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Resumo sobre a Teoria Fenomenológica

Curso: Psicologia Social e das Organizaçes

Estudante: Ana da Felicidade Adriano Gumbo

Cadeira: Psicologia da Personalidade II

Teoria Fenomenológica

A fenomenologia surge na filosofia como ciência sobre a experiência que a consciência


tem do mundo, a relação entre a consciência do saber humano e o mundo exterior a ela.
Portanto, seu principal objetivo é investigar e descrever os fenômenos enquanto
experiência consciente. Isso deve se dar de forma desvinculada de teorias sobre as
explicações causais e o mais distante possível de preconceitos e pressuposições. Seu
intuito é desnudar “o mistério do mundo e o mistério da razão”, como afirmou Merleau-
Ponty.
A tradição fenomenológica busca estudar as estruturas da consciência do ponto de vista
da primeira pessoa. Ela tenta, portanto, desvendar quais são os limites do conhecimento
sobre o fenômeno. É um estudo sistemático das figuras fenomenais, daquilo que pode
ser percebido. É um tipo de análise que pretende compreender melhor as estruturas
centrais da experiência e da intencionalidade humana, explicando como a mente
direciona o pensamentoa determinados objetos ou à realidade.
Como ciência dos fenômenos puros, cabe à fenomenologia o mundo que é percebido
pela experiência imediata. Isso quer dizer que a consciência não é passiva. Ela não
compreende a existência das coisas como algo pronto e acabado, mas participando da
existência desses objetos.
Para os fenomenólogos, só existe objeto se existe também um sujeito para percebê-lo.
Por exemplo, se uma árvore cai em um bosque e não há testemunhas desse fato, então é
como se ela nunca tivesse existido.
A fenomenologia é uma filosofia que nasceu na Alemanha, ganhou ecos na França e
posteriormente se espalhou. Para a fenomenologia, a redução eidética é um método no
qual o filósofo é capaz de ir da consciência individual e concreta das coisas para o
âmbito das essências, onde é possível atingir a intuição do “eidos”, termo grego que
significa “forma”. Portanto, essa técnica permite acessar as estrutura mais fundamental
e invariável das coisas, ao livrar-se de tudo aquilo que é contingencial e acidental. Para
a fenomenologia, a redução eidética é um método no qual o filósofo é capaz de ir da
consciência individual e concreta das coisas para o âmbito das essências, onde é
possível atingir a intuição do “eidos”, termo grego que significa “forma”. Portanto, essa
técnica permite acessar a estrutura mais fundamental e invariável das coisas, ao livrar-se
de tudo aquilo que é contingencial e acidental. Seu alcance abrange uma investigação
das estruturas e de vários tipos de experiência: a percepção, o pensamento, a
imaginação, a memória, as emoções e a atividade da linguagem.

Origem do nome

Neologismo tardio, de origem filosófica – Phänomenologie [fenomenologia], e


empregado primeiro por Lambert, em 1764. A palavra pode ser desmembrada em duas
partes: Fenômeno, isto é, aquilo que aparece para a consciência. O sufixo -logia, que
caracteriza uma ciência ou uma investigação. Nesse caso, trata-se do estudo e da
compreensão dos fenômenos.

Criação

A fenomenologia se formou a partir de um novo olhar sobre os fenômenos, os quais não


passaram a não ser mais vistos como meros entes materiais.

Nela, eles se apresentam divididos entre aparência e existência. A fenomenologia busca


o retorno à coisa mesma, porque a existência de algo não está separada da forma da sua
percepção.

A dialética entre sujeito e objeto é fundamental para se compreender a união entre o


lado objetivo e o lado subjetivo das coisas.

A consciência interfere e modifica o que intui e percebe, enquanto aquilo que é


percebido atua e influencia o trabalho da consciência. Sujeito e objeto operam juntos,
como uma oposição que gera uma síntese. Essa constatação posteriormente acabou
permitindo o surgimento da fenomenologia.

A ideia de movimento traz uma nova luz sobre a ideia de fenômeno. Ela permite uma
indagação profunda sobre a experiência e a existência das coisas.
A fenomenologia é capaz de trazer fortes indagações sobre a visão natural do mundo, o
senso comum, a proposição científica baseada apenas em seu método e até mesmo
contestar a experiência psicológica que trata a consciência como um objeto estático.

O dinamismo da análise fenomenológica é um caminho aberto ao exercício da


liberdade. A consciência humana, ao lidar com uma nova forma de compreender a sua
percepção do mundo, cria novas formas de organização social e reinventa a experiência
política. A construção de novos valores modifica a realidade, como um espelho da
interioridade.

Histórico

Pré-história:

A fenomenologia se tornou conhecida no mundo ocidental com os trabalhos de Edmund


Husserl, no entanto, quando pensadores hindus ou budistas escreveram ou falaram sobre
diferentes estados de consciência, isso também pode ser visto como uma prática
fenomenológica.

Da mesma forma, quando Descartes, Hume ou Kant tentaram identificar os estados de


percepção, ou nossa capacidade de pensar ou de imaginar, eles também estavam
praticando fenomenologia. Portanto, podemos afirmar que a fenomenologia surgiu
como escola com Husserl, mas também que ela já existia como prática há muito tempo.

Edmund Husserl (1859-1938)

É o grande expoente e fundador da fenomenologia. Suas principais obras foram


Investigações lógicas(1900-1901), Ideia para uma fenomenologia pura (1913) e Lógica
formal e transcendental (1929).

As investigações de Husserl procuram recuperar um sentido original daquilo que os


gregos nomearam como fenômeno [phainomenon], ou seja, como aquilo que se mostra.

Nessa busca por um sentido original do fenômeno, ele foi levado a retirar a
ambiguidade que esse conceito comporta, como se não houvesse nele uma “aparência” e
um “atrás”.
Para Husserl, o fenômeno é o ser verdadeiro. Portanto, segundo ele, há uma só verdade
e ela é fenomenal.

A essência das coisas aparecem à consciência a partir de uma intuição, porque a


intenção da consciência humana é a mesma da percepção do objeto. Ele acredita que a
fenomenologia seria a autêntica filosofia. Capaz de tornar clara as essências e os
domínios da experiência. Portanto, para Husserl, a fenomenologia é o estudo da
estrutura daquilo que experienciamos a partir de nossas percepções.

Husserl compreende a fenomenologia como algo original, como “o retorno às coisas


mesmas”. Para tanto, procura se afastar do sentido tradicional e metafísico da ideia de
fenomenologia. Ao se distanciar da compreensão de fenômeno hegeliana, Husserl
pretende retirar o conteúdo teológico e racional da Fenomenologia do espírito (1807).

Num primeiro momento de sua filosofia, sobretudo nas Investigações lógicas, a


distinção entre noese (o visado) e noema (o modo de aparição) é a chave através da qual
ele visita a filosofia antiga e ao mesmo tempo pode explicar as estruturas essenciais,
comuns aos dados empíricos e apreendidas a priori.

No domínio lógico, essas estruturas formariam uma gramática pura, como uma
ontologia sobre as diferentes formas dos fenômenos no mundo objetivo. Numa fase
posterior, Husserl se volta para o problema da consciência transcendental, isto é, sobre
como a visão do objeto comporta uma intenção inata. É nesse momento que ele pode
pensar um sentido constitutivo da consciência e o modo como ela também constitui o
campo dos fenômenos.

Maurice Merleau-Ponty (1908-1961)

Filósofo francês que recebeu influência direta de Husserl. Na sua principal obra, a
Fenomenologia da percepção (1945), encontramos uma investigação da relação entre a
subjetividade e o corpo.

A auto percepção da consciência é o momento em que a existência aparece encarnada,


no corpo, como um conjunto de significações vazias, e não como uma realidade
material determinada. O corpo é o terreno comum da física e da psique.

Ele exprime uma maneira própria de se projetar no mundo. Merleau-Ponty, ao unir o


problema da gênese da psicologia à estrutura do comportamento humano, passa a falar
na experiência do “corpo próprio”, e não mais em um “corpo material”.
Para ele, a experiência afetiva dos homens no mundo representa um conhecimento tão
verdadeiro quanto o científico. Teoria da percepção de Marleau-Ponty é um esforço
para tornar mais objetivo esse campo da filosofia.

Para o francês, a percepção de si, que depende da percepção de outro exterior, contém o
traço do pensamento dialético que Merleau-Ponty adota e leva a novas consequências.

A fenomenologia e a percepção operam também por esta reunificação dos opostos,


como movimento dialético dos contrários. E nesse sentido, assim como em Hegel e
Marx, encontramos em seu pensamento uma reflexão sobre a história e a política. São
nelas que encontramos as chaves para os problemas do sentido e da significação dos
fenômenos sociais nos quais o homem vive.

Jan Patočka (1907-1977)

Filósofo tcheco, Patočka foi um dos principais intelectuais da Europa Oriental. É


considerado um dos mais importantes representantes da fenomenologia. Foi aluno de
Husserl e Heidegger, na Universidade de Friburgo, na Suíça. Sua filosofia é dissidente
da de seus professores.

O método clássico da análise intencional husserliana é deixado de lado, como algo


subjetivista, quando Patočka passa a desenvolver o que nomeia como “fenomenologia
asubjetiva”. É nela que o autor se volta para o mundo diretamente experimentado pela
subjetividade da vida diária.

Nessa fenomenologia, a dialética do homem é tida no movimento do exterior ao


interior: o homem, em seu ambiente, interage com o seu meio, objetivando a suas
atividades no mundo exterior. Nesse processo, há por fim uma retomada, em que a
realidade, pela linguagem, é interiorizada no homem, que toma consciência de si e do
mundo.

Para Patočka, o sujeito é um resultado de uma união inescapável dele com o mundo.
Segundo ele, a realidade e o eu são uma coisa só, uma unidade. O filósofo tcheco dizia
que o “mundo é essencialmente um reflexo” do eu.

O pensamento de Patočka também é marcado pelo engajamento político, na procura


pelo sentido da história na existência humana comum. A liberdade é o conceito
principal, em que a transcendência da compreensão do homem está em ultrapassar a
ideia das regras sociais como naturalização ideológica.
A interação política entre os seres humanos é tida em três formas diferentes: a aceitação,
que seria os meios de inserção do homem no mundo; a defesa, na sua luta cotidiana pela
permanência no mundo; e a transcendência, quando o homem passa a um estágio
avançado de compreensão da matéria e de si mesmo.

Martin Heidegger (1889-1976)

O problema da fenomenologia está presente na obra de Heidegger na questão do ser e


do fenômeno.

A crítica à fenomenologia de Edmund Husserl diz respeito sobretudo ao modo como


este compreende a ideia de “presença”. Ser e tempo (1927) trabalha com o problema do
fenômeno na relação entre o ente, existente no tempo e no espaço, e o problema
fundamental do ser.

A fenomenologia é o retorno à ontologia, em que o homem, como o ser existente, o


“ser-aí”, o Dasein, é a presença no mundo capaz de questionar o ser e a sua
compreensão sobre ele.

A fenomenologia é uma a hermenêutica, pois atua como tentativa de determinar o


sentido do ente em geral. Também é analítica existencial, em razão de buscar
demonstrar a estrutura fundamental do Dasein como ser-no-mundo e projeção da
liberdade do homem.

A fenomenologia hermenêutica lida com o espaço da finitude, que seria um espaço


vazio, e por isso capaz de conter e de buscar qualquer projeção dessa liberdade. Esse
polêmico filósofo alemão ficou conhecido por seu importantíssimo trabalho na área de
ontologia e por sua ligação com o nazismo.

No campo da ontologia, ele foi capaz de aprofundar as questões e os estudos


relacionados à existência e ao ser (Dasein). Ele mesmo se autodenominava “o filósofo
do ser” e dizia que seu livro mais famoso Ser e Tempo buscava criar bases para a
geração de uma nova ontologia. Já na política, Heidegger foi muito controverso,
principalmente depois de ter aderido oficialmente ao nazismo, liderado por Hitler.

O filósofo foi um fervoroso defensor do nacional-socialismo hitlerista. Paradoxalmente,


Heidegger manteve um relacionamento com a filósofa judia Hannah Arendt (1906-
1975), a qual se tornou mundialmente conhecida por seus trabalhos e críticas aos
regimes totalitários.

Outras visões

Oposição ao Positivismo: A fenomenologia é uma oposição direta ao pensamento


anglo-saxão da virada do século XIX para o século XX.

O foco é o positivismo científico, com o seu ideal da ciência e da experiência como


conhecimento lógico e de que os objetos existem de forma independente e naturalizada
pela percepção do sujeito.

Crítica ao Naturalismo: esse produto do positivismo, em sua concepção sobre o


espírito e sua produção das coisas (a cultura, os valores e a ciência), é alvo da
fenomenologia, a qual ataca diretamente a ideia da identificação do que é “natural”
como algo estático e cristalizado.

A ciência e sua visão naturalista do mundo objetivo seria ideológica e não permitiria
uma emancipação do indivíduo como sujeito ativo.

O estatuto das ciências: a fenomenologia contrapõe o seu método crítico e dialético ao


discurso da certeza intuitiva e discursiva das ciências empíricas. Enquanto as ciências
procuram se afirmar cada vez mais pelos seus próprios métodos de comprovação da
verdade, o fenomenólogo exerce a dúvida, pois apoia-se nas verdades da consciência
como apenas um momento da investigação do espírito e da natureza. A fenomenologia
põe em questão o próprio fazer científico.

Ramificações

A fenomenologia tende a se especificar em linhas de pesquisa, em geral encabeçadas


por um grande autor. Entre elas, destacam-se:

Fenomenologia transcendental: estuda como os objetos são constituídos na nossa


consciência, colocando de lado toda e qualquer questão ligada ao mundo natural ao
nosso redor. Ela pode ser considerada a ciência da essência do conhecimento. É uma
gnosiologia, ou seja, é uma teoria geral do conhecimento humano, totalmente voltada
para uma reflexão em torno da origem, da natureza e dos limites dos atos cognitivos.

Seu objetivo é apontar todas as subjetividades e distorções.

Fenomenologia naturalizada: estuda como a consciência constitui ou retira as coisas


da realidade. Ao mesmo tempo, essa escola entende que a consciência é parte da
natureza.

O método fenomenológico criado por Husserl pretendia fundamentalmente


compreender a relação entre o sujeito e o mundo, portanto, buscava esclarecer como a
essência dos fenômenos surge na consciência.

Para Husserl, tais fenômenos poder ser produtos com origem na nossa imaginação ou no
mundo natural. Essa escola é uma espécie de resposta à leitura e ao estudo objetivista da
realidade, da consciência e da natureza.

Fenomenologia existencial: escola que procura combinar o método fenomenológico e


o sujeito dentro de sua realidade existencial. Assim, o existencialismo é a base onde a
prática fenomenológica se dá. Portanto, os seres humanos, nesse caso, são a fundação
das relações da consciência com a realidade empírica.

A fenomenologia existencial é uma resposta tanto ao idealismo quanto ao positivismo.


Sua área de estudo é experiência humana de livre escolha ou ação em situações
concretas.

Fenomenologia generativa: estuda como os significados são resultados de processos


históricos e podem ser encontrados em nossa experiência.

Fenomenologia genética: essa área postula a questão da origem do juízo predicativo


dentro de um contexto maior. Ela estuda a gênese dos significados das coisas no âmbito
da experiência individual.

Fenomenologia dinâmica, ou fenomenologia do mundo natural – Jan Patočka:

Voltada para o estudo da Europa, a tradição grega platônica e o movimento existencial


da “subjetividade”.
Fenomenologia do Diálogo – Hans-Georg Gadamer: uma problematização da
comunicação da modernidade, com remissão aos diálogos platônicos. Gadamer é uma
figura muito importante no desenvolvimento da hermenêutica no século 20.

Ele foi capaz de fazer uma abordagem baseada em textos platônicos, aristotélicos e
heideggerianos das questões filosóficas contemporâneas. Seu pensamento rejeita o
relativismo e o subjetivismo. Esse filósofo alemão ajudou ainda a desenvolver e ampliar
uma espécie de revisão da história da filosofia em si.

Seus textos tem profunda relação com a literatura, a poesia e as artes. Além disso,
Gadamer produziu trabalhos voltados para uma filosofia prática, que discute questões
políticas e éticas atuais.

Fenomenologia da Vontade – Paul Ricoeur: Investigação fenomenológica no domínio


das ações, isto é, como a vontade se projeta na sensibilidade e na produção do
conhecimento humano.

Ecofenomenologia – Erazim Kohák: Resultado do trabalho pioneiro, entrelaçando os


campos do pensamento ambiental e da fenomenologia da natureza, pretendendo uma
nova moral.

A ecofenomenologia busca uma relação melhor e mais completa entre indivíduo e o


mundo ao seu redor. Baseia-se em uma visão diferente daquela que, muita vez, coloca o
ser humano como algo descolado e até mesmo oposto à natureza.

Ela busca relações de maior profundidade entre seres humanos e os ecossistemas.

Fenomenologia hermenêutica: tem como objeto de estudo as estruturas interpretativas


da experiência. Procura mostrar como nós somos capazes de entender a realidade ao
nosso redor. Essa área da fenomenologia é baseada em método de pesquisa feito a partir
de pesquisas quantitativas.

Fenomenologia realista: estuda a estrutura da consciência e da intencionalidade, além


de enfatizar a pesquisa por essências universais das mais variadas coisas, inclusive das
ações humanas. Para essa área da fenomenologia, tudo o que ocorre no mundo real é
majoritariamente externo à consciência. Tais fenômenos não são tornados “reais” pela
consciência. Foi com essa área que o pensador Adolf Reinach levou a fenomenologia
para universo da filosofia do direito.

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