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Janat Ibraimo Abdul Fainde

Mecanismos de abordagem de Textos Literários em aulas de Português: Caso do nível


médio na Escola Secundária Samora Moisés Machel – Chimoio

Licenciatura em Ensino de Português com Habilitações em Ensino de Línguas Bantu

Universidade Púnguè

Chimoio

2021
Janat Ibraimo Abdul Fainde

Mecanismos de abordagem de Textos Literários em aulas de Português: Caso do nível


médio na Escola Secundária Samora Moisés Machel – Chimoio

Monografia científica apresentada à


Faculdade de Letras, Ciências Sociais e
Humanidades, como pré-requisito para a
obtenção do grau de Licenciatura em Ensino
de Português com Habilitações em Ensino de
Línguas Bantu.

Supervisor: MA. Juma Manuel

Universidade Púnguè

Chimoio

2021
ÍNDICE

LISTA DE ABREVIATURAS ....................................................................................................... iv

LISTA DE GRÁFICOS ................................................................................................................... v

DECLARAÇÃO DE HONRA ....................................................................................................... vi

DEDICATÓRIA ............................................................................................................................ vii

AGRADECIMENTOS ................................................................................................................. viii

RESUMO........................................................................................................................................ ix

CAPÍTULO I – INTRODUÇÃO ................................................................................................... 11

1.1. Enquadramento do tema ..................................................................................................... 12

1.2. Delimitação do tema ........................................................................................................... 12

1.3. Justificativa ......................................................................................................................... 12

1.4. Problematização.................................................................................................................. 13

1.5. Hipóteses ............................................................................................................................ 13

1.6. Objectivos do trabalho ........................................................................................................ 14

1.6.1. Geral ................................................................................................................................ 14

1.6.2. Específicos ...................................................................................................................... 14

1.7. Abordagens metodológicas................................................................................................. 14

1.7.1. Método ............................................................................................................................ 14

1.7.2. Tipo de pesquisa ............................................................................................................. 15

1.7.3. Técnicas e instrumentos de recolha de dados ................................................................. 16

1.7.3.1. Observação .................................................................................................................. 16

1.7.3.2. Inquérito ...................................................................................................................... 16

1.7.4. População e amostra ....................................................................................................... 17

CAPÍTULO II – FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA ..................................................................... 18

2. O texto e a linguagem............................................................................................................. 18
2.1. Texto literário ..................................................................................................................... 18

2.1.1. Exemplo de um texto literário......................................................................................... 21

2.2. O ensino do texto literário e a formação de leitores na sala de aula ................................... 21

CAPÍTULO III – APRESENTAÇÃO, ANÁLISE E DISCUSSÃO DE DADOS ........................ 24

4.1. Análise dos dados obtidos do questionário......................................................................... 24

4.1.1. Caracterização da amostra .............................................................................................. 24

4.1.2. Análise das respostas do questionário............................................................................. 25

CONCLUSÕES E SUGESTÕES .................................................................................................. 32

5.1. Conclusão ........................................................................................................................... 32

5.2. Sugestões ............................................................................................................................ 33

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS .......................................................................................... 34

Apêndices ...................................................................................................................................... 36

Anexos ........................................................................................................................................... 39
iv

LISTA DE ABREVIATURAS

dr. – doutor;
ESG – Escola Secundária Geral;
v

LISTA DE GRÁFICOS

Gráfico 1: Caracterização da amostra por género.........................................................................24


Gráfico 2: Caracterização da amostra por classe..........................................................................24
Gráfico 3: A existência de textos literários no programa do nível médio....................................25
Gráfico 4: Interesse em aprender e ler os textos literários...........................................................25
Gráfico 5: Géneros mais abordados nas aulas..............................................................................26
Gráfico 6: Incentivo à prática de leitura de textos literários........................................................27
Gráfico 7: Orientação à actividades de leitura de textos literários...............................................28
Gráfico 8: Sugestão para leitura de alguma obra literária............................................................29
Gráfico 9: Formação de oficina de leitura e produção de textos literários na escola...................30
Gráfico 10: Desafios no ensino de textos literários......................................................................30
Gráfico 11: Permanência do ensino de textos literários no ensino médio....................................31
vi

DECLARAÇÃO DE HONRA

Declaro por minha honra que este trabalho é resultado da minha pesquisa e das orientações do
Supervisor, feito segundo os critérios em vigor na Universidade Púnguè. O seu conteúdo é
original e todas as fontes consultadas estão devidamente mencionadas no texto e nas referências
bibliográficas. De igual modo, declaro que o trabalho nunca foi apresentado em nenhuma
Instituição para a obtenção de qualquer Grau Académico.

Chimoio, ____ de Junho de 2021

_____________________________________

(Janat Ibraimo Abdul Fainde)


vii

DEDICATÓRIA

Dedico este trabalho à minha Família em particular a minha mãe Rabia Sulemane Gulamo
Abdula Amade, a todos irmãos, amigos e outros que contribuíram direita ou indirectamente para
a realização deste, que e um dos meus grandes sonhos.
viii

AGRADECIMENTOS

Em primeiro lugar à Deus, pela força e coragem durante esta trajectória.

À minha mãe Rabia Sulemane Gulamo Abula Amade, ao meu ente querido pai, Ibraimo Abdul
Fainde e que Deus lhe conceda o Paraíso.

Ao meu supervisor, Mestre Juma Manuel, director dr. Elton de Jesus Achaca, aos estimados
docentes, dra. Elisabeth Nahia, dr. Domingos Gilberto, dr. Francelino Wilson, dr. Fançane Soda,
Mestre Esperança Chivite, dr. Samuel Andicene, Mestre Lurdes Zilhão, dra. Sandra Feijão, dr.
Rogério Almoço, dr. Rogério Mário, dr. Companhia, dr. Acácio Tete, dr. Etelvino, dra. Alima,
Mestre Elisa entre outros docentes que participaram na minha formação.

Aos meus metodólogos dos estágios realizados na Escola Secundária Geral da Soalpo e na Rádio
Moçambique emissora provincial de Manica com estúdios em Chimoio, refiro, os dr. Avelino e
dr. Bernardo Xavier respectivamente, e que nada disso seria possível se não fosse o imensurável
apoio recebido.

A todos funcionários da ESG da Soalpo e ESG da Samora Moisés Machel de Chimoio, aos meus
professores da EPC de Nhamaonha (professora Margarida, professor Julho, professora Natália,
professor Castigo, professor Lopes, professora Palmira, professor Miguel, professor Obdias João,
professor Nelson, professor Cândido, professora Fernanda, professor Jossias, professor Tchiz
entre outros.

À Direcção da Escola Secundária Samora Moisés Machel pela abertura que deram sem reserva
durante a recolha de dados da pesquisa, à minha família que sempre está ao meu lado no sucesso
e no fracasso.

Aos meus amigos, Isaquiel, Baldúcio, Jonas, Sangalo, Samuel, dona Margarida, dona Maria,
Miguel, Adelino, Belchior, Moisés, e todos que não citei por simples motivo de serem tantos e
que por questão de espaço de papel não pude citar, pelo apoio monetário, moral e psicológico que
deram.

A todos, por tudo, o meu muito obrigado!


ix

RESUMO
O ensino de textos literários é de estrema importância para a construção de conhecimentos
culturais, sociais, históricos, políticos e económicos em volta da realidade do aluno do ensino
médio, para além desta ser uma actividade lúdica. Neste contexto, a presente monografia
científica tem a finalidade de analisar os mecanismos de abordagem de textos literários em aulas
de Português no nível médio, na Escola Secundária Samora Moisés Machel em Chimoio. Por
meio do questionário dirigido aos professores da escola em estudo, percebemos que a escola
possui grandes desafios no ensino de textos literários, como a falta de motivação de leitura por
parte do aluno e pela insuficiência de obras literárias na biblioteca escolar. Neste sentido, a escola
e o professor devem criar programas, métodos, técnicas, ambientes que fomentem não só o
respeito pela diversidade, mas a capacidade de a encarar como uma potencial fonte de novos
conhecimentos, de descoberta de afinidades que podem completar a identidade do sujeito.

Palavras-chave: Mecanismos, Abordagem, Textos Literários, Nível Médio.


11

CAPÍTULO I – INTRODUÇÃO

A presente monografia tem por objectivo estudar os mecanismos de abordagem de textos


literários nas aulas de Português, concretamente no nível médio que corresponde a 11ª e 12ª
Classes, na ESG Samora Moisés Machel, em Chimoio. No programa de ensino da Língua
Portuguesa, do nível médio, os textos literários fazem parte dos conteúdos a serem abordados
neste nível. Discutindo a questão do letramento literário, Cosson descreve que,

a Literatura nos diz o que somos e nos incentiva a desejar e a expressar o mundo
por nós mesmos. E isso se dá porque a literatura é uma experiência a ser
realizada é mais que um conhecimento a ser reelaborado, ela é a incorporação do
outros em mim sem renúncia da minha própria identidade (COSSON, 2011: 17)

Através da Literatura, o aluno busca, no contexto escolar, a compreensão do mundo em


sua volta através de leitura e interpretação de textos literários de várias naturezas, como contos,
poemas, romances, entre outros. O ensino de textos literários também permite que os alunos
troquem experiências. Contudo, o professor possui um papel fundamental na sala de aula. Rojo
explica que,

a formação do leitor e escritor só será possível na medida em que o próprio


professor se apresenta para o aluno como alguém que vive a experiência da
leitura e da escrita. O professor, além de ser aquele que ensina conteúdos, é
alguém que transmite o valor que a língua tem demonstrado para si. Se o
professor tem relação prazerosa com a leitura e a escrita certamente poderá
funcionar com medidas para seus alunos. (ROJO, 2000: 66)

O professor precisa posicionar-se como o modelo para o aluno, transmitindo a ele a sua
experiência de leitura. É por esta razão que deve incentivar os alunos a adquirirem o gosto e o
prazer em relação aos textos literários. Desta maneira, BEACH & MARSHALL, (1991: 23)
concluem que, ensinar a Literatura não é apenas elencar uma série de textos ou autores e
classificá-los num determinado período literário, mas sim revelar ao aluno o carácter atemporal,
bem como a função simbólica e social da obra literária.
Assim, é neste trabalho onde vamos compreender as estratégias e as metodologias que os
professores devem tomar em consideração de modo que não corram o risco de apenas forçar os
alunos a fazerem leituras sem que gostem e nem tenham prazer em fazê-lo.
12

Em termos organizacionais, o trabalho apresenta 3 capítulos. O primeiro é referente à


introdução, no qual fazemos a delimitação o tema, o seu enquadramento, apresentamos a
justificativa, a problematização, os objectivos, as hipóteses e as metodologias usadas para a
elaboração do trabalho. O segundo capítulo é referente à revisão da literatura onde trazemos
conceitos e abordagens teóricas de autores sobre o tema. Por fim, a parte da apresentação, análise
e interpretação dos dados recolhidos do questionário, seguido das conclusões e sugestões.

1.1. Enquadramento do tema


Esta monografia intitulada Mecanismos de abordagem de Textos Literários em aulas
de Português: Caso do nível médio na Escola Secundária Samora Moisés Machel –
Chimoio, enquadra-se em dois campos de actuação, a saber: Estudos Literários e Didáctica da
Literatura. O primeiro campo é responsável pela teoria literária que atribui conceitos e
características aos textos literários. A segunda área de estudo é que nos faz compreender o ensino
dos textos literários nas aulas de português e quais estratégias e metodologias devem ser usados
pelos professores de português.

1.2. Delimitação do tema


Em termos de delimitações, tomamos em consideração dois critérios, o espacial e o
temporal. A pesquisa foi realizada em Moçambique, na província de Manica, no distrito de
Chimoio, especificamente na Escola Secundária Samora Moisés Machel. Esta está localizada a
alguns quilômetros do centro da cidade, em direcção à estrada principal que vai ao bairro
Tambara 2, próximo às antigas instalações da Universidade Pedagógica e a Solidar Suíça, a 100
metros.
A pesquisa foi desenvolvida desde o final do ano 2019 com a extensão ao meado do ano
2021. Esta extensão deu-se devido à interrupção das aulas no ano lectivo de 2020, por conta da
COVID-19, o que dificultou a recolha de dados para a análise e a interpretação.

1.3. Justificativa
O ensino da literatura no nível médio é de extrema importância, visto que permite aos
alunos compreender o mundo em que estão inseridos em várias esferas como cultural, histórica,
social, política e económica.
13

Relativamente aos professores de Português, que são os responsáveis pela mediação dos
conteúdos, o trabalho actua como uma ferramenta para que se conheçam as estratégias e as
metodologias que devem ser tomadas em consideração no ensino de textos literários nas aulas de
Português, especificamente no nível médio, de modo que não corram o risco de realizar esta
prática de forma inadequada, forçando os alunos a ler textos literários sem cultivar o gosto e o
prazer.
No que concerne à comunidade académica, esta pesquisa é indispensável em estudos
realizados sobre o ensino da literatura nas aulas de Português, servindo-se, desta forma, de fonte
para a elaboração de artigos científicos, seminários, recensões, projectos, monografias,
comentários críticos, fichas de leituras, entre outros trabalhos académicos relacionados ao tema,
tanto no campo dos Estudos Literários, como na Didáctica da Literatura.

1.4. Problematização
O ensino de textos literários é, portanto, um desafio maior em Moçambique, tendo em
conta que são necessárias ferramentas que façam com que o aluno goste da leitura e não o faça
apenas como um dever orientado pelo professor. Assim, é necessário que haja estratégias e
metodologias para que se formem leitores no nível médio. Nesta perspectiva, surge a reflexão
em torno da seguinte questão:
 Quais mecanismos de abordagem de textos literários são tomados em consideração nas
aulas de Português no nível médio, na Escola Secundária Samora Machel em Chimoio?

1.5. Hipóteses
 As metodologias usadas pelo professor no ensino de textos literários contribui para que os
alunos da Escola Secundária Samora Moisés Machel em Chimoio tenham interesse em
aprender os textos literários.
 O incentivo a prática de leitura de textos literários pelos professores permite aos alunos
cultivar o gosto e o prazer pela leitura.
14

1.6. Objectivos do trabalho


1.6.1. Geral
 Estudar os mecanismos de abordagem de textos literários em aulas de Português no nível
médio, na Escola Secundária Samora Moisés Machel em Chimoio.

1.6.2. Específicos
 Descrever a importância de ensino de textos literários nas aulas de português no nível
médio;
 Identificar os métodos usados pelos professores para o ensino de textos na sala de aula;
 Descrever as dificuldades encontradas na abordagem de textos literários nas aulas de
português na escola em estudo.

1.7. Abordagens metodológicas


Concebemos este tópico para fazermos a caracterização das metodologias científicas que
foram usadas para o alcance dos objectivos da pesquisa. Desta forma, procuramos definir o
método a ser usado, o tipo de pesquisa, a população e a amostra, assim como as técnicas e os
instrumentos que serão usados para a recolha dos dados.

1.7.1. Método
A concepção da presente pesquisa será baseada no Método Hipotético-Dedutivo,
defendido por Gil, no seu livro sobre Métodos e técnicas de pesquisa social, como aquele que

Sugere um problema que é expresso através da formulação de hipóteses, das


quais deduzem-se consequências a serem testadas ou falseadas, sustentando-se
do método dedutivo para procurar confirmar e evidenciar as hipóteses, através
de uma análise do geral para o particular, como forma de verificar e solucionar o
problema existente. (GIL, 1994: 123)

A aplicação deste método será por meio da confirmação da hipótese de que os


mecanismos usados pelos professores do nível médio da Escola Secundária Samora Moisés
Machel em Chimoio fazem com que os alunos possam ou não ter interesse em aprender os textos
literários nas aulas de Português. Do mesmo jeito, o incentivo por parte dos professores pode
15

contribuir para que os alunos cultivem o gosto e o prazer para ler e interpretar textos literários nas
aulas.

1.7.2. Tipo de pesquisa


Como nós abordamos nos objectivos do trabalho, estamos perante uma pesquisa
explicativa, fundamentada por GIL (Ibidem: 126) como aquela que “proporciona maior
familiaridade com um problema, envolvendo levantamento bibliográfico, entrevistas ou
inquéritos relacionados ao tema pesquisado, por meio de um estudo de caso”. Este tipo de
pesquisa será consolidado pela explicação dos mecanismos que devem ser tomados em
consideração na abordagem de textos literários nas aulas de Português.
No que concerne aos procedimentos técnicos, foi realizada a pesquisa bibliográfica que
permitiu o levantamento das teorias sobre a linguagem literária e os mecanismos de abordagem
de textos literários na sala de aula. Em seguida, será feito um estudo de caso, o qual consiste na
realização de um estudo exausto e profundo do objecto (mecanismos de abordagem de textos
literários na sala de aula) de modo que se permita o amplo e detalhado conhecimento.
Do ponto de vista da abordagem ao problema, estamos perante uma pesquisa qualitativa,
aquela em que, para a concepção de Seia,

recorre a linguagem matemática para descrever as causas de um fenómeno, as


relações entre variáveis. Os resultados desta pesquisa podem ser quantificados.
Como as amostras geralmente são consideradas representativas da população, os
resultados são tomados como se constituíssem um retrato real de toda a
população alvo da pesquisa. (SEIA, 1998: 33)

Neste sentido, a quantificação dos dados que foram recolhidos foi feita por meio de
gráficos e percentagens, o que quer dizer a tradução de números em informações classificadas e
analisadas.
Relativamente à natureza, estamos perante uma pesquisa aplicada, cuja finalidade é gerar
conhecimentos para a aplicação prática dirigida à solução da problemática da aplicação de
metodologias inadequadas no ensino de textos literários nas aulas de Português e da falta de
incentivo para a prática de leitura por parte dos professores.
16

1.7.3. Técnicas e instrumentos de recolha de dados


Conforme mencionamos anteriormente, pretendemos fazer um estudo de campo, de modo
a recolhermos dados informativos a respeito da problemática em estudo. Para tal, são aplicadas as
seguintes técnicas de recolha de dados:

1.7.3.1. Observação
Esta técnica, conforme a explanação de Flick,

é uma forma em busca de explicação que amenize o desconforto produzido pelo


desconhecimento. A observação é sistematicamente organizada em fases,
aspectos, lugares e pessoas, relaciona-se com proposições e teorias sociais,
perspectivas científicas e explicações profundas e é submetida ao controle de
veracidade, objectividade, fiabilidade e precisão (FLICK, 2005: 34)

Esta técnica foi realizada em jeito de uma observação directa, com o intuito de observar
com cuidado, o programa de ensino do nível médio da disciplina de Português, de modo a
percebermos como o ensino de textos literários está pautado e, igualmente, a observação dos
planos de aulas dos professores inquiridos, para que analisemos as metodologias e as estratégias
traçadas para o ensino de textos literários.

1.7.3.2. Inquérito
Faz parte de uma das técnicas que foi usada ao longo da recolha dos dados, a qual é
defendida por Gil como

um conjunto de questões pré-elaboradas, sistemáticas e sequencialmente


dispostas em itens que constituem o tema da pesquisa, com o objectivo de
suscitar dos informantes respostas por escrito ou verbalmente sobre assunto que
os informantes opinar ou informar. (GIL, 1999: 134)

Ao longo da recolha de dados, foi aplicado um inquérito (em anexo no final do trabalho)
com questões sistematizadas e fechadas aos professores de Português do nível médio, da Escola
Secundária Samora Moisés Machel, como forma de analisarmos os mecanismos usados na
abordagem de textos literários nas aulas de Português.
17

1.7.4. População e amostra


Segundo FONSECA (2002: 123) o universo é um conjunto de elementos que possuem
determinadas características. Por sua vez, a amostra é uma parcela conveniente seleccionada do
universo (população), isso é, um subconjunto do universo.
Para esta pesquisa, fazem parte do universo, os professores de Português do ensino médio
da ESG Samora Machel. Através destes, delimitamos a nossa amostra que foi representada por 6
professores, dos quais 3 do curso diurno e 3 do curso nocturno. Destes, 3 foram da 11ª classe e 3
da 12ª classe. Esta selecção foi motivada pelo facto de, nestas duas classes, as metodologias de
ensino dos textos literários serem diferenciadas em torno dos tipos de textos literários abordados
em cada classe.
18

CAPÍTULO II – FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

Dedicamo-nos a criar este capítulo para abrigar as teorias já publicadas sobre o texto
literário e os mecanismos que devem ser considerados na abordagem destes textos na sala de
aula.

2. O texto e a linguagem
No geral, podemos dizer que texto é a construção de enunciados ou expressão verbais e
não-verbais. Portanto, Vilel concebe o texto como

um modelo, uma sequência independente de enunciados, orais ou escritos, de


extensão variável. Um texto pode ser constituído por um único e curto
enunciado ou por um número elevadíssimo de enunciados com um princípio e
um fim bem delimitados, produzido por um ou por vários autores, no âmbito de
uma determinada memória textual. (VILEL, 1999: 34)

Tendo em conta a concepção do texto, percebemos que o texto é uma unidade


significativa, cuja análise requer critérios de coerência, coesão e situacionalidade. Sendo assim,
texto entende-se como conjunto das palavras de um autor, em livro, folheto, documento, redação
original de qualquer obra escrita.
Segundo PEREZ (2020), a linguagem é a capacidade existente no homem, onde
ele comunica seus sentimentos e ideias, isto é, é a faculdade de comunicar-se uns com os
outros, por meio da fala como pela escrita, assim como outras maneiras convencionais. Percebe-
se que um texto manifesta-se através da linguagem para expor a sua informação, dependendo da
intenção comunicativa do autor ou do produtor.

2.1. Texto literário


Segundo ZINANI & SANTOS (2002: 45), o texto literário tem um carácter aberto,
instável e indeterminado, não possuindo um único ou verdadeiro sentido, mas múltiplos sentidos.
Para MIGUEL (2005: 37), o texto literário é um documento fundamental na
aprendizagem de uma língua, é um lugar de contacto com o mundo de determinada cultura, é o
lugar de diálogo com a identidade plural de um povo. Portanto, o autor acrescenta:

O texto literário não deve ser tomado como um simples exercício de imaginação
artística devendo, pelo contrário, ser considerado como uma nova forma de
encarar o mundo. O contacto com o texto literário pode trazer novos
19

ensinamentos, quer através do exemplo das personagens que contém quer da


expressão escrita cuidada e original que apresenta. (MIGUEL, Ibidem: 37)

No que concerne à natureza, Aguiar e Silva citados por Miguel explicam:

O texto literário tem a natureza de ser uma construção intertextual e auto-


reflexiva. A intertextualidade é, portanto, a presença de uma obra dentro de
outras e que pode ocorrer de várias formas, com a inserção de uma obra dentro
da outra, ou alusão a um outro texto. E a auto-reflexão é considerada a forma de
criar a literariedade. Essa reflexão sobre a arte de escrever, faz com que a
literatura volte-se sobre si para fazer-se auto-avaliação. (AGUIAR & SILVA
apud MIGUEL, 2005: 39)

A literatura, portanto, possui as seguintes funções literárias: A estética, lúdica, cognitiva,


catártica e pragmática.
 A Estética – é aquela, que cumpre o papel de fazer o acto de escrever literário
diferente dos outros. Considera-se um texto como literário se ele cumprir a função de
representar de forma artística o real. Esta função, muitas vezes ocorre pelo
estranhamento que uma obra causa.
 A Lúdica – ocorre por meio de um jogo, no qual o artista executa a literatura por
prazer, que pode ser como forma de trabalho ou arte mesmo como um passatempo e o
leitor sente o prazer d ler um texto.
 A cognitiva – evidencia que a alta literatura produz um certo grau de conhecimento
que é passado ao leitor, e este por sua vez incorpora no seu fazer diário de tal forma
que com o passar do tempo, sendo estas histórias matérias ficcionais, elas não deixam
de ser um conhecimento a ser repassado.
 A catártica ou catarse – é aquela que faz com que o leitor purifique os seus
sentimentos ao se defrontar com uma obra literária.
 A pragmática – refere-se a uma outra característica que se centra na questão da
capacidade da arte literária empregar uma ideologia.
Em suma, o processo de transformar o real em ficcional passa pela natureza da literatura e
das funções a ela atribuídas em cada situação.

Na perspectiva de ZINANI & SANTOS (2002: 50), a linguagem literária apresenta muitas
especificidades. Entre elas estão a variabilidade, a complexidade, a conotação, a
multissignificação e a liberdade de criação.
20

 Complexidade: uma das principais características do discurso literário é a complexidade.


Isso acontece porque a linguagem literária não tem compromisso com os sentidos que
comumente são atribuídos às palavras, extrapolando assim seu nível semântico. Por esse
motivo, o texto literário não é apenas um objecto linguístico, mas também estético.
 Multissignificação: a Literatura apresenta uma linguagem que a difere da linguagem
utilizada no quotidiano. Diferentemente do discurso que adopta-se no quotidiano, no qual
prepondera-se o uso objectivo da fala, o discurso literário pode apresentar múltiplas
leituras e interpretações.
 Conotação: a linguagem literária é conotativa, isto é, uma palavra, quando usada no
sentido conotativo, permite diferentes significados e múltiplas interpretações.
A conotação permite que ideias e associações extrapolem o sentido original da palavra,
assumindo assim um sentido figurado e simbólico.
 Liberdade na criação: o artista, quando na criação de um texto literário, pode inventar
novas maneiras de expressar-se, desvinculando-se dos padrões convencionais da língua,
bem como da gramática normativa que a rege.
 Variabilidade: assim como a língua, a Literatura também acompanha as mudanças
culturais, que podem ser notadas não só no discurso individual, mas também no discurso
cultural.

A produção e interpretação de um texto literário, segundo AGUIAR & SILVA apud


MIGUEL (2005: 43), é feita mediante a competência literária, definida como

a capacidade humana de produzir e interpretar textos literários, referindo que os


falantes nativos possuem uma capacidade específica que lhes permite produzir e
compreender textos literários, capacidade esta que se consubstancia num sistema
de regras específico, um sistema de regras literárias, num outro sistema de
regras, semelhante a uma “gramática literária. (AGUIAR & SILVA apud
MIGUEL, Ibidem: 43)

Assim, é a competência literária do indivíduo, enquanto leitor, que permite trabalhar com
as várias possibilidades de sentido de um texto literário. A competência literária permite que o
leitor descubra no texto aquilo que se aproxima do seu quotidiano, daí que lhe permita também
encontrar num texto literário os traços que culturalmente o identificam.
21

A leitura de um texto literário requer do aprendente não só a sua competência linguística,


como também, e mais fortemente, arrisco, a sua competência literária e a sua consciência e
competência interculturais.

2.1.1. Exemplo de um texto literário

Soneto sentimental à cidade de São Paulo

Ó cidade tão lírica e tão fria!


Mercenária, que importa - basta! - Importa
Que à noite, quando te repousas morta
Lenta e cruel te envolve uma agonia

Não te amo à luz plácida do dia


Amo-te quando a neblina te transporta
Nesse momento, amante, abres-me a porta
E eu te possuo nua e fugidia.

Sinto como a tua íris fosforeja


Entre um poema, um riso e uma cerveja
E que mal há se o lar onde se espera

Traz saudade de alguma Baviera


Se a poesia é tua, e em cada mesa
Há um pecador morrendo de beleza?

(Vinícius de Morais)

2.2. O ensino do texto literário e a formação de leitores na sala de aula


Antes de mais nada, quando pretendemos estudar o ensino de textos literários na sala de
aula, é importante que façamos um breve olhar sobre o papel da escola para esta prática. É
fundamental buscarmos compreender do geral ao específico. Neste sentido, na visão de Riter,

a escola precisa mostrar aos alunos a importância da leitura literária e o


conhecimento dos aspectos que a envolvem, e, assim, apresentar narrativas
interessantes e significativas, polêmicas, misteriosas, românticas, épicas, cuja
22

leitura, se não realizada na escola, sob o olhar atento e orientador de um


professor-leitor, muitas vezes jamais ocorrerá. (RITER, 2009: 23)

Deve haver um extremo cuidado na selecção dos textos a serem leccionados na aula, pois
se não forem interessantes é colocado em causa o gosto pela leitura e aprendizagem do texto
literário. Corroborando a ideia, Monteiro avança,

a Escola e o professor devem criar programas, métodos, técnicas, ambientes que


fomentem não só o respeito pela diversidade, mas a capacidade de a encarar
como uma potencial fonte de novos conhecimentos, de descoberta de afinidades
que podem completar a identidade do sujeito. (MONTEIRO, 2004: 24)

É, portanto, da responsabilidade, tanto da escola como do professor, criar caminhos que


levem o aluno a apresentar uma afinidade com os textos literários. É nesta perspectiva que
algumas escolas promovem a produção de vários géneros literários, contos, poemas, crónicas,
fábulas, que são apresentados e premiados os melhores textos e apresentações. Nesta onda de
ideias, Cosson fundamenta que,

os livros, como factos, jamais falam por si mesmos. Quem os fazem falar são
mecanismos de interpretação que usamos, e grande parte deles são aprendidos
na escola. Depois a leitura literária que a escola objectiva processar visa mais
que simplesmente ao entretenimento que a leitura de fruição proporcionam. No
ambiente escolar, a literatura é um locus de conhecimento e, para que
funcionasse como tal, convém ser explorada de maneira adequada. (COSSON,
2011: 26-27)

A escola tem a obrigação de dispor de instrumentos para efectuar as opções, mas as


escolhas que contam são aquelas que ocorrem além dos muros da escola, de forma utilitarista
com vistas apenas ao concurso vestibular. Para complementar esta abordagem, o Cosson
descreve,

tanto, é necessário que o ensino da Literatura efetive um movimento contínuo da


leitura, partindo do conhecido para o desconhecido do simples para o complexo,
do semelhante para o diferente, com o objetivo de ampliar e consolidar o
repertório cultura do aluno. Nesse caso, é importante ressaltar que tanto a
seleção de obras quanto as práticas da sala de aula devem acompanhar esse
movimento (COSSON, Ibidem: 48).
23

O ensino da literatura deve estar centrado nas estratégias e metodologias que permitem ao
aluno construir um pensamento transversal, em que possa fazer a ligação entre os conteúdos do
texto e à sua realidade. É tarefa do professor orientá-lo a compreender o mundo em sua volta e
despertar o sentimento de um leitor. É indissociável a relação que o texto literário tem com o
ambiente escolar, como descreve Galvão,

todo consumidor de livros literários é consumidor cultural, e que para ser


consumidor cultural é preciso levar em consideração outro factor
importantíssimo que é o acesso à escolarização, pois o direito à cultura implica
também o desenvolvimento de capacidades que advêm dos processos de
escolarização. Ser escolarizado é um dos traços que caracterizam o consumidor
contumaz de bens culturais. (GALVÃO, 2003: 32)

Ao consumir os textos literários, o aluno estará, automaticamente, a consumir a cultura.


Esta prática deve ser transversal, pois permite criar relações entre as várias áreas do saber,
integrando-as de forma abrangente, possibilitando conexões inimagináveis. O texto literário não
deve ser tomado como um simples exercício de imaginação artística devendo, pelo contrário,
como salienta CEIA (2002: 53), ser considerado como uma nova forma de encarar o mundo. O
contacto com o texto literário pode trazer novos ensinamentos, quer através do exemplo das
personagens que contém quer da expressão escrita cuidada e original que apresenta. Desta
maneira, Kleiman conclui,

A aprendizagem em geral e a aprendizagem de línguas em particular está


relacionada com a forma como o sujeito percepciona o mundo: é a partir da sua
visão do mundo que o sujeito aprende, aprendizagem que será muito mais rica se
possibilitar o diálogo entre diferentes visões do mesmo mundo, diálogo este que
o texto literário pode proporcionar. (KLEIMAN, 1992: 30)

Para que esse diálogo seja possível, é necessário que exista um “engajamento” entre o
leitor e o texto, um envolvimento no qual o leitor se mostre disponível para descodificar os
signos que o texto apresenta.
24

CAPÍTULO III – APRESENTAÇÃO, ANÁLISE E DISCUSSÃO DE DADOS

Neste capítulo pretendemos analisar e interpretar os dados colhidos a partir do inquérito


que foi dirigido aos professores de Português da ESG Samora Moisés Machel e da observação do
programa de ensino de Português do nível médio e os planos de aulas de Português da 11ª Classe
e 12ª Classe.

4.1. Análise dos dados obtidos do questionário


4.1.1. Caracterização da amostra

Gráfico 1: Caracterização da amostra por


Gráfico 2: Caracterização da amostra por
género
classe
Amostra por género
Amostra por classe

Homem 11ª Classe


33%
50% 50%
67% 12ª Classe
Mulher

Fonte: autor (2021) Fonte: autor (2021)

De acordo com os gráficos, quanto ao género, constatamos que dos professores


inqueridos, 67% corresponde a 4 homens e 33% a 2 mulheres. No que diz respeito à classe, 50%
corresponde a 3 professores da 11ª Classe e 50% da 12ª Classe. Todos os professores que fizeram
parte do inquérito possuem o nível superior de licenciatura em Ensino de Português sendo 5 com
habilitações em Inglês e 1 em Línguas Bantu. No que diz respeito ao tempo de serviço, 3
professores que correspondem a 50% têm mais de 10 anos de serviço, 2 professores
correspondentes a 33% têm mais de 5 anos de serviço e 1 professor que corresponde a 17%
possui 2 anos de trabalho na carreira docente.
25

4.1.2. Análise das respostas do questionário


A existência de textos literários no programa do nível médio

Gráfico 3: a existência de textos literários no programa do nível médio

Existência de Textos literários no


programa do nível médio

0%
Sim

100% Não

Fonte: autor (2021)

Questionados sobre a existência de textos literários no programa de ensino de português do


nível médio, todos os 6 professores que correspondem a 100% afirmaram estar pautados.

Sobre o interesse em aprender e ler os textos literários

Gráfico 4: interesse em aprender e ler os textos literários

Interesse em aprender e ler os textos


literários

Sim
50% 50%

Não

Fonte: autor (2021)


26

Buscamos saber dos professores se os alunos despertavam interesse em aprender e ler os


textos literários, assim 3 professores correspondentes a 50% disseram que os alunos não
despertam interesse e outros 3 que também correspondem a 50% afirmaram haver certo interesse
na aprendizagem de textos literários. Nesta perspectiva, KUPFER (1995: 79) explica que o
processo de aprendizagem depende da razão que motiva a busca de conhecimento”, ressaltando o
porquê da sua importância.
Para o autor, os alunos precisam ser provocados, para que sintam a necessidade de
aprender, e não os professores “despejarem” sobre suas cabeças noções que, aparentemente, não
lhes dizem respeito. A forma de apresentar o conteúdo, portanto, pode agir em sentido contrário,
provocando a falta de desejo de aprender que seria, para os alunos, o distanciamento que se
coloca entre o conteúdo e a realidade de suas vidas.

Sobre os géneros mais abordados nas aulas

Gráfico 5: géneros mais abordados nas aulas

Géneros mais abordados nas aulas

Romance
33%
50%
Conto
17% Poema

Fonte: autor (2021)

De acordo com os dados do gráfico acima, o gênero mais abordado no nível médio é poema,
correspondendo a 50% dos conteúdos, seguido de Romance que corresponde a 33% e Conto 17%. O
programa de ensino do nível médio preconiza o estudo de alguns Romances nacionais como de Mia
Couto, Paulina Chiziane e Ungulane Ba Ka Khosa. No que diz respeito ao conto, está prevista, no
programa, análise de contos tradicionais, fabulas, lendas e mitos. Por fim, a maior carga é destinada a
27

leitura e análise de poemas nacionais, caso da poesia de combate que envolve escritores como Marcelino
dos Santos, Sérgio Vieira e Armando Guebuza, assim como poesia de Rui de Noronha, Noémia de Sousa
e José Craveirinha, considerados maiores escritores que contribuíram para o repúdio ao sistema colonial.
De igual modo, prevê-se a análise de poemas internacionais, caso da poesia de Luís Vaz de Camões,
Almeida Garret e Fernando Pessoa.

Sobre o incentivo à prática de leitura de textos literários

Gráfico 6: incentivo à prática de leitura de textos literários

Incentivo à prática de leitura de textos


literários

0%
Sim

100% Não

Fonte: autor (2021)

Questionados sobre o incentivo que os professores dão aos alunos no sentido de fazerem
leitura de textos literários de diferentes géneros, constatamos que todos os 6 professores que
correspondem a 100% da amostra têm incentivado os alunos a terem prazer pela leitura de textos
literários. Sobre esta tarefa, RITER (2009: 23) explica que o professor e a escola precisam
mostrar aos alunos a importância da leitura literária e o conhecimento dos aspectos que a
envolvem, e, assim, apresentar narrativas interessantes e significativas, polêmicas, misteriosas,
românticas, épicas, cuja leitura, pode não ser realizada na escola, sob o olhar atento e orientador
de um professor-leitor.
28

Orientação à actividades de leitura de textos literários

Gráfico 7: orientação à actividades de leitura de textos literários

Tem orientado actividades de leitura de textos


literários

0%
Sim

100% Não

Fonte: autor (2021)

Todos os 6 professores que correspondem a 100% da amostra afirmaram que têm orientado
actividades de leitura de textos literários aos alunos do nível médio, tanto para serem realizadas
na sala de aulas e fora da sala. Dentre as actividades orientadas, os professores mencionaram:

Declamação de poemas de escritores nacionais e internacionais;


Leitura de contos de forma individual e em grupo (em voz alta);
Interpretação de extratos de romances;
Produção de poemas, contos ou fabulas e apresentá-los na sala de aula.

São algumas das actividades mencionadas pelo professor. Ao serem desenvolvidas estas
actividades, quer na sala de aulas quer fora da sala, o aluno estará a desenvolver conhecimentos,
sejam culturais, históricos, políticos, sociais, entre outros em volta do mundo que o rodeia.
29

Leitura de alguma (s) obra (s) literária (s)

Gráfico 8: sugestão para leitura de alguma obra literária

Já sugeriu a leitura de alguma (s) obra (s)


literária (s)?

0%
Sim

100% Não

Fonte: autor (2021)

Questionados se já sugeriram a leitura de uma obra literária, os 6 professores que


correspondem a 100% afirmaram que já o fizeram. Alguns professores defendem que a leitura de
obras literárias contribui para a aquisição de conhecimentos sobre a vida social do aluno. Outros,
preferem olhar para o lado prazeroso da leitura como uma actividade lúdica em momentos livres.
Algumas obras foram mencionadas, sugeridas ou indicadas pelos professores aos alunos, caso de
Poesia de Combate, Lusíadas de Luís Vaz de Camões, Sangue Negro de Noémia de Sousa,
Niketche de Paulina Chiziane, entre outras.
Neste contexto, POUND (2002: 23) esclarece que quem lê livros literários sente
necessidade de consumir os demais produtos culturais, pois a leitura literária possibilita o acesso
ao mundo cultural. A título de exemplo, na literatura moçambicana, encontramos diversas obras
que retratam diversos assuntos socioculturais e históricos de Moçambique, como o caso de
conflitos vividos após a independência em A Varanda do Frangipani, 1996 de Mia Couto;
contexto histórico e guerra, em Ventos do Apocalipse, 1999, de Paulina Chiziane; o lugar da
mulher na sociedade e a questão do género, em Niketche: Uma História de Poligamia, 2002,
de Paulina Chiziane e Nykonkwe a Reforma da Prostituta, 2010, de Mukhwarura.
30

Oficina de leitura e produção de textos literários

Gráfico 9: formação de oficina de leitura e produção de textos literários na escola

A escola forma oficina de leitura e produção de


textos literários?

17%
Sim

83% Não

Fonte: autor (2021)

Dos questionados, 5 professores que compreendem 83% da amostra negam haver


formação de uma oficina de leitura e produção de textos literários, pois acreditam não haver
muitas actividades que envolvem concursos de produção de textos literários, concursos de
declamação de poemas ou mesmo a criação de grupos de teatro. Da amostra, apenas 1 professor
que corresponde a 17% afirma haver esta actividade.

Desafios no ensino de textos literários

Gráfico 10: Desafios no ensino de textos literários

Existem desafios no ensino de textos


literários?

0%
Sim

100% Não

Fonte: autor (2021)


31

Todos os 6 professores questionados correspondentes a 100% afirmaram que existem


desafios no ensino de textos literários no ensino médio. Dos principais desafios, destacaram a
falta de motivação por parte dos alunos, no que diz respeito a leitura e produção de textos
literários, falta de muitas obras literárias na biblioteca escolar, o próprio tempo para leitura de
textos na sala de aulas por conta da nova realidade da Covid-19 e a promoção de concursos de
leitura de textos literários, produção e declamação de poemas.

Sobre a permanência do ensino de textos literários no ensino médio

Gráfico 11: permanência do ensino de textos literários no ensino médio

Deve-se manter o ensino de textos


literários no ensino médio?

0%
Sim

100% Não

Fonte: autor (2021)

Todos os 6 professores questionados que correspondem a 100% da amostra afirmaram


que se deve manter o ensino de textos literários porque, em primeiro luar, são conteúdos pautados
no programa de ensino daquele nível, fora de ser um meio para a construção de conhecimentos
sociais, culturais, históricos, políticos e económicos, não só de Moçambique, como também do
mundo inteiro. Por fim, os professores consideram o ensino de textos literários como uma
actividade lúdica, ou seja, de prazer.
32

CONCLUSÕES E SUGESTÕES

5.1. Conclusão
Propusemos um estudo com o intuito de compreender os mecanismos de abordagem de
textos literários em aulas de Português no nível médio, na Escola Secundária Samora Moisés
Machel em Chimoio, por meio de um trabalho de campo e da análise do questionário que foi
dirigido aos professores da escola, através do qual compreendemos que o ensino de textos
literários é de estrema importância para a construção de conhecimentos culturais, sociais,
históricos, políticos e económicos em volta da realidade do aluno do ensino médio, para além
desta ser uma actividade lúdica.
Por meio da análise do questionário, percebemos que a ESG Samora Machel, em
Chimoio, possui grandes desafios no ensino de textos literários, por motivos como a falta de
motivação de leitura por parte do aluno e pela insuficiência de obras literárias na biblioteca
escolar. Os professores têm desenvolvido diferentes actividades de leitura e produção de textos
literários, de modo a levar o aluno a cumprir com as expectativas do programa de ensino, no que
diz respeito a abordagem desta tipologia textual.
Nesta perspectiva, a Escola e o professor devem criar programas, métodos, técnicas,
ambientes que fomentem não só o respeito pela diversidade, mas a capacidade de a encarar como
uma potencial fonte de novos conhecimentos, de descoberta de afinidades que podem completar a
identidade do sujeito.
A actividade de leitura não é apenas promovida na escola, muito pelo contrário, devemos
ter em mente que na formação do aluno-leitor, os pais ou responsáveis representam expressivo
papel na vida das crianças em relação ao incentivo à leitura, entretanto quando não há esse
estímulo na infância, a criança não é capaz de desenvolver o gosto pela leitura em outro momento
de sua vida.
Por fim, temos de considerar que para ser um agente de leitura a pessoa tem primeiro que
gostar de ler, ter vontade e compromisso social de compartilhar esse gosto e sua experiência de
leitura com um outro tanto de gente, formando leitores em ambientes diversos como bibliotecas
públicas municipais, escolas, fábricas, empresas, associações, comunidades e dentro das casas, no
seio de famílias que abrem portas para que os livros e leitura possam entrar em suas vidas.
33

5.2.Sugestões
Diante da realidade constatada ao longo do trabalho de campo, no que concerne ao ensino
de textos literários no ensino médio, na ESG Samora Moisés Machel, sugerimos:

Aos alunos para que criem o hábito e gosto pela leitura de textos literários;
Aos professores para que incentivem, sugiram e orientem os alunos a fazerem leitura de
textos literários, usando metodologias adequadas de modo que não possa ser uma actividade
forcada, mas, sim, prazerosa.
À direcção da escola para que crie condições de apetrechar a biblioteca escolar com muitas
obras literárias e que possam promover concursos de leitura de textos literários, produção e
declamação de poemas e criação de grupos de teatros na escola.
Aos pais e encarregados de educação para que incentivem os seus educandos a terem prazer
pela leitura de textos literários.
34

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BEACH, R; Marshall, J. Teaching literature in the Secondary School. Orlando: Harcourt


Brace & Company, 1991.

CEIA, C. O que é ser professor de literatura. Lisboa: Edições Colibri, 2002.

COSSON, R. Letramento literário: teoria e prática.2ed-São Paulo: Contexto, 2011.

FLICK, U. Métodos qualitativos na investigação científica. Lisboa: Monitor, 2005.


FONSECA. J.J.S. Metodologia da Pesquisa Científica. Fortaleza: UEC, 2002.
GALVÃO, A. M. de O. Leitura: algo que se transmite entre gerações. (S/Ed.), São Paulo: 2003.

GIL, A. Métodos e Técnicas de Pesquisa Social. 4ª Ed. São Paulo: Atlas, 1994.
GIL, A. Métodos e Técnicas de Pesquisa Social. 5ª Ed. São Paulo: Atlas, 1999.
KLEIMAN, A. Texto e leitor. Aspectos cognitivos da leitura. 2ªed. Campinas. SP: Pontes, 1992.

KUPFER, Maria Cristina. Freud e a Educação – O mestre do impossível. São Paulo: Scipione,
1995.

MIGUEL, M. C. M. Ensino/Aprendizagem de Literatura: o prazer do texto. 2005

MONTEIRO, M. Leitura e Escrita. Uma análise dos problemas de aprendizagem. 2ª ed.


Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 2004.

PEREZ, L. C. A. Linguagem literária. Brasil Escola. Disponível em:


https://brasilescola.uol.com.br/literatura/linguagem-literaria.htm Acesso em 03 de Março de
2020.

POUND, E. ABC da literatura. (9ª Ed.), São Paulo: Cultrix, 2002.

RITER Caio. A formação do Leitor literário em casa e na escola. 1ª ed. São Paulo: Biruta.
2009.

ROJO, R. A prática de linguagem em sala de aula praticando os PCNs. São Paulo: Mercado
de Letras, 2000.
35

SEIA, C. Normas para Apresentação de Trabalhos Científicos. 2ª Ed. Lisboa: Editora


Presença, 1998.
VILEL A, M. Gramática da Língua Portuguesa. Almedina. Coimbra, 1999.

ZINANI, C.J.A.; SANTOS, S.R.P. dos. Ensino da literatura: lugar do texto literário. In:
ZINANI, C.J.A. et al. Transformando o ensino de língua e de literatura: análise da realidade e
propostas metodológicas. Caxias do Sul, RS: Educs, 2002.
36

Apêndices
37

APÊNDICE

Questionário aplicado aos professores da Escola Secundária Samora Moisés Machel, no âmbito
da recolha de dados para a produção da monografia que versa sobre os mecanismos de ensino dos
textos literários no ensino médio.

Idade: ________

Sexo: ________

Nível de formação: _____________

Área de formação: _____________________________________________

Tempo de serviço: ___________

1. Está pautado no currículo do ensino médio a aprendizagem de textos literários?


Sim ( ) Não ( )

2. Os alunos despertam interesse em aprender e ler os textos literários?


Sim ( ) Não ( )

3. Quais são os géneros mais abordados nas aulas?


Contos ( ) Fábulas ( ) Romances ( ) Poemas ( ) Crónicas ( ) Outros ( )

4. Tem incentivado a prática de leitura de textos literários?


Sim ( ) Não ( )

5. Tem orientado actividades relacionadas à leitura de textos literários?


Sim ( ) Não ( )

Mencione pelo menos duas:


38

______________________________________________________________________________
________________________________________________________________________
6. Já sugeriu a leitura de alguma (s) obra (s) literária (s)?
Sim ( ) Não ( )

Qual (is)_______________________________________________________________________

Porquê? _______________________________________________________________________

7. A escola forma oficina de leitura e produção de textos literários?


Sim ( ) Não ( )

8. Existem desafios no ensino de textos literários?


Sim ( ) Não ( )

Quais?
______________________________________________________________________________
________________________________________________________________________
9. Deve-se manter o ensino de textos literários no ensino médio?
Sim ( ) Não ( )

Porquê?
______________________________________________________________________________
_______________________________________________________________________
39

Anexos
40

ANEXO I
Imagem do programa de ensino na qual estão pautados os conteúdos sobre os textos literários
relativamente a 11ª Classe e 12ª Classe.

ANEXO II
Plano de aula sobre textos literários de um dos professores de português da escola.

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