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BAYLEY, David H.

Padrões de policiamento: Uma Análise Internacional Comparativa;


tradução Renê Alexandre Belmonte, 2ª edição, São Paulo. Editora Universidade de São
Paulo, 2002.

CAPÍTULO 1: CRIANDO UMA TEORIA DE POLICIAMENTO


O autor aborda três questões: Como os sistemas policias modernos se desenvolveram?
Que tarefas cabem a polícia? E quão independentes são as forças policiais, enquanto
atores sociais? A pesquisa inicia em 1976, a publicação é realizada em 1985. O autor
tem vinte anos de pesquisa com uma concentração na Índia, Japão e Estados Unidos.
A manutenção da ordem é a função essencial do governo. Não apenas a própria
legitimidade do governo é em grande parte determinada por sua capacidade de manter a
ordem, mas também a ordem funciona como critério para se determinar se existe de fato
algum governo. (...). As atividades policiais também determinam os limites da liberdade
de uma sociedade organizada, algo essencial para se determinar a reputação de um
governo. (BAYLEY, 2002, p. 17).
Policiamento... é repugnante moralmente. Coerção, controle e opressão são sem dúvida
necessários na sociedade, mas não são agradáveis. (BAYLEY, 2002, p. 18).
A polícia se apresenta numa grande variedade de formas. (BAYLEY, 2002, p. 19).
Polícia, (...) refere-se a pessoas autorizadas, por um grupo social para regular as relações
interpessoais dentro do grupo, com o emprego da força física. Esta definição possui três
partes essenciais: força física, uso interno e autorização coletiva. (...) a polícia se
distingue, não pelo uso da força, mas por possuir autorização para usá-la. (...) policiais
são agentes executivos da força. (BAYLEY, 2002, p. 20).
A força policial é autorizada por um grupo social a aplicar a força fica dentro desse
grupo. Sem esses elementos, a polícia não existe. (BAYLEY, 2002, p. 22)
Para a grande maioria das pessoas, as forças policiais mais autoritárias e importantes em
suas vidas são aquelas públicas, especializadas e profissionais. Essas três características
são quase sinônimo de policiamento moderno. (BAYLEY, 2002, p. 23)
Públicas ou privadas: refere-se a natureza da agência policial. (BAYLEY, 2002, p. 24)
Especialização: Uma força policial especializada se concentra no uso da força; uma
força policial não especializada possui autorização para fazer uso da força, mas é capaz
de fazer muitas outras coisas também. (BAYLEY, 2002, p. 24)
Profissionalização: Refere-se a uma preparação explícita para realizar funções
exclusivas da atividade policial. (...) A profissionalização envolve recrutamento por
mérito, treinamento formal, evolução na carreira estruturada, disciplina sistemática e
trabalho em tempo integral. (BAYLEY, 2002, p. 25).
Em relação a eficácia:
Primeiro: Embora a prevenção do crime e a melhoria da segurança pública sejam
consideradas importantes, tais como respeito à lei, ausência de comportamento imoral,
criação de confiança pública, demonstrações de simpatia e preocupação, abertura a
controle qualificado, capacidade para resolução de problemas gerais, proteção da
integridade dos processos políticos e tratamento igualitário das pessoas. Julgar o
desempenho policial é um processo multifacetado e controverso, cujos elementos
mudam de lugar e de época para época. (BAYLEY, 2002, p. 30)
Segundo: Assumindo que o combate ao crime é a principal característica do
desempenho policial, não é possível confiar nas informações ao seu respeito. A medida
habitual é a quantidade de crimes relatados à polícia. Mas na verdade os índices de
crimes relatados são extremamente instáveis, mesmo quando o processo de registro não
é deliberadamente manipulado. Para complicar mais ainda, um trabalho policial ativo e
cuidadoso pode ter efeito paradoxal de aumentar, ao invés de diminuir, o número de
crimes relatados. Os índices de crimes relatados são, assim, muito pouco confiáveis para
serem usados como medida de eficácia policial. (...) Pesquisas sobre vitimização
solucionam alguns dos problemas encontrados com as estatísticas sobre crime relatado,
mas tem suas próprias dificuldades, especialmente o baixo índice de resposta dos
pesquisados. Também são muito caras... (BAYLEY, 2002, p. 30)
Terceiro: o crime, que aparece numa variedade enorme de formas, foi ligado a diversos
fatores que não tem nada a ver com a atividade policial – idade, sexo, raça, renda,
desemprego, industrialização, urbanização, senso de comunidade, valores,
desorganização psicológica. (...) a comparação entre diferentes jurisdições policiais é
complexa demais para ser viável. (BAYLEY, 2002, p. 31)
Quarto: medidas de eficácia tais como taxas de solução de crimes, que normalmente
traduzem a proporção entre o número de prisões e o número de crimes relatados, são
completamente artificiais. Não apenas se baseiam em números de crimes relatados que
não são confiáveis, como medem o que a polícia faz – realiza prisões – e não o que a
polícia alcança com isso – a prevenção dos crimes. Taxas de solução de crimes podem
ser consideradas medidas da eficácia policial apenas se punir for considerado o objetivo
primário da polícia. Se sua razão de ser for a proteção do público, então as taxas de
solução de crimes não oferecem informação relevante. (...) a verdade nua e crua é que
confiar no que a polícia está fazendo atualmente para proteger a sociedade é uma
questão de fé, não de ciência. (BAYLEY, 2002, p. 31)
CAPÍTULO 2: O DESENVOLVIMENTO DA POLÍCIA MODERNA
O policiamento nos dias de hoje é dominado por agências públicas, especializadas e
profissionais. (...) acredita-se que os policias são funcionários do governo, selecionados
e treinados para esta carreira, cuja responsabilidade é o cumprimento da lei através do
uso da força. (BAYLEY, 2002, p. 35)
A polícia se torna pública, quando se torna paga por e controlada pelas comunidades,
agindo coletivamente. Tanto pagamento como orientação são necessários para distinguir
caráter público do caráter privado. (BAYLEY, 2002, p. 36)
A polícia é pública se for paga e dirigida pela comunidade que também autoriza o
policiamento. A polícia é privada se a comunidade que a autoriza não paga por ela nem
a direciona. Essa formulação é compatível com uma realidade importante do ato de
governar: a delegação de autoridade para agir pela comunidade. (BAYLEY, 2002, p.
39)
O policiamento público é uma evolução antiga, não moderna. É tão antigo quanto a
existência de comunidades soberanas que autorizam a coerção física e criam agentes
dirigidos e mantidos por elas. (BAYLEY, 2002, p. 40)
É necessária uma certa complexidade social antes que surja o policiamento público.
(BAYLEY, 2002, p. 46)
O policiamento público substitui o policiamento privado quando a capacidade dos
grupos de prover a ação protetora eficiente torna-se inferior a segurança na sociedade
em que estão incluídos. (...) isto acontece apenas quando ocorre em conjunto com o
aumento de insegurança social a um nível inaceitável, como o resultado percebido da
queda da vitalidade das bases tradicionais de proteção da comunidade. (BAYLEY,
2002, p. 47)
Uma mudança na proteção policial de privada para pública representa um aumento da
capacidade reguladora da comunidade máxima. (BAYLEY, 2002, p. 48)
Uma forte razão para a participação militar contínua no policiamento em todos os
lugares foi a necessidade de se lidar com erupções prolongadas, severas ou
generalizadas de violência cometidas por um grande número de pessoas. (BAYLEY,
2002, p. 54)
Outra força bastante usada em toda Europa para lidar com as erupções de violência
coletiva. Essa era a milícia -forças voluntárias irregulares recrutadas localmente, que
recebiam armas e normalmente eram montadas. (BAYLEY, 2002, p. 55)
A profissionalização é um atributo moderno da polícia mais claro do que o caráter
público ou a especialização. Também é uma característica mais complexa. A
profissionalização conota uma atenção explícita dada à conquista da qualidade no
desempenho. Indicadores mínimos de uma polícia profissional são o recrutamento de
acordo com padrões específicos, remuneração alta o suficiente para criar uma
carreira, treinamento formal e supervisão sistemática por oficiais superiores.
Decerto modo apalavra profissionalização transformou-se num tipo de arte nos círculos
policiais dos dias de hoje, abrangendo características como a especialização funcional
dos policiais, uso de tecnologia moderna, neutralidade na aplicação da lei, uso
responsável de discrição e uma certa medida de autonomia. (p.60).
A profissionalização ocorre, quando surge a necessidade de instrumentos confiáveis
de controle através do uso de força, seja porque as comunidades perderam sua
vitalidade, ou porque a autoridade de um novo regime está sendo questionada. (...)
Embora a mobilização de recursos seja necessária para a profissionalização, a
quantidade de riqueza disponível para os governos, acima de um nível mínimo, não é
um fator determinante. (...) No período moderno, a profissionalização tem sido
considerada essencial para uma administração eficiente. (p. 63).
A profissionalização não está ligada a onda de crimes ou violência. Embora as
mudanças no policiamento, em qualquer grau, sejam justificadas em termos de
insegurança e perturbação, é difícil achar uma ligação de causa e consequência entre
crime e profissionalismo. A profissionalização é qualitativa e complexa demais para que
possa ser apenas uma consequência de a criminalidade atingir níveis críticos. (p. 64).

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