiros espíritas. aprofundando por nossa vez as lições do mestre e. deveremos meditar. pois. e não é sem razão — eu o vejo — que os Espíritos me responderam noutro dia. eu vo-lo digo com satisfação: ainda não encontrei. as intenções são sérias. sem a qual o Espiritismo não teria objetivo. se acham sob a influência de certos Espíritos que presidem aos seus trabalhos. por um dos vossos médiuns mais dedicados. Este exemplo não será perdido. saibamo-nos recordar sempre disso e conservar alto e firme o estandarte do Espiritismo. esforçam-se por aproveitar esses curtos instantes. sobretudo. a crer no que me dizem.

confrontadp. aquele cuja teoria não pode provocar nenhuma objeção séria. tem seus escolhos que se não podem evitar senão pela experiência. escolhendo no arsenal das palavras técnicas tudo o que pode fascinar aquele que é facilmente crédulo. é preciso que tudo seja friamente examinado. podeis imediatamente concluir que é um nome apócrifo e que é um Espírito impostor ou galhofeiro. o ensino peca pelas qualidades essenciais. Para escapar à cilada. racional. "Acontece muitas vezes que. segundo o provérbio: que quatro olhos vêem melhor do que dois. eu o confesso. se desconfiamos do próprio julgamento. fugir ao entusiasmo que cega. Se. é preciso. Regra geral: o nome nunca é uma garantia. evidentemente. ao orgulho que leva certos médiuns a acreditarem-se os únicos intérpretes da verdade. fraternidade. tanto da parte dos Espíritos. nunca se disse que o Espiritismo fosse uma ciência fácil. o que é muitas vezes mais prudente. aí está uma das maiores dificuldades. dá maior número de provas de superioridade. a verdadeira garantia de superioridade é o pensamento e a maneira por que é ele expresso. É preciso. a questão está em saber qual é o que merece maior confiança. Eles têm. em todos os pontos. com o auxílio das grandes palavras — caridade. maduramente pesado. antes de tudo. quando se não está precavido. quanto da dos homens. será. pouco importa o nome que toma o Espírito. Se esses Espíritos não se acham de acordo. um meio mais certo: é afetar as exterioridades da virtude. Os Espíritos enganadores tudo podem imitar. pois.30 BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC os dirigem moralmente. a única. e a esse respeito a questão de identidade é inteiramente secundária. Só um falso . Se tudo nesse ensino é bom. ainda. mas. alguns Espíritos lazem alarde de um falso saber e pensam impô-las. sob um nome respeitável. e. aquele que. evitar o deixar-se seduzir pelas aparências. é preciso recorrer a outras pessoas. humildade — esperam fazer passar os mais grosseiros absurdos e é o que acontece muitas vezes. ora. tudo. em uma palavra. exceto o verdadeiro saber e o verdadeiro sentimento. para fazer adotar certas utopias.

então. Didier & Cia. são numerosos. nem pela observação. é o que produz tanta decepção aos que dele se ocupam sem ter a experiência e os conhecimentos necessários. o vade-mécum de quantos se querem entregar com proveito à prática do Espiritismo experimental. por esse novo terreno. Allan Kardec trabalhava." O Livro dos Médiuns é. com imprudência." Eis os conselhos tão sábios e tão práticos dados por aquele que quiseram fazer passar por um entusiasta. nem pelos acontecimentos. sobretudo. livreiros-editores. mais prudente. um alucinado. objeto de atenção toda especial. em O Livro dos Médiuns. "O Espiritismo experimental está cercado de muito mais dificuldades do que se acredita geralmente. ele contém.. a única a seguir por aqueles que se querem ocupar do Espiritismo. esclarecer todas as questões que se prendem à prática das manifestações. Não podíamos desprezar um ponto tão capital. e os escolhos. e o tratamos com cuidado igual à sua importância. de nossa parte. na Revista Espírita: "Procuramos neste trabalho. nada apareceu de melhor nem de mais completo nessa ordem de ideias. de acordo com os Espíritos.BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC 31 amor-próprio ou uma obsessão podem fazer persistir em uma ideia notoriamente falsa e que o bom-senso de cada um repele. mas a parte concernente ao desenvolvimento e ao exercício da mediunidade foi. a explicação teórica dos diversos fenómenos e condições em que eles se podem produzir. É ainda o . um místico. que aí se encontram. e essa regra de conduta. nem sempre isentas de inconveniente para quem quer que se aventure. O mestre expõe a sua razão de ser nos seguintes termos. O nosso fim foi acautelar os investigadores contra tais dificuldades. é sempre a vereda mais segura. que apareceu na primeira quinzena de janeiro de 1861. ainda não foi invalidada. estabelecida no começo. fruto de longa experiência e de laboriosos estudos. editado pelos Srs. ainda.

objeto de atenção toda especial.BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC 31 amor-próprio ou uma obsessão podem fazer persistir em uma ideia notoriamente falsa e que o bom-senso de cada um repele. nem sempre isentas de inconveniente para quem quer que se aventure. estabelecida no começo. são numerosos. a explicação teórica dos diversos fenómenos e condições em que eles se podem produzir. ele contém. O nosso fim foi acautelar os investigadores contra tais dificuldades. mais prudente. e os escolhos. nem pelos acontecimentos. e essa regra de conduta." Eis os conselhos tão sábios e tão práticos dados por aquele que quiseram fazer passar por um entusiasta. em O Livro dos Médiuns. É ainda o . que apareceu na primeira quinzena de janeiro de 1861. de acordo com os Espíritos. então. Não podíamos desprezar um ponto tão capital. nada apareceu de melhor nem de mais completo nessa ordem de ideias. é o que produz tanta decepção aos que dele se ocupam sem ter a experiência e os conhecimentos necessários. o vade-mécum de quantos se querem entregar com proveito à prática do Espiritismo experimental. sobretudo. editado pelos Srs. um místico.." O Livro dos Médiuns é. nem pela observação. um alucinado. fruto de longa experiência e de laboriosos estudos. livreiros-editores. a única a seguir por aqueles que se querem ocupar do Espiritismo. na Revista Espírita: "Procuramos neste trabalho. com imprudência. de nossa parte. por esse novo terreno. Allan Kardec trabalhava. "O Espiritismo experimental está cercado de muito mais dificuldades do que se acredita geralmente. é sempre a vereda mais segura. Didier & Cia. que aí se encontram. ainda. mas a parte concernente ao desenvolvimento e ao exercício da mediunidade foi. O mestre expõe a sua razão de ser nos seguintes termos. e o tratamos com cuidado igual à sua importância. esclarecer todas as questões que se prendem à prática das manifestações. ainda não foi invalidada.

o terreno da mediunidade. aí. ou. um rapaz muito bom médium vidente. e pode-se calcular que. em um só grupo vimos cinco escreverem simultaneamente. e sua mulher. O Espiritismo. Vimos. para melhor dizer. . não é mais por centenas. em Vaise. querem tirar-Ihe exatamente aquilo que a ajuda a carregar o seu fardo de miséria. volta-se para o lado que lhe oferece maior consolação. já se não contam.32 BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC mais seguro guia de que nos podemos servir para explorar. etc. O que vimos com os nossos próprios olhos é de tal modo característico e encerra ensino tão grande. mas é sobretudo na classe operária que se tem propagado com maior rapidez. e isso não é de admirar: sendo essa classe a que mais sofre. Então. seguindo a mesma progressão. que aí se contam os espíritas. no qual pudemos verificar essa faculdade desenvolvida no mais alto grau. em Perrache. igualmente. em Croix-Rousse. como há um ano. tem feito adeptos em todas as classes. dentro de um ano ou dois eles serão mais de trinta mil. havia apenas dois ou três médiuns neófitos. o dos Brotteaux. só havia um único centro de reunião. chefe de oficina. dirigido por Dijoux. mas. é por milhares. hoje os há em todos os grupos e muitos são de primeira ordem. Mácon e Lião. Allan Kardec fez uma nova viagem espírita a Sens. depois. sem perigo. "No ano passado. sem contar grande número de reuniões particulares. diz ele. que acreditamos dever consagrar aos operários a maior parte do nosso relatório. No ano de 1861.. formaram-se outros em diferentes pontos da cidade: em Guillotière. em Saint-Just. e verificou que em nossa cidade o Espiritismo atingira a maioridade. essa classe se voltaria para eles. Se aqueles que clamam contra o Espiritismo lhe oferecessem outro tanto. "Com efeito. ao contrário. E isto tem sido o meio mais seguro de perderem as suas simpatias e fazê-la engrossar as nossas fileiras.

que se consideram todos como membros de uma grande família. grande satisfação em registrar. ódios apaziguados. crianças mesmo.BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC 33 -i "Sem dúvida. No dia 19 de setembro de 1860 os convivas eram apenas uns trinta." Por ocasião dessa viagem. em parte alguma. um banquete novamente reuniu sob a presidência de Allan Kardec os membros da grande família espírita lionesa. ao recolhimento e à atenção que prestam às instruções dos seus guias espirituais. e isso pela confiança. jamais uma única criança perturbou por instantes o silêncio das nossas reuniões. é que neles não há a fé vulgar. inverno ou verão. de passagem. quase tão grande quanto o dos adeptos: hábitos viciosos reformados. no futuro em que não acreditavam. sob qualquer tempo. velhos. entre os quais não existe sombra de ciúme e de rivalidade. em recolher as nossas palavras. lares tornados tranquilos. muitas vezes longas. tudo arrostando para não faltarem a uma sessão. muitos chegam a galgar mais de uma légua. declaramo-lo bem alto: não vimos. mas a baseada sobre uma convicção profunda. A maioria dos assistentes era composta de operários e toda gente notou a perfeita ordem que não cessou de reinar um só instante. entre os operários. a 19 de setembro de 1861 o número era de cento e sessenta. quanto à ordem. mas o que mais vale ainda do que o número é a qualidade. temos. senhoras. "representando os diferentes grupos. reuniões espíritas mais edificantes do que as dos operários lioneses. cega. que lhes dão as comunicações espíritas. "Mas. 2 . de que saem reconfortados contra a adversidade. jovens. paixões acalmadas. raciocinada e não. Pois bem. pareciam quase tão ávidas quanto seus pais. cuja atitude respeitosa contrasta com a sua idade. há homens. isto não é tudo: o número das metamorfoses morais é. muito é para desejar que se multipliquem os adeptos. em uma palavra. de agora em diante inabalável. É que os verdadeiros espíritas põem sua satisfação nas alegrias do coração e não nos prazeres ruidosos". o que — diz o Mestre —. é uma felicidade para eles assistirem a essas instruções. as mais legítimas virtudes cristãs desenvolvidas.

onde. À sua chegada à Espanha. o dissuadiram disso. fez confiscar a expedição pelo Santo-Ofício. tendo julgado esses livros perniciosos à fé católica. dizendo que era preferível para a propaganda do Espiritismo deixar essa ignomínia seguir o seu curso. Uma vez que não queriam entregar essas obras ao destinatário. em relações e em comunhão de ideias com Allan Kardec." E não somente esses livros não foram restituídos. . mas a sua reclamação foi de nulo efeito. Refiro-me ao auto-de-fé levado a efeito em Barcelona. com uma declaração em ordem do conteúdo das caixas. semeava a boa-nova e fazia germinar a fé no futuro. fundamentou a sua recusa com a seguinte resposta: "A Igreja Católica é universal. O Sr. e sendo esses livros contrários à fé católica. foram os direitos da alfândega cobrados ao destinatário e arrecadados pelos agentes do governo espanhol. pediu a este que lhe enviasse certo número de obras espíritas.BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC A 14 de outubro do mesmo ano encontramos Allan Kardec em Bordéus. Allan Kardec reclamou a sua devolução. Os Espíritos. Maurício Lachâtre estava nessa época estabelecido corno livreiro. e em que foram queimadas pela fogueira dos inquisidores trezentas obras espíritas. foram expedidas nas condições ordinárias. Essas obras. em número de trezentas aproximadamente. e o bispo de Barcelona. como em todas as cidades por que passava. esse ano de 1861 permanecerá memorável nos anais do Espiritismo por um fato de tal modo monstruoso que quase parece incrível. o governo não pode consentir que eles passem a perverter a moral e a religião de outros países. Além das viagens e dos trabalhos de Allan Kardec. porém. mas a entrega das caixas não se fez: o bispo de Barcelona. mas também os direitos aduaneiros ficaram em poder do fisco espanhol. erigindo-se em policiador da França. em Barcelona. Assim. para as expor à venda e fazer propaganda da nova filosofia. Allan Kardec poderia promover uma ação diplomática e obrigar o governo espanhol a efetuar o retorno das obras.

o processo verbal dessa infâmia clerical: "Aos nove dias de outubro de mil oitocentos e sessenta e um. pelo Barão de Guldenstubbé. representando o proprietário das obras condenadas pelo bispo. "A História de Joana d'Arc. pela mão do carrasco. as obras incriminadas. a saber: "A Revista Espirita. trazendo em uma das mãos a cruz e. "O que é o Espiritismo. na outra.BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC 35 Renovando os fastos e as fogueiras da Idade Média. "O Livro dos Espíritos. "Um empregado superior da administração das alfândegas . "A realidade dos Espíritos demonstrada pela escrita direta. "O Livro dos Médiuns. "Uma multidão incalculável aglomerava-se nos passeios e cobria a esplanada em que ardia a fogueira. pelo mesmo. no lugar em que são executados os criminosos condenados à pena última. "O escrevente do tabelião. "Fragmento de Sonata. por Allan Kardec. "Um tabelião encarregado de redigir o processo verbal do auto-de-fé. "Assistiram ao auto-de-fé: "Um padre revestido de hábitos sacerdotais. às dez horas e meia da manhã. pelo Doutor Grand. na esplanada da cidade de Barcelona. uma tocha. diretor Allan Kardec. encarregados de alimentar o fogo. ditado pelo Espírito de Mozart. "Carta de um católico sobre o Espiritismo. o padre e os seus ajudantes se reti- . "Três mozos (serventes) da alfândega. por ela mesma ditada a Mlle. "Um agente da alfândega. por ordem do bispo desta cidade foram queimados trezentos volumes e brochuras sobre o Espiritismo. "A Revista Espiritualista. pelo mesmo. o bispo de Barcelona fez queimar em praça pública. diretor Piérart. a título de documento histórico. Ermance Dufaux. "Quando o fogo consumiu os trezentos volumes e brochuras espíritas. Eis aqui.

de qualquer comunhão que seja. Só podemos. como o haviam os Espíritos previsto. ponde a luz em evidência." Seria diminuir o horror de tais atos.36 BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC raram cobertos pelos apupos e as maldições dos numerosos assistentes. constatemos somente que ao clarão dessa fogueira o Espiritismo tomou um incremento inesperado em toda a Espanha e. 367): "O Espiritismo se dirige aos que não crêem ou que duvidam. porque semeareis em campos áridos. simples e sobretudo práticos. cumpre que deles nos recordemos e os aproveitemos oportunamente. muito mais quanto ao clero que aos seculares. acompanhá-los com a narrativa dos comentários. que gritavam: Abaixo a Inquisição! "Em seguida muitas pessoas se acercaram da fogueira e apanharam cinzas. pág. mostrai os frutos da árvore e deles dai de Comer aos que têm fome e não aos que se dizem saciados. conquistou." Estes conselhos. nunca deveremos esquecer estes conselhos do Mestre (Revista Espírita. um número incalculável de adeptos. pois. No dia 15 de janeiro apareceu . porque com os que crêem não sereis bem sucedidos. Repetiremos. da propaganda que nós mesmos devemos fazer da nossa filosofia. e não aos que têm fé e a quem essa fé é suficiente. A propósito. alegrar-nos com o grande reclamo que esse ato odioso operou em íavor do Espiritismo. para que a vejam os que quiserem ver. oferecei a luz aos que a procuram. pois. Por esse motivo não poderíamos aprovar as tentativas feitas por certas pessoas para converter às nossas ideias o clero. a todos os espíritas: acolhei com solicitude os homens de boa-vontade. como todos os de Allan Kardec. porém. não façais violência à fé de ninguém. aí. são claros. O ano de 1862 foi fértil em trabalhos favoráveis à difusão do Espiritismo. e nisto é consequente com os princípios de tolerância e de liberdade de consciência que professa. como o fez Allan Kardec. 1863. ele não diz a ninguém que renuncie às suas crenças para adotar as nossas.

BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC 37 a pequenina e excelente brochura de propaganda: O Espiritismo em sua mais simples expressão. porque a pequena brochura se espalhou em profusão. Sou feliz por ver que compreendestes perfeitamente o fim dessa organização. para permitir ser compreendido o seu fim moral e filosófico. Contamos com o zelo de todos os verdadeiros espíritas. porque Ele os ouve todos os dias. Ficai. eis aqui como respondeu o Mestre a esse testemunho de simpatia: "Meus caros irmãos e amigos de Lião: "A manifestação coletiva que tivestes a bondade de transmitir-me. em quadro muito resumido. por ocasião do ano-novo. um histórico do Espiritismo e uma ideia suficiente da doutrina dos Espíritos. Pela clareza e simplicidade do estilo. "Agradeço. mas. cujos resultados desde já podeis apreciar. é apresentar. o que me causou maior prazer. em minha . meus bons amigos. para que lhe auxiliem a propagação. devendo muitos a esse excelente trabalho o terem compreendido o fim e o alcance do Espiritismo. foi encontrar. diz Allan Kardec. e são os que Deus atende. representantes de quase todos os grupos. satisfeitos. a expressão dos seus sentimentos de gratidão. "O fim desta publicação. por ocasião do Ano-Novo. Tendo os nossos predecessores no Espiritismo transmitido a Allan Kardec. proporcionando-me a extraordinária satisfação no estabelecimento de uma nova doutrina. procuramos pô-lo ao alcance de todas as inteligências. porque deve ser agora evidente para vós que uma sociedade única seria quase impossível. os votos que fazeis por mim. porque é um sinal da harmonia que reina entre eles. produziu-me vivíssima satisfação. eles me são tanto mais agradáveis quanto sei que partem do coração. provando-me que conservastes de mím uma boa recordação." — Este apelo foi ouvido. de ver aquela a que me tenho dedicado engrandecer e prosperar. nesse ato espontâneo de vossa parte. pois. entre as numerosas assinaturas que nele figuram.

vida, com uma rapidez maravilhosa; considero um grande favor do céu ser testemunha do bem que ela já produz. "Esta certeza, de que recebo diariamente os mais tocantes testemunhos, me paga com usura todos os meus sofrimentos, todas as minhas fadigas; não peço a Deus senão uma graça, e é a de dar-me a força física necessária para ir até ao fim da minha tarefa, que longe se encontra de estar concluída; mas, como quer que suceda, possuirei sempre a maior consolação, pela certeza de que a semente das ideias novas, espalhada agora por toda parte, é imperecível; mais feliz que muitos outros, que não trabalharam senão para o futuro, é-me permitido contemplar os primeiros frutos. "Se alguma coisa lamento, é que a exiguidade dos meus recursos pessoais me não permita pôr em execução os planos que concebi para um avanço ainda mais rápido; se Deus, porém, em sua sabedoria, entendeu dispor de modo diferente, legarei esses planos aos nossos sucessores, que, sem dúvida, serão mais felizes. A despeito da escassez dos recursos materiais, o movimento que se opera na opinião ultrapassou toda a expectativa; crede, meus irmãos, que nisso o vosso exemplo não terá sido sem influência. Recebei, portanto, as nossas felicitações pela maneira por que sabeis compreender e praticar a Doutrina. "No ponto a que hoje chegaram as coisas, e tendo em vista a marcha do Espiritismo através dos obstáculos semeados em seu caminho, pode dizer-se que as principais dificuldades estão superadas; ele conquistou o seu lugar e está assente sobre bases que de ora em diante desafiam os esforços dos seus adversários. "Perguntam como uma doutrina, que torna feliz e melhor, pode ter inimigos; é natural; o estabelecimento das melhores coisas choca sempre interesses, ao começar. Não tem acontecido assim com todas as invenções e descobertas que têm revolucionado a indústria? As que hoje ;;ão consideradas como benefícios, sem as quais não se poderia mais passar, não tiveram inimigos obstinados? Toda lei que reprime um abuso não tem contra si todos is que vivem dos abusos? Como quereríeis que uma

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doutrina que conduz ao reino da caridade efetiva não fosse combatida por todos os que vivem no egoísmo? E sabeis que são eles numerosos na Terra! "No começo contaram sepultá-la com a zombaria; hoje vêem que essa arma é impotente e que, sob o fogo dos sarcasmos, ela prosseguiu o seu caminho sem tropeçar. Não acrediteis que se confessem vencidos; não, o interesse material é tenaz. Reconhecendo que é uma potência com que é necessário de hoje em diante contar, vão dirigir-lhe assaltos mais sérios, mas que só servirão para melhor atestar a fraqueza deles. Uns a atacarão diretamente por palavras e atos, e a perseguirão até na pessoa dos seus adeptos, que eles se esforçarão por desalentar a poder de embaraços, enquanto que outros, secretamente e por caminhos disfarçados, procurarão miná-la surdamente. "Ficai prevenidos de que a luta não está terminada; fui avisado de que eles vão tentar um supremo esforço. Não tenhais, porém, receio: o penhor da vitória está nesta divisa, que é a de todos os verdadeiros espíritas: Fora da caridade não há salvação. Arvorai-a bem alto, porque ela é a cabeça de Medusa para os egoístas. "A tática, posta já em prática pelos inimigos dos espíritas, mas que eles vão empregar com novo ardor, é tentar dividi-los criando sistemas divergentes e suscitando entre eles a desconfiança e o ciúme. Não vos deixeis cair no laço, e tende como certo que quem quer que procure um meio, qualquer que seja, para quebrar a boa harmonia, não pode ter boa intenção, É por isso que vos recomendo useis da maior circunspeção na formação dos vossos grupos, não somente para vossa tranquilidade, como no próprio interesse dos vossos labores. "A natureza dos trabalhos espíritas exige calma e recolhimento. Ora, não há recolhimento possível se se está preocupado com discussões e com a manifestação de sentimentos malévolos. Não haverá sentimentos malévolos se houver fraternidade; não pode, porém, haver fraternidade em egoístas, ambiciosos e orgulhosos. Entre orgulhosos, que se suscetibilizam e ofendem por tudo, ambiciosos que se sentirão mortificados se não tiverem

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a supremacia, egoístas que não pensam senão em si, a cizânia não pode tardar a introduzir-se, e com ela a dissolução. É o que desejariam os nossos inimigos, e é o que eles procuram fazer. "Se um grupo quer estar em condições de ordem, de tranquilidade e de estabilidade, é preciso que nele reine o sentimento fraternal. Todo grupo ou sociedade que se formar, sem ter caridade efetiva por base, não tem vitalidade; enquanto que aqueles que forem fundados de acordo com o verdadeiro espírito da doutrina olhar-se-ão como membros de uma mesma família que, não sendo possível habitarem todos sob o mesmo teto, moram em lugares diferentes. A rivalidade entre eles seria um contra-senso; ela não poderia existir onde reina a verdadeira caridade, porque a caridade não se pode entender de duas maneiras. "Reconhecei, pois, o verdadeiro espírita na prática da caridade por pensamentos, palavras e obras, e persuadi-vos de quem quer que nutra em sua alma sentimentos de animosidade, de rancor, de ódio, de inveja ou de ciúme, mente a si próprio se tem a pretensão de compreender e praticar o Espiritismo. "O egoísmo e o orgulho matam as sociedades particulares, como matam os povos e a sociedade em geral..." Tudo mereceria citação nestes conselhos, tão justos quão práticos; mas é preciso que nos limitemos, em razão do tempo de que podemos dispor.
*

A pedido dos espíritas de Lião e de Bordéus, Allan Kardec fez, em setembro e outubro, uma longa viagem de propaganda semeando por toda parte a boa-nova e prodigalizando conselhos, mas somente aos que lhos pediam; o convite feito pelos grupos lioneses estava subscrito por quinhentas assinaturas. Uma publicação especial deu conta dessa viagem de mais de seis semanas, durante a qual o Mestre presidiu a mais de cinquenta reuniões em vinte cidades, onde por toda parte foi alvo

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do mais cordial acolhimento e se sentiu feliz por verificar os imensos progressos do Espiritismo. A respeito das viagens de Allan Kardec, como certas influências hostis houvessem espalhado o boato de que eram feitas a expensas da Sociedade Parisiense de Estudos Espiritas, sobre cujo orçamento igualmente ele sacava de antemão todos os seus gastos de correspondência e de manutenção, o Mestre rebateu, assim, essa falsidade: "Muitas pessoas, sobretudo na província, pensaram que as despesas dessas viagens oneravam a Sociedade de Paris; tivemos que desfazer esse erro quando se ofereceu a ocasião; aos que ainda o pudessem partilhar, recordaremos o que afirmamos houtra circunstância (número de junho de 1862, página 167, Revista Espírita), que a Sociedade se limita a prover às suas despesas correntes e não possui reservas; para que pudesse acumular capital, ser-lhe-ia preciso que tivesse em mira o número; e isto é o que ela não faz nem quer fazer, porque o seu fim não é a especulação e porque o número nada acrescenta à importância dos trabalhos. Sua influência é toda moral e está no caráter de suas reuniões, que dão aos estranhos a ideia de uma assembleia grave e séria; aí está o seu mais poderoso meio de propaganda. Ela, pois, não poderia prover tal despesa. Os gastos de viagem, como todos os que as nossas relações reclamam para o Espiritismo, são tirados dos nossos recursos pessoais e das nossas economias, aumentadas com o produto das nossas obras, sem o qual nos seria impossível prover a todos os encargos, que são para nós a consequência da obra que empreendemos. Isto é dito sem vaidade e unicamente para render homenagem à verdade, e para edificação daqueles aos quais se afigura que nós capitalizamos." Em 1862 Allan Kardec fez também aparecer uma Refutação às criticas contra o Espiritismo (*), no ponto de vista do materialismo, da ciência e da religião.
( » ) Allan Kardec, no livro "Voyage Spirite en 1862" (Ledoyen, Paris, 1862, gr.in-8», 64 pp.), revela ter desistido da ideia

portanto. quanto aos estudos sérios e continuados. 1861. de pé. dez. Expondo aos espíritas belgas o seu modo de ver acerca dos grupos e sociedades espíritas. Allan Kardec fez aparecer uma nova obra — O Céu e o Inferno ou a Justiça Divina segundo o Espiritismo. contra ele próprio. aumentou. é preferível constituírem-se grupos íntimos. mas. em 1861: "Vale mais. O título dessa obra foi depois modificado. . p. desde às 4 horas e meia. desde que a bandeira é uma só e que todos se dirigem para um mesmo fim. sclentifique et religieux". a tarefa de Allan Kardec. haver em uma cidade cem grupos de dez a vinte adeptos. em 1975. com a explicação das máximas morais do Cristo. era um trabalhador infatigável. na qual são mencionados numerosos exemplos da situação dos Espíritos. No dia 1. seu desenvolvimento quase incrível. 371) e que seria intitulado "Réfutation dês critiques contre lê Spiritisme au point de vue matérialiste..42 BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC Em abril de 1864 publicou a Imitação do Evangelho segundo o Espiritismo. em que nenhum se arrogue a supremacia sobre os outros. do que uma única sociedade que a todos reunisse. Os admiráveis êxitos do Espiritismo. Nota da Editora (FEB) à 16» edição. no mundo espiritual e na Terra. criaram-lhe inúmeros inimigos e. Aproveitando-se da época das férias. e as razões que motivaram essa situação. à proporção que ele se foi engrandecendo." As sociedades numerosas têm sua razão de ser sob o ponto de vista da propaganda. às polémicas veementes dirigidas contra o Espiritismo. respondia a tudo. um poder de combatividade extraordinários. em qualquer estação. Allan Kardec fez em setembro de 1864 uma viagem a Antuérpia e a Bruxelas. O Mestre possuía uma vontade de ferro.° de agosto de 1865. Esse f racionamento em nada pode prejudicar a unidade dos princípios. sua aplicação e sua concordância com o Espiritismo. também. e é hoje O Evangelho segundo o Espiritismo. recorda o que já havia dito em Lião. às numerosas correspondênde publicar o opúsculo que anunciara um ano antes (Revu« Splrlte.

à organização do Espiritismo e ao preparo das suas obras. porque sente que o desenlace está próximo. procurando desenvolver-lhe o lado prático e fazer-lhe produzir seus frutos. Allan Kardec havia comprado. e a constituição que elabora tem precisamente por fim prover às necessidades futuras da Doutrina Espírita. na Vila Ségur. por meio do qual espera imprimir mais vigor. porque constitui. atrás dos Inválidos. com o produto das suas obras pedagógicas. em janeiro de 1868. em força e vitalidade. de um projeto de organização do Espiritismo.BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC 43 cias que lhe eram dirigidas. O objeto constante das suas preocupações é saber quem o substituirá em sua obra. mais ação à filosofia de que se fez apóstolo. com jardim. e torná-la-ia depois da sua morte . sabe que não deve durar mais que uns dez anos ainda: numerosas comunicações o preveniram desse termo e lhe anunciaram mesmo que a sua tarefa não seria concluída senão em nova existência. 2. Tendo essa compra esgotado os seus recursos. para publicar. a síntese dos quatro primeiros volumes já publicados. atendia à direção da Revista Espírita e da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas.666 metros quadrados de terreno na avenida Ségur. ele contraiu com o Crédit Foncier um empréstimo de 50. porém. É das mais importantes esta obra. Ele. sob o ponto de vista científico. e repetidas vezes os Espíritos precisam chamá-lo à ordem. por isso ele não quer perder ocasião alguma de dar ao Espiritismo tudo o que pode. os milagres e as predições segundo o Espiritismo. em seguida põe novamente mãos à obra. Em 1867 faz uma curta viagem a Bordéus. alimentava a doce esperança de recolher-se a uma delas. Tours e Orleans. em seguida. Esse excesso físico e intelectual esgotou-lhe o organismo.000 francos para fazer construir nesse terreno seis pequenas casas. Allan Kardec ocupa-se. que sucederia a breve trecho à sua próxima desencarnação. A Génese. Desde os primeiros anos do Espiritismo. a firn de obrigá-lo a poupar a saúde.

Levent. na idade de 65 anos.44 BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC asilo a que se pudessem recolher na velhice os defensores indigentes do Espiritismo. o arrebatou à afeição dos seus discípulos. dividido em quarenta ações. pelo Sr. em todos os preparativos de mudança de domicílio. Em 1869 a Sociedade Espírita era reconstituída e tornada sociedade anónima. que não fez somente um esboço do caráter de Allan Kardec e do papel que cabe aos seus trabalhos (*) Ver "Reformador" de abril de 1957. brilhará como um meteoro fulgurante na aurora do Espiritismo. Quatro orações foram proferidas à beira do túmulo do Mestre: a primeira. 2. pelo Sr.000 francos. e lançou em profunda consternação todos os que o haviam conhecido e amado. pág. 59. sucumbindo da ruptura de um aneurisma. Hippolyte-Léon-Denizard Rivail — Allan Kardec — faleceu em Paris. quando a 31 de março a doença de coração que o minava surdamente pôs termo à sua robusta constituição e. em nome da Sociedade Espírita de Paris.° 7. Estava.° de abril. pois. que via desaparecer o seu fundador e mais poderoso propagandista. contava retirar-se para a Vila Ségur. através dos tempos. sua derradeira morada. 93. Allan Kardec. a segunda. para a exploração da livraria.a circunscrição e mairie de Ia Banque. da Revista Espírita e das obras de Allan Kardec. Essa perda foi imensa para o Espiritismo. rua e passagem SanfAna. os despojos mortais daquele que fora Allan Kardec. . em 31 de março de 1869. A nova sociedade devia instalar-se no dia 1. com o capital de 40. a fim de trabalhar mais ativamente nas obras que lhe restava fazer e cujo plano e documentos se achavam já reunidos. e numerosíssima concorrência acompanhou ao Père Lachaise(*). daquele que. Unânimes sentimentos acolheram a dolorosa notícia. Camilo Flammarion. à rua de Lille n. cujo contrato de arrendamento na passagem SanfAna estava quase a terminar. como um raio.

. Eis aqui. no ponto de vista do mundo invisível. tomou a palavra o Sr. a 21 de janeiro. no Journal de Paris. Allan Kardec devia ser uma personagem sempre fria e austera. largo e comunicativo. a título de lembrança. depois de haver discutido pontos mais difíceis da psicologia e da metafísica transcendental. um exame da situação das ciências físicas.BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC 45 no movimento contemporâneo. Esse grave filósofo. Erraria quem acreditasse que. em nome da família e dos seus amigos. e sobretudo. assim. Alexandre Delanne. mostrava-se expansivo. em virtude dos seus trabalhos. na idade de 89 anos. sabia adubá-las com o nosso velho sal gaulês em rasgos de causticante e afetuosa bonomia. Gostava de rir com esse belo riso franco. A senhora Allan Kardec tinha 74 anos por ocasião da morte de seu esposo. esforçando-se por distrair os convidados que ele frequentemente recebia na Vila Ségur. Não era. de 3 de abril de 1869: "Aquele que por tão longo tempo ocupou o mundo científico e religioso sob o pseudónimo de Allan Kardec. e. depois. dirigiu ao morto querido os últimos adeuses. no meio da sala das sessões a que há tantos anos ele presidia. se extinguiu. conservando-se sempre digno e sóbrio em suas expressões. Sobreviveu-lhe até 1883. sem herdeiros diretos. chamava-se Rivail e morreu na idade de 65 anos. das forças naturais desconhecidas. e possuía um talento todo particular em fazer os outros partilharem do seu bom-humor. Em seguida. entretanto. imprimem como que um reflexo da pureza de sua alma sobre o corpo que abandonaram. o que a esse respeito escrevia o Sr. ano em que. Pagès de Noyez. mas ainda. Muller. em nome dos espíritas dos centros afastados. vimo-lo com o semblante calmo como se extinguem aqueles a quem a morte não surpreende e que. da existência da alma e da sua indestrutibilidade. o Sr. tranquilos quanto ao resultado de uma vida honesta e laboriosamente preenchida. E. Todos os jornais da época se ocuparam da morte de Allan Kardec e procuraram medir-lhe as consequências. "Vimo-lo deitado num simples colchão.

Se "o estilo é o homem". que. dos que o haviam precedido no além-túmulo. irradiando todos os dias. a abnegação que afronta a estultícia do presente. mais jovens — intrépidos — deveriam continuar a obra e. No fim da última sessão. nada mais restava de um passado que devia renascer sobre novas bases. apreciado como o de um homem de bem. ainda na véspera. aqueles que conheceram Allan Kardec em vida não podem deixar de ficar emocionados pela autenticidade dessa comunicação espírita. tinham vindo ajudar-lhe a alma a desprender-se da matéria. fundado o dogma pressentido pelas mais antigas sociedades. "Allan Kardec terá. a paciência que educa com o correr do tempo. o presidente fizera as suas despedidas. "A morte de Allan Kardec é notável por uma coincidência estranha. à qual era necessário sacrificar as longas vigílias que alimentam o espírito. "Para que referir os detalhes da morte? Que importa o modo por que se partiu o instrumento. quais as suas primeiras impressões. Mas eles recebiam. para se consagrar inteiramente ao estudo da filosofia espiritualista. A Sociedade fundada por esse grande vulgarizador do Espiritismo acabava de desaparecer. está há .46 BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC "Resignados pela fé em uma vida melhor. Com ele terminou o prólogo de uma religião vivaz. para não ver senão a irradiação do futuro. e por que consagrar uma linha a esses fragmentos de ora em diante mergulhados no turbilhão imenso das moléculas? Allan Kardec morreu na sua hora própria. inúmeros discípulos tinham vindo lançar um derradeiro olhar àqueles lábios descorados que. preenchida a sua missão. já a consolação de além-túmulo: o Espirito de Allan Kardec veio dizer-Ihes quais haviam sido as suas comoções. quais. com suas obras. lhes falavam a linguagem da Terra. Abandonado o local. Ninguém melhor que ele podia conduzir a bom termo essa obra de propaganda. retirava-se da luta cotidiana. impor a verdade por sua convicção. cedo terá iluminado toda a Humanidade. retirados os móveis. Seu nome. e pela convicção da imortalidade da alma. fortes por sua virilidade. Outros.

estende a mão ao amigo. é a pedra tumular enchendo esse imenso vácuo que o materialismo cavara aos nossos pés e sobre o qual o Espiritismo esparge as flores da esperança. nada foi poupado a esse intrépido lutador. em Paris. a essa alma grande e varonil que penetrou integralmente na imortalidade. convencido de que o seu Espírito nos protege sempre. é ai que se reúnem todos os anos. material. que já não existe. por isso. que ele sente existir além do túmulo. sob modesta lápide erigida pela piedade dos seus discípulos. pago. O despojo mortal de Allan Kardec repousa no Père Lachaise. não hesitarão em se evidenciarem. "Esta morte. dando-lhes a certeza da prova' e a consolação do futuro. os quais pelo respeito ao Mestre se deixavam ficar no segundo plano. traições." Um ponto sobre o qual não atraí a vossa atenção. porque o nosso entendimento. . Cartas anónimas. não se pode submeter a essa ideia de transição. um grande fato para a Humanidade.BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC 47 muito tempo vulgarizado pelos que crêem e pelos que receiam. dele se pode dizer que a mão esquerda ignorou sempre o bem que fazia a direita. é a caridade verdadeiramente cristã de Allan Kardec. o pensador ergue a cabeça e através desse mundo invisível. Não é mais o sepulcro de um homem. o primeiro tributo a essa inferioridade do nosso organismo. insultos. "O presidente da Sociedade Espírita de Paris está morto. "Os espíritas choram hoje o amigo que os deixa. por assim dizer. mas que devo assinalar. reanima muitas consciências doloridas. e os corajosos. desde 1869 (*). difamações sistemáticas. e que esta ainda menos conheceu os botes que à outra atiravam aqueles para quem o reconhecimento é um fardo excessivamente pesado. não deixa de ser. que o vulgo deixará passar indiferente. 93. É difícil praticar o bem sem chocar os interesses estabelecidos. porém. O Espiritismo destrói muitos abusos. mas o número de adeptos cresce todos os dias. por bem da grande causa. os adeptos que têm guardado fideli(*) Ver "Reformador" de abril de 1957. pág.

minhas senhoras. — Nota do Tradutor. o 27« aniversário do decesso de Allan Kardec. ( * ) Conservamos no presente trabalho a forma de conferência que lhe deu o autor. lendo-a por ocasião da solenidade com que os espíritas de Lião celebraram. . E já que um sentimento análogo nos reúne hoje. repitamos bem alto.48 BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC dade à memória do Mestre e conservam preciosamente no coração o culto da saudade. meus senhores: Honra! Honra e glória a Allan Kardec! (*) Henri Sausse. a 31 de marco de 1896.

aproximadamente. bem assim. sobre aquilo que se não conhece 'bem. encontrar em um estudo mais aprofundado dele. cuja solução podiam. para nós. sobre as quais. tempo ganho sobre o que tínhamos de gastar a repetir constantemente a mesma coisa. é. naturalmente. "a priori". muitos desejam saber. pelo menos. o tempo e. do que se trata e se vale a pena ocupar-se com tal coisa. isto será. feitas. achamos útil apresentar resumidamente as respostas a algumas das principais perguntas que nos são diariamente dirigidas. uma primeira iniciação. Esta forma nos pareceu a mais conveniente. a refutação dos principais argumentos de seus contraditares. inclinadas a formular certas questões. na falta de uma instrução teórica completa. por não ter a aridez da dogmática. o observador novato deve fixar a sua atenção para poder julgar com conhecimento de causa. muitas vezes.P R E Â M B U L O As pessoas que só têm conhecimento superficial ao Espiritismo são. No segundo capítulo. a vontade lhes faltam para se entregarem a observações seguidas. . As objeções nascem. das ideias falsas. sem dúvida. o primeiro capitulo deste volume encerra respostas às observações mais comumente feitas por aqueles que desconhecem os princípios fundamentais da Doutrina e. e. um resumo de "O Livro dos Médiuns". Por isso. porém. Sob a forma de diálogos. damos uma exposição sumária das partes da ciência prática e experimental. para o leitor. quase sempre. Antes de empreenderem essa tarefa.

beber as noções mais essenciais da Doutrina Espírita. de certo número de problemas do mais alto interesse. . No terceiro capítulo. AO MESMO TEMPO. bem como de suas relações com o mundo corporal.. Para responder. de ordem psicológica. em quadro restrito e sob um mesmo ponto de vista. COMPREENDE TODAS AS CONSEQUÊNCIAS MORAIS QUE DIMANAM DESSAS MESMAS RELAÇÕES. Estes resumos não somente são úteis aos principiantes. Procurem resolvê-los por qualquer outra teoria. pela Doutrina Espírita. além disso. os princípios que devem sempre estar presentes à sua memória. tal é o fim deste pequeno trabalho. também. UMA CIÊNCIA DE OBSERVAÇÃO E UMA DOUTRINA FILOSÓFICA. à pergunta formulada no titulo deste opúsculo. e digam quais são as mais lógicas.Retificar essas ideias é prevenir as objecoes. . Podemos defini-lo assim: O Espiritismo é uma ciência que trata da natureza. e aos quais nenhuma filosofia deu ainda resposta satisfatória. pois lhes fornecem os meios para responderem às primeiras óbjeções que não deixarão de lhes apresentar. sem a chave que nos fornece o Espiritismo. comparem suas respostas com as dadas por este. . COMO CIÊNCIA PRATICA ELE CONSISTE NAS RELAÇÕES QUE SE ESTABELECEM ENTRE NÓS E OS ESPÍRITOS. com a solução. COMO FILOSOFIA. desde já e sumariamente. em pouco tempo e com pouca despesa. que neles poderão. quais as que melhor satisfazem à razão. e. aos adeptos. que diariamente são propostos. senão. diremos que: O ESPIRITISMO Ê. publicamos um resumo ãe "O Livro dos Espíritos". origem e destino dos Espíritos. por encontrarem reunidos. moral e filosófica.

O que é o Espiritismo

CAPITULO I

Pequena conferência espírita
^RIMEIRO DIÁLOGO O CRITICO Visitante. — Confesso-vos, caro senhor, que a minha razão recusa admitir a realidade dos fenómenos estranhos atribuídos aos Espíritos, persuadido que estou de estes não terem senão uma existência imaginária. Entretanto, eu me curvaria diante da evidência, se disso tivesse provas incontestáveis; por isso desejo merecer-vos a permissão de assistir somente a uma ou duas experiências, para não ser indiscreto, a fim de convencer-me, caso seja possível. Aliem Kardec. — Desde que a vossa razão repele o que nós consideramos irrecusável, vós a credes superior às de todos quantos não compartilham de vossas opiniões. Longe de mim o pensamento de duvidar do vosso talento e a pretensão de supor minha inteligência superior à vossa; admiti, pois, que eu esteja iludido, é a vossa razão quem vo-lo diz: e não falemos mais nisso.

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V. — Entretanto, se conseguísseis convencer-me, conhecido que sou como antagonista das vossas ideias, isto seria um milagre eminentemente favorável à causa que defendeis. A. K. — Lamento-o, caro senhor, porém não tenho o dom de fazer milagres. Julgais que uma ou duas sessões bastariam para adquirirdes convicção? Seria, realmente, um verdadeiro prodígio; eu precisei mais de um ano de trabalho para ficar convencido; o que prova que não cheguei a esse estado inconsideradamente. Além disso, não realizo sessões públicas e parece-me que vos enganastes sobre o fim das nossas reuniões, visto não fazermos experiências com o fito de satisfazer à curiosidade de ninguém. V. — Não procurais, pois, fazer prosélitos? A. K. — Para que buscarmos fazer-vos prosélito, quando não o quereis ser? Não pretendo forçar convicção alguma. Quando encontro pessoas que sinceramente desejam instruir-se e dão-me a honra de pedir-me esclarecimentos, folgo e cumpro um dever respondendo-lhes nos limites dos meus conhecimentos; quanto aos antagonistas, porém, que, como vós, têm convicções arraigadas, não tento um passo para delas arredá-los, atento a que é grande o número dos que se mostram bem dispostos, para que possamos perder o nosso tempo com aqueles que o não estão. Estou certo de que, diante dos fatos, a convicção há de vir, mais tarde ou mais cedo, e que os incrédulos hão de ser arrastados pela torrente; por ora, alguns partidários, de mais ou de menos, nada alteram na pesagem; pelo que nunca me vereis incomodado para atrair, às nossas ideias, aqueles que, como vós, sabem as razões que têm para fugir delas. V- — Há mais interesse em convencer-me do que o supondes. Permitis que me explique com franqueza e

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prometeis-me não ver ofensa alguma nas minhas palavras? São as minhas ideias sobre a coisa em si e não sobre a pessoa a quem me dirijo; posso respeitar a pessoa, sem participar de suas opiniões. A. K. — O Espiritismo me tem ensinado a desprezar essas mesquinhas suscetibilidades do amor-próprio, e a me não ofender com palavras. Se as vossas expressões saírem dos limites da urbanidade e das conveniências, apenas concluirei que sois um homem mal-educado, mas não irei além. Quanto a mim, antes quero que os outros fiquem com os defeitos, do que compartilhar deles. Vedes, só por isso, que o Espiritismo já serve para alguma coisa. Já vos disse, senhor, não tenho a pretensão de vos fazer adotar a minha opinião; respeito a vossa, se é sincera, como desejo que respeiteis a minha. Acreditando ser o Espiritismo um sonho sem sentido, dissestes, sem dúvida, vindo a minha casa: Vou ver wm louco. Confessai-o francamente, pois com isso não me escandalizarei. Todos os espíritas são loucos, é coisa sabida. Pois bem! se julgais assim, eu tenho escrúpulo de transmitir-vos a minha enfermidade mental; e causa-me espanto ver-vos, com tal pensamento, buscar uma convicção que vos vai colocar no número dos loucos. Se já estais persuadido de que não conseguiremos convencer-vos, o passo que destes é inútil, visto que só terá por fim a curiosidade. Abreviemos, pois, por favor, porque me falta tempo para perder em conversações sem objeto. y. — - O homem pode enganar-se, deixar-se iludir, sem que, por isso, «eja louco. A. K. — Dizei logo: acreditais, como muitos, que isto é moda que durará certo tempo; mas deveis convir que um passatempo que, em alguns anos, tem conquistado milhões de partidários, em todos os países, que

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conta entre seus adeptos sábios de toda ordem, que se propaga de preferência nas classes mais esclarecidas, é mania singular, que merece examinada. V. — Tenho minhas ideias a respeito, é certo, porém elas não se acham tão absolutamente firmadas, que não consinta em sacrificá-las à evidência. Disse-vos que teríeis certo interesse em me convencer. Confesso-vos que tenciono publicar um livro em que me proponho demonstrar ex 'professo (sic) a minha opinião sobre o que considero um erro; e como esse livro deve produzir efeito, dando um golpe no Espiritismo, eu deixaria de publicá-lo, caso ficasse convencido da realidade da vossa doutrina. A. K. — Eu sentiria que ficásseis privado do que vos pode proporcionar um livro que deve produzir tanto efeito; além disso, não tenho interesse algum em impedir a sua publicação: ao contrário, desejo-lhe grande circulação, porque assim ele nos servirá de prospecto e anúncio. A nossa atenção é sempre chamada sobre aquilo que vemos atacado; há muita gente que quer ver os prós e os contras, e a crítica faz aparecer a verdade, mesmo aos olhos daqueles que não a procuravam aí; é assim que muitas vezes, sem querer, se faz reclamo do que se quer combater. A questão dos Espíritos é, por outro lado, tão palpitante de interesse, choca a tal ponto a curiosidade, que basta assinalá-la à atenção, para que nasça o desejo de aprofundá-la. V. — Então, no vosso entender, a crítica para nada serve, a opinião pública nada vale? A. K. — Não considero a crítica como expressão da opinião pública, mas como juízo individual, que bem pode enganar-se. Lede a história e vereis quantos trabalhos importantes foram, ao aparecer, criticados, sem que isso os

a fundo. o que equivale a dizer que a estudastes sob todas as suas faces. sem o que. se sois um homem sério. se erigisse em censor de uma obra literária ou de um quadro? É de lógica elementar que o crítico conheça. Devo crer que tal se deu. sua opinião não tem valor. não superficialmente. Para combater um cálculo é necessário opor-se-lhe outro cálculo. Se mais tarde reconhecerem que vos enganastes. como os que. que íeis tratar a questão ex professo. que vos achastes nas melhores condições de observação pessoal. Procurarão examinar. aquilo de que fala. O crítico não se deve limitar a dizer que tal coisa é boa ou má. porque somente aquele que fez tudo isso pode dizer que fala com conhecimento de causa. é preciso que justifique a opinião por uma demonstração clara e categórica.O QUE É O ESPIRITISMO 55 excluísse do número das grandes obras. etc. porém. baseada sobre os princípios da arte ou ciência a que pertence o objeto da crítica. sem conhecimento de literatura. porém. se. o que exige saber calcular. sem ter estudado a pintura. em suma: que nada desprezastes para chegar à verdade. lestes tudo o que sobre a matéria se tem escrito. etc. que vistes tudo o que se pode ver. ele cairá por si mesmo.. é uma verdade. mas. Ao nosso modo de ver. Como poderá fazê-lo. ou os defeitos de determinada máquina? . não há muito. vosso livro se tornará ridículo. mão há diatribe que possa fazer dele uma mentira. quando não conhecer esses princípios? Não tendo ideia da mecânica. podereis apreciar as qualidades. foram publicados contra as teorias da circulação do sangue. Que juízo formaríeis de um homem que. a verdadeira opinião pública decidirá da justeza dos vossos conceitos. porém. Se o Espiritismo é uma falsidade. quando. não há elogio que a torne boa. analisastes e comparastes as diversas opiniões. vosso livro não será mais que uma apreciação pessoal. que durante anos lhe consagrastes vigílias. uma coisa é má. Esquecia-me. da vacina.

porque aqueles que têm estudado a matéria verão logo que a desconheceis. que vosso projeto é absolutamente a mesma coisa que. nem a Astronomia. que aliás não conheceis. donde concluirão que não sois um homem sério ou que agis de má-fé. como desconheço os menores rudimentos dessa ciência. A crítica pode. de ensaios metalúrgicos. expondo-vos. Pois bem: o vosso juízo acerca do Espiritismo. mas. deixai que. A. desmentido pouco lisonjeiro ao vosso amor-próprio. falar de Espiritismo? Como podereis compreender essas experiências e. vos apresentásseis a um dos membros do Observatório. ser aprobativa ou desaprobativa. o que será suficiente para ficar sabendo tanto quanto vós. quer num. senhor. a receber." É somente por extensão que a palavra criticar se tornou sinónima de censwrar. não conhecendo a fundo a metalurgia? Permiti-me dizer-vos. nas condições acima. pois. quando não estudastes os princípios em que elas se baseiam? Como apreciaríeis o resultado. quem empreende essa tarefa. em sua acepção própria e segundo a etimologia. Fazer a crítica de um livro não é necessariamente condená-lo. deve fazê-lo sem ideias preconcebidas. — É precisamente para evitar esse perigo que vim pedir-vos permissão para assistir a algumas experiências. apreciar. porém. dizendo-lhe: "Senhor. se antes de abrir o .56 ALLAN KARDEC Não. satisfatório ou não. emitísseis sobre a aludida máquina. V. me sirva de vossa luneta. por exemplo. quer noutro caso. julgá-las. ela significa julgar. K. — E julgais que isto vos baste para poder. não pode ter mais valor que o que. ainda mais. portanto. por uma ou duas vezes. A cada passo sereis apanhado em flagrante delito de ignorância. não tendo estudado a Matemática. quero escrever um livro sobre Astronomia e provar que o vosso sistema é falso. ex professo.

ocasionaram riso. convencido de que nisso há charlatanismo. K. o exame não pode ser imparcial. — A tão judicioso raciocínio não tenho outra resposta a dar senão que. é preferível produzir um só trabalho bom a fazer dez maus. V. Tal o caso da maioria dos que têm falado contra o Espiritismo. e mais de um adversário se tem tornado adepto do Espiritismo. sobretudo quando se ocupam com teorias novas. que lhe seria preciso aprofundar e verificar? Seria o mesmo que exigir de um impressor que ele lesse todas as obras saídas de sua prensa. — Falais do exame dos livros em geral. — Quanto vos cobraram para mostrar-vos essas coisas? V. por certo. acreditais que seja materialmente possível a um jornalista ler e estudar todos os que lhe passam pelas mãos. Vi mesas girarem e produzirem sons como de pancadas. •— Nada. vi pessoas escreverem o que. quando reconhece que o seu objetivo é muito diverso daquele que supunha. segundo diziam. A consequência foi que seu julgamento feriu em falso. porém. V. A. aí tendes charlatães de uma espécie singular. quando nos falta o tempo para fazer conscienciosamente uma coisa. lhes ditavam os Espíritos. estou. — Ora.O QUE É O ESPIRITISMO 57 livro. — Não acrediteis que minha opinião se tenha formado levianamente. e que. que vão reabilitar o nome da sua classe. A maior parte dos que seriamente têm estudado a questão. A. Apenas sobre o nome formaram uma opinião. sem antes examinar as peças do processo. K. já o condena em pensamento. é melhor não fazê-la. Até . mudou de ideia. K. em vez de persuadir. fazendo qual juiz que proferisse uma sentença. A.

porém. quando esse brinquedo dura meses e anos. ou a religião pelos dos sacerdotes que iludem seu ministério. mas. porque de tudo se pode abusar. fornece os meios para que os reconheçam. não deixareis de convir que há pessoas que se não coadunam com a mais leve suspeita de embuste. Não é provável que. Por vender-se vinho falsificado. será crível que as outras pessoas presentes pactuassem com ele? Demais. Por sua novidade e mesmo por sua natureza. ficasse bem comprovado um manejo fraudulento. isso em nada ofenderia a realidade do princípio. Antes de julgar isso uma fraude. é preciso indagar que interesse havia em enganar. imóvel. Concordo em que uma vez se prestassem a tal brinquedo. O gosto não equivaleria à pena. admitindo mesmo que. ele. definindo claramente seu verdadeiro caráter e afastando de si toda a solidariedade com aqueles que o viriam a explorar ou desviar do seu fim exclusivamente moral. do que o é a ciência médica pelos atos dos charlatães que impingem suas drogas. agarrado a uma mesa. pessoas cujo caráter já é uma garantia de probidade. Coisa muito diversa seria se se tratasse de uma especulação. com que fim se fariam elas cúmplices de uma mistificação? Direis que com o fim de recrear a sociedade. Suponhamos que um gaiato de mau gosto tenha querido uma vez divertir-se assim.5g í? ALLAN KARDEC ao presente não se tinha ainda visto charlatães desinteressados. alguém vá passar horas inteiras. o Espiritismo se presta a abusos. . não se deve concluir que não existe vinho puro. julgo que o mistificado é o próprio mistificador. para transformá-lo em meio . ora. porém. porque a tentação do ganho é má conselheira.. neste último caso. O Espiritismo não é mais responsável pelos atos daqueles que abusam desse nome e o exploram. só pelo gosto de fazer que creiam em uma coisa que ele sabe ser falsa.

se. afirmar que é negro. cairá o ridículo? Será sobre o saltimbanco que usa do seu ofício? Será sobre o Espiritismo. vendo que o cavalo é branco. não nos revoltamos de forma alguma contra os que não pensam como nós. para nós. toda a falta recai sobre aqueles que. no interesse de sustentar um partido ou uma opinião. Sobre quem. porém. o que aceita e o que repudia. Em resumo. em definitiva. que a cor negra conviria mais. alterarem a verdade? Aqueles que atribuem ao Espiritismo o que é contrário à sua mesma ciência. o que está ou não em suas atribuições. senhor. antes. pinta em seu quadro um cavalo branco. cientemente. cada qual julga as coisas debaixo de certo ponto de vista. Quando usa desses meios. Notai bem. é o que faz a maioria dos nossos adversários. que eu não pretendo que a crítica deve necessariamente aprovar nossas ideias. Se um pintor. O que é evidente. para chamar concorrência. e nisto não se comete erro. sobre os críticos que falam do que não sabem ou de. define o que pode ou não dizer ou fazer. no segundo. pode não ser para vós outros. o julgam pelas aparências e que. não faltará quem diga que essa cor faz aí mau efeito. de . não se dando ao trabalho de estudá-lo. eles se colocam na posição do historiador que. dizem com gravidade: eis o que é o Espiritismo. cometer-se-á.O QUE É O ESPIRITISMO 59 de vida. por terem encontrado saltimbancos adornando-se sob o nome de espíritas. alterasse os fatos históricos. neste último caso. E. má-fé. cavalheiro. cuja doutrina escrita desmente tais asserções? ou. e do fato mais positivo nem todos tiram as mesmas consequências. no primeiro caso há leviandade. em instrumento de adivinhação ou de investigações fúteis. todos têm completa liberdade de aprovar ou censurar os princípios do Espiritismo. fazem-no por ignorância ou má intenção. mesmo depois de as haver estudado. por exemplo. o partido fica desacreditado e não consegue o seu fim. Desde que o Espiritismo mesmo traça os limites em que se encerra.

generalizar essas acusações. é um abuso de outro género. Um célebre cirurgião reconheceu que certas pessoas podem. para poder adaptar-se à primeira mesa que se apresenta. eu vo-la reconhecerei. era preciso que o mecanismo empregado fosse bem engenhoso para fazê-las produzir movimentos e sons tão variados. Ora. lançar sobre elevado número de pessoas honradas a reprovação que só cabe a alguns indivíduos isolados. charlatanismo. — Voltemos. V. a que já respondi. porém a consciência impõe ao crítico a obrigação de não dizer o contrário do que ele sabe que é. por favor. ora. até o presente ninguém conseguiu ver e descrever tal mecanismo? V. — É sempre a mesma questão de boa-fé. pela contração de . a primeira condição é não falar do que não conhece.60 ALLAN KARDEC deduzir deles as consequências boas ou más que lhes aprouver. visto que seus aparelhos estão espalhados pelas cinco partes do mundo. Admitindo. Como é que. que as mesas estivessem preparadas. Devemos também convir que o seu processo é assaz delicado e sutil. sem deixar sinal algum exterior que o denuncie. fustigai-os e eu desde já vos declaro que não irei defendê-los. K. que já tratava das mesas giratórias e falantes. como dissestes. — Eis o que vos ilude. Porém. para isso. e quem assinalar tais abusos o auxilia no trabalho de preveni-los e lhe presta importante serviço. se descobrirdes fatos demonstrados de embuste. como não é ainda conhecido o nome do hábil artista que os fabrica? Entretanto. não será possível que elas sejam preparadas com algum artifício? A. desde Tertuliano. porque o Espiritismo sério é o primeiro a repudiá-los. Quando a fraude for provada. porque é uma calúnia. ele deveria gozar de grande celebridade. às mesas que se movem e falam. especulação ou abuso de confiança.

da teoria indicada. a segunda. conservá-la suspensa sem ponto de apoio. a terceira. A primeira é que é singular que essa faculdade. e. fazê-la despedaçar-se ao cair. para que ele possa mover uma pesada mesa. fechá-la. por certo. donde concluiu que os médiuns se divertem à custa da credulidade dos assistentes. que é necessário dar-se a esse músculo estalador uma propriedade bem maravilhosa. e somente acho que se apresentam algumas dificuldades na aplicação. até o presente excepcional e olhada como um caso patológico. finalmente. Ninguém. K. com toda a autoridade de sua ciência. sejam eles príncipes ou artífices. que todos os que concorrem. — Se é um estalido do músculo. notando certa analogia entre esse efeito e o que essas mesas produzem. se tenha tornado comum. 141: Lê muscle araqueur). Respeito a ciência desse sábio cirurgião. de que falais. para que as mesas falem. para fazer estalar o músculo durante duas ou três horas consecutivas. ele observou um efeito fisiológico anormal em alguns indivíduos que nunca se ocuparam de mesas batedoras. quando disso não resulte a quem assim procede senão fadiga e dor. recebam ou não um pagamento. desconfiava que esse músculo possuísse tanta virtude (R&vue Spirite. e não são mais que embusteiros. pág. não é então a mesa que está preparada. . levantá-la. a quarta. Uma vez que cada qual explica a seu modo essa pretendida fraude. às mesas falantes. O célebre cirurgião. e.O QUE Ê O ESPIRITISMO 61 um músculo da perna. fica reconhecido que a verdadeira causa não é sabida. finalmente. produzir um ruído semelhante ao que atribuís à mesa. teria estudado o fenómeno da tiptologia sobre os indivíduos que os produzem? Não. sem mais amplo exame concluiu. junho de 1859. que é preciso ter-se robustíssima vontade de mistificar. devem ter a propriedade de fazer estalar o músculo curto-perônio. abri-la. A. que eu não compreendo bem como pode esse músculo responder às portas e paredes em que as pancadas se fazem ouvir.

do máximo interesse para os homens que refletem. quando é uma coisa séria? A. hoje já ninguém se ocupa com elas. em pleno Instituto. Quando estes nada mais tiveram a aprender no giro das mesas. essas pessoas que o consideram como coisa grave. que abandonaram quando dele se aborreceram. então. a menos que os não vades beber em fontes mais autênticas. se me tivesse de sujeitar a uma operação cirúrgica. não mais com elas se ocuparam. como meio de instruir-se. fico completamente inteirado da força dos outros argumentos que quereis validar. — Entretanto. um divertimento. •— Porque das mesas girantes saiu uma coisa ainda mais séria: uma ciência completa. ele ficaria convencido da insuficiência do seu processo. porque recearia que ele não julgasse o meu mal com mais perspicácia. que nada querem aprofundar. no domínio da gente séria. Para as pessoas fúteis.62 ALLAN KARDEC Estudou ele. uma perfeita doutrina filosófica. são pessoas com as quais a ciência não conta. sim. apesar disso. Por que se dá isso. bem vedes que já passou a moda das mesas girantes que durante certo tempo fizeram furor. O Espiritismo entrou. porque. Já que esse juízo é uma das autoridades em que pareceis querer apoiar-vos para esmagar o Espiritismo. que não o toma como objeto de divertimento. V. hesitaria muito em confiar-me a esse médico. O período de curiosidade teve seu tempo. Porém. julgou-se no caso de proclamar a sua descoberta. o fenómeno da tiptologia em todas as suas fases? Verificou. sucedeu-lhe o da observação. se podia produzir todos os efeitos tiptológicos? Não. não se prestam a qualquer experiência de curiosidade. por meio desse estalido muscular. mas. K. do contrário. Não será esse juízo assaz comprometedor para um sábio? Quem pensa hoje nessa opinião? Confesso-vos que. ao menos. e ainda menos a satisfazer a daqueles que se apre- . esse fenómeno era um passatempo.

mesmo aquele que. quando não se está familiarizado com as condições em que se pode encontrá-las. — Uma coisa é estar convencido e outra estar disposto a convencer-se. — No entanto. é para ele um raio de luz. K. seja movido pela curiosidade. V. não se prestam a servir de brinquedo para os outros. é aos desta última classe que me dirijo. é mostrar perseverança. . Com estes eu não me ocupo. As provas abundam para o observador assíduo e refletido: uma palavra. sobretudo. A convicção só se adquire com o tempo. como não brincam. e não aos que julgam humilhação vir escutar o que eles chamam ilusões. Quanto aos que manifestam sincero desejo de esclarecer-se. Se só trabalhais na presença de pessoas convictas. são reconhecidos por outros sinais que não apenas o desejo de ver uma ou duas experiências: esses querem trabalhar seriamente. uma confirmação. em começo. ao passo que tais fatos não têm sentido para quem os observa superficialmente ou por simples curiosidade. ensinais a quem já sabe. é observando muito e por muito tempo que se descobre uma porção de provas que escapam à primeira vista. somente a experiência pode convencer. A. absolutamente. o melhor modo que têm. é preciso que os colhamos de passagem. por meio de uma série de observações feitas com cuidado todo particular. para prová-lo.O QUE Ê O ESPIRITISMO 63 sentam com pensamentos hostis. eis por que não me presto a fazer experiências sem resultado provável. deixai que vos diga. e ainda mais quando se vem com o espírito prevenido. um fato aparentemente insignificante. Os fenómenos espíritas diferem essencialmente dos das ciências exatas: não se produzem à vontade. eu pertenço a esse número.

O aprendiz. encontrareis a descrição de todos os fenómenos. como poderá fazê-lo. porque nada vereis de estranho. e. julgam mal os resultados obtidos e os transformam em objeto de zombaria. desse modo.64 ALLAN KARDEC V." . que nada viu ainda. que nada sabe. se aparecesse. seriam pouco inteligíveis para vós. A quem deseja instruir-se. com estas perde-se o tempo. quando se vos apresentar a ocasião de observar ou operar pessoalmente. e que talvez as incomodasse. lede e meditai as obras que tratam dessa ciência. porque. porém. se elas não encontram logo o que parecem buscar. Instruí-vos primeiramente pela teoria. nem ligação necessária. pela narrativa de grande número de fatos espontâneos de que pudestes ser testemunha sem os compreender. quando não lhe facultais os meios para isso? A. quando descubro alguém com disposições favoráveis. vós vos fortificareis contra todas as dificuldades que possam surgir e formareis. pessoas em quem a vontade de instruir-se não é senão aparente. — Eu faço grande distinção entre o incrédulo por ignorância e o incrédulo por sistema. Então. pelo que não há utilidade em lhos fornecer. há. compreendereis a possibilidade deles pela explicação que elas vos darão. mas que vos voltarão à memória. mas que deseja esclarecer-se. atento que nunca se é senhor de produzir os fenómenos espíritas à vontade. o pouco que vêem não é suficiente para lhes destruir as prevenções. frustrarem-se todas as nossas previsões. muitas vezes. uma primeira convicção moral. K. qualquer que seja a ordem em que os fatos se mostrem. nada me custa esclarecê-lo. Aqueles que acidentalmente poderíeis ver. — Enfim. nelas aprendereis os princípios. e que as inteligências desses agentes fazem. compreendereis. tudo deve ter começo. direi: "Não se pode fazer um curso de Espiritismo experimental como se faz um de Física ou de Química. não apresentando nexo algum.

O Espiritismo é uma ciência que acaba de nascer e da qual resta ainda. pela resposta que dão. da Metafísica. Entre as pessoas de meu conhecimento. Como predisposição pessoal. que vos confesso a minha ignorância a respeito. para uso geral. em particular. K. entretanto. é um campo imenso que não pode ser percorrido em algumas horas. sempre que forem feitas com sinceridade e sem pensamento oculto. grande presunção de minha parte pretender levar de vencida todas as dificuldades. dir-vos-ei que não sou a favor nem contra o Espiritismo. O Espiritismo prende-se a todos os ramos da Filosofia. em responder às perguntas que me quiserdes dirigir. tudo quanto tenho escrito sobre essa matéria. uma resposta à maior parte das questões que lhe venham 3 . e. meu amigo. não tenho a pretensão.O QUE É O ESPIRITISMO 65 Eis. a utilidade do estudo preliminar de que acabais de falar. pois. cavalheiro. Compreendeis que me seria materialmente impossível repetir de viva voz e a cada pessoa. há partidários e adversários dele. não poderei dizer mais do que sei. além disso. da Psicologia e da Moral. — Terei grande satisfação. mas esse assunto me excita o interesse no mais alto grau. muito a aprender. e propunha-me submeter-vos algumas das objeções que foram feitas em minha presença e que me parecem de certo valor. é fácil conhecer se neles há alguma coisa mais que curiosidade! SEGUNDO DIÁLOGO O CÉPTICO V. — Compreendo. a seu respeito tenho ouvido argumentos muito contraditórios. de poder responder a todas. meu caro senhor. o que aconselho a todos que dizem querer instruir-se. A. para mim ao menos. Em prévia leitura cada qual encontrará. seria.

66 ALLAN KARDEC à mente. o esclarecimento não oferecerá mais dificuldade. sempre que eu dela me afaste. para substituir: espiritualista e espiritualismo. Se o permitirdes. essa leitura tem a dupla vantagem de evitar repetições inúteis e de provar um desejo sincero de instruir-se. além da matéria. sem desmentir-lhe o . — Seja. o que não implica a crença nos Espíritos e nas suas manifestações. qual a necessidade da criação de novos termos: espírita e espiritismo. depois dela. é espiritualista. Como o podereis distinguir daquele que tem esta crença? Ver-vos-eis obrigado a servir-vos de uma perífrase e dizer: É um espiritualista que crê ou não crê nos Espíritos. limitar-nos-emos. porque já se possui um ponto de apoio e não se tem necessidade de perder tempo em rever os princípios mais elementares da Doutrina. tende a bondade de chamar-me à ordem. — De há muito tern já a palavra espiritualista uma acepção bem determinada. a algumas questões genéricas. quando se quer evitar equívocos. em primeiro lugar. Aquele que crê que em nós existe outra coisa. não lhe teria especificado o obieto. é a Academia que no-la dá: Espiritualista. Espiritismo e Espiritualismo Pergunto-vos. V. porque. Se. K. A. aquele ou >aquela pessoa cuja doutrina é oposta ao materialismo. Se eu tivesse dado à minha Revista a qualificação de espiritualista. Para as novas coisas são necessários termos novos. por ora. ainda existirem dúvidas ou pontos obscuros. Todas as religiões são necessariamente fundadas sobre o espiritualismo. que são da língua vulgar e por todos compreendidos? Já ouvi alguém classificar tais termos de barbarismos.

porque as falsas ideias. e até combatê-los.O QUE í! O ESPIRITISMO 67 título. com certeza. não empregam outros. Se adotei os termos espírita. a propósito de uma obra filosófica. Há pessoas que. Hoje. acreditassem encontrar alguma concordância entre o que ela ensina e as ideias por eles admitidas. e foram imediatamente aceitos pelo público. Além disso. bem poderia nada dizer nela sobre os Espíritos. é porque eles exprimem. Todo espírita é necessariamente espiritualista. essas palavras não são mais bárbaras que as outras que as ciências. Agarrar-se a tais bagatelas é demonstrar falta de boas razões. criticam tudo que não provém delas. aqueles que assim provocam tão pequeninas chicanas. porém. logo. Já há algum tempo. por espírito de contradição. havia utilidade em adotar termos especiais para designar o que a eles se refere. os partidários dos Espíritos ficariam singularmente desapontados se. seu uso está tão generalizado que os próprios adversários. devem ser expressas por termos próprios. também delas se serviram na França. Ainda que os Espíritos fossem uma quimera. mas nem todos os espiritualistas são espíritas. tomando ares de oposicionistas. espiritismo. Os sermões e as pás- . as artes e a indústria diariamente estão criando. aqueles que no princípio os classificavam de barbarismos. elas não o são mais do que aquela que Gall imaginou para a sua nomenclatura das faculdades. só revelam o acanhamento de suas ideias. um artigo em que se dizia tê-la o autor escrito do ponto de vista espiritualista. sem equívoco. As palavras espiritualismo e espiritualista são inglesas. espiritismo. as ideias relativas aos Espíritos. no começo e por algum tempo. alimentividade. afeeionividade. ora. e têm sido empregadas nos Estados Unidos desde que começaram a surgir as manifestações dos Espíritos. que apareceram os termos espírita. como as verdadeiras. compreendeu-se a sua utilidade. como: Secretividade. li num jornal. confiantes nessa indicação. etc.

tínhamos necessidade de termos especiais. tal como a Química. sem afetar o fundo. Bárbaros ou não. a sua condenação. como afirmam os nossos adversários. são os únicos empregados em todas as publicações.68 ALLAN KARDEG torais que fulminam o Espiritismo e os espíritas viriam produzir enorme confusão. feitas em todos os países. até que seus princípios ficassem claramente assentados? Não encontramos as mesmas dissidências nas ciências melhormente constituídas? Estarão os sábios de perfeito acordo sobre todos os pontos ? Não tem cada qual seus sistemas particulares? As sessões das Academias apresentam sempre o quadro de perfeito e cordial entendimento? . para exprimir os fenómenos especiais dessa ciência. e não constitui um antagonismo radical nos princípios. qual a ciência que. ela apenas se limita ao modo de encarar alguns pontos da doutrina. realmente. não deveria ser a mesma na América e na Europa? A. Dizei-me. favoráveis ou contrárias. o Espiritismo hoje possui a sua nomenclatura. na crença do a que chamais uma ciência. esses termos estão hoje incluídos na língua usual e em todas as línguas da Europa. que tal divergência só existe na forma. sem ter estudado a questão. não deu nascimento a dissidências. K. — A isso responderei. é. Dissidências V. porém. não são hoje mais empregadas senão pelos adeptos da escola americana. Se ela se baseasse em fatos positivos. Eles ocupam o vértice da coluna da nomenclatura da nova ciência. As palavras espiritualismo e espiritualista. primeiramente. se fossem dirigidos ao espiritualismo e aos espiritualistas. — Essa diversidade. parece-me. em seu começo. aplicadas às manifestações dos Espíritos.

Qual a ciência. qual a doutrina filosófica ou religiosa que oferece um exemplo igual? Apresentou o Espiritismo a centésima parte das cisões que.O QUE fi O ESPIRITISMO 69 Em Medicina não há a Escola de Paris e a Escola de Montpellier? Cada descoberta. nunca de um só argumento peremptório. isto é um absurdo. com exceção de algumas individualidades que. seria necessário demonstrar categoricamente que os fenómenos não se produzem. quando eram ignoradas as leis que os regem. . cada pessoa tivesse um sistema e houvesse encarado os fatos de um modo particular ? Onde estão hoje esses sistemas primitivos? Caíram todos ante uma observação mais completa. não era bastante dizer: isto não se dá. em qualquer ciência. Ê fato verificado e reconhecido por seus próprios adversários. e é o que ninguém ainda fez. e que prende a imensa maioria dos adeptos. não deixariam de fazê-los valer. durante tantos séculos. nesta como em todas as coisas. não tem produzido cismas entre os que querem adiantar-se e os que desejam estacionar? Referindo-nos ao Espiritismo. ao surgirem os primeiros fenómenos. Para aniquilá-lo. não indicará isso uma falta de argumentos sérios? Se eles os tivessem. não podem produzir-se. negações. apenas com dez anos de vida. ele já conta tal número de adeptos como ainda nenhuma seita contou depois de um século de existência. Qual o recurso de que lançam mão? Zombarias. porém. dilaceraram a Igreja e que ainda hoje a dividem? Ê realmente curioso ver as puerilidades a que recorrem os adversários do Espiritismo. se apegam às ideias primitivas e morrem com elas. calúnias. e a prova de ainda lhe não terem achado um ponto vulnerável. Bastaram apenas alguns anos para que ficasse estabelecida a unidade grandiosa que hoje prevalece na Doutrina. não será natural que. é que nada pôde deter-lhe a marcha ascendente e que.

tê-los-ia certificado de serem completamente outras as condições em que se dão os fenómenos espíritas. K. Ninguém compra um brilhante sem primeiro estar convencido de não ser uma pedra d'água. — Por ser uma coisa suscetível de imitação. Só a malevolência e uma rematada má-fé puderam confundir o Espiritismo com a magia e a feitiçaria.70 ALLAN KARDEC Fenómenos espíritas simulados V. — Não estará provado que. as práticas. as fórmulas e . Acreditaram alguns prestidigitadores que o nome de espiritismo. e certificar se há identidade real entre a imitação e a coisa imitada. não se proclamou que naquilo recebia o Espiritismo um golpe mortal? Antes de pronunciar tão positiva sentença. como já tinham simulado a clarividência sonambúlica. além disso. e todos os gaiatos os aplaudiram. quando aquele repudia o fim. alguns fenómenos de mediunidade. fora do Espiritismo. Um. por causa da sua popularidade e das controvérsias de que era objeto. mesmo pouco acurado. e para atrair a multidão simularam. mais ou menos grosseiramente. eles. bradando: Eis aí o que é o Espiritismo! Quando se mostrou em cena a engenhosa aparição dos espectros. esses mesmos fenómenos podem produzir-se? E disso não podemos concluir que eles não têm a origem que os espíritas lhes atribuem? A. deve-se refletir que as asserções de um escamoteador não são palavras de um evangelho. ficariam sabendo que os espíritas não se ocupam de fazer aparecer espectros nem de ler a buena-dicha. ser todo vinho desta espécie apenas água de Seltz? Isto é privilégio de todas as coisas que apresentam a possibilidade de engendrar falsificações.estudo. podia servir a explorações. segue-se que ela não exista? Que direis da lógica daquele que pretendesse. por se fabricar com água de Seltz vinha de Champanha.

tenho assistido a centenas de reuniões espíritas. cujas opiniões têm certo peso? ." Muitos críticos não têm bases mais sólidas. tem crescido pelos reclamos que lhe fazem. e posso asseverar-vos que nada vejo que se lhe pareça. não se encontrarão também homens de real valor. perguntar-lhe-ia se ele se reconhece no quadro que tem ante os olhos. ele era coisa séria. Se é aqui que vindes colher argumentos para o vosso artigo. para que os fantasmas apareçam. assistia um dia a uma representação de Macbeth. seu crédito.O QUE É O ESPIRITISMO 71 as palavras místicas destas. e nelas nada encontrei que se assemelha a isto. Sobre quem cairá o ridículo. Impotência dos detratores F." — "Eu sou um deles. que. em vez de brincadeira. mas. há muita gente inconsciente. ao lado deles. meu amigo. é justamente o que precisava para o meu próximo artigo. então. a não ser sobre aqueles que caminham tão estonteadamente ? Quanto ao Espiritismo. os reclamos provocaram o exame e contribuíram para lhe aumentar o número de adeptos. disse-lhe o espírita. — Convenho que. Um espírita. ele ouviu o vizinho dizer: — "Belo! Vamos assistir a uma sessão espírita. assevero-vos que ele não primará pela veracidade. porque se reconheceu. entre os detratores do Espiritismo. chamando para ele a atenção de muita gente que nem sequer pensava nele. ao lado de um jornalista que ele não conhecia. Alguns chegaram mesmo a comparar as reuniões espíritas às assembleias do sdbbat. nas quais se espera o soar da meia-noite. longe de sofrer com tais ataques. como esses que acabais de citar. Quando chegou a cena das feiticeiras. vou saber agora como as coisas se passam. Se eu encontrasse por aqui algum desses loucos.

todos. A isso respondo que o Espiritismo também conta em suas fileiras muitos homens de não menos real valor. abalam as sociedades para transformá-las. para que se cumpra a lei do progresso da humanidade. ela dimana ainda de outra causa. apesar de tudo o que fazem pela conter. muitos deles avançam que deve haver nisso alguma coisa de real. Admiram-se de ver o desenvolvimento dessa doutrina. concorreram para a sua vulgarização. é que. que avança impávida através da chuva de dardos que lhe atiram. que a imensa maioria dos espiritas se compõe de homens inteligentes e de estudos. a essa objeção. e. mais. sem querê-lo. não provará a sua força máscula e a segurança das bases em que se firma? Não será esse fenómeno digno da atenção dos pensadores? Também. Um fato peremptório responde. apesar de todo o saber. nada as poderá deter. digo-vos. não há um só dos seus contrários. sem exceção. — Não o contesto. entretanto. pois que as que lhe opõem.72 ALLAN KARDEC A. ninguém consegue deter o Espiritismo na sua marcha. que se não tenha lisonjeado com a ideia de dar-lhe um golpe mortal. os prejuízos. é a prova de serem a expressão da verdade. que talvez seja um desses grandes movimentos irresistíveis que. e não podem achar o motivo por não o busca- . como já disse. seja ele o mais obscuro folhetinista. Uma ideia que resiste a tantos assaltos. além disso. porém. Isto se tem dado sempre com todas as ideias novas. chegada a hora. de tempos a tempos. já hoje. que lhes faltam boas razões. K. Essa impotência dos adversários do Espiritismo prova primeiramente. chamadas a revolucionar o mundo. só a má-fé pode dizer que seus adeptos são recrutados entre as mulheres simples e as massas ignorantes. como estão nos desígnios de Deus. que inutiliza todas as suas combinações. forçosamente elas encontram obstáculos. porque lutam contra os interesses. não são convincentes. de todo o poder oficial. os abusos que elas vêm destruir.

sem o concurso de estranhos. essa fonte do Espiritismo não iS8 acha num ponto.O QUE É O ESPIRITISMO 73 rem onde ele realmente está. vede nisso a causa dos insucessos dos que tentam deter-lhe . Uns crêem encontrá-lo no grande poder do diabo. Fazendo abstração das qualidades da Doutrina. escamoteação. na própria natureza do Espiritismo cuja força não provém de uma só fonte. e que se baseia na opinião de um só homem. assim como os que desconhecem as leis dos fenómenos elétricos não compreendem a rapidez com que se transmite um despacho telegráfico. em todos os países. quando. no aumento da alucinação humana. aos que sentem a ação dos raios solares. charlatanismo. nos palácios e nas choupanas. refutando essa opinião. prestidigitação. que agrada muito mais que as que se lhe opõem. Como persuadir a milhões de indivíduos que tudo isso não é mais que comédia. daí a ideia de que poderão arruiná-lo. pois. mas permite a cada qual receber diretamente comunicações dos Espíritos e por elas certificar-se da veracidade do fato. outros. que a si mesmos procurem enganar fazendo o papel de charlatães e escamoteadores? Essa universalidade das manifestações dos Espíritos. é de encontro a essa força que todas as negações se vêm quebrar. que o Sol não existe. mais forte que Deus. porque elas se equiparam às asserções de quem pretendesse afirmar. e. A verdadeira causa está. que surgem em todos os pontos do globo para desmentir os detratores e confirmar os princípios da Doutrina. eles procuram na Terra uma coisa que só achariam no Espaço. mas em toda parte. que assim se apresenta mais forte que eles. O erro de todos está em crerem que a fonte do Espiritismo é uma só. mesmo. é uma força que não podem explicar aqueles que desconhecem o mundo invisível. porque não há lugar em que os Espíritos se não possam manifestar. são eles próprios que obtêm tais resultados? É possível fazê-los crer que eles se mistifiquem a si mesmos.

Como persuadir a milhões de indivíduos que tudo isso não é mais que comédia. é de encontro a essa força que todas as negações se vêm quebrar. Fazendo abstração das qualidades da Doutrina. e que se baseia na opinião de um só homem. refutando essa opinião. mas em toda parte. que agrada muito mais que as que se lhe opõem. daí a ideia de que poderão arruiná-lo. porque elas se equiparam às asserções de quem pretendesse afirmar. eles procuram na Terra uma coisa que só achariam no Espaço. que surgem em todos os pontos do globo para desmentir os detratores e confirmar os princípios da Doutrina. mas permite a cada qual receber diretamente comunicações dos Espíritos e por elas certificar-se da veracidade do fato. essa fonte do Espiritismo não iS8 acha num ponto. nos palácios e nas choupanas. Uns crêem encontrá-lo no grande poder do diabo. vede nisso a causa dos insucessos dos que tentam deter-lhe . são eles próprios que obtêm tais resultados? É possível fazê-los crer que eles se mistifiquem a si mesmos. quando. assim como os que desconhecem as leis dos fenómenos elétricos não compreendem a rapidez com que se transmite um despacho telegráfico. pois. no aumento da alucinação humana. outros. O erro de todos está em crerem que a fonte do Espiritismo é uma só. mesmo. prestidigitação. charlatanismo. que o Sol não existe. escamoteação. que a si mesmos procurem enganar fazendo o papel de charlatães e escamoteadores? Essa universalidade das manifestações dos Espíritos. na própria natureza do Espiritismo cuja força não provém de uma só fonte. A verdadeira causa está. porque não há lugar em que os Espíritos se não possam manifestar. que assim se apresenta mais forte que eles. aos que sentem a ação dos raios solares. mais forte que Deus.O QUE É O ESPIRITISMO 73 rem onde ele realmente está. e. sem o concurso de estranhos. é uma força que não podem explicar aqueles que desconhecem o mundo invisível. em todos os países.

74 ALLAN KARDEC marcha. nós só o fazemos depois de. para que lado se deVe pender? O grande juiz. Acresce que o Espiritismo esclarecido. para que triunfassem. O maravilhoso e o sobrenatural V. como alguns pretendem. isto me parece difícil. Pretendeis julgar a priori segundo a vossa opinião. porque é exigir que se acredite nas superstições e nos erros populares. ter visto e observado. àquele a rapidez da sua propagação. a . mostrando o que há de real ou de falso nas crenças populares. a fazer reviver as crenças fundadas no maravilhoso e no sobrenatural. ligam tão pouca importância às manobras dos seus adversários. — Uma ideia só é supersticiosa quando falsa. os fatos. em parte. Eis o motivo por que os espíritas. ou não. evidentemente. — O Espiritismo tende. eles têm por si a experiência e o peso dos fatos. além disso. K. destruir as ideias supersticiosas. e que este deve. antes de ficar provado que não existem espíritos. ao contrário. já condenados pela razão. ora. denunciando o que nelas existe de absurdo. porém. isso não pode ser tachado de superstição. Vou mais longe e digo que é precisamente o positivismo do nosso século que faz com que adotemos o Espiritismo. antes que. Direis: a minha razão não aceita essas comunicações. mas cessa de o ser desde que passe a ser uma verdade reconhecida. ora. procura. nesta questão. como o é hoje. no século positivo em que vivemos. A questão está em saber se os Espíritos se manifestam. os que crêem e que não são nenhuns mentecaptos invocam também as suas razões e. A. fruto da ignorância e dos preconceitos. era-lhes mister impedir que os Espíritos se manifestassem. por muito tempo. é o futuro — como tem sido em todas as questões científicas e industriais classificadas como absurdas e impossíveis em sua origem.

. o código das consequências faz dele. cap. Sobrenatural é tudo o que está fora das leis da Natureza. II. pág. da Filosofia e da Razão. uma doutrina filosófica. segundo a qual a conversação com o Espírito de um morto é um fato tão natural. como os deuses do paganismo ante o brilho do Cristianismo. demonstrando. como o que se dá por intermédio da eletricidade. assim. Deste último ponto de vista. isto é. quando vos derdes ao trabalho de estudá-lo. entre dois indivíduos separados por uma distância de cem léguas. fora das leis da Natureza. antes explica.O QUE É O ESPIRITISMO 75 uma recrudescência do amor ao maravilhoso e ao sobrenatural. o mesmo acontece com os outros fenómenos espíritas. mas. — Vós vos apoiais em fatos. e como a sua teoria do futuro repousa sobre bases positivas e racionais. ela agrada ao espírito positivo do nosso século. 21. Ele amplia. O positivismo nada admite que escape à ação dessas leis. todo efeito maravilhoso. no que se refere ao seu futuro. É o que compreendereis. dissestes. O Espiritismo repudia. certos efeitos. ele as conhece a todas? Em todos os tempos foram reputados sobrenaturais os fenómenos cuja causa não era conhecida. dezembro de 1861. como. ele não faz milagres nem prodígios. "mas opõe-se-vos a opinião dos sábios que os contestam. igualmente. a sua possibilidade. porém. Rewwe Spirite. ao mesmo tempo. em virtude de uma dessas leis. ele corresponde às aspirações do homem. o domínio da Ciência. ou. a descoberta dessa nova lei traz consequências morais. os explicam de modo diferente do vosso.) Oposição da Ciência V. porventura. e é nisto que ele próprio se torna uma ciência. 393. (O Livro dos Méd/iams. pág. nos limites do que lhe pertence. pois bem: o Espiritismo vem revelar uma nova lei. O sobrenatural desaparece à luz do facho da Ciência. e janeiro de 1862.

infelizmente. os eclesiásticos. no entanto. os homens de letras. os grandes dignitários.76 ALLAN KARDEC Por que não fixaram eles sua atenção sobre o fenómeno das mesas girantes? Se nisso tivessem notado alguma coisa de sério. os magistrados. quando se lhes apresentava tão bela ocasião de revelar ao mundo a existência de uma nova força? A. sua opinião nesse sentido teria grande peso na balança. a experiência prova o contrário. etc. mais tarde. e ninguém nega que os médicos sejam homens de ciência. isto em todos os países. Mas. já ele conta entre seus adeptos grande número de médicos de todas as nações. é precisamente na classe ilustrada que o Espiritismo faz maior número de prosélitos. que se agrupam ao redor da sua bandeira. — Traçastes o dever dos sábios de modo admirável. porém. Como vos disse há pouco. Pelo fato de ainda não ter o Espiritismo adquirido direito de cidade na ciência oficial. antes de responder à vossa judiciosa observação. Os sábios não serão o farol das nações. cumpre-me corrigir um grave erro que cometestes dizendo que todos os sábios são contra nós. parece-me que não desprezariam fatos tão extraordinários e nem os repeliriam com desdém. os altos funcionários.. e não têm o dever de esclarecê-las? A que atribuís que tenham deixado de fazê-lo. os professores. os artistas. Admite-se erroneamente que os sábios só se encontram na ciência oficial e nos corpos constituídos. Não repeliu ela como quimeras tantas descobertas que. os oficiais. que eles o tenham esquecido em mais de uma circunstância. se tornaram título de glória para os seus autores? . não são pessoas em quem se não deva reconhecer uma certa dose de ilustração. merecerá ser condenado? Se nunca a Ciência se houvesse enganado. são todos eles contra vós. K. é pena.

daria grande peso ao vosso sistema. os fenómenos que ela produz têm por agentes forças materiais. mas não é menos verdade que. sem. As ciências vulgares repousam sobre as propriedades da matéria. também. e que. à força de mau gosto. alguém irá pedir a solução a um químico ou a um astrónomo ? Não. que se pode. K. que confiou o exame imediato ao Instituto. — Admito perfeitamente que eles não sejam infalíveis. com o que se não devia ocupar? Devemos daí concluir que os membros do Instituto são ignorantes e que sejam justificados os epítetos triviais que. como agentes.O QUE E O ESPIRITISMO 77 Não foi devido a uin parecer do nosso primeiro corpo sábio que a França se absteve da iniciativa do vapor? Quando Fulton veio ao campo de Bolonha apresentar o seu plano a Napoleão I. deixar de reconhecer que eles não são infalíveis e. inteligências que têm independência. não decidiu este que aquilo era uma utopia. Os do Espiritismo têm. V. não há pessoa sensata que não faça justiça ao seu saber eminente. quando se trata de uma questão de teologia. confiareis esse trabalho a um músico? Se estiverdes enfermo. se ela estivesse do vosso lado. manipular. em virtude do seu saber. sua opinião vale alguma coisa. ides consultar um dançarino? Finalmente. contudo. que ninguém pode ser bom juiz naquilo que está fora da sua competência. A. que as suas sentenças não estão isentas de apelação. certas pessoas se comprazem em prodigalizar-lhes? Certo que não. à vontade. livre-arbítrio e não estão sujeitas . — Concordai. cada um tem a sua especialidade. far-vos-eis sangrar por um arquiteto ? Quando estais a braços com um processo. Se quiserdes edificar uma casa. sobretudo no que se refere a ideias novas. portanto.

pois. àqueles que o preferiram. e.78 ALLAN KARDEC aos nossos caprichos. embora lhe fosse favorável. porque agiu visando uma analogia que não existe. e notai que agora chamo sábios aos homens de estudo e saber. Hoje. Quando a opinião pública se tiver formado a respeito. e. não tem o poder de forçar convicções. os membros dessas corporações a aceitarão sob o poder dos fatos. tenham ou não tenham um título oficial. porém. Muitos fizeram o seguinte raciocínio: "Não há efeito sem musa. como já tem emendado outros. como experimenta uma pilha voltaica. amanhã. Nem todos os sábios. As corporações sábias não podem nem jamais poderão pronunciar-se nesta questão. ficam fora dos domínios da ciência propriamente dita. levando os prejuízos do seu obstinado amor-próprio. e os efeitos mais vulgares podem conduzir-mos à solução dos mais difíceis problemas. concluiu pela negação. foi mal sucedida como devia sê-lo. foi o mesmo que se deu com os que acreditavam no movimento de rotação da Terra. restará a vergonha do erro de se haverem levianamente pronunciado contra o poder infinito do Criador. ela está tão fora dos limites do seu domínio como a de decretar se Deus existe ou não. O Espiritismo é uma questão de crença pessoal que não pode depender do voto de uma assembleia. e depois. . julgaram do mesmo modo. desde então. tão combatidas e de que hoje seria ridículo duvidar. porque esse voto. juízo temerário que o tempo se encarregou de ir emendando diariamente. um erro fazê-las juiz dela. e vereis que se há de dar com o Espiritismo o mesmo que se deu com tantas outras verdades. será a vez dos que não crerem. é. por isso eles escapam aos nossos processos de laboratório e aos nossos cálculos. A Ciência enganou-se quando quis experimentar os Espíritos. chamam loucos aos crentes. Deixai passar esta geração. sem ir mais longe.

que. e. mas duvida. K. eu penso igualmente. não é mais ridículo que a dança das rãs. Tendo adquirido. no estudo das ciências exatas. busquei explicar-me tudo. eis aí um sábio raciocinando com sabedoria e prudência. revolucionam a Humanidade. quando se tem a chave para explicá-los. — Essa crença apóia-se sobre o raciocínio e sobre os fatos. qual é a base em que se firma a crença na existência dos Espíritos e. — Perfeitamente. e. com receio de receber. para certa sociedade. sobretudo. de negar a possibilidade do que não compreendemos. o hábito das coisas positivas. uma ilusão. se Galvami tivesse repelido s>ua serva e lhe chamasse visionária e louca. talvez.O QUE É O ESPIRITISMO 79 "Se Newton não tivesse prestado atenção à queda de uma <maçã. sondei. é preciso que alguma coisa de verdade se encontre em tais fenómenos. quando esta lhe falou das rãs que dançavam <no prato. que ele nada afirma. talvez ainda 'estivéssemos sem conhecer a ^admirável lei da gravitação universal e as fecundas propriedades da pilha elétrica. . perscrutei esta nova ciência nos seus mais íntimos refolhos. porém. pois. se o quiserem. sem ser sábio. e homens notáveis fizeram deles o objeto do seu estudo. encerre algiu\ns desses segredos da Natureísa. o desmentido que desabomaria nossa perspicácia. "mas não daria a volta ao mundo. "O fenómeno. "Guardemo-nos. notai. Eu próprio não a adotei senão depois de meticuloso exame.. ora. não pode ter esse caráter de generalidade. seria divertimento para certo círculo." Eles disseram ainda: "Já que tanta gente se ocupa com eles." V. porque não costumo aceitar ideia alguma sem lhe conhecer o como e o porquê. na sua comunicação conosco? A. uma farsa. mais cedo ou mais tarde. burlescamente designado sob o nome de damça das 'mesas.

mas a isso se pode responder que data de meio século a possibilidade de. uma dessas forças ocultas de que nem suspeitávamos ? 'i "Que novo horizonte vai abrir-se ao pensamento! Que campo tão vasto de observação! "A descoberta do mundo dos invisíveis tem muito mais alcance que a dos infinitamente pequenos. que não se lhes deve dar crédito. por que não poderão comunicar-se conosco? Se estão em relação com os homens. dizem. mas que valor tem isso. ela é mais que vima descoberta. um navio avançar contra o vento. . Quem sabe se eles não constituem uma das potências da Natureza. nos acontecimentos da vida destes. é uma revolução nas ideias. e de dizer que Deus nada mais nos pode revelar? "Se esses seres invisíveis que nos rodeiam. acaso. devem desempenhar um papel no seu destino. atravessar-se a França. "Quanta luz pode projetar essa descoberta? Quantas coisas misteriosas explicadas? "Os crentes são ridiculizados. outrora incrédulo e hoje fervoroso adepto: "Dizem que seres invisíveis se comunicam. quando o mesmo se tem dado a respeito de todas as grandes descobertas? "Cristóvão Colombo não foi repelido. e tirarmos da água os meios de iluminar-nos e aquecer-nos. em alguns minutos.80 ALLAN KARDEC Eis o raciocínio que me fazia um sábio médico. tratado como insensato? "São ideias tão estranhas. em algumas horas. com o vapor produzido por um pouco de água fervente. suspeitava alguém que existissem esses milhares de animálculos que causam tantos estragos à economia? "Onde a impossibilidade material de haver no espaço seres que escapem aos nossos sentidos? "Teremos. a ridícula pretensão de saber tudo. sobrecarregado de desgostos. estabelecer-se correspondência entre dois pontos opostos do nosso planeta. são inteligentes. por que negá-lo ? "Antes de inventar-se o microscópio.

porque a razão não a repele. depois de haverem vivido na Terra. cuja pequenez extrema nos confunde a imaginação? Ora. acreditais que todos esses homens sisudos as tivessem adotado? Que. isto não pode ser a verdade. — Ê exato. apenas conseguiria fazer rir de si. providos de todos os nossos órgãos e funcionando como nós. poderia pensar que uma só gota de água límpida encerrasse milhares de seres. Resta. A. Ora. essa observação não é . sem partido fixo. e tiveram a modéstia de não dizer: não compreendemos. mas de um sábio sem pretensão. "Será isso. mas por ser uma coisa possível. eu digo que há mais dificuldade em conceber a nossa razão seres de tal tenuidade. Se essas ideias fossem uma quimera. — Sem dúvida. impossibilidade material de existirem seres invisíveis para nós. pois. por tanto tempo. elas são igualmente feitas por muitos outro? homens esclarecidos. coisa mais prodigiosa que o espaço ser povoado pelos seres pensantes que. do que admitir aqueles a quem damos o nome de Espíritos. Quem. porventura. V." Eis as reflexões de um sábio.O QUE É O ESPIRITISMO 81 "Quem. já ela avançou. desde que uma coisa não é impossível. mas não podeis deixar de convir que. há bem pouco. não superficialmente e de ânimo prevenido. Sua convicção formou-se pela observação e pelo raciocínio. e esta só consideração devia bastar para exigir mais circunspeção. pois. há meio século. estes viram. se tivesse proposto iluminar toda a cidade de Paris em um instante e com um só reservatório de uma substância invisível. estudaram seriamente. não devemos concluir que exista. povoando o espaço. K. averiguá-la pela observação dos fatos. pudessem ser vítimas de uma ilusão? Não há. nela deixaram seu invólucro material ? "Não se achará neste fato a explicação de tantas crenças que existem desde os mais remotos tempos? "São coisas que bem merecem estudo aprofundado.

— É contra os fenómenos provocados que principalmente a crítica se levanta. — Ignoro que já se tenha claramente explicado o mecanismo da alucinação. Da forma como querem defini-la. ela não deixa de ser um efeito singularíssimo e digno de estudo. visto como tudo se submete às leis imutáveis da Natureza. — Estado sonambúlico dos médiwns. —l Sivperexcitação cerebral. tão frequentes. .82 ALLAN KARDEC nova: tanto a história sagrada quanto a profana provam a antiguidade e a universalidade dessa crença. — Fluido magnético. K. e grande número de efeitos insólitos que olhávamos como sobrenaturais e hoje nos parecem simples. os ruídos. no estado de ideias inatas e intuitivas. senão com precauções misteriosas que o tornavam inacessível ao vulgo. não será possível que os médiuns sejam vítimas de uma alucinação? A. Entre os primeiros estão as visões e as aparições. Os fatos provocados são os obtidos por intermédio de médiuns. Ponhamos de lado toda suposição de charlatanismo. V. e se mostra. sem causa material. Falsas explicações dos fenómenos Ahucmação. ou talvez melhor que nós. Quanto aos fatos. e tão gravadas no pensamento como a do Ente Supremo e a da existência futura. e admitamos a mais completa boa-fé. eles são de duas naturezas: uns espontâneos e outros provocados. não é uma criação moderna. abandonado de propósito no lamaçal da superstição. O Espiritismo. que se perpetuou através de todas as vicissitudes por que tem passado o mundo. tudo prova que os antigos o conheciam tão bem. pois. barulhos e movimentações de objetos. porque não admitimos o sobrenatural. — Reflexo do pensamento. somente ele não era ensinado. entre os mais selvagens povos.

se ergue. — Tal foi o primeiro pensamento que tive. que aqueles que por meio dela pretendem dar conta dos fenómenos espíritas. ao cair. foi-se levado a tirar a seguinte conclusão: "Se todo efeito tem uma causa. bem compreendeis que esses aparelhos. Suponho que o médium. não são inteligentes. enfim. Há. — Admitindo a realidade do fenómeno das mesas que giram e falam." Poderão tais fenómenos ser produzidos por um fluido. em todos os países? A ser assim. por exemplo? A. quando a dita mesa. V. além disso. fatos que escapam a essa hipótese: quando a mesa ou outro objeto se move. quando se reconheceu que respondiam ao pensamento com inteira liberdade. quando.O QUE É! O ESPIRITISMO 83 É pena. ou bate. o efeito inteligente tem uma causa inteligente. sem que pessoa alguma lhe toque. do magnético. ao mesmo tempo. se despedaça. não possam antes apresentar a explicação deles. não será mais racional atribuí-lo à ação de um fluido qualquer. . como tantos outros. por um produto da sua imaginação. sem ponto de apoio. K. quando ela se destaca do solo e se suspende no espaço. porém. de ferro ou de madeira. passeia por uma câmara. quando esses movimentos e golpes nos deram provas de inteligência. mas que é uma inteligência quem os faz mover. Será admissível que todos os presentes sejam. não há dúvida de que poderiam ser assim explicados. vítimas da mesma vertigem? E quando o mesmo fato se reproduz por toda parte. creia ver o que não existe. essa alucinação seria prodígio maior que o próprio fato. tudo isso não pode ser o efeito de uma alucinação. Se tudo se limitasse a esses efeitos materiais. porém. à vontade. sem se admitir que esse fluido seja dotado de inteligência ? Quando vedes os aparelhos do telégrafo fazerem sinais transmitindo o pensamento.

K. ou escrevem na sua própria quando não sabem ler nem escrever? Ã primeira vista. efeitos inteligentes? Esta a questão. Se os que assim pensam se tivessem dado ao trabalho de estudar o fenómeno em todas as suas fases. mesmo admitindo-se essa teoria. diante deles. Os que contestam. achando-se presentes vinte pessoas. em observação superficial. é impossível duvidar. ou não. — Pode-se responder que. E depois ainda o maravilhoso seria maior. como a luz. A. não deixariam de reconhecer. seria muito mais prodigioso. ou o desta ou daquela outra? Tal sistema é insustentável. será o pensamento desta ou daquela que é refletido. longe de ser simplificado. a cada passo. desejos e opiniões. tão fora do alcance intelectual e da instrução do médium? respostas que vão de encontro às suas ideias. se há um efeito inteligente. Dão-se. essa opinião nada tem de irracional. o calórico?! Em verdade. dizem. a independência absoluta da inteligência que se manifesta. . ou mesmo dos assistentes. porque. a resposta recebida estava sempre rio pensamento de alguém. porque. Como conciliar essa tese com as respostas obtidas. V. convenho. o fenómeno. Pois quê! o pensamento poderá refletir-se sobre uma superfície. quando muito. Além disso.84 ALLAN KARDEC Dá-se o mesmo com as mesas a que nos referimos. mas é desmentida por um conjunto de fatos tão concludentes que. seja do médium. este pode ser um reflexo da inteligência. ou que destroem completamente as previsões dos assistentes? Quando os médiuns escrevem em uma língua que não conhecem. o som. segundo suas ideias particulares e baseadas. — É ainda um erro. seja de quem interroga. filho da falta de observação. havia nisto um motivo para a Ciência exercer a sua sagacidade. são pessoas que nada viram ainda e se apressam a concluir.

morta havia dezoito meses e a quem ele não conhecera. se admitirmos que o médium se ache em estado magnético. V. um dia. Q médium nem se acha em crise nem dorme. presente então à sessão? Será por efeito do mesmo género que uma mesa responde com precisão às questões propostas. qual o sonâmbulo que fez alguma vez sair um pensamento de um corpo inerte? Qual deles pôde produzir aparições visíveis e. mesmo feitas mentalmente? Certamente. Abstraindo das comunicações escritas. que não permite confundi-lo com o sonâmbulo. que lhe dá a percepção sonambúlica — espécie de dupla vista —. dizem. — Ê ainda esse um desses sistemas que não resistem a um exame aprofundado. sem nada apresentar de extraordinário. sem ponto de apoio? Será por efeito sonambúlico que certo médium desenhou. por uma só face. . tangíveis? Qual fez que um corpo pesado se mantivesse suspenso no ar. segundo querem alguns. quem se não limitar a julgar as coisas. parece-me difícil crer que a mesa seja sonâmbula. porém. mas está perfeitamente acordado. agindo e pensando como os outros. o retrato de uma jovem. retrato reconhecido pelo próprio pai da jovem. sendo a independência do seu pensamento demonstrada por fatos da maior evidência. Certos efeitos particulares deram lugar a essa suposição. K. as comunicações obtidas pelos médiuns não vão além do alcance das que nos dão os sonâmbulos? A.O QUE É O ESPIRITISMO 85 Ê realmente curioso ver-se os contraditores empenharem-se na busca de causas. em minha casa e na presença de vinte testemunhas. — Não será admissível. mesmo. reconhecerá sem dificuldade que o médium é dotado de uma faculdade particular. que aliás nos pode explicar a ampliação momentânea de suas faculdades intelectuais? Por que. que o médium se ache em estado de crise e goze certa lucidez. cem vezes mais extraordinárias e incompreensíveis do que aquelas que se lhes apresenta.

por causa da idade da pessoa por quem ele perguntava. será racional concluirmos que isso seja uma lei geral? Nisso como em todas as coisas. rua tal. mora em Paris. em certos casos. quando. "Sim. perguntou a um Espírito se uma pessoa que ele tinha perdido de vista. ainda vive. ainda. deixar que . Como explicar o fato seguinte e cem outros da mesma espécie? — Um dos meus amigos. era ainda deste mundo. Eles querem que os fatos obedeçam à sua ordem e a Espíritos não se pode dar ordens. havia quinze anos. — O que os incrédulos desejam ver.86 ALLAN KARDEC Dizem. pedem. muito bom médium escrevente.. Como é que tanta gente. havia toda a probabilidade de ela não existir mais? Se. Se todos testemunhassem esses fatos. apesar de sua vontade. nada tem conseguido ver? Apresentam-lhes como motivo. Não basta dizer: Mostrai-me tal fato e eu crerei. é necessário ter-se a vontade de perseverar. e com razão: que não podem ter fé antecipada e que se lhes deve dar os meios para poderem crer. é preciso esperar pela boa-vontade deles. ao que respondem. são os fatos positivos. — É simples a razão. A. a sua falta de fé. porque eles podem ser desmentidos pelos fatos que ainda se não observaram. Não basta que os incrédulos vejam para que se convençam V. K. e na maioria das vezes não se lhes fornece." Ele foi e encontrou a pessoa no lugar indicado. Seria isso uma ilusão? Seu pensamento poderia sugerir-lhe tal resposta. foi-lhe respondido. número tanto. a dúvida não mais seria permitida. são sempre perigosos os juízos precipitados. dizem eles. que os médiuns só falam com clareza daquilo que é conhecido. vemos respostas combinarem com o pensamento de quem pergunta.

O simples bom-senso mostra que. sem pretender forçá-los ou dirigi-los. por não querermos com elas perder nosso tempo. Ao lado desses cépticos endurecidos estão os que querem ver a seu modo. para com vagar observá-lo à sua vontade? Não. o que se exige é boa-fé. há cépticos que negam até a evidência e aos quais os próprios prodígios não convenceriam. aquele que mais desejais será. Muitos até ficariam incomodados. aliás coisa diversa. talvez. deve proceder-se do mesmo modo com os Espíritos. não persistem ainda em explicar os fatos a seu modo. Que faz o naturalista quando quer estudar os hábitos de um animal? Mandá-lo-á fazer tal ou qual coisa. que nada viram.O QUE fi O ESPIRITISMO 87 os fatos se produzam espontaneamente. virão. que. quando menos o esperardes. Aos olhos do observador atento e assíduo surgem eles inumeráveis. e. dizendo que o que viram nada prova? Essas pessoas só servem para trazer perturbação ao seio das reuniões. que nada se pôde ou se quis mostrar-lhes. porque bem sabe que o animal não lhe obedecerá. ora. por isso. estes não compreendem . pretendem por ela explicar tudo. por terem de ferir seu amor-próprio com a confissão de se haverem enganado. mesmo. porém. para fazer que a máquina ande. deixamo-las à margem. com mais forte razão. sem que elas mesmas lucrem coisa alguma. se se vissem forçados a crer. corroborando-se uns aos outros. Que se pode responder a quem não vê por toda parte senão ilusão e charlatanismo? Nada. Quantos deles. depois de haverem visto. engana-se redondamente. outros. espera-as e colhe-as na passagem. mas espreita as manifestações espontâneas do instinto do animal. que são inteligências muito mais independentes que as dos animais. tendo formado uma opinião. Ê erro crer que se exija fé antecipada de quem quer estudar. mas quem acreditar que basta tocar a manivela. e o que quereis se apresentará. precisamente o que não obtereis. é melhor deixá-los tranquilos e dizerem tanto quanto quiserem.

cuja opinião teria grande influência? A. não devem fornecer provas às pessoas a quem não ligam a importância que elas pretendem ter. convenho. K. por que não se prestam. colocarmo-nos no seu ponto de vista. em compensação. esta condição é também favorável aos que se tornam adeptos. naquele momento.88 ALLAN KARDEC que os fenómenos se possam dar contrariamente ao seu desejo. ao passo que a nossa vista é circunscrita pela matéria. porém não temos o direito de impor-lhes a nossa opinião. seguir. É isso pouco lisonjeiro. ligam às vezes importância a coisas cujo verdadeiro alcance nos escapa. mas abandonar toda ideia preconcebida e não querer comparar coisas incompatíveis. melhormente. cumpre-lhe aguardar. um simples passo. não digo crer sob palavra. não faleis mais nisso. são f utilidades a seus olhos. é para eles um instante. pensam e agem segundo outros elementos. — Os Espíritos devem almejar fazer prosélitos. pois que ela prova não haverem formado levianamente a sua convicção. Boa ou má-vontade dos Espíritos para convencer V. eles abrangem o conjunto. pois ninguém a tal vos obriga. Então não vos ocupeis. Disponde vós de tal paciência? Não. a qual nem sempre se coaduna com a nossa. limitada pela estreiteza do círculo em que vivemos. Para compreendê-los é preciso nos elevarmos pelo pensamento acima do horizonte material e moral. para nós de importância extrema. e certos pormenores. Quem de boa-fé deseja observar. não sabem ou não querem colocar-se nas condições precisas para obtê-los. a distância. pois que não são eles . aos meios de convencer certas pessoas. — É por julgarem que. que nos parece tão longo. deve. eles vêem. e direis: por falta de tempo. observar com paciência infatigável. o tempo. os Espíritos têm sua maneira de julgar as coisas.

as consequências dele emanadas também o seriam. porque. é admissível que a imaginação possa nisso ter desempenhado seu papel. é o que nos ensinam o estudo e a observação. De fato. é o ponto de partida das ideias espíritas modernas. ou o resultado de uma crença prévia na existência deles? Compreendeis a importância de minha pergunta. supondo essas ideias nascidas de uma crença antecipada. — Uma coisa que eu desejava saber. a boa-fé. mas.O QUE É O ESPIRITISMO 89 que devem descer ao nosso nível. neste último caso. no ponto de vista em que vos achais. Por sua causa os Espíritos nada fazem. K. que a imaginação pudesse produzir todos os resultados materiais observados. — Como dissestes. mas as coisas não se passaram assim. os Es- . A. ainda que seja difícil acreditar-se. é a fatuidade desses pretensos observadores que nada observam. quando o não traduzam por palavras. Notai. que essa marcha seria totalmente ilógica. duvidar da sua veracidade. que desejam colocá-los no banco dos réus e fazê-los moverem-se como títeres. mas subirmos nós até eles. é o sentimento de hostilidade e descrédito que exista em seus pensamentos. se o princípio fosse uma quimera. pouco se importando com o que possam dizer ou pensar. meu amigo. Origem das ideias espíritas modernas N V. em primeiro lugar. com alguma aparência de razão. para estes multiplicam eles as fontes de luz. poder-se-ia. porque. sim. Os Espíritos gostam dos observadores assíduos e conscienciosos. serão elas filhas de uma revelação espontânea dos Espíritos. porque o seu dia também chegará. Por isso vos dizia eu que não é a f é antecipada o que pedimos. se o Espiritismo fosse fundado no pensamento preconcebido da existência dos Espíritos. o que os afugenta não é a dúvida que nasce da ignorância. essa questão tem importância.

pois. autorizava a buscar-se-lhes a causa fora da ação de um fluido magnético ou outro qualquer. que achassem explicação provável na existência de seres invisíveis. possível conceber o pensamento da existência dos Espíritos. longe de que os Espíritos fossem uma ideia preconcebida. do ponto de vista materialista. mas não é natural imaginar-se uma causa antes de lhe ter visto os efeitos.. Pois bem! não foi mesmo deste modo que nasceu tal pensamento. Nada. tais como ruídos estranhos. sem causa ostensiva conhecida. partiu-se. que: Se todo efeito tem uma causa. a reconhecer nesses ruídos e movimentos um caráter intencional e inteligente. Eis a marcha das coisas: fenómenos espontâneos se produziram. do que se concluiu. Esta inteligência não podia estar no objeto. Não se tardou. porém. pode-se procurar-lhe a causa. todo efeito inteligente tem uma causa inteligente. declarando pertencer aos seres incorpóreos chamados Espíritos. foi a de uma causa material. quando se vê um efeito. só a experiência podia pronunciar-se. para chegar a eles. isto é. como já igualmente vo-lo disse. como já o disse. a completa independência da inteligência que se manifesta. pancadas. se efeitos não se tivessem mostrado. a primeira suposição feita. Assim. Ela não pertencia. etc. realizando-se sob a influência de certas pessoas. não foi ele uma hipótese imaginada com o fim de explicar certos fenómenos. pois. porém. em muitas circunstâncias. Seria o reflexo da pessoa ou das pessoas presentes? Assim se julgou no começo. somente a observação conduziu à causa espiritual. Quem era então? Ela própria respondeu. nem ao objeto nem à pessoa. até aí. pois sabemos que essa crença é tão velha quanto o mundo. Não se podendo. porque a matéria não é inteligente. de propriedade ainda desconhecida. Falo das ideias espíritas modernas.90 ALLAN KARDEC píritos são a causa e não o efeito. . Não era. e ela demonstrou por provas irrecusáveis. por este meio explicar tudo. movimentos de objetos.

e Deus sabe quantos surgiram! Uns creram ser os Espíritos superio- . em uma palavra.O QUE fi O ESPIRITISMO 91 A ideia dos Espíritos não preexistia. qual o mudo que. E — coisa notável — à medida que meios de mais fácil comunicação se acham ao nosso dispor. apesar de nunca os havermos visto. usos e modos de ser. um fio elétrico estivesse estabelecido através do Atlântico. estranhos à Humanidade? Eram bons ou maus? Foi ainda a experiência quem se encarregou da solução de tais problemas. e ter-se-ia logo concluído que na outra extremidade se achavam seres inteligentes. não nasceu do cérebro de ninguém. e tudo o que soubemos depois. recuperando a palavra. condições de sua existência e seu papel no mundo visível. nem mesmo lhe foi consecutiva. mas. mas nos foi dada pelos Espíritos mesmos. os Espíritos abandonam os primitivos. teríamos interrogado e eles teriam respondido. e podia-se adquirir o conhecimento dos seus costumes. Quem eram os habitantes desse mundo? Eram seres à parte. Foi o que se deu nas relações com o mundo invisível: as manifestações materiais foram sinais e meios de aviso que nos conduziram a comunicações mais regulares e mais seguidas. quantas coisas curiosas não ficaríamos sabendo sobre eles! Suponhamos que. pôde-se entreter conversações seguidas e obter informações sobre a natureza desses seres. que desejavam comunicar-se. Uma vez revelada a existência dos Espíritos e estabelecidos os meios de nos comunicarmos com eles. o campo das conjeturas e dos sistemas esteve aberto. foi-nos por eles ensinado. antes da descoberta da América. renuncia à linguagem dos sinais. e que na sua extremidade europeia se houvessem produzido alguns sinais inteligentes. até que observações numerosas tivessem derramado luz sobre o assunto. Se assim pudéssemos interrogar os seres do mundo dos infinitamente pequenos. a seu respeito. insuficientes e incómodos. Ficaríamos assim com a certeza da sua existência.

a que chamamos perispírito. Suponhamos que dentre os desconhecidos habitantes transatlânticos. uns tenham dito muito boas coisas. vaporoso. reconhecer seus parentes e amigos e os que conhecera na Terra. de que acabamos de falar. que não são seres à parte. foi assim que se reconheceu entre eles todos os graus de bondade e malvadez. de natureza excepcional e. ficou explicado o fenómeno das aparições e do contacto. cabe à nossa prudência distinguir o que é bom do que é mau. desde então. dentre eles. Ficou-se sabendo. . em certos casos e por uma espécie de condensação ou de disposição molecular. e que hoje povoam os espaços. e. pode tornar-se momentaneamente visível e mesmo tangível. no sentido absoluto da palavra. Foi o que aconteceu com os Espíritos. as almas daqueles que já viveram na Terra. mas. A observação não nos esclareceu somente sobre as qualidades morais dos Espíritos. outros. possuem um invólucro. nos acotovelam sem cessar. ter-se-ia logo concluído que entre eles havia bons e maus. invisível no estado normal. desde o instante em que abandonam o corpo. soube-se que eles não são entes abstratos. diáfano. espécie de corpo fluídico. que. era só por suas palavras e atos que podiam julgá-los. Uma vez bem informados acerca dos defeitos e das boas qualidades que entre eles se encontram. o verdadeiro do falso em suas relações conosco. pode-se acompanhá-los em todas as fases de sua existência de além-túmulo. também. e observar sua situação segundo o género de morte e modo pelo qual viveram na Terra. ao passo que outros se faziam notar pelo cinismo da linguagem. por eles mesmos. imateriais. sim. neles só viram demónios.92 ALLAN KARDEC rés em tudo. de saber e ignorância. Enfim. cada qual pode. onde deixaram seu invólucro corpóreo. nos cercam. sobre a sua natureza e sobre o que podemos chamar estado fisiológico. que uns são muito felizes e outros muito desgraçados. por sinais incontestáveis. absolutamente como procedemos a respeito dos homens. e.

cavalheiro. a alma ou o Espírito. para vos dar uma ideia de algumas das experiências. a história do Espiritismo. podereis dar-me disso uma ideia. bastará para facilitar-vos a compreensão do mecanismo e servirá. É esse invólucro semimaterial do Espírito que lhe serve de meio para a produção de diferentes fenómenos. e reconhecereis ainda melhor quando o tiverdes estudado a fundo. que encontrareis minuciosamente em O Livro dos Médiuns. quanto das disposições peculiares às pessoas que lhes servem de intermediárias. quando. K. pelos quais ele se nos manifesta. O mais vulgar — o que se pode chamar universal — consiste na intuição. Quanto aos meios. A existência desse envoltório semimaterial é já uma chave para a explicação de muitas coisas e mostra-vos a possibilidade de certos fenómenos. porquanto é difícil compreender como podem esses seres invisíveis conversar conosco? A. abreviadamente. mais ou menos apurada dos Espíritos. antes de começar a vossa iniciação. Meios de comunicação F. abandona-o. esse invólucro é um laço que o prende ao Espírito. o corpo morre. porque isto exigiria prolongado desenvolvimento. que é a mesma coisa. — De boa-vontade. contudo. contudo. sem. — Falastes de meios de comunicação. porém. Mas o pouco que eu vos disser. são muito variados e dependem tanto da natureza. para só conservarmos as interiores.O QUE fi O ESPIRITISMO 93 Enquanto dura o corpo. do mesmo modo como despimos as peças exteriores da nossa roupa. deixar o primeiro envoltório. que tudo nele é o resultado da observação e não de um sistema preconcebido. bem vedes. em poucas palavras. isto é. vou fazê-lo. a que podereis assistir. agora. assim como o fruto despojado do invólucro cortical conserva ainda o perisperma. Tal é. nas . sobretudo.

Os Espíritos manifestam-se ainda e podem transmitir seus pensamentos por sons articulados. ou designando as letras que devem formar as palavras. há médiuns auditivos. movimentos de corpos. propriamente falando. este último pode escrever. seja no interior do órgão auditivo. ao qual transmite a influência que recebe do Espírito. uma cestinha. respondendo por sim ou por não. ao qual se adapta um lápis. etc. que não é senão uma complicação de meios. outros existem mais materiais. isto é. por desenhos. reconheceu-se a inutilidade desse intermediário. de modo mais palpável. seja no ar. sem que estes se movimentem. de uma mesa. Assim. cujo único mérito está em demonstrar. e serve-se ainda algumas vezes. Esse modo primitivo é demorado e dificilmente se presta a comunicações de certo desenvolvimento. Muitas vezes se fazem ouvir nas próprias substâncias dos corpos.. videntes. pela voz do médium. O objeto assim empregado não é. pela vista. um meio pouco apreciável. e o lápis traça os caracteres. Depois. O médium coloca as mãos sobre esse objeto. falantes. ele mesmo. aptos para produzir fenómenos materiais. para esses diferentes modos de comunicação. que bate com o pé. por exemplo. uma caixa. e é obtida de diferentes maneiras. Os médiuns possuem. mais que um apêndice da mão. Serviu-se no começo.94 ALLAN KARDEC ideias e pensamentos que eles nos sugerem. Certos Espíritos se comunicam por pancadas. porém. cuja ponta pousa sobre o papel. o lápis. As pancadas podem ser obtidas pelo movimento de oscilação de um objeto. pela música e por muitos outros meios que um estudo completo torna conhecidos. a independência do médium. temos médiuns de efeitos físicos. uma espécie de porta-lápis. de um objeto móvel. desenhadores. aptidões especiais que dependem de sua organização. na generalidade dos casos. como uma prancheta. Esta última faculdade é a mais comum. é este. a que melhor . que se fazem ouvir. a escrita substituiu-o. escreventes. músicos. como pancadas. segurando. A natureza e a substância do objeto são indiferentes.

ele deve compreender. é necessário saber-se o modo pelo qual se opera o fenómeno. à qual dá um impulso totalmente independente da vontade deste. então. Somente. aconselho-vos vivamente a não tentardes ensaio algum antes de acurado estudo. Poderia eu mesmo experimentá-lo? A. Para compreendê-las. digo mais: se possuirdes a faculdade mediúnica. por ser a que permite comunicações mais frequentes e rápidas. que transmite um pensamento que não é o seu e que. mesmo. elas não estão isentas de inconvenientes e. O médium escrevente apresenta numerosas variedades. — O processo parece-me dos mais simples. Demais. porque não podeis duvidar da vossa boa-fé. V. seu papel é exatamente o de um intérprete. tereis o melhor meio de vos convencer. — Perfeitamente. se bem que escrevendo de modo involuntário. nas comunicações que recebe. a experiência ensina a distingui-los com facilidade. e sem que ele tenha consciência do que escreve: é o médium escrevente mecâmoo. Obtêm-se comunicações igualmente boas por esses dois géneros de médiuns. seu pensamento se comunica com o deste que. tem consciência mais ou menos nítida do que obtém: é o médium intwtivo. atuando sobre o cérebro do médium. para os que não têm a necessária . K. diretamente sobre a mão do médium. a vantagem dos que são mecânicos é proveitosa sobretudo para as pessoas que ainda não estão convencidas. Outras vezes. neste caso. portanto. das quais duas são muito distintas. As comunicações do além-túmulo são cercadas de mais dificuldades do que se pensa. de perigos. O Espírito atua. algumas vezes. a qualidade essencial de um médium está na natureza dos Espíritos que o assistem. antes que nos meios de execução. Ainda que. o pensamento do Espírito e o do médium se confundam algumas vezes.O QUE É O ESPIRITISMO 95 se desenvolve pelo exercício e também a mais preciosa.

— Até ao presente não se conhece um diagnóstico para a mediunidade. V. que encontre no médium um instrumento apropriadç à sua natureza. Se a mediunidade se traduzisse por um sinal exterior qualquer. ou nas pessoas que nos cercam. sem saber Química. quando não o sejamos. — Há algum sinal pelo qual se possa reconhecer a posse dessa aptidão? A. sua causa moral está na vontade do Espírito que se comunica. tentasse fazer manipulações químicas. é preciso: 1. O sexo.°. 2. 3. K. entre crianças. velhos. Além disso.°. Seria. Estas poucas palavras bastam para mostrar que há nisto um sério estudo a fazer-se. donde resulta: 1. .°. que lhe convenha fazê-lo. quando ele menos o esperar. que todo médium pode perder ou ver suspender-se a sua faculdade.96 ALLAN KARDEC experiência. experimentar é o único meio de saber se a faculdade existe. É o mesmo que aconteceria àquele que. quando isto lhe apraz. doentes e pessoas sadias. que sua posição ou suas ocupações lho permitam. 2. que nem todos os Espíritos podem comunicar-se indiferentemente por todos os médiuns.°. a fira de se poder explicar as variações que esse fenómeno apresenta. pois. a idade e o temperamento são indiferentes. isto implicaria a permanência da faculdade. ao passo que ela é essencialmente móbil e fugidia. dos fluidos perispirituais do encarnado e do Espírito desencarnado. e se comunicar pelo primeiro médium de que se lance mão. eles aparecem entre os homens e mulheres. os médiuns são muito numerosos e é raríssimo. todos os que julgamos descobrir.°. e não segundo a nossa vontade. Para que um Espírito se comunique. Sua causa física está na assimilação. não se encontrar algum em qualquer dos membros de nossa família. correria o risco de queimar os dedos. mais ou menos fácil. um erro crer que todo Espírito possa vir responder ao apelo que lhe é feito. são sem valor.

de alguma sorte especial. — Antes de empreender um estudo de longo fôlego. todos os que produzem manifestações físicas. assim como os sábios da Terra não se entregam a exercícios de força muscular. há muita gente que deseja ter certeza de que não 4 . sem por isso serem essencialmente maus. Nas reuniões frívolas eles tomam a desforra. de prova. eles vêm mais ou menos de boa-vontade segundo as circunstâncias e. fazendo de tudo divertimento. depois da morte não o fazem também. para onde os chamam com recolhimento e para coisas sérias.'para os efeitos materiais. Os Espíritos denominados batedores e. e não pelo pedido do primeiro que tenha a fantasia de evocá-los por um sentimento de curiosidade. possuem uma aptidão. segundo a sua simpatia pelas pessoas que os chamam. Os Espíritos frívolos andam por toda parte. com os mais elevados como com os mais vulgares.O QUE Ê O ESPIRITISMO 97 Em princípio. calam-se e conservam-se afastados para escutar. como fariam estudantes em uma assembleia de doutos. podemos comunicar-nos com os Espíritos de todas as categorias. ou com um fim fútil. sobretudo. são de ordem inferior. muitas vezes. independente das condições individuais de possibilidade. Médiuns interesseiros V. quando na Terra. geralmente. nas reuniões sérias. e respondendo a tudo sem se importarem com a verdade. porém. os Espíritos superiores não se ocupam com essas coisas. não se prestam a responder a perguntas de curiosidade. lançam mão dos atrasados. nestas circunstâncias. quando aqueles precisam que tais efeitos se dêem. não se incomodariam com elas. como nós nos servimos dos trabalhadores para os serviços pesados. dos assistentes. com os nossos parentes e amigos. porém. nem também a experiência alguma. zombando. Os Espíritos sérios só comparecem nas reuniões sérias. se eles.

sobretudo. é antes guiado pela curiosidade.98 ALLAN KARDEC vai perder o tempo. pois que ele desejaria de qualquer forma ganhar dinheiro. — Aquele que não se quer dar ao trabalho de estudar. Além de que o desinteresse absoluto é a melhor garantia de sinceridade. a tanto por hora. em todos os casos só se prestariam a isso Espíritos de classe inferior. muito pior seria se neles encontrassem o estímulo do interesse. nada lhe garante obter uma manifestação em dado momento. K. ora. os Espíritos. não gostam dos curiosos. encontram um divertimento maldoso em frustrar as combinações e os cálculos do seu evocador. à vista de sua depen- . Se os incrédulos são inclinados a suspeitar da boa-fé dos médiuns em geral. Santo Agostinho. e que não merecem confiança alguma. mesmo admitindo-se que um indivíduo possua aptidão mediúnica. A. senhor. Além disso. antipática. muitas vezes. a cobiça é-lhes. e estes mesmos. A natureza da faculdade mediúnica opõe-se. o que é mais que duvidoso. e eles recusam-se a prestar-lhe qualquer serviço. pois. Sabemos que os fenómenos espíritas não se produzem como o movimento das rodas de um mecanismo. a que ela sirva de profissão. pouco escrupulosos a respeito de meios. que pelo desejo real de se instruir. certeza que lhe poderia provir do fato concludente. mesmo obtido a peso de ouro. porquanto dependem da vontade dos Espíritos. com razão se poderia suspeitar que o médium retribuído simulasse quando o Espírito não o auxiliasse. é fazer ideia bem falsa das nossas relações com o mundo espiritual. crer que Espíritos superiores como Fenelon. supondo que eles consintam nisso. Bossuet. Pascal. Não. se ponham às ordens do primeiro que os chame. assim como eu. As comunicações de além-túmulo são assunto muito grave e respeitabilíssimo para serem assim exibidas. repugnaria à razão evocar por dinheiro os Espíritos das pessoas que nos são caras.

pois se é uma verdade que a fé não se impõe. Ê absolutamente o mesmo que se se dissesse ser no interesse da Humanidade que o padeiro fabrica o pão. não o é menos. a bem da causa. não seja indenizado quando esse tempo é roubado ao trabalho de que precisa para viver ? A. desde que os fenómenos não se produzem à vontade. entretanto. Aquele. V. procuraria ganhar a vida de outro modo. Quando se está bem compenetrado desta verdade — que a afeição e a simpatia são os mais poderosos móveis de atração para os Espíritos —. em sessão paga. em um novo. . — Primeiro: será mesmo no interesse da causa que ele o faz. que se não pode comprá-la. não se pode deixar de compreender que não lhes agradam as solicitações de alguém que tenha a ideia de servir-se deles para ganhar dinheiro. ou no seu próprio? Se ele deixou seu modo de vida. K. essa dádiva. deve provar aos Espíritos sua boa-vontade por uma observação séria e paciente.O QUE fi O ESPIRITISMO 99 dência de vontade estranha à do médium. e de lhe poder ela. Porém. deixá-lo em falta. seria antes um motivo para que ele fosse mal sucedido. salvo se ele a suprir pela astúcia. Dai cem mil francos a um médium e não conseguireis que ele obtenha que os Espíritos façam o que não querem. — Compreendo esse raciocínio do ponto de vista moral. se ele não a tivesse. que precisa de fatos que o convençam. é porque não lhe satisfazia. A mediunidade não é o único recurso. admitindo mesmo inteira boa-fé. que viria desnaturar a intenção e transformá-la em violento desejo de lucro. se produzisse exatamente aquele que desejávamos ver para nos convencermos. não é justo que aquele que emprega seu tempo. e por esperar ganhar mais. se deseja ser auxiliado. ou ter menos fadigas. no momento preciso. Não há sacrifício algum no empregar o tempo em uma coisa de que se espera tirar lucro. pois. seria puro acaso se.

apesar de serdes incrédulo. um princípio: todos quantos vêem no Espiritismo coisa diferente de uma exibição de fenómenos curiosos. estimulado pela fé somente e não pelo desejo do ganho. Convinde. ou. empregando parte do tempo destinado aos divertimentos e repouso. procuram recursos no trabalho ordinário e não abandonam suas profissões. qualquer que seja a forma ou disfarce com que se apresente. que um médium nessas condições faria sobre vós uma impressão totalmente diversa da que sentiríeis. se soubésseis que atrás de tudo aquilo havia uma questão de dinheiro. quando não possuem uma existência independente. ainda que estes ofereçam todas as garantias desejáveis. ora. o que é muito raro. nesse trabalho mais útil. tornam-se apreciados e respeitados. eles não consagram à mediunidade senão o tempo que lhe podem dar. reprovam toda espécie de especulação. Os médiuns sérios e sinceros — e eu dou este nome aos que compreendem a santidade do mandato que Deus lhes confiou — evitam até as aparências do que poderia fazer pairar sobre eles a menor suspeita de cobiça. . para o que me felicito de muito haver concorrido. os médiuns mercenários pululariam e os jornais viriam sempre cheios de seus reclamos. A multiplicidade dos médiuns nas famílias torna. pois. consideração e os verdadeiros interesses da doutrina. inúteis os médiuns de profissão. sem prejuízo de outras ocupações. se lhe tivésseis pago para vê-lo trabalhar. quando mesmo fosseis admitido por favor. fariam o imaior dano ao Espiritismo. Se não fosse o descrédito que acompanha esse género de exploração. É.100 ALLAN KARDEC Os médiuns verdadeiramente sérios e devotados. para um que fosse leal. que compreendem e tomam a peito a dignidade. concordai que vendo-o antes animado de um verdadeiro sentimento religioso. eles se mostram devotados. abusando de uma faculdade real ou simulada. eles consideram uma injúria a acusação de tirarem qualquer lucro da sua faculdade. apresentar-se-iam cem charlatães que. senhor. ao demais.

eles são desconhecidos na maioria dos centros espíritas da província. y. senhor. seja a . Para suprir. convencido de que não lhe . na falta de Espíritos. etc. encontrareis mil como este. e disso se aproveitam os mal-intencionados. da clara de ovo. Pois bem! caro senhor. confundem o abuso com a realidade. esperando por esse meio. onde a reputação de mercenários bastaria para que os excluíssem de todos os grupos sérios. seja a insuficiência da clientela. e é esta uma das causas que mais têm concorrido para o crédito e propagação da doutrina. concordo. e onde para eles o ofício não seria lucrativo. o mal não seria grande. que se encon-. o Espiritismo sério tem razão de não aceitá-la. há falsos médiuns que tudo aproveitam. — Tudo isso é muito lógico. inspirar-vos-á mais confiança. servindo-se das cartas. contra um que não esteja nas mesmas condições. É perfeitamente compreensível que os médiuns de profissão sejam excessivamente raros. mas os médiuns desinteressados não se acham ao dispor de qualquer e sentimo-nos constrangidos de incomodá-los. f acuidade que lhes falta. de repelir o seu auxílio. porém. pois. ao passo que. Se eles unicamente a si prejudicassem. atrair os que ainda crêem nessas tolices. não contaria a quarta parte dos adeptos que possui hoje.. que se a exploração da mediunidade conduz a cometer abusos prejudiciais à doutrina. se ela só tivesse intérpretes interessados. sem nada aprofundarem. por causa do descrédito de que se tornariam objeto e da concorrência de médiuns desinteressados. porque não há motivo algum para suspeitardes da sua lealdade. Já vedes. para dizer que é nisso que consiste o Espiritismo.O QUE É O ESPIRITISMO 101 involuntariamente o respeito por ele se vos impunha. tram por toda parte. quando buscamos aquele que recebe uma paga. escrúpulos que não nos embaraçam. seja embora ele o mais humilde proletário. da borra de café. a fim de contentar a todos os gostos. pelo menos em França. há pessoas que.

porém. acharia muito mais facilidade se existissem médwms públicos. não é por assistir a uma sessão que se ficará convencido. hoje. para estar constantemente à disposição do público. como lhes chamais. se tiver perseverança e boa-vontade. coisa de que ninguém a princípio suspeitava: a necessidade de afinidades fluídicas entre o Espírito evocado e o médium. Prova a experiência que. porém. não oferecem as garantias precisas. . e suponho que exista a mais completa lealdade. Ao lado. e satisfazer a todas as evocações que lhe sejam pedidas. seja entre os desinteressados. Aquele que. para ouvir a buena-diaha. isto é. por se trazer dessas sessões uma impressão desfavorável. Para que um médium de profissão possa oferecer toda segurança às pessoas que o venham consultar. deseja convencer-se encontra os meios. os progressos da ciência espírita. é necessário que ele possua uma faculdade permanente universal. e talvez sem vontade alguma de prosseguir num estudo em que nada se viu de sério. sai-se menos disposto à convicção. Muita gente que se deseja convencer. mostram-nos. — Se os médiuns públicos. fazendo-nos melhor conhecer as condições em que se produzem as manifestações. e isto por causas independentes da vontade do Espírito. A. não destrói os de muito mais gravidade. Buscá-los-iam antes como divertimento. como um médico.102 ALLAN KARDEC vamos roubar o tempo. ora. isto é o que não se encontra em médium algum. K. quando não se está preparado para tal. seja entre os outros. mais tarde ou mais cedo. do que como meio de instrução. Ponho de lado todo pensamento de fraude e embuste. que ele se possa comunicar facilmente com qualquer Espírito e a todo momento. a dificuldade material que se apresenta à sua produção. que vos citei. como poderiam ser úteis para • levar alguém à convicção ? O inconveniente que assinalais. das considerações morais. seriamente.

sem essas afinidades. falsas ou impossíveis. Se. cavalheiro. podendo existir do médium para tal Espírito. com o mundo invisível. ora. porque não estou fazendo um curso de Espiritismo. não é nem por capricho. A mediunidade. se opõem à regularidade e precisão necessárias naquele que se põe à disposição do público. cujas variantes são múltiplas. e não para tal outro. mas porque os próprios princípios que regem as nossas relações. digo somente que a ambição do ganho impele ao charlatanismo e autoriza a suspeita de velhacaria. — Desde que a mediunidade não é mais que um meio de entrar em relação com as potências ocultas.O QUE É O ESPIRITISMO 103 o que não posso desenvolver aqui. repelimos a exploração da mediunidade. primeiro que tudo. como vedes. e a quem o desejo de satisfazer à clientela. princípio do qual dimanam as faculdades mediúnicas. médiuns e feiticeiros são mais ou menos a mesma coisa. não se pode negar que isto é um obstáculo para a mediunidade de profissão. as comunicações são incompletas. a assimilação fluídica entre o Espírito e o médium só se estabelece depois de algum tempo. procurar elementos de sinceridade. pois. ou somente uma vez em dez acontece que ela seja completa desde a primeira vez. arrasta ao abuso. são individuais e não gerais. Não concluo. nem por sistema. Limito-me a dizer-vos que as afinidades fluídicas. que. é subordinada a leis. às quais todo médium está sujeito. que. as mais das vezes. . que todos os médiuns interesseiros sejam charlatães. que lhe paga. de alguma sorte orgânicas. Quem deseja convencer-se deve. pois que a possibilidade e a exatidão das comunicações são um produto de causas que não dependem do médium nem do Espírito. do que tenho dito. Médiuns e feiticeiros V.

para conhecermos a diferença. fazer comparecer o Espírito de tal ou tal personagem. nisto eles estão perfeitamente com a verdade. senão charlatanice ? A. constrangê-los a responder ao seu chamado. muitas vezes. foram qualificados de feiticeiros e acusados de pactuarem com o diabo. goria que se podem divertem. despojando-a do seu pretenso poder sobrenatural. A semelhança que certas pessoas pretendem estabelecer. explorando-a. engrimanços. se antes de apedrejarem o Espiritismo. veriam que ele diz positivamente que os Espíritas não estão sujeitos <aos caprichos de ninguém. provém do erro em que estão. talvez por digo em absoluto. se tivessem dado ao trabalho de estudá-lo. que ninguém pode. mais ou menos ilustre. à vontade. — Não o não são impossíveis.104 ALLAN KARDEC A. Longe de fazer reviver a feitiçaria. eles mesmos abusaram da credulidade pública. do que se conclui que os médiuns não são feiticeiros. e reduzindo a seu justo valor os fenómenos possíveis. repugna à sua razão crer que um -indivíduo qualquer possa. e. A ignorância exagerou seu poder e. Basta-nos comparar o poder atribuído aos feiticeiros com a faculdade dos verdadeiros médiuns. foi o mesmo que se deu com a maioria dos sábios que dispunham de conhecimentos acima do vulgar. o Espiritismo a aniquila. todos os efeitos que certos médiuns acreditados obtêm. amuletos e talismãs. à vontade. de suas fórmulas. Tais fenómenos porque há Espíritos de baixa cateprestar à sua produção e que se já terem sido prestidigitadores na . daí a justa reprovação que os feriu. K. — Neste caso. à vontade e em público. — Em todos os tempos houve médiuns naturais e inconscientes que. julgando que os Espíritos estão às ordens dos médiuns. sem sair das leis naturais. K. ao vosso ver. não são. pelo simples fato de produzirem fenómenos insólitos e incompreendidos. mas a maioria dos críticos não se quer dar a esse trabalho. F.

os Espíritos se despojam das imperfeições inerentes à matéria. confesso-vos que não compreendo essa diferença. também há médiuns especialmente próprios para esse género de manifestações. é um meio de chamar a atenção dos indiferentes e obrigar os recalcitrantes a falarem dele. porém. por darem voga à ideia espírita. por menos elevados que sejam. — Falais de Espíritos bons ou maus. Deve-se notar que esse género de mediunidade. quer o caráter e os antecedentes do médium. antes de vermos nisso a ação dos Espíritos. Qualquer que seja o grau de veracidade desses fenómenos. salvo pequenas variantes. o vulgar bom-senso repele a ideia de virem os Espíritos. como efeitos mediúnicos. devemos observar minuciosamente e ter em conta. porém. . e que eles ficam. e sobretudo em público. Não é certamente aí que se deve ir beber instruções sérias sobre o Espiritismo. parece-me que. libertos dos prejuízos terrenos. deixando o envoltório corporal. A controvérsia que se estabelece a respeito provoca em muitas pessoas um estudo mais aprofundado. neste caso a mediunidade e a prestidigitação se tocam tão de perto que é difícil muitas vezes distingui-las. limita-se a produzir sempre o mesmo fenómeno. é sempre suspeita. A obtenção desses fenómenos à vontade. quando mediunidade nisso exista. o que não é muito próprio para dissipar dúvidas. sobre todas as verdades que nos são ocultas. eles produzirão bom resultado. representar palhaçadas e fazer escamoteações para divertimento dos curiosos.O QUE É O ESPIRITISMO 105 vida terrena. nem sobre a filosofia da doutrina. Diversidade dos Espíritos V. sérios ou frívolos. que a luz se deve fazer para eles. quer um grande número de circunstâncias que só o estudo da teoria dos fenómenos espíritas nos pode fazer apreciar. O desinteresse absoluto é a melhor garantia de sinceridade.

porque não são mais do que as almas dos homens. — Sem dúvida eles ficam livres das imperfeições físicas. deixando o corpo material. É possível admitirdes que. não haja distinção alguma entre o vosso Espírito e o de um selvagem? Assim sendo. um princípio elementar do Espiritismo que existem Espíritos de todos os graus de inteligência e moralidade. as imperfeições morais são do Espírito e não do corpo. Notai bem que o que digo é fruto da experiência. pelo contrário. os mesmos preconceitos e erros. outros. mas exprimem diversos graus de adiantamento. colhido no que eles nos dizem em suas comunicações. K. até que o tempo e novas provas os venham esclarecer. depois da morte. — Ê o mesmo que perguntar por que todos os alunos de um colégio não estão cursando a aula de Filosofia. recebem logo a luz da verdade. Os Espíritos não são perfeitos. será tanto quanto vós? O progresso dos Espíritos faz-se gradualmente e. Entre eles alguns há que. quando morrerdes. com muita lentidão. •— Por que não são perfeitos todos os Espíritos? Tê-los-á Deus assim criado em tão diversas categorias? A. pela morte . isto é. pois. K. das dores e enfermidades corporais. por seu grau de aperfeiçoamento. conservam ainda as mesmas paixões. não constituem espécies distintas. algumas vezes. quando um vadio. de que vos serviria ter trabalhado para a vossa instrução e melhoramento. vêem as coisas sob um ponto de vista mais justo do que quando estavam encarnados. os homens não são perfeitos por serem encarnações de Espíritos mais ou menos adiantados.106 ALLAN KARDEC A. porém. e. Seria erro acreditar que os Espíritos. O mundo corporal e o mundo espiritual estão em contínuo revezamento. Todos os Espíritos têm a mesma origem e o mesmo destino. V. Entre eles há alguns que são mais ou menos adiantados. É. as diferenças que os separam. moral e intelectualmente. que não atingiram também a perfeição. pela mesma razão.

muitas vezes. esta exige longos estudos e minuciosas observações. Em cada nova existência. apenas a sua opinião pessoal. — Quando eles apenas servissem para dar-nos a prova de sua existência e de serem as almas dos homens. o mundo corporal fornece seu contingente ao espiritual. só isto seria de grande importância para quantos ainda duvidam que tenham uma alma e ignoram o que será deles depois da morte. Como todas as ciências filosóficas. Os Espíritos que formam a população invisível da Terra são. Acima dessa turba de baixa esfera. nem o que ganhamos em conversar com eles. como distinguir-se o erro da verdade? Não descubro a utilidade dos Espíritos. filósofos. ignorantes e charlatães. todas as opiniões políticas e religiosas têm entre eles representantes. cumpre-nos sabê-los apreciar e compreender. este alimenta a humanidade. e cuja missão é guiar os homens pelo bom caminho. que só têm em vista o bem. K. tudo o que dizem os Espíritos. prudentes e levianos. sistemáticos. quando adquiriu na Terra a soma de conhecimentos e a elevação moral que o nosso globo comporta. raciocinadores. e. e que se adquire os meios de afastar os Espíritos enganadores. o Espírito dá maior ou menor passo no caminho do progresso. eis o motivo por que se não deve crer cegamente em. ele o deixa. o reflexo do mundo corporal. V. A. pelos nascimentos. cada um fala segundo suas ideias. apresenta-se imensa dificuldade: nesses conflitos de opiniões diversas. — Sendo assim. existem os Espíritos superiores. para ir viver em mundo mais elevado onde vai aprender novas coisas. de alguma sorte. como se não se despissem de seus prejuízos.O QUE Ê O ESPIRITISMO 107 do corpo. Estes nos vêm ensinar grandes coisas: mas não julgueis que o estudo dos outros seja . há entre eles sábios. e o que eles dizem é. neles se encontram os mesmos vícios e as mesmas virtudes. é só assim que se aprende a distinguir a verdade da impostura.

muito cómodo se nos bastasse pedir para sermos logo servidos. seria. o Espiritismo tem por objeto estudá-los. os Espíritos não vêm libertar-nos dessa necessidade: eles são o que são. Quanto aos erros que se podem originar da divergência de opiniões entre os Espíritos. que a todos nós interessa no mais alto ponto. K. — Essa reflexão é ainda uma consequência da ignorância do verdadeiro cará ter do Espiritismo. que o nosso pensamento se exercite. mas. e só por esse preço adquiriremos a ciência. Compreendo que. então o bom-senso repelirá as falsas doutrinas. sobre as teorias que dividem os sábios. pensáveis que bastava aos Espíritos deixarem seu envoltório corpóreo para que ficassem isentos de todas as suas imperfeições. os sinceros dos hipócritas. ficando assim dispensados do trabalho de estudar. que peso pode ter para nós a opinião daqueles que sabem. realmente. então. — A minha observação subsiste sempre no ponto de vista das questões científicas e outras que podemos submeter aos Espíritos. Aquele que supõe nele achar meio fácil de saber tudo. não podem saber tudo. de tudo descobrir. os sábios dos ignorantes.108 ALLAN KARDEC inútil. para bem conhecer um povo é necessário estudá-lo sob todas as faces. labora em grande erro. absolutamente como se dá entre nós. V. eles desaparecem por si mesmos. quando não podemos distinguir quem erra ou quem tem razão? Vale tanto dirigirmo-nos aos homens como aos Espíritos. pois que todos temos que ir para lá. à medida que se aprende a distinguir os bons dos maus. . deixa-nos na incerteza. Deus quer que trabalhemos. A divergência de suas opiniões. Vós mesmos tendes a prova disso. Os Espíritos não estão encarregados de trazer-nos a ciência já feita. não possuindo todos o mesmo grau de instrução. são as comunicações com eles que nos ensinaram que isto não se dá. e fizeram-nos conhecer o verdadeiro estado do mundo espiritual. ora. A.

a ignorância mesmo. e não para nos fazer conhecer o que nos deve ser oculto. nunca lhes perguntemos o que eles não podem ou não devem revelar. e não wma arte de aãivimJMr e especular.O QUE É O ESPIRITISMO 109 a fim de que. fiquemos sabendo o que seremos um dia. nos instruímos. que nos iniciam na natureza íntima desse mundo. . em uma palavra. sempre dispostos a falar de tudo. os defeitos. estudando-os. a incapacidade. Utilidade prática das manifestações F. por analogia. ou revelar-nos as coisas antes do tempo próprio. qual a sua utilidade prática? Não se tendo sentido a sua falta até ao presente. e aquele que se vangloria de obter deles certos segredos. não há Espírito algum cujo estudo não nos traga alguma utilidade. alguma coisa aprendemos sempre com todos eles. as suas imperfeições. prepara para si estranhas decepções da parte dos Espíritos galhofeiros. sua ação oculta sobre o mundo visível. Deste ponto de vista. e viver sem ele. parece-me que se podia continuar a dispensá-lo. muito. e não para dele tirar qualquer vantagem material. A experiência nos ensina a julgar do grau de confiança que lhes devemos conceder. — Admitamos que a coisa esteja comprovada. o Espiritismo é uma ciência de observação. querer ir além é sujeitarmo-nos às manifestações dos Espíritos frívolos. contentemo-nos com o que nos dizem. as relações que nos prendem a elas. o Espiritismo reconhecido como realidade. e quando eles não nos instruam. Quanto aos Espíritos esclarecidos. Nós o estudamos com o fim de conhecer o estado das individualidades do mundo invisível. Tampouco os Espíritos são leitores da buena-dicha. porém sempre nos limites do possível. são outros tantos objetos de observação. nós. muito tranquilamente. esses nos ensinam. como fazemos quando observamos os costumes de um povo desconhecido para nós.

alarga o círculo das ideias. descobrir minas de carvão ou tesouros ocultos. Ora. como a Astronomia nos ensina as que ligam os astros à Terra. ajuda o desenvolvimento da inteligência. é dai* meios de passar boa vida. abstraindo-se mesmo de toda a sua doutrina moral? De nada valerá um mundo inteiro novo que se nos revela. antes da descoberta dos novos planetas. pois. não precisa saber o que seja um planeta. o mundo dos Espíritos existe em virtude de uma dessas leis naturais. libertar-se do trabalho de estudar. O camponês. Supondo que a isso se limitasse a sua utilidade. — Podíamos dizer o mesmo das vias férreas e do vapor. para viver e fazer brotar seu trigo. antes que se soubesse ser a Terra e não o Sol que se move. o Espiritismo não na tem. fazer fortuna. até então insolúveis. comercialmente falando! Os homens passavam igualmente bem. fazendo-nos melhor compreender as leis da Natureza. ele nos mostra a influência que o mundo invisível exerce sobre o visível e as relações existentes entre eles. se entregam os sábios a esses estudos? Há alguém que ouse dizer que eles perdem o tempo? Tudo que serve para erguer uma ponta do véu que nos envolve. Para que. e o Espiritismo nos faz conhecê-lo. já não seria de grande importância a revelação de uma tal potência. K. Se utilidade prática. para vós. quando o conhecimento dele nos conduz à solução de tão grande número de problemas.110 ALLAN KARDEC A. quando ele nos inicia nos mistérios do além- . antes que se conhecesse o mundo microscópico e outras tantas coisas. nem mesmo fornecer inventos já prontos e no estado de serem explorados. Sob tal ponto de vista. ele não pode produzir altas e baixas na Bolsa. sem os quais também se vivia muito bem. arrecadar heranças. ele no-lo faz ver como sendo uma das forças que regem o Universo e contribuem para a manutenção da harmonia geral. conhecer o futuro. quantas ciências deixariam de ser úteis! Quantas delas não oferecem vantagem alguma. nem transformar-se em ações de Bancos.

porém. estranhável que os inimigos do Espiritismo procurem agarrar-se a todos os pretextos. e nunca o que está fora dos limites do seu fim providencial. — Deveis conhecer o provérbio: "Quem quer matar o cão — diz que o cão está danado. Ele é. como este lhes pareceu próprio para despertar temores e suscetibilidades. a religião mesmo. para a magia. Todas as grandes preocupações do espírito podem ocasionar a loucura. pois. a destruição do materialismo. a respeito dessa loucura. da sua individualidade depois da morte. suicídio e obsessão V. uma outra utilidade. o Espiritismo veio destronar os adivinhos. — Certas pessoas consideram as ideias espíritas como capazes de perturbar as faculdades mentais. A loucura provém ." Não é. Loucura. Será razoável dizer-se que a Astronomia para nada serve.O QUE É O ESPIRITISMO 111 -túmulo. Ouvi. Antes dos progressos sérios da Astronomia. fornecem o seu contingente. da sua sorte futura. não pelo raciocínio. temos de transpor esse marco fatal? O Espiritismo possui. mas por fatos. tarde ou cedo. Ele é a prova patente da existência da alma. conquanto não resista ao mais ligeiro exame. pelo que acham prudente deter-lhes a propagação. A. o raciocínio de um louco. portanto. acreditava-se na Astrologia. K. a Química para a Alquimia. porque já não se pode encontrar na influência dos astros o prognóstico do destino? Assim como a Astronomia destronou os astrólogos. o que é a Astronomia para a Astrologia. pois. as ciências. é. que nos devem interessar de algum modo. os feiticeiros e os que liam a bu&na-dicha. as artes. visto que todos nós. Não convém pedir-lhe senão o que ele pode dar. da sua imortalidade. mais positiva: é a natural influência moral que exerce. empregam-no logo.

Ê certo que um jornal disse que se contavam.000 casos de loucura espírita. se o Espiritismo fosse a sua preocupação dominante. que então se torna ideia fixa. como poderá ser a de Deus. desde que tal moléstia vai invadindo as classes mais elevadas da sociedade. Para eles. Esse gracejo de mau gosto começa a não ter valor. por consequência. . esta poderá ser a dos Espíritos. cuja causa primária é uma predisposição orgânica. pois. Falam muito do caso de Vítor Hennequin. só em uma localidade da América. 4. já ele havia dado provas de excentricidade nas suas ideias. do poder. instrumento do pensamento.000 espíritas da localidade em questão eram considerados como loucos. antes de se ocupar com os Espíritos. toma esta o caráter de preocupação principal. um efeito consecutivo.divíduo que deles se tenha ocupado. é uma esquisitice como outra qualquer. Dessa espécie. dos anjos. da fortuna. e todos os países do mundo um número ainda muito maior. lhe fizeram girar a cabeça). de cujo nome não me recordo. de um sistema político ou social. da maternidade. mas se esquecem que. Existindo uma predisposição para a loucura. que torna o cérebro mais ou menos acessível a certas impressões. se as mesas girantes não tivessem então aparecido (as quais. mas é também sabido que os nossos adversários têm a ideia fixa de se crerem os únicos dotados de razão. ao passo que outras enlouquecem sob o influxo da menor excitação. A loucura é. É provável que o louco religioso se tivesse tornado um louco espírita. o pensamento fica alterado. de uma ciência. e isto é tão real que encontrareis pessoas que pensam excessivamente e não ficam loucas. num ir.112 ALLAN KARDEC de um certo estado patológico do cérebro. os Estados Unidos contam centenas de milhares. os 4. do diabo. sua loucura teria seguido outro rumo. estando o instrumento desorganizado. segundo um trocadilho bem espirituoso dos nossos adversários. nós somos todos dignos de um hospital de doidos. e.

Entre as causas mais numerosas de excitação cerebral. Ele sabe. principalmente do diabo. os desastres. devemos contar as decepções. e este quadro é bem de molde a fazê-lo refletir. por detalhes horrorosos. tornando-se elas piores que antes.O QUE É O ESPIRITISMO 113 Eu digo. de uma causa incessante de loucura e de suicídio. esta não provém de lesão alguma cerebral. O diabo. quando lhes perdem o medo. pois. Aquilo que em outro qualquer produziria violenta comoção. que as tribulações não são para eles senão os incidentes desagradáveis de uma viagem. não contam as epilepsias que têm sua origem nesse abalo de cérebros tão delicados. que já tem desarranjado mais de um cérebro. pois. o verdadeiro espírita vê as coisas deste mundo de um ponto de vista tão elevado. mas. que as contêm por algum tempo. além disso. porque sua recompensa será proporcional à coragem com que as houver suportado. Ele sabe que os dissabores da vida são provas que servirão para o seu adiantamento. dizem. capricham em tornar mais assustador. em troca desse pequeno resultado. uma resignação que o preserva do desespero e. mas vou ainda além: afirmo que. só causa medo às crianças. pelo espetáculo que lhe dão as comunicações com os Espíritos. a sorte deplorável dos que abreviam voluntariamente os seus dias. Em o número das causas de loucura. as afeições contrariadas. Suas convicções dão-lhe. Ê um dos grandes resultados do Espiritismo. devemos também colocar o medo. bem compreendido. se as sofrer sem murmurar. ele é um preservativo contra a loucura e o suicídio. Ora. também é considerável o número dos que por esse meio têm sido detidos nesse funesto declive. afeta-o mediocremente. ferindo as imaginações fracas com esse painel que. sim. mas da . por consequência. é um freio para corrigi-las. Sabe-se o número de vítimas que se tem feito. as quais são também as mais frequentes causas do suicídio. Não confundamos a loucura patológica com a obsessão. como o papão e o lobisomem. nesse sentido. que o Espiritismo não tem privilégio algum.

cada existência é para ele qual se fora a primeira. do que podemos concluir que os nossos pensamentos morrem com cada uma das nossas existências. está sempre a recomeçar. Suponhamos que cada dia. para renascer em outra. O Espiritismo é o remédio e não a causa do mal. sem consciência do que fomos. ao passo que recordando as nossas faltas. o Espiritismo nos oferece.114 ALLAN KARDEC subjugação que Espíritos malévolos exercem sobre certos indivíduos. eu não compreendo como este poderia aproveitar as lições da quarta classe. é independente de qualquer crença no Espiritismo e existiu em todos os tempos. esforçar-nos-emos por evitá-las. e que. inaptidões e punições que disso nos provieram. todas as obje- . não estaríamos mais adiantados do que aos dez. Fazendo conhecer esta nova causa de perturbação orgânica. K. Para me servir da comparação que fizestes do homem. quando não se lembra delas. a medicação comum é impotente e mesmo prejudicial. ao despertar. o único meio de vencê-la. muito frequente. na Terra. ao mesmo tempo. deste modo. mas sobre o Espírito obsessor. Essas soluções de continuidade na vida do Espírito interrompem todas as relações e fazem dele. A. quando chegássemos aos setenta anos. Esquecimento do passado V. levar-me-eis a fazer um curso completo de Espiritismo. desde que lhe faJta essa reminiscência. é uma espécie de aniquilamento. Neste caso. Esta afecção. têm as aparências da loucura propriamente dita. não se lembrando do que aprendeu na anterior. muitas vezes. — De pergunta em pergunta. — Não consigo explicar a mim mesmo como pode o homem aproveitar da experiência adquirida em suas anteriores existências. pois que. agindo não sobre o enfermo. perdemos a memória de tudo quanto fizemos no dia anterior. com o aluno de um colégio. uma entidade nova. de alguma sorte.

mas que. o que parecia uma anomalia. direi que pouco importa saber onde. Servindo-me ainda da comparação supra com o aluno. o homem traz por intuição e como ideias inatas. deve sempre ir provocando novas questões. com que professores ele estudou as matérias de uma classe. Digo em moralidade porque.O QUE É O ESPIRITISMO coes que apresentais são naturais em quem ainda nada conhece. mediante estudo sério. longe de ter de recomeçar tudo. quando se toma o conjunto. relativa ao aniquilamento do pensamento. se tornará melhor quando voltar. Se os castigos o tornaram laborioso e dócil. quando passa para a classe seguinte. apenas esquece o modo por que as conquistou. o que adquiriu em ciência e moralidade. amadurecido na escola do sofrimento e do trabalho. por certo. terá mais firmeza. então poderá julgar do caminho que se- . com isso nada perde ele das suas aquisições. então. como. o Espírito recobra a lembrança do seu passado. vê-se que seus princípios emanam uns dos outros. não farei aqui senão tocar levemente o assunto. A segunda parte da vossa objeção. ele possui um fundo que vai sempre crescendo e sobre o qual se apoia para fazer maiores conquistas. não tem base mais segura. se no curso de uma existência ele se melhorou. Tudo se encadeia no Espiritismo. seu Espírito. pode encontrar-lhes respostas muito mais explícitas do que as que posso dar em sumária explicação que. Se em cada uma de suas existências um véu esconde o passado do Espírito. e. que se prende a outras questões de não menor importância e. que lhe importa saber quando foi castigado por preguiçoso e insubordinado? Ê assim que. por isso. e. servindo-se mutuamente de apoio. uma vez que as saiba. contrária à justiça e à sabedoria de Deus. se torna natural e vem confirmar essa justiça e essa sabedoria. se soube tirar proveito das lições da experiência. reencarnando. porque esse olvido só se dá durante a vida corporal. uma vez terminada ela. Tal é o problema do esquecimento do passado.

lançar um véu sobre os seus primeiros anos! Quantos. Quantos homens desejariam assim poder. Espírito arrependido. em vossas relações. que talvez vos arruinou. durante a vida. meu amigo. as boas resoluções que tiver tomado. é para vós um novo ponto de partida. Esse esquecimento temporário é um benefício da Providência. não faria mais o que fiz!" Pois bem. que seria se a ele se juntasse a lembrança do passado? Vós. de modo que não há essa solução de continuidade em sua vida espiritual. ao chegar ao termo de sua carreira. o que eles não podem fazer nesta mesma vida. muitas vezes. em vossa família mesmo se encontre um indivíduo que vos deu outrora muitos motivos de queixa. Suponhamos ainda — o que é um caso muito comum — que. sois um homem novo. fá-lo-ão em outra. por exemplo. Se os sofrimentos da vida parecem longos. viveis com mais liberdade. por provas rudes e terríveis expiações. mas talvez devais isso aos rudes castigos que recebestes pelos malefícios que hoje vos repugnariam à consciência. ser-vos-ia agradável a lembrança de ter sido outrora enforcado por vossa maldade? Não vos perseguiria a vergonha de saber que o mundo não ignorava o mal que tínheis feito? Que vos importa o que fizestes e o que sofrestes para expiar. seu Espírito trará. cuja recordação seria muito penosa e viria aumentar as angústias e tribulações da vida presente. ligar-se a vós pelos laços de família. vossas dívidas anteriores estão pagas. quando hoje sois um homem estimável? Aos olhos do mundo. a fim de reparar suas faltas para convosco. em uma nova existência. veio encarnar-se em vosso meio. a experiência só se adquire. e aos olhos de Deus um Espírito reabilitado. em estado de intuição. e que. que é a vida normal do Espírito. ou desonrou em outra existência. Livre da reminiscência de um passado importuno.116 ALLAN KARDEC guiu e do que lhe resta ainda fazer. não têm dito: "Se eu tivesse de recomeçar. É assim que se efetua gradualmente o progresso da humanidade. cumprindo-vos ter cuidado de não contrair outras. por . sois hoje um homem de bem.

— Acho-o muito natural. eis por que seus habitantes se recordam da sua existência precedente. todavia. não vos acharíeis mutuamente na mais embaraçosa posição. nos quais. compreendê-los. Quereis uma prova? Supondo que um indivíduo condenado às galés tome a firme resolução de tornar-se um homem de bem. sobretudo. a lembrança do passado nada tem de penosa. A. e não deveis achar extraordinário o desejo que vos manifestam de testemunhá-los. Disso resulta que a reminiscência do passado perturbaria as relações sociais e seria um tropeço ao progresso. que do ponto de vista filosófico. que não pode ser resolvida senão por fatos. em vez de ser obrigado a curvá-la sob o peso da vergonha do que não pode olvidar. quem não . — Convenho. porém. ilustre amigo. mas fica sempre de pé a questão das manifestações. para melhor observá-los e. Quanto à lembrança do que fizeram em mundos inferiores. explico em que condições convém que cada um se coloque. como nós nos recordamos hoje do que ontem fizemos. poderia ser honesto e andar de cabeça erguida. ora. a Doutrina Espírita é perfeitamente racional. todos desconhecessem os seus antecedentes. se ambos vos lembrásseis de vossas passadas inimizades? Em vez de se extinguirem. e. Elementos de convicção V. K. que acontece quando ele termina o cumprimento da pena? A sociedade o repele. ele seria bem acolhido. ora. e essa repulsa o lança de novo nos braços do vício. a respeito dos mundos superiores ao nosso planeta.O QUE É O ESPIRITISMO 117 seu devotamento e afeição. é a realidade destes que muita gente contesta. se ele mesmo os esquecesse. só reinando o bem. Se. ela produz neles a impressão de um mau sonho. Isto está em perfeita concordância com a doutrina dos Espíritos. como eu procuro que eles sejam aproveitados. os ódios se eternizariam.

É. não produz impressão alguma em outros. estou persuadido de que vos levarão a refletir. porém. Certamente as explicações que vos acabo de dar. até mais ampla averiguação. e. porém. quanto mais extraordinário ele é. longe estão de ser completas. não se pode colher frutos. ou. sem que nós mesmos os façamos. o que convence a uns. Quando se vê um fato que não se compreende. é preciso um pouco de tudo. podeis aceitá-la como aceitaríeis outra qualquer. mas. Nem todos. não a admitindo senão a título de hipótese. todos os dias aceitamos o resultado dos cálculos astronómicos. assim sendo. onde não há árvores. testemunharam os fatos. porque. a outra não pode ser falsa. um engano crer-se que as experiências físicas sejam o único meio de convencer. se um é verdadeiro. e com tal pessoa é inútil perdermos tempo. ao passo que uma simples resposta escrita venceu todas as dúvidas. porque não se colocaram nas condições precisas para observá-los. é feito por outros. ao menos. nesta conversa. se ele. que seria singular que tão racional filosofia tivesse saído de fatos ilusórios e controvertidos. é certo. não tiveram a paciência e a perseverança exigidas. se achais a filosofia boa. Convireis. Os elementos de convicção não são os mesmos para todos. é logo admitido por ter uma razão de ser. também. Mas isso também se dá com todas as ciências: o que uns não fazem. se as circunstâncias vos fizerem testemunhar . conservando vossa opinião sobre as vias e meios que a ela conduziram. Notei que em algumas pessoas os mais importantes fenómenos não produziram a menor impressão. mostra não ter sério desejo de esclarecer-se. Em boa lógica. mais suspeitas desperta e mais o pensamento se esforça para lhe dar uma causa vulgar. a realidade do efeito implica a da causa que o produz. for compreendido. sumárias como são.118 ALLAN KARDEC aceita essas condições. desaparecendo o maravilhoso e o sobrenatural. Seja como for.

iyiU 1» 1 alguns fatos de manifestação. que nela encontram tudo quanto pode satisfazer às suas aspirações interiores. supondo não existissem as manifestações. a doutrina não deixaria de ser sempre a que melhor resolve uma multidão de problemas reputados insolúveis. dar-lhes corpo. conquanto em estado de confusão. e foi para eles como um raio de luz. dais-me subida honra atribuindo-me esse sistema quando ele não me pertence. porque possuireis uma base onde firmar o vosso raciocínio. tão racional. K. observei. fato encarado como simples objeto de curiosidade. eles a vêem tão grande. Eu vi.U yUJU B U JlJS. . do que concluem que. vê-los-eis com menor prevenção. se nunca tivéssemos passado das mesas giratórias e falantes? V. à parte o fato das manifestações. eu sou todos os dias visitado por pessoas que ainda nada viram e crêem tão firmemente como eu. caro senhor. Ele foi totalmente deduzido do ensino dos Espíritos. — Nisso vos contesto. O Espiritismo veio coordená-las. Quantos me disseram que essas ideias estavam em germe no seu cérebro. pelo só estudo que fizeram da parte filosófica. A. coordenei e procuro fazer compreender aos outros aquilo que compreendo. Ora. Acreditais que esse número seria o que é hoje. — O senhor tinha razão de dizer que âas mesas giratórias e falantes saiu uma doutrina filosófica. Agora vejo quanto é vasto o campo aberto pelo vosso sistema. e longe estava eu de suspeitar as consequências que surgiram de um. esta é a parte que me cabe.fJLtUTlS. a ciência. para elas o fenómeno das manifestações é acessório. É o que explica o número de adeptos que a simples leitura de O Livro dos Espíritos produziu. Há duas coisas no Espiritismo: a parte experimental das manifestações e a doutrina filosófica. o fundo é a doutrina.

nem os que. quando as vossas convicções estiverem fortalecidas pelo estudo.120 ALLAN KARDEC Há entre o Espiritismo e outros sistemas filosóficos esta diferença capital. K. necessidade de ser doutor em Espiritismo. Sociedades espíritas V. a uma ou duas sessões. que estes são todos obra de homens. do contrário. com a condição de não fazer reflexão alguma de natureza a melindrar quem quer que seja. — Por ora. eu. não simpatizando com seus princípios e convicções. — Tendes uma sociedade que se preocupa com esses estudos: ser-me-ia possível fazer parte dela? A. de Descartes. ainda não. mas não é uma escola nem um curso de ensino elementar. é o centro ao qual convergem ensinos colhidos em todas as partes do mundo e onde se elaboram e coordenam questões que se relacionam com o progresso da Ciência. com discussões intempestivas ou com o espírito de contradição. lançariam a desordem no seu seio. ao passo que. Ê uma sociedade científica. ao lado dos quais somos simples átomos. como tantas outras. a de ter-se sobre ele ao menos ideias mais firmes do que as vossas. que se ocupa de aprofundar os diferentes pontos da ciência espírita e procura esclarecer-se. como visitante. pois que valor pode ter um nome em assunto de tamanha gravidade? O Espiritismo tem auxiliares de maior preponderância. há. eu não tenho o mérito da invenção de um só princípio. ela não admite os que lhe viriam fazer perder tempo com questões elementares. Mais tarde. e isto. para ser nela recebido. nunca se poderá dizer: a doutrina de Allan Kardec. porque se não há. de Leibnitz. felizmente. Enquanto esperais. naquele que me atribuís. que . podereis assistir. contudo. mais ou menos esclarecidos. Como a Sociedade não deseja ser perturbada nos seus estudos. ela decidirá se vos deve admitir. Diz-se: a filosofia de Platão.

cuja maioria se recomenda pela superioridade do seu saber e posição social. aí não há segredos. Se as manifestações espíritas fossem privilégio de um homem. como vo-lo disse. Como não faz demonstrações com o fim de satisfazer curiosidades. ela afasta com cuidado os curiosos. não poderiam eles interditar-lhe a prática e as sociedades e. Se. ou aquelas cujas disposições hostis são notórias. Interdição do Espiritismo V. — Seria um modo de perder a partida um pouco mais cedo. então está em a Natureza. mesmo como simples visitantes. arredando-se esse homem. tudo se passa às . pois. àqueles que recebe em seu seio. infelizmente para os adversários. K. é uma realidade. Se o Espiritismo é uma quimera. se o perseguem é por que o temem. por esse meio. ficarão desapontados e melhor farão se lá não forem. ele cairá por si mesmo. que supõem ir aí achar uma distração e uma espécie de espetáculo. as pessoas que não conhece. porque a violência é o argumento daqueles que não têm boas razões. e a porta vos seria interdita. não há dúvida que. ao contrário. se afastarem das conveniências. e só uma coisa séria pode causar temor. elas não são mistério para pessoa alguma. pois. não creais.O QUE É O ESPIRITISMO 121 vos vou apresentar. e ninguém com um traço de pena pode revogar uma lei natural. e que não consentiria. Aí encontrareis uma reunião de homens graves e de boa sociedade. impedir-lhe a propagação? A. no que quer que seja. — Solicito-vos uma última resposta: O Espiritismo tem poderosos inimigos. nada oculto. Eis por que ela recusa admitir. sem que para isso se esforcem tanto. Aqueles. incorreria na censura dos meus colegas. se poria um termo às manifestações. que ela convide o público e chame o primeiro recém-vindo para assistir às suas sessões.

além disso. que um prisioneiro em seu cárcere. que de nenhuma sorte são necessárias. em que não se encontrem médiuns? O Espiritismo. — De boa mente. tenha comunicações com os Espíritos. se resignem a vê-lo ao seu lado. Se desejardes conhecê-las pormenorizadamente. cumpre-me declarar que não tenho a pretensão de vos converter às nossas ideias. por minha vez. que um indivíduo no silêncio do seu gabinete. Primeiro que tudo. nos dois hemisférios. o Espiritismo é hoje um fato consumado. Ele consiste na crença individual e não nas sociedades. senhor. no mundo inteiro. ele é obra dos Espíritos. K. TERCEIRO DIALOGO O PADRE Um abade. porém. os Espíritos ditariam outros. antes de responder a elas. quem impedirá que uma família no seu lar. que um. elas estão à disposição de todo o mundo e se produzem desde o palácio até a mansarda. algumas perguntas? A. não tem sua fonte entre os homens. conseguirá também que o não façam na de seus vizinhos. governo seja forte bastante para impedi-los de trabalhar em suas casas. a quem ele não convém. reverendo. quando não há país algum. que não podem ser queimados nem encarcerados. encontrá-las-eis . ê pois preciso que aqueles. restando-lhes a liberdade de recusá-lo. ele já conquistou o seu lugar na opinião pública e entre as doutrinas filosóficas. Em resumo. ora. — Permitir-me-eis. entretanto. Se chegassem a destruir todos os livros espíritas. creio útil fazer-vos conhecer o terreno em que me devo colocar perante vós. é na intimidade.122 ALLAN KARDEC claras. dirigir-vos. mesmo nas barbas da polícia e sem que esta o saiba? Admitamos. Podem interdizer-lhe o exercício público. é assaz sabido que não é em público que elas mais se dão. desde que todos podem ser médiuns. mas.

nós lhe diríamos: "Acreditai-o se quiserdes. A seus olhos. O Espiritismo tem por fim combater a incredulidade e suas funestas consequências. . Quando eles me interpelaram sobre alguns pontos da Doutrina. ela então se tornará nociva e pode ser combatida. e o número desses não é pequeno. é respeitável. o Espiritismo responde que não se impõe a pessoa alguma e que não vem forçar nenhuma convicção. se não a respeitasse. em instrumento de perseguição. fornecendo provas patentes da existência da alma e da vida futura. mas. de si mesma inocente. que é um dos atributos do homem. fui procurá-los no propósito de lhes abalar a fé por meio de qualquer pressão.O QUE É O ESPIRITISMO 123 nos livros em que estão expostas. porque isso não fará que esses dois astros troquem os seus papéis". uma crença. os que têm fé religiosa e a quem esta fé satisfaz. a linha de conduta que tenho seguido com os ministros dos diversos cultos que a mim se hão dirigido. dele não têm necessidade. senhor abade. ele se dirige. abstendo-me de discutir certos dogmas de que o Espiritismo não se quer ocupar. e o Espiritismo. por serem todos os homens livres em suas apreciações. que é o Sol que gira ao redor da Terra. dei-lhes as explicações necessárias. Se transformardes. estaria em contradição com os seus princípios de liberdade e tolerância. neles podereis estudá-las à vontade e aceitá-las ou rejeitá-las. Tal é. assim como não procuramos violentar-vos a consciência. A liberdade de consciência é consequência da liberdade de pensar. porém. toda crença. àqueles que em nada crêem ou que de tudo duvidam. porém. por exemplo. pois. quando sincera e não permita ao homem fazer mal ao próximo. sem nada buscar além dos seus limites". Àquele que diz: "Eu creio na autoridade da Igreja e não me afasto dos seus ensinos. nunca. Se alguém fosse por sua consciência arrastado a crer. como muito bem sabeis. mesmo que seja errónea. respeitai também a nossa.

— De modo algum podemos contestar esse direito. como vo-lo disse — respeita a liberdade de consciência. lede. em consciência. Padre. a maioria dos discursos proferidos por seus membros e publicados em nome da religião. — Se a Igreja. não temos sido — os espíritas — qualificados de inimigos da sociedade e da ordem pública. e vereis neles a injúria e a calúnia transbordando por toda parte e os princípios da doutrina sempre indigna e perversamente desfigurados. É o conselho que não tenho cessado de dar aos espíritas. a fé sincera. não temos sido anatematizados e rejeitados pela Igreja. Do alto do púlpito. o fazem livremente e pelos achar racionais. deixamo-lo em paz. Sempre lhes tenho dito: Semeai no campo dos incrédulos. mas nós não ficamos querendo mal aos que se afastam da nossa opinião. premunindo os fiéis contra o que ela considera erro? A. sob o pretexto de que é melhor ser incrédulo do que crer-se em Deus e na alma pelos ensinos do Espiritismo ? . porém. Se hoje há luta entre a Igreja e o Espiritismo. K.324 ALLAN KARDEC Àquele que nos procura como irmão. julga dever condenar. porque. ele sabe também que toda crença imposta é superficial e não desperta senão as aparências da fé. nós temos consciência de não havê-la provocado. nunca. porque não concordo com os que se arrogam a missão de converter o clero. Se ela se houvesse encerrado nos limites da discussão. podeis contestar-lhe o direito de discuti-los e combatê-los. Ele expõe seus princípios aos olhos de todos. os sermões que têm sido pregados. nós o acolhemos como tal. onde há colheita a fazer. Os que lhe aceitam os princípios. ao que nos repele. O Espiritismo não se impõe. de modo a cada um poder formar opinião segura. nada haveria de melhor. porém. cujos princípios. que também reclamamos para nós outros. sacerdotes ou leigos. vendo levantar-se uma nova doutrina.

tudo por causa do Espiritismo? Não se têm tirado lugares a empregados. por serem eles espíritas? Não se têm despedido de alguns hospitais. Padre. se ela patrocina a publicação de escritos injuriosos e difamatórios contra uma classe inteira de cidadãos. é porque as aprova. e impedido que os criados entrem a seu serviço? Muitas mulheres não têm sido aconselhadas a separarem-se de seus maridos. porventura.O QUE É O ESPIRITISMO 125 Não lamentam muitos. pelo fato de não quererem abjurar sua crença? Dizei-me. . não se poder atear para os espíritas as fogueiras da Inquisição? Em certas localidades não têm sido assinalados à animadversão de seus concidadãos. a ponto de fazer que sejam nas ruas perseguidos e injuriados? Não se tem imposto a todos os fiéis que os evitem como pestíferos. K. A. e se não se opõe às perseguições exercidas em nome da religião. A tudo opuseram eles sempre a calma e a moderação. será isso uma discussão leal? Os espíritas responderam. entrarão na classe dos pouco esclarecidos os príncipes da Igreja? Vede a pastoral do bispo de Argel e de alguns outros. até cegos. senhor abade. retirado o pão do trabalho a operários e recusado caridade aos necessitados. mas. — Convenho. à injúria com a injúria. A consciência pública já lhes faz a justiça de reconhecer não terem sido eles os agressores. — Todo homem sensato deplora esses excessos. hoje. mas a Igreja não pode ser responsável pelos abusos cometidos por alguns de seus membros pouco esclarecidos. Não foi um bispo quem ordenou o auto-de-fé de Barcelona ? A autoridade superior eclesiástica não tem todo o poder sobre os seus subordinados? Se ela tolera esses sermões indignos da cadeira evan gélica. como muitos maridos de suas mulheres. ao mal com o mal? Não.

em suma. — Há pouco proclamastes a liberdade de pensamento e de consciência. e não toleraríamos mais uma perseguição contra aquele que acredita no nada depois da morte. se é inofensiva para a sociedade. a moral. mas sim uma doutrina que. ficam sem base alguma. sem nenhuma razão de ser. forçou-os a retroceder.126 ALLAN KARDEC Em resumo. origem dá . e declarastes que toda crença sincera é respeitável. quando amanhã. a simples dúvida sobre outra vida. quem o proclamou nova religião. talvez. leva-o a considerar como um disparate o sacrifício do seu bem-estar presente. Para que nos molestarmos. pela natureza e violência dos seus ataques ela ampliou a discussão e conduziu-a para um terreno novo. a Igreja. a fraternidade. se vier a generalizar-se. Foi um passo errado. nos constrangermos e nos sujeitarmos a privações hoje. repelindo sistematicamente os espíritas que a buscavam. Combatendo o materialismo. livre de crer no que quiser ou de não crer em coisa alguma. O Espiritismo era apenas uma simples doutrina filosófica. porque com ela tudo se acaba. Um livre pansadar. O materialismo é uma crença como outra qualquer. A crença de tudo acabar para o homem depois da morte. são os maiores estimulantes do egoísmo. quando se encerra no foro íntimo da consciência de pessoas esclarecidas." A caridade. — Cada um é. certamente. donde a máxima: "Cada um por si durante a vida terrena. não atacamos os indivíduos. é uma chaga social. que toda solidariedade cessa com a extinção da vida corporal. K. assim como na promovida contra um cismático de qualquer religião. apresentando-o como inimigo formidável. em proveito de outrem. por que negar-lhe a liberdade que concedeis a todas as outras? A. enfim. já nada sejamos ? A negação do futuro. foi a Igreja quem lhe deu maiores proporções. mas a paixão não raciocina melhor. foi ela.

como a sua realidade é fato adquirido pela experiência. porque fornece provas. A crença na vida futura. o homem antes quer ter a certeza de viver e poder ser feliz em um mundo melhor. — A religião ensina tudo isso. O Espiritismo prova e faz ver o que a religião ensina em teoria. até agora foi suficiente. donde vêm essas provas? Da manifestação dos Espíritos. mostrando a perpetuidade das relações entre os homens. é um dever propagá-la e combater a crença contrária. e porque. decididamente. por que há tantos incrédulos. quando para isso não se tem outro freio além do da própria força de vontade. . para compensação das misérias deste mundo. É necessário possuir alta dose de virtude para não seguir a corrente do vício e do crime. mesmo no interesse da ordem social. acreditai-me. é o motivo do tão pequeno êxito obtido pelos ataques dirigidos contra o Espiritismo. os quais não lhe produziram o menor abalo. essa crença muda o curso das ideias. sorri a um bem limitado número. religiosamente falando? Ela prega. sem remissão. desse modo. do que a de morrer para sempre. O respeito humano pode conter o homem do mundo. é verdade. Se essa crença fosse um simples espantalho. mas há muita gente que não crê por simples afirmação. É o que faz o Espiritismo.O QUE E O ESPIRITISMO 127 maioria dos males da Humanidade. O pensamento de ser aniquilado. mas não contém aquele que não dá importância à opinião pública. de ver os filhos e os entes que lhe são mais caros perdidos. não duraria senão um tempo curto. ela nos manda crer. mas. e o faz com êxito. Além disso. qual é hoje a necessidade de uma nova doutrina? A. •— Se a religião ensina o bastante. estabelece entre eles uma solidariedade que não se quebra na tumba. Padre. K. em nome da incredulidade.

de se ir encontrar aqueles a quem se amou. dar-se-á. recompensado ou punido pelo bem ou pelo mal que houver feito. Se o Espiritismo negasse a existência de Deus. tanto quanto os católicos. de acordo com a religião. Padre. porém. senhor abade. se. eles dizem que o homem é livre e responsável por seus atos. o Espiritismo é conforme às grandes verdades do Cristianismo. nas questões gerais. — Ora. entretanto. os judeus. contestar que o Espiritismo não está. se ele ensinasse que cada um só deve viver para si. todas as religiões dirão a mesma coisa: os protestantes. K. é provável que os Espíritos só se manifestem com o consentimento de Deus. base das sociedades humanas. não será própria a elevar a nossa alma e a fortalecer-nos na prática do bem? Páãre. colocam acima de todas as virtudes a caridade evangélica e a seguinte regra sublime ensinada pelo Cristo: fazer aos outros como queremos que nos seja feito. do livre-arbítrio do homem. não só seria contrário à religião católica. — Concordo que. os muçulmanos. soberanamente justo e bom. não pensar senão em si. da sua individualidade e imortalidade. em todos os pontos.128 ALLAN KAEDEC Ora. Longe disso: os Espíritos proclamam um Deus único. é uma impiedade repeli-lo. ele seria ainda a negação de todas as leis morais. o mesmo em relação aos dogmas? Não contradiz ele alguns princípios que a Igreja nos ensina ? . comparada às mesquinhas preocupações da vida terrena. A. como a todas as religiões do mundo. não será uma consolação? Essa grandiosidade da vida espiritual. da alma. que é a nossa essência. Deus em sua misericórdia envia aos homens esse socorro para afastá-los da incredulidade. Não são estes os fundamentos da religião? Essa certeza do futuro. pois. — Não podeis. das penas e recompensas futuras.

existiu em todo tempo e produziu sempre os efeitos que hoje observamos e muitos outros que ainda não conhecemos. ou em outros globos. no físico. nesse ponto de vista. antes de tudo. pois. Na ignorância da sua verdadeira causa. de que o mundo invisível é a fonte. eis aí por que a história de todos os povos faz deles menção. até certo ponto. os homens os atribuíam a causas mais ou menos racionais. os homens explicavam esses efeitos de um modo mais ou menos extravagante. uma ciência. . Façamos primeiro um termo de comparação: a eletricidade. espargindo a luz por sobre mais de um mistério da Natureza. como se deu com a eletricidade. o Espiritismo o fez para outros de ordem diferente. essas consequências são boas ou más? Pode-se julgá-las pelos princípios gerais que acabo de expor. numa certa ordem de ideias. O que fizeram a eletricidade e as ciências físicas para certos fenómenos. sem que estes o percebam. estando na Natureza. como a eletricidade o é sob outro ponto de vista. formado pelos seres incorpóreos que povoam o espaço e que não são mais que as almas daqueles que viveram na Terra. O Espiritismo está. Esta ciência tem consequências morais como todas as ciências filosóficas. Somente. seres que nos cercam e incessantemente exercem sobre os homens.O QUE E O ESPIRITISMO 129 A. e desempenham papel muito ativo no mundo moral. A questão é de grande importância e merece alguns1 desenvolvimentos. — O Espiritismo é. Algumas pessoas se iludem sobre o verdadeiro caráter do Espiritismo. A descoberta da eletricidade e de suas propriedades veio lançar por terra um punhado de teorias absurdas. e como ainda a gravitação é uma outra. K. nos quais deixaram seus invólucros materiais. uma grande influência. e deram. O Espiritismo funda-se na existência de um mundo invisível. é ele uma potência. São os seres a que chamamos Espíritos. livre curso à sua imaginação. em sua ignorância. em a Natureza e podemos dizer que. Os fenómenos. e mesmo. não cogita de questões dogmáticas. produziram-se em todos os tempos.

portanto. a distância é grande. entretanto. — Realmente. porque essa é uma condição necessária para as observações. mas não temos fórmula sacramental: para os Espíritos o pensamento é tudo e a forma é nada. pág. o sentimento religioso domina nas evocações e em nossas reuniões. que eles não virão sem que Deus o permita. Seu verdadeiro caráter é. que por esse fato não renunciaram às suas convicções: católicos fervorosos que não deixam de praticar todos os deveres do seu culto. em segundo lugar. e a prova disso é que ele conta entre os seus aderentes homens de todas as crenças. porque de todas as doutrinas é esta a mais esclarecida e pura.130 ALLAN KARDEC Mais bem observado depois que se vulgarizou. qualquer que (*) Ver "Reformador" de 1949. mas daí a constituir nova Igreja. 217. até hoje insolúveis ou mal compreendidas. os cristãos são os mais aptos para compreendê-lo em sua verdadeira essência. muçulmanos e mesmo budistas e bramanistas. pois. razão pela qual. — Nota da Editofa. Nós os chamamos em nome de Deus. e. porque cremos em Deus e sabemos que nada se faz neste mundo sem sua permissão. protestantes de todas as seitas. . não são feitas segundo uma fórmula religiosa? A. o Espiritismo vem derramar luz sobre grande número de questões. porque sabemos o respeito que se deve àqueles que não vivem mais sobre a Terra. quando a Igreja os não repele. Suas consequências morais são todas no sentido do Cristianismo. — As evocações. o de uma ciência e não de uma religião (*). Padre. Podemos exprobrá-lo por isso? Cada um pode formar de suas opiniões uma religião e interpretar à vontade as religiões conhecidas. em princípios independentes das questões dogmáticas. K. por conseguinte. procedemos em nossos trabalhos com calma e recolhimento. de todas as seitas religiosas do mundo. israelitas. e. Ele repousa.

desejamos que estes últimos não venham tomar parte fraudulentamente nas comunicações que recebemos. seja por convicção pessoal. se eu lhes pedir para aconselharem-me se devo ser católico. a melhor de todas as religiões é aquela que só ensina o que . eles se limitam a dizer: Deus é bom e justo. opiniões. por exemplo. qualquer que seja a sua classe. — Pois bem! Que dizem os Espíritos superiores a respeito da religião? Os bons nos devem aconselhar e guiar. não quer senão o bem. podem preconizar esta ou aquela forma. dirigindo-se a um muçulmano. não se preocupam com essas questões de minúcia. e que ele será condenado se não se fizer cristão? Não o fará. Em geral. os Espíritos superiores. qual será a resposta deles? A. comuns a todas. Padre. Quanto aos segundos. feliz ou infeliz. o que não quer dizer que sejamos professos de religião reformada. — Há dois pontos a considerar nas religiões: os princípios gerais. judeu. irá inabilmente dizer-lhe que Maomet é um impostor. e os princípios particulares de cada uma delas. porque. fazemos um apelo aos bons Espíritos. maometano ou mórmon. Os primeiros são os de que falamos há pouco. K. que um Espírito esclarecido. seja por prudência.O QUE í! O ESPIRITISMO 131 seja sua condição. protestante. animar certas práticas. estes são proclamados por todos os Espíritos. fosse mesmo Fenelon. anglicano. no mundo espiritual. para não assustar as consciências timoratas. quáquer. sem ser maus. Que prova tudo isto? Que não somos ateus. Suponhamos que eu não tenha religião alguma e queira escolher uma. conhecendo que há bons e maus. seja porque conservaram as ideias da vida terrena. se a isso não são solicitados por alguma consideração especial.' porque seria repelido. podem ter preferências. os Espíritos vulgares. Acreditais.

ao passo que a mais bem fundada crença os prejudicará evidentemente. que torna os homens bons e virtuosos e lhes ensina a amarem-se todos como irmãos. aquela cujos ministros dão o melhor exemplo de bondade. — Certamente que não. Vede. — Creio que certos pontos da doutrina católica são contestados pelos Espíritos que considerais superiores. caridade e moralidade. se lhes fornecer ocasião de fazer o mal. em nome da qual se comete menos mal. errando ou acertando. crendo perfeitamente em Deus.132 ALLAN KARDEC é conforme à bondade e justiça de Deus. Padre. porque uma boa religião não pode servir de pretexto a nenhum mal. que dá de Deus a maior e a mais sublime ideia e não O rebaixa emprestando-Lhe as fraquezas e as paixões da humanidade. julgai e escolhei. aquela. que a fé possa ser proveitosa a um homem que. por exemplo. que não autoriza a injustiça sob qualquer forma ou pretexto que seja. se ela os tornar duros e egoístas. pratique atos inumanos ou contrários à caridade? Não haverá sempre mais culpa naquele que mais meios tinha de esclarecimento? . por que então não praticam segundo a lei de Deus. nem diretamente. finalmente. segundo a opinião dos ditos Espíritos. porque Deus não se pode contradizer. se ela antes os incitar a isso. K. a consideram artigo de fé e a praticam? A. se ela os não desviar da prática do bem. que nada prescreve de contrário às leis imutáveis da Natureza. riem por interpretação. ela não lhe deve deixar porta alguma aberta. de faltar à caridade com o próximo. aquela que procura melhor combater o egoísmo e lisonjear menos o orgulho e a vaidade dos homens. ser prejudicial à -salvação daqueles que. supondo mesmo que esses princípios sejam erróneos. que condena todo mal feito ao próximo. e Deus olha mais os pensamentos que os atos. poderá tal crença. Quem poderá sustentar o contrário? Acreditais.

K. — Assim. o católico fervoroso. que escrupulosamente cumpre com os deveres do seu culto. se. Ora. ele admite certos pontos combatidos pela Igreja. não se pode negar que a religião nem sempre esteve isenta de abusos. não foi o Espiritismo quem os pôs em litígio. será atacá-la? Ela não tem inimigos piores que aqueles que defendem esses abusos. a existência dos demónios. são pontos sobre alguns dos quais ha controvérsia. antes de Adão. . se isso é para ele uma questão de consciência. o purgatório e o fogo do inferno. qualquer que seja a natureza deles e quaisquer que sejam os indivíduos ou as classes que deles se aproveitem. mesmo entre os teólogos. se só tiver piedade aparente. A. Podre. Se a religião corresse qualquer perigo. tais como. nega a eternidade das penas. há muitos que desempenham sua missão com devotamento inteiramente cristão. que a fazem grande. onde quer que ele se ache. mas. a aparição do homem na Terra. se for hipócrita.O QUE É O ESPIRITISMO 133 Paãíre. K. assinalar os abusos da religião. entretanto. se ele o faz com sinceridade. — Já de há muito que esses pontos estão sendo discutidos. convireis que nem todos assim sempre compreenderam a santidade do seu ministério. entre os seus ministros. sim. e. os encarregados do progresso da Humanidade. — Não. transformando-a em arena de paixões humanas e explorando-a em proveito de sua ambição. Os Espíritos combatem o mal. mil vezes sim. por exemplo. declararam-se contra todos os abusos que podem retardar esse progresso. — Dissestes que o Espiritismo não discute os dogmas. abusos que fazem nascer o pensamento de poder ser ela substituída por outra melhor. a reencarnação. Os Espíritos superiores. deveria a responsabilidade cair sobre os que dão dela falsa ideia. bela e respeitável. não é censurado pelos Espíritos? A. e que só o futuro julgará.

como no-lo prova o estado dos Espíritos que conosco se comunicam. o que não dá lugar a que deixe de ser a Terra que gira. Se tivésseis lido tudo quanto tenho escrito a respeito. que são a confirmação e a prova dos grandes princípios da religião. mesmo na existência do diabo. apesar de o não quererdes. teríeis visto que ele se limita a dar-lhes uma interpretação mais lógica e racional do que a que vulgarmente se lhes dá. a Terra nos apresenta a prova do contrário. como já tem demonstrado tantas outras coisas ? Crede.000 anos: isto. se o quiserdes. ele as abandona à consciência de cada um. não são. apesar disso. nas chamas e torturas materiais. mas. como doutrina moral. crede. se assim tiver de ser. que é a lei superior. se julgais que isso impede que pratiqueis o mal. humano e caridoso para com os vossos semelhantes. quanto às questões secundárias. em princípio. dizeis que a data da vinda do homem à Terra não vai além de 6. por traços patentes. se tal crença vos puder tornar bom. estais convencido de haver Josué feito parar o Sol. só impõe uma coisa: a necessidade de fazer o bem e evitar o mal. . a condição sine cpua nem do nosso futuro. tem consequências morais. É uma ciência de observação que. mas isto não impede de renascerdes aqui ou em.134 ALLAN KARDEC Um grande princípio domina a todos: a prática do bem. E que direis se um dia a Geologia demonstrar. a anterioridade do homem. pois. Notai bem. credes que o mundo todo foi criado em seis vezes vinte e quatro horas. que alguns dos pontos divergentes de que acabastes de falar. escrita em suas camadas geológicas. contestados pelo Espiritismo. porém. Enquanto a luz não se faz para vós sobre essas questões. não as tornará mais reais se elas não existirem. essa crença. porém. em tudo que vos aprouver. repito. outra parte. reverendo. não priva que os fatos vos contradigam. O Espiritismo. Acreditais que não temos mais de uma existência corporal.

Eis. e para ele então a pena seria eterna. porém. pelo contrário. que ele não nega o purgatório. vai mesmo além: ele o define. O que Deus exige. Deus lhe faz entrever um raio de esperança. e concede-lhe graça desde que ele volte ao bom caminho. antes. O Espírito é assim o árbitro de sua própria sorte. ela diz muito bem que isto é uma simples figura. mesmo entre os mais religiosos se veria para que lado penderia a maioria. para se conhecer a opinião íntima de todos os homens que raciocinam e se acham no caso de compreendê-la. Essa eternidade de penas deve ser entendida no sentido relativo e não no absoluto.O QUE É O ESPIRITISMO 135 É assim. mais conforme à justiça de Deus. porque a ideia de uma eternidade de suplícios é a negação da infinita misericórdia de Deus. é o arrependimento. que pune. O inferno foi descrito como imensa fornalha. seus esforços para fazer o bem os minoram ou abreviam. mas ele será assim também compreendido pela alta teologia? Evidentemente. Quanto à eternidade das penas. sua alma se abra ao arrependimento. por exemplo. demonstra sua necessidade e justiça. Quem imaginou essa teoria? Seríamos nós? . enquanto o culpado persiste no mal. para pôr um termo aos sofrimentos. o que avança a Doutrina Espírita a tal respeito: A duração do castigo é subordinada ao melhoramento do Espírito culpado. se fosse possível pôr-se a votos tal questão. Desde que. sofreria sempre. Nenhuma condenação por tempo determinado é pronunciada contra ele. Esta doutrina é. Uma condição inerente à inferioridade do Espírito é não ver o termo da sua situação e crer que há de sofrer sempre — o que é para ele um castigo. a expiação e a reparação. que o fogo que ali se consome é um fogo moral. o Espírito culpado. em uma palavra. Sendo a duração da pena subordinada ao arrependimento. por certo. sua pertinácia no mal prolonga-lhe os sofrimentos. que não se arrependesse e nunca se melhorasse. demais. uma volta sincera ao bem. símbolo das maiores dores. não. um melhoramento sério e efetivo.

dizem eles: se me ensinaram como verdade incontestável um ponto que é falso. são os Espíritos que a ensinam e provam. o pensador filósofo pode aceitá-lo. — Admitindo esse raciocínio. Compreende-se que isto é possível. que essa situação é uma consequência natural das coisas. Eis por que as crenças espíritas têm conduzido ao bem muita gente.136 ALLAN KARDEC Não. porque. porque nele nada repugna à razão. antes que de uma filosofia que ele não pode compreender? A. quem me afiança que o resto seja verdadeiro? Se. Padre. — A Igreja. é quando os homens querem avançar e ela deseja ficar estacionária. porque tudo nele ê perfeitamente lógico. pelo contrário. reconhece hoje que o inferno material é uma figura. pois que são eles mesmos que nos vêm descrever seus próprios sofrimentos. ou. mas isso não exclui a existência dos demónios. pelo menos. afastado mais de um homem da religião. Chega o momento em que essas imagens não impressionam mais. K. como lhes era pintado. rejeitam o todo. e este quadro nos toca mais que o das chamas perpétuas. Comete um erro de época quem espera conduzir os homens de hoje pelo medo do demónio e das torturas eternas. Pax&re. se me deram uma imagem. nada tem a repelir. Os Espíritos não negam. que assim deve ser. não julgais que o vulgo precisa de imagens mais impressionantes. pois. se alguma vez ela corre perigo. como explicar a influência do mal. pelos exemplos que diariamente nos fornecem. mesmo entre os materialistas. A religião ganhará sempre em seguir o progresso das ideias. e então aqueles que não aprofundam as coisas. que não pode vir de Deus? . não aceitando uma parte. uma figura. as penas futuras. aos quais não fazia mossa o medo do inferno. sem eles. crescendo. — Ê isso um erro que tem lançado mais de um homem no materialismo. pela realidade. a fé se fortifica. a razão. com efeito.

havemos hoje de excluí-los? Além disso. suscitando maus pensamentos. Notai também que a palavra detmâmo não implica a ideia de mau Espírito.O QUE fi O ESPIRITISMO 137 A. e fazer de Satã um rival da Divindade? A Bíblia. quando nos trabalhos obtidos só . o Evangelho. como afirma a Igreja para motivar a proibição. — O Espiritismo não admite os demónios no sentido vulgar da palavra. Seguramente. são seres atrasados. espécie de párias da criação e algozes do género humano. Seja como for. admitindo a autenticidade de certas aparições e comunicações de santos. é possível que Ele só o tivesse permitido aos maus? Como?! deixando a estes toda a liberdade de virem enganar os homens. sim. mas aos quais Deus reservará o futuro. somente ele diz não serem eles seres à parte. a realidade das manifestações. que lhe é dada pela acepção moderna. que não valem mais do que aqueles e que fazem igualmente o mal. inteligência. grega. os maus Espíritos. de se comunicar com os Espíritos. K. não seria pôr em dúvida seu poder e bondade. admitir a comunicação dos maus Espíritos é reconhecer. Se os Espíritos. alusão ao melhoramento dos maus Espíritos. nós invocamos o raciocínio e os fatos. se comunicam. pois. rejeita assim a ideia de só podermos entrar em relação com os maus Espíritos. Ora. neutralizar suas doutrinas perniciosas? Crer que seja assim. criados para o mal e perpetuamente votados a isto. em princípio. hoje ela exprime um Espírito mau. Aqui. porém. A questão está em saber se são eles os únicos que se comunicam. os Padres da Igreja reconhecem perfeitamente a possibilidade das comunicações com o mundo invisível. significa génio. porque a palavra dan/môn. a Igreja. Nisso concorda o Espiritismo com a Igreja Católica Grega. quaisquer que eles sejam. que admite a conversão de Satã. feita por ela. e desse mundo não estão excluídos os bons. ainda imperfeitos. não pode ser senão com a permissão de Deus. Deus poderia impedir que os bons lhes viessem fazer um contrapeso. por que.

mas. por um instante. quando nos pregam neles a mais pura e sublime moral evangélica. excitá-los a voltar a Deus. qualquer que seja o aspecto sobre que se mostre. fá-lo desempenhar o papel de louco ou de tolo. é o que não se pode compreender. é a personificação do Mal. A. segundo o provérbio: Quem muito quer provar. Os que não admitem Deus nem a alma. não é um ser real. segundo o Espiritismo e a opinião de muitos filósofos cristãos. para tal fim. tendo em vista intimidar. mas. em anjo de luz. segundo belíssima alegoria. animá-los a renunciar ao mal. à força de exagerar seu poder. que desprezam a prece e vivem mergulhados no vício. compreende-se que se dirija àqueles que estão no bem para induzi-los ao mal. são dele. chega a um resultado totalmente contrário. na questão do Espiritismo. nada prova. e. isto é. a abnegação. Admitamos. a Igreja. a orar. mostrando-lhes a felicidade dos ésco- . — O Evangelho ensina que o anjo das trevas. sagaz e ardiloso. é uma questão de opinião que eu não discutirei. a submeter-se à vontade do Criador. quanto é possível ser-se. que Satã seja um ser real.138 ALLAN KARDEC encontramos coisas boas. ou Satã. como Saturno era outrora a do Tempo. quando neles se combate o mal. o desinteresse e o amor ao próximo. ora. isto é. Uma vez que seu fim é alimentar de vítimas o inferno e arrebatar almas do poder de Deus. não somente do medo. Ela o representa como eminentemente fino. — Satã. à destruição. se transforma em anjo de luz para seduzir os homens. que deixe escapar aqueles que já estavam em suas redes. será racional crer-se que o Espírito maligno assim proceda? Padre. que ele hipocritamente simule a virtude. nada mais lhe resta fazer para sepultá-los no lamaçal. mas também da crença em tal personagem. se veja obrigado a transformar-se. A Igreja apega-se à letra dessa figura alegórica. K.

que. elevam a alma acima da vida material. —• Se a Igreja proíbe as comunicações com os Espíritos dos mortos. ao bem os que praticavam o mal. dão força e coragem aos fracos. porque o legislador hebreu queria que o seu povo rompesse com todos os hábitos trazidos do Egito. pela sublimidade de seus ensinos.O QUE fi O ESPIRITISMO 139 Ihidos e a triste sorte que aguarda os maus. se ela for mais judia que cristã. assim será. que consolam os aflitos. Trata-se de saber se a Igreja coloca a lei moisaica acima da evangélica. se deva interdizer-nos qualquer relação com o mundo invisível. ela se acha somente na lei moisaica. Devemos mesmo notar que. por que proíbem a leitura da Bíblia? Que diriam se se proibisse a um cidadão o estudo do código das leis do seu país? A proibição feita por Moisés tinha então a sua razão de ser. como sendo formalmente condenadas pelo Evangelho e por Moisés. de todas as religiões. mais estúpido que o de dar liberdade a aves que estejam numa gaiola. nem com o sentimento de pie- . Padre. A. — Peco-vos perdão. Este último. é a judaica a que faz menos oposição ao Espiritismo. em que se apoiam as seitas cristãs. e que. na doutrina da comunicação exclusiva dos demónios uma contradição que fere todo homem sensato. Se as prescrições bíblicas são o código da fé cristã. sejam auxiliares de Satã. pois. por este motivo. seria ato de um simplório. com o pensamento de apanhá-las de novo. mas essa proibição não se encontra em parte alguma do Evangelho. K. nunca se persuadirá alguém que os Espíritos que reconduzem a Deus aqueles que o renegavam. Não se evocava então os mortos pelo respeito e afeição tributados a eles. e de entre os quais o de que tratamos era objeto de abusos. é porque elas são contrárias à religião. pronunciando a pena de morte contra essas práticas. prova quanto elas são repreensíveis aos olhos de Deus. por certo. Há. contra cujas evocações ela não invocou a lei de Moisés.

mas. podiam eles entrar em relação com os homens. também quanto à pena de morte. em seu tempo.140 ALLAN KARDEC dade. por que não a conservam também? Todas as leis de Moisés são promulgadas em nome e por ordem de Deus. deve também ser Deus quem marcou a pena de morte contra os delinquentes. como a Igreja pretende. Moisés teve razão de proibi-lo. é uma prova de que eles podem vir. lei que foi conservada porque é divina. nessas condições. é que eram precisos meios rigorosos para conter esse povo indisciplinado. a lei civil ou disciplinar. como objeto de tráfico vergonhoso. pois. por que deixa de sê-lo sobre os outros todos? Por que recorrem a ela naquilo de que precisam.". a que Jesus se sujeitou e que não aboliu? Havia na lei moisaica duas partes: 1. e o Cristo não fez mais que desenvolvê-la. É. se crêem que Deus seja o autor delas. Se a interdição da evocação aos mortos vem do próprio Deus. um erro apoiar-se na severidade do castigo para provar-se o grau de culpabilidade da evocação dos mortos. apropriada aos costumes do tempo. Se. Hoje as circunstâncias são outras. 2. do contrário essa interdição seria inútil. e repelem-na no que não julgam conveniente? Qual o motivo de não seguirem todas as suas prescrições. . resumida nas tábuas do Sinai. e a proibição de Moisés já não tem razão de ser. entre outras a da circuncisão. a lei de Deus. entre pessoas que nunca se ocuparam com o Espiritismo? e antes de ele ser divulgado não se davam tantas delas? Outra contradição: Se Moisés proibiu evocar os Espíritos dos mortos. explorado pelo charlatanismo e pela superstição. e que o Cristo aboliu. Se ele pronunciou contra esse abuso uma penalidade severa. como meio de adivinhar. por que não as observam ainda? Se a lei de Moisés é para a Igreja um artigo de fé sobre um ponto. sim. poderá também impedir que eles venham sem ser chamados? Não estamos vendo diariamente manifestações de todos os géneros.'. era pródiga a sua legislação. Além disso. se a Igreja proíbe a evocação dos Espíritos. neste caso. Esta pena passa a ter uma origem tão sagrada como a interdição.

sobre todos os pontos. Padre. se são Espíritos de mortos. do que atribuí-la ao demónio. olham como obra do demónio qualquer doutrina que não é inteiramente ortodoxa. revelar-nos novas leis da Natureza. não será mais racional adaptar a interpretação do dogma a ela. Tal é também a razão por que todas as religiões. é porque. — Deixemos a questão dos demónios. . é verdade. sendo essa lei reconhecida. foi condenado e excomungado. K. então. Galileu foi acusado de heresia e de ser inspirado pelo demónio. devemos ser lógicos. — Eis a magna questão. portanto. crendo-se na posse exclusiva da verdade absoluta. Se alguns pontos de fé sofrem com isto. pois reconhece que os santos também se têm manifestado. Se os Espíritos tivessem. ela. e se. e. do seu ponto de vista. que há penas e recompensas futuras. Ora. e. bem sei que ela é diversamente interpretada pelos teólogos. provando o erro de uma crença julgada inatacável. não considera bons aqueles que vêm contradizer seus princípios imutáveis. abundado no sentido exclusivo da Igreja. — A Igreja não nega que bons Espíritos possam comunicar-se. os Espíritos vêm. teriam sido todos bem-vindos e não os qualificariam de demónios. se eles não proclamassem a liberdade de consciência e não condenassem certos abusos. A. de modo diverso do que ela ensina. os muçulmanos como os católicos. Padre. mas. não são exclusivamente demónios. como Galileu. que é obra de Deus. só ela pode julgar o que eles pregam e. A questão está em saber se um artigo de fé pode anular uma lei natural. distinguir os bons dos maus. não derribar a religião. porque vinha revelar uma lei da Natureza. como na velha crença de girar o Sol ao redor da Terra. porém. Os Espíritos ensinam. Antes de tudo.O QUE S O ESPIRITISMO 141 ainda hoje o podem. estão em contradição com essas leis. porém.

difere essencialmente da metempsicose. n.° 166 e seg. os dos animais aquáticos." A pluralidade das existências. não acrescentarei senão duas palavras. aliava-se à encarnação humana.. as dos preguiçosos e ignorantes. mesmo como castigo. O Evangelho. — Não é esta a ocasião própria de discutir uma questão que exige tão longos desenvolvimentos: vós a encontrareis tratada em Ô Livro dos Espíritos e no Evangelho seffwndo o Espiritismo (vede Õ IÂVTO dos Espíritos. uma condição absoluta. as dos inconstantes e estouvados. e 1. mais ou menos. o que implica uma degradação. saindo dessa espécie de prisão.010. A metempsicose dos antigos consistia na transmigração da alma do homem nos animais. K. A transmigração pelos corpos dos animais não era considerada como condição inerente à natureza da alma humana. mas como punição temporária. e hoje se diz: "O diabo vos agarrará e levará para o inferno. é assim que se admitia que as almas dos assassinos iam habitar os corpos dos animais ferozes. A. (Vede Pluralidade dos existências lote alma. essa doutrina não era o que vulgarmente se crê. os antigos diziam aos criminosos: "Vós vos tornareis em lobos".) Era uma espécie de espantalho para os simples. caps. Demais. em não admitir aquele a encarnação da alma humana nos corpos de animais. o lobo vos comerá". ela. e a prova é que a punição dos homens tímidos consistia em passar a corpos de mulheres. pois que ele não é mais que a renovação da metempsicose de Pitágoras. como se vê. IV e V ) .142 ALLAN KARDEC porém o sistema da reencarnação parece-me mais difícil de conciliar com os dogmas. A encarnação animal não era. 222 e seg. a alma. voltava à humanidade. os porcos e javalis. os das aves. as dos impudicos. Depois de alguns milhares de anos. para neles receberem castigos. Suas dife- . antes que um artigo de fé para os filósofos. pois. segundo o Espiritismo. mas progride sempre. expostas ao desprezo e às injúrias. conforme a culpabilidade. por Pezzani. Assim como dizemos às crianças: "Se fordes más. Os Espíritos ensinam que a alma não retrograda.

o que é coisa muito diversa da metempsicose. Aqueles que não queiram aceitar a interpretação ficam perfeitamente livres. não pode ser anulada por uma opinião contrária. é o que pela força das coisas será feito mais tarde. de destruir. se está em a Natureza. mas de interpretar.O QUE É O ESPIRITISMO 143 rentes existências corpóreas se cumprem na humanidade. é preciso admitirmos que eles soa « consequência desta. nem uma opinião pessoal. em razão de sua extrema lógica e conformidade com a justiça de Deus. pois. o que ela não pôde acabar em outra. por falta de compreensão. A expiação na vida corporal consiste nas tribulações que nela sofremos. logo. Se está demonstrado que certos efeitos existentes são materialmente impossíveis sem a reencarnação. e que há outra mais clara e logicamente melhor que ela. em nova encarnação. A ideia da pluralidade das existências se vulgariza com pasmosa rapidez. se existe. mas a essas leis. ou não. Quanto à questão de saber se a pluralidade das existências da alma é ou não contrária a certos dogmas da Igreja. como ainda hoje o são. muitas vezes abreviada por causas acidentais. sendo cada uma um passo que a alma dá na senda do progresso intelectual e moral. Não se trata. é ou não um fato. Para provar que ela não existe. não aos dogmas. hoje aceitos por aqueles que os repeliam outrora. Deus lhe permite continuar. ou recomeçar o que fez errado. que fará a Igreja? Em resumo: a reencarnação não é um sistema imaginado para satisfação das necessidades de um ideal. de crer que é o Sol que gira ao redor da Terra. . é uma lei da Natureza. seria necessário demonstrar que vai de encontro. Quando ela for reconhecida como verdade natural e aceita por todos. Não podendo adquirir um desenvolvimento completo em uma só existência. explicando as questões que só ela pode resolver. limito-me a dizer o seguinte: Ou a reencarnação existe. Além disso. é fácil demonstrar que certos dogmas encontram nela sanção racional.

o Espiritismo não podia dizer outra coisa. e em vez de por isso apedrejá-lo. desde que os Espíritos só ensinam os princípios de moral encontrados no Evangelho. mas sim. — Errais. como o Cristo: Fora. Não seria melhor deixarmos os Espíritos tranquilos e contentarmo-nos com o que já temos? A. da camdaãe não há salvação. podíamos e podemos alcançar a salvação. K. K. como fez o Cristo. seus partidários formam muitas seitas. . uns dizendo que é branco o que outros afirmam ser negro. já desde o começo. quem não crê neles nem nas suas manifestações. — Segundo os Espíritos. visto como antes que este viesse e hoje. que seria daqueles que. deve ser menos aquinhoado na vida futura? A. alguns desses princípios que mudam a face do mundo. Ao menos o Cristo era só. não vejo qual possa ser a utilidade do Espiritismo. bem como daqueles que. — Permiti-me. então. desde o começo do mundo. sua doutrina era única. Não seria o mesmo se os Espíritos viessem ensinar algumas grandes verdades novas. ao passo que os Espíritos se contam por milhares e se contradizem. — Se esta crença fosse indispensável à salvação dos homens. em não sair do vosso ponto de vista e em considerar sempre a Igreja como o único critério dos conhecimentos humanos. eles não nos pregam que fora do Espiritismo não possa haver salvação. não faz a sorte futura do homem subordinar-se a condições alheias à vontade deste. do que resulta que. sem ser por ele. os Espíritos que nos instruem não são assim tão pouco lógicos.144 ALLAN KARDEC Padre. Se o Cristo disse a verdade. eles nos dizem: Deus é soberanamente justo e bom. Padre. meu amigo. dizer-vos que. durante ainda muito tempo. não tiveram possibilidade de possuí-la. morrerão sem tê-la? Poderá Deus cerrar-lhes as portas do futuro ? Não.

Mas. não lhes quis confiar o cuidado desta nova revelação: deu-a aos Espíritos. que é sábio. que vem confirmar. aqueles que dela se arredam. o Espiritismo. ou não disse senão sob a forma alegórica. completar e explicar o que o Cristo propositadamente não fez senão tocar. visto que ele próprio disse: "Eu teria ainda muitas coisas a dizer-vos. que a proclamaram por todos os pontos do globo. é um fato menos concebível. a fim de que ela possa aplicar-se a todos. Igualmente inconsequente é ela quando qualifica de demoníaco um ensino que se apoia sobre a mesma autoridade e que proclama a missão divina do fundador do Cristianismo. é por isso que eu vos falo em parábolas.O QUE É O ESPIRITISMO 145 deve-se acolhê-lo como poderoso auxiliar. seus mensageiros. sem dúvida. por todas as vozes de Além-Túmulo. à estrita observância de seus preceitos. a grega ou a protestante? Como não estão elas de acordo. apartado do caminho traçado pelo Cristo? Seus preceitos de moral serão escrupulosamente observados? Não se lhe têm desnaturado as palavras. Por outro lado. O Cristo teria dito. época em que o homem está maduro para compreendê-lo. Que o materialismo o combata." O Espiritismo vem hoje. quando elas lealmente condenam isso? Ora. será por isso que o qualificam de obra satânica? . vem chamar. combatidas pela incredulidade. em coisa alguma. mas que a Igreja se ligue ao materialismo contra ele. as verdades fundamentais da religião. fora dos limites particulares de qualquer culto. e nenhum a transforme em objeto de exploração. prevendo que os homens iriam nela enxertar suas paixões e prejuízos. mas vós não podeis compreendê-las. qual delas? a romana. a fim de que possam servir de apoio à ambição e às paixões humanas. Direis. que à Igreja competia dar essa explicação. os diversos cultos cristãos não se terão. explica-se facilmente. Qual delas conseguiria arrebanhar todos os dissidentes? Deus. pela voz dos Espíritos enviados de Deus. teria revelado tudo? Não. cada uma explicaria a seu modo e reivindicaria o privilégio de dar essa explicação.

Riscai. em física. que reúne os homens. muito àqueles que não se limitam a um estudo superficial. essas teorias. Dissestes que se podia passar sem ele. antes que se conhecesse' o . antes da descoberta de todos os novos planetas. detestando-se intimamente e anatematizando-se em nome do seu divino Mestre. Seja. transforme a Humanidade como por encanto? Vamos à questão da utilidade. Os homens certamente viviam bem. como também se podia passar sem muitas das descobertas científicas. desde a sua origem ? Por que não teve bastante poder a palavra do Cristo para impor silêncio a todas as controvérsias? Por que é ela suscetível de interpretações que ainda hoje dividem os cristãos em diferentes igrejas. a palavra seita. etc. concordo. Não fizesse ele mais que substituir a máxima: Fora cía caridade não há salvação. A quantas seitas não tem o Cristianismo dado nascimento.146 ALLAN KAKDEC Vós vos iludis dando o nome de seitas a algumas divergências de opiniões relativas aos fenómenos espíritas. repousam sobre pontos de minúcias e não sobre o princípio fundamental. Podem constituir escolas que expliquem certos fatos a seu modo. quando ainda as observações eram incompletas para muitos. antes que se tivesse calculado os eclipses. Não é de admirar que no começo de uma ciência. então. Ê um erro: ele ensina. pois. que não pregou senão o amor e a caridade? Fraqueza dos homens. que é imprópria ao nosso caso. porém. àquela: Fora da Igreja não há salvação. como quereis que o Espiritismo triunfe subitamente dessa fraqueza. porém. direis vós. não são seitas. pretendendo todas elas possuir exclusivamente a verdade necessária à salvação. ao contrário. tenham surgido teorias contraditórias. como não o são os diferentes sistemas que dividem os sábios nas ciências exatas: em medicina. que os divide. Dizeis que o Espiritismo nada revela de novo. para que a sua vida marcasse uma nova era à Humanidade.

a cobiça. o Espiritismo é a negação do materialismo. o Espiritismo engrandece e eleva as ideias. mostram a necessidade do bem e as consequências inevitáveis do mal. não para as pessoas de vistas estreitas. mas quem terá a coragem de defendê-los e se declararem seus campeões? Se ele não é indispensável à salvação. Não é mais pelo raciocínio. fortifica-as nos que as têm incertas. combate os abusos engendrados pelo egoísmo. sem ser uma religião. facilita-a firmando-nos no caminho do bem. Eis por que. ele nos ensina a influência que esse mundo exerce sobre o corpóreo. o mundo dos Espíritos é uma dessas leis que o Espiritismo nos faz conhecer. para viver e fazer germinar o trigo. porque o materialista não crê em coisa alguma. que homem sensato ousará avançar . o quadro vivo daqueles que nos precederam nela. Suponhamos que a isso se limitasse a sua utilidade. o Espiritismo se prende essencialmente às ideias religiosas. sob este ponto de vista. Além disso. pela fé cega que se diz ao materialista que nem tudo se acaba com o corpo. qual o maior inimigo da religião? O materialismo. é pelos fatos que se lhe mostram visíveis e palpáveis. Em uma palavra. que a vêem integralmente na doutrina do fogo eterno. Não será isso um pequeno serviço prestado à humanidade e à religião ? Porém não é ainda tudo: a certeza da vida futura. já não seria muito a revelação de tal potência? Vejamos. um apoio nele. agora.O QUE É O ESPIRITISMO 147 mundo microscópico e cem outras coisas. entretanto. ninguém nega que todas essas coisas alargam o círculo das ideias e nos fazem compreender melhor as leis da Natureza. não tem necessidade de saber o que é um cometa. desenvolve-as naqueles que não as possuem. e. a sua influência moral. que já não tem razão de ser. Ora. a ambição. Admitamos que ele nada ensine. mas para aqueles que a vêem segundo a grandeza e a majestade de Deus. pois. na letra mais que no espírito. ora. o camponês. A religião encontra.

ou a destes últimos sem a da moral? Respondi. do que aquele que crê em tudo. longe disso. como vo-lo disse no começo. limitando-me tão-somente a fazer-vos encarar o Espiritismo sob seu verdadeiro aspecto. egoísta e baldo de caridade? 4. mas. sem intenção alguma preconcebida de conduzir-vos às nossas ideias e de mudar as vossas convicções. não venham espontaneamente ao nosso encontro. crente das verdades gerais. sob o ponto de vista de suas consequências religiosas: 1. caso ela se verificasse. julgamo-nos sempre felizes pelas aquisições que fazemos. . Se não tivésseis vindo. não admite certas partes do dogma? 2.148 ALLAN KARDEC que a falta de ortodoxia é mais repreensível. que o ateísmo ou o materialismo? Apresento claramente as questões seguintes. no rigor da palavra. a quantos combatem o Espiritismo. ou aquele que." Quem terá melhor quinhão na vida futura — aquele que não crê em coisa alguma. eu não vos teria ido procurar. às questões e objeções que me dirigistes. Não só não temos o direito de exercer constrangimento sobre quem quer que seja. leal em suas relações sociais.* O protestante e o cismático serão confundidos na mesma reprovação que o ateu e o materialista? 3." Qual terá mais valor aos olhos de Deus: a prática das virtudes cristãs sem a dos deveres da ortodoxia. tendo crenças que os satisfazem. mas faz o bem que pode. deve contar menos com a salvação. que é bom e indulgente para com o próximo. mas é duro. Não quer isto dizer que desprezássemos a vossa adesão aos nossos princípios." O que não é ortodoxo. aos olhos de Deus. as quais têm para nós tanto maior valor quanto mais livres e voluntárias são. como também sentiríamos escrúpulo em ir perturbar a consciência dos que. senhor abade.

no todo. destinado a servia de guia aos que desejarem opersr por si mesmos. onde ss princípios da estão completamente desenvolvia^. compreeder os fenómenos.--gelho segundo o Espiritisimo. ou que se em ideias preconcebidas. pois. com isso. A ignorância dos aíncípios fundamentais e a causa das falsas apreciações Ia maioria daqueles qu .O QUE É O ESPIRITISMO Dissemos que o melhor meio de se esclarecerem o Espiritismo é estudarem previamente a teoria. depois as diversas obras onde sia desenvolvidas as apli " cações e as consequências da doutrina. existe algo de Nesta rápida exposição esforçaní-nos por indicar os pon J-~ tos sobre que particularmente se deve fixar a atenção d<"-° observador. e soão facilmente compreet^1' didos. como: O Evan. apresenta o conjunto e os pontos mais salientes da cia. etc. os virão depois. O Li/vro doMédiMns. qualquer 'que seja a oièa em que as circunstâr^1" cias os façam vir. para a parte experimental. eis aqui a ordem qu ae aconselhamos. com aos que quiserem bem. ler O Lvoro das Espíritos. . depois.' e querem julgar o que não comprendem. já se pode fazer dela uma ideia ficar-se convencido de que. A primeira leitura a fazew é a deste resumo. naturalmente. Se desta leitura nascer o desejo de continuar. As nossas piblicações são feitas n *° intuito de favorecer esse estuí. 'Q Céu e o Inferno o Espiritismo.

para cada um. É um erro crer-se que basta a certos incrédulos o testemunho de fenómenos extraordinários. também não a aceita fora dele. quase sempre. Daí a pretensão de sujeitá-los à sua vontade e a recusa de se colocar nas condições necessárias para os poder observar. Quem não admite no homem a existência da alma ou Espírito. pelo menos. com uma ideia preconcebida que os desvia de uma observação séria e imparcial. na maioria. O estudo prévio tem como resultado evitar-se essas objeções que. Não admitindo. se originam da ignorância das causas dos fenómenos e das condições em que estes se produzem.CAPITULO II Noções elementares de Espiritismo OBSERVAÇÕES PRELIMINARES 1. para que se tornem convictos. esses indi- . 2. supõe que se podem produzir fenómenos espíritas. a existência e a intervenção dos Espíritos. retomando as coisas desde o princípio. e levantam questões e objeções a que é impossível responder-se logo. e portanto. uma espécie de curso. não conhecendo nem a sua natureza. nega implicitamente os efeitos. ou. porque seria preciso fazer-se. nem o seu modo de ação. como princípio. de modo completo. como se faz uma experiência de física ou de química. negando a causa. Quem não conhece o Espiritismo. Os contraditores se apresentam.

Nem sempre as reuniões que têm por objeto tratar de manifestações espíritas se acham em boas condições. só fonte. as coisas. e quem quer esclarecer-se não deve colher ensinos de uma. não podemos deixar de convir. não se acham absolutamente à disposição de quem quer que seja. muitas vezes. ter paciência e perseverança. nestas condições. deve. 4. sempre que queira. O Espiritismo também tem aprendizes. é quando são menos esperados que se apresentam os fatos mais interessantes e concludentes. Ainda que certos fenómenos possam ser provocados. eles. Nisso não são eles mais lógicos que aqueles que pretendessem julgar de uma arte pelas primeiras provas de um aprendiz. seja para produzir a convicção. nisto como em tudo. e quem se disser capaz de obtê-Ios. e. todos nós. pelo fato de provirem de inteligências livres. de algumas mesmo. lançando em rosto. compreender-se-á que. muitas vezes ridículas. e. de uma pessoa pela sua caricatura. aos que lhes falam do carater sério do Espiritismo. ou de uma tragédia pela paródia. 3. para satisfação das fantasias dos curiosos. só provará ignorância ou má-fé. É preciso esperá-los. doutra forma. concluem que não há Espíritos. também estaríamos pouco dispostos a servir de joguete.152 ALLAN KARDEC víduos se comportam como se operassem sobre a matéria bruta. . Aquele que seriamente deseja instruir-se. e que. os incrédulos saem menos convencidos do que o eram quando entraram. desde que não obtêm o que pedem. Colocando-se em um ponto de vista diferente. depois da morte. porque só pelo exame e pela comparação se pode firmar um juízo. não sendo os Espíritos mais que almas dos homens. apanhá-los em sua passagem. seja para obter resultados satisfatórios. de que foram testemunhas. é melhor não se preocupar com isso. seremos Espíritos. e colocar-se nas condições indispensáveis.

pelo mesmo motivo. porém as almas. Os Espíritos não são. negar os Espíritos seria negar a alma. como supõem muitas pessoas. seria preferível que só as houvesse boas. uma ideia falsa do caráter do Espiritismo. todas as ciências. estão no mesmo caso. consiste em não se darem ao trabalho de estudá-las todas. Não vemos. sobretudo em seu começo? Se os que o criticam não tomassem as aparências por base do seu juízo. assim como não o faz a poesia por aqueles que produzem maus versos. o maior mal. a separar o bom do mau. que existam tais obras prejudicando a verdadeira ciência. além disso. O Espiritismo sério não pode responder por aqueles que o compreendem mal. admite. DOS ESPÍRITOS 7. o Espiritismo. Um estudo antecipado lhes ensinará a julgar do alcance do que vêem. Ê deplorável. e não lhe lançariam em conta o que ele repele em nome da razão e da experiência. sobre as mais sérias coisas. uma classe à parte na criação. Aquele que admite a sobrevivência da alma ao corpo. dizem. . que dele apenas dão uma ideia incompleta e ridícula. ou que o praticam de modo contrário aos seus preceitos. porém. aparecerem tratados absurdos e cheios de erros? Por que seria privilegiado. despidas do seu invólucro corporal. Os que só têm frequentado reuniões dessa espécie.O QUE Ê O ESPIRITISMO 153 5. daqueles que viveram na Terra ou em outros mundos. nesse sentido. não podem tomar a sério uma coisa que eles vêem tratada irrefletidamente pelos próprios que se dizem adeptos. As reuniões frívolas têm o grave inconveniente de dar aos noviços. que a elas assistem. O mesmo raciocínio se aplica aos que julgarem o Espiritismo pelo que dizem certas obras excêntricas. 6. saberiam o que ele admite e o que rejeita. a existência dos Espíritos. Todas as artes. Sem dúvida.

Quando o invólucro exterior está usado e não pode mais funcionar. a serpente da pele. como alguns acreditam. tomba e o Espírito o abandona. chamado peris/pírito. 2. imponderável. tendo como nós um corpo. ela tem duplo invólucro: um pesado. leve. a árvore da casca. nem fantasmas como os pintam nos contos das almas do outro mundo. mas fluídico e invisível no estado normal. servindo de laço e de intermediário entre o Espírito e o corpo." A alma ou Espírito.° O perispírito. leve e indestrutível. 13. pois. Faz-se geralmente uma ideia muito errónea do estado dos Espíritos. A morte do corpo desembaraça o Espírito do laço que o prendia à Terra e o fazia sofrer. conservando porém seu corpo fluídico ou perispírito. . invólucro material que põe o Espírito em relação com o mundo exterior. como se deixa um vestido velho que já não pode servir. durante a vida. invólucro fluídico. Quando a alma está unida ao corpo. 10. o outro fluídico. em uma palavra. A morte é apenas a destruição do envoltório corporal. que lhe permite percorrer o espaço e transpor as distâncias com a rapidez do pensamento. no homem três elementos essenciais: 1. 9. eles não são. São seres nossos semelhantes. 3. grosseiro e destrutível — o corpo. não lhe resta mais que o seu corpo etéreo. seres vagos e indefinidos. e uma vez libertado desse fardo. Há. como o fruto se despoja da sua semente. 11. como o faz a borboleta com a crisálida. 12." O corpo. nem chamas semelhantes a fogos-fátuos. é o que se designa pelo nome de morte.354 ALLAN KARDEC 8. princípio inteligente em que residem o pensamento. que a alma abandona. a vontade e o senso moral.

Seria mais exato reservar a palavra alma para designar o principio inteligente. sem disso desconfiar. mas. cercando-nos por toda parte. excetuando-se aqueles que. por punição. Os Espíritos revestidos de seus corpos materiais constituem a Humanidade ou mundo corporal visível. eles formariam uma população. é essencial fazer-se a diferença. porque as suas faculdades não estão amortecidas pela matéria. em dado momento. portanto. como vivemos no meio do mundo dos infinitamente pequenos. vagos e indefinidos. no uso. do perispírito e do corpo material constitui o homem. donde se segue que se. indiferentemente empregadas uma pela outra. formam o mundo espiritual ou invisível que povoa o espaço e no meio do qual vivemos. filosoficamente. 16. uma vila composta de tantas famílias. as palavras alma e Espírito são. Para eles não há obscuridade. porém em grau mais alto. OBSERVAÇÃO — A alma é assim um ser simples. A união da alma. mas seres concretos e circunscritos.O QUE É O ESPIRITISMO 155 14. e o termo Espírito para o ser semimaterial formado desse princípio e do corpo fluídico. entes abstratos. é a figura que consiste em tomar a parte pelo todo. nem o perispírito sem ser animado pelo princípio inteligente. pudesse ser levantado o véu que no-los esconde. vêem e ouvem coisas que os nossos sentidos limitados nos não permitem ver nem ouvir. a alma e o perispírito separados do corpo constituem o ser chamado Espírito. do mesmo modo por que se diz que uma cidade é povoada de tantas almas. porém. Os Espíritos não são. de que não suspeitávamos. despojados desses corpos. eles têm sensações desconhecidas por nós. aos quais só falta serem visíveis para se assemelharem aos humanos. se acham temporariamente nas trevas. 15. como não se pode conceber o princípio inteligente isolado da matéria. Os Espíritos possuem todas as percepções que tinham na Terra. antes da invenção do microscópio. o Espírito um ser duplo e o homem um ser triplo. 17. .

constituem. 20. (O Livro dos Espíritos. Pois que os Espíritos podem ir a toda parte. seu futuro. ao nosso lado. totalmente perdidas para nós. que folgam em se juntarem àqueles a que amaram. de modo que o que podíamos esconder a alguém.) 18. se o podemos dizer. por isso ele é a negação das . é o que confirma a experiência. O Espiritismo tem por fim demonstrar e estudar a manifestação dos Espíritos. o conhecimento do Mundo Espiritual. durante a vida terrena. prova que os Espíritos conservam as afeições sérias que tinham na Terra. sua situação feliz ou infeliz. ao passo que se. de sua individualidade depois da morte. no físico. que venham para junto de nós e se sirvam. conduzem à prova irrecusável da existência da alma. sendo averiguadas. até certo ponto. isto é. e. Por sua presença incessante entre nós.° 237. mostram indiferentes para com quem só lhes vota indiferença. e eles os lêem como em um livro aberto. durante a vida terrena. as almas dos nossos parentes e amigos seriam. sobretudo quando são por estes atraídos pelos sentimentos afetuosos que lhes dedicam. suas faculdades. é racional que as suas afeições continuem. A experiência. uma das forças da Natureza. acotovelando-nos e observando-nos sem cessar. Os Espíritos estão em toda parte. eles são os agentes de diversos fenómenos. sem o que. de sua vida futura. ainda nos amem depois da morte. em suma. não mais o podemos depois da sua desencarnação. n.156 ALLAN KARDEC Todos os nossos pensamentos neles se repercutem. é igualmente racional admitir-se que aqueles que nos amaram. desempenham um papel importante no mundo moral. dos meios que encontrem à sua disposição. Desde que se admita a sobrevivência da alma ou do Espírito. de sua sobrevivência ao corpo. 19. Essas manifestações. de fato. para isso. pela morte.

hipócritas.O QUE ffi O ESPIRITISMO 157 doutrinas materialistas. Não sendo mais que as almas dos homens. Uma ideia quase geral. Seria tão ilógico admitir-se que o Espírito de um selvagem ou de um criminoso se torne de repente sábio e virtuoso. como seria contrário à justiça de Deus supor que ele continue perpetuamente em inferioridade." 100. Sendo admitidas a existência. não tanto por meio de raciocínios. devem saber tudo. que conquistam os conhecimentos que lhes faltam. outros são mentirosos. É um grave erro. é em distingui-las que devemos empregar todo o nosso cuidado. n. pelo contrário. possuem as mais sublimes virtudes e o saber em grau desconhecido na Terra. é a de crer que os Espíritos.) COMUNICAÇÃO COM O MUNDO INVISÍVEL 22. Escala Espírita — O Livro dos Mêãmns. Essa diversidade nas qualidades dos Espíritos é um dos pontos mais importantes a considerar. maus e vingativos. mas principalmente por fatos. Seu progresso só se faz com o tempo. XXTV. por explicar a natureza boa ou má das comunicações que se recebem. 21. o Espiritismo reduz-se a uma só questão principal: Serão possíveis as comunicações entre as almas e os inventes? Essa possibilidade foi demonstrada pela experiência. Alguns destes são apenas frívolos e travessos. (O Livro dos Espvritos. uma vez estabelecido o fato das relações entre os mun- . dá-se o mesmo com os Espíritos. entre os que não conhecem o Espiritismo. outros. pelo simples fato de estarem desprendidos da matéria. e não é senão paulatinamente que se despojam das suas imperfeições. fraudulentos. e. de bondade e malvadez. a sobrevivência e a individualidade da alma. os Espíritos não adquirem a perfeição logo que deixam o envoltório terrenal. estar de posse da sabedoria suprema. Como há homens de todos os graus de saber e ignorância. cap.

158 ALLAN KARDEC dos visível e invisível. nestes últimos tempos. bem como conhecidos a natureza. 23. Figuram ser ela um sopro. formando com ele um ser concreto e individual. e que se estes têm o poder de manifestar-se. porque estava nas vistas da Providência pôr termo à praga da incredulidade e do materialismo. o Espiritismo é poderoso elemento de moralização. 24. vir atestar sua existência e revelar-nos sua situação feliz ou infeliz. desde que houve homens. dá em resultado uma incessante reação de cada um deles sobre o outro. aos que deixaram a Terra. sugerindo-lhes pensamentos e influenciando-os. Se. por meio de efeitos apreciáveis aos sentidos. 25. de modo perceptível. abriu-se um novo campo à observação e encontrou-se a chave de grande número de problemas. Fazendo cessar a dúvida sobre o futuro. as suas relações com os viventes nada têm de incompatível com a razão. . O que faz nascer na mente de muitas pessoas a dúvida sobre a possibilidade das comunicações de Além-Túmulo. a considerarmos ainda unida a um corpo fluídico. Os Espíritos atuam sobre os homens ocultamente. deviam tê-lo feito em todas as épocas e entre todos os povos. o princípio e o modo dessas relações. as manifestações dos Espíritos tomaram grande desenvolvimento e adquiriram maior caráter de autenticidade. uma fumaça. e bem assim demonstra que. é a ideia falsa que fazem do estado da alma depois da morte. As relações entre os mundos visível e invisível podem ser ocultas ou patentes. semimaterial. apenas apreensível ao pensamento. Entretanto. mas para lugar tão distante que se custa a compreender que ela possa tornar à Terra. que se evapora e vai não se sabe para onde. uma coisa vaga. com o qual está em contato perpétuo. mediante provas evidentes. Vivendo o mundo invisível no meio do visível. houve também Espíritos. espontâneas ou provocadas. permitindo. ao contrário.

Lê boulánger de Dieppe. Os Espíritos que se tornam visíveis apresentam-se. UEsprit fraipp&ur de Dibbelsdo>rf. os Espíritos se manifestam espontaneamente por pancadas e ruídos. UEsprit frappew de Bergzabe^n. quase sempre. 115. o Espírito pode fazê-lo sofrer uma espécie de modificação molecular que o torna visível e mesmo tangível. Lê chiffommier de Ia rue dês Noyers. .1858. (Revue Spirite. pelo tato. quando batemos para avisar que está alguém à porta. as atribuem a causas sobrenaturais. 236. As que são provocadas. produzem-se. pág. 76. muitas vezes. Lê Fabricwnt de Smnt-Pétersbourg. 184. desenho. pela audição.O QUE É O ESPIRITISMO 159 As manifestações espontâneas se verificam inopinadamente e de improviso. Ainda que invisível para nós no estado normal. tal como nós. se torna visível por condensação. — Idem.) 28. música. págs. invisível quando muito rarefeito. Em certos casos. — Idem. 219. 27. — Idem. — Idem. pela escrita. e alguns chegam mesmo a causar uma perturbação real e verdadeiros estragos. pág. 125. é como se produzem as aparições — fenómeno que não é mais extraordinário que o do vapor que. etc. 153. pág. entre as pessoas mais estranhas às ideias espíritas. caindo. as quais. 1860. produzindo ruídos e movimentos de corpos. móveis lançados ao chão. Os Espíritos podem manifestar-se de muitas maneiras diferentes: pela vista. portas que se abrem e fecham com estrondo. não tendo meios de explicá-las. é muitas vezes um meio que empregam para atestar sua presença e chamar sobre si a atenção. e designados pelo nome de médiuns. com as aparências que tinham em vida e que os podem tornar conhecidos. As vezes. pág. dão-se por intermédio de certos indivíduos dotados para isso de faculdades especiais. Alguns não se limitam a ruídos moderados. mas produzem bulhas imitando louças que se quebram. 26. o perispírito é matéria etérea.

Era por meio do perispírito que o Espírito agia sobre o seu corpo quando vivo. movimentos de mesas e outros objetos que ele levanta. por um eflúvio com que ele os envolve e penetra. a ciência espírita nos forneceu meios de explicá-los. como para adverti-los de já não estar na Terra. veremos quantos fatos autênticos. porém as aparições isoladas são assaz frequentes. como o ar. sobretudo em ocasiões de morte. 30. da dos imponderáveis. Esse fenómeno nada terá de surpreendente. entre nós. hoje. o Espírito. quando deixa o corpo. não só de noite. seja fazendo-o mover-se sem significação determinada. 31. Ê igualmente por meio do perispírito que o Espírito faz os médiuns escreverem. produzindo ruídos. quando ele se quer manifestar. o vapor e a eletricidade. ficou-se sabendo como eles se produzem e que pertencem à classe dos fenómenos naturais. Se passarmos em revista as nossas reminiscências. sem que os percebêssemos convenientemente. falarem ou desenharem. seja produzindo golpes inteli- . desde que. derruba ou transporta. e é ainda com esse mesmo fluido que ele se manifesta agindo sobre a matéria inerte. o Espírito serve-se do corpo do médium. fazendo-os agir como se fossem seus. se deram conosco. porém. os mais poderosos motores se alimentam dos fluidos de maior rarefação e. não possuindo corpo tangível para atuar ostensivamente. e dizer-lhes que ainda vive. dessa ordem.160 ALLAN KARDEC 29. é ainda pelo mesmo meio que o Espírito age sobre o móvel. durante o sono. de cujos órgãos se apossa. No fenómeno designado pelo nome de mesas gvramtes e falcmtes. parece ter pressa de ir ver seus parentes e amigos. se considerarmos que. senão também de dia e em completo estado de vigília. A vidência permanente e geral de Espíritos é muito rara. Outrora consideravam tais fatos como sobrenaturais e maravilhosos e os atribuíam à magia e à feitiçaria. mesmo. os incrédulos os classificam como um produto da imaginação.

porque é absolutamente o mesmo que abraçar a bengala de que se servisse um indivíduo para bater. se nessa ocasião ele pudesse tornar-se visível.O QUE É O ESPIRITISMO 161 gentes. presas de emoção. o Espírito coloca-se ao lado do médium. Nas pancadas que se fazem ouvir na mesa. As pessoas que. e aí o veríamos. acha-se em caso análogo ao da campânula pneumática em que se fez o vácuo. Dá-se o mesmo com as comunicações por escrito. vendo manifestar-se-lhes um ser querido. como o faz com o lápis para escrever. penetrando a mesa. dirigindo-lhe a mão ou transmitindo-lhe o seu pensamento por uma corrente fluídica. como o faria se fosse vivo. dando-lhe vitalidade momentânea. e somente lhe dar. pelo fluido com que a penetra. Por ocasião das comunicações dessa ordem. ou se a madeira se tivesse tornado Espírito. mas ao lado do móvel. como o faz o ar com os balões e papagaios. praticam um ato ridículo. Quando a mesa se levanta do solo e permanece no ar. A mesa não é senão um instrumento de que ele então se serve. segundo a sua vontade. mas não se identifica com ela. o Espírito não se acha na mesa. ou . não é com força braçal que o Espírito a suspende. como se o Espírito se achasse encerrado na madeira. Quando a mesa persegue alguém. para mostrar a analogia dos efeitos e nunca uma absoluta semelhança das causas. abraçam a mesa. O mesmo podemos dizer relativamente àquelas que dirigem a palavra à mesa. indicando as letras do alfabeto para formar palavras e frases. por uma corrente fluídica. e sim pela aça o de uma atmosfera fluídica com que ele a envolve e penetra — fluidos que neutralizam o efeito da gravitação. Quando a mesa descansa no solo. São simples comparações estas. o impulso preciso para que ela se mova. fenómeno este designado pelo nome de tiptotogia. sem ponto de apoio. porque ele pode ficar tranquilamente em seu lugar. dá-lhe momentaneamente maior leveza específica. Esse fluido. não é o Espírito que corre.

nada mais apresentam esses fatos que repugne à razão. 32. ele lança. Nos tempos de ignorância. não é o Espírito quem bate com a mão ou com algum objeto. lei tão natural quanto as da eletricidade. sucessivamente foram restringindo o círculo do maravilhoso. facilmente se compreende a possibilidade de o Espírito erguer no ar uma pessoa. Pertencendo à Natureza. vem explicar-nos grande número de problemas. Assim. Afastado o prisma maravilhoso. E uma só a lei que regula tais fenómenos. de qualquer natureza. julgados sem solução. pode-se ver que as manifestações espíritas. ela é a chave de uma multidão de fenómenos explorados e amplificados pela superstição. são fenómenos que se produzem em virtude da lei que rege as relações do mundo visível com o invisível. porém. uma vez conhecida. nada têm de maravilhoso e sobrenatural. 33. etc. sobre o ponto donde parte o ruído. um jato de fluido que produz o efeito de um choque elétrico e modifica os sons. eram reputados sobrenaturais todos os efeitos cuja causa não se conhecia. da gravitação. a lei que as dirige. só por isso. que o conhecimento da nova lei veio aniquilar. provam. como levantar um móvel qualquer. que falam do que não conhecem. a óptica as da luz. transportar um objeto de um para outro lugar. . ou atirá-lo a qualquer parte.162 ALLAN KARDEC em outra parte qualquer. Aqueles. que acusam o Espiritismo de ressuscitar o maravilhoso. pois. O Espiritismo é a ciência que nos faz conhecer essa lei. como se pode modificar os que são produzidos pelo ar. pois que assim passam a ocupar o seu lugar no meio dos outros fenómenos naturais. as descobertas da Ciência. Pelo pouco que dissemos. etc. como a mecânica nos ensina as do movimento. as manifestações espíritas se deram em todos os tempos.

são Espíritos adiantados no caminho do progresso. mas eaxminai se eles são de Deus. resulta que não basta dirigirmo-nos a um Espírito qualquer para obtermos uma resposta segura 1 a qualquer questão. justas ou falsas. os que se mostram ignorantes e maus. os outros consistem na troca regular de pensamentos por meio de sinais. profundas ou frívolas. É de necessidade que bem conheçamos o caráter daqueles que estão em relação conosco. segundo o seu estado de adiantamento. e ainda dentro dos limites do que lhes é permitido dizer-nos. Os Espíritos só podem responder sobre aquilo que sabem. Da diversidade de qualidades e aptidões dos Espíritos. transportes de objetos. responderá de qualquer forma. se é frívolo ou mentiroso. acerca de muitas coisas. Se ele é prudente. As comunicações que recebemos dos Espíritos podem ser boas ou más. Os que dão provas de sabedoria e erudição. por não ser ainda dado ao homem tudo conhecer. são os ainda atrasados. o Evangelista." A experiência demonstra a sabedoria desse conselho. não deixará de confessar sua ignorância sobre o que não conhece. da escrita. porque. consoante a natureza dos que se manifestam. As manifestações dos Espíritos são de duas naturezas: efeitos físicos e comunicações inteligentes." 267. Os primeiros são os fenómenos materiais ostensivos. tais como os movimentos. sem se importar com a verdade. ruídos. (O Livro dos Médimns. Há imprudência e leviandade em aceitar sem exame tudo o que vem dos Espíritos. 35. a qual pode ser justa ou errónea. 36.. João. da palavra e. porque há coisas que eles não devem revelar. principalmente. mas que com o tempo hão de progredir. n. É por isso que S. se é orgulhoso.) . etc. diz: "Não creiais em todas os Espíritos. apresentará suas ideias como verdades absolutas. ele não nos pode dar mais que a sua opinião pessoal.O QUE fi O ESPIRITISMO 163 34.

ignorantes. lógica e isenta de contradições. ela é concisa e despida de redundâncias. por isso. Ao lado desses encontram-se. Os Espíritos superiores não se ocupam senão de comunicações inteligentes que nos instruam. todo conselho ridículo. mais ou menos. as provas de grande força são executadas por saltimbancos e não por sábios. entre nós. enfim. no mundo espiritual. por verdades. Reconhece-se a qualidade dos Espíritos por sua linguagem. vulgarmente designados sob o nome de Espíritos batedores. nobre. são sinais incontestáveis da inferioridade dos Espíritos. por isso. Na dos Espíritos inferiores. de presunção ou arrogância. conservam-se ainda sob o império dos prejuízos terrestres. E podem induzir-nos em erro. sobre aquilo que nem eles mesmos compreendem. Todo pensamento evidentemente falso. como. espirituosos e divertidos. além disso. e. todos os géneros de perversidade e todos os graus de superioridade intelectual e moral. perspicácia restrita. às vezes. ignorantes ou orgulhosos. a modéstia e a mais pura moral. essencialmente maus. eles não têm das coisas senão uma ideia muitas vezes falsa e incompleta. alguns há que são apenas ignorantes e levianos. Os Espíritos inferiores não são todos. nela se respira a sabedoria. outros pilhéricos.164 ALLAN KARDEC 37. sabendo manejar a sátira fina e mordaz. que eles tomam. toda máxima contrária à sã moral. são incapazes de resolver certas questões. toda manifestação de malevolência. as manifestações físicas ou puramente materiais são. toda expressão grosseira. . a benevolência. seu horizonte moral é limitado. mais especialmente. 38. como na Terra. 40. 39. o vácuo das ideias é quase sempre preenchido pela abundância de palavras. trivial ou simplesmente frívola. a dos Espíritos verdadeiramente bons e superiores é sempre digna. Os Espíritos inferiores são. voluntária ou involuntariamente. obra dos Espíritos inferiores.

de sorte que ninguém pode afirmar que tal Espírito há de responder ao seu apelo em dado momento. sem objetivo sério. Asseverar o contrário é demonstrar ignorância dos princípios mais elementares do Espiritismo. não estão às ordens e à mercê dos caprichos de quem quer que seja. então. As reuniões frívolas. os que as compõem esquecem-se de que. podem entrar no mundo dos Espíritos.O QUE É O ESPIRITISMO 165 41. reconduzir ao bom caminho os que dele se iam afastando. porém. Só o charlatanismo tem princípios infalíveis. ou que há de responder a tal ou tal pergunta que se lhe dirigir. Os Espíritos superiores não vão às reuniões fúteis. O simples bom-senso nos diz que isso não pode ser de outro modo. retiram-se. como um sábio da Terra não vai a uma assembleia de rapazes levianos. se não forem atendidos. faltam a um dever. e não ficarão satisfeitos se os tratarem com pouca atenção. de um momento para outro. Os Espíritos são atraídos pela simpatia. quando entrarmos em comunicação com os Espíritos. a ninguém é dado fazê-los manifestar-se quando não o queiram. Devemos sempre estar calmos e concentrados. semelhança de gostos. caracteres e intenção dos que desejam a sua presença. Forma juízo completamente erróneo aquele que crê que Espíritos sérios se prestem a responder a futilida- . Outro ponto igualmente essencial a considerar é que os Espirites são livres e só se comunicam quando querem. com quem lhes convém e quando as suas ocupações lho permitem. combater os vícios. eles aí se mostram algumas vezes. se acaso. nunca se deve perder de vista que eles são as almas dos homens e que é inconveniente fazer do seu trabalho um passatempo ou pretexto de divertimentos. é somente com o fim de dar um conselho salutar. Se lhes respeitamos os despojos mortais. maior respeito ainda nos devem merecer como Espíritos. 42. nem dizer o que desejem calar. 43.

Convém não esquecer que se esses mesmos Espíritos aí se tivessem apresentado. O que. quando encarnados. que têm por fim. que o vemos comover-se e empalidecer.166 ALLAN KARDEC dês. pode convencê-lo. gravidade e recolhimento. de suas revelações íntimas. . é a prova da presença de seres cuja memória lhe é cara. para convencer os incrédulos. não pode ver uma coisa séria naquilo de que se zomba. retira-se sempre com má impressão das reuniões fúteis e levianas. A frivolidade das reuniões dá como resultado atrair os Espíritos levianos que só procuram ocasião de enganar e mistificar. ter-se-ia com eles todas as considerações. por isso. deve. a questões ociosas em que se lhes manifeste pouca afeição. falta de respeito e nenhum desejo de se instruir. eles não o fariam. O incrédulo. onde não encontra ordem. como condição primacial. é diante de suas palavras graves e solenes. Ê nessas assembleias que os Espíritos superiores dão ensinamentos. ser séria. 46. mortos. Vivos. em recolhimento. religiosidade e dignamente. 45. também o não fazem. não a curiosidade. devendo aí proceder-se com respeito. Pelo mesmo motivo que os homens graves e sérios não comparecem às assembleias de medíocre importância. se se quer obter o concurso habitual dos bons Espíritos. a que depois de desencarnados ainda têm mais direito. 44. resulta que toda reunião espírita. frívolas e divertidas. é a um resultado contrário que se chega. porém. já propenso a escarnecer das mais sagradas crenças. Do que precede. e ainda menos que eles venham dar-se em espetáculo para desfastio dos curiosos. os Espíritos sérios só comparecem às reuniões sérias. nem pode respeitar o que lhe não é apresentado de modo respeitável. sobretudo. Em vão se alega a utilidade de certas experiências curiosas. para ser proveitosa. a instrução.

O pouco que a respeito temos dito. que nunca fez milagres. da qual deram a chave. algumas crêem que elas consistem em fazer sair da tumba os mortos. não produz este e jamais pretendeu fazer reviver um corpo morto. Quando o corpo está na tumba. se não têm a importância do ensino filosófico. envoltos em mortalhas e fazendo chocalhar os ossos. pois que são o alfabeto da ciência.O QUE É O ESPIRITISMO 167 Mas. a todos os respeitos. deverá dissipar tal erro. não sairá mais dela. são elas incompatíveis com a ordem e a decência que deve haver nessas reuniões experimentais. Certas pessoas fazem uma ideia muito falsa das evocações. muitas vezes. por isso tacha tudo de charlatanismo e. nos contos fantásticos de alma. que assim acham fundados motivos para zombarias. elas ainda concorrem para a convicção de algumas pessoas. além de que. prestam-se à crítica dos detratores. porém. aí não se . o ser espiritual. convenceriam com mais facilidade e produziriam. se sempre as praticassem convenientemente. têm sua utilidade do ponto de vista dos fenómenos. incrédulo como é. veneração e amor à pessoa cuja alma se lhe apresenta. pelo fato mesmo de ele ter respeito. saindo dos sepulcros.3 do outro mundo e no teatro que aparecem os mortos descarnados. Ainda que menos necessárias hoje. Erra quem considera brinquedo as manifestações físicas. De nenhum modo. fica chocado e escandalizado ao vê-la mostrar-se em uma assembleia irreverente. 48. sai menos convicto do que entrou. porém. com todo o aparato lúgubre. no meio de mesas que dançam e das gatimanhas dos Espíritos brincalhões. É só nos romances. 47. do religioso com o profano. As reuniões dessa natureza fazem sempre mais mal que bem. porque afastam da doutrina maior número de pessoas do que atraem. muito melhores resultados. sua consciência repele essa aliança do sério com o ridículo. O Espiritismo. fluídico e inteligente.

do qual se separou no momento da morte. e dar aos crentes ideias mais justas sobre o futuro. com respeito e recolhimento. para nos comunicarmos com os Espíritos. tão simples e naturalmente como se fossem ditadas por uma pessoa viva. nem de iniciação. sem que saiam do estado normal. e. para evocá-los. seja para repeli-los. Só o chsrlatanismo pode inventar o emprego de modos excêntricos e acessórios ridículos. não existem fórmulas nem palavras sacramentais ou cabalísticas. que só servem para provar sua ignorância ou má-vontade. se esses homens que falam do Espiritismo. A crítica malévola representou as comunicações espiritas como mescladas pelas práticas ridículas e supersticiosas da magia e da nigromancia. que não se precisa para isso de preparação alguma. O apelo aos Espíritos faz-se em nome de Deus. O fim providencial das manifestações é convencer os incrédulos de que tudo para o homem não se acaba com a vida terrestre. 49.168 ALLAN KARDEC acha com esse grosseiro invólucro. não há dias. horas e lugares mais propícios uns que os outros. uma vez operada essa separação. teriam poupado esses desperdícios de imaginação. sem conhecê-lo. seja para atraí-los. . FM PROVIDENCIAL DAS MANIFESTAÇÕES ESPIRITAS 50. As pessoas estranhas à ciência cumpre-nos dizer que. não exerce efeito algum. é a única coisa que se recomenda às pessoas sérias que desejem entrar em relação com Espíritos sérios. que o emprego de qualquer sinal ou objeto material. bastando só o pensamento. nada mais há de comum entre eles. que. que os médiuns recebem as comunicações. e. se dessem ao trabalho de estudá-lo. finalmente.

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Os bons Espíritos nos vêm instruir para nosso melhoramento e avanço e não para revelar-nos o que não devemos saber ainda, ou o que só deve ser conseguido pelo nosso trabalho. Se bastasse interrogar os Espíritos para obter a solução de todas as dificuldades científicas, ou para fazer descobertas e invenções lucrativas, todo ignorante podia tornar-se sábio sem estudar, todo preguiçoso ficar rico sem trabalhar; é o que Deus não quer. Os Espíritos ajudam o homem de génio pela inspiração oculta, mas não o eximem do trabalho nem das investigações, a fim de lhe deixar o mérito. 51. Faria ideia bem falsa dos Espíritos, quem neles quisesse ver auxiliares dos leitores da buema-dicha. Os Espíritos sérios se recusam a ocupar de coisas fúteis; os frívolos e zombeteiros tratam de tudo, respondem a tudo, predizem tudo o que se quer, sem se importarem com a verdade, e encontram maligno prazer em mistificar as pessoas demasiado crédulas. Neste caso, é essencial conhecer-se perfeitamente a natureza das perguntas que se podem dirigir aos Espíritos. (O Livro aos Médiuns, n." 286: Perguntas que se podem fazer aos Espíritos.) 52. Fora do terreno do que pode ajudar o nosso progresso moral, só há incerteza nas revelações que se podem obter dos Espíritos. A primeira consequência má, para aquele que desvia sua faculdade do fim providencial, é ser mistificado pelos Espíritos enganadores que pululam ao redor dos homens; a segunda é cair sob o domínio desses mesmos Espíritos, que podem, por pérfidos conselhos, conduzi-lo a adversidades reais e materiais na Terra; a terceira é perder, depois da vida terrestre, o fruto do conhecimento do Espiritismo. 53. As manifestações não são, pois, destinadas a servir aos interesses materiais; sua utilidade está nas

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consequências morais qilas dimanam; não tivessem, elas, porém, como resu senão fazer conhecer uma nova lei da Natureza, dstrar materialmente a existência da alma e sua irridade, e já isso seria muito, porque era largo caminJvo aberto à Filosofia. DO3DIUNS 54. Os médiuns antam numerosíssimas variedades nas suas aptidõejue os torna mais ou menos próprios para obtenção ;al ou tal fenómeno, de tal ou tal género de comuão. Segundo essas apti distinguimo-los por médiuns de efeitos físicos, de ocoações inteligentes, videntes, falantes, auditivos, sens, desenhadores, -poliglotas, poetas, músicos, escrev, etc. Não devemos esper médium aquilo que está fora dos limites da sua face. Sem o conhecimeias aptidões mediúnicas, o observador não pode a a explicação de certas dificuldades ou de certas isibilidades que se encontram na prática. (O Livro dddxwis, cap. XVI, n.° 185.) 55. Os médiuns eitos físicos são mais particularmente aptos paravocar fenómenos materiais, como movimentos, pan< etc., com o auxílio de mesas e outros objetos; quaísses fenómenos revelam um pensamento ou obedea uma vontade, são efeitos inteligentes que, por mesmo, denotam uma causa inteligente: é um doslos por que os Espíritos se manifestam. Por meio de um mi de pancadas convencionadas, obtêm-se as respostas ,u não, ou, então, a designação das letras do alfabeto servem para formar palavras ou frases. Esse meio ]tivo é muito demorado e não se presta a grandes dolvimentos. As mesas falanteam a estreia da ciência; hoje, porém, que se possueiros de comunicação tão rápidos

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e completos como entre os viventes, ninguém mais recorre àqueles senão acidentalmente e como experimentação. 56. De todos os meios de comunicação, a escrita é, ao mesmo tempo, o mais simples, o mais rápido, o mais cómodo, e que permite mais desenvolvimento; é também a faculdade que se encontra mais frequentemente. 57. Para obter a escrita serviram-se, no princípio, de intermediários materiais, como cestinhas, pranchetas, etc., munidas de um lápis. (O Livro dos Médmms, capítulo XIII, n."s 152 e seguintes.) Mais tarde, reconheceu-se a inutilidade desses acessórios e a possibilidade, para os médiuns, de escrever diretamente com a mão, como nas circunstâncias ordinárias. 58. O médium escreve sob a influência dos Espíritos, que se servem dele como de um instrumento; sua mão é arrastada por um movimento involuntário, que, o mais das vezes, não pode dominar. Certos médiuns não têm consciência alguma do que escrevem, outros a têm mais ou menos vaga, ainda quando o pensamento lhes seja estranho; é o que distingue os médiuns <m0oânioos dos médiuns intuitivos ou semimecámiicos. A ciência espírita explica o modo de transmissão do pensamento do Espírito ao médium, e o papel deste últimos nas comunicações. (O Livro dos Médiuns, cap. XV, n.°s 179 e seguintes; cap. XIX, n.°s 223 e seguintes.) 59. O médium não tem mais que a faculdade de se poder comunicar, mas a comunicação efetiva depende da vontade dos Espíritos. Se estes não quiserem manifestar-se, aquele nada obterá; será qual instrumento sem músico que o toque. Visto que os Espíritos só se comunicam quando querem ou podem, não estão sujeitos ao capricho de ninguém; nenhum médium tem o poder de forçá-los a se apresentwem. Isto explica a intermitência da faculdade nos melhores médiuns, e as interrupções que sofrem, às

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vezes, durante muitos meses. Seria, pois, um erro comparar a mediunidade a uma propriedade do talento. O talento adquire-se pelo trabalho, quem o possui é sempre dele senhor; ao passo que o médium nunca o é de sua faculdade, pois que ela depende de vontade estranha. 60. Os médiuns de efeitos físicos que obtêm, regularmente e à vontade, a produção de certos fenómenos, admitindo que nãç> haja embuste, estão em relação com Espíritos de baixa esfera que se comprazem nessa espécie de exibições, e que talvez foram prestidigitadores quando na Terra; seria, porém, absurdo pensar que Espíritos, mesmo de pouca elevação, se divirtam em executar farsas teatrais. 61. A obscuridade necessária à produção de certos efeitos físicos, presta-se, sem, dúvida, à suspeita, mas nada prova contra a realidade deles. Sabemos que em Química algumas combinações não podem ser operadas à luz; que muitas composições e decomposições se produzem sob a ação do fluido luminoso; ora, todos os fenómenos espíritas são resultantes de uma combinação dos fluidos próprios do Espírito com os do médium; desde que esses fluidos são matéria, não admira que, em certas circunstâncias, essa combinação seja contrariada pela presença da luz. 62. As comunicações inteligentes realizam-se igualmente pela ação fluídica do Espírito sobre o médium, sendo preciso que o fluido deste último se identifique com o do Espírito. A facilidade das comunicações depende do grau de afimctade existente entre os dois fluidos. Cada médium é assim mais ou menos apto para receber a impressão ou a impulsão do pensamento de tal ou tal Espírito; podendo ser bom instrumento para um e péssimo para outro. Resulta daí que se achando juntos dois médiuns, igualmente bem dotados, poderá o Espírito manifestar-se por um e não por outro.

A assimilação fluídica é tão municações pela tiptologia como pela tanto num como noutro caso. em vez do Espírito que se deseja. de preferência. visto que. ou mesmo durante alguns minutos. 64. impor-lhes o primeiro médium que tenhamos à mão. Não existem médiuns universais para as evocações. é o que explica a maior facilidade com que os Espíritos se manifestam pelo médium com que estão mais habituados. totalmente impossível entre certos Espíritos e certos médiuns. não faltam outros sempre prontos a manifestarem-se e que pouco se importam com a verdade. incompletas ou falsas. Não se pode impor um médium ao Espírito que se quer evocar. que só pode nascer da assimilação fluídica. 65. se trata pensamento do Espírito. pode ela tocar qualquer instrumento. porque. pelo recolhimento e pela prece. seria o mesmo que obrigar uma pianista a tocar violino. qualquer que rial por que ela se faça. A assimilação fluídica é. 66. de modo a . da transmissão do seja o meio mate- 67. nem com aptidão para produzir todos os fenómenos. os instrumentos que lhes sejam mais apropriados. Sem a harmonia. Em todo o caso. algumas vezes. é necessário que o médium se identifique previamente com o Espírito.O QUE É O ESPIRITISMO 173 63. supondo que. por saber música. com igual facilidade. Os Espíritos buscam. e também porque as primeiras comunicações atestam quase sempre certo constrangimento e são menos explícitas. as comunicações são impossíveis. necessária nas coescrita. convindo deixar-lhe a escolha do instrumento. Podem ser falsas. fi um erro acreditar-se que basta ser médium para receber. outras vezes — e é o caso mais comum — ela não se estabelece senão gradualmente e com o tempo. e mesmo muitos dias antes se for possível. comunicações de qualquer Espírito.

demonstradas pelos nomes. ela pode fazer-se por intermédio do guia espiritual deste último. 68. a influência do meio. 69. mais ou menos imponentes. Qualquer que seja o modo de comunicação. Aqui as qualidades pessoais do médium desempenham forçosamente um papel importante. se ele o for por um Espírito obsessor. conhecer a causa de todos os fenómenos. (O Lwro aos Médiuns. o pensamento não vem senão em segunda mão. os mais seguros são os que a esse poder reúnem as melhores simpatias no mundo espiritual. do ponto de vista experimental. Os mais indignos médiuns podem possuir poderosas faculdades. então. Quer se experimente mesmo. essas simpatias não ficam. Quando as condições fluídicas não são propícias à comunicação direta do Espírito ao médium. pedindo o impossível. quer se seja simples observador das experiências de outrem. as condições em que se podem produzir.) . é essencial saber distinguir as diferentes naturezas dos Espíritos que se podem manifestar. neste caso. algwma. sim. porque. pelo fundo constamtemente bom das mesmas. a comunicação será necessariamente adulterada. -ignorante ou orgulhoso. a prática do Espiritismo. pela natureza dos Espíritos que ele atrai a si. de forma. etc. os obstáculos que lhe podem ser opostos.174 ALLAN KARDEC provocar e ativar a assimilação fluídica. mas. revestidos pelos Espíritos que assinam as comunicações. Não é menos necessário conhecer todas as condições e escolhos da mediunidade. ora. Compreende-se." parte. apresenta numerosas dificuldades e não é isenta de inconvenientes para quem não tem a experiência necessária. depois de haver atravessado dois meios. a fim de que se não perca tempo. isto é. 2. das disposições morais. porém. É um meio de se atenuar a dificuldade. quanto é importante ser o médium bem assistido.

mesmo. XXIII. e do qual deseja desembaraçar-se. isto é. impondo-se-lhes sob nomes apócrifos e impedindo que se comuniquem com outros Espíritos. acaba por se retirar. fazendo-lhe achar sublimes os maiores absurdos. cap. a encher-se de inveja contra . do qual o médium se liberta. A obsessão apresenta três graus principais bem característicos: a obsessão simples. mais indispensável é ao médium. O Espírito. cansando-se de não ser ouvido. deixando momentaneamente de escrever. é pouca toda a recomendação para que o estudo preceda à prática. a ponto de impedi-lo de julgar as comunicações que recebe. Se o estudo prévio. A fascinação obsessional è muito mais grave. a repelir e. ele não se ilude acerca da natureza do Espírito que se obstina em se lhe manifestar. No primeiro.O QUE É O ESPIRITISMO ESCOLHOS DA MEDIUNIDADE 175 70. neste caso. preferindo romper com os amigos a convencer-se de que está sendo enganado. <a fascinação e a subjugação. o médium tem perfeitamente consciência de não obter coisa alguma boa. Este caso não oferece gravidade alguma: é um simples incómodo. (O Làwro 'dos Médiwns. considerar mau todo conselho e toda observação crítica. justo e verdadeiro senão o que ele escreve.) 71. desconhecendo a medicina. "Um dos maiores escolhos da mediunidade é a obsessão. o domínio que certos Espíritos podem exercer sobre os médiuns. como aquele que. O caráter distintivo deste género de obsessão é provocar no médium uma excessiva suscetibilidade e levá-lo a não acreditar bom. porque nela o médium é completamente iludido. não conhecendo os caracteres desse fenómeno. pode ser iludido pelas aparências. é útil para o observador. O Espírito que o domina apodera-se de sua confiança. Ê também um obstáculo que se depara a todo observador novato e inexperiente que. a quem fornece os meios de prevenir um inconveniente que lhe poderia trazer bem desagradáveis consequências. pode enganar-se sobre a causa e natureza de qualquer mal. Assim.

porém uma força . sendo diversa a causa. movimentos bruscos e desordenados. e tem-se necessidade de libertar o doente de um inimigo invisível. Na loucura propriamente dita. compreende o ridículo. a simples impressões desagradáveis. das quais se afasta quando não pode dominá-las. é calma. na subjugação. branda e agradável. a querer impor-se nas reuniões espíritas. Um dos caracteres distintivos dos maus Espíritos é a imposição. retiram-se. determinar o aparecimento de uma verdadeira loucura. dão conselhos. porém. 73. A subjugação óbsessiomal. Ela se limita. palavras injuriosas ou incoerentes. é um constrangimento físico exercido sempre por Espíritos da pior espécie e que pode ir à neutralização do livre-arbítrio do paciente. não lhe opondo remédios materiais. eles dão ordens e querem ser obedecidos. gritos. fatigante e muitas vezes desagradável. essa causa é externa. designada outrora sob o nome de possessão. Este estado difere essencialmente da loucura patológica com que erradamente a confundem. às vezes. outros devem ser também os meios de curá-la. A aplicação do processo ordinário das duchas e tratamentos corporais poderá. a causa do mal é interna. a dos bons. 74. ela provoca uma agitação febril. de que o subjugado. pelo contrário. muitas vezes provoca movimentos desordenados. onde só havia uma causa moral. Resulta daí que a impressão que em nós produzem os maus Espíritos é sempre penosa. atos insensatos. e. os bons nunca se impõem. Essa atuação do Espírito pode chegar ao ponto de ser o indivíduo conduzido a dar os passos mais ridículos e comprometedores.176 ALLAN KARDBC os outros médiuns cujas comunicações sejam julgadas melhores que as suas. muitas vezes. mas não pode abster-se. muitas vezes. 72. pois na possessão não há lesão orgânica alguma. se não são atendidos. importa restituir o organismo ao seu estado normal.

os exorcismes produziram resultado satisfatório: antes agravaram que minoraram a situação. a mediunidade não é uma causa. que escapam às investigações da medicina. quando. não admitem essa causa oculta. uma falange de Espíritos maus se lança sobre uma povoação.) 75. Foi um fenómeno desse género que se verificou ao tempo do Cristo. muitas vezes atribuídos a enfermidades misteriosas. mas simples modo de manifestação dessa influência. porém. em grande número de pessoas que nunca ouviram falar de Espiritismo. pelo que podemos dizer com certeza que todo médium obsidiado sofre de um modo qualquer e. A subjugação obsessional é ordinariamente individual. têm sempre exercido a mesma influência. só um poder moral superior podia então domar esses entes malfazejos. só o Espiritismo pode dar os meios de combatê-lo. 76. os Espíritos. designados sob o nome de demónios. muitas vezes. Um fato importante a considerar-se é que a obsessão. ela pode apresentar caráter epidêmico. é um inimigo oculto. março e junho de 1864. fevereiro. nos atos mais comuns da sua vida. chega-se a torná-lo melhor e a fazê-lo renunciar voluntariamente à atormentação do enfermo. De fato. de quem se não desconfia. se manifestaria por outros efeitos. n. principalmente do último. Indicando a verdadeira fonte do mal. em tal caso. — Revue Spvrite. e que ela se encontra. sem a mediunidade. por conselhos prudentemente dirigidos." 279. 77. fazendo a educação moral do Espírito obsessor. Pela mediunidade o ente maléfico denuncia a sua presença. (O Lwro dos Medi/uns. os efeitos dessa influência que. é independente da mediunidade. qualquer que seja a sua natureza. mas. e restituir a calma às suas vítimas. Os que repelem tudo que não afete os nossos sentidos. de todos os graus. tendo existido em todos os tempos. A experiência prova que nunca. — La jeune obséãée de Marmcunde.O QUE É O ESPIRITISMO 177 moral superior à dele. que então fica livre. sem ela. quando a .

indispensável ao médium que se não quer expor a cair num laço. reconhecerá na ação do mundo invisível que nos cerca. tanto nos mais dignos. A boa ou má qualidade de um médium não deve ser julgada pela facilidade com que ele obtém comunicações. segundo a simpatia que lhe votam. pois. ela se nos mostra. Como a obsessão nunca pode ser produto de um bom Espírito. O conhecimento prévio dos meios de distinguir os bons dos maus Espíritos é. retira-se. porém. Os Espíritos bons se comunicam mais ou menos de boa-vontade por esse ou aquele médium. e o Espírito. A faculdade mediúnica é uma propriedade do organismo e não depende das qualidades morais do médium. algumas vezes. vendo que nada pode fazer. (O Livro dos Médiuns. cap. mas o prevenido percebe o menor sinal suspeito. Não se dá. 80. será um novo caminho aberto ao progresso e a chave de grande número de fenómenos até hoje mal compreendidos. que pode. 78. o mesmo com a preferência que os Espíritos bons dão ao médium. mas por sua aptidão em recebê-las boas e em não ser ludibriado pelos Espíritos levianos e enganadores. XXIV. O médium não esclarecido pode ser enganado pelas aparências.178 ALLAN KARDEC Ciência tiver saído da senda materialista.) QUALIDADES DOS MÉDIUNS 79. um poder que reage sobre as coisas físicas. Os médiuns menos moralizados recebem também. desenvolvida. excelentes comunicações. 81. assim como sobre as morais. Ele o é também ao simples observador. que não . apreciar o justo valor do que vê e ouve. torna-se um ponto essencial o saber reconhecer-se a natureza dos que se apresentam. e no meio do qual vivemos. como nos mais indignos. por esse meio.

médium ou não. Resulta daí que os médiuns imperfeitos. que. muitas vezes. primeiro. Retirando-se os bons Espíritos. pelo qual dê acesso aos maus Espíritos. os que não procuram emendar-se. pessoa assaz perfeita. para não ter algum lado fraco. Quanto à sua faculdade. e. não pode recusar assistência àqueles que mais necessitam dela. que os maus venham. 82. o erro. e aqueles que desanimam. às vezes. Se eles os desprezam. querendo dar um ensino útil a todos. com algumas decepções. O virtuoso missionário que vai moralizar os criminosos. tão bela no começo e que assim devia ter sido conservada. maior será a sua culpa. porém. mesmo na vida terrena. porque são eles que lavram a sua própria condenação. os conduzem à ruína e às maiores desgraças. que pouco se importam com as más qualidades morais do médium. os bons Espíritos. os inferiores. afinal. tarde ou cedo são presas dos maus Espíritos. nunca. Deus. segundo. servem-se do instrumento que têm à mão. a fim de exercitarmos a nossa razão. não faz mais que os bons Espíritos com os médiuns imperfeitos. perverte-se pelo abandono dos bons Espíritos. cuja bondade é infinita. entre nós. desaparece. aprendermos a distinguir a verdade do erro e ficarmos de prevenção. o que não deve ser motivo de espanto: é muitas vezes no interesse dos médiuns e com o fim de dar-lhes sábios conselhos. dão . qualquer que seja o nome que o apadrinhe. porém. porque não há ainda.O QUE Ê O ESPIRITISMO 179 podem vir senão de bons Espíritos. deixam-no logo que encontram outro que lhes seja mais afim e melhor se aproveite de suas lições. Os médiuns de mais mérito não estão ao abrigo das mistificações dos Espíritos embusteiros. De outra sorte. um Espírito bom nos virá enganar. não aceitando cegamente e sem exame tudo quanto nos venha dos Espíritos. acham então o campo livre. vem de uma fonte má. porque os bons Espíritos permitem mesmo. moralmente falando. Essas mistificações ainda podem ser uma prova para a paciência e perseverança do espírita.

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prova aos bons Espíritos de que não são instrumentos com que eles possam contar. 83. Não nos deve admirar ver maus Espíritos obsidiarem pessoas de mérito, quando vemos na Terra homens de bem perseguidos por aqueles que o não são. É digno de nota que, depois da publicação de O Livro dos Médiuns, o número de médiuns obsidiados diminuiu muito; os médiuns, prevenidos, tornam-se vigilantes e espreitam os menores indícios que lhes podem denunciar a presença de mistificadores. A maioria dos que se mostram ainda nesse estado não fizeram o estudo prévio recomendado, ou não deram importância aos conselhos que receberam. 84. O que constitui o médium, propriamente dito, é a faculdade; sob este ponto de vista, pode ser mais ou menos formado, mais ou menos desenvolvido. O médium seguro, aquele que pode ser realmente qualificado de bom médium, é o que aplica a sua faculdade, buscando tornar-se apto a servir de intérprete aos bons Espíritos. O poder que tem o médium de atrair os bons e repelir os maus Espíritos, está na razão da sua superioridade moral, da posse do maior número de qualidades que constituem o homem de bem; é por esses dotes que se concilia a simpatia dos bons e se adquire ascendência sobre os maus Espíritos. 85. Pelo mesmo motivo, as imperfeições morais do médium, aproximando-o da natureza dos maus Espíritos, tiram-lhe a influência necessária para afastá-los de si; em vez de se impor, sofre a imposição destes. Isto não só se aplica aos médiuns, como também a todos indistintamente, visto que ninguém há que não esteja sujeito à influência dos Espíritos. (Vede acima, números 74 e 75.) 86. Para impor-se ao médium, os maus Espíritos sabem explorar habilmente todas as suas fraquezas, e,

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entre os nossos defeitos, o que lhes dá margem maior é o orgulho, sentimento que se encontra mais dominante na maioria dos médiuns obsidiados e, principalmente, nos fascinados. É o orgulho que faz se julguem infalíveis e repilam todos os conselhos. Esse sentimento é infelizmente excitado pelos elogios de que são objeto; basta que um médium apresente faculdade um pouco transcendente, para que o busquem, o adulem, dando lugar a que ele exagere sua importância e se julgue como indispensável, o que vem a perdê-lo. 87. Enquanto o médium imperfeito se orgulha pelos nomes ilustres, frequentemente apócrifos, que assinam as comunicações por ele recebidas e se considera intérprete privilegiado das potências celestes, o bom médium nunca se crê assaz digno de tal favor; ele tem sempre uma salutar desconfiança do merecimento do que recebe e não se fia no seu próprio juízo; não sendo senão instrumento passivo, compreende que o bom resultado não lhe confere mérito pessoal, como nenhuma responsabilidade lhe cabe pelo mau; e que seria ridículo crer na identidade absoluta dos Espíritos que se lhe manifestam. Deixa que terceiros, desinteressados, julguem do seu trabalho, sem que o seu amor-próprio se ofenda por qualquer decisão contrária, do mesmo modo que um ator não se pode dar por ofendido com as censuras feitas à peça de que é intérprete. O seu caráter distintivo é a simplicidade e a modéstia; julga-se feliz com a faculdade que possui, não por vanglória, mas por lhe ser um meio de tornar-se útil, o que faz de boamente quando se lhe oferece ocasião, sem jamais incomodar-se por não o preferirem aos outros. Os médiuns são os intermediários, os intérpretes dos Espíritos; ao evocador e, mesmo, ao simples observador, cabe apreciar o mérito do instrumento. 88. Como todas as outras faculdades, a mediunidade é um dom de Deus, que se pode empregar tanto para o bem quanto para o mal, e da qual se pode abusar. Seu fim é pôr-nos em relação direta com as almas da-

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queles que viveram, a fim de recebermos ensinamentos e iniciações da vida futura. Assim como a vista nos põe em relação .com o mundo visível, a mediunidade nos liga ao invisível. Aquele que dela se utiliza para o seu adiantamento e o de seus irmãos, desempenha uma verdadeira missão e será recompensado. O que abusa e a emprega em coisas fúteis ou para satisfazer interesses materiais, desvia-a do seu fim providencial, e, tarde ou cedo, será punido, como todo homem que faça mau uso de uma faculdade qualquer. CHARLATANISMO 89. Certas manifestações espíritas facilmente se prestam à imitação; porém, apesar de as terem explorado os prestidigitadores e charlatães, do mesmo modo que o fazem com tantos outros fenómenos, é absurdo crer-se que elas não existam e sejam sempre produto do charlatanismo. Quem estudou e conhece as condições normais em que elas se dão, distingue facilmente a imitação da realidade; além disso, aquela nunca pode ser completa e só ilude o ignorante, incapaz de distinguir as diferenciações características do fenómeno verdadeiro. 90. As manifestações que se imitam, com mais facilidade, são as de efeitos físicos e as de efeitos inteligentes vulgares, como movimentos, pancadas, transportes, escrita direta, respostas banais, etc.; não se dá o mesmo, porém, com as comunicações inteligentes de subido alcance; para imitar aquelas, bastam destreza e habilidade; ao passo que, para simular as últimas, se torna necessária, quase sempre, uma instrução pouco comum, uma superioridade intelectiva excepcional, uma faculdade de improvisação universal, se assim nos permitem classificá-la.

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91. Os que não conhecem o Espiritismo, são geralmente induzidos a suspeitar da boa-fé dos médiuns; só o estudo e a experiência lhes poderão fornecer os meios de se certificarem da realidade dos fatos; fora disso, a melhor garantia que podem ter está no desinteresse absoluto e na probidade do médium; há pessoas que, por sua posição e caráter, estão acima de qualquer suspeita. Se a tentação do lucro pode excitar à fraude, o bpm-senso diz que o charlatanismo não se mostra onde nada tem a ganhar. (O Livro dos Médiuns, cap. XXVIII; Charlatanisimo e embuste, médiuns vnteressevros, fraudes espíritas, n." 300. — Revue Spirite, 1862, pág. 52.) 92. Entre os adeptos do Espiritismo, encontram-se entusiastas e exaltados, como em todas as coisas; são, em geral, os piores propagadores, porque a facilidade com que, sem exame, aceitam tudo, desperta desconfiança. O espírita esclarecido repele esse entusiasmo cego, observa com frieza e calma, e, assim, evita ser vítima de ilusões e mistificações. À parte toda a questão de boa-fé, o observador novato deve, antes de tudo, atender à gravidade do caráter daqueles a quem se dirige. IDENTIDADE DOS ESPÍRITOS 93. Uma vez que no meio dos Espíritos se encontram todos os caprichos da humanidade, não podem deixar de existir entre eles os ardilosos e os mentirosos; alguns não têm o menor escrúpulo de se apresentar sob os mais respeitáveis nomes, com o fim de inspirarem mais confiança. Devemos, pois, abster-nos de crer de um modo absoluto na autenticidade de todas as assinaturas de Espíritos. 94. A identidade é uma das grandes dificuldades do Espiritismo prático, sendo muitas vezes impossível verificá-la, sobretudo quando se trata de Espíritos superiores, antigos relativamente à nossa época.

da mesma categoria da sua. 95. segundo o género de faculdade do seu intérprete e. como ainda um enviado seu. é a personalidade que interessa. com as pessoas a quem ama: são as melhores provas. inteiramente secundária e seria pueril atribuir-lhe importância.184 ALLAN KARDEC Entre os que se manifestam. se é bom ou mau. que geralmente emprega para isso quem não conhece o Espiritismo. patenteadas nas comunicações. para fixar as nossas ideias. nas quais se refletem seus hábitos. o que importa é a natureza do ensino. digno ou indigno da personagem que o assina. sobretudo se elas partirem de pessoas que lhe são indiferentes. eles podem tomar o de um Espírito conhecido. A identidade é de mais fácil verificação quando se trata de Espíritos contemporâneos. com intuito de curiosidade ou de prova. de modo que. senão imperfeitamente. porém. caráter. A questão da identidade é. O Espírito revela sua identidade por grande número de circunstâncias. O Espírito demonstra a sua identidade como quer e pode. por exemplo. nada nos prova que seja precisamente o apóstolo desse nome. são insuficientes e podem induzir a erro. Ela se revela ainda nos detalhes íntimos em que entra espontaneamente. mas. muitos não têm nomes para nós. de modo incontestável. o erro . porque é por esses mesmos hábitos e particularidades da vida privada que a identidade se revela mais seguramente e. 96. tanto pode ser ele como outro da mesma ordem. neste caso. Quando se evoca um parente ou um amigo. muitas vezes. se um Espírito se comunicar com o nome de S. se esta o subscreveria ou repeliria: eis a questão. linguagem e até locuções familiares. então. cujo caráter e hábitos sejam conhecidos. Pedro. é muito raro. essas provas são superabundantes. às vezes. e então é muito natural buscar-se reconhecer a identidade. que ele satisfaça às perguntas diretas que lhe são feitas a esse respeito. os meios. porém.

Sobre grande número de pontos. radicalmente contraditórias no fundo. e conservar ainda um reflexo dos prejuízos terrestres de que se não despojaram. mas os Espíritos superiores nunca se contradizem. não podem causar admiração senão àqueles que só possuem da ciência espírita um conhecimento incompleto. que pode ser mais ou menos acertada. trazem o mesmo nome respeitável.O QUE Ê O ESPIRITISMO 185 está em querer que ele as dê. que. pág. 1862. Espantam-se de encontrarem comunicações contraditórias assinadas por um mesmo nome. — Revue Spirite. em que nem sempre estejam de acordo. sobre aquilo que ainda não conhecem. sabe-se com que facilidade certos Espíritos adotam nomes diferentes. há de surpreendente. não sabem as coisas senão na razão do seu adiantamento. Nada. 82: Fait d'id0ntí. na linguagem dos Espíritos. pois são a consequência da natureza mesma dos Espíritos. é submeter todas as comunicações ao exame severo da razão. (O Livro dos Méditutns. como deseja o evocador. particularmente no que diz respeito a questões científicas e à origem das coisas. Dois meios podem servir para fixar as ideias sobre as questões duvidosas: o primeiro. 98. XXIV. pois. Por pouco que se esteja iniciado nos mistérios do mundo espiritual. é então que ele recusa sujeitar-se às exigências. como já dissemos. As contradições que frequentemente se notam. disso com segurança se pode inferir que se duas comunicações.té. do bom-senso . eles não emitem mais que a sua opinião pessoal. para dar mais peso às suas palavras. Identidade dos Espíritos. uma delas é necessariamente apócrifa. cap. outros forjam sistemas seus.) CONTRADIÇÕES 97. sendo que muitos podem saber menos que certos homens. Somente os Espíritos inferiores mudam de linguagem com as circunstâncias. 99.

— Revue Spirite. nos revelam suas alegrias ou seus sofrimentos. segundo o modo por que empregaram o tempo de vida terrena. Ante a incerteza das revelações feitas pelos Espíritos. pois sabem não ter senão a perder com esse exame sério. pode-se concluir que ele está mais próximo da verdade do que aquele que emana de uma só fonte e é contradito pela maioria. O segundo critério da verdade está na concordância do ensino. pelo que evitam discussão e querem ser cridos sob palavra. principalmente. durante a vida presente. que fará ele .) CONSEQÍJÊNCIAS DO ESPIRITISMO 100. resulta de sua admissão a prova da existência da alma e sua sobrevivência ao corpo. Suponhamos que um homem de vinte anos tenha a certeza de morrer aos vinte e cinco anos. Passando assim a vida futura do estado de teoria vaga e incerta ao de fato conhecido e positivo. nisto temos a prova das penas e recompensas futuras. o estudo do Espiritismo? Para provar materialmente a existência do mundo espiritual. em proveito da vida futura. as almas ou Espíritos retificam as ideias falsas que faziam da vida futura e. 99: Autorité de Ia doctrine spirite. Sendo o mundo espiritual formado pelas almas daqueles que viveram. que é tão curta. (O Livro dos Médwms. então. Descrevendo-nos seu estado e situação. aparece a necessidade de trabalhar o mais possível. perguntarão: para que serve. acerca da natureza e duração das penas.186 ALLAN KARDEC e da lógica. abstêm-se de fazê-la os maus. — O Evangelho segundo o Espiritismo — "Introdução". que é indefinida. cap. XXVII. As almas que se manifestam. abril 1864. é uma recomendação que fazem todos os bons Espíritos. pág. Contradições e mistificações. Quando o mesmo princípio é ensinado em muitos pontos por diferentes Espíritos e médiuns estranhos uns aos outros e isentos de idênticas influências.

o passo é simples. o único objeto de suas preocupações. a inveja e o ciúme do que tem pouco contra aquele que tem muito. guerras e todos os males engendrados pelo egoísmo. seu procedimento será outro. o homem. Da cobiça ao desejo de adquirir.O QUE E O ESPIRITISMO 187 nestes cinco anos que lhe restam? trabalhará para o futuro? certamente que não. nada esperando. sem proveito. daí ligar-se excessiva importância aos bens materiais. porque nada mais vê além. acreditando ser uma tolice submeter-se a fadigas e privações. não vê senão na morte o termo dos seus sofrimentos. repercutem-lhe no cérebro e são a fonte da maioria dos casos de loucura. procurará gozar o mais possível. A importância que se dá aos bens materiais excita a cobiça. porque então compreenderá a necessidade de sacrificar alguns instantes do repouso atual para assegurar o repouso futuro. . Sem esperança de futuro é natural que o homem seja afetado e se desespere com as decepções por que passa. A certeza da vida futura e de suas consequências muda-lhe totalmente a ordem de ideias e lhe faz ver as coisas por outro prisma. a atual se torna para o homem a coisa capital. o que o vizinho possui. acabrunhado nesta vida pelo desgosto e pelo infortúnio. daí a ambição desordenada e a importância que liga aos títulos e a todos os efeitos da vaidade. Se. por qualquer preço. aspira a brilhar. por isso. eclipsar os vizinhos por seu fausto e posição. porém. processos. pelos quais ele é capaz de sacrificar a própria honra. ele tiver a certeza de viver até aos oitenta anos. procura pelo suicídio a aproximação desse termo. Sem a vida futura. A dúvida relativamente a esse ponto conduz naturalmente a tudo sacrificar aos gozos do presente. querelas. e assim. Com a dúvida sobre o futuro. não só os bens materiais como as honrarias. quer gozar a todo custo. ao qual ele tudo subordina. durante longos anos. O mesmo se dá com aquele que tem a certeza da'vida futura. elevar-se acima dos outros. Os abalos violentos que experimenta. daí ódios.

com o fito de nos elevarmos acima dos outros. daí. o homem espera e se resigna.188 ALLAN KARDEC é um véu que se levanta descobrindo imenso e esplêndido horizonte. como o grão de areia ao lado de uma montanha. mesmo neste mundo. Diante da infinidade e grandeza da vida de Além-Túmulo. triunfará do mal aqui na Terra. O exame daqueles que já viveram. imprime em quantos estão bem convencidos dessa verdade uma tendência. compreenderão que a lei da caridade ensinada pelo Cristo é a fonte da felicidade. a vida terrena some-se. e assim basearão as leis civis sobre as leis da caridade. Tudo se torna pequeno. uma indiferença que. também. para as vicissitudes e decepções. afasta numerosos casos de loucura e desvia forçosamente o pensamento do suicídio. por consequência. em uma palavra. Com a certeza do futuro. impreterivelmente. para fazer o bem e evitar o mal. Quando a maioria dos homens estiver convencida dessa ideia. no meio dos acontecimentos da vida. este. assaz natural. com a dúvida perde a paciência. regularão suas instituições sociais — tendo em vista o bem de todos e não o proveito de alguns. A demonstração da existência do mundo espiritual que nos cerca e de sua ação sobre o mundo corporal. é a revelação de uma das forças da Natureza e. e ficamos pasmos de haver dado importância a coisas tão efémeras e pueris. que a soma de desditas está na razão dos vícios e más ações. porque nada espera do presente. Daí. procurarão os homens não mais se molestarem uns aos outros. tirando todo motivo de desespero. mesquinho. uma tranquilidade que já constituem uma felicidade. a chave de grande número de fenómenos até . como um segundo na contagem dos séculos. quando ela professar esses princípios e praticar o bem. uma calma. comparadas às desordens e tormentos a que nos sujeitamos. provando que a soma da felicidade futura está na razão do progresso moral efetuado e do bem que se praticou na Terra.

ora. eles infiltrarão na mocidade o contraveneno das ideias materialistas.O QUE É O ESPIRITISMO 189 agora incompreendidos. um professor de filosofia. segundo as diversas escolas. mas que de tal fato não têm prova alguma? Quando um sábio emite uma hipótese. uma revolução nas ideias não pode deixar de produzir . retificará imenso número de erros provenientes de atribuir tudo a uma única causa: a matéria. Suponhamos que os Espíritos sejam incapazes de ensinar-nos alguma coisa além do que já sabemos. sobre um ponto de ciência. os professores ensinam a existência da alma e seus atributos. pois. Quando do alto de suas cátedras os sábios proclamarem a existência do mundo espiritual e sua participação nos fenómenos da vida. como se alargou com o da lei da gravitação. em vez de predispô-la à negação do futuro. Não parece estranho que. O conhecimento dessa nova causa. nos fenómenos da Natureza. tanto na ordem física quanto na moral. despreza os meios de lhes fornecer uma patente demonstração ? 101. como. ou do que por nós mesmos poderemos saber. produzirá o efeito da descoberta de um agente inteiramente novo. procura com empenho e colhe com alegria tudo o que possa demonstrar a veracidade dessa hipótese. o horizonte da Ciência se alargará. será uma alavanca para o progresso. eles as repilam e classifiquem de superstições? Não será isso o mesmo que confessar a seus discípulos que eles lhes ensinam a existência da alma. cujo dever é provar a seus discípulos que eles têm uma alma. Com o auxílio da lei espírita. Quando a Ciência levar em conta essa nova força até hoje desconhecida. mas sem apresentar provas materiais. Nas lições de filosofia clássica. vê-se que só a demonstração da existência do mundo espiritual conduz forçosamente a uma revolução nas ideias. quando se lhes fornecem as provas que não tinham.

pelo que encontraremos. desta. O Espiritismo não descobriu nem inventou os Espíritos. fazem mais que isso. conseguiram desenvolver. sobretudo. em alguns anos. Só as verdades eternas são absolutas. esses germens que. não é menos real que os Espíritos esclarecidos — quando sabemos interrogá-los e quando lhes é permitido —• podem revelar-nos fatos ignorados. no qual se acreditou em todos os tempos. sendo fundadas sobre leis naturais. Os Espíritos. As verdades ensinadas pelo Espiritismo são antes consequências que descobertas. se elas exigem minuciosas precauções para se lhes comprovar a exatidão. assim como de um grãozinho pode brotar uma árvore imensa.190 AIJLAN KARDEC outra na ordem das coisas. porém. mediante estudo mais completo e mais atentas observações. ele o prova por . ou mesmo nenhuma. se as suas revelações são rodeadas de certas dificuldades. também do fenómeno vulgar das mesas girantes saiu a prova da existência do mundo invisível. existiram de todos os tempos. em todas as épocas. como não descobriu o mundo espiritual. revelaram a potência galvânica. uma doutrina que. a fim de só se lhe pedir o que ela pode dar e do modo por que o pode fazer. saltando num prato. É esta revolução que o Espiritismo prepara. e. É nisto. as que o Espiritismo prega. As menores causas podem produzir grandes efeitos. a queda de um fruto fez descobrir a lei que rege os mundos. dar-nos a explicação do que não compreendemos e encaminhar-nos para um progresso mais rápido. 104. que o estudo sério e completo da ciência espírita é indispensável. fez a volta do mundo e pode regenerá-lo pela verificação da realidade da vida futura. 103. em virtude do axioma — nada há de nova debaixo ao Sol. 102. O Espiritismo ensina poucas verdades absolutamente novas. todavia. ultrapassando esses limites é que nos expomos a ser enganados. as rãs.

. incompletas como são.O QUE É O ESPIRITISMO 191 fatos materiais e o apresenta em sua verdadeira luz. segundo as circunstâncias. bastam para mostrar a base em que se assenta o Espiritismo. desembaraçando-o dos preconceitos e ideias supersticiosas. filhos da dúvida e da incredulidade. o caráter das manifestações e o grau de confiança que podem inspirar. OBSERVAÇÃO — Estas explicações.

mais ou menos. em tudo. 7 . 1858. Se os mundos são povoados. serão seus hábitiaintes. tanto mais que o maior número deles se acha fora de nosso alcance. por Flammarion. com o fim único de recrear-nos a vista. e nós óntre eles f A forma geral poderia ser. Além disso. Se o meio for diverso. terão habitantes como a Terra? Todos os Espíritos o afirmam e a razão diz que assim deve ser. pág. e nada justificaria o privilégio exclusivo de ser habitada. como os peixes são feitos para viver na água e as aves no ar. a mesma. nem por sua colocação. Os diferentes mwmdos que circulam no espaço.° 55. A Terra não ocupa no Universo nenhuma posição especial.CAPITULO m Solução de alguns problemas pela Doutrina Espírita PLURALIDADE DOS MUNDOS 105. Deus não teria criado milhares de globos. poderiam eles viver entre nós. nem pelo seu volume. semelhantes aos da Terra? Em uma paZcrere. — Renuue Spirite. n. 65: Plwralité dês mondes. (O Livro dos Estpfoitos. mas o organismo deve ser adaptado ao meio em que eles têm de viver. como tudo leva a crê-lo e como parece demonstrá-lo as observações astronómicas.) 106.

AdmAtimido que esses mwnãas sejam povoados.) DA ALMA 108. sob o ponto de vista intelectual e "moral? Segundo o ensino dos Espíritos. Pelo contrário. aflições e necessidades que os apoquentam na Terra. cuidados. como geralmente se crê. — O EvamgeIho segundo o Espiritismo. intelectual e fisicamente. 318 e 320. estarão na mesma colocação que o nosso. sem buscar o prejuízo uns dos outros. — Idem. a organização física. penetrável. se aproxima cada vez mais da natureza dos anjos. págs. sendo sua humanidade mais bruta. onde o invólucro corporal. Podemos figuradamente supor dois corpos semelhantes na forma. com o qual ela constitui um ser complexo. quase fluídico. 107. mais que um desdobramento. finalmente. HE. outros são mais atrasados. o nosso nem ocupa o primeiro nem o último lugar. pois. em seu estado normal. as artes e as ciências já atingiram um grau de perfeição que foge à nossa apreciação. págs. Qual a sede da alma? A alma não está. . moléstias e enfermidades. 1860. não é. Isto é confirmado por todos os Espíritos. provável que. 1858. de alguma sorte. os mundos se acham em graus de adiantamento muito diferentes. mas é um dos mais materializados e atrasados. neles. Na série progressiva dos mundos. assimilando-se ao corpo inteiro. do qual a morte não é. isentos dos desgostos. alguns estão no mesmo ponto que o nosso. menos material. Há. 108 e 223. outros ainda mais adiantados. mais material e mais propensa ao mal. o mal moral é desconhecido. eles possam mudar de mundo com os mesmos corpos.194 AIXAN KARDEC a organização deve ser diferente. (Reme Spirrite. outros são muito mais adiantados moral. cap. ela forma com o perispírito um conjunto fluídico. aí os homens vivem em paz. não está sujeita aos sofrimentos. um encaixado no outro. 67. localizada num ponto particular do corpo.

111. ou não existia antes da formação do corpo. irradia exteriormente. Se a átomo. já existia. já tinha a alma feito algtim progresso. Os Espíritos resolveram a questão afirmativamente. interna e externa. porque de sua solução dimanam as mais importantes consequências. ela é a única capaz de explicar uma multidão de problemas até hoje insolúveis. e veremos aplainar-se a maioria das dificuldades. como o provam a observação e os fenómenos sonambúlicos. isto é. 110. antes da suia união com o corpo tinha ela sua individualidade e consciência de si? Sem individualidade e sem consciência de si mesma. não pode haver meio-termo. 109. Ela é. o que tem conduzido muitos pensadores à incredulidade. por não se ter nela acreditado. Admita-se. encontram-se tropeços a cada passo. De duas uma: ou a alma existia. como a lógica. mesmo. Com a preexistência da alma tudo se explica lógica e naturalmente. ao passo que o outro subsiste. ao mesmo tempo. seria como se não existisse. ou estava estacionária? . podendo mesmo isolar-se do corpo. é esta uma das questões mais capitais.O QUE fi O ESPIRITISMO 195 confundidos durante a vida e separados depois da morte. ao menos como hipótese. e. Antes da sua união com o corpo.. Nessa ocasião um deles é destruído. transportar-se ao longe e aí manifestar sua presença. sem ela. a preexistência da alma. certos dogmas da Igreja ficam sem justificação. não podem deixar dúvidas a esse respeito. ou anteriormente a este f Depois da questão da existência da alma. criada ao -mesmo tempo cfue o corpo. Durante a vida a alma age mais especialmente sobre os órgãos do pensamento e do sentimento. e os fatos. Será a alma.

sem ciência e sem conhecimento do bem e do mal. 113. quando o impõe a outras para alcançarem a felicidade eterna? A desigualdade das almas em sua origem seria a negação da justiça de Deus. Criou Deus as almas iguais moral e intelectualmente. na Terra? Essa diversidade é a consequência do progresso feito pela alma. ou fê-las mais 'perfeitas e inteligentes umas que as outras? Se Deus as houvesse feito umas mais perfeitas que as outras. são as que têm vivido mais e mais progredido antes de sua encarnação. antes da sua união ao corpo. corporal ? Além do ensino dos Espíritos sobre esse ponto. Qual o estado da alma em s\ua origem? As almas são criadas simples e ignorantes. (O Livro dos Espíritos. 114. como eocpUcar a diversidade de aptidões e predisposições naturais que notamos entre os homens. n. Pouco a pouco o livre-arbítrio se desenvolve. não conciliaria essa preferência com a justiça. Fez a alma esse progresso anterior. ao mesmo tempo que as ideias. ou em precedente existência. sem vontade própria e sem consciência perfeita de sua existência.) 115. Sendo todas as criaturas obra sua. As almas mais adiantadas. A princípio.196 ALLAN KARDEC O progresso anterior da alma é simultaneamente demonstrado pela observação dos fatos e pelo ensino dos Espíritos. 112.°s 114 e seguintes. em inteligência e moralidade. na Terra. isto é. Se as almas são criadas iguais. prova que o progresso anterior da alma deve . encontram-se numa espécie de infância. por que dispensaria ele do trabalho umas. no estado de alma propriamente dita. o estudo dos diferentes graus de adiantamento do homem. mas com igual aptidão para tudo.

páginas 97 a 106. 118. das aptidões instintivas para uma arte ou ciência. o Espírito perde a consciência de si e não recobra as ideias senão gradualmente. Como e em que momento se opera a wnião da alma ao corpo? Desde a concepção.) O HOMEM DURANTE A VIDA TERRENA 116. preso ao corpo com o qual se deve unir. 1862. suas ideias se acham momentaneamente em estado latente. . Desde esse momento. o Espírito. a união então é completa e definitiva. Elas se vão esclarecendo aos poucos. mas. a alma possui todas as ideias anteriormente adquiridas. n. — Revue Spirite. por um cordão fluídico. ao aproximar-se do nascimento. Qual o estado intelectual da alma da criança no momento de nascer? Seu estado intelectual e moral é o que tinha antes da união ao corpo. ainda que errante. mais ou menos numerosas. das disposições precoces. abril. o Espírito sente uma perturbação que cresce sempre. mas não se podem manifestar senão proporcionalmente ao desenvolvimento dos órgãos. ocasião em que ela se torna completa. abstração feita da instrução? As ideias inatas não podem ter senão duas fontes: a criação das almas mais perfeitas umas que as outras. a prova disto está na observação dos fatos que diariamente estão sob os nossos olhos. (O Livro dos Espíritos.O QUE É O ESPIRITISMO 197 fazer-se em uma série de existências corporais. a partir do momento em que a criança começa a respirar. no caso de serem criadas ao mesmo tempo que o corpo. segundo o grau a que ele chegou. à medida que o corpo se vai desenvolvendo. Este laço se estreita cada vez mais. Qual a origem das ideias inatas.°s 166 a 222. 117. em razão da perturbação que acompanha a mudança de estado. está. isto é.

além disso. mas não no-las podem dar. apesar dos bons conselhos que recebem? É o resultado do progresso moral adquirido. um homem de g\ênio'? É um fato esse que vem em abono da origem das ideias inatas. como lhes transmitem o princípio das qualidades corporais. O ambiente e a educação desenvolvem as ideias inatas. que a alma do filho não procede. Como se podem revelar génios mas classes da sociedade inteiramente privadas de cultura intelectual? É um fato que prova serem as ideias inatas independentes do meio em que o homem foi educado. mas não o génio. A educação pode fornecer a instrução que falta. da dos pais. para servirem de base à aquisição de outras novas. 121. <um tolo. 120. apesar dos maus eocemplos •que colhem. um bom e o outro mau? Por que o filho de um homem de génio é. os pais transmitiriam aos filhos as suas qualidades e defeitos próprios. de sorte alguma. e o de um tolo. Na geração. em virtude do axioma que a parte é da mesma natureza que o todo. algumas vezes. prova. O homem de génio é a encarnação de um Espírito adiantado que muito houvera já progredido.198 ALLAN KARDEC ou um progresso por elas adquirido anteriormente à encarnação. As ideias inatas são o resultado dos conhecimentos adquiridos nas existências anteriores. como as ideias inatas são o resultado do progresso intelectual. educados nas mesmas condições. quando este não exista. somente o . ao passo que outras são instintivamente viciosas em um meio bom. se assim não fosse. 119. só fica de pé a segunda. Por que encontramos crianças instintivamente boas em um meio perverso. Sendo a primeira hipótese incompatível com a justiça de Deus. são ideias que se conservaram no estado de intuição. Por que de dois filhos do mesmo pai. um é às vezes mteligente e o outro estúpido.

faltam a essa missão. os pais têm por missão ajudar o progresso dos Espíritos que encarnam como seus filhos. pelo mesmo motivo. (Revue Spirite. Da Infância. Qual a causa das simpatias e amtipatias que se manifestam entre pessoas que se vêem. . mas com o fim de servirem de instrumentos de provas uns aos outros e. 122. e do seu caráter na existência precedente.) 123. se amaram em uma existência anterior. instintos de dignidade e grandeza. 125. porque também ele o foi. porém. e o nascimento em. a fim de que sofram a pena de talião. que vem juntar-se àqueles a quem amou no mundo espiritual ou em suas precedentes existências. sendo por isso punidos. pela primeira vez? São quase sempre entes que se conheceram e. nascidas em. Por que encontramos em certas pessoas.) 124.O QUE Ê O ESPIRITISMO 199 corpo procede do corpo. a um é dado um mau filho. 270: La Peime ãu ttalian. só apresentam instintos de baixem? Ê uma reminiscência intuitiva da posição social que o Espírito já ocupou. Deus lhes inspira uma afeição mútua. e que. muitos. mas depende muitas vezes da escolha feita pelo Espírito. Se as almas são independentes umas das mitras. tal ou tal família não é um efeito do acaso. Por que há maus pais e maius filhos? São Espíritos que não se ligaram na mesma família por simpatia. n. pág. para excitá-los a isso. e. aonde v&m o amor dos pais pelos filhos e o destes por aqueles? Os Espíritos se ligam por simpatia. nascidas nas classes superiores. enquanto outras. para punição do que foram em existência anterior. um mau pai. a outro. condição servil." 379. 1861. Por outro lado. muitas vezes. (O Lwro dos Espíritos. algumas vezes. mas as almas são independentes umas das outras.

baseia-se na . formando uma espécie de atmosfera impregnada das qualidades boas ou más do Espírito encarnado. esquece como homem. As antipatias instintivas provêm também. impressão que pode ser agradável ou desagradável. experimentam. Ê isto tão real que a estima dos homens. Duas pessoas que se encontram. muitas vezes. uns pelos outros. Esses dois sentimentos podem ainda ter uma outra causa. Toda punição seria uma injustiça. toda recompensa um contra-senso.200 ALLAN KARDEC encontrando-se nesta. Por que não conserva o 'homem a lembrança de suas anteriores emstências? Não será ela necessária ao seu progresso futuro? (Vede a parte que trata do Esquecimento do "passado. O perispírito irradia ao redor do corpo. a impressão sensitiva. 114. elas se adivinham e compreendem. é o atributo que a divindade imprime àquele e o eleva acima de todas as outras criaturas. pelo contacto desses fluidos. segundo sua natureza semelhante ou dessemelhante. de algum modo. Pelo contacto desses fluidos. muitas vezes. nem mérito do bem que pratica. de relações anteriores. Qual a origem do sentimento a que chamamos consciência ? Ê uma recordação intuitiva do progresso feito nas precedentes existências e das resoluções tomadas pelo Espírito antes de encarnar. lêem uma na outra. Tem. os fluidos tendem a confundir-se ou a repelir-se. pág.) 127. o homem o livre-aarbítno. sem se falarem. são atraídos um para o outro. O livre-arbítrio do homem é uma consequência da justiça de Deus. É assim que se pode explicar o fenómeno da transmissão de pensamento. resoluções que ele. 126. ou está sujeito à fataUdaOe? Se a conduta do homem fosse sujeita à fatalidade. duas almas. 128. não haveria para ele nem responsabilidade do mal.

sem responsabilidade do mal e sem mérito do bem que pratica. 131. sem. 1861. por uma enfermidade. embriaguez ou idiotismo. 130. 76. provém da inferioridade do planeta.O QUE É O ESPIRITISMO 201 admissão desse livre-arbítrio. loucura. (Revue Spírite. reduz o homem ao estado de máquina. porque Ele é soberanamente bom. pág. 1862. quanto à predominância deste. porém suscetível. dos males (fwe afligem. os Espíritos. tendo seu livre-arbítrio. é lastimado ou desprezado. O homem nasce bom ou mau. Em mundos mais adiantados. e estas são sempre boas. por consequência. por outra. seria perfeitamente feliz. nem sempre as observam. Ele estabeleceu leis. La tête de Gnríbaldi — Idem. de observar ou infringir as leis de Deus. Qual a origem do bem e do mal na Terra e por que este predomina? A imperfeição dos Espíritos que aqui se encarnam. de seguir o bom ou o mau caminho. cujos habitantes são. ou. pág. nidade? Qual a causa. a huma- . A alma é criada simples e ignorante. aquele que as observasse fielmente. quem. em razão do seu livre-arbítrio. livre-arbítrio e. o mal não existe ou está em minoria. O homem já nasce bom ou ma/u? É preciso fazermos uma distinção entre a alma e o homem. onde só encarnam Espíritos depurados. na maioria. isto é. O materialista que faz todas as faculdades morais e intelectuais dependerem do organismo. segundo seja ele a encarnação de um Espírito adiantado ou atrasado. nem boa nem má. 132. porém. Será Deus o criador do mal? Deus não criou o mal.) 129. perde acidentalmente essa faculdade. é a origem do mal na Terra. e é dessa infração que provém o mal. 97: Phrénologie spirritualiste. Espíritos inferiores ou que pouco têm progredido.

pelo contrário. seguidas de uma felicidade. ao mesmo tempo. porém. a Providência. quanto mais resignadamente ele soube suportá-las. Compreende-se que quem se torna miserável ou enfermo. o mesmo com quem admite a pluralidade das existências e pensa na brevidade de cada uma delas. O estudo do Espiritismo prova que a prosperidade do mau tem terríveis consequências em suas seguintes existências. «mudas ou afetadas de moléstias memoráveis. eles se infelicitam reciprocamente e punem-se uns aos outros. para quem a acredita única. 133. surdas. 134. Por que nascem alguns na indigência e outros na opulência? Por que vemos tantas pessoas nascerem cegas. desde o seu mascimento.? Se fosse do acaso. Os males da nossa humanidade são a consequência da inferioridade moral da maioria dos Espíritos que a formam. seja punido por onde pecou: porém. isto deve parecer clamorosa injustiça. Por que vemos tantas vezes o menu prospera/r. que fez ela para merecer tais aflições. que as aflições do homem de bem são. Admitida. Pelo contacto de seus vícios. tanto maior e duradoura. se a alma é criada ao mesmo tempo que o corpo.202 ALLAN KARDEC O nosso mundo pode ser considerado. não lhe será mais que um dia mau em uma existência próspera. a Providência não existiria. por suas imprudências ou por excessos. enquanto owtsras possuem todas as vantagens físicas? Será um efeito do acaso. ou wm ato da Providência. perguntamos como se conciliam esses fatos com a sua bondade e justiça? É por falta de compreensão da causa de tais males que muitos se arrojam a acusar Deus. porém. vive em aflição? Para aquele cujo pensamento não transpõe as raias da vida presente. ou para ficar isenta delas? . como escola de Espíritos pouco adiantados e cárcere de Espíritos criminosos. enquanto o homem de bem. Não se dá. em relação à eternidade.

deve achar-se antes desta. que vê um meio de avançar mais rapidamente. de fato. e se esta causa não se encontra na vida presente. abusou do poder para oprimir os fracos. Por miserável que seja a condição em que o homem nasça. pois. pelas tentações que dá e pelos abusos que enseja. Os estudos espíritas nos mostram. nascido na miséria. A convicção que dessa verdade adquirimos. porém. que mais <ie um homem. conforme a coragem com que saiba suportá-la. são votados. mas muito mais perigosa que a miséria. pelo Espiritismo. ele poderá sair dela por sua inteligência e trabalho. A riqueza é também uma prova. então. sem invejar a dos outros. foi rico e considerado em uma existência anterior. não podemos deixar de admitir que esse efeito tem uma causa. o idiota e o imbecil. Por que há homens idiotas e imbecis? A posição dos idiotas e dos imbecis seria a menos conciliável com a justiça de Deus. que mais de um. desde o nascimento até a morte. nascido na abjeção. A diferença das posições sociais seria a maior das injustiças — quando não seja o resultado da conduta atijal — se ela não tivesse uma compensação. para que possa merecer uma expiação. Nem sempre uma vida penosa é expiação. há. também o exemplo dos que viveram. necessidade de a alma já ter vivido. muitas vezes. muitas vezes é prova escolhida pelo Espírito. na qual fez mau uso da fortuna que Deus o encarregara de gerir. na hipótese da unicidade da existência. para eles não há compensação possível. 135. nos dá força para suportarmos as vicissitudes da vida e aceitarmos a nossa sorte. sua alma criada idiota? . porque em todas as coisas a causa deve >preceãer ao efeito. ao embrutecimento e ao desprezo. entregues aos maus-tratos e à humilhação a que submeteram os outros. sujeitos àqueles a quem trataram com dureza. Esses estudos no-los fazem ver. foi anteriormente orgulhoso e prepotente. Por que foi.O QUE É O ESPIRITISMO 203 Se admitimos a justiça de Deus. demonstra ser ela uma prova em que a vitória é mais difícil.

Os estudos espíritas nos mostram. o idiota e o imbecil. que mais <ie um homem. na qual fez mau uso da fortuna que Deus o encarregara de gerir. entregues aos maus-tratos e à humilhação a que submeteram os outros. ao embrutecimento e ao desprezo. mas muito mais perigosa que a miséria. nascido na miséria. para que possa merecer uma expiação. demonstra ser ela uma prova em que a vitória é mais difícil. foi anteriormente orgulhoso e prepotente. deve achar-se antes desta. Nem sempre uma vida penosa é expiação. A diferença das posições sociais seria a maior das injustiças — quando não seja o resultado da conduta atijal — se ela não tivesse uma compensação.O QUE É O ESPIRITISMO 203 Se admitimos a justiça de Deus. desde o nascimento até a morte. sujeitos àqueles a quem trataram com dureza. de fato. pois. então. 135. Por que há homens idiotas e imbecis? A posição dos idiotas e dos imbecis seria a menos conciliável com a justiça de Deus. na hipótese da unicidade da existência. muitas vezes é prova escolhida pelo Espírito. também o exemplo dos que viveram. porém. Por que foi. nascido na abjeção. A riqueza é também uma prova. sem invejar a dos outros. nos dá força para suportarmos as vicissitudes da vida e aceitarmos a nossa sorte. que vê um meio de avançar mais rapidamente. que mais de um. sua alma criada idiota? . são votados. pelo Espiritismo. A convicção que dessa verdade adquirimos. muitas vezes. e se esta causa não se encontra na vida presente. necessidade de a alma já ter vivido. para eles não há compensação possível. não podemos deixar de admitir que esse efeito tem uma causa. Esses estudos no-los fazem ver. conforme a coragem com que saiba suportá-la. foi rico e considerado em uma existência anterior. há. ele poderá sair dela por sua inteligência e trabalho. Por miserável que seja a condição em que o homem nasça. pelas tentações que dá e pelos abusos que enseja. porque em todas as coisas a causa deve >preceãer ao efeito. abusou do poder para oprimir os fracos.

sono. às vezes. Só a morte rompe esse laço. n. pág. (O Livro dos Espíritos: E<mandpação da alma. UEsxprit d'wn idiot. 81: Étwàe sw l'Esprit dês personnes vivantes. •— Idem. 11: L'Esprit d'wi cote et lê corps de 1'aiutre. 1860. . provam que suas almas são tão inteligentes como as dos outros homens. 1860. sonhos. que essa enfermidade é uma expiação infligida a Espíritos que abusaram da inteligência.. — O Livro dos Médiuns: Evocação das pessoas vwas. pág. feitos acerca dos imbecis e idiotas." 284. 137. quando a sua presença se torna necessária. 173. Donde vêm os pressentimentos? São recordações vagas e intuitivas do que o Espírito aprendeu em seus momentos de liberdade e algumas vezes avisos ocultos dados por Espíritos benévolos. (R&ime Spirite. que serve para chamá-lo. vista dupla. Durante a vida. As observações práticas provam que. nessas condições."s 400 e seguintes. — Idem. Qual o estado da alma durante o sono? No sono é só o corpo que repousa. dos momentos em que este lhe dispensa a presença. sonambulismo. n. — Revue Spinte. quando. tenham sido tão considerados em encarnação precedente.) 138. o Espírito goza de toda a liberdade e da plenitude das suas faculdades. o Espírito fica sempre preso ao corpo por um cordão fluídico. e pelo desprezo de que se vêem objeto. qualquer que seja a distância a que se transporte. letairgia. pág. mas o Espírito não dorme. 311: Lês crétms. aproveita-se do repouso do corpo. 1860. 1861.204 ALLAN KARDEC Os estudos espíritas. em laços que não podem quebrar. para agir separadamente e ir aonde quer. etc. são a recordação dos lugares e das pessoas que o Espírito viu ou visitou nesse estado.) 136. e sofrem cruelmente por se sentirem presos. talvez. pág. Qual a oausa dos sonhos? Os sonhos são o resultado da liberdade do Espírito durante o sono.

não encarnando mais que uma. com o tempo. não é compreensível que o selvagem não pudesse conseguir civilizar-se aqui na Terra. se todos os habitantes da Terra se achassem no mesmo nível moral e intelectual. por que só a Terra teria o monopólio das encarnações. demonstrada por exemplos que temos à vista. quantas vezes temos diante de nós a prova do contrário! Com efeito. que a alma. a menos que admitamos tenha Deus criado almas selvagens e almas civilizadas. o que seria a negação da sua justiça. faça o seu progresso no estado de Espírita ou em outras esferas? Esta proposição seria admissível. A alma do selvagem atingirá. depois da morte. seguindo todos os graus intermediários a esses dois extremos. . do que resulta a possibilidade da pluralidade das existências terrenas.°. algwmas pessoas. caso em que se poderia dizer ser a Terra destinada a determinado grau. vez<. como todos os dias morrem selvagens. é um fato material que prova o progresso que uns já fizeram e que os outros têm de fazer. esta questão é insolúvel. a razão recusa admitir que. bem como se ache na mesma elevação que a do homem esclarecido. quando vemos almas mais adiantadas encarnadas ao lado dele. Além disso. seguindo 'pensam. pois. a presença simultânea da selvageria e da civilização. essa alma não pode atingir esse grau senão em encarnações sucessivas. na Terra. 140. Se fosse de outro modo. a alma do selvagem fique perpetuamente em estado de inferioridade. era preciso explicar: _1. cada vez mais aperfeiçoadas e apropriadas ao seu adiantamento. Admitindo para as almas um mesmo ponto de partida — única doutrina compatível com a justiça de Deus —. mas. Não será admissível.O QUE B O ESPIRITISMO 205 139. o mesmo grau da alma esclarecida. Por que há na Terra selvag<ens e homens cwilizados? Sem a preexistência da alma. ora.

desde então. se este tivesse de ser recomeçado com as almas novas que diariamente chegam? Os Espíritos encarnam em um meio simpático e em relação com o grau do seu adiantamento. 143.°. então. como a dos homens da Idade Média. saídos das raças bárbaras. Se a alma não é anterior ao corpo. as dos homens de hoje são tão novas. no mesmo meio em que podem satisfazer as suas inclinações. na vida atual. qual seria o fruto do trabalho feito para melhoramento de um povo. sem negar a Deus os atributos de bondade e justiça. pergunta-se por que têm elas costumes mais brandos e inteligência mais desenvolvida? Se na morte do corpo a alma deixa definitivamente a Terra. que progredisse suficientemente e não encontrasse mais na sua raça um meio . por que razão. que encarnam em um meio simpático e. que a alma do criminoso endurecido tenha. OBSERVAÇÃO — Não é possível admitir-se. nela se apresentam almas encarnadas de todos os graus. se mostram seres de ferocidade comparável à dos mais bárbaros selvagens? São Espíritos muito inferiores. tendo esse monopólio. 141. pergunta-se. que experimentam reencarnar em meio que não é o seu. e. o mesmo ponto de partida que a de um homem cheio de virtudes. Par que. e onde estão deslocados. Como progridem e como degeneram os povos? Se a alma é criada juntamente com o corpo. tão primitivas. por exemplo. como estaria um rústico colocado de repente numa cidade adiantada. Um chinês. no meio das sociedades civilizadas. muitas vezes. Donde vem o caráter distintivo dos povos? São Espíritos que têm mais ou menos os mesmos gostos e inclinações.206 ALLAN KARDEC 2. uma delas é boa e a outra má? 142. a do criminoso e a do homem de bem são tão novas uma como a outra. por que. ainda.

o povo acabaria por degenerar. n«s 776 e seguintes. que vê? Que experimenta ela? No momento da morte. — Revtie Spirite. 1862. passo a passo. •— Idem. Qual a situação da alma. é-lhe preciso algum tempo para se reconhecer.) O HOMEM DEPOIS DA MORTE 144. mediatamente depois da morte do oorpo? Tem ela instantaneamente a consciência de si? Em uma palavra. é assim que. e tanto menos rapidamente quanto mais a vida foi material e sensual. os quais são. e. cor exemplo. segundo os indivíduos e as circunstâncias da morte. OBSERVAÇÃO — Essas questões provocam outras que encontram solução no mesmo princípio. Os laços que prendem a alma ao corpo não se rompem senão aos poucos. Como se opera a separação <da alma e do corpo? É brusca ou gradual? O desprendimento opera-se gradualmente e com lentidão variável. os mesmos que já haviam vivido no mesmo país e que. 97: Per/ecíibilité de Ia roce nègre. 1862. dele se tinham afastado.° 155. por extinguir-se. 1: Doctrine dês unges dêchus.) 145. talvez. tudo se apresenta confuso. (O Lwro dos Espíritos. ela con- . donde vem a diversidade de raças. por seu progresso. n. À medida que uma geração dá um passo para frente. encarnará entre um povo mais adiantado. pág. uma nação avança. atrai por simpatia Espíritos mais avançados.O QUE fi O ESPIRITISMO 207 correspondente ao grau que atingiu. diariamente e não mais descessem a um meio inferior. na Terra? — Há raças rebeldes ao progresso? — A raça negra é suscetível de subir ao nível das raças europeias? — A escravidão é útil ao progresso das raças inferiores? — Como se pode operar a transformação da Humanidade? — (O Livro dos Espíritos: Lei de progresso. afinal. Se a maioria dos seus novos habitantes fosse de natureza inferior e os antigos emigrassem. pág.

se identificaram com o seu estado futuro. 332: Lê réveil de 1'Esprit. Em sua nova situação. É menos longa. 1860. — Idem. pode ser de algumas horas somente. a alma vê e ouve ainda outras coisas que escapam à grosseria dos órgãos corporais. então. 1862. Tem. como de muitos dias. e o Espírito sente-se feliz por não mais experimentar as dores corporais que o atormentavam alguns instantes antes. porque esses compreendem imediatamente a sua situação. sente-se livre. idem. no estado do homem que sai de profundo sono e que procura compreender a sua situação. sensações e percepções que nos são desconhecidas. não . (R&iMe Spitrite. é tanto mais longa quanto mais materialmente o indivíduo viveu. sequente à morte. desembaraçado. pág. 129 e 171: Obsèques de M. esse momento é cheio de ansiedade e de angústias. como aquele a quem tirassem as cadeias que o prendiam.) OBSERVAÇÃO — Estas respostas e todas as relativas à situação da alma depois da morte ou durante a vida. A lucidez das ideias e a memória do passado lhe voltam. O tempo da perturbação. fica-se como que livre de um fardo. e que se dissipa o nevoeiro que lhe obscurece os pensamentos. à medida que se destrói a influência da matéria de que ela acaba de separar-se. entretanto. enquanto vivos. A sensação que a alma experimenta nesse momento é também muito variável. é calma e em tudo semelhante à que acompanha um despertar plácido. é a de grande alívio e de imenso bem-estar. págs. meses ou. — Idem. nada tem de penosa para o homem de bem.208 ALJLAN KAKDEC serva-se tonta. pág. A sensação a que podemos chamar física. porque então sente medo e certo terror diante do que vê e sobretudo do que entrevê. Sanson. porém. sequente à morte. que vão aumentando à medida que ele se reconhece. Para aquele cuja consciência não é pura e amou mais a vida corporal que a espiritual. 244: Morrt d'wn Spvrite. mesmo. de muitos anos. para aqueles que. 1859. é muito variável. a perturbação.

A individualidade da alma é mostrada de modo material. Muitas vezes diz-se. consciência de sua mdwidualidade? Como a constata e como podemos constatá-la ? Se as almas não tivessem sua individualidade depois da morte. Os Espíritos inferiores são. porém. 147. seria o mesmo que não existirem. tem a alma. porque ninguém no-lo veio contar. Depois da morte. em relação aos Espíritos: verdadeiros cegos. etc.O QUE E O ESPIRITISMO 209 são o resultado de uma teoria ou de um sistema. e Deus o permite hoje. como último aviso à incredulidade e ao materialismo. estão envolvidos numa espécie de nevoeiro que O oculta a seus olhos. isto. 146. não teriam caráter algum distintivo. podendo dizer-se que o Universo está mergulhado na divindade. como para nós. é um erro. 148. a do criminoso estaria na mesma altura que a do homem de bem. nas manifestações espíritas. que não se sabe o que nela se passa. nos vêm instruir. pela vista. desde o mais baixo ao mais alto grau da escala. porque em toda parte Ele irradia. género de morte. como nós o estamos na luz solar. donde resultaria não haver interesse algum em fazermos o bem. par que nem todos os Espíritos podem vê-lo? Deus está em toda parte. e que se não dissipa senão à medida que eles se desmaterializam e se purificam. os Espíritos atrasados. o que os encarnados são. Se Deus está em toda parte. pois são precisamente os que nela já se acham. segundo seus hábitos durante a vida terrena. pode ver a Deus? As faculdades perceptivas da alma são proporcionais à sua purificação: só as de escol podem gozar da presença de Deus. observados em todas as fases e períodos da sua existência espiritual. mais que em nenhuma outra época. por assim dizer. mas de estudos diretos feitos sobre milhares de indivíduos. A alma que deiom o corpo. em relação a Deus. pela . para elas. que. a respeito. falando da vida futura.

querendo umas o que outras não querem. suicídio ou acidente. sobretudo. umas são boas e outras más. e não acha explicação para a sua situação. OBSERVAÇÃO — Há quem pense poder fugir à pecha de materialista por admitir um princípio inteligente universal. porquanto ali não haveria mais individualidades. Na morte natural. tal como gotas dágua no oceano. começando mesmo antes que a vida esteja extinta. segundo a natureza dos hábitos durante a vida. pois é tão desolador quanto o materialismo. que faz dela um ser distinto. por suplício. A própria alma reconhece sua individualidade. O género de morte inflnti no estado da alma? O estado da alma varia consideravelmente segundo o género de morte. formando dela a nossa alma e restituindo-a depois da morte à massa comum. umas sábias e outras ignorantes. o que prova evidentemente não estarem confundidas em um todo homogéneo. o desprendimento se opera gradualmente e sem abalo. uma vez que elas pensam e agem de modo diferente. surpreendido. Graças ao Espiritismo experimental. fica como que tonto com a mudança nele efetuada. Este sistema. o Espírito. onde com outras se confundiria. . que distinguem umas das outras. os laços são partidos bruscamente. isso sem falar das provas patentes que nos dão. Na morte violenta. O reservatório comum do conjunto universal equivaleria ao aniquilamento. porque tem pensamento e volição próprios. a individualidade da alma não é mais uma coisa vaga. 149. não merece mesmo o nome de Espiritualismo.210 ALLAN KARDEC linguagem e qualidades próprias de cada qual. de terem animado tal ou tal indivíduo na Terra. do qual uma parte absorveríamos ao nascermos. mas. verificando ainda a sua individualidade por seu invólucro fluídico ou perispírito. porém o resultado da observação. espécie de corpo limitado. espécie de transição.

1860. idem.) 150. cuja vida foi absorvida pelos gozos e interesses materiais. pág. 97: François Simon Lowvet. 326: Un Esprit au convoi de son oorps. aimda mteresse pelos trabalhos que não pôde completar? Depende da sua elevação e da natureza desses trabalhos. 1858. — Idem. — Idem. Conserva a alma as afeições que tinha na vida terrena? Guarda todas as afeições morais e só esquece as materiais. como geralmente se supõe. pág. 1863. 1862. ele se locomove. — Idem. quando fala. pág. Un Esprit qui ne se croit pás rmort. como se ainda estivesse no mundo. sobretudo.O QUE É O ESPIRITISMO 211 Um fenómeno. erra no espaço e. fora dos casos de morte violenta. no meio daqueles que conheceu e. (Revue Spiríte. 166: Lê suicide de Ia Sa-maritaine. e mostra-se espantado de não lhe responderem. Conserva a àtima a lembrança do que fez na Terra? Tem ela. 319. julga ocupar-se dos seus negócios. idem. 151. 1858. Essa ilusão também se nota. não estar morto. mais ou menos constante em tal caso. 1859. podendo instantaneamente transportar-se a distâncias imensas. Neste estado. pág. Para onde vai a alma depois de deixar o corpo? Ela não vai perder-se na imensidade do infinito. pág. 341: Lês amis ne naus oublient pás dans l'autre monde. é a persuasão em que ele se conserva de." 165. por isso-vem satisfeita ver os parentes e amigos e sente-se feliz com a lembrança deles. — Reme Spirite. 184: Lê Zouave de Magenta. (O Livro dos Espíritos. 132. podendo essa ilusão durar muitos meses e mesmo muitos anos. em muitos indivíduos. n. 1859. pág. que já não são de sua essência. o mais das vezes.) 152. de que se julgam felizes . Os Espíritos desmaterializados pouco se preocupam com as coisas materiais. que amou. pág.

o Espírito de um menino pode. inspiram a outros o desejo de terminá-los. O Espírito. 153. falar como adulto.212 ALLAN KARDEC por estar livres. 17: Mère! Je stiAs lá. Geralmente. não sofre modificação nas faculdades. pág. segundo sua importância e utilidade. depois da morte. (Revue Spirííe. livre desse invólucro. Se. Quanto aos trabalhos que começaram. pois. porque pode ser Espírito adiantado. como durante a vida? O incompleto desenvolvimento dos órgãos da criança não dava ao Espírito a liberdade de se manifestar completamente. o estado intelectual e moral da alma da criança morta em tenra 'idade? Suas faculdades conservam-se na infância. Entretanto. Que diferença há. algumas vezes. seus conhecidos de outras existências. na outra vida. algumas vezes. entre a do selvagem e a do homem civilizado? . delicado e adornado com as graças da inocência. 1858. suas faculdades são o que eram antes da sua encarnação. 154. aqueles que mais a amam vêm recebê-la à sua chegada no mundo espiritual. 155. idiotas e loucos depois da morte. e ajudam-na a desprender-se dos laços terrenos. é para não tirar à mãe o encanto que sempre está ligado à afeição de um ente frágil. adota a linguagem infantil. punição para os culpados. encontra-se a solução no que precede.) Podendo a mesma questão ser formulada acerca do estado intelectual da alma dos imbecis. não tendo feito mais que passar alguns instantes na vida. OBSERVAÇÃO — Nas comunicações espíritas. Encontra a alma no mamão dos Espíritos os parentes que ali a precederam? Não só os encontra. entre a alma do sábio e a do ignorante. como também a outros muitos. Qual.. a privação de ver as almas mais caras è.

há muitos que. A sorte do homem. na vida futwrn. as que progrediram. idem. 383: Progrès dês Esprits. por que morrem os homens em idades diferentes. está vrrevogamelmente fiaoada depois da marte? A fixação irrevogável da sorte do homem. o permitir que o homem faça amanhã o que não pode fazer hoje? Se a sorte é irrevogavelmente fixada. pouco mais ou menos. 1858. As que ficaram estacionárias. idem. e por que.) 157. durante a vida corporal. 142. o que adquiriram em ciência e moralidade. pág. seria a negação absoluta da justiça e da bondade de Deus. alcançam uma encarnação de ordem mais elevada. 156. 126: Progrès d'un Esprit pervers. que existia entre elas durante a vida.O QUE E O ESPIRITISMO 213 A mesma. pág. pág. pág. há muitos que. idem. porque há muitos que não puderam esclarecer-se suficientemente na existência terrena. idem. e algumas se adiantam muito. 186. recomeçam uma existência análoga à que deixaram. crêem-se dispensados de estudar e trabalhar mais. 344: Un ancien charretier. segundo sua vontade. imbecis. (Revwe Spvrite. 1860. porque a entrada no mundo dos Espíritos não dá à alma todos os conhecimentos que lhe faltavam na Terra. intelectualmente. Progridem as almas. têm necessidade de pôr em prática. 1861. 82: La reine d'Qude. e não é isto prova que Deus nos dá de sua bondade. em sua . 1859. pág. depois da morte? Progridem mais ou menos. por longo tempo. depois da morte. idem. sem falar dos idiotas. porém. Lê tambour de Ia Bérésina. UEsprit et lês héritiers. pág. Mesmo entre os homens esclarecidos. selvagens e de elevado número de crianças que morrem sem ter entrevisto a vida. e prosseguem nas mesmas ideias. Sendo o progresso proporcionado à vontade do Espírito. conservam os gostos e as inclinações que tinham durante a vida. julgando-se assaz perfeitos.

tem por sorte atual o que mereceu da existência anterior. ao mesmo tempo . não pode merecer prémio nem castigo. admitida a justiça divina. têm ocupações em relação com o seu grau de adiantamento. essa alma Seja chamada a gozar da bem-aventurança dos anjos. que condena essa falta na vida corporal. ter consequência alguma para a alma. ela <deve ter wn destino qualquer. seria egoísmo. a não ser em suas alegrias e sofrimentos ? Se as almas não fizessem mais que tratar de si durante a eternidade.214 ALLAN KARDEC justiça. a sorte das crianças qw morrem em. Uma alma que só tiver vivido alguns instantes. prova a impossibilidade. As almas. entretanto. Um estado misto. de ser a sorte da alma irrevogavelmente fixada depois da morte. 158. 159. sem fazer nem bem nem mal. e Deus. por toda a eternidade. tenra idade? Esta questão é uma das que melhor provam a justiça e a necessidade da pluralidade das existências. na vida futwra. e futuramente o que vier a merecer em suas existências ulteriores. não poderia aprová-la na espiritual. se vivesse até aos sessenta? Por que Deus lhe tira assim os meios que concede a outros? Só o fato da diversidade das durações da vida e do estado moral da grande maioria dos homens. pois. Têm as almas ocupações na outra vida? Pensam elas em outra coisa. pois. ou Espíritos. seria igualmente uma injustiça. sem trabalho. não podendo. ou que desta se veja privada. Uma existência logo^em começo interrompida. Qual. segundo a máxima do Cristo — cada um é jnvnído ou recompensado conforme suas obras — é tão ilógico como contrário à justiça de Deus admitir-se que. não concede Deus a todos o tempo de produzir a maior soma de bem e reparar o mal que fizeram? Quem sabe se o criminoso que morre aos trinta anos. não se teria tornado um homem de bem.

outros se conservam junto aos tesouros que enterraram. podemos apreciá-los e convencer-nos de que. se foi mau filho. se avarento. apesar de não serem o resultado de um fogo material.° 558: Ocupações e missões dos Espíritas. o que lhe é uma tortura. experimenta numa nova encarnação. uma imperfeição moral. (O Livro aos Espíritos. porém. em transes perpétuos. um ato mau. eles. para isso. infeliz com seus filhos. . que certos avarentos julgam sofrer o frio e as privações que suportaram na vida por sua avareza. e. não há necessidade de um. e. o inferno estará com ele. que efetivamente não poderia queimar almas imateriais. por esse meio. n. Onde quer que se ache o Espírito perverso. etc. se não está depurado. de ser humilhado. que não tenha. Em que consistem os sofrimentos da alma. As comunicações espíritas colocam os sofrimentos sob os nossos olhos. seu reverso e suas consequências naturais. deixam de ser mais terríveis.) 160. que o homem de gostos sensuais e materiais conserva esses pendores juntamente com a impossibilidade de satisfazê-los. Essas penas não são uniformes: variam infinitamente. sendo quase sempre essas mesmas faltas o instrumento do seu castigo. em certos casos. não há um defeito. lugar determinado e circunscrito. Além dos sofrimentos espirituais. nem por isso. na qual é colocado em condições de sofrer o que fez a outrem sofrer. que o fogo do inferno é todo moral e não material.O QUE fi O ESPIRITISMO 215 que procuram instruir-se e melhorar-se. com medo que os roubem. é assim que certos assassinos são obrigados a conservarem-se no próprio lugar do crime e a contemplar suas vítimas incessantemente. miserável. não define a natureza dos sofrimentos. há as penas e provas materiais que o Espírito. no mundo espiritual. em uma palavra. hoje. se foi orgulhoso. segundo a natureza e o grau das faltas cometidas. depois da morte? Irão as almas crmmosas ser tortwradas em chamas materiais f A Igreja reconhece perfeitamente.

I. há. A prece será útil os almas sofredoras? Todos os bons Espíritos a recomendam e os imperfeitos a pedem como meio de aliviar os seus sofrimentos. não sentir ódio. De outro lado. 166: Lê suicide ãe Ia Samaritaine. idem. idem. (O Livro dos Espíritos. pág. idem. 275: Lê père Crépin. 53: Suicide d'wn athée.216 ALLAN KARDEC Como dissemos. A felicidade dos bons Espíritos consiste em conhecer todas as coisas. pág. pág. porque vê na prece um testemunho de interesse.° 664 — Revue S-pirite. 316: Lê châtiment.) 162. 315: Entrée d'un coupable dans lê monde dês Esprits. cap. idem. 79: Uassassm Lemaire. pela prece o exortamos ao arrependimento e ao desejo de fazer o necessário para ser feliz. idem.) 161. página 270: La peine ãu talian. por quem se pede. Penas e gozos futuros. pág. idem. pág.": Esperanças e consolações. wn purgatório. pág. pág. de seu lado. página 247: Lê suicide de Ia rue Quinocumpoia. elas a eternidade em contemplação? A justiça quer que a recompensa seja proporcional ao mérito. 384: Châtiment de 1'egoiste. n. Effets de Ia prière sur lês Espri. quando encontra pessoas que compartilhem de suas dores. como a punição à gravidade da falta. melhorando-se suficientemente para merecer habitação em mundo melhor. idem. A alma. Em que consistem os gozos das almas felizes? Passam. nem . Parte 4. pág. é neste sentido que se pode abreviar-lhe as penas. experimenta um consolo. 1861. 331: Bensatwns •dês Esprits. desde o instante em que ela entra no caminho do bem." 237: Percepções. pág. 1859. 315. para os Espíritos dessa natureza. quando ele. idem. — Revue Spirite. 1860. 1858. 61: Esteia Regnier. até aquele em que atinge a perfeição. o favorece com a sua boa-vontade. graus infinitos nos gozos da alma. sensações e sofrimentos dos Espíritos. idem. (O Livro dos Espíritos.ts souffrants.. pág. a Terra é um dos lugares de exílio e de expiação. do qual cada um se pode libertar. 1859. idem. idem. pois. n. e o infeliz é sempre consolado.

nem qualquer das paixões que desgraçam os homens. seria a ventura do egoísta. uma solução mais lógica. 179: Madame Gourdon.) OBSERVAÇÃO — Convidamos os adversários do Espiritismo e os que não admitem a reencarnaçao a darem. idem. 1861. de uma atividade incessante pelas missões que os Espíritos recebem do Ser Supremo. nem os sofrimentos. (O Livro dos Espíritos. — Revue Spirite. 1860. a fonte de suprema felicidade. dos problemas acima apresentados. págs. n. O amor que os une é. ao contrário.O QUE É O ESPIRITISMO 217 ciúme." 558: Ocupações e missões dos Espíritos. nem inveja. e cujo desempenho os torna felizes. nem as angústias da vida material. . pois não experimentam as necessidades. por outro princípio qualquer que não seja o da pluralidade das existências. para os bons Espíritos. O estado de contemplação perpétua seria uma felicidade estúpida e monótona. porque lhes fornece ocasiões de serem úteis e de fazerem o bem. A vida espiritual é. pág. de serem seus agentes no governo do Universo — missões essas proporcionadas ao seu adiantamento. uma existência interminavelmente inútil. 321 e 322: Lês purs Esprits: Lê séjour dês lAenhewreux. nem ambição.

amiúde." . justapondo.019 perguntas e respostas. Os Espíritos se referiram ao livro.Livros da Federação Espírita Brasileira Allan Kardec O LIVRO DOS ESPÍRITOS É o livro básico da Doutrina Espírita. dizendo: "Nele pusemos as bases de um novo edifício que se eleva e que um dia há de reunir todos os homens num mesmo sentimento de amor e caridade. é a expressão do pensamento deles. indubitavelmente a obra-prima do Espiritismo. O grande mérito de Kardec foi o realizar ele o gigantesco trabalho de ordenar e distribuir metodicamente os assuntos em 1. constituindo verdadeiro tratado filosófico espiritualista que responde a inquietantes questões da vida e da morte. Escrito mediante ditado de Espíritos Superiores. comentários e notas.

a Codificação em seus três aspectos. de assuntos vários. é.Pedro Franco Barbosa ESPIRITISMO BÁSICO Esta obra procura reunir o máximo de conhecimentos em um volume só e expô-los em linguagem clara e acessível. o Consolidador". "Léon Denis. "Primórdios do Espiritismo". . a constituição e o destino do homem e uma apresentação geral da literatura espírita. seus princípios básicos. permitindo-lhes uma ideia de conjunto da Terceira Revelação. A FEB coloca nas mãos dos leitores uma obra de reconhecido valor e cuja utilidade é manifesta a todos os que se interessam pelo estudo da Doutrina. de maneira simples e didática. Óíima para adoção em cursos sistemáticos de Espiritismo. que nele encontram. de maneira a atender interessados na Doutrina Espírita. "Allan Kardec. também. A primeira parte da obra trata. o Codificador do Espiritismo". "Síntese Histórica do Espiritismo no Brasil". como "As Religiões e o Progresso Espiritual do Homem". obra de consulta para todos os estudiosos. bem explanados. a natureza e as características da Doutrina. assuntos tais como as origens. sobretudo iniciantes.

Todo espírita deve ler este livro e oferecer um exemplar aos amigos descrentes. sendo mirados de preferência os autores que procuram desmoralizar a prática da Doutrina Espírita. ou lhe contestando o fundamento que possui para inscrever-se naquele quadro. através dos maravilhosos fatos que o atestam. opondo cerrada argumentação às objeções formuladas à parte científica de nossa Doutrina. Carlos Imbassahy.Carlos Imbassahy O ESPIRITISMO À LUZ DOS FATOS Em realidade. com as mais robustas provas e numa linguagem leve e cativante. demonstra o Autor a realidade insofismável do Espiritismo. Em grosso volume de 404 páginas. do mesmo género. os autores que se vêm manifestando contra o Espiritismo e lhe negando a parte que lhe cabe no quadro das ciências. Bem poucas obras estrangeiras. São refutados. . se igualam no conjunto a esta do Dr. é das obras mais vigorosas do conhecido e inigualável polemista.

foi o pujante espírito que se conta entre os seguidores de Allan Kardec. sua autenticidade e sentido oculto. nesta ele teve o objetivo de ressaltar a grandeza do Cristianismo. Léon Denis. que traduz fielmente o pensamento do grande escritor francês. A tradução em português é de Leopoldo Cirne. os dogmas da Igreja. . que o secundaram na grande obra de divulgação dos ensinos revelados pelos Espíritos Superiores. Autor de outras notáveis obras.. a comunhão dos primeiros cristãos com os Espíritos dos mortos. Seu autor. a reencarnação etc. A origem dos Evangelhos. Por todos esses títulos é que recomendamos vivamente essa obra a todos os nossos leitores.Léon Denis CRISTIANISMO E ESPIRITISMO Leitura utilíssima para todo espírita estudioso e que não pode conceber a Doutrina Espírita senão vinculada ao Evangelho do Cristo. o Espiritismo e a Ciência. são alguns dos temas comentados por Léon Denis. os fenómenos espíritas da Bíblia. mas dissecando também o corpo de deturpações e deformidades que nele foram introduzidas pelos dogmas do Catolicismo Romano e suas fórmulas ritualísticas.

com uma argumentação incontestável e vitoriosa. célebre por seus trabalhos criminológicos. Através de longo e minucioso estudo sobre Hipnotismo e Mediunidade. Eduardo von Hartmann. Lombroso demonstra a diferença entre esses dois conhecimentos. apresenta nesta obra a sua resposta ao mais famoso filósofo da época. de vários sábios da época. Em 700 páginas de composição compacta.Alexandre Aksakof ANIMISMO E ESPIRITISMO Aksakof. no ponto de vista científico e filosófico". recolhidos em todo o Mundo. colocando. . o sábio investigador dos fenómenos espíritas. o livro encerra uma multidão de fatos maravilhosos. o Dr. durante muitos e muitos anos de investigação. César Lombroso HIPNOTISMO E MEDIUNIDADE É obra que produziu grande agitação nos meios intelectuais e científicos. as teorias antiespíritas no seu devido lugar. pois que escrita por um sábio de renome universal. apresentando numerosas observações e experiências realizadas por ele e por outros sábios europeus. e da qual bom número é também devido às observações e experiências do próprio Autor. mostrando-lhes o seu nenhum valor. é "a obra mais importante e mais completa que se escreveu acerca do Espiritismo. No conceito de muitos estudiosos.

são alguns dos temas comentados por Léon Denis. sua autenticidade e sentido oculto. que traduz fielmente o pensamento do grande escritor francês. a comunhão dos primeiros cristãos com os Espíritos dos mortos. nesta ele teve o objetivo de ressaltar a grandeza do Cristianismo. Por todos esses títulos é que recomendamos vivamente essa obra a todos os nossos leitores.. . Autor de outras notáveis obras. Seu autor. que o secundaram na grande obra de divulgação dos ensinos revelados pelos Espíritos Superiores. os fenómenos espíritas da Bíblia.Léon Denis CRISTIANISMO E ESPIRITISMO Leitura utilíssima para todo espírita estudioso e que não pode conceber a Doutrina Espírita senão vinculada ao Evangelho do Cristo. mas dissecando também o corpo de deturpações e deformidades que nele foram introduzidas pelos dogmas do Catolicismo Romano e suas fórmulas ritualísticas. os dogmas da Igreja. A tradução em português é de Leopoldo Cirne. foi o pujante espírito que se conta entre os seguidores de Allan Kardec. Léon Denis. o Espiritismo e a Ciência. A origem dos Evangelhos. a reencarnação etc.

Lombroso demonstra a diferença entre esses dois conhecimentos. recolhidos em todo o Mundo. é "a obra mais importante e mais completa que se escreveu acerca do Espiritismo. Eduardo von Hartmann. de vários sábios da época. No conceito de muitos estudiosos. as teorias antiespíritas no seu devido lugar. César Lombroso HIPNOTISMO E MEDIUNIDADE É obra que produziu grande agitação nos meios intelectuais e científicos. célebre por seus trabalhos criminológicos. durante muitos e muitos anos de investigação. o livro encerra uma multidão de fatos maravilhosos. o sábio investigador dos fenómenos espíritas. com uma argumentação incontestável e vitoriosa. pois que escrita por um sábio de renome universal. no ponto de vista científico e filosófico". .Alexandre Aksakof ANIMISMO E ESPIRITISMO Aksakof. Através de longo e minucioso estudo sobre Hipnotismo e Mediunidade. mostrando-lhes o seu nenhum valor. o Dr. colocando. Em 700 páginas de composição compacta. e da qual bom número é também devido às observações e experiências do próprio Autor. apresenta nesta obra a sua resposta ao mais famoso filósofo da época. apresentando numerosas observações e experiências realizadas por ele e por outros sábios europeus.

(Transcrito de "O Médium".) "temos agora nova e completa visão do Codificador (. num total de 896 páginas. sobre a data do seu nascimento e sobre a controvertida questão de ele ter sido ou não formado em Medicina. as letras espíritas e deu ao Codificador da Doutrina Espírita a sua real dimensão na história da Humanidade.. O volume II trata da missão de Kardec.Zeus Wantuil e Francisco Thiesen ALLAN KARDEC Publicada em 1979 e 1980. São três volumes. O volume l apresenta uma visão muito nítida da formação moral e intelectual de Hippolyte Léon Denizard Rivail no Instituto Yverdon. O apêndice final traz uma série de elucidações sobre vários pontos importantes. ano 49 — n2 486 — fevereiro de 1981. A figura de Allan Kardec ressalta dessa magistral obra na grandiosidade de sua missão.). essa obra 'Veio enriquecer. a forma como são apresentados num estilo claro e objetivo tornam a leitura dos três volumes muito agradável. a continuidade do Movimento. sobremaneira. a sua desencarnação. Todos os espíritas devem ter essa obra". dezenas de ilustrações e numerosas e preciosas informações sobre a vida de Kardec e daqueles que constituíram o seu pequeno e valoroso contingente de colaboradores diretos no plano físico.. Com este alentado trabalho (.. O volume III abrange as obras espíritas de Allan Kardec.. do método pestalozziano e da obra de Rivail como educador emérito. o que sensibiliza e emociona a quem lê.) . traçando um panorama que se inicia em Hydesville até as primeiras perseguições contra o Movimento Espírita nascente. facilitando ao leitor a assimilação de um tão grande número de informações. de Juiz de Fora (MG). os periódicos do seu tempo. A perfeita concatenação dos fatos. o Movimento Espírita brasileiro e a destinação do nosso país como Pátria do Evangelho. as lutas e a abnegação dos seus continuadores. Ao final há um apêndice que elucida a respeito do nome civil de Kardec.

A lógica e o bom-senso de Allan Kardec aí se evidenciam. de problemas de ordem psicológica. caracterizando-se como um resumo de O Livro dos Médiuns. bem como apropriadas refutações aos seus contraditares. moral e filosófica. é publicado o resumo de O Livro dos Espíritos. desconcertando os negativistas e clareando as indagações dos que acreditam e aspiram à vida superior. O segundo capítulo. No terceiro capítulo. apontada pela Doutrina Espírita. expõe partes da ciência prática e experimental. . Divide-se em 3 capítulos: O primeiro. com a solução.-í Snusse. sob a forma de diálogos com um crítico.O QUE E O ESPIRITISMO Allan Kardec Obra sempre atual. útil aos adeptos da Doutrina Espírita. por Hei. um céptico e um padre. como também àqueles que desejam conhecer a natureza do Espiritismo e a definição de seus pontos fundamentais. traz respostas àqueles que desconhecem os princípios básicos da Doutrina. Contém também a biografia de Allan Kardec.

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