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Turismo e Desenvolvimento em Salvador

Conference Paper · May 2005

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Jacileda Cerqueria Santos


Universidade Federal da Bahia
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Turismo e Desenvolvimento em Salvador1

Jacileda Cerqueira Santos2

Os Lugares Turísticos da Globalização


No final do Século XX, surgiram novos caminhos para o desenvolvimento
capitalista, moldados pelo fenômeno da Globalização. Este fenômeno tende a definir novas
relações: uma nova divisão territorial do trabalho fundamentada na especialização das
localidades, que o atual contexto político-econômico determina. Admite-se, assim, que a
globalização é um processo que tem como uma de suas características a mobilidade
acelerada do capital, que pressupõe uma “fragmentação do sistema produtivo em todas as
suas fases (...) e uma integração que tende a acentuar a posição subalterna dos países
menos desenvolvidos no espaço do desenvolvimento desigual da economia-mundo”
(BENKO, 1996, p. 45). Essa tendência à polarização leva a um grau intensificado de
especialização geográfica e da deslocalização das empresas com o fim de explorar as
oportunidades locais e nacionais de lucro e de mercado.

A globalização seria, então, processo de expansão da relação social de produção


capitalista, correspondendo à nova distribuição histórico-geográfica e político-cultural das
estratégias da divisão social do trabalho em nível global. Santos (2000), explica que este
fenômeno espalha-se no espaço e, conseqüentemente, na produção; e que, no atual
momento histórico, a produção fragmenta-se tecnicamente, sendo possível estar presente
em qualquer ponto do globo.

1
Texto baseado na monografia “Turismo em Salvador: A Produção de Dois Espaços”, submetida a avaliação, como requisito parcial
para a obtenção do grau de Bacharel em Urbanismo em março de 2001.
2
Urbanista (UNEB)/ Mestranda em Geografia (IGEO-UFBa), Instituição: Mestrado em Geografia (IGEO-
UFBa): jacileda@ufba.br
2

É como se o mundo se houvesse tornado, para todos, ao alcance da mão. Um


mercado avassalador dito global é apresentado como capaz de homogeneizar o
planeta quando, na verdade, as diferenças locais são aprofundadas. Há uma busca
de uniformidade, ao serviço dos atores hegemônicos, mas o mundo torna-se
menos unido, tornando mais distante o sonho de uma cidadania verdadeiramente
universal. Enquanto isso, o culto ao consumo é estimulado (SANTOS, 2000, p.
19).

O fenômeno da globalização procura uma integração de mercados num mercado


único. Torna cada vez mais marcante a divisão internacional do trabalho, por meio da
funcionalização ou especialização dos espaços. Em outras palavras, é disseminada a idéia
através da qual são definidas especializações para as localidades; a idéia da divisão
territorial do trabalho que, com o fenômeno da globalização, ocorre de acordo com a
divisão internacional do trabalho. “A globalização deve ser entendida como uma gestão
global de múltiplas diferenciações territoriais” (SANTOS, 1999, p. 195; citando VELTZ).
Esse fenômeno, portanto, define uma integração da produção num sistema único, onde as
partes têm atribuições pré-determinadas na composição do todo, no plano mundial.

Numa economia globalizada, as regiões “funcionam sob um regime obediente a


preocupações subordinadas a lógicas distantes, externas em relação à área de ação”
(SANTOS, 2000, p. 92). O que significa dizer que a especialização das localidades não
depende unicamente de regulações locais ou nacionais, obedecendo principalmente a uma
ordem hegemônica global. Todavia, a divisão territorial do trabalho atribui a alguns atores
um papel privilegiado na organização do espaço, o que explica uma tendência a
especializações diversas, instalando “divisões do trabalho típicas” para diferentes regiões.
Logo, cada cidade responde por um papel dentro da integração funcional e territorial que é
definida em nível mundial, dentro da lógica capitalista.

Esta nova definição no papel das cidades é uma conseqüência da mudança de regime
de acumulação capitalista, que acarreta alterações “nos modos de produção e de consumo,
nas transações e nos mecanismos institucionais de regulação das relações sociais. Eles
induzem uma reestruturação espacial da sociedade inteira, redefinição do conteúdo
ideológico dos espaços, estabelecimento de nova divisão social e espacial do trabalho,
criação de novos espaços de produção e de consumo etc.”, além de favorecer a
“desintegração vertical das relações de proximidade espacial” (BENKO, 1996, p. 29), o
que pressupõe fragmentação locacional dos processos produtivos e a internacionalização
do capital.
3

Seguindo esta linha de raciocínio, chega-se à conclusão de que cada região ou cidade
apresenta-se apta a especializar-se em uma atividade econômica, de acordo com os fatores
locacionais de maior relevância. São levados em conta atributos como: especialidades
econômicas, clima, paisagem, tesouros artísticos e históricos, perspectivas culturais e
peculiaridades. E o que define o que se chama de “vocação regional” é o caráter global da
funcionalização produtiva dos espaços, de acordo com o potencial desses fatores em cada
lugar. São muitas as explicações que procuram justificar a atribuição de um lugar como
propício para o pleno desenvolvimento do Turismo como alternativa viável e, até
fundamental para algumas economias.

Arendt (2002) afirma que “o divertimento, assim como o trabalho e o sono, constitui,
irrevogavelmente parte do processo vital biológico” (ARENDT, 2002, p. 258), entrando,
assim, para o campo das necessidades da sociedade. O entretenimento, então, segundo a
autora, é cada vez mais “devorado” pela sociedade de massas, devido ao fato do mercado
consumidor para essa atividade vir crescendo em função das condições criadas pelo
desenvolvimento tecnológico: o aumento da produtividade, demandando menor quantidade
de trabalho humano, gera mais tempo livre para o lazer.

Lefebvre (1991) faz uma reflexão acerca das necessidades da sociedade urbana,
através da redefinição das estruturas econômicas, políticas, culturais da cidade. Afirma que
estas são necessidades “antropológicas socialmente elaboradas”, ou seja, necessidades
humanas por natureza, alteradas pelos costumes urbanos (LEFEBVRE, 1991, p. 103).

Trata-se da necessidade de uma atividade criadora, de obra (e não apenas de


produtos e de bens materiais consumíveis), necessidades de informação, de
simbolismo, de imaginário, de atividades lúdicas (...). As necessidades urbanas
não seriam necessidades de lugares qualificados, lugares de simultaneidade e de
encontros, lugares onde a troca não seria tomada pelo valor de troca, pelo
comércio e pelo lucro? Não seria também a necessidade de um tempo desses
encontros e dessas trocas? (op. cit., p. 103-104).

Assim, o autor acredita que a sociedade urbana, apesar de seu modo de vida
estruturado pelos “tempos rápidos” necessita de lugares de encontros, onde possa estar,
mesmo que apenas por alguns momentos, afastada da grande competição que é viver nos
centros urbanos. Essa sociedade moderna, então, busca lazer tanto em suas cidades quanto
fora delas.
4

O geógrafo alemão Walter Christaller, tratou do assunto contribuindo para a


formulação de uma Geografia Geral do Turismo – uma subdivisão da Geografia
Econômica – acreditando que a análise das atividades econômicas devem constituir-se de
uma forma geograficizada (MELLO E SILVA, 1999). Assim, partindo de sua Teoria das
Localidades Centrais explica a opção pela atividade turística em algumas localidades,
afirmando que esta é a única “atividade econômica relaciona-se de forma típica, com a
periferia de uma área já densamente povoada” (op. cit., 1999, p. 123), de forma a oferecer
“às regiões economicamente subdesenvolvidas uma chance para elas mesmas se
desenvolverem” (op. cit., p. 127; citando CHRISTALLER, 1963), admitindo ainda que os
espaços mais afastados dos lugares centrais e das aglomerações industriais, têm as mais
favoráveis condições para a atividade turística; sendo esta um meio de crescimento para as
regiões periféricas, pois “o fluxo de turistas dos centros metropolitanos injeta moeda
estrangeira e gera empregos” (op. cit., p. 127; citando IOANNIDES, 1995) naquelas
regiões, inserindo-as nas principais correntes de desenvolvimento econômico.

Entretanto, Corrêa (1996) questiona pressupostos de tal teoria, afirmando que “a rede
hierarquizada de localidades centrais constitui-se em uma forma de organização do espaço
vinculado ao capitalismo” (CORRÊA, 1996, p. 20). Dessa forma, qualquer arranjo espacial
encontra-se subordinado à dinâmica da sociedade capitalista, tendendo assim, “a
uniformizar o comportamento dos diferentes grupos sociais dentro de um esquema
‘universal’, onde as tradições culturais ‘pré-capitalistas’ tendem progressivamente a ser
relegadas ao folclore, constituindo-se em novas ‘mercadorias’ exploradas capitalistamente
pelo turismo” (op. cit., p. 27).

Para Arendt (2000), o mundo é produto das atividades da sociedade. Dessa forma,
“as coisas e os homens constituem o ambiente de cada uma das atividades humanas, que
não teriam sentido sem tal localização; e, no entanto, este ambiente, o mundo ao qual
viemos, não existiria sem a atividade humana que o produziu” (ARENDT, 2000, p. 31).
Isso pode nos levar a crer que o Turismo não depende apenas das belas paisagens naturais
localizadas em regiões centrais ou periféricas, e sim das atividades, do espetáculo a que tal
região se propõe a vender para o turista.

O quadro a seguir, compilado a partir do Anuário Estatístico da Organização


Mundial do Turismo – OMT, apresenta os principais países receptores, o número anual de
turistas e sua posição no ranking mundial.
5

QUADRO I - PRINCIPAIS PAÍSES RECEPTORES DE TURISTAS

1990 1995 1996 1998

Número Número Número Número

RANK

RANK

RANK

RANK
PAÍS de PAÍS de PAÍS de PAÍS de
Turistas Turistas Turistas Turistas

França 50.000 1 França 60.110 1 França 62.406 1 França 70.000 1


Estados Estados Estados
39.772 2 43.318 2 46.489 2 Espanha 47.743 2
Unidos Unidos Unidos
Estados
Espanha 34.300 3 Espanha 39.324 3 Espanha 40.541 3 47.127 3
Unidos
Itália 26.679 4 Itália 31.052 4 Itália 32.853 4 Itália 34.829 4
Reino Reino Reino
Hungria 20.510 5 24.008 5 25.293 5 25.475 5
Unido Unido Unido
Áustria 19.011 6 Hungria 20.690 6 China 22.765 6 China 24.000 6
Reino
18.015 7 México 20.162 7 México 21.405 7 México 19.300 7
Unido
Alemanha 17.045 8 China 20.034 8 Hungria 20.674 8 Polônia 18.820 8
Canadá 15.258 9 Polônia 19.200 9 Polônia 19.410 9 Canadá 18.659 9
Suíça 12.955 10 Áustria 17.173 10 Canadá 17.329 10 Áustria 17.282 10
Brasil 1.361 45 Brasil 1.991 47 Brasil 2.666 41 Brasil 4.818 29
Fonte: Anuário Estatístico da Organização Mundial do Turismo – OMT, 1999.

Conforme observamos, França, Espanha, Estados Unidos e Itália ocuparam os quatro


primeiros lugares no ranking dos principais países receptores de turistas durante a década
de 1990. Enquanto isso, o Brasil – forte “vendedor” das mercadorias “Sol e Mar” – ocupou
as, 45ª, 47ª, 41ª e 29ª colocações, respectivamente, sendo que no ano de 1998,
apresentando volume de turistas equivalendo a menos de 7% do volume da França –
primeiro colocado nos quatro anos citados. O que significa dizer que a representatividade
do contingente turístico brasileiro, frente aos grandes pólos mundiais, é muito pequena,
não desempenhando papel muito significativo.

Sassen & Roost (2001) afirmam que desde os anos 80 são os aspectos urbanos que
vêm sendo transformados em atração turística, num processo no qual os estilos de vida das
grandes cidades tornam-se objeto de consumo. Para os autores, esta nova forma de turismo
urbano é produto do “turismo moderno”, que trata a cidade – ou determinadas partes dela –
como um espaço para a visitação. Estas destinações são vistas, não apenas como meros
centros comerciais, mas como partes de uma estratégia de marketing que se apropria da
cidade tornando-a o pedaço de um cenário. Sob a ótica das autoridades públicas “o
6

entretenimento é uma indústria de crescimento, ademais geradora de boas relações públicas


para as suas cidades” (SASSEN & ROOST, 2001, p. 69), tendo em vista a tendência global
a transformá-las em produtos turísticos.

O consumo da cultura urbana é, atualmente, o principal alvo da atividade turística, o


que pode nos levar à conclusão de que não se trata de uma atividade regida pela teoria das
localidades centrais de Christaller. Sassen & Roost afirmam, ainda, que “certas localidades
tradicionais têm uma extraordinária concentração de destinações de entretenimento” (op.
cit., p. 69), a exemplo de cidades como Nova York, Barcelona e Paris, reconhecidamente
os centros urbanos com maior volume anual de turistas no mundo.

A Estratégia Turística e a Cidade-mercadoria


Em de Salvador, hoje, o Turismo é tratado como uma estratégia de desenvolvimento
urbano, capaz de implementar melhorias em sua estrutura social e econômica que, a partir
da década de 1990 foi posta em prática. Para defender tal idéia, Suarez (1990, p. 44)
explica que a atividade “incorpora e reestrutura cidades, construindo centros de lazer e
consumo, criando novos ambientes urbanos bastantes distintos da típica cidade industrial
do começo do século”. Acredita, ainda, que as cidades turísticas, além de possuírem grande
beleza natural e/ou forte tradição histórico-cultural, ganham infra-estrutura de lazer, que
inclui teatros, cinemas, galerias de arte, etc., o que as configuram como cidades de alta
qualidade de vida, e em pólos de alta tecnologia – as atividades quaternárias beneficiam-se
do seu capital natural e cultural, ao fixarem-se em áreas turísticas.

Assim, para se ter um lugar turístico que seja verdadeiramente atraente, é preciso
produzi-lo, criando espaços de lazer, implantando infra-estrutura qualificada e que suporte
o fluxo de turistas numa dada cidade. Dessa, governos estaduais e municipais afirmam que
implantar tais equipamentos numa localidade é uma forma de dinamizar sua economia,
além de colocá-la em evidência até mesmo em nível mundial. E, utilizando este discurso, o
poder público procura fazer investimentos, e a conceder incentivos à iniciativa privada, de
forma a tornar a cidade atraente para quem quer praticar uma atividade de lazer.

Valoriza-se a inovação cultural e a adoção de novos estilos de arquitetura e de


desenho urbano, são criados novos atrativos de consumo como centros de convenções,
shoppings centers, marinas, praças de alimentação exóticas, parques temáticos (HARVEY,
1989). Daí explica-se o interesse da indústria do entretenimento na requalificação de áreas
7

urbanas: existe a pretensão de transformar cidades em espaços de produção e consumo do


entretenimento, através da produção e consumo do espaço. Para Sassen & Roost (2001), no
caso de locais como a Times Square (Nova York) e a Potsdamer Platz (Berlim) – lugares
que recebem grande contingente anual de turistas) –, esta indústria do entretenimento
procurou criar o que Peter Hall (1988) chamou de locais de sucesso: empreendimentos
direcionados para a venda do espetáculo e da cultura urbana.

O lugar turístico da globalização tem grande afinidade com a tendência da


transformação do espaço em mercadoria, surgindo, daí, uma articulação com esta
tendência. Assim, o produto do Turismo é o próprio lugar turístico, ou seja: o espaço seja
ele urbano ou não. Neste caso, a mercadoria é vendida através da informação. A
publicidade vende o espaço turístico com as imagens que, podem propagar-se pelo mundo
com a velocidade inerente às novas técnicas de comunicação globais. Então, cada cidade
passa a vender sua imagem, com a finalidade de mostrar aos turistas o quanto são
aprazíveis, e quão rica é sua cultura, valendo a pena visitá-las.

E é dentro desse contexto, que se desenvolve o enquadramento teórico-conceitual


que dá suporte ao discurso que procura justificar a implantação de uma política de
desenvolvimento baseada na atividade turística para o Nordeste brasileiro, o Estado da
Bahia e a Cidade do Salvador.

O Brasil pós-crise econômica da década de 80, passou a entender a atividade turística


como uma alternativa para “soerguer as economias deprimidas dos estados nordestinos”.
Assim, o Nordeste brasileiro “passa a ser vendido como o Novo Caribe, o Novo
Mediterrâneo, a Nova Flórida” (RODRIGUES, 1999, p. 149) – todos grandes pólos
turísticos – e começa a haver injeção de capital estrangeiro no setor, sob forma de
construção de hotéis e resorts nos moldes internacionais.

Em 1990, Marcus Alban Suarez3, desenvolveu um trabalho, sugerindo que seja


implantada uma estratégia turística como “alternativa pós-industrial” para Salvador. A
proposta articula Turismo Cultura e Alta Tecnologia, para o autor, traz “a possibilidade de
um crescimento econômico atrelado ao avanço social da população” (SUAREZ, 1990, p.
62). Conforme Suarez, Salvador se tornaria uma cidade com grande poder de atração a
artistas, intelectuais, pesquisadores e cientistas que constituiriam “um aporte de capital
cultural, financeiro e científico. Dessa forma, o processo de desenvolvimento cultural e
3
Alban Suarez, Diretor do Centro de Pesquisas e Estudos – CPE, na gestão estadual que iniciou em 1991, é um dos responsáveis pelo
desenvolvimento da estratégia turística em Salvador.
8

turístico auto-alimentaria a área da própria cultura, e assim também o turismo” (op. cit., p.
62).

A partir de então, o governo do Estado começou a efetivar a estratégia turística na


Bahia e, em parceria com a Prefeitura Municipal, procurou tornar Salvador uma cidade
com grande poder de atração, com a requalificação do Centro Histórico e outras
intervenções como urbanização de praças, restauração de monumentos, melhoria da
circulação, etc.. Procura-se, assim, o fortalecimento do turismo receptivo, em níveis
nacional e internacional, que daria a Salvador condições de competitividade com outros
pólos turísticos no Brasil – a exemplo da cidade do Rio de Janeiro, que é a primeira
colocada no ranking das capitais nacionais – e talvez no mundo. Vemos, aqui, ser
explicitado o caráter da globalização que pressupõe a competitividade entre localidades.

Entretanto, apesar de considerada região de grande potencial turístico, o Nordeste


brasileiro possui grandes carências econômicas e sociais. Sendo assim, foi previsto – no
Plano Plurianual do Governo Federal (Avança Brasil) – no macro-objetivo que trata do
desenvolvimento da Indústria do Turismo, o investimento total de US$ 1,2 bilhões, entre
1996 e 2003, nas 1.680 cidades brasileiras com vocação turística. Neste Plano, o
desenvolvimento local é uma meta do Programa de Municipalização do Turismo, que
consiste em conscientizar a população da cidade sobre a importância social do turismo e
mostrar as suas vantagens para o município.

Assim, o Turismo em Salvador é apresentado como uma atividade capaz de gerar


emprego e renda, e proporcionar melhoria da qualidade de vida de seus habitantes, por
conta das obras e melhoramentos ambientais feitos para atrair turistas. Investimentos em
novos centros culturais, em revitalização da cultura local, também são ditos capazes de
aumentar a atratividade de um pólo turístico. A partir daí, inicia-se um processo de
“modelagem” da Cidade, ou seja, a criação de espaços turísticos e de lazer, tendo em vista
atrair “consumidores” para esses espaços. São feitos investimentos em parques temáticos;
melhorias no sistema viário de algumas áreas da cidade, além da ampliação do Aeroporto
local. Enfim, vem sendo feito todo um investimento na estratégia turística na Cidade do
Salvador. Em contrapartida, a gama de problemas – principalmente de cunho
sócio-econômico – que vêm se agravando a cada dia em nossa cidade, torna discutível a
eficácia desta estratégia, devendo-se, portanto, questionar e avaliar sua capacidade para
elevar o nível de desenvolvimento da Cidade, em termos sociais, e não apenas favorecer
melhorias em sua imagem.
9

Os Novos Rumos das Cidades


Após um final de Milênio marcado por diversas mudanças nos conceitos de
planejamento e gestão urbanos, hoje, a administração de uma cidade inspira-se nos
modelos de gerenciamento empresarial: busca-se a competitividade. O marketing, agora, é
urbano, e tem por objetivo atrair consumidores para esse produto.

Uma região urbana pode também aumentar sua competitividade a partir da


divisão espacial do consumo. (...) Os investimentos, no intuito de atrair o
consumo (...); cada vez mais se concentram na qualidade de vida, na valorização
do espaço, na inovação cultural e na elevação da qualidade do meio urbano
(inclusive a adoção de estilos pós-modernos de arquitetura e de desenho urbano),
nos atrativos de consumo (estádios esportivos, centros de convenções, shoppings
centers, marinas, praças de alimentação exóticas), entretenimento (a organização
de espetáculos urbanos temporários ou permanentes) se tornam facetas
proeminentes das estratégias de renovação urbana (HARVEY, 1996, p. 54).

Competir pode ser uma prática saudável, no momento em que pressupõe o


desenvolvimento da capacidade de inovação; enquanto pretende-se tornar os centros
urbanos atraentes por configurarem espaços – no sentido amplo do termo – propícios à
moradia, ao lazer e aos negócios, não só de quem vem de fora, como também à sua
população local. Por outro lado, esta mesma competitividade pode ser nociva, a depender
de como é administrada. É a questão da criação de uma imagem, quando Harvey (1996, p.
55) critica o fato de que “acima de tudo, a cidade tem que parecer como lugar inovador,
excitante, criativo e seguro para viver, visitar para jogar ou consumir”.

O termo parecer pode ser interpretado no sentido de que não é necessário que a
cidade como um todo tenha, realmente, todas essas características; mas é necessário
aparentar que as tem, sendo remodelada, pelo menos, nos pedaços que serão comprados: é
necessário apresentar uma imagem aos compradores da cidade. Nesse caso, as cidades são
vendidas com artigos de luxo a visitantes e usuários que podem pagar para estar num
ambiente perfeito. É assim que se escolhe uma cidade-mercadoria, seja para se fazer
negócios, seja para se fazer Turismo. É assim que a Cidade do Salvador está sendo
vendida: uma cidade turística. Agora, não só como a capital do carnaval e das festas
populares, mas também como uma cidade propícia ao turismo cultural.
10

Com tal finalidade, foi requalificada uma parte significativa do Centro Histórico, e
agora está se partindo para intervenções na área portuária da Cidade, com o objetivo de
colocá-la na “lista” das mais famosas do turismo costeiro mundial. Esse clima de
requalificação urbana – processo que Arantes (2000) denomina gentrification – obedece a
políticas urbanas globalmente criadas, para atender aos interesses do capital. Sendo assim,
temos um contexto político-econômico, no qual as “estratégias de desenvolvimento” são
definidas não apenas no âmbito local.

Impactos Sociais e Econômicos do Turismo na Cidade


O que se promete quando o Turismo é implantado numa cidade como sua atividade
fundamental, é o incremento do padrão da vida local, atração de investimento de capitais
externos, melhoria de sua infra-estrutura e indução à diversificação da sua estrutura
econômica; que são impactos positivos da atividade, quando esta é bem planejada. Outro
impacto positivo está no fato de se promover a preservação dos patrimônios histórico,
cultural e artístico da Cidade, além do aumento da sua produção. Cultura e arte atraem
turistas, e a possibilidade de sua comercialização, incentiva uma produção crescente destes
atrativos.

Para produzir o desenvolvimento da Cidade, o Turismo deve ter o efeito econômico


de aumentar o consumo de bens localmente produzidos. Quando o turista consome
produtos importados, em Salvador, tem-se uma atividade exógena: não há internalização
da renda ou qualificação de recursos humanos. Entra aí, a importância de se oferecer
trabalho à população local, e que esta, produza internamente os artigos consumidos pelos
turistas. O que não se trata, apenas, de artigos artesanais, mas de uma variedade que vai
desde à alimentação aos utensílios utilizados nos quartos dos grandes hotéis ou nos
restaurantes, por exemplo. Dessa forma, poder-se-ia dizer que existe integração entre o
Turismo e as outras atividades econômicas de Salvador. Entretanto, muitos dos artigos que
encontramos dentro dos hotéis e resorts, hoje, são produzidos fora de Salvador, e às vezes,
fora do país; o que além de não gerar trabalho para a população local, faz com que a renda
gerada pelo Turismo permaneça fora da Cidade, acentuando o desenvolvimento
geograficamente desigual.

Além dos impactos na geração de trabalho e renda, o Turismo pode, também


produzir outros impactos nas relações que se dão no espaço urbano; positivos ou negativos
11

isso vai depender da forma como a atividade é administrada. Um de seus impactos


negativos, que vem, a cada dia, tomando proporções maiores em Salvador é o turismo
sexual. Apesar das muitas campanhas promovidas pelos três níveis de governo, hotéis –
mediante a Associação Brasileira da Indústria Hoteleira (ABIH) – e diversas entidades
comunitárias, o turismo sexual e a prostituição infantil vêm crescendo em Salvador, bem
como em outras localidades – pequenas cidades, principalmente – onde a atividade
turística é implantada como estratégia de desenvolvimento, sem um trabalho prévio de
preparação e integração da população local.

Para que haja melhorias substanciais, em termos estruturais, na Cidade, que sejam
capazes de reverter à atual concentração de renda e os elevados índices de desemprego,
bem como da qualidade de vida da população, torna-se necessário uma maior integração
entre o Turismo e as outras atividades econômicas. Pois, considerar que Salvador tem
vocação turística, e que aí está a única solução para os seus problemas, sem considerar que
esta é uma atividade que tem seu desempenho condicionado a estratégias de política
econômica e social, pode acarretar em um processo de degradação da Cidade, tanto física
quanto socialmente.

O setor fundamental economia de Salvador sempre foi o terciário, e entre as décadas


de 1950 a 1980 – quando foram implantados a Petrobrás no Recôncavo, o Centro Industrial
de Aratu e o Complexo Petroquímico de Camaçari, a Cidade se fortaleceu como centro de
serviços para tais empreendimentos industriais, e para algumas regiões do interior do
Estado.

Nos últimos anos, a Bahia voltou a atrair (por meio de incentivos) indústrias
nacionais e estrangeiras; e este é um setor, cujos alguns ramos podem ser incentivados em
Salvador, tendo em vista os efeitos multiplicadores do investimento industrial e a criação
indireta de empregos provocada por ele. Todavia, uma fatia significativa das grandes
empresas que se localizavam em Salvador estão emigrando ou sendo absorvidas pelo
capital estrangeiro: a exemplo da maior rede de supermercados nordestina, que atualmente
não pertence a empresários brasileiros. Pode-se considerar, então, que está havendo
desnacionalização do comércio de grande porte, e o que sustenta Salvador, hoje, é o
terciário de pequeno e médio portes. E é nesse setor que a Cidade tem seu maior
empregador. O Turismo está interligado ao setor terciário, por demandar uma série de
serviços de apoio; e Salvador tem um forte potencial turístico, que pode ser bem
12

aproveitado. É importante haver investimentos para este setor, mas não se pode
considerá-lo responsável por sua dinâmica econômica.

Considerações Finais
No contexto atual, a crise econômica sob a qual nos encontramos, é resultado de
problemas estruturais, não só em Salvador, mas em todo o mundo, principalmente nos
locais de economia frágil. Geralmente, é em locais como esses que tem se procurado
desenvolver, através do Turismo, um modelo econômico teoricamente auto-sustentável.
Entretanto, como diz Santos (2000), quando se buscam soluções não estruturais para
problema estruturais como forma de superar uma crise, o resultado é a geração de mais
crise. Assim, utilização da atividade turística na Cidade do Salvador como estratégia de
desenvolvimento, nos últimos quinze anos, com o objetivo de revitalizar sua economia,
não vem trazendo os resultados esperados, por configurar-se em uma solução tratada de
forma superficial.

O objetivo aqui, não é atribuir à atividade turística a responsabilidade pelos


problemas urbanos da Cidade. Os problemas que afetam Salvador, hoje, são os mesmos
que afetam muitas outras cidades no mundo; eles são conseqüência da lógica do
capitalismo e de suas perversidades – que se agravaram com o advento da globalização. O
objetivo aqui é levantar alguns questionamentos: se o Turismo, enquanto estratégia de
desenvolvimento, não tem produzido desenvolvimento em Salvador – ao contrário, depois
de sua implementação, problemas como desemprego, concentração de renda, etc.,
continuam crescendo – por que continuar a insistir nesta atividade como solução para a sua
economia? Quais são as reais perspectivas de melhorias substanciais na estrutura de renda
e emprego, que sejam capazes de reverter a atual concentração de renda e os elevados
índices de desemprego, na Cidade, utilizando-se do atual modelo turístico? Não seria o
momento de se começar a pensar outras alternativas mais consistentes de desenvolvimento
para Salvador?

O Turismo é uma atividade importante, no sentido de que põe o nome da Cidade em


evidência, no mundo inteiro, o que implica na atração de investimentos também para
outros setores da economia. No entanto, a atração de capital externo e novos investimentos,
no contexto atual, também depende da “eficiência da cidade”. Isso quer dizer que uma
cidade com um serviço de transporte público satisfatório, distribuição de infra-estrutura
13

urbana de qualidade e qualificação da mão-de-obra local, pode significar uma vantagem na


atração de investimentos. Para quem quer investir, uma cidade que oferece qualidade de
vida à sua população, pressupõe redução de custos na contratação de funcionários e na
instalação da empresa. O que representa, também um diferencial, se os profissionais
precisam ser contatados fora da cidade ou do país (CAIXETA, 2000).

A crítica que norteia este trabalho não está na atividade turística, enquanto atividade
econômica; mas na forma como a estratégia turística vem sendo implementada em
Salvador: sem a adoção de políticas sociais, através das quais os impactos positivos do
Turismo – de valorização da cultura local, preservação do patrimônio arquitetônico, e
melhoria da renda e qualidade de vida da população – possam se sobrepor aos impactos
negativos, tornando a estratégia turística, realmente eficaz.

Referências Bibliográficas
ARANTES, Otília, MARICATO, Ermínia, VAINER, Carlos. A cidade do pensamento
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