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MINAYO, Maria Cecília de Souza.

O Desafio do Conhecimento - Pesquisa


Qualitativa em Saúde. São Paulo: Editora Hucitec, 2006.

Capítulo 7
PROJETO DE INVESTIGAÇÃO

GERALMENTE, QUANDO o INVESTIGADOR se propõe a iniciar sua atividade de pesquisa,


situa-se num quadro de indagações teóricas e operacionais.

Área de interesse

Geralmente, quando escolhe um tema, o pesquisador começa por delimitar sua área de interesse
que pode ser definida como um campo de práticas e teorias em que as questões que lhe incitam a
curiosidade científica se concentram. Por exemplo, são áreas de interesse em diferentes
dimensões de generalidade: Saúde do Trabalhador, Políticas Públicas, Saúde e Cultura, Educação
e Saúde, Violência e Saúde, num sentido bem amplo. Em termos mais restritos o são: Violência
contra a Mulher; Avaliação em Saúde; Controle Social em Saúde; por exemplo. No interior dessa
Área de Interesse, que é o seio e o continente de um projeto específico, situa-se o Objeto ou o
também chamado Problema de Investigação.

Objeto de Investigação

O Objeto ou o Problema é uma parte, um fragmento, um recorte de determinada totalidade que,


para ser estudada em

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sua significação, deve conter relações essenciais e expressar especificidade. Quando se fala em
delimitar um objeto, o investigador deve entender a expressão não como uma dissecação do real,
mas como a possibilidade de projetar seu olhar sobre determinado fenômeno que, embora
analisável em suas dimensões, faz parte de um sistema ou de uma realidade muito mais
abrangente. Do ponto de vista prático, o Objeto é geralmente colocado em forma de pergunta —
é uma questão — e se vincula a descobertas anteriores e a indagações provenientes de múltiplos
interesses (de ordem pessoal, lógica ou sociológica). A clareza e a precisão nessa escolha decorre
de um esforço para estabelecer relações entre marcos conceituais amplos, abrangentes e, ao
mesmo tempo, específicos e voltados para o problema, articulando-os com a prática. O real está
sempre colocado como premissa, embora operacionalmente se parta do abstraio para o concreto.
Operacionalmente, eu diria que a definição clara do objeto deve sempre preceder ao esforço
discursivo, de tal forma que, na primeira linha de um projeto, qualquer leitor possa identificá-lo e
compreendê-lo. Sem a menor dúvida, o uso excessivo de palavras ou de explicações esconde
dificuldades do investigador em colocar para si mesmo o que pretende estudar concretamente.
Dialeticamente, porém, todas as etapas de um projeto constituem uma definição e redefinição do
objeto que só será plenamente definido em todas as suas determinações ao final do processo. É a
essa dinâmica que Marx (1973) atribui à expressão "concreto pensado" (Marx, 1973, p. 79).
Revisão bibliográfica

A primeira tarefa do investigador, uma vez definido seu objeto, é proceder a uma ampla pesquisa
bibliográfica, capaz de projetar luz e permitir melhor ordenação e compreensão da realidade
empírica. A pesquisa bibliográfica pode ter vários

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níveis de aprofundamento, mas deve abranger, minimamente, os estudos clássicos sobre o objeto
em questão (ou sobre os termos de sua explicitação) e os estudos mais atualizados sobre o
assunto. O nível de abrangência dessa revisão precisa ficar escrito no desenho metodológico da
investigação. Esse labor inicial parte de algumas precondições: (a) que a bibliografia seja
suficientemente ampla para traçar a moldura dentro da qual o objeto se situa: a busca de vários
pontos de vista, dos diferentes ângulos do problema que permitam estabelecer definições,
conexões e mediações, demonstrando o "estado da arte".1 Veja-se o exemplo de um levantamento
sobre Concepções de Saúde-Doença. A compreensão desse assunto implica uma pesquisa
bibliográfica que inclua: o perfil histórico e sociológico do segmento específico a ser estudado e
sua inserção nas relações sociais de produção; suas condições de vida e de trabalho, consumo,
acesso a bens e serviços e em especial aos que se referem à sua saúde; o conceito historicamente
construído de saúde na sociedade em estudo, e as políticas do setor; o conceito de representação
social que torna operacional a investigação e a análise. Ora, o desenho desse quadro inicial exige
o domínio anterior de algumas categorias analíticas fundamentais em diferentes níveis de
abstração como Modo de Produção; Formação Social; Cidadania; Classes; Gênero; Etnias;
Consciência Social; Condições, Situações e Estilo de Vida, para se falar em algumas. Porém,
essas categorias não necessitam estar presentes no discurso teórico que organiza o projeto de
pesquisa. Dele devem constar as definições que se fazem necessárias para fazer surgir

1 Atualmente, as facilidades da internet e das bases de dados, algumas permitindo até mesmo cópias completas de artigos
científicos retiram qualquer desculpa de empirismo por parte dos investigadores. Esse empirismo, que infelizmente existe, leva o
pesquisador a "inventar a roda" quando tantos antes dele já se debruçaram sobre o tema em questão. É óbvio que um investigador
não encontrará nas bases de dados o seu "objeto", pois, se assim fosse, não justificaria estudá-lo. Espera-se do investigador algum
grau de originalidade, seja do ponto de vista empírico ou comparativo, seja questionando verdades estabelecidas.
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do "caos inicial" o objeto específico com seus contornos gerais. Uma dica muito importante é
conceituar cada termo utilizado na frase que define o objeto ou constitui o título do projeto. Por
exemplo:Objeto de estudo — Relação entre dor crónica e violência conjugal em mulheres que
frequentam clínica de dor. Cada uma das expressões: dor crônica; violência conjugal; violência
contra a mulher; clínica de dor devem sair das ideias de senso comum que se tem sobre elas e
passar a ser teoricamente tratadas. (b) O segundo aspecto a ser observado em relação à
bibliografia\ diz respeito à sua apropriação. É necessário abordar o texto, primeiro num exercício
compreensivo, buscando entender o ponto de vida do autor para, em seguida, realizar, sobre ele,
uma abordagem crítica. Na pesquisa bibliográfica se deve destacar as teses, as categorias
centrais, os conceitos e as noções e como tudo isso se concatena no discurso do autor. É preciso,
também, destacar os pressupostos teóricos e as razões práticas que subjazem aos trabalhos
consultados. É importante que o investigador não se esqueça de que toda teoria é um discurso
estruturado em proposições baseadas em teses, hipóteses, conceitos, categorias e noções. O
exercício hermenêutico e crítico para compreensão do pensamento dos vários autores
consultados é fundamental para o esclarecimento da posição a ser adotada pelo investigador que
se prepara para realizar a abordagem empírica. No entanto, após o estudo dos múltiplos textos, o
investigador deve construir seu próprio marco teórico. O marco teórico de uma pesquisa não se
sustenta num discurso composto pelo desfile dos autores consultados. Ao contrário, deve
constituir-se na construção de uma síntese na qual o investigador expressa suas próprias ideias,
pressupostos e hipóteses. O terceiro ponto relativo ao material de consulta tem um caráter
operacional, também necessário no processo de objetivação. Trata-se da realização do
fichamento, operação, por meio da qual todas as leituras vão sendo cuidadosamente classificadas
e ordenadas.
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*Fichamento bibliográfico: cada livro, artigo, capítulo de livro, documento, recorte de jornal, ou
seja, todo o material pesquisado vai recebendo uma ficha própria (dentro das regras de
fichamento bibliográfico), em ordem alfabética por nome do autor ou por assunto, conforme a
opção do investigador;
* Fichamento por assunto: as matérias lidas são resumidas e recebem anotações críticas e
criativas do leitor. É importante, nesse tipo de operação, que o investigador destaque os
principais conceitos, categorias, teses e hipóteses utilizados pelo autor no seu trabalho;
* Fichamento por temas: reúne anotações e resumos a respeito de questões especificamente
pertinentes ao contorno do objeto de estudo;
* Fichamento de citações: algumas vezes existe alguma frase muito forte do autor que está sendo
analisado e, por isso, vale a pena transcrevê-la, tomando-se o devido cuidado de indicar páginas,
data de publicação e contexto*da citação. Essa modalidade de organização pode ser incluída na
classificação por temas ou por assuntos.

Organização do projeto de pesquisa

Na construção de seu próprio caminho, passando pelas ideias iniciais que o induziram à escolha
bibliográfica, a leitura dos textos e as indagações referentes à realidade empírica (que aparece
sempre como premissa), o investigador precisa organizar seu discurso teórico que pode
apresentar-se da seguinte forma:

* Definição do Objeto: colocada na primeira linha do seu documento, deixando claro, para si e
para os leitores, sua proposta ou sua pergunta investigativa logo ao abrir seu projeto. Se é bem
verdade que até o final de uma pesquisa o investigador estará definindo e redefinindo seu tema,
dando-lhe clareza e precisão, a apresentação inicial da proposta é crucial para

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ele próprio orientar-se, para a construção da crítica interpares e para avaliação dos financiadores.

* Justificativa: vem logo a seguir, devendo conter a descrição e, se possível, até a história dos
motivos vivenciais e teóricos que impulsionaram a escolha da questão ou objeto de pesquisa.

* Objetivos: Em cada projeto, o pesquisador precisa deixar claro, para si mesmo e para os
leitores e financiadores, o objetivo geral que pretende alcançar com sua investigação, o que,
certamente, deve estar em consonância com a definição do objeto. Desdobrando o escopo
principal, devem constar os objetivos específicos, que podem ser entendidos como os
desdobramentos ou etapas que o investigador pretende realizar. Os objetivos específicos devem
ser combinados com as hipóteses e pressupostos já delineados pelo investigador.

* Metas: as metas, item cada vez mais exigido nos editais de pesquisa da área da saúde,
consistem em produtos quantificáveis ou qualitativos esperados como colaboração de relevância
social dos projetos de investigação. Geralmente as metas de um projeto de saúde dizem respeito
à formação de pessoal, elaboração de material técnico e instrucional, participação em eventos,
publicação de livros, artigos e organização de seminários, dentre outros.

* Marco teórico-conceitual: estabelece o discurso argumentativo do pesquisador, apresentando


os principais conceitos, categorias e noções com as quais vai trabalhar, fazendo um debate com
os autores sobre os quais fez uma revisão bibliográfica, mostrando o estado do conhecimento,
provocando uma crítica do que já foi produzido. Ao final da discussão conceituai, o pesquisador
deve colocar suas hipóteses de trabalho e, no caso de investigações etnográficas e exploratórias,
os pressupostos orientadores do seu "caminho do pensamento".

* Marco metodológico: fundamenta teoricamente o "caminho do pensamento" seguido pelo


investigador, ou seja, sua escolha metodológica, que deve corresponder à necessidade

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de conhecimento do objeto. A partir daí define, nessa ordem: o método ou os métodos, as


estratégias, as técnicas e os procedimentos que usará. A proposta metodológica deve contemplar
e detalhar todas as etapas de operacionalização da pesquisa.

* Cronograma da pesquisa: contendo a sequência de ações e a articulação de todos os passos no


tempo delimitado para a investigação, visando a dar coerência ao processo como um todo e a
assegurar a sua viabilidade.

* Orçamento: constitui-se na atribuição de custos a cada etapa ou operação da investigação. O


exercício de valorar cada item é sobretudo importante para a concorrência do investigador em
editais cada vez mais frequentes para se conseguir financiar pesquisas.

* Referências: uma das mudanças atuais do campo da pesquisa é a utilização do termo


referências e não a expressão referências bibliográficas. Isso se deve ao fato de também formas
virtuais de acesso ao conhecimento terem já se consagrado na área científica. O formato oficial
das referências no Brasil é o da ABNT. Porém, há diferentes modos de referenciar que precisam
ser conhecidos pelo pesquisador antes de enviar seu projeto, no caso de concorrência em editais.
Para a área da saúde, em geral se usam as chamadas Normas de Vancouver que podem ser
encontradas na internet e em todas as bases de dados em que existem periódicos do setor.

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