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PODER JUDICIÁRIO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DE SÃO PAULO

TRIBUNAL DE JUSTIÇA DE SAO PAULO ACÓRDÃO/DECISÃO MONOCRATICA

,

-

~

ACÓRDÃO

REGISTRADO(A) SOB N°

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Vistos, relatados e discutidos estes autos de

Apelação n° 9240680-17.2005.8.26.0000, da Comarca de

São Paulo, em que é apelante TRANSPEV PROCESSAMENTO E

SERVIÇOS LTDA sendo apelado SOF INFORMÁTICA LTDA.

ACORDAM, em 33 a Câmara de Direito Privado do

Tribunal de Justiça de São Paulo, proferir a seguinte

decisão: "DERAM PROVIMENTO AO RECURSO. V. U.", de

conformidade com o voto do Relator, que integra este

acórdão.

dos

Desembargadores SÁ DUARTE (Presidente sem voto), EROS

teve

O

julgamento

a

participação

PICELI E CRISTIANO FERREIRA LEITE.

São Paulo,28 de fevereiro de 2011.

SA MOREIRA DE OLIVEIRA RELATOR

PODER JUDICIÁRIO

TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO

Apelação com Revisão n° 9240680-17.2005.8.26.0000 (915020-0/2) São Paulo Apelante: Transpev Processamento e Serviços Ltda. Apelado: SOF informática Ltda. TJSP - 33 a Câmara de Direito Privado

(Voto n° SMO 05942)

PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS - Liberdade de contratação - Sentença condicional - Impossibilidade - Exceção de contrato não cumprido - Documentos não entregues - Adequada retenção do pagamento.

Recurso provido.

Trata-se de apelação interposta por

TRANSPEV PROCESSAMENTO E SERVIÇOS LTDA. (fls. 260/266)

contra a r. sentença de fls. 246/252, proferida pela MM. Juíza da 14 a Vara

Cível do Foro Central da Comarca de São Paulo, Dra. Cláudia Grieco

Tabosa Pessoa, que julgou parcialmente procedente a ação de cobrança

movida por SOF INFORMÁTICA LTDA., ora apelada, quanto aos valores

devidos em razão de serviços prestados à apelante, no período entre

novembro de 1997 e junho de 1998.

Sustenta a apelante que o provimento

jurisdicional deve ser certo, não sendo facultado ao juízo condicionar sua

tutela a efeito futuro e incerto, qual seja, a juntada aos autos das guias

comprobatórias de recolhimento do INSS e do FGTS dos empregados da

apelada. Alega ter comprovado fato impeditivo do direito pretendido, o

que não teria sido refutado pela apelada. Postula a reforma da sentença.

Contra-razões apresentadas às fls. 294/299.

É o relatório.

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Apelação Cível n° 9240680-17.2005.8.26.0000 (915020-0/2)

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Por primeiro, reputam-se renunciados os agravos retidos de fls. 102/105 e 212/213, porque não expressamente reiterados na apelação.

No que tange à apelação, o recurso comporta

provimento.

A sentença impugnada, ao condicionar o

pagamento dos valores questionados à juntada nos autos das guias comprobatórias de recolhimento de FGTS e INSS dos empregados da apelada, feriu o art. 460, parágrafo único do Código de Processo Civil (CPC), que determina a certeza da decisão jurisdicional, ainda que decida relação jurídica condicional.

Quanto ao mérito, o contrato, como espécie de negócio jurídico, implica a comunhão de vontades dirigidas a um fim, qual seja, tutelar direitos e obrigações entre os contratantes. Isto significa que ambas as partes negociaram, ponderaram e por fim acordaram com os preceitos do documento, assumindo todas as conseqüências oriundas de tal ajuste, especialmente na relação existente entre si.

Se assim não fosse, se os contratados não

estivessem vinculados às obrigações assumidas em contrato, este de nada serviria. Assim, o art. 422 do Código Civil preceitua que "os contratantes são obrigados a guardar, assim na conclusão do contrato, como em sua execução, os princípios de probidade e boa-fé". No presente caso, as partes, por seus representantes legais, todos capazes, livremente pactuaram os termos da prestação do serviço e da respectiva remuneração. Na cláusula 4.8.9, está expressamente previsto que "A CONTRATADA obriga-se a apresentar, mensalmente à CONTRATANTE, cópia autenticada das guias comprobatórias de recolhimento do INSS e FGTS incidentes sobre a folha de pagamento dos seus empregados envolvidos na execução dos serviços prestados, sob pena de retenção dos pagamentos devidos até a

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Apelação Cível n° 9240680-17.2005.8.26.0000 (915020-0/2)

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efetiva apresentação de tais documentos. A retenção dos pagamentos aqui prevista não acarretará a CONTRATANTE incidência de qualquer multa, juros ou indenizações, bem como não será motivo para a paralisação dos serviços" (sem gritos no original).

Não se demonstrou qualquer vício do consentimento que pudesse questionar a validade da cláusula; de modo que a apelada voluntariamente se sujeitou à obrigação imposta na referida cláusula, bem como às penalidades decorrentes de seu descumprimento.

Em que pese a alegação de que a apelada não possuía vínculos empregatícios com aqueles que lhe prestavam serviço e, reflexamente, prestavam os serviços desta para a apelante; trata-se de questão que deverá ser ventilada na esfera competente. Além disso, se a contratação em moldes diversos da relação de emprego era praxe na empresa apelada, esta, já ciente que não possuiria os documentos, não poderia ter firmado contrato nos termos apresentados, pois do contrário seria questionável a sua boa- fé.

Ademais, em comunicação enviada à apelante (fls. 54/59), a apelada reiterou sua obrigação em fornecer a documentação exigida em contrato, ao afirmar ter tomado providencias quanto a sua obtenção.

Nestas circunstâncias, adequada a retenção do pagamento, nos termos pactuados (cláusula 4.8.9.), uma vez que a apelada não cumpriu com sua obrigação contratual, qual seja, apresentar as guias comprobatórias de recolhimento do INSS e FGTS incidentes sobre a folha de pagamento dos empregados envolvidos na prestação dos serviços.

Trata-se da exceção do contrato não cumprido,

conforme

preceitua

o

artigo

476

do

Código

Civil:

"Nas

obrigações

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Apelação Cível n" 9240680-17.2005.8.26.0000 (915020-0/2)

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bilaterais, nenhum dos contratantes, antes de cumprida a sua obrigação, pode exigir o implemento da do outro". De acordo com Nelson Nery Júnior e Rosa Maria de Andrade Nery, a exceção do contrato não cumprido "constitui uma das espécies de fato impeditivo do direito do autor, que pode ser alegado como preliminar de mérito na contestação (CPC 326). O autor pode ter, em tese, o direito que pretende haver do réu, mas está impedido, por ora, de fazê-lo, enquanto não cumprir sua parte no contrato bilateral". (In. Código Civil Comentado, 5 a edição, Ed. RT, 2007, pág.

516/517).

Como visto, possível, no caso, a oposição à pretensão da apelada com base na 'exceptio non adimpleti contractus', que, por ora, tem o seu direito impedido.

Neste raciocínio, dou provimento ao recurso, para julgar improcedente a ação. Sucumbente^a apelada, condeno-a ao pagamento das custas e despesas processuais, bem como honorários advocatícios, fixados em 10% do valor da gfausar

/^S À MOREIRA DE OLIVEIRA

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Relator

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Apelação Cível n" 9240680-17.2005.8.26.0000 (915020-0/2)