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Império/Papado

Os séculos XI, XII e XII no Ocidente Europeu ficaram marcados pela confrontação entre o
Pontífice da Igreja, assim como as várias personagens associadas a este, com os sucessivos e
vários imperadores do Sacro Império Romano Germânico. Estes conflitos em muito se
associam à separação do poder espiritual e poder temporal. Isto leva a uma reforma no seio
da Igreja Católica, que ambos gostariam de controlar hegemonicamente. Segundo alguns
historiadores a questão do conflito entre Império e Papado começa logo no ano de 800,
com a coroação, por parte do Papa, de Carlos Magno. Segundo os autores de A Idade Média
no Ocidente, o Papa Leão III terá coroado primeiramente Carlos Magno e só posteriormente
aclamado pelo público. Esse seguimento de acontecimentos não tem a ordem que
tradicionalmente teria. Isto leva então que o Papa Leão III, ao coroar primeiro o imperador,
considere o poder temporal vindo de Deus, estando este submetido ao poder espiritual,
pois a coroação é feita por Deus, representado pelo seu intermediário na terra (Papa) que
detém o poder espiritual, sobrepondo-se assim o poder espiritual.
Desde o sucedido acima referido, Carlos Magno tentou sempre "sair" do jogo da Igreja,
coroando ele próprio o próximo imperador. É ainda importante referir nesta parte
introdutória os imperadores Otanianos, que foram os grandes teóricos do Sacro Império.
Acrescenta-se a estes ainda o facto de terem sido eles, mais propriamente a partir de Otão
III, que a escolha do novo Papa cai totalmente na mão dos imperadores.
Com a entrada no novo milénio, a Igreja encontra-se numa grave crise interina, dando-se
assim o início de uma reforma, denominada de Reforma Gregoriana, mas que tem início
antes do pontificado de Gregório VII.
Existiam, portanto, vários problemas que teriam de ser corrigidos dentro do seio da Igreja.
Em primeiro lugar, problemas de ordem moral, falamos da simonia, ou seja, da compra e
venda de cargos e dignidades eclesiásticas, e do nicolaísmo portanto do casamento dos
clérigos.
A esta questão junta-se ainda o interesse de homens laicos a cargos religiosos, o que está
inteiramente ligado ao domínio que o poder imperial exerce sobre o poder papal. E. Mitre
afirma que, perante tal situação, o Império acreditava que a regeneração da igreja passava
pela tutela do poder imperial sobre os cargos eclesiásticos. Enquanto que pelo lado da
Igreja, a reforma é visto como uma espécie de "libertação eclesiástica".
Exemplo deste controlo papal por parte dos imperadores é a figura de Henrique III (1039-
1056) que, ao ir a Roma, para ser coroado imperador, depõe Gregório VI devido à acusação
de adultério, substituindo-o por Clemente II que era alemão e da sua inteira confiança.
Numa outra ocasião impulsiona o pontificado de Leão IX, em 1049. Este Papa foi um grande
reformador, condenando os clérigos simoníacos. Acrescenta-se-lhe ainda uma luta perdida
contra a fixação de normandos no sul da Itália, que será usado pelo pontificado. À sua
morte, em 1054, surge desta vez um Papa do "partido imperial", tal como o seu antecessor
Vítor II.
À morte de Henrique III dá-se um problema para o poder imperial, devido à menoridade do
sucessor, o futuro Henrique IV, o que resulta na eleição de Estevão IV, escolhido pelo
"partido papal" e posteriormente à eleição de Nicolau II, sem que qualquer autorização
imperial fosse necessária. É com este Papa que se dá o concílio em Latrão, em 1059. Define-
se que os clérigos não podem receber cargos, funções ou igrejas das mãos dos senhores
laicos, o que poderia levar à não influência do poder laico sobre a decisão da escolha do
Papa. Sendo que a eleição só pode ser feita por bispos e arcebispos. Neste concílio também
se condenou o nicolaísmo.
Deste pontificado é ainda de referir a forma como se trata o assunto normando, pois
procede-se à aceitação destes no sul da Itália, mas como vassalos da Santa Sé. Com estas
alterações, o Papado assume-se como uma potência separada do Sacro Império e pronto a
opor-se, o que efetivamente acontece no pontificado de Alexandre II, quando Guilherme, o
Conquistador, depois de dominar a Inglaterra, se põe sobre a alçada do Papa. Cada vez
menos a Cristandade se resume ao Império.
É neste contexto que Henrique IV atinge a maioridade (1069), tendo pouco depois Gregório
VII chega ao seu pontificado, levando então as questões Império e Papado ao extremo. Em
1075, a Reforma Gregoriana atinge o seu ponto alto, quando no sínodo de Roma, é lançado
o Dictatus Papae. Existindo portanto com vinte e sete preposições onde se defende a
primazia pontifícia sobre qualquer outro poder, e a autoridade do Papa acima de qualquer
outro poder na Cristandade, podendo depor qualquer entidade laica de qualquer região,
incluindo o Imperador. Além destas determinações, no mesmo sínodo, foram formalmente
proibidos as investiduras laicais sobre cargos eclesiásticos. Criaram-se legados pontifícios,
enviados papais a qualquer região que tivesse mais poder do que os bispos locais. Passou a
er obrigatório os bispos irem a Roma receber das mãos do Papa o bálio. Procurou também a
unidade na liturgia de maneira a existir uma coesão na Cristandade. Com este vasto leque
de medidas, Gregório VII procurava, portanto, demonstrar a supremacia do Papado face ao
Império.
Com a subida ao trono por parte de Henrique IV dá-se a questão dos investidores. Henrique
IV, apoiado pelos bispos germânicos, propõe a deposição do Papa Gregório VII, o que
resulta na sua excomunhão, somando-se ainda as dignidades régias a este retirados. Uma
grande instabilidade foi criada na Alemanha, o que levou Henrique IV a pedir perdão ao
Papa, no célebre episódio de Canossa, em 1077, episódio esse que é para alguns uma vitória
amarga do Papado. Pois, pouco tempo depois Gregório VII volta a excomungar Henrique IV
e este tenta novamente a deposição do pontífice, escolhendo um antipapa, Clemente III. Em
1085, Gregório VII pede ajuda aos normandos para fugir de Roma e nesse mesmo ano
morre. A este sucedem papas de espírito reformador, mas mais moderados, destaca-se
Urbano II que, em 1095, prega a primeira cruzada, apelando a que toda a Europa se unisse
contra o inimigo em comum, os infiéis. Mostrou-se assim como líder espiritual de toda a
Cristandade. E. Mitre aponta também como fator importante deste pontificado a
aproximação dos normandos ao Condado da Toscana, com o objetivo de atacarem o
imperador.
Quando Henrique V sobe ao trono, existe um grande extremar de relações com o Papado.
As lutas entre o poder do Papado e do Império mantiveram-se, mesmo quando em 1111
(Concílio de Sutri), Henrique V e Pascoal II assinaram um acordo. Pouco depois Pascoal II é
aprisionado e obrigado a aceitar laicos nos cargos religiosos. Com o agudizar da situação da
instabilidade na Alemanha, é ainda no reinado de Henrique V que se dá a assinatura da
Concordata de Worms, em 1122, entre o imperador e o Papa Calisto II. Este tratado põe fim
à investidura laica pelo báculo e o anel, mantendo a investidura pelo centro, seguido do
juramento de fidelidade. Dá-se então a separação entre o poder temporal e espiritual. Após
a Concordata de Worms e o Concílio de Latrão, Roma assume-se, portanto, como cabecilha
da hierarquia religiosa, o que politicamente vai ter repercussão. Os bispos após esta
situação saem com uma posição privilegiada, assumem-se como autênticos principados
eclesiásticos como é referido pelos autores de A Idade Média no Ocidente, a Concordata de
Worms põe fim à questão dos investidores laicos, mas não às pretensões hegemónicas que
ambas têm.
À morte de Henrique V, o império entre em grande instabilidade, pois Henrique V não deixa
descendentes diretos e nomeia o seu sobrinho, Frederico de Suábia, para lhe suceder. O que
não é bem visto pela aristocracia germânica, que escolhe Lotário III, Duque da Saxónia, que
conta com o apoio da casa da Baviera. Ora, este confronto leva a que o império mergulhe
novamente numa intensa fase de guerras interinas, que vai ter consequências ao nível do
Papado. Com a morte de Honório II surge o cisma no seio da Igreja: enquanto que Inocêncio
II é apoiado por vários reinos e pelo Império; a velha família imperial e o rei normando
apoiavam Anacleto II. Esta situação resolve-se quando este último morre, resolvendo-se os
problemas com Inocêncio II no segundo Concílio de Latrão. Com o passar do tempo as
disputas entre as casas de Hohenstaufen e Welf vão dividir as sociedades alemã e Haliana,
criando-se assim dois partidos que lutam pelo poder imperial, os Guelfos (Welf) e os
Gibelinos (Hohenstaufen). Com a morte de Lotário III sobe ao trono Conrado III, do partido
dos Gibelinos, mas sucede-se que nenhum destes consegue efetivamente impor a
autoridade na Alemanha e Itália.
É neste contexto que, em 1152, surge Frederico I, Barba Ruiva, e este procura reforçar a
autoridade régia na Alemanha e afirmar a sua soberania em Itália, tentou entrar em acordos
tanto com o Duque da Baviera como com o Papado, mas esta situação rapidamente altera-
se devido à tentativa de controlo das cidades italianas por parte do poder imperial. Com a
morte de Adriano IV ocorre um novo cisma, já que Alexandre III não era reconhecido pelo
Imperador que nomeia o antipapa Vítor IV. Esta dupla luta de Frederico I leva-o à desgraça,
pois é derrotado pelas cidades italianas que se agruparam na liga lombarda, estando
obrigado a assinar um tratado de paz. A partir de então, Frederico I tanta alcançar por via
diplomática o que não alcançou pela força das armas, chegando a um consenso com
Alexandre III. Da via diplomática de Frederico Barba Ruiva, destaca-se o casamento de seu
filho, Henrique VI com a filha e herdeira do rei normando normando, Constança, o que
resultaria na unificação destes dois territórios. Em 1190 Henrique VI sucede a seu pai, que
morre na 3ª Cruzada. Este vai ter a missão de resolver velhas questões com os Guelfos, bem
como o problema da Sicília, já que na Sicília existe a aclamação de outro rei, Tancredo. Com
a morte de Tancredo «, Henrique VI impõe-se finalmente na Sicília, contra os interesses
papais, pois não era visto com bons olhos a unificação territorial.
Após a sua morte, sobe ao pontificado Inocêncio III. Segundo alguns historiadores este Papa
instaurou uma espécie de teocracia, menos radical do que a Gregoriana, mas separando a
plena soberania que só o Papa detém de poder político que os soberanos recebem de Deus.
Desta forma, Inocêncio III defende que o poder espiritual é superior ao poder temporal e
intervém diretamente em reinos neutros, como na deposição de João Sem Terra, mas
intervém principalmente no Império, como quando protege Frederico, filho de Henrique VI,
durante a sua menoridade. Inocêncio protege o menor com a garantia da separação da Itália
da Alemanha, apoia portanto Filipe da Suábia, tio de Frederico, contra os Guelfos que
propõem Otão IV. Com a morte de Filipe da Suábia, a aristocracia passa a apoiar Frederico,
que chega em 1215 ao trono.
Frederico II, ao querer portanto, uma Itália e Alemanha vai reacender as disputas com o
Papado devido ao domínio do poder universal. Portanto, entra em conflito com Gregório IX
e Inocêncio IV, que retomam os ideais de Inocêncio III.
Frederico II é excomungado e entra em conflito com a Liga Lombarda. É posteriormente
novamente excomungado, mas invade os estados da Igreja e impede que o Papa reúna um
novo concílio, sendo que o Papa Inocêncio IV foge para Lyon, onde apela a uma nova
excomunhão e deposição de Frederico II. O Papa morre em 1250, subindo ao trono Conrado
IV que governa até 1273. A partir de então inicia-se um grande interregno.
O Papado parecia então que saía vencedor deste conflito que se arrastava há muito tempo
com os imperadores alemães. Porém, durante todo o tempo que perdera a tentar travar o
Império, outras monarquias se foram engrandecendo e tornando-se cada vez mais
importantes ao nível da política europeia, como é o caso da França, em finais do século XIII e
inícios do século XIV, devido ao seu poder e prestígio conseguem humilhar um Papa,
Bonifácio III, terminando a teocracia pontifical. Tal como os autores da obra já citada: "O
Papado já não podia aumentar a pretensão de governar o Mundo".

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