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HELOÍSA MARIA DOS SANTOS TOLEDO

PAULO NICCOLI RAMIREZ


RENAN REIS FONSECA
SUSANA MESQUITA BARBOSA

ÉTICA E CIDADANIA
ÉTICA E CIDADANIA
Heloísa Maria dos Santos Toledo
Paulo Niccoli Ramirez
Renan Reis Fonseca
Susana Mesquita Barbosa

2022
CASA NOSSA SENHORA DA PAZ – AÇÃO SOCIAL FRANCISCANA, PROVÍNCIA
FRANCISCANA DA IMACULADA CONCEIÇÃO DO BRASIL –
ORDEM DOS FRADES MENORES

PRESIDENTE
Frei Thiago Alexandre Hayakawa, OFM
DIRETOR GERAL
Jorge Apóstolos Siarcos
REITOR
Frei Gilberto Gonçalves Garcia, OFM
VICE-REITOR
Frei Thiago Alexandre Hayakawa, OFM
PRÓ-REITOR DE ADMINISTRAÇÃO E PLANEJAMENTO
Adriel de Moura Cabral
PRÓ-REITOR DE ENSINO, PESQUISA E EXTENSÃO
Dilnei Giseli Lorenzi
COORDENADOR DO NÚCLEO DE EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA - NEAD
Renato Adriano Pezenti
GESTOR DO CENTRO DE SOLUÇÕES EDUCACIONAIS - CSE
Franklin Portela Correia
REVISÃO TÉCNICA
Osmair Severino Botelho
PROJETO GRÁFICO
Impulsa Comunicação
DIAGRAMADORES
Daniel Landucci
CAPA
Daniel Landucci

© 2022 Universidade São Francisco


Avenida São Francisco de Assis, 218
CEP 12916-900 – Bragança Paulista/SP
O AUTOR
HELOÍSA MARIA DOS SANTOS TOLEDO
Doutora em Sociologia pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho
(2010) e Especialista em Educação pela PUC-RS. Tem experiência nas áreas de So-
ciologia e Ciências Sociais e Humanas, atuando principalmente nos seguintes temas:
educação, tecnologia e mediação tecnológica, Sociologia Geral e pensamento clássico,
Arte, Cultura e Indústria Cultural. Professora no Ensino Superior e autora de materiais
didáticos. Professora orientadora no curso de pós-graduação Especialização na Inova-
ção da Educação Mediada por Tecnologias, na Universidade Federal do ABC, financia-
do pela UAB/Capes.

PAULO NICCOLI RAMIREZ


Professor de Filosofia, Sociologia, Antropologia e Ciência Política. Leciona na ESPM,
Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), Casa do Saber e
Colégio São Luís. Possui doutorado (2014) e mestrado (2007) em Ciências Sociais pela
PUC-SP (respectivamente nas áreas de concentração Antropologia e Sociologia) e tam-
bém bacharelado em Ciências Sociais (PUC-SP - 2004) e Filosofia (USP - 2007). Autor
do livro Sérgio Buarque de Holanda e a dialética da cordialidade (2011).

RENAN REIS FONSECA


Graduado em História (2006 - 2010) nas modalidades bacharelado e licenciatura pela
Universidade Federal de São João del-Rei - UFSJ. Mestre (2010 - 2013) pela mesma
instituição de ensino no Programa de Mestrado em Letras, Teoria Literária e Crítica da
Cultura - PROMEL. Doutor (2014 - 2019) em História Social pela Universidade de São
Paulo - USP. É autor dos livros: O transnacional e o local nas revistas Readers Digest
e Seleções: relações de gênero nos Estados Unidos e Brasil (1939 - 1971) e Amor e
Gênero em Revista: os quadrinhos em sua (sub)versão romântica, ambos publicados
em 2020 pela Editora ApeKu. Possui experiência na área de conservação, organização,
descrição e indexação em banco de dados de documentos históricos. Possui, também,
experiência na área docente, como professor de História, Funcionamento do Estado e
Criação Literária para o Ensino Médio e superior. Atualmente desenvolve pesquisa nos
seguintes temas: Histórias em quadrinhos, Estudos culturais, História da Imprensa e do mer-
cado editorial, História Cultural, Relações Brasil – Estados Unidos, Imigração.

SUSANA MESQUITA BARBOSA


Bacharel e licenciada em Filosofia (UNICAMP). Bacharel em Direito pela Pontifícia Universi-
dade Católica de São Paulo (PUC-SP). Mestre em Educação pela Universidade Estadual de
Campinas (UNICAMP). Doutora em Direito Político e Econômico (MACKENZIE). Especialista
em “Educação e Tecnologia: Docência no Ensino Superior” na UFSCAR.
Coordenadora dos Cursos de História e Filosofia da Universidade São Francisco (USF). Pro-
fessora e Assessora pedagógica na Faculdade Paulista de Ciências da Saúde (SPDM Edu-
cação). Membro da Associação Brasileira de Educação a Distância (ABED) e Parecerista de
diferentes periódicos. Autora do livro “História do Direito” e de “Introdução à História do Direi-
to”, organizadora das obras “Direitos Humanos: perspectivas e reflexões para o Século XXI”
e “Transparência Eleitoral”. Autora de capítulos de livros e artigos resultados das pesquisas
nas áreas de Ética, Filosofia, Direitos Humano, Cidadania e Políticas Públicas e Políticas de
Desenvolvimento.

O REVISOR TÉCNICO

OSMAIR SEVERINO BOTELHO


Possui graduação em Filosofia pelo Centro de Estudo da Arquidiocese de Ribeirão Preto
(1987), graduação em História - Centro Universitário Barão de Mauá (1991), graduação em
Filosofia pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná , Faculdade de Filosofia Ciências
e Letras, Campus de Toledo, Paraná (1994), especialização em Filosofia pela Universidade
Federal de Uberlândia (1996) e mestrado em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica de
São Paulo (2005). Trabalhou em diversas instituições de ensino de Ribeirão Preto e região, tais
como: Colégio Vita et Pax, Centro Universitário UNISEBCOC, Centro Universitário Claretiano.
Atualmente é professor no no Instituto de Filosofia Dom Felício, em Brodósqui - SP, e no Centro
Universitário Barão de Mauá, na cidade de Ribeirão Preto. Tem experiência na área de História,
Filosofia e Educação, atuando principalmente nos seguintes temas: Filosofia Grega, Filosofia
Moderna e Contemporânea, Ética, Filosofia Política, Teoria do Conhecimento, Filosofia da Reli-
gião, Filosofia da Educação, História Geral e da Educação e Metodologia da Pesquisa.
SUMÁRIO
UNIDADE 01: ÉTICA – SUA ESSÊNCIA E O COTIDIANO....................................8

1. Ética moral........................................................................................................... 14

2. Aprendendo a decidir com ética........................................................................... 22

3. Sendo ético no dia a dia....................................................................................... 31

UNIDADE 02: ATUAÇÃO PROFISSIONAL ÉTICA NA SOCIEDADE


CONTEMPORÂNEA..................................................................................................42

1. O que significa ser profissional............................................................................ 43

2. A necessidade de regras morais.......................................................................... 53

3. Sociedade tecnológica e digital............................................................................ 63

UNIDADE 03: VIVÊNCIA PROFISSIONAL E CONSTRUÇÃO DA


CIDADANIA................................................................................................................72

1. Cidadania ontem e hoje....................................................................................... 73

2. O espaço da cidadania ........................................................................................ 80

3. É preciso cuidar!................................................................................................... 88

UNIDADE 04: O DIVERSO E O DESIGUAL – QUESTÕES


CONTEMPORÂNEAS E O ÂMBITO DO TRABALHO............................................98

1. Ser diferente é ser desigual?............................................................................... 98

2. A profissão não tem gênero ................................................................................. 107

3. Enfim, uma sociedade possível............................................................................ 116

4. Rememorando as temáticas estudadas ao longo das unidades.......................... 124

5. Reflexões éticas, práticas de cidadania: construções do futuro.......................... 126


Ética – sua essência e o cotidiano

UNIDADE 1

ÉTICA – SUA ESSÊNCIA E O COTIDIANO


1

INTRODUÇÃO
Caro(a) estudante, paz e bem!

Ética e Cidadania é um dos componentes que constituem o Núcleo de Formação Ge-


ral – juntamente com Estudo do Ser Humano Contemporâneo, Iniciação à Pesquisa
Científica, Direitos Humanos e Empreendedorismo Social. Estes componentes serão
trabalhados de forma interdisciplinar: os conteúdos de cada um servirão para construir
um entendimento de mundo e uma maneira de problematizar a realidade. Eles, conjun-
tamente, oferecerão novas chaves para que você possa reinterpretar a realidade.

Os elementos que apresentamos nesta introdução são importantes para que você bem
entenda de que modo os componentes curriculares do Núcleo de Formação Geral estão
estruturados a fim de oferecer uma experiência significativa de aprendizagem, contri-
buindo, assim, para sua formação profissional.

Vamos lá!

CONECTAR
Ética e Cidadania e a interdisciplinaridade
Ao pensarmos os conteúdos e problematizações deste componente, é importante en-
tender que ele não pode ser restrito a apenas um âmbito de vivência humana, pois
tudo o que o ser humano faz tem reflexo (direto ou não) na vivência plural. Enquanto
a ética busca pensar a ação do indivíduo, pautada por valores, a cidadania amplia a
visão de mundo e tenta enxergar de que modo o individual se transforma em coletivo: a
cidadania se refere à maneira como uma comunidade possibilita a participação de seus
membros na construção de uma vivência coletiva que permita a realização humana.

Deste modo, as temáticas relacionadas às vivências ética e cidadã são, em si mesmas


interdisciplinares – principalmente quando pensamos a formação profissional. Pense no
âmbito da sua escolha profissional e nos outros componentes do Núcleo de Formação
Geral. Vejamos:

8
`  Em todas as suas escolhas – acadêmicas ou profissionais – você traz valores aprendidos
ao longo de sua vida. Onde tais valores encontram fundamento? Você traz como princí-
pios de vida algo que sua vivência familiar e social ensinou. Pode ser por meio dos livros 1
aos quais teve acesso; pode ser por meio de uma vivência religiosa; ou, simplesmente,

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por meio da convivência nos diferentes ambientes. Estes âmbitos – ou dimensões huma-
nas – são problematizados em Estudo do Ser Humano Contemporâneo.

`  Você pretende fazer uma pesquisa? Sabe quais caminhos seguir e de que modo pode
evitar problemas com seu conteúdo? Uma pesquisa alcançará mais sucesso, quanto mais
responder aos anseios da sociedade. E é importante entender que, para algumas pesqui-
sas, é necessário submeter o projeto ao Comitê de Ética da instituição. Ainda mais: um
trabalho autoral, sabendo como se utilizar de fontes de pesquisa, evita graves problemas,
como o plágio. Estas questões são tratadas em Iniciação à Pesquisa Científica.

`  Na vida profissional, possivelmente, você vai lidar com pessoas – mesmo que seja indire-
tamente. Uma reflexão sobre o espaço de vivência para todos na sociedade e no ambien-
te de trabalho é questão de oportunidades e não de capacidades. Não falamos mais de
‘gosto’, ou ‘preferência’; a igualdade e a não discriminação são pilares de uma concepção
de cidadania. Temas como estes são problematizados em Direitos Humanos.

`  Como profissional, é claro que você objetivará alcançar satisfação e sucesso. Mas, será
que todo caminho é válido? Cada pessoa deve tentar por si mesma um caminho? Vale
pensar “sucesso a qualquer preço”? Ser profissional é entender que há uma necessidade
social que precisa ser respondida – lembre-se de que você escolheu uma profissão que
existe por ser importante neste contexto no qual você vive. Estes temas com viés ético
estão presentes no componente Empreendedorismo Social.

Enfim, no Núcleo de Formação Geral, o componente Ética e Cidadania partilha de gran-


des temas que perpassam os demais componentes. As competências objetivadas pelo
Núcleo buscam auxiliar em sua formação de modo amplo, para ser um bom profissional,
com conteúdos que vão além do âmbito técnico da área específica do seu curso.

DESENVOLVER

O DESENVOLVIMENTO DE COMPETÊNCIAS
A USF adota, como diretriz pedagógica, a educação por competências. Mas, você
sabe o que é a competência, ou quando alguém pode se entender competente?

SAIBA MAIS
A competência trata da maneira como lidamos com as situações que nos aparecem na vida
cotidiana. Neste sentido, é competente aquela pessoa que consegue dar conta das exigên-
cias que as diferentes situações impõem.

Mas, é possível aprender sobre todas as situações que a vida – profissional ou não – vai nos
apresentar? Claro que não; não há um curso sequer que possa dar conta disso.

Ética e Cidadania 9
Ética – sua essência e o cotidiano

Quando se fala em desenvolver competências, mais do que uma prática, o que se objetiva
é ensinar um modo de compreender as situações. A pergunta que deve ser feita não é “Eu
aprendi a fazer isso?”, mas sim “Que tipo de raciocínio eu aprendi, a partir deste caso, e que
1 vai me possibilitar resolver outros (mesmo que não sejam iguais)?”

Figura 01. O desenvolvimento de competências

Fonte: Elaborado pelo autor / Imagens: Pixabay.

Desenvolver competências é desenvolver a habilidade de resgatar esquemas mentais que


possam ser encaixados em diferentes situações. O célebre autor que tratou da temática das
competências é Philippe Perrenoud (1944-).

Para conhecer mais, assista ao vídeo Pensadores na Educação: Perrenoud e o desenvolvi-


mento de competências:https://www.youtube.com/watch?v=lYvoCDRCfOw

Conheça as competências que devem ser desenvolvidas por meio dos estudos que o
componente Ética e Cidadania incitará:

01. Definir o que são ética e moral, estabelecendo diálogo crítico com teorias e autores.

02. Examinar os fundamentos da ação profissional ética, identificando o conceito de ‘boa


ação’ como necessidade para a vida humana em sociedade.

03. Interpretar a realidade a partir dos impasses éticos e de cidadania, compreendendo a


construção social dos valores e a histórica luta por direitos sociais.

04. Avaliar a postura individual, considerando-se a prática ética e cidadã, reconhecendo a


importância da postura de influência positiva na prática cotidiana.

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IMPORTANTE
Releia as competências apresentadas acima. Não se trata de um ideal construído de forma ale-
atória, mas de uma proposta de formação que indica aquilo em que a USF acredita, formando 1
você como profissional. São competências possíveis, mas que apenas podem ser desenvolvi-
das se você se aplicar aos estudos e atividades propostos.

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PRATICAR

a. DIFERENTES OBJETOS DE APRENDIZAGEM PARA DIFERENTES


FORMAS DE APRENDER
O desenvolvimento de competências pode se dar de diferentes modos, de acordo com
o objetivo que se tem. Cada componente curricular, em cada unidade, tem objetivos es-
pecíficos pensados a partir das competências estabelecidas para o profissional que está
sendo formado – você! –, não importando a área de conhecimento. Mas, antes dos ob-
jetivos de cada componente, temos de pensar as competências necessárias para bem
cursar um componente oferecido a distância.

SAIBA MAIS
E você, sabe como você aprende?

Possivelmente, você já ouviu dizer que uma pessoa aprende mais ouvindo, enquanto outra o
faz escrevendo, e ainda outra, lendo e anotando.

Leia ao artigo:

Os quatro estilos de aprendizagem − ou por que alguns leem os manuais e outros não

https://brasil.elpais.com/brasil/2016/10/10/ciencia/1476119828_530014.html

b. O CONHECIMENTO – TEORIA E PRÁTICA


A competência pode ser entendida como um conjunto de elementos que, no todo, tra-
tam de um saber prático; trata-se de três elementos: conhecimento, habilidade e ati-
tude. Dificilmente conseguimos dizer que um profissional é competente sem ter estes
elementos como base sólida. A partir deste entendimento é que este componente cur-
ricular é entendido e proposto com significativa importância para sua formação pro-
fissional. A USF entende que ser profissional deve ser mais que, simplesmente, um
reprodutor da técnica.

Ética e Cidadania 11
Ética – sua essência e o cotidiano

IMPORTANTE
Avalie suas competências, verificando:
1 `  Conhecimento – você tem os conhecimentos necessários, que possibilitarão uma vivência
profissional humana e responsável consigo, com o outro e com a sociedade?

`  Habilidade – você sabe se utilizar dos conhecimentos para realizar uma prática que seja
eficiente, fazendo bem feito aquilo que se espera de um(a) bom(a) profissional?

`  Atitude – a partir do conteúdo assimilado e da boa prática desenvolvida, você se motiva


a agir de modo eficaz, buscando a melhor em cada situação?

Ao longo das unidades, as temáticas apresentadas têm sempre o objetivo de possibili-


tar uma prática profissional, carregada de sentido e que possa responder aos anseios
da sociedade, sem deixar de lado a realização pessoal. Neste sentido, pense sobre as
competências deste componente – indicadas acima –, e procure verificar se você já as
tem desenvolvidas. Inicie o curso deste componente, já tendo em mente suas compe-
tências e entendendo que elas devem ser metas a se alcançar. Ao terminar os estudos
de Ética e Cidadania, você terá oportunidade de se avaliar, verificando quanto aprendeu
e desenvolveu, e o que ainda restará como necessidade.

c. OBJETIVOS DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL NO BRASIL


No ano de 2015, pensando a necessidade de ações que pudessem melhorar a vida
no planeta como um todo, líderes mundiais se reuniram na ONU e estabeleceram a
chamada Agenda 2030 – trata-se de um plano para erradicar a pobreza e promover o
desenvolvimento da vida humana e do planeta.

SAIBA MAIS

Conheça mais sobre a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável,


pesquisando em:

https://www.br.undp.org/content/dam/brazil/docs/agenda2030/undp-br-Agenda2030-comple-
to-pt-br-2016.pdf

Da Agenda 2030, foram pensados os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, a partir


dos quais são delineadas áreas mais específicas para atuação das nações. São 17 ODS:

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1

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Fonte: https://brasil.un.org/pt-br/sdgs

Veja que os ODS abarcam diferentes áreas e problemas que a humanidade enfrenta como
um todo. E, considerando-se que a USF objetiva oferecer uma formação integral, entende-
mos a importância de que a formação seja ampla e geral, ligada aos problemas e situações
diversas que você, como profissional, vai enfrentar. Neste sentido, os ODS devem ser trazi-
dos nas problematizações dos componentes curriculares.

SAIBA MAIS
Conheça mais sobre os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável no Brasil,
pesquisando em: https://brasil.un.org/pt-br/sdgs

Aproveite as oportunidades que forem ofertadas para o desenvolvimento deste compo-


nente: textos, fóruns, vídeos etc. Tudo é desenvolvido para seu melhor aproveitamento
e sucesso na formação profissional!

Ética e Cidadania 13
Ética – sua essência e o cotidiano

PRIMEIROS CONCEITOS
Nesta unidade, a primeira problematização a ser feita se refere ao que é, propriamente,
1 a ética – o que, por sua vez, nos leva a pensar sua relação com a moral. Ambos os con-
ceitos se relacionam à vida prática dos indivíduos, entendendo que a vida em sociedade
seja a tentativa de organizar a realidade de modo tal que permita a realização de todos.

Quase a totalidade das ações que podemos tomar tem reflexos na vida coletiva – por
isso, há uma clara necessidade de se refletir sobre as motivações e as possíveis conse-
quências das ações. Não é simples; porém, a ética, enquanto reflexão que vem sendo
desenvolvida desde séculos, apresenta ideias que podem ser aplicadas para se pen-
sar a prática. Significa que diversos pensadores contribuíram para a reflexão ética e
deixaram suas contribuições.

Investigaremos diferentes posturas éticas elaboradas por filósofos ao longo da histó-


ria da cultura ocidental, entre eles, Aristóteles (384-322 a.C.) e os chamados estoicos
(séculos III a I a.C.). Além disso, outras concepções modernas também serão inves-
tigadas, tais como o pensamento de Kant (1724-1804) e o seu dever ético; Bentham
(1748-1832) e o utilitarismo, que se refere à ética consequencialista; contratualismo,
hedonismo, relativismo e, no período contemporâneo, as possibilidades do diálogo e do
consenso ético de Habermas (1929 -).

Quando estudamos ética, precisamos considerar que existem múltiplas formas de


compreender nossas escolhas, decisões e os caminhos a serem tomados. Faz­-se
necessário, também, levarmos em conta que as ações podem ser múltiplas e não é
possível saber como os demais indivíduos irão reagir, segundo seus valores e pre-
ferências. A ética é uma ciência que estuda os valores morais e os comportamentos
humanos. Porém, ao contrário das ciências exatas, trabalha com a multiplicidade de
escolhas e caminhos a serem seguidos, suas consequências e modos distintos de per-
ceber a realidade e a vida com os demais indivíduos. Longe de procurar um resultado
e respostas únicas e universais, a ética está preocupada em desenvolver formas de
vida que produzam o bem-estar e o bem comum.

Ainda estudaremos a relação da ética com liberdade, escolhas, decisões e responsa-


bilidade. A respeito desses elementos, investigaremos o pensamento existencialista de
Sartre (1905-1980), pensador francês que refletiu sobre a relação entre ética, ações
individuais e seus reflexos sobre a coletividade. A filósofa alemã Hannah Arendt (1906-
1975) trouxe também importantes contribuições a respeito do assunto, sobretudo nas
ruas reflexões sobre a relação entre regras sociais e os valores dos indivíduos.

1. ÉTICA MORAL

1.1 O QUE É ÉTICA?


A palavra ética, do grego ethos, foi elaborada pela primeira vez por Aristóteles (384–
322 a.C.), pensador que viveu na Grécia Antiga. Ética significa conduta ou modo de agir,
sendo também compreendida como reflexão sobre os fundamentos da conduta ou do

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modo de agir. A ética, portanto, é entendida como uma reflexão ou ciência que estuda o
comportamento dos indivíduos em comunidade.

Segundo Aristóteles (1992, p. 22), a finalidade da ética deve ser o de promover a fe- 1
licidade coletiva, o bem comum ou a excelência humana. Na obra Ética a Nicômaco,
Aristóteles apresenta a concepção dessa expressão empregando os seguintes termos

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[...] parece que a felicidade, mais que qualquer outro bem, é tida como este
bem supremo, pois a escolhemos sempre por si mesma, e nunca por causa
de algo mais; mas as honrarias, o prazer, a inteligência e todas as outras
formas de excelência, embora as escolhamos por si mesmas [...], escolhe-
mo-las por causa da felicidade, pensando que através delas seremos felizes.
Ao contrário, ninguém escolhe a felicidade por causa das várias formas de
excelência, nem, de um modo geral, por qualquer outra coisa além dela mes-
ma (ARISTÓTELES,1992, p. 23).

A ética se relaciona ao uso da racionalidade e do senso-crítico, conduz ao bom senso


ou moderação. Isso significa afirmar que exige a reflexão; ou seja: é preciso medir os
prós e os contras, os elementos positivos e negativos de cada ação antes mesmo que
qualquer decisão seja tomada. Nessa direção, a ética tem como finalidade estabelecer
a melhor atitude ou ação mais equilibrada para o convívio coletivo.

SAIBA MAIS
Leandro Karnal, no vídeo a seguir referenciado, comenta sobre a obra Ética a Nicômaco,
de Aristóteles, veja mais em: KARNAL, Leandro. Ética segundo Aristóteles, 2020. Vídeo (4
min. 09 seg.). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=8fi7yzeogD0. Acesso em:
07 jun. 2022.

A ética busca estabelecer as melhores formas de conduta perante outros indivíduos.


Para isso, é relevante refletir sobre os procedimentos e as virtudes que são fundamen-
tais para a realização do bem coletivo. O exercício da ética exige a busca do que os
gregos denominavam como areté, compreendida como melhor ação – portanto, um
comportamento virtuoso ou atitudes que buscam a excelência humana.

1.2 O QUE É MORAL?


É comum que confundamos as palavras “ética” e “moral”. Contudo, ambas pos-
suem diferenças, por isso, é necessário esclarecermos o que exatamente as distin-
gue. A moral tem origem no latim, moris, e significa costume, tradição ou hábitos.
A sua diferença com a palavra “ética” está no fato de que a moral não exige refle-
xão mais profunda ou senso-crítico, não sendo reflexo de um exame detalhado de
uma conduta ou ação. Isso ocorre porque a moral é constituída por regras, nor-
mas ou costumes que não são analisados ou questionados de forma detalhada, são,
na verdade, transmitidos de geração a geração como se fossem normais, naturais,
de modo que devem ser seguidas e obedecidas.

Ética e Cidadania 15
Ética – sua essência e o cotidiano

No que diz respeito à moral, os sujeitos são introduzidos em um conjunto de costumes


como se eles fossem normais ou como se existissem desde sempre, sem que isso
implique análises e problematizações profundas sobre a existência de padrões de com-
1 portamento, formas de ver o mundo e valores.
O que vem a ser a moral? Um conjunto de valores e de regras de compor-
tamento, um código de conduta que coletividades adotam, quer sejam uma
nação, uma categoria social, uma comunidade religiosa ou uma organiza-
ção. Enquanto a ética diz respeito à disciplina teórica, ao estudo sistemático,
a moral corresponde às representações imaginárias que dizem aos agentes
sociais o que se espera deles, quais comportamentos são bem-vindos e
quais não. (SROUR, 2000, p. 29).

Em linhas gerais, podemos afirmar que a ética é ex- Figura 02. Moral e ética
pressa por condutas que têm alcance universal, ge-

Fonte: 123RF
ral ou coletivo, pois sua principal intenção é tentar
promover a felicidade coletiva por meio da reflexão
e da razão. A ética mede os elementos favoráveis
e desfavoráveis de cada ação ou conduta, além de
procurar condições que contribuam para a convi-
vência entre diversos grupos e diferentes indivídu-
os, dotados de morais distintas.

A ética estuda e investiga a moral (os hábitos e


costumes humanos) para produzir a melhor ação
possível, sem desconsiderar a existência de grupos
e moralidades que são heterogêneas, mas que de-
vem coexistir numa mesma sociedade.

A moral é considerada relativa, pois suas regras e nor-


mas de comportamento podem valer para um grupo ou sociedade, mas não necessariamente
para outros. A moral se transforma, ao longo do tempo, e é expressa pelos chamados valores
(ou juízos morais), que norteiam as noções do que é justo ou injusto, bem ou mal, o que é
virtuoso ou que promove vícios.

1.3 O PROBLEMA DO VALOR E O JULGAMENTO ÉTICO


A vida humana é marcada por reflexões e ações morais e éticas. Desde governos,
empresas, relações familiares, passando por jogos, esportes e as demais práticas hu-
manas, todas elas são constituídas de valores morais e condutas éticas. Avaliamos que
a moral é relativa, porque costumes, hábitos e visões de mundo variam de sociedade
para sociedade conforme o período histórico.

Diante da variabilidade de valores morais presentes em qualquer sociedade e na rela-


ção entre diferentes povos e culturas, a ética opera não apenas como estudo ou ciência
que investiga a moral, mas também fornece bases para a prática de julgamentos éticos,
que visam produzir convivência entre diferentes valores morais presentes nos indivídu-
os. Cada ação ética pressupõe a análise de quais são os impactos causados sobre dife-
rentes grupos e comunidades humanas constituídos por valores morais heterogêneos.

16
A ética parte do pressuposto de que os indivíduos, certas vezes, possuem um forte
sentimento, vontade ou impulso que surgem como um primeiro impacto quando nos en-
contramos em situações em que temos que agir de maneira imediata. Com indignação,
às vezes, engrossamos o tom de voz se uma pergunta ou circunstância chocante está 1
diante de nossa visão. Outras vezes, realizamos juízos sobre as ações que presencia-

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mos, sendo que julgamos, demonstramos valores ou comentamos o acontecimento
que atraiu a nossa percepção. Esses comportamentos são chamados de senso moral.

EXEMPLO
Quando vemos um indivíduo em condição vulnerável passar fome ou vivendo de maneira mi-
serável e decidimos oferecer alguma ajuda; ou quando vemos um idoso que tenta atravessar
a rua e de forma imediata e impulsiva, nós o auxiliamos; se somos favoráveis ou contrários ao
aborto ou legalização do uso de entorpecentes, nessas situações, agimos com gritos, gestos
bruscos de reprovação ou aceitação, visões e expressões mais singelas ou ríspidas. Todos
esses valores e comportamentos revelam o que é designado como senso moral.

SAIBA MAIS
Para saber mais a respeito da ética e o senso moral, recomendamos que você assista à
aula do professor Washington Soares, referenciada na sequência: SOARES, Washington.
Ética - Senso Moral e Consciência moral, 2020. Vídeo (6min. 13s.). Publicado na página do
Prof. Washington Soares, 2020. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=FE5CZ-
1DA92s&t=8s. Acesso em: 07 jun. 2022.

Com o senso moral não há a necessidade de justificativa imediata, pois o conceito está
relacionado à formação e aos valores morais de um indivíduo, fundamentados em tra-
dições e costumes que originam e caracterizam comportamentos imediatos, portanto,
fundamentam o próprio senso moral. Situações que não entendemos de maneira com-
pleta ou posicionamentos tomados sem uma análise detalhada da realidade influenciam
a prática do senso moral.
Em uma de suas obras capitais para a introdução ao pensamento filosófico,
intitulada “Convite à filosofia”, Chaui (2000) escreve que esse sentimento
prova que nós somos seres morais, dotados de um senso de moralidade.
O sentimento despertado em nós prova a existência de um universo moral
e nos leva a pensar sobre o que é certo ou errado, justo ou injusto, bom ou
mau diante de situações de sofrimento e dor, principalmente quando envol-
vem crianças, seres inocentes que nos comovem por conta de sua fragilida-
de (BRAGA JUNIOR; MONTEIRO, 2016, p. 42).

Os nossos atos e posicionamentos, sejam contrários ou favoráveis diante de certas


situações, exigem de nós uma justificativa perante os demais ou à sociedade. Essa
forma de justificativa é chamada de consciência moral e representa explicações que
são fornecidas para explicar o senso moral.

Ética e Cidadania 17
Ética – sua essência e o cotidiano

EXEMPLO
Quando somos questionados sobre a legalização do aborto e caso haja um posicionamento
1 contra a partir de uma perspectiva de uma moral religiosa, será preciso justificar este mesmo
posicionamento para os indivíduos que nos cercam.

Figura 03. A ética visa o equilíbrio e coexistência A consciência moral é compreendida, as-
entre comportamentos morais heterogêneos
sim, como a justificativa fundamentada a
partir da moral e fornece sentido às nos-

Fonte: 123RF
sas atitudes e percepções de mundo.

Se procurarmos ajudar a criança com


fome ou o idoso que busca atravessar a
rua, exercemos o chamado senso moral.
Quando procuramos justificar aos demais
e a nós mesmos quais são os motivos que
permitiram a ação imediata, exercemos a
consciência moral. Esta, por sua vez,
permite que os sujeitos se tornem res-
ponsáveis pelas formas como nos com-
portamos. Senso e consciência moral estão presentes no dia a dia, nos sentimentos,
nas intenções e decisões, no que é ou não correto a ser feito. Posto de outra maneira,
[...] diante de um senso moral, temos emoções e sentimentos que são susci-
tados pelos acontecimentos com base em nossa crença nos padrões morais
que adotamos e que nos orientam. Mas é a nossa consciência moral que
nos leva a agir e a assumir a responsabilidade por nossos atos (BRAGA
JUNIOR; MONTEIRO, 2016, p. 44).

Os julgamentos éticos são o resultado do estudo e da análise do senso e da consciência


moral. Ao realizar a capacidade de julgar, a ética leva em consideração os diferentes
pontos de vista e tem como objetivo produzir equilíbrio e condições de coexistência entre
posicionamentos heterogêneos, desde que eles promovam o bem comum ou coletivo.

1.4 QUESTÕES ÉTICAS E QUESTÕES MORAIS


Há questões e problemas que dividem opiniões, pois demonstram os dilemas éticos e mo-
rais. À vista disso, James e Stuart Rachels, na obra Os elementos da Filosofia Moral (2013),
refletem como, no passado, havia justificativas que procuravam legitimar a escravidão de
seres, erroneamente, considerados inferiores. Os autores argumentam que, por vezes, es-
sas justificativas eram carregadas de argumentos religiosos. Sabemos que tais ideias não
são mais condizentes com os direitos humanos e igualdade jurídica. Isso porque
[n]ossos sentimentos podem ser irracionais: eles podem ser nada mais do
que produtos do prejuízo, egoísmo ou condicionamento cultural. Em um
momento, por exemplo, os sentimentos das pessoas lhes disseram que os
membros de outras raças eram inferiores e que a escravidão era o plano de
Deus. Ademais, os sentimentos das pessoas podem ser muito diferentes
(RACHELS; RACHELS, 2013, p. 23).

18
Debates como o assunto de aborto e de legalização das drogas nos permitem, primeiro,
identificar diferentes juízos de valor. Via de regra, de um lado, sob uma fundamentação
moral religiosa, argumenta-se que a vida é um valor sagrado, de modo que abortos não
deveriam ser legalizados. Por outro lado, movimentos feministas têm como valor as defe- 1
sas da liberdade de decisão das mulheres e o direito de escolha sobre seus próprios cor-

Universidade São Francisco


pos. Além disso, o uso de drogas sob perspectivas morais religiosas é julgado de modo
negativo, sendo relacionado a uma vida marginal, de degradação e distante de virtudes.

Nas últimas décadas, no entanto, países como Holanda, Bélgica, Espanha, Uruguai, en-
tre outros, têm concedido liberdade de uso de algumas drogas, como a maconha. Tais
posturas têm recebido adeptos mundo afora, segundo os valores da liberdade individual
e teses que amenizam os efeitos de certos entorpecentes. A partir dessa oposição de
valores morais surgem questões éticas, ou seja, reflexões, estudos e condutas em que
devemos observar, sendo possível promover o bem comum levando em consideração
a oposição entre diferentes valores morais.

PARA REFLETIR
No intuito de verificar valores morais e propiciar uma reflexão acerca de decisões éticas pos-
síveis para cada situação, observe, a seguir, outros problemas contemporâneos, de ordem
ética, que certamente produzem visões morais diferentes quando são discutidos:

`  A ciência pode desenvolver, de forma autônoma, pesquisas genéticas com embriões humanos?

`  É possível concordar com a manipulação genética irrestrita?

`  Podem os governos e as empresas privadas de tecnologias (redes sociais, aplicativos,


provedores etc.) terem o controle sobre a privacidade dos seus usuários?

`  Devemos preservar o direito à vida ou à liberdade econômica, quando nos defrontamos


com uma grave pandemia?

`  Devemos concordar ou podemos discordar da decisão da justiça em permitir o casamento


entre indivíduos do mesmo sexo ou pertencentes aos que se identificam como membros
da comunidade LGBTQIA+?

`  Proteger o meio ambiente é mais importante do que defender o desenvolvimento econô-


mico por meio de práticas predatórias?

`  É correto substituir trabalhadores por máquinas nas fábricas?

1.5 A ÉTICA COMO PROJETO DE VIDA


Os indivíduos passaram a viver em sociedade, quando surgiram as comunidades e, pos-
teriormente, as cidades criaram regras de convivência social, cujo objetivo é até hoje o de
produzir o bem e a felicidade a todos. Dessa forma, a ética permite a relação entre proje-
tos de vida coletivos e individuais. Com esses projetos, por exemplo, surgiram normas e
punições com o propósito de garantir a qualidade de vida individual e social.

Ética e Cidadania 19
Ética – sua essência e o cotidiano

A ética, sob esse aspecto, afasta-nos de uma vida guiada por impulsos, caprichos e de-
sejos individuais que prejudicam o interesse coletivo. Por meio da elaboração racional
de princípios, condutas, normas, regras e leis que permitam a civilidade, a ética se torna
1 um elemento essencial para a construção do sentido de projetos de vida.

Devemos, neste ponto, destacar a distinção entre normas jurídicas e morais, pois am-
bas permeiam a vida cotidiana e em sociedade. As normas jurídicas são aquelas que
relacionam o indivíduo com o meio externo, ou seja, a sociedade como um todo e são
reguladas por meio de princípios e obrigações legais (constituição, leis, decretos, entre
outras normas estabelecidas coletivamente).

As normas morais pertencem ao campo mais restrito e íntimo dos indivíduos, sendo arti-
culadas com as motivações pessoais. Elas são reguladas pelas relações que concernem
aos laços familiares, comunitários, religiosos ou mesmo grupos cujas tradições e visões
de mundo representam amplo convívio, proximidade e compartilhamento de valores.

Com isso, percebemos que, desde o nascimento, fomos submetidos a interações


sociais que permitiram a vida em sociedade. A partir desses padrões éticos recebi-
dos, durante a existência, é que será possível desenvolver projetos que entrelacem
a vida individual e a coletiva.

Quando, hoje, discutimos a preservação do meio ambiente, por exemplo, estamos ela-
borando um projeto de existência para as gerações futuras a partir de atitudes éticas
que são urgentes no presente. A forma como falamos, nossos gestos, propósitos pro-
fissionais, relações de trabalho e modos de agir considerados corretos estão presentes
no universo de formação das crianças e dos adultos. Todas essas ações podem ser
tidas como projetos de vida éticos, pois procuram organizar relações sociais em nome
da vida em sociedade.
Figura 04. Mapa Conceitual

ÉTICA MORAL

Senso
Ciência Reflexão Problematizar Hábito Costume Tradição Valores
Crítico

Universalidade Heterogeneidade Reativismo Particularidade

Variabilidade
Bem Felicidade Interesse
Comum coletiva coletivo

Hábito Costume Tradição Valores

Estudo das diferentes moralidades

Senso Consciência
Moral Moral

Fonte: elaborada pelo autor.

20
`  Filme

  O filme Advogado do Diabo (1998) trata da vida profissional de Kevin Lomax, um jovem e 1
prodigioso advogado norte-americano. Ele se destaca por defender clientes inescrupulo-
sos e assassinos por meio de brechas que encontra nas leis. Ele é contratado pelo maior

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escritório de advocacia de Nova York e passa a trabalhar na defesa de casos moralmente
condenáveis. A obra apresenta uma série de dilemas éticos e morais a respeito do traba-
lho e vida pessoal do personagem. Após assistir ao filme, tente identificar três aspectos
morais presentes no filme e qual a decisão ética foi tomada pelo personagem principal.

`  Texto Complementar

  Indicação do livro A Política, de Aristóteles.

`  Somos animais Políticos

  Em A política, Aristóteles define a humanidade como um “animal político por natureza”.


Deve-se frisar a etimologia em grego de animal político (Zoon Politikon). Politikon não
significa apenas a atividade política como a ocupação ou exercício de cargos públicos,
mas, na realidade, tem um sentido mais amplo para o mundo grego na Antiguidade, pois
é a política que diferencia humanidade dos demais animais.

A política representa o agir, a reflexão e o aprimoramento da vida em sociedade; está


associada à capacidade humana de discernir, estabelecer, criar, construir, refazer e
viver (em sociedade) o que se entende como justo e injusto, o bem e o mal, de modo
que normas e regras são incorporadas coletivamente. A política é produzida por meio do
uso da razão e das palavras. Sem o uso da razão e da linguagem seríamos incapazes
de comunicar e muito menos de expor valores, criar costumes e leis.

O que Aristóteles define como Zoon Politikon (animal político) está relacionado à noção
de que a política é um elemento natural e vivido de forma intensa e social na cidade
(Pólis em grego). Portanto, a política é o fundamento para a existência da vida moral e
ética dos sujeitos, pois a existência é dada em sociedade e será por meio dela que juízos,
costumes, tradições, regras e leis que constituem o convívio comum serão fundados.

Caso de aplicação 1

Um exemplo para você analisar como a moral esteve arraigada na vida dos indivíduos pode
ser verificado, a partir do fato histórico no qual, até aproximadamente a década 1960, a
maioria das sociedades possuía a visão de que as funções sociais das mulheres deveriam
se resumir aos cuidados domésticos. Ainda hoje é possível ver alguns grupos sociais defen-
dendo tal postura. No entanto, com o desenvolvimento do mercado de trabalho, a ascensão
de movimentos feministas e maior conscientização da sociedade, as mulheres passaram a
ocupar lugares importantes no meio social, como no mercado de trabalho, política e meios de
comunicação. Diferentemente de anos atrás, nos dias atuais é impossível imaginar empre-
sas, universidades e emissoras de rádio e TV sem elas, ainda que visões machistas predo-
minem em muitos setores da sociedade.

Ética e Cidadania 21
Ética – sua essência e o cotidiano

Com isso, vemos que a moral está sempre em transformação, de forma que é modificada ou
varia de acordo com o período histórico, ou conforme cada sociedade ou geração.
1 Com base no exposto, elabore um breve texto relatando outros exemplos de transformações de
visões morais na sociedade. Explique como é possível observar a moral nessas transformações.
Selecione uma matéria de jornal e revista para fundamentar a sua pesquisa. Pense em questões
em torno do mercado de trabalho, política, meios de comunicação ou mesmo educação.

2. APRENDENDO A DECIDIR COM ÉTICA

2.1 A ÉTICA DA MEDIANIA (ARISTÓTELES)


Aristóteles, pensador grego da Anti- Figura 05. Ética
guidade, foi o primeiro a definir a pa-

Fonte: 123RF
lavra “ética” (do grego ethos, significa
conduta em relação aos outros), esta-
belecendo-a, ao mesmo tempo, como
uma ciência que investiga os compor-
tamentos humanos e como a busca
de uma conduta que é capaz de gerar
equilíbrio. Em outras palavras, o autor
defende a ética como conduta media-
na ou caminho do meio que permite
aos indivíduos viverem em sociedade,
visando ao bem comum e à Eudaimo-
nia, palavra que em grego clássico se
relaciona à felicidade e promoção da excelência humana realizada de modo coletivo.
O ethos é a morada do animal e passa a ser a «casa» (oikos) do ser huma-
no, não já a casa material que lhe proporciona fisicamente abrigo e proteção,
mas a casa simbólica que o acolhe espiritualmente e da qual irradia para a
própria casa material uma significação propriamente humana, entretecidas
por relações afetivas, éticas e mesmo estéticas que ultrapassam suas fina-
lidades puramente utilitárias e a integram plenamente no plano humano da
cultura. [...] Tal é a historicidade própria do ethos, que nele se exprime como
necessidade instituída que Aristóteles comparou à e necessidade dada da
Natureza. (VAZ, 1988, p. 39-40).

Na obra Ética a Nicômaco, Aristóteles partia do pressuposto de que toda cidade e


sociedade são caracterizadas por apresentar indivíduos heterogêneos, ou seja, com
valores, formas de pensar, condições econômicas e políticas bem distintas. Diante
disso, considera que o papel da ética, assim como das leis, deve ser o de produzir
equilíbrio, isto é, condições de coexistência entre grupos diferentes com o objetivo de
realizar o bem comum.

Aristóteles, portanto, atribui à ética a busca do equilíbrio, considerando que desse equi-
líbrio será possível produzir a felicidade, a excelência humana, a justiça e a virtude entre
os membros que constituem uma sociedade. Logo,

22
[t]oda arte e toda investigação, bem como toda ação e toda escolha, visam
a um bem qualquer, e por isso foi dito, não sem razão, que o bem é aquilo a
que as coisas tendem. Mas entre os fins observa-se uma certa diversidade:
alguns são atividades, outros são produtos distintos das atividades das quais
resultam; e onde há fins distintos das ações, tais fins são, por natureza, mais 1
excelentes do que as últimas (ARISTÓTELES, 1979, p. 49).

Universidade São Francisco


2.2 O HEDONISMO
Do grego hedonê (prazer), o hedonismo expressa um modelo de ética que tem como
principal objetivo para a vida (ou como suprema norma moral) a busca da felicidade e a
exaltação do prazer. Essa modalidade de ética foi pensada pela primeira vez pelo filósofo
grego Epicuro (341–270 a.C.) e influenciou pensadores romanos da Antiguidade conhe-
cidos como estoicos, entre eles Cícero (106 -43 a.C.), Lucrécio (94-50 a.C.), Horácio (65
a.C-8 d.C.), Sêneca (4 a.C. - 65 d.C.) e o imperador-filósofo Marco Aurélio (121-180 d.C.).

Epicuro partia da ideia de que a verdadeira virtude estava na realização dos prazeres.
Não devemos tomar o epicurismo ou o hedonismo de forma vulgar, pois não se reduzem
a uma satisfação cega e sem reflexão sobre os prazeres. O prazer deve trazer o bem-es-
tar. Epicuro fundou um grande jardim na periferia de Atenas, lugar que ficou conhecido
como “O Jardim de Epicuro”. O local foi resultado de uma mudança de postura, em que
o filósofo viu a necessidade de se distanciar dos problemas da cidade da pretensão de
promover a virtude no espaço público. A política é fonte de avareza e corrupção.

GLOSSÁRIO
O jardim reunia discípulos (escravos e cidadãos livres) que procuravam a virtude no equilíbrio
entre os diferentes prazeres – nas bebidas, amizades, sexo, banquetes e afins. Não se deve
concentrar o prazer em apenas uma única atividade (caso contrário, produzirá o vício), mas
equilibrar os diferentes prazeres fornecidos pelo corpo.

Epicuro buscava a chamada ataraxia, conceito que representa o equilíbrio entre os pra-
zeres em seu jardim em meio à natureza e distante dos problemas da cidade. O filósofo
e poeta romano Horácio (65 a.C. – 8 d.C.), inspirado no epicurismo, concebe o “Carpe
diem quam minimum credula póstero” (ao qual traduzimos ao português como Aprovei-
ta o dia e confia o mínimo possível no amanhã), concepção incorporada pelo Arcadismo
(movimento literário do século XVIII).

GLOSSÁRIO
O Arcadismo foi um movimento literário desenvolvido na Europa, durante o século XVIII. Ca-
racterizou-se por valorizar a vida humana em meio à natureza, ou seja, a existência bucólica
exercida com simplicidade. No Brasil, o movimento se deu em Minas Gerais também, no sé-
culo XVIII, e se envolveu com o movimento da Inconfidência Mineira. Seus principais autores
foram Tomás Antônio Gonzaga, Cláudio Manuel da Costa e Basílio da Gama.

Ética e Cidadania 23
Ética – sua essência e o cotidiano

2.3. O CONTRATUALISMO
A partir dos séculos XVI e XVII, com a ascensão da Modernidade, surgiram novas mo-
dalidades de ética com objetivo de atender a novas demandas que surgiam com a
1 nova sociedade e formas de pensamento. Entre as transformações que constituem a
Modernidade estão o surgimento de uma sociedade capitalista e o fortalecimento da
burguesia, industrial e de defesa da liberdade econômica e política.

O contratualismo se refere à percepção éti- Figura 06. Contratualismo


ca surgida entre os séculos XVII e XVIII, que

Fonte: 123RF
estabelece a obrigação de se comportar de
acordo com as leis ou a burocracia. Trata-
-se da noção de que as relações humanas
apenas se tornam possíveis, estáveis, du-
ráveis e seguras, por meio da criação de
obrigações e exigências legais, sem as
quais existiriam desconfiança e instabilida-
de social. Entre os pensadores contratualis-
tas, destacamos Hobbes (1588-1679), Lo-
cke (1632-1704) e Rousseau (1712-1778).

Temos como exemplos de contratos: leis, pactos sociais, documentos e impostos. Por
meio da existência do contratualismo, é possível notar como a sociedade moderna ga-
rante a sobrevivência de trocas comerciais, acordos políticos ou relações sociais de
qualquer espécie. O contratualismo é, à vista disso, uma forma moderna de ética que
visa consolidar relações sociais racionais, seguras e legitimadas por meio de pactos,
contratos ou acordos considerados legais.

2.4 A ÉTICA DO DEVER DE KANT


Entre os séculos XVIII e XIX, com o advento da ciência moderna, do contratualismo, do
liberalismo e do Iluminismo (depois da consolidação do pensamento burguês) surgiram
novas análises éticas sobre princípios morais que regulamentam o comportamento do
bom cidadão e das boas práticas de administração pública.

Kant (1724-1804) foi um pensador alemão, contemporâneo à Revolução Francesa, que se


demonstrou otimista diante das conquistas burguesas. Considerava que superstições e for-
mas de interpretações medievais da realidade haviam sido substituídas pela racionalidade
da ciência moderna, da indústria e direitos individuais. Ele percebia que o poder dos reis
estava prestes a desaparecer definitivamente, com as sociedades deixando de ser guiadas
segundo humores dos tiranos, mas de acordo com a racionalidade e a legalidade.

Na obra Fundamentação metafísica dos costumes (1785), Kant valoriza a razão moder-
na aplicada ao direito e à ética, responsável por se opor à tradição maquiavélica fun-
damentada na teleologia (nos fins). Kant estabelece a deontologia (do grego deon, que
significa obrigação ou dever moral) (conferir texto complementar e mapa mental) como
ciência do dever. Isto é, obrigação racional que deve ser realizada, necessariamente, a
todo custo, independentemente das consequências, pois considera que tudo que tem
origem na razão seria benéfico ou positivo à humanidade.

24
Kant foi o mais importante pensador alemão a se declarar Iluminista, de modo que ali-
mentava grande crença nos benefícios da razão humana. Dessa forma, importam os
meios racionais ou mesmo os meios se confundem com os fins, pois confia que a razão
conduziria a humanidade ao bem e à verdade, não podendo ela ser questionada. 1

Universidade São Francisco


Com a deontologia, Kant (2009, p. 245) estabeleceu o imperativo categórico, defendendo o
seguinte lema: “Age como se a máxima de tua ação devesse tornar-se, através da tua von-
tade, uma lei universal”.

A expressão afirma o caráter inquestionável da aplicação e obediência à ação racional,


sendo válida em toda parte e temporalidade, o que demonstra a visão otimista de Kant
diante da razão. Portanto, o imperativo categórico é uma lei moral e racional que valo-
riza a autonomia do indivíduo e sua racionalidade, com o objetivo de universalizá-la na
forma de leis e consenso coletivos.

2.5. A ÉTICA DA UTILIDADE (J. BENTHAM E J.S. MILL): A ÉTICA


CONSEQUENCIALISTA
O modelo ético utilitarista foi criado entre os séculos XVIII e XIX pelos filósofos ingle-
ses Bentham (1748-1832) e Stuart Mill (1806-1873). Tem como sinônimo a concepção
de maximização, isto é, produzir o maior prazer, ganhos, lucros ou um bem ao maior
número possível de pessoas, evitando-se ao máximo prejuízos, dores ou perdas. O
maior bem produzido não significa necessariamente que este abrangerá a maioria das
pessoas. Segundo Moreira (1999, p. 22):
[a] ideia de maior bem para a sociedade, não leva em conta o número de
pessoas beneficiadas, mas sim o tamanho do bem. Em outras palavras,
em uma circunstância na qual o maior bem beneficie poucos, em contra-
posição ao bem menor que possa ser feito a muitos, a primeira atitude
deverá ser a escolhida.

A maximização é um termo rotineiro no universo administrativo e econômico. Por isso


esse modelo ético também é designado como consequencialista, ou seja, justifica a va-
lidação de uma determinada ação ou conduta a partir da observação e da identificação
dos possíveis resultados. Trata-se, portanto, de verificar em qual medida a ação é mo-
ralmente útil a ponto de produzir o prazer ou o bem-estar coletivo, procurando reduzir
os prejuízos da ação. Além disso, é entendido como o processo que pode reduzir gas-
tos em nome do aumento da produtividade ou apenas manter o ritmo de produção ou
a margem de lucro, ainda que para tanto seja necessário demitir alguns funcionários.

Maximizar pode também implicar, por exemplo, na manutenção do tempo de trabalho,


ao passo que a quantidade de trabalho ou capital gerado é aumentado. As democracias
modernas, quando apresentam o “segundo turno”, são um processo de maximização,
o qual visa produzir o maior bem ao maior número possível de pessoas, evitando-se ao
máximo prejuízos. Isso justifica por que é declarado vencedor de uma eleição aquele
que conseguir 50% dos votos mais 1.

Ética e Cidadania 25
Ética – sua essência e o cotidiano

Caso de aplicação 2

1 Há um interessante dilema a respeito da situação hipotética de um trem desgovernado: O


trem corre em alta velocidade pelos trilhos e está fora de controle. Caso não seja parado ou
desviado, o trem colidirá com cinco pessoas que estão amarradas aos trilhos. Nessa situa-
ção, a única possibilidade de salvar as pessoas é mover uma alavanca que desviaria o trem
para outro trilho. Porém, caso seja desviado e não atropele as cinco pessoas presas nos
trilhos, o trem irá, fatalmente, em direção a um outro único indivíduo parado na outra pista.

O que fazer?

Considerando os elementos que constituem a ética utilitarista ou consequencialista, reflita


qual seria a melhor solução a ser seguida. Elabore sua resposta a partir dos princípios que
norteiam a ética elabora por Bentham e Mill.

2.6. A ÉTICA DO DISCURSO (J. HABERMAS)


Durante o século XX, novos dilemas éticos permitiram o surgimento de novas pers-
pectivas conceituais ou, ao menos, a verificação de questões pertinentes ao diá-
logo consensual e racional, consumo e relação com outras culturas, considerando
a expansão da globalização.

O alemão Habermas (1929 -) abordou, do ponto de vista ético, o que definiu como te-
oria da ação comunicativa. Segundo o filósofo, o agir comunicativo está relacionado
ao mundo da vida cotidiana, de modo que está fundamentado em regras de sociabili-
dade e no diálogo, considerando, ainda, que os indivíduos se comunicam por meio de
diferentes moralidades. Contudo, é possível alcançar consenso e entendimento mútuo
caso abandonemos relações hierárquicas de dominação e deslegitimação do discurso
do outro (é o caso de preconceitos, coerção ou mesmo desmerecimento da fala e dos
valores de indivíduos pertencentes a outros grupos e seus respectivos valores).

Habermas defende que o diálogo, a capacidade de escutar, entender, falar e negociar


com grupos diferentes alcança a dimensão ética capaz de produzir interações con-
sensuais, ainda que haja a diversidade de sentimentos, expectativas e concepções
de mundo. A teoria da ação comunicativa tem como finalidade produzir concordâncias
após a solução e a superação de discordâncias entre os sujeitos. Para tanto, é neces-
sário considerarmos o diálogo racional que tornaria possível a sociabilidade desde os
níveis familiares, da comunidade, do campo científico, artístico e político.

Observarmos, assim, que uma sociedade é constituída por uma pluralidade de vozes, de
modo que uma ação racional é consolidada de maneira coletiva e não individual, desde que
haja sensibilização e afeto em relação à condição e às percepções daqueles que se apre-
sentam a nós como diferentes.

26
Devemos, portanto, colocar-nos na condição de nosso interlocutor, compreen-
der seus dilemas e buscar entendimento, o que evitaria a posição relativista,
que veremos no tópico a seguir.
1
2.7 RELATIVISMO

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O relativismo é um princípio que passa a ser promovido, principalmente entre o final do
século XIX e durante o século XX. Nietzsche (1844-1900), filósofo alemão, é conside-
rado um dos principais teóricos dessa perspectiva. Na Antropologia norte-americana
do século XX, os pensadores denominados como culturalistas (Franz Boas e Clifford
Geertz) desenvolveram o chamado relativismo cultural.

Em linhas gerais, o relativismo resume-se na expressão “cada um é cada um”, ou seja,


normatiza a condição alheia, ainda que a condição do outro seja degradante. O relativis-
mo anula os valores morais, por isso as noções de verdade, como o bem e mal ou o jus-
to e o injusto. Elas são suspensas, pois há a noção de que nenhum juízo de valor possa
ser universal ou verdadeiro, de sorte que toda e qualquer ação passa a ser aceita.

O relativismo elimina a possibilidade de engajamento ou uma ação responsável diante


de outras pessoas ou sociedades. Empresas e governos que atuam de modo relativista,
por exemplo, não se preocupam com as condições sociais e de saúde de seus con-
sumidores ou cidadãos. Um sujeito se torna relativista quando não emite juízos sobre
uma situação, qualquer que seja, pois considera que nenhum valor é válido. Se não nos
importamos com a condição de fome e miséria de um semelhante e julgamos que cada
um ocupa o lugar que deseja estar, acabamos por enveredar em uma relativista. Dessa
maneira, o relativismo é uma afirmação absoluta da diferença e da impossibilidade de
um consenso a respeito dos valores e juízos morais.

SAIBA MAIS
Para saber mais a respeito do relativismo, confira a fala do filósofo brasileiro Má-
rio Sérgio Cortella. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=VumyyS3THSY.
Acesso em: 07 jun. 2022.

O relativismo não se restringe ao mercado. Podemos percebê-lo quando não da-


mos importância a um acontecimento distante. É o mesmo sentimento de muitas
pessoas que tendem a observar a pobreza, o desemprego ou as desigualdades so-
ciais como naturais ou normais, sem procurar refletir ou fazer absolutamente nada
para modificar tal situação.

2.8. FUNDAMENTALISMO
O fundamentalismo ocorre para quem os conceitos, profissões de fé, doutrinas políti-
cas ou deveres morais devem ser extraídos de uma fonte tida como superior e externa
(Estado, religião, líder, imposições do mercado) ao ser humano. Isso significa afirmar
que o indivíduo se submete a uma ordem superior à sua própria vontade, pois a julga

Ética e Cidadania 27
Ética – sua essência e o cotidiano

racionalmente correta e inquestionável. Muitas vezes, o fundamentalismo é visto como


obediência cega diante da autoridade de um terceiro. Do ponto de vista da religião, co-
nhecemos os chamados fundamentalistas religiosos.
1
Na esfera política, o exemplo mais evidente é a obediência a um líder político, assim
como ocorreu na Alemanha nazista de Hitler, quando os seus seguidores obedeciam e
concordavam com todas as ações de seu líder cegamente. Em relação ao mercado ou
o capitalismo, podemos observar tal ética dentro dos padrões de moda ou mercadorias
impostas sobre o comportamento e os objetivos de vida de consumidores.

Devemos destacar que a ética fundamentalista é, geralmente, criticada pelos filósofos e


estudiosos, sendo que dificilmente encontraremos reflexões que apontem suas caracte-
rísticas sem problematizá-las. A respeito disso, Boff (2009) situa que o fundamentalismo
[...] não é uma doutrina, mas uma forma de interpretar e viver a doutrina.
É assumir a letra das doutrinas e normas sem cuidar de seu espírito e de
sua inserção no processo sempre cambiante da história, postura que exige
contínuas interpretações e atualizações, exatamente para manter sua ver-
dade originária. Fundamentalismo representa a atitude daquele que confere
caráter absoluto ao seu ponto de vista (BOFF, 2009, p. 49).

Caso de aplicação 3

Nos últimos anos, tem crescido o movimento de consumidores sobre a necessidade de as


empresas produtoras de alimentos (principalmente os processados) informar sobre a compo-
sição química de seus produtos. Há indícios de uso de agrotóxicos, entre outros elementos
químicos nocivos à saúde pública. Esse movimento de consumidores exige que as empresas
fabricantes desses alimentos informem e alertem nas embalagens os seus consumidores.

Investigue duas reportagens ou matérias em jornais e revistas recentes que ilustrem esta si-
tuação. Em seguida, faça uma análise desses materiais levando em consideração conceitos
éticos em torno do utilitarismo e relativismo. Aponte quais as soluções éticas poderiam ser
tomadas a respeito disso.

28
Figura 07. Mapa conceitual

KANT MAQUIAVEL
1

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Deontologia Teleologia

Do grego télos, que significa propósito ou fim.


Do grego deon, que significa dever, obrigação

CALCULISMO E JOGO
IMPORTAM OS FINS
DE FORÇAS
MEIOS MAIS
DEVER MORAL
IMPORTANTES QUE
RACIONAL
OS FINS

CONFIANÇA NA CERTEZA NAS O BEM E O MAL, A RAZÃO E O


OS FINS JUSTIFICAM
RAZÃO CONSEQUÊNCIAS IRRACIONAL SÃO MEIOS DA
OS MEIOS
BENÉFICAS AÇÃO ÉTICA

Fonte: elaborada pelo autor.

`  Filme

Um mercado Relativista
O filme The Corporation (2003) mostra três exemplos impactantes do relativismo
aplicado ao cenário empresarial. Podemos destacar, primeiramente, a Monsanto
(uma das maiores empresas produtoras de sementes e derivados de leite do mundo
e que tem atuação no Brasil). Para aumentar a produtividade de vacas leiteiras nos
EUA e, consequentemente, os seus lucros, a Monsanto é acusada de ter aplicado
nesses animais hormônios que significativamente elevaram o nível de produção.
No entanto, sem se importar com os impactos causados sobre as vacas e os con-
sumidores, descobriu-se que os hormônios, na verdade, facilitam a proliferação de
bactérias que levam os animais à morte. O produto contaminado é ingerido pelos
clientes, sem que a Monsanto preocupe-se com as suas condições.

O segundo exemplo refere-se a IBM, famosa grife de computadores e sistemas


empresariais de gestão. Antes e durante a Segunda Guerra Mundial, a IBM foi res-
ponsável por criar um sistema, ainda não informatizado, de geração de códigos
entre outras burocracias que contribuíram muito para catalogar judeus, ciganos,
homossexuais e opositores do ditador alemão, Hitler. Uma entre as tantas funções

Ética e Cidadania 29
Ética – sua essência e o cotidiano

dos sistemas criados pela IBM na Alemanha ajudaram a tatuar códigos nos braços
desses prisioneiros, que eram levados, em sua grande maioria, aos campos de
1 concentração. A IBM nega até hoje qualquer envolvimento com o nazismo. Ao se
eximir de sua responsabilidade, a empresa adota também uma ética relativista, sim-
plesmente quando se considera que eram apenas “negócios”.

O terceiro caso mostrado pelo documentário refere-se à espantosa história da Co-


ca-Cola na mesma Alemanha Nazista. Após a entrada dos EUA no conflito armado
em 1942, o governo desse país exigiu que as empresas americanas, sobretudo as
de maior destaque, encerrassem suas atividades na Alemanha. Em nome da manu-
tenção de seus lucros, a Coca-Cola não exprimiu qualquer oposição ao nazismo; o
refrigerante foi substituído, saiu de cena e, em vez de fechar a fábrica, a empresa
substituiu o antigo pela sua mais nova invenção: Fanta. Naquela época tornou-se
o refrigerante mais vendido na Alemanha. As empresas, por não informarem am-
plamente e publicamente aos seus clientes e consumidores os riscos em relação
ao uso de suas mercadorias adotam o relativismo, cujo princípio elementar é dizer
“cada um é cada um!”.

`  Texto Complementar

Maquiavel (1469-1527), na obra O Príncipe (publicada de forma póstuma em 1532),


passa a observar o ser humano como, naturalmente, dotado de egoísmo, individua-
lismo e nenhuma preocupação com o bem comum, a não ser de forma dissimulada,
sendo que, na primeira oportunidade, poderia trair seus semelhantes. O filósofo parte
de um ponto de vista negativo sobre a natureza humana. Seus questionamentos gira-
vam em torno de como o príncipe (expressão que se refere a qualquer governo) tem
condições de manter o poder e o domínio sobre os súditos. Além disso, o pensador
investiga como é possível persuadir os subordinados à autoridade de um governo
e de que forma um príncipe deve agir para conter permanentes conflitos internos e
externos, com outros governos.

Maquiavel nunca escreveu a expressão “os fins justificam os meios”, porém, sua
obra permite relacioná-la com essa ideia, pois julga que, para consolidar o poder,
o governante tudo pode e deve, como: matar, mentir, agir com hipocrisia, demitir,
distorcer informações, ser amado pelo povo e ser temido pelos inimigos, tornar ini-
mizades em novos amigos ou oposto, promover e buscar ora a guerra, ora a paz.
Tudo isso segundo a situação, interesse e conveniência.

É necessário desmitificar o termo maquiavélico, geralmente associado a fazer ou


realizar o mal. Na verdade, ser maquiavélico expressa a capacidade de ser cal-
culista ou entender e saber medir racionalmente os prós e contras de uma ação.
Trata-se da noção de que a ética maquiavélica está direcionada aos fins (manter o
poder e garantir o apoio popular, pois sem ele ninguém se mantém no poder), seja lá
quais forem os meios empregados.

30
Com a ética de Maquiavel considera-se que ela visa fins, o que é designado com
a palavra teleologia (do grego telos, que significa fim, finalidade, objetivo; e logos:
1
discurso, razão ou racionalidade). Sendo assim, a teleologia representa o estudo dos
fins ou das finalidades, sendo um modelo ético em que fins, resultados ou consequên-

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cias são calculados pelo indivíduo, podendo ser utilizado em qualquer meio possível.

3. SENDO ÉTICO NO DIA A DIA

3.1. LIBERDADE, ESCOLHA E DECISÃO


Nas obras O Ser e o nada (1943) e O existencialismo é um humanismo (1946), Sartre-
afirma que “a existência precede a essência”. A expressão afirma a ideia de que não há
nada de inato, pronto ou acabado no ser humano, não há uma essência ou natureza hu-
mana predeterminada. Tais elementos explorados por Sartre indicam que ninguém nasce
definido ou direcionado naturalmente a ser e agir de alguma forma, ou, muito menos, é
determinado por alguma força externa que o obrigue a ocupar uma posição social.

Na realidade, o ser humano, na visão de Sartre, nasce “condenado a ser livre”, de maneira
que suas escolhas o tornam livre para a todo instante modificar o seu ser (SARTRE, 1984,
p. 9). Isso significa que o indivíduo é construído e se constrói por meio do seu vínculo com a
realidade, com o mundo à sua volta.

Sartre afirma, nessa direção, a liberdade como sinônimo de fazer escolhas e tomar
decisões. Nossas escolhas e decisões modelam quem somos, são atitudes livres, cuja
origem é particular a cada indivíduo. O resultado dessa liberdade (nossas escolhas e
decisões) é a constituição de tudo aquilo que somos e que podemos vir a ser.

Com a afirmação de que o ser humano se caracteriza pela liberdade, Sartre se opôs
à noção de natureza humana, entendida como elemento determinista ou fatalista,
cuja defesa limita a liberdade humana e condena os indivíduos a pensarem que não
são o resultado de suas próprias escolhas. O autor também se contrapôs à tradi-
ção filosófica grega e medieval. Os pensadores gregos na Antiguidade, como Platão
(428-348 a.C.) e Aristóteles (384-322 a.C.), concebiam que o comportamento e as
posições sociais eram determinados pela natureza. Na Idade Média, teólogos como
Tomás de Aquino (1225-1274 d.C.), afirmavam ser Deus o responsável por determinar
quem são os senhores e os servos.

A concepção de natureza humana é criticada por Sartre porque, além de renunciar


à liberdade humana, leva os indivíduos a justificarem passividade diante da realida-
de em que estão inseridos, desconsiderando que a vida é uma construção em mo-

Ética e Cidadania 31
Ética – sua essência e o cotidiano

vimento que dialogam com nossas escolhas e decisões. Já a condição humana é


caracterizada por ser plástica, flexível e está em permanente transformação. Sendo
assim, o conceito é sinônimo de liberdade, decisão e escolha. Ela revela que tudo o que
1 o sujeito é ou possa vir a ser acaba sendo o resultado da liberdade e de suas escolhas
diante do mundo em que vive.

Sartre considera que a humanidade vive condenada à liberdade. Posto de outro modo, ser
livre expressa que a todo instante estamos fazendo escolhas ou projetamos nossa subjetivi-
dade no mundo a partir de nossas decisões.

Na perspectiva do existencialismo, a liberdade é uma decisão ética constante que im-


põe a cada indivíduo escolhas e decisões que constituem quem somos e o que repre-
sentamos para a sociedade. Porém, conforme indica na obra O ser e o nada (1997), a
liberdade provoca o que Sartre designa como náusea ou angústia. Sendo que são dois
fatores que provocam esse sentimento, a saber:

`  Cada escolha (liberdade) obriga o abandono ou a anulação de todas as outras pos-


sibilidades de ação. Se, por exemplo, um indivíduo gosta das áreas médicas e das
ciências humanas ao mesmo tempo, na juventude, ele é obrigado a escolher um único
caminho profissional e decide escolher estudos na faculdade de medicina, ele viverá an-
gustiado por ter aberto mão de outra possibilidade de estudos e de vida. Quando decidi-
mos um rumo, abandonamos algumas opções e deixamos outras possibilidades de lado.
Nossas escolhas profissionais, amorosas, projetos de vida e decisões econômicas que
estabelecemos ao longo da vida estão sujeitos à angústia e náusea.

`  Cada escolha (ou projeto que façamos) não se realizará no futuro tal como o pla-
nejamos originalmente no presente. Isso porque nossas escolhas e liberdades se en-
contram em uma relação de tensão com o mundo a nossa volta, pois há nele incontáveis
subjetividades dos outros que estão também promovendo escolhas, ações livres e toma-
das de decisões que se chocam com nossos próprios projetos. Por isso, o filósofo afirma
em diferentes obras que “o inferno são os outros”.

Na perspectiva ética existencialista, a angústia e a náusea têm origem no fenômeno


que Sartre define como nadificação. Este conceito implica na noção de que o que
somos é resultado das decisões que conduziram a resultados diferentes ao espera-
do, além de elementos que limitaram nossas escolhas e nos conduziram ao fracas-
so. Cada decisão, cada escolha exercida por um sujeito está em relação de tensão
com as liberdades dos outros indivíduos. As liberdades e as escolhas presentes e
exercidas por todas as demais subjetividades entram em contradição ou oposição
com as nossas preferências.

32
Em outras palavras, a nadificação diz respeito a tudo aquilo que barra ou limita a liberdade,
são ações diferentes daquelas que planejamos ou mesmo desvios que a liberdade opera
sobre a realidade na qual estamos inseridos, transformando-a. 1

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Embora até aqui o pensamento ético de Sartre pareça ser pessimista, visto que a nadifi-
cação produz resultados diferentes aos projetados por nossa liberdade e fazer escolhas
ocasiona em náusea e angústia, porque decidir significa abandonar outras possibilida-
des de vida, o filósofo afirma ser o existencialismo uma posição ética humanista e
otimista (SARTRE, 1984, p. 3-32). De acordo com o existencialismo, a liberdade é ta-
manha que, apesar da tensão com as escolhas dos outros e os permanentes riscos de
nadificação, somos suficientemente livres para contornar e superar fracassos, desvios
e a concorrência que travamos com as decisões dos outros.

Na visão de Sartre, por sermos livres e por tomarmos decisões a todo instante, temos
condições de superar as limitações com as quais nossa liberdade se depara. É nesse
sentido que o existencialismo é considerado um humanismo, posto que apresenta oti-
mismo com a capacidade que possuímos de projetar a liberdade de modo a nos tornar
seres em constante adaptação e transformação à medida que estamos no mundo e em
contato com os outros.

3.2 ÉTICA, LIBERDADE E RESPONSABILIDADE


Sartre (1984, p. 8-11) aponta que cada es- Figura 08. Monumento de Jean-Paul Sartre,
colha, decisão ou ato, isto é, cada passo em Nida, Lituânia
nosso no mundo possui reflexos amplos,

Fonte: 123RF
com alcance universal. O filósofo defende,
assim, que “fazer escolhas” e “responsa-
bilidade” são termos próximos, configuram
a dimensão ética da liberdade, pois, ao
tomar decisões, somos responsáveis pe-
los outros. Sartre demonstra que nossas
decisões estão interligadas com o univer-
sal, com a subjetividade de todos os outros
indivíduos, tal como quando escolhemos
estudar e nossa profissão auxilia a vida de
outros sujeitos, passamos a nos dar conta
de como nossas decisões influenciam e são influenciadas pelas escolhas dos outros.

Max Weber (1864-1920), no início do século XX, foi outro pensador importante a tecer
relações entre ética e responsabilidade. Nos seus dois ensaios publicados em 1919,
Ciência como Vocação e Política como Vocação, o autor diferencia os conceitos que
definiu como ética da convicção e ética da responsabilidade. Para ele,
[...] toda atividade orientada pela ética pode subordinar-se a duas máximas
totalmente diferentes e irredutivelmente opostas. Ela pode orientar-se pela
ética da responsabilidade ou pela ética da convicção. Isso não quer dizer

Ética e Cidadania 33
Ética – sua essência e o cotidiano

que a ética da convicção seja idêntica à ausência de responsabilidade e

a ética da responsabilidade à ausência de convicção. Não se trata eviden-


1 temente disso. Todavia, há uma oposição abissal entre a atitude de quem
age segundo as máximas da ética da convicção - em linguagem religiosa,
diremos: “O cristão faz seu dever e no que diz respeito ao resultado da ação
remete-se a Deus” - e a atitude de quem age segundo a ética da responsa-
bilidade que diz: Devemos responder pelas consequências previsíveis de
nossos atos (SROUR, 2000, p. 50)

A ética da convicção diz respeito a um dever moral que por ser considerado racional
deve ser realizado independentemente das consequências. Weber remete à deontolo-
gia criada por Kant (1724-1808 d.C.), no final do século XVIII (ver mapa mental), para
conceber a ética da convicção.

EXEMPLO
Imagine um médico que cria como valor moral jamais mentir por considerar que dizer a verda-
de é sempre a atitude mais racional e razoável. No entanto, suponha um paciente em estado
terminal que pergunta qual é a sua condição após a análise de um exame. Certamente, o
paciente receberá as palavras mais pessimistas e desagradáveis anunciadas pelo médico
que prometeu jamais mentir. Dirá as verdades que podem ser desconcertantes, levando o
paciente ao desespero e lágrimas. Weber afirma que a ética da convicção possui aspectos
negativos, porque os meios se confundem com os fins, ou seja, o dever se torna mais rele-
vante do que as consequências, ao passo que elas podem ser desastrosas.

A ética da responsabilidade, por seu turno, procura medir as consequências; há cálculo


e reflexão sobre os prós e contras de todos os atos. Portanto, visa os fins e não os
meios, relacionando-se ao padrão de ética denominada como teleologia (ver o mapa
conceitual ao final deste tópico).

Voltando-nos, novamente, ao exemplo do médico que possui como compromisso ético


jamais mentir, podemos investigar o quanto foi irresponsável ao seguir a ética da con-
vicção fornecendo o diagnóstico ao seu paciente. No entanto, seria possível pensar em
um médico que passasse agora a seguir a ética da responsabilidade. Ele poderia ser
considerado responsável caso tivesse mentido e dissesse ao seu paciente o quanto ele
é forte, resistente, um grande exemplo e corajoso, surpreendido a todos no hospital.

Sabendo que são palavras mentirosas, porém confortáveis ao paciente, elas poderiam
motivar seu paciente a não desistir e a aceitar a gravidade de sua doença. Na ética da
responsabilidade, os fins são mais relevantes que os meios.

SAIBA MAIS
Para ampliar o conhecimento acerca da ética, confira as reflexões do sociólogo Fernando
Henrique Cardoso, a partir de seus estudos sobre Max Weber, sobre a ética dentro da política
para o programa Café Filosófico, referenciadas a seguir:

34
UM POLÍTICO não pode fugir das responsabilidades dos seus atos, 2019. Vídeo (2min 37s).
Publicado pelo canal Café Filosófico CPFL. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?-
v=_8K1NxxgsfE. Acesso em: 07 jun. 2022.
1

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3.3 A ÉTICA E O CAPITALISMO
Os desenvolvimentos do capitalismo e da sociedade burguesa entre os séculos XVIII e
XIX produziram modificações a respeito do que vem a ser a ética e o próprio trabalho.
Adam Smith (1723-1790) é considerado o precursor da ética voltada ao trabalho e à
economia. A palavra “economia”, até antes do surgimento do capitalismo, estava restrita
à administração privada do lar (família, alimentos e escravos ou servos). Foi a partir da
teoria econômica de que a noção desse conceito foi posta de ponta-cabeça, tornando-
-se um assunto público e, portanto, uma ética.

No século XVIII, Adam Smith conseguiu demonstrar, na sua A riqueza das nações, que
o lucro não é um acréscimo indevido, mas um vetor de distribuição de renda e de pro-
moção do bem-estar social. Com isso, logrou expor pela primeira vez a compatibilidade
entre ética e atividade lucrativa (MOREIRA, 1999, p. 28).

Para Smith (1996), o mercado deveria funcionar segundo preceitos éticos individualis-
tas, o que designou como “mão invisível”, a partir da qual o
[...] indivíduo procura, na medida do possível, empregar seu capital em fo-
mentar a atividade nacional e dirigir de tal maneira essa atividade que seu
produto tenha o máximo valor possível [...]. Geralmente, na realidade, ele
não tenciona promover o interesse público nem sabe até que ponto o está
promovendo. Ao preferir fomentar a atividade do país e não de outros países
ele tem em vista apenas sua própria segurança; e orientando sua atividade
de tal maneira que sua produção possa ser de maior valor, visa apenas a
seu próprio ganho e, neste, como em muitos outros casos, é levado como
que por mão invisível a promover um objetivo que não fazia parte de suas
intenções (SMITH, 1996, p. 438).

Figura 09. Monumento de Adam Smith O autor supracitado cria a percepção de que a eco-
na Royal Mile de Edimburgo nomia é uma esfera ética à medida que o merca-
do, aparentemente caótico, é, na realidade, organi-
Fonte: 123RF

zado e produz as espécies e quantidades de bens


que são mais desejados pela população. Quanto
mais egoísta e competitivo for um indivíduo e quan-
to mais obtiver riquezas por meio de seu trabalho,
indiretamente ele contribuirá com o progresso de
outros indivíduos competitivos, por meio da com-
pra de outros serviços ou mercadorias, de modo
que ocorre o progresso coletivo.

Surge uma modalidade de ética que tem, como fim


último, o progresso social a partir do individualismo
exacerbado. Na obra A Riqueza das Noções (1996),

Ética e Cidadania 35
Ética – sua essência e o cotidiano

Adam Smith concebe que a melhor forma de uma sociedade prosperar se dá por meio
das livres iniciativa e concorrência, competitividade, do individualismo; ou seja, cada
sujeito deve concentrar-se em seus interesses econômicos privados.
1

Caso de aplicação 4

No ano de 2021, a ONU publicou o Relatório do Clima. O documento é um importante diag-


nóstico a respeito dos resultados da ação humana sobre o meio ambiente diante de uma so-
ciedade industrializada que procurou se apropriar dos recursos naturais de forma predatória.

Os desequilíbrios sobre o clima causados pela ação humana foram estimulados pelos lucros
das grandes multinacionais.

Investigue em jornais e revistas informações sobre o relatório do clima publicado em 2021


pela ONU. Em seguida, faça uma análise e reflexão desses materiais levando em conside-
ração duas questões:

a. problematize se o interesse privado pode estar acima do coletivo quando pensamos em


questões envolvendo o meio ambiente;

b. avalie formas de equilibrar o interesse privado das empresas e as questões ambientais.

Sugestões de leitura:

INSTITUTO NACIONAL DE METEOROLOGIA. Ministério da Agricultura, Pecuária e Abas-


tecimento. Novo relatório climático do IPCC apresenta avaliação do clima no mundo. Portal
Inmet, 13 ago. 2021.

Disponível em: https://portal.inmet.gov.br/noticias/ipcc-alerta-para-necessidade-de-a%-


C3%A7%C3%B5es-para-mitiga%C3%A7%C3%A3o-de-riscos-clim%C3%A1ticos

3.4 A REGRA SOCIAL E OS VALORES DO INDIVÍDUO


Hannah Arendt (1906-1975), filósofa alemã, concebeu o conceito de banalidade do mal,
descrito na obra Eichmann em Jerusalém – um relato sobre a banalidade do mal (1963).
O livro apresenta uma importante reflexão sobre limites e tensões da relação entre regras
coletivas e valores individuais, que pode ser traduzida nas seguintes questões:

`  Devemos sempre obedecer às leis de forma incondicional?

`  É ético obedecer a leis quando elas podem produzir algum malefício a outros humanos?

36
Hannah Arendt foi convidada pela revista The New Yorker para acompanhar o processo
e julgamento, em Israel, de Adolf Eichmann, um oficial nazista responsabilizado por
operações de extermínio de milhões de civis prisioneiros durante a Segunda Guerra
Mundial, que foi capturado na Argentina, em 1961, e julgado em Jerusalém. 1
A filósofa alemã se surpreendeu ao observar e descrever o julgamento do oficial, pois

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Eichmann não parecia ser um monstro, muito menos um indivíduo com um espírito
maligno e que aparentasse um comportamento antissemita. Ele era, na verdade, um
burocrata que se considerava bom funcionário e obediente às leis de seu país e que de-
veriam ser seguidas. O oficial dizia que seguia ordens superiores e leis por considerar
a obediência nelas seu dever racional.

Hannah Arendt descreve o oficial como um sujeito medíocre, pois ele renunciou pensar
ou refletir nas consequências dos seus atos. Eichmann, obediente às regras impos-
tas coletivamente, mas sem pensar criticamente sobre elas, conduziu ao extermínio
milhares de pessoas. Em virtude dessa observação, Hannah Arendt (1999, p. 144-5)
pondera que, na banalidade do mal, verifica-se a renúncia da humanidade, a ausência
de reflexão sobre os próprios atos, promovendo a falta de responsabilidade, isto é, não
se medem as consequências das ações.

A banalidade do mal ilustra que, muitas vezes, a obediência mais fiel às leis poderia
criar reflexos contra a própria humanidade, porque distancia o indivíduo da responsa-
bilidade com os outros semelhantes, tornando-o adepto de atitudes desumanas. Não
esqueçamos que os campos de concentração, de forma sistemática e organizada, pro-
moviam o trabalho escravo e o extermínio de humanos.

A banalização do mal surge quando outros indivíduos são tratados de forma irresponsável,
quando avaliados como meros números, ou são desumanizados por uma ordem legal que
pode ser considerada cega.

Devemos, então, avaliar como os valores de um indivíduo podem contestar regras


sociais. Caso essas regras estejam em desacordo com princípios éticos de defesa à
humanidade, como as leis nazistas, o sujeito que procura assumir uma atitude ética
precisa refletir a ponto de negar e desobedecer a essas leis e regras sociais. Valores
individuais norteados por princípios éticos e racionais têm que orientar a vida do sujeito,
ainda que as regras coletivas estejam em desacordo com estes mesmos valores.

Ética e Cidadania 37
Ética – sua essência e o cotidiano

Figura 10. Mapa conceitual

1 ÉTICA DA CONVICÇÃO ÉTICA DA RESPONSABILIDADE

Deontologia Teleologia

MEIOS MAIS
DEVER MORAL REFLEXÃO E CÁLCULO
IMPORTANTES IMPORTAM OS FINS
RACIONAL SOBRE RESULTADOS
QUE OS FINS

CERTEZA NAS
CONFIANÇA É RESPONSÁVEL PORQUE
CONSEQUÊNCIAS MEDE AS CONSEQUÊNCIAS
NA RAZÃO MEDE PRÓS E CONTRAS
BENÉFICAS

Fonte: elaborada pelo autor.

Filme
Banalidade do mal no filme o Tribunal de Nuremberg
Após a Segunda Guerra (1939-1945), muitos oficiais nazistas foram levados à corte
e julgados na cidade de Nuremberg, na Alemanha. Eram acusados de crime contra
a humanidade, responsáveis pelo holocausto – o extermínio de milhares de seres
humanos em campos de concentração nazistas.

Com lançamento no ano de 2000, a versão do filme O Julgamento de Nuremberg


apresenta as versões dos oficiais nazistas que procuravam se defender dos cri-
mes cometidos. O filme permite que relacionemos o conceito de banalidade do mal
elaborado pela filósofa alemã Hannah Arendt (1906-1975) e os argumentos em-
pregados pelos oficiais nazistas. Diziam apenas estar obedecendo ordens ou leis,
sendo que seria uma traição à pátria desobedecê-las. Apresentavam-se como bons
cidadãos, responsáveis, chefes de família e religiosos, tudo isso para mascarar a
barbárie realizada nos campos de concentração contra seres humanos.

38
Texto Complementar
Sobre o livro A ética protestante e o espírito do Capitalismo, de Max Weber. 1

Uma importante interpretação sobre a ética presente nas relações mercantis mo-

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dernas está na obra A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, escrita entre
1904 e 1905, mas publicada apenas no ano de 1921. Max Weber procura compre-
ender qual é a origem da racionalidade e da burocracia presentes no capitalismo.

A Reforma Protestante, segundo Weber, deu origem à ascese, entendida como a busca
constante do domínio e controle do próprio corpo, disciplina rígida diante das paixões,
visando finalmente ao controle sobre a natureza por meio da ação metódica e calculada.
Diferentemente do catolicismo (que na Idade Média negava o trabalho como fonte de
riquezas), a conduta de vida protestante, sobretudo a calvinista, desenvolveu uma ética
que prevê a racionalização da atividade mundana e, portanto, que se realiza por meio
do trabalho rígido e do negócio (negação do ócio), enquanto formas de demonstração
a si mesmo de que se é um escolhido por Deus, ou seja, um predestinado à salvação.

A riqueza, o trabalho metódico e a prosperidade seriam sinais de Deus diante dos


eleitos, os predestinados. Na visão de Weber, representa um paradoxo, pois trata-se
de uma forma de religiosidade eminentemente moderna, uma vez que a fé não ape-
nas se reduz à contemplação de Deus, mas também prevê uma ação e dominação
do mundo por meio do trabalho.

O que está em jogo é a relação entre a prosperidade econômica e a ética protestante


com a origem da racionalidade presente no capitalismo. Weber designa esse estilo de
vida como ética do trabalho, o que possivelmente teria criado certas crenças de que
o “trabalho dignifica o homem” ou o “enobrece”. A principal característica da ética do
trabalho é o controle e a racionalização sobre todos os processos da vida e do trabalho.
O lucro e a cobrança dos juros, atividades vistas historicamente como degradantes e
realizadas por espíritos gananciosos, passaram a ser tidas como benéficas e dignas,
de acordo com a análise de Weber a respeito do protestantismo e do surgimento da
modernidade. Noções antes apenas presentes no vocabulário do catolicismo, como
missão, visão e vocação, foram transferidas à esfera do trabalho racional e gradativa-
mente incorporadas ao vocabulário do universo gerencial da administração.

O ponto central da análise que Weber realiza sobre a ética do trabalho é a de que
indiretamente, ou seja, sem o saber, os protestantes inventaram as práticas racio-
nalizadoras que foram incorporadas pelo capitalismo. Certamente, indivíduos de
outras religiões e até mesmo ateus teriam percebido o rápido progresso econômico
dos fiéis puritanos e começaram a imitar a ética do trabalho, mas agora sem a sua
religiosidade original. Pode-se dizer que as práticas econômicas adotaram a ética
do trabalho, mas o vínculo entre a religiosidade e a racionalidade evaporou-se.

É interessante notarmos que a ética do trabalho e o individualismo proposto por


Adam Smith contribuíram para consolidar a ética no cenário econômico capitalista.

Ética e Cidadania 39
Ética – sua essência e o cotidiano

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Brasília: Ed. UNB, 1992.

BOFF, Leonardo. Fundamentalismo, terrorismo, religião e paz. Petrópolis: Vozes, 2009.

BRAGA JUNIOR, Antonio Djalma; MONTEIRO, Ivan Luiz. Fundamentos da ética. Curitiba: InterSaberes, 2016.

KANT, Immanuel. Fundamentação da metafísica dos costumes. São Paulo: Barcarolla e Discurso Editorial, 2009.

MAQUIAVEL, N. O Príncipe. São Paulo: Abril Cultural, 1979.

MOREIRA, Joaquim Manhães. A ética empresarial no Brasil. São Paulo: Pioneira Cengage, 1999.

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SARTRE, Jean Paul. O existencialismo é um humanismo. São Paulo: Abril, 1984. (Col. Os Pensadores).

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SMITH, Adam. A riqueza das nações. São Paulo: Editora Nova Cultural, 1996.

SROUR, Robert Henry. Ética empresarial. Rio de Janeiro: Campus, 2000.

VAZ, Henrique Claudio de Lima. Escritos de filosofia II: ética e cultura. São Paulo: Loyola, 1988.

WEBER, Max. A ética protestante e o espírito do capitalismo. São Paulo: Pioneira, 1999.

40
Ética e Cidadania
41
1

Universidade São Francisco


Atuação Profissional Ética na Sociedade Contemporânea

UNIDADE 2

ATUAÇÃO PROFISSIONAL ÉTICA NA


2
SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA

INTRODUÇÃO
Na Unidade 1, tratamos de apresentar algumas ideias iniciais e fundamentais para a
problematização que vamos fazer a partir de agora. Isto, pois não é possível problema-
tizar a realidade sem um fundamento teórico – a não ser que o objetivo fosse continuar
no senso comum. Assim, já entendemos de que modo a ética e a moral se fazem pre-
sentes na realidade cotidiana e de que modo as ideias de diferentes autores podem ser
auxílio para uma vivência ética e cidadã na sociedade. Não é possível pensar um bom
profissional (entendendo-se uma completude), se não houver uma opção de decisão
racional pela boa ação – a ação ética.

Nesta unidade, lançaremos olhar sobre aquilo que é a inserção de um(a) profissional
no meio social – lembrando que, apenas em sociedade, a vivência profissional alcança
sentido, quando os indivíduos respondem às necessidades da comunidade humana.
E que sociedade é esta? Em primeiro lugar, temos de considerar a velocidade das
mudanças. Ser profissional é assumir a necessidade de atualização constante, enten-
dendo que sua formação deve ser um processo que começa com a formação universi-
tária, mas que não tem fim determinado. São necessidades em contextos de diferentes
oportunidades também. Porém, sem a ética, corre-se o risco de fazer da profissão um
tipo de subemprego (pensemos as controvérsias do fenômeno da uberização).

Os dilemas aparecerão em todos os contextos e a ética não oferece as respostas e


soluções, mas oportunidade de reflexão mais aprofundada sobre as situações. E
são estas reflexões que permitem a construção de caminhos mais específicos para
cada âmbito profissional, o que aparece de forma concisa nos códigos de ética pro-
fissional. Será importante pensar sobre quanto as regras de uma carreira profis-
sional podem entrar em conflito com os valores dos indivíduos. O que fazer, então?
Decidir e assumir responsabilidades.

Ainda nesta unidade, refletiremos sobre a sociedade enquanto marcada pelas tecnolo-
gias – digitais, principalmente. O que muda nas relações pessoais e profissionais quan-
do mediadas pela tecnologia? E a ética pode sofrer influências? De que tipo e até que
ponto? Vamos refletir sobre estas importantes temáticas para a formação profissional!

42
1. O QUE SIGNIFICA SER PROFISSIONAL?

1.1. DIALOGAR COM A REALIDADE


2

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O ANO é 2019 d.C. no calendário Ocidental. A sociedade está há quase 100 anos se desen-
volvendo na mesma toada. Depois da longínqua Revolução Industrial, que criou as primeiras
máquinas a vapor, o ritmo de produção se mantém praticamente intacto: rotinas produtivas e
administrativas pré-estabelecidas; relações diretas de subordinação e hierarquia; jornadas pre-
senciais de trabalho bem identificadas; tecnologias de trabalho restritas e acessíveis somente
em um determinado local. Todos sabem quem são, a quem se submetem, qual sua remunera-
ção e qual o descritivo de sua função e a natureza dessa profissão. No final do ano, sem muito
holofote, alguns cientistas do mundo dizem que ‘há nas redondezas’ um novo ser, pequeno e
mortal, circulando no ar. Ele tem uma capacidade única de entrar em seu corpo, alterar sua
forma de respirar, sua composição muscular, suas sinapses neurais. Não há tratamento. Não
há dimensão de como será sua transmissão. Não há vacina. Só há uma recomendação: iso-
lamento total e imediato. Alguns meses depois, a Organização Mundial de Saúde (autoridade
máxima internacional) declara: Pandemia. Em menos de 72 horas, todas as sociedades deve-
riam fechar seus comércios, indústrias e serviços. Não há vida nem movimento nos espaços
públicos. Pessoas devem se afastar de outras pessoas, inclusive familiares, e se colocarem
em reclusão e com proteção facial. Trabalhadores devem trabalhar isolados. Trabalhar? Sim. O
mundo das relações afetivas e cotidianas deve parar. O mundo do trabalho não. Em outras 72
horas, os trabalhos são realizados a distância. Tecnologias coletivas instaladas em ambientes
privados; ambientes privados transformados em espaços públicos; trabalho sem superviso-
res hierárquicos; profissões sem ocupação ou sem perspectiva. Cobranças por produtividade
mantidas acompanhadas de desestruturações internas (departamentos e setores fechados e
fundidos; novas funções assumidas por novos profissionais; expertises secundárias ganhando
valor dentre outras). Por quanto tempo deve durar esse momento? - indagam-se todos. Eles
respondem: Até que exista a cura! E se não houver ou não descobrirem? Até que exista a va-
cina! E até lá? Reinvente-se. Reeduque-se. Transforme-se. Aceite. E assim aconteceu. Para
alguns historiadores, mais uma das grandes transformações da humanidade. Para sociólogos,
a dinâmica esperada nas sociedades. Para ambientalistas, a consequência do nosso modo de
viver e a resposta da natureza. Para os educadores, o momento de demonstrar que os funda-
mentos de formação e comportamentais dão base para a resolução de qualquer adversidade.
Afinal, o que significa ser profissional?

A descrição sucinta apresentada acima sobre as consequências e mudanças na vida


da humanidade em virtude da Pandemia do SARs-COV 19 poderia referir-se a um mo-
mento único na história. Mas não é.

SAIBA MAIS
A Pandemia do SARS-COV19 foi declarada pelo Sr. Tedros Adhanom, diretor geral da Or-
ganização Mundial de Saúde (OMS), no dia 11 de março de 2020. A organização elevou o
estado de contaminação à pandemia de Covid-19, doença causada pelo novo coronavírus
(Sars-Cov-2), não em virtude, à época, da gravidade da doença, e sim à disseminação

Ética e Cidadania 43
Atuação Profissional Ética na Sociedade Contemporânea

geográfica rápida que o Covid-19 estava apresentado. Para mais informações consultar
Bio-Manguinhos – Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos da Fundação Oswaldo Cruz
(FIOCRUZ). Disponível em: https://www.bio.fiocruz.br/index.php/br/noticias/1763-o-que-e-u-
2 ma-pandemia. Acesso em: out. 2021.

Movimentos de valorização, modificação e extinção das profissões acompanham de


perto as grandes mudanças sociais e políticas da humanidade decorrentes de desas-
tres naturais, guerras ou transformações tecnológicas.

As primeiras décadas do século XXI foram marcadas por mais uma leva de mudanças.
Os processos contínuos de independência e inovação econômicas e tecnológicas con-
tribuíram para novos rompimentos de barreiras nacionais e culturais – como observa-
mos sempre nos grandes processos de globalização –, mas, também e sobretudo, para
alteração nas diretrizes da excelência do trabalho profissional, cada vez mais exigidas
pela sociedade e desejadas pelos mercados vez que aumentam a produtividade.

Toda nova realidade provoca mudanças sistêmicas – forma de relação entre as par-
tes – e, por vezes, estruturais – as bases e fundamentos das relações. Todas as ve-
zes que averiguamos as consequências e causas de alguma grande Revolução
na História – tais como a Industrial, a Francesa, as Revoluções de Independência,
as Tecnológicas, as Culturais e, mais recentemente, as Nanotecnológicas –, veri-
ficamos efetivas alterações estruturais, que afetam desde os processos aos valores
fundamentais dentro de uma sociedade.

Esses momentos nos levam a alterar nossa relação e nossos padrões de consumo –
como o nosso vestuário e nossa alimentação –, de formas de aprender – aumentando
a procura por cursos rápidos de formação técnica, língua estrangeira etc. –, de práticas
de autocuidado – bem-estar e de saúde mental –, de prática de atividades de lazer e
diversão e de momentos de interação social.

A realidade transforma as relações sociais, dentre as quais se situa a relação de traba-


lho, alterando sua forma de realização, sua forma de produção, seu local de desenvol-
vimento – por exemplo, sair do presencial e ir para o home office – e, sobretudo, seus
referenciais valorativos que são base para a realização e para identidade profissional.

Sabemos que muitas das necessidades são inexoráveis, aconteceriam com o próprio
desenvolvimento social e tecnológico. Outras, não. Por isso mesmo, ser um bom profis-
sional significa saber ler a realidade e estar preparado para se antecipar às mudanças,
de forma comprometida com a realidade na qual está inserido, agindo em diálogo com
o desenvolvimento e melhora de seu contexto social.

1.2. A NECESSÁRIA E OPORTUNA ATUALIZAÇÃO PROFISSIONAL


As literaturas de recursos humanos, gestão de pessoas, psicologia organizacional, direito
do trabalho, de pedagogia e sociologia da educação, dentre outras, nos trazem uma série
de referenciais para respondermos à pergunta “O que significa ser um bom profissional?”.

44
Em grande medida, mesmo com cada um destacando alguma característica que mais
chame atenção ao seu olhar específico, esses diferentes profissionais concordam
que para ser um bom profissional é preciso, de maneira contínua, estar atualizado
na área científica e nas competências pertinentes à sua função, buscando sempre o 2
maior nível de excelência técnica.

Universidade São Francisco


Instituições internacionais, como a EdTech Global Limited, acreditam que tal atitude é
das mais importantes, tanto é que a elencam dentre as categorias de competências
(skills) a serem desenvolvidas para se ser um profissional de sucesso e do futuro.

Identificada e denominada na literatura de gestão de pessoas por recapacitação


(reskilling) (traduzida livremente para “retreinamento”), essa competência refere-se à
capacidade que o profissional deve ter de “reconstruir a si mesmo” ou, ainda, de cons-
truir novas habilidades a partir de sua base. Para, efetivamente, comprometer-se com
esse processo de atualização técnica em nível de excelência, algumas outras compe-
tências devem ser estimuladas, a partir da necessidade de:

`  uma postura de não-conformação (ou seja, de não acomodação frente aos desafios e às
soluções já testadas);

`  aceitação de novas ideias (buscando-as por si mesmo ou reconhecendo-as em membros


da equipe de trabalho);

`  desprendimento em relação às certezas consideradas absolutas e irrefutáveis que não


permitem espaço para o novo.

A busca constante pela excelência, mais do que uma competência individual, é uma
exigência concreta do mundo no qual estamos inseridos e que se mostra inundado
por mudanças rápidas, profundas e simultâneas em campos tecnológicos, políticos,
econômicos e valorativos.

O desenvolvimento da excelência profissional exige, além do conhecimento da realida-


de, o aprofundamento constante sobre as necessidades sociais de cada área. Por isso
mesmo, tal compromisso além de ético é, também, manifestação de cidadania. Vincu-
la-se a um projeto emancipatório em que passamos a ter um papel ativo nas decisões
profissionais e de promoção de autonomia.

A busca por excelência, seja no âmbito global – quando pensamos no desenvolvimento


de um país – ou no âmbito individual – quando pensamos em crescimento profissional
–, exige de nós o estabelecimento de rotinas, processos e diretrizes adequadas. Por
meio dessas exigências, eliminamos, constantemente, os diferentes desequilíbrios de
origem – como a formação educacional de base –, de ordem socioeconômicas e de
pré-concepções e preconceitos.

Ética e Cidadania 45
Atuação Profissional Ética na Sociedade Contemporânea

1. 3. COMPROMISSO COM A INOVAÇÃO


O novo status das profissões, suas dinâmicas inter-relacionais, em trabalhos que exi-
gem formações múltiplas, suas novas formas de realização –internacionalizada, flexível
2 e “uberizada”, dentre outras –, além do “[...] tsunami tecnológico que tem decretado a
falência de vários modelos de negócio e diminuído o prazo de validade – não apenas
de produtos e serviços, mas de empresas inteiras” (SOUZA, 2021, [n.p.]), colocam-nos
questões profundas sobre as habilidades e competências que devem permear a forma-
ção acadêmica tecnológica e profissional.

Em seu parecer, Souza (2021, [n. p.]) ainda afirma que “[...] há mais de dois anos ‘negó-
cios tradicionais estão sendo destruídos da noite para o dia por soluções disruptivas’”.
As chamadas soluções disruptivas – aquelas que rompem com o esperado, com o cur-
so normal de um processo – têm se apresentado como uma manifestação de inovação.
Há muito tempo a inovação não concerne somente às ações de criação de produtos ou
sistemas novos, gerados a ‘partir do nada’ ou de uma ‘ideia genial’.

É evidente, principalmente para aqueles que se dedicam de forma profissional às pes-


quisas, que ainda se mantém no horizonte e no projeto de sociedade o objetivo de reali-
zar alguma grande descoberta, em decorrência de nossa prática e estudos. Entretanto,
para os profissionais inseridos no mercado dinâmico do trabalho cotidiano – conside-
rando-se a natureza das relações no sistema capitalista –, os elementos inovadores
podem ser também aqueles oriundos da inserção de práticas alternativas que estabele-
cem novas lógicas, novos processos e articulações e que apresentam novas soluções.

Mas, comumente, quando observamos o mercado de trabalho, costumávamos apontar


que momentos inovadores e ações inovadoras estavam presentes somente em gran-
des reestruturações produtivas. Entretanto, a diversidade do mercado, das profissões
e das empresas, a especialização e a flexibilização de processos, fez com que essas
práticas se deslocassem do âmbito das grandes estratégias para o âmbito da formação
individualizada, ética, de cada profissional.

SAIBA MAIS
O termo usual para definir um conjunto de transformações com grande impacto no mundo do
trabalho é a Reestruturação Produtiva – alguns denominam como Reengenharia Produtiva.
Esse termo se refere a um processo com efetivas alterações estruturais, nas bases lógicas e
racionais de determinada forma de realização produtiva e profissional.

A inserção de lógicas, tais como o Taylorismo, o Fordismo, o Toyotismo, a automação dos


anos 1970 são clássicos exemplos de reestruturação. A efetividade da alteração diz respeito
às novidades introduzidas nos sistemas produtivos, que impactam os processos de trabalho,
geram mudanças no modo de elaborar os produtos e organização dos processos de traba-
lho, ocasionando processo de flexibilização, desregulamentação e reformas gerenciais. Com
a especificação das profissões e dos ambientes de trabalho – saúde, serviços ou indústria,
nacionais ou transnacionais –, essas transformações vêm sendo percebidas de maneira e
em tempos diferentes em cada setor.

46
Para compreender melhor o conceito, indicamos a leitura do artigo do sociólogo Octavio
Ianni, referenciado abaixo.

IANNI, Octavio. O mundo do trabalho. Revista São Paulo em Perspectiva, São Paulo, vol. 2
8, n. 1, p. 2-12, 1994. Disponível em: http://produtos.seade.gov.br/produtos/spp/v08n01/
v08n01_01.pdf. Acesso em 09 jun. 2022.

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Ser profissional significa, dessa forma, ser comprometido com uma prática inovadora
e empreendedora individualizada, absorvida como diretriz interna de gestão da própria
carreira. Ser comprometido eticamente com a inovação nos leva a dimensionar um pro-
fissional orientado para o respeito às regras e a consciência do impacto de suas ações
para o desenvolvimento da sociedade.

1.4. COMPROMISSO COM A ÉTICA PROFISSIONAL


Dentre as perguntas fundamentais que circulam em torno da pergunta “o que significa
ser profissional?”, a todo instante, encontramos a preocupação ética. Certo é que, ao
pensarmos em formação ética, podemos verificar a complexidade e interdisciplinarida-
de, o que nos propicia indagar: como a dimensão ética do ensino, da aprendizagem e
da vivência acadêmica e profissional pode estar compromissada com o desenvolvimen-
to e a realização de valores humanizadores, de maneira a proporcionar uma diferencia-
da e contemporânea identidade profissional?

Ser profissional significa, então, conhecer e reconhecer a importância da cultura huma-


na em nossos valores individuais e coletivos, a partir da identificação de sua construção
social, os problemas com que dialogam. Implica um processo de conscientização do
conjunto de elementos que constituem a teia social e o entendimento de que as rela-
ções são problematizadas em níveis internos e externos.

EXEMPLO
A necessidade financeira aliada a uma ausência de formação profissional específica ou difi-
culdade de inserção nos mercados de trabalho pode nos encaminhar para um trabalho sem
garantias, com uma autonomia relativa, como são aqueles intermediados por plataformas di-
gitais – entregadores, motoristas de aplicativos etc. Entretanto, tanto em nossa prática quanto
em nosso olhar social sobre este trabalho, não podemos deixar de problematizar as questões
relativas ao respeito humano, ao direito fundamental ao trabalho digno e sem precarização.

O compromisso ético de todos os profissionais está ligado ao exercício profissional para


realização e desenvolvimento do indivíduo e da sociedade, dentro de parâmetros claros
de cidadania e de valores. Nesse sentido, Vazquez (2003, p. 23) define ética como “[...] a
teoria ou ciência do comportamento moral dos homens em sociedade. Ou seja, é ciência
de uma forma específica de comportamento humano”. Ser um profissional significa assumir
um determinado comportamento humano, portanto o ato em si mesmo já é um ato ético.

Ética e Cidadania 47
Atuação Profissional Ética na Sociedade Contemporânea

A questão basilar que nos orienta nesta unidade é a da compreensão de “O que significa
ser profissional?”. Para além de uma resposta apressada que nos conduziria a algo do tipo
“é ser formado em tal área” ou “desempenhar determinada função”, buscamos construir um
2 caminho reflexivo que nos levasse a entender a multiplicidade da questão.

Ser profissional é ser um sujeito de consciência ética, comprometido com sua sociedade e
com os problemas do concreto, comprometido com seu desenvolvimento pessoal em nível de
excelência técnica e pré-disposto a se envolver em uma jornada empreendedora e inovadora.

Longe de ser tarefa fácil, ser profissional significa inserir-se em uma posição de respeito
frente à formação e crítica em relação ao que as circunstâncias exigem no dia a dia da
prática. Não se nasce um bom profissional, torna-se em cada atitude e em cada escolha.

Figura 01. Mapa: Trabalho e Realidade

1 Dialogar com a realidade

Sociologia do trabalho O trabalho como


elemento da
condição humana

Mudanças sistêmicas:
alteram a forma de A humanidade sempre está em
realizar as atividades. busca de algo novo, que dê novos
significados à vida e dialogue com
novas formas de organização, novos
Mudanças estruturais: valores e uma nova dimensão
alteram as bases da de ser humano.
relação produtiva

O papel social do profissional: impli-


ca em assumir uma postura crítica e
ética, colocando-se como participan-
te das transformações do mundo.

Fonte: elaborado pela autora.

48
Figura 02. Compromisso com Inovação

2
Assumir um compromisso 2
com a inovação

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Reestruturações Ações disruptivas
(reengenharias) produtivas
Nova lógica

Novas soluções
Novas competências
(skills) Novos produtos

Novas metodologias

Empreendedorismo Novas técnicas


(novas atitudes)

Fonte: elaborado pela autora.

Figura 03. Atualização Profissional

Permanecer atualizado em
3
sua profissão

Excelência técnica

Atualizar em novos Buscar conhecimentos inter-


conhecimentos profissionais disciplinares em áreas que são
consideradas bases para o apri-
morar o desenvolvimento pro-
Desenvolver olhar multidi- fissional (Ex: aperfeiçoamento
mensional sobre a profissão, na língua portuguesa, domínio
acompanhando as mudanças da língua estrangeira, domínio
na teoria, na metodologia e de novas tecnologias de base
nos procedimentos de [textos, planilhas mecanismos
sua área específica de busca, etc.]

Fonte: elaborado pela autora.

Ética e Cidadania 49
Atuação Profissional Ética na Sociedade Contemporânea

Figura 04. Compromisso com a Ética

2 Assumir compromisso
4
com uma postura ética

A ação humana:
liberdades e responsabilidade Valores da profissão em diálogo
com os valores da Sociedade

Heteronomia em
Autonomia das
relação às vontades
vontades individuais =
coletivas =
liberdade de agir
responsabilidade

Desenvolvimento de
Desenvolvimento
práticas e políticas
de valores sólidos e
de responsabilidade
compromisso com
social e gestão de
a sociedade
diversidade

Fonte: elaborado pela autora.

1.5. PANORAMA DO MERCADO DE TRABALHO NO BRASIL


Para compreender um pouco a realidade do Mercado de Trabalho no Brasil, verifique os
links abaixo com materiais complementares ao tema.

1. Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho – CESIT


Vinculado ao Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas, o CESIT se
dedica ao estudo das relações trabalhistas no Brasil, analisando principalmente os im-
pactos das alterações sociais na economia e nos modelos produtivos. As pesquisas são
pautadas em dados obtidos nos relatórios econômicos, nas atuais teorias de economia
e sociologia do trabalho e em planos nacionais de desenvolvimento.

SAIBA MAIS
Recomendamos a leitura das Cartas que abordam sempre os temas mais recentes do Merca-
do de Trabalho. Disponível em: https://www.cesit.net.br/. Acesso em: 09 jun. 2022.

50
2. Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos
– DIEESE
Atuando desde 1955, entidade criada pelas associações sindicais (Sindicatos, fede- 2
rações, confederações de trabalhadores e centrais sindicais) de todas as categorias
profissionais, tem o objetivo de desenvolver pesquisas que subsidiem as demandas dos

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trabalhadores. Um dos trabalhos mais sólidos e consistentes diz respeito à análise de
empregabilidade de cada categoria profissional (divulgada mensamente em boletins es-
tatísticos) e um estudo pormenorizado do valor real do Salário-Mínimo frente aos custos
e à inflação registrada mês a mês (desde o início do Plano Real em 1994).

SAIBA MAIS
Disponível em: https://www.dieese.org.br/. Acesso em: 09 jun. 2022.

3. Conversas Sobre o Mundo Contemporâneo. Instituto de Economia/ UFRJ


Canal Audiovisual de debates e atualizações sobre o mundo contemporâneo, com especial
atenção às questões econômicas e sociais vinculadas ao Trabalho. Idealizada e realizada
pelos professores do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

SAIBA MAIS
Os programas são disponibilizados em duas plataformas: Youtube (https://www.youtube.com/
channel/UCvg3GT5Xb9EII7BY9UXOSKQ) e nas Plataformas de Podcast.

Filme e Documentários
`  Filme

  O homem que mudou o jogo Moneyball (Original). Direção: Bennett Miller. Produção
de Brad Pitt, Michael De Luca e Rachael Horovitz. Estados Unidos da América. Colum-
bia Pictures, 2011, 133 minutos.

Síntese comentada: Billy Beane (Brad Pitt) gerencia o time de beisebol Oakland A’s e o
responsável pela montagem da equipe. Os maus resultados fazem com que ele seja for-
çado a reinventar e reorganizar sua equipe, entretanto terá à disposição um orçamento
apertado, inferior aos de seus concorrentes.

A prática de contratação dos times (o gerenciamento de talentos e equipes) leva em


consideração dados estatísticos e análises subjetivas dos famosos ‘olheiros’. Diante da
crise, um assistente propõe uma ideia nova: utilizar análises geradas por computador
para contratar novos jogadores. O gerente geral apoia a nova ideia e coloca em prática

Ética e Cidadania 51
Atuação Profissional Ética na Sociedade Contemporânea

seu plano, enfrentando desconfianças de toda a equipe. O filme vale ser visto pelos no-
vos profissionais pois trabalha a característica de estarmos sempre prontos para inovar,
para aceitar novas ideias e desafios e, sobretudo, a rompermos com culturas no ambien-
2 te de trabalho que não geram resultados positivos.

SAIBA MAIS

Documentário
GIG – A Uberização do Trabalho. (Gig Society - The Uberization of Work). Dirigido por Car-
los Juliano Barros, Caue Angeli & Maurício Monteiro Filho. Produzido por Carlos Juliano
Barros. Brasil, 2019, 60’. Site Oficial: https://reporterbrasil.org.br/gig/

Sinopse Oficial: “O crescimento da economia alternativa, chamada de “GIG Economy”, tem chama-
do cada vez mais a atenção da sociedade. Isso acontece devido às plataformas digitais em todo o
mundo. No Brasil, esse processo também é conhecido como ‘Uberização’, que consiste na prática
do trabalho autônomo, porém, com condições precárias ao trabalhador. Os debates a respeito vêm
crescendo a cada dia. Esse documentário nos fornece uma real dimensão das necessidades e da
situação atual do trabalho em grandes centros, agravada durante a Pandemia do SARS-COV19.
Para além de uma reflexão sobre as novas formas de trabalho, o documentário aborda, a partir de
relatos pessoais, temas como a tecnologia no mundo do trabalho, precarização e dignidade huma-
na”. Esta problemática será retomada adiante.”

`  Texto Complementar

Empreendedorismo social corporativo: uma agenda para a promoção sustentável de práticas


sociais, ambientais e económicas.

Resumo: “A presente comunicação integra uma investigação mais ampla que está a ser desen-
volvida no quadro do projeto europeu EMBRACE – European Corporate Social Entrepreneur-
ship Curriculum. Pretende apresentar os resultados da segunda fase do projeto centrada no
levantamento de boas práticas de empreendedorismo social corporativo (ESC), implementadas
em organizações de diferentes tipologias, pertencentes aos 9 países europeus parceiros (Ale-
manha, Espanha, Grécia, Hungria, Irlanda, Lituânia, Países Baixos, Portugal e Roménia) [...]”.

SAIBA MAIS
Leia o texto completo em: https://parc.ipp.pt/index.php/iirh/article/view/4291.
Acesso em: 09 jun. 2022.

  Uberização, A Nova Classe De Trabalhadores

Resumo: “Neste artigo, analisaremos o que significa a uberização, será observado o


contexto histórico do trabalho e suas evoluções, assim como a análise social, jurídica
sobre a regulamentação dessa nova classe de trabalhadores, enfatizando os impactos
e resultados diretos que a uberização tem na vida dos indivíduos”.

52
SAIBA MAIS
Leia o texto completo em: https://www.periodicorease.pro.br/rease/article/view/312. 2
Acesso em: 4 nov. 2021.

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2. A NECESSIDADE DE REGRAS MORAIS

2.1. OS DILEMAS ÉTICOS CONTEMPORÂNEOS


Imagine a seguinte situação: um sequestrador seleciona duas barcas na baía de uma
cidade grande e instala nelas duas bombas. Uma das barcas está transportando traba-
lhadores e cidadãos comuns que voltam para suas residências, após um dia de traba-
lho. A outra está transportando prisioneiros condenados por crimes graves contra a so-
ciedade. O sequestrador informa aos passageiros das duas barcas que eles possuem,
cada um, o detonador da bomba da outra barca. O primeiro que detonar a outra barca
garantirá a sobrevivência de todos em sua barca. Imediatamente o dilema se instaura.

Quais vidas são mais importantes? Quais são os limites para a defesa da própria so-
brevivência? Os cidadãos comuns ao escolherem aqueles que já foram condenados
e criminosos devem morrer, eles se igualam a eles? E os condenados ao escolherem
sobreviver serão mais criminosos ainda confirmando o que a sociedade argumenta que,
entre eles, não existem valores éticos?

Esse episódio conhecido por muitos como uma das cenas mais impactantes do filme
de Hollywood, Batman: o cavaleiro das trevas, baseia-se em um clássico dilema da
teoria dos jogos determinado o “Dilema dos Prisioneiros” (TUCKER; LUCE, 1959, p. 13)
e utilizado desde a década de 1950 para pensarmos em estratégias decisórias frente a
situações inusitadas e de difícil discernimento.

Esse também é o exemplo escolhido para ilustrar a discussão desta unidade. Se todos
temos, em nossa composição como sujeitos e cidadãos, valores sociais e morais que
nos conduzem a uma prática responsável e direcionada ao bem-comum, por que temos
a necessidade de construir novas regras morais e atitudinais para profissionais distintos
e situações distintas?

Todos nós já ouvimos a expressão “a escolha de Sofia”. Quando em 1979, o escritor in-
glês William Styron publicou seu romance com esse título que resumia o enredo de sua
personagem principal, ele nem sequer imaginou que dali em diante o mundo ocidental
utilizaria essa expressão sempre que quisesse se referir a um dilema que se estabelece
entre escolhas muito difíceis.

Ética e Cidadania 53
Atuação Profissional Ética na Sociedade Contemporânea

SAIBA MAIS
O nome ‘dilema’ é o termo escolhido para identificar situações nas quais as escolhas
2 são aparentemente impossíveis ou, como identificamos nas teorias éticas, nas quais as
opções representam bens irreconciliáveis ou males inescapáveis.

Na vida pessoal, os grandes dilemas nos colocam em situações em que devemos esco-
lher entre sonhos, projetos e, de maneira mais delicada, em ocasiões que enfrentamos
a vida versus a morte. Isso se dá, normalmente, porque os dilemas nos colocam em
confronto com nossos valores.

Se analisarmos o contexto das sociedades contemporâneas, notaremos que enfrenta-


mos um período no qual os paradigmas, isto é, os grandes postulados e princípios que
determinavam a estrutura social e moral de um tempo, vêm sendo colocados à prova,
gerando novos desafios e redimensionando conceitos e valores.

Em outros tempos da história da humanidade, como no Renascimento do século XV,


após as Revoluções Industrial e Francesa no século XVIII, ou mais recentemente, logo
após a Segunda Guerra Mundial no século XX, a sociedade foi fortemente impactada
por essas mesmas dúvidas e reflexões.

Alguns teóricos defendem que essa crise ética se dá pela inexistência, nesses períodos
de mudança, das chamadas “teorias universais da moralidade”, que geram um momento
de “suspensão de juízos”, no qual não se sabe exatamente quem se é, o que se tem ou o
que se deve fazer, mas se tem certeza do que aquilo que acreditávamos ter e saber não
se mostra mais suficiente para explicar e/ou referenciar o mundo atual em que vivemos.

SAIBA MAIS
Compreende-se como “Teoria Universal da Moralidade” ou “Universalismo Moral” as
propostas de sistema ético para as quais todos os indivíduos possuem ou estão em uma
situação semelhante – e por vezes até idêntica –, considerando-se, sobretudo, sua natu-
reza humana. Entende-se que a ação moral é única e as decisões são tomadas indepen-
dente de características como raça, cultura, sexo, religião, nacionalidade, sexualidade ou
qualquer outro distinto. Um dos períodos filosóficos que possui variados sistemas éticos
universais é o da Filosofia Antiga e, depois, os estabelecidos no Iluminismo, como o perí-
odo analisado pelo professor Paulo Sérgio Rouanet, no artigo referenciado a seguir:

ROUANET, Paulo Sérgio. Grandeza e decadência da Ética da Ilustração. Hypnos, São Pau-
lo, ano 8, n. 10, p. 1-10, 2003. Disponível em https://hypnos.org.br/index.php/hypnos/article/
view/142. Acesso em: 03 dez. 2021.

Como herdeiros de uma modernidade estimulada a acreditar no futuro, na ciência, na


técnica e no progresso individual, considerando o conhecimento válido como o resulta-
do do avanço dos esforços do homem na apropriação e compreensão do seu mundo,
estamos acostumados às revoluções tecnológicas e sociais.

54
Sabemos que, na sociedade contemporânea, cada dilema estabelecido é potencial-
mente gerador de uma nova organização da comunidade, das formas de acumulação e
distribuição da riqueza, do desenvolvimento das artes, dos saberes, de um reposiciona-
mento do homem frente ao seu mundo e ao seu tempo. 2
Gilles Lipovetsky (2007, p. 23) aponta que, “de repente”, a instantaneidade se trans-

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forma em uma das marcas de nosso tempo – que ele classifica como hipermoderno.
Nesse tempo, somos convidados a vislumbrar a possibilidade de se viver sem sentido,
ou seja, agimos sem crer na existência de um único e categórico sentido, mas apostar
na construção permanente de sentidos múltiplos, individuais, grupais e até fictícios (es-
tratégias hipotéticas como a do dilema dos prisioneiros).

Frente à possibilidade de “viver sem sentido”, de não se crer mais em um único e cate-
górico sentido, em uma verdade absoluta, mas de apostar na construção de sentidos
múltiplos, Lipovetsky (2007, p. 61) nos alerta que abrimos espaço para a inserção da
ética em uma cultura de massa. Essa cultura propicia uma uniformização de atitudes,
uma ampliação da alienação em relação para a nossa sociedade e para as nossas
profissões e, em consequência, uma perda de autonomia e emancipação. Com esse
quadro, o dilema deixa de ser situacional e se torna um dilema interno no qual, frequen-
temente, nós nos vemos imersos em um mundo de contradições entre “aquilo que eu
posso ser” e “aquilo e que eu consigo ser” e “aquilo que eu deveria ser”.

Essa nova dinâmica da sociedade nos insere em um processo decisório insustentável,


uma vez que, de maneira prática e objetiva, não temos como gerenciar estratégias co-
letivas para resolução de problemas. Um dos caminhos, então, é o de recorrermos aos
acordos coletivos que estabelecem novas regras sociais e profissionais, tentando frear
essa característica contemporânea de autodeterminação das próprias regras.

2.2. CONFRONTO INICIAL: ÉTICA DO INDIVÍDUO VERSUS ÉTICA


DA PROFISSÃO
Os dilemas éticos contemporâneos parecem nos inserir em um processo de reivindica-
ção, de busca, pelo direito de sermos absolutamente nós mesmos, vivenciando nossas
vidas a partir de valores culturais e em busca de bens e benefícios individuais.

SAIBA MAIS
O período que se iniciou após as guerras mundiais do século XX é caracterizado como
pós-modernidade, período que abrigaria o sujeito pós-moderno. Vale lembrarmos que,
para a história tradicional, a última demarcação de período histórico é o da Idade Con-
temporânea, iniciada com a Revolução Francesa.

O termo “pós-modernidade” surgiu com a obra do sociólogo francês Jean-François Lyo-


tard denominada A condição pós-moderna, em que o autor apresenta que, depois das
grandes guerras, as metanarrativas (a história contada de uma única forma, a caracteri-
zação do bem e do mal absoluto) deixaram de existir. As explicações agora precisam de
contextos específicos para que sejam validadas.

Ética e Cidadania 55
Atuação Profissional Ética na Sociedade Contemporânea

Com outros desdobramentos, o sociólogo polonês Zygmunt Bauman (conhecido pelas


obras Modernidade Líquida e Amor Líquido) defende que a pós-modernidade existe
como uma “modernidade líquida”, ou seja, somos conscientes de que nossa realida-
2 de atual é ambígua, multiforme, possível de apresentar respostas diferentes para os
mesmos problemas, mas não tem força suficiente ainda para romper com os valores
gerais da modernidade.

O uso do termo “pós-moderno”, aqui, nesta unidade refere-se a esse tempo que abriga
homens inseridos em um mundo em transformação, em busca de respostas verdadeiras,
padrões éticos válidos e universais.

Essas transformações na ética individual criam novos desafios para as éticas sociais
e profissionais. O indivíduo encontra um complexo de incertezas valorativas que re-
sultam em sua dificuldade em identificar sua própria identidade, diluídas nos múltiplos
interesses sociais (interesses afetivos distintos de interesses de consumo de interesses
profissionais de interesses familiares dentre outros), e sua identidade ética e moral em
meio a um “[...] mundo pleno de contradições e incertezas” (GOERGEN, 2005, p. 59).

Essa perda de identidade ética individual ocorre, pois o ser humano pós-moderno não
assume determinados comportamentos por força de princípios éticos ou de um dever
ser – como se acreditava na deontologia tradicional –, mas sim porque é seduzido pelas
promessas hedonistas do sistema (o prazer imediato, a felicidade e a tranquilidade).

GLOSSÁRIO
Como já viso na Unidade 1, deontologia é termo filosófico é termo filosófico derivado do
conceito grego deontos (dever ser) e logos (lógica ou tratado). O termo é utilizado para
se referir a uma teoria da filosofia moral que expõe a ciência dos deveres, determinan-
do suas regras e princípios. Absorvida pela ética profissional, essa ciência dos deveres
torna-se a base para a construção de regras éticas (normas de conduta) gerais para cada
categoria profissional. Em decorrência dessa abordagem, constantemente, vemos os ter-
mos “deontologia jurídica”, “deontologia médica”, dentre outras, como sinônimo de direitos
e deveres vinculados a alguma prática profissional (ABBAGNANO, 1998, p. 240).

Goergen (2005, p. 61) ainda afirma que a “[a] sedução é uma forma refinada, sutil e
suave da destruição social [...]”, uma vez que ela acaba por destituir todas as caracte-
rísticas públicas da ação ética, dentre elas, a diferenciação entre os espaços (mundos)
públicos e privado.

Essa proposta hedonista contemporânea (a promessa da felicidade individual a qual-


quer custo) encontra-se exatamente na afirmação de que é possível a construção de
uma ética e uma moral à la carte, na qual o homem se desvincula de princípios dura-
douros e universais, e se pauta somente por aquilo que é momentâneo e particular
(LIPOVETSKY, 2007, p. 16).

56
Essa promessa é atraente, porque ela parece para nós como exercício de liberdade, em
que todas as ações só precisam dialogar com os nossos valores, com a nossa opinião
individual. O mundo é todo remodelado em acordo com os interesses individuais, os pro-
cessos de coação uniforme (sermões, as grandes lições de moral, os grandes manuais 2
ou códigos de conduta) devem ser substituídos pelas regras da livre escolha responsável.

Universidade São Francisco


Do ponto de vista da vida privada, essa escalada de uma ética individual à la carte, com
regras válidas de indivíduo para indivíduo, vem gerando inúmeros questionamentos e
necessidades de regras mais claras. Isso, porque, com certa frequência, confunde-se
liberdade com autorização para violações de direitos humanos (como nos casos de pro-
pagação de fake news, de crimes de ódio e crimes de injúrias e difamação nas redes so-
ciais). Do ponto de vista profissional, desde os anos 1960, a ética do “vazio” de universais
(termo de lipovetskiano) vem gerando questionamentos e movimentos contrários.

Como podemos garantir um ambiente de igualdade de condições econômicas, estrutu-


rais, gerenciais e de concorrência sem o estabelecimento de regras claras de conduta?
As regras morais, mais do que uma necessidade ética, tornam-se uma necessidade de
sobrevivência profissional.

2.3. O INTERMEDIADOR ESCOLHIDO: OS CÓDIGOS DE ÉTICA


PROFISSIONAL
Muitos são os caminhos escolhidos para estabilizar o confronto contemporâneo de va-
lores entre indivíduos e profissões (mercado), relatados e postulados em teorias filosó-
ficas, da psicologia comportamental, da teoria de gestão de pessoas dentre outras. Mas
para a deontologia profissional, a escolha decisiva passou a se delinear em meados
dos anos 1970 quando, para atender às necessidades das teorias da Responsabilidade
Social e da Governança Corporativa, foram formulados e postulados Códigos de Ética
e Conduta específicos para cada categoria profissional.

Os Códigos de Ética são normas administrativas que estabelecem comportamentos e práti-


cas gerais aceitas, adequadas e justas para determinada categoria profissional.

Em linhas gerais, tais normas detalham atitudes e princípios que devem reger as rela-
ções dos profissionais entre si, destes com a cadeia produtiva (fornecedores e clientes)
e, em algumas situações, com a própria sociedade (quando estabelecem, por exemplo,
regras pontuais em termos de sigilo profissional).

Considerado, na literatura técnica, como um dos possíveis primeiros passos na constru-


ção de uma estrutura ética empresarial, os Códigos de Ética se delineiam como meca-
nismos ou ferramentas de implementação e de introjeção de uma cultura organizacio-
nal saudável, valorizando práticas e condutas aceitas pela sociedade, pelos órgãos de
classe e, sobretudo, pelas diferentes instituições.

Ética e Cidadania 57
Atuação Profissional Ética na Sociedade Contemporânea

Meira (2002, p.131-132.), comentando as teorias de Sorell e Hendry, salienta que Códi-
gos de Ética são instrumentos relevantes na construção da ética empresarial. Contudo,
em sua grande maioria, essas ferramentas são normativas orientadoras e só serão efe-
2 tivamente cumpridas se não forem trabalhadas de forma dependente da filosofia organi-
zacional, pois ficariam limitadas a uma prática desvinculada da real cultura da empresa.

Acompanhados da inserção dos Códigos de Ética, dessa maneira, foram estabelecidos


os Comitês de Ética (em algumas profissões denominados de Tribunais de Ética) res-
ponsáveis pela avaliação da prática profissional com vistas a determinar se aquele indi-
víduo demonstrou ou não capacidade para assimilar as regras da coletividade. Nesses
comitês, as ações concretas são avaliadas e o indivíduo pode, inclusive, a depender
do que foi feito e após o devido processo legal, receber como sanção a proibição do
exercício de sua profissão.

Os Códigos de Ética são um intermediador necessário e útil para as instituições, mas


somente sua existência não basta para que se altere o comportamento interno. Eles
exigem uma remodelagem das culturas ambientais (regras de toda a categoria profis-
sional) e organizacionais (regras internas). Afinal, como os autores da ética empresarial
sempre ressaltam, sabe-se há muito que uma política ética não necessariamente se
traduz em comportamento ético.

Conhecer o Código de Ética e Conduta de sua categoria é elemento obrigatório para todo
profissional contemporâneo comprometido.

2.4. O CONFRONTO FINAL: ÉTICA PROFISSIONAL E ÉTICA


INSTITUCIONAL
Sabemos que um dos elementos ensejadores da discussão ética contemporânea foi a
teoria da Governança Corporativa que, com seus princípios de boas práticas proporcio-
nadoras de eficácia e eficiência, exigia regras claras de comportamento e de avaliação
para ambientes organizacionais. Tais teorias se vinculam às discussões que tomam for-
ma no final do século XIX, quando a sociologia lança seu olhar sobre elas promovendo
a discussão sobre a ética empresarial.

Desde aquele momento, um dos postulados que passou a ser considerado nas discus-
sões foi o da função social da empresa. A empresa – que aqui é trabalhada como sinôni-
mo de toda e qualquer instituição ou organização profissional – é elemento estruturador
de uma sociedade. Nela, desenvolvemos nossos valores, realizamos e concretizamos
nossa dignidade social, produzimos e realizamos as trocas valorativas essenciais da
economia (trabalho por remuneração).

Essas instituições se inserem nas sociedades alterando formas e costumes, modifican-


do os territórios (pense em situações como nos casos em que uma empresa constrói
bairros para seus trabalhadores – conhecidos no Brasil como as Vilas Industriais), al-
terando os parâmetros e ofertas da educação profissional. Ou seja, essas instituições
são, na cultura, extremamente relevantes para a realização ética.

58
Assim como os indivíduos que possuem éticas “próprias”, as empresas também estão
inseridas em situações que as tornam únicas, detentoras de princípios que respondem
aos anseios e desejos internos.
2
Para que tenhamos um espaço com uma orientação ética adequada, as empresas de-
vem externalizar seu compromisso ético. E muitas o fazem a partir da determinação,

Universidade São Francisco


construção e publicização de sua “Missão, Visão e Valores”, por meio de políticas de
Transparência, Anticorrupção e Compliance, itens que devem ser compreendidos e vi-
venciados por todos os profissionais inseridos neste ambiente.

A partir da compreensão do porquê temos “a necessidade de regras morais”, busca-


mos pontuar que a essência de nossa sociedade é o dilema. Os dilemas se apresen-
tam, cotidianamente, em nossa vida individual e profissional e exigem de nós respostas
adequadas. Assim como na prática pessoal, nas práticas profissionais e institucionais
resolveremos com mais agilidade, competência e justiça os dilemas na medida em que
estivermos melhor orientados para agir.

Em um mundo no qual parece natural que todos os comportamentos éticos sejam consi-
derados como válidos, valores tradicionais como a humildade, o respeito, a urbanidade,
o diálogo, a hierarquia, a independência responsável dentre outros encontram formas
de se fazerem presentes como regra geral do mundo profissional.

É nesse contexto de temores e esperanças, de dúvidas e anseios, que surge a


necessidade ética de se pensar nas repercussões dos “novos saberes”, dos “novos
comportamentos”, de modo que as regras sejam estabelecidas não para que se perca
a liberdade, mas para que tenhamos a oportunidade de vermos nossas profissões e
instituições sobreviverem e a oportunidade de construirmos ambientes saudáveis.

Figura 05. A necessidade de regras morais

As decisões em nossas vidas pessoais e profissionais são guiadas por valores e padrões
éticos. Em algumas situações, necessitamos de regras para agirmos corretamente.

Ética do indivíduo x Código de Ética do indivíduo e Dilemas éticos


ética da profissão ética profissional ética da instituição

Ética e Cidadania 59
Atuação Profissional Ética na Sociedade Contemporânea

A vida profissional Os códigos éticos Além de situações vi- Situações limítrofes


propicia situações no profissionais surgem venciadas em virtude que geram reflexões
mundo público em como instrumentos da profissão, muitos sobre a natureza hu-
que, muitas vezes, os de auxílio e mode- dilemas advêm da mana e os limites e
valores pessoais de- ração. Neles estão natureza da empresa valores válidos, acei-
senvolvidos na esfera contidos os parâme- /institução organiza- táveis e legítimos,
privada não são sufi- tros de ação, compor- ção na qual se está dentro de uma orga-
cientes para orientar tamento e juízos que inserido. Nessas situ- nização e, também,
o profissional a tomar devem ser seguidos ações, é preciso um na profissão.
uma decisão. por todos aqueles exercício reflexivo
que estão envolvidos constante sobre as
na profissão. normas de conduta,
compliance e éticas
que são orientadas.

Necessidade de compreensão e exercícios reflexivos preparativos para a tomada de


decisões difíceis em ambientes profissionais

Compreender o con- Participar constante- Conhecer o Código Conhecer o Código


ceito de ética indivídal mente de treinamento de Ética da profissão de Ética (Código de
à luz dos princípios para o desenvolvi- as orientações Conduta) da institui-
de formação cultural mento de compe- Tribunais e ética e ção em que atua e
e social. tências atitudinais e dos Conselhos agir de acordo com a
fortalecimento dos Profissionais. sua missão, valores e
processos decisórios. princípios.

Fonte: elaborado pela autora.

1.5. A QUESTÃO ÉTICA E AS REGRAS MORAIS


Para você compreender um pouco a realidade da questão ética e das regras morais em
ambientes profissionais, indicamos os seguintes links:

60
1. Instituto Ethos
O Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social é uma Organização da Socie- 2
dade Civil de Interesse Público (OSCIP), “cuja missão é mobilizar, sensibilizar e ajudar as

Universidade São Francisco


empresas a gerirem seus negócios de forma socialmente responsável, tornando-as parcei-
ras na construção de uma sociedade justa e sustentável.” (ETHOS. Sobre o instituto. Dis-
ponível em: https://www.ethos.org.br/conteudo/sobre-o-instituto/, Acesso em 10 jun. 2022.)

Reunindo um histórico de mais de 20 anos de ações éticas e de responsabilidade social


em empresas de diferentes segmentos no Brasil, o Instituto é uma importante fonte de
pesquisa para os estudantes.

SAIBA MAIS
Consulte: https://www.ethos.org.br/. Acesso em: 10 jun. 2022.

2. Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC)


“O Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC) é uma organização sem fins
lucrativos, fundada em 1995 com sede na cidade de São Paulo. Com o desenvolvimen-
to e o aprofundamento das práticas de Responsabilidade Social, tornou-se referência
nacional e internacional em governança corporativa tendo uma contribuição grande no
país para o desenvolvimento de relatórios, orientações e formações destinadas à me-
lhoria do desempenho sustentável das organizações por meio da geração e dissemina-
ção de conhecimento das melhores práticas, visando uma sociedade melhor.

Possui uma biblioteca de textos e práticas consideradas adequadas para instituições e


empresas de diferentes segmentos e portes, sendo um bom mecanismo de pesquisa”.

SAIBA MAIS
Consulte: Disponível em: https://www.ibgc.org.br/. 10 jun. 2022.

Filme ou Documentários
`  Filme

  Um homem entre gigantes (Concussion). Direção de Peter Landesman Austrália, Es-


tados Unidos, Reino Unido. Columbia Pictures, 2015. 123 min.

Ética e Cidadania 61
Atuação Profissional Ética na Sociedade Contemporânea

  Sinopse: “Um Homem Entre Gigantes” é uma obra que se contextualiza nos Estados
Unidos, no Estado da Pensilvânia, no Condado de Pittsburgh, e foi realizada a partir da
2 biografia do médico nigeriano Bennet Omalu. No início dos anos 2000, Omalu, patologis-
ta forense e neuropatologista, trabalha no Instituto Médico Legal quando recebe a tarefa
de investigar alguns casos que são incomuns. Em suas pesquisas, ele diagnostica um
severo trauma cerebral em um jogador de futebol americano e, investigando o assun-
to, descobre que em virtude da ausência de equipamentos de segurança este vem se
tornando um mal comum entre os profissionais do esporte. Imediatamente, a agência
responsável pelo esporte, preocupada com a propaganda negativa, age para esconder
os dados e questionar a tese do médico que, determinado, entra em uma batalha sem
precedentes discutindo os aspectos éticos envolvidos na prática profissional.

`  Filme

  Fome de Poder (The Founder). Direção: John Lee Hancock. Roteiro Robert D. Siegel.
Elenco: Michael Keaton, Nick Offerman, John Carroll Lynch. EUA: The Combine, Film-
Nation Entertainment. 1h 55min. 2016.

  Sinopse: “A história da ascensão da rede de fast food McDonald ‘s. Após receber
uma demanda sem precedentes e notar uma movimentação de consumidores fora
do normal, o vendedor de Illinois Ray Kroc (Michael Keaton) adquire uma participa-
ção nos negócios da lanchonete dos irmãos Richard e Maurice “Mac” McDonald no
sul da Califórnia. Implementando novas formas de gerenciamento e práticas de ex-
pansão comercial, o novo sócio inicia um processo no qual, pouco a pouco, ele re-
tira os irmãos criadores da rede, transformando a marca em um gigantesco império
alimentício.” (Disponível em: https://www.adorocinema.com/filmes/filme-234023/)

Muitas questões éticas são trabalhadas durante o filme, dentre elas a questão do res-
peito à criação e invenção e as práticas comerciais inseridas no contexto de uma con-
corrência sem limites.

`  Texto Complementar:

A importância da ética profissional nas organizações: uma pesquisa sobre a ética


profissional no mercado de trabalho

Resumo: “Este artigo apresenta a importância da ética profissional nas organizações,


pois esta contribui para geração de boas relações de trabalho, uma melhor produtivida-
de, um bom clima organizacional que aumenta a motivação dos colaboradores e agrega
valor para a organização. Embora a postura ética seja muito exigida profissionalmente,
tanto das empresas quanto dos colaboradores, observou-se uma certa dificuldade de
ambos para colocá-la em prática, sendo este o motivo desse estudo. Para tanto, reali-
zou-se uma pesquisa bibliográfica e de campo por meio de um questionário com trinta
profissionais, na busca por informações sobre o comportamento ético dentro das orga-
nizações. Os resultados da pesquisa de forma geral foram positivos, mas evidenciaram
a necessidade de falar mais sobre esse tema nas empresas, porque ainda existem
comportamentos que não são adequados para o ambiente de trabalho de ambos os la-
dos. Concluiu-se, por meio das respostas dos participantes, a importância de se adotar
um conjunto de medidas para tornar o ambiente de trabalho mais agradável que inclui
trabalhar o tema da ética profissional dentro da organização com maior frequência, ter

62
uma política ética mais eficiente com ações voltadas para a realidade da empresa, um
melhor diálogo e comunicação sobre o tema, adotar medidas corretivas para que as
pessoas reflitam sobre seus atos e busquem uma mudança de comportamento. Além 2
disso, é importante que os profissionais reflitam sobre a relevância do tema observando

Universidade São Francisco


as consequências de seus atos para toda a equipe e organização, buscando orientar e
mudar seus comportamentos por meio das normas de conduta, a fim de gerar um bom
convívio no ambiente profissional” (SOUZA et al., 2020, p. 10).

SAIBA MAIS
Leia o texto completo em:

https://revistaunibf.emnuvens.com.br/monumenta/article/view/3. Acesso em: 10 jun. 2022.

A ética profissional como parâmetro e valor na sociedade democrática

Resumo: “Dialogando com a teoria filosófica e política de formação da sociedade e


dos parâmetros éticos, o autor percorre a constituição do conceito de ética profissional
revelando os valores fundantes de uma perspectiva interdisciplinar que sustente os pa-
râmetros democráticos em uma sociedade. Um texto escrito em 1998, mas que per-
manece vivo nas reflexões sobre os desejos e anseios dos profissionais da sociedade
contemporânea” (SOUZA FILHO, 2016, p. 173).

SAIBA MAIS
Leia o texto completo em:

http://revistathemis.tjce.jus.br/index.php/THEMIS/article/download/399/386.
Acesso em: 10 jun. 2022.

3. SOCIEDADE TECNOLÓGICA E DIGITAL

3.1. O MUNDO TECNOLÓGICO E A ERA DIGITAL


As transformações tecnológicas ocorridas durante o século XX alteraram substancial-
mente tanto as estruturas econômicas como as estruturas políticas e sociais. A partir
disso, resulta a necessidade de repensar novos princípios éticos para fundamentar as
relações nessa nova realidade. Novas formas de se organizar, compreender e interagir
com o mundo se desenvolveram e se popularizaram.

Ainda que tais mudanças tenham acarretado grandes transformações, talvez a mais
intensa de todas tenha sido a forma como a percepção do tempo se alterou, desde
o advento da revolução industrial no século XVIII, com um crescente sentimento de

Ética e Cidadania 63
Atuação Profissional Ética na Sociedade Contemporânea

aceleração. A forma de se perceber e conceber a temporalidade afetou as relações


sociais e trabalhistas, concedendo uma nova perspectiva sobre a individualidade e a
interatividade.
2
Ao longo do século XX e do XXI, diversos autores abordaram a forma como a moderni-
dade (e, para alguns teóricos, a pós-modernidade) afetou a maneira de se perceber o
mundo no âmbito privado e público. Para o sociólogo Zygmunt Bauman, em sua reco-
nhecida e recomendada obra Modernidade líquida (2001), a modernidade transformou
as relações em algo efêmero, líquido e, por vezes, fugidio. Partindo dessa perspectiva,
vamos nos aprofundar um pouco mais nos limites, ou na ausência deles, da tecnologia
e da era digital na sociedade contemporânea.

A REVOLUÇÃO DIGITAL
No Brasil, desde os anos 1970, diversos Figura 06. Era digital
autores têm se debruçado sobre as for-

Fonte: 123RF
mas como as novas tecnologias têm im-
pactado nossas vidas. Um dos primeiros
autores a dedicar ao tema foi o geógrafo
Milton Santos, em especial em sua obra
Técnica, espaço, tempo: globalização
e meio técnico-científico-informacional
(1998). A partir de uma série de conside-
rações, Santos propôs a concepção de
meio técnico-científico-informacional
para caracterizar as relações entre o de-
senvolvimento do capitalismo no espaço
geográfico, mas também a relação mais intrínseca entre técnica e ciência, principal-
mente com a intensificação do processo de globalização.

O cenário da quarta fase da Revolução Industrial, também denominada de Indústria


4.0, é marcado pelas tecnologias da automação e da troca de dados, da informatização
dos processos. Nessa fase de industrialização, as novas possibilidades apresentadas,
como os amplos sistemas de dados e o armazenamento em nuvem, dinamizaram os
processos produtivos e apresentaram novas interfaces de trabalho e interatividade.

Podemos observar que, nas últimas décadas, com o advento da internet e de novos
recursos da tecnologia, além do protagonismo das redes sociais, o papel do indivíduo
ganhou destaque e, ao mesmo tempo, diluiu-se em um grande número de conexões
possíveis dentro do espaço virtual. A relação entre individualidade e coletividade é in-
trínseca e os novos meios de comunicação têm dominado as formas de interação, não
só com as máquinas e inteligências artificiais, mas também com as pessoas.

Com base nesses aspectos, podemos vislumbrar, desde relações entre pessoas reais,
por meio de trocas de mensagens, lives, curtidas, ambiente educacional virtual, até na
interação entre pessoas e atendentes virtuais, por exemplo, os call centers que cada

64
vez mais contam com atendentes de inteligência virtual. Em relação ao último tópico,
podemos apontar uma questão sobre os limites sociais que ganham contorno com as
novas tecnologias.
2
Recentemente, diversas empresas têm realizado campanhas abordando o assédio e a
violência contra a mulher, uma vez que, até mesmo atendentes virtuais, quando carac-

Universidade São Francisco


terizadas como pertencentes ao gênero feminino (seja pelo nome, ilustração, forma de
articular o gênero gramatical), sofrem com falas que remetem a situações de preconcei-
to e violência. Nesse sentido, a intersecção entre o mundo real e o virtual tem nos colo-
cado, enquanto sociedade, importantes questionamentos sobre os limites necessários
nas novas e antigas formas de se viver e representar no mundo.

PARA REFLETIR
Com o intuito de refletir sobre a questão das novas tecnologias e o impacto que elas têm nas re-
lações sociais e de gênero, ressaltando antigas formas de violência, leia a reportagem a seguir.

Robôs precisaram aprender a responder ao assédio feito por homens

“As agressões sofridas pela Bia não são ‘pessoais’ contra ela e nem isoladas. O chamado
‘assédio cibernético’ acontece contra todo tipo de assistente digital dotada ou não de inteli-
gência artificial. Recentemente, a Lu, o chatbot do Magazine Luiza, gravou um vídeo reba-
tendo pedidos de namoro que recebe, lado mais ‘gentil’ desse tipo de interação: nas redes
sociais, a robô recebe pedidos de ‘nudes’ e insultos.”

Fonte: TOUEG, Gabriel. Robôs precisaram aprender a responder ao assédio feito por
homens. UOL, 08 abr. 2021. Disponível em: https://www.uol.com.br/tilt/noticias/reda-
cao/2021/04/08/bia-chatbot-do-bradesco-vairesponder-a-altura-quem-vier-com-assedio.htm
Acesso em: 11 jun. 2022.

3.2. AS REDES SOCIAIS E OS NOVOS APLICATIVOS


Com a expansão das possibilidades tecnológicas, desenvolveu-se também novas pro-
blemáticas que vão de crimes cibernéticos até os denominados cancelamentos virtuais.
Nesse sentido, uma das grandes dificuldades que existe hoje, visto que ainda há pouca
regulamentação jurídica sobre o tema, reside justamente em compreender os limites
legais dentro da esfera virtual.

Cabe destacarmos, neste ponto, o Marco Civil da Internet, Lei nº 12.965/2014, que
regulamenta, grosso modo, o uso da rede de internet em nosso país. Nesse quesito,
podemos acrescentar as diferentes políticas de utilização que cada meio virtual cria
para proteger a si mesmo e seus usuários. Constantemente, aceitamos termos de
uso sem ao menos ler todos os pontos ali apresentados, ou seja, nós nos permitimos
entrar em esferas sem conhecer legalmente as políticas de conduta e utilização às
quais nos submetemos.

Ética e Cidadania 65
Atuação Profissional Ética na Sociedade Contemporânea

A CULTURA DO CANCELAMENTO – O OSTRACISMO DO SÉCULO XXI


Acerca da cultura do cancelamento, po- Figura 07. Cultura do cancelamento

2 deríamos estabelecer um paralelo com o

Fonte: 123RF
mundo antigo grego. Se na Grécia Antiga
os indivíduos poderiam ser condenados
ao escrutínio e ao isolamento social, por
meio da prática do ostracismo, no mundo
contemporâneo as pessoas estão sujei-
tas ao denominado cancelamento virtual.
Resumidamente, esse ato consiste em
denunciar (anonimamente ou não) e boi-
cotar pessoas e/ou empresas que, por al-
guma razão, teriam realizado uma atitude
condenável, como um ato de racismo, xenofobia, homofobia, misoginia, dentre outros.

Um exemplo de quem sofreu com essas práticas é o caso do filósofo grego Sócrates,
que foi acusado e condenado por (entre outras coisas) desvirtuar os jovens de Atenas.
Ele poderia ter optado pelo ostracismo político e social, no entanto, diante do que isso
significaria, optou pela morte por envenenamento com cicuta. Atualmente, inúmeros
artistas e políticos sofreram o cancelamento virtual. Um dos casos emblemáticos é o
da influenciadora digital Gabriela Pugliesi que, durante a quarentena imposta pela Co-
vid-19, postou em uma rede social um vídeo em que aparecia em uma confraternização,
sendo duramente criticada pelo público, o que a fez deletar temporariamente sua conta
e, posteriormente, acarretou a perda de inúmeros patrocínios.

SAIBA MAIS
Para uma leitura complementar sobre a cultura do cancelamento, visando aprofundar a dis-
cussão, leia o artigo de Miguel Lago à Folha de São Paulo, intitulado: “Derrubem as estátu-
as. Quem reclama da ‘cultura do cancelamento’ está cego para a cultura do outro”. Disponível
em: https://piaui.folha.uol.com.br/materia/derrubem-as-estatuas/. Acesso em: 11 jun. 2022.

Ainda nesse cenário do ciberespaço, é necessário sublinharmos as possibilidades do


anonimato, o que potencializa tais atitudes e, como apontado, devido à incipiente regu-
lamentação existente, torna as chances de contenção e punição limitadas. Isso se dá
pelo fato de o anonimato empoderar indivíduos que nutrem discursos de ódio e violên-
cia (conhecidos no mundo como hate speech), que se sentem aptos a pronunciarem,
de forma ampla, seus preconceitos e visões de mundo.

Tendo isso em mente, é necessário frisarmos que esse mesmo anonimato também abre
espaço para que indivíduos silenciados e/ou vitimados pelos mais distintos processos
de violência possam projetar suas vozes e demandas de forma segura e, assim, encon-
trar respaldo coletivo para a superação de suas dores e traumas.

66
GLOSSÁRIO
O ciberespaço, para Pierre Lévy (1999, p. 17), pode ser definido como “[...]o novo meio de comu-
nicação que surge da interconexão mundial dos computadores. O termo especifica não apenas a 2
infraestrutura material da comunicação digital, mas também o universo oceânico de informações
que ela abriga, assim como os seres humanos que navegam e alimentam esse universo”.

Universidade São Francisco


O autor também avança e define cibercultura como “[...] o conjunto de técnicas (materiais e
intelectuais), de práticas, de atitudes, de modos de pensamento e valores que se desenvol-
vem juntamente com o crescimento do ciberespaço” (LÉVY, 1999, p. 17).

Diante da temática do cancelamento, um ponto de relevância sobre o tema se encontra


na compreensão de tal ato: seria a prática de cancelar alguém, ou uma organização,
um elemento estruturante da sociedade ou um elemento estruturado? Ou seja, poderí-
amos conceber o cancelamento como o resultado de um modo social de compreender
o mundo ou uma consequência desse universo? Trata-se de uma questão que suscita
respostas ainda em disputas e que leva diretamente até outros questionamentos: qual
o papel e os limites do ativismo social e/ou cibernético? Pode-se se falar de um “efeito
manada” ou as pessoas estão ficando mais conscientes de seus valores e atitudes
diante do mundo e de outros?

OS LIMITES DO MUNDO DIGITAL NO MUNDO DO TRABALHO –


A UBERIZAÇÃO
Figura 08. Uberização e o mercado de Concomitantemente às problemáticas já
trabalho contemporâneo
apresentadas, outras se desenvolveram no
campo das relações sociais e, principalmen-
Fonte: 123RF

te, trabalhistas. Além das possibilidades de


trabalho em home office, a utilização de pla-
taformas digitais também cresceu, de forma
intensa, em pouco tempo e suscitou a inter-
venção de novos limites e parâmetros legais
para as demandas advindas de tais usos.

Uma temática bastante debatida se refere


ao fenômeno da é a Uberização, termo
que, devido ao crescente uso de aplicati-
vos que mediassem o contato entre cliente
e o prestador de serviço, acabou por adentrar o sistema jurídico brasileiro. O assunto está
longe de ser esgotado e, constantemente, ganha novos contornos, sendo que muitos
deles têm abordado, diretamente, a limitação ou não de tais relações.

Dentro dos dilemas advindos, as principais questões sobre tal temática se referem à po-
sição do trabalhador nessa relação. Por um lado, seria uma possibilidade de que ele
gerisse seus próprios horários e autonomia. Por outro, implicaria a não existência de

Ética e Cidadania 67
Atuação Profissional Ética na Sociedade Contemporânea

vínculo empregatício e legal entre a plataforma, o prestador e o usuário. A discussão tem


se aprofundado e crescido, como apontam obras publicadas sobre o assunto, como, por
exemplo, Ube­rização, trabalho digital e Indústria 4.0, organizada por Ricardo Antunes.
2
Além do constante surgimento de novas plataformas, têm-se atualizado exponencial-
mente (elemento intensificado) os aplicativos já existentes, principalmente, após a pan-
demia de Covid-19, que demandou formas distintas de os indivíduos buscarem solu-
ções para suas necessidades, especialmente recorrendo ao meio digital.

REPRESENTAÇÃO E CRÍTICA SOCIAL – ALGORITMO E REDES SOCIAIS


Diante dos algoritmos utilizados pelos aplicativos, que controlam grande parte da-
quilo que os indivíduos têm acesso e o que visualizam, a forma de se apresentar e
se representar na era digital encontra limitações e dita, em grande medida, desejos
e consumos na contemporaneidade. Além das produções científico-acadêmicas,
diversas criações no âmbito cultural têm procurado refletir sobre as formas como
as novas tecnologias, em sua presença ou ausência, influenciam os indivíduos e
suas relações no mundo contemporâneo.

Ilustrações

O cineasta britânico Kenneth Loach aborda questões referentes ao capitalismo, à imigração,


ao envelhecimento, às interfaces da tecnologia e à uberização em seus filmes Eu, Daniel
Blake (2017) e Você não estava aqui (2020).

O Dilema das Redes Sociais (2020), dirigido por Jeff Orlowski, por exemplo, por meio da
narrativa documental, estabelece apontamentos basilares para a relação entre as mídias
sociais, a democracia e o futuro das organizações sociais. Partindo dos comentários de im-
portantes nomes de dentro da indústria da tecnologia, que apresentam suas preocupações e
receios diante de suas próprias criações, o documentário aponta para os riscos e os limites
que as redes na contemporaneidade têm trazido à tona.

Na mesma perspectiva, mas por meio da narrativa ficcional, no episódio Queda Livre, da
terceira temporada da série Black Mirror, os limites da tecnologia, dos likes e compartilha-
mentos são levados ao extremo. A obsessão pelos likes e notas dadas é trabalhada como
um adendo da vida social. Para obter um empréstimo para comprar uma casa, a jovem pro-
tagonista precisa ter uma nota alta nas redes sociais. Em busca de atingir o número neces-
sário, ela entra em uma jornada de trocas de pontuações, que, no entanto, vão se tornando
cada vez mais complicadas devido a circunstâncias da vida cotidiana. Com uma narrativa
distópica (em oposição ao termo utopia, que descreveria uma sociedade ideal), o episódio
nos leva aos limites da percepção de si e dos outros no mundo contemporâneo, relações
agora mediadas em grande escala por notas dadas e recebidas em plataformas digitais e
aplicativos, ou seja, apresenta uma sociedade imperfeita, opressiva e disfuncional.

68
Ainda que a era digital tenha aberto as portas para todo um conhecimento e aces-
so inimagináveis em outras épocas, as restrições geradas pelos algoritmos acabam
mantendo os indivíduos dentro de uma esfera de trocas e visualizações, por vezes,
muito homogêneas. 2
Em um mundo cada vez mais diversificado e heterogêneo, um dos grandes dilemas da

Universidade São Francisco


atualidade é construir conexões reais que ultrapassem as fronteiras das denominadas
“bolhas sociais” ou “bolhas digitais”. Isto é, amplie esses espaços fechados nos quais os
indivíduos se refugiam e fortalecem posturas pré-concebidas, em que o diálogo pouco
encontra o contraditório, o que constrói possibilidades para posturas extremistas. Nesse
sentido, buscar os limites do mundo tecnológico perpassa diretamente não só o acesso
a tal mundo, mas também as formas de se conceber e utilizar esse universo.

SAIBA MAIS
Para ampliar o aporte teórica sobre a sociedade tecnológica e digital, indicamos
duas leituras, a saber:

`  Livro: Uma obra lançada em 2020 de extrema relevância sobre a era digital e a sociedade
conectada é: Uberização, trabalho digital e Indústria 4.0, organizada por Ricardo Antunes,
que conta com capítulos escritos por Arnaldo Mazzei Nogueira, Cílson César Fagiani,
Clarissa Ribeiro Schinestskck, entre outros.

`  Artigo: SERRAZINA, Filomena, Esfera pública, tecnologia e reconfiguração da identidade


individual. Observatorio (OBS*) Journal, Lisboa, v. 6, n. 3, p. 177-191, 2012. Disponível
em: http://obs.obercom.pt/index.php/obs/article/view/574. Acesso em: 11 jun. 2022.

Caso de aplicação 1

Uma das questões diretamente relacionadas à era digital é a forma como as redes sociais
impactaram o mundo do trabalho. Assim, compreender como as relações entre vida privada
e pública se interconectam e se impactam mutuamente é fundamental para a construção de
espaços harmoniosos. Estabelecer os limites entre o público e o privado nas redes é uma das
questões mais importantes atualmente. Para entender melhor como tecnologias da internet e
das redes sociais, por exemplo, precisam ser cuidadosamente analisadas e compreendidas,
leia a matéria referenciada a seguir:

SILVA, Juliana Américo Lourenço da. Redes sociais: veja como se comportar na internet na
hora de concorrer a um emprego. USF, 2 set. 2014. Disponível em: https://www.usf.edu.br/
diferenciais/carreira-dicas-exibir/91909726/redes+sociais+veja+como+se+comportar+na+in-
ternet+na+hora+de+concorrer+a+um+emprego.htm#.YQLk3Y5KjIU. Acesso em: 11 jun. 2022.

Ética e Cidadania 69
Atuação Profissional Ética na Sociedade Contemporânea

SAIBA MAIS
Sobre o impacto das redes sociais, confira os vídeos a seguir:
2
KARNAL, Leandro; IOSCHPE, Gustavo. Tecnologia e privacidade: inteligência artificial no
cotidiano Vídeo (44min 09s). Postado pelo canal Prazer, Karnal – Canal Oficial de Leandro
Karnal. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=sBMROEaLKZY. Acesso em: 11
jun. 2022.

SANTOS, Milton. Milton Santos – o mais importante geógrafo do Brasil (TV Brasil 2011). Ví-
deo (25min 38s). Postado pelo canal Geografia e Ensino de Geografia. Disponível em: https://
www.youtube.com/watch?v=Y51aSaBC614. Acesso em: 11 jun. 2022.

TURK, Gary. Look up – Kleber Carriello – Legenda Português BR. Vídeo (4min 58s). Postado
pelo canal de Kleber Carriello. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=EPoUK-
DuGMLg&t=3s. Acesso em: 12 jun. 2022.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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manos, [S. l.], n. 10, p. 1-3, 2021.

FERREIRA, J. V. M.; BRANDÃO, A. Uberização, A Nova Classe De Trabalhadores. 2020. Revista Ibero-Ame-
ricana De Humanidades, Ciências e Educação. São Paulo, v. 6, n. 12, p. 91-104, 2020.

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ter=7675107301423375992&btnI=1&hl=en. Acesso em: 17 nov. 2021.

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2002. Dissertação (Mestrado em Administração) – Escola de Administração de Empresas de São Paulo da
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70
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1-10, 2003. Disponível em https://hypnos.org.br/index.php/hypnos/article/view/142. Acesso em: 03 dez. 2021.

SERRAZINA, Filomena, Esfera pública, tecnologia e reconfiguração da identidade individual. Observatorio 2


(OBS*) Journal, Lisboa, v. 6, n. 3, p. 177-191, 2012. Disponível em: http://obs.obercom.pt/index.php/obs/

Universidade São Francisco


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SILVA, Juliana Américo Lourenço da. Redes sociais: veja como se comportar na internet na hora de concor-
rer a um emprego. USF, 2 set. 2014. Disponível em: https://www.usf.edu.br/diferenciais/carreira-dicas-exi-
bir/91909726/redes+sociais+veja+como+se+comportar+na+internet+na+hora+de+concorrer+a+um+empre-
go.htm#.YQLk3Y5KjIU. Acesso em: 7 set. 2021.

SOUSA FILHO, Oscar D.’Alva e. A ética profissional como parâmetro e valor na sociedade democrática. THE-
MIS: Revista da ESMEC, Fortaleza, v. 1, n. 2, p. 173-185, 2016.

SOUZA, Ana Paula Maximiano de et al. A importância da ética profissional nas organizações: uma pesquisa
sobre a ética profissional no mercado de trabalho. Monumenta – Revista Científica Multidisciplinar, [S. l.], v. 1,
n. 1, p. 10-21, 2020. Disponível em: https://revistaunibf.emnuvens.com.br/monumenta/article/view/3. Acesso
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TOUEG, Gabriel. Robôs precisaram aprender a responder ao assédio feito por homens. UOL, 08 abr. 2021.
Disponível em: https://www.uol.com.br/tilt/noticias/redacao/2021/04/08/bia-chatbot-do-bradesco-vairespon-
der-a-altura-quem-vier-com-assedio.htm Acesso em: 28 jul. 2021.

TUCKER, Albert W.; LUCE, R. Duncan; AUMANN, Robert J. Contributions to the Theory of Games IV. Prince-
ton, New Jersey: Princeton University Press, 1959.

VAZQUEZ, Adolfo Sáncbez. Ética. 24. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.

Ética e Cidadania 71
Vivência profissional e construção da cidadania

UNIDADE 3

VIVÊNCIA PROFISSIONAL E
3
CONSTRUÇÃO DA CIDADANIA

INTRODUÇÃO
A partir do que entendemos sobre a ação boa do indivíduo, a ação ética, podemos
partir para o que ela deve constituir em seu todo: enquanto sociedade, ela dá origem
à vivência cidadã. Na contemporaneidade, ser considerado cidadão está diretamente
relacionado à possibilidade de uma pessoa ter acesso aos denominados direitos civis,
políticos e sociais. É importante destacarmos que gozar de direitos significa que o indi-
víduo também arca com deveres perante a sociedade.

Nos dias atuais, a concepção de cidadania, no contexto brasileiro, deve ser aplica-
da a todos (homens, mulheres, crianças, idosos), independentemente de cor, gênero,
orientação sexual etc. No entanto, nem sempre foi assim: por muito tempo, os direitos,
políticos e/ou sociais, foram proibidos às mulheres, os analfabetos, à população negra
e indígena, entre outros grupos excluídos historicamente.

Nesta unidade, temos o intuito de compreender a relação entre Ética e Cidadania, como
se estabelecem em nossa sociedade e em nosso cotidiano profissional, impulsionando
mudanças em processos gerenciais, práticas e políticas institucionais e, sobretudo, em
nossos próprios comportamentos.

Se há algo que vai se consolidando entre nós é que tanto o conceito de ética quan-
to o de cidadania não têm definições estanques e acabadas, definitivas. São con-
ceitos que são históricos, vinculados a circunstâncias específicas dependen-
tes e variáveis no tempo e no território, cronologicamente considerados e nos
espaços culturalmente estabelecidos.

Nosso estudo e nossa análise, à vista disso, devem sempre ser encaminhados e diri-
gidos pelo olhar da complexidade, a partir de múltiplas relações e interlocuções. E isso
pode se dar por meio dos estudos interdisciplinares, uma vez que temos que lembrar
que são conceitos e estes são originários no seio de teorias referenciadas em realida-
des, neste caso, plurais e multifacetadas.

Vale aqui, então, recordarmos como nota histórica sobre a cidadania: sua conceitua-
ção contemporânea encontra raízes nas revoluções sociais, políticas e econômicas,
iniciadas no século XVIII, que culminaram na conquista de direitos políticos e civis,
decorrentes da reestruturação de estados monárquicos e absolutistas em repúblicas e
parlamentos, da construção de instituições democráticas (executivas, judiciárias e legis-
lativas), das inúmeras transformações sociais, culturais, de ordem religiosa e científica,

72
além da consolidação do sistema econômico capitalista. Essa origem é fundamental
para nos revelar uma das grandes facetas do conceito, que diz respeito à compreensão
de seus espaços de consolidação e pertencimento, colocando-nos perguntas profundas
que tentamos desenvolver. 3
Ainda nesta unidade, traremos a ideia de que uma postura cidadã exige dos indivíduos

Universidade São Francisco


um cuidado que vai além do mundo humano, alcançando o mundo natural, chamado
também de natureza mais que humana. As questões ambientais têm ganhado destaque
dentre as grandes preocupações contemporâneas e devem ser assumidas com respon-
sabilidade por todos que atuam no mundo profissional. Vamos começar!

1. CIDADANIA ONTEM E HOJE

1.1 A CIDADANIA NA ANTIGUIDADE


A concepção de cidadania – e cidadão – está diretamente atrelada à democracia. Com-
preender a história e a evolução desses termos remonta diretamente ao mundo antigo
grego. Com a evolução do modelo político grego, transitando da monarquia, passando
pela oligarquia e chegando à democracia, houve a necessidade de se determinar quais
pessoas teriam direito à participação política e ao usufruto dos direitos determinados pelo
corpo político na pólis. Emerge, nesse sentido, a concepção de cidadão, ou seja, dos
indivíduos que seriam diretamente representantes de uma determinada cidade-estado.

SAIBA MAIS
Democracia direta e democracia representativa

Na Grécia Antiga, a democracia funcionava por meio da representação direta, ou seja, os indiví-
duos considerados cidadãos participavam ativamente e votavam nas propostas apresentadas
pela assembleia. Na atualidade, incluindo o Brasil, vigora, de modo geral, a democracia repre-
sentativa, na qual os cidadãos elegem indivíduos (vereadores, deputados, senadores etc.) que
os representarão no processo democrático do funcionamento do Estado e de sua organização.

No mundo grego, primeiramente nasceu a cidade-estado, a pólis, e, posteriormente, o


cidadão – condição que, no caso da cidade de Atenas, por exemplo, era restrita aos ho-
mens livres, filhos de pai e mãe atenienses, maiores de 18 anos e que fossem nascidos
na cidade. Em Roma, o conceito era um pouco mais aberto, estendendo-se às distintas
cidades que compunham a Península Itálica e, posteriormente, às províncias do Impé-
rio, incluindo também os escravos que fossem libertados por seus senhores. No caso
das mulheres, elas eram consideradas membros da sociedade, mas, não gozavam da
condição da cidadania plena, nem participavam da política.

Ética e Cidadania 73
Vivência profissional e construção da cidadania

SAIBA MAIS
“No sentido moderno, cidadania é um conceito derivado da Revolução Francesa (1789) para
3 designar o conjunto de membros da sociedade que têm direitos e decidem o destino do Esta-
do. Essa cidadania moderna liga-se de múltiplas maneiras aos antigos romanos, tanto pelos
termos utilizados como pela própria noção de cidadão. Em latim, a palavra cinis gerou ciuitas,
‘cidadania’, ‘cidade’, ‘Estado’. Cidadania é uma abstração derivada da junção de cidadãos e,
para os romanos, cidadania, cidade e Estado constituem um único conceito – e só pode haver
esse coletivo se houver, antes cidadãos. Ciuis é o ser humano livre e, por isso, ciuitas carrega
a noção de liberdade em seu centro. Cícero, pensador final da República romana, afirmava no
século I a.C. que ‘recebemos de nossos pais a vida, o patrimônio, a liberdade, a cidadania’. A
descrição daquilo que os pais nos deixam, segundo o estadista romano, é cronológica, mas
também acumulativa. Recebemos a vida ao nascer; em seguida, a herança, na forma de nossa
educação quando crianças, o que nos permite alcançar a liberdade individual e coletiva na vida
adulta. Se para os gregos havia primeiro a cidade, polis, e só depois o cidadão, polites, para
os romanos era o conjunto de cidadãos que formava a coletividade. Se para os gregos havia
cidade e Estado, politeia, para os romanos a cidadania, cinitas, englobava cidade e Estado.”
(FUNARI, 2005, p. 49)

1.2. A CIDADANIA A PARTIR DA IDADE MODERNA


Da cidadania no mundo greco-romano, passando pelo mundo medieval, ocorreram
modificações intensas, principalmente com a introdução do cristianismo. No entan-
to, as modificações mais significativas para o mundo ocidental atual se concentram
na Idade Moderna com as denominadas Revoluções Burguesas. É nesse período
que acontecem importantes transições, tais como a mudança de súdito para cida-
dão e a implementação dos denominados direitos naturais e inalienáveis do homem,
pontos que serão tratados a seguir.

a. DE SÚDITO A CIDADÃO
O avanço definitivo da concepção moder- Figura 01. Direitos
na de cidadania deriva das denominadas
Fonte: 123RF

Revoluções Burguesas. Desde a Revolu-


ção Inglesa (1640-1688), a projeção da
cidadania começou a mudar drasticamen-
te. Porém, foi com a Revolução America-
na (1775-1783) e a Francesa (1789-1799)
que a ordem definitivamente se alterou,
modificando a estrutura das sociedades
organizadas por súditos (indivíduos sub-
metidos ao rei soberano) para cidadãos
de direitos (submetidos às cartas consti-
tucionais). Ocorreu, assim, o abandono
da concepção de súdito e seus deveres: quando o indivíduo era submetido diretamente

74
a um rei e às suas vontades, por uma população cidadã que, agora, gozava de direitos
e podia, com inúmeras restrições, participar da política de forma mais ampla.

Ainda que tais revoluções tenham favorecido, predominantemente, a classe burguesa, 3


elas contaram também com participações de grupos mais populares, como os nivela-
dores e cavadores na Revolução Inglesa e os sans culotes na Revolução Francesa.

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Contudo, ainda levaria um bom tempo e muitos outros processos reivindicatórios para
que os grupos mais populares pudessem ter acesso pleno aos seus direitos, fato que
ocorreu, de modo geral, no mundo ocidental apenas no século XX.

Nessa evolução, alguns documentos escritos nos contextos inglês, norte-americano e


francês, principalmente, tornaram-se importantes marcos históricos para a evolução da
cidadania como a conhecemos atualmente. Podemos destacar entre eles:

`  Bill of Rights (Declaração de Direitos, 1689), no caso da Inglaterra;

`  Carta dos Direitos dos Estados Unidos (1787), no caso dos Estados Unidos;

`  Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão (1789), no caso da França.

Nesses documentos, a concepção de cidadão e cidadania ganhou seus primeiros con-


tornos e serviu de modelo para grande parte das constituições das sociedades contem-
porâneas ocidentais.

SAIBA MAIS
Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão – 1789

“Os representantes do povo francês, reunidos em Assembleia Nacional, considerando que a


ignorância, o esquecimento ou o desprezo dos direitos do homem são as únicas causas dos
males públicos e da corrupção dos governos, resolveram expor, em uma declaração solene,
os direitos naturais, inalienáveis e sagrados do homem, a fim de que essa declaração, cons-
tantemente presente junto a todos os membros do corpo social, lembre-lhes permanente-
mente seus direitos e deveres; a fim de que os atos do poder legislativo e do poder executivo,
podendo ser, a todo instante, comparados ao objetivo de qualquer instituição política, sejam
por isso mais respeitados; a fim de que as reivindicações dos cidadãos, doravante funda-
das em princípios simples e incontestáveis, estejam sempre voltadas para a preservação da
Constituição e para a felicidade geral.”

Fonte: https://br.ambafrance.org/A-Declaracao-dos-Direitos-do-Homem-e-do-Cidadao.
Acesso em: 11 jun. 2022.

Essa nova concepção de cidadania surgida na modernidade, que se pautou em grande


parte nos pressupostos do Iluminismo e do Liberalismo Político, pressupunha, como

Ética e Cidadania 75
Vivência profissional e construção da cidadania

ponto de partida, os denominados direitos naturais e inalienáveis, tais como o direito


à vida, à liberdade, à igualdade, além da ampliação do direito de participação política
diante do Estado-nação.
3
É importante ressaltarmos que, durante grande parte do século XIX e XX, esses direitos
estavam restritos aos indivíduos adultos (homens) e, grosso modo, levavam em conta
critérios censitários (que poderiam ser por idade, riqueza etc.), de alfabetização, ra-
ciais e de gênero. Nesse sentido, frisamos que as mulheres foram, por muito tempo,
relegadas a uma condição marginalizada de cidadania, sendo, inclusive, proibidas tanto
de participar da política quanto de exercer o direito ao voto.

PARA REFLETIR
“Cidadania é noção construída coletivamente e ganha sentido nas experiências tanto so-
ciais quanto individuais, e por isso é uma identidade social. Claro que pensamos aqui em
identidade como uma construção social relativa, contrastiva e situacional. Ou seja, ela é
uma resposta política a determinadas demandas e circunstâncias igualmente políticas, e
é volátil como são diversas as situações de conflito ou de agregamento social. Porque é
política, também sua força ou fragilidade depende das inúmeras mobilizações, confrontos e
negociações cotidianas, práticas e simbólicas. Confrontos e negociações que, por sua vez,
variam enormemente à medida que avançam os processos de construção do Estado-nação,
da expansão capitalista, da urbanização e da coerção — e pensamos aqui especialmente na
guerra. ‘Identidade social politizada’ significa, portanto, que a extensão dos direitos da cida-
dania democrática deve ser pensada como resultados possíveis das contendas concretas de
grupos sociais, e que essas contendas são, por sua vez, fontes poderosas de identificação
intersubjetiva e reconhecimento entre as pessoas. Nesse sentido, identidade e cidadania
não são conceitos essenciais, fixos por natureza. Eles variam conforme a agência que fazem
deles os homens que os mobilizam. Na verdade, e diferente do que se pensa, a comuni-
dade se une como grupo, e depois dele é que se criam sentidos e políticas identitárias.”
(SCHWARCZ; BOTELHO, 2012, p. 12-13).

Após esse primeiro momento que comportava uma concepção ainda muito excludente
de cidadania, principalmente ao longo dos dois últimos séculos, ocorreram intensas mo-
bilizações de grupos que foram excluídos dessa possibilidade de participação, que se
organizavam e lutavam com o intuito de ampliar seus direitos civis e políticos, ou seja,
que lutavam para serem considerados cidadãos de fato.

Durante o século XIX, movimentos que vão desde os agrupamentos de trabalhadores,


como o movimento ludista e o cartista na Inglaterra, até o movimento em prol do sufrá-
gio feminino e dos movimentos abolicionistas ganharam cenário na história. Além das
organizações citadas, podemos destacar ainda mobilizações no contexto brasileiro ao
longo do século XIX, principalmente as revoltas regenciais (Sabinada, Balaiada, Caba-
nagem, Revolta dos Malês, Revolução Farroupilha) e o movimento de Canudos.

O século XX iniciou-se arrebatado pelas lutas dos mais distintos grupos, principalmente
os movimentos organizados sindicais, que estavam em busca da possibilidade de usu­
fruírem, plenamente, de seus direitos e de exercerem livremente sua cidadania. Além

76
das lutas trabalhistas, no caso brasileiro, houve também distintas mobilizações popula-
res, como a Revolta da Chibata, a Revolta da Vacina e a Guerra do Contestado.

A partir da segunda metade do século, essas lutas se intensificaram, e muitas delas per- 3
sistem até os dias atuais. Nesse sentido, podemos sublinhar as recentes mobilizações
pela luta dos direitos à educação, como as ocupações de escolas ocorridas nos últimos

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anos no Brasil, mas também movimentos de cunho racial, como o Black Lives Matter
“vidas negras importam”.

1.3. A CIDADANIA NA CONTEMPORANEIDADE


Figura 02. Black lives matter Após o término da Segunda Guerra Mun-
dial, em 1945, e com a reorganização de

Fonte: 123RF
uma nova ordem mundial, os pressupos-
tos cidadãos existentes até aquele mo-
mento se somaram aos denominados Di-
reitos Humanos. Em 1948, a Organização
das Nações Unidas (ONU), recém-criada,
publicou a emblemática Declaração Uni-
versal dos Direitos Humanos. Tal docu-
mento, ainda que não verse sobre a cida-
dania, visto que esta é definida por cada
Estado nacional, serve de parâmetro para
a ampliação dos direitos cidadãos nos
mais distintos países do mundo, incluindo o Brasil.

No Brasil, a condição cidadã e o direito à cidadania são garantidos pela Constituição


Federal promulgada em 1988. Entretanto, ainda que este seja um pressuposto cons-
titucional, diversos indivíduos ainda não usufruem plenamente de tais condições, seja
por ausência da presença efetiva de um Estado que possa garantir tal usufruto, seja
por condições históricas e econômicas de desigualdade social, entre outros elementos.

Diante dessas exclusões, diversos movimentos sociais têm, nas últimas décadas,
lutado para garantir que a condição cidadã e o acesso pleno aos direitos, incluin-
do o de igualdade, sejam acessíveis a todos. Dentre eles, ressaltamos as lutas pe-
los direitos indígenas, das mulheres, da população negra (incluindo os quilombolas),
da comunidade LGBTQIA+ etc.

A cidadania, nesse sentido, é um conceito em transformação contínua e é através de


tensões e mobilizações que ela vai tanto se reconfigurando como se ampliando. Vale
destacarmos que, ao se tratar de uma prerrogativa constitucional, ela deveria, de fato,
ser acessível a todos os brasileiros.

Ética e Cidadania 77
Vivência profissional e construção da cidadania

SAIBA MAIS
Declaração Universal dos Direitos Humanos – 1948
3
“Agora, portanto, a Assembleia Geral proclama a presente Declaração Universal dos Direitos
Humanos como o ideal comum a ser atingido por todos os povos e todas as nações, com o
objetivo de que cada indivíduo e cada órgão da sociedade tendo sempre em mente esta Decla-
ração, esforce-se, por meio do ensino e da educação, por promover o respeito a esses direitos
e liberdades, e, pela adoção de medidas progressivas de caráter nacional e internacional, por
assegurar o seu reconhecimento e a sua observância universais e efetivos, tanto entre os
povos dos próprios Países-Membros quanto entre os povos dos territórios sob sua jurisdição.”

Fonte: FUNDO DAS NAÇÕES UNIDAS PARA A INFÂNCIA – Unicef. Declaração Universal
dos Direitos Humanos – 1948. Disponível em: https://www.unicef.org/brazil/declaracao-uni-
versal-dos-direitos-humanos.Acesso em: 11 jun. 2022.

“Nós, representantes do povo brasileiro, reunidos em Assembleia Nacional Constituinte para


instituir um Estado Democrático, destinado a assegurar o exercício dos direitos sociais e in-
dividuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça
como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, fundada
na harmonia social e comprometida, na ordem interna e internacional, com a solução pacífica
das controvérsias, promulgamos, sob a proteção de Deus, a seguinte CONSTITUIÇÃO DA
REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL.

TÍTULO I

DOS PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS

Art. 1º A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e
Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como
fundamentos:

I - a soberania;

II - a cidadania;

III - a dignidade da pessoa humana [...]”

Fonte: BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil – 1988. Disponível em:http://


www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm. Acesso em: 11 jun. 2022.

A história da cidadania, como apontado, não segue uma linha de evolução clara. Desse
modo, é importante considerarmos a cidadania no mundo antigo, levando em conta as
peculiaridades daquele contexto, ou seja, a forma como a pólis antecedia o cidadão. No
mundo moderno, o ponto de transição entre a condição de súdito para cidadão demarca
um fator importante de ruptura e de inauguração de toda uma tradição que se poster-
garia até os dias atuais.

Na contemporaneidade, diferentemente do mundo antigo, é o corpo de cidadãos que


inaugura os Estados nacionais e que, portanto, torna-se a entidade soberana de suas
diretrizes, principalmente, por meio das inúmeras cartas constitucionais que regem os

78
países na atualidade. São os denominados cidadãos que, a partir das vontades coleti-
vas, direcionam os andamentos de uma sociedade democrática.

Pertencer ao corpo de cidadãos, usufruindo dos direitos, mas também respondendo aos 3
deveres, é uma parte fundamental para a constituição de uma sociedade não apenas
mais justa, mas que seja, especialmente, capaz de garantir a igualdade entre os indi-

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víduos que a compõem, abarcando, inclusive, suas diferenças, e sendo, portanto, uma
sociedade que garante a cidadania de forma plural.

Figura 03. Mapa Conceitual - Cidadania

MAPA CONCEITUAL

Bill of rights Somente homens


Estado-nação
- 1680

Pessoa Súdito Cidadão Carta dos Direitos dos Estados Unidos


- 1780

Modernidade Rei Direitos Declaração de Direitos do Homem e do


Cidadão
Cidadão - 1789

Contemporaneidade
Direitos e deveres

Cidadania Constituição da República Federativa do Brasil - 1988

Civis

Antiguidade Greco-Romana Declaração Universal dos Plural


Direitos Humanos - 1948 Políticos

Pólis Democracia Cidadão


Movimentos sociais Direitos Sociais

Política Somente homens


Igualdade

Justiça Social

Fonte: elaborada pelo autor

SAIBA MAIS
Para a reflexão, indicamos assistir aos vídeos a seguir e buscar considerar como eles repre-
sentam a sociedade atual, quais os problemas sociais que abordam e quais suas contribui-
ções para a discussão desta unidade.

`  MANIFESTAÇÃO: Fernanda Montenegro e Chico Buarque em clipe pelos Direitos Huma-


nos. Vídeo (8min 33s). Postado pelo canal #ProgramaDiferente. Disponível em: https://
www.youtube.com/watch?v=hISHrW79sQQ. Acesso em: 11 jun. 2022.

`  MARTINHO, Marcos. O dever da educação como formação do cidadão. Vídeo (11min


53s). Postado pelo canal Casa do Saber. Disponível em: https://www.youtube.com/wat-
ch?v=NhQq76oBHJE. Acesso em: 11 jun. 2022.

Ética e Cidadania 79
Vivência profissional e construção da cidadania

`  RODRIGUES, Gilberto. Quais são os direitos das minorias? Vídeo (4min 22s). Postado
pelo canal Casa do Saber. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=Y5hoP-
S-mQsc&t=21s. Acesso em: 12 jun. 2022.
3
`  PINSKY, Jaime. Prof. Jaime Pinsky fala sobre o livro “História da Cidadania”. Vídeo (7min
49s). Postado pelo canal Editora Contexto. Disponível em: https://www.youtube.com/wat-
ch?v=L_NpX6XQyEI&t=17s. Acesso em: 12 jun. 2022.

Caso de aplicação 1

O tema da cidadania, atualmente, está presente nas mais diversas esferas da sociedade e,
mais recentemente, tem feito parte, inclusive, do universo do trabalho. Cada vez mais tanto
as empresas como os profissionais têm se dedicado a pensar acerca da responsabilidade
social e de suas contribuições enquanto participantes diretos da organização econômica e
social dos mais diversos países. Nesse sentido, pensar atitudes diárias e construir espaços
abertos e praticantes da cidadania se tornaram elementos cada vez mais comuns no mundo
profissional. Além de tais participações dentro das empresas, muitas delas têm valorizado
atividades voluntárias praticadas por seus funcionários e candidatos a vagas de emprego.

Leia a matéria abaixo e veja como as empresas têm colocado a cidadania como um conceito
cada vez mais importante tanto na contratação de seus funcionários como no cotidiano do
exercício do trabalho.

“Não é de hoje que diversas empresas descobriram a responsabilidade social e a impor-


tância de uma preocupação maior com a realidade que as cerca. A cidadania também faz
parte desse conceito. Atitudes que podem ser consideradas cidadãs - como envolvimento em
projeto sociais, atividades comunitárias e voluntárias - podem até contar pontos no currículo
de quem procura um emprego, uma vaga em programas de trainee ou mesmo na carreira de
quem já trabalha.”

Fonte: https://www.gazetadopovo.com.br/vida-publica/eleicoes/2010/cidadania-e-valorizada-
-pelas-empresas-34v3t48z5dvryk6lscxmtg8cu/ Acesso em: 11 jun. 2022.

2. O ESPAÇO DA CIDADANIA

2.1. IGUALDADE E DESIGUALDADE NA SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA


Desde os primeiros registros acerca das sociedades, temos como marca importante o
diagnóstico – de pensadores aos primeiros cientistas – da existência de desigualdades.
Em Platão e Sócrates – filósofos gregos e referência para o mundo ocidental –, apren-
demos que a “civilização de ouro”, a Grécia Antiga, organizava sua sociedade a partir
de distinções de:

80
Gênero homens e mulheres com direitos e atribuições distintas;

3
Faixa etária crianças, jovens, adultos e idosos;

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Econômica homens livres e escravos.

SAIBA MAIS
Na Grécia antiga, a palavra “cidadania” se referia àquele que vivia na cidade, que participava
de suas decisões. Cidade, em grego, tem o nome de polis. Como nos lembra a professora de
filosofia Marilena Chauí (2002, p. 509), a pólis era a “[...] reunião dos cidadãos em seu territó-
rio e sob suas leis. Dela se deriva a palavra política (politikós: o cidadão, o que concerne ao
cidadão, os negócios públicos, a administração pública)”.

Quando traduzido para o latim, o termo continuou a se referir ao espaço público em referência
imediata a civitas, isto é, à cidade. O cidadão é aquele que está e participa da vida das cidades.

Na filosofia romana, entendemos que essas distinções e discriminações eram dife-


rentes, incorporando distinções entre funções dentro das cidades – senadores, cléri-
gos, administradores públicos, trabalhadores –, de distinção social – nobres, religio-
sos, plebeus –, distinção por exercício de profissão – magistrados, generais – e de
nacionalidade – cidadãos e estrangeiros.

Contemporaneamente, a partir da segunda metade do século XX, só alcançamos


um conceito genérico de cidadania ao olharmos para os pactos sociais internacio-
nais, ou seja, aqueles nos quais cada Estado, respeitando sua soberania, concor-
dou em aceitar como critério objetivo para diálogo e proposição de ações um único
conceito. E conceitos genéricos podem, muitas vezes, ser potencializadores ou não
de diferenças naturais.

A filósofa Hannah Arendt (1906-1975) dedicou-se a refletir sobre as questões do per-


tencimento dos cidadãos aos seus territórios, inclusive quando estão na condição de
estrangeiros – situação que ela compreendia com profundidade, pois, como judia, con-
seguiu fugir da Alemanha nazista e se refugiar nos EUA. Em diferentes obras da autora,
a filósofa assevera que a igualdade não é natural entre os homens, no sentido do que
quis exprimir a Declaração dos Direitos do Homem de 1948.

Ética e Cidadania 81
Vivência profissional e construção da cidadania

SAIBA MAIS
Hannah Arendt (1906-1975), filósofa alemã, dedicou-se à reflexão sobre as questões políticas
3 e filosóficas de seu tempo, sobretudo, vinculada à formação dos Estados Modernos e seus
processos de legitimidade. Arendt é autora de obras como: Origens do Totalitarismo (1951), A
condição humana (1958), Sobre a revolução (1963), Eichmann em Jerusalém (1963).

Resgatando em seu argumento as teses antigas, Arendt (1989, p. 46) postula que a na-
tureza produz homens desiguais em cultura, gênero, condições físicas e psicológicas,
estatura, cores e tons de pele. A regra do mundo é a desigualdade. A igualdade é,
para a autora, um conceito resultado de uma construção coletiva da comunidade polí-
tica, que estabeleceu um critério para garantir a todos da mesma condição o exercício
autônomo dos direitos políticos pelo homem.

Desde Aristóteles (384-322 a.C), perpetuado em sua obra Ética a Nicômaco, apren-
demos sobre igualdade e desigualdade como fundamento da Justiça. Para o filósofo,
apenas formalmente somos iguais.

EXEMPLO
Somos todos iguais perante uma lei que estabelece “Todos devem” ou “Todos podem” ou “To-
dos são”; somos iguais perante uma regra que aponta que “todos terão os mesmos direitos
de autodefesa”, ou seja, mandamentos formais uma vez que esses direitos, efetivamente, só
alcançavam os homens livres (cidadãos) e não mulheres, crianças e escravos. Por isso, para
ele, a igualdade está presente somente na realização e concretização da justiça artificial, ou
seja, naquela criada por convenções e regras (promoção da igualdade).

No cotidiano, a regra da sociedade é a desigualdade. Essa é a condição da natureza.


E, em um mundo de desigualdade, o único critério possível de justiça é a Equidade –
redução das desigualdades. A equidade é o critério formal para minorar diferenças e
estabelecer oportunidades concretas a todos, independentemente de suas diferenças
que, para o filósofo, eram naturais.

SAIBA MAIS
Figura 04. Diferença entre Nos últimos anos, vemos circular na internet e redes sociais ima-
igualdade e equidade gens como esta, para descrever o que seria a verdadeira justiça.
Quando a igualdade é colocada como parâmetro de justiça ela,
Fonte: 123RF

ao invés de promover o bem para todos, amplifica as diferenças.


Em uma situação em que o degrau tem a mesma altura para
todos, somente aqueles que já têm naturalmente uma vantagem
terão acesso ao benefício. Entretanto, quando percebemos as
diferenças naturais, somos capazes de projetar uma rampa com
alturas desiguais que permita que todos alcancem seu prêmio.
Exemplo contemporâneo de uma forma de promoção de equi-
dade são as políticas públicas de inclusão social – de deficien-
tes, de gênero e raça, étnicas dentre outras.

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Contemporaneamente, as estatísticas nos revelam que a realidade das sociedades é
de profunda desigualdade, não somente em relação às naturais e culturais, mas sobre-
tudo em virtude das diferenças de acesso aos bens e patrimônios coletivos como traba-
lho, educação, saúde e moradia. Isso nos coloca em reflexão contínua sobre o processo 3
de consolidação da cidadania.

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2.2. O CIDADÃO COMO DETENTOR DE DIREITOS INDIVIDUAIS E
COLETIVOS
Quando Thomas Humphrey Marshall, sociólogo britânico, expôs sua teoria sobre ci-
dadania, ele observou esta nova condição do membro da comunidade e postulou que
[c]idadania é um status concedido àqueles que são membros plenos da co-
munidade. Todos os que possuem o status são iguais no que diz respeito
aos direitos e deveres com os quais o status é conferido. Não existe um
princípio universal que determine quais devem ser esses direitos e deveres,
mas sociedades nas quais a cidadania é uma instituição em desenvolvimen-
to criam uma imagem de uma cidadania ideal contra a qual as realizações
podem ser medidas e para a qual as aspirações podem ser dirigidas. (MAR-
SHALL, 1963, p. 87, tradução livre)

Ao construir tal definição, o sociólogo estabeleceu o conceito de cidadania a partir de


duas estruturas fundamentais: primeiro, a de que a cidadania é um status (sociologi-
camente considerado) e, segundo, que os cidadãos devem ser titulares de deveres e
direitos decorrentes dessa posição.

Sobre a segunda dimensão, a sociedade contemporânea a caracteriza sob a expressão


da cidadania democrática, construída por meio do modelo desenhado pela Declaração
Universal dos Direitos Humanos que pressupõe, ao menos, o exercício de três formas
de cidadania (PINSKY; PINSKY, 2008, p. 9):

I. A civil: que se refere às liberdades pessoais e aos direitos individuais;

II. A política: que se trata da participação política e à representação democrática;

III. A social: vinculada à intervenção do Estado na redução das desigualdades econômicas e


promoção da justiça social – sobretudo por intermédio de políticas públicas e ações afirmativas.

No Brasil, com o restabelecimento da república e do estado democrático após o período


da ditadura militar, a marca simbólica e factual do estabelecimento desse status jurídico
é a Constituição da República Federativa de 1988.

No início da Constituição Federal, foi estabelecido um conjunto de princípios e diretri-


zes, tais como princípios da soberania, da cidadania, da dignidade da pessoa humana
e dos valores sociais do trabalho e da livre iniciativa, além do pluralismo político. Esse
conjunto é considerado como essencial para a manutenção do Estado e do poder do
povo. Percebemos que, na lei constitucional, o aspecto social e o campo econômico dos

Ética e Cidadania 83
Vivência profissional e construção da cidadania

princípios são pontos de destaque, motivo pelo qual a Constituição Federal recebe o
apelido de “Constituição Cidadã”. Mais adiante, a Constituição inova em sua concepção
de cidadania e incluiu, sobretudo, um rol de valores socioeconômicos expressos como
3 Direitos Sociais – artigos 6° ao 11º –, colocando diretrizes concretas para efetivação no
espaço público da cidadania.

Fato é que a consolidação da cidadania exige a proteção estatal, mas só se concretiza


se for acompanhada de um movimento de apropriação de valores e reconhecimento da
importância da participação de todo e cada indivíduo em sua comunidade, a partir de
ações da vida cotidiana.

2.3. A ATUAÇÃO PROFISSIONAL E A VIVÊNCIA CIDADÃ: A


RETOMADA DO PROTAGONISMO SOCIAL
No caso do Brasil, o processo de consolidação jurídica democrática vem deixando claro
que a percepção da cidadania é consequência, muitas vezes, de ação exclusiva do
Estado, afastando, em um primeiro momento, a compreensão de que ela só se cria e
concretiza na ação individualizada de cada ser humano, como membro de sua comuni-
dade e ator nos espaços individuais e coletivos.

Pensar dessa forma – que só sou cidadão se houver uma determinação externa do
Estado, das leis – trouxe consequências muito sérias para a sociedade. A primeira foi
o surgimento do que se denominou na literatura nacional de “cidadania de papel”, ou
seja, um Estado que formalmente prevê todos os direitos que compõem o conjunto da
cidadania, mas que, efetivamente, não os implementa (DIMENSTEIN, 2012, p. 58). Tal
fato vem gerando um total desinteresse dos cidadãos por seus direitos e esse proces-
so de consolidação, fazendo surgir o fenômeno da cidadania passiva, “[...] outorgada
pelo Estado, se diferencia da cidadania ativa, na qual o cidadão, portador de direitos e
deveres, é essencialmente criador de direitos para abrir novos espaços de participação
política”. (VIEIRA, 2002, p. 40).

SAIBA MAIS
“Cidadania de papel” é um termo derivado da interpretação do livro O cidadão de papel, do
jornalista Gilberto Dimenstein (1956-2020). Nessa obra, escrita no início dos anos 1990, somos
apresentados ao Brasil real dos contrastes. Analisando notícias divulgadas cotidianamente nos
jornais da cidade, faz-nos refletir sobre como o país que tem uma das maiores economias do
planeta se torna ao mesmo tempo um dos lugares mais socialmente injustos para se viver e
indaga o porquê dos cidadãos não se revoltarem com tal situação, aceitando a condição da
desigualdade como algo natural da sociedade. Uma de suas respostas é que vivenciamos uma
cidadania passiva, existente só no papel.

A segunda forma de pensar seria o desvirtuamento da percepção dos homens como mem-
bros de suas comunidades, deixando o papel de construtores de direitos para se tornarem
consumidores de direitos (ROCHE, 1992, p. 31-32), visto que o Estado deixou de lado sua di-
mensão de representatividade para ser provedor de direito, limitando-os aos seus interesses.

84
Com o intuito de retomar o protagonismo desse movimento de consolidação, no campo
profissional, muitas ações vêm sendo implementadas para que os indivíduos (re)apren-
dam a participar e se envolver em temas e decisões que são geradoras de bens coleti-
vos e, muitas vezes, de benefícios individuais. Esse é um movimento que dá base para 3
a chamada cidadania empresarial e são exemplos de ações: participação em fóruns de

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planejamento estratégico, em comissões de empresas – representantes, segurança do
trabalho, compliance, dentre outras.

Compreender o movimento histórico faz com que percebamos que a cidadania não é
uma estrutura meramente formal, mas sim um desdobramento da continua busca pela
realização do desejo homem de estar presente. Os juristas Wolkmer e Leite (2003, p.
23) comentam que,
[p]or serem inesgotáveis e ilimitadas no tempo e no espaço, as necessida-
des humanas estão em permanente redefinição e criação. Por consequên-
cia, as situações de necessidade e carência constituem a razão motivadora
e a condição de possibilidade do aparecimento de “novos” direitos. (WOLK-
MER; LEITE, 2003, p. 23).

Nessa perspectiva, então, não podemos afirmar que esse seja um rol fechado de ações
de cidadania, pois, a cada dia, temos novas necessidades (por exemplo: na década
de 1990, a Internet era uma tecnologia não popularizada; a partir dos anos 2000, ela
passa a ser considerada como direito de acessibilidade e ganha um novo status, pois
sabemos o quanto precisamos dela em nosso dia a dia).

A cidadania ativa, assim, exige o que podem ser chamados mergulhos na realidade.
Essa cidadania se manifesta em ações de responsabilidade social, trabalhos voluntá-
rios junto a comunidades vulneráveis, discussões internas em organizações e institui-
ções sobre diversidade e gestão da inovação, a revisão dos códigos de ética e conduta,
com o estabelecimento claro de punições aos desvios e às práticas de discriminação
e propagação de crimes de ódio e a mudança e a transformação dos ambientes pro-
fissionais de modo a propiciar inclusão verdadeira são caminhos obrigatórios para o
entendimento da cidadania no tempo presente.

Dessa forma, a retomada do protagonismo implica em um compromisso com uma pos-


tura participativa e não meramente consumista. A cidadania se realizará plenamente
quando este for o direcionamento concreto da sociedade.

SAIBA MAIS
A Cidadania do consumismo é um termo referenciado na literatura, usado para definir a pos-
tura de cidadãos que escolhem não se envolver em decisões. Manziini-Crove (2007, p. 72-73)
explica que “A proposta da cidadania da etapa atual permite abrir espaço para a retomada
daquele exercício de cidadania [...], com a vantagem de que, agora, a sociedade tecnológica
criou bens e condições de realmente atender a todos os homens do planeta. Isso depende de
uma condição sine qua non – a de que os sujeitos precisam construir o possível nesse espaço
aberto, lutando por todos os direitos do cidadão. E lembrando sempre: o que se reivindica tem
relação íntima com o modo usado para reivindicar.

Ética e Cidadania 85
Vivência profissional e construção da cidadania

A bandeira da luta da cidadania é transformar o cotidiano do trabalhador em algo bom, satisfa-


tório, sob condições que respeitem a própria vida, dando chance também à questão do desejo
– a identidade do indivíduo com as atividades que realiza [...]”.
3
MANZINI-COVRE, Maria de Lourdes. O que é cidadania? São Paulo: Brasiliense, 2007.
[Primeiros Passos]

A polarização e a exteriorização das diferenças entre os povos, típicas da economia e


política mundial contemporânea, colocou em questão, no final do século XX, o direito
a sua autodeterminação (soberania). Isso significa apontar que o espaço da cidadania
esteve em perigo, uma vez que se tornou um espaço de formalidade.

A cidadania ativa implica que todo e qualquer cidadão saiba e reconheça que a garantia
de direitos e o estabelecimento de deveres, depende de sua participação efetiva nos
processos de melhoria e desenvolvimento de sua sociedade, de suas regras jurídicas e
de sua profissão. A necessidade de incorporação de novas práticas, novas competên-
cias e novos valores promotores de justiça social e bem comum tornam-se garantia da
própria sobrevivência de determinados grupos sociais e culturais.

O exercício dos direitos e a mensuração dos deveres é parâmetro objetivo para o de-
senvolvimento de políticas de pertencimento profissional e, consequentemente, de re-
conhecimento social. O status de cidadão hoje passa, necessariamente, pela análise de
como nós atuamos e nos comportamos na execução de nosso trabalho – com princípios
éticos, de transparência e sem corrupção – e em nossos espaços privados e públicos –
com o respeito a toda e qualquer diferença.
Figura 05. Mapa Conceitual - O espaço da cidadania

INDIVIDUAL COLETIVO
Preservação de igualdade

Pertencimento a uma nação/sociedade Participante do projeto social estabelecido na


Constituição Federal

Ações em espaços privados como residência, Ações em espaços públicos coletivos, comunidades
comunidade, família religiosas e profissionais

Realização individual de direitos e garantias Realização coletiva de direitos e garantias sociais


fundamentais (vida, liberdade, autonomia privada, (educação, transporte, lazer, segurança)
desenvolvimento individual)

Cidadania política individual: participação nas Defesa das propriedades coletivas (direitos urbanos,
decisões que impactam o seu cotidiano O ESPAÇO DA cultura, esporte, limpeza, meio ambiente)
CIDADANIA

Cidania econômica individual: exercício dos direitos do Cidadania econômica coletiva: combate à
consumidor (escolhas pessoais) e proteção corrupção, elogia da transparência e respeito às
contra abusos regras de concorrência

Respeito à individualidade e direito a ser quem Inclusão social: construção de ambientes coletivos
se é (diversidade) inclusivos e acessíveis

Gestão da diversidade: criação de projetos de integra-


Valorização da tolerância, da cultura de paz e do ção e punição de crimes de ódio, de discriminação, de
respeito ao outro em sua integridade racismo e outros ambientes coletivos

Redução de desigualdades

Fonte: elaborada pela autora

86
SAIBA MAIS
SOCIAL WATCH (Observatório da cidadania/social). Disponível em: https://www.socialwatch.
org/es. Acesso em: 11 jun. 2022. Dados em inglês, espanhol e francês. 3
Resumo: “Site da rede internacional de organizações de cidadãos na luta para erradicar a po-

Universidade São Francisco


breza e suas causas, propondo ações e fornecendo dados necessários para acabar com todas
as formas de discriminação e racismo, para garantir uma distribuição equitativa da riqueza e a
realização dos direitos humanos. Analisa dados de responsabilidade dos governos, do sistema
das Nações Unidas e das organizações internacionais no cumprimento dos compromissos na-
cionais, regionais e internacionais de erradicação da pobreza”.

Filme ou Documentários
`  VIDAS Descartáveis, de Alexandre Valenti e Alberto Graça

  Sinopse: O documentário lança olhar para a precariedade do trabalho no Brasil, a partir


de situações reais. A temática da escravidão aparece, também, no modo como ela se
dá na atualidade, ao ser considerado um conjunto de situações de trabalho degradante,
seus processos de produção e consequente exclusão da cidadania – seja na cidade ou
no campo, sempre considerando a busca dos trabalhadores por melhoria de vida. Tam-
bém é analisada a responsabilidade das empresas e dos profissionais.

`  O MENINO que descobriu o vento (The Boy Who Harnessed the Wind),
de Chiwetel Ejiofor

  Sinopse: “O filme, disponível em plataformas de streaming, é baseado em uma


história real retratada no livro “O menino que descobriu o vento”. Trata-se da histó-
ria real de Willian Kamkwamba, morador do Malawi, país litorâneo do sudeste da
África, que sofre com as inconstâncias do tempo indo da extrema seca até a inten-
sidade das chuvas. O aluno, em um período de grande problema econômico, é obri-
gado a abandonar a escola. Entretanto, curioso e autodidata, ele continua estudan-
do e descobre uma forma de construir um sistema de irrigação em seu povoado”.

O MENINO que descobriu o vento (The Boy Who Harnessed the Wind). Drama. Direção
e Roteiro: Chiwetel Ejiofor. EUA, Malawi, França, Reino Unido, Netflix Filmes. 1h 53min.

Textos Complementares
`  Educação para a cidadania democrática: Desafios, impasses e perspectivas, de Luís
Fernando Santos Corrêa da Silva e Egidiane Michelotto Muzzato

  Resumo: “O presente artigo tem como objetivo discutir as intersecções contemporâneas


entre a cidadania e a democracia, sobretudo no que concerne ao papel da educação para a
consolidação de ambas. Resgata-se o debate teórico e conceitual sobre os desafios e os
impasses da cidadania e da democracia na contemporaneidade, bem como enfatiza-se as

Ética e Cidadania 87
Vivência profissional e construção da cidadania

características de um modelo específico de cidadania, mais ativa e substantiva, que é a ci-


dadania democrática. Tal modelo fundamenta-se em três pilares que devem integrar o currí-
3 culo escolar: a) o pensamento crítico, b) a cidadania universal, c) a capacidade imaginativa.

Entende-se que a construção da cidadania democrática depende de uma formação hu-


mana plural, de modo a superar o utilitarismo técnico e econômico. Surge daí a impor-
tância da presença das ciências humanas, da filosofia e das artes no currículo escolar,
dado o caráter crítico e desnaturalizador dessas áreas do conhecimento”.

MUZZATTO, Egidiane Michelotto; SILVA, Luís Fernando Santos Corrêa da. Educação
para a cidadania democrática: desafios, impasses e perspectivas. Educação. Porto Ale-
gre, Porto Alegre, v. 44, n. 1, e32656, enero 2021 . Disponível em <http://educa.fcc.org.
br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1981-25822021000100004&lng=es&nrm=iso>.
Acesso em: 11 jun. 2022.

`  Ética, cidadania e cidadania organizacional: conceito, trajetória e alguns direitos e


deveres relacionados, de Nelson Lambert de Andrade

  Resumo: “Este artigo aborda os conceitos e bases históricas a respeito da cidadania,


seus diversos direitos e deveres relacionados e a cidadania organizacional dentro do
mundo empresarial. O objetivo deste trabalho foi demonstrar que a cidadania atual-
mente está ligada aos direitos humanos, deveres impostos pelas constituições de cada
país, e no mesmo sentido a cidadania aplicada dentro das organizações, que são uma
extensão da sociedade, onde os colaboradores têm direitos e deveres que precisam ser
gerenciados com ética para um convívio harmônico no ambiente de trabalho”.

DE ANDRADE, N. (2020). ÉTICA, CIDADANIA E CIDADANIA ORGANIZACIONAL:


CONCEITO, TRAJETÓRIA E ALGUNS DIREITOS E DEVERES RELACIONADOS. Re-
vista Científica E-Locução, 1(18), 13. Recuperado de https://periodicos.faex.edu.br/in-
dex.php/e-Locucao/article/view/278

3. É PRECISO CUIDAR!

3.1. O HOMEM E O MEIO AMBIENTE


Nas últimas décadas, a preocupação com a questão ambiental ganhou espaço nas
discussões internacionais e suscitou discussões intensas tanto em nível global como lo-
cal. Identificar responsabilidades em relação ao meio ambiente, acerca de temas como
exploração e preservação da natureza e sustentabilidade, passou a fazer parte do coti-
diano das pessoas, das empresas e das nações.

Nesse sentido, entendemos, na atualidade, que se portar como um cidadão conscien-


te inclui assumir uma postura ética diante de questões relacionadas não apenas às
relações humanas, mas também em relação a todo o meio que nos cerca, incluindo a
natureza e os animais.

88
`  POR UMA CIDADANIA AMBIENTAL

Quando começamos a nos preocupar Figura 06. Consciência ecológica


com a natureza e o meio ambiente que

Fonte: 123RF
3
nos cerca? A resposta, se colocada in-
dividualmente, percorreria toda a histó-

Universidade São Francisco


ria, em maior ou menor medida. Sem-
pre houve indivíduos que refletiram e se
preocuparam com o meio, a natureza e
os animais. No entanto, ao colocarmos
o mesmo questionamento para o cole-
tivo de cidadãos, encurtaríamos esse
intervalo de tempo para um período que
se iniciaria em finais do século XIX e
que percorreria todo o século XX, che-
gando aos dias atuais. Partindo desse recorte é que poderíamos apontar a projeção
de uma cidadania ambiental.

GLOSSÁRIO
Pode-se apontar que “[...] a noção de cidadania ambiental pressupõe o estabelecimento
de uma relação mais harmoniosa com a natureza. Essa postura deve estar presente em
toda a extensão da vida cotidiana, com cada cidadão exercitando sua responsabilidade
ambiental em toda a ocasião que estiver manipulando bens e materiais, buscando a fina-
lidade mais ecológica possível em cada atitude adotada no seu dia a dia e com consci-
ência do impacto que os mais simples procedimentos podem provocar no meio natural”.
(WALDMAN apud PINSKY; PINSKY, 2005, p. 557, grifo nosso)

Tal questionamento tem relação direta com o advento da Revolução Industrial no século
XVIII. As modificações produzidas sobre o meio natural se tornaram muito mais intensas
e criaram formas de exploração que, ao longo dos séculos, deixaram fortes impactos
na natureza. Florestas foram derrubadas, rios e mares foram poluídos, espécies foram
extintas, solos foram contaminados e grande parte desses recursos naturais ainda se
encontra degradada. Acrescenta-se, ainda, em decorrência da rápida industrialização,
a queima intensiva de combustíveis fósseis, a destruição da camada de ozônio e o efei-
to estufa que vem alterando as condições climáticas nos últimos séculos.

Nas últimas décadas, têm ocorrido inúmeras mobilizações internacionais voltadas


para a discussão de uma ética ambiental. Um dos pontos de referência sobre o
tema ocorreu no Brasil, em 1992, no Rio de Janeiro: a Conferência das Nações
Unidas para o Meio Ambiente e Desenvolvimento, também conhecida como Eco
92. O evento teve um impacto importante nas discussões e resultou na proposta da
Agenda XXI, que tinha como prerrogativa apresentar medidas para se estabelecer
uma melhor forma de interação com o meio ambiente, além de projetar meios de se
realizar um consumo mais sustentável.

Ética e Cidadania 89
Vivência profissional e construção da cidadania

A partir desse evento, a sustentabilidade se converteu em um conceito extremamente


importante e cotidiano. Governos passaram a projetar políticas públicas que visassem
atingir tais medidas, além de inúmeras empresas começaram a se preocupar com o ali-
3 nhamento de seus processos produtivos a medidas eco sustentáveis, adotando assim
posturas éticas em relação ao meio ambiente.

A constituição brasileira de 1988, em seu capítulo VI, artigo 225, estipula alguns pontos
em relação ao meio ambiente, no entanto, uma legislação mais específica encontra-se
dividida em áreas distintas (biossegurança, agrotóxicos, crimes ambientais etc.), sendo
um dos mais importantes o denominado “código florestal”, Lei 12.651, de 2012.

CURIOSIDADE
O acordo de Paris – 2015

Mais recentemente, em 2015, aconteceu a COP21, a 21ª Conferência das Nações Unidas
sobre mudanças climáticas, em Paris. Nesse encontro foi firmado o Acordo de Paris, no qual
os governos dos países participantes estabeleceram metas de redução de gases que provo-
cam o efeito estufa a partir de 2020. O acordo foi discutido por 195 países e entrou em vigor
em novembro de 2016, sendo o Brasil um de seus signatários.

É importante destacarmos que, em um mundo capitalista que passa por um exponencial


crescimento demográfico e urbano, equilibrar produção, consumo e meio ambiente não
é uma tarefa fácil. Nesse sentido, a proposição de uma formação consciente e ética de
uma cidadania em relação ao meio ambiente se apresenta como uma demanda urgente.

PARA REFLETIR
Sobre a relação entre capitalismo e meio ambiente “Uma das principais fontes de tensão con-
temporânea ao desenvolvimento do capitalismo está justamente na dificuldade em relacionar
tempos diferentes. A racionalidade produtivista de sociedade de consumo é incompatível com
as diversas temporalidades que integram os sistemas naturais. Enquanto máquinas deman-
dam energia e matéria-prima sem parar, os ambientes naturais possuem um ritmo mais lento
para absorver os dejetos da produção e para repor a base material da existência”. (RIBEIRO
apud PINSKY; PINSKY, 2005, p. 413).

Hoje, além da preocupante questão da escassez de água, que já é uma realidade em


diversas partes do mundo, tema que tem trazido à tona a necessidade do uso cons-
ciente da água, outra preocupação é em relação à adoção de uma ética sustentável no
consumo de energia, mais especificamente, em referência a quais fontes de energia
utilizamos: renováveis ou não renováveis.

Fontes não renováveis como o petróleo e o carvão mineral, extremamente poluentes,


vêm sendo substituídas por outras fontes de energia renováveis e limpas, como a energia
eólica, a solar e a hídrica. O Brasil obtém grande parte de sua energia por meio das hi-

90
drelétricas. Porém, durante o período das secas, que têm sido impactos recorrentes das
mudanças climáticas dos últimos anos, a utilização das termelétricas em tem crescido.

Assumir posturas éticas em relação ao meio ambiente, muitas vezes, implica custos 3
mais elevados. Assim, construir uma cidadania ambiental ética deve pressupor um es-
forço generalizado que envolva as pessoas, o Estado e as empresas privadas. Todos

Universidade São Francisco


precisam estar alinhados na projeção de uma produção em consonância não somente
com o meio ambiente, mas também com a realidade econômica dos indivíduos de uma
em determinada região ou país. Promover tal condição é abarcar, de forma mais ampla,
uma sustentabilidade que seja tanto ambiental como socioeconômica.

Dentro das preocupações ambientais, dois termos são ressaltados com relação ao que
concerne à interação entre o homem e a natureza: preservacionismo e conservacio-
nismo. Os termos, muitas vezes, são utilizados de forma incorreta e não são sinônimos.

Enquanto o preservacionismo se preocupa em salvar ecossistemas, espécies, biomas


etc., sem levar em consideração interesses econômicos que eles podem vir a render, o
conservacionismo pressupõe a proteção e a conservação, mas permitindo a integração do
homem com a natureza.

Nessa leitura, o preservacionismo compreende que o homem é uma ameaça à nature-


za e propõe que ela seja isolada, por exemplo, em áreas de preservação permanente
(manguezais, nascentes de rios e córregos, mata ciliar etc.). Já o conservacionismo de-
fende uma integração e um desenvolvimento sustentável entre o homem e a natureza,
por meio de parques ecológicos e áreas de conservação (Parque Nacional do Iguaçu,
Parque Nacional da Chapada dos Guimarães etc.).

A temática da interação entre homem e natureza atingiu também, nos últimos anos,
todo o mercado de trabalho e apontou a necessidade de se pensar não apenas sobre
as posturas das empresas, mas também exigiu posicionamentos éticos de seus funcio-
nários. Dessa forma, a temática de uma cidadania ambiental vem se desdobrando para
além da vida privada dos indivíduos e, com o seu desenvolvimento, fez surgir nomen-
claturas para essas relações; agora podemos acompanhar o avanço de funcionários e
empresas sustentáveis.

Ética e Cidadania 91
Vivência profissional e construção da cidadania

3.2. POR UMA ÉTICA ANIMAL: O ANIMAL HUMANO E OS ANIMAIS


NÃO HUMANOS
A preocupação com o meio ambiente e Figura 07. Relação humano e não-humano
3
uma prática de vida mais sustentável se

Fonte: 123RF
estendeu à forma como lidamos com os
animais. Ao longo do século XX, e princi-
palmente no século XXI, a questão animal
foi ganhando contornos amplos, desde
perspectivas filosóficas até questões re-
lacionadas ao mundo do direito, como a
Lei 9.605/1998, que no Capítulo V, Seção
I, dos crimes contra a fauna, artigo 32,
estipula punições para crimes cometidos
contra animais silvestres, domésticos ou
domesticados. Três nomes são realçados
nessa discussão: o filósofo australiano Peter Singer, o filósofo americano Tom Regan e
o ativista, também americano, Henri Spira.

`  LIBERTAÇÃO HUMANA, LIBERTAÇÃO ANIMAL

Um dos marcos das mudanças acerca da preocupação com a questão animal está as-
sociado à publicação do importante livro de Peter Singer, Libertação Animal, de 1975.
Na obra, Singer estabelece uma leitura importante sobre a ética animal. Partindo da
concepção de especismo, o autor aponta que a diferenciação e a discriminação entre
os seres vivos acontecem apenas porque eles pertencem a outras espécies. Ele ainda
pontua que as formas de sentir e sofrer, de escravizar e matar deveriam ser colocadas
como proibidas de forma igualitária para todos os seres. Peter Singer, dessa forma,
afirma que escravizar animais para a alimentação é injustificável e fere uma ética animal
que precisa ser levada em consideração, visto que fere e mata um outro ser vivo, uma
outra espécie. Singer avançou em suas proposições em outras obras, sempre pensan-
do a relação entre as espécies animais (incluindo os humanos), a ética e a moral.

Outro texto basilar para a temática é The Case for Animal Rights (1983), de Tom Regan,
lançado em 1983. A proposta de Regan, difere da proposta de Peter Singer (este, que
segue uma vertente de defesa dos animais não humanos de acordo com a filosofia
utilitarista): Regan propõe uma leitura de que a ética deve se assentar na análise das
ações que compreende como boas quando elas causam a felicidade e más, caso tenha
como consequência o sofrimento. Essa concepção ética pode ser denominada de “con-
sequencialismo”, visto que propõe uma abordagem diretamente associada ao direito.

Singer avalia que a possibilidade de se utilizar animais em alguns experimentos cien-


tíficos é válida, o que Tom Regan rejeita, já que aborda uma perspectiva em que os
direitos deveriam se equivaler. Apesar de ambos abordarem uma perspectiva da ética
animal, Regan advoga, por meio de uma visão de direitos ampla, a total abolição dos
animais em relação a qualquer tipo de exploração humana, enquanto Singer concede
algumas permissões que ele entende como éticas.

92
SAIBA MAIS
Para se aprofundar um pouco mais na proposição de Tom Regan e sua relação com a ética,
leia o trecho abaixo retirado do recomendado artigo de Gabriela Dias de Oliveira, A teoria dos 3
direitos animais humanos e não-humanos, de Tom Regan. “O que impele o trabalho de Tom
Regan é a intuição de que algo vai mal com a moralidade humana. Não se trata de uma alar-

Universidade São Francisco


mista ‘crise de valores’, mas de algo um tanto mais alarmante: uma profunda incoerência de
princípios de valoração no seio do sujeito moral humano. Velha fórmula de injustiça: dois pesos,
duas medidas. Na trapaça quem perde são os animais, mas não perdem menos os humanos
a eles assemelhados.

Ao apresentar-se como advogado da causa dos animais, Regan tem em mira os preconceitos
que envolvem o próprio estatuto moral da vida humana; é por isso que, no trabalho intelectual
por ele empreendido, não está em jogo apenas a inclusão dos animais no âmbito da moralidade
humana, através do redimensionamento das relações entre animais humanos e não-humanos,
mas a própria fundamentação dos direitos humanos”. (OLIVEIRA, 2004, p. 283)

Fonte: https://periodicos.ufsc.br/index.php/ethic/article/view/14917/13584. Acesso em: 11 jun. 2022.

Outra questão bastante em voga na atualidade, mas que ganhou repercussão a partir
da década de 1980, refere-se à vivissecção (que consiste em realizar uma cirurgia –
dissecação – em um ser ainda vivo com a finalidade de analisar o funcionamento do
seu organismo interno) e os testes farmacêuticos e industriais realizados em animais.

Neste ponto, o nome de maior evidência é o do ativista Henri Spira que, desde a déca-
da de 1950, se tornou um importante ativista dos direitos civis e, posteriormente, dos
direitos animais. Realizando uma série de manifestações públicas nos Estados Unidos,
Spira criticava fortemente a utilização de animais em testes científicos.

Na busca por ampliar a discussão, na década de 1970, o autor supracitado trouxe ao co-
nhecimento público o modo como muitos desses testes ocorriam, o que gerou uma am-
pla comoção popular e fez com que diversas empresas nos Estados Unidos passassem
a rever seus métodos. Spira é o fundador da organização Animal Rights International,
criada com o objetivo direto de expor e pressionar as empresas que utilizavam animais
em testes. Essas proposições, aliadas a uma série de questões ambientais e de saúde,
contribuíram para um crescimento exponencial do vegetarianismo e do veganismo nas
últimas décadas. Simplificadamente, o vegetarianismo propõe uma alimentação isenta
de produtos animais, já o veganismo (compreendido por muitos como uma filosofia de
vida) pressupõe uma alimentação e um estilo de vida sem qualquer tipo de produto ou
alimento de origem animal ou que cause algum dano a esses seres.

Ambas as práticas possuem inúmeras ramificações. No entanto, o ponto que frisamos é


que a preocupação com os animais e com o meio ambiente como um todo tem acarre-
tado uma série de transformações na forma de se viver e entender nossa relação com
o mundo que nos cerca.

Ética e Cidadania 93
Vivência profissional e construção da cidadania

GLOSSÁRIO
Para uma maior definição sobre os termos vegetarianismo e veganismo, veja como a Socie-
3 dade Vegetariana Brasileira apresenta as diferenças:

“Vegetarianismo é o regime alimentar que exclui os produtos de origem animal. A SVB re-
conhece variações de interpretação do termo por causa do dinamismo da linguagem. Os
principais tipos de vegetarianismo são:

a.  Ovolactovegetarianismo: utiliza ovos, leite e laticínios na sua alimentação.

b.  Lactovegetarianismo: utiliza leite e laticínios na sua alimentação.

c.  Ovovegetarianismo: utiliza ovos na sua alimentação.

d.  Vegetarianismo estrito: não utiliza nenhum produto de origem animal na sua alimentação.

O veganismo, segundo definição da Vegan Society, é um modo de viver (ou poderíamos


chamar apenas de “escolha”) que busca excluir, na medida do possível e praticável, todas as
formas de exploração e crueldade contra os animais - seja na alimentação, no vestuário ou
em outras esferas do consumo”.

Fonte: https://www.svb.org.br/vegetarianismo1/o-que-e. Acesso em: 11 jun. 2022.

Posto isso, podemos sublinhar que nos concentramos, aqui, em apontar alguns di-
recionamentos para que aprofundamentos possam ser feitos, posteriormente. As
questões que trouxemos, brevemente, nesta unidade, estão na pauta do dia das
discussões contemporâneas.

Ao pensar sobre meio ambiente, sustentabilidade, direitos animais etc., somos levados
diretamente a refletir sobre a forma como nos portamos e interagimos com o mundo que
nos cerca. Nesse sentido, ser um cidadão hoje inclui ser um agente de direitos e deve-
res, mas também um indivíduo em constante transformação diante das mais diferentes
demandas que vão surgindo.

Ser um cidadão de direitos e ser alguém que se preocupa em garantir direitos aos outros
e, como vimos, a outros que podem ser inclusive de espécies diferentes da humana.
A preocupação em adotar posicionamentos éticos é, cada vez mais, uma demanda na
atualidade e envolve não apenas outros seres humanos, mas também o meio ambiente
e as outras espécies que habitam o mundo.

94
Figura 08. Mapa Conceitual - Ética, cidadania e meio ambiente

Teses de laboratório Sustentabilidade


Posturas Diárias 3
Vivisecção Empresas e funcionários sustentáveis

Universidade São Francisco


Vegetarianismo Ética animal
Cidadania Ambiental Estado
Veganismo Filosofia
Conservadorismo e Preservacionismo
Políticas Públicas

Ato político Ética e Cidadania


ECO-92
Agenda XXI

Capitalismo
Ações no presente e para o futuro
Poluição
Industrialização

Fontes de energia renováveis Fontes de energia não-renováveis

Fonte: elaborada pelo autor

SAIBA MAIS
No intuito de propiciar outros materiais que acrescente ao seu repertório de discussões sobre
a cidadania ambiental e a ético ecológica, indicamos 3 vídeos recomendados para ouvir outros
especialistas e suas articulações com o tema, sugestões de reflexões e posicionamentos éticos.

`  SINGER, Peter. O status moral do sofrimento. Vídeo (3min 29s). Postado pelo canal
Fonteiras do Pensamento. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=lw74Q2w-
7NHE&t=1s. Acesso em: 13 jun. 2022.

`  SINGER, Peter. Mudança climática é uma questão ética. Vídeo (2min 48s). Postado pelo
canal Fonteiras do Pensamento. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=2Ea-
GQfbKtOE. Acesso em: 13 jun. 2022.

`  O AMANHÃ é hoje Link. Vídeo (23min 10s). Postado pelo canal O amanhã é hoje. Dis-
ponível em: https://www.youtube.com/watch?v=azrnx55oawQ. Acesso em: 11 jun. 2022.

Filme
`  Okja, de Bong Joon-ho

  Sinopse: O filme Okja é uma narrativa que parte de um olhar da infância para abordar
temas concernentes aos impactos de uma sociedade capitalista de consumo desenfreado
e, portanto, pouco consciente dos impactos sobre o meio ambiente. Partindo da relação
entre uma menina (Mihka) e um animal fictício, Okja, (um superporco) com quem ela man-
tém uma relação de amizade, o filme nos apresenta o conflito entre a indústria da carne

Ética e Cidadania 95
Vivência profissional e construção da cidadania

e as preocupações por uma ética animal. Quando o animal é sequestrado pela líder de
uma dessas indústrias, inicia-se uma trajetória de resgate por parte da jovem Mihka. A jor-
3 nada apresentada de forma fabular problematiza não apenas o consumo exagerado, mas
também a falta de uma perspectiva ambiental diante desse consumo. Também mostra as
falsas narrativas de uma preocupação ambiental, que são apresentadas pela empresa
que sequestra Okja, ou seja, aborda a necessidade de exigir medidas sustentáveis e a
importância de se analisar criticamente o objetivo por trás de tais medidas.

Caso de aplicação 2

A preocupação com o meio ambiente e a adoção de medidas mais sustentáveis, como apon-
tado ao longo da unidade, se tornou uma pauta recorrente na atualidade. No entanto, não
somente as empresas têm pensado na adoção de políticas ambientais como parte de seus
valores, mas também o próprio mercado profissional tem começado a apontar nesse sentido.
Diante disso, ser um funcionário que preza por medidas sustentáveis e que as pratique vem
se tornando uma demanda crescente no mercado de trabalho. Leia o excerto abaixo e veja
como as empresas têm destacado tais elementos como pressupostos cada vez mais impor-
tantes na contratação de seus funcionários e no cotidiano do exercício do trabalho.

“Agora, as organizações começam a perceber que não existem empresas sustentáveis sem
pessoas sustentáveis. Neste novo cenário, os departamentos de Recursos Humanos con-
quistam ainda mais espaço e enfrentam o desafio de se atualizar constantemente diante da
necessidade de incorporar os valores da sustentabilidade na rotina da empresa e dos funcio-
nários. Esta necessidade criou o conceito de funcionário sustentável, que é comprometido
com a cultura de responsabilidade ambiental da empresa e da sociedade. Muito valorizado
atualmente, este profissional é adepto do chamado ‘gerenciamento verde’, ou seja, adota ati-
tudes simples para preservar o meio ambiente e evitar desperdícios, dentro e fora do trabalho”.

Fonte: https://msarh.com.br/blog/o-funcionario-sustentavel/. Acesso em: 11 jun. 2022.

96
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ANDRADE, Nelson Lambert de. Ética, cidadania e cidadania organizacional: conceito, trajetória e alguns di-
reitos e deveres relacionados. Revista Científica E-Locução, [S. l.], v. 1, n. 18, p. 13-23, dez. 2020. Disponível
3
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Universidade São Francisco


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PINSKY, Jaime; PINSKY, Carla Bassanezi (Orgs.). História da cidadania. São Paulo: Contexto, 2005.

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tivas: uma visão básica das novas conflituosidades jurídicas. São Paulo: Editora Saraiva, 2003.

Ética e Cidadania 97
O diverso e o desigual – questões contemporâneas e o âmbito do trabalho

UNIDADE 4

O DIVERSO E O DESIGUAL – QUESTÕES


4
CONTEMPORÂNEAS E O ÂMBITO DO TRABALHO

INTRODUÇÃO
Diferentemente do que acontecia há décadas, quando a sociedade tinha estabelecido
certos valores e ideais como inquestionáveis, a respeito dos lugares sociais a serem
ocupados a partir de diferenças, como o gênero, no século XXI vivemos um ambiente
social que, após questionamentos e lutas, parte de uma outra consideração, a saber, a
de que todos temos os mesmos direitos em sociedade, ainda que sejamos diversos. A
sociedade exige que o âmbito profissional assuma posicionamentos adequados a esta
contemporaneidade. Significa que, não importa qual área de formação seja escolhida,
é imperativo fazer valerem os direitos sociais.

Nesta unidade, o objetivo é problematizar os temas da igualdade e da diferença, pen-


sando a partir do ideal de uma formação profissional adequada ao tempo presente.
Raça e gênero são categorias centrais, a partir das quais se torna possível pensar em
situações de exclusão social. É importante lembrar que a diferença não pode justificar a
desigualdade. As questões que se originam a partir de tais temáticas tocam, diretamen-
te, o âmbito profissional. Empresas, hospitais, escolas, hotéis... em todos os lugares da
profissão surgem problemas de desigualdade; mesmo na rua, enquanto cidadãos, os
profissionais devem agir de forma ética, para a construção de um mundo melhor, que
seja menos excludente. E isto é possível! Necessária é a disposição.

1. SER DIFERENTE É SER DESIGUAL?

1.1. AS DESIGUALDADES RACIAIS NO BRASIL


Sabemos que a formação do povo brasileiro é constituída pela diversidade de culturas
e grupos étnico-raciais. Antes mesmo da colonização, habitavam por aqui, em média, 8
milhões de indígenas divididos em quase mil nações distintas entre si (CUNHA, 2012, p.
16-17). A chegada dos europeus e o processo de colonização portuguesa, fundado na
escravidão e na inferiorização de povos negros originários de países africanos, instituiu
novos elementos à formação brasileira, constituindo as bases da sociedade que, desde
então, têm se construído.

O estabelecimento dessa sociedade e da identidade da população brasileira nascem,


assim, de um amálgama de culturas, etnias, crenças e costumes diversos, os quais nos
caracterizam como um dos povos mais miscigenados do mundo. Essa formação não se
deu de forma pacífica, mas, sim, violenta, conflituosa e marcada pela discriminação sis-

98
temática de grupos sociais inteiros, levando, inclusive, ao extermínio de povos e etnias
ao longo dos últimos séculos e até nos dias atuais.

Se por um lado, então, a diversidade e a diferença estão nas raízes da nossa for- 4
mação, por outro, é certo que a história e a realidade brasileira são marcadas pela
desigualdade e discriminação, em particular contra grupos étnico-raciais, isto é, de

Universidade São Francisco


origens indígenas e negras.

Com isso, percebemos que as diferenças entre as pessoas e os grupos, a partir da


perspectiva racial, constituíram-se em desigualdade de oportunidades e acesso à cida-
dania plena, revelando a profunda exclusão racial, o racismo e a falta de diversidade
étnico-racial em diferentes espaços da sociedade, entre eles, no mercado de trabalho e
no acesso desigual aos bens, serviços e direitos sociais e econômicos.

IMPORTANTE
Uma das definições para “amálgama”, segundo o Dicionário Michaelis, refere-se à mistura
ou ajuntamento de coisas ou pessoas diferentes que formam um todo, uma mescla. Nesse
sentido, a cultura brasileira resultaria da fusão entre outras culturas de povos e grupos étni-
co-raciais distintos, constituindo-se como uma cultura miscigenada e única.

Essa tese produziu ao menos dois grandes debates nas ciências humanas: de um lado, a
ideia de que na sociedade brasileira se estabeleceu efetivamente a integração racial, diferen-
temente de países como Estados Unidos e África do Sul, que são marcados pela segrega-
ção, ou seja, pela separação entre os grupos étnico-raciais.

Essa é a perspectiva central da obra de Gilberto Freyre, Casa Grande e Senzala, uma das
referências nas Ciências Sociais e que teve grande impacto entre intelectuais e políticos na
própria cultura brasileira, principalmente na primeira metade do século XX.

Por outro lado, a ideia de a cultura brasileira ser uma mistura de outras culturas acabou por
camuflar o reconhecimento das profundas desigualdades e das práticas discriminatórias e ra-
cistas que marcaram a realidade, servindo para a criação do mito e, posteriormente, da ideolo-
gia de que a sociedade brasileira, por ser miscigenada, seria, de fato, uma democracia racial.

Essa última abordagem tem sido desenvolvida, ao longo da segunda metade do século XX
até os dias atuais, graças à força e às demandas dos movimentos negros, mas também de
intelectuais, como Florestan Fernandes. Na obra Significado do Protesto Negro, publicada
pela primeira vez em 1989, Fernandes afirma que o racismo é um dos males da formação
brasileira e está entranhado nas instituições sociais, de forma que não é possível pensarmos
em uma efetiva democracia brasileira enquanto não houver plena igualdade racial.

Ética e Cidadania 99
O diverso e o desigual – questões contemporâneas e o âmbito do trabalho

a. A DIFERENÇA COMO UM DADO DE CLASSIFICAÇÃO


Há distintas teorias sobre a origem eti- Figura 01. Diversidade humana

4 mológica da palavra raça, mas, de modo

Fonte: 123RF.
geral, um ponto de concordância é que
o termo surge primeiro como forma de
classificação das plantas e animais para,
posteriormente, também classificar e hie-
rarquizar os seres humanos. Essa noção
de raça como um elemento que distingue
as diferentes categorias de seres, a par-
tir das suas diferenças físicas, é relativa-
mente nova na história da humanidade,
remontando ao século XVI (ALMEIDA, 2019, [n. p.]).

Em um primeiro momento, esse recurso servia para categorizar e classificar a diversi-


dade humana, afinal, esta é incontestável. Há diferenças visíveis entre um oriental e
um senegalês ou entre um indígena sul-americano e um norueguês ou, ainda, entre um
aborígene australiano e um pigmeu africano. A diversidade humana é visível, entretan-
to, não compõe elementos suficientes para a distinção biológica em raças.

IMPORTANTE
Enquanto a noção de raça funciona como a categorização das pessoas a partir das característi-
cas físicas/biológicas, a noção de etnia, por sua vez, fundamenta-se no compartilhamento de uma
mesma cultura, língua, religião e ancestralidade por um povo que o diferencia dos demais grupos.

O uso de referenciais étnicos como forma de classificação de indivíduos e grupos assume


maior importância após a Segunda Guerra Mundial, como oposição à noção de raça e aos hor-
rores dos ideais de limpeza racial produzidos pelo holocausto. Buscava-se definir as diferenças
entre os povos não mais pela raça, mas pela cultura. O professor e filósofo Kabengele Munan-
ga (2004, [n. p.]) afirma que tal mudança, entretanto, não significou o fim do racismo, uma vez
que também funciona como uma forma de hierarquização e classificação.

Categorizar as pessoas e os grupos servia ao pensamento como forma para facili-


tar a compreensão da enorme diversidade humana. O reconhecimento das diferen-
ças entre os seres humanos, entretanto, desembocou na hierarquização dos diver-
sos grupos com base na raça à qual pertenciam, dando origem às teorias racistas,
à discriminação e servindo como justificativa para a exploração de um grupo sobre
outro. Tais teorias buscavam atribuir causas naturais às desigualdades que são
social e historicamente produzidas.

100
SAIBA MAIS
Prática e teoria são dois aspectos que convergem para a construção da realidade, inclusive
quando falamos de discriminação ou racismo. Qual o impacto das teorias raciais na constru- 4
ção de práticas racistas?

Universidade São Francisco


A antropóloga Lilia Schwarcz explica, neste breve vídeo indicado a seguir, a origem e os impactos
concretos da entrada das teorias raciais na sociedade brasileira.

SCHWARCZ, Lilia. A entrada das teorias raciais no Brasil. Vídeo (6min 11s). Postado no
Canal Lili Schwarcz. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=93f7nkbD7tY. Acesso
em: 13 jun. 2022.

Com o desenvolvimento da genética e da antropologia, essa noção biológica da raça


perde sua validade. Geneticamente, tem-se as diferenças entre cor de pele, tamanho
do nariz, dos lábios ou do crânio, tipo de cabelo, estatura etc. – elementos esses que
serviam como base para a classificação das pessoas em brancas, negras e amarelas.
Porém, essas características são muito pequenas para que possamos considerar a
distinção dos grupos humanos em raças específicas. A ciência hoje comprova que pode
haver uma maior variedade genética no interior de um mesmo grupo, ao passo que as
diferenças entre um congolês e um alemão podem ser mínimas.

SAIBA MAIS
Você sabia que entre um grupo de mil chimpanzés, em um parque da Nigéria, há mais variabilidade
genética do que entre os 7 bilhões de humanos? O biólogo e pesquisador Átila Iamarino trata des-
sa questão e de outros temas importantes que demonstram como o desenvolvimento das teorias
sobre a raça humana utilizaram-se da ciência para justificar formas de exploração e desigualdade
que não eram naturais, mas, sim, sociais.

Verifique o vídeo do estudioso, explicando sobre essa temática, referenciado abaixo:

IAMARINO, Átila. Qual a raça do brasileiro? Vídeo (16min 36). Postado no canal Atila Iamarino, 2021.
Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=DBC29cUHxYg&-t=272s. Acesso em: 11 jun. 2022.

b. A CATEGORIA RAÇA EM QUESTÃO


Tão visível aos olhos de todos, a diversidade humana não corresponde às diferenças
genéticas profundas que justifiquem a divisão das pessoas em grupos menores ou em
raças. Há mais similaridades biológicas/genéticas entre os seres do que diferenças.

Podemos, portanto, concluir que o conceito de raça na atualidade perdeu sua validade?
Sim e não. Do ponto de vista da ciência biológica, a partir dos conhecimentos que hoje
possuímos, não faz sentido dividir a humanidade em outras subdivisões como raças,
pois as diferenças internas na espécie humana são muito pequenas. Ou seja, usada

Ética e Cidadania 101


O diverso e o desigual – questões contemporâneas e o âmbito do trabalho

durante séculos como um conceito para explicar a diversidade humana, a noção de


raça não se sustenta como realidade biológica e, portanto, não possui validade biologi-
camente científica.
4
Por outro lado, se a categoria raça não existe enquanto realidade biológica, ela existe
como construção social, como elemento de distinção, classificação e hierarquia nas
diferentes sociedades. Além disso, a identificação do indivíduo a uma das raças, ou
mesmo às etnias, é um importante elemento de constituição da sua identidade social e
do sentimento de pertencimento.
Raça não é um termo fixo e estático. Seu sentido está inevitavelmente atre-
lado às circunstâncias históricas em que é utilizado. Por trás da raça sempre
há contingência, conflito, poder e decisão, de tal sorte que se trata de um
conceito relacional e histórico. Assim, a história da raça ou das raças é a his-
tória da constituição política e econômica das sociedades contemporâneas
(ALMEIDA, 2019, [n. p.], grifos do autor).

Desse modo, apesar das diferenças entre os indivíduos não serem significativas do
ponto de vista biológico, elas se configuram como traços distintivos no meio social e fun-
cionam como justificativas para determinados comportamentos e ações que promovem
a exclusão, a exploração, a desigualdade, o racismo e o preconceito. Logo, fragilidade
da noção biológica de raça não significa a inexistência de relações e estruturas sociais
pautadas pela questão racial.

Posto de outro modo, no campo das ciências humanas e nos debates sobre o racismo, a
concepção de raça não é pensada como um elemento biológico ou genético, mas, sim, como
fator essencialmente político e que ainda nas sociedades contemporâneas é utilizado para
naturalizar e legitimar desigualdades sociais e formas de exclusão de grupos específicos
(ALMEIDA, 2019, [n. p.]).

1.2. AFINAL, O QUE É RACISMO?


Para compreendermos a noção de racismo, é importante, antes, diferenciá-lo dos ter-
mos discriminação e preconceito que costumam aparecer juntos para designar fenôme-
nos parecidos. Na verdade, são conceitos que possuem diferenças, ainda que possam
se referir às mesmas realidades. Compreender cada um deles é basilar para que pos-
samos identificá-los no conjunto das relações sociais.

SAIBA MAIS
O jornal Nexo elaborou um glossário com os principais conceitos e termos relacionados à questão
racial, oferecendo algumas perspectivas históricas para suas construções e sentidos, inclusive para
termos mais recentes, como colorismo e branquitude.

102
A matéria completa pode ser acessada via:

RIOS, Flávia; MILANEZI, Jaciane; ARRUTI, José Maurício; MACHADO, Marta. Questão racial.
Nexo Jornal, jun. 2020. Disponível em: https://pp.nexojornal.com.br/glossario/Quest%C3%A3o-ra- 4
cial. Acesso em: 11 jun. 2022.

Universidade São Francisco


a. PRECONCEITO E DISCRIMINAÇÃO RACIAL
Afirmamos que há preconceito quando estereótipos são usados para definir e caracteri-
zar os indivíduos pertencentes a um grupo específico. Tais estereótipos são fundamen-
tados em juízos de valor, em generalizações ou opiniões que atribuem determinadas
características às pessoas a partir da sua identificação a um grupo. São ideias como
“indígenas são selvagens”; “negros são violentos”; “judeus são avarentos” etc.

GLOSSÁRIO
Estereótipos são ideias, rótulos ou opiniões generalizadas sobre uma pessoa, uma etnia,
um povo ou uma cultura que nascem do senso comum, ao longo das vivências e da história,
funcionando como forma de pré-julgamento. Por exemplo, quando se comenta que “baianos
são preguiçosos”, “indígenas são selvagens”, “judeus são avarentos” etc., recorre-se aos es-
tereótipos. Eles podem ser vistos como “inocentes” (exemplo: “o Brasil é o país do futebol”),
mas também podem configurar-se como fontes de preconceito, discriminação e violência.

O preconceito racial, em particular, faz-se tomando o pertencimento a um grupo ra-


cial como referência e pode ou não resultar em atitudes discriminatórias, como nas
abordagens policiais que costumam ser mais frequentes e agressivas contra negros
do que contra brancos.

Já a discriminação se refere a um processo de marginalização e diferenciação social,


econômica e cultural da pessoa pertencente a um determinado grupo. No caso da dis-
criminação étnica e/ou racial, o critério de diferenciação se fundamenta na identificação
do pertencimento da pessoa aos grupos racial ou etnicamente identificados como tal.

EXEMPLO
Reconhecemos um fenômeno de discriminação racial, quando negros são proibidos ou
constrangidos ao entrar em determinados lugares, como shoppings, lojas e bancos ou de
usar o mesmo elevador que outros grupos (prática comum até poucas décadas atrás) –
proibições que são feitas apenas com base na cor da pele. Essa é uma forma mais direta
e intencional de discriminação.

Ética e Cidadania 103


O diverso e o desigual – questões contemporâneas e o âmbito do trabalho

A discriminação racial, no entanto, pode se revelar ainda de modo mais indireto, quando são
construídas práticas e teorias que não reconhecem a existência de diferenças e desigualdades
sociais significativas pautadas pela questão racial. Por exemplo, a existência de normas ou
4 regras que se pretendem neutras, mas que, na prática, discriminam grupos mais vulneráveis,
como os processos e testes para preenchimento de vagas que, apesar do discurso da igual-
dade, acabam selecionando sempre certos tipos de pessoas, enquanto estigmatizam outras.

As discriminações, assim, podem se dar de diferentes formas. Mas, de modo geral,


todas envolvem algum mecanismo de poder, pois atribuem vantagens e permissões,
desvantagens e proibições distintas a pessoas e grupos.

IMPORTANTE
Há outra perspectiva sobre a discriminação, analisada também sob o aspecto positivo. Nesse caso,
são atribuídos tratamentos ou vantagens diferenciadas para grupos que foram histórica e social-
mente prejudicados por sua condição. A discriminação aqui funciona como um meio para compen-
sar tais desigualdades (MOREIRA, 2017, p. 37-41). Ações afirmativas, políticas públicas, como as
cotas para ingresso no ensino superior, são exemplos da discriminação positiva. Nessa perspectiva,
a finalidade é compensatória e não excludente.

b. RACISMO
O racismo, via de regra, compreende formas e práticas sistemáticas de discriminação
racial conscientes ou não, que acabam por conceder acessos, direitos e privilégios
desiguais aos diferentes grupos que formam a sociedade. Nessa perspectiva, a raça
aparece como uma construção para justificar as desigualdades sociais dando a elas um
caráter de naturalidade.

Essa é uma definição do racismo como algo estrutural, isto é, que está nas bases e nas
estruturas da sociedade, e que orienta todo o conjunto de relações sociais, econômi-
cas, políticas e jurídicas, expressando-se concretamente como desigualdade. Assim, o
racismo não se explica apenas pelos comportamentos individuais ou institucionais e,
tampouco, se restringe às formas de discriminação e preconceito, mas é estrutural. O
conjunto de práticas e relações sociais são racistas porque a sociedade, quer dizer, sua
estrutura, é racista.

SAIBA MAIS
O filósofo e jurista Silvio de Almeida é um dos mais importantes pensadores sobre a noção de racis-
mo estrutural na atualidade. Em uma entrevista à antropóloga e professora Lilia Schwarcz, Almeida
explica a concepção do racismo como estruturante das relações sociais e reflete sobre o impacto
dessa concepção nas formações universitárias, na economia, nas subjetividades e nas relações
sociais e políticas. Assista à entrevista disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=0TpS2P-
JLprM. Acesso em: 11 jun. 2022.

104
O racismo condiciona o conjunto de relações e das desigualdades sociais que se mani-
festam de diferentes formas nas sociedades, algumas mais consciente e outras, menos.

Filme 4

Universidade São Francisco


O filme M8 – Quando a morte socorre a vida, do diretor Jeferson De, é uma alegoria do racis-
mo estrutural na sociedade brasileira. Na trama, um jovem negro, Maurício, ingressa no curso
de Medicina em uma instituição federal por meio das políticas de cotas. A narrativa recons-
trói o cotidiano desse jovem e das diversas práticas de discriminação racial que ele sofre,
como o estranhamento causado pela presença de um negro em um curso de Medicina, até
a perseguição de um colega que acredita que ali não é lugar dele. Um dos momentos mais
emblemáticos da trama está nas aulas de anatomia, quando todos os corpos são negros,
identificados apenas por códigos.

1.3. RACISMO E DESIGUALDADE


Em sociedades racistas, ser diferente é ser desigual, uma vez que pertencimento ou não
às determinadas categorias étnico-raciais produzem condições desiguais de existência.
É sabido que, no Brasil, as características raciais das pessoas e grupos implicam níveis
distintos, mas profundos, de desigualdades.

Há um consenso e um reconhecimento na atualidade – e já há algumas décadas – de


que o racismo e a conjuntura racial existentes no Brasil condicionam e estruturam a
sociedade. Desse modo, evidenciamos, no mapa mental a seguir, termos, discrimina-
ções raciais e o próprio racismo, tendo como origem os processos de colonização que
inferiorizaram negros e indígenas.
Figura 02. Mapa conceitual – raízes do Brasil

Formas de dominação

Violência física e sexual Escravidão Tráfico negreiro Exploração

Diversidade e diferença
Miscigenação Colonização portuguesa

Desigualdade
Submissão e extermínio de povos indígenas
Raízes do Brasil

Desigualdade e exclusão Lei Áurea


Racismo estrutural Sistematização da discriminação
Discriminação
étnico-racial
Fim da escravidão? Se revela nas diferentes relações
Preconceito racial Econômicas
Culturais
Teorias raciais Políticas Sociais

Falta de diversidade
Jurídicas

Fonte: elaborada pela autora.

Ética e Cidadania 105


O diverso e o desigual – questões contemporâneas e o âmbito do trabalho

Na Figura acima, o eixo central, Raízes do Brasil, faz referência ao livro de mesmo título
do historiador Sérgio Buarque de Holanda, escrito em 1936. Nele, o autor defende que
o legado da colonização portuguesa deixou marcas na estrutura social brasileira que
4 deveriam ser superadas para que o país pudesse estabelecer uma democracia plena
(HOLANDA, 2016, p. 12-19). Por isso, a escolha do termo raiz, como algo que está
enraizado nas bases e nas estruturas da sociedade.

Nas últimas décadas, essa perspectiva tem sido retomada por diferentes estudos que
buscam compreender as relações étnico-raciais contemporâneas. Sob esse olhar, o
racismo é compreendido como um dos principais elementos estruturantes da sociedade
brasileira, isto é, que está em nossas raízes, e um dos caminhos pelos quais é possível
compreender as desigualdades sociais, políticas e econômicas.

a. O RACISMO E O MERCADO DE TRABALHO


Mesmo na atualidade, após mais de um século do fim da escravidão, as desigualdades so-
ciais e o acesso à cidadania plena permanecem fortemente marcados pela questão racial e,
também, étnica. Esse certamente não é um problema apenas brasileiro. A Declaração sobre
os Princípios e Direitos Fundamentais, promulgada em 1998 pela Organização Internacional
do Trabalho – OIT –, por exemplo, traz como um dos quatro princípios fundamentais a elimi-
nação da discriminação em relação ao emprego e à cobrança de atores sociais e governos
para a criação de políticas e práticas de combate às formas de discriminação no mercado de
trabalho, sejam elas motivadas por preconceito de raça, étnicas, gênero ou outras.

No Brasil, a questão da discriminação étnico-racial é percebida no mercado de trabalho


tanto da iniciativa privada como do serviço público. Negros são minoria em cargos de
chefias e também em determinadas profissões, sobretudo de maiores rendas ou posi-
ções de poder, apesar de comporem a maioria da população brasileira. Consequen-
temente, as funções, profissões e cargos informais, de menor renda e precarizados,
tendem a ser ocupados pelas populações negras, em especial, mulheres.

Esses são fatos que mostram como opera o racismo estrutural sendo elemento de-
finidor de lugares sociais, principalmente como um processo que cria as condi-
ções sociais e políticas para que grupos identificados a partir de suas raças sejam,
sistematicamente, discriminados.

Caso de aplicação

Busque as reportagens abaixo, em que a primeira é da Revista Exame, que apresenta os dados
referentes à ocupação de negros e pardos em cargos de chefia nas empresas. Já a segunda trata
dos impactos da pandemia no acesso ao mercado e ao emprego formal pelos indígenas.

`  GRANATO, Luísa. Pesquisas mostram abismos no mercado de trabalho para profissionais ne-
gros. Revista Exame, 17 set. 2020. Disponível em: https://exame.com/carreira/pesquisas-mos-
tram-abismo-no-mercado-de-trabalho-para-profissionais-negros/. Acesso em: 23 jul. 2021.

`  MARCHESAN, Ricardo. Indígenas tiveram maior queda no emprego e renda na pandemia, diz
FGV. Economia. UOL, 14 out. 2020. Disponível em: https://economia.uol.com.br/noticias/reda-
cao/2020/10/14/pandemia-indigenas-mercado-trabalho.htm. Acesso em: 13 jun. 2022.

106
Como um conceito tão ultrapassado tal como raça continua servindo de marcador so-
cial? Essa é uma questão que nos leva necessariamente a pensar na construção so-
cial e histórica da raça e do racismo, nas teorias e dinâmicas que se construíram so-
bre as diferenças raciais para justificar e normalizar discriminações e desigualdades 4
socialmente construídas.

Universidade São Francisco


A consciência dessa perspectiva é que nos possibilita compreender o racismo como
algo estrutural e que opera no conjunto das relações que todos estabelecemos no
cotidiano. Provavelmente, um dos grandes desafios na atualidade é desestabilizar e
transformar essas estruturas, dando lugar às ações afirmativas da identidade negra e
indígena e à construção de práticas antirracistas, nas quais as diferenças raciais não se
constituam desigualdades.

Texto Complementar
Busque e leia o texto Persistentes desigualdades raciais e resistências negras no Brasil
contemporâneo, das pesquisadoras Zelma Madeira e Daiane de Oliveira Gomes, trata
do racismo como um dos eixos centrais das estruturas sociais brasileiras e traça um
panorama da pós-abolição até a atualidade para demonstrar como as desigualdades
resultantes do racismo estrutural impactam as diferentes formas de sociabilidade e in-
serção dos negros. As autoras apresentam, especialmente, a questão das mulheres
negras, grupo que está entre os mais vulneráveis na realidade brasileira.

Madeira, Zelma e Gomes, Daiane Daine de OliveiraPersistentes desigualdades ra-


ciais e resistências negras no Brasil contemporâneo. Serviço Social & Sociedade [on-
line]. 2018, n. 133 [Acessado 11 Junho 2022] , pp. 463-479. Disponível em: https://doi.
org/10.1590/0101-6628.154. ISSN 2317-6318.

2. A PROFISSÃO NÃO TEM GÊNERO

2.1. O QUE SÃO QUESTÕES DE GÊNERO E POR QUE TRATAR DO TEMA


Em uma das passagens mais clás- Figura 03. Gênero socialmente construído
sicas da sua produção intelectu-
Fonte: 123RF.

al, a escritora e filósofa francesa


Simone de Beauvoir (2009, p. 9)
afirma que “ninguém nasce mu-
lher: torna-se mulher”. Essa frase
e as ideias contidas nela têm sido,
já há algumas décadas, uma das
principais referências das teorias
feministas e dos estudos sobre o
gênero e suas construções nas
sociedades e nas relações sociais.
Nessa perspectiva, o “tornar-se
mulher” acontece por meio de uma
série de processos e relações sociais que são mais fundamentais nessa construção do
que a própria condição biológica do indivíduo.

Ética e Cidadania 107


O diverso e o desigual – questões contemporâneas e o âmbito do trabalho

Há várias dimensões e aspectos teóricos sobre a construção social do gênero que,


inclusive, nem sempre convergem entre si. Mas, de modo geral, os estudos sobre o
gênero abarcam ao menos três grandes dimensões:
4

I. A perspectiva simbólica, isto é, dada pela cultura;

II. A estrutural, em especial relacionada à divisão sexual do trabalho;

III. As dimensões sobre as identidades de gênero que procuram compreender as formas


de ação e comportamento dos indivíduos a partir de suas identificações com um ou mais
determinados gêneros.

Entre essas diversas possibilidades de análise há alguns pontos comuns, como o fato
de que todas elas consideram as noções de gênero, de sexualidade e orientação sexual
como conceitos sociais e historicamente construídos. Nesse sentido, os papéis sociais
que homens e mulheres desempenham nas sociedades, os comportamentos admitidos
ou reprovados, as expectativas em torno dos indivíduos e do que cada um deles pode
se tornar são frutos de contextos sociais e culturais particulares.

Como toda construção social, esses contextos são também constituídos a partir de
relações de poder. É dessa perspectiva que, a partir dos anos 1970, os estudos sobre
o gênero voltaram-se, particularmente, para a compreensão de como tais contextos
produziram desigualdades entre homens e mulheres que nasceram e culminaram de
diferentes formas pelo conjunto do meio social, desde a violência física e simbólica, ao
acesso desigual ao mercado de trabalho, às profissões e remunerações, a baixa repre-
sentatividade de mulheres nos espaços de poder e decisão, entre outros.

SAIBA MAIS
É fundamental compreendermos aqui que os modos e intensidades de discriminação, preconceito
e violência, a partir do referencial de gênero são complexos. Posto de outro modo, tais práticas
impactam tanto as mulheres cisgênero – isto é, pessoas que se identificam com o gênero que lhes
foi atribuído no nascimento –, como as pessoas que se identificam com outras diferentes formas de
sexualidade e identidade de gênero que constituem a diversidade da existência e espécie humana,
como as pessoas transexuais e travestis. Para este grupo, grande parte das políticas públicas se
voltaram muito mais para a prevenção de doenças e exploração sexual do que para sua inserção
nos sistemas educacionais e, sobretudo, no mercado de trabalho (ANDRADE, 2012, p. 226).

Para ampliar seu repertório, o artigo indicado a seguir. Nele, os autores abordam algumas
das formas de exclusão, discriminação e violência sofridas pelas pessoas trans, em particu-
lar, no acesso ao mercado e que se revelam a partir de dois vetores opostos: como exclusão
ou como sublimação da diferença.

MARTINELLI, Fernanda et al. Entre os cisplay e a passabilidade: transfobia e regulação dos cor-
pos trans no mercado de trabalho. Revista Latino Americana de Geografia e Gênero, Ponta

108
Grossa, v. 9, n. 2, p. 348-364, 2018. Disponível em: https://revistas.uepg.br/index.php/rlagg/article/
view/12855/pdf_19. Acesso em: 13 jun. 2022.

a. GÊNERO: NATUREZA E CULTURA

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Gênero, de modo geral, pode ser compreendido como os comportamentos e os papéis
que os indivíduos assumem nos diferentes contextos sociais, com base em sua identifi-
cação como homem, mulher e, mais contemporaneamente, como neutro. São padrões
que foram definidos ao longo do tempo e das diferentes relações sociais e culturais,
estabelecendo as funções, os papéis e as identidades do indivíduo por meio de sua
identificação com um dos gêneros.

SAIBA MAIS
Há, em alguns espaços sociais, a confusão entre identidade de gênero e ideologia de gê-
nero, sendo que os conceitos são distintos. Identidade de gênero diz respeito às formas
como os indivíduos se expressam, se reconhecem e atuam socialmente a partir da sua
identificação com um determinado gênero que pode não corresponder necessariamente ao
seu sexo biológico.

Por sua vez, a ideologia de gênero pode ser compreendida como a recusa em consi-
derar ou questionar as tensões e desigualdades que estruturam as relações sociais
com base nos gêneros. Por exemplo, as definições de que os homens são provedores
(racionais, fortes, aptos às ciências exatas e pouco sentimentais), ao passo que as mulhe-
res estão mais aptas aos cuidados do lar e dos filhos (são frágeis, sentimentais e pouco
racionais), são construções ideológicas, pois replicam tais ideias e comportamentos sem
questioná-los, como se fossem naturais.

Durante muito tempo, a explicação para as diferenças e desigualdades entre homens


e mulheres se estruturavam em bases biologicamente deterministas. Ou seja, acre-
ditava-se que haveria uma natureza biológica prévia e definitiva que se impõe sobre
o indivíduo e determina seu pertencimento ou não a um gênero específico. Assim, as
pessoas que possuem órgãos sexuais e reprodutivos femininos são mulheres, ao passo
que aquelas que nascem com órgãos sexuais e reprodutivos masculinos são homens.

As teorias sobre o gênero e sua construção, entretanto, romperam com essa associa-
ção entre o sexo e a identidade ao afirmarem que gênero é mais complexo que o sexo,
pois corresponde às expectativas que o meio social tem sobre as ideias, os comporta-
mentos e os pensamentos dos indivíduos.

Ética e Cidadania 109


O diverso e o desigual – questões contemporâneas e o âmbito do trabalho

SAIBA MAIS
A filósofa americana Judith Butler (2017, p. 17-30), uma das principais pesquisadoras e te-
4 óricas contemporâneas sobre o feminismo e as teorias do gênero, argumenta que nas defi-
nições das identidades baseadas no sexo e no gênero uma série de práticas e discursos de
poder se impõem. Essa forma de poder não é necessariamente repressiva, mas determina a
identidade, as formas e relações com o corpo e todo o conjunto de relações sociais que o in-
divíduo exerce na vida coletiva. Por isso, a autora explica que, ao nascermos, já há uma série
de significados culturais sobre o corpo, o sexo e o gênero que são impostos discursivamente.
Assim, em um exame de ultrassom, quando se diz “é menino” ou “é menina”, um conjunto de
expectativas é criado e imposto para aquele ser, tais como: cores de roupas, comportamento,
brinquedos e brincadeiras, desejos, profissões etc., e que irá moldar a forma como indivíduo
compreende a si e ao outro. A construção dessa identidade, de acordo com Butler, não é
natural, mas resulta de uma produção discursiva.

Fundamentada nessas teorias, nasce a diferenciação entre sexo e gênero, em que o


primeiro é entendido enquanto fator biológico, ao passo que o segundo é uma constru-
ção social e histórica, portanto, não natural, apreendida pelos processos de socializa-
ção dos diferentes contextos. Dessa forma, o tornar-se homem ou mulher depende de
uma série de outros dispositivos sociais e culturais que não se resumem ou são desig-
nados pelos órgãos sexuais.

Como são construções históricas e sociais, as expectativas em torno dos gêneros se


transformam, assumindo novos recortes em cada meio social. Na contemporaneidade,
por exemplo, mesmo a distinção entre dois gêneros (homem e mulher) já não é mais
universalmente válida, contemplando outras possibilidades ou mesmo tentando romper
com o papel tão determinista do gênero no conjunto das relações sociais.

Observe o mapa mental proposto a seguir. Nele, apresentamos as principais definições


e distinções dos conceitos relacionados ao gênero e às sociedades mais atuais.

110
Figura 04. Mapa mental: gênero e sociedade

Gênero A maneira como o


4
`  Homens; Mulheres / Masculino; Feminino indivíduo se enxerga

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`  Transgênero; Cisgênero `  Independente do sexo biológico;

`  Binário; Não-binário `  Todas as pessoas performam, a partir de


uma identidade de gênero
`  Teoria Queer
`  Fluida

Identidade `  Vai além do feminino e do masculino


de Gênero
`  Expressão de gênero com a qual o
indivíduo se identifica

Relações
Gênero e Orientação
de Gênero Sociedade Sexual

`  Poder
`  Atração afetiva e/ou sexual
`  Processo
`  Múltipla e fluída
`  Ordenamento da realidade
`  Sexualidade
`  Heteronormatividade Sexo
`  Exemplos: heterossexual; homossexual;
Biológico bissexual; assexual etc.

`  Características biológicas

`  Não define o gênero

`  Exemplos: macho; fêmea; hemafrodita

Fonte: elaborado pela autora.

SAIBA MAIS
“O problema do gênero é que ele descreve como devemos ser em vez de reconhecer quem
somos”. Essa é uma frase da autora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, uma das vozes
contemporâneas mais importantes acerca do feminismo, dos direitos das mulheres e das
possibilidades de criação de uma sociedade mais igualitária para os diferentes gêneros.

Ética e Cidadania 111


O diverso e o desigual – questões contemporâneas e o âmbito do trabalho

Busque assistir ao TED da autora: Todos devemos ser feministas, no qual ela debate o feminismo
como possibilidade de justiça e igualdade. Observe os principais pontos sócio estruturais que a
pensadora elege, ao longo de sua fala e busque associá-los ao seu contexto sociocultural.
4
Disponível em: https://www.ted.com/talks/chimamanda_ngozi_adichie_we_should_all_be_
feminists?language=pt-br. Acesso em 13 jun. 2022.

B. DESIGUALDADE E IGUALDADE DE GÊNERO


Dentre as perspectivas fundamentais propostas pelas teorias feministas está a relação
entre o gênero e o poder. A premissa básica dessa perspectiva é a de que a diferencia-
ção entre homens e mulheres, ao longo da história, constituiu formas de poderes e de
acessos desiguais entre os indivíduos.

Nesse processo, as mulheres, em particular, foram subjugadas, consideradas inferiores


em relação aos homens ou, ainda, pouco aptas para assumir funções e papéis que
não estavam vinculados aos ambientes domésticos e/ou de cuidados. Este é um dos
elementos que caracteriza o que as ciências humanas denominam como sociedades
patriarcais – ou o patriarcado –, sistemas sociais que são estruturados nas relações
desiguais entre homens e mulheres.

GLOSSÁRIO
Patriarcado é um conceito das ciências humanas que se refere aos sistemas sociais fun-
dados na relação desigual entre gêneros. Nesses modelos, a desigualdade entre homens e
mulheres está inserida nas instituições e estruturas sociais presentes em diferentes aspectos
da vida social e coletiva. Trata-se de um modelo de organização social em que prevalecem
relações de poder e domínio dos homens, especialmente brancos e heterossexuais, sobre os
demais sujeitos. Na reportagem da OSC Politize, há um descritivo histórico e a apresentação
das características das sociedades patriarcais. Para ler na íntegra o texto de Regiane Folter,
confira a referência abaixo:

FOLTER, Regiane. O que é Patriarcado? Politize! 29 jun. 2021. Disponível em:

https://www.politize.com.br/patriarcado/?https://www.politize.com.br/&gclid=CjwKCAjw9uKI-
BhA8EiwAYPUS3Ic_MKehqiYPk2AgFWMqBWrJbjbd0oBPmG4Mu2DkNNAHIkMQ6MklVRo-
CwXMQAvD_BwE. Acesso em: 13 jun. 2022.

Existem diferentes dimensões nas quais a desigualdade de gênero se manifesta e


que podem se revelar tanto nos espaços públicos como privados da vida social. Al-
guns exemplos de como padrões e comportamentos que produzem e reproduzem a
desigualdade entre os gêneros estão entranhados nas estruturas sociais são: ocu-
pação dos mesmos cargos e com formação educacional ou superior; fosso salarial
entre homens e mulheres.

112
Figura 05. Desigualdade salarial entre No espaço doméstico, a responsabilidade
homens e mulheres
dos cuidados com o lar e com os filhos tende
a ser maior para mulheres do que para ho-

Fonte: 123RF.
mens. Em posições estratégicas e de poder 4
político, homens ocupam maiores espaços

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do que as mulheres. A violência doméstica e
sexual contra mulheres é um dado tanto nas
esferas públicas como privadas.

É do reconhecimento de tais estruturas


e acessos desiguais entre homens e mu-
lheres, ou seja, a desigualdade com base
no gênero, que movimentos sociais e políticas públicas pautam seu oposto. Há um
ponto fundamental nessa questão de que a desigualdade não significa a anulação das
diferenças entre homens e mulheres, pelo contrário, pressupõe que as diferenças são
a base da diversidade. O ponto central aqui é que essas diferenças não se configuram
como desigualdades de acesso, oportunidade e reconhecimento.

2.2. AS MULHERES E O MERCADO DE TRABALHO


O pertencimento ao gênero corresponde às formas específicas de desigualdade social.
O campo do trabalho entendido de forma completa, ou seja, o acesso ao mercado de
trabalho e à permanência nele, a remuneração, os trabalhos, funções e ocupações dis-
poníveis entre outros fatores, compõe uma esfera significativa dos debates teóricos e
das reivindicações dos movimentos sociais pautados pela igualdade de gênero.

O trabalho é uma das dimensões mais essenciais da vida coletiva, em todas as épocas
humanas, e que assume traços específicos em cada organização social, ao longo da
história. Na atualidade, o trabalho, além de fonte de subsistência de cada indivíduo, é
um importante indicativo do desenvolvimento social e econômico das sociedades e uma
das esferas da construção e exercício da igualdade e da cidadania.

No Brasil, em particular, a entrada das mulheres no mercado de trabalho ocorreu com


maior intensidade na segunda metade do século XX, a começar por 1970, mais especi-
ficamente. Visto que há múltiplos aspectos nesse cenário e que se relacionam com as
relações de gênero, a seguir, destacamos alguns dos eixos principais que permitem a
compreensão mais geral da relação entre trabalho e gênero.

a. DIVISÃO SEXUAL DO TRABALHO


Imagine a seguinte situação: em uma entrevista para uma vaga em uma determinada
empresa, uma candidata é questionada sobre se tem filhos ou não e, em caso positivo,
quem cuidaria dos filhos na ocasião de ela ser a contratada ou mesmo o que ela faria
quando a criança ficasse doente e precisasse de cuidados médicos.

Essa é uma questão bastante recorrente em entrevistas de emprego e reflete uma


das consequências da divisão sexual do trabalho. Esta repartição identifica as for-
mas como as sociedades estruturam as atividades produtivas e econômicas,
de modo que associam os homens à produção e as mulheres à reprodução ou,

Ética e Cidadania 113


O diverso e o desigual – questões contemporâneas e o âmbito do trabalho

posto de outra forma, os homens relacionados às atividades remuneradas e as mu-


lheres às atividades domésticas e de cuidados com filhos, exercendo um trabalho não
remunerado (BIROLI, 2018, p. 24-25).
4
A divisão sexual do trabalho é entendida como um elemento estrutural das relações de
gênero que impactam o acesso, a permanência das mulheres no mercado de trabalho e
as funções e ocupações exercidas. No cotidiano, esses fatores se revelam em:

Dupla jornada:
A entrada expressiva das mulheres no mercado de trabalho, na segunda metade do
século XX, não foi acompanhada pela redistribuição das tarefas e responsabilidades
domésticas e de cuidado com os filhos. Apesar dos avanços vivenciados nas últimas
décadas, essas atividades ainda permanecem como responsabilidade primordial das
mulheres, podendo gerar consequências para a saúde física e emocional.

CURIOSIDADE
Na atualidade, algumas políticas públicas e iniciativas estão sendo criadas para diminuírem os
impactos na percepção da produtividade das mulheres, tomando os cuidados com a casa e os
filhos, como fatores que devem ser considerados. No Brasil, por exemplo, desde abril de 2021,
as mulheres podem indicar no Currículo Lattes a licença maternidade como justificativa para a
pausa nas pesquisas e como uma forma para que não sejam prejudicadas na disputa por bolsas.

Já na Argentina, uma lei aprovada também em 2021, contará a maternidade e os cuidados


iniciais com os filhos como tempo de serviço quando as mulheres solicitarem a aposentadoria.
Assim, o Estado reconhece a dedicação da mulher que se torna mãe e que, por vezes, precisa
abdicar temporariamente da carreira, como tempo de trabalho hábil para fins previdenciários.

Falta de políticas públicas e institucionais voltadas para a possibilidade de


maior conciliação entre as responsabilidades domésticas e do trabalho
Em virtude dessa ausência de respaldo político público e institucionais, movimentos
lutam em prol direito à creche e escolas infantis, proteção à maternidade, entre outros
elementos que auxiliam a permanência da mulher no mercado de trabalho.

Superação da ideia da mulher como uma “força de trabalho secundária”.


Esse é um ponto de destaque nos estudos sobre a divisão sexual do trabalho e parte
da relação entre produção/reprodução, bem como esfera pública/privada. Nessa cons-
trução, permanece no imaginário a visão do homem como chefe/provedor e da mu-
lher como responsável pela esfera privada, isto é, familiar e doméstica e, no máximo,
“provedora secundária” (ABRAMO, 2020, p. 22-24).

A mulher, então, ocuparia posições no mercado de trabalho sempre que o homem es-
tivesse ausente (doença, incapacidade, desemprego ou mesmo pela separação ou
morte). Entre as consequências, as trajetórias das mulheres são mais inconstantes e
interrompidas, uma vez que regularizada a ocupação masculina, a mulher voltaria para
as responsabilidades domésticas.

114
SAIBA MAIS
Mesmo com algum avanço, a ideia e a realidade das mulheres como responsáveis pela esfera
doméstica permanecem como um importante elemento da desigualdade de gênero no mercado 4
de trabalho. Veja na reportagem abaixo dados recentes que corroboram com esta perspectiva.

Universidade São Francisco


RODRIGUES, Léo. Estudo revela o tamanho da desigualdade de gênero no mercado de
trabalho. Agência Brasil. Rio de Janeiro, 4 mar. 2021.

Disponível em https://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2021-03/estudo-revela-ta-
manho-da-desigualdade-de-genero-no-mercado-de-trabalho. Acesso em: 13 jun. 2022.

2.3. DESAFIOS CONTEMPORÂNEOS


Atualmente, a ocupação de uma vaga ou de uma função está fundada na ideia da ca-
pacidade cognitiva e técnica, nos conhecimentos e habilidades de quem disputa tais
lugares, independentemente do seu gênero. Salvo poucos espaços que ainda perma-
necem masculinos, a presença de mulheres é realidade nas mais diferentes profissões
e espaços de produção e saber.

Permanecem, entretanto, alguns desafios para que as mulheres possam efetivamente


desfrutar de condições igualitárias de acesso e permanência no mercado de trabalho.
A Organização Internacional do Trabalho (OIT), como agência da Organização das Na-
ções Unidas (ONU), pontua o fim da desigualdade de gênero como uma das metas que
devem ser adotadas, em especial pelos países mais ricos do mundo, a fim de que o
acesso das mulheres ao mercado de trabalho seja mais efetivo e duradouro.

A pauta aparece como resposta às consequências da pandemia da COVID-19 que afetou


de formas diferentes homens e mulheres, indicando a maior situação de vulnerabilidade
das mulheres diante da crise sanitária e econômica. Para os representantes dessas organi-
zações, esse fato aparece em situações variadas, como: a precarização ou informalização
do trabalho, desemprego, violência doméstica, baixo nível de proteção social, entre outros
pontos, revelando a necessidade da reorganização estrutural e econômica da vida coletiva.

SAIBA MAIS
Atualidade do tema

A ONU e OIT apresentam uma série de medidas que deveriam ser adotadas para que as estru-
turas sociais dos diferentes países se tornem mais inclusivas à participação das mulheres na
produção econômica, bem como na garantia da sua autonomia, da identidade e da cidadania.

Leia o documento abaixo que traz as principais recomendações e iniciativas propostas: ORGANIZA-
ÇÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO – OIT - COVID-19: Países do G7 devem tornar a igualdade
de gênero eficaz para que o futuro das mulheres no trabalho seja melhor. Notícias OIT, 14 maio 2020.

Disponível em: https://www.ilo.org/brasilia/noticias/WCMS_745194/lang--pt/index.htm. Acesso


em: 13 jun. 2022.

Ética e Cidadania 115


O diverso e o desigual – questões contemporâneas e o âmbito do trabalho

É certo que profissão não tem gênero. As mudanças ocorridas nas últimas décadas,
capitaneadas pelos movimentos sociais e pelos estudos sobre as identidades e desi-
gualdades de gênero, promoveram mudanças significativas nas mais diferentes realida-
4 des. Isso se deu por meio de políticas públicas, institucionais e legislações que pautam
a necessidade da reorganização das estruturas sociais voltadas para a maior inclusão
e diversidade dos diferentes gêneros.

Mas é certo também que esse é um caminho longo, cotidiano que requer a transfor-
mação de práticas, comportamentos, concepções e estruturas concretas e simbólicas
que promovam a reformulação das relações de gênero nas sociedades para o fim da
discriminação e das formas de violência nos mais diferentes níveis nos espaços públi-
cos e privados, constituindo formas mais igualitárias de convivência e possibilidades de
existências entre homens e mulheres.

Filme
Uma alegoria interessante e complementar da temática trabalhada nesta unidade é o
filme Estrelas Além do Tempo, de Theodore Melf (2017), o qual é baseado em fatos re-
ais e retrata a história de três jovens mulheres cientistas que colaboraram com a NASA
na década de 1960, para a chegada do homem à lua. Em um ambiente que as mulheres
ainda não eram aceitas, especialmente em profissões como as engenharias ou outras
das ciências exatas, a narrativa retrata as condições de desvantagens e desvalorização
do trabalho que as personagens enfrentam pelo fato de serem mulheres negras. É uma
oportunidade para a reflexão sobre quais mudanças ocorreram nessas últimas décadas
e se elas permitem percebermos hoje a presença de mulheres em profissões que foram
usualmente designadas como espaços exclusivos dos homens.

3. ENFIM, UMA SOCIEDADE POSSÍVEL

3.1. SOCIEDADE BRASILEIRA


Há menos de 200 anos, o Brasil ainda vi- Figura 06. Gravura de Henry Chamberlian, A rede (1821)
via sob a escravidão de homens, mulhe-
Fonte: Wikimedia. Acesso em: 17

res e crianças negras. Havia, além de leis


que garantiam essa estrutura, discursos,
teorias e um sistema moral que defen-
diam a legalidade da escravidão e justi-
ficavam os diversos modos de violência
e exploração, ou seja, naturalizavam as
dez, 2021.

formas de desigualdade e interiorização


dos povos negros. Ainda nesse período,
mesmo que sob outras condições, povos
indígenas e culturas inteiras foram dizi-
madas ao longo do processo de colonização. É igualmente perceptível a existência de
todo um sistema legal e moral que justificavam tais práticas.

O direito ao voto feminino é relativamente recente em nossa sociedade, (foi legitimado em


1932) e, nesse início, era um direito garantido apenas às mulheres casadas, desde que

116
tivessem autorização dos maridos, e às viúvas que tivessem renda própria. Por sua vez, o
acesso de mulheres casadas ao mercado de trabalho também dependia da autorização do
marido, assim como a abertura de contas em bancos, viagens ao exterior ou ter um comér-
cio, leis que foram alteradas apenas a partir de 1962. 4
Nossa sociedade atual é herdeira dos fatos acima e, certamente, de outras diversas for-

Universidade São Francisco


mas de desigualdade e exploração. Durante séculos, prevaleceu a ideia de que alguns
grupos de pessoas, como negros, mulheres, indígenas e outros minoritários eram infe-
riores, portanto, para esses grupos o acesso aos direitos e aos bens sociais era restrito,
desigual ou sequer existia.

IMPORTANTE
Minorias ou grupos minoritários não são definidos quantitativamente, mas, sim, qualitativa-
mente. De modo geral, para as ciências humanas e sociais, o conceito de minoria se refere
aos grupos que se encontram em situação de desvantagem ou vulnerabilidade em relação a
outros em uma dada estrutura social.

Na sociedade brasileira, por exemplo, mulheres, negros e pardos representam a maioria


numérica da população. Entretanto, são considerados grupos minoritários, pois possuem
menos acessos aos bens e direitos sociais assim como aos espaços de poder e decisão.
As minorias podem ser definidas a partir de diferentes critérios: gênero, raça, etnia, religião,
cultura, sexualidade etc., e variam de uma ordem social para outra. Nas democracias, há o
pressuposto de que as políticas públicas devem compensar e proteger as minorias, diminuin-
do ou eliminando as formas de desigualdade e desvantagens.

Figura 07. Campo de refugiados Esta é uma noção que ainda prevalece
em nossa sociedade e pelo mundo de
Fonte: 123RF.

modo geral. O acesso desigual aos direi-


tos e aos bens sociais, mesmo aos mais
básicos, ainda é uma realidade. Assim,
em pleno século XXI nos deparamos dia-
riamente com diferentes formas e níveis
de pobreza e exclusão, desigualdade e
discriminação que vão desde o precon-
ceito e a marginalização até a eliminação
física e genocídio de grupos inteiros por
motivos étnicos, culturais, religiosos, sexuais, geopolíticos etc.

Mesmo diante da constatação dessa realidade, é possível, entretanto, vislumbrarmos


avanços significativos. Entre eles, a consolidação, em nossa época, de valores, leis e
mesmo de um sistema moral que reconhece como princípio fundamental a dignidade
intrínseca de todo ser humano, isto é, a dignidade de toda pessoa como um valor su-
premo e inquestionável.

Ética e Cidadania 117


O diverso e o desigual – questões contemporâneas e o âmbito do trabalho

Esse é um dos pressupostos básicos para o exercício da cidadania e da constituição de


direitos e deveres dos indivíduos, uma vez que o reconhecimento da dignidade humana
implica garantia e acesso aos bens e direitos sociais.
4
a. A RESPONSABILIDADE DO SER SOCIAL
Poucas ideias são tão universais nas ciências humanas e sociais quanto a afirmação de
que o ser humano é um ser social por natureza, que vive em coletividade e que constrói
em grupo sua realidade social. Os elementos que constituem essa realidade – como as
regras, as normas, as religiões, as leis, os direitos e deveres, entre outros –, não são
produtos espontâneos da natureza, mas, sim, construções históricas e sociais empre-
endidas pelos homens vivendo social e coletivamente.

Essa afirmação pode parecer, à primeira vista, bastante óbvia, entretanto, ela abrange
uma complexidade. O elemento social da vida humana não se reduz apenas ao viver
em grupo. Se assim fosse, não nos diferenciaríamos de outras espécies que vivem
grupalmente ou em bando, como os chimpanzés e gorilas, por exemplo. Além disso, a
essência humana é social, o viver humano se realiza apenas em sociedade.

O filósofo polonês Zygmunt Bauman (1925-2017) – pensador contemporâneo – reflete


sobre essa característica da vida coletiva humana, entendendo a interdependência dos
indivíduos entre si e com seu meio social, mas, também, com as responsabilidades que
cada um possui com o outro, mesmo que não conscientes ou assumidas. Esse traço da
responsabilidade é a base da sociabilidade humana e surge a partir da nossa relação
com o outro e com nosso meio social, além de ser portadora de um sentido moral.
Um relacionamento humano é moral quando um sentimento de responsabi-
lidade brota em nós, voltado para o bem-estar e a felicidade do “outro”. [...]
Somos responsáveis por outras pessoas simplesmente porque são pesso-
as, e assim ordena nossa responsabilidade. É igualmente moral quando a
vemos como só nossa, não sendo, consequentemente, negociável, além de
não poder ser transferida para quem quer que seja. A responsabilidade por
outros seres humanos surge simplesmente porque eles são seres humanos,
e o impulso moral para ajudar daí oriundo não exige nenhum argumento,
legitimação ou prova além dessa noção (BAUMAN, 2010, p. 71).

Para o autor supracitado, a responsabilidade com o outro é um traço da essência hu-


mana que explica como sua existência apenas é possível em sociedade. As diferentes
interações e responsabilidades que temos uns com os outros constituem a base do
comportamento humano. Esse comportamento, por sua vez, não se realiza no vazio,
pelo contrário, concretiza-se em um contexto social específico, em acordo com um meio
social particular constituído por normas, regras, direitos, entre outros elementos que
orientam e estruturam as relações sociais. Daí a importância da vida social.

SAIBA MAIS
Assista a um pequeno trecho de uma entrevista feita com o filósofo Zygmunt Bauman.
Nela, ele explica como na atualidade vivemos interligados e estabelecemos vínculos e laços
sociais em níveis mundiais e não mais localmente. Disponível em: https://www.youtube.com/
watch?v=1miAVUQhdwM. Acesso em: 13 jun. 2022.

118
b. A FUNÇÃO DA VIDA SOCIAL
A vida e as formas de existência humana se realizam, portanto, em sociedade, em uma
dada organização social que possui sentido concreto e histórico. Ou seja, cada orga- 4
nização social, da mais primitiva e simples até a mais contemporânea e complexa que
existe ou que já existiu, tem um conjunto de normas e códigos que orientam o existir

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coletivo num determinado tempo e espaço.

Os sentidos e significados desse complexo conjunto mudam de uma organização social


para outra, de um tempo histórico para outro. Valores, condutas, regras e leis que já
foram aceitas por uma organização social se transformam conforme as próprias condi-
ções histórico-sociais assim como as necessidades das pessoas e daquele meio social.

Para além disso, o fato é que para existir coletivamente é preciso um espaço comum
de convivência entre todos, algo que congregue as pessoas e suas individualidades
em torno de uma mesma organização social e coletiva. A vida comum e coletiva são os
espaços, por excelência, do exercício da cidadania.

O sociólogo francês Émile Durkheim (1858-1917) afirma que essa é uma das funções
da vida social, qual seja, a constituição de um conjunto de normas, regras e modos de
agir que orientam e estruturam a vida dos indivíduos naquela coletividade e que fun-
cionam como mediadores das relações das pessoas entre si e com o seu meio social.

PARA REFLETIR
Todos nós, enquanto parte da sociedade brasileira, por exemplo, estamos sob um mesmo con-
junto de normas, direitos e deveres que orientam nosso modo de viver e que estabelecem um
modo comum de vida, apesar da individualidade de cada um. São pontos fundamentais para
que se constitua o que sociólogo chama de “coesão social” ou “laços sociais”, estruturas, ideias
e práticas pelas quais se criam os vínculos de solidariedade e de cooperação entre aqueles que
habitam uma mesma organização social. Quanto mais a vida social tiver sentido e significado
para o indivíduo, mais coesa, solidária e cooperativa é uma organização social.

3.2. O DIREITO À PARTICIPAÇÃO NOS BENS SOCIAIS


É na vida social que também se constrói as bases para a organização, segurança e
desenvolvimento de cada um e da coletividade, bem como para a constituição da ci-
dadania. Sabemos que todo esse conjunto não é estático e definitivo, pelo contrário,
é dinâmico e está em constante construção, responde às necessidades e anseios da
coletividade e também de indivíduos. As próprias noções de moral, direitos e deveres da
cidadania se transformaram ao longo da história, contemplando em cada organização
social acessos, direitos e deveres específicos.

Na modernidade, em particular, até os dias atuais, consolidou-se um pressuposto básico,


resultado de uma longa evolução histórica: a de que cada ser humano, por ser social, é
dotado de um conjunto de direitos e deveres. Entre esses, alguns são relativos aos bens
sociais fundamentais, como saúde, segurança, educação, moradia, habitação e trabalho.

Ética e Cidadania 119


O diverso e o desigual – questões contemporâneas e o âmbito do trabalho

SAIBA MAIS
A Constituição Federal Brasileira define, no artigo 6º, como direitos sociais o acesso à educa-
4 ção, saúde, alimentação, trabalho, moradia, transporte, lazer, segurança, previdência social,
proteção maternidade e à infância e assistência aos desamparados.

Para conferir o texto na íntegra, visite:

BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Disponível em: http://


www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm. Acesso em: 13 jun. 2022.

Logo na introdução desta unidade, propusemos pensar sobre o reconhecimento moder-


no da dignidade intrínseca do ser humano. É desse pressuposto que nascem teorias e
práticas que estruturam a vida coletiva, como o reconhecimento de que toda pessoa,
independentemente da cor, gênero, classe social, idade, lugar, posição política, religio-
sidade etc., tem (ou deveria ter) direitos básicos assegurados, que visam justamente
garantir a reconhecida dignidade humana citada.

O acesso e a participação aos bens sociais como um direito de cada pessoa respondem
diretamente a esse pressuposto, uma vez que o atendimento às necessidades funda-
mentais e básicas é inseparável das possibilidades de existências e vivências dignas.
Além disso, é pelo acesso pleno aos bens sociais que outros direitos basilares para a
dignidade humana são efetivamente contemplados, como a liberdade e a igualdade.

Posto de outra forma, as liberdades e direitos individuais são inseparáveis da garantia


dos direitos sociais. Como conceber, por exemplo, a liberdade e o direito individual que
todos têm ao voto, se persiste na sociedade a pobreza extrema, falta de saneamento
básico e condições de trabalho precárias?

SAIBA MAIS
O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) é um dos parâmetros nas sociedades atuais que
mede o desenvolvimento social de um país, levando em consideração o acesso das pessoas
aos bens sociais básicos, como educação, saúde e renda. Ele é coordenado pela Organização
das Nações Unidas (ONU) e é um importante parâmetro na definição de políticas públicas.

Há outros institutos e pesquisas que também possibilitam compreender as demais esferas e


conjunto de direitos, por exemplo, o The Economist Intelligence Unit (The EIU), que faz parte
do Economist Group e mede diferentes âmbitos da vida social, como a paridade de gênero e o
nível de democracia dos países.

Para saber mais, você pode conhecer de forma interativa os indicadores usados pelo institu-
to e seus níveis em cada um dos países pesquisados, basta visitar: https://www.v-dem.net/
data_analysis/VariableGraph/. Acesso em: 13 jun. 2022.

120
3.3. O RECONHECIMENTO DA DIFERENÇA: BASE PARA A IGUALDADE
Diretamente relacionada aos direitos e bens sociais nas sociedades, a igualdade é um
dos valores fundamentais na constituição das democracias e como um dos princípios
que estruturam, de modo geral, o conjunto de direitos e deveres e o exercício da cida- 4
dania nas sociedades. Todos são iguais perante a lei, sem distinção, é um dos pilares

Universidade São Francisco


de constituições democráticas modernas, assim como da Declaração Universal dos
Direitos Humanos.

Como tornar efetivo o princípio da igualdade nas sociedades atuais, globais e diversas,
formadas pelas diferentes culturas, individualidades e identidades? Todos são iguais,
afinal? Esse é um ponto central, pois igualdade, como um direito, não significa homoge-
neidade. Contudo, o respeito à dignidade da condição humana pressupõe o direito e o
reconhecimento da diferença.

Os contrapontos não são entre igualdade e diferença, mas entre igualdade e desigual-
dade. A desigualdade pressupõe hierarquias que estabelecem condições distintas às
pessoas, acessos diferentes aos direitos e deveres, bem como aos postos de poder
e de decisão. Assim, a desigualdade estratifica, divide os indivíduos e os grupos em
superiores e inferiores, com mais ou menos direitos e deveres, com maior ou menor dig-
nidade e serve como justificativa às formas de discriminação, exploração e até mesmo
de morte ou extermínio.

A diferença, por sua vez, fundamenta-se no reconhecimento das particularidades de


cada um, de cada grupo social e da diversidade que compõe a natureza humana – é
uma relação horizontal. Desse modo, é possível reconhecermos as diferenças entre
homens e mulheres, brancos e negros, portadores e não portadores de deficiências,
cristãos, muçulmanos ou ateus, indígenas e não indígenas, norte-americanos, indianos
e brasileiros, jovens e idosos etc. Em todos esses grupos há diferenças. Entretanto,
quando se instalam valores ou relações de superioridade ou inferioridade, as diferenças
se convertem em desigualdades.
O direito à diferença, portanto, é um corolário da igualdade na dignidade. O
direito à diferença nos protege quando as características de nossa identida-
de são ignoradas ou contestadas; o direito à igualdade nos protege quando
essas características são destacadas para justificar práticas e atitudes de
exclusão, discriminação e perseguição (BENEVIDES, 2007, p. 340).

SAIBA MAIS
O direito à diferença é também a luta pelo direito ao reconhecimento e da diferenciação como consti-
tutiva da diversidade e da dignidade humana. Partindo dessa perspectiva, recomendamos que você
assista ao documentário Crip Camp: revolução pela inclusão (2020), dirigido por Jim LeBrechet.

O documentário conta a história sobre o acampamento de verão Jened, nos EUA, voltado para
pessoas portadoras de deficiências físicas, motoras e até intelectuais, com variados graus e
níveis de lesão. O acampamento foi fundado em 1951 e fechado em 1977, e transformou não
apenas a vida dos jovens e adolescentes que frequentavam aquele espaço, mas pautou diver-
sos movimentos por direitos sociais e civis na sociedade americana.

Ética e Cidadania 121


O diverso e o desigual – questões contemporâneas e o âmbito do trabalho

O documentário está disponível nos streamings e é uma oportunidade para percebermos como
o direito à igualdade passa pelo direito à diferença.
4

a. A LUTA POR DIREITOS NO SÉCULO XXI


A luta por direitos é sempre uma luta histórica, pois reflete as formas de organização so-
cial, as experiências e anseios de indivíduos e grupos em suas realidades. São reflexos
das necessidades e demandas que as pessoas vivenciam em cada contexto histórico-
-social e, ainda, dos recursos que estão disponíveis para isso. Em uma realidade global
como a que vivenciamos, as lutas por direitos, nas suas mais diferentes esferas, tendem
a refletir tanto as pautas e necessidades locais como outras mundializadas ou globais.

É certo, desse modo, que diante das persistentes desigualdades sociais, parte das lutas
por direitos contemporâneos está voltada para essas esferas, tais como: moradia, aces-
so à saúde e educação de qualidade, condições e garantias trabalhistas, participação
nas esferas públicas e políticas, segurança etc.

Ao mesmo tempo, a defesa e o reconhecimento das diferenças entre as pessoas


como um dos parâmetros para a constituição da justiça social e da igualdade, como
vimos há pouco, revelaram novas disputas e lutas por direitos em diferentes âmbitos
da sociedade. Da mesma forma, outros modos de opressão que não passam pela
luta de classes têm pautado, ao longo das últimas décadas, diferentes movimentos
sociais e lutas por direitos.

Há, assim, um espaço de lutas por direitos nas sociedades atuais voltado para questões
éticas e de valores humanos que não diz respeito necessariamente a uma classe social
específica, mas, sim, ao conjunto da sociedade de um modo geral, inclusive, em termos
globais (SANTOS, 2003, p. 258).

SAIBA MAIS
Atualidade do tema

Em momento anterior, já falamos sobre o movimento Black Liver Matter. Na reportagem a seguir,
“Como três mulheres criaram o movimento global Black Lives Matter a partir de uma hashtag”,
temos um relato de como essa luta antirracista começa bem pequena, com os esforços de três
mulheres, mas rapidamente se torna uma causa global. Entre as características, está presente o
uso das redes de comunicação e mídias digitais, como o Facebook, Twitter e Instagram.

Para ler, na íntegra, visite: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2020/12/20/como-tres-mu-


lheres-criaram-o-movimento-global-black-lives-matter-a-partir-de-uma-hashtag.ghtml.
Acesso em: 13 jun. 2022.

122
Lutas como as do movimento negro e o combate ao racismo às formas de discrimi-
nação e constituição de relações antirracistas; movimento feminista e as pautas pela
igualdade de gênero e fim do patriarcado; lutas dos movimentos LGBTQIA+ e a busca
pela igualdade social e de direitos; pautas que se voltam às questões ecológicas e de 4
sustentabilidade; intensas migrações humanas, genocídio de culturas e etnias e diversi-

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dade cultural, expandem as noções que se têm dos direitos e deveres de cada um nas
sociedades contemporâneas globalizadas.

Em uma importante passagem de sua obra, a filósofa Hannah Arendt (1989, p. 332)
afirma que “[...] a cidadania é a consciência que o indivíduo tem do direito a ter direitos”.
A era moderna e contemporânea consolidou os direitos fundamentais às pessoas, atri-
buídos a todas elas por sua condição de ser.

Constituiu-se, assim, um pressuposto fundado na igualdade em dignidade dos seres


humanos. É um valor indispensável para a nossa época, pois nele se abrigam outros,
como o reconhecimento à diferença e à pluralidade da vida humana. Essa é uma das
perspectivas que orientam práticas e ideais para os dias atuais, e que servem de mote
para a criação de relações e realidades mais igualitárias, plurais e justas.

Figura 08. A luta pelos direitos no século XXI

Diversidade de agendas Pautas globais e locais

As agendas dos movimentosso- A luta por direitos atua tanto local,


ciais tornaram-se mais diversas e para atender as demandas da
plurais e já não se restringem ao comunidade, como globalmente,
mundo do trabalho e da economia; questionando práticas e formas de
LUTAS PELOS DIREITOS vida mundiais.

SÉCULO XXI

Pautas culturais,
Novas estratégias
identitárias e ecológicas

Uso dos meios de comnicação e Lutas que não se vinculam, ex-


das redes digitais como plataforma clusivamente, às classes sociais,
para as pautas ultrapassarem fron- mas se transferem para a cultura e
teiras geográficas e promoverem para as mudanças culturais.
novas formas de articulação Diferença e diversidade.
e estruturação
Movimentos globais e
antiglobalização

Crítica aos danos e efeitos da


exploração capitalista global e
às formas contemporâneas de
exclusão e marginalidade.

Fonte: elaborada pela autora.

Ética e Cidadania 123


O diverso e o desigual – questões contemporâneas e o âmbito do trabalho

Filme
Como pensamos a dignidade de todo ser humano diante das profundas desigualdades so-
4 ciais que, ainda hoje, estão fortemente presentes em diferentes sociedades? O filme sul-core-
ano Parasita, de Bong Joon-ho, ganhador do Oscar em 2020, tem como eixo central o olhar
sobre a desigualdade a partir das diferenças entre classes sociais. Na história, acompanha-
mos o cotidiano da família Kim, família pobre que mora em um porão apertado e enfrenta as
dificuldades típicas de uma família de baixa renda. Em um movimento do acaso, um dos filhos
dos Kim passa a trabalhar como professor/tutor na casa de uma família rica. Logo em segui-
da, utilizando uma série de artimanhas e mentiras, o jovem faz com que o chefe empregue
o restante da sua família. O filme transcorre mostrando as diferentes interações entre esses
dois universos e de como são afetados de forma distinta pelo mundo externo.

Texto complementar
Reconhecer que a diferença e a diversidade humana são constitutivas das nossas so-
ciedades é um caminho importante para que se reconheça, enfim, a dignidade humana.
À vista disso, recomendamos a leitura do artigo “Reconhecimento e direito à diferença:
teoria crítica, diversidade e a cultura dos Direitos Humanos”, de Eduardo Bittar, para
ampliar a discussão do tema trabalhado nesta unidade.

4. REMEMORANDO AS TEMÁTICAS ESTUDADAS AO LONGO


DAS UNIDADES
Chegamos ao final de nosso curso após passarmos por distintas reflexões e análises que ti-
veram como temáticas norteadoras a ética e a cidadania em suas mais distintas perspectivas.
Com projeções de estabelecer uma reflexão final, retomaremos alguns dos tópicos aborda-
dos e, após construir uma breve linha do tempo e do pensamento sobre o assunto, abordare-
mos questões práticas sobre a ética e práticas de cidadania na contemporaneidade.

Ao longo de nossa trajetória, foram apresentadas algumas perspectivas relacionadas


a processos interdisciplinares com outras abordagens (Estudo do Ser Humano Con-
temporâneo, Iniciação à Pesquisa Científica, Direitos Humanos e Empreendedorismo)
e o desenvolvimento de competências e habilidades fundamentais para os processos
de construção cidadã e profissional. Portanto, conectar experiências pessoas com tais
abordagens e, partindo dessas conexões, projetar o desenvolvimento de novas compe-
tências educacionais que serão colocadas em práticas se apresentaram como propos-
tas norteadoras tanto para o processo de ensino aprendizado quanto de vivências éti-
cas de cidadania. Neste sentido, essas perspectivas se relacionam diretamente com os
Objetivos de Desenvolvimento Sustentável no Brasil, apresentados pela Agenda 2030
em conexão com as diretrizes da Organização das Nações Unidas (ONU).

Importantes colocações acerca da ética e da moral foram colocadas ao longo de nos-


so aprendizado. Partindo das proposições apontadas, pudemos perceber que, grosso
modo, enquanto a ética compreende uma proposição de condutas de amplo alcance e
uma reflexão aprofundada que envolve a coletividade e suas ações, a moral, por sua
vez, se norteia por regras e tradições transmitidas, por valores que orientam determina-
das pessoas e grupos sociais sem necessariamente passarem por reflexões e análises.

124
Uma das temáticas que transpareceu foi a tentativa de se problematizar a relação en-
tre escolhas e ética. Partindo de uma ampla construção teórica, o diálogo recaiu nas
proposições de pensamento acerca das escolhas éticas ao longo de nossa existência.
Distintas formas de se apreender e perceber o mundo, desde a antiguidade até a 4
contemporaneidade foram discutidas e, dessa forma, proposições práticas foram sus-

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citadas. Diante de tais construções, a temática ganhou desdobramentos apontando
uma articulação importante entre ética e liberdade, mas também sobre os processos
decisórios e as escolhas responsáveis. Relações como ética, indivíduo e coletividade
ganharam corpo, principalmente nas colocações de Jean Paul Sartre e, para além de
tais apontamentos, a relação entre a ética e o capitalismo, sistema econômico vigente
na atualidade, foi colocada em questão. Por fim, um importante conceito foi destaca-
do, o de banalidade do mal, elaborado pela filósofa alemã Hanna Arendt e, partindo
dele, a relação estabelecida entre seguir a lei e o bem coletivo e dos indivíduos, em
muitas situações, suscita leituras e posicionamentos éticos, ainda que discordantes
dos pressupostos legais impostos.

Com a compreensão bem delineada dos conceitos éticos para a filosofia ao longo da
história, a temática que engloba ética e cidadania foi articulada à uma importante esfera
de nossas vidas sociais: o mundo do trabalho. Ser um profissional ético é um importante
elemento em nossas trajetórias profissionais e, tal proposição, demanda uma forma-
ção ética aprofundada, que se apresenta como uma das proposições de nosso curso.
Cabe destacar que todo o sistema educacional brasileiro tem como proposições formar
nossos jovens para a cidadania e o mundo do trabalho e um dos parâmetros para se
atingir tal objetivo perpassa as discussões sobre ética, moral e a sociedade com suas
diretrizes individuais e coletivas. Diante desses pontos, um prosseguimento interessan-
te é dado ao se abordar a questão da necessidade de regras morais. Articulando regras
individuais, sociais e profissionais, a unidade visa estabelecer uma leitura crítica e de
constante reflexão e análise sobre tais relações, sempre colocando em destaque a for-
ma como todos nós nos apresentamos e nos portamos em sociedade.

No entanto, na atualidade, não basta abordarmos apenas a sociedade em suas con-


cepções físicas, é preciso trazer para a discussão os espaços virtuais que as novas
tecnologias têm nos permitido vivenciar. Neste sentido, buscamos refletir sobre os
avanços da sociedade tecnológica digital pontuando questões éticas, morais e pro-
fissionais ao questionar se há limites naquele universo virtual. Tais questionamentos
demandaram uma melhor compreensão de direitos e deveres assegurados, ou seja,
de uma leitura mais cuidadosa sobre nossa condição cidadã na atualidade. Ao esta-
belecer um breve histórico das distintas formas de se conceber a cidadania ao longo
dos tempos, nossos estudos procuraram avançar até os dias atuais e, dessa forma,
levantar importantes reflexões sobre o acesso aos direitos dos cidadãos, ou seja, da
possibilidade de se exercer uma cidadania plena, que como destacamos acima, com-
preende uma das diretrizes do sistema educacional brasileiro, formar nossos jovens
para se tornarem cidadãos plenos de direito.

Nossas temáticas nos conduziram com problematizações e análises profundas e um


outro ponto foi posto em reflexão: o espaço da cidadania, tendo como parâmetro nor-
teador, mais uma vez, as relações entre ética, cidadania e mundo do trabalho. Correla-
cionando o espaço da cidadania a uma perspectiva individual e coletiva, a abordagem

Ética e Cidadania 125


O diverso e o desigual – questões contemporâneas e o âmbito do trabalho

trouxe importantes reflexões sobre práticas cidadãs e exercício de direitos por parte dos
indivíduos que compõem uma sociedade. Esta concepção é expandida para preocupa-
ções com uma prática cidadã e ética que abarque, também, a questão ambiental, foram
4 apresentadas. O tema, desde a apresentação inicial vinha perpassando as discussões
anteriores, desde a apresentação dos objetivos para o desenvolvimento sustentável
na unidade um. Ao longo do curso tais temáticas foram aprofundadas, trazendo à tona
problemáticas atuais, como as questões ambiental e animal. Ao se pensar direitos e
deveres, ética, moral, etc., nós estamos falando apenas da espécie humana? Qual seria
o parâmetro adotado para se excluir os demais seres vivos de tais questões? Apenas
o aspecto cognitivo? Abrir-se para tais reflexões, como destacado, é estabelecer uma
leitura ética diante do mundo que nos cerca e com o qual interagimos e dependemos.

Outro ponto fundamental quando se põe em pauta ética e cidadania é a questão das
desigualdades raciais no Brasil. Neste sentido, foi necessário trazer para a discussão o
conceito de raça e aprofundar a problemática do racismo em nossa sociedade. Partin-
do de tais pressupostos, nosso curso visou refletir sobre a cidadania em um país com
uma profunda desigualdade racial, aspecto que impacta as relações sociais, incluindo
as relações do mundo do trabalho. Ainda, procurou-se problematizar o racismo estru-
tural no Brasil, em suas mais diversas frentes. No mesmo seguimento, as discussões
apontadas levaram à necessidade primordial de se abordar e estabelecer alguns apon-
tamentos sobre questões de gênero, principalmente em sua relação com o mundo do
trabalho. Ao introduzir o conceito e apresentar suas definições e diferenciações, proje-
tando as diferenças biológicas e socioculturais, nosso curso teve como intuito refletir
sobre um dos aspectos que demarcam profundas desigualdades em nossa sociedade.
Importante destacar que, a interseccionalidade entre gênero, raça e classe, abarcam
as mais profundas desigualdades no Brasil na atualidade e, por tais motivos, suscitam
importantes reflexões e ações que promovam posturas de respeito, pautadas por prin-
cípios éticos e cidadãos.

Outro ponto de destaque foi a importância das lutas por igualdade e cidadania que ain-
da persistem na atualidade. Tendo como parâmetros o reconhecimento das diferenças
e da representatividade de grupos minoritários, visou-se refletir sobre as projeções fu-
turas para a constituição de uma sociedade mais justa e igualitária, com espaço para o
exercício de uma cidadania plena e, também, para a possibilidade de interações éticas,
tanto no mundo social quanto no universo profissional.

Ao chegarmos à esta última unidade, com tantos referenciais em mente e com a pos-
sibilidade de colocá-los em prática, nós realizaremos agora uma elaboração pessoal e
profissional importante: missão, visão e valores.

5. REFLEXÕES ÉTICAS, PRÁTICAS DE CIDADANIA:


CONSTRUÇÕES DO FUTURO
As práticas de cidadania, na atualidade, vão muito além do exercício do voto. Participar
ativamente dos eventos e dilemas que se apresentam são fundamentais para cons-
truirmos uma sociedade que compreenda interesses coletivos e individuais, mas que
também seja capaz de manter posturas éticas em relação ao mundo que nos cerca,

126
levando em consideração, por exemplo, os direitos humanos e práticas de desenvolvi-
mento sustentável. Neste sentido, por exemplo, “hoje pode-se afirmar que a realização
plena e não apenas parcial dos direitos da cidadania envolve o exercício efetivo e am-
plo dos direitos humanos, nacional e internacionalmente assegurados.” (PIOVESAN, 4
Flávia. Cidadania Global é possível? IN: PINSKY, Jaime (org.). Práticas de cidadania.

Universidade São Francisco


São Paulo: Contexto, 2004, p. 266.)

Um dos elementos norteadores para a adoção de práticas éticas, de cidadania e de cons-


trução sustentável de futuro podem ser apresentadas por meio da elaboração de um pa-
râmetro que compreenda: missão, visão e valores. Trata-se de termos importantes dentro
do universo empresarial e profissional e, muitas vezes, encontram-se destacados nos
sites das empresas, mas que também podem servir como referenciais pessoais.

É partindo dos apontamentos das unidades e dos elementos destacados até agora que
vocês irão definir, portanto, as diretrizes pessoais e profissionais de vocês, tendo como
referencial posturas éticas e práticas cidadãs, nossos temas norteadores. É importante
ainda, ao longo do processo de elaboração, levar em consideração que
“uma pergunta fundamental deve ser feita: que mudanças implicam a ado-
ção da sustentabilidade socioambiental como qualidade intrínseca de um
novo ciclo de desenvolvimento? E se queremos – e acreditamos ser possí-
vel – outro tipo de desenvolvimento, é imperioso reconhecer que, mais do
que características técnicas, seu diferencial será a ética pública, os limites
e as condições por ela colocados.” (SILVA, Marina. Ecologia, Cidadania e
Ética. IN: PINSKY, Jaime (org.). Práticas de cidadania. São Paulo: Con-
texto, 2004, p. 274.)

Complementando os questionamentos apontados acima, devemos retomar o quadro


dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável apresentados na unidade 1.

Figura 09. Mapa mental – Objetivos de Desenvolvimento Sustentável

Lutas sociais Capitalismo e Desenvolvimento Sustentável Meio Ambiente Humanidade

Respeito às Diferenças
Ética Animal
Profissional
Desigualdade Racismo Mundo do Trabalho
Desigualdade
Estrutural Missão
Desigualdade
Indivíduo Visão
Questão Racial
Individuais Coletiva Valores
Sexo Biológico

Interseccionalidade
Gênero Diferenças
Leis
Regras
Liberdade Construção sociocultural
Moral Valores

Escolhas Tradições Espaços de Cidadania

Mundo
Virtual Ética e Cidadania Direitos Humanos

Fonte: elaborado pelo autor.

Ética e Cidadania 127


O diverso e o desigual – questões contemporâneas e o âmbito do trabalho

SAIBA MAIS
Para relembrar os 17 ODS, leia: https://brasil.un.org/pt-br/sdgs
4

A título de exemplo e para o conhecimento de vocês sobre a nossa instituição, destaca-


mos o quadro de missão, visão e valores da Universidade São Francisco.

PARA REFLETIR
A Universidade São Francisco, aponta os seus direcionamentos institucionais da seguinte forma:

`  “Missão: Educar para a paz e o bem, com excelência acadêmica, pluralismo, inovação
e sustentabilidade.

`  Visão: Ser reconhecida nacionalmente pela excelência acadêmica, pela promoção da


inovação sustentável, do desenvolvimento regional, da justiça e da paz.

`  Valores: Educação Integral Transformadora, Humanismo Solidário, Respeito à Diversida-


de e Inovação Sustentável.”

Vamos Praticar!

Agora, em vias de conclusão, chegamos ao momento de reflexão e prática.

O primeiro passo que vamos seguir é definir a missão individual de vocês, aquela motiva-
ção que lhes é intrínseca, que os move. Por missão, devemos partir de alguns questiona-
mentos: é importante refletir sobre qual seria a sua missão, ou seja, qual o sentido de todas
as atividades que vocês fazem no dia a dia. Reflita e responda: quais são os seus objetivos
mais profundos diante dessa missão. Após refletirem, é o momento de condensar as ideias
em uma única frase.

O segundo apontamento deve ser a visão. Ela estabelece onde vocês gostariam de es-
tar no futuro, realizando quais projetos e em que condições, como vocês gostariam de se
ver. Aponte destacadamente que tipo de cidadão e profissional vocês gostariam de se tor-
nar. Neste ponto, após apontarem de forma solta tais respostas, vocês precisam juntar as
informações em uma sentença.

Por fim, mas extremamente importante, chegamos aos valores. Que valores éticos e morais
vocês valorizam em vocês e nas pessoas? Quais valores são importantes para vocês em
suas vidas pessoais e profissionais, mas também, em relação às práticas cidadãs e susten-
táveis? Os valores adotados serão norteadores das ações que vocês praticarão para efetivar
a missão e a visão elaboradas acima. Reflita sobre as palavras apontadas, releia a missão
e a visão desenvolvidas e, partindo delas, estabeleça de forma clara os valores que são im-
prescindíveis para vocês em suas trajetórias pessoais e profissionais.

128
Para ficar mais fácil de visualizar, complete o quadro abaixo, relacionado ao desenvolvimento
das competências de vivência ética e cidadã.
4

Universidade São Francisco


Minha missão

Minha visão

Meus valores

Dessa forma, chegamos à conclusão de nossa elaboração. No entanto, é importante des-


tacar que, nenhum desses itens, missão, visão e valores, são imutáveis. Eles podem ser
repensados e modificados ao longo de suas trajetórias. Muitos saberes e trocas ainda com-
porão a vida de vocês e eles podem vir a fazer parte de elaborações futuras. Lembrem-se,
nós caminhamos em direção aos nossos sonhos e projetos e todo o caminhar é composto
de aprendizado, por isso, muitas vezes os horizontes e caminhos escolhidos podem se mo-
dificar. Como pontuou o poeta espanhol Antonio Machado, “caminhante não há caminho, se
faz caminho ao andar...”.

A todos vocês, muito sucesso, e que suas caminhadas pessoais e profissionais sejam ba-
seadas em proposições éticas e cidadãs, repletas de empatia e alteridade, além de muito
respeito às diferenças.

Ética e Cidadania 129


O diverso e o desigual – questões contemporâneas e o âmbito do trabalho

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