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Copyright © 2020 Cinthia Basso

Esta é uma obra de ficção. Nomes, personagens, lugares e acontecimentos


descritos, são produtos de imaginação do autor. Qualquer semelhança
com nomes, datas e acontecimentos reais é mera coincidência.

Revisão: Margareth Antequera


Capa e diagramação digital: Layce Design

Todos os direitos reservados.


São proibidos o armazenamento e/ou a reprodução de qualquer parte
dessa obra, através de quaisquer meios — tangível ou intangível — sem o
consentimento escrito da autora.
A violação dos direitos autorais é crime estabelecido pela lei nº. 9.610./98
e punido pelo artigo 184 do Código Penal.

Edição digital | Criado no Brasil.


Playlist
Prólogo
Capítulo 1
Capítulo 2
Capítulo 3
Capítulo 4
Capítulo 5
Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8
Capítulo 9
Capítulo 10
Capítulo 11
Capítulo 12
Capítulo 13
Capítulo 14
Capítulo 15
Capítulo 16
Capítulo 17
Capítulo 18
Capítulo 19
Capítulo 20
Capítulo 21
Capítulo 22
Capítulo 23
Capítulo 24
Capítulo 25
Capítulo 26
Capítulo 27
Capítulo 28
Capítulo 29
Capítulo 30
Capítulo 31
Capítulo 32
Capítulo 33
Capítulo 34
Capítulo 35
Capítulo 36
Capítulo 37
Capítulo 38
Capítulo 39
Capítulo 40
Capítulo 41
Capítulo 42
Capítulo 43
Capítulo 44
Capítulo 45
Capítulo 46
Epílogo
Agradecimentos
Sobre a autora
Outras obras
Contato
Notas
Ou você aprende com a dor, ou ela te destrói.
Para ouvir a playlist de “O Rei do Petróleo” no Spotify, abra o app no seu
celular, selecione buscar, clique na câmera e posicione sobre o code abaixo.

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Alguns passados são carregados e remoídos até que eles se
tornem parte do futuro.

— Sua puta desgraçada! — Ouço os sons das agressões, chorando


baixo no porão.
Se ele me ouvir, fará o mesmo comigo. Meu pulso, que ele quebrou há
dois meses, ainda dói em algumas noites, quando faz muito frio. Nós
moramos em uma das casas da fazenda do vovô Kingston. Ele vive
perguntando para minha mãe se está tudo bem conosco, ela sempre diz que
sim. Penso que deveria contar a verdade e acabar com tudo logo de uma vez.
Mas, ela tem medo, pavor de que seu marido nos mate. Meu pai mesmo, não
sei quem é, sempre fui criado por ela. Depois dele, mamãe ficou meio
estranha e encontrou esse homem que ela disse que cuidaria da gente. A
verdade não poderia ser mais contrária a essa.
Soluço, espremendo-me em uma bola, apertando meus joelhos contra o
peito, com a cabeça baixa, derramando lágrimas que encharcam o piso frio.
Um moletom fino tenta me proteger da temperatura baixa e não tenho
coragem de voltar para pegar um mais quente. O frio corrói até meus ossos e
eu bato meus dentes uns nos outros, sem conseguir me manter aquecido.
Passos vibram a madeira acima da minha cabeça, a poeira se desprende dela e
cai sobre mim. Gritos novamente, berros de dor que se apoderam da minha
alma e me fazem soluçar mais, afundar completamente em meio ao choro e
desespero de não conseguir ajudar. Ela pediu para que eu me escondesse, não
queria que eu apanhasse também, mas eu precisava dividir com ela o fardo.
— NÃOOOO! — Ouço o grito pouco antes da porta se abrir com um
rangido.
Uma luz invade a escuridão pela fenda.
Meu corpo treme, mas desta vez de medo.
— Você está aí!
Escuto a voz e logo em seguida enxergo seus olhos. Eles estão
vermelhos, e seu semblante, conota ódio. Não entendo o motivo para tanto
rancor, mas ele é direcionado a mim e eu não consigo me mexer. Meu corpo
parece congelado, se pelo frio ou pelo medo, não sei dizer. O sorriso macabro
que desponta em seu rosto, faz um líquido quente escorrer pelas minhas
pernas. Sinto-me um fracasso, não posso proteger ninguém, nem a minha
mãe, muito menos eu. Como posso ser um Kingston, então? Vovô está
errado, eu não mereço o nome que ele ostenta com tanto orgulho.
Dedos se prendem em torno do meu braço e sou arrastado pelo chão
embolorado, fedido e cheio de farpas do porão. Sinto várias lascas de madeira
se prenderem à minha pele e alimentar a ardência que os cortes provocam.
Meus braços desnudos estão quentes agora. Agradeço pelo menos isso. Não
consigo falar, não consigo rezar — mamãe me disse que sempre que eu
sentisse desespero, eu deveria rezar ao Senhor, — isso parece não fazer
sentido agora. Como Ele poderia me ajudar?
Minha cabeça bate em cada degrau da escada pelo qual sou arrastado.
As pancadas aos poucos amortecem a minha capacidade de distinguir
qualquer coisa. Estou entorpecido. Minha visão fica embaçada e algo começa
a escorrer pelo meu olho. Um filete vermelho. Choro copiosamente,
chamando minha mãe, ela precisa me ajudar, precisa parar a dor com um
beijo, daquele jeito que só ela sabe. Sempre que beija meus machucados, eu
volto a me sentir bem. Tento morder os dedos que me arrastam, recebo um
tapa no rosto, o que me deixa tonto por alguns segundos, sem saber o que
fazer. Não sei se chorar pode ajudar.
— Meu filho, não! Solta meu filho! — ouço seus gritos apavorados.
Tento fitá-la por entre o mar vermelho que se estende diante da minha
visão. Quero dizer que não precisa ficar triste, que tudo acabará bem. Nós
temos um ao outro. Arranho as mãos do homem na vã tentativa de me soltar,
para poder correr em direção a ela.
— Ele vai pagar por ter uma mãe tão vadia.
Ela tenta se levantar, não consegue. Tenta novamente, mas desaba no
chão. Seu rosto está avermelhado ou é o sangue que escorre dos meus
machucados? Pisco algumas vezes e o vermelho está nela. Seu olho esquerdo
brilha arroxeado enquanto um corte enorme atravessa a sua bochecha. Parece
as cicatrizes que tenho na costela, de quando apanhei com a fivela do cinto.
Mordo a mão depois de muito me esforçar, debatendo-me para todos os
lados. Ele solta, mas seus dedos se prendem ao meu cabelo e ele bate minha
cabeça com força contra o piso em madeira de casa. O soluço morre em
minha garganta. Não consigo mais chorar. Mamãe se desespera arrastando-se
na nossa direção.
Minha cabeça é erguida, meu couro cabeludo protesta com a força
empregada nele. Fecho meus olhos, pensando que isso fará com que a dor
passe. Por que esse inferno está acontecendo com a gente?
— Filho! — ela estende a mão na minha direção.
Não sou capaz de fazer o mesmo. Meu corpo inteiro dói.
— Por que ficou conversando com o funcionário do seu pai, Kristen?
Por quê? Fala logo desde quando você fode com aquele desgraçado! Aposto
que Kendrick é um bastardo. Não sei como teve coragem, mas você pagará,
não apenas por isso, mas por toda a merda que seu pai fez!
Mais uma vez minha cabeça encontra o chão. Meu peito sobe e desce
acelerado, não posso respirar, porque quando o faço, uma parte em mim
queima. Mamãe se arrasta; quero que ela fique quieta, para não se machucar
mais. Só em saber que ele pode bater nela até que durma, como da última
vez, já sinto vontade de chorar e espernear, para chamar sua atenção. Quando
ele se cansa dela, vem até mim e tudo bem, pelo menos mamãe ainda
consegue acordar no próximo dia.
Mas, hoje ele parece realmente furioso.
Vovó me disse que quando as pessoas são muito más, elas encontram
alguém que se chama diabo no fim das suas vidas. Não vejo a hora que ele
encontre essa pessoa para poder sofrer tudo o que fez a gente passar. Como
nos fez calar. Prometeu que nos mataria se contássemos para alguém. Acho
que esse dia chegou. Ainda bem que meu irmão está na casa do meu avô,
senão ele correria perigo também.
— Me solta! Me solta! — peço, batendo como posso no seu braço.
Ele gargalha.
Diverte-se com o sofrimento que proporciona.
— Vocês são patéticos! Acham mesmo que os deixarei sair vivos? Já
cavei a cova para enterrar os dois. É o que merecem, seus Kingstons
imundos. Pensam que podem mandar no mundo, mas o “grandpa” — fala em
um tom amargo — terá finalmente o que merece. Verá a filha e o neto
mortos, por mim. Pena que o mais novo conseguiu escapar desse dia, mas
ainda terei muito tempo para acabar com ele também.
— Você... — mamãe desespera-se — precisa ir embora! Eu te dou
dinheiro, qualquer coisa, mas — os soluços a fazem parar para respirar — vá
embora da minha vida e da dos meus filhos!
— Não até que seu pai veja o que causei à família. Alguém que ele
sempre confiou — gargalha — É engraçado como algumas falas educadas e
gestos gentis, podem camuflar a verdadeira face das pessoas, não? “Ah,
minha filha é mãe solteira, ninguém sabe onde está o pai do pequeno Lane”.
“Deveriam se conhecer, ela é uma legítima garota texana”. Como o
papaizinho — Sibila para minha mãe — se sentiria ao saber que foi a ruína da
filha? Admito que eu precisava me vingar de todos, mas realmente foi
fenomenal poder aproveitar um pouco o luxo que veio com isso.
— Do-do-do que está falando?
— Não sabe querida Kristen, o que seu pai fez para conseguir comprar
todas essas terras — ele me lança para longe, bato a minha cabeça contra um
dos móveis — em que estado deixou as pessoas pobres que moravam ao
redor? Ele sabia a quantia que cada uma devia para o governo e ofereceu uma
mixaria a mais para que pudessem quitar as suas dívidas. A maioria ficou
sem ter aonde morar, e um pai de família se suicidou. Tudo para que os
terríveis Kingstons conseguissem construir fortuna no mundo petrolífero. Seu
dinheiro é manchado com sangue e — cospe na minha mãe. Tento me
levantar para impedi-lo, no entanto não consigo — não vejo a hora de
receberem o que merecem.
Mamãe chora.
Queria ser capaz de protegê-la do monstro, mas eu sou só uma criança,
fraca e machucada. Penso que quando crescer, ninguém fará mal à minha
família, eu não deixarei.
— Você está louco!
— Acha mesmo? Pena que não poderá ter certeza.
Caminha até ela.
Seus passos ecoam em minha mente e eu olho fixamente para as suas
botas, com a imagem gravando-se para sempre em minha memória. Ele a
levanta pelo cabelo, enquanto ela grita a plenos pulmões, com a dor. Levanto-
me, evocando toda a minha força para correr porta afora e pedir a ajuda de
alguém. O medo se espalha pelo meu corpo e eu sinto meu coração protestar
ao deixar minha mãe para trás enquanto eu saio de casa, um passo depois do
outro, torcendo para encontrar alguém. Nossa casa é a mais afastada na
fazenda, várias ficam à nossa frente, sendo que a mais próxima é
assustadoramente distante. Não sei como sou capaz de correr, mas sei que
preciso salvar mamãe, e só conseguirei se eu fizer o meu máximo para ir
adiante.
Ouço meu nome. O homem grita atrás de mim, percebendo que se me
deixar escapar pode ser seu fim.
— Seu filho da puta!
Forço minhas pernas a acompanharem o ritmo insano da minha vontade
de escapar. Elas parecem gelatina e é como se eu estivesse correndo sem
forças, apenas com a minha determinação. Sei que preciso me apressar, ele se
aproxima de mim mais e mais, no entanto é impossível. Penso em desistir.
Meus músculos queimam e eu estou ficando sem ar.
— Lane, se abaixe! — Escuto a voz da mamãe ao longe.
Faço o que ela pede, é isso que ela precisa de mim.
— QUE VOCÊ VÁ PARA O INFERNO, SEU DESGRAÇADO! —
grita e um som agudo ecoa por entre o espaço aberto da fazenda.
Coloco as mãos nos ouvidos, imaginando que pode vir outro. Estou
encolhido no chão, sem saber se quero me levantar e ver o que aconteceu. O
homem mau, pode estar vivo e pronto para nos matar de verdade.
Algum tempo se passa.
Mantenho-me agachado, recolhido no meu próprio desespero.
A escuridão que se estende é assustadora e não sei se quero me virar,
congelado pelo terror, ou se prefiro fitar à frente, onde algumas luzes dançam
iluminando em fachos para onde miram.
— Lane, você está bem? — Ouço vozes e não sei se já posso me
levantar.
O medo paralisa o meu corpo e não consigo ao menos falar alguma
coisa. O frio do lado de fora é pior do que o do porão e suspiro aliviado
quando sinto alguém colocar um tecido quente sobre mim. Prendo-me a ele,
na tentativa de me aquecer. Choro de alívio e, também de terror, soluçando
por ouvir a voz do meu avô e da minha avó. Choro de alívio por saber que fui
salvo pela minha mãe.
Sacudo a cabeça, dizendo que estou bem.
Vovô me levanta e posso ver que ele está com a sua espingarda,
disposto a qualquer coisa. Não me atrevo a olhar para trás. Ele também
mantém suas mãos firmes em meus ombros, impedindo que eu faça isso.
O que se encontra atrás de mim? Um mistério.
Pega-me no colo e me carrega até a sua caminhonete. Só está ele, vovó
e alguns empregados, mais ninguém. Acredito que ele queira que as coisas
permaneçam assim. Deixa-me no banco para ir buscar minha mãe. Não
demora muito para que ela esteja ali comigo.
Seus olhos aparentam exaustão e ela me abraça firme quando percebe
que estou bem. Seus beijos no topo da minha cabeça e seu abraço tornam-se
desesperados, como se não acreditasse que fomos salvos.
— Lane, querido, você está bem! Ah meu Deus, obrigada por essa
bênção. — Suas lágrimas molham meu rosto — Querido, eu sinto muito, de
verdade, por tudo. Espero que um dia você seja capaz de perdoar a sua mãe.
Não entendo por que ela diz isso.
Eu não a odeio.
Eu a amo mais do que tudo.
— Vocês dois precisam ir para o hospital, Kristen! E por que maldição
não me contaram o que vinham sofrendo? — vovô a interrompe.
O clima está estranho entre os adultos. Eu permaneço quieto, tentando
conter a vontade de chorar copiosamente. Mamãe já está chorando, não posso
dar motivos para ela ficar ainda pior.
— Ele dizia que mataria a mim e aos meus filhos se alguém abrisse a
boca. Eu — ela volta a soluçar — Fiquei morrendo de medo, papai.
— É uma Kingston, nós protegemos os nossos, custe o que custar. Veja
só o estado do meu neto, acha que isso foi certo? Colocá-lo em perigo dessa
forma? Se alguma coisa tivesse acontecido a ele, como lidaria com a culpa,
minha filha? — É a primeira vez que vejo vovô realmente furioso, não com a
minha mãe, mas com o que vem acontecendo sem que ele soubesse —
Vamos discutir sobre isso depois, ele precisa urgentemente de atendimento
médico — olha para ela — assim como você.
— Mas, papai, o...
— Depois, Kristen. Primeiro vamos tratar dos ferimentos seus e de
Lane. Resolvemos os problemas depois.
Mais tarde, durante a noite, vovô entra no quarto de hospital e me diz
que mamãe foi forte em aguentar tudo, mas, ele não precisa falar nada, eu sei
disso melhor do que ninguém. Diz também que eu não sou o culpado por não
conseguir protegê-la. Termina a conversa com uma fala estranha, afirmando
que dali por diante ele que cuidará de mim, assim como vovó.
E a minha mãe?
— E mamãe?
— Ela irá se curar para voltar pra gente, meu neto.
O dia já começa bem quando alguém te beija com tanta
vontade. Tire a minha roupa, garotão, quem sabe a gente
possa evoluir a brincadeira mais tarde!

Admiro as ondas quebrando contra a praia. Os grãos de areia refletem


os raios solares, emanando paz. Sinto-me bem, maravilhosamente bem.
Contemplo por alguns instantes os banhistas espalharem suas toalhas e
seus guarda-sóis buscando pelo melhor lugar. Tomo o drinque que pedi, com
um guarda-chuva para mexê-lo. Acho lindo, tiro uma foto com a quantidade
de luz certa, acesso meu blog pelo celular e a posto. Faço a mesma coisa em
outra rede social. Várias curtidas surgem assim que a foto é carregada.
Também pudera, está linda, colorida e representa muito o clima de Miami.
Ajeito meu chapéu de verão, e olho para o céu. Ele ostenta um tom de azul
hipnótico, semelhante ao do oceano à minha frente. O bar em que estou
possui espreguiçadeiras, com dosséis e longos voal brancos, dando um ar
muito paradisíaco ao lugar. Se a pessoa busca felicidade apenas em se sentar
e observar o mar azul, se estendendo ao longe, enquanto a cidade forma uma
meia-lua, repleta de prédios funcionando como espelhos da natureza, este é o
lugar. O moderno e a beleza intocável nunca foram tão acessíveis. Coqueiros
verdes, frondosos, completam a cena cinematográfica e é como se eu
estivesse prestes a ver mais um filme do Adam Sandler, de férias, com as
verdadeiras queridinhas de Hollywood, as quais transformam as comédias
românticas em sucessos estrondosos.
Meu celular vibra com os comentários.
Pego meu drinque do balcão e vou até uma das espreguiçadeiras na
areia, para pegar um bronzeado. Sem esquecer de dar goladas pequenas na
bebida, saboreando a mistura de tequila, laranja, suco de limão e sal na borda.
A Margarita está perfeita, sem mais. Penso em enviar uma mensagem à
minha irmã, para ela vir beber um pouco comigo, para aliviar o seu
desânimo, depois de um rompimento, no entanto, reconsidero. Madison deve
estar querendo ficar um pouco sozinha para colocar seus pensamentos em
ordem. Suspiro ruidosamente. Não por ela, mas sim pela beleza do mar. É tão
pacífico que sinto a leveza se apoderar do meu corpo.
Eu deveria estar tão despreocupada, tomando uma bebida na areia da
praia, quando não tenho tanto dinheiro assim? Talvez não, mas, se eu ficar
preocupada demais, coisas piores acontecerão, além do mais, estou no meu
dia de folga, acho justo ter algumas horas para me aproveitar.
Recebo uma mensagem de um cara com o qual estou conversando e
borboletas viajam pela minha barriga.
Ele é lindo, do tipo lindo de verdade.
Respondo prontamente, afirmando que durante a noite estarei livre para
aproveitarmos o tempo juntos.
Encontro-me tão concentrada no meu celular que quando olho para o
lado e vejo o monumento que se deitou em uma das espreguiçadeiras
próxima a mim, quase desmaio. Ele possui os traços duros, bem delineados,
parece ter entre trinta e quarenta anos e exibe um físico de fazer inveja a
qualquer atleta. Sua barriga definida, mesmo com ele deitado, as pernas
compridas, inegável pose de macho alfa e a sua total incapacidade de olhar
para o lado — o que acho sexy — repercutem faíscas em minha corrente
sanguínea. Ele não me nota, está compenetrado em alguma coisa no seu
celular. Acredito que esse é o mal da humanidade ultimamente, e não estou
sendo hipócrita, digo isso me abrangendo, já que raramente consigo ficar sem
interagir em minhas redes sociais. Juro que já tentei diversos planos para
poder me desligar um pouco, todavia, talvez eu precise de um parceiro fixo
para passar a maior parte do tempo transando do que vendo, ou
compartilhando receitas que nunca irei fazer. Minha irmã é melhor cozinheira
do que eu, não posso mentir, então não tem qualquer sentido em eu ver sei lá,
ensopado de peixe!
Fico um longo tempo admirando o peitoral do desconhecido, assim
como as cicatrizes grandes que percorrem as suas costelas, intrigando-me em
como foram feitas. Quero desvendá-lo e isso não é uma boa coisa. Meus
dedos coçam de vontade de tirar uma foto sua e postar elogiando nas redes,
falando sobre o gato ao meu lado na praia, mas opto por não. Isso seria
desrespeito com a sua privacidade, mas que sinto vontade, sinto sim.
Ele é o tipo de cara com o qual eu desperdiçaria algumas gotas do meu
Coco Chanel. Um perfume capaz de abalar os corações mais empedrados do
mundo.
Como se sentisse meu olhar, ele se vira, cruzando rapidamente comigo.
Não me dá muita atenção e volta a fazer alguma coisa no seu celular.
Não tira foto, não sorri, parece até incomodado de estar na praia. O que é uma
reação no mínimo estranha a meu ver. Certifico-me de lançar o meu sorriso
matador até ele, deixando claro que se quiser, eu estou no mínimo disposta a
conhecê-lo. Mas, nada. Ele ignora meu flerte com tanta perícia que eu sinto
que preciso aprender para usar quando eu não estiver interessada. Levanta-se
casualmente e desaparece.
Movo meus ombros, falando a mim mesma para esquecer o protótipo
de deus grego.
Desisto de permanecer na praia passados vários minutos, inspirada para
montar cenários interessantes e gravar vídeos para o meu blog. Pesco a saída
de praia ao meu lado na espreguiçadeira e a visto, amarrando nas laterais.
Vou em direção ao bar e paro para fechar a conta. Apenas uma bebida não
fica caro e sinceramente, valeu a pena cada centavo pela qualidade oferecida.
Estou prestes a sair quando me deparo com o homem lindo da
espreguiçadeira vizinha. Ele me vê, reconhece e escolhe ignorar, no entanto,
alguma coisa muda nele, porque semicerra os olhos, empertiga o corpo e dá
passos decididos em minha direção.
Sua beleza é do tipo, uau. Uau irresistível, não uau O.k. como a
maioria.
Seus olhos escuros e vibrantes se apoderam dos meus e sustentam a
tensão mais gostosa que já senti.
Não sei o que ele fará, mas eu estou pronta para essa bênção, Senhor!
O homem atinge a ínfima distância de centímetros, inclina a cabeça na
minha direção, seus lábios se aproximam dos meus e ele massacra sua boca
na minha com tanta brutalidade que eu consigo ver as estrelas. Ele não é só
uau na aparência! Eu poderia resistir, afinal, um estranho está enfiando a
língua na minha boca, rodeando a minha, mordendo meu lábio inferior e
apertando a minha cintura. Mas, é tão quente e tão bom que o sol na praia se
torna morno ante ao calor do momento. Prendo meus braços em seu pescoço
e ele me levanta um pouco, para facilitar o acesso à minha boca.
Pode ser loucura.
Eu não sei quem ele é.
Contudo, as loucuras são o ponto mais divertido e ousado da vida.
Sinto a parede atrás de mim, enquanto ele se esfrega ao meu corpo sem
nenhum pudor. Poderia até sentir vergonha se não estivéssemos em Miami,
onde festas na praia costumam ser recheadas de momentos indecentes.
O fôlego se esvai. A temperatura do meu corpo aumenta de maneira
exponencial e sinto o gosto de laranja com tequila que se transfere da minha
língua para a dele. É um beijo molhado e repleto de sabor. Ele se afasta no
ápice e é como se eu tivesse sido privada do paraíso logo após o conhecer.
Tão rápido?!
Por que não posso ter a felicidade por uns segundos a mais?
— Eu não acredito que fez isso comigo! Seu desgraçado! — E um tapa
ecoa em sua bochecha.
É oficial, agora estou assustada.
Só o que me falta, apanhar de ex-namorada, quando eu nem sei o que
está acontecendo. Se minha irmã estivesse presente ela com certeza acharia
bem feito pela loucura de ceder ao beijo de um desconhecido. Madison é
bem... fiel aos seus princípios, digamos assim. E ela não está errada, nós só
pensamos de forma diferente.
Aumento a distância que me separa dos dois que iniciam uma discussão
fervorosa.
— Falei que não podemos mais ficar juntos. Por que está me seguindo,
Hilary?
Faço uma careta, sem saber como agir.
— Disse que não tinha tempo, mas para aproveitar na praia com uma
stripper você tem, não?
Eu, stripper?
Quem me dera saber dançar com tanta habilidade!
— Ei, ei, nada de preconceitos aqui! — falo — Além do mais, se eu
fosse ou não stripper, você não tem nada a ver com isso!
Ela não me conhece, por que se acha no direito de me julgar?
— Fica quietinha queridinha, porque estou falando com o meu
namorado, não com você!
Ergo as mãos em bandeira branca. Longe de mim me enfiar no meio de
uma discussão como esta. Até poderia me irritar com o seu tom sarcástico.
Mas, quer saber? Não tenho tempo muito menos intenção de acabar com esse
dia lindo, surtando por algo que nem causei.
— Pelo amor de Deus, quantos anos você tem? Nós só transamos. Eu
não jurei fidelidade, muito menos intentei colocar um anel no seu dedo.
Quando vai aprender a diferenciar sexo casual de um relacionamento sério?
Ai, essa doeu — Levo a mão ao peito em reflexo.
Acompanho a conversa dos dois mesmo sem ter nada a ver com
nenhum deles. Para falar a verdade, minha boca ainda está formigando com o
beijo e as sensações de ter um homem tão másculo me beijando com fome e
necessidade. Coitada da tal Hilary, encontrar esses espécimes que fodem
bem, no pacote fiel, companheiro e bem-humorado é uma raridade.
— O que todos irão dizer se o virem aqui, em plena luz do dia, beijando
mulheres a torto e a direito?
Seguro a vontade de rir. Os clientes do bar olham para a gente e me
sinto uma pessoa pega desprevenida no meio do fogo cruzado. Vejo uma
mulher acompanhando a cena com total curiosidade e passo o dedo no
pescoço, indicando o morador do Olimpo parado à minha frente. Isso a faz
rir.
— É muito, pedir paz? — Ele é tão enfático em sua reclamação que eu
gargalho em um átimo sem querer.
O som atrai a atenção da mulher que iniciou a discussão. Seu olhar
lança faíscas na minha direção e eu ficaria com medo se tivesse alguma
culpa. Coisa que não tenho.
— Do que tá rindo, vadia?
Sua ofensa não me provoca, como ela deseja. Pelo contrário, eu até sou
um pouco vadia entre quatro paredes. Quer coisa mais gostosa que isso?
— Quão baixa você pode ser? Eu não tenho nada a ver com essa
bagunça — indico os dois — Paguei pelo drinque que eu bebi e estava saindo
do bar quando esse homem — indico-o — me agarrou e me deu um beijo de
bambear as pernas. Vi que ele olhou para algo atrás de mim, antes de tomar
essa decisão. Sinto muito, mas acho que ele o fez apenas para te tirar do pé
dele e me usou como escape. Pelo menos ele beija bem — dou de ombros e
volto a caminhar em direção à saída.
Não me importo que ele tenha ouvido.
Na verdade, meio que o encanto se desfez quando ele me usou para
provocar outra. Não suporto isso. Pisco para o barman que fez meu drinque,
um conhecido de longa data e ele retribui. Aponta para a discussão calorosa
do casal e sacode a cabeça, se divertindo. Encosto dois dedos na cabeça e me
despeço.
Mais um dia como qualquer outro na badalada Miami.
Sei que o beijo foi muito bom e que eu provavelmente pensarei bastante
nele quando chegar a casa, no entanto, chego à conclusão que não vale muito
a pena. O cara é lindo de morrer, mas também enfadonho e sem humor
algum. Além de “não ter tempo para um relacionamento”. Que mentira mais
deslavada! Quem usa esse tipo de desculpa quando está na praia,
aproveitando a brisa salgada?
Alguns homens simplesmente atraem pelo seu exterior e repelem pelo
seu interior.
Sinto um olhar estranho em mim e quando procuro a fonte dele, não me
deparo com o bonitão que ainda discute, mas com outro, de boné e óculos
escuros, aparentando ter meia idade, alternando seu olhar entre o casal
exaltado e de volta a mim. Franzo as sobrancelhas em confusão e saio do
lugar. Acho melhor não tirar a limpo o que ele faz. Pode ser um stalker
maluco, disposto a tudo. Arrepio-me com o pensamento.

— Ei, Betsy! Como está hoje?


— Excepcionalmente bem, Trust.
Lanço uma piscadela na direção do homem, que sorri espontaneamente
e acaba colocando em evidência dois espaços na frente, que deveriam ser
preenchidos com dentes. Faço uma anotação mental de tentar incluir um item
de higiene para ele, mesmo que não tenha colocado o nome na nossa lista de
doações. Fazemos isso também, quando a pessoa aceita doações, separamos
itens como pasta de dente, escova, sabonete e até absorventes para as
mulheres, como uma forma de ajudá-los. Infelizmente, sabemos que muitos
deles não se importam mais com isso, para eles a vida nem tem sentido.
O que é bem triste. Parte meu coração.
Então, para ajudar, eu e mais uma galera participamos de um
movimento que distribui comida para pessoas sem-teto, ou que não possuem
dinheiro para comer. Esse é o único lugar no qual eles podem se sentar, e
comer bem sem sentirem medo por qualquer coisa. Atos de humanidade são
raros hoje em dia.
Participar de uma iniciativa tão bacana é o raio de sol nos meus dias
mais escuros. E meio que pesa na balança contra um vício que finjo não
possuir. Claro, estou estudando a possibilidade de fazer terapia para esse
problema, mas meio que admitir que tenho essa questão, me deixa apavorada.
É compreensível? É um medo tão idiota, um vício capaz de me afundar em
dívidas, mas que me persegue durante as horas do meu dia.
Evito a qualquer custo sites de promoção e afins. Eles são meus
maiores inimigos. Tenho uma montanha de roupas que provavelmente nunca
usarei e continuo comprando mais. Não sei quando tudo começou, mas sei
que não posso continuar assim.
A sensação a cada vez que clico em finalizar compra é indescritível e
tóxica à mesma medida que me deixa eufórica. A exaltação não é um bom
sinal nesse caso.
— Excelente! — conclama.
— Vai querer purê? — indico a bacia à minha frente e ele acena.
Ergo a colher com fartura e deposito em seu prato. Ele fica feliz e parte
para a próxima pessoa na mesa, com uma tigela de acompanhamento. Ao fim,
estou exausta, com os pés doendo de tanto ficar em pé ou caminhar ao redor
das mesas para recolher pratos e talheres que acabam esquecendo de retirar
quando terminam para podermos lavar.
Olho para uma das voluntárias e ela sorri cansada, um reflexo de como
estou. Aproxima-se de mim, com a panela gigante de sopa. Não sei como ela
consegue carregar, sendo uma senhora, mas na última vez em que tentei
ajudá-la, ela ficou tão irritada por eu pressupor que ela não era capaz que
acabei levando uma pisada no pé que doeu por uma semana!
Não sei se come espinafre, só sei que Popeye mandou abraços ao
perceber a força dela.
— Como foi seu dia? — pergunta, solicita.
É uma das pessoas com a qual mais converso. Sempre tem histórias
interessantes para contar e uma sabedoria ímpar. Quando meto os pés pelas
mãos em algum encontro, é ela que me ajuda a não me sentir mal.
— Meu dia foi normal, exceto por um cara que me beijou na praia para
enraivecer a ex-namorada — Não dou muita importância ao feito.
— Bonito?
Seu olhar não me engana, há malícia encoberta pela pergunta.
— Lindo de morrer. Mas, sacana por pensar que essa é a forma mais
fácil de terminar com alguém.
Pensando na situação como um todo, de fora e totalmente imparcial. O
que ele fez não foi o mais certo. Como a mulher deve ter se sentido ao vê-lo
me beijando? Não sei como funciona o relacionamento deles, mas tenho
certeza de que uma conversa seria muito mais maduro de ambas as partes. A
tal da Hilary poderia evitar os gritos agudos — que me deixaram
parcialmente surda devo admitir — e o homem que não sei o nome,
precisaria ter mais consideração. Mesmo se, — como ele afirmou — as
coisas não passaram de sexo casual.
— Tem razão — concorda, carregando a panela até a cozinha.
Sigo-a, ainda refletindo sobre os acontecimentos do dia.
— Ele beijava muito bem. Comecei a ficar com um calor imensurável e
nem era pelo sol forte na praia. — Sinto a necessidade de acrescentar.
Ela deposita a panela em cima de uma das bancadas e olha seu interior.
Sobrou alguma coisa ali e as vezes, quando isso acontece, nós distribuímos
para as pessoas necessitadas na rua que não puderam aparecer.
— Então não foi ruim menina, pare de reclamar.
— Acho que preciso transar, Constance — murmuro.
— Do que está reclamando? Eu nem me lembro quando foi a última
vez que fiz sexo! — ralha ela.
Sorrio, achando a conversa um pouco sem sentido.
Constance não tem marido ou filhos, apenas seus gatos. Dividindo seu
tempo entre crochê, filmes de ação ou romance, ajudar os mais necessitados
no “Anjos sem asas” e participar de bingos entre as suas amigas idosas —
participei de um deles e foi um dos dias mais divertidos da minha vida!
Acredito que ela seja o mais próximo de uma amiga que tenho. Certo que
minha irmã é meu verdadeiro confessionário, no entanto, a senhora vê tudo
de uma perspectiva diferente e madura.
— Sua situação é pior que a minha, então.
— Nem me fale!
— Até tinha um encontro hoje, mas o cara me ligou há um tempo
dizendo que não poderia me ver — resmungo.
— Logo ele liga para poder aplacar sua vontade — tranquiliza ela — e
como está a sua irmã com aquele jogador bonitão? Ela não conhece ninguém
para te apresentar?
Estou evitando jogadores. O último fez um estrago gigantesco no
campo do meu coração. Sinto falta de ar apenas em lembrar o que flagrei
após um jogo.
— Estou correndo de jogadores! Além de quê... — faço uma careta —
os dois estão momentaneamente separados. Não por muito tempo, os dois se
amam, só são teimosos demais. — Recosto na mesa, cruzando os braços.
— Jogadores são quentes!
Levo a mão ao peito, fingindo indignação por uma senhora como ela
dizer essas coisas. Acho que ela chegou em uma idade que não liga para mais
nada. E sinceramente, está mais do que certa.
— Realmente. Mas, como eu te disse, o último me fez um mal enorme.
Terminei com a minha autoestima estilhaçada e meus sentimentos
pulverizados. Não quero passar por isso novamente.
— Você e a sua irmã, hein... Histórias com jogadores para dar e vender.
— Só pode ser a maldição das O’Connell.
— Maldição mais gostosa essa. Poderia ser minha maldição também —
brinca.
Não me atenho ao seu descaso, sei que ela não fez por mal, porém, só
eu e Madison sabemos dos pormenores e apenas eu e ela, entendemos que se
deixarmos isso acontecer novamente, é por nossa total culpa. Erra-se uma
vez, não duas no mesmo jogo.
É sério isso? Mas nem que me paguem! Eu não vou me
casar! Já me livrei daquela maluca da Hilary que colocaram
no meu pé, agora querem me enterrar de vez? Por favor,
tragam a pá, que um Kingston dará adeus!

A porra do meu dia, é como decido caracterizá-lo.


Mamãe teima que devo encontrar uma esposa para formar família.
Como uma boa mulher texana, não duvido que na sua cabeça, o conceito de
oito filhos e tanto eu como sua futura nora, sentados em uma cadeira de
balanço gasta, que já foi do meu avô, se desenrola diante da sua mente.
Consigo até ouvir as engrenagens funcionando.
A visão que se forma em minha mente é de aterrorizar qualquer
homem.
Sempre arrasto as viagens que preciso fazer para Dallas o máximo que
posso. O pressentimento de que ao pisar os pés no aeroporto já serei alvejado
com ofertas de matrimônio nunca é errônea. Porém, hoje a coisa parece mais
séria e mesmo depois de três décadas neste mundo, ainda entro em choque
com o olhar avaliativo da mulher que me deu à luz, amor e carinho e da sua
maneira especuladora de me fitar como se estivesse lendo meus gestos
corporais.
E está. Não me restam dúvidas.
Ela consegue ler o desespero neles?
— Sua avó e eu chegamos a um consenso.
Essa frase me causa calafrios. Se as duas chegaram a um consenso, não
deve ser bom para mim. Porque elas revezam as ofertas de casamento entre as
suas preferidas e fazem questão de deixar claro que desaprovam a que a outra
escolhe. Um verdadeiro cabo de guerra. Além do mais, mamãe ostenta o
olhar perturbador, um que eu odeio, porque o vejo desde que completei trinta
anos, sem qualquer sombra de matrimônio à vista. E já faz algum tempo
desde que completei essa idade. Quase uma década inclusive. O que emite
um sinal de alerta na cabeça de mamãe, aposto.
Ela me fita aterrorizante, gritando silenciosamente “eu acho melhor
você ficar quieto, porque nós vamos te casar, Lane!”
— Que consenso? Talvez me lançar direto ao inferno. Se vocês duas
deram uma trégua, de fato deve ser isso — murmuro desgostoso.
A mansão dos Kingston, ou melhor, da realeza não oficial do Texas, se
mantém da mesma forma que eu me lembro. É imutável. Passei longos meses
sem dar as caras no lugar e nada foi alterado. Nem mesmo os castiçais de
uma época que não faço ideia, da porcelana antiga importada direto da China,
dos licores, as fotos de todos os Kingston que me antecederam e também dos
longos sofás, com designs antigos, no entanto contemporâneos e toda aquela
coisa de Feng Shui, que mamãe teima em manter sendo que nem sabe o
princípio da maldita coisa. É algo que ela se vangloria com as suas amigas
ricas “ora, isso é Feng Shui, está na moda, querida, não ficou sabendo? É
uma técnica chinesa que harmoniza a energia dos ambientes, já falei para
Lane fazer na casa dele também. E como esperado, decorei a mansão
Kingston assim e minha casa na Preston Hollow”.
Ela pode perder qualquer coisa, menos seu status de rica, e sua pose
inabalável. Porque claro que em Dallas todos conhecem Kristen Marie
Kingston. Ela pisa em qualquer lugar e atrai toda a atenção. As pessoas
seriam capazes de dar os primeiros pedaços de bolo em seu próprio
aniversário para conquistar a boa graça dela, ignorando totalmente seus
familiares ou amigos.
Lembro-me de um tempo em que nada disso importava de fato. Mas,
foi em uma época distante, antes de ela ser totalmente quebrada e precisar se
afastar de todos por um tempo. Quando voltou, há quinze anos, o que restou
foi apenas um carvalho oco. Fico momentaneamente quieto.
— Precisa se casar e se não o fizer, perderá a herança e o direito de
estar à frente da empresa da família. Sei que é uma atitude drástica, mas as
pessoas confiam em empresários casados, Lane. Dado o histórico de uma
empresa familiar como a nossa, em que a maioria dos acionistas carrega
nosso sobrenome, ser casado pode mostrar que você preza pelo que tanto
pregamos. — Solta um suspiro cansado — Como podemos deixar à frente
alguém com quase quarenta anos que não deseja se casar? Soa irônico e pode
acabar perdendo o seu status. Não podemos arriscar. É necessário que se
case, ou, infelizmente...
Interrompo-a antes que ela comece a divagar e não diga nada com
sentido.
— Só podem estar de brincadeira! Como um casamento poderia ser tão
importante assim? É sério que irão colocar a empresa no meio e o meu
dinheiro, fruto do meu próprio suor e dedicação? Não preciso de mulher para
me sobressair, tenho feito isso sozinho há mais de dez anos, pelo amor de
Deus!
Mamãe não olha em meus olhos, sinal de arrependimento da sua parte.
Claro, a ideia partiu da vovó. Não sou louco de contestá-la. No entanto,
calcular quais são minhas escapatórias é incontrolável.
— É para seu próprio bem, filho! — profere, como se soubesse o que é
bom para mim.
— Meu próprio bem? Tenho uma infinidade de opções a listar, que
seriam para meu bem estar: tomar uma para aliviar, praticar exercícios e
comer coisas saudáveis, comprar ações por uma mixaria e vê-las
quadruplicando meu investimento, ter noites inteiras de sono, dentre outras!
— exclamo — Agora essa porcaria de armadilha na qual estão me jogando
não é para meu próprio bem. Não mesmo!
Escuto os sons ocos das batidas da bengala contra o chão. Cacete. Não
estou preparado para enfrentá-la também. Claramente a desvantagem é
minha.
— Esse imprestável não concordou? — grita vovó.
As portas duplas de madeira se abrem, o brasão da família Kingston
entalhado em cada mínima parte delas. Desde o símbolo maior, até o menor,
uma demonstração de poder.
— Queria mesmo que eu concordasse de boa-fé?
Ela se aproxima e levo uma bengalada na canela. Dói. Mas, não dou
esse gosto a vovó Pearl de ver que me machucou, é exatamente isto que ela
quer.
— Sem sarcasmo pra cima de mim, menino! Eu limpei a sua bunda
quando era um bebê!
— E também a do Thomas Jefferson, não é vovó?
Seu semblante se torna abismado quando entende a minha brincadeira,
e desta vez não apenas uma batida ecoa em minha canela, mas como duas em
cada lado. Tenho certeza de que um roxo aparecerá em ambos os lugares.
Tomara que eu não manque no dia seguinte.
— Kristen, ele me chamou de velha! Dê um jeito no seu filho.
— Mamãe, ele já tem trinta e sete anos e se não melhorou até agora,
sério que ainda tem esperança? Eu já desisti, não sei mais o que fazer. Talvez
tirar tudo o que ele tem seja uma solução, por que já mexeu com o dinheiro
dele? Vira uma fera!
As duas confabulam como se eu não estivesse ali. Tenho medo de
imaginar o que dizem pelas minhas costas.
— Se mexerem com a minha família também viro uma fera — falo,
resoluto.
— Se oferecessem dinheiro em troca da minha pessoa, aceitaria, seu
mentiroso!
— Depende de quanto, vovó — brinco.
— Dez milhões! — chuta ela.
— Pouco.
— Vinte? — Entra na brincadeira e minha mãe a olha como se fosse
uma traidora.
— Pare de cair nas brincadeiras dele! Por esse motivo nunca nos ouve,
parece que tudo o que dizemos entra por um ouvido e sai pelo outro.
Totalmente sem coração.
— Deixe-o responder, filha. Estou realmente curiosa se por vinte esse
infeliz abriria mão da própria avó!
Gargalho.
Ela não precisa saber que é a mulher que eu mais amo no mundo e que
nem por todo o dinheiro, ou a reserva de petróleo da Arábia Saudita eu abriria
mão dela.
— Vinte é uma boa oferta. Mas, o que eu faço quando a pessoa para
qual eu a vender, devolvê-la e pedir reembolso? Nós dois sabemos que
ninguém aguentaria uma senhora texana como você, que bebe vinho e cerveja
como um inveterado, vovó. Sairiam no prejuízo e no fim, o único disposto a
cuidar da senhora seria eu, seu neto preferido! — abro os braços
divertidamente.
— Esse menino é bom na conversa! — fala e leva sua bengala até o
sofá mais próximo — Seus cabelos estão brancos e seu corpo ainda mais
atarracado, desde a última vez que a vi. Porém, a saúde é de ferro, do tipo que
eu pagaria para ter. — Quase nos fez esquecer do porquê estamos aqui, tendo
esta conversa.
— Tem razão — concorda mamãe.
A senhora apoia um braço sobre a bengala e o olhar que lança em
minha direção é imperativo, de causar calafrios. Lembro de ter esses infelizes
direcionados a mim sempre que aprontei na infância ou adolescência. Depois
que fiquei adulto, as rédeas tornaram-se um pouco mais soltas, assim como
os sermões perderam um pouco de força.
— Não vou me casar. Sabem disso.
— Então, não será mais CEO da companhia. Eu e seu avô detemos o
maior número de ações e o Conselho irá colocar na presidência quem
quisermos que coloquem.
Ela tem toda a razão e sinto a corda se fechando em torno do meu
pescoço sem nenhuma solução à vista.
— Não podem fazer isso. O Conselho talvez me apoie se eu falar com
eles antes.
Que baboseira sem sentido! Duas senhoras me obrigando a casar? Seria
cômico se não fosse trágico e se elas não estivessem tão decididas. A essa
altura, uma esposa é o menor dos problemas que quero. O foco é expandir os
negócios e continuar sendo tratado como o rei do petróleo ao longo de todo o
país. Como posso me dedicar de corpo e alma se precisar proporcionar festas
elegantes à minha esposa, conversas entediantes durante os fins de semana e
pior ainda, ter que comprar joias para que ela exiba à suas amigas da alta
sociedade em algum clube de golfe exclusivo que eu jamais frequentaria por
vontade própria?
Estou atolado em uma emboscada aterradora.
— Posso convocar todo o clã também, se quiser. Acredito que seria
pior para você.
Fecho meus olhos e coloco uma das mãos nos bolsos. Nada que eu
penso faz sentido. Talvez se eu me jogar da janela, direto nas roseiras do
jardim, acabe por ser menos trágico.
— Não precisam apelar para subterfúgios se querem que eu conte
vantagem aos seus amigos ricos, casando-me com alguma moça qualquer.
Meu coeficiente de paciência para essa merda é zero e vocês, queridas
senhoras, estão dispostas a me fazer passar por essa provação só porque têm
o conhecimento do tamanho da minha ambição.
Penso em como teria que aturar os engomadinhos, que gastam uma
fortuna no clube de golfe, falando em como Tiger Woods joga bem e foi
injustiçado em todas as polêmicas, para ostentar a posição que minha esposa
espera de mim. Chacoalho a cabeça, tentando mandar para o espaço o curta
metragem. Não tenho tempo para essa encenação, de marido feliz no clube,
mulher radiante fazendo festas para a alta sociedade e conversas sem sentido
sobre quem é mais rico.
— Olha a boca, Lane! — ralha vovó.
Merda.
Esqueço que ela ainda mantém essa coisa de “zero palavrão” na
mansão Kingston. O que é irônico, dada a quantidade de ofensas que ela
profere por segundo quando as coisas não saem como planejado.
— Vocês podem me enfiar um casamento goela abaixo e eu não posso
ao menos falar um merda?
Duas batidas no chão com a bengala. Isso quer dizer, em hipótese
alguma conteste a sua avó. Calo-me no mesmo instante.
— Não, não pode.
O silêncio impera durante alguns minutos. Nenhum de nós está
disposto a recuar.
— Então já acabamos por aqui?
Apresso a minha tentativa de fugir. Se eu conseguir enrolá-las, sinto
que ainda tenho uma chance de pensar no que fazer para evitar a catástrofe.
Preciso de um arranjo perfeito, que as faça esquecer esse assunto para
sempre.
— Oh diabos, claro que não! — Meus ombros desabam em derrota —
Acha que não somos capazes de cumprir a ameaça, Lane? Pague para ver e
acabe perdendo tudo o que conquistou.
Encaro-a fixamente para fazer a pergunta que vale um milhão de
dólares.
— Por que faz questão disso, vovó?
— É para seu próprio bem!
Coloco as mãos na cabeça. De repente, a ideia do que é bom para mim
ficou muito deturpada na cabeça das duas mulheres mais importantes da
minha vida.
— Comer aveia e frutas é para meu bem, já disse!
— Que menino mais teimoso, filha! Só pode ter puxado o lado do pai
desconhecido.
Troco o peso de perna e afasto meu olhar das confabuladoras. São
espertas e querem me vencer no cansaço e na irritação. Apelar para essa tática
soa muito covarde da parte delas, porque se eu sair correndo da sala — o que
cogito com voracidade — parecerei uma criança fugindo da surra e se eu
ficar e terminar de ouvir o que elas têm a dizer, sairei com uma aliança no
dedo e a obrigação de desembolsar milhares de dólares em colares luxuosos e
casas à beira da praia para a nova integrante Kingston.
Que situação mais ferrada.
— Tenho certeza de que Lane tem a mesma personalidade da senhora,
mãe!
— Talvez tenha razão. — As duas mantém uma conversa sem qualquer
destino e eu fico ali, plantado, aguardando que elas terminem de descer a
guilhotina, como golpe final.
— A minha resposta continua sendo não — lanço a verdade,
interrompendo a teia de conspirações — não importa o quanto digam, ou
tentem me convencer, a resposta continua sendo não.
Percebo através dos olhares que eu estou muito errado. Vovó se
levanta, apoiando-se em sua bengala. Minha mãe faz o mesmo e acabo
recuando, com medo das duas. Elas têm a mesma determinação no rosto, a
mesma que estampa meus traços toda vez que estou prestes a fechar um
negócio ou quando saio em uma capa de revista sobre empreendedorismo.
Aquela expressão... de quem não vai embora com uma negativa.
Recuo, temeroso.
Qualquer pessoa inteligente faria o mesmo em meu lugar.
— Você tem seis meses para se casar com alguém da sua escolha —
ameaça minha mãe — Se esse tempo passar, nós que escolheremos para
você. Esta é a palavra final Lane Kingston.
E é assim que vejo meu pesadelo se iniciar. Com uma senhora de
cabelos brancos e metade da minha altura, e outra com um palmo a mais que
ela, ameaçando todo o patrimônio dos Kingston por um simples capricho.
Preciso fugir dessa enrascada.
Custe o que custar.
Bom, talvez eu decida mesmo me casar antes que acabem
decidindo a esposa por mim. Que Deus me ajude, mas acho
que vou enlouquecer.

Embarco para Miami com a sensação de que elas tramam algo muito
maior do que simplesmente me casar. Falo com meu braço direito, porque sei
que é desanimador.
— Elas estão tramando alguma coisa.
— Sem dúvida — confirma ele.
O notebook descansa no apoio à minha frente, enquanto eu analiso as
dezenas de planilhas de faturamento, comparando-as com os gastos anteriores
dos últimos riscos que corremos. Gerir um setor bilionário não é apenas se
sentar em uma cadeira presidencial e passar a maior parte do ano viajando e
festejando com mulheres, na verdade, ser responsável pelo emprego de
milhares de pessoas é o real fator importante. Vovô Kingston ou como
costuma ser chamado na cidade, grandpa Kingston, — por causa da sua
ajuda com a comunidade — sempre foi enfático ao me dizer: dinheiro você
conquista Lane, princípios não. E de acordo com ele, foi respeitando seus
princípios que encontrou um poço de petróleo em suas terras, vários anos
após se casar com vovó.
O Texas é um polo petrolífero excepcional. Então vovô Raini pensou:
por que não? Sua decisão mudou a vida de todos, desde os parentes próximos
até os mais distantes, ainda assim unidos.
Nossa família é bem tradicional e nos reunimos aos fins de ano para
comemorar o nascimento do menino Jesus. Fazemos suéteres personalizados
e depois há o concurso de quem criou a maior peça de moda da família dos
últimos tempos. Sem brincadeira, há um mural para a exposição deles na casa
em Aspen. Chamamos de o quarto da vergonha, porque são itens que nos
fazem desejar que tudo pegue fogo. Não que seja um pensamento honroso.
Longe de o ser.
Meus primos já tramaram diversos planos mirabolantes para tentar
findar com a tradição. Nenhum surtiu o efeito que queriam, porque a bengala
da vovó Kingston sempre canta. Nem meu avô aguenta a personalidade dela,
quem dirá a gente. Eu sou o único esperto que escolhe lutar contra;
concordando. Faço tudo diferente assim que ela dá as costas. O mundo é dos
inteligentes. Aprendi desde pequeno observando o melhor. Quando vovó
Pearl falava, vovô só acenava com a cabeça e fingia aceitar o que ela dizia.
— Qual sua opinião?
Hayden é uma das poucas pessoas as quais eu cogito confiar nos
conselhos. Tem uma visão de mundo totalmente diferente da minha.
— Que elas só querem que você pare de ser um viciado em trabalho e
finalmente seja feliz. Sabe como são aficionadas por crianças e devem estar
contando os dias para que você engravide alguém, já que seu irmão é um
cafajeste que não quer nada com nada. Da última vez em que conversei com
ele, estava no Havaí, nadando com os golfinhos.
— Kendrick não sabe nadar — debocho.
— Exatamente! — exclama Hayden, para que eu entenda o absurdo.
— Que Deus nos ajude a controlar meu irmão. Ele simplesmente não
possui qualquer molécula adulta em seu corpo. Será eternamente um
adolescente que só pensa com o pau. Quem foi a culpada da vez por levá-lo
até lá?
Sempre há uma mulher por trás das ações do meu irmão, isso é fato.
— Como adivinhou?
— Não é muito difícil. Vovó e mamãe deveriam tentar casá-lo ao invés
de mim. Tenho uma esposa muito mais exigente e que comanda a minha
vida: a empresa. Enquanto eu ganho dinheiro, ele gasta, nada de novo até
então. Logo, não consigo entender por que a minha herança é ameaçada e a
dele se mantém intacta. Sabe, Hayden, o que eu faria se pudesse?
— O quê? — inquere ele.
— Voltaria para as bolas do meu progenitor.
O homem gargalha alto, parando apenas para pegar o champanhe que
uma das comissárias de bordo nos entrega. Finjo não perceber seu olhar de
cobiça. No momento, não tenho tempo nem para punheta, quem dirá para
sexo selvagem. O que comanda todas as minhas preocupações tem nome e
endereço, porque ela me deixou sozinho em meio ao caos.
— Essa foi boa!
— Onde está Madison?
Minha assistente pessoal, ou melhor, a pessoa que organiza a minha
vida desapareceu. Nem faz muito tempo que trabalhamos juntos, no entanto,
a sua eficiência me espantou de uma forma positiva e são pessoas como ela
que eu preciso que trabalhem para mim.
— Ela pediu demissão. Não trabalhará mais com você.
Empertigo a postura, sem acreditar no que ouço.
— Não é possível!
— Com certeza é. Ela disse que precisa resolver a vida pessoal e que
não pode dedicar todo seu tempo ao senhor. Acho que ela te alfinetou ao
dizer que só vive para o trabalho. Não tenho como discordar, já que no mês
passado me fez voar da Virgínia até Dallas só para te ajudar com um
contrato. Mamãe pensou em te matar, se quer saber. Minha mulher grávida,
com os hormônios explodindo mais ainda. Não tenho ideia de como consegui
engravidá-la se mal fico em casa.
— Pai é quem cria, Hayden — brinco.
Olho para as nuvens brancas passando do lado de fora do jatinho.
Parecem tão pacíficas, como se pudéssemos nos manter em pé nelas,
enquanto assistimos o sol se pôr. Uma vez fui até uma plantação de algodão e
depois de colhido, eles pareciam milhares de pedaços de nuvens, algo tão
lindo que me lembro de ser uma das poucas vezes em que eu apreciei a
beleza da natureza sem pensar em lucrar com ela. Quem pode entender o ser
humano? Nem Freud explica.
— Tem razão. Se eu estiver presente para criá-lo. Acho que no futuro
terei que escolher, ou minha família, ou você, Lane. É tóxico, uma verdadeira
bomba que explode e forma uma cratera em minha vida.
— Dramático. Já pensou em tentar um cargo em Hollywood? Devo ter
alguns contatos e posso te indicar.
— Se a carga horária de trabalho for diferente do regime de exploração
a que sou sentenciado aqui, por favor. Minha sanidade agradeceria.
Ignoro sua fala, ainda sem conseguir tirar da mente a questão da
Madison. E agora? Quem resolverá meus problemas? É certo que minha
secretária Serena já se encontra sobrecarregada demais para tomar essa tarefa
para si.
— Seu salário é compatível.
— Claro, porque tudo sempre tem a ver com dinheiro.
— Quanto rancor! — rebato.
— Um dia, Lane, alguma mulher te fará comer na palma da mão dela e
eu estarei aqui para presenciar.
— Está para nascer alguém capaz disso! A única palavra no feminino,
capaz de mudar toda a minha rotina se chama: empresa.
— Lane, Lane — ele sacode a cabeça, achando graça de tudo — ainda
não entendeu que são elas que mandam no mundo?
Busco ignorar o que ele diz. Leio alguns e-mails que tendem a elevar a
minha irritação. Balanço minha Montblanc entre meus dedos, pensando em
como responder para passar a autoridade que preciso. Não tolero contestações
quanto às decisões. Se elas foram aprovadas pelo Conselho, significa que
trarão algum benefício. Além do mais, investir na compra de um terreno
muito passível a retornar nosso investimento em questão de meses, é um
tanto quanto arriscado, porém só consegui expandir a Kingston, assumindo
esses riscos com base na minha experiência.
Petróleo é capaz de mover o mundo. A economia gira em torno de
combustível.
Encontrar uma reserva não é apenas sorte, mas sim bom faro para
terrenos propícios após anos de pesquisa e comparações.
Travo meu maxilar ao receber outro e-mail. Desta vez, de vovó, que só
solta xingamentos antes de realmente perguntar se eu tomei uma decisão.
Prefiro não reler o conteúdo da sua mensagem, é ofensivo até para mim, que
costumo discutir com metade dos lobos de Wall Street.
Vovó faria aqueles abutres se mijarem e cagarem nas calças se
quisesse.
— Vovó mandou um e-mail — exaspero.
— Não precisa ler em voz alta o que ela escreveu, estou fazendo um
excelente trabalho em imaginar — Solta uma risada com zero empatia.
— Se não fosse meu funcionário há tanto tempo e me ajudasse tanto,
juro que poderia te despedir — ameaço.
— Caralho! Estou morrendo de medo — ergue as mãos em um gesto
debochado de pânico — Uuui! Lane vai me demitir.
— Quantos anos você tem? Nem parece que será pai! Pensei que os
homens melhorassem as atitudes infantis quando sabem que reproduziram.
— Meu amigo, você não sabe de nada! Aí que os homens voltam a ser
crianças! Só esperando para poder demonstrar sua infantilidade com o filho
ou filha. É meio que um rompimento dos laços maduros, entende? O pai
estraga a criança, enquanto a mãe está ali para contrabalançar. Nós somos
péssimos. Sério! Se não fosse as mulheres, o mundo nem seria mais mundo.
Faço uma careta.
Não sei o motivo, mas acho que essa conversa está me irritando.
— Oh, inferno, quando chegaremos em Miami?
— Por que, Lane? Não consegue dormir um pouco?
— Não aguento mais ouvir um cara com bolas amarradas falando.
Parece que a Angel te prendeu de uma maneira que nunca mais vai escapar.
Tremo só em imaginar que é por isso que vovó e mamãe querem que eu
passe. Certo é o meu irmão, fugindo sem parar em um lugar por mais que
alguns meses. Se eu soubesse como ele é esperto, teria seguido seus passos e
deixado os problemas para meus primos. Lógico que a maioria deles têm suas
próprias coisas para lidar, tudo culpa do clã Kingston. A única que se deu
bem foi uma das minhas primas que desapareceu no mundo como camareira
de cruzeiros.
Ah, como eu gostaria de ter seguido seu exemplo!
Ela me disse, antes que fosse tarde demais: Lane, os Kingston tendem a
ser invasivos demais na vida dos seus. Escape enquanto ainda há tempo,
primo! Senão será devorado em breve.
Como alguém que mal aparecia poderia saber tanto?
— Quem disse que eu quero?
— Meus ouvidos estão sangrando.
— Engraçado, não sou eu dramatizando desta vez.
— Quantas horas? — sibilo — juro que estou a um fio de cortar uma
das minhas bolas só para me ver livre da sua presença irritante.
— O que eu fiz além de narrar seu futuro, Kings? Há algumas verdades
na vida das quais as pessoas não podem escapar nem se pagarem para isso.
Mamãe e vovó só estão garantindo que sua arrogância termine um dia e acabe
dando lugar para um cara que subiria o Everest por alguma mulher.
— Elas estão desesperadas — debocho — porque sabem que eu nunca
vou ceder. Prefiro me lançar no Grand Canyon do que ser capacho de
mulher. E em hipótese alguma irei aceitar essa chantagem mentirosa — fito
Hayden, que não parece tão convencido quanto eu de que as mulheres mais
importantes da minha vida estão brincando — que não são capazes de
cumprir. Vovó até me bateu com a bengala, como sempre, ou seja, nada de
diferente na vida das pessoas desta família. Elas ladram, mas não mordem e
se eu fosse — junto o indicador e o dedão — um pouco menos corajoso teria
corrido procurar uma esposa, no entanto, como não sou, sigo deixando os
ursos hibernarem no inverno, para no verão voltarem com a memória
totalmente limpa.
Meu amigo parece duvidar do que digo. Basta que espere e verá as
coisas acontecendo exatamente da forma que previ.
— Falou tanta coisa e ainda não me convenceu. Acredito que tentou
convencer a si próprio de que elas não seriam capazes.
— Para que porra eu te pago mesmo?
— Além de ser sincero? Acho que para te ajudar a organizar sua rotina
administrativa, e vida pessoal, após a saída da Madison, assim como fazer
tudo o que não tem tempo.
— Ah, certo, organizar, não cuidar dela.
— Se tivesse alguma parte pessoal para cuidar, até poderia dizer isso.
Só que — ele fala antes de cobrir os olhos com a máscara de dormir com os
dizeres: papai número 1. O filho dele nem nasceu ainda! — mal tem tempo
para fazer sexo e deve ser esse o motivo do seu mau humor. Não sei como a
vovó não te colocou para fazer bolo. Ela sempre sabe quando está mais
resmungão do que o comum e aproveita para explorar você.
Bem, ele tem razão quanto a isso. Vovó Pearl não ter me colocado para
fazer bolo é uma novidade. Nunca entendi essa sua mania de sentir meu
estresse e me colocar para ser a batedeira ao invés de usar aquela enorme,
com motor de aviões tenho certeza, fixa em sua bancada. A batedeira presa,
apenas um sinal de que se a ligasse, sem um apoio fixo, ela sairia voando,
utilizando as pás como hélices, digna de um helicóptero do exército. Sempre
saio com os braços moídos da mansão depois de auxiliá-la. Finjo não notar
seu sorriso vitorioso todas as vezes.
— Me pergunto o que ela quer com isso. Nunca faz as coisas sem muito
planejamento.
— Estou te dizendo desde que entramos no jatinho, mas da próxima só
irei esperar que você entenda sozinho. Gastarei menos saliva assim.
— Só falou um monte de baboseira — defendo-me.
— Baboseira? Senta aí e espera aquelas duas concluírem o plano
diabólico delas e vai descobrir se foi tudo baboseira mesmo ou não.
Fecho meu notebook com mais força do que necessário, começando a
me irritar por sentir que sou apenas um peão no jogo das duas. Será? Não, eu
preciso agir antes delas e encontrar alguém para interpretar esse papel para
mim e principalmente, alguém pela qual não corro o risco de me apaixonar.
Não posso me apaixonar, isso está fora de cogitação. Se for preciso,
elaboro algum contrato de “expressamente proibida a manipulação de
sentimentos no nosso âmbito matrimonial”.
Madison! — grita minha mente.
Contenho a vontade de dar um pulo em meu assento pelo nome que
surgiu na velocidade da luz em minha cabeça.
A astuta e profissional Madison.
Só pode ser ela! A escolha é substancial.
A mulher pode não querer ser minha assistente pessoal, no entanto,
esposa? É uma honra se casar com um homem como eu, aposto. Ela teria
muita sorte. As pessoas a apelidariam de rainha do petróleo. E ela nem
precisaria se envolver comigo de verdade, podemos atuar na farsa, sem que
haja algo mais. Perfeito! Eu sou um gênio! Garantirei que ela ganhe dinheiro
o suficiente para não trabalhar pelo restante da vida, ao mesmo tempo em que
poderá aproveitar todas as mordomias que só dinheiro é capaz de
proporcionar.
— Qual o endereço da Madison? — indago.
— Não pode ir atrás dela e implorar para voltar. Muito menos ameaçar.
Ameaças não funcionam com ninguém. Deixe a mulher seguir a vida dela.
— Preciso falar com ela — ralho.
Na minha cabeça, é a mulher perfeita para o meu arranjo. Profissional,
com a pose de durona das mulheres texanas na minha vida, além claro, de um
olhar de matar qualquer pessoa, quando está mais irritada que o comum. Sim,
a filha da mãe é perfeita para o caso e não me atrai nem um pouco, o que a
torna excepcional. Deveria ter pensado nela logo no começo do voo para me
poupar de ouvir sermão de Hayden.
— Sobre o quê? — ele sacode as mãos no ar — Esquece, acho que
prefiro não descobrir. E te envio o endereço quando chegarmos, preciso
descansar um pouco e ver como minha mulher está. Você que se vire quanto
ao que planeja.
— Não preciso mesmo de você para o que tenho que fazer.
— Por via das dúvidas, meu celular ficará desligado.
Você é lindo, mas é tão arrogante que acho melhor lidar com
as próprias merdas, para ver se aprende uma coisa, ou outra.

Olho para o conteúdo que postaria no meu blog, o Garota da moda, e


sacudo a cabeça, achando-o muito sem graça. Algumas pessoas poderiam
pensar que meu trabalho é inútil, mas eu acho justamente o contrário. Ajudar
toda e qualquer mulher a encontrar uma maneira de se vestir fatalmente é a
minha meta. Todas precisam de injeção de ânimo e o que seria melhor para
isso do que mudar drasticamente o visual?
A maior prova que, se sentir bem importa é que a primeira coisa a se
fazer no término de um relacionamento é repaginar o visual. Aquela mudança
exterior e interior que é capaz de sustentar o sorriso durante um dia inteiro.
Fazer uma viagem, ou até compras, para aliviar os ânimos. Eu proporciono
esse tipo de apoio às minhas seguidoras e não acho que seja algo inútil como
um infeliz comentou em uma postagem certa vez. Nutro a absoluta certeza de
que ele não faz sexo, por isso perturba os outros.
— Como pode estar um dia tão lindo lá fora, enquanto em cima da
minha cabeça paira uma mancha escura? — sussurra Madison.
Ela é minha irmã. Temos pouco mais de quatro anos e uns vinte
centímetros de altura como diferença, e absolutamente nada a ver fisicamente
uma com a outra. Eu peguei os traços da minha mãe e ela os do meu pai.
Quando falamos que somos irmãs todos se assustam, mas a verdade é que
somos sim e melhores amigas também. Sabemos que podemos contar uma
com a outra sempre que necessário e não há absolutamente ninguém no
mundo capaz de me fazer aturar séries turcas como ela é capaz. Se fosse
qualquer outra pessoa, eu já teria surtado para valer e acabado com a minha
liberdade, cometendo um crime.
Só de ouvir os nomes estranhos já começo a passar mal.
Al Capone, — um nome bem ameaçador para um gato — se enrola na
minha perna. O siamês esguio, com partes em castanho escuro e brancas, mia
ao redor de mim. Está esperando comida, e enquanto minha irmã sente a falta
de um quarterback gostosão no qual deu um gelo, se esquece do coitado do
bichano, que fica todo triste aguardando ser notado. Pego-o no colo e ele
ronrona. O que é incomum, admito, visto que eu não sou sua humana
preferida.
— Não pode esquecer de alimentar o Al, Maddie! — exclamo, alisando
o pelo do coitado.
Ele mia como se concordasse comigo. Gato dissimulado! Quando
precisa de mim fica cheio de carinho e quando não necessita de mim, para
absolutamente nada, mostra as garras e arqueia a coluna inteira, prestes a me
atacar. Só pode ser bipolar. Nem sei como ele caiu de amores pelo Craig, —
o quarterback famoso que comentei — na primeira vez que o homem
apareceu em casa. Segundo Madison, quase que ele seguiu o carro para poder
fugir de casa e ficar na companhia do jogador. Claro, que se eu pudesse
também faria isso, os gomos na barriga do homem valiam a pena, porém,
minha irmã, antiga assistente dele, já foi esperta o bastante e deu o bote na
celebridade. Claro que para ela nada disso importa, contudo, que ela pegou o
pacote completo; deboche, sarcasmo e um corpo de dar inveja para ela
lamber, pegou sim. Ela nem se deu ao trabalho de dizer que não, porque eu
tenho certeza que o talento dele em campo, leia-se no quarto, deve ter
contribuído e muito para as suas recaídas. Acredito que seja esse o motivo
pelo qual ela mais chore pelos cantos. É difícil encontrar um pacotão que
sabe usar sua experiência hoje em dia.
— Deveria ir atrás dele. Além do mais, tem final hoje.
Super Bowl!
Eu sentaria a minha bunda na poltrona e não teria homem no mundo
que me tiraria dela. Nem uma promoção na Ocean drive seria capaz dessa
façanha. Até porque a cidade inteira deve estar vendo o time de futebol
americano nas finais. É um evento, sem dúvida. Assistir Craig Monroe, o
quarterback mais quente da temporada é só um bônus, com a sua bunda
evidenciada naquelas calças coladas à pele. Quem não olhasse que atirasse a
primeira pedra, porque eu aposto que até os homens dão uma checada, nem
que seja só para falar “eu olhando bunda de homem? Ficou maluca,
mulher?!”, mas no fundo sabe que está olhando, sim.
Sentamo-nos para assistir e depois de ela perceber o quanto deixou o
homem para baixo, após uma declaração linda ao final do jogo, não demora a
sair correndo de casa, indo para a dele, disposta a implorar por pau. Não,
mentira, disposta a arrumar toda a confusão entre os dois. Demorou para
fazer isso, sei que ele pisou na bola realmente, mas cara, será que ter um
pênis para poder usar não custa um pouco de esforço para ser feliz? Não sei,
mas penso que ser hétero é uma droga as vezes. A gente não pode pedir só a
haste dura, precisa suportar o conjunto da obra vez ou outra. Passo alguns
segundos refletindo sobre o assunto, até que a campainha toca.
Mais uma vez.
E de novo.
Estridentemente.
Juro que sou capaz de cometer um assassinato!
Quem em sã consciência tem a coragem de atrapalhar as pessoas após
uma final? Por que raios não foi comemorar ou apenas ficou em casa,
pulando?
Inferno!
Levanto bufando e rumo até a porta, abrindo-a em um rompante, tão
irritada que eu posso muito bem chutar a alma que se encontra na soleira da
casa estilo vitoriano — resmungo em minha mente, imitando Maddie. Ela
teima em dizer que o charme da casa é a sua idade, eu só acho que ela é velha
mesmo e ponto final.
Assusto-me ao ver o homem parado, com as mãos nos bolsos, vestido
impecavelmente, ostentando um sorriso torto. O-oh!
Eu conheço você, bonitão! — ronrona minha mente.
O que ele está fazendo aqui?
O homem da praia também se assusta ao me reconhecer e une as
sobrancelhas de uma maneira bem sexy, tenho de admitir, tentando entender
como eu vim parar na minha casa. Engraçado, ele que tocou a campainha e
deveria saber por pressuposto que eu moro aqui.
Será que ele é um maluco perseguidor?
Um doido com terno bem ajustado, olhar penetrante, maxilar quadrado,
músculos poderosos, mas ainda assim um homem desconhecido.
Acredito que preciso pegar o celular por via das dúvidas. Não posso
arriscar. Mas, tenho que fingir antes, de acordo com os filmes de seriais
killers, se eu demonstrar pânico, eles podem se aproveitar dele.
— O que quer?
— Você... eu me lembro de você, agora entendo por que me pareceu
tão familiar na praia, eu a vi quando vim buscar Madison uns dias atrás, mas
você estava saindo e eu vi rapidamente, sem prestar muita atenção — profere,
catatônico. Emito som de desgosto e ele chacoalha a cabeça, tentando afastar
alguma imagem da sua mente, enquanto volta a fixar sua atenção em mim —
Madison está?
Buscar Madison uns dias atrás?
E se eu já o vi antes da praia, por que não me lembro? Não faz o menor
sentido, a não ser que tenha sido em um dia que eu saí correndo para ficar
com alguém. Não posso mentir que ando eufórica quando o assunto é transar.
— Quem gostaria? — sondo.
Dezenas de imagens tenebrosas dos filmes de terror pipocam em minha
cabeça. Eles sempre começam com pessoas indefesas e carismáticas tipo eu,
dando carona, ou conversando com estranhos e terminam com as pessoas
desmembradas em sua própria casa. Droga! Por que eu abri a porta?
— Só poderia chamá-la por favor?
— Não, eu não posso — rosno — e se não responder minha pergunta,
vou ligar para a polícia! — ameaço, foda-se a teoria sobre os seriais killers,
preciso mostrar que não estou brincando.
— Já te disseram que é muito imprudente? E não, querida, — sinto o
sarcasmo na sua maneira de tratamento — meu assunto é com Madison. Deve
ser sua colega de quarto ou algo parecido.
Ele espia por sobre a minha cabeça o interior de casa e eu piso em seu
pé para chamar sua atenção. Vejo seus olhos umedecerem enquanto ele
controla as lágrimas de dor para não se humilhar. O sorriso vitorioso devora
meu rosto.
— Já te falaram que não pode aparecer na casa das pessoas sem dizer
quem é e exigir alguma coisa? Passar bem! — Fecho a porta.
Paciência zero para homens idiotas.
Lindo? Não sou cega, lindo sim, mas idiota. E na minha classificação
ser idiota rebaixa mais do que beleza sobe no pódio. Existe o fator beijar bem
demais, do tipo demais de fato, no entanto, não sei se isso ajudaria em
alguma coisa. Afasto-me da porta quando escuto mais uma batida. Fecho os
olhos pedindo paciência.
— Eu preciso falar com ela! — grita.
Ah, maravilha, agora adiciono histérico para a lista de defeitos também.
Volto para a porta porque não estou a fim de ficar escutando grito de
homem, mas não a abro, decido mantê-la fechada enquanto ele conta tudo o
que preciso saber.
— QUEM QUER FALAR COM ELA? — emito.
— Lane. Lane Kingston.
Balanço a cabeça de um lado a outro, buscando em minha memória
porque esse nome me soa tão familiar. Ah, claro, é o homem para o qual ela
estava trabalhando antes de desistir. Giro a maçaneta, só para observá-lo na
mesma posição. Não mudou nem mesmo o pé em que apoia seu peso
corporal. Seu semblante determinado deixa claro que ele se garante por conta
própria.
Sabe aquele tipo de cara que não precisa dizer muitas coisas, que as
pessoas o respeitarão assim mesmo? Através do olhar? Pois é, ele é esse tipo
de cara. Com um ego enorme, narcisista ao extremo, poderoso e envolto em
uma aura de perigo e mistérios.
Como decifro tudo isso só de olhar para ele?
Caramba, devo estar ficando maluca!
Acho que já faz muito tempo desde a minha última foda casual.
Quando foi? Ergo os olhos sem fitar nada em particular, tentando me lembrar
quando fiquei com o homem todo sarado com o qual cruzei em um bar e
conversamos a noite inteira, até irmos nos divertir em outro lugar. Não
lembro nem o nome dele, mas lembro de uma tatuagem que ele tem bem nos
oblíquos, descendo para o caminho do paraíso, que eu lambi até sentir a
minha língua ficar dormente. O cara foi bom, não tão bom, mas eu daria um
sete fácil, fácil, para ele. Ah, claro, foi na sexta! Então já faz mais de uma
semana. Talvez fosse esse o motivo para eu me sentir tão atraída pelo homem
na porta.
Ele nem faz meu tipo!
De verdade, eu prefiro os surfistas, não sei explicar o porquê, mas eu
realmente gosto de como eles trabalham o corpo sobre pranchas. Tem algo
muito sexy também neles saindo da água, sacudindo a cabeça e respingando
gotículas de sal misturadas com areia, passando os dedos bronzeados nas
mechas de cabelo, enquanto correm em câmera lenta. Porque, claramente as
coisas na minha cabeça acontecem estilo Baywatch quando estou na praia,
tomando minha quantidade recomendada de vitamina D.
Além do mais, gosto de ser a pessoa que dita o envolvimento e ele
claramente gosta de comandar a relação. Não poderíamos ser mais diferentes.
— O chefe workaholic — assumo.
Trabalho, trabalho, trabalho, nada de diversão — foi o que Madison
falou. Inclusive, ela proferiu diversos xingamentos quando ele disse que ela
precisava estar em seu jantar de negócios e se atrasou em quase uma hora.
Um verdadeiro patife no quesito se preocupar com os outros.
Já disse narcisista?
É, eu sempre acerto em cheio.
Do tipo que acha que apenas seu tempo importa. Um desperdício se
olharmos para o corpo indecente. Checo o material só porque isso não vai
matar ninguém, claro. Não é nada etéreo e incontestável como a beleza do
John Cena para mim, mas é uma beleza aceitável.
— As pessoas têm pensado muito bem de mim ultimamente — noto
seu sarcasmo, como se lesse o que passou pela minha cabeça.
O único ponto positivo nele que noto é o deboche. Gosto de homens
sarcásticos. Tento mudar esse gosto todas as vezes porque não é muito bom,
visto que sempre que eles são assim, tentam quebrar meu coração. Mas, ops!
Eu não sou essa garota inocente e acabo quebrando o deles primeiro. Apenas
um homem estraçalhou meu coração e depois dele, não deixo ninguém
chegar perto do órgão involuntário em meu peito. Sacudo a cabeça, porque
não gosto de me lembrar do cafajeste em questão. Jogador também. Acho que
a sina minha e da Maddie são os jogadores em nossas vidas. Não o odeio, ele
fez a garota inocente crescer e se tornar uma mulher decidida, até devo a ele o
amadurecimento forçado ao qual fui submetida, portanto, só não o tolero e
não voltaria para ele nem que me pagasse, mesmo mandando inúmeras
mensagens, pedindo perdão.
Perdoar é diferente de aceitar de volta. Estou bem assim, sozinha,
aproveitando a vida, uma predadora durante a noite, uma blogueira de moda
durante o dia. Por que relembrar velhos tempos que eu sei exatamente como
são?
— O que quer com a Maddie?
Ele olha por sobre meu ombro novamente procurando por ela. Um
enxerido! Madison me disse que o homem não aceita negativas e eu farei o
favor para ela de dizer a ele que minha irmã não quer mais ser sua vassala.
— É um assunto particular. Ela está em casa?
Não parece incomodado. Não parece nada. Um homem sem
sentimentos. Aposto que é oco por dentro.
— Ela não quer mais trabalhar para você, voltará a ser a assistente do
Craig Monroe, e acredito que os dois não vão se desgrudar mais. São loucos
um pelo outro. Você deveria aceitar que sua assistente te abandonou e
encontrar outra.
— Ela se relaciona com alguém? — pergunta ele, ignorando a parte que
eu disse sobre Maddie não querer mais trabalhar para ele.
Acho suspeito que sua dúvida seja justamente sobre ela estar em um
relacionamento.
— Por que a pergunta?
— Sim ou não? — Ficamos em uma disputa de palavras, sobre quem
responde ou não as perguntas do outro.
— Sim! Ou você é surdo? Eles são absolutamente apaixonados e não
duvido que daqui um tempo se casem e tenham vários bebês, porque é assim
que imagino Madison sendo feliz em um futuro não tão distante. Não posso
julgá-la — divago — Monroe é mesmo lindo sabe, toda aquela coisa de ele
ser divertido e meio louco da cabeça faz com que se tornem perfeitos
opostos, o que quase sempre dá certo.
— Droga! — exclama o homem.
Com veemência.
Arqueio as sobrancelhas, sem entender o motivo para o seu exaspero.
— Queria tentar algo com a Maddie?
Não entendo o porquê, mas imagino que ele não esteja tão aberto assim
para um relacionamento. Principalmente notando o seu nervosismo, e não
tristeza ao saber que ela já se encontra comprometida. Graças a Deus! Não
aguentava mais seu papo de “Craig é meu James Dean, Betsy!”, um
verdadeiro mau garoto, como o ator da década de 1950, isso mesmo, década
de 1950! Quem pode explicar os gostos peculiares da minha irmã mais velha?
Uma senhora no corpo de uma mulher nova.
— Sim, — ele se embola nas próprias palavras — ou melhor, não. É
que — coça a nuca e surpreendo-me ao notar como está verdadeiramente
incomodado agora — eu precisava dela para me fazer um favor.
— Se ela não trabalha mais para você, não tem por que fazer favor
nenhum.
Troca o peso de perna.
Ele é humano, afinal! Solto um suspiro aliviado, pensei que ele fosse
um robô programado para não sentir nada.
— Claro que não. É um favor pessoal.
— Pessoal?
O.k. Tenho duas opções em mente: fechar a porta e pegar o taco de
beisebol que eu e Maddie guardamos para situações como esta.
Ou, a opção dois: continuar ali e tentar entender o que ele quer. Mesmo
que demore.
Uma pessoa normal teria escolhido a opção um, o grande problema em
ser eu, é que não sou normal, nem um pouco. E... eu já disse o quanto ele é
quente? Pois é, isso dificulta a minha coerência. Pensar na sua língua se
embolando, misturando-se com a minha, também não ajuda. É como se eu
pudesse sentir de novo sua mão fechando-se em minha cintura enquanto ele
prensa meu corpo contra seus músculos.
Porra, eu preciso transar!
Meu olhar se fixa em seus lábios e não é imaginação minha, o seu
reflete o meu gesto. Lane engole em seco e eu sou obrigada a pigarrear, para
quebrar a tensão.
— Minha avó vai ganhar desse jeito — murmura ele, tão baixo que eu
me inclino na sua direção, tentando escutar — Porcaria! Mulher astuta!
Certeza que a sua escolhida vai me fazer andar descalço no inferno — sibila.
— Está ficando louco? — inquiro.
Deveria ter escolhido a primeira opção, não é Deus? Juro que se você
tirar esse maluco da minha soleira, na próxima vida eu viro freira. Na
próxima, por favor, nessa eu ainda sinto que não estou preparada para atender
ao chamado. Ele soca o batente da porta e eu me sobressalto, pensando que
posso virar freira neste instante se eu irritei os desejos do Senhor.
— Se você fosse manipulada como eu estou sendo, também ficaria
maluca.
Coloca as mãos na cabeça e anda de um lado a outro à minha frente.
Olho para fora, tentando enxergar se algum dos vizinhos está tentando
espionar a vida dos outros. Contudo, eu sou tão azarada, que justo agora
nenhum deles está interessado em abrir a porta para olhar o movimento, ou
ver com quem eu ou Madison está chegando a casa. Merda! Qual a utilidade
deles se quando eu preciso não servem de nada? Teria uma reunião muito
importante com todos e frisaria a importância de manterem a vigilância não
apenas quando o assunto é fofoca, mas quando é a nossa vida também!
— Pode ir para sua casa então? Ser manipulado lá ou qualquer outra
merda que esteja acontecendo com você? Não me importa, tudo bem? Só vá
embora, Madison nem está. — Deposito minha mão em seu peito e o
empurro nada gentilmente, para fora da minha soleira.
U-A-U!
Que peitoral é esse, Jesus?!
Ele tropeça no primeiro degrau, pego de surpresa pelo meu gesto e eu
dou um passo para trás, desacreditada em como tocá-lo foi interessante. Meus
dedos formigam e olho para eles, tentando definir a reação.
Sinto uma cabeça peluda passar pela minha panturrilha e logo em
seguida um rabo roçando na minha canela. Al Capone. Gato intrometido! Ele
segue miando e olhando para cima, para ver se o intruso fará carinho nele.
Mais um! Como ele pode ser tão traidor? Já não basta ter se apaixonado pelo
Craig, agora quer alguém que nem conhecemos? Aposto que esse gato é gay,
só pode ser, interessando-se pelos homens lindos. Chego à conclusão que de
besta ele não tem nada.
Lane se agacha e faz carinho na cabeça felina. O bichano ronrona,
como se estivesse ganhando o melhor presente do mundo. Embola-se todo
entre as pernas do homem de terno que dispõe de sua atenção. Assisto
estarrecida a traição que sofro do meu próprio animal de estimação. Cruzo os
braços na altura dos seios e fito a cena toda, com os olhos chispando raiva.
Crispo meus lábios, descontente. Isso não é possível! Por que Madison disse
que seria bacana ter um gato mesmo? Ah, claro, porque ele nos faria
companhia. Não sei como ela pôde se enganar tanto. Esse gato mais vive nos
arranhando e passeando pela vizinhança do que ficando com a gente!
Se eu trouxer um filhote de cachorro será que ele ficaria com ciúme e
passaria mais tempo em casa?
Por que inferno estou pensando nisso?!
— AL CAPONE! — brado.
Ele para de contornar o homem e miar, olhando-me como se eu fosse
uma louca desconhecida. Não tem a menor vergonha em continuar recebendo
carinho, ignorando-me totalmente. Maldito gato gângster!
— Esse é o nome dele? — Lane parece se divertir.
— E qual o problema?
Ergue as mãos em um pedido de desculpa.
— Nenhum.
— O que ainda faz aqui?
— Só estou fazendo carinho no gato. Gosto de animais. Na minha casa
tenho dois gatos e um cachorro. Se eu tivesse mais tempo para cuidar deles,
acho que teria mais. São a alegria na minha vida — ele aparenta viajar em
suas próprias constatações.
Agora entendo. Ele não gosta de pessoas, mas gosta de animais.
Segundo ponto positivo. Se ele ficar mais tempo aqui tenho medo que os
pontos positivos superem os negativos, então trato de despachá-lo antes que
seja tarde demais.
— Não perguntei nada disso e não estou confortável com você aqui. Vá
embora! — Aproximo-me e pego Al Capone nos braços, que não gosta muito
do que faço, olhando para mim com aquela cara de: “eu vou surtar! Paga pra
ver se eu não unho essa sua cara inteira!”.
Solto-o no chão, no interior de casa e fecho a porta. Quero ver ele me
ameaçar agora. Sinto um olhar queimar minha pele e noto ele sentado no
peitoril da janela, com o olhar raivoso na minha direção, culpando-me por tê-
lo prendido. Como esse gato pode ser tão genioso assim? Até parece a minha
irmã! Ainda bem que não abri a janela mais cedo, no entanto, subitamente
tenho medo de voltar para casa.
— Ele não parece feliz, eu se fosse você tomaria cuidado ao entrar em
casa — pronuncia o homem.
— Cala a boca! — vocifero.
— Ei! — ergue as mãos — Vou embora, antes que ameace a minha
vida.
— Até que enfim! — ele se vira e eu sussurro — cara maluco!
Quando abro a porta para entrar, Al sai correndo e se embrenha na
canela do executivo. Travo meus dentes, em raiva. O que deu nesse gato?
— Ele não deve gostar de você — ele ri, alça Al nos braços e me
entrega.
O felino olha do homem para mim como se tivesse sido traído.
Excelente, agora ele conhece a sensação. Espero que esteja saboreando-a.
Volto a entrar, assistindo enquanto o — bem que ele poderia ser modelo por
causa da forma que anda e da sua altura imponente — Kingston caminha até
seu carro. Um antigo, não sei definir qual é, mas antigo, que sem dúvida
minha irmã saberia ditar até o ano de fabricação. Deve ser muito caro, visto o
cuidado com o qual ele abre a porta e a fecha, sem bater.
Não consigo desprender meu olhar até que o automóvel se afaste pela
rua.
Tenho uma sensação estranha de que voltarei a vê-lo. O que é muito
louco da minha parte.
Se eu atirar no meu próprio pé elas terão piedade de mim?

Alguns meses depois.

Já faz quase quatro meses desde que elas deram o ultimato. Sinto o
tempo escorrendo para mim. E ainda não consegui encontrar alguém que
possa ser minha esposa. Algumas são envolvidas demais, outras com
aparente interesse financeiro e se eu der brecha elas me chantagearão até
tirarem minhas calças. Nada de novo, se comparado aos meus últimos
relacionamentos, onde tentaram encontrar qualquer coisa para usar contra.
Olho para Miami do topo do prédio empresarial, sentindo a bolha de
tensão se fechar em torno de mim, a pressão é tamanha que nem mesmo
assistir as ondas se quebrando no mar azul celestial é capaz de me trazer paz.
Ter que me preocupar com matrimônio é uma bosta. Por que mamãe e vovó
inventaram toda essa porcaria? Elas não tinham mais nada o que fazer além
de tentar brincar com a minha vida? E a pergunta mais profunda que perdura
em minha mente é: por que droga eu as amo tanto?
Elas farão uma viagem ou alguma coisa assim, chego à conclusão. Suas
ideias mirabolantes são fruto de muito ócio. Só pode ser. Aposto que elas
ficam pensando: “hmm, o que podemos fazer para bagunçar a vida do Lane,
agora?” “Ah, não mamãe, o que acha de encontrar uma mulher com a voz
anasalada, de uma excelente família texana para ele? Isso soa bom para mim.
Podemos encomendar o anel de noivado sem nem o consultar e fazer uma
surpresa!”.
Ah, mamãe e vovó! — resmungo sozinho.
— Já queimou todos os seus neurônios, pensando em como escapar das
duas? — indaga Hayden. — Tem só mais dois meses para encontrar alguém e
se não conseguiu em todo esse tempo, acha que o restante basta?
Eu nunca o escuto acessar meu escritório, deve ter os passos mais
silenciosos do país.
Não me viro para fitá-lo.
— Vou queimar os seus se não parar de me atormentar.
— Sei que foi atrás da Madison para tentar fazê-la embarcar em um
casamento de fachada com você há uns meses, só que saíram umas notícias
depois daquele dia sabia? Ela agora é noiva de um dos quarterbacks mais
famosos da NFL. Ele se declarou depois de vencer o Super Bowl. Estava
assistindo em casa e nem sabia que era para ela, descobri só porque minha
mulher adora ler revistas de fofoca e um tal de Pharrell, um fofoqueiro das
celebridades, comentou sobre o noivado.
Ouço-o se sentar em um dos sofás de couro que eu mantenho ali para
quando preciso descansar. O que raramente acontece, não tenho tempo para
isso.
— Fofoca não me interessa.
— Achei que essa pudesse interessar já que seus planos escorrem
Cataratas do Niágara abaixo. Que dó sinto de você — seu tom conota
justamente o contrário — a quem estou tentando enganar? Não sou pago para
ter dó de você. Deveria procurar outras — Hayden finge pensar — ah é, você
já está fazendo isso, desesperadamente inclusive!
Uma das filhas de um investidor agressivo de Wall Street, descartada.
Não me dou bem com pessoas tão excêntricas.
As que mamãe disse, nenhuma me interessa. Algumas acabaram de
completar vinte anos e por mais que eu não goste de pensar na idade como
um fator decisivo, nesse caso foi. Pessoas mais novas tendem a exigir mais
atenção.
Uma mais velha foi uma hipótese, até ela exigir um anel gigantesco que
fizesse seu dedo doer pelo peso da pedra preciosa. Fiz uma careta, inventei
que precisava usar o banheiro e a deixei sozinha no restaurante. Lembro que
me desesperei tanto neste dia que saí do lugar e peguei um táxi. Tinha ido de
carro. Tive que buscá-lo quase duas horas depois, por precaução.
Também houve modelos que queriam que eu as alçasse ao estrelato
com o sobrenome influente.
Atrizes em busca de papéis gloriosos.
E não posso deixar de fora minhas fodas casuais, que tentaram todo
tipo de coisa para me persuadir.
Minhas opções que já não eram muitas se tornaram escassas.
— O que veio fazer além de exceder minha paciência já negativa? —
Olho-o, sem abandonar a minha posição em frente à vista.
Minha mandíbula se mantém travada e Hayden nota que não estou com
humor para brincadeiras, muito menos para suas provocações.
— Só avisar que enviei alguns documentos em seu e-mail. — Ele se
levanta, suspirando exageradamente — E se eu fosse você, perguntaria à
vovó quem ela tem em mente, para não ser pego de surpresa. Se as cartas da
sua mãe já foram lançadas na mesa, só faltam as da vovó.
— Não vou me casar.
Nem eu sinto tanta firmeza assim.
— Vai deixar a Kingston nas mãos dos seus primos, ou pior ainda —
ele faz uma careta — do seu irmão? Que só sabe que extraímos o petróleo do
solo, mas não sabe que o óleo bruto ainda precisa passar pela refinaria, em
um montante de processos até chegar ao produto final?
Sinto um arrepio de pavor ao imaginar meu irmão comandando as
coisas. Tudo desabaria mais rápido do que uma avalanche, soterrando a
todos.
— Não me fale, já estou preocupado o bastante. Elas não teriam
coragem, não é? Como podem usar de um golpe tão baixo?
— As mulheres Kingston quando colocam algo na cabeça, nem Deus
tira. Aposto que Kendrick não sabe nem o preço médio do barril, ou a
maneira com a qual ele é definido. Seria um desastre.
— Eu já entendi — sibilo, entredentes.
Ele não me ajuda em nada, mostrando apenas os pontos negativos ao
invés de uma solução. Que porra!
— Só comentei para saber se você realmente tem ciência do problema
que cresce à sua frente.
— Não sou idiota, Hayden! E mudando de assunto, já mandaram o
relatório sobre o terreno que intentamos explorar? Há algum indício de
reserva na imagem sísmica?
Finalmente ele assume uma postura mais profissional.
— Está em seu e-mail. Mas, como não o abriu, olhando para o mar,
pensando no casamento, deveria se atentar.
Eu pego o celular e abro o e-mail que ele enviou. Noto que é uma
notícia boa, pelo menos uma no dia. Já estava me irritando por não tirar da
cabeça aquele assunto e ter algo em que depositar minha atenção, como
perfurações que podem nos trazer muito dinheiro, fazem um sorriso brotar
em meu rosto.
Trocadilho mais infame esse de brotar.
— Precisamos perfurar nas proximidades para avaliar a escala do
depósito. Quanto tempo até ser necessária a injeção de gás e água para manter
a pressão? — esta pergunta faço a mim mesmo, murmurando sozinho.
O óleo brota do subsolo após a perfuração de maneira espontânea, no
entanto quando a pressão no interior começa a se dissipar, isso já não ocorre
mais e é necessário injetar o vapor para que o poço continue iluminando
nossos bolsos, mantendo os milhares de empregos que a companhia possui.
— Precisa de mim para mais alguma coisa? — pergunta Hayden.
Nego com um gesto.
— A não ser que você tenha uma noiva com a qual eu consiga conviver
e que não exija envolvimento emocional ou qualquer merda do tipo, não
preciso de você para mais nada.
Quanto mais eu penso, mais cogito procurar de novo na minha lista de
contatos alguém que preencha meus requisitos. Abro a agenda no celular, e
só o que vejo são contatos de negócios e algumas mulheres, em sua maioria
já casadas. Hayden tem mesmo razão, eu não estou transando e me
relacionando como deveria, para falar a verdade, minha vida pessoal parece
ter ficado em stand by enquanto eu tento conquistar todos os planos que
tracei para a empresa.
Não me arrependo das minhas prioridades, no entanto, seria esse o
motivo para as duas terem criado essa exigência absurda? Não tenho muito
tempo para pensar na resposta, visto que Hayden interrompe a maré de
perguntas em minha mente.
— Madison não tem uma irmã? Angel segue um blog em que a
blogueira se chama Betsy O’Connell, o sobrenome é esse, não? — divaga —
Por que não tenta ver com ela? Sua intenção era uma, mas talvez a outra
também dê certo. É uma desconhecida? Sim, mas acho melhor do que arriscar
com uma conhecida, esta sim poderia tentar te amarrar rente ao corpo. Além
do mais, já faz quatro meses, se não encontrar logo alguém para se casar,
acho melhor pegar leve e desistir de tudo.
Ergo a cabeça em um átimo.
A mulher não é companheira de quarto dela, é irmã! Por isso que falou
com tanta propriedade sobre a outra.
Por que não pensei nessa porra antes?!
Acho melhor desistir. Ela não parece o tipo de mulher que aceita algo
assim para poder ganhar dinheiro. Desço os degraus. Volto a subi-los, ao
perceber que não tenho para onde fugir. Se eu ficar, vovó e mamãe me
casam, se eu correr bem... elas me casam também. Acabarei casado de uma
forma ou outra e se eu não escolher a mulher, corro o risco de elas o fazerem.
Essa é a pior alternativa possível. De verdade, prefiro cortar uma das minhas
bolas.
— Ah, Lane, pense que está em Wall Street. Isso mesmo — tento me
encorajar — e que está prestes a perder muito dinheiro com uma empresa que
não gostaria de arriscar. Pense que está procurando alguém para culpar
devido ao seu prejuízo. Isso, você é um Kingston, é capaz de qualquer coisa.
Tem o que quiser. Só faça logo de uma vez e vá para a sua casa, terminar de
ler os contratos. Encontrar uma esposa deve ser o menor dos seus problemas.
Muito mais fácil do que entrar em discussão com algum texano que não
deseja vender as suas terras. Eu nasci no estado da estrela solitária. Namorei
garotas que os pais ficavam ao lado no sofá com rifles, só aguardando até que
eu passasse do aceitável. O resto é muito mais fácil de superar. Meus dedos
suam frio quando eu ergo a mão para tocar a campainha. Faz quatro meses
desde que estive aqui e espero que ela tenha esquecido que eu a atrapalhei em
comemorar a vitória do time da cidade no Super Bowl.
E se... eu encontrar alguma mulher na Ocean Drive para assumir esse
papel?
Qualquer probabilidade parece melhor do que enfrentar alguém com
uma aparência angelical e totalmente irritadiça. Nem ao menos sei o nome
dela, claro que Hayden disse que é Betsy, mas devo perguntar isso primeiro?
Oi, loira de olhos esverdeados como o mar do Caribe, corpo perfeito e sorriso
devastador, qual seu nome? Não, essa não seria a minha melhor tática.
Finalmente crio coragem, no entanto, a porta se abre antes.
Os olhos que eu citei antes, fitam-me desconfiados. Noto que ela
mantém alguma coisa atrás de seu corpo e tenho medo de perguntar o que é.
— Oi.
— Você depois de tanto tempo, o que quer? — pergunta rudemente —
Maddie não está, ela saiu com o Monroe, que é o noivo dela — apressa-se a
dizer — E para falar a verdade, ele é bem grande, musculoso e tal, eu se fosse
você não ficaria correndo atrás da namorada dele. Craig pode ser bem
ameaçador quando quer.
O que eu estou fazendo aqui? Já deu errado antes mesmo de começar,
por qual motivo ainda insisto?
— Na verdade, eu queria falar com você.
— Eu? — não é a resposta que ela espera, percebo.
Tanto que dá um passo para trás, ainda me contemplando duvidosa,
como se eu fosse um maluco na sua porta. Consigo vislumbrar com o seu
afastamento, que ela mantém um taco de beisebol atrás do corpo. Perfeito, ela
deve pensar que sou um maníaco e que precisa se defender. Não duvido que
ela já tenha ligado para a polícia, denunciando-me como perseguidor.
— Você mesma. Qual seu nome? Lembro que a Madison falou sobre
você, mas... — minto, afinal nunca falei com Madison sobre sua vida pessoal.
— Não prestou atenção, o que não me choca — interrompe-me ela,
claramente debochando.
O que posso fazer? Ela está totalmente certa.
— Desculpe.
— O que quer comigo?
Direta. Gosto disso.
— Tenho uma proposta.
— Não quero ouvir! — assume.
Está prestes a fechar a porta, quando digo algo que não me lembro de
falar há muito tempo — Por favor? Pode só ouvir antes?
Minha humilhação é o bastante para ela vacilar. Pelo menos serviu para
algo.
— Se tentar alguma gracinha, eu estouro seus miolos com meu
poderoso taco — profere uma ameaça — ele é conhecido por ser mais
eficiente que a faca do Jason. — Indica que eu passe. Rapidamente o faço.
Acabo sorrindo com a comparação. Admiro a decoração um pouco
ultrapassada da casa das duas. Também acho pequena demais, com excesso
de móveis para a minha tendência sobejamente minimalista. Deixo minha
mãe e avó loucas quando vêm para casa, porque eu literalmente tenho dez
peças de cada tipo de roupa que uso, não mais que isso. Depois de ler e
assistir documentários sobre minimalismo e consumo consciente, achei que
seria interessante me desafiar e seguir essa nova tendência e estilo de vida.
Acredito que foi a melhor decisão que já tomei. Portanto, todo esse
amontoado de coisas me estressa, mas não digo nada. Sequer tenho o direito,
eu que sou o intruso em uma casa predominantemente feminina.
— Qual seu nome? — retorno ao assunto, visto que ela não respondeu
— E pergunto por que estou realmente interessado — Uso um tom de flerte,
para amaciar a fera.
A mulher nem se altera. Ainda me fita com curiosidade, como se eu
fosse me tornar uma ameaça a qualquer instante.
— Betsy.
— Betsy, com o mesmo sobrenome da Madison? — Nem sei por que
perguntei, fui muito estúpido.
Ela parece disposta a me chutar da sua casa sem querer escutar mais
nada.
— Sim. Somos irmãs do mesmo pai e mãe.
— Tenho uma proposta pra você — Vou ao ponto.
Ela se senta em uma poltrona e me indica a outra com a mão. Percebo
que há uma camada fina de poeira nela. Retiro meu lenço e passo na maior
extensão de superfície que consigo. Olho para o tecido e não enxergo a
sujeira, isso me leva a franzir as sobrancelhas.
— Você é um saco, sabia? Não está sujo seu idiota, é só a idade da
mobília que a deixa com essa cor estranha — resmunga em tom desdenhoso.
Ouço um miado e antes que eu possa responder ao comentário dela, o
gato pula em meu colo, aconchegando-se às minhas pernas, enchendo a
minha calça de pelo, aguardando por carinho. Estou levemente irritado com a
sua dona, mas isto não é motivo para descontar nele.
— Olá, Al Capone, como está hoje? — falo, lembrando-me do nome
inusitado que ouvi meses atrás, enquanto ele afofa minha calça.
— Pare de ficar correspondendo ao meu gato! — censura.
— Ele que pulou em mim, não vou maltratar um gato, Betsy! — uso
seu nome e noto que seu semblante se altera por instantes.
Há uma confusão contraditória pairando em seu olhar.
— Quer um café? — Oferece-me rapidamente, tencionando fugir de
alguma coisa.
Fito-a e a vejo prestando demasiada atenção na cena. Não entendo o
motivo do seu espanto, eu gosto de animais.
— Se não for te incomodar — digo sincero — voltei da China ontem e
ainda estou sofrendo o jet lag. — Não durmo há 24 horas por causa da
mudança de fuso horário e perdi as contas de quantos copos de café e
energéticos tomei. Quando eu finalmente conseguir dormir para valer,
desmaiarei por mais de 10 horas.
Ao menos, é o que espero teoricamente. Na realidade, se eu conseguir
ao menos três horinhas de descanso já sairei no lucro. Meu cérebro se
acostumou a não descansar, acredito. Toda vez que deito a cabeça no
travesseiro, meu celular anuncia o recebimento de um e-mail e levando em
conta que em muitos países do mundo pode ser horário comercial, acabo
caindo na besteira de conferir, o que me leva a uma madrugada totalmente
acordado, resolvendo problemas e marcando viagens para os próximos dias.
— Sofre muito disso? — Ela parece realmente interessada. — Nem
quando eu e minha irmã fomos para a Itália sofremos de jet lag, deve ser
legal dizer pelo menos uma vez. Soa tão chique, não é?
Quando pensei que estaria na sua casa, falando sobre os efeitos deste
distúrbio de sono temporário? Uma boa pergunta, acho que nunca. Mas, me
surpreendo ao perceber como é mais fácil do que falar sobre outros assuntos
com todos que me rodeiam. Pela primeira vez em muito tempo não estou
sendo bajulado, interrogado sobre a próxima reserva de petróleo, o que penso
sobre algum outro país encontrando um campo com bilhões de barris a serem
explorados ou coisas do tipo. Também não sou obrigado a ouvir de diversos
executivos as peripécias que fazem com suas amantes, o que me deixa
aliviado!
— Nunca consigo me acostumar por muito tempo. Faço longas viagens
ao menos uma vez a cada quinze dias. Sempre acabo perdendo um dia de
rendimento só para o meu corpo voltar ao ritmo normal. Fico passando mal e
sem conseguir pregar os olhos por um longo espaço de tempo.
— Interessante — Rumoreja — Gosta da China?
Sua pergunta é uma mudança drástica, porém percebo que ela está
curiosa ao invés de me atacando. O que leva a pensar que não sei responder,
visto que percebo não aproveitar de verdade o país quando vou. Acredito que
não fui em nenhum ponto turístico, inclusive. Mal tenho tempo para pensar,
sempre afogado em negócios. Seria um milagre que eu pudesse opinar se a
China é interessante ou não.
Vendo por esse lado, minha vida é meio que deprimente.
— Não sei te dizer.
— Como assim? Não voltou de lá? — Sua confusão é válida.
— Eu sempre viajo a negócios. É do hotel para reuniões, empresas, e
assim por diante.
Jantares de negócio.
Discussões, disputas acirradas por poder.
As coisas raramente mudam.
— Nenhum passeio? Nada?
— Nada.
— Que graça tem em ser rico então? Se você nem aproveita os lugares
para os quais viaja?
Que bosta mesmo. É preciso que alguém que não me conheça diga o
quanto minha vida é patética para eu acreditar nela. Sondo na memória, pelo
menos uma vez em que viajei e pude aproveitar um pouco. Não recordo de
nada prontamente. Tenho a oportunidade de conhecer diversos países e
desperdiço todas elas.
— Não é esse o assunto que vim discutir com você.
Quero mudar o rumo da conversa, a possibilidade de alguém me sondar
soa desesperadora. É como se eu me tornasse um músculo exposto, prestes a
receber diversos golpes enternecedores.
Sacudo a cabeça imperceptivelmente, tentando afastar a autopiedade.
— Vou pegar o café que te ofereci — Ela abandona a sala e eu acabo
me distraindo com o seu rebolado.
Algo tenho que admitir: a mulher é linda. Espetacular. Seria uma
excelente escolha e todos acreditariam que ela se tornou de fato minha
mulher. Tenho que pensar nos negócios, exatamente, e Betsy é necessária
para que meus planos futuros deem certo. Al Capone mia em meu colo,
quando percebe que parei de acarinhar seus pelos.
— É eu sei, me desculpa — brinco.
Permaneço sentado, aguardando o café que ela ofereceu, enquanto
admiro as fotos no aparador. Ela e Madison sempre foram muito unidas,
percebo, assim como a maior parte da minha família. Somos insuportáveis
separados, mas juntos nos aturamos. Principalmente os primos com a mesma
faixa etária de idade. Passo bastante tempo alisando o gato, até vê-la retornar,
com uma xícara e um pacote de petisco. Deposita o café na mesa à minha
frente e retorna com o petisco até um pequeno pote em um canto, onde coloca
o conteúdo.
Rapidamente a bola de pelos me abandona.
Sou interessante, mas não mais que seus petiscos. Não me ofendo,
acontece o mesmo em casa quando os animais têm o que comer. Esquecem-
se totalmente de mim.
— Pode tomar seu café, não coloquei veneno — fala Betsy, quando
nota que eu ainda não toquei nele.
Falo agora ou depois?
Converso mais um pouco, sobre coisas estúpidas como o jet lag? Ou
solto a bomba de uma vez?
Busco em minha cabeça assuntos que poderiam ser interessantes para
ela. Não encontro nada. Tudo o que consigo pensar é em comentar sobre
alguma notícia no mundo dos negócios, queda no preço de algumas ações
imperdíveis e coisas do tipo. Devo ser o cara mais tedioso do planeta.
— Obrigado. — Ergo a xícara em um agradecimento, sopro e tomo um
gole generoso. — Então — começo a falar, mas sou interrompido por ela.
— Calma aí, Kingston, vai começar agora o programa com o Cena. —
Ela aperta um dos botões do controle e a televisão é preenchida pelas
imagens do lutador.
— Cena?
— Sim, O John.
A abertura do WWE se inicia e eu me contenho para não rir. Qual graça
ela vê em assistir isso? Por acaso não sabe que as lutas são todas encenadas?
— Sério que assiste essa coisa? — indico a televisão.
Não sou um homem inteligente. Definitivamente não. Insultando um
programa que ela vê em sua própria casa. Qual o meu problema? Por qual
motivo não calo a merda da minha boca?
— Qual seu problema, cara? Claro que eu vejo! Eu e Cena temos uma
ligação — indica a tela.
Ela é a mulher mais estranha que conheço. Assiste WWE e ama futebol
americano, informação essa que sei graças à mulher do Hayden, que
comentou com ele. Alguns parceiros de negócios gastariam metade das suas
fortunas para ter uma companheira como ela. Decido que se Betsy aceitar
minha proposta nunca a apresentarei a eles. Como vovó vive me dizendo, não
é bom dar sorte ao azar.
— Betsy, como eu disse desde o começo, vim aqui para te fazer uma
proposta. — Decido interferir e prosseguir com a minha ideia.
Olho para meu relógio e percebo que já perdi tempo demais com toda
essa baboseira. Preciso acabar com tudo logo, para poder ir embora e
terminar algumas análises para aquisição de uma empresa canadense. Todos
os gráficos de evolução da marca soaram promissores, no entanto, eu ainda
preciso rever alguns pontos que me incomodaram, antes de seguir com a
compra das ações em acordo com o conselho da companhia sediada em
Toronto. Recebo uma mensagem de Hayden em meu celular perguntando se
já fiz isso. Respondo rapidamente que logo finalizarei. Uma mentira das
maiores, visto que no momento, estou sentado, com minhas pernas compridas
fazendo meus joelhos ficarem em um ângulo estranho por causa da altura do
sofá. Baixo demais para um homem como eu.
Remexo-me desconfortável. A proprietária não nota.
— Ai caralho! — ela se exalta com o que vê na tela e levanta em um
átimo, sem desgrudar os olhos do Cena.
— Eu ainda estou aqui — chamo sua atenção novamente.
Ela me fita, coloca o dedo indicador na boca, pedindo silêncio enquanto
contempla o desenrolar da luta encenada à sua frente. Betsy mantém o corpo
empertigado, os cabelos dourados caindo em ondas até a sua cintura,
mordendo o canto da sua boca exageradamente apreensiva.
Decido que esse é o momento, ela pode não entender e dizer sim. Vou
usar isso a meu favor.
— Topa se casar comigo, Betsy?
O controle cai no chão e... acho que ela também.
ACHO QUE MORRI! É OFICIAL! Por favor, não deixem
que minha irmã suicide a moda e impeçam-na de doar meus
sapatos de grife! Mas, espera, ele disse casar mesmo?!

Tive um sonho muito louco. De verdade. Sonhei que o ex-chefe da


minha irmã apareceu em casa para atrapalhar um dos episódios de WWE, um
no qual Cena está de arrebentar, — quando que não está? — e me pediu em
casamento. Gargalho em pensamento. Como eu pude pensar algo assim? Que
cômico! Sinto uma lufada de ar no meu rosto e abro um dos olhos. Vejo
alguém que pensei que não estaria aqui. Abro o outro olho. Droga! Não foi
um sonho?
Por instantes, desejo que seja Al Capone lambendo meu rosto para me
acordar e dar comida a ele. Mas, não é isso que vejo.
O perfume é maravilhoso. Meu Deus! Inalo disfarçadamente. Bom de
verdade, do tipo que dá vontade de pular no pescoço.
— Você está bem?
Bem eu estaria se estivesse no colo do Cena. Isso sim. Porém, com os
olhos incrivelmente pretos me fitando fixamente e seus lábios próximos aos
meus, tenho que me controlar para não ceder ao impulso que há em mim de
puxar Lane para um beijo louco e depois girar no chão da minha sala.
Preciso mesmo transar.
De verdade.
Não pensaria essas coisas se estivesse com a minha vida sexual em dia.
Depois daquela ocasião na praia, eu só tive dois encontros casuais! Dois! E o
último faz mais de um mês! O que está acontecendo com os homens? Cada
vez mais difícil encontrar uns interessantes que possam ao menos ser mais ou
menos na cama. Já desisti de encontrar algo extraordinário, como vive
dizendo minha irmã. Ela encontrou o dela, por que justo o último?
Porcaria! Quero tanto alguém insólito em minha vida!
Depois que Lane fosse embora, colocaria meu biquíni e sairia à procura
da próxima presa nas areias da praia. A paz que olhar para o oceano
proporciona, será apenas um bônus para eu encontrar a solução para a minha
vida nos próximos meses. Claro que a noção de que minha irmã irá morar
com Monroe paira em torno da minha mente e eu nem tenho como reclamar,
Madison merece ainda mais. Ela sempre segurou a barra em casa, me ajudou
como podia e é a melhor irmã que alguém poderia ter. Nunca fiquei sozinha,
essa é a verdade e a ideia de que não terei mais ela com quem conversar
quando chegar a casa me atormenta. Preciso encarar tudo como a adulta que
sou, não tenho mais minha irmã pé no chão para o fazer por mim.
E não posso mais ceder à minha compulsão e ficar comprando blusas
que nunca usarei. Tenho algumas que estão no meu guarda-roupa desde a
última revolução da moda e não foram usadas nem uma única vez. Preciso
amolecer meu coração e me desfazer delas. Segundo Maddie, eu preciso é de
uma tiny house, casas bem pequenininhas, com apenas o necessário para as
pessoas serem felizes. A ideia de sobreviver com dez peças de roupa não me
é agradável, no entanto pode se tornar, não? E sinceramente, eu andei
assistindo uma série sobre o assunto e não é que elas ficam adoráveis?
Consigo me enxergar em uma microcasa, consigo de fato.
Uma mão se sacode à frente do meu rosto. Paro de divagar.
É comum que eu me perca em meus próprios pensamentos. Não tenho
culpa.
— Betsy, você está bem?
Estou? Nem eu sei!
— Eu pareço bem?! — Sou efusiva o bastante na pergunta com tom de
afirmação?
Tomara que sim, porque estou me sentindo estranha, achando que ouvi
coisas do além.
O homem arregala os olhos e eu o empurro da minha frente, para me
levantar. Fito Al Capone no processo e ele parece rir de mim. Em minha
defesa, o que escutei antes de desabar foi assustador o suficiente.
— Falou alguma coisa de jet lag? — indago, aguardando ansiosamente
a resposta.
Se ele disser que não, presumo que foi tudo coisa da minha cabeça e
posso seguir livre, leve e solta com a minha consciência tranquila.
— Há alguns minutos sim, por quê?
Não foi a porcaria de um sonho.
Droga!
— Pensei que tivesse sido um sonho.
— Não foi. E também não me respondeu.
Esbugalho meus olhos, ao escutar seu pedido ecoando em minha mente.
As palavras ondulam, batendo contra meu crânio, causando um furor em meu
cérebro, porque do céu até o inferno todos sabem que eu sou um espírito
aventureiro que jamais se amarraria. Principalmente com...
Ele!
Se bem que... fito a parte que interessa na sua calça e abro um sorriso.
Céus, não!
O homem deve ter fugido do manicômio. Não há outra explicação.
Acho que é melhor eu ligar para o mais próximo e conferir por via das
dúvidas.
— Respondi o quê?
— Topa se casar comigo ou não?
Controlo-me para não desmaiar de susto de novo. Só pode ser loucura.
Como ele chegou à conclusão de que eu aceitaria uma loucura dessa? Nem o
conheço! Será que estamos participando de algum daqueles realitys malucos?
— É um reality? Daqueles em que a gente casa sem conhecer um ao
outro e vai descobrindo o amor nas pequenas coisas e blá blá blá? Só
porcaria? Se for, não, muito obrigada, não gosto disso. Prefiro me apaixonar
à moda antiga. Não me leve a mal, você é lindo, mas eu tenho mais o que
fazer. E gosto dos surfistas sabe? Tenho realmente uma queda pelos surfistas.
Você não faz o meu tipo. — Chacoalho a cabeça.
Eu poderia escutar qualquer coisa que soaria menos perturbador. Se ele
dissesse que a rainha é um ser de outro mundo, eu provavelmente teria
acreditado de primeira. Incomodo-me ao olhar para ele e perceber que não há
qualquer resquício de brincadeira em seus traços.
— É um acordo de negócios. Eu preciso de uma esposa — Ele olha
para o teto pensando no que dizer — para fins pessoais e acho que você é
perfeita para isso.
— Que fins pessoais?
Coisas ilógicas interditam meus pensamentos. O que ele pensa em fazer
comigo? Será realmente meu fim? Ou é para necessidades sexuais? Se for
isso, não me importo de que ele faça uso do meu corpo. Até me quebraria um
galho. Mas, se ele precisar de mim para sei lá, encobrir alguma coisa, aí a
situação já fica complicada.
— Não posso falar agora.
Ah, perfeito! Ele espera que eu embarque nessa furada sem ao menos
saber onde estou me metendo? Quem ele pensa que sou?
— Nada feito. — Aceno enfaticamente, sacudindo a cabeça.
E se ele continuar insistindo vou pegar meu taco! Olho para o objeto de
relance e ele segue meu olhar, engolindo em seco, esperto!
Lane se ajeita no sofá e empertiga a postura, para rebater a minha
resposta. Noto como está determinado e céus, não sei o que aconteceu para
ele precisar tomar uma atitude tão drástica, mas acredito que seja grave.
— Pago o que você quiser. Também reitero que morará comigo na
minha mansão, ou se preferir, tenho uma cobertura aqui em Miami. As
pessoas precisam saber que estamos juntos, ou essa farsa não convencerá
ninguém. Também conhecerá minha família e viajaremos juntos. Porém, não
procuro envolvimento sentimental. Isso — contempla-me com as
sobrancelhas franzidas — é expressamente proibido, já que não tenho tempo
a desperdiçar.
Ele é arrogante.
Com um ego gigantesco.
Deve ter um senhor taco entre as pernas, aposto! Meu olhar retorna até
a direção sem que eu consiga controlar, mas dura poucos segundos e
felizmente ele não percebe.
A questão é que me sinto atraída por essa sua pose de inalcançável,
porque sei que com um pouco de esforço, consigo derrubá-lo e a sua queda
será extremamente divertida.
— Obrigada, mas não — recuso.
Eu sou louca, mas não idiota!
Fato 1: ele acha que pode me comprar.
Fato 2: já presumiu que vou me apaixonar, por isso deixou esse campo
proibido.
Fato 3: eu já disse que ele acha que pode me comprar? Pois é!
Fato 4: não tenho tempo para escutar essas loucuras! Preciso ir para a
praia encontrar um surfista!
— Certeza? Pode ter o que quiser, basta pedir. Betsy, eu estou te
proporcionando uma vida muito melhor do que presa nesse cubículo que
chamam de casa, com esses móveis de aparência estranha e estilo vitoriano
retrógrado. Pense nas suas probabilidades. Viveria em meio à alta sociedade
em festas de gala e muito luxo. Basta dizer sim que eu a transformarei de uma
mulher pobre, para uma extremamente rica. Tomará champanhe em taças
com detalhes em ouro, qual o ponto que você não consegue entender? —
Enxergo em seu rosto que ele acredita que essas motivações são o suficiente
para eu ceder, como se eu pensasse apenas em dinheiro e luxo — Essa é a
oportunidade de uma vida!
Sua pose inabalável, e sua expressão esperançosa me fazem perceber
que ele realmente acredita no que diz. Pensa que um acordo como esse faria
bem para outrem. Apenas um cara que só leva em conta o dinheiro pensaria
algo assim. Tão bonito, mas completamente insuportável. Consigo entender o
motivo para ter me procurado com essa proposta incoerente. Aposto que seu
senso prático lançou todas as possíveis esposas para fora das suas opções.
Acrescento o quinto fato em minha contagem mental, para recusar com todas
as minhas forças o seu plano.
Fato 5: pensa que é o dono do mundo.
Porém, uma parte safada em mim, coloca um sexto fato. Um que pende
a balança para o seu lado.
Fato 6: Caramba, o homem é quente!
Discuto internamente com a minha inteligência. Não posso ceder só por
causa disso, o estrago seria gigantesco e nem tenho roupa para este evento!
— Não, Lane. Vá se ferrar! Pensa que pode vir até aqui me ofender
com suposições? Pouco me importa para que precisa de uma esposa, e o que
dará a ela, só vá embora da minha casa! — aponto a porta de entrada. — Ou
juro por tudo que é mais sagrado que vou enfiar meu taco na sua bunda até
ele sair pela sua boca!
Seus traços faciais transformam-se em uma careta.
Ele fica em dúvida se escutou o que realmente escutou.
Sim, meu querido, é isso mesmo que ouviu! Vou estrear meu taco e
você vai parar no hospital com um Rawlings de madeira atolado até o céu da
sua boca!
Ele vacila.
Só pode ser surdo!
Aposto que é um homem que não recebe nãos na vida. Dá para
perceber através da sua perplexidade que tudo o que quer, ele consegue.
Talvez tenha a ver com seu olhar avaliativo e seu poder de manipulação. No
entanto, desta vez eu serei a manipuladora da equação e é melhor ele colocar
o rabo entre as pernas e se mandar da minha casa.
— Betsy, o que custa me ajudar? Você está esperando pelo príncipe
encantado ou imaginando que se casará por amor? — debocha ele.
— E estou errada?
Irrito-me com a sua fala e começo a arrastá-lo para fora, já que ele não
o faz por livre e espontânea vontade. Sinto um arranhão na canela e quando
olho, vejo Al Capone tentando defender o homem da minha “agressão”. Juro
que neste momento, uma vontade nada decente de chutar o gato para fora de
casa me acomete. Que ele vá morar com o Kingston então! Uma vozinha do
fundo da minha cabeça toma à frente, deixando claro que minha irmã ficará
fora de si se eu mandar seu gato embora. Melhor não provocar o demônio.
Por mais que ela tenha dito que quando eu precisar, é para avisá-la que
ela vem e o pega para ficar com ela na casa do seu noivo. Nada mais justo. Al
gosta mais dela do que de mim de qualquer forma.
— Precisa ser prática! O amor vale muito menos do que estou disposto
a te dar.
— E o que seria? — pergunto, mesmo não me interessando pela sua
resposta.
Quando fico irritada o sarcasmo em minha fala se sobressai.
— Uma vida estável e sem perturbações.
Coitado! Ele acha que existe mesmo uma vida assim? E isso lá pode se
chamar de vida? Parece comida congelada, de tão fácil!
Odeio coisas fáceis.
De verdade, aprendi que coisas fáceis vêm e vão com a mesma rapidez.
O que não me soa nada agradável.
— Como deve ser entediante e patética essa vida!
Fecho a porta logo que ele pisa na soleira, quase prendendo o rabo do
gato que fica na dúvida se detesta a minha pessoa o bastante para tentar a
vida na casa de outro ser humano com o qual ele não tem o hábito de
conviver. Talvez esse homem não o deixe comandar a casa como se fosse
dono dela, e nossa que pena para ele, o gângster felino, então Al Capone, se
mantém na sala enquanto eu enxoto o empresário rico como um Rockefeller.
Não me espantaria se uma das famílias mais ricas e influentes do país
sentissem vergonha da sua fortuna quando se deparassem com Lane
Kingston. Pelo que minha irmã dizia é coisa do tipo indecente de verdade, e
eu nem sei qual o quantitativo de indecente no vocabulário dela.
— É cada coisa que a gente tem que ouvir! — sussurro e volto para a
minha poltrona, tentando ver se consigo aproveitar alguma parte do
programa.
Nada, isso já perdeu a graça.
Meu plano inicial era a praia, certo?
Então, é para lá que vou!
Corro escadaria acima, agradecendo que minha irmã não está, porque
ela sempre inventa de tomar banho na mesma hora que eu e o resultado é um
chuveiro tumultuado e duas pessoas atrasadas. Ela sair, tem seus pontos bons
e negativos, sem dúvida.
Ignoro totalmente o homem que esteve em casa mais cedo e me
esqueço da sua presença, lavando meu cabelo profundamente, passando meu
esfoliante, aproveitando meu banho de banheira ao máximo enquanto escuto
Enya, em uma calma relaxante de dar inveja em qualquer um. Nada pode me
tirar a paz de um banho bem tomado, nem mesmo um cara arrogante e
egomaníaco.
Enxáguo a cabeleira ouvindo Orinoco Flow, cantando com uma escova
de cabelo que encontro. Estou no ápice da minha performance quando meu
celular toca acabando com o clima. Madison sempre me diz para não levar o
aparelho ao banheiro, que ele acaba captando a umidade e isso pode estragá-
lo, mas sempre escolho ignorar o que ela diz.
A música continua baixa na caixa de som emparelhada com meu
notebook.
— Fala.
— Tomando banho com o celular de novo? — pergunta ela.
Pergunto-me se é uma bruxa ou coisa do tipo, para sempre adivinhar o
que estou fazendo.
Sei que isso é uma cilada, ela ama pegar no meu pé. É a clássica irmã
mais velha e às vezes escolhe ignorar que eu já tenho vinte e oito anos e que
sei cuidar muito bem de mim mesma.
— Não, já estou me arrumando.
— Vou fingir que acredito e que não estou escutando Enya tocando na
caixinha de som.
Ela não adivinhou, afinal.
— O que faz?
— Lendo um livro.
E não choca ninguém. Nem sei por que faço a pergunta se conheço a
resposta.
— Então por que está me ligando?
— Só para dizer que vou passar essa semana na casa do Craig também.
Precisamos resolver umas coisas aqui — Ouço a voz dele atrás deixando
claro que não é bem isso que irão fazer durante a semana.
Com um homem daquele quem pode julgá-la?
Não entendo essa coisa de ela ficar dando desculpas. Tem mais roupas
na casa dele do que aqui, só falta levar o Al Capone, porque literalmente vive
com o jogador.
— Maddie, pelo amor de Deus, quantos anos você tem? Pode dizer que
vão transar, eu já sei disso, pensa que sou idiota? E tem mais é que aproveitar
mesmo! Se joga nesse pau, garota! Marca logo um touchdown aí e vai ser
feliz!
— Você não presta!
Sorrio com a sua fala. De fato, eu não presto. Na maior parte do tempo,
na outra parte eu presto menos ainda. Essa definição se tornou algo estranho
uma vez que quando eu sou boazinha os homens pisam em mim, prefiro ser a
má, que ninguém tem coragem de destratar, porque corre o risco de levar uma
revanche extremamente poderosa.
Homens temem mulheres poderosas.
Reformulando: homens fracos e que não valem nada temem essas
mulheres.
Porque elas são capazes de devolver tudo na mesma moeda e eles não
aguentariam.
— Vou desligar para você foder aí, tudo bem? Nada de ficar ligando
para a irmãzinha, visto que ela tem mais o que fazer também. Beijo, te amo,
tchau! — encerro a ligação na cara dela.
Mania chata que ela tem de ligar só para saber como estou. Sinto-me
horrível sabendo que ela vai se matar de transar enquanto eu não o faço há
pouco mais de um mês! Um maldito mês! Saí na última noite para conversar
com um homem aparentemente bacana, mas ele era insuportável e só ficava
falando do seu iate, que eu aposto que ele nem tem, porque quem tem essas
coisas não fica falando assim a torto e a direito não. Uma merda! Ele não era
feio, valia a pena ignorar toda a ladainha ostensiva se eu não percebesse que
ele começou a beber mais do que parecia sadio para alguém com vontade de
transar e começou a dizer coisas horríveis sobre o feminismo. Levantei-me e
o deixei falando sozinho. Homens assim não merecem minha atenção.
Logo, meu resultado é: pobre, com vontade de dar, mal-humorada e
resmungona. Porque cacete, eu estou mais resmungona do que o comum, e o
pior, falando sozinha, reclamando com um gato, sobre a minha falta de
“entretenimento”. Ele deve me olhar e me achar a humana mais patética de
todo o mundo.
E nem posso discordar dele!
Termino de me arrumar com má vontade, pensando nesse assunto e ao
sair de casa, ainda estou totalmente desanimada. Não é o tipo de coisa que
deveria me colocar para baixo, mas, sabe quando a gente sente que ninguém
se interessa por nós? Soa meio estranho, porque eu sou bem confiante na
verdade, porém há dias em que fico me perguntando qual o problema para a
minha companhia não ser tão interessante para os homens com os quais saio.
Não tem nada a ver com fazer sexo no primeiro encontro, acredito que nem é
esse o problema, acho que a maior questão é ter as opiniões fortes demais
para uma conversa simples em um jantar de sábado.
Fred me disse uma vez que essa é minha maior qualidade, ser uma
mulher perigosa, que faz o coração sentir como se estivesse em uma
montanha-russa. Acho que me encantei por ele em um primeiro momento por
essa frase. Nossa relação depois dela foi uma tortura de idas e vindas,
recheada de muita tensão sexual, que acabou sendo o ponto sobressalente e
consequentemente o que pode ter nos estragado. Quando há apenas sexo, a
relação não tende a evoluir e acredito que toda a coisa que nos envolveu foi
algo muito quente, com zero profundidade.
Por esse motivo, quando ele tentou voltar para a minha vida, barrei com
toda a força que consegui e forcei a minha cabeça a não se lembrar de como
ele era bom na cama. De que adianta ser excelente nela, se fora dela é
péssimo?
Se fôssemos ótimos juntos ele seria atual e não ex-namorado, por isso a
minha política de não aceitar ex-namorado na minha vida sexual se mantém
tão forte. Só machucaria meu coração ainda mais. Assim como ele se
despedaçou quando eu o encontrei em sua casa acompanhado de mais quatro
mulheres enquanto nós ainda namorávamos. Lembro de como travei na porta
da entrada, assistindo estupefata ele chupando uma mulher sentada na sua
cara, enquanto outra chupava seu pau e mais duas se pegavam em um canto.
Esse foi o ponto em que notei como ser boazinha não me ajudaria em nada. A
antiga Betsy foi totalmente ingênua, enquanto a nova, a que se moldou em
anos de prática, era a que decidia dizer adeus depois de aproveitar algumas
noites.
Fiz uma prece a Deus e segui em frente.
Mamãe me disse uma vez que se alguém me machucasse, eu deveria ir
até a igreja mais próxima, rezar por ela e deixá-la onde deveria ficar sem me
ater ao que fez a mim. Depois que eu ajoelhei no apoio do banco, uni minhas
mãos e pedi a Deus que judiasse bastante do Fred — mentira, eu não fiz isso,
claro que não, minha conversa com Ele foi apenas entre nós dois, não cabe a
mais ninguém saber o conteúdo dela — Levantei, passei as mãos em meus
joelhos e fui embora de alma lavada. Essa coisa toda de jogar nas mãos de
Jesus realmente adiantou no meu caso. Nos dias seguintes em que ele ficou
indo até minha casa, chorando, se dizendo arrependido, eu só abria a porta, o
mandava embora e a fechava de novo. Vida que segue.
Caminho pela calçada, pensando nessas coisas sem sentido.
Tropeço em uma pedra, paro para xingá-la como se isso fosse ajudar
em algo e continuo andando. A temperatura está amena, em um clima bem
gostoso para sentar na varanda, na sua cadeira de madeira e só observar a rua,
assim como várias pessoas costumam fazer. Estou longe de passar pela parte
mais badalada da cidade e dou graças a Deus por isso. Entre um mar de
gente, com prédios imensos e resorts de fazer até os mais ricos ficarem de
boca aberta, eu prefiro a calmaria, o que é engraçado em se tratando de mim.
Aos fins de semana, até tento, me esforçar para socializar nesse tipo de lugar,
porém, minhas últimas tentativas não deram frutos tão bons.
Um homem lindo passa por mim e me olha, claramente interessado.
Fito-o de volta. No momento em que decido caminhar até ele, uma moça sai
de uma das lojas e entrelaça seu braço ao dele. Fico pasma na cara deslavada
que ele faz, como se não estivesse me olhando e esperando que eu tomasse a
iniciativa. É muita safadeza. Por isso estou solteira e não vejo um futuro tão
promissor no campo do amor. Repreendo-o com olhar e continuo
caminhando. Preciso parar de querer agir por impulso.
Definitivamente.
Acho que eu vou hipotecar meu rim para pagar a hipoteca.
Hipoteca da hipoteca.

Quando chego de volta a casa já é tarde da noite. Estou exausta. Afinal,


desisti de caminhar na praia para ir até a Anjos sem asas e céus, esses
trabalhos voluntários ainda acabarão comigo!
Tiro meus sapatos, despejo a ração do Al em seu pote, troco a sua água,
porque o bonitão não pode tomar água com pelo e desabo na poltrona,
apoiando meus pés na mesa central — o que se minha irmã visse me mataria,
mas ainda bem que ela não está aqui — suspiro, tentando mandar o cansaço
embora.
Ligo a televisão e um Talk show qualquer preenche a tela. Não estou
com ânimo nos últimos dias nem para isso. É uma mistura de tédio com
preocupação, que me incomoda.
Suspiro e admiro a casa. Fito a cozinha com suas janelas que nos
permitem ver a rua. O ambiente em si é pequeno e a mesa que nossa mãe deu
ocupa metade do espaço, o que nos faz cozinhar fazendo malabarismos.
Todos os nossos móveis são ultrapassados, cortesia do antigo dono.
Compramos e ganhamos poucas coisas apenas para complementar. É o meu
lar e da minha irmã. Em breve, sinto que será apenas meu. São raros os dias
em que Maddie volta para casa e essa noção evoca sentimentos contraditórios
em mim.
Levanto da poltrona e paro na frente da janela da sala, olhando para a
rua. As luzes dos postes iluminam as árvores nas calçadas, com as suas folhas
brilhando em tons alaranjados. Um silêncio domina o lugar, até que um
cachorro late ao longe. Nem uma vivalma caminha no meu campo de visão.
Passo meus braços em torno do corpo, mesmo não estando frio. Estou
sozinha, em uma casa que parece ligeiramente maior devido a isso.
A presença gritante da Madison nunca fez tanta falta.
Como se ouvisse meu chamado mental, recebo um e-mail. Abro-o e
noto que foi ela quem enviou.
Hipoteca.
Esse assunto é muito importante.
Leio o que ela escreveu e me assusto com o valor. Todo mês eu me
assusto, mesmo sabendo o montante. Os anúncios do blog não renderam
muito esse mês e para variar, eu comprei algumas peças de roupa em
promoção que eu não poderia perder. Jamais. E com isso, toda a minha renda
desabou como o letreiro de Hollywood se um tornado passasse pelo local.
Merda. Por que eu não guardei? Claro, porque precisei usar tal roupa para tal
ocasião e tive que enviar uma peça para uma seguidora superlegal, com
problemas de autoestima. Quando vi a roupa na loja pensei que era a cara
dela. Além do mais, fiz doação para a campanha da qual faço parte e de
pouco em pouco, acabei me ferrando legal.
Como minha irmã ainda me ama?
Gasto devido a euforia e a coloco nas minhas enrascadas com isso.
Madison deveria me odiar.
“Ei, Maddie
Então...” — começo a digitar uma mensagem no aplicativo de
mensagens instantâneas.
Recebo uma dela antes que eu envie.
BSE: Se precisar, eu te ajudo este mês de novo.

Se estão se perguntando o que significa BSE, é melhor irmã do mundo.


Só para não haver problemas por aqui.

Eu: Não precisa, você nem está morando aqui.


BSE: Tem certeza? Eu não me importo, sabe disso.
Eu: Claro que não se importa, é boazinha demais para seu próprio bem. Eu
me atolei, deixe que eu mesma escape.
BSE: Jamais! Estamos juntas nessa! Eu posso estar noiva, mas ainda é
minha irmã e eu vou te ajudar no que precisar.
Eu: A gente discute isso depois. Vou pensar no que fazer, qualquer coisa te
chamo.
BSE: Chame, senão volto para casa amanhã e te dou uns tapas.
Eu: Se conseguir andar depois desses dias seguidos, não é?
BSE: Você é desnecessária.

Gargalho sozinha com a sua mensagem.

Eu: Esse é o papel das irmãs mais novas. E mudando de assunto, acho que
vou fazer uma live amanhã sobre combinação de roupas e maquiagem. Se
quiser participar, acho que será bom para você. Pode ser minha modelo
também.

Todos que conhecem Maddie sabem do seu gosto duvidoso para roupas
e combinação de cores. Nada que ela use, absolutamente nada, faz sentido
como um todo. Incluindo meias coloridas, casacos felpudos em cores neon
que ninguém usaria além dela e sapatos estranhos também. Ela tem uns tênis
que nem mesmo Deus imaginou que existiria. Tomara que a sua combinação
de lingerie ao menos seja melhor, tenho até medo de perguntar.

BSE: Posso ir aí participar sim. Levo o Craig se quiser usá-lo de cobaia


também. Isso, claro, se eu estiver viva amanhã depois de tudo.
Eu: Ele ainda está te fazendo correr com ele?
BSE: Se eu ficar para trás durante metade do caminho, e depois ele
diminuir o ritmo para que eu o acompanhe for correr com ele, está sim.
Eu: Tem algum amigo além dos comprometidos/altamente gostosos, Kalel e
Aidan, para me apresentar? Estou precisando de um pau amigo, irmã. De
verdade.
BSE: Tem alguns caras do time, mas eles não fazem o seu tipo. Desculpe.
Acredito que deva ir dar uma volta na praia amanhã. Antes da live, claro.
Não vou com você, porque preciso assistir aos episódios de uma novela
turca que está me tirando do prumo.
Eu: Prefere elas a mim?
BSE: Prefiro suspirar a ter que tentar colocar juízo na sua cabeça. Desisti
dessa tarefa faz tempo.
Eu: Seu amor por mim me toca.
BSE: Bets, preciso ver o que o Craig aprontou aqui. O vizinho está
berrando e suspeito que ele tenha alguma coisa a ver. Amanhã a gente se
fala.

Saio da conversa e volto a fitar os números da conta que tenho que


pagar. Entro no meu aplicativo do banco para olhar o saldo e, suspiro
consternada. Sempre fui pobre, é uma verdade, mas hoje estou de parabéns,
porque eu posso usar uma parte para pagar, no entanto ainda vai restar mais
da metade como dívida. Um peso se instaura em meu peito. Como irei pagar?
Papai disse uma vez, e ele tem toda a razão, infelizmente fazer o que amo
pode não pagar minhas contas. Neste mês essa realidade faz com as paredes
se fechem à minha volta, deixando-me claustrofóbica. Tenho algumas
opções, dentre elas pedir um empréstimo ao banco, no entanto, ciente de que
pagarei três vezes o valor que emprestei. Essa perspectiva me desanima.
Posso pedir a Madison. Porém, já sou uma mulher bem grandinha para
se virar sozinha e não é justo deixá-la preocupada comigo.
Se eu ligar para papai?
Não, acho melhor não. Ele precisa se divertir um pouco com a mamãe e
depois de economizar tanto, não posso deixá-los em uma situação difícil.
Começaram a viajar apenas agora e eles batalharam demais para isto
acontecer.
Uma solução salta em minha mente, mas não sei se ela é a melhor.
Posso não precisar pagar em juros, mas sabe se lá Deus o que eu teria que
fazer para quitar minha dívida. Que inclusive, poderia a vir se tornar moral.
Não, Betsy isso é loucura.
Mas, bem que posso aproveitar um pouco para fazer outras coisas
também, não? Do tipo, acabar com a minha libido. Lane parece um cara
interessante e que arrebenta na cama. Quem me julgaria por dar ouvidos ao
meu desejo?
E se ele for um psicopata?
Se ele fosse um psicopata, já teria me matado quando deixei que
entrasse em casa.
Esse é um bom ponto, mas pode ter se mostrado um homem do bem
para poder se aproximar mais de você e fazer aquele pedido estranho de
casamento. Aliás, o que ele ganhará com isso? Com certeza muito. Não faria
a proposta se não ganhasse algo em troca, ele não parece esse tipo de
pessoa, que faz as coisas sem pensar no próprio benefício.
Mas, podemos estar julgando-o mal.
Não, não acho.
Converso comigo mesma, debatendo tudo o que é importante e que
preciso levar em conta antes de me decidir. Admito que meu desespero está
ganhando a batalha. Serei muito mau caráter se ceder um pouco? Talvez não,
afinal, não é uma coisa péssima. Se eu descobrir que ele me usará para fins
duvidosos, basta sair de perto. Ele que se ferre.
Tomo uma decisão antes de subir para tomar banho e dormir.
Al Capone me acompanha, sabendo que poderá se aconchegar aos
meus pés e dormir na minha cama. Nunca o deixo fazer isso, até porque ele
se interessa mais pela cama da Madison, no entanto, como só estamos eu e
ele em casa, acredito que minha carência adore seu cuidado, mesmo que ele
fique no canto dele e eu no meu.
A solidão germina coisas engraçadas nas pessoas e pelo visto... nos
animais.
Coloco meu pijama, ligo a televisão no quarto e prefiro ficar aqui,
quieta, deitada, assistindo coisas sem sentido. Uma vontade absurda de voltar
a ser adolescente me toma em um sobressalto e me sinto extremamente
pequena, por não conseguir sair dos meus próprios problemas. É quando
tenho uma ideia, uma genial para falar a verdade. Eu não queria viver com
menos e aprender a ser mais controlada? Essa é a chance que tenho, de me
comprometer em realmente cuidar da minha vida financeira com
responsabilidade. Pulo da cama em um átimo e vou até meu guarda-roupa,
lançando todas as roupas para fora. Uma dor no coração se instaura ao pensar
no que farei com elas, mas é preciso. Eu tenho que mudar minha postura se
quiser finalmente me dar bem.
De acordo com algumas mensagens incentivadoras na internet, eu
preciso começar a controlar minha compulsão livrando-me de tudo o que
comprei e não usarei.
Já faz um tempo que tento aderir a esse pensamento, mas minha
obsessão e vontade de ficar comprando mais e mais não permite. É o
momento de admitir e procurar um tratamento de verdade também, posso não
conseguir sozinha, mas, com a ajuda de um profissional, as coisas podem
pender a meu favor.
É tão fácil falar, torço para que eu consiga fazer.
Movo-me por entre as centenas de roupas, em cabides, dobradas, em
pilhas, e talvez em outro mundo também, e começo a separar desde o topo,
pelas que amo muito, as que não consigo me ver sem, as que eu poderia doar,
e as que eu definitivamente venderia porque estão novas em folha, algumas
até com a etiqueta. Céus! Odeio admitir que minha irmã tem razão, mas eu
realmente me tornei uma acumuladora e compradora compulsiva.
Em meio a essa noção, estou chafurdada nos mais variados tecidos,
lançando alguns para o alto, com o principal intuito de respirar. Em
determinado momento, acabo tirando uma calcinha da minha cabeça. Como
ela foi parar lá? Não tenho ideia!
Sopro uma mecha de cabelo à frente do meu olho e continuo separando,
separando e separando...
Pergunto-me por que raios tenho uma dezena de echarpes.
Quem precisa delas no calor infernal da Flórida? Faria sentido se eu
comprasse morando em Philly, mas não moro lá há muito tempo!
Separei cinco, em cores e tecidos diferentes. Com certeza irei vender,
são Burberry pelo amor de Deus! Quem que doaria algo assim? Literalmente,
não eu. Beleza, farei um bazar online e anunciarei todas elas, tenho certeza
que conseguirei um bom preço. Jogo para o canto também os pares de botas,
com o mesmo pensamento das echarpes. Se não preciso delas, também não
preciso destes sapatos fechados. Viver com menos e somente o necessário,
esse se tornará meu lema, se eu não me desviar do princípio.
Encontro uma Walter Steiger no meio da bagunça. Deus! Como eu
namorei essa bota na vitrine! Lembro-me até hoje de como a parcelei em
diversas prestações apenas para poder ter o prazer de algo tão incrível entre a
minha coleção de sapatos. Aliás, eu a usei muitas e muitas vezes, incluindo
na viagem para a Itália que fiz com minha irmã. Ela é uma das mais valiosas
e não posso me dar ao luxo de tê-la.
O restante delas não são de marcas tão valiosas assim, então meu
coração dói menos.
Um dos caras que ajuda no serviço voluntário é fotógrafo e se eu pedir
com jeitinho ele vai me socorrer tirando fotos bacanas do ângulo certo para
eu montar meu brechó online.
Eu mesma poderia tirar as fotos? Claro que sim, mas o perigo de que eu
desista assim que ver as peças é colossal, então prefiro não arriscar.
Envio uma mensagem para minha irmã em meio a isso, preocupada se
ela irá querer vender ou não a casa. Para falar a verdade, nós duas revezamos
no pagamento das contas, no entanto, nos últimos meses ela tem assumido a
maior fração deles e seria muito errado da minha parte aceitar metade do
valor, quando sei o quão duro ela deu para ter as coisas na vida. Ela pode
nem querer vender na verdade, mas eu não consigo ficar sozinha mantendo
uma casa como essa. Preciso organizar minha vida financeira e eliminar o
espaço para não querer comprar mais nada, é um dos passos mais
importantes.
Sim, exatamente.
O gato com pelagem curta me fita, como se eu tivesse ficado maluca.
— É, gato, eu fiquei maluca sim.
E lanço as minhas bolsas em cima da cama.
No final, a quantidade de roupas que guardo novamente é reduzida em
um terço. Droga, ainda tenho coisas demais! Volto a retirar e rearranjo
minhas prioridades, lançando mais algumas peças no monte de desapego.
Meu coração dói ao enxergar várias roupas que participaram de momentos
perfeitos comigo. Meus lábios começam a tremer e me controlo para não
chorar. Não posso desabar por coisas materiais, seria estúpido da minha
parte, no entanto, é como se eu estivesse me livrando dos momentos felizes
que vivi, e não apenas “coisas”.
Deixe de amar as coisas e usar as pessoas, Betsy! — grita a voz sábia
em minha mente.
Reitero: falar é fácil demais.
Tão fácil que muitos vivem falando, mas nada fazem.
Enxergo a camiseta que usei na minha primeira live no blog e a puxo
ferozmente, agarrando-me a ela, como se alguém estivesse me obrigando a
doá-la. Mordo o lábio e olho para as demais. Isso não me faz bem, não é
sadio, eu preciso parar.
Comprar desesperadamente e sem freios não preencherá o vazio que
consome minha vida.
Desabo no chão, e fito o nada, perdida em meu próprio mundo.
Quando foi que me transformei nesta Betsy?
Não tenho a resposta para essa pergunta e sequer me lembro qual a
sensação de ver uma promoção, e não querer comprar nada, de ficar ansiosa e
não clicar no botão de finalizar compra. Meio que me acostumei a ser errada
e a trajetória de superação torna-se difícil, onerosa, pelo simples fato de ter
criado um hábito em torno do que é ruim.
Chacoalho a cabeça tentando evitar pensar no que estou fazendo.
Preciso me libertar.
É necessário abrir minhas feridas para então fechá-las.
Suspiro profundamente.
Uma.
Duas.
Três vezes.
Caminho de um lado a outro no quarto, por muito tempo, roendo
minhas unhas, listando motivos para eu não fazer o que preciso. Não há
nenhum contra, apenas a favor. Não demora muito para que eu esteja
desesperada ao pensar que estarei me livrando das roupas.
Al Capone passa em minhas canelas, miando como se entendesse meu
dilema. Olho para ele, e o pego no colo. Ele nem protesta, aceitando meu
carinho.
Decido que preciso realmente dar adeus.
E essa é a primeira de muitas etapas.
E ele será lançado aos lobos, para ser estraçalhado. É o que
penso quando minha mãe e minha avó me vêm à cabeça. Elas
são os lobos, e eu sou o cordeiro indefeso.

Nada dela.
E o trabalho não me distrai tanto quanto eu quero que distraia. Cada vez
que meu celular toca, penso que é Betsy após mudar de ideia, mas, eu não
deixei meu cartão com ela, ou deixei? Claro que não, porque fui um idiota e
acabei esquecendo.
Porra, são negócios, Lane!
E no mundo dos negócios qual é a primeira coisa que você faz?
Entrega seu contato profissional, porra!
Que merda estou pensando? Ela que não soube aproveitar uma
oportunidade de ouro. Eu posso e irei encontrar outra mulher para fazer esse
papel, nada demais.
— Senhor, seus parceiros de negócios em Bangladesh entraram em
contato para solicitar uma videoconferência. Disseram que é urgente. Um dos
diretores da refinaria em Austin também enviou um e-mail, solicitando a sua
presença.
— Mais alguma coisa?
— Sua avó e sua mãe também ligaram e avisaram para que não esqueça
do assunto particular. Não me disseram qual, senhor. Falaram que daqui duas
semanas é o aniversário da Pearl e que seria fenomenal todos saberem.
Aquelas duas não têm limites. Pressionando-me tão abertamente que
sinto vontade de gritar.
— Obrigado. Pode ir.
— Precisa de ajuda em alguma coisa?
— Não, obrigado. — Olho para o dedo anelar, e está lá, uma aliança
imensa que sem dúvidas impede a minha secretária de dobrar o dedo —
Nada, realmente — complemento.
Volto a analisar as autorizações de perfuração e minha atenção viaja até
os números que eu aprecio tanto. Quantidade exorbitante, lucro e número de
barris que eu posso vender. Imensidão de produtos a serem refinados. Eu
abriria uma garrafa do meu melhor champanhe se não sentisse que tempos
tumultuosos me esperam em um futuro não tão distante. Números e mais
números viajam em meus pensamentos, enquanto eu não consigo me
concentrar. Levanto e saio da sala, para fazer alguma coisa que não envolva
ficar sentado pensando em alternativas para escapar da maldição das
mulheres Kingston. Vejo minha secretária parada pouco depois da porta, tão
absorta em um site de vendas que nem me nota saindo.
Paro não muito distante dela, e quando estou a ponto de lhe repreender
por se distrair no trabalho, fito uma peça de roupa que eu imagino já ter visto.
É muito parecida.
— Serena, que loja é essa?
Ela dá um pulo e se vira, me fitando de olhos arregalados, congelada no
lugar. Seu celular escorrega por entre seus dedos e eu me apresso a pegá-lo
no ar antes que se espatife no chão. Ela sabe tão bem quanto qualquer pessoa
que eu não tolero esse tipo de coisa, porém, está com sorte que eu tenho
assuntos muito piores com os quais lidar. Além do mais, ela acabou de me
dar uma ideia genial.
Desço a barra de rolagem do site e no final, a informação da vendedora
confirma o que penso desde o princípio. A vendedora é Betsy. Betsy
O’Connell. O destino não poderia me dar um sinal mais claro.
— Senhor, me desculpe, isso não vai se repetir!
— Vai ganhar uma bonificação, Serena! — falo animado, deixo-a
embasbacada, depositando o celular em sua mão e volto para minha sala.
Eu sou Lane, e se é Betsy que eu escolhi, é a Betsy que eu terei.
Quem ela pensa que é para me escorraçar?
Uma mulher decidida, sem dúvida. Mas, é justamente alguém como ela
que eu preciso para não me apaixonar e me colocar em uma situação muito
pior depois.
Esqueço-me momentaneamente das coisas em Austin, Bangladesh,
assim como a nova área de perfuração em Dallas. Tenho que garantir meu
casamento, de preferência para anunciá-lo dali duas semanas no aniversário
da vovó, ou tudo se tornará em vão. Todas as noites acordado, a insônia, as
discussões com os acionistas e principalmente, as expansões nas quais foquei
nos últimos anos. Não, eu não posso arriscar e se me casar é o castigo que
mamãe e vovó querem que eu passe, eu o farei com louvor.

Estou contando os segundos. Ela irá aparecer? Impossível que não


venha, eu dei o endereço de entrega e especifiquei por mensagem que ela
precisa vir. Claro que fiz com que minha secretária se tornasse a
intermediária. A mulher não ficou nada feliz, mas chegamos a um acordo
substancial, que beneficiaria ambas as partes.
Estou parado em frente à minha sala, aguardando.
Tenho milhares de coisas para fazer, sim madame, eu tenho, mas acabo
me desligando de todas elas para esperar a mulher que salvará a minha pele.
De que adiantaria eu fazer tudo se no final fosse enxotado da companhia?
O telefone na mesa da secretária toca.
Não é a primeira ligação desde que estou apreensivo. Não contei, mas
foram muitas em que pensei que estavam avisando a chegada da minha
salvadora.
— Sim, estamos aguardando. Podem liberar a entrada dela.
Ergo os punhos, em sinal de vitória. Se eu não a convencer desta vez,
desistirei. Mesmo sendo um texano determinado para cacete, um homem
deve saber o momento em que sua luta está perdida.
— Está nervoso, senhor? Nunca o vi assim.
Serena trabalha para mim há quase uma década e ela de fato deve se
espantar. Todos enxergam o Lane que eu desejo mostrar a eles. Os acionistas,
veem o Lane empreendedor, sério e comedido. Meus familiares interagem
com o Lane mais aberto a intimidades. Já meus funcionários, enxergam o
chefe, o líder no qual eles se espelham, um que não dá qualquer motivo para
ser questionado. E bem, há outras pessoas que enxergam o Lane sem pudores,
mas não acho que seja o momento ideal para trazer isso à tona.
Minutos incontáveis se passam. Sei que a demora de chegar até o
décimo sexto andar do prédio da companhia justifica, no entanto, não consigo
me acalmar. Betsy carrega todo o meu legado sem saber. Se ela disser não, é
oficial, eu virarei as costas e deixarei que mamãe e vovó escolham.
E será a primeira vez que perco na vida!
O elevador se abre, ela está mexendo em seu celular, totalmente
desligada da vida. Seus cabelos pendem sobre seu ombro e as unhas em um
tom de rosa gritante atraem minha atenção. Suas pernas se destacam na calça
jeans, longas e delineadas. Engulo em seco.
Betsy demora poucos segundos para perceber que o elevador já parou e
se move para fora, elegante e atenta. Primeiro, ela avista a secretária, e em
uma segunda conferida no ambiente, me vê parado como uma estátua em
frente a uma das plantas de decoração. Por pouco tempo penso que eu deveria
ter me escondido atrás da pequena palmeira para passar despercebido.
— Presumo que foi você quem comprou as roupas? — anda
rapidamente até a mesa com tampo de vidro de Serena e fala.
A mulher relanceia seu olhar entre mim e a loira.
— É, acho que fui eu sim — diz incomodada.
— Serena? Tipo a Serena Williams? Nossa, eu amo aquela mulher, ela
é maravilhosa demais. Enfim, Serena, como são muitas coisas, eu trouxe
algumas peças que couberam no carro e as demais posso pedir para
entregarem na sua casa. Só estranhei precisar vir até aqui e sinceramente, não
achei que recebiam esse tipo de coisa em prédios empresariais. Porém, como
me ajudou de uma maneira que nem sabe, achei que não seria nada demais —
dá de ombros — então, quando puder descer comigo me avise, passo as
coisas para o seu carro. Como estou com o carro da minha irmã, não posso
me demorar muito.
Betsy exclama tranquila, enquanto eu aguardo que venha falar comigo.
No entanto, ela me ignora, com uma habilidade que eu desejaria muito
possuir. Principalmente quando as filhas das amigas da minha mãe me veem
e tentam parecer “naturais”. Céus, só de imaginar uma delas como minha
esposa tenho vontade de atirar em meu próprio pé.
Minhas últimas experiências com elas me deixaram traumatizado.
Principalmente nas festas elaboradas pelos Kingston. Onde nas quais: houve
uma tentativa de sedução, quando entrei em meu quarto e encontrei uma
delas sem roupa. Outra, tentou me fazer beber mais do que deveria para me
levar até o seu quarto. Algumas espalharam fofocas, pensando que isso me
assustaria e me impeliria a colocar uma aliança no dedo e as demais,
maldição, não gostava nem de pensar. Quando cheguei até o salão, para
espairecer, sem saber se algum lugar seria seguro, meus primos morreram de
rir, porque eles sem sombra de dúvidas deveriam ter visto o meu desespero
para escapar.
Já disse que os integrantes da minha família tendem a serem muito...
traíras quando situações vergonhosas estão em jogo? Porque eles querem
mais é ver os outros se ferrando.
— Bom, ainda estou em horário de trabalho — minha secretária
começa a dizer, e abandono a minha inércia para falar com Betsy, tentando
auxiliá-la em uma situação que eu mesmo a coloquei.
Não devo ser sua pessoa favorita no momento.
— Olá, Betsy, preciso falar com você.
— Agora não, Kingston. Não estou me sentindo nada paciente para
ouvir as maluquices que diz — rebate ela.
É a única mulher no mundo, além da minha mãe e avó que fala dessa
maneira comigo. Quase me entalo com a vontade de ser grosso, bem ciente
de que não posso ofendê-la justo agora. Precisamos nos unir por um bem
maior. E pronto, agora falo como se eu estivesse concorrendo ao cargo de
presidente dos Estados Unidos. “Precisamos nos unir, Betsy, para
proporcionar uma vida melhor ao povo. Enfrentaremos juntos a vovó e a
mamãe Kingston, desbravando novos horizontes, apertando as mãos dos
apoiadores. Sendo Lane e Betsy, em um casamento de fachada que ninguém
poderá contestar.”
Suspiro fundo.
O olhar de Betsy é capaz de me matar.
Acredito que esse discurso tenda mais a uma profusão do ódio do que
uma declaração de apoio mútuo.
— Não são maluquices.
Fito minha secretária através da visão periférica e percebo a sua
confusão, alternando o olhar de tempos em tempos entre as duas pessoas à
sua frente.
— Me casar com você sem te conhecer não é uma maluquice?! —
Profere.
Escuto o barulho de algo caindo no chão e me deparo com uma Serena
petrificada após derrubar o porta-canetas, de boca aberta, sem acreditar no
que ouviu. Nem posso julgá-la, quando ela imaginaria que era isso que eu
queria falar com a outra? Ela, como a excelente funcionária que é, levanta-se
passado o estarrecimento, pede licença e se afasta, educadamente.
Quase a impeço, ciente de que minha integridade pode estar ameaçada
se eu ficar sozinho, na presença da outra mulher. E é ultrajante como engulo
em seco quando Betsy está no ambiente, principalmente porque eu não temo
nada, a não ser essa loira evocada das profundezas.
— Não diga alto assim, as pessoas não podem ouvir.
— Ela — indica Serena que se afasta rapidamente em direção ao
elevador — já ouviu. O que vai fazer?
— Serena não contará a ninguém.
— Quem te garante?
— Betsy, eu não chegaria onde estou confiando nas pessoas erradas.
Minha fala a espanta, ela não esperava por isso. Sou sincero, na
verdade, excruciantemente sincero.
— Certo, isso não me importa — cantarola — preciso mesmo ir
embora. Então até nunca mais, Lane.
— Betsy! — impeço-a quando começa a caminhar.
A minha chance está escorrendo pela minha mão como a água da
torneira. Assisto-a se distanciar com um desespero de dar inveja em qualquer
pessoa prestes a tomar uma decisão importante. É a primeira vez que suo frio.
Ela levanta a mão e faz um gesto de despedida, carregado de descaso. Essa
mulher definitivamente me irrita, por que ainda a quero comigo?
Participando de um acordo de negócios, Lane — repreende minha
mente.
Sim, claro, um acordo.
Ela não me responde. E eu me recuso a ir atrás dela. Não posso me
rastejar, se não quer, sem problema, eu resolvo meus problemas sozinho.
Volto para minha sala e remoo tudo o que posso fazer.
Estou novamente na estaca zero e agora com centenas de roupas que
nem são para mim. Acho que doarei, talvez isso a irrite um pouco. Quero e
muito irritá-la.
Sento na minha cadeira, giro-a para fitar a paisagem e acesso meu e-
mail pelo celular. Respondo os que posso, tento distrair meus pensamentos.
Falho nesta tarefa. Alguém abre a porta, batendo-a contra a parede, o que
atrai a minha atenção. Ao me virar, deparo-me com os olhos cheios de
significados de Betsy O’Connell.
— Por que fez isso?
— Fiz o quê?
— Comprou tudo?
— Para chamar a sua atenção. Preciso da sua ajuda e imaginei que te
ajudando, você se sentiria no dever de fazer o mesmo.
Meu caminho para o inferno já está traçado.
— Como pode ser tão baixo?
— As pessoas lutam com as armas que possuem.
— Acha que todo mundo pode ceder aos seus caprichos só porque é
rico? Gostoso e lindo — sibila ela, porém escuto —, mas insuportável e
arrogante?
— Talvez... um pouco? — Tento — Se não quer minha ajuda, devolva
o dinheiro e volte a vender suas mercadorias.
Ela pondera.
Estou no meu habitat natural, não em sua casa. Logo, se ela deseja
parar a discussão, basta sair. Todavia, não o faz.
— Preciso do dinheiro.
— Então podemos fechar um acordo, Betsy. — Tomo o cuidado de
soar atencioso, mesmo não sendo uma postura sincera. — Todos saem felizes
na equação. Sem nenhum contratempo. Eu te garanto.
Ela arqueia uma das sobrancelhas. Tomo isso como uma reação não
favorável. Betsy parece descrente e eu também estaria se me oferecessem
algo tão bom.
— Até quando precisamos ser casados, especificamente? — Coloca a
mão no queixo e me olha intensamente, atenta ao que direi.
— Acredito que um ano seja um bom tempo.
— Um ano... Você quer que eu abdique de um ano da minha vida para
poder resolver algum problema na sua?
— Não irá abdicar. Só viveremos de uma maneira diferente.
Ela abre a boca, e a fecha segundos depois. Tenho a ligeira impressão
de que nada de bom sairá daí.
— Transar com outros caras é fora de cogitação, ou posso viver a
minha vida normalmente?
— Olha para isso — abro meus braços, quantificando a empresa —
acredita mesmo que poderá sair e passear como bem quiser sem ser
fotografada por dezenas de paparazzi? Desculpe, querida — Sou sarcástico
—, mas, essa não é uma possibilidade. Não posso deixar que manche a minha
imagem.
Betsy gargalha, inclinando seu corpo para trás. Tenta se recuperar,
enxugando as lágrimas de riso que se formam no canto dos seus olhos.
— Você é insano de verdade.
— Não, eu não sou.
— E quais seriam as minhas tarefas como esposa — ela abre aspas —
de mentirinha do todo poderoso do petróleo Lane Kingston?
Aprecio sua pergunta e mantenho seu olhar travado ao meu, em uma
nuvem de tensão, enquanto ela aguarda a minha resposta.
— Festas, coquetéis, e...
— Nada de sexo, não é assim que funcionam esses contratos? —
Interrompe-me.

Betsy
Te peguei desprevenido? Oh, que pena, é justamente o que eu queria,
garotão!

Ele sabe brincar, eu também sei, meu anjo!


Passo a língua no lábio inferior. Ele vacila por segundos e eu estou no
topo do jogo. Só falta colocar o motor para rodar.
Ele empertiga a postura e noto como é muito mais alto que eu.
— Ah Betsy, você é tão instigante.
— Eu não vou mentir, estou cogitando te ajudar...
Lembro do que a sua secretária disse. Como ele se interessou em
comprar tudo depois que soube que eu era a vendedora. Segundo ela, Lane
nunca fez algo parecido por mulher alguma, além das da sua família antes e
ela pensou que pode haver algo mais entre mim e seu chefe. Não poderia
estar mais enganada. Não há nada entre nós dois e no que depender de mim,
pode até surgir alguma coisa, voltada para o lado sexual, claro.
— Mudando de ideia? Pareceu muito decidida nas últimas vezes em
que te vi.
— Atrapalhou minha comemoração do Super Bowl e, também meu
programa favorito, com o John Cena! John Cena! — repito para ver se ele
compreende. Já guardei rancor de outras pessoas por muito menos.
— É uma mulher muito bonita para guardar rancor assim, Betsy.
— O que beleza tem a ver com o que estamos falando? — Altero
ligeiramente a voz. Ele se mantém inabalável.
Confesso que o homem é mais corajoso do que metade dos caras com
os quais saí. E nem foram poucos.
— Nada na verdade. Ainda não me disse, topa ou não topa?
— Topo, Lane, eu topo. Mas...
Poucas pessoas são capazes de me surpreender. Betsy acaba
de entrar para este seleto grupo.

Semicerro minhas pálpebras. Ela faz parecer que eu pagarei muito caro
por aceitar participar da farsa. Odeio o “mas” que vem com as respostas. Por
que ele tem de existir? Coço a garganta, e adquiro meu tom mais neutro para
negociações. Betsy não conseguirá enxergar o que quero através da minha
postura, muito menos o que estou pensando. Noto que ela admira
rapidamente minha sala, os quadros que mantenho nas paredes laterais, assim
como o sofá extremamente confortável ao seu lado. Há uma cabeça de alce
empalhada fixa logo acima dele. Uma espécie de troféu do vovô que eu
decidi preservar.
Em cada detalhe é possível enxergar o patrimônio cultural e material de
uma das famílias mais proeminentes do Texas. Não que os negócios se
concentrem exclusivamente lá, como era antigamente, principalmente com a
expansão do que produzimos, — o que inclui diversos tipos de bebidas
alcoólicas — optamos por montar diversos escritórios em alguns dos
principais estados.
Mas, não é esse o assunto que quero abordar, a verdade é que Betsy não
parece ser o tipo de mulher que se impressiona com qualquer coisa, então ela
simplesmente relanceia, levanta as sobrancelhas, como se estivesse pensando
“faz sentido a decoração” e me olha, como se não quisesse de fato estar ali.
— A troco de quê? Presumo que esse seu “mas”, represente alguma
exigência que terei que cumprir. — Sinto a necessidade de perguntar, para
quebrar o silêncio.
Uma nova Betsy dá as caras diante de mim. Ela semicerra seus olhos,
os lábios se entreabrem, enquanto caminha na minha direção. Para a
milímetros da mesa, e seu perfume espirala ao meu redor. Odeio como sou
sensível a cheiros, sabendo que acabarei mantendo-o na memória como um
odor exclusivo seu. Ela cheira a margaridas. Margaridas sensuais, no entanto,
margaridas.
Em que porra está pensando, Lane?
Mantenha o foco para alcançar seus objetivos!
— O que está disposto a me dar?
Ela se inclina como uma felina por sobre a minha mesa e sou obrigado
a engolir em seco. Quando maldito inferno, eu pensei que essa merda daria
certo? Ela é uma predadora como eu. Acabo de me tornar uma vítima da sua
armadilha, porque sinceramente não paro de admirar o decote que se formou
com os seus gestos, exaltando o côncavo dos seios, transformando-os em dois
montes tentadores. A imagem dela nua nubla toda a minha visão e eu sou
obrigado a arrumar o nó já perfeito da minha gravata.
Odeio me tornar a caça.
Mas as coisas são como são e neste momento não me sinto nada como
o inquestionável Lane Kingston.
— Diga seu preço — Ofereço.
Por que gosto disso? Da sua ameaça velada e sua aura confiante?
Acredito que o maior motivo é o olhar decidido, implacável e
ameaçador que ela me lança. Betsy dará uma ótima Kingston, de verdade,
ninguém pisará nela. É exatamente o que procuro. Só preciso de algumas
mudanças para que as coisas não saiam do controle, tirando isso, não poderia
encontrar solução melhor.
— Sexo.
Quase caio da cadeira. Aposto que estou mais branco do que as folhas
de papel em contraste com o mogno. Eu esperava qualquer coisa menos isso.
Até nutro dúvidas se realmente escutei o que penso que escutei.
Acho que foi um delírio meu.
O decote me encara, sou obrigado a arrumar novamente a gravata.
O ar-condicionado parece não conseguir sustentar o clima frio da minha
sala em oposição ao sol forte de Miami.
Começo a suar frio. Porque sei que se eu ceder quanto a isso posso me
dar muito mal. Ou não? Talvez esteja colocando empecilhos demais e o que
pede, é algo justo. Se não pode me trair, então chega à conclusão que
devemos ter relações sexuais para sustentar a farsa de ambos os lados. Claro
que Betsy não sabe sobre meu clube exclusivo, onde eu procuro sexo fácil,
sem envolver qualquer relacionamento emocional. Ela não me conhece, eu
não a conheço, e isso é substancial, já que não quero que a relação evolua.
— Por que o espanto? Transar é um pedido razoável. Fico de mau
humor quando não faço sexo e se nós — indica a mim e ela — não podemos
pular para o quintal do vizinho, como eu vou me controlar? Se é de fachada,
basta não entregar seu coração, meu bem. A não ser... que você esteja com
medo, Kingston — Sonda e eu sinto o nó da gravata me asfixiar.
Vovó Pearl teria batido palmas depois dessa!
Inferno de mulher!
Será que ela já é da família e não sabe?
— Realmente, é um pedido razoável. Mas, em hipótese alguma acredite
que o casamento é verdadeiro, Betsy. Você assinará um acordo de separação
total de bens, e algumas cláusulas sobre sigilo, principalmente sobre o que
ouvir acerca da empresa. Não corro riscos. Sobre o sexo? Será um prazer
ceder a seu pedido.
— Também tenho mais um pedido.
Claro que tem. Agora o dinheiro entra em ação. Com certeza Betsy irá
pedir um montante considerável e não me importo de dar a ela o que quer,
desde que finja tão bem quanto negocia. Pode ser uma mansão, carros
luxuosos, roupas da última moda ou mesmo peças exclusivas de renomados
artistas. O que ela quiser, desde que não me dê dor de cabeça alguma.
— Só aceito se me propuser de verdade.
Como assim de verdade? E eu estava mentindo por acaso?
— De que merda está falando?
Não estou para brincadeiras. Preciso resolver uma pancada de
problemas, assinar mais documentos do que meus dedos aguentam e ainda
fazer videoconferências de acordo com o horário dos países, porque
literalmente não conseguiria falar com quem preciso se levasse em conta
apenas o horário oficial dos Estados Unidos.
— Joelhos, Lane. Terá que me pedir de joelhos ou nada feito. Com
muito carinho e sem essa dose de arrogância característica sua. Também
apreciaria se não usasse sarcasmo.
— Nem que me pague!
Não vou me ajoelhar.
Nem que ela me prometa toda a reserva de petróleo que há no país. Ou
que preveja as melhores ações para investimento, eu vou colocar meus
joelhos no chão.
— Então nada feito — Profere altiva.
— Realmente.
Betsy empertiga o corpo, privando-me da visão do paraíso, se vira e
rebola até a porta. Não consigo desprender meu olhar dela, incapaz de
acreditar que me desafiou e saiu vencedora. Ninguém, absolutamente
ninguém me deixa falando sozinho.
— Adeus, Kingston. Boa sorte na sua busca — fala antes de fechar a
porta.
Estou atônito. Não sei até que ponto sou capaz de ir em nome do
desespero. Levantar e correr atrás dela, como um idiota ou ficar e me ferrar
depois por vários anos com uma esposa irritante e que só pensa nos presentes
caros que posso lhe dar? As duas alternativas me parecem igualmente
aterradoras.
“— Laaaaaane! — ouço uma voz estridente me chamando.
Droga, Hilary me chamando de novo?
— Sim.
— Você comprou as joias que pedi?
— Não, eu não tive tempo.
— Como podemos continuar casados se não compra as joias que pedi,
Lane? Você me prometeu que eu seria riquíssima e teria dezenas de joias para
ganhar das minhas amigas. Como acha que eu me sinto ao perceber que não
se importa com isso?”

Maldição dos infernos!


Eu levanto da cadeira, e acabo batendo a minha canela na lateral da
mesa com a pressa a qual tenho que sair atrás de Betsy. Abro a porta
mancando, proferindo xingamentos em alto e bom som, enquanto tento
conter a dor que se irradia pela minha perna. A cena não deve ser nada
interessante. No mínimo, humilhante definiria com exatidão.
— Espera!
Ela se mantém de costas, aguardando que as portas do elevador se
abram.
Estou ofegante, o ar entra por meus pulmões, espalhando a sensação de
queimação.
— Mudou de ideia, meu anjo?
Suo frio.
Minha garganta está áspera, mesmo eu bebendo mais água do que o
recomendado, com Serena enchendo a garrafa que mantenho em cima da
mesa a cada hora. Penso em tirar meu paletó, mas acho que só preciso ralhar
com a empresa terceirizada que toma conta do sistema de climatização. A
temperatura está muito alta, parece que estou na areia da praia, recebendo o
sol em cheio na minha pele.
Ou é apenas a sensação?
Não sei dizer, só sei que não quero me ajoelhar.
Minhas pernas tremem, é imperceptível para quem olha de fora, mas
minha masculinidade se abala, sabendo que o olhar verde me perscrutando
direto das profundezas está me deixando em estado catatônico.
A fala do meu avô flutua em minha mente: “Temos que ceder para as
mulheres, neto. Elas sempre conseguem o que querem.”
Lembro que discordei dele. Como eu pude discordar? Porque estou a
ponto de fazer algo jamais pensado e dobrar meus joelhos para que uma
mulher aceite ser minha esposa para eu poder me safar da mira de outras
mulheres. Minha vida nunca foi complicada, talvez atritos aqui e ali por causa
de negócios, mas quando foi que o pessoal interferiu nisso? Estou prestes a
unir os dois, e me sinto absolutamente preso a uma decisão.
Sem clubes de sexo.
Sem strippers.
Nada de expor o casamento aos fofoqueiros dos tabloides e
excepcionalmente fugir da mira dos paparazzi.
Para acabar de me afundar, depois de finalmente me decidir quanto à
sortuda que se casará comigo — é uma sorte sim, venhamos e convenhamos
— Sinto que fiz a pior escolha da minha vida.
Tomara que esteja errado.
Do fundo do coração.
— Betsy, — Ajoelho em minha dignidade — você pode por gentileza,
fazer o favor de se casar comigo?
Graças a alguma entidade divina, Serena ainda não retornou, o que é
providencial. Se ela visse pelo que acabo de passar, eu seria obrigado a
demiti-la, por ter minha personalidade contestada. Principalmente se ela
decidisse espalhar o que viu, através do chat da empresa, como ela costuma
fazer e eu finjo não ver.
— Não.
— Qual é! Eu me ajoelhei!
Apenas fisicamente. Minha alma estava a amaldiçoando até a décima
geração.
— Só estava brincando, te encontro amanhã para discutirmos o que
faremos sobre esse assunto. E se possível, não quero que ninguém além dos
que sejam necessários para o plano — Gesticula — sádico que você tem,
descubra sobre a verdade do nosso casamento. Minha irmã ficaria chateada e
você não iria gostar de ver minha mãe furiosa por ficar de fora do arranjo.
— Nem será um casamento de verdade — Assumo — e se posso ter
minha opinião, acho melhor fazermos tudo em segredo e lidar com as — faço
aspas — consequências familiares depois. Sinto-me mais confortável assim.
— Meus pais ficariam arrasados se soubessem o que aceitei.
— Quer se casar? digo — isso é impensável para mim, alguém que
realmente queira essa vida — se unir em matrimônio de verdade, com um
cara que goste?
— Seria uma aberração se eu quisesse? Além do mais, para eu decidir
colocar uma aliança no meu dedo, definitivamente Kingston, tem que ser um
homem que eu ame e que seja bom de cama. Por que sabe aquela fala do
Grey? — não faço ideia de quem ela está falando, mas finjo que sim — sobre
os gostos peculiares? Bom, meus gostos são peculiares em outro sentido.
Fico ligeiramente curioso, quais são os gostos peculiares dela?
Imagino Betsy amarrada na cabeceira da cama, ou algo assim, com uma
lingerie provocante, amordaçada, esperando por algo que eu posso lhe dar.
Pisco diversas vezes, tentando entender por que o homem que a amarrou para
uma foda épica, seja eu. Algo incomoda no meio das minhas pernas, depois
de acordar, após a imagem que teve. Torço para que ela não perceba.
— Eu colocarei uma aliança no seu dedo e você não me ama.
Ela bate os pés no chão, irritada. Não entendo o motivo para gostar de
irritá-la, mas ele existe e me provoca uma alegria sem sentido.
— Juro que é insuportável e eu farei de tudo para esse casamento não
passar de uma loucura sem sentido, que termine rápido.
— Um ano é rápido para você?
— Começo a pensar que ao seu lado será uma eternidade.
Levo a mão ao peito, em um gesto sarcástico.
— Como você é baixa, Betsy.
— Pelo menos não preciso chantagear um desconhecido para se casar
comigo — rebate ela.
— Eu poderia escolher qualquer uma.
— Então por que me escolheu? — Ergue o dedo para me impedir
quando estou prestes a responder — nem precisa dizer, meu caro. Você me
escolheu porque sabe que como não me conhece, a possibilidade de nos
apaixonarmos é bem pequena. Escolheu-me porque sabe que a primeira
negativa só prova que não vou tentar arrancar todo o seu dinheiro com
chantagens sobre contar a verdade ao mundo. E me escolheu porque minha
irmã trabalhou, mesmo que por pouco tempo, para você e partindo do ponto
que ela é extremamente profissional, deduziu que eu teria o mesmo princípio.
Estou errada? — Coloca as mãos na cintura e me contempla, com um
semblante confiante e ao mesmo tempo estarrecido.
Será que ela lê mentes? Porque inferno, a mulher acertou em cada
palavra!
Acho que fico mais quieto do que ela gostaria, porque seus lábios se
crispam e eu engulo em seco.
Inclino-me um pouco na sua direção. Nós estamos próximos, mais do
que deveríamos. O beijo da praia toma-me de sobressalto e desperta uma
vontade visceral de beijá-la. Chego a cogitar como seria perfeito, deixar todas
as reuniões para outro dia e me deleitar com o seu corpo, saborear seus lábios
e fazê-la gemer até que pense não ser mais capaz.
Retrocedo um passo quando percebo que rumo estou tomando.
Vá para longe, Lane.
As coisas não devem funcionar assim entre vocês dois.
Betsy nota o que eu estava prestes a fazer e para provocar, ela morde o
lábio inferior e semicerra as pálpebras.
— Por que mudou de ideia de repente? — Decido voltar a um campo
seguro.
Se eu me atrever a seguir caminhos desconhecidos, posso ter respostas
que não procuro. Betsy cruza os braços na altura dos seios, evidenciando-os,
e tento não me ater a eles por muito tempo.
— Poderia rebater essa pergunta, dizendo que não respondeu a minha
anterior, mas a verdade é que eu sei a resposta para ela, então, lanço a bola
para você de novo campeão... — A maneira que ela me avalia, desperta um
medo intrínseco — Por que desistiu de me beijar de novo? E você se importa
com o motivo para eu aceitar?
Escolho ignorar a parte do beijo. Se eu admitir será pior.
— Claro — respondo prontamente —, mas, é que foi tão firme nas
últimas vezes que eu já estava desistindo de insistir.
— Sorte sua que aceitei, então.
— Minha ou sua?
— Não era eu que estava desesperada, Lane. Além do mais, se você se
deu ao trabalho de me perturbar, ou melhor, iria falar com a minha irmã, o
que te digo de antemão seria um erro e tanto porque Madison jamais faria
isso — ela se aproxima de mim e me fita tão intensamente, que os
centímetros que tenho a mais que ela, evaporam ante o seu destemor e aquela
vontade maluca de colar meus lábios aos seus me provoca falta de ar — É
porque realmente estava desesperado.
Medimos nossas forças de igual para igual.
— Como sabe que ela não aceitaria?
— Madison tem o sonho de se casar e ter filhos com o homem que ama
depois de ser iludida por um canalha. Se tem algo que ela não faria, sem
sombra de dúvidas, é aceitar se casar com você, em um casamento por
conveniência. Acha que as pessoas podem ceder sempre que mostrar um
maço de dinheiro pairando à frente delas? — debocha — Faça-me o favor e
pare. Antes que eu decida voltar atrás.
Seria sábio da minha parte realmente ficar quieto. No entanto, eu não
gosto de acabar uma discussão me sentindo tão péssimo como estou me
sentindo agora. Betsy involuntariamente tem razão, não há muitas coisas na
vida que o dinheiro não pode comprar e...
— Será mesmo? Por acaso não aceitou porque comprei todas as suas
roupas estúpidas e se viu na necessidade de retribuir a gentileza? O que foi
senão comprada, Betsy?
Noto que sou um idiota dos maiores.
O tornado se forma à minha frente, girando e levantando poeira.
Betsy fica furiosa, seu rosto inteiro se torna vermelho e não demora
muito para a consequência do que eu disse acontecer. Ela ergue a mão e me
estapeia com tanta força, que eu viro o meu rosto em reflexo. Ergo meus
dedos e toco a ardência, tentando pará-la. Jamais, nunca, mulher alguma fez o
que ela acabou de fazer. Trinco meus dentes, com um ódio borbulhante
desbravando minhas veias.
Nosso acordo não vai terminar bem.
Preciso acabar com tudo antes de começar, mas não tenho nenhuma
outra noiva à vista e meu tempo está acabando. Maldição do caralho do
inferno!
— Se pensa que poderá falar comigo desta forma, está muito enganado.
Caso me maltrate, um tanto assim sequer — aproxima o dedão do indicador
— eu te farei pagar muito caro. Não sou uma mulher com paciência, Lane,
muito menos uma que aceitará o que diz abaixando a cabeça e ficando quieta.
Se quer uma esposa de mentirinha que se torne sua submissa, escolha outra!
Caso ainda queira ir adiante com esta farsa, eu te espero no Santorini para me
pagar uma refeição que valha a minha atenção. — Coloca dois dedos na boca
e se despede, deixando-me parado no corredor.
— Vamos nos casar? — reitero.
— É, parece que infelizmente sim!
Quando Serena volta para sua mesa, eu ainda estou tentando entender o
que acabou de acontecer.
Eu perdi ou ganhei?
Se arrependimento matasse, minha família já estaria aos
prantos.

Por que eu fui parar para falar com a mulher? Por quê? Ela me deixou
com uma baita crise na consciência e acabei topando participar dessa loucura.
Principalmente porque Lane me ajudou a começar o sonho de ter minha tiny
house sem nem saber, e meu pressentimento de que ele poderia me ajudar
nesta empreitada com seu conhecimento também funcionou como um grande
fator, ele tem cara de quem sabe lidar com o dinheiro — caramba, Betsy,
descobriu isso sozinha? — além de claro, a vontade de dar para o homem que
me domina toda vez que o vejo. Tudo me fez despencar no desfiladeiro desta
decisão. Sei que não são os melhores motivos do mundo para aceitar, mas
meio que fazem sentido para mim.
Se eu tomei a decisão, por que raios estou com medo e justificando para
mim mesma?
Sou uma mulher independente, sem namorados, que pode fazer o que
quer, não é?
— Aceita alguma coisa para beber, senhora? — indaga o garçom,
interrompendo-me.
Sorrio para ele e peço uma garrafa do vinho mais caro da casa. Ele
aprova meu pedido, já que curva o canto dos lábios para baixo, como se
estivesse espantado pelo meu bom gosto.
Tomo vinho com Madison há anos e para ser sincera, nunca ouvi falar
do nome que ele profere. Aceno concordando. Quem irá pagar a conta não
serei eu, e para o “Rei do petróleo” — logo que cheguei a casa comecei as
minhas pesquisas minuciosas e em todas as manchetes, principalmente as das
revistas no Texas, Lane era descrito como um magnata, cujas pessoas
chamavam de rei do petróleo, fico apenas imaginando quanto dinheiro tem
que ter para possuir um apelido desses — O preço do vinho não deve nem
fazer cócegas no seu bolso.
É quase como “Ei, quanto é isso? São dez mil dólares? Vale a pena por
essa garrafa!”
— Claro — concorda ele, depois de ouvir o meu murmúrio, aprovando
o vinho que falou.
Desaparece do meu campo de visão, gingando por entre as mesas
perfeitamente enfileiradas. Não deixo de observar as pessoas que se
encontram no restaurante. Algumas mulheres aparentando terem muita grana,
com seus colares de pérolas, brincos de diamantes e outras joias caríssimas
que devem valer mais dinheiro do que já vi na vida, gargalham na companhia
de seus parceiros, com os cabelos bem hidratados e tão lindos que elas os
jogam de um lado a outro, em uma atitude exageradamente teatral. Tudo para
fingir que uma conversa não tão boa assim, está fenomenal. Seus parceiros,
em suma senhores bem vestidos, bebem vinho, comem tranquilos, sem se
preocupar com o preço da conta. Para eles, alguns milhares de dólares não
devem fazer falta alguma, assim como os milhares que gastaram para que
suas mulheres fizessem plásticas, tratamentos estéticos e afins. Enquanto para
mim, centenas desesperadoras que me faltavam na conta me fizeram vender a
maior parte das minhas roupas. O que foi até bom, visto que uma paz
estranha reinou em mim quando embalei a última peça e olhei para meu
guarda-roupa quase vazio, como se ele me fitasse e perguntasse “Por que fez
isso comigo, Betsy?”.
Não que eu me arrependa, acho que na verdade, fico um pouco
temerosa já que devido a elas, tive uma crise de consciência que acarretou no:
por que não o ajudar?
Mas, talvez não seja tão ruim assim.
Só irei me casar com um cara arrogante, que acha que o mundo todo
deve obedecê-lo. Apenas isso. O que poderia dar errado além de... tudo?!
Apoio os cotovelos na mesa e desabo a minha cabeça sobre as mãos.
Deus! Por que fui aceitar essa porcaria? Por quê?
Por ele ser lindo e eu estar necessitando de um cara para transar com
regularidade, e que não usará isso contra mim depois? Diabos, Betsy! Você
precisava mesmo disso? Claro que não! E não tinha motivos para deixar a sua
mente trabalhar a favor dele, com base na chantagem emocional que ele lhe
fez. No entanto, quando olhei para ele e notei que por trás da ignorância e
soberba, pode ter algo mais guardado e que pode me surpreender, acabei me
deixando levar.
E que garota não gosta de um bom desafio? Na minha cabeça os
motivos para aceitar pareceram válidos no momento. Agora, não tanto.
Vários minutos se passam.
Percebo que Lane está ridiculamente atrasado.
Algumas pessoas começam a olhar para mim, como se fosse patético
uma mulher estar sozinha em um restaurante como esse. Fito carrancuda cada
um com a resposta que merece, bando de gente reprovadora. Odeio do fundo
do coração quem age desta forma. É um ódio palpável.
Remexo-me na cadeira, que é extremamente confortável, devo
ressaltar. O mínimo, para um restaurante o qual se deve fazer a reserva com
meses de antecedência. Não me espanta Lane ter conseguido para o dia
seguinte. Aposto que eles poderiam fechar o restaurante e cancelar todas as
reservas feitas apenas para que ele ficasse contente.
— Seu vinho, senhora — o garçom serve um pouco de vinho em minha
taça e depois abandona a garrafa em cima da mesa.
Ela reluz e grita: “Olá, Betsy, eu valho dez vezes o valor da sua
hipoteca!”
Com o preço que custa, me espanta que o rótulo não seja impresso em
folhas de ouro. O que raios colocam nessas bebidas que elas ficam tão
valiosas?
Olho para a taça, repousando tranquila e depois sigo alguns olhares,
que sustentam o meu sem qualquer traço de vergonha. À minha frente, fica o
bar do restaurante, com a bancada reluzente, e vários homens de ternos
sentados nas banquetas, tomando suas bebidas para relaxar de um dia em que
ganharam ou perderam muito dinheiro. Sinto que talvez eu deva me mover
até lá e liberar a mesa para alguma reserva feita em cima da hora. Porém, sei
que se eu sentar e ficar por lá, parecerei realmente uma derrotada. Entre todas
as minhas discussões internas, me mantenho sentada, degustando dos meus
pensamentos existenciais. Não vejo o garçom se afastar, ainda estou no
debate silencioso sobre o valor do que está à minha frente. Tomo todo o
cuidado do mundo de não acabar puxando a toalha de mesa, ou provocar
algum desastre qualquer que leve o “recipiente com alto valor monetário” ao
chão.
Prefiro mudar o rumo dos meus pensamentos.
Será que Al Capone está bem?
Deve estar sim, aquele gato rancoroso.
Hoje, mais cedo, quando eu saí de casa sem lhe dar carinho, ele
derrubou um dos copos de cima da mesa. Olhou para mim, com o olhar
desafiador, ergueu uma das patas e simplesmente empurrou o copo para o
chão. Eu fiquei como uma besta recolhendo todos os cacos. Como castigo
fechei todas as janelas de casa e ele ficará lá preso, tendo que se corroer com
o que fez. Só espero retornar e encontrar tudo perfeito e em seus devidos
lugares.
O que é ingênuo da minha parte.
Viro um gole da taça.
Hmmm, o gosto na verdade é muito bom!
Sorvo mais um gole generoso. Passando minha língua nos lábios, para
aproveitar cada resquício ou gota do sabor indescritível. Os vinhos que eu e
Maddie tomamos nas nossas noites de garotas não são nada parecidos com
este. Nada mesmo. Se nós tivéssemos dinheiro para comprar essas coisas
boas, acho que já teríamos virado alcoólatras de tanto beber.
Controlo a minha vontade de enviar uma mensagem para ela, com uma
foto da garrafa. Ela perguntaria o que estou fazendo, e como vou pagar por
isso, o que me levaria a ter que explicar a loucura que se tornou a minha vida.
Melhor não, realmente. O sermão seria do tamanho da bíblia. Sei que estou
sendo inconsequente, e que sou muito velha para isso. Todavia, que mal
haveria? Às vezes é bom tomar atitudes insanas e ver aonde elas nos levam,
meio que a adrenalina nos faz sentir muito bem.
Estico meus pés até a cadeira em frente. O cansaço começa a tomar
conta de mim. E a fome também. Sinto que se Lane não vier, precisarei me
livrar de algum órgão para pagar pelo vinho. O garçom está próximo ao bar,
o mesmo que me atendeu, e ele lança um olhar condolente na minha direção,
como se me apoiasse mesmo diante do bolo que levei, evitando ao máximo
vir até a mesa para perguntar se estou pronta para pedir algum prato que
envolva ostras ou caviar. Sinto-me aliviada para dizer a verdade. Se Lane não
aparecer, tenho um motivo para voltar atrás em minha palavra.
No fundo, torço para que ele não venha, porém, isso não significa que
não terá que me reembolsar pelo vinho. Farei questão de pagar tudo com o
dinheiro das roupas e pedirei a nota para mandar a ele. Não será minha culpa
se ele não aparecer. Estou prestes a me levantar, se para sair ou ir ao
banheiro, ainda não sei, quando sinto a sua presença próxima. Meus pelos se
eriçam e meu coração bate acelerado, em batidas malucas nos segundos que
seguem. É como se meu corpo inteiro avisasse que o perigo se aproxima e a
adrenalina que citei, me faz sentir um misto de empolgação com pavor. Terei
que cumprir minha palavra. Não há como escapar.
— Betsy — diz Lane e alguém que se materializa diante de nós para
puxar a sua cadeira.
Não sei de onde a pessoa veio, mas pareceu pressentir a chegada do
todo poderoso.
Kingston abre um botão do seu paletó, — uma cena clássica, diga-se de
passagem, um executivo parece sempre estar com um botão fora da casa, para
colocá-lo em um momento impactante — e senta elegantemente. O contrário
de como estou, com as pernas esticadas, o que me obriga a cruzá-las para dar
lugar a ele. Seus olhos recaem sobre mim e noto a avaliação minuciosa que
faz. Não sei se gostou ou não do que viu, também pouco me importa.
O garçom volta desta vez com o cardápio de pratos. Entrega um a mim
e outro a Lane, que nem se desculpa pelo atraso.
— Não irá se desculpar pelo atraso? — falo, sem disfarçar minha
irritação.
— Por que eu deveria?
Olho a hora em meu celular e vejo que ele se atrasou cerca de quarenta
minutos. Isso é imperdoável para mim. Preciso fazê-lo entender.
— Por que eu serei sua noiva? Se é capaz de se atrasar tanto para jantar
com alguém que deve se importar, imagina para as demais pessoas? Sinto
pena delas.
Ele não se altera com a minha recriminação.
— Tive outras coisas para resolver, não tenho tempo para chegar no
horário. Você pelo contrário, deve ter muito tempo de sobra, já que — fita a
garrafa no centro da mesa — bebeu mais do que deveria.
Controlo a minha vontade de bater com o punho fechado na mesa.
Como ele ousa medir o tanto que devo beber ou insinuar que não trabalho ou
faço nada da vida?
— Vai se foder, Lane — sibilo, contida, para que apenas ele ouça.
— Adorável — Cruza as pernas e mantém sua pose despreocupada.
Poderia começar uma discussão, enumerando os motivos para ele agir
com respeito a mim. Mas, anoto mentalmente que ele pagará por tudo o que
fala em um futuro próximo. Farei Lane se arrepender profundamente ou não
me chamo Betsy O’Connell. Engulo todas as ofensas que quero lhe dirigir e
me controlo para não morrer engasgada com elas.
— Não vamos discutir os termos?
— Trouxe um acordo de negócios, que deixa bem claro o que
poderemos ou não fazer. Ou melhor, o que você poderá fazer. Mas, prefiro
discutir isso depois de comermos, até porque, o vinho pode ter afetado a sua
coerência.
Travo meu maxilar.
— Como pode ser tão intragável?
— Obrigado, querida, tomo isso como um elogio.
Ele chama o garçom que se afastou para nos dar privacidade para
escolher os pratos, apenas com um olhar. Quando o homem chega, Lane faz
seu pedido e eu o meu, tomando o cuidado de escolher algo bom e caro o
bastante para fazê-lo se arrepender pela forma com a qual me tratou.
— Não foi tão caro assim. Sei o que quer fazer. — Ele lê meus
pensamentos.
— Devo pedir uma sobremesa que compense então.
— Fique à vontade — desafia ele.
Recostamo-nos nas cadeiras e medimos a força um do outro. Somos
oponentes. Ele quer me transformar na esposa perfeita, enquanto eu busco
transformá-lo em um homem que vale a pena manter pelo menos a
conversação.
— Terei que conhecer sua família? — pergunto, já que é uma dúvida
razoável.
Eu não tenho a menor intenção de apresentá-lo para a minha, mas
imagino que ele precise que eu conheça a sua.
— É imprescindível. O motivo para estarmos aqui é ela.
Aos poucos junto as peças do quebra-cabeças em busca de entender a
razão para ele agir de forma tão drástica. Não parece um homem que deseja
se casar, muito menos que está disposto a dividir as suas preocupações com
alguém. Indica se virar bem sozinho, o que pode ser também uma mentira,
que ele se força a manter para parecer inabalável e passar uma imagem de
seriedade às outras pessoas. Esse é seu erro, penso eu, um no qual ele se
afunda, jogando a sua vida em areia movediça sem ao menos perceber.
— Entendo. Muito grande?
— Sim — Um sorriso quase imperceptível nasce em seu rosto — no
melhor estilo texano. Tenho meus avós, minha mãe, meus tios e os diversos
primos. Na verdade, acho que o maior motivo para a escolher é que desde a
primeira vez pensei que se daria muito bem com eles. Sua personalidade
combina com os Kingston, Betsy.
Seria isso um elogio?
— Posso levar como um elogio ou uma ofensa?
— Elogio, claro, amo minha família.
É a primeira vez em que vejo importância em cada palavra da sua fala.
— Isso é bom.
Ponto positivo para ele, dentre as dezenas de negativos. Talvez, Lane
não precise ser mudado, mas compreendido. Parece um homem com ideais
sólidos e bem fundamentados, que escolhe ser insuportável, no entanto.
Como será o homem por baixo dessa camada de atitudes arrogantes?
Só me resta tentar descobrir.
Ele serve um pouco de vinho para si e o saboreia, de uma maneira
tentadora. Fico hipnotizada pela elegância com a qual sorve um gole da taça,
despreocupadamente, enquanto analisa alguma coisa em seu celular. Tudo
nele grita que é rico, o terno bem desenhado e moldado ao seu corpo, o
relógio reluzente, a sua pose casual, e a barba bem aparada, baixa, traçada
com perfeição. Fico atraída por ela, como se fosse um ímã para a minha
atenção.
Nossos pratos chegam e quebram minha observação.
Agradeço por essa distração mesmo que momentânea.
Comemos em silêncio, saboreando o que pedimos. O salmão grelhado
em meu prato, presunto defumado, acompanhado por ervas finas e mais uma
pancada de ingredientes que não tenho ideia, tornam o sabor exuberante
assim que pousa em minha língua. Contenho o murmúrio que sinto vontade
de dar, em apreciação. É melhor do que eu esperava. Tornando a pequena
porção em algo que eu comeria muito mais, na verdade. O ruim de
restaurantes elegantes penso que é isso, pouca comida para quem gosta de
comer bastante. Eu me incluo nesse segundo grupo.
— Gostou do prato?
Estou tão concentrada em degustar que me assusto com a voz imperiosa
de Lane. Ela é rouca, com um timbre sensual e instigante. Maluquice pensar
isso. Agito esses pensamentos para longe.
— É na verdade, muito bom.
— Quer experimentar o meu?
Ele troca de prato comigo, e fico sem entender. Sinto olhares sobre a
gente e pelo visto, isso também não foi muito aceito pela comunidade rica de
Miami que se encontra no restaurante.
— Por que fez isso? — murmuro.
— Fiquei curioso com o que a deixou com um semblante tão extasiado.
Precisava provar — Assume.
Ele prova, enquanto eu continuo observando o prato à minha frente. É
algum tipo de carne, não sei se quero comer e perder o sabor do salmão em
meu paladar.
— Por que não pediu o mesmo para você? Estava muito bom!
— O que pedi também está gostoso.
Fico indignada.
— Não tanto quanto o meu! Olha só, você está parecendo o Steve
Wonder tocando, sorrindo à toa enquanto come! Devolve o meu prato! —
exalto-me.
Lane solta uma gargalhada baixa com a minha fala ao mesmo tempo
em que protege o que roubou de mim, com unhas e dentes, sem aparentar que
irá me devolver.
— Não.
— Você é — Trinco meus dentes, pensando em uma ofensa que
realmente o deixe indignado — um filho da mãe invejoso!
Isso não o afeta. Droga! Deveria ter pensado em algo mais elaborado.
— Esse prato está realmente muito bom. Te entendo perfeitamente.
Podemos voltar aqui outro dia e pedir a mesma coisa, se isso for te deixar
mais tranquila. Afinal, quero minha futura esposa feliz, não? — profere com
um sorriso tão sarcástico que quando menos percebo, estou segurando o garfo
com tanta força na vertical, que pareço Netuno com seu tridente.
— Juro que se eu não te matar no matrimônio, já pode se considerar um
homem sortudo.
— Que eu tenha sorte, então — debocha.

Terminamos a refeição e enquanto aguardamos as sobremesas que


pedimos, Lane empurra na minha direção, atravessando a mesa agora apenas
com o vaso de flores no centro, um envelope pardo, lacrado. Presumo que
seja o acordo que ele me informou quando chegou.
Mantenho a mente aberta, com medo de ser surpreendida demais com
os absurdos que ele irá pedir.
— Devo me preparar psicologicamente? — inquiro.
— Não sou um monstro, Betsy. As coisas que pedi são razoáveis. Irá
me ajudar e em contrapartida eu irei te apoiar no que precisar. Tome isso
como uma relação de negócios mutuamente benéfica. Não a quero infeliz,
para eu não parecer infeliz e acabar estragando o nosso teatro.
— Prático.
— Sempre.
Abro o envelope e pego as folhas, lendo cada item com demasiada
atenção. Não quero ser surpreendida depois com “Betsy, isso estava no
contrato que assinou, por que não o leu?”.
O primeiro item é tranquilo, ele ressalta a importância da minha
participação em eventos de gala como sua companheira.
O segundo, ainda mais compreensível, não devemos ser vistos
discutindo em público, o que me agrada, não gosto de discussões chamativas.
O terceiro, pede com clareza que eu não comente futuros assuntos
corporativos que por ventura eu venha a escutar, tudo bem por mim também.
O quarto, que se viermos a ter relações, não posso tirar fotos ou usar de
gravações para chantageá-lo.
Caramba, esse homem deve ser traumatizado com coisas do tipo!
O quinto, para eu não ter nenhum relacionamento sexual fora do
matrimônio, pois isto pode expor ambas as partes a situações desnecessárias.
Certo, ele já tinha me falado sobre.
O sexto, não devo em hipótese alguma interferir na sua rotina
administrativa.
O sétimo, devo tomar todas as medidas possíveis para não engravidar,
assim como fazer exames e lhe entregar o resultado, para que saiba que eu
não tenho nenhuma doença sexualmente transmissível, o mesmo se dará por
parte do “contratante”.
Não gosto do termo, porque parece que estou sendo leiloada, mas
escolho ignorar.
Oitavo, um cartão sem limites será entregue, devo usá-lo como achar
melhor, desde que não preocupe o “contratante” — de novo essa droga —
com coisas desnecessárias.
Nono, qualquer ofensa à sua família, encerrará o acordo.
Décimo, não posso sair sem avisá-lo onde estou indo e sem ser
acompanhada de seus seguranças — a ideia de ser vigiada e controlada não
me agrada.
Sigo lendo e fazendo anotações mentais de contestação em várias
frases. Sei que ele é um homem muito atarefado, mas nada de “aparições no
escritório” ou “não reclamar da ausência ou fazer posts em redes sociais
sobre o casamento”? Como todos irão acreditar que é real com essa pancada
de regras sem noção que ele impõe?
Estou muito tentada a desistir e deixá-lo lidar com suas próprias neuras,
quando sou interrompida por ele.
— Sei que algumas são um pouco estranhas, mas estou aberto a
discussões, caso queira alterar alguma.
E ele abre a comporta da represa de pedidos que tenho a fazer.
— Bem, então vamos lá — aproximo-me da mesa — alguns itens
realmente me incomodaram e se você optar por mantê-los, eu estou fora.
Totalmente.
Isso o deixa duvidoso, afinal, quem ainda ameaçaria voltar atrás com
um cartão ilimitado, não é? Pois bem, eu voltaria, até porque a minha vida de
consumista tem que ficar para trás. Por mim, nem é necessário o cartão e
ressaltarei isso.
— Nada de cartão ilimitado, não preciso disso. Também não aceito ser
controlada, tendo que dizer para onde vou e quanto tempo demorarei. Por que
não posso te visitar no escritório? Todos irão duvidar que tem esposa se eu
não aparecer pelo menos uma vez. Também não quero posar como esposa
troféu em festas, sendo a mulher que não diz nada, apenas acena a cabeça e
concorda com coisas absurdas que nem quero proferir em voz alta.
Ele levanta um dedo, pedindo a vez de fala.
Concedo. Precisamos discutir esse futuro nebuloso que se estende
diante de nós.
— O cartão é importante para quando precisar de alguma coisa e eu
estiver incomunicável. Aceite, mesmo que não vá usá-lo. — Certo, posso
fazer isso — visitas no escritório podem me atrapalhar, muitas vezes estou
concentrado analisando contratos sigilosos, essa cláusula é para sua própria
segurança, para que ninguém a use para me atingir. — Ele está preocupado
principalmente com ele, lógico. — Sobre o controle, você tem razão, mas não
pode sair sem os seguranças, neste ponto eu não volto atrás. Referente a
esposa troféu, não é isso que busco, Betsy, porque se eu quisesse uma mulher
para agir como disse, seria mais fácil encontrar do que convencê-la a aceitar
minhas exigências.
Fico pensativa. Cada vez mais curiosa por saber seus motivos.
— Só aceito se me disser por que está fazendo isso.
— Depois que nos casarmos eu falo.
— Por que só depois de nos casarmos?
— Tenho minhas razões.
— Está sendo perverso, ou enganando alguém por maldade, coisas
assim?
— Claro que não! — exalta-se — Acha que eu não tenho mais nada o
que fazer?
— Acho que é misterioso demais para o meu próprio bem.
A sobremesa chega e por vários minutos ficamos em silêncio. Tomo o
cuidado de não dar brechas para ele pegá-la como fez com o meu prato. Está
maravilhoso e quero saborear cada colherada. Entre uma e outra, paro para
perguntar:
— O casamento não será ostentoso, certo?
— Pelo contrário, prezo pela discrição. Quanto mais privado, melhor.
Droga, se eu irei me casar preciso avisar minha família, não? Como
posso esconder algo assim deles, principalmente se alguma fofoca surgir com
fotos minhas estampando a primeira página? Acabei de me colocar em uma
rua sem saída e não há como fugir dos surtos de mamãe e os sermões de
Madison.
— Certo. Se teremos de fato um casamento, seria melhor avisar minha
família então.
— Realmente. Sua família mora em Miami?
1
— Philly .
— Filadélfia?
— Foi o que falei.
— Certo. Não tenho tempo para viajar até lá e contar a novidade, ela
fica sob sua responsabilidade.
Ele não conhece meu pai. Se não aparecer por lá e provar que é um
homem digno de se casar comigo, não teremos casamento. Quando Madison
se casou com o traste do Reef, seu ex-marido, papai fez um escândalo que o
bairro inteiro escutou, dizendo que ela não poderia acabar com a vida dela
com aquele homem. Ele acabou por ter razão, mas como poderia impedir a
minha irmã, depois que ela decidiu realmente se casar? Quando Madison
coloca alguma coisa na cabeça, ninguém a tira.
— Precisa ir comigo. Papai fará um escândalo se não conhecer você.
— Certo — Ele parece compreender — acho que posso arranjar um
tempo, não muito, na minha agenda para daqui três semanas, depois que
formos para o aniversário da minha avó em Dallas e anunciarmos o noivado.
Talvez até antes, veremos.
— Tudo bem — concordo.
— Pode mudar seu nome para Kingston?
Não, isso não. O máximo que posso fazer é incluir o sobrenome e
manter o meu.
— Não. Eu prefiro inclui-lo em meu nome, mas não posso tirar o
O’Connell. É isso, ou eu não colocá-lo de jeito nenhum.
— Claro, afinal, logo estaremos separados.
— Exatamente.
— Já que estamos entendidos, assim que sairmos daqui, vou te levar
para mostrar a minha casa e se quiser, pode levar as suas coisas para a
cobertura. Irá depender de você se quiser morar comigo, ou ficar no
apartamento. Para mim tanto faz, não passo tanto tempo por aqui. Tenho um
apartamento em Dallas e em Austin também, fica a seu critério em qual
morar.
— Acho que não preciso morar com você antes de casar, não é?
Ele franze as sobrancelhas com a minha pergunta.
— Pensei que fosse gostar de não se preocupar com nada.
— Na verdade, quero manter o pouco que me resta de vida normal
antes da mudança drástica.
— Sem problemas, Betsy, podemos decidir depois de qualquer forma.
— Obrigada.
— Mas, acho melhor já se familiarizar com minha casa. Tenho animais
que são praticamente da família. Se destratá-los, aí então teremos um
problema.
Com quem ele pensa que está falando? Eu tenho um gato terrorista pelo
amor de Deus! Se aturo Al Capone, sou capaz de aturar qualquer outro,
acredito.
— O cachorro?
— E dois gatos.
Lembro-me do que ele disse há não muito tempo em casa. Um
cachorro, dois gatos.
— Certo. — Já estou me preparando mentalmente para o surto dos
gatos quando perceberem que o dono convidou alguém para a casa deles.
— Pode escolher um dos quartos, para se quiser passar os finais de
semana lá, aproveitando as comodidades. Desde que... — interrompo-o.
— Não o atrapalhe.
— Aprende rápido.
— Odeio como você diz qualquer coisa como se ela fosse uma ofensa.
— Tenho um palpite aterrador que odiará mais coisas do que pode
contar até o fim do nosso contrato.
Warren, Stacey e Fluffy? Certo, esse homem pode me
surpreender, afinal.

Quando saímos do sofisticado restaurante não me assusto ao me


deparar com um carro preto e caro, porém discreto, diferente da relíquia a
qual ele foi até minha casa na primeira vez. Este parece ser o estilo dele,
ostentoso, mas não a ponto de se tornar um “alvo fácil”. Lane não se
preocupa em abrir a porta para mim, deixando isso a cargo de um dos
funcionários do restaurante. Como pode ser tão lindo e ignorante ao mesmo
tempo? Soa como um desperdício.
— Nada de abrir a porta para as damas? — Profiro logo que ele se
senta.
Um sorriso de canto se abre em seu rosto. Aquele tipo de sorriso dono
de si, que não precisa provar nada a ninguém. Percebo que ele se diverte com
todos os pontos que levanto.
Eu sou uma piada para ele? — questiono mentalmente indignada.
Anoto tudo o que ele faz que me deixa irritada para cobrar mais à
frente.
— Você tem mãos. — É apenas o que diz.
Arranca com o carro do meio fio e se mantém no mais absoluto
silêncio, dirigindo pela orla da praia, seguindo adiante sem se preocupar em
me dizer para onde estamos indo. Não perguntei a Madison quando ela
trabalhava com ele, onde o homem morava, ela também nunca iniciou este
assunto e agora me arrependo, porque não sei o que esperar.
Fico curiosa para saber em que ponto uma assistente pessoal poderia o
ajudar, uma vez que não tem vida fora da empresa. Minha irmã com certeza
operava milagres, não há outra explicação.
Volto minha atenção para as ondas azuis escuras do mar, iluminadas
pelas luzes, com a sua crista borbulhante, correndo em direção às areias da
praia. Elas seguem ininterruptas, quebrando e morrendo, após resistirem à
força do mar as puxando de volta. É quase como se elas quisessem escapar,
só para serem arrastadas novamente, em um ciclo infinito.
Sinto-me como as ondas quando penso na minha compulsão.
Por que não paro?
Hoje mesmo, acabei comprando roupas das quais não preciso e mais
algumas coisas estúpidas que nunca em sã consciência iria imaginar que
existissem. Além de peças importadas que demorarão para chegar e não
representam nenhuma utilidade em minha vida. O alívio que veio quando
cliquei em finalizar compra rapidamente se tornou em desespero e me deitei
na cama, fechada em uma bola, com os braços ao redor do meu corpo,
chorando por não conseguir seguir em frente. Sempre que fico ansiosa, com
medo, ou até feliz, é isso o que faço e me sinto tão... suja, incapaz e destruída
que não tenho como explicar.
Mas, são aqueles segundos, aqueles ínfimos segundos enquanto coloco
cada coisa no carrinho online que me impele a continuar, ou quando pego
uma peça na loja física, que é mil vezes pior porque sei que não pensarei duas
vezes antes de correr para o caixa.
Não sei quando começou.
Ou como aconteceu.
Mas, precisa existir um fim e eu preciso me tratar antes que seja tarde
demais.
Estou na fase de criar coragem para buscar ajuda profissional e não me
orgulho por hesitar, no entanto, tudo faz parte de uma evolução e um dia
chegarei no fim da jornada.
Decido falar alguma coisa para Lane, para desviar meus pensamentos
de meios tão tortuosos. Por mais que ele não seja minha melhor opção de
distração, pode fazer este trabalho.
— Não sei se sou maluca ou corajosa demais, por estar em um carro
com você, indo para um lugar que não sei.
— Se eu quisesse fazer alguma coisa, já teria feito. Relaxe.
— Insensível — murmuro.
Ele escolhe ignorar meu comentário.
Acompanhamos por vários minutos a extensão do mar, até que Lane
acessa a entrada da ponte que leva para Star Island. Famosa por conter
mansões de famosos e pessoas extremamente ricas. Como pesquisei uma vez,
a ilha tem esse nome, justamente por possuir o formato de estrela, criada na
década de 1920 por Carl Fisher. É um dos ápices da riqueza em Miami. Se
uma pessoa quer conforto, luxo, segurança, imóveis valorizados e dezenas de
outros benefícios, tendo dinheiro para pagar, esse é um dos lugares que ela
pode escolher.
O que não me choca, claro que não. Estranho não ter pensado nesta
hipótese antes. Se eu avistar a Shakira, ou qualquer outra celebridade que
mantém residência por ali, não me responsabilizarei por meus surtos de fã.
Lane para na guarita e seu acesso como morador é liberado
prontamente.
Sinto-me em um dos tours guiados que vendem nos arredores, coisas
como “Venha, venha! O que acha de conhecer a mansão dos seus ídolos
através de um passeio de barco?”, “Aqui! Temos os melhores passeios de
Miami!”, “tire fotos de mansões de tirar o fôlego para mostrar aos seus
familiares!”.
Se ele parasse o carro, eu sem dúvida, tiraria fotos para postar no meu
blog. Contudo, uma pontada de curiosidade, para ver como seria a sua casa,
não deixava de me corroer. Teria um deque? Haveria móveis tão antigos
quanto aquelas coisas de Dinastias asiáticas? Obras de arte? Porque claro que
elas são um investimento, principalmente as de pintores famosos.
Espanto-me ao perceber que não é possível ver os famosos, como as
pessoas nos passeios prometem. Na verdade, as ruas na ilha artificial em
frente à Miami Beach são calmas e aproveito para observar cada mansão
incrível que se mostra à minha frente, torcendo mesmo que silenciosamente
para ver a Shakira cantando Whenever, wherever na sacada da sua casa. Nem
é pedir muito! Seria de arrepiar, não?
— Pare de dar uma de fã frenética. — Ele percebe minha inquietação e
meu olhar deslumbrado e esperançoso voltado para as construções — A
maioria não mora aqui, Betsy, eles só passam alguns dias durante o verão.
Pensa que os artistas não possuem mansões espalhadas pelo mundo?
Algumas muito melhores que essas — exaspera. — Ainda sequer sabe o que
é luxo de verdade, vá por mim, se assustaria se soubesse com o que pessoas
indecentemente ricas gastam seu dinheiro.
Ele é chocantemente rico e fala como se não fosse.
Tento definir se é bom ou ruim, acredito que bom, certo? Uma vez que
ele tem uma fração de humildade quando outros em seu lugar não o teriam.
Seria essa uma qualidade fruto da família e de sua forte conexão com
ela? Aposto que sim.
— O que poderia ser mais linda do que Miami em toda a sua glória?
Cinque Terre. Lembro-me de quando eu e Madison viajamos para o
lugar devido ao seu coração ferido, pena que não me lembrei de lá antes de
afirmar a frase anterior.
— Malta? Santorini? Mykonos? Havaí? Além claro, de várias ilhas
particulares com praias espetaculares que podem ser de qualquer um, se
desembolsarem uma pequena fortuna e buscarem pelo melhor que a
privacidade tem a oferecer. Vários magnatas possuem as suas e me espanta
que não tenha visto em alguma notícia sensacionalista. Até minha família
possui uma ilha nas Ilhas Fiji, totalmente autossuficiente, Betsy. Raramente
nos reunimos nela já que os integrantes quase não possuem tempo, mas
quando o fazem, há heliportos espalhados por todo o território para usarmos
nossos helicópteros com comodidade, uma marina compatível com o
tamanho da ilha e, também optamos por construir uma ponte baixa que a liga
ao continente, para maior comodidade e caso queiramos acessar o lugar via
terrestre. Nela, existem diversas villas, com tudo o que podemos desejar, para
hospedar a todos com conforto e luxo únicos.
Fico de boca aberta, espantada com tudo. Estou conversando com
alguém tão podre de rico que poderia muito bem participar daqueles
programas de televisão nos quais mostram tudo a que os ricos têm acesso.
Coisas inacreditáveis, inclusive.
A única experiência que eu tive fora do país e que me custou muitos
anos de economia foi a viagem que eu e Madison fizemos para a Itália. Em
pensar que a quantidade que gastamos deve ser dinheiro que ele ganha em um
minuto de trabalho, me sinto muito fora da minha realidade.
Isso me incomoda, mas não coloco em palavras.
Meus pensamentos retornam ao que ele disse, sobre a ilha particular, e
lentamente flutuam para direções nada decorosas. Imagino a mim e Lane
nessa ilha que citou, totalmente nus em meio a areia branca. São infinitas
possibilidades.
Um sexo maluco e quente, com a lua iluminando nossos corpos?
Um strip-tease em meio às estrelas?
Os grãos branquíssimos de areia esparramando-se por meu corpo,
enquanto ostento um biquíni vermelho mínimo — sei que essa cor fica boa
em mim, não sou do tipo modesta — com os olhares do homem me comendo
viva?
Fico excitada só em imaginar. O que não é bom. Remexo-me no banco
do carro, agradecendo por Lane não ser capaz de ler mentes e descobrir o
motivo para a minha inquietação.
A qualquer momento, em qualquer lugar — canta Shakira na minha
cabeça.
— Por que sinto que seu silêncio indica que eu não gostaria de saber o
que está pensando? — sonda ele.
— Sei que a curiosidade está te matando, mas não vou dizer.
— É maluca.
— A seu dispor.
Volto a observar as mansões, estranhando que ainda não chegamos a
dele. O que me faz pensar em algo:
— Ela deve ser enorme — digo em voz alta, para minha própria
vergonha.
Essa constatação deveria ter permanecido apenas em meu pensamento.
Principalmente porque imagino coisas muito ostentosas, do tipo piscina
olímpica na sala, elevador para uma casa de dois andares, coleção de carros
antigos, decoração em fios de ouro totalmente inúteis, pilares gregos, portas
gigantescas, que até mesmo gigantes passariam por elas, lustres estranhos
feitos com cristais de nomes difíceis de pronunciar, enfim, coisas que para
mim parecem sem noção. Acho que estou imaginando a casa de um sheik,
afinal, ele não é o rei do petróleo?
E algo que antes eu não tinha notado, salta em minha mente: seu
sobrenome é Kingston. Começando com king, do rei que ele se acha ser. Até
no sobrenome, pelo amor de Deus!
E seus olhos, puta merda, eles têm a cor de petróleo, totalmente pretos,
profundos, indecifráveis e místicos.
— O quê? — ele demora segundos para perguntar.
Pensei que ele fosse deixar passar meu deslize. Merda.
— A sua casa.
Lane gira o volante com uma mão para a entrada de uma propriedade.
Nunca pensei que pudesse ser sexy esse tipo de gesto, mas eu acho
extremamente sensual. Acredito que não estou com meus pensamentos em
ordem.
— Ela é grande, mas o interior se destaca pela decoração minimalista,
não gosto de muitos móveis, ou objetos demais. Prefiro um ambiente mais
clean com cores aconchegantes que me tragam a paz que a rotina executiva
não o faz. Qualquer ponto em minha vida que puder amenizar o estresse, será
usado. E por isso, não tenho mais coisas do que preciso, apenas o suficiente
para coexistir no meu mundo sem muitas complicações.
O perfeito oposto de mim, com minha tendência consumista.
— Interessante — concluo baixo, sem saber o que responder ao certo.
O portão se abre e acessamos a entrada da propriedade. Há muito verde,
árvores contornando o acesso e como eu presumia, um pequeno canal é
transposto por uma ponte, localizada metros antes da garagem. Há apenas o
carro antigo que o vi dirigindo e isso sim é uma novidade. A imagem que se
fez em minha cabeça de dezenas de carros raros se evapora.
— Pensei que tivesse outros carros.
— Eles desvalorizam, só tenho esse que uso para trabalho e aquele —
indica o outro — porque foi o primeiro carro que eu tive e precisei vender.
Comprei-o de volta há alguns anos e o reformei inteiro, é uma lembrança
doce da adolescência. Prefiro investir meu dinheiro em propriedades mais
rentáveis. Odeio gastos desnecessários.
Esse é tipo de pensamento que alguém como ele realmente teria.
— Essa fala não me surpreende.
Kingston estaciona na garagem, sai do carro e novamente não se digna
a abrir a porta para mim. Não que eu me importe com essa formalidade, só
acredito que seria interessante se ele o fizesse. Apresso-me a segui-lo pela
entrada que ele acessa e logo vejo uma sala panorâmica com vista para o mar,
enorme e decorada apenas com o essencial. Ela é majestosa, ao mesmo tempo
em que na verdade é bem simples. Em frente ao sofá elegante, há um painel
em madeira natural, ostentando uma televisão de tamanho normal para uma
sala com aquela metragem. As paredes parecem de outro mundo, em um tom
tão branco que se estivesse de dia eu cobriria meus olhos com os reflexos
solares. Quadros coloridos enfeitam parte dela para quebrar um pouco a falta
de cor.
Ando desnorteada pelo ambiente, admirando cada arte abstrata, que eu
sem senso artístico acerca disso, não consigo entender. Mas, o que realmente
chama a minha atenção são as luzes que variam em tons de azuis a roxo, dos
edifícios em Miami à frente de onde estamos, parecendo tão perto e ao
mesmo tempo longe. É... absolutamente incrível. Como se fossem um sonho
ou apenas uma paisagem pintada por um artista. Fico embasbacada e perco o
fôlego por alguns segundos, apreciando e mantendo na memória a paisagem
pitoresca.
Como se não bastasse, a ponte que une a Star Island à cidade, reluz
iluminada ao longo de sua extensão, misturando-se aos demais pontos de
luzes assemelhando-se a um caminho para o paraíso.
Lane nada diz. Abre as portas em vidro que liberam o acesso à varanda
e permite a minha entrada no espaço aberto, com melhor vista. Suspiro
deslumbrada com a noite brilhante. Além do festival de cores que é a
iluminação distante, os pontos brilhantes no céu, também fazem um excelente
trabalho em me deixar à mercê do meu próprio encantamento.
Estou tão embasbacada com a vista que pulo em um susto ao sentir
pelos deslizando pela minha canela. O susto dura poucos segundos até eu
perceber o que é, ou melhor, quem é. Desço meu olhar e o gato-de-bengala,
com pelagem em listras pretas, marrom claro e laranja, fita-me de volta.
Olhos verdes e esperançosos me contemplam antes que ele emita um miado
do tipo “Oi, quem é você? Pode me pegar no colo para fazer carinho?”
Ele é lindo e realmente parece um tigre.
Agacho-me, ouvindo a voz de Lane.
— Cuidado, Warren não é tão dócil com estranhos e... — Trava a sua
fala, assistindo-me erguer o bichano, enquanto afago-o e o aperto contra meu
corpo.
Ele é fofo e se aconchega a mim, esfregando a cabeça contra o meu
pescoço e afofando o tecido da camisa que uso. Ao contrário do que o dono
dele disse, parece muito tranquilo.
Sinto outra leva de pelos na minha canela.
Fito outro gato, praticamente idêntico ao que estou no colo. Ele
também espera que eu o pegue. Infelizmente eles são grandinhos e só cabe
um em meus braços.
— Essa é Stacey — o homem indica a que agora eu sei ser fêmea,
ronronando aos meus pés. — Realmente é estranho que tenham te aceitado
tão bem. Meus gatos costumam ser muito protetores comigo e toda pessoa
que vem aqui, eles tentam mandar embora. Até mesmo Hayden já foi
enxotado por eles.
Warren se esfrega ainda mais contra minha mão, miando baixo. Não
parece ser irritadiço como seu dono diz, e sinceramente, acho que Lane está
com um pouco de ciúmes porque os animais nem deram atenção para ele,
vieram direto até mim. Como que para provar a minha ideia de que são uns
amores, Stacey ergue uma das patas e toca minha canela, chamando atenção.
A gata volta a se sentar sobre as patas traseiras e aguarda que eu desça o
outro para poder mimá-la um pouco.
Al Capone deveria aprender boas maneiras com eles.
Definitivamente sim.
— Nomes interessantes — digo, falando com Kingston sem deixar de
acarinhar seu gato — Warren presumo que seja em referência a Buffett.
Não o conheço, mas ele já se tornou tão previsível...
— Na mosca.
— E Stacey?
Ele empertiga o corpo e imagino que uma história será contada.
Solto Warren no chão, enquanto ele protesta tentando se prender à
minha roupa e pego Stacey, que ronrona feliz com o afago.
— Cunningham, presidente da Bolsa de Valores de Nova Iorque.
Coloco nomes nos meus animais apenas de quem admiro.
E não choca ninguém.
— Claro.
Ele pisca e faz um tsc.
Ouço um latido frenético e nada me prepararia para o gigante de quatro
patas que corre na minha direção, encarando-me como se eu fosse um
biscoito canino extremamente apetitoso. É cinza, com o focinho flácido
balançando para todos os lados, lançando baba no piso encerado. Juro que o
chão parece tremer enquanto o animal gigantesco corre. Não tenho tempo de
me preparar para o impacto, no entanto, assim que ele ocorre, a gata pula no
chão, e duas patas dianteiras fazem pressão contra meu tórax. Não há como
evitar, eu sou puro peso obedecendo a gravidade. Tropeço em meus próprios
pés e sinto que estou caindo quando mãos me firmam no lugar e uma voz
imperiosa comanda: — Fluffy, senta.
O cachorro me liberta e coloca as quatro patas no chão, descendo a
bunda logo em seguida. Percorre o olhar entre mim e Lane, como se estivesse
contendo ao máximo a vontade de pular. Surpreendo-me que nesta posição,
ele ainda alcança a minha cintura. Deus! Que cachorro grande! Sinto que ele
seria capaz de me transformar em um brinquedo se quisesse.
Seu tamanho quase me faz esquecer o nome que Lane disse.
— Fluffy? Sério? — duvido.
Pensei que o cachorro também fosse ter nome de alguém influente, mas
não, é um nome bem irônico.
— Foi minha avó que me deu e colocou o nome nele antes. Não julgue.
— Ele se agacha e começa a acariciar o Mastim. O cachorro gosta tanto do
carinho que se deita de barriga para cima e aguarda que Lane continue a
acalmá-lo. — E como estão as coisas, garotão? — Ele lambe e deixa a cara
do Kingston repleta de baba, porém este não liga — Aprontou bastante hoje?
O que fez de bom? — pergunta retoricamente.
A cena me faz sorrir.
Trato de crispar os lábios antes que o homem perceba meu momento de
fraqueza.
O problema é que homens tratando bem animais é o ponto fraco de
qualquer mulher, acredito. E tem algo nele, quando está com seus amados
bichos, que o torna humano e até acessível. Faz sentido?
— Se tratasse as mulheres com tanto carinho como trata seu cachorro e
os gatos, elas estariam aos seus pés — digo.
Lane solta uma risada rouca. Está verdadeiramente feliz, noto. Nem
parece o homem de negócios engessado que só me atormentou desde que o vi
pela primeira vez.
— Eles não me ligam cobrando tempo. Não deixam de me amar se eu
não lhes der joias, também não se importam muito com o dinheiro que tenho,
desde que compre a ração que eles gostam e que tire pelo menos um tempo
para brincar com eles, além de nascerem sabendo amar de uma forma que nós
humanos nunca entenderemos. Desculpe, mas ultimamente eles têm merecido
mais o meu amor do que qualquer mulher com a qual eu tenha me
relacionado.
— É, agora entendo por que está solteiro, mas é chocante, uma vez que
as mulheres adoram homens que amam animais. Contraditória toda essa coisa
— indico-o — de se transformar em alguém diferente na companhia deles.
Deixa-me confusa.
Os gatos também o rodeiam, querendo atenção. Admiro a cena, não vou
mentir, com uma sensação agridoce de achá-lo lindo enquanto se envolve
tanto com eles e, também amargurada, por não ter metade dessa consideração
direcionada a mim. Merda, Betsy. É sério que desenvolveu ciúmes de
animais, agora? Pelo menos, em meio a essa tentativa de eles chamarem a
atenção do dono, o Warren decide que eu sou muito mais interessante e
cutuca a minha canela com a pata, para que eu o pegue de novo. Alço-o no
meu colo e paro em frente ao parapeito em vidro para admirar Miami Beach.
— Quer ver o restante da casa? — pergunta, ignorando meu comentário
anterior.
Aceno positivamente.
Acompanho Lane, que é seguido de perto por Stacey e Fluffy. Ele me
mostra a cozinha, com vários eletrodomésticos embutidos nos armários, e
seguimos para a área dos quartos. Não há tantos na casa como pensei. Apenas
três suítes. Uma, dele, e posso escolher entre as outras duas para mim. Como
ele faz questão de dizer, todas com vista para o mar e com as comodidades
que preciso para ficar confortável. No banheiro, há uma banheira de tubo
estilo vitoriano — que parece ser extremamente relaxante — assim como
duchas verticais. Também há sacadas nos quartos, com vista para o mar
magnífico de Miami e diversos coqueiros frondosos que crescem ao redor da
casa.
— Pode pedir qualquer coisa, Betsy, que eu darei um jeito de conseguir
para você.
— Não sou muito exigente.
— Percebi. Qualquer outra pessoa no seu lugar, já teria me pedido
diversas coisas. A casa tem um sistema de segurança de ponta, não por achar
que alguma coisa vá acontecer aqui. Como viu, é bem tranquilo. Mas, só para
manter minha consciência em paz. A senha está anotada no bloco de notas na
bancada perto da geladeira. Vou deixá-la aqui para fazer um tour pela
propriedade, preciso pegar um voo esta madrugada para o Canadá. Nos
vemos assim que eu voltar.
— Posso usar a piscina? — grito quando ele passa pela porta.
Lane se vira, sem alterar o semblante.
— Fique à vontade. Vou pedir para o meu assistente trazer um carro
para você se locomover. Não queremos que irrite Madison emprestando o
dela sempre ou que ela acabe ficando curiosa sobre para onde está indo, não?
Ele está certo.
— Eu posso alugar um carro — rebato.
Droga, Betsy, por que tem que ser orgulhosa em um momento como
esse?
— Com o dinheiro que gastei comprando as suas roupas — ele abre um
sorriso irônico — com certeza consegue e ainda sobra dinheiro para seja lá o
que uma mulher como você precise. Talvez veneno para abastecer a sua dose
diária e matar os homens primeiro com a sua aparência e finalizar o serviço
com a sua inteligência afiada.
Lane sai e eu fico minutos processando o que ele disse.
Primeiro, porque ele acha que sou bonita.
Segundo, pensa que sou inteligente.
E porcaria, eu gosto mais do que deveria destes elogios.
— É Stacey, Warren e Fluffy. Ficamos apenas nós para aproveitar a
festa na piscina. Yeahh! — grito, fingindo animação.
Que se acaba quando meu celular toca e vejo que é minha irmã ligando.
Bem, talvez eu realmente não aproveite a piscina hoje. Preciso voltar para
casa e fingir para a minha irmã mais velha e totalmente madura, que tudo está
perfeitamente bem. Assim como disfarçar, quando eu pegar algumas coisas
para poder filmar um vlog na casa de Lane, surtando com as minhas
seguidoras. Elas ficarão piradas!
Como foi que ele disse?
Ah, sim para eu ficar à vontade.
Então, é exatamente isto que irei fazer.
Às vezes tomamos atitudes que não sabemos explicar a razão.

— Ainda vai comprar o carro para Betsy, Kingston? — inquere


Hayden.
Estou no banco do passageiro enquanto ele dirige, tentando digerir
aquela sensação estranha de ter deixado algo para trás. Sempre que saio sem
ficar muito tempo com Stacey, Warren e Fluffy, é assim que me sinto. Porém,
desta vez, é um sentimento estranho de total comoção por um quarto motivo.
Sei que o que estou fazendo é errado, mas por que parece tão certo?
— Ela disse que vai alugar por conta própria. Aquela mulher é uma
caixa de surpresas, nunca sei o que vai dizer.
Volto a dar atenção ao meu celular. Mensagens pipocam na tela, alertas
financeiros e análises sobre o que esperar do mercado no próximo dia. Gosto
de estar a par de tudo. Deixei anotado meu número ao lado da senha do
alarme, espero que ela veja. Começo a divagar sobre essa possibilidade e
antes que eu me aprofunde nela, meu assistente executivo me salva.
— E você deixou? Quer dizer, sem falar mais nada, ou tentar manter o
controle sobre as decisões dela como parece tentar com todo mundo?
Suspiro pesadamente.
Ele não imagina como ela pode ser difícil de lidar. Mal a conheço e já
percebo essa característica.
— Por que não deixaria?
— Gosta que façam as coisas do seu jeito.
— Ela é uma mulher adulta, deixe-a.
— Como reagiu à sua casa?
— Bem.
— Os gatos e o cachorro?
Hayden sabe que eles são o mais importante para mim.
— Aí que está a parte curiosa! Eles ficaram muito felizes em vê-la,
como se a conhecessem há anos!
Meu assistente fica realmente assustado. Quando ele apareceu em casa
pela primeira vez, teve que correr de Fluffy, que ameaçava tirar um pedaço
da sua canela para palitar os dentes depois de jantar. Os gatos, começaram a
rosnar e chiar, mostrando as garras afiadas para o pobre homem. Foram
mesmo momentos de tensão na sua vida. E ele demorou para voltar.
— Não brinca! Fluffy, seu cachorro monstruoso, não quis arrancar nem
um pedaço dela?
— Nenhum, só quis atenção. Eles pareciam crianças orbitando em
torno de um doce!
— Isso é mesmo surpreendente.
A noção de que é de fato, me incomoda. Não quero ficar pensando
nisso, muito menos em como Betsy estava linda e sorrindo radiante para os
três. Ou como puxei-a para que não caísse e senti algo estranho me percorrer
logo que a toquei.
— Mudando de assunto, conseguiu as imagens de segurança que pedi?
— Consegui, sim. — afirma ele.
E apenas para conferir, eu ligo para minha mãe. Para checar como ela
está depois de ter sofrido uma ameaça sem qualquer sentido. Geralmente, elas
são direcionadas a mim, o comandante do império. Nunca as levo muito a
sério, são apenas tentativas estúpidas de me intimidar.
— Ei, mãe, está tudo bem aí? — pergunto assim que ela atende.
— Claro que está, por que não estaria? Hoje é dia de xadrez com as
garotas.
Garotas não é bem o termo certo para definir as suas amigas, mas fico
quieto.
— Certo. Está com os seguranças?
— Céus, Lane, claro que estou com os seguranças! E você me dá
alguma chance além de não estar?
Reviro meus olhos para o seu exagero, afinal ela sabe que é para a
própria proteção.
— Qualquer coisa, qualquer mínima coisa, a senhora me liga.
— Filho, pare com isso, eu estou bem. E você... — engulo em seco, sei
o que ela irá dizer — trate de acelerar as coisas, ou já sabe.
— A senhora ficaria pasma se soubesse a verdade — resmungo.
— O que quer dizer com isso, Lane Kingston?
— Mãe, eu preciso desligar, só liguei para conferir se estava bem. Amo
a senhora, até mais!
— LANE! — Ela protesta, mas eu desligo a tempo.
Olho para Hayden, com um sorriso divertido no rosto.
— Ela está jogando xadrez, em casa, acredito. É uma teimosa das
maiores e desliguei antes que ela pudesse dizer mais coisas, inclusive pedir
para correr sozinha. Pensa que ninguém pode querer o mal dela.
— Não é qualquer pessoa que ameaça um Kingston.
— Isso que me deixa encafifado. Quem faria isso, Hayden? Lógico que
tenho muitos inimigos por causa do império, mas quem chegaria ao ponto de
ameaçar a vida da minha mãe? Ela detém grande parte das ações, assim como
vovó e vovô, além dos meus tios, claro, então, por que apenas ela?
Não faz o menor sentido.
— Precisamos investigar. Mas, que é estranho, tenho que concordar.
Suspeito, de verdade.
— Conseguiu contato com os meus primos? — inquiro.
Não sei quem teve coragem de seguir mamãe, muito menos se é a
mesma pessoa que invadiu a sua casa durante uma madrugada enquanto ela
viajava, mas sei que tem a ver com o sobrenome que carrega. Há tempos
tenho verificado as documentações mais antigas, de décadas atrás e
imaginado o que vovô precisou fazer para conseguir todas as terras que
possuímos e a chance de explorar reservas de petróleo. Se ele começou com
um sonho, determinação e inteligência, como ele comprou tantas fazendas
além da primeira para este fim? Eu posso estar certo em minhas suspeitas,
mas jamais direi para alguém antes de conversar de homem para homem com
ele.
Lendo e analisando as escrituras, arquivadas há muito tempo, me
perguntei se tudo era verdade. O preço negociado foi ínfimo e injusto perto
do quanto sabíamos que lucraríamos. Não é o costume da família agir desta
forma. Além, claro, de alguns valores pagos a pessoas que não sei quem são
que não faziam sentido nas retiradas de vovô. O que ele fez? Por que tornou
isso um segredo?
— Consegui com alguns. Só Jenna que está incomunicável, como
sempre.
Ela foca em seu trabalho nos cruzeiros e não se deixa ser influenciada
pela família. Quisera eu ser como a Jenna.
— Sei como falar com ela. Um conhecido meu é comandante no
cruzeiro em que ela trabalha. Não se preocupe — falo, tendo a noção de que
ela ficará furiosa com a minha intromissão, principalmente por usar de
subterfúgios para me comunicar com ela.
No entanto, é necessário.
Preciso alertar a todos do inesperado. Não sabemos se é alguma
vingança, simples ladrões atraídos pela fortuna, ou algo muito mais
elaborado.
Recebo um alerta em meu celular. Uma das câmeras na parte externa da
propriedade na Star Island parou de funcionar. Logo em seguida, outra. A
equipe de segurança manda uma mensagem, informando que chegarão em
alguns minutos à mansão.
Betsy! — grita minha mente.
Lembro dela em casa e um desespero estranho faz a boca do meu
estômago gelar. Somando tudo, inclusive as ameaças e a coisa toda com
mamãe, começo a entrar em colapso mental.
E se a equipe não chegar a tempo?
Esses pensamentos passam na velocidade de um segundo em minha
mente e eu sei o que fazer antes mesmo de proferir.
— Dê meia volta, Hayden. Preciso voltar para casa.
— Como assim?
— Preciso — sibilo — voltar para casa.
— E o plano de negócios? E o voo? — Ele começa a debater.
— Desce e espera aqui — peço e ele prontamente obedece.
Assumo o volante pulando do lado passageiro para o motorista, fazendo
a conversão rapidamente em uma via movimentada. Várias buzinas cortam a
madrugada enquanto eu acelero em direção à ilha. Deixei Betsy sozinha, sem
seguranças além dos alarmes da casa, para ela se adaptar à nova realidade,
mas sei que várias pessoas são capazes de desativá-los com tanta perícia
que... odeio pensar nisso. Seria minha culpa. Acabarei perdendo o voo e
consequentemente uma reunião importante, contudo, isso não importa no
momento. Desbravo o trajeto, forçando o motor a me entregar a velocidade
que quero.
Quando finalmente chego à ilha, a adrenalina ameaça me engolfar.
O ar condicionado do carro está ligado no máximo e ainda assim, eu
suo frio, prevendo o pior.
Aciono o portão automático e ele não é rápido o bastante para mim.
Nada parece ser rápido o bastante. Paro o automóvel de qualquer jeito
próximo a garagem e corro no caminho de pedras, acessando a mansão,
gritando por ela. Não vejo sinais de luta corporal, nem nada parecido, o que
me acalma.
— Betsy!
Meus gatos e meu cachorro vêm ao meu encontro. Eles estão bem. Isso
pode significar uma coisa boa. Fluffy abana o rabo, babando ao longo da
minha calça. Espera por carinho e não tenho humor para fazê-lo no momento.
— Ei, eu já volto — desculpo-me com eles.
Como se entendesse o que estou dizendo, Fluffy senta próximo ao sofá,
enquanto os gatos sobem no móvel e esperam.
Saio em disparada rumo aos quartos, olhando em cada um deles,
inclusive no meu, procurando pela mulher. Um terror insano começa a se
apoderar dos meus pensamentos quando não a encontro. Saio da mansão, e
caminho até a área da piscina, na parte de trás da propriedade, com vista para
o deque e para Miami Beach. As águas azuis e calmas, iluminadas pelos spots
abaixo da água fazem com que eu paralise.
Onde está Betsy?
Coloco as mãos na cabeça, olhando para todos os lados, em busca do
brilho dourado dos seus cabelos. Apuro minha audição esperando que sua
risada sensual e extasiante possa surgir e fazer as batidas aceleradas do meu
coração voltarem ao seu ritmo normal.
Nada.
Só o som das ondas batendo contra o deque de madeira quebram o
silêncio da noite. Corro até lá, imaginando os piores cenários possíveis. Ela
pode ter ido ver o mar, se sentado no deque para refrescar os pés e caiu?
Alguém entrou em casa e a sequestrou para me atingir?
Puxo o celular do bolso, e as únicas ligações ou mensagens são sobre
trabalho. Inclusive uma de Hayden, indagando o motivo para eu ter ficado
louco de repente, respondo e ele pergunta se tudo está bem com ela. Disco
seu número rapidamente.
— Encontrou Betsy? — fala antes de mim.
— Não. Sabe o número dela?
— Não tinha no site quando comprou as roupas?
Encerro a chamada, me amaldiçoando por ser tão estúpido a ponto de
esquecer esse detalhe. Procuro pela imagem da tela que salvei justamente
para estes casos. Acho que as longas jornadas de trabalho estão me
enlouquecendo. Ouço o som da ligação sendo completada, chamando três
vezes antes do verdadeiro caos se instaurar em mim. Já estou a ponto de sair
correndo sem rumo certo, como se resolvesse alguma coisa quando
finalmente ela atende.
Levo a mão ao peito, aliviado.
Acho que estou com a saúde em dia, porque o susto foi grande.
Apoio meu corpo em um dos coqueiros, em busca de sustentação.
Minhas pernas estão moles e eu não confio nelas para me manter de pé.
— Oi. — Sua voz se torna tão doce que comanda as batidas em meu
peito.
— Onde você está? — sou direto.
— Quem fala?
Sério?
Ela por acaso não consegue reconhecer a voz?
— Quem acha?
— Eu não posso falar agora, sinto muito. — Noto uma voz ao fundo, e
essa mesma voz me tranquiliza.
— Precisa sair, Bets? Se quiser posso ir embora e te deixar em paz.
Passei só para pegar algumas coisas e bater um papo com você, colocar a
conversa com a minha irmã em dia.” — É Madison quem fala, reconheço.
— Graças a Deus — exclamo.
Betsy está em casa. Com a sua irmã. Nunca uma conversa de fundo me
acalmou tanto. Meu fôlego se normaliza e fecho meus olhos, tentando
respirar sem o peso da preocupação. Encerro a ligação, sem me ater a dar
detalhes para ela, acabaria por passar algo que não é verdade, que me
preocupo mais com ela do que perder uma reunião extremamente importante.
Contemplo o horário em meu relógio de pulso e noto que já não dá mais
tempo de pegar o voo. E mesmo que eu use o jatinho da empresa, até fazer
todas as devidas liberações e procedimentos, já não sei se teremos tempo.
Além de que... os gastos são maiores quando o uso. Por este motivo prefiro
viajar em voos convencionais. Corte de gastos são importantes em todos os
setores e eu preciso dar exemplo para os demais colaboradores.
Lembro-me da equipe de segurança e aviso que não é mais necessário
vir até a casa.
Então, toda a coisa com a reunião toma minha preocupação e como se
lesse meus pensamentos, meu celular começa a tocar. Atendo prontamente.
— Já sei que não dará tempo. Negocie uma videoconferência. Diga que
tive uma emergência pessoal e que não pude embarcar a tempo — digo sem
rodeios para Hayden.
— Sabe que esse negócio foi difícil de fechar. O mínimo de respeito
que o homem pediu era para você em pessoa ir até lá e conversar com ele,
Lane. Colocar uma aquisição tão importante como essa em risco não é de seu
feitio.
Contemplo o mar. As luzes refletindo-se na água escura pela noite.
O preço de uma vida é muito maior do que a perda de milhares de
dólares. Principalmente a dela. Um valor que não estou disposto a pagar. O
que perdi pode ser recuperado.
— Eu ligarei para ele e explicarei a situação. É casado, não? —
pergunto, apenas para tirar a dúvida.
— Sim. E tem filhas.
— Perfeito. Já sei o que fazer.
— O que... — desligo de novo.
Hayden deve estar me ofendendo com os piores nomes possíveis por eu
deixá-lo de fora da minha estratégia. Não tardo a ligar para o CEO de uma
empresa que busco fundir ao grupo Kingston. Sei que é tarde da noite e que
ele deve estar dormindo, mas preciso me explicar o quanto antes.
— Aqui é Lane Kingston. — Profiro quando ele atende.
Pelo visto, ele deve trabalhar tanto quanto eu, porque atende na
primeira chamada, em um tom absolutamente profissional.
— Claro.
— Senhor Blackburn, desculpe pelo horário, mas é que tenho algo a lhe
dizer sobre a nossa reunião. — Torço para a minha ideia dar certo — Não
será possível que eu compareça. Podemos alterar o encontro para uma
videoconferência?
Ele nada diz. Sinto que o irritei com a minha fala. No entanto, ele
entenderá quando eu lhe contar o que aconteceu, principalmente se tiver a
família em tão alta estima assim como eu.
— Meu jovem... você ainda é muito novo para entender o impacto que
causa a presença e o respeito que ela gera, então... — interrompo-o.
— Senhor, com todo o respeito. Eu sou mesmo muito jovem se
comparado à experiência que possui neste ramo. E ressalto que de forma
alguma quero soar desrespeitoso. É casado e tem filhas, certo?
— Onde quer chegar?
— Eu pensei que minha noiva estivesse correndo perigo de vida
quando estava me preparando para ir até aí. Minha casa fica próxima ao
aeroporto, mas eu precisei ir até a empresa antes, para alguns ajustes no meu
plano de negócios. Quando estava indo até lá, recebi uma ligação estranha,
dizendo que as pessoas que eu amo correm perigo — acabei por mentir um
pouco para tornar a situação mais dramática — então o senhor me entende
por tentar proteger a pessoa que eu amo, em detrimento de um encontro de
negócios? Sinto muito, de verdade, mas não posso colocar as pessoas
próximas a mim em segundo plano.
Uma pausa longa e excruciante se dá na ligação.
Começo a pensar que minha justificativa não teve qualquer efeito.
— Entendo. Eu teria feito o mesmo em seu lugar, rapaz, e admito que
não esperava por esses valores em um homem que figurou a capa da revista
Forbes tantas vezes como empreendedor do ano. Tem meu respeito. Podemos
atrasar a reunião por algumas horas, não há qualquer problema para mim.
Esteja aqui e eu assinarei à fusão das empresas. Será uma honra fazer parte
do grupo.
Como eu consigo contornar as situações e colocá-las a meu favor é de
fato um dom.
Respondo a uma mensagem de Hayden, dizendo para reservar um voo
para dali algumas horas até Toronto. Enquanto vou até a empresa para mudar
o que preciso.
Minhas pálpebras pesam e já faz quase 24 horas que eu dormi. Preciso
descansar pelo menos um pouco antes de discutir algo tão importante. Betsy
está segura, o negócio está a salvo. Acho que posso deitar minha cabeça por
poucas horas no travesseiro e descansar. Talvez ir até a empresa fique para
depois. Só preciso descansar um pouco, sinto-me esgotado.
Tomo um banho, coloco a calça de moletom para tirar um cochilo,
quando meu celular indica o recebimento de uma mensagem.
Betsy: Só queria ouvir minha voz, garotão? Aposto que deve estar
imaginando coisas indecentes, não é?

Odeio como ela me faz sorrir, satisfeito por tudo ter dado certo.
E principalmente, detesto o fato de que segundos depois, eu volto ao
chuveiro e faço o que há muito tempo não fazia, imaginando a sua voz
destilando pecado enquanto não paro de deslizar minhas mãos.
Quando deito na cama, durmo em questão de segundos.
Que se dane a razão quando a emoção aparece em um biquíni
tão pequeno!

A reunião não poderia ter sido melhor. Eu sou um verdadeiro gênio,


sem modéstia. Solto o nó da minha gravata enquanto acesso a casa, sorrindo à
toa. Passei as pouco mais de três horas do voo de Toronto até Miami,
analisando os momentos em que percebi o homem se tornar mais aberto às
possibilidades, apenas por eu ser comprometido. Talvez vovó tenha mesmo
razão e um cara como eu, a frente de uma companhia que se iniciou no
âmbito familiar, passe mais confiança se tiver um relacionamento sólido.
— Vovó, vovó, não foi só por isso que bolou esse plano, não é? Ainda
vou descobrir o motivo — falo sozinho.
Estou prestes a ir para o meu quarto, tomar um banho e dormir por pelo
menos umas oito horas, raridade em minha vida, quando ouço uma música
animada flutuando pelos ambientes, partindo do jardim.
Estou cansado.
Minha cabeça dói pela falta de sono.
Porém, a curiosidade fala mais alto.
Os gatos e o cachorro não vêm me cumprimentar, o que eu estranharia
se não estivesse preso na minha bolha de lucro.
Perfeição!
Sou capaz de escutar o som dos caça-níqueis grunhindo a vitória e
cuspindo fichas. Se eu não estivesse tão atarefado por estes dias, iria para Las
Vegas e testaria a sorte grande que caiu em meu colo.
O som se torna ligeiramente mais alto. Betsy está aqui ou ainda não
voltou? Por ter essa dúvida e não querer ligar para ela, decido que é melhor
verificar. Preciso de uma equipe de segurança por aqui também, mesmo
sendo o ápice do sossego. Nunca se sabe o que pode acontecer. Vou até a
cozinha procurando por algo que eu possa usar como arma, e que não seja
perigoso demais. Quero assustar, jamais matar. Fito o conjunto de facas em
cima da bancada e passo longe delas. Lembro-me do meu taco de beisebol
autografado por Barry Bonds. Fora de cogitação, se eu quebrar aquele taco
choro durante o restante do ano.
Nada de taco.
Ou facas.
Já fui assaltado algumas vezes em outras casas que tive e juro que
fiquei meio paranoico, comprando armas e colocando-as nos locais mais
estranhos possíveis, pronto para tudo. Na minha casa em Dallas, tenho
esconderijos na cozinha, na sala de estar, de jantar, não me lembro se no
banheiro também, mas não me espantaria. Até parece que o assaltante irá
aparecer enquanto estou no banheiro para me roubar. Seria uma cena no
mínimo engraçada, eu sacando a arma antes de limpar a bunda. Em síntese,
penso tudo isso apenas para afirmar que as pessoas ficam estranhas quando
algo ruim acontece a elas e veem a necessidade de lidar com qualquer outra
coisa similar que venha a acontecer de maneira peculiar.
Desço a escadaria que leva até o jardim dos fundos. A música parece
vir de lá. Acho estúpido da minha parte presumir que seja um ladrão,
principalmente porque ele não ficaria ouvindo música, certo? Pode ser um
dos meus primos, ou meu irmão, que sempre aparece sem avisar. Essas
possibilidades me deixam mais calmo. Quando meu pé alcança o último
degrau e sou privado da vista da piscina apenas por um dos pilares da casa,
Stacey aparece. Ela mia e se entrelaça na minha canela.
— O que está acontecendo, garota? — pergunto a ela, que ergue a
cabeça, mira seus olhos verdes nos meus e...
Mia.
Mas, é claro que mia. Pensou que ela fosse falar?
Tomo a frente, sendo seguido por ela e assim que transpasso o pilar,
meu fôlego se perde, tudo em mim congela e não consigo desviar minha
atenção da sereia que dança na borda da minha piscina. Seu biquíni é
minúsculo, vermelho, cobrindo apenas uma faixa bem pequena da sua bunda.
Sou hipnotizado por ela, acompanhando seu rebolado de um lado a outro,
totalmente vidrado.
Nada mais existe no meu campo de visão.
Além das ondulações loiras pendendo na sua dorsal e nas longas coxas,
firmes e delineadas.
Lembro-me dela na praia, de como a sua beleza chamou a minha
atenção. Mas, aqui, dançando em minha casa, Betsy parece uma deusa,
invocada das profundidades do inferno para me atormentar.
Abro a minha boca para falar alguma coisa e atrair a sua atenção. Nada
sai.
Sinto minhas bolas se endurecerem e ficarem pesadas, querendo muito
que eu afunde meu pau naquela mulher que mal sabe como a estou devorando
com os olhos. Meu corpo inteiro arde, as batidas ecoam insanas em meus
tímpanos, apreciando a música, o gingado das suas pernas e os movimentos
extremamente sexys que fluem por seus membros. Betsy não percebe a
minha presença, muito menos a minha aproximação predadora. Quero cada
parte dela, saborear cada ínfima extensão de pele e fazê-la gritar a ponto de
todos os vizinhos escutarem. Não sei explicar por que esse desejo é tão
avassalador, mas sei que nosso casamento de fachada pode ser prazeroso para
nós dois.
Uma parte apreensiva da minha mente, grita que Betsy conseguirá um
Royal Flush em breve, para ganhar o jogo. Opto por ignorá-la no momento.
— Ficará olhando por muito tempo, Lane? Ou vai devorar em algum
futuro próximo?
Ela ergue seus cabelos com as duas mãos e continua dançando de
costas para mim. Miami já é quente, mas com ela me provocando as
temperaturas se aproximam das estratosféricas do deserto do Saara. A música
torna-se animada e não me importo com nada além de passar as mãos pela
cintura molhada e deslizar meus dedos ao longo do seu quadril.
O que ela me pedisse agora, eu seria capaz de dar. Independentemente
do que fosse.
Seu corpo exala calor enquanto Betsy se movimenta depressa,
adaptando-se ao ritmo das batidas. Aproximo meu corpo do seu, encaixando
minha pélvis à sua bunda, enquanto ela rebola e me provoca com tanta
perícia que meus neurônios se transformam em geleia. Arrasto seu cabelo
sedoso para o lado e sinto o cheiro do seu perfume inebriante. Ele segue
direto para baixo, fazendo-me arquejar. Desço minha língua ao longo de sua
pele, sentindo-a tremer sob meus dedos.
Uma de suas mãos se fecha em torno do meu pau, subindo e descendo,
controlando-me pelo meu desejo e pelo calor do momento. Estou tão louco
que ela me transforma em um homem impaciente e que anseia única e
exclusivamente por fodê-la. Nada além importa. Nada além deveria importar.
Tremo com a visão que se desenrola em minha mente, de afundar toda a
minha extensão nela com as luzes de Miami Beach ao fundo.
Ou da sua boca... Céus!
Acho que ninguém seria capaz de entender o quão alterado estou me
sentindo.
Fantasio tantas coisas que se torna difícil respirar.
— O que está pensando, Lane?
Sua voz irradia uma onda de corrente elétrica até então desconhecida
através de mim. Tal energia percorre as minhas veias e termina na ponta dos
meus dedos, passando para a sua pele, transmitindo a química sobrenatural.
— Só me perguntando onde você quer ser fodida.
Betsy ronrona, sensual e irresistível.
Sinto que estou no céu, ao mesmo tempo em que queimo no calor do
inferno, totalmente hipnotizado pelo canto da sereia, por seus gemidos e pela
maneira que sua pele desliza sob meus dedos, como se fossem feitos no
molde perfeito para a minha loucura.
Não, não estou no céu, entendo por fim, Betsy não tem nada angelical
além do seu rosto que esconde a mordida de uma fera quando o sol se põe.
— Em qualquer lugar, desde que me faça delirar. Bagunce a minha
mente, Kingston e me coloque para rodar. Se aproxime, feche os olhos, que
eu te levarei ao céu, subindo e subindo. Esta noite somos eu e você,
enlouquecendo.
Sua fala me alucina.
Fecho os olhos, inflando meus pulmões com seu cheiro intoxicante,
deixando que Betsy comande nosso tempo com as batidas do seu coração e os
movimentos paradisíacos do seu corpo.
Ela quer sentir o tamanho.
Pressiona a bunda contra a minha virilha.
Minha mente fica bagunçada.
Podemos começar lento e acelerar as coisas até que alcancemos a
fórmula 1. Sim, baby, com a potência da nossa atração e a temperatura que
alcançamos, somos capazes de colocar tudo para rodar.
Comprimo meus lábios aos seus, um choque de calor e frio, adocicado
pelo seu sabor de menta e paixão.
Iremos até a lua e voltaremos à terra.
Tão alto. Forte e intenso.
É tudo o que sei. Que eu posso me arrastar aos seus pés esta noite, em
busca da tão sonhada terra dourada. Esta noite, ela tem cada grama de mim.
Qualquer pensamento se tece ao seu redor, e cada suspiro meu de desejo a faz
se sentir uma mulher poderosa. O que ela é. Impossível de conter. Betsy é
uma força da natureza, o poder motriz por trás de todas as minhas motivações
agora.
Percorro o seu quadril com meus dedos e enfio minha mão na tanga do
seu biquíni, chupando seu pescoço, aceitando a sua entrega enquanto o prazer
percorre cada poro do seu corpo. Provoco seu clitóris com o dedo médio e
ouço seus gemidos quebrarem o silêncio da água na piscina. Espalho a
lubrificação pela abertura que clama por meu pau tanto quanto ele clama por
ela. Sinto-o umedecer minha cueca com o pré gozo. Afundo repetidamente o
dedo, enquanto ela pressiona as pernas uma à outra, tentando conter o furacão
de sensações.
Sua cabeça apoia-se contra meu peito, enquanto mantenho seu peso,
para que ela sinta prazer até desfalecer.
Os bicos dos seus seios se intumescem e eu os aprecio com uma fome
de assustar.
Subo minha mão da sua cintura até eles, acessando-os através da parte
de cima do biquíni, sentindo a textura e desejando com tudo de mim, chupá-
los até que ela goze com as preliminares, fazendo com que meu pau deslize
por cada centímetro com facilidade, tornando tudo o mais sedento possível.
Betsy retira minha mão da sua boceta e chupa o dedo do meio,
passando a língua ao redor dele, fazendo meus olhos girarem em suas órbitas.
O suor desce quente pelo meu abdômen e não tem nada a ver com os quase
30 graus que derretem Miami.
Nós estamos entregues.
Pouco nos fodendo para o próximo dia, querendo apenas gozar sem
limites.
Sinto que estou queimando de baixo para cima, ardendo em um fogo
indissolúvel. A chama aumenta, desdobra e se torna colossal, porque ela é o
combustível, que não me deixará apagar.
Esfrego meu pau na sua bunda. Ela rebola, pressionando contra.
— Rebola contra meu pau, Betsy. Vamos lá — clamo em um sussurro.
Ela faz o que peço. Mas, acho que não foi sábio da minha parte. Arfo,
enquanto tento puxar o fôlego, sentindo tudo com uma intensidade
extenuante. Ela se vira, ostentando um sorriso vitorioso. Passa a língua ao
redor da minha mandíbula, parando em minha boca, puxando o lábio inferior
em uma mordida infernal.
— Relaxe e aproveite — murmura.
Fica difícil relaxar se estou a ponto de explodir, como se eu estivesse
provando uma dose da droga mais letal da história que me fará viciar tão
rápido quanto um jato supersônico.
Seus dedos trabalham nos botões da minha camisa. Assisto-os tentando
manter o controle. Meu pau esgoela, querendo ser calado com a sua boceta o
rodeando.
Tento respirar com normalidade enquanto ela trabalha no meu cinto.
Retira a peça, em um barulho alto, lançando-o na piscina. Pouco me importo
que seja couro legítimo. Abre o botão da calça, desce o zíper lentamente e
olhando diretamente em meus olhos, passando a língua no canto dos lábios.
Ela quer lamber o doce, retirar cada gota do leite que estou disposto a dar a
ela.
A calça desmorona a meus pés.
Ela se ajoelha.
Sinto minhas pernas tremerem com a visão.
— Minha boceta está pulsando, Lane, mas eu estou doida para te
chupar antes — provoca.
Seus dedos, com as unhas vermelhas, se fecham no membro com as
veias saltadas, tão duro quanto aço, esperando que ela o saboreie como se
fosse seu pirulito preferido, como se estivesse com sede e ele fosse a única
fonte de líquido disponível no planeta.
Quando seus lábios se fecham ao redor, milhares de fogos de artifício
explodem em minha cabeça.
O sobe e desce da sua língua.
Seus gemidos de apreciação.
Todos os movimentos e sons me liquefazem, aos poucos, com extrema
necessidade de alívio.
— Isso, Betsy! Porra, chupa gostoso meu pau!
Ela continua chupando como se sua vida dependesse disso, ao mesmo
tempo em que passa sua mão por entre as pernas e me dá uma visão
privilegiada ao se masturbar. Caralho! Como eu vivi tanto tempo sem tê-la?
Está perto.
Muito perto.
Sua língua ao redor do meu membro, o dedo em seu clitóris, enquanto
aquele olhar fatal sustenta o meu, repleto de lascívia e safadeza. A boca do
pecado sobe e desce, da base até a ponta, parando para chupar e espalhar o
som de sucção que me leva ao delírio. Estou prestes a gozar, jogo a cabeça
para trás, emaranhando meus dedos em meio aos fios dourados,
impulsionando sua boca a devorar mais de mim, a enfiar tudo e se engasgar
por não aguentar. Isso só faz meu prazer extrapolar o aceitável.
Betsy acelera o ritmo.
Sua língua devoradora contorna a minha extensão, umedecendo cada
veia ao seu bel-prazer.
Seus gemidos se transformam em gritos de tesão.
Ela se masturba mais rápido e engole toda a extensão do meu pau,
engasga, baba nele com a sua boca dos infernos e sinto as pulsações varrerem
meu corpo e eriçarem todos os meus pelos, enquanto o gozo devasta todos os
meus pensamentos e lança a minha coerência direto em um abismo sem fim.
Minha porra abre caminho pela sua boca e ela não a tira, aproveitando-se de
cada gota, como se fosse mel.
— Caralho, Betsy! — urro.
Já não sou mais humano, sou um animal, louco para atolar até o talo
nela e fazê-la gritar como se não houvesse amanhã. Já sou capaz de sentir
minhas bolas pressionando sua bunda, enquanto eu a como em todas as
posições possíveis, fazendo-a bradar meu nome e chorar de tanto prazer.
Ela treme inteira, com meu pau na boca, enquanto as próprias ondas do
orgasmo correm por si.
Os bicos de seus seios querem explodir o biquíni e não posso deixá-la
passar vontade, claro que não. Puxo-a rudemente, porque já notei que Betsy
gosta de coisas selvagens, de tapas doídos e fodas de arrebentar. Seus olhos
brilham em expectativa. Devoro seus lábios, sentindo meu gosto na sua boca
e ansiando por sentir também o gosto da sua boceta. O cheiro da sua
excitação atinge em cheio minhas narinas e provoca ondas catastróficas em
meu membro. Ele pulsa, disposto a ficar duro novamente se eu o afundar
como e onde quero.
A música continua tocando em algum lugar.
Alguma coisa a ver com levar ao paraíso, o que é exatamente o que a
mulher está fazendo comigo. Ou sigo diretamente para o inferno?
Que se foda!
— Você tem tempo para foder agora, Lane? Ou não tem tempo para me
comer com força?
Sei o que ela quer dizer com isso.
Sinceramente...
Eu cancelaria qualquer reunião.
E daria o tempo que ela quisesse.
Como se ouvisse meus pensamentos, meu celular começa a tocar em
minhas calças arriadas. Betsy me fita arqueando uma das sobrancelhas,
desafiando-me a atender a acabar com o calor do momento. Ela agacha,
excitando-me com a visão dos seus seios e pega o aparelho. Estende-o na
minha direção.
Desligo-o.
Jamais desliguei meu celular. Nunca. É a primeira vez que o faço. Nem
ao menos olho o identificador, desligo sem peso na consciência, sem
conseguir pensar em nada além dela e de corpos suados, membros
embolados, com gemidos de plano de fundo.
— Bom menino — provoca ela — e por ter tomado a decisão certa,
merece um prêmio de consolação.
Solta a parte de cima do seu biquíni devagar. Seus peitos pulam livres
quando ele cai. Contemplo os bicos rosados, duros, apontando na minha
direção com uma vontade de tremer o chão sob meus pés. Betsy parece ser
movida com base nas minhas reações já que puxa uma das cordas na parte de
baixo, sem tirar os olhos de mim, apreciando o suspense que embala meu
frenesi. Um dos lados pende em seu quadril esculpido por alguma entidade
maléfica, enquanto ela trabalha do outro lado.
As finas cordas que seguravam a peça resvalam na lateral do seu corpo
segundos antes de despencar até o chão.
Corro o olhar de cima a baixo, babando em cada detalhe totalmente
visível agora. Seus seios empinados, do tamanho perfeito para caberem nas
minhas mãos, assim como a sua boceta lisa e rosada, molhada de excitação.
Desabo de joelhos.
Pela segunda vez diante dela, que coloca um dos pés em meu ombro,
dando abertura para que eu a saboreie como achar melhor. Pincelo minha
língua em seu clitóris e prendo sua perna, segurando com força, quando ela
começa a gemer. Chupo vorazmente, tomando cada gota dos seus lamentos
angustiados pela libido. Betsy está prestes a gozar de novo, mas dessa vez,
não a quero gozando assim, quero ela cavalgando em cada centímetro do meu
pau, descendo e subindo, aceitando-o com a sua boceta gulosa. Então
abandono a chupada, mamando em seus seios durante o caminho, pegando
um deles para logo em seguida babar no outro, com vontade, até que estou
com o corpo ereto e aproveitando a descida até o inferno de camarote depois
de despencar do céu por pensamentos totalmente indecentes. Impulsiono-a e
ela passa as pernas ao redor da minha cintura. A embalagem com
preservativos está em meu quarto e eu preciso urgentemente deles.
Subo tropeçando os degraus da escada.
Betsy gargalha.
Eu só tenho olhos para seus seios apontando para a minha boca.
Envolvo minha língua em um deles ao longo do caminho até meu
quarto. Cacete! Por que meu quarto é tão longe da piscina? Não tenho calma,
ou estado de espírito para esperar mais.
— Minha boceta tá pulsando, Lane? Você vai fazer valer a pena? —
invoca ela, bem próximo ao meu ouvido.
Morde o lóbulo da minha orelha, aperta as pernas e geme quando eu a
esfrego contra minha ereção.
Quase não acredito quando finalmente chegamos.
Deito-a com força na cama e arrasto a mesa de cabeceira com rodízios
para longe, após pegar várias embalagens. Betsy toma uma delas da minha
mão, enquanto eu tremo da cabeça aos pés, com meu pau apontando para o
céu, aguardando que seu momento chegue.
O látex o envolve lentamente e sou empurrado de costas contra o
colchão.
Observo Betsy alçar o corpo, encaixar meu membro na sua entrada e
descer com tanta força que rouba o ar em meus pulmões. Ela rebola contra
minha pélvis, esfregando a boceta e empinando a bunda paradoxalmente.
Meu cérebro fica do tamanho de uma azeitona, enquanto penso apenas com a
cabeça do meu pau.
— Ah, como eu estava com vontade de sentar em você, Lane — meu
nome na sua voz de foda é inigualável.
Impulsiono para que vá mais fundo. Betsy grita, envergando o corpo e
estendendo os mamilos para mim. Apresso-me a prender um deles entre meus
dentes, mordendo-o a um ponto que ela berre de prazer. Minhas mãos se
prendem à sua cintura. O ritmo insano tem início e o que começou em
preliminares prazerosas ao extremo caminha para seu epicentro. Ela senta
com força, conforme eu a embalo, entrando e saindo, me afundando em seu
calor. Betsy espalma as mãos em meu peito, suas unhas arranham meu tórax,
a dor me faz bradar e aumenta o tesão. Ela acelera, eu recebo suas investidas,
ouvindo os sons ricochetearem pelo quarto, com as luzes de Miami brilhando
noite afora à nossa frente. A cena é digna de uma pintura, uma que eu sempre
olharia para bater punhetas lendárias, pensando no diabo loiro que me fez
perder a noção.
O gozo cresce e se avoluma de novo.
Meu pau é esmagado pelas contrações do seu orgasmo.
Fecho meus olhos para conter o ímpeto.
Sinto-me na traseira de um Cadillac, prestes a conhecer um lugar
inesquecível.
Seu grito retumba pelas paredes.
Meus dedos massacram sua cintura.
Urro do fundo do peito.
E gozo com tanta força que sinto a porra jorrar sem parar na camisinha.
Betsy ostenta um sorriso satisfeito, de quem foi bem fodida, para logo em
seguida desabar no meu peito, formando uma auréola com os fios de cabelo
em torno de mim.
Fecho meus braços ao redor do seu corpo, no passo em que tento
acalmar minha respiração e as batidas embevecidas do meu coração.
E é assim que tem início o errado que poderia dar tão certo, sinto.
Ela se arrasta para o meu lado, cansada.
Também me sinto exausto. Acabado em um sentido tão gostoso que
não consigo parar de sorrir.
Levanto-me, vou até o banheiro para tirar a camisinha e quando retorno
ao meu quarto, admiro por breves segundos Betsy esparramada em meus
lençóis como se eles fossem o lugar perfeito para estar. Seus olhos estão
fechados e seu peito sobe e desce lentamente. Ainda está nua, e fico com
dificuldade de encontrar algo que seja mais bonito do que ela assim, relaxada.
Acho que não existe nada mais belo do que essa mulher. Michelangelo se
sentiria pressionado demais se precisasse retratar tamanha beleza e Da Vinci
fugiria antes que fosse obrigado por mim a eternizá-la.
Movo-me sem pressa para deitar ao seu lado. Não me arrisco a acordá-
la e perguntar se quer ir até outro quarto. Estou bem com ela aqui. Na
distância de uma mão. Aconchego-me ao seu corpo, afundando o colchão
com o máximo de cuidado. Ela passa os braços ao redor de mim em sua
sonolência e aceito esse gesto como um bônus.
Fecho os olhos.
Sinto meu corpo inteiro ceder ao sono.
E percebo um fato quando acordo: jamais dormi tão bem.
Bon jour, mundo! O dia está tão belo hoje que eu seria capaz
de voar com um guarda-chuva como Nanny McPhee!

Percorro os músculos definidos com a ponta dos meus dedos,


absorvendo o toque perfeito deles. Um gemido baixo escapa dos meus lábios,
enquanto saboreio o momento.
— Nossa, John, você é quente! Caramba, muito, muito quente!
Cena sorri de lado, enquanto passa seu braço pelas minhas costas,
abrindo meu sutiã. Seu corpo pressiona o meu e é como se eu fosse tragada
em fogo, labaredas enormes, que me consomem.
— Gosta disso, Betsy?
— Ah porcaria, gosto sim! — ronrono.
Ele percorre meu corpo com a boca e quando ele para no meio das
minhas pernas, mal controlo as batidas do meu coração.
— Você é...
Sinto uma lambida.
Mas não onde quero.
Por que Cena está lambendo meu rosto?
Abro um olho, deparando-me com Al Capone, que continua passando a
língua em minha bochecha, tentando me acordar.
AH NÃO, DE NOVO NÃO!
Por que eu sempre acordo na melhor parte?
Espreguiço-me revoltada, levantando da poltrona e percebendo que tirei
um cochilo em plena tarde, algo que nunca fiz. Mas, logo me lembro do
motivo para eu me sentir toda quebrada. Lane. Lane fodendo até a minha
alma, que só implorou por mais! O homem é um verdadeiro achado, eu tenho
que admitir e graças a Deus, eu aceitei o seu acordo.
Aquela foda.
Minhas amigas, aquela foda...
Se eu tiver uma dose dela diariamente, podem ter certeza de que se
virem alguém sorrindo sem parar, serei eu, a Betsy bem fodida O’Connell.
Deus abençoe a América!
E o Texas!
Não sou uma mulher bem-humorada depois de acordar, mesmo que de
um cochilo, no entanto, após Lane me levar à loucura, sinto uma paz
incomum se apoderar de mim.
Nada vai me abalar hoje — é o bom presságio que tenho.
Eu transei para valer ontem à noite.
Conseguirei caminhar normalmente hoje.
E que uma entidade divina me permita esse prazer novamente na vida.
Recito meu mantra rotineiro depois de uma foda excelente.
Ou no caso de Lane, no mínimo espetacular.
Sorrio abertamente, olhando para a janela da sala, lembrando de todos
os momentos. Aposto que minha pele está reluzindo.
Precisei voltar logo de manhã para casa para gravar algumas coisas e
produzir conteúdo, assim como receber o que comprei da última vez, quando
acordei, Lane já não estava mais na cama, mas isso não importou em nada.
Logo que as coisas chegam, sinto o coração apertado pelo que faço,
mas nem abro os embrulhos e imediatamente coloco em uma mala, para
doação.
Começo a me sentir mal, mas, ignoro a sensação.
Tento retornar meus pensamentos à foda casual da última noite, para
esquecer das compras, da vontade que tenho de abrir sites de promoção, e
afins. Não há nada melhor do que evitar a maçã comendo a cobra.
Então, vamos aos fatos:
Consegui mais do que queria. Muito mais. Coitados dos meus últimos
parceiros sexuais. Se eles atingissem essa nota de compreensão na cama, e
arrebentassem com a boca do balão como Lane Kingston, seriam atores
pornôs. De sucesso! Céus — viajo nas minhas lembranças da noite anterior e
se eu fechar os olhos sou capaz de sentir cada toque, tão vívida é a minha
lembrança — chego à conclusão que a melhor coisa que fiz foi aceitar esse
casamento fajuto. Lane pode ser um babaca arrogante, mas tem consideração
e é tão bom no sexo que eu sou capaz de ajoelhar e rezar só para ter aquele
pau de novo em mim. Nada do discursinho de “eu gosto sem camisinha, pra
te sentir baby!”, ou “não vamos nos envolver, tudo bem? Só uma transa
casual”. Primeiro, se você é o homem que não curte proteção, você é um filho
da puta dos maiores! Que se foda e morra sem transar, infeliz. Segundo, se é
do papo de não querer relacionamento antes mesmo de transar, é um burro, e
totalmente imaturo. Acha que nós mulheres saímos desesperadas, dando para
qualquer um, para poder namorar? Faça o favor e seja esperto!
Enfim, mas alguns homens são idiotas e essa verdade não mudará.
Subo até o quarto e preparo tudo para uma live que farei. Assim que
entro ao vivo, ainda estou sorrindo como uma estúpida com os
acontecimentos sexuais da noite passada.
Chovem comentários perguntando se estou enlouquecendo.
Tenho vontade de gritar que sim, estou apaixonada pelo pau de um
homem.
E ele é lindo sabe?
Existem paus bonitos que simplesmente despertam aquela vontade
maluca de provar, as mulheres saberão a que me refiro. Aqueles longos, com
a mesma largura ao longo da sua extensão — não os finos, pelo amor, os
finos parecem palito de picolé — com as veias saltadas nos pontos certos, a
cabeça parecendo um cogumelo rosado. Nossa, salivo ao me lembrar. E o
membro do Lane é um desses, tenho que admitir. Por isso ele tem aquele ego
imenso e a pose de inatingível. Se eu fosse homem e tivesse um pau daquele,
com aquela habilidade na hora de foder?
Minha amiga, eu seria um nojo!
Somado às veias nos braços dele? Que parecem tecer seu próprio
caminho, largas, poderosas, sobressalentes? Tenho que comprimir minhas
pernas, para conter o calor que ganha vida no meio delas com a memória.
Leio uma das perguntas. Penso em como respondê-la.
Betsy, sua irmã voltou com Craig Monroe e é uma das pessoas mais
pesquisadas nos últimos tempos. E você, está ficando com alguém? Amigo
desse jogador quente, talvez? Vamos, nos conte tudo!

Outra toma a tela:


Sobre Pharrell e suas colunas, o que tem a dizer?

Pharrell é a lenda da fofoca nos Estados Unidos da América. Se existe


uma Oprah fofoqueira, essa Oprah se chama Pharrell. Ele sabe de tudo e de
todos, e não tem medo de contar ao mundo os segredos que descobre. Ajudei-
o em alguns pontos sobre meu cunhado, mas não me orgulho, claro. É só que
Monroe bem... ele fez por merecer a trapaça. Eu até poderia me arrepender,
mas como dizem as más-línguas e os homens santos injustiçados que
passaram pela minha vida — sinta a ironia — eu não tenho coração.
Respondo que ele é um maravilhoso, que sabe prender nossa atenção
com piadas, comentários e apelidos sensualmente marcantes sobre jogadores,
que usamos para descrever os homens para as amigas depois. Inclusive, vi
um comentário uma vez em que a menina comenta que o pau da última transa
era destruidor a la Kalel Haucke. Sim, Stephen Pharrell criou uma tendência
que é para poucas pessoas. Um verdadeiro legado de apelidos interessantes.
Sinceramente, ele sabe muito bem exaltar homens bonitos.
Porque Kalel e seu amigo Aidan, são dois pedaços de mau caminho que
levam direto para o inferno. Tenho a ligeira sensação que metade das
mulheres norte americanas assistem hóquei e beisebol apenas para ver os dois
jogando e claro, o terceiro, Craig Monroe, com seus músculos potentes
trucidando cada time de futebol americano que enfrenta o Miami Green
Dolphins. Juntos, eles formam o KAC, o trio mais insano e gostoso de
amigos atletas. Vai por mim, rolam até boatos entre a comunidade feminina
em comentários de matérias e blogs, que eles promoviam orgias em que
sortudas acabavam experimentando os três. Eu queria no mínimo dois, já que
agora sinto é nojo de imaginar Monroe comigo. Ele é da minha irmã e se ela
está feliz com ele, o homem definitivamente virou mulher aos meus olhos.
— Bom, gente, agora vamos à maquiagem para alguma festa incrível,
para a qual vocês não sabem como se maquiar, certo?
Arrumo meus produtos na penteadeira e não me assusto quando a porta
é aberta.
— Já começou? — Madison entra esbaforida no quarto.
Os comentários sobre a sua situação não demoram a aparecer. Uma
inclusive comenta que se estivesse namorando um quarterback estaria bem
pior.
Sinto-me em um programa, onde a personagem convidada aparece e a
plateia gargalha ao fundo. Devem saber o que quero dizer.
— Quer ser minha cobaia de novo?
Minha irmã abre um sorriso gigantesco. E é sério, oficial, uma foda
magistral rejuvenesce. Porque Maddie está longe de parecer a mulher de
trinta e dois anos, que se veste com as roupas mais coloridas possíveis. Sua
pele brilha, seu humor é contagiante e eu fico mais do que feliz em ouvir a
gargalhada que fazia anos não ouvia. Ela é o tipo de pessoa sensata, madura,
que se dá bem com todo mundo e que faz o planeta parecer um lugar melhor.
Tenho sorte de ela ser minha irmã.
— Bets... — ela começa a dizer e pressinto que nada de bom virá daí —
você transou noite passada?
Engasgo com a saliva.
O susto é tão grande, que eu começo a soluçar.
Só não fico com as bochechas vermelhas, porque não sinto tanta
vergonha a esse ponto.
— Por que diz isso?
Ela me empurra sutilmente para o lado e acena para a câmera no tripé.
Imediatamente as mulheres que estão acompanhando a transmissão começam
a falar com ela. Madison lê os primeiros comentários em voz alta, os
responde e depois aponta com o dedão para mim.
— Também acham que ela transou, não é? Olha só o cabelo hidratado,
a pele reluzente! Isso sim que é resultado de uma boa noite de... — ela pensa
melhor — sono! Claro que sono — provoca.
— Vem logo, Madison, antes que você narre a minha vida sexual para
todo mundo. Senta aí e fica quietinha enquanto eu faço o milagre surgir!
Ela pisca para mim e se apressa em sentar no puff felpudo e cor de rosa.
— Por favor, não me deixe parecendo um palhaço.
— Por quê?
Outra pessoa entra no quarto e agora sim a coisa está ficando boa,
porque reconheço os músculos inflados e definidos, o sorriso bobo e o cabelo
loiro do meu cunhado. Minha live será o mais absoluto sucesso por culpa
dele.
— Ei, Cerca — é o apelido que ele deu para a minha irmã, por ela ser
bem baixinha — o que tá acontecendo aqui? A gente não ia pro clube do
livro?
— A Betsy vai me maquiar para as garotas que seguem o blog dela —
diz despreocupada.
Ele pelo contrário, semicerra as pálpebras e percebe o perigo no qual se
colocou. O monstro que há em meu interior ruge com uma ideia fabulosa.
— Monroe, o que acha de eu te maquiar também?
Uma careta impagável toma conta do seu rosto. Já disse que os
comentários se tornaram frenéticos quando minha irmã entrou no quarto?
Pois eles não chegam nem perto de como todas se exaltam com a presença do
jogador da NFL.
— Não tô gostando do jeito que tá me olhando! — profere receoso.
No mesmo momento ele tenta me ignorar e pega o celular no bolso para
ouvir alguma mensagem. Seu maior erro é deixar o volume do celular alto,
porque foi um dos seus amigos que enviou.
“EII SEU PUTO! Onde foi que comprou a cama giratória? Aposto que
as coisas aqui em casa ficarão mais apimentadas que pimenta mexicana se
eu garantir uma dessas também!”
Madison controla a gargalhada.
Eu nem me dou ao trabalho.
Craig olha da minha tela do computador para o celular, sem saber como
explicar para Kalel que ele acabou de dizer detalhes sexuais ao vivo, para
milhares de pessoas. Eu não queria estar na pele do jogador de hóquei agora.
“KAL, então cara... sabe o que acontece?” — ele grava uma
mensagem de áudio.
“Fala logo, porra!”
“Você acabou de brindar as expectadoras da Betsy com um áudio
picante da sua vida com a Linds.”
“AH PUTA QUE PARIU! Agora que eu morro de verdade quando isso
chegar até a ela.”
“Boa sorte aí, parceiro!”
O monte de músculos parado como se estivesse fora de lugar no meu
quarto gargalha. Ele não esconde que ama quando os amigos se ferram.
Meu olhar o percorre maliciosamente. Não no sentido que estão
imaginando, mas totalmente voltados às minhas ideias diabólicas.
— Senta aqui, Craig! Para eu te maquiar junto com a Maddie!
— Sabe o que é? Acho que eu devo ter outra coisa para fazer. Algo
muito importante. — Apressa-se em sair do quarto.
— O QUE É IMPORTANTE? AINDA TEMOS O CLUBE DO
LIVRO! — grita minha irmã.
— Eu posso ir sozinho, Cerca! Vou fugir antes que seja tarde demais.
Escutamos o barulho da porta da sala se fechando, Al Capone miando
alto porque seu amor platônico não deu atenção para ele e assim que me
coloco na janela, para ver aonde o jogador foi, assisto-o arrancando com o
carro esportivo.
Seu medo deve ser palpável para ele fugir de mim como se estivesse
correndo rumo a um touchdown.
— Que medroso! — exclamo.
— Uma das garotas falou que nossa vida é mais divertida que a daquela
família famosa dos realitys. Acha que devíamos investir em um.
— Elas morreriam de rir com o seu noivo maluco.
— Tem razão — Madison volta sua atenção a mim — e quem foi o
sortudo que dormiu com você e te deixou radiante? Precisa me contar tudo,
ou eu não te deixarei em paz!
É minha vez de ser misteriosa como ela costuma ser.
— É segredo!
Maddie pisca incrédula e abre a boca, em um espanto causado por
estupefação.
— Sua filha da mãe!
— É a vida, você tem o que merece!
E prosseguimos com nossa interação rotineira, uma provocando a outra
enquanto comentários e mais comentários surgem. Respondemos alguns,
optamos por deixar no anonimato outros e quando finalmente finalizo a
maquiagem, nos despedimos das seguidoras com todo o carinho do mundo.
Deixo as coisas como estão, para ficar mais fácil quando eu fizer a
próxima transmissão ao vivo.
Madison se move até minha cama, senta-se e abraça um dos meus ursos
de pelúcia.
Sei que ela vai perguntar alguma coisa, mas para evitar que descubra
com quem estou me envolvendo, pronuncio-me antes.
— Sobre a hipoteca, eu já paguei — falo.
— Como? — ela parece tão surpresa como quando não decidi falar
quem era o dono do pau de ouro capaz de me animar.
— Se abrir meu closet vai perceber.
Ela se levanta em um átimo e faz o que eu digo.
Ouço um suspiro deslumbrado.
— Não acredito que você vendeu a maioria das suas roupas — exclama
minha irmã — elas eram parte da sua vida!
— Quando a água bate, é inevitável não se molhar — falo.
Segundos depois sinto um beijo carinhoso em minha testa, e um abraço
perfeito. Madison conviveu comigo a vida inteira para saber como essa coisa
de compras mexe comigo.
Foram incontáveis dívidas porque eu não conseguia conter meu
impulso e noites em que eu chorei sozinha, porque nada me fazia parar. Só
quem já se perdeu nas próprias vontades é capaz de entender o tamanho do
buraco em que eu estava. É meio que uma volta por cima eu ter tomado esta
decisão e por mais que eu saiba que seu apoio é incondicional, não me sentia
à vontade sempre tendo que recorrer a ela.
Será que é muito tarde para mudar?
Ou nunca é tarde o bastante?
— Estou muito orgulhosa de você, Betsy. É a mulher mais incrível que
eu conheço e me sinto honrada em poder ser sua irmã e amiga.
É por esses e outros motivos que sou afortunada.

— O que achou? — pergunto à Madison enquanto caminhamos pela


Ocean Drive, rumo a um bar para podermos conversar e tomar uma bebida.
— Sou uma nova mulher. Você manda bem demais na maquiagem!
Ela deve se sentir mal por não estar conversando tanto comigo nos
últimos dias. Não a culpo. Madison merece viver para si mesma depois de
tanto sofrer.
— De nada.
— E conseguiu arrecadar bastante dinheiro e patrocínio na live?
Não o bastante para ajudar a Anjos sem asas, mas tudo bem. Qualquer
coisa é melhor que nada. Deixei bem claro no início que todo o dinheiro
arrecadado iria ajudar os moradores de rua, no programa do qual faço parte.
— Não tanto quanto precisamos.
— Pode deixar que vou pedir para o Craig e os meninos anunciarem
nas redes sociais deles. A Lindsay também pode ajudar. Estávamos
conversando na semana passada sobre isso e ela é um amor. Consigo
entender por que Kalel se apaixonou, os dois formam um casal muito
sintonizado. Certeza que a quantidade de arrecadação mais do que dobrará.
As pessoas não ajudam tanto porque não conhecem sabe? Depois de conhecer
pode ser diferente. Falando nisso, podemos ir até lá ajudar também.
— Ajuda sempre é preciso — murmuro.
Penso em Lane e como devia ter colocado suas doações como uma
condição para aceitar fazer parte da farsa. Espero que ele ajude mesmo assim.
Se eu pedir com jeitinho, ele não teria como negar, teria?
— Perfeito então.
— Maddie... — começo a dizer, porque sei que é preciso. Uma hora a
bomba vai estourar e ela ficará muito magoada se não descobrir por mim —
Acha que eu irei me casar um dia? — pergunto algo mais tranquilo, para
chegar ao assunto que quero abordar.
— Você? — ela sorri — sem dúvidas que... — faz suspense — sim.
Finge ser cega para o amor, mas eu sei a verdade, Bets. Quando Fred te
machucou você se tornou outra pessoa, uma que não dá abertura aos outros
para não ser ferida de novo. Te vi terminar com homens só para eles não
terem o poder de te magoar. Sempre quis ser mais como você. Capaz de
manter sentimentos separados de sexo. Só que eu acho que toda essa coisa te
fez mal. Sua compulsão se tornou pior e só conseguiu controlá-la quando
encontrou esse grupo que ajuda as pessoas. Pensa que eu nunca a vi enviando
roupas para as suas seguidoras, só para elas se sentirem bem com o próprio
corpo? Quando eu dizia para frear seu consumismo, era para seu próprio
bem, porque percebi o quanto usou dele para se esconder do que realmente
importa. As cicatrizes são profundas, irmã, mas não significa que não pode
tomá-las como aviso do que não quer para sua vida. Pare de maquiá-las e se
permita viver.
— É fácil falar depois de encontrar aquele quarterback — brinco.
— Sabe tão bem quanto eu que nada foi fácil. Eu estava temerosa como
você está agora e não sei quem é que está provocando essa mudança nos seus
pensamentos, mas o fato é que antes, nem pensava em me perguntar algo
assim. Tomara que tudo dê certo e se ele fizer algo que a magoe, irá conhecer
meu pior lado, porque ninguém mexe com a minha irmã sem levar uns
sopapos da super Madison!
— Sou grande o bastante para lidar com meus próprios problemas.
— Eu também e quando Monroe me machucou você o ameaçou.
— É minha irmã, claro que eu fiquei puta com ele.
— Digo o mesmo.
— Obrigada.
— Agora mexa essa sua bunda logo e vamos tomar uns drinques antes
que Craig apareça com alguma roupa para o nosso cachorro. É só o que ele
tem feito nos últimos dias.
Casado. Quando eu me imaginaria casado?!

Alguns dias depois.

Parabéns, agora vocês são oficialmente marido e mulher!


A frase não para de ecoar em minha cabeça, enquanto eu revejo
diversos documentos no escritório, relembrando os momentos de quando eu e
Betsy nos casamos há cinco dias. Foi de fato uma manhã maluca. Betsy não
sorriu, ela manteve seu semblante calmo, como se fosse apenas mais um dia
comum, admirando suas unhas vermelhas, enquanto assinávamos aquela
sentença. Parecia que nenhum de nós queria estar fazendo aquilo. Foi um
tanto esquisito. Senti alívio ao mesmo tempo em que o desespero amargou a
boca do meu estômago.
Não foi nada espetacular, nem repleto de romantismo, porque no fundo
sabíamos que dali um ano, essa coisa toda se dissolverá como pó em água.
E esse foi um dos motivos pelo qual decidimos cortar logo o mal pela
raiz e casar de uma vez, sem enrolação.
Como ela mesma disse: “vamos arrancar logo esse band-aid,
Kingston.”
Ela não era a mulher mais feliz do mundo.
Eu muito menos o homem.
Digamos que os advogados fazendo pressão para que ela assinasse o
acordo pré-nupcial também não tenha sido cortês. Fiquei estarrecido com eles
por terem a pressionado tanto, porque eu sabia que Betsy assinaria de
qualquer forma.

— Comprou só a aliança? — inquere ela.


Deslizo o objeto circular ao longo de seu dedo anelar e é perceptível
que ele não está ajustado. Betsy faz uma careta e eu não sei o motivo para
me sentir mal, mas me sinto.
— Precisava de algo mais?
— Lane, você é tão rico que daria para limpar a sua bunda com
dinheiro — inclina-se na minha direção para que apenas eu ouça o que ela
tem a dizer — acha que as pessoas irão acreditar se eu não tiver no mínimo
um anel de noivado, para compactuar com esse casamento absurdo? — seu
tom começa baixo e aos poucos torna-se um sibilo de irritação.
Entendo onde ela quer chegar.
E concordo, infelizmente.

Não comprei um anel de noivado e ela realmente tem razão, faz parte
da tradição um anel de noivado deslumbrante para a noiva. Contudo, não
estou tão contente com ele e sinto que Betsy não gostará tanto assim. É um
anel genérico, que comprei em uma joalheria em um momento de
tranquilidade no escritório. A peça não foi nada barata, porém, ela não me
parece o tipo de mulher que gosta de ostentar uma joia gigante no dedo, tão
pesada que não conseguirá ao menos levantar o anelar.
O grande problema é que ela precisa de um anel de noivado à altura da
minha posição, ou todos ficarão desconfiados quando anunciarmos que
estamos casados.
Como diabos Lane se casou, sem um noivado e um anel enorme?
É, seria um prato cheio para as fofocas e eu odeio com todas as forças
do meu ser me tornar alvo de fofocas.
Esfrego a mão na nuca ao olhar para a caixa preta em cima da minha
mesa e me lembrar do momento estranho o qual passei enquanto escolhia.
Sabe quando você simplesmente sente que não é o certo a fazer? Pois foi
exatamente isso que aconteceu comigo.

— Senhor, é uma honra tê-lo aqui. O que procura?


O joalheiro em pessoa me atende. Olho para ele, sem saber o que
dizer. Preciso de um anel para minha noiva de mentira, sem ter qualquer
noção do gosto dela. Parece ruim demais.
Por que diabos estou fazendo isso mesmo?
— Algo que as mulheres gostem.
Ele sorri, como se soubesse que não tenho ideia nenhuma do que as
mulheres gostam — em questão de diamantes e joias.
— Geralmente adoram pedras grandes e valiosas. A não ser que tenha
uma peça rara não lapidada em mãos e ela goste de algo mais delicado,
repleto de significado.
Sei bem que Betsy é a última opção, mas não quero dar a entender
outra coisa. Seria como criar esperança em um peixe de que ele voltaria ao
mar, quando já está no tanque de um restaurante.
— Pode ser o imenso que falou.
Ele arqueia as sobrancelhas, achando graça da minha falta de tato. As
vendedoras me olham de um jeito estranho e me sinto muito fora de lugar.
Por que não pedi para Serena fazer esse trabalho para mim?
Claro que sei o motivo, só não quero admitir por ora.
É como se eu precisasse da aprovação de Betsy por algo que eu mesmo
escolhi. Merda, não estou me saindo bem nesta tarefa. Caminho olhando
para as vitrines repletas de joias e vejo um conjunto de colar, brinco e
pulseira, com um pingente bem sutil representando ondas do mar.
— Quero esse conjunto também.
— Claro. — O homem desta vez aprova — Excelente escolha.
— Tomara que ela goste.
Resultado dessa baboseira toda é eu olhando duvidoso para a caixa com
o anel, após ter guardado o conjunto no cofre do escritório. Não sei quando
darei a Betsy. Ainda estou pensando sobre o assunto.
Faz quase cinco dias que eu não a vejo, desde o nosso casamento para
ser mais exato. Mal tenho tempo para respirar. Descansando entre uma
viagem e outra, sem dormir várias horas seguidas durante esses dias. Estou
exausto. E minha mãe ainda me quer casado com no mínimo cinco filhos.
Não sei o que ela tem na cabeça. Vovó então, prefiro nem lembrar. À noite,
terei um coquetel para ir, e pedi para minha secretária comprar um vestido
com as mesmas medidas daquelas roupas que vimos no site. O vestido é
lindo. E ficará esplendoroso em Betsy. Penso que ele combinaria com o
conjunto, mas não estou tão certo se é o momento certo para entregá-lo. O
anel de noivado eu colocarei em seu dedo quando estivermos voltando e se eu
tiver sorte, apenas um pouco, podemos repetir a noite quente na piscina. Nada
me parece mais animador.
Já que estou no inferno, por que não aceitar a mão que me puxa para
baixo?
Se existe mesmo um diabo, ele tem cabelo loiro. Sem dúvida.
— Olá, Kingston. — A porta se abre e faço uma careta ao ver quem é.
Hilary.
Céus, ela não desiste?
Sinto meu estômago se revirar com o semblante que se apodera de seu
rosto ao olhar para a caixa preta indicativa em cima da mesa. Eu poderia tê-la
escondido rapidamente, no entanto, não tenho nada a temer.
— Não sei como a deixaram entrar, já falei que sua entrada é proibida.
Minha secretária aparece na porta aberta desesperada, já pronta para se
desculpar. Conheço Hilary, e não teria ninguém capaz de impedi-la de
infernizar minha vida.
— Eu tentei impedi-la, senhor — ergo a mão liberando Serena,
deixando claro que ela não teve culpa alguma.
Quem está perturbando a paz não é ela.
— Descobri que levará uma acompanhante ao coquetel mais tarde. Meu
pai saberá disso. — Ameaça como se fosse capaz de me aterrorizar em algo.
— Nosso rompimento é recente e você ainda levará uma vadia a um evento
como esse? Qual a porcentagem de vergonha na cara que possui, Lane
Kingston? — profere meu nome com nojo.
Controlo a vontade de sorrir.
— Deixe que saiba. Conversei com ele na semana passada sobre o que
você pensava do nosso relacionamento. Ele não se opôs aos meus motivos.
— Ela se esquece que está conversando com um homem, não com um
moleque.
Por que eu postergaria conversas esclarecedoras? Não tenho tempo para
me envolver em brigas familiares estúpidas.
Hilary trinca os dentes, cerrando a mandíbula em ódio. Sei que não
estou sendo nada condescendente com ela, porém, não posso passar as mãos
na sua cabeça e dizer que está tudo bem. Ela foi mimada o bastante para se
tornar insuportável e até mesmo seu próprio pai sabe disso.
— Não acredito! — rebate.
— Ligue para ele — provoco — dirá o mesmo que estou falando agora.
— Por que está fazendo isso?
Ela vacila na sua determinação. Eu mantenho a minha. Não sei mais o
que fazer para que ela entenda de uma vez por todas que nunca existiu Lane e
Hilary. Que nosso relacionamento feliz aconteceu apenas em seu mundo
encantado. E eu nunca a enganei quanto a isto.
— Eu não estou fazendo nada — e é verdade — só não entendo o
motivo para ficar atrás de mim, como está fazendo. Não tenho paciência
muito menos tempo, como eu te disse. Preciso de alguém que entenda esses
pontos e que respeite a minha rotina. Como podemos ver, você claramente
não é assim.
Suas mãos se fecham em punhos ao lado do corpo.
— E se eu dissesse que estou grávida?
Não seria a primeira nem a última a falar isso para mim, penso.
— Não somos mais crianças, certo? Por favor, pare antes que se sinta
pior depois que tudo passar.
Ela nota que mentiras não me convencerão. Irrita-se com essa
percepção e profere:
— Vai pagar muito caro por me tratar assim, Lane. E estou falando
sério — ameaça e sai a passos decididos do meu escritório.
Serena retorna à minha sala e me olha como se eu fosse um santo por
aturar uma mulher como Hilary. O fato é que ela inventou tantas mentiras
sobre a gente, dando entrevistas para colunas de fofocas, afirmando que nos
casaríamos em breve em um casamento suntuoso em uma ilha paradisíaca, no
entanto, que apenas nossa família seria convidada, que eu simplesmente me
fiz a pergunta: por que uma foda precisa dar tanto trabalho?
Desisti aos poucos e bastou dois meses para que eu estivesse exausto
mentalmente apenas ao ouvir o nome dela.
— Um de seus primos está na linha, esperando pelo senhor — Serena
indica o telefone.
Mais essa.
Dependendo de quem for, eu passo a chance.
Amo meus primos, de verdade, mas alguns me irritam mais do que
estou disposto após Hilary.
— Qual deles?
— Damon.
O sumido.
O que nunca aparece nas reuniões familiares. Que ligou o foda-se para
a humanidade e segue em seu isolamento auto imposto. A mulher dele
faleceu em um acidente de carro há dois anos depois de apenas um ano de
casados e grávida de três meses. Foi um choque e o deixou abalado ao
extremo. Todos entendemos quando decidiu sumir para curar suas feridas,
porém, não deixamos de nos preocupar.
— Esse infeliz só aparece quando as coisas estão caóticas. Se não
formos atrás, ele não dá sinal de vida nunca.
— Foi esse que se isolou em Montana depois... — Serena fica reticente
a dizer isso em voz alta — de tudo?
— Esse mesmo. Pense em um filho da mãe teimoso, que acha que não
deve dar trabalho a ninguém? Vovó sempre fica maluca quando ele
desaparece, se tivesse um pouco mais de compaixão, não faria isso com a
pobre senhora.
Minha secretária conota que “pobre senhora” não é o melhor para
definir minha avó. Tenho que concordar com ela.
— Pelo menos ele está na linha. Se não precisa de mais nada, com
licença senhor — diz e sai da sala, fechando a porta.
Estou novamente na paz do meu território. Puxo o telefone do gancho e
não demora para que um homem extremamente impaciente, — mais do que
eu — quebre o silêncio. Pelo visto, ele está furioso por eu interromper a sua
meditação e tê-lo feito ligar para mim.
— O que está acontecendo dessa vez? Mamãe me ligou dizendo que
tem alguém atrás da titia. Quem é o idiota? E devemos nos preocupar? Sei
que nossa família tem muitos inimigos, mas nenhum antes tentou alguma
coisa. O que pensa sobre?
Suspiro profundamente. Apoio meus calcanhares na mesa e contemplo
um dos quadros abstratos. É uma vaca conversando com um cachorro, ou
coisa parecida?
Não faz sentido nenhum para mim, ainda nem sei por que o comprei.
Segundo Hayden, obras de arte podem se tornar valiosas, principalmente a de
um artista em ascensão como aquele. Claro, foi por isso. Tudo que envolve
lucro ganha minha atenção.
— Ainda não sabemos ao certo. Aumentei a segurança dela, mas
precisamos esperar. Vovô me disse que é só um otário qualquer pensando que
pode nos atingir. Sabe como ele é.
— Um velho que acha ser dono do mundo.
— Senão de todo ele, pelo menos metade.
Fico feliz quando Damon gargalha. Ele quase não fez isso nos últimos
dois anos. Era o mais alegre da família, o primo que sempre brincava ou
contava piadas que todo mundo ria. Depois da carga dura de vida que teve,
entendíamos que ele não era mais capaz disso. O que você vivencia, muda a
sua forma de ser. Ou você aprende com a dor, ou ela te destrói. Ele aprendeu
ao mesmo tempo em que saiu destruído.
— Preciso voltar para Dallas?
— Você que sabe. Não acho que seja necessária essa comoção por
causa disso. Mas, está se lembrando do aniversário da vovó certo? Ela ficaria
chateada se não fosse. Gosta de todos os netos juntos, para poder dar golpes
com a bengala neles.
— Nem me fale, da última vez voltei mancando para casa. Só que
aquela época está chegando e sabe o quanto tudo é difícil para mim.
Realmente não sei se sou capaz de disfarçar felicidade nesse dia para ela.
— Farei um anúncio, vai perder se ficar enterrado na sua caverna
masculina.
— Que tipo de anúncio? Por acaso vai se casar? — pergunta divertido
— para com essas piadas, Lane, você nunca foi o mais divertido da família.
Nem sei por que ainda te escuto.
Ele acertou mesmo debochando.
E é só um indicativo de como todos irão reagir quando eu apresentar
Betsy como minha esposa. Exceto mamãe e vovó, claro, porque a culpa é
toda delas que eu me vi nessa enrascada sem saída.
Ou seria melhor eu a apresentar como minha noiva primeiro e somente
depois dizer que já estamos casados?
Prefiro não me martirizar antecipadamente, deixando para decidir
quando não puder mais escapar.
— Acertou em cheio — minto, pois já estou amarrado, mas não posso
revelar demais.
A ligação fica silenciosa por segundos. Ouço o tiquetaquear dos
relógios com o horário das principais capitais do mundo em uma das paredes.
— Estou esperando você dizer que é brincadeira.
— Não é.
— Aniversário da vovó e seu noivado em um só pacote? É, talvez isso
seja capaz de me fazer mover minha bunda até o Texas. Acho que esse
alinhamento dos astros não vai acontecer novamente em no mínimo uns cem
anos!
— Otário.
— Sempre fui.
— Posso confirmar sua presença para os demais integrantes do clã? Ou
ainda é incerta mesmo depois da bomba que eu lancei?
— Não perderia por nada no mundo a oportunidade de ver o espanto na
cara de todos quando souberem! Mande um beijo para a vovó e para a titia
por mim quando for avisar que o mais bonito comparecerá.
Damon encerra a ligação e eu tenho o sentimento de dever cumprido.
Se ele aparecerá, não será complicado convencer o restante, posso usar ele
como exemplo. Pesquiso sobre o cruzeiro no qual minha prima trabalha e
vejo que ele irá atracar em terra firme logo, então ela não terá desculpa.
Aposto que deve estar pensando em uma. Já entrei em contato com o meu
irmão despreocupado no Havaí, ele pegará um voo em breve. Faltam alguns,
mas tenho certeza de que minhas tias e minha mãe já estão entrando em
contato.
Agora, o foco é preparar Betsy para conhecer minha família.
Ela tomará um susto com vovó.
Achará vovô o homem das piadas mais idiotas possíveis.
Se não ficar com medo da minha mãe, ela não estará cumprindo a
função de sogra com maestria.
E por acaso, se acabar divertindo-se com meus primos, eles não serão
Kingston afinal.
Estou com medo de que ela não se sinta bem, porque então a farsa não
poderá seguir em frente. É fundamental que eles se deem bem. E que... a
gente convença quem precisa de convencimento.
— Serena — falo após digitar seu ramal — por favor, pode enviar o
vestido para minha casa?
Sei que Betsy entenderá o que deve fazer. Não é necessário um bilhete
explicando.
— Sim, senhor.
— Obrigado.
Fito meu reflexo no espelho, com meu traje Black Tie de alta costura,
satisfeito em como ele ficou bem em mim. Procuro não pensar em como
Betsy deve estar, se o vestido serviu com perfeição, ou se ele não fez jus às
curvas de matar daquela mulher. Admiro as luzes refletindo-se no mar
ondulante. Abro os diversos e-mails que ainda não tive tempo de ler e saio do
quarto, rumando para a sala de estar. Sento-me no sofá e a aguardo enquanto
afago Fluffy, tentando conciliar a atenção aos dois gatos que disputam cada
um seu lugar ao meu lado.
Minha atenção está presa ao aparelho em minhas mãos e tento mantê-la
quando escuto o som dos sapatos de salto. Sinto que quando eu levantar a
cabeça e fitá-la, perderei uma das centenas de batidas que se irradiam pelo
meu peito.
Mas, eu erro.
Erro feio.
Porque não perco apenas uma, mas uma sequência delas assim que
meus olhos pousam em Betsy.
Percorro o olhar ao longo do vestido preto, com uma fenda no lado
direito que sobe indecente até quase seu quadril. Não sei o que ela está
usando por baixo e a noção de que pode estar sem nada, encaminha lava
incandescente pelas minhas veias. Como se não bastasse a abertura, o decote
desce aberto até o umbigo, deixando o côncavo dos seus seios em evidência e
espalhando uma vontade insana em mim de ficar com ela em casa e não
deixar que mais ninguém a veja assim.
O que está esperando, Kingston? Vá até ela!
Permaneço congelado no sofá. Não há qualquer possibilidade de eu
disfarçar que amo o que vejo.
Cada curva sua, se torna gritante, moldando o tecido preto e brilhante
nas partes certas. Penso que o colar ficaria lindo em seu pescoço delgado,
todavia, não consigo dizer nada, não sou capaz de me mover. O celular em
minhas mãos é esquecido totalmente. Nem lembro o que estava fazendo antes
de admirá-la. Betsy coloca uma mecha de cabelo atrás da orelha. Minha boca
se entreabre. O ar se extingue à minha volta.
Ela é perfeita, mais do que a vista que tenho da sala.
Será uma longa noite.
Longa demais com todos os homens babando como buldogues em cima
dela.
— O que acha? — Nota que estou afetado demais para falar.
Tento encontrar as palavras certas.
Não há nenhuma.
Porque qualquer coisa que eu disser ainda não chegará aos pés dela.
— Está... — pisco diversas vezes e sacudo a cabeça para tentar
abandonar seu feitiço — incrível — assumo por fim.
Betsy é uma sereia completa. Com voz doce, corpo sensual e atitudes
enlouquecedoras. Se tal criatura existisse, seria ela sem dúvida. Até os gatos
saem de perto de mim, para se esfregarem em suas pernas e me esforço para
segurar Fluffy, senão ele babará em todo o seu vestido. Sinto meus punhos
umedecerem, mas pouco me importo.
É o pecado no corpo de uma mulher.
O verdadeiro veneno que pode me dominar em segundos sem um
antídoto em vista.
— Por que parece que perdeu a capacidade de falar?
Percebo que ela gira em seus próprios pés para apreciar a obra-prima
que é. Aposto que Deus jogou fora o molde em que a fez, para não existir
mulher tão linda quanto ela.
— Só estou... deslumbrado, apenas isso — admito.
Ela abre um sorriso de fazer o trânsito frenético de Miami parar.
— Pensei que nunca fosse admitir.
— Sou estúpido, mas até alcançar o patamar de idiota há um grande
caminho. — Levanto-me finalmente e caminho até ela.
Minhas mãos contornam a sua cintura e eu me aproximo, diminuindo o
ar que corre entre nossos corpos. Inclino-me para sussurrar.
— O que acha de nos atrasarmos um pouco?
— Você fala a minha língua, Lane.

Estamos atrasados. Em quase uma hora. E daí? Betsy ostenta um


sorriso satisfeito no rosto e eu estou prestes a estourar garrafas de champanhe
tamanha a minha disposição de suportar esses eventos do qual fujo sempre
que posso. A noite de hoje nem parece tão ruim, na verdade.
Entrego a chave do meu carro para o manobrista e minha mão vai até a
cintura de Betsy enquanto subimos a escadaria da mansão em que está
acontecendo o coquetel. Há fotógrafos fazendo a cobertura e somos
obrigados a parar para registrar o momento. Deixo absolutamente claro que
não devem publicar nossas fotos quando comentarem sobre o evento. Não há
contestações por parte deles. Minha palavra é imperativa e ninguém se
arriscaria a me irritar.
Não quero que as coisas estourem antes que o clã fique sabendo. Assim
como tenho noção de que Betsy não quer seus pais chateados por não terem
descoberto por ela. A essa altura, chegamos ao consenso que realmente eles
precisam saber. Sinto-me ligeiramente mal por tê-la colocado nesta situação.
Admito que meus sentimentos são um misto de arrependimento e certeza de
que ela foi a escolha certa. Não há qualquer coerência neles.
— Preparada para o show, querida? — pergunto, tirando minha mão da
sua cintura, estendendo o braço para que ela passe o seu através dele.
— Não colocaria esse vestido se não estivesse.
Sua resposta me deixa orgulhoso.
Acessamos o salão, com todos os holofotes se voltando a nós. Todas as
pessoas, absolutamente todas, param o que estão fazendo para nos fitar. Fico
admirado ao notar que Betsy não aparenta medo em momento algum. A sua
postura é tão firme quanto a minha, digna de uma Kingston.
— Não vacile. Não deixe que ninguém te ofenda. Responda na mesma
moeda e se preciso for, eu administro os danos depois. Sei que é forte,
determinada, não estaria aqui se não fosse. Por isso, Betsy, cumpra seu papel
com maestria e deixe todos de boca aberta, como me deixou.
Quero que ela entenda que não deve deixar ninguém pisar nela por ser
de um círculo social diferente do deles. É minha mulher. E todos sabem que
não se deve brincar com as pessoas as quais me importo. Se alguém não
souber, descobrirá ao tentar nos atingir. Fito cada olhar estupefato lançado na
nossa direção, com altivez e elegância. De esguelha, vejo Betsy fazer o
mesmo.
Estamos no topo do mundo e ninguém nos tirará daqui.
— Se nem você é capaz de me subjugar, acha mesmo que mais alguém
será?
Que orgulho do cacete!
— Jamais.
— Se quiser conversar com o alto escalão, fique à vontade, acho que
vou ficar em um canto, bebendo. Que tipo de bebida servem nessas ocasiões?
— Ela finge olhar em volta, sem desprender o braço do meu — E cadê o
presidente, Lane? Pensei que ele fosse estar aqui socializando — debocha.
Um sorriso largo se estende no meu rosto. A vontade que tenho é de ir
embora imediatamente e aproveitar mais um pouco do seu corpo, chupar cada
canto, me afundar até as bolas e...
Recupero meus pensamentos coerentes.
Que merda de desejo é esse que não me abandona?
— Dom Pérignon — respondo após engolir em seco.
— Jura? — ela fica espantada — Nem sei por que me assustei, já
esperava que fosse algo assim. Se perceber que estou bebendo demais, por
favor, me socorra. Tendo a ter a língua solta demais quando passo da conta.
— Todo mundo — ressalto.
— Sim, mas nem todos são tão sem filtro quanto eu. Com as faculdades
mentais alteradas pelo álcool, espere passar muita vergonha.
Sinto um olhar queimar minha pele e relanceio as pessoas que ainda
não se recuperaram do choque de me ver acompanhado, parando em Hilary
que parece disposta a me matar apenas com a força visual. Betsy segue a
direção em que estou olhando e ouço o seu riso baixo.
— Isso será interessante. Aquela não é a mulher com a qual estava
discutindo quando me beijou?
— Sim — sou direto.
— Por que me parece que ela está disposta a armar uma cena e criar
confusão bem aqui, no meio de todo mundo?
— Porque ela provavelmente está.
— Que coisa — profere — acho que é melhor eu beber de verdade.
Pelo menos, quando ela decidir despejar veneno já estarei amortecida.
Não importa o lugar, o importante é perder tanto o sentido a
ponto de não saber onde está.

Não é segredo para ninguém que as coisas azedarão logo. Estou no


canto, como disse que ficaria. Tomo algumas taças de champanhe,
observando a mulher fitar furiosa Lane e acompanhá-lo visualmente a
qualquer lugar que o homem vá, sua mandíbula está travada, os punhos
cerrados e ela não consegue disfarçar o ódio. Ele circula pelo salão e Hilary
praticamente se contorce na cadeira para conseguir ver o que ele está
fazendo. Ela o ama tanto assim a ponto de rastejar, sem que ele nem relanceie
um olhar na sua direção? Penso que Lane é horrível por ter dado sequer
esperança quando não queria nada e que ela precisa de mais amor próprio e
partir para outra, antes que se destrua mais. Soa deprimente, mas não faço
nada além de manter a opinião para mim. Se Madison estivesse aqui, eu
provavelmente diria a ela, mas estou sozinha, em um ambiente hostil e novo,
torcendo para não ter que atacar a jugular de ninguém. Mas, se for necessário,
não pensarei duas vezes antes de o fazer.
— Ninguém esperava que Lane fosse mesmo trazer uma mulher como
acompanhante.
Franzo as sobrancelhas, sem me importar muito com a fala da mulher
parada à minha frente. Ela segura uma taça de champanhe e finjo não notar o
seu olhar especulativo na direção do meu dedo anelar. Estou sem aliança, —
a pedido de Lane, inclusive, que achou melhor evitarmos burburinhos hoje —
mas queria muito estar para mostrar que na verdade, perante a lei, eu e ele
somos um casal oficial. Ela não parece bem. Acho que já passou um
pouquinho do ponto da bebida. Pelo menos não é a que está disposta a fazer
uma cena a qualquer momento.
— No entanto, aqui estou.
— Desculpe se foi ofensivo — noto que ela não se desculpa com tanta
sinceridade — Quer dizer, — chacoalha a cabeça enfaticamente, como se
fosse óbvio o que irá dizer — ele nunca traz ninguém. É bem reservado e
depois de toda a fofoca que Hilary espalhou sobre os dois, todo mundo
pensou que ele fosse de fato se casar com ela. Coitada. Deve estar com o
coração partido.
— Pois é. Que vida de rico difícil essa — debocho.
Ela se espanta, pois imaginou que eu não responderia. Olho por sobre o
seu ombro e vejo Lane contemplando a minha atual situação. Parece
perguntar com os olhos se está tudo bem. Lanço uma piscadela. Ele fica mais
tranquilo e volta a prestar atenção no que o homem que está com ele diz.
Percebo que esse é seu ambiente, ele conversa despreocupado, sem muitos
gestos de mãos, apenas um sorriso aqui e outro ali. As pessoas o respeitam,
não tiram os olhos dele quando começa a falar. É excitante, na verdade. Se eu
tivesse um homem tão poderoso como ele aos meus pés, como eu ficaria?
Provavelmente insuportável. Deve ser magnífico e me faria sentir a mulher
mais perigosa do planeta.
Para comprovar o ponto, alguém oferece um charuto para ele, que o
aceita. Corta a ponta com o objeto que lhe é entregue e não demora muito
para ser a verdadeira imagem de Vito Corleone. Quem é Marlon Brando
comparado a Lane Kingston? Sorrio, ficando excitada com a imagem que
formo em minha cabeça.
Com uma mão no bolso, a outra segurando o charuto e o levando
vagarosamente até a boca, faz-me morder meu lábio. Como se ele sentisse
minha apreciação, seus olhos se deparam com os meus. Desço minha visão
para a bunda e ele percebe. Sorri sacudindo a cabeça e volta sua concentração
ao senhor à sua frente. Mas, noto que ele tenta me observar pela sua visão
periférica.
— Não entendi — profere, piscando exageradamente.
Ainda não sei por que me dou ao trabalho de ser afiada com pessoas
que não entenderão minha fala. Sequer me lembrava que eu tinha dito alguma
coisa, perdida em meus pensamentos indecentes quando ela abre a boca.
— Claro que não — assumo.
Minha ironia ainda me colocará em enrascada.
— Enfim, só vim te avisar para ficar de olho na Hilary. Ela vai fazer
um escândalo, e sabe como as pessoas ricas gostam disso. Parece que vivem
com o objetivo de saírem em revistas de fofoca dia após dia.
Noto que ela não se incluiu na coisa de “pessoas ricas”. Ora, ora.
— Por que não se incluiu?
— Estou aqui só pela bebida. Adoro o bom gosto. Aliás, eu sou
secretária do senhor com quem — ela aponta onde Lane está — seu par está
conversando. Eu o ajudo a não esquecer os nomes das pessoas. Nada de tão
relevante. Pelo menos, posso vir e aproveitar a noite como todos.
Reparando bem nela, não parece tão soberba como as demais. Gosto
disso. Com ela conversando comigo não me sinto tão deslocada nesse mundo
de víboras. Aliás, ela aparenta estar tão aliviada quanto eu por ter me
encontrado.
Um garçom passa pela gente, com a bandeja repleta de taças
borbulhantes e ela vira o conteúdo restante da sua em um único gole,
devolvendo minha taça e a sua à bandeja, pescando duas cheias em
contrapartida.
— Saúde — exclama.
— Que estejamos vivas ao final — ergo a taça em cumprimento.
O primeiro gole é sempre o mais saboroso, com as bolhas estourando
na língua e acariciando as papilas gustativas com um sabor marcante e
inexplicável. Por isso é fácil perder a linha com essas bebidas, elas são doces
e saborosas, fazendo-nos beber uma taça atrás da outra, sem nos darmos
conta da quantidade exata de álcool que consumimos.
Quando ela alça o cristal até a boca, percebo uma pedra enorme em seu
dedo anelar que até então não tinha visto. Acredito que uma colina inteira foi
escavada para encontrar um diamante deste tamanho. É, talvez não tão
soberba. Apenas um pouco. A luz reflete-se no anel e eu acabo fechando um
dos meus olhos, tentando não ser ofuscada pelo brilho. Contenho-me para
não colocar uma mão à frente do rosto. Seria muita sacanagem da minha
parte.
Distraio-me do sol na mão da mulher quando as vozes perto de nós se
fazem ser ouvidas.
Ouço alguns: “vamos para Aspen nas férias? Ah, como eu amo aquele
lugar!”
“Amiga, como assim? Precisamos ir para a Suíça!”
Reviro meus olhos diversas vezes, com o papo sem futuro que algumas
senhoras têm próximas a mim. Os homens estão um pouco longe, mas, não
duvido que eles estejam falando de charutos, bebidas e suas amantes. Elas
correm para viagens, justamente tentando esquecer as traições. Mas, o que
estou falando? Fui traída e nem fiz isso. Deveria. Gastar o dinheiro do filho
da puta parece uma ótima forma de vingança. De preferência aproveitar para
se relacionar com um massagista gostosão desses spas só para mulheres.
Penso que elas não estão erradas, afinal.
A imagem de Fred com mais quatro mulheres, se matando de trepar,
ainda não saiu da minha mente. Tenho que me controlar para não tomar
banho, morrendo de nojo por ele ter me tocado um dia, todas as vezes em que
o vi, por acaso. Ele ainda tenta reatar, como se fosse possível. Fui otária, não
serei de novo. Homem algum me fará passar pelo mesmo sem ter suas bolas
arrancadas.
E já faz malditos anos.
Ele pegou meu coração ingênuo, pisoteou, enquanto me olhava com um
sorriso de canto. Um que eu amava, por sinal. Do tipo de fazer meu coração
bater frenético. Desgraçado. Aperto a taça em minha mão.
“— Eu não sou nada sem você, Betsy.
— Engraçado, porque você se tornou nada para mim. Adeus, Fred.”
E então, eu passei a ser fria. Porque meu interior se tornou gelado. Não
quero um abraço, quero uma foda boa e insana. De sentimentos estou
saturada.
Continuo sorvendo diversos goles e noto um homem parado em frente a
um dos pilares, fitando-me com extrema atenção. Ele me parece familiar.
Semicerro minhas pálpebras na vã tentativa de enxergar melhor. Não
consigo. Talvez seja o álcool deixando minha visão um pouco embaçada.
Outro homem se aproxima dele, para conversar, e noto a semelhança gritante.
Sem dúvida são pai e filho. Acabo perdendo um pouco do equilíbrio e um
braço forte me prende na sua segurança. Não me viro para agradecer, pelo
toque e pelo relógio visível no pulso, sei quem é.
O homem aponta na minha direção, o mais velho. Uma onda gelada
percorre minha espinha. Puxo o punho do paletó de Lane e quando irei
mostrar para ele os dois, percebo que eles já não estão mais lá. Abro a boca
espantada. Para onde foram tão rápido?
Se eu falar sobre eles agora, ele vai achar que estou mais bêbada do que
de fato estou? Sem dúvida.
A taça é retirada suavemente da minha mão. Reconheço os dedos
compridos e elegantes.
— Foi o que me pediu para fazer, não é? — sua voz é tão grossa que
faz meus pelos eriçarem.
Não aparenta irritação, só aquela sua calma característica de: não
importa o que é, lidarei com isso.
— Sim.
— Espero não ter chegado atrasado.
Os olhos da mulher em minha companhia brilham na direção de Lane.
Ele parece um invento de atrair mulheres. Faço uma careta quando a assisto
comprimir as pernas, como se ficasse toda molhada ao vê-lo. Eca! O homem
é meu, será que ela não está vendo? Só meu!
— De forma alguma — respondo Lane, mas, o que penso é direcionado
à mulher que o cobiça.
Ouço um resmungo partir dele e não entendo o motivo.
— Tudo bem?
Ele passa o braço pela minha cintura e me aproxima de seu corpo.
— Teria escolhido algo mais discreto se eu soubesse que todos os
homens presentes a comeriam viva, — ele se inclina para sussurrar em meu
ouvido — e sinto uma vontade insana de fodê-la aqui, bem forte para que
todos vejam o quão bem ficamos juntos. Mas, tenho plena ciência de que isso
me tornaria um homem das cavernas.
— Você é irresistivelmente safado — rebato em tom igualmente baixo.
Percebo que a mulher à minha frente toma goles tentando escutar o que
estamos sussurrando. Soa divertida a sua tentativa de disfarçar, mas está
interessada demais na conversa a ponto de não conseguir.
— Essa é — indico-a e percebo que ainda não falou seu nome, também
não estou tão a fim de apresentá-la.
Desaforada.
— Anastasia. — Ela exalta o nome tentando sensualizar, mas acaba
saindo estranho.
Coloco a mão na boca para cobrir meu riso.
— Eu já a conheço — profere ele e se aproxima para sussurrar —
podemos ir ao terraço? Juro que posso sair batendo em diversas pessoas
como um animal enjaulado solto pela primeira vez, se continuarem olhando
para você a todo momento.
Sigo seu olhar excruciante e noto alguns homens nos observando. Ou
melhor, me observando. Pisco para cada um deles, apenas para provocar
Lane, que aperta a minha cintura com firmeza.
— Se quer um pedaço de mim, tem que valer a pena. Olha só a sua
competição — sussurro.
— Se continuar com essa provocação, juro que não respondo por mim.
Nossa conversa é muito baixa e ninguém além de nós consegue escutar.
Percebo quando Lane escolheu que lado seguir quando sua mão se prende à
minha.
— Até mais, Anastasia — despeço-me pouco antes de ser alçada
escadaria acima, em direção a uma parte aberta da construção.
Noto que ele não demonstrou a mesma cortesia para com a mulher.
Acho que já entendi tudo mesmo sem que ele tenha falado alguma coisa.
Lane não é nada trouxa. Subimos os degraus, com meus saltos sendo
amortecidos pelo carpete com fios dourados. Seguro a barra do vestido para
não tropeçar nela. Seria um show e tanto. Quando chegamos à parte mais
alta, com a privacidade como destaque e a lua brilhando acima de nós,
servindo de iluminação, Lane finalmente sussurra:
— Não fique muito com ela. Anastasia é uma alpinista social. Sabe o
homem com o qual eu estava conversando? — confidencia ele.
— O chefe dela?
— E noivo também. Ela fingiu ter um caso com ele, para que a mulher
os flagrasse juntos. Agora...
— Ela será a mulher. Vi pelo anel gigantesco de noivado no dedo que
tinha algo de errado no discurso dela. — Faço um tsc, desacreditada com a
minha ingenuidade.
— Achou estranho o anel? — pergunta Lane.
Não sei por que estamos falando do anel de repente. O que ele tem a
ver com a gente?
— Acho meio estranho pedras daquele tamanho. Eu prefiro coisas
menores, delicadas e que tenham a ver comigo. Não gosto de chamar atenção,
prefiro que quando eu o olhe, lembre de uma coisa boa, de um momento
espetacular e inesquecível. Coisas assim muito grandes ou caras, servem só
para compensar o que falta lá embaixo em alguns homens — coloco a mão na
boca, para sussurrar — se é que me entende!
Lane não ri como eu esperava. Na verdade, uma careta toma conta do
seu rosto e decido não perguntar o motivo para o seu súbito mau humor.
Deve ter algum motivo. Ou vários deles.
— Acho que entendo sim — murmura.
— Por que me tirou do salão? Poderíamos ter ficado lá, só para afirmar
a nossa farsa.
— Não suporto os homens te comendo com os olhos.
— Está com ciúmes, Kingston?
— Estaria se nosso casamento fosse de verdade. Só não gosto do que os
homens ficam imaginando ao olhar para você.
— Uma noite quente?
— Com direito a punheta no banheiro mais tarde. Aposto que vários
deles farão isso, imaginando como seria deslizar as alças finas por seus
ombros, fazendo com que a seda do seu vestido resvale nas curvas matadoras,
beijando cada parte que se expõe para apreciação — ele faz o que disse e eu
fico arrepiada com os beijos, conforme ele desce ligeiramente a alça.
Ele sabe como torturar uma mulher.
Há algo nele que me faz sentir no topo de um edifício, prestes a pular
em direção ao desconhecido, com a adrenalina abocanhando meu estômago.
— Como sabe que farão isso? — pergunto e Lane arqueia uma das
sobrancelhas.
— Sou homem, Betsy. Se eu te visse assim, — admira-me da cabeça
aos pés — pode ter certeza de que tentaria garantir uma foda, se não
conseguisse, aposto que ficaria com câimbra nos meus dedos.
Dou um soco de leve no seu peito.
— Duvido!
No fundo estou: caramba garota, você sabe o que faz para enlouquecer
esse homem!
— Sabe que é verdade.
— Se está dizendo.
— Podemos ir embora daqui alguns minutos. Já cumpri minha parte
aparecendo no evento.
— É evento para quê? — estamos ali e até agora ele não me disse qual
o motivo do coquetel.
— Para comemorar a fusão de uma empresa canadense ao grupo
Kingston.
O coquetel é em homenagem a... ele? E o bendito chegou atrasado e
não queria comparecer? Esse homem tem façanhas estranhas, que eu nem se
quisesse conseguiria explicar.
— Não gosta de ser o centro das atenções? — indago.
Lane coloca as mãos nos bolsos e fita o jardim da mansão, sem prestar
atenção em nada, apenas tentando evitar meu contato visual.
— O que me incomoda são todas essas pessoas fingindo intimidade,
com segundas intenções, querendo que eu invista em seus negócios, que eu
case com as suas filhas, ou que impulsione as suas empresas. É como se tudo
fosse falso, sem conter nenhum grama de verdade. As risadas, os assuntos
que eles sabem que eu gosto, porque buscam aprovação, ou até mesmo uma
partida de golfe totalmente comercial. Não posso ter hobbies, as pessoas
fingiriam amar tal coisa para se aproximar de mim. Acredito que de tanto
presenciar a mentira, as vezes tenho dificuldade de saber o que é verdadeiro.
— Entendo.
— Você parece verdadeira — conclama ele.
— Fico feliz.
— Agora, o que acha de a gente — Lane se aproxima, seus olhos se
tornando duas fendas baixas — aproveitar que estamos sozinhos, escolher um
lugar bem quieto, para eu ter aquele seu pedaço que me prometeu?
Coloco o indicador em seus lábios.
— Estou pensando o mesmo que você.
— Acho que aquilo ali — indica uma porta menor, ao nosso lado
direito — é um armário de serviço.
Sei o que ele sinaliza, assim como percebo a pressa que ele tem em me
mostrar o quanto é capaz de me dar o que quero. Sinto-me uma felina por
torná-lo tão desesperado.
Eu quero, eu tenho.
E eu preciso dele dentro de mim.
Enxergo o tesão escurecer seus olhos.
— Estamos conectados — brinco já o arrastando até a porta, doida para
aplacar o calor que começa a subir por minhas pernas.
Fazer algo sujo, escondido, rápido, quente, correndo o risco de tantas
pessoas nos flagrarem é estupidamente fenomenal.
Lane testa a maçaneta e suspira quando a mesma gira. Sua respiração
está pesada, premeditando nossa loucura. A porta se abre e ele me puxa com
ele para o interior úmido e escuro. Não nos preocupamos em procurar luz, na
escuridão pode ser gostoso também.
— Você é irresistível.
Puxo a sua gravata.
Lane ergue meu vestido e toca minha pele em algumas partes, com
extrema reverência. O tecido está gelado em contraste com a temperatura de
seus dedos. Conforme ele segue sua apreciação, a seda se acumula em minha
cintura e não demoro a sentir sua boca molhada em torno dos meus mamilos,
através do pano. O decote é profundo e muito fácil de ser trespassado. Ele
expõe meus dois seios, e sua língua pincela como o pincel de um artista,
venerando e moldando uma pintura, fazendo-a ganhar vida, dando atenção a
cada mamilo com perícia. E puta merda, eu estou a ponto de virar do avesso,
com a adrenalina misturando-se a tudo o que ele me faz sentir. Apoio-me em
um banco e tombo a cabeça, suspirando, erguendo e descendo meu peito
depressa, sentindo-o massacrar os bicos intumescidos.
Meu rosto fica quente.
Tudo em mim entra em erupção.
Puxo os fios de cabelo, tentando não gritar.
Devo parecer uma vadia, com os peitos desnudos e empinados, o
vestido acumulado na cintura, em um armário de serviço, enquanto um
maldito homem de terno me faz contrair de prazer. Céus, que cena fabulosa
deve ser! Visualizar o que estou fazendo de errado, eleva o pico do meu tesão
a níveis altíssimos.
— Se quiser gritar, fique à vontade. Duvido que alguém irá ouvir lá
embaixo, com a música ambiente.
Não demora a desabotoar sua calça e escuto o som de um invólucro
sendo aberto. Mal posso esperar para tê-lo me preenchendo por completo.
É tipo... porra! — penso quando ele investe fundo em mim.
Ele retira seu pau e afunda de novo, com força. Outra vez, em
repetições exageradas, que me fazem procurar apoio na parede atrás de mim.
E daí que estamos em um armário de vassouras em um coquetel com dezenas
de magnatas? Só o que eu quero é gozar! Gozar para caralho!
— Isso, Kingston, mete fundo! — ele faz o que peço e eu gemo.
Aproxima-se do meu ouvido e murmura, em uma promessa — Betsy
você é uma safada, sendo comida no armário. Como se sente sabendo que
alguém pode abrir a porta e ver você dando com tanta vontade para mim?
Isso a faz se sentir poderosa? Sem vergonha? Capaz de tudo por um orgasmo
avassalador? Qual a sensação de ser o motivo para me deixar louco a ponto
de arrastá-la a qualquer canto e meter meu pau fundo em você?
— Cacete!
— Como eu pensava, isso a deixa molhada e te faz delirar, não é,
sereia?
Deixo passar a forma com que ele me chama, sem saber o motivo para
a associação.
— Gosto de sacanagem.
— E eu gosto de trepar com você. — Ele rebola e eu massacro o banco,
sentindo os nós dos meus dedos gritarem — Tão apertada, gostosa demais.
Sinto o orgasmo se construir em meu baixo ventre.
Quebro uma das unhas arranhando a madeira.
Foda-se as unhas neste momento!
Podemos levar a noite inteira assim, com ele me prendendo contra a
parede, segurando minha bunda firme, metendo até que eu feche os olhos e
veja o céu através das minhas pálpebras.
— Lane, eu vou...
Ele morde o meu ombro e aumenta a velocidade das investidas.
Gozo em um misto de gritos, desespero por pensar que não vou
aguentar tanto prazer e uma vontade insana de repetir tudo de novo, quantas
vezes forem necessárias para eu me sentir realmente exausta.
— Porra, Betsy! — ele grita antes de gozar, gemendo e investindo
devagar, querendo prologar nosso orgasmo.
Apoia a testa na minha, suspirando.
— Quando chegarmos em casa, teremos mais? — falo e mordo o lábio
inferior, esperançosa.
— Céus, você é insaciável. E vai acabar me matando de tanto transar.
Deixe só eu me recuperar um pouco, certo?
— Tem algum compromisso amanhã bem cedo?
— Se eu tivesse cancelaria para estar dentro de você sem titubear.
Meu coração marcha contente com o que acabou de ouvir. Pode ser
apenas sexo? Claro que sim. Mas, é fato que quando as coisas caminham
bem, quando são tão quentes e impossíveis de parar, como Lane e eu, evoluir
acaba sendo inevitável.
Estou pronta para algo assim?
Não.
Então, por que estou pensando nessa merda?
Tento esquecer e me desprendo dele, descendo do banco que range até
que meus pés encontrem o chão. Por sorte, o lugar é escuro e não tenho que
ver seu rosto depois do sexo. Acabaria achando mais atraente do que o
normal. Ainda estou tentando me recuperar, respirando com dificuldade,
arrumando meu vestido, quando a porta é aberta em um rompante e ilumina
parcialmente o local. Apresso-me a segurar a frente do tecido com as mãos
para que ninguém tenha um belo show de strip.
— Não acredito que você estava trepando com ela! — Essa voz.
Essa maldita voz.
Juro que tenho vontade de estrangular a dona dela.
— Por acaso ele estava sim, algum problema? — pergunto.
Qual o distúrbio da mulher?
Inveja? Certeza.
— Francamente, Lane... Como pode trazer uma puta dessas para uma
festa tão importante? Está claro que — olha-me, como se eu fosse uma
estúpida — ela não tem o menor senso de classe e é capaz de dar para
homens em — fita o lugar, — armários sujos — passa o dedo no batente,
depois esfrega um no outro — totalmente imundos. Aproveitadora sem
classe, nem princípios, vadia safada que só quer gozar no pau de um
milionário qualquer.
Lane abre a boca para falar alguma coisa, mas o interrompo, dando um
tapa estalado no rosto da intrometida. Não preciso da sua defesa, não preciso
da de ninguém na verdade.
Meus dedos ardem e eu sorrio por saber que o rosto dela deve estar
muito pior. Queria ser uma mosquinha para saber o que dirá para as suas
amigas metidas quando perguntarem o motivo para sua bochecha estar
vermelha.
— Ninguém fala assim comigo — aponto o dedo — Ninguém, me
ouviu? Não é porque é uma rica mimada do caralho que pode falar com os
outros como se fossem merda. Eu não tolero e espero que mais gente não
tolere essa porra. Passar bem, Hilary — empurro-a com uma mão para sair do
armário e viro-me para acrescentar — E só para o seu conhecimento, gozei
muito bem ali dentro e sei que está se corroendo por não ter sido você a
sortuda a dar em um armário no meio de uma festa — balanço a cabeça,
sorrindo sozinha — não imagina como pode ser excitante a adrenalina de ser
pega enquanto metem o pau em você. E Senhor, ele é muito bom no que faz,
mamou que nem um louco — indico Lane e noto o sorriso largo.
Ela abre a boca, mortificada.
— Como podem ser tão...
— Ativos sexualmente? — aproximo-me dela, conferindo o zíper
lateral do vestido. — Acho que tenho gostos muito peculiares.
Olho para Lane, como se nada tivesse acontecido.
— Pronto para voltarmos à festa, marido? — lanço o cuidado às favas!
Hilary não deixa de notar como eu o chamo.
— Ma-ma-marido? — gagueja.
— É minha linda — provoco — pensou que eu transasse no armário
com qualquer um?
Lane nada diz, está boquiaberto com as minhas atitudes. Por isso,
seguro sua mão e o arrasto degraus abaixo, com o coração batendo furioso no
peito.
— Não vai dizer nada? — pergunto quando já estamos suficientemente
longe.
— E você precisa que eu diga? Aquilo foi incrível! E acho que me
deixou duro de novo!
— É assim que se faz, gostosão.
Sabia que essa coisa era uma péssima ideia!

Logo que o trem de pouso encontra a pista do aeroporto da Filadélfia,


sinto o meu estômago protestar. Lane e eu decidimos que é mais fácil
começar a revelação com os meus pais já que tudo pode ser meio frenético
depois que a mídia descobrir.
Meu corpo inteiro protesta com esta ideia. A ansiedade ameaça me
embalar em uma crise da qual eu não sei quando conseguirei escapar. Meus
dedos coçam, e sou obrigada a prendê-los uns aos outros, tentando não ceder
à compulsão de comprar. É a única coisa capaz de me acalmar quando essas
crises ameaçam me engolfar e afogar. É como se eu estivesse submersa,
lutando por cada lufada de ar. Direi aos meus pais que estou casada, com uma
pessoa que eles nunca ouviram falar. Isso porque liguei para minha mãe há
duas semanas! Deus! Ela vai comer meu fígado com sal no jantar.
Suo frio.
Pego meu celular no bolso, aguardando pelo momento em que me
autorizarão a sair do modo avião. Eu preciso comprar alguma coisa,
maquiagem, camisetas, ou pijama que seja. Tenho dinheiro na conta não
tenho? Eu vendi a maioria das minhas peças para o homem sentado ao meu
lado, posso me dar ao luxo de gastar alguns dólares.
Betsy... — alerta minha mente.
Eu lanço todos os seus conselhos coerentes para longe. Preciso ceder à
compulsão.
Ou simplesmente ir embora. Meu corpo inteiro começa a tremer e eu
bato meus pés no chão, tentando conter a ansiedade. Lane entrelaça seus
dedos aos meus e franze as sobrancelhas.
— Tudo bem, Betsy?
— Tem como estar?
— Por quê?
— Vou dizer aos meus pais que me casei e eles nunca me ouviram falar
sobre você! — desespero-me.
É neste momento que percebo a atitude insana que tomei. Deveria
manter em sigilo? Não, porque como Lane ressaltou, nosso romance será
amplamente perseguido pela mídia e se eu não contar agora, eles descobrirão
da pior forma possível. E Madison? Ah, porra, Madison vai me matar por ter
escondido dela. Prevejo o Gremlin vindo à tona.
— Vai ficar tudo bem — ele faz algo que me choca totalmente, levanta
a minha mão e beija o dorso.
Ficaria bem se ele fosse o John Cena! Eu, sem dúvida toparia essa
loucura tranquilamente se quem me pedisse em casamento fosse ele.
Olá, mãe, pai, esse é meu marido, John. Nós nos casamos em segredo!
Agora, Lane? Onde eu estava com a porra da minha cabeça?
— Não vai ficar tudo bem, Lane! Você nem é o John Cena, por que
merda eu topei essa loucura? Não poderia ser tudo apenas parte de um
pesadelo?
— Está tão preocupada assim?
Arregalo meus olhos e ergo as mãos, demonstrando o quanto estou
preocupada. A ponto de surtar, inclusive.
Papai é bem ligado ao amor e vai perceber assim que colocar os olhos
na gente que não fomos feitos um para o outro. Ele tem estado com os
humores bem alterados depois do que aconteceu com Madison, como se fosse
sua culpa por deixá-la cometer o erro. Agora serei eu! Começo a hiperventilar
de angústia. Ainda dá tempo de fugir, não? Acho que farei isso logo que
desembarcarmos.
— Você não conhece meus pais.
— E você — enfatiza a palavra — não conhece a minha família, Betsy.
Estamos empatados aqui.
Fecho os olhos e abaixo a cabeça, contando até mil silenciosamente.
— Tudo bem com ela? Precisam de alguma coisa? — Uma aeromoça
pergunta logo que o avião para totalmente.
— Não, tudo bem. Minha esposa só está um pouco abalada por
assuntos pessoais.
E que assuntos pessoais! — debocho em pensamento.
Levo as mãos à cabeça e permaneço assim por alguns segundos.
— Precisamos ir, as pessoas já desembarcaram — fala ele.
Ergo meu olhar em um átimo para observar a primeira classe
totalmente vazia. Tenho que admitir que Lane ao menos, tenta tornar as
coisas fáceis para mim, o problema é que eu mal consigo entender o que me
levou a embarcar nesta, quando ele poderia fazer o acordo com qualquer
mulher do planeta. Menos as casadas, claro.
— É agora ou nunca — profiro.
Meu olhar encontra o seu, que brilha em incentivo.
— Logo tudo estará acabado, Betsy, e eu farei questão de te ajudar no
que for preciso.
Rosno em resposta. Um resmungo de quem não acredita muito no que
ele diz.
Levanto-me e caminho por entre as duplas de poltronas. Ao fim, as
aeromoças nos aguardam, cobiçando Lane e voltando sua atenção a mim,
como se não entendessem o motivo para ele estar comigo. Sei o que elas
estão pensando, é justamente a mesma coisa que eu quando o vi pela primeira
vez na praia. É meio que impossível não pensar besteira sobre um homem
como ele.
Ao passar pela que o encara descaradamente, piso sem querer com meu
salto fino no seu pé.
— Ops, me desculpe! — peço, sem remorso.
Mas, ela não sabe disso. Não tem noção de que eu fiz para doer de fato.
Ela controla a careta e eu contenho meu sorriso vitorioso.
Sinto que Lane se distancia e estaco em meus pés, virando-me para
topar com ele conversando com as mulheres. Sorri descarado, olhando-me de
esguelha, provocando. Pega alguma coisa da mão da vítima do meu rancor e
volta a caminhar, aproximando-se de mim. Travo minha mandíbula e
massacro meus dedos em punhos. Que ódio! Como ele tem a coragem de
aceitar o flerte de outras mulheres na presença da sua esposa? Filho da puta!
Estou tão furiosa que finjo não o ver enquanto ele caminha ao meu lado,
puxando ambas as malas de mão, a minha e a sua.
Movimenta-se e noto que se apressa a puxar as duas com a mesma mão.
Seus dedos da mão livre abrem o bolso do meu short e ele deixa algo ali.
Controlo a minha vontade de olhar para não parecer desesperada.
— Deveria disfarçar seus ciúmes, querida — ironiza ele.
— Não é ciúmes. É questão de respeito! — ralho — E se fosse eu
recebendo papeizinhos de homens? O que faria se alguém me entregasse seu
telefone na cara dura, enquanto está ao meu lado? — provoco.
Ele não tem reação alguma.
Noto que neste jogo em questão, Lane é melhor do que eu, porque ele
sorri convencido e dono de si.
Odeio como seu ego é gigantesco!
— Se fizesse o mesmo que eu acabei de fazer agora, não teria problema
algum. É tudo uma questão de confiança, Betsy. Nós temos um acordo e eu
vou honrá-lo, sou um homem de negócios. Acha que eu chegaria até aqui sem
cumprir a minha palavra? Enquanto estivermos nessa — sua voz sai mais
baixa — só dividirei minha cama com você. Confie no seu potencial.
Demoro um tempo a digerir o que ele fala.
Lane se distancia a passos lentos à minha frente e paro para olhar o
papel que ele depositou em meu bolso.
É o número da mulher.
Bato na porta de casa, respirando profundamente, deixando que o
cheiro das flores que mamãe planta me acalmem. O efeito não é lá essas
coisas. Lane está atrás de mim, o retrato da calma em pessoa. Queria ter o
mesmo sangue frio que ele. Parece prestes a participar de uma reunião de
negócios, na qual precisa ser o mais indiferente possível. Assisto-o arrumar o
nó da sua gravata pela décima vez. Se ele está nervoso, este pode ser o
indicativo. Um bem pequeno se comparado aos meus, visto que estou
batendo os pés na soleira da casa dos meus pais, roendo as unhas e
arrumando os meus cabelos a cada poucos segundos.
Seus dedos pousam em minha cintura.
O conforto que passam ondula a surpresa por mim.
— Filha, nós estávamos te esperando — papai abre a porta eufórico, até
ver que estou com alguém.
Seus olhos avaliam meu acompanhante e consigo enxergar o exato
momento em que ele decide não gostar de Lane. É automático, assim como
eu e Madison fazemos, uma mania que pegamos dele. Sorrio sem graça, o
suor frio está de volta e eu não sei o que dizer. Nada flui das minhas cordas
vocais. Acho que emudeci simplesmente com o olhar repleto de “que
porcaria é essa, mocinha?” que papai me lança.
— Olá senhor O’Connell.
— Quem é você? — papai vai direto ao ponto.
— Acho melhor nós entrarmos para conversar melhor — fala Lane sem
jeito, escolhendo as palavras minuciosamente.
— Como posso deixar um estranho entrar em minha casa?
— Papai — sibilo, bem baixo.
— O que está acontecendo aqui? — topo com olhos idênticos aos meus
e o cabelo loiro escorrido, descendo até a cintura de mamãe.
Sou a sua verdadeira cópia.
— Pela beleza, acredito que seja a mãe da Betsy? — lança Lane.
Dou uma cotovelada em sua costela para que ele fique quieto. Mas,
percebo que ele foi certeiro, já que o semblante de mamãe se suaviza e ela se
coloca ao lado de papai com imponência.
— Acho que meu marido está travando vocês aqui fora, não? — ela
abre um sorriso amarelo e fuzila meu pai com o olhar. Não queria estar na
pele dele neste momento! — Ele tem essa mania realmente. Mas, não fiquem
parados aí, vamos entrar! Acabei de preparar o jantar, e adoraríamos que
vocês fossem nossos convidados! — ela empurra meu pai, que se afasta a
contragosto, permitindo a entrada de Lane.
Eu passo sem fitar nenhum dos dois diretamente. Estou morrendo de
vergonha.
Adentro a casa que há muito tempo deixei. Parece que faz décadas,
algumas coisas mudaram, mas nada muito representativo. Os porta-retratos
são os mesmos, assim como os abajures de retalhos da minha mãe.
Sento-me no sofá, sem jeito. Lane se ajeita ao meu lado.
— Quem é ele? — É a primeira coisa que papai pergunta quando se
senta em sua poltrona.
— Para de ser mal-educado! Deixe Betsy falar!
— Bom, pai, mãe — torço meus dedos, percebendo que nenhum dos
dois sequer perguntou se estou bem ou me cumprimentou com um abraço. As
coisas estão realmente tensas. Eu deveria ter tentado escapar disso a todo
custo, no entanto, aqui estou — sabem que eu sou uma mulher muito intensa
— abro um sorriso amarelo — e bom...
— Fale logo!
— Não interrompa a menina, marido! — defende-me mamãe.
— Eu e Lane nos apaixonamos, foi meio que amor à primeira vista e eu
tenho certeza que ele é o homem certo para mim — até que a mentira começa
a fluir bem, penso — então nós decidimos não postergar muito as coisas e
como vocês sempre me disseram para seguir meu coração — Indico a palma
da minha mão e Lane pousa a sua sobre a minha — aqui estamos nós.
Um arrepio gostoso se espalha por meu corpo.
— O que-que-que que-rem dizer? — gagueja mamãe.
Papai está tão confuso que nada diz. Tenho medo justamente do seu
silêncio, nunca é uma coisa boa.
— Senhora O’Connell — assume Lane — eu vim aqui com Betsy para
— mamãe interrompe com um grito agudo, levando a mão ao peito.
Papai quase cai da sua poltrona, apertando sem querer o botão que
eleva seus pés e reclina o corpo. A situação toda é constrangedora demais e
solto o ar que estava prendendo em meus pulmões totalmente desanimada.
— Mas de que porcaria estão falando?
— Papai...
— Não comece, Betsy! — brada — É como se eu estivesse vendo de
novo aquele filho da puta do Reef vindo até aqui, dizendo que cuidaria da
minha Maddie, mentindo para a família dela e prometendo mil coisas. No fim
de tudo, ele despedaçou uma de minhas filhas e não posso ver de novo tal
coisa acontecendo. Não posso. Sou contra esse casamento, que fique claro.
Há quanto tempo se conhecem?
— Cinco meses — dizemos em uníssono.
Desta vez, até mamãe aparenta reticência.
— Vocês se conhecem há — papai pausa enfaticamente — há cinco
meses e já vão se casar? Sendo que eu nem sabia da existência desse
indivíduo — indica Lane — até hoje?
— Sim — afirmo.
— Só podem estar malucos!
— Senhor O’Connell, eu sinto muito pelo que aconteceu à sua filha
mais velha. Mas, posso garantir que quero fazer Betsy feliz. Posso te
prometer que não vou nublar os sonhos dela, que poderá ser ela mesma
comigo, enquanto me ajuda com o fardo que tenho que carregar.
Ele ergue um dedo, impedindo que Lane continue.
— Já vi isso acontecendo e escutei palavras muito semelhantes a estas.
Essa mocinha aqui — indica-me — já se iludiu demais e eu não posso ver
mais uma filha minha sofrendo. Sinto muito, eu não dou minha bênção. Se
vocês se casarem, tenham essa ciência.
— Na verdade já estamos casados, senhor — ele diz sem qualquer
preparação, erguendo a corrente de ouro em seu pescoço e mostrando a
aliança para papai.
Eu me espanto por Lane estar usando a aliança desta forma. Ao mesmo
tempo em que caio de fascínio. Fico tão absorta no seu gesto, que percebo
tarde demais a ira passando pelo rosto do meu pai.
— Seu desgraçado! — papai se levanta rápido da poltrona e puxa o
genro pelo colarinho.
Fico sem reação.
E agora, quem eu defendo?
— Eu posso falar com o senhor a sós? — testa Lane, sem se abalar com
as ameaças mortíferas que lhe são direcionadas.
Papai não parece muito tentado a ceder ao pedido, porém, mamãe o
cutuca e ele fala sem emoção — Vamos lá no quintal, rapaz.
Minha mãe mal espera os dois desaparecem para se sentar ao meu lado,
com os olhos implorando por fofocas. De onde ele surgiu? Como o conheci?
Por que me casei, quando todos sabem que eu sou a pessoa menos indicada
para o matrimônio? São tantas dúvidas que ela despeja em mim que preciso
expirar e inspirar com calma, para não ter um ataque de pânico.
— Você não vivia dizendo que não iria se casar, Betsy?
— As pessoas não podem mudar de opinião, mãe?
— Claro que eu entendo o seu deslumbre, já que ele é...
— Do tipo uau, não? — interrompo-a.
Mamãe se apressa a concordar.
— Claro, ele é muito bonito e tem uma pose bem poderosa, do tipo
Humphrey Bogart, naqueles filmes que sua avó me forçava a ver com ela.
Mas, não pode levar apenas isso em conta, minha filha. Sua irmã é o maior
exemplo do que acontece quando uma mulher se deixa levar pelo vislumbre e
diz sim para o primeiro homem que aparece.
A sua maneira de falar da Madison sem que ela esteja aqui para se
defender me incomoda.
— Não fale assim da Maddie. Não perto de mim, mãe. Odeio quando
faz isso — enfatizo.
— Claro, claro — desculpa-se desajeitadamente — tem razão. É só que
você tem que entender o quanto tudo isso soa estranho. Falamos com
Madison na semana passada e ela não nos contou nada disso.
— É que ela...
— Ainda não sabe? — adivinha mamãe.
— Lane é meio que ex chefe dela e pensei que as coisas ficariam
estranhas, entende? Achei melhor preparar o terreno até poder falar.
Principalmente porque ela está feliz com o Monroe e não quero irritá-la.
— Sua irmã tirou a sorte grande amarrando aquele jogador famoso de
futebol americano. Não poderia ter escolhido genro melhor! Apesar que esse
também — ela indica a porta por onde papai e Lane passaram, com um
sorriso maroto.
— Mamãe! — repreendo-a.
— O que foi? — inclina um pouco o corpo para trás, olhando-me com
semblante inocente — Vai me dizer que ela não é sortuda?
— Sua filha já sofreu demais, pare de menosprezar a felicidade que ela
merece colocando sorte no meio.
— Tem razão. Mas, me conte tudo!
Começo a narrar para ela desde a primeira vez que vi Lane, na praia e
depois quando ele foi até em casa procurar pela Madison. Mamãe presta
demasiada atenção em cada detalhe como se fosse uma história de amor. Mal
sabe ela o quão longe está de ser algo assim. Demora um tempo para que
papai e meu marido — Deus! Como essa palavra parece estranha — voltem.
O semblante dos dois não poderia ser melhor e começo a pensar que meu pai
é mais influenciável do que deixa transparecer, porque independente do que
ele pensava antes, sua opinião já não é mais a mesma.
— Vocês se resolveram? — inquiro duvidosa.
Fácil demais — grita meu bom senso.
— Sim — papai diz e deposita tapas nas costas de Lane que é bem mais
alto que ele, formando um contraste gritante.
Olho para minha mãe que está tão espantada quanto eu.
— Pensei que ouviria gritos e que precisaria sair correndo para socorrer
Lane. Mas — relanceio o olhar entre os dois — acho que errei.
— Isso é passado, minha filha. Espero que vocês sejam muito felizes e
que esse cara aqui — indica meu esposo — cumpra o que prometeu. Ou você
sabe...
— Estará lá para chutar minha bunda, senhor — assume Lane.
— Exatamente — profere papai antes de se sentar em sua poltrona,
pegar o controle da televisão e sintonizar em canais de vida selvagem.
As coisas parecem estar bem demais para o meu gosto. Será que estou
sonhando? Belisco-me e sinto a dor, então, não é um sonho. Droga, por que
eu belisquei tão forte?
— Não vão nem reclamar da falta de festa ou coisa parecida? — a
surpresa por não terem dito nada é demais.
Preciso tirar a dúvida.
— São adultos, sabem o que fazem — é só o que papai diz e mamãe
concorda com ele. — Se estão felizes da forma que fizeram é o suficiente
para mim. — Mais uma vez o aceno de mamãe.
O mundo vai acabar neste instante, não existe outra explicação. Eu
passei a viagem inteira me preparando para o surto dos dois, que não
aconteceu. Palhaçada.
— Vocês ficarão esta noite aqui? — muda de assunto minha mãe.
— Não, nós — Lane começa a falar, mas eu o interrompo.
Se ficarei três dias com a sua família, ele pode muito bem passar uma
noite com a minha.
— Claro, mamãe. Faz tanto tempo que eu não fico aqui com vocês.
O sorriso se estende do seu rosto e transfere-se ao de papai.
— Perfeito!
Arrependo-me da minha escolha, logo que entro no meu antigo quarto.
Não sei como pude me esquecer que ele é abarrotado de pôsteres do John
Cena, e coisas de uma adolescente que pensava entender de moda. Eu bateria
na minha versão de dez anos atrás se pudesse, sem dúvida. Pelo menos,
quanto a homens eu já tinha bom gosto. John Cena é meu tipo acima de
qualquer outro. Principalmente nas fotos que tenho dele, sem camiseta, com
camiseta, de terno e afins. Praticamente, as quatro paredes do meu quarto são
preenchidas com o verde, a cor que ligo a ele.
Ah, John... — leia-se suspirando, por favor.
Sei que pareço uma adolescente boba, nutrindo um amor platônico por
alguém inalcançável, mas, aposto que todo mundo é encantado por alguém da
mesma forma.
— Bem, seu quarto é — Lane alça as sobrancelhas, tentando absorver a
confusão de informações — bem sua cara.
— É, não? — brinco.
Fito meu rádio toca discos, antigo por sinal, a minha cômoda repintada
de branco, um móvel que eu peguei em uma venda de garagem e transformei,
assim como a cama de casal, com gradil em ferro na qual eu sonhei muitas e
muitas vezes com coisas sem sentido, inclusive em ser uma blogueira de
sucesso, que todo mundo conheceria. Admito que ainda não atingi esse
objetivo, mas o sonho está vivo, querendo ser realizado e eu o farei.
— Por que seus pais ficaram tão reticentes quanto a mim, ao
casamento, sobre você ter se casado? — Lane tenta me avaliar com a sua
pergunta.
Engulo em seco. Lembrar de Fred, da desilusão, do coração
machucado, não é algo que eu queira. Mas, estou na Filadélfia e querendo ou
não eu lembraria em algum momento. As memórias estão em grande parte
aqui.
— É uma longa história — suspiro.
Lane se move pelo meu antigo lugar, destoando de todas as cores
femininas imprensadas na parede, no tapete e nas roupas de cama. Ele indica
não se importar, observando por alguns segundos apenas meus pôsteres do
John e fazendo uma careta que não consigo decifrar. Deita-se em minha
cama, com as mãos atrás da cabeça, aguardando que eu comece a falar.
Admito que sua pose é no mínimo engraçada.
— Vamos lá, Betsy, temos a madrugada inteira.
— Não vai querer dormir?
— Só depois que me contar o que aconteceu com a minha princesa do
coração de gelo. Porque sinceramente, não consigo vê-la entregando um
órgão tão precioso que há em você, para um homem pisar.
—Pensa que sabe tudo?
— Não tudo, mas bastante coisa.
Movo-me até a cama e deito ao seu lado. Sinto que posso me abrir com
Lane, que ele não irá me julgar, nem poderia visto a sua atual situação. Além
do mais, não me conhece, não sabe o quanto sofri por continuar amando Fred
até mesmo depois de tudo. É bom falar com alguém que não tem noção do
que aconteceu, acredito que faça parte do processo de evolução.
— Eu me apaixonei por ele à primeira vista. Olhei e pensei “Caramba,
esse é o cara!”. Entende o que quero dizer? — Lane nada diz, permanece me
escutando atentamente. — Namoramos por algum tempo e eu pensei que ele
me pediria em noivado no dia em que tudo ruiu. Tinha conseguido conquistar
seu sonho e uma parte ingênua em mim acreditou que ele fosse dividir a
felicidade comigo. Pois é, foi coisa da minha cabeça. Fred tinha sido draftado
para a liga profissional, ganhou seu primeiro jogo como integrante da NFL e
eu fui besta em pensar que ele amaria uma surpresa na sua casa. Não tinha
falado comigo desde pouco antes do jogo, quando eu lhe desejei sorte.
Contenho a umidade que ameaça extravasar por meus olhos.
— O que ele te fez, Betsy?
— Ah, nada demais — dou de ombros — só abri a porta da sua casa,
com a minha cópia da chave e o encontrei fodendo quatro mulheres. As
coisas pareciam bem quentes, e indicavam que ele estava ali há um tempo,
enquanto a idiota aqui — indico a mim mesma, como se Lane não soubesse
que a idiota sou eu — esperava que ele ligasse para poder ir dormir com ele.
Foi meio que um choque, fiquei parada na soleira da porta, olhando para tudo
durante vários segundos, que se estenderam e se tornaram sem fim em minha
cabeça. Ele só percebeu que eu estava ali quando uma das mulheres me viu e
gritou. Céus! — suspiro — foi tão humilhante. De verdade.
— Sinto muito — sussurra ele.
— Não sinta, eu que fui uma trouxa. Quando eu conversei com ele pelo
telefone, Fred me disse que tinha uma surpresa. Presumi que ele me pediria
em casamento. Qual seria o impedimento? Claro que ele me pediria em
casamento naquela noite! Nós éramos perfeitos. Pelo menos, era o que eu
pensava. Jurei nunca mais me deixar envolver tanto por um homem a ponto
de ele me fazer de boba assim.
— Desde então usa os homens.
— Não uso ninguém. Eles sabem o que terão de mim, assim como sei o
que terei deles.
— Claro — debocha Lane.
— Por isso eu te avisei que não vou me apaixonar. Pode ficar tranquilo,
que esse problema você não terá, Lane. Além do mais, nem faz meu tipo.
Seu semblante estarrecido me provoca uma gargalhada e com ela, uma
lágrima solitária desce pelo meu rosto. Odeio como ainda me sinto emotiva
ao falar sobre meu relacionamento péssimo que não deu certo. Essas coisas
acontecem, nem são tão sérias assim, aposto que quase todo mundo já passou
por uma desilusão amorosa.
— E qual é seu tipo? — brinca ele.
Indico os pôsteres por todos os lados na parede.
— John Cena? Se um dia eu o conhecer, pode ser um perigo para a
humanidade, porque vou colocar uma aliança no dedo deste homem.
— Qual é, Betsy! Um cara cheio de músculos é seu tipo?
— E existe um melhor?
— Vou ignorar o que disse, até porque não é interessante ouvir minha
mulher falando que outro homem é seu tipo.
— Vivemos uma farsa.
— Ainda bem, porque para falar a verdade, aquela aeromoça era meu
tipo de mulher.
Sua fala me irrita e bato nele com um travesseiro.
— Seu idiota!
— Pode falar do John isso, Cena aquilo, mas eu não posso ser sincero
também?
— Te odeio, Lane.
— É recíproco — sibila ele.
— Mudando de assunto, o que falou para o meu pai que o convenceu?
— inquiro o que tem mantido a minha curiosidade em polvorosa.
Lane se remexe, um pouco incomodado, o colar com o anel se
movimenta, parando a frente do seu coração. Sinto uma alegria estranha ao
ver o objeto. Infelizmente, seu celular toca segundos depois, livrando-o da
pergunta. Lane não disfarça como quer usar essa tática para fugir. Levanta-se
para atender a ligação e eu me coloco ao canto, colada ao lado da parede na
cama, aguardando que ele volte. Mas, não consigo esperá-lo, acabo dormindo
antes, o que é mesmo uma pena.
Kingstone é um excelente jogo!

— Ficou até tarde resolvendo problemas? — Betsy lê uma revista


enquanto eu a olho de esguelha. — Não vi quando voltou para a cama.
Parece bem demais para quem irá conhecer um bando de loucos sem
princípios. Ou ela não entendeu o que eu disse, ou se recusa a entender. Pela
primeira vez Hayden não está comigo viajando para o Texas. Aposto que irá
agradecê-la muito quando a encontrar. Afinal, graças a ela, eu dei uma trégua
a ele.
— Na verdade eu não dormi. Fiquei adiantando algumas coisas no
quintal, para não atrapalhar ninguém.
— Como assim não dormiu? — ela demonstra indignação.
— Acontece — não dou muita atenção a isso e acho necessário alertá-la
sobre tudo mais uma vez — E Betsy, como eu disse depois que nos
despedimos dos seus pais, não dê corda à minha avó, também não pode
conversar muito com meu avô, senão você vai desistir de manter nosso
casamento.
— Eu entendi, Lane — revira os olhos — também tenho que correr
quando ela erguer a bengala, não é? — debocha da minha preocupação.
Quando ela conhecer a todos. Entenderá de prontidão meu receio.
— Não a deixe erguer a bengala. Quando ela o faz, até o vovô sai
correndo. É sério, você não está acreditando em mim, mas as mulheres da
família Kingston tendem a ser terríveis em um nível astronômico. De acordo
com a lenda da cidade, até os apaches correriam delas se as encontrassem!
— Céus! Que homem bundão! — ironiza, bufando.
— Desculpe por ser um homem esperto e temeroso, coração de gelo.
Mas, vovó Pearl causa esse efeito nas pessoas da família e foi a única capaz
de me fazer cogitar o casamento para não ser destronado.
Falei demais. Que merda.
— Pare de me chamar assim! — ela se irrita com o apelido e depois
retorna ao assunto — Como assim te fez prometer casamento?
— Esquece o que eu disse — arrependo-me.
— Se não disser, assim que pousarmos em Dallas, eu irei comprar outra
passagem e voltarei para Miami sem peso na consciência, ciente de que dei o
meu melhor. Já estou cansada do seu silêncio e de vê-lo evitar ser sincero
comigo. Então, meu anjo, ou você me diz agora o motivo por ter precisado se
casar e por ficar — faz um gesto de descaso com as mãos — tentando me
ludibriar com sexo, a ponto de eu esquecer de tirar satisfação ou eu realmente
não embarcarei nessa loucura.
— Já embarcou.
— Não até o pescoço. Acredite ou não, mas ainda tenho capacidade de
sair dessa areia movediça.
— Mamãe e vovó me obrigaram a casar, dizendo que iriam me retirar
do comando da companhia Kingston. Elas enfatizaram que eu precisava de
uma esposa para ser levado a sério e não trazer prejuízos. Como se eu
carecesse de uma mulher para ser confiável — sussurro em um resmungo.
— Elas são espertas.
Um sorriso de canto se abre em seu rosto.
— Não entendi.
— De que jeito te fariam casar se não fosse o ameaçando com
dinheiro? Aposto que não aguentavam mais te ver dando o sangue pelos
negócios e deixando de lado a própria felicidade. Sem dúvida, é exatamente
nisso que elas pensaram ao te ameaçarem. Atiraram e acertaram na mosca. As
admiro, não posso mentir. O blefe foi fenomenal!
Não deixo de perceber que ela realmente acredita no que está dizendo.
Como se minha mãe e avó fossem capazes de algo tão atroz como isso. E se
eu escolhesse alguém que não combinasse comigo? Elas se
responsabilizariam pelo caos?
Uma voz na minha cabeça grita que eu sou o culpado por pensar na
minha carreira ao invés de na minha felicidade em primeiro lugar. Mas, não
seria o sucesso da companhia minha alegria?
— Essa foi a ideia mais absurda que já ouvi. E eu já escutei muitas
porcarias ao longo da vida — minto.
Betsy gargalha, atraindo a atenção de algumas pessoas. Estamos na
classe executiva e por sorte, é bem menos gente para presenciar as suas
loucuras.
— Como pode um homem tão esperto, arrogante e confiante ser tão
burro? É um verdadeiro mistério da humanidade.
Ela volta a atenção para a revista e noto que é um sinal para ficarmos
em silêncio. Pego meu notebook, e começo a trabalhar, antes que eu acabe
cedendo à minha curiosidade e pergunte o motivo para ela achar isso.
Eu não sou burro... ou sou?

Quando saímos do aeroporto, noto que o motorista da mamãe nos


aguarda. Viro-me apenas para ver Betsy sofrendo para carregar a mala,
cortesia dela mesma que decidiu trazer as coisas restantes na sua casa, só para
poder levá-las à Miami depois. Eu poderia ajudá-la, mas sinto-me de mau
humor para o fazer.
— O que foi? — pergunta ela assim que nota a minha contemplação.
— Estou me perguntando se chegaremos ainda hoje, ou precisamos
chamar um guincho para içar sua mala de chumbo. Só ficaremos três dias,
por que trouxe toda essa tralha com você?
Ela gargalha falsamente.
— Muito engraçado! — ela tropeça com o salto e eu controlo o riso —
Não vai me ajudar?
— De forma alguma.
O homem ao lado do Rolls Royce dispara até Betsy, que o agradece
quando ele pega a mala — com as veias em seu rosto prestes a explodirem
tamanha a força necessária — e a leva até o carro. Ela me fita, como se
dissesse que ele é mais homem que eu pela ajuda. Dou de ombros.
Entro no banco de trás do carro, e ela entra em seguida.
— Senhor, direto para a mansão Kingston?
— Sim. Devo me preparar?
— Sempre — confirma o motorista.
Faço uma careta.
O carro arranca do meio fio e meu celular toca. Atendo-o de péssimo
humor, já imaginando o que mamãe e vovó estão aprontando.
— As ações que você queria tiveram baixa, vai investir? — É Hayden.
Pedi que ele acompanhasse determinada empresa na bolsa de valores
para mim. Ao menor sinal de queda do valor, era para ele me avisar
prontamente.
— Sim, obrigado. — E encerro a ligação.
Sinto um olhar sobre mim, ergo a cabeça e deparo-me com os olhos
grandes, totalmente abertos em um verde mar límpido de Betsy fitando-me
como se eu fosse sua salvação. Não consigo identificar o motivo para a sua
mudança súbita de ações. Piscadelas me brindam, como se a contemplação
pedinte já não fosse o suficiente para abalar as minhas estruturas.
— O que você quer?
— Qual ação vai comprar e quanto?
Não entendo ao certo a sua pergunta, mas decido responder.
— De uma companhia que passou por um escândalo recentemente. O
valor das ações caiu com isso, mas o potencial de aumento é enorme. O setor
é providencial.
— Quanto vai investir?
— Vou comprar trezentos mil em ações.
— Tudo isso? — ela arregala os olhos.
— Valerão milhões em pouco tempo.
Betsy saca o celular, abre o aplicativo do banco e não deixo de enxergar
o seu saldo. Algumas centenas de dólares a menos do valor que paguei pelas
roupas. Ela abre o home broker e espera que eu diga a ação que comprarei.
Mostro para ela e ela rapidamente investe todo o seu dinheiro. A ação me
deixa atônito, porque neste momento eu a estou admirando pela astúcia. Eu
teria feito o mesmo no seu caso.
— Confia tanto assim? — pergunto, inclinando meu corpo na sua
direção.
— Se você está arriscando tanto dinheiro na compra, definitivamente
confio!
Uma risada corta a nossa conversa. Olho para frente e noto o motorista
contendo o riso.
— Do que está rindo? — inquiro o homem que trabalha há anos para a
família.
— Nada senhor, desculpe.
— Até ele sabe que no quesito dinheiro, você não toma iniciativas
arriscadas — profere Betsy, finalizando a transação. — Aposto um dos dedos
da minha mão direita que você analisou todo o histórico dessa empresa e o
percentual de crescimento dela por meses.
Não está errada.
— Foi um elogio ou um insulto?
— Tome como quiser, meu lindo.
Desisto de prestar atenção nela. Aliás, preciso parar com isso, nós só
temos um acordo de negócios, nada além. Não é como se fôssemos ser
marido e mulher de verdade. Apenas no papel, somente isso.
— Quando o carro parar em frente à mansão, precisamos descer e dar
um jeito de repassar todas as informações para que tudo pareça o mais real
possível — troco o assunto da conversa, cochichando.
— Certo — Betsy concorda prontamente.
Ambos sabemos o que está em jogo.
Os riscos são altos.
Não gosto nada disso.
Principalmente com a audição excelente da matriarca, uma incógnita se
levarmos em conta a sua idade.
Nos afastamos da parte metropolitana e seguimos em direção à fazenda
onde vovó mora. Local em que ocorrem os encontros para o crime, como
dizem meus primos. A paisagem vai se tornando desértica e podemos
enxergar os poços de petróleo da família ao longo do caminho. Admiro-os
com um orgulho desmedido.
Descobrimos a maior jazida de petróleo do país ali. É um feito digno de
orgulho. Somos então a principal das diversas empresas petrolíferas norte
americanas, com capital privado, explorando óleo e gás ao longo de milhares
de hectares no sul dos Estados Unidos, com uma média de produção de dois
milhões de barris por dia. Alguns dos oleodutos e gasodutos, que funcionam
como artérias no âmago da terra, levando grande parte da produção da
Kingston Company ao longo de todo o território, fomos nós que construímos
em parceria com o governo, investindo bilhões de dólares e injetando
dinheiro diretamente na economia, gerando milhares de empregos diretos e
indiretos.
Por isso, me chamam de o rei do petróleo.
Porque após esses anos todos nós já recuperamos o investimento e
conseguimos lançar os lucros nas alturas, devido ao alto volume de produtos.
Tais arranjos só foram anunciados quando decidi inflar a companhia e
torná-la a maior do país em seu ramo. Hoje, sou um dos homens mais
influentes e também respeitados, devido aos altos investimentos que tive que
fazer em busca da transformação necessária.
Aparecer na revista mais prestigiada no ramo de negócios como o
empreendedor do ano e bilionário em ascensão em várias edições me parece
no mínimo plausível depois de tudo.
— Uau! — murmura Betsy — qual o nome dessas coisas? — ela
aponta para uma máquina trabalhando com força em direção ao solo.
As dezenas de cavalos de pau funcionam a todo vapor, dos dois lados
da estrada, bombeando o petróleo para fora.
Inclino-me um pouco sobre ela para apontar. Meu coração bate em um
ritmo estranho, finjo não notar.
— São cavalos de pau. Eles são usados quando o petróleo já não jorra
mais na superfície, o que acontece quando a pressão do gás no interior do
reservatório natural diminui. Precisamos então fazer uso deles — indico o
enorme maquinário, que desce e sobe, em uma velocidade constante em
direção ao solo — para bombear o material para fora. Quando a pressão é
ainda menor e nem ele é eficaz, usamos um segundo — aponto para a minha
janela dessa vez, onde ela pode ver dois trabalhando no mesmo lugar — para
inserir vapor de água e assim conseguir extrair o petróleo. É um trabalho
engenhoso na verdade — assumo.
— Posso ver. Pensei que eles jorrassem sempre sabe, como nos
desenhos de antigamente.
— Quando realizamos a primeira perfuração, pode jorrar petróleo por
dezenas de metros de altura. É magnífico ver, admito — não sei o motivo,
mas gosto de explicar as coisas para ela.
Betsy fica embasbacada ao notar a extensão da área de exploração.
— Caramba, vocês são ricos de verdade.
Sorrio, porque eu sei que ela foi sincera, ao mesmo tempo em que não
teve nenhuma segunda intenção na constatação. E ela teria muita vantagem se
quisesse fazer uso dela.
— Essa fazenda da minha família começa junto com a área de
exploração.
Ela abre a boca espantada, principalmente ao notar que indico “essa”
referenciando a existência de outras.
— Tão grande assim?
Estamos percorrendo a via há vários minutos, com a paisagem que
expliquei se desenrolando do lado de fora das janelas.
— Ainda não percorremos metade.
E é verdade, porque só chegamos à entrada, muito tempo depois. Sei
mapear a área como a palma da minha mão. Decorei cada detalhe em um
estudo minucioso quando decidimos investir pesado na companhia.
O portão em ferro fundido pesado, com o brasão da família se abre
diante de nós. Uma longa estrada curvilínea em cascalho segue serpenteando
por entre as árvores tão amadas por vovó, verdes e vivas, desbravando parte
do jardim da senhora. Alguns arbustos com formatos de animais também
despontam diante da nossa visão. Inclusive um que ela me disse que faria,
com formato de petróleo jorrando do solo. Vovó tem alguns pensamentos
loucos as vezes — ou melhor definindo, sempre. Ao fundo, podemos
enxergar a mansão, que parece ser entalhada na colina que se avulta atrás
dela. Entre cada arbusto, um com a letra K é visível.
Betsy profere um som baixo e alumbrado.
Acho que não expliquei as coisas da maneira correta para ela.
— Aquela é a mansão? — aponta bestificada para a construção.
— Sim.
— Vocês criaram uma montanha só para ela ficar mais imponente?
2
Como os pais do Richie Rich com o rosto deles?
— De onde tira essas coisas? Ela só foi construída à frente.
— Claro, claro, como se minha ideia fosse impensável dado o tamanho
da propriedade, não?
O carro para em frente à entrada principal. Vejo meus primos ao longe,
jogando Kingstone. É um jogo criado e apelidado por nós. Parece idiota e
admito que na verdade o é.
— O que eles estão jogando? — Betsy se inclina em cima de mim,
roçando seus seios em meu rosto. Controlo-me para não os abocanhar.
Essa mulher ainda vai me matar de bolas roxas sem saber. Tenho medo
do que ela pode causar, apenas provocando sem ter ciência disso.
— Kingstone.
— Como vocês são egocêntricos! Qual o nome do jogo?
— É esse mesmo. Consiste em arremessar uma bola e tentar acertar a
cabeça da pessoa mais próxima. A que for atingida sai e a que acertar, pega a
posse de bola. É hilário. Nós gostamos.
— Vocês... — ela dá uma pausa — jogam para machucar os outros?
— Não machucar. Só jogamos forte quando é contra um homem e a
bola é feita de meias, não foi feita para de fato machucar. Nas mulheres, por
exemplo, aponto para as minhas primas. — Que gritam e correm na grama,
comemorando a saída de alguém — Nós no máximo jogamos para atingir,
sem força. Vovó deixou bem claro que se machucarmos as garotas, ela
arranca nossas bolas. Ninguém vai contra a minha avó, pode ter certeza.
— Ela precisou ameaçar para não machucarem as mulheres? — Betsy
parece mortificada.
Da forma com que falei, eu realmente dei a entender isso, no entanto,
mal sabe ela que quem precisa de defesa somos nós, os homens, porque
minhas primas literalmente têm força o bastante para formarem galos prontos
para cantar nas nossas testas. Da última vez, eu juro que vi coisas girando
acima da minha cabeça, como personagens de desenhos animados. Nunca
imaginei que bola de meia pudesse fazer tanto estrago. Principalmente
quando acertam o... — tremo com a ideia, porque dói para um caralho.
— Na verdade, as mulheres que nos machucam. Mas, vovó ignora essa
parte.
— São adultos com idade mental de crianças, só pode.
— Espere até ver como é competitivo esse jogo. Fará parte dos adultos
que não cresceram mentalmente.
— Duvido!
Oh, meu Jesus, vovó Pearl é mais louca que eu! E não sei do
que a bengala é feita, talvez de chumbo, mas minha nossa,
dói... Dói muito!

— Duvide, querida. Acabará perdendo de qualquer forma. Porque eu


sou o campeão de Kingstone há quatro anos consecutivos!
Olho para Lane, que sai do carro e empertiga a postura, contente em
declarar o feito. Alguém abre a porta para mim e eu saio do carro também,
olhando para tudo sem conseguir assimilar ao certo.
— Só podia ser.
— Eu odeio como sempre parece me insultar, Betsy.
— Acostume-se, será assim pelo próximo ano inteiro, meu amor —
provoco.
Ainda estou tentando digerir tudo. Pareço presa no cenário da série
Dallas, esperando Lane para entrar na mansão assustadoramente grande do
clã Kingston. Alguns empregados aparecem em nosso campo de visão,
caminhando para o jardim com suas ferramentas. Eles cumprimentam Lane
com um aceno, que retorna a educação com um sorriso. Ele está relaxado,
percebo. Sempre parece o homem intocável de negócios, no entanto, na casa
da família, acredito que deixou essa sua personalidade para trás.
Passamos pelas portas duplas em madeira de lei, com alguns símbolos
entalhados. Aposto que tem a ver com o sobrenome. Seguimos adiante, e eu
me espanto com o estilo da mansão, moderno, misturando-se ao antigo com
perfeição. Alguns móveis são bem atuais, enquanto outros balanceiam essa
diferença através da delicadeza, charme e beleza, de dezenas de anos atrás.
Observo tudo achando maravilhoso. Madison também ficaria louca querendo
saber a história. Minha irmã sempre se interessa pela história de tudo.
Cruzamos com outros empregados limpando a casa, devidamente
uniformizados. Contrariando tudo o que imagino, Lane para próximo a cada
um, cumprimenta-os e pergunta sobre as suas famílias, sobre a vida e o que
estão achando do tempo quente.
Há um Lane em Miami e outro totalmente diferente em Dallas?
— Onde estão todos? — inquere.
— Senhora Pearl está na sala de estar, junto com a sua mãe — um
senhor que passa por nós diz após Lane perguntar.
Não tenho ideia de qual direção fica a sala. A casa é absurdamente
maior por dentro.
Alcançamos o fim do corredor, apenas para nos depararmos com uma
escadaria central larga e com degraus bem desenhados em linhas de mármore.
Um tapete cobre grande parte deles. Os corrimões são entalhados e sobem
deslizando como répteis até o topo da longa escadaria. Todos os detalhes
possuem um gosto fino e impecável. Continuamos caminhando e Lane
tensiona ao meu lado quando paramos em frente a outras portas duplas, com
vários brasões a enfeitando.
— Esse é o brasão da família — exime a dúvida anterior que eu não
proferi em voz alta.
— Presumi que fosse.
— Betsy — pausa, encontrando as melhores palavras — como eu disse,
vovó é franca demais, então não bata de frente. Ela pode tornar as coisas
insuportáveis para você. E — Arregala os olhos — fuja da bengala, custe o
que custar!
— Já entendi — aceno.
Estou um pouco temerosa? Bem pouco na verdade. Mamãe sempre me
disse que eu tenho um carisma capaz de fazer até blocos de gelo derreterem.
Não será diferente com a senhora texana. Sei meus pontos fortes e sempre os
uso quando necessário. Não há nada a temer.
As portas se abrem.
Vejo vários sofás e em um deles, há duas mulheres sentadas, relaxadas
e confortáveis. Nada do que pensei que avistaria é o que encontro. A mais
nova delas, está com um vestido solto, sorrindo largamente para a mais velha,
que se encontra com uma bermuda até o joelho, uma camiseta florida, com a
bengala apoiada no chão. Quando seus olhares encontram o meu, elas esticam
o sorriso, formando pés de galinhas ao redor dos olhos. São calorosas, na
verdade. Ambas.
— Filho! — a mais nova se levanta e vem na nossa direção.
Dá um abraço apertado no homem que se curva para ficar do seu
tamanho e demora alguns segundos passando as mãos nas suas costas.
Depois, ela se dirige a mim.
— Mãe, essa é Betsy — apresenta ele.
— Olá, Betsy, é um prazer conhecê-la! Sou a Kristen! — percebo que
não há nada falso no seu tom de voz.
Gosto disso, da sua naturalidade. É impossível não sorrir de volta.
Verdadeiramente. Seus braços me rodeiam e ela me abraça com tanto carinho
que eu me sinto à vontade por estar ali. Quando finalmente me solta, escuto o
som de algo batendo contra o chão. Vejo de esguelha Lane tremer com o
ruído. Presumo que seja vovó partindo para o nosso abate.
— O prazer é meu — lembro-me de dizer para a outra, que ainda me
olha.
Ela está me avaliando, sutilmente, mas ainda assim avaliando.
— Você é um milagre! — exclama animada.
— Mamãe! — ralha Lane.
Não sei o que é, mas elas parecem perceber tudo o que não estamos
dizendo.
— Deixe sua mãe curtir um pouco o fenômeno que é você trazendo
uma mulher para casa, menino. Esse negócio de só transar e ir embora, sem
confiar em ninguém é uma coisa muito chata para a família. Quero bisnetos,
eu já disse! Essa porcaria está mais difícil que ganhar na loteria! — proclama
vovó.
A mãe de Lane se afasta para dar espaço à senhora, que me olha com os
olhos grandes e brilhantes, iguaizinhos aos do neto. Ele se inclina na direção
dela, que o afasta com a bengala.
— Não vai abraçar seu neto preferido?
— Não é mais meu preferido. Moleque irritante! Quero abraçar a minha
nova neta, isso sim!
Ela vem na minha direção, coloca a ponta da bengala no meu pé direito
e contenho um grito de dor. Abraçando-a quando ela estende os braços
enrugados até mim. O abraço é alentador, ainda mais do que o outro e ela tem
cheiro de infância, me fazendo lembrar das minhas avós, do sentimento de
amor que flutuava ao redor delas. Lane tem sorte por ainda ter a avó viva.
Precisa aproveitar e muito, porque esses momentos são os únicos que terá
quando ela se for.
— Olá, vovó — falo quando nos afastamos.
— Se um Kingston gritasse com você, o que faria?
É um teste? Estou sendo interrogada?
Penso no que eu faria se qualquer homem gritasse comigo. No mínimo,
fechar as mãos em um punho e quebrar o nariz dele.
— Eu quebraria o nariz dele se eu estivesse certa e bem... se eu
estivesse errada também. Nada dá o direito a ninguém de gritar conosco.
Precisamos respeitar para sermos respeitados.
Ela comprime os lábios e penso que irá me amaldiçoar ou gritar a
plenos pulmões que eu não sou a mulher ideal para seu neto. No entanto, o
que ela faz é justamente o contrário, despenca em uma gargalhada sacudindo
todo o seu corpo e que aparenta não ter fim. Ela ri e ri, uma risada que irradia
tranquilidade.
— Gostei dela. Ah, eu gostei de verdade! — sussurra, se afastando, mas
ainda consigo escutar o que diz — será interessante ver como as coisas
seguirão. Muito interessante de verdade. Pelo menos, dará uma ótima história
— e sacode a cabeça antes de se sentar novamente.
— Quer conversar um pouco conosco, para nos conhecermos? —
pergunta a mãe.
O que tenho a perder?
Nada.
— Claro.
— Quando Lane nos disse de última hora que traria alguém foi uma
surpresa, não é, mãe?
— Se foi!
— Bando de mulheres manipuladoras — resmunga Lane próximo a
mim.
— O que disse seu safado? — amedronta vovó.
Que audição do cacete!
Como ela ouviu o que ele disse, se nem mesmo eu ao seu lado consegui
ouvir claramente?
— Nada. Absolutamente nada.
— Vou fingir que não ouvi — bufa — E não vai se sentar para contar
as novidades? — aponta o espaço ao seu lado no sofá — Estou doida para
ouvir o que tem a dizer.
Só eu enxergo o sorriso maléfico que se abre no rosto dela? Caramba,
que medo!
— Nem ferrando! Só está me chamando para descer a bengalada no
meu pé. Acredita que a unha do meu dedão ficou roxa e caiu por causa da sua
falta de consideração? Nunca vi senhora mais malvada.
Ela gargalha, como se tivesse sido pega em suas reais intenções.
— Menino esperto! E mereceu por aquilo, onde já se viu ficar
bancando o esperto para cima da sua avó que só quer o seu bem. É meu neto
mais velho, Lane, o primeiro que eu peguei no colo, sentindo que era mãe de
mais uma geração. Deveria me dar mais valor. — Ergue a bengala e respiro
fundo, premeditando que ela lançará a peça na cabeça dele, mas na verdade,
só ameaça realmente, voltando a depositar a ponta contra o tapete felpudo
que contorna o sofá.
Seu semblante divertido é impagável.
— Betsy, o que você faz da vida? É uma mulher muito bonita, e
extremamente simpática. Percebo por que meu filho se apaixonou por você.
— Kristen relanceia o olhar entre nós dois, esperando por alguma reação.
Engulo em seco e pela minha visão periférica, noto que o movimento
de Lane é o mesmo.
Apaixonados?
Eu apaixonada por Lane e ele por mim?
Soa meio que impossível. Ele não é apaixonado por ninguém além da
empresa.
— Sou blogueira — ela se interessa pelo que digo e fico aliviada por
isso — E acho que consegui ficar no segundo lugar na vida dele depois da
companhia. Esse homem só pensa nela — indico-o — até sonha que está
tomando as suas decisões durante a noite, falando com Hayden e discutindo
madrugada afora. Levei um susto dias atrás — é fácil mentir sobre uma
intimidade que não possuímos — ele me deixou aterrorizada ao se sentar na
cama às três da manhã, conversando sozinho e apontando gráficos que apenas
ele enxergava.
As mulheres gargalham.
Fito Lane em busca de aprovação e o sorriso que toma seu rosto é
diabólico, do tipo que está tentando entender a minha facilidade em me livrar
de enrascada.
Pensei que ele quisesse justamente isso, a excelente atriz Betsy.
Lane se cansa de ficar em pé e vai até o sofá para se sentar. Tenho dó
dele, porque vovó parece ter ganhado o dia.
— Que coisa, eu falo sozinho enquanto durmo — ele estica as longas
pernas à frente do corpo e não vê o perigo vindo.
Assisto à interação totalmente fascinada.
Vovó levanta a bengala, enquanto ele cruza os braços e me olha em
busca de respostas.
Ela desce o instrumento de penitência e na hora, Lane arregala os olhos
e abre a boca, corroendo-se de dor.
— Porra vovó! — perde a compostura e passa a mão rapidamente na
área atingida, fitando a senhora com extrema mortificação — Por que fez
isso?
— Ah, é uma coisa que gosto de fazer. — E dá de ombros. — Como se
conheceram? Vocês dois parecem bem sintonizados para mim, não é,
Kristen? Olha como formam um casal bonito! — elogia.
— Isso, conte a história para a gente. Nós somos muito curiosas!
— Mamãe! Eu e Betsy estamos cansados, precisamos descansar depois
da viagem. Quem sabe quando tivermos tempo não contamos tudo?
— Querido, por que não podemos contar agora? Elas estão curiosas,
vamos contar sim!
O homem me lança um olhar furioso.
— Já disse que gosto dela? — fala vovó para ninguém em específico —
Gostei mesmo dessa menina, me lembra muito eu quando era mais nova.
Ahhh — profere sonhadora — bons tempos de diversão aqueles. Se seu avô
não tivesse me levado para o parque naquele dia e me feito subir as alturas no
seu velho Buick. Quem sabe onde eu estaria agora?
— Urgh, vovó! Detalhes demais! — reclama Lane.
— O que é? Vocês não fazem sexo não? É uma coisa normal da vida!
— Está assustando a Betsy — sussurra a mãe de Lane.
— Assustando-a? Estou divertindo-a! — a bengala é apontada para
mim — olha como ela parece à vontade com a gente. Vocês são muito
opressores, odeio isso. Está vendo, menina? É isto, — se inclina um pouco
em minha direção para confidenciar — que acontece quando ficamos velhas.
Temos que seguir os padrões. Foda-se os padrões! Já vivi muito para ficar de
decoro agora!
— E então, como se conheceram? — volta a bater na tecla Kristen.
— Nós... — começa Lane e eu o interrompo.
— Eu estava na praia, relaxando um pouco e o vi na espreguiçadeira ao
meu lado. Meu primeiro pensamento foi...
— Como ele é lindo, minha filha, eu sei como funciona — interrompe-
me vovó.
— Pearl, deixe ela contar a história!
— Certo, certo, é que essa parte a gente já imaginava. Ele é meu neto e
um homem muito bonito, temos que admitir não é, Kristen?
— Então, eu pensei isso mesmo que a senhora disse — ela acena
positivamente em apreciação — só que ele nem olhou para o lado.
— E não choca ninguém! Esse moleque estúpido! — ela dá outro golpe
com a bengala, desta vez na canela dele.
— Por que eu tenho que sofrer tanto? — choraminga.
— Porque é um idiota — responde Pearl — pode continuar Betsy. Juro
que não vou mais interromper.
— Decidi voltar para casa e quando estava no bar, após pagar a minha
conta, deparei-me com ele me fitando.
— Agora que a coisa fica boa! — interrompe Pearl de novo, sem se
importar com a sua promessa anterior.
— Sim, agora sim! Pensei em um primeiro momento que ele estava
louco por mim, principalmente quando caminhou felino na minha direção,
com os músculos proeminentes na regata que vestia, o quadril estreito e tudo
o mais, totalmente atraente. Pensei que tivesse tirado a sorte grande, até
cogitei jogar na loteria depois. Então Lane pegou em minha cintura e me
beijou como se eu fosse moldável, de maneira avassaladora.
Suspiros irrompem das senhoras. Pearl está com os olhos voltados a
mim, fixos, prestando atenção na história que conto. Uma verdadeira,
inclusive, as coisas aconteceram exatamente assim.
— E aí, menina, conta logo o que ele fez! — Kristen me apressa, como
se o filho nem estivesse ali, ouvindo a tudo duvidoso.
Arrisco um olhar até ele e percebo totalmente o contrário. Lane também
está prestando atenção. Digo, realmente atento ao que falo.
— Fomos interrompidos pela ex dele. Hilary, não sei se conhecem,
acho que não, certo? Enfim, ela é meio histérica e me fez perceber que esse
homem — aponto para Lane — só estava me usando para poder se livrar
dela. Ele teria beijado qualquer uma que aparecesse na sua frente naquele
momento, se fosse necessário. Estava muito afetada pelo beijo, mas ao
perceber isso...
— Eu conheço essa daí sim — indica não gostar e prossegue — sua
empolgação foi por água abaixo assim como a minha agora — exalta vovó.
— Eu não teria beijado qualquer uma — diz Lane, após muito tempo.
— Não?
— Claro que não. Eu te vi na praia, na espreguiçadeira e pode ter
certeza que pensei a mesma coisa, que parecia uma sereia que acabou de sair
do mar, mas você pareceu me ignorar. Então deixei para lá — fala
casualmente — e quando a vi no bar, já iria falar com você. Hilary aparecer
foi providencial, porque então tive uma desculpa para agir de maneira errada
e beijá-la sem seu consentimento.
Semicerro as pálpebras, ponderando sobre o que ele diz.
Seria verdade?
— Não acredito.
— É a verdade — ele se levanta e olha para nós três — vou falar com
os outros. Depois conversamos mais. — E se afasta rapidamente.
— Ele pareceu incomodado — realça Pearl.
— Nunca o vi assim — adiciona Kristen.
E então ambas depositam o olhar em mim, como se refletissem acerca
do que acabou de acontecer.
— Que coisa. Tudo caminha como imaginei.
— Exatamente tudo — rumina Kristen.
— Pode ir também se quiser, menina. Certeza que o medroso foi correr
atrás dos primos para jogar uma rodada de Kingstone antes do jantar. Lane
odeia papos sentimentais. Até parece eu.
— Com licença — levanto do sofá — e obrigada por tudo, vocês são
incríveis.
— Ele disse que iríamos te comer viva, não é? — inquere vovó.
Faço uma careta, concordando e lançando-o ao fogo sem querer.
— Peste! Como pode essa criatura ter nascido de você, Kristen? Deve
ter assustado a garota por dias consecutivos!
— Eu não me assusto fácil. E também não acreditei nele.
— Cada vez mais estou convencida que se dará muito bem na família,
Betsy. De verdade — diz ela.
Saio antes que eu fique feliz demais com essa constatação.

Caminho por entre os cômodos, tentando encontrar uma saída. Sinto-


me em um labirinto, sem conseguir conter o pânico por não entender onde
todas as portas levam. Preciso de um mapa para me mover nessa propriedade,
sem brincadeira.
Finalmente, sinto a brisa gostosa que passa de uma das portas duplas,
arejando o ambiente. Estou próxima da liberdade. Logo que passo, ouço os
gritos eufóricos de mulheres e homens.
Escuto a voz de Lane também.
Paro nos degraus, vendo todos se divertindo entre si. Alguns tapas de
brincadeira aqui e ali, mas fico estupefata em como Lane está à vontade. Ele
não me vê, mas um dos seus primos sim.
— Quem é a deusa grega que pousou no nosso quintal?
— Cala a boca, Kendrick! — Noto como Lane e ele são muito
parecidos.
Lembro-me que ele me disse algum dia, sobre ter um irmão.
— O que foi? Não é verdade? — rebate o outro.
Meu olhar sustenta o de Lane.
Existe algo pairando entre a gente, que eu não sei o que é. Talvez
tensão sexual, ou apenas curiosidade para descobrir mais um do outro. É
como estar em uma disputa, na qual não haverá perdedores, apenas empate. O
entrave é quebrado quando seu celular toca. O semblante que assume destoa
profundamente do anterior, como se ele acabasse de vestir a sua máscara de
empresário renomado. O espaço entre suas sobrancelhas se destaca quando
ele as une, em confusão ao que escuta. Acena positivamente e negativamente,
em um reflexo ao que fala. Não deixo de observar desde a linha de seu
maxilar, até o pescoço, enquanto sua garganta se movimenta com as suas
falas. Lane é estupidamente incrível. Seus trejeitos arrogantes apenas
mascaram uma das suas maiores qualidades, que é colocar a sua família
acima de tudo.
E não é só isso.
Ele se dedica a tudo o que faz.
É compreensível quando as pessoas ao seu redor passam por
problemas.
Sinto que isso não é bom. Passo a mão no lado esquerdo do peito e
tento afastar a sensação de calor para longe. Meu coração bate rápido quando
ele me olha, e devagar quando ele se afasta.
É loucura, só pode ser.
Acredito que o erotismo presente em seu cerne e a maneira com a qual
ele me eleva às alturas com a boca e com o pau, seja um dos fatores para essa
sensação. Apenas isso. Deve ser química o que estou sentindo.
— Laaaane — o que provocou grita — não vai nos apresentar a sua
companhia? Ela está parada como uma palmeira na escada! Quanta falta de
educação da sua parte — vejo que o mais novo começa a andar na minha
direção e não sei como reagir.
Não o conheço.
Seu sorriso é diferente e ao mesmo tempo parecido com o do irmão.
Um é sério e duro consigo mesmo, enquanto o outro é relaxado demais. Sua
pele bronzeada, em um tom edênico que muitas mulheres matariam para ter,
grita que ele passou os últimos dias na praia. Ele, inclusive, seria meu tipo
antes. Ultimamente, minha preferência tem sido ternos, traços duros e olhares
penetrantes.
— Quem é você? — pergunto quando ele se aproxima demais, o que
me deixa alerta.
— Sou Kendrick Kingston. O grande KK como minha família me
chama. E você, linda deusa dos meus sonhos mais indiscretos, qual o seu
nome? E me daria a honra de abandonar meu irmão resmungão para passar
um final de semana quente e arrebatador comigo? — pisca, provocando.
Tenho certeza de que ele sabe que o irmão escutou tudo.
— Betsy — estendo a mão.
Ao invés de aceitar e apertar, ele a alça e deposita um beijo no dorso,
totalmente galante. Bem, se o mais velho aprendesse com o mais novo, teria
metade de Miami aos seus pés.
— Betsy...? — ele espera que eu diga meu sobrenome.
Não o faço. Ele saberá exatamente o que eu quero que ele saiba.
— Apenas Betsy.
Kendrick me puxa para ele e sussurra em meu ouvido: — Não fique
brava pela minha intromissão, mas é que ver meu irmão morrendo de ciúmes
é um bálsamo para a minha alma aventureira. Deixei o Havaí para trás só por
este momento, que acontecerá em 3, 2... — ele é interrompido antes do
esperado.
— Solte ela, Kendrick, pelo amor de Deus!
— Por que não posso conhecer minha cunhada? — fomenta o ódio
familiar.
Controlo o riso quando vejo um Lane furioso dando passos duros até
nós. O celular em sua mão, com a tela acesa, indicando que ele ainda está na
chamada, mas que pelo visto ela já não é mais tão importante assim. Minha
fera interior reage com uma salva de palmas por esta pequena vitória.
É ínfima?
Absolutamente. Mas uma vitória de qualquer forma.
Que porra está comemorando Betsy? Pare de se importar com o que
ele sente por você!
— Não tem a menor consideração por ninguém. Que inferno!
Lane me puxa de perto do irmão, que gargalha sem parar.
— Que homem ciumento temos aqui! Nunca pensei que fosse ser tão
divertido te provocar.
Ele rosna, parecendo realmente um animal irritado com a brincadeira.
— Idiota.
— Sempre, irmão. Além do mais, atendeu ao celular e nos esqueceu.
Que tal apresentar a linda Betsy para nossos primos? Aposto que Damon está
curioso, assim como os demais. E se me permite aconselhá-lo: tome conta
antes que alguém a roube de você.
Kendrick assobia alto com os dois dedos na boca. O som entra pelos
meus ouvidos e se espalha agudo através dos meus tímpanos.
— Ele é assim, desculpe se te importunou.
— Nem um pouco — assumo.
— Pessoal, o Lane trouxe a namorada para a gente conhecer! Corram
aqui ou ele vai trancar ela no quarto pelos próximos três dias!
Conto quatro pessoas caminhando até nós. Cinco com um retardatário
que acena com as mãos para que ninguém o esqueça. Três mulheres e dois
homens.
As mulheres estão com chapéus de palha por causa do sol e os homens
com bonés. Todos estão vestidos casualmente, para participar do tal jogo
fundado por eles. Um inclusive, já está com a bochecha vermelha, na marca
perfeita de uma bola.
— Típico dele tentar esconder esse tipo de coisa — fala uma mulher,
assoprando uma mecha de cabelo que recai sobre seu olho.
Ela sorri como a senhora fez mais cedo. Acho todos eles muito
parecidos, é claro que fazem parte da mesma família, como se tivessem
alguns traços que são características marcantes dos membros do clã.
— Acredita que me chantageou para vir até aqui quando o navio
atracou, só para eu ver o milagre acontecendo? — A outra murmura, pasma.
— Não vieram pelo aniversário da vovó? — acusa Kendrick —
Maldição, vocês são piores do que eu!
— Para de ser mentiroso seu inútil, pensa que não sabemos quais as
suas motivações também?
Ele dá de ombros e inclina um pouco a cabeça para o lado,
despropositadamente.
— Sou Bessie — a primeira a me alcançar estende a mão em
cumprimento.
Seu aperto é firme, eu gosto. Assim como seu sorriso é real, palpável e
também me agrada.
— Muito parecido com o meu nome o seu — brinco — talvez a
personalidade também seja similar.
— Sim, por causa da Bessie Coleman, uma aviadora americana que
nasceu aqui no Texas — explica, com um sorriso — Ela passou no teste da
vovó Pearl? — inquere, voltando-se para Lane, não me ignorando, mas me
incluindo na brincadeira.
Sou acolhida com uma casualidade de assustar.
— Com louvor. Ela apoiou a bengala de propósito nos dedos dos pés da
Betsy, que nem gritou. Se visse o rosto da vovó, gargalharia até o ano que
vem. Muito decepcionada por não ter ouvido gritos.
Bessie se aproxima de mim, com a mão na boca, para confidenciar: —
Acreditamos que ela se alimenta dos nossos berros aterrorizados. Tentamos a
todo custo ignorar seus golpes de bengala e a dor por eles provocada.
— Enfim, antes que a Bessie não pare mais de falar, sou a irmã dela,
Jenna. Essa aqui é nossa prima Casey — indica a que está ao seu lado,
respondendo alguma mensagem no celular — Não ligue para ela, é dona de
uma loja de roupas, e como o Lane aqui — pisca para o primo — tem o
tempo contado e não pode participar sempre de atividades em família.
— Muito prazer, santa milagrosa, eu sou o Dale.
— Damon — Um com os olhos incrivelmente azuis, cabelo curto e
escuro, profere, carrancudo. Não parece tão disposto a ficar ali, jogando a tal
brincadeira assassina.
— Não liga para ele — exclama Dale — está assim porque perdeu duas
partidas seguidas e finalmente admitiu que é o pior jogador de Kingstone da
família. Céus, que vergonha!
— Como se ninguém soubesse — debocha Kendrick.
— Quer sair? Ir para o quarto? — pergunta Lane baixo, enquanto seus
primos entram em uma discussão exaltada de quem joga melhor ou não.
— Não, mas que maluquice é essa! — interrompe seu irmão — Betsy
precisa descobrir como você é um bundão, jogando com a gente.
— Temos coisas mais importantes com as quais lidar — rebate Lane.
— Tá, tá — o outro sacode as mãos no ar — vocês podem transar a
noite inteira, meu querido, ninguém vai perturbar. Somos todos adultos,
certo?
Olhando para eles, extremamente agitados por um simples jogo, tenho
minhas dúvidas.
— Estão nessa guerra de masculinidade e não deixaram que a parte
mais interessada se manifestasse. Então... — Casey tenta falar, mas é
interrompida por Kendrick.
— Aceita jogar, Betsy?
Acho que eu não consigo parar de rir!

— Ah, o que tenho a perder, não?


— Nós fingimos que estamos tentando acertar a cabeça, mas sempre
miramos nas bolas! — Bessie diz e eu não consigo controlar a minha
gargalhada.
É, realmente Lane tem razão, a empolgação altera nossa maturidade.
Porque de repente me sinto compelida demais a ganhar dos homens, e nem ao
menos sei qual o prêmio para o vencedor. Talvez honra, respeito, o que eu
preciso bastante diante desta família que não conheço. Se for algo insano, do
tipo inacreditável, quero também. Já que estou aqui, preciso arrebentar!
Minhas pálpebras formam fendas pequenas e eu encaro todo mundo
como se fosse meu adversário.
Acho lindas as colinas verdes que contornam a bacia onde a casa foi
construída, mas não me distraio. Ou, tento não me distrair. Imaginando como
deve ser incrível acampar por entre o verde e as árvores que crescem
frondosas. Aposto que eles fazem isso.
— Betsy nasceu uma de nós sem saber — parabeniza alguém — olha
só o olhar maldoso que essa mulher tem! Lane deve apanhar que nem criança
durante a noite.
— Cala a boca, Ken! — ralha Lane.
Contenho o riso com a referência, por mais que o homem não pareça
nada com o boneco. Minha irmã saiu com um cara uma vez, que ela disse ser
igualzinho. Sempre fiquei curiosa para ver o dito cujo, mas, ela nunca me
mostrou o perfil dele nas redes sociais. Triste. Enfim, o corpo bronzeado,
musculoso, os cabelos negros na altura das orelhas e um sorriso sacana que
Kendrick possui, não se assemelham a nada ao boneco sem sal.
— Sabe que odeio que me chamem assim, me faz lembrar o boneco.
— E por que acha que ele chama seu idiota? Não se conta para as
pessoas o que você não gosta! Principalmente para as que podem usar isso
contra você! — zomba Jenna.
— Ah meu Deus — exclama Damon olhando para o céu — por que eu
nasci nessa família? Só queria jogar em paz e provar que sou capaz de chutar
a bunda de todos até nos meus piores dias! Por que temos que ser tão infantis
quando se trata dessa merda de jogo?
Eles são no mínimo... interessantes juntos.
— Idiota — reclama Bessie.
— Vai anoitecer daqui a pouco e nem conseguimos definir o vencedor
desta vez! Que porra! — rebate ele.
— Ninguém mandou vocês ficarem jogando sujo! Tivemos que
cancelar o resultado dos últimos para que parassem de trapacear e andar
enquanto arremessam. São horríveis nisso, de verdade, juro que são.
— E lá vamos nós de novo para a discussão — cantarola Dale,
sentando-se na grama.
— Ele é zen — Jenna se aproxima para cochichar — e faz a gente
relaxar como ninguém quando propõe meditação. Pena que nós ficamos
entediados em quinze minutos e nos levantamos sem que ele veja.
— E aí, vamos ou não jogar? — cantarola Bessie, interrompendo as
várias vozes ao mesmo tempo.
São loucos, é a conclusão a que chego.
— Vamos! — exalta-se Dale.
— Certo — começa Kendrick — então temos que ensinar à nova
integrante como funciona o Kingstone, já que o Lane não fez questão de a
introduzir a esse mundo novo.
— Pare de provocar seu irmão, cara! — profere Dale.
— Bom, como eu disse, vou explicar como funciona. Betsy, querida —
ele passa o braço em meus ombros recebendo um olhar atravessado do irmão
— o último vencedor pega várias bolas de pingue pongue, na verdade, de
acordo com a quantidade de pessoas no jogo, sendo que cada uma tem uma
inicial, exceto a do Damon e do Dale, as quais têm D1 e D2. O vencedor as
lança para o alto e onde elas caírem, é onde deveremos ficar. É então que a
verdadeira luta sanguinária começa! O detentor do atual título, começa
lançando, se ele errar o alvo, a pessoa que ele tentou acertar fica com a posse
da bola. O último que restar, vence. E também ganha o título de campeão
Kingstone da temporada.
Calculo tudo o que Kendrick disse.
É, parece ser fácil.
Olho para Lane, que se encontra com os lábios crispados.
— Betsy ainda não tem a inicial dela em uma bola — murmura ele.
— Claro que não, mas temos algumas sobrando.
— Eu pego! — Dale corre na direção de um galpão ao longe e volta
minutos depois, sacudindo algo nas mãos.
Assim que ele chega até Kendrick, entrega a bola e uma caneta.
— Você será a B2, porque já temos a Bessie.
— Certo — concordo — e quem foi o último ganhador? Quer dizer, é
assim que funciona não? O último ganhador lança as bolas para o alto.
— Exatamente! — parabeniza-me por ter compreendido o princípio —
O último vencedor é o mais ranzinza de nós, já que antes que chegassem,
quebramos a regra e colocamos Jenna para lançar — Kendrick se inclina para
sussurrar — ela é horrível nessa coisa, todo mundo fica perto demais, mas
meio que gostamos de vê-la sem coordenação tentando segurar e jogar todas
as bolas ao mesmo tempo!
— Dê logo a da Betsy, que eu irei lançar — resmunga Lane, se
aproximando de nós dois.
— Não precisa se irritar irmão, só estava explicando para a minha
cunhada como as coisas funcionam!
— Ela já entendeu — Sibila ele.
— Então, pega — entrega para o mais velho o que ele pediu — e boa
sorte, porque sinto que as coisas ficarão frenéticas.
Lane segura a B2 e caminha pela grama verde e cintilante, pescando as
demais. Quando termina, ele parece contar para ver se o número está correto
e logo em seguida, as acolhe em seus braços, formando uma espécie de cesto
com elas. Assim que ele as lança para o alto, elas se chocam no ar,
distanciando-se ao cair no chão, rolando pela grama. Vejo todos correndo
para olhar qual é a sua, tomando o cuidado de não as tirar do mesmo lugar em
que pararam.
Não saio correndo como esperam.
Pelo contrário, aguardo que tenham encontrado as suas, para então eu
me mover até a minha. É questão de lógica.
Lane sorri quando percebe a minha tática.
Ele está um pouco longe de mim, com Jenna e Dale mais próximos.
Ambos ostentam carrancas porque sabem o que vai acontecer tanto quanto
eu. Lane pega a bola improvisada de meia e atira com suavidade na testa de
Jenna.
— Filho da mãe! Por que sempre me acerta?!
— Não tenho culpa se todas as vezes cai próxima de mim.
Ela se retira do jogo, entregando a bola de meia de volta para Lane e
então senta-se na grama, próxima de onde estamos, para observar o embate.
O alvo seguinte é Dale, como esperado. E a mesma cortesia atribuída às
mulheres não se aplica aos homens, uma vez que Lane atira a bola de meia
tão forte contra o primo que quando ela acerta a testa dele, o coitado dá um
passo para trás, tentando conter o impacto do golpe. Parece irritado, mas só
lança o objeto de volta para o outro, enquanto se contenta em sair e sentar ao
lado de Jenna.
— Agora é que eu quero ver! Estou longe de você, irmão, e a mais
próxima é Betsy! — provoca Kendrick.
O olhar de Lane varre seus adversários e ele sabe que eu estou mais
perto. Todos sabem. Mesmo assim, ele lança a bola na direção de Bessie, e
erra. Profere um palavrão e me olha dando de ombros.
Mal sabe ele que eu não terei a mesma piedade quando estiver em seu
lugar.
— E não choca ninguém — exclama Damon — agora vamos logo com
isso, Bessie e erre a jogada para eu poder ter minha vez! — apressa a prima,
que já se prepara para lançar em sua direção.
Porém, ela não mira na cabeça, mas nas partes baixas e quando lança
com força, assisto em câmera lenta a bola de meia disforme se aproximando
de Damon e o atingindo com impetuosidade. Não demora para que o homem
finque os joelhos no chão, com as mãos no meio das pernas e semblante
transformado pela dor.
— CARALHO, BESSIE! BEM NAS MINHAS BOLAS!
Todos gargalham da infelicidade dele, enquanto a outra olha
triunfalmente para o feito.
— Foi sem querer — exalta ela, dando de ombros, deixando bem clara
sua mentira.
— Essa porra não vale! Tem que ser na cabeça, merda! — resmunga o
primo.
— Claro que vale! Ninguém especificou se era a cabeça de cima ou a
de baixo!
— Ela tem um bom ponto, eunuco — provoca Lane, enquanto segura a
gargalhada por causa da careta que se forma no outro.
— Vai direto pro inferno quando morrer! — amaldiçoa a prima,
levantando-se e indo até ela para entregar a bola.
Após isso, ele caminha de um jeito estranho até Jenna e Dale.
— Agora, vejamos quem será o meu alvo... — ronrona Bessie,
varrendo os sobreviventes.
Eu, Lane, Kendrick e Casey.
Sendo que a última está mais próxima, sem se ater muito ao jogo,
olhando para as suas unhas e assobiando. Não parece minimamente
preocupada. E devido a isso, não demora para ser eliminada.
Ergue os ombros e as mãos, como se não se importasse muito e corre
na direção dos demais, sentados e conversando animadamente.
— E agora, Bessie? Aposto que vai errar! — diz Kendrick.
— Sua bunda que vou errar!
— Então tenta!
Ela mira no primo e acaba não acertando. Kendrick comemora por isso
e começo a ficar curiosa para saber em quem ele vai arriscar. Bessie está a
alguns metros dele e por mais que ela não tenha acertado, ele deve conseguir
isso, então, não demora a escolher a prima como alvo. Depois dela,
obviamente que Lane é o mais próximo, porém, ao me deparar com seus
olhos, percebo o brilho maquiavélico que há neles.
Kendrick perscruta a mim e o irmão, não tardando a mirar a bola em
mim, sem a menor tentativa de acertar. Não choca ninguém quando a dita
cuja para a poucos metros de distância dos meus pés, representando o embate
do século, porque não tardo a tirar Kendrick da jogada, restando apenas Lane
e eu. Ele teve a chance de me tirar, mas preferiu arriscar. Eu não vou fazer
questão de errar apenas para que ele saia vencedor. Pelo contrário, eu quero
ser a grande ganhadora desse ano.
Nunca tinha ouvido falar desse jogo, mas agora que participei, não
posso perder a oportunidade de ganhar mesmo sendo principiante.
— NÃO ACREDITO! — grita Jenna — Você errou de propósito, Ken!
— Claro que não — rebate o outro, que sorri, — ou sim, quem pode
dizer?
Avalio Lane e ele está inconformado. Que pena!
— Acerte nas bolas, Betsy! — grita Bessie, ao fitar quem restou além
de mim.
— Mas e daí como ela vai usar depois? Vocês têm a sorte de que não
precisam se preocupar com isso, somos seus primos, mas no caso dela... as
coisas se complicam, não?
— Você tem razão, Dale..., Mas, acerta pra gente se divertir! — reitera
Bessie.
— A chance está com você de destronar o insuportável — diz
Kendrick, quando me entrega a bola, antes de se mover até os primos.
Olho para o objeto com cor de terra devido a tanto rolar na grama e o
passo de uma mão à outra. Sinto um olhar queimar minha pele e ao erguer a
cabeça, deparo-me com Lane, olhando-me indecifrável. Agora sim ele parece
se arrepender de ter hesitado quando teve a chance. Não posso fazer nada, ele
mesmo procurou por isso.
Meus lábios se contorcem em um sorriso de canto quando o contemplo
mudar o peso de perna, incomodado.
É bom mesmo ele estar.
— Você vai errar, coração de gelo.
— Será?
— Acho melhor nem tentar!
— Não desisto do que me propus a fazer, meu anjo — digo, em uma
provocação clara sobre a nossa situação.
Ergo o braço, colocando toda a força de que sou capaz e lanço na sua
direção. Não demora para acertar o alvo, exatamente onde imaginei que
acertaria. Os olhos de Lane fitam-me perdidos, enquanto ele processa a dor
que se alastra pelo seu corpo. Leva vagarosamente as mãos até a área e então,
pressiona um lábio ao outro, com os olhos se enchendo de água e as pernas
tremulando, sem capacidade de mantê-lo em pé.
— BEM NAS BOLAS! — comemora Bessie.
Cadê a arrogância agora?
Falei que ele pagaria tudo o que disse para mim antes, não falei?!
— Betsy — ele proclama baixo, com a voz fina, como se não
conseguisse continuar.
— Eu disse que acertaria!
Seus olhos giram e aposto que ele vê estrelas.
— Não acredito que o Lane perdeu! Ah, meu Deus, o Lane perdeu! Por
todas as Bluebonnet do Texas, ele não é mais o atual campeão de Kingstone!
— grita Casey, vindo na minha direção.
Não demora para os outros fazerem o mesmo, levantando-me entre os
braços e gritando, enquanto eu sorrio da festa que fazem. Acredito que a
dinastia de Lane Kingston acaba de desabar.
— Ela só ganhou porque... — ele se aproxima da gente, ainda
vacilante, mas trava sob seus pés com os olhares recriminadores que recebe.
— Precisa ser um bom perdedor. Pare de falar idiotices! — ralha
Kendrick.
— Não estou dizendo idiotices! É a verdade! Se eu tivesse acertado ela
no começo, não teria ganhado.
— Mas, não acertou. Uma pena. — Finjo empatia.
Os braços que me seguravam no alto, depositam-me no chão e me sinto
uma campeã Olímpica, mesmo sabendo que é só um jogo entre familiares.
Podem trazer a medalha, meus queridos, que eu sou a número um!
— Não é querendo ser estraga prazeres e eu adoraria a discussão, mas
quem está chegando é... — Dale fala, mas é interrompido por Jenna que
exclama:
— Porcaria! De onde estamos conseguimos ver outro carro subindo
pelo caminho que leva até a mansão. Bem, talvez carro não seja a melhor
definição. Um jipe enorme e monstruoso classificaria melhor.
— Não é que o vovô veio mesmo? — cicia Damon para Dale.
Acho a combinação de nomes engraçada e ao mesmo tempo muito
elaborada.
— Esse é corajoso. Um verdadeiro texano — complementa Lane.
Seu celular toca mais uma vez e ele o atende, entrando no modo
executivo. Aos poucos, percebo como a sua rotina é exaustiva. Ele não está
de folga nem mesmo quando está de folga, faz sentido? Tudo precisa de sua
autorização, assim como da sua preocupação. Percebo que as coisas não estão
bem, porque ele coloca os dedos na testa, tentando se concentrar. Identifiquei
essa sua mania há alguns dias, observando os seus gestos toda vez que
alguém liga para ele. É automático.
Afasta-se um pouco para não nos atrapalhar e tento ler seus lábios, sem
sucesso.
— É sempre assim, ele está de corpo aqui, mas, não de espírito —
declara Jenna.
— O peso deve ser enorme.
Contemplo o homem que aparenta mais idade do que possui, com a
necessidade de ajudá-lo de alguma forma. Nem que seja relaxando-o durante
a noite.
— Nem me fale — ela chacoalha a cabeça — por isso decidi viver
minha vida nos cruzeiros, parando em países que eu nunca vi, para poder
desbravar o mundo. Lane está preso a uma responsabilidade gigantesca, que o
consome dia após dia. Acredito que vovô, vovó e os tios se arrependem de ter
despejado o fardo nas costas dele, ao mesmo tempo em que sabem que não
existe pessoa mais qualificada para o cargo. Alguns familiares só querem a
parcela de lucro das suas ações ao final do balanço e a outra metade, corre da
responsabilidade. Sobrou para ele manter o império girando. É o neto
preferido da vovó, por ser tão firme e decidido. Ela faria qualquer coisa para
vê-lo finalmente feliz e não apenas seguindo o fluxo dos negócios.
— Aconteceu alguma coisa com ele? Parece que está sempre se
contendo.
Jenna assume postura defensiva. Noto que toquei em um assunto
delicado na família.
— Todos guardamos segredos, Betsy. E não o pressione para tentar
descobrir. A situação do Lane com a mãe há muitos anos era complicada e se
não fosse vovô decidir criá-lo, não sabemos como seria.
Lembro de Kristen, a mãe de Lane e nada me remete a essa tal situação
que Jenna diz. A mulher parece muito bem, aliás. O que será que aconteceu
para ele ficar receoso desta forma em se envolver com qualquer pessoa? Por
que pareceu incomodado ao ver a mãe, mesmo aparentando um amor
incondicional por ela? Que coisa mais estranha.
— Achei que Lane tivesse sido criado pela mãe — assumo.
— Vou parar por aqui, porque se ele souber que eu falei essas coisas,
vai me matar de verdade, ao invés de só ameaçar como nas demais.
— Vovô chegou? — inquere Kendrick, retardatário, olhando para todos
como se tivesse passado os últimos minutos em uma bolha fechada no seu
próprio mundo.
Eu, em contrapartida, ainda estou pensando no que Jenna falou,
enquanto ela se afasta sutilmente para que eu não faça mais perguntas.
Presumo que ela seja a mais boca aberta da família. Assim como minha irmã,
que mal consegue guardar seu próprio segredo por alguns dias.
— Tá surdo por acaso? — responde Dale.
— Será que vamos ouvir o grito da vovó daqui? — pergunta Lane,
aproximando-se novamente.
Todos parecem parar a conversa repentinamente, para aguardar que isso
aconteça. Não sou nem doida de quebrar o silêncio, de qualquer forma não
demora muito para o que eles disseram acontecer.
“AGORA VOCÊ APARECE?! SEU VELHO FILHO DA PUTA!”
Arregalo os olhos. Quem gritou foi vovó Pearl? Quantos anos ela tem e
como diabos é capaz de gritar a esta altura? Espanto-me para valer.
Dedos se entrelaçam aos meus e demoro um pouco a acordar da minha
névoa de assombro, para fitar Lane preocupado.
— Betsy, nós precisamos nos trancar no quarto. De preferência por
várias horas — externa ele.
— Como assim? — fico confusa.
— O último que se ferre! — e todos saem correndo assim que escutam
o som da bengala ecoando pelo piso no interior da mansão.
Ela está se aproximando.
— Eu explico depois, mas agora... CORRE!
Lane acelera sua corrida por entre algumas árvores totalmente
recuperado do golpe que sofreu, quando nota que não estou rápida o bastante
para, exclama alguma coisa e me pega no colo sem dificuldade, voltando a
apressar as passadas longas, tentando se distanciar da mansão o máximo
possível. Sinceramente, não entendo nada, muito menos porque um bando de
pessoas adultas corre da vovó mais divertida e leal que já conheci.
Ele afunda em meio à floresta e quando me coloca no chão, escutamos:
— LAAAAANE!
Eu não diria nada, mas Lane cobre a minha boca com uma mão e me
prensa contra a árvore mais próxima, olhando atento na direção da qual o
grito vem, conferindo se a senhora não o enxerga de onde está. Seria um
tanto cômico se eu não sentisse o seu receio de ela encontrá-lo.
— Ooo iii áaa aoeceno — minha intenção é perguntar o que está
acontecendo, mas é isso que abandona minha boca, sendo pressionada pela
sua palma.
— Eu convidei vovô para o aniversário. — Ele indica ter decifrado
minha fala — Os dois ainda são casados, mas não se dão muito bem. Cada
um fica no seu canto. Vovó pediu a todos para não o chamar, mas eu achei
que a reunião não estaria completa sem ele.
— ilho da ãe — falo.
Se a mulher pediu, por que inferno ele foi se intrometer na coisa toda?
— Ela fez eu apelar ao casamento, quando estou muito bem sozinho, e
você ainda acha que eu não deveria me vingar um pouquinho que seja? — ele
brinca, mas percebo que na verdade não fez isso pelo mal de ninguém.
Tira a mão da minha boca, dando-me a chance de resposta.
— Mas, o aniversário é dela.
— Os dois precisam se resolver. Eles se amam, por isso brigam tanto.
Vovô só achou melhor dar um tempo.
— E por que correu? Se não fez nada de errado?
— Ela vai fazer oitenta anos, e o ódio é proporcional, acredite.
— Há quanto tempo são casados?
— Sessenta e um anos.
— Sessenta e um anos de casados? — arregalo os olhos.
É uma vida ao lado do outro.
— E mais um de namoro e noivado. Como ela vive dizendo, as coisas
eram assim antigamente, mal se tocavam. No entanto, todo mundo contraria
vovó porque meu tio mais velho irá fazer sessenta e dois daqui pouco tempo.
A partir daí foram quatro filhos, com diferença de poucos anos cada.
Sorrio quando entendo onde ele quer chegar.
— Acho lindo pessoas que permanecem juntas até ficarem bem
velhinhos sabia? Isso me traz esperança no amanhã, como se o amor ainda
existisse. — Suspiro — Poder contar com alguém tanto tempo, acordar de
manhã e ver apenas ela, apreciar seu sorriso, e criar tantos filhos e netos que
se dão bem é para poucos.
Lane me penetra com o olhar de maneira indecifrável. Está perto, tão
perto que consigo sentir seu hálito quente acariciar meus lábios. Engulo em
seco, imaginando que já não estamos mais tão preocupados em fugir.
Movimento meus dedos na barra da sua camisa. Uma brisa suave
percorre por entre as árvores, chocando-se com nossos corpos que se colam
mais a cada passar de segundo. É incontrolável. O magnetismo que nos
perpassa sempre que estamos sozinhos se apresenta e...
O celular dele toca.
Puta que pariu!
Lane corta a química para atendê-lo.
Está tão afetado quanto eu, porque não se afasta, pelo contrário, encosta
seu corpo ao meu e apoia a testa em meu ombro, enquanto mantém a
conversação sobre alguns assuntos da empresa. Uma de suas mãos mantém-
se em minha cintura, enquanto a sua voz rouca me provoca arrepios
irrefreáveis.
— Estou em Dallas, para a festa de aniversário da vovó.
A pessoa do outro lado da linha diz algo que não entendo.
— Não pode resolver isso sozinho? Tenho mesmo que viajar até aí e
torcer para dar tempo de voltar? — um suspiro pesado irrompe de seu peito.
Aperto seus braços em apoio, beijando o pescoço, em uma atitude impensada.
Lane alça a cabeça para me fitar fixamente enquanto prossegue: — trouxe o
notebook, pode deixar que eu trabalho daqui.
Abro um sorriso contido.
Sinto vontade de explorar cada traço de seu rosto e percorro meus
dedos ao longo do queixo proeminente, apreciando e sentindo a textura da
sua barba por fazer. Ele fecha os olhos momentaneamente, pendendo a
cabeça para o lado, pousando-a em minha mão, como se gostasse da carícia.
Continuo minha exploração, jogando um pouco do seu cabelo espesso que se
derrama sob a testa para o lado. Seus cílios são grossos e compridos,
formando uma fileira perfeita que sombreia as suas bochechas. O nariz é
perfilado, com a ponta ligeiramente empinada. Não há nada que não seja
másculo nos traços de Lane.
Meu coração dança uma coreografia que apenas ele sabe.
Desço minha mão e a espalmo em seu peito, enquanto a outra ainda o
apoia. Sinto as batidas fracas do seu coração espalharem tremores através da
minha palma. Não sei explicar, mas esse gesto simples me acalma e me
proporciona uma dose inexplicável de felicidade. Lane cobre meus dedos
com os seus e ficamos em silêncio sem entender o que está acontecendo.
O tempo começa a esfriar com o sol descendo por entre as colinas,
escondendo-se e trazendo a noite.
Mas, não estamos ligando para isso. O calor irradia entre nós, com o
contato e a intensidade do momento.
Borboletas revoam no meu estômago. Suas asas batem depressa, são
coloridas e espalham cor em algo que eu achei ser apenas cinza. Sabe quando
congelamos uma parte muito boa nossa, depois de uma decepção? Essa
minha parte quer vir à tona. Não posso deixar. Esse não é um casamento
verdadeiro, é uma farsa, e estamos interpretando nosso papel.
Decido lançar essa coisa estranha entre a gente para o desconhecido.
Não quero acordar o que está adormecido.
— Acho que já podemos voltar, não?
Ele suspira.
— Claro. Acredito que vovó já desistiu de me encontrar.
— Então, vamos — chamo-o.
Lane não atende meu pedido, ficando para trás enquanto caminho
devagar até a enorme construção. Olho algumas vezes para trás e o vejo
mexendo com extrema atenção em seu celular.
O que quer que tenha se construído entre nós, foi quebrado.
Fique à vontade para me acalmar assim por todos os dias até
o fim da minha vida!

— Gostamos dela — fala meu irmão, adentrando a sala na qual estou,


para resolver algumas pendências na empresa.
Já é tarde da noite. Todos jantaram. Inclusive Betsy, mas, eu ainda não
tive tempo. Admito que estou assustado com o que aconteceu mais cedo e
não consegui encontrar uma resposta ligeiramente coerente para a palpitação
que se instaurou em meu peito enquanto ela percorria e reverenciava meu
rosto com os dedos. Se ela não leu minha alma com o gesto, chegou muito
perto de o fazer. Senti-me exposto, aberto à sua exploração carinhosa e ao seu
apoio, como se eu precisasse dela sem saber. O ocorrido me abalou e me fez
fugir como um moleque, escondendo-me dela por trás das minhas
responsabilidades no trabalho.
— Eu sei — resmungo, olhando pela milésima vez a planilha de
resultados.
Os números viajam por meus pensamentos, e eu não consigo me
concentrar em nenhum deles. Estou perdido entre olhos profundos, cheios de
mistério e rosto angelical. A cada minuto, minha atenção divaga.
— E o mais importante, você gosta dela.
Lamento quando Kendrick se senta em uma poltrona próxima a mim.
Ele inclina seu corpo, apoiando os braços nas coxas, tentando captar minha
atenção. Olho-o de relance e isso é o suficiente para ele.
— E daí? — rateio.
—Não pode continuar tão amargo pelo que aconteceu. Você não é
culpado, era apenas uma criança. Mas, eu não preciso dizer isso a você, sabe
melhor do que ninguém. A culpa não é de ninguém além daquele crápula, na
verdade.
— Não sou amargo por isso.
— Claro que não.
— Quer alguma coisa além de me desconcentrar?
— Que você tire uma folga de verdade para variar. Não isso que você
chama de folga, — indica o notebook na minha mão e o mar de papéis que
imprimi no antigo escritório do meu avô para analisar — porque não te faz
bem. Tem uma mulher incrível, que está disposta a te ajudar a viver e se
prendeu aqui, como se estivesse fugindo de algo que nem mesmo sabe.
— Não estou fugindo de nada.
— Será? — duvida ele.
— Por favor, se não tem nada importante a dizer, pode me dar
privacidade para lidar com tudo? Negócios não serão fechados através de
mágica.
— Vovó sentiu sua falta no jantar e encheu Betsy de perguntas. Não
estava lá para defendê-la.
— Não precisa de defesa, sabe fazer isso como ninguém.
— Quanto a isso, irmão, você tem total razão. E até vovó percebeu,
chamando-a prontamente para conversarem a sós. — Meu irmão gargalha
desacreditado — Quem em sã consciência iria querer conversar com vovó
sem a companhia de mais ninguém? Você a alertou muito mal para o humor
da matriarca.
Minha preocupação aflora e me forço a manter a serenidade para
enganar meu irmão.
— Betsy sabe o que faz.
Bem até demais.
Estou sendo seduzido, sem conseguir lutar contra a maré.
— Sem dúvida. Porque agora ela é a única na qual vovó não encosta a
bengala. Pearl diabólica Kingston meio que adotou Betsy no seio da família
mesmo sem ela ainda fazer parte oficialmente. — Decido ainda não dizer a
verdade ao meu irmão — Por que vai, não é, Lane? Não acho que você
deixará esse diamante bruto escapar da sua mão. Ela é humilde, simpática,
inteligente, sabe lidar com todos nós e o principal, não parece alguém que
está com você pelo seu dinheiro. Sei o quanto isto é difícil de encontrar, até
hoje procuro e nada. Tenho que ir a outros países para sentir que sou
admirado por quem sou e não pelo sobrenome que carrego.
— Rum — resmungo, tentando fingir que não ouço o que ele diz.
O que é uma absoluta mentira.
— Escute o que estou dizendo e não foda com tudo por causa de poder.
É melhor do que isso. Ao primeiro passo, grande parte dos acionistas te
chutariam para fora se sentirem que não é mais o melhor para o negócio. Sua
esposa, não fará isso. Não se ela for a mulher certa, que se importa com você
acima do seu salário.
Kendrick se levanta e antes que ele saia, o interrompo. A curiosidade
toma a frente na batalha interna para que eu fique quieto e o deixe partir.
— Ken...
— Pode falar.
— O que te faz pensar que ela não está interessada no dinheiro?
— A roupa que ela está não é de alta costura, e em um relacionamento
com você uma mulher interesseira faria questão de garantir o melhor guarda-
roupa que o dinheiro pode comprar e as joias mais exclusivas a que tem
direito e não vi nada reluzindo no pescoço dela, ou na orelha, nem no dedo, o
que aliás é estranho. Onde diabos está o anel de noivado dela, Lane? Deveria
pedi-la logo antes que alguém roube o seu lugar. — Meu irmão coloca a mão
no queixo, buscando outros motivos — Ela sorri mais do que as mulheres que
conheço e olha para você com os olhos parecendo diamantes, tamanho o
brilho que há neles, então, é isso o que me faz pensar que ela não está
interessada no dinheiro.
Espero pela sua risada, conotando que está brincando, mas ela não vem.
Tudo o que saiu da boca de Kendrick é o que realmente pensa.
— Betsy olha mesmo assim para mim?
— Não consegue ver? Te olha como se fosse o cara mais interessante
do mundo. Eu já teria me casado se encontrasse alguém que me olha com
essa devoção. — Coloca a mão no peito — É tocante. Juro.
— Nós já estamos casados, — confesso e ele arqueia as sobrancelhas,
como se esperasse por isso, estranho — mas, tinha comprado um anel com
uma pedra gigantesca.
— E deixe-me adivinhar — ele me interrompe — imaginou que ela não
fosse gostar?
— Joguei uma isca e ela me disse que acha anéis assim horríveis.
— Como eu disse, Betsy é diferente — profere ele — precisa ser algo
delicado e que faça sentido para vocês dois. Senão, qual a graça?
— Pensei que quanto maior, melhor.
— Besteira! — ele faz um gesto de descaso e se move de novo para a
poltrona — nem parece que é o irmão mais velho! As mulheres que mamãe te
apresentou pensavam assim, mas não aquela — aponta para a porta —
raridade lá fora, cara. Já comprou outro?
— Acha que eu sou estúpido? Claro que comprei outro!
— Cadê? — pergunta ele.
Retiro a caixa de veludo preto do bolso da minha calça. Abro-a e
mostro o novo anel. Um em ouro branco, bem fino e sutil, com um topázio
enfeitando-o. A pedra é pequena e delicada, originária do estado do Texas, de
onde eu sou. Pensei que esse seria um charme o qual ela não poderia recusar.
Kendrick assobia aprovando.
— Não vi a outra, mas não consigo imaginar como pode existir anel
mais bonito que esse. O topázio é incrível e saber que é...
— Sim, originária do Texas — interrompo-o — foi o mesmo que
pensei.
As portas duplas de madeira se abrem de supetão e eu escondo a caixa
agilmente, sem conseguir tirar o susto do meu rosto. Vovó olha de mim para
o meu irmão e semicerra as pálpebras, desconfiada.
— O que está acontecendo aqui?
— Nada — dizemos eu e Kendrick ao mesmo tempo.
Ela dá uma pancada no piso com a bengala.
— O Lane estava me mostrando o anel que vai dar pra Betsy! — grita
ele, colocando as mãos na boca logo em seguida.
Chuto a sua canela por ser tão covarde. Vovó não precisou nem bater
duas vezes antes de ele dar com a língua nos dentes.
— Quero ver — ela é enfática.
Pego a caixa com cuidado do bolso novamente e a abro. Vovó caminha
até mim e eu encolho meus pés, por via das dúvidas. Nunca se sabe, ela
sempre nos pega desprevenidos. Inclina-se ligeiramente e quase fecha os
olhos para enxergar. Tiro o anel da caixa e entrego a ela. Vovó olha de todos
os ângulos possíveis.
— O que achou? — pergunto ansioso, vovó gostar já é um passo a mais
até agradar a Betsy.
Aposto que as duas tem um gosto muito parecido.
— É lindo, neto. Lindo de verdade — exala por fim.
Devolve a peça na minha palma e sua mão fecha meus dedos. Olho
para ela e noto que está segurando a emoção. Provavelmente pensou muito
mais do que falou.
— Será que Betsy vai gostar?
— É um topázio, delicado e bem feito, claro que ela gostará. Se bem
que, se não desse nada, ela não reclamaria.
— O que conversaram depois do jantar? — pergunto — Kendrick me
disse que vocês conversaram a sós.
Desta vez é meu irmão que chuta a minha canela. Leio a palavra em
seus lábios “traidor”. Ergo as mãos em gesto de bandeira branca e vovó não
se importa com nenhum de nós dois.
— Se fosse para você saber, a conversa teria sido entre nós três. — fala,
se vira e sai da sala, como quem não se importa com nada.
Olho para meu irmão que contém a risada cobrindo a boca. Basta que
vovó feche as portas para ele gargalhar profundamente, batendo palmas de
euforia, tentando reprimir o arroubo.
— Posso saber o que é tão engraçado? — sibilo.
— Vovó ferrando com todos nós mesmo depois de adultos. Uma coisa
é certa, temos a melhor avó do mundo. Cacete, como eu amo essa velha
diabólica!

Subo para o quarto depois de comer umas frutas, passando a mão na


cabeça para conter a enxaqueca. Trabalhar até tarde é uma porra.
Principalmente quando não consigo ao menos me desligar do trabalho
quando deito na cama. Será mais uma noite em claro, pressinto. A não ser
que eu tenha sorte.
Todas as portas no corredor já se encontram fechadas. Acho que sou o
único fantasma caminhando pela mansão de madrugada. Olho meu relógio e
já é mais de 1h hora da madrugada.
Droga.
Talvez se eu tomar um uísque consiga dormir depressa.
Bato na porta de leve, como ninguém responde, eu giro a maçaneta.
Abro-a devagar, para não fazer barulho e me deparo com Betsy deitada de
costas, com seus cabelos espalhados no colchão atrás de si. Ela está de
pijama, sem coberta. Não está tão frio, mas um vento gelado entra pelas
portas abertas da varanda. A cortina em voil flutua, respeitando os sussurros
que o vento lhe impõe. Retiro meus sapatos para não a acordar e vou pé ante
pé até o janelão. Fecho ambas as partes e me viro apenas para topar com
olhos abertos, fitando cada gesto meu.
— Pensei que estivesse dormindo — falo.
— Fiquei te esperando.
— Não precisava — principalmente porque eu tentei evitá-la.
— Estou acostumada a ficar acordada até tarde por causa do blog.
— Tente descansar, amanhã o dia será corrido.
— Vovó — a forma com a qual ela fala com carinho da vovó me faz
sentir bem — já me falou isso. Mas, não estou tão cansada. — Indica seu
lado da cama.
Retiro minhas roupas, ficando apenas de cueca e me deito.
Um brilho sutil passa através dos seus olhos e acredito que seja uma
das primeiras vezes que a vejo sem maquiagem. Ela se encontra ainda mais
deslumbrante.
— O que achou de todo mundo?
— Eles são muito legais. Melhores do que a minha família. Eu, minha
irmã e meus pais somos próximos, dos outros integrantes não fazemos tanta
questão.
— Tem que se importar com quem se importa com vocês.
Ela balança a cabeça concordando.
— Acha que sua família não ficará chateada quando descobrir a
verdade? — pergunta.
— Não irão descobrir.
— Tem certeza?
— Tenho, Betsy, eu tenho sim.
Além do mais, a farsa começou com vovó e mamãe. Elas são as
verdadeiras culpadas.
Escuto sua respiração calma e por segundos, esse som é o bastante.
Meu celular toca assim que me lembro de tomar banho. Levanto e Betsy
segura meu pulso com firmeza.
— Não pode deixar o celular de lado um pouco? — seu pedido me pega
desprevenido.
— Como assim?
— Você ficou escravo do celular durante o dia inteiro. Não faz bem,
Lane, se dedicar tanto ao trabalho assim. Você precisa descansar.
Fecho o semblante. Ela está tocando em um assunto que não é de seu
interesse. Livro meu pulso do seu aperto.
— Isso não é da sua conta.
Vou até o banheiro e deixo o celular tocando na mesa de cabeceira,
para provar a ela que ele não comanda a minha vida.
Entro no chuveiro e a água escorre pelo meu corpo, amenizando o
estresse com um calor bem-vindo. Respiro profundamente, inalando parte do
vapor. Estou um pouco irritado com o que Betsy disse, mas não por ela se
intrometer, mas por ter razão. Toda a razão. Saio do banho depois de minutos
entorpecido pela água quente, atravessando a névoa de vapor que se espalha
pelo banheiro. Pego a toalha, me enxugo e saio com ela amarrada na cintura,
caminhando pelo quarto. Sinto o olhar excruciante da mulher acompanhar
cada passo.
Paro em um aparador, e pego o decanter com uísque, The Kingston,
uma marca que eu fundei há pouco mais de dez anos com todos os lucros das
minhas ações. Depois desta, investi em setores esportivos, obtendo ações de
diversos times, assim como garanti meu lucro na indústria de varejo e demais
setores que achei interessantes. É deprimente pensar o quanto de tempo
empreguei em ganhar mais dinheiro, sem aproveitar nem uma grama da
minha vida.
Mais estranho ainda, que eu o esteja fazendo com Betsy e me sinta
culpado.
Coloco um gole no copo, uma dose caubói, sem gelo, sem nada, só para
me amortecer e fazer eu apagar quando deitar na cama. Viro de uma vez,
sentindo a queimação que tanto me conforta. Sirvo-me de mais uma dose.
Estou prestes a virar como a primeira quando mãos me impedem de fazer o
que quero.
Deixo a cabeça pender à frente.
Ela. Sempre ela.
Daquela vez em que fui buscar minha assistente e a vi saindo como um
furacão loiro e na praia, quando a beijei como se o mundo estivesse prestes a
acabar, disposto a nadar no inferno se preciso para provar o seu gosto
misturado ao de Margarita, e em todas as situações que se seguiram, sempre
Betsy pairando à minha volta.
Não foi por acaso que a beijei. Muito menos para afastar Hilary, não de
todo. Eu a beijei porque quis e senti que ela queria também. Pensei que nunca
mais fosse vê-la e que o encontro tinha sido uma armação do destino. Mas, eu
não admitiria jamais isso, Betsy poderia usar contra mim.
Sinto seu corpo pressionar as minhas costas, mantendo-me preso entre
ela e o aparador. Suspiro profundamente. As coisas estão saindo do meu
controle e preciso fugir dela porque ameaça decifrar tudo o que tento
esconder. Aos poucos, com sua determinação, perfura as camadas
superficiais e se aproxima das profundas.
— Não precisa disso para dormir. Podemos fazer coisas mais
interessantes — os pontos vermelhos das suas unhas abandonam meus dedos
e descem pela minha cintura, seus dedos ultrapassam o pano e afundam na
área coberta.
Travo meu maxilar ao senti-los se fecharem ao longo da minha rigidez,
enquanto eu tento me manter coerente. Penso o quão difícil é lutar contra ela,
se emaranhando em meu peito, apoderando-se dele com uma facilidade
aterradora.
Ninguém nunca chegou tão perto de mim.
Tão próxima emocionalmente.
A toalha desaba aos meus pés, com os movimentos constantes da sua
mão, subindo e descendo, estimulando meu pau. Ele endurece totalmente
com as suas carícias e as veias se dilatam, ansiosas por sentirem prazer. Betsy
esfrega-se às minhas costas, e sinto quando ela expõe um mamilo e o roça em
minha pele. O bico intumescido provoca fenômenos colossais nas minhas
partes baixas.
— Betsy...
— Vamos, Lane, deixe-me acalmar você. O que custa, garotão?
Prometo fazer bem gostoso — sussurra ela.
Caralho!
Coração de gelo sabe como provocar um homem e lançá-lo ao seu
limite.
Torno-me massa de modelar presa aos seus dedos. Totalmente ao seu
dispor. Betsy não entende, está longe de compreender, mas é como se a cada
foda, a cada palavra de conforto da sua parte, ela diminuísse centímetros na
distância emocional que escolhemos manter. Até quando seremos capazes de
sustentar o acordo? Uma incógnita.
Sinto uma mordida suave em minhas costas, depois um beijo demorado
no mesmo lugar. Sei que deveria parar com tudo antes de acabar
extravasando os sentimentos, no entanto, o desejo manda para longe esse
pensamento. Tudo o que quero é me afogar em meio ao mar que é o corpo
desta mulher.
— E se a gente fizer algo novo hoje? — ronrona ela.
Engulo em seco antes de perguntar a que ela se refere.
— Quão novo?
Betsy me estimula e eu pendo a cabeça, tentando conter a enxurrada de
sensações distintas. Quando ela se afasta sutilmente, olho para trás intentando
conferir para onde ela vai. Abre a sua mala, e retira um tubo dela. Meu
sangue pulsa a mil, quando finalmente entendo o que ela quis dizer com
novo. O pré gozo escorre pela cabeça do meu pau, antecipando todo o
paraíso.
Seu olhar verde encontra o meu.
Permanecemos presos na tensão.
— Não era para olhar! — brada, mas o sorriso que transforma seu rosto
é malicioso.
Assisto-a descer as alças do seu pijama, sensualmente e de uma
maneira que manda todo o meu desejo de lutar contra; às favas,
principalmente quando um seio salta para minha apreciação. De repente, tudo
o que quero é gastar minha madrugada inteira venerando-a como a deusa que
é.
— Desculpe, querida, mas foi meio que impossível não olhar.
Ela caminha de volta até mim, um passo após o outro, totalmente
felina.
Seus seios médios, do tamanho perfeito para se encaixarem em minha
mão me fazem salivar. Consigo sentir o bico intumescido em minha língua,
antes mesmo de fechar minha boca em torno dele. A temperatura do meu
corpo aumenta, a minha atenção é totalmente dela. A calça do pijama pende
em seu quadril redondo e não vejo a hora de ela se aproximar mais, para que
eu a desça com os dentes, enquanto saboreio as preliminares.
Meu celular toca quando ela para em frente a mim, desafiando-me a
desviar meus olhos do seu corpo. A tensão que paira entre nós é palpável.
Recordo de tudo o que fizemos em casa, de todo o prazer, do envolvimento e
do suor que se fez presente durante horas enquanto nos perdíamos no corpo
um do outro.
Quero isso de novo.
Quero durante um bom tempo.
Quero de uma maneira insana.
Quero sabendo que não poderei parar.
Quero com uma necessidade tão profunda que me faz arfar.
Quero levá-la ao céu, para tocar as nuvens e logo em seguida fazê-la
sentir tanto prazer que se jogará no inferno, queimando-se em perdição.
Eu quero Betsy.
Droga, eu quero tanto, mas tanto que um sentimento destruidor de
posse me acomete. Ela não é minha, eu não tenho o direito de ficar puto
quando ela seguir a sua vida depois do que tivemos, mas tenho a noção de
que isso poderá acabar comigo. É um sentimento tão avassalador que meu
corpo inteiro treme e meus pelos se eriçam ao cogitar sequer perdê-la.
E isso vai acontecer. Um dia.
Deixo o telefone de lado, ansioso para que ela sinta as coisas evoluindo
ao mesmo tempo em que abomino essa ideia.
— Não vai atender, Lane? — desafia.
Sacudo a cabeça em uma negativa, para em seguida me ajoelhar diante
dela. Seus olhos não se desprendem dos meus e enxergo o tesão escurecendo-
os. Passo a língua no lábio inferior e mordo o cós do seu pijama, puxando
para baixo, roçando minha boca em toda a extensão da sua pele. Betsy lança
o tecido para longe quando ele desaba aos seus pés.
Contenho o som gutural de possessividade que ameaça eclodir de
minha garganta quando vejo a calcinha que ela usa. É vermelha, com
transparência na frente, totalmente devastadora.
Ela sorri ao perceber que o objetivo foi atingido.
Forço-a a girar para ver a parte de trás. Estou curioso, admito. Porra!
Opção errada! Ao ver apenas o fio que sobe pela sua bunda, tenho vontade de
rasgar a peça e pegá-la com força contra o chão, investindo até que ela grite e
acorde a droga da mansão inteira. Um monstro adormecido ruge à vida,
querendo que ela o faça ver estrelas.
Puxo o fio e o solto, ouvindo o som estalado que o gesto provoca. Betsy
profere um gritinho extasiado, de dor misturada ao prazer, que me faz
enlouquecer perdidamente.
Estou fodido.
Mais do que fodido, estou absurdamente fodido.
Seguro sua cintura firmemente e mordo sua bunda, deixando uma
marca vermelha na pele alva. Um tapa ecoa nas paredes do quarto.
— Eu posso dar pra você, se quiser — ela provoca e empina a bunda ao
meu deleite.
Tenho certeza que saliva escorre da minha boca.
Ela é gostosa pra caralho e é toda minha.
— Não provoque um homem ensandecido, Betsy.
— Você que não deve deixar uma mulher como eu esperando. Estou
louca para te dar, basta você querer comer.
Puxo com força a peça íntima, que desaba lentamente pelas suas
pernas. Afasto as suas nádegas e mergulho minha boca na fenda, ouvindo os
sons de prazer que Betsy emana, sentindo o tesão crescer em meu corpo.
Pincelo a língua, lubrificando a entrada apertada, desejando abri-la e me
afundar até que a mulher gema e proteste com o meu tamanho atolado inteiro
na sua bunda. É meio que a fantasia de todo cara, comer uma mulher de
quatro, em um ponto tão apertado, dando prazer a ela e a ele. É algo que se
conquista e de repente, estar diante dessa mulher tão disposta a fazer
loucuras, faz-me sentir o cara mais sortudo do planeta.
Ela vai sentir até as minhas bolas, batendo contra a sua pele, irradiando
marcas de ferocidade.
Rosno com a visão que se forma em minha mente.
Passo a mão por entre as suas pernas e encontro seu clitóris já inchado,
enquanto sua excitação umedece a sua boceta. Minha língua clama por provar
seu sabor de novo. Seu tesão é o melhor afrodisíaco que eu poderia consumir.
— Vire-se para mim, Betsy, preciso te chupar.
Ela não espera outro convite para fazer o que peço.
Caio de boca na sua excitação, prendendo o clitóris entre meus dentes,
sugando o ponto sensível com necessidade. Levo um dedo para a sua abertura
e o afundo, entrando e saindo, molhando-o e preparando Betsy para a
penetração.
— Puta merda, Lane!
Um sorriso macabro consome meu rosto.
Sou eu quem está dando prazer a ela, sou eu quem causa os gritos, os
gemidos e no que depender de mim, serei eu por quanto tempo Betsy
permitir. A simples ideia de vê-la com outra pessoa desperta uma fúria
animalesca em meu ser, o que me impele a castigar mais o ponto que detém
minha atenção.
Betsy grita.
Chama por Deus.
Enquanto eu prolongo seu orgasmo, enveredando minha língua pela sua
carne macia.
Todas as minhas noções de prazer se tornam deturpadas. Nada se
compara a Betsy, à maneira com a qual ela se entrega a mim, sem pudor, sem
medo, sem desconfiança, ela apenas se entrega de corpo e alma, esperando
que eu faça valer a pena. Contemplo seu semblante radiante, com as suas
bochechas vermelhas devido ao orgasmo.
Ela é a mulher mais linda que conheço.
Em todos os sentidos.
Pego-a no colo e carrego até a cama, depositando-a no colhão,
admirando a aureola que os fios da cor de ouro formam. Ela mantém os olhos
fechados, como se suas pálpebras estivessem pesadas pelo que aconteceu.
Um sorriso confiante distorce meus lábios enquanto venero seu corpo nu,
disponível ao meu bel-prazer.
Deposito beijos pela extensão das suas pernas e sigo, torturando-a na
barriga lisa, sentindo a textura da sua pele ultrapassar meus sentidos, tocando
algo muito mais profundo do que o tato. O que é esse sentido perto do mar de
emoções ondulando em mim? Minha respiração finda-se em minha garganta
quando ela abre os olhos, assemelhando-se a duas esmeraldas.
— O que aconteceu? — pergunta.
Assisto a tensão dominar seus traços e a sua preocupação flutuar até
mim. Algo infundado, porque olhando para ela, admirando tudo o que pensei
que jamais encontraria, sinto que meu coração bate fora do compasso,
abandonando meu peito para se abrigar em outro. É uma sensação esquisita e
eu tento empurrá-la para um canto inóspito da minha aflição. Sinto a
inquietação que tudo isso provoca, a inquietude e ansiedade de estar com ela.
— Eu estou apreciando você.
Não é uma mentira.
Busco guardar a imagem dela na cama, esperando por mim, em minha
memória para o restante da vida.
— Deveria parar de apreciar e partir para a ação — ela indica o tubo de
gel e eu me regozijo com a sua pressa por me sentir dentro dela.
Preenchendo lugares inimagináveis.
Meu celular volta a tocar, eu estendo o braço até ele, desligando o
aparelho e o colocando em uma das gavetas da mesa de cabeceira.
Não sinto nem uma grama de remorso pela ação.
3
— Seu pedido é uma ordem, Ma’am . — Meu sotaque puxado sempre
se faz presente em situações que estou à vontade.
Sereia parece gostar disso.
Inferno! Gostar bastante!
Abro a embalagem e derramo um pouco da consistência gelatinosa em
minhas mãos. Betsy arqueia o corpo, liberando espaço para que eu esfregue
desde a sua boceta até seu ânus. Seu corpo fica relaxado com a temperatura
gelada do gel e ela volta a ronronar em minhas mãos. Pressiono meu corpo ao
seu, deixando-a presa na cama, aprisionando um dos mamilos que apontam
para mim.
— PORRA, LANE! — grita ela ao passo que eu os devoro.
Um por vez.
Cada bico intumescido tendo a atenção que merece.
Meto um dedo em seu interior, sentindo que ela está molhada para
caralho, e devido a sua lubrificação natural e a que acabei de esparramar, meu
pau vai deslizar tão gostoso que eu terei que me segurar para não gozar
rápido demais.
— Tá gostoso?
— Ah sim... por favor, coloca mais — pede — e me amarra, eu gosto
quando me amarram.
Poderia me espantar, mas é Betsy. A rainha do sexo, e do que mais
quiser ser. Minha rainha.
Não demoro a atender seu pedido, movendo-me sutilmente, sem
libertá-la totalmente para pegar uma das minhas gravatas. Viro Betsy
bruscamente, deixando-a de quatro, amarrando seus punhos no gradil da
cama, que range com nosso movimento.
Aperto o nó.
Betsy geme, um gemido de tesão.
— Agora eu vou vendar você — sussurro em seu ouvido, esticando-me
para pegar outra gravata, que servirá de venda por enquanto. — Está
enxergando alguma coisa? — pergunto e ela acena negativamente.
Perfeito.
Minhas mãos descem por todo o seu corpo, enquanto as veias em meu
pau quase explodem com a dilatação.
— Vamos Lane, me fode logo, caralho!
— Você está ansiosa pra dar essa bunda gostosa, Betsy?
Ela rebola em resposta. Decido não a deixar esperando muito, afinal,
temos a noite inteira para repetir o processo até que estejamos exaustos o
bastante para só pensar em dormir. Pego a proteção que deixei próxima a
mim e abro o invólucro, desenrolando o látex ao longo de toda a minha
extensão.
Direciono meu pau para a entrada apertada muito bem lubrificada e
começo a deslizar, sentindo a resistência tornar o ato surreal de tão gostoso.
— Puta mer... — perco o fôlego a cada centímetro explorado.
O aperto, o calor em torno de mim, fazem com que tremores se
espalhem pelo meu corpo.
— Ah cacete! — sibila Betsy enquanto eu a alargo, penetrando
vagarosamente para não a machucar.
Assim que sinto minhas bolas baterem em sua boceta eu retiro e
arremeto novamente, com força desta vez. Rápido, intenso, apertado, com
tudo de mim, até o talo, fazendo sua resistência trabalhar a nosso favor e
elevar o ápice da relação. Sua bunda me engole, enquanto eu estoco diversas
vezes, com força, chacoalhando Betsy e provocando sons da cama batendo
contra a parede.
Ela rebola.
Eu arquejo.
Estou devorando-a com tanta vontade que urro, chamo seu nome e
respiro com dificuldade, puxando ar para meus pulmões com insuficiência.
Os sons dos nossos corpos trabalhando em harmonia tornam tudo mais
indecente.
Ela com seus pulsos presos, sentindo tanto prazer que só consegue
gritar, meio que age diretamente na minha libido, suscitando um orgasmo tão
potente e avassalador que eu sinto meu corpo estremecer, cedendo ao gozo
com tanta intensidade que meus membros amolecem, enquanto eu prolongo o
clímax, ouvindo-a bradar que gozou comigo metendo na sua bunda.
Betsy vocifera.
Eu continuo estocando, até que sinto seu corpo esmorecer.
Retiro meu pau, incapaz de respirar com normalidade. A camisinha
quase saiu com a violência das investidas. Desamarro os seus pulsos antes de
abandonar a cama e ir até o banheiro para descartar a proteção. Ao voltar,
vejo Betsy com o semblante satisfeito e tremores fracos do orgasmo
ondulando por toda ela. O sorriso caloroso me distrai e eu sorrio de volta.
Estamos cansados. Exauridos depois de uma foda suja, carregada de
selvageria.
— Eu te machuquei?
Ela balança a cabeça lentamente.
— Ainda não, Lane.
Entendo o que ela quer dizer e escolho ignorar. Betsy também não se
detém nessa constatação, apenas se coloca ao lado, esperando que eu me
junte a ela.
— Você me acalmou — digo assim que sinto o lençol levemente
gelado abaixo de mim.
— Era essa a intenção — sussurra.
O sexo, a sua entrega, deixam-me desnorteado.
No entanto, nada é capaz de atrapalhar a noite de sono que se estende
depois que ela se apoia em meu peito, exausta, sem capacidade para uma
nova rodada. Não sei o que está acontecendo comigo e Betsy. Não sei
explicar por que eu tenho a vontade de abraçá-la toda vez que está próxima a
mim, ou porque quando vamos dormir, eu aconchego seu corpo ao meu, o
que é o bastante para adormecer, mas eu o faço. Inalar o cheiro doce dos seus
fios de cabelo também faz parte do processo.
Sinto que sou capaz de resolver qualquer problema se eu chegar a casa
e apenas prendê-la entre meus braços enquanto dormimos.
Cacete, o que está acontecendo comigo?
Vocês se deram bem porque são iguaizinhas! Diabos, como é
difícil ter nascido homem na família Kingston.

— Está com o semblante magnífico hoje, irmão! — exclama Kendrick.


Puxo a cadeira para mim e o faço para Betsy também. A mesa cai em
um silêncio aterrador. Fito cada um sem entender o motivo para agirem
assim. Qual o problema?
Não se pode mais ser cavalheiro hoje em dia?
— O que foi?
— Nada — Jenna é a primeira a falar.
— Eu o ensinei, — vovô aponta para mim — te disse que eu o ensinei,
Pearl. Esse inútil só não queria seguir meus passos.
Está sentado na cabeceira da mesa, enquanto todos os lugares na
enorme e longa mesa retangular se mantém ocupados. Todos esperam pela
briga que se seguirá.
— Seguir seus passos? Que passos? Os para trás toda vez que você
chegava em casa e só perguntava onde estava a janta? Se meu neto seguir
seus passos, Betsy irá largar dele em uma semana!
— E lá vamos nós — provoca Kendrick.
— Fica quieto, que ninguém te chamou na conversa! — reclama vovó.
Vovô se cala, uma sábia decisão da sua parte — Estão atrasados, o que
estavam fazendo? — agora ela se refere a mim e Betsy.
Engulo em seco, não por estar fazendo algo errado, mas por vovó me
fitar como se eu estivesse. De repente, me sinto a criança que quebrou um dos
seus vasos favoritos novamente. Ou o vitrô da janela jogando beisebol.
— Netos — responde Betsy sucinta.
— É uma boa resposta — comenta Damon passando manteiga em sua
torrada.
É o único que não para de comer para prestar atenção na conversa sem
sentido. Pesca a travessa com pedaços de bolos e deposita dois em seu prato,
comendo tranquilamente enquanto os outros são fuzilados. Ele literalmente
seria o “estou pouco me fodendo” da família. Só quer se prender na sua
cabana novamente e não ter que falar com ninguém. Em partes, desejo o
mesmo, deve ser uma calma sem tamanho.
— Absolutamente — finaliza Jenna.
— Percebi mesmo, pelo bom humor dos dois — assume vovó —
Enfim, sentem-se, precisamos resolver os preparativos para tudo hoje. E
ainda temos que organizar o leilão.
— Isso ainda existe? — indaga Bessie.
Mal sabe ela que Pearl sempre dá um jeito de não perder a tradição.
— Sempre, minha querida, neta, sempre. Esse será ainda mais
interessante — ela olha para mim enquanto responde e fico sem entender
nada.
O que tenho a ver com toda essa coisa?
— Por que o mais interessante? — Dale, o mais perdido de todos,
indaga.
— Não sei o que tem na cabeça, neto, mas não deve ser um cérebro —
vovó o indica.
— Ai, essa doeu! Eu não mereço o seu amor?
— Se não tivesse amor, por acaso estaria aqui?
— Todo mundo sabe que seu neto preferido é o Lane — exclama
Jenna.
— E eu lá escondo de alguém? — vovó nem se defende — Ele é o
único que ainda se preocupa com essa velha. Kendrick fugiu para o Havaí. —
Indica meu irmão — Jenna se manda em cruzeiros e só aparece uma vez por
ano, isso quando eu não me assusto com os seus cabelos brancos! Porque eu a
vejo menos do que vejo os funcionários aqui da fazenda.
— Vovó! Eu não tenho cabelos brancos! — interrompe minha prima.
— Cala a boca e escuta o que estou falando! Damon, eu nunca sei se
está vivo, mergulhado no mar de neve que é Montana no inverno, pescando
peixes congelados com os ursos, ou apenas preso na sua cabana de meio
metro quadrado.
— Ela tem 65 metros quadrados, eu já te disse.
— Depois fica sem dentes e não sabe por que, não estou pedindo
resposta — resmunga ela — Dale, está fazendo um intercâmbio e só veio no
meu aniversário. Faz dez anos que não o vejo.
— Vim no Natal!
— Shhhh! Bessie, bem ora, Bessie só não acha que mereço atenção
mesmo. Não tem motivos para não vir toda semana.
— TODA SEMANA? — Minha prima se espanta — E eu não tenho
uma loja para cuidar? Vou sair do Colorado todo fim de semana para vir te
paparicar?
— Deve! Essa é sua obrigação como minha neta!
— E Lane, vovó, o que o faz ser tão especial? — inquere Kendrick.
Ela aponta para Betsy.
— Estamos vendo mais alguém comprometido aqui? Alguém sequer
pensando em dar bisnetos a essa velha antes que ela finalmente conheça
Jesus?
— E eu, vovó, não disse nada de mim! — chateia-se Casey.
— Você me ignora tanto quando eu ligo que prefiro nem dizer seu
nome, sua ingrata!
— Sério que Lane é seu preferido só por causa da Betsy? — pergunta
meu irmão.
— Arrumem noivas e se tornem meus favoritos também!
Corrijo para esposa mentalmente, mas não me dou ao trabalho de
contar a verdade ainda. A simples palavra noiva já é o bastante para assustar
a todos. Decido esperar mais alguns segundos.
— Noiva? — É Damon quem exclama.
Tomo esse momento como o perfeito para contar a todos que já estou
casado. Não tinha pensado em uma ocasião para a revelação, mas, de repente,
esta parece mais propícia que qualquer outra, com as pessoas ainda
despertando, tomando o café da manhã, com o processamento neural em um
nível mais baixo.
É agora, tomo coragem mentalmente.
— Isso mesmo — pego uma das mãos da Betsy — eu e Betsy já
estamos casados, na verdade. — E puxo o meu colar de dentro da camisa
para mostrar a todos. Um anel dourado está firmemente preso nele e atrai
atenção.
Uma rajada de suco de laranja é lançada à frente, enquanto parte do
líquido escorre da mesa até minha bermuda branquíssima. Olho para minha
mulher e ela está travada, fitando a sua frente, sem perceber nada em
particular, chocada com o que eu falei.
— Meu Deus, está tudo bem com ela? Pelo visto, também foi pega de
surpresa. Coitada! — exclama Jenna. — Você a obrigou a se casar, primo?!
— Bets, se não quiser o meu irmão, se ele a tiver pressionado, eu estou
aqui minha linda!
— E lá se vai mais uma refeição que deveria passar sem uma bomba
sequer na família — sussurra Dale.
Betsy permanece congelada. Mamãe se preocupa.
— Minha nora querida — faço uma careta com o seu tratamento e
sinalizo para menos, bem menos — Lane tem essa mania de nos pegar
desprevenidas.
— Não peguei ela desprevenida — falo.
Ela nem pisca. Começo a me preocupar. Será que é preciso que eu faça
algo? As pessoas começarão a desconfiar.
Meus tios que chegaram de manhã à mansão me fitam mudos, sem
opiniões formadas. Noto que eles olham entre si e imaginam que eu esteja
fazendo isso para ficar bem frente à vovó e vovô. Mal sabem eles o quanto
estão errados. Olhares recriminadores são lançados na direção de Betsy,
como se ela fosse um lobo à caça de um bilionário.
Posso aturar recriminação em mim, mas jamais nela, fui eu que a
coloquei nesta situação.
Semicerro as pálpebras na direção de todos que a julgam. Eles
disfarçam, olhando para seus pratos. O que não deixa de ser interessante visto
que são irritantes a ponto de julgar, mas não corajosos a ponto de explanar as
suas preocupações.
— Claro que não, Lane, meu amor — sibila entredentes.
— Acha que ele a pegou desprevenida, vovó? Não foi o que pareceu
ontem de madrugada. Tive a má sorte de ser colocado no quarto de costas ao
de Lane e Betsy e pelo amor de Deus! Parecia que estava rolando o carnaval
de Veneza lá dentro! O isolamento acústico foi enviado para o espaço e em
certo momento pensei que a parede fosse cair. Minha nossa, foram mesmo
horas selvagens — reclama Damon com um sorriso sarcástico — Por que
acham que eu estou com olheiras? Não dormi quase nada.
— Espera — interrompe-o meu irmão — Horas? Pensei que fossem
segundos.
— Sem assuntos pervertidos na hora do café! — proíbe vovó.
— Justo agora que começava a ficar interessante? E vejam só a nova
integrante do clã, está congelada, sem saber para onde olhar. É muita emoção,
de fato. Não somos uma família tão tradicional quanto queremos parecer — o
semblante de Kendrick é tomado de ironia — que pena. A moral está abalada.
— E cadê o anel de noivado e a aliança dela? — pergunta Casey, que
não tinha aberto a boca até este momento.
— A aliança está guardada, achamos melhor ir com calma para não
perceberem de imediato e o anel de noivado — Betsy se recupera indicando a
mim com uma careta — esse aí nem se dignou a me dar. O romantismo
passou tão longe de Lane quanto a modéstia.
Todos na mesa gargalham.
Mas, não eu. Minha mão segue em reflexo até meu bolso esquerdo,
onde a caixa preta está adormecida. É agora ou nunca. Acredito que este seja
o pior momento da minha vida. Mentira, estou esquecendo da visita à sua
família para explicar a eles que a princesinha se casou com um cara que ela
mal conhece. E nem podemos mentir, porque a irmã dela trabalhou para mim.
Puxo a caixa, sentindo meus dedos suarem devido à ansiedade.
Recuso-me a aceitar que isso seja preocupação do que ela irá achar do
anel.
Coloco a caixa na mesa e um infeliz grita: — Tem que ajoelhar para
colocar o anel no dedo dela!
Decido fazer o que pedem, levanto-me da cadeira e ajoelho no chão,
mostrando o anel.
— Betsy O’Connell-Kingston o anel chegou atrasado, mas a verdade é
que eu queria encontrar algo à sua altura, mesmo sabendo que já é minha
esposa. Então, eu preferi adiar a te dar algo que não gostasse.
É uma fala estranha, chego à conclusão. Porque eu e ela sabemos a
verdade e não há qualquer lágrima despontando dos seus olhos, de emoção.
Por sorte, todos os Kingston são um pouco frios quanto a isso e ninguém
sequer suspeita.
— Sabe que são apenas formalidades e eu estava brincando... O que
realmente importa não é o anel — sua fala é tão verdadeira que eu engulo em
seco, tentando ignorar.
Deslizo o anel no seu dedo buscando evitar a compreensão que flutuou
em torno de nós. O topázio irradia brilho e reflete seu olhar cheio de vida.
Betsy olha por vários segundos para o objeto e percebo que em algum
ponto da ação, eu toquei seu coração. Foi um toque sutil, quase como uma
picada de agulha, mas ela sentiu, porque pisca diversas vezes tentando não se
afetar. Seu corpo fica tenso e não sei o que ela está pensando, mas percebo
que talvez tenha a ver com seu passado e com a desilusão amorosa que
sofreu.
Uma sensação estranha de pesar queima e se espalha em meu corpo.
— Que anel lindo! — admira Jenna.
— Um topázio texano, para a mulher que conquistou o coração de um
texano — afirma vovó.
— Sou mesmo sortuda — diz Betsy, com uma pontada de ironia.
— Ele — vovó aponta para mim — é que é sortudo por tê-la
encontrado e espero que todos os meus netos encontrem pessoas para si como
você, Betsy. Obrigada por fazer parte da nossa família.
A frase é tão repleta de aceitação e respeito por parte da matriarca que
todos nós fazemos silêncio em resposta.

Encontro meus equipamentos de acampamento no velho celeiro da


propriedade. Vovó construiu um novo, mas, segundo ela, não é para nós
guardarmos nossas tralhas e bagunçar o lugar. O que acho engraçado, já que
entrei lá há alguns minutos e só encontrei bagunça. Mal consegui caminhar
em meio aos móveis que ela decidiu tirar da mansão e achou que seria
excelente jogá-los lá.
Recebo um e-mail antes de arrastar a barraca tamanho família para fora,
sacos de dormir e o kit de sobrevivência, assim como o de cuidados médicos.

Hayden: Precisamos de você aqui. Temos um acionista tentando uma


aquisição hostil da companhia, Lane.

As coisas em minhas mãos despencam até o chão.


Aquisição hostil? Quem em sã consciência tenta tomar o controle
forçado de uma empresa tão tradicional quanto a Kingston Company, sem
esperar por uma resposta igualmente hostil? Travo meu maxilar, pensando no
que fazer para impedir essa merda.

Lane: Qual a empresa? Qual a cota de ações que ela já detém?


Hayden: Cerca de 6% das ações.
Coloco a mão na boca e respiro fundo. Esse é um montante
considerável, visto que os maiores acionistas são meus avós, seguidos por
meus tios, e consequentemente meus primos e eu.

Lane: Conseguiram levantar quando compraram tantas? O preço delas em


negociação na bolsa não é nada baixo. Um montante como esse deve ter
custado um investimento de no mínimo milhões de dólares.
Hayden: Efetuaram a compra quando o valor das ações caiu com a saída
de seu avô do comando. Souberam o exato momento no qual investir, com
a mudança do presidente do grupo e a baixa, pescaram o peixe.

Merda!

Lane: Prepara tudo para uma reunião com o conselho. Vamos responder
na mesma moeda e comprar a casa do nosso vizinho da maneira com a
qual tentam comprar a nossa.
Hayden: Acabamos de adquirir aquela empresa franco canadense. Não sei
se os acionistas permitirão esse volume de investimento.
Lane: Isso ou perderemos o controle da tomada de decisões.
Hayden: Deixarei isso claro ao convocar a reunião.
Lane: Para hoje.

Olho o sol a pino no céu, em uma manhã linda e ao mesmo tempo


aterrorizante. Como eu pude deixar que essa compra passasse despercebida?
Se não fosse Hayden me ligar, estaríamos com um problema gigantesco. Sei
o nome da minha distração e me pergunto o que fazer quanto a isso. Não
obtenho resposta. É mais fácil lidar com outro CEO decidido do que com
aquela mulher de sorriso fácil.

Hayden: E o aniversário da vovó?


Lane: Lidarei com ela. Prepare tudo para a minha chegada. Resolveremos
esta situação o quanto antes.
Hayden: Claro que sim.
Lane: Recolha todas as informações possíveis sobre essa empresa,
fundador, maior investidor, enfim, tudo o que conseguir.

Envio a resposta final e guardo o celular no bolso, abandonando os


equipamentos que retirei do celeiro. A atividade ao ar livre na qual eu queria
levá-la, totalmente esquecida em minha mente. Dou passos decididos em
direção à mansão, preciso falar com vovó o quanto antes sobre isso. O aval
de todos é de extrema importância para tomar a melhor decisão. Posso votar
em nome delas, por causa da autorização que tenho, e principalmente por
vovó não poder se deslocar sempre que preciso até a sede administrativa, no
entanto, todos têm que ficar cientes do que está acontecendo. É minha
responsabilidade.
— Onde está vovó? — inquiro a uma das funcionárias.
— Na sala de estar.
Sigo até lá, confiante do que falarei. Não sei onde estão meus primos
ou minhas primas, mas primeiro, é vovó quem deve estar ciente, assim como
vovô. Empurro as pesadas portas de madeira, repletas com o brasão da
família.
— Vovó, vamos leiloar Betsy?
Acesso a sala a tempo de ouvir a sandice. Como assim leiloar minha
esposa?
— De que merda estão falando?
Noto que interrompo a conversa de várias mulheres, inclusive a minha
avó, mamãe, as minhas primas e as minhas tias. Dou um passo para trás.
Tantas mulheres reunidas nunca é um bom sinal.
— Do leilão da caridade. Estamos recolhendo os nomes das nossas
oferendas esse ano. Vovó Pearl disse que aceita ser leiloada desde que um
jovem bonito a leve para jantar. Todo mundo deu o nome, porque é uma boa
ação.
Franzo as sobrancelhas.
— Esperem um pouco — fito Betsy mortificado, porque ela parece se
divertir com essa porcaria — vocês estão dizendo — indico todas, temeroso,
mas indico — que vão leiloar a minha mulher para um patife qualquer levá-la
para jantar? A — Faço questão de soar aborrecido — minha esposa?
Sinto tapas nas costas.
Odeio como meus primos se movem de maneira furtiva.
— É meu caro primo, nunca as deixe se reunirem por muito tempo.
Ou... pode acabar perdendo a sua mulher para algum homem no leilão —
Damon ri e eu tento a todo custo evitar dar um soco na sua cara convencida.
— E a julgar pelo sorriso contagiante dela, aposto que os lances começarão
— assobia — nas alturas. Será o novo recorde desde aquele que foi quanto
vovó?
— Sessenta mil por esse corpo que Deus me deu — provoca ela.
Todos parecem perfeitamente bem com o arranjo. Menos eu. O
problema com a empresa é momentaneamente deixado de lado em minha
cabeça para lidar com algo muito pior, todos querendo mandar a mulher que
eu tive sorte de conseguir, para a cova dos leões. Sem chances!
— Nem ferrando que alguém que não eu, levará Betsy para jantar. Ela é
minha esposa, e nenhum bastardo a fará sorrir enquanto janta! — brado
exasperado.
Ninguém se altera com a minha raiva. Acredito que o objetivo da vida
deles seja me irritar.
— Alguém sabe me dizer qual é o nome de uma criatura que solta fogo
pelas narinas, conta dólares nas mãos, enquanto perfura um poço de petróleo?
— Damon pergunta, fazendo todos gargalharem.
Uma das minhas tias coloca a mão no queixo e profere: — Nossa,
querido, essa charada é difícil! Alguém sabe qual o nome?
Damon se senta em uma poltrona vazia.
— Vocês têm dez segundos para adivinhar!
— LANE KINGSTON! — grita vovó.
— E o prêmio vai para a vovó mais esperta desse mundo! A única, a
inigualável, grandma Kingston! — simula ele.
Sou obrigado a respirar fundo para aguentar as brincadeiras que tomam
conta do imenso cômodo, antes de chamar vovó no canto para contar a ela o
que está acontecendo. Já me distraí tempo demais. Preciso mover minha
bunda para tentar arrumar as coisas e voltar o quanto antes, principalmente
depois que ela diz:
— Eu falo com os outros, vá logo e não demore demais, ou sua esposa
irá jantar com outro homem sem que você esteja por perto.
Se ela queria me incentivar a correr, não poderia usar argumento
melhor.
Dou-lhe uma, dou-lhe duas, dou-lhe três, vendida para o
cara... Socorro, vim parar no meu filme preferido!

O vazio se instaura no quarto pela falta dele. Não imaginei que fizesse
tanta diferença a sua presença, mas faz. Sento-me em frente à penteadeira,
admirando meu trabalho no cabelo e a maquiagem que fiz. Enquanto
trabalhava nisso uma das primas de Lane bateu na porta e entrou. Achou que
eu arraso na coisa e me pediu para fazer o mesmo nela. Ela saiu e após quinze
minutos, todas as mulheres desta geração Kingston estavam se amontoando
em meu quarto, em busca do mesmo milagre, gravando stories e espalhando
para o mundo a situação. Não vou mentir dizendo que não aproveitei, porque
pasmem, mais de cinquenta mil pessoas passaram a me seguir em minhas
redes sociais com a indicação delas, assim como milhares seguiram o blog.
Resultado: só consegui me arrumar realmente muito tempo depois.
Agora, me sinto deslocada, em meio à multidão de pessoas que zanzam pela
mansão e nada de encontrar olhos confortantes entre eles. E não é deslocada
pelo vestido caríssimo que elas insistiram que eu vestisse, ou pelo anel de
topázio seguido da aliança de casamento, irradiando que estou casada com
um homem poderosíssimo, mas, deslocada por não poder sorrir com
veracidade para alguém que entenderia esse gesto.
Disfarço e finjo não ver a quantidade de olhares curiosos que recebo,
arrogantes e repletos de preconceitos das pessoas endinheiradas de Dallas.
Cada uma que me vê, faz questão de demonstrar que não importa com quem
estou, que sempre serei uma pobre alpinista e nunca me tornarei um deles, ou
farei parte de seu grupo social.
Que se fodam todos!
Torço para que engasguem com o champanhe.
Nunca fui de desejar tanto o mal, mas acho que os tempos estão
mudando.
E onde inferno está Lane que não volta? Sei que precisou ir para a sede,
devido a algo urgente, mas, como ele me deixa sozinha em meio a esse bando
de carniceiros?
Uma pequena parte em mim se ressente por ele não ter se despedido ou
explicado a situação, mas a verdade é que ele não deve nada disso. Somos no
máximo, duas pessoas que transam no tempo livre e que aceitaram embarcar
em uma loucura.
— Ele chegará a tempo, cunhada, fica tranquila. Lane quase nunca
promete as coisas, mas quando o faz, dá um jeito de cumprir — Kendrick
para próximo a mim, observando o movimento.
Noto que sua atenção se fixa em uma roda de mulheres da nossa idade.
Uma careta distorce suas feições.
— Por que não vai lá, testar a sorte? — incentivo.
Ele sacode a cabeça, em uma negativa. O champanhe em sua taça,
revolve de um lado a outro, escapando de espirrar para fora por um triz. Se
ele derrubasse um pouco em meu vestido, seria um motivo para dar uma
desculpa e abandonar o salão. É, talvez, essa fosse uma boa coisa.
— Estou encarregado de tomar conta de você.
Sorvo um gole, saboreando por segundos antes de responder a sua
afirmação. Pelo menos a bebida vale a pena.
— A mando de quem?
— Seu marido. De quem mais seria? Ele ainda me obrigou a dar o
lance mais alto no leilão se ele não chegar a tempo, custe o que custar. Disse
que transfere o dinheiro que for preciso. Cara mais maluco. Não acho que
deixá-la jantar em prol da caridade com outro homem seja algo tão ruim
assim. Mas, como posso entender a mente de um homem casado? —
Kendrick se apoia em um pilar no estilo romano, casualmente, enquanto eu
permaneço estática, sem conseguir digerir o pedido do seu irmão.
Ele se importa tanto assim?
Mais cedo, quando vovó comentou sobre o leilão, achei que seria
interessante a experiência. Além do mais, se eu posso ajudar na causa sem
precisar doar rios de dinheiro que eu não tenho, por que não? São só algumas
horas que eu passarei com quem der o lance final, nada além disso.
Lane invadir a sala furioso, respirando ferozmente, vociferando que
ninguém além dele me levaria a jantar algum, foi um choque, mas pensei que
tivesse a ver com a farsa. Com seu medo de que a minha consciência pesasse,
ou eu me apaixonasse por outro homem e acabasse desistindo do nosso
acordo. Ele manter sua fala, e ainda pedir ao irmão para não deixar que
ninguém desse o lance mais alto, foi uma surpresa e tanto. Tanto que nem sei
o que pensar ainda. Estou processando todos os seus gestos pequenos e que
de alguma forma demonstram que ele se importa.
— Lane é uma criatura incompreensível.
De verdade.
Em alguns momentos ele se mantém distante. Em outros soa mais
preocupado do que um cara apaixonado. Como diabos posso entendê-lo? Na
última noite, depois do sexo, ele me abraçou e se manteve assim até cair no
sono. Sua respiração quente em meu pescoço, seu braço rodeando a minha
cintura, passaram-me uma sensação de segurança que eu não deveria sentir.
Porque tudo o que vivemos não é real. O prazer é, mas o que vier além dele,
nem um pouco.
— Nem tanto — desta vez Kendrick fala sério, travando meu olhar —
ele é capaz de fazer qualquer coisa pela família e você faz parte dela.
De mentirinha — completo em pensamento.
Céus. Como eles reagiriam se descobrissem a verdade? Pergunto-me
como Kendrick lidaria com a revelação e não consigo presumir seu
comportamento. Ele é brincalhão, mas a camada que realmente faz parte da
sua verdadeira personalidade parece eximiamente camuflada.
Tanto ele como o irmão guardam segredos demais por debaixo das
poses e do sobrenome.
— Então agora estamos nos afastando da multidão? — indaga Damon,
ao se aproximar de nós dois.
Ele não segura uma taça, percebo. E olha para a minha e a do seu primo
com um olhar estranho e indecifrável.
— Estou fugindo de todas as mulheres que querem fazer o que Betsy
fez com Lane. Aparentemente, todas as pessoas do sexo feminino na região
estão correndo atrás de um Kingston. Declararam aberta a temporada de caça.
E tome cuidado também Damon, ou pode acabar casado pela segunda vez.
Segundo mamãe, a flecha que as garotas usam para prender nossos corações
são afiadas.
— Isso não vai acontecer — enfatiza o outro.
Sua voz é tão áspera e decidida que eu dou um passo para trás.
Kendrick, pelo contrário, não se abala, como se já estivesse acostumado com
estas respostas.
— Pelo menos nossas primas também sofrem, olha lá o abutre em cima
da carniça, doido para prender o dedo da coitada da Bessie. E ela ainda está
sorrindo toda afetada. Não dou um ano para ela estar caminhando em um
altar improvisado aqui na fazenda e tendo que dividir seus lucros com aquele
imbecil. Fiquei sabendo que ele está com uma dívida enorme por causa da
empresa que herdou. Certeza que o dinheiro dela será muito bem-vindo.
— Quanto rancor, Kendrick. Parece uma velha solteira largada no
canto, esperando que alguém dê atenção para ela.
Tenho que concordar com Damon. Desde que o outro se colocou ao
meu lado, só sabe reclamar e demonstrar irritação. Nada está bom para ele.
— Nossa, como você é engraçado! Já tentou ser palhaço?
— Pelo menos eu sou bom em uma coisa.
— Insinuou que sou inútil?
Meus olhos seguem de um a outro, como se estivessem jogando pingue
pongue entre si.
— Você quem falou. — Damon ergue as mãos.
— Encontrei vocês — fala Dale, se aproximando.
Move seu corpo musculoso na medida certa por entre os pilares que nos
acobertam, sorrindo aliviado por finalmente ter encontrado sua tribo.
— Sai que nosso clube já está formado. Eu, Betsy e Damon, não temos
mais vagas — exclama Kendrick, simulando um empurrão no primo.
Contenho a vontade de rir.
— Ah meu Deus, ainda bem que encontrei vocês! — Jenna corre na
nossa direção.
Estamos em um lugar estratégico, escondidos pela decoração e no
caminho da saída da cozinha. Ou seja, bem alimentados, com bebidas a nosso
dispor porque a todo momento passa um garçom. É sem dúvidas o melhor
esconderijo da festa, tanto que nem as pessoas da família nos encontram.
— Vai pro inferno, Jenna, não grita! — Kendrick olha pelas frestas —
Não percebeu que estamos tentando passar despercebidos?
Sua preocupação perpassa seu rosto enquanto ele confere se ninguém
nos viu.
— Desculpa, é que eu precisava descansar, esses saltos estão me
matando — ela tira um deles e se equilibra em apenas um pé, massageando
seus dedos.
Isso me assusta. Pensei que nunca fosse ver algo assim acontecendo em
uma festa como esta. No entanto, não posso mentir dizendo que não desejo
mais que tudo fazer o mesmo.
— Tentaram te fisgar também? — Damon pergunta à prima, indicando
Bessie que parece sem jeito e incomodada com o homem a bajulando.
— Céus! Sim! Três. Que bando de homens sem noção.
— E aí, quem vai salvar a Bessie? — inquere Dale.
— Eu que não — se apressa Kendrick — por que o senhor carrancudo
não vai? — ele indica Damon, que franze as sobrancelhas — se eu pisar na
porra do centro desse salão, vou sair com umas seis bocetas penduradas no
pescoço. E nem quero isso hoje. Juro, minha paciência está zero para fingir
interesse.
— Kendrick! — ralha Jenna — olha a Betsy aqui.
— É bom ela já ir se acostumando. — Fita-me — Se importa se eu
disser palavrões, cunhada?
Sorrio.
— Também tenho minha cota.
— Excelente, Lane escolheu muito bem realmente.
Vemos vovó atravessar o salão, olhando para todos os lados. O silêncio
que impera na roda é capaz de incomodar até uma mosca. Aposto que
ninguém está respirando, com medo que ela escute o mínimo som do peito se
movimentando. Pearl passa reto, sem nos enxergar, e o suspiro aliviado que
soltamos é mais sincronizado que o nado nas Olimpíadas.
Kendrick faz o sinal da cruz.
Ficamos em silêncio um pouco mais só para garantir que ela realmente
se foi.
— Deus seja louvado por ela não nos ter visto. Betsy, você encontrou o
lugar perfeito para a gente se esconder! — solta aliviado o irmão de Lane.
— Não foi minha intenção.
— Não? — quem pergunta desta vez é Damon, avaliando-me com o
olhar.
— Talvez só quisesse um pouco de sossego.
— Assim como todos nós — afirma Kendrick.
— Alguém vai salvar a Bessie ou não? — volta a bater na tecla,
Damon.
— Eu vou — Dale entrega a taça que segura para a prima e segue até a
outra, incomodada no meio do salão.
Ele corta as pessoas que tentam falar com ele habilidosamente,
desviando inclusive dos homens que tocam nele para chamar a sua atenção. É
como se fosse formado em “com licença, não quero falar agora”. Acho que a
maioria deles é, para evitar a fadiga.
— Que ele não nos delate. Preciso de no mínimo meia hora — exala
Kendrick.
— Uma hora é pedir muito? — inquere Jenna.
— Não é pedir muito, é simplesmente algo impossível de acontecer.
Assistimos Dale interromper a conversa de Bessie, que aparenta estar
aliviada. Ele fala alguma coisa para o homem que conversa com ela, estende
o braço até a prima e a arrasta na nossa direção. Casey vê o que ele faz e não
demora a segui-los.
Maravilha, agora chamamos atenção.
— Ah, pronto, agora estamos fodidos mesmo. Se vovó encontrar, será
um verdadeiro banquete com todos de uma vez!
— Cale a boca Kendrick! — brada com o primo e em seguida olha para
nós — Sério que vocês estavam se escondendo e nem me avisaram? —
Murmura Bessie e se inclina mais na roda para confidenciar — Eu não
aguentava mais aquele chato insuportável dizendo um monte de coisas sem
sentido, tentando colocar um anel no meu dedo. Juro que minha boca deve ter
congelado em um sorriso falso de tanto que eu fiz isso. Olhem só — ela abre
e fecha os lábios, de forma teatral, simulando falsidade — acho que mereço
um Ph.D. nessa coisa. Sorte que não tenho Botox senão eu ficaria realmente
congelada em um sorriso eterno.
Pisa no pé de Kendrick sem querer com seu salto agulha.
— AH CACE… — Ele prende o grito quando percebe que poderia se
entregar, enquanto pula em um pé, segurando o outro.
— Bem feito, isso é para aprender a não ser egoísta!
— Não sou egoísta — defende-se, ainda tentando recuperar-se do
golpe.
— Claro que sim, todos vocês são. Da pior categoria, inclusive!
— Não sou egoísta, eu ajudei — defende-se Dale.
— Não depois de pensar muito, aposto.
— Ela te pegou — acusa Damon.
Não digo uma palavra, observando o entrosamento de todos os primos.
Soa engraçado, mas é como se eu fosse parte de um todo, escondida com eles
e ouvindo a conversa casual que mantêm entre si.
Vemos quando já é tarde demais, uma senhora baixa, com os cabelos
brancos, vindo na nossa direção.
Todos congelam, inclusive eu.
Nem fiz nada de errado então porque estou com medo? Algo sem
explicação coerente.
— Fodeu — sentencia Dale.
— Encontrei vocês finalmente! — brada vovó abrindo os braços,
sorrindo maléfica, sabendo que todos se escondiam dela de propósito — E
tive sorte, em descobrir o covil.
— Foi a Betsy que nos chamou! — Acusa Kendrick.
Vovó não se altera. Eu dou uma cotovelada no filho da mãe por me
lançar ao julgamento final sem qualquer arrependimento.
— Pare de colocar a culpa em outra pessoa! Sei muito bem que você é
o mandante dessa facção — indica o círculo — e Betsy é um amor de garota,
jamais faria isso.
— Exatamente vovó — concordo com o semblante triunfante, feliz por
ter sido defendida.
— Que calúnia — ele tem a pachorra de colocar a mão no peito
dramaticamente.
Recebe um golpe de bengala como resposta.
Seria mais sábio de sua parte ter ficado quieto.
— O leilão vai começar e — ela perscruta cada um com o olhar —
quero ver todos participando. Então, para o jardim, agora! — fala
imperativamente.
Ameaça de uma forma que eu nunca imaginei que alguém tão doce
como ela seria capaz. Cada vez mais sou impelida a acreditar no que Lane
disse, que a avó é a mulher mais manipuladora que ele conhece.
— Como assim todos? — reclama Damon.
— Vocês terão uma surpresa. Decidi junto com as mães de vocês. Será
no mínimo interessante.
Ela fala e sai, olhando para trás apenas uma vez, para garantir que todos
façam o que ela mandou. Sua bengala espalha arrepios de medo pelo salão
enquanto ela se desloca vagarosa e desafiando as pessoas a impedi-la. Todos
abrem caminho para vovó Kingston.
— Odeio surpresas.
— Sinto que dessa gostaremos menos ainda, Kendrick — comenta
Dale.
E eles realmente odeiam. Porque quando chegamos até a área
perfeitamente organizada no quintal, com tendas brancas, correntes de luzes
charmosas e um palco improvisado, todos diminuem seus passos,
caminhando como se estivessem sendo arrastados para a prisão.
— Cadê o desgraçado do Lane para participar disso também? —
pergunta Damon.
— Ele sempre encontra uma desculpa para escapar.
— Sempre — concorda Jenna com Dale.
Olhamos os nomes nas cadeiras e paramos somente quando chegamos à
frente. Uns ao lado dos outros, na primeira fileira. Isso não me parece bom.
— Isso tá cheirando a cocô — resmunga Casey.
— Acho que fomos lançados direto para a jaula, garotos — assume
Bessie.
— Lembrem-me de trabalhar nesta data no próximo ano — pede Jenna.
— Minha cueca está incomodando minhas bolas — reclama Dale.
— Não precisamos saber disso — ralha Kendrick.
— Calem a boca todos, estou com dor de cabeça — grita Damon.
— E por que gritou? — Kendrick recebe um olhar mortal do primo. —
O que é? Se está com dor de cabeça não deveria ter gritado.
Ele tem um bom ponto, mas eu não ouso me intrometer.
— Não vai dizer nada, Betsy? — pergunta Casey, percebendo a minha
quietude.
Dou de ombros.
— Eu já seria leiloada de qualquer forma e se estou aqui, só posso
presumir que a surpresa é que todos serão também. Por isso estamos na fileira
da frente.
Os primos sustentam olhares arregalados.
— Caralho, eu preciso sair daqui! — desespera-se Kendrick, sendo
puxado pelo paletó por Jenna, que o coloca de volta ao lugar.
Se o restante não escapará, nem mesmo um poderá se salvar.
— Não adianta, é melhor evitar a fadiga, vovó te encontraria de
qualquer jeito.
Como se soubesse que eles queriam fugir, Pearl caminha pela lateral da
formação de cadeiras e nos encara, para conferir que sua ordem foi cumprida.
Sustenta cada olhar que se encontra com o seu.
— Parece até o demônio conferindo as almas quando elas chegam ao
inferno, não? — resmoneia Damon.
A senhora ergue dois dedos e aponta para nós, deixando claro que está
de olho.
O ânimo de todos na fileira torna-se funesto com a noção de que não há
como fugirmos. Só resta aguardar e torcer para passar rapidamente.

— Estou me sentindo um pedaço de carne prestes a ser vendida.


— Todos somos peças penduradas em uma exposição, Jenna —
assumo.
Dividir o mesmo medo com as pessoas é capaz de uni-las. E é por isso
que me uno em apreensão com as meninas a cada vez que o leiloeiro anuncia
a próxima peça da família Kingston a ser vendida. E é Kendrick, que se
remexe na cadeira ao nosso lado, sem querer subir até o palco. Damon com
cara de bunda já foi, — e subiu até o palco como se estivesse subindo para
ser enforcado, arrastando os pés, com seus colhões presos firmemente e uma
careta enfadonha. Algumas mulheres disputaram pela presença do Kingston
reservado como se estivessem disputando por uma bolsa da Prada ou algo
parecido. A cada lance, sua boca se contorcia mais em desgosto. Foi
engraçado de assistir, principalmente nos momentos em que os primos
gritavam: “LINDO!”, “PODEMOS AUMENTAR ESSE LANCE,
GAROTAS!”, “É O DAMON GOSTOSO KINGSTON, VAMOS TIRAR O
ESCORPIÃO DA CARTEIRA!”. E funcionou, porque o coitado foi vendido
por vinte mil dólares para um jantar especial. Os lances estavam em cerca de
quinze mil e do nada, uma mulher misteriosa deu o lance de vinte. Ele não
gostou nada.
Dale por sua vez, ficou parado no palco, como se aquilo nem fosse com
ele e levou a bagatela de dez mil. Segundo Kendrick, ninguém queria sair
com Dale porque ele é um chato dos maiores. As primas concordaram e
acharam dez mil uma quantia absurda para jantar com ele, segundo elas,
pensaram que ninguém daria mil.
A terceira escolha Kingston a ser leiloada foi Bessie que acabou sendo
carregada do palco por um homem que ofereceu trinta mil por sua
companhia. Os primos assobiaram quando tudo aconteceu e fizeram o maior
escândalo quando ela mandou beijo a eles. Admito que nunca me diverti
tanto, gargalhei a ponto de a minha barriga doer.
Agora, é a vez de Kendrick e batemos palmas exaltadas com ele se
mantendo sentado com a bunda colada na cadeira.
— Eu não vou subir! — faz birra.
Dou uma cotovelada em apoio.
— Vá lá, quanto antes for, mais cedo acaba.
— Fala isso porque ainda não chegou a sua vez!
— E acha que vou escapar?
Ele leva em consideração meu comentário e se levanta, ajeitando o
paletó como se tudo não fosse nada demais, e tivesse sido leiloado em cada
dia da sua vida. Kendrick caminha até o palco e uma mulher grita: “você é
meu, lindo!”. Não aguento e solto uma gargalhada com o olhar que ele lança
para a culpada. Sobe os degraus lentamente e para no palco, ao lado do
leiloeiro. Não indica a sua falta de ânimo, mas todos sabem o quanto ele está
se segurando.
— Eu queria ser a taça de vinho, só para ver qual será o humor dele
durante o jantar — Jenna inclina-se um pouco até mim para sussurrar.
— Tão ruim assim? — testo.
— Péssimo, acredito.
Kendrick é leiloado por quarenta mil, um feito entre os homens
Kingston. Desce do palco, e não tarda a desaparecer. Ato esperto da sua
parte. Sorrio tranquila, até que escuto o nome da próxima pessoa a subir.
— E agora é a vez da escolhida do neto mais velho da família
Kingston. A mulher milagrosa, a única, a destemida, a incrível Betsy! Quem
desembolsar o maior lance levará para jantar não apenas essa linda mulher,
que sabe tocar violino e violão, dança tango, enquanto posta fotos em seu
blog e mantém Lane, um homem de negócios, mais entretido que ações
valiosas em baixa na bolsa de valores. Como se não bastasse todas essas
qualidades, o sortudo ainda garantirá uma conversa cheia de conteúdo com
esse espetáculo de inteligência! — vozeia o leiloeiro, inventando qualidades
minhas que nem mesma eu sabia que possuía.
— Nunca nem toquei em um violino — confidencio para Jenna ao meu
lado, pouco antes de me levantar.
— Ele faz isso com todo mundo. Acha que Kendrick é um prodígio do
surf? Ou que o Damon é um hábil marceneiro? — ela sacode a cabeça — sem
chance! Dale só sabe reclamar das bolas, como diabos teria escrito um livro?
Nem sei como eu ainda me surpreendo com as mentiras inventadas pelo meu
tio! Fico até me perguntando o que ele dirá de mim!
Contenho o riso com a sua fala quando ouço novamente a voz que salta
dos alto-falantes.
— Venha Betsy, não tenha vergonha! Os jovens estão ansiosos para
gastar as digitais contando os dólares que desembolsarão para ter a honra de
te levar para jantar! — o homem exalta, abrindo os braços divertido,
aguardando que eu suba para me entregar aos lobos famintos.
Confiro se não estou prestes a pisar no tecido do vestido com o salto e
caminho confiante até os degraus que levam em direção ao palco. Olho para
vovó de relance e ela parece ter ganhado a guerra, tamanho o seu sorriso. Se
os netos já são traiçoeiros, ela deve ser o triplo.
Não sei o que fazer quando paro no centro do lugar.
Engulo em seco ao notar como os homens me olham.
Procuro entre as fileiras, o maxilar quadrado que eu já sei identificar
entre a multidão. Mas, Lane não está aqui. Muito menos Kendrick, que
desapareceu. Não há qualquer sinal à vista de que serei salva. Torço os dedos
das minhas mãos uns nos outros com o primeiro lance. Alto por sinal. Um
maluco ofereceu vinte mil pela minha companhia.
Coitado.
Mal sabe que pode perder dinheiro deste jeito. Não sou tão interessante
assim, não a ponto de valer tanto dinheiro por algumas horinhas.
O leilão segue em polvorosa, com pessoas erguendo os braços para dar
seu lance. Atingem cinquenta mil em alguns segundos e não demora para um
lance de setenta mil ser gritado. Todos emitem um som de surpresa. Esse é
um valor alto, muito alto. Engulo em seco, sem saber o que fazer. Estou
sendo vendida, por uma boa causa, mas ainda pareço um pedaço de carne
pendurado esperando um comprador.
— Oitenta mil! — esse foi o que primeiro deu o lance.
Está determinado a me ganhar.
Que horror de se pensar!
— Oitenta e cinco! — rebate outro.
O leiloeiro que também é tio de Lane, extrapola o limite de emoção.
Procura no olhar de todos, sinais de que estão interessados.
— Temos oitenta e cinco, quem dá mais, quem dá mais? Lembrando de
todas as qualidades que Betsy possui! Posso fechar em oitenta e cinco?
— Noventa! — O primeiro fala de novo.
Fito-o e tento me lembrar do seu rosto. Onde foi mesmo que eu o vi? E
por que sinto uma espécie de déjà vu?
Semicerro as pálpebras avaliando, buscando em minha memória algum
momento em que cruzei com ele. Nada me vem à mente. Mordo o lábio
inferior incomodada. Ele me manda um beijo e eu fecho o semblante, sem
achar graça alguma. Tem algo nele que de fato me incomoda. Como as
pessoas não percebem?
— Noventa e cinco! — suspiro aliviada ao ouvir a voz de Kendrick.
— Cem!
— E é assim que se faz, meus queridos! Estabelecendo um novo
recorde do leilão Kingston de caridade! Posso afirmar que o aniversário da
vovó nunca foi tão louco como está sendo hoje após ela decidir vender todos
os netos!
A multidão gargalha com a sua fala, inclusive a líder Pearl da alcateia.
— Cento e cinco!
— E você tem todo esse dinheiro aí meu camarada? — provoca meu
cunhado.
— Isso e muito mais. Podemos continuar até eu ganhar, Kingston —
responde o outro.
Aquela sensação estranha ainda me corrói todas as vezes em que olho
para ele.
— Cento e vinte! — lança Kendrick.
Assisto-o de olhos arregalados e ele dá de ombros, passando o dedo no
pescoço, indicando que está morto se perder e o irmão souber.
— Cento e cinquenta!
— PUTA MERDA! — grito.
Cento e cinquenta mil é dinheiro demais. Um absurdo! Desde quando
um jantar comigo vale tanto assim? Começo a ficar estarrecida por essa
merda não acabar mais. Preciso sair do palco, tirar os saltos e tentar
identificar se esta loucura realmente aconteceu.
Assumo que pensei ser divertido quando os netos anteriores foram
leiloados, no entanto, agora vejo como é ruim e entendo a indisposição deles
quando estavam no palco.
— Se não vai desistir, então eu aumento meu lance para cento e
sessenta!
— Cento e setenta!
— Betsy, querida — provoca Kendrick — você está valendo mais do
que a irmã mais velha daquela família de reality! Deveria começar um! Cento
e oitenta!
— Cento e noventa!
Começo a suar frio. Não sei o motivo, mas, começo. Sustento o olhar
do homem por alguns segundos e recebo um sorriso dissimulado em resposta.
Pressinto que esse dinheiro não é nada para ele e temo firmemente a
possibilidade de jantar com ele.
— Duzentos! Oh meu Deus, vou ter que vender meus carros pra pagar
pela minha cunhada — exaspera-se Kendrick, em tom de brincadeira.
— Duzentos e trinta!
— Qual a constância dos seus lances, seu infeliz? Duzentos e quarenta!
— Quinhentos mil — alguém fala pausadamente — dólares!
Congelo com o lance.
A voz áspera e irritada se faz presente antes da pessoa.
Cri-cri-cri — juro que escuto a estridulação de um grilo ao longe. Ele
deve ser um inseto muito feliz por não ter que passar por uma situação tão
constrangedora quanto a que estou vivenciando.
Todos se calam e a minha respiração morre no mesmo momento em
que Lane aparece no caminho entre as cadeiras. Seus olhos estão fixos nos
meus e me controlo para não demonstrar meu desejo por ele. Abro um sorriso
fraco. Ele não retribui, parece furioso. Qualquer grama de diversão que
poderia conter em seu ser, com certeza evaporou-se.
As pessoas viram-se sutilmente em suas cadeiras para conferir se é
quem eles imaginam.
Uma mulher na fileira de trás tenta chamar a sua atenção falando com
ele. Lane levanta uma mão em um sinal de que não pode falar no momento.
— Algum lance maior? Quem sabe seiscentos? Ou chegaremos a um
milhão de dólares na noite de hoje? — seu tio quebra o silêncio.
Tudo o que anseio é que o homem pare de falar essas porcarias. Ele não
vê que meio milhão já é um montante colossal para um jantar?
— Ninguém levará Betsy para jantar. Não importa o lance, eu irei
cobrir — enfatiza, caminhando poderoso por entre os convidados da sua avó.
Fito-a por segundos e ela me lança uma piscadela.
Claro, tudo isso faz parte do seu plano. Não sei como não percebi antes.
— Que sem graça! — grita Casey — As coisas estavam ficando
divertidas por aqui, primo!
— Por que o Lane não será leiloado, vovó? — ouço Dale perguntar.
— Porque ele está cansado.
— A senhora deveria disfarçar a preferência!
— Vai ver se eu estou no centro, garoto.
Todos os convidados sorriem com a fala da senhora, menos o que
tentava a todo custo vencer o leilão. Ele se levanta, como se nada houvesse
acontecido e sai do espaço de tendas. Ninguém nota a sua movimentação
furtiva, entretidos demais com as brigas amorosas da família. Mas, eu que o
estava observando, percebo, e ela me soa muito estranha. Por que sair desta
forma? É quase como se não quisesse que Lane o visse. Estranho demais.
Ah sim!
Puta que pariu!
Agora me lembro de onde o vi e o motivo para ele parecer tão familiar.
Na praia, no dia do incidente com Hilary e... — Coloco a mão na boca em
espanto — no dia do coquetel. Só pode ser! Estou prestes a sair correndo para
perguntar, quando sou interceptada pelo homem no palco.
— Onde vai, Betsy? Lane precisa vir buscar seu prêmio! — brinca.
— Ninguém veio buscar os meninos — rebato.
— Mas, no caso de vocês é diferente — e ele também pisca.
Perfeito. Todos fazem parte do complô.
Lane não se abala com a fala. Está sério e para na fileira em que vovó
está só para dizer alguma coisa para ela. Que sacode a cabeça em
concordância. Em seguida, caminha lentamente até o palco, sobe os degraus
um por vez, enquanto o som dos seus sapatos contra as estruturas ecoa por
entre os rostos embasbacados. Ninguém diz nada. O silêncio é tão devastador
que poderíamos escutar uma agulha caindo no chão.
Um sorriso de canto se sobressai no maxilar marcado.
— Olá, esposa — sussurra.
Passa um braço atrás das minhas pernas, enquanto o outro sustenta as
minhas costas.
— Lane, o que está fazendo? — sibilo entredentes.
Não ouso olhar para as pessoas. Não sou uma mulher que tende a sentir
vergonha, no entanto, acho que não conseguiria manter essa característica em
um momento como este.
— Pegando meu prêmio, Betsy.
E eu me esqueço do que faria antes que seus braços me alçassem com
facilidade e seu rosto ficasse bem próximo ao meu.
Seja lá o que for.
Aposto que nem era tão importante assim.
Não importa qual era o seu plano vovó, Betsy não jantaria
com um patife qualquer.

— Esse leilão foi o melhor de todos! — exalta Jenna — Adorei quando


você apareceu e lançou logo um número estratosférico só para garantir que a
linda Betsy aqui — olha para mim — não fosse jantar com ninguém. Achei
tão malvado e poderoso! Se não fosse meu primo, com certeza teria me
apaixonado!
Por um triz.
Mais um pouco e meu irmão seria massacrado tentando vencer o leilão.
Ele não é tão bom como eu em amedrontar as pessoas. Uma pena.
— Está cansada, Betsy? — inquiro, ignorando a fala da minha prima.
Se eu cair na lábia dela, não sairemos do jantar tão cedo. Observo de
esguelha vovó conferir se seu plano deu certo. Odeio como fui manipulado
por ela, mas não tive escolha, principalmente quando me enviou uma foto de
Betsy em cima do palco. Eu já tinha chegado em Dallas e só me lembro de
acelerar tanto há alguns dias quando pensei que Betsy pudesse estar em
perigo. Desta vez, percebi que quem estava em perigo era eu.
— Acho que um pouco — fala e boceja.
Abro um sorriso fraco, empurrando uma mexa de seu cabelo para atrás
da orelha.
Está tão magnífica com o vestido vermelho ressaltando todas as suas
curvas, combinando com as suas bochechas rosadas, que não contenho a
vontade e passo meus dedos suavemente pelo seu rosto.
— Leve a mulher para o quarto, para descansar. Teve que aturar todos
nós, deve ser desgastante — exclama minha prima.
Terminamos de jantar após o leilão e em minha concepção, a obrigação
de socializar já foi cumprida. Prova disso é que apenas eu, Betsy, Jenna e
Dale permanecemos na mesa.
— É para já — respondo.
Levanto-me, apoiando uma Betsy sonolenta. Olho para o relógio e vejo
que já passa da meia noite. As festas da família tendem a acabar apenas ao
amanhecer e não estou com o menor ânimo de permanecer até o final nesta.
Na verdade, acho que nunca tenho ânimo. O estranho é que ao manter Betsy
em pé, com a sustentação do meu corpo, noto que pela primeira vez, eu
realmente tenho vontade de ir para o quarto e dormir, ou apenas me deitar ao
seu lado para apreciar a maneira como seus lábios se entreabrem enquanto ela
respira lentamente.
Penso não ter visto nada mais lindo do que Betsy gozando, mas ela
dormindo calma, com as mãos embaixo da cabeça, é a minha nova definição
de visão angelical.
Lembro-me do que perguntaria à minha prima, mas acabei esquecendo
com a conversa exaltada que mantivemos logo que cheguei.
— Você já viu o homem que estava aqui no leilão em algum outro
lugar?
Tenho a sensação de que já o vi. E o pânico nos olhos de Betsy quando
eu caminhei pelo corredor vazio que as cadeiras formavam, conotou que ela
provavelmente também. Ter essa percepção me deixou em alerta vermelho,
disposto a identificar o sujeito custe o que custasse.
Jenna sacode a cabeça, colocando a mão no queixo. Aguardo que ela
responda, mas não é ela que o faz.
— Nunca vi mais feio — exalta vovó, assustando minha prima.
O ruim de estarmos no jardim é justamente isso, não conseguimos
identificar o perigo se aproximando com o som da bengala ecoando. Talvez
por este motivo, todos os outros deram um jeito de escapar.
— Amanhã é aquele bolo simples, que a senhora costuma encomendar,
vovó? — provoca Dale, fazendo careta. — Sem recheio de ganache de
chocolate?
— E se for? — rebate ela.
— Por que faz isso com a gente?
— Pensei que o bolo fosse para me agradar já que é meu aniversário!
— ralha ela.
— Mas a senhora nunca come!
Desta vez a bengalada não é na canela, mas na cabeça. Tremo quando
vejo que meu primo mantém a visão pétrea por instantes, temendo que vovó
tenha acertado uma parte importante de seu intelecto.
— Que cabeça dura você tem. Produziu até um som oco — murmura
ela, erguendo sua bengala na altura dos olhos para ver se o material ainda está
bom.
Percebo que ela fica ereta, sem envergar nem mesmo uma vez por falta
de apoio, confirmando o que eu já suspeitava.
— Não precisa da bengala para se equilibrar! — adivinho.
— Só faço para assustá-los — e gargalha — oh caramba, é tão
divertido vê-los petrificados com o barulho. É minha alegria nesses anos de
velha — profere e não diz mais nada antes de se afastar da mesa.
Ela é assim, aparece nos momentos mais inoportunos e vai embora nos
mais oportunos.
— Acho que vou para meu quarto antes que ela volte — resmungo.
— Eu também — concorda Jenna.
Ambos olhamos para Dale que agora deitou a sua cabeça na mesa e
parece estar em um sono pesado.
— E Dale? — questiono.
— Deixe-o dormir no sereno um pouco.
— E o nome dele é John Cena... — ronrona Betsy baixinho, sonolenta,
apoiando-se mais contra meu corpo.
Acho que ela está sonhando.
Como ela consegue entrar no estado de sonolência, em pé, com o meu
corpo sustentando o seu, enquanto eu converso com outras pessoas, uma
incógnita.
— Sua garota sabe o que é bom, não? Até eu gosto do John Cena —
proclama Jenna antes de se afastar, enquanto eu me mantenho pensativo.
O que John Cena tem que eu não tenho?
Pego Betsy no colo e caminho por entre as cadeiras, atraindo a atenção
de alguns convidados. Alcanço a mansão depois de muito tempo, andando
devagar, tentando não a acordar. Topo com Kendrick no alpendre e ele
levanta uma das sobrancelhas em um gesto imperativo. Paro por instantes
para lhe perguntar.
— Você sabe quem era o homem que estava dando lances?
— Iria te perguntar justamente isso, irmão. As coisas pareceram
pessoais demais. Ele não desistiria se você não tivesse chegado. — Coloca as
mãos nos bolsos — Procurei pelo homem e não o encontrei em lugar algum
da propriedade. Achei estranho que ele saiu em disparada logo que...
— Eu apareci — interrompo-o.
— Exatamente.
Todos os eventos têm de ter alguma relação!
Esse homem, as ameaças contra mamãe e todos da família, a tentativa
de compra hostil da Kingston. Há algo que eu não estou conseguindo
enxergar, esta é a única explicação. Mas, por que em determinados lugares? E
por qual motivo a pessoa não deixa claro o que quer?
— Nada incomum aconteceu no Havaí? — pergunto, apenas para
conferir.
— Nem uma dançarina de Hula fora do lugar. Não conseguiram
encontrar quem tentou assustar mamãe, não é? Sabe o quanto ela é frágil
neste quesito. Não faz muito tempo desde a última recaída e tenho medo que
ela tente de novo. Vovó te contou o que aconteceu?
Nego.
— Alguém entrou no antigo escritório do vovô há duas semanas e
revirou tudo. Quando verificaram nas imagens das câmeras não encontraram
nada. Um verdadeiro trabalho profissional. Ela não sabe o que a pessoa
estava procurando, mas disse que não deve ter encontrado porque o lugar se
tornou uma bagunça.
— Por que ela não me falou nada sobre isso?
— Deve ter achado algo bobo, além do mais, já está sobrecarregado na
empresa. Eu tomaria a mesma decisão que ela. É meio que injusto com você,
cobrarmos a resolução de todos os problemas, enquanto nossos tios ostentam
luxo e sossego, eu e meus primos viajamos, e você vende todo o seu tempo
livre para nos proporcionar estes momentos.
— Não me cobram nada.
Kendrick ostenta um sorriso cansado.
— Deixe para lá, nunca admitiria de qualquer forma. E sobre o anel, —
indica o dedo de Betsy — ficou perfeito no dedo dela — fala antes de se virar
e desaparecer.
As pessoas da família estão com essa mania de falar algo de efeito e
desaparecer ultimamente. Será que também faço isso? Ignoro meus
questionamentos silenciosos e afundo na construção, subindo até meu quarto,
tomando o cuidado de não bater a cabeça de Betsy nos corrimões elaborados.
Não tenho muita experiência em carregar mulheres sonolentas, raramente
dormi com as minhas parceiras sexuais. É tudo muito novo para eu assimilar.
Abro a porta do quarto e vou até a cama, depositando-a com cuidado no
lençol. Penso em retirar seu vestido para que ela fique mais à vontade, no
entanto, acredito que seria invasivo demais, então a deixo assim, com a
cabeça apoiada no travesseiro e os braços estirados ao seu lado. Cubro-a com
o edredom e fecho as janelas que estavam abertas. Paro por um tempo,
admirando-a. Vejo um papel na mesa de cabeceira, embaixo de um vaso de
plantas. É a letra dela, percebo. A curiosidade fala mais alto e eu pego o
pedaço entre meus dedos, lendo a sua nota e sentindo uma angústia de abalar
todas as minhas crenças.

“Se chegar e eu já estiver dormindo, por favor não trabalhe demais.


Descanse. Quase nunca abandona o celular e eu percebi que isso te deixa
ansioso, esperando o próximo problema a ser solucionado. Queria te esperar
acordada, mas deve ter demorado demais.
Ass: Princesa do coração de gelo.”

— Você errou desta vez — sussurro — eu cheguei a tempo.


Aperto o papel em minha mão.
É estranho ter alguém se preocupando tanto comigo. O que me assola
ao notar isso me assusta tanto que fujo, parando no corredor após fechar a
porta, respirando profusamente, olhando para o teto.
Não posso permitir que esse envolvimento se torne mais profundo.
Nunca fui bom para ninguém e não sei como posso ser. Há coisas demais em
minha vida, bagagem extra capaz de afundar Betsy junto quando tudo
colapsar. Porque eu sei que ela tem razão. Eu trabalho demais e meus ataques
de pânico são única e exclusivamente por isso. A diferença é que apenas
meus gatos e meu cachorro os presenciavam, agora tenho alguém que está
mais perto de mim do que me sinto à vontade.
Perco o sono.
Não posso voltar para o quarto e fitá-la.
Caminho pelo longo corredor e paro no topo da escada, ao avistar
Damon. Ele está apoiado no corrimão mexendo em seu celular. Não olha para
mim antes de dizer: — Não vou dormir naquele quarto, pode fazer o barulho
que quiser.
Entendo o que ele diz.
O quarto em que foi colocado era o que ele e a esposa dividiam quando
vinham para a fazenda passar um tempo com a família — acredito que vovó
tenha feito de propósito para ele enfrentar a verdade mas, nunca é bom
empurrar tanto uma pessoa na direção de seus medos, esse processo precisa
ser natural.
Não consigo ao menos imaginar como deve ser difícil para ele entrar lá
e ver a esposa em cada canto, revivendo memórias que podem ser dolorosas
após o que aconteceu.
— Certo. E onde vai dormir?
— Lugar é o que não falta. Talvez eu vá para a cabana de caça. Pelo
menos lá eu terei tranquilidade.
— Está acostumado com cabanas.
— É um fato. — Ele me olha de esguelha, prestes a confidenciar algo.
— Ela é bacana, na verdade, muito bacana. Lembra a minha mulher. Sinto
tanta falta dela que eu seria capaz de dar qualquer coisa para voltar até aquele
dia e não ter ido trabalhar. Se eu estivesse em casa, não precisaria do maldito
celular. E então as coisas seriam diferentes. Jamais vou me esquecer da cena
que presenciei quando cheguei ao local do acidente. O outro carro — as
lágrimas se formam em seus olhos, contenho a vontade de abraçá-lo, sei que
ele só precisa de alguém que o escute — transformou o dela em uma lata de
sardinha, Lane. Dividiu-o ao meio com o impacto. Dolores estava com a
cabeça apoiada no volante, com os olhos abertos e sem vida. Eu gritei como
um louco. Fui o primeiro a chegar, porque precisei voltar para casa, tinha
esquecido meu celular, olha a ironia, e ela saiu justamente para o levar até
mim. Peguei o aparelho caído no assoalho do carro para ligar para a
emergência. Não sei como tive o sangue tão frio a ponto de tomar essa ação.
Quando o socorro chegou, eu já sabia que era tarde demais. Para os dois.
Tanto ela como o bebê. E sei como ela era, como sua bondade se sobressaía,
então me senti mal por odiar o motorista bêbado também morto, mas eu
fiquei feliz por ele também ter morrido. É horrível da minha parte?
Não respondo, sua pergunta é retórica.
Sinto a dor na voz do meu primo.
Foi um baque quando o acidente aconteceu, ninguém conseguiu
acreditar. Os dois eram tão perfeitos juntos que o chamávamos de casal
modelo. Damon se quebrou em milhares de pedaços e no enterro, ajoelhou e
olhou para o céu com tanta raiva, que todos ficamos assustados.
A família inteira presenciou o mais alegre dos Kingston se tornar tão
gélido quanto as calotas polares.
— Betsy é legal sim — Opto por voltar a falar dela.
A ferida do meu primo ainda está aberta demais para ele a cutucar.
— Não sei o que está fazendo. Mas, tome cuidado para não acabar
fodendo tudo, primo. Vindo de você, não acredito que tenha se apaixonado
tão rápido e decidido se casar, aposto que vovó tem algum dedo nessa coisa
toda — ele pressente, parecendo ter adivinhado tudo — por mais que Betsy
seja incrível e vai por mim, ela é, e alguém irá perceber isso se você a
machucar. Deixe-se envolver, o amor é indescritível.
— Você dizendo isso? — falo, irritado por ele ter tocado na minha
ferida.
— Posso ter perdido a felicidade, mas eu a senti por um tempo e foram
os melhores meses da minha vida. Eu não trocaria nada daquilo mesmo se
soubesse o que aconteceria. Dolores foi e sempre será meu amor, um do tipo
eterno.
— Não amo Betsy dessa forma. É algo diferente, não sei explicar.
Ele profere um “rum” exasperado. Não indica acreditar em mim. Nem
eu mesmo acredito em mim mesmo a esta altura.
— Se não sabe explicar é porque já existe alguma coisa. Só não a
machuque, certo?
— Ela já foi machucada — assumo.
— Então o cara que precisa perceber o quanto ela é fantástica é você.
Não deixe a chance passar. O amor não bate na nossa porta com tanta força
duas vezes.
Damon se vira e caminha como se não tivesse me lançado uma bomba.
Ele já está muito distante quando algo me ocorre.
— Nunca tentou fugir do que sentia quando conheceu sua mulher?
Ele para de caminhar, no entanto, permanece de costas, no último
degrau da escadaria. Imagino o quão dolorido para ele é falar sobre isso.
— Por que acha que perdemos tanto tempo? Não seja um idiota como
eu.
O alívio é mesmo muito doce.

Finalmente a festa final. A questão toda de festejar durante três dias por
um aniversário não entra em minha cabeça, se bem que se eu tivesse a idade
dela e tivesse passado por tanta coisa, poderia muito bem fazer o mesmo.
Nunca vi nada tão animado quanto a comemoração desta família. A mansão
toda está lotada de gente, com roupas casuais e totalmente à vontade.
Os sons cessam quando vovó sobe ao palco com a ajuda de Lane. Ela
para em frente a um microfone e cumprimenta algumas pessoas com um
gesto sutil. É o tipo de mulher que todos respeitam, pela sua experiência de
vida e por ser o alicerce de uma família tão leal quanto a Kingston.
— Olá, gente, mais um ano que vocês são convidados para o meu
aniversário. Alguns porque eu quis, outros porque meus filhos acham que
seria bom. — Vovó sorri, mas a tensão paira entre os convidados — Não vou
mentir, metade de vocês nem precisavam estar aqui. Mas, bem, como sempre,
no próximo ano acabaremos nos vendo novamente por que eu estou mais
forte do que imaginam. — Relanceia o olhar entre todos — Quero agradecer
a presença das pessoas que importam para mim e também contar uma
novidade. Há tempos aguardo que um dos meus netos desmiolados iniciasse
uma família para dar bisnetos a essa velha. — Sei que Damon também já se
casou, mas, os Kingston parecem manter este assunto longe, por causa da dor
que provoca nele e estão totalmente certos — Por sorte, Deus decidiu me
agraciar, já que o mais velho da geração, o responsável pelo sucesso da
companhia Kingston já se encontra casado, com uma excelente moça diga-se
de passagem. Então, mulheres interesseiras, não adianta mais tentarem fisgar
Lane! — Todos os convidados olham entre si com a revelação, totalmente
chocados, o que não entendo, uma vez que estou usando o anel de noivado e
aliança, mas penso que eles só enxergam o que querem ver. Vovó Pearl
gargalha da comoção e chego à conclusão de que ela ama ver a coisa pegando
fogo — Betsy é o nome da nova integrante do clã Kingston! — Ao ouvir meu
nome, é maior do que eu, o champanhe que eu saboreava é cuspido para
frente, direto no cabelo de uma senhora, encharcando seu coque. Ela se vira e
seu olhar é mortífero, mas, quando está prestes a falar algo para mim, vovó
pigarreia chamando atenção de todos — Por favor, deem as boas vindas
oficiais a ela — Pearl faz uma busca na multidão e me encontra com o olhar
— venha aqui em cima, minha neta!
Arregalo os olhos.
Todas as pessoas se viram para ver quem Pearl chamou. Quando me
veem, sinto o desdém que lançam diretamente a mim. Eles não entendem o
que fiz para fazer parte da família e sinceramente nem eu entendo muito.
Quando falei com vovó a sós, ela me contou que o costume seria passar uma
pequena porcentagem das ações da empresa para a nova integrante, o que eu
prontamente recusei. Não aceitei a farsa com Lane, para tirar proveito disso,
pelo contrário, aceitei pela aventura, por ele ter me ajudado quando mais
precisei. Jamais esqueço quem me ajuda. Ao invés de levar as pessoas que
odeio no coração, eu levo as que me fizeram bem. Tem sido meu lema há
muito tempo.
Lembro-me da conversa que tive com a matriarca, e me perco em
minha própria teia de lembranças:

— Olá, Betsy, eu e Kristen, a mãe do Lane, conversamos sobre você.


Achamos que é justo fazermos o de sempre quando um agregado se une à
família. Aqui, neste documento — ela me entrega um envelope pardo e eu o
pego sem saber o que há nele — está o nosso presente a você. É uma
pequena porcentagem de ações da empresa. Claro que esta pequena
porcentagem a tornará uma mulher milionária.
O café congela em minha garganta ao escutar o que ela diz. Começo a
tossir, desesperada por ar. O choque é tanto que eu levanto da poltrona e
ando em círculos tentando desengasgar. Sinto um tapa forte em minhas
costas e isso me faz recobrar os sentidos. Caramba, vovó tem força!
Ela me olha preocupada.
— Está tudo bem, acho que já passou — falo, com a voz baixa e rouca
devido ao ocorrido.
— E então, o que me diz? — proclama esperançosamente.
— Você estava falando sério?
Essa família é completamente maluca! Quando em toda a minha vida,
imaginei que escutaria um absurdo desses?
— Nunca falei tão sério. Talvez quando eu disse sim no altar há mais
de seis décadas — murmura pensativa.
— Não, eu não posso aceitar, vovó, sinto muito. — Empurro o envelope
de volta para ela.
Não quero ter esse peso nas costas. Não tenho o menor controle para
ser alguém tão influente. Além de que, preciso lidar com meus problemas
antes, para seguir em frente, conquistar as coisas por minha própria conta e
ficar orgulhosa pela minha capacidade. Se eu aceitar algo tão fácil como o
que ela me oferece, quem eu seria então? Qual mérito eu teria?
— É uma Kingston! E todos sabem da tradição, me espanta que Lane
não tenha te contado!
Ah, foda-se!
Lane me fez prometer não contar sobre nosso arranjo, mas eu quero se
dane o que ele pede. Não posso enganar vovó, isso me lançaria direto para o
inferno, em uma parte exclusiva reservada para as pessoas que mentem para
senhoras de idade de excelente coração. Se não possuem essa parte lá, com
certeza criarão quando eu chegar. Não posso e não vou manter o segredo. É
difícil mentir para as pessoas, por mais que eu seja bem dissimulada quando
quero. Depois de conhecer sua família, de ver como todos se amam, torna-se
insuportável o fardo para mim.
— Vovó... eu preciso te contar uma coisa.
Ela abandona o envelope na mesa de centro e prende minhas mãos nas
suas. É uma concha de conforto, penso subitamente.
— Pode dizer.
Seu semblante amável contorce meu coração e destroça minha
capacidade de tentar seguir com a mentira.
— Eu — tento encontrar alternativas — cacete, Lane vai me matar por
contar — não encontro alguma. De todas as formas, enxergo um futuro em
que teremos que contar a verdade mais cedo ou mais tarde — EU E LANE
NOS CASAMOS POR CONTRATO! É UM CASAMENTO SEM AMOR, E
TERMINARÁ DAQUI UM ANO! — brado, desabafando.
É como se um peso tivesse me abandonado. Consigo respirar com
tranquilidade e leveza novamente. Céus, como é bom falar a verdade! Levo a
mão ao peito, expirando e inspirando o ar, rapidamente. Um sorriso
histérico abandona meus lábios com a alegria desenfreada por ter sido
sincera. Estava me consumindo enganar a todos, fingindo estar tudo bem. Ao
menos, outra pessoa agora sabe também para dividir o peso e aliviar meu
coração da mentira.
Vovó bate palmas, tirando-me do transe.
O sorriso em seu rosto é largo e o brilho em seus olhos irradia
orgulho.
O que está acontecendo?
Apoio a mão no encosto da poltrona, ainda com a outra no peito, sem
entender nada.
— Passou no teste, Betsy. — É o que profere.
— Você já... — semicerro as pálpebras — sabia.
— Claro que sim. Garota, vocês mal saíram das fraldas se comparados
a mim. Não imaginam a quantidade de experiência que tenho na vida. —
Volta-se para o sofá e pega sua bengala, gentilmente apoiada nas almofadas
do móvel — Entendi o que estavam tramando assim que os vi, por mais que...
— ela para de falar, me olha fixamente e decide não continuar a sentença —
Esquece, não é tão importante. Mas, é claro que quando eu e a mãe dele
inventamos toda essa coisa, imaginamos que Lane daria um jeito de se
livrar.
— Por que o forçaram a encontrar uma noiva, esposa, ou seja lá o que
for?
— Para a felicidade dele! — diz ela exaltada, como se eu tivesse que
adivinhar seus motivos — Já viu como ele trabalha?
Aceno em afirmativa.
— Alguns dias Lane não dorme, trabalhando até 48 horas seguidas.
Ele se consome em meio ao trabalho, achando que precisa se preocupar com
todos — assumo.
— Exatamente, Betsy, e foi aí que o casamento entrou. Nós nunca
cumpriríamos a ameaça de removê-lo da presidência, mas, precisamos
blefar. Estávamos assistindo um ente querido se consumindo, deixando a
vida passar, focado em coisas materiais. Não se pode viver assim, nós só
temos essa chance. Não é tentativa e erro, é a vida, só temos uma. Eu fui
muito feliz, Betsy — ela se senta e divaga, olhando para cima, sorrindo boba
— muito feliz de verdade e me corroía vê-lo desperdiçando a felicidade.
Movo-me até a poltrona novamente e me sento, ou desabo seria a
melhor definição. Ainda ostento choque com a mudança drástica na
conversa. Uma hora estava recusando milhões de dólares e na outra, me
transformo em confidente de vovó Pearl.
— Foi a última jogada de vocês — adivinho.
— Acha que não tentamos fazer esse menino desacelerar? De todas as
formas possíveis. E sabe, sou muito grata por todos na família entenderem a
sua importância, no entanto, não posso mentir dizendo que não queria que
outras pessoas lidassem com isso. Porém, Lane é o melhor. Sua
determinação e seu foco são os motivos para estarmos onde estamos —
indica o lugar, abrangendo a mansão e tudo o mais — Seu avô estava
falindo, de tanto ajudar as pessoas e eu não o condeno, nós gostamos de
ajudar. Então, Lane assumiu e prometeu que recuperaria tudo. Ele não só o
fez como...
— Aumentou o patrimônio e transformou a companhia em uma
potência.
— Tão bom conversar com pessoas inteligentes — exalta vovó —
Conseguiu o que ninguém seria capaz. Tem todo o meu respeito quanto a
isso. Mas, não posso assistir meu neto se perder na própria vida, para todo
mundo ser feliz nas suas. É inconcebível. Todos acham que ele é meu neto
preferido quando na verdade é o que mais precisa de mim. Os demais
esbanjam dinheiro em viagens luxuosas, mansões e afins, exceto Damon
claro, mas este é um assunto para outra hora, enquanto Lane se mata de
trabalhar e se preocupa com o que nenhum deles quer se preocupar.
As batidas do meu coração ficam calmas. Ouvir o que ela diz me deixa
em paz, por saber que mesmo diante de tanta cobrança, Lane tem pessoas
além de mim que estão ali para ele sempre que precisar.
Mas... eu estarei ali para ele sempre que precisar?
Eu, Betsy?
Espanto-me ao notar que sim.
Ao menos, pelo tempo em que demorar nosso contrato.
— E não acha que a atitude foi muito drástica? Lane não está pronto
para se abrir com ninguém.
— Tentou conversar com ele? — sua confusão é sincera.
— Tentei. Mas, ele é fechado.
— Não é tão fechado com você como é conosco. Eu conheço o meu
neto e nunca o vi dar sorrisos tão verdadeiros como ele abre quando a vê.
Lane é extremamente calculista e se importa com tudo o que conquistou. No
entanto, apesar desse defeito enorme de pensar nas cifras, ele tem uma
qualidade que pende a balança a seu favor... um coração gigantesco.
— Não sei o que pensar, Pearl.
— Me chame de vovó — pede ela.
— Certo, vovó — falo.
— Bem melhor assim. Só quis conversar para pedir que não desista de
Lane. Vocês merecem ser felizes.
— A senhora não me conhece bem. Posso ser alguém interessada no
dinheiro da família. Como pode acreditar no que digo? Nem eu mesma sei
por que embarquei nesta loucura na maioria das vezes. Só sinto que... —
esmago o tecido da saia entre meus dedos, procurando por uma razão que
faça sentido.
— Ah minha neta, eu vivi demais para saber quando alguém deseja o
mal da minha família. Você não é esse alguém.
— Obrigada? — afirmo, mas meu tom indica pergunta.
Ela sorri.
Eu não sei como reagir a tudo.
— Não, eu é que agradeço.

— Venha, Betsy, o que está esperando! — vovó volta a me chamar,


quando percebe que permaneço congelada no lugar.
O fato é que não estou preparada para subir no palco e fitar toda essa
gente. Parece que estou sendo apresentada à rainha, — não que isso já tenha
acontecido comigo, mas se acontecesse, presumo que seria exatamente assim.
Meus pés se colocam um à frente do outro, vacilantes. Acho que estou
tremendo.
Atravesso a multidão sentindo olhares queimarem a minha nuca,
fazendo o calafrio se espalhar pelo meu corpo.
Assim que subo, ela me abraça firme.
— Bem-vinda à família, querida. E, Lane, o que está esperando para
abraçar sua esposa?
As pessoas começam a conversar entre si, exaltadas com a nova fofoca
da alta sociedade.
Lane me alcança e passa seus braços ao meu redor, sem se importar
com a revelação de vovó.
— Bem, isso sim foi um aniversário! — exclama ela, descendo do
palco.
Passa pelas pessoas sem se importar em responder as suas perguntas.
Os demais voltam a beber, e observo os primos de Lane levantarem suas
taças me cumprimentando. Todos sussurram “Bem-vinda”.
Faço parte do clã.
E me sinto mal com isso, porque eu os estou enganando.
Subitamente, tenho uma sensação estranha e meu semblante não
disfarça o tumulto interior que vivencio.
Ser leal aos meus princípios ou continuar com a farsa, sabendo que
estou começando a desenvolver sentimentos por alguém como Lane e que as
coisas jamais darão certo?
— Tudo bem, Betsy? — inquere ele enquanto nós também descemos
do palco.
Aceno fracamente com a cabeça, em uma mentira que apenas eu
entendo.
Por que eu não paro de pensar nela? Que merda!

— Betsy, só para saber, o que vovó lhe disse? Não vai me falar nunca?
— A curiosidade é terrível.
— Algum dia eu te conto, Lane, talvez quando disser o que falou ao
meu pai — provoca e pisca.
Remexo-me na poltrona do avião, incomodado por ter a noção de que
nunca descobrirei o conteúdo da conversa. Betsy tem essa determinação no
olhar, de quem não vai me contar nem sob tortura.
— Que mulher mais infernal!
— Sou quente como o inferno, eu sei.
Nisso tenho que concordar.
Alguns minutos se passam e não demora para ela cair no sono.
Aproveito a circunstância e pego meu notebook, para checar as coisas
referentes à empresa.
Paro por alguns momentos e fito Betsy dormindo ao meu lado,
pensando que alguma coisa boa devo ter feito na vida. Ela é especial. Depois
dos dias com ela, a cada minuto que passa, essa noção se torna indubitável.
Mas, nós precisaremos terminar algum dia. Não quero que ele chegue, ao
mesmo tempo em que não posso me deixar levar pelo sentimento, ele me
atrapalharia no âmbito profissional. Não quero distrações. Não preciso de
distrações.
Quando deixei de ser o homem frio?
E por que com ela?
Seus olhos se abrem assim que nos aproximamos de Miami.
— Vai contar para a sua irmã? — pergunto.
Sei o quanto Madison importa para Betsy e não posso deixar de me
preocupar em como ela contará à irmã que já estamos casados.
— Preciso. Ou minha mãe e meu pai contarão em meu lugar. Pedi para
eles esperarem um pouco, tomara que tenham me ouvido.
— Tudo dará certo — aperto seus dedos entre os meus.
— Daqui um ano.

— Como foram as coisas em Dallas? — pergunta Hayden.


Acabo de chegar à empresa após deixar Betsy em casa. Ainda é
estranho para eu dizer casa e me referir a ela como nossa. Ela comentou que
falaria com a irmã mais tarde, e respondi que esperaria pela sua mensagem
para dizer como foi. Deixei o conjunto de joias que comprei para ela em uma
das minhas gavetas. O embrulho me consumiu durante os três dias que
ficamos no Texas e também na viagem de volta. Preciso me livrar logo dele
de uma vez.
— Bem. Deus abençoe o Texas! — brinco.
Não entendo o motivo, mas, não quero dizer para ele que fui mais feliz
durante esses dias em que fiquei lá, do que boa parte da minha vida. É bem
capaz que ele me dê um sermão do tipo eu avisei que casar te faria bem.
— Por que sinto que está me escondendo alguma coisa? E nossa, seu
humor me deixa com o pé atrás. Sempre que sorri assim coisas ruins
acontecem.
— Claro que estou escondendo coisas de você e não, não preciso contar
— admito — e sobre a aquisição da empresa, preciso me preocupar?
— De maneira alguma, porém, há outro grupo adquirindo ações da
Kingston, o que é no mínimo estranho — meu assistente executivo franze as
sobrancelhas — acho melhor impedirmos outra tentativa, ou os acionistas
ficarão... — interrompo-o.
— Irritados, eu sei.
— Ainda bem que lê meus pensamentos.
— As coisas ficaram loucas sem mim?
— Até que não. Deveria tirar mais dias de folga. Sempre se
sobrecarrega.
— Não tenho tempo para isso — resmungo.
— Nem mesmo para levar sua esposa a uma lua de mel? Cara, como
você é complicado. A mulher casou sem te cobrar nada, e nem ao menos se
esforça para deixá-la contente nesta prisão que chamam de casamento?
Paro de revolver os papéis, ler e-mails no meu celular, ou acompanhar
os relatórios da empresa. Hayden sustenta toda minha atenção neste
momento.
— Acha que é necessário?
Hayden mantém obviedade em sua expressão.
— Pelo amor de Deus, Lane! Pode ser um dos executivos mais bem-
sucedidos do país, mas na matéria do amor, você é péssimo, sério!
— Amor?
— Você entendeu o que eu quero dizer.
— Não, não entendi, Hayden.
— Leve a sua — ele abre aspas — mulher para uma lua de mel, nem
que seja por poucos dias, enquanto você aproveita para descansar. Garanto
que ela irá agradecer.
Não parece uma má ideia. Minha mente grita que eu preciso trabalhar,
que a roda do capitalismo não irá se movimentar sem mim, mas, então me
lembro do conjunto, de Betsy e da sua predisposição em me ajudar, e chego à
conclusão de que ela merece uma escapada. Principalmente se a irmã não
reagir bem à notícia. Levando em consideração como seu pai ficou ao
descobrir, algo me alerta que minha presença é necessária em casa à noite.
— Tem algum lugar em mente?
— Maldivas?
Faço uma careta. Como se eu precisasse desta carga de drama. Um
destino paradisíaco, que expressa romantismo, quando eu não tenho nem uma
grama em mim desta merda. Sacudo a cabeça, em negativa.
— Nem pensar — soo resoluto.
— Eu se fosse ela te mandaria ao inferno, Lane. De que adianta nadar
em dinheiro se não vai aproveitar? Só tem uma vida, seu idiota.
Suspiro profundamente. As pessoas têm me falado muito isto
ultimamente.
— Ela me disse o mesmo há alguns dias.
— Essa mulher acaba de subir no meu conceito, por te falar a verdade
que não quer enxergar. Sou seu funcionário — Hayden apoia as mãos na
minha mesa, fitando-me — mas, depois de trabalharmos tanto tempo juntos,
também posso te considerar meu amigo. Já foi até minha casa, conheceu
minha mulher, porcaria, nós até jantamos juntos! Então ouça o que te digo,
aproveite antes que seja tarde demais.
— Não posso dar esperanças de algo que não acontecerá — desabafo.
— E por que não pode acontecer?
Por que não, mesmo?
— Está claro como água, Hayden! — exalto-me — Eu não tenho tempo
para me dedicar a um relacionamento, muito menos para me apaixonar por
alguém! Não consegue entender? Minha vida é isto aqui — indico o lugar —
e eu não posso me desviar do caminho.
— Já se apaixonou, meu amigo.
— Claro que não — debocho.
— Não? Foi você mesmo quem citou a palavra apaixonar. Meio que
está escrito em sua testa, consigo enxergar agora. Só te provoquei até que
extravasasse.
— Está maluco.
— Se eu trabalho com você, não devo ser certo da cabeça, de fato. E
preciso te avisar que se realmente nutre interesse por ela, precisa demonstrar,
nem que seja do seu jeito, ou outro cara vai chegar de mansinho e conquistar
o que nem é seu ainda, o coração dela. Depois? Não adianta me pedir
conselho, vou te mandar amar a empresa.
Hayden desiste de discutir comigo e abandona minha sala. Recosto-me
na cadeira presidencial e sinto-a ceder com o meu desânimo, inclinando
parcialmente as costas. Olho para o teto, desesperado por respostas, em
seguida relanceio a sala, relembrando quando Betsy esteve aqui e como me
ameaçou em meu próprio habitat. Apenas ela seria capaz de me paralisar em
um lugar no qual me sinto tão poderoso. Abandono tudo que estou analisando
e abro um site de viagens. Quão absurda essa ideia é? Não consigo ao menos
quantificar, o problema é que Hayden já plantou a semente da discórdia em
minha cabeça.
Vários e-mails chegam, quebrando a minha atenção. Decido delegar
essa tarefa a outra pessoa.
Disco o ramal da minha secretária.
— Senhor Kingston — atende ela.
— Serena, pode por favor reservar quatro dias em um resort nas
Maldivas para mim?
— Algum arranjo comercial?
— Não.
A linha fica silenciosa por instantes. Minha secretária deve estar em
choque.
— Apenas o senhor?
— Eu e Betsy, Serena. Entrarei em contato com ela pedindo os dados
necessários e então pode prosseguir, enquanto isso já faça a reserva, para
garantir. A melhor suíte disponível, não importa o preço — volto a olhar as
minhas pesquisas na tela do computador e vejo algo que sinto que Betsy
amará — reserve também um jantar no restaurante que vou mandar o nome
para você. Garanta que fiquemos apenas eu e ela no lugar, mais ninguém.
— Quer reservar o — ela dá uma pausa na pergunta — restaurante
inteiro, senhor?
— Sim.
— E se não for possível?
— Faça ser possível, não tenho limite de orçamento.
— Claro.
— Quando tudo estiver finalizado, por favor, me deixe entrar em
contato com a equipe do resort, tenho um pedido especial a fazer.
— Quer que eu o faça?
— Não, não é necessário.
— Certo, senhor. Mais alguma coisa?
— Apenas isso — devolvo o telefone ao gancho e penso por segundos
na atitude que tomei.
Sei que é o certo e decido mandar uma mensagem para Betsy,
perguntando como foram as coisas com sua irmã.

Eu: O que ela falou?


Coração de gelo: Quem?
Eu: Sua irmã.
Coração de gelo: Ficou feliz.
Eu: Mesmo?
Coração de gelo: Sim.

Ela está mentindo. Não manda mensagens tão diretas assim quando
conta a verdade. Mas, se ela não quer tocar no assunto, sem problemas.

Eu: Que bom.


Coração de gelo: Posso gravar um vídeo para meu blog na sua casa?
Eu: Fique à vontade.
Coração de gelo: Obrigada.
Eu: Betsy, tem como você me enviar seus documentos?
Coração de gelo: Para que? Como tem coragem de me roubar? Você tem
muito mais dinheiro que eu!
Eu: É para uma surpresa.
Coração de gelo: Certo, não esperava por isso! Tudo bem então, vou
enviar as cópias no seu e-mail. Tomara que seja uma surpresa boa, porque
também tenho uma para você quando chegar em casa.

Sim, agora ela está falando a minha língua. Imagino todo tipo de coisa
e todas possuem conotação sexual.

Eu: Agora estamos jogando meu jogo.


Coração de gelo: Quando chegar.

Passo o dia inteiro com a sua promessa martelando em minha cabeça.


No entanto, as coisas tendem a dar mal quando estamos ansiosos demais e
hoje não poderia ser diferente. Todo tipo de imprevisto surge e quando menos
percebo, já são mais de oito da noite e ainda estou no escritório, procurando
por soluções, lidando com diretores e suas desculpas. Bem que dizem que se
quer algo bem feito, faça você mesmo. A cada olhada no relógio, meu
desânimo aumenta. Recebo uma mensagem dela e não ouso abrir, só ficarei
pior. Serena escancara a porta da minha sala, preocupada com meu estado.
Admito que tomei mais café do que deveria e que em certo ponto, a camisa
social começou a me sufocar, obrigando-me a abrir os primeiros botões.
— Preciso ir para casa, senhor.
— Claro, pode ir.
Serena tem uma família, um filho a quem dar atenção, não é justo
segurá-la além de seu horário no escritório.
Assim que ela sai, recebo uma ligação urgente de Dallas.
Não há como fechar os olhos para algo assim. Preciso ir até lá de novo
e não terei tempo para lidar com Betsy até que as coisas estejam bem.
Betsy
— Madison, eu preciso te contar uma coisa... — digo, sentando-me
próxima a ela no pequeno cinema que Craig tem em casa.
Ela come pipoca sem piscar, olhando para a tela gigante à sua frente,
enquanto uma novela turca qualquer passa. Minha irmã parece ter se
desligado completamente do mundo, apenas para ver mais essa trama. Não
sei se é uma boa hora para ser sincera com ela, e falar quem é o homem com
o qual estou casada. Mas, o ultimato de mamãe e papai ainda se mantém
fervoroso em minha mente.
Olho para todo o lugar, passando as mãos no meu jeans, sem saber
como começar a conversa.
— Pode falar, estou ouvindo — diz ela depois de minutos.
— Eu já estou casada...
A mão que levava a pipoca a boca congela e suas pálpebras descem em
piscadelas, conforme ela luta para acreditar no que eu disse. Solta uma
gargalhada estranha um tempo depois e imagino que seja por causa da
novela, mas não é, uma vez que ela se vira para mim e ri novamente,
evidenciando seus dentes sujos por pipoca.
— Vai partir para o ramo do Stand-up, Bets?
Volta a prestar atenção na tela e eu suspiro profundamente.
— Não. E meu marido é Lane Kingston — solto rapidamente, antes que
eu me arrependa.
Ela se levanta em um átimo e derruba o balde de pipoca no chão. Fito a
bagunça com uma sensação ruim de que minha irmã vai surtar.
Ela gargalha histericamente mais uma vez.
— Não confio nessa. Você inventa cada coisa! E só para constar, vai
limpar essa bagunça já que a culpa é sua! — indica o monte de pipocas no
chão.
Faço uma careta.
— É verdade, Madison, eu me casei com Lane Kingston.
— Você se casou com um cara que nem conhece? Faça-me o favor,
Betsy e pare de inventar essas coisas! — sorri, procurando motivos para
entender a minha fala — Além do mais, ele não tem tempo para nada além de
alimentar o ego e sendo quem é, de uma das famílias mais proeminentes do
Texas, com dinheiro para mandar fazer papel higiênico com a cara do
presidente e limpar a bunda, duvido muito que tenha se preocupado em
perder tempo para se relacionar com alguém!
Fecho meus olhos momentaneamente.
— Madison, eu estou casada com Lane Kingston e faz alguns dias, eu
só não sabia como te contar.
Assisto à transformação de seu semblante, enquanto ela percebe que
não estou brincando ou treinando para mudar de ramo e partir para a
comédia. Infelizmente. Tenho temido este momento desde que assinei
concordando em me transformar uma O’Connell-Kingston.
— Como isso foi acontecer? — pergunta embasbacada.
Também não sei.
— Eu me apaixonei.
É uma mentira?
Ou uma verdade?
— Por Lane insuportável Kingston? O mesmo do qual fui assistente
pessoal?
Minha cabeça despenca em derrota.
— Sim.
— Foi por causa dele que você fez aquela pergunta estranha há alguns
dias?
Aceno concordando.
— Está feliz, Bets?
— Estou.
Minhas respostas monossilábicas não a enganam. Seu silêncio deixa
claro. Ficamos alguns segundos assim, em perfeita quietude, enquanto ela
absorve o que eu falei, e eu tento não surtar com a sua reação. Minha irmã é a
pessoa mais importante do meu mundo, porque nós nos apoiamos desde
sempre e quando precisei, ela me estendeu a mão sem cobrar nada em troca.
Se tem alguém que eu não queria magoar com mentiras, esse alguém é
ela.
— Quero muito te bater por não ter me dito que se casaria, ou por não
ter feito uma festa para eu ser a sua dama de honra, mas, acontece, não é? —
profere desanimada — Pensei que eu iria chorar vendo a minha irmã subindo
ao altar com o amor da sua vida, porém, quem realmente tem que estar feliz
com tudo é você.
Sua dúvida quando ao que de fato aconteceu é um sinal de que ela me
conhece bem demais. Maddie sente que tem algo errado, mas não quer
perguntar para não me chatear.
— Obrigada.
— Tudo bem.
— Eu só vim para contar para você, vou voltar para casa.
— A nossa, ou a de vocês?
— A minha e de Lane.
— Certo.
— Desculpa, irmã.
— Não tem por que pedir desculpa.
— É verdade.
Fico tão sem graça que me despeço dela após a nossa conversa, dando
uma desculpa qualquer. Madison não cai no meu teatro, mas me deixa seguir
meu caminho.
Chego à mansão na Star Island sentindo-me pisoteada. Desabo no sofá
e quando Lane pergunta sobre como foi, decido mentir. Porque a verdade é
que Madison entenderá amanhã, não hoje com a bomba que lancei. Ela só me
quer feliz. Ou que tudo fique bem.
Preciso desesperadamente ouvir isso de alguém, ou apenas esquecer
esse acordo idiota por um tempo, então coloco uma lingerie provocante,
esperando que o sexo insano possa me distrair do peso na consciência.
Porém, Lane não vem como prometeu. Ele sequer se desculpa, enquanto eu
devoro a mim mesma com centenas de pensamentos melancólicos e
incontroláveis.
Conforme a madrugada avança sua ausência se torna cada vez mais
evidente, percebo como me iludi ao imaginar que Lane poderia me ajudar.
Não consigo dormir, ansiosa com coisas que não tenho controle.
Abro alguns sites e tento barrar meu impulso, mas é irrefreável. A
ansiedade somada à decepção é cruel. Por que me sinto tão para baixo com a
falta de importância que ele dá? Foi sincero, desde o começo, dizendo que é
apenas um acordo de negócios.
Eu que enfeitei a verdade acreditando em minhas próprias mentiras.
Os gatos e o cachorro estão deitados comigo na cama. Em certo
momento, saio do quarto de Lane e vou para o meu, a passos lentos e
tristonhos. Nenhuma explicação ou mensagem, ele não se dá ao trabalho.
Digito diversas coisas e não envio.
Se ele quisesse falar comigo, teria dado um jeito.
Abraço meu travesseiro contra o peito e os gatos se aconchegam a mim,
enquanto Fluffy baba em todo o lençol. Não me importo. Pelo menos ele me
dá carinho. Stacey e Warren miam, como se sentissem piedade de mim. Sou
uma trouxa patética, recebendo dó até de animais.
A lua ilumina a costa de Miami e segue ondulando até as portas
francesas abertas da sacada do meu quarto. É lindo e deprimente ao mesmo
tempo. Pego meu celular e finalmente cedo ao que me deixará melhor,
sentindo-me péssima por deixar que isso aconteça. Mas, e daí? Pelo menos
coisas novas poderão me manter completa. Após comprar diversas coisas das
quais não preciso, com o cartão do rei para tentar atingi-lo, levanto e caminho
até o closet, o tecido de seda do roupão que Lane deixou no quarto, acaricia
minha pele, como um afago apaixonado.
Admiro as prateleiras com algumas peças de roupa que trouxe de casa.
Uma das portas dos armários interiores está fechada e fico curiosa para saber
o motivo. Depois de desfazer minha mala, não pensei em olhar ali. Quando
abro, dou um passo para trás, em choque ao ver todas as roupas que vendi
para Lane perfeitamente arrumadas. Elas estão separadas por cor e peça.
Respiro diversas vezes, tentando entender o motivo para ele ter feito isso. E
em um ápice de raiva, jogo as roupas ao chão, junto com sapatos e afins,
revirando tudo irada.
Não sei porquê.
Estou confusa.
Pairando entre uma linha tênue de comprar mais e me desfazer das
coisas.
Quando toda essa porcaria me irrita e me faz sentir uma covarde, volto
ao quarto, pego o edredom, travesseiro e rumo até a sala.
Deito e demoro a dormir, acredito que só caio no sono quando os
primeiros raios solares já despontam no horizonte.
Parece que tempo nenhum se passou.
Porque a sensação que tenho é a de que abro um dos olhos, segundos
depois, sentindo o sol quente acariciar minha pele. Não é nada irritante, é
gostoso na verdade.
Meu celular toca e tateio no tapete, procurando o aparelho. Não olho
quem é antes de atender.
— Fala — minha voz sai sonolenta.
— Tudo bem aí, Betsy?
Lane?
— Por que não estaria? — decido ser irônica.
Ele não é uma das minhas pessoas preferidas no momento.
— Eu sinto muito — começa a dizer, escuto alguém tentando conversar
com ele pessoalmente — de verdade, estava tudo certo para voltar para casa,
no entanto, surgiram alguns imprevistos e eu tive que vir para Dallas, Betsy.
— Que imprevistos?
Escuto uma voz feminina ao fundo, uma voz com a qual já estou
familiarizada, devido ao enjoo que me provoca.
— Quando vai terminar aí, Lane?
Há um sentimento muito controverso que paira no coração das pessoas.
Ele só aparece quando a luta já se encontra perdida, e as coisas mais
evoluídas do que podemos esperar. Não importa o quanto tenha vontade de
negar, quando esse sentimento aparece, é hora para abandonar a ignorância e
admitir logo de uma vez que as batidas do seu coração já não batem mais no
seu peito, mas no de outra pessoa. Chamo de ciúmes, porque é o que sinto
agora. Se misturá-lo ao meu ódio mortal, pode muito bem transformar meu
sangue em uma explosão de desejos ambíguos, dentre eles, socar Lane ou
simplesmente afogá-lo no mar. Jurei que nenhum homem me quebraria mais,
porém, aqui estou eu, trincando os dentes, sentindo-me arrasada por ter sido
trocada, quando o relacionamento em si nem é de verdade.
Qual seria o poder dele sobre mim se fosse?
— Hilary está aí com você? — soei puta da vida?
Tomara que sim, porque estou a ponto de explodir.
— Bem, sobre isso... — Lane pausa, sem saber o que falar. Não sei se
quero escutar as suas mentiras ou desculpas. Sequer sei o que se apodera de
mim diante da verdade — o pai dela é um grande amigo da...
Encerro a ligação. Não estou com paciência para ouvi-lo. Pareço uma
criança, sem querer escutar nada, contudo, sem notícias suas ou explicações
anteriores, meio que fica difícil eu acreditar, não?
Penso em voltar para casa, sei que Madison não estará lá, e poderei
pensar um pouco sozinha, sem enxergar a presença do homem do qual quero
fugir em cada canto, no entanto sinto que outro lugar pode ser melhor para
colocar meus pensamentos em ordem. Meu celular não para de vibrar. Não
irei ceder e atender as ligações de Lane, ele que amargue o arrependimento.
Não foi ele que estipulou a coisa de não mergulhar na piscina do
vizinho? Agora, ele mesmo faz isso pelas minhas costas? É falta de lealdade.
Ele não tem que ser fiel a mim, mas leal ao nosso acordo. Forço-me a
acreditar que estou sentindo-me enganada apenas por esse motivo, quando na
verdade, é como se eu estivesse sendo pega nas consequências das minhas
escolhas. Sério, por que aceitei? Então, me resta rezar para que o ano acabe
logo.
Deixo o celular tocando e ao invés de voltar para casa, pego todas as
roupas que espalhei no closet, coloco-as nas malas que encontro no quarto
dele — ele não precisa de tantas assim e foda-se, não me importo, que
compre mais — e levo aos poucos até o carro que aluguei. Coloco uma mala
após a outra, abarrotando o pequeno carro. Abandono a mansão, sem me
importar em deixar nenhum aviso. Para que eu o faria? Lane não voltará tão
cedo.
O inatingível Lane! — debocho em minha mente.
Que seja carregado para o inferno!
Quando retorno, depois de passar horas na ONG e de ajudar tantas
pessoas quanto possível, espanto-me com a escuridão. Não há nenhuma luz
ligada, e presumo que o dono da propriedade ainda não voltou de Dallas. O
sensor aciona a porta da garagem, enquanto eu paro meu carro ao lado do
antigo de Lane.
Irrito-me ao me lembrar do que ele fez.
Sinceramente, não entendo Kingston, ele se esforça para tirar a mulher
da sua vida, no entanto, na primeira oportunidade, corre para passar um
tempo com ela? Nem poderia reclamar se ela voltasse a ficar em seu pé,
mesmo tendo se casado.
Bato palma ao descer do carro, como ele me ensinou. As luzes da
garagem se acendem, assim como da escadaria que leva até a parte superior.
Tenho de admitir que toda a automação da casa é perfeita. Principalmente em
momentos como esse, em que o escuro me aterroriza.
Meus pelos se arrepiam, é como se alguém me olhasse de longe.
Relanceio o imenso jardim, parcialmente escuro, apenas com algumas luzes
decorativas ligadas. Não enxergo nada, mas sinto que tem alguém ali,
esperando para dar o bote. Será que tudo é coisa da minha cabeça, por ficar
sozinha em uma casa deste tamanho?
— Ah, só posso estar maluca!
Um som de arbusto se movimentando quebra o silêncio da noite e eu
subo correndo a escada, acionando o fechamento do portão com rapidez. Não
farei como nos filmes de terror, em que as pessoas procuram pelo perigo.
Jamais. É muito mais prático subir, acender todos os holofotes e conferir se
realmente devo me preocupar. Lane me disse que o sistema de segurança da
casa é inteligente e eu não irei titubear em usá-lo. Apresso-me pela sala,
notando como a luz a ilumina, sem deixá-la totalmente clara, há uma
escuridão parcial em um dos cantos que me aterroriza também.
Não me atenho a nada além de desarmar o alarme e digitar o código
que Lane deixou anotado para emergência. Movo-me tão desesperada que
não percebo a figura sentada no sofá da sala.
Quando percebo já é tarde demais.
Ela se levanta e corta a distância entre nós, devagar, como se
saboreasse o medo, porque porra, a verdade é que estou aterrorizada.
A figura me alcança. Já não consigo respirar a essa altura, e sou capaz
de me transformar em uma das rainhas do grito nos filmes de terror se isso
fizer alguém vir me ajudar. Lembro-me que a propriedade é gigantesca e que
a vizinha famosa provavelmente não está em sua mansão de verão para ouvir
meu pedido de socorro.
Palmas devoram o silêncio.
Comprimo minhas pálpebras.
A essa altura já era para eu ter levado uma pancada, ou algo assim,
não? No entanto, nenhuma parte do meu corpo dói, exceto pelos pés de tanto
ficar em pé na ONG.
Quando finalmente crio coragem de abrir os olhos é Lane que eu vejo à
minha frente. Seu cabelo está bagunçado, a camisa social totalmente aberta, e
ostenta grandes bolsões roxos debaixo dos olhos. Seu olhar é perdido ao
mesmo tempo em que representa alívio. Caramba, ele está acabado.
— O que aconteceu com você?
Ele solta um riso desgostoso.
— Onde esteve, Betsy?
— Sério que é essa a pergunta que quer fazer? — inquiro.
— Não entendo por que está agindo assim. — Ele se inclina até mim,
estende os dois braços ao meu redor e consigo sentir seu hálito de álcool.
Lane bebeu.
Nunca o vi beber se não for com a intenção de dormir. Ato que ele
raramente consegue inclusive.
— Você me disse que seríamos exclusivos — assumo.
— E acha que eu não estou trepando só com você, porra?! — a raiva na
sua voz me assusta, mas ela não é direcionada a mim, parece ser a outra
pessoa.
Encolho-me, de costas contra a parede.
— Então por que estava com Hilary?
— E você me deixou explicar? Encerrou a ligação na minha cara e não
atendeu mais minhas chamadas.
— Só não queria mais falar com você — rebato, pensando que estou
com a razão.
— Tem noção do quanto me assustou? Com tudo o que vem
acontecendo, algo assim pode significar uma coisa muito pior — sua
mandíbula está travada e seus olhos irradiam faíscas — Cacete, Betsy! Por
que esse ciúme agora?
— Não estava com ciúme de você — digo.
Não sei a quem quero enganar, porque é nítido esse sentimento em
mim, comandando as minhas ações e meu bom senso.
— Não, claro que não — seu tom de voz ainda é enviesado — vou
dormir, antes que eu diga coisas que não quero. — Assisto estática ele se
afastar, cambaleante.
Escuto o som da sua porta se fechando com força segundos depois.
Permaneço parada, no mesmo lugar, sem entender ao certo o que
acabou de acontecer. Ele não estava no Texas? Como voltou tão rápido para
Miami?
Um som de vibração afasta meus pensamentos sobre essa questão e me
movo até o celular que deixei em casa antes de sair. Há mais de trinta
ligações de Lane, assim como algumas mensagens, desesperadas, me
perguntando a cada cinco minutos onde eu estava. Conto mais de sessenta.
Inclusive algumas em que ele explica o motivo para Hilary estar no mesmo
lugar que ele. Pelo visto, sua mãe sofreu um acidente de carro, mas não ficou
ferida, no entanto, os policiais desconfiaram ter sido armado, devido ao que
ocorreu.
O arrependimento me baqueia.
Ele estava preocupado comigo, e eu o ignorei. Por que eu agi assim?
Quando caio em mim e bato à porta do seu quarto para me desculpar,
não obtenho resposta. E sinceramente, eu mereço o gelo. Volto para meu
quarto, desta vez sem cachorro e muito menos gatos, eles devem estar com
seu dono, consolando-o da pessoa horrível que eu sou. Pego um bloco de
notas e escrevo um bilhete. Sei que é infantil o que estou fazendo, mas,
espero que ele leia.
Caminho a passos de pano até seu quarto novamente e lanço por
debaixo da porta meu pedido de desculpas.
Meio que deixá-lo mal me deixa mal também, então retorno para a sala,
onde meu edredom e travesseiro ainda estão no sofá e me deito. Assim, será
mais fácil de vê-lo antes que ele saia para trabalhar no dia seguinte.
Pela primeira vez em muito tempo, estou arrependida pelo que causei a
alguém.
Puta merda! Você está bem, graças a Deus!

— Não contou para o vovô, nem para a vovó?


— Eles ficariam desesperados, Lane. Achei melhor chamar você.
Como se eu não fosse me desesperar.
Estou puto, verdadeiramente fora de mim. Olho para minha mãe, na sua
casa no centro de Dallas e ela comprime as expressões de maneira amável.
Está abalada, mas, tenta parecer forte para todos. Sei como essa sua tática
nunca dá certo. Isso me irrita de tal forma, que se eu pegasse o culpado, não
sei do que seria capaz. Ela se fazendo de inatingível sempre dá merda. Como
da última vez, em que a encontraram dopada, após tomar grande quantidade
de remédios controlados.
A imagem nunca sairá da minha cabeça. Nem as minhas várias
tentativas de acordá-la. Esse é o tipo de coisa que deixa a alma ferida, sem
possibilidade de cicatrização. Querer proteger quem a gente ama e não
conseguir, é uma droga. A sensação de impotência se transforma em um
ácido que corrói o caminho que percorre.
— Meu Deus, o que aconteceu com você? Vim de Miami o mais rápido
que pude! — Não estou entendendo nada.
O que raios Hilary faz aqui?
Só pode ser alguma tática sua.
— Nada para se preocupar, querida — mamãe sorri.
— Papai me disse que — Hilary começa a dizer, mas minha mãe
interrompe.
— Deixe isso para lá — apressa-se.
Fito minha mãe por um longo tempo. Seu nervosismo, a maneira com a
qual ela não consegue ficar quieta, olhando para todos os lugares sem focar
em nada, ou sem me contemplar enquanto fala comigo deixam-me atento.
Acredito que ela saiba quem está fazendo isso, ou se não tem certeza, ao
menos deve nutrir uma suspeita.
O que a está mantendo envolta no sigilo? Medo?
Ligo para Betsy, ciente de que preciso me desculpar. . Mas, as coisas
tomam um rumo totalmente diferente quando ela escuta a voz de Hilary, que
se faz ouvir de propósito. Após essa merda, Betsy encerra a ligação na minha
cara e não atende mais ou responde as mensagens desesperadas que envio.
Fito Hilary mortalmente.
Mas, ela não se importa com nada além dela mesma.
— Por que inferno fez isso?
— O foco é sua mãe — aponta para minha mãe — Não pode ficar
dando atenção para as suas vadias.
Ela atinge o ápice da minha irritação. Betsy não é minha vadia ou
qualquer outra definição péssima que ela encontre, é minha esposa, e merece
respeito. Algo que a mulher à minha frente nunca dignou aos outros para
merecer.
— Vá embora, Hilary — ela não se assusta com a minha fala — Vá
embora, LOGO. Betsy é minha esposa e eu não vou tolerar você falando mal
dela, ouviu? Faça o favor de voltar para Miami e fique longe da minha
família! Estou cansado, até aqui — indico a testa — de te aturar e resolver os
problemas que causa!
A apreensão aumenta a minha irritação e não suporto mais vê-la na
minha frente.
— Lane, isso é ridículo. Nós sabemos que não ama Betsy.
— Tem certeza?
Porque sinceramente eu, que sou o principal envolvido, não tenho
certeza de nada. Nem se não amo, muito menos se sinto algo.
— Veio aqui só para tentar forçá-lo a se envolver com você? — indaga
mamãe.
Finalmente ela se interessa em me ajudar.
— Claro que não, Kristen! — Hilary tenta se defender.
— Ele vai muito bem com Betsy, não consegue enxergar? Sei que
vocês acabaram com aquela coisa — mamãe sacode as mãos — de sexo
casual que essa geração tem bastante, mas, não imaginei que estivesse
querendo prejudicar o casamento do meu filho! Ninguém que tenta fazer mal
a Lane tem lugar em minha casa.
Hilary retrocede um passo ao perceber o monte de lama no qual se
afundou sozinha.
— Não é isso, eu só...
— Tem me infernizado todos os dias. Uma porra — profiro irritado.
— Por isso falou alto? Para a Betsy ouvir e brigar com ele? Céus, que
doentio! Sério que saiu de Miami apenas porque sabia que ele estaria aqui?
— mamãe me indica.
A outra mulher não tem como se defender, mamãe acerta em cheio
sobre quais foram suas verdadeiras intenções ao brotar em Dallas
repentinamente, sem ser chamada.
— E as máscaras caem — sussurro, com as mãos nos bolsos.
— Kristen, é que eu sou amiga da família e...
— Ouça o que meu filho pediu, Hilary, vá embora. Se ele não se sente
confortável na sua presença, ou minha nora, por favor, não apareça mais. Nós
não iremos recebê-la.
Uma bolsa encontra o laminado, com o choque estampado no
semblante de Hilary.
— Mas, meu pai é seu melhor amigo!
— E eu vou explicar para ele o que vem acontecendo. Com certeza irá
me entender — proclama mamãe enfática — agora, por favor saia da minha
casa ou eu chamarei os seguranças.
Não demora para Hilary abandonar a sala, como se tivesse levado um
tiro de canhão, totalmente desnorteada. Poderia ficar tranquilo, se não
soubesse a capacidade da mulher de contornar qualquer coisa e voltar a me
infernizar. E o pior de tudo isso é que tento mais uma vez ligar para Betsy e
ela não atende.
— Betsy... — mamãe sussurra perdida em pensamentos — Lane,
BETSY! — grita ela.
Não consigo entender o que ela quer dizer até que me conta as suas
suspeitas e fala sobre o aviso que foi deixado no banco de trás do seu carro.
Ela levanta-se rapidamente e corre em direção ao quarto, voltando com um
papel amassado e sujo nas mãos. Nele, o que leio faz meu coração tropeçar
uma batida.

“É apenas um susto. A próxima vítima é a fraqueza do seu


filho. Pagará por tudo, Kristen.”

— PUTA QUE PARIU! — saio correndo da casa da minha mãe, mas


digo enquanto me afasto — Vá para a mansão Kingston, e avise o vovô e a
vovó!
Que dê tempo!
Betsy não estar atendendo ou respondendo as mensagens pode
significar coisa muito pior. Só pode ser ela, minha fraqueza. Sinto que é ela.
Penso nela sozinha em casa, no seu medo, e isso me impulsiona a tentar
chegar o mais rápido possível em Miami.
O medo me deixa entorpecido.
E o terror grita que eu preciso chegar a tempo.
Ou... posso me tornar Damon.
— Tem como acelerar um pouco? — peço ao motorista do táxi — te
pago o triplo.
O homem faz o máximo que pode e logo que para na frente da
propriedade, abro o portão. Nem mesmo ele se movimenta com a rapidez que
preciso. Espremo-me na brecha que se abre e acesso o quintal, subindo
correndo o caminho. Logo que entro pela porta lateral, transpasso os degraus,
pulando dois por vez, sem ao menos acender as luzes. Não tenho tempo para
essas merdas. A única coisa na qual consigo pensar é em destravar o alarme
pelo celular antes que ele grite como uma sirene. Meu cachorro e meus gatos
apressam-se em minha direção, não dou muita atenção a eles.
Tento ligar para Betsy mais uma vez, no entanto, a música Milkshake
da Kelis começa a tocar próxima a mim. Droga. Sigo o som e encontro o seu
celular na mesa de centro da sala, piscando e vibrando conforme a chamada.
Porra, Betsy!
Onde você está?
Minha camisa começa a me sufocar e abro os botões em uma tentativa
de respirar melhor. Não adianta, a sala enorme e aberta me deixa
claustrofóbico. Ou não, não é ela, mas sim o pavor de imaginar mil coisas
acontecendo àquela mulher que me deixa em pânico, sem saber a que
recorrer. Puxo meus cabelos, tentando aplacar o nervosismo com a dor. Já é
noite e onde ela poderia estar? Sem o celular?
Penso em ligar para a sua irmã, mas e se eu a assustar também?
Volto atrás com essa ideia e decido aguardar mais um pouco.
Por que aquela maluca me faz passar por isso?
Escuto o som do relógio na cozinha devorando os minutos e isso
começa a me deixar ainda mais desnorteado. Fluffy tenta atrair a minha
atenção, como se percebesse a minha angústia. Acaricio seu focinho, mas a
verdade é que estou perdido. Ouço meu celular tocar dessa vez, e quando
vejo a tela, decido atender para falar com a minha mãe.
— E aí, filho?
— O celular dela está aqui, mas ela não. Não tenho ideia de para onde
Betsy foi — assumo, passando os dedos no rosto. — Sem os seguranças, sem
os malditos seguranças, mãe. Eu já falei para ela que não pode driblar eles,
que deve deixá-los fazerem seu trabalho, mas aquela mulher... aquela mulher,
é um ser infernal, que se apossa de cada grama de calma que há em mim e eu
não sei como agir sempre que ela bate de frente. Betsy me deixa maluco, de
verdade, insano.
Sou uma mistura de medo, cansaço e desespero.
— Fica calmo — pede mamãe — ela pode ter saído para dar uma volta.
Logo chega.
— Sem o celular? — exclamo — Juro que se ele fez algo a ela,
qualquer coisa, se tocou na porra de um fio de cabelo daquela mulher, eu o
procuro até no inferno, mãe, e o farei se arrepender amargamente.
— Não aconteceu nada com ela.
— Deus queira que não. — Encerro a ligação.
Vejo a garrafa de uísque e movo-me até ela, para tomar um gole.
Preciso de amortecimento. Sento-me de volta no sofá e cada segundo é uma
agonia, fazendo-me mover até o líquido alcoólico com frequência demais.
Por sorte escuto o som do portão da garagem, aguardando que seja Betsy.
Não consigo me mover do sofá, só consigo pedir a algum ser onisciente que
seja ela e que esteja bem, ou não sei o que será de mim. Demora alguns
minutos para eu finalmente sentir seu perfume e enxergar o seu contorno em
meio à escuridão parcial. Noto que Betsy não me percebe ali e penso a quão
descuidada ela é e como isso pode ser fatal. Se eu fosse aquele maldito, ela
não conseguiria fugir.
Isso me irrita.
Ela ter saído sem o celular me deixa irado.
Levanto-me do móvel e a ação provoca um som pela casa. Ela me
enxerga, ou melhor, o meu vulto, e seu temor flutua em ondas até mim, com a
sua respiração entrecortada e os seus movimentos congelados.
Betsy consegue sentir minha revolta?
Alcanço-a e escuto-a engolir a respiração. Bato palmas para acender as
luzes, quando já estou contente com o seu pavor. Se ela sentir medo, ficará
mais alerta daqui por diante e é exatamente isso que espero. Não posso nem
cogitar a hipótese de... Porra!
Quando a luz ilumina o ambiente e a escuridão se afasta, enxergo Betsy
de olhos fechados. Suspiro aliviado ao escrutinar seu corpo e perceber que
está tudo bem com ela. Não conseguiria quantificar meu alívio nem mesmo
se quisesse.
Está assustada.
Demora vários segundos para finalmente alçar as pálpebras.
Olhos arregalados se deparam com os meus e aquelas batidas que
tropeçaram, embolam-se uma à outra, fazendo com que eu sinta algo no
fundo do peito. É como uma queimação, sensação totalmente estranha.
Engulo em seco. Percebo que Betsy me avalia, tentando deduzir porque estou
no meu atual estado. Ela jamais adivinharia. Sinto-me acabado porque tenho
estado de uma cidade à outra nas últimas horas, preocupado com a segurança
das pessoas mais importantes da minha vida.
Até que não dói admitir essa verdade, porque é assim que é. Betsy se
tornou valorosa e não posso refutar essa verdade.
O problema, a grande porra do problema é que as duas ainda teimam
em sair sem seguranças.
Caralho!
O que elas querem, me matar de medo?!
— O que aconteceu com você? — inquere.
O riso que abandona meus lábios é desgostoso. Claro que ela
perguntaria isso. O que aconteceu comigo? Ela, foi isso que aconteceu
comigo! Um furacão na minha vida!
É como se eu estivesse sendo arrastado pelas ondas do mar, carregado
para longe, bem longe da terra firme. Estou perdido em meio a sentimentos
malucos, ilhado na minha preocupação.
— Onde esteve, Betsy?
— Sério que é essa a pergunta que quer fazer? — rebate.
— Não entendo por que está agindo assim. — Inclino-me até ela e a
prendo entre meus dois braços, formando uma espécie de proteção à sua
volta.
Ninguém tocará nela.
Sou capaz de qualquer coisa, qualquer coisa, para mantê-la segura,
constatação que me assombra
Mesmo que ela seja tão inconsequente.
— Você me disse que seríamos exclusivos — desabafa.
— E acha que eu não estou trepando só com você, porra?! — brado,
irritado.
Não com Betsy, comigo mesmo, por ter me deixando envolver. Não era
justamente isso que eu queria evitar desde o começo?
Ela se encolhe contra a parede e eu me sinto o pior homem do mundo
por assustá-la.
— Então por que estava com Hilary? — sua coragem em ir direto ao
ponto é louvável.
— E você me deixou explicar? Encerrou a ligação na minha cara e não
atendeu mais minhas chamadas.
— Só não queria mais falar com você.
Ela empina o queixo, pensando que é dona da razão. Sua pose me tira
do sério, porque só eu sei o puta medo que senti ao imaginar que ela pudesse
estar correndo perigo de vida, assim como minha mãe. Respiro
profundamente, contando diversos números aleatórios para não pirar.
— Tem noção do quanto me assustou? — não, ela não tem nem um
milésimo de noção — Com tudo o que vem acontecendo, algo assim pode
significar uma coisa muito pior — travo a mandíbula — Cacete, Betsy! Por
que esse ciúme agora?
Eu estaria feliz para caralho se não estivesse atormentado. Foi o pior
momento possível para ela se vingar de mim.
— Não estava com ciúme de você.
— Não, claro que não — soo debochado — vou dormir, antes que eu
diga coisas que não quero. — Afasto-me, cambaleante, sentindo o sono
somado ao alívio, ambos misturados ao álcool me consumir.
Espero que o cachorro e os gatos entrem no quarto quando abro a porta.
Eles estavam aguardando para dormirem comigo. Não sei o que pensam, mas
foram espertos o bastante para não dar as caras na sala enquanto eu e Betsy
nos mantínhamos com os ânimos exaltados.
Estou sentado na cama, com as mãos apoiadas na cabeça, os cotovelos
nas coxas, quando escuto batidas na porta. Sei que é ela, sei que deve ter
visto as dezenas de mensagens e ligações, no entanto, não quero falar, ou
escutá-la. Quero entender o que está acontecendo comigo, o que preciso fazer
para proteger as pessoas com as quais me importo. Pela primeira vez desde a
minha infância, sinto-me impotente, tão capaz de carregar o mundo nas
costas quanto uma criança pode ser.
Escuto os passos no corredor se afastarem. Betsy finalmente desistiu.
Esse pensamento não se sustenta por muito tempo, já que os escuto
retornarem alguns minutos depois. Tenho medo que ela insista, porque sei
que cederei se ela o fizer. Um papel quadrado é passado por debaixo da porta.
Não me levanto prontamente para pegá-lo. Permaneço contemplando-o por
um tempo longo demais. Quando finalmente o faço leio suas palavras e sinto
meu peito doer com elas.

“Lane, sinto muito, eu não sabia o que aconteceu.


Desculpe, fui uma idiota. Podemos conversar? Somos
adultos, não somos? Só preciso pedir desculpas, de
verdade. Deve estar puto comigo, não é? Enfim, eu estive
na ONG que participo, a Anjos sem asas, ajudando as
pessoas carentes. Deixei o celular aqui porque mesmo
estando brava com você por ter ido correndo atrás da
Hilary (mas, isso é o que eu pensava, sinto muito), sabia
que se levasse o aparelho, eu acabaria falando com você.
Acho que isso é estranho. Só escrevi para pedir desculpa,
de verdade.

Xoxo,
Betsy”

Um sorriso involuntário se abre em meu rosto quando vejo o contorno


da sua boca no papel. Apenas Betsy faria isso para tentar dissolver minha
irritação.
Luto contra a vontade de abrir a porta, caminhar até seu quarto e
aconchegá-la junto a mim.
Travo tantas batalhas internas que imagino estar perdendo a guerra.
Decido tomar banho antes que eu volte atrás, porque é com a segurança
dela que estou preocupado. Sigo até o banheiro, retirando minhas roupas pelo
caminho, torcendo para que o jato de água quente acalme o turbilhão de
sentimentos. Fico debaixo da torrente, por minutos sem fim, olhando para a
parede à minha frente, sem pensar em muita coisa, só deixando que a água
lave para fora de mim todo o caos no qual se transformou minha vida.
Quando saio, Fluffy, Stacey e Warren esperam que eu me ajeite, para se
aproximarem.
Não consigo dormir. Nada.
Levanto no meio da madrugada para tomar água e me deparo com uma
cena um tanto quanto inusitada. Betsy deitada com metade do corpo para fora
do sofá, enquanto as pernas estão para o alto, apoiadas no encosto. Sua
cabeça encontra-se em uma posição estranha e seus fios loiros se amontoam
no tapete. Tento arrumá-la sem acordá-la e cubro-a. Desisto de deixá-la ali
quando ela desaba da mesma forma. Levanto-a em meus braços, tomando o
máximo de cuidado para não a despertar, levando-a para seu quarto.
O perfume de seu cabelo me faz inclinar contra sua cabeça e aspirar o
cheiro irresistível. Pauso sobre meus pés, absorvendo a cena. Não tenho
qualquer vontade de deixá-la sozinha, mas é preciso. Entro em seu quarto e a
apoio na cama. No entanto, assim que a deposito, seus braços se prendem em
meu pescoço, impedindo-me de soltá-la completamente.
— Lane, eu acho que estou apaixonada por você — sussurra sonolenta.
Travo.
Congelado com a sua declaração.
Não sei o que fazer.
Mas, Betsy solta meu pescoço e se aconchega ao colchão. Percebo
tarde demais que ela está dormindo ainda e que dentro de mim, alguma coisa
sussurrou que se apaixonou por ela também.
Se eu conseguiria dormir quando voltasse ao meu quarto caso não a
tivesse carregado, um mistério. Porque quando deito a cabeça no travesseiro,
a única coisa que rodeia meus pensamentos é que ela pode estar apaixonada
por mim e que talvez, esse sentimento seja recíproco.
Deixou seu cheiro no meu pijama. Isso é horrível da sua
parte, porque agora acho que não o lavarei mais.

Meu plano de esperar no sofá até Lane sair para trabalhar desce pelo
ralo. Não sei como não acordei com ele me carregando até o quarto. Seu
gesto de cuidado significa que me perdoou? Torço para que sim! Odeio me
sentir ingrata e é exatamente esta a sensação que me persegue.
Levanto aos tropeços da cama, recebendo lambidas felizes de Fluffy.
Ele faz questão de babar por toda a minha cara. O cheiro do líquido é
duvidoso. Passo a mão, para retirar o excesso e contenho a careta. Logo que o
afasto, os dois gatos se aproximam, miando, pedindo atenção. O sol escolhe
esse momento para ultrapassar o vidro da janela e atingir em cheio meu rosto.
Faço uma careta com a claridade e, bocejo ainda sonolenta. Dormir um pouco
mais não me faria mal, já que meu plano não deu certo.
Porém, o dia está lindo e eu tenho desculpas a pedir. Não sou do tipo
orgulhosa, que não admite que errou. Muito pelo contrário, tenho até
facilidade nessas ocasiões. É mais fácil se desculpar do que ficar se
corroendo, fazendo várias perguntas sem respostas para si mesmo.
— Quer saber? Sei que ele disse que não posso ir até lá, mas... —
sussurro para Stacey — preciso pedir desculpas. — Pulo em um sobressalto,
seguindo direto para o banho.
Quando termino, estou novinha em folha, com o brilho no olhar,
disposta a fazer Lane me perdoar. Coloco um dos meus saltos, uma camisa de
manga comprida e saia até na metade das coxas, acho que estou apresentável
para ser a mulher de alguém como ele. Checo no espelho e fico contente com
o que vejo. Faço uma maquiagem mais leve, tiro uma foto para postar em
minhas redes sociais e me apresso até a sala, com a bolsa na mão e a chave
do carro alugado na outra. Estou com tanta pressa que por muito pouco quase
deixo passar o banquete de café da manhã preparado para mim.
O balcão está cheio de coisas.
Estaco sob meus pés e fico olhando tudo, com a emoção aflorada. Pego
meu celular para enviar uma mensagem. Lane não responde. Deve estar
ocupado.
Ele é um homem sem tempo, Betsy! — exalta minha coerência.
Claro, quem eu penso que sou para ele largar tudo e falar comigo, não?
Talvez esteja enxergando sentimentos demais onde não existem nenhum. Ele
pode não ter transado com Hilary, mas apenas por causa do nosso acordo.
Preciso parar de imaginar motivos ocultos em cada coisa que ele faz.
Tomo o café da manhã e saio da casa, parando em frente ao carro
estacionado na garagem, para olhar em volta. É aquela sensação de novo.
Preciso falar com ele sobre esse pressentimento, porque pode ter alguma
coisa acontecendo. O aparelho em minha mão sinaliza a chegada de uma
mensagem, com a ansiedade a mil, doida para saber qual a sua resposta,
manejo-o com tanta inconsistência que ele quase desaba no chão. Faz muito
tempo que eu não sinto essa coisa toda de antecipação, de começo de
romance, porque é isso o que é, não?
E quem disser que não é a melhor parte, estará mentindo. É uma delícia
esperar pela resposta, sem saber qual ela será, torna tudo mais empolgante.
Assim como o primeiro beijo.
A primeira transa.
Mordo o lábio ao pensar nela. Claro que no nosso caso as coisas foram
invertidas, mesmo assim, o frio gostoso se faz presente. Suspiro
profundamente e sacudo a parte de cima do corpo sem motivo aparente,
apenas para espantar o nervosismo. Acho que estou sendo boba demais.
Entro no carro e dirijo por Miami, sentindo a brisa marítima agitar
meus cabelos.
Meio que representa liberdade.
Claro que eu finjo não notar o carro que me segue não muito distante
— a mando de Lane, aposto que o homem deixou ordens expressas de que
não posso andar sozinha pela cidade. Os seguranças são muito discretos, não
tenho do que me queixar, só acho surreal que eu precise de proteção. Não sou
uma celebridade, ou coisa parecida. Sou a Betsy! Betsy, a blogueira de moda,
que administra o “Garota da moda”, que nem é algo tão comentado assim.
Uma pena, diga-se de passagem.
Assim que paro em uma das vagas da empresa, pergunto-me se estou
fazendo a coisa certa. Uma vozinha afirma que sim. Respiro fundo, e dou
passos confiantes até a recepção. Uma das recepcionistas me olha de cima a
baixo e não quero nem saber o que ela está pensando.
— Por favor, gostaria de falar com Lane Kingston.
— Tem horário marcado?
— Não, mas...
Ela me interrompe sem dar tempo nem para respirar. Mantém o
semblante sisudo, como se a minha presença fosse uma afronta ao seu
trabalho. Seu cabelo está arrumado em um coque perfeito e sua pose é
totalmente profissional. Sei que ela está fazendo seu trabalho, mas custa ser
um pouco mais receptiva e ouvir as pessoas ao invés de presumir o que elas
dirão?
— Não importa, só permitimos pessoas com horário marcado —
enfatiza.
Olho à minha volta, sem saber o que estou procurando, apenas o faço.
Diversas pessoas estão concentradas em seus celulares, carregando pastas e
rumando para as catracas que dão acesso aos ambientes corporativos.
— Mas, eu sou... — interrompida novamente.
— Senhorita, não nos interessa, não podemos liberar a sua entrada!
Sem horário não é possível ver o senhor Kingston. — Seu olhar de desdém é
cruel.
Como se eu não fosse digna de falar com ele.
Ela está prestes a chamar a segurança para mim, noto. Continuo no
mesmo lugar e a obrigo a fazer isso, para depois ligar desvairadamente para
Lane, ou desisto e volto embora, para o aguardar em casa?
Não, a segunda possibilidade não é boa o bastante. Tenho que me
desculpar, e tem que ser agora, senão vou ficar me amaldiçoando durante o
dia inteiro.
Sou do tipo de pessoa que não consegue ficar em paz enquanto não tira
o peso da culpa das costas.
— Betsy! — Escuto a voz do irmão de Lane e emito um suspiro
aliviado.
Nunca a expressão “salva pelo gongo” fez tanto sentido!
— Kendrick — cumprimento em retorno.
Ele se aproxima, em trajes casuais — leia-se camisa havaiana com
estampa chamativa, bermuda branca e um mocassim bege, algo que destoa
das demais pessoas à nossa volta — e passa um dos braços pelo meu ombro.
Está como sempre, aparentando se divertir com tudo, simpático ao extremo.
Acredito que Lane puxou o lado carrancudo da família e Kendrick sugou o
divertido. Ambos são completamente opostos. Se não fosse pela semelhança
física, nem imaginaria que são irmãos, tamanha a discrepância de
personalidade. É gritante.
— O que faz por aqui? — pergunta e me abraça firmemente.
Não há qualquer segunda intenção, apenas um carinho desmedido.
— Preciso falar com o Lane, mas não me deixam subir — exclamo,
irritada.
Olho para a recepcionista que foi extremamente grossa comigo e
encurvo uma das sobrancelhas.
— Como assim não te deixaram subir? — zomba Kendrick — se nem a
esposa dele pode subir, eu também não poderei! — brinca.
— Senhor Kingston — elas se levantam para cumprimentá-lo.
Depois se voltam a mim e assisto a expressão das duas recepcionistas
mudar totalmente e antes o que era sinal de irritação, torna-se rapidamente
cenário de bajulação, com elas se esforçando para sorrir em minha direção,
tentando se redimir da grosseria anterior. Reviro meus olhos com o gesto.
— Nós não sabíamos que a senhora é esposa dele — desculpam-se.
Vejo em seus semblantes que temem pelo emprego. Mas, eu não sou
assim, esse tipo de pessoa. Nem ao menos sou casada de verdade com o todo
poderoso para exigir alguma coisa e mesmo que fosse, não o faria.
— Vem, Betsy! Se bem conheço meu irmão, deve estar atarefado ao
extremo e se não subirmos agora poderemos perder a honra de partilhar da
sua presença.
— Por que está aqui? — pergunto, apressando-me a acompanhá-lo.
Os seguranças liberam duas catracas assim que nos veem.
Já estamos dentro do elevador, quando finalmente Kendrick responde:
— Algumas coisas aconteceram em Dallas. Acho que é hora de aceitar
que tenho de ficar em casa. Fincar as raízes — ele faz um gesto de descaso —
se é que tem algum sentido essa merda. — Ele funga e eu estranho o gesto —
Nossa, está cheirosa! — brinca — Coco Chanel, não é? Acho que vou
atrapalhar a sedução. Desculpe! Prometo ir direto ao ponto para os deixar a
sós.
Fico pasma. Ele acerta com um único palpite!
— Como sabia? — pergunto abismada.
— Melhor eu não contar!
— Lane te ligou? — decido mudar o rumo da conversa.
Algo aconteceu realmente, pela forma com que ele estava fora de si na
última noite, não há como negar. Ele parecia outra pessoa. Totalmente
desnorteado.
— Não, pior... — Kendrick inspira profundamente como se fosse
complicado para ele dizer — mamãe. Fez-me prometer que voltaria no
primeiro voo que eu encontrasse. Tem algo pesado rolando e só meu irmão
pode nos dizer. Por mais que a ideia não me agrade, jamais ignoraria algo
sério.
— Por que sua mãe ligar é pior do que Lane?
Os olhos de Kendrick escurecem e vejo um brilho estranho refletir-se
em suas íris. Desta vez, ele é uma cópia de Lane, e seus traços duros,
transbordando mistérios, só provam que há mais no seu sorriso do que na sua
quietude. Bom humor quase sempre é a máscara para a tristeza.
— Nós não costumamos nos falar muito. Só isso que precisa saber —
finaliza o assunto.
— Ontem quando ele voltou para casa, estava fora de si.
— Sei que serei ruim por dizer isso, mas graças a Deus que quem o
aturou foi você, não eu! — ele volta a sorrir quando o elevador se abre na
presidência.
É como um déjà vu, da última vez em que estive aqui e que acessei
exatamente este andar. Lembro-me que tinha acabado de vender minhas
peças tão amadas e estava com o coração batendo na boca por ter de entregá-
las. Foi onde tudo verdadeiramente começou e céus! Parece fazer tanto
tempo!
Loucura ao extremo!
— Betsy! — Serena me vê e abre um sorriso, mas, quando olha para o
irmão do seu chefe ele se esvai.
— Tão ruim assim? — inquere Kendrick.
— Demais, ele está parecendo o diabo em pessoa, hoje. Já gritou mais
de dez vezes e não é ao menos — ela olha para seu relógio — dez da manhã!
— Serena pega o telefone e liga para Lane, eu e Kendrick escutamos o “O
QUE FOI, SERENA?!” de onde estamos — Senhor, sua esposa e seu irmão
estão aqui para vê-lo. — A ligação fica silenciosa por segundos, até que o
“peça para que entrem”, soa explosivo.
Serena volta a deixar o telefone em sua base e nos olha, encolhendo os
ombros.
— Pode deixar que já ouvimos — apressa-se a dizer Kendrick.
Movemo-nos até a porta e ele a abre para mim. Novamente, o contrário
do irmão, que não sabe o que é cavalheirismo.
— O que querem? — brada prontamente.
Está perdido em meio a papéis, com dois tablets em um canto, o
notebook, relanceando o olhar para o monitor do seu computador. Ocupado
nem chegaria perto de o definir. Kendrick não se aterroriza com a cena, e ao
contrário de mim, caminha tranquilamente pela sala, movendo-se até a
cafeteira.
— Quer um café, cunhada?
Sacudo a cabeça.
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Ele pega uma das canecas escritas “I’M THE BOSS” , olha para ela por
alguns minutos, com um sorriso debochado e a coloca na cafeteira. Ergue
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outra em que os dizeres “GOD BLESS TEXAS!” destacam-se em vermelho,
em seguida mais uma “HEAVENS TO BETSY!”. Kendrick me olha e sorri.
— Essa caneca não estava aqui antes, irmão.
— Não sei como foi parar aí.
— Não sabe, é? — debocha o outro.
Sei que no vocabulário sulista, essa frase significa algo como “Oh meu
Deus!”, ou indica surpresa, porém, é meio que reconfortante saber que Lane
adquiriu recentemente um item com meu nome. Não é uma coisa boba de se
pensar, certo?
Nossos olhares se cruzam, é a primeira vez desde que entramos que
Lane me olha.
— Tomou o café que fiz pra você?
Seus olhos são especulativos.
— Fez café para ela? — o espanto do seu irmão é nítido.
— Acordei mais cedo e por acaso fiz sim — resmunga o outro.
Assim que os últimos pingos do líquido preto param de descer,
Kendrick pega a caneca e dá de ombros. Decido responder à pergunta,
mesmo achando a interação dos dois interessante.
— Sim, muito obrigada.
— Bom — é o que diz.
Nada além disso.
A porta de sua sala se abre em um rompante. Lane não se altera. Vejo
Hayden caminhar depressa até ele, segurando uma pasta azul.
— Aqui o que pediu. — Vira-se para a gente — E olhem só que visita
boa! — exclama divertido desta vez.
— Não é o que Lane pensa — Kendrick se movimenta até a vista
tomando seu café, enquanto eu me sinto deslocada no ambiente.
Vim para pedir desculpas e não consigo ficar a sós com ele para seguir
meu plano. Acho que deveria ter aguardado em casa.
— Precisamos falar sobre o que aconteceu com mamãe — profere
Lane, revirando os papéis em sua mesa.
— Ela está bem? — pergunta Kendrick.
— Sim.
— Certo — o outro responde.
Lane finalmente para de se concentrar apenas em sua mesa e levanta-se,
para conversar conosco. Seu olhar relanceia até mim várias vezes e troco o
peso de perna, subitamente ansiosa. Por que isso está acontecendo comigo?
Nunca me senti tão perdida perto de um homem antes. Ele vai até seu irmão e
ambos se mantêm parados, em frente a uma das praias em Miami, totalmente
abarrotada de gente.
O celular na mesa vibra e Lane o olha de relance, depois se volta a
mim.
— Pega pra mim, Betsy? — Faço o que ele pede e quando o entrego,
ele apenas toca na tela, desbloqueando o aparelho com a sua digital. — Acho
que é um e-mail, pode olhar fazendo o favor?
— E não tem problema?
— Não, eu preciso falar um pouco com o Kendrick. Se eu olhar o que
é, não vou conseguir ignorar. Apenas veja se é muito urgente.
— E como vou saber se é? — inquiro.
— Saberá — um sorriso de canto brota em seu rosto.
Estou tão presa na nossa conversa que só percebo os olhares
espantados, tanto do seu irmão, como de Hayden quando já estou prestes a ler
o que Lane me pediu. Eles fitam-me como se estivessem no fim do mundo e
eu fosse Deus, prestes a salvá-los de irem para o inferno.
— E então, já sabem quem é que fez aquilo com a mamãe? — pergunta
Kendrick, mas ainda se encontra abismado.
Leio o e-mail rapidamente e percebo que não é nada tão urgente, visto
que é um relatório que Lane pediu. Mas, é apenas para acompanhamento.
Hayden se aproxima sorrateiro de mim.
— Ficamos surpresos porque ele não deixa ninguém mexer em seu
celular, nem mesmo Serena. Lane é muito preocupado com vazamento de
informações corporativas — sussurra.
— Oh, oh — é só o que abandona meus lábios.
— Nunca o vi confiar tanto em alguém assim.
Ambos olhamos para o homem, que fala baixo com o irmão.
— Não sei o que pensar.
— Acredito que sabe sim. Ele é um cara que cobra demais de si
mesmo, mas, tem muito a oferecer, e possui uma lealdade sem limite. Acho
que depois do celular, algo que ele mantém apenas para ele, é acampar. São
duas coisas que ele não deixa que ninguém atrapalhe. Talvez, em meio à
natureza, sem preocupações, é onde o verdadeiro homem por debaixo do
terno mora.
— Está confundindo tudo, sabe do nosso acordo.
Hayden é um dos poucos que sabem a verdade, assim como vovó.
— Acho que vocês estão confundindo as coisas — profere — Estava
tentando entender a mudança drástica de atitudes dele ultimamente e acredito
que agora sei o motivo.
— Odeio que falem comigo em código — murmuro incomodada.
Não com o homem próximo a mim, mas com o que ele disse. Entro em
pânico ao perceber que talvez eu não esteja idealizando, mas que os gestos
sutis estejam acontecendo realmente.
Sou salva de maiores avaliações quando seu celular vibra e ele arregala
os olhos.
— Puta merda, preciso ir, Lane!
— Como assim?
— Minha mulher vai dar à luz! — exalta e sai correndo da sala.
— Aposto que ele está mais desesperado que a Angel — emana
Kendrick.
— Não duvido. Pode ser alarme falso de novo, semana passada
aconteceu o mesmo.
Eles nem ao menos se assustam com o rompante de Hayden. Voltam a
conversar após segundos que o assistente deixa a sala.
— Como mamãe está com tudo?
— Finge que está bem. E ela desconfia de quem seja. Pensei que estava
morto, a minha última memória sobre ele foi nublada pela minha tentativa de
seguir em frente. Ela te chamou, falou para conversar comigo porque não
conseguiria te dizer o que estou prestes a falar, mas... está vivo, Kendrick.
Não morreu como todos pensávamos.
Quem?
Grita minha curiosidade, mas me mantenho neutra em meio ao que
escuto.
— Como assim não morreu? — vejo pavor nos olhos do mais novo.
Seu corpo fica tenso e ele parece perder o chão sob seus pés. Apoia as
mãos no vidro e arqueja. É algo muito sério. Movo-me para a porta,
intentando sair da sala ao notar que o assunto é particular. Assim que a fecho
após passar, topo com a avaliação de Serena. Ela fita minha mão e reconhece
o aparelho celular firme em meus dedos. A mesma expressão que assombrou
Hayden e Kendrick domina seus traços.
— É, as coisas estão diferentes por aqui — sussurra — mas diferentes
de uma maneira boa — acrescenta.
— Por que todo mundo está me falando isso?
— Porque você é o motivo.
Você é fantástica, Betsy!

Conto todas as minhas desconfianças para meu irmão. Sei que ele ficará
mal ao descobrir tudo, no entanto, não poderia mantê-lo à sombra por muito
tempo. Mamãe está afetada, vovô preocupado, vovó gritando que quando
pegar o desgraçado irá enfiar a sua bota na bunda dele e coisas do tipo. Não
há como evitar, tudo está fora de controle.
— E a polícia?
— Investigando — respondo ao meu irmão.
— Vou para Dallas então, ficar com eles. Pelo menos, se algo
acontecer, posso tentar ajudar.
— Obrigado.
— Acredita que a tentativa de aquisição agressiva partiu de alguma
coisa relacionada?
Ele chega no exato ponto que eu.
— Bem provável.
— Que merda — sibila.
— Mas, eu resolverei tudo.
— Sempre resolve — dá tapas reconfortantes em minhas costas.
Respiro profundamente.
— Ele ameaçou Betsy.
— Agora entendi o que ela me disse quando a encontrei.
— O que?
A minha curiosidade para saber o que ela disse é incontrolável.
— Que estava uma merda quando chegou em casa.
— Eu voei para Dallas para ajudar mamãe e quando ela me falou do
bilhete, peguei o voo mais próximo que consegui para voltar. Cheguei no
aeroporto e faltavam quinze minutos para a decolagem. Só me deixaram
embarcar porque eu não tinha nenhuma bagagem para despachar. E acredite
se quiser, mas eu teria comprado a porra de um Boeing se não me deixassem
entrar, tudo para ver se ela estava bem.
— Deveria ter usado o jatinho.
— Tio Pod estava usando.
— Para viajar com uma de suas amantes, suponho? — ele acerta em
cheio.
— Exato. Vou proibir as suas viagens usando o jato empresarial. O faz
apenas para ostentar.
— Já deveria ter feito isso antes. Lidar com as merdas que surgem aqui
ninguém quer, mas se acham no direito de gastar o dinheiro da empresa. Eu
se fosse você já teria discutido com todos.
— Não posso fazer isso. Também possuem ações.
— Eu dou as minhas para você se preciso for e se ajudar a privá-los de
votos no Conselho.
— Sabe que não funciona assim.
— Ultimamente, o que não acho correto é você abdicar da sua
felicidade para manter a companhia Kingston vomitando lucro. Deveria
deixar que todos lidemos com ela e investir nas suas demais empresas. Pelo
menos, poderia administrar em paz, sem ter gente que não entende porra
nenhuma dando opinião.
— Faz parte da emoção — resmungo.
— E Betsy? Como fará para mantê-la segura? Passa mais tempo aqui
do que em casa, não pode deixá-la sozinha. Ela é sua esposa, Lane.
— Acha que essa merda não tem me tirado o sossego? Por que inferno
pensa que estou tentando correr com as coisas? — Aponto para a mesa.
Meu irmão semicerra os olhos e finalmente entende onde quero chegar.
— Quer passar mais tempo em casa — presume.
— Ou levar Betsy para longe, em um lugar que ninguém a encontre.
— Ela sabe o perigo que corre?
— Sabe, sim.
Lembro-me das mensagens que enviei e se ela as leu como imagino,
está bem ciente de tudo o que acontece ao nosso redor.
— Pelo menos contou. Bem — exclama — acho que já vou, quando
chegar lá te aviso. E qualquer coisa, entro em contato. Fale com ela, estava
agoniada querendo te ver.
Já imagino o motivo. Ela não se preocuparia se soubesse que a minha
irritação passou assim que eu a vi ao chegar a casa, segura.
— Eu o farei.
Permaneço parado, no mesmo lugar, e só escuto meu irmão sair da sala.
Não demora muito para que Betsy entre. Sei que é ela, por causa do seu
cheiro e de como meu corpo responde à sua presença.
— Não precisa se desculpar.
— Preciso sim — ela diz e eu não me viro, sei que é errado, mas
também sei que se eu o fizer, assim que meus olhos cruzarem com os seus, eu
perderei todo o raciocínio, pensando apenas em beijá-la como se nossa vida
dependesse disso — eu agi de maneira errada com você. Deveria ter
esperado. Mas é que...
— Tudo bem, Betsy.
— Sei que me disse para não vir até a empresa, que era uma das suas
zonas proibidas — proclama temerosa.
Eu nem me lembrava mais do que ela ressalta.
As demais cláusulas do nosso contrato também não fazem mais sentido.
— Não se prenda a isso.
— Queria muito me desculpar e se quiser, posso te levar até onde vou
quando estou me sentindo péssima. Ajudar as pessoas sempre me deixa
melhor, pode acontecer o mesmo com você.
Bom, agora ela tem minha total atenção. Viro-me e me deparo com
Betsy em uma postura diferente da qual estou acostumado, suas mãos à frente
do corpo representam desconforto e as suas sobrancelhas franzidas, temor.
Noto que meu celular está em cima da mesa. Ela deve ter colocado antes de
eu me virar. Não deixo que ninguém tenha acesso a ele, posso ser controlador
e desconfiado ao extremo, mas não quero dar chances de coisas piores
acontecer. Não consigo entender como foi fácil deixar que ela visse meus e-
mails. Há coisas lá capazes de destruir a companhia Kingston se vazadas.
Porém, é Betsy e porra... eu confiaria minha vida a ela.
— Pode ser. Acho que termino as coisas em breve por aqui.
— Certeza? — ela olha para a minha mesa e duvida do que afirmo.
Até eu faria o mesmo.
— Claro, deixo você saber quando eu terminar.
Ficamos em silêncio. O clima que paira entre nós é estranho, como se
os sentimentos estivessem prestes a mudar, ondulando e sustentando centenas
de motivos para admitirmos de uma vez o que está acontecendo.
— Lane... eu preciso te falar uma coisa, que — ela morde o lábio
inferior — aconteceu ontem.
Ela se lembra? Lembra-se de ter dito que se apaixonou?
Nosso acordo é não se envolver, mas se ela disser, eu não sei se sou
capaz de dar um fim a tudo. Já me acostumei em chegar a casa e vê-la me
esperando, ou tê-la por perto sempre que preciso ficar quieto, enquanto ela
me decifra através do silêncio. É libertador. Não há palavras capazes de
explicar a conexão.
— Abra seu coração — brinco, mas estou nervoso.
É esse o momento?
É agora que decidimos seguir em frente correndo riscos, colocando
nosso coração no jogo ou encerramos de uma vez?
Céus! Minhas pernas tremem de ansiedade!
— Quando eu estacionei o carro na garagem senti alguém me
observando — ela começa a dizer e seu olhar se perde em algum ponto à
minha frente — foi uma sensação tão estranha... Parecia que realmente tinha
alguém lá! Por isso subi a escada desesperada! Também me esqueci de dizer,
e por favor, não se irrite comigo — sua falta de percepção não me choca,
como ela não percebe que ultimamente tenho me irritado com todos, menos
com ela? — Mas, naquele coquetel que me levou logo que nos casamos, vi
dois homens o observando de longe e um deles foi o que tentou arrematar o
jantar em Dallas. Não sei se tem alguma ligação, eu só achei que precisava
dizer... e — Betsy arregala os olhos ao se lembrar de algo, sinto que a sua
tensão acaba despertando a minha — Lane, é o mesmo homem que eu vi na
praia quando roubou um beijo meu! Lembro que vi alguém nos fitando e
tenho certeza que é a mesma pessoa! Esse homem está te seguindo,
observando!
Ponto fraco.
Ponto fraco.
Todas as coisas se encaixam.
O sentido cola as peças do quebra-cabeça.
— Como assim na praia? — eu já imagino o que seja, só preciso ouvir,
para que a ficha caia.
— Enquanto discutia com Hilary, eu vi um homem no canto,
observando tudo com extrema atenção. Ele estava de boné e óculos escuros,
mas agora, comparando a outros momentos, são os mesmos traços,
impossível que não seja a mesma pessoa! E por qual motivo ele estaria nos
mesmos lugares que você?
Betsy é a porra de um gênio!
— Nós podemos nos mover antes dele — falo prontamente.
— Se soubermos onde procurar!
— Betsy, você é — vou até ela sem pensar e deposito um beijo em sua
boca, contornando seu rosto com as mãos — incrível!
O telefone em minha mesa toca, atendo impaciente, aguardando que
Serena diga alguma coisa. Sinto que vou me atrasar para o compromisso o
qual prometi para Betsy que iria. Mas, as coisas aconteceram e se
atropelaram, sem que eu pudesse evitar.
— Senhor, sobre a viagem que me pediu para confirmar. Devo mesmo?
— a voz da minha secretária despenca uma oitava, prevendo o que eu direi.
É um misto de preciso tirar Betsy do meio desta confusão com não
posso deixar todos na família agindo às cegas, uma merda de um impasse.
Não há qualquer prova sobre o envolvimento do investidor com aquele filho
da puta, porém, em algum momento a verdade virá à tona e até lá, eu preciso
cuidar dos meus.
— Não.
— Tudo bem — Serena é profissional, no entanto, percebo a pausa que
dá com a minha resposta — E Hayden está vindo. Disse que tem más
notícias.
Suspiro derrotado.
Olho para o relógio e já passa das seis da tarde. Qual o horário que
pensei que sairia mesmo? Claro, logo depois do almoço. Sou uma criatura
muito iludida.
— Raramente são boas — exclamo e desligo.
Não demora muito para o meu assistente acessar a minha sala. Seu
semblante não está nada bom.
— Precisa ir para o Éden.
Franzo as sobrancelhas. Por que eu preciso ir para o clube?
Éden é o clube de stripper mais exclusivo da cidade. Ajudei um amigo
a alçar o negócio a um patamar inimaginável para ele, resultando em nossa
sociedade por igual. O problema, é que esse amigo se tornou um viciado
inveterado, que não ouve nada nem ninguém. Raramente consigo escapar dos
problemas que ele arruma e já passou do momento para que eu compre a sua
parte, ou o faça comprar a minha. Duvido que ele tenha dinheiro para isso. Só
o que sei é que não podemos continuar nessa merda, com o barco prestes a
afundar a qualquer momento.
— É realmente necessário? — pergunto a Hayden.
— Ele surtou e espancou uma das meninas.
Levanto apressado da cadeira. Eu mesmo darei uma surra naquele
desgraçado. Eu poderia deixar passar qualquer coisa, comprando a parte dele
por um preço justo, mas violência contra mulheres não é algo que eu aceite.
Em hipótese alguma. Qualquer homem que o faça tem a minha raiva eterna.
Já desfiz contratos por descobrir algo semelhante de executivos e faço
questão de deixar claro que abomino qualquer um capaz de tal coisa. Uma
covardia sem precedentes, um crime que eu repudio. Não é por acaso que
apoio instituições que protegem mulheres contra a violência, seja ela de que
tipo for.
— PORRA! — brado.
— Só vim aqui te dizer por que sabia que iria querer dar um fim a essa
sociedade. Sinto muito se atrapalhei.
Qualquer pensamento desaparece da minha mente, tamanha a minha
fúria, enquanto imagens vívidas da minha infância tomam a minha memória
como a correnteza forte de um rio após a chuva torrencial. Minha visão
escurece parcialmente, enquanto sinto na pele tudo pelo que passei, algo que
eu não desejo ao meu pior inimigo. Um trauma como esse deixa uma marca
eterna na vida de alguém. Não tem como apagar, não tem como esquecer, e
as cicatrizes permanecem ali, trazendo à tona tudo quando o reflexo é
ressaltado no espelho.
Levo minha mão automaticamente à minha costela. Sinto o corte
queimar como se tivesse acabado de ser feito. Há vários vergões em minha
pele agora e ela está exposta, totalmente disponível para o massacre. Fecho
meus punhos, tentando suportar tudo sem chorar. Meu maxilar se mantém
travado e meu corpo tenso, enquanto tento pensar em coisas boas para que a
dor não me subjugue.
Em questão de segundos, após ouvir o que Hayden falou, torno-me o
moleque indefeso que viu a mãe ser espancada até perder a consciência por
mais noites do que poderia contar. O mesmo garoto que carrega até hoje
cicatrizes dos momentos em que tentou defendê-la.
— Ele não fez isso — sibilo.
Não sou mais o presidente da Kingston Company.
Não sou mais o homem comedido que penso ser.
Transformo-me na pior versão de mim mesmo, uma que precisa fazer
alguém pagar.
— Infelizmente... — Hayden ostenta a derrota, com a mão nos bolsos,
olhando para o chão.
Indica um incômodo tão grande quanto o meu com o que aconteceu.
Mas, o desgraçado não imagina o que despertou. Não sou mais uma
criança indefesa, eu sou um homem poderoso, que pode e vai defender
inocentes de pessoas como ele.
Eu não te mereço Betsy. Eu nunca vou te merecer.

— Eu vou comprar a sua parte, e fim de discussão. Não aparecerá aqui,


ou passará a dez metros que seja do Éden. Se por acaso decidir ir contra o que
estou falando, pode ter certeza que as coisas não serão tão civilizadas. —
Empertigo meu corpo na cadeira, ameaçadoramente — Sua sorte é que ela
não quer prestar queixa. Disse que não o ver nunca mais basta. Então, suma,
antes que eu decida tomar tudo o que tem, e o deixar apodrecendo na cadeia.
Porque — sibilo — se eu cavar, com certeza surgirão mais crimes, não? —
ameaço.
O filho da puta cruza as pernas, sem se afetar com a minha advertência.
— Por que se importa tanto? Ela é só mais uma mulher. Quando
aceitou ser meu sócio e financiar esta coisa toda, disse que eu poderia fazer o
que quisesse desde que não te desse prejuízo. Não entendo o motivo para a
interferência. Feche os olhos, dê meia volta e vá embora. Aposto que tem
mais coisas com o que lidar, rei do petróleo — profere com sarcasmo.
Ele não tem noção de que acabou de despertar.
— NÃO TEM OPÇÃO! É SURDO, CARALHO?! — Levanto e bato
com os punhos na mesa.
A estrutura protesta e por pouco não cede com o golpe. Até seus
móveis são podres, como ele. Mordo minha língua, para não deixar que a
raiva tome conta e eu faça muito mais do que apenas acabar com a sua vida
na cidade. Quero me vingar dele para atenuar meu sentimento sobre outra
época, mesmo sabendo que de nada adiantará. Fecho os olhos, tentando
enviar o passado de volta para o seu lugar.
— O que inferno foi isso? — Hayden entra no escritório, preocupado.
Seu olhar corre de mim para o homem assustado atrás da mesa. A
tensão no ambiente é gritante.
— Apenas o Myers e eu chegando a um acordo.
— Não pode fazer isso comigo! Eu sou seu amigo.
— Parceiro de negócios, Myers, o que em breve também não será.
Nunca, jamais, bata em outra mulher, ou eu vou te encontrar e você desejará
não ter nascido. Fui claro? — ele nota pelo meu tom de voz que não deve
brincar com a minha ira — Hayden entrará em contato com você para
finalizarmos a compra. Dê-se por satisfeito que eu vou comprar pelo preço
justo ao invés de acabar com você — Viro-me para abandonar a sala.
— Tem um ponto fraco Kingston, não deveria fazer inimigos em um
momento como esse — sua fala me faz parar de supetão.
É a segunda vez que alguém me diz que eu tenho um ponto fraco.
Sinto meu sangue ferver em minhas veias e perco totalmente a
paciência, quebrando a distância em passos largos, pegando o desgraçado
pelo colarinho e o puxando para fora da cadeira, por cima da mesa.
Fecho a mão em punho e o acerto, sem titubear, pensando que demorei
demais para fazer isso. Ele merece muito mais. Merece apanhar até que eu
ouça os seus ossos fazendo barulho ao se quebrarem. Essa visão me deixa tão
bem que eu rosno de satisfação. Volto a descer o punho, satisfeito por vê-lo
sangrar com os meus golpes. Assisto seus traços se transformarem
gradativamente nos de outra pessoa, uma que permeia todos os meus
pesadelos e minha mão torna-se subitamente mais pesada, com sede por
vingança e maior necessidade em fazê-lo sofrer.
Golpeio mais uma vez, de novo e de novo. Nada parece ser capaz de
satisfazer a minha raiva.
— Você é um bostinha, com uma mãe puta.
Mais um soco.
— Você quer apanhar no lugar dela, não é?
Vejo-o retirar o cinto e começo a tremer de medo. Sinto o líquido
quente que escorre pelas minhas pernas e as lágrimas geladas correrem pela
minha face.
Da última vez, a dor foi absurda, mas eu suportei por ela.
Não posso chorar muito alto. Mamãe fica pior.
Sinto a fivela bater com força contra minha costela. Pressiono meus
dentes, tentando não gritar. Não posso gritar.
As juntas dos meus dedos protestam contra os golpes ritmados. A dor é
um bálsamo para o meu humor. Estou fora de mim. Preso em memórias
aleatórias dos piores momentos da minha vida. O olhar machucado da minha
mãe topa com o meu e enxergo todo o medo que passa através deles.
Finalmente te encontrei! Não Devia se esconder como um covarde, seu
merdinha Kingston.
Meu punho desce, devorador, querendo imprensar nessa alma infeliz
todo o terror que provocou em outras. Anseio que ele sinta todo o amargor da
dor de ser surrado. De ser subjugado.
— Ele vai pagar por ter uma mãe tão vadia.
— Seu maldito! — estou socando o corpo já inerte do desgraçado que
fez a mim e minha mãe sofrermos.
Não tenho remorso.
Sinto alegria, por descontar um pouco do que passamos. Sou capaz de
libertar minha alma do cárcere no qual ela se encontra. Aos poucos, ela
consegue se tornar mais forte, para me livrar de tudo.
— Lane, pare! Ele está desmaiado! Vai matar o homem assim, caralho!
Sei que ele merece, mas terá que enfrentar consequências enormes se matar
esse merda! — Hayden tenta me parar.
Desvencilho-me das suas mãos.
Eu tenho algo para finalizar.
Não posso deixar um ser humano desprezível como esse viver a seu
bel-prazer, ele pode fazer mais alguém sofrer. Um rosto que eu temi tanto na
infância está ensanguentado, desfigurado e fico feliz por eu ter sido o
causador. A porra da minha consciência grita, mas eu não estou nem aí.
Preciso me livrar da bagagem. Ela precisa me abandonar logo.
— Ele vai pagar pelo que fez a mim, minha mãe e todos da família. Ele
vai pagar, eu prometo — Puxo o corpo e ele cede ao meu comando sem
resistência.
Não enxergo mais os olhos do diabo. Eles estão fechados, o que emana
e irradia paz pelas minhas veias.
Mantenho o estado dissociativo, achando que estou em outro lugar, há
muitos anos, que ainda sou uma criança, mas que desta vez consigo evitar
que coisas piores aconteçam.
— De que merda tá falando?! Para com essa porra!
Sou chacoalhado.
Meus lábios estão crispados em uma linha fina e sou retirado da
fazenda, trazido de volta para o escritório escuro, com as paredes na cor
vinho, uma mesa que cedeu com a força, e meus punhos da camisa social
branca manchados de carmim. Olho para minhas mãos e dou um passo para
trás, em reflexo. Fito o corpo de Myers à minha frente, sobre a mesa, em uma
posição estranha. Ele está com os olhos fechados de tão inchados. Sua cara
está desfigurada e eu percebo tarde demais o que fiz, cego pelo ódio e pelos
traumas de um tempo distante e um lugar até então temido em minha mente.
A raiva me deixou manipulável.
Passo as mãos nas laterais da calça, tentando retirar os vestígios de
sangue. Em um momento de coerência, levo meus dedos ao pescoço do
sujeito, notando que ele está respirando, seus batimentos ainda são
perceptíveis. Dou graças a Deus por não ter perdido a batalha interna. Dou
graças a Deus por não ter tirado a vida de ninguém. Não sou um assassino.
— Ele está vivo — digo por fim, quando recobro a minha sanidade.
Sinto um olhar queimar minhas costas e contemplo Hayden de olhos
arregalados, espantado com o arroubo de fúria. Ele nunca me viu assim.
Ninguém nunca me viu assim além do meu instrutor de Boxe. Ele foi o único
que me ajudou a carregar a minha raiva e destiná-la à luta, como uma forma
de escape. Agora, outra pessoa viu a parte mais fodida, uma que eu escondo
de todos.
— Graças a Deus por isso! Porque se fosse depender de você, ele já
estaria enterrado e afogado no inferno. Caralho, cara, que estrago! O que
aconteceu? — Hayden retoma seu tom normal e se dirige a mim, buscando
por respostas que eu não quero dar.
— Nada que mereça ser dito.
— Pelo menos, ele teve o que mereceu depois de mexer com a Danny.
— Como ela está? — inquiro.
— Com a perna enfaixada, duas costelas quebradas e vários
hematomas. O médico disse que ficará bem.
— Por que ele fez aquilo com ela?
— Aí que está, as coisas são piores do que imaginamos. Ele obrigava
todas as garotas a transarem com ele antes de serem contratadas. Elas são
dançarinas, não prostitutas, então imagina como se sentiam. Danny é uma das
que ele queria obrigar a fazer sexo com ele de novo e ela se negou.
— Desgraçado! — estou prestes a bater mais nele quando Hayden me
para.
— Não faça isso, não vale a pena.
— Quero esse maldito na cadeia e vamos conseguir pagar o menor
preço possível pela metade dele da boate. Não quero saber como, eu só quero
que cavem até o maldito dia em que ele nasceu e consigam provas o
suficiente para ele mofar atrás das grades. Movimente todo o time de
advogados para essa merda, eu quero isso o mais rápido possível. E por
favor, veja com as meninas do que elas precisam, além de tratamento
psicológico, e todo o apoio financeiro e legal para prestarem queixa contra
esse bastardo. É o mínimo. — Olho para o filho da puta e desejo que tivesse
batido mais — Como eu não soube do que estava acontecendo aqui? —
divago.
— Ele as ameaçava. Se alguma delas contasse, a família que pagaria o
preço.
Como pode existir alguém assim?
— Miserável.
— Mas, finalmente descobrimos a verdade. E Lane, por que você
pareceu pior quando ele disse que conhece seu ponto fraco? — noto que
Hayden está curioso.
O que me admira é ele ainda não ter decifrado a charada.
— Porque outra pessoa já me ameaçou assim antes — estridulo.
— Outra pessoa?
— Alguém que em breve estará na cova, um lugar de onde jamais
deveria ter saído.

O som alto da boate reverbera pelas paredes, enquanto caminho pelos


longos corredores, até a saída. Eles se tornam opressores conforme ofego
devido ao que aconteceu. Um peso se instaura em meu peito ao imaginar o
que poderia acontecer se Hayden não fosse capaz de me parar. Droga! Por
que essa merda está vindo com tudo para cima de mim? Por que nos últimos
dias? A resposta vem sem que eu precise procurar muito por ela. Eu estou
com medo, medo do passado porque sei que ele não foi enterrado. E sabe do
que uma pessoa com medo é capaz? De coisas terríveis, coisas inimagináveis
para proteger os que ama e a si mesma.
Só de imaginar mamãe, Kendrick, ou Betsy em perigo, ouço o monstro
rugir de meu interior, clamando para que eu evite isso custe o que custar.
Paro abruptamente e deposito um soco na parede, que vibra sobre as
vertebras dos meus dedos. A dor me faz trincar o maxilar, em uma distração
bem-vinda. Contemplo o lugar, quando algumas pessoas passam por mim.
Executivos em sua maioria. Cumprimentam-me com um aceno,
provavelmente se perguntando o que me trouxe até aqui depois de tanto
tempo longe.
Faz alguns meses que não venho até o Éden e o motivo para isso é que
logo depois que falei com Betsy na primeira vez, eu cheguei a me encontrar
com uma das meninas daqui para fazer o pedido a ela. Foi uma das atitudes
desesperadas, admito. Mas, quem poderia me julgar? Eram tempos de loucura
e eu me encontrava mais do que disposto a só solucionar o problema.
Acredito que o ponto de ruptura da minha coragem de arriscar foi quando ela
começou a fazer exigências. Muitas por sinal. Saí quando ela precisou falar
ao telefone e não retornei.
Ainda bem que não criei um problema maior para mim. Teria sido um
caos!
Estou a alguns minutos da saída mais próxima, os corredores passam de
pretos para um tom de vinho conforme me aproximo do ponto que entra
claridade, fazendo a luz rastejar ínfima por entre o carpete trabalhado, e as
cores nada vibrantes do interior do clube, quando escuto a voz da qual tentei
fugir.
Estaco no lugar.
Merda!
Onde está Hayden quando preciso dele?
Ficou para trás para conversar com as garotas, ver se estão bem, sei
disso, mas, não consigo evitar o pedido a alguma entidade divina de que
alguém me salve.
— Quer atenção hoje, Lane? — Ela se aproxima sorrateira e passa a
mão pelas minhas costas, encostando seu corpo ao meu e descendo-as até
parar em meu abdômen.
Por alguns segundos, meu corpo se anima, meus pelos se eriçam,
sentindo o tesão se avolumar, no entanto, esfria mais rápido do que começa
quando me lembro que preciso ir até Betsy. Já estou puto o bastante por tê-la
deixado esperando e não a faria esperar mais. Por mulher alguma.
Sou leal à mulher com a qual me casei. Até o dia em que estivermos
casados, apenas ela frequentará minha cama. Além do mais, franzo as
sobrancelhas quando a constatação se sobressai, de que eu não estou com
vontade de transar com mais ninguém. Não me faz falta, Betsy é o bastante e
só ela importa.
É bom admitir isso.
Congelo por instantes, contente com o desenrolar de tudo e pela
primeira vez, satisfeito que mamãe e vovó tenham me obrigado a casar. De
que outra forma eu conheceria alguém tão incrível quanto a minha esposa?
Há males que vem para o bem.
Todavia, cortarei uma das minhas bolas antes de contar isso para elas,
que de um jeito torto, acabei me apaixonando de verdade pela mulher com a
qual eu deveria manter apenas um relacionamento de fachada.
Chego à conclusão que seria impossível não me apaixonar por Betsy.
Isso ficou implícito desde o primeiro momento em que a vi saindo de sua
casa, com os cabelos longos e loiros se avultando em torno do rosto e sua
maneira esfuziante de lidar com tudo. Não olhou para mim, mas eu a
contemplei em cada segundo até que desaparecesse rua abaixo.
— Não, tenho algo a fazer — desvencilho-me dos dedos femininos e
ela tenta segurar minha mão.
Solto-a da maneira mais cordial que consigo, com o intuito de me
afastar.
— O que acha de fazermos esse algo juntos?
Apenas um sinal negativo com a cabeça a corta.
— Sou casado, April — falo para a filha de um magnata, frequentadora
assídua do clube — Sinto muito, mas o nosso envolvimento não voltará a se
repetir.
Saio o mais rápido que posso, deixando uma mulher de boca aberta
para trás por saber que eu não recusaria uma foda se não estivesse totalmente
maluco por outra mulher, esperando que ainda dê tempo de a encontrar e
rezando para que ela não esteja com raiva de mim.
É então, que o monstro em minha mente sussurra que eu nunca a irei
merecer, porque eu não consigo colocá-la acima dos negócios, porque me
esqueço dela sempre que um problema surge.
Não adianta querer cuidar dela se você não está por perto quando ela
mais precisa!
Forço-me a acreditar que posso ser merecedor daquela mulher mesmo
com tantos problemas. E o fato é que Betsy merece cada parte minha e eu
darei a ela o que jamais dei a ninguém antes... todo o sentimento que há em
mim.
Deixo Hayden no Éden, sabendo que quando chegar à Anjos sem asas,
posso ligar e me desculpar por não o ter avisado. Dirijo suando frio pelas ruas
de Miami, sem parar para observar as diversas luzes que a colorem e a
tornam uma cidade extremamente ativa durante a noite. As pessoas vêm para
cá para festejarem, eu venho para trabalhar. O único dia em que ouvi Hayden,
pois estava estressado demais no escritório e decidi ir à praia, foi o dia em
que topei com Betsy. Se não era um acaso do destino, eu não sei o que mais
seria.
Acelero quando observo a hora.
Já está tarde demais.
Chego ao endereço alguns minutos depois e saio do carro, olhando para
a fachada com uma lona escrita “Anjos sem asas”. É bem sútil e poucas
pessoas devem saber que algo assim existe para ajudar os outros. Eles
precisam de mais divulgação para que bastante gente possa aderir à causa. Eu
farei isso por eles, ajudarei com que consigam suporte de várias pessoas
influentes, inclusive o prefeito e afins. Com alguns movimentos no jogo de
xadrez isso se tornará fácil. Pego meu celular para anotar as ideias, torcendo
para que com elas Betsy fique mais disposta a me perdoar pelo furo de hoje e
percebo que ele está desligado, com zero bateria. Droga!
Procuro pelo carro com a segurança pessoal dela e não há sinal de nada,
nenhum movimento na rua.
Ela está sozinha?
Que já esteja em casa ou os seguranças serão despedidos, não há
desculpas da parte deles. Como podem deixá-la andar sozinha pela cidade
inteira, durante à noite? Cacete! E eu não pago um salário maior do que a
média para que a protejam custe o que custar?
Porra!
Cabeças definitivamente irão rolar!
Testo a maçaneta em uma das portas e ela se abre sem protestos.
O lugar em si está quieto demais, sem indicar qualquer presença. As
sombras rastejam e escurecem o ambiente. Consigo distinguir algumas
mesas, no entanto, meu olhar varre a extensão e não consigo encontrar mais
nada. Até que um ronco suave rompe o silêncio e eu sigo o barulho, até
encontrar a origem dele.
— Graças a Deus! — falo baixo.
Betsy está com a cabeça apoiada na última mesa, em meio ao breu e
seus fios dourados são o único ponto de iluminação no ambiente. Meu
coração brada em euforia, animado por finalmente a encontrar. Não sei como
não percebi antes, mas essa calma, esse bem-estar, eu só sinto quando estou
próximo a ela. É uma sensação maluca e inexplicável, no entanto totalmente
verdadeira. Dou passos vagarosos, tentando não a acordar, quando escuto o
som de uma porta abrir-se na outra extremidade do salão.
Alguém acende uma das luzes, que ilumina o lugar, mas não todo ele,
mantendo o sono tranquilo e estável de Betsy. Ela ronca baixinho, e aposto
que quando eu disser isso a ela, fará questão de desmentir. É adorável neste
nível.
Semicerro meus olhos para enxergar a pessoa que acaba de irromper.
Ela me vê e eu me espanto por ser uma senhora baixa, que lembra e muito
minha avó. Noto que ergue o celular para ligar para alguém e me precipito na
sua direção, imaginando que irá me denunciar por algum tipo de crime.
— Não precisa chamar a polícia! Sou o marido dela, vim buscá-la!
A mulher abaixa o aparelho. Contudo, não ameniza a desconfiança em
seu semblante.
— E qual seu nome então?
Ela sabe. Só está me testando para ver se eu sou quem digo ser.
Inteligente.
— Lane Kingston. Ela é a Betsy O’Connell-Kingston.
A mudança age drasticamente em seu rosto e noto quando ela suspira
aliviada.
— Deveria ter vindo antes! — ralha ela — A menina ficou te esperando
e até dormiu, pobrezinha! — indica Betsy e me faz sentir pior do que já estou
me sentindo.
— Eu sei. É que surgiram problemas...
— Eles têm surgido há muito tempo, não? Uma hora ela irá se cansar
de te esperar e não terá mimo no mundo capaz de fazê-la voltar para você.
Escute o que estou dizendo, garoto, o que mais vale sua atenção, um legado
que pode ser sustentado por outras pessoas, funções que podem ser
delegadas, ou a sua própria esposa?
— É que as coisas não começaram da forma mais convencional... —
inicio, mas sou brutalmente interrompido.
Se eu não apanhar, como apanho da minha avó, sairei no lucro.
— Eu sei, eu sei — ela dá com as mãos — sobre o casamento de
fachada para poder manter o cargo, patrimônio e afins. Contudo, as coisas
não podem ter mudado? E se elas mudaram, suas atitudes também precisam
passar por transformação, ou perderá a felicidade logo depois de a ter
encontrado e eu te garanto que isso pode ser pior do que não a ter conhecido!
— a senhora me dá um empurrão e lembro do nome que Betsy me disse há
algum tempo.
— É a Constance? — pergunto e tento amolecer o seu coração,
sorrindo.
Não preciso de mais uma senhora puta da vida comigo. Já tenho minha
avó ocupando esse cargo com perfeição.
— Como sabe?
— Betsy fala muito de você.
— Posso dizer o mesmo, meus ouvidos até cansaram de escutar seu
nome — devolve. Agora, pare de conversa e a leve para casa. Dê um jeito
nessa coisa entre vocês. Vão ficar até quando escondendo o que sentem?
Meu olhar abandona os de Constance para pousar em Betsy,
adormecida.
— Pode deixar.
— Bom, vim para ver se ela estava bem. Mas, essa função agora é sua.
Cuide bem da minha menina, ela já sofreu demais para se permitir gostar de
alguém de novo e sofrer novamente.
— Tem minha palavra, ma’am.
— Agora sim falou como um homem do Texas! — parabeniza e
abandona o lugar tão rápido quanto entrou.
Volto até minha esposa, e a pego em meus braços, tomando o cuidado
de não a despertar.
Não sei por que ainda acredito em você. Promete e não
cumpre. Machuca o meu coração.

A cada pessoa que passa por mim, tento sorrir com sinceridade. No
entanto, a verdade é que minha atenção paira bruscamente de volta aos
ponteiros do relógio a cada poucos segundos. Lane prometeu. Prometeu que
viria conhecer a causa, que ajudaria. Mas, nem entendo por que ainda
acredito nas suas promessas. Pego meu celular e tento novamente ligar para
ele. A chamada cai na caixa postal. Suspiro resignada.
Alcanço a rua, para poder verificar se encontro os seguranças na
esperança de que algum deles consiga se comunicar com o chefe, no entanto,
o carro que me seguia desapareceu.
Eles foram embora?
Como assim?
Coço a cabeça em nervoso. Lane vai me matar achando que eu os
dispensei ou coisa parecida. Mas, fico duvidosa de contar para ele sobre o
desaparecimento deles, não quero que percam o emprego e nada de ruim vai
acontecer comigo aqui, então decido deixar para lá. Não importa.
— Tudo bem, Betsy? — indaga um dos voluntários quando retorno ao
salão.
— Claro. — Sorrio fraco.
— Certeza?
— Sim.
Meu olhar cruza com o de Constance na cozinha e ela entende que algo
está acontecendo. Nem eu sei explicar ao certo, só que é como se meu
coração se retorcesse, embolado em uma névoa de desgosto. Quando a
distribuição de janta se encerra, apoio meus cotovelos em uma das mesas e
permaneço ali por instantes, tentando entender o que pode ter acontecido.
Mais uma vez, tento ligar para Lane. Acredito que seu celular esteja
desligado.
— Ele não atende? — pergunta Constance.
Eu contei a verdade para ela há uma semana. Claro que na sua cabeça,
eu e Lane nos apaixonaríamos e viveríamos felizes para sempre. Ela é tão
sonhadora quanto eu. Jurei de pés juntos que não procuro por isso, que esse é
o sonho da Madison, mas é impossível disfarçar que o homem mexe comigo.
— Não.
— Relaxa, Betsy, deve ter surgido alguma coisa!
Esse é o problema, surgem tantas coisas que ele nem deveria prometer
nada. Não me parece justo dar esperança e depois cortá-la como se não fosse
nada.
— Ele não tem tempo para nada, Tance. Nada — proclamo — Então
não deveria fazer promessas que não é capaz de cumprir. Nem vim com meu
carro, porque Lane me disse que depois passaríamos em um bar para tomar
alguma coisa. Eu pensei que poderíamos conversar. Sei que toda essa história
não é verdade, mas o sentimento que nasceu em mim é!
Por alguns segundos ela nada diz e é exatamente disso que preciso,
assim como do abraço apertado que ela me dá. Meu celular toca e o pego
desesperada, pensando que é Lane, é inevitável o desânimo que me acomete
ao notar que não é ele, mas sim Madison. Não atendo, ela perceberia
imediatamente que não estou bem ou agindo normalmente. Minha irmã
começaria a fazer milhares de perguntas que eu acabaria respondendo e não
quero admitir a ninguém além de mim mesma que me apaixonei loucamente
pelo homem que deveria apenas ser meu marido de mentira. Mas, quem não
amaria Lane? Com seu zelo pela família, a sua lealdade, cuidado e atenção? É
algo inevitável.
Pensei que não cairia nas garras deste sentimento traiçoeiro de novo, no
entanto, aqui estou eu, sofrendo por um homem que não vai me amar.
Por que ele me tratou tão bem?
Droga!
Mil vezes droga!
Droga! Droga! Se eu ficar repetindo essa palavra tenho a chance de
obter meu coração de volta?
Mas nem nos meus sonhos eu me vejo livre dele. O homem conseguiu
afastar John Cena dos meus pensamentos e é como se meus devaneios
molhados com o lutador fizessem parte de uma outra era, quando eu ainda
suspirava por ele pelos cantos de casa. Como isso é possível?
— Não imaginou que poderia se apaixonar quando casou com ele,
criança? — pergunta ela, com o semblante enternecido, totalmente empática
pelo que estou passando.
Ao menos posso conversar com alguém capaz de me entender sem me
julgar pela estupidez.
Vovó pensou que eu quebraria o gelo em torno do coração do seu neto,
enganou-se totalmente. Admito que ela dizer que ele estava diferente, por
minha causa, provocou uma onda de esperança que eu não deveria nutrir. As
coisas começaram a desabar após isso. E daí seguiram montanha abaixo.
— Não. Isso nem passou pela minha cabeça.
— Pois deveria ter passado.
Uma lágrima desce pelo meu rosto, e odeio como as outras a tomam
como aval para umedecerem minhas bochechas. Pisco diversas vezes,
tentando afastá-las e não me obedecem, descendo mais e mais, extrapolando
aquela sensação de não ser suficiente que paira como uma nuvem obscura
sobre minha cabeça.
O que farei agora?
— E agora? — profiro minha dúvida.
Constance me abraça ainda mais apertado.
— Conta para ele.
— E se ele debochar de mim, ou qualquer outra coisa?
Sinto-me vulnerável, dando a ele uma arma para poder me machucar.
Todos os meus sentimentos estão em ebulição, como água fervente e
não querem se abrandar, mesmo quando eu penso que contar é o menor dos
meus problemas e que a reação do Lane é que deve ser temida. Se ele agir
com indiferença, juro a mim mesma que não continuarei com nada no acordo.
Não tenho a capacidade de parar de sentir, não é assim que as coisas
funcionam e da última vez, levei alguns anos para tentar esquecer alguém.
— Não fará isso.
— Como sabe?
— A questão é essa, Betsy... eu não sei. Você também não sabe. Então
não acha melhor contar logo de uma vez e ver como ele reage?
— Estou com medo — admito.
— Bobagem, a mulher confiante que conheço não teme nada. Sei que
tomará uma decisão que satisfaça bem aqui — ela se afasta e toca com o
indicador o lado esquerdo do meu peito.
Enxugo as lágrimas com o dorso da mão, acalmando-me aos poucos. O
surto repentino de choro se esvai. Não entendo como posso estar tão emotiva,
acho que é tudo coisa da TPM. É como se minha autoestima despencasse
quando estou nesses dias e qualquer coisa é motivo para eu me sentir mal,
totalmente desacreditada.
— Você tem razão — falo uma oitava mais baixo.
— Claro que sim. Vai embora?
Aceno negativamente.
— Acho que Lane virá me buscar e ele está preocupado demais com
tudo o que aconteceu ultimamente. Prefiro esperá-lo. Ele disse que viria,
então em algum momento virá — ela percebe a dúvida na minha voz, já que
nem eu acredito no que falo.
— Certeza? É perigoso ficar sozinha — estreita seus olhos,
transformando-os em duas fendas de preocupação.
Sorrio sem graça.
— Nada vai acontecer.
— Se eu não tivesse um compromisso ficaria com você.
A sua afirmação me deixa abismada. Fico alegre por ela ao imaginar o
que é.
— Não vai me dizer que é um encontro?
— Ah, vou dizer sim! Finalmente a teia de aranha irá embora!
Gargalho com vontade, sorrindo e chorando ao mesmo tempo, como
uma louca sentimental. O que definitivamente não sou.
— Onde o conheceu?
— No bingo, onde mais? Ele ama Frank Sinatra como eu e gosta dos
meus gatos. Não poderia pedir a Deus uma pessoa mais perfeita para mim.
6
Acredita que ele me deu um vinil raro e especial do Olhos azuis ? —
Constance me cutuca com o cotovelo em camaradagem — Não posso perder.
Qualquer coisa me liga, querida, o horário que for, para o que precisar. Juro
que largo tudo para te socorrer!
Jamais faria isso com ela.
— Ficarei bem, pode ir atrás do seu par perfeito.
— Certo, não hesite em ligar! — reforça antes de sair do salão.
Um dos últimos voluntários também passa por mim, despedindo-se.
— Você pode trancar a porta quando for embora, Betsy? — pede.
Aceno em concordância.
Vejo-o distanciar-se também. A única pessoa tentando rebater a solidão
agora sou eu. Passo as mãos em torno dos braços, sentindo um frio incomum.
Pego meu celular em minha bolsa e faço alguns posts para o blog. Posto
algumas fotos com as propagandas, fotos essas que tirei na semana passada e
mantive comigo guardadas para postar uma por dia. As pessoas comentam e
aprovam. Distraio-me lendo os comentários, conversando com as seguidoras,
sentada em uma das cadeiras, quando bocejo, sonolenta. Contemplo o relógio
enorme com moldura de carvalho na parede à minha direita, e noto que já são
mais de 11h da noite. Como não vi o tempo passar?
Minhas pálpebras pesam e a exaustão começa a deixar meu corpo mole
e meus pensamentos sem sentido.
Deito a cabeça na mesa, usando meus braços como travesseiro.
Não demoro a ceder ao sono.

Tenho um sonho engraçado.


Sinto o cheiro do perfume de Lane flutuar à minha volta, apoderando-se
dos meus pulmões com habilidade. É um sonho estranho, de verdade, porque
sei que Lane não veio até mim. Ele deve ter ficado preso nos assuntos da
empresa e se esquecido completamente da esposa iludida. Porém, o toque é
intenso demais para não ser verdade.
O calor que se alastra por minha pele me faz fechar meus dedos em
torno da sua camisa. Aconchego-me mais abrindo o seu paletó e inalando o
odor irresistível do seu perfume. É masculino e viril. O balançar do seu corpo
embala minha sonolência e tudo em mim fica desconexo. Lane nunca
abandonaria as coisas na empresa para me buscar, tenho certeza. Só pode ser
um sonho, do qual não quero acordar.
Aposto que o paraíso cheira igualzinho a esse homem.
Nas minhas ilusões, Lane parece ser ainda mais cheiroso, tanto que eu
fungo profundamente. Solto um riso rouco, ao perceber que ele é o veneno
que me intoxica a cada segundo, no entanto, não quero o antídoto.
— Seu perfume é um veneno para o meu bom senso — reclamo.
Ele não diz nada.
A chave faz barulho de metal contra metal no bolso do meu short.
É incrível a quantidade de detalhes que minha imaginação salva para
usar enquanto durmo, porque assisto-o se contorcer para pegar o objeto em
meu bolso.
— Para que serve essa chave, Betsy? — inquere ele.
Chacoalho a cabeça, sem qualquer motivo aparente.
— Preciso trancar o barracão — esforço-me para lembrar — pelo
menos foi o que me disseram, mas eu não lembro quem foi. É perigoso.
Lane movimenta-se para fazer o que eu disse e então retira uma mexa
de cabelo do meu rosto, empurrando-a para trás. Inclino minha cabeça contra
a sua mão, mais do que contente com o carinho. Agora entendo por que Al
Capone não pode vê-lo que já sai correndo, seu cafuné é surreal.
— Você fica linda com sono. Na verdade, em qualquer momento. É
incrível Betsy, a mulher mais perfeita que eu já vi.
— Você que é — ronrono — não mulher, claro, mas é mais perfeito
que o John Cena.
— Esse sim é um elogio da sua parte!
Aceno, esfregando-me contra seu peitoral.
Meu Deus, como é bom!
— Não se acostume, posso voltar atrás.
— Claro que pode — concorda ele.
— Pensei que não fosse vir me buscar. Eu fiquei te esperando por
muuuuito — arrasto a palavra — tempo! Falei para Constance que a farsa já
não parece mais farsa, que eu estou envolvida por você, Lane. Ela disse que
eu devia te contar, mas eu não sei se devo. Vai pisar no meu coração, como já
fizeram antes. Não posso deixar! — aperto o tecido da sua camisa.
Ele retira minha mão suavemente e aconchega meus dedos entre os
seus. O aperto é suave e reconfortante. Suspiro profundamente, satisfeita com
o contato.
— Estamos envolvidos.
Esse Lane dos meus sonhos fala exatamente o que quero ouvir.
Permito-me ficar contente por saber que ao menos ele acabou se envolvendo
mais do que gostaria, assim como eu. Sinto que ele caminha até o carro e
conversa com alguém, enquanto me coloca no banco de trás, acariciando
meus cabelos e pedindo desculpa. Parece irritado e sibila, não queria estar no
lugar da pessoa que recebe a sua ira.
Uma música que amo começa a tocar e eu a cantarolo.
Pocketful of Sunshine.
“Me leve embora
Um lugar secreto
Uma doce fuga”
Não sei o motivo, mas, ela me faz lembrar dele. Minha mente é tomada
de sobressalto com imagens dele na praia, depois em casa, tentando falar com
a Madison, meses depois quando voltou para me convencer a embarcar no
naufrágio e migrou para os momentos inesperados que vivemos. Em cada um
deles, uma coisa atrai minha atenção, seus olhos, desafiadores e misteriosos.
— Você canta muito mal, Betsy — exclama Lane.
— É eu sei.
Quando o carro começa a se movimentar, não sonho com mais nada.
Você me machuca, porque tem acesso direto ao meu coração.
E essa sensação me deixa apavorada.

Espreguiço-me ainda de olhos fechados, estranhando que quando estico


meus braços, eles são parados por uma barreira sólida e calorosa. Viro-me e
deparo com Lane.
Ele já está acordado, mas seu semblante é sério, olhando-me fixamente,
aparentando não querer perder qualquer ínfimo detalhe. Semicerro meus
olhos, tentando entender como vim parar em casa. Lembro-me apenas de
esperá-lo por um longo tempo na Anjos sem asas, — nada de novo até então
já que ele não tem coração ou qualquer sinal de emoção humana — até
perceber que talvez ele não fosse. O que aconteceu depois?
— Está confusa. Acho melhor começar com um pedido de desculpa.
— Você não foi — exclamo.
— Cheguei atrasado demais. Você dormiu em uma das mesas e eu te
trouxe de volta para casa.
Minha irritação com ele se sobressai. Eu nunca sou sua primeira opção.
Talvez a terceira e posso estar imaginando um posto mais elevado do que o
que tenho, inclusive. Isso me chateia. Chateia porque eu já não sou mais
imune a ele, não sinto como se fosse fácil ignorá-lo ou coisa assim. Na
verdade, tenho ciência de que quando ele está comigo, tudo parece mais
vivido e intenso. O que é sardônico, uma vez que basta ele sorrir para que eu
o faça também.
— Sua casa — digo, sem entender o porquê fiz, mas coloco ênfase
demais no pronome possessivo.
— Nossa casa, Betsy. Nossa desde que nos casamos e você veio morar
aqui — ele se apressa a dizer, como se houvesse um motivo oculto entre as
suas palavras, algo que ele não diz, mas tenta expressar.
— Essa nunca foi a minha casa, Lane — começo a dizer e sinto que a
enxurrada de desabafos está por vir — Nunca foi. Eu não tenho nada meu na
decoração, não sei onde as coisas estão, contemplo o mar de um quarto que
não é meu. Tomo banho em um banheiro que não é meu. Nada aqui — abro
os braços — é meu! Estou me apegando a animais de estimação que também
não são meus. — Prendo o cobertor entre meus dedos ao sentar e apoiar na
cabeceira — Tudo isso está me machucando porque na verdade, nada é meu,
nem mesmo você, entende?
Seus lábios se entreabrem, ele sabe o que eu quero dizer. Não é idiota.
— Betsy, nós...
— Por favor, pode me deixar sozinha por um tempo? Eu preciso
pensar.
Não é o que ele espera ouvir, percebo.
— Posso ficar aqui com você.
— Agora não adianta. Se quiser trabalhar, fique à vontade. É só o que
faz de qualquer forma. Eu aqui ou na ONG, ou na minha casa de verdade
tanto faz, é só mais um detalhe para você. — Movo-me na cama e deito de
costas para ele.
Os gatos estão aos meus pés e miam ante a situação, como se
entendessem melhor do que muita gente o que está acontecendo. Ouço o
suspiro pesaroso de Lane, mas não sinto a sua movimentação. Ele não sai da
cama, permanece ao meu lado por um tempo, esperando que eu diga mais
alguma coisa.
Não o faço.
Ele sabe que merece ser ignorado.
— Betsy, me desculpa de verdade.
— É fácil pedir desculpa todas as vezes, o difícil é parar de errar
quando já se acostumou a se desculpar.
— Eu tinha seis anos quando minha mãe se casou com um monstro, ela
disse que nos transformaria em uma família feliz. Lembro que fiquei
animado, eu teria um pai para cuidar de mim. . Minha mãe já estava
depressiva, só que naquela época eu era apenas uma criança para perceber
isso. Na inocência das crianças, tudo sempre ficará bem, não é? — ele ri
amargamente.
Viro-me porque noto um feito raro, Lane está se abrindo comigo,
contando coisas que nunca imaginei que ele contaria. Ele não me olha quando
contemplo seu rosto, mantém sua cabeça baixa, com o olhar perdido no
edredom, revivendo uma época totalmente diferente da atual. Dói nele,
porque assisto seu franzir de sobrancelhas e os traços se comprimirem em
sofreguidão.
— Não precisa me explicar...
— Eu preciso — os olhos tão pretos como petróleo se prendem em
mim — para poder te explicar o motivo para eu não ter aparecido na Anjos
sem asas a tempo. Não foi porque não me importo, Betsy, é porque aquele
desgraçado fez algo tão inaceitável para mim que eu precisava terminar com
as coisas imediatamente.
A confusão plaina em meu rosto.
Do que ele está falando e qual a ligação entre os fatos atuais e os de seu
passado?
— Como assim?
— O que eu vou te contar é extremamente pessoal. Ninguém além dos
meus avós, minha mãe e meu irmão sabem. Nós não contamos para ninguém,
nem mesmo aos familiares. Não é algo que queiramos que as pessoas saibam.
Lane está sofrendo.
Pego em sua mão, sem me importar com o que ele dirá, sem ligar muito
pelo seu atraso, entendendo que eu posso estar julgando sem ter um
panorama amplo da real situação. Não quero e não irei ser injusta com ele.
Afasto a minha mágoa para escanteio, disposta a cuidar dele a qualquer custo,
ciente de que no fim meu peito será despedaçado. Mas, não estou medindo as
consequências no momento. Tenho milhares de razões para ir embora e o
deixar, porque Lane indica que não irá levar nada tão a sério como leva a
companhia, no entanto, escolho uma razão para ficar, a de que ele precisa de
mim, porque não tem ninguém.
Ninguém capaz de ouvi-lo falar sem segundas intenções.
Devido a sua posição, ele abarrota a estante com inimigos, mas amigos
são escassos.
Posso estar sendo idiota, agindo com o coração, algo que minha irmã
faria, não eu. Contudo, é exatamente o que faço, puxando o edredom e o
cobrindo também. Lane está entorpecido, preso no passado que precisa
externar e eu estou aqui disposta a abraçá-lo se precisar chorar.
— Lane eu estou aqui por você, vou pegá-lo se cair. Então conte, conte
o que te aflige.
Coloco minhas mãos em torno do seu rosto e enxergo uma
vulnerabilidade em seus olhos que jamais enxerguei.
— Não deveria. Eu não mereço que cuide de mim.
— Foda-se o que você pensa. Quando desabar, eu vou te colocar de pé,
é uma promessa. — A forma com que ele me olha agora é de cortar o coração
— Então, Kingston, me deixe cuidar de você. Vou fazer o possível e o
impossível para juntar todos os seus cacos.
Digo, torcendo para que ele note o sentimento que cresceu aos poucos e
que agora domina todos os aspectos da minha vida.
— Ela se casou, — prossegue ele — no começo tudo foi mil
maravilhas, ele nos tratava bem, era o menino de ouro aos olhos de todos.
Ninguém desconfiava que depois que Kendrick nascesse, as coisas
desandariam. Ele então começou a bater na minha mãe, por qualquer motivo.
Se ela não cozinhasse o que ele queria, levava um soco, se não passasse as
suas roupas, alguns chutes, se não aceitasse as suas traições era espancada.
Eu sempre tentei protegê-la e quando ela me defendia, ele batia mais, depois
me encontrava onde quer que eu estivesse e me batia, batia até suas mãos
doerem ou até que eu chorasse. O que demorava. Eu não gostava de chorar,
porque então ele saberia que conseguiu exatamente o que queria.
— As cicatrizes... — falo e ergo a sua camisa, para passar a mão ao
longo delas.
Há dois riscos finos e rosados que se estendem ao longo das suas
costelas e outros menores. Arfo ao imaginar o que esse monstro pode ter feito
com ele que deixou sua pele marcada dessa forma. Meu coração dói por Lane
e o quanto ele sofreu. Sinto um ódio maior do que o mundo por esse
desgraçado capaz de fazer tanto mal a uma família. Os cacos que eu vi
através da sua alma estão se estilhaçando e preciso pegar todos para poder
consertar depois.
— Ele batia com cinto, madeira, o que visse pela frente. Essas
cicatrizes são da fivela do cinto dele. Uma que ele ganhou de presente do
meu avô. Grande — exclama ele amargamente — e que deixavam marcas
que ele gostava de ver. Toda vez que erguia a minha camiseta, rosnava de
prazer por ser ele a proporcionar a dor em mim. Em algum ponto ele me
bateu tanto com aquela fivela que acabou a quebrando. Foi o dia dessa
cicatriz maior — corro meu indicador ao longo dela, Lane prende o ar em um
silvo, sentindo alguma coisa com o meu toque.
— Está doendo? — pergunto assustada.
Não quero machucá-lo.
Eu quero amá-lo.
Muito.
— Não. Eu preciso desse toque.
Afago sua pele, com todo o carinho que há em mim. Sinto a descarga
elétrica a cada vez que as pontas dos meus dedos o acariciam e aposto que
Lane também sente. É uma conexão mútua, colossal.
— Continua, vai te fazer bem.
— Foram tantas vezes que eu não aguentava mais. Queria defender
minha mãe, mas eu não era capaz e me sentia culpado. Escondi-me no porão,
enquanto ouvia os gritos dela e as pancadas da sua cabeça contra o piso. Se
eu fechar os olhos, consigo ouvir e sentir tudo o que me acometeu naquela
noite. Ela está vívida em minha mente, intocável em minha memória.
Naquela noite, eu me mijei de medo quando ele abriu a porta do porão
disposto a me bater como sempre. Puxou-me, fazendo com que minha cabeça
encontrasse cada degrau que ele transpunha.
Arquejo, imaginando tudo, sentindo as lágrimas nascerem em meus
olhos e desbravarem o caminho por entre minhas bochechas. Consigo sentir o
gosto delas, de terror, dor e sofrimento. Meu peito sobe e desce fora de ritmo,
com as minhas emoções afloradas.
— Sinto muito que você tenha passado por isso — soluço.
— Quando vi minha mãe caída no corredor, eu me senti a criatura mais
impotente do mundo. E ela só se preocupou comigo, gritando a plenos
pulmões para ele não me machucar, usando toda a sua força para tentar me
defender. Em um momento oportuno, consegui me desprender e corri para
tentar avisar meu avô. Naquela época, era outra fazenda em que morávamos.
Uma que foi vendida assim que isso aconteceu. A nossa casa era a última da
colônia e eu precisaria correr muito para conseguir. Minhas pernas estavam
moles e minha cabeça sangrava, escurecendo minha visão com o líquido
vermelho. — Lane morde o lábio inferior com força, tanta que vejo o
pequeno machucado que isso provoca — Nunca vou entender como ela
conseguiu pegar a arma dele. Mas, ela pegou, reuniu suas forças e atirou da
porta, salvando a gente.
— Sua mãe foi uma guerreira.
— Foi e é — ele complementa — depois de tudo, ela precisou se
retirar, para poder cuidar da depressão. Vovô e vovó cuidaram de mim, mas
mandaram Kendrick para um internato. Ele é filho do homem que acabou
com a filha deles. Eu não faria o mesmo, porque Kendrick não teve culpa
alguma, mas como posso julgá-los quando até hoje olho para meu irmão e só
o que vejo são os traços do homem que tornou boa parte da minha infância
um inferno? Amo meu irmão, Betsy, amo de todo o meu coração, mas há
coisas que nós não controlamos. Graças a Deus quando ele voltou, eu
consegui superar essa merda. Tento todos os dias falar com ele com o intuito
de me redimir por ter falhado como irmão.
— Você não teve culpa, não teve — aliso seu rosto.
— Eu não apareci na Anjos sem asas porque um dos meus sócios, de
um clube aqui em Miami, agrediu uma das dançarinas e se tem uma coisa que
eu repudio mais do que tudo, é agressão contra mulheres. Defendo todas as
causas que encontro com esse intuito e eu faria muito mais se possível,
porque eu sei como é, já passei por isso. Assisti a minha mãe se transformar
de uma mulher vivaz para uma casca oca, maltratada e sem vida. Foi como
reviver o passado com a diferença que...
Interrompo-o.
Entendi tudo o que ele quis explicar.
— Dessa vez você poderia fazer algo. Estou tão orgulhosa de você,
Lane. De verdade, é um homem incrível e agora entendo por que fiquei te
esperando, você estava fazendo do mundo um lugar melhor e posso te
perdoar por isso.
— Mas, eu não consegui proteger minha mãe quando foi preciso! —
brada.
Puxo-o em um abraço, passando as mãos em seu cabelo tão escuro
quanto seus olhos, sentindo seu corpo tremer com o choro silencioso.
Deposito um beijo no topo da sua cabeça e aperto o abraço.
— Você protegeu existindo, Lane. Sua mãe foi corajosa, ela tinha você
e precisava te salvar. Não teria como protegê-la mais do que assim. E ela
pode não ter conhecimento de tudo o que faz pelos outros, mas sabe que seu
filho é um homem excepcional, com um coração gigantesco.
Seu choro se torna uma torrente. Seus ombros tremem, seguidos por
todo o seu corpo. Os gatos se aproximam e o cachorro que antes estava
deitado no chão, sobe na cama, ocupando metade dela com seu corpo gigante.
Eu mantenho o abraço em torno de Lane, sentindo os animais se
aproximarem em solidariedade também. Ele não diz nada. Apenas deixa que
as lágrimas abandonem seu corpo, carregando a sua dor.
O tempo passa.
Ele continua chorando em meus ombros.
E sua agonia se transforma na minha, enquanto eu tento a todo custo ser
o conforto que ele precisa.
Noto, no segundo que se passa, que o tempo parece congelar enquanto
eu percebo que estou total e categoricamente amando Lane. Não apenas
apaixonada, esse sentimento não seria capaz de quantificar o tamanho da
minha vontade de ficar ao lado dele. Aliso os fios espessos e sedosos do seu
cabelo, chorando fracamente, por sentir que estou perdida e que nenhum
abraço jamais será como o seu.
Aqui, no quarto amplo e arejado, encontro meu segundo amor.
Torcendo para que não seja o mesmo lugar em que terei meu coração
quebrado.
Uma segunda vez.
Muito, centenas de vezes pior do que a primeira.
Mas... tudo que começa mal termina da mesma forma.
O que é o Everest perto dessa bunda que eu quero escalar?

Por Betsy eu subiria o Everest, sem roupa, penso, parafraseando a fala


de Hayden. O que ele disse parece ter sido há muito tempo, porque coisas
demais aconteceram desde então. Tantas que não consigo enumerar.
Admiro-a, tomando uma caneca de café enquanto Betsy prepara ovos
com bacon, panquecas e alguma vitamina de frutas que eu não faço ideia.
Estou apoiado no balcão, sem camisa e incapaz de tirar os olhos dela. É meio
que hipnótica a maneira como ela se mexe pela cozinha, vestindo uma de
minhas camisas, cantando e rebolando.
Gargalho no ponto alto da música. É maior o do que eu. Betsy para por
instantes e me olha, repreendendo-me com o olhar. É a mesma música que
ela cantarolou quando a busquei na Anjos sem asas. Ela gosta bastante pelo
visto. Sacode os quadris e remexe o corpo de uma maneira que está me
deixando duro, O grande problema é que planejei bastante coisa para
fazermos durante o dia e transar agora atrasaria todo o restante.
— É boa em muitas coisas, mas cantar não é uma delas. — Aproximo-
me e a abraço pela cintura, prendendo suas costas à parte da frente do meu
corpo.
É um encaixe perfeito.
Nós começamos a dançar no ritmo, enquanto ela termina de fazer o que
está preparando. Inalo o perfume em seu pescoço, sentindo-o rastejar pelos
meus pulmões, impregnando cada poro, cada molécula, com a sua presença.
O timbre de sua voz provoca ondas devastadoras em minha ansiedade.
Meu coração sofre um solavanco e pula algumas batidas, ultrapassando os
obstáculos dessa corrida olímpica da paixão. Betsy bagunça minha cabeça e
por mim tudo bem, porque é uma delícia.
— Não precisa trabalhar hoje? — pergunta ela.
Sorrio em seu pescoço e intensifico o aperto dos meus braços,
fechando-os em torno dela.
— Tirei o dia de folga para ficar com você.
— Duvido.
— É a verdade, ma’am.
Ela solta uma risada rouca, encostando a cabeça em meu peito.
— Adoro quando fala como um texano, é sexy e forte.
— Acho que vou anotar essa dica.
— Por favor — concorda ela — e o que programou para nosso dia?
— Temos um passeio de lancha se quiser. Podemos fazer compras, —
uma careta toma seu rosto quando digo isso, mas rapidamente passa, então
prossigo: — caminhar pela Ocean Drive com o Fluffy como companhia, faz
muito tempo que não o levo para dar uma volta, ele sente falta. Curtir o sol
em Miami Beach, ou o que mais quiser, existem mil e uma possibilidades.
— Não sei quem é você, mas quero meu Lane de volta!
Meu.
Meu.
Meu.
Droga!
Ouvir o pronome com o qual ela se refere a mim me deixa em estado de
êxtase. Um estranho e indescritível frenesi.
— Eu não sou aquele chato sempre! — defendo-me.
— Claro que não, imagina! — gargalha ela.
— Depois que toda essa confusão passar, posso tirar alguns dias, deixar
as coisas com o vice-presidente e o Hayden, para poder aproveitar minha
esposa em uma barraca tamanho família, no meio do nada, onde poderemos
passar muito tempo juntos, sem interferência de nada e ninguém! Céus —
suspiro extasiado — Consigo sentir a beleza do momento antes mesmo que
ele aconteça!
— Jamais apostaria que gosta de acampar, vai meio que contra a — ela
me indica — sua natureza!
— Eu me movimento grande parte dos meus dias entre as maiores
metrópoles do mundo, sem ter tempo para parar, pensar ou escutar a natureza.
Cresci em uma fazenda Betsy, sou um garoto do campo e amo ouvir o som da
floresta, o barulho dos animais e ter a paz de poder apreciar o verde sem
milhares de ligações ou tentativas desesperadas das pessoas em busca de
patrocínio. É como ir do inferno direto para o céu — assumo — e quando eu
me irritar de vez com tudo, pode ter certeza que irei sumir por um mês para
me afastar espiritualmente do caos.
Nunca falei para ninguém porque gosto tanto de ir para longe da
civilização, sem energia elétrica, só meu fogão portátil, garrafa de água,
alguns itens de higiene, sacos de dormir e minha barraca com claraboia,
fresca e iluminada. Olhar o céu de dentro dela, em um dia chuvoso,
costumava ser minha ideia de perfeição até Betsy aparecer em minha vida.
— Barracas são confortáveis? — ela inclina o pescoço para falar
comigo, olhando-me de baixo.
Enxergo o vale dos seus seios e a visão me faz engolir em seco.
— Algumas não, outras são perfeitas. Vai gostar da minha — proclamo
malicioso — ela pode ficar armada durante a noite inteira.
— Nossa, como você é direto, senhor Kingston.
— Que bom que nos entendemos.
— Agora sai de perto que eu estou terminando e vou levar as coisas
para a mesa. Depois a gente conversa mais, não quero correr o risco de te
queimar.
— Posso te ajudar a levar, não me importo.
— Tudo bem.
Pego as travessas de pão integral, o cream cheese, os pratos e uma jarra
de suco de laranja. Betsy se encarrega do restante das coisas e nos movemos
até a mesa na varanda, com sua estrutura em palha, trazendo o clima tropical
até a gente. Sento-me na cadeira e não deixo de contemplar a cena, com
Betsy sentando-se também enquanto meus gatos rodeiam a sua perna e Fluffy
se coloca ao meu lado, formando uma perfeita família feliz.
Mas, não somos uma família de verdade e essa constatação me
desanima.
Preciso mudar nosso status, uma vez que eu não me casaria com
ninguém além dela, nem ao menos quero me divorciar em um ano!
— Que horas sairemos com Fluffy?
— Quando quiser.
— Certeza que deseja fazer programas de casais normais?
— Não vejo problema algum.
Meu celular toca na sala, levanto-me para desligá-lo. Não irei me
preocupar com nada do trabalho hoje. Volto para a mesa no lado de fora,
sentindo a brisa marítima revoar meus fios de cabelo. É uma coisa
inexplicável, como o mar pode nos trazer paz. Estagno por alguns segundos
para eternizar a cena em minha memória, Betsy brincando com os gatos,
enquanto seus cabelos cascateiam ondulados e Fluffy tenta abocanhá-los.
Agradeço a Deus que nenhuma das minhas tentativas desesperadas de
encontrar uma esposa deram certo.

— Lane, o que está fazendo? — sua voz doce e angelical ecoa no


corredor.
Levo-a diretamente até meu quarto, com meus dedos cobrindo os seus
olhos.
Abro a porta, tomo o cuidado de guiá-la para não tropeçar em nada.
Faço-a parar diante da cama.
— Fica de olhos fechados, Betsy, para não estragar a surpresa!
— Que surpresa?
— Querida, não seria surpresa se eu te contasse!
Com uma das mãos, puxo a gaveta em que coloquei o pequeno estojo e
retiro as joias do conjunto. Um colar, a pulseira e os brincos. Tenho a mesma
sensação de quando os comprei, que eles foram feitos para ela.
Abro o fecho do colar e o coloco em seu pescoço. Viro-a de frente para
o espelho, admirado em como a joia reluz e irradia luz por sua pele. A onda
do mar que pende no centro dos seus seios é delicada, e combina com ela de
uma forma que eu nunca seria capaz de descrever. Nos brincos, duas gotas
incrustadas com Aquamarine representam a cor clara do mar, como se ele
estivesse ondulando em harmonia com o mesmo pingente do colar, rodeado
por ouro branco e pequenos diamantes que o fazem reluzir. A pulseira por
sua vez, possui dois detalhes da mesma pedra preciosa, sendo que no centro
das duas o desenho da onda do colar se sobressai. Deixo a pulseira e os
brincos no estojo, ansioso para ver a sua reação sobre o colar, rezando para
que ela goste.

— Segundo a lenda, rapaz — começa o joalheiro — essa pedra


preciosa tem relação direta com as sereias. Em algumas crenças, elas foram
um presente de Netuno a esses seres místicos, e por este motivo, elas são
conhecidas por serem protetoras dessas criaturas belíssimas e que ninguém
sabe dizer se existiram ou não. A magia está presente nela e a pessoa que a
receber também sentirá.
— Uma pedra preciosa protetora de sereias para uma sereia —
murmuro baixo.
No entanto, o homem escuta e abre um sorriso contente, de quem
atingiu o objetivo desejado.

Betsy ergue uma das mãos para me procurar e o anel de noivado que eu
lhe dei, brilha com o conjunto. Não entendo o motivo, mas eu seria capaz de
dar o mundo a ela se me pedisse. Nenhuma joia pode conquistá-la, isso eu
sei, sua honestidade é maior do que isso, mas, se eu posso mimá-la, por que
não o faria?
Uma joia protetora de sereias para uma sereia — reitera minha mente.
— Pode abrir os olhos.
Suas pálpebras alçam lentamente, ao contrapasso que minha ansiedade
sobe em um pico inimaginável. Betsy fita o colar através do espelho e seus
olhos brilham, refletindo a cor que varia entre o azul celeste e o verde água.
— Lane, isso é...
— Algo que eu estava guardando para te dar.
— Foi muito caro? Nós não precisamos disso, sabe muito bem. Não
quero que sinta a necessidade de me comprar coisas assim, porque eu não
estou aqui por pensar que as me daria.
Meus ombros desabam.
— Eu comprei junto com o anel, Betsy. Só queria que não se
arrependesse de ter se tornado minha esposa.
— Não vou me arrepender, é só não me tratar como tratou as outras
mulheres que passaram pela sua vida.
Ela pensa que eu a estou tratando como as outras? Realmente acha que
eu me daria ao trabalho de tentar fazer uma surpresa para entregar um
conjunto de joias, ou pior, que eu tiraria um dia inteiro de folga, sem ficar
preocupado com o celular, por causa de uma mulher?
Não me lembro o último dia que eu tirei folga pelo meu próprio bem,
quem dirá por outra pessoa, por sentir que a chateei de alguma forma.
— Betsy... você não é como as outras. Eu nem sequer me lembro de
quando tive outras em minha vida. Sabe o motivo? — ela acena que não e
morde o lábio inferior. Passo meu dedo no lábio que ela acabou de morder, e
noto como isso a afeta, sua respiração se entrecorta e suas pálpebras descem
suavemente — Eu nunca tirei folga. Nunca, e quando digo nunca é nunca de
verdade — Pego as suas mãos e a forço a olhar para mim, com o objetivo de
que ela entenda de uma vez por todas que é diferente. Que nossa história já
começou diferente — nunca deixei que ninguém se infiltrasse na minha vida
pessoal porque não tinha tempo para dividir, ele era todo consumido pela
companhia e no entanto, hoje...
— Você está comigo.
Abro um sorriso.
— Totalmente com você.
— Por quê?
— Não está entendendo, não percebeu que todas as vezes em que te
olho, eu abro um sorriso? Ou como tento mudar meus costumes de anos, sem
tempo para mais nada, só para te fazer feliz?
— Está querendo dizer que...
— Eu estou apaixonado por você, Betsy. De verdade. Como eu nunca
me apaixonei por ninguém, ou melhor, acho que só me apaixonei assim por
alguém quando meu avô me disse que passaria a presidência da Kingston
Company para mim. — Sorrio da minha constatação, porque ela é totalmente
verdadeira.
Não tenho espaço para o amor em minha vida.
Mas, preciso garantir que ele fique, agora que está presente.
— Lane, tem certeza do que está falando?
— Querida, por que eu diria se não tivesse certeza?
Betsy abre seus braços em um impulso e se lança para cima de mim.
Seguro-a firmemente, dando passos para trás na tentativa de me equilibrar.
Seu cheiro se impregna ao meu e tudo o que sinto é alívio por finalmente
admitir para ela que estou envolvido demais na nossa relação para cumprir o
maldito acordo que fizemos de apenas um ano.
É engraçado que depois de a encontrar eu finalmente entenda como
meus avós podem permanecer casados após tantas décadas.
— Eu também estou apaixonada por você — suspira por fim.
— Eu sei — falo, confiante.
Ela interrompe o abraço e fita meus olhos, tentando decifrar o motivo
para eu falar de forma tão direta.
— Como assim? Eu não te disse antes.
— Disse sim, no dia em que dormiu no sofá, eu te carreguei para o
quarto e você falou sonolenta que estava apaixonada por mim.
Suas bochechas coram e acredito que seja a primeira vez em que vejo
Betsy envergonhada. Sem motivo algum, ressalto. Ela me dá um soco fraco
no peito, mordendo o lábio inferior.
— Devia ter me dito!
— Para você negar? — inquiro — Não, obrigado. Aquilo me deixou
feliz como há muito tempo não me sentia.
—Me fez acreditar que estava conseguindo te enganar! — protesta.
— Só queria ter certeza que era verdade. Fiquei pensando na sua fala,
na maneira com a qual disse — passo a mão em uma mecha de cabelo loiro,
sentindo a suavidade dos fios, lembrando-me do momento em que Betsy
sussurrou que estava apaixonada por mim e da parada momentânea que meu
coração sofreu. Foi um momento diferente e inesquecível. Meu estômago
ficou gelado e eu estanquei sob meus pés, com ela em meu colo, tentando
digerir o que disse — meio que não queria falar nada e correr o risco de você
voltar atrás, dizendo que foi apenas um sonho. É a primeira vez que eu sou
amado de verdade, por quem sou, não pelo que possuo. Desculpe por não
querer acabar com o momento de alegria.
Seus olhos se arregalam, tragando-me ao verde claro. Não sou capaz de
nadar de volta à superfície, afogando-me em tudo o que esta mulher
representa.
— Mora no meu coração, Lane, e nem precisa pagar aluguel.
Aperto-a em um abraço novo, cheio de significados ocultos, que apenas
nós dois entendemos.
Tudo que é bom dura pouco.

Assumir o que sentimos mudou tudo em relação a nós. Ficamos mais


tranquilos, libertos e sorridentes. Passeamos com o cachorro e levamos até os
gatos, que seguiram implicando um com o outro até que voltamos para casa.
Também andamos de lancha, parando longe da costa, para um banho de sol e
um mergulho salgado, repleto de beijos temperados com sabor de mar e um
sexo de me fazer gritar até meus pulmões inflarem e oferecerem resistência.
Acredito que estou rouca, inclusive. Quando voltamos para casa, de mãos
dadas, caminhando por entre o verde do jardim, estávamos tão felizes que
seríamos capazes de flutuar. Tomamos um banho, nos amamos de novo e não
demorou para que estivéssemos saindo de casa novamente para ir até a Ocean
Drive dar uma volta e tomar um drinque em algum bar, dispostos a conversar
sobre tudo e todos os assuntos.
Surpreendo-me em como um dia pode parecer tão longo e curto ao
mesmo tempo.
Eu passei bastante tempo com o homem, ouvindo-o falar sobre
milhares de coisas durante horas! Porém, na mesma medida em que
aproveitamos, senti que os minutos passaram rápido demais, com o meu riso
leve e a tranquilidade de poder ser eu mesma com alguém.
Falei para Lane como conheci Fred. Ele quis saber, o que achei
estranho a princípio, mas notei como era necessário no decorrer do assunto.
Também falamos sobre a sua família, sobre a minha, contei como minha irmã
é uma mulher incrível e como ela ficou super irritada com ele pelo que fez,
pela sua falta de tato. Ele prestou atenção em cada palavra que eu disse, com
o olhar penetrante, sacudindo seu guarda-chuva de um lado a outro do
drinque conforme absorvia minhas declarações.
— Não gosto de pensar no que eu faria se visse Fred — exclama ele.
— Nem precisa pensar. Ele é passado. Fez um bom trabalho em me
magoar o bastante para se transformar em um pretérito amargo, do qual odeio
me recordar.
Estamos em um bar à beira-mar. Nada tranquilo, repleto de gente
disposta a gastar muito dinheiro ficando bêbada em frente à Miami Beach. Há
uma parte aberta, repleta de mesas ao ar livre, com uma marquise nos
abrigando do sol de fim de tarde. Lane está à minha frente, com a canela
apoiada em uma das coxas, em uma pose máscula e cheia de si. Seus óculos
de sol estilo aviador pendem sobre a ponte de seu nariz e ele é um verdadeiro
retrato dos modelos mais famosos do mundo. Algumas mulheres passam por
nós e não deixam de dar uma checada nele. Estou com óculos de sol também,
e elas não veem que estou de olho em tudo, só notam a minha presença
quando abaixo os óculos sutilmente para encará-las e obrigá-las a deixarem
de cobiçar meu homem.
Em uma dessas minhas contempladas nada sutis, Lane me pega no
flagra e abre um sorriso branco e egocêntrico.
Odeio como ele é lindo.
Dá mais trabalho do que imaginei.
Tomo um gole da minha Margarita, fingindo não sentir o seu olhar em
mim. Estou tranquila, vivendo um dia que eu nunca imaginei viver, fazendo
todo tipo de programa de casal com meu marido.
Deus, já faz um tempo que estou casada e nem consigo conceber essa
ideia direito! É como se não fosse eu vivendo essa vida, mas uma cópia
minha, que sente tudo o que sinto.
Distraio-me com as pessoas passando no lado de fora, com meu chapéu
florido servindo de cobertura quando topo com uma pessoa que não gostaria
de ver hoje. Não porque ela ainda me afeta, simplesmente pelo fato de que
olhar para ele me causa revolta por tudo o que fez a mim.
Frederick.
Não é a primeira vez que cruzo com ele nos lugares e também não será
a última. Ele me vê, percebo, também vê que há um homem comigo. Torço
mentalmente para que não caminhe até a gente. Já basta as outras vezes em
que nos encontramos quando eu estava com alguém e ele deu um show,
dizendo que eu deveria parar de tentar afetá-lo usando outras pessoas.
Coitado, não sabe de nada. Eu não tentava afetá-lo, naquela época eu tentava
superá-lo.
Todavia, meu desejo não é seguido, já que Fred empertiga o corpo e
vem até nós. Lane ainda não percebeu e temo o momento em que o fizer.
— Ei, Bets, tudo bem com você? — pergunta ele ao parar à minha
frente.
Frederick se mantém de costas para Lane, acredito que
propositalmente.
Seu olhar é sincero na minha direção e exala uma espécie de rachadura
que eu entendo bem. Fitei-o da mesma forma quando o vi em sua casa,
fodendo diversas mulheres. Não posso mentir dizendo que estou infeliz por
ele sentir o mesmo que eu. Talvez entenda algum dia que coisas assim não
tem perdão, no meu dicionário pelo menos.
— Tudo e com você?
— Bem também — não, não está.
Ele faz questão de deixar essa verdade evidente através do tom de voz
uma oitava mais baixa.
— Fred, esse é o Lane, meu marido — minha indicação irradia choque
pelo seu rosto, ao ouvir que estou casada. Seus olhos viajam
instantaneamente para o meu dedo anelar, que ostenta a aliança e o anel de
noivado. Ele ainda está em choque, mas se vira para fitar Lane sem um grama
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de simpatia em seu rosto — Lane, esse é Fred, o kicker do Miami Green
Dolphins. — Faço as devidas apresentações.
O clima fica tenso. Os homens medem quem mija mais longe sem
proferirem uma palavra. Lane retira seus óculos de sol e os olhos pretos
irradiam aquela força que eu já vi um milhão de vezes em seu semblante, a
fúria e a determinação de um Kingston.
Fred estende a mão, Lane não o faz.
Ele não é o tipo de cara que disfarça o que sente para agradar os outros.
— Então foi você que quebrou o coração da minha Betsy, uh? — não
gosto do termo de posse que ele usa, no entanto, escolho ignorar, porque no
momento deve estar sentindo que precisa marcar território.
O que não é verdade.
— Acontece — falo, quebrando a competição dos dois.
— Não é para acontecer — enfatiza Lane.
— Acredito que há coisas que só dizem respeito a mim e a Betsy, mais
ninguém. Não entendo o motivo para ela ter te falado.
— Eu sou o marido dela — a voz de Lane sobe um tom.
Faço uma careta prevendo que as coisas azedarão logo se eu não me
intrometer entre os dois.
— Gente, o papo está bom, mas não acha que precisa fazer alguma
coisa, Fred? Eu e meu marido estamos tentando aproveitar um tempo
sozinhos, bebendo alguns drinques e olhando para o mar. Foi ótimo revê-lo
— tento apaziguar — de verdade, mas eu ficaria feliz demais se nos desse
privacidade.
Seu olhar viaja entre mim e Lane, e ele finalmente entende que não
pode tentar afastar os homens que ficam comigo apenas porque na sua vez ele
foi um escroto, principalmente porque agora estou casada e muito feliz.
Acredito que ele enxerga a minha felicidade estampada em meu rosto, porque
se despede com um aceno, vira-se e parte pelo mesmo caminho que veio. Sai
do bar e eu dou graças a Deus por isso.
— Não me disse que ele ainda gostava de você.
— Ele não gosta de mim, Lane, ele gosta do poder que teve sobre mim.
Fred é o tipo de cara que acha que amou uma garota, quando na verdade, ele
nem chegou perto deste sentimento. Se gostasse tanto de mim, não teria me
feito sofrer como fez. É simples. Por isso, não dou muita atenção a ele, e já
disse com todas as letras que nossa relação não tem mais volta.
— Não é o que ele pensa.
— E como inferno sabe o que ele pensa?
— Pela forma com que te olhou. Se eu não estivesse aqui, ele teria se
sentado, aposto.
— E eu teria me levantado, não é uma grande coisa.
— Não é uma grande coisa — resmunga ele, imitando-me.
Sorrio de forma desmedida.
— Está com ciúmes, Kingston? — provoco, ao notar qual a questão
central na nossa conversa.
A queda de um dos homens mais “não posso me envolver do mundo”?
Sua declaração de paixão algumas horas antes?
Ou o ciúmes que ele tenta disfarçar e falha miseravelmente?
Lane debocha, com um som profundo de sua garganta.
— Eu? Ciúmes daquele cara? Claro que não, isso é inconcebível,
querida.
— Claro que é — ironizo — Então poderíamos ter ficado batendo papo
com Fred, enquanto eu ignorava a tensão e a competição de mijo, certo?
— Diabos que não!
— Então estou certa.
— Odiei a forma com que ele olhava para você. Sinto muito se isso te
incomoda.
— Pelo contrário, Lane, você não imagina o quanto foi excitante vê-lo
tão alterado por causa de um ex meu. Não vou mentir, senti-me bem com o
seu ciúme, acho que sou ruim por isso.
— Está excitada então?
Aceno concordando e posso ver pelo reflexo em seus olhos, que os
meus estão brilhando, irradiando malícia. Passo a língua no lábio inferior,
esperando ter sido um gesto de matar qualquer homem, começando pelo seu
pau e subindo direto para a sua cabeça. Noto como saio vitoriosa quando
Lane engole em seco, movimentando seu pomo de adão com extrema
dificuldade.
— Muito, querido. Sou capaz de uma loucura, se quiser ir comigo até o
banheiro feminino. Aposto que passaríamos um bom tempo fazendo
indecências.
Ergo as sobrancelhas sugestivamente.
Ele inclina seu corpo por sobre a mesa, com os óculos pendendo em
seus dedos, sem se ater aos olhares de cobiça das mulheres à nossa volta.
Quero e quero muito mostrar para elas em quem é que o pau do cara
mergulha em prazer, mas, talvez as coisas fiquem selvagens demais para um
banheiro de bar, é o que penso. O que se torna certeza ao notar o tesão
brilhando e se espalhando pelos olhos de Lane.
— Acho melhor voltarmos para casa, preciso de espaço e privacidade
para o que faremos.
Estendo minha mão até a dele.
Não precisamos dizer mais nada.
Levantamo-nos apressados das cadeiras, deixando o valor da conta e
uma boa gorjeta em cima da mesa antes de sairmos em disparada até o carro
para voltarmos para casa.
Para casa.
Ainda soa estranho dizer isso, mas é o que é.

É noite. As estrelas brilham sob o mar, fazendo as suas milhares de


luzes serem refletidas nas ondas de cristas brancas, cadenciadas pela
imensidão azul. O sorriso é a maquiagem que não saiu do meu rosto durante
o dia inteiro. Os braços de Lane me contornam, enquanto estamos deitados na
cama, em frente à varanda do quarto, sentindo a brisa fresca de mar, plenos
com a pitoresca vista. Suspiro involuntariamente, contente em como o dia foi
perfeito.
— Pena que está acabando, sussurro.
Não queria que acabasse.
Saber como é ficar com esse homem por tantas horas me tornou uma
viciada na sua presença. Não preciso de reabilitação, só dele por perto.
Aperto o tecido com temperatura fria do lençol entre meus dedos e fecho
meus olhos momentaneamente, sentindo o tempo se sincronizar às batidas do
meu coração.
— Gosta de esportes, não é? — ele ignora meu comentário e lança a
pergunta.
Viro-me depressa para fitá-lo.
— Como sabe?
— Um passarinho me contou. — Sorri de canto.
Toco gentilmente o contorno da sua boca com extrema afeição. Deus!
Ele é maravilhoso!
— Quem saberia tanto sobre mim?
— Seu blog tem feito sucesso. A esposa do Hayden é sua seguidora e
contou para ele, que confidenciou a mim.
— Entendo.
— Tenho algo para fazermos nesse fim de semana, espero que goste.
— O que é? — exclamo euforicamente.
A simples possibilidade de fazer algo com ele novamente faz o sangue
correr em expectativa pelas minhas veias. Lane se movimenta no colchão,
inclinando-se até a mesa de cabeceira. Ele tira tudo dali, acredito que seja um
portal para outra dimensão, ou um móvel com fundo falso, porque não é
possível. Quando ele retorna à posição que estava, sustenta dois ingressos em
suas mãos.
Se é o que estou pensando, juro que hoje terá mais anal!
— Ingressos para... — ele levanta os tickets e sento na cama com
agilidade, enquanto faz suspense.
Sua animação é clara.
— A COPA STANLEY! — grito!
O cachorro late na porta do quarto, que está fechada. Escuto também as
unhas dos gatos arranhando, pedindo para entrarem, preocupados com o
grito. Pulo sobre minhas pernas dobradas no colchão, que devolve a força que
estou aplicando com igual intensidade.
— Se eu soubesse que ficaria tão feliz assim, teria te mostrado antes!
Pego os ingressos da sua mão e olho para eles como se estivesse vendo
algo inacreditável.
— Tem mais... — ele inclina a cabeça para o lado, tentando guardar o
segredo.
Mas é tarde demais, porque já o estou enchendo de beijos, por todo o
rosto, em um ataque de euforia.
— Deus, Betsy! O que está acontecendo com você, mulher?
— Estou feliz!
— Eu teria te dado ingressos ao invés de joias!
— Obrigada, obrigada, obrigada! — Não paro de agradecer.
— Se já ficou maluca com esses, o que vai achar desses? — eu o liberto
por pouco tempo, apenas para vê-lo mostrar os dois ingressos debaixo dos
demais, que eu conheceria até se estivesse de olhos vendados, só pela textura.
Claro que estou exagerando, mas por favor, releve. Não estou
conseguindo lidar com o meu entusiasmo.
— São ingressos para ver o... — Não consigo terminar a frase, é
simplesmente demais para a minha sanidade.
Não sei como não estou pulando por todo o quarto, porque em minha
cabeça, todos os meus neurônios estão cantando We Are The Champions
enquanto batem as mãos na mesa no ritmo da música. Juro que não estou
pensando em nada além de pular em cima de Lane e o matar de tanto transar,
tamanha a minha felicidade.
— John Cena, querida.
— HOJE VAI TER ANAL NESSA PORRA!
Ela não abandona meus pensamentos. O que foi que disse,
Hayden? Ah... é verdade, tenho que fazer isso mesmo, tinha
me esquecido. Desculpe.

O fim de semana foi um tanto quando agridoce para mim.


Doce porque não trabalhei tanto quanto costumo trabalhar.
Amargo porque assisti de camarote a minha mulher toda derretida por
outro cara.
Céus, como eu odiei! Jurei nunca mais proferir o nome do filho da mãe
na minha vida de tanto ódio!
E não é a nenhum jogador de hóquei que me refiro, afinal ela ficou
eufórica por ver o jogo em si, uma final inclusive, ao invés de ficar
admirando os jogadores. Encontramos sua irmã, que no começo, me olhou
estranho, como se estivesse desvendando tudo o que penso. No entanto, com
o passar do tempo as coisas tornaram-se naturais e minha antiga assistente
pessoal aceitou com ressalvas que agora tecnicamente eu faço parte da
família.
Mas, a origem de todo o meu rancor, de todo o meu flerte com o caos,
da minha descida magistral e do ápice da minha raiva, fazendo com que eu
entalasse com meu próprio veneno, foi quando Betsy conheceu seu ídolo.
Ela me empurrou para o lado quando o viu! Eu parecia alguém que ela
conheceu por acaso. Certo, ela realmente me conheceu ao acaso, mas sou o
marido dela! E não é por mal, de verdade, fiquei muito feliz pela felicidade
dela, mas que precisei trincar meus dentes e proferir a maioria dos números
do Pi, ah, eu precisei sim.

“— Com licença, Kingston, é o sonho da minha vida conhecer esse


homem!
Betsy me joga para o lado com tanta força que eu tropeço sob meus pés
enquanto ela corre em direção ao... desgraçado!”

Meu celular logo toca para me tirar do devaneio e da sensação estranha


de ter realizado o sonho dela e de ter mergulhado em meu pior pesadelo,
tirando o fato de ela me dizer que já sonhou sexualmente com o infeliz.
Juro que fiquei a ponto de explodir e prendê-la na cama para mostrar
quem é a sua foda inesquecível.
Betsy, como a terrorista sexual que é, que adora prazer bandido,
gostaria e muito, sem dúvidas.
Penso que poderia me atrasar para mais alguns compromissos, apenas
para ficar com ela, no entanto meu celular volta a tocar estridentemente. A
vontade de não atender a ligação é lancinante. Olho da sereia em minha cama
para o aparelho diversas vezes. Em dúvida se preciso mesmo trabalhar hoje.
Aproximo-me dela para me despedir, como sempre faço desde que ela
chegou em minha vida, porém, paro para admirá-la por tempo demais,
incapaz de respirar. A visão dela envolta nos lençóis, com as costas nuas e os
cabelos refletindo a luz solar deslizando pelas suas costas, como teias
hipnóticas me mantêm irrevogavelmente absorto.
Acho que meu quarto nunca mais será o mesmo se ela não estiver ali.
Deposito um beijo em sua cabeça, — o costume que peguei — e Betsy
ronrona como uma gata.
Algo estranho provoca uma pontada em meu peito e decido reforçar a
segurança na mansão, apenas por garantia e para manter a minha consciência
tranquila.
Abandono o quarto antes que eu jogue tudo para o alto.
Mas, porcaria, nem seria tão ruim assim, seria?

— Você precisa assinar os documentos que te passei o mais rápido


possível. Serena me disse que deixou em sua mesa há uma hora.
Mantenho a cadeira reclinada, balançando minha caneta nos dedos. No
momento, penso em quão perfeita ficaria a foto de Betsy ao lado da minha
com mamãe e vovó Pearl em minha mesa. Anoto mentalmente para pedir
uma a ela. Será um atrativo e tanto para acabar logo o trabalho e voltar para
casa. A caneca “Heavens to Betsy!” repousa majestosa no apoio de copo,
com o café fumegante.
O que me evoca uma lembrança.
Pego meu celular e envio uma mensagem a ela.

Eu: Conseguiu comer todo o café da manhã? Dormiu bem?


Esqueci de perguntar.

Tiro uma foto da minha caneca e digito como legenda: Caneca perfeita
não acha? Não a largo mais.

Rainha: Claro que não comi tudo! Você preparou coisas demais!
E dormi excelentemente bem, obrigada. Concordo sobre como a
caneca é perfeita, principalmente por causa do nome nela.

Sorrio sozinho.
Minha felicidade provoca um ruído estranho de impaciência em
Hayden.
Lembro-me que ainda não o respondi e retorno minha atenção para o
homem que bate os pés enviesado no chão do meu escritório. Não estou nada
contente com a sua intromissão e faço questão de que ele perceba isso.
— Tinha me esquecido deles, sinto muito.
Hayden arregala os olhos e abre a boca mortificado com a minha fala.
— É sério?
— Seríssimo. Conversei com a Betsy por mensagem e acho que me
distraí.
A boca do meu assistente se torna uma caverna.
— Juro que pensei que nunca fosse ver coisa do tipo! Então estava todo
sorridente conversando com ela?
— Com quem mais estaria? Com você é que não. E obrigado pelas
dicas que a sua mulher passou. Betsy amou ver o jogo e conhecer aquele
homem — sibilo.
Levo minhas promessas a sério e não direi mais o nome dele.
— Está me devendo em dobro, então. Precisará de umas três vidas para
sanar a dívida.
Ignoro sua provocação.
— Obrigado de qualquer forma.
— Agora, juro por Deus que pensei que nunca fosse dizer isso, mas...
preciso de você focado nos assuntos da empresa, Lane. Hoje novamente
tivemos compras excessivas de ações da companhia por parte de uma única
pessoa na bolsa de valores. Não descarto a possibilidade de... — interrompo-
o erguendo a mão.
— Já entendi onde quer chegar. — O assunto anterior totalmente
esquecido — Acredita que é a mesma pessoa da última tentativa de aquisição
agressiva.
— É fácil de conseguir impedir isso, eu sei, mas precisa falar
pessoalmente com o corajoso, acredito que é isso que busca, atenção.
— Por quê? — inquiro, com as sobrancelhas formando um arco de
confusão.
— Ele poderia adquirir ações e se esbaldar com os dividendos, mas,
prefere que você pessoalmente o barre. Acho que há alguma coisa que não
estamos enxergando aí. Posso solicitar uma reunião com o responsável?
Se eu acatar ao que a pessoa tanto quer, irei perder ou aumentar a
minha fama? Tomo isso como uma oportunidade para deixar claro que uma
aquisição da Kingston Company não irá acontecer.
— E o Conselho?
— Depositam a confiança em você. Estão preocupados, todavia
contidos pela minha promessa de que sanaremos o problema o mais rápido
possível.
— Certo. Entre em contato para marcar um jantar de negócios, irei
avisar Betsy que não voltarei para comer em casa hoje.
Minha fala deixa Hayden atônito.
— Vou marcar, precisa de mais alguma coisa? — balbucia.
— Não, pode ir.
Ele acena positivamente e caminha até a porta, resmungando baixo para
que eu não escute, o que não funciona:
— Vou pedir para Angel começar a rezar, porque tenho certeza que o
mundo vai acabar. — Passa pela porta e a fecha com força.
Entendo a sua descrença, visto que nem eu mesmo acredito na mudança
drástica que sofri. É indecifrável e totalmente enigmática.
Mais uma vez contemplo a caneca, com o nome dela mesmo que
indiretamente e me pergunto como é capaz uma vida mudar completamente
em um supetão.
Coisas que antes me soavam desagradáveis se tornaram música aos
meus ouvidos.
Momentos que eu tomava como desperdício de tempo por não estar
trabalhando, transformaram-se em especiais e memoráveis.
Merda, estou filosofando demais para quem tem uma pilha de trabalho
na qual se afundar.
Betsy, Betsy...
Tira-me do prumo com a mesma intensidade com a qual me faz bem.
Volto ao trabalho, sem divagar desta vez e após diversas horas, sinto
meus dedos reclamarem de tanto assinarem papéis, é como se minha vida
fosse um mar de assinaturas sem fim. A demora principal inclusive é porque
leio todo e qualquer documento, sem pular nem mesmo uma frase. Recebo os
documentos após a aprovação do departamento jurídico da empresa e
recebimento de diversos e-mails explicando-me os pormenores de cada coisa
que assinarei. Não posso cometer o mesmo erro que vovô e meus tios quando
eles estavam à frente da companhia, sem levar tudo a sério como se é devido.
Não que eles tenham sido péssimos administradores, não quero afirmar isso,
mas, também não posso deixar que a Kingston volte à estaca negativa, como
estava quando eu a assumi.
Reacendi a chama do império e a manterei.
Dou uma pausa para comer algo que Serena me traz depois de
praticamente ouvir a voz de Betsy gritando em meu ouvido quando ela envia
uma mensagem em letras garrafais, dizendo para eu almoçar.
Não demora muito a eu estar de volta ao ritmo insano de análise
quando Hayden retorna à minha sala. Estranho que ele não o tenha feito
antes. Momentos de paz em que eu não escuto a sua voz são raros.
— Jantar marcado para hoje, como queria.
— Em qual restaurante?
— O mesmo de sempre.
Não ergo o olhar da papelada para falar com ele.
— Tudo bem. Se tiver terminado as suas coisas — olho para o relógio
em meu pulso e vejo que já estamos no fim da tarde — pode ir embora.
— Não quer que eu o acompanhe no jantar?
Ele levanta um bom ponto, no entanto, sei o quanto estou consumindo a
sua vida pessoal para suprir a minha empresarial e nada disso é justo.
Entendo agora. Minha percepção de mundo foi alterada depois que
compreendi que nem todo o dinheiro do mundo é capaz de pagar um tempo
bem aproveitado na companhia de pessoas queridas. Hayden estava mais do
que certo quando puxou minha orelha quanto a isso. Quisera eu ter entendido
antes.
Fito meu assistente, um que me segue há anos, e enxergo nele todas as
qualidades que busco em um funcionário. Ele é leal, sincero e leva a
companhia tão a sério quanto eu.
Preciso mesmo dar mais dias de folga a ele.
— Não, isso não é necessário. Vá ficar com a sua esposa e seu filho
recém-nascido. Eles merecem mais a sua atenção.
Hayden movimenta-se até a parede em vidro, atraindo meu olhar, e fita
o céu com uma das mãos cobrindo os olhos, fingindo surpresa. Sei o quanto
sou carrasco e em meio a uma maré de consciência, tento me redimir das
ações anteriores, sendo que ele sem sombra de dúvida não torna o processo
mais fácil para mim. Aposto que está tentando se conter para não fazer piadas
sobre o assunto.
Vejo a mudança em seu semblante quando me contempla.
E lá vem elas...
— O céu está desabando, Lane! Porra, juro que está!
Como esperado.
— Muito engraçado da sua parte. — Finjo uma risada de escárnio.
— Continue assim que Jesus virá! Bem que minha mãe falou que eu
preciso ser um bom menino cristão para garantir meu lugar no paraíso.
— Não vai para lá nem mesmo se rezar até o fim da vida.
— Aposto que vamos juntos para o inferno então.
— E eu lá disse que sou um anjo? Acho bom você preparar a papelada
quando isso acontecer, porque eu vou negociar com o demônio para fundar
uma nova companhia de extração de petróleo. Já tenho até nome sabia?
— Algo me diz que eu não quero escutar.
— Hell’s Enterprise — falo divertidamente — e o slogan será
“extraindo até o inferno do próprio inferno, a companhia na qual você
acredita!”
— Pelo amor de Deus, Lane! Que horror!
— Foi criativo, tem de admitir.
— Odeio quando tem razão.
— Obrigado, meu caro. Agora — aponto para a porta — vá embora
antes que eu mude de ideia.
Hayden sai em disparada, sem ao menos se despedir. O que é esperto
da parte dele. Minutos depois quando Serena entra em minha sala, para
repassar a minha agenda do dia seguinte, não tardo a dispensá-la também.
Todos merecem um tempo de folga. De mim.
Ela estranha o gesto e antes de partir, reitera se não preciso de ajuda em
algo mais. Sou enfático ao dizer que não.
Envio uma mensagem à Betsy avisando que não voltarei para casa a
tempo de jantar. Fico puto quando ela me diz que fez meu prato preferido.
Vovó traiçoeira e esperta. Deve ter falado para ela qual é e instantaneamente
meu estômago protesta. Ele não quer jantar em um restaurante, enquanto fala
sobre negócios com um desconhecido — ameaça no caso, porque estou
fodido por ele tentar adquirir a companhia — quer voltar para casa e jantar
com Betsy.
Penso que seria engraçado eu voltar e encontrar Chili com feijão, o que
eu odeio, esse prato só é texano de verdade, a meu ver logicamente, se tiver
apenas carne e quantidades absurdas de pimenta. Vovó que o diga. Uma vez,
quando eu era criança, coloquei bastante Chili no meu prato, peguei o pote de
pimenta de vovô e o despejei todo em minha comida; não é exagero dizer que
um Lane vermelho foi socorrido e bebeu água até ter seu próprio aquário no
estômago.
Enfim, voltando ao assunto inicial, acredito que eu comeria mesmo que
tivesse feijão, o que eu odeio, e ainda diria estar maravilhoso. Gostar de
alguém faz isso com a gente, transforma os nossos gestos principais, visando
apenas em não magoar a pessoa.
Que baboseira.
Tornei-me o que mais temia.

Rainha: Que pena, mas tudo bem! Avise quando estiver voltando,
para eu ficar acordada te esperando.

A sua mensagem ecoa pelo meu peito, espalhando um calor agradável.


Tenho alguém esperando por mim, uma pessoa que se importa de verdade
comigo. Só depois de ter algo assim é que eu realmente percebo o que perdia.
E faria uma falta enorme em minha vida. Betsy me ensina todos os dias a
como ser o melhor de mim, e eu tento aprender com a mesma rapidez com
que meu coração se entrega a ela.

Eu: Ficará acordada me esperando? Tomara que seja sem roupa,


sereia, porque quero chegar e me esbaldar em você.
Rainha: Seu desejo é uma ordem.

Meu sangue entra em erupção em minhas veias. De repente, não


entendo como fui marcar uma reunião de negócios para um dia excepcional
como este. É uma droga ter que ser responsável as vezes. Decido sair o mais
rápido possível para ir até esse jantar. O quanto antes eu finalizar, mais
rápido volto para casa e para minha mulher.
Esplêndido!
Heavens to Betsy!
Porque voltar para minha mulher soa bom demais para mim!
O garoto sofrido volta até e mim e de novo, sinto-me
impotente, sem poder ajudá-lo, sem poder socorrer ninguém.

Recebo outra mensagem enquanto dirijo. E não vejo a hora de


estacionar para ver quem é. Talvez seja minha esposa, mandando-me uma
prova de como está e não precisa de muito para que meu pau ganhe vida em
minha cueca e me faça travar o maxilar com a cena que a minha imaginação
forma. Paro em frente ao restaurante e entrego as chaves ao responsável, que
rapidamente se afasta com meu Corvette. Busco o celular em meu bolso e
vejo uma mensagem que me faz franzir as sobrancelhas.
É de vovô.
Ele raramente envia mensagens, já que para ele essas coisas que o
mundo criou só atrapalham a vida das pessoas. E sempre começa com a
história: no meu tempo, a gente tinha que... e começa a divagar, falando por
horas a fio.

Vovô: Lane, eu tenho uns documentos comigo que podem ser


importantes, acredito que estavam atrás deles quando invadiram
meu antigo escritório. Falei com a sua mãe sobre o que aconteceu
e eu não posso mais esconder, mesmo que tenha feito uma
promessa para um antigo empregado e amigo. Se eu esconder,
minha família estará em perigo.

Eu: Como assim vovô? Ficou maluco de vez? Aposto que a vovó
está te deixando insano!

Vovô: Não estou brincando, moleque! Logo receberá um e-mail


com a documentação.
Eu: Certo, darei uma olhada quando puder, vovô.

Guardo o celular no bolso e acesso o restaurante.


Logo sou acompanhado até a minha mesa, que já se encontra ocupada.
O homem está sentado de costas para mim e ao seu lado está outra pessoa que
eu não consigo ver no momento, devido a movimentação no ambiente e aos
garçons passando de um lado a outro. Mas, não me sinto intimidado com a
ignorância. Tudo se resume a chegar, ouvir o que ele irá falar, refutar com
sabedoria e então sair do lugar. Simples assim.
Meus passos acompanhando o maître são confiantes e impacientes.
Prendo um dos botões em meu pulso que se soltou e paro em frente à mesa,
enquanto o homem puxa a cadeira para mim. Não olho ninguém diretamente
antes de me sentar e erguer a cabeça. Quando o faço, esperando que minha
expressão aparente o quanto estou enraivecido pelo incômodo no qual me
lançaram desde a primeira tentativa de aquisição, é outra coisa que povoa
meu semblante. Uma mistura de lembranças terríveis com medo, terror e dor,
muita dor. São tantas coisas que eu arquejo com a força da enxurrada que me
arrasta vale abaixo. Por sorte estou sentado, caso contrário, tenho certeza que
as minhas pernas não conseguiriam me manter em pé diante do fantasma que
sorri à minha frente.
Uma coisa é se perguntar se a morte chegou de fato para quem
imaginamos.
Outra totalmente diferente é ver essa pessoa, em frente a você, trazendo
à tona todas as suas piores lembranças.
Ele deveria ter morrido.
Deveria estar enterrado debaixo de sete palmos, apodrecendo
lentamente.
Contudo, mantém-se próximo a mim, transformando-me de novo
naquele menino temeroso e com dezenas de machucados recentes.
— E nos vemos novamente, Lane Kingston. Mas... — seu escárnio me
faz fechar a mão em um punho — acredito que da última vez você era só um
moleque mimado que não sabia o que o futuro lhe reservava. Engraçado. Eu
também não sabia.
Travo meu maxilar.
Coisas sem sentido vagueiam pela minha mente.
Meus dedos formigam, clamando para que eu desconte tudo o que ele
me fez passar. Quero arrancar o sorriso presunçoso de seu rosto, deformar
todos os seus traços e o fazer pagar na mesma moeda pelo sofrimento
imposto. Porém, estamos em um restaurante movimentado, com dezenas de
pessoas à nossa volta.
Analiso minhas possibilidades, olhando para os lados.
Ele entende o que estou fazendo e abre um sorriso monstruoso, de
quem sabe que está protegido por ora.
Meu celular indica o recebimento de uma nova mensagem, no entanto,
não consigo me mexer para ver quem é.
Aquele olhar maldito que sempre me atormenta em meus pesadelos está
ali, fitando-me como se tempo algum tivesse se passado, como se tudo o que
fez a mim, ao meu irmão e a minha mãe, houvesse se evaporado depois que
ele desapareceu. Rezei para que estivesse morto, contudo, o céu não seria tão
bom para mim a esse ponto.
Cogito mandar às favas qualquer molécula de bom senso que tenho,
mas pondero.
— Eu se fosse você não faria um show aqui, — fala como se tivesse
lido minha mente e soubesse que estou a muito pouco de perder a sanidade
— em meio a esse restaurante famoso. Uma manchete como essa pode acabar
com a reputação dos Kingston, principalmente se souberem o quão baixo
grandpa pode ir para obter o que quer. Verdades precisam ser reveladas,
afinal.
Meu olhar viaja até o homem ao seu lado, com traços parecidos, tão
semelhantes que eu mato a charada antes mesmo que ele a confirme para
mim.
— Seu filho — deduzo.
Ele lembra sutilmente Kendrick. Alguns traços são idênticos, no
entanto, a pessoa só os encontraria se estivesse procurando por eles no rosto
do desconhecido.
— Exatamente — ele diria mais alguma, porém somos interrompidos
por um garçom, que nos entrega o cardápio e pergunta se queremos algo para
beber enquanto escolhemos.
Nego com um aceno.
Mal consigo permanecer sentado, ouvindo o que o desgraçado está
dizendo, quem dirá beber e comer na sua presença. Que se foda o que irão
pensar, só preciso afastá-lo da minha família.
— Vou encontrar provas sobre o ataque contra minha mãe — ameaço.
— Não, não vai — rebate ele — porque estará comendo nas minhas
mãos até o fim desta conversa, Kingston. Pode adivinhar o motivo?
Cerro minha mandíbula, incapaz de quantificar o quanto odeio este
homem.
— Se ele não vai responder pai, deixe que eu diga. Neste momento, seu
ponto fraco está sendo explorado, simples assim. Passamos uma década
procurando por motivos que o fariam relutar em defender a família e
finalmente você nos deu tal motivação. Não precisamos fazer nada, você fez
por si próprio. Acreditamos por um bom tempo que nunca encontraríamos
sua vulnerabilidade, no entanto, ela é uma mulher espetacular tenho de
admitir. Tentei arrebatá-la no leilão, pena que chegou antes. Eu teria tido uma
excelente noite com ela. Se conseguiu derreter seu coração, aposto que é
fenomenal na cama.
Em um acesso de raiva, levanto por sobre a mesa e o puxo pela gola da
camisa, com os dois punhos travados no tecido, enquanto um som que se
assemelha a um rosnado de fúria escapa da minha garganta.
— Não chegue perto de Betsy! — vocifero.
Sinto vários olhares em cima de nós, acompanhando a comoção com
atenção. Ignoro-os completamente. Tudo no que consigo pensar é que se
alguém fizer algo a Betsy, esse alguém desejará nunca ter nascido.
— Você é patético — gargalha o filho, desprendendo meus dedos da
sua camisa, mantendo o semblante inalterado — acha que já não nos
aproximamos? A equipe de segurança que colocou atrás dela trabalha para
nós, seu estúpido. Eles a deixaram sozinha quando esteve naquela — estala
os dedos tentando se lembrar — ONG, claro, e eu observei de longe enquanto
um dos homens mais poderosos — sarcasmo pinga de cada palavra — se
apavorava por causa de uma mulher. Saiba que ela esteve em nossas mãos, e
apenas não a matamos porque seria difícil lidar com você, então. Acredito
que ameaças soem muito mais promissoras. Então nos diga, Kingston, como
é saber que alguém que ama correu perigo e você ao menos teve noção disso?
Estou a um passo de rugir de fúria.
A ideia de alguém fazendo mal a qualquer pessoa próxima a mim é
inconcebível.
O gosto amargo se espalha pela minha boca, um sabor derivado do
medo.
No entanto, medo é um sentimento volátil demais e prontamente, ele se
transforma em coragem, em vontade de acabar com os dois, sem que eles
tenham chance de se aproximar da minha família novamente.
Eles não sabem com quem estão mexendo.
Eles não têm a porra da menor ideia do animal feroz que me torno
quando alguém que amo está em perigo.
— Só por cima do meu cadáver!
— Isso acabaria com a brincadeira! — o monstro do meu passado
provoca.
Travo minha mandíbula.
— Vocês não têm ideia de com quem estão mexendo — ameaço em um
sibilo.
— Claro que temos, por qual motivo esperaríamos tanto tempo para
saborear a vingança? Mas, não gosto de ficar falando coisas desnecessárias,
vamos direto ao ponto: preciso da Kingston. É uma troca justa, a companhia
da sua família por um amor. Seria capaz de decepcionar a todos para manter a
mulher ao seu lado, criança? — odeio como ele me chama de criança, todas
as partes em mim se reviram porque me fazem lembrar de uma época em que
eu só queria desaparecer com a minha mãe e meu irmão.
Um tempo em que eu queria liberdade do monstro que nos encarcerava.
Bato com o punho firme na mesa, sacudindo o enfeite no vaso de cristal
ao centro, assim como os guardanapos e alguns copos perfeitamente
organizados, quando a luta por controle se finda perdedora. Não tenho a
capacidade de permanecer incólume diante de alguém tão cruel.
Volto a mim a tempo de lutar pelo que acredito.
Não posso perder.
Não posso deixar que ele se infiltre e massacre a todos novamente.
— De que porra estão falando? Da tentativa de aquisição hostil? —
sacudo a cabeça enfaticamente — não, sem chances, não colocarão suas mãos
de merda no legado da minha família! E eu vou foder com a vida de vocês —
semicerro minhas pálpebras e fito os dois — mas tanto que vão desejar nunca
terem cruzado o meu caminho!
— Então se prepare para escolher o primeiro que dirá adeus — rebate o
filho do infeliz.
— Não importa o quanto tente ir contra — profere o mais velho, sem se
ater às pessoas a sua volta, aparentando tranquilidade — a verdade é que
conseguiremos tudo, você colaborando ou não. Machucando as pessoas que
ama ou não — ele se inclina e semicerra os olhos, lançando-me para as
profundezas do meu temeroso passado, um do qual ainda não consegui
escapar e só agora entendo o motivo, a sombra paira em cima de mim e
continuará a me poluir se eu não der um fim a ela — tudo dependerá das suas
escolhas, querido Lane — exterioriza com escárnio.
— Vão para o inferno, os dois! E fiquem longe da minha família! —
ameaço.
— Para você é fácil falar coisas do tipo quando não sabe quantas
pessoas seu avô enganou para conseguir comprar as terras que o
transformaram em um bilionário da noite para o dia. Acredita que ele as
conseguiu honestamente, sem enganar ninguém? Soa engraçada essa ideia. A
sua mãe tinha a mesma ilusão de mundo encantado que você, meu caro. A
verdade é que aquele velho astuto enganou a todos, inclusive amigos de anos
para poder conseguir o que tem hoje. O dinheiro de vocês é sujo e deve
retornar para quem realmente precisa dele e quem foi rebaixado para que o
tivessem.
Em um momento estou na mesa, discutindo com meu pior inimigo, no
outro, estou analisando alguns documentos estranhos que encontrei há um
tempo. Eles são da época em que vovô presidia a empresa e além deles, é
possível ver uma lista, com nomes completos, telefones e até mesmo
endereços. Algumas questões se prendem às outras em minha cabeça,
enquanto aos poucos todas as peças se encaixam com maestria. Há mais
coisas que esse homem à minha frente não sabe, e muito menos que eu sei. A
verdade pode ser apenas uma mentira deturpada de alguém para manipular a
infelicidade com o resultado.
— Ah, deixe-me adivinhar, — volto a me sentar em minha cadeira,
cruzando uma das pernas desta vez, recobrando a calma. Se eu me deixar
levar pela minha ira, posso perder por não ter pensado coerentemente. Eu
preciso de toda a minha concentração para lidar com esse desgraçado e seu
filho e ignorar com toda a minha habilidade, como tenho vontade de sujar
minhas mãos pela primeira vez na vida apenas para sentir o gosto da paz —
um dos injustiçados é você, aposto.
Seu sorriso se alarga. Ele deforma seu rosto como em um palhaço
assassino. Sinto meu estômago revolver, incapaz de se manter na presença do
crápula sem sentir a necessidade de colocar para fora tudo o que está nele.
— Eu e outros. É a lei do retorno, você colhe o que planta.
— Então a sua colheita ainda está por vir, Alistair. E eu serei a sua
ruína. Deveria voltar para o inferno de onde veio e ficar por lá, esperando a
sua hora. Agora que sei que está vivo, nada no mundo me impedirá de caçar
toda e qualquer prova dos seus crimes para o colocar atrás das grades.
— Se eu fosse você não faria ameaças vazias. Não detém a vantagem
aqui, Kingston — fala o sobrenome aparentando nojo — logo, deveria ficar
quieto e escutar o que temos a dizer, antes que seja tarde demais para a sua
esposa, ou para todo o restante daqueles estúpidos da sua família.
— Não tem tanto poder como imagina, caso contrário, não estaria
falando comigo antes de agir, simplesmente teria agido.
Minha constatação o abala momentaneamente, mas em segundos ele
retoma o semblante austero, querendo passar uma imagem errônea para mim.
O equívoco dele é acreditar que eu ainda sou aquela criança que ele
maltratou, a criança que ele espancou até quebrar as costelas. Eu não sou
mais, e esse homem irá garantir que ele pague por tudo o que fez, e pague o
triplo, porque esse homem à sua frente, é a porra do rei do petróleo e tem
mais poder do que ele pode sequer imaginar.
Ter dinheiro não significa ter poder.
Mas, respeito sim.
E ele, claramente não tem o segundo.
— Sempre foi mais inteligente do que o esperado. E, claro que preciso
de você, para facilitar a minha entrada na companhia, uma vez que o
Conselho se manteria receoso após uma aquisição agressiva. Admito que
fiquei espantado quando me encontrei com um dos investidores e ele afirmou
que não colaboraria comigo.
— São espertos. A troca do presidente de uma companhia pode acabar
com o valor dela no mercado. Vemos isso acontecendo em diversas empresas
as quais os presidentes dão considerável lucro e quando saem, levam toda
essa grana com eles. Mudar um time que está ganhando nunca foi uma
atitude muito sábia e todos os investidores estão cientes desta verdade.
— A questão é...
Interrompo-o.
— Você não quer manter a companhia lucrativa, mas acabar com ela.
Já imaginava algo do tipo.
— Eu já sou rico, ou reformulando — ele ergue o dedo indicador —
tornei-me rico, com meu próprio suor, Lane, só quero desmoralizar a sua
família, apenas isso. Contento-me com pouco dinheiro mesmo depois de
comprar por um absurdo, mas, não posso deixar que continuem sendo quem
são.
Seu filho está quieto, pois sabe que não tem qualquer grama de
inteligência para debater comigo. Apenas seu pai tem a coragem de arriscar,
mesmo sendo o homem mais burro do mundo inclusive, por me dar tempo
para contra-atacar e por me deixar ciente da sua estratégia. Como pode ser tão
idiota? Agradeço a sua burrice enquanto traço diversos planos mentalmente
para conseguir tudo o que quero.
Primeiro, deixar todos protegidos.
Segundo fazê-lo recuar.
Terceiro, em hipótese alguma ele conseguirá adquirir a companhia,
custe o que custar.
Quarto, expor todos os projetos futuros da Kingston, o que alavancará o
preço de mercado. Ele não terá dinheiro para adquiri-la nem que queira e
hipoteque tudo o que tem.
Quinto, vencê-lo desta vez e o fazer pagar por tudo o que fez,
garantindo que apodreça na prisão.
— Ao inferno com isso! Tudo o que me disse até agora foi um monte
de baboseira, nada além.
Ele se surpreende com meu rompante, posso assistir a surpresa flutuar
em seus olhos.
— Pague para ver. Eu tive coragem de coisas piores no passado, acha
que não sou capaz de acabar com a sua raça agora, só porque cresceu e virou
um homem de merda? As cicatrizes que carrega com você são uma prova de
quem é o mais forte entre nós, garoto.
Subestimar o oponente é o maior erro que ele poderia cometer.
— Fico curioso para saber como conseguiu a sua fortuna, se fala que é
tão injustiçado.
— Digamos que eu sabia a senha do cofre da sua mãe e quando fugi,
levei toda a quantia que havia lá comigo. Algum tempo depois, investimentos
inteligentes e aqui estamos nós, enquanto eu te obrigo a me ajudar a lançar na
lama o legado petrolífero que com tanto custo sustentou. Estudei sobre a
empresa, fiz meu dever de casa e ora se não consegui uma informação de
ouro. A companhia estava prestes a falir quando a assumiu e foi graças a você
que ela está neste patamar.
— Me enganou Alistair, quando disse que conseguiu enriquecer com
seu próprio suor. Já parou para pensar que também construiu seu império
com base no — abro aspas — dinheiro sujo — fecho aspas — que tanto
abominou? Soa no mínimo hipócrita para mim. E quanto à ressureição da
Kingston Company, gosto de levar o mérito por isso, obrigado por enaltecer
minha sabedoria administrativa — soo sarcástico.
Ele se irrita com a minha fala, porque ela faz total sentido.
Levanto-me da cadeira, acreditando ter ouvido tudo o que é preciso.
Não me deixo intimidar pelas suas tentativas vãs de me chantagear,
principalmente porque darei um jeito de garantir que não errarei desta vez na
segurança das pessoas que amo.
— Não ouviu tudo o que precisamos dizer — escuto o filho dizer, ao
me barrar de abandonar a mesa.
— E o que seria? — testo — Não creio que valha a pena eu perder meu
tempo aqui, quando sei que essa reunião — indico os dois — não terminará
em nada e você — aponto para o diabo — eu vou te encontrar onde quer que
esteja e se arrependerá de ter ressurgido das cinzas.
— Seu avô comprou as terras que possui se aproveitando dos
trabalhadores locais com dívidas com o estado, foi isso que aconteceu. E eu o
farei pagar por isso, descontando em você, a que preço for. Irá cair junto com
todo mundo se não participar do nosso plano.
Sorrio ironicamente, com mais uma peça se encaixando às centenas em
minha mente.
— Acredita mesmo no que diz? — debocho.
Percebo que o meu sarcasmo o altera.
Seu rosto torna-se vermelho de raiva, transformando-o em um homem
nada ameaçador, gorducho e estranho. Franzo as sobrancelhas ao me dar
conta de quão patético ele é. Subjugava a mim e a minha mãe porque não
conseguia atingir meu avô diretamente e continua pensando que sou o elo
mais fraco da corrente e que através de mim conseguirá o que quer. Não
poderia estar mais enganado.
— Foi o que meu pai falou! Convivi toda a minha adolescência com ele
reclamando, proferindo e ralhando aos quatro ventos como o velho Kingston
fodeu com a vida dele, como tirou todo o seu sustento para poder enriquecer!
Acha que eu não me vingaria por meu pai, pela sua memória?
Apoio uma das mãos na mesa. Meu Patek reluz como ouro diante dos
dois.
— Não vai conseguir essa vingança e eu vou provar que está totalmente
errado na sua constatação. Já procurou saber se seu pai não recebia pensão do
meu avô ou coisa do tipo? Tem certeza de que ele foi enganado? Ou seria
você o trouxa da vez? — provoco.
O homem levanta-se afetado pelo que eu disse. Atinjo o objetivo de
irritá-lo com perfeição, assim como ele fez comigo.
— Vai pagar por caluniar a memória dele!
— Assim como você pagará por tudo o que me fez passar.
Não digo mais nada, dou as costas para os dois e abandono o
restaurante. Só quando já estou no meu carro, estacionado em minha garagem
é que me permito respirar com tranquilidade, sem ter aquela bola de raiva
entalada em minha garganta, impedindo o fluxo de oxigênio.
Não abro a porta do carro.
Permaneço em seu interior, com a cabeça apoiada no volante, sentindo
todas aquelas memórias se apoderarem de mim e me lançarem para um lugar
escuro e profundo da minha vida. Minhas mãos estão amarradas e eu sou
lançado à imensidão de água, que acessa meus pulmões e se infiltra em toda a
minha coragem. Não sou metade do homem que deveria ser, e não sei como
agir para me transformar nele e finalmente deixar a todos seguros.
Não posso mais ser aquele menino.
Não posso permitir que ele nos machuque como aquele menino deixou.
— Lane, está tudo bem com você? — escuto a voz do anjo do lado de
fora do carro.
Comprimo minhas pálpebras, sentindo que eu posso estar mais perdido
do que deixo transparecer. Com a gana por vingança que se apodera de mim
como posso ser merecedor de alguém? Eu preciso ficar sozinho, para Betsy
não correr perigo, para que ninguém além de mim corra perigo.
Não respondo Betsy.
Ela bate no vidro diversas vezes, tentando chamar a minha atenção.
Recuso-me a olhar para ela. Tenho vergonha que enxergue a casca oca
que eu sou, que veja o problema no qual se meteu. Sinto-me tão perdido, sem
ter com quem contar que me recuso a ver uma das únicas pessoas que
realmente me aceitou pelo que eu sou, disposta a me ajudar novamente. A me
dizer que nada é minha culpa.
Betsy desiste de bater.
Ela se afasta do carro, consigo enxergar pela minha visão periférica.
Agacha-se em meio a grama e senta, sem aparentar que sairá dali tão
cedo. Olho de relance para ela, e seus olhos verdes prendem os meus em uma
névoa de desafios que não quero aceitar. Apoio a cabeça no encosto do banco
e permaneço ali, revivendo coisas as quais necessito excruciantemente
esquecer. Sua presença paira ao lado de fora, como uma companhia
silenciosa para o meu terror. Não diz nada, não se movimenta, só aguarda que
eu saia e diga para ela o que está acontecendo.
Como uma pessoa incrível como ela consegue conviver comigo?
Pior, como consegue gostar de mim?
Respiro com dificuldade ao me recordar de dias inteiros em que eu
sentia a dor da surra do dia anterior reverberar por meu corpo. Não eram
passageiras, porque ficavam marcadas em minha alma, assim como na minha
pele, com os cortes que se tornavam aos poucos linhas finas, cicatrizes claras,
que aumentavam a escuridão em um ponto totalmente abalável; a minha
cabeça.
Não sei dizer como arranjo forças, mas abro a porta do carro.
Desabo do lado exterior, caindo sob meus joelhos, incapaz de conter a
desolação que corre furiosa por meu corpo, desafiando minha persistência,
transformando-me em um ser medroso, temente da sua própria vida. A porta
se mantém aberta e eu levo minhas mãos à cabeça, tentando lançar para o
mais distante possível, a sensação de estar girando no olho do furacão.
Ele está vivo.
Voltou para atormentar a mim e a todos que me rodeiam.
Este é o momento para externar o choque que senti quando o vi.
Um futuro assustador se desenrola à minha frente, onde todas as
pessoas que amo sofrem.
Não posso deixar.
Preciso ficar sozinho.
As pessoas à minha volta não estão seguras.
Essa constatação gira desenfreada diante de mim, e não sei para que
lado fugir, não sei o que fazer. Tudo estava bem de manhã e à noite, não está.
Por que essa volatilidade, por que não posso ser feliz?
Suspiro resignado.
Escuto passos abafados e não sei o que dizer a ela. Simplesmente não
sei. Betsy não entenderia a profundidade do meu desespero, sequer
entenderia por que estou me sentindo tão vazio. Nem eu entendo, como
poderia esperar que ela entendesse? É pedir demais, tenho plena ciência desta
verdade. Sacudo a cabeça veemente, debatendo-me contra um mal que apenas
eu vejo, que apenas a mim corrói, passando da pele para as camadas mais
baixas da minha alma. Os refletores no jardim iluminam a noite, mas não a
mim, a escuridão que me aterroriza está presente, minimizando o meu
trabalho de anos para combater a violência que me atormenta.
Betsy me rodeia com seus braços, apoiando a minha cabeça em seus
seios. É um gesto reconfortante e que acalma um pouco o turbilhão, no
entanto, quando me lembro o que está em jogo começo a chorar, e a agarrá-la
com tanta força que sinto o seu corpo se mover conforme a minha pressão.
Ainda estou ajoelhado, segurando firmemente seu quadril em busca de apoio,
não apenas físico como emocional. Não é o certo, não posso me sustentar
através de ninguém, porém, a atitude é involuntária.
Betsy é meu porto seguro.
É aquele pedaço de terra firme, prestes a me salvar do afogamento.
Minha boia.
Meu bote salva vidas.
E também a luz que pode mandar embora a escuridão que me engolfa.
Choro copiosamente, agarrando-me ao seu corpo.
— Eu amo você, por favor, me conta o que está acontecendo...
Sua declaração de amor me faz chorar ainda mais. Eu não a mereço.
Estou colocando-a em perigo.
Eu ficaria mais feliz se ela estivesse com outra pessoa e totalmente
segura. Meu coração dói com a ideia, mas eu sei que eu entenderia a razão
para esse fim. Não faço bem a ninguém. Minhas mãos seguram firmemente o
tecido do seu pijama, enquanto minhas lágrimas o molham desastrosamente.
Se eu não a tivesse escolhido, ela não estaria correndo perigo de vida
porque jamais seria a minha fraqueza.
— Betsy — imploro.
Ela não sabe pelo quê.
Eu também não sei pelo quê.
Talvez para ser amado de verdade mesmo se eu precisar quebrar seu
coração.
Tenho que me dedicar a manter todos seguros e não posso me distrair,
seria fatal. Preciso ficar sozinho para pensar melhor, é assim que minha
mente funciona, mas ela grita que não, vozeia que essa mulher é tão essencial
quanto o oxigênio para que eu sobreviva. A encruzilhada se desdobra ante
mim e eu não sei qual caminho seguir, não tenho ideia de qual seria o certo.
Nenhum dos dois podem ser. Eles poderiam me levar para pontos distintos e
carregados de sofrimento.
— Por favor, me deixe te ajudar — seus dedos deslizam pelo meu
cabelo.
Nunca desabei na frente de ninguém antes.
Pessoa alguma no mundo viu o monte de merda no qual me transformo
quando lembro do meu passado.
Mas, é ela, quem me ajuda sem me julgar, na frente de quem eu sinto
que posso me livrar de todas as camadas externas e apenas admitir que sou
mais fraco do que quero parecer.
Tem todo o meu coração e também detém grande parte dos meus
medos.
Sei que Betsy não usará isso contra mim.
Minha princesa do coração de gelo só quer me ajudar.
Porém, medo é uma constante presente na vida de um homem como eu.
No fundo, tenho a ciência de que estou sendo confortado pela pessoa
que quero afastar e da qual não quero viver sem. A confusão é tirânica e eu
afundo nela cada vez mais. As teias do temor me seguram e aprisionam,
prendem entre elas, tornando impossível a minha saída. Betsy estende a mão
para que eu a segure e ela me tire da areia movediça que me engole, nossos
dedos estão a centímetros de se encontrarem, quando são repentinamente
afastados. Contemplo a pessoa que o faz e sou eu mesmo, lançando-me para a
pior parte que há em mim.
Sofro da minha própria crueldade.
Sou envenenado pelo meu próprio veneno.
Eu tenho problemas demais.
Sou quebrado demais para ela.
Não posso apagar seu brilho também, como já fiz com o meu.
Essa atitude é impensável.
Ouço com atenção o burburinho no qual minha cabeça se joga,
premeditando o que aconteceria à Betsy no futuro se nos permitíssemos ficar
juntos.
Não, somos incompatíveis.
Essa é a decisão final.
Nós não fomos feitos para ficar juntos e funcionamos melhor
separados.
É oficial, nós chegamos ao fim e do fundo do poço ninguém
pode nos resgatar. Começamos errado e o fim é o caminho
certo a seguir.

Bato diversas vezes na janela do carro.


Conforme bato mais e mais, meus punhos vão perdendo a força e eu
desisto de tentar atrair a sua atenção. Seu olhar está perdido em um ponto
distante, como se estivesse sendo despedaçado aos poucos e não conseguisse
reunir forças para resistir. Eu serei a sua força, penso subitamente. Ele pode
contar comigo para o ajudar a combater o que é preciso, mas primeiro é
necessário que confie em mim. Lane está pronto para isso? Acredito que não,
uma vez que se mantém preso na sua própria dor, sofrendo-a sozinho, sem
querer compartilhar com ninguém.
Sua atitude é altruísta ao contrapasso em que é destrutiva ao extremo.
Ele quer proteger a quem ama, se colocando à frente, sofrendo tudo e
formando uma barreira, para que nada atinja as pessoas atrás dele, mas,
precisa entender que ninguém consegue se manter intacto sofrendo todo o
impacto. É necessário dividir a carga.
Ele não abre a porta, por mais que eu peça com os olhos.
Eles se enchem de água e forço a mantê-las dentro de mim, os soluços
travados em minha garganta para que ele não veja que estou sofrendo
também. Serei forte por ele, para lidar com que o atormenta.
Decido me afastar do carro, para lhe dar espaço.
Os segundos passam.
Os minutos são devorados.
Horas arrastadas mar abaixo em meio ao céu estrelado.
Prendo minhas pernas com meus braços e sacudo meu corpo para frente
e para trás. A brisa é fria, mas não me importo. Não tiro o olhar do homem
sentado e desolado em seu carro, aparentando estar sem vida, sem qualquer
sentimento em seu corpo além do esmorecimento.
Lane está se afogando em um mar que ele próprio criou.
Assim como eu todas as vezes em que clico no botão de finalizar
compra, sabendo que as peças são inúteis e que não preciso delas, mas sim da
emoção de calar a minha euforia toda vez que coloco um produto no
carrinho. Nestes momentos, a única coisa que me importa é saber que adquiri
algo a mais. Se eu usarei? Para que me importar com isso antes que chegue?
Não tenho tempo para estes pensamentos, apenas para a alegria que sinto ao
comprar e receber em casa, ou o som do cartão de crédito sendo passado em
uma loja. Soa como música aos meus ouvidos. O balanço do meu corpo se
torna mais violento e mordo meu lábio inferior na tentativa massacrante e
inútil de combater a minha compulsão por compras.
Resmungo baixinho para frear esses pensamentos.
Os holofotes lançam a luz na minha direção e fecho minhas pálpebras
quando a claridade deles me cega momentaneamente. Ao abrir meus olhos,
aquelas bolinhas negras de quando olhamos demais para a luz, infestam tudo
o que vejo. Lane ainda está no carro, não se mexeu um centímetro sequer,
desaparecido em seu próprio corpo. O homem determinado, arrogante e
confiante que conheci se distancia conforme o tempo passa. Sinto falta de
todas essas características, sem exceção, porque elas caracterizam quem ele é.
E eu o amo por ser exatamente assim.
Quando ele finalmente abre a porta, desaba sobre seus joelhos, com a
cabeça baixa, em uma derrota tão extenuante que eu caminho até ele
vagarosamente para não o assustar.
Lane não está aqui.
Mantém-se preso em um passado que não consegue combater.
Apoio sua cabeça junto ao meu abdômen, tentando passar todo o amor
que sinto transbordar em mim. Ele merece cada ínfima fração do sentimento
e pode usar da maneira que quiser. Se for para me machucar? Não me
importo. Para se recuperar? Posso dar mais a ele se quiser. O que realmente
quero é que ele consiga superar tudo o que o atormenta. Tento o fazer falar,
tento conversar com ele, mas a única coisa que escapa de seus lábios é a
prece por algo que eu não sei. Ele precisa de mim, mas não sabe definir o
motivo.
Não seria isso o amor?
Querer ficar com alguém, sem saber o por que, só querer a sua
presença?
Não sei explicar o que sinto por Lane, só que meu coração tropeça nas
próprias batidas quando estou com ele, meu fôlego vai embora, meu
estômago se embola e meu corpo inteiro responde à sua presença como se
precisasse dela. É uma sensação maluca, que dura segundos, mas que
parecem horas. E essa minha incapacidade de definir já não classificaria o
sentimento como amor?
Por isso, tento passar cada centésima parte dessa sensação a ele,
enquanto meus braços o firmam e minha mão acarinha seu cabelo. Não
importa que se sinta frágil para superar, eu estarei presente para apoiá-lo e
exaltar o quão forte é por lutar consigo mesmo e sempre vencer.
Essa é a força necessária.
Não ser incólume, aparentar indestrutibilidade, mas ser capaz de lutar e
estar ciente que mesmo não vencendo, tentou.
Algumas lágrimas despencam dos meus olhos direto para seus fios
escuros.
Ele não sente, mas em cada uma delas, há um poder latente que eu o
entrego.
Seu choro é desesperador. Tétrico em sua totalidade.
Não sei o que fazer para o ajudar, além de me manter ali, disposta a ser
seu apoio e a fonte mais próxima de calor. Prendo seu corpo contra o meu e
olho para além dele, para o mar ondulante e escuro, com a lua traçando um
caminho de prata entre as pequenas ondas que se formam. É conflitante, o
quanto ela se aproxima e se mantém distante. Da mesma maneira a qual me
sinto com ele. Próxima e longe demais. Perto de seu corpo, mas distante do
verdadeiro pesadelo que o consome de dentro para fora.
Quem é Lane senão um mar de destroços?
Uma imensidão de cobranças?
Uma infinidade de inseguranças?
Com um amor tão grande pela família que ele se anula a cada passar de
dia?
Um empresário respeitado, com um vício por trabalho que não
consegue combater?
Uma pessoa como qualquer outra, com seus problemas e batalhas a
vencer?
Uma vida com traumas que tenta superar?
Um homem com dificuldade de confiar?
Alguém que está disposto a se sacrificar pelo bem maior?
Quem é Lane?
Essa resposta é mais simples do que posso imaginar. Ela consiste em
apenas uma frase que contém toda a verdade do meu universo. Toda a
verdade que eu admiti ao longo do tempo que passamos juntos, um tempo no
qual ele me surpreendeu pelas suas qualidades e acima de tudo por seus
defeitos.
Lane é o homem que eu aprendo a amar cada dia mais.
Um que pode pegar meu coração em suas mãos e fazer o que achar
melhor.
Pela primeira vez em muito tempo, essa verdade não me aterroriza, mas
espalha uma onda de esperança. Uma pontada de alegria que não me permiti
viver depois que meu coração foi quebrado. Agora entendo o que Madison
me disse após se conciliar com Craig e perceber que ele é o amor da vida
dela, que não importa o tempo que leve, ou a minha necessidade de afirmar
que nunca mais encontrarei o amor porque não estou aberta a ele; o
sentimento simplesmente abre caminho por entre os machucados e os cura
devagarinho, molécula por molécula, revivendo tudo o que me forcei a
manter inanimado.
Eu me declaro para ele, que não responde. Apenas implora meu nome,
por algo que eu não sei. Tento deixar claro que só quero ajudar, pedindo para
que ele me conte o que está acontecendo, mas Lane nada diz. E entendo, pelo
seu silêncio que minha fala não mudará nada. Sua decisão já foi tomada.
É, nem tudo na vida termina bem com constatações necessárias.
As vezes as coisas simplesmente terminam, sem explicação, sem
maiores delongas, só terminam. E o fim não necessariamente significa o
término do sentimento. Para falar a verdade, acredito que as duas constantes
nunca alcançam o desfecho no mesmo momento. Uma sempre vai mais longe
que a outra. Sendo que, em raras ocasiões o amor simplesmente se finda
antes.
Pena que meu caso não é esse.
O inexorável, que faz meu coração batucar, acaba de começar e não dá
qualquer sinal de que desaparecerá.
Percebo o exato instante em que Lane cria coragem, em que cai em si e
tenta lutar contra a possibilidade de precisar de alguém. Ele deixa de me usar
como seu apoio emocional e seus braços me abandonam, pendendo ao lado
de seu corpo, inertes, sem vida. Há uma mudança tão drástica nas suas ações,
que eu meio que já espero pelo que ele dirá. Não sou idiota, sei quando o fim
começa e segue seu destino. É impossível pará-lo, uma vez que ele toma
força com a inclinação.
Sua cabeça pende sob o pescoço.
Ele a agacha e se vê tão destroçado quanto eu sinto que ficarei.
— Precisamos conversar — é o que finalmente diz.
Sinto que o golpe final virá em breve. Não estou preparada para ele,
acho que nunca estarei, então apenas respiro fundo e peço silenciosamente
para que ele me quebre aos poucos ao invés de me detonar completamente de
uma vez. Uma parte sensata de mim apela para o ponto que deve ser rápido,
dolorido, todavia rápido, como tirar o band-aid de um machucado. Mas, esse
lado não é o dominante.
— Eu já sei o que vai dizer. Começou a se fechar de novo. Eu sou uma
intrusa na sua vida planejada, pode dizer — profiro, em um fiapo de voz.
Ele sabe que vai me estilhaçar.
— Betsy, eu...
— Não venha dizer que sente muito, Lane. Não precisa mais mentir
para mim.
— Pensei que eu pudesse lidar com o casamento, com essa coisa de
confiar em alguém, mas eu errei, errei feio. Sinto muito de verdade. Quero
pedir perdão — suas palavras o destroem tanto quanto a mim — por tudo,
desde o momento em que a convenci a embarcar nessa jornada comigo. Fiz
você perder tempo, poderia ter encontrado alguém realmente bom para a sua
vida, enquanto a desperdiçava comigo, tentando fazer parte da minha rotina.
— Não pode demonstrar nenhum tipo de simpatia por mim? — inquiro,
sentindo a dor se aprofundar em meu peito. Tento contê-la com a mão em
punho no lado esquerdo. Esse gesto é inútil. Todos os momentos em que
sorrimos juntos, nos divertimos, tivemos prazer ou apenas nos provocamos,
fluem como uma torrente através dos meus pensamentos. Aos poucos, eles se
tornam uma névoa cinza do que poderíamos ter sido se continuássemos com
a loucura.
Foi a melhor escolha que já fiz.
Embarquei em uma canoa furada e me descobri em um verdadeiro
cruzeiro com alguém interessante.
Por isso, só o que posso pedir a ele, é que faça as coisas devagar, que
termine comigo aos poucos, enquanto eu tento arrancar o curativo de uma
vez. Eu mesma. A dor é menor quando somos nós que o puxamos, porque já
estamos nos preparando para o pior.
— Não somos bons juntos. Em todas as perspectivas, eu te machucaria,
Betsy. Não importa o quanto a gente tente fazer dar certo, a verdade é que
simplesmente não dará. Tenho algo que me consome, devora até minha
última gota de tempo e não posso abrir mão de tudo o que conquistei por uma
mulher e não abrirei. Nem mesmo que ela seja você.
Ele é efusivo.
O curativo é puxado com tanta violência que eu arfo, passando meus
braços em torno do meu corpo para conter a sensação angustiante que me
liquida.
— Está mentindo. Com medo de se abrir para mim.
— O que quer dizer? — ele não demonstra confusão.
É o homem frio e calculista que bateu na minha porta logo depois do
Super Bowl.
O homem arrogante que me pediu para me casar com ele, oferecendo
dinheiro e querendo me comprar de todas as formas possíveis.
Odeio como ele se deixa levar por alguém que não é.
Porque eu o conheço e sei que é muito mais do que se permite
transparecer.
— Que não importa o quanto eu seja sincera, você não é. — Minha voz
sai chorosa, mas dane-se, pelo menos eu posso tirar o peso do meu peito — É
a segunda maldita vez que amo alguém e a segunda vez que não dou sorte.
Era para ser um acordo — uma pausa comanda a tensão — mas, eu entreguei
meu coração.
Uma lágrima desbrava seu caminho pela minha bochecha, descendo até
estacionar no canto dos meus lábios.
— Betsy, eu...
— Tudo bem. Eu entendo você. Não deveria ter abaixado a guarda. A
culpa não é sua, é minha. Só não entendo o motivo para ter me feito sentir
esperança, tratando-me bem, dando coisas repletas de significados e que
sabia que ficariam guardadas em meu coração. Por que, Lane? Por que me
fez acreditar que esse navio cruzaria o oceano quando ele já estava com o
casco furado?
Seus ombros desabam.
Sua postura é derrotada.
— O motivo para termos embarcado nessa droga foi o meu dinheiro, a
porra do meu dinheiro! Então não me venha dizer como devo tratá-la, quando
sabia exatamente na merda que estava se metendo! — Lane coloca as mãos
em sua cabeça, fora de si.
Noto como tudo o que ele guardou durante a vida, agora encontra seu
caminho para fora. Toda a frustração acumulada precisa de um escape e
infelizmente eu sou o ponto mais próximo, que recebe a rajada diretamente.
O que ele diz deveria me magoar, no entanto, percebo o que está
acontecendo e só quero que ele fique bem. Que se encontre. Porque eu não
ficarei para ajudá-lo. Ninguém é responsável pelo outro e ele precisa saber
seu lugar no mundo e coexistir com o que sente por mim sem querer
extinguir o sentimento quando as coisas dão errado.
Só aprenderá sozinho.
E quando isso acontecer, eu estarei lá por ele.
O primeiro passo é descobrir por si só que afastar quem ama nunca foi
a solução para nada no mundo.
— Você acha que pode comandar a todos e esmaga o sentimento das
pessoas que se preocupam com você como se fossem insetos — sibilo,
chateada com a situação.
Não sei bem o que pensar.
Lane não se desculpa, sabe que estou certa na minha afirmação. Ele é
bipolar, só pode ser. Meu radar de homem bonito me avisou que eu
embarcaria em uma cilada, no entanto, o que eu fiz? Embarquei de qualquer
forma, imaginando que eu estaria pronta para lidar com qualquer coisa.
Estava errada.
O que não é uma novidade, de forma alguma.
Sempre erro nos assuntos do coração.
O homem respira fundo, como se fosse difícil enviar ar para seus
pulmões.
— Eu não te enganei, desde o começo falei que não sou bom em
relacionamentos, que não tenho tempo para eles. Agora você quer me mudar?
Ou me culpar por que achou que conseguiria colocar tudo a seu favor?
Em um jogo de discussão, jogamos a culpa um no outro.
A verdade é que nós dois agimos erroneamente.
— Tudo não passou de uma manipulação sua, entendo — exclamo.
Ele parece abalado com a minha fala, mas assume uma posição que de
repente eu me vejo odiando, aquela mesma posição altiva, rebaixando-me,
pensando que sou menos que ele.
— Sempre soube.
Irrito-me tanto que meu sangue se torna lava, derretendo tudo por onde
passa, corroendo minhas veias com tanto ódio que eu não consigo pensar,
apenas digo o que me vem à cabeça, desesperadamente.
— Vá se foder, Lane Kingston! Você e o seu dinheiro de merda!
Vamos ver se ele será tão importante assim quando morrer sozinho, porque
ninguém te aguenta com esse humor! Não consegue cumprir uma promessa!
— aponto o dedo na sua direção, revoltada — Uma! Não sei onde vovó e a
sua mãe estavam com a cabeça por pensar que isso tudo — indico a casa e
em seguida nós dois exageradamente — daria certo! São malucas e estou
fora, totalmente fora!
Ele segura meu braço e o solta em questão de segundos quando percebe
o que está fazendo. Olho para o local onde seus dedos estavam com meu
maxilar trincado. Meu coração entra em polvorosa com o toque, mas peço
que ele vá com calma porque as coisas estão no fim e ele não pode continuar
se alterando por esse homem.
Chegamos naquela parte da estrada, quando ela se bifurca. E um
caminho é o total oposto do outro.
Ele se transforma naquele homem.
E eu me transformo naquela mulher.
— Será o melhor para nós dois. — A maneira como uma falha
interrompe sua frase aflora a ideia de que ele pensa o contrário do que disse.
Tudo bem, eu penso o mesmo.
Mas, sou uma mulher adulta e não vou morrer de amor, muito menos
me sentir sozinha, no máximo solitária. No entanto, quer saber? Essa
sensação passará algum dia e então será como se ela nunca tivesse existido.
Nunca
Tivesse
Existido.
— Você tem razão. Não posso perder tempo, assim como você. E pensa
que eu não sei que guarda rancor por eu ter rastejado no seu coração, me
emaranhado em cada parte dele, te deixando louco enquanto não sabia o que
esperar? Pode me chamar de monstro por eu ter transpassado as suas
barreiras, Kingston e pode tentar me jogar para fora, que será apenas isso...
uma tentativa. Sei que consegui me marcar no seu coração e te balançar com
o sentimento. Espero que quando você perceba não seja tarde demais —
exprimo em uma enxurrada de palavras, suspirando pesadamente antes de
prosseguir — Todos o temem, por ser um homem intocável, por espalhar essa
ideia, mas eu sei a verdade e esse, que tenta me empurrar para fora,
distorcendo tudo, não é o Lane que conheço.
Azar o dele que não notou... Que não entendeu que tinha tudo o que
queria e perdeu por escolha própria.
Afastou-me.
E tentarei com todas as minhas forças não me importar mais com Lane
ou em como ele vive sua vida, principalmente se está feliz com ela.
Sem mim.
Essa dor é a pior que já senti. Algum dia passará? Eu vou
deixar de precisar da presença dela para sorrir? Betsy estava
certa, em cada palavra, é o monstro que revirou minha vida, que
rastejou em meu coração e o tomou por completo. Foi devagar e
tão intenso que não consegui impedir. O reino está frio e
congelante sem o sol para aquecê-lo.

Dói.
Não minto.
O motivo para doer tanto assim em mim? E essa porcaria importa?
Em minha cabeça, é como se uma guerra se desenrolasse. A parte que
grita e vocifera para que eu não a deixe ir e a outra que busca trazer a razão.
Balanço a cabeça, tentando recobrar o juízo. Porém, já estou perdido, em
meio a uma confusão que eu mesmo dei início.
Ela se afasta do meu corpo. O frio aterrorizante toma seu lugar e
congela todas as partes boas que ainda restam em mim. Se há alguém que
conseguiu aquecer minha vida pelo breve momento em que fez parte dela,
esse alguém é a mulher que agora aumenta a distância entre nós dois, com
passos aterrorizantes.
Por favor, Betsy, não vá embora — eu tento gritar.
Não me deixe sozinho como ela fez quando mais precisei. Não
desapareça da minha vida, eu imploro Betsy, não me deixe órfão da sua
presença. É como se eu fosse uma criança novamente, passando por tudo sem
poder me defender, sem poder defender a quem amo, uma criança que
precisou dar adeus à mãe quando ela se viu no pior momento da sua vida.
Estou sentindo a mesma dor novamente. Quero deixar de sentir, é infernal.
Eu afoguei o medo na parte mais escura da minha mente e ele ameaça escapar
e engolfar, sujar, tudo o que encontrar pela frente.
Por que eu não consigo dizer para Betsy não ir?
Ela me deixa congelado, no mesmo lugar, e volta para a casa.
Permaneço travado, derrotado. Não tenho coragem de entrar para
acompanhar o seu processo de desligamento. Minha imaginação faz um
trabalho excelente em presumir e isso me machuca o bastante. O bastante
para uma vida. Olho adiante, para a vista espetacular e me pergunto em que
ponto da vida eu errei.
Não posso ter distrações.
Betsy é uma distração.
Preciso neutralizar a ameaça para manter a todos seguros.
Até quando mentirá para si mesmo? — desafia aquela voz repleta de
sabedoria em minha mente.
Terminar, afastar a mulher que amo do caos que é minha vida fez
sentido quando pensei nisso em um primeiro momento, no entanto, tento
encontrá-lo agora que sei que ela realmente sairá. Uma coisa é pensar nisso,
outra totalmente diferente é sentir em cada átomo do meu ser a sua partida. E
porra, como é dolorido.
No fundo, eu sei que com ela me torno mais forte, porque tenho
motivos para voltar para casa. Um sentimento que me percorre toda vez que
coloco os olhos nela, me transforma na melhor versão de mim, no entanto, eu
não posso arriscar. Em muito tempo, sinceramente não posso apostar com a
sorte. Betsy não é uma empresa que eu quero adquirir e que pode vir a
valorizar ou não, ela é a mulher dona de todos os meus pensamentos e eu não
seria mais eu se algo acontecesse a ela por minha culpa.
Os minutos passam e se arrastam, simbolizados pelas marolas do mar,
que formam pequenas ondas em alguns momentos, arrastando uma parcela de
água da praia e acumulando-a em sua crista. Assistir a dança do oceano me
dá uma noção de que o tempo está passando e que eu necessito fazer alguma
coisa antes que ela passe por mim e vá embora para sempre.
Mas, meus músculos permanecem estáticos. Incapazes de se moverem
um centímetro sequer. Minha razão luta com a emoção e no momento quem
está ganhando é a parte racional que há mim. Sempre um homem racional,
debocho. Por que sinto que essa pode ser minha destruição? Ser racional
demais?
Quando eu pensaria que minha escolha de esposa se tornaria minha
maior fraqueza?
Ou seria minha maior força?
Fluffy corre em minha direção e deita-se aos meus pés, para que eu faça
carinho nele. Não demora para Stacey e Warren aparecerem também,
querendo atenção. Provavelmente compreenderam o que está acontecendo e
que a outra pessoa que cuidava deles os está abandonando. Animais não são
idiotas, eles sentem quando não estamos bem e para falar a verdade, eu me
sinto fodido o bastante. Desço momentaneamente minhas pálpebras querendo
que tudo se torne um pesadelo.
Mas, é real.
Tão fidedigno que escuto o som das rodinhas pelo chão, com um
arrepio vertiginoso percorrendo meu corpo.
O som das ondas quebrando contra a praia podem se tornar o gatilho
para o que acontecerá a seguir, prevejo. Abro meus olhos quando a escuto se
aproximando de onde estou. Recuso-me a demonstrar tudo o que estou
sentindo, não posso falhar.
Assisto-a arrastar sua mala pelo caminho de concreto que corta a
grama. Betsy não está como eu, ela não aparenta metade da afetação que
estou sentindo, na verdade, seu queixo forma noventa graus entre o chão, em
uma pose altiva, de quem fez tudo o que podia. E realmente ela fez. Não
posso negar essa verdade.
Por fora, ostento serenidade, interiormente? Prendo-me a cada
lembrança nossa de maneira ébria, acreditando que elas serão capazes de me
manter são durante os dias que virão.
Os gatos e o cachorro se desesperam, assim como eu. A diferença
gritante entre nós é que eles saem correndo e pairam ao seu redor, orbitando
como os planetas em torno do sol porque é exatamente isso que Betsy é, a
maior estrela do nosso sistema solar.
A hera venenosa que se infiltrou em nossas vidas.
A sereia que saiu do mar direto em meus braços.
E também a personificação de todos os meus sonhos.
Estou a ponto de desmaiar, sufocado com a falta de ar, quando ela dá o
golpe final:
— Adeus, Lane Kingston. Até o divórcio.

Desabo na cama.
Não no meu quarto.
Mas, no que ela usava.
Após ligar para vários contatos, e ser duro com Hayden, para que ele
contrate seguranças confiáveis desta vez. Betsy não sabe que estou
garantindo a sua proteção e mesmo não tendo o direito de interferir na sua
vida, eu sou claro quando me refiro aos contratados que nada pode acontecer
a ela e que eles devem segui-la de longe, sem deixar que os note, mantendo a
sua integridade.
Prometo a mim mesmo que a deixarei seguir a vida quando tudo for
resolvido.
Será que cumprirei a promessa?
Quando me indagaram se eu queria um relatório semanal sobre a VIP,
maneira de eles de se referirem a quem está sendo cuidado, eu sou enfático ao
dizer que não. Devem reportar tudo a Hayden, eu não confio em mim mesmo
se souber onde ela está ou com quem está, prefiro me manter no escuro.
Admiro o lugar com mil pensamentos fervilhando em minha cabeça, e
acabo enxergando o conjunto em cima da mesa de cabeceira, o anel de
noivado e também a aliança. Ela deixou tudo o que me ligaria a ela ali. Não
quis levar nada. Do mesmo jeito que entrou, Betsy saiu. Orgulhosa, com sua
índole intacta, sabendo que deu tudo de si para que as coisas funcionassem.
Infelizmente, não posso dizer o mesmo de mim.
Tiro a gravata, desfazendo o nó com brusquidão.
Solto alguns botões de suas casas, sentindo-me asfixiado. Não tem nada
a ver com a camisa, a sensação é bem mais profunda e remover o tecido que
me aperta o pescoço não mudará nada.
O reino está vazio.
Sinto a falta do abraço acolhedor.
Recebo um e-mail e ao olhar noto que é a confirmação da nossa viagem
às Maldivas. Dali um mês. Um mês que eu coloquei para resolver todas as
pendências e viajar com ela sem preocupações. Um mês para vivermos uma
verdadeira lua de mel. Não existe mais casamento, e essa mensagem não
poderia vir em pior hora para lançar em minha cara o que eu perdi.
Não sei o que fazer depois de tudo.
Estou destruído.
Meu celular toca em minhas mãos e meu coração ingênuo pensa que
pode ser ela, dizendo alguma coisa, falando que não desistiu da gente e que
podemos resolver tudo juntos, basta querermos. Mas, não é ela, é meu avô e
não sei se vou conseguir disfarçar felicidade ao falar com ele.
Atendo a ligação e um suspiro condoído irrompe.
— Oi, vovô.
— Você abriu o e-mail que eu te mandei? — pergunta sem delongas.
Solto um riso irônico.
— Não. Conferir minha caixa de entrada nem passou pela minha
cabeça na última hora, desculpe.
— É IMPORTANTE! — brada.
Passo a mão no pescoço, exausto com os acontecimentos da noite. Ela
ainda nem acabou e eu já não aguento mais. Horas trabalhando, resolvendo
problemas, depois o encontro com a figura constante dos meus pesadelos, a
partida da Betsy e agora mais essa. Essa noite acaba de ser definida como a
pior da minha vida, sem dúvida.
— Sabia que Alistair vem tentando comprar um volume grande de
ações da companhia para poder se vingar do senhor? — digo, minha voz
aparenta o cansaço físico e mental que estou sentindo.
Não tenho ânimo para discussões ou sequer para pensar demais nas
hipóteses. A vontade que se sobressai em mim é de deitar sob o colchão e
acordar somente no dia em que tudo estiver resolvido. Cuidar de todos,
manter o império, gerenciar as coisas suga minha vida como um aspirador de
pó gigante.
A pausa de segundos na ligação, indica que ele já tinha conhecimento
deste fato.
Começo a me perguntar se realmente Alistair estava mentindo quando
acusou vovô de se aproveitar da fraqueza dos demais para enriquecer em suas
costas.
— Sei, meu neto, eu sei sim. Imaginei que fosse ele quando a sua avó
conversou comigo. Principalmente depois do que aconteceu com Kristen. Por
isso eu te enviei o e-mail. Fiz uma promessa há muito tempo com os meus
amigos de que nunca contaria isso, mas a maioria tinha dívidas por jogos, e
outros por vícios com a bebida. Eu os ajudei, comprei suas terras e quitei suas
dívidas, garantindo inclusive uma pensão vitalícia até que morressem para
poder se sustentarem.
— Não foi isso que ele disse. Garantiu que comprou as terras de todos
por um valor muito abaixo do de mercado e não ajudou o pai dele quando ele
foi até você.
— Mentiras demais contadas a um menino. Foi um dos meus melhores
funcionários na fazenda, mas notei tarde demais que estava combinando com
bandidos de roubarem parte do gado à noite. Veio implorar um tempo depois
que o mandei embora para que o ajudasse com uma dívida, antes que alguém
o matasse. Sempre tive o coração mole, sabe disso, então ajudei. Além do
mais, ele tinha um filho, e a criança não carregava culpa alguma pelas
escolhas do pai. Como poderia condenar uma criança a passar fome porque
eu nutria rancor pelo seu progenitor?
— Então por que ele mentiu para o filho?
A dúvida que não quer se calar.
— O dinheiro que eu dei, ele usou para gastar com bebida e voltar a
jogar. Estava devendo o dobro do que quando me implorou ajuda. Entendi
que o filho sequer importava para ele, precisava simplesmente de dinheiro
para manter seus vícios. Nessa altura eu já tinha emprestado mais dinheiro a
ele do que sua pequena fazenda valia, por isso comprei por um preço menor,
eu não tinha o suficiente, precisei fazer um financiamento no banco para
conseguir e quando as coisas começaram a melhorar, garanti que ele
receberia uma pensão para se reerguer.
— Não foi o bastante?
— Não. Ele queria mais, o pai de Alistair sempre queria mais.
— O que aconteceu com ele?
— Ficou devendo para alguém quando me recusei a entregar mais
dinheiro e infelizmente amanheceu morto no dia seguinte da sua ida até a
fazenda, tentando ganhar mais em minhas costas. Por muito tempo eu me
senti culpado, Lane, culpado a ponto de ter pesadelos com o rosto dele e do
filho, acusando-me do que causei a eles. Lembro como se fosse hoje, quando
Alistair apareceu ainda jovem na fazenda e pediu um emprego. Minha
consciência pesada falou mais alto e sequer passou pela minha cabeça que ele
estivesse em busca de vingança.
— Percebeu quando já era tarde demais — presumo — quando ele já
estava casado com mamãe e fazendo parte da nossa família.
— Nunca me perdoarei pôr os ter colocado em perigo. Muito menos
por ser tão ingênuo e depositar minha confiança em alguém que só queria
usá-la para me ferir. Naquele dia, em que fui até vocês dois, fiquei tão
aterrorizado, sem saber o que acontecia, que pensei primeiro em vocês e
depois em conferir se sua mãe tinha acertado o maldito. Quando pedi para
alguém conferir, e Deus sabe que esse foi o pior momento da minha vida, em
que realmente desejei que alguém estivesse morto, não encontraram nada,
nem vestígio de sangue. Acho que o tiro passou de raspão e até então torci
para que ele fosse inteligente e sumisse das nossas vidas para sempre.
— O mal encarnado não desiste de fazer os outros sofrerem, vovô.
— Sim, agora eu sei e é mais um item na lista longa de
arrependimentos desse velho. Assim como enviar sua mãe para um local
distante porque eu pressentia que Alistair poderia fazer algo será mais um,
mas eu precisava proteger minha filha e a você. Kendrick foi para o internato,
porque eu sabia que Alistair poderia usá-lo e o machucar, como o pai fez com
ele. Jamais quis isso para meus netos. Paguei dezenas de profissionais para
encontrarem esse infeliz antes que fosse tarde demais, porém ele sumiu e não
tenho ideia de onde estava até ressuscitar para acabar com nossa
tranquilidade.
Vovô não pode ver, contudo, a surpresa é evidente em meu rosto.
Tudo o que ele fez foi planejado, sabendo que precisava proteger aos
seus a todo custo. Nunca entendi a princípio porque as coisas aconteceram
como aconteceram, no entanto, agora entendo.
— E a promessa que tanto falou?
— O pai de Alistair me fez prometer no começo de tudo que não
contaria a verdade para ninguém. Que eu levaria para o túmulo essa história.
Evocou o nome do avô dele, um amigo muito querido e que me ajudou
demais com a sua avó, quando nos casamos e não tínhamos como prover
nosso sustento. Foi uma época difícil e Deus sabe que tudo o que eu fiz foi
para que nenhum de vocês precisasse sofrer da forma com a qual eu e Pearl
sofremos, almoçando sem saber se teríamos dinheiro para a janta. O avô dele
me emprestou uma soma de dinheiro e foi com ela que consegui começar a
plantar e a dar um rumo à minha vida. Não demorou para que eu pagasse o
dinheiro com juros e que conseguisse manter a sua avó e a todos os meus
filhos bem. Nós economizávamos em tudo que era possível e torcíamos para
um dia em que as coisas melhorassem.
— Vovô, — começo a dizer — eu não sei nem o que dizer depois de
ouvir essa história — gaguejo sem jeito.
A culpa por desconfiar do meu avô, por segundos que fossem, corrói
até a alma. Ele se manteve íntegro do início ao fim e não merece que alguém
duvide disso a essa altura da sua vida.
— Está tudo bem, Lane, você não tinha como saber. O e-mail que
enviei comprovará o que estou dizendo, contém uma cópia dos depósitos
mensais, a documentação da compra da fazenda dele, assim como as
assinaturas do pai dele toda vez em que eu entregava algum dinheiro para ele.
— Mesmo que Alistair tenha sido enganado, não justifica tudo o que
fez e vou garantir que pague apodrecendo na prisão. Principalmente por
ameaçar as pessoas que eu amo. Ele colocou Betsy no meio, vovô. Ele disse
que me atingiria no meu ponto fraco.
— Não faça tudo sozinho, nós estamos aqui para te ajudar.
— Eu posso cuidar das coisas.
— Não, não pode. Isso envolve a todos e todos devem mover suas
bundas folgadas para fazer algo.
— Vovô... — tento debater com ele.
— Pare, Lane, eu já disse. Agora percebo que minha empatia para com
quem não merecia, apenas feriu os meus e não estou disposto a errar de novo.
Preciso descansar em paz, e aproveitar o tempo com sua avó. Assim como
você com a sua Betsy.
— Ela não é minha Betsy.
— Sabe que não afirmei que ela é sua propriedade, mas sua amada.
— Não, vovô, eu e ela não estamos mais juntos. Achei mais seguro que
se afastasse de mim. Não posso colocá-la em perigo. Você faria o mesmo se
vovó fosse ameaçada.
— Diabos que faria! — ralha ele — não entende que acabou de atirar
no próprio pé? Acha que a deixar sozinha, à própria sorte é ser sensato quanto
a segurança dela? Nunca o vi sendo tão burro como agora, neto e só posso
torcer para que esteja certo, porque se não estiver, essa sua escolha irá lhe
custar muito caro, mais do que está disposto a pagar.
Ele não entende?
Não existe futuro para mim e Betsy.
Não tem como existir.
É estranho como a dor se alastra por mim. Em um momento
sinto falta de ar, no outro, meu coração bate veloz e de
repente, é como se eu estivesse caindo sendo que não saí do
lugar.

Sento-me na areia da praia, vendo a lua distante ondular poeticamente


sobre o mar. Quando saí com meu carro alugado da casa de Lane, só pude
agradecer por eu ter feito isso, caso contrário, eu deixaria um carro que
ganhei lá e teria que passar pela guarita com a minha dignidade, arrastando a
minha mala e reclamando dos saltos machucando meu pé. Agora que tudo
terminou, sinto o alívio se fundir aos machucados recém-abertos. É uma
sensação agridoce, encontro a definição perfeita, tem um sabor de liberdade,
mas também de término. Os dois se misturam e eu não sei qual deles tem a
maior parcela de mim. A única coisa que sei é que estou desanimada, sem
encontrar muitos motivos para sorrir por ora.
A brisa salgada lança meus cabelos para trás e para o alto. Apoio meus
braços em meus joelhos e fico olhando a escuridão recoberta por luz prateada
natural.
Meu dedo anelar está vazio e a sensação de leveza dele não me deixa
aliviada como pensei que ficaria. Fiz questão de sair exatamente como entrei,
e depositei o conjunto, o anel e a aliança em cima da mesa de cabeceira. O
problema é que eu não estou como quando embarquei nessa, na verdade, os
pedaços se descolam uns dos outros aos poucos, em busca de redenção.
Lane terminou tudo.
Eu deveria ter terminado por amor, muito antes dele.
O próprio sem dúvida.
Continuo contemplando o mar. Um homem passa por mim e sorri. Não
sorrio de volta, como faria antes. Repentinamente, me sinto tão vazia, porque
sei que uma foda casual não vai apagar a sensação de solidão que paira à
minha volta. Prova disso é que estou sentada na areia da praia, à noite,
enquanto vários bares ao meu redor vomitam gente bebendo e se divertindo.
Eu poderia estar fazendo isso, não minto, todavia, essa ideia não me anima,
porque sei que será inútil.
No fim da noite, ainda me sentirei tão oca como quando entrei.
Antigamente eu teria erguido a cabeça e seguido em frente, sem me ater
a tudo o que aconteceu. Mas, meio que foi uma lição de vida viver por esses
dias ao lado de Lane, conhecer a sua família e me afeiçoar a ela, pude ver
como são pessoas maravilhosas e que não merecem ser enganadas.
Ainda há mamãe, papai e Madison, que acreditam fielmente que me
casei por um impulso de paixão e que eu e o empresário estamos vivendo um
verdadeiro conto de fadas. Como direi a verdade a eles? Posso carregar a
mentira e negá-la até o fim se isso os deixar mais tranquilos. Ou falar que foi
um término calmo, com o acordo de ambas as partes. Uma relação que
começou como um rompante, termina da mesma forma, acho que eles não se
surpreenderiam. Esse é o tipo de coisa que eu faria e papai, como sempre,
acredita que sou um espírito livre que não tem qualquer desejo de
matrimônio.
Aposto que ele deve se perguntar até agora que bicho me mordeu para
eu me casar tão de repente.
Também não sei ao certo.
Escuto o som de alguém se aproximando, sem paciência alguma para
interagir com seres humanos.
— O que uma mulher como você faz sozinha? — um cara pergunta,
olhando-me maliciosamente.
— Dando um tempo de homens como você — defendo-me.
Ele sorri como um idiota, fita algo atrás de mim e então sai, sem dizer
mais nada. Agradeço por isso. Sem me preocupar no motivo para ele ter
parecido tão amedrontado segundos depois de mexer comigo. Viro-me de
relance, só para ver se é alguém, mas não visualizo ninguém conhecido.
Abandono essa esquisitice nas profundezas da minha mente.
As ondas do mar chegam cada vez mais próximas a mim. Meus pés
afundam na areia úmida. A sensação é perfeita, como poucas coisas na vida
são. Flexiono meus dedos com as unhas pintadas de vermelho diversas vezes,
absorvendo o toque gentil dos grãos através da minha pele. Por sorte, as
pessoas que passam após aquele homem, nem olham para mim.
Não estou com vontade de conversar com ninguém.
Falar apenas comigo me basta.
Meu celular indica o recebimento de uma mensagem e como um sinal
divino, tenho a indicação do que preciso fazer para voltar a ficar contente
comigo mesma. É um anúncio sobre um fabricante de micro casas, o
momento é crucial e decido embarcar nesta.
Vejo outro e-mail sobre uma promoção relâmpago em uma loja que
amo, e me surpreendo ao notar que não estou querendo comprar nada. Talvez
o choque tenha me deixado tão abalada que pela primeira vez em um tempão,
eu compreendo que clicar em finalizar compra não vai aliviar a minha dor,
muito menos me deixar eufórica. Só vai me afundar mais e trazer à tona a
sensação de incapacidade.
Volto à ideia da casa e memorizo o preço estimado da construção de
algo tão pequenino. Quando acesso o aplicativo do banco — coisa que nem
pensei em fazer ultimamente — assusto-me com a quantia de patrimônio que
ele exalta.
Procuro por transferências para ver se foi Lane quem enviou para mim
o montante.
E não, não foi ele, mas é por causa dele que agora eu tenho tanto
dinheiro que seria capaz de comprar a parte da Madison na nossa casa à vista.
Minha boca se abre e é como se meu lábio inferior pesasse uma tonelada,
porque não consigo levantá-lo.
A quantidade de zeros que vejo... Minha nossa!
Pensei que realmente ganharia dinheiro se investisse na mesma
empresa que um dos homens mais empreendedores do planeta. Contudo, não
pensei que fosse ganhar tanto.
Permaneço embasbacada, sentada com a bunda repleta de grãos
madrugada adentro, visualizando depois de horas o sol trazendo a tonalidade
laranja ao longe, enquanto ela desbrava a superfície do mar, ondulando e
serpenteando, transformando a crista das ondas em uma espécie de pintura.
Aposto que nas horas vagas Deus é pintor, porque o cenário pitoresco rasteja
pelo meu coração, preenchendo as batidas com um sentimento incontrolável
de calmaria.
Volto a olhar para o meu celular por segundos, e o susto ainda não foi
embora. Em pensar que o dinheiro inicial partiu da minha iniciativa de vender
as roupas que eu não uso, assim como os sapatos e me livrar um pouco da
carga de compulsão, mais um sinal de que eu estava atrasada e perdida em
minha própria vida por causa dos meus hábitos destrutivos. Penso que posso
encomendar a micro casa e levá-la para um lugar tranquilo, onde eu poderei
sair e ouvir o som dos pássaros, enquanto tomo uma xícara de café. Essa
possibilidade me soa encantadora. E não parece mais abominável apenas dez
combinações de roupa, na verdade libertador seria a palavra mais exata. Deve
ser bom se desprender de tais coisas materiais e eu poderei então me dedicar
com tudo de mim ao meu blog e à felicidade das minhas seguidoras.
O grande astro já forma uma meia lua diante de mim, pairando na linha
do oceano, dividindo o céu do azul imperial. Ficar em contato com a natureza
é magnífico, não? Penso que poderei acampar também. Encontrar-me em
meio ao verde. Sei que me lembrarei do Lane toda vez que o fizer, no
entanto, ter um pouco de contato com a natureza é pacífico o bastante para eu
ignorar que esse é seu passatempo preferido. Além do mais, lembro que vi
uma foto na casa dele, em que ele está de meias, com os pés esticados na
barraca e uma caneca apoiada em seu abdômen, enquanto a chuva atinge as
folhas nos troncos das árvores, dá para ver a água torrencial caindo através da
sua foto, na floresta adiante. Consegue idealizar imagens com sons? Pois eu
imaginei o som da chuva assim que vi essa foto emoldurada e uma vontade
insana de passar pelo mesmo me acometeu.
Pareceu tão... renovador.
E eu preciso de renovação no momento. Posso até pintar meu cabelo de
rosa inclusive, seria interessante, mudar radicalmente o visual.
Já se passaram horas e o sol ilumina o dia, quando crio coragem para
fazer o que é preciso.
Abro um dos contatos tão temidos em meu celular. Faz algum tempo
que eu venho ensaiando essa conversa, como se ela fosse o bicho papão
escondido no escuro do meu quarto. Aperto para chamar e assim que a
secretária atende, apresso-me em marcar uma consulta. É esse o pontapé que
preciso para me sentir bem comigo mesma, ciente de que estou em busca de
melhora e que respeito a mulher na qual me tornei, uma que precisa
aproveitar a vida. Com horário marcado, suspiro aliviada. Um dia por semana
onde eu poderei conversar com alguém sem me sentir culpada.
É, não foi tão ruim como imaginei. Deveria ter feito isso antes. Minha
mente grita que o pior ainda está por vir, que é aquela hora de consulta na
qual terei que abrir meu coração, contudo, eu luto contra essa ideia, ciente de
que o pior é dar o passo adiante e admitir que tenho um problema.
Ei, pois é, eu tenho um problema e não posso continuar vivendo assim.
Esse é o verdadeiro ponto difícil. O depois nós conseguimos trabalhar e
superar.
Finalmente me levanto da areia, quando os banhistas já começam a
lotar o lugar, e as casinhas coloridas dos salva vidas, com seus estilos únicos
e extravagantes já não chamam atenção por sua solidão.
Volto para a casa que dividia com a minha irmã e quando finalmente
estou lá, chamo Madison para conversar e contar toda a verdade a ela. Papai e
mamãe são um outro ponto, que eu posso adiar um pouco, mas não minha
irmã. Ela sempre sabe quando algo está errado comigo, acredito que seja um
poder de super irmã.
E acerto em cheio.
Assim que ela chega a casa, algum tempo depois, percebo que traz
consigo Al Capone que fica com ela quando não posso cuidar dele — ou seja,
a maior parte do tempo — no entanto, para e me fita em busca de alguma
indicação de que estou bem. Percebe rapidamente que tudo está pior do que
imagina, quando a primeira lágrima cede à força da gravidade e despenca de
meus olhos. As outras a seguem, assim como as tremulações do meu corpo
conforme eu caio na realidade e percebo que não estou mais com Lane, que
nunca estive de verdade com ele. É estranho. Tão extenuante que sinto a
necessidade de soluçar para conter a noção que me rasga ao meio. Eu
encontrei meu extraordinário assim como Maddie, mas ele não permaneceu
em minha vida.
Ela corta a nossa distância e fecha seus braços a minha volta. Apoio
minha cabeça em seu ombro e lavo a minha alma, profundamente. Sempre
que eu entrego meu coração a alguém, ele volta para o meu peito machucado,
faltando um pedaço, atropelado e vagueando moribundo e decadente durante
o caminho. Sinto a dor dos ralados conforme ele cambaleia até mim.
— Shhh. Shhh. — Madison tenta me confortar — Vai ficar tudo bem,
Bets, de verdade, você é a mulher mais fantástica que eu já conheci, vai ficar
tudo bem.
— Por que eu não dou certo com ninguém? — aperto as costas da
minha irmã e choro ainda mais.
Minhas lágrimas molham a sua camiseta laranja neon, uma das dezenas
de peças que eu tenho vontade de jogar fora escondido dela, todas as vezes
em que usa, mas ela não se importa.
É uma de suas peças de roupa preferidas.
— É especial demais. Ninguém consegue lidar com uma mulher tão
decidida como você. Mas, quando encontrar essa pessoa que conseguirá, tudo
fará sentido e entenderá finalmente por que seus casos anteriores não deram
certo. As coisas acontecem como tem de acontecer, irmã, e eu acredito que
sua felicidade está garantida, se com um homem ou sem, por que importa?
Afinal, você é Betsy O’Connell — corrijo para O’Connell-Kingston em
minha mente, mas não digo nada — e se garante por si só, tanto que eu sinto
um orgulho aterrador de você e da mulher perfeita que se tornou.
— Eu só queria que ele me amasse de volta! — Os tremores retornam e
o choro desaba como uma torrente, assemelhando-se à chuva que eu vi
naquela foto.
Sei que pareço patética, chorando por homem, o que falei que jamais
faria, no entanto, com a minha irmã, tenho a ciência de que ela jamais usará o
que eu disse para me ferir. Madison tem um coração gigantesco, do tamanho
do mundo e é a melhor pessoa que conheço.
— Talvez ele só precise se entender primeiro. Faça o que quer fazer e
deixe que o tempo trará de volta se realmente for pra ser.
Sua frase provoca um sorriso debochado em meu rosto.
— De que livro tirou desta vez?
Ela sempre fala coisas que me deixam de boca aberta, para depois
assumir que a autoria não foi sua, mas de um autor que leu no dia anterior.
Madison e sua leitura, uma característica tão sua quanto as roupas coloridas e
as séries turcas.
— Nenhum! Juro que essa frase foi elaborada por mim, conforme a sua
experiência amorosa.
Finjo que acredito nela.
— Obrigada por vir falar comigo.
— Sempre, é minha irmã.
— Mas, eu me meti em uma confusão, Maddie.
Ela me afasta um pouco, fecha suas mãos em torno do meu rosto,
enquanto a nossa diferença de altura evidencia-se. Madison é pequena, bem
pequena e eu acho engraçado como uma criatura tão mínima consegue ser tão
autêntica e amável.
— O que aconteceu?
— Eu não me casei de verdade — chacoalho a cabeça de um lado a
outro, procurando por melhores palavras — certo, eu me casei, mas, não foi
porque me apaixonei loucamente por Lane, ou ele por mim. Nós fizemos um
acordo, ele precisava de uma esposa e depois que me ajudou, eu fiquei com a
consciência pesada e decidi embarcar nessa aventura.
Minha irmã não acha a história maluca, pelo contrário, ela me puxa até
o sofá, senta-se ao meu lado e prende uma de minhas mãos com a sua, atenta
ao que direi.
— Não conte apenas o principal, eu quero saber de tudo, Bets.
— Tudo, tudo mesmo?
Ela acena afirmativamente.
Seu semblante leve e atencioso me faz abrir a boca e despejar nela tudo
o que aconteceu, detalhe por detalhe, acontecimento por acontecimento.
Assisto às suas reações preocupada com o caminho que seus pensamentos
tomam, todavia, não a poupo da verdade, muito menos de como menti para a
minha família e para a de Lane com a cara deslavada. Ela também nota que
em algum ponto eu comecei a me apaixonar pelo empresário, porque suas
sobrancelhas se unem na ponte do seu nariz e seus olhos brilham, carregando
empatia, por saber que não escolhemos como nos sentir com relação a outra
pessoa. Ela deve me entender melhor do que eu imagino.
— Que história de livro vocês estão vivendo! — é a primeira coisa que
ela diz quando termino de narrar.
— Com um final trágico, assim como tudo que começa baseado em
uma mentira. Não tem como evoluir uma relação que jamais existiu.
— Eu duvido — profere baixo.
— É romântica demais para seu próprio bem.
— Lane também ama você, Betsy. Isso porque eu ouvi a sua versão da
história, não a dele. Acredito que se eu o ouvir, vou perceber isso tão
rapidamente que ele não precisará dizer mais nada. Ele te ama, mas tentou te
proteger da maneira que ele encontrou, porque tudo é novo e não sabe como
reagir. Vocês dois estão sofrendo e eu não vejo a hora que se reencontrem
para tudo dar certo. Jamais a vi assim, tão mexida por alguém, nem mesmo
pelo Fred você sentiu algo tão profundo. Sei que agora quer se manter o mais
longe possível do Kingston, mas em algum momento, essa distância só te
deixará pior se insistir em ir contra seu coração.
— Eu preciso de um tempo para pensar.
— Claro que precisa e pode ter todo o tempo que quiser.
— Eu já te contei que eu decidi encomendar uma microcasa e que
precisamos decidir o que fazer com essa? — indico o lugar para ela.
Enxergo no rosto da minha irmã a compreensão que tanto preciso.
— Não, você não disse, mas eu já tinha pensado em conversar com
você sobre a casa, já que eu e Monroe estamos morando juntos. Não precisa
ficar com um lugar tão grande só para você. Inclusive, podemos entrar em
contato com o corretor o mais rápido possível se quiser.
— Você é a melhor, Maddie! — Abraço-a apertado.
— Claro que não! E onde pensa em deixar a casa? Elas podem ser
móveis, ou fixas, acho que uma casa móvel, que você pode prender na
traseira de uma caminhonete seria muito interessante.
A ideia que ela dá desdobra milhares de cenários em minha cabeça e
Madison pode mesmo ter razão. Quão incrível deve ser? Viver com menos,
aproveitando mais? Calculo rapidamente os gastos de comprar uma
caminhonete e chego à conclusão que posso me dar a esse luxo, e também
acredito que seria um conteúdo mega atrativo para o blog, contar sobre
minhas experiências em uma casa pequenina e também sobre viajar para
todos os cantos do país.
Novas aventuras soam assustadoras a princípio, mas, são espetaculares.
Reinventar nossa história e enfrentar o medo pode ser inspirador.
— Você deu uma ótima ideia! — empolgo-me.
Madison sorri de orelha a orelha.
— É essa empolgação que eu quero ver em você!
— Obrigada, por tudo!
Meus olhos marejam, desta vez por felicidade, por tê-la comigo, por
poder contar com ela.
— Para com sentimentalismo, senão eu começo a chorar!
Madison sacode as mãos na frente do rosto, tentando refrear as suas
emoções afloradas, no entanto, não demora muito para estarmos as duas
chorando copiosas, abraçadas uma a outra, sem fim. Até que mostro para ela
o que consegui seguindo o investimento de Lane. Minha irmã arregala os
olhos e percebo que ela está espantada com a quantidade de números assim
como eu fiquei.
— Tudo isso investindo aquele valor que me disse?
Aceno afirmativamente.
— Vi Lane investindo nessa empresa há um tempo e achei que seria
interessante arriscar junto com ele. Agora, estou colhendo os frutos de ser
curiosa demais.
— Frutos excelentes por sinal. Eu só me preocupo com uma coisa... —
ela não precisa finalizar a frase para que eu entenda seu receio.
Em seu lugar, eu teria o mesmo medo, se não tivesse decidido mudar
completamente a minha vida.
— Já marquei uma consulta com a terapeuta.
— JURA, BETSY?! — Madison grita e eu cubro minhas orelhas em
reflexo. — Meu Deus, irmã! Se precisar que eu vá junto é só dizer, posso
ficar do lado de fora quietinha, só esperando você sair. Tenho certeza que
será melhor do que você imagina!
— Fica tranquila, Maddie, não precisa! — tranquilizo-a — Também
estudarei sobre investimentos e farei um plano para que eu fique sossegada
durante um bom tempo com dinheiro. Preciso usá-lo com sabedoria. Se tem
uma coisa que eu aprendi com aquele egoísta narcisista, é que se eu colocar o
dinheiro para trabalhar por mim, não precisarei mais trabalhar, ou melhor,
farei só o que amo, sem me preocupar com o resto.
— Algo bom você tinha que trazer, não apenas decepção dessa relação
maluca, por mais que eu ache que as coisas não terminaram. Lane virá atrás
de você.
— Deixe vir, correr atrás um pouco do que ele quer, vai fazer bem para
o ego dele. Eu estarei esperando para o fazer sofrer.
— Fiquei com medo.
— Você não deveria, mas ele sim.
Eu falo que o farei sofrer. Se isso acontecerá de verdade quando ele
aparecer e se aparecer? Só o tempo dirá.
Eu não quero seguir em frente. Betsy, eu quero você. Fui um
idiota, eu sou um total imbecil, mas que te ama. De maneira
enlouquecedora.

Eu quero que ela volte.


Eu preciso voltar para ela.
Mas, já faz uma semana que não falo com Betsy e quando tento ligar, a
ligação não é completada. Aposto que me bloqueou. Não a julgo, as coisas
foram ruins o bastante.
Mas, ela me faz querer ter tudo de volta.
Betsy me faz querer arriscar.
Sei que não importa onde ela esteja, tudo em mim ainda orbita em torno
dela.
— Lane, já conseguimos o que pediu.
Giro a cadeira, para fitar Hayden, parado na porta. Ele tem notado a
minha mudança drástica de humor, felizmente não comentou nada. Até
Serena está pisando em ovos para falar comigo. É como se eles não
quisessem me levar muito ao limite porque sabem que estou a muito pouco
de explodir.
Praticamente flertando com o colapso.
— Dados para a aquisição de todas as empresas?
Hayden acena positivamente.
— Então, vamos à caça.
Levanto-me da minha cadeira, prendo o botão em meu paletó e rumo
para o começo da minha vingança. Uma que eu não planejei, mas que se
tornou primordial para que eu possa seguir em frente.
Eu, não a empresa, irá adquirir tudo o que Alistair possui, e ele não
verá o leão vindo, apenas quando eu já estiver aproveitando minha caça.
Ele cairá, assim como todas as ameaças que impôs.

— O que está fazendo aqui? — seu semblante assustado é impagável.


Ele olha para mim e não consegue entender como as coisas mudaram
tanto. Um dia, ele é o presidente de sua empresa, no outro, se transforma em
alguém que é escorraçado, perdendo o poder na própria criação.
Alguns favores aqui, influência acolá e não precisei de muito para
conseguir adquirir a maior parte das ações para uma aquisição hostil. Usei
seu sistema contra ele, assim como da primeira vez que ele tentou subjugar a
Kingston, achando que ninguém perceberia. O mal de Alistair é que ele não
fez contatos como eu, ele não tem uma rede de pessoas que estariam
dispostas a ajudá-lo custe o que custasse apenas para ficarem em sua boa
estima.
Péssimo para ele.
Excelente para mim.
E é por esse motivo que agora estou na sua sala, entrando sem ser
anunciado, emanando poder.
— O que acha? Estou tomando a sua empresa de você — vou direto ao
ponto.
Movo-me pelo escritório, olhando para a decoração de extremo mau
gosto. Alguns quadros são horríveis, além de detalhes que não fazem o menor
sentido. É muita coisa, tudo muito bagunçado para a minha tendência
minimalista. Coloco as mãos nos bolsos e avalio o sofá de couro em uma das
paredes, o melhor item do lugar, e também uma escrivaninha de carvalho que
aparenta ser antiga. Bom, pelo menos poucas coisas com personalidade.
Mesmo que eu não vá manter nada de qualquer modo.
— Isso não é possível — ele se recusa a acreditar.
— Que péssimo gosto você tem — ironizo — esse lugar é decadente.
Paro de frente para os dois, que analisavam alguns documentos.
Mal sabem que em breve a maior parte do trabalho será meu de
qualquer forma.
— Vá embora daqui ou eu chamo a segurança! — ameaça.
Semicerro minhas pálpebras.
— Não pode ameaçar o acionista majoritário.
— Eu detenho a maior parte das ações — ele se levanta e bate com uma
das mãos em punho na mesa.
O som não provoca nada em mim. Nada além de felicidade, claro.
— Não mais. Contudo, acho melhor não me ater demais a isso, depois
podemos fazer as formalidades para que eu tome posse o mais rápido
possível. Também estou aqui para acabar com a sua ideia insana de que meu
avô tem alguma culpa na morte do seu pai. — Lanço os envelopes contendo
todas as provas que incriminam o pai dele e que deixam claro que meu avô só
quis ajudá-lo em todas as decisões que tomou. O que ele devolveu? Apenas
ódio e rancor.
O homem fica receoso se deve pegar os envelopes ou não.
Seu filho toma a decisão antes, desconfiado de quais são minhas reais
intenções em estar ali. Sei que eles possuem diversas empresas de fachada,
assim como sei sobre as diversas manipulações nas questões financeiras da
sua própria companhia, contudo, não uso desse trunfo agora. Ambos serão
presos e não há nada que possam fazer para evitar, só quero saborear um
pouco a derrota de quem tanto me fez mal.
Sou errado por isso?
Aposto que não.
Rancoroso talvez. Mas, há coisas que só conseguimos finalmente
superar quando sabemos que o mal já foi extinguido.
— O que é isso? — ele pergunta ao filho, confuso.
— Pai... — o homem olha de mim para o pai, vejo o medo transparecer
através de seus olhos.
Eles mexeram com o homem errado.
E não há nada que eu queira mais do que acabar com toda essa merda e
ter de volta a mulher que eu amo.
Assim como, vingar minha mãe.
— São as provas de que meu avô não fez nada contra seu pai. Pelo
contrário, ele o ajudou a sair de cada problema que criou. Inclusive, está
glorificando um homem que não se importava com você, que em nenhum
momento se preocupou com você. Antes de se tornar um monstro para vingar
alguém que não merece ao menos recordações, deveria garantir que a sua
verdade é a mesma que a de todos. Agora, você pagará por tudo o que fez e
terá muito tempo para refletir sobre a sua vida e se arrepender por quem
maltratou.
— Só pode ser uma mentira — sussurra o filho.
— Não, não é, eu garanto. Meu avô quase faliu a Kingston Company
por tanto ajudar a todos que ele conhecia que moravam na cidade, e em
hipótese alguma aceitarei que duvidem da sua índole.
— Não é possível, eu cresci com meu pai contando sobre como seu avô
era um homem cruel — Alistair teima em não acreditar, mesmo as provas
sendo lançadas diante de si aos milhares.
Quando uma pessoa é enganada durante a vida inteira, ela tende a
querer continuar cega, e esse é o pior tipo de escolha, a cegueira intencional
para os fatos.
— Ele te manipulou para que sentisse raiva de um homem inocente.
Pode continuar lendo os documentos com calma, enquanto eu faço o que é
preciso para proteger os meus. — Aproximo-me de ambos — Caso tenham
pelo menos um grama de senso em seus corpos, me privarão da presença dos
dois para sempre. Só preciso fazer algo antes de finalizar.
Puxo o homem que imprensou a memória escura da minha infância em
mim e noto como seu filho se acovarda no canto quando percebe o que farei.
Acredito que o arrependimento do mais velho seja tamanho que ele ao menos
se defende dos dois socos que eu desfiro contra seu rosto, sem piedade, e sem
medir a força dos meus punhos. É o mínimo para eu deixar as coisas para
trás.
Algumas pessoas me julgarão pelo que estou fazendo.
Mas, foda-se elas, eu preciso disso como um ponto final. Não sou tão
piedoso quanto queria e foram anos tentando trabalhar meus traumas
enquanto ele vivia uma vida de luxo.
Deveria mandar a conta da minha terapeuta também.
Ah, claro, será difícil ele se manter depois que suas fraudes vierem à
tona e indiretamente usarei o dinheiro da sua empresa para me bancar.
Um dia ruim para ele.
E um ótimo para mim.
Sua sorte é que não quero manchar meu terno de alta costura.
Aprumo os punhos, fitando o rosto ensanguentado com um prazer
mórbido. Relanceio o olhar na direção do seu filho, que está tão colado a
parede que poderia se tornar uma pintura nela.
— Não quero mais ver nenhum dos dois. Que apodreçam na prisão. —
Dou as costas, sentindo-me bem.
— O que quer dizer com prisão? — inquere o mais novo.
— Ora, Adrian — diz Alistair — pensou que nunca seríamos pegos?
Os dois começam a discutir, mas pouco me importo com isso. Não
terão tempo para fugir, sequer para brigarem direito. Garanti que as coisas
terminassem como eu queria e assim elas terminarão.
Estaciono na frente da casa da Betsy, onde ela mora com a irmã, ou
morava, já não sei mais. Uma placa no quintal me faz tremer.
Vende-se.
As letras são grandes e vermelhas. A placa não parece ter sido colocada
ali há muito tempo. Está mal fixada no chão e pende para um dos lados. Arfo
com a percepção de que não faço ideia de onde Betsy foi parar. Também não
tenho qualquer possibilidade de entrar em contato com ela, além de um
número que eu nem sei se ela usa mais
Para não piorar ainda mais minha situação, ligo para o chefe da equipe
de segurança e digo que não é mais necessário que a vigiem, a ameaça
acabou. Não seria honroso de minha parte, me intrometer tanto em sua vida.
— Tem certeza, senhor?
Suspiro profundamente.
Volto a contemplar a casa silenciosa, que me amedronta.
— Tenho. Ela está segura agora.
— Entendido.
Eles sabem que ainda estão contratados, só não ficarão mais de olho em
Betsy. Arfo com a ideia de que poderia ter perguntado onde ela está, no
entanto, não quero fazer isso, preciso que as coisas comecem diferentes desta
vez. Da maneira certa.
Algumas horas se passam e eu permaneço ali.
Ninguém entra ou sai da casa.
Decido fazer uma loucura, mas que me soa a melhor coisa para a
saudade. Disco o número que se destaca para quem quiser comprar e não
demora muito para a corretora atender. Especifico a rua e o número do
imóvel.
— Qual o valor da casa? — ela diz o preço e eu penso que está muito
bom, na verdade — Ofereço o dobro e vinte por cento de comissão para você
se vier até o endereço agora com a chave.
— Precisamos de garantia, senhor... — ela começa a debater, mas a
interrompo.
— Mande uma mensagem neste número com a conta a qual preciso
fazer a transferência e também a sua para depositar a comissão.
— Claro, tudo bem. — Ela nota a minha firmeza e não demora a
concordar.
— Pode vir assim que confirmar o recebimento dos valores. Aguardo a
senhora.
Passam-se alguns minutos desde que fiz a ligação e enviei os
comprovantes das transações quando uma batida na janela do meu carro
interrompe meus devaneios.
Vejo a senhora que me encontrou no dia em que fui buscar Betsy na
Anjos sem asas. A esperança me assoma quando me lembro da ONG na qual
ela é voluntária. Aquela mulher abandonaria qualquer pessoa, menos o
serviço voluntário e esse é um dos motivos pelos quais eu sei que gosto dela.
E são milhares.
De motivos, quero dizer.
— O que faz aqui, garoto, depois de quebrar o coração da minha Betsy?
Ela não aparenta irritação, raiva ou outro sentimento tão furioso quanto,
na verdade, a mulher demonstra decepção.
— Eu queria falar com ela — assumo.
O que não é difícil de presumir, uma vez que estou estacionado do
outro lado da rua há um tempo.
— Pensei que fosse diferente, me decepcionei tanto quanto ela.
— Onde está? Eu quero de verdade me redimir.
— Não interessa, ela foi embora e nos deixou para trás, por sua culpa!
— Eu sei, ma’am — ela se afeta com o sotaque puxado que sempre
aparece quando estou nervoso — mas, estou disposto a qualquer coisa.
Um carro estaciona em frente à casa, atraindo minha atenção assim
como de Constance — é um milagre me lembrar do nome dela, se fosse antes
de Betsy, eu provavelmente não me daria ao trabalho de memorizar.
Uma mulher desce do carro, com um molho de chaves. Não tardo a
pedir licença para a senhora com o intuito de abrir a porta.
— O que está fazendo?
— Constance, foi um prazer encontrá-la, mas eu preciso finalizar um
negócio.
— Como assim finalizar um negócio? Comprou a casa por acaso?
— Exatamente — concordo e me afasto dela, fingindo que não vejo o
seu semblante surpreso.
Aproximo-me da corretora, e ela não tarda a abrir um sorriso predador.
Seu olho viaja até meu dedo anelar, onde a aliança de casamento reluz, no
entanto, ela parece ignorar o fato de que sou casado. Ou era casado, na
verdade, prestes a me divorciar, enfim, ela ignora e decide que posso ser a
sua presa da vez.
Abre a porta da casa vagarosamente e empina a bunda para que eu veja
a marca da sua calcinha na saia. Acabo olhando de relance, mas a verdade é
que não me sinto nem um pouco atraído.
— Sua proposta foi boa demais para recusar. Entrei em contato com as
proprietárias e elas rapidamente concordaram.
Meu coração bate mais devagar ao ouvir o que ela diz. Então eu não
posso ouvir a voz de Betsy, mas ela deve ter ouvido. Como posso invejá-la
por ter tido essa parcela de contato com a minha sereia?
— Que bom — resmungo.
Passo por ela e adentro na sala, observando que todos os móveis estão
no exato lugar que me lembro. Betsy não mudou nem mesmo a poltrona de
lugar, a mesma que eu tentei limpar, agindo como um completo babaca. Se
esse Lane de agora encontrasse o daquele dia, com certeza daria um soco
nele. Mais do que merecido. É um milagre que a mulher tenha aceitado fazer
parte da minha vida depois de toda a grosseria que eu direcionei a ela.
— Posso mostrar os cômodos da casa para o senhor. Há dois quartos no
segundo andar, porém apenas um banheiro entre os dois. Esse é o ponto ruim,
acredito. — Não deixo de notar a entonação maliciosa quando ela cita os
quartos.
— Não é necessário. Minha esposa morou aqui antes e ficou eufórica
quando soube que a casa estava à venda. É um presente... — decido melhorar
as coisas — de casamento.
A corretora emite um som de surpresa.
— Entendo.
— Irei fazer uma surpresa para alguém que mudou a minha vida
drasticamente para melhor. Então, não precisa me mostrar a casa, eu já a
conheço.
— Se precisar de algo mais ou intentar comprar outra propriedade,
basta me ligar. — Ela entrega seu cartão e eu o guardo no bolso.
Espero que ela saia para ir até o lixo da cozinha e soltá-lo lá.
Não acredito que ela tenha entregado o cartão em cunho profissional.
Volto para a sala e me sento na poltrona, observando por tempo demais
a sua cor e me perguntando por quantos anos ela está ali, assistindo o passar
de tempo dos moradores na casa. Contemplo o sofá no qual Betsy sentou
quando me ofereceu café e uma parte muito louca em mim acredita que Al
Capone irá aparecer e se enroscar em minha canela a qualquer momento.
Nunca imaginei que móveis ou um lugar pudesse guardar memórias tão
profundas de alguém, mas eles guardam, porque assim que olho para a janela,
é como se eu visse a cascata dourada serpenteando por suas costas, e as unhas
vermelhas de Betsy apoiadas no vidro, enquanto ela admira a vista da rua.
Também consigo enxergá-la se movimentando pelo pequeno lugar, desviando
das coisas com perícia, enquanto carrega uma xícara de café.
Passo a mão na nuca, desolado e apoio meus cotovelos nas coxas.
Já está anoitecendo e consigo enxergar algumas estrelas de onde estou.
Desisto de me martirizar por muito tempo e subo até um dos quartos.
Não demoro até descobrir qual era o seu. Há alguns resquícios de glitter cor
de rosa na parede e um poster do seu ídolo rasgado. Acredito que ela estava
com tanta pressa de desaparecer que não tomou cuidado para tirá-lo da
parede.
A cama permanece. Uma cômoda branca e antiga também. Mas, esses
são os únicos móveis no quarto. Não há nenhuma decoração, ou nada além do
pôster e do glitter que remetem a ela.
Desabo na cama.
Passo a madrugada inteira acordado, relembrando os momentos que
tive com ela. E foram muitos. Tantos que eu não consigo recordar todos
quando o sol finalmente surge em meio à escuridão.
Levanto ao olhar para o relógio e ver que está quase no horário da
minha primeira reunião.
Abandono a pequena casa em estilo vitoriano, trancando a porta para
em seguida parar em frente a ela e admirá-la por alguns segundos. Suspiro
profundamente antes de entrar em meu carro e ir até a minha casa, com o
intuito de tomar banho e ir direto para a empresa.
Hoje será um dia de merda.
Tenho certeza que sim.
Vida nova, sensações novas, pessoas novas e mesmo amor
machucando.

Dois meses depois.

Penso que mudanças são necessárias para nossa saúde mental. Admitir
que temos um problema também é parte da evolução, é ainda mais humano
do que não ter nenhum. Quem não tem problema, por menor que ele seja?
Então, fazer tudo o que eu planejei está sendo uma época de sonhos que se
realizam. Tenho cinco camisas de manga longa, três vestidos, duas saias, um
short, três calças jeans, quatro regatas e duas blusas de frio. Além claro de
três sapatos, um para o calor, um para o frio e um tênis. Peças íntimas são o
único ponto que eu não contei, até porque sempre é bom ter algumas
reservas. O chinelo conta? É um chinelo que eu amo muito, então dele não
poderia me desfazer, claro que não. Diminuí as coisas e passei a valorizá-las
mais. Não tenho o dilema “com o que sairei hoje?” porque eu encontro tudo o
que preciso em questão de segundos. Estou fazendo terapia, como uma
mulher adulta, logicamente. E também me desliguei de todas as saídas com
homens, que eu usava para amortecer meu coração. Essa enrolação toda já
não me interessa mais.
De relações vazias meu coração está saturado.
Exorcizei todas as minhas tendências destrutivas e foquei no que eu
realmente preciso para me sentir bem. Dentre uma dessas coisas está o blog
que vai de vento em polpa, obrigada.
Também consegui me aproximar mais das minhas seguidoras,
conforme posto as fotos e relatos da minha viagem pelo país, carregando
minha microcasa, enquanto dirijo a caminhonete gigantesca como se sempre
tivesse feito isso na vida. Já passei por mais lugares do que posso contar,
aproveitando dias em cada um deles e descobrindo tantas histórias que me
senti acolhida por várias delas.
Sonho todas as noites.
Certo, vou admitir, sonho com Lane todas as noites.
E esses momentos sempre variam entre beijos quentes, lembranças e
um futuro que jamais existirá.
A única coisa da qual não me orgulho é de ter desistido de ser
voluntária da Anjos sem asas, ciente de que se eu continuasse por perto, Lane
me encontraria rapidamente e eu desistiria de me manter distante para me
auto reinventar. O amor tem disso. A gente sofre, mas parece que as coisas
são esquecidas quando a pessoa aparece na nossa frente, uma merda.
Dirijo pela autoestrada, rumo a nenhum lugar em especial. O primeiro
que me despertar o interesse será minha parada de uma noite. A liberdade de
poder viajar sem destino certo é impagável.
Troquei de número.
Troquei de estilo.
Troquei de vida.
A transformação nunca foi tão catártica.
Mas, por que ainda sinto que estou sem ar todas as vezes em que Lane
toma meus pensamentos?
Quando finalmente encontro o lugar escolhido, tomo o cuidado de
estacionar minha casa da maneira correta. Assim que puxo o freio de mão e
desço, espreguiço-me, sentindo meus músculos protestarem por eu ter
passado muito tempo sentada.
Vou até a porta de entrada e quando a abro, visualizo a pequena sala
com um sofá creme de dois lugares. A mesa lateral dobrável que se torna
também uma mesa para jantar enquanto estou no sofá, assim como um
pequeno loft, onde se encontra o quarto e embaixo dele a cozinha com um
pequeno corredor para o banheiro.
Um sorriso consome meu rosto e a felicidade se espalha por mim.
Movo-me pelo meu lugar e subo até o quarto, para descansar ou apenas
não fazer nada.
Decido pegar o notebook para ver as notícias e assistir alguma coisa.
Sento-me em minha cama com ele no colo e a vontade de pesquisar
sobre Lane é incontrolável, lançando-me direto ao inferno. Acabo digitando o
nome e uma enxurrada de notícias domina a tela, inclusive sobre aquisições
de empresas. Não entendo muito do anúncio então apenas vejo as suas fotos e
caramba, ele parece acabado, uma sombra do homem que conheci. Seu rosto
está magro demais, e consigo enxergar as linhas que dividem a sua bochecha,
evidenciando o maxilar quadrado. Meu coração engole algumas batidas,
devorando minha alegria. Olho para o horário e noto que está quase no
momento da minha sessão online com a terapeuta. Não me sinto bem para tal
compromisso. A falta de ar começa aos poucos e de repente, estou ofegante,
sem deixar de fitar as fotos do homem com o qual aprendi a conviver.
Aposto que ele voltou para a sua tendência masoquista de trabalhar
mais do que é saudável.
Não preciso ser onipresente para ter essa certeza, sua aparência
cadavérica é o bastante para deixar em evidência seu descuido. Eu tento
afirmar para mim mesma que já não sinto mais nada por ele, mas é uma
mentira, estúpida. Porque apenas em o ver através da tela, sinto tudo me fazer
girar, como se eu estivesse em meio a um furacão. Ansiando por correr de
volta até ele, com a noção de que é o que mais quero.
Respiro profundamente e fecho meus olhos por alguns segundos,
depositando o notebook ao meu lado na cama.
Admiro o quarto minúsculo, que não me dá muito espaço para andar ou
ficar em pé.
Não mentirei dizendo que a mudança não foi drástica e que não chorei
por várias noites seguidas, sem entender o que tinha feito da vida.
Porque eu fiz muito isso, sozinha para piorar. Chorei no silêncio,
abraçando as minhas dúvidas, sem qualquer resposta.
Agora, já não o faço mais. Acostumei-me.
Meus devaneios viajam ao redor de mim e são quebrados somente
quando escuto alguém batendo na porta de casa. Ou melhor, na do trailer
como as pessoas teimam em chamar. Sei que a casa foi construída neste
veículo, mas definitivamente não é mais um e sim um lar, com todas as
comodidades das quais preciso.
— Pois não? — Abro a porta, perguntando de imediato.
— Oi — um homem que me lembra muito Hayden, com olhos
castanhos escuros e um porte totalmente atlético, demonstra-se envergonhado
por bater em minha porta — eu parei meu trailer ali do outro lado — ele diz
trailer e eu faço uma careta rapidamente, porque como eu disse, todos
chamam minha casa assim — e queria saber se topa fazer parte de um
churrasco, só nós dois. Estou viajando sozinho por um tempo e seria
excelente ter companhia.
Meu olhar acompanha o seu e vejo uma espécie de tenda cobrindo a
churrasqueira portátil. Pelo visto, ele já está fazendo o churrasco e deve ter
achado que seria bacana não se tornar um vizinho provisório tão chato.
Decido que ele merece o benefício da dúvida.
— Claro, por que não? — pergunto retoricamente.
— Excelente — ele fica sem jeito.
Aposto que não pensou que minha resposta seria positiva.
Ele se afasta da entrada de casa e quando eu saio, só encosto a porta,
sem trancá-la, ficarei bem próxima, sem problema. Acompanho o homem até
chegar à tenda e ele indicar um dos bancos para mim. Sento e olho para tudo,
anotando mentalmente o que ele acrescentou, para que eu possa futuramente
fazer melhoramentos em casa.
— Parou por aqui para ver algum ponto turístico? — pergunto.
Nem sei qual é a cidade em que estamos, mas tenho a clara noção de
que não estou tão longe de casa quanto gostaria.
— Na verdade, parei porque estava cansado de dirigir.
— Eu também me canso as vezes, estacionei aqui pelo mesmo motivo
que você. Mas, acho que estou aos poucos voltando para casa — admito.
Não falei isso nem para mim mesma, mas involuntariamente dirijo de
volta para Miami, porque a cidade sempre me faz voltar até lá. Ou alguém,
não quero pensar nisso.
— Onde mora?
— Originalmente em Miami. Acredito que assim como você, meu
conceito de casa se tornou onde paro a caminhonete, então — dou de ombros
— a questão é mais sentimental do que física, já que morei na Filadélfia até
pouco mais de vinte anos, mas foi em Miami que me encontrei de verdade.
— A atmosfera das duas cidades não poderia ser mais diferente.
Sorrio para valer. É fácil conversar com o estranho.
— Pois é! Amo o clima gostoso da cidade badalada, a brisa do mar, as
festas, e acho que tudo — resumo — sempre tem algo para fazer e é
interessante ver as pessoas confraternizando, além de que minha irmã mora lá
com o noivo.
— Pode ficar em qualquer lugar com a sua casa móvel.
Nós dois olhamos automaticamente para meu lar.
Cada detalhe nele foi pensado com muito carinho por mim e a
decoração intimista, repleta de rosa e fotos minhas com Madison e até Craig,
deixam claro o quanto prezo a família. Há também as fotos com papai e
mamãe, claro, além de uma com Lane que tiramos no seu dia de folga e que
parece ter acontecido há muito tempo. Acredito que ela é a única lembrança
da qual não tive coragem de me desfazer. Nela, ele é apenas um homem se
divertindo com a sua garota, tomando drinques e sorrindo como se não
houvesse qualquer preocupação em seu dia. Amo essa foto com todas as
minhas forças, porque foi uma selfie minha que acabou gravando-o em um
momento de relaxamento. Justamente por ser tão natural, eu a amo tanto.
— É libertador — sussurro. — Decidi embarcar nessa aventura quando
a minha vida se tornou tumultuada demais para meu próprio bem — falo sem
que ele tenha perguntado nada.
São momentos estranhos, nos quais eu preciso falar com alguém de
verdade sobre a minha vida e não apenas por vídeo chamadas com Madison
ou minha terapeuta.
— Vou embarcar para a África mês que vem, para participar de um
programa de médicos voluntários. Quis aproveitar antes, então vendi minha
casa e investi nessa aqui — ele indica à sua frente — que posso guardar no
quintal da minha mãe até que eu volte. Vou usar parte do dinheiro para ajudar
no que eu puder e fazer o que amo para realmente dar suporte às pessoas.
Não me formei em medicina buscando status como muita gente que conheço,
na realidade, eu só queria poder salvar tantas vidas quanto possível e eu senti
que meu lugar é lá, aceitando a minha vocação.
— Isso é altruísta — profiro.
— É o que amo fazer. E acampar também, então estou indo para os
Everglades para poder aproveitar um pouco a natureza.
Sua fala me faz lembrar automaticamente de Lane e da minha vontade
por acampar. É uma excelente ideia, de verdade. Desde que saí de Miami
tenho pensado em fazer isso e a época é mais do que propícia. Comprarei
uma barraca e tudo o mais o que preciso e posso ficar uns dois dias em meio
à natureza.
— Acredita que eu estava querendo acampar também? Você me deu
uma ótima ideia. Ou melhor, a reacendeu.
O homem sorri e percebo que nem ao menos perguntei o seu nome, o
que é um tanto rude de minha parte.
— Que bom. Podemos ir juntos se quiser. Nada como um bom retiro
espiritual em dupla — dá a entender que é outra coisa que ele está pensando e
a Betsy de algumas semanas atrás, teria adorado esse convite, no entanto, a
de hoje, já acha que não precisa de companhia para aproveitar seu tempo,
apenas se realmente quiser.
E eu não quero tanto assim.
Prefiro respirar sozinha e lamber minhas feridas.
— Não, obrigada — recuso educadamente — e qual é o seu nome?
Acho que nem perguntei, o que é meio rude da minha parte.
— Também não perguntei o seu, estamos quites. E respondendo à sua
pergunta, eu me chamo Lane.
Quase caio do banco em que estou sentada. Meus olhos se arregalam e
eu abro a boca em choque. Só pode ser Deus de brincadeira comigo! Qual a
possibilidade de eu encontrar outro Lane nestas circunstâncias? Ínfimas!
Antes de realmente conhecer Kingston eu jamais tinha ouvido o nome
em minha vida, exceto quando Madison comentava rapidamente sobre. E só
ele, mais ninguém! Lane não é um nome tão comum assim, e eu até acho
forte, poderoso, contudo, não o tinha ouvido antes.
— Por que esse espanto? O que tem de errado com o meu nome?
— Nada — minto, ou falo a verdade, já que não há nada de errado no
nome — é só que... conheci alguém que se chama assim também e eu nunca
tinha visto ninguém além dele com esse nome. Parece um sinal do inferno,
para ser sincera — resmungo a última parte e nem era para o Lane dois ter
escutado.
— Término ruim?
— Um pouco — minimizo o estrago.
— Acontece nas melhores famílias.
Voltamos a conversar casualmente e já é noite quando terminamos de
comer.
Digo adeus ao homem e cada um entra em sua respectiva casa.
Ouço o som de motor logo cedo e olho pela pequena janela ao lado da
minha cama, afastando a cortina, enxergando-o acessar a auto estrada, rumo
aos Everglades.
Eu ainda ficarei mais uns dias rodando com minha casa antes de ir para
o parque acampar e depois quem sabe, voltar a enfrentar alguém para
oficializar o divórcio.
Posterguei demais.
Preciso finalmente dar o adeus, e deixar a mágoa ir.
Algum dia começarei a cobrar por fazer tantos bolos!

Vovó me coloca para bater bolo, o que não choca ninguém. Sua
batedeira com sistema planetário ou sei lá que merda é aquela, descansa
majestosa sobre a bancada, como se fosse apenas de enfeite. Para a senhora,
meu braço parece muito mais eficaz do que o eletrodoméstico.
— Você merece uma surra por ter terminado com a Betsy! — ralha ela.
— Sabe que não foi de verdade desde o começo, não sei por que essa
irritação toda.
Paro de bater por um tempo o bolo e meus pensamentos viajam até
Betsy, tentando imaginar o que ela está fazendo. Chocando alguém com seu
sorriso de parar as batidas do coração? Pensando demais e se esquecendo de
responder as perguntas dos outros, como ela costumava fazer comigo?
Jogando seus cabelos de um lado a outro, casualmente, sem perceber a névoa
de sedução que exala com o gesto? Irradiando luz com seus olhos do Caribe?
Espalhando amor por onde passa, com o seu jeito espontâneo? Sendo... ela
com outra pessoa? Ou apenas planejando quando decidirá aparecer para
terminar de cravar a faca e pedir para oficializarmos o divórcio?
Seu silêncio é pior do que qualquer coisa que já experimentei.
Apoio a tigela na bancada e tento respirar.
Esse simples gesto me machuca de forma inimaginável.
Como pode doer tanto? É como se uma broca estivesse perfurando meu
peito para tirar algum sentimento, bem lá no fundo.
Estou sendo mais massacrado do que o solo quando o perfuramos para
explorar petróleo.
O buraco profundo que fica após a retirada da broca é assustador.
— Como não enxerga, seu moleque burro?! — retruca vovó,
depositando um golpe mortal de bengala que massacra meus dedos do pé. E
estou de sapato! Tenho medo de imaginar o que aconteceria com os coitados
se eu estivesse de chinelo. — Volte logo a bater esse bolo senão ele vai
empelotar e ninguém é obrigado a comer bolo ruim! — ralha.
Penso que se ela queria a massa perfeita, deveria ter feito na turbina de
avião que chama de batedeira, no entanto, opto por manter essa opinião para
mim. Não é bom flertar com o perigo.
— Enxergo o que? — pergunto, com meus músculos braçais
protestando devido à atividade contínua.
Uma coisa é certa, não preciso trei