OQUEEO ESPIRITISMO

ALLAN KARDEC /l

ALLAN KARDEC

O que é o Espiritismo
NOÇÕES ELEMENTARES DO MUNDO INVISÍVEL, PELAS MANIFESTAÇÕES DOS ESPÍRITOS,
COM O

resumo dos princípios da Doutrina Espirita e resposta às principais objeções que podem ser apresentadas

Contendo a BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC por HENRI SAUSSE

FEDERAÇÃO ESPIRITA BRASILEIRA DEPARTAMENTO EDITORIAL Rua Souza Valente, 17 20941-040 - Rio-R J - Brasil

CIP-BRASIL. CATALOGAÇAO-NA-FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ. K27o 41.ed. Kardec, Allan, 1804-1869 O que é o espiritismo : noções elementares do mundo invisível, pelas manifestações dos espíritos, com o resumo dos princípios da Doutrina Espirita e resposta às principais objeções que podem ser apresentadas / Allan Kardec. — 41 .ed. — Rio de Janeiro : Federação Espírita Brasileira, 1999 "Contendo a biografia de Allan Kardec por Henri Sausse" ISBN 85-7328-113-8 1. Espiritismo, l. Título. 98-0194. 130298 170298 CDD 133.9 CDU 133.7 004668

índice das Matérias
Biografia de Allan Kardec Preâmbulo CAPÍTULO I Primeiro diálogo — O crítico Segundo diálogo — O céptico Espiritismo e Espiritualismo Dissidências Fenómenos espíritas simulados Impotência dos detratores O maravilhoso e o sobrenatural Oposição da Ciência Falsas explicações dos fenómenos — Alucinação — Fluido magnético •— Reflexo do pensamento •— Superexcitação cerebral — Estado sonambúlico dos médiuns Não basta que os incrédulos vejam para que se convençam \... Boa ou má-vontade dos Espíritos para convencer .. Origem das ideias espíritas modernas Meios de comunicação Médiuns interesseiros Médiuns e feiticeiros Diversidade dos Espíritos Utilidade prática das manifestações Loucura, suicídio e obsessão 51 65 66 68 70 71 74 75 9 49

82 86 88 89 93 97 103 105 109 111

ÍNDICE Esquecimento do passado Elementos de convicção Sociedades espíritas Interdição do Espiritismo Terceiro diálogo — O padre CAPÍTULO II 114 117 120 121 -. 122 Noções elementares de Espiritismo — Observações preliminares 151 Dos Espíritos 153 Comunicação com o mundo invisível Fim providencial das manifestações espíritas Dos médiuns Escolhos da mediunidade Qualidades dos médiuns Charlatanismo Identidade dos Espíritos Contradições Consequências do Espiritismo CAPITULO III 157 168 170 175 178 182 183 185 186 Solução de alguns problemas pela Doutrina Espírita — Pluralidade dos mundos 193 Da alma 194 O homem durante a vida terrena 197 O homem depois da morte 207 .

000. 9/1999 Copyright 1944 by FEDERAÇÃO ESPÍRITA BRASILEIRA (Casa-Máter do Espiritismo) Av. fotolitos e impressão offset das Oficinas do Departamento Gráfico da FEB Rua Souza Valente.857/0002-84 LÊ.br Pedidos de livros à FEB — Departamento Editorial. ou FAX (021) 589-6838.5-O.600.ISBN 85-7328-113-8 41! edição Do 41CF. julho de 1859) Capa de CECCONI B. DF — Brasil Composição. via rodoviário: por carta. telefone (021) 589-6020. 6.febrasil.ao 414" milheiro Título do original francês: QVEST-CE QUE LÊ SPIRITISME? (Paris. L-2 Norte — Q.org. . RJ — Brasil CNPJ n" 33.834 53-AA. rf 81.N.644.503 INTERNET http://www. 17 20941-040 — Rio de Janeiro. 603 — Conjunto F 70830-030 — Brasília. via Correio ou. em grandes encomendas.

e cuja vida íntima e laboriosa existência são apenas conjeturadas. pp. . e de não saberem onde encontrar. Pois é para honrar Allan Kardec e festejar a sua memória que nos achamos hoje reunidos. 95/6. no intuito de tentar corresponder a tão legítimo desejo. Nota da Editora. permiti-me. inserto em "Reformador" de abril de 1963. Em respeito ao fundador da filosofia espírita. (*) Seu verdadeiro nome é Hippolyte Iiéon D«nizard Rivail. tão gloriosa e tão bem preenchida. as informações que desejariam conhecer. meus senhores: Muitas pessoas que se interessam pelo Espiritismo manifestam muitas vezes o pesar de não possuírem senão muito imperfeito conhecimento da biografia de Allan Kardec. pela ausência até hoje de elementos para isso. e um mesmo sentimento de veneração e de reconhecimento faz vibrar todos os corações.BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC (*) Minhas senhoras. intitulado "Kardec e seu nome civil". conforme estudo de autoria de Zeus Wantuil. tão grande. Se fácil foi a todos os investigadores conscienciosos inteirarem-se do alto valor e do grande alcance da obra de Allan Kardec pela leitura atenta das suas produções. penetrar na vida do homem íntimo e segui-lo passo a passo no desempenho da sua tarefa. bem poucos puderam. sobre aquele a quem chamamos Mestre. cujos trabalhos são universalmente conhecidos e apreciados. que vos entretenha alguns momentos com esse Mestre amado.

diretor do estabelecimento das águas minerais da rua Sala. em Lião. ao nosso filial reconhecimento. A inveja e o ciúme semearam sobre ela os mais evidentes erros. juiz. aquele que devia mais tarde ilustrar o nome de Allan Kardec e conquistar para ele tantos títulos à nossa profunda simpatia. esse filósofo sábio. pág. de ter visto nascer entre seus muros esse pensador tão arrojado quão metódico. filho de Jean Baptiste-Antoine Rivail. esforçar-me por mostrar-vos. auto do nascimento de Denizard Hippolyte-Léon Rivail. a 3 de outubro de 1804. nasceu de antiga família lionesa. "Testemunhas maiores: "Syriaque-Frédéric Dittmar. rua Sala n. senão que ainda está por ser escrita.° 78. com luz mais verdadeira. rua Saint-Dominique n. impelindo-a para um ideal mais são. sua esposa. e Jean-François Targe. esse trabalhador obstinado cujo labor sacudiu o edifício religioso do Velho Mundo e preparou os novos fundamentos que deveriam servir de base à evolução e à renovação da nossa sociedade caduca. nascido ontem às 7 horas da noite. Vou. e Jeanne Duhamel. as mais grosseiras e as mais impudentes calúnias. . para um adiantamento intelectual e moral seguros. (*) Veja-se "Reformador" de abril de 1947. Foi. que. com o nome de Rivail. magistrado. a justo título. portanto. Todos sabeis que a nossa cidade se pode honrar.° 76. clarividente e profundo. o grande iniciador de quem nos desvanecemos de ser discípulos. residentes em Lião. com efeito.10 BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC Não somente a biografia de Allan Kardec é pouco conhecida. à requisição do médico Pierre Radamel. Eis aqui a esse respeito um documento positivo e oficial: "Aos 12 do vindemiário (*) do ano XIII. 85. mais elevado. mesma rua Sala. "O sexo da criança foi reconhecido como masculino.

assim como o Maire da região do Sul. à propaganda do sistema de educação que exerceu tão grande influência sobre a reforma dos estudos na França e na Alemanha. conhecia também o holandês. . conhecia a fundo e falava corretamente o alemão. com os louros e as glórias da sua familia. ele se sentiu atraído para as ciências e para a filosofia. para fundar institutos semelhantes ao de Yverdun. de honra. Era bacharel em letras e em ciências e doutor em medicina. 67. não foi. quando Pestalozzi era chamado pelos governos. grande número dos seus antepassados se tinham distinguido na advocacia e na magistratura. colaborador inteligente e dedicado. saber e escrupulosa probidade. Aplicou-se. Muitíssimas vezes. porque. além de tudo. (assinado): Mathiou. Parecia que o jovem Eivail devia sonhar. o italiano e o espanhol. (*) ver "Reformador" de marco de 1958. e podia facilmente exprimir-se nesta língua.BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC 11 "Feita a leitura. Linguista insigne. as testemunhas assinaram. um pouco de todos os lados. desde o começo da sua juventude. pág. com o célebre professor Pestalozzi. porém. Assim." O futuro fundador do Espiritismo recebeu desde o berço um nome querido e respeitado e todo um passado de virtudes. de probidade. de todo o coração. tendo feito todos os estudos médicos e defendido brilhantemente sua tese ( * ) . confiava a Denizard Rivail o encargo de o substituir na direção da sua escola. Rivail Denizard fez em Lião os seus primeiros estudos e completou em seguida a sua bagagem escolar. por seu talento. "O presidente do Tribunal. O discípulo tornado mestre tinha. o inglês. a capacidade requerida para dar boa conta da tarefa que lhe era confiada. em Yverdun (Suíça). também ele. com os mais legítimos direitos. de quem cedo se tornou um dos mais eminentes discípulos.

35 rua de Sèvres. humor jovial na intimidade. com Amélie-Gabrielle Boudet.12 BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC Denizard Rivail era um alto e belo rapaz. que frequentava em Paris. diretor do Instituto Técnico à rua de Sèvres (Método de Pestalozzi). de cuja partilha couberam 45. Rivail. residentes em Château-du-Loir. nasceu em Thiais (Sena). e Sra. No mundo das letras e do ensino. Rivail tinha a paixão do jogo. mais nove anos que o Sr. se firmou em Paris o contrato de casamento de Hippolyte-Léon-Denizard Rivail. Denizard Rivail encontrou aa senhorita Amélia Boudet. O sócio do Sr. um estabelecimento semelhante ao de Yverdun. Pequena. mas na aparência dir-se-ia ter menos dez que ele. arruinou o sobrinho. e de Julie Louise Seigneat de Lacombe. mas bem proporcionada. O registro civil nos informa que: "Amélie Gabrielle Boudet. o pensador sábio e profundo. dois anos depois." A senhorita Amélia Boudet tinha. quando. Essa soma foi colocada pelo Sr. de maneiras distintas. veio fundar em Paris. gentil e graciosa. Jeanne Duhamel.000 francos a cada um deles. Ò Sr. bom e obsequioso. sob a franca e comunicativa alegria do homem amável. nego- . filha de Julien-Louis Boudet. filha de Julien Louis e senhora Julie Louise Seigneat de Lacombe. inteligente e viva. professora com diploma de l. ele obteve isenção e. que aliava grande dignidade à mais esmerada urbanidade. em quem adivinhou. classe. ela soube por seu sorriso e predicados fazer-se notar pelo Sr. Rivail requereu a liquidação do Instituto. pois. aos 2 do Frimário do ano IV (23 de novembro de 1795). irmão de sua mãe. em 6 de fevereiro de 1832. Tendo-o a conscrição incluído para o serviço militar. perdendo grossas somas em Spa e em Aix-la-Chapelle. rica por seus pais e filha única. Rivail. Rivail em casa de um dos seus amigos íntimos. filho de Jean-Baptiste Antoine e senhora. Para essa empresa se associara a um dos seus tios.° 35. proprietário e antigo tabelião. à rua de Sèvres n.. o qual era seu sócio capitalista. residentes em Paris.

págs. finalmente. Química e Física. astronomia e anatomia comparada. livros para estudos pedagógicos superiores. Membro de várias sociedades sábias. que fez maus negócios e cuja falência nada deixou aos credores. que lhe produziam cerca de 7. em 1849. à rua de Sèvres. frequentados por discípulos de ambos os sexos do faubourg Saint-Germain. . e. ao serão. em 1846 o Manual dos exames para obtenção dos diplomas de capacidade. Longe de desanimar com esse duplo revés.000 francos por ano. (*) Houve engano dos biógrafos. Astronomia. em 1828. o Sr.BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC 13 ciante. encontramos o Sr. notadamente da Academia real d'Arras. pela apresentação da sua notável memória: Qual o sistema de estudo mais em harmonia com as necessidades da época? Dentre as suas numerosas obras convém citar. por concurso. de 1835 a 1840. segundo o método de Pestalozzi. Rivail lançaram-se corajosamente ao trabalho. esse trabalhador infatigável escrevia à noite. Organizou também em sua casa. ele publicou. em 1831. Ver "Reformador" de 1952. cursos gratuitos de química. 77 e 79. traduzia obras inglesas e alemãs e preparava todos os cursos de Levy-Alvarès. Em uma obra muito apreciada resume seus cursos. em 1831 fez aparecer a Gramática francesa clássica. em 1848 foi publicado o Catecismo gramatical da língua francesa. soluções racionais das questões e problemas de aritmética e geometria. gramáticas. regendo as cadeiras de Fisiologia. e depois publica: Ditados normais dos exames na Municipalidade e na Sorbona. — Nota da Editora. terminado o seu dia. foi premiado. Ele encontrou e pôde encarregar-se da contabilidade de três casas. Ditados especiais sobre as dificuldades ortográficas. por ordem cronológica: Plano apresentado para o melhoramento da instrução pública. em 1829 ( * ) . o Curso prático e teórico de aritmética. mas em 1824. e Sra. e que eram muito frequentados. para uso das mães de família e dos professores. aritméticas. Rivail professor no Liceu Polimático. física. Não foi em 1829.

Fortier lhe disse um dia: "Eis aqui uma coisa que é bem mais extraordinária: não somente se faz girar uma mesa. Rivail ouviu pela primeira vez falar nas mesas girantes. a uma obra maior. mas também se pode fazê-la falar. é uma outra questão. Prosseguindo em sua carreira pedagógica. magnetizador." — Isso. Rivail. Até lá. seus trabalhos justamente apreciados. honrado e tranquilo. Rivail conseguir. tê-lo-iam impelido para o misticismo. e ela responde. mas pedindo provas e querendo ver e observar para crer. Tal era a princípio o estado de espírito do Sr. mas a educação. mas a sua missão o chamava a uma tarefa mais onerosa. Rivail estava admiravelmente preparado para a rude tarefa que ia ter que desempenhar e fazer triunfar. Rivail. ele sempre se mostrou à altura da missão gloriosa que lhe estava reservada.14 BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC Tendo sido essas diversas obras adotadas pela Universidade de França. o Sr. tais nos devemos mos- . muito antes que ele imortalizasse o nome de Allan Kardec. como teremos muitas vezes ocasião de o evidenciar. replicou o Sr. nervos para sentir. Seus pendores. estando a sua fortuna reconstruída pelo trabalho perseverante e pelo brilhante êxito que lhe havia coroado os esforços. e vendendo-se abundantemente. conservaram-no igualmente ao abrigo dos entusiasmos desarrazoados e das negações não justificadas. Como se pode julgar por esta muito rápida exposição. Rivail poderia viver feliz. graças a elas e ao seu assíduo trabalho. permita-me que não veja nisso senão uma fábula para provocar o sono. o Sr. tal o encontraremos muitas vezes. e que se pode tornar sonâmbula. O Sr. o juízo reto. magnetizando-a. em razão dos seus estudos sobre o Magnetismo. Interroga-se. a princípio do Sr. a observação metódica. Fortier. com o qual mantinha relações. uma modesta abastança. Seu nome era conhecido e respeitado. e. eu acreditarei quando vir e quando me tiverem provado que uma mesa tem cérebro para pensar. não negando coisa alguma por parti pris. suas aspirações. pôde o Sr. Foi em 1854 que o Sr.

Pâtier e a . de uma mesa falante. Nada tinha ainda visto nem observado. às leis da Natureza e que minha razão repelia. Rivail. para esse sagaz observador. Carlotti era corso de origem. de natureza ardente e enérgica. não vos falei senão do Sr. aumentaram as minhas dúvidas. no ciclo de um fato inexplicado. eu tinha sempre distinguido nele as qualidades que caracterizam uma grande e bela alma. Lá encontrei o Sr. as suas hesitações e também a sua primeira iniciação: "Eu me encontrava. pois. Então o nome de Rivail se obumbra. autor pedagógico de renome. porém. que todos os ecos repetirão e que todos os nossos corações idolatram. um novo horizonte se rasga para esse pensador profundo. — Você um dia será dos nossos — disse-me ele.BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC 15 trar sempre no estudo tão atraente das manifestações do Além. estive. com o entusiasmo que ele punha em todas as ideias novas. mas desconfiava da sua exaltação. que a fama levará a todos os cantos do globo. * Até agora. que discorreu acerca desses fenómenos durante mais de uma hora. as experiências feitas em presença de pessoas honradas e dignas de fé me firmavam na possibilidade do efeito puramente material. professor emérito. com o Sr. veremos isso mais tarde. um amigo de há vinte e cinco anos. longe de me convencerem. Fortier. — Não digo que não. mas a ideia. "Daí a algum tempo. Nessa época. pelo mês de maio de 1855. Carlotti. Ele foi o primeiro a falar-me da intervenção dos Espíritos. em casa da sonâmbula Sra. "No ano seguinte — era no começo de 1855 — encontrei o Sr. seu magnetizador. e contou-me tantas coisas surpreendentes que. de 1854 a 1856. na aparência. para ceder o lugar ao de Allan Kardec. contrário. O Sr. Roger. não me entrava ainda no cérebro. Eis aqui como Allan Kardec nos revela as suas dúvidas. da sua vida. respondi-lhe eu —.

que me falaram desses fenómenos no mesmo sentido que o Sr. Em um dos serões da Sra. de caráter grave. de certa idade. "Foi aí que fiz os meus primeiros estudos sérios em Espiritismo. dos efeitos procurava remontar às causas pela dedução. . Minhas ideias estavam longe de se haver modificado. "Foi aí. como até então o tinha feito. Plainemaison. senão quando ela podia resolver todas (*) Esta data ficou em branco no manuscrito de Allan Kardec. e às quais eu fui. o método da experimentação. mas naquilo havia um fato que devia ter uma causa. — Nota do Autor. "A ocasião se me ofereceu e pude observar mais atentamente do que tinha podido fazer. quando ele me convidou para assistir às experiências que se realizavam em casa da Sra. e. isenta de todo entusiasmo. Plainemaison. O Sr. Carlotti. menos ainda por efeito de revelações que por observação. rua Grange-Batelière n. que morava então à rua Bochechouart. Baudin fez-me oferecimento no sentido de assistir às sessões hebdomadárias que se efetuavam em sua casa. observava atentamente. frio e calmo. homem muito instruído. pelo encadeamento lógico dos fatos. que saltavam e corriam. "Aí vi também alguns ensaios muito imperfeitos de escrita mediúnica em uma ardósia com o auxílio de uma cesta. que a mim mesmo prometi aprofundar. que testemunhei o fenómeno das mesas girantes. não admitindo como válida uma explicação. pela primeira vez. Apliquei a essa nova ciência. muito assíduo. nunca formulei teorias preconcebidas. sua linguagem pausada. Plainemaison.16 BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC Sra. mas noutro tom. deduzia as consequências. alguma coisa de sério e como que a revelação de uma nova lei. sob essas aparentes futilidades e a espécie de divertimento que com esses fenómenos se fazia. aceitei com solicitude. O Sr. fiz conhecimento com a família Baudin. às 8 horas da noite. A entrevista foi marcada para a terça-feira ( * ) de maio.° 18. Pâtier era funcionário público. produziu-me viva impressão. comparava. desde esse momento. Entrevi. e isso em condições tais que a dúvida não era possível.

Esta verdade. e que a sua opinião não tinha senão o valor de uma opinião pessoal. reconhecida desde o começo. se assim nos podemos exprimir. não sendo senão as almas dos homens. Cedo. Compreendi. era. ensinar-nos tudo. Foi assim que sempre procedi em meus trabalhos anteriores. evitou-me o grave escolho de crer na sua infalibilidade e preservou-me de formular teorias prematuras sobre a opinião de um só ou de alguns.BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC 17 as dificuldades da questão. não tinham nem a soberana sabedoria. um imenso campo franqueado às nossas explorações. o que quer que eles pudessem dizer. a gravidade da exploração que ia empreender. . desde o princípio. agi com os Espíritos como o teria feito com os homens: eles foram. provava a existência de um mundo invisível ambiente. era conhecer o estado desse mundo e seus costumes. não menos importante. "Um dos primeiros resultados das minhas observações foi que os Espíritos. que o seu saber era limitado ao grau do seu adiantamento. desvendava-me uma fase desse mundo. desde a idade de quinze a dezesseis anos. se fazia agir com circunspeção e não levianamente. coordenados e confrontados entre si. era já um ponto capital. a chave de uma multidão de fenómenos inexplicados. em uma palavra. observei que cada Espírito. Entrevi nesses fenómenos a chave do problema tão obscuro e tão controvertido do passado e do futuro. portanto. podendo cada qual nos ensinar alguma coisa e nenhum deles podendo. Eu. nem a soberana ciência. pois. "Só o fato da comunicação com os Espíritos. para me não deixar arrastar pelas ilusões. individualmente. preciso. exatamente como se chega a conhecer o estado de um país interrogando os habitantes de todas as classes e condições. ser positivista e não idealista. O segundo ponto. Cumpre ao observador formar o conjunto. para mim. em razão de sua posição pessoal e de seus conhecimentos. com o auxílio dos documentos recolhidos de diferentes lados. colecionados. a solução do que havia procurado toda a minha vida. uma completa revolução nas ideias e nas crenças.

diz ele próprio. da psicologia e da . e. ao tempo dos Druidas. membro da Academia das Ciências." A estas informações. então. Conhecendo as vastas e raras aptidões de síntese do Sr. Este trabalho era árduo e exigia muito tempo. meios de colher informações e não reveladores predestinados. e que facilmente levaria a termo. pedindo-lhe que deles tomasse conhecimento e os pusesse em termos —. Ele se chamava. assinalou as lacunas a preencher. convém acrescentar que a princípio o Sr. seu Espírito protetor. por um médium. anotou-os com cuidado. na qual lhe dizia. Tiedeman-Manthèse. Allan Kardec. e Didier. esses senhores lhe enviaram os cadernos. cada relatório de sessão. os arranjasse. o que talvez tivesse feito se não fossem as instantes solicitações dos Srs. fazer resolver os problemas que me interessavam sob o ponto de vista da filosofia. prometia-lhe esse Espírito secundá-lo na tarefa muito importante a que ele era chamado. editor. Z. entre outras coisas. viviam juntos nas Gálias. "Até então. longe de ser um entusiasta dessas manifestações e absorvido por outras preocupações. como a amizade que lhe havia votado só fazia aumentar. e o sábio enciclopedista recusava-se a essa tarefa enfadonha e absorvente. uma comunicação toda pessoal. lançou-se à obra: tomou os cadernos.. em virtude das lacunas e obscuridades dessas comunicações. esteve a ponto de as abandonar. Rivail.38 BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC desde o menor até o mais elevado. quando. Rivail. Carlotti. em razão de outros trabalhos. e preparou as perguntas necessárias para chegar a esse resultado. O Sr. Sardou. que acompanhavam havia cinco anos o estudo desses fenómenos e tinham reunido cinquenta cadernos de comunicações diversas. deu-lhe. Após atenta leitura. colhidas nas Obras Póstumas de Allan Kardec. que não conseguiam pôr em ordem. as obscuridades a aclarar. as sessões em casa do Sr. tê-lo conhecido em uma precedente existência. propus-me. René Taillandier. Baudin não tinham nenhum fim determinado. aí. suprimiu as repetições e pôs na respectiva ordem cada ditado. Rivail. pois. Uma noite. pai e filho.

toda vez que se oferecia ocasião. fizeram a base de O Livro aos Espíritos. com Mlle. Rivail frequentou as reuniões espíritas que se realizavam à rua Tiquetone. em casa do Sr. eu a aproveitava para propor algumas das questões que me pareciam mais melindrosas. E foi da comparação e da fusão de todas essas respostas. Japhet. o Sr. nas sessões ordinárias. Foi assim que mais de dez médiuns prestaram seu concurso a esse trabalho. e. Esse trabalho foi efetuado. que os Espíritos me haviam recomendado.BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC 19 natureza do mundo invisível. "Não me contentei com essa verificação. profundeza e de modo lógico. A princípio eu não tinha em vista senão a minha própria instrução. ficavam as sessões como que tolhidas. Desde esse momento as reuniões tiveram caráter muito diferente. Foram essas mesmas questões que. — Nota do Tradutor. mas a pedido dos Espíritos. que obtinha como médium comunicações muito interessantes. entre os assistentes. e para que fosse consagrado mais cuidado. foi continuado em sessões particulares. sucessivamente desenvolvidas e completadas. tendo as questões fúteis perdido o atrativo para o maior número." Em 1856. para instrução de todos. com o auxílio da cesta aguçada ( * ) . mais atenção a esse exame. Se me acontecia faltar. Roustan. tive o pensamento de o publicar. fez examinar por esse médium as comunicações obtidas e postas precedentemente em ordem. mais tarde. diz ainda Allan Kardec." (•) Arranjada em forma de bico. quando vi que tudo aquilo formava um conjunto e tomava as proporções de uma doutrina. sonâmbula. . Tendo-me as circunstâncias posto em relação com outros médiuns. a qual apareceu em 18 de abril de 1857. Comparecia a cada sessão com uma série de questões preparadas e metodicamente dispostas: eram respondidas com precisão. que formei a primeira edição de O Livro dos Espíritos. classificadas e muitas vezes refeitas no silêncio da meditação. encontravam-se pessoas sérias que tomaram vivo interesse pelo trabalho. coordenadas. a princípio.

20 BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC Esse livro era em formato grande. ele adotou o alvitre de o assinar com o nome de Allan Kardec que. e em seguida tornou a pôr mãos à obra. — Queria comunicar-se contigo. Sendo o seu nome muito conhecido do mundo científico. sendo dia de sessões em casa do Sr. revista. A obra alcançou tal êxito que a primeira edição foi logo esgotada. e podendo originar uma confusão. em frente. correta e consideravelmente aumentada. ou com um pseudónimo. Pergunta: — Ouvistes o fato que acabo de narrar. e nfio 1858. em virtude dos seus trabalhos anteriores. a causa disso. podereis dizer-me a causa dessas pancadas que se fizeram ouvir com tanta insistência? Resposta: — Era o teu Espírito familiar. o autor ficou muito embaraçado em resolver como o assinaria. entrando cerca das dez horas. em via de compulsar as comunicações e preparar O Livro dos Espíritos. no segundo andar. . vinha ele bater assim? R. Moravam. in-4. mas sem resultado. — Com que fim. procurou. escreve Allan Kardec. talvez mesmo prejudicar o êxito do empreendimento. — Podes perguntar a ele mesmo. se com o seu nome — Denizard-Hippolyte-Léon Rivail. ouviu os mesmos ruídos. — Podereis dizer-me o que queria ele? R. uma para as perguntas e outra. para as respostas. então. "No dia seguinte. ao fundo. No momento de publicá-lo. P. à rua dos Mártires n. procuraram. segundo lhe revelara o guia. em duas colunas. Allan Kardec reeditou-a em 1858 (*) sob a forma atual in-12. ele tivera ao tempo dos Druidas. P. de onde podiam eles provir.° 8. contei o fato e pedi a explicação dele. Sua mulher. Baudin. (*). A 2» edição foi Impressa em 1860. — Nota da Editora (FEB). porque está aqui. quando ouviu ressoarem pancadas repetidas no tabique. No dia 25 de março de 1856 estava Allan Kardec em seu gabinete de trabalho. sem descobrir.

Relê e verás. pelo menos. agradeço-vos terdes vindo visitar-me. . P. reconhecer-lhe-ás os erros e os corrigirás. quanto a respostas escritas em tua casa. mas não prometo senão uma vez por mês. P. ou sobre o conjunto do trabalho? R. não será tão cedo que as poderás obter. P. — O que eu tinha a dizer-te era sobre o trabalho que fazias. estarei aqui. — Posso evocar-vos em minha casa? R. — O nome de Verdade que tomais é uma alusão à verdade que procuro? R. NOTA — O que eu escrevia era precisamente relativo aos estudos que fazia sobre os Espíritos e suas manifestações. Quereis ter a bondade de dizer-me quem sois? R. é um guia que te há de auxiliar e proteger. Torna a lê-lo esta noite. — Talvez. P. Lê da terceira à trigésima linha e reconhecerás um grave erro. — Sim. — Está melhor. mas não muito bom. ou. enquanto eu trabalhava. — Eu mesmo não estava muito satisfeito com esse capítulo e o refiz hoje. até nova ordem. e todos os meses. para que eu te assista pelo pensamento. — Podereis vir mais frequentemente que todos os meses? R. durante um quarto de hora. Essa inutilização não impede que subsista o erro. mas. o que escrevias me desagradava e eu queria fazer-te parar. P. — Ontem. P. à tua disposição. — Rasguei o que tinha feito ontem.BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC 21 P. Está melhor? R. — A vossa desaprovação versava sobre o capítulo que eu escrevia. — Meu Espírito familiar. — Sobre o capítulo de ontem: faço-te juiz dele. R. quem quer que sejais. P. — Não importa. — Sim. — Para ti chamar-me-ei a Verdade. tínheis alguma coisa de particular a dizer-me? R. quando batestes.

foi precisado no dia 12 de junho de 1856. Tiedeman. E. médium. o projeto de criar um jornal espírita. Finalmente. em razão do êxito de O Livro dos Espíritos. Cardone. Foi a 30 de abril de 1856. a Sra. se deu a respeito do seu pseudónimo. no dia 15 de novembro de 1857.22 BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC P. vieram reafirmar e corroborar a primeira comunicação obtida a esse respeito. que Allan Kardec recebeu a primeira revelação da missão que tinha a desempenhar. em casa do Sr. Allan Kardec apressou-se a reler o que escrevera e pôde verificar o grave erro que com efeito havia cometido. o que da tua parte devia importar discrição. cada vez que ele esperava obter alguma coisa. que a isso se vinha opor. sendo intermediário o Sr." De volta a casa. fixada para cada comunicação do Espírito Verdade. Japhet. não saberás mais que isto. Urgido pelos acontecimentos e pelos documentos que tinha em seu poder. também. Assim. confirmou as duas comunicações precedentes.. Ele se manifestou frequentemente a Allan Kardec. essa missão foi novamente confirmada em uma comunicação espontânea. A 6 de maio de 1857. o que deveria . para solicitar-lhe o concurso pecuniário. mas não em sua casa. Esse aviso. pela médium Mlle. procedentes dos mais diversos pontos. Dufaux. por intermédio de Mlle. que ela ignorava. Allan Kardec formara. por intermédio da Srta. Numerosas comunicações. a princípio muito vago. A dilação de um mês. Allan Kardec perguntou aos seus guias. — Disse-te que para ti eu era a Verdade. Dehan. Aline C. a 12 de abril de 1860. Havia-se dirigido ao Sr. mas este não estava resolvido a tomar parte nessa empresa. Croset. Roustan. pela inspeção das linhas da mão de Allan Kardec. Animastes alguma personagem conhecida na Terra? R. onde durante cerca de um ano não pôde este receber nenhuma comunicação por médium algum e. era obstado por uma causa qualquer e imprevista. raramente foi observada. obtida na ausência de Allan Kardec. médium. em casa do Sr.

— Quais são as causas que me poderiam fazer fracassar? Seria a insuficiência das minhas aptidões? R. eu não tinha que prestar contas a ninguém. enquanto que um estranho interessado teria pretendido impor-me as suas ideias e a sua vontade e poderia embaraçar-me a marcha. nessa Revista Espírita. previno-te." E essa tarefa devia ir sempre crescendo em labor e em responsabilidades. a tua é rude. que a lide se tornava mais áspera. porque é ao mundo inteiro que se trata de agitar e de trans- . esse jornal se me tornou em poderoso auxiliar. e durante onze anos.° de janeiro de 1858. como o previra o Espírito. À medida. esse enérgico trabalhador se elevava. nem sócio capitalista. e. também. todos os ciúmes que não lhe foram poupados. mas fazem também ressaltar o grande valor do fundador do Espiritismo e o seu mérito em ter sabido triunfar: Médium. pois. que era uma felicidade para mim não ter tido um sócio capitalista. inteiramente por minha conta e risco. por mais onerosa que. ele afrontou todas as tempestades.BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC 23 fazer. Essa comunicação e as reflexões de que as anotou Allan Kardec nos mostram. mas a missão dos reformadores é cheia de escolhos e perigos. a situação naquela época. e não tive de que me arrepender. — 12 de junho de 1856: P. como ele mesmo relata e como lhe fora anunciado ao ser-lhe revelada a sua missão. como trabalho. sob um prisma pouco lisonjeiro. porém. mais tarde. Aline C. diz Allan Kardec. Só. e o fiz aparecer no dia 1. que acabamos de ver como começou tão modestamente. perigos de toda sorte. sem nada dizer a pessoa alguma. — Não. Mlle. Foi-lhe respondido que pusesse a sua ideia em execução e que não se inquietasse com o resto. Não tinha um único assinante. porque o êxito ultrapassou a minha expectativa. porque estava mais livre. todas as emulações. "Apressei-me em redigir o primeiro número. que nunca o surpreenderam. emboscadas. A partir de 1.° de janeiro. os números se sucederam sem interrupção. Fi-lo. Reconheci. em lutas incessantes contra obstáculos. à altura dos acontecimentos. fosse a minha tarefa.

desinteresse. agudas pedras e serpentes. tenho sido traído por aqueles em quem depositara confiança. Para lutar contra os homens. as minhas melhores instruções têm sido desnaturadas. e estar pronto para todos os sacrifícios. humildade. perseverança e firmeza inquebrantáveis. e pago com a ingratidão por aqueles a quem tinha prestado serviços. da calúnia. Mais de um recua quando. da injúria. dez anos e meio depois que esta comunicação me foi dada. mostrando-se amáveis em minha presença. É preciso antes de tudo. em lugar de uma vereda florida. dois livros. e que. ter prudência e tato para conduzir as coisas a propósito e não comprometer-lhes o êxito por medidas ou palavras intempestivas. é uma luta quase constante que terás de sustentar com o sacrifício do teu repouso. é necessário coragem. é preciso te mostrares no conflito. Não creias que te seja suficiente publicar um livro. Espírito Verdade. também. porque experimentei todas as vicissitudes que nela me foram anunciadas. porque tu não viverás muito tempo. as tuas melhores instruções serão impugnadas e desnaturadas. enfim. A Sociedade de Paris tem sido um contínuo foco de intrigas. dez livros. devotamento. abnegação. implacáveis inimigos tramarão a tua perda. . mesmo daqueles que te parecerão mais dedicados. porque abatem os orgulhosos e os presunçosos." NOTA — (É Allan Kardec que assim se exprime) : "Escrevo esta nota no dia l» de janeiro de 1867. têm sido publicados contra mim infames libelos. e verifico que ela se realizou em todos os pontos. da inveja e do ciúme. em uma palavra.24 BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC formar. para agradar a Deus. da tua tranquilidade. "Vês que a tua missão está subordinada a condições que dependem de ti. Tenho sido alvo do ódio de implacáveis inimigos. urdidas por aqueles que se diziam a meu favor. não encontra sob seus passos senão espinhos. sucumbirás mais de uma vez ao peso da fadiga. Pois bem. é preciso. não. Para tais missões não basta a inteligência. à traição. modéstia. contra ti se açularão terríveis ódios. é preciso. estarás exposto à calúnia. da tua saúde e mesmo da tua vida. e ficares tranquilamente em tua casa.

aí reuniu ele mais de trinta. esses pigmeus que procuravam obstruir-Ihe o caminho? Na maior parte são desconhecidos os seus nomes. Disseram que aqueles que adotavam o meu partido eram assalariados por mim com o dinheiro que eu arrecadava do Espiritismo. Mas era preciso. o seu salão poderia conter de quinze a vinte pessoas. passará à posteridade com a sua auréola de glória tão legitimamente adquirida. Dufaux. como principal médium. alguns dos assistentes se propuseram formar uma sociedade espírita e alugar um outro local em que se efetuassem as reuniões. Segundo a comunicação do Espírito Verdade. então. eu devia contar com tudo isso. e tudo se verificou. o intrépido lutador." Quando se conhecem todas essas lutas. Até então. ou nenhuma recordação despertam mais: o esquecimento os retomou e sepultou para sempre em suas sombras. Dufaux.BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC 25 me detratavam na ausência. enquanto que o de Allan Kardec. todas as torpezas de que Allan Kardec foi alvo. "Entretanto. quanto ele se engrandece aos nossos olhos e como o seu brilhante triunfo adquire mérito e esplendor! Que se tornaram esses invejosos. e que tenho constantemente prosseguido na minha tarefa com o mesmo ardor. mais de uma vez. Cedo. que . sem me preocupar com a malevolência de que era alvo. sou feliz em reconhecer que não tenho experimentado um único instante de desfalecimento nem de desânimo. o pioneiro ousado. tem-se-me alterado a saúde e comprometido a vida. Não mais tenho conhecido o repouso. esse local muito acanhado e não querendo onerar Allan Kardec com todos os encargos. com Mlle. sucumbi. que sem cessar me têm dado provas manifestas de sua solicitude.° de abril de 1858. A Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas foi fundada a 1. graças à proteção e à assistência dos bons Espíritos. O Sr. à rua dos Mártires. para se poderem reunir. sob o excesso do trabalho. obter o reconhecimento e a autorização da Polícia. E. Tornando-se. as reuniões se realizavam em casa de Allan Kardec.

quer para o preparo. galeria Valois. então. época em que se instalou em sede própria. ora.. que exigem longos e laboriosos estudos e não absorverão menos de dez anos. Não podendo lá permanecer por mais tempo.° de abril de 1860. Agora. de 1. sem grande probabilidade de êxito. quer para a coordenação e a passagem a limpo. de renunciar de futuro a toda espécie de função na Sociedade. Allan Kardec assim se exprime (Revista Espirita.° de abril de 1859 a 1. além daqueles que conheceis. que aumentam todos os dias. Aí ficou durante um ano. 1859.26 BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC conhecia pessoalmente o prefeito de polícia de então. de 1.° 59. porque. pela extensão das minhas relações. mesmo a de diretor dos estudos. sem o qual o prestígio de assembleia séria teria cedo desaparecido.° de abril de 1859. não ambiciono senão um título — o de simples membro titular. à rua e passagem SanfAna n. esforcei-me por manter nas sessões uma ordem rigorosa e por imprimir-lhe um caráter de gravidade. toda a solicitude e toda a dedicação de que era capaz. no Palais-Royal. galeria Montpensier.° de abril de 1858 a 1. que posso dizer laboriosas. reunia-se todas as sextas-feiras em um dos salões do restaurante Douix. que era favorável às novas ideias. enquanto que pelo processo ordinário teria exigido meses. 169) : "Empreguei em minhas funções. que a minha tarefa está terminada e que o impulso está dado. encarregou-se de dar os passos para esse íim. os trabalhos da Sociedade não deixam de tomar muito tempo. e. no local que fora alugado no Palais-Royal. "A Sociedade foi. do ponto de vista administrativo. graças ao ministro do Interior. o general X. O motivo da minha determinação está na multiplicidade dos meus trabalhos." Depois de haver dado conta das condições em que se formou a Sociedade e da tarefa que teve a desempenhar. Reclamam assiduidade muitas vezes prejudicial às minhas ocupações pés- . com que me sentirei sempre feliz e honrado. pág. a autorização foi obtida em quinze dias. preparo outros trabalhos mais consideráveis. regularmente constituída e reunia-se todas as terças-feiras. devo inteirar-vos da resolução que tomei.

Allan Kardec fez uma viagem de propaganda à nossa região. meus senhores. Allan Kardec dá conta do resultado da viagem que acaba de fazer. pois que se torna indispensável a iniciativa quase exclusiva que me tendes deixado. mas o que sobretudo é digno de nota. apresso-me em vos dar parte da minha resolução. em todo lugar em que se demorou. É justo que cada um tenha a sua parte nos encargos e nas honras. e especialmente ao Sr. poderiam acreditar em uma deserção. Em setembro de 1860. ao contrário." Apressemo-nos a acrescentar que essa demissão não foi aceita e que Allan Kardec foi reeleito por unanimidade. mas os mote j adores diminuem sensivelmente. que esses motivos cessaram. quer em particular a muitos dos meus colegas. para não embaraçar a escolha que fareis. É a esse motivo. Desempenhei. Ledoyen. menos um voto e uma cédula em branco. e felicita-se pela cordialidade do acolhimento que por toda parte encontrou. dela se ocupam de modo sério. os progressos consideráveis da doutrina. que eu devo o ter tantas vezes tomado a palavra. muitos adversários. e eis aqui como a ela fez referência na Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas: "O Sr. e que por toda parte lhe compreendem o alcance e as consequências futuras. vendo que os seus . porém. a minha tarefa até ao fim. Retirando-me no meado do ano. Diante desse testemunho de simpatia. é que em parte alguma viu que dela se fizesse um divertimento. especialmente em Sens. ele se submeteu e se conservou em suas funções. portanto. sem dúvida. Mácon.BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC 27 soais. Desde muito tempo alimentava o desejo de demitir-me das minhas funções: manifestei-o de modo muito explícito em diversas ocasiões. sendo os mais encarniçados os inimigos interessados. hoje. Há. no interesse do Espiritismo. Observou. que. e era preciso não dar esse prazer aos nossos adversários. Lião e Saint-Etienne. quer aqui. lamentando com frequência que os membros eminentemente esclarecidos que possuímos nos privassem das suas luzes. se não fora o temor de produzir uma perturbação na Sociedade. mas. Tê-lo-ia feito mais cedo.

A Doutrina Espírita tem exercido sobre os operários a mais salutar influência. Os espíritas são. Há. é sobretudo em Lião que são mais notáveis os resultados. começam a compreender que nada ganham com isso e que consomem o seu espírito em pura perda. admiram a moral que deles decorre. mas estava longe de imaginar que o número fosse tão considerável. do qual eis aqui algumas passagens. não se contentam de admirar a moral: praticam-na e aceitam-lhe as conse- . e nada mais. já se não poderão contar mais. compreendem o seu alcance filosófico.28 BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC sarcasmos não colocam do seu lado os gracej adores. e na classe operária contam-se por centenas. da moral e das ideias religiosas. Lião se distingue pelo número. próprias a nos interessar. porque é por centenas que eles se contam. finalmente. porém. Allan Kardec pronunciou um discurso magistral. meus senhores. mas não a praticam. os fenómenos. em pouco tempo — eu o espero —. em resumo. Os terceiros. o que ainda vale mais. Mas. eu sabia perfeitamente que Lião os contava em grande escala. e. o Espiritismo é simplesmente para eles uma série de fatos mais ou menos interessantes. Por toda parte não encontrei senão espíritas sinceros. e que auxiliam mais do que impedem o progresso das novas crenças. aí. sob o ponto de vista da ordem. só por si desenha ela o estado das coisas. e é esta: o Espiritismo está no ar. Uma frase muito característica parece ser em toda parte a ordem do dia. a nós que aspiramos a substituir dignamente esses trabalhadores da primeira hora: "A primeira coisa que me impressionou foi o número de adeptos. compreendendo a doutrina sob seu verdadeiro ponto de vista. antes de tudo. e assim se calam. três categorias de adeptos: uns que se limitam a crer na realidade das manifestações e que procuram. numerosos em todas as classes. a caridade cristã é uma bela máxima. para eles. "Se. no banquete realizado a 19 de setembro de 1860. não o faz menos pela qualidade." No decurso dessa viagem. Os segundos vêem outra coisa nele além dos fatos. a propagação do Espiritismo marcha com a mais animadora celeridade.

eu vo-lo digo com satisfação: ainda não encontrei. Mas. por um dos vossos médiuns mais dedicados. aí. em parte alguma vi que se ocupassem do Espiritismo por mera curiosidade. sobretudo. aos espíritas lioneses. é para nós uma grande honra. "Pois bem. há muitos da terceira categoria. se acham sob a influência de certos Espíritos que presidem aos seus trabalhos. para marchar na senda do progresso que lhes traçam os Espíritos. as intenções são sérias. pois. Honra. por nossa vez. a caridade é. e. melhor. Noblesse oblige. sobre os espíritas lioneses de sua época. a regra da sua conduta: são esses os verdadeiros espíritas. meus senhores. e não é sem razão — eu o vejo — que os Espíritos me responderam noutro dia. sábios conselhos. aprofundando por nossa vez as lições do mestre e. saibamo-nos recordar sempre disso e conservar alto e firme o estandarte do Espiritismo. Devemos esforçar-nos por merecer esses elogios. por toda parte o fim é grave. ela fornecerá apóstolos ao Espiritismo. a fé aí é vivaz. nenhum adepto da primeira categoria. por terem. tanto como os indivíduos. com frívolos intuitos. os diferentes grupos. Se Paris é a cabeça. deveremos meditar. porque as suas convicções os afastam de todo pensamento do mal. em toda ocasião. entrado largamente nessa senda progressista. posto que dos mais obscuros. mas deve ser também uma regra de conduta. Bem convencidos de que a existência terrestre é uma prova passageira. assim. sobre os quais. terá suas consequências. conformando com elas o nosso proceder. quando eu lhes exprimia a minha surpresa: "Por que te admiras disso? Lião foi a cidade dos mártires. a crer no que me dizem. ou. ou . as suas relações são sempre seguras. "Vindo dos Espíritos o ensino. esforçam-se por aproveitar esses curtos instantes. os espiritas-cristãos. sobretudo. Este exemplo não será perdido. dava-lhes. empenhando-se em fazer o bem e em reprimir as suas más inclinações.BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC 29 quências. sem a qual o Espiritismo não teria objetivo. Allan Kardec não se contentava em atirar flores sobre nossos companheiros. Lião será o coração. diz um adágio." Essa opinião de Allan Kardec.

ainda. Regra geral: o nome nunca é uma garantia. e a esse respeito a questão de identidade é inteiramente secundária. é preciso que tudo seja friamente examinado. um meio mais certo: é afetar as exterioridades da virtude. Se. aquele cuja teoria não pode provocar nenhuma objeção séria. evitar o deixar-se seduzir pelas aparências. racional. é preciso. a verdadeira garantia de superioridade é o pensamento e a maneira por que é ele expresso. com o auxílio das grandes palavras — caridade. Os Espíritos enganadores tudo podem imitar. Se tudo nesse ensino é bom. pouco importa o nome que toma o Espírito.30 BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC os dirigem moralmente. É preciso. evidentemente. Eles têm. a questão está em saber qual é o que merece maior confiança. antes de tudo. tem seus escolhos que se não podem evitar senão pela experiência. exceto o verdadeiro saber e o verdadeiro sentimento. quanto da dos homens. maduramente pesado. o ensino peca pelas qualidades essenciais. podeis imediatamente concluir que é um nome apócrifo e que é um Espírito impostor ou galhofeiro. escolhendo no arsenal das palavras técnicas tudo o que pode fascinar aquele que é facilmente crédulo. será. em uma palavra. eu o confesso. ora. aí está uma das maiores dificuldades. alguns Espíritos lazem alarde de um falso saber e pensam impô-las. para fazer adotar certas utopias. pois. "Acontece muitas vezes que. em todos os pontos. e. ao orgulho que leva certos médiuns a acreditarem-se os únicos intérpretes da verdade. mas. o que é muitas vezes mais prudente. fugir ao entusiasmo que cega. Para escapar à cilada. quando se não está precavido. aquele que. nunca se disse que o Espiritismo fosse uma ciência fácil. Se esses Espíritos não se acham de acordo. a única. Só um falso . confrontadp. tanto da parte dos Espíritos. humildade — esperam fazer passar os mais grosseiros absurdos e é o que acontece muitas vezes. fraternidade. segundo o provérbio: que quatro olhos vêem melhor do que dois. se desconfiamos do próprio julgamento. sob um nome respeitável. é preciso recorrer a outras pessoas. tudo. dá maior número de provas de superioridade.

O nosso fim foi acautelar os investigadores contra tais dificuldades. na Revista Espírita: "Procuramos neste trabalho. então. é sempre a vereda mais segura. ainda não foi invalidada. Didier & Cia. e os escolhos. por esse novo terreno." Eis os conselhos tão sábios e tão práticos dados por aquele que quiseram fazer passar por um entusiasta. Não podíamos desprezar um ponto tão capital. e essa regra de conduta. é o que produz tanta decepção aos que dele se ocupam sem ter a experiência e os conhecimentos necessários. de nossa parte. mais prudente. O mestre expõe a sua razão de ser nos seguintes termos. que aí se encontram. É ainda o . nem sempre isentas de inconveniente para quem quer que se aventure. estabelecida no começo. um alucinado. com imprudência. nada apareceu de melhor nem de mais completo nessa ordem de ideias. nem pelos acontecimentos.BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC 31 amor-próprio ou uma obsessão podem fazer persistir em uma ideia notoriamente falsa e que o bom-senso de cada um repele. livreiros-editores. fruto de longa experiência e de laboriosos estudos. e o tratamos com cuidado igual à sua importância. editado pelos Srs.. de acordo com os Espíritos. ele contém. objeto de atenção toda especial. a única a seguir por aqueles que se querem ocupar do Espiritismo. nem pela observação. sobretudo. "O Espiritismo experimental está cercado de muito mais dificuldades do que se acredita geralmente. são numerosos. Allan Kardec trabalhava. a explicação teórica dos diversos fenómenos e condições em que eles se podem produzir." O Livro dos Médiuns é. em O Livro dos Médiuns. o vade-mécum de quantos se querem entregar com proveito à prática do Espiritismo experimental. esclarecer todas as questões que se prendem à prática das manifestações. que apareceu na primeira quinzena de janeiro de 1861. mas a parte concernente ao desenvolvimento e ao exercício da mediunidade foi. um místico. ainda.

sobretudo. a explicação teórica dos diversos fenómenos e condições em que eles se podem produzir. É ainda o ." O Livro dos Médiuns é. com imprudência. Didier & Cia. que apareceu na primeira quinzena de janeiro de 1861. e essa regra de conduta.. em O Livro dos Médiuns. então. livreiros-editores. ainda não foi invalidada. um místico. O nosso fim foi acautelar os investigadores contra tais dificuldades. mais prudente. ainda. a única a seguir por aqueles que se querem ocupar do Espiritismo. "O Espiritismo experimental está cercado de muito mais dificuldades do que se acredita geralmente. Allan Kardec trabalhava. o vade-mécum de quantos se querem entregar com proveito à prática do Espiritismo experimental. são numerosos. fruto de longa experiência e de laboriosos estudos." Eis os conselhos tão sábios e tão práticos dados por aquele que quiseram fazer passar por um entusiasta. ele contém. e os escolhos. estabelecida no começo. esclarecer todas as questões que se prendem à prática das manifestações. Não podíamos desprezar um ponto tão capital. nem pela observação.BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC 31 amor-próprio ou uma obsessão podem fazer persistir em uma ideia notoriamente falsa e que o bom-senso de cada um repele. objeto de atenção toda especial. mas a parte concernente ao desenvolvimento e ao exercício da mediunidade foi. um alucinado. O mestre expõe a sua razão de ser nos seguintes termos. é o que produz tanta decepção aos que dele se ocupam sem ter a experiência e os conhecimentos necessários. de nossa parte. nem pelos acontecimentos. é sempre a vereda mais segura. na Revista Espírita: "Procuramos neste trabalho. editado pelos Srs. que aí se encontram. e o tratamos com cuidado igual à sua importância. por esse novo terreno. nada apareceu de melhor nem de mais completo nessa ordem de ideias. nem sempre isentas de inconveniente para quem quer que se aventure. de acordo com os Espíritos.

E isto tem sido o meio mais seguro de perderem as suas simpatias e fazê-la engrossar as nossas fileiras. formaram-se outros em diferentes pontos da cidade: em Guillotière. para melhor dizer. Vimos. e sua mulher. um rapaz muito bom médium vidente. . mas. no qual pudemos verificar essa faculdade desenvolvida no mais alto grau. ao contrário. sem perigo. No ano de 1861. Se aqueles que clamam contra o Espiritismo lhe oferecessem outro tanto. O que vimos com os nossos próprios olhos é de tal modo característico e encerra ensino tão grande. como há um ano. em Croix-Rousse. em um só grupo vimos cinco escreverem simultaneamente. em Saint-Just. já se não contam. hoje os há em todos os grupos e muitos são de primeira ordem. volta-se para o lado que lhe oferece maior consolação. só havia um único centro de reunião. e pode-se calcular que. tem feito adeptos em todas as classes. O Espiritismo. em Perrache. etc. e verificou que em nossa cidade o Espiritismo atingira a maioridade.32 BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC mais seguro guia de que nos podemos servir para explorar. diz ele. havia apenas dois ou três médiuns neófitos. seguindo a mesma progressão. Allan Kardec fez uma nova viagem espírita a Sens. depois. essa classe se voltaria para eles. ou. "Com efeito. sem contar grande número de reuniões particulares. igualmente. que aí se contam os espíritas. chefe de oficina. e isso não é de admirar: sendo essa classe a que mais sofre. dentro de um ano ou dois eles serão mais de trinta mil. Então. mas é sobretudo na classe operária que se tem propagado com maior rapidez. "No ano passado. aí. em Vaise. querem tirar-Ihe exatamente aquilo que a ajuda a carregar o seu fardo de miséria. que acreditamos dever consagrar aos operários a maior parte do nosso relatório. dirigido por Dijoux. o dos Brotteaux.. não é mais por centenas. Mácon e Lião. o terreno da mediunidade. é por milhares.

entre os operários. de agora em diante inabalável. é uma felicidade para eles assistirem a essas instruções. e isso pela confiança. quanto à ordem. grande satisfação em registrar. cega. velhos. de que saem reconfortados contra a adversidade. muitos chegam a galgar mais de uma légua. crianças mesmo. a 19 de setembro de 1861 o número era de cento e sessenta. A maioria dos assistentes era composta de operários e toda gente notou a perfeita ordem que não cessou de reinar um só instante. tudo arrostando para não faltarem a uma sessão. ódios apaziguados. Pois bem. sob qualquer tempo. é que neles não há a fé vulgar. o que — diz o Mestre —. entre os quais não existe sombra de ciúme e de rivalidade. É que os verdadeiros espíritas põem sua satisfação nas alegrias do coração e não nos prazeres ruidosos". mas o que mais vale ainda do que o número é a qualidade. lares tornados tranquilos. senhoras. 2 . paixões acalmadas. quase tão grande quanto o dos adeptos: hábitos viciosos reformados. de passagem. No dia 19 de setembro de 1860 os convivas eram apenas uns trinta. em uma palavra. que se consideram todos como membros de uma grande família. "representando os diferentes grupos. muitas vezes longas. que lhes dão as comunicações espíritas. raciocinada e não. pareciam quase tão ávidas quanto seus pais. isto não é tudo: o número das metamorfoses morais é.BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC 33 -i "Sem dúvida. há homens. declaramo-lo bem alto: não vimos. reuniões espíritas mais edificantes do que as dos operários lioneses. muito é para desejar que se multipliquem os adeptos. um banquete novamente reuniu sob a presidência de Allan Kardec os membros da grande família espírita lionesa. temos. no futuro em que não acreditavam." Por ocasião dessa viagem. "Mas. as mais legítimas virtudes cristãs desenvolvidas. em recolher as nossas palavras. inverno ou verão. mas a baseada sobre uma convicção profunda. jovens. cuja atitude respeitosa contrasta com a sua idade. jamais uma única criança perturbou por instantes o silêncio das nossas reuniões. em parte alguma. ao recolhimento e à atenção que prestam às instruções dos seus guias espirituais.

e sendo esses livros contrários à fé católica. em relações e em comunhão de ideias com Allan Kardec. Refiro-me ao auto-de-fé levado a efeito em Barcelona. o governo não pode consentir que eles passem a perverter a moral e a religião de outros países. em Barcelona. Assim. tendo julgado esses livros perniciosos à fé católica.BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC A 14 de outubro do mesmo ano encontramos Allan Kardec em Bordéus. e em que foram queimadas pela fogueira dos inquisidores trezentas obras espíritas. fez confiscar a expedição pelo Santo-Ofício. porém. como em todas as cidades por que passava. Essas obras. Os Espíritos. foram expedidas nas condições ordinárias. foram os direitos da alfândega cobrados ao destinatário e arrecadados pelos agentes do governo espanhol." E não somente esses livros não foram restituídos. erigindo-se em policiador da França. Além das viagens e dos trabalhos de Allan Kardec. com uma declaração em ordem do conteúdo das caixas. Maurício Lachâtre estava nessa época estabelecido corno livreiro. À sua chegada à Espanha. Uma vez que não queriam entregar essas obras ao destinatário. Allan Kardec poderia promover uma ação diplomática e obrigar o governo espanhol a efetuar o retorno das obras. semeava a boa-nova e fazia germinar a fé no futuro. dizendo que era preferível para a propaganda do Espiritismo deixar essa ignomínia seguir o seu curso. fundamentou a sua recusa com a seguinte resposta: "A Igreja Católica é universal. mas também os direitos aduaneiros ficaram em poder do fisco espanhol. o dissuadiram disso. mas a sua reclamação foi de nulo efeito. esse ano de 1861 permanecerá memorável nos anais do Espiritismo por um fato de tal modo monstruoso que quase parece incrível. . para as expor à venda e fazer propaganda da nova filosofia. O Sr. em número de trezentas aproximadamente. e o bispo de Barcelona. onde. Allan Kardec reclamou a sua devolução. mas a entrega das caixas não se fez: o bispo de Barcelona. pediu a este que lhe enviasse certo número de obras espíritas.

trazendo em uma das mãos a cruz e. ditado pelo Espírito de Mozart. "O que é o Espiritismo. "Carta de um católico sobre o Espiritismo. o processo verbal dessa infâmia clerical: "Aos nove dias de outubro de mil oitocentos e sessenta e um. representando o proprietário das obras condenadas pelo bispo. pela mão do carrasco. "Assistiram ao auto-de-fé: "Um padre revestido de hábitos sacerdotais. no lugar em que são executados os criminosos condenados à pena última. o bispo de Barcelona fez queimar em praça pública.BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC 35 Renovando os fastos e as fogueiras da Idade Média. "Fragmento de Sonata. na esplanada da cidade de Barcelona. diretor Allan Kardec. "Um tabelião encarregado de redigir o processo verbal do auto-de-fé. "A realidade dos Espíritos demonstrada pela escrita direta. a título de documento histórico. "A Revista Espiritualista. "Quando o fogo consumiu os trezentos volumes e brochuras espíritas. "O escrevente do tabelião. às dez horas e meia da manhã. na outra. "Um empregado superior da administração das alfândegas . pelo mesmo. encarregados de alimentar o fogo. "Um agente da alfândega. por ela mesma ditada a Mlle. "Três mozos (serventes) da alfândega. "O Livro dos Espíritos. "A História de Joana d'Arc. "Uma multidão incalculável aglomerava-se nos passeios e cobria a esplanada em que ardia a fogueira. pelo Doutor Grand. a saber: "A Revista Espirita. "O Livro dos Médiuns. o padre e os seus ajudantes se reti- . uma tocha. Eis aqui. diretor Piérart. por ordem do bispo desta cidade foram queimados trezentos volumes e brochuras sobre o Espiritismo. pelo mesmo. por Allan Kardec. Ermance Dufaux. as obras incriminadas. pelo Barão de Guldenstubbé.

" Seria diminuir o horror de tais atos. porém. pág. Repetiremos. ele não diz a ninguém que renuncie às suas crenças para adotar as nossas. pois. pois. 1863. nunca deveremos esquecer estes conselhos do Mestre (Revista Espírita. como o fez Allan Kardec. da propaganda que nós mesmos devemos fazer da nossa filosofia. e não aos que têm fé e a quem essa fé é suficiente. conquistou. são claros. cumpre que deles nos recordemos e os aproveitemos oportunamente.36 BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC raram cobertos pelos apupos e as maldições dos numerosos assistentes. que gritavam: Abaixo a Inquisição! "Em seguida muitas pessoas se acercaram da fogueira e apanharam cinzas. e nisto é consequente com os princípios de tolerância e de liberdade de consciência que professa. ponde a luz em evidência. aí. não façais violência à fé de ninguém. porque semeareis em campos áridos. um número incalculável de adeptos. O ano de 1862 foi fértil em trabalhos favoráveis à difusão do Espiritismo. Por esse motivo não poderíamos aprovar as tentativas feitas por certas pessoas para converter às nossas ideias o clero. Só podemos. A propósito. simples e sobretudo práticos. acompanhá-los com a narrativa dos comentários. para que a vejam os que quiserem ver. oferecei a luz aos que a procuram. alegrar-nos com o grande reclamo que esse ato odioso operou em íavor do Espiritismo. muito mais quanto ao clero que aos seculares. mostrai os frutos da árvore e deles dai de Comer aos que têm fome e não aos que se dizem saciados." Estes conselhos. porque com os que crêem não sereis bem sucedidos. a todos os espíritas: acolhei com solicitude os homens de boa-vontade. como todos os de Allan Kardec. No dia 15 de janeiro apareceu . como o haviam os Espíritos previsto. de qualquer comunhão que seja. constatemos somente que ao clarão dessa fogueira o Espiritismo tomou um incremento inesperado em toda a Espanha e. 367): "O Espiritismo se dirige aos que não crêem ou que duvidam.

proporcionando-me a extraordinária satisfação no estabelecimento de uma nova doutrina." — Este apelo foi ouvido. os votos que fazeis por mim. nesse ato espontâneo de vossa parte. e são os que Deus atende. satisfeitos. para que lhe auxiliem a propagação. procuramos pô-lo ao alcance de todas as inteligências. em quadro muito resumido. porque é um sinal da harmonia que reina entre eles. produziu-me vivíssima satisfação. representantes de quase todos os grupos. porque Ele os ouve todos os dias. devendo muitos a esse excelente trabalho o terem compreendido o fim e o alcance do Espiritismo. entre as numerosas assinaturas que nele figuram. por ocasião do Ano-Novo. meus bons amigos. cujos resultados desde já podeis apreciar. porque deve ser agora evidente para vós que uma sociedade única seria quase impossível. de ver aquela a que me tenho dedicado engrandecer e prosperar. o que me causou maior prazer. um histórico do Espiritismo e uma ideia suficiente da doutrina dos Espíritos. para permitir ser compreendido o seu fim moral e filosófico. "Agradeço. eles me são tanto mais agradáveis quanto sei que partem do coração. pois. mas. "O fim desta publicação. Ficai. eis aqui como respondeu o Mestre a esse testemunho de simpatia: "Meus caros irmãos e amigos de Lião: "A manifestação coletiva que tivestes a bondade de transmitir-me. Tendo os nossos predecessores no Espiritismo transmitido a Allan Kardec. porque a pequena brochura se espalhou em profusão. a expressão dos seus sentimentos de gratidão. Contamos com o zelo de todos os verdadeiros espíritas. por ocasião do ano-novo. diz Allan Kardec. em minha . provando-me que conservastes de mím uma boa recordação. é apresentar.BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC 37 a pequenina e excelente brochura de propaganda: O Espiritismo em sua mais simples expressão. Sou feliz por ver que compreendestes perfeitamente o fim dessa organização. Pela clareza e simplicidade do estilo. foi encontrar.

vida, com uma rapidez maravilhosa; considero um grande favor do céu ser testemunha do bem que ela já produz. "Esta certeza, de que recebo diariamente os mais tocantes testemunhos, me paga com usura todos os meus sofrimentos, todas as minhas fadigas; não peço a Deus senão uma graça, e é a de dar-me a força física necessária para ir até ao fim da minha tarefa, que longe se encontra de estar concluída; mas, como quer que suceda, possuirei sempre a maior consolação, pela certeza de que a semente das ideias novas, espalhada agora por toda parte, é imperecível; mais feliz que muitos outros, que não trabalharam senão para o futuro, é-me permitido contemplar os primeiros frutos. "Se alguma coisa lamento, é que a exiguidade dos meus recursos pessoais me não permita pôr em execução os planos que concebi para um avanço ainda mais rápido; se Deus, porém, em sua sabedoria, entendeu dispor de modo diferente, legarei esses planos aos nossos sucessores, que, sem dúvida, serão mais felizes. A despeito da escassez dos recursos materiais, o movimento que se opera na opinião ultrapassou toda a expectativa; crede, meus irmãos, que nisso o vosso exemplo não terá sido sem influência. Recebei, portanto, as nossas felicitações pela maneira por que sabeis compreender e praticar a Doutrina. "No ponto a que hoje chegaram as coisas, e tendo em vista a marcha do Espiritismo através dos obstáculos semeados em seu caminho, pode dizer-se que as principais dificuldades estão superadas; ele conquistou o seu lugar e está assente sobre bases que de ora em diante desafiam os esforços dos seus adversários. "Perguntam como uma doutrina, que torna feliz e melhor, pode ter inimigos; é natural; o estabelecimento das melhores coisas choca sempre interesses, ao começar. Não tem acontecido assim com todas as invenções e descobertas que têm revolucionado a indústria? As que hoje ;;ão consideradas como benefícios, sem as quais não se poderia mais passar, não tiveram inimigos obstinados? Toda lei que reprime um abuso não tem contra si todos is que vivem dos abusos? Como quereríeis que uma

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doutrina que conduz ao reino da caridade efetiva não fosse combatida por todos os que vivem no egoísmo? E sabeis que são eles numerosos na Terra! "No começo contaram sepultá-la com a zombaria; hoje vêem que essa arma é impotente e que, sob o fogo dos sarcasmos, ela prosseguiu o seu caminho sem tropeçar. Não acrediteis que se confessem vencidos; não, o interesse material é tenaz. Reconhecendo que é uma potência com que é necessário de hoje em diante contar, vão dirigir-lhe assaltos mais sérios, mas que só servirão para melhor atestar a fraqueza deles. Uns a atacarão diretamente por palavras e atos, e a perseguirão até na pessoa dos seus adeptos, que eles se esforçarão por desalentar a poder de embaraços, enquanto que outros, secretamente e por caminhos disfarçados, procurarão miná-la surdamente. "Ficai prevenidos de que a luta não está terminada; fui avisado de que eles vão tentar um supremo esforço. Não tenhais, porém, receio: o penhor da vitória está nesta divisa, que é a de todos os verdadeiros espíritas: Fora da caridade não há salvação. Arvorai-a bem alto, porque ela é a cabeça de Medusa para os egoístas. "A tática, posta já em prática pelos inimigos dos espíritas, mas que eles vão empregar com novo ardor, é tentar dividi-los criando sistemas divergentes e suscitando entre eles a desconfiança e o ciúme. Não vos deixeis cair no laço, e tende como certo que quem quer que procure um meio, qualquer que seja, para quebrar a boa harmonia, não pode ter boa intenção, É por isso que vos recomendo useis da maior circunspeção na formação dos vossos grupos, não somente para vossa tranquilidade, como no próprio interesse dos vossos labores. "A natureza dos trabalhos espíritas exige calma e recolhimento. Ora, não há recolhimento possível se se está preocupado com discussões e com a manifestação de sentimentos malévolos. Não haverá sentimentos malévolos se houver fraternidade; não pode, porém, haver fraternidade em egoístas, ambiciosos e orgulhosos. Entre orgulhosos, que se suscetibilizam e ofendem por tudo, ambiciosos que se sentirão mortificados se não tiverem

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a supremacia, egoístas que não pensam senão em si, a cizânia não pode tardar a introduzir-se, e com ela a dissolução. É o que desejariam os nossos inimigos, e é o que eles procuram fazer. "Se um grupo quer estar em condições de ordem, de tranquilidade e de estabilidade, é preciso que nele reine o sentimento fraternal. Todo grupo ou sociedade que se formar, sem ter caridade efetiva por base, não tem vitalidade; enquanto que aqueles que forem fundados de acordo com o verdadeiro espírito da doutrina olhar-se-ão como membros de uma mesma família que, não sendo possível habitarem todos sob o mesmo teto, moram em lugares diferentes. A rivalidade entre eles seria um contra-senso; ela não poderia existir onde reina a verdadeira caridade, porque a caridade não se pode entender de duas maneiras. "Reconhecei, pois, o verdadeiro espírita na prática da caridade por pensamentos, palavras e obras, e persuadi-vos de quem quer que nutra em sua alma sentimentos de animosidade, de rancor, de ódio, de inveja ou de ciúme, mente a si próprio se tem a pretensão de compreender e praticar o Espiritismo. "O egoísmo e o orgulho matam as sociedades particulares, como matam os povos e a sociedade em geral..." Tudo mereceria citação nestes conselhos, tão justos quão práticos; mas é preciso que nos limitemos, em razão do tempo de que podemos dispor.
*

A pedido dos espíritas de Lião e de Bordéus, Allan Kardec fez, em setembro e outubro, uma longa viagem de propaganda semeando por toda parte a boa-nova e prodigalizando conselhos, mas somente aos que lhos pediam; o convite feito pelos grupos lioneses estava subscrito por quinhentas assinaturas. Uma publicação especial deu conta dessa viagem de mais de seis semanas, durante a qual o Mestre presidiu a mais de cinquenta reuniões em vinte cidades, onde por toda parte foi alvo

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do mais cordial acolhimento e se sentiu feliz por verificar os imensos progressos do Espiritismo. A respeito das viagens de Allan Kardec, como certas influências hostis houvessem espalhado o boato de que eram feitas a expensas da Sociedade Parisiense de Estudos Espiritas, sobre cujo orçamento igualmente ele sacava de antemão todos os seus gastos de correspondência e de manutenção, o Mestre rebateu, assim, essa falsidade: "Muitas pessoas, sobretudo na província, pensaram que as despesas dessas viagens oneravam a Sociedade de Paris; tivemos que desfazer esse erro quando se ofereceu a ocasião; aos que ainda o pudessem partilhar, recordaremos o que afirmamos houtra circunstância (número de junho de 1862, página 167, Revista Espírita), que a Sociedade se limita a prover às suas despesas correntes e não possui reservas; para que pudesse acumular capital, ser-lhe-ia preciso que tivesse em mira o número; e isto é o que ela não faz nem quer fazer, porque o seu fim não é a especulação e porque o número nada acrescenta à importância dos trabalhos. Sua influência é toda moral e está no caráter de suas reuniões, que dão aos estranhos a ideia de uma assembleia grave e séria; aí está o seu mais poderoso meio de propaganda. Ela, pois, não poderia prover tal despesa. Os gastos de viagem, como todos os que as nossas relações reclamam para o Espiritismo, são tirados dos nossos recursos pessoais e das nossas economias, aumentadas com o produto das nossas obras, sem o qual nos seria impossível prover a todos os encargos, que são para nós a consequência da obra que empreendemos. Isto é dito sem vaidade e unicamente para render homenagem à verdade, e para edificação daqueles aos quais se afigura que nós capitalizamos." Em 1862 Allan Kardec fez também aparecer uma Refutação às criticas contra o Espiritismo (*), no ponto de vista do materialismo, da ciência e da religião.
( » ) Allan Kardec, no livro "Voyage Spirite en 1862" (Ledoyen, Paris, 1862, gr.in-8», 64 pp.), revela ter desistido da ideia

às numerosas correspondênde publicar o opúsculo que anunciara um ano antes (Revu« Splrlte. desde que a bandeira é uma só e que todos se dirigem para um mesmo fim. em qualquer estação. Allan Kardec fez aparecer uma nova obra — O Céu e o Inferno ou a Justiça Divina segundo o Espiritismo. recorda o que já havia dito em Lião. O título dessa obra foi depois modificado. quanto aos estudos sérios e continuados. respondia a tudo. em 1975. com a explicação das máximas morais do Cristo. também. Allan Kardec fez em setembro de 1864 uma viagem a Antuérpia e a Bruxelas. haver em uma cidade cem grupos de dez a vinte adeptos. e é hoje O Evangelho segundo o Espiritismo. contra ele próprio. no mundo espiritual e na Terra. 371) e que seria intitulado "Réfutation dês critiques contre lê Spiritisme au point de vue matérialiste. portanto. aumentou. em que nenhum se arrogue a supremacia sobre os outros. Expondo aos espíritas belgas o seu modo de ver acerca dos grupos e sociedades espíritas." As sociedades numerosas têm sua razão de ser sob o ponto de vista da propaganda. desde às 4 horas e meia. seu desenvolvimento quase incrível. em 1861: "Vale mais. . Os admiráveis êxitos do Espiritismo. um poder de combatividade extraordinários. às polémicas veementes dirigidas contra o Espiritismo. Nota da Editora (FEB) à 16» edição. No dia 1. Aproveitando-se da época das férias. p. sua aplicação e sua concordância com o Espiritismo.42 BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC Em abril de 1864 publicou a Imitação do Evangelho segundo o Espiritismo. à proporção que ele se foi engrandecendo. mas. do que uma única sociedade que a todos reunisse. criaram-lhe inúmeros inimigos e. a tarefa de Allan Kardec. de pé..° de agosto de 1865. sclentifique et religieux". na qual são mencionados numerosos exemplos da situação dos Espíritos. O Mestre possuía uma vontade de ferro. era um trabalhador infatigável. e as razões que motivaram essa situação. é preferível constituírem-se grupos íntimos. dez. Esse f racionamento em nada pode prejudicar a unidade dos princípios. 1861.

e a constituição que elabora tem precisamente por fim prover às necessidades futuras da Doutrina Espírita. Ele. A Génese. e torná-la-ia depois da sua morte . em seguida. Allan Kardec havia comprado. Allan Kardec ocupa-se. que sucederia a breve trecho à sua próxima desencarnação. porém. sabe que não deve durar mais que uns dez anos ainda: numerosas comunicações o preveniram desse termo e lhe anunciaram mesmo que a sua tarefa não seria concluída senão em nova existência. sob o ponto de vista científico. com jardim. Tendo essa compra esgotado os seus recursos. e repetidas vezes os Espíritos precisam chamá-lo à ordem. à organização do Espiritismo e ao preparo das suas obras. em janeiro de 1868.BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC 43 cias que lhe eram dirigidas. Esse excesso físico e intelectual esgotou-lhe o organismo. O objeto constante das suas preocupações é saber quem o substituirá em sua obra. procurando desenvolver-lhe o lado prático e fazer-lhe produzir seus frutos. 2. Desde os primeiros anos do Espiritismo. na Vila Ségur. porque sente que o desenlace está próximo. atendia à direção da Revista Espírita e da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas. ele contraiu com o Crédit Foncier um empréstimo de 50. para publicar. a firn de obrigá-lo a poupar a saúde. a síntese dos quatro primeiros volumes já publicados. alimentava a doce esperança de recolher-se a uma delas. Tours e Orleans. de um projeto de organização do Espiritismo. em força e vitalidade. por isso ele não quer perder ocasião alguma de dar ao Espiritismo tudo o que pode.000 francos para fazer construir nesse terreno seis pequenas casas. por meio do qual espera imprimir mais vigor. É das mais importantes esta obra. mais ação à filosofia de que se fez apóstolo. os milagres e as predições segundo o Espiritismo.666 metros quadrados de terreno na avenida Ségur. com o produto das suas obras pedagógicas. atrás dos Inválidos. em seguida põe novamente mãos à obra. porque constitui. Em 1867 faz uma curta viagem a Bordéus.

com o capital de 40. da Revista Espírita e das obras de Allan Kardec. contava retirar-se para a Vila Ségur. o arrebatou à afeição dos seus discípulos. em 31 de março de 1869. Essa perda foi imensa para o Espiritismo.a circunscrição e mairie de Ia Banque. que não fez somente um esboço do caráter de Allan Kardec e do papel que cabe aos seus trabalhos (*) Ver "Reformador" de abril de 1957. Quatro orações foram proferidas à beira do túmulo do Mestre: a primeira. daquele que. Estava. a segunda. na idade de 65 anos. e numerosíssima concorrência acompanhou ao Père Lachaise(*). A nova sociedade devia instalar-se no dia 1. quando a 31 de março a doença de coração que o minava surdamente pôs termo à sua robusta constituição e. que via desaparecer o seu fundador e mais poderoso propagandista. como um raio. pois.° 7. brilhará como um meteoro fulgurante na aurora do Espiritismo. . a fim de trabalhar mais ativamente nas obras que lhe restava fazer e cujo plano e documentos se achavam já reunidos. e lançou em profunda consternação todos os que o haviam conhecido e amado. os despojos mortais daquele que fora Allan Kardec. sucumbindo da ruptura de um aneurisma. Camilo Flammarion. Hippolyte-Léon-Denizard Rivail — Allan Kardec — faleceu em Paris. através dos tempos. Unânimes sentimentos acolheram a dolorosa notícia. pelo Sr. em nome da Sociedade Espírita de Paris.44 BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC asilo a que se pudessem recolher na velhice os defensores indigentes do Espiritismo. sua derradeira morada. Allan Kardec. 2. pelo Sr. à rua de Lille n.° de abril. pág. Em 1869 a Sociedade Espírita era reconstituída e tornada sociedade anónima. 93. rua e passagem SanfAna. Levent. para a exploração da livraria. 59. em todos os preparativos de mudança de domicílio.000 francos. cujo contrato de arrendamento na passagem SanfAna estava quase a terminar. dividido em quarenta ações.

um exame da situação das ciências físicas. mostrava-se expansivo.BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC 45 no movimento contemporâneo. no Journal de Paris. e sobretudo. E. conservando-se sempre digno e sóbrio em suas expressões. na idade de 89 anos. chamava-se Rivail e morreu na idade de 65 anos. da existência da alma e da sua indestrutibilidade. ano em que. em nome da família e dos seus amigos. e. entretanto. a título de lembrança. em nome dos espíritas dos centros afastados. a 21 de janeiro. Allan Kardec devia ser uma personagem sempre fria e austera. Pagès de Noyez. Eis aqui. vimo-lo com o semblante calmo como se extinguem aqueles a quem a morte não surpreende e que. Erraria quem acreditasse que. depois de haver discutido pontos mais difíceis da psicologia e da metafísica transcendental. mas ainda. Alexandre Delanne. se extinguiu. sabia adubá-las com o nosso velho sal gaulês em rasgos de causticante e afetuosa bonomia. depois. Muller. A senhora Allan Kardec tinha 74 anos por ocasião da morte de seu esposo. no meio da sala das sessões a que há tantos anos ele presidia. esforçando-se por distrair os convidados que ele frequentemente recebia na Vila Ségur. "Vimo-lo deitado num simples colchão. Sobreviveu-lhe até 1883. Não era. no ponto de vista do mundo invisível. em virtude dos seus trabalhos. e possuía um talento todo particular em fazer os outros partilharem do seu bom-humor. largo e comunicativo. Esse grave filósofo. assim. das forças naturais desconhecidas. dirigiu ao morto querido os últimos adeuses. o Sr. Todos os jornais da época se ocuparam da morte de Allan Kardec e procuraram medir-lhe as consequências. sem herdeiros diretos. . tranquilos quanto ao resultado de uma vida honesta e laboriosamente preenchida. imprimem como que um reflexo da pureza de sua alma sobre o corpo que abandonaram. Em seguida. o que a esse respeito escrevia o Sr. Gostava de rir com esse belo riso franco. tomou a palavra o Sr. de 3 de abril de 1869: "Aquele que por tão longo tempo ocupou o mundo científico e religioso sob o pseudónimo de Allan Kardec.

dos que o haviam precedido no além-túmulo. inúmeros discípulos tinham vindo lançar um derradeiro olhar àqueles lábios descorados que. com suas obras. Mas eles recebiam. lhes falavam a linguagem da Terra. tinham vindo ajudar-lhe a alma a desprender-se da matéria. a abnegação que afronta a estultícia do presente. aqueles que conheceram Allan Kardec em vida não podem deixar de ficar emocionados pela autenticidade dessa comunicação espírita. Abandonado o local. a paciência que educa com o correr do tempo. preenchida a sua missão. quais as suas primeiras impressões. Ninguém melhor que ele podia conduzir a bom termo essa obra de propaganda. cedo terá iluminado toda a Humanidade. "Allan Kardec terá. para se consagrar inteiramente ao estudo da filosofia espiritualista. retirava-se da luta cotidiana. que. e pela convicção da imortalidade da alma. está há . Com ele terminou o prólogo de uma religião vivaz. fortes por sua virilidade. mais jovens — intrépidos — deveriam continuar a obra e. e por que consagrar uma linha a esses fragmentos de ora em diante mergulhados no turbilhão imenso das moléculas? Allan Kardec morreu na sua hora própria. Outros. Se "o estilo é o homem". o presidente fizera as suas despedidas. ainda na véspera. No fim da última sessão. para não ver senão a irradiação do futuro. irradiando todos os dias. impor a verdade por sua convicção. A Sociedade fundada por esse grande vulgarizador do Espiritismo acabava de desaparecer. apreciado como o de um homem de bem.46 BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC "Resignados pela fé em uma vida melhor. quais. à qual era necessário sacrificar as longas vigílias que alimentam o espírito. "A morte de Allan Kardec é notável por uma coincidência estranha. já a consolação de além-túmulo: o Espirito de Allan Kardec veio dizer-Ihes quais haviam sido as suas comoções. Seu nome. retirados os móveis. "Para que referir os detalhes da morte? Que importa o modo por que se partiu o instrumento. fundado o dogma pressentido pelas mais antigas sociedades. nada mais restava de um passado que devia renascer sobre novas bases.

que já não existe. "Os espíritas choram hoje o amigo que os deixa. 93. . Não é mais o sepulcro de um homem. não hesitarão em se evidenciarem. que ele sente existir além do túmulo. que o vulgo deixará passar indiferente. pago. insultos. o pensador ergue a cabeça e através desse mundo invisível. a essa alma grande e varonil que penetrou integralmente na imortalidade. traições. os adeptos que têm guardado fideli(*) Ver "Reformador" de abril de 1957. "Esta morte. "O presidente da Sociedade Espírita de Paris está morto. é a pedra tumular enchendo esse imenso vácuo que o materialismo cavara aos nossos pés e sobre o qual o Espiritismo esparge as flores da esperança. em Paris. por isso. O Espiritismo destrói muitos abusos. pág. por bem da grande causa. material. porque o nosso entendimento. é a caridade verdadeiramente cristã de Allan Kardec.BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC 47 muito tempo vulgarizado pelos que crêem e pelos que receiam. desde 1869 (*)." Um ponto sobre o qual não atraí a vossa atenção. e que esta ainda menos conheceu os botes que à outra atiravam aqueles para quem o reconhecimento é um fardo excessivamente pesado. difamações sistemáticas. reanima muitas consciências doloridas. é ai que se reúnem todos os anos. os quais pelo respeito ao Mestre se deixavam ficar no segundo plano. nada foi poupado a esse intrépido lutador. estende a mão ao amigo. mas que devo assinalar. não se pode submeter a essa ideia de transição. mas o número de adeptos cresce todos os dias. e os corajosos. por assim dizer. dando-lhes a certeza da prova' e a consolação do futuro. sob modesta lápide erigida pela piedade dos seus discípulos. porém. o primeiro tributo a essa inferioridade do nosso organismo. dele se pode dizer que a mão esquerda ignorou sempre o bem que fazia a direita. convencido de que o seu Espírito nos protege sempre. um grande fato para a Humanidade. É difícil praticar o bem sem chocar os interesses estabelecidos. não deixa de ser. O despojo mortal de Allan Kardec repousa no Père Lachaise. Cartas anónimas.

E já que um sentimento análogo nos reúne hoje. repitamos bem alto.48 BIOGRAFIA DE ALLAN KARDEC dade à memória do Mestre e conservam preciosamente no coração o culto da saudade. a 31 de marco de 1896. lendo-a por ocasião da solenidade com que os espíritas de Lião celebraram. minhas senhoras. . o 27« aniversário do decesso de Allan Kardec. ( * ) Conservamos no presente trabalho a forma de conferência que lhe deu o autor. — Nota do Tradutor. meus senhores: Honra! Honra e glória a Allan Kardec! (*) Henri Sausse.

Sob a forma de diálogos. damos uma exposição sumária das partes da ciência prática e experimental. muitas vezes. sobre as quais.P R E Â M B U L O As pessoas que só têm conhecimento superficial ao Espiritismo são. é. Esta forma nos pareceu a mais conveniente. uma primeira iniciação. para o leitor. o observador novato deve fixar a sua atenção para poder julgar com conhecimento de causa. As objeções nascem. do que se trata e se vale a pena ocupar-se com tal coisa. tempo ganho sobre o que tínhamos de gastar a repetir constantemente a mesma coisa. Por isso. aproximadamente. por não ter a aridez da dogmática. encontrar em um estudo mais aprofundado dele. a refutação dos principais argumentos de seus contraditares. Antes de empreenderem essa tarefa. isto será. um resumo de "O Livro dos Médiuns". cuja solução podiam. feitas. o primeiro capitulo deste volume encerra respostas às observações mais comumente feitas por aqueles que desconhecem os princípios fundamentais da Doutrina e. das ideias falsas. e. na falta de uma instrução teórica completa. No segundo capítulo. para nós. porém. naturalmente. sem dúvida. a vontade lhes faltam para se entregarem a observações seguidas. sobre aquilo que se não conhece 'bem. pelo menos. o tempo e. quase sempre. . inclinadas a formular certas questões. "a priori". bem assim. achamos útil apresentar resumidamente as respostas a algumas das principais perguntas que nos são diariamente dirigidas. muitos desejam saber.

beber as noções mais essenciais da Doutrina Espírita. COMO CIÊNCIA PRATICA ELE CONSISTE NAS RELAÇÕES QUE SE ESTABELECEM ENTRE NÓS E OS ESPÍRITOS. origem e destino dos Espíritos.Retificar essas ideias é prevenir as objecoes. à pergunta formulada no titulo deste opúsculo. desde já e sumariamente. No terceiro capítulo. publicamos um resumo ãe "O Livro dos Espíritos". e aos quais nenhuma filosofia deu ainda resposta satisfatória. . por encontrarem reunidos. . AO MESMO TEMPO. bem como de suas relações com o mundo corporal. aos adeptos. que diariamente são propostos. além disso. quais as que melhor satisfazem à razão. tal é o fim deste pequeno trabalho. UMA CIÊNCIA DE OBSERVAÇÃO E UMA DOUTRINA FILOSÓFICA. em quadro restrito e sob um mesmo ponto de vista. de certo número de problemas do mais alto interesse. de ordem psicológica. moral e filosófica. COMPREENDE TODAS AS CONSEQUÊNCIAS MORAIS QUE DIMANAM DESSAS MESMAS RELAÇÕES. os princípios que devem sempre estar presentes à sua memória. e. que neles poderão. senão. em pouco tempo e com pouca despesa. Para responder. sem a chave que nos fornece o Espiritismo. diremos que: O ESPIRITISMO Ê. pois lhes fornecem os meios para responderem às primeiras óbjeções que não deixarão de lhes apresentar. . e digam quais são as mais lógicas. COMO FILOSOFIA. também. Procurem resolvê-los por qualquer outra teoria.. Estes resumos não somente são úteis aos principiantes. com a solução. comparem suas respostas com as dadas por este. Podemos defini-lo assim: O Espiritismo é uma ciência que trata da natureza. pela Doutrina Espírita.

O que é o Espiritismo

CAPITULO I

Pequena conferência espírita
^RIMEIRO DIÁLOGO O CRITICO Visitante. — Confesso-vos, caro senhor, que a minha razão recusa admitir a realidade dos fenómenos estranhos atribuídos aos Espíritos, persuadido que estou de estes não terem senão uma existência imaginária. Entretanto, eu me curvaria diante da evidência, se disso tivesse provas incontestáveis; por isso desejo merecer-vos a permissão de assistir somente a uma ou duas experiências, para não ser indiscreto, a fim de convencer-me, caso seja possível. Aliem Kardec. — Desde que a vossa razão repele o que nós consideramos irrecusável, vós a credes superior às de todos quantos não compartilham de vossas opiniões. Longe de mim o pensamento de duvidar do vosso talento e a pretensão de supor minha inteligência superior à vossa; admiti, pois, que eu esteja iludido, é a vossa razão quem vo-lo diz: e não falemos mais nisso.

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V. — Entretanto, se conseguísseis convencer-me, conhecido que sou como antagonista das vossas ideias, isto seria um milagre eminentemente favorável à causa que defendeis. A. K. — Lamento-o, caro senhor, porém não tenho o dom de fazer milagres. Julgais que uma ou duas sessões bastariam para adquirirdes convicção? Seria, realmente, um verdadeiro prodígio; eu precisei mais de um ano de trabalho para ficar convencido; o que prova que não cheguei a esse estado inconsideradamente. Além disso, não realizo sessões públicas e parece-me que vos enganastes sobre o fim das nossas reuniões, visto não fazermos experiências com o fito de satisfazer à curiosidade de ninguém. V. — Não procurais, pois, fazer prosélitos? A. K. — Para que buscarmos fazer-vos prosélito, quando não o quereis ser? Não pretendo forçar convicção alguma. Quando encontro pessoas que sinceramente desejam instruir-se e dão-me a honra de pedir-me esclarecimentos, folgo e cumpro um dever respondendo-lhes nos limites dos meus conhecimentos; quanto aos antagonistas, porém, que, como vós, têm convicções arraigadas, não tento um passo para delas arredá-los, atento a que é grande o número dos que se mostram bem dispostos, para que possamos perder o nosso tempo com aqueles que o não estão. Estou certo de que, diante dos fatos, a convicção há de vir, mais tarde ou mais cedo, e que os incrédulos hão de ser arrastados pela torrente; por ora, alguns partidários, de mais ou de menos, nada alteram na pesagem; pelo que nunca me vereis incomodado para atrair, às nossas ideias, aqueles que, como vós, sabem as razões que têm para fugir delas. V- — Há mais interesse em convencer-me do que o supondes. Permitis que me explique com franqueza e

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prometeis-me não ver ofensa alguma nas minhas palavras? São as minhas ideias sobre a coisa em si e não sobre a pessoa a quem me dirijo; posso respeitar a pessoa, sem participar de suas opiniões. A. K. — O Espiritismo me tem ensinado a desprezar essas mesquinhas suscetibilidades do amor-próprio, e a me não ofender com palavras. Se as vossas expressões saírem dos limites da urbanidade e das conveniências, apenas concluirei que sois um homem mal-educado, mas não irei além. Quanto a mim, antes quero que os outros fiquem com os defeitos, do que compartilhar deles. Vedes, só por isso, que o Espiritismo já serve para alguma coisa. Já vos disse, senhor, não tenho a pretensão de vos fazer adotar a minha opinião; respeito a vossa, se é sincera, como desejo que respeiteis a minha. Acreditando ser o Espiritismo um sonho sem sentido, dissestes, sem dúvida, vindo a minha casa: Vou ver wm louco. Confessai-o francamente, pois com isso não me escandalizarei. Todos os espíritas são loucos, é coisa sabida. Pois bem! se julgais assim, eu tenho escrúpulo de transmitir-vos a minha enfermidade mental; e causa-me espanto ver-vos, com tal pensamento, buscar uma convicção que vos vai colocar no número dos loucos. Se já estais persuadido de que não conseguiremos convencer-vos, o passo que destes é inútil, visto que só terá por fim a curiosidade. Abreviemos, pois, por favor, porque me falta tempo para perder em conversações sem objeto. y. — - O homem pode enganar-se, deixar-se iludir, sem que, por isso, «eja louco. A. K. — Dizei logo: acreditais, como muitos, que isto é moda que durará certo tempo; mas deveis convir que um passatempo que, em alguns anos, tem conquistado milhões de partidários, em todos os países, que

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conta entre seus adeptos sábios de toda ordem, que se propaga de preferência nas classes mais esclarecidas, é mania singular, que merece examinada. V. — Tenho minhas ideias a respeito, é certo, porém elas não se acham tão absolutamente firmadas, que não consinta em sacrificá-las à evidência. Disse-vos que teríeis certo interesse em me convencer. Confesso-vos que tenciono publicar um livro em que me proponho demonstrar ex 'professo (sic) a minha opinião sobre o que considero um erro; e como esse livro deve produzir efeito, dando um golpe no Espiritismo, eu deixaria de publicá-lo, caso ficasse convencido da realidade da vossa doutrina. A. K. — Eu sentiria que ficásseis privado do que vos pode proporcionar um livro que deve produzir tanto efeito; além disso, não tenho interesse algum em impedir a sua publicação: ao contrário, desejo-lhe grande circulação, porque assim ele nos servirá de prospecto e anúncio. A nossa atenção é sempre chamada sobre aquilo que vemos atacado; há muita gente que quer ver os prós e os contras, e a crítica faz aparecer a verdade, mesmo aos olhos daqueles que não a procuravam aí; é assim que muitas vezes, sem querer, se faz reclamo do que se quer combater. A questão dos Espíritos é, por outro lado, tão palpitante de interesse, choca a tal ponto a curiosidade, que basta assinalá-la à atenção, para que nasça o desejo de aprofundá-la. V. — Então, no vosso entender, a crítica para nada serve, a opinião pública nada vale? A. K. — Não considero a crítica como expressão da opinião pública, mas como juízo individual, que bem pode enganar-se. Lede a história e vereis quantos trabalhos importantes foram, ao aparecer, criticados, sem que isso os

sua opinião não tem valor. vosso livro não será mais que uma apreciação pessoal. não há muito. da vacina. quando. mão há diatribe que possa fazer dele uma mentira. analisastes e comparastes as diversas opiniões.. sem conhecimento de literatura. Que juízo formaríeis de um homem que. que íeis tratar a questão ex professo. etc. quando não conhecer esses princípios? Não tendo ideia da mecânica. O crítico não se deve limitar a dizer que tal coisa é boa ou má. ou os defeitos de determinada máquina? . a verdadeira opinião pública decidirá da justeza dos vossos conceitos. se erigisse em censor de uma obra literária ou de um quadro? É de lógica elementar que o crítico conheça. uma coisa é má. a fundo. porém. porém. se. sem ter estudado a pintura.O QUE É O ESPIRITISMO 55 excluísse do número das grandes obras. foram publicados contra as teorias da circulação do sangue. Se o Espiritismo é uma falsidade. em suma: que nada desprezastes para chegar à verdade. aquilo de que fala. porque somente aquele que fez tudo isso pode dizer que fala com conhecimento de causa. sem o que. Esquecia-me. Para combater um cálculo é necessário opor-se-lhe outro cálculo. o que exige saber calcular. é uma verdade. Se mais tarde reconhecerem que vos enganastes. o que equivale a dizer que a estudastes sob todas as suas faces. Procurarão examinar. que vistes tudo o que se pode ver. vosso livro se tornará ridículo. Ao nosso modo de ver. podereis apreciar as qualidades. se sois um homem sério. é preciso que justifique a opinião por uma demonstração clara e categórica. que vos achastes nas melhores condições de observação pessoal. etc. como os que. não superficialmente. mas. ele cairá por si mesmo. não há elogio que a torne boa. que durante anos lhe consagrastes vigílias. porém. Como poderá fazê-lo. Devo crer que tal se deu. lestes tudo o que sobre a matéria se tem escrito. baseada sobre os princípios da arte ou ciência a que pertence o objeto da crítica.

— É precisamente para evitar esse perigo que vim pedir-vos permissão para assistir a algumas experiências. desmentido pouco lisonjeiro ao vosso amor-próprio. não pode ter mais valor que o que. a receber. por exemplo. A crítica pode. Pois bem: o vosso juízo acerca do Espiritismo. julgá-las. ainda mais. satisfatório ou não. apreciar. mas. não tendo estudado a Matemática. ela significa julgar. que vosso projeto é absolutamente a mesma coisa que. vos apresentásseis a um dos membros do Observatório. porque aqueles que têm estudado a matéria verão logo que a desconheceis. que aliás não conheceis.56 ALLAN KARDEC Não. dizendo-lhe: "Senhor. como desconheço os menores rudimentos dessa ciência. não conhecendo a fundo a metalurgia? Permiti-me dizer-vos. se antes de abrir o . senhor. nas condições acima. A. ser aprobativa ou desaprobativa. deve fazê-lo sem ideias preconcebidas. de ensaios metalúrgicos. quer noutro caso. em sua acepção própria e segundo a etimologia. portanto. pois. quem empreende essa tarefa. expondo-vos. falar de Espiritismo? Como podereis compreender essas experiências e. V. donde concluirão que não sois um homem sério ou que agis de má-fé. — E julgais que isto vos baste para poder. K. ex professo. nem a Astronomia. por uma ou duas vezes. Fazer a crítica de um livro não é necessariamente condená-lo." É somente por extensão que a palavra criticar se tornou sinónima de censwrar. quando não estudastes os princípios em que elas se baseiam? Como apreciaríeis o resultado. porém. A cada passo sereis apanhado em flagrante delito de ignorância. me sirva de vossa luneta. o que será suficiente para ficar sabendo tanto quanto vós. quero escrever um livro sobre Astronomia e provar que o vosso sistema é falso. emitísseis sobre a aludida máquina. quer num. deixai que.

O QUE É O ESPIRITISMO 57 livro. quando reconhece que o seu objetivo é muito diverso daquele que supunha. Apenas sobre o nome formaram uma opinião. A. A maior parte dos que seriamente têm estudado a questão. V. V. é melhor não fazê-la. — Quanto vos cobraram para mostrar-vos essas coisas? V. fazendo qual juiz que proferisse uma sentença. quando nos falta o tempo para fazer conscienciosamente uma coisa. convencido de que nisso há charlatanismo. estou. sobretudo quando se ocupam com teorias novas. •— Nada. ocasionaram riso. vi pessoas escreverem o que. e mais de um adversário se tem tornado adepto do Espiritismo. — Ora. Vi mesas girarem e produzirem sons como de pancadas. lhes ditavam os Espíritos. já o condena em pensamento. Até . Tal o caso da maioria dos que têm falado contra o Espiritismo. K. — A tão judicioso raciocínio não tenho outra resposta a dar senão que. que lhe seria preciso aprofundar e verificar? Seria o mesmo que exigir de um impressor que ele lesse todas as obras saídas de sua prensa. porém. é preferível produzir um só trabalho bom a fazer dez maus. o exame não pode ser imparcial. e que. A. aí tendes charlatães de uma espécie singular. por certo. A consequência foi que seu julgamento feriu em falso. que vão reabilitar o nome da sua classe. em vez de persuadir. — Falais do exame dos livros em geral. segundo diziam. — Não acrediteis que minha opinião se tenha formado levianamente. acreditais que seja materialmente possível a um jornalista ler e estudar todos os que lhe passam pelas mãos. K. sem antes examinar as peças do processo. K. mudou de ideia. A.

Concordo em que uma vez se prestassem a tal brinquedo. é preciso indagar que interesse havia em enganar. agarrado a uma mesa. admitindo mesmo que. ele. mas. pessoas cujo caráter já é uma garantia de probidade. o Espiritismo se presta a abusos. porém. porque de tudo se pode abusar. . julgo que o mistificado é o próprio mistificador. alguém vá passar horas inteiras. Suponhamos que um gaiato de mau gosto tenha querido uma vez divertir-se assim. ou a religião pelos dos sacerdotes que iludem seu ministério. O gosto não equivaleria à pena. ficasse bem comprovado um manejo fraudulento. Não é provável que. só pelo gosto de fazer que creiam em uma coisa que ele sabe ser falsa. fornece os meios para que os reconheçam.5g í? ALLAN KARDEC ao presente não se tinha ainda visto charlatães desinteressados. Coisa muito diversa seria se se tratasse de uma especulação. com que fim se fariam elas cúmplices de uma mistificação? Direis que com o fim de recrear a sociedade. Por vender-se vinho falsificado.. Antes de julgar isso uma fraude. não deixareis de convir que há pessoas que se não coadunam com a mais leve suspeita de embuste. definindo claramente seu verdadeiro caráter e afastando de si toda a solidariedade com aqueles que o viriam a explorar ou desviar do seu fim exclusivamente moral. do que o é a ciência médica pelos atos dos charlatães que impingem suas drogas. será crível que as outras pessoas presentes pactuassem com ele? Demais. porém. Por sua novidade e mesmo por sua natureza. neste último caso. porque a tentação do ganho é má conselheira. O Espiritismo não é mais responsável pelos atos daqueles que abusam desse nome e o exploram. isso em nada ofenderia a realidade do princípio. imóvel. ora. para transformá-lo em meio . quando esse brinquedo dura meses e anos. não se deve concluir que não existe vinho puro.

todos têm completa liberdade de aprovar ou censurar os princípios do Espiritismo. define o que pode ou não dizer ou fazer. para nós. cavalheiro. o julgam pelas aparências e que. mesmo depois de as haver estudado.O QUE É O ESPIRITISMO 59 de vida. é o que faz a maioria dos nossos adversários. dizem com gravidade: eis o que é o Espiritismo. E. que eu não pretendo que a crítica deve necessariamente aprovar nossas ideias. antes. Desde que o Espiritismo mesmo traça os limites em que se encerra. o que aceita e o que repudia. alterasse os fatos históricos. Quando usa desses meios. Em resumo. se. eles se colocam na posição do historiador que. no segundo. e do fato mais positivo nem todos tiram as mesmas consequências. fazem-no por ignorância ou má intenção. por terem encontrado saltimbancos adornando-se sob o nome de espíritas. não faltará quem diga que essa cor faz aí mau efeito. pode não ser para vós outros. o que está ou não em suas atribuições. no interesse de sustentar um partido ou uma opinião. Sobre quem. Notai bem. cuja doutrina escrita desmente tais asserções? ou. cada qual julga as coisas debaixo de certo ponto de vista. que a cor negra conviria mais. em instrumento de adivinhação ou de investigações fúteis. afirmar que é negro. e nisto não se comete erro. O que é evidente. no primeiro caso há leviandade. sobre os críticos que falam do que não sabem ou de. vendo que o cavalo é branco. senhor. pinta em seu quadro um cavalo branco. alterarem a verdade? Aqueles que atribuem ao Espiritismo o que é contrário à sua mesma ciência. de . Se um pintor. em definitiva. porém. para chamar concorrência. por exemplo. não se dando ao trabalho de estudá-lo. má-fé. cairá o ridículo? Será sobre o saltimbanco que usa do seu ofício? Será sobre o Espiritismo. não nos revoltamos de forma alguma contra os que não pensam como nós. cientemente. o partido fica desacreditado e não consegue o seu fim. neste último caso. cometer-se-á. toda a falta recai sobre aqueles que.

Como é que. K. Devemos também convir que o seu processo é assaz delicado e sutil. que as mesas estivessem preparadas. Porém.60 ALLAN KARDEC deduzir deles as consequências boas ou más que lhes aprouver. Admitindo. — Eis o que vos ilude. eu vo-la reconhecerei. sem deixar sinal algum exterior que o denuncie. era preciso que o mecanismo empregado fosse bem engenhoso para fazê-las produzir movimentos e sons tão variados. não será possível que elas sejam preparadas com algum artifício? A. e quem assinalar tais abusos o auxilia no trabalho de preveni-los e lhe presta importante serviço. especulação ou abuso de confiança. a primeira condição é não falar do que não conhece. fustigai-os e eu desde já vos declaro que não irei defendê-los. porque é uma calúnia. ele deveria gozar de grande celebridade. porque o Espiritismo sério é o primeiro a repudiá-los. Quando a fraude for provada. que já tratava das mesas giratórias e falantes. — Voltemos. até o presente ninguém conseguiu ver e descrever tal mecanismo? V. como dissestes. ora. lançar sobre elevado número de pessoas honradas a reprovação que só cabe a alguns indivíduos isolados. pela contração de . generalizar essas acusações. porém a consciência impõe ao crítico a obrigação de não dizer o contrário do que ele sabe que é. por favor. para poder adaptar-se à primeira mesa que se apresenta. às mesas que se movem e falam. visto que seus aparelhos estão espalhados pelas cinco partes do mundo. para isso. Um célebre cirurgião reconheceu que certas pessoas podem. charlatanismo. a que já respondi. — É sempre a mesma questão de boa-fé. se descobrirdes fatos demonstrados de embuste. como não é ainda conhecido o nome do hábil artista que os fabrica? Entretanto. é um abuso de outro género. desde Tertuliano. Ora. V.

de que falais. desconfiava que esse músculo possuísse tanta virtude (R&vue Spirite. para que ele possa mover uma pesada mesa.O QUE Ê O ESPIRITISMO 61 um músculo da perna. Respeito a ciência desse sábio cirurgião. com toda a autoridade de sua ciência. a terceira. para fazer estalar o músculo durante duas ou três horas consecutivas. até o presente excepcional e olhada como um caso patológico. A. fazê-la despedaçar-se ao cair. . que é preciso ter-se robustíssima vontade de mistificar. sem mais amplo exame concluiu. sejam eles príncipes ou artífices. para que as mesas falem. finalmente. se tenha tornado comum. — Se é um estalido do músculo. teria estudado o fenómeno da tiptologia sobre os indivíduos que os produzem? Não. não é então a mesa que está preparada. K. da teoria indicada. e. ele observou um efeito fisiológico anormal em alguns indivíduos que nunca se ocuparam de mesas batedoras. levantá-la. O célebre cirurgião. às mesas falantes. abri-la. conservá-la suspensa sem ponto de apoio. a segunda. a quarta. 141: Lê muscle araqueur). devem ter a propriedade de fazer estalar o músculo curto-perônio. e não são mais que embusteiros. fechá-la. e somente acho que se apresentam algumas dificuldades na aplicação. junho de 1859. recebam ou não um pagamento. por certo. que todos os que concorrem. produzir um ruído semelhante ao que atribuís à mesa. Ninguém. notando certa analogia entre esse efeito e o que essas mesas produzem. Uma vez que cada qual explica a seu modo essa pretendida fraude. que é necessário dar-se a esse músculo estalador uma propriedade bem maravilhosa. que eu não compreendo bem como pode esse músculo responder às portas e paredes em que as pancadas se fazem ouvir. pág. finalmente. donde concluiu que os médiuns se divertem à custa da credulidade dos assistentes. quando disso não resulte a quem assim procede senão fadiga e dor. e. A primeira é que é singular que essa faculdade. fica reconhecido que a verdadeira causa não é sabida.

o fenómeno da tiptologia em todas as suas fases? Verificou. Não será esse juízo assaz comprometedor para um sábio? Quem pensa hoje nessa opinião? Confesso-vos que. e ainda menos a satisfazer a daqueles que se apre- . se me tivesse de sujeitar a uma operação cirúrgica. ao menos. O Espiritismo entrou. então. apesar disso. ele ficaria convencido da insuficiência do seu processo. •— Porque das mesas girantes saiu uma coisa ainda mais séria: uma ciência completa. O período de curiosidade teve seu tempo. — Entretanto. do máximo interesse para os homens que refletem. quando é uma coisa séria? A. que não o toma como objeto de divertimento. mas. do contrário. Porém. são pessoas com as quais a ciência não conta. Já que esse juízo é uma das autoridades em que pareceis querer apoiar-vos para esmagar o Espiritismo. se podia produzir todos os efeitos tiptológicos? Não. não se prestam a qualquer experiência de curiosidade. sim. como meio de instruir-se. Por que se dá isso. que nada querem aprofundar. K. uma perfeita doutrina filosófica. em pleno Instituto. porque. hesitaria muito em confiar-me a esse médico. não mais com elas se ocuparam. essas pessoas que o consideram como coisa grave. um divertimento. Quando estes nada mais tiveram a aprender no giro das mesas. V. julgou-se no caso de proclamar a sua descoberta.62 ALLAN KARDEC Estudou ele. Para as pessoas fúteis. sucedeu-lhe o da observação. bem vedes que já passou a moda das mesas girantes que durante certo tempo fizeram furor. porque recearia que ele não julgasse o meu mal com mais perspicácia. que abandonaram quando dele se aborreceram. no domínio da gente séria. fico completamente inteirado da força dos outros argumentos que quereis validar. a menos que os não vades beber em fontes mais autênticas. por meio desse estalido muscular. hoje já ninguém se ocupa com elas. esse fenómeno era um passatempo.

As provas abundam para o observador assíduo e refletido: uma palavra. e ainda mais quando se vem com o espírito prevenido. Quanto aos que manifestam sincero desejo de esclarecer-se. quando não se está familiarizado com as condições em que se pode encontrá-las. eis por que não me presto a fazer experiências sem resultado provável. é observando muito e por muito tempo que se descobre uma porção de provas que escapam à primeira vista. é aos desta última classe que me dirijo. não se prestam a servir de brinquedo para os outros. por meio de uma série de observações feitas com cuidado todo particular. . — No entanto. eu pertenço a esse número. — Uma coisa é estar convencido e outra estar disposto a convencer-se. mesmo aquele que. K. somente a experiência pode convencer. o melhor modo que têm. Com estes eu não me ocupo. seja movido pela curiosidade. A convicção só se adquire com o tempo. Se só trabalhais na presença de pessoas convictas. em começo. Os fenómenos espíritas diferem essencialmente dos das ciências exatas: não se produzem à vontade. um fato aparentemente insignificante. uma confirmação. ao passo que tais fatos não têm sentido para quem os observa superficialmente ou por simples curiosidade. para prová-lo. como não brincam. e não aos que julgam humilhação vir escutar o que eles chamam ilusões. são reconhecidos por outros sinais que não apenas o desejo de ver uma ou duas experiências: esses querem trabalhar seriamente. deixai que vos diga. V. ensinais a quem já sabe. A. sobretudo.O QUE Ê O ESPIRITISMO 63 sentam com pensamentos hostis. é mostrar perseverança. é preciso que os colhamos de passagem. é para ele um raio de luz. absolutamente.

pelo que não há utilidade em lhos fornecer. Então. nada me custa esclarecê-lo. como poderá fazê-lo. se aparecesse. Instruí-vos primeiramente pela teoria. julgam mal os resultados obtidos e os transformam em objeto de zombaria. desse modo. com estas perde-se o tempo. porque. pessoas em quem a vontade de instruir-se não é senão aparente. quando se vos apresentar a ocasião de observar ou operar pessoalmente. Aqueles que acidentalmente poderíeis ver. nem ligação necessária. há. K. que nada sabe. porque nada vereis de estranho. O aprendiz. muitas vezes. encontrareis a descrição de todos os fenómenos. não apresentando nexo algum. mas que vos voltarão à memória. mas que deseja esclarecer-se. — Enfim. seriam pouco inteligíveis para vós. lede e meditai as obras que tratam dessa ciência. compreendereis. quando não lhe facultais os meios para isso? A. compreendereis a possibilidade deles pela explicação que elas vos darão. se elas não encontram logo o que parecem buscar.64 ALLAN KARDEC V. frustrarem-se todas as nossas previsões." . vós vos fortificareis contra todas as dificuldades que possam surgir e formareis. quando descubro alguém com disposições favoráveis. e que talvez as incomodasse. uma primeira convicção moral. o pouco que vêem não é suficiente para lhes destruir as prevenções. porém. e que as inteligências desses agentes fazem. direi: "Não se pode fazer um curso de Espiritismo experimental como se faz um de Física ou de Química. A quem deseja instruir-se. que nada viu ainda. atento que nunca se é senhor de produzir os fenómenos espíritas à vontade. e. qualquer que seja a ordem em que os fatos se mostrem. — Eu faço grande distinção entre o incrédulo por ignorância e o incrédulo por sistema. nelas aprendereis os princípios. pela narrativa de grande número de fatos espontâneos de que pudestes ser testemunha sem os compreender. tudo deve ter começo.

a seu respeito tenho ouvido argumentos muito contraditórios. a utilidade do estudo preliminar de que acabais de falar. e propunha-me submeter-vos algumas das objeções que foram feitas em minha presença e que me parecem de certo valor. sempre que forem feitas com sinceridade e sem pensamento oculto. uma resposta à maior parte das questões que lhe venham 3 . há partidários e adversários dele. da Metafísica. para mim ao menos. Como predisposição pessoal. da Psicologia e da Moral. é um campo imenso que não pode ser percorrido em algumas horas. Em prévia leitura cada qual encontrará. A.O QUE É O ESPIRITISMO 65 Eis. O Espiritismo prende-se a todos os ramos da Filosofia. além disso. grande presunção de minha parte pretender levar de vencida todas as dificuldades. em particular. o que aconselho a todos que dizem querer instruir-se. muito a aprender. e. não tenho a pretensão. K. pela resposta que dão. O Espiritismo é uma ciência que acaba de nascer e da qual resta ainda. é fácil conhecer se neles há alguma coisa mais que curiosidade! SEGUNDO DIÁLOGO O CÉPTICO V. entretanto. meu amigo. dir-vos-ei que não sou a favor nem contra o Espiritismo. meu caro senhor. pois. — Compreendo. — Terei grande satisfação. seria. Entre as pessoas de meu conhecimento. cavalheiro. de poder responder a todas. mas esse assunto me excita o interesse no mais alto grau. para uso geral. tudo quanto tenho escrito sobre essa matéria. em responder às perguntas que me quiserdes dirigir. Compreendeis que me seria materialmente impossível repetir de viva voz e a cada pessoa. não poderei dizer mais do que sei. que vos confesso a minha ignorância a respeito.

— Seja. é espiritualista.66 ALLAN KARDEC à mente. Se o permitirdes. Aquele que crê que em nós existe outra coisa. sempre que eu dela me afaste. essa leitura tem a dupla vantagem de evitar repetições inúteis e de provar um desejo sincero de instruir-se. limitar-nos-emos. quando se quer evitar equívocos. a algumas questões genéricas. porque já se possui um ponto de apoio e não se tem necessidade de perder tempo em rever os princípios mais elementares da Doutrina. por ora. tende a bondade de chamar-me à ordem. A. Se eu tivesse dado à minha Revista a qualificação de espiritualista. V. Espiritismo e Espiritualismo Pergunto-vos. que são da língua vulgar e por todos compreendidos? Já ouvi alguém classificar tais termos de barbarismos. K. sem desmentir-lhe o . Como o podereis distinguir daquele que tem esta crença? Ver-vos-eis obrigado a servir-vos de uma perífrase e dizer: É um espiritualista que crê ou não crê nos Espíritos. em primeiro lugar. Todas as religiões são necessariamente fundadas sobre o espiritualismo. para substituir: espiritualista e espiritualismo. o esclarecimento não oferecerá mais dificuldade. porque. não lhe teria especificado o obieto. Para as novas coisas são necessários termos novos. é a Academia que no-la dá: Espiritualista. o que não implica a crença nos Espíritos e nas suas manifestações. além da matéria. depois dela. Se. qual a necessidade da criação de novos termos: espírita e espiritismo. aquele ou >aquela pessoa cuja doutrina é oposta ao materialismo. — De há muito tern já a palavra espiritualista uma acepção bem determinada. ainda existirem dúvidas ou pontos obscuros.

Já há algum tempo. as artes e a indústria diariamente estão criando. um artigo em que se dizia tê-la o autor escrito do ponto de vista espiritualista. Agarrar-se a tais bagatelas é demonstrar falta de boas razões. espiritismo. Além disso. Se adotei os termos espírita. etc. li num jornal. devem ser expressas por termos próprios. aqueles que no princípio os classificavam de barbarismos. os partidários dos Espíritos ficariam singularmente desapontados se. como as verdadeiras. espiritismo. como: Secretividade.O QUE í! O ESPIRITISMO 67 título. Todo espírita é necessariamente espiritualista. só revelam o acanhamento de suas ideias. compreendeu-se a sua utilidade. Há pessoas que. porém. acreditassem encontrar alguma concordância entre o que ela ensina e as ideias por eles admitidas. aqueles que assim provocam tão pequeninas chicanas. alimentividade. porque as falsas ideias. e têm sido empregadas nos Estados Unidos desde que começaram a surgir as manifestações dos Espíritos. tomando ares de oposicionistas. no começo e por algum tempo. Ainda que os Espíritos fossem uma quimera. é porque eles exprimem. criticam tudo que não provém delas. também delas se serviram na França. bem poderia nada dizer nela sobre os Espíritos. logo. não empregam outros. ora. elas não o são mais do que aquela que Gall imaginou para a sua nomenclatura das faculdades. e foram imediatamente aceitos pelo público. por espírito de contradição. Os sermões e as pás- . a propósito de uma obra filosófica. que apareceram os termos espírita. com certeza. havia utilidade em adotar termos especiais para designar o que a eles se refere. mas nem todos os espiritualistas são espíritas. sem equívoco. as ideias relativas aos Espíritos. seu uso está tão generalizado que os próprios adversários. confiantes nessa indicação. afeeionividade. essas palavras não são mais bárbaras que as outras que as ciências. As palavras espiritualismo e espiritualista são inglesas. Hoje. e até combatê-los.

para exprimir os fenómenos especiais dessa ciência. Se ela se baseasse em fatos positivos. sem ter estudado a questão. Dissidências V. aplicadas às manifestações dos Espíritos. ela apenas se limita ao modo de encarar alguns pontos da doutrina. em seu começo. a sua condenação. até que seus princípios ficassem claramente assentados? Não encontramos as mesmas dissidências nas ciências melhormente constituídas? Estarão os sábios de perfeito acordo sobre todos os pontos ? Não tem cada qual seus sistemas particulares? As sessões das Academias apresentam sempre o quadro de perfeito e cordial entendimento? . Dizei-me. como afirmam os nossos adversários. que tal divergência só existe na forma. esses termos estão hoje incluídos na língua usual e em todas as línguas da Europa. — Essa diversidade. não deveria ser a mesma na América e na Europa? A. favoráveis ou contrárias. tínhamos necessidade de termos especiais. Eles ocupam o vértice da coluna da nomenclatura da nova ciência. e não constitui um antagonismo radical nos princípios. parece-me. não são hoje mais empregadas senão pelos adeptos da escola americana. são os únicos empregados em todas as publicações. — A isso responderei. na crença do a que chamais uma ciência. feitas em todos os países.68 ALLAN KARDEG torais que fulminam o Espiritismo e os espíritas viriam produzir enorme confusão. K. Bárbaros ou não. o Espiritismo hoje possui a sua nomenclatura. primeiramente. sem afetar o fundo. se fossem dirigidos ao espiritualismo e aos espiritualistas. qual a ciência que. realmente. é. As palavras espiritualismo e espiritualista. não deu nascimento a dissidências. porém. tal como a Química.

Ê fato verificado e reconhecido por seus próprios adversários. não podem produzir-se. qual a doutrina filosófica ou religiosa que oferece um exemplo igual? Apresentou o Espiritismo a centésima parte das cisões que. ao surgirem os primeiros fenómenos. . negações. seria necessário demonstrar categoricamente que os fenómenos não se produzem. com exceção de algumas individualidades que. apenas com dez anos de vida. Qual o recurso de que lançam mão? Zombarias. isto é um absurdo. durante tantos séculos. não indicará isso uma falta de argumentos sérios? Se eles os tivessem. não tem produzido cismas entre os que querem adiantar-se e os que desejam estacionar? Referindo-nos ao Espiritismo. e a prova de ainda lhe não terem achado um ponto vulnerável. Qual a ciência. ele já conta tal número de adeptos como ainda nenhuma seita contou depois de um século de existência. cada pessoa tivesse um sistema e houvesse encarado os fatos de um modo particular ? Onde estão hoje esses sistemas primitivos? Caíram todos ante uma observação mais completa. nesta como em todas as coisas. calúnias. não era bastante dizer: isto não se dá. em qualquer ciência. porém. é que nada pôde deter-lhe a marcha ascendente e que. se apegam às ideias primitivas e morrem com elas. Bastaram apenas alguns anos para que ficasse estabelecida a unidade grandiosa que hoje prevalece na Doutrina. não deixariam de fazê-los valer. e que prende a imensa maioria dos adeptos. Para aniquilá-lo. quando eram ignoradas as leis que os regem. e é o que ninguém ainda fez. dilaceraram a Igreja e que ainda hoje a dividem? Ê realmente curioso ver as puerilidades a que recorrem os adversários do Espiritismo. não será natural que.O QUE fi O ESPIRITISMO 69 Em Medicina não há a Escola de Paris e a Escola de Montpellier? Cada descoberta. nunca de um só argumento peremptório.

deve-se refletir que as asserções de um escamoteador não são palavras de um evangelho. por se fabricar com água de Seltz vinha de Champanha. ficariam sabendo que os espíritas não se ocupam de fazer aparecer espectros nem de ler a buena-dicha.estudo. Um. podia servir a explorações. por causa da sua popularidade e das controvérsias de que era objeto. — Não estará provado que. quando aquele repudia o fim. bradando: Eis aí o que é o Espiritismo! Quando se mostrou em cena a engenhosa aparição dos espectros. e todos os gaiatos os aplaudiram. e para atrair a multidão simularam. mais ou menos grosseiramente. alguns fenómenos de mediunidade. eles. fora do Espiritismo. ser todo vinho desta espécie apenas água de Seltz? Isto é privilégio de todas as coisas que apresentam a possibilidade de engendrar falsificações. esses mesmos fenómenos podem produzir-se? E disso não podemos concluir que eles não têm a origem que os espíritas lhes atribuem? A. Só a malevolência e uma rematada má-fé puderam confundir o Espiritismo com a magia e a feitiçaria. — Por ser uma coisa suscetível de imitação. além disso. segue-se que ela não exista? Que direis da lógica daquele que pretendesse. K. mesmo pouco acurado. as práticas. Acreditaram alguns prestidigitadores que o nome de espiritismo. Ninguém compra um brilhante sem primeiro estar convencido de não ser uma pedra d'água. e certificar se há identidade real entre a imitação e a coisa imitada. não se proclamou que naquilo recebia o Espiritismo um golpe mortal? Antes de pronunciar tão positiva sentença. como já tinham simulado a clarividência sonambúlica. as fórmulas e . tê-los-ia certificado de serem completamente outras as condições em que se dão os fenómenos espíritas.70 ALLAN KARDEC Fenómenos espíritas simulados V.

mas. Se eu encontrasse por aqui algum desses loucos. e posso asseverar-vos que nada vejo que se lhe pareça. como esses que acabais de citar. tenho assistido a centenas de reuniões espíritas. não se encontrarão também homens de real valor. ele ouviu o vizinho dizer: — "Belo! Vamos assistir a uma sessão espírita. longe de sofrer com tais ataques. entre os detratores do Espiritismo. meu amigo. Alguns chegaram mesmo a comparar as reuniões espíritas às assembleias do sdbbat. perguntar-lhe-ia se ele se reconhece no quadro que tem ante os olhos. os reclamos provocaram o exame e contribuíram para lhe aumentar o número de adeptos. Um espírita. e nelas nada encontrei que se assemelha a isto. nas quais se espera o soar da meia-noite. assevero-vos que ele não primará pela veracidade. — Convenho que." — "Eu sou um deles. chamando para ele a atenção de muita gente que nem sequer pensava nele. vou saber agora como as coisas se passam. há muita gente inconsciente. em vez de brincadeira. disse-lhe o espírita. para que os fantasmas apareçam. Se é aqui que vindes colher argumentos para o vosso artigo." Muitos críticos não têm bases mais sólidas.O QUE É O ESPIRITISMO 71 as palavras místicas destas. porque se reconheceu. Sobre quem cairá o ridículo. ao lado de um jornalista que ele não conhecia. a não ser sobre aqueles que caminham tão estonteadamente ? Quanto ao Espiritismo. ele era coisa séria. ao lado deles. então. tem crescido pelos reclamos que lhe fazem. é justamente o que precisava para o meu próximo artigo. Impotência dos detratores F. seu crédito. Quando chegou a cena das feiticeiras. que. cujas opiniões têm certo peso? . assistia um dia a uma representação de Macbeth.

não são convincentes. como já disse. chegada a hora. — Não o contesto. concorreram para a sua vulgarização. que se não tenha lisonjeado com a ideia de dar-lhe um golpe mortal. K. digo-vos. além disso. todos. ninguém consegue deter o Espiritismo na sua marcha. não há um só dos seus contrários. que inutiliza todas as suas combinações. forçosamente elas encontram obstáculos. Essa impotência dos adversários do Espiritismo prova primeiramente. e. sem exceção. os prejuízos. entretanto. ela dimana ainda de outra causa. nada as poderá deter. para que se cumpra a lei do progresso da humanidade. sem querê-lo. porque lutam contra os interesses. os abusos que elas vêm destruir. de tempos a tempos. seja ele o mais obscuro folhetinista. mais. Admiram-se de ver o desenvolvimento dessa doutrina. e não podem achar o motivo por não o busca- . de todo o poder oficial. abalam as sociedades para transformá-las. que avança impávida através da chuva de dardos que lhe atiram. só a má-fé pode dizer que seus adeptos são recrutados entre as mulheres simples e as massas ignorantes. A isso respondo que o Espiritismo também conta em suas fileiras muitos homens de não menos real valor.72 ALLAN KARDEC A. porém. Uma ideia que resiste a tantos assaltos. que lhes faltam boas razões. que talvez seja um desses grandes movimentos irresistíveis que. muitos deles avançam que deve haver nisso alguma coisa de real. Isto se tem dado sempre com todas as ideias novas. pois que as que lhe opõem. é a prova de serem a expressão da verdade. Um fato peremptório responde. a essa objeção. como estão nos desígnios de Deus. que a imensa maioria dos espiritas se compõe de homens inteligentes e de estudos. apesar de tudo o que fazem pela conter. não provará a sua força máscula e a segurança das bases em que se firma? Não será esse fenómeno digno da atenção dos pensadores? Também. chamadas a revolucionar o mundo. apesar de todo o saber. é que. já hoje.

nos palácios e nas choupanas. na própria natureza do Espiritismo cuja força não provém de uma só fonte. A verdadeira causa está. e que se baseia na opinião de um só homem. mais forte que Deus. que a si mesmos procurem enganar fazendo o papel de charlatães e escamoteadores? Essa universalidade das manifestações dos Espíritos. e. é uma força que não podem explicar aqueles que desconhecem o mundo invisível. Como persuadir a milhões de indivíduos que tudo isso não é mais que comédia. assim como os que desconhecem as leis dos fenómenos elétricos não compreendem a rapidez com que se transmite um despacho telegráfico. que agrada muito mais que as que se lhe opõem. outros.O QUE É O ESPIRITISMO 73 rem onde ele realmente está. O erro de todos está em crerem que a fonte do Espiritismo é uma só. mas permite a cada qual receber diretamente comunicações dos Espíritos e por elas certificar-se da veracidade do fato. são eles próprios que obtêm tais resultados? É possível fazê-los crer que eles se mistifiquem a si mesmos. que assim se apresenta mais forte que eles. quando. escamoteação. porque não há lugar em que os Espíritos se não possam manifestar. vede nisso a causa dos insucessos dos que tentam deter-lhe . essa fonte do Espiritismo não iS8 acha num ponto. sem o concurso de estranhos. Fazendo abstração das qualidades da Doutrina. mesmo. charlatanismo. que o Sol não existe. prestidigitação. daí a ideia de que poderão arruiná-lo. mas em toda parte. aos que sentem a ação dos raios solares. refutando essa opinião. eles procuram na Terra uma coisa que só achariam no Espaço. que surgem em todos os pontos do globo para desmentir os detratores e confirmar os princípios da Doutrina. pois. porque elas se equiparam às asserções de quem pretendesse afirmar. é de encontro a essa força que todas as negações se vêm quebrar. em todos os países. no aumento da alucinação humana. Uns crêem encontrá-lo no grande poder do diabo.

que o Sol não existe. em todos os países. charlatanismo. vede nisso a causa dos insucessos dos que tentam deter-lhe . Uns crêem encontrá-lo no grande poder do diabo. porque elas se equiparam às asserções de quem pretendesse afirmar. porque não há lugar em que os Espíritos se não possam manifestar. mais forte que Deus. que surgem em todos os pontos do globo para desmentir os detratores e confirmar os princípios da Doutrina. que a si mesmos procurem enganar fazendo o papel de charlatães e escamoteadores? Essa universalidade das manifestações dos Espíritos. que agrada muito mais que as que se lhe opõem. que assim se apresenta mais forte que eles. Fazendo abstração das qualidades da Doutrina. mas em toda parte. prestidigitação. eles procuram na Terra uma coisa que só achariam no Espaço. são eles próprios que obtêm tais resultados? É possível fazê-los crer que eles se mistifiquem a si mesmos. refutando essa opinião. Como persuadir a milhões de indivíduos que tudo isso não é mais que comédia. essa fonte do Espiritismo não iS8 acha num ponto. assim como os que desconhecem as leis dos fenómenos elétricos não compreendem a rapidez com que se transmite um despacho telegráfico. pois. e. na própria natureza do Espiritismo cuja força não provém de uma só fonte. é de encontro a essa força que todas as negações se vêm quebrar. sem o concurso de estranhos. aos que sentem a ação dos raios solares. daí a ideia de que poderão arruiná-lo. escamoteação. O erro de todos está em crerem que a fonte do Espiritismo é uma só. nos palácios e nas choupanas. é uma força que não podem explicar aqueles que desconhecem o mundo invisível. mesmo. no aumento da alucinação humana. A verdadeira causa está. quando.O QUE É O ESPIRITISMO 73 rem onde ele realmente está. mas permite a cada qual receber diretamente comunicações dos Espíritos e por elas certificar-se da veracidade do fato. e que se baseia na opinião de um só homem. outros.

mostrando o que há de real ou de falso nas crenças populares. Direis: a minha razão não aceita essas comunicações. a fazer reviver as crenças fundadas no maravilhoso e no sobrenatural. antes de ficar provado que não existem espíritos. A. destruir as ideias supersticiosas. nesta questão. procura. evidentemente. isso não pode ser tachado de superstição. por muito tempo. nós só o fazemos depois de. como o é hoje. — O Espiritismo tende. eles têm por si a experiência e o peso dos fatos. ao contrário. O maravilhoso e o sobrenatural V. era-lhes mister impedir que os Espíritos se manifestassem. ora. fruto da ignorância e dos preconceitos. porém. é o futuro — como tem sido em todas as questões científicas e industriais classificadas como absurdas e impossíveis em sua origem. como alguns pretendem. denunciando o que nelas existe de absurdo. em parte. A questão está em saber se os Espíritos se manifestam. ter visto e observado. para que lado se deVe pender? O grande juiz. ligam tão pouca importância às manobras dos seus adversários. Acresce que o Espiritismo esclarecido. K. e que este deve. antes que. já condenados pela razão. porque é exigir que se acredite nas superstições e nos erros populares. — Uma ideia só é supersticiosa quando falsa. para que triunfassem. Vou mais longe e digo que é precisamente o positivismo do nosso século que faz com que adotemos o Espiritismo. mas cessa de o ser desde que passe a ser uma verdade reconhecida. Pretendeis julgar a priori segundo a vossa opinião. além disso. àquele a rapidez da sua propagação. a . ora. os que crêem e que não são nenhuns mentecaptos invocam também as suas razões e. os fatos. no século positivo em que vivemos. Eis o motivo por que os espíritas. isto me parece difícil. ou não.74 ALLAN KARDEC marcha.

assim. dissestes. ele não faz milagres nem prodígios. da Filosofia e da Razão.) Oposição da Ciência V. O Espiritismo repudia. "mas opõe-se-vos a opinião dos sábios que os contestam. cap. pág. no que se refere ao seu futuro. o mesmo acontece com os outros fenómenos espíritas. ela agrada ao espírito positivo do nosso século. Deste último ponto de vista. . É o que compreendereis. o domínio da Ciência. 393. pois bem: o Espiritismo vem revelar uma nova lei. (O Livro dos Méd/iams. Rewwe Spirite. os explicam de modo diferente do vosso.O QUE É O ESPIRITISMO 75 uma recrudescência do amor ao maravilhoso e ao sobrenatural. fora das leis da Natureza. e é nisto que ele próprio se torna uma ciência. entre dois indivíduos separados por uma distância de cem léguas. a sua possibilidade. a descoberta dessa nova lei traz consequências morais. mas. porventura. como. antes explica. isto é. o código das consequências faz dele. — Vós vos apoiais em fatos. porém. pág. todo efeito maravilhoso. dezembro de 1861. Sobrenatural é tudo o que está fora das leis da Natureza. como os deuses do paganismo ante o brilho do Cristianismo. ao mesmo tempo. em virtude de uma dessas leis. II. O sobrenatural desaparece à luz do facho da Ciência. ele corresponde às aspirações do homem. nos limites do que lhe pertence. O positivismo nada admite que escape à ação dessas leis. e janeiro de 1862. como o que se dá por intermédio da eletricidade. 21. ou. e como a sua teoria do futuro repousa sobre bases positivas e racionais. uma doutrina filosófica. Ele amplia. igualmente. demonstrando. certos efeitos. ele as conhece a todas? Em todos os tempos foram reputados sobrenaturais os fenómenos cuja causa não era conhecida. segundo a qual a conversação com o Espírito de um morto é um fato tão natural. quando vos derdes ao trabalho de estudá-lo.

os magistrados. Mas. e ninguém nega que os médicos sejam homens de ciência. quando se lhes apresentava tão bela ocasião de revelar ao mundo a existência de uma nova força? A. que eles o tenham esquecido em mais de uma circunstância. são todos eles contra vós. se tornaram título de glória para os seus autores? . os grandes dignitários. não são pessoas em quem se não deva reconhecer uma certa dose de ilustração.. é precisamente na classe ilustrada que o Espiritismo faz maior número de prosélitos. etc. Pelo fato de ainda não ter o Espiritismo adquirido direito de cidade na ciência oficial. Os sábios não serão o farol das nações. sua opinião nesse sentido teria grande peso na balança. que se agrupam ao redor da sua bandeira. no entanto. — Traçastes o dever dos sábios de modo admirável. porém. os altos funcionários. parece-me que não desprezariam fatos tão extraordinários e nem os repeliriam com desdém. os oficiais. Como vos disse há pouco. e não têm o dever de esclarecê-las? A que atribuís que tenham deixado de fazê-lo. merecerá ser condenado? Se nunca a Ciência se houvesse enganado. Não repeliu ela como quimeras tantas descobertas que. a experiência prova o contrário. os homens de letras. infelizmente. já ele conta entre seus adeptos grande número de médicos de todas as nações. os eclesiásticos.76 ALLAN KARDEC Por que não fixaram eles sua atenção sobre o fenómeno das mesas girantes? Se nisso tivessem notado alguma coisa de sério. os artistas. K. isto em todos os países. mais tarde. os professores. Admite-se erroneamente que os sábios só se encontram na ciência oficial e nos corpos constituídos. cumpre-me corrigir um grave erro que cometestes dizendo que todos os sábios são contra nós. é pena. antes de responder à vossa judiciosa observação.

com o que se não devia ocupar? Devemos daí concluir que os membros do Instituto são ignorantes e que sejam justificados os epítetos triviais que. inteligências que têm independência. V. que confiou o exame imediato ao Instituto. que as suas sentenças não estão isentas de apelação. — Admito perfeitamente que eles não sejam infalíveis. não há pessoa sensata que não faça justiça ao seu saber eminente. à vontade. se ela estivesse do vosso lado. contudo. portanto. sua opinião vale alguma coisa. à força de mau gosto. A. que se pode. manipular. em virtude do seu saber. não decidiu este que aquilo era uma utopia. sobretudo no que se refere a ideias novas. confiareis esse trabalho a um músico? Se estiverdes enfermo. alguém irá pedir a solução a um químico ou a um astrónomo ? Não. — Concordai. mas não é menos verdade que. que ninguém pode ser bom juiz naquilo que está fora da sua competência. os fenómenos que ela produz têm por agentes forças materiais. sem. certas pessoas se comprazem em prodigalizar-lhes? Certo que não. quando se trata de uma questão de teologia. deixar de reconhecer que eles não são infalíveis e. far-vos-eis sangrar por um arquiteto ? Quando estais a braços com um processo.O QUE E O ESPIRITISMO 77 Não foi devido a uin parecer do nosso primeiro corpo sábio que a França se absteve da iniciativa do vapor? Quando Fulton veio ao campo de Bolonha apresentar o seu plano a Napoleão I. livre-arbítrio e não estão sujeitas . daria grande peso ao vosso sistema. cada um tem a sua especialidade. e que. também. ides consultar um dançarino? Finalmente. As ciências vulgares repousam sobre as propriedades da matéria. Se quiserdes edificar uma casa. Os do Espiritismo têm. K. como agentes.

por isso eles escapam aos nossos processos de laboratório e aos nossos cálculos. e depois. amanhã. Hoje. concluiu pela negação. foi o mesmo que se deu com os que acreditavam no movimento de rotação da Terra. e os efeitos mais vulgares podem conduzir-mos à solução dos mais difíceis problemas. embora lhe fosse favorável. As corporações sábias não podem nem jamais poderão pronunciar-se nesta questão. restará a vergonha do erro de se haverem levianamente pronunciado contra o poder infinito do Criador. levando os prejuízos do seu obstinado amor-próprio. O Espiritismo é uma questão de crença pessoal que não pode depender do voto de uma assembleia. juízo temerário que o tempo se encarregou de ir emendando diariamente. não tem o poder de forçar convicções. um erro fazê-las juiz dela. é. e vereis que se há de dar com o Espiritismo o mesmo que se deu com tantas outras verdades. sem ir mais longe. pois. como já tem emendado outros. Quando a opinião pública se tiver formado a respeito. Muitos fizeram o seguinte raciocínio: "Não há efeito sem musa. foi mal sucedida como devia sê-lo. e notai que agora chamo sábios aos homens de estudo e saber. como experimenta uma pilha voltaica. será a vez dos que não crerem. e.78 ALLAN KARDEC aos nossos caprichos. àqueles que o preferiram. ela está tão fora dos limites do seu domínio como a de decretar se Deus existe ou não. tão combatidas e de que hoje seria ridículo duvidar. porque agiu visando uma analogia que não existe. Deixai passar esta geração. porque esse voto. julgaram do mesmo modo. ficam fora dos domínios da ciência propriamente dita. A Ciência enganou-se quando quis experimentar os Espíritos. . porém. tenham ou não tenham um título oficial. os membros dessas corporações a aceitarão sob o poder dos fatos. e. desde então. Nem todos os sábios. chamam loucos aos crentes.

— Essa crença apóia-se sobre o raciocínio e sobre os fatos. Tendo adquirido. porque não costumo aceitar ideia alguma sem lhe conhecer o como e o porquê. "mas não daria a volta ao mundo. K. eis aí um sábio raciocinando com sabedoria e prudência. eu penso igualmente. e. que ele nada afirma. porém. pois. na sua comunicação conosco? A. uma farsa. quando se tem a chave para explicá-los. seria divertimento para certo círculo. . ora. no estudo das ciências exatas. — Perfeitamente. com receio de receber. se o quiserem. qual é a base em que se firma a crença na existência dos Espíritos e. sem ser sábio. para certa sociedade. sondei. uma ilusão. o desmentido que desabomaria nossa perspicácia. "O fenómeno. não pode ter esse caráter de generalidade. o hábito das coisas positivas. perscrutei esta nova ciência nos seus mais íntimos refolhos. talvez. mais cedo ou mais tarde. quando esta lhe falou das rãs que dançavam <no prato. que. não é mais ridículo que a dança das rãs. mas duvida." V. burlescamente designado sob o nome de damça das 'mesas. busquei explicar-me tudo. é preciso que alguma coisa de verdade se encontre em tais fenómenos. "Guardemo-nos. de negar a possibilidade do que não compreendemos. se Galvami tivesse repelido s>ua serva e lhe chamasse visionária e louca. sobretudo. notai. e homens notáveis fizeram deles o objeto do seu estudo.. e." Eles disseram ainda: "Já que tanta gente se ocupa com eles. Eu próprio não a adotei senão depois de meticuloso exame.O QUE É O ESPIRITISMO 79 "Se Newton não tivesse prestado atenção à queda de uma <maçã. revolucionam a Humanidade. encerre algiu\ns desses segredos da Natureísa. talvez ainda 'estivéssemos sem conhecer a ^admirável lei da gravitação universal e as fecundas propriedades da pilha elétrica.

80 ALLAN KARDEC Eis o raciocínio que me fazia um sábio médico. Quem sabe se eles não constituem uma das potências da Natureza. que não se lhes deve dar crédito. sobrecarregado de desgostos. . por que negá-lo ? "Antes de inventar-se o microscópio. mas a isso se pode responder que data de meio século a possibilidade de. outrora incrédulo e hoje fervoroso adepto: "Dizem que seres invisíveis se comunicam. acaso. é uma revolução nas ideias. dizem. a ridícula pretensão de saber tudo. mas que valor tem isso. estabelecer-se correspondência entre dois pontos opostos do nosso planeta. nos acontecimentos da vida destes. uma dessas forças ocultas de que nem suspeitávamos ? 'i "Que novo horizonte vai abrir-se ao pensamento! Que campo tão vasto de observação! "A descoberta do mundo dos invisíveis tem muito mais alcance que a dos infinitamente pequenos. atravessar-se a França. por que não poderão comunicar-se conosco? Se estão em relação com os homens. devem desempenhar um papel no seu destino. "Quanta luz pode projetar essa descoberta? Quantas coisas misteriosas explicadas? "Os crentes são ridiculizados. ela é mais que vima descoberta. em algumas horas. são inteligentes. com o vapor produzido por um pouco de água fervente. quando o mesmo se tem dado a respeito de todas as grandes descobertas? "Cristóvão Colombo não foi repelido. e de dizer que Deus nada mais nos pode revelar? "Se esses seres invisíveis que nos rodeiam. suspeitava alguém que existissem esses milhares de animálculos que causam tantos estragos à economia? "Onde a impossibilidade material de haver no espaço seres que escapem aos nossos sentidos? "Teremos. um navio avançar contra o vento. tratado como insensato? "São ideias tão estranhas. e tirarmos da água os meios de iluminar-nos e aquecer-nos. em alguns minutos.

Se essas ideias fossem uma quimera. pois. Ora. "Será isso. por tanto tempo. K. nela deixaram seu invólucro material ? "Não se achará neste fato a explicação de tantas crenças que existem desde os mais remotos tempos? "São coisas que bem merecem estudo aprofundado. estudaram seriamente. apenas conseguiria fazer rir de si. do que admitir aqueles a quem damos o nome de Espíritos. pois. cuja pequenez extrema nos confunde a imaginação? Ora. providos de todos os nossos órgãos e funcionando como nós. se tivesse proposto iluminar toda a cidade de Paris em um instante e com um só reservatório de uma substância invisível. essa observação não é . há meio século. e esta só consideração devia bastar para exigir mais circunspeção. poderia pensar que uma só gota de água límpida encerrasse milhares de seres. Resta. Quem. porventura. estes viram. V. — Ê exato. porque a razão não a repele. averiguá-la pela observação dos fatos. já ela avançou. pudessem ser vítimas de uma ilusão? Não há." Eis as reflexões de um sábio. A. não devemos concluir que exista. sem partido fixo. depois de haverem vivido na Terra. elas são igualmente feitas por muitos outro? homens esclarecidos. isto não pode ser a verdade. e tiveram a modéstia de não dizer: não compreendemos. desde que uma coisa não é impossível. coisa mais prodigiosa que o espaço ser povoado pelos seres pensantes que. — Sem dúvida. Sua convicção formou-se pela observação e pelo raciocínio. mas não podeis deixar de convir que. acreditais que todos esses homens sisudos as tivessem adotado? Que. eu digo que há mais dificuldade em conceber a nossa razão seres de tal tenuidade. não superficialmente e de ânimo prevenido. mas de um sábio sem pretensão. mas por ser uma coisa possível. impossibilidade material de existirem seres invisíveis para nós.O QUE É O ESPIRITISMO 81 "Quem. há bem pouco. povoando o espaço.

Ponhamos de lado toda suposição de charlatanismo. abandonado de propósito no lamaçal da superstição. porque não admitimos o sobrenatural. pois. barulhos e movimentações de objetos. não é uma criação moderna. Falsas explicações dos fenómenos Ahucmação. Entre os primeiros estão as visões e as aparições. — É contra os fenómenos provocados que principalmente a crítica se levanta. no estado de ideias inatas e intuitivas. — Estado sonambúlico dos médiwns. e se mostra. tão frequentes. . V. tudo prova que os antigos o conheciam tão bem. ou talvez melhor que nós. e grande número de efeitos insólitos que olhávamos como sobrenaturais e hoje nos parecem simples. entre os mais selvagens povos. Quanto aos fatos. O Espiritismo. K. — Ignoro que já se tenha claramente explicado o mecanismo da alucinação. eles são de duas naturezas: uns espontâneos e outros provocados. e admitamos a mais completa boa-fé. — Reflexo do pensamento.82 ALLAN KARDEC nova: tanto a história sagrada quanto a profana provam a antiguidade e a universalidade dessa crença. somente ele não era ensinado. — Fluido magnético. não será possível que os médiuns sejam vítimas de uma alucinação? A. que se perpetuou através de todas as vicissitudes por que tem passado o mundo. e tão gravadas no pensamento como a do Ente Supremo e a da existência futura. Os fatos provocados são os obtidos por intermédio de médiuns. ela não deixa de ser um efeito singularíssimo e digno de estudo. Da forma como querem defini-la. senão com precauções misteriosas que o tornavam inacessível ao vulgo. —l Sivperexcitação cerebral. os ruídos. visto como tudo se submete às leis imutáveis da Natureza. sem causa material.

à vontade. ao mesmo tempo. — Admitindo a realidade do fenómeno das mesas que giram e falam. quando esses movimentos e golpes nos deram provas de inteligência. não há dúvida de que poderiam ser assim explicados. fatos que escapam a essa hipótese: quando a mesa ou outro objeto se move. que aqueles que por meio dela pretendem dar conta dos fenómenos espíritas. não são inteligentes. — Tal foi o primeiro pensamento que tive. Há. quando a dita mesa. tudo isso não pode ser o efeito de uma alucinação. . ao cair. quando ela se destaca do solo e se suspende no espaço. quando se reconheceu que respondiam ao pensamento com inteira liberdade. mas que é uma inteligência quem os faz mover. V. sem ponto de apoio. como tantos outros. do magnético. passeia por uma câmara. enfim. Se tudo se limitasse a esses efeitos materiais. não possam antes apresentar a explicação deles. em todos os países? A ser assim. quando." Poderão tais fenómenos ser produzidos por um fluido. foi-se levado a tirar a seguinte conclusão: "Se todo efeito tem uma causa.O QUE É! O ESPIRITISMO 83 É pena. por exemplo? A. ou bate. por um produto da sua imaginação. porém. Será admissível que todos os presentes sejam. além disso. K. creia ver o que não existe. de ferro ou de madeira. essa alucinação seria prodígio maior que o próprio fato. bem compreendeis que esses aparelhos. se despedaça. sem se admitir que esse fluido seja dotado de inteligência ? Quando vedes os aparelhos do telégrafo fazerem sinais transmitindo o pensamento. o efeito inteligente tem uma causa inteligente. Suponho que o médium. porém. não será mais racional atribuí-lo à ação de um fluido qualquer. se ergue. sem que pessoa alguma lhe toque. vítimas da mesma vertigem? E quando o mesmo fato se reproduz por toda parte.

o som. mesmo admitindo-se essa teoria. seria muito mais prodigioso. Se os que assim pensam se tivessem dado ao trabalho de estudar o fenómeno em todas as suas fases. — É ainda um erro. o fenómeno. filho da falta de observação. ou não. a cada passo. Dão-se. será o pensamento desta ou daquela que é refletido. quando muito. essa opinião nada tem de irracional. ou mesmo dos assistentes. — Pode-se responder que. havia nisto um motivo para a Ciência exercer a sua sagacidade. convenho. segundo suas ideias particulares e baseadas. ou que destroem completamente as previsões dos assistentes? Quando os médiuns escrevem em uma língua que não conhecem.84 ALLAN KARDEC Dá-se o mesmo com as mesas a que nos referimos. E depois ainda o maravilhoso seria maior. ou o desta ou daquela outra? Tal sistema é insustentável. . em observação superficial. dizem. porque. se há um efeito inteligente. achando-se presentes vinte pessoas. Como conciliar essa tese com as respostas obtidas. ou escrevem na sua própria quando não sabem ler nem escrever? Ã primeira vista. V. seja do médium. seja de quem interroga. o calórico?! Em verdade. a independência absoluta da inteligência que se manifesta. desejos e opiniões. efeitos inteligentes? Esta a questão. K. diante deles. como a luz. mas é desmentida por um conjunto de fatos tão concludentes que. não deixariam de reconhecer. tão fora do alcance intelectual e da instrução do médium? respostas que vão de encontro às suas ideias. porque. A. é impossível duvidar. este pode ser um reflexo da inteligência. são pessoas que nada viram ainda e se apressam a concluir. a resposta recebida estava sempre rio pensamento de alguém. Além disso. Os que contestam. longe de ser simplificado. Pois quê! o pensamento poderá refletir-se sobre uma superfície.

que aliás nos pode explicar a ampliação momentânea de suas faculdades intelectuais? Por que. qual o sonâmbulo que fez alguma vez sair um pensamento de um corpo inerte? Qual deles pôde produzir aparições visíveis e. em minha casa e na presença de vinte testemunhas. se admitirmos que o médium se ache em estado magnético. Abstraindo das comunicações escritas. sem ponto de apoio? Será por efeito sonambúlico que certo médium desenhou. . K. que o médium se ache em estado de crise e goze certa lucidez. dizem. porém. que lhe dá a percepção sonambúlica — espécie de dupla vista —. agindo e pensando como os outros. um dia. parece-me difícil crer que a mesa seja sonâmbula. Certos efeitos particulares deram lugar a essa suposição. presente então à sessão? Será por efeito do mesmo género que uma mesa responde com precisão às questões propostas. sendo a independência do seu pensamento demonstrada por fatos da maior evidência. as comunicações obtidas pelos médiuns não vão além do alcance das que nos dão os sonâmbulos? A. morta havia dezoito meses e a quem ele não conhecera. reconhecerá sem dificuldade que o médium é dotado de uma faculdade particular. quem se não limitar a julgar as coisas. — Não será admissível. o retrato de uma jovem. mesmo feitas mentalmente? Certamente. tangíveis? Qual fez que um corpo pesado se mantivesse suspenso no ar. retrato reconhecido pelo próprio pai da jovem. cem vezes mais extraordinárias e incompreensíveis do que aquelas que se lhes apresenta.O QUE É O ESPIRITISMO 85 Ê realmente curioso ver-se os contraditores empenharem-se na busca de causas. — Ê ainda esse um desses sistemas que não resistem a um exame aprofundado. Q médium nem se acha em crise nem dorme. que não permite confundi-lo com o sonâmbulo. por uma só face. mesmo. V. sem nada apresentar de extraordinário. mas está perfeitamente acordado. segundo querem alguns.

. quando. será racional concluirmos que isso seja uma lei geral? Nisso como em todas as coisas. é necessário ter-se a vontade de perseverar. a sua falta de fé. era ainda deste mundo. rua tal. e com razão: que não podem ter fé antecipada e que se lhes deve dar os meios para poderem crer. número tanto. por causa da idade da pessoa por quem ele perguntava. foi-lhe respondido. apesar de sua vontade. Não basta dizer: Mostrai-me tal fato e eu crerei. a dúvida não mais seria permitida. porque eles podem ser desmentidos pelos fatos que ainda se não observaram. mora em Paris. K. e na maioria das vezes não se lhes fornece. — O que os incrédulos desejam ver. em certos casos. Se todos testemunhassem esses fatos. pedem. "Sim. muito bom médium escrevente. A. dizem eles. são sempre perigosos os juízos precipitados. Como é que tanta gente. ao que respondem. Como explicar o fato seguinte e cem outros da mesma espécie? — Um dos meus amigos. Eles querem que os fatos obedeçam à sua ordem e a Espíritos não se pode dar ordens. são os fatos positivos. — É simples a razão. havia toda a probabilidade de ela não existir mais? Se. nada tem conseguido ver? Apresentam-lhes como motivo.86 ALLAN KARDEC Dizem. é preciso esperar pela boa-vontade deles. perguntou a um Espírito se uma pessoa que ele tinha perdido de vista. que os médiuns só falam com clareza daquilo que é conhecido. deixar que . ainda." Ele foi e encontrou a pessoa no lugar indicado. Não basta que os incrédulos vejam para que se convençam V. vemos respostas combinarem com o pensamento de quem pergunta. Seria isso uma ilusão? Seu pensamento poderia sugerir-lhe tal resposta. ainda vive. havia quinze anos.

talvez. mesmo. porém. deve proceder-se do mesmo modo com os Espíritos. Ao lado desses cépticos endurecidos estão os que querem ver a seu modo. ora. estes não compreendem . com mais forte razão. Aos olhos do observador atento e assíduo surgem eles inumeráveis. virão. mas quem acreditar que basta tocar a manivela. mas espreita as manifestações espontâneas do instinto do animal. que são inteligências muito mais independentes que as dos animais. que nada se pôde ou se quis mostrar-lhes. precisamente o que não obtereis. corroborando-se uns aos outros. há cépticos que negam até a evidência e aos quais os próprios prodígios não convenceriam. e o que quereis se apresentará. para com vagar observá-lo à sua vontade? Não. para fazer que a máquina ande. sem que elas mesmas lucrem coisa alguma. não persistem ainda em explicar os fatos a seu modo. e. o que se exige é boa-fé. porque bem sabe que o animal não lhe obedecerá. por terem de ferir seu amor-próprio com a confissão de se haverem enganado. Quantos deles.O QUE fi O ESPIRITISMO 87 os fatos se produzam espontaneamente. Que faz o naturalista quando quer estudar os hábitos de um animal? Mandá-lo-á fazer tal ou qual coisa. se se vissem forçados a crer. que nada viram. quando menos o esperardes. engana-se redondamente. que. deixamo-las à margem. pretendem por ela explicar tudo. por não querermos com elas perder nosso tempo. Que se pode responder a quem não vê por toda parte senão ilusão e charlatanismo? Nada. outros. depois de haverem visto. Muitos até ficariam incomodados. Ê erro crer que se exija fé antecipada de quem quer estudar. dizendo que o que viram nada prova? Essas pessoas só servem para trazer perturbação ao seio das reuniões. por isso. é melhor deixá-los tranquilos e dizerem tanto quanto quiserem. espera-as e colhe-as na passagem. O simples bom-senso mostra que. tendo formado uma opinião. sem pretender forçá-los ou dirigi-los. aquele que mais desejais será. aliás coisa diversa.

limitada pela estreiteza do círculo em que vivemos. ligam às vezes importância a coisas cujo verdadeiro alcance nos escapa. — Os Espíritos devem almejar fazer prosélitos. eles vêem. um simples passo. não devem fornecer provas às pessoas a quem não ligam a importância que elas pretendem ter. Para compreendê-los é preciso nos elevarmos pelo pensamento acima do horizonte material e moral. pois que não são eles . em compensação. ao passo que a nossa vista é circunscrita pela matéria. e certos pormenores. melhormente. o tempo. pois que ela prova não haverem formado levianamente a sua convicção. porém não temos o direito de impor-lhes a nossa opinião. eles abrangem o conjunto. observar com paciência infatigável. e direis: por falta de tempo. Disponde vós de tal paciência? Não. não sabem ou não querem colocar-se nas condições precisas para obtê-los. — É por julgarem que. Então não vos ocupeis. pensam e agem segundo outros elementos. deve. Boa ou má-vontade dos Espíritos para convencer V. naquele momento. colocarmo-nos no seu ponto de vista. K. pois ninguém a tal vos obriga. É isso pouco lisonjeiro. a qual nem sempre se coaduna com a nossa. mas abandonar toda ideia preconcebida e não querer comparar coisas incompatíveis. para nós de importância extrema. esta condição é também favorável aos que se tornam adeptos. seguir. cumpre-lhe aguardar. cuja opinião teria grande influência? A. Quem de boa-fé deseja observar. os Espíritos têm sua maneira de julgar as coisas. aos meios de convencer certas pessoas. são f utilidades a seus olhos.88 ALLAN KARDEC que os fenómenos se possam dar contrariamente ao seu desejo. por que não se prestam. que nos parece tão longo. a distância. é para eles um instante. não digo crer sob palavra. convenho. não faleis mais nisso.

porque. no ponto de vista em que vos achais. mas subirmos nós até eles. Os Espíritos gostam dos observadores assíduos e conscienciosos. — Como dissestes. porque o seu dia também chegará. é admissível que a imaginação possa nisso ter desempenhado seu papel. se o Espiritismo fosse fundado no pensamento preconcebido da existência dos Espíritos. o que os afugenta não é a dúvida que nasce da ignorância. pouco se importando com o que possam dizer ou pensar. Por isso vos dizia eu que não é a f é antecipada o que pedimos. porque. Notai. K. as consequências dele emanadas também o seriam. é a fatuidade desses pretensos observadores que nada observam. é o que nos ensinam o estudo e a observação. para estes multiplicam eles as fontes de luz. mas. poder-se-ia.O QUE É O ESPIRITISMO 89 que devem descer ao nosso nível. meu amigo. — Uma coisa que eu desejava saber. que desejam colocá-los no banco dos réus e fazê-los moverem-se como títeres. neste último caso. ainda que seja difícil acreditar-se. é o ponto de partida das ideias espíritas modernas. se o princípio fosse uma quimera. os Es- . a boa-fé. De fato. que essa marcha seria totalmente ilógica. serão elas filhas de uma revelação espontânea dos Espíritos. Por sua causa os Espíritos nada fazem. essa questão tem importância. sim. mas as coisas não se passaram assim. em primeiro lugar. é o sentimento de hostilidade e descrédito que exista em seus pensamentos. quando o não traduzam por palavras. que a imaginação pudesse produzir todos os resultados materiais observados. Origem das ideias espíritas modernas N V. com alguma aparência de razão. supondo essas ideias nascidas de uma crença antecipada. A. duvidar da sua veracidade. ou o resultado de uma crença prévia na existência deles? Compreendeis a importância de minha pergunta.

mas não é natural imaginar-se uma causa antes de lhe ter visto os efeitos. autorizava a buscar-se-lhes a causa fora da ação de um fluido magnético ou outro qualquer. Falo das ideias espíritas modernas. que achassem explicação provável na existência de seres invisíveis. do que se concluiu. a primeira suposição feita. que: Se todo efeito tem uma causa. sem causa ostensiva conhecida. porém. e ela demonstrou por provas irrecusáveis. Quem era então? Ela própria respondeu. como já igualmente vo-lo disse. pancadas. a completa independência da inteligência que se manifesta. todo efeito inteligente tem uma causa inteligente. tais como ruídos estranhos. porque a matéria não é inteligente. declarando pertencer aos seres incorpóreos chamados Espíritos.. porém. somente a observação conduziu à causa espiritual. a reconhecer nesses ruídos e movimentos um caráter intencional e inteligente. Seria o reflexo da pessoa ou das pessoas presentes? Assim se julgou no começo. realizando-se sob a influência de certas pessoas. Eis a marcha das coisas: fenómenos espontâneos se produziram. Assim. para chegar a eles. pois sabemos que essa crença é tão velha quanto o mundo. pois. do ponto de vista materialista. não foi ele uma hipótese imaginada com o fim de explicar certos fenómenos. partiu-se. Pois bem! não foi mesmo deste modo que nasceu tal pensamento. Ela não pertencia. . Não se tardou. se efeitos não se tivessem mostrado. Esta inteligência não podia estar no objeto. como já o disse. longe de que os Espíritos fossem uma ideia preconcebida. quando se vê um efeito. de propriedade ainda desconhecida.90 ALLAN KARDEC píritos são a causa e não o efeito. por este meio explicar tudo. pode-se procurar-lhe a causa. Não era. pois. possível conceber o pensamento da existência dos Espíritos. Não se podendo. em muitas circunstâncias. nem ao objeto nem à pessoa. movimentos de objetos. foi a de uma causa material. isto é. etc. até aí. só a experiência podia pronunciar-se. Nada.

que desejavam comunicar-se. um fio elétrico estivesse estabelecido através do Atlântico. pôde-se entreter conversações seguidas e obter informações sobre a natureza desses seres. Quem eram os habitantes desse mundo? Eram seres à parte. mas. e Deus sabe quantos surgiram! Uns creram ser os Espíritos superio- . Uma vez revelada a existência dos Espíritos e estabelecidos os meios de nos comunicarmos com eles. E — coisa notável — à medida que meios de mais fácil comunicação se acham ao nosso dispor. e ter-se-ia logo concluído que na outra extremidade se achavam seres inteligentes. os Espíritos abandonam os primitivos. Se assim pudéssemos interrogar os seres do mundo dos infinitamente pequenos. a seu respeito. o campo das conjeturas e dos sistemas esteve aberto. e que na sua extremidade europeia se houvessem produzido alguns sinais inteligentes. insuficientes e incómodos. qual o mudo que. condições de sua existência e seu papel no mundo visível. foi-nos por eles ensinado. não nasceu do cérebro de ninguém. Foi o que se deu nas relações com o mundo invisível: as manifestações materiais foram sinais e meios de aviso que nos conduziram a comunicações mais regulares e mais seguidas. quantas coisas curiosas não ficaríamos sabendo sobre eles! Suponhamos que. Ficaríamos assim com a certeza da sua existência. mas nos foi dada pelos Espíritos mesmos. nem mesmo lhe foi consecutiva. teríamos interrogado e eles teriam respondido.O QUE fi O ESPIRITISMO 91 A ideia dos Espíritos não preexistia. renuncia à linguagem dos sinais. e tudo o que soubemos depois. estranhos à Humanidade? Eram bons ou maus? Foi ainda a experiência quem se encarregou da solução de tais problemas. usos e modos de ser. e podia-se adquirir o conhecimento dos seus costumes. em uma palavra. recuperando a palavra. apesar de nunca os havermos visto. antes da descoberta da América. até que observações numerosas tivessem derramado luz sobre o assunto.

por sinais incontestáveis. o verdadeiro do falso em suas relações conosco. reconhecer seus parentes e amigos e os que conhecera na Terra. de que acabamos de falar. possuem um invólucro. Foi o que aconteceu com os Espíritos. foi assim que se reconheceu entre eles todos os graus de bondade e malvadez. imateriais. por eles mesmos. pode-se acompanhá-los em todas as fases de sua existência de além-túmulo. absolutamente como procedemos a respeito dos homens. pode tornar-se momentaneamente visível e mesmo tangível. também. uns tenham dito muito boas coisas. no sentido absoluto da palavra. diáfano. que. que uns são muito felizes e outros muito desgraçados. de natureza excepcional e. e. Uma vez bem informados acerca dos defeitos e das boas qualidades que entre eles se encontram. ter-se-ia logo concluído que entre eles havia bons e maus. e. que não são seres à parte. Suponhamos que dentre os desconhecidos habitantes transatlânticos. era só por suas palavras e atos que podiam julgá-los. Ficou-se sabendo. desde o instante em que abandonam o corpo. soube-se que eles não são entes abstratos. onde deixaram seu invólucro corpóreo. sim. vaporoso. . dentre eles. cabe à nossa prudência distinguir o que é bom do que é mau. ficou explicado o fenómeno das aparições e do contacto. e observar sua situação segundo o género de morte e modo pelo qual viveram na Terra. A observação não nos esclareceu somente sobre as qualidades morais dos Espíritos. e que hoje povoam os espaços. as almas daqueles que já viveram na Terra. neles só viram demónios. em certos casos e por uma espécie de condensação ou de disposição molecular. espécie de corpo fluídico. a que chamamos perispírito. desde então. mas. nos acotovelam sem cessar. ao passo que outros se faziam notar pelo cinismo da linguagem. invisível no estado normal. outros. Enfim. sobre a sua natureza e sobre o que podemos chamar estado fisiológico.92 ALLAN KARDEC rés em tudo. de saber e ignorância. cada qual pode. nos cercam.

assim como o fruto despojado do invólucro cortical conserva ainda o perisperma. quando. Tal é. K. A existência desse envoltório semimaterial é já uma chave para a explicação de muitas coisas e mostra-vos a possibilidade de certos fenómenos. que encontrareis minuciosamente em O Livro dos Médiuns. e reconhecereis ainda melhor quando o tiverdes estudado a fundo. contudo. que é a mesma coisa. isto é. — De boa-vontade. esse invólucro é um laço que o prende ao Espírito.O QUE fi O ESPIRITISMO 93 Enquanto dura o corpo. do mesmo modo como despimos as peças exteriores da nossa roupa. nas . bastará para facilitar-vos a compreensão do mecanismo e servirá. sem. quanto das disposições peculiares às pessoas que lhes servem de intermediárias. porém. mais ou menos apurada dos Espíritos. abreviadamente. porque isto exigiria prolongado desenvolvimento. — Falastes de meios de comunicação. Meios de comunicação F. para vos dar uma ideia de algumas das experiências. bem vedes. vou fazê-lo. contudo. Quanto aos meios. pelos quais ele se nos manifesta. porquanto é difícil compreender como podem esses seres invisíveis conversar conosco? A. É esse invólucro semimaterial do Espírito que lhe serve de meio para a produção de diferentes fenómenos. cavalheiro. sobretudo. em poucas palavras. abandona-o. antes de começar a vossa iniciação. a que podereis assistir. podereis dar-me disso uma ideia. agora. são muito variados e dependem tanto da natureza. O mais vulgar — o que se pode chamar universal — consiste na intuição. o corpo morre. a história do Espiritismo. que tudo nele é o resultado da observação e não de um sistema preconcebido. Mas o pouco que eu vos disser. deixar o primeiro envoltório. para só conservarmos as interiores. a alma ou o Espírito.

músicos. movimentos de corpos. A natureza e a substância do objeto são indiferentes. porém. O médium coloca as mãos sobre esse objeto. na generalidade dos casos. Assim. ele mesmo. uma espécie de porta-lápis. que não é senão uma complicação de meios. este último pode escrever. escreventes. é este. Esse modo primitivo é demorado e dificilmente se presta a comunicações de certo desenvolvimento. cujo único mérito está em demonstrar. etc.94 ALLAN KARDEC ideias e pensamentos que eles nos sugerem. por exemplo. de um objeto móvel. e serve-se ainda algumas vezes. As pancadas podem ser obtidas pelo movimento de oscilação de um objeto. temos médiuns de efeitos físicos. outros existem mais materiais. uma caixa. Esta última faculdade é a mais comum. isto é. Os Espíritos manifestam-se ainda e podem transmitir seus pensamentos por sons articulados. Muitas vezes se fazem ouvir nas próprias substâncias dos corpos. que se fazem ouvir. pela voz do médium. segurando. um meio pouco apreciável. o lápis. ao qual transmite a influência que recebe do Espírito. seja no ar. como uma prancheta. Serviu-se no começo. reconheceu-se a inutilidade desse intermediário. pela música e por muitos outros meios que um estudo completo torna conhecidos. pela vista. mais que um apêndice da mão. ao qual se adapta um lápis. Os médiuns possuem. Depois. ou designando as letras que devem formar as palavras. seja no interior do órgão auditivo. uma cestinha. aptos para produzir fenómenos materiais. para esses diferentes modos de comunicação. como pancadas. aptidões especiais que dependem de sua organização. de modo mais palpável. e é obtida de diferentes maneiras. e o lápis traça os caracteres. falantes. cuja ponta pousa sobre o papel. O objeto assim empregado não é. videntes. sem que estes se movimentem. por desenhos.. a que melhor . desenhadores. propriamente falando. de uma mesa. a independência do médium. que bate com o pé. a escrita substituiu-o. respondendo por sim ou por não. Certos Espíritos se comunicam por pancadas. há médiuns auditivos.

Ainda que. é necessário saber-se o modo pelo qual se opera o fenómeno. se bem que escrevendo de modo involuntário. de perigos. Poderia eu mesmo experimentá-lo? A. — Perfeitamente. neste caso. o pensamento do Espírito e o do médium se confundam algumas vezes. seu pensamento se comunica com o deste que. e sem que ele tenha consciência do que escreve: é o médium escrevente mecâmoo. a experiência ensina a distingui-los com facilidade. Para compreendê-las. aconselho-vos vivamente a não tentardes ensaio algum antes de acurado estudo. algumas vezes. por ser a que permite comunicações mais frequentes e rápidas. O Espírito atua. tem consciência mais ou menos nítida do que obtém: é o médium intwtivo. a vantagem dos que são mecânicos é proveitosa sobretudo para as pessoas que ainda não estão convencidas. — O processo parece-me dos mais simples. à qual dá um impulso totalmente independente da vontade deste. nas comunicações que recebe. Demais. das quais duas são muito distintas. para os que não têm a necessária . que transmite um pensamento que não é o seu e que. diretamente sobre a mão do médium. Obtêm-se comunicações igualmente boas por esses dois géneros de médiuns.O QUE É O ESPIRITISMO 95 se desenvolve pelo exercício e também a mais preciosa. Somente. a qualidade essencial de um médium está na natureza dos Espíritos que o assistem. elas não estão isentas de inconvenientes e. então. atuando sobre o cérebro do médium. O médium escrevente apresenta numerosas variedades. As comunicações do além-túmulo são cercadas de mais dificuldades do que se pensa. V. antes que nos meios de execução. portanto. mesmo. K. digo mais: se possuirdes a faculdade mediúnica. porque não podeis duvidar da vossa boa-fé. tereis o melhor meio de vos convencer. Outras vezes. seu papel é exatamente o de um intérprete. ele deve compreender.

°. e se comunicar pelo primeiro médium de que se lance mão. os médiuns são muito numerosos e é raríssimo.°. um erro crer que todo Espírito possa vir responder ao apelo que lhe é feito. V. quando ele menos o esperar. — Até ao presente não se conhece um diagnóstico para a mediunidade. 3. a fira de se poder explicar as variações que esse fenómeno apresenta. todos os que julgamos descobrir. Além disso. Estas poucas palavras bastam para mostrar que há nisto um sério estudo a fazer-se. Seria. — Há algum sinal pelo qual se possa reconhecer a posse dessa aptidão? A. . tentasse fazer manipulações químicas.96 ALLAN KARDEC experiência. não se encontrar algum em qualquer dos membros de nossa família. sem saber Química. são sem valor. pois. Sua causa física está na assimilação. 2.°. Se a mediunidade se traduzisse por um sinal exterior qualquer. Para que um Espírito se comunique. eles aparecem entre os homens e mulheres. É o mesmo que aconteceria àquele que. correria o risco de queimar os dedos. quando isto lhe apraz. que lhe convenha fazê-lo. que nem todos os Espíritos podem comunicar-se indiferentemente por todos os médiuns.°. velhos. experimentar é o único meio de saber se a faculdade existe. quando não o sejamos. dos fluidos perispirituais do encarnado e do Espírito desencarnado. entre crianças. ao passo que ela é essencialmente móbil e fugidia. ou nas pessoas que nos cercam. mais ou menos fácil. que encontre no médium um instrumento apropriadç à sua natureza. a idade e o temperamento são indiferentes. sua causa moral está na vontade do Espírito que se comunica. doentes e pessoas sadias. e não segundo a nossa vontade.°. é preciso: 1. donde resulta: 1. O sexo. que sua posição ou suas ocupações lho permitam. isto implicaria a permanência da faculdade. que todo médium pode perder ou ver suspender-se a sua faculdade. 2. K.

assim como os sábios da Terra não se entregam a exercícios de força muscular. quando aqueles precisam que tais efeitos se dêem. zombando. de alguma sorte especial.O QUE Ê O ESPIRITISMO 97 Em princípio. porém. fazendo de tudo divertimento. há muita gente que deseja ter certeza de que não 4 .'para os efeitos materiais. sobretudo. Nas reuniões frívolas eles tomam a desforra. como nós nos servimos dos trabalhadores para os serviços pesados. independente das condições individuais de possibilidade. nestas circunstâncias. dos assistentes. nas reuniões sérias. podemos comunicar-nos com os Espíritos de todas as categorias. com os mais elevados como com os mais vulgares. possuem uma aptidão. Médiuns interesseiros V. porém. nem também a experiência alguma. muitas vezes. são de ordem inferior. e respondendo a tudo sem se importarem com a verdade. todos os que produzem manifestações físicas. de prova. Os Espíritos denominados batedores e. para onde os chamam com recolhimento e para coisas sérias. calam-se e conservam-se afastados para escutar. não se prestam a responder a perguntas de curiosidade. sem por isso serem essencialmente maus. se eles. geralmente. — Antes de empreender um estudo de longo fôlego. não se incomodariam com elas. depois da morte não o fazem também. Os Espíritos sérios só comparecem nas reuniões sérias. os Espíritos superiores não se ocupam com essas coisas. lançam mão dos atrasados. segundo a sua simpatia pelas pessoas que os chamam. quando na Terra. Os Espíritos frívolos andam por toda parte. eles vêm mais ou menos de boa-vontade segundo as circunstâncias e. como fariam estudantes em uma assembleia de doutos. com os nossos parentes e amigos. ou com um fim fútil. e não pelo pedido do primeiro que tenha a fantasia de evocá-los por um sentimento de curiosidade.

certeza que lhe poderia provir do fato concludente. porquanto dependem da vontade dos Espíritos. Além de que o desinteresse absoluto é a melhor garantia de sinceridade. nada lhe garante obter uma manifestação em dado momento. A. a tanto por hora. à vista de sua depen- . — Aquele que não se quer dar ao trabalho de estudar. a que ela sirva de profissão. antipática. o que é mais que duvidoso. pois que ele desejaria de qualquer forma ganhar dinheiro. é antes guiado pela curiosidade. Sabemos que os fenómenos espíritas não se produzem como o movimento das rodas de um mecanismo. encontram um divertimento maldoso em frustrar as combinações e os cálculos do seu evocador. Se os incrédulos são inclinados a suspeitar da boa-fé dos médiuns em geral. pois. muitas vezes. e estes mesmos. é fazer ideia bem falsa das nossas relações com o mundo espiritual. K. os Espíritos. Além disso. assim como eu. As comunicações de além-túmulo são assunto muito grave e respeitabilíssimo para serem assim exibidas. e eles recusam-se a prestar-lhe qualquer serviço. sobretudo. ora. A natureza da faculdade mediúnica opõe-se. Bossuet. Pascal. que pelo desejo real de se instruir. a cobiça é-lhes. muito pior seria se neles encontrassem o estímulo do interesse. se ponham às ordens do primeiro que os chame. Não. supondo que eles consintam nisso. com razão se poderia suspeitar que o médium retribuído simulasse quando o Espírito não o auxiliasse. repugnaria à razão evocar por dinheiro os Espíritos das pessoas que nos são caras. em todos os casos só se prestariam a isso Espíritos de classe inferior. e que não merecem confiança alguma. mesmo admitindo-se que um indivíduo possua aptidão mediúnica. mesmo obtido a peso de ouro. crer que Espíritos superiores como Fenelon. pouco escrupulosos a respeito de meios. senhor. Santo Agostinho.98 ALLAN KARDEC vai perder o tempo. não gostam dos curiosos.

deixá-lo em falta. se ele não a tivesse. e por esperar ganhar mais. não é justo que aquele que emprega seu tempo. deve provar aos Espíritos sua boa-vontade por uma observação séria e paciente. Dai cem mil francos a um médium e não conseguireis que ele obtenha que os Espíritos façam o que não querem. no momento preciso. salvo se ele a suprir pela astúcia. essa dádiva. — Primeiro: será mesmo no interesse da causa que ele o faz. — Compreendo esse raciocínio do ponto de vista moral. em um novo. ou no seu próprio? Se ele deixou seu modo de vida. que precisa de fatos que o convençam. admitindo mesmo inteira boa-fé. que se não pode comprá-la. se deseja ser auxiliado. em sessão paga. não o é menos. que viria desnaturar a intenção e transformá-la em violento desejo de lucro. pois. Não há sacrifício algum no empregar o tempo em uma coisa de que se espera tirar lucro. V.O QUE fi O ESPIRITISMO 99 dência de vontade estranha à do médium. seria antes um motivo para que ele fosse mal sucedido. . desde que os fenómenos não se produzem à vontade. ou ter menos fadigas. Porém. Aquele. K. entretanto. a bem da causa. A mediunidade não é o único recurso. não se pode deixar de compreender que não lhes agradam as solicitações de alguém que tenha a ideia de servir-se deles para ganhar dinheiro. procuraria ganhar a vida de outro modo. Quando se está bem compenetrado desta verdade — que a afeição e a simpatia são os mais poderosos móveis de atração para os Espíritos —. seria puro acaso se. é porque não lhe satisfazia. não seja indenizado quando esse tempo é roubado ao trabalho de que precisa para viver ? A. e de lhe poder ela. pois se é uma verdade que a fé não se impõe. se produzisse exatamente aquele que desejávamos ver para nos convencermos. Ê absolutamente o mesmo que se se dissesse ser no interesse da Humanidade que o padeiro fabrica o pão.

Os médiuns sérios e sinceros — e eu dou este nome aos que compreendem a santidade do mandato que Deus lhes confiou — evitam até as aparências do que poderia fazer pairar sobre eles a menor suspeita de cobiça. para um que fosse leal. consideração e os verdadeiros interesses da doutrina. abusando de uma faculdade real ou simulada. que compreendem e tomam a peito a dignidade. sem prejuízo de outras ocupações. eles se mostram devotados. apresentar-se-iam cem charlatães que. concordai que vendo-o antes animado de um verdadeiro sentimento religioso. se lhe tivésseis pago para vê-lo trabalhar. senhor. Se não fosse o descrédito que acompanha esse género de exploração. inúteis os médiuns de profissão. . quando não possuem uma existência independente. tornam-se apreciados e respeitados. quando mesmo fosseis admitido por favor. Convinde. ora. para o que me felicito de muito haver concorrido. um princípio: todos quantos vêem no Espiritismo coisa diferente de uma exibição de fenómenos curiosos. empregando parte do tempo destinado aos divertimentos e repouso. estimulado pela fé somente e não pelo desejo do ganho. qualquer que seja a forma ou disfarce com que se apresente. que um médium nessas condições faria sobre vós uma impressão totalmente diversa da que sentiríeis. os médiuns mercenários pululariam e os jornais viriam sempre cheios de seus reclamos. ainda que estes ofereçam todas as garantias desejáveis. pois. apesar de serdes incrédulo. ou. fariam o imaior dano ao Espiritismo. o que é muito raro. eles não consagram à mediunidade senão o tempo que lhe podem dar.100 ALLAN KARDEC Os médiuns verdadeiramente sérios e devotados. procuram recursos no trabalho ordinário e não abandonam suas profissões. se soubésseis que atrás de tudo aquilo havia uma questão de dinheiro. A multiplicidade dos médiuns nas famílias torna. ao demais. É. nesse trabalho mais útil. eles consideram uma injúria a acusação de tirarem qualquer lucro da sua faculdade. reprovam toda espécie de especulação.

tram por toda parte. pois. por causa do descrédito de que se tornariam objeto e da concorrência de médiuns desinteressados. confundem o abuso com a realidade. há pessoas que. há falsos médiuns que tudo aproveitam. de repelir o seu auxílio. y. porém. o Espiritismo sério tem razão de não aceitá-la. escrúpulos que não nos embaraçam. pelo menos em França. que se a exploração da mediunidade conduz a cometer abusos prejudiciais à doutrina. senhor. o mal não seria grande. porque não há motivo algum para suspeitardes da sua lealdade. É perfeitamente compreensível que os médiuns de profissão sejam excessivamente raros. se ela só tivesse intérpretes interessados. servindo-se das cartas.O QUE É O ESPIRITISMO 101 involuntariamente o respeito por ele se vos impunha. eles são desconhecidos na maioria dos centros espíritas da província. na falta de Espíritos. da clara de ovo. que se encon-. ao passo que. onde a reputação de mercenários bastaria para que os excluíssem de todos os grupos sérios. a fim de contentar a todos os gostos. esperando por esse meio. e onde para eles o ofício não seria lucrativo. seja a . seja a insuficiência da clientela. quando buscamos aquele que recebe uma paga. seja embora ele o mais humilde proletário. não contaria a quarta parte dos adeptos que possui hoje. convencido de que não lhe . concordo.. sem nada aprofundarem. mas os médiuns desinteressados não se acham ao dispor de qualquer e sentimo-nos constrangidos de incomodá-los. — Tudo isso é muito lógico. inspirar-vos-á mais confiança. f acuidade que lhes falta. contra um que não esteja nas mesmas condições. da borra de café. atrair os que ainda crêem nessas tolices. Se eles unicamente a si prejudicassem. encontrareis mil como este. etc. Pois bem! caro senhor. Para suprir. e disso se aproveitam os mal-intencionados. e é esta uma das causas que mais têm concorrido para o crédito e propagação da doutrina. para dizer que é nisso que consiste o Espiritismo. Já vedes.

não oferecem as garantias precisas. a dificuldade material que se apresenta à sua produção. Prova a experiência que. mais tarde ou mais cedo. isto é o que não se encontra em médium algum. como poderiam ser úteis para • levar alguém à convicção ? O inconveniente que assinalais. Ao lado. Buscá-los-iam antes como divertimento. sai-se menos disposto à convicção. não destrói os de muito mais gravidade. seja entre os desinteressados. para ouvir a buena-diaha. porém. fazendo-nos melhor conhecer as condições em que se produzem as manifestações. seja entre os outros. que ele se possa comunicar facilmente com qualquer Espírito e a todo momento. e isto por causas independentes da vontade do Espírito. não é por assistir a uma sessão que se ficará convencido. para estar constantemente à disposição do público. porém. os progressos da ciência espírita. das considerações morais. é necessário que ele possua uma faculdade permanente universal. mostram-nos. como um médico.102 ALLAN KARDEC vamos roubar o tempo. acharia muito mais facilidade se existissem médwms públicos. se tiver perseverança e boa-vontade. A. seriamente. quando não se está preparado para tal. isto é. deseja convencer-se encontra os meios. Ponho de lado todo pensamento de fraude e embuste. — Se os médiuns públicos. Aquele que. . como lhes chamais. e talvez sem vontade alguma de prosseguir num estudo em que nada se viu de sério. coisa de que ninguém a princípio suspeitava: a necessidade de afinidades fluídicas entre o Espírito evocado e o médium. que vos citei. Para que um médium de profissão possa oferecer toda segurança às pessoas que o venham consultar. e suponho que exista a mais completa lealdade. hoje. Muita gente que se deseja convencer. por se trazer dessas sessões uma impressão desfavorável. K. ora. e satisfazer a todas as evocações que lhe sejam pedidas. do que como meio de instrução.

a assimilação fluídica entre o Espírito e o médium só se estabelece depois de algum tempo. Quem deseja convencer-se deve. primeiro que tudo. digo somente que a ambição do ganho impele ao charlatanismo e autoriza a suspeita de velhacaria. e não para tal outro.O QUE É O ESPIRITISMO 103 o que não posso desenvolver aqui. Não concluo. — Desde que a mediunidade não é mais que um meio de entrar em relação com as potências ocultas. Se. . ora. repelimos a exploração da mediunidade. não é nem por capricho. se opõem à regularidade e precisão necessárias naquele que se põe à disposição do público. sem essas afinidades. do que tenho dito. às quais todo médium está sujeito. procurar elementos de sinceridade. A mediunidade. médiuns e feiticeiros são mais ou menos a mesma coisa. arrasta ao abuso. que. princípio do qual dimanam as faculdades mediúnicas. que. é subordinada a leis. cujas variantes são múltiplas. pois. pois que a possibilidade e a exatidão das comunicações são um produto de causas que não dependem do médium nem do Espírito. falsas ou impossíveis. cavalheiro. mas porque os próprios princípios que regem as nossas relações. Médiuns e feiticeiros V. ou somente uma vez em dez acontece que ela seja completa desde a primeira vez. de alguma sorte orgânicas. como vedes. as comunicações são incompletas. não se pode negar que isto é um obstáculo para a mediunidade de profissão. nem por sistema. são individuais e não gerais. e a quem o desejo de satisfazer à clientela. que todos os médiuns interesseiros sejam charlatães. Limito-me a dizer-vos que as afinidades fluídicas. que lhe paga. podendo existir do médium para tal Espírito. com o mundo invisível. as mais das vezes. porque não estou fazendo um curso de Espiritismo.

veriam que ele diz positivamente que os Espíritas não estão sujeitos <aos caprichos de ninguém. mais ou menos ilustre. foi o mesmo que se deu com a maioria dos sábios que dispunham de conhecimentos acima do vulgar. se tivessem dado ao trabalho de estudá-lo. e. goria que se podem divertem. todos os efeitos que certos médiuns acreditados obtêm. fazer comparecer o Espírito de tal ou tal personagem. — Em todos os tempos houve médiuns naturais e inconscientes que. à vontade. senão charlatanice ? A. muitas vezes. para conhecermos a diferença. F. despojando-a do seu pretenso poder sobrenatural. não são. Longe de fazer reviver a feitiçaria. talvez por digo em absoluto. — Neste caso. à vontade. K. mas a maioria dos críticos não se quer dar a esse trabalho. K. Basta-nos comparar o poder atribuído aos feiticeiros com a faculdade dos verdadeiros médiuns. foram qualificados de feiticeiros e acusados de pactuarem com o diabo. à vontade e em público. e reduzindo a seu justo valor os fenómenos possíveis. sem sair das leis naturais. amuletos e talismãs. se antes de apedrejarem o Espiritismo. eles mesmos abusaram da credulidade pública.104 ALLAN KARDEC A. pelo simples fato de produzirem fenómenos insólitos e incompreendidos. Tais fenómenos porque há Espíritos de baixa cateprestar à sua produção e que se já terem sido prestidigitadores na . nisto eles estão perfeitamente com a verdade. explorando-a. que ninguém pode. repugna à sua razão crer que um -indivíduo qualquer possa. constrangê-los a responder ao seu chamado. julgando que os Espíritos estão às ordens dos médiuns. A semelhança que certas pessoas pretendem estabelecer. provém do erro em que estão. — Não o não são impossíveis. de suas fórmulas. o Espiritismo a aniquila. engrimanços. do que se conclui que os médiuns não são feiticeiros. A ignorância exagerou seu poder e. daí a justa reprovação que os feriu. ao vosso ver.

como efeitos mediúnicos. Diversidade dos Espíritos V. quando mediunidade nisso exista. salvo pequenas variantes. e sobretudo em público. quer o caráter e os antecedentes do médium. confesso-vos que não compreendo essa diferença. quer um grande número de circunstâncias que só o estudo da teoria dos fenómenos espíritas nos pode fazer apreciar. sobre todas as verdades que nos são ocultas. porém. neste caso a mediunidade e a prestidigitação se tocam tão de perto que é difícil muitas vezes distingui-las. o vulgar bom-senso repele a ideia de virem os Espíritos. por darem voga à ideia espírita. o que não é muito próprio para dissipar dúvidas. deixando o envoltório corporal. é um meio de chamar a atenção dos indiferentes e obrigar os recalcitrantes a falarem dele. parece-me que. antes de vermos nisso a ação dos Espíritos.O QUE É O ESPIRITISMO 105 vida terrena. os Espíritos se despojam das imperfeições inerentes à matéria. também há médiuns especialmente próprios para esse género de manifestações. limita-se a produzir sempre o mesmo fenómeno. e que eles ficam. eles produzirão bom resultado. O desinteresse absoluto é a melhor garantia de sinceridade. . porém. A controvérsia que se estabelece a respeito provoca em muitas pessoas um estudo mais aprofundado. devemos observar minuciosamente e ter em conta. por menos elevados que sejam. A obtenção desses fenómenos à vontade. — Falais de Espíritos bons ou maus. Não é certamente aí que se deve ir beber instruções sérias sobre o Espiritismo. representar palhaçadas e fazer escamoteações para divertimento dos curiosos. Qualquer que seja o grau de veracidade desses fenómenos. que a luz se deve fazer para eles. é sempre suspeita. libertos dos prejuízos terrenos. sérios ou frívolos. nem sobre a filosofia da doutrina. Deve-se notar que esse género de mediunidade.

O mundo corporal e o mundo espiritual estão em contínuo revezamento. será tanto quanto vós? O progresso dos Espíritos faz-se gradualmente e. Seria erro acreditar que os Espíritos. das dores e enfermidades corporais. colhido no que eles nos dizem em suas comunicações. •— Por que não são perfeitos todos os Espíritos? Tê-los-á Deus assim criado em tão diversas categorias? A. porque não são mais do que as almas dos homens. Entre eles alguns há que. moral e intelectualmente. quando morrerdes. as diferenças que os separam. deixando o corpo material. Os Espíritos não são perfeitos. por seu grau de aperfeiçoamento. os mesmos preconceitos e erros. com muita lentidão. pela mesma razão. Todos os Espíritos têm a mesma origem e o mesmo destino. V. — Ê o mesmo que perguntar por que todos os alunos de um colégio não estão cursando a aula de Filosofia. K. Notai bem que o que digo é fruto da experiência. e. não constituem espécies distintas. que não atingiram também a perfeição. quando um vadio.106 ALLAN KARDEC A. não haja distinção alguma entre o vosso Espírito e o de um selvagem? Assim sendo. algumas vezes. as imperfeições morais são do Espírito e não do corpo. isto é. os homens não são perfeitos por serem encarnações de Espíritos mais ou menos adiantados. Entre eles há alguns que são mais ou menos adiantados. É. mas exprimem diversos graus de adiantamento. depois da morte. recebem logo a luz da verdade. pela morte . pelo contrário. porém. outros. — Sem dúvida eles ficam livres das imperfeições físicas. K. É possível admitirdes que. até que o tempo e novas provas os venham esclarecer. vêem as coisas sob um ponto de vista mais justo do que quando estavam encarnados. um princípio elementar do Espiritismo que existem Espíritos de todos os graus de inteligência e moralidade. pois. conservam ainda as mesmas paixões. de que vos serviria ter trabalhado para a vossa instrução e melhoramento.

eis o motivo por que se não deve crer cegamente em. muitas vezes. Em cada nova existência. ignorantes e charlatães. o Espírito dá maior ou menor passo no caminho do progresso. o reflexo do mundo corporal. neles se encontram os mesmos vícios e as mesmas virtudes. tudo o que dizem os Espíritos.O QUE Ê O ESPIRITISMO 107 do corpo. apresenta-se imensa dificuldade: nesses conflitos de opiniões diversas. e. para ir viver em mundo mais elevado onde vai aprender novas coisas. — Sendo assim. o mundo corporal fornece seu contingente ao espiritual. nem o que ganhamos em conversar com eles. todas as opiniões políticas e religiosas têm entre eles representantes. este alimenta a humanidade. filósofos. quando adquiriu na Terra a soma de conhecimentos e a elevação moral que o nosso globo comporta. A. Como todas as ciências filosóficas. e o que eles dizem é. é só assim que se aprende a distinguir a verdade da impostura. há entre eles sábios. que só têm em vista o bem. pelos nascimentos. como se não se despissem de seus prejuízos. — Quando eles apenas servissem para dar-nos a prova de sua existência e de serem as almas dos homens. K. esta exige longos estudos e minuciosas observações. cada um fala segundo suas ideias. existem os Espíritos superiores. apenas a sua opinião pessoal. ele o deixa. e que se adquire os meios de afastar os Espíritos enganadores. sistemáticos. cumpre-nos sabê-los apreciar e compreender. Os Espíritos que formam a população invisível da Terra são. V. só isto seria de grande importância para quantos ainda duvidam que tenham uma alma e ignoram o que será deles depois da morte. e cuja missão é guiar os homens pelo bom caminho. como distinguir-se o erro da verdade? Não descubro a utilidade dos Espíritos. Acima dessa turba de baixa esfera. de alguma sorte. raciocinadores. Estes nos vêm ensinar grandes coisas: mas não julgueis que o estudo dos outros seja . prudentes e levianos.

os sábios dos ignorantes. ora. muito cómodo se nos bastasse pedir para sermos logo servidos. e só por esse preço adquiriremos a ciência. — Essa reflexão é ainda uma consequência da ignorância do verdadeiro cará ter do Espiritismo. de tudo descobrir. os Espíritos não vêm libertar-nos dessa necessidade: eles são o que são. Quanto aos erros que se podem originar da divergência de opiniões entre os Espíritos. K. então. são as comunicações com eles que nos ensinaram que isto não se dá. o Espiritismo tem por objeto estudá-los. A. Vós mesmos tendes a prova disso. absolutamente como se dá entre nós. para bem conhecer um povo é necessário estudá-lo sob todas as faces. os sinceros dos hipócritas. à medida que se aprende a distinguir os bons dos maus. não possuindo todos o mesmo grau de instrução.108 ALLAN KARDEC inútil. — A minha observação subsiste sempre no ponto de vista das questões científicas e outras que podemos submeter aos Espíritos. eles desaparecem por si mesmos. pois que todos temos que ir para lá. quando não podemos distinguir quem erra ou quem tem razão? Vale tanto dirigirmo-nos aos homens como aos Espíritos. e fizeram-nos conhecer o verdadeiro estado do mundo espiritual. que a todos nós interessa no mais alto ponto. ficando assim dispensados do trabalho de estudar. deixa-nos na incerteza. V. sobre as teorias que dividem os sábios. então o bom-senso repelirá as falsas doutrinas. Os Espíritos não estão encarregados de trazer-nos a ciência já feita. pensáveis que bastava aos Espíritos deixarem seu envoltório corpóreo para que ficassem isentos de todas as suas imperfeições. realmente. A divergência de suas opiniões. que peso pode ter para nós a opinião daqueles que sabem. mas. Compreendo que. Deus quer que trabalhemos. não podem saber tudo. que o nosso pensamento se exercite. Aquele que supõe nele achar meio fácil de saber tudo. seria. labora em grande erro. .

qual a sua utilidade prática? Não se tendo sentido a sua falta até ao presente. são outros tantos objetos de observação.O QUE É O ESPIRITISMO 109 a fim de que. contentemo-nos com o que nos dizem. sempre dispostos a falar de tudo. prepara para si estranhas decepções da parte dos Espíritos galhofeiros. não há Espírito algum cujo estudo não nos traga alguma utilidade. parece-me que se podia continuar a dispensá-lo. alguma coisa aprendemos sempre com todos eles. Tampouco os Espíritos são leitores da buena-dicha. as suas imperfeições. sua ação oculta sobre o mundo visível. ou revelar-nos as coisas antes do tempo próprio. Utilidade prática das manifestações F. . as relações que nos prendem a elas. e não wma arte de aãivimJMr e especular. Quanto aos Espíritos esclarecidos. nos instruímos. e viver sem ele. o Espiritismo reconhecido como realidade. o Espiritismo é uma ciência de observação. em uma palavra. e quando eles não nos instruam. e aquele que se vangloria de obter deles certos segredos. a incapacidade. e não para dele tirar qualquer vantagem material. nunca lhes perguntemos o que eles não podem ou não devem revelar. e não para nos fazer conhecer o que nos deve ser oculto. porém sempre nos limites do possível. Deste ponto de vista. muito. muito tranquilamente. fiquemos sabendo o que seremos um dia. estudando-os. querer ir além é sujeitarmo-nos às manifestações dos Espíritos frívolos. — Admitamos que a coisa esteja comprovada. Nós o estudamos com o fim de conhecer o estado das individualidades do mundo invisível. esses nos ensinam. que nos iniciam na natureza íntima desse mundo. como fazemos quando observamos os costumes de um povo desconhecido para nós. os defeitos. a ignorância mesmo. por analogia. nós. A experiência nos ensina a julgar do grau de confiança que lhes devemos conceder.

Supondo que a isso se limitasse a sua utilidade. conhecer o futuro. — Podíamos dizer o mesmo das vias férreas e do vapor. alarga o círculo das ideias. o Espiritismo não na tem. antes que se soubesse ser a Terra e não o Sol que se move. ele nos mostra a influência que o mundo invisível exerce sobre o visível e as relações existentes entre eles. ele não pode produzir altas e baixas na Bolsa. para vós. nem transformar-se em ações de Bancos. O camponês. libertar-se do trabalho de estudar.110 ALLAN KARDEC A. arrecadar heranças. para viver e fazer brotar seu trigo. fazendo-nos melhor compreender as leis da Natureza. se entregam os sábios a esses estudos? Há alguém que ouse dizer que eles perdem o tempo? Tudo que serve para erguer uma ponta do véu que nos envolve. Ora. fazer fortuna. Sob tal ponto de vista. nem mesmo fornecer inventos já prontos e no estado de serem explorados. antes que se conhecesse o mundo microscópico e outras tantas coisas. quando o conhecimento dele nos conduz à solução de tão grande número de problemas. antes da descoberta dos novos planetas. já não seria de grande importância a revelação de uma tal potência. é dai* meios de passar boa vida. abstraindo-se mesmo de toda a sua doutrina moral? De nada valerá um mundo inteiro novo que se nos revela. o mundo dos Espíritos existe em virtude de uma dessas leis naturais. ajuda o desenvolvimento da inteligência. K. sem os quais também se vivia muito bem. quantas ciências deixariam de ser úteis! Quantas delas não oferecem vantagem alguma. como a Astronomia nos ensina as que ligam os astros à Terra. comercialmente falando! Os homens passavam igualmente bem. ele no-lo faz ver como sendo uma das forças que regem o Universo e contribuem para a manutenção da harmonia geral. não precisa saber o que seja um planeta. até então insolúveis. quando ele nos inicia nos mistérios do além- . e o Espiritismo nos faz conhecê-lo. Se utilidade prática. pois. Para que. descobrir minas de carvão ou tesouros ocultos.

porque já não se pode encontrar na influência dos astros o prognóstico do destino? Assim como a Astronomia destronou os astrólogos. da sua imortalidade. conquanto não resista ao mais ligeiro exame. — Certas pessoas consideram as ideias espíritas como capazes de perturbar as faculdades mentais. as ciências. é. e nunca o que está fora dos limites do seu fim providencial." Não é. suicídio e obsessão V. não pelo raciocínio.O QUE É O ESPIRITISMO 111 -túmulo. Será razoável dizer-se que a Astronomia para nada serve. as artes. da sua sorte futura. pois. como este lhes pareceu próprio para despertar temores e suscetibilidades. Ouvi. a destruição do materialismo. Loucura. Ele é. fornecem o seu contingente. visto que todos nós. pois. pelo que acham prudente deter-lhes a propagação. uma outra utilidade. empregam-no logo. Antes dos progressos sérios da Astronomia. A. para a magia. mas por fatos. Não convém pedir-lhe senão o que ele pode dar. Ele é a prova patente da existência da alma. os feiticeiros e os que liam a bu&na-dicha. da sua individualidade depois da morte. — Deveis conhecer o provérbio: "Quem quer matar o cão — diz que o cão está danado. temos de transpor esse marco fatal? O Espiritismo possui. Todas as grandes preocupações do espírito podem ocasionar a loucura. mais positiva: é a natural influência moral que exerce. a Química para a Alquimia. a religião mesmo. o Espiritismo veio destronar os adivinhos. a respeito dessa loucura. estranhável que os inimigos do Espiritismo procurem agarrar-se a todos os pretextos. que nos devem interessar de algum modo. o que é a Astronomia para a Astrologia. tarde ou cedo. acreditava-se na Astrologia. portanto. K. porém. o raciocínio de um louco. A loucura provém .

os Estados Unidos contam centenas de milhares. só em uma localidade da América.000 casos de loucura espírita. esta poderá ser a dos Espíritos. mas se esquecem que. Para eles. como poderá ser a de Deus. lhe fizeram girar a cabeça). ao passo que outras enlouquecem sob o influxo da menor excitação. num ir. antes de se ocupar com os Espíritos. do diabo.112 ALLAN KARDEC de um certo estado patológico do cérebro. e isto é tão real que encontrareis pessoas que pensam excessivamente e não ficam loucas. 4. e. É provável que o louco religioso se tivesse tornado um louco espírita. da maternidade. A loucura é. já ele havia dado provas de excentricidade nas suas ideias. de um sistema político ou social.000 espíritas da localidade em questão eram considerados como loucos. de cujo nome não me recordo. instrumento do pensamento. estando o instrumento desorganizado. pois. e todos os países do mundo um número ainda muito maior. um efeito consecutivo. Esse gracejo de mau gosto começa a não ter valor. o pensamento fica alterado. do poder. mas é também sabido que os nossos adversários têm a ideia fixa de se crerem os únicos dotados de razão. toma esta o caráter de preocupação principal. é uma esquisitice como outra qualquer. se o Espiritismo fosse a sua preocupação dominante. os 4.divíduo que deles se tenha ocupado. da fortuna. Existindo uma predisposição para a loucura. desde que tal moléstia vai invadindo as classes mais elevadas da sociedade. sua loucura teria seguido outro rumo. que torna o cérebro mais ou menos acessível a certas impressões. por consequência. que então se torna ideia fixa. dos anjos. . se as mesas girantes não tivessem então aparecido (as quais. Ê certo que um jornal disse que se contavam. de uma ciência. cuja causa primária é uma predisposição orgânica. Falam muito do caso de Vítor Hennequin. Dessa espécie. nós somos todos dignos de um hospital de doidos. segundo um trocadilho bem espirituoso dos nossos adversários.

os desastres. devemos também colocar o medo. pois. Sabe-se o número de vítimas que se tem feito. Ele sabe que os dissabores da vida são provas que servirão para o seu adiantamento. a sorte deplorável dos que abreviam voluntariamente os seus dias. ele é um preservativo contra a loucura e o suicídio. que o Espiritismo não tem privilégio algum. por consequência. sim. Ora. Não confundamos a loucura patológica com a obsessão. não contam as epilepsias que têm sua origem nesse abalo de cérebros tão delicados. quando lhes perdem o medo. o verdadeiro espírita vê as coisas deste mundo de um ponto de vista tão elevado. pelo espetáculo que lhe dão as comunicações com os Espíritos. nesse sentido. porque sua recompensa será proporcional à coragem com que as houver suportado. por detalhes horrorosos. Suas convicções dão-lhe. dizem. as quais são também as mais frequentes causas do suicídio. se as sofrer sem murmurar. Ele sabe. e este quadro é bem de molde a fazê-lo refletir. ferindo as imaginações fracas com esse painel que. O diabo. que já tem desarranjado mais de um cérebro. de uma causa incessante de loucura e de suicídio. esta não provém de lesão alguma cerebral. capricham em tornar mais assustador. afeta-o mediocremente. mas da . pois. em troca desse pequeno resultado. mas. Ê um dos grandes resultados do Espiritismo. que as tribulações não são para eles senão os incidentes desagradáveis de uma viagem. só causa medo às crianças. Em o número das causas de loucura.O QUE É O ESPIRITISMO 113 Eu digo. é um freio para corrigi-las. além disso. como o papão e o lobisomem. principalmente do diabo. também é considerável o número dos que por esse meio têm sido detidos nesse funesto declive. Aquilo que em outro qualquer produziria violenta comoção. uma resignação que o preserva do desespero e. Entre as causas mais numerosas de excitação cerebral. bem compreendido. devemos contar as decepções. mas vou ainda além: afirmo que. as afeições contrariadas. tornando-se elas piores que antes. que as contêm por algum tempo.

esforçar-nos-emos por evitá-las. o Espiritismo nos oferece. o único meio de vencê-la. a medicação comum é impotente e mesmo prejudicial. Neste caso. quando não se lembra delas. não estaríamos mais adiantados do que aos dez. de alguma sorte. quando chegássemos aos setenta anos. levar-me-eis a fazer um curso completo de Espiritismo. ao passo que recordando as nossas faltas. cada existência é para ele qual se fora a primeira. está sempre a recomeçar. agindo não sobre o enfermo. não se lembrando do que aprendeu na anterior. todas as obje- . uma entidade nova. K. para renascer em outra. — Não consigo explicar a mim mesmo como pode o homem aproveitar da experiência adquirida em suas anteriores existências. e que. A. Fazendo conhecer esta nova causa de perturbação orgânica. muitas vezes. Suponhamos que cada dia. inaptidões e punições que disso nos provieram. mas sobre o Espírito obsessor. O Espiritismo é o remédio e não a causa do mal. sem consciência do que fomos. Essas soluções de continuidade na vida do Espírito interrompem todas as relações e fazem dele. Esquecimento do passado V. do que podemos concluir que os nossos pensamentos morrem com cada uma das nossas existências. deste modo. eu não compreendo como este poderia aproveitar as lições da quarta classe. é uma espécie de aniquilamento. é independente de qualquer crença no Espiritismo e existiu em todos os tempos. Esta afecção. ao despertar. muito frequente. — De pergunta em pergunta. com o aluno de um colégio. desde que lhe faJta essa reminiscência. Para me servir da comparação que fizestes do homem. perdemos a memória de tudo quanto fizemos no dia anterior. têm as aparências da loucura propriamente dita. pois que. ao mesmo tempo.114 ALLAN KARDEC subjugação que Espíritos malévolos exercem sobre certos indivíduos. na Terra.

Servindo-me ainda da comparação supra com o aluno. uma vez terminada ela. terá mais firmeza. quando passa para a classe seguinte. se soube tirar proveito das lições da experiência. ele possui um fundo que vai sempre crescendo e sobre o qual se apoia para fazer maiores conquistas. uma vez que as saiba. se tornará melhor quando voltar. por isso. reencarnando. com isso nada perde ele das suas aquisições. e. e. relativa ao aniquilamento do pensamento. apenas esquece o modo por que as conquistou. direi que pouco importa saber onde. se torna natural e vem confirmar essa justiça e essa sabedoria. servindo-se mutuamente de apoio. então poderá julgar do caminho que se- . se no curso de uma existência ele se melhorou. contrária à justiça e à sabedoria de Deus. longe de ter de recomeçar tudo. amadurecido na escola do sofrimento e do trabalho. A segunda parte da vossa objeção. mas que. que se prende a outras questões de não menor importância e. não tem base mais segura. o que parecia uma anomalia. como. Tal é o problema do esquecimento do passado. seu Espírito. o que adquiriu em ciência e moralidade. com que professores ele estudou as matérias de uma classe.O QUE É O ESPIRITISMO coes que apresentais são naturais em quem ainda nada conhece. por certo. então. mediante estudo sério. Digo em moralidade porque. não farei aqui senão tocar levemente o assunto. o Espírito recobra a lembrança do seu passado. Se em cada uma de suas existências um véu esconde o passado do Espírito. deve sempre ir provocando novas questões. pode encontrar-lhes respostas muito mais explícitas do que as que posso dar em sumária explicação que. Se os castigos o tornaram laborioso e dócil. o homem traz por intuição e como ideias inatas. vê-se que seus princípios emanam uns dos outros. quando se toma o conjunto. porque esse olvido só se dá durante a vida corporal. Tudo se encadeia no Espiritismo. que lhe importa saber quando foi castigado por preguiçoso e insubordinado? Ê assim que.

em vossa família mesmo se encontre um indivíduo que vos deu outrora muitos motivos de queixa. meu amigo. e aos olhos de Deus um Espírito reabilitado. ou desonrou em outra existência. É assim que se efetua gradualmente o progresso da humanidade. sois hoje um homem de bem. ligar-se a vós pelos laços de família. que é a vida normal do Espírito. em estado de intuição. por . Suponhamos ainda — o que é um caso muito comum — que. mas talvez devais isso aos rudes castigos que recebestes pelos malefícios que hoje vos repugnariam à consciência. por exemplo.116 ALLAN KARDEC guiu e do que lhe resta ainda fazer. Livre da reminiscência de um passado importuno. vossas dívidas anteriores estão pagas. viveis com mais liberdade. lançar um véu sobre os seus primeiros anos! Quantos. cumprindo-vos ter cuidado de não contrair outras. é para vós um novo ponto de partida. não faria mais o que fiz!" Pois bem. a fim de reparar suas faltas para convosco. quando hoje sois um homem estimável? Aos olhos do mundo. fá-lo-ão em outra. em uma nova existência. por provas rudes e terríveis expiações. o que eles não podem fazer nesta mesma vida. seu Espírito trará. ao chegar ao termo de sua carreira. em vossas relações. ser-vos-ia agradável a lembrança de ter sido outrora enforcado por vossa maldade? Não vos perseguiria a vergonha de saber que o mundo não ignorava o mal que tínheis feito? Que vos importa o que fizestes e o que sofrestes para expiar. que seria se a ele se juntasse a lembrança do passado? Vós. sois um homem novo. durante a vida. Quantos homens desejariam assim poder. Espírito arrependido. a experiência só se adquire. cuja recordação seria muito penosa e viria aumentar as angústias e tribulações da vida presente. que talvez vos arruinou. de modo que não há essa solução de continuidade em sua vida espiritual. veio encarnar-se em vosso meio. Esse esquecimento temporário é um benefício da Providência. não têm dito: "Se eu tivesse de recomeçar. muitas vezes. as boas resoluções que tiver tomado. Se os sofrimentos da vida parecem longos. e que.

não vos acharíeis mutuamente na mais embaraçosa posição.O QUE É O ESPIRITISMO 117 seu devotamento e afeição. e. a lembrança do passado nada tem de penosa. e não deveis achar extraordinário o desejo que vos manifestam de testemunhá-los. e essa repulsa o lança de novo nos braços do vício. explico em que condições convém que cada um se coloque. nos quais. Disso resulta que a reminiscência do passado perturbaria as relações sociais e seria um tropeço ao progresso. A. Elementos de convicção V. todavia. mas fica sempre de pé a questão das manifestações. K. para melhor observá-los e. como nós nos recordamos hoje do que ontem fizemos. que acontece quando ele termina o cumprimento da pena? A sociedade o repele. — Acho-o muito natural. Isto está em perfeita concordância com a doutrina dos Espíritos. porém. a Doutrina Espírita é perfeitamente racional. que não pode ser resolvida senão por fatos. eis por que seus habitantes se recordam da sua existência precedente. quem não . que do ponto de vista filosófico. em vez de ser obrigado a curvá-la sob o peso da vergonha do que não pode olvidar. só reinando o bem. ora. os ódios se eternizariam. todos desconhecessem os seus antecedentes. é a realidade destes que muita gente contesta. ora. poderia ser honesto e andar de cabeça erguida. compreendê-los. — Convenho. a respeito dos mundos superiores ao nosso planeta. se ele mesmo os esquecesse. Quanto à lembrança do que fizeram em mundos inferiores. ilustre amigo. sobretudo. ela produz neles a impressão de um mau sonho. Quereis uma prova? Supondo que um indivíduo condenado às galés tome a firme resolução de tornar-se um homem de bem. Se. como eu procuro que eles sejam aproveitados. ele seria bem acolhido. se ambos vos lembrásseis de vossas passadas inimizades? Em vez de se extinguirem.

todos os dias aceitamos o resultado dos cálculos astronómicos. assim sendo. quanto mais extraordinário ele é. onde não há árvores. Notei que em algumas pessoas os mais importantes fenómenos não produziram a menor impressão. não a admitindo senão a título de hipótese. mais suspeitas desperta e mais o pensamento se esforça para lhe dar uma causa vulgar. sumárias como são. ao passo que uma simples resposta escrita venceu todas as dúvidas. mas. ao menos. longe estão de ser completas. sem que nós mesmos os façamos. Quando se vê um fato que não se compreende. é preciso um pouco de tudo. não tiveram a paciência e a perseverança exigidas. desaparecendo o maravilhoso e o sobrenatural. ou. estou persuadido de que vos levarão a refletir. mostra não ter sério desejo de esclarecer-se. se um é verdadeiro. Nem todos. conservando vossa opinião sobre as vias e meios que a ela conduziram. Convireis. é certo. se achais a filosofia boa. não produz impressão alguma em outros. e. o que convence a uns. Os elementos de convicção não são os mesmos para todos. a outra não pode ser falsa. se as circunstâncias vos fizerem testemunhar . Certamente as explicações que vos acabo de dar. Seja como for. e com tal pessoa é inútil perdermos tempo. se ele. nesta conversa. É. porque não se colocaram nas condições precisas para observá-los.118 ALLAN KARDEC aceita essas condições. é logo admitido por ter uma razão de ser. podeis aceitá-la como aceitaríeis outra qualquer. porém. Mas isso também se dá com todas as ciências: o que uns não fazem. porque. Em boa lógica. um engano crer-se que as experiências físicas sejam o único meio de convencer. testemunharam os fatos. que seria singular que tão racional filosofia tivesse saído de fatos ilusórios e controvertidos. até mais ampla averiguação. a realidade do efeito implica a da causa que o produz. também. porém. for compreendido. não se pode colher frutos. é feito por outros.

vê-los-eis com menor prevenção. e foi para eles como um raio de luz. porque possuireis uma base onde firmar o vosso raciocínio. que nela encontram tudo quanto pode satisfazer às suas aspirações interiores. — Nisso vos contesto. a doutrina não deixaria de ser sempre a que melhor resolve uma multidão de problemas reputados insolúveis. dais-me subida honra atribuindo-me esse sistema quando ele não me pertence. A. K. e longe estava eu de suspeitar as consequências que surgiram de um. eu sou todos os dias visitado por pessoas que ainda nada viram e crêem tão firmemente como eu. do que concluem que. Há duas coisas no Espiritismo: a parte experimental das manifestações e a doutrina filosófica. pelo só estudo que fizeram da parte filosófica. supondo não existissem as manifestações. É o que explica o número de adeptos que a simples leitura de O Livro dos Espíritos produziu. Ora. caro senhor. Acreditais que esse número seria o que é hoje. a ciência. à parte o fato das manifestações. coordenei e procuro fazer compreender aos outros aquilo que compreendo. . fato encarado como simples objeto de curiosidade. O Espiritismo veio coordená-las. tão racional. Ele foi totalmente deduzido do ensino dos Espíritos. se nunca tivéssemos passado das mesas giratórias e falantes? V. dar-lhes corpo.U yUJU B U JlJS. esta é a parte que me cabe. para elas o fenómeno das manifestações é acessório. Eu vi. — O senhor tinha razão de dizer que âas mesas giratórias e falantes saiu uma doutrina filosófica. observei. eles a vêem tão grande. conquanto em estado de confusão.iyiU 1» 1 alguns fatos de manifestação.fJLtUTlS. o fundo é a doutrina. Quantos me disseram que essas ideias estavam em germe no seu cérebro. Agora vejo quanto é vasto o campo aberto pelo vosso sistema.

que . Diz-se: a filosofia de Platão. ela decidirá se vos deve admitir. Como a Sociedade não deseja ser perturbada nos seus estudos.120 ALLAN KARDEC Há entre o Espiritismo e outros sistemas filosóficos esta diferença capital. mais ou menos esclarecidos. que estes são todos obra de homens. necessidade de ser doutor em Espiritismo. lançariam a desordem no seu seio. de Descartes. não simpatizando com seus princípios e convicções. para ser nela recebido. felizmente. ainda não. há. com a condição de não fazer reflexão alguma de natureza a melindrar quem quer que seja. contudo. é o centro ao qual convergem ensinos colhidos em todas as partes do mundo e onde se elaboram e coordenam questões que se relacionam com o progresso da Ciência. — Tendes uma sociedade que se preocupa com esses estudos: ser-me-ia possível fazer parte dela? A. — Por ora. como visitante. como tantas outras. Ê uma sociedade científica. pois que valor pode ter um nome em assunto de tamanha gravidade? O Espiritismo tem auxiliares de maior preponderância. quando as vossas convicções estiverem fortalecidas pelo estudo. e isto. do contrário. Mais tarde. a de ter-se sobre ele ao menos ideias mais firmes do que as vossas. eu. Sociedades espíritas V. ela não admite os que lhe viriam fazer perder tempo com questões elementares. nem os que. eu não tenho o mérito da invenção de um só princípio. mas não é uma escola nem um curso de ensino elementar. porque se não há. Enquanto esperais. nunca se poderá dizer: a doutrina de Allan Kardec. de Leibnitz. com discussões intempestivas ou com o espírito de contradição. naquele que me atribuís. podereis assistir. K. ao lado dos quais somos simples átomos. ao passo que. que se ocupa de aprofundar os diferentes pontos da ciência espírita e procura esclarecer-se. a uma ou duas sessões.

então está em a Natureza. sem que para isso se esforcem tanto. nada oculto. pois. — Seria um modo de perder a partida um pouco mais cedo. — Solicito-vos uma última resposta: O Espiritismo tem poderosos inimigos. Eis por que ela recusa admitir. cuja maioria se recomenda pela superioridade do seu saber e posição social. que ela convide o público e chame o primeiro recém-vindo para assistir às suas sessões. arredando-se esse homem. àqueles que recebe em seu seio.O QUE É O ESPIRITISMO 121 vos vou apresentar. K. as pessoas que não conhece. Aí encontrareis uma reunião de homens graves e de boa sociedade. não creais. Se o Espiritismo é uma quimera. Se. se o perseguem é por que o temem. ficarão desapontados e melhor farão se lá não forem. pois. Interdição do Espiritismo V. se afastarem das conveniências. e só uma coisa séria pode causar temor. impedir-lhe a propagação? A. como vo-lo disse. mesmo como simples visitantes. não poderiam eles interditar-lhe a prática e as sociedades e. e que não consentiria. porque a violência é o argumento daqueles que não têm boas razões. incorreria na censura dos meus colegas. é uma realidade. elas não são mistério para pessoa alguma. e a porta vos seria interdita. tudo se passa às . ela afasta com cuidado os curiosos. Se as manifestações espíritas fossem privilégio de um homem. no que quer que seja. ou aquelas cujas disposições hostis são notórias. infelizmente para os adversários. não há dúvida que. aí não há segredos. Aqueles. e ninguém com um traço de pena pode revogar uma lei natural. por esse meio. ao contrário. ele cairá por si mesmo. Como não faz demonstrações com o fim de satisfazer curiosidades. se poria um termo às manifestações. que supõem ir aí achar uma distração e uma espécie de espetáculo.

entretanto. que um prisioneiro em seu cárcere. conseguirá também que o não façam na de seus vizinhos. desde que todos podem ser médiuns. que de nenhuma sorte são necessárias. reverendo. porém. elas estão à disposição de todo o mundo e se produzem desde o palácio até a mansarda. em que não se encontrem médiuns? O Espiritismo. restando-lhes a liberdade de recusá-lo. nos dois hemisférios. K. o Espiritismo é hoje um fato consumado. Primeiro que tudo. é na intimidade. creio útil fazer-vos conhecer o terreno em que me devo colocar perante vós. Ele consiste na crença individual e não nas sociedades. governo seja forte bastante para impedi-los de trabalhar em suas casas. tenha comunicações com os Espíritos. mas. dirigir-vos. quando não há país algum. — Permitir-me-eis. Em resumo.122 ALLAN KARDEC claras. ê pois preciso que aqueles. Se desejardes conhecê-las pormenorizadamente. por minha vez. senhor. no mundo inteiro. ora. que um. antes de responder a elas. Podem interdizer-lhe o exercício público. a quem ele não convém. que não podem ser queimados nem encarcerados. mesmo nas barbas da polícia e sem que esta o saiba? Admitamos. — De boa mente. TERCEIRO DIALOGO O PADRE Um abade. é assaz sabido que não é em público que elas mais se dão. cumpre-me declarar que não tenho a pretensão de vos converter às nossas ideias. algumas perguntas? A. os Espíritos ditariam outros. ele já conquistou o seu lugar na opinião pública e entre as doutrinas filosóficas. Se chegassem a destruir todos os livros espíritas. encontrá-las-eis . ele é obra dos Espíritos. que um indivíduo no silêncio do seu gabinete. além disso. se resignem a vê-lo ao seu lado. quem impedirá que uma família no seu lar. não tem sua fonte entre os homens.

uma crença. pois. senhor abade. dei-lhes as explicações necessárias. por exemplo. ele se dirige. àqueles que em nada crêem ou que de tudo duvidam. o Espiritismo responde que não se impõe a pessoa alguma e que não vem forçar nenhuma convicção. e o número desses não é pequeno. sem nada buscar além dos seus limites". fornecendo provas patentes da existência da alma e da vida futura. Se alguém fosse por sua consciência arrastado a crer. se não a respeitasse. toda crença. O Espiritismo tem por fim combater a incredulidade e suas funestas consequências. nunca. nós lhe diríamos: "Acreditai-o se quiserdes. por serem todos os homens livres em suas apreciações. a linha de conduta que tenho seguido com os ministros dos diversos cultos que a mim se hão dirigido. Quando eles me interpelaram sobre alguns pontos da Doutrina. A seus olhos. que é um dos atributos do homem. quando sincera e não permita ao homem fazer mal ao próximo. abstendo-me de discutir certos dogmas de que o Espiritismo não se quer ocupar. como muito bem sabeis. de si mesma inocente. Se transformardes. que é o Sol que gira ao redor da Terra. os que têm fé religiosa e a quem esta fé satisfaz. dele não têm necessidade. Tal é. é respeitável. em instrumento de perseguição. . mas. A liberdade de consciência é consequência da liberdade de pensar. estaria em contradição com os seus princípios de liberdade e tolerância. mesmo que seja errónea. porém. assim como não procuramos violentar-vos a consciência. ela então se tornará nociva e pode ser combatida. fui procurá-los no propósito de lhes abalar a fé por meio de qualquer pressão. respeitai também a nossa.O QUE É O ESPIRITISMO 123 nos livros em que estão expostas. porém. e o Espiritismo. porque isso não fará que esses dois astros troquem os seus papéis". neles podereis estudá-las à vontade e aceitá-las ou rejeitá-las. Àquele que diz: "Eu creio na autoridade da Igreja e não me afasto dos seus ensinos.

É o conselho que não tenho cessado de dar aos espíritas. nós o acolhemos como tal. nada haveria de melhor. em consciência. ele sabe também que toda crença imposta é superficial e não desperta senão as aparências da fé. o fazem livremente e pelos achar racionais. julga dever condenar. não temos sido — os espíritas — qualificados de inimigos da sociedade e da ordem pública. onde há colheita a fazer. de modo a cada um poder formar opinião segura. e vereis neles a injúria e a calúnia transbordando por toda parte e os princípios da doutrina sempre indigna e perversamente desfigurados. a fé sincera.324 ALLAN KARDEC Àquele que nos procura como irmão. O Espiritismo não se impõe. podeis contestar-lhe o direito de discuti-los e combatê-los. mas nós não ficamos querendo mal aos que se afastam da nossa opinião. sob o pretexto de que é melhor ser incrédulo do que crer-se em Deus e na alma pelos ensinos do Espiritismo ? . que também reclamamos para nós outros. vendo levantar-se uma nova doutrina. nunca. K. não temos sido anatematizados e rejeitados pela Igreja. como vo-lo disse — respeita a liberdade de consciência. porém. premunindo os fiéis contra o que ela considera erro? A. deixamo-lo em paz. — De modo algum podemos contestar esse direito. Padre. Se hoje há luta entre a Igreja e o Espiritismo. sacerdotes ou leigos. Os que lhe aceitam os princípios. — Se a Igreja. Se ela se houvesse encerrado nos limites da discussão. Ele expõe seus princípios aos olhos de todos. cujos princípios. porque não concordo com os que se arrogam a missão de converter o clero. lede. ao que nos repele. os sermões que têm sido pregados. Sempre lhes tenho dito: Semeai no campo dos incrédulos. a maioria dos discursos proferidos por seus membros e publicados em nome da religião. porque. porém. nós temos consciência de não havê-la provocado. Do alto do púlpito.

O QUE É O ESPIRITISMO 125 Não lamentam muitos. Não foi um bispo quem ordenou o auto-de-fé de Barcelona ? A autoridade superior eclesiástica não tem todo o poder sobre os seus subordinados? Se ela tolera esses sermões indignos da cadeira evan gélica. hoje. por serem eles espíritas? Não se têm despedido de alguns hospitais. A. é porque as aprova. ao mal com o mal? Não. A tudo opuseram eles sempre a calma e a moderação. senhor abade. à injúria com a injúria. até cegos. a ponto de fazer que sejam nas ruas perseguidos e injuriados? Não se tem imposto a todos os fiéis que os evitem como pestíferos. e impedido que os criados entrem a seu serviço? Muitas mulheres não têm sido aconselhadas a separarem-se de seus maridos. e se não se opõe às perseguições exercidas em nome da religião. A consciência pública já lhes faz a justiça de reconhecer não terem sido eles os agressores. mas. tudo por causa do Espiritismo? Não se têm tirado lugares a empregados. Padre. K. não se poder atear para os espíritas as fogueiras da Inquisição? Em certas localidades não têm sido assinalados à animadversão de seus concidadãos. retirado o pão do trabalho a operários e recusado caridade aos necessitados. — Todo homem sensato deplora esses excessos. pelo fato de não quererem abjurar sua crença? Dizei-me. entrarão na classe dos pouco esclarecidos os príncipes da Igreja? Vede a pastoral do bispo de Argel e de alguns outros. mas a Igreja não pode ser responsável pelos abusos cometidos por alguns de seus membros pouco esclarecidos. porventura. se ela patrocina a publicação de escritos injuriosos e difamatórios contra uma classe inteira de cidadãos. — Convenho. . como muitos maridos de suas mulheres. será isso uma discussão leal? Os espíritas responderam.

pela natureza e violência dos seus ataques ela ampliou a discussão e conduziu-a para um terreno novo. mas a paixão não raciocina melhor. a simples dúvida sobre outra vida. forçou-os a retroceder. porque com ela tudo se acaba. sem nenhuma razão de ser. quem o proclamou nova religião. donde a máxima: "Cada um por si durante a vida terrena. O materialismo é uma crença como outra qualquer. Combatendo o materialismo. quando amanhã. Para que nos molestarmos. é uma chaga social. em suma. assim como na promovida contra um cismático de qualquer religião. origem dá . enfim. nos constrangermos e nos sujeitarmos a privações hoje. certamente. foi ela. a Igreja. O Espiritismo era apenas uma simples doutrina filosófica.126 ALLAN KARDEC Em resumo. apresentando-o como inimigo formidável." A caridade. livre de crer no que quiser ou de não crer em coisa alguma. quando se encerra no foro íntimo da consciência de pessoas esclarecidas. não atacamos os indivíduos. — Há pouco proclamastes a liberdade de pensamento e de consciência. e declarastes que toda crença sincera é respeitável. foi a Igreja quem lhe deu maiores proporções. mas sim uma doutrina que. se é inofensiva para a sociedade. se vier a generalizar-se. já nada sejamos ? A negação do futuro. em proveito de outrem. — Cada um é. a fraternidade. são os maiores estimulantes do egoísmo. ficam sem base alguma. leva-o a considerar como um disparate o sacrifício do seu bem-estar presente. repelindo sistematicamente os espíritas que a buscavam. que toda solidariedade cessa com a extinção da vida corporal. por que negar-lhe a liberdade que concedeis a todas as outras? A. a moral. K. A crença de tudo acabar para o homem depois da morte. e não toleraríamos mais uma perseguição contra aquele que acredita no nada depois da morte. Foi um passo errado. talvez. Um livre pansadar.

K. decididamente. Se essa crença fosse um simples espantalho. e porque. é o motivo do tão pequeno êxito obtido pelos ataques dirigidos contra o Espiritismo. mas não contém aquele que não dá importância à opinião pública. quando para isso não se tem outro freio além do da própria força de vontade. qual é hoje a necessidade de uma nova doutrina? A. É necessário possuir alta dose de virtude para não seguir a corrente do vício e do crime. essa crença muda o curso das ideias. mostrando a perpetuidade das relações entre os homens. como a sua realidade é fato adquirido pela experiência. estabelece entre eles uma solidariedade que não se quebra na tumba. A crença na vida futura. ela nos manda crer. — A religião ensina tudo isso. mesmo no interesse da ordem social. até agora foi suficiente. Padre. é verdade. desse modo. para compensação das misérias deste mundo.O QUE E O ESPIRITISMO 127 maioria dos males da Humanidade. donde vêm essas provas? Da manifestação dos Espíritos. sem remissão. mas. Além disso. O Espiritismo prova e faz ver o que a religião ensina em teoria. O pensamento de ser aniquilado. o homem antes quer ter a certeza de viver e poder ser feliz em um mundo melhor. . é um dever propagá-la e combater a crença contrária. •— Se a religião ensina o bastante. os quais não lhe produziram o menor abalo. de ver os filhos e os entes que lhe são mais caros perdidos. sorri a um bem limitado número. em nome da incredulidade. mas há muita gente que não crê por simples afirmação. e o faz com êxito. religiosamente falando? Ela prega. não duraria senão um tempo curto. porque fornece provas. por que há tantos incrédulos. É o que faz o Espiritismo. do que a de morrer para sempre. O respeito humano pode conter o homem do mundo. acreditai-me.

é provável que os Espíritos só se manifestem com o consentimento de Deus. — Ora. pois.128 ALLAN KAEDEC Ora. como a todas as religiões do mundo. entretanto. não pensar senão em si. não só seria contrário à religião católica. tanto quanto os católicos. o Espiritismo é conforme às grandes verdades do Cristianismo. base das sociedades humanas. porém. eles dizem que o homem é livre e responsável por seus atos. — Concordo que. ele seria ainda a negação de todas as leis morais. — Não podeis. K. não será própria a elevar a nossa alma e a fortalecer-nos na prática do bem? Páãre. senhor abade. que é a nossa essência. do livre-arbítrio do homem. colocam acima de todas as virtudes a caridade evangélica e a seguinte regra sublime ensinada pelo Cristo: fazer aos outros como queremos que nos seja feito. comparada às mesquinhas preocupações da vida terrena. os muçulmanos. soberanamente justo e bom. nas questões gerais. não será uma consolação? Essa grandiosidade da vida espiritual. o mesmo em relação aos dogmas? Não contradiz ele alguns princípios que a Igreja nos ensina ? . todas as religiões dirão a mesma coisa: os protestantes. de se ir encontrar aqueles a quem se amou. A. recompensado ou punido pelo bem ou pelo mal que houver feito. Deus em sua misericórdia envia aos homens esse socorro para afastá-los da incredulidade. Longe disso: os Espíritos proclamam um Deus único. Não são estes os fundamentos da religião? Essa certeza do futuro. os judeus. em todos os pontos. é uma impiedade repeli-lo. se ele ensinasse que cada um só deve viver para si. Se o Espiritismo negasse a existência de Deus. se. de acordo com a religião. Padre. contestar que o Espiritismo não está. das penas e recompensas futuras. da sua individualidade e imortalidade. da alma. dar-se-á.

eis aí por que a história de todos os povos faz deles menção. existiu em todo tempo e produziu sempre os efeitos que hoje observamos e muitos outros que ainda não conhecemos. pois. Na ignorância da sua verdadeira causa. formado pelos seres incorpóreos que povoam o espaço e que não são mais que as almas daqueles que viveram na Terra. e como ainda a gravitação é uma outra. — O Espiritismo é. o Espiritismo o fez para outros de ordem diferente. Esta ciência tem consequências morais como todas as ciências filosóficas. nesse ponto de vista. O Espiritismo está. como se deu com a eletricidade. A questão é de grande importância e merece alguns1 desenvolvimentos. e mesmo. O que fizeram a eletricidade e as ciências físicas para certos fenómenos.O QUE E O ESPIRITISMO 129 A. e desempenham papel muito ativo no mundo moral. Somente. antes de tudo. como a eletricidade o é sob outro ponto de vista. ou em outros globos. os homens explicavam esses efeitos de um modo mais ou menos extravagante. até certo ponto. em sua ignorância. não cogita de questões dogmáticas. sem que estes o percebam. nos quais deixaram seus invólucros materiais. O Espiritismo funda-se na existência de um mundo invisível. e deram. numa certa ordem de ideias. produziram-se em todos os tempos. essas consequências são boas ou más? Pode-se julgá-las pelos princípios gerais que acabo de expor. uma ciência. São os seres a que chamamos Espíritos. K. no físico. Façamos primeiro um termo de comparação: a eletricidade. Algumas pessoas se iludem sobre o verdadeiro caráter do Espiritismo. é ele uma potência. livre curso à sua imaginação. . espargindo a luz por sobre mais de um mistério da Natureza. uma grande influência. Os fenómenos. estando na Natureza. seres que nos cercam e incessantemente exercem sobre os homens. os homens os atribuíam a causas mais ou menos racionais. em a Natureza e podemos dizer que. de que o mundo invisível é a fonte. A descoberta da eletricidade e de suas propriedades veio lançar por terra um punhado de teorias absurdas.

mas não temos fórmula sacramental: para os Espíritos o pensamento é tudo e a forma é nada. e. qualquer que (*) Ver "Reformador" de 1949. que eles não virão sem que Deus o permita. pág. protestantes de todas as seitas. Suas consequências morais são todas no sentido do Cristianismo. que por esse fato não renunciaram às suas convicções: católicos fervorosos que não deixam de praticar todos os deveres do seu culto. os cristãos são os mais aptos para compreendê-lo em sua verdadeira essência. porque cremos em Deus e sabemos que nada se faz neste mundo sem sua permissão. Podemos exprobrá-lo por isso? Cada um pode formar de suas opiniões uma religião e interpretar à vontade as religiões conhecidas. porque sabemos o respeito que se deve àqueles que não vivem mais sobre a Terra. mas daí a constituir nova Igreja. em segundo lugar.130 ALLAN KARDEC Mais bem observado depois que se vulgarizou. porque de todas as doutrinas é esta a mais esclarecida e pura. de todas as seitas religiosas do mundo. porque essa é uma condição necessária para as observações. 217. K. o Espiritismo vem derramar luz sobre grande número de questões. até hoje insolúveis ou mal compreendidas. não são feitas segundo uma fórmula religiosa? A. Nós os chamamos em nome de Deus. e. o sentimento religioso domina nas evocações e em nossas reuniões. Seu verdadeiro caráter é. . Padre. quando a Igreja os não repele. a distância é grande. entretanto. procedemos em nossos trabalhos com calma e recolhimento. — As evocações. — Nota da Editofa. e a prova disso é que ele conta entre os seus aderentes homens de todas as crenças. em princípios independentes das questões dogmáticas. muçulmanos e mesmo budistas e bramanistas. o de uma ciência e não de uma religião (*). portanto. Ele repousa. — Realmente. israelitas. por conseguinte. razão pela qual. pois.

que um Espírito esclarecido. dirigindo-se a um muçulmano. feliz ou infeliz. Os primeiros são os de que falamos há pouco. Quanto aos segundos. desejamos que estes últimos não venham tomar parte fraudulentamente nas comunicações que recebemos. se eu lhes pedir para aconselharem-me se devo ser católico. fosse mesmo Fenelon. não se preocupam com essas questões de minúcia. porque. não quer senão o bem. podem ter preferências. animar certas práticas. comuns a todas. por exemplo. seja porque conservaram as ideias da vida terrena. para não assustar as consciências timoratas. maometano ou mórmon. e os princípios particulares de cada uma delas. podem preconizar esta ou aquela forma. seja por convicção pessoal. opiniões.' porque seria repelido. os Espíritos vulgares. a melhor de todas as religiões é aquela que só ensina o que . se a isso não são solicitados por alguma consideração especial. fazemos um apelo aos bons Espíritos. eles se limitam a dizer: Deus é bom e justo. irá inabilmente dizer-lhe que Maomet é um impostor. K. e que ele será condenado se não se fizer cristão? Não o fará. — Há dois pontos a considerar nas religiões: os princípios gerais. estes são proclamados por todos os Espíritos. Em geral. sem ser maus. qual será a resposta deles? A. judeu. qualquer que seja a sua classe. seja por prudência. — Pois bem! Que dizem os Espíritos superiores a respeito da religião? Os bons nos devem aconselhar e guiar. os Espíritos superiores. Acreditais. anglicano. Suponhamos que eu não tenha religião alguma e queira escolher uma. no mundo espiritual. quáquer. Padre. conhecendo que há bons e maus.O QUE í! O ESPIRITISMO 131 seja sua condição. Que prova tudo isto? Que não somos ateus. protestante. o que não quer dizer que sejamos professos de religião reformada.

segundo a opinião dos ditos Espíritos. porque uma boa religião não pode servir de pretexto a nenhum mal. aquela. finalmente. Vede. — Certamente que não. pratique atos inumanos ou contrários à caridade? Não haverá sempre mais culpa naquele que mais meios tinha de esclarecimento? . nem diretamente. por que então não praticam segundo a lei de Deus. que nada prescreve de contrário às leis imutáveis da Natureza. ser prejudicial à -salvação daqueles que. se ela antes os incitar a isso. supondo mesmo que esses princípios sejam erróneos. K. aquela que procura melhor combater o egoísmo e lisonjear menos o orgulho e a vaidade dos homens. ela não lhe deve deixar porta alguma aberta. se lhes fornecer ocasião de fazer o mal. Padre. que não autoriza a injustiça sob qualquer forma ou pretexto que seja. errando ou acertando. poderá tal crença. que torna os homens bons e virtuosos e lhes ensina a amarem-se todos como irmãos. riem por interpretação. se ela os tornar duros e egoístas. que dá de Deus a maior e a mais sublime ideia e não O rebaixa emprestando-Lhe as fraquezas e as paixões da humanidade. em nome da qual se comete menos mal. julgai e escolhei. Quem poderá sustentar o contrário? Acreditais. por exemplo. ao passo que a mais bem fundada crença os prejudicará evidentemente. — Creio que certos pontos da doutrina católica são contestados pelos Espíritos que considerais superiores. crendo perfeitamente em Deus. que a fé possa ser proveitosa a um homem que.132 ALLAN KARDEC é conforme à bondade e justiça de Deus. a consideram artigo de fé e a praticam? A. caridade e moralidade. porque Deus não se pode contradizer. se ela os não desviar da prática do bem. e Deus olha mais os pensamentos que os atos. aquela cujos ministros dão o melhor exemplo de bondade. que condena todo mal feito ao próximo. de faltar à caridade com o próximo.

— Assim. e que só o futuro julgará. a aparição do homem na Terra. será atacá-la? Ela não tem inimigos piores que aqueles que defendem esses abusos. há muitos que desempenham sua missão com devotamento inteiramente cristão. o purgatório e o fogo do inferno. tais como. transformando-a em arena de paixões humanas e explorando-a em proveito de sua ambição. nega a eternidade das penas. A. qualquer que seja a natureza deles e quaisquer que sejam os indivíduos ou as classes que deles se aproveitem. e. . se for hipócrita. deveria a responsabilidade cair sobre os que dão dela falsa ideia. abusos que fazem nascer o pensamento de poder ser ela substituída por outra melhor. por exemplo. não é censurado pelos Espíritos? A. se ele o faz com sinceridade. mesmo entre os teólogos. se só tiver piedade aparente. mil vezes sim. a existência dos demónios. são pontos sobre alguns dos quais ha controvérsia. que escrupulosamente cumpre com os deveres do seu culto. a reencarnação. bela e respeitável. o católico fervoroso. não se pode negar que a religião nem sempre esteve isenta de abusos. não foi o Espiritismo quem os pôs em litígio. Os Espíritos superiores. se. ele admite certos pontos combatidos pela Igreja. se isso é para ele uma questão de consciência. entretanto. que a fazem grande. assinalar os abusos da religião.O QUE É O ESPIRITISMO 133 Paãíre. mas. Podre. K. Se a religião corresse qualquer perigo. os encarregados do progresso da Humanidade. K. convireis que nem todos assim sempre compreenderam a santidade do seu ministério. declararam-se contra todos os abusos que podem retardar esse progresso. — Dissestes que o Espiritismo não discute os dogmas. onde quer que ele se ache. entre os seus ministros. antes de Adão. Os Espíritos combatem o mal. — Já de há muito que esses pontos estão sendo discutidos. — Não. Ora. sim.

tem consequências morais. que é a lei superior. Se tivésseis lido tudo quanto tenho escrito a respeito. ele as abandona à consciência de cada um. pois. se tal crença vos puder tornar bom. apesar disso. estais convencido de haver Josué feito parar o Sol. repito. quanto às questões secundárias. como já tem demonstrado tantas outras coisas ? Crede. outra parte. apesar de o não quererdes. se assim tiver de ser. porém. que alguns dos pontos divergentes de que acabastes de falar. contestados pelo Espiritismo. O Espiritismo. em tudo que vos aprouver. porém. . não as tornará mais reais se elas não existirem. não priva que os fatos vos contradigam. E que direis se um dia a Geologia demonstrar. o que não dá lugar a que deixe de ser a Terra que gira. em princípio. se julgais que isso impede que pratiqueis o mal. dizeis que a data da vinda do homem à Terra não vai além de 6. crede. Enquanto a luz não se faz para vós sobre essas questões. nas chamas e torturas materiais. a condição sine cpua nem do nosso futuro. mesmo na existência do diabo. que são a confirmação e a prova dos grandes princípios da religião. se o quiserdes. credes que o mundo todo foi criado em seis vezes vinte e quatro horas. mas. mas isto não impede de renascerdes aqui ou em. Notai bem. a anterioridade do homem. como no-lo prova o estado dos Espíritos que conosco se comunicam. essa crença. por traços patentes. Acreditais que não temos mais de uma existência corporal. teríeis visto que ele se limita a dar-lhes uma interpretação mais lógica e racional do que a que vulgarmente se lhes dá. humano e caridoso para com os vossos semelhantes. reverendo. só impõe uma coisa: a necessidade de fazer o bem e evitar o mal. É uma ciência de observação que. escrita em suas camadas geológicas. a Terra nos apresenta a prova do contrário.134 ALLAN KARDEC Um grande princípio domina a todos: a prática do bem. como doutrina moral. não são.000 anos: isto.

enquanto o culpado persiste no mal. Quem imaginou essa teoria? Seríamos nós? . que ele não nega o purgatório. O Espírito é assim o árbitro de sua própria sorte. ela diz muito bem que isto é uma simples figura. sua alma se abra ao arrependimento. em uma palavra. demais. Uma condição inerente à inferioridade do Espírito é não ver o termo da sua situação e crer que há de sofrer sempre — o que é para ele um castigo. Deus lhe faz entrever um raio de esperança. Essa eternidade de penas deve ser entendida no sentido relativo e não no absoluto. uma volta sincera ao bem. não. porque a ideia de uma eternidade de suplícios é a negação da infinita misericórdia de Deus. O que Deus exige. Desde que. Nenhuma condenação por tempo determinado é pronunciada contra ele. por exemplo. por certo. demonstra sua necessidade e justiça. um melhoramento sério e efetivo. vai mesmo além: ele o define. é o arrependimento. sofreria sempre. porém. pelo contrário. se fosse possível pôr-se a votos tal questão. e para ele então a pena seria eterna. mesmo entre os mais religiosos se veria para que lado penderia a maioria. Quanto à eternidade das penas. Sendo a duração da pena subordinada ao arrependimento. seus esforços para fazer o bem os minoram ou abreviam.O QUE É O ESPIRITISMO 135 É assim. Esta doutrina é. para se conhecer a opinião íntima de todos os homens que raciocinam e se acham no caso de compreendê-la. O inferno foi descrito como imensa fornalha. antes. símbolo das maiores dores. que pune. que o fogo que ali se consome é um fogo moral. para pôr um termo aos sofrimentos. sua pertinácia no mal prolonga-lhe os sofrimentos. o Espírito culpado. mais conforme à justiça de Deus. o que avança a Doutrina Espírita a tal respeito: A duração do castigo é subordinada ao melhoramento do Espírito culpado. mas ele será assim também compreendido pela alta teologia? Evidentemente. a expiação e a reparação. Eis. que não se arrependesse e nunca se melhorasse. e concede-lhe graça desde que ele volte ao bom caminho.

136 ALLAN KARDEC Não. crescendo. A religião ganhará sempre em seguir o progresso das ideias. dizem eles: se me ensinaram como verdade incontestável um ponto que é falso. Padre. pelo contrário. aos quais não fazia mossa o medo do inferno. — A Igreja. se alguma vez ela corre perigo. rejeitam o todo. a razão. são os Espíritos que a ensinam e provam. sem eles. quem me afiança que o resto seja verdadeiro? Se. afastado mais de um homem da religião. pelo menos. Comete um erro de época quem espera conduzir os homens de hoje pelo medo do demónio e das torturas eternas. — Ê isso um erro que tem lançado mais de um homem no materialismo. porque tudo nele ê perfeitamente lógico. pois. não aceitando uma parte. Eis por que as crenças espíritas têm conduzido ao bem muita gente. as penas futuras. mas isso não exclui a existência dos demónios. antes que de uma filosofia que ele não pode compreender? A. e este quadro nos toca mais que o das chamas perpétuas. reconhece hoje que o inferno material é uma figura. é quando os homens querem avançar e ela deseja ficar estacionária. não julgais que o vulgo precisa de imagens mais impressionantes. Compreende-se que isto é possível. que assim deve ser. ou. Chega o momento em que essas imagens não impressionam mais. — Admitindo esse raciocínio. pois que são eles mesmos que nos vêm descrever seus próprios sofrimentos. a fé se fortifica. pelos exemplos que diariamente nos fornecem. o pensador filósofo pode aceitá-lo. uma figura. Os Espíritos não negam. Pax&re. como explicar a influência do mal. porque. como lhes era pintado. que não pode vir de Deus? . K. porque nele nada repugna à razão. com efeito. nada tem a repelir. pela realidade. que essa situação é uma consequência natural das coisas. mesmo entre os materialistas. se me deram uma imagem. e então aqueles que não aprofundam as coisas.

admitir a comunicação dos maus Espíritos é reconhecer. os maus Espíritos. significa génio. Aqui. Nisso concorda o Espiritismo com a Igreja Católica Grega. por que. quaisquer que eles sejam. o Evangelho. espécie de párias da criação e algozes do género humano. a realidade das manifestações. pois. Seguramente. de se comunicar com os Espíritos. a Igreja. como afirma a Igreja para motivar a proibição. grega. ainda imperfeitos. se comunicam. havemos hoje de excluí-los? Além disso. em princípio. inteligência. hoje ela exprime um Espírito mau. não pode ser senão com a permissão de Deus. A questão está em saber se são eles os únicos que se comunicam. Se os Espíritos. admitindo a autenticidade de certas aparições e comunicações de santos. — O Espiritismo não admite os demónios no sentido vulgar da palavra.O QUE fi O ESPIRITISMO 137 A. quando nos trabalhos obtidos só . Ora. Seja como for. criados para o mal e perpetuamente votados a isto. alusão ao melhoramento dos maus Espíritos. sim. porém. os Padres da Igreja reconhecem perfeitamente a possibilidade das comunicações com o mundo invisível. Notai também que a palavra detmâmo não implica a ideia de mau Espírito. feita por ela. K. suscitando maus pensamentos. rejeita assim a ideia de só podermos entrar em relação com os maus Espíritos. porque a palavra dan/môn. somente ele diz não serem eles seres à parte. e desse mundo não estão excluídos os bons. é possível que Ele só o tivesse permitido aos maus? Como?! deixando a estes toda a liberdade de virem enganar os homens. e fazer de Satã um rival da Divindade? A Bíblia. são seres atrasados. que lhe é dada pela acepção moderna. Deus poderia impedir que os bons lhes viessem fazer um contrapeso. neutralizar suas doutrinas perniciosas? Crer que seja assim. mas aos quais Deus reservará o futuro. que não valem mais do que aqueles e que fazem igualmente o mal. que admite a conversão de Satã. não seria pôr em dúvida seu poder e bondade. nós invocamos o raciocínio e os fatos.

A. animá-los a renunciar ao mal. são dele. sagaz e ardiloso. não somente do medo. Os que não admitem Deus nem a alma. será racional crer-se que o Espírito maligno assim proceda? Padre. mas. para tal fim. a submeter-se à vontade do Criador. que desprezam a prece e vivem mergulhados no vício. a Igreja. a abnegação. é a personificação do Mal. isto é. A Igreja apega-se à letra dessa figura alegórica. excitá-los a voltar a Deus. em anjo de luz. por um instante. quando nos pregam neles a mais pura e sublime moral evangélica. mas também da crença em tal personagem. — Satã. que ele hipocritamente simule a virtude. fá-lo desempenhar o papel de louco ou de tolo. à destruição. mostrando-lhes a felicidade dos ésco- . se veja obrigado a transformar-se. não é um ser real. ora. que deixe escapar aqueles que já estavam em suas redes. à força de exagerar seu poder. e. nada mais lhe resta fazer para sepultá-los no lamaçal. Ela o representa como eminentemente fino. quando neles se combate o mal. segundo o Espiritismo e a opinião de muitos filósofos cristãos. nada prova. Uma vez que seu fim é alimentar de vítimas o inferno e arrebatar almas do poder de Deus. ou Satã. compreende-se que se dirija àqueles que estão no bem para induzi-los ao mal. segundo o provérbio: Quem muito quer provar. que Satã seja um ser real. chega a um resultado totalmente contrário. como Saturno era outrora a do Tempo. tendo em vista intimidar. é o que não se pode compreender. Admitamos. mas. é uma questão de opinião que eu não discutirei. segundo belíssima alegoria. — O Evangelho ensina que o anjo das trevas. na questão do Espiritismo. se transforma em anjo de luz para seduzir os homens.138 ALLAN KARDEC encontramos coisas boas. isto é. K. o desinteresse e o amor ao próximo. qualquer que seja o aspecto sobre que se mostre. quanto é possível ser-se. a orar.

como sendo formalmente condenadas pelo Evangelho e por Moisés. Há. se ela for mais judia que cristã. por certo. prova quanto elas são repreensíveis aos olhos de Deus. pois. Devemos mesmo notar que. contra cujas evocações ela não invocou a lei de Moisés. se deva interdizer-nos qualquer relação com o mundo invisível. Não se evocava então os mortos pelo respeito e afeição tributados a eles. A. mas essa proibição não se encontra em parte alguma do Evangelho. por este motivo. —• Se a Igreja proíbe as comunicações com os Espíritos dos mortos. de todas as religiões. ao bem os que praticavam o mal. dão força e coragem aos fracos. que. é porque elas são contrárias à religião. em que se apoiam as seitas cristãs. na doutrina da comunicação exclusiva dos demónios uma contradição que fere todo homem sensato. pela sublimidade de seus ensinos. e de entre os quais o de que tratamos era objeto de abusos. sejam auxiliares de Satã. que consolam os aflitos. seria ato de um simplório. ela se acha somente na lei moisaica. Este último.O QUE fi O ESPIRITISMO 139 Ihidos e a triste sorte que aguarda os maus. K. é a judaica a que faz menos oposição ao Espiritismo. — Peco-vos perdão. porque o legislador hebreu queria que o seu povo rompesse com todos os hábitos trazidos do Egito. por que proíbem a leitura da Bíblia? Que diriam se se proibisse a um cidadão o estudo do código das leis do seu país? A proibição feita por Moisés tinha então a sua razão de ser. com o pensamento de apanhá-las de novo. Trata-se de saber se a Igreja coloca a lei moisaica acima da evangélica. Padre. pronunciando a pena de morte contra essas práticas. nem com o sentimento de pie- . e que. mais estúpido que o de dar liberdade a aves que estejam numa gaiola. assim será. elevam a alma acima da vida material. nunca se persuadirá alguém que os Espíritos que reconduzem a Deus aqueles que o renegavam. Se as prescrições bíblicas são o código da fé cristã.

como meio de adivinhar. 2. poderá também impedir que eles venham sem ser chamados? Não estamos vendo diariamente manifestações de todos os géneros. mas. é que eram precisos meios rigorosos para conter esse povo indisciplinado. Se. Se a interdição da evocação aos mortos vem do próprio Deus. como objeto de tráfico vergonhoso. e repelem-na no que não julgam conveniente? Qual o motivo de não seguirem todas as suas prescrições. podiam eles entrar em relação com os homens. entre outras a da circuncisão. como a Igreja pretende. . é uma prova de que eles podem vir. do contrário essa interdição seria inútil. era pródiga a sua legislação. Moisés teve razão de proibi-lo. também quanto à pena de morte. Esta pena passa a ter uma origem tão sagrada como a interdição. e que o Cristo aboliu. se a Igreja proíbe a evocação dos Espíritos. Além disso. resumida nas tábuas do Sinai. explorado pelo charlatanismo e pela superstição. lei que foi conservada porque é divina. e o Cristo não fez mais que desenvolvê-la. a que Jesus se sujeitou e que não aboliu? Havia na lei moisaica duas partes: 1. por que deixa de sê-lo sobre os outros todos? Por que recorrem a ela naquilo de que precisam. a lei de Deus. se crêem que Deus seja o autor delas. um erro apoiar-se na severidade do castigo para provar-se o grau de culpabilidade da evocação dos mortos. neste caso. Hoje as circunstâncias são outras.'. por que não a conservam também? Todas as leis de Moisés são promulgadas em nome e por ordem de Deus. pois. nessas condições. sim. em seu tempo. É. a lei civil ou disciplinar. entre pessoas que nunca se ocuparam com o Espiritismo? e antes de ele ser divulgado não se davam tantas delas? Outra contradição: Se Moisés proibiu evocar os Espíritos dos mortos.140 ALLAN KARDEC dade.". apropriada aos costumes do tempo. e a proibição de Moisés já não tem razão de ser. Se ele pronunciou contra esse abuso uma penalidade severa. deve também ser Deus quem marcou a pena de morte contra os delinquentes. por que não as observam ainda? Se a lei de Moisés é para a Igreja um artigo de fé sobre um ponto.

Galileu foi acusado de heresia e de ser inspirado pelo demónio. — Deixemos a questão dos demónios. distinguir os bons dos maus. pois reconhece que os santos também se têm manifestado. revelar-nos novas leis da Natureza. teriam sido todos bem-vindos e não os qualificariam de demónios. K. porém. A questão está em saber se um artigo de fé pode anular uma lei natural. — Eis a magna questão. não são exclusivamente demónios. os muçulmanos como os católicos. é porque. porém. Ora. ela. olham como obra do demónio qualquer doutrina que não é inteiramente ortodoxa. provando o erro de uma crença julgada inatacável. estão em contradição com essas leis. se são Espíritos de mortos. não derribar a religião. do seu ponto de vista. do que atribuí-la ao demónio. e. e se. Antes de tudo.O QUE S O ESPIRITISMO 141 ainda hoje o podem. os Espíritos vêm. bem sei que ela é diversamente interpretada pelos teólogos. crendo-se na posse exclusiva da verdade absoluta. como na velha crença de girar o Sol ao redor da Terra. de modo diverso do que ela ensina. Se alguns pontos de fé sofrem com isto. Padre. A. como Galileu. e. só ela pode julgar o que eles pregam e. foi condenado e excomungado. Os Espíritos ensinam. sendo essa lei reconhecida. que é obra de Deus. portanto. porque vinha revelar uma lei da Natureza. Se os Espíritos tivessem. não considera bons aqueles que vêm contradizer seus princípios imutáveis. Padre. . não será mais racional adaptar a interpretação do dogma a ela. sobre todos os pontos. Tal é também a razão por que todas as religiões. — A Igreja não nega que bons Espíritos possam comunicar-se. que há penas e recompensas futuras. se eles não proclamassem a liberdade de consciência e não condenassem certos abusos. devemos ser lógicos. abundado no sentido exclusivo da Igreja. é verdade. então. mas.

e 1. IV e V ) .010. mas como punição temporária. voltava à humanidade. os dos animais aquáticos.. n. o lobo vos comerá". antes que um artigo de fé para os filósofos. o que implica uma degradação.) Era uma espécie de espantalho para os simples.142 ALLAN KARDEC porém o sistema da reencarnação parece-me mais difícil de conciliar com os dogmas. por Pezzani. saindo dessa espécie de prisão. em não admitir aquele a encarnação da alma humana nos corpos de animais. aliava-se à encarnação humana.° 166 e seg. os porcos e javalis. ela. (Vede Pluralidade dos existências lote alma. essa doutrina não era o que vulgarmente se crê. 222 e seg. as dos impudicos. as dos preguiçosos e ignorantes. — Não é esta a ocasião própria de discutir uma questão que exige tão longos desenvolvimentos: vós a encontrareis tratada em Ô Livro dos Espíritos e no Evangelho seffwndo o Espiritismo (vede Õ IÂVTO dos Espíritos. segundo o Espiritismo. A transmigração pelos corpos dos animais não era considerada como condição inerente à natureza da alma humana. mesmo como castigo. mas progride sempre. Depois de alguns milhares de anos. os antigos diziam aos criminosos: "Vós vos tornareis em lobos". como se vê. K. Assim como dizemos às crianças: "Se fordes más. uma condição absoluta. não acrescentarei senão duas palavras. e a prova é que a punição dos homens tímidos consistia em passar a corpos de mulheres. mais ou menos. A metempsicose dos antigos consistia na transmigração da alma do homem nos animais. A. Suas dife- . pois. expostas ao desprezo e às injúrias. pois que ele não é mais que a renovação da metempsicose de Pitágoras. a alma. para neles receberem castigos. e hoje se diz: "O diabo vos agarrará e levará para o inferno. caps. Os Espíritos ensinam que a alma não retrograda. Demais. as dos inconstantes e estouvados. difere essencialmente da metempsicose." A pluralidade das existências. é assim que se admitia que as almas dos assassinos iam habitar os corpos dos animais ferozes. O Evangelho. os das aves. A encarnação animal não era. conforme a culpabilidade.

é uma lei da Natureza. em razão de sua extrema lógica e conformidade com a justiça de Deus. ou não. como ainda hoje o são. o que é coisa muito diversa da metempsicose. sendo cada uma um passo que a alma dá na senda do progresso intelectual e moral. pois. não aos dogmas. de destruir. que fará a Igreja? Em resumo: a reencarnação não é um sistema imaginado para satisfação das necessidades de um ideal. é o que pela força das coisas será feito mais tarde. em nova encarnação. Aqueles que não queiram aceitar a interpretação ficam perfeitamente livres. mas a essas leis. seria necessário demonstrar que vai de encontro. Para provar que ela não existe. . logo. Se está demonstrado que certos efeitos existentes são materialmente impossíveis sem a reencarnação. de crer que é o Sol que gira ao redor da Terra. Não se trata. Não podendo adquirir um desenvolvimento completo em uma só existência. Além disso. muitas vezes abreviada por causas acidentais. explicando as questões que só ela pode resolver. hoje aceitos por aqueles que os repeliam outrora. ou recomeçar o que fez errado. e que há outra mais clara e logicamente melhor que ela.O QUE É O ESPIRITISMO 143 rentes existências corpóreas se cumprem na humanidade. mas de interpretar. nem uma opinião pessoal. é fácil demonstrar que certos dogmas encontram nela sanção racional. não pode ser anulada por uma opinião contrária. por falta de compreensão. o que ela não pôde acabar em outra. se está em a Natureza. A expiação na vida corporal consiste nas tribulações que nela sofremos. Quanto à questão de saber se a pluralidade das existências da alma é ou não contrária a certos dogmas da Igreja. se existe. é preciso admitirmos que eles soa « consequência desta. A ideia da pluralidade das existências se vulgariza com pasmosa rapidez. é ou não um fato. Deus lhe permite continuar. limito-me a dizer o seguinte: Ou a reencarnação existe. Quando ela for reconhecida como verdade natural e aceita por todos.

K. o Espiritismo não podia dizer outra coisa. não faz a sorte futura do homem subordinar-se a condições alheias à vontade deste. alguns desses princípios que mudam a face do mundo. — Se esta crença fosse indispensável à salvação dos homens. bem como daqueles que. seus partidários formam muitas seitas. não tiveram possibilidade de possuí-la. em não sair do vosso ponto de vista e em considerar sempre a Igreja como o único critério dos conhecimentos humanos. os Espíritos que nos instruem não são assim tão pouco lógicos. — Segundo os Espíritos. . visto como antes que este viesse e hoje. como o Cristo: Fora. quem não crê neles nem nas suas manifestações. Não seria o mesmo se os Espíritos viessem ensinar algumas grandes verdades novas. deve ser menos aquinhoado na vida futura? A.144 ALLAN KARDEC Padre. durante ainda muito tempo. eles não nos pregam que fora do Espiritismo não possa haver salvação. podíamos e podemos alcançar a salvação. Ao menos o Cristo era só. Não seria melhor deixarmos os Espíritos tranquilos e contentarmo-nos com o que já temos? A. Padre. K. eles nos dizem: Deus é soberanamente justo e bom. da camdaãe não há salvação. e em vez de por isso apedrejá-lo. — Permiti-me. morrerão sem tê-la? Poderá Deus cerrar-lhes as portas do futuro ? Não. ao passo que os Espíritos se contam por milhares e se contradizem. que seria daqueles que. desde que os Espíritos só ensinam os princípios de moral encontrados no Evangelho. dizer-vos que. não vejo qual possa ser a utilidade do Espiritismo. uns dizendo que é branco o que outros afirmam ser negro. já desde o começo. Se o Cristo disse a verdade. do que resulta que. sem ser por ele. meu amigo. como fez o Cristo. então. desde o começo do mundo. mas sim. sua doutrina era única. — Errais.

explica-se facilmente. qual delas? a romana. apartado do caminho traçado pelo Cristo? Seus preceitos de moral serão escrupulosamente observados? Não se lhe têm desnaturado as palavras. mas vós não podeis compreendê-las. a fim de que possam servir de apoio à ambição e às paixões humanas. quando elas lealmente condenam isso? Ora. será por isso que o qualificam de obra satânica? . cada uma explicaria a seu modo e reivindicaria o privilégio de dar essa explicação. Qual delas conseguiria arrebanhar todos os dissidentes? Deus. que a proclamaram por todos os pontos do globo. a fim de que ela possa aplicar-se a todos. prevendo que os homens iriam nela enxertar suas paixões e prejuízos. que à Igreja competia dar essa explicação. não lhes quis confiar o cuidado desta nova revelação: deu-a aos Espíritos. completar e explicar o que o Cristo propositadamente não fez senão tocar. fora dos limites particulares de qualquer culto. pela voz dos Espíritos enviados de Deus. que vem confirmar. Que o materialismo o combata. combatidas pela incredulidade. à estrita observância de seus preceitos. a grega ou a protestante? Como não estão elas de acordo. O Cristo teria dito. os diversos cultos cristãos não se terão. seus mensageiros. as verdades fundamentais da religião. Por outro lado. em coisa alguma. Igualmente inconsequente é ela quando qualifica de demoníaco um ensino que se apoia sobre a mesma autoridade e que proclama a missão divina do fundador do Cristianismo. aqueles que dela se arredam. Direis. mas que a Igreja se ligue ao materialismo contra ele. o Espiritismo. é por isso que eu vos falo em parábolas." O Espiritismo vem hoje. por todas as vozes de Além-Túmulo. Mas. vem chamar. visto que ele próprio disse: "Eu teria ainda muitas coisas a dizer-vos.O QUE É O ESPIRITISMO 145 deve-se acolhê-lo como poderoso auxiliar. ou não disse senão sob a forma alegórica. é um fato menos concebível. e nenhum a transforme em objeto de exploração. teria revelado tudo? Não. época em que o homem está maduro para compreendê-lo. sem dúvida. que é sábio.

Não fizesse ele mais que substituir a máxima: Fora cía caridade não há salvação. não são seitas. Ê um erro: ele ensina. essas teorias. Não é de admirar que no começo de uma ciência. a palavra seita. quando ainda as observações eram incompletas para muitos. Seja. Riscai. em física. porém. A quantas seitas não tem o Cristianismo dado nascimento. desde a sua origem ? Por que não teve bastante poder a palavra do Cristo para impor silêncio a todas as controvérsias? Por que é ela suscetível de interpretações que ainda hoje dividem os cristãos em diferentes igrejas. como também se podia passar sem muitas das descobertas científicas. àquela: Fora da Igreja não há salvação. Dissestes que se podia passar sem ele. para que a sua vida marcasse uma nova era à Humanidade. transforme a Humanidade como por encanto? Vamos à questão da utilidade. direis vós. tenham surgido teorias contraditórias. antes que se tivesse calculado os eclipses. que os divide. etc. como quereis que o Espiritismo triunfe subitamente dessa fraqueza. Dizeis que o Espiritismo nada revela de novo. muito àqueles que não se limitam a um estudo superficial. porém. então. como não o são os diferentes sistemas que dividem os sábios nas ciências exatas: em medicina. antes da descoberta de todos os novos planetas. antes que se conhecesse' o . que não pregou senão o amor e a caridade? Fraqueza dos homens. ao contrário. concordo. repousam sobre pontos de minúcias e não sobre o princípio fundamental. detestando-se intimamente e anatematizando-se em nome do seu divino Mestre. pois.146 ALLAN KAKDEC Vós vos iludis dando o nome de seitas a algumas divergências de opiniões relativas aos fenómenos espíritas. que reúne os homens. que é imprópria ao nosso caso. Os homens certamente viviam bem. pretendendo todas elas possuir exclusivamente a verdade necessária à salvação. Podem constituir escolas que expliquem certos fatos a seu modo.

o mundo dos Espíritos é uma dessas leis que o Espiritismo nos faz conhecer. sem ser uma religião. o Espiritismo é a negação do materialismo. mostram a necessidade do bem e as consequências inevitáveis do mal. Suponhamos que a isso se limitasse a sua utilidade. Ora. mas para aqueles que a vêem segundo a grandeza e a majestade de Deus. Em uma palavra. sob este ponto de vista. e. a sua influência moral. o quadro vivo daqueles que nos precederam nela. agora. entretanto. na letra mais que no espírito. Não é mais pelo raciocínio. facilita-a firmando-nos no caminho do bem. desenvolve-as naqueles que não as possuem. que já não tem razão de ser. pois. Admitamos que ele nada ensine. não para as pessoas de vistas estreitas. Além disso. um apoio nele. o Espiritismo se prende essencialmente às ideias religiosas. Eis por que. Não será isso um pequeno serviço prestado à humanidade e à religião ? Porém não é ainda tudo: a certeza da vida futura. não tem necessidade de saber o que é um cometa. já não seria muito a revelação de tal potência? Vejamos. é pelos fatos que se lhe mostram visíveis e palpáveis. ele nos ensina a influência que esse mundo exerce sobre o corpóreo. para viver e fazer germinar o trigo. ninguém nega que todas essas coisas alargam o círculo das ideias e nos fazem compreender melhor as leis da Natureza. fortifica-as nos que as têm incertas. pela fé cega que se diz ao materialista que nem tudo se acaba com o corpo. ora. a ambição. que a vêem integralmente na doutrina do fogo eterno.O QUE É O ESPIRITISMO 147 mundo microscópico e cem outras coisas. porque o materialista não crê em coisa alguma. combate os abusos engendrados pelo egoísmo. o Espiritismo engrandece e eleva as ideias. A religião encontra. que homem sensato ousará avançar . mas quem terá a coragem de defendê-los e se declararem seus campeões? Se ele não é indispensável à salvação. qual o maior inimigo da religião? O materialismo. o camponês. a cobiça.

do que aquele que crê em tudo. caso ela se verificasse. mas faz o bem que pode. crente das verdades gerais. não admite certas partes do dogma? 2. no rigor da palavra. eu não vos teria ido procurar. que o ateísmo ou o materialismo? Apresento claramente as questões seguintes. aos olhos de Deus." Quem terá melhor quinhão na vida futura — aquele que não crê em coisa alguma." O que não é ortodoxo. tendo crenças que os satisfazem. Se não tivésseis vindo. julgamo-nos sempre felizes pelas aquisições que fazemos. limitando-me tão-somente a fazer-vos encarar o Espiritismo sob seu verdadeiro aspecto. como vo-lo disse no começo. não venham espontaneamente ao nosso encontro. a quantos combatem o Espiritismo. deve contar menos com a salvação. mas é duro. senhor abade. que é bom e indulgente para com o próximo. ou a destes últimos sem a da moral? Respondi. ." Qual terá mais valor aos olhos de Deus: a prática das virtudes cristãs sem a dos deveres da ortodoxia. mas.* O protestante e o cismático serão confundidos na mesma reprovação que o ateu e o materialista? 3. sem intenção alguma preconcebida de conduzir-vos às nossas ideias e de mudar as vossas convicções. as quais têm para nós tanto maior valor quanto mais livres e voluntárias são. Não quer isto dizer que desprezássemos a vossa adesão aos nossos princípios. como também sentiríamos escrúpulo em ir perturbar a consciência dos que. longe disso. ou aquele que. sob o ponto de vista de suas consequências religiosas: 1. egoísta e baldo de caridade? 4. leal em suas relações sociais. Não só não temos o direito de exercer constrangimento sobre quem quer que seja. às questões e objeções que me dirigistes.148 ALLAN KARDEC que a falta de ortodoxia é mais repreensível.

pois. As nossas piblicações são feitas n *° intuito de favorecer esse estuí. A ignorância dos aíncípios fundamentais e a causa das falsas apreciações Ia maioria daqueles qu . para a parte experimental. e soão facilmente compreet^1' didos. 'Q Céu e o Inferno o Espiritismo. destinado a servia de guia aos que desejarem opersr por si mesmos. com aos que quiserem bem. os virão depois. compreeder os fenómenos. como: O Evan.--gelho segundo o Espiritisimo. A primeira leitura a fazew é a deste resumo. O Li/vro doMédiMns. ler O Lvoro das Espíritos. etc. depois as diversas obras onde sia desenvolvidas as apli " cações e as consequências da doutrina.' e querem julgar o que não comprendem. no todo. existe algo de Nesta rápida exposição esforçaní-nos por indicar os pon J-~ tos sobre que particularmente se deve fixar a atenção d<"-° observador. onde ss princípios da estão completamente desenvolvia^. qualquer 'que seja a oièa em que as circunstâr^1" cias os façam vir. já se pode fazer dela uma ideia ficar-se convencido de que. Se desta leitura nascer o desejo de continuar. apresenta o conjunto e os pontos mais salientes da cia. com isso. . depois. naturalmente. eis aqui a ordem qu ae aconselhamos.O QUE É O ESPIRITISMO Dissemos que o melhor meio de se esclarecerem o Espiritismo é estudarem previamente a teoria. ou que se em ideias preconcebidas.

se originam da ignorância das causas dos fenómenos e das condições em que estes se produzem. supõe que se podem produzir fenómenos espíritas. O estudo prévio tem como resultado evitar-se essas objeções que. Quem não admite no homem a existência da alma ou Espírito. como se faz uma experiência de física ou de química. para cada um. porque seria preciso fazer-se. Os contraditores se apresentam. como princípio. na maioria. também não a aceita fora dele. 2. Quem não conhece o Espiritismo. de modo completo. esses indi- . não conhecendo nem a sua natureza. Não admitindo. quase sempre.CAPITULO II Noções elementares de Espiritismo OBSERVAÇÕES PRELIMINARES 1. nem o seu modo de ação. com uma ideia preconcebida que os desvia de uma observação séria e imparcial. ou. Daí a pretensão de sujeitá-los à sua vontade e a recusa de se colocar nas condições necessárias para os poder observar. pelo menos. uma espécie de curso. e levantam questões e objeções a que é impossível responder-se logo. retomando as coisas desde o princípio. É um erro crer-se que basta a certos incrédulos o testemunho de fenómenos extraordinários. e portanto. a existência e a intervenção dos Espíritos. negando a causa. nega implicitamente os efeitos. para que se tornem convictos.

depois da morte. todos nós. os incrédulos saem menos convencidos do que o eram quando entraram. seremos Espíritos. lançando em rosto. concluem que não há Espíritos. só fonte. também estaríamos pouco dispostos a servir de joguete. e quem quer esclarecer-se não deve colher ensinos de uma. muitas vezes. aos que lhes falam do carater sério do Espiritismo. Colocando-se em um ponto de vista diferente. eles. sempre que queira. O Espiritismo também tem aprendizes. nisto como em tudo. e quem se disser capaz de obtê-Ios. desde que não obtêm o que pedem. ou de uma tragédia pela paródia. de que foram testemunhas. doutra forma. seja para produzir a convicção. só provará ignorância ou má-fé. e colocar-se nas condições indispensáveis. e que. 4. ter paciência e perseverança. seja para obter resultados satisfatórios. 3. deve. é quando são menos esperados que se apresentam os fatos mais interessantes e concludentes. as coisas. Aquele que seriamente deseja instruir-se. não sendo os Espíritos mais que almas dos homens. de algumas mesmo. de uma pessoa pela sua caricatura. é melhor não se preocupar com isso. nestas condições. não podemos deixar de convir. e. e. . apanhá-los em sua passagem. pelo fato de provirem de inteligências livres.152 ALLAN KARDEC víduos se comportam como se operassem sobre a matéria bruta. compreender-se-á que. muitas vezes ridículas. Nisso não são eles mais lógicos que aqueles que pretendessem julgar de uma arte pelas primeiras provas de um aprendiz. Nem sempre as reuniões que têm por objeto tratar de manifestações espíritas se acham em boas condições. porque só pelo exame e pela comparação se pode firmar um juízo. para satisfação das fantasias dos curiosos. Ainda que certos fenómenos possam ser provocados. É preciso esperá-los. não se acham absolutamente à disposição de quem quer que seja.

estão no mesmo caso. O Espiritismo sério não pode responder por aqueles que o compreendem mal. a separar o bom do mau. Sem dúvida. pelo mesmo motivo. negar os Espíritos seria negar a alma. DOS ESPÍRITOS 7. assim como não o faz a poesia por aqueles que produzem maus versos. sobretudo em seu começo? Se os que o criticam não tomassem as aparências por base do seu juízo. As reuniões frívolas têm o grave inconveniente de dar aos noviços. saberiam o que ele admite e o que rejeita. Todas as artes.O QUE Ê O ESPIRITISMO 153 5. Os que só têm frequentado reuniões dessa espécie. todas as ciências. seria preferível que só as houvesse boas. nesse sentido. ou que o praticam de modo contrário aos seus preceitos. que a elas assistem. aparecerem tratados absurdos e cheios de erros? Por que seria privilegiado. despidas do seu invólucro corporal. como supõem muitas pessoas. a existência dos Espíritos. O mesmo raciocínio se aplica aos que julgarem o Espiritismo pelo que dizem certas obras excêntricas. não podem tomar a sério uma coisa que eles vêem tratada irrefletidamente pelos próprios que se dizem adeptos. Ê deplorável. porém as almas. o maior mal. Um estudo antecipado lhes ensinará a julgar do alcance do que vêem. que dele apenas dão uma ideia incompleta e ridícula. sobre as mais sérias coisas. . e não lhe lançariam em conta o que ele repele em nome da razão e da experiência. 6. que existam tais obras prejudicando a verdadeira ciência. admite. consiste em não se darem ao trabalho de estudá-las todas. além disso. uma classe à parte na criação. Aquele que admite a sobrevivência da alma ao corpo. o Espiritismo. daqueles que viveram na Terra ou em outros mundos. Os Espíritos não são. uma ideia falsa do caráter do Espiritismo. dizem. porém. Não vemos.

a serpente da pele. Quando o invólucro exterior está usado e não pode mais funcionar. princípio inteligente em que residem o pensamento. chamado peris/pírito. Quando a alma está unida ao corpo. A morte do corpo desembaraça o Espírito do laço que o prendia à Terra e o fazia sofrer. servindo de laço e de intermediário entre o Espírito e o corpo. 10.354 ALLAN KARDEC 8. o outro fluídico. 2. A morte é apenas a destruição do envoltório corporal. 11. tendo como nós um corpo.° O perispírito. seres vagos e indefinidos. São seres nossos semelhantes. 13. 12. e uma vez libertado desse fardo. como o fruto se despoja da sua semente. como se deixa um vestido velho que já não pode servir. que a alma abandona. leve. eles não são. grosseiro e destrutível — o corpo. leve e indestrutível. ela tem duplo invólucro: um pesado. nem chamas semelhantes a fogos-fátuos. a árvore da casca. pois. ." O corpo. invólucro fluídico. invólucro material que põe o Espírito em relação com o mundo exterior. durante a vida. como alguns acreditam. a vontade e o senso moral. Há. Faz-se geralmente uma ideia muito errónea do estado dos Espíritos. mas fluídico e invisível no estado normal. nem fantasmas como os pintam nos contos das almas do outro mundo. em uma palavra. 9. tomba e o Espírito o abandona. imponderável." A alma ou Espírito. conservando porém seu corpo fluídico ou perispírito. no homem três elementos essenciais: 1. 3. não lhe resta mais que o seu corpo etéreo. é o que se designa pelo nome de morte. como o faz a borboleta com a crisálida. que lhe permite percorrer o espaço e transpor as distâncias com a rapidez do pensamento.

O QUE É O ESPIRITISMO 155 14. aos quais só falta serem visíveis para se assemelharem aos humanos. por punição. formam o mundo espiritual ou invisível que povoa o espaço e no meio do qual vivemos. antes da invenção do microscópio. indiferentemente empregadas uma pela outra. como vivemos no meio do mundo dos infinitamente pequenos. Os Espíritos revestidos de seus corpos materiais constituem a Humanidade ou mundo corporal visível. Os Espíritos não são. em dado momento. vêem e ouvem coisas que os nossos sentidos limitados nos não permitem ver nem ouvir. . 17. mas. despojados desses corpos. Para eles não há obscuridade. porém. no uso. 15. entes abstratos. de que não suspeitávamos. o Espírito um ser duplo e o homem um ser triplo. sem disso desconfiar. donde se segue que se. se acham temporariamente nas trevas. como não se pode conceber o princípio inteligente isolado da matéria. mas seres concretos e circunscritos. é a figura que consiste em tomar a parte pelo todo. porque as suas faculdades não estão amortecidas pela matéria. do perispírito e do corpo material constitui o homem. Os Espíritos possuem todas as percepções que tinham na Terra. 16. nem o perispírito sem ser animado pelo princípio inteligente. vagos e indefinidos. cercando-nos por toda parte. A união da alma. pudesse ser levantado o véu que no-los esconde. portanto. do mesmo modo por que se diz que uma cidade é povoada de tantas almas. e o termo Espírito para o ser semimaterial formado desse princípio e do corpo fluídico. excetuando-se aqueles que. é essencial fazer-se a diferença. OBSERVAÇÃO — A alma é assim um ser simples. as palavras alma e Espírito são. filosoficamente. eles têm sensações desconhecidas por nós. uma vila composta de tantas famílias. a alma e o perispírito separados do corpo constituem o ser chamado Espírito. Seria mais exato reservar a palavra alma para designar o principio inteligente. porém em grau mais alto. eles formariam uma população.

não mais o podemos depois da sua desencarnação. suas faculdades. de modo que o que podíamos esconder a alguém.156 ALLAN KARDEC Todos os nossos pensamentos neles se repercutem. sobretudo quando são por estes atraídos pelos sentimentos afetuosos que lhes dedicam. ao passo que se. n.° 237. para isso. até certo ponto. ainda nos amem depois da morte. Essas manifestações. (O Livro dos Espíritos. 19. por isso ele é a negação das . Os Espíritos estão em toda parte. seu futuro. e eles os lêem como em um livro aberto. dos meios que encontrem à sua disposição. conduzem à prova irrecusável da existência da alma. A experiência. prova que os Espíritos conservam as afeições sérias que tinham na Terra. desempenham um papel importante no mundo moral. sendo averiguadas. Por sua presença incessante entre nós. que venham para junto de nós e se sirvam. acotovelando-nos e observando-nos sem cessar. sua situação feliz ou infeliz. de sua sobrevivência ao corpo. ao nosso lado. totalmente perdidas para nós. 20. uma das forças da Natureza. de fato. é racional que as suas afeições continuem. é igualmente racional admitir-se que aqueles que nos amaram. constituem. se o podemos dizer. de sua individualidade depois da morte. durante a vida terrena. eles são os agentes de diversos fenómenos. de sua vida futura. no físico. e. o conhecimento do Mundo Espiritual. O Espiritismo tem por fim demonstrar e estudar a manifestação dos Espíritos. em suma.) 18. que folgam em se juntarem àqueles a que amaram. Desde que se admita a sobrevivência da alma ou do Espírito. Pois que os Espíritos podem ir a toda parte. mostram indiferentes para com quem só lhes vota indiferença. é o que confirma a experiência. sem o que. as almas dos nossos parentes e amigos seriam. isto é. pela morte. durante a vida terrena.

por explicar a natureza boa ou má das comunicações que se recebem. estar de posse da sabedoria suprema. Alguns destes são apenas frívolos e travessos. outros são mentirosos. n.O QUE ffi O ESPIRITISMO 157 doutrinas materialistas. Uma ideia quase geral. que conquistam os conhecimentos que lhes faltam. é a de crer que os Espíritos. cap. e.) COMUNICAÇÃO COM O MUNDO INVISÍVEL 22. pelo contrário. Essa diversidade nas qualidades dos Espíritos é um dos pontos mais importantes a considerar. Não sendo mais que as almas dos homens. pelo simples fato de estarem desprendidos da matéria. Como há homens de todos os graus de saber e ignorância. É um grave erro. maus e vingativos. é em distingui-las que devemos empregar todo o nosso cuidado. Seu progresso só se faz com o tempo. possuem as mais sublimes virtudes e o saber em grau desconhecido na Terra. Sendo admitidas a existência." 100. XXTV. entre os que não conhecem o Espiritismo. os Espíritos não adquirem a perfeição logo que deixam o envoltório terrenal. hipócritas. devem saber tudo. Escala Espírita — O Livro dos Mêãmns. dá-se o mesmo com os Espíritos. fraudulentos. o Espiritismo reduz-se a uma só questão principal: Serão possíveis as comunicações entre as almas e os inventes? Essa possibilidade foi demonstrada pela experiência. Seria tão ilógico admitir-se que o Espírito de um selvagem ou de um criminoso se torne de repente sábio e virtuoso. e não é senão paulatinamente que se despojam das suas imperfeições. (O Livro dos Espvritos. 21. não tanto por meio de raciocínios. como seria contrário à justiça de Deus supor que ele continue perpetuamente em inferioridade. uma vez estabelecido o fato das relações entre os mun- . de bondade e malvadez. mas principalmente por fatos. outros. a sobrevivência e a individualidade da alma.

aos que deixaram a Terra. . uma coisa vaga. abriu-se um novo campo à observação e encontrou-se a chave de grande número de problemas. porque estava nas vistas da Providência pôr termo à praga da incredulidade e do materialismo. Fazendo cessar a dúvida sobre o futuro. espontâneas ou provocadas. sugerindo-lhes pensamentos e influenciando-os. Entretanto. uma fumaça. de modo perceptível. formando com ele um ser concreto e individual. que se evapora e vai não se sabe para onde. Figuram ser ela um sopro. ao contrário. permitindo. Se. Os Espíritos atuam sobre os homens ocultamente. semimaterial. mas para lugar tão distante que se custa a compreender que ela possa tornar à Terra. por meio de efeitos apreciáveis aos sentidos. Vivendo o mundo invisível no meio do visível. mediante provas evidentes. desde que houve homens.158 ALLAN KARDEC dos visível e invisível. as manifestações dos Espíritos tomaram grande desenvolvimento e adquiriram maior caráter de autenticidade. 25. O que faz nascer na mente de muitas pessoas a dúvida sobre a possibilidade das comunicações de Além-Túmulo. houve também Espíritos. e que se estes têm o poder de manifestar-se. As relações entre os mundos visível e invisível podem ser ocultas ou patentes. as suas relações com os viventes nada têm de incompatível com a razão. o princípio e o modo dessas relações. e bem assim demonstra que. nestes últimos tempos. é a ideia falsa que fazem do estado da alma depois da morte. a considerarmos ainda unida a um corpo fluídico. 24. com o qual está em contato perpétuo. apenas apreensível ao pensamento. bem como conhecidos a natureza. vir atestar sua existência e revelar-nos sua situação feliz ou infeliz. o Espiritismo é poderoso elemento de moralização. 23. dá em resultado uma incessante reação de cada um deles sobre o outro. deviam tê-lo feito em todas as épocas e entre todos os povos.

1860. e alguns chegam mesmo a causar uma perturbação real e verdadeiros estragos. o perispírito é matéria etérea. . etc. — Idem. entre as pessoas mais estranhas às ideias espíritas. As que são provocadas. invisível quando muito rarefeito. quase sempre. Lê boulánger de Dieppe. 236. — Idem. 26. pela audição. págs. Os Espíritos podem manifestar-se de muitas maneiras diferentes: pela vista.) 28. 219. caindo. Ainda que invisível para nós no estado normal. produzem-se. mas produzem bulhas imitando louças que se quebram. pág. se torna visível por condensação. pág. Os Espíritos que se tornam visíveis apresentam-se. Em certos casos. 115. é como se produzem as aparições — fenómeno que não é mais extraordinário que o do vapor que. os Espíritos se manifestam espontaneamente por pancadas e ruídos. desenho. as quais. 184. pág. 125. pág. não tendo meios de explicá-las.1858. portas que se abrem e fecham com estrondo. tal como nós. 76. UEsprit frappew de Bergzabe^n. as atribuem a causas sobrenaturais. é muitas vezes um meio que empregam para atestar sua presença e chamar sobre si a atenção. Lê Fabricwnt de Smnt-Pétersbourg. — Idem.O QUE É O ESPIRITISMO 159 As manifestações espontâneas se verificam inopinadamente e de improviso. com as aparências que tinham em vida e que os podem tornar conhecidos. o Espírito pode fazê-lo sofrer uma espécie de modificação molecular que o torna visível e mesmo tangível. Alguns não se limitam a ruídos moderados. móveis lançados ao chão. produzindo ruídos e movimentos de corpos. música. e designados pelo nome de médiuns. (Revue Spirite. As vezes. 153. dão-se por intermédio de certos indivíduos dotados para isso de faculdades especiais. UEsprit fraipp&ur de Dibbelsdo>rf. quando batemos para avisar que está alguém à porta. pelo tato. muitas vezes. pela escrita. 27. Lê chiffommier de Ia rue dês Noyers. — Idem.

e é ainda com esse mesmo fluido que ele se manifesta agindo sobre a matéria inerte. falarem ou desenharem. se deram conosco. é ainda pelo mesmo meio que o Espírito age sobre o móvel. senão também de dia e em completo estado de vigília. fazendo-os agir como se fossem seus. produzindo ruídos. Esse fenómeno nada terá de surpreendente. como o ar. o Espírito serve-se do corpo do médium. sobretudo em ocasiões de morte. veremos quantos fatos autênticos. Outrora consideravam tais fatos como sobrenaturais e maravilhosos e os atribuíam à magia e à feitiçaria. porém as aparições isoladas são assaz frequentes. os mais poderosos motores se alimentam dos fluidos de maior rarefação e. não só de noite. desde que. entre nós. quando deixa o corpo. o Espírito.160 ALLAN KARDEC 29. Se passarmos em revista as nossas reminiscências. se considerarmos que. dessa ordem. hoje. 30. ficou-se sabendo como eles se produzem e que pertencem à classe dos fenómenos naturais. parece ter pressa de ir ver seus parentes e amigos. durante o sono. como para adverti-los de já não estar na Terra. seja produzindo golpes inteli- . mesmo. da dos imponderáveis. quando ele se quer manifestar. a ciência espírita nos forneceu meios de explicá-los. seja fazendo-o mover-se sem significação determinada. A vidência permanente e geral de Espíritos é muito rara. 31. por um eflúvio com que ele os envolve e penetra. derruba ou transporta. Ê igualmente por meio do perispírito que o Espírito faz os médiuns escreverem. No fenómeno designado pelo nome de mesas gvramtes e falcmtes. e dizer-lhes que ainda vive. os incrédulos os classificam como um produto da imaginação. movimentos de mesas e outros objetos que ele levanta. de cujos órgãos se apossa. sem que os percebêssemos convenientemente. não possuindo corpo tangível para atuar ostensivamente. Era por meio do perispírito que o Espírito agia sobre o seu corpo quando vivo. o vapor e a eletricidade. porém.

Dá-se o mesmo com as comunicações por escrito. Quando a mesa descansa no solo. o Espírito não se acha na mesa. como o faz o ar com os balões e papagaios. o impulso preciso para que ela se mova. praticam um ato ridículo. dá-lhe momentaneamente maior leveza específica. presas de emoção. indicando as letras do alfabeto para formar palavras e frases. abraçam a mesa. pelo fluido com que a penetra. por uma corrente fluídica. São simples comparações estas. A mesa não é senão um instrumento de que ele então se serve. sem ponto de apoio.O QUE É O ESPIRITISMO 161 gentes. como se o Espírito se achasse encerrado na madeira. acha-se em caso análogo ao da campânula pneumática em que se fez o vácuo. Quando a mesa persegue alguém. mas ao lado do móvel. e somente lhe dar. porque ele pode ficar tranquilamente em seu lugar. o Espírito coloca-se ao lado do médium. fenómeno este designado pelo nome de tiptotogia. dirigindo-lhe a mão ou transmitindo-lhe o seu pensamento por uma corrente fluídica. para mostrar a analogia dos efeitos e nunca uma absoluta semelhança das causas. como o faria se fosse vivo. dando-lhe vitalidade momentânea. penetrando a mesa. como o faz com o lápis para escrever. mas não se identifica com ela. Quando a mesa se levanta do solo e permanece no ar. ou se a madeira se tivesse tornado Espírito. O mesmo podemos dizer relativamente àquelas que dirigem a palavra à mesa. e sim pela aça o de uma atmosfera fluídica com que ele a envolve e penetra — fluidos que neutralizam o efeito da gravitação. porque é absolutamente o mesmo que abraçar a bengala de que se servisse um indivíduo para bater. não é com força braçal que o Espírito a suspende. e aí o veríamos. não é o Espírito que corre. Esse fluido. vendo manifestar-se-lhes um ser querido. Nas pancadas que se fazem ouvir na mesa. ou . segundo a sua vontade. se nessa ocasião ele pudesse tornar-se visível. As pessoas que. Por ocasião das comunicações dessa ordem.

nada têm de maravilhoso e sobrenatural. como a mecânica nos ensina as do movimento. . pois que assim passam a ocupar o seu lugar no meio dos outros fenómenos naturais. que falam do que não conhecem. eram reputados sobrenaturais todos os efeitos cuja causa não se conhecia. que o conhecimento da nova lei veio aniquilar. as descobertas da Ciência. ou atirá-lo a qualquer parte. lei tão natural quanto as da eletricidade. são fenómenos que se produzem em virtude da lei que rege as relações do mundo visível com o invisível. provam. a lei que as dirige. como levantar um móvel qualquer. pode-se ver que as manifestações espíritas. transportar um objeto de um para outro lugar. uma vez conhecida. nada mais apresentam esses fatos que repugne à razão. a óptica as da luz. ela é a chave de uma multidão de fenómenos explorados e amplificados pela superstição. não é o Espírito quem bate com a mão ou com algum objeto. só por isso. Pelo pouco que dissemos. vem explicar-nos grande número de problemas. sucessivamente foram restringindo o círculo do maravilhoso. Pertencendo à Natureza. porém. que acusam o Espiritismo de ressuscitar o maravilhoso. de qualquer natureza. Assim. O Espiritismo é a ciência que nos faz conhecer essa lei. como se pode modificar os que são produzidos pelo ar. pois. julgados sem solução. as manifestações espíritas se deram em todos os tempos. 33. 32. etc.162 ALLAN KARDEC em outra parte qualquer. etc. da gravitação. Nos tempos de ignorância. um jato de fluido que produz o efeito de um choque elétrico e modifica os sons. sobre o ponto donde parte o ruído. Aqueles. Afastado o prisma maravilhoso. ele lança. E uma só a lei que regula tais fenómenos. facilmente se compreende a possibilidade de o Espírito erguer no ar uma pessoa.

As comunicações que recebemos dos Espíritos podem ser boas ou más. da palavra e.) . os outros consistem na troca regular de pensamentos por meio de sinais. ruídos. se é frívolo ou mentiroso. principalmente. da escrita. justas ou falsas. apresentará suas ideias como verdades absolutas. As manifestações dos Espíritos são de duas naturezas: efeitos físicos e comunicações inteligentes. transportes de objetos. sem se importar com a verdade. se é orgulhoso. porque há coisas que eles não devem revelar. tais como os movimentos. são Espíritos adiantados no caminho do progresso. consoante a natureza dos que se manifestam. Se ele é prudente. mas que com o tempo hão de progredir. Os que dão provas de sabedoria e erudição. Os Espíritos só podem responder sobre aquilo que sabem.. e ainda dentro dos limites do que lhes é permitido dizer-nos. os que se mostram ignorantes e maus. Os primeiros são os fenómenos materiais ostensivos. não deixará de confessar sua ignorância sobre o que não conhece. o Evangelista. Há imprudência e leviandade em aceitar sem exame tudo o que vem dos Espíritos. diz: "Não creiais em todas os Espíritos. profundas ou frívolas. por não ser ainda dado ao homem tudo conhecer. responderá de qualquer forma. João. n. são os ainda atrasados. resulta que não basta dirigirmo-nos a um Espírito qualquer para obtermos uma resposta segura 1 a qualquer questão. mas eaxminai se eles são de Deus. Da diversidade de qualidades e aptidões dos Espíritos." A experiência demonstra a sabedoria desse conselho. etc. acerca de muitas coisas. segundo o seu estado de adiantamento. 35. (O Livro dos Médimns. É de necessidade que bem conheçamos o caráter daqueles que estão em relação conosco." 267. 36. porque.O QUE fi O ESPIRITISMO 163 34. a qual pode ser justa ou errónea. É por isso que S. ele não nos pode dar mais que a sua opinião pessoal.

39. . nobre. por isso. eles não têm das coisas senão uma ideia muitas vezes falsa e incompleta. essencialmente maus. Na dos Espíritos inferiores. 38. Reconhece-se a qualidade dos Espíritos por sua linguagem. ignorantes. as provas de grande força são executadas por saltimbancos e não por sábios. enfim. que eles tomam. seu horizonte moral é limitado. a benevolência. e. todo conselho ridículo. lógica e isenta de contradições. entre nós. por isso. toda expressão grosseira. toda máxima contrária à sã moral. mais ou menos. são incapazes de resolver certas questões. ignorantes ou orgulhosos. conservam-se ainda sob o império dos prejuízos terrestres. toda manifestação de malevolência. Os Espíritos superiores não se ocupam senão de comunicações inteligentes que nos instruam. trivial ou simplesmente frívola. todos os géneros de perversidade e todos os graus de superioridade intelectual e moral. as manifestações físicas ou puramente materiais são. Todo pensamento evidentemente falso. voluntária ou involuntariamente. por verdades. Os Espíritos inferiores são. a dos Espíritos verdadeiramente bons e superiores é sempre digna.164 ALLAN KARDEC 37. mais especialmente. Ao lado desses encontram-se. alguns há que são apenas ignorantes e levianos. como na Terra. além disso. nela se respira a sabedoria. perspicácia restrita. de presunção ou arrogância. a modéstia e a mais pura moral. Os Espíritos inferiores não são todos. como. outros pilhéricos. sabendo manejar a sátira fina e mordaz. obra dos Espíritos inferiores. vulgarmente designados sob o nome de Espíritos batedores. 40. são sinais incontestáveis da inferioridade dos Espíritos. ela é concisa e despida de redundâncias. no mundo espiritual. o vácuo das ideias é quase sempre preenchido pela abundância de palavras. E podem induzir-nos em erro. sobre aquilo que nem eles mesmos compreendem. espirituosos e divertidos. às vezes.

Os Espíritos superiores não vão às reuniões fúteis. quando entrarmos em comunicação com os Espíritos. como um sábio da Terra não vai a uma assembleia de rapazes levianos. reconduzir ao bom caminho os que dele se iam afastando. combater os vícios.O QUE É O ESPIRITISMO 165 41. de sorte que ninguém pode afirmar que tal Espírito há de responder ao seu apelo em dado momento. faltam a um dever. 43. ou que há de responder a tal ou tal pergunta que se lhe dirigir. Asseverar o contrário é demonstrar ignorância dos princípios mais elementares do Espiritismo. eles aí se mostram algumas vezes. é somente com o fim de dar um conselho salutar. 42. Se lhes respeitamos os despojos mortais. sem objetivo sério. maior respeito ainda nos devem merecer como Espíritos. não estão às ordens e à mercê dos caprichos de quem quer que seja. nunca se deve perder de vista que eles são as almas dos homens e que é inconveniente fazer do seu trabalho um passatempo ou pretexto de divertimentos. a ninguém é dado fazê-los manifestar-se quando não o queiram. O simples bom-senso nos diz que isso não pode ser de outro modo. Outro ponto igualmente essencial a considerar é que os Espirites são livres e só se comunicam quando querem. os que as compõem esquecem-se de que. então. Só o charlatanismo tem princípios infalíveis. Os Espíritos são atraídos pela simpatia. e não ficarão satisfeitos se os tratarem com pouca atenção. retiram-se. de um momento para outro. se acaso. semelhança de gostos. podem entrar no mundo dos Espíritos. com quem lhes convém e quando as suas ocupações lho permitem. caracteres e intenção dos que desejam a sua presença. nem dizer o que desejem calar. Devemos sempre estar calmos e concentrados. porém. Forma juízo completamente erróneo aquele que crê que Espíritos sérios se prestem a responder a futilida- . se não forem atendidos. As reuniões frívolas.

em recolhimento. já propenso a escarnecer das mais sagradas crenças. a que depois de desencarnados ainda têm mais direito. porém. é a um resultado contrário que se chega. deve. para ser proveitosa. não pode ver uma coisa séria naquilo de que se zomba. como condição primacial. a questões ociosas em que se lhes manifeste pouca afeição. 46. é a prova da presença de seres cuja memória lhe é cara. 45. sobretudo. não a curiosidade. para convencer os incrédulos. ter-se-ia com eles todas as considerações. Vivos. quando encarnados. devendo aí proceder-se com respeito. eles não o fariam. onde não encontra ordem. de suas revelações íntimas. 44. A frivolidade das reuniões dá como resultado atrair os Espíritos levianos que só procuram ocasião de enganar e mistificar.166 ALLAN KARDEC dês. nem pode respeitar o que lhe não é apresentado de modo respeitável. se se quer obter o concurso habitual dos bons Espíritos. O que. Em vão se alega a utilidade de certas experiências curiosas. é diante de suas palavras graves e solenes. Do que precede. a instrução. Ê nessas assembleias que os Espíritos superiores dão ensinamentos. os Espíritos sérios só comparecem às reuniões sérias. retira-se sempre com má impressão das reuniões fúteis e levianas. resulta que toda reunião espírita. pode convencê-lo. mortos. e ainda menos que eles venham dar-se em espetáculo para desfastio dos curiosos. ser séria. frívolas e divertidas. religiosidade e dignamente. . por isso. O incrédulo. que o vemos comover-se e empalidecer. Pelo mesmo motivo que os homens graves e sérios não comparecem às assembleias de medíocre importância. gravidade e recolhimento. também o não fazem. falta de respeito e nenhum desejo de se instruir. que têm por fim. Convém não esquecer que se esses mesmos Espíritos aí se tivessem apresentado.

do religioso com o profano. saindo dos sepulcros. pelo fato mesmo de ele ter respeito. não sairá mais dela. muitas vezes. Certas pessoas fazem uma ideia muito falsa das evocações. a todos os respeitos. 48. deverá dissipar tal erro. porém. incrédulo como é. que nunca fez milagres. convenceriam com mais facilidade e produziriam. De nenhum modo. além de que. sai menos convicto do que entrou. com todo o aparato lúgubre. da qual deram a chave. elas ainda concorrem para a convicção de algumas pessoas. no meio de mesas que dançam e das gatimanhas dos Espíritos brincalhões. O pouco que a respeito temos dito. sua consciência repele essa aliança do sério com o ridículo. se sempre as praticassem convenientemente. têm sua utilidade do ponto de vista dos fenómenos. fica chocado e escandalizado ao vê-la mostrar-se em uma assembleia irreverente. aí não se . pois que são o alfabeto da ciência. porque afastam da doutrina maior número de pessoas do que atraem. se não têm a importância do ensino filosófico. nos contos fantásticos de alma. O Espiritismo. que assim acham fundados motivos para zombarias. Erra quem considera brinquedo as manifestações físicas.3 do outro mundo e no teatro que aparecem os mortos descarnados. veneração e amor à pessoa cuja alma se lhe apresenta. são elas incompatíveis com a ordem e a decência que deve haver nessas reuniões experimentais. o ser espiritual. As reuniões dessa natureza fazem sempre mais mal que bem. Ainda que menos necessárias hoje. por isso tacha tudo de charlatanismo e. fluídico e inteligente. Quando o corpo está na tumba. muito melhores resultados. 47. envoltos em mortalhas e fazendo chocalhar os ossos. algumas crêem que elas consistem em fazer sair da tumba os mortos. É só nos romances. prestam-se à crítica dos detratores. porém. não produz este e jamais pretendeu fazer reviver um corpo morto.O QUE É O ESPIRITISMO 167 Mas.

A crítica malévola representou as comunicações espiritas como mescladas pelas práticas ridículas e supersticiosas da magia e da nigromancia. do qual se separou no momento da morte. uma vez operada essa separação. que. se dessem ao trabalho de estudá-lo. que só servem para provar sua ignorância ou má-vontade. que os médiuns recebem as comunicações. para evocá-los. sem conhecê-lo. e dar aos crentes ideias mais justas sobre o futuro. FM PROVIDENCIAL DAS MANIFESTAÇÕES ESPIRITAS 50. que o emprego de qualquer sinal ou objeto material. não existem fórmulas nem palavras sacramentais ou cabalísticas. Só o chsrlatanismo pode inventar o emprego de modos excêntricos e acessórios ridículos. horas e lugares mais propícios uns que os outros. sem que saiam do estado normal.168 ALLAN KARDEC acha com esse grosseiro invólucro. não há dias. com respeito e recolhimento. para nos comunicarmos com os Espíritos. finalmente. O fim providencial das manifestações é convencer os incrédulos de que tudo para o homem não se acaba com a vida terrestre. As pessoas estranhas à ciência cumpre-nos dizer que. se esses homens que falam do Espiritismo. 49. nada mais há de comum entre eles. O apelo aos Espíritos faz-se em nome de Deus. seja para repeli-los. teriam poupado esses desperdícios de imaginação. seja para atraí-los. que não se precisa para isso de preparação alguma. e. bastando só o pensamento. nem de iniciação. tão simples e naturalmente como se fossem ditadas por uma pessoa viva. não exerce efeito algum. e. . é a única coisa que se recomenda às pessoas sérias que desejem entrar em relação com Espíritos sérios.

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Os bons Espíritos nos vêm instruir para nosso melhoramento e avanço e não para revelar-nos o que não devemos saber ainda, ou o que só deve ser conseguido pelo nosso trabalho. Se bastasse interrogar os Espíritos para obter a solução de todas as dificuldades científicas, ou para fazer descobertas e invenções lucrativas, todo ignorante podia tornar-se sábio sem estudar, todo preguiçoso ficar rico sem trabalhar; é o que Deus não quer. Os Espíritos ajudam o homem de génio pela inspiração oculta, mas não o eximem do trabalho nem das investigações, a fim de lhe deixar o mérito. 51. Faria ideia bem falsa dos Espíritos, quem neles quisesse ver auxiliares dos leitores da buema-dicha. Os Espíritos sérios se recusam a ocupar de coisas fúteis; os frívolos e zombeteiros tratam de tudo, respondem a tudo, predizem tudo o que se quer, sem se importarem com a verdade, e encontram maligno prazer em mistificar as pessoas demasiado crédulas. Neste caso, é essencial conhecer-se perfeitamente a natureza das perguntas que se podem dirigir aos Espíritos. (O Livro aos Médiuns, n." 286: Perguntas que se podem fazer aos Espíritos.) 52. Fora do terreno do que pode ajudar o nosso progresso moral, só há incerteza nas revelações que se podem obter dos Espíritos. A primeira consequência má, para aquele que desvia sua faculdade do fim providencial, é ser mistificado pelos Espíritos enganadores que pululam ao redor dos homens; a segunda é cair sob o domínio desses mesmos Espíritos, que podem, por pérfidos conselhos, conduzi-lo a adversidades reais e materiais na Terra; a terceira é perder, depois da vida terrestre, o fruto do conhecimento do Espiritismo. 53. As manifestações não são, pois, destinadas a servir aos interesses materiais; sua utilidade está nas

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consequências morais qilas dimanam; não tivessem, elas, porém, como resu senão fazer conhecer uma nova lei da Natureza, dstrar materialmente a existência da alma e sua irridade, e já isso seria muito, porque era largo caminJvo aberto à Filosofia. DO3DIUNS 54. Os médiuns antam numerosíssimas variedades nas suas aptidõejue os torna mais ou menos próprios para obtenção ;al ou tal fenómeno, de tal ou tal género de comuão. Segundo essas apti distinguimo-los por médiuns de efeitos físicos, de ocoações inteligentes, videntes, falantes, auditivos, sens, desenhadores, -poliglotas, poetas, músicos, escrev, etc. Não devemos esper médium aquilo que está fora dos limites da sua face. Sem o conhecimeias aptidões mediúnicas, o observador não pode a a explicação de certas dificuldades ou de certas isibilidades que se encontram na prática. (O Livro dddxwis, cap. XVI, n.° 185.) 55. Os médiuns eitos físicos são mais particularmente aptos paravocar fenómenos materiais, como movimentos, pan< etc., com o auxílio de mesas e outros objetos; quaísses fenómenos revelam um pensamento ou obedea uma vontade, são efeitos inteligentes que, por mesmo, denotam uma causa inteligente: é um doslos por que os Espíritos se manifestam. Por meio de um mi de pancadas convencionadas, obtêm-se as respostas ,u não, ou, então, a designação das letras do alfabeto servem para formar palavras ou frases. Esse meio ]tivo é muito demorado e não se presta a grandes dolvimentos. As mesas falanteam a estreia da ciência; hoje, porém, que se possueiros de comunicação tão rápidos

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e completos como entre os viventes, ninguém mais recorre àqueles senão acidentalmente e como experimentação. 56. De todos os meios de comunicação, a escrita é, ao mesmo tempo, o mais simples, o mais rápido, o mais cómodo, e que permite mais desenvolvimento; é também a faculdade que se encontra mais frequentemente. 57. Para obter a escrita serviram-se, no princípio, de intermediários materiais, como cestinhas, pranchetas, etc., munidas de um lápis. (O Livro dos Médmms, capítulo XIII, n."s 152 e seguintes.) Mais tarde, reconheceu-se a inutilidade desses acessórios e a possibilidade, para os médiuns, de escrever diretamente com a mão, como nas circunstâncias ordinárias. 58. O médium escreve sob a influência dos Espíritos, que se servem dele como de um instrumento; sua mão é arrastada por um movimento involuntário, que, o mais das vezes, não pode dominar. Certos médiuns não têm consciência alguma do que escrevem, outros a têm mais ou menos vaga, ainda quando o pensamento lhes seja estranho; é o que distingue os médiuns <m0oânioos dos médiuns intuitivos ou semimecámiicos. A ciência espírita explica o modo de transmissão do pensamento do Espírito ao médium, e o papel deste últimos nas comunicações. (O Livro dos Médiuns, cap. XV, n.°s 179 e seguintes; cap. XIX, n.°s 223 e seguintes.) 59. O médium não tem mais que a faculdade de se poder comunicar, mas a comunicação efetiva depende da vontade dos Espíritos. Se estes não quiserem manifestar-se, aquele nada obterá; será qual instrumento sem músico que o toque. Visto que os Espíritos só se comunicam quando querem ou podem, não estão sujeitos ao capricho de ninguém; nenhum médium tem o poder de forçá-los a se apresentwem. Isto explica a intermitência da faculdade nos melhores médiuns, e as interrupções que sofrem, às

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vezes, durante muitos meses. Seria, pois, um erro comparar a mediunidade a uma propriedade do talento. O talento adquire-se pelo trabalho, quem o possui é sempre dele senhor; ao passo que o médium nunca o é de sua faculdade, pois que ela depende de vontade estranha. 60. Os médiuns de efeitos físicos que obtêm, regularmente e à vontade, a produção de certos fenómenos, admitindo que nãç> haja embuste, estão em relação com Espíritos de baixa esfera que se comprazem nessa espécie de exibições, e que talvez foram prestidigitadores quando na Terra; seria, porém, absurdo pensar que Espíritos, mesmo de pouca elevação, se divirtam em executar farsas teatrais. 61. A obscuridade necessária à produção de certos efeitos físicos, presta-se, sem, dúvida, à suspeita, mas nada prova contra a realidade deles. Sabemos que em Química algumas combinações não podem ser operadas à luz; que muitas composições e decomposições se produzem sob a ação do fluido luminoso; ora, todos os fenómenos espíritas são resultantes de uma combinação dos fluidos próprios do Espírito com os do médium; desde que esses fluidos são matéria, não admira que, em certas circunstâncias, essa combinação seja contrariada pela presença da luz. 62. As comunicações inteligentes realizam-se igualmente pela ação fluídica do Espírito sobre o médium, sendo preciso que o fluido deste último se identifique com o do Espírito. A facilidade das comunicações depende do grau de afimctade existente entre os dois fluidos. Cada médium é assim mais ou menos apto para receber a impressão ou a impulsão do pensamento de tal ou tal Espírito; podendo ser bom instrumento para um e péssimo para outro. Resulta daí que se achando juntos dois médiuns, igualmente bem dotados, poderá o Espírito manifestar-se por um e não por outro.

64. qualquer que rial por que ela se faça. convindo deixar-lhe a escolha do instrumento.O QUE É O ESPIRITISMO 173 63. pode ela tocar qualquer instrumento. outras vezes — e é o caso mais comum — ela não se estabelece senão gradualmente e com o tempo. totalmente impossível entre certos Espíritos e certos médiuns. é o que explica a maior facilidade com que os Espíritos se manifestam pelo médium com que estão mais habituados. incompletas ou falsas. 65. Em todo o caso. Sem a harmonia. em vez do Espírito que se deseja. pelo recolhimento e pela prece. fi um erro acreditar-se que basta ser médium para receber. A assimilação fluídica é. que só pode nascer da assimilação fluídica. algumas vezes. Os Espíritos buscam. impor-lhes o primeiro médium que tenhamos à mão. os instrumentos que lhes sejam mais apropriados. de preferência. não faltam outros sempre prontos a manifestarem-se e que pouco se importam com a verdade. Podem ser falsas. se trata pensamento do Espírito. e mesmo muitos dias antes se for possível. Não se pode impor um médium ao Espírito que se quer evocar. é necessário que o médium se identifique previamente com o Espírito. seria o mesmo que obrigar uma pianista a tocar violino. Não existem médiuns universais para as evocações. as comunicações são impossíveis. necessária nas coescrita. por saber música. nem com aptidão para produzir todos os fenómenos. porque. comunicações de qualquer Espírito. com igual facilidade. 66. da transmissão do seja o meio mate- 67. ou mesmo durante alguns minutos. e também porque as primeiras comunicações atestam quase sempre certo constrangimento e são menos explícitas. de modo a . A assimilação fluídica é tão municações pela tiptologia como pela tanto num como noutro caso. supondo que. visto que.

" parte. das disposições morais. pedindo o impossível. então. de forma. quanto é importante ser o médium bem assistido. Qualquer que seja o modo de comunicação. a comunicação será necessariamente adulterada. É um meio de se atenuar a dificuldade. revestidos pelos Espíritos que assinam as comunicações. Os mais indignos médiuns podem possuir poderosas faculdades. os mais seguros são os que a esse poder reúnem as melhores simpatias no mundo espiritual. (O Lwro aos Médiuns. porém. ora. é essencial saber distinguir as diferentes naturezas dos Espíritos que se podem manifestar. pela natureza dos Espíritos que ele atrai a si. Compreende-se. se ele o for por um Espírito obsessor. as condições em que se podem produzir. etc. 2. os obstáculos que lhe podem ser opostos. sim. conhecer a causa de todos os fenómenos. mas. 69.174 ALLAN KARDEC provocar e ativar a assimilação fluídica. do ponto de vista experimental. pelo fundo constamtemente bom das mesmas. a influência do meio. Aqui as qualidades pessoais do médium desempenham forçosamente um papel importante. ela pode fazer-se por intermédio do guia espiritual deste último. Quando as condições fluídicas não são propícias à comunicação direta do Espírito ao médium. 68. demonstradas pelos nomes. quer se seja simples observador das experiências de outrem.) . neste caso. isto é. algwma. a prática do Espiritismo. -ignorante ou orgulhoso. porque. apresenta numerosas dificuldades e não é isenta de inconvenientes para quem não tem a experiência necessária. Quer se experimente mesmo. mais ou menos imponentes. o pensamento não vem senão em segunda mão. essas simpatias não ficam. a fim de que se não perca tempo. depois de haver atravessado dois meios. Não é menos necessário conhecer todas as condições e escolhos da mediunidade.

cap. porque nela o médium é completamente iludido. e do qual deseja desembaraçar-se. acaba por se retirar.O QUE É O ESPIRITISMO ESCOLHOS DA MEDIUNIDADE 175 70.) 71. Se o estudo prévio. é útil para o observador. O Espírito. pode enganar-se sobre a causa e natureza de qualquer mal. O Espírito que o domina apodera-se de sua confiança. a quem fornece os meios de prevenir um inconveniente que lhe poderia trazer bem desagradáveis consequências. como aquele que. preferindo romper com os amigos a convencer-se de que está sendo enganado. fazendo-lhe achar sublimes os maiores absurdos. o domínio que certos Espíritos podem exercer sobre os médiuns. O caráter distintivo deste género de obsessão é provocar no médium uma excessiva suscetibilidade e levá-lo a não acreditar bom. é pouca toda a recomendação para que o estudo preceda à prática. a repelir e. neste caso. não conhecendo os caracteres desse fenómeno. do qual o médium se liberta. a ponto de impedi-lo de julgar as comunicações que recebe. No primeiro. Assim. isto é. (O Làwro 'dos Médiwns. pode ser iludido pelas aparências. a encher-se de inveja contra . XXIII. impondo-se-lhes sob nomes apócrifos e impedindo que se comuniquem com outros Espíritos. "Um dos maiores escolhos da mediunidade é a obsessão. Este caso não oferece gravidade alguma: é um simples incómodo. o médium tem perfeitamente consciência de não obter coisa alguma boa. justo e verdadeiro senão o que ele escreve. ele não se ilude acerca da natureza do Espírito que se obstina em se lhe manifestar. considerar mau todo conselho e toda observação crítica. mesmo. deixando momentaneamente de escrever. desconhecendo a medicina. cansando-se de não ser ouvido. A fascinação obsessional è muito mais grave. mais indispensável é ao médium. <a fascinação e a subjugação. Ê também um obstáculo que se depara a todo observador novato e inexperiente que. A obsessão apresenta três graus principais bem característicos: a obsessão simples.

pois na possessão não há lesão orgânica alguma. Ela se limita. A subjugação óbsessiomal. mas não pode abster-se. designada outrora sob o nome de possessão. branda e agradável. importa restituir o organismo ao seu estado normal. a querer impor-se nas reuniões espíritas. onde só havia uma causa moral. movimentos bruscos e desordenados. outros devem ser também os meios de curá-la. 74. de que o subjugado. compreende o ridículo. porém. 73. muitas vezes provoca movimentos desordenados. Um dos caracteres distintivos dos maus Espíritos é a imposição. os bons nunca se impõem. gritos. essa causa é externa. A aplicação do processo ordinário das duchas e tratamentos corporais poderá. e tem-se necessidade de libertar o doente de um inimigo invisível. retiram-se.176 ALLAN KARDBC os outros médiuns cujas comunicações sejam julgadas melhores que as suas. determinar o aparecimento de uma verdadeira loucura. ela provoca uma agitação febril. Este estado difere essencialmente da loucura patológica com que erradamente a confundem. palavras injuriosas ou incoerentes. pelo contrário. atos insensatos. às vezes. Na loucura propriamente dita. não lhe opondo remédios materiais. é calma. Resulta daí que a impressão que em nós produzem os maus Espíritos é sempre penosa. fatigante e muitas vezes desagradável. das quais se afasta quando não pode dominá-las. sendo diversa a causa. a causa do mal é interna. é um constrangimento físico exercido sempre por Espíritos da pior espécie e que pode ir à neutralização do livre-arbítrio do paciente. e. porém uma força . na subjugação. muitas vezes. Essa atuação do Espírito pode chegar ao ponto de ser o indivíduo conduzido a dar os passos mais ridículos e comprometedores. dão conselhos. a simples impressões desagradáveis. se não são atendidos. a dos bons. eles dão ordens e querem ser obedecidos. 72. muitas vezes.

quando. mas simples modo de manifestação dessa influência. fevereiro. (O Lwro dos Medi/uns. têm sempre exercido a mesma influência. só o Espiritismo pode dar os meios de combatê-lo. Pela mediunidade o ente maléfico denuncia a sua presença. — Revue Spvrite. porém. A subjugação obsessional é ordinariamente individual. A experiência prova que nunca. nos atos mais comuns da sua vida. fazendo a educação moral do Espírito obsessor. designados sob o nome de demónios. chega-se a torná-lo melhor e a fazê-lo renunciar voluntariamente à atormentação do enfermo. os Espíritos. Os que repelem tudo que não afete os nossos sentidos. Um fato importante a considerar-se é que a obsessão. principalmente do último. muitas vezes. e que ela se encontra. — La jeune obséãée de Marmcunde. De fato." 279. os exorcismes produziram resultado satisfatório: antes agravaram que minoraram a situação. os efeitos dessa influência que. e restituir a calma às suas vítimas. que então fica livre. 77.O QUE É O ESPIRITISMO 177 moral superior à dele. uma falange de Espíritos maus se lança sobre uma povoação. não admitem essa causa oculta. a mediunidade não é uma causa. n. em tal caso. é independente da mediunidade. que escapam às investigações da medicina. quando a . tendo existido em todos os tempos. de todos os graus. 76. ela pode apresentar caráter epidêmico. pelo que podemos dizer com certeza que todo médium obsidiado sofre de um modo qualquer e.) 75. é um inimigo oculto. em grande número de pessoas que nunca ouviram falar de Espiritismo. março e junho de 1864. só um poder moral superior podia então domar esses entes malfazejos. Foi um fenómeno desse género que se verificou ao tempo do Cristo. sem a mediunidade. muitas vezes atribuídos a enfermidades misteriosas. mas. por conselhos prudentemente dirigidos. Indicando a verdadeira fonte do mal. qualquer que seja a sua natureza. sem ela. se manifestaria por outros efeitos. de quem se não desconfia.

) QUALIDADES DOS MÉDIUNS 79. porém. assim como sobre as morais. retira-se. e o Espírito. ela se nos mostra. cap. A faculdade mediúnica é uma propriedade do organismo e não depende das qualidades morais do médium. um poder que reage sobre as coisas físicas. tanto nos mais dignos. e no meio do qual vivemos. que pode. 81. vendo que nada pode fazer. Não se dá. segundo a simpatia que lhe votam. como nos mais indignos. por esse meio. torna-se um ponto essencial o saber reconhecer-se a natureza dos que se apresentam. O médium não esclarecido pode ser enganado pelas aparências. excelentes comunicações. XXIV. algumas vezes. O conhecimento prévio dos meios de distinguir os bons dos maus Espíritos é. o mesmo com a preferência que os Espíritos bons dão ao médium. mas o prevenido percebe o menor sinal suspeito. Os Espíritos bons se comunicam mais ou menos de boa-vontade por esse ou aquele médium. 80. apreciar o justo valor do que vê e ouve. reconhecerá na ação do mundo invisível que nos cerca. 78. Como a obsessão nunca pode ser produto de um bom Espírito. mas por sua aptidão em recebê-las boas e em não ser ludibriado pelos Espíritos levianos e enganadores. A boa ou má qualidade de um médium não deve ser julgada pela facilidade com que ele obtém comunicações.178 ALLAN KARDEC Ciência tiver saído da senda materialista. Os médiuns menos moralizados recebem também. desenvolvida. será um novo caminho aberto ao progresso e a chave de grande número de fenómenos até hoje mal compreendidos. (O Livro dos Médiuns. que não . indispensável ao médium que se não quer expor a cair num laço. Ele o é também ao simples observador. pois.

e. médium ou não. e aqueles que desanimam. os que não procuram emendar-se. a fim de exercitarmos a nossa razão. segundo. pessoa assaz perfeita. perverte-se pelo abandono dos bons Espíritos. acham então o campo livre. muitas vezes. maior será a sua culpa. cuja bondade é infinita. porém. Resulta daí que os médiuns imperfeitos. os bons Espíritos. afinal. não faz mais que os bons Espíritos com os médiuns imperfeitos. O virtuoso missionário que vai moralizar os criminosos.O QUE Ê O ESPIRITISMO 179 podem vir senão de bons Espíritos. porque não há ainda. o erro. Essas mistificações ainda podem ser uma prova para a paciência e perseverança do espírita. nunca. o que não deve ser motivo de espanto: é muitas vezes no interesse dos médiuns e com o fim de dar-lhes sábios conselhos. qualquer que seja o nome que o apadrinhe. entre nós. não pode recusar assistência àqueles que mais necessitam dela. os inferiores. Se eles os desprezam. deixam-no logo que encontram outro que lhes seja mais afim e melhor se aproveite de suas lições. moralmente falando. primeiro. servem-se do instrumento que têm à mão. querendo dar um ensino útil a todos. porém. pelo qual dê acesso aos maus Espíritos. Quanto à sua faculdade. porque são eles que lavram a sua própria condenação. Deus. vem de uma fonte má. aprendermos a distinguir a verdade do erro e ficarmos de prevenção. para não ter algum lado fraco. que pouco se importam com as más qualidades morais do médium. De outra sorte. não aceitando cegamente e sem exame tudo quanto nos venha dos Espíritos. às vezes. 82. Retirando-se os bons Espíritos. Os médiuns de mais mérito não estão ao abrigo das mistificações dos Espíritos embusteiros. dão . com algumas decepções. tarde ou cedo são presas dos maus Espíritos. porque os bons Espíritos permitem mesmo. os conduzem à ruína e às maiores desgraças. desaparece. um Espírito bom nos virá enganar. que os maus venham. tão bela no começo e que assim devia ter sido conservada. que. mesmo na vida terrena.

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prova aos bons Espíritos de que não são instrumentos com que eles possam contar. 83. Não nos deve admirar ver maus Espíritos obsidiarem pessoas de mérito, quando vemos na Terra homens de bem perseguidos por aqueles que o não são. É digno de nota que, depois da publicação de O Livro dos Médiuns, o número de médiuns obsidiados diminuiu muito; os médiuns, prevenidos, tornam-se vigilantes e espreitam os menores indícios que lhes podem denunciar a presença de mistificadores. A maioria dos que se mostram ainda nesse estado não fizeram o estudo prévio recomendado, ou não deram importância aos conselhos que receberam. 84. O que constitui o médium, propriamente dito, é a faculdade; sob este ponto de vista, pode ser mais ou menos formado, mais ou menos desenvolvido. O médium seguro, aquele que pode ser realmente qualificado de bom médium, é o que aplica a sua faculdade, buscando tornar-se apto a servir de intérprete aos bons Espíritos. O poder que tem o médium de atrair os bons e repelir os maus Espíritos, está na razão da sua superioridade moral, da posse do maior número de qualidades que constituem o homem de bem; é por esses dotes que se concilia a simpatia dos bons e se adquire ascendência sobre os maus Espíritos. 85. Pelo mesmo motivo, as imperfeições morais do médium, aproximando-o da natureza dos maus Espíritos, tiram-lhe a influência necessária para afastá-los de si; em vez de se impor, sofre a imposição destes. Isto não só se aplica aos médiuns, como também a todos indistintamente, visto que ninguém há que não esteja sujeito à influência dos Espíritos. (Vede acima, números 74 e 75.) 86. Para impor-se ao médium, os maus Espíritos sabem explorar habilmente todas as suas fraquezas, e,

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entre os nossos defeitos, o que lhes dá margem maior é o orgulho, sentimento que se encontra mais dominante na maioria dos médiuns obsidiados e, principalmente, nos fascinados. É o orgulho que faz se julguem infalíveis e repilam todos os conselhos. Esse sentimento é infelizmente excitado pelos elogios de que são objeto; basta que um médium apresente faculdade um pouco transcendente, para que o busquem, o adulem, dando lugar a que ele exagere sua importância e se julgue como indispensável, o que vem a perdê-lo. 87. Enquanto o médium imperfeito se orgulha pelos nomes ilustres, frequentemente apócrifos, que assinam as comunicações por ele recebidas e se considera intérprete privilegiado das potências celestes, o bom médium nunca se crê assaz digno de tal favor; ele tem sempre uma salutar desconfiança do merecimento do que recebe e não se fia no seu próprio juízo; não sendo senão instrumento passivo, compreende que o bom resultado não lhe confere mérito pessoal, como nenhuma responsabilidade lhe cabe pelo mau; e que seria ridículo crer na identidade absoluta dos Espíritos que se lhe manifestam. Deixa que terceiros, desinteressados, julguem do seu trabalho, sem que o seu amor-próprio se ofenda por qualquer decisão contrária, do mesmo modo que um ator não se pode dar por ofendido com as censuras feitas à peça de que é intérprete. O seu caráter distintivo é a simplicidade e a modéstia; julga-se feliz com a faculdade que possui, não por vanglória, mas por lhe ser um meio de tornar-se útil, o que faz de boamente quando se lhe oferece ocasião, sem jamais incomodar-se por não o preferirem aos outros. Os médiuns são os intermediários, os intérpretes dos Espíritos; ao evocador e, mesmo, ao simples observador, cabe apreciar o mérito do instrumento. 88. Como todas as outras faculdades, a mediunidade é um dom de Deus, que se pode empregar tanto para o bem quanto para o mal, e da qual se pode abusar. Seu fim é pôr-nos em relação direta com as almas da-

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queles que viveram, a fim de recebermos ensinamentos e iniciações da vida futura. Assim como a vista nos põe em relação .com o mundo visível, a mediunidade nos liga ao invisível. Aquele que dela se utiliza para o seu adiantamento e o de seus irmãos, desempenha uma verdadeira missão e será recompensado. O que abusa e a emprega em coisas fúteis ou para satisfazer interesses materiais, desvia-a do seu fim providencial, e, tarde ou cedo, será punido, como todo homem que faça mau uso de uma faculdade qualquer. CHARLATANISMO 89. Certas manifestações espíritas facilmente se prestam à imitação; porém, apesar de as terem explorado os prestidigitadores e charlatães, do mesmo modo que o fazem com tantos outros fenómenos, é absurdo crer-se que elas não existam e sejam sempre produto do charlatanismo. Quem estudou e conhece as condições normais em que elas se dão, distingue facilmente a imitação da realidade; além disso, aquela nunca pode ser completa e só ilude o ignorante, incapaz de distinguir as diferenciações características do fenómeno verdadeiro. 90. As manifestações que se imitam, com mais facilidade, são as de efeitos físicos e as de efeitos inteligentes vulgares, como movimentos, pancadas, transportes, escrita direta, respostas banais, etc.; não se dá o mesmo, porém, com as comunicações inteligentes de subido alcance; para imitar aquelas, bastam destreza e habilidade; ao passo que, para simular as últimas, se torna necessária, quase sempre, uma instrução pouco comum, uma superioridade intelectiva excepcional, uma faculdade de improvisação universal, se assim nos permitem classificá-la.

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91. Os que não conhecem o Espiritismo, são geralmente induzidos a suspeitar da boa-fé dos médiuns; só o estudo e a experiência lhes poderão fornecer os meios de se certificarem da realidade dos fatos; fora disso, a melhor garantia que podem ter está no desinteresse absoluto e na probidade do médium; há pessoas que, por sua posição e caráter, estão acima de qualquer suspeita. Se a tentação do lucro pode excitar à fraude, o bpm-senso diz que o charlatanismo não se mostra onde nada tem a ganhar. (O Livro dos Médiuns, cap. XXVIII; Charlatanisimo e embuste, médiuns vnteressevros, fraudes espíritas, n." 300. — Revue Spirite, 1862, pág. 52.) 92. Entre os adeptos do Espiritismo, encontram-se entusiastas e exaltados, como em todas as coisas; são, em geral, os piores propagadores, porque a facilidade com que, sem exame, aceitam tudo, desperta desconfiança. O espírita esclarecido repele esse entusiasmo cego, observa com frieza e calma, e, assim, evita ser vítima de ilusões e mistificações. À parte toda a questão de boa-fé, o observador novato deve, antes de tudo, atender à gravidade do caráter daqueles a quem se dirige. IDENTIDADE DOS ESPÍRITOS 93. Uma vez que no meio dos Espíritos se encontram todos os caprichos da humanidade, não podem deixar de existir entre eles os ardilosos e os mentirosos; alguns não têm o menor escrúpulo de se apresentar sob os mais respeitáveis nomes, com o fim de inspirarem mais confiança. Devemos, pois, abster-nos de crer de um modo absoluto na autenticidade de todas as assinaturas de Espíritos. 94. A identidade é uma das grandes dificuldades do Espiritismo prático, sendo muitas vezes impossível verificá-la, sobretudo quando se trata de Espíritos superiores, antigos relativamente à nossa época.

de modo incontestável. se esta o subscreveria ou repeliria: eis a questão. como ainda um enviado seu. porque é por esses mesmos hábitos e particularidades da vida privada que a identidade se revela mais seguramente e. cujo caráter e hábitos sejam conhecidos. essas provas são superabundantes. Ela se revela ainda nos detalhes íntimos em que entra espontaneamente. digno ou indigno da personagem que o assina. o que importa é a natureza do ensino. e então é muito natural buscar-se reconhecer a identidade. da mesma categoria da sua. para fixar as nossas ideias. nas quais se refletem seus hábitos. são insuficientes e podem induzir a erro. mas. inteiramente secundária e seria pueril atribuir-lhe importância. com intuito de curiosidade ou de prova. muitas vezes. porém. segundo o género de faculdade do seu intérprete e. se é bom ou mau. Pedro. que geralmente emprega para isso quem não conhece o Espiritismo. patenteadas nas comunicações. o erro . às vezes. muitos não têm nomes para nós. nada nos prova que seja precisamente o apóstolo desse nome.184 ALLAN KARDEC Entre os que se manifestam. então. caráter. O Espírito revela sua identidade por grande número de circunstâncias. porém. por exemplo. sobretudo se elas partirem de pessoas que lhe são indiferentes. é muito raro. linguagem e até locuções familiares. Quando se evoca um parente ou um amigo. 96. tanto pode ser ele como outro da mesma ordem. se um Espírito se comunicar com o nome de S. A questão da identidade é. os meios. neste caso. senão imperfeitamente. com as pessoas a quem ama: são as melhores provas. eles podem tomar o de um Espírito conhecido. O Espírito demonstra a sua identidade como quer e pode. 95. de modo que. A identidade é de mais fácil verificação quando se trata de Espíritos contemporâneos. que ele satisfaça às perguntas diretas que lhe são feitas a esse respeito. é a personalidade que interessa.

— Revue Spirite. que.té. Por pouco que se esteja iniciado nos mistérios do mundo espiritual. Espantam-se de encontrarem comunicações contraditórias assinadas por um mesmo nome. é então que ele recusa sujeitar-se às exigências. não podem causar admiração senão àqueles que só possuem da ciência espírita um conhecimento incompleto. (O Livro dos Méditutns. é submeter todas as comunicações ao exame severo da razão. Nada. As contradições que frequentemente se notam. e conservar ainda um reflexo dos prejuízos terrestres de que se não despojaram. pág. sabe-se com que facilidade certos Espíritos adotam nomes diferentes. como já dissemos. 1862. há de surpreendente. eles não emitem mais que a sua opinião pessoal. Somente os Espíritos inferiores mudam de linguagem com as circunstâncias. 82: Fait d'id0ntí. pois são a consequência da natureza mesma dos Espíritos. na linguagem dos Espíritos. disso com segurança se pode inferir que se duas comunicações. que pode ser mais ou menos acertada. sendo que muitos podem saber menos que certos homens. cap. uma delas é necessariamente apócrifa. XXIV. Dois meios podem servir para fixar as ideias sobre as questões duvidosas: o primeiro.O QUE Ê O ESPIRITISMO 185 está em querer que ele as dê. não sabem as coisas senão na razão do seu adiantamento. para dar mais peso às suas palavras.) CONTRADIÇÕES 97. outros forjam sistemas seus. pois. mas os Espíritos superiores nunca se contradizem. 99. em que nem sempre estejam de acordo. 98. particularmente no que diz respeito a questões científicas e à origem das coisas. sobre aquilo que ainda não conhecem. como deseja o evocador. radicalmente contraditórias no fundo. do bom-senso . trazem o mesmo nome respeitável. Identidade dos Espíritos. Sobre grande número de pontos.

pelo que evitam discussão e querem ser cridos sob palavra. O segundo critério da verdade está na concordância do ensino. pág. acerca da natureza e duração das penas. então. é uma recomendação que fazem todos os bons Espíritos. em proveito da vida futura. As almas que se manifestam. Quando o mesmo princípio é ensinado em muitos pontos por diferentes Espíritos e médiuns estranhos uns aos outros e isentos de idênticas influências. durante a vida presente. segundo o modo por que empregaram o tempo de vida terrena. o estudo do Espiritismo? Para provar materialmente a existência do mundo espiritual. perguntarão: para que serve. resulta de sua admissão a prova da existência da alma e sua sobrevivência ao corpo.186 ALLAN KARDEC e da lógica. as almas ou Espíritos retificam as ideias falsas que faziam da vida futura e. nos revelam suas alegrias ou seus sofrimentos. Descrevendo-nos seu estado e situação. Sendo o mundo espiritual formado pelas almas daqueles que viveram. abstêm-se de fazê-la os maus. cap. nisto temos a prova das penas e recompensas futuras. pois sabem não ter senão a perder com esse exame sério. que é indefinida. aparece a necessidade de trabalhar o mais possível. abril 1864. que é tão curta. — Revue Spirite. (O Livro dos Médwms. principalmente. 99: Autorité de Ia doctrine spirite. — O Evangelho segundo o Espiritismo — "Introdução".) CONSEQÍJÊNCIAS DO ESPIRITISMO 100. Passando assim a vida futura do estado de teoria vaga e incerta ao de fato conhecido e positivo. XXVII. Ante a incerteza das revelações feitas pelos Espíritos. Suponhamos que um homem de vinte anos tenha a certeza de morrer aos vinte e cinco anos. que fará ele . Contradições e mistificações. pode-se concluir que ele está mais próximo da verdade do que aquele que emana de uma só fonte e é contradito pela maioria.

Sem esperança de futuro é natural que o homem seja afetado e se desespere com as decepções por que passa. repercutem-lhe no cérebro e são a fonte da maioria dos casos de loucura. Se. pelos quais ele é capaz de sacrificar a própria honra. daí a ambição desordenada e a importância que liga aos títulos e a todos os efeitos da vaidade. o que o vizinho possui. por isso. acabrunhado nesta vida pelo desgosto e pelo infortúnio. Com a dúvida sobre o futuro. O mesmo se dá com aquele que tem a certeza da'vida futura. não vê senão na morte o termo dos seus sofrimentos. guerras e todos os males engendrados pelo egoísmo. Da cobiça ao desejo de adquirir. daí ódios. por qualquer preço. A importância que se dá aos bens materiais excita a cobiça. ele tiver a certeza de viver até aos oitenta anos. o único objeto de suas preocupações. a atual se torna para o homem a coisa capital. seu procedimento será outro. nada esperando. quer gozar a todo custo. Sem a vida futura. eclipsar os vizinhos por seu fausto e posição. ao qual ele tudo subordina. a inveja e o ciúme do que tem pouco contra aquele que tem muito. Os abalos violentos que experimenta. o homem. e assim. daí ligar-se excessiva importância aos bens materiais. elevar-se acima dos outros. porque nada mais vê além. A certeza da vida futura e de suas consequências muda-lhe totalmente a ordem de ideias e lhe faz ver as coisas por outro prisma. procurará gozar o mais possível. procura pelo suicídio a aproximação desse termo. querelas. porém. o passo é simples. A dúvida relativamente a esse ponto conduz naturalmente a tudo sacrificar aos gozos do presente. aspira a brilhar.O QUE E O ESPIRITISMO 187 nestes cinco anos que lhe restam? trabalhará para o futuro? certamente que não. durante longos anos. não só os bens materiais como as honrarias. sem proveito. processos. . porque então compreenderá a necessidade de sacrificar alguns instantes do repouso atual para assegurar o repouso futuro. acreditando ser uma tolice submeter-se a fadigas e privações.

por consequência. quando ela professar esses princípios e praticar o bem. afasta numerosos casos de loucura e desvia forçosamente o pensamento do suicídio. mesmo neste mundo. A demonstração da existência do mundo espiritual que nos cerca e de sua ação sobre o mundo corporal. a vida terrena some-se. para as vicissitudes e decepções. uma tranquilidade que já constituem uma felicidade. com a dúvida perde a paciência. impreterivelmente. imprime em quantos estão bem convencidos dessa verdade uma tendência. triunfará do mal aqui na Terra. com o fito de nos elevarmos acima dos outros. é a revelação de uma das forças da Natureza e. Quando a maioria dos homens estiver convencida dessa ideia. procurarão os homens não mais se molestarem uns aos outros. porque nada espera do presente. como o grão de areia ao lado de uma montanha. Tudo se torna pequeno. assaz natural. o homem espera e se resigna. regularão suas instituições sociais — tendo em vista o bem de todos e não o proveito de alguns. em uma palavra. e ficamos pasmos de haver dado importância a coisas tão efémeras e pueris. e assim basearão as leis civis sobre as leis da caridade. O exame daqueles que já viveram. mesquinho. Diante da infinidade e grandeza da vida de Além-Túmulo. Daí. a chave de grande número de fenómenos até . Com a certeza do futuro. comparadas às desordens e tormentos a que nos sujeitamos. daí. também. uma calma. que a soma de desditas está na razão dos vícios e más ações. para fazer o bem e evitar o mal. tirando todo motivo de desespero. no meio dos acontecimentos da vida. este. como um segundo na contagem dos séculos.188 ALLAN KARDEC é um véu que se levanta descobrindo imenso e esplêndido horizonte. uma indiferença que. compreenderão que a lei da caridade ensinada pelo Cristo é a fonte da felicidade. provando que a soma da felicidade futura está na razão do progresso moral efetuado e do bem que se praticou na Terra.

eles as repilam e classifiquem de superstições? Não será isso o mesmo que confessar a seus discípulos que eles lhes ensinam a existência da alma. sobre um ponto de ciência. como. quando se lhes fornecem as provas que não tinham.O QUE É O ESPIRITISMO 189 agora incompreendidos. será uma alavanca para o progresso. uma revolução nas ideias não pode deixar de produzir . em vez de predispô-la à negação do futuro. mas sem apresentar provas materiais. Nas lições de filosofia clássica. o horizonte da Ciência se alargará. ora. segundo as diversas escolas. procura com empenho e colhe com alegria tudo o que possa demonstrar a veracidade dessa hipótese. retificará imenso número de erros provenientes de atribuir tudo a uma única causa: a matéria. Quando do alto de suas cátedras os sábios proclamarem a existência do mundo espiritual e sua participação nos fenómenos da vida. como se alargou com o da lei da gravitação. Suponhamos que os Espíritos sejam incapazes de ensinar-nos alguma coisa além do que já sabemos. pois. nos fenómenos da Natureza. Quando a Ciência levar em conta essa nova força até hoje desconhecida. despreza os meios de lhes fornecer uma patente demonstração ? 101. um professor de filosofia. eles infiltrarão na mocidade o contraveneno das ideias materialistas. produzirá o efeito da descoberta de um agente inteiramente novo. cujo dever é provar a seus discípulos que eles têm uma alma. O conhecimento dessa nova causa. Não parece estranho que. os professores ensinam a existência da alma e seus atributos. vê-se que só a demonstração da existência do mundo espiritual conduz forçosamente a uma revolução nas ideias. Com o auxílio da lei espírita. ou do que por nós mesmos poderemos saber. tanto na ordem física quanto na moral. mas que de tal fato não têm prova alguma? Quando um sábio emite uma hipótese.

se as suas revelações são rodeadas de certas dificuldades. revelaram a potência galvânica. existiram de todos os tempos.190 AIJLAN KARDEC outra na ordem das coisas. em todas as épocas. ou mesmo nenhuma. saltando num prato. e. As verdades ensinadas pelo Espiritismo são antes consequências que descobertas. como não descobriu o mundo espiritual. Só as verdades eternas são absolutas. fez a volta do mundo e pode regenerá-lo pela verificação da realidade da vida futura. É esta revolução que o Espiritismo prepara. a queda de um fruto fez descobrir a lei que rege os mundos. As menores causas podem produzir grandes efeitos. ultrapassando esses limites é que nos expomos a ser enganados. O Espiritismo ensina poucas verdades absolutamente novas. em virtude do axioma — nada há de nova debaixo ao Sol. mediante estudo mais completo e mais atentas observações. fazem mais que isso. que o estudo sério e completo da ciência espírita é indispensável. todavia. conseguiram desenvolver. não é menos real que os Espíritos esclarecidos — quando sabemos interrogá-los e quando lhes é permitido —• podem revelar-nos fatos ignorados. sobretudo. É nisto. 104. porém. 103. as que o Espiritismo prega. ele o prova por . uma doutrina que. a fim de só se lhe pedir o que ela pode dar e do modo por que o pode fazer. pelo que encontraremos. desta. O Espiritismo não descobriu nem inventou os Espíritos. assim como de um grãozinho pode brotar uma árvore imensa. se elas exigem minuciosas precauções para se lhes comprovar a exatidão. 102. no qual se acreditou em todos os tempos. esses germens que. as rãs. em alguns anos. Os Espíritos. também do fenómeno vulgar das mesas girantes saiu a prova da existência do mundo invisível. sendo fundadas sobre leis naturais. dar-nos a explicação do que não compreendemos e encaminhar-nos para um progresso mais rápido.

filhos da dúvida e da incredulidade. incompletas como são. bastam para mostrar a base em que se assenta o Espiritismo. .O QUE É O ESPIRITISMO 191 fatos materiais e o apresenta em sua verdadeira luz. OBSERVAÇÃO — Estas explicações. segundo as circunstâncias. desembaraçando-o dos preconceitos e ideias supersticiosas. o caráter das manifestações e o grau de confiança que podem inspirar.

por Flammarion. serão seus hábitiaintes. Os diferentes mwmdos que circulam no espaço. como tudo leva a crê-lo e como parece demonstrá-lo as observações astronómicas. nem pelo seu volume. com o fim único de recrear-nos a vista. (O Livro dos Estpfoitos. A Terra não ocupa no Universo nenhuma posição especial. tanto mais que o maior número deles se acha fora de nosso alcance. semelhantes aos da Terra? Em uma paZcrere. e nós óntre eles f A forma geral poderia ser. em tudo. mais ou menos. poderiam eles viver entre nós. 65: Plwralité dês mondes. — Renuue Spirite.CAPITULO m Solução de alguns problemas pela Doutrina Espírita PLURALIDADE DOS MUNDOS 105. Além disso. e nada justificaria o privilégio exclusivo de ser habitada. nem por sua colocação. terão habitantes como a Terra? Todos os Espíritos o afirmam e a razão diz que assim deve ser. pág. a mesma.) 106. 1858. Se os mundos são povoados. Deus não teria criado milhares de globos. mas o organismo deve ser adaptado ao meio em que eles têm de viver. Se o meio for diverso. 7 . como os peixes são feitos para viver na água e as aves no ar.° 55. n.

ela forma com o perispírito um conjunto fluídico. outros ainda mais adiantados. mais material e mais propensa ao mal. cuidados. quase fluídico. sendo sua humanidade mais bruta. se aproxima cada vez mais da natureza dos anjos. moléstias e enfermidades. 67. eles possam mudar de mundo com os mesmos corpos. 107. em seu estado normal. aí os homens vivem em paz. neles. menos material. págs. cap. Na série progressiva dos mundos. não está sujeita aos sofrimentos. intelectual e fisicamente. estarão na mesma colocação que o nosso. isentos dos desgostos. págs. 108 e 223. como geralmente se crê. AdmAtimido que esses mwnãas sejam povoados. de alguma sorte. Podemos figuradamente supor dois corpos semelhantes na forma. 1860. as artes e as ciências já atingiram um grau de perfeição que foge à nossa apreciação. (Reme Spirrite. não é. o nosso nem ocupa o primeiro nem o último lugar. alguns estão no mesmo ponto que o nosso. — O EvamgeIho segundo o Espiritismo.194 AIXAN KARDEC a organização deve ser diferente. aflições e necessidades que os apoquentam na Terra. sob o ponto de vista intelectual e "moral? Segundo o ensino dos Espíritos. onde o invólucro corporal. — Idem. assimilando-se ao corpo inteiro. Há. a organização física. Pelo contrário. mais que um desdobramento. um encaixado no outro. Isto é confirmado por todos os Espíritos. provável que. mas é um dos mais materializados e atrasados. pois. os mundos se acham em graus de adiantamento muito diferentes. 1858. outros são muito mais adiantados moral. 318 e 320. com o qual ela constitui um ser complexo. sem buscar o prejuízo uns dos outros. penetrável. . finalmente. HE. outros são mais atrasados.) DA ALMA 108. Qual a sede da alma? A alma não está. do qual a morte não é. o mal moral é desconhecido. localizada num ponto particular do corpo.

já existia. e os fatos. é esta uma das questões mais capitais. sem ela. isto é. e veremos aplainar-se a maioria das dificuldades. o que tem conduzido muitos pensadores à incredulidade. Os Espíritos resolveram a questão afirmativamente. Nessa ocasião um deles é destruído. já tinha a alma feito algtim progresso. como a lógica. ou não existia antes da formação do corpo. ao menos como hipótese. ao passo que o outro subsiste. Durante a vida a alma age mais especialmente sobre os órgãos do pensamento e do sentimento. certos dogmas da Igreja ficam sem justificação.O QUE fi O ESPIRITISMO 195 confundidos durante a vida e separados depois da morte. encontram-se tropeços a cada passo.. 111. ou estava estacionária? . interna e externa. ao mesmo tempo. Se a átomo. a preexistência da alma. e. não pode haver meio-termo. seria como se não existisse. Antes da sua união com o corpo. transportar-se ao longe e aí manifestar sua presença. mesmo. 110. podendo mesmo isolar-se do corpo. não podem deixar dúvidas a esse respeito. irradia exteriormente. ou anteriormente a este f Depois da questão da existência da alma. como o provam a observação e os fenómenos sonambúlicos. criada ao -mesmo tempo cfue o corpo. De duas uma: ou a alma existia. por não se ter nela acreditado. Ela é. Com a preexistência da alma tudo se explica lógica e naturalmente. ela é a única capaz de explicar uma multidão de problemas até hoje insolúveis. Será a alma. antes da suia união com o corpo tinha ela sua individualidade e consciência de si? Sem individualidade e sem consciência de si mesma. porque de sua solução dimanam as mais importantes consequências. 109. Admita-se.

Se as almas são criadas iguais. não conciliaria essa preferência com a justiça. isto é. encontram-se numa espécie de infância. na Terra. A princípio. como eocpUcar a diversidade de aptidões e predisposições naturais que notamos entre os homens. 113. ao mesmo tempo que as ideias. (O Livro dos Espíritos. Sendo todas as criaturas obra sua. por que dispensaria ele do trabalho umas. sem vontade própria e sem consciência perfeita de sua existência.°s 114 e seguintes. Fez a alma esse progresso anterior. são as que têm vivido mais e mais progredido antes de sua encarnação.) 115. mas com igual aptidão para tudo. ou fê-las mais 'perfeitas e inteligentes umas que as outras? Se Deus as houvesse feito umas mais perfeitas que as outras. em inteligência e moralidade. na Terra? Essa diversidade é a consequência do progresso feito pela alma. corporal ? Além do ensino dos Espíritos sobre esse ponto. As almas mais adiantadas. antes da sua união ao corpo. n. sem ciência e sem conhecimento do bem e do mal. o estudo dos diferentes graus de adiantamento do homem. Qual o estado da alma em s\ua origem? As almas são criadas simples e ignorantes. prova que o progresso anterior da alma deve . 112.196 ALLAN KARDEC O progresso anterior da alma é simultaneamente demonstrado pela observação dos fatos e pelo ensino dos Espíritos. Criou Deus as almas iguais moral e intelectualmente. ou em precedente existência. 114. Pouco a pouco o livre-arbítrio se desenvolve. quando o impõe a outras para alcançarem a felicidade eterna? A desigualdade das almas em sua origem seria a negação da justiça de Deus. no estado de alma propriamente dita.

mas. mas não se podem manifestar senão proporcionalmente ao desenvolvimento dos órgãos. Desde esse momento. segundo o grau a que ele chegou. Qual o estado intelectual da alma da criança no momento de nascer? Seu estado intelectual e moral é o que tinha antes da união ao corpo. Este laço se estreita cada vez mais. (O Livro dos Espíritos. no caso de serem criadas ao mesmo tempo que o corpo. 117. a prova disto está na observação dos fatos que diariamente estão sob os nossos olhos. páginas 97 a 106. — Revue Spirite. preso ao corpo com o qual se deve unir. à medida que o corpo se vai desenvolvendo.O QUE É O ESPIRITISMO 197 fazer-se em uma série de existências corporais. suas ideias se acham momentaneamente em estado latente. Como e em que momento se opera a wnião da alma ao corpo? Desde a concepção. das aptidões instintivas para uma arte ou ciência. o Espírito perde a consciência de si e não recobra as ideias senão gradualmente. ao aproximar-se do nascimento. ainda que errante. Elas se vão esclarecendo aos poucos. está. o Espírito. a partir do momento em que a criança começa a respirar. das disposições precoces.) O HOMEM DURANTE A VIDA TERRENA 116. 1862. o Espírito sente uma perturbação que cresce sempre. a alma possui todas as ideias anteriormente adquiridas. abstração feita da instrução? As ideias inatas não podem ter senão duas fontes: a criação das almas mais perfeitas umas que as outras. 118. abril. Qual a origem das ideias inatas. n.°s 166 a 222. mais ou menos numerosas. por um cordão fluídico. isto é. a união então é completa e definitiva. . ocasião em que ela se torna completa. em razão da perturbação que acompanha a mudança de estado.

ao passo que outras são instintivamente viciosas em um meio bom.198 ALLAN KARDEC ou um progresso por elas adquirido anteriormente à encarnação. O homem de génio é a encarnação de um Espírito adiantado que muito houvera já progredido. um bom e o outro mau? Por que o filho de um homem de génio é. Na geração. educados nas mesmas condições. quando este não exista. para servirem de base à aquisição de outras novas. os pais transmitiriam aos filhos as suas qualidades e defeitos próprios. um homem de g\ênio'? É um fato esse que vem em abono da origem das ideias inatas. se assim não fosse. prova. <um tolo. Como se podem revelar génios mas classes da sociedade inteiramente privadas de cultura intelectual? É um fato que prova serem as ideias inatas independentes do meio em que o homem foi educado. de sorte alguma. só fica de pé a segunda. são ideias que se conservaram no estado de intuição. e o de um tolo. As ideias inatas são o resultado dos conhecimentos adquiridos nas existências anteriores. mas não o génio. um é às vezes mteligente e o outro estúpido. A educação pode fornecer a instrução que falta. 121. algumas vezes. Por que encontramos crianças instintivamente boas em um meio perverso. apesar dos maus eocemplos •que colhem. como lhes transmitem o princípio das qualidades corporais. O ambiente e a educação desenvolvem as ideias inatas. mas não no-las podem dar. da dos pais. Sendo a primeira hipótese incompatível com a justiça de Deus. como as ideias inatas são o resultado do progresso intelectual. Por que de dois filhos do mesmo pai. 120. apesar dos bons conselhos que recebem? É o resultado do progresso moral adquirido. que a alma do filho não procede. além disso. somente o . em virtude do axioma que a parte é da mesma natureza que o todo. 119.

) 123. 270: La Peime ãu ttalian. Deus lhes inspira uma afeição mútua. Da Infância. nascidas nas classes superiores. para punição do que foram em existência anterior. condição servil. mas com o fim de servirem de instrumentos de provas uns aos outros e. para excitá-los a isso. pág. Por que encontramos em certas pessoas. e o nascimento em. pela primeira vez? São quase sempre entes que se conheceram e.O QUE Ê O ESPIRITISMO 199 corpo procede do corpo. (O Lwro dos Espíritos. sendo por isso punidos. Por que há maus pais e maius filhos? São Espíritos que não se ligaram na mesma família por simpatia. pelo mesmo motivo. nascidas em. . instintos de dignidade e grandeza. muitos. mas depende muitas vezes da escolha feita pelo Espírito. porém. n. 122. (Revue Spirite. enquanto outras. porque também ele o foi. só apresentam instintos de baixem? Ê uma reminiscência intuitiva da posição social que o Espírito já ocupou. Qual a causa das simpatias e amtipatias que se manifestam entre pessoas que se vêem. a um é dado um mau filho. a fim de que sofram a pena de talião. que vem juntar-se àqueles a quem amou no mundo espiritual ou em suas precedentes existências. 1861. faltam a essa missão. aonde v&m o amor dos pais pelos filhos e o destes por aqueles? Os Espíritos se ligam por simpatia. e do seu caráter na existência precedente." 379. tal ou tal família não é um efeito do acaso. mas as almas são independentes umas das outras. e. Por outro lado. se amaram em uma existência anterior. a outro. muitas vezes. 125. um mau pai. os pais têm por missão ajudar o progresso dos Espíritos que encarnam como seus filhos. Se as almas são independentes umas das mitras. algumas vezes.) 124. e que.

pelo contacto desses fluidos. Tem. a impressão sensitiva. É assim que se pode explicar o fenómeno da transmissão de pensamento. não haveria para ele nem responsabilidade do mal. 114. O livre-arbítrio do homem é uma consequência da justiça de Deus. 126. o homem o livre-aarbítno. lêem uma na outra. é o atributo que a divindade imprime àquele e o eleva acima de todas as outras criaturas. Toda punição seria uma injustiça. de relações anteriores. formando uma espécie de atmosfera impregnada das qualidades boas ou más do Espírito encarnado. são atraídos um para o outro. ou está sujeito à fataUdaOe? Se a conduta do homem fosse sujeita à fatalidade. Por que não conserva o 'homem a lembrança de suas anteriores emstências? Não será ela necessária ao seu progresso futuro? (Vede a parte que trata do Esquecimento do "passado. uns pelos outros. sem se falarem. duas almas.) 127. experimentam. O perispírito irradia ao redor do corpo. Pelo contacto desses fluidos. segundo sua natureza semelhante ou dessemelhante. toda recompensa um contra-senso. os fluidos tendem a confundir-se ou a repelir-se. muitas vezes. baseia-se na . 128. Duas pessoas que se encontram. Ê isto tão real que a estima dos homens. elas se adivinham e compreendem. impressão que pode ser agradável ou desagradável. nem mérito do bem que pratica. de algum modo. pág. Esses dois sentimentos podem ainda ter uma outra causa. resoluções que ele.200 ALLAN KARDEC encontrando-se nesta. esquece como homem. As antipatias instintivas provêm também. muitas vezes. Qual a origem do sentimento a que chamamos consciência ? Ê uma recordação intuitiva do progresso feito nas precedentes existências e das resoluções tomadas pelo Espírito antes de encarnar.

132. livre-arbítrio e. por consequência. é lastimado ou desprezado. (Revue Spírite. e estas são sempre boas. seria perfeitamente feliz. segundo seja ele a encarnação de um Espírito adiantado ou atrasado. aquele que as observasse fielmente. Em mundos mais adiantados. embriaguez ou idiotismo.) 129. sem. por outra. Qual a origem do bem e do mal na Terra e por que este predomina? A imperfeição dos Espíritos que aqui se encarnam. quanto à predominância deste. de observar ou infringir as leis de Deus. isto é. porém. nem sempre as observam. porém suscetível.O QUE É O ESPIRITISMO 201 admissão desse livre-arbítrio. loucura. tendo seu livre-arbítrio. quem. dos males (fwe afligem. é a origem do mal na Terra. 131. 130. O materialista que faz todas as faculdades morais e intelectuais dependerem do organismo. perde acidentalmente essa faculdade. O homem nasce bom ou mau. na maioria. 1862. porque Ele é soberanamente bom. pág. La tête de Gnríbaldi — Idem. o mal não existe ou está em minoria. reduz o homem ao estado de máquina. Ele estabeleceu leis. 97: Phrénologie spirritualiste. e é dessa infração que provém o mal. nidade? Qual a causa. sem responsabilidade do mal e sem mérito do bem que pratica. O homem já nasce bom ou ma/u? É preciso fazermos uma distinção entre a alma e o homem. por uma enfermidade. provém da inferioridade do planeta. em razão do seu livre-arbítrio. pág. a huma- . nem boa nem má. 1861. onde só encarnam Espíritos depurados. cujos habitantes são. Será Deus o criador do mal? Deus não criou o mal. A alma é criada simples e ignorante. os Espíritos. 76. Espíritos inferiores ou que pouco têm progredido. de seguir o bom ou o mau caminho. ou.

surdas. porém. seguidas de uma felicidade. que fez ela para merecer tais aflições. em relação à eternidade. tanto maior e duradoura. pelo contrário. Admitida. Os males da nossa humanidade são a consequência da inferioridade moral da maioria dos Espíritos que a formam. desde o seu mascimento. que as aflições do homem de bem são. não lhe será mais que um dia mau em uma existência próspera. o mesmo com quem admite a pluralidade das existências e pensa na brevidade de cada uma delas. a Providência não existiria. ou wm ato da Providência. Por que vemos tantas vezes o menu prospera/r. ao mesmo tempo. vive em aflição? Para aquele cujo pensamento não transpõe as raias da vida presente. se a alma é criada ao mesmo tempo que o corpo. Compreende-se que quem se torna miserável ou enfermo. como escola de Espíritos pouco adiantados e cárcere de Espíritos criminosos. para quem a acredita única.? Se fosse do acaso. perguntamos como se conciliam esses fatos com a sua bondade e justiça? É por falta de compreensão da causa de tais males que muitos se arrojam a acusar Deus. Por que nascem alguns na indigência e outros na opulência? Por que vemos tantas pessoas nascerem cegas. «mudas ou afetadas de moléstias memoráveis. Não se dá. enquanto o homem de bem. O estudo do Espiritismo prova que a prosperidade do mau tem terríveis consequências em suas seguintes existências. a Providência. 134. enquanto owtsras possuem todas as vantagens físicas? Será um efeito do acaso. seja punido por onde pecou: porém. eles se infelicitam reciprocamente e punem-se uns aos outros. porém. Pelo contacto de seus vícios. 133. quanto mais resignadamente ele soube suportá-las. isto deve parecer clamorosa injustiça.202 ALLAN KARDEC O nosso mundo pode ser considerado. por suas imprudências ou por excessos. ou para ficar isenta delas? .

entregues aos maus-tratos e à humilhação a que submeteram os outros. muitas vezes. necessidade de a alma já ter vivido. para eles não há compensação possível. Esses estudos no-los fazem ver. Por miserável que seja a condição em que o homem nasça. nos dá força para suportarmos as vicissitudes da vida e aceitarmos a nossa sorte. e se esta causa não se encontra na vida presente. nascido na abjeção. que mais de um. ele poderá sair dela por sua inteligência e trabalho. não podemos deixar de admitir que esse efeito tem uma causa. o idiota e o imbecil. abusou do poder para oprimir os fracos. que vê um meio de avançar mais rapidamente. na qual fez mau uso da fortuna que Deus o encarregara de gerir. há. A diferença das posições sociais seria a maior das injustiças — quando não seja o resultado da conduta atijal — se ela não tivesse uma compensação. Por que foi. são votados. sem invejar a dos outros. 135. demonstra ser ela uma prova em que a vitória é mais difícil. sua alma criada idiota? . Os estudos espíritas nos mostram. conforme a coragem com que saiba suportá-la. para que possa merecer uma expiação. ao embrutecimento e ao desprezo. na hipótese da unicidade da existência.O QUE É O ESPIRITISMO 203 Se admitimos a justiça de Deus. que mais <ie um homem. sujeitos àqueles a quem trataram com dureza. porém. desde o nascimento até a morte. porque em todas as coisas a causa deve >preceãer ao efeito. foi rico e considerado em uma existência anterior. deve achar-se antes desta. Nem sempre uma vida penosa é expiação. nascido na miséria. A riqueza é também uma prova. muitas vezes é prova escolhida pelo Espírito. então. pois. de fato. Por que há homens idiotas e imbecis? A posição dos idiotas e dos imbecis seria a menos conciliável com a justiça de Deus. foi anteriormente orgulhoso e prepotente. pelas tentações que dá e pelos abusos que enseja. pelo Espiritismo. A convicção que dessa verdade adquirimos. também o exemplo dos que viveram. mas muito mais perigosa que a miséria.

A diferença das posições sociais seria a maior das injustiças — quando não seja o resultado da conduta atijal — se ela não tivesse uma compensação. pelo Espiritismo. para eles não há compensação possível. Nem sempre uma vida penosa é expiação. que mais <ie um homem. foi rico e considerado em uma existência anterior. que vê um meio de avançar mais rapidamente. desde o nascimento até a morte. demonstra ser ela uma prova em que a vitória é mais difícil. porém. de fato. nascido na miséria. abusou do poder para oprimir os fracos. que mais de um. A convicção que dessa verdade adquirimos. há. muitas vezes. foi anteriormente orgulhoso e prepotente. na qual fez mau uso da fortuna que Deus o encarregara de gerir. pois. nos dá força para suportarmos as vicissitudes da vida e aceitarmos a nossa sorte. ao embrutecimento e ao desprezo. Por que foi. pelas tentações que dá e pelos abusos que enseja. entregues aos maus-tratos e à humilhação a que submeteram os outros. sujeitos àqueles a quem trataram com dureza. então. muitas vezes é prova escolhida pelo Espírito. sem invejar a dos outros.O QUE É O ESPIRITISMO 203 Se admitimos a justiça de Deus. porque em todas as coisas a causa deve >preceãer ao efeito. Os estudos espíritas nos mostram. conforme a coragem com que saiba suportá-la. Por que há homens idiotas e imbecis? A posição dos idiotas e dos imbecis seria a menos conciliável com a justiça de Deus. nascido na abjeção. também o exemplo dos que viveram. deve achar-se antes desta. 135. o idiota e o imbecil. sua alma criada idiota? . ele poderá sair dela por sua inteligência e trabalho. e se esta causa não se encontra na vida presente. são votados. Por miserável que seja a condição em que o homem nasça. A riqueza é também uma prova. não podemos deixar de admitir que esse efeito tem uma causa. Esses estudos no-los fazem ver. na hipótese da unicidade da existência. para que possa merecer uma expiação. mas muito mais perigosa que a miséria. necessidade de a alma já ter vivido.

sonambulismo. para agir separadamente e ir aonde quer."s 400 e seguintes. Qual o estado da alma durante o sono? No sono é só o corpo que repousa. o Espírito goza de toda a liberdade e da plenitude das suas faculdades. dos momentos em que este lhe dispensa a presença. 1860. 81: Étwàe sw l'Esprit dês personnes vivantes. mas o Espírito não dorme. são a recordação dos lugares e das pessoas que o Espírito viu ou visitou nesse estado. — O Livro dos Médiuns: Evocação das pessoas vwas. letairgia. nessas condições. e pelo desprezo de que se vêem objeto. 311: Lês crétms. Qual a oausa dos sonhos? Os sonhos são o resultado da liberdade do Espírito durante o sono. 137.) 136. — Revue Spinte. UEsxprit d'wn idiot. que serve para chamá-lo. — Idem." 284. talvez. e sofrem cruelmente por se sentirem presos. 11: L'Esprit d'wi cote et lê corps de 1'aiutre. 1861. n. (R&ime Spirite. pág. As observações práticas provam que. pág. pág. que essa enfermidade é uma expiação infligida a Espíritos que abusaram da inteligência. quando. provam que suas almas são tão inteligentes como as dos outros homens. em laços que não podem quebrar. quando a sua presença se torna necessária. feitos acerca dos imbecis e idiotas. o Espírito fica sempre preso ao corpo por um cordão fluídico. (O Livro dos Espíritos: E<mandpação da alma. Só a morte rompe esse laço. sono. às vezes. qualquer que seja a distância a que se transporte. •— Idem. 173. aproveita-se do repouso do corpo. Donde vêm os pressentimentos? São recordações vagas e intuitivas do que o Espírito aprendeu em seus momentos de liberdade e algumas vezes avisos ocultos dados por Espíritos benévolos. vista dupla. 1860. pág. . etc.. Durante a vida.204 ALLAN KARDEC Os estudos espíritas. tenham sido tão considerados em encarnação precedente. sonhos. n.) 138. 1860.

não é compreensível que o selvagem não pudesse conseguir civilizar-se aqui na Terra. Admitindo para as almas um mesmo ponto de partida — única doutrina compatível com a justiça de Deus —. vez<.O QUE B O ESPIRITISMO 205 139.°. o mesmo grau da alma esclarecida. 140. ora. depois da morte. quando vemos almas mais adiantadas encarnadas ao lado dele. faça o seu progresso no estado de Espírita ou em outras esferas? Esta proposição seria admissível. quantas vezes temos diante de nós a prova do contrário! Com efeito. na Terra. é um fato material que prova o progresso que uns já fizeram e que os outros têm de fazer. bem como se ache na mesma elevação que a do homem esclarecido. a presença simultânea da selvageria e da civilização. não encarnando mais que uma. seguindo todos os graus intermediários a esses dois extremos. seguindo 'pensam. a razão recusa admitir que. Além disso. pois. Não será admissível. essa alma não pode atingir esse grau senão em encarnações sucessivas. que a alma. algwmas pessoas. com o tempo. demonstrada por exemplos que temos à vista. por que só a Terra teria o monopólio das encarnações. era preciso explicar: _1. a menos que admitamos tenha Deus criado almas selvagens e almas civilizadas. a alma do selvagem fique perpetuamente em estado de inferioridade. Por que há na Terra selvag<ens e homens cwilizados? Sem a preexistência da alma. o que seria a negação da sua justiça. do que resulta a possibilidade da pluralidade das existências terrenas. caso em que se poderia dizer ser a Terra destinada a determinado grau. . Se fosse de outro modo. cada vez mais aperfeiçoadas e apropriadas ao seu adiantamento. se todos os habitantes da Terra se achassem no mesmo nível moral e intelectual. mas. esta questão é insolúvel. A alma do selvagem atingirá. como todos os dias morrem selvagens.

o mesmo ponto de partida que a de um homem cheio de virtudes. Um chinês. ainda. que encarnam em um meio simpático e. muitas vezes. 141. desde então. uma delas é boa e a outra má? 142. a do criminoso e a do homem de bem são tão novas uma como a outra. por que. por exemplo. Se a alma não é anterior ao corpo. que a alma do criminoso endurecido tenha. no meio das sociedades civilizadas. tendo esse monopólio. então. como a dos homens da Idade Média. na vida atual. sem negar a Deus os atributos de bondade e justiça. no mesmo meio em que podem satisfazer as suas inclinações. e onde estão deslocados. Como progridem e como degeneram os povos? Se a alma é criada juntamente com o corpo. que experimentam reencarnar em meio que não é o seu. saídos das raças bárbaras. se este tivesse de ser recomeçado com as almas novas que diariamente chegam? Os Espíritos encarnam em um meio simpático e em relação com o grau do seu adiantamento. tão primitivas. 143. pergunta-se. pergunta-se por que têm elas costumes mais brandos e inteligência mais desenvolvida? Se na morte do corpo a alma deixa definitivamente a Terra. nela se apresentam almas encarnadas de todos os graus.°. se mostram seres de ferocidade comparável à dos mais bárbaros selvagens? São Espíritos muito inferiores. que progredisse suficientemente e não encontrasse mais na sua raça um meio . e. as dos homens de hoje são tão novas.206 ALLAN KARDEC 2. OBSERVAÇÃO — Não é possível admitir-se. Donde vem o caráter distintivo dos povos? São Espíritos que têm mais ou menos os mesmos gostos e inclinações. qual seria o fruto do trabalho feito para melhoramento de um povo. Par que. por que razão. como estaria um rústico colocado de repente numa cidade adiantada.

dele se tinham afastado. por extinguir-se. ela con- . afinal. Como se opera a separação <da alma e do corpo? É brusca ou gradual? O desprendimento opera-se gradualmente e com lentidão variável. donde vem a diversidade de raças.) O HOMEM DEPOIS DA MORTE 144. o povo acabaria por degenerar. Se a maioria dos seus novos habitantes fosse de natureza inferior e os antigos emigrassem. talvez.) 145. e. segundo os indivíduos e as circunstâncias da morte. •— Idem. (O Lwro dos Espíritos. tudo se apresenta confuso. Os laços que prendem a alma ao corpo não se rompem senão aos poucos.° 155. cor exemplo. 97: Per/ecíibilité de Ia roce nègre. n«s 776 e seguintes. os quais são. atrai por simpatia Espíritos mais avançados. — Revtie Spirite. Qual a situação da alma. os mesmos que já haviam vivido no mesmo país e que. 1: Doctrine dês unges dêchus. por seu progresso. que vê? Que experimenta ela? No momento da morte. encarnará entre um povo mais adiantado. uma nação avança. na Terra? — Há raças rebeldes ao progresso? — A raça negra é suscetível de subir ao nível das raças europeias? — A escravidão é útil ao progresso das raças inferiores? — Como se pode operar a transformação da Humanidade? — (O Livro dos Espíritos: Lei de progresso. 1862.O QUE fi O ESPIRITISMO 207 correspondente ao grau que atingiu. é-lhe preciso algum tempo para se reconhecer. diariamente e não mais descessem a um meio inferior. é assim que. mediatamente depois da morte do oorpo? Tem ela instantaneamente a consciência de si? Em uma palavra. OBSERVAÇÃO — Essas questões provocam outras que encontram solução no mesmo princípio. 1862. pág. pág. À medida que uma geração dá um passo para frente. e tanto menos rapidamente quanto mais a vida foi material e sensual. n. passo a passo.

como aquele a quem tirassem as cadeias que o prendiam. 129 e 171: Obsèques de M. a alma vê e ouve ainda outras coisas que escapam à grosseria dos órgãos corporais. pág. (R&iMe Spitrite. nada tem de penosa para o homem de bem. Sanson. 1860. 244: Morrt d'wn Spvrite. como de muitos dias. para aqueles que. é muito variável. então. é calma e em tudo semelhante à que acompanha um despertar plácido. sequente à morte. e que se dissipa o nevoeiro que lhe obscurece os pensamentos. desembaraçado. idem. É menos longa. meses ou. 1859. Em sua nova situação.) OBSERVAÇÃO — Estas respostas e todas as relativas à situação da alma depois da morte ou durante a vida. a perturbação. porém. 1862. de muitos anos. sequente à morte. 332: Lê réveil de 1'Esprit. Para aquele cuja consciência não é pura e amou mais a vida corporal que a espiritual. se identificaram com o seu estado futuro. esse momento é cheio de ansiedade e de angústias. — Idem. fica-se como que livre de um fardo. e o Espírito sente-se feliz por não mais experimentar as dores corporais que o atormentavam alguns instantes antes. A sensação a que podemos chamar física. mesmo. sente-se livre. — Idem. O tempo da perturbação. porque esses compreendem imediatamente a sua situação. enquanto vivos. pág. que vão aumentando à medida que ele se reconhece. A sensação que a alma experimenta nesse momento é também muito variável. A lucidez das ideias e a memória do passado lhe voltam.208 ALJLAN KAKDEC serva-se tonta. entretanto. à medida que se destrói a influência da matéria de que ela acaba de separar-se. sensações e percepções que nos são desconhecidas. é tanto mais longa quanto mais materialmente o indivíduo viveu. é a de grande alívio e de imenso bem-estar. Tem. págs. não . no estado do homem que sai de profundo sono e que procura compreender a sua situação. pode ser de algumas horas somente. porque então sente medo e certo terror diante do que vê e sobretudo do que entrevê.

consciência de sua mdwidualidade? Como a constata e como podemos constatá-la ? Se as almas não tivessem sua individualidade depois da morte. desde o mais baixo ao mais alto grau da escala. nos vêm instruir. para elas. e que se não dissipa senão à medida que eles se desmaterializam e se purificam. como nós o estamos na luz solar. é um erro. podendo dizer-se que o Universo está mergulhado na divindade. não teriam caráter algum distintivo. e Deus o permite hoje. tem a alma. nas manifestações espíritas. pela . falando da vida futura. A alma que deiom o corpo. etc. em relação aos Espíritos: verdadeiros cegos. porque em toda parte Ele irradia. seria o mesmo que não existirem. em relação a Deus. como para nós. segundo seus hábitos durante a vida terrena. observados em todas as fases e períodos da sua existência espiritual. Se Deus está em toda parte. género de morte. como último aviso à incredulidade e ao materialismo. Depois da morte. porque ninguém no-lo veio contar. 146. estão envolvidos numa espécie de nevoeiro que O oculta a seus olhos. mas de estudos diretos feitos sobre milhares de indivíduos. a do criminoso estaria na mesma altura que a do homem de bem. 147. Muitas vezes diz-se. o que os encarnados são. os Espíritos atrasados. par que nem todos os Espíritos podem vê-lo? Deus está em toda parte. pois são precisamente os que nela já se acham. pode ver a Deus? As faculdades perceptivas da alma são proporcionais à sua purificação: só as de escol podem gozar da presença de Deus. mais que em nenhuma outra época. a respeito. pela vista. que não se sabe o que nela se passa. donde resultaria não haver interesse algum em fazermos o bem. A individualidade da alma é mostrada de modo material. por assim dizer. porém. Os Espíritos inferiores são. isto. que. 148.O QUE E O ESPIRITISMO 209 são o resultado de uma teoria ou de um sistema.

espécie de corpo limitado. uma vez que elas pensam e agem de modo diferente. e não acha explicação para a sua situação. por suplício. . Na morte natural. Este sistema. formando dela a nossa alma e restituindo-a depois da morte à massa comum. Na morte violenta. porque tem pensamento e volição próprios. começando mesmo antes que a vida esteja extinta. sobretudo. pois é tão desolador quanto o materialismo. O género de morte inflnti no estado da alma? O estado da alma varia consideravelmente segundo o género de morte. porquanto ali não haveria mais individualidades. surpreendido. tal como gotas dágua no oceano. de terem animado tal ou tal indivíduo na Terra. fica como que tonto com a mudança nele efetuada. os laços são partidos bruscamente. querendo umas o que outras não querem. suicídio ou acidente. que distinguem umas das outras. Graças ao Espiritismo experimental. o que prova evidentemente não estarem confundidas em um todo homogéneo. isso sem falar das provas patentes que nos dão.210 ALLAN KARDEC linguagem e qualidades próprias de cada qual. não merece mesmo o nome de Espiritualismo. onde com outras se confundiria. que faz dela um ser distinto. umas são boas e outras más. o desprendimento se opera gradualmente e sem abalo. do qual uma parte absorveríamos ao nascermos. O reservatório comum do conjunto universal equivaleria ao aniquilamento. OBSERVAÇÃO — Há quem pense poder fugir à pecha de materialista por admitir um princípio inteligente universal. segundo a natureza dos hábitos durante a vida. a individualidade da alma não é mais uma coisa vaga. verificando ainda a sua individualidade por seu invólucro fluídico ou perispírito. mas. 149. umas sábias e outras ignorantes. porém o resultado da observação. espécie de transição. o Espírito. A própria alma reconhece sua individualidade.

1858. — Idem. (O Livro dos Espíritos. Para onde vai a alma depois de deixar o corpo? Ela não vai perder-se na imensidade do infinito. pág. pág.) 152. n. julga ocupar-se dos seus negócios." 165. erra no espaço e. que já não são de sua essência. podendo essa ilusão durar muitos meses e mesmo muitos anos. pág. 166: Lê suicide de Ia Sa-maritaine. 341: Lês amis ne naus oublient pás dans l'autre monde. Os Espíritos desmaterializados pouco se preocupam com as coisas materiais. ele se locomove.O QUE É O ESPIRITISMO 211 Um fenómeno. pág. Essa ilusão também se nota. — Idem. 151. 1863. Conserva a àtima a lembrança do que fez na Terra? Tem ela. por isso-vem satisfeita ver os parentes e amigos e sente-se feliz com a lembrança deles. aimda mteresse pelos trabalhos que não pôde completar? Depende da sua elevação e da natureza desses trabalhos. pág. que amou. 1859. quando fala.) 150. Neste estado. 1858. (Revue Spiríte. mais ou menos constante em tal caso. 132. 1860. — Idem. pág. em muitos indivíduos. 319. pág. cuja vida foi absorvida pelos gozos e interesses materiais. 97: François Simon Lowvet. 1859. — Reme Spirite. podendo instantaneamente transportar-se a distâncias imensas. sobretudo. 184: Lê Zouave de Magenta. e mostra-se espantado de não lhe responderem. Conserva a alma as afeições que tinha na vida terrena? Guarda todas as afeições morais e só esquece as materiais. não estar morto. idem. 1862. é a persuasão em que ele se conserva de. Un Esprit qui ne se croit pás rmort. o mais das vezes. idem. fora dos casos de morte violenta. 326: Un Esprit au convoi de son oorps. no meio daqueles que conheceu e. de que se julgam felizes . como geralmente se supõe. como se ainda estivesse no mundo.

punição para os culpados. a privação de ver as almas mais caras è. não sofre modificação nas faculdades. Entretanto. suas faculdades são o que eram antes da sua encarnação.. Se. o estado intelectual e moral da alma da criança morta em tenra 'idade? Suas faculdades conservam-se na infância.212 ALLAN KARDEC por estar livres. Encontra a alma no mamão dos Espíritos os parentes que ali a precederam? Não só os encontra. (Revue Spirííe. na outra vida. delicado e adornado com as graças da inocência. 153. encontra-se a solução no que precede. entre a alma do sábio e a do ignorante. inspiram a outros o desejo de terminá-los.) Podendo a mesma questão ser formulada acerca do estado intelectual da alma dos imbecis. Que diferença há. adota a linguagem infantil. Quanto aos trabalhos que começaram. o Espírito de um menino pode. e ajudam-na a desprender-se dos laços terrenos. é para não tirar à mãe o encanto que sempre está ligado à afeição de um ente frágil. Geralmente. algumas vezes. depois da morte. porque pode ser Espírito adiantado. entre a do selvagem e a do homem civilizado? . algumas vezes. pois. O Espírito. seus conhecidos de outras existências. 1858. 17: Mère! Je stiAs lá. idiotas e loucos depois da morte. 155. livre desse invólucro. Qual. como durante a vida? O incompleto desenvolvimento dos órgãos da criança não dava ao Espírito a liberdade de se manifestar completamente. aqueles que mais a amam vêm recebê-la à sua chegada no mundo espiritual. pág. 154. como também a outros muitos. segundo sua importância e utilidade. OBSERVAÇÃO — Nas comunicações espíritas. falar como adulto. não tendo feito mais que passar alguns instantes na vida.

idem. e prosseguem nas mesmas ideias. depois da morte? Progridem mais ou menos. Mesmo entre os homens esclarecidos. 1861. o permitir que o homem faça amanhã o que não pode fazer hoje? Se a sorte é irrevogavelmente fixada. A sorte do homem. porque a entrada no mundo dos Espíritos não dá à alma todos os conhecimentos que lhe faltavam na Terra. seria a negação absoluta da justiça e da bondade de Deus.O QUE E O ESPIRITISMO 213 A mesma. (Revwe Spvrite. 156. selvagens e de elevado número de crianças que morrem sem ter entrevisto a vida. imbecis. 1859. há muitos que. pág. há muitos que. e por que. segundo sua vontade. na vida futwrn. o que adquiriram em ciência e moralidade. Lê tambour de Ia Bérésina. e algumas se adiantam muito. 1858. pág. durante a vida corporal. depois da morte. 383: Progrès dês Esprits. idem. e não é isto prova que Deus nos dá de sua bondade. alcançam uma encarnação de ordem mais elevada. Sendo o progresso proporcionado à vontade do Espírito. idem. que existia entre elas durante a vida. está vrrevogamelmente fiaoada depois da marte? A fixação irrevogável da sorte do homem. 1860. conservam os gostos e as inclinações que tinham durante a vida. em sua . pág. Progridem as almas. idem. intelectualmente. as que progrediram. porém. pág. pág. 126: Progrès d'un Esprit pervers. crêem-se dispensados de estudar e trabalhar mais. sem falar dos idiotas. 186. julgando-se assaz perfeitos.) 157. As que ficaram estacionárias. 142. por longo tempo. pág. 344: Un ancien charretier. UEsprit et lês héritiers. porque há muitos que não puderam esclarecer-se suficientemente na existência terrena. recomeçam uma existência análoga à que deixaram. idem. 82: La reine d'Qude. têm necessidade de pôr em prática. pouco mais ou menos. por que morrem os homens em idades diferentes.

de ser a sorte da alma irrevogavelmente fixada depois da morte. 158. ao mesmo tempo . por toda a eternidade. sem trabalho. que condena essa falta na vida corporal.214 ALLAN KARDEC justiça. e futuramente o que vier a merecer em suas existências ulteriores. segundo a máxima do Cristo — cada um é jnvnído ou recompensado conforme suas obras — é tão ilógico como contrário à justiça de Deus admitir-se que. não se teria tornado um homem de bem. não poderia aprová-la na espiritual. e Deus. ou que desta se veja privada. se vivesse até aos sessenta? Por que Deus lhe tira assim os meios que concede a outros? Só o fato da diversidade das durações da vida e do estado moral da grande maioria dos homens. não podendo. a sorte das crianças qw morrem em. ou Espíritos. pois. ter consequência alguma para a alma. seria egoísmo. ela <deve ter wn destino qualquer. essa alma Seja chamada a gozar da bem-aventurança dos anjos. tenra idade? Esta questão é uma das que melhor provam a justiça e a necessidade da pluralidade das existências. As almas. a não ser em suas alegrias e sofrimentos ? Se as almas não fizessem mais que tratar de si durante a eternidade. na vida futwra. Uma existência logo^em começo interrompida. prova a impossibilidade. não concede Deus a todos o tempo de produzir a maior soma de bem e reparar o mal que fizeram? Quem sabe se o criminoso que morre aos trinta anos. Têm as almas ocupações na outra vida? Pensam elas em outra coisa. pois. não pode merecer prémio nem castigo. Um estado misto. seria igualmente uma injustiça. Uma alma que só tiver vivido alguns instantes. têm ocupações em relação com o seu grau de adiantamento. tem por sorte atual o que mereceu da existência anterior. entretanto. admitida a justiça divina. Qual. sem fazer nem bem nem mal. 159.

Além dos sofrimentos espirituais. por esse meio. apesar de não serem o resultado de um fogo material. o inferno estará com ele. experimenta numa nova encarnação. para isso. não define a natureza dos sofrimentos. que o homem de gostos sensuais e materiais conserva esses pendores juntamente com a impossibilidade de satisfazê-los. é assim que certos assassinos são obrigados a conservarem-se no próprio lugar do crime e a contemplar suas vítimas incessantemente. não há necessidade de um. se avarento. Essas penas não são uniformes: variam infinitamente. Onde quer que se ache o Espírito perverso. em uma palavra. . depois da morte? Irão as almas crmmosas ser tortwradas em chamas materiais f A Igreja reconhece perfeitamente. outros se conservam junto aos tesouros que enterraram. uma imperfeição moral. que não tenha. que certos avarentos julgam sofrer o frio e as privações que suportaram na vida por sua avareza. não há um defeito. Em que consistem os sofrimentos da alma. um ato mau. de ser humilhado. miserável. (O Livro aos Espíritos. em transes perpétuos. há as penas e provas materiais que o Espírito. etc. seu reverso e suas consequências naturais. nem por isso. se foi mau filho. deixam de ser mais terríveis. que efetivamente não poderia queimar almas imateriais. na qual é colocado em condições de sofrer o que fez a outrem sofrer. As comunicações espíritas colocam os sofrimentos sob os nossos olhos. segundo a natureza e o grau das faltas cometidas. o que lhe é uma tortura.° 558: Ocupações e missões dos Espíritas. e. que o fogo do inferno é todo moral e não material. hoje. sendo quase sempre essas mesmas faltas o instrumento do seu castigo. n. infeliz com seus filhos.) 160. podemos apreciá-los e convencer-nos de que. se não está depurado.O QUE fi O ESPIRITISMO 215 que procuram instruir-se e melhorar-se. e. porém. lugar determinado e circunscrito. eles. se foi orgulhoso. no mundo espiritual. em certos casos. com medo que os roubem.

De outro lado. Effets de Ia prière sur lês Espri. não sentir ódio. do qual cada um se pode libertar. 316: Lê châtiment. idem. n. Em que consistem os gozos das almas felizes? Passam. 384: Châtiment de 1'egoiste. pág. há. 61: Esteia Regnier. 1859. 1861. pág. pág. 1859. página 247: Lê suicide de Ia rue Quinocumpoia. 315. cap. melhorando-se suficientemente para merecer habitação em mundo melhor.) 162.) 161. idem.ts souffrants.. 275: Lê père Crépin. (O Livro dos Espíritos. o favorece com a sua boa-vontade. nem . quando encontra pessoas que compartilhem de suas dores. 79: Uassassm Lemaire. pág. idem. quando ele. A prece será útil os almas sofredoras? Todos os bons Espíritos a recomendam e os imperfeitos a pedem como meio de aliviar os seus sofrimentos. (O Livro dos Espíritos. idem. pág. pág. idem. como a punição à gravidade da falta. pág. sensações e sofrimentos dos Espíritos. 331: Bensatwns •dês Esprits. 1860. idem. e o infeliz é sempre consolado. pág. página 270: La peine ãu talian. idem. idem. porque vê na prece um testemunho de interesse. — Revue Spirite. experimenta um consolo. I. 166: Lê suicide ãe Ia Samaritaine. A alma. desde o instante em que ela entra no caminho do bem. de seu lado. elas a eternidade em contemplação? A justiça quer que a recompensa seja proporcional ao mérito.": Esperanças e consolações. pois. pág.° 664 — Revue S-pirite. Penas e gozos futuros. wn purgatório. por quem se pede. é neste sentido que se pode abreviar-lhe as penas." 237: Percepções. pela prece o exortamos ao arrependimento e ao desejo de fazer o necessário para ser feliz. idem. 315: Entrée d'un coupable dans lê monde dês Esprits. idem. Parte 4. até aquele em que atinge a perfeição. pág. n.216 ALLAN KARDEC Como dissemos. idem. graus infinitos nos gozos da alma. 1858. a Terra é um dos lugares de exílio e de expiação. A felicidade dos bons Espíritos consiste em conhecer todas as coisas. para os Espíritos dessa natureza. 53: Suicide d'wn athée.

n. nem as angústias da vida material. A vida espiritual é. a fonte de suprema felicidade. nem inveja." 558: Ocupações e missões dos Espíritos. nem os sofrimentos. porque lhes fornece ocasiões de serem úteis e de fazerem o bem. pág. nem ambição. (O Livro dos Espíritos. págs. 1860. 179: Madame Gourdon.) OBSERVAÇÃO — Convidamos os adversários do Espiritismo e os que não admitem a reencarnaçao a darem. — Revue Spirite. O estado de contemplação perpétua seria uma felicidade estúpida e monótona. . uma solução mais lógica.O QUE É O ESPIRITISMO 217 ciúme. dos problemas acima apresentados. de serem seus agentes no governo do Universo — missões essas proporcionadas ao seu adiantamento. 1861. uma existência interminavelmente inútil. por outro princípio qualquer que não seja o da pluralidade das existências. e cujo desempenho os torna felizes. nem qualquer das paixões que desgraçam os homens. idem. ao contrário. seria a ventura do egoísta. para os bons Espíritos. 321 e 322: Lês purs Esprits: Lê séjour dês lAenhewreux. de uma atividade incessante pelas missões que os Espíritos recebem do Ser Supremo. pois não experimentam as necessidades. O amor que os une é.

019 perguntas e respostas. constituindo verdadeiro tratado filosófico espiritualista que responde a inquietantes questões da vida e da morte. dizendo: "Nele pusemos as bases de um novo edifício que se eleva e que um dia há de reunir todos os homens num mesmo sentimento de amor e caridade. comentários e notas. amiúde. Escrito mediante ditado de Espíritos Superiores. Os Espíritos se referiram ao livro. é a expressão do pensamento deles. indubitavelmente a obra-prima do Espiritismo. O grande mérito de Kardec foi o realizar ele o gigantesco trabalho de ordenar e distribuir metodicamente os assuntos em 1." .Livros da Federação Espírita Brasileira Allan Kardec O LIVRO DOS ESPÍRITOS É o livro básico da Doutrina Espírita. justapondo.

a constituição e o destino do homem e uma apresentação geral da literatura espírita. A FEB coloca nas mãos dos leitores uma obra de reconhecido valor e cuja utilidade é manifesta a todos os que se interessam pelo estudo da Doutrina. que nele encontram. sobretudo iniciantes. de maneira simples e didática. como "As Religiões e o Progresso Espiritual do Homem". "Primórdios do Espiritismo". "Léon Denis. seus princípios básicos. permitindo-lhes uma ideia de conjunto da Terceira Revelação. . também. a natureza e as características da Doutrina. assuntos tais como as origens.Pedro Franco Barbosa ESPIRITISMO BÁSICO Esta obra procura reunir o máximo de conhecimentos em um volume só e expô-los em linguagem clara e acessível. Óíima para adoção em cursos sistemáticos de Espiritismo. obra de consulta para todos os estudiosos. é. o Codificador do Espiritismo". a Codificação em seus três aspectos. de assuntos vários. "Síntese Histórica do Espiritismo no Brasil". o Consolidador". bem explanados. A primeira parte da obra trata. "Allan Kardec. de maneira a atender interessados na Doutrina Espírita.

ou lhe contestando o fundamento que possui para inscrever-se naquele quadro. opondo cerrada argumentação às objeções formuladas à parte científica de nossa Doutrina. Carlos Imbassahy. através dos maravilhosos fatos que o atestam.Carlos Imbassahy O ESPIRITISMO À LUZ DOS FATOS Em realidade. Em grosso volume de 404 páginas. Todo espírita deve ler este livro e oferecer um exemplar aos amigos descrentes. com as mais robustas provas e numa linguagem leve e cativante. Bem poucas obras estrangeiras. do mesmo género. . São refutados. é das obras mais vigorosas do conhecido e inigualável polemista. se igualam no conjunto a esta do Dr. os autores que se vêm manifestando contra o Espiritismo e lhe negando a parte que lhe cabe no quadro das ciências. sendo mirados de preferência os autores que procuram desmoralizar a prática da Doutrina Espírita. demonstra o Autor a realidade insofismável do Espiritismo.

a comunhão dos primeiros cristãos com os Espíritos dos mortos. o Espiritismo e a Ciência. foi o pujante espírito que se conta entre os seguidores de Allan Kardec. que traduz fielmente o pensamento do grande escritor francês. os fenómenos espíritas da Bíblia. A origem dos Evangelhos.Léon Denis CRISTIANISMO E ESPIRITISMO Leitura utilíssima para todo espírita estudioso e que não pode conceber a Doutrina Espírita senão vinculada ao Evangelho do Cristo. sua autenticidade e sentido oculto.. são alguns dos temas comentados por Léon Denis. que o secundaram na grande obra de divulgação dos ensinos revelados pelos Espíritos Superiores. os dogmas da Igreja. Por todos esses títulos é que recomendamos vivamente essa obra a todos os nossos leitores. . a reencarnação etc. A tradução em português é de Leopoldo Cirne. nesta ele teve o objetivo de ressaltar a grandeza do Cristianismo. Seu autor. mas dissecando também o corpo de deturpações e deformidades que nele foram introduzidas pelos dogmas do Catolicismo Romano e suas fórmulas ritualísticas. Léon Denis. Autor de outras notáveis obras.

No conceito de muitos estudiosos. de vários sábios da época. Eduardo von Hartmann. pois que escrita por um sábio de renome universal. Através de longo e minucioso estudo sobre Hipnotismo e Mediunidade. Em 700 páginas de composição compacta. o sábio investigador dos fenómenos espíritas. César Lombroso HIPNOTISMO E MEDIUNIDADE É obra que produziu grande agitação nos meios intelectuais e científicos. o livro encerra uma multidão de fatos maravilhosos. é "a obra mais importante e mais completa que se escreveu acerca do Espiritismo. . com uma argumentação incontestável e vitoriosa. Lombroso demonstra a diferença entre esses dois conhecimentos. as teorias antiespíritas no seu devido lugar. colocando. durante muitos e muitos anos de investigação. apresentando numerosas observações e experiências realizadas por ele e por outros sábios europeus.Alexandre Aksakof ANIMISMO E ESPIRITISMO Aksakof. mostrando-lhes o seu nenhum valor. recolhidos em todo o Mundo. o Dr. célebre por seus trabalhos criminológicos. no ponto de vista científico e filosófico". e da qual bom número é também devido às observações e experiências do próprio Autor. apresenta nesta obra a sua resposta ao mais famoso filósofo da época.

Léon Denis CRISTIANISMO E ESPIRITISMO Leitura utilíssima para todo espírita estudioso e que não pode conceber a Doutrina Espírita senão vinculada ao Evangelho do Cristo. Seu autor. o Espiritismo e a Ciência. foi o pujante espírito que se conta entre os seguidores de Allan Kardec. A tradução em português é de Leopoldo Cirne. os dogmas da Igreja. são alguns dos temas comentados por Léon Denis. sua autenticidade e sentido oculto. Léon Denis. os fenómenos espíritas da Bíblia. a reencarnação etc. a comunhão dos primeiros cristãos com os Espíritos dos mortos. mas dissecando também o corpo de deturpações e deformidades que nele foram introduzidas pelos dogmas do Catolicismo Romano e suas fórmulas ritualísticas. Autor de outras notáveis obras. A origem dos Evangelhos. que traduz fielmente o pensamento do grande escritor francês. .. nesta ele teve o objetivo de ressaltar a grandeza do Cristianismo. que o secundaram na grande obra de divulgação dos ensinos revelados pelos Espíritos Superiores. Por todos esses títulos é que recomendamos vivamente essa obra a todos os nossos leitores.

é "a obra mais importante e mais completa que se escreveu acerca do Espiritismo. de vários sábios da época. o Dr. as teorias antiespíritas no seu devido lugar. e da qual bom número é também devido às observações e experiências do próprio Autor. durante muitos e muitos anos de investigação. apresenta nesta obra a sua resposta ao mais famoso filósofo da época. o sábio investigador dos fenómenos espíritas.Alexandre Aksakof ANIMISMO E ESPIRITISMO Aksakof. célebre por seus trabalhos criminológicos. No conceito de muitos estudiosos. Lombroso demonstra a diferença entre esses dois conhecimentos. pois que escrita por um sábio de renome universal. recolhidos em todo o Mundo. Eduardo von Hartmann. com uma argumentação incontestável e vitoriosa. mostrando-lhes o seu nenhum valor. colocando. Através de longo e minucioso estudo sobre Hipnotismo e Mediunidade. Em 700 páginas de composição compacta. no ponto de vista científico e filosófico". o livro encerra uma multidão de fatos maravilhosos. César Lombroso HIPNOTISMO E MEDIUNIDADE É obra que produziu grande agitação nos meios intelectuais e científicos. . apresentando numerosas observações e experiências realizadas por ele e por outros sábios europeus.

A figura de Allan Kardec ressalta dessa magistral obra na grandiosidade de sua missão. Todos os espíritas devem ter essa obra". os periódicos do seu tempo. num total de 896 páginas. O volume l apresenta uma visão muito nítida da formação moral e intelectual de Hippolyte Léon Denizard Rivail no Instituto Yverdon. São três volumes. O apêndice final traz uma série de elucidações sobre vários pontos importantes. o que sensibiliza e emociona a quem lê.. do método pestalozziano e da obra de Rivail como educador emérito. (Transcrito de "O Médium". essa obra 'Veio enriquecer. ano 49 — n2 486 — fevereiro de 1981. a forma como são apresentados num estilo claro e objetivo tornam a leitura dos três volumes muito agradável. as letras espíritas e deu ao Codificador da Doutrina Espírita a sua real dimensão na história da Humanidade. sobremaneira. sobre a data do seu nascimento e sobre a controvertida questão de ele ter sido ou não formado em Medicina.. a sua desencarnação.).. o Movimento Espírita brasileiro e a destinação do nosso país como Pátria do Evangelho. O volume II trata da missão de Kardec. as lutas e a abnegação dos seus continuadores.Zeus Wantuil e Francisco Thiesen ALLAN KARDEC Publicada em 1979 e 1980..) "temos agora nova e completa visão do Codificador (. Com este alentado trabalho (. de Juiz de Fora (MG). A perfeita concatenação dos fatos. traçando um panorama que se inicia em Hydesville até as primeiras perseguições contra o Movimento Espírita nascente. Ao final há um apêndice que elucida a respeito do nome civil de Kardec. a continuidade do Movimento. O volume III abrange as obras espíritas de Allan Kardec. dezenas de ilustrações e numerosas e preciosas informações sobre a vida de Kardec e daqueles que constituíram o seu pequeno e valoroso contingente de colaboradores diretos no plano físico. facilitando ao leitor a assimilação de um tão grande número de informações.) .

caracterizando-se como um resumo de O Livro dos Médiuns. por Hei. moral e filosófica. . de problemas de ordem psicológica. desconcertando os negativistas e clareando as indagações dos que acreditam e aspiram à vida superior. com a solução. apontada pela Doutrina Espírita. Divide-se em 3 capítulos: O primeiro. um céptico e um padre.-í Snusse. A lógica e o bom-senso de Allan Kardec aí se evidenciam. traz respostas àqueles que desconhecem os princípios básicos da Doutrina. No terceiro capítulo.O QUE E O ESPIRITISMO Allan Kardec Obra sempre atual. útil aos adeptos da Doutrina Espírita. é publicado o resumo de O Livro dos Espíritos. como também àqueles que desejam conhecer a natureza do Espiritismo e a definição de seus pontos fundamentais. sob a forma de diálogos com um crítico. Contém também a biografia de Allan Kardec. expõe partes da ciência prática e experimental. bem como apropriadas refutações aos seus contraditares. O segundo capítulo.