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Mediação Familiar,

Escolar e Comunitária
Prof.ª Isabel Maciel Mousquer

Indaial – 2020
1a Edição
Copyright © UNIASSELVI 2020

Elaboração:
Prof.ª Isabel Maciel Mousquer

Revisão, Diagramação e Produção:


Centro Universitário Leonardo da Vinci – UNIASSELVI

Ficha catalográfica elaborada na fonte pela Biblioteca Dante Alighieri


UNIASSELVI – Indaial.

M932m

Mousquer, Isabel Maciel


Mediação familiar, escolar e comunitária. / Isabel Maciel Mousquer.
– Indaial: UNIASSELVI, 2020.
180 p.; il.

ISBN 978-65-5663-147-9
ISBN Digital 978-65-5663-148-6

1. Mediação. - Brasil. 2. Inclusão social. – Brasil. Centro Universitário Leonardo


Da Vinci.

CDD 342.12

Impresso por:
Apresentação
Seja bem-vindo à disciplina de Mediação Familiar, Escolar e
Comunitária.

Como futuro profissional da área do Direito, você deverá perceber o


quanto nos utilizamos das ferramentas de outras áreas. Afinal, a Mediação
de Conflitos, grande área das Ciências Jurídicas e Sociais, é considerada
multidisciplinar. Nesse contexto, emprestamos ferramentas da Psicologia e
da Pedagogia para utilizar em nossos processos de Mediação de conflitos
familiares, escolares e comunitários.

Nosso objetivo é oferecer noções básicas dos aspectos históricos,


culturais e sociais da família, da mediação e a resolução dos conflitos em
âmbito familiar, os conflitos familiares e a atuação do mediador familiar,
a escola, a família e comunidade e as diferentes técnicas de mediação
escolar, de como enfrentar a violência escolar, das técnicas e modelos de
mediação escolar, dos fundamentos da mediação comunitária, a mediação
comunitária, da conceituação e modelos de mediação comunitária e da
mediação comunitária: a democracia, o acesso à justiça e o empoderamento
da comunidade.

Para isso, contextualizaremos os aspectos históricos, culturais e


sociais da família, abordando a importância da família na mediação familiar.
Também buscaremos apresentar a história social da família e adaptações
culturais, as novas configurações familiares, a conjugalidade e a parentalidade
e os conflitos geracionais. Ao final desta disciplina, você deverá compreender
as três espécies de mediação: a familiar, a escolar e a comunitária.

Os conteúdos foram organizados em três unidades de aprendizagem.


Na Unidade 1 conheceremos os aspectos históricos, culturais e sociais da
família. Para tanto, compreenderemos a importância da família na mediação
familiar, a história social da família e adaptações culturais, bem como as
novas configurações familiares, inclusive as etapas do ciclo vital da família,
a família de origem vs família nuclear e as fronteiras de comunicações
familiares. Dentro do estudo dos aspectos culturais e sociais da família
será abordada a conjugalidade vs parentalidade e as disfunções conjugais e
parentais dos conflitos geracionais.

Da mesma forma abordaremos a mediação e a resolução dos conflitos


em âmbito familiar. Para isso, será necessário estudar acerca da evolução da
mediação familiar no Brasil e no mundo, tratando do divórcio e do instituto
Recasamento. O mediador precisa compreender os institutos do Direito de
Família, abordando o eixo matrimonial: casamento, habilitação, celebração,

III
impedimentos, provas, nulidade e anulação e efeitos, o regime de bens no
matrimônio, da dissolução da sociedade conjugal, do reconhecimento de
filhos, alimentos e adoção e da tutela e da curatela. Também serão estudados
nesta mesma unidade os conflitos familiares e a atuação do mediador familiar
abordando os objetivos e aplicações da mediação familiar e as formas e
modelos de intervenção da mediação familiar. Na sequência será abordado
a respeito dos conflitos familiares tratando da resolução dos conflitos
familiares: procedimentos metodológicos, instrumentos e estratégias e, por
fim, da atuação do mediador familiar.

Na Unidade 2 abordaremos sobre a mediação escola. Para tanto,


você aprenderá sobre a escola, a família, a comunidade e as diferentes
técnicas de mediação em âmbito escolar, por isso, será estudado os aspectos
históricos e conceituais, a mediação e suas implicações pedagógicas, a
mediação no contexto escolar, os objetivos e a interação escolar abordando o
comportamento e a socialização. Dentro do estudo sobre o enfrentamento da
violência escolar, temos: as formas de combate à violência escolar, a prevenção
e os modelos, o papel do mediador na escola, a escola e a comunidade, o
papel da escola e da família, a educação inclusiva e a inclusão social.

Acerca das técnicas de mediação escolar, tais como: as diferentes


técnicas de mediação escolar, a escuta inclusiva/ativa, a estruturação das
atividades: intervenções, sessões e fases, o rapport (empatia), o tratamento
equânime das partes e a assertividade do facilitador/mediador escolar, a
credibilidade e a confiança necessárias ao mediador na mediação escolar,
a criatividade do mediador: a produção, avaliação e seleção de ideias. Os
modelos de mediação escolar: a mediação entre pares ou mediação mirim
(peer mediation), a mediação em rede, a mediação professores-alunos e os
círculos restaurativos/justiça restaurativa.

Na Unidade 3 focaremos o estudo nos fundamentos da mediação


comunitária. Para tanto, você compreenderá os aspectos históricos da
mediação comunitária, a inserção da mediação comunitária no conflito, os
objetivos da mediação comunitária, as limitações da mediação comunitária.
Dentro do estudo sobre a conceituação e os modelos de mediação
comunitária, o princípio da solidariedade e da dignidade da pessoa humana
e a mediação comunitária, o exercício da cidadania e a mediação comunitária,
os modelos da mediação comunitária e sua aplicabilidade. Acerca da
mediação comunitária: a mediação comunitária como forma de efetivação
da democracia, o acesso à justiça no contexto da mediação comunitária e o
empoderamento da comunidade por intermédio da mediação comunitária.

A cada unidade você será convidado a praticar exercícios que


ajudarão no processo de ensino e aprendizagem.

Bons estudos!
Profª Isabel Maciel Mousquer

IV
NOTA

Você já me conhece das outras disciplinas? Não? É calouro? Enfim, tanto


para você que está chegando agora à UNIASSELVI quanto para você que já é
veterano, há novidades em nosso material.

Na Educação a Distância, o livro impresso, entregue a todos os acadêmicos desde 2005, é


o material base da disciplina. A partir de 2017, nossos livros estão de visual novo, com um
formato mais prático, que cabe na bolsa e facilita a leitura.

O conteúdo continua na íntegra, mas a estrutura interna foi aperfeiçoada com nova
diagramação no texto, aproveitando ao máximo o espaço da página, o que também
contribui para diminuir a extração de árvores para produção de folhas de papel, por exemplo.

Assim, a UNIASSELVI, preocupando-se com o impacto de nossas ações sobre o ambiente,


apresenta também este livro no formato digital. Assim, você, acadêmico, tem a possibilidade
de estudá-lo com versatilidade nas telas do celular, tablet ou computador.
 
Eu mesmo, UNI, ganhei um novo layout, você me verá frequentemente e surgirei para
apresentar dicas de vídeos e outras fontes de conhecimento que complementam o assunto
em questão.

Todos esses ajustes foram pensados a partir de relatos que recebemos nas pesquisas
institucionais sobre os materiais impressos, para que você, nossa maior prioridade, possa
continuar seus estudos com um material de qualidade.

Aproveito o momento para convidá-lo para um bate-papo sobre o Exame Nacional de


Desempenho de Estudantes – ENADE.
 
Bons estudos!

V
VI
LEMBRETE

Olá, acadêmico! Iniciamos agora mais uma disciplina e com ela


um novo conhecimento.

Com o objetivo de enriquecer seu conhecimento, construímos, além do livro


que está em suas mãos, uma rica trilha de aprendizagem, por meio dela você terá
contato com o vídeo da disciplina, o objeto de aprendizagem, materiais complementares,
entre outros, todos pensados e construídos na intenção de auxiliar seu crescimento.

Acesse o QR Code, que levará ao AVA, e veja as novidades que preparamos para seu estudo.

Conte conosco, estaremos juntos nesta caminhada!

VII
VIII
Sumário
UNIDADE 1 – ASPECTOS HISTÓRICOS, CULTURAIS E SOCIAIS DA FAMÍLIA..................1

TÓPICO 1 – ASPECTOS HISTÓRICOS, CULTURAIS E SOCIAIS DA FAMÍLIA......................3


1 INTRODUÇÃO........................................................................................................................................3
2 HISTÓRIA SOCIAL DA FAMÍLIA E ADAPTAÇÕES CULTURAIS............................................3
3 AS NOVAS CONFIGURAÇÕES FAMILIARES................................................................................4
3.1 AS ETAPAS DO CICLO VITAL DA FAMÍLIA.............................................................................10
3.2 FAMÍLIA DE ORIGEM X FAMÍLIA NUCLEAR..........................................................................11
3.3 AS FRONTEIRAS DE COMUNICAÇÕES FAMILIARES ..........................................................12
4 CONJUGALIDADE X PARENTALIDADE .....................................................................................13
4.1 DISFUNÇÕES CONJUGAIS E PARENTAIS .............................................................................14
5 DOS CONFLITOS GERACIONAIS ................................................................................................16
RESUMO DO TÓPICO 1........................................................................................................................19
AUTOATIVIDADE..................................................................................................................................21

TÓPICO 2 – A MEDIAÇÃO E A RESOLUÇÃO DOS CONFLITOS EM ÂMBITO


FAMILIAR...........................................................................................................................25
1 INTRODUÇÃO......................................................................................................................................25
2 EVOLUÇÃO DA MEDIAÇÃO FAMILIAR NO BRASIL E NO MUNDO ................................25
3 O DIVÓRCIO E O RECASAMENTO ...............................................................................................26
4 O DIREITO DE FAMÍLIA ...................................................................................................................28
4.1 EIXO MATRIMONIAL: CASAMENTO, HABILITAÇÃO, CELEBRAÇÃO,
IMPEDIMENTOS, PROVAS, NULIDADE E ANULAÇÃO E EFEITOS...................................29
4.2 O REGIME DE BENS NO MATRIMÔNIO ..................................................................................36
4.3 DA DISSOLUÇÃO DA SOCIEDADE CONJUGAL ...................................................................39
4.4 DO RECONHECIMENTO DE FILHOS, ALIMENTOS E ADOÇÃO . .....................................40
4.5 DA TUTELA E DA CURATELA . .................................................................................................42
RESUMO DO TÓPICO 2........................................................................................................................43
AUTOATIVIDADE..................................................................................................................................46

TÓPICO 3 – OS CONFLITOS FAMILIARES E A ATUAÇÃO DO MEDIADOR


FAMILIAR...........................................................................................................................49
1 INTRODUÇÃO......................................................................................................................................49
2 DOS OBJETIVOS E APLICAÇÕES DA MEDIAÇÃO FAMILIAR ............................................49
3 AS FORMAS E MODELOS DE INTERVENÇÃO DA MEDIAÇÃO FAMILIAR ...................50
4 DOS CONFLITOS FAMILIARES ....................................................................................................52
4.1 DA RESOLUÇÃO DOS CONFLITOS FAMILIARES: PROCEDIMENTOS
METODOLÓGICOS, INSTRUMENTOS E ESTRATÉGIAS . ....................................................53
4.2 A ATUAÇÃO DO MEDIADOR FAMILIAR ................................................................................56
LEITURA COMPLEMENTAR................................................................................................................58
RESUMO DO TÓPICO 3........................................................................................................................62
AUTOATIVIDADE..................................................................................................................................64

IX
UNIDADE 2 – A ESCOLA, A FAMÍLIA, A COMUNIDADE E AS DIFERENTES
TÉCNICAS DE MEDIAÇÃO ESCOLAR..................................................................67

TÓPICO 1 – A MEDIAÇÃO ESCOLAR...............................................................................................69


1 INTRODUÇÃO......................................................................................................................................69
2 BREVES ASPECTOS HISTÓRICOS E CONCEITUAIS DA MEDIAÇÃO ESCOLAR...........69
3 CONCEITUANDO A MEDIAÇÃO ESCOLAR...............................................................................71
3.1 A MEDIAÇÃO E SUAS IMPLICAÇÕES PEDAGÓGICAS........................................................73
3.2 A MEDIAÇÃO NO CONTEXTO ESCOLAR................................................................................74
3.3 OBJETIVOS DA MEDIAÇÃO ESCOLAR ....................................................................................75
4 A INTERAÇÃO ESCOLAR: COMPORTAMENTO E SOCIALIZAÇÃO...................................76
RESUMO DO TÓPICO 1........................................................................................................................78
AUTOATIVIDADE..................................................................................................................................80

TÓPICO 2 – COMO ENFRENTAR A VIOLÊNCIA ESCOLAR?.....................................................83


1 INTRODUÇÃO......................................................................................................................................83
2 FORMAS DE COMBATE À VIOLÊNCIA ESCOLAR: PREVENÇÃO E MODELOS..............83
3 O PAPEL DO MEDIADOR NA ESCOLA .......................................................................................84
4 A ESCOLA E A COMUNIDADE........................................................................................................86
5 O PAPEL DA ESCOLA E DA FAMÍLIA ...........................................................................................87
5.1 POR UMA EDUCAÇÃO INCLUSIVA..........................................................................................90
5.2 A INCLUSÃO SOCIAL....................................................................................................................92
RESUMO DO TÓPICO 2........................................................................................................................94
AUTOATIVIDADE..................................................................................................................................96

TÓPICO 3 – AS TÉCNICAS E OS MODELOS DE MEDIAÇÃO ESCOLAR..............................99


1 INTRODUÇÃO......................................................................................................................................99
2 AS DIFERENTES TÉCNICAS DE MEDIAÇÃO ESCOLAR.........................................................99
2.1 A ESCUTA INCLUSIVA/ATIVA ....................................................................................................99
2.2 ESTRUTURANDO AS ATIVIDADES: INTERVENÇÕES, SESSÕES E FASES .....................100
2.3 O RAPPORT (EMPATIA)...............................................................................................................101
2.4 DO TRATAMENTO EQUÂNIME DAS PARTES E DA ASSERTIVIDADE DO
FACILITADOR/MEDIADOR ESCOLAR.....................................................................................102
2.5 DA CREDIBILIDADE E CONFIANÇA NECESSÁRIAS AO MEDIADOR NA
MEDIAÇÃO ESCOLAR . ..............................................................................................................103
2.6 DA CRIATIVIDADE DO MEDIADOR: PRODUÇÃO, AVALIAÇÃO E SELEÇÃO
DE IDEIAS ......................................................................................................................................104
3 MODELOS DE MEDIAÇÃO ESCOLAR: MEDIAÇÃO ENTRE PARES OU MEDIAÇÃO
MIRIM (PEER MEDIATION), MEDIAÇÃO EM REDE, MEDIAÇÃO PROFESSORES-
ALUNOS E OS CÍRCULOS RESTAURATIVOS/JUSTIÇA RESTAURATIVA ......................105
LEITURA COMPLEMENTAR..............................................................................................................110
RESUMO DO TÓPICO 3......................................................................................................................115
AUTOATIVIDADE................................................................................................................................117

UNIDADE 3 – OS FUNDAMENTOS DA MEDIAÇÃO COMUNITÁRIA.................................119

TÓPICO 1 – A MEDIAÇÃO COMUNITÁRIA.................................................................................121


1 INTRODUÇÃO....................................................................................................................................121
2 BREVE HISTÓRICO DA MEDIAÇÃO COMUNITÁRIA .........................................................121

X
3 A INSERÇÃO DA MEDIAÇÃO COMUNITÁRIA NO CONFLITO........................................123
3.1 OBJETIVOS DA MEDIAÇÃO COMUNITÁRIA . ....................................................................125
3.2 LIMITAÇÃO DA MEDIAÇÃO COMUNITÁRIA . ...................................................................127
RESUMO DO TÓPICO 1......................................................................................................................129
AUTOATIVIDADE................................................................................................................................131

TÓPICO 2 – CONCEITUAÇÃO E MODELOS DE MEDIAÇÃO COMUNITÁRIA.................133


1 INTRODUÇÃO....................................................................................................................................133
2 CONCEITUAÇÃO DA MEDIAÇÃO COMUNITÁRIA..............................................................133
3 O PRINCÍPIO DA SOLIDARIEDADE E DA DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA
E A MEDIAÇÃO COMUNITÁRIA .................................................................................................135
4 O EXERCÍCIO DA CIDADANIA E A MEDIAÇÃO COMUNITÁRIA ...................................138
5 DOS MODELOS DA MEDIAÇÃO COMUNITÁRIA E SUA APLICABILIDADE................142
RESUMO DO TÓPICO 2......................................................................................................................147
AUTOATIVIDADE................................................................................................................................149

TÓPICO 3 – MEDIAÇÃO COMUNITÁRIA: DEMOCRACIA, ACESSO À JUSTIÇA E


O EMPODERAMENTO DA COMUNIDADE...........................................................151
1 INTRODUÇÃO....................................................................................................................................151
2 A MEDIAÇÃO COMUNITÁRIA COMO FORMA DE EFETIVAÇÃO DA
DEMOCRACIA ...................................................................................................................................151
3 O ACESSO À JUSTIÇA NO CONTEXTO DA MEDIAÇÃO COMUNITÁRIA......................152
4 O EMPODERAMENTO DA COMUNIDADE POR INTERMÉDIO DA MEDIAÇÃO
COMUNITÁRIA ................................................................................................................................155
LEITURA COMPLEMENTAR..............................................................................................................159
RESUMO DO TÓPICO 3......................................................................................................................164
AUTOATIVIDADE................................................................................................................................166

REFERÊNCIAS........................................................................................................................................169

XI
XII
UNIDADE 1

ASPECTOS HISTÓRICOS, CULTURAIS E


SOCIAIS DA FAMÍLIA

OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de:

• aprender sobre os aspectos históricos, culturais e sociais da família;

• entender a importância da família na mediação familiar;

• identificar em âmbito familiar a utilização da mediação e a resolução dos


conflitos;

• compreender os conflitos familiares e a atuação do mediador familiar.

PLANO DE ESTUDOS
Esta unidade está dividida em três tópicos. No decorrer da unidade,
você encontrará autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo
apresentado.

TÓPICO 1 – A IMPORTÂNCIA DA FAMÍLIA NA MEDIAÇÃO FAMILIAR

TÓPICO 2 – A MEDIAÇÃO E A RESOLUÇÃO DOS CONFLITOS


EM ÂMBITO FAMILIAR

TÓPICO 3 – OS CONFLITOS FAMILIARES E A ATUAÇÃO DO


MEDIADOR FAMILIAR

CHAMADA

Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e vamos em frente!


Procure um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá melhor
as informações.

1
2
UNIDADE 1
TÓPICO 1

ASPECTOS HISTÓRICOS, CULTURAIS E SOCIAIS DA FAMÍLIA

1 INTRODUÇÃO
Neste tópico, você irá aprender sobre os aspectos históricos, culturais e
sociais da família. Para tanto, compreenderá a importância do estudo da família
na mediação familiar, na história social da família e as adaptações culturais, bem
como as novas configurações familiares, inclusive as etapas do ciclo vital da
família, a família de origem vs família nuclear e as fronteiras de comunicações
familiares. Dentro do estudo dos aspectos culturais e sociais da família, será
abordada a conjugalidade vs parentalidade e as disfunções conjugais e parentais
dos conflitos geracionais.

2 HISTÓRIA SOCIAL DA FAMÍLIA E ADAPTAÇÕES CULTURAIS


A história social da família e suas adaptações culturais sofridas ao longo
da história tiveram início de modo tradicional no período do Brasil Colonial. Nela,
poderia ser visto a presença do pátrio poder exercido pelo patriarca, comumente
o marido, perante esposa e filhos, sendo seu objetivo a procriação, mas guardava
também funções religiosas e políticas. Esse era o retrato da família patriarcal
(LÔBO, 2011).

Além da família patriarcal outras foram surgindo e merecem destaque, tais
como: união estável ou informal, família homoafetiva, paralelas ou simultâneas,
família poliafetiva, família monoparental, família parental ou anaparental, família
composta, pluriparental ou mosaico, família natural, extensa ou ampliada, família
substituta, família eudemonista (DIAS, 2015).

3
UNIDADE 1 | ASPECTOS HISTÓRICOS, CULTURAIS E SOCIAIS DA FAMÍLIA

FIGURA 1 – FAMÍLIA

FONTE: <https://www.urbanarts.com.br/familia-vida-amor-quadrado-70026/p>.
Acesso em: 6 jan. 2019.

3 AS NOVAS CONFIGURAÇÕES FAMILIARES


A família é o instituto mais antigo da humanidade e surgiu muito antes
da possibilidade de o homem passar a viver em bandos por causa do casamento
e/ou de um antepassado comum.

Não foi, portanto, nem o Estado nem o Direito que criaram a família,
pois foi esta que criou o Estado e o Direito, como sugere a famosa
frase de Rui Barbosa: “A pátria é a família amplificada”. Como a
primeira base da organização social, a família deve ser tutelada pelo
ordenamento jurídico vigente” (MACHADO, 2000, p. 2).

Após a análise dessa concepção inicial de família como centro do Estado,


é necessário direcionarmos o estudo e a compreensão da temática a fim de
estabelecermos as balizas conceituais próprias, ressaltando que ela não é um
conceito exato, mas cíclico, sofrendo alterações à maneira que mudam os valores
sociais e seus fatores.

4
TÓPICO 1 | ASPECTOS HISTÓRICOS, CULTURAIS E SOCIAIS DA FAMÍLIA

NOTA

Quanto às novas configurações familiares, podemos citar:


• Família Extensa/ampliada: formada pela base familiar como parentes diretos (pais, irmãos,
tios, avós e primos) e colaterais (que não possuem laços consanguíneos); paralelo com a
família nuclear.
• Família ou União Homoafetiva: contituída pela união de pessoas do mesmo sexo; os
movimentos sociais tiveram uma contribuição para que essas famílias fossem reconhecidas
como tais e gerando um reconhecimento de que elas possam inclusive adotar.
• Família Eudemonista: várias pessoas que vivem juntas, sem laços consanguíneos, mas com
forte comprometimento mútuo.
• Família Anaparental: possui vínculo de parentesco, mas não relação de ascendência e
descendência. Ex.: 2 irmãos que moram juntos.

FONTE: https://player.slideplayer.com.br/89/14242481/slides/slide_9.jpg. Acesso em: 6 jan. 2020.

O doutrinador Sílvio de Salvo Venosa (2013, p. 20), em um conceito


restritivo leciona que “família compreende somente o núcleo formado por pais e
filhos que vivem sob o pátrio poder” e, em um conceito amplo, “é o conjunto de
pessoas unidas por vínculo jurídico de natureza familiar”.

Analisando o conceito legal de família em sentido lato, temos o texto


constante no Capítulo VII, da Família, da Criança, do Adolescente, do Jovem e do
Idoso, merecendo destaque o artigo 226, caput, e os § 3º, 4º e 5º:

Art. 226. A família, base da sociedade, tem especial proteção do Estado.


§ 3º Para efeito da proteção do Estado, é reconhecida a união estável
entre o homem e a mulher como entidade familiar, devendo a lei
facilitar sua conversão em casamento.
§ 4º Entende-se, também, como entidade familiar a comunidade
formada por qualquer dos pais e seus descendentes.
§ 5º Os direitos e deveres referentes à sociedade conjugal são exercidos
igualmente pelo homem e pela mulher (BRASIL, 1988).

Nesse sentido, mas sob outra perspectiva, Maria Helena Diniz (2008, p.
23-24), assevera: “todos os indivíduos que estiverem ligados pelo vínculo da
consanguinidade ou da afinidade, chegando a incluir estranhos”.

Cabe ressaltar, entretanto, que a conceituação de família não é a mesma


de quando foi promulgada a Constituição de 1988 e o Código Civil de 2002, pois
os novos rearranjos sociais e culturais permitiram que novas espécies de famílias
diversas da patriarcal viessem a surgir, mas de igual modo protegidas pela norma.
Vamos estudar um pouco cada uma delas.

5
UNIDADE 1 | ASPECTOS HISTÓRICOS, CULTURAIS E SOCIAIS DA FAMÍLIA

O estudo dos diferentes tipos de famílias iniciará pela família patriarcal, a


qual consiste em um modelo herdado no período do Brasil Colônia e continuou
existindo, inclusive no século XX, como grande parte do modo como eram
constituídos os núcleos familiares, persistindo ainda hoje. Ela possui como
característica preponderante a existência do matrimônio, realizado por um juiz,
e a presença do chefe e/ou patriarca como sendo o esposo e pai dos filhos ali
havidos, capaz de deter o pátrio poder, tendo aspectos políticos e religiosos muito
definidos (LÔBO, 2011).

Esses aspectos acerca do casamento estão presentes no Código Civil


de 2002, no Livro IV, do Direito de Família, no Título I, do Direito Pessoal, no
subtítulo do Casamento, do Capítulo I das Disposições Gerais, especificamente
no artigo 1514: “O casamento se realiza no momento em que o homem e a mulher
manifestam, perante o juiz, a sua vontade de estabelecer vínculo conjugal, e o juiz
os declara casados” (BRASIL, 2002).

Diferentemente do texto contido na Constituição da República Federativa
do Brasil, o § 5º do artigo 226 preconiza a necessidade da existência de igualdade
entre os cônjuges na sociedade conjugal: “§ 5º Os direitos e deveres referentes
à sociedade conjugal são exercidos igualmente pelo homem e pela mulher”
(BRASIL, 1988).

Outro tipo de família que merece estudo é aquela constituída por


intermédio de uma união estável ou informal, a qual consiste naquela em que
há uma relação de afeto pública, duradoura com o objetivo de constituir família
entre duas pessoas, sendo reconhecida pela Constituição Federal no § 3º do artigo
226: “para efeito da proteção do Estado, é reconhecida a união estável entre o
homem e a mulher como entidade familiar, devendo a lei facilitar sua conversão
em casamento” (BRASIL, 1988).

Ela é amplamente abordada pelo Código Civil de 2002, no Título III da


União Estável, principalmente nos artigos 1723 ao 1727, merecendo destaque os
artigos 1723 e 1727:

Art. 1.723. É reconhecida como entidade familiar a união estável entre


o homem e a mulher, configurada na convivência pública, contínua e
duradoura e estabelecida com o objetivo de constituição de família.
Art. 1.724. As relações pessoais entre os companheiros obedecerão
aos deveres de lealdade, respeito e assistência, e de guarda, sustento e
educação dos filhos (BRASIL, 2002).

Para tanto, existem alguns critérios para a configuração da união estável,


pois não basta somente ter filhos e/ou ter um relacionamento, é necessário provar
a constituição familiar e a relação ser algo público.

O Direito evoluiu no entendimento a respeito das entidades familiares,


pois os filhos havidos fora do casamento, também foram reconhecidos pelo texto
constitucional.

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TÓPICO 1 | ASPECTOS HISTÓRICOS, CULTURAIS E SOCIAIS DA FAMÍLIA

Assim, filhos ilegítimos, naturais, espúrios, bastardos, nenhum direito


possuíam, sendo condenados à invisibilidade. Tal ojeriza, entretanto,
não coibiu os egressos de casamentos desfeitos constituírem novas
famílias, mesmo sem respaldo legal. Quando o rompimento dessas
uniões, seus partícipes começaram a bater às portas do judiciário.
Viram-se os juízes forçados a criar alternativas para evitar flagrantes
injustiças, tendo sido cunhada a expressão companheira, como
forma de contornar as proibições para o reconhecimento dos direitos
banidos pela lei à concubina. Essas estruturas familiares, ainda que
rejeitadas pela lei, acabaram aceitas pela sociedade, fazendo com que
a Constituição as albergasse no conceito ele entidade familiar (DIAS,
2015, p. 140).

Cabe ressaltar sua aplicação de modo extensivo às relações homoafetivas.


O importante é que qualquer forma de constituição de família e/ou de
relacionamento precisa ser saudável e baseada no respeito mútuo.

Outra espécie de família que merece destaque é a homoafetiva, formada


pela união de dois indivíduos do mesmo sexo, nele compreendido também o
conceito de gênero. Considerada como entidade familiar, ela alcançou esse
reconhecimento pela jurisprudência e pelo Supremo Tribunal Federal (STF)
quando do julgamento da Ação Direta de Inconstitucionalidade – ADI 4.277 e
da Ação de Descumprimento de Preceito Fundamental – ADPF 132, da qual foi
relator o Min. Ayres Britto, com efeito vinculante, portanto, precisa ser observada
pelo Poder Judiciário.

A sociedade que se proclama defensora da igualdade é a mesma


que ainda mantém uma posição discriminatória nas questões da
homossexualidade. Nítida é a rejeição social à livre orientação sexual.
A homossexualidade existe e sempre existiu, mas é marcada pelo
estigma social, sendo renegada à marginalidade por se afastar dos
padrões de comportamento convencional. O núcleo do atual sistema
jurídico é o respeito à dignidade humana, atentando nos princípios
da liberdade e da igualdade. A identificação da orientação sexual
está condicionada à identificação do sexo da pessoa escolhida com
relação a quem escolhe, e tal escolha não pode ser alvo de tratamento
diferenciado. Se todos são iguais perante a lei, sem distinção de
qualquer natureza, aí está incluída, por óbvio, a orientação sexual que
se tenha (DIAS, 2012, p. 5-6).

Atualmente, as uniões homoafetivas e a adoção de crianças por casais


homoafetivos têm aumentado e mostram um avanço na conquista desses direitos.

Também merece ser objeto de análise as famílias paralelas ou simultâneas,


as quais são constituídas ao mesmo tempo que o casamento, ou seja, um dos
cônjuges constitui uma outra família. Dessa forma, pode tratar-se de um
casamento simultâneo a uma ou mais uniões estáveis, ou mais de uma união
estável concomitante.

7
UNIDADE 1 | ASPECTOS HISTÓRICOS, CULTURAIS E SOCIAIS DA FAMÍLIA

Famílias paralelas ou simultâneas são as constituídas por dois ou


mais núcleos familiares, com um de seus membros comuns a ambas,
podendo existir no casamento como na união estável. Portanto,
encampando foi nesta família o concubinato, antigo concubinato
impuro. Não se confunde famílias paralelas ou simultâneas, cada uma
possuindo domicílio diferente, com poliamorismo. Desse modo, nas
famílias paralelas há dois ou mais núcleos familiares, com um membro
comum. Por isso mesmo rotulada também de entidades familiares
simultâneas. No poliamorismo há ocorrência de relação afetiva entre
todos os seus membros, formando tão somente uma única célula
familiar (CARVALHO, 2018, s.p.).

Nessa mesma esteira, existem as denominadas famílias poliafetivas, que


são aquelas formadas por três ou mais indivíduos, tanto homens quanto mulheres,
reunidos por laços afetivos e/ou sexuais.

Assim, a união poliafetiva, constituída de três ou mais pessoas, carece


totalmente de reconhecimento e proteção legal para seus membros. A
jurisprudência dos Tribunais estaduais vem encampando, infelizmente
com certa resistência do STJ, tanto a união poliafetiva como as famílias
simultâneas ou paralelas (CARVALHO, 2018, s.p.).

Em nosso país, não há previsão na norma acerca dessas duas espécies


de família anteriormente citadas, apenas restando o reconhecimento delas pelas
jurisprudências dos tribunais.

A próxima espécie de família a ser tratada é a monoparental, a qual é


formada pela presença apenas de um dos genitores, podendo ser o pai ou a mãe e
dos filhos. Em comparação aos anos anteriores, desde 2008 esse tipo de configuração
familiar tem aumentado, passando de 22% para 34,9%, representando mais de
um terço das famílias (LÔBO, 2011).

Essa espécie de família também encontrou respaldo no texto


constitucional, em especial no §4º do artigo 226: “Entende-se, também,
como entidade familiar a comunidade formada por qualquer dos pais e seus
descendentes” (BRASIL, 1988, s.p.).

Ainda, podemos comentar sobre a família do tipo parental ou anaparental,


que é aquela que se constitui pelos laços da convivência e do afeto, podendo possuir
os indivíduos parentesco ou não. Entretanto, eles não possuem ascendência e/ou
descendência entre si.
 
A família anaparental é a família sem pai e sem mãe. Pais morreram e os
filhos têm por tutores os avós. Estes novos arranjos são as denominadas
famílias socioafetivas, que se fundam  no afeto, dedicação, carinho
e ajuda mútua,  transformando estas convivências em verdadeiras
entidades familiares. Essa realidade é crescente no Brasil, mas não
ganhou a devida atenção dos estudiosos do direito e nem do próprio
Estado. Muitos irmãos passam a conviver juntos após o falecimento
de seus pais, um cuidando do outro, formando por esforço mútuo

8
TÓPICO 1 | ASPECTOS HISTÓRICOS, CULTURAIS E SOCIAIS DA FAMÍLIA

patrimônio comum sem possuir, em tese, a mesma proteção estatal


das famílias do rol do artigo 226 da Constituição Federal, já citado
acima (GODINHO, 2018, s.p.).

Diferentemente, a denominada família composta, pluriparental ou


mosaico, é aquela que é (re)composta entre um indivíduo que já possuía uma
família de um primeiro relacionamento e acaba levando para aquela nova relação
os seus filhos, e seu atual também possui filhos de um casamento anterior,
por exemplo, passando esses entes a formarem uma nova entidade familiar
caracterizada pelo afeto (RANGEL, 2013).

Outra modalidade de entidade familiar é a família natural, a qual


encontra previsão legal no Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA, na seção
II, da família natural, no artigo 25. Ela pode ser entendida como: “Entende-se
por família natural a comunidade formada pelos pais ou qualquer deles e seus
descendentes” (BRASIL, 1990).

A família natural pode compreendida como aquela em que os indivíduos


possuem laços sanguíneos, biológico e/ou nucleares. Já a família extensa ou
ampliada é aquela formada não pelos pais, mas pelos parentes próximos, e
encontra previsão legal no Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA, na seção
II, da família natural, no § único do artigo 25:

Parágrafo único.  Entende-se por família extensa ou ampliada


aquela que se estende para além da unidade pais e filhos ou da
unidade do casal, formada por parentes próximos com os quais a
criança ou adolescente convive e mantém vínculos de afinidade e
afetividade (BRASIL, 1990, s.p.).

Para esse tipo de entidade familiar, a norma ressaltou a existência dos


vínculos e da convivência enquanto a denominada família substituta traz a
possibilidade de colocação da criança ou adolescente em uma nova família
(substituta), anteriormente presente no cadastro de adoção, a qual se dará por
intermédio da guarda, tutela ou adoção.

Ela tem previsão legal também no ECA, na seção III, da família substituta,
da subseção I, disposições gerais, no artigo 28: “A colocação em família substituta
far-se-á mediante guarda, tutela ou adoção, independentemente da situação
jurídica da criança ou adolescente, nos termos desta Lei” (BRASIL, 1990, s.p.).

Ainda, resta estudar a família eudemonista, aquela em que se sobressai o


afeto e não a consanguinidade, sendo baseada na felicidade e no afeto. Leciona
Maria Berenice Dias (2015, p. 144): “A busca da felicidade, a supremacia do amor,
a vitória da solidariedade, ensejam o reconhecimento do afeto como único modo
eficaz de definição da família e de preservação da vida”.

Por fim, é possível constatar que a família já passou por inúmeras


mudanças conceituais e estruturais. Contudo, alguns requisitos não poderão
deixar de estar presentes: a afetividade e o respeito.

9
UNIDADE 1 | ASPECTOS HISTÓRICOS, CULTURAIS E SOCIAIS DA FAMÍLIA

E
IMPORTANT

Na Constituição da República Federativa de 1988, podemos, literalmente,


identificar o seguinte: 1) O casamento civil; 2) A união estável; 3) A família monoparental.
Contudo, são admitidas em respeito aos princípios constitucionais outras entidades
familiares: 1) Família anaparental: sem os genitores; 2) Família homoafetiva: constituída
por indivíduos do mesmo sexo/gênero; 3) Família mosaico ou pluriparental: decorrente
de vários casamentos, uniões estáveis ou relacionamentos dos membros; 4) Família
matrimonial: união entre homem e mulher e filhos; 5) Família informal: união de fato
reconhecida pelo Estado; 6) Família monoparental: constituída por apenas um dos genitores
e filhos; 7) Família paralela, simultâneas, plúrimas, múltiplas: quando um dos indivíduos
passa a compor concomitantemente duas ou mais entidades familiares diferentes entre si;
8) Família eudemonista: baseada nas relações de afeto.

3.1 AS ETAPAS DO CICLO VITAL DA FAMÍLIA


A entidade familiar, desde sua constituição, passa por transformações
em seu desenvolvimento com intuito de cumprir algumas tarefas que lhe são
específicas, as quais são chamadas de ciclo vital e formam as características de
suas etapas. O ciclo vital familiar tem quatro fases: a fase de aquisição, a fase
adolescente, a fase madura e a fase última (DONATO; BALIEIRO, 2013, p. 2).

A fase da aquisição é aquela inicial, “em que ocorre a conquista e a escolha


do parceiro, um possível casamento e/ou união estável”. A fase adolescente “é
marcada pela amizade e pelos grupos de amigos, sendo também uma fase de
descobertas como a da sexualidade, mas por outro lado é momento de conflitos,
principalmente com os pais” (DONATO; BALIEIRO, 2013, p. 2).

A próxima fase é a madura ou do desenvolvimento da entidade familiar.
É a fase na qual os pais sentem falta dos filhos no lar, ou seja, no ninho, pois eles,
nesse momento, já saíram da casa dos seus pais para gerirem suas próprias vidas,
restando em casa, na maioria das vezes, somente o casal.

A fase madura possui relação com a “síndrome do ninho vazio”,


caracterizada pela saída dos filhos de casa. Nessa fase, a relação
familiar passa novamente por mudanças e, para o casal, é importante
que este processo seja vivenciado de forma amena e compreensível,
já que se trata de um momento dentro do ciclo vital da família, uma
vez que o casamento muda de função em decorrência da ausência dos
filhos. Essa fase também está relacionada com a chegada dos netos e
preocupações quanto ao futuro destes (DONATO; BALIEIRO, 2013,
p. 2-3).

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TÓPICO 1 | ASPECTOS HISTÓRICOS, CULTURAIS E SOCIAIS DA FAMÍLIA

Na denominada fase última, os pais realizam uma retrospectiva daquilo


que já viveram. Há “uma inversão de papéis entre pais e filhos, pois a partir daqui
os filhos é que passam a cuidar dos pais devido a possíveis problemas de saúde”
(DONATO; BALIEIRO, 2013, p. 3). Entretanto, alguns colocam os genitores em
asilos e casas de repouso, provocando tristeza, depressão e até a morte.

3.2 FAMÍLIA DE ORIGEM X FAMÍLIA NUCLEAR

FIGURA 2 – O QUE É FAMÍLIA NUCLEAR?

FONTE: https://todaatual.com/wp-content/uploads/familia-1-1.jpg. Acesso em: 6 jan. 2020.

A família de origem é tida como aquela da qual advém um dos cônjuges,


que irá formar, após o casamento com outrem, uma outra espécie de família
denominada família nuclear. Outra espécie de família, objeto de estudo, é a família
nuclear. Historicamente, nesse tipo de família, a mulher é tida como aquela figura
encarregada de cuidar do lar e dos filhos.

Posteriormente, no final do século, a influência da burguesia industrial


europeia atuaria no sentido inverso, levando a mulher para dentro
de casa, para ser a "rainha do lar”. Na família nuclear brasileira,
historicamente falando, quando seus componentes se casavam,
constituíam sua própria família em outro domicílio. Eram raros os
casais que agrupavam genros, noras e netos em torno de seus filhos
casados, o que nos leva a crer que, na família nuclear, diferentemente
da patriarcal, não havia um total poder de mando por parte do chefe
da família. Se o comando do lar era responsabilidade da mulher, pois
esta deveria administrar o lar e educar os filhos, a ausência do homem
era comum em seu domicílio, devido a sua dedicação aos negócios, o
que acabava diminuindo-lhe a autoridade paterna (ALVES, 2009, p. 8).

Na família nuclear, o chefe da família é o homem, restando a ele o


sustento da família, já a figura feminina, a mulher, possui caráter reprodutivo e
de cuidadora da casa e dos filhos.

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UNIDADE 1 | ASPECTOS HISTÓRICOS, CULTURAIS E SOCIAIS DA FAMÍLIA

Um desdobramento familiar disseminado e mais conhecido é o


desdobramento nuclear. Este tipo de família é composto por um homem
e uma mulher e se baseia no casamento (união estável e econômica,
socialmente sancionada, e presumivelmente de longa duração, entre
um homem e uma mulher). Na família nuclear tradicional, o chefe
da família é quem concentra o poder, e os outros membros da família
são subordinados a ele. Já a mulher possui as tarefas reprodutivas,
como a reprodução biológica (gravidez), reprodução cotidiana (tarefas
domésticas) e a reprodução social (socialização dos filhos. Esse
tipo de família provém do modelo patriarcal. O modelo de família
patriarcal é baseado na hierarquia. A figura principal é a do “pater
famílias”, ao qual todos devem respeito e obediência. Assim, a mulher
é subordinada ao poder do seu marido e os filhos subordinados ao
poder do pai (PIZZI, 2012, p. 3-4).

Com a evolução e ascensão histórica da mulher na sociedade, esse tipo


de entidade familiar com o passar do tempo foi perdendo espaço, pois a mulher
passou a trabalhar fora para ajudar no sustento da casa e dos filhos e a dividir
direitos e deveres na administração do lar e na educação dos descendentes.

3.3 AS FRONTEIRAS DE COMUNICAÇÕES FAMILIARES


A comunicação familiar é essencial para a construção e manutenção das
relações pessoais em todas as áreas de nossas vidas, principalmente na família,
entretanto, podem ocorrer alguns ruídos ou falhas de comunicação ocasionando
desentendimentos e até distanciamentos:

A partir do nosso modo de comunicação, poderemos dar vida ou


sufocar e até matar nossos relacionamentos. Dependendo da forma
como nos comunicamos com a nossa família, construiremos, ou não,
pontes de cooperação, respeito e amor, que nos possibilitarão o acesso
a uma convivência calorosa, saudável e harmoniosa (MACHADO,
2015, s.p.).

Há aspectos da comunicação familiar que precisam ser observados e


respeitados, já que constituem fronteiras dessa comunicação. Um deles é o uso
excessivo da tecnologia ao invés da comunicação pessoal, pois cada vez mais
as famílias estão se comunicando por intermédio dos computadores e telefones.
Assim, aquela conversa em família ao redor da mesa durante as refeições foi
substituída pela conversa por aplicativos.

Vivemos na era da tecnologia e da comunicação. Apesar disso,


nunca se observou tanta falta de comunicação entre as pessoas.
Nos lares, a família passou a se comunicar mais por telefones e
computadores. Tem sido comum, pais e filhos passarem horas em
bate-papo virtual, disponibilizando pouco ou nenhum tempo para
seus relacionamentos pessoais. Não são capazes de passarem cinco
minutos numa conversa à mesa, desfrutando os benefícios desse
encontro (MACHADO, 2015, s.p.).

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TÓPICO 1 | ASPECTOS HISTÓRICOS, CULTURAIS E SOCIAIS DA FAMÍLIA

A principal fronteira de comunicação está nas famílias que possuem filhos


na fase da adolescência, a fase natural de conflitos, inclusive internos, pois nela
ocorre um distanciamento somado a um enfrentamento com os genitores,

A adolescência é uma fase de emoções intensas, na qual o sujeito está


em busca da consolidação da sua própria identidade. Como uma
das primeiras manifestações deste processo, ocorre o afastamento da
família de origem e um maior envolvimento com o grupo de iguais.
Esse afastamento das figuras parentais, em muitos momentos, pode
tomar a forma de rebeldia, mesmo quando não existem motivos
aparentes para isso (WAGNER et al., 2002, p. 75).

Outra fronteira de comunicação que pode ocorrer é a falta de diálogo


no casamento, o silêncio ou o exercício da comunicação violenta, pois ela leva a
perda da comunicação pela ruptura de laços e até ao divórcio. Depreende de tudo
isso que é necessário haver mais proximidade na família a fim de estreitar laços,
somente assim será construído um ambiente harmonioso.

4 CONJUGALIDADE X PARENTALIDADE
A conjugalidade consiste na construção de vínculos afetivos entre o casal,
fazendo brotar o um terceiro elemento à relação conjugal.

O termo aparece como um neologismo da palavra conjugar, que dá a


ideia de união, de ligação entre duas pessoas, sem, necessariamente,
a existência de um contrato formal entre elas. O surgimento de
neologismos como conjugalidade se deve, em parte, às amplas e
profundas transformações sociais e culturais pelas quais vem passando
a família na atualidade (DIEHL, 2002, p. 138).

Abreu (2005, p. 23) ensina acerca dos novos arranjos matrimoniais que
eles: “fazem parte de um contexto social em reorganização”, e prossegue, “o
casal contemporâneo depara-se com uma série de possibilidades de viver a sua
conjugalidade, muitas delas que em nada se aproximam com o que costumamos
chamar de casamento tradicional”.

FIGURA 3 – CONJUGALIDADE

FONTE: <https://rivigrupo.files.wordpress.com/2016/06/habilidades-sociais-e-satisfac3a7c3a3o-
conjugal-um-estudo-correlacional.jpg>. Acesso em: 6 jan. 2020.

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UNIDADE 1 | ASPECTOS HISTÓRICOS, CULTURAIS E SOCIAIS DA FAMÍLIA

Percebemos que, ao longo da história, o casal mudou seus ideais e


percepções quanto ao relacionamento e à construção de uma família, pois a
prioridade hoje não é somente ter descendentes, mas está na busca de satisfação
pessoal e profissional de cada indivíduo, já que a conjugalidade implica
na construção de uma identidade própria do casal, respeitando sempre a
individualidade.

Já a parentalidade, segundo Zornig (2010, p. 454): “é um termo


relativamente recente, que começou a ser utilizado na literatura psicanalítica
francesa a partir dos anos 1960 para marcar a dimensão de processo e de
construção no exercício da relação dos pais com os filhos”. E, prossegue “assim,
não podemos restringir a parentalidade à gestação e ao nascimento de um filho,
já que as identificações feitas na infância influenciam e determinam a forma como
cada um de nós poderá exercitar a parentalidade”.

Nas sociedades tradicionais as relações de aliança eram estabelecidas


em função do patrimônio familiar, mas a partir do século XVIII, com
o discurso iluminista e com a importância do romantismo, o amor
entre casais e entre pais e filhos é priorizado e as alianças conjugais
passam a ser estabelecidas com base no afeto e não mais como arranjos
externos, que não levavam em consideração as escolhas individuais.
O amor entre pais e filhos é fortemente marcado pela noção de
educação e a formação das crianças torna-se um fator importante para
o desenvolvimento de um país e garantia de uma sociedade saudável.
Neste contexto, as relações conjugais são mantidas no espaço privado
e dependem somente do desejo de cada um dos cônjuges. No entanto,
quando este casal ou indivíduo decide ter filhos, o espaço público
invade o espaço privado da conjugalidade, organizando as relações de
parentesco e definindo as responsabilidades dos pais e do estado em
relação às crianças (ZORNIG, 2010, p. 454).

Em suma, com relação à parentalidade existem alguns aspectos a serem
considerados no tocante ao seu exercício, à experiência adquirida com ela e à
prática, pois estão relacionados à função, às mudanças trazidas e ao procedimento.

4.1 DISFUNÇÕES CONJUGAIS E PARENTAIS


As disfunções conjugais podem estar presentes em qualquer relação
conjugal, pois os indivíduos, ao viverem em sociedade e ao se relacionarem entre
si, estão sujeitos a vivenciarem situações conflitivas.

Torna-se complexo dizer que existem famílias desestruturadas, visto


que em diferentes circunstâncias ou ideais todas se estruturam de
algum modo. Nesse sentido, acreditamos que existem funções justas e
saudáveis que estas deveriam abraçar e que, por razões diversas, não
o fazem. Conviver é um processo difícil, por mais que seja necessário.
Neste trabalho de vivência conjunta, muitos saem machucados. Outros
mais realizados, e estas diferenças nem sempre estão associadas
às personalidades difíceis. Em grande parte, é a situação conjunta,
contextual, intersubjetiva que explica determinados problemas,
sendo que as personalidades são participantes nos resultados
(CAVALCANTE, 2016, p. 1).

14
TÓPICO 1 | ASPECTOS HISTÓRICOS, CULTURAIS E SOCIAIS DA FAMÍLIA

O exercício de uma comunicação não violenta é capaz de evitar


desentendimentos. Contudo, os conflitos são inerentes às relações, principalmente
conjugais, o que leva muitos casais a procurarem o auxílio de um profissional,
de um psicólogo, psicanalista e até mesmo de um terapeuta familiar, a fim de
trabalhar os conflitos e melhorar a relação entre eles.

Um terapeuta familiar tem uma função essencial que é a de trabalhar


o conjunto de cada família facilitando o ambiente de modo a alcançar
certo equilíbrio funcional; ajudando-o a perceber que a culminância
relacional, munida de saberes e disposições, precisam alterar
suas tendências de julgamento. São comuns os casos de projeção,
racionalização, desistência e outros mecanismos de controle da dor
para alcance de satisfações, assim como são frequentes os pontos
corpóreos que aparecem prejudicados em função de um psiquismo
pleno de ansiedades. Necessário se torna analisarmos e ajudarmos
na tomada de consciência e na decisão consciente de mudanças
(CAVALCANTE, 2016, p. 1).

Outro aspecto que merece ser estudado são as disfunções parentais,


lembrando que parentalidade é uma espécie de relacionamento mais abrangente
que a conjugalidade, pois nela temos a relação dos pais com os filhos.

No decorrer dessa relação, poderá acontecer de os pais não conseguirem


mais manter o relacionamento e decidirem pela separação e/ou o divórcio. Caso
isso ocorra, em alguns casos, a Síndrome da Alienação Parental (SAP), pode
manifestar-se como uma disfunção parental.

Com o aumento do número de divórcios nos EUA na década de 70,


começaram a surgir casos nos quais filhos apresentavam recusa em
manter contato com o genitor não detentor da guarda. Essas crianças
costumavam apresentar reações emocionais extremas de rejeição a
esses genitores, o que levava o judiciário a solicitar avaliações desses
casos. Para a compreensão da SAP e a dinâmica que a constitui, faz-
se necessário destacar o posicionamento que os membros da relação
familiar ocupam em sua consolidação. Um dos significados para o
termo alienar é tornar alheio, que remete ao que não pertence a alguém
(BHONA; LOURENÇO, 2011, p. 4).

A prática desse tipo de disfunção parental ocorre comumente em sede


de divórcio e/ou dissolução de união estável cumulada com disputa de guarda,
ficando visível quando da realização de uma sessão de mediação familiar, em
que um dos genitores retrata o comportamento incomum da criança ou quando
um profissional, psicólogo ou psiquiatra, constata tal ocorrência após atender a
mesma.

Sua manifestação primária é a campanha da criança direcionada contra


o genitor para denegri-lo, campanha esta sem justificativa. Isso resulta
da combinação da “programação” (lavagem cerebral) realizada pelo
outro genitor e da própria contribuição da criança na desqualificação
do pai alienado. Quando o abuso e/ou negligência parental são

15
UNIDADE 1 | ASPECTOS HISTÓRICOS, CULTURAIS E SOCIAIS DA FAMÍLIA

presentes, a animosidade da criança pode ser justificada e então a


explicação de síndrome de alienação parental para essa hostilidade
não pode ser aplicada (GARDNER, 2002, p. 95).

Essa síndrome causa um distanciamento do alienado para com a criança,


pois ela passa a ser manipulada emocionalmente pelo alienador por intermédio
de informações que denigrem a imagem daquele genitor, fazendo ela esquecer
dos aspectos positivos e da bondade daquela figura.

5 DOS CONFLITOS GERACIONAIS


Antes de iniciarmos a tratar acerca da conceituação dos conflitos
geracionais, é necessário conceituar o termo geração:

A noção de geração é marcada por uma multiplicidade de sentidos


que remetem à amplitude que tal conceito pode assumir no âmbito
dos estudos da área: de gerações históricas e políticas às gerações
estritamente familiares, por exemplo. Em todos os casos, de modo
sumário, o que define um conjunto geracional são as experiências
comuns capazes de criar laços (profundos) entre determinados
indivíduos que se sentem irremediavelmente ligados por um destino
comum, o que se desdobra em uma dada forma de conceber o mundo
e seu lugar nele (TOMIZAKI, 2018, s.p.).

Cabe destacar que cada geração possui suas particularidades, pois com
a crescente tecnologia há um distanciamento real dos indivíduos, o que acarreta
também uma ruptura entre as diferentes gerações. Por conta disso, jovens e
crianças estão cada vez mais conectados, diferentemente dos idosos, que não
possuem tamanha facilidade para lidar com as redes sociais e as mensagens
eletrônicas, passando então a criar um abismo entre os mais velhos e os jovens e,
por consequência, o conflito de gerações.

Atualmente, o surgimento de cada geração se dá a cada dez anos, “podendo


ser classificada como tradicional: anos 1920, 1930, 1940; baby boomer: anos 1950
e início dos anos 1960; geração X: anos 1970 e início dos anos 1980; geração Y: fim
dos anos 1980 e início dos anos 1990; geração Z: anos 2000; geração alfa: 2010”
(LEOTO, 2014, p. 8-12).

Dentre as características de cada geração, iniciaremos pontuando aquelas


concernentes a primeira e segunda a serem estudadas, a geração tradicional e a
baby boomer, nelas destacam-se:

Enfrentaram as duas Grandes Guerras, são extremamente dedicados


e leais; sacrificaram-se para alcançar seus objetivos; admitem
recompensas tardias; são práticos e formais; adaptaram-se às
atividades rotineiras; gostam de regras e burocracias; respeitam
hierarquias e acreditam que o dever tem que vir antes do prazer,
acreditando que o trabalho traz dignidade ao homem. São jovens

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TÓPICO 1 | ASPECTOS HISTÓRICOS, CULTURAIS E SOCIAIS DA FAMÍLIA

nascidos na época da “Explosão de Bebês”, fenômeno ocorrido nos


Estados Unidos no final da Segunda Guerra, repetido nas guerras da
Coreia e do Vietnã, ocasião em que os soldados voltaram para suas
casas e conceberam filhos em uma mesma época. No Brasil, coincide
com a época da ditadura militar, Jovem Guarda, Bossa Nova, Tropicália
e festivais. São educados com disciplina e compromisso. São mais
otimistas, puderam pensar na boa educação de seus filhos. Priorizam
o trabalho, são workaholics. Valorizam a ascensão profissional. Querem
ser reconhecidos pela sua experiência. Buscam um emprego rentável
e estável. Hoje ocupam cargos de diretoria, gerencias, chefias nas
empresas ou são do comércio. Veem o surgimento da tecnologia, por
isso têm dificuldade (LEOTO, 2014, p. 8-12).

As próximas gerações a serem estudadas são a geração X e a Y, sendo a


primeira aquela marcada por importantes fatos históricos.

Presenciaram fatos históricos importantes e foram marcados por


movimentos revolucionários. No Brasil, foi o fim da ditadura militar
e o movimento das “Diretas Já”. Autocentrados e extremamente
independentes. Orientados às ações e resultados. Comprometidos
com os seus objetivos. Sua vida é dirigida a novos desafios. Têm certa
resistência à inovação. Sentem-se ameaçados diante das gerações
mais novas, com mais energia e ideias avançadas, principalmente a
geração Y. Primeira geração a ligar com a era da informação (LEOTO,
2014, p. 8-12).

Enquanto a geração Y, dos nascidos entre o final dos anos 1980 e o início
dos anos 1990, é aquela que ama a tecnologia. Seus indivíduos são multitarefas,
não suportam ser controlados, não suportam burocracias, priorizam a carreira em
detrimento de relacionamentos amorosos e necessitam constantemente de novas
experiências e de reconhecimento periódico. Ainda sobre eles os pertencentes à
Geração Y, pode-se afirmar que:

Tecnologicamente superiores. Consideram-se muito especiais.
Necessitam de reconhecimento periódico. Desejam crescimento
rápido e continuo em sua carreira. Necessitam constantemente de
novas experiências. Fazem várias tarefas ao mesmo tempo: ouvem
música, navegam na internet e falam ao celular. Autônomos e
individualistas. Comunicação com frases curtas e diretas. Não abrem
mão de seus projetos. Preferem uma liderança por equipe, horizontal
e de inclusão. Valorizam equipes mais abertas e transparentes. São
impulsivos, enfrentam sem medo autoridades. São fascinados por
desafios e querem fazer tudo a sua maneira. Consideram o trabalho
como fonte de prazer e aprendizado. Odeiam burocracias, controle e
atividades rotineiras. Gostam de horários flexíveis e atividades mais
informais. Priorizam mais sua carreira e profissão em vez da vida
afetiva (LEOTO, 2014, p. 8-12).

Já a geração Z é tida como aquela que domina a tecnologia e possui


alguns aspectos mais ressaltados que a geração Y, por exemplo, a necessidade
de divulgarem nas redes sociais todos os acontecimentos pessoais a todo o
instante:

17
UNIDADE 1 | ASPECTOS HISTÓRICOS, CULTURAIS E SOCIAIS DA FAMÍLIA

Características semelhantes à “Geração Y”, mais acentuadas.


Tecnologicamente mais sofisticados. Chegam a um mundo conectado,
veloz e globalizado. Sem fronteiras geográficas, desapegados das raízes
e aceitam mais as diferenças e minorias. Imediatistas ao extremo (fast-
food). Narcisistas com aparelhos de câmera frontal fotografam e
filmam a sua própria imagem (selfies). Necessidade de autoexposição
(redes sociais). Valorizam sua autoestima. Precisam ser reconhecidos.
A vida sem “likes” ou “views” não faz sentido. Individualistas, mas
empáticos, pois vivem em comunidades virtuais. Alienação, inércia,
ansiedade, intolerância, atenção seletiva, resultados imediatos,
julgamentos constantes, críticos, não perseveram e têm dificuldade de
tomar atitude de mudança (LEOTO, 2014, p. 8-12).

E, por último, temos a geração alfa, uma geração que já nasceu digital,
formada pelos filhos da geração Y/millenials:

A geração alfa – formada pelos filhos dos millennials – neste aspecto.


Ela será a primeira geração para qual muitos aspectos do mundo
analógico parecem bem distantes de sua realidade. O mundo ao redor
dos alfas, começando por seus pais, está constantemente conectado a
celulares e à internet. A tecnologia é uma extensão de sua forma de
conhecer o mundo. E, se sua característica principal é seu domínio do
mundo digital (SALEK, 2019, s.p.).

Contudo, a convivência de gerações diferentes e ao mesmo tempo tão


próximas em algum dado momento fará aflorar divergências, ocasionando
alguns conflitos geracionais, os quais necessitarão ser resolvidos, pois essas crises
familiares precisarão ser superadas.

Para isso, as diferentes gerações precisam aprender a aproveitar seus


pontos convergentes e divergentes, a fim de se auxiliarem mutuamente, pois
os jovens possuem o domínio de muita informação, mas pouca experiência de
vida, enquanto os mais idosos detêm sabedoria por causa de suas vivências
e experiências pessoais e, por outro lado, precisam de ajuda para poder lidar
melhor com alguns aspectos tecnológicos.

18
RESUMO DO TÓPICO 1
Neste tópico, você aprendeu que:

• A história social e cultural da família teve início de modo tradicional no período


do Brasil Colonial. Nela, poderia ser visto a presença do pátrio poder exercido
pelo patriarca perante esposa e filhos, sendo o objetivo dela procriação, mas
guardava também funções religiosas e políticas. Esse era o retrato da família
patriarcal.

• Outras espécies de família foram surgindo e merecem destaque, tais como: união
estável ou informal, família homoafetiva, paralelas ou simultâneas, família
poliafetiva, família monoparental, família parental ou anaparental, família
composta, pluriparental ou mosaico, família natural, extensa ou ampliada,
família substituta e família eudemonista. Por fim, é possível constatar que a
família já passou por inúmeras mudanças conceituais e estruturais, contudo
alguns requisitos não poderão deixar de estar presentes: a afetividade e o
respeito.

• O ciclo vital familiar tem quatro fases: a fase de aquisição, a fase adolescente, a
fase madura e a fase última.

• A família de origem é tida como aquela da qual advém um dos cônjuges,


que irá formar após o casamento com outrem uma outra espécie de família
denominada família nuclear. Outra espécie de família objeto de estudo é a
família nuclear, historicamente, nesse tipo de família, a mulher é tida como
aquela figura encarregada de cuidar do lar e dos filhos.

• A comunicação familiar é essencial para a construção e manutenção das


relações pessoais em todas as áreas de nossas vidas, principalmente na
família. Entretanto, podem ocorrer alguns ruídos ou falhas de comunicação,
ocasionando desentendimentos e até distanciamentos.

• A conjugalidade consiste na construção de vínculos afetivos entre o casal,


fazendo brotar um terceiro elemento à relação conjugal. Já a parentalidade
trata-se da construção da relação entre pais e filhos.

• As disfunções conjugais podem estar presentes em qualquer relação conjugal,


pois os indivíduos, ao viverem em sociedade e ao se relacionarem entre si,
estão sujeitos a vivenciar situações conflitivas.

• No decorrer dessa relação poderá acontecer de os pais não conseguirem mais


manter o relacionamento e decidirem pela separação e/ou o divórcio. Caso
isso ocorra, em alguns casos, a Síndrome da Alienação Parental (SAP) pode
manifestar-se como uma disfunção parental.

19
• A prática desse tipo de disfunção parental ocorre comumente em sede de
divórcio e/ou dissolução de união estável cumulada com disputa de guarda,
ficando visível quando da realização de uma sessão de mediação familiar,
em que um dos genitores retrata o comportamento incomum da criança ou
quando um profissional, psicólogo ou psiquiatra, constata tal ocorrência após
atendê-la.

• No que concerne aos conflitos geracionais, a convivência de gerações diferentes


e ao mesmo tempo tão próximas fará aflorar divergências, ocasionando alguns
conflitos geracionais, os quais necessitarão serem resolvidos, pois essas crises
familiares precisarão ser superadas.

• As diferentes gerações precisam aprender a aproveitar seus pontos convergentes


e divergentes a fim de se auxiliarem mutuamente, pois os jovens possuem
o domínio de muita informação, mas pouca experiência de vida, enquanto
os mais idosos detêm sabedoria por causa de suas vivências e experiências
pessoais e, por outro lado, precisam de ajuda para poderem lidar melhor com
alguns aspectos tecnológicos.

20
AUTOATIVIDADE

1 (INEP, 2015 – ENADE – DIREITO) A partir das informações presentes no


gráfico a seguir e considerando o disposto na Lei nº 13.140/2015, avalie as
afirmações a seguir:

FONTE: <https://www.aprovaconcursos.com.br/questoes-de-concurso/questao/600241>.
Acesso em: 6 jan. 2020.

FONTE: <https://ogimg.infoglobo.com.br/in/16827583-e60-2c0/FT1086A/652/grafico-pais.
jpg>. Acesso em: 6 jan. 2020.

Lei nº 13.140, de 26 de junho de 2015.


Art. 1º Esta Lei dispõe sobre a mediação como meio de solução de controvérsias
entre particulares e sobre a autocomposição de conflitos no âmbito da
administração pública.
Parágrafo único. Considera-se mediação a atividade técnica exercida por
terceiro imparcial sem poder decisório, que, escolhido ou aceito pelas partes,
as auxilia e estimula a identificar ou desenvolver soluções consensuais para a
controvérsia.
Art. 46. A mediação poderá ser feita pela internet ou por outro meio de
comunicação que permita a transação à distância, desde que as partes estejam
de acordo.

FONTE: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13140.htm>. Acesso


em: 6 jan. 2020.

21
I- O crescimento do estoque de processos pendentes no Poder Judiciário
decorre de sua constante queda de produtividade.
II- A elevação anual de casos novos no sistema judicial brasileiro é uma
das justificativas para o incentivo a meios alternativos de solução de
controvérsias, a exemplo do previsto na referida lei.
III- O parágrafo único do art. 1º dessa lei inclui no conceito de mediação a
atividade de julgamento realizada por juízes de primeira instância.
IV- Os particulares que desejarem recorrer à mediação para resolução de
conflitos referentes ao direito patrimonial disponível poderão fazê-lo por
meio de aplicativos de telefone celular, fórum digital ou rede social.

É CORRETO apenas o que se afirma em:


a) ( ) I.
b) ( ) II.
c) ( ) I e III.
d) ( ) II e IV.
e) ( ) III e IV.

2 (FCC, 2011 – TRT – 23º REGIÃO (MT) Na mediação transformativa, a


atenção do mediador se concentra nas necessidades dos disputantes e em
sua relação. Os mediadores facilitam um processo pelo qual os próprios
disputantes determinam o rumo e o resultado da:

FONTE: <https://www.qconcursos.com/questoes-de-concursos/questoes/059ab3a2-87>.
Acesso em: 6 jan. 2020.

a) ( ) Lide e investem em obrigatoriamente obter um acordo, já que este é o


objetivo primeiro do processo.
b) ( ) Mediação, não importando se isto acabará levando a um acordo ou não.
c) ( ) Disputa, em que quem tiver a opção mais aplicável ganhará prioridade
no acordo urgente.
d) ( ) Solução, sendo que não é objetivo, neste momento, desenvolver a
consciência social de que conflito e resultados precisam ser em consenso.
e) ( ) Resolução do conflito, sem que se precise considerar que cada um tem
seus motivos, pois o que importa é a assunção de um encaminhamento
transformativo.

3 (FCC, 2014 – TRF – 3º REGIÃO) Dentre os métodos alternativos de resolução


de conflitos estão a conciliação e a mediação. Uma diferença entre ambos é
que a conciliação:

FONTE: <https://www.qconcursos.com/questoes-de-concursos/questoes/f88f011f-10>. Acesso


em: 6 jan. 2020.

22
a) ( ) Visa ao acordo para dar evolução à demanda, caminhando para as
sessões de conciliação seguintes.
b) ( ) Não pode ser muito rápida, pois requer o conhecimento da inter-relação
das partes em conflito.
c) ( ) Depende de que o conciliador nunca apresente sugestões, para não
influenciar as partes no acordo.
d) ( ) Conta com a habilidade do conciliador em apresentar sugestões
impositivas ou vinculativas.
e) ( ) Busca um acordo de forma imediata para pôr fim à controvérsia ou ao
processo judicial.

4 (FUNIVERSA, 2016 – IF-AP) Os programas de educação para a resolução


de conflitos mostram aos alunos a dinâmica do poder e providenciam uma
compreensão básica acerca da natureza do conflito e do papel da cultura na
forma de resolvê-los. No que diz respeito a esse tema, assinale a alternativa
CORRETA.

a) ( ) A criação de ambientes de aprendizagem seguros implica no aumento


do número de suspensões e acarreta maior evasão escolar.
b) ( ) O desenvolvimento pessoal e social dos alunos inclui a aprendizagem
de competências de resolução de problemas, o treino das aptidões
para reconhecer e lidar com as emoções, a identificação e a redução
das orientações agressivas e das atribuições hostis e a utilização de
estratégias construtivas em casos de conflito nas escolas e no contexto
familiar e comunitário.
c) ( ) A promoção de ambientes de aprendizagem construtivos consiste no
aumento do rendimento dos alunos, sem preocupação com a disciplina.
d) ( ) É de responsabilidade exclusiva do professor o trabalho de implementação
da mediação escolar, de modo a desenvolver um conjunto de ações que
permitam solucionar os conflitos entre os alunos pacificamente.
e) ( ) O processo de mediação de conflitos escolares deve ser público para
que os demais alunos possam aprender por meio do exemplo, cabendo
ao docente apresentar as soluções para cada caso.

5 (FUNDEP, 2010 – TJ-MG) Analise as seguintes afirmativas concernentes à


relação entre a família, as crianças e adolescentes e o discurso jurídico.

I- Na literatura especializada sobre o tema das disputas familiares, pode-se


encontrar, frequentemente, a ênfase na importância dos casais conseguirem
diferenciar conjugalidade e parentalidade no processo de separação
conjugal para diminuir o risco de que as crianças e adolescentes envolvidos
sofram demasiadamente.
II- Mesmo nos casos de violência doméstica contra a criança e ao adolescente,
é importante adotar as medidas de proteção que visem ao fortalecimento
dos vínculos familiares, como preconiza o Estatuto da Criança e do
Adolescente (Lei 8.069 e alterações posteriores) e como recomenda a
literatura especializada, pois a família não deixa de ser o melhor ambiente
para o desenvolvimento infantojuvenil.

23
III- Sabe-se que fatores como a estruturação familiar e a condição socioeconômica
estão entre os determinantes dos comportamentos dos adolescentes
autores de ato infracional. Contudo, os psicanalistas que abordam esses
adolescentes defendem que é necessária também, a implicação de cada
sujeito no ato cometido e nas suas consequências para que uma mudança
de posição subjetiva possa abrir a possibilidade da não reincidência.

A partir dessa análise, pode-se concluir que estão CORRETAS:

a) ( ) Apenas as afirmativas I e II.


b) ( ) Apenas as afirmativas I e III.
c) ( ) Apenas as afirmativas II e III.
d) ( ) Todas as afirmativas.

24
UNIDADE 1
TÓPICO 2

A MEDIAÇÃO E A RESOLUÇÃO DOS CONFLITOS EM


ÂMBITO FAMILIAR

1 INTRODUÇÃO
Neste tópico, você irá aprender sobre a mediação e a resolução dos conflitos
em âmbito familiar. Para isso, é necessário estudar acerca da evolução da mediação
familiar no Brasil e no mundo, tratando do divórcio e do instituto recasamento.
O mediador precisa compreender os institutos do Direito de Família, abordando
o eixo matrimonial: casamento, habilitação, celebração, impedimentos, provas,
nulidade e anulação e efeitos, o regime de bens no matrimônio, a dissolução
da sociedade conjugal, o reconhecimento de filhos, alimentos e adoção, tutela e
curatela.

2 EVOLUÇÃO DA MEDIAÇÃO FAMILIAR NO BRASIL E NO


MUNDO
Diferentemente da mediação tradicional, a mediação familiar no Brasil
teve início mais tarde, somente por volta de 1990, com influências francesas e
argentinas, mas seguindo o modelo americano:

Porém, a mediação familiar começou a ser introduzida apenas na


década de 1990 e seguia as vertentes argentina e francesa, sendo
que a primeira seguia o modelo Norte Americano, privilegiando a
negociação; e a última que foi inserida no Código de Processo Civil
do país, passando, portanto, a ser inserida no ordenamento jurídico
pátrio.Com o advento do Novo Código de Processo Civil de 2015
é notável que o mesmo valoriza sobremaneira a adoção de meios
consensuais e pode colaborar decisivamente para o desenvolvimento
de sua prática entre as pessoas, principalmente por fazer menção à
mediação em várias oportunidades ao longo dos seus dispositivos,
o que não tinha sido feito em nenhum código anterior. Entretanto, o
mesmo só entrou em vigor em 18 de março de 2016, o que causou
alguns conflitos em relação à Lei de Mediação (Lei nº 13.140), que foi
publicada em 26 de junho de 2015 (LIMA, 2017, p. 24).

25
UNIDADE 1 | ASPECTOS HISTÓRICOS, CULTURAIS E SOCIAIS DA FAMÍLIA

Os registros acerca da utilização das técnicas de mediação familiar pelo


mundo são imprecisos, entretanto, há registros históricos de sua aplicabilidade
em países como Grécia, Índia, China e Japão.

A mediação sempre foi um instrumento utilizado para solucionar os


conflitos existentes nas sociedades. Entretanto, é importante ressaltar
que somente a partir do século XX é que a mediação passa a ser um
sistema estruturado e, desde então, largamente institucionalizada por
diversos países, tais como: França, Inglaterra, Irlanda, Japão, Noruega,
Bélgica, Alemanha, dentre outros (LIMA, 2017, p. 24).

Em suma, percebemos que em todos esses países nos quais a mediação


foi e ainda é utilizada o objetivo maior é o de promover o diálogo entre as partes
envolvidas no litígio. Para isso, o mediador precisa, além de conhecer e dominar
as técnicas adequadas, saber aplicar a norma.

3 O DIVÓRCIO E O RECASAMENTO

FIGURA 4 – O DIVÓRCIO

FONTE: <https://direitodiario.com.br/wp-content/uploads/2017/01/o-divrcio-lio-07-para-ebd-1-
638-600x450.jpg>. Acesso em: 6 jan. 2020.

A partir do momento em que um casamento não pode mais prosseguir,


as partes, ou seja, os cônjuges, decidem desfazer a sociedade conjugal partindo
para o divórcio. O divórcio no Brasil não se trata de um instituto recente, pois
conta com mais de 41 anos. Em 1977, com a Emenda Constitucional do Divórcio
(EC 9/1977) e a Lei do Divórcio (Lei 6.515/1977), esse instituto passou a fazer parte
do ordenamento jurídico brasileiro. No Código Civil brasileiro e na Emenda
Constitucional n. 66/2010 também encontramos dispositivos legais acerca do
tema.

A EC 9/1977 trouxe nova redação ao § 1º do artigo 175 da Constituição
Federal e a posterior aprovação da Lei do Divórcio.

26
TÓPICO 2 | A MEDIAÇÃO E A RESOLUÇÃO DOS CONFLITOS EM ÂMBITO FAMILIAR

Art. 1º O § 1º do artigo 175 da Constituição Federal passa a vigorar


com a seguinte redação:
"Art. 175 - § 1º - O casamento somente poderá ser dissolvido, nos casos
expressos em lei, desde que haja prévia separação judicial por mais de
três anos".
 Art. 2º A separação, de que trata o § 1º do artigo 175 da Constituição,
poderá ser de fato, devidamente comprovada em Juízo, e pelo prazo
de cinco anos, se for anterior à data desta emenda (BRASIL, 1977, s.p.).

Outro dispositivo legal importante de ressaltar é a Lei 6.515/1977, a qual


regula os casos de dissolução da sociedade conjugal e do casamento, seus efeitos
e respectivos processos, tendo como artigo mais pertinente o artigo 2º, inciso IV e
o § único, que versa a respeito das causas que dissolvem a sociedade conjugal e o
casamento: “Art. 2º - A Sociedade Conjugal termina: IV- pelo divórcio. Parágrafo
único - O casamento válido somente se dissolve pela morte de um dos cônjuges
ou pelo divórcio” (BRASIL, 1977, s.p.).

O Código Civil brasileiro trouxe no capítulo X, da dissolução da sociedade


e do vínculo conjugal, no artigo 1.571, IV e § único: “Art. 1.571. A sociedade conjugal
termina: IV- pelo divórcio. § 1º O casamento válido só se dissolve pela morte de
um dos cônjuges ou pelo divórcio, aplicando-se a presunção estabelecida neste
Código quanto ao ausente” (BRASIL, 2002, s.p.).

O texto da Emenda Constitucional (EC 66/2010), a qual trouxe nova redação


ao § 6º do artigo 226 da Constituição Federal, dispondo sobre a dissolução do
casamento civil pelo divórcio, suprimiu o requisito de prévia separação judicial
por mais de um ano ou de comprovada separação de fato por mais de dois anos e
facilitou sua realização: “as Mesas da Câmara dos Deputados e do Senado Federal,
nos termos do art. 60 da Constituição Federal, promulgam a seguinte Emenda ao
texto Constitucional: Art. 1º O § 6º do art. 226 da Constituição Federal passa a
vigorar com a seguinte redação: § 6º O casamento civil pode ser dissolvido pelo
divórcio" (BRASIL, 2010).

A palavra “divórcio” vem do latim  divortium, que quer dizer


"separação", que por sua vez é derivada de  divertere,  que significa
"tomar caminhos opostos, afastar-se". E prossegue, o nesse contexto
de significações, entende-se o divórcio como um processo que ocorre
no ciclo vital da família, desafiando sua estrutura e sua dinâmica
relacional, a estrutura se altera com a dissolução da conjugalidade,
embora a família, enquanto organização, se mantenha (CANO et al.,
2009, p. 2).

Ocorre que, em alguns casos, após passar pelo divórcio, tanto o homem
quanto a mulher decidiram partir para um novo relacionamento e, em muitos
casos, pelo recasamento.

A palavra recasamento está longe de ser a melhor expressão para designar


essa nova união, haja vista que o uso do prefixo "re" traz a ideia de repetição, de
reformulação e de recriação, o que, por sua vez, nos remete a pensar em remendo

27
UNIDADE 1 | ASPECTOS HISTÓRICOS, CULTURAIS E SOCIAIS DA FAMÍLIA

e reconstituição, trazendo uma conotação negativa, como se antes existisse uma


união mais original ou verdadeira. Entretanto, diferentemente da primeira união,
a família recasada encontra outros desafios que envolvem os sistemas familiares.
Apresentam-se questões relacionadas à associação dos membros, ou seja, à
ponderação sobre quem faz ou não parte dessa família. Ademais, há variações
nos aspectos de autoridade dos pais em frente aos filhos, isto é, sobre qual é o
espaço de cada um na família (CANO et al., 2009, p. 3-4).

Em suma, quando ocorre um divórcio e, posteriormente, um novo


casamento, existem alguns elementos presentes nesse novo rearranjo familiar, tais
como: o processo de divórcio, o fato de um dos cônjuges desse recasamento ainda
não ter sido casado, a família que foi anteriormente formada e a nova família e o
espaço de tempo entre os casamentos.

4 O DIREITO DE FAMÍLIA
O Direito de Família é um ramo do Direito privado, pertencente ao
Direito Civil e estuda as relações pessoais oriundas, por exemplo, das relações de
parentesco, filiação, casamento, alimentos e demais:

sendo o ramo do Direito Civil que tem como conteúdo o estudo


dos seguintes Institutos jurídicos: a) casamento; b) união estável; c)
relações de parentesco; d) filiação; e) alimentos; f) bem de família; g)
tutela, curatela e guarda. Como se pode perceber, tornou-se comum na
doutrina conceituar o Direito de Família relacionando-o aos institutos
que são estudados por esse ramo do Direito Privado (TARTUCE, 2016,
p. 16).

A Constituição da República Federativa do Brasil trata acerca do conceito


de família, no Título VIII, da Ordem Social, capítulo VII, da Família, da criança,
do adolescente, do jovem e do idoso, no artigo 226, caput, e §§ 4º, 7º e 8º.

Art. 226. A família, base da sociedade, tem especial proteção do Estado.


§  4º  Entende-se, também, como entidade familiar a comunidade
formada por qualquer dos pais e seus descendentes.    
  §  7º  Fundado nos princípios da dignidade da pessoa humana e da
paternidade responsável, o planejamento familiar é livre decisão
do casal, competindo ao Estado propiciar recursos educacionais e
científicos para o exercício desse direito, vedada qualquer forma
coercitiva por parte de instituições oficiais ou privadas.
§ 8º O Estado assegurará a assistência à família na pessoa de cada um
dos que a integram, criando mecanismos para coibir a violência no
âmbito de suas relações (BRASIL, 1988, s.p.).

Diante do exposto, resta salientar que esse ramo do direito estuda as


relações existentes em âmbito familiar, abrangendo ou não o Ministério Público,
o qual somente participará se possuir legitimidade e/ou for guardião de algum
interesse, como é o caso dos menores de idade.

28
TÓPICO 2 | A MEDIAÇÃO E A RESOLUÇÃO DOS CONFLITOS EM ÂMBITO FAMILIAR

4.1 EIXO MATRIMONIAL: CASAMENTO, HABILITAÇÃO,


CELEBRAÇÃO, IMPEDIMENTOS, PROVAS, NULIDADE E
ANULAÇÃO E EFEITOS
O eixo matrimonial compreende os institutos do direito que gravitam
em torno das relações de familiares. Para isso, começaremos tratando a respeito
do casamento, iniciando pela habilitação e a celebração, posteriormente será
estudado acerca dos impedimentos legais para o casamento, somente depois
adentraremos no estudo das provas, nulidade e anulação e efeitos.

O casamento consiste na união solene entre um homem e uma mulher com


objetivos e interesses comuns, podendo ou não ter descendentes.

A Instituição do casamento sagrado era um dogma da religião


doméstica. Várias civilizações do passado incentivavam o casamento
da viúva, sem filhos, com o parente mais próximo de seu marido, e o
filho dessa união era considerado filho do falecido. O nascimento de
filha não preenchia, pois ela não poderia ser continuadora do culto
de seu pai, quando contraísse núpcias. Reside nesse aspecto a origem
histórica dos direitos mais amplos, inclusive em legislações mais
modernas, atribuídos ao filho e em especial ao primogênito, a quem
incumbiria manter unido o patrimônio em prol da unidade religioso-
família (VENOSA, 2016, p. 113).

No ordenamento jurídico o casamento encontra guarida no Código Civil


no livro IV, do Direito de família, no título I, do direito pessoal, no subtítulo I, do
casamento, no capítulo I, das disposições gerais, nos artigos 1.511 ao 1.516:

Art. 1.511. O casamento estabelece comunhão plena de vida, com base


na igualdade de direitos e deveres dos cônjuges.
Art. 1.512. O casamento é civil e gratuita a sua celebração.
Parágrafo único. A habilitação para o casamento, o registro e a primeira
certidão serão isentos de selos, emolumentos e custas, para as pessoas
cuja pobreza for declarada, sob as penas da lei.
Art. 1.513. É defeso a qualquer pessoa, de direito público ou privado,
interferir na comunhão de vida instituída pela família.
Art. 1.514. O casamento se realiza no momento em que o homem e
a mulher manifestam, perante o juiz, a sua vontade de estabelecer
vínculo conjugal, e o juiz os declara casados (BRASIL, 2002, s.p.).

O artigo 1.515 trata acerca das disposições necessárias para a realização


do casamento religioso: “o casamento religioso, que atender às exigências da lei
para a validade do casamento civil, equipara-se a este, desde que registrado no
registro próprio, produzindo efeitos a partir da data de sua celebração” (BRASIL,
2002, s.p.).

Prossegue tratando o artigo 1.516 a respeito dos requisitos do casamento


religioso, o prazo, os efeitos e a nulidade:

29
UNIDADE 1 | ASPECTOS HISTÓRICOS, CULTURAIS E SOCIAIS DA FAMÍLIA

Art. 1.516. O registro do casamento religioso submete-se aos mesmos


requisitos exigidos para o casamento civil.
§ 1o O registro civil do casamento religioso deverá ser promovido
dentro de noventa dias de sua realização, mediante comunicação
do celebrante ao ofício competente, ou por iniciativa de qualquer
interessado, desde que haja sido homologada previamente a
habilitação regulada neste Código. Após o referido prazo, o registro
dependerá de nova habilitação.
§ 2o O casamento religioso, celebrado sem as formalidades exigidas
neste Código, terá efeitos civis se, a requerimento do casal, for
registrado, a qualquer tempo, no registro civil, mediante prévia
habilitação perante a autoridade competente e observado o prazo
do art. 1.532 .
§ 3o  Será nulo o registro civil do casamento religioso se, antes dele,
qualquer dos consorciados houver contraído com outrem casamento
civil (BRASIL, 2002, s.p.).

No que concerne à habilitação para o casamento, ela é ato anterior


ao casamento e precisa ser feita perante a autoridade competente, o oficial do
registro civil. O instituto a respeito da habilitação para o casamento está presente
também no Código Civil no capítulo V, nos artigos 1.525 a 1.532, iniciando pelo
requerimento de habilitação e os documentos necessários:

Art. 1.525. O requerimento de habilitação para o casamento será


firmado por ambos os nubentes, de próprio punho, ou, a seu pedido,
por procurador, e deve ser instruído com os seguintes documentos:
I - certidão de nascimento ou documento equivalente;
II - autorização por escrito das pessoas sob cuja dependência legal
estiverem, ou ato judicial que a supra;
III - declaração de duas testemunhas maiores, parentes ou não, que
atestem conhecê-los e afirmem não existir impedimento que os iniba
de casar;
IV - declaração do estado civil, do domicílio e da residência atual dos
contraentes e de seus pais, se forem conhecidos;
V - certidão de óbito do cônjuge falecido, de sentença declaratória de
nulidade ou de anulação de casamento, transitada em julgado, ou do
registro da sentença de divórcio (BRASIL, 2002, s.p.).

A realização da habilitação para o casamento poderá ser feita pessoalmente


ou por procuração, conforme traz o artigo 1.526, § único sobre a impugnação e o
artigo 1.527 sobre a publicação do edital:

Art. 1.526.  A habilitação será feita pessoalmente perante o oficial do


Registro Civil, com a audiência do Ministério Público (Redação dada
pela Lei nº 12.133, de 2009) Vigência.
Parágrafo único.  Caso haja impugnação do oficial, do Ministério
Público ou de terceiros, a habilitação será submetida ao juiz (Incluído
pela Lei nº 12.133, de 2009) Vigência.
Art. 1.527. Estando em ordem a documentação, o oficial extrairá
o edital, que se afixará durante quinze dias nas circunscrições do
Registro Civil de ambos os nubentes, e, obrigatoriamente, se publicará
na imprensa local, se houver.
Parágrafo único. A autoridade competente, havendo urgência, poderá
dispensar a publicação (BRASIL, 2002, s.p.).

30
TÓPICO 2 | A MEDIAÇÃO E A RESOLUÇÃO DOS CONFLITOS EM ÂMBITO FAMILIAR

Por sua vez, o artigo 1.528 trata acerca dos esclarecimentos necessários
quanto aos fatos que podem levar a invalidade do casamento e do regime de bens:
Art. 1.528. É dever do oficial do registro esclarecer os nubentes a
respeito dos fatos que podem ocasionar a invalidade do casamento,
bem como sobre os diversos regimes de bens.
Art. 1.529. Tanto os impedimentos quanto as causas suspensivas serão
opostos em declaração escrita e assinada, instruída com as provas do
fato alegado, ou com a indicação do lugar onde possam ser obtidas.
Art. 1.530. O oficial do registro dará aos nubentes ou a seus
representantes nota da oposição, indicando os fundamentos, as provas
e o nome de quem a ofereceu.
Parágrafo único. Podem os nubentes requerer prazo razoável para
fazer prova contrária aos fatos alegados, e promover as ações civis e
criminais contra o oponente de má-fé (BRASIL, 2002, s.p.).

Após ser apurada a inexistência de obstrução, o próximo passo será o


certificado de habilitação, sendo sua eficácia de noventa dias:

Art. 1.531. Cumpridas as formalidades dos  artigos 1.526 e 1.527  e


verificada a inexistência de fato obstativo, o oficial do registro extrairá
o certificado de habilitação.
Art. 1.532. A eficácia da habilitação será de noventa dias, a contar da
data em que foi extraído o certificado (BRASIL, 2002, s.p.).

Quanto à celebração do casamento, conforme o artigo 1.533 do Código


Civil, ele poderá ser realizado em Cartório, de modo público, fazendo parte da
cerimônia os juízes e escreventes que irão celebrar o matrimônio, os noivos e os
padrinhos/testemunhas.

A celebração do matrimônio encontra seu aspecto legal nos artigos 1.533 ao


1.542 do Código Civil. Com relação às modalidades de celebração do casamento,
temos: o casamento em cartório, o casamento em diligência, casamento religioso
com efeito civil, casamento por procuração.

Art. 1.533. Celebrar-se-á o casamento, no dia, hora e lugar previamente


designados pela autoridade que houver de presidir o ato, mediante
petição dos contraentes, que se mostrem habilitados com a certidão
do art. 1531.
Art. 1.534. A solenidade realizar-se-á na sede do cartório, com toda
publicidade, a portas abertas, presentes pelo menos duas testemunhas,
parentes ou não dos contraentes, ou, querendo as partes e consentindo
a autoridade celebrante, noutro edifício público ou particular (BRASIL,
2002, s.p.).

O casamento em diligência diferencia-se do casamento em cartório por


causa do local de celebração, pois não ocorre em cartório, conforme o artigo 1.534
e § 1º: “§1º - Quando o casamento for em edifício particular, ficará este de portas
abertas durante o ato”. E, quanto ao número de testemunhas, § 2º: “serão quatro
as testemunhas na hipótese do parágrafo anterior e se algum dos contraentes não
souber ou não puder escrever” (BRASIL, 2002, s.p.).

31
UNIDADE 1 | ASPECTOS HISTÓRICOS, CULTURAIS E SOCIAIS DA FAMÍLIA

A previsão do casamento religioso com efeito civil consta no artigo 1.515


do Código Civil: “o casamento religioso, que atender às exigências da lei para a
validade do casamento civil, equipara-se a este, desde que registrado no registro
próprio, produzindo efeitos a partir da data de sua celebração” (BRASIL, 2002,
s.p.).

Na Constituição da República Federativa do Brasil também existe a


previsão do casamento religioso com efeito civil, consoante o art. 226, § 2º: “o
casamento religioso tem efeito civil, nos termos da lei” (BRASIL, 1988, s.p.).

O casamento por procuração está previsto na parte inicial do artigo


1.535, caput, quando o artigo menciona que estando presentes os contraentes
pessoalmente ou por procuração especial:

Art. 1.535. Presentes os contraentes, em pessoa ou por procurador


especial, com as testemunhas e o oficial do registro, o presidente do
ato, ouvida aos nubentes a afirmação de que pretendem casar por livre
e espontânea vontade, declarará efetuado o casamento, nestes termos:
"de acordo com a vontade que ambos acabais de afirmar perante
mim, de vos receberdes por marido e mulher, eu, em nome da lei, vos
declaro casados" (BRASIL, 2002, s.p.).

Entretanto, não são todos os indivíduos que podem contrair matrimônio,


pois existem aqueles que por algumas circunstâncias estão impedidos de casar.
Tais impedimentos poderão ser de ordem física, jurídica, negativa ou positiva.
No ordenamento jurídico, os impedimentos ao matrimônio estão presentes no
capítulo III do Código Civil, no artigo 1.521, que trata dos impedimentos:

Art. 1.521. Não podem casar:


I- os ascendentes com os descendentes, seja o parentesco natural ou
civil;
II- os afins em linha reta;
III- o adotante com quem foi cônjuge do adotado e o adotado com
quem o foi do adotante;
IV- os irmãos, unilaterais ou bilaterais, e demais colaterais, até o
terceiro grau inclusive;
V- o adotado com o filho do adotante;
VI- as pessoas casadas;
VII- o cônjuge sobrevivente com o condenado por homicídio ou
tentativa de homicídio contra o seu consorte.
Art. 1.522. Os impedimentos podem ser opostos, até o momento da
celebração do casamento, por qualquer pessoa capaz.
Parágrafo único. Se o juiz, ou o oficial de registro, tiver conhecimento
da existência de algum impedimento, será obrigado a declará-lo
(BRASIL, 2002, s.p.).

O casamento, por ser um ato jurídico celebrado entre dois indivíduos,


necessita ser provado:

32
TÓPICO 2 | A MEDIAÇÃO E A RESOLUÇÃO DOS CONFLITOS EM ÂMBITO FAMILIAR

A prova no direito civil consiste, pois na demonstração daquilo que se


alega a veracidade como fundamento para a demonstração da verdade
na ação em que se este como autor ou réu, que para a ação no sentido
processual os meios designados indicados por lei para que as provas
sejam aceitas pelo juiz e de forma que sendo estas provas conduzidas
de maneira legal não criando possibilidades de elas serem contestadas
ou desvalorizadas (CARVALHO, 2017, p. 1).

Quantos às provas do casamento, tais disposições encontram-se presentes


no capítulo VII, das provas do casamento, nos artigos 1.543 a 1.545 do Código
Civil:

Art. 1.543. O casamento celebrado no Brasil prova-se pela certidão do


registro.
Parágrafo único. Justificada a falta ou perda do registro civil, é
admissível qualquer outra espécie de prova.
Art. 1.544. O casamento de brasileiro, celebrado no estrangeiro,
perante as respectivas autoridades ou os cônsules brasileiros, deverá
ser registrado em cento e oitenta dias, a contar da volta de um ou de
ambos os cônjuges ao Brasil, no cartório do respectivo domicílio, ou,
em sua falta, no 1º Ofício da Capital do Estado em que passarem a
residir.
Art. 1.545. O casamento de pessoas que, na posse do estado de
casadas, não possam manifestar vontade, ou tenham falecido, não se
pode contestar em prejuízo da prole comum, salvo mediante certidão
do Registro Civil que prove que já era casada alguma delas, quando
contraiu o casamento impugnado (BRASIL, 2002, s.p.).

No que diz respeito à prova da celebração legal do casamento em virtude


de processo judicial, o artigo 1.546 preceitua que ele produz todos os efeitos civis:

Art. 1.546. Quando a prova da celebração legal do casamento resultar


de processo judicial, o registro da sentença no livro do Registro Civil
produzirá, tanto no que toca aos cônjuges como no que respeita aos
filhos, todos os efeitos civis desde a data do casamento.
Art. 1.547. Na dúvida entre as provas favoráveis e contrárias, julgar-
se-á pelo casamento, se os cônjuges, cujo casamento se impugna,
viverem ou tiverem vivido na posse do estado de casados (BRASIL,
2002, s.p.).

O casamento, dependendo do modo e circunstâncias de ocorrência,


poderá ser nulo ou anulável. O casamento nulo: “é aquele que não possui
viabilidade jurídica. A nulidade do casamento ocorre quando houver violação
aos impedimentos matrimoniais, previstos no artigo 1.521 do CC que, por sua
vez, responde ao seguinte questionamento: posso me casar com algum parente?”
(MOREIRA, 2019, p. 2).

No caso de nulidade do casamento, o Código Civil preceitua no capítulo


VIII da invalidade do casamento do artigo 1.548, por violação aos impedimentos
matrimoniais:

33
UNIDADE 1 | ASPECTOS HISTÓRICOS, CULTURAIS E SOCIAIS DA FAMÍLIA

Art. 1.548. É nulo o casamento contraído:


I - (Revogado);
II - por infringência de impedimento.
Art. 1.549. A decretação de nulidade de casamento, pelos motivos
previstos no artigo antecedente, pode ser promovida mediante ação
direta, por qualquer interessado, ou pelo Ministério Público (BRASIL,
2002, s.p.).

O casamento é anulável de acordo com os requisitos previstos no artigo


1.550 do Código Civil. Sendo assim, “no casamento anulável, sua invalidade é
relativa, pois há predomínio do interesse privado. O vício que o acomete não é
tão grave, podendo ser convalidado, de forma expressa ou tácita, dependendo da
situação. As hipóteses de anulabilidade estão previstas no artigo 1.550 do CC”
(MOREIRA, 2019, p. 2).

Art. 1.550. É anulável o casamento:


I - de quem não completou a idade mínima para casar;
II - do menor em idade núbil, quando não autorizado por seu
representante legal;
III - por vício da vontade, nos termos dos artigos. 1.556 a 1.558;
IV - do incapaz de consentir ou manifestar, de modo inequívoco, o
consentimento;
V - realizado pelo mandatário, sem que ele ou o outro contraente
soubesse da revogação do mandato, e não sobrevindo coabitação entre
os cônjuges;
VI - por incompetência da autoridade celebrante.
§ 1º Equipara-se à revogação a invalidade do mandato judicialmente
decretada.
§ 2º A pessoa com deficiência mental ou intelectual em idade núbia
poderá contrair matrimônio, expressando sua vontade diretamente ou
por meio de seu responsável ou curador. (Incluído pela Lei nº 13.146,
de 2015) (Vigência)
Art. 1.551. Não se anulará, por motivo de idade, o casamento de que
resultou gravidez (BRASIL, 2002, s.p.).

No caso de anulabilidade do casamento envolvendo menores de dezesseis


anos, ela poderá ser requerida pelo cônjuge menor, pelos seus representantes e
pelos seus ascendentes:

Art. 1.552. A anulação do casamento dos menores de dezesseis anos


será requerida:
I - pelo próprio cônjuge menor;
II - por seus representantes legais;
III - por seus ascendentes.
Art. 1.553. O menor que não atingiu a idade núbil poderá, depois de
completá-la, confirmar seu casamento, com a autorização de seus
representantes legais, se necessária, ou com suprimento judicial.
Art. 1.554. Subsiste o casamento celebrado por aquele que, sem possuir
a competência exigida na lei, exercer publicamente as funções de juiz
de casamentos e, nessa qualidade, tiver registrado o ato no Registro
Civil (BRASIL, 2002, s.p.).

34
TÓPICO 2 | A MEDIAÇÃO E A RESOLUÇÃO DOS CONFLITOS EM ÂMBITO FAMILIAR

O casamento poderá ser anulado por vício de vontade e também poderá


ser anulado por coação:

Art. 1.556. O casamento pode ser anulado por vício da vontade, se


houve por parte de um dos nubentes, ao consentir, erro essencial
quanto à pessoa do outro.
Art. 1.558. É anulável o casamento em virtude de coação, quando o
consentimento de um ou de ambos os cônjuges houver sido captado
mediante fundado temor de mal considerável e iminente para a vida,
a saúde e a honra, sua ou de seus familiares.
Art. 1.559. Somente o cônjuge que incidiu em erro, ou sofreu coação,
pode demandar a anulação do casamento; mas a coabitação, havendo
ciência do vício, valida o ato, ressalvadas as hipóteses dos incisos III e
IV do art. 1.557 (BRASIL, 2002, s.p.).

A ação de anulação do casamento possui prazo para ser intentada,


podendo ser de cento e oitenta dias a quatro anos:

Art. 1.560. O prazo para ser intentada a ação de anulação do casamento,


a contar da data da celebração, é de:
I - cento e oitenta dias, no caso do inciso IV do art. 1.550;
II - dois anos, se incompetente a autoridade celebrante;
III - três anos, nos casos dos incisos I a IV do art. 1.557;
IV - quatro anos, se houver coação.
§ 1º Extingue-se, em cento e oitenta dias, o direito de anular o
casamento dos menores de dezesseis anos, contado o prazo para o
menor do dia em que perfez essa idade; e da data do casamento, para
seus representantes legais ou ascendentes.
§ 2º Na hipótese do inciso V do art. 1.550 , o prazo para anulação do
casamento é de cento e oitenta dias, a partir da data em que o mandante
tiver conhecimento da celebração (BRASIL, 2002, s.p.).

Quanto aos efeitos do casamento, eles podem ser divididos em efeitos


patrimoniais, sociais e pessoais. Quanto aos efeitos patrimoniais: “o que ocorre
com o dinheiro das pessoas quando elas se casam? Os efeitos patrimoniais
dependem do regime de bens adotado no casamento” (ZINGARO, 2015, p.
2). Já os efeitos sociais podem ser divididos em até três partes: a emancipação
do cônjuge menor, a criação do parentesco por intermédio da afinidade e a
mudança do estado civil para casado.

Sociais: os efeitos sociais como decorrentes do casamento são: 1-


emancipação do consorte menor (art. 5º, §2º da CF): menor que se
casa com 16 anos, com o "sim" ele recebe sua emancipação. 2- criação
de parentesco por afinidade (art. 1595): tanto no casamento como na
união estável existe esse parentesco. A partir do momento que se diz
o sim, a pessoa se torna parente da sua sogra, da sua cunhada, por
exemplo. 3- posse do estado de casado: a pessoa recebe quando se
casa (ZINGARO, 2015, p. 2).

Já os aspectos pessoais, estes estão presentes no artigo 1.566 e são


relacionados aos deveres conjugais:

35
UNIDADE 1 | ASPECTOS HISTÓRICOS, CULTURAIS E SOCIAIS DA FAMÍLIA

Pessoais: estão no art. 1566, artigo que cuida dos deveres dos cônjuges.
São os seguintes: 1- O primeiro dever, efeito pessoal é a  fidelidade
recíproca, este engloba um dever de não fazer: o de não praticar
relações sexuais com terceiro ou com terceiros. Basta uma relação para
que o dever seja rompido, para que o efeito pessoal seja desrespeitado.
Vida em comum no domicílio conjugal: esse efeito pessoal engloba
dois aspectos: morar sobre o mesmo teto e manter relações sexuais.
Nenhum deles é absoluto. Mútua assistência: auxílio recíproco. O
casamento é para os momentos felizes e também para os momentos
menos felizes. Como deveres de mútua assistência, de auxiliar e
assistir encontram-se nas vicissitudes da vida, ou seja, nas mudanças
de vida. É poder contar com o outro. Sustento, guarda e educação dos
filhos. Dever de respeito (ZINGARO, 2015, p. 2).

Diante do exposto, observamos que os efeitos jurídicos são consequências


que incidem sobre as áreas sociais, pessoais e patrimoniais, as quais têm reflexos
na vida pessoal dos cônjuges e têm suas peculiaridades previstas em lei.

4.2 O REGIME DE BENS NO MATRIMÔNIO


O regime de bens no matrimônio é aquele escolhido pelos nubentes
antes da realização da cerimônia de casamento e sua finalidade é escolher de
que forma os bens do casal serão administrados durante e após o término do
casamento com o respaldo da norma. Pode ser classificado em diversos tipos:
comunhão parcial,  comunhão universal,  participação final nos aquestos  e
a separação de bens.

A escolha do regime de bens deve ser feita no momento da habilitação


para o casamento. A opção pela comunhão parcial dá-se por simples
termo nos autos, enquanto que, para os demais regimes, exige-se pacto
antenupcial, lavrado por escritura pública em Tabelionato de Notas,
a qual deve ser registrada no Cartório de Registro de Imóveis para
que produza efeito perante terceiros. O pacto antenupcial nada mais
é do que um contrato entre os noivos, no qual, em momento anterior
ao casamento, os nubentes deliberam sobre os efeitos patrimoniais do
casamento, como o regime de bens que vigorará entre eles, podendo
estabelecer ainda outros encargos e obrigações, desde que não afetem
a dignidade das pessoas envolvidas, inclusive podem disciplinar
deveres domésticos (FAVERI, 2018, p. 2).

O regime de comunhão parcial é aquele no qual “os bens adquiridos pelos


cônjuges na constância do casamento serão dos dois, exceto aqueles que cada
um dos cônjuges tinha antes de casar e aqueles adquiridos de modo não oneroso
durante o casamento por herança ou doações, os quais são de propriedade
individual de cada um” (FAVERI, 2018, p. 2). A comunhão parcial de bens
encontra previsão legal nos artigos 1.658 a 1.666 do Código Civil, no capítulo III,
do regime de comunhão parcial de bens:

36
TÓPICO 2 | A MEDIAÇÃO E A RESOLUÇÃO DOS CONFLITOS EM ÂMBITO FAMILIAR

Art. 1.658. No regime de comunhão parcial, comunicam-se os bens que


sobrevierem ao casal, na constância do casamento, com as exceções
dos artigos seguintes.
Art. 1.659. Excluem-se da comunhão:
I - os bens que cada cônjuge possuir ao casar, e os que lhe sobrevierem,
na constância do casamento, por doação ou sucessão, e os sub-rogados
em seu lugar;
II - os bens adquiridos com valores exclusivamente pertencentes a um
dos cônjuges em sub-rogação dos bens particulares;
III - as obrigações anteriores ao casamento;
IV - as obrigações provenientes de atos ilícitos, salvo reversão em
proveito do casal;
V - os bens de uso pessoal, os livros e instrumentos de profissão;
VI - os proventos do trabalho pessoal de cada cônjuge;
VII - as pensões, meios-soldos, montepios e outras rendas semelhantes
(BRASIL, 2002, s.p.).

Entram na comunhão parcial de bens os bens citados no artigo 1.660 do


Código Civil, sendo que o artigo 1.661 prossegue elencando quais são os bens
incomunicáveis:

Art. 1.660. Entram na comunhão:


I - os bens adquiridos na constância do casamento por título oneroso,
ainda que só em nome de um dos cônjuges;
II - os bens adquiridos por fato eventual, com ou sem o concurso de
trabalho ou despesa anterior;
III - os bens adquiridos por doação, herança ou legado, em favor de
ambos os cônjuges;
IV - as benfeitorias em bens particulares de cada cônjuge;
V - os frutos dos bens comuns, ou dos particulares de cada cônjuge,
percebidos na constância do casamento, ou pendentes ao tempo de
cessar a comunhão.
Art. 1.661. São incomunicáveis os bens cuja aquisição tiver por título
uma causa anterior ao casamento (BRASIL, 2002, s.p.).

Já o artigo 1.662 do Código Civil estabelece que no regime de comunhão


parcial de bens há comunicabilidade dos bens móveis, o artigo 1.663 dispõe
que a administração dos bens comum é de ambos e estabelece regras sobre a
malversação:

Art. 1.662. No regime da comunhão parcial, presumem-se adquiridos


na constância do casamento os bens móveis, quando não se provar que
o foram em data anterior.
Art. 1.663. A administração do patrimônio comum compete a qualquer
dos cônjuges.
§ 1º As dívidas contraídas no exercício da administração obrigam os
bens comuns e particulares do cônjuge que os administra, e os do
outro na razão do proveito que houver auferido.
§ 2º A anuência de ambos os cônjuges é necessária para os atos, a título
gratuito, que impliquem cessão do uso ou gozo dos bens comuns.
§ 3º Em caso de malversação dos bens, o juiz poderá atribuir a
administração a apenas um dos cônjuges (BRASIL, 2002, s.p.).

37
UNIDADE 1 | ASPECTOS HISTÓRICOS, CULTURAIS E SOCIAIS DA FAMÍLIA

O artigo 1.664 do Código Civil estabelece acerca dos bens que podem
responder pelas obrigações, o artigo 1.665 quanto à administração dos bens
particulares e o 1.666 trata das dívidas contraídas por um dos cônjuges.

Art. 1.664. Os bens da comunhão respondem pelas obrigações


contraídas pelo marido ou pela mulher para atender aos encargos da
família, às despesas de administração e às decorrentes de imposição
legal.
Art. 1.665. A administração e a disposição dos bens constitutivos
do patrimônio particular competem ao cônjuge proprietário, salvo
convenção diversa em pacto antenupcial.
Art. 1.666. As dívidas, contraídas por qualquer dos cônjuges na
administração de seus bens particulares e em benefício destes, não
obrigam os bens comuns (BRASIL, 2002, s.p.).

Resta salientar que o regime de comunhão parcial de bens é aplicável aos


casos de união estável nas hipóteses em que não há escolha por escritura pública
ou particular lavrada em tabelionato de notas.

O regime de comunhão universal de bens prescreve que “todos os bens


adquiridos na constância, antes ou depois do matrimônio, de modo gratuito ou
oneroso, são de ambos os cônjuges, mesmo estando no registro o nome de apenas
um deles, exceto em caso de doação feita a apenas um dos cônjuges sem que o
outro saiba” (FAVERI, 2018, p. 2).

No Código Civil, esse regime está elencado no capítulo IV, do regime


de comunhão universal, nos artigos 1.667 a 1.671. O artigo 1.667 dispõe que:
“o regime de comunhão universal importa a comunicação de todos os bens
presentes e futuros dos cônjuges e suas dívidas passivas, com as exceções do
artigo seguinte” (BRASIL, 2002, s.p.).

O regime de participação final nos aquestos possui duas etapas, sendo


uma junção do regime da separação convencional e da comunhão
parcial de bens, pois na constância do casamento vale as regras
da separação convencional de bens sem a comunicação dos bens
adquiridos onerosamente e, caso o matrimônio acabe ou um dos
cônjuges morra, a outra etapa é a comunhão parcial de bens. Esse tipo
de regime está previsto nos artigos 1.672 a 1.686 do Código Civil. O
matrimônio nesse regime é tratado como uma sociedade empresarial
(FAVERI, 2018, p. 2).

Já o regime de separação convencional de bens prescreve que “todos os


bens havidos antes ou na constância do casamento são de cada um dos cônjuges
e nada é dividido” (FAVERI, 2018, p. 2). Ele encontra guarida no Código Civil,
especificamente nos artigos 1.687 e 1.688, sendo cabível a modificação do regime
por autorização judicial.

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TÓPICO 2 | A MEDIAÇÃO E A RESOLUÇÃO DOS CONFLITOS EM ÂMBITO FAMILIAR

4.3 DA DISSOLUÇÃO DA SOCIEDADE CONJUGAL


A sociedade conjugal poderá ser dissolvida mediante o divórcio via
judicial ou extrajudicial. Nesse caso, pode ser realizada em cartório por intermédio
de escritura pública, mas somente se o casal não possuir herdeiros/filhos menores
ou nascituros e por consenso das partes, devendo ser estabelecidas algumas
condições, tais como: a partilha de bens e a pensão alimentícia.

Art. 1.571. A sociedade conjugal termina:


I - pela morte de um dos cônjuges;
II - pela nulidade ou anulação do casamento;
III - pela separação judicial;
IV - pelo divórcio.
§ 1º - O casamento válido só se dissolve pela morte de um dos cônjuges
ou pelo divórcio, aplicando-se a presunção estabelecida neste Código
quanto ao ausente (BRASIL, 2002, s.p.).

Não se pode confundir sociedade conjugal e vínculo matrimonial: “a


sociedade conjugal e o vínculo matrimonial são inconfundíveis, pois a sociedade
conjugal, de forma simples, significa o convívio, os deveres entre os cônjuges”,
e prossegue afirmando que, “o vínculo matrimonial seria o casamento válido
propriamente dito, sendo o vínculo matrimonial um instituto maior que a
sociedade conjugal” (ROMANO, 2016, p. 2).

Com a publicação da Lei 11.441, de 4/1/2007, tornou-se possível a


realização de divórcio e separação em cartório, mediante escritura
pública da qual constarão as disposições relativas à partilha dos bens
comuns do casal, quando houver, e à pensão alimentícia, desde que
seja consensual, não haja filhos nascituros ou incapazes do casal e que
haja assistência de advogado, cuja qualificação e assinatura constarão
do ato notarial. De acordo com a Resolução CNJ 220/2016, que alterou
a Resolução CNJ 35/07, as partes devem, ainda, declarar ao tabelião,
que o cônjuge virago não se encontra em estado gravídico, ou ao
menos, que não tenha conhecimento sobre esta condição (ROMANO,
2016, p. 2).

Em suma, mesmo após um casamento chegar ao final por meio do
divórcio judicial ou extrajudicial, é necessário que o respeito venha prevalecer,
principalmente se o casal tiver filhos, pois existe ex-marido e ex-mulher, mas os
filhos são para sempre.

39
UNIDADE 1 | ASPECTOS HISTÓRICOS, CULTURAIS E SOCIAIS DA FAMÍLIA

4.4 DO RECONHECIMENTO DE FILHOS, ALIMENTOS E


ADOÇÃO
Quanto ao reconhecimento dos filhos: “é quando o pai ou mãe declara
sua condição de perfilhação da pessoa nascida dentro ou fora do casamento, para
que conceitue o reconhecimento é necessário que na certidão de nascimento não
conste o nome do pai”. Acerca da formalização do reconhecimento: “é formalizado
perante oficial de Registro Civil de Pessoas Naturais, onde um dos pais procura
para formalizar o ato” (CARVALHO; YUNES, 2014, p. 1).

O reconhecimento dos filhos está presente nos artigos 1.607 ao 1.617 do


Código Civil, no capítulo III, do reconhecimento dos filhos.

Art. 1.607. O filho havido fora do casamento pode ser reconhecido


pelos pais, conjunta ou separadamente.
Art. 1.608. Quando a maternidade constar do termo do nascimento do
filho, a mãe só poderá contestá-la, provando a falsidade do termo, ou
das declarações nele contidas.
Art. 1.609. O reconhecimento dos filhos havidos fora do casamento é
irrevogável e será feito:
I - no registro do nascimento;
II - por escritura pública ou escrito particular, a ser arquivado em
cartório;
III - por testamento, ainda que incidentalmente manifestado;
IV - por manifestação direta e expressa perante o juiz, ainda que o
reconhecimento não haja sido o objeto único e principal do ato que o
contém.
Parágrafo único. O reconhecimento pode preceder o nascimento do
filho ou ser posterior ao seu falecimento, se ele deixar descendentes
(BRASIL, 2002, s.p.).

Já no que concerne aos alimentos, temos um conceito muito importante


de Yussef Said Cahali (2002, p. 16), o qual afirma que alimentos são as "prestações
devidas, feitas para quem as recebe possa subsistir, isto é, manter sua existência,
realizar o direito à vida, tanto física (sustento do corpo) como intelectual e moral
(cultivo e educação do espírito, do ser racional)". A prestação dos alimentos
encontra previsão legal nos artigos 1.694 a 1.710 do Código Civil.

No que diz respeito à adoção, para Arnold Wald (2005, p. 469): “adoção é
uma ficção jurídica que cria parentesco civil. É um ato jurídico bilateral que gera
laços de paternidade e filiação entre pessoas para as quais tal relação inexiste
naturalmente”. Ela tem previsão legal principalmente no Código Civil, nos
artigos 1.618 e 1.619.

40
TÓPICO 2 | A MEDIAÇÃO E A RESOLUÇÃO DOS CONFLITOS EM ÂMBITO FAMILIAR

FIGURA 5 – A ADOÇÃO

FONTE: <https://yata.ostr.locaweb.com.br/9b50e302d5fa1466ae3ce3cb026b29ee73c67c
944318d40223ed40a16e7b5b35>. Acesso em: 7 jan. 2020.

41
UNIDADE 1 | ASPECTOS HISTÓRICOS, CULTURAIS E SOCIAIS DA FAMÍLIA

4.5 DA TUTELA E DA CURATELA


A tutela é o instituto do direito no qual a um indivíduo capaz é dada a
incumbência legal de cuidar do tutelado menor de idade e dos bens dele. Por
exemplo: no caso de os pais do menor terem falecido ou são ausentes ou não
poderem cumprir com as obrigações familiares de cuidado com o menor. A tutela
e a curatela encontram guarida nos artigos 1.728 a 1.783 do Código Civil.

O doutrinador Sílvio Rodrigues (2004, p. 398) conceitua a tutela como:


“um instituto de nítido caráter assistencial e que visa substituir o poder familiar
em face das pessoas cujos pais faleceram ou foram julgados ausentes, ou ainda
quando foram suspensos ou destituídos daquele poder”.

Já o instituto da curatela é quando uma pessoa capaz fica encarregada


de cuidar de outra pessoa, a qual está incapacitada, e administrar seus bens. Por
exemplo: o caso dos nascituros; pessoas maiores de 16 anos e menores de 18; e os
que não podem praticar nenhum ato da vida civil por problemas mentais.

Leciona Caio Mário da Silva Pereira (2006, p. 443) que: “incidem na curatela
todos aqueles que, por motivos de ordem patológica ou acidental, congênita ou
adquirida, não estão em condições de dirigir a sua pessoa ou administrar os seus
bens, posto que maiores de idade”.

DICAS

Sugestão de Filme: Documentário Brasileiro: Família no Papel (2011)

Sinopse: Família no Papel mostra a vida de casais homoafetivos com seus filhos. O
documentário expõe as batalhas que eles enfrentam para tornarem-se no papel a família
que já são na vida real. O documentário traz à tona problemas reais vivenciados por eles,
pessoas comuns, vítimas de preconceito e discriminação. Família no Papel desmistifica os
conceitos de normalidade erroneamente aplicados para classificar famílias de todo o Brasil.

42
RESUMO DO TÓPICO 2
Neste tópico, você aprendeu que:

• Diferentemente da mediação tradicional, a mediação familiar no Brasil teve


início mais tarde, somente por volta de 1990, com influências francesas e
argentinas, mas seguindo o modelo americano. Em todos os países nos quais a
mediação foi e ainda é utilizada, seu objetivo maior é o de promover o diálogo
entre as partes envolvidas no litígio. Para isso, o mediador precisa, além de
conhecer e dominar as técnicas adequadas, saber aplicar a norma.

• A partir do momento em que um casamento não pode mais prosseguir, as


partes, ou seja, os cônjuges, decidem desfazer a sociedade conjugal partindo
para o divórcio. O divórcio no Brasil não se trata de um instituto recente, pois
conta com mais de 41 anos. Em 1977, com a Emenda Constitucional do Divórcio
(EC 9/1977) e a Lei do Divórcio (Lei 6.515/1977), esse instituto passou a fazer
parte do ordenamento jurídico brasileiro. No Código Civil brasileiro e na EC
66/2010 também encontramos dispositivos legais acerca do tema.

• Quando ocorre um divórcio e, posteriormente, um novo casamento, existem


alguns elementos presentes nesse novo rearranjo familiar, tais como: o processo
de divórcio, o fato de um dos cônjuges desse recasamento ainda não ter sido
casado, a família que foi anteriormente formada e a nova família, e o espaço de
tempo entre os casamentos.

• O Direito de Família é um ramo do Direito Privado pertencente ao Direito Civil


e estuda as relações pessoais oriundas, por exemplo, das relações de parentesco,
filiação, casamento, alimentos e demais.

• O eixo matrimonial compreende os institutos do direito que gravitam em


torno das relações de familiares. Para isso, começaremos tratando a respeito
do casamento, iniciando pela habilitação e a celebração. Posteriormente,
serão estudados os impedimentos legais para o casamento e, somente depois,
adentraremos no estudo das provas, nulidade e anulação, e efeitos.

• O casamento consiste na união solene entre um homem e uma mulher com


objetivos e interesses comuns, podendo ou não ter descendentes. No que
concerne à habilitação para o casamento, ela é ato anterior ao casamento e
precisa ser feita perante a autoridade competente, o oficial do registro civil.
O instituto referente à habilitação para o casamento está presente também
no Código Civil, no capítulo V, do artigo 1.525 ao 1.532, iniciando pelo
requerimento de habilitação e os documentos necessários.

43
• Quanto à celebração do casamento, conforme o artigo 1.533 do Código
Civil, ele poderá ser realizado em Cartório de modo público, fazendo parte
da cerimônia os juízes e escreventes que irão celebrar o matrimônio, os
noivos e os padrinhos/testemunhas. A celebração do matrimônio encontra
seu aspecto legal nos artigos 1.533 a 1.542 do Código Civil. Com relação às
modalidades de celebração do casamento, temos: o casamento em cartório,
o casamento em diligência, casamento religioso com efeito civil e casamento
por procuração.

• Não são todos os indivíduos que podem contrair matrimônio, pois existem
aqueles que, por algumas circunstâncias, estão impedidos de casar. Tais
impedimentos poderão ser de ordem física, jurídica, negativa ou positiva. No
ordenamento jurídico, os impedimentos ao matrimônio estão presentes no
capítulo III, no artigo 1.521 do Código Civil, que trata dos impedimentos.

• Quanto às provas do casamento, tais disposições encontram-se presentes


no capítulo VII, das provas do casamento, no artigo 1.543 do Código Civil.
Cabe ressaltar que a prova do casamento é feita por intermédio da certidão do
registro.

• O casamento, dependendo do modo e circunstâncias de ocorrência, poderá


ser nulo ou anulável. O casamento nulo: “é aquele que não possui viabilidade
jurídica. A nulidade do casamento ocorre quando houver violação aos
impedimentos matrimoniais, previstos no artigo 1.521 do CC que, por sua vez,
responde ao seguinte questionamento: posso me casar com algum parente?”
(MOREIRA, 2019, p. 2).

• O casamento é anulável de acordo com os requisitos previstos no artigo 1.550


do Código Civil. Sendo assim: “no casamento anulável, sua invalidade é
relativa, pois há predomínio do interesse privado. O vício que o acomete não é
tão grave, podendo ser convalidado, de forma expressa ou tácita, dependendo
da situação. As hipóteses de anulabilidade estão previstas no artigo 1.550 do
CC” (MOREIRA, 2019, p. 2). Quanto aos efeitos do casamento, eles podem ser
divididos em efeitos patrimoniais, sociais e pessoais.

• O regime de bens no matrimônio pode ser classificado em diversos tipos:


comunhão parcial,  comunhão universal,  participação final nos aquestos  e
a separação de bens. A sociedade conjugal poderá ser dissolvida mediante o
divórcio via judicial ou extrajudicial. Nesse último caso, pode ser realizado
em cartório por intermédio de escritura pública, mas somente se o casal não
possuir herdeiros/filhos menores ou nascituros e por consenso das partes,
devendo ser estabelecidas algumas condições, tais como: a partilha de bens e a
pensão alimentícia.

44
• O reconhecimento dos filhos: “é quando o pai ou mãe declara sua condição de
perfilhação da pessoa nascida dentro ou fora do casamento, para que conceitue
o reconhecimento é necessário que na certidão de nascimento não conste o
nome do pai”. Quanto à formalização do reconhecimento: “é formalizado
perante oficial de Registro Civil de Pessoas Naturais, onde um dos pais procura
para formalizar o ato” (CARVALHO; YUNES, 2014, p. 1).

• Yussef Said Cahali (2002, p. 16) diz que alimentos são as "prestações devidas,
feitas para quem as recebe possa subsistir, isto é, manter sua existência, realizar
o direito à vida, tanto física (sustento do corpo) como intelectual e moral
(cultivo e educação do espírito, do ser racional)".

• No que diz respeito à adoção, para Arnold Wald (2005, p. 469): “adoção é uma
ficção jurídica que cria parentesco civil. É um ato jurídico bilateral que gera
laços de paternidade e filiação entre pessoas para as quais tal relação inexiste
naturalmente”.

• A tutela é o instituto do direito no qual a um indivíduo capaz é dada a


incumbência legal de cuidar do tutelado menor de idade e dos bens dele,
enquanto o instituto da curatela é quando uma pessoa capaz fica encarregada
de cuidar de outra pessoa, a qual está incapacitada, e administrar seus bens.

45
AUTOATIVIDADE

1 (FCC, 2011 – TRT- 1ª REGIÃO) O mediador pode assumir vários papéis


para ajudar as partes na resolução de disputas, entre eles o de agente de
realidade, ou seja, ele:

FONTE: <https://www.qconcursos.com/questoes-de-concursos/questoes/26cbf610-80>.
Acesso em: 7 jan. 2020.

a) ( ) Pode assumir certa responsabilidade ou culpa por uma decisão


impopular que as partes, apesar de tudo, estejam dispostas a aceitar.
b) ( ) Ajuda a elaboração de um acordo razoável e viável e questiona e desafia
as partes que têm objetivos radicais e não realistas.
c) ( ) Toma a iniciativa de prosseguir as negociações por meio de sugestões
processuais ou fundamentais.
d) ( ) Proporciona assistência às partes e as vincula a especialistas e a recursos
externos (ex.: advogados, especialistas técnicos) que podem capacitá-
los a aumentar as opções aceitáveis de acordo.
e) ( ) Instrui os negociadores iniciantes, inexperientes ou despreparados no
processo de barganha.

2 (FCC, 2011 – TRT – 1ª REGIÃO) Na abordagem de John M. Haynes (descrita


no livro  Fundamentos da Mediação Familiar), quando um ou ambos os
cônjuges abusam de álcool e/ou drogas, o mediador deve estabelecer regras
específicas para lidar com esta condição. Informam aos clientes que eles
devem vir a cada sessão livres de substâncias. Se algum membro do casal
vem à sessão sob o efeito de alguma substância química, a sessão será:

FONTE: <https://estudaquepassa.com.br/concursos/questoes?subjects=1810>. Acesso em:


7 jan. 2020.

a) ( ) Cancelada em favor de sua própria proteção e esta pessoa pagará


pelo horário, já que alcoolizados ou drogados não podem representar
adequadamente seu legítimo interesse individual.
b) ( ) Adaptada, sendo que o mediador conversa com o membro do casal não
alcoolizado para lhe oferecer suporte diante do cônjuge em mal estado.
c) ( ) Mantida, uma vez que o cônjuge não alcoolizado ou drogado demanda
ajuda e não pode controlar a atitude do outro, que tão logo recuperar-
se-á deste estado.
d) ( ) Postergada em uma hora para que o casal possa dialogar em situação
de sanidade mental, propiciando assim a viabilidade dos acordos.
e) ( ) Reorganizada de modo a oferecer chances iguais e controlar o perigo
de uma lide interminável, já que se deve tentar, via mediação, a
aproximação e pacificação das partes.

46
3 (FUNIVERSA, 2010 – MPE) “A ruptura conjugal cria a família monoparental,
e a autoridade parental, até então exercida pelo pai e pela mãe, acompanha a
crise e concentra-se em um só dos genitores, ficando o outro reduzido a um
papel verdadeiramente secundário (visita, alimentos, fiscalização). Quer isso
dizer que um dos genitores exerce a guarda no âmbito da atuação prática,
no cuidado diário, e o outro conserva as faculdades potenciais de atuação.
Assim, com o crescente número de rupturas, surgem, também, os conflitos em
relação à guarda de filhos de pais que não mais convivem, fossem casados ou não.
Cumpre à doutrina e à jurisprudência estabelecer as soluções que
privilegiem a manutenção dos laços que vinculam os pais a seus
filhos, eliminando a dissimetria dos papéis parentais que o texto
constitucional definitivamente expurgou, como se vê pelo artigo 226, § 5º.
A ruptura afeta diretamente a vida dos menores, porque modifica a estrutura
da família e atinge a organização de um de seus subsistemas, o parental.
Diante de tal situação, aparece uma corrente que questiona a necessidade
de se manterem todos os personagens da família envolvidos, mesmo após
a ruptura da vida em comum, a partir de noções de outras disciplinas, como
a psicologia, a sociologia, a psiquiatria, a pediatria e a assistência social,
tentando, assim, atenuar as consequências injustas que essa ruptura provoca”.

Como destaca o texto III, correntes teóricas questionam a necessidade


da manutenção da presença de todos os personagens da família, mesmo depois
da ruptura da vida em comum. Tal questionamento fez surgir um novo tipo de
guarda de filhos, visando manter uma adequada comunicação entre os pais.
Esse tipo de guarda é denominado:

FONTE: <https://www.tecnolegis.com/provas/id/491#id-32069>. Acesso em: 7 jan. 2020.

a) ( ) Compartilhada.
b) ( ) Alternada.
c) ( ) Definitiva.
d) ( ) Exclusiva.
e) ( ) Inclusiva.

4 (FUNIVERSA, 2010 – MPE) A Síndrome de Alienação Parental tem sido


tema recorrente em disputa de guarda de filhos em processos de separação
e divórcio. Essa síndrome foi descrita por Gardner, psiquiatra norte-
americano, como:

FONTE: <https://www.qconcursos.com/questoes-de-concursos/questoes/127620dc-c7>.
Acesso em: 7 jan. 2020.

a) ( ) O processo que consiste em fazer uma criança esquecer-se de um de


seus genitores.
b) ( ) O recurso utilizado pelos pais de uma criança para que ela passe a odiar
seus avós maternos ou paternos.

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c) ( ) O meio pelo qual um adulto passe a odiar seus filhos, abrindo mão de
sua guarda.
d) ( ) O processo que consiste em "programar" uma criança para que odeie
um de seus genitores, sem justificativa.
e) ( ) O processo que consiste em manipular um dos genitores para que ele
escolha ficar com apenas um filho.

5 (PUC-PR, 2019) Entre diversas formalidades e exigências legais às quais os


noivos estão sujeitos, uma delas é a estipulação do regime de bens ao qual a
união estará sujeita. Fora casos excepcionais, é lícito aos nubentes, antes de
celebrado o casamento, estipular, quanto aos seus bens, o que lhes aprouver.
Com relação ao regime de bens, é CORRETO afirmar que:

FONTE: <https://www.aprovaconcursos.com.br/questoes-de-concurso/questoes/
assunto/7.+Do+Direito+de+Fam%C3%ADlia>. Acesso em 7 jan. 2020.

a) ( ) É lícito aos cônjuges depois de celebrado o casamento alterarem o regime


de bens por Escritura Pública a ser lavrada no cartório em que está
arquivada a certidão de casamento e ressalvados direitos de terceiros.
b) ( ) É lícito aos cônjuges depois de celebrado o casamento alterarem o
regime de bens, mediante autorização judicial em pedido motivado
de ambos os cônjuges, apurada a procedência das razões invocadas e
ressalvados os direitos de terceiros.
c) ( ) É lícito aos cônjuges depois de celebrado o casamento alterarem o
regime de bens por instrumento particular, desde que seja arquivado
no cartório que celebrou o casamento e ressalvados direitos de terceiros.
d) ( ) Não é lícito aos cônjuges depois de celebrado o casamento alterarem o
regime de bens, pois no Direito Civil vigora o princípio da imutabilidade
do regime de comunhão de bens, não sendo possível alterá-lo depois
da celebração do casamento.
e) ( ) Os cônjuges podem alterar o regime de bens somente quando da feitura
do pacto antinupcial.

48
UNIDADE 1
TÓPICO 3

OS CONFLITOS FAMILIARES E A ATUAÇÃO DO


MEDIADOR FAMILIAR

1 INTRODUÇÃO
Neste tópico, você irá aprender acerca dos conflitos familiares e a atuação
do mediador familiar, abordando os objetivos e aplicações da mediação familiar
e as formas e modelos de intervenção da mediação familiar. Na sequência, será
abordado a respeito dos conflitos familiares, tratando da resolução dos conflitos
familiares: procedimentos metodológicos, instrumentos e estratégias e, por fim,
da atuação do mediador familiar.

2 DOS OBJETIVOS E APLICAÇÕES DA MEDIAÇÃO FAMILIAR


A mediação em âmbito familiar possui objetivos e aplicações bem
definidos. Quanto aos objetivos, existem alguns que merecem destaque. O
primeiro “é a celeridade na resolução de conflitos familiares, por intermédio
de sessões de mediação”, pois a Justiça Comum é extremamente morosa, e “o
reestabelecimento da comunicação, do diálogo e das relações entre as partes
envolvidas na situação conflituosa” (LIMA, 2017, p. 29).

Quanto à aplicação da mediação familiar, ela é aplicável nos conflitos que


envolvem indivíduos que possuem alguma espécie de relação de proximidade e/
ou vínculo familiar.

A mediação de conflitos se apresenta como um mecanismo consensual,


inclusivo e participativo no qual as pessoas envolvidas, buscam, por
meio do diálogo, a solução adequada e satisfatória para uma questão,
sendo delas o poder de decisão. O diálogo entre os envolvidos é
facilitado por um terceiro imparcial – mediador – que, capacitado e
com técnicas próprias, estimula e facilita a comunicação pacífica e
construtiva, encaminhando as pessoas a uma solução de benefício
mútuo. Na mediação o conflito é visto de forma aprofundada. O
mediador, com técnicas próprias e específicas identificam os reais
conflitos e os administra de forma adequada, trazendo satisfação
mútua entre as partes (SALES, 2014, p. 147).

49
UNIDADE 1 | ASPECTOS HISTÓRICOS, CULTURAIS E SOCIAIS DA FAMÍLIA

Em suma, percebemos que a aplicabilidade da mediação familiar ocorre


nas causas envolvendo as questões em âmbito familiar e/ou que envolvem
pessoas muito próximas, quer dizer, que tenham/tiveram uma relação, tais
como: dissolução de união estável, divórcio, partilha, guarda de menores, pensão
alimentícia, visitação de filhos e o direito de vizinhança.

3 AS FORMAS E MODELOS DE INTERVENÇÃO DA MEDIAÇÃO


FAMILIAR
As formas de intervenção da mediação familiar se concretizam por
intermédio da realização das etapas. Os autores Braga Neto e Lia Regina Castaldi
(2007, p. 25), “descrevem o procedimento em 8 etapas: pré-mediação, abertura,
investigação, agenda, criação de opções, avaliação das opções, escolha das opções
e solução”.

A pré-mediação é o primeiro momento de contato dos mediados com


o mediador. É a fase em que ele apresenta este mecanismo, expõe
o conflito como algo natural e inerente aos seres humanos, tenta
eliminar o seu caráter adversarial, ensina que a mediação é um método
colaborativo, descreve as funções do mediador e resume os princípios
e as características da mediação. A primeira etapa representa a fase
em que o mediador se apresenta e deve explicar como funciona o
processo da mediação, assim como os princípios que o regem, tais
como imparcialidade do mediador, confidencialidade de tudo que
for discutido, poder de decisão dos mediados, responsabilidade das
partes pela decisão, igualdade de tratamento, formas de pagamento,
caso seja mediação privada, enfim, todas as dúvidas relacionadas a
esse procedimento devem ser explicadas nesta primeira fase (SALES,
2014, p. 149).

A segunda etapa ou fase da investigação é a mais específica para o


tratamento do conflito, pois nela o conflito será examinado e o diálogo fomentado
por intermédio do mediador. Já a terceira etapa, a agenda, é a oportunidade
para as partes dialogarem acerca do conflito, cabendo a ele ouvir atentamente
com igual período de tempo e equidade, não podendo opinar ou dar sugestões
(SALES, 2014).

Na terceira etapa, após perguntar se as partes desejam acrescentar


mais alguma coisa, o mediador deve ser mais cauteloso ainda, pois
deve fazer um resumo de tudo que foi dito, permitindo às partes
que interfiram caso percebam algum engano do mediador. Neste
resumo deve conter as palavras dos mediados, porém deve dar ênfase
aos pontos de convergência e aos pontos positivos. Mais uma vez o
mediador deve deixar claro que o conflito é algo natural, inerente
aos seres humanos, momentâneo, e que se bem administrado, pode
resultar em crescimento e em posterior momento de paz. Esta terceira
etapa é o momento em que o mediador organiza as ideias, verifica as
diferenças e as semelhanças para trabalhá-las (SALES, 2014, p. 149).

50
TÓPICO 3 | OS CONFLITOS FAMILIARES E A ATUAÇÃO DO MEDIADOR FAMILIAR

Na quarta etapa, o diálogo entre as partes começa a ficar mais tenso,


acalorado e começam a surgir as agressões verbais. Já que nesse momento o
mediador resumiu os detalhes da situação conflitiva, ele necessita ter controle e
manter o respeito entre as partes.

A quarta etapa é o momento em que podem surgir agressões mútuas,


descontrole emocional entre os mediados, pois é neste momento que,
após ouvir o resumo do mediador, as partes iniciam um diálogo mais
intenso, com mais contradições, acusações, que nada contribuem
para a solução. Nesta fase, o mediador deve ser prudente, sensato
para acalmar a possível desarmonia. Cabe ao mediador decidir se são
necessárias reuniões individuais (caucus) para o melhor andamento do
processo objetivando alcançar resultados satisfatórios para as partes
(SALES, 2014, p. 149).

A quinta etapa é a fase que inicia as conclusões. Nela, o mediador irá


condensar as questões já abordadas, auxiliando as partes a esclarecer os fatos e a
compreender a situação conflitiva. A sexta e última etapa é a elaboração do acordo
construído pelos mediandos, escrito de modo claro, objetivo e contendo tudo o
que foi tratado nas sessões de mediação.

Quanto aos modelos de intervenção da mediação familiar, temos


três modelos: o Modelo Tradicional/Linear (Escola de Harvard), o Modelo
Transformativo (Folger e Bush), o Modelo Circular-Narrativo (Sara Cobb).

O Modelo Tradicional/Linear, também chamado de mediação da Escola


de Harvard, tem como principais figuras de destaque Roger Fisher e Willian
Ury. Ele trata da comunicação linear, a qual ocorre de forma satisfativa, quer
dizer, aqui o papel do mediador será o de facilitador de comunicação, separando
o conflito das partes envolvidas (TARTUCE; FALECK, 2016, p. 10-13).

Já o Modelo Transformativo é baseado na comunicação e reestruturação


das relações. Ele responsabiliza as partes pelo conflito e tem como principais
figuras de destaque Bush e Folger:

Fundamenta-se também na comunicação, mas com foco no aspecto


relacional. Trabalha para o empoderamento das partes, que devem
ser vistas como responsáveis por suas ações, ou seja, é voltado
para o reconhecimento do outro como protagonista de sua vida
e coprotagonista do conflito. Tem também como meta modificar
a relação entre as partes, sendo, portanto, o oposto do Modelo
Harvardiano, pois não objetiva apenas obter o acordo, mas é centrado
na transformação das relações. Nesse sentido, o processo não
vislumbra a desestabilização das pessoas, com a desconstrução das
histórias iniciais e criação de uma história alternativa, como propõe o
modelo Circular-Narrativo (MICHELON, 2018, p. 13).

Já o modelo circular-narrativo trata do reconhecimento e da compreensão


de que o outro possui experiências, vivências e cultura, ou seja, aspectos que
individualizam o ser humano e que não podem ser ignorados quando do
surgimento de uma situação conflitiva. Esse modelo tem como principal expoente
Sara Coob.
51
UNIDADE 1 | ASPECTOS HISTÓRICOS, CULTURAIS E SOCIAIS DA FAMÍLIA

A mediação focaliza na necessidade de compreensão da outra


parte, suas particularidades, interesses, objetivos e características.
Com evidência, na espécie “circular narrativa”, a causalidade não é
mais imediata, tal como no modelo de Harvard. Para que as partes
compreendam uma a outra, mediante um processo de conversação,
facilitada por um terceiro estranho, é preciso analisar não a causa
imediata que determinou aquela situação problema, mas o conjunto
de causas remotas, anteriores, que, de alguma forma, contribuíram
para o deslinde conflituoso. Pode-se considerar que tal concepção foca
a desconstrução das narrativas iniciais da história dos envolvidos; por
meio de perguntas circulares (MICHELON, 2018, p. 13).

Em suma, podemos destacar alguns aspectos fortes desse modelo de


mediação, como o fato de ele facilitar o diálogo, começando pela disposição dos
lugares da sala. O foco que é trabalhado nesse tipo de mediação por intermédio
de um terceiro facilitador do diálogo são as diferenças entre as partes.

4 DOS CONFLITOS FAMILIARES

FIGURA 6 – CONFLITOS FAMILIARES

FONTE: <http://blog.angelicoadvogados.com.br/wp-content/uploads/2013/11/
Fotolia_16390032_XS.jpg>. Acesso em: 7 jan. 2020.

A resolução de conflitos por intermédio da mediação familiar só pode


ser utilizada a partir do momento em que surgem os denominados conflitos
familiares. Por exemplo: na mediação familiar, os tipos de conflitos familiares
mais comuns são aqueles que envolvem cônjuges, tais como dissolução de união
estável, divórcio, partilha de bens e, no caso de casais com filhos, são aqueles que
envolvem guarda de menores e regulamentação de visitas.

É certo que as relações conjugais são vulneráveis a vários problemas


que afetam a convivência da família. Os dissensos entre marido
e mulher, por vezes, são decorrentes de expectativas frustradas,
valores e interesses contrariados. Fatores como situação financeira
desfavorável, falta de amor, desrespeito, incompatibilidade de

52
TÓPICO 3 | OS CONFLITOS FAMILIARES E A ATUAÇÃO DO MEDIADOR FAMILIAR

gênios e envolvimento com outra pessoa são alguns dos elementos


que enfraquecem a relação familiar e resultam na dissolução da
família. Apesar de ser considerado fenômeno relativamente existente
nas relações conjugais, esse tipo de contingência pode desencadear
disputas conflituosas que contaminam a relação parental, o que
infelizmente afeta os filhos. Estes, por sua vez, sentem-se culpados
pela ruptura dos pais, principalmente quando há briga na definição
da guarda deles enquanto menores de idade (MACEDO, 2015, p. 1).

Em alguns casos de dissolução de união estável e/ou divórcio, restam


algumas mágoas e ressentimentos entre o casal, sendo que tal situação tende a
piorar na medida em que os cônjuges possuem filhos, pois os pais tentam repassar
aos filhos as frustações pelo término do relacionamento. Isso pode desencadear
até um processo de alienação parental.

Como se não bastasse todo o desgaste pela ruptura da relação parental,


o processo judicial, com toda morosidade e, algumas vezes, ineficácia,
torna ainda mais difícil a possibilidade de uma relação harmônica e
a reconstrução da vida afetiva das partes. Por isso, faz-se necessário
adotar a mediação como resolução de controvérsias nas relações
familiares, pois, além de buscar sanar o problema, esse método abre
espaço para que os conflitantes estabeleçam um canal de comunicação,
dando oportunidade para que se resolvam entre si e mantenham uma
relação amigável. Sendo o problema administrado dessa forma, torna
mais eficaz a sua solução, mais do que se fosse determinada qualquer
decisão por um terceiro (MACEDO, 2015, p. 1).

Para tanto, surge a mediação como forma de solução da situação conflitiva


existente entre os cônjuges, envolvendo ou não filhos, já que um longo e demorado
processo judicial na justiça comum, além de causar desgaste físico e emocional,
não contribui em nada para auxiliar a restabelecer o diálogo e a comunicação
entre o casal e nem para tratar o conflito ou preparar os envolvidos para saber
lidar com possíveis novas situações conflituosas.

4.1 DA RESOLUÇÃO DOS CONFLITOS FAMILIARES:


PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS, INSTRUMENTOS E
ESTRATÉGIAS
Diante de um conflito familiar instalado, resta tentar solucionar/tratar
ele a fim de que aquele determinado acontecimento do qual emanou a situação
conflitiva não venha a evoluir, vindo a gerar novos litígios. Para tanto, ele
poderá ser encaminhado para os meios alternativos de resolução de conflitos
por intermédio dos procedimentos, instrumentos e estratégias adequadas. Nesse
caso, para a mediação familiar, com vistas a proporcionar o acordo entre as partes.

53
UNIDADE 1 | ASPECTOS HISTÓRICOS, CULTURAIS E SOCIAIS DA FAMÍLIA

As disputas familiares, por definição, envolvem relacionamentos


que precisam perdurar. A síndrome do perde-ganha dos tribunais
provoca um verdadeiro desastre numa família que se desfaz.
Sabe-se que o ajuizamento da petição inicial toma a forma de uma
autêntica ‘declaração de guerra’, e o vínculo do ódio, da vingança e
da perseguição pode arrastar-se durante anos, dificultando a ambos
o refazer da vida em ouras direções, perpetuando a ligação numa
estranha forma de fidelidade (ROSA, 2015, p. 89).

É necessário desconstruir a cultura do litígio a qual está arraigada nos


indivíduos, pois a convivência em sociedade traz em si a possibilidade de
surgimento de conflitos em todas as esferas de relação interpessoais.

Diante de tudo isso, surge a mediação como um meio alternativo de


resolução de litígios, capaz de não somente solucionar o desentendimento, mas
para trabalhar no ponto central do conflito real, reestabelecendo a comunicação e
o diálogo entre os envolvidos.

A mediação permite atuar no nascedouro do conflito, identificando-o


e trabalhando na sua desconstrução, fazendo com que os mediandos
solucionem não somente o problema aparente, mas o que o motivou,
dando, assim, a oportunidade para as famílias restabelecerem uma
comunicação, com o objetivo de esclarecer o mal-entendido, podendo
evitar a quebra de relação familiar sem necessidade. Dessa forma, o
papel do mediador é provocar e estimular as partes, na tentativa de
identificar os interesses de cada um dos envolvidos até que se encontre
uma solução para isso. Esse profissional precisa ouvir e compreender
as afirmações ditas na comunicação entre as partes. Nessa perspectiva,
a utilização da mediação poderá trazer benefícios – como tornar os
processos mais céleres e reduzir custos –, uma vez que, na maioria das
vezes, os acordos resultantes da mediação perduram por mais tempo
do que os que são impostos por sentença judicial (MACEDO, 2015, p. 2).

Dentre os instrumentos disponíveis ao mediador durante as sessões de


mediação para serem aplicados na busca do acordo entre as partes envolvidas na
situação conflitiva, destacamos: a escuta inclusiva, o acolhimento das partes e a
empatia, os quais são necessários para identificar os interesses de cada mediando.
Afirma Fernanda Macedo (2015, p. 2) que: “a mediação veio a ser utilizada pelas
varas de família para tentar pacificar as demandas e promover a escuta de ambos
os conflitantes, o que muitas vezes resulta no conhecimento dos seus respectivos
sofrimentos, dando oportunidade para progredir na busca pela solução”.

As situações conflituosas em âmbito familiar, tais como divórcio e


dissolução de união estável, acabam por dilacerar a família, sendo a mediação
é uma forma mais amena de passar por esse período de intenso sofrimento,
desgaste físico e emocional. Para tanto, o instituto da mediação familiar tem sido
utilizado nas varas de família por intermédio do CEJUSC – Centro Judiciário de
Solução de Conflitos e Cidadania, solicitado por um dos envolvidos no litígio, o
qual solicita o comparecimento da outra parte envolvida.

54
TÓPICO 3 | OS CONFLITOS FAMILIARES E A ATUAÇÃO DO MEDIADOR FAMILIAR

Na maioria das vezes, os processos de mediação familiar começam


quando já existem ações em andamento nas varas de família, nas quais
o juiz, as partes ou seus advogados sugerem sessão de mediação, para
que possibilite a pacificação dos litígios, sendo, assim, em concordância
das partes, encaminhados ao CEJUSC. Primeiramente é necessária
uma entrevista de pré-mediação, na qual o facilitador ou mediador
deve criar um clima de confiança e serenidade, atendendo gentilmente
aos querelantes, verificando, por meio da entrevista, se a mediação é
cabível para o caso. Ao receber o cônjuge solicitante, o facilitador ou
mediador deve, antes de tudo, ouvir atentamente o que esse sujeito
tem a narrar, formulando perguntas necessárias a esclarecer detalhes
do conflito. Posteriormente é feito o convite à pessoa solicitada para
igual atendimento. Caso o cônjuge solicitado compareça, o facilitador
ou mediador a recebe com a mesma gentileza e imparcialidade,
devendo escutar-lhe ativamente, aplicar-lhe a entrevista e explicar-lhe
o que é mediação (MACEDO, 2015, p. 2).

Como estratégias procedimentais, o mediador realiza a pré-mediação,


ouve a parte que procurou o procedimento de mediação, atende a parte contrária
de igual forma para, somente depois, passar para a fase da investigação.

Na primeira etapa, o mediador acolhe as partes com respeitosa


informalidade e senso de humor, apresentando-se de modo
descontraído. Agradece a presença dos mediandos e solicita-lhes que
se apresentem individualmente. Esclarece no que consiste a mediação
e o seu papel de colaborador, buscando facilitar o entendimento.
Solicita-lhes mútuo respeito, destacando que ambos terão igual
oportunidade para narrar os seus pontos de vista, não podendo
interromper um ao outro e tampouco falar do outro. Em um segundo
momento, o mediador solicita que cada um dos cônjuges narre o
problema trazido à sessão, geralmente a pessoa solicitante inicia a
narração, mas elas estão livres para combinar quem inicia. O mediador
escuta e observa sem julgamentos, vai ajudando cada uma das partes
a esclarecer as suas posições sobre as questões trazidas e, com enfoque
prospectivo, vai ensejando contextualização e, sempre que necessário,
recontextualizando frases que pareçam ofensivas ou de ameaça
(MACEDO, 2015, p. 2).

O procedimento da mediação foi sistematizado no Brasil com o advento


da Resolução 125, de 2010, do Conselho Nacional de Justiça – CNJ. Ele teve como
objetivo a regulamentação dos meios alternativos de resolução de conflitos, a
capacitação e o aperfeiçoamento dos profissionais envolvidos na área. Nessa
mesma esteira, houve a fundação do Conselho Nacional de Instituições de
Mediação e Arbitragem-CONIMA, em 24 de novembro de 1997, que nasceu
com o intuito de ser um órgão de representação das instituições de mediação e
arbitragem, encarregado de tratar das normas técnicas e dos aspectos da ética.

Por fim, o novo Código de Processo Civil, Lei 13.105/2015, aprovado


pelo Congresso Nacional, em 16 de março de 2015, foi originado
pelo Projeto de Lei 8.046/2010. O novo CPC traz a sistematização
dos mecanismos autocompositivos de conflitos, como a mediação e a
conciliação, que até agora estiveram presentes nos processos judiciais
sem a devida previsão legal primordial, devendo ser incentivados
não somente pelos juízes, mas também por advogados, defensores e

55
UNIDADE 1 | ASPECTOS HISTÓRICOS, CULTURAIS E SOCIAIS DA FAMÍLIA

promotores públicos. Tendo em vista que a mediação será sistematizada


e implementada à legislação com mais vigor, tem-se a expectativa de
que as demandas de litígios familiares serão solucionadas de forma
mais rápida e terão mais eficácia, além de desafogarem as varas de
família (MACEDO, 2015, p. 2).

Por fim, é necessário destacar as contribuições trazidas pela Lei nº 13.140,


de 26 de junho de 2015, a Lei de Mediação, a qual trata da mediação como meio
de solução de controvérsias e autocomposição dos conflitos entre particulares e
no âmbito da administração pública. Sua principal contribuição foi quanto aos
conflitos em âmbito familiar, principalmente nas varas de família e no CEJUSC.

4.2 A ATUAÇÃO DO MEDIADOR FAMILIAR


A atuação do mediador se dá em âmbito dos conflitos familiares, podendo
ocorrer em alguns casos os desentendimentos entre os cônjuges por causa da
denominada comunicação violenta e/ou da falta dela.

Os conflitos familiares decorrem de uma inadequada comunicação,


por isso a mediação familiar tem por escopo primordial estabelecer
uma comunicação, conducente ao conhecimento do outro e à
intercompreensão, partindo de explicações, buscando informações e
permitindo a intersubjetividade entre os mediandos, para que cada um
possa compreender o que o outro diz ou quer (DINIZ, 2013, p. 391).

Quanto às causas nas quais atua o mediador, são aquelas em que há um


vínculo anterior entre as partes, podendo ser vínculo familiar, por afinidade ou
do direito de vizinhança.

O parágrafo 3º do artigo 165 do Novo Código de  Processo  Civil –


NCPC expõe que o Mediador, que atuará preferencialmente nos
casos em que houver vínculo anterior entre as partes, auxiliará aos
interessados a compreender as questões e os interesses em conflito,
de modo que eles possam, pelo restabelecimento da comunicação,
identificar, por si próprios, soluções consensuais que gerem benefícios
mútuos (YOSHIO, 2015, p. 2).

FIGURA 7 – A ATUAÇÃO DO MEDIADOR FAMILIAR

FONTE: <https://i.pinimg.com/236x/f3/83/44/f38344d7c581145209518edb79a0fc4d--versos-
brain.jpg>. Acesso em: 7 jan. 2020.

56
TÓPICO 3 | OS CONFLITOS FAMILIARES E A ATUAÇÃO DO MEDIADOR FAMILIAR

Ensina Souza (2014, p. 2) que: “o mediador tem o papel fundamental de


conseguir sensibilizar as partes, em especial, se houverem filhos”. Prossegue, ao
afirmar que o: “papel do 3º. Facilitador (Mediador) é esclarecer o procedimento que
será realizado, ter certeza de que serão respeitados os interesses dos envolvidos,
esclarecer a voluntariedade, frisar ausência de obrigação de resultado, prometer
o maior empenho, mas não pode prometer o resultado (obrigação de meio)”.

Acerca do ofício do mediador enquanto um terceiro facilitador do diálogo


entre as partes envolvidas no conflito, destaca Souza (2014, p. 2): “O 3º. Facilitador,
a incumbência dele é da pacificação das partes, não pode acumular tarefas, se for
necessária à orientação por outros profissionais, estes devem ser chamados, não é
papel do facilitador fazer essa orientação, por isto que é fundamental a presença
do advogado na sessão de mediação”.

A função do mediador é trabalhar, questionar para que os participantes


aprofundem nas suas motivações. Na escuta atenta de um e do outro
se produz a sensibilização entre eles. Assim eles integram essas
motivações (suas necessidades insatisfeitas) como um problema
comum, para que ninguém abra mão, para que ninguém ceda na
solução e que todas as motivações sejam contempladas. A integração
é o importante, sempre que o mediador atua (intervém) nas sessões
não deve fazê-lo pensando em dar solução, mas sim pensando em
investigar e auxiliar os participantes para que eles se entendam e se
relacionem a partir de seu sentir. A solução estará sempre a partir da
sensibilização entre eles e a compreensão das necessidades de cada
um deles e a integração dessas necessidades na procura das soluções
que atendam tudo isso (VEZZULLA, 2011, p. 44).

Um profissional que atua na área da mediação familiar necessita ter


conhecimento acerca das relações interpessoais e sensibilidade para poder estar
diante de sentimentos tão frágeis e efervescentes dos envolvidos no conflito
devido a tensão presente nesses conflitos. Esse terceiro imparcial irá auxiliar as
partes na construção do diálogo e no reestabelecimento das relações. Para tanto,
a atuação do mediador deve ser pautada inclusive pela moral e ética profissional.

DICAS

Sugestão de Filme: Kramer versus Kramer

Sinopse: Ted Kramer (Dustin Hoffman) é um profissional para quem o trabalho vem antes
da família. Joanna (Meryl Streep), sua mulher, não pode mais suportar esta situação e sai
de casa, deixando Billy (Justin Henry), o filho do casal. Quando Ted consegue finalmente
ajustar seu trabalho às novas responsabilidades, Joanna reaparece exigindo a guarda da
criança. Ted não aceita e os dois vão para o tribunal lutar pela custódia do garoto.

57
UNIDADE 1 | ASPECTOS HISTÓRICOS, CULTURAIS E SOCIAIS DA FAMÍLIA

LEITURA COMPLEMENTAR

MEDIAÇÃO ESCOLAR: SOBRE HABITAR O ENTRE

Thamyres Bandoli Tavares Vargas


Maria Goretti Andrade Rodrigues 

Resumo:

A inclusão escolar surgiu como um desafio e exigiu que as escolas revissem sua
estrutura e criassem novas formas de ensinar. O mediador escolar acompanha o
estudante durante seu dia letivo, buscando intervir, potencializando seu processo
de aprendizagem, socialização e desenvolvimento. Pelo viés da cartografia, a
pesquisa aqui construída se propõe a mapear processos intrincados no âmbito
da mediação escolar realizada com crianças ditas autistas ou psicóticas. As vias
de trabalho criativas, não normatizantes e não medicalizantes possíveis à prática
da mediação escolar abrigam-se no adotar de uma postura ético-política, a qual
tensiona o lugar ocupado pelo mediador. Guiada por esse posicionamento,
a mediação escolar pode inaugurar vias de trabalho que produzam vida e
reconheçam a singularidade da pessoa em situação de inclusão.

Palavras-chave: Mediação escolar. Inclusão escolar. Autismo. Cartografia.

Introdução

A inclusão escolar surgiu como um desafio e exigiu que escolas revissem


sua estrutura e pensassem em novas maneiras de ensinar. Classes repletas,
formação deficitária, professores sobrecarregados, processos de aprendizagem
diferenciados, singularidades, necessidades educacionais especiais, além de
responsáveis, educadores e profissionais da saúde preocupados em construir
maneiras de atender satisfatoriamente no processo de ensino-aprendizagem de
todos os alunos. Esses elementos propiciaram o surgimento da mediação escolar
no Brasil, que fora espontâneo e inspirado em experiências estrangeiras, mas sem
manter um registro sistemático (MOUSINHO et al., 2010).

Assim, algumas crianças que precisam de auxílio diferenciado, como no caso


daquelas ditas autistas ou psicóticas, passam a ser acompanhadas por um mediador
no contexto escolar. Esse acompanhamento geralmente também é orientado por
profissionais que assistem a esse aluno fora da escola, como psicólogos, terapeutas
ocupacionais, médicos, entre outros (MOUSINHO et al., 2010).

A mediação surgiu como uma possibilidade, uma maneira de garantir


não somente o acesso, mas também a participação e a aprendizagem do estudante
dito autista. Este artigo tem o objetivo de apresentar o mapeamento de processos
intrincados no âmbito da mediação escolar enquanto dispositivo inscrito nesse
bojo que conhecemos como educação especial inclusiva.

58
TÓPICO 3 | OS CONFLITOS FAMILIARES E A ATUAÇÃO DO MEDIADOR FAMILIAR

Alguns apontamentos acerca da relação inclusão-exclusão

Os entraves encontrados diante da inclusão não existem somente em


virtude das especificidades dos alunos ou pela falta de formação de professores
e gestores. Há, além disso, uma profunda dificuldade de concretização da
política de inclusão porque, primeiramente, a escola não foi constituída para os
“indomáveis” e “inadestráveis”. A escola foi pensada para docilizar os corpos,
adestrar as mentes.

Se parece ser mais difícil ensinar em classes inclusivas, classes nas quais
os (chamados) normais estão misturados com os (chamados) anormais,
não é tanto porque seus (assim chamados) níveis cognitivos são
diferentes, mas, antes, porque a própria lógica de dividir os estudantes
em classes - por níveis cognitivos, por aptidões, por gênero, por idades,
por classes sociais etc., - foi um arranjo inventado para, justamente,
colocar em ação a norma, através de um crescente e persistente
movimento de, separando o normal do anormal, marcar a distinção
entre normalidade e anormalidade (VEIGA-NETO, 2001, p. 25).

Incluir, de fato, só será possível com a construção de uma nova escola, uma
escola de todos, menos seletiva, menos rígida, descolada do foco na instrução/
reprodução de conteúdos (MANTOAN, 2004), guiada pela lógica da alteridade.
“A escola inclusiva precisaria, então, de muito mais do que adaptações no espaço
físico ou no conteúdo curricular. Precisaria interrogar e problematizar seus ideais
naquilo que eles produzem de subjetividade e de relações de poder” (ALBANO,
2015, p. 40).

Por muito tempo, o aluno dito desviante, o considerado “anormal”,


permaneceu oficialmente excluído da escola, era ignorado ou encaminhado
para serviços de saúde. Na atual conjuntura, a política de inclusão se tem
colocado como uma diretriz, opondo-se às práticas segregatórias que até então
se mantiveram. Entretanto, o que dela tem superado o campo da retórica? E
se a inclusão exige a criação de uma nova escola, novas relações, em que grau
as escolas têm se desconstruído, se reinventado e intensificado o processo de
diferenciação da vida?

É preciso problematizar a escola, “afirmando que, para garantir o direito


de muitas crianças, antes segregadas, de frequentarem a escola, aprenderem e se
desenvolverem, são necessárias rupturas” (MACHADO, 2006, p. 6). Entretanto,
o que se vê não dá sinais de transformação ou reinvenção. O que se vê são
instituições escolares tentando cumprir a exigência da inclusão adequando-a aos
moldes da escola tradicional, além de manter sua estrutura intacta, prezando pela
manutenção de sua prática, cultura, arquitetura, instrumentos pedagógicos e
avaliativos. Além disso, pode-se notar que a escola vem permitindo e assegurando
o acesso de todos, incluindo os ditos “anormais”, mas os excluindo durante o
processo educacional.

59
UNIDADE 1 | ASPECTOS HISTÓRICOS, CULTURAIS E SOCIAIS DA FAMÍLIA

Muitas instituições consideram sua prática inclusiva, quando esta, na


verdade, é apenas integracionista (PRAÇA; KOPKE, 2011). “Aqui temos práticas
que desconsideram que a inclusão não se dá incluindo os corpos das crianças nas
classes regulares” (MACHADO, 2006, p. 2). Antigas práticas sob o véu de novos
títulos. Surgem novos termos, mas não novas atitudes. Todos são matriculados,
mas há alunos e alunos… Alguns são simplesmente alunos, já outros são os
“alunos de inclusão”, marcados, classificados.

Isso nos leva a criticar a inclusão não como quem é contra ela, mas como
quem anseia por vê-la concretizada de forma eficaz. Entendendo que tal processo
não é “bom” por si mesmo - além disso, a inclusão não é, necessariamente, o outro
da exclusão. Do mesmo modo, “pode-se compreender que muito frequentemente
inclui-se para excluir, isso é, faz-se uma inclusão excludente” (VEIGA NETO;
LOPES, 2011, p. 123), pois simplesmente permitir o acesso do aluno à escola não
é incluir. Da mesma forma, responsabilizar exclusivamente determinados atores
da escola, como o professor ou o mediador, trai o propósito inclusivo. A inclusão
exige investimento coletivo.

A inclusão se dá quando se devolve ao coletivo aquilo que foi


individualizado no corpo do sujeito. O grito que se ouve e que surge da
boca da criança com transtornos, ecoa e atravessa a todos produzindo
efeitos diversificados em relação à produção do gritar. [...] Como
responsabilizar o coletivo da escola por essa produção (MACHADO,
2006, p. 2).

Educação e alteridade

Como nomeamos a “criança que difere”? Almejando um texto coerente


com a direção ético-política adotada, iniciamos este tópico discutindo a maneira
como nomeamos o outro. Inseridos no universo da linguagem, compreendemos
que esta expressa modos de pensar, tendo em si a potência de reafirmar ou
contribuir para a desconstrução de posicionamentos (SASSAKI, 2003).

No que diz respeito às concepções produzidas acerca da pessoa dita com


deficiência e da educação que lhe é ofertada, percebemos, a cada época, movimentos
instituintes, incidindo sobre o instituído, resultando em novas configurações:
da exclusão à segregação, da segregação à integração, da integração à inclusão.
Transformações que se deram no contexto mundial e nacional com marcos legais
que foram profundamente importantes para o avanço das concepções e das
práticas educacionais brasileiras. Todavia, percebe-se que essa “diferenciação
no tratamento dado à diferença não corresponde às etapas cronológicas já
superadas, mas a essas três lógicas distintas que, ainda hoje, se atualizam nas
práticas escolares”: a segregação, a integração e a inclusão (ALBANO, 2015).

Nesse percurso de mudanças, a pessoa dita com deficiência foi nomeada


e renomeada, diversas vezes, pelas políticas públicas e pelos especialistas, de
acordo com a norma vigente: “selvagem”, “louco”, “anormal”, “desviante”,

60
TÓPICO 3 | OS CONFLITOS FAMILIARES E A ATUAÇÃO DO MEDIADOR FAMILIAR

“deficiente”, “portador de deficiência”, “excepcional”, “especial”, “criança com


necessidades educativas especiais”, “pessoa com deficiência”, “pessoa com
necessidades educacionais especiais” etc. Várias nomenclaturas que têm em sua
base um arcabouço ideológico. Assim, usar determinada nomenclatura e não
outra é um modo de marcar um posicionamento ético e político.

De maneira geral, o termo “pessoa com deficiência” foi considerado o


mais adequado no início deste século, que antes havia substituído a expressão
“portador de deficiência”, amplamente difundida nas décadas de 1980 e 1990.
Embora a pesquisa aqui seja sobre mediação escolar para crianças ditas autistas
ou psicóticas, para melhor contextualizar é importante saber que tal termo foi
contestado principalmente pelas próprias pessoas ditas com deficiência, que
argumentaram defendendo que a deficiência não é como uma coisa, como objetos,
que por vezes se porta e por vezes não (SASSAKI, 2003).

Ainda tratando dessa questão mais ampla, de acordo com o parágrafo


2º, artigo 1º da lei n. 12.764/2012, a pessoa com transtorno do espectro autista é
considerada pessoa com deficiência. Conforme a Convenção sobre os Direitos
das Pessoas com Deficiência (ONU/2006), pessoas com deficiência são aquelas
que têm impedimentos de longo prazo de natureza física, mental, intelectual
ou sensorial, os quais, em interação com diversas barreiras, podem obstruir sua
participação plena e efetiva na sociedade em igualdade de condições com as
demais pessoas.

Assim, após extensos debates em nível mundial, o termo “pessoa


com deficiência” foi cunhado no documento  Proteção e promoção dos direitos e
dignidades das pessoas com deficiência, aprovado pela Convenção Internacional e
pela Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), em 2006, e
ratificado no Brasil em 2008 (BRASIL, 2010).

Já no contexto educacional, o termo utilizado tem sido “pessoa com


necessidades educacionais especiais”, que não substitui o termo “pessoa com
deficiência”, pois se difere em virtude de sua amplitude, visto que engloba:

Crianças com condições físicas, intelectuais, sociais, emocionais e


sensoriais diferenciadas; com deficiência e bem-dotadas; crianças
trabalhadoras ou que vivem nas ruas; crianças de populações distantes
ou nômades; crianças de minorias linguísticas, étnicas ou culturais;
crianças de grupos desfavorecidos ou marginalizados (ALBANO,
2015. p. 29).

FONTE: VARGAS, T. B. T.; RODRIGUES, M. G. A. Mediação escolar: sobre habitar o entre. Rev. Bras.
Educ., Rio de Janeiro, v. 23, 2018. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_
arttext&pid=S1413-24782018000100270&lang=pt. Acesso em: 25 nov. 2019.

61
RESUMO DO TÓPICO 3
Neste tópico, você aprendeu que:

• Os conflitos familiares e a atuação do mediador familiar, abordando os objetivos


e aplicações da mediação familiar e as formas e modelos de intervenção da
mediação familiar. Na sequência, foi abordado a respeito dos conflitos familiares
tratando da resolução dos conflitos familiares: procedimentos metodológicos,
instrumentos e estratégias e, por fim, da atuação do mediador familiar.

• Quanto aos objetivos, existem alguns que merecem destaque, o primeiro


“é a celeridade na resolução de conflitos familiares, por intermédio de
sessões de mediação”, pois a Justiça Comum é extremamente morosa, e “o
reestabelecimento da comunicação, do diálogo e das relações entre as partes
envolvidas na situação conflituosa” (LIMA, 2017, p. 29).

• Quanto às formas de realização da mediação familiar, existem oito etapas: pré-


mediação, abertura, investigação, agenda, criação de opções, avaliação das
opções, escolha das opções e solução. Quanto aos modelos de intervenção da
mediação familiar, temos três modelos: o Modelo Tradicional/Linear (Escola
de Harvard), o Modelo Transformativo (Folger e Bush), o Modelo Circular-
Narrativo (Sara Cobb).

• A resolução de conflitos por intermédio da mediação familiar só pode ser


utilizada a partir do momento em que surgem os denominados conflitos
familiares. Na mediação familiar, os tipos de conflitos familiares mais comuns
são aqueles que envolvem cônjuges, tais como dissolução de união estável,
divórcio, partilha de bens e, no caso de casais com filhos, os que envolvem
guarda de menores e regulamentação de visitas.

• Diante de um conflito familiar instalado, resta tentar solucionar/tratar ele a


fim de que aquele determinado acontecimento do qual emanou a situação
conflitiva não venha a evoluir, vindo a gerar novos litígios. Para tanto, ele
poderá ser encaminhado para os meios alternativos de resolução de conflitos
por intermédio dos procedimentos, instrumentos e estratégias adequadas.
Nesse caso, para a mediação familiar, com vistas a proporcionar o acordo entre
as partes.

• As situações conflituosas em âmbito familiar, tais como divórcio, dissolução


de união estável, acabam por dilacerar a família e uma forma mais amena de
passar por esse período de intenso sofrimento e desgaste físico e emocional,
para tanto o instituto da mediação familiar tem sido utilizado nas varas de
família, por intermédio do CEJUSC – Centro Judiciário de Solução de Conflitos
e Cidadania, por um dos envolvidos no litígio o qual solicita o comparecimento
da outra parte envolvida.

62
• É necessário destacar as contribuições trazidas pela Lei nº 13.140, de 26 de junho
de 2015, a Lei de Mediação, a qual trata da mediação como meio de solução de
controvérsias e autocomposição dos conflitos entre particulares e no âmbito da
administração pública. Sua principal contribuição foi em relação aos conflitos
em âmbito familiar, principalmente nas varas de família e no CEJUSC.

• A atuação do mediador se dá em âmbito dos conflitos familiares, podendo


ocorrer em alguns casos os desentendimentos entre os cônjuges por causa da
denominada comunicação violenta e/ou da falta dela.

• Um profissional que atua na área da mediação familiar necessita ter


conhecimento acerca das relações interpessoais e sensibilidade para poder estar
diante de sentimentos tão frágeis e efervescentes dos envolvidos no conflito.
Devido a tensão presente nesses conflitos, esse terceiro imparcial irá auxiliar
as partes na construção do diálogo e no reestabelecimento das relações. Para
tanto, a atuação do mediador deve ser pautada inclusive pela moral e ética
profissional.

CHAMADA

Ficou alguma dúvida? Construímos uma trilha de aprendizagem pensando


em facilitar sua compreensão. Acesse o QR Code, que levará ao AVA, e veja
as novidades que preparamos para seu estudo.

63
AUTOATIVIDADE

1 (FCC, 2018 – ALESE) Na mediação, a orientação construcionista social para


a comunicação sugere uma terceira meta para a mediação denominada:

FONTE: <https://www.qconcursos.com/questoes-de-concursos/disciplinas/psicologia-
psicologia/conflito-nas-organizacoes/questoes>. Acesso em: 7 jan. 2020.

a) ( ) Transmissão.
b) ( ) Sumarização.
c) ( ) Conscientização.
d) ( ) Objetivação.
e) ( ) Compreensão.

2 (FGV, 2019 – DPE) Com relação à Justiça Restaurativa, analise as afirmativas


a seguir.

FONTE: <https://www.qconcursos.com/questoes-de-concursos/questoes/cbec1360-65>.
Acesso em: 7 jan. 2020.

I- É uma técnica de solução de conflitos que prima pela criatividade e


sensibilidade na escuta das vítimas e dos ofensores.
II- O mediador determina a melhor solução do litígio a partir de prévia escuta
das partes envolvidas.
III- Não pode ser aplicada em crimes mais graves.

Está CORRETO o que se afirma em:


a) ( ) Somente I.
b) ( ) Somente II.
c) ( ) Somente I e II.
d) ( ) Somente II e III.
e) ( ) I, II e III.

3 (FGV, 2019 – DPE) Nos litígios familiares, a solução jurídica distante da


emocional conduz à perpetuação do conflito. Com o objetivo de promover
a economia processual e desenvolver a autonomia dos envolvidos em seus
conflitos, o sistema judiciário tem valorizado o método no qual uma terceira
pessoa reabre o diálogo entre as partes para que elas próprias componham
a resolução de suas controvérsias. Tal método é denominado:

FONTE: <https://www.qconcursos.com/questoes-de-concursos/questoes/cbaa11a9-65>.
Acesso em: 7 jan. 2020.

a) ( ) Círculo dinâmico.
b) ( ) Escola de pais.

64
c) ( ) Psicoterapia breve.
d) ( ) Mediação familiar.
e) ( ) Constelação familiar.

4 (ICAP, 2016) A mediação é um método consensual de solução de conflitos,


que visa a facilitação do diálogo entre as partes, para que melhor administrem
seus problemas e consigam, por si só, alcançar uma solução. Assinale a
alternativa CORRETA a respeito da mediação.

FONTE: <https://www.qconcursos.com/questoes-de-concursos/questoes/3393edee-0b>.
Acesso em: 7 jan. 2020.

a) ( ) A mediação como um método de resolução de conflitos, não visa pura


e simplesmente ao acordo, mas atingir a satisfação das partes em uma
única reunião de conciliação com as partes.
b) ( ) Através da figura do mediador, as partes envolvidas em uma disputa
têm condições de atingir uma posição de equilíbrio e buscar, através do
diálogo, possibilidades particularizadas para a solução da disputa em
que estão envolvidas.
c) ( ) A mediação visa à resolução dos conflitos das partes que se
comprometem a levar os conflitos decorrentes do contrato à arbitragem.
d) ( ) Atuando como mediado, o Psicólogo deve usar de recursos técnicos
para promover mudanças emocionais entre os familiares em conflitos.
e) ( ) Para atender melhor os interesses dos filhos, em casos de disputas
de família de intenso conflito, o mediador deve avaliar tomando as
decisões que ele julgar como a mais correta para comunicar ao Juiz.

5 (IBFC, 2017) Um dos papeis importantes da Psicologia, quando inserida na


área do Direito, é apresentar métodos para a solução de conflitos. De acordo
com Pinheiro (2016), há a possibilidade de utilizarmos cinco métodos, a
saber: o julgamento; a arbitragem; a negociação; a conciliação e; a mediação.
Com relação ao papel do conciliador e do mediador, analise as afirmativas a
seguir:

I- O conciliador envolve-se na busca de soluções, além de interferir e


questionar os litigantes.
II- Tanto o conciliador quanto o mediador, não têm o poder de decisão.
III- Na conciliação busca-se identificar razões ocultas que geraram o conflito.
IV- O mediador propõe sugestões.

Estão CORRETAS as afirmativas:


a) ( ) I e II apenas.
b) ( ) IV apenas.
c) ( ) I, II e III apenas.
d) ( ) III apenas.
e) ( ) Todas estão corretas.

65
66
UNIDADE 2

A ESCOLA, A FAMÍLIA, A
COMUNIDADE E AS DIFERENTES
TÉCNICAS DE MEDIAÇÃO ESCOLAR

OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de:

• entender a importância da mediação escolar;

• identificar o papel da escola, da família e da comunidade na utilização da


mediação e resolução dos conflitos em âmbito escolar;

• estudar a mediação: democracia, acesso à justiça e o empoderamento da


comunidade;

• compreender as diferentes técnicas da mediação escolar.

PLANO DE ESTUDOS
Esta unidade está dividida em três tópicos. No decorrer da unidade
você encontrará autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo
apresentado.

TÓPICO 1 – A MEDIAÇÃO ESCOLAR

TÓPICO 2 – COMO ENFRENTAR A VIOLÊNCIA ESCOLAR?

TÓPICO 3 – AS TÉCNICAS E OS MODELOS DE MEDIAÇÃO ESCOLAR

CHAMADA

Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e vamos em frente!


Procure um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá melhor
as informações.

67
68
UNIDADE 2
TÓPICO 1

A MEDIAÇÃO ESCOLAR

1 INTRODUÇÃO
Por que você deve investir na mediação escolar? Qual o papel do mediador
escolar?

A escola é um ambiente em que ocorrem diversos tipos de conflitos que,


se não forem devidamente observados e tratados, podem se transformar em
grandes problemas. Ao inserir o papel do mediador, a escola ajuda os seus alunos
a melhorar o modo como lidam com conflitos.

Neste tópico, você aprenderá sobre a escola, a família, a comunidade e as


diferentes técnicas de mediação em âmbito escolar. Para tanto, serão estudados
os aspectos históricos e conceituais, a mediação e suas implicações pedagógicas,
a mediação no contexto escolar, os objetivos e a interação escolar abordando o
comportamento e a socialização.

Vamos lá?

2 BREVES ASPECTOS HISTÓRICOS E CONCEITUAIS DA


MEDIAÇÃO ESCOLAR
Antes de adentrarmos nos aspectos conceituais concernentes à mediação
escolar, é necessário conhecermos um pouco sobre sua história. A mediação
escolar é advinda da mediação jurisdicional. Segundo Possato et al. (2016, p. 358),
“surge, assim, na escola, a necessidade de articular meios para contribuir para a
resolução e superação de conflitos de uma forma dialogada, buscando prevenir a
violência e os desequilíbrios de poder”.

69
UNIDADE 2 | A ESCOLA, A FAMÍLIA, A COMUNIDADE E AS DIFERENTES TÉCNICAS DE MEDIAÇÃO ESCOLAR

Em meados da década de 1980, a mediação passa a estender-se a outros


contextos como a comunidade, a família e a mediação penal. [...] no
campo educacional, a mediação escolar se destaca na década de 1980
nos Estados Unidos, quando os Centros de Mediação Comunitária,
criados em meados de 1970, passam a receber numerosos casos de
crianças e jovens em situações de disputa no contexto escolar. Uma
boa parte desses conflitos poderia partir ou desembocar em situações
de discriminação étnico-cultural e de violência. Nos anos 1980, grupos
étnico-culturais minoritários eram alvos nas escolas da discriminação
racial por parte de seus professores e dos outros alunos. [...] os
problemas ligados ao fator diferencial da diversidade étnica – que nós
contemplaríamos como diversidade étnico-cultural e socioeconômica
– se estendem a muitas sociedades multiétnicas – desde nossa
perspectiva, multiculturais – no contexto global (POSSATO et al., 2016,
p. 358).

Foi somente em 1982, com a parceria entre o sistema educacional e os


Centros de Mediação Comunitária que a mediação escolar passou a ganhar
notoriedade; com isso, acabou se expandindo para a Europa e alguns países da
América Latina.

Em 1982, os Community Boards de San Francisco impulsionam a


colaboração entre o sistema educacional e os Centros de Mediação
Comunitária. Gradualmente, as experiências com a mediação de
conflitos nos meios escolares ampliam-se por diversos países e
atualmente é possível encontrar experiências na Europa em países
como França, Grã-Bretanha, Suíça, Bélgica, Polônia, Alemanha,
Espanha, entre outros; também na Nova Zelândia, Austrália, Canadá e
países da América Latina, como Argentina, Chile, Equador, Colômbia,
Venezuela, México, Porto Rico, Brasil, entre outros (POSSATO et al.,
2016, p. 358).

O conflito é inerente às relações humanas, portanto, presente no cotidiano.


A mediação de conflitos surgiu da necessidade de pacificar conflitos entre os
indivíduos. Quando uma situação conflitiva tem seu nascedouro em um ambiente
no qual deveria haver respeito às diferenças, por ser um lugar onde todos estão
na mesma condição, quer dizer, a de alunos, o objetivo maior é a aprendizagem.

Nesse caso, quando o palco do conflito é o ambiente escolar, Silva (2011)


explica que os contextos educativos são contextos de excelência para serem
abordados e trabalhados numa perspectiva integradora, de desenvolvimento
pessoal e social e, nesse sentido, com um forte pendor educacional e formador.

70
TÓPICO 1 | A MEDIAÇÃO ESCOLAR

FIGURA 1 – AS CRIANÇAS

FONTE: <http://www.mpf.mp.br/pb/sala-de-imprensa/noticias-pb/projeto-piloto-de-
mediacao-escolar-sera-apresentado-nesta-quarta-feira-em-joao-pessoa/image_preview>.
Acesso em: 7 abr. 2020.

3 CONCEITUANDO A MEDIAÇÃO ESCOLAR


A mediação é um método de resolução de conflitos no qual um terceiro
imparcial auxilia as partes envolvidas no litígio a encontrarem uma possível
solução, a tratarem os aspectos que levaram ao surgimento daquela situação
conflitiva, por intermédio do diálogo entre elas, mas mantendo a imparcialidade,
sem sugerir formas de acordo.

FIGURA 2 – CONCEITUANDO A MEDIAÇÃO ESCOLAR

FONTE: <https://pt.slideshare.net/francisleide/apresentao-em-slide-para-oficina-de-in-disciplina-
e-mediao-de-conflitos-na-escola>. Acesso em: 7 abr. 2020.

Segundo Sales (2010, p. 1), a mediação “representa um mecanismo de


solução de conflitos pelas próprias partes que, movidas pelo diálogo, encontram
uma alternativa ponderada, eficaz e satisfatória, sendo o mediador a pessoa que
auxilia na construção desse diálogo”.

71
UNIDADE 2 | A ESCOLA, A FAMÍLIA, A COMUNIDADE E AS DIFERENTES TÉCNICAS DE MEDIAÇÃO ESCOLAR

Um dos motivos que originou a utilização da mediação em âmbito escolar,


segundo Morgado e Oliveira (2009, p. 45-46) foi o:

[...] crescimento na utilização da mediação em disputas que envolviam


crianças e jovens, nomeadamente em contexto escolar. E, desse modo,
abordar as disputas escolares através da mediação origina um contexto
em que o conflito é encarado como natural [...]; com isso, objetiva
mostrar aos jovens, alternativas não violentas aos conflitos reais da
sua vida. Além disso, sua conceituação também pode ser estudada sob
o aspecto preventivo, pois ela poderá evitar novos conflitos. Sendo
assim, atuará como [...] forma de prevenir futuros conflitos, pois apela
a um espírito de colaboração, respeito e responsabilidade [...]”.

Ocorre que a mediação acabou sendo ampliada para outras áreas,


inclusive para o ambiente escolar. Na mediação escolar, ela pode ser conceituada
como uma forma completa de acompanhamento do aluno dentro do processo
educacional, não somente no que diz respeito ao ensino-aprendizagem, mas a sua
conduta e higidez mental.

Algumas experiências, contemplando a mediação escolar no Brasil,


merecem destaque, por exemplo: o projeto Escola de Mediadores, ele surgiu no
ano de 2000, junto ao Instituto NOOS, Viva Rio – Balcão de Direitos, Mediare
e Secretaria Municipal de Educação, com duas escolas públicas no Estado do
Rio de Janeiro. Entretanto, ainda não são todas as escolas, tanto públicas quanto
privadas, que possuem algum programa ou setor que trabalhe com a mediação
de conflitos no ambiente escolar (NOOS, 2004).

E
IMPORTANT

8 (oito) razões para apostar na Mediação Escolar:

1. Abandona a ideia tradicional de aplicação de castigos, sermões e críticas em razão das


ações praticadas pelos alunos.
2. Mostra que o conflito também tem seu sentido positivo e transformador, uma vez que
faz parte da essência humana e do dia a dia do indivíduo.
3. Envolve o aprendizado das habilidades e competências (exemplo: empatia e escuta ativa)
necessárias para o enfrentamento dos problemas.
4. Ensina o caráter pedagógico do conflito.
5. Incentiva a comunicação, a autogestão e a responsabilidade pelos atos praticados ao
outro.
6. Ajuda a prevenir controvérsias futuras.
7. Promove comportamentos pró-sociais, como o respeito, a empatia, a cooperação, a
responsabilidade, a solidariedade e a alteridade.
8. Promove resiliência e bem-estar no ambiente social.

FONTE:https://emporiododireito.com.br/leitura/8-razoes-para-apostar-na-mediacao-
escolar. Acesso em: 7 abr. 2020.

72
TÓPICO 1 | A MEDIAÇÃO ESCOLAR

3.1 A MEDIAÇÃO E SUAS IMPLICAÇÕES PEDAGÓGICAS


Inicialmente, a mediação no âmbito escolar foi concebida com a finalidade
do medidor auxiliar o professor regente com relação a alguns alunos possuidores
de alguma espécie de deficiência cognitiva ou física, a qual pudesse ter reflexos
no processo de ensino-aprendizagem, entretanto, com o decurso do tempo,
observou-se que ele poderia ir além e trabalhar a mediação escolar de modo
preventino/restaurativo.

Em termos cognitivos, a pirâmide de aprendizagem do psiquiatra


americano William Glasser denota que o educando absorve 80% do
assunto ou das diferentes experiências obtidas no convívio escolar
quando ele reconhece em si a capacidade de transmitir o conteúdo,
com sua liberdade pessoal, comunicando-se de modo eficiente e
participando diretamente de práticas sociáveis na escola. Para que
se efetive esse processo, o Mediador Escolar atua na mesma rota:
oportuniza ao aluno uma (con)vivência sadia, dinâmica e democrática,
estimulando seu progresso e sua autoemancipação social e individual
(SWAROWSKI, 2017, p. 1).

A mediação no ambiente escolar possui algumas implicações pedagógicas


relativas aos aspectos educacionais e psicológicos e suas contribuições para o
desenvolvimento do processo mediativo.

Há muito que se pensa em alternativas práticas e de eficácia para,


de fato, concretizar uma educação convidativa e que, efetivamente,
integre todos os alunos. Por certo a Pedagogia também possui
campos de estudo dedicados à inclusão educacional, tanto que nesta
perspectiva criou-se a figura do profissional plenamente habilitado
para atuar em casos peculiares inerentes às mais diversas condições
de cada educando, com suas particularidades e comportamentos
(SWAROWSKI, 2017, p. 1).

A principal motivação que levou à utilização da mediação na escola


é a escalada da violência entre alunos e entre estes e os professores, já que é
recorrente o surgimento de notícias acerca da prática do bullying escolar e de
suas modalidades, inclusive o ciberbullying, que é aquele praticado em ambiente
virtual, comumente nas mídias sociais e de agressões tanto verbais quanto físicas
praticadas por alunos contra professores.

Acerca da temática da violência escolar, formas e combate, prevenção,


modelos e o papel do mediador escolar, estudaremos de modo mais detalhado na
próxima unidade de ensino.

73
UNIDADE 2 | A ESCOLA, A FAMÍLIA, A COMUNIDADE E AS DIFERENTES TÉCNICAS DE MEDIAÇÃO ESCOLAR

3.2 A MEDIAÇÃO NO CONTEXTO ESCOLAR


A mediação no contexto escolar foi trazida para o ambiente escolar
devido à violência a qual estava e ainda está invadindo a seara escolar, através
das práticas do bullying entre os alunos e até contra professores.

A mediação no setor da educação é essencial para o fortalecimento


de nossa democracia, exercício de cidadania, otimização do judiciário
e para a economia. Tem papel importante para o desenvolvimento
de uma nova cultura de diálogo e construção de uma sociedade
mais pacífica, além de desenvolver nas crianças as competências
emocionais, sociais e de comunicação (MOL, 2018, p. 1).

FIGURA 3 – MEDIAÇÃO NO CONTEXTO ESCOLAR

FONTE: <http://www.tjes.jus.br/wp-content/uploads/curso-mediacao-787.jpg>.
Acesso em: 7 abr. 2020.

Com relação ao estudo da mediação escolar, não podemos deixar de


mencionar Lev Vygotsky (1896-1934), visto que ele aliou conhecimentos da
Psicologia e da Educação em seus estudos e mencionou o termo mediação e/ou
“ação mediada”. Para ele, mediação “é o processo de intervenção de um elemento
intermediário numa relação” (OLIVEIRA, 1997, p. 26).

Quando uma criança sofre bullying na escola, antes de encaminhar


os envolvidos diretamente para a diretoria da escola (terceirização da
solução), as partes envolvidas podem ser convidadas a uma mediação
para expor o problema através de um diálogo diferente, auxiliado por
um mediador, que as auxiliará para que elas solucionem a questão por
elas mesmas, possibilitando que cheguem a fundo do problema, se
assim quiserem, focando nas necessidades e interesses das partes, com
soluções mais criativas e efetivas (MOL, 2018, p. 1).

A mediação quando implementada no ambiente escolar visa proporcionar


uma oportunidade dos envolvidos na situação conflitiva para conseguirem
resolver seus próprios conflitos, diferentemente do que ocorre nas decisões
emanadas do Poder Judiciário, em que uma decisão é imposta.

74
TÓPICO 1 | A MEDIAÇÃO ESCOLAR

É um meio consensual flexível que envolve a cooperação dos


participantes, auxiliado por um mediador, independente e imparcial.
Este mediador pode ser um professor mediador, um mediador mirim
treinado para a mediação entre pares (peer mediation), ou mediador
externo. O mediador aturará como um facilitador para uma interação
diferente entre as pessoas em conflito, melhorando a comunicação,
acarretando em um diálogo colaborativo, positivo, com foco nos reais
interesses e necessidades das partes, na busca de reflexões e soluções
conjuntas, sendo as próprias partes as protagonistas da solução (MOL,
2018, p. 1).

O mediador é um terceiro imparcial que não tem interesse no conflito, não


realiza propostas para as partes e nem é capaz de impor decisões. Como um Juiz na
condução de um processo, ele atuará como facilitador do diálogo, demonstrando
as possibilidades de as partes visualizarem o conflito real e construírem a paz.

3.3 OBJETIVOS DA MEDIAÇÃO ESCOLAR


Com a mediação escolar há uma nova retomada de consciência por parte
dos discentes, pois a sua prática traz benefícios, tais como: o desenvolvimento da
comunicação, uma maior percepção do outro, capacidade de resolver os próprios
problemas e lidar com as dificuldades, e auxilia a desenvolver a capacidade de se
colocar no lugar do outro, ou seja, a empatia.

Os docentes, ao participarem da mediação no ambiente escolar, também


colhem benefícios, assim como os pais dos alunos e a própria escola.

Os professores, por sua vez, conseguem se concentrar melhor em
suas atividades diárias de ensino, melhoram a sua capacidade de
compreender os conflitos, de comunicação e de resolver os problemas
relacionados com o trabalho no ambiente escolar. Para os pais, também
é importante, pois acabam por participar mais ativamente das questões
relacionadas com os seus filhos, em especial situações de conflitos,
acabam por absorver esta cultura de diálogo e de responsabilidade
social de utilizar antes a mediação, servindo de exemplo para o seu
dia a dia. E a escola também se beneficia com a melhora do ambiente
escolar (MOL, 2018, p. 1).

A prática da mediação no espaço escolar possui função pedagógica, de


aprendizagem e desenvolvimento de habilidades cognitivas e sociais, promovendo
a comunicação não violenta, fomenta a pacificação de conflitos entre os alunos,
desde que os professores também mergulhem nesse processo. A autora Iungman
(1996, p. 41) aponta alguns objetivos da mediação escolar:

Constrói sentido mais forte de cooperação e comunidade com a escola;


melhora o ambiente na aula por meio da diminuição da tensão e da
hostilidade; desenvolve o pensamento crítico e habilidades para
a solução de problemas; melhora as relações entre os estudantes
e os professores; aumenta a participação dos alunos e desenvolve
habilidades de liderança; resolve as disputas entre as pessoas
que interferem no processo de educação; melhora a autoestima
dos membros da comunidade escolar; facilita a comunicação e as
habilidades de análise de comportamentos para a vida cotidiana.
75
UNIDADE 2 | A ESCOLA, A FAMÍLIA, A COMUNIDADE E AS DIFERENTES TÉCNICAS DE MEDIAÇÃO ESCOLAR

A aplicação da mediação escolar está atrelada aos direitos humanos e à


cidadania. Segundo Oliveira e Cruz (2018, p. 1), “a educação em Direitos Humanos
é o canal com possibilidades de produzir uma sociedade igualitária, com uma
formação consciente desde a infância, a formação do sujeito de direito”.

4 A INTERAÇÃO ESCOLAR: COMPORTAMENTO E


SOCIALIZAÇÃO
A interação escolar ocorre entre professor-aluno e contempla o
ambiente escolar como um todo, é necessária no processo de construção ensino-
aprendizagem. Entretanto, ao longo dos anos, o comportamento dos alunos em
sala de aula tem se modificado, com a ocorrência de episódios de violência verbal
e física contra seus colegas e professores, por intermédio das práticas do bullying
escolar e isso acaba prejudicando a aprendizagem e a socialização.

FIGURA 4 – A INTERAÇÃO ESCOLAR

FONTE: <https://conpublica.files.wordpress.com/2013/07/escola-familia.gif?w=300&h=135&
zoom=2>. Acesso em: 7 abr. 2020.

Considerando, portanto, que o processo de ensino-aprendizagem


escolar é constituído de interações entre professores e alunos, que
trabalham pelo objetivo comum da aprendizagem do aluno, uma
questão que se põe é a do que acontece com o aluno enquanto ele
aprende. O problema assim colocado implica procurar saber quais
são as diversas modificações do desempenho do aluno à medida que
ele se relaciona com seus professores. As alterações do desempenho
dos alunos podem ser tomadas como indicadores/objetivos das
aprendizagens que ocorrem. Trata-se de alguma coisa bastante
concreta, a ser examinada e avaliada tendo por base as contribuições ao
desenvolvimento da criança. Vale reafirmar que estas aprendizagens
são aprendizagens sociais (GIL, 1993, p. 1).

Já o processo de socialização, segundo Amaral (2007, p. 2), consiste em


um “processo interativo, fundamental para o desenvolvimento, através do qual
o indivíduo assimila a cultura do seu grupo social, ao mesmo tempo em que
perpetua esse grupo”. Ocorre que quando a criança nasce, ela já está inserida no
seio familiar, trata-se do primeiro aspecto da socialização, tendo como segundo
o meio escolar.

76
TÓPICO 1 | A MEDIAÇÃO ESCOLAR

O ambiente escolar e universitário não pode ser visto somente como um


espaço para se adquirir conhecimentos teóricos, tem que proporcionar também o
crescimento e o amadurecimento pessoal.

O espaço escolar escolariza para confundir processo com substância.


Alcançando isso, uma nova lógica entra em jogo: quanto mais longa
a escolaridade, melhores resultados; ou, então, a graduação leva ao
sucesso. O aluno é, desse modo, ‘escolarizado’ a confundir ensino
com aprendizagem, obtenção de grau com educação, diploma com
competência, fluência no falar com capacidade de dizer algo novo. Sua
imaginação é ‘escolarizada’ a aceitar serviço em vez de valor (ILLICH,
1973, p. 21).

A escola é tida como aquela que fornece os instrumentos necessários para


a construção do conhecimento, posto que tem a missão de preparar o indivíduo
para suas atividades profissionais, entretanto, essa visão conceitual nos parece
um tanto quanto minimalista acerca do papel da escola, pois ela é um local de
interação, de aprendizagens, de vivências e experiências determinadas pelo
comportamento do indivíduo.

As interações estabelecidas em sala de aula entre professor-aluno


e aluno-aluno revelam-se imprescindíveis para o processo de
aprendizagem, ou seja, entende-se que a aprendizagem depende da
interação. O professor tem papel fundamental na interação como
subsídio para o processo de aprendizagem de seus educandos, pois
ele faz o papel de mediador dando suporte às construções. Fica
evidenciado que o processo de aprendizagem ocorre em decorrência
de interações sucessivas entre as pessoas, a partir de uma relação
vincular. Entende-se, assim, que é, portanto, através do outro que
o indivíduo adquire novas formas de pensar e agir e, dessa forma,
apropria-se (ou constrói) novos conhecimentos (MADKE; BIANCHI;
FRISON, 2013, p. 5-8).

Em suma, com relação à interação escolar na prática, ela facilita o


entendimento do aluno dos conteúdos repassados, visto que as relações de
afeto entre os estudantes e entre estes e o docente são essenciais, pois facilitam a
compreensão e a assimilação da matéria. Salienta-se, também, que para ocorrer a
aprendizagem, é imprescindível que haja interação.

Qual a razão para que a afetividade seja essencial para o processo de ensino-
aprendizagem? Ela é fundamental para que ocorra o processo de aprendizagem,
já que um aluno seguro questiona e participa das aulas, todavia, esse processo
poderá restar prejudicado a partir do momento em que começam a acontecer
no espaço escolar casos de violência física e moral, como na prática de bullying/
ciberbullying nos quais a empatia e o respeito são deixados de lado.

77
RESUMO DO TÓPICO 1
Neste tópico, você aprendeu que:

• A mediação escolar é advinda da mediação jurisdicional. O conflito é inerente


às relações humanas, portanto, presente no cotidiano.

• A mediação de conflitos surgiu da necessidade de pacificar conflitos entre


os indivíduos. Quando uma situação conflitiva tem seu nascedouro em um
ambiente no qual deveria haver respeito às diferenças, por ser um lugar onde
todos estão na mesma condição, quer dizer, a de alunos, o objetivo maior é a
aprendizagem.

• A mediação é um método de resolução de conflitos no qual um terceiro imparcial


auxilia as partes envolvidas no litígio a encontrarem uma possível solução, a
tratarem os aspectos que levaram ao surgimento daquela situação conflitiva,
por intermédio do diálogo entre elas, mas mantendo a imparcialidade, sem
sugerir formas de acordo.

• A mediação acabou sendo ampliada para outras áreas, inclusive para o


ambiente escolar. Na mediação escolar, ela pode ser conceituada como uma
forma completa de acompanhamento do aluno dentro do processo educacional,
não somente no que diz respeito ao ensino-aprendizagem, mas a sua conduta
e higidez mental.

• Inicialmente, a mediação no âmbito escolar foi concebida com a finalidade do


medidor auxiliar o professor regente com relação a alguns alunos possuidores
de alguma espécie de deficiência cognitiva ou física, a qual pudesse ter reflexos
no processo de ensino-aprendizagem, entretanto, com o decurso do tempo,
observou-se que ele poderia ir além e trabalhar a mediação escolar de modo
preventino/restaurativo.

• A principal motivação que levou à utilização da mediação na escola é a escalada


da violência entre alunos e entre estes e os professores, já que é recorrente
o surgimento de notícias acerca da prática do bullying escolar e de suas
modalidades, inclusive o ciberbullying, que é aquele praticado em ambiente
virtual, comumente nas mídias sociais e de agressões tanto verbais quanto
físicas praticadas por alunos contra professores.

• A mediação no contexto escolar foi trazida para o ambiente escolar devido


à violência a qual estava e ainda está invadindo a seara escolar, através das
práticas do bullying entre os alunos e até contra professores.

78
• A mediação quando implementada no ambiente escolar visa proporcionar uma
oportunidade dos envolvidos na situação conflitiva para conseguirem resolver
seus próprios conflitos, diferentemente do que ocorre nas decisões emanadas
do Poder Judiciário, em que uma decisão é imposta.

• Com a mediação escolar há uma nova retomada de consciência por parte dos
discentes, pois a sua prática traz benefícios, tais como: o desenvolvimento
da comunicação, uma maior percepção do outro, capacidade de resolver os
próprios problemas e lidar com as dificuldades, e auxilia a desenvolver a
capacidade de se colocar no lugar do outro, ou seja, a empatia.

• A interação escolar ocorre entre professor-aluno e contempla o ambiente escolar


como um todo, é necessária no processo de construção ensino-aprendizagem.
Entretanto, ao longo dos anos, o comportamento dos alunos em sala de aula
tem se modificado, com a ocorrência de episódios de violência verbal e física
contra seus colegas e professores, por intermédio das práticas do bullying
escolar e isso acaba prejudicando a aprendizagem e a socialização.

79
AUTOATIVIDADE

1 Os programas de educação para a resolução de conflitos mostram aos alunos


a dinâmica do poder e providenciam uma compreensão básica acerca da
natureza do conflito e do papel da cultura na forma de resolvê-los. No que
diz respeito a esse tema, assinale a alternativa CORRETA:

FONTE: <https://www.qconcursos.com/questoes-de-concursos/questoes/68fed9e0-b3>.
Acesso em: 7 abr. 2020.

a) ( ) A criação de ambientes de aprendizagem seguros implica no aumento


do número de suspensões e acarreta maior evasão escolar.
b) ( ) O desenvolvimento pessoal e social dos alunos inclui a aprendizagem
de competências de resolução de problemas, o treino das aptidões
para reconhecer e lidar com as emoções, a identificação e a redução
das orientações agressivas e das atribuições hostis e a utilização de
estratégias construtivas em casos de conflito nas escolas e no contexto
familiar e comunitário.
c) ( ) A promoção de ambientes de aprendizagem construtivos consiste no
aumento do rendimento dos alunos, sem preocupação com a disciplina.
d) ( ) É de responsabilidade exclusiva do professor o trabalho de
implementação da mediação escolar, de modo a desenvolver um
conjunto de ações que permitam solucionar os conflitos entre os alunos
pacificamente.

2 Quanto aos diferentes contextos de aplicação da mediação, analise as


afirmativas a seguir:

I- A mediação escolar possibilita a educação em valores e a educação para a


paz, a partir de soluções construtivas para o conflito, diante da convivência
diária.
II- A mediação comunitária estimula a participação ativa dos cidadãos na
solução de conflitos individuais e coletivos, bem como favorece a inclusão
social.
III- A mediação familiar favorece a manutenção dos vínculos psicoafetivos
de seus integrantes, além de diminuir o volume processual nas Varas de
Família.
IV- A mediação empresarial leva a uma redução dos custos legais e de tempo,
além de resguardar o sigilo das pendências em discussão.

Assinale a alternativa CORRETA:


a) ( ) Somente a afirmativa I está correta.
b) ( ) Somente a afirmativa II está correta.
c) ( ) Somente a afirmativa III está correta.
d) ( ) As afirmativas I, II, III e IV estão corretas.
e) ( ) Somente a afirmativa IV está correta.

80
3 Andrea é mãe de Igor, um menino que é portador de Síndrome de Asperger,
e está enfrentando algumas resistências na Instituição de Ensino em que
ele está matriculado. A professora não está sabendo conduzir a turma para
ajudar a enfrentar as dificuldades de adaptação e sociabilidade de Igor e
este a cada dia tem se apresentado mais arredio. Andrea já conversou com a
professora e com a diretora da escola, mas nada mudou. Andrea lhe procura
e relata tudo o que vem acontecendo, solicitando sua ajuda para uma melhor
administração dos conflitos que têm enfrentado, principalmente por querer
manter o respeito e a harmonia no ambiente escolar de forma que possa
manter seu filho na Instituição de Ensino, melhorando assim a comunicação
com todos que estão envolvidos na adaptação de Igor na escola. Diante das
solicitações de Andrea, qual seria a melhor sugestão?

a) ( ) Propor uma arbitragem.


b) ( ) Propor uma mediação escolar.
c) ( ) Propor uma negociação.
d) ( ) Procurar uma outra escola.
e) ( ) Propor uma ação judicial.

4 A mídia tem noticiado a ocorrência de episódios violentos entre alunos


de diferentes estabelecimentos de ensino, como xingamentos, ameaças e
agressões físicas (bullying). Os princípios da Mediação Escolar podem ser
aplicados a esses casos, como:

a) ( ) Reduzir os custos processuais e de tempo na solução do conflito.


b) ( ) Possibilitar a aprendizagem de novos valores, harmonização das
diferenças, em uma cultura para a paz.
c) ( ) Possibilitar a resolução de questões complexas e a confidencialidade do
conflito jurídico.
d) ( ) Favorecer a convivência diária a partir da imposição de um único padrão
de conduta aceitável.
e) ( ) Resguardar o sigilo dos conflitos ocorridos, de modo a não trazer
consequências negativas para o futuro.

5 (2019 - CONSULPAM- Prefeitura de Viana - ES - Professor) Bullying é uma


prática de atos de violência, físicos ou psicológicos, que são cometidos
por um ou mais agressores contra uma determinada vítima. Sobre as
consequências deste ato, assinale a alternativa CORRETA:

FONTE: <https://www.qconcursos.com/questoes-de-concursos/disciplinas/pedagogia-pedagogia/
temas-contemporaneos-bullying-violencia-o-papel-da-escola-a-escolha-da-profissao-transtornos-
alimentares-na-adolescencia-familia-escolhas-sexuais/questoes>. Acesso em: 12 abr. 2020.

a) ( ) Os autores ainda crianças que praticam o Bullying tem pouca


probabilidade de se tornarem adultos com comportamentos violentos.
b) ( ) Nem todos que sofrem o Bullying são capazes de ficar com sequelas.
Somente aqueles que possuem baixa autoestima sofrem com tal ato.
c) ( ) A troca de colégio e o abandono de estudos podem acontecer como forma
de solucionar o medo e a falta de amigos que o alvo possa vir a sentir.
d) ( ) As testemunhas, apesar de não sofrerem as agressões diretamente,
podem se sentir incomodados e inseguros sobre o que fazer para ajudar.
81
82
UNIDADE 2 TÓPICO 2

COMO ENFRENTAR A VIOLÊNCIA ESCOLAR?

1 INTRODUÇÃO
Nos dias de hoje são praticados diversos tipos de violência na escola.
Como lidar e combater esse problema? 

Neste tópico, você aprenderá sobre o enfrentamento da violência escolar,


as formas de combate à violência escolar, a prevenção e os modelos, o papel do
mediador na escola, a escola e a comunidade, o papel da escola e da família, a
educação inclusiva e a inclusão social.

Bons estudos!

2 FORMAS DE COMBATE À VIOLÊNCIA ESCOLAR:


PREVENÇÃO E MODELOS
A violência está cada vez mais presente no ambiente escolar. Para tanto,
é necessário encontrar métodos de combate à violência escolar, mas, para isso, o
envolvimento dos alunos, das famílias e da comunidade escolar é essencial.

Como as escolas podem enfrentar o problema da violência? Estudos


recentes trazem respostas elucidativas para esta pergunta: • as escolas
que foram bem-sucedidas na redução e prevenção das violências
desenvolveram estratégias capazes de promover mudanças qualitativas:
• na relação com os alunos; • na participação das famílias e da
comunidade; • no engajamento dos professores e demais funcionários;
• no uso e na percepção do espaço físico; • na sociabilidade; • na própria
imagem da escola (RIBAS; RIBAS JR., 2004, p. 17).

Para ter efetividade, a prevenção necessita do envolvimento de todos,


tais como: alunos, professores, funcionários, diretores de escola e pais, enfim, da
comunidade escolar, mas, além disso, o apoio das autoridades públicas torna-se
imprescindível.

Já no que concerne aos modelos de combate à violência escolar, temos o


modelo de mediação entre pares ou mediação mirim (peer mediation), modelo de
mediação em rede, modelo professores-alunos e os Círculos Restaurativos/Justiça
Restaurativa.

83
UNIDADE 2 | A ESCOLA, A FAMÍLIA, A COMUNIDADE E AS DIFERENTES TÉCNICAS DE MEDIAÇÃO ESCOLAR

3 O PAPEL DO MEDIADOR NA ESCOLA


O papel do mediador em âmbito escolar é fundamental, pois ele poderá
atuar em casos de conflitos como mediador/facilitador dentro da própria escola
na qual ele atua, mas, para isso, ele necessitará ter uma preparação anterior.

FIGURA 5 – O MEDIADOR ESCOLAR

FONTE: <https://blogs.funiber.org/pt/wp-content/uploads/2017/03/funiber-mediador-escolar-
570x350.gif>. Acesso em: 7 abr. 2020.

Como já ressaltamos, os conflitos fazem parte da natureza humana


e nas escolas eles estão muito presentes. É por isso que os alunos
precisam municiar-se de ferramentas, estratégias e habilidades
para gerenciá-los positivamente, para que possam ser vistos como
oportunidades de mudanças e de crescimento. Ao aprender sobre o
conflito, as crianças e os jovens aprendem mais sobre eles mesmos. As
reuniões restaurativas são excelentes meios de gerenciamento positivo
dos conflitos, pois nela trabalhamos e discutimos os sentimentos e
as necessidades não atendidas, levando à restauração das relações,
além de permitir o desenvolvimento de diversos valores, tais como
a interconexão, a humildade, a fraternidade, o pertencimento, entre
outros. Para as reuniões restaurativas, a escola precisa realizar algumas
ações muito simples e que facilitarão para que essas ferramentas
possam ser colocadas em prática (NUNES, 2014, p. 55).

Entretanto, não é somente professores que poderão atuar como


mediadores e/ou facilitadores em caráter voluntário nos círculos mediativos,
restaurativos ou círculos de paz, também poderão fazer parte indivíduos da
comunidade escolar, pais e até mesmo alunos. Nesse caso, a escola poderá formar
uma equipe para atuar. Com relação ao local mais indicado para a realização das
sessões de mediação escolar, “o local propício para serem realizadas as sessões de
mediação é na própria escola, ele pode ser simples e pequeno, desde que permita
a sigilosidade para conversarem sobre o ocorrido” (NUNES, 2014, p. 56).

84
TÓPICO 2 | COMO ENFRENTAR A VIOLÊNCIA ESCOLAR?

A escola deve ter um local, p. ex., na secretaria da escola, para a solicitação


das reuniões restaurativas. No local poderá haver um caderno no qual
o estudante solicitará a realização de uma mediação ou círculo. Pode-se,
ainda, adotar um baú de sugestões para que os alunos mais inibidos
solicitem a reunião restaurativa. Se o aluno vier encaminhado para a
Direção da Escola por ato indisciplinar, a escola poderá oferecer-lhe
uma reunião restaurativa, como alternativa à punição prevista nas
regras disciplinares da escola (NUNES, 2014, p. 56).

Quando ocorrer uma situação, por exemplo, envolvendo os alunos, como


nos casos de bullying e/ou de indisciplina escolar, poderá ser encaminhada uma
proposta de resolução do conflito por intermédio dos círculos restaurativos,
mediativos e/ou de paz, mas, para isso, é necessária uma autorização dos pais e/
ou responsáveis.

É importante que os pais ou responsáveis autorizem os filhos a


participar das mediações e dos círculos restaurativos. Esta autorização
pode ser dada no momento da matrícula do filho na escola. A escola
deve informar a comunidade escolar que está adotando formas
alternativas de resolução de conflitos e deve explicar o que são as
Mediações e os Círculos e como eles funcionam; quais os passos de
funcionamento dessas dinâmicas; quais são os horários, dias e locais
de funcionamento; e como uma pessoa pode solicitar uma Mediação
ou um Círculo (NUNES, 2014, p. 56).

Ainda sobre a atuação do facilitador dos círculos restaurativos/mediativos


ou de paz, é interessante ressaltar que ele precisa ser aceito, enfim, bem-visto
diante da comunidade escolar, não há obrigatoriedade de que o facilitador seja
um professor.

Qualquer pessoa que tenha disponibilidade para trabalhar como


voluntário pode ser mediador ou facilitador nas mediações e nos
círculos em geral. Pode ser um adolescente ou um adulto e o trabalho
desta pessoa será o de coordenar uma mediação ou um círculo
restaurativo. Se a unidade escolar possuir condições, poderá haver
alguns profissionais especialmente habilitados para exercer tais
funções; pode, ainda, contar com voluntários que podem ser alunos,
pais de alunos e membros da comunidade, entre outros. É importante
que o mediador ou facilitador tenha boa aceitação na escola; boa
autoestima; compromisso com o diálogo e o desejo de escutar o
outro; aceite a autonomia da vontade das partes (respeite as decisões
das partes) e tenha um treinamento básico para iniciar os trabalhos
(NUNES, 2014, p. 58).

Quanto à postura do facilitador/mediador, Nunes (2014, p. 58) ressalta


que:

Na prática, o mediador e o facilitador exercem papéis proativos e


são responsáveis por criar e manter uma atmosfera que promova a
cooperação e a solução de problemas de forma colaborativa, em que
o mediador ou facilitador trilhará múltiplos e imprevisíveis caminhos
que levarão as partes conflitantes a continuar a cooperação até
chegarem ao consenso.

85
UNIDADE 2 | A ESCOLA, A FAMÍLIA, A COMUNIDADE E AS DIFERENTES TÉCNICAS DE MEDIAÇÃO ESCOLAR

Para a realização das sessões dos círculos restaurativos não existem regras
exatas quanto à formação dos facilitadores/mediadores, mas eles precisam ser
indivíduos que possuam iniciativa, capazes de criar um ambiente harmonioso e
de colaboração entre as partes envolvidas.

4 A ESCOLA E A COMUNIDADE
Na formação do indivíduo não é somente a família que desenvolve papel
importante, igualmente a escola e a comunidade também constituem pilares
fundamentais, pois a participação da comunidade constitui elemento essencial
para democratizar a escola. O engajamento da comunidade escolar está presente
na denominada Gestão Democrática de ensino, entretanto, a escola precisa ser
bem administrada para poder posteriormente dar lugar à gestão escolar.

Para Portes (2011, p. 2), “a mudança do modelo de administração para o de


gestão não significa uma simples substituição termológica da palavra, pois trata-
se de um novo entendimento das organizações educacionais”. Por conseguinte,
o termo gestão em si não traduz somente o trabalho coletivo da organização
escolar, mas também de qualquer organização.

A Gestão Democrática, concebida por intermédio da participação da


comunidade escolar, traz um engajamento escola e comunidade objetivando a
qualidade do ensino. Esse modelo chamado de gestão escolar surgiu no Brasil na
década de 1990.

[...] a relação entre o Estado e as políticas públicas nos anos


1990 tem sofrido novos contornos, decorrentes, dentre outros,
de alterações substantivas nos padrões de intervenção estatal
que resultam na emergência de novos mecanismos e formas de
gestão, redirecionando as políticas públicas e, particularmente, as
educacionais. A análise das políticas educacionais neste contexto
nos remete à busca da compreensão das prioridades e compromisso
que as delineiam, retratando, desse modo, interesses e funções
alocadas a essas políticas no bojo dos novos padrões de intervenção
estatal (FERREIRA, 1998, p. 77).

O Ministério da Educação – MEC –, com essa reforma, buscou tornar


mais moderno e menos burocrático o acesso ao ensino, com a descentralização do
ensino e dos recursos e a participação de toda a comunidade escolar.

A reforma enfraqueceu a antiga concepção de direção autoritária


e individualista, por onde emergia a figura onipresente do diretor,
como o único responsável pela escola, e o Estado como o principal
detentor dos recursos financeiros. Por este novo viés de entendimento
de Gestão Escolar, surge a necessidade da participação de todos,
tornando a escola mais democratizada na perspectiva dos órgãos
centrais (PORTES, 2011, p. 2).

86
TÓPICO 2 | COMO ENFRENTAR A VIOLÊNCIA ESCOLAR?

No passado, o modelo de escola concebido era o daquela que permanecia


inerte, não tendo na comunidade escolar sua participação. Nesse contexto, a
autoridade suprema da escola era encarnada na figura do diretor.

Visto que, atualmente, o papel da escola é de completo abandono


e desinteresse, a fim de auxiliar no processo de sua democratização, a Lei de
Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de
1996), em seu artigo 14, diz que a gestão democrática é um processo e para tanto
necessita de participação dos alunos, professores, funcionários e pais.

Art. 14 [...] os sistemas de ensino definirão as normas da gestão


democrática do ensino público na educação básica de acordo com suas
peculiaridades e conforme os seguintes princípios: I- participação dos
profissionais da educação na elaboração do projeto pedagógico da
escola; II- participação da comunidade escolar local em seus conselhos
escolares equivalentes (BRASIL, 1996, s.p.).

Diante do exposto, resta salientar que a escola e a comunidade têm


papel primordial na formação do indivíduo, mesmo em face da violência e da
indisciplina escolar, a qual poderá ser enfrentada e solucionada com o uso do
diálogo e da empatia por intermédio da mediação escolar, tendo por prática
a Justiça Restaurativa utilizando os círculos restaurativos, mediativos e/ou
círculos de paz.

5 O PAPEL DA ESCOLA E DA FAMÍLIA


A escola, ao trazer os pais para fazerem parte do cotidiano escolar,
contribui para que a educação possa ser dividida entre a escola e a família, com o
intuito de auxiliar na formação do indivíduo de modo integral.

FIGURA 6 – A ESCOLA E A FAMÍLIA

FONTE: <https://static.fecam.net.br/thumbs/394/1418876_resize_380_600.png>. Acesso em:


7 abr. 2020.

87
UNIDADE 2 | A ESCOLA, A FAMÍLIA, A COMUNIDADE E AS DIFERENTES TÉCNICAS DE MEDIAÇÃO ESCOLAR

Lembrando que a educação é um assunto muito importante para estar


apenas nas mãos da família ou da escola, no entanto são os principais
pontos de sustentação do indivíduo, assim, proponho analisar essa
relação por vezes conflitante, mas de extrema necessidade para a
criança. Portanto, é essa educação partilhada é que constrói o caráter
do cidadão consciente que buscamos ter hoje em nossa sociedade,
pois a educação passa pela família e depois pela escola mostrando
seus reflexos na sociedade, [...] pois é a educação que constrói e
orienta a formação do caráter da criança, assim a educação deve ser
desenvolvida de acordo com a realidade social em que a criança está
inserida (LIMA, 2019, p. 1).

Para conseguir alcançar essa integração entre a escola e a família, algumas
barreiras precisam ser enfrentadas a fim de aperfeiçoar a convivência entre elas.
Ao conseguir trazer os pais e/ou responsáveis, ou seja, a família para participar
do ambiente escolar, eles poderão observar as condições de cada aluno.

Algumas escolas somente contatam os pais ou responsáveis no fim


do semestre ou até mesmo por ocasião de fim de ano para poderem entregar
o boletim ou conversar acerca do desempenho do aluno, e, em alguns casos,
somente chamam os pais quando têm alguma queixa para fazer a respeito do
comportamento ou das notas do discente; esse tipo de atitude só contribui para
aumentar o abismo existente entre escola e pais.

Trazer os pais e responsáveis para vivenciar o ambiente escolar


também é muito importante, inclusive, para  conhecer a realidade
dos alunos. É comum a família ser  acionada somente para entregar
o boletim ou para a  escola fazer alguma queixa sobre o aluno. Esse
tipo de coisa não é saudável e pode desgastar a relação entre família e
escola (HAUBER, 2015, p. 1).

Obviamente, a atual conjuntura econômica e social não permite mais que


um dos pais não trabalhe fora como era comum há algumas décadas, pois hoje na
maioria das famílias pai e mãe trabalham, entretanto, isso não pode ser alegado
como impedimento para o não comparecimento nas reuniões da escola e/ou uma
conversa reservada com os professores ou orientadores pedagógicos acerca do
desempenho escolar e comportamental de seu filho.

No entanto, algumas famílias não conseguem atender aos anseios da


escola e de seu filho, muitas vezes não por descaso, mas por falta de condições não
somente materiais, mas intelectuais, pois há pais que não possuem escolaridade
suficiente nem sequer para auxiliar os filhos com alguma pesquisa para algum
trabalho ou no dever da escola.

Além do abandono intelectual e material por parte da família, o aluno


poderá se envolver dentro da escola em episódios de violência tanto moral
quanto física, essas agressões ocorrem mais comumente na pré-adolescência e na
adolescência.

88
TÓPICO 2 | COMO ENFRENTAR A VIOLÊNCIA ESCOLAR?

[...] os casos de violência mais significativos, geralmente, acontecem na


pré-adolescência, não nos primeiros anos de escolaridade – fase em que
existe um diálogo maior entre família e escola e o acompanhamento da
rotina do aluno. Quando chegam à pré-adolescência e à adolescência,
a escola deveria buscar compreender as vontades e expectativas dos
alunos e não tolher os modos de vestir, falar e de se divertir (HAUBER,
2015, p. 1).

De qual forma de violência na escola estamos falando? Essa forma evidente


de violência tanto moral quanto física no ambiente escolar é o bullying.

Bullying: palavra de origem inglesa adotada em muitos países para


definir o desejo consciente e deliberado de maltratar uma outra pessoa
e colocá-la sob tensão; termo que conceitua os comportamentos
agressivos e antissociais, utilizado pela literatura psicológica anglo-
saxônica nos estudos sobre o problema da violência escolar. Em
alguns países, existem outros termos para conceituar esses tipos de
comportamentos. Mobbing é um deles, empregado na Noruega e na
Dinamarca; mobbning, na Suécia e na Finlândia. Na França, denominam
harcèlement quotidién; na Itália, de prepotenza ou bullismo; no Japão, é
conhecido como Yjime; na Alemanha, conhecido como agressionen
unter shülern; na Espanha, como acoso y amenaza entre escolares; em
Portugal, como maus-tratos entre pares (FANTE, 2005, p. 27, grifos do
autor).

A prática do bullying pode ser conceituada como a prática de atos que


denotam falta de amor, de empatia pelo semelhante, já que na maioria dos casos
tais práticas são realizadas a fim de enaltecer algum defeito ou deficiência física,
mental ou orientação sexual da vítima, por ela ser diferente e não se encaixar nos
padrões tido como aceitáveis para os agressores.

Com isso, percebemos que a participação da família na escola poderá se


dar em forma de ações positivas, desde orientações que podem ser passadas em
âmbito familiar, como o respeito, o amor, a empatia e a caridade ao semelhante,
até o auxílio e a participação em algumas práticas escolares.

É nesse sentido que a família passa a participar da escola, com


pequenas intervenções no processo educacional da criança que gera
grandes mudanças no seu comportamento e aprendizado. Sendo
assim, a escola necessita da presença dos pais na escola, para que
possam identificar quais as dificuldades que a criança encontra dentro
e fora da escola. A família não deve apenas criticar a escola, nem
responsabilizá-la pelo fracasso escolar de seus filhos, ela deve sugerir
propostas para a escola para complementar o ensino de seus filhos,
deve-se interessar pelos problemas que seu filho possa encontrar nas
disciplinas escolares e se precisam de ajuda (LIMA, 2019, p. 2).

Em síntese, podemos apontar muitas dificuldades na relação família/


escola, tendo como principal aspecto a falta de interesse dos pais em participar
das atividades promovidas pela escola, sendo inúmeras as justificativas para essa
não participação, somente comparecendo no espaço escolar quando chamados

89
UNIDADE 2 | A ESCOLA, A FAMÍLIA, A COMUNIDADE E AS DIFERENTES TÉCNICAS DE MEDIAÇÃO ESCOLAR

para resolver algum problema relacionado ao seu filho, seja por causa do
processo ensino-aprendizagem ou de algum comportamento inadequado, todos
esses fatores contribuem para não existir uma comunicação entre pais e escola.
Já os alunos, ao perceberem o desinteresse dos pais, ficam desmotivados para
a aprendizagem, já que não possuem o suporte necessário para adquirirem
conhecimento.

DICAS

Sugestão de filme: Sociedade dos poetas mortos.

Assista ao trailer: https://www.youtube.com/watch?v=Oo9R1neW4lw.


Sugestão de documentário: Mediação de Conflitos na Escola - Professora Jussara Seidel
Acesse: https://www.youtube.com/watch?v=ToJnxAwabkY.

5.1 POR UMA EDUCAÇÃO INCLUSIVA


A educação inclusiva e a mediação escolar possuem uma estreita relação,
já que uma visa encorajar a outra, pois em certos casos temos alunos portadores
de deficiências físicas e cognitivas, os quais em certas situações do cotidiano
escolar acabam sendo excluídos e sofrendo alguma forma de discriminação,
sendo vítimas de bullying pelos colegas. É nesse momento que surge o papel do
mediador escolar, podendo ser até mesmo o próprio professor regente da classe
ou atuando em conjunto com ele.

Vargas e Rodrigues (2018, p. 7) afirmam que “no contexto da educação


inclusiva, o mediador escolar é aquele que acompanha o estudante durante o
dia letivo, ou seja, o mediador escolar passa todo o horário letivo ao lado do
aluno, mediando situações e relações, detectando e pensando maneiras de sanar
as dificuldades”.

O mediador é aquele que no processo de aprendizagem favorece a


interpretação do estímulo ambiental, chamando a atenção para os
seus aspectos cruciais, atribuindo significado à informação recebida,
possibilitando que a mesma aprendizagem de regras e princípios sejam
aplicados às novas aprendizagens, tornando o estímulo ambiental
relevante e significativo, favorecendo o desenvolvimento. O mediador
pode levar a criança a detectar variações por meio da diferenciação de
informações sensoriais, como visão, audição e outras; reconhecer que
está enfrentando um obstáculo e identificar o problema. Pode também
contribuir para que a criança tome mais iniciativa mediante diferentes
contextos, sem deixar que este processo siga automaticamente e
encorajar a criança a ser menos passiva no ambiente (MOUSINHO et
al., 2010, p. 94).

90
TÓPICO 2 | COMO ENFRENTAR A VIOLÊNCIA ESCOLAR?

O mediador necessita ter uma ampla percepção do aluno, não somente


quanto às atividades pedagógicas desenvolvidas por ele na escola, mas
principalmente no que diz respeito as suas relações com os colegas e com
professores, isso está relacionado ao modo como ocorre a socialização dos alunos
no ambiente escolar.

Vargas e Rodrigues (2018, p. 7) apontam acerca da mediação escolar


que “a compreensão da impossibilidade de se trabalhar sozinho revela-se um
grande passo em direção à inclusão, que só se efetiva com a atuação de toda a
escola e com interlocução entre os atores envolvidos, sejam mediadores, gestores,
profissionais de saúde, entre outros”.

Exercer a atividade de mediador escolar é algo que exige empenho, pois


trabalha com os sentimentos e comportamentos dos indivíduos e seu contato
com o conhecimento, enfim, os aspectos psicológicos do processo de ensino-
aprendizagem.

Tal atividade tende a exigir persistência e dedicação, visto que


reproduzir estratégias, mesmo aquelas que tenham alcançado êxito
com outros alunos, nem sempre se mostra algo eficaz, considerando
que a heterogeneidade é um ponto basal da subjetividade humana.
Assim sendo, é demandado que o mediador escolar desenvolva, em
parceria com o professor regente, com a escola e os responsáveis pelo
aluno, estratégias que levem em consideração a singularidade da
pessoa, valorizando sua história, suas habilidades, potencialidades,
dificuldades, preferências, seu tempo e suas condições de evolução
(VARGAS; RODRIGUES, 2018, p. 8).

Infelizmente, não são todas as escolas que podem contar com a mediação em
âmbito escolar para resolver conflitos oriundos de alunos com alunos, envolvidos
na prática do bullying, alunos com professores em casos de indisciplina e/ou
atrasos no pagamento das mensalidades das escolas particulares.

A inserção da mediação escolar encontra amparo legal na Lei Brasileira


de Inclusão da Pessoa com Deficiência – Lei nº 13.146/2015, no seu artigo 28, XVII
e na Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do
Espectro Autista – Lei nº 12.764/2012, no artigo 3º, IV, a e § único, respectivamente:
“Art. 28. Incumbe ao poder público assegurar, criar, desenvolver, implementar,
incentivar, acompanhar e avaliar: [...] XVII – oferta de profissionais de apoio
escolar” (BRASIL, 2015, s.p.).

Art. 3º. São direitos da pessoa com transtorno do espectro autista:


[...] IV – o acesso: a) à educação e ao ensino profissionalizante; [...]
Parágrafo único. Em casos de comprovada necessidade, a pessoa com
transtorno do espectro autista incluída nas classes comuns de ensino
regular, nos termos do inciso IV do art. 2º, terá direito a acompanhante
especializado (BRASIL, 2012, s.p.).

91
UNIDADE 2 | A ESCOLA, A FAMÍLIA, A COMUNIDADE E AS DIFERENTES TÉCNICAS DE MEDIAÇÃO ESCOLAR

Esses dois dispositivos legais não mencionam literalmente a expressão


“mediação escolar”, mas trazem a figura de um profissional que proporcione
apoio escolar, restando esse papel ao professor, principalmente nas escolas
públicas ou em alguns casos por estagiários e bolsistas de curso de graduação em
pedagogia, psicologia ou assistência social.

5.2 A INCLUSÃO SOCIAL


A inclusão social na escola, também denominada de inclusão educacional
de pessoas com algum tipo de deficiência física ou mental, pode ser compreendida
como aquela prática na qual a escola busca reunir todos os indivíduos no processo
de ensino-aprendizagem, sem distinções devido à cor, condição social, orientação
sexual e/ou aspectos físicos e psicológicos.

A respeito da conceituação do termo inclusão social, Sassaki (1997, p. 41)


ensina que ela constitui “um processo bilateral no qual as pessoas, ainda excluídas,
e a sociedade buscam, em parceria, equacionar problemas, decidir sobre soluções
e efetivar a equiparação de oportunidades para todos”.

[...] são considerados alunos com necessidades especiais àqueles que,


por apresentarem necessidades próprias e diferentes dos demais
alunos, exigem recursos pedagógicos e metodológicos educacionais
específicos. Consideram-se integrantes desse grupo alunos com
deficiência mental, visual, auditiva, múltipla, condutas típicas e
altas habilidades. Desse modo, deve-se buscar a construção de uma
sociedade onde todos tenham direitos iguais, independente do sexo,
da cor, da idade ou da deficiência. É através da inclusão social que
os tabus e preconceitos são rompidos, possibilitando a aceitação das
diferenças individuais, da valorização de cada pessoa, do convívio
dentro da heterogeneidade humana e da aprendizagem por meio da
colaboração. É a partir da convivência que se aprende a viver com a
diferença (FERREIRA et. al., 2015, p. 3).

É nesse contexto que a escola poderá trabalhar a compreensão, o respeito


e a aceitação dos alunos por um colega que possui algum tipo de deficiência, por
intermédio da empatia, ou seja, demonstrando que é preciso se colocar no lugar
do outro e aproveitando para tratar acerca da temática do bullying.

A própria norma, por intermédio da Constituição da República Federativa


do Brasil, trata no Capítulo III, da educação, da cultura e do desporto, na seção I,
da educação, acerca da inclusão social em âmbito escolar, no artigo 205:

Art. 205. A educação, direito de todos e dever do Estado e da família,


será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando
ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da
cidadania e sua qualificação para o trabalho (BRASIL, 1988, s.p.).

92
TÓPICO 2 | COMO ENFRENTAR A VIOLÊNCIA ESCOLAR?

Entretanto, não basta somente a previsão normativa para que a escola


consiga atender esses anseios, é necessário planejamento estratégico e pedagógico,
pois além das adaptações físicas no ambiente escolar, por exemplo, a construção
de rampas, banheiros e salas adaptadas, deve haver uma preparação de igual
forma por parte dos professores, coordenadores pedagógicos, monitores e
demais funcionários a fim de receberem e tratarem da melhor forma possível
aquele aluno.

Além disso, é preciso preparar os demais alunos para conviver e aceitar
um colega que possua algumas limitações físicas, mentais ou cognitivas, para não
gerar, ainda que não propositadamente, nenhum tipo de desconforto para aquele
aluno especial.

Em suma, ao abordarmos o tema inclusão social na escola estamos


enfatizando a prática de um comportamento oposto àquele criado pelo bullying,
pois ele hostiliza, segrega e preconiza o preconceito e a exclusão de determinados
alunos.

93
RESUMO DO TÓPICO 2
Neste tópico, você aprendeu que:

• A violência está cada vez mais presente no ambiente escolar. Para tanto, é
necessário encontrar métodos de combate à violência escolar, mas, para isso, o
envolvimento dos alunos, das famílias e da comunidade escolar é essencial.

• No que concerne aos modelos de combate à violência escolar, temos o modelo


de mediação entre pares ou mediação mirim (peer mediation), modelo de
mediação em rede, modelo professores-alunos e os Círculos Restaurativos/
Justiça Restaurativa.

• O papel do mediador em âmbito escolar é fundamental, pois ele poderá atuar


em casos de conflitos como mediador/facilitador dentro da própria escola na
qual ele atua, mas, para isso, ele necessitará ter uma preparação anterior.

• Quando ocorrer uma situação, por exemplo, envolvendo os alunos, como nos
casos de bullying e/ou de indisciplina escolar, poderá ser encaminhada uma
proposta de resolução do conflito por intermédio dos círculos restaurativos,
mediativos e/ou de paz, mas, para isso, é necessária uma autorização dos pais
e/ou responsáveis.

• Para a realização das sessões dos círculos restaurativos não existem regras
exatas quanto à formação dos facilitadores/mediadores, mas eles precisam ser
indivíduos que possuam iniciativa, capazes de criar um ambiente harmonioso
e de colaboração entre as partes envolvidas.

• Na formação do indivíduo não é somente a família que desenvolve papel


importante, igualmente a escola e a comunidade também constituem pilares
fundamentais, pois a participação da comunidade constitui elemento essencial
para democratizar a escola. O engajamento da comunidade escolar está
presente na denominada Gestão Democrática de ensino, entretanto, a escola
precisa ser bem administrada para poder posteriormente dar lugar à gestão
escolar.

• A escola e a comunidade têm papel primordial na formação do indivíduo,


mesmo em face da violência e da indisciplina escolar, a qual poderá ser
enfrentada e solucionada com o uso do diálogo e da empatia por intermédio
da mediação escolar, tendo por prática a Justiça Restaurativa utilizando os
círculos restaurativos, mediativos e/ou círculos de paz.

94
• A escola, ao trazer os pais para fazerem parte do cotidiano escolar, contribui
para que a educação possa ser dividida entre a escola e a família, com o intuito
de auxiliar na formação do indivíduo de modo integral.

• Podemos apontar muitas dificuldades na relação família/escola, tendo como


principal aspecto a falta de interesse dos pais em participar das atividades
promovidas pela escola, sendo inúmeras as justificativas para essa não
participação, somente comparecendo no espaço escolar quando chamados para
resolver algum problema relacionado ao seu filho, seja por causa do processo
ensino-aprendizagem ou de algum comportamento inadequado, todos esses
fatores contribuem para não existir uma comunicação entre pais e escola. Já
os alunos, ao perceberem o desinteresse dos pais, ficam desmotivados para
a aprendizagem, já que não possuem o suporte necessário para adquirirem
conhecimento.

• A educação inclusiva e a mediação escolar possuem uma estreita relação, já


que uma visa encorajar a outra, pois em certos casos temos alunos portadores
de deficiências físicas e cognitivas, os quais em certas situações do cotidiano
escolar acabam sendo excluídos e sofrendo alguma forma de discriminação,
sendo vítimas de bullying pelos colegas. É nesse momento que surge o papel
do mediador escolar, podendo ser até mesmo o próprio professor regente da
classe ou atuando em conjunto com ele.

• A inclusão social na escola, também denominada de inclusão educacional de


pessoas com algum tipo de deficiência física ou mental, pode ser compreendida
como aquela prática na qual a escola busca reunir todos os indivíduos no
processo de ensino-aprendizagem, sem distinções devido à cor, condição
social, orientação sexual e/ou aspectos físicos e psicológicos.

• Não basta somente a previsão normativa para que a escola consiga atender
esses anseios, é necessário planejamento estratégico e pedagógico, pois além
das adaptações físicas no ambiente escolar, por exemplo, a construção de
rampas, banheiros e salas adaptadas, deve haver uma preparação de igual
forma por parte dos professores, coordenadores pedagógicos, monitores e
demais funcionários a fim de receberem e tratarem da melhor forma possível
aquele aluno.

95
AUTOATIVIDADE

1 (2018 - SASDH/RJ – Pedagogo /FGV – Adaptada) A violência assola a


sociedade brasileira dentro dos espaços educacionais. O bullying, termo
utilizado para descrever atos de violência física ou psicológica, intencionais
e repetidos, praticados em uma relação desigual de poder, por um indivíduo
ou grupo de indivíduos, causando dor e angústia, se apresenta como
normalidade no convívio social. É preciso um fazer pedagógico que tenha
o objetivo de ensinar a todos e a cada um, pautado no respeito, direitos
humanos, ternura, diálogo, solidariedade e esperança na busca do convívio
promissor, orientador das energias vitais e cognitivas de alunos, professores,
comunidades, grupos e famílias, sendo que estas devem ser o primeiro
laboratório de resolução não violenta de conflitos para o qual é necessário
qualificar a capacidade de escuta e percepção dos valores envolvidos na
comunicação. Essa pedagogia já existe e é denominada pedagogia do(a):
FONTE: <https://questoes.grancursosonline.com.br/questoes-de-concursos/pedagogia-relacao-
aluno-professor-e-familia>. Acesso em: 7 abr. 2020.

a) ( ) Aliança.
b) ( ) Valoração.
c) ( ) Avanço.
d) ( ) Convivência.

2 (2017 – PNS/A – (CESPE/CEBRASPE – Adaptada) A respeito da atuação do


professor no atendimento das propostas de escolas inclusivas, assinale a
alternativa CORRETA:

FONTE: <https://questoes.grancursosonline.com.br/questoes-de-concursos/pedagogia-relacao-
aluno-professor-e-familia>. Acesso em: 7 abr. 2020.

a) ( ) O professor deverá planejar suas aulas independentemente do


planejamento da escola, já que conhece as particularidades das
necessidades educacionais de cada um dos seus alunos.
b) ( ) Para atender alunos com necessidades educacionais especiais, o
professor deverá contar com o apoio de profissionais especializados.
c) ( ) Para não prejudicar o desenvolvimento dos alunos da educação regular,
o professor não deve modificar a sua ação pedagógica para atender
alunos com necessidades educacionais especiais.
d) ( ) Para atender às necessidades dos alunos, independentemente de
apresentarem ou não necessidades educacionais especiais, o professor
deve realizar avaliações classificatórias do processo educativo e valorizar
o esforço individual de cada um.

96
3 “Hoje, há uma grande discussão a respeito do grau de responsabilidade da
família e da escola na educação das crianças. Isso gera um frequente jogo de
empurra, principalmente por parte da escola, que ainda não se adaptou aos
novos tempos e insiste que a sua função é a transmissão do conhecimento.
Não é mais. À família cabe a formação dos filhos para que se tornem pessoas
de bem. À escola cabe a formação dos alunos para que se tornem cidadãos
ativos, críticos, livres, capazes de buscar a justiça, de ser solidários, respeitosos
e, acima de tudo, capazes de apreciar a diversidade” (Rosely Sayão). Para a
psicóloga, a educação familiar e a escolar são radicalmente diferentes. São
formações diferentes e complementares. Para educar, a família e a escola têm
por base, respectivamente:

FONTE: <https://questoes.grancursosonline.com.br/questoes-de-concursos/pedagogia-relacao-
aluno-professor-e-familia>. Acesso em: 7 abr. 2020.

a) ( ) A punição e a instrução.
b) ( ) A hereditariedade e a socialização.
c) ( ) As regras e as informações.
d) ( ) Os afetos e o conhecimento.

4 (2012 – TJ/PE/PE – FCC – Adaptada) A participação dos pais no cotidiano da


escola é:

FONTE: <https://questoes.grancursosonline.com.br/questoes-de-concursos/pedagogia-relacao-
aluno-professor-e-familia>. Acesso em: 7 abr. 2020.

a) ( ) Invasiva, pois os alunos acabam se dispersando de suas atividades


diárias.
b) ( ) Eventual, pois a maioria dos pais trabalha e não pode estar continuamente
na escola.
c) ( ) Restrita aos momentos de reunião de pais e mestres ou individuais.
d) ( ) Esperada, mas deve estar vinculada diretamente aos objetivos e ações da
escola.

5 (2012 – SEE/MG – FCC) Para estimular a participação das famílias no


ambiente escolar, a escola deve:

FONTE: <https://questoes.grancursosonline.com.br/questoes-de-concursos/pedagogia-relacao-
aluno-professor-e-familia>. Acesso em: 15 abr. 2020.

a) ( ) Acolher as famílias para que todos se sintam bem naquele ambiente e


possam expor sua opinião e desenvolver reuniões para compartilhar o
trabalho realizado na escola, apresentando sugestões de como os pais
podem dar suporte para seus filhos.
b) ( ) Planejar o acolhimento dos pais no início do ano e nas datas
comemorativas e propiciar atendimentos em uma reunião semestral
de pais para explicitar os problemas disciplinares ou dificuldades de
aprendizagem dos alunos.

97
c) ( ) Realizar reuniões com as famílias no início e no fim do ano letivo para
informar as regras da escola e avaliar os avanços dos alunos, além de
realizar o atendimento individual dos pais cujos filhos apresentam
problemas na escola.
d) ( ) Estabelecer regras claras de convivência no espaço escolar apontando
possibilidades e limites da participação dos pais na unidade e
desenvolver um sistema de comunicação eficiente para que os pais
estejam bem informados sobre os acontecimentos da escola.

98
UNIDADE 2 TÓPICO 3

AS TÉCNICAS E OS MODELOS DE MEDIAÇÃO ESCOLAR

1 INTRODUÇÃO
Os modelos de mediação escolar são: a mediação entre pares ou mediação
mirim (peer mediation), a mediação em rede, a mediação professores-alunos e os
círculos restaurativos/justiça restaurativa.

Neste tópico, você aprenderá acerca das técnicas de mediação escolar,


tais como: as diferentes técnicas de mediação escolar; a escuta inclusiva/ativa; a
estruturação das atividades: intervenções, sessões e fases, o rapport (empatia);
o tratamento equânime das partes e a assertividade do facilitador/mediador
escolar; a credibilidade e a confiança necessárias ao mediador na mediação
escolar; a criatividade do mediador: produção, avaliação e seleção de ideias.

Bons estudos!

2 AS DIFERENTES TÉCNICAS DE MEDIAÇÃO ESCOLAR


De que forma a escola contribuirá para a formação de um indivíduo capaz
de se colocar no lugar do outro? Percebemos que quando a mediação é trabalhada
em âmbito escolar prematuramente, ou seja, desde a fase da pré-adolescência, os
alunos estarão preparados para lidar com as diferenças e saberão lidar com os
conflitos quando eles surgirem. Para tanto, trabalharemos a seguir as diferentes
técnicas da mediação escolar.

2.1 A ESCUTA INCLUSIVA/ATIVA


Saber ouvir é de extrema importância na mediação, inclusive na área
escolar. A prática da escuta ativa na mediação é o momento no qual as partes em
conflito se sentem respeitadas pelo mediador, pois a escuta não adversarial, não
violenta, faz com que os indivíduos sejam acolhidos.

99
UNIDADE 2 | A ESCOLA, A FAMÍLIA, A COMUNIDADE E AS DIFERENTES TÉCNICAS DE MEDIAÇÃO ESCOLAR

Escuta ativa: é o resultado de um conjunto de ações, nomeadamente,


demonstrar interesse (sobre a situação de conflito e as possibilidades de
construir a paz), clarificar (o que expõem as partes mediante diversas
intervenções), parafrasear (repetir as ideias e os fatos básicos), refletir
(ajudar a que o outro seja mais consciente do que sente) e, por último,
resumir (sumariar a informação que foi apresentada). Desse modo, o
mediador exercita também uma atitude pessoal de colocar no lugar
do outro para compreender o que o outro diz e sente, aspecto este
que o aproxima da atitude empática de que se fala à frente (CUNHA;
MONTEIRO, 2016, p. 117).

Segundo Bacellar (2003), é a “escuta não nervosa”, aquela que é feita


calmamente pelo mediador aplicando sua capacidade de se colocar no lugar
daquele que está lhe narrando a situação conflitiva.

2.2 ESTRUTURANDO AS ATIVIDADES: INTERVENÇÕES,


SESSÕES E FASES
A resolução de conflitos escolares, por intermédio da mediação, necessita
ser realizada de modo organizado, respeitando e estruturando as atividades, tais
como: as intervenções, as sessões e as fases.

FIGURA 7 – TÉCNICAS DE MEDIAÇÃO

FONTE: <https://www.cnj.jus.br/mediacao-de-conflitos-nas-escolas-em-busca-da-pacificacao-
social/>. Acesso em: 7 abr. 2020.

100
TÓPICO 3 | AS TÉCNICAS E OS MODELOS DE MEDIAÇÃO ESCOLAR

O melhor momento para o início da prática é logo após a finalização


da etapa de capacitação, quando esses alunos estarão aptos a
enfrentar situações reais. Primeiramente, é necessário que a escola
tome conhecimento que existem alunos habilitados a mediar, por
meio de cartazes ou outras formas próprias da escola. Outra forma
de divulgação eficiente é feita pelos próprios alunos capacitados, que
passam em cada sala de aula se apresentando e explicando o trabalho
que irão desenvolver (CNMP, 2009, p. 22).

“Estruturação das atividades: compete ao mediador a realização de


intervenções para garantir a ordem e a direção do processo de mediação e das
suas fases, assim como manter os mediados focalizados nos assuntos principais
do conflito” (CUNHA; MONTEIRO, 2016, p. 117).

Alguns autores afirmam que as etapas de execução podem ser
as seguintes: 1ª)  sensibilização: etapa de sensibilização e difusão
da cultura com professores, pais, funcionários, alunos e todos os
integrantes da comunidade educativa;
2ª) introdução: reuniões com os alunos e/ou professores para início da
implantação do programa;
3ª) capacitação: treinamento para os professores e/ou alunos;
4º) efetivação: instalação de um centro de mediação escolar;
5ª) monitoria constante: monitoramento, supervisão e avaliação da
experiência. É muito importante realizar um planejamento, delinear
os objetivos do programa e os recursos disponíveis para obter êxito na
implementação da mediação escolar (MOL, 2018, p. 2).

A estrutura da mediação em âmbito escolar está relacionada às práticas


que serão adotadas pela escola na qual ela será implementada, sendo que essas
estarão atreladas ao programa de prevenção à violência escolar que será aplicada
na escola.

2.3 O RAPPORT (EMPATIA)


O mediador de conflitos precisa ter a capacidade de se colocar no lugar
daquele de quem ele estará a ouvir o relato da situação conflitiva, ou seja, as
versões das duas partes, mas precisa fazer isso dentro da prática da escuta ativa.

O mediador deve promover expressões que demonstrem que cada parte


em conflito compreende a visão do conflito, sentimentos, interesses
e posições da outra parte, levando a que cada envolvido se consiga
colocar no lugar do outro (e, assim, percecionar a outra perspetiva de
sentir, pensar e agir nos problemas através desse exercício) (CUNHA;
MONTEIRO, 2016, p. 117).

A empatia, segundo Müller (2012, p. 2):

101
UNIDADE 2 | A ESCOLA, A FAMÍLIA, A COMUNIDADE E AS DIFERENTES TÉCNICAS DE MEDIAÇÃO ESCOLAR

Pode ser descrita como a facilidade em identificar e compreender (e


expressar tal compreensão) afetos, percepções, intenções, problemas,
motivos e interesses dos outros, de maneira sensível e acurada,
[...] o que ocorre por intermédio da leitura e da compreensão de
comportamentos não verbais de comunicação, tais como expressões
faciais, tom de voz e postura corporal.

É preciso salientar, entretanto, que a empatia não pode ser confundida


com o estabelecimento de juízo de valor acerca do que foi relatado pelas partes
sobre o conflito ou a tomada de posição para beneficiar um dos envolvidos
naquela situação conflitiva, pois o mediador precisa manter-se imparcial.

2.4 DO TRATAMENTO EQUÂNIME DAS PARTES E DA


ASSERTIVIDADE DO FACILITADOR/MEDIADOR ESCOLAR
A atuação do mediador, quando se dá em âmbito dos conflitos escolares,
precisa ser pautada por algumas condutas relacionadas à ética, como é o caso
do tratamento equânime dispensado às partes e a assertividade do facilitador/
mediador ao tratar da situação conflitiva.

FIGURA 8 – CÍRCULO RESTAURATIVO

FONTE: <https://www.cnj.jus.br/wp-content/uploads/2017/07/a22addb7bb93302e9feead
30e99c747c.jpg>. Acesso em: 8 abr. 2020.

102
TÓPICO 3 | AS TÉCNICAS E OS MODELOS DE MEDIAÇÃO ESCOLAR

Equilibrar o poder e respeitar as partes de igual modo: dirigir-se a elas


com respeito pela sua individualidade; assertividade: entre outras,
evidenciar paciência e capacidade de conferir autoestima às partes
em contenda. [...] a assertividade de um mediador é revelada em
quatro aspectos básicos, a saber: na autonomia do mediador para
expressar e manifestar o que considera do processo; na capacidade
para comunicar com as partes de forma sincera e aberta; numa atitude
proativa e numa atuação assente na compreensão e aceitação das suas
limitações (CUNHA; MONTEIRO, 2016, p. 117).

O tratamento equânime das partes, segundo Müller (2012, p. 2), está


relacionado “às características que o mediador deve desenvolver e a uma postura
imparcial, neutra e ética, atuando em conjunto com os envolvidos”.

A assertividade do mediador ao tratar o conflito, para Müller (2012, p.


2), demonstra que ele precisa ser “um terceiro equilibrado, imparcial e deve
auxiliar na criação e no desenvolvimento de alternativas para a solução de seus
problemas, além de ser o administrador do processo de mediação”.

Em suma, percebemos que o tratamento igualitário das partes quando


da realização da mediação escolar por parte do mediador/facilitador de conflitos
é fundamental para o desenvolvimento das sessões de mediação, pois as partes
precisam ser tratadas com respeito, para se sentirem à vontade para dialogarem
acerca da situação conflitiva. Já a assertividade do mediador está relacionada ao
conhecimento técnico dele e a forma como ele é aplicado na condução das sessões.

DICAS

Sugestão de filme: O Extraordinário.


Assista ao trailer: https://www.youtube.com/watch?v=6g80d7igX0k.

2.5 DA CREDIBILIDADE E CONFIANÇA NECESSÁRIAS AO


MEDIADOR NA MEDIAÇÃO ESCOLAR
Outra técnica que pode ser utilizada pelo mediador escolar é o
desenvolvimento de uma relação de credibilidade e confiança com os mediandos,
semeada desde o primeiro contato e mantida conforme avançam as sessões de
mediação com os envolvidos na situação conflitiva.

103
UNIDADE 2 | A ESCOLA, A FAMÍLIA, A COMUNIDADE E AS DIFERENTES TÉCNICAS DE MEDIAÇÃO ESCOLAR

Criar um clima de credibilidade e de confiança: maximizar o alcance de


consensos e de um acordo integrativo entre os envolvidos. No sentido
de ajudar os mediados a encontrarem uma zona possível de encontro
dos seus interesses, valores e afetos, que seja passível de satisfazer
adequadamente os seus objetivos, o mediador dinamiza a comunicação
entre eles. Para que isso seja possível, deve criar um diálogo sincero e
aberto, estabelecendo um prévio acordo de confidencialidade entre as
partes e o próprio mediador (CUNHA; MONTEIRO, 2016, p. 118).

Segundo Müller (2012, p. 2), “é fundamental que os mediadores


demonstrem capacidades em conduzir o processo de mediação com destreza
e sensibilidade, sendo capazes de reconhecer aspectos transferenciais e
contratransferenciais manifestados”.

A atuação do mediador no ambiente escolar deve ser capaz de transmitir


aos envolvidos na situação conflitiva credibilidade e confiança em seu trabalho,
mas para isso ser alcançado, é necessária a preparação adequada por intermédio
de cursos e capacitação para lidar com conflitos envolvendo alunos, professores,
pais e até mesmo demais funcionários de determinada instituição de ensino,
podendo, por exemplo, abranger situações envolvendo práticas de bullying e
indisciplina escolar ou casos de negociação de mensalidades escolares em atraso.

2.6 DA CRIATIVIDADE DO MEDIADOR: PRODUÇÃO,


AVALIAÇÃO E SELEÇÃO DE IDEIAS
Ao conduzir as sessões de mediação escolar, o mediador precisa lançar
mão de todas as técnicas de que dispõe para compreender e auxiliar as partes na
compreensão do conflito e na construção do diálogo; para isso, poderá utilizar-se
da criatividade para a produção, a avaliação e a seleção de ideias para se chegar
a um possível acordo.

“Criatividade: inventariar alternativas, criar novas soluções, reenquadrar


temas, centrar-se nas soluções (e não nos conflitos ou nos problemas em que estes
se baseiam), ultrapassar pontos mortos na negociação entre as partes, centrar-
se na relação futura dos envolvidos, entre outros procedimentos” (CUNHA;
MONTEIRO, 2016, p. 118).

Em âmbito escolar, a criatividade do mediador ao identificar o conflito


e trazer para o diálogo dos envolvidos a denominada “tempestade de ideias”,
proporciona criar alternativas, buscar novas soluções e superar aspectos já
anteriormente debatidos pelas partes.

Sendo uma dessas formas criativas a adoção dos círculos restaurativos,


mediativos ou de paz na modalidade de Círculo do Restabelecimento, tendo
como:

104
TÓPICO 3 | AS TÉCNICAS E OS MODELOS DE MEDIAÇÃO ESCOLAR

[...] objetivo partilhar a dor de uma pessoa ou grupo de pessoas que


vivenciaram um trauma ou uma perda. Poderá surgir um plano de
ajuda, mas este não é um requisito necessário. Um aluno do décimo ano
foi encaminhado para o Círculo por estar faltando às aulas. Ele também tem
problemas por fumar na escola. No segundo Círculo contou que se sentiu
muito mal quando foi expulso no oitavo ano e ficou todo o segundo semestre
fora da escola. Ninguém da equipe pedagógica sabia que essa experiência tinha
sido tão traumática para o menino e sua mãe, até que falaram do assunto no
Círculo. O menino contou aos participantes que aquela era a primeira ocasião,
desde o oitavo ano, em que sentia que as pessoas da escola realmente estavam
tentando compreender o que tinha acontecido com ele (PRANIS, 2010, p. 29,
grifos do autor).

Em síntese, a mediação realizada em âmbito escolar é essencial, pois ela


evita que acontecimentos fáceis de serem resolvidos por intermédio do diálogo
em uma sessão restaurativa tome proporções traumáticas para as vítimas e
agressores, como nos casos de bullying e indisciplina escolar, assim como a escola
também cria um ambiente pacífico próprio para a aprendizagem.

3 MODELOS DE MEDIAÇÃO ESCOLAR: MEDIAÇÃO ENTRE


PARES OU MEDIAÇÃO MIRIM (PEER MEDIATION), MEDIAÇÃO
EM REDE, MEDIAÇÃO PROFESSORES-ALUNOS E OS
CÍRCULOS RESTAURATIVOS/JUSTIÇA RESTAURATIVA
No ambiente escolar, poder-se-á fazer uso de alguns modelos de mediação,
dentre eles destacamos o modelo da mediação entre pares ou mediação mirim
(peer mediation), da mediação em rede, da mediação professores-alunos e dos
círculos restaurativos/justiça restaurativa.

O primeiro modelo de mediação a ser abordado será a mediação entre
pares ou mediação mirim (peer mediation).

Modelo de mediação entre pares ou mediação mirim (peer mediation):


nesse caso os próprios alunos são capacitados e treinados para atuar
como mediadores, desenvolvendo habilidades de comunicação e
resolução de conflitos para mediar e ajudar outros alunos. É o modelo
com resultados mais efetivos a longo prazo, pois capacita crianças que
levam os ensinamentos para suas comunidades e já aprendem uma
habilidade técnica profissional (MOL, 2018, p. 1).

A mediação entre pares ou mediação mirim (peer mediation), é aquela


promovida entre iguais/semelhantes, pois os alunos são formados como
mediadores para resolver conflitos entre si e disseminar essa aprendizagem para
o local onde residem. Outro modelo de mediação escolar a ser tratado será o da
mediação em rede.

105
UNIDADE 2 | A ESCOLA, A FAMÍLIA, A COMUNIDADE E AS DIFERENTES TÉCNICAS DE MEDIAÇÃO ESCOLAR

Modelo de mediação em rede: o objetivo desse modelo cria uma rede


de mediadores na escola para mediar todos os conflitos relacionados
com o ambiente escolar, inclusive com a ajuda de profissionais e
mediadores externos que formam uma rede de apoio à escola (MOL,
2018, p. 1).

Como terceiro modelo de mediação, temos a mediação professores-alunos.


Nesse modelo de mediação é montada uma rede de apoio de fora da escola, já
que aqui os mediadores trabalham para mediar conflitos envolvendo questões
escolares. Por exemplo: conflitos entre alunos, envolvendo casos de bullying ou
questões de falta de disciplina.

Modelo professores-alunos: nesse modelo os próprios professores são


capacitados para atuar como mediadores nas questões e conflitos da
própria escola. Os alunos também podem ser capacitados, mas nesse
caso somente membros da própria comunidade escolar atuarão na
mediação dos conflitos (MOL, 2018, p. 1).

Esse modelo de mediação abarca professores e alunos da comunidade


escolar como aptos a atuarem como mediadores nos conflitos existentes na escola.
Por exemplo: mediar uma briga surgida entre colegas de uma mesma classe.

Por fim, o último modelo de mediação escolar a ser estudado são os


círculos restaurativos/justiça restaurativa.

Círculos Restaurativos/Justiça Restaurativa: os círculos restaurativos


ou de paz são encontros nos quais toda a comunidade, os alunos, pais
e professores, tratam dos principais problemas ou conflitos existentes
na escola e através do diálogo buscam soluções com a participação de
todos, inclusive com a possibilidade de escuta das vítimas e agressores
nos casos de bullying e violência (MOL, 2018, p. 1).

Os denominados Círculos Restaurativos, Círculos Mediativos ou


Círculos de Paz foram trazidos da concepção de Justiça Restaurativa. Para Zehr
(2012, p. 31), a Justiça Restaurativa “parte de uma concepção muito antiga de
delito, baseada no senso comum. Mesmo que ela seja expressa de modo distinto
em culturas diferentes, esta abordagem provavelmente é comum a todas as
sociedades tradicionais”.

Os círculos restaurativos, mediativos e/ou de paz estão encaixados dentro


das práticas da Justiça Restaurativa que podem ser adotadas no ambiente escolar.
É preciso compreender inicialmente, o momento no qual surgiu o movimento
da Justiça Restaurativa, pois ele é proveniente de um esforço de repensar as
necessidades que o crime gera e os papéis inerentes ao ato lesivo.

Os defensores da Justiça Restaurativa examinaram as necessidades que não


estavam sendo atendidas pelo processo legal corrente e “observaram também que
é por demais restritiva a visão prevalente de quais são os legítimos participantes ou
detentores de interesses no processo judicial” (ZEHR, 2012, p. 24).

106
TÓPICO 3 | AS TÉCNICAS E OS MODELOS DE MEDIAÇÃO ESCOLAR

A Justiça Restaurativa amplia o círculo dos interessados no processo


(aqueles que foram afetados ou têm uma posição em relação ao evento
ou ao caso) para além do Estado e do ofensor, incluindo também
as vítimas e os membros da comunidade. À medida que o campo
da Justiça Restaurativa se desenvolveu, a análise dos detentores de
interesse tornou-se mais complexa e abrangente. Ela também se limita
às necessidades “judiciais” – necessidades das vítimas, ofensores e
membros da comunidade que podem ser atendidas, ao menos em
parte, pelo sistema judicial (ZEHR, 2012, p. 24).

O objetivo da Justiça Restaurativa é lançar um novo olhar para o conflito


existente, possibilitando atenção especial para as vítimas dos atos ilícitos e que,
além da responsabilização do ofensor, ela proporciona que ele venha a mudar
suas atitudes, seu comportamento enquanto cidadão.

As abordagens circulares surgiram nas comunidades aborígines do


Canadá. Para descrever o processo, o juiz Barry Stuart, cujo um desses
círculos foi reconhecido pela primeira vez através de sentença judicial,
escolheu o termo “Círculos de Construção de Paz”. Hoje os círculos
têm inúmeras aplicações. Além dos círculos de sentenciamento, que
objetivam determinar sentenças para processos criminais, há círculos
de apoio (em preparação a círculos de sentenciamento), há círculos
para lidar com conflitos no ambiente de trabalho, e até círculos como
forma de diálogo comunitário (ZEHR, 2012, p. 62).

Neste contexto, surgem os Círculos Restaurativos como sendo uma das


aplicações provenientes da Justiça Restaurativa.

O conceito e a filosofia da Justiça Restaurativa surgiram durante as


décadas de 1970 e 1980 nos Estados Unidos e Canadá, com a prática
então chamada Programa de Reconciliação Vítima-Ofensor (Victim
Offender Reconciliation Program – VORP). Desde então, este programa
foi modificado e novas formas de prática apareceram. Metodologias
antigas foram remodeladas e ganharam o nome de “restaurativas”
(ZEHR, 2012, p. 53).

Para tanto, o meio escolar tem recorrido a essa espécie de prática restaurativa
na mediação escolar, por intermédio dos Círculos Restaurativos, Círculos
Mediativos ou Círculos de Paz, a fim de tratar os conflitos escolares provenientes
de desentendimentos entre alunos envolvendo bullying e/ou indisciplina ocorridos
com professores e alunos, também podem ingressar nesse rol casos de cobranças
de mensalidades escolares em atraso, a mediação somente entre professores e
realizada entre professores e a escola tendo como foco o trabalho.

Nessa modalidade restaurativa, os participantes se acomodam em


círculo. Um objeto chamado “bastão da fala” vai passando de mão em
mão para que todos tenham a oportunidade de falar, um de cada vez,
na ordem em que estão sentados. Faz parte do processo uma declaração
inicial em que são explicitados certos valores, ou mesmo uma filosofia,
que enfatiza o respeito, o valor de cada participante, a integridade, a
importância de se expressar com sinceridade etc. (ZEHR, 2012, p. 62).

107
UNIDADE 2 | A ESCOLA, A FAMÍLIA, A COMUNIDADE E AS DIFERENTES TÉCNICAS DE MEDIAÇÃO ESCOLAR

Cada participante do círculo falará de modo ordenado, um após o outro,


tendo como objetivo a comunicação, o diálogo, o debate ao trazer o conflito e
tratá-lo tendo a presença de todos os envolvidos, facilitadores, vítimas, ofensores
e possíveis testemunhas da situação de conflito. Na realização dos círculos
estão presentes alguns elementos estruturais intencionais, são eles: a cerimônia,
um bastão de fala, um facilitador ou coordenador, orientações e um processo
decisório consensual.

Intencional e conscientemente, os Círculos mobilizam todos os


aspectos da experiência humana: espiritual, emocional, físico e
mental. Na abertura e no fechamento, realiza-se uma cerimônia ou
atividade de centramento intencional. A finalidade é marcar o Círculo
como espaço sagrado, no qual os participantes se colocam diante de
si mesmos e dos outros com uma qualidade de presença distinta dos
encontros corriqueiros do dia a dia (PRANIS, 2010, p. 26).

Estão presentes nesse círculo os denominados facilitadores ou guardiões


do círculo, os quais têm papel fundamental no auxílio da percepção e compreensão
do conflito.

Somente a pessoa que está segurando o bastão da fala pode falar. Assim
se regula o diálogo à medida que o bastão vai passando de uma pessoa
para a outra, dando a volta no Círculo de forma sequencial. A pessoa
que segura o bastão recebe a atenção total dos outros participantes e
pode falar sem interrupções. Esse recurso promove plena manifestação
das emoções, escuta mais profunda, reflexão cuidadosa e um ritmo
tranquilo. Além disso, abre-se um espaço para as pessoas que sentem
dificuldade de falar diante do grupo. No entanto, não se exige que o
detentor do bastão fale necessariamente (PRANIS, 2010, p. 26).

Por intermédio do objeto da fala/bastão da fala, os indivíduos participantes


do grupo e do círculo sentem respeito e confiança suficientes para expressarem
seus sentimentos e emoções, chegando à situação conflitiva com facilidade.
Entretanto, a condução dos trabalhos no círculo precisa ser realizada por um
indivíduo capacitado denominado facilitador ou guardião.

O facilitador do Círculo de Construção de Paz, muitas vezes chamado


guardião, ajuda o grupo a criar e manter um espaço coletivo no qual
cada participante se sente seguro para falar aberta e francamente
sem desrespeitar ninguém. Ele supervisiona a qualidade do grupo
através de perguntas ou pautas. O guardião não controla as questões
a serem levantadas pelo grupo, nem tenta conduzi-lo na direção de
determinada conclusão, mas pode intervir para zelar pela qualidade
da interação grupal (PRANIS, 2010, p. 27).

O papel do facilitador/guardião do Círculo traz consigo uma carga


histórica muito grande, pois desde os primórdios da humanidade que o homem
se reúne em um círculo ao redor do fogo, da mesa para as refeições.

108
TÓPICO 3 | AS TÉCNICAS E OS MODELOS DE MEDIAÇÃO ESCOLAR

Os participantes do Círculo desempenham o importante papel de


conceber seu próprio espaço, criando as balizas para sua discussão.
Elas expressam as promessas que os participantes fazem mutuamente
sobre como se comportarão durante o diálogo no Círculo. Essas
orientações descrevem os comportamentos que os participantes
consideram importantes para transformar o espaço em um lugar
seguro onde conseguirão expressar sua verdade. Tais orientações
não são regras utilizadas para julgar o comportamento do outro. São
lembretes para que os participantes tenham em mente o compromisso
mútuo de criar um lugar protegido que viabilize diálogos complicados
(PRANIS, 2010, p. 27).

Com isso, percebemos que os indivíduos estão tendo que (re)aprender a


se reunir ao redor de um círculo a fim de buscarem soluções para a resolução de
problemas, criação e fortalecimento de vínculos.

No Círculo, as decisões são tomadas por consenso. Isto não significa


que todos terão entusiasmo com relação à determinada decisão ou
plano, mas é necessário que cada um dos participantes esteja disposto
a viver segundo aquela decisão, bem como apoiar sua implementação.
Antes de discutir a missão do grupo em si, é preciso conhecer todos
os participantes e construir relacionamentos, independente da tarefa
do grupo. Metade do tempo do encontro poderá ser gasto criando-se
a base para um diálogo profundamente honesto em torno do conflito
ou dificuldade que acontecerá na etapa seguinte. Discutir valores,
criar linhas-mestras que orientem o trabalho, partilhar aspectos
desconhecidos sobre si mesmo, tudo isto é parte da preparação do
alicerce para um diálogo que mobilizará os participantes emocional e
espiritualmente, além de intelectualmente (PRANIS, 2010, p. 28).

A constituição do Círculo culmina com a escuta de histórias, experiências


vividas em um primeiro momento e depois a análise do conflito, nessas
conversações os indivíduos trazem sentimentos, tais como: alegria, dor,
vulnerabilidade, força, desprezo e produzem sabedoria dentro de um ritual
mental e emocional.

E
IMPORTANT

Há círculos de vários tipos, inclusive de:


• Diálogo.
• Compreensão.
• Restabelecimento.
• Sentenciamento.
• Apoio.
• Construção do Senso Comunitário.
• Resolução de Conflitos.
• Reintegração.
• Celebração.

FONTE: PRANIS, K. Processos circulares. Tradução: Tônia Van Acker. São Paulo: Palas
Athena, 2010.

109
UNIDADE 2 | A ESCOLA, A FAMÍLIA, A COMUNIDADE E AS DIFERENTES TÉCNICAS DE MEDIAÇÃO ESCOLAR

LEITURA COMPLEMENTAR

A MEDIAÇÃO COMO MÉTODO EDUCATIVO PARA OS CONFLITOS


ESCOLARES ENVOLVENDO CRIANÇAS E ADOLESCENTES

Francisco Ribeiro Lopes


Viviane Teixeira Dotto Coitinho

RESUMO

A presente pesquisa tem como objeto a aplicação da mediação na resolução


de conflitos no âmbito escolar e seus benefícios, a partir dos mecanismos existentes
no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) como forma de luta em favor do
Estado democrático e também para garantia dos direitos de crianças e adolescentes
brasileiros em conflito com a lei a partir do exercício da cidadania. A mediação
é uma forma alternativa de conflitos com objetivo principal de restabelecer o
diálogo entre as partes e fomentar a cultura da paz. Assim, no Brasil, os conflitos
geralmente são dirimidos perante o Poder Judiciário pelo método adversarial,
ou seja, a cultura das partes serem adversárias, ganhador ou perdedor, sendo
que não há espaços para tal postura, visto que existem outras técnicas para
pacificação de conflitos, que não são devidamente aproveitadas. Nesse contexto,
ainda recente em nosso país, o instituto da mediação promete cumprir um papel
útil e necessário no cenário atual, ou seja, desafogar o Poder Judiciário.

Palavras-chave: Brasil. Conflitos. Mediação. Escola.

INTRODUÇÃO

O presente trabalho tem por finalidade realizar uma análise sobre a


mediação no âmbito escolar, bem como sua colaboração no que tange aos
conflitos dessa magnitude. Nesse sentido, a escola é um ambiente transformador
com responsabilidade social, pois a criança ou adolescente de hoje é o adulto do
amanhã. Para tanto, optou-se pela revisão bibliográfica como aporte metodológico,
tendo como marco inicial a Constituição Federal e o Estatuto da Criança e do
Adolescente. A mediação é um caminho possível na busca da solução dos conflitos,
no contexto escolar, com relação às crianças e aos adolescentes, quando estes se
sentirem marginalizados ou excluídos, acarretando diminuição da autoestima.

A mediação escolar vem com intuito de proporcionar o restabelecimento


do diálogo entre os envolvidos, proporcionando uma reflexão e aprendizado em
face dos envolvidos.

Dessa forma, destaca-se a necessidade de um ambiente acolhedor que


possua um tratamento adequado às crianças e adolescentes envolvidos em
conflitos escolares, pois é na escola o ambiente da transformação, do aprendizado
e principalmente do convívio social.
110
TÓPICO 3 | AS TÉCNICAS E OS MODELOS DE MEDIAÇÃO ESCOLAR

Assim, é necessário um novo olhar para as questões de âmbito escolar,


bem como uma preparação adequada aos responsáveis pelo sistema educacional
tão fragilizado nos últimos tempos.

Enaltece-se que o âmbito escolar espera que o professor saiba fazer uso do
conflito como uma oportunidade pedagógica e emancipação de aprendizagem,
buscando solucionar as demandas conflitantes na construção da mudança
cultural no ambiente escolar.

Nesse contexto, os professores precisam se apropriar desse conhecimento


e incorporar a prática dos valores no seu cotidiano. Em um primeiro momento,
é necessário que aconteça esse movimento interno em cada um para depois
mobilizar os outros, sendo um trabalho transformativo e a mediação possui essa
importante característica.

O âmbito escolar precisa saber enfrentar situações conflituosas entre


seus membros e a mediação vem oferecer conhecimento, pela sua capacidade de
comunicação pacífica, com base no respeito e no afeto.

Dessa forma, não há dúvida de que necessitamos de uma educação voltada


para um futuro melhor e proporcionar a solução através do diálogo entre os
envolvidos é um avanço acima de tudo social, pois demonstra a maturidade deles.

É evidente que precisamos considerar a educação como um meio capaz


de preparar os indivíduos para viver em uma sociedade colaborativa e, por isso,
devemos investir nas propostas e soluções práticas para o enfrentamento pacífico
da violência escolar.

O instituto da mediação ‘justiça’ em alguns estados brasileiros já faz parte


da rotina das escolas, sendo um importante mecanismo para frear a violência no
âmbito escolar.

O INSTITUTO DA MEDIAÇÃO COMO NOVA VISÃO COM RELAÇÃO AO


CONFLITO

Em nossa sociedade, estamos vivenciando cada vez mais os desgastes de


conflitos envolvendo a comunidade escolar, sendo que, em sua maioria, o Poder
Judiciário, através de seus procedimentos, não consegue sanar os conflitos.

A busca por formas de resolução sempre causou desgaste e muito


trabalho aos envolvidos em conflitos das mais diversas espécies, haja vista que
“as divergências de opiniões são decorrentes da própria vivência em sociedade,
sendo, desta forma, inerente à atividade humana” (SILVA, 2008, p. 19).

Desta forma, é necessária uma nova visão sobre esses conflitos, em que
uma nova postura é recomendada para preencher as lacunas que as partes
envolvidas necessitam.

111
UNIDADE 2 | A ESCOLA, A FAMÍLIA, A COMUNIDADE E AS DIFERENTES TÉCNICAS DE MEDIAÇÃO ESCOLAR

Quando os casos se solucionam mediante consenso que resolva


não só a parte do problema em discussão, mas também todas as
questões que envolvam o relacionamento entre os interessados. Com
a implementação de um “modelo mediacional” de resolução dos
conflitos, o Estado estará mais próximo da conquista da pacificação
social e da harmonia entre as pessoas (BACELLAR, 1999, p. 130).

Atualmente, a mediação tem se mostrado como a melhor forma de se


tratar um conflito, uma vez que nela as próprias partes envolvidas refletem e, de
uma maneira colaborativa, chegam à solução do litígio. Talvez não exista instituto
melhor do que o da mediação, principalmente quando as partes mantêm algum
vínculo de trato sucessivo, pelo qual de uma forma ou de outra elas ainda terão
que conviver juntas. Neste caso, a construção de uma pacificação do conflito
através da mediação resolve não só o litígio instaurado entre as partes, mas
alicerça o vínculo de união existente entre elas.

No cotidiano da sociedade sempre há a busca pela harmonia, sendo que


essa, via de regra, é alcançada. “Outrossim, ocorrem ocasiões em que o equilíbrio
social não é atingido, oportunidade em que, como exceção, surgem os conflitos”
(CALMON, 2008, p. 23).

Assim, embora os conflitos sejam tratados como exclusão, é perceptível na


atualidade o nascimento de uma cultura conflitual, em que, em diversas situações
e nos variados graus de complexidade, é buscado o embate para o alcance de
determinada pretensão.

Nesse sentido, fez-se surgir a necessidade de se levantar outros métodos


resolutivos de conflitos que, com o objetivo de auxiliar o Judiciário, poderiam
inclusive viabilizar novas formas, céleres e enriquecedoras, de se alcançar os
objetivos dos demandantes.

A adoção de meios alternativos de solução de litígios está associada


a processos e movimentos de informalização e desjudicialização da
justiça, a sua simplicidade e celeridade processual, através do recurso
a meios informais para melhorar os procedimentos judiciais e à
transferência de competências para instâncias não judiciais, o que não
leva ao enfraquecimento do Poder Judiciário. [...] Sobre tais formas
alternativas de resolução de conflitos tenho a dizer que elas podem
existir paralelamente à forma tradicional (SILVA, 2008, p. 21).

Desta forma, visualizou-se na metodologia da autocomposição uma


rota de fuga ao congestionamento do Judiciário, mas que não almeja usurpar
sua primordial função. Na corrente, diga-se que as partes, através do diálogo
e da negociação, travam suas divergências e buscam um denominador comum
através da autocomposição.

Consiste na resolução da controvérsia pelo sacrifício, por um dos litigantes,


no todo ou em parte, do seu interesse próprio em favor do interesse do outro.

112
TÓPICO 3 | AS TÉCNICAS E OS MODELOS DE MEDIAÇÃO ESCOLAR

“É gênero, do qual são espécies a transação (concessões mútuas), a submissão


(reconhecimento da procedência do pedido) e a renúncia da pretensão deduzida”
(WANBIER, 2011, p. 99).

Mencionamos ainda que a indicada autocomposição, como forma


resolutória de conflito, pode ocorrer tanto extrajudicial como judicialmente, o que
vem a ampliar ainda mais o leque de aplicação e a facilitar a sua aceitação, com o
objetivo de buscar novas alternativas de deslinde conflitual.

Esse novo modelo de composição dos conflitos possui base no direito


fraterno, centrado na criação de regras de compartilhamento e de
convivência mútua que vão além dos litígios judiciais, determinando
formas de inclusão de proteção dos direitos fundamentais. Existem
outros mecanismos de tratamento das demandas, podendo-se citar
a conciliação, a arbitragem e a mediação. Trata-se de elementos que
possuem como ponto comum o fato de serem diferentes, porém não
estranhos ao Judiciário, operando na busca da “face” perdida dos
litigantes numa relação de cooperação pactuada e convencionada,
definindo uma “justiça de proximidade e, sobretudo, uma filosofia
de justiça do tipo restaurativa que envolve modelos de composição
e gestão do conflito menos autoritariamente decisórios” (MORAIS;
SPENGLER, 2008, p. 75).

Nesse sentido, as formas de autocomposição de conflitos almejam resgatar


o contato entre os litigantes, os quais passaram a ser “figurantes” do formalismo
ocasionado pelo Poder Judiciário.

É imperioso ressaltar que o Poder Judiciário não está estruturado para


o rápido progresso da sociedade, em razão de que esta cada vez mais necessita
de desapego à burocracia e um tato mais direcionado à humanização, sendo
necessário uma solução eficaz e célere para os conflitos.

Tais constatações permitiram que se colocasse em pauta o problema


da efetividade da prestação jurisdicional, buscando estratégias para
o caráter cada dia mais agudo e insuficiente das respostas dadas aos
conflitos pelo aparelho jurisdicional do Estado. Deve-se ter presente,
também, que as crises por que passa o modo estatal de dizer o direito –
jurisdição – refletem não apenas questões de natureza estrutural, fruto
da escassez de recursos, como inadaptações de caráter tecnológico
– aspectos relacionados às deficiências formativas dos operadores
jurídicos – que inviabilizam o trato de um número cada vez mais agudo
de temas que precisam ser enfrentados, bem como pela multiplicação
de sujeitos envolvidos nos polos das relações jurídicas, por outro
(MORAIS; SPENGLER, 2008, p. 78).

É notória a necessidade da utilização de novas formas resolutivas de


conflitos, visto que se dará enfoque na mediação a fim de analisá-la, bem como
caracterizá-la como apta ao auxílio para o Poder Judiciário. Com isso, os novos
métodos de resolução de conflitos ganham força para auxiliar o Judiciário para
termos decisões mais humanas e mais objetivas em face dos conflitos da sociedade
moderna.

113
UNIDADE 2 | A ESCOLA, A FAMÍLIA, A COMUNIDADE E AS DIFERENTES TÉCNICAS DE MEDIAÇÃO ESCOLAR

Nesse sentido, essa mútua colaboração para o alcance da solução do


conflito deve estar presente especialmente se estas pessoas convivem
juntas, pois no futuro se apoiarão uma na outra. Ainda para o referido
autor, quando esta situação ocorre, a melhor solução está na mediação,
que é um procedimento no qual um terceiro, neutro, que não tem poder
sobre as partes, sem indicar qual deve ser o resultado, de maneira
informal, facilita e ajuda a que as próprias partes encontrem sua
solução, resolvendo seu conflito de forma aceitável (GORCZEVSKI,
2007, p. 80).

A mediação manifesta uma forma de autocomposição dos conflitos, com


o auxílio de um terceiro imparcial, que auxilia as partes na busca de uma solução.
O mediador, neutro, não se posiciona e não assume lados, ou seja, não adere a
nenhuma das partes, busca livremente soluções, que podem mesmo não estar
delimitadas pelo conflito, que podem ser criadas pelas partes a partir de suas
diferenças.

Uma das bases da mediação é trabalhar a subjetividade do conflito, o lado


oculto que todo conflito apresenta, o conflito real, o que se esconde no conteúdo
latente do conflito, que, frequentemente, é diferente do conteúdo manifesto do
conflito. O sistema de mediação é aberto a qualquer aspecto que possa estar
causando o conflito (COLET; COITINHO, 2012).

FONTE: LOPES, F. R.; COITINHO, V. T. D. A mediação como método educativo para os conflitos
escolares envolvendo crianças e adolescentes. 2016. Disponível em: https://online.unisc.br/
acadnet/anais/index.php/sidspp/article/view/16125. Acesso em: 25 nov. 2019.

114
RESUMO DO TÓPICO 3
Neste tópico, você aprendeu que:

• A mediação em âmbito escolar poderá ser desenvolvida obedecendo a diferentes


técnicas, presentes também na mediação familiar, tais como: a escuta inclusiva/
ativa; a estruturação das atividades: intervenções, sessões e fases, o rapport
(empatia); o tratamento equânime das partes e a assertividade do facilitador/
mediador escolar; a credibilidade e a confiança necessárias ao mediador na
mediação escolar; a criatividade do mediador: produção, avaliação e seleção
de ideias.

• Saber ouvir é de extrema importância na mediação, inclusive na área escolar.


A prática da escuta ativa na mediação é o momento no qual as partes em
conflito se sentem respeitadas pelo mediador, pois a escuta não adversarial,
não violenta, faz com que os indivíduos sejam acolhidos.

• A resolução de conflitos escolares, por intermédio da mediação, necessita ser


realizada de modo organizado, respeitando e estruturando as atividades, tais
como: as intervenções, as sessões e as fases.

• O mediador de conflitos precisa ter a capacidade de se colocar no lugar daquele


de quem ele estará a ouvir o relato da situação conflitiva, ou seja, as versões das
duas partes, mas precisa fazer isso dentro da prática da escuta ativa.

• A atuação do mediador, quando se dá em âmbito dos conflitos escolares,


precisa ser pautada por algumas condutas relacionadas à ética, como é o caso
do tratamento equânime dispensado às partes e a assertividade do facilitador/
mediador ao tratar da situação conflitiva.

• O tratamento igualitário das partes quando da realização da mediação


escolar por parte do mediador/facilitador de conflitos é fundamental para o
desenvolvimento das sessões de mediação, pois as partes precisam ser tratadas
com respeito, para se sentirem à vontade para dialogarem acerca da situação
conflitiva. Já a assertividade do mediador está relacionada ao conhecimento
técnico dele e a forma como ele é aplicado na condução das sessões.

• Outra técnica que pode ser utilizada pelo mediador escolar é o desenvolvimento
de uma relação de credibilidade e confiança com os mediandos, semeada desde
o primeiro contato e mantida conforme avançam as sessões de mediação com
os envolvidos na situação conflitiva.

115
• A atuação do mediador no ambiente escolar deve ser capaz de transmitir aos
envolvidos na situação conflitiva credibilidade e confiança em seu trabalho, mas
para isso ser alcançado, é necessária a preparação adequada por intermédio de
cursos e capacitação para lidar com conflitos envolvendo alunos, professores, pais
e até mesmo demais funcionários de determinada instituição de ensino, podendo,
por exemplo, abranger situações envolvendo práticas de bullying e indisciplina
escolar ou casos de negociação de mensalidades escolares em atraso.

• Ao conduzir as sessões de mediação escolar, o mediador precisa lançar mão


de todas as técnicas de que dispõe para compreender e auxiliar as partes na
compreensão do conflito e na construção do diálogo; para isso, poderá utilizar-
se da criatividade para a produção, a avaliação e a seleção de ideias para se
chegar a um possível acordo.

• A mediação realizada em âmbito escolar é essencial, pois ela evita que


acontecimentos fáceis de serem resolvidos por intermédio do diálogo em uma
sessão restaurativa tome proporções traumáticas para as vítimas e agressores,
como nos casos de bullying e indisciplina escolar, assim como a escola também
cria um ambiente pacífico próprio para a aprendizagem.

• No ambiente escolar, poder-se-á fazer uso de alguns modelos de mediação,


dentre eles destacamos o modelo da mediação entre pares ou mediação mirim
(peer mediation), da mediação em rede, da mediação professores-alunos e dos
círculos restaurativos/justiça restaurativa.

• O meio escolar tem recorrido a essa espécie de prática restaurativa na mediação


escolar, por intermédio dos Círculos Restaurativos, Círculos Mediativos
ou Círculos de Paz, a fim de tratar os conflitos escolares provenientes de
desentendimentos entre alunos envolvendo bullying e/ou indisciplina
ocorridos com professores e alunos, também podem ingressar nesse rol casos
de cobranças de mensalidades escolares em atraso, a mediação somente entre
professores e realizada entre professores e a escola tendo como foco o trabalho.

• A constituição do Círculo culmina com a escuta de histórias, experiências vividas


em um primeiro momento e depois a análise do conflito, nessas conversações
os indivíduos trazem sentimentos, tais como: alegria, dor, vulnerabilidade,
força, desprezo e produzem sabedoria dentro de um ritual mental e emocional.

CHAMADA

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em facilitar sua compreensão. Acesse o QR Code, que levará ao AVA, e veja
as novidades que preparamos para seu estudo.

116
AUTOATIVIDADE

1 (Estácio de Sá – Mediação de conflitos – 7ª questão) A mediação transformativa


engloba conceitos, técnicas e procedimentos, tais como:
FONTE: <https://www.passeidireto.com/arquivo/54903356/mediacao-de-conflitos-9-0-
exercicios>. Acesso em: 9 abr. 2020.

a) ( ) Prevalência dos aspectos intersubjetivos do conflito, resumos, interesses,


opções, dados de realidade e acordos subjacentes.
b) ( ) Destaca a importância da pré-mediação e dos conceitos e procedimentos,
como: posições, escuta e debate.
c) ( ) Técnicas de entrevista satisfativa, aspectos da terapia sistêmica de
família, investigação da veracidade dos fatos.
d) ( ) Identificação de posições e interesses, técnicas de determinação de
opções e necessidade de observar os dados descritivos no processo.
e) ( ) Elementos do modelo de ciência contemporânea, que são: complexidade,
intersubjetividade e a metodologia.

2 (Estácio de Sá – Mediação de conflitos – 5ª questão) Qual das técnicas de


mediação se utiliza a teoria da comunicação, adotando também técnicas para
o aperfeiçoamento da escuta do mediador, sua investigação e reformulação
da comunicação, através da paráfrase e dos questionamentos?
FONTE: <https://www.passeidireto.com/arquivo/54903356/mediacao-de-conflitos-9-0-
exercicios>. Acesso em: 9 abr. 2020.

a) ( ) Mediação transformativa.
b) ( ) Resumo.
c) ( ) Pré-mediação.
d) ( ) Mediação satisfativa.
e) ( ) Mediação circular narrativa.

3 (Estácio de Sá – Mediação de conflitos – 8ª questão) A Escola de Harvard é uma


referência em mediação, nela foram elaborados conceitos e procedimentos
fundamentais para qualquer tipo de mediação. Neste sentido, os fatores
observados são ____________________ atitudes polarizadas e explicitas
dos mediandos e ____________________________ contraditórios (as) ou
antagônicos (as), a serem identificados (as).
FONTE: <https://www.passeidireto.com/arquivo/54903356/mediacao-de-conflitos-9-0-
exercicios>. Acesso em: 9 abr. 2020.

a) ( ) Posições – dados da realidade.


b) ( ) Cáucus – interesses.

117
c) ( ) Resumo – dados de realidade.
d) ( ) Dados de realidade – criação de opções.
e) ( ) Posições – interesses.

4 (Estácio de Sá – Mediação de conflitos – 6ª questão) As técnicas de criação de


opções para a satisfação de interesses identificados, na mediação satisfativa
são:
FONTE: <https://www.passeidireto.com/arquivo/54903356/mediacao-de-conflitos-9-0-
exercicios>. Acesso em: 8 abr. 2020.

a) ( ) Elementos que priorizam o conflito subjetivo, visando um acordo


negociado.
b) ( ) Destinadas para a contribuição da superação de constantes impasses
entre países.
c) ( ) Conceitos aplicados como técnicas de negociação, arbitragem e
conciliação.
d) ( ) Princípios que regem o processo judicial.
e) ( ) Destinadas à resolução dos conflitos familiares utilizando a Teoria da
Comunicação.

5 (Estácio de Sá – Mediação de conflitos – 5ª questão) Na mediação satisfativa


encontramos conceitos e procedimentos que fazem parte de qualquer tipo
de mediação, entre eles NÃO encontramos:
FONTE: <https://www.passeidireto.com/arquivo/54903356/mediacao-de-conflitos-9-0-
exercicios>. Acesso em: 8 abr. 2020.

a) ( ) Criação de opções.
b) ( ) Posição e interesses.
c) ( ) Desestabilização de histórias.
d) ( ) Observação de dados de realidade.
e) ( ) Separar o conflito objetivo e o conflito subjetivo.

118
UNIDADE 3

OS FUNDAMENTOS DA MEDIAÇÃO
COMUNITÁRIA

OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de:

• entender a importância da mediação comunitária;

• identificar o conceito e os modelos de mediação comunitária;

• compreender a democracia e o acesso à justiça;

• assimilar o empoderamento da comunidade no contexto da mediação


comunitária.

PLANO DE ESTUDOS
Esta unidade está dividida em três tópicos. No decorrer da unidade
você encontrará autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo
apresentado.

TÓPICO 1 – A MEDIAÇÃO COMUNITÁRIA

TÓPICO 2 – CONCEITUAÇÃO E MODELOS DE MEDIAÇÃO


COMUNITÁRIA

TÓPICO 3 – MEDIAÇÃO COMUNITÁRIA: DEMOCRACIA, ACESSO À


JUSTIÇA E O EMPODERAMENTO DA COMUNIDADE

CHAMADA

Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e vamos em frente!


Procure um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá melhor
as informações.

119
120
UNIDADE 3
TÓPICO 1

A MEDIAÇÃO COMUNITÁRIA

1 INTRODUÇÃO
A mediação comunitária está relacionada fortemente com a
ancestralidade, já que nossos ancestrais tinham atrelados ao modo de vida o
hábito de fazerem um círculo para conversarem acerca de qualquer situação,
guiados por um mediador que era também o líder do grupo.

Neste tópico, você aprenderá sobre os fundamentos da mediação


comunitária. Para tanto, você compreenderá os aspectos históricos da mediação
comunitária, a inserção da mediação comunitária no conflito, os objetivos da
mediação comunitária e as limitações da mediação comunitária.

Antes de adentrarmos na seara conceitual, é preciso examinar alguns


aspectos históricos acerca da mediação comunitária. Vamos lá?

2 BREVE HISTÓRICO DA MEDIAÇÃO COMUNITÁRIA


Nossos ancestrais se reuniam num círculo em torno do fogo. As famílias
se reuniram em volta da mesa da cozinha durante séculos. Atualmente, a
comunidade está aprendendo a se reunir em círculo para resolver problemas,
apoiar uns aos outros e estabelecer vínculos mútuos. Uma nova forma de
congregar as pessoas, chegar ao entendimento mútuo, fortalecer relacionamentos
e resolver problemas grupais está florescendo nas comunidades do Ocidente,
mas essa nova metodologia é muito antiga. Ela se inspira, por exemplo, na antiga
tradição dos índios norte-americanos de usar um objeto chamado bastão da fala,
que passa de pessoa para pessoa dentro do grupo e confere a seu detentor o
direito de falar enquanto os outros ouvem (PRANIS, 2010).

121
UNIDADE 3 | OS FUNDAMENTOS DA MEDIAÇÃO COMUNITÁRIA

FIGURA 1 – MEDIAÇÃO COMUNITÁRIA

FONTE: Adaptado de GABC (2017)

A mediação em sentido amplo serve para aproximar as partes envolvidas


na situação conflitiva, pois proporciona aquilo que há de mais primitivo nos
indivíduos: a fala, o diálogo e a aproximação.

Com a coloniza­ção das Américas e a migração, as comunidades


formam métodos para solucionarem os conflitos entre si, elegendo
um líder, agrupando-se em virtude da sua etnia ou religiosidade. No
período da colônia, o modo de solucionar conflitos na comunidade
ganha ainda mais impulso, com o fortalecimento dos laços entre os
membros dos grupos (CAMARGO, 2017, p.44).

No Brasil, a mediação comunitária é algo novo e seu surgimento é


proveniente de iniciativas de grupos comunitários e dos Tribunais de Justiça de
alguns estados como forma alternativa de tratamento de conflitos.

No Estado brasileiro, a mediação comunitária é recente, surgindo a


partir de iniciativas por parte dos grupos comunitários, e também
pelos Tribunais de Justiça, para a implementação dessa forma de
tratamento de conflitos. Então, passa a ser realizada na periferia,
propiciando a conscientização de direitos e deveres, além da
prevenção dos conflitos, criando certa interação entre os envolvidos,
incentivando-os a participarem ativa­mente com os membros da
comunidade, fundamentando que é melhor organizar o pensamento
de forma coletiva do que individual (CAMARGO, 2017, p. 44)

O que é buscado através da mediação comunitária é demonstrar ao


indivíduo a possibilidade de construção de um diálogo amigável, cooperativo
e essencial na convivência social. No contexto de um processo tão livre, e tão
intrinsecamente autocorretivo de intercomunicação, é inevitável que surjam
conflitos entre os indivíduos, dado que cada um tem sua maneira de enxergar
necessidades, fins e consequências. A solução para tais conflitos é a cooperação
amigável. “Em outras palavras, as controvérsias devem ser transformadas em
empreendimentos cooperativos em que as duas partes aprendem possibilidades,
uma à outra, a chance de expressar-se” (POGREBINSCHI, 2005, p. 51).

122
TÓPICO 1 | A MEDIAÇÃO COMUNITÁRIA

O que a mediação realizada em comunidade busca resgatar é a cidadania,


a dignidade da pessoa humana, por intermédio da reconstrução individual do
conflito, ou seja, é a ressignificação do outro a partir do surgimento da situação
conflitiva.

3 A INSERÇÃO DA MEDIAÇÃO COMUNITÁRIA NO CONFLITO


Os indivíduos enquanto seres formadores da sociedade são diferentes
entre si, em interesses e opiniões, essas diferenças provêm do próprio meio do qual
vieram, pois cada um deles possui sua opinião política, religiosidade, orientação
sexual e conduz suas vivências de modo distinto, embora possam conviver no
mesmo meio, como é o caso do ambiente familiar, escolar, profissional e/ou
religioso.

FIGURA 2 – INSERINDO A MEDIAÇÃO COMUNITÁRIA NO CONFLITO

FONTE: <https://as2.ftcdn.net/jpg/02/94/61/43/500_F_294614395_CLdKQse74hESH8tFV5Ka
KhHletG1YEba.jpg>. Acesso em: 5 jan. 2020.

No convívio entre pessoas diferentes, é natural que cada um busque


proteger suas necessidades e interesses, a partir do seu ponto de vista.
Dessa convivência, podem surgir diferenças de opinião, de interesses e
de desejos, que podem se transformar em conflito. Se concordarmos que
a nossa sociedade é formada por pessoas diferentes, e que isso é bom e
importante, vamos pensar agora como nós agimos quando as diferenças
se transformam em conflito de interesses? (BRASIL, 2013, p. 7).

Por conta desse convívio poderá vir a surgir em um dado momento


alguma situação conflitiva entre os indivíduos, fruto de diferenças de ideias,
ideologias, crenças ou opiniões; nesse instante, é necessário encontrar meios de
fomentar o diálogo, possibilitando a troca de ideias.

123
UNIDADE 3 | OS FUNDAMENTOS DA MEDIAÇÃO COMUNITÁRIA

Entretanto, quando os indivíduos envolvidos em uma situação conflitiva


não conseguem dialogar a respeito daquelas ideias divergentes, nem evitar o
contato com quem possui ideias diferentes e/ou tentar levar o conflito ao Poder
Judiciário, eles poderão partir para o uso da violência para tentar “solucionar o
conflito”.

Aliás, em geral, muitos daqueles conflitos que foram “resolvidos” pela


violência começaram com um desentendimento simples que poderia
ter sido sanado com uma boa conversa. Podemos afirmar, então, que
o conflito não é, em si, um problema; ele é o resultado das diferenças
dos pontos de vista das pessoas. Sendo assim, é até possível extrair um
sentido positivo do conflito, na medida em que ele nos proporciona
(re)pensar sobre nós mesmos e as nossas relações com o outro. Os
problemas começam mesmo quando as pessoas não conseguem lidar
de uma maneira positiva com o conflito (BRASIL, 2013, p. 10-11).

Para o mundo do Direito, o conflito passa a interessar quando os


indivíduos são incapazes de ver a situação conflitiva como sendo algo positivo,
não conseguindo buscar sua resolução de maneira pacífica pelo diálogo.

Nem sempre a vontade e o interesse das pessoas em resolver seus


conflitos de maneira pacífica são suficientes. Há muitos outros fatores
que dificultam a sua solução. Nós vivemos em uma sociedade marcada
pela desigualdade social e econômica e pela carência de recursos em
algumas comunidades. Para que essa injustiça seja solucionada, é
preciso vários esforços (além da vontade das pessoas) na construção
de caminhos para uma sociedade mais justa, igual e solidária (BRASIL,
2013, p. 11).

É nesse contexto que surge a possibilidade de determinada comunidade


solucionar os conflitos de interesse entre seus pares, sendo a Justiça Comunitária,
por intermédio da Mediação Comunitária um caminho a ser buscado para a
resolução de conflitos de modo pacífico.

NOTA

COMO LIDAR COM O CONFLITO DE INTERESSES

1. Dialogar abertamente acerca do assunto que divide as opiniões, pois pessoas diferentes
com ideias divergentes dialogando podem produzir benefícios.
2. Entretanto, os indivíduos poderão encaminhar essa situação conflitiva até o Poder
Judiciário a fim de que o juiz julgue a demanda.
3. Outro comportamento por parte dos indivíduos poderá ser o de ignorar, evitando assim
o contato com outrem que possua opiniões divergentes.
4. Tentar, por intermédio do diálogo, demonstrar argumentando aquele outro indivíduo
que ele está errado e que nossa opinião é que está correta.

124
TÓPICO 1 | A MEDIAÇÃO COMUNITÁRIA

5. Por fim, o uso da violência para tentar resolver a situação conflitiva, ou seja, “resolver suas
diferenças”, essa é a denominada “lei do mais forte”, nesse caso a superioridade de um
indivíduo pode se dar no aspecto econômico, físico, pelo uso de alguma arma.

FONTE: BRASIL. O que é Justiça Comunitária. Brasília, DF: Ministério da Justiça – Secretaria
de Reforma do Judiciário, 2013.

3.1 OBJETIVOS DA MEDIAÇÃO COMUNITÁRIA


A mediação comunitária tem como objetivo resgatar a democracia quando
do acesso à justiça pelos indivíduos e a comunidade, pois sua prática oportuniza
a eles serem atores sociais, passando a empoderá-los quanto a sua atuação social.

A educação para os direitos tem por objetivo democratizar o acesso


à informação sobre os direitos dos cidadãos e decodificar a complexa
linguagem legal, por meio da reflexão crítica sobre a criação do direito
a partir das necessidades da comunidade. A mediação comunitária
tem por objetivo promover a democratização do acesso à justiça,
restituindo ao cidadão e à comunidade a capacidade de gerir seus
próprios conflitos de maneira participativa, autônoma e emancipatória.
Nesse sentido, para que seja efetivamente comunitária e não se limite
a operar como meio de resolução de conflitos, a prática da mediação
deve estar articulada à educação para os direitos e à animação de redes
sociais (FOLEY, 2009, p. 5).

Para Foley (2009, p. 5), “a mediação comunitária resulta da articulação


de três atividades que a fundamentam – a educação para os direitos, a mediação
como procedimento e a animação de redes”. Para ela, todas são essenciais
para o processo de construção de uma comunidade participativa e uma justiça
emancipadora.

Na realidade, a prática da mediação comunitária encontra-se alicerçada na


atuação social, comunitária, por intermédio de agentes/mediadores comunitários,
os quais realizaram curso para preparação a fim de atuarem em comunidade
como agentes de transformação social e humanitária, transformadores de uma
realidade conflitiva.

O que leva a realização de projetos de mediação comunitária, por exemplo,


o projeto de justiça comunitária implementado pelo Conselho Nacional de Justiça
– CNJ –, é a necessidade de tratamento de conflitos frente à imensa quantidade
de processos que aportam no Poder Judiciário todos os dias, e que poderiam
ser facilmente resolvidos em algumas sessões de mediação dentro da própria
comunidade por agentes comunitários e de mediação treinados para esse fim.

125
UNIDADE 3 | OS FUNDAMENTOS DA MEDIAÇÃO COMUNITÁRIA

O padrão competitivo presente no modelo judicial de resolução


de conflitos exalta o contraditório, divide dialeticamente o certo do
errado, atribui culpa e identifica, ao final, ganhadores e perdedores.
Mesmo quando o processo judicial celebra a conciliação, o acordo nem
sempre resulta do senso de justiça que cada parte leva ao processo.
Isso porque, dado o risco da sucumbência, a adesão ao consenso
muitas vezes é movida por uma razão meramente instrumental. Nesse
sentido, há que se construir, por meio da razão dialógica, um consenso
sobre a justeza da solução que ajude a edificar a ética da alteridade
(FOLEY, 2009, p. 7).

A mediação é uma ferramenta eficiente para esta nova abordagem, trata-se


de um processo voluntário, no qual um terceiro imparcial e sem qualquer poder
de aconselhamento ou decisão – o mediador – facilita a comunicação entre as
pessoas em conflito para que elas decidam, em comunhão, o seu melhor desfecho.

Como vantagens da aplicação da mediação comunitária à situação


conflitiva, ocorre que as partes envolvidas acabam interagindo e dialogando
acerca dos acontecimentos, já que estão em um ambiente que favorece o diálogo
e o respeito, conduzidos por um terceiro imparcial preparado para esse tipo de
conversa.

Os protagonistas do conflito, quando interagem em um ambiente


favorável, podem tecer uma solução mais sensata, justa e fundamentada
em bases satisfatórias, tanto em termos valorativos quanto materiais.
Os elementos essenciais que caracterizam a mediação, portanto, são: a)
o processo é voluntário, b) o mediador é terceira parte desinteressada
no conflito, c) o mediador não tem poder de decisão; d) a solução é
construída pelas pessoas em conflito. A lógica da mediação obedece
a um padrão dialógico, horizontal e participativo, na medida em
que o seu foco está direcionado na compreensão das circunstâncias
do conflito, na restauração da comunicação entre os conflitantes e na
construção do consenso em comunhão (FOLEY, 2009, p. 7).

Para Foley (2009, p. 8), “apesar de a mediação ser um valioso recurso para
a promoção do diálogo nas situações de conflito, em alguns contextos, a correlação
de forças é marcada pela desigualdade de poder”. Nessas situações, é preciso
conhecer os caminhos para a efetivação dos direitos fundamentais, possibilitando
um diálogo livre de qualquer coerção no qual todos os participantes possam fazer
soar as suas vozes.

O que ocorre é que ainda que o acordo entre as partes envolvidas no


conflito não seja obtido, ela ainda assim terá êxito, já que seu principal intento
foi obtido, que é a comunicação entre os envolvidos na situação conflitiva. Ainda
cabe ressaltar que a participação na mediação comunitária traz o empoderamento
social aos envolvidos, além disso, ela fornece condições para ambos saberem
como tratar caso surgem novos conflitos.

126
TÓPICO 1 | A MEDIAÇÃO COMUNITÁRIA

NOTA

Na busca do denominado acesso à justiça e para acabar com essa exclusão,


não basta que os cidadãos saibam de seus direitos. É necessário realizar uma reflexão sobre:
“o que é o direito” e “o que se almeja com ele?”.

FONTE: FOLEY, G. F. Mediação Comunitária: uma mediação na, para e pela


comunidade. 2009. Disponível em: http://www.institutoelo.org.br/site/files/arquivos/
b3be7bc8eaf5d209bc01d3f4ea3f8bd4.pdf. Acesso em: 5 jan. 2020.

3.2 LIMITAÇÃO DA MEDIAÇÃO COMUNITÁRIA


A prática da mediação comunitária encontra algumas limitações para sua
efetivação enquanto jurisdição de caráter comunitário. Segundo Foley (2009, p. 8),
para assegurar que a mediação comunitária seja um caminho de transformação
social que não se afaste da efetivação dos direitos fundamentais, “o instituto da
mediação deve estar articulado com a educação para os direitos, a fim de revelar
as potencialidades da justiça oficial”.

A educação para os direitos é um recurso para que o acesso ao sistema


de justiça seja radicalmente democratizado. O desconhecimento
dos cidadãos em relação aos seus direitos e aos instrumentos
disponíveis para a sua efetivação constitui um dos obstáculos para
a democratização da justiça. O excesso de formalismo na linguagem
forense e a complexidade do sistema processual dificultam o acesso ao
sistema judicial (FOLEY, 2009, p. 8).

Acerca da denominada dimensão tridimensional da abordagem crítica


dos direitos:

A educação para os direitos, sob uma abordagem crítica, revela uma


dimensão tridimensional: a) preventiva, porque evita violações de
direitos decorrentes da ausência de informação; b) emancipatória,
porque proporciona reflexão em que medida o direito posto é
desdobramento das reais necessidades individuais ou comunitárias e
c) pedagógica, pois permite que o cidadão compreenda como buscar,
na via judiciária ou na rede social, a satisfação de suas necessidades/
direitos, quando e se necessário. Isso porque nem todo conflito será
submetido à mediação – seja porque as pessoas não querem ou porque
as circunstâncias do conflito não recomendam (FOLEY, 2009, p. 9).

A utilização da mediação comunitária como efetivação do acesso à justiça


deve proporcionar a inclusão dos indivíduos como atores sociais, protagonistas
de sua própria história, sendo capazes de resolver por intermédio do diálogo

127
UNIDADE 3 | OS FUNDAMENTOS DA MEDIAÇÃO COMUNITÁRIA

e participação em debates algumas questões relacionadas à falta de políticas


públicas nas comunidades capazes de atender às necessidades básicas do ser
humano, mas, para isso, é necessária a criação de espaços comunitários para
este fim.

A prática da mediação, articulada com a educação para os direitos,


pressupõe a adoção de espaços comunitários para a reflexão e a
participação nos debates sobre os temas de interesse da comunidade
e na elaboração de políticas públicas. O reconhecimento e a criação
desses espaços públicos constituem a base da animação de redes
sociais. Esse processo proporciona que a comunidade e seus membros
– como partícipes e corresponsáveis – reconheçam-se como sujeitos
ativos na criação do direito (FOLEY, 2009, p. 10).

Foley (2009, p. 14) afirma que “a mediação não se limita a uma técnica
de resolução de conflitos. Quando operada na comunidade e articulada com as
outras atividades comunitárias – a educação para os direitos e a animação de redes
sociais”. A mediação ganha especial relevo, na medida em que os mediadores são
membros de suas comunidades.

Entretanto, na maioria das vezes, o governo não proporciona a criação de


espaços públicos para o debate social, a fim de implementar políticas públicas nas
comunidades e melhorar as condições de vida dessas populações e essa é mais
uma das limitações a realização da mediação comunitária.

NOTA

“A Mediação Comunitária é democrática por incorporar todas as vozes, é


emancipadora porque seus integrantes exercem sua capacidade de autonomia crítica e de
interação dialógica, ou seja, todos deverão ser capazes de, a partir de formas discursivas,
justificar suas escolhas e decisões perante o outro”.

FONTE: NICÁCIO, C. S.; OLIVEIRA, R. C. A mediação como exercício de autonomia:


entre promessa e efetividade. 2011. Disponível em: https://www.researchgate.net/
publication/331745626_A_MEDIACAO_COMO_EXERCICIO_DE_AUTONOMIA_ENTRE_
PROMESSA_E_EFETIVIDADE_1. Acesso em: 5 maio 2020.

128
RESUMO DO TÓPICO 1

Neste tópico, você aprendeu que:

• A mediação comunitária está relacionada fortemente com a ancestralidade,


já que nossos ancestrais tinham atrelados ao modo de vida o hábito de fazer
um círculo para conversarem acerca de qualquer situação, guiados por um
mediador que era também o líder do grupo.

• No Brasil, a mediação comunitária é algo novo e seu surgimento é proveniente
de iniciativas de grupos comunitários e dos Tribunais de Justiça de alguns
Estados como forma alternativa de tratamento de conflitos.

• A mediação realizada em comunidade busca resgatar a cidadania e a dignidade


da pessoa humana, por intermédio da reconstrução individual do conflito, ou
seja, é a ressignificação do outro a partir do surgimento da situação conflitiva.

• Os indivíduos enquanto seres formadores da sociedade são diferentes entre
si, em interesses e opiniões; essas diferenças provêm do próprio meio do qual
vieram, pois cada um deles possui sua opinião política, religiosidade, orientação
sexual e conduz suas vivências de modo distinto, embora possam conviver no
mesmo meio, como é o caso do ambiente familiar, escolar, profissional e/ou
religioso.

• Por conta desse convívio poderá vir a surgir em um dado momento alguma
situação conflitiva entre os indivíduos, fruto de diferenças de ideias, ideologias,
crenças ou opiniões; nesse instante é necessário encontrar meios de fomentar o
diálogo, possibilitando a troca de ideias.

• Para o mundo do Direito, o conflito passa a interessar quando os indivíduos
são incapazes de ver a situação conflitiva como sendo algo positivo, não
conseguindo buscar sua resolução de maneira pacífica pelo diálogo.

• É nesse contexto que surge a possibilidade de determinada comunidade
solucionar os conflitos de interesse entre seus pares, sendo a Justiça Comunitária,
por intermédio da Mediação Comunitária um caminho a ser buscado para a
resolução de conflitos de modo pacífico.

• A mediação comunitária tem como objetivo resgatar a democracia quando do
acesso à justiça pelos indivíduos e a comunidade, pois sua prática oportuniza
a eles serem atores sociais, passando a empoderá-los quanto a sua atuação
social.

129
• O que ocorre é que ainda que o acordo entre as partes envolvidas no conflito
não seja obtido, ainda assim terá êxito, já que a sua intenção principal foi obtida:
a comunicação entre os envolvidos na situação conflitiva.

• A participação na mediação comunitária traz o empoderamento social aos
envolvidos, e, além disso, ela fornece condições para que ambos saibam como
proceder caso surjam novos conflitos.

• A prática da mediação comunitária encontra algumas limitações para sua


efetivação enquanto jurisdição de caráter comunitário. A utilização da
mediação comunitária como efetivação do acesso à justiça deve proporcionar
a inclusão dos indivíduos como atores sociais, protagonistas de sua própria
história, sendo capazes de resolver por intermédio do diálogo e participação
em debates algumas questões relacionadas à falta de políticas públicas nas
comunidades capazes de atender às necessidades básicas do ser humano, mas,
para isso, é necessária a criação de espaços comunitários para este fim.

• Entretanto, na maioria das vezes o governo não proporciona a criação de
espaços públicos para o debate social, a fim de implementar políticas públicas
nas comunidades e melhorar as condições de vida dessas populações e essa é
mais uma das limitações para a realização da mediação comunitária.

130
AUTOATIVIDADE

1 (Estácio de Sá – Mediação de Conflitos) O conflito traz, a princípio, a posição


inabalável da intransigência das partes. Cabe ao mediador:
FONTE: <https://www.passeidireto.com/arquivo/22160709/minha-av-2-mediacao>. Acesso
em: 6 jan. 2020.

a) ( ) Apoiar a parte que fornece mais provas quanto ao conflito estabelecido.


b) ( ) Estabelecer hierarquias de propostas para resolver o conflito.
c) () Orientar as partes, fornecendo soluções para o conflito.
d) ( ) Analisar os aspectos jurídicos do conflito e identificar a legislação
pertinente.
e) ( ) Desvendar o interesse real das partes envolvidas no conflito.

2 (Estácio de Sá – Mediação de Conflitos) Complete a lacuna:

São vários os pontos positivos da _________________, a destacar: estímulo ao


diálogo positivo entre famílias e vizinhos, incentivo à participação ativa dos
cidadãos na solução de conflitos individuais e coletivos, criação de espaços
de escuta, prevenção a má administração de conflitos futuros, destaque à
valorização do coletivo em detrimento do individual, buscando sempre a
solução de um problema que satisfaça a todas as partes envolvidas.
FONTE: <https://www.passeidireto.com/arquivo/22160709/minha-av-2-mediacao>. Acesso
em: 6 jan. 2020.

a) ( ) Mediação comunitária.
b) ( ) Mediação judicial.
c) ( ) Mediação familiar.
d) ( ) Mediação escolar.
e) ( ) Mediação empresarial.

3 (Estácio de Sá – Mediação de conflitos) Duas pessoas estão em um processo


de mediação. Num determinado momento desse procedimento, o mediador
percebeu que as partes não queriam chegar a um acordo, porque deixariam
de se encontrar naquele local. Relatou às partes a sua percepção e esta foi
confirmada por elas. Neste caso, o mediador deverá:
FONTE:<https://www.passeidireto.com/arquivo/5177295/ccj-0057-wl-mediacao-de-conflitos-
simulado-aula-09-prova-03>. Acesso em: 6 jan. 2020.

a) ( ) Encerrar a mediação explicando as partes o propósito da mediação.


b) ( ) Continuar a mediação, fornecendo uma solução para o conflito.
c) ( ) Encaminhar as partes para o estabelecimento de um acordo no Cartório.
d) ( ) Manter o poder sobre as partes e determinar uma solução para o conflito.
e) ( ) Incentivar a mediação como uma possibilidade de apenas manter os
encontros.

131
4 (Estácio de Sá – Mediação de Conflitos) Na mediação satisfativa, encontramos
conceitos e procedimentos que fazem parte de qualquer tipo de mediação,
entre eles NÃO encontramos:

FONTE: <https://www.passeidireto.com/arquivo/5177295/ccj-0057-wl-mediacao-de-conflitos-
simulado-aula-09-prova-03>. Acesso em: 6 jan. 2020.

a) ( ) Desestabilização de histórias.
b) ( ) Observação de dados da realidade.
c) ( ) Separar o conflito objetivo e o conflito subjetivo.
d) ( ) Posição e interesses.
e) ( ) Criação de opções.

5 (Estácio de Sá – Mediação de Conflitos) Quanto à recomendação da


mediação, assinale a alternativa INCORRETA:

FONTE: <https://www.passeidireto.com/arquivo/5177295/ccj-0057-wl-mediacao-de-conflitos-
simulado-aula-09-prova-03>. Acesso em: 6 jan. 2020.

a) ( ) As partes querem resolver o conflito rapidamente.


b) ( ) As partes compartilham algum grau de responsabilidade pelo estado
de conflito.
c) ( ) Uma das partes quer provar a verdade dos seus conflitos.
d) ( ) A disputa não convém a ninguém e nenhuma delas deseja entrar com
uma ação na Justiça.
e) ( ) As partes querem conservar o controle sobre o resultado.

132
UNIDADE 3
TÓPICO 2

CONCEITUAÇÃO E MODELOS DE MEDIAÇÃO


COMUNITÁRIA

1 INTRODUÇÃO
A mediação comunitária é o modo como os indivíduos envolvidos em uma
situação conflitiva buscam a resolução dela por intermédio do diálogo. Da escuta
inclusiva, ela permite visualizar o objeto do conflito, auxiliando os envolvidos a
encontrarem meios de compreenderem a si mesmos e ao outro.

Neste tópico, você aprenderá sobre a conceituação e os modelos de


mediação comunitária. Para tanto, será estudado sua conceituação, o princípio
da solidariedade e da dignidade da pessoa humana e a mediação comunitária, o
exercício da cidadania, os modelos de mediação comunitária e sua aplicabilidade.

Vamos lá?

2 CONCEITUAÇÃO DA MEDIAÇÃO COMUNITÁRIA


A mediação comunitária possui como objetivo desenvolver entre
a população valores, conhecimentos, crenças, atitudes e comportamentos
conducentes ao fortalecimento de uma cultura político-democrática e uma
cultura de paz. Busca ainda enfatizar “a relação entre os valores e as práticas
democráticas e a convivência pacífica e contribuir para um melhor entendimento
de respeito e tolerância e para um tratamento adequado daqueles problemas que,
no âmbito da comunidade, perturbam a paz” (SALES, 2003, p.135)

133
UNIDADE 3 | OS FUNDAMENTOS DA MEDIAÇÃO COMUNITÁRIA

FIGURA 3 – CICLO DA MEDIAÇÃO COMUNITÁRIA

Desenvolvimento Comunitário
coesão social, autonomia
e emancipação

Mediação Comunitária Educação para os Direitos


novas práticas sociais conhecimento de
e de comunicação comunidade

Animação de Redes
novas relações sociais
e institucionais

FONTE: Foley (2009, p. 16)

Nesse caso, é preciso ressaltar que a atuação do mediador de conflitos


ocorrerá na própria comunidade, podendo ser, por exemplo, em dois ou três
bairros de uma mesma cidade por intermédio de programas sociais fomentados
pelas Justiças Estaduais em parceria com entidades privadas ou ocorrer apenas
promovidas por essa última.

No programa Justiça Comunitária, esse diálogo é facilitado pelo Agente


Comunitário de Justiça e Cidadania que atua como mediador de
conflitos. O mediador de conflitos não tem qualquer poder de decisão,
ou seja, ele não aconselha, não sugere soluções e muito menos julga
as pessoas. Você deve estar pensando: “Ora, se o mediador não tem o
poder de resolver nada, como ele pode ajudar a resolver o conflito?”.
O mediador facilita a comunicação entre as pessoas envolvidas no
conflito, fazendo perguntas que as levem a pensar, a se posicionar sobre
os próprios problemas causados pelo conflito e a se colocar no lugar do
outro, “calçando o sapato do outro” (BRASIL, 2013, p. 18).

Na cartilha do Ministério da Justiça, intitulada “O que é justiça comunitária?”,


é possível visualizar as diferenças entre os métodos alternativos de resolução de
conflitos, “é exatamente aqui que a mediação se diferencia de qualquer outra
técnica de resolução de conflitos, porque na mediação não há julgamento. É isso
mesmo. Esse é um tipo de realização de justiça sem julgamento” (BRASIL, 2013,
p. 18).

Para o procedimento da mediação comunitária, o principal elemento


que deve estar presente é a possibilidade do diálogo entre os envolvidos, algo
livre, sem que as partes se sintam intimidadas ou pressionadas a decidirem sem
entender o que gerou o conflito entre elas.

134
TÓPICO 2 | CONCEITUAÇÃO E MODELOS DE MEDIAÇÃO COMUNITÁRIA

Essa comunicação, facilitada pelo mediador, pode gerar um acordo


que seja satisfatório para todas as partes e, melhor, pode selar a
paz entre pessoas que permanecerão convivendo em um mesmo
ambiente. A mediação parte do princípio de que as pessoas podem
ser convidadas a “tomar as rédeas de suas vidas” em comunhão com
os outros. E, mais uma vez, você deve estar com a seguinte dúvida:
“como não há julgamento? Quem vai resolver o certo e o errado, o
culpado e o inocente? Ninguém vai ser punido? E a justiça, onde fica?”
(BRASIL, 2013, p. 18).

A mediação comunitária resgata valores e princípios como o princípio


da dignidade da pessoa humana e da solidariedade, a democracia, a cidadania,
o empoderamento da comunidade e ainda proporciona o acesso à justiça dos
indivíduos envolvidos no conflito.

NOTA

Como é o funcionamento da mediação comunitária?

a) Voluntariedade: a mediação possui um caráter voluntário, já que ninguém é forçado,


obrigado a aceitar participar das sessões de mediação, pois ela só ocorrerá se todos os
envolvidos na situação conflitiva aceitarem o convite espontaneamente.
b) Confidencialidade: a mediação é um procedimento confidencial, já que todos os
envolvidos, inclusive o mediador, necessitam guardar sigilo acerca daquilo que for dito e
realizado nas sessões de mediação, sendo que a lei ainda prescreve que tudo o que for
falado durante a realização dela não poderá servir de objeto de prova contra nenhum
indivíduo.
c) Gratuidade: o procedimento de mediação é gratuito, independentemente do programa
escolhido de aplicação da Justiça Comunitária.

FONTE: BRASIL. O que é Justiça Comunitária. Brasília, DF: Ministério da Justiça – Secretaria
de Reforma do Judiciário, 2013.

3 O PRINCÍPIO DA SOLIDARIEDADE E DA DIGNIDADE DA


PESSOA HUMANA E A MEDIAÇÃO COMUNITÁRIA
Quando tratamos acerca da temática mediação, há uma expressão
chamada “Rapport”, que foi um conceito trazido da área da psicologia, como
sendo uma técnica utilizada para a criação de uma ligação, uma sintonia, a prática
da empatia por parte do mediador, quando da realização da sessão de mediação,
ter empatia, é ser solidário, ter a capacidade de colocar-se no lugar do outro.

135
UNIDADE 3 | OS FUNDAMENTOS DA MEDIAÇÃO COMUNITÁRIA

FIGURA 4 – O PRINCÍPIO DA SOLIDARIEDADE

FONTE: <https://t.revistajus.com.br/CyjcmIHWXXYaidqS7AWIae5KGxo=/400x400/
smart/graywind.s3.amazonaws.com/system/file/633/8ba7d9d3b0c4874700
b93974bbd0006a.jpg>. Acesso em: 5 jan. 2020.

Logo, infere-se que o princípio da solidariedade propõe-se a


apresentar à sociedade brasileira uma solução para a injusta realidade
que a delineia, além de revelar-se como elemento norteador dos
institutos jurídicos para a realização de seus misteres originais, quais
sejam: possibilitar uma vida digna em sociedade, paz social, busca do
ideal de justiça, entre outros. O princípio da solidariedade é basilar
para a consolidação da mediação popular como mecanismo eficaz na
resolução de conflitos (SOARES, 2012, p. 7).

Em que contexto histórico emergiram os Direitos Fundamentais? Em


qual momento o princípio da solidariedade e a dignidade da pessoa humana
puderam ser inseridos? Qual a relação com a mediação comunitária? Todos
esses questionamentos historicamente encontram-se inseridos numa terceira
fase histórica, que seria a fase pós-social; primeiro o liberalismo sem qualquer
intervenção estatal, seguida do Estado social, com uma forte intervenção em
função daquelas influências dos movimentos sociais, da filosofia marxista.

Nesse momento, a intervenção é cada vez menor, o que impossibilitaria


manter importantes programas sociais, passando-se a optar pela privatização de
serviços não essenciais e pela diminuição de seus investimentos, gerando crises
de desemprego e insuficiente assistência a direitos básicos (CARNEIRO, 2000).

Para tanto, nesse contexto, corporificam-se as reivindicações em prol dos


direitos fundamentais e da possibilidade de efetividade deles, a exigir do Poder
Judiciário meios de solucionar esses problemas, sejam os de cunho individual
gerados por este novo mundo, esta nova forma de vida, como também aqueles
que se põem no plano da coletividade.

136
TÓPICO 2 | CONCEITUAÇÃO E MODELOS DE MEDIAÇÃO COMUNITÁRIA

Hoje, pode mesmo dizer-se que este movimento transborda dos


interesses jurídicos das classes mais baixas e estende-se já aos interesses
jurídicos das classes médias, sobretudo aos chamados interesses
difusos, interesses protagonizados por grupos sociais organizados e
protegidos por direitos sociais emergentes cuja titularidade individual
é problemática (SANTOS, 1999, p. 172).

A modernização da sociedade, os novos meios de comunicação, o


crescimento da indústria, a migração do campo para as cidades, os avanços
tecnológicos, as conquistas trabalhistas, tudo isso levou a uma reorganização da
sociedade, mediante a experiência dos movimentos sociais.

Os direitos que derivam da cidadania, da saúde e da informação, na


prática, devem ser alcançados e cobrados de quem está obrigado a fornecê-los.
Desta forma, o Poder Judiciário volta a ocupar um lugar destacado na busca
pela realização dos direitos. Os assim chamados direitos sociais “são objetos
de conflitos e necessitam de uma esfera estatal de conciliação e julgamento”
(CARNEIRO, 2000, p. 25).

A dignidade é uma qualidade intrínseca da pessoa humana,


irrenunciável e inalienável. Constitui elemento que qualifica o
ser humano como tal e dele não pode ser destacado. Deve ser
compreendida como qualidade integrante e irrenunciável da própria
condição humana. Deve ser reconhecida, respeitada, promovida e
protegida, não podendo, contudo, ser criada, concedida ou retirada,
já que é reconhecida e atribuída a cada ser humano como algo que lhe
é inerente. Trata-se de um atributo que independe das circunstâncias
concretas, inerente a todos os seres humanos, pois mesmo o maior
dos criminosos, é reconhecido como pessoa, ainda que não se porte
de forma igualmente digna nas suas relações com seus semelhantes,
inclusive consigo mesmo (SOARES, 2012, p. 1).

Depreende-se daí que a possibilidade de resolução de conflitos pela


autocomposição, e nesse caso ressaltamos a mediação comunitária, teve um longo
caminho histórico percorrido até chegar ao acesso à justiça, primeiramente com a
litigiosidade, passando pela compreensão que o seu desacesso fere o princípio da
dignidade da pessoa humana, pois desumaniza o indivíduo.

Observa-se que ao mesmo tempo em que se valoriza a solução pública


das controvérsias, através do Juiz, há uma tendência de se adotarem resoluções
autocompositivas/alternativas de conflitos, de natureza pública e privada; não se
pode deixar de consignar, entretanto, que sempre existirá um núcleo de questões
que somente será resolvida no Judiciário. Dentre esses métodos autocompositivos
de resolução de conflitos abordar-se-á a mediação comunitária, pois:

O mediador deve usar toda a sua sabedoria para conseguir deixar o


problema fervendo. Se deixar as partes mornas, será inútil o trabalho,
pois elas ficarão novamente frias. Para ficar mediado é necessário
chegar ao ponto de ebulição, à transformação alquímica. A consciência

137
UNIDADE 3 | OS FUNDAMENTOS DA MEDIAÇÃO COMUNITÁRIA

mediadora vem através da sensibilidade que é uma percepção sutil


do invisível, uma percepção sutil que unicamente se ganha pela
espontaneidade. Ser harmonizado é renunciar a tudo o que é falso,
mas não renunciar ao mundo. Renunciar a todas as respostas, mas
ser sensível, espontaneamente sensível; não pensar nas razões, mas
ser real. Ser harmonizado significa que agora tentaremos viver no
presente, vamos sacrificar o futuro pelo presente, nunca sacrificaremos
o presente pelo futuro. O centro é sempre um lugar vazio para o êxtase.
Preservemos o centro vazio, evitando que o sofrimento chegue a ele.
Para isso é preciso quebrar a periferia; o que no Zen chama-se quebrar
a xícara (WARAT, 2004, p. 25).

O mediador deve estar preparado para o ato de conversar, quer dizer, não
somente falar, mas também ouvir e de poder olhar o conflito de novas maneiras,
enfim, auxiliar as pessoas nele envolvidas a encontrar o melhor caminho para a
sua solução; ficando mais sensível em qualquer coisa que venha fazer, até mesmo
algo comum como beber uma xícara de chá (WARAT, 2004, p. 25).

É um modo de as pessoas resolverem seus próprios conflitos pelo diálogo,


e este é facilitado através da figura do mediador, ele não tem qualquer poder de
decisão, ou seja, ele não aconselha, não sugere soluções e muito menos julga as
pessoas.

Ele facilita a comunicação entre as pessoas envolvidas no conflito, fazendo


perguntas que as levem a pensar, a se (re)posicionar sobre os próprios problemas
causados pelo conflito e a se colocar no lugar do outro (WARAT, 2004).

O mais importante na mediação é que as partes possam se comunicar livres


de qualquer pressão, pois conforme elas vão conversando, compreendem melhor
o ponto de vista do outro e refletem a respeito do seu próprio. É exatamente
aqui que a mediação se diferencia de qualquer outro método autocompositivo de
resolução de conflitos.

4 O EXERCÍCIO DA CIDADANIA E A MEDIAÇÃO COMUNITÁRIA


Acerca da temática da mediação comunitária surge o seguinte
questionamento: como o indivíduo, integrante da comunidade, pode, ao utilizar
a mediação em âmbito comunitário, exercitar sua cidadania? O exercício da
cidadania e a mediação comunitária compreendem o direito de ação do indivíduo,
ou seja, de postular em juízo algum direito que julga possuir em face de algo ou
de outrem.

138
TÓPICO 2 | CONCEITUAÇÃO E MODELOS DE MEDIAÇÃO COMUNITÁRIA

FIGURA 5 – A CIDADANIA

FONTE: <http://s3-sa-east-1.amazonaws.com/descomplica-blog/wp-content/uploads/2015/08/
cidadania.jpg>. Acesso em: 5 jan. 2020.

O que ocorre é o colapso do Poder Judiciário, devido ao elevado número


de processos, faz com que algumas pessoas desistam de exercer tal direito e/
ou recorram a outros métodos para tentar exercê-lo. Dentre esses métodos para
resolver algumas situações conflitivas que venham a surgir na comunidade, existe
a possibilidade da utilização da mediação comunitária.

No mesmo sentido de entender, não a uma exclusão de acesso à justiça,


mas mero lapso temporal, razoável e proporcional da acionabilidade, para
Grinover (1996), não se mostra absoluto o direito de ação, sujeitando-se, pelo
contrário, às condições da ação, que, por seu turno, podem ser estabelecidas pelo
legislador.

O acesso à justiça não é um fim em si mesmo, mas um meio para obter a
solução das controvérsias e trazer a paz social. A conciliação extrajudicial e prévia
é o meio mais idôneo de solução das controvérsias, porque, por intermédio dela,
a sociedade a um só tempo demonstra maturidade, civilidade para o exercício da
cidadania, aqui entendida em um conceito mais amplo que o de ter acesso aos
direitos políticos (MORAIS; SPENGLER, 2008).

Trata-se de um passo além na (re)democratização do país, pelo qual a


sociedade projeta-se para frente na (re)construção de suas próprias relações
e de autogerência, distanciando-se cada vez mais do caráter litigioso e,
consequentemente, da imprescindibilidade de recorrer ao Poder Judiciário para
resolução de qualquer mínima pendência.

É preciso mudar a concepção cultural do brasileiro de ser reticente,
ter desconfiança ou aversão a procedimentos extrajudiciais de solução
de conflitos, como já ocorria com a arbitragem, com os juizados de
pequenas causas e pode ocorrer com as Comissões de Conciliação

139
UNIDADE 3 | OS FUNDAMENTOS DA MEDIAÇÃO COMUNITÁRIA

Prévia. O brasileiro sempre prefere que o conflito seja solucionado pelo


Poder Judiciário. Entretanto, para conciliar, não é preciso a existência
de um órgão específico do Poder Judiciário, que tem a competência
para dizer o direito nos casos concretos que lhes são submetidos à
apreciação (MARTINS, 2008, p. 57).

Em estudo empírico realizado, Santos (1988, p. 57-61) demonstra


que a amplitude do espaço retórico “é variável na razão inversa do grau de
institucionalização da função jurídica e do poder dos meios de coerção utilizados,
o que pode levar à conclusão de que ao contrário do Poder judiciário, o conciliador
se mostra bem mais próximo às partes”, proporcionando, assim, um melhor
entendimento dos fatos para resolução do litígio.

Diante de um quadro fático insustentável de procura pelo Poder Judiciário


extremamente superior à própria capacidade de absorção, em que a tutela do
direito material não consegue ser entregue ao cidadão em tempo razoável, é
impossível se pensar em processo de resultados ou eficiência administrativa.

É preciso educar disciplinando a sociedade a tentar resolver, por si


própria, os seus litígios de forma madura, civilizada e responsável; é resgatar
a própria cidadania, fundamento da República Federativa do Brasil (MORAIS;
SPENGLER, 2008).

Atendendo plenamente ao princípio do acesso à justiça, os métodos


alternativos de resolução de conflitos visam romper um ciclo que faz confundir
esse direito com uma espécie de dependência do cidadão com relação ao Poder
Judiciário de caráter paternalista, que, ao mesmo tempo em que paralisa o
exercício da cidadania, ainda prejudica paradoxalmente a própria promessa
constitucional de acesso à justiça.

O conceito contemporâneo de cidadania se estendeu em direção a


uma perspectiva na qual cidadão não é apenas aquele que vota, mas
aquela pessoa que tem meios para exercer o voto de forma consciente
e participativa. Portanto, cidadania é a condição de acesso aos direitos
sociais (educação, saúde, segurança, previdência) e econômicos
(salário justo, emprego) que permite que o cidadão possa desenvolver
todas as suas potencialidades, incluindo a de participar de forma ativa,
organizada e consciente, da construção da vida coletiva no Estado
democrático (BONAVIDES; MIRANDA; AGRA, 2009, p. 7).

 Na realidade, a intervenção do Poder Judiciário apenas se justifica quando


não há outro meio de resolver o litígio; estimular os métodos extrajudiciais de
resolução de conflitos entre as partes é resgatar a cidadania e garantir a utilização
ótima da “energia” do Poder Judiciário nos casos em que ela seja necessária.

Como exercitar a cidadania se há uma “farsa da cidadania liberal”? Revelar


a farsa da cidadania liberal pode constituir-se em função precípua da educação,
na atualidade, demonstrando a impossibilidade de conciliar democracia e
capitalismo.

140
TÓPICO 2 | CONCEITUAÇÃO E MODELOS DE MEDIAÇÃO COMUNITÁRIA

O Estado de Bem-estar Social foi insuficiente para fazer esta conciliação,


os compromissos com o capital não permitiram que os avanços democráticos se
efetivassem. O trabalho de Marshall (1967) é expressão disso, principalmente
quando da sua preocupação com a Sociedade Afluente.

Ainda conforme o autor, ocorre a possibilidade de trabalhar na


perspectiva do desmonte da cidadania liberal que pode oferecer à educação a
oportunidade de inserir-se num esforço, somado a outras instituições sociais, de
construção concreta de uma nova cidadania, como é o exemplo das entidades
institucionalizadas que buscam resolver de modo alternativo os conflitos
existentes entre os indivíduos.

Apostar nisso é ajustar o espaço contraditório das lutas humanas,


acreditando que essas lutas produzem a história. Estaríamos, dessa forma,
aproveitando-nos do ambiente moderno; neste ambiente, defronta-se numa (con)
fusão de possibilidades de mudança, que se abrem continuamente.

Ocorre que dentro do complexo paradigmático na pós-modernidade, o


direito a ter acesso precisa ser compreendido e interpretado considerando o perfil
plural, reflexivo, prospectivo, discursivo e relativo do novo direito processual,
provido de uma clara finalidade instrumental e utilitarista, pois está vocacionado
a soluções concretas e eficientes para o problema da baixa efetividade da prestação
jurisdicional.

“O direito fundamental de ter acesso à justiça significa ter acesso efetivo


à tutela jurisdicional quando ela se torna imprescindível à resolução do conflito”
(MORAIS; SPENGLER, 2008, p. 34). Segundo o pensamento dos autores, o direito
fundamental de ter acesso à justiça, que é uma promessa das demais garantias
processuais de foro constitucional, não é um fim em si mesmo, limitado pelo
próprio caráter da jurisdição, na medida em que substitua a atividade das partes
envolvidas no conflito.

Enquanto direito fundamental e norma constitucional, o acesso à justiça


conforma a realidade, ao mesmo tempo em que é atualizado por esta em relação
ao seu sentido e alcance, sensível ao fenômeno da mutação da constituição.

A questão essencial na apreciação de uma forma alternativa de composição


de conflitos não passa pela rejeição da constitucionalidade do procedimento,
diante de possível abrandamento do direito a ter acesso à justiça, em um sentido
mais estrito e simplista de mero ingresso incondicionado em juízo.

Na realidade, a questão é exatamente inversa: saber em que medida de


proporcionalidade essa tranquilidade do direito de mero ingresso incondicionado
em juízo pode verdadeiramente garantir a sociedade o direito fundamental a ter
acesso à justiça (MORAIS; SPENGLER, 2008).

141
UNIDADE 3 | OS FUNDAMENTOS DA MEDIAÇÃO COMUNITÁRIA

Ocorre que, surgiu um novo paradigma de acesso à justiça enquanto


valoração do tratamento mais adequado ao conflito atualmente, não é mais o
acesso à justiça apenas compreendido como o acesso ao devido processo legal,
como era antes da Constituição Federal de 1988.

No Preâmbulo da Constituição Federal, já aparece a indicação desse novo


paradigma, qual seja, o incentivo a deixar o processo judicial, por ser um método
adversarial, como a última alternativa.

Antes será preciso que a sociedade, com auxílio dos advogados,


psicólogos, assistentes sociais, conciliadores, mediadores e árbitros, possa esgotar
outras possibilidades por meio do emprego dos métodos não adversariais de
tratamento de conflito, como é o caso da conciliação, da mediação, e, também
da arbitragem, quando da tentativa de conciliação dentro do processo arbitral,
tentada pela câmara arbitral, em um primeiro momento; para tanto, “o jurista
deve sair somente da aplicação fria e jurídica da norma” (WARAT, 1998, p. 21).

5 DOS MODELOS DA MEDIAÇÃO COMUNITÁRIA E SUA


APLICABILIDADE
A concretização da mediação comunitária em nosso país passa por
modelos de mediação e sua aplicabilidade, dentre os modelos destacamos a
justiça comunitária, idealizada pelo Conselho Nacional de Justiça e a mediação
comunitária extrajudicial, praticada por entidades privadas.

Justiça comunitária: é a justiça feita para a comunidade, na


comunidade e pela comunidade. A justiça comunitária é um programa
que estimula a comunidade a construir e a escolher seus próprios
caminhos para a realização da justiça, de maneira pacífica e solidária.
Para isso, as pessoas que desejam participar desse programa para
colaborar, voluntariamente, com a sua comunidade passam antes por
uma seleção e tornam-se Agentes Comunitários de Justiça e Cidadania
(BRASIL, 2013, p. 13).

Para que os indivíduos venham a exercer práticas ligadas à mediação


comunitária, é necessário partir da premissa de que esse trabalho é exercido em
caráter voluntário para a comunidade no qual será inserido e pelos seus membros,
com enfoque no aspecto pacífico e solidário.

Esses indivíduos, após serem capacitados para essa função em cursos para
este fim, acabam ganhando a denominação de Agentes Comunitários de Justiça e
Cidadania, e dentre as atividades que realizarão na própria comunidade estão: a
educação para os direitos, a animação de redes sociais e a mediação comunitária
de conflitos.

142
TÓPICO 2 | CONCEITUAÇÃO E MODELOS DE MEDIAÇÃO COMUNITÁRIA

Dentre as atividades que serão desempenhadas pelos Agentes comunitários


estão, em um primeiro momento, a prática da educação para os direitos; nesse
sentido, cabe destacar que:

Muitas vezes, nós nos envolvemos em um conflito porque não


conhecemos os nossos direitos e aceitamos as regras impostas por
quem parece entender do assunto. Por exemplo, quando uma pessoa
vai alugar uma casa, é importante que ela conheça o que diz a Lei do
Inquilinato para conhecer as suas obrigações e também os seus direitos
como inquilino. O problema é que as leis usam uma linguagem muito
difícil. Além disso, os contratos que são feitos entre as pessoas são, às
vezes, somente verbais (o conhecido contrato “de boca”) ou, quando
feitos no papel, trazem umas “letrinhas pequenas” que dizem coisas
que pouca gente entende (BRASIL, 2013, p. 13).

Na maioria dos casos, os indivíduos encontram dificuldade ao tentarem


compreender sozinhos o que o ordenamento normativo dispõe acerca de
determinada temática e do que está escrito em alguns contratos.

Muitas vezes, também, nós temos certeza de que temos direitos sobre
um certo assunto, mas não sabemos que a outra pessoa envolvida no
nosso conflito também os têm! Resolver o conflito nesses casos fica
muito difícil porque cada um vai querer “puxar a brasa para a sua
sardinha”, vai querer que o outro seja punido e não vai querer “abrir
mão” dos direitos que julga ter. Nessas situações, ajudaria muito
conhecer e respeitar os direitos também da outra pessoa com quem
temos um conflito, para facilitar o diálogo e a solução pacífica dos
problemas. Vemos, então, que se todos tiverem direito à informação,
todos poderão exercer os seus direitos, respeitando os direitos de
todos! (BRASIL, 2013, p. 15).

Ocorre que quando um conflito é estabelecido entre as partes elas não


sabem de certeza quem têm direitos e que direitos possuem, e, para contornar
esse tipo de situação, é necessário que cada um tenha acesso às informações sobre
como poderão exercer seus direitos caso possuam, respeitando o outro.

Para que isso aconteça, é preciso garantir o acesso à informação, e ela se


dará por intermédio da presença e trabalho dos Agentes Comunitários de Justiça
e Cidadania, pois cabe a eles ensinarem aos indivíduos quais são os direitos de
cada cidadão.

Para que toda a comunidade tenha acesso à informação, os Agentes


Comunitários de Justiça e Cidadania produzem materiais sobre os
direitos dos cidadãos. São vídeos, peças de teatro, cartilhas, fotonovelas,
literatura de cordel e outros materiais que ajudam a “traduzir” e a
“descomplicar” a linguagem das leis. Às vezes, a pessoa até conhece
os seus direitos; mas não sabe onde procurá-los, ou seja, onde resolver
os seus conflitos. Quantas vezes nós já fomos a um órgão público na
esperança de resolver nossos problemas e não conseguimos porque
não fomos ao local adequado? Nesses casos, um número grande de
pessoas acaba desistindo e “deixando para lá” (BRASIL, 2013, p. 16).

143
UNIDADE 3 | OS FUNDAMENTOS DA MEDIAÇÃO COMUNITÁRIA

Os Agentes Comunitários de Justiça e Cidadania terão a missão de


produzirem materiais a respeito dos direitos desses indivíduos da comunidade,
como cartilhas, vídeos, postagens em redes sociais, com o objetivo de tornar os
termos e expressões jurídicas mais fáceis de serem compreendidos.

A cartilha do Ministério da Justiça, intitulada “O que é Justiça Comunitária?”,


aborda o conflito como sendo um problema contínuo, ou seja, o sentimento de
injustiça continua presente na vida da pessoa.

Cabe aos Agentes Comunitários de Justiça e Cidadania demonstrar aos


indivíduos as alternativas para a resolução de conflitos apontando, por exemplo,
a mediação comunitária de conflitos. Dentre as atividades que poderão ser
desenvolvidas pelos Agentes Comunitários:

Mediação Comunitária é uma maneira de as pessoas da comunidade


resolverem seus próprios conflitos, pelo diálogo. O ato de conversar
(ou seja, não somente falar, mas também ouvir) e de poder olhar o
problema de novas maneiras ajuda as pessoas a encontrarem, juntas,
os melhores caminhos para a solução de seus conflitos. O mediador de
conflitos não tem qualquer poder de decisão, ou seja, ele não aconselha,
não sugere soluções e muito menos julga as pessoas. O mediador
facilita a comunicação entre as pessoas envolvidas no conflito, fazendo
perguntas que as levem a pensar, a se posicionar sobre os próprios
problemas causados pelo conflito e a se colocar no lugar do outro,
“calçando o sapato do outro” (BRASIL, 2013, p. 16-18).

Já a última forma de atuação dos Agentes Comunitários pode se dar por


intermédio da animação de redes sociais, entretanto, antes de tratarmos dela, é
necessário mencionar a comunidade, como sendo aquela composta por pessoas,
paradas de ônibus, donas de casa, famílias.

O que une esses nós, ou seja, essas pessoas, essas habilidades, esses
problemas, essas carências e esses talentos? É verdade que todos
moram, trabalham, estudam e constituem família em uma mesma
região, certo? Mas será que isso é suficiente para considerar esse
território uma comunidade coesa, ou seja, com laços fortes de
comunicação, de iniciativa, de organização e de solidariedade? Para
que essa comunidade seja realmente coesa, não basta partilhar do
mesmo território. É necessário que seus laços estejam unidos. Para
que essa união aconteça, deve haver uma comunicação permanente
entre os seus nós. Pronto. Temos agora uma rede social (BRASIL,
2013, p. 24).

O que o ser humano ainda não conseguiu compreender e perceber é que


ninguém é capaz de viver sozinho, isolado, já que ninguém é uma ilha, vivemos
todos interligados em um grande grupo, uma teia. Esse grupo de pessoas é capaz
de se comunicar entre si e devido a essa possibilidade de comunicação é que surge
a animação de redes sociais, pois o ato de animar a rede consiste em trabalhar as
relações existentes entre esses diferentes nichos, nós, pontos da teia social, sem
ser necessário para isso uma ordem superior, de cima.

144
TÓPICO 2 | CONCEITUAÇÃO E MODELOS DE MEDIAÇÃO COMUNITÁRIA

Para poder pôr em prática a Mediação Comunitária surgiu como


alternativa o Programa Justiça Comunitária a fim de trabalhar com o tratamento
de situações conflitivas, e, por consequência, busca fortalecer e estabelecer novas
relações sociais.

Como o Programa Justiça Comunitária trabalha com conflitos, essa


é a nossa matéria-prima. É a partir dos conflitos que procuramos
fortalecer as redes sociais que já existem ou tecer novas redes. Assim,
por exemplo, um caso pode chegar ao Agente Comunitário como um
problema individual, ou seja, levado por somente uma pessoa, no
entanto, com a compreensão que o agente tem da sua comunidade, ele
percebe que o mesmo problema também acontece com outras pessoas
que, apesar de estarem próximas umas das outras, não se comunicam.
Nesse caso, o Agente Comunitário busca reunir essas pessoas,
mobilizando-as para que, juntas, possam encontrar uma solução para
o problema comum (BRASIL, 2013, p. 24).

O objetivo da mediação comunitária é o conflito, tratar o conflito, mas não


é qualquer conflito, mas, sim, aquele surgido no próprio ambiente da comunidade
na qual o indivíduo ou os indivíduos encontram-se envolvidos.

Para tratar essa situação conflitiva, a mediação comunitária apresenta-se


como possível solução, por intermédio de programas em parceria governamental
ou particulares surgidos na comunidade e envolvendo os seus membros.
Vamos imaginar um exemplo com dois grupos de mulheres na
comunidade: um grupo é composto por mulheres desempregadas
que montaram uma cooperativa para a produção e comercialização
de artesanato. Apesar do sucesso econômico, as mulheres se
preocupam com o fato de não terem condições de dar atenção aos
seus filhos enquanto trabalham. Nessa mesma comunidade, há um
outro grupo composto por mães que, apesar de desempregadas,
não se organizaram em cooperativas porque não possuem talentos
para o artesanato, mas apresentam boas habilidades no trato e no
cuidado de crianças. Se os dois grupos se encontram, a divisão de
responsabilidades e a partilha de talentos e rendas podem gerar
benefícios para todos (BRASIL, 2013, p. 25).

O exemplo supracitado poderia ser facilmente resolvido se fosse levado


para a mediação comunitária na própria comunidade, o qual iria por intermédio
dos Agentes Comunitários propor alguma forma de remuneração para o grupo
de mães que ficasse encarregado de cuidar desses filhos menores. É nesse
aspecto que surge a animação de rede, sendo necessária a sinergia, a unidade e
a prática da solidariedade entre esses membros a fim de melhorar a qualidade
de vida local.

Já na mediação comunitária extrajudicial praticada por entidades


privadas, destacamos nessa prática o instituto Mediar Brasil, o qual iniciou suas
atividades em setembro de 2000, pelo seu presidente estadual Roque Noli Bakof,
que organizou e formatou os Ritos Procedimentais adotados pela instituição,
atualmente é presidido pela senhora Regina Jacoby.

145
UNIDADE 3 | OS FUNDAMENTOS DA MEDIAÇÃO COMUNITÁRIA

A instituição Mediar Brasil tem como foco a aplicação da Lei de Mediação


nº 13.140/2015 e a Lei de Arbitragem nº 9.307/1996, como instrumento instituidor,
buscando promover o exercício da cidadania consciente, com ênfase na pacificação
do conflito e no protagonismo da comunidade, utilizando uma abordagem
jurídico-filosófica.

Para tanto, utiliza-se do disposto nos demais dispositivos legais como o


Código Civil e o novo Código de Processo Civil, para definir e instrumentalizar
a aplicabilidade da Lei de Mediação e da Lei Arbitral no que tange aos Direitos
patrimoniais disponíveis, por tratar-se da prática da mediação e arbitragem em
âmbito extrajudicial/privado.

Para tanto, existe um Rol Exemplificativo de matérias que podem ser


submetidas as sessões de mediação e arbitragem no Mediar Brasil e nas suas
mais de oitenta seccionais, em diferentes estados do país, questões referentes à:
contratos sobre bens e serviços em geral; compra e venda; condomínio; consórcio;
direito do consumidor; letra de câmbio; imóveis; locações residenciais; locações
comerciais; cheques; marcas e patentes; propriedade; propriedade intelectual
– direitos autorais; notas promissórias; convenções coletivas; representação
comercial; responsabilidade civil; dano patrimonial; dano moral; seguro saúde;
seguros privados; sociedades em geral; sociedades comerciais; títulos de crédito
e acidentes de trânsito.

Em suma, questões que não envolverem direitos que admitam transação


não são passíveis de mediação extrajudicial; entre esses direitos, podemos
mencionar questões na esfera penal, de cunho ambiental, referentes ao estado
das pessoas, tributárias e também pessoais, concernentes ao direito de família,
por exemplo, filiação e poder familiar.

146
RESUMO DO TÓPICO 2

Neste tópico, você aprendeu que:



• A mediação comunitária é o modo como os indivíduos envolvidos em uma
situação conflitiva buscam a resolução dela por intermédio do diálogo. Da
escuta inclusiva, ela permite visualizar o objeto do conflito, auxiliando os
envolvidos a encontrarem meios de compreenderem a si mesmos e aos outros.

• Nesse caso, é preciso ressaltar que a atuação do mediador de conflitos ocorrerá
na própria comunidade, podendo ser, por exemplo, em dois ou três bairros de
uma mesma cidade por intermédio de programas sociais fomentados pelas
Justiças Estaduais em parceria com entidades privadas ou ocorrer apenas
promovidas por essa última.

• A mediação comunitária resgata valores e princípios, como o princípio da
dignidade da pessoa humana e da solidariedade, a democracia, a cidadania,
o empoderamento da comunidade e ainda proporciona o acesso à justiça dos
indivíduos envolvidos no conflito.

• Quando tratamos acerca da temática mediação, há uma expressão chamada
“Rapport”, que foi um conceito trazido da área da psicologia, como sendo
uma técnica utilizada para a criação de uma ligação, uma sintonia, a prática da
empatia por parte do mediador, quando da realização da sessão de mediação,
ter empatia, é ser solidário, ter a capacidade de colocar-se no lugar do outro.

• Depreende-se daí que a possibilidade de resolução de conflitos pela
autocomposição, e nesse caso ressaltamos a mediação comunitária, teve um
longo caminho histórico percorrido até chegar ao acesso à justiça, primeiramente
com a litigiosidade, passando pela compreensão que o seu desacesso fere o
princípio da dignidade da pessoa humana, pois desumaniza o indivíduo.

• Observa-se que ao mesmo tempo em que se valoriza a solução pública das
controvérsias, através do Juiz, há uma tendência de se adotarem resoluções
autocompositivas/alternativas de conflitos, de natureza pública e privada; não
se pode deixar de consignar, entretanto, que sempre existirá um núcleo de
questões que somente será resolvida no Judiciário.

• O exercício da cidadania e a mediação comunitária compreendem o direito
de ação do indivíduo, ou seja, de postular em juízo, algum direito que julga
possuir em face de algo ou de outrem.

147
• O que ocorre é o colapso do Poder Judiciário, devido ao elevado número de
processos, faz com que algumas pessoas desistam de exercer tal direito e/ou
recorram a outros métodos para tentar exercê-lo. Dentre esses métodos para
resolver algumas situações conflitivas que venham a surgir na comunidade,
existe a possibilidade da utilização da mediação comunitária.

• Atendendo plenamente ao princípio do acesso à justiça, os métodos alternativos
de resolução de conflitos visam romper um ciclo que faz confundir esse direito
com uma espécie de dependência do cidadão com relação ao Poder Judiciário
de caráter paternalista, que, ao mesmo tempo em que paralisa o exercício da
cidadania, ainda prejudica paradoxalmente a própria promessa constitucional
de acesso à justiça.

• A concretização da mediação comunitária em nosso país passa por modelos
de mediação e sua aplicabilidade; dentre os modelos, destacamos a justiça
comunitária – idealizada pelo Conselho Nacional de Justiça – e a mediação
comunitária extrajudicial – praticada por entidades privadas.

• Para que os indivíduos venham a exercer práticas ligadas à mediação
comunitária, é necessário partir da premissa de que esse trabalho é exercido
em caráter voluntário para a comunidade no qual será inserido e pelos seus
membros, com enfoque no aspecto pacífico e solidário.

148
AUTOATIVIDADE

1 (Estácio de Sá – Mediação de Conflitos) A relação entre a mediação e a


cidadania tem lugar:

FONTE: <https://www.passeidireto.com/arquivo/22160709/minha-av-2-mediacao>. Acesso


em: 6 jan. 2020.

a) ( ) Pela virtude de educar os indivíduos para as diferenças e estimular a


tomada de decisões sem a intervenção de terceiros, com a finalidade
de pôr fim aos conflitos de interesses, estimulando o acordo que deve
surgir a partir da livre manifestação de vontade das partes.
b) ( ) Com a realização de sessões de mediação, com a presença de conciliadores
preparados em fundamentos da cidadania e de direitos humanos, que
apresentem suas sugestões para a solução da controvérsia das partes.
c) ( ) Quando as partes não logram a composição do conflito de interesses
pela realização de acordo e se voltam para o Judiciário, objetivando a
decisão judicial por meio de julgamento para dirimir a controvérsia.
d) ( ) Pela realização de audiências judiciais prévias, de conciliação, com a
participação de conciliadores nomeados pelo Judiciário, a fim de que
proponham o acordo, intervindo na controvérsia das partes, para
alcançar a solução do conflito de interesses.
e) ( ) Quando propõe as partes que solucionem o conflito de interesses com a
indicação de um acordo, pelo terceiro, objetivando a tomada de decisões
estimulada pela proposta conciliatória.

2 (Estácio de Sá – Mediação de conflitos) Na mediação transformativa,


encontramos vários procedimentos importantes. Sobre eles, assinale a
alternativa INCORRETA:

FONTE: <https://www.passeidireto.com/arquivo/22160709/minha-av-2-mediacao>.Acesso
em: 6 jan. 2020.

a) ( ) Criação de opções para a solução do conflito.


b) ( ) Investigação e reformulação da comunicação.
c) ( ) Escuta ativa.
d) ( ) Utilização de resumos.
e) ( ) Desestabilização de histórias.

3 (Estácio de Sá – Mediação de conflitos) A mudança de paradigmas para o


manejo dos conflitos, ao invés de privilegiar os processos litigiosos, deve-
se buscar o entendimento entre as partes, sempre, visando à manutenção
responsabilização correlatas. Desta maneira, percebe-se claramente a
importância desta nova postura que:

FONTE: <https://www.passeidireto.com/arquivo/22160709/minha-av-2-mediacao>. Acesso


em: 6 jan. 2020.

149
a) ( ) Busca estabelecer uma hierarquia na comunicação entre as pessoas.
b) ( ) Aumenta o número de encaminhamentos de processos para o Judiciário.
c) ( ) Enfatiza a dependência das pessoas das decisões estabelecidas por
terceiros.
d) ( ) Reforça a manutenção da relação de poder construída pelas partes.
e) ( ) Privilegia a formação de novos paradigmas em substituição ao do
ganhar/perder.

4 (Estácio de Sá – Mediação de conflitos) As relações sociais são ricas em


aspectos emocionais e culturais. Desta forma, os conflitos surgidos a partir
delas não podem ser tratados de forma superficial e generalizada. Este fato
leva a uma mudança de paradigma que é estabelecida pela mudança:
FONTE: <https://www.passeidireto.com/arquivo/22160709/minha-av-2-mediacao>. Acesso
em: 6 jan. 2020.

a) ( ) Do paradigma adversarial em cooperativo.


b) ( ) Do paradigma cooperativo em adversarial.
c) ( ) Do paradigma cooperativo em satisfativo.
d) ( ) Do paradigma cooperativo em administrativo.
e) ( ) Do paradigma adversarial em competitivo.

5 (Estácio de Sá – mediação de conflitos) A principal característica do processo


de mediação é a:
FONTE: <https://www.passeidireto.com/arquivo/22160709/minha-av-2-mediacao>.Acesso
em: 6 jan. 2020.

a) ( ) Linguagem.
b) ( ) Discordância.
c) ( ) Técnica.
d) ( ) Competição.
e) ( ) Comunicação.

150
UNIDADE 3
TÓPICO 3

MEDIAÇÃO COMUNITÁRIA: DEMOCRACIA, ACESSO À


JUSTIÇA E O EMPODERAMENTO DA COMUNIDADE

1 INTRODUÇÃO
A mediação comunitária é capaz de trazer a efetivação da democracia,
pois ela pode possuir diversas faces, e uma delas é a participação do cidadão
de modo democrático na construção de um possível acordo, por intermédio do
diálogo entre os envolvidos no conflito.

Neste tópico, você aprenderá acerca da mediação comunitária,


democracia, acesso à justiça e o empoderamento da comunidade, ou seja, a
mediação comunitária como forma de efetivação da democracia, o acesso à justiça
no contexto da mediação comunitária e o empoderamento da comunidade por
intermédio da mediação comunitária.

Bons estudos!

2 A MEDIAÇÃO COMUNITÁRIA COMO FORMA DE


EFETIVAÇÃO DA DEMOCRACIA
Em termos de autonomia, cidadania, democracia e direitos humanos,
a mediação pode ser vista como a sua melhor forma de realização. As práticas
sociais de mediação configuram-se em um instrumento de exercício da cidadania,
na medida em que educam, facilitam e ajudam a produzir diferenças e a realizar
tomadas de decisões, sem a intervenção de terceiros que decidem pelos afetados
em um conflito (WARAT, 2001).

A democracia, inicialmente, pode ser entendida como aquela responsável


pela eleição e/ou representatividade. “O método democrático é um arranjo
institucional para se chegar às decisões políticas, sendo responsável pelo
bem comum fazendo o próprio povo decidir as questões por meio da eleição
de indivíduos que devem se reunir para realizar a vontade desse povo”
(SCHUMPETER, 1984, p. 313).

151
UNIDADE 3 | OS FUNDAMENTOS DA MEDIAÇÃO COMUNITÁRIA

A presença da democracia na mediação comunitária ocorre quando


o indivíduo é capaz de construir sua decisão acerca da situação conflitiva, por
intermédio da escolha livre do mediador, como aquele que fomentará o diálogo.

FIGURA 6 – A DEMOCRACIA

FONTE: <http://s3-sa-east-1.amazonaws.com/descomplica-blog/wp-content/uploads/2015/06/
democracia.jpg>. Acesso em: 05 jan. 2020.

3 O ACESSO À JUSTIÇA NO CONTEXTO DA MEDIAÇÃO


COMUNITÁRIA
O estudo acerca do acesso à justiça no contexto da mediação comunitária
perpassa da análise da temática da jurisdição e do aspecto social dela. Ao realizar
uma análise do contexto social e valorativo, do ponto de vista normativo, bem
como manter de certo modo a passividade do Judiciário, com uma justiça
inacessível a todos os níveis sociais, o Direito não deve se limitar a organização
Estatal e a Constituição (TEUBNER, 2005).

Para tanto, a temática jurisdição, ou seja, “dizer o direito”, precisa ser


(re)pensada sobre um Direito multicultural/intercultural, integrativo, porque o
indivíduo é produto das suas vivências.

A jurisdição afeita à pluralidade jurídica comunitária se revela como


uma forma de emancipação social, uma tomada de consciência pelas
comunidades que, na luta por justiça, criaram contra movimentos de
resistência e enfrentamento às ofensivas segregações que sofre(ra)m.
Nesse sentido, ainda se detecta na contemporaneidade, um sentimento
de incerteza, pois os homens estão envoltos em uma atmosfera de
medo, onde poucas pessoas podem estar, de fato, seguras em seus
lares, pois mesmo que hoje pareçam sólidos e prósperos, podem
desmoronar amanhã (MELEU, 2014, p. 219).

Portanto, a jurisdição/mediação comunitária é feita na comunidade e para


a comunidade; ela busca estimular a comunidade a construir e a escolher seus
próprios caminhos para a realização da justiça, de maneira pacífica e solidária,
gerando um empoderamento nos indivíduos. Teubner (2005, p. 55) afirma que é

152
TÓPICO 3 | MEDIAÇÃO COMUNITÁRIA: DEMOCRACIA, ACESSO À JUSTIÇA E O EMPODERAMENTO DA COMUNIDADE

necessário “o direito estar atento à lógica das organizações internacionais, pois


elas têm uma lógica particular e que começam a despontar paralelas ao Estado,
na globalização”, buscando um novo sentido para o conceito de mediação
comunitária e sua influência para o acesso à justiça, capaz de atender uma
sociedade cada vez mais imersa em conflitos, caracterizada pela interculturalidade/
multiculturalidade.

Como salienta Rocha (2009, p. 37), é preciso refletir sobre um Direito
multicultural, um Direito que permita, pelo menos a partir da ideia de sistema,
pensar a equivalência, isto é, “o direito comparado é extremamente importante
para se imaginar, e que apesar de tudo, existem alguns critérios suscetíveis de
equivalência universal nos sistemas jurídicos que permitem esse diálogo entre
culturas”.

Isso levou à inserção do protagonismo comunitário e o modo de


comunicação no sistema jurídico deve ser repensado, pois a comunicação constitui
os sistemas sociais, concretizadores da realidade social.

Se a forma de comunicação do sistema jurídico está em debate, isso


importa na necessidade de se aprofundar o estudo dos elementos e limites
desta, no que concerne à jurisdição enquanto ação possuidora de sentido. Diante
da crise institucional do Poder Judiciário, ou seja, da crise dos paradigmas da
modernidade do cenário contemporâneo, plural e fragmentado, necessita a
construção de um conceito de direito mais participativo e comunitário.

A modernidade celebra a universalidade, a linearidade e a verticalidade


do processo judicial, pois isso já não se mostra suficiente para lidar com as
complexidades da sociedade atual; nesse sentido, a democratização do acesso à
justiça não pode se limitar ao acesso à justiça comum (MELEU, 2014).

Desde o reconhecimento do papel fundamental da sociedade na construção


da justiça e diante da emergência de um movimento de resgate dos métodos
alternativos de resolução de controvérsias, a Justiça Comunitária ganha especial
atenção no cenário social, porque quando operada na esfera comunitária, este
método é capaz de promover autodeterminação, empoderamento e participação
nas decisões sociais, culturais e políticas, (re)elaborando o papel do conflito e (re)
desenhando um novo horizonte sob novos paradigmas; trata-se de uma justiça
realizada na comunidade e para ela (MELEU, 2014).

A Jurisdição Comunitária exercida por intermédio da mediação


comunitária está apta a integrar um projeto emancipatório, e porque não dizer
libertador, que redimensione o direito, articulando-o sob uma nova relação entre
democracia, ética e justiça; não se está buscando, aqui, a construção de uma
teoria baseada em um mundo ideal, isto é, em um mundo onde todos têm acesso
aos direitos e bens considerados essenciais, mas apenas um dos caminhos a um
Judiciário mais acessível à população, mais eficiente e desvendado. Essa discussão
é travada com base no mundo real, o mundo das desigualdades materiais e
imateriais (MELEU, 2014).
153
UNIDADE 3 | OS FUNDAMENTOS DA MEDIAÇÃO COMUNITÁRIA

A jurisdição/mediação comunitária almeja reconstruir o futuro


aparentemente inevitável, com uma sociedade mais justa e igualitária, para qual
indivíduos conheçam seus limites, sua individualidade e tenham a capacidade de
respeitar a autonomia de vontade do outro. É também emancipatória permitindo
a afirmação de direitos e demandas, por inclusão numa sociedade complexa e
multicultural/intercultural. Enfim, (re)desenhar o Direito em Comunidade está
relacionado à existência das condições imprescindíveis para a capacidade reativa
de uma sociedade culturalmente diferente das demais, capaz de se manifestar,
independentemente da vontade do Estado e identificada com o pluralismo
jurídico; esse conceito compreende uma autorregulamentação do sistema
sociopolítico frente os anseios da sociedade.

Entretanto, para que se comece a pensar em uma jurisdição comunitária,


é importante centrar tal premissa em uma noção de comunidade cidadã, ou seja,
contrária a uma comunidade excluída, tendo como pressuposto uma cidadania
participativa dos setores públicos, onde os cidadãos acabam buscando um
“interesse próprio corretamente, entendido” (PUTNAM, 2006, p. 102), ou seja,
dentro do contexto das necessidades públicas genéricas, porque esse interesse
próprio é sensível ao interesse dos outros.

A noção de comunidade perpassa pelo conceito de família, instrumento


pelo qual os indivíduos são transformados em seres sociais dentro da sua cultura,
adquirindo as qualidades necessárias para conviver em sociedade, por intermédio
de valores e o reconhecimento social por seus pares transcendente das gerações
(FUKUYAMA, 1996).

Em suma, busca-se a identificação de uma comunidade cidadã e a


necessidade de (re)pensar, em conjunto com ela, a construção de um modelo de
acesso à justiça voltado à cidadania e à efetivação dos Direitos Fundamentais, por
meio de uma jurisdição comunitária, pois o pensamento jurídico brasileiro pós-
constituição de 1988 está voltado para o compromisso de concretização desses
Direitos Fundamentais, em especial, no que concerne ao tratamento de conflitos.

FIGURA 7 – O ACESSO À JUSTIÇA

FONTE: <https://rumoadefensoria.com/uploads/images/2018/12/defensoria-publica-e-o-
acesso-a-justica-1543977057.png>. Acesso em: 5 jan. 2020.

154
TÓPICO 3 | MEDIAÇÃO COMUNITÁRIA: DEMOCRACIA, ACESSO À JUSTIÇA E O EMPODERAMENTO DA COMUNIDADE

4 O EMPODERAMENTO DA COMUNIDADE POR INTERMÉDIO


DA MEDIAÇÃO COMUNITÁRIA
A utilização da mediação comunitária como método de resolução de
conflitos gera empoderamento social, perpassando pelo acesso à justiça inerente
à condição humana. Ter acesso à justiça é um direito de foro constitucional; para
tanto, o Direito a ter direitos vem estabelecido na lei maior, ou seja, a partir desse
acesso muitos outros direitos poderão ser peticionados.

Desde o século XIX, Ferdinand Lassale já reconhecia que a Constituição


não tem valor nem é durável se contrariar os fatores de poder vigentes na realidade
social. A consolidação e a preservação da força normativa da Constituição estão
presentes na interpretação que não apenas depende do conteúdo, mas também
da sua prática. Entretanto, a efetividade da Constituição está condicionada
através dos fatos concretos da vida, que não podem ser desprezados no processo
de interpretação (LASSALE, 2009).

Pelo contrário, as condições reais devem ser correlacionadas com os


enunciados normativos da Constituição, na busca da interpretação adequada,
concretizadora do sentido do enunciado dentro das condições reais dominantes
em uma determinada situação (HESSE, 1991).

Aliás, esse é justamente o conceito teórico que justifica e legitima a


discussão contemporânea em torno da mudança de uma sociedade fechada de
intérpretes da Constituição para uma interpretação constitucional pela e para
uma sociedade aberta (HÄBERLE, 1997).

Ainda conforme o autor, trata-se de um processo contínuo retroalimentado,


no qual a Constituição, como texto político mais elevado, burila e disciplina a
sociedade, enquanto ela fornece os elementos fáticos e valorativos necessários
ao preenchimento das normas constitucionais de textura aberta, atualizando seu
sentido e alcance.

Todavia, isso cria uma via de mão dupla, pode-se deduzir que a Constituição
conforma e é conformada através da realidade concreta a cada momento histórico,
circunstância que aporta no fenômeno da mutação constitucional.

A mutação constitucional é um processo informal de alteração de


sentidos, significados e alcance dos enunciados normativos contidos
no Texto Constitucional através de uma interpretação constitucional
que se destina a adaptar, atualizar e manter a Constituição em contínua
interação com a sua realidade social. Com a mutação constitucional
não se muda o texto, mas lhe altera o sentido à luz e por necessidade
do contexto (CUNHA JÚNIOR, 2009, p. 257).

155
UNIDADE 3 | OS FUNDAMENTOS DA MEDIAÇÃO COMUNITÁRIA

A mutação constitucional, em razão de uma nova percepção do Direito,


ocorrerá quando se alterarem os valores de determinada sociedade. A
ideia do bem, do justo, do ético varia com o tempo. [...] A mutação
constitucional dar-se-á, também, em razão do impacto de alterações
da realidade sobre o sentido, o alcance ou a validade de uma norma.
O que antes era legítimo pode deixar de ser. E vice-versa (BARROSO,
2009, p. 136-137).

Em consequência, enquanto direito fundamental e norma constitucional


passível de ser alterada, o acesso à justiça conforma a realidade, ao mesmo tempo
em que é continuamente atualizado por esta em relação ao seu sentido e alcance,
sensível ao fenômeno da mutação constitucional.

Em termos práticos, a realidade processual brasileira apresenta um


quadro insustentável, o que se, por um lado, traduz a ausência de acesso efetivo à
tutela jurídica, por outro apenas demonstra a necessidade de novos paradigmas,
e de uma concepção filosófica, tendente à concretização do direito fundamental a
ter acesso à justiça (HÄBERLE, 2008).

Na decisão cautelar na Ação Declaratória de Inconstitucionalidade nº


2.160-5/DF, em julgamento conjunto com a medida cautelar na Ação Declaratória
de Inconstitucionalidade nº 2.139-7/DF, Supremo Tribunal Federal, por maioria,
considerando os termos do inciso XXXV do art. 5º da Constituição Federal e
aplicando o princípio da interpretação conforme a Constituição quanto aos
dispositivos inseridos na Consolidação das Leis do Trabalho pelo art.1º da
Lei nº 9.958/2000, em especial o art.625-D, entendeu, nos termos do voto do
Ministro Marco Aurélio Mello, que tais normas não tornam obrigatória a “fase
administrativa”, permanecendo os titulares do direito material com o acesso
imediato ao Poder Judiciário, desprezando a fase que é a relevada pela atuação da
Comissão de Conciliação Prévia (STF, Ação Declaratória de Inconstitucionalidade
nº 2.160-5).

Ao manejar o princípio da interpretação conforme a Constituição, o STF,


considerando presunção de constitucionalidade que milita em favor das leis,
escolheu entre as diversas possibilidades interpretativas, a que compreendia que
não contrariaria o texto constitucional, mas sim compatibilizaria a norma legal
com o seu fundamento constitucional (BARROSO, 2009).

Ao buscar um relacionamento harmônico e maduro entre os Poderes


Legislativo e Judiciário, diante desse processo de conformação, a Corte acabou
por combinar apenas dois processos clássicos de interpretação: a histórica e a
sistemático-literal da Constituição, a partir da interpretação histórica.

Segundo Cunha Júnior (2009), nesse caso, a interpretação histórica que é


ali apresentada para a interpretação sistemática não corresponde a técnica mais
apropriada de alcance do significado da norma constitucional, ao passo em que
deixa de refletir o aspecto dinâmico/temporal da conformação da Constituição às
alterações da realidade concreta da Constituição de 1988.

156
TÓPICO 3 | MEDIAÇÃO COMUNITÁRIA: DEMOCRACIA, ACESSO À JUSTIÇA E O EMPODERAMENTO DA COMUNIDADE

Ainda segundo a autora, considerando a natureza instrumental da


garantia processual em análise, parece óbvio que, se no contexto histórico do
início do processo de (re)democratização da sociedade brasileira, ainda à época
da promulgação da Constituição, a concretização da norma enunciada no referido
inciso cobrava uma interpretação ampla e sem restrições como forma de resgate
da cidadania.

Ocorre que, na atualidade, este aumento da litigiosidade e do


congestionamento do Judiciário pode representar uma grave ameaça ou um
obstáculo para a concretização do próprio direito fundamental de acesso à justiça,
compreendido aqui não apenas como somente o ingresso em juízo, mas sim com
o acesso a uma ordem jurídica justa, ou seja, o acesso efetivo à tutela jurisdicional
quando ela se torne imprescindível para a resolução da controvérsia. Isso porque
há uma demanda extremamente superior à capacidade de absorção processual
do Poder Judiciário.

É necessário, portanto, conformar e atualizar a Constituição diante da


realidade social, para que a garantia constitucional se preste a, efetivamente,
fomentar um processo de resultados, não só útil e socialmente legítimo e isso não
pode ser desconsiderado pelo intérprete, em especial quando se tratar das formas
alternativas de composição de conflitos para reduzir o grau de litigiosidade da
Justiça Comum (MORAIS; SPENGLER, 2008).

Tendo em vista o direito fundamental de ter acesso à justiça como princípio-


base das demais promessas instrumentais relativas às garantias processuais, não
se pode imaginar, como já observado, este mesmo acesso à justiça sem obtenção
da prestação jurisdicional com obediência aos princípios constitucionais da
razoável duração do processo e da eficiência administrativa.

É preciso admitir, portanto, que é impossível à máquina judiciária


estatal resolver todos os dissídios que lhes forem submetidos através
de sentenças (as quais, em sua maioria, ainda precisarão ser executadas
após o seu trânsito em julgado), é que, se for preciso esgotar sempre
todas as etapas e fases processuais necessárias para se chegar à efetiva
satisfação dos direitos em definitivo reconhecidos como existentes,
nunca haverá recursos públicos suficientes para montar e custear um
aparato jurisdicional capaz de atender, em tempo razoável, a todos
esses litígios. Então, é de lógica e de bom senso trabalhar, estimular
e explorar as múltiplas vertentes alternativas de solução de conflitos
de interesses, dentre as quais assume especial relevo a conciliação das
partes (PIMENTA, 2001, p. 153).

Numa concepção pós-moderna, a interpretação do direito a ter acesso


à justiça, na qualidade de direito fundamental e promessa-síntese de garantias
processuais, não pode ser concretizada somente pelos métodos histórico e
sistemático/literal, e sim pela sua conformação à verdade concreta dos fatos,
fornecendo resposta aos justos anseios da sociedade em torno da entrega da
prestação jurisdicional de qualidade em obediência aos princípios da razoável
duração do processo e da eficiência.

157
UNIDADE 3 | OS FUNDAMENTOS DA MEDIAÇÃO COMUNITÁRIA

Considerando as limitações estruturais concretas demonstradas


não é razoável se entender que o acesso à justiça pratica uma espécie de
autocanibalismo, ou seja, ele se retroalimenta, capaz de produzir o embrião de sua
própria destruição diante da impossibilidade concreta de absorção da demanda
(MORAIS; SPENGLER, 2008).

Segundo os autores, o ponto crucial na apreciação da obrigatoriedade


de uma forma alternativa de composição de conflitos não passa pela rejeição,
primeiramente, da constitucionalidade do procedimento, mediante o possível
alívio do direito a ter acesso à justiça, em um sentido mais estrito e simples de
ingresso incondicionado em juízo. Na realidade, a questão é inversa, saber em
que medida de proporcionalidade esta mitigação do direito de mero ingresso
incondicionado em juízo pode garantir a sociedade o direito fundamental a ter
acesso à justiça e por consequência sentir-se empoderada.

Em tempos de globalização da economia, quando a relação entre Estado


e mercados sofre profundas alterações, gerando inseguranças frente à lógica
da exclusão que ganha terreno dia a dia, as conquistas de acesso ao bem-estar,
como é o caso do acesso à justiça como gerador de outros direitos, não podem
ser esquecidas e nos servem de âncora para conter a desintegração total das
sociedades contemporâneas.

Este é um movimento real que (re)apresenta ares conservadores, afinal,


o conceito de cidadania e empoderamento social discutido até aqui não poderia
ser (re)editado num momento em que a sociedade observa em alguns casos
concretos a negação dos conceitos e práticas sociais democratas e comunitárias.

158
TÓPICO 3 | MEDIAÇÃO COMUNITÁRIA: DEMOCRACIA, ACESSO À JUSTIÇA E O EMPODERAMENTO DA COMUNIDADE

LEITURA COMPLEMENTAR

A MEDIAÇÃO COMUNITÁRIA COMO POLÍTICA PÚBLICA


TRANSFORMADORA DA SOCIEDADE

Rodrigo Nunes Kops


Ana Paula Zitzke

RESUMO

O presente artigo tange no que diz respeito à mediação comunitária e


sua historicidade. O principal objetivo é abordar de forma clara e objetiva o
que é mediação comunitária, de onde surgiu e sua função perante a sociedade.
Finalmente, averiguar como esta prática pode ser benéfica ao indivíduo, pois a
mediação comunitária busca a resolução do conflito e bem-estar da comunidade.
O Judiciário vem passando por uma crise devido ao seu ritual que, por muitas
vezes excessivamente longo e burocrático, acarreta a sua falta de credibilidade.
Por essas razões, surgiu a necessidade de criar políticas públicas, com métodos
inovadores que possam solucionar as desavenças, mas de um modo que incluam a
sociedade em seu sistema, diminuindo as desigualdades e injustiças sociais. Diante
das dificuldades encontradas pelo Estado em resolver os anseios da sociedade,
foram criados diversos métodos alternativos para tratamentos dos conflitos.
Tais métodos buscam dar uma resposta ágil e satisfatória à sociedade e é nesse
contexto que surge uma inovadora política pública, a mediação comunitária, um
método alternativo que busca solucionar os conflitos de forma democrática e com
uma vasta participação social. Analisaremos o que seria o instituto da mediação
comunitária e sua forma de atuação e como essa poderá se mostrar eficaz para
a resolução de conflitos. Por agir dentro de uma determinada comunidade, esta
prática acaba abrindo um leque muito amplo para que os conflitantes possam
resolver de forma pacífica e cordial suas questões e que podem ter origens em
problemas familiares, escolares, trabalhistas, de vizinhança, entre outros. Essa
prática visa estabelecer um canal comunicativo entre os membros de alguma
comunidade para ajudá-los a resolver seus problemas, através da atuação do
mediador, seja ele “cidadão” ou vinculado a uma instituição, com auxílio da
própria comunidade ou do Poder Estatal.

Palavras-chave: Agir comunicativo. Linguagem. Comunidade. Mediação


comunitária. Política pública.

ABSTRACT

This article pertains about community mediation and its historicity. The
main objective is to address a clear and objective manner what is community
mediation, where did and its function in society. Finally, find out how this
practice can be beneficial to the individual because the community mediation

159
UNIDADE 3 | OS FUNDAMENTOS DA MEDIAÇÃO COMUNITÁRIA

seeks the resolution of the conflict and welfare of the community. The judiciary
has been undergoing a crisis due to their ritual, for often excessively long and
bureaucratic, carries on his lack of credibility. For these reasons, it became
necessary to create new public policies, with innovative methods that can
solve the disagreements, but in a way to include society as a system, reducing
inequalities and social injustices. Given the difficulties encountered by the State
to resolve the concerns of society, they were created several alternative methods
for treatment of conflicts. Such methods seek to give a flexible and satisfactory
response to society, and it is in this context that an innovative public policy,
community mediation, an alternative method that seeks to resolve conflicts in a
democratic manner and with a wide social participation. We analyze what would
be the institution of community mediation and the way it operates and how this
may prove effective in conflict resolution. To act within a certain community,
this practice has just opened a very wide range so that the conflicting can solve
in a peaceful and friendly manner your questions and who may have origins in
family problems, school, labor, neighborhood, among others. This practice aims
to establish a communication channel between the members of a community to
help them solve their problems through the mediator's role be it "citizen" or tied
to an institution, with the help of the community or the State Power.

Keywords: Communicative action. Language. Community. Community


mediation. Public policy.

1 INTRODUÇÃO

Esse artigo tem como objetivo principal apresentar a mediação comunitária


destacando os aspectos principais e fundamentando o entendimento desta
prática como forma emancipadora de acesso à justiça. Nesse contexto, pretende-
se definir e defender o pressuposto de que a mediação comunitária é um exercício
de cidadania e independência de uma comunidade.

O outro objetivo desse trabalho é justificar como a mediação comunitária


pode ser uma forte aliada no desenrolar de conflitos sem o auxílio do Poder
Judiciário. Sendo assim, a comunidade se torna menos dependente do sistema
jurisdicional, aumentando a coesão interna e construindo uma independência de
seus membros, por poderem resolver seus próprios conflitos. Afinal, a mediação
surge como possibilidade de restaurar e promover o diálogo perdido.

Abordaremos a comunidade em um contexto histórico desde a filosofia


grega até a atualidade, com o cenário existente na América Latina e outros países
que, muitas vezes, se distanciaram por questões políticas, culturais, econômicos,
e politicas provenientes de autoritarismo e pouco investimento em políticas
públicas.

Através de políticas públicas é que o cidadão moderno participa da


sociedade atual, este processo é descrito por meio da Constituição Federal de
1988.

160
TÓPICO 3 | MEDIAÇÃO COMUNITÁRIA: DEMOCRACIA, ACESSO À JUSTIÇA E O EMPODERAMENTO DA COMUNIDADE

A mediação comunitária é diferente de outras práticas conservadoras,


justamente por se tratar de seu local de trabalho ser a comunidade, em que vários
valores envolvem um sistema de vida. Consequentemente, demonstrar sua
efetividade junto a práticas de políticas públicas.

A metodologia empregada para desenvolvimento deste artigo foi o


método dedutivo, no qual se pretendeu identificar e abordar o papel fundamental
referente ao tema da mediação comunitária como processo – historicidade,
políticas públicas, conflitualidade, mediação e conciliação. Além da evolução
da mediação no decorrer dos tempos, também se aplicou a técnica de pesquisa
bibliográfica, servindo de suporte no transcorrer do tema.

2 ANTECEDENTES E BREVE HISTÓRICO DA MEDIAÇÃO COMUNITÁRIA

A mediação é encontrada em diferentes culturas ao redor do mundo.


Desde comunidades religiosas, judaicas, islâmicas, budistas, como tradição, o líder
desempenhava o papel de mediador, buscando resolver situações e diferenças
entre os indivíduos. Na China, o confucionismo desempenhou um importante
papel na evolução e no desenvolvimento da mediação no âmbito comunitário.
De acordo com essa filosofia, a harmonia entre os homens só pode ser conseguida
quando as pessoas suportam mutuamente a natureza individual de cada um.
Confúcio ensinava que preservar essa harmonia é dever de todos e só quando a
comunidade reconhece ser incapaz de realizar essa tarefa é que se deve recorrer
ao direito positivo e à regulação.

Podemos ainda citar o papel do mediador desde a Bíblia, em que o papel


do Clero nada mais era que mediar a congregação e Deus entre os devotos. Até
o período da Renascença, a Igreja Católica e a Igreja Ortodoxa podem ser citadas
como organizações de resolução de conflitos da sociedade ocidental. Em outras
culturas, como indianas, islâmicas, seitas religiosas como Puritanos e Quaquers
também foram desenvolvidos métodos para resolver questões de conflitos.

Conclui-se que a função do conflito é estabelecer um contrato, um pacto


entre os adversários que satisfaça os respectivos direitos a fim de se chegar à
construção de relações de equidade e de justiça entre os indivíduos no interior de
uma mesma comunidade e entre diferentes comunidades, isto é, o conflito nada
mais é que um elemento estrutural das relações interpessoais e, por conseguinte,
de toda a vida social. A mediação é muito mais antiga do que pensamos
retrocedendo muitos anos na história, surgia mediante a necessidade de resolver
o conflito existente (MULLER, 1995).

Os grupos imigrantes do século XIX também tiveram importante


participação no histórico da mediação comunitária. Colônias italianas, gregas,
holandesas, escandinavas e judaicas, principalmente na América do Norte,
frequentemente desenvolviam câmaras de mediação e arbitragem para resolver
conflitos internos. Além desse objetivo, tais instituições alternativas de resolução

161
UNIDADE 3 | OS FUNDAMENTOS DA MEDIAÇÃO COMUNITÁRIA

de disputas tinham também a finalidade de evitar a aculturação da comunidade


pela imposição dos valores presentes no sistema legalista. A formação de elites e a
consequente necessidade de proteção dos interesses individuais, a exemplo do que
ocorreu no período colonial, acabaram favorecendo a supremacia da lei e a lenta
e progressiva aculturação das comunidades imigrantes por sua desagregação em
meio à sociedade (MULLER, 1995).

Vale dizer que somente no Século XX que a mediação se tornou efetivamente


institucionalizada e então passando a ser uma atividade profissional reconhecida.
Esta prática expandiu-se nos últimos trinta anos, tendo como base a dignidade
humana e a dignidade dos indivíduos. Nos Estados Unidos, em meados da
década de 1970, pleiteavam por uma reforma do sistema judiciário e pela inclusão
de formas não judiciais para a resolução de conflitos. Aquela época, os tribunais
norte-americanos enfrentavam uma crise provocada por um excessivo acúmulo
de funções. Alternativas como a mediação e a arbitragem ressurgem com uma
finalidade diversa: a de descongestionar o sistema judiciário. Já no Brasil a prática
de mediação comunitária ainda é nova e está sendo explorada aos poucos. No
entanto, podemos citar alguns projetos de justiça comunitária que vem sendo
desenvolvidos no Mato Grosso do Sul, adotados pelo Tribunal de Justiça, no
Distrito Federal e Territórios pelo Tribunal de Justiça

2.1 Comunidade e a mediação como resolução de conflitos

Na história grega, a comunidade origina-se com a ideia de pólis, ou seja,


considerava-se que o indivíduo poderia ser ele mesmo, desde a vida comunitária
política, social, civil, econômica ou até religiosa. Na Enciclopédia Saraiva do
Direito, comunidade é:

A comunidade é uma sociedade localizada no espaço, cujos, membros


cooperam entre si (com divisão de trabalho), seja utilitaristamente
(para obter melhores, mais eficientes resultados, práticos, reais),
seja eticamente (tendo em vista valores humanos – familiais, sociais,
jurídicos, religiosos etc.) (FRANÇA, 1977, p. 478).

Ainda, segundo Deleon (2010, p. 573-593):

Existem dois tipos de comunidades: o primeiro como organizações


– que em si são as comunidades, por exemplo, pequenas associações
cooperativas, profissionais em grupos de práticas, corpos docentes etc.
O segundo é uma profissão, uma afiliação que pode complementar ou
concorrer com sua participação em uma organização à qual pertencem
muitos administradores públicos.

Para Giddens (1999, p. 89-90):

162
TÓPICO 3 | MEDIAÇÃO COMUNITÁRIA: DEMOCRACIA, ACESSO À JUSTIÇA E O EMPODERAMENTO DA COMUNIDADE

Comunidade não implica a tentativa de recapturar formas perdidas


de solidariedade local; diz respeito a meios práticos de fomentar
a renovação social e material de bairros, pequenas cidades e áreas
locais mais amplas. Não há fronteiras permanentes entre governo
e sociedade civil. Dependendo do contexto, o governo precisa por
vezes ser empurrado mais profundamente para a rena civil, por vezes
recuar. Onde o governo se abstém desenvolvimento direto, seus
recursos podem continuar sendo necessários para apoiar atividades
que grupos locais desenvolvem ou introduzem – sobretudo em áreas
mais pobres. Contudo, é particularmente em comunidades mais
pobres que o incentivo à iniciativa e ao envolvimento locais pode gerar
o maior retorno.

A comunidade, então, é decorrente de uma vontade orgânica das pessoas,


produzida a partir das relações de parentesco, vizinhança e amizade. É o lugar
dos sentimentos, do amor, da lealdade e da compreensão, sendo três os elementos
que a constituem: sangue, localidade e espírito (NAUJORKS, 2013).

Comunidade, enfim, sugere uma coisa boa: é bom ter uma comunidade
e estar em uma. Ela produz uma sensação confortante, de paz, tranquilidade,
relaxamento e proteção, seja porque é um lugar cálido ou porque é aconchegante.
O vocábulo evoca tudo aquilo que precisamos para viver seguros e confiantes,
soando nos ouvidos como música (BAUMAN, 2003).

FONTE: <https://online.unisc.br/acadnet/anais/index.php/sidspp/article/view/13197>.
Acesso: 5 jan. 2020.

163
RESUMO DO TÓPICO 3

Neste tópico, você aprendeu que:



• A mediação comunitária é capaz de trazer a efetivação da democracia, pois ela
pode possuir diversas faces, e uma delas é a participação do cidadão, de modo
democrático na construção de um possível acordo, por intermédio do diálogo
entre os envolvidos no conflito.

• O estudo acerca do acesso à justiça no contexto da mediação comunitária
perpassa da análise da temática da jurisdição e do aspecto social dela.
Ao realizar uma análise do contexto social e valorativo, do ponto de vista
normativo, bem como manter de certo modo a passividade do Judiciário, com
uma justiça inacessível a todos os níveis sociais, o Direito não deve se limitar a
organização Estatal e a Constituição.

• O direito comparado é extremamente importante para se imaginar, e, apesar
de tudo, existem alguns critérios suscetíveis de equivalência universal nos
sistemas jurídicos que permitem esse diálogo entre as culturas. Isso levou à
inserção do protagonismo comunitário e o modo de comunicação no sistema
jurídico, que deve ser repensado, pois a comunicação constitui os sistemas
sociais, que, por sua vez, concretizam a realidade social.

• Se a forma de comunicação do sistema jurídico está em debate, isso importa na
necessidade de se aprofundar o estudo dos elementos e limites desta, no que
concerne à jurisdição enquanto ação possuidora de sentido.

• Diante da crise institucional do Poder Judiciário, ou seja, da crise dos paradigmas
da modernidade do cenário contemporâneo, plural e fragmentado, é necessário
a construção de um conceito de direito mais participativo e comunitário.

• Em suma, busca-se a identificação de uma comunidade cidadã e a necessidade
de (re)pensar, em conjunto com ela, a construção de um modelo de acesso
à justiça voltado à cidadania e à efetivação dos Direitos Fundamentais, por
meio de uma jurisdição comunitária, pois o pensamento jurídico brasileiro
pós-constituição de 1988 está voltado para o compromisso de concretização
desses Direitos Fundamentais, em especial, no que concerne ao tratamento de
conflitos.

164
• A utilização da mediação comunitária como método de resolução de conflitos
gera empoderamento social, perpassando pelo acesso à justiça inerente à
condição humana. Ter acesso à justiça é um direito de foro constitucional; para
tanto, o Direito a ter direitos vem estabelecido na lei maior, ou seja, a partir
desse acesso, muitos outros direitos poderão ser peticionados.

• O ponto crucial na apreciação da obrigatoriedade de uma forma alternativa
de composição de conflitos não passa pela rejeição primeiramente, da
constitucionalidade do procedimento, mediante possível alívio do direito
a ter acesso à justiça, em um sentido mais estrito e simples de ingresso
incondicionado em juízo. Na realidade, a questão é inversa, saber em que
medida de proporcionalidade esta mitigação do direito de mero ingresso
incondicionado em juízo pode garantir a sociedade o direito fundamental a ter
acesso à justiça e, por consequência, sentir-se empoderada.

• Em tempos de globalização da economia, quando a relação entre Estado e
mercados sofre profundas alterações, gerando inseguranças frente à lógica da
exclusão que ganha terreno dia a dia, as conquistas de acesso ao bem-estar,
como é o caso do acesso à justiça como gerador de outros direitos, não podem
ser esquecidas e nos servem de âncora para conter a desintegração total das
sociedades contemporâneas.

• Este é um movimento real que (re)apresenta ares conservadores, afinal, o
conceito de cidadania e empoderamento social discutido até aqui não poderia
ser (re)editado num momento em que a sociedade observa em alguns casos
concretos a negação dos conceitos e práticas sociais democratas e comunitárias.

CHAMADA

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165
AUTOATIVIDADE

1 Lilia Maia de Morais Sales, em sua obra Justiça e Mediação de Conflitos,


de 2004, afirma que a mediação deve desenvolver entre a população
valores, conhecimentos, crenças, atitudes e comportamentos conducentes
ao fortalecimento de uma cultura político democrática e uma cultura de
paz. Esta forma de resolução de conflitos busca enfatizar a relação entre
os valores e as práticas democráticas e a convivência pacífica e a contribuir
para um melhor entendimento de respeito e tolerância e para um tratamento
adequado daqueles problemas que assolam a todos que naquele espaço
residem. Com a mediação, incentiva-se a participação ativa dos cidadãos
na solução de conflitos individuais e coletivos e ainda se promove um
empoderamento dos indivíduos, pois transmite às partes envolvidas a
noção de que elas mesmas são capazes de encontrar uma solução para as
questões em disputa. Este conceito refere-se a qual contexto de mediação?
FONTE: <https://www.passeidireto.com/arquivo/5177295/ccj-0057-wl-mediacao-de-conflitos-
simulado-aula-09-prova-03>. Acesso em: 5 jan. 2020.

a) ( ) Mediação Comunitária.
b) ( ) Mediação Judicial.
c) ( ) Mediação Empresarial.
d) ( ) Mediação Escolar.
e) ( ) Mediação Familiar.

2 (Estácio de Sá – Mediação de conflitos) Qual das técnicas de mediação a teoria


da comunicação utiliza, adotando também técnicas de aperfeiçoamento
da escuta do mediador, sua investigação e reformulação da comunicação,
através da paráfrase e dos questionamentos?
FONTE: <https://www.passeidireto.com/arquivo/5177295/ccj-0057-wl-mediacao-de-conflitos-
simulado-aula-09-prova-03>. Acesso em: 5 jan. 2020.

a) ( ) Pré-mediação.
b) ( ) Mediação satisfativa.
c) ( ) Mediação transformativa.
d) ( ) Mediação circular-narrativa.
e) ( ) Resumo.

3 (Estácio de Sá – Mediação de conflitos) Considerando as hipóteses em que a


mediação não é recomendada, assinale a alternativa CORRETA:
FONTE:<https://www.passeidireto.com/arquivo/5177295/ccj-0057-wl-mediacao-de-conflitos-
simulado-aula-09-prova-03>. Acesso em: 5 jan. 2020.

166
a) ( ) A mediação não é recomendada quando se tem princípios inegociáveis.
b) ( ) A mediação não é recomendada quando se quer resolver o conflito
rapidamente.
c) ( ) A mediação não é recomendada quando não existe grande desequilíbrio
de poder.
d) ( ) A mediação não é recomendada quando a disputa não convém a
ninguém e nenhuma das partes deseja entrar com uma ação na justiça.
e) ( ) A mediação não é recomendada quando as partes querem conservar o
controle sobre o resultado.

4 (Estácio de Sá – Mediação de conflitos) Quanto aos diferentes contextos de


aplicação da mediação, analise as afirmativas a seguir:
FONTE: <https://www.passeidireto.com/arquivo/5177295/ccj-0057-wl-mediacao-de-conflitos-
simulado-aula-09-prova-03>. Acesso em: 5 jan. 2020.

I - A mediação escolar possibilita a educação em valores e a educação para a


paz, a partir de soluções construtivas para o conflito, diante da convivência
diária.
II - A mediação comunitária estimula a participação ativa dos cidadãos na
solução de conflitos individuais e coletivos, bem como favorece a inclusão
social.
III - A mediação familiar favorece a manutenção dos vínculos psicoafetivos
de seus integrantes, além de diminuir o volume processual nas Varas de
Família.
IV - A mediação empresarial leva a uma redução dos custos legais e de tempo,
além de resguardar o sigilo das pendências em discussão.

Assinale a alternativa CORRETA:


a) ( ) As afirmativas I, II, III e IV estão corretas.
b) ( ) Somente a afirmativa I está correta.
c) ( ) Somente a afirmativa II está correta.
d) ( ) Somente a afirmativa III está correta.
e) ( ) Somente a afirmativa IV está correta.

5 (Estácio de Sá – Mediação de conflitos) Assinale alternativa CORRETA que


aponta a indicação da mediação para solução dos conflitos:
FONTE: <https://www.passeidireto.com/arquivo/5177295/ccj-0057-wl-mediacao-de-conflitos-
simulado-aula-09-prova-03>. Acesso em: 5 jan. 2020.

a) ( ) No conflito existem princípios inegociáveis.


b) ( ) Há um interesse punitivo.
c) ( ) Uma das partes quer provar a verdade dos seus feitos.
d) ( ) As partes compartilham algum grau de responsabilidade pelo estado do
conflito.
e) ( ) Existe delito de ação pública ou violência ou maus-tratos.

167
168
REFERÊNCIAS
ABREU, A. K. de. O casamento em cena: representações da conjugalidade
em duas peças de teatro. Disponível em: https://www.maxwell.vrac.puc-rio.
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BONAVIDES, P.; MIRANDA, J.; AGRA, W. de M. Comentários à Constituição


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BRASIL. Lei nº 13.146, de 6 de julho de 2015. Institui a Lei Brasileira de Inclusão


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particulares como meio de solução de controvérsias e sobre a autocomposição de
conflitos no âmbito da administração pública; altera a Lei nº 9.469, de 10 de julho

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