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Direito do

Consumidor
Princípios e Direitos Básicos do Consumidor

Responsável pelo Conteúdo:


Prof.ª M.ª Christiane Cavalcante Marcellos

Revisão Textual:
Prof.ª Dr.ª Luciene Oliveira da Costa Granadeiro
Princípios e Direitos
Básicos do Consumidor

• Princípios Gerais do Código de Defesa do Consumidor;


• Direitos Básicos do Consumidor.


OBJETIVOS

DE APRENDIZADO
• Conhecer os princípios que norteiam o CDC, para melhor compreensão e interpretação
de todo o sistema;
• Ingressar no estudo os direitos básicos do consumidor, com destaque nos temas mais rele-
vantes e fundamentais enfrentados por fornecedores e consumidores.
UNIDADE Princípios e Direitos Básicos do Consumidor

Princípios Gerais do Código


de Defesa do Consumidor
Vamos começar estudando os “Princípios gerais do Código de Defesa do Consumi-
dor”, depois os “Direitos básicos do consumidor.”
Mas, antes de começarmos, pense: você sabe o que são princípios?
De modo bem simples, princípios são regras que norteiam todo o ordenamento jurídico.
Significa dizer que o intérprete do direito, assim como o legislador, deve conhecer os prin-
cípios que norteiam o Código de Defesa do Consumidor. Por exemplo, o princípio mais
importante do Código de Defesa do Consumidor é o princípio da vulnerabilidade. O legis-
lador, quando da criação de uma lei sobre Direito do Consumidor, deve ter em mente que
o consumidor é a parte mais fraca da relação, por isso merece proteção. Ele não pode,
portanto, criar uma lei que proteja mais o fornecedor. Da mesma forma, o intérprete, na
leitura do Código, deve lembrar sempre que o consumidor é a parte mais fraca, por isso,
na dúvida, deve interpretar a favor do consumidor.

Figura 1 – Balança da Justiça


Fonte: Getty Images

Agora que você já sabe, gostaríamos de contar uma curiosidade: o Código de Defesa
do Consumidor (CDC), Lei 8078/90, é uma lei principiológica. Quem melhor explica o
que é ser uma lei principiológica é o Professor Rizzato:
[...] como lei principiológica entende-se aquela que ingressa no sistema jurí-
dico, fazendo, digamos assim, um corte horizontal, indo, no caso do CDC,
atingir toda e qualquer relação jurídica que possa ser caracterizada como
de consumo e que esteja também regrada por outra norma jurídica. Assim,
por exemplo, um contrato de seguro de automóvel continua regulado pelo
Código Civil e pelas demais normas editadas pelos órgãos governamentais
que regulam o setor (Susep, Instituto de Resseguros etc.), porém, estão
tangenciados por todos os princípio e regras da Lei 8.078/90, de tal modo
que, naquilo que com eles colidem, perdem a eficácia por tornarem-se
nulos de pleno direito. (RIZZATO, 2019, p. 113)

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Os princípios norteadores do Código de Defesa do Consumidor estão previstos no
artigo 4º, que trata da Política Nacional das Relações de Consumo.

O artigo 4º, aliás, é bastante rico, pois, além de prever os princípios que devem ser
seguidos pelo mercado de consumo, também apresenta quais são os objetivos da Política
Nacional das Relações de Consumo. São eles: (a) o atendimento das necessidades dos
consumidores; b) o respeito à sua dignidade, saúde e segurança; c) a proteção de seus
interesses econômicos; d) a melhoria da sua qualidade de vida; e) a transparência e har-
monia das relações de consumo.

Vamos estudar cada princípio, todos previstos nos incisos do art. 4º do CDC, sendo:

I – Princípio da Vulnerabilidade
O princípio da vulnerabilidade do consumidor é, sem dúvida, o principal princípio do
CDC (art. 4º, inc. I).

Figura 2 – Relação de consumo – Banco e consumidor


Fonte: Getty Images

Na Figura 2, temos uma relação de consumidor entre um banco e o consumidor.


Quem é a parte mais fraca da relação? Em outras palavras, que é vulnerável?

Com certeza é consumidor, lembre-se de que o consumidor é sempre vulnerável na


relação de consumo, pois é a parte mais fraca da relação, por isso merece proteção com
o objetivo de manter ou restituir o equilíbrio contratual.

Já aprendemos que a vulnerabilidade do consumidor pessoa física é presumida (todo


consumidor é vulnerável), já a vulnerabilidade da pessoa jurídica deve ser provada.

Importante lembrar que a vulnerabilidade pode ser:


• Vulnerabilidade técnica: o consumidor não tem conhecimento técnico sobre o
produto ou serviço;
• Vulnerabilidade jurídica ou científica: o consumidor não tem conhecimento jurí-
dico ou científico, também não entende de economia, contabilidade, medicina etc.;

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• Vulnerabilidade fática/socioeconômica: o fornecedor é quem possui o poder


econômico, estando o consumidor em franca desvantagem;
• Vulnerabilidade informacional: o consumidor, além de não ter conhecimento técnico,
também não tem conhecimento da qualidade da informação que é transmitida.
Agora você consegue entender o quão vulnerável é o consumidor em uma relação
de consumo?
O critério da vulnerabilidade tem sido utilizado na teoria finalista mitigada, para reco-
nhecer como consumidor a pessoa (física ou jurídica), que, embora não seja destinatária
final do produto, encontra-se na condição de vulnerável do artigo 4º, inc. I.
Além dos vulneráveis, temos os consumidores hipervulneráveis. Como dissemos, todos
os consumidores são vulneráveis, mas existem aqueles que possuem peculiaridades que os
tornam ainda mais vulneráveis, por isso são chamados de hipervulneráveis (idosos, crianças,
deficientes, analfabetos, gestante) e merecem mais proteção do que os demais consumidores.

II – Princípio da Intervenção Estatal


O princípio da intervenção estatal vem da necessidade de o Estado legislar para pro-
teger o consumidor, justamente por seu vulnerável.
O inciso II do artigo 4º apresenta as formas como se dará essa proteção:
• “Por iniciativa direta”, como ocorre, por exemplo, com a criação dos Procons (Pro-
grama de Proteção e Defesa do Consumidor);
• “Por incentivos à criação e desenvolvimento de associações representativas”, tais
como o IDEC (Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor), com sede em São Paulo;
• “Pela presença do Estado no mercado de consumo”, como ocorre com a Secretaria
Nacional do Consumidor, órgão do Ministério da Justiça;
• “Pela garantia dos produtos e serviços com padrões adequados de qualidade, seguran-
ça, durabilidade e desempenho”. Sobre tais garantias, temos o Inmetro – Instituto Na-
cional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia, autarquia federal vinculada ao Ministério
do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior.
A intervenção estatual ocorre ainda por meio do estudo constante das modificações
do mercado de consumo (Art. 4º, inciso VIII).
Para a execução da Política Nacional das Relações de Consumo, o poder público,
dentre outros, contará com os seguintes instrumentos:
I – Manutenção de assistência jurídica, integral e gratuita para o consu-
midor carente;
II – Instituição de Promotorias de Justiça de Defesa do Consumidor, no
âmbito do Ministério Público;
III – Criação de delegacias de polícia especializadas no atendimento de
consumidores vítimas de infrações penais de consumo;
IV – Criação de Juizados Especiais de Pequenas Causas e Varas Especia-
lizadas para a solução de litígios de consumo;
V – Concessão de estímulos à criação e desenvolvimento das Associações
de Defesa do Consumidor. (art. 5º do CDC)

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III – Princípio da Harmonia nas Relações de Consumo
O princípio da harmonia, previsto no art. 4º, inciso III, do CDC, apresenta dois objetivos:
• Compatibilização dos interesses dos participantes das relações de consumo;
• Compatibilização da proteção do consumidor com a necessidade de desenvolvimento
econômico e tecnológico
Na prática, esse princípio se manifesta, por exemplo, por meio do Serviço de Atendi-
mento ao Consumidor (SAC), que é um serviço prestado pelo fornecedor para garantir
o atendimento ao consumidor mesmo em caso de pós-venda.
Dentro do princípio da harmonia, encontramos dois outros importantes princípios:
da boa-fé objetiva e do equilíbrio.
• Princípio da boa-fé objetiva: o princípio da boa-fé objetiva refere-se a uma regra de
conduta, que obriga as partes, consumidor e fornecedor, a agirem de acordo com os
chamados deveres anexos da boa-fé objetiva, dos quais destacamos dever de infor-
mação, dever de confiança, dever de cooperação, dever de proteção e cuidado,
dever de lealdade, dever de honestidade, dever de esclarecimento.
Em um processo julgado pela 4º Vara do Juizado Especial Cível de Brasília, o
consumidor alegou que, em agosto de 2016, adquiriu em uma promoção no site do
fornecedor, um computador “Core I5, 6ª Geração, 8GB, HD 2TB, Triumph Business
Desktop”, por R$ 461,16, mas, no dia seguinte, a venda foi cancelada, sob a alega-
ção de erro no sistema.
Em sua defesa, o fornecedor confirmou o erro sistêmico, informando que se trata de
erro grosseiro, pois o produto havia sido anunciado 85% abaixo do preço de mercado.
Informou, ainda, que tomou todas as providências para informar aos consumidores
assim que teve conhecimento do erro.
O consumidor perdeu a ação (julgamento de improcedência), segundo consta na
sentença, por “tratar-se de erro material na propaganda da ré, em face da flagrante
desproporção entre o valor do produto vendido com o preço de similares existentes
no mercado.” (TJDFT, 2021).
Como se vê, o consumidor violou a boa-fé objetiva, notadamente os deveres de hones-
tidade e lealdade, ao exigir o cumprimento de oferta que sabia ser muito despropor-
cional ao valor de mercado. O erro, no caso, era de fácil observação;
• Princípio do equilíbrio: aqui, o que se pretende é proteger a parte mais fraca, o
consumidor. Se, por exemplo, algum fato novo gerar um desequilíbrio no contrato,
é possível ao consumidor pleitear sua revisão.

Processo mencionado anteriormente. Disponível em https://bit.ly/3uZVZiA

IV – Princípio da Educação e Informação


Segundo os princípios da educação e informação (Art.4º, inciso IV) , na relação de
consumo, é dever do fornecedor informar adequadamente o consumidor sobre seus
direito e deveres.

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Importante!
De acordo com o CDC, não é dever do consumidor buscar todas as informações sobre o
produto ou serviço. Ao contrário, é dever do fornecedor informar adequadamente ao
consumidor sobre o produto ou serviço.

O Superior Tribunal de Justiça julgou um caso sobre a falta de informação. Trata-se de


uma empresa de refrigerante que reduziu o volume de refrigerantes de sua garrafa-pet,
de 600 ml para 500 ml, prática conhecida como “maquiagem de produto” ou “aumento
disfarçado de preços”. Segundo o STJ:

A empresa que reduz o volume do produto que comercializa há vários


anos, que é de larga aceitação, sem a informação correta ao consumi-
dor da redução deste volume afronta os princípios do direito à infor-
mação e da confiança estabelecidos pela legislação consumerista. (Resp
1.364.915/MG, Rel Humberto Martins, j. 15/05/2013)

V – Princípio da Qualidade e Segurança


Este princípio determina o “incentivo à criação pelos fornecedores de meios eficientes
de controle de qualidade e segurança de produtos e serviços, assim como de mecanismos
alternativos de solução de conflitos de consumo; [...]” (Art. 4º, inciso V).
Observa-se que o fornecedor tem a obrigação de cuidado, o que significa que não
pode colocar no mercado de consumo produtos ou serviços que ofereçam riscos
aos consumidores.

VI – Princípio da Coibição e Repressão do Abuso


O princípio da coibição e repressão do abuso refere-se à “coibição e repressão eficientes
de todos os abusos praticados no mercado de consumo, inclusive a concorrência desleal
e utilização indevida de inventos e criações industriais das marcas e nomes comerciais e
signos distintivos, que possam causar prejuízos aos consumidores; [...]” (Art. 4º, inciso VI).

VII – Princípio da Racionalização e Melhoria dos Serviços Públicos


Considerando que o CDC se aplica à prestação dos serviços públicos, o inciso VII
prevê o princípio da “racionalização e melhoria dos serviços públicos; [...]”.
Vale dizer que uma pessoa jurídica, seja pública ou privada, quando fornecedora serviços
públicos, está sujeita às regras do Código de Defesa do Consumidor.

Direitos Básicos do Consumidor


O tempo todo, estamos falando que o consumidor é vulnerável, pois é a parte mais
fraca da relação de consumo, o que é a mais pura verdade.
Se colocarmos na balança o consumidor e, do outro lado, o fornecedor, ficará evidente
esse desiquilíbrio, por isso reforçamos a importância do princípio da vulnerabilidade.

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Para maior proteção, o legislador trouxe, no artigo 6º, uma série de direitos básicos
do consumidor no sentido de equilibrar a relação de consumo existente.

Existem outros direitos além daqueles que iremos estudar, leia o que diz o art. 7º do CDC:
Os direitos previstos neste código não excluem outros decorrentes de tratados ou con-
venções internacionais de que o Brasil seja signatário, da legislação interna ordinária, de
regulamentos expedidos pelas autoridades administrativas competentes, bem como dos
que derivem dos princípios gerais do direito, analogia, costumes e equidade.

Vamos estudar cada um dos direitos previstos no art. 6º, são eles:

I – Direito à Vida, Saúde e Segurança


O primeiro direito básico do consumidor é “a proteção da vida, saúde e segurança
contra os riscos provocados por práticas no fornecimento de produtos e serviços consi-
derados perigosos ou nocivos;” (art. 6º, inciso I).

Figura 3 – Direito à vida e saúde


Fonte: Getty Images

Vale dizer que, em regra, o fornecedor não pode colocar no mercado de consumo
produto ou serviço que cause risco à vida, saúde e segurança do consumidor.

No entanto, existem produtos que têm a chamada periculosidade inerente, são aqueles
produtos em que os riscos são considerados normais e previsíveis. E isso não significa de-
feito, dessa forma, em regra, não dá direito à indenização. O produto pode, sim, ser colo-
cado no mercado de consumo, mas o fornecedor é obrigado a dar todas as informações
sobre tais riscos (Ex.: faca de cozinha, cigarro, medicamentos em geral).

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Figura 4 – Produtos com periculosidade inerente


Fonte: Adaptada de Getty Images

Enfim, os “produtos e serviços colocados no mercado de consumo não acarretarão


riscos à saúde ou segurança dos consumidores, exceto os considerados normais e previ-
síveis em decorrência de sua natureza e fruição.” (art. 8º do CDC).

Além da periculosidade inerente, temos a periculosidade adquirida e a exagerada.

A periculosidade é adquirida quando os produtos ou serviços tornam-se perigosos em


decorrência de um defeito. Detalhe, se não apresentasse o defeito, não existiria o risco
(Ex.: defeito de fabricação). Imagine que um carro foi introduzido no mercado de con-
sumo e, somente depois, constata-se um defeito. Para essa situação, o § 1º do art. 10
cuida do chamado recall, “o fornecedor de produtos e serviços que, posteriormente
à sua introdução no mercado de consumo, tiver conhecimento da periculosidade que
apresentem, deverá comunicar o fato imediatamente às autoridades competentes e aos
consumidores, mediante anúncios publicitários.”.

A convocação feita pelo fornecedor, chamada recall, serve para que ocorra a retirada
do produto ou serviço defeituoso do mercado de consumo, o reparo, ou a substituição.

Veja, abaixo, o exemplo de recall de barra de chocolate, da empresa ZD Alimentos,


iniciado em 1º abr. 2018:

Alerta aos Consumidores


A ZD Alimentos informa aos seus consumidores que identificou que os
produtos com validade e lotes 05 mar 19, 06 mar 19, 07 mar 19 e
08 mar 19 da Barra Confeiteiro ao Leite 1,010Kg Bel podem conter
contaminantes físicos em desacordo com a legislação vigente. Por isso,
voluntariamente está realizando o recolhimento preventivo desses pro-
dutos. Assim, recomenda-se aos consumidores que adquiriram unidades
dos lotes mencionados, que entrem em contato pelo endereço eletrônico
sac@grupozda.com.br ou telefones 0800 171222 ou (14) 99657-9136
para substituição do(s) produto(s) sem custos.
Fonte: https://bit.ly/3fqbppG

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Se o produto ou serviço tiver uma periculosidade exagerada, não pode ser colocado no
mercado de consumo, pois toda informação prestada será insuficiente para diminuir o risco.
É o que diz o art. 10 do CDC: “o fornecedor não poderá colocar no mercado de consumo
produto ou serviço que sabe ou deveria saber apresentar alto grau de nocividade ou periculo-
sidade à saúde ou segurança.”, por exemplo, andadores infantis, produtos à base de amianto.

II – Direito à Liberdade de Escolha e Igualdade nas Contratações


São direitos básicos do consumidor “a educação e divulgação sobre o consumo ade-
quado dos produtos e serviços, asseguradas a liberdade de escolha e a igualdade nas
contratações.” (art. 6º, inciso III).

Sabemos que o consumidor bem informado terá melhores condições para decidir se
pretende ou não contratar o serviço, adquirir ou não o produto. Por isso a importância
da educação e divulgação sobre o consumo adequado dos produtos e serviços.

Ademais, deve ser dado ao consumidor o direito de liberdade de escolha, não podendo
ser obrigado pelo fornecedor a adquirir um produto ou contratar determinado serviço.
Exemplo comum é o da pipoca no cinema. Considera-se abusiva, por tratar-se de venda
casada, que significa condicionar a venda de produto ou serviço a outro produto ou serviço,
a proibição do ingresso na sala do cinema portando alimentos de outros estabelecimentos,
permitindo somente aqueles adquiridos em seu próprio estabelecimento. O consumidor,
portanto, deve escolher livremente o produto que pretende consumir no interior do cinema,
não podendo ser obrigado a consumidor somente aquele vendido pelo próprio cinema.

Figura 5 – Venda casada – pipoca no cinema


Fonte: Getty Images

III – Direito à Informação Adequada e Clara


São direitos básicos do consumidor: “a informação adequada e clara sobre os dife-
rentes produtos e serviços, com especificação correta de quantidade, características,
composição, qualidade, tributos incidentes e preço, bem como sobre os riscos que apre-
sentem.” (Art. 6º, inciso III).

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Sobre o assunto, temos um caso bem interessante que foi julgado pelo Superior Tri-
bunal de Justiça, sobre a expressão “contém glúten”. Segundo o STJ:
A informação-conteúdo “contém glúten” é, por si só, insuficiente para
informar os consumidores sobre o prejuízo que o alimento com glúten
acarreta à saúde dos doentes celíacos, tornando-se necessária a integra-
ção com a informação-advertência correta, clara, precisa, ostensiva e
em vernáculo: “CONTÉM GLÚTEN: O GLÚTEN É PREJUDICIAL
À SAÚDE DOS DOENTES CELÍACOS”. (RESP Nº 1.515.895 – MS,
Relator Humberto Martins, j. 20/09/2021)

IV – Direito à Proteção Contra Publicidade Enganosa e Abusiva


São direitos básicos do consumidor: “a proteção contra a publicidade enganosa e abu-
siva, métodos comerciais coercitivos ou desleais, bem como contra práticas e cláusulas
abusivas ou impostas no fornecimento de produtos e serviços.” (art. 6º, inciso IV).
Não confunda publicidade enganosa e abusiva. O próprio CDC apresenta a diferença.
• É enganosa: qualquer modalidade de informação ou comunicação de
caráter publicitário, inteira ou parcialmente falsa, ou, por qualquer outro
modo, mesmo por omissão, capaz de induzir em erro o consumidor a
respeito da natureza, características, qualidade, quantidade, proprieda-
des, origem, preço e quaisquer outros dados sobre produtos e serviços.
(§1º do art. 37)
• É abusiva: dentre outras a publicidade discriminatória de qualquer nature-
za, a que incite à violência, explore o medo ou a superstição, se aproveite
da deficiência de julgamento e experiência da criança, desrespeita valores
ambientais, ou que seja capaz de induzir o consumidor a se comportar de
forma prejudicial ou perigosa à sua saúde ou segurança. (§2º do art. 37)

Pratica publicidade enganosa a construtora que, em informe publicitário amplamente divul-


gado, oferece área gourmet em condomínio e, quando entrega o imóvel, o faz sem construir
o espaço de convivência social antes oferecido. (TJMG – Apelação Cível 1.0024.14.068493-
7/001, Relator(a): Des.(a) Claret de Moraes, 10ª CÂMARA CÍVEL, julgamento em 28/01/2020,
publicação da súmula em 07/02/2020)
Configura publicidade enganosa a prática da prestadora de serviços que, ao ofertar cur-
sos gratuitos aos consumidores, convoca-os a comparecerem em sua sede, lá os induzindo
ostensivamente à contratação de cursos onerosos, sob o argumento de complementação
daqueles gratuitos, sem a devida informação sobre o procedimento de desistência, in-
cidência de multa e não devolução dos valores pagos. (TJMG – Ap Cível/Rem Necessária
1.0702.13.085634-8/001, Relator(a): Des.(a) Tiago Pinto, 15ª CÂMARA CÍVEL, julgamento em
04/07/2019, publicação da súmula em 16/07/2019)

V – Direito à Proteção Contratual


São direitos básicos do consumidor: “a modificação das cláusulas contratuais que estabe-
leçam prestações desproporcionais ou sua revisão em razão de fatos supervenientes que as
tornem excessivamente onerosas.” (art. 6º, inciso V).

Se, posteriormente à celebração, o contrato tenha se tornado excessivamente onero-


so ao consumidor, ele tem o direito de pleitear a revisão do contrato.

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VI – Direito à Prevenção e Reparação de Danos
São direitos básicos do consumidor: “a efetiva prevenção e reparação de danos patrimo-
niais e morais, individuais, coletivos e difusos.” (art. 6º, inciso VI).

A ideia do legislador é prevenir o dano e, caso tenha ocorrido, repará-lo.


A prevenção e reparação atingem os danos patrimoniais e morais, individuais, cole-
tivos e difusos.

• Danos patrimoniais: referem-se a um prejuízo financeiro;


• Danos morais: lesão a um direito da personalidade (honra, imagem nome etc.);
• Danos individuais: os danos atingem uma ou mais pessoas;
• Danos coletivos: os danos atingem um universo de pessoas (exemplo: pescadores).
• Danos difusos: dano causado a um número indeterminável de pessoas (exemplo: venda de
combustível adulterado).

VII – Direito à Facilitação de Acesso à Justiça


São direitos básicos do consumidor: “o acesso aos órgãos judiciários e administrati-
vos com vistas à prevenção ou reparação de danos patrimoniais e morais, individuais,
coletivos ou difusos, assegurada a proteção jurídica, administrativa e técnica aos neces-
sitados.” (art. 6º, inciso VII).
Sobre o acesso à justiça, vale destacar novamente os instrumentos para a execução
da Política Nacional das Relações de Consumo:
I – manutenção de assistência jurídica, integral e gratuita para o consu-
midor carente;
II – instituição de Promotorias de Justiça de Defesa do Consumidor, no
âmbito do Ministério Público;
III – criação de delegacias de polícia especializadas no atendimento de
consumidores vítimas de infrações penais de consumo;
IV – criação de Juizados Especiais de Pequenas Causas e Varas Especia-
lizadas para a solução de litígios de consumo;
V – concessão de estímulos à criação e desenvolvimento das Associações
de Defesa do Consumidor. (art. 5º do CDC)

VIII – Direito à Inversão do Ônus da Prova


São direitos básicos do consumidor: “a facilitação da defesa de seus direitos, inclusive
com a inversão do ônus da prova, a seu favor, no processo civil, quando, a critério do juiz,
for verossímil a alegação ou quando for ele hipossuficiente, segundo as regras ordinárias
de experiências.” (art. 6º, inciso VIII).
Sem dúvida, o direito à inversão do ônus prova é um importante mecanismo para a
facilitação da defesa do consumidor.

Em regra, em um processo comum quem alega, prova. Então, por exemplo, se você
ingressar com uma ação, você deve provar aquilo que alega.

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No CDC não é bem assim, o consumidor tem direito à inversão do ônus da prova. Ima-
gine que você adquiriu um carro com defeito de fabricação. Nesse caso, não é você que
deve provar o defeito, mas sim o fornecedor que deve provar que o defeito não existe. Isso
porque é o fornecedor quem melhor conhece o seu produto e detém de todas as condições
de fazer a prova.

A inversão do ônus da prova ocorre em um processo judicial, sendo que quem decide se
inverte ou não é o juiz. Para que ela ocorra, o juiz irá analisar um dos requisitos que a lei exi-
ge: a) verossimilhança das alegações do consumidor, ou b) hipossuficiência do consumidor.

A verossimilhança das alegações do consumidor está presente quando o juiz verifica


a probabilidade de as alegações do consumidores serem verdadeiras.

Já a hipossuficiência do consumidor leva em consideração a fragilidade do consumi-


dor, principalmente econômica, mas também pode ser sob o aspecto fático ou técnico.
Ou seja, se o consumidor não possuir condições econômicas, fáticas ou técnicas para
comprovação de seu direito, o juiz poderá inverter o ônus da prova.

Importante!
Não confunda vulnerabilidade com hipossuficiência:
• Vulnerabilidade: A vulnerabilidade irá classificar a pessoa como consumidor e sua
consequente aplicação do CDC. Como vimos, o consumidor é vulnerável por ser a
parte mais frágil da relação de consumo, ou seja, trata-se de presunção absoluta, de
ordem material. Todo Consumidor é Vulnerável, por isso tem a proteção do CDC;
• Hipossuficiência: é analisada no processo, como um dos requisitos para a inversão
do ônus da prova, a critério do juiz e segundo regras ordinárias de experiência.

IX – Direito ao Serviço Público Eficaz


São direitos básicos do consumidor: “a adequada e eficaz prestação dos serviços pú-
blicos em geral.” (art. 6º, inc. IX).

Como vimos, a pessoa jurídica de Direito Público também é considerada fornecedora e,


como tal, deve oferecer serviços adequados e eficazes.

O que seria um serviço público adequado?

A definição de serviço adequado iremos encontrar na Lei 8.987/95, que dispõe so-
bre o regime de concessão e permissão da prestação de serviços públicos. Segundo o
§ 1º do art. 6º, “Serviço adequado é o que satisfaz as condições de regularidade, con-
tinuidade, eficiência, segurança, atualidade, generalidade, cortesia na sua prestação e
modicidade das tarifas”.

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Material Complementar
Indicações para saber mais sobre os assuntos abordados nesta Unidade:

Sites
SENACON
No site da Secretaria Nacional do Consumidor você irá encontrar dicas, notícias e vídeos
sobre o Direito do Consumidor. São informações importantes e atualizadas que fazem
parte do nosso dia a dia.
https://bit.ly/3eK5QDl

Filmes
Super Size Me: A Dieta do Palhaço
Duas meninas processaram o Mc Donald´s alegando que a ingestão do lanche causou a
obesidade em ambas. A corte entendeu que somente seria possível responsabilizar se ficasse
provado que realmente foi a comida do Mc Donald´s que provocou a obesidade. Um produ-
tor resolveu então que comeria somente produtos servidos pelo Mc Donald’s pelo período
de 30 dias. Com o documentário, você consegue ter ideia do quão vulnerável é o consumi-
dor, mas principalmente dos mecanismos utilizados pela indústria alimentícia para atrair os
seus consumidores, principalmente as crianças, consideradas hipervulneráveis.
SPURLOCK, M. Super Size Me: A Dieta do Palhaço. Imagem Filmes. 2004. 1 DVD (1h40).
https://youtu.be/OlUHSeM6DZo

Leitura
Lei nº 8.987, de 13 de Fevereiro de 1995
Código de Defesa do Consumidor, disponível no site do Planalto. Recomenda-se leitura dos
artigos 4º ao 10, estudados na presente unidade.
https://bit.ly/3uQhD8y
Embargos de Divergência em RESP nº 1.515.895 – MS (2015/0035424-0)
Julgamento, na íntegra, proferido pelo Superior Tribunal de Justiça, sobre a expressão a
falta de informação na expressão “contém glúten”, conforme referido no item 2, III. O acór-
dão (julgamento) aborda a importância do direito à informação, notadamente nos produtos
alimentícios. Não se apegue às palavras técnicas que são próprias do direito, recomenda-
mos que observe os fatos, com foco no Direito do Consumidor.
https://bit.ly/3eOiEJ2

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Referências
NUNES, R. Curso de direito do consumidor. 13. ed. São Paulo: Saraiva, 2019. (e-book)

NUNES, R. O Código de Defesa do Consumidor e sua interpretação jurisprudencial.


5. ed. São Paulo: Saraiva, 2015. (e-book)

THEODORO JUNIOR, H. Direitos do consumidor. 9. ed. Rio de Janeiro: Forense,


2017. (e-book)

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