Você está na página 1de 7

MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO

UNIVERSIDADE FEDERAL DO TRIÂNGULO MINEIRO


CURSO DE GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA

ECONOMIA AÇÚCAREIRA NO BTASIL COLONIAL: ENGENHO E VISÕES DE


ANTONIL EM “CULTURA E OPULÊNCIA DO BRAZIL”

Maria Eduarda Silva

Uberaba
2021
ECONOMIA AÇÚCAREIRA NO BTASIL COLONIAL: ENGENHO E VISÕES DE
ANTONIL EM “CULTURA E OPULÊNCIA DO BRAZIL”

Maria Eduarda Silva

Texto acadêmico apresentado à disciplina


História do Brasil Colonial do Curso de
História, da Universidade Federal do
Triângulo Mineiro Profa. Dra°. Ilana
Peliciari Rocha.

Uberaba
2021
INTRODUÇÃO
A obra “Cultura e Opulência do Brasil” foi escrita pelo jesuíta Antonil em 1711 e se
propõe a fazer uma descrição sobre as riquezas presentes na colônia brasileira, dentre elas o
açúcar. Essa obra foi censurada e queimada por ordem régia.
Nela é feita uma minuciosa descrição da estrutura dos engenhos, das técnicas de
produção do açúcar e da estrutura em que se organizavam aqueles que ali vivam: senhor de
engenho, feitores, escravizados, dentre outros. Destacando assim a complexidade tanto do
cultivo da cultura do açúcar quanto das relações que eram estabelecidas.
Essas descrições são para Andreia Mendolago Medeiros o principal motivo para que
essa obra tenha sido impedida de ser esplanada e ser queimada, dado que a coroa não desejava
que suas riquezas fossem divulgadas de modo tão amplo e explicito.
O presente trabalho se propõe a analisar a visão da estrutura de engenho apresentada em
uma parte da obra de Antonil e fazer um pequeno histórico do cultivo do açúcar no Brasil
Colonial, apresentando desde sua instalação no território até sua baixa na questão produtiva,
atrelado depois à descrição da estrutura do engenho e como essa constituição era importante
para o processo e para o sucesso da indústria açucareira.
Utilizando o texto “O Nordeste açucareiro no Brasil colonial” de Stuart Schwartz e
Técnicas de produção de açúcar no Brasil colonial: as edições do livro Cultura e opulência do
Brazil de
Andreia Mendolago de Medeiros, busco fazer comparações e análises das visões
propostas e “Cultura e opulência do Brazil” para se constituir uma análise das visões dadas na
obra.
Além disso, é importante se ter em mente que essas análises feitas por Antonil dão um
direcionamento para compreender a cultura organizacional e o estabelecimento de relações e
hierarquias na sociedade de engenho.
As proposições aqui feitas, buscam fragmentar o trecho escolhido e fazer uma análise
de modo fragmentado para se entender cada aspecto que se quis descrever.
1. BREVE HISTÓRICO DA CULTURA DO AÇÚCAR E ENGENHOS NO BRASIL
COLONIAL
A introdução do cultivo de açúcar em território brasileiro se dá por volta da década de
1530, causando profundas transformações do território colonial, essencialmente na região
nordeste. Chegando a ser o principal produtor dessa cultura entre os anos de 1550 a 1670.
A colônia brasileira dispunha de características essenciais para o sucesso da indústria
açucareira sendo elas a localização, solos de massapé – principalmente na região de
Pernambuco – a ampla disponibilidade de água e o clima tropical com uma regularidade de
chuvas que contribuía para o sucesso desse cultivo.
O efetivo sucesso dessas implantações e prevalência dos engenhos se inicia no governo
de Tomé de Souza e seu sucessor Mem de Sá, com a destruição de povos originários e concessão
de sesmarias que favoreceram a construção de vários engenhos dando um monopólio no
mercado europeu ao açúcar brasileiro até meados do século XVII. Durante esse período houve
nas capitanias da Bahia e Pernambuco uma expressiva expansão do número de engenhos no
território e corroborou com esse sucesso do produto brasileiro.
Essa prosperidade e expansão se deu por questões como os preços favoráveis do produto
no mercado e o aumento de sua demanda na Europa, além disso, a paz que havia na região do
Atlântico pelo clima de paz entre Espanha e as Províncias Unidas, como exposto por Stuart
Schwartz:
“Essa expansão parece ter sido fomentada por preços favoráveis e a crescente demanda
na Europa nos últimos anos do século XVI e nas primeiras décadas do século XVII. Os preços
locais do açúcar branco no engenho na Bahia aumentaram de aproximadamente 500 réis por
arroba em 1570 para quase 1$600 em 1613. As boas colheitas e a paz no Atlântico em
decorrência da trégua entre a Espanha e as Províncias Unidas depois de 1609 levaram a um
clima de prosperidade e expansão.”
Entretanto, essa expansão e prosperidade é interrompida e a balança se torna
desfavorável para Portugal e a prosperidade de suas produções devida à crise generalizada na
região do Atlântico e principalmente as hostilidades entre Espanha e Holanda. Com a tentativa
de invasão em Salvador em 1624 e a posterior conquista de Pernambuco em 1630, ocasionaram
conflitos que danificaram grande parte dos engenhos presentes nesses territórios, como
significou também uma grande perda de posse de uma grande e importante área produtiva que
antes pertencia a Portugal.
Mesmo após a expulsão dos holandeses a situação de Portugal não se reergue de modo
efetivo devido à alta concorrência no mercado com o açúcar das colônias holandesas, inglesas
e francesas na região das Antilhas. Mesmo com os preços do açúcar subindo, essa concorrência
ocasionou um aumento nos custos produtivos.
Os engenhos eram estruturas complexas com um sistema organizacional repleto de
relações entre diversos indivíduos, funcionando essencialmente com trabalho de escravizados
que eram expostos às jornadas de trabalho exaustivas. O processo de produção de açúcar era
repleto de longos e difíceis processos de trabalho, analisados pelo jesuíta Antonil que serão
discutidas a seguir.
2. A ESTRUTURA E ORGANIZAÇÃO DO ENGENHO SEGUNDO ANTONIL
Na obra que produz intitulada “Cultura e Opulência do Brasil”, Antonil faz uma
descrição da estrutura dos engenhos e descreve como essa organização se dava na arte da
produção açucareira no território brasileiro, suas escrituras mostram uma valorização desse
sistema e desse processo produtivo.
Tal valorização é perceptível no trecho em que cita:
“Quem chamou às oficinas, em que se fabrica o açúcar, engenhos, acertou
verdadeiramente no nome [...] são uns dos principais partos e invenções do engenho humano,
o qual, como pequena porção do Divino, sempre se mostra, no seu modo de obrar, admirável.”
O Schwartz faz relatos que de fato era dito que o nome engenho se dava por
antonomásia, pois eram um “amplo teatro da engenhosidade humana”, “máquinas maravilhosas
que requerem arte e muita despesa” (SCHWARTZ, 2014, p.353).
O processo produtivo do açúcar era composto por diversos processos integrados, os
quais são: cultivo, moagem, cozimento, depuração e embalagem que dependem de vários
indivíduos com funções diferentes.
Antonil descreve as funções presentes no seguinte trecho:
“Servem ao senhor do engenho, em vários ofícios, além dos escravos de enxada e
fouce que têm nas fazendas e na moenda, e fora os mulatos e mulatas, negros e negras
de casa, ou ocupados em outras partes, barqueiros, canoeiros, calafates, carapinas,
carreiros, oleiros, vaqueiros, pastores e pescadores. Tem mais, cada senhor destes,
necessariamente um mestre de açúcar, um banqueiro e contrabanqueiro, um purgador,
um caixeiro no engenho e outro na cidade, feitores nos partidos e roças, um feitor-mor
do engenho, e para o espiritual um sacerdote seu capelão, e cada qual destes tem
soldada.” (ANTONIL, 1711).
Com esse trecho é possível perceber as amplas funções necessárias à produção, os
indivíduos e relações que eram presentes nessa estrutura. Andreia Medolago de Medeiros diz
no artigo Técnicas de produção de açúcar no Brasil colonial: as edições do livro Cultura e
opulência do Brazil que essas escolhas eram importantes para um cultivo bem-sucedido visto
que, os conhecimentos necessários à produção do açúcar teriam sido adquiridos com a prática
de tais oficiais (MEDEIROS, 2012, p. 31).
No parágrafo que se segue ele faz uma descrição de todo o necessário para os indivíduos
poderem trabalhar:
“Toda a escravaria (que nos maiores engenhos passa o número de cento e cinqüenta e
duzentas peças, contando as dos partidos) quer mantimentos e farda, medicamentos,
enfermaria e enfermeiro; e, para isso, são necessárias roças de muitas mil covas de
mandioca. Querem os barcos velame, cabos, cordas e breu. Querem as fornalhas, que
por sete e oito meses ardem de dia e de noite, muita lenha; e, para isso, há mister dous
barcos velejados para se buscar nos portos, indo um atrás do outro sem parar, e muito
dinheiro para a comprar; ou grandes matos com muitos carros e muitas juntas de bois
para se trazer. Querem os canaviais também suas barcas, e carros com dobradas
esquipações de bois, querem enxadas e fouces. Querem as serrarias machados e serras.
Quer a moenda de toda a casta de paus de lei sobressalente, e muitos quintais de aço
e de ferro. Quer a carpintaria madeiras seletas e fortes para esteios, vigas, aspas e
rodas; e pelo menos os instrumentos mais usuais, a saber, serras, trados, verrumas,
compassos, regras, escopros, enxós, givas, machados, martelos, cantins, junteiras,
pregos, plainas. Quer a fábrica do açúcar paróis e caldeiras, tachas e bacias e outros
muitos instrumentos menores, todos de cobre [...].” (ANTONIL, 1711)

Com isso vamos que ele faz uma descrição de todos os processos e ferramentas
necessárias à produção açucareira. Dessa perspectiva vemos a complexidade dos processos e
ferramentas necessárias a essa produção. Para a época era um emprego tecnológico
considerável e como expõe Medeiros e Schwartz, houve uma busca pela evolução dessa
tecnologia empregada.
Vale ressaltar também que Antonil destaca a numerosa presença da mão-de-obra
escravizada nos engenhos, eram estruturas grandes que necessitavam de um numeroso
compêndio de trabalhadores.
Além disso, com as falas de Antonil, percebemos o quão longo era esse processo e
duravam um tempo extenso. Schwatz nos traz proposições também sobre esse tempo longo de
trabalho ao expor: durante a safra, a cana era cotada à luz do dia, mas os engenhos começavam
a funcionar às 4 horas da tarde e continuavam até aproximadamente 10 horas da manhã
seguinte, funcionando assim entre dezoito e vinte horas por dia. (SCHWARTZ, 2014, p.353).
Ao final do documento, Antonil faz uma última descrição do necessário para o
funcionamento do engenho que eram as moradas dos indivíduos que faziam parte daquela
sociedade, além disso, a presença de uma capela também:
“São finalmente necessárias, além das senzalas dos escravos, e além das moradas do
capelão, feitores, mestre, purgador, banqueiro e caixeiro, uma capela decente com
seus ornamentos e todo o aparelho do altar, e umas castas para o senhor do engenho,
com seu quarto separado para os hóspedes que, no Brasil, falto totalmente de
estalagens, são contínuos; e o edifício do engenho, forte e espaçoso, com as mais
oficinas e casas de purgar, caixaria, lambique e outras cousas [...].” (ANTONIL, 1711)
Com esse excerto podemos ver por fim a importância da presença do aparato religioso
na estrutura social do engenho.
CONCLUSÃO
Após a análise do documento de Antonil, é perceptível como a estrutura do engenho era
complexa e repleta de várias particularidades específicas que tornavam aquela localidade uma
sociedade complexa com ofícios e diversas relações, onde todos possuíam demandas e
necessitavam de determinadas ferramentas.
Essas estruturas e a tecnologia empregada nela – ainda que não muito avançada em
certos aspectos – era factual para que a indústria açucareira prosperasse e Portugal tivesse o
monopólio desse produto durante muito tempo.
Com descrições como essas feitas pelo jesuíta, temos um vislumbre breve de como se
dava essa organização e como as relações e hierarquias estavam relacionadas a como se
organizava, além disso, é notório também como as crenças daqueles indivíduos dominantes se
manifestavam nas relações do que ali viviam.
REFERÊNCIAS
ANTONIL, J. A. Cultura e Opulência do Brasil. 1711.
MEDEIROS, Andréia Medolago de. Técnicas de produção de açúcar no Brasil colonial: as
edições do livro Cultura e opulência do Brazil. 2012.
SCHWARTZ, Stuart B. O Nordeste açucareiro no Brasil colonial. FRAGOSO, J. L. R.
GOUVÊA, Maria de Fátima. O Brasil Colonial. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, pp. 337-
378, vol. 2, 2014.

Você também pode gostar