A TEORIA DE GÊNEROS DO DISCURSO DE BAKHTIN NO HORIZONTE DE ESTUDOS DA LINGÜÍSTICA Rosângela Hammes RODRIGUES (Universidade Federal de Santa Catarina

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ABSTRACT: This paper aims at presenting and discussing the contributions that the speech genre and enunciative studies can bring to the Linguistics area. To do so, the considerations proposed by Bakhtin concerning this issue are initially highlighted, and in sequence it is presented the functioning of two specific uses of language, the demonstrative pronouns and some cases of modality, both extracted from a scientific research about genres, in order to demonstrate that the observation of these elements in the enunciative construction and in the genre can present new information, which can establish a dialogue with the linguistic studies: the pronouns mark the author’s axiological distance in relation to other enunciative constructions already uttered and the modality searches for molding the reader’s response-reaction or disqualifying his/her possible one, not wished by the author. KEYWORDS: speech genres; Bakhtin; demonstrative pronouns; modality; linguistic studies.

1. Introdução Em Marxismo e filosofia da linguagem (1988), Volochinov propõe o método sociológico para o estudo da língua, que parte da análise dos tipos de interação verbal, articulados com suas condições de produção, para chegar à análise das formas da língua. Bakhtin, em Problemas da poética de Dostoievski (1997), fala da relação entre os estudos da língua, objeto da Lingüística1, e os estudos do discurso, objeto de um conjunto de disciplinas (ainda a se constituir, na época), que nomeou como Metalingüística ou Translingüística2. Normalmente, o método sociológico é aplicado a pesquisas na área do discurso e dos gêneros, e discutem-se as contribuições da Lingüística para a análise de gêneros. Entretanto, as contribuições que o método sociológico e os estudos de gêneros podem trazer para a Lingüística quase não são abordadas: o diálogo entre esses dois campos de estudo nem sempre se apresenta como uma via de mão dupla. Neste artigo, partindo da concepção de que cada campo de investigação da linguagem tem suas especificidades, mas que, respeitando essa concepção, é possível e desejável o diálogo entre eles, objetivo apresentar e discutir as contribuições que as pesquisas de gêneros do discurso podem trazer para os estudos da Lingüística. Para tanto, na primeira seção, retomo a discussão que Bakhtin faz a respeito do texto como ponto de partida para o estudo do homem e da sua linguagem nas ciências humanas, sociais e da linguagem e a discussão de como o autor vê a problemática das especificidades e dos pontos de contato entre os estudos do campo do discurso e da língua. Na segunda seção, a partir de resultados de pesquisa a que cheguei com a análise do gênero “artigo assinado”, da esfera jornalística, mostro como os estudos de gêneros e enunciado podem dialogar com as pesquisas da Lingüística.

Bakhtin refere-se à Lingüística de sua época; muitas das observações que ele faz estão, hoje, incorporadas nas diferentes áreas que a integram. 2 Em alguns momentos, retomarei estes termos pela expressão Estudos do Discurso.

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. no campo dessas relações teóricas. da Filologia. a Sociolingüística e os Estudos do Discurso. Especificidades e relações entre os estudos do discurso e os da língua na voz do Círculo de Bakhtin Analisando a obra do Círculo de Bakhtin no diálogo da cultura humana. Segundo o autor. ao tratar da diferença de abordagem da obra literária pela Poética e pela Lingüística.. da Psicologia e da Filosofia da Linguagem da época para. como estrutura é do domínio da Lingüística (a composição do texto. escrito por Bakhtin em 1924. 1993a. pois esses enunciados também podem e devem ser definidos e estudados de modo puramente lingüístico. com as condições sociais. por exemplo. da Poética. pedagógica etc.]. ou seja. observa-se. as especificidades de cada campo do conhecimento e. a composição de um todo. por mais difícil que pareça e por mais tentador que seja aqui introduzir aqui ponto de vista alheios à lingüística. discursos. com as relações entre os interlocutores) é objeto de outros campos do conhecimento. No texto “O problema do conteúdo. Nessa citação. a análise lingüística pura pode ser levada mais adiante. mas estabelecida em cada momento de sua vida. entretanto. afirma que a concepção de língua única é uma expressão teórica dos processos históricos de unificação e de centralização lingüística. Mas. pode também “trabalhar produtivamente” para a Estética da Criação Literária e. quando afirma que a Lingüística. do material e da forma na criação literária” (1993a). 47. a “composição das massas verbais”). ou seja..2. ele salienta a necessidade de a Lingüística ampliar seu escopo de trabalho: diz que ela precisa ir além dos limites da oração para chegar até o texto. que surgiria nas décadas seguintes. que resume como as forças centrípetas da língua. diferentemente da composição que leva em conta a tarefa artística ou científica) ainda espera sua fundamentação: até hoje a lingüística ainda não ultrapassou cientificamente a oração complexa: este é o mais longo fenômeno da língua já explorado lingüística e cientificamente: tem-se a impressão de que a língua precisamente lingüística e metodologicamente pura de repente termina ali e de repente tem início a ciência. diálogos.. científica. etc.. Diz que a língua única não é dada. (BAKHTIN.. A sintaxe dos grandes conjuntos verbais (ou a composição como parte da lingüística. encontra-se o projeto de uma lingüística do texto. a língua como discurso.]. como fenômenos da língua. romances. como a Lingüística Textual. percebe-se que seus integrantes dialogam com autores da área da Lingüística. Não foi em todos os campos que a lingüística soube dominar uniformemente o seu objeto de forma metódica: [. pois este também pode e deve ser objeto de estudo como fenômeno da língua (numa abordagem diferente daquela que vê a obra como objeto estético). as possíveis inter-relações entre esses campos. Outra área de estudo delineada por Bakhtin. pontuar seu projeto de estudo da linguagem: a língua vista na interação. a Sociolingüística. também se utilizar dos serviços desta.. tratados. Além disso. p. inclusive. por seu turno. O texto3 compreendido como sistema de signos. de outro. que tem a ver com a finalidade extralingüística – artística. [. etc. salienta o diálogo possível. jornalística. redigido em 1934/35. Nesses diálogos. como dito. que o Círculo antecipa áreas de investigação hoje estabelecidas. O autor argumenta que o romance é um gênero literário assentado no plurilingüismo social. ainda não foi minimamente elaborada a seção que deve dirigir os grandes conjuntos verbais: longos enunciados da vida corrente. 1735 . grifo meu). também se pode perceber como o autor concebe. a poesia. ou seja. é focalizada no texto “O discurso no romance” (1993b). de um lado. ao dominar esse novo objeto e com nitidez metodológica. já o texto compreendido como enunciado (a composição do texto que leva em conta as tarefas artística. Para desenvolver essa posição. que ela se 3 A diferença entre texto como estrutura e texto como enunciado será abordada a seguir.

“Eis porque a língua única expressa as forças de união e de centralização concretas. de profissões. que. apenas o meio de comunicação discursiva 1736 . Comenta que a poética de Aristóteles e do neoclassicismo. a Filosofia da Linguagem. o autor discute a necessidade de um conjunto de disciplinas. Segundo o autor. Por isso. os limites da Lingüística. de épocas. apesar das suas diferenças. simultaneamente. como se pode ver na citação: A língua. A posição de uma coexistência de dois campos de pesquisa na área da linguagem também é apresentada pelo autor em “O problema do texto na lingüística. legitimamente.. obtido por meio de uma abstração absolutamente legítima e necessária de alguns aspectos da vida concreta do discurso” (BAKHTIN. Em razão disso. uma vez que ao lado das forças centrípetas da língua atuam as forças centrífugas. atuam constantemente os processos de descentralização e de “desunificação” da língua. na filologia e em outras ciências humanas: uma experiência de análise filosófica” (2003b) e em “Metodologia das ciências humanas” (2003c). muito complexo e multifacético. de maior ou menor envergadura de alcance social. [. coexistem línguas de diversas épocas e períodos da vida sócio-ideológica. de gerações. a palavra são quase tudo na vida humana. 155). p. a idéia da gramática universal de Leibniz e o ideologismo concreto de Humbold. de incontáveis pretendentes a ela. 1993b. “encarnadas” numa língua “comum”. em parte. 81). 1997. posteriormente. pois. Para Bakhtin. que decorrem da relação indissolúvel com os processos de centralização sócio-política e cultural” (BAKHTIN. O objeto da lingüística é apenas o material. torna-se foco de atenção.] a língua é historicamente real. de linguagens aristocráticas afetadas que estão morrendo. 1993b.. Contudo. em cada enunciado cruzam-se todos esses processos e as forças centrípetas e centrífugas da língua. enquanto transformação plurilíngüe. uma vez que “todas as visões de mundo socialmente significativas têm a faculdade de espoliar as possibilidades intencionais da língua por intermédio de sua realização concreta específica” (BAKHTIN. que teria como objeto de estudo os aspectos da vida concreta do discurso que ultrapassam. lingüística e ideológica. com uma ou outra esfera ideológica de aplicação. não se deve pensar que essa realidade sumamente multifacetada que tudo abrange possa ser objeto apenas de uma ciência – a lingüística – e ser interpretada apenas por métodos lingüísticos. Enfim. a Lingüística e a Metalingüística estudam um mesmo fenômeno concreto. nascidas e formadas no curso das tendências centralizadoras da vida lingüística. 1993b. p. Em Problemas da poética de Dostoievski. em cada momento de sua formação. a Lingüística e a Estilística. ideológicas e verbais. as forças centrípetas da língua. “no sentido exato da palavra”. que. fervilhante de línguas futuras e passadas. mas em línguas sócio-ideológicas: de grupos sociais. ao lado da centralização verboideológica e da união. a língua se diferencia não apenas em dialetos lingüísticos. (BAKHTIN. opondo-lhe barreiras. mas o estudam sob diferentes aspectos e ângulos de visão.. como mencionado na introdução. atuam no meio do plurilingüismo social. 181. de parvenus lingüísticos. Bakhtin também antecipa pesquisas na área do discurso. o discurso (“a língua em sua integridade concreta e viva e não a língua como objeto específico da lingüística. de gêneros do discurso etc. dos estudos sociolingüísticos. grifo meu)). ignoravam esse plurilingüismo dialogizado.opõe ao discurso diversificado. bem como serviram à tarefa de centralização e unificação das línguas européias. a concepção de língua única é real enquanto força que supera o plurilingüismo. em cada momento dado. ao propor dois grandes pólos de estudo no campo da linguagem. expressam as forças centrípetas da vida social. p. 97). nomeado por ele de Metalingüística ou Translingüística. Para o autor. a língua como meio vivo e concreto nunca é única. de maior ou menor sucesso. interessados na variação e mudança lingüística.

O segundo pólo é o do acontecimento irrepetível do enunciado (o texto visto na sua condição de enunciado). ou mesmo as relações entre os textos num enfoque rigorosamente lingüístico do texto. e do pólo do discurso e do enunciado (pólo 2). em “Os gêneros do discurso” (2003a). a língua como sistema de signos e o texto como estrutura. mas sob diferentes aspectos e ângulos de visão. os limites entre elas sejam muitas vezes violados. O primeiro pólo. 2003b). Não há como ter acesso ao homem social e a sua vida senão através dos textos por ele criados ou por criar. estuda-se o enunciado. mas que o estudo da natureza do enunciado e dos gêneros nos diversos campos da atividade humana tem uma importância muito grande para quase todas as áreas da Lingüística e da Filologia. o texto pode ser analisado teoricamente de uma dupla perspectiva: do pólo da língua e do texto propriamente dito (pólo 1). gramática normativa. mas que só se manifesta na situação social de interação. muito complexo e multifacetário. Entretanto. nem as relações entre eles (dialógicas). nesses escritos. nem os gêneros do discurso. dentro de uma comunicação discursiva de uma dada esfera social. Diz. (BAKHTIN. Na primeira orientação. ou seja. recortam pedaços heterogêneos desse dado primário. enfim. de onde os pesquisadores obtêm os fatos lingüísticos de que necessitam. Conjuntamente. elaboração de dicionários. 324). ainda. abstraído de sua situação social. estilística da língua. Para o autor. ou ainda a potencial língua das línguas (abordagem do estruturalismo ou da glossemática) etc. partindo do texto. afirma que a Lingüística subestimou o estudo das formas do discurso. À Lingüística compete a língua como sistema: o estudo das relações entre os elementos dentro do sistema da língua ou dentro do texto. Pode-se afirmar que esses dois pólos de investigação do texto correspondem aos dois campos de estudo da linguagem propostos pelo autor em Problemas da poética de Dostoievski: a Lingüística e a Metalingüística. passam da sinalização do objeto real (que é o homem social que “fala” e seu discurso) a uma delimitação do objeto de investigação científica. na relação dialógica com outros textos (enunciados). estuda-se a língua do autor ou de uma época. essas disciplinas partem do texto. pois a palavra (discurso) é ao mesmo tempo parte constitutiva e objeto de estudo comum das ciências humanas e da linguagem (2003d). na prática. está relacionado com tudo aquilo que é e pode ser reproduzido e repetido no texto. apesar de as finalidades de investigação poderem ser muito variadas. À Metalingüística. pois toda investigação acerca de um material lingüístico concreto. Assim. a língua nacional. que pertence ao texto. dos gêneros do discurso. A respeito da relação entre eles. que materializam seu discurso. e discute a questão da metodologia de pesquisa nas ciências humanas e sociais. dos gêneros do discurso. Bakhtin. o texto é o dado (realidade) primário e o ponto de partida de qualquer disciplina das ciências humanas (2003b). como história da língua. porque a constituição social do homem e da sua linguagem é mediada por ele. Bakhtin salienta que esses campos estudam um mesmo fenômeno concreto. o discurso. embora. as relações dialógicas etc. (BAKHTIN. diz ele. que a desconsideração da natureza do 1737 . O autor enfatiza que elas devem e podem completar-se mutuamente. ou seja. inevitavelmente está relacionada com enunciados concretos (orais e escritos). os gêneros do discurso. p.[sic] mas não a própria comunicação discursiva. a língua como discurso: o estudo das relações entre os enunciados e a realidade. A respeito das contribuições dos Estudos do Discurso para a Lingüística. entre os enunciados e o autor. 2003b. sistematiza a relação entre discurso e enunciado e enunciado e texto. o estudo da comunicação discursiva. Bakhtin problematiza a noção de texto. como já dito. mas não fundir-se. nem as formas da comunicação. produzidos nas diferentes esferas da atividade humana e da comunicação. tais disciplinas adotam direções variadas. Na segunda orientação. as relações dialógicas entre os enunciados (a orientação do enunciado para os enunciados já-ditos e para os enunciados préfigurados). talvez em função de sua heterogeneidade e diversidade. não o enunciado de verdade. Na área dos estudos da linguagem.

para a reação resposta ativa do interlocutor (enunciados préfigurados) e para seu autor. e é através dos enunciados que a vida entra na língua). discorre sobre a noção de enunciado e levanta as características que o diferenciam da palavra e da oração: a alternância dos sujeitos do discurso. Voltando à questão dos estilos de língua e de sua relação com o enunciado e os gêneros. ou seja. 4 1738 . como unidade da comunicação discursiva. a investigação acerca da gramática de uma língua (especialmente gramática normativa) não pode prescindir das observações e incursões estilísticas. como o sintagma. em Os gêneros do discurso. como se fosse borrada a fronteira entre os dois campos. porém só será produtivo se fundado na constante observação da natureza genérica (de gênero do discurso) dos estilos da língua e no estudo preliminar dos gêneros. na relação dialógica que mantém na orientação para o objeto do seu discurso (enunciados já-ditos). “Pode-se dizer que a Gramática e a Estilística convergem e divergem em qualquer fenômeno concreto da linguagem: se o examinamos apenas no sistema da língua estamos diante de um fenômeno gramatical. fraseológicos e gramaticais da língua. 269). com precisa distinção metodológica. Bakhtin (2003a) exemplifica o seu papel para a Estilística e a Gramática. são ora relacionados ao campo da Gramática. p. Embora o enunciado. está indissoluvelmente ligado aos outros dois aspectos do enunciado: o conteúdo temático e a composição. uma vez que não faz parte da intenção do enunciado. um estilo individual se constitui como um epifenômeno. a conclusividade e a relação do enunciado com o autor do enunciado e com os outros participantes da comunicação discursiva. Muitos fenômenos. São essas relações e o gênero do discurso que são determinantes na construção do estilo. e dos gêneros do discurso permite compreender de uma maneira mais correta a natureza das unidades da língua como sistema: a palavra e a oração4. pois é preciso situar o enunciado na cadeia da comunicação discursiva. absorver um estilo particular. que diz respeito à seleção dos recursos léxicos. Segundo o autor. A respeito das contribuições das pesquisas do enunciado e dos gêneros para a Lingüística. que a realizam. mas se o examinamos no conjunto [totalidade] de um enunciado individual ou do gênero do discurso já se trata de fenômeno estilístico” (BAKHTIN. Esses dois pontos de vista (gramatical e estilístico) sobre um mesmo fenômeno concreto da língua não devem ser mutuamente impenetráveis. em qualquer campo da pesquisa científica. 2003a. ora ao campo da Estilística. Na grande maioria dos gêneros. pois a escolha de uma determinada forma gramatical pelo autor é um ato de estilo. o objeto do discurso e o falante com sua atitude valorativa. levam ao formalismo e a uma abstração excessiva. possa apresentar traços da individualidade do falante. a Estilística. entra como elemento na unidade genérica (de gênero) do enunciado. Bakhtin considera que um dos aspectos do enunciado refere-se a seu estilo. A questão é mais complexa. essa possibilidade não é comum. sob a base da unidade real do fenômeno lingüístico. nem substituídos um pelo outro de maneira mecânica. que. o enunciado. não é a sua finalidade. O estilo do enunciado entra como elemento e “reflete” o estilo do seu gênero: ele não pode ser Bakhtin. pois nem todos os gêneros são capazes de absorvê-lo e "refleti-lo" da mesma maneira. O autor observa que uma concepção profunda do enunciado e das peculiaridades dos gêneros pode assegurar uma solução correta desse complexo problema metodológico. pois debilitam o vínculo da linguagem com a vida (a língua integra a vida através de enunciados concretos. devem combinar-se organicamente. o estilo lingüístico pode ser objeto de estudo específico de disciplina independente. Bakhtin (2003a) diz que embora essas disciplinas se diferenciem substancialmente da Estilística. O estilo. O autor questiona a Estilística por apenas considerar os seguintes fatores como determinantes do estilo: o sistema da língua. e que o estudo da natureza do enunciado. por ser individual.enunciado e a indiferença frente à diversidade dos gêneros do discurso. por sua vez. Em relação à Gramática e à Lexicografia.

ou seja. existe um gênero. a partir daí. Além de destacar a importância dos estudos dos gêneros para a compreensão dos estilos da língua. Para o autor. analisá-los como meios/recursos para a construção do enunciado. eu diria. as contribuições que os resultados dessas pesquisas podem dar para os estudos da língua. os estilos individuais. 5 1739 . cujo objetivo foi analisar o gênero do discurso artigo assinado. pois o estilo de um enunciado é o do seu gênero. há uma forte tendência de se ressaltar a relevância dos estudos lingüísticos para a análise de gêneros. embora Bakhtin as tenha ressaltado nos seus escritos. bem como os de língua. com vistas à apreensão de suas regularidades. a situação social de interação do gênero. 3. É por essas razões que o autor argumenta que o estudo dos gêneros do discurso [ou. buscando apreender que funções exercem na relação dialógica entre enunciados. especialmente para abordar a dimensão verbal dos enunciados. temático e axiológico). no trecho em que Volochinov fala da ordem metodológica para o estudo da língua numa abordagem sociológica. a análise do cronotopo do artigo. os estilos individuais dos enunciados. Como mencionado na introdução. pois a mudança dos estilos de língua está indissoluvelmente ligada à mudança dos gêneros. que são tecidas tendo como referência os resultados de pesquisa de doutorado (RODRIGUES. portanto. b) conseqüentemente. que parte da situação social de interação. a terceira etapa é um passo metodológico para o estudo das formas da língua “na língua” e não para o estudo das formas da língua nos enunciados e nos gêneros. Do meu ponto de vista. antes. Portanto. são estilos genéricos de determinadas esferas da atividade e comunicação humana. analisar a dimensão social (em relação constitutiva com a dimensão verbal) como elemento constitutivo do enunciado e do seu gênero. de língua e a mudança dos estilos de língua tendem para o estilo dos seus gêneros. Contribuições da teoria de gêneros do discurso para os estudos lingüísticos Nesta seção. Onde existe um estilo. Os dados. o intercâmbio das pesquisas de gêneros do discurso com as pesquisas lingüísticas] é indispensável para uma abordagem produtiva dos problemas da Estilística. artigos assinados de jornais impressos veiculados online. tendo como primeiro passo de análise o estudo da esfera da comunicação jornalística no contexto da cultura e. passa pela análise dos enunciados e dos gêneros para. temporal. foram analisados a partir das noções de enunciado e de gênero e de fundamentos metodológicos baseados nas seguintes considerações: a) olhar os textos como enunciados significa analisá-los como elos na cadeia da comunicação jornalística.compreendido se não se considerar a sua natureza genérica. que começa pela análise das interações verbais. Em síntese. atualmente. apresento e discuto algumas contribuições que as pesquisas sobre gêneros podem trazer para a Lingüística. com todos os seus elementos constitutivos (concepção de autor e interlocutor. 2001). Na próxima seção. Bakhtin salienta as contribuições dos estudos de gêneros para o campo da Lingüística. No entanto. o papel que o estudo dos gêneros e dos enunciados tem para a compreensão das formas da língua. isto é. nos estudos sobre gêneros. nas suas relações dialógicas com outros enunciados jáditos e com a reação-resposta do leitor (enunciados pré-figurados). horizonte espacial. da esfera jornalística. A justificativa para tal procedimento é buscada em Marxismo e filosofia da linguagem. c) analisar a dimensão verbal considerando os elementos lingüísticotextuais como partes do enunciado e não como elementos no sistema da língua ou no texto como estrutura. fazer a análise das formas da língua na sua interpretação habitual5. diz que a separação entre estilos de língua e gêneros é nefasta para a elaboração de uma série de problemas históricos. busco demonstrar a contribuição da teoria de gêneros para o estudo da língua a partir de resultados de pesquisa. Esse método. como segundo. ainda pouco se discutem. ao postular a inter-relação necessária entre os estudos da Metalingüística e da Lingüística. quer enfatizar.

ao apresentar as principais estratégias de progressão textual. O articulista apresentava uma outra fala no seu discurso. como se pode observar nos exemplos8: (1) Em 1957. entre as quais a empresarial. É essa articulação que objetivo apresentar. o grande renovador da imprensa brasileira. A função dos pronomes demonstrativos e da modalização nos estudos lingüísticos será apenas brevemente mencionada.Em relação à análise da dimensão verbal do artigo. observei a recorrência de certos elementos lingüísticos. Nos estudos do texto. concordância de gênero e número)” (KOCH. esse). Na análise dos dados. nem constituía uma questão de função anafórica (que poderia ser substituída. não era a de criar uma distância espacial ou temporal do objeto do discurso em relação aos participantes da interação. a autora. que esse argumento não se sustenta. Carlos Lacerda era dono e ícone. p. Odylo Costa. embora exemplifique sua análise quase que exclusivamente com os pronomes essa e esse. mas era a de produzir um sentido de distanciamento axiológico do articulista face ao discurso de um outro. na íntegra. são desenvolvidas com grande desenvoltura pelos negros do Brasil. aborda as funções anafórica. (3) No Brasil. não a assumindo. 6 1740 . logo vêm aqueles que temem criar dificuldades para o emprego dos jovens. (2) O tempo é de consciência. o demônio. Os pronomes aquela. observei que a função dos pronomes demonstrativos aquele. os artigos de onde vêm os exemplos. os pronomes demonstrativos são definidos como tendo a função de situar a posição de um ser ou objeto no tempo e no espaço. catafórica e dêitica dos demonstrativos e. apenas de consciência. O momento é de tirar aquela idéia de que negro só é bom no futebol. A redução do enorme déficit da Previdência Social tem um impacto positivo na geração de mais investimentos e empregos para todos. pelos pronomes essa. Embora não fosse objetivo da pesquisa articular os resultados dessa parte da análise com os estudos lingüísticos e as contribuições que as pesquisas de gêneros podem trazer para os estudos lingüísticos. o Corvo. que foram analisados como elementos do estilo do enunciado e do gênero e cuja função busquei apreender. Outras atividades. era o lugar em que nos reuníamos para saber as maldades que o jornal soltaria no dia seguinte contra Juscelino. por exemplo. considerados como elementos coesivos que “não fornecem ao leitor/ouvinte quaisquer instruções de sentido. 33). filho. uma vez que o objetivo é demonstrar como esses elementos funcionam do ponto de vista do discurso. essa articulação se mostrava pertinente. No livro A coesão textual (1989). 1989. não é possível transcrever. Nos estudos lingüísticos6. era o secretário. tendo como referente os participantes da interação. porém. 8 Por questão de espaço. Penso. para os negros brasileiros que lentamente começam a perceber a importância de não ser somente cidadãos e passam a lutar contra o preconceito velado que há décadas assola este País. na música e na dança. mas apenas instruções de conexão (por ex. depois da sessão da Câmara dos Deputados. Koch englobava os pronomes demonstrativos no grupo dos elementos anafóricos remissivos não-referenciais. Em Desvendando os segredos do texto (2002). menciona a função axiológica dos demonstrativos na retomada do discurso. eles são analisados na abordagem da progressão textual.. o santo guerreiro para uns. a partir da análise dos pronomes demonstrativos e de alguns casos de modalização. ao levantar a questão do uso discursivo dos determinantes (artigos e demonstrativos) da formas nominais referenciais. mas se afastava dela. a "Tribuna da Imprensa". que ele introduzia e avaliava no seu enunciado. aquela e aquilo7. aquilo indicam um afastamento temporal e espacial do objeto ou ser em relação aos participantes da interação. 7 Essa função às vezes aparece desempenhada pelos pronomes essa e esse. ou contrapondo-se a ela. quando se fala em criar trabalho para idosos. geralmente. e tudo o mais para aqueles que eram alvo de sua pena de fogo. aquele. a fera do Lavradio.

no relato. e que o denominavam como demônio e corvo. E o mesmo quer a alcaldia paulistana. A questão da modalização na linguagem pressupõe a distinção. Os pronomes demonstrativos são um dos recursos lingüísticos que materializam essa inter-relação com o discurso já-dito do outro. esse processo de distanciamento valorativo que o autor mantém com outros discursos por meio dos pronomes demonstrativos é acompanhado de outros termos avaliativos de desqualificação e distanciamento: “aquela coisa [o discurso é reificado]”. o pronome aquele indica o distanciamento ideológico que os articulistas mantêm face ao discurso racista e ao discurso da política do Programa de Saúde Suplementar. que lhe pode dar diferentes matizes de sentido. a noção de modalidade foi favorecida. [. o distanciamento valorativo do articulista marca-se em relação aos discursos/valores que o ditado popular e a história citada põem em discussão. o que produz um efeito de vagueza da autoria. distinguindo-se tradicionalmente as seguintes modalidades: aléticas (referentes ao eixo da existência. dos que eram o alvo das críticas de Carlos Lacerda. Em 2 e 6. que é a opção em uma construção sintática semelhante no mesmo texto: “Uns viam uma sátira e buscavam carapuças. sob o título de renegociar. determinando o valor de verdade do conteúdo das proposições). diante do qual o articulista mantém uma relação dialógica de distanciamento e desqualificação. outros. ao contrário dos que o consideravam um guerreiro. como se pode ver no exemplo 3. “aquela velha história”. Também esses pronomes marcam não só um enquadramento de distância face ao discurso do outro. uma mensagem cifrada aos golpistas que pululavam na cena política”. sempre marcam a posição valorativa do seu autor. No exemplo 1. Como ressalta Bakhtin. o discurso citado é sempre um discurso no discurso. os mais velhos carregam consigo uma experiência profissional valiosa que pode ser transferida aos mais jovens. onde os que afirmam que a criação de emprego aos mais idosos criaria dificuldades para o emprego dos jovens são referenciados como aqueles.] A Copa de seleções a cada dois anos só seria mesmo boa para aquelas confederações que subjugam os clubes e vivem de explorá-los. Já o conceito de modalidade tem chamado a atenção tanto de lógicos como de lingüistas. na lingüística contemporânea. as "dívidas dos municípios". no enunciado [no sentido de proposição].. respectivamente. pelas novas áreas de estudo. se chama de pai para filho (6% ao ano e três décadas para pagar). como a Pragmática e a Semiótica. (5) Na verdade acho que Blatter está inteligentemente repetindo aquela velha história de pôr o bode na sala para depois causar um grande alívio ao tirá-lo de lá.. Assim. a presença de aqueles é uma questão de estilo do enunciado. à crença de um estado de coisas) e deônticas (que se 1741 . Aquela coisa que. tendo no âmbito da Lógica a sua origem. pois poder-se-ia ter em lugar a palavra outros. Para Cervoni (1989). melhorando a sua empregabilidade. (6) O CNSP. os enunciados não são neutros. portanto. mas também em relação ao seu autor. com sentido de completar o que o SUS oferecia ou mesmo substituí-lo. Nos exemplos 4 e 5. também. Eles são um dos meios lingüísticos de expressão dos acentos de valor do articulista. um discurso enquadrado (avaliado) pelo que o cita. epistêmicas (que se referem ao saber. o pronome aqueles materializa o distanciamento axiológico que o autor marca. (4) O governo Fernando Henrique Cardoso negociou a dívida dos Estados em condições excepcionais. Muitas vezes.Além do mais. de um dito (conteúdo proposicional) e de uma modalidade. Entretanto. a Susep e o Ministério da Fazenda seriam os coordenadores da política daquilo que se passou a chamar de Saúde Suplementar. no popular.

Afinal. procuram orientar a sua reação-resposta ativa (verbal ou não. (9) Não há país que apresente equilíbrio nas contas da seguridade social. porque esse é o único caminho capaz de igualar brancos. É desta forma que Ducrot e Todorov (1998) definem a modalização. a estrutura tributária e os programas sociais devem ser reformados de modo a remover os incentivos à aposentadoria precoce. seu sentido também tende para a Alexandrescu (1976) menciona esta função da modalização. Dito de outro modo. das normas). Nos dados. 9 1742 . japoneses. que ele introduzia e desqualificava (distanciava-se axiologicamente) no seu enunciado. mas funcionam como um modo de sua interpelação. especialmente a reforma constitucional. (10) Esse fatalismo equivale ao desprezo a anos de luta contra ditaduras militares e regimes unipessoais. 3) os benefícios das aposentadorias devem ser compostos de um “mix” de recursos públicos e privados. eles se apresentavam como materializações da relação dialógica do enunciado do articulista com o enunciado reaçãoresposta do leitor9. e ocupar áreas residenciais nobres. eram traços ou da reação-resposta que o articulista desejava do leitor ou da projeção que ele fazia da possível reação-resposta ativa do leitor (enunciados pré-figurados). O segundo passo. Nesses primeiros exemplos. (8) No momento em que o Brasil enfrenta dificuldades. como em “é preciso” e “há necessidade”. como se pode observar nos exemplos: (7) Primeiro vem o alimento da auto-estima. Equivale a recusar o caminho da democracia substantiva que. ao defini-la como a atitude do locutor para com seu enunciado ou para com seu interlocutor. rasgando de vez a carapuça de que preto nasceu para ser empregado. permanece viável. como uma atitude assumida pelo sujeito falante com respeito ao conteúdo. quando analisados na totalidade do enunciado. com o dictum. extremamente decisivo. o que engloba todos os leitores. o que levou a OECD a propor uma série de medidas. e todas as raças estão incluídas em tal conceito. das quais destaco as seguintes: 1) Os sistemas de aposentadoria.referem ao âmbito da conduta. Os indicadores modais são considerados como a “lexicalização” dessas modalidades. Ou seja: as oportunidades devem ser iguais para todos. alemães. Essa é a visão mais geral a respeito da modalização. imediata ou retardada). como se verá nos exemplos a seguir. os indicadores modais funcionam como um modo de orientação para o leitor: eles não introduzem um possível enunciado do leitor. ou seja. ou seja. como “sinalizadores” lingüísticos da atitude do falante perante o seu enunciado (proposição). italianos. (11) Há necessidade de repensar a Federação. apesar dos pesares. a favela. É preciso descer o morro. É preciso insistir nele. Esse leitor normalmente é generalizado no artigo. observei que a presença de determinados indicadores modais. Há necessidade de os brasileiros conscientes começarem a exigir coragem e patriotismo dos dirigentes nacionais. serviçal ou marginal. é preciso que todos ofereçam sua contribuição concreta para que seja um país melhor. oriundas do quadro internacional e do próprio atraso nos ajustes internos. etc. enfrentando o golpismo grosseiro ou ilustrado e o canto das sereias desencantadas. Os bancos escolares precisam ter mais negros sentados. índios. 2) as leis trabalhistas devem ser modificadas de forma a estimular e assegurar a atividade dos mais idosos. quando ele aparece marcado. a humanidade é nobre. é que os espaços devem ser ocupados.

além de funcionarem como lugares de interpelação do leitor. [. pode-se dizer. no âmbito do discurso de autoridade. pela ótica da modalização. A relação dialógica para com o leitor orienta-se como uma estratégia no sentido de impor um determinado discurso (um ponto de vista. inclusive. como se a América tivesse resolvido. de matéria e espírito. demarcam as fronteiras entre o discurso do articulista e o discurso citado do leitor. uma opinião) como a verdade. do outro lado do Atlântico. O contraste com o resto do mundo poderá explicar o fenômeno.] Sumariamente. uma certa fugaz euforia européia. O autor cria um efeito de cautela em relação ao que diz. A presença dos indicadores modais do tipo “é preciso”. O articulista. Em 13. Nos exemplos. as expressões “é certo que” e “está longe de ser o caso” são elementos que enquadram um possível enunciado do leitor e. “há necessidade” e “deve-se”. Essa é uma das funções discursivas centrais da modalização no gênero artigo.generalização. No exemplo 12. uma espécie de recuo. marcas de uma modalização deôntica do campo da obrigação. os indicadores modais são marcas da projeção que o articulista faz da reação ativa do leitor face ao seu [do articulista] discurso. constrói um discurso de autoridade e interpela o leitor a aderir a seu horizonte apreciativo. por meio do seu ethos. o emprego dos modalizadores “pode-se dizer” e “poderíamos dizer” é uma estratégia de reação do próprio autor. os operadores modais recaem sobre um possível enunciado do interlocutor. é uma nova fronteira da sempre velha e renovada curiosidade do homem em saber a origem e as motivações de seus atos. Clinton fez um discurso não menos eufórico sobre o Estado da União. como em “é preciso que todos” e “Há necessidade de os brasileiros conscientes”. também introduzem possíveis reações-resposta (enunciados) dos leitores.. Nos exemplos 13 e 14. ao qual o autor se opõe. são traços dessa relação assimétrica entre autor e leitor.. A crise está a generalizar-se inexorável e perigosamente. a psicanálise. Mas os operadores modais. da Ásia à América Latina.]. que será objeto de apreciação valorativa (que se verterá em reação-resposta) do leitor. O uso desse tipo de modalização cria um efeito de “amenização” dos sentidos e da interação10.. durante seus mandatos. da Rússia à África. com ele. (13) O primeiro mês do ano trouxe-nos o euro e.. o Consu não deverá abrir mão de definir os produtos de segurosaúde e o Conselho Nacional de Seguros Privados e a Susep terão competência de fiscalizar o cumprimento de seus atributos. como a norma a ser seguida. 1743 . Ou seja. constituindo-se seu discurso como que uma reação ao discurso possível do leitor. poderíamos dizer que a psicanálise consiste em: [. num processo de contra-palavra refutativa do articulista: (12) Envolvendo as muitas dimensões da natureza humana. podendo-se situar o artigo. Evidentemente. Os modalizadores 10 Esse funcionamento da modalização é comum no discurso científico. (14) Esperam-se para o ano de 1999 grandes discussões no campo certo – Ministério da Saúde e Consu sobre planos de saúde e idem sobre seguros de saúde no Ministério da Fazenda-CNSP-Susep. essa modalização apresenta a questão do caráter hierárquico da situação de interação do artigo e da faceta de autoridade em relação ao leitor. aceitando-o como a verdade. que são valoradas e destituídas de credibilidade. contra uma possível objeção do interlocutor quanto ao conceito de psicanálise apresentado. Está longe de ser o caso. todos os problemas – os seus e os dos outros – e só lhe faltasse agora recolher a sagração universal. É certo que.

em todas as esferas da existência das línguas. p.. em geral constitui um dos problemas fundamentais da filosofia da linguagem. seguem três exemplos da modalização analisada. p. da Rússia à África. onde se projeta a antecipação de suas possíveis contestações. É claro que esse problema não pode ser abordado corretamente se se recorre aos conceitos usuais de palavra e língua como foram definidos pela lingüística e pela filosofia da linguagem não-sociológicas. (VOLOCHINOV. extraídos de textos do Círculo de Bakhtin. no curso do processo de expressão exterior. Consu e Ministério da Fazenda-CNSP-Susep... 37).].. da lingüística e da estilística que está fundamentada nelas. de outro gênero e de outra esfera social. Está longe de ser o caso. De todo modo. observa-se a presença de uma relação dialógica orientada para o leitor. da Ásia à América Latina. É verdade que. Essa possível reação-resposta antecipável e inserida no discurso do articulista cria no artigo um efeito de uma conseqüência “já prevista”. [leitor] – Sim. e se apresenta como uma mudança quantitativa. (17) A passagem da atividade mental interior à sua expressão exterior ocorre no quadro de um mesmo domínio qualitativo. 1988.. onde o modalizador “evidentemente” se direciona a um possível questionamento do leitor diante da divisão das tarefas propostas para o Ministério da Saúde. marcados pela arregimentação dos indicadores modais. (15) Além das fronteiras da filosofia da linguagem. 1744 . indagações. dos seus enunciados pré-figurados. que são valorados e contestados pelo articulista.destacados constituem-se como “pistas” de um diálogo não desenvolvido do autor e do leitor. A apresentação dos pronomes demonstrativos e da modalização baseou-se na análise do seu funcionamento no gênero artigo assinado. uma certa fugaz euforia européia. [. A crise está a generalizar-se inexorável e perigosamente. ainda está longe de ser compreendido. opera-se a passagem de um código a outro (por exemplo: código mímico/código lingüístico). (VOLOCHINOV.. 85). p. mas o conjunto do processo não escapa do quadro de expressão semiótica. [articulista] – Mas Clinton fez um discurso eufórico sobre o Estado da União . (16) Por isso.[articulista] Situação discursiva semelhante observa-se no exemplo 14. embora seja antes uma estratégia para evitar essa possível contra-palavra do leitor. correntemente.]. É preciso fazer uma análise profunda e aguda da palavra como signo social e compreender seu funcionamento como instrumento da consciência. ou seja. e que mostram essa dialogização interna do enunciado e o seu confronto axiológico. É verdade que nesta última década [década de 30] esses fenômenos já começaram a atrair a atenção da ciência da linguagem e da estilística. embora com presença maior ou menor. esse funcionamento deve se observar também em enunciados de outros gêneros. A título de ilustração do modo de funcionamento dessa modalização em outros enunciados.. os fenômenos específicos do discurso permanecem inexplorados em quase sua totalidade. Nesses dois últimos exemplos. com ele. pois a análise tomou como parâmetro geral a observação desses fenômenos lingüísticos no todo do enunciado. é certo que Clinton fez um discurso sobre [.. 52). na sua relação dialógica com outros enunciados. mas o conhecimento amplo e capital deles. O contraste com o resto do mundo poderá explicar o fenômeno. 1988. o problema da consciência individual como problema da palavra interior. 1993b. que poderia ser reconstruído como: – O primeiro mês do ano trouxe-nos o euro e. (BAKHTIN.

2003d. p. Considerações finais Com a apresentação das considerações de Bakhtin e do modo de funcionamento dos pronomes demonstrativos e da modalização. a abordagem dos gêneros intercalados estabelece interface com os estudos de textualização. 1997. Os gêneros do discurso. (BAKHTIN. 4. na filologia e em outras ciências humanas: uma experiência de análise filosófica.. Metodologia das ciências humanas. p. 4. São Paulo: Martins Fontes. [autor] – Mas no curso do processo de expressão exterior.. ed. p. _____. não somente os estudos lingüísticos trazem contribuições para os do discurso. 4.. respeitando as diferenças teóricas. Apontamentos. pois ajuda a explicar a heterogeneidade da composição textual. 393-410. Nos exemplos 15 e 17. Como diz Bakhtin. Estética da criação verbal. Referências ALEXANDRESCU. p. 2003b. Nenhuma corrente científica [.. M. do material e da forma na criação literária. ed. Lagages. Problemas da poética de Dostoiévski. ed.. _____. 1993a.. ed. 2. São Paulo: Martins Fontes. In: _____. é como se essa parte do enunciado apresentasse um diálogo não desenvolvido: – A passagem da atividade mental interior à sua expressão exterior ocorre no quadro de um mesmo domínio qualitativo. 1745 . Sem brigas na linha de demarcação.. a possível resposta do leitor fica enquadrada entre “É verdade que” e “mas”. Estética da criação verbal. In: _____ . Sur les modalités croire et savoir. e se apresenta como uma mudança quantitativa. 13-70. Questões de literatura e de estética: a teoria do romance.. Rio de Janeiro: Forense Universitária. que é avaliada negativamente (refutada) pelo autor. Quanto mais demarcação. rev. só que demarcações benevolentes. Estética da criação verbal. 4. opera-se a passagem de um código a outro (por exemplo: código mímico/código lingüístico). 1976. In: _____ . São Paulo: Martins Fontes. no curso do processo de expressão exterior. 367-392.] é total. Em resumo. Como já dito. [. mas estes trazem contribuições para se entender o funcionamento das unidades lingüísticas na língua e no texto. objetivei demonstrar como os estudos de gêneros podem contribuir para com os de língua. O problema do conteúdo. 3. ed. 2003d. correntemente. _____. a meta foi demonstrar que. In: _____ . opera-se a passagem de um código a outro (por exemplo: código mímico/código lingüístico). p. 372). ed. 261-306. sept. melhor. Cooperação. mas o conjunto do processo não escapa do quadro de expressão semiótica. M. _____. 19-27. Existência de zonas fronteiriças (nestas costumam surgir novas correntes e disciplinas)..] Não se pode nem falar de ecletismo: a fusão de todas as correntes em uma única seria mortal para a ciência [. p. Há ainda outros dados que permitem demonstrar o diálogo possível: o estudo das relações dialógicas e sua materialização nos enunciados traz contribuições para a Estilística. Estética da criação verbal. p. S.. São Paulo: Ed.]. 2003a. [interlocutor] – É verdade que. _____. Unesp/Hucitec. n. [autor] 4.Esses exemplos mostram o mesmo funcionamento da modalização apresentado na análise do gênero artigo: os indicadores modais introduzem e “emolduram” uma possível reação-resposta do leitor. 2003c. 307-335. BAKHTIN. O problema do texto na lingüística. 43. In: _____ . São Paulo: Martins Fontes.

TODOROV. VOLOCHINOV. I. KOCH. São Paulo: Contexto._____. 2001. V. São Paulo: Cortez. 1989. V. Unesp/Hucitec. 1989. A coesão textual.. São Paulo: Hucitec. R. São Paulo: Perspectiva. 71-210. 1988. O discurso no romance. CERVONI. Desvendando os segredos do texto. Tese (Doutorado em Lingüística Aplicada e Estudos da Linguagem) – Programa de Estudos Pós-graduados em Lingüística Aplicada e Estudos da Linguagem. A constituição e o funcionamento do gênero jornalístico artigo: cronotopo e dialogismo. São Paulo: Ed. ______. Marxismo e filosofia da linguagem: problemas fundamentais do método sociológico na ciência da linguagem. Questões de literatura e de estética: a teoria do romance. 4. H. 3. N. ed. ed. Dicionário enciclopédico das ciências da linguagem. ed. 2. São Paulo. A enunciação. T. 1998. DUCROT. 1746 . 2002. Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. São Paulo: Ática. O. ed. J. RODRIGUES. 3. 1993b. p. In: ______.

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