Você está na página 1de 575

Cadernos de Tradução

Florianópolis, v. 38 nº 3, set./dez. 2018


Publicação quadrimestral da Pós-graduação em Estudos da Tradução - PGET
Universidade Federal de Santa Catarina
ISSN: 2175-7968

Editora Chefe
Andréia Guerini, Universidade Federal de Santa Catarina. Florianópolis, Santa Catarina, Brasil

Editor Associado
Walter Carlos Costa, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, Santa Catarina,
Brasil/Universidade Federal do Ceará, Fortaleza, Ceará, Brasil

Editor Associado Internacional


José Lambert, Katholieke Universiteit Leuven. Leuven, Bélgica

Editora Assistente
Letícia Maria Vieira de Souza Goellner, Universidade de Brasília. Brasília, Distrito Federal, Brasil

Comissão Editorial
Álvaro Silveira Faleiros, Universidade de São Paulo. São Paulo, São Paulo, Brasil
Christiane Nord, Universität Magdeburg. Heidelberg, Alemanha
Edwin Gentzler, University of Massachusetts. Amherst, Estados Unidos
Elizabeth Lowe, New York University. New York, Estados Unidos
Georges Bastin, Université de Montréal. Montreal, Canada
Germana Henriques Pereira, Universidade de Brasília. Brasília, Distrito Federal, Brasil
José Luiz Vila Real Gonçalves, Universidade Federal de Ouro Preto. Ouro Preto, Brasil
László Scholz, University Eötvös Loránd/Oberlin College. Budapest, Hungria
Luana Ferreira de Freitas, Universidade Federal do Ceará. Fortaleza, Ceará, Brasil
Marcelo Jacques de Moraes, Universidade Federal do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, Rio de
Janeiro, Brasil
Marie-Hélène Catherine Torres, Universidade Federal de Santa Catarina. Florianópolis,
Santa Catarina, Brasil
Mauricio Mendonça Cardozo, Universidade Federal do Paraná. Curitiba,Paraná, Brasil
Maurício Santana Dias, Universidade de São Paulo. São Paulo, São Paulo, Brasil
Orlando Alfred Arnold Grossegesse, Universidade do Minho. Braga, Portugal
Paulo Henriques Britto, Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Rio de
Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil
Philippe Humblé, Vrije Universiteit Brussel. Bruxelas, Bélgica
Tereza Virgínia Ribeiro Barbosa, Universidade Federal de Minas Gerais. Belo
Horizonte, Minas Gerais, Brasil
Werner Heidermann, Universidade Federal de Santa Catarina. Florianópolis, Santa
Catarina, Brasil
Conselho Consultivo
Albumita-Muguras Constantinescu, Universitatea Stefan cel Mare, Suceava, Romênia
Alice Leal, University of Vienna. Vienna, Áustria
Anthony Pym, University of Melbourne. Melbourne, Austrália
Arvi Sepp, Vrije Universiteit Brussels. Bruxelas, Bélgica
Berthold Zilly, Freie Universität Berlin. Berlim, Alemanha
Carlos Castilho Pais, Universidade Aberta de Lisboa. Lisboa, Portugal
Carlos Rodrigues, Universidade Federal de Santa Catarina. Florianópolis, Santa Catarina, Brasil
Else Ribeiro Pires Vieira, University of London. Londres, Reino Unido
Izabela Guimaraes Guerra Leal, Universidade Federal do Pará. Belém, Pará, Brasil
José Roberto O’Shea, Universidade Federal de Santa Catarina. Florianópolis, Santa Catarina,
Brasil
José Yuste Frías, Universidade de Vigo.Vigo, Espanha
Juliana Steil, Universidade Federal de Pelotas. Pelotas, Rio Grande do Sul, Brasil
Karine Simoni, Universidade Federal de Santa Catarina. Florianópolis, Santa Catarina,
Brasil
Katia Aily Franco de Camargo, Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Natal, Rio Grande
do Norte, Brasil
Marcia A. P. Martins, Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, Rio de
Janeiro, Brasil
Márcio Seligmann- Silva, Universidade Estadual de Campinas. Campinas, São Paulo, Brasil
Marco Lucchesi, Universidade Federal do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil
Maria de Lurdes Nogueira Escaleira, Instituto Politécnico de Macau, Macau, China
Maria Lucia Barbosa de Vasconcellos, Universidade Federal de Santa Catarina
Florianópolis, Santa Catarina, Brasil
Maria Paula Frota, Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, Rio de
Janeiro, Brasil
Maria Tymoczko, University of Massachusetts. Amherst, Estados Unidos
Michael Cronin, Dublin City University. Dublin, Irlanda
Patricia Odber de Baubeta, University of Birmingham. Birmingham, Reino Unido
Pere Comellas Casanova, Universitat de Barcelona. Barcelona, Espanha
Robert de Brose, Universidade Federal do Ceará. Fortaleza, Ceará, Brasil
Roberta Barni, Universidade de São Paulo. São Paulo, São Paulo, Brasil
Roberto Mulinacci, Università di Bologna. Bologna, Itália
Rute Costa, Universidade Nova de Lisboa. Lisboa, Portugal
Ronice Muller de Quadros, Universidade Federal de Santa Catarina. Florianópolis, Santa Catarina,
Brasil
Simone Homem de Mello, Tradutora/Casa Guilherme de Almeida, São Paulo, São Paulo, Brasil
Stella Esther Ortweiler Tagnin, Universidade de São Paulo. São Paulo, São Paulo, Brasil
Steven F. White, Saint Lawrence University.Canton, New York, Estados Unidos
Thaís Flores Nogueira Diniz, Universidade Federal de Minas Gerais. Belo Horizonte, Minas
Gerais, Brasil
Thomas Sträter, Universidade de Heidelberg. Heidelberg, Alemanha
Valdir Flores, Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, Rio Grande do Sul,
Brasil
Revisão geral
Andréia Guerini, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, Brasil e Letícia
Goellner, Universidade de Brasília, Brasília, Distrito Federal, Brasil

Revisores do periódico
Jaqueline Sinderski Bigaton, Leomaris Aires, Fabiano Seixas Fernandes e Sheila Cristina Santos,
Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, Santa Catarina, Brasil

Tradutor e revisor de Inglês


Fabiano Seixas Fernandes, Universidade Federal de Santa Catarina. Florianópolis, Santa Cata-
rina, Brasil
William Hanes

Tradutor e revisor de Espanhol


Pablo Cardellino Soto, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, Brasil

Publicação e Editoração Eletrônica


Ingrid Bignardi e Pablo Cardellino Soto, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis,
Brasil

Social Media
Leomaris Aires, Universidade Federal de Santa Catarina. Florianópolis, Santa Catarina, Brasil

Projeto Gráfico
Dorothée de Bruchard, Escritório do Livro, Brasil
sobre ilustração do frontispício da Bíblia traduzida para o francês por Lefèvre d’Étaples em 1530

Editoração Gráfica
Ane Girondi, Universidade Federal de Santa Catarina. Florianópolis, Santa Catarina, Brasil

Endereço para Correspondência


Pós-Graduação em Estudos da Tradução. Centro de Comunicação e Expressão/CCE - Prédio B,
Sala 301
CEP: 88040-970 - Florianópolis-SC, Brasil
Tel:+55 XX 48 3721-6647 Fax:+55 XX 48 3721-9988
E-mail: cadernostraducao@contato.ufsc.br
http://www.periodicos.ufsc.br/index.php/traducao

(Catalogação na fonte pela Biblioteca da Universidade Federal de Santa Catarina)


Cadernos de Tradução / Universidade Federal de Santa Catarina. Centro de
Comunicação e Expressão. Pós-graduação em Estudos da Tradução. — no 1 (1996)
Florianópolis: Pós-graduação em Estudos da Tradução.
V.; 21 cm

Semestral
ISSN: 2175-7968

1. Universidade Federal de Santa Catarina. Centro de Comunicação e Expressão.


Pós-graduação em Estudos da Tradução.
Sumário

Apresentação .............................................................14
Os Editores

Artigos
A noção de equivalência de Koller: universalismo relativizado? ....18
Carolina Ribeiro Minchin (Universidade de São Paulo)

Tradução canônica .....................................................34


Júlio César Neves Monteiro (Universidade de Brasília)

Traduzir “falsas” traduções: o manuscrito inventado ..............50


Silvia La Regina (Universidade Federal do Sul da Bahia)

Tradução da bíblia hebraica em dez versões brasileiras .........68


Osvaldo Luiz Ribeiro (Faculdade Unida de Vitória)

No princípio era a palavra, mas a palavra foi traduzida para os


sinais ......................................................................93
Emerson Cristian Pereira dos Santos (Universidade Federal do Ceará)

Lucas José d’Alvarenga, tradutor de Safo ....................... 125


Felipe Coelho de Souza Ladeira (Faculdade de Ciências Sociais Aplicadas
de Belo Horizonte)
Gracinéa Imaculada Oliveira (Faculdade de Ciências Sociais Aplicadas de
Belo Horizonte)
Medidas latinas em verso português ............................... 142
Érico Nogueira (Universidade Federal de São Paulo)

Uma reescrita brasileira de Rei Lear: de tragédia apocalíptica a


drama familiar......................................................... 159
Liana de Camargo Leão (Universidade Federal do Paraná)
Marcia Amaral Peixoto Martins (Pontifícia Universidade Católica do Rio
de Janeiro)

Uma aplicação da teoria do gato de Shrödinger para entender o


apocalíptico e contemporâneo Finnegans Wake? ............... 183
Janice Inês Nodari (Universidade Federal do Paraná)

A tradução de Boumkœur, de Rachid Djaïdani, para o português


do Brasil: um panorama dos principais desafios ............... 205
Letícia Campos de Resende (Universidade Federal de Juiz de Fora)

O tradutor como testemunha........................................ 226


Anna Basevi (Universidade Estadual do Rio de Janeiro)

A radicalidade de Clarice Lispector traduzida para o sistema


literário anglófono .................................................... 244
Luana Ferreira de Freitas (Universidade Federal do Ceará)

Tradução e ciência no iluminismo luso-brasileiro: intertextualidade


em epígrafes e divisas ................................................ 259
Alessandra Oliveira Harden (Universidade de Brasília)

O tradutor (e o) dicionarista ....................................... 279


Maria Celeste Consolin Dezotti (Universidade Estadual Paulista)
Obituários na tradução: um estudo baseado em corpus ....... 298
Rozane Rodrigues Rebechi (Universidade Federal do Rio Grande do Sul)

Variações semânticas de valoração em reinstanciações


portuguesas e brasileiras de Things Fall Apart e Arrow of God
............................................................................ 319
Célia Maria Magalhães (Universidade Federal de Minas Gerais)
Cliver Gonçalves Dias (Universidade Federal de Minas Gerais)

A tradução da partícula modal wohl para o português: uma


investigação do esforço de processamento de participantes
brasileiros e alemães ................................................. 352
Marceli Aquino (Universidade de São Paulo)

Educação continuada no acervo Termisul: um estudo da


linguagem científica baseado em corpus e sua aplicação à
disciplina de versão para o francês................................. 375
Sandra Dias Loguercio (Universidade Federal do Rio Grande do Sul)

Inglês instrumental e a expertise compartilhada: convergências


com a tradução e a terminologia .................................. 399
Silvia Helena Benchimol Barros (Universidade Federal do Pará)

La presencia del portugués en prensa escrita uruguaya: cómo El


Mundial 2014 nos soltó la pluma .................................. 426
Mayte Gorrostorrazo (Universidad de la República)
Rosario Lázaro Igoa (Universidade de Santa Catarina)
Leticia Lorier (Universidad de la República)
resenhAs
Carmen Camus; Cristina Castro; Julia Camus. Translation
Ideology and Gender. Newcastle: Cambridge Scholars
Publishing, 2017, 201 p. . .......................................... 446
Alane Melo da Silva (Universidade Federal do Ceará)

Andréia Guerini; Márcia A.P. Martins. The translator’s


word: Reflections on Translation by Brazilian Translators.
Florianópolis: Editora da UFSC, 2018, 205 p. ................ 455
Davi Gonçalves (Universidade Estadual do Centro-Oeste)

resenhAs de trAdução

George Sand. História da minha vida. Tradução de Marcio


Honório de Godoy. Org. Magali Oliveira Fernandes. São
Paulo: Editora UNESP, 2017, 650 p. ............................ 465
Natália Gonçalves de Souza Santos (Universidade de São Paulo)

Chimamanda Ngozi Adichie. Hibisco roxo. Tradução de Julia


Romeu. São Paulo: Companhia das Letras, 2011, 324 p.. ... 477
Leide Daiane de A. Oliveira (Universidade Federal de Santa Catarina)
Naylane Araújo Matos (Universidade Federal de Santa Catarina)

entrevistAs
Entrevista com Leonardo Fróes .................................... 487
Anna Olga Prudente de Oliveira (Pontifícia Universidade Católica do Rio
de Janeiro)
Entrevista com André Czarnobai................................... 500
Gabriela Terezinha Paulo (Universidade Federal de Santa Catarina)
Jaqueline Sinderski Bigaton (Universidade Federal de Santa Catarina)

Entrevista com Talita Guimarães Sales Ribeiro ................. 510


Janailton Mick Vitor da Silva (Universidade de Brasília)

Artigos trAduzidos
Reenquadrando o conflito na tradução ........................... 518
Mona Baker (University of Manchester)
Tradução de Cristiane Roscoe-Bessa (Universidade de Brasília)
Flávia Lamberti (Universidade de Brasília)

A tradução como um ‘acordo dialógico’: uma perspectiva


bakhtiniana............................................................. 549
Amith P. V. Kumar (The English and Foreign Languages University/India)
Tradução de Orison Marden Bandeira de Melo Jr. (Universidade Federal
do Rio Grande do Norte)

Traduzir no século XXI .............................................. 563


Henri Meschonnic
Tradução de Daiane Neumann (Universidade Federal de Pelotas)
Marie-Hélène Ginette Pascale Paret Passos (Universidade Federal de
Pelotas)
Contents

Presentation ..............................................................14
The Editors

Articles
Koller’s concept of equivalence: relativised universalism?......18
Carolina Ribeiro Minchin (Universidade de São Paulo)

Canonical translation ..................................................34


Júlio César Neves Monteiro (Universidade de Brasília)

Translating “fake” translations: imaginary manuscripts .......50


Silvia La Regina (Universidade Federal do Sul da Bahia)

Translation of the Hebrew Bible in ten brazilian versions ......68


Osvaldo Luiz Ribeiro (Faculdade Unida de Vitória)

In the beginning was the word, but the word was translated into
signs .......................................................................93
Emerson Cristian Pereira dos Santos (Universidade Federal do Ceará)

Lucas José d’Alvarenga, Sappho’s translator ................... 125


Felipe Coelho de Souza Ladeira (Faculdade de Ciências Sociais Aplicadas
de Belo Horizonte)
Gracinéa Imaculada Oliveira (Faculdade de Ciências Sociais Aplicadas de
Belo Horizonte)
Latin verse-lengths in Portuguese ................................. 142
Érico Nogueira (Universidade Federal de São Paulo)

A Brazilian rewriting of King Lear: from apocalyptic tragedy to


family drama ........................................................... 159
Liana de Camargo Leão (Universidade Federal do Paraná)
Marcia Amaral Peixoto Martins (Pontifícia Universidade Católica do Rio
de Janeiro)

An application of the Shrödinger’s cat theory to understand the


apocaliptic and contemporary Finnegans Wake? ............... 183
Janice Inês Nodari (Universidade Federal do Paraná)

Translating Boumkœur, by Rachid Djaïdani, into brazilian


portuguese: an overview of the main challanges ............... 205
Letícia Campos de Resende (Universidade Federal de Juiz de Fora)

The translator as a witness .......................................... 226


Anna Basevi (Universidade Estadual do Rio de Janeiro)

Clarice Lispector’s radicality translated into the English-speaking


literary system ......................................................... 244
Luana Ferreira de Freitas (Universidade Federal do Ceará)

Translation and science in the Luso-Brazilian enlightenment:


intertextuality in epigraphs and mottoes .......................... 259
Alessandra Oliveira Harden (Universidade de Brasília)

The translator (and the) lexicographer ........................... 279


Maria Celeste Consolin Dezotti (Universidade Estadual Paulista)
Obituaries in translation: a corpus-based study ................. 298
Rozane Rodrigues Rebechi (Universidade Federal do Rio Grande do Sul)

Semantic variations of appraisal in portuguese and brazilian re-


instantiations of Things Fall Apart and Arrow of God ........ 319
Célia Maria Magalhães (Universidade Federal de Minas Gerais)
Cliver Gonçalves Dias (Universidade Federal de Minas Gerais)

The translation of the modal particle wohl into Portuguese: an


investigation of the processing effort of Brazilians and Germans
participants ............................................................. 352
Marceli Aquino (Universidade de São Paulo)

Continuing education in the Termisul arquives: a study of scientific


language based on corpus and its application to the subject of
Translation (from Portuguese to French) ...........................375
Sandra Dias Loguercio (Universidade Federal do Rio Grande do Sul)

ESP and the shared expertise: convergences with translation and


terminology ............................................................. 399
Silvia Helena Benchimol Barros (Universidade Federal do Pará,
Universidade de Aveiro, Universidade Nova de Lisboa)

The presence of portuguese in uruguayan press: how the World Cup


2014 loosened up our writing......................................... 426
Mayte Gorrostorrazo (Universidad de la República)
Rosario Lázaro Igoa (Universidade de Santa Catarina)
Leticia Lorier (Universidad de la República)
reviews
Carmen Camus; Cristina Castro; Julia Camus. Translation
Ideology and Gender. Newcastle: Cambridge Scholars
Publishing, 2017, 201 p. . .......................................... 446
Alane Melo da Silva (Universidade Federal do Ceará)

Andréia Guerini; Márcia A.P. Martins. The translator’s


word: Reflections on Translation by Brazilian Translators.
Florianópolis: Editora da UFSC, 2018, 205 p ................. 455
Davi Gonçalves (Universidade Estadual do Centro-Oeste)

trAnslAtions reviews
George Sand. História da minha vida. Translated by Marcio
Honório de Godoy. Org. Magali Oliveira Fernandes. São
Paulo: Editora UNESP, 2017, 650 p. ............................ 465
Natália Gonçalves de Souza Santos (Universidade de São Paulo)

Chimamanda Ngozi Adichie. Hibisco roxo. Translated by Julia


Romeu. São Paulo: Companhia das Letras, 2011, 324 p.. ... 477
Leide Daiane de A. Oliveira (Universidade Federal de Santa Catarina)
Naylane Araújo Matos (Universidade Federal de Santa Catarina)

interviews
Interview with Leonardo Fróes ..................................... 487
Anna Olga Prudente de Oliveira (Pontifícia Universidade Católica do Rio
de Janeiro)
Interview with André Czarnobai ................................... 500
Gabriela Terezinha Paulo (Universidade Federal de Santa Catarina)
Jaqueline Sinderski Bigaton (Universidade Federal de Santa Catarina)

Interview with Talita Guimarães Sales Ribeiro ................. 510


Janailton Mick Vitor da Silva (Universidade de Brasília)

trAnslAted Articles
Reframing conflict in translation .................................. 518
Mona Baker (University of Manchester)
Translated by Cristiane Roscoe-Bessa (Universidade de Brasília)
Flávia Lamberti (Universidade de Brasília)

Translation as ‘dialogic agreement’: a Bakhtin’s perspective.... 549


Amith P. V. Kumar (The English and Foreign Languages University/India)
Translated by Orison Marden Bandeira de Melo Jr. (Universidade Federal
do Rio Grande do Norte)

Traduire au XXIe siècle ............................................. 563


Henri Meschonnic
Translated by Daiane Neumann (Universidade Federal de Pelotas)
Marie-Hélène Ginette Pascale Paret Passos (Universidade Federal de
Pelotas)
http://dx.doi.org/10.5007/2175-7968.2018v38n3p14

APRESENTAÇÃO

Este número de Cadernos de Tradução traz 20 artigos, 02 rese-


nhas, 02 resenhas de tradução, 03 entrevistas e 03 artigos traduzi-
dos. Abre o volume o artigo “A noção de equivalência de Koller:
universalismo relativizado?”, de Carolina Ribeiro Minchim, que
aborda o conceito de equivalência tradutória proposto por Wer-
ner Koller em Einführung in die Übersetzungswissenschaft (2004).
Em seguida, Júlio Monteiro, em “Canonical Translation”, trata
sobre o status dos textos literários traduzidos e a questão da posição
do tradutor naquilo que denomina como tradução canônica. Em
“Traduzir ‘falsas’ traduções: o manuscrito inventado”. Silvia La
Regina reflete sobre a tradução de alguns manuscritos, mostrando
como na nova tradução/metatradução dos textos, aparecem vestí-
gios do imaginário original, formando um palimpsesto de culturas.
Em “Tradução da Bíblia Hebraica em dez versões brasileiras”,
Osvaldo Luiz Ribeiro analisa quatro passagens de dez diferentes
versões brasileiras da Bíblia Hebraica, mostrando como as versões
cometem os mesmos tipos de desvios na tradução do texto hebraico
que podem estar relacionados às pressões de ordem teológica. Em
“No princípio era a palavras, mas a palavra foi traduzida para os
sinais”, Emerson Cristian Pereira dos Santos trata da relação entre
ideologia, tradução e literatura na formação de repertórios literá-
rios da cultura surda, a partir da tradução da Bíblia. Em “Lucas
José d’Alvarenda, tradutor de Safo”, Gracinéa Imaculada Oliveira
e Felipe Coelho de Souza Ladeira analisam a retradução de uma
ode de Safo, realizada por Lucas José d’Alvarenga, em 1830, em
comparação com cinco traduções diferentes, a partir dos conceitos
de Venuti e os de retradução de Berman. Em “Medidas latinas em
verso português”, Érico Nogueira discute os principais métodos
de adaptação de medidas latinas ao verso português, e esclarece

Esta obra utiliza uma licença Creative Commons CC BY:


https://creativecommons.org/lice
Os Editores

os critérios de um método novo, exemplificado com a tradução


comentada da “Ode IV” 9 de Horácio. Em “Uma reescrita brasi-
leira de Rei Lear: de tragédia apocalíptica a drama familiar”, Mar-
cia Amaral Peixoto Martins e Liana de Camargo Leão analisam
uma encenação de 2014 do Rei Lear de Shakespeare, traduzida e
adaptada por Geraldo Carneiro, dirigida por Elias Andreato e pro-
tagonizada por Juca de Oliveira. Em “Uma aplicação da teoria do
gato de Shrödinger para entender o apocalíptico e contemporâneo
Finnegans Wake?”, Janice Inês Nodari propõe uma aplicação da
teoria do gato de Shrödinger, da mecânica quântica, na compreen-
são e tradução de um trecho da obra de Joyce. Em “A tradução
de Boumkœur, de Rachid Djaïdani, para o português do Brasil: um
panorama dos principais desafios”, Letícia Campos de Resende
discute sobre alguns desafios na tradução de trechos de Boumkœur,
por conterem marcadores culturais, expressões de um socioleto
popular e amostras de textos poéticos. Em “O tradutor como teste-
munha” Anna Basevi, a partir da análise de problemáticas e cenas
de tradução em Se questo è un uomo de Primo Levi, levando em
conta aspectos narrativos e estilísticos da literatura testemunhal,
afirma ser possível elaboraruma proposta que enriquece a ética e
a prática de tradução, identificando no ouvinte/leitor/tradutor uma
testemunha. Em “Clarice Lispector’s radicality translated into the
English-speaking literary system”, Luana Ferreira de Freitas ob-
jetiva investigar se o uso radical da linguagem de Clarice Lispec-
tor foi conseguido de alguma forma nas traduções e especialmente
nas retraduções de sua obra para o inglês, ou se essa radicalidade
tornou o legado clariceano um obstáculo à sua absorção pelo sis-
tema literário de língua inglesa. Em “Translation and Science in
the Luso-Brazilian Enlightenment: intertextuality in epigraphs and
mottoes”, Alessandra Harden discute a importância dos elementos
paratextuais, como as epígrafes, para melhor se compreender as
conexões intertextuais a partir de traduções produzidas no contex-
to iluminista luso-brasileiro. Em “O tradutor (e o ) dicionarista”,
Maria Celeste Consolin Dezotti aborda a importância do dicioná-
rio no caso da tradução de línguas mortas e de como dicionários,

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 14-17, set-dez, 2018 15


Apresentação

principalmente do grego, se enriquecem de termos e significados à


medida que novos textos são encontrados. Em “Obituaries in trans-
lation: a corpus-based study”, Rozane Rodrigues Rebechi, a partir
da linguística de corpus, procura investigar até que ponto um cor-
pus comparável de obituários inglês-português-brasileiro pode aju-
dar na tarefa de conscientizar os alunos sobre peculiaridades cultu-
rais encontradas no gênero, escritas em diferentes idiomas e suas
consequências para a recuperação de equivalência. Em “Variações
semânticas de valoração em reinstanciações portuguesas e brasilei-
ras de Things Fall Apart e Arrow of God, Célia Maria Magalhães
e Cliver Gonçalves Dias objetivam identificar variações semânticas
da valoração nas retraduções de Things Fall Apart e Arrow of God.
Em “A tradução da partícula modal wohl para o português: uma
investigação do esforço de processamento de participantes brasilei-
ros e alemães”, Marceli Cherchiglia Aquino, tomando como base
a Teoria da Relevância, analisa o esforço de processamento da par-
tícula modal wohl no par linguístico alemão/português em tarefas
de pós-edição, sendo utilizados três instrumentos de pesquisa: o
programa Translog-II; o rastreador ocular Tobii T60; relatos re-
trospectivos (livre e guiado). Em “Educação continuada no Acervo
TERMISUL: um estudo da linguagem científica baseado em cor-
pus e sua aplicação à disciplina de versão para o francês”, Sandra
Dias Loguercio descreve um projeto de educação continuada desti-
nado ao acadêmico de Letras, falante de português brasileiro, e sua
aplicação à disciplina de versão para o francês. Em “Inglês instru-
mental e a expertise compartilhada: convergências com a tradução
e a terminologia”, Silvia Helena Benchimol Barros aborda aspectos
concernentes ao ensino da língua inglesa em textos de especialidade
na dimensão do ensino instrumental, problematiza essa abordagem
considerando o contexto dos cursos livres de idioma – com foco na
competência de leitura – em modalidade EAP[1] (Strevens, 1977;
Hyland, 2006) e estabelece convergências teóricas com os campos
da Tradução e Terminologia. Em “La presencia del portugués en
prensa escrita uruguaya: cómo el mundial 2014 nos soltó la plu-
ma”, Mayte Gorrostorrazo, Rosario Lázaro Igoa e Leticia Lorier

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 14-17, set-dez, 2018 16


Os Editores

analisam o uso do português na imprensa escrita uruguaia durante


a Copa do Mundo de 2014 a partir dos Estudos da Tradução, da
Linguística e da Comunicação. Na seção “Resenhas”, Aline Melo
da Silva trata do livro Translation Ideology and Gender, organi-
zado por Carmen Camus, Cristina Castro, Julia Camus, de 2017
e Davi Gonçalves discorre sobre o livro Palavra de tradutor: re-
flexões sobre tradução por tradutores brasileiros/The Translator’s
Word : Reflections on Translation by Brazilian Translators, orga-
nizado por Andréia Guerini e Marcia A. P. Martins, de 2018. Na
seção “Resenha de tradução”, Natália Gonçalves de Souza Santos
analisa a tradução de Marcio Honório de Godoy de Histoire de ma
vie, de George Sand. Na sequência, Leide Daiane de A. Oliveira
e Naylane Araújo Matos tratam da tradução de Julia Romeu de
Hibisco roxo, de Chimamanda Ngozi Adichie. Na seção “Entrevis-
ta”, Anna Olga Prudente de Oliveira entrevista o poeta e tradutor
Leonardo Fróes; Jaqueline Sinderski Bigaton, Gabriela Terezinha
Paulo entrevistam André Felipe Pontes Czarnobai e Janailton Mick
Vitor da Silva entrevista Talita Guimarães Sales Ribeiro. Para fina-
lizar o número, apresentamos 03 artigos traduzidos. O primeiro é o
de Mona Baker “Reenquadrando o conflito na tradução”, traduzido
por Cristiane Roscoe-Bessa e Flávia Lamberti. O segundo, “A tra-
dução como um ‘acordo dialógico’: uma perspectiva bakhtiniana”,
de Amith P. V. Kumar, traduzido por Orison Marden Bandeira de
Melo Jr. e o terceiro, “Traduzir no século XXI”, de Henri Mes-
chonnic, traduzido por Daiane Neumann e Marie-Hélène Ginette
Pascale Paret Passos.
Boa leitura!

Os Editores

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 14-17, set-dez, 2018 17


http://dx.doi.org/10.5007/2175-7968.2018v38n3p18

A NOÇÃO DE EQUIVALÊNCIA DE KOLLER:


UNIVERSALISMO RELATIVIZADO?

Carolina Ribeiro Minchin1


1
Universidade de São Paulo, São Paulo, São Paulo, Brasil

Resumo: Neste artigo será discutido o conceito de equivalência tradutória


proposto por Werner Koller na 7ª edição de seu livro, Einführung in die
Übersetzungswissenschaft (2004). As considerações serão feitas à luz da
comparação entre a concepção de linguagem e a concepção de tradução
defendidas pelo autor na obra citada. Partindo do princípio de que a con-
cepção de linguagem adotada por um estudioso da tradução influencia a
sua visão de tradução, como defendido por Kopetzki (1996), nosso objeti-
vo é demonstrar que Koller adota uma concepção relativista de linguagem
e que sua concepção de tradução e sua noção de equivalência, em alguns
aspectos, vão de encontro ao caráter universalista geralmente atribuído a
este conceito no âmbito dos Estudos de Tradução.
Palavras-chave: Equivalência; Koller; Tradução; Relativismo; Universalismo.

KOLLER’S CONCEPT OF EQUIVALENCE:


RELATIVISED UNIVERSALISM?

Abstract: This article discusses the concept of translation equivalence as


suggested by Werner Koller in the 7th edition of his book, Einführung
in die Übersetzungswissenschaft (2004). The analysis is based on a
comparison of the author’s views on language and translation. Assuming,
as proposed by Kopetzki (1996), that a translation scholar’s perspective
on language has a decisive influence on his or her view about translation,
the main objective of this paper is to demonstrate that Koller favours
a relativistic understanding of language and that, in some respects, his
take on translation and translation equivalence challenge the universalistic
character that is usually attributed to this concept in Translation Studies.
Keywords: Equivalence; Koller; Translation; Relativism; Universalism.

Esta obra utiliza uma licença Creative Commons CC BY:


https://creativecommons.org/lice
Carolina Ribeiro Minchin

Equivalência em tradução

Na introdução a seu livro Tradução e diferença, Rodrigues


(2000) elenca as diversas formas que o conceito da equivalência
assumiu ao longo dos Estudos da Tradução. Segundo a autora,
dicotomias do tipo tradução “literal” ou “livre” e “fiel” ou “cria-
tiva” remontam à Roma antiga, a autores como Cícero e Horácio
e, no século XX, ganharam uma roupagem mais científica, com
nomes como “equivalência formal” e “equivalência dinâmica”, se-
gundo a tipologia de Nida (1964) (cf. RODRIGUES, 2000, p. 21).
Ainda de acordo com Rodrigues:

Mesmo que não se determine quando nem por quem o


conceito [de equivalência] foi introduzido nos estudos da
tradução, percebe-se, pela literatura sobre tradução escrita
após a segunda metade do século XX, que se tornou um de
seus tópicos centrais.

O interesse pelo tema da equivalência tradutória cresceu a partir


de meados do século XX, no momento em que a tradução automá-
tica começava a florescer. Wilss (1999, p. 54) localiza o “boom”
da automatização no período da Corrida Espacial. Na época, o
programa espacial dos Estados Unidos foi superado pelo dos sovi-
éticos com o lançamento do Sputnik, em 1957, uma derrota que,
segundo Wilss, se deveu, sobretudo, ao fato de os estadunidenses
não estarem a par da extensa produção bibliográfica, escrita em
russo, sobre o novo satélite. Isso teria levado, então, a um de-
senvolvimento-relâmpago das técnicas de tradução automática nos
Estados Unidos, entre 1950 e 1960.
De acordo com Werner Koller (2004), nesse mesmo período,
a Linguística se consagrou como ciência, ao passo que os Estu-
dos da Tradução ainda eram considerados apenas uma disciplina
auxiliar, dedicada principalmente ao desenvolvimento da tradução
automática. A tarefa dos Estudos da Tradução consistia em descre-

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 18-33, set-dez, 2018 19


A noção de equivalência de Koller: universalismo relativizado?

ver correspondências e regularidades linguístico-tradutológicas, de


modo a facilitar o trabalho dos sistemas de tradução automática (cf.
KOLLER, 2004, p. 150). Isto é, estudar traduções era tão somente
uma maneira de estabelecer correspondências formais, no nível do
sistema linguístico (langue), entre as línguas.
É nesse contexto que, entre as décadas de 60 e 70, linguistas
como Halliday et al. (1974), Marton (1968) e Krzeszowski (1971)
buscam circunscrever o conceito de equivalência tradutória, a fim
de fornecer as bases teóricas para a prática da análise contrastiva.
Entretanto, cada teórico propõe a sua própria tipologia de equi-
valência, o que leva a uma grande fragmentação do conceito (cf.
RODRIGUES, 2000, p. 19).
A tipologia de equivalência mais conhecida é, provavelmente,
a de Eugene Nida, que, com a obra Towards a Science of Trans-
lating (1964), pretendia elevar a tradução ao status de ciência (cf.
MUNDAY, 2008, p. 38). O autor parte do pressuposto de que
nenhuma língua é inteiramente igual a outra e, por isso, não exis-
te equivalência tradutória absoluta. Ainda assim, cabe ao tradutor
buscar o equivalente mais próximo possível (cf. NIDA, 1964, p.
156 et seq.). Nesse modelo, o tradutor teria duas opções: priorizar
a mensagem do texto de partida, conforme forma e conteúdo origi-
nais, ou tentar atingir um efeito equivalente ao do original, atendo-
-se à maior naturalidade possível na língua de chegada (cf. NIDA,
1964, p. 159). Essas são, respectivamente, as equivalências formal
e dinâmica. Outras tipologias de equivalência são, por exemplo, as
de Catford (1965) 1, Kreszowski (1971), Newmark (1988) e Koller
([1979] 2004).
No entanto, não faltam críticas à equivalência. Isso se deve ao
fato de esse conceito ser característico de uma concepção univer-
salista de tradução, na medida em que pressupõe que, no ato da
tradução, “[...] o significado sígnico [permaneça] intacto em outra

1
Para uma análise detalhada das tipologias de Nida (1964) e Catford (1965), ver
Rodrigues (2000, p. 37 et seq.).

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 18-33, set-dez, 2018 20


Carolina Ribeiro Minchin

forma linguística” (KOPETZKI, 1996, p. 10) 2. Rodrigues (2000)


completa: “A ‘equivalência’ [...] associa-se a uma certa concepção
de tradução, aquela que considera que a tradução deva reproduzir
o texto de partida, ter o seu valor, pois seu uso remete à busca da
unidade, da homogeneidade entre o texto traduzido e o texto origi-
nal” (RODRIGUES, 2000, p. 28).
Como observado por Fujihara (2009), os teóricos desconstru-
tivistas, por exemplo, argumentaram que é impossível construir
uma mesma significação em línguas diferentes, pois a tradução
depende da interpretação e “[...] indivíduos diferentes partindo de
backgrounds diferentes apreenderiam, ou melhor, construiriam,
interpretações diferentes e, poderíamos dizer, complementares”
(FUJIHARA, 2009, p. 274, grifo no original).
A vertente funcionalista da tradução, por sua vez, nega que possa
existir uma equivalência tal como postulada pela vertente linguística
porque o objetivo principal de qualquer tradução deve ser o escopo,
ou seja, a função que o texto traduzido tem de desempenhar no con-
texto de chegada. Se esse escopo muda, altera-se também a tradução,
não sendo, portanto, possível falar em equivalência entre texto de
partida e texto de chegada (cf. FUJIHARA, loc. cit.).
Assim, com a superação da matriz linguística da tradução pelas
vertentes posteriores, a noção de equivalência parece ter se tornado
um estigma dos Estudos da Tradução de matriz linguística. Neste ar-
tigo, nosso objetivo é revisitar (para usar a expressão de Pym, 1997)
esse conceito à luz da tipologia de equivalência de Koller (2004),
apresentada em Einführung in die Übersetzungswissenschaft (“Intro-
dução à Ciência da Tradução”). Sua obra foi escrita em alemão no fi-
nal dos anos 70 e nunca chegou a ser traduzida para o inglês ou para
o português, ficando assim praticamente restrita ao mundo germa-
nófono, ao passo que Nida (1964) e Newmark (1988), por exemplo,
escreveram suas obras originalmente em inglês e conquistaram assim
maior visibilidade. Por esse motivo, dedicaremos a seção seguinte a
uma síntese do modelo proposto por Koller.

2
Traduções que não constem das referências bibliográficas são de minha autoria.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 18-33, set-dez, 2018 21


A noção de equivalência de Koller: universalismo relativizado?

A equivalência em Koller (2004)

Diante da confusão terminológica acerca da noção da equiva-


lência, Koller faz uma distinção básica entre os termos Äquivalenz
e Korrespondenz. Segundo o autor, a denominação “equivalên-
cia” deve ser empregada somente no que se refere aos Estudos
da Tradução, enquanto a designação “correspondência” deve fi-
car restrita ao âmbito da Linguística Contrastiva (KOLLER,
2004, p. 217 et seq.). Koller justifica: a tarefa desta última é
comparar sistematicamente duas ou mais línguas, com o objetivo
de encontrar correspondências formais entre elas. O que está em
jogo é a estrutura do idioma, a língua enquanto sistema (a langue
de Saussure). Os Estudos da Tradução, por outro lado, “são a ci-
ência da parole” (KOLLER, 2004, p. 223, grifo no original), na
medida em que “[...] o tradutor produz [herstellen, no original]
equivalência entre falas/textos da língua de partida e falas/textos da
língua de chegada, não entre estruturas e orações de duas línguas.”
(KOLLER, 2004, p. 222).
Koller propõe ainda três máximas básicas para delimitar
a sua compreensão do conceito de equivalência tradutória: 1)
para que haja equivalência, deve haver uma relação tradutória
(Übersetzungsbeziehung) entre dois textos; 2) o uso do termo
equivalência pressupõe a definição de uma moldura de referên-
cia (Bezugsrahmen); 3) são considerados equivalentes quaisquer
elementos linguísticos ou textuais que estabeleçam uma relação
de equivalência entre língua de partida e língua de chegada (cf.
KOLLER, 2004, p. 215).
Detenhamo-nos brevemente no conceito de moldura de referên-
cia. Para Koller, o original possui uma série de qualidades (de con-
teúdo, estéticas, funcionais etc.) que devem se refletir na tradução.
Traduzir, porém, é um processo de tomada de decisões, o que sig-
nifica que o tradutor, levando em conta as “condições linguísticas,
estilísticas, textuais da parte dos receptores” (KOLLER, loc. cit.),
muitas vezes terá de escolher quais qualidades do texto de parti-
da devem ser recriadas no texto de chegada. Ao estabelecer essa

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 18-33, set-dez, 2018 22


Carolina Ribeiro Minchin

“hierarquia de valores”, ele define a sua moldura de referência.


A depender do aspecto que o tradutor priorizar, resultará um tipo
diferente de equivalência: 1) denotativa, 2) conotativa, 3) textual-
-normativa, 4) pragmática ou 5) estético-formal.
A primeira, equivalência denotativa, é produzida no nível
lexical da linguagem. No modelo de Koller, essa categoria abar-
ca cinco tipos de correspondência3: um-para-um, um-para-muitos,
muitos-para-um, um-para-zero e um-para-parte (a tradução da ter-
minologia usada aqui é de autoria de Fujihara, 2010, p. 40).
A correspondência um-para-um pressupõe que dois termos em
dois idiomas diferentes denotem exatamente a mesma coisa (Sa-
mstag e “sábado”, por exemplo), ainda que haja diferenças cono-
tativas entre eles. No caso da correspondência um-para-muitos, a
língua de chegada oferece, para uma única palavra na língua de
partida, duas ou mais alternativas sinônimas (control > Regelung,
Steuerung, Bedienung etc). Na correspondência muitos-para-um,
ao contrário, é a língua de partida que apresenta diversos lexemas
alternativos (cf. KOLLER, 2004, p. 228 et seq.).
A correspondência um-para-zero, por sua vez, é central para o
debate sobre a traduzibilidade das línguas. São as chamadas pala-
vras “intraduzíveis”. Nesse tipo de correspondência, há uma lacuna
no sistema lexical da língua de chegada. A palavra alemã Berufs-
verbot, por exemplo, não tem um correspondente lexical em portu-
guês. Cabe ao tradutor preencher essa lacuna, o que pode ser feito,
segundo Koller, 1) por meio da utilização do estrangeirismo, 2)
com uma tradução literal da palavra (Berufsverbot seria então “proi-
bição do exercício profissional”), 3) pela utilização de um termo
de significado próximo já consagrado na língua de chegada, 4) por
meio de comentários, definições ou paráfrases, ou 5) através de um
equivalente comunicativo, isto é, um conceito na língua de chegada
3
Koller emprega aqui a palavra Entsprechung, que também pode ser traduzida
como “correspondência”, mas não significa o mesmo que Korrespondenz, um
conceito vinculado pelo autor à Linguística Contrastiva, e não aos Estudos de
Tradução. Entsprechung é entendida por ele como a relação de simetria denotativa
entre dois elementos.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 18-33, set-dez, 2018 23


A noção de equivalência de Koller: universalismo relativizado?

que, pragmaticamente, exerce uma função semelhante ou compará-


vel na língua de chegada (cf. KOLLER, 2004, p. 232 et seq.).
Vê-se, assim, que Koller rejeita a ideia da intraduzibilidade ab-
soluta, pois, ainda que não haja equivalentes “perfeitos” entre duas
línguas, há maneiras de contornar, ao menos parcialmente, as di-
ferenças denotativas entre esses idiomas e culturas. O mesmo vale
para o último tipo de correspondência, um-para-parte: uma palavra
na língua de partida que possui um equivalente apenas parcial na
língua de chegada. De acordo com Koller, as denominações de co-
res nas diversas línguas são um exemplo clássico de correspondên-
cia um-para-parte, “[...] porque o vermelho que figura, por exem-
plo, em uma escala de quatro partes, não corresponde ao vermelho
segmentado por uma escala de sete partes.” (KOLLER, 2004, p.
236). Para o autor, nomes de cores não são intraduzíveis, pois
é possível verbalizá-los usando denominações mistas (“amarelo-
esverdeado”), derivações (“azulado”) e comparações (“verde
musgo”), por exemplo.
Em seguida, Koller (2004, p. 240) apresenta a equivalência co-
notativa. Uma expressão possui, além de seu significado denota-
tivo, diversas possibilidades de realização, ou seja, conotações.
Exemplos de dimensões conotativas são a frequência de uso, o
efeito que provocam ou o grupo ou lugar em que são utilizadas
etc. (cf. KOLLER, 2004, p. 243 et seq.). A palavra Haupt, por
exemplo, só é usada em um registro de linguagem mais elevado e,
por isso, apresenta uma conotação inexistente no lexema “cabeça”,
ainda que os dois lexemas sejam, denotativamente, sinônimas.
Já a equivalência textual-normativa está atrelada às convenções
específicas dos diferentes gêneros textuais. Em outras palavras: para
que o leitor da tradução identifique determinado texto como perten-
cente ao gênero textual A ou B, é necessário que o texto se atenha a
determinadas normas estilísticas, que abrangem desde o vocabulário
até a sintaxe e a própria estrutura do texto. A fim de produzir a equi-
valência textual-normativa, o tradutor deve respeitar as normas lin-
guístico-estilísticas da língua de chegada, de modo a não ferir as con-
venções textuais dessa língua (cf. KOLLER, 2004, p. 247 et seq.).

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 18-33, set-dez, 2018 24


Carolina Ribeiro Minchin

A equivalência pragmática, por sua vez, é orientada para o re-


ceptor, ou seja, o leitor da tradução. Para produzi-la, o tradutor
deve assegurar a compreensão do texto pelo seu leitor, o que só
pode ocorrer se o contexto comunicativo do texto de chegada for
levado em conta. A equivalência pragmática exige que o tradutor
seja capaz de mensurar o quão explicativo seu texto deve ser para
que o leitor entenda as informações que lhe são apresentadas (cf.
KOLLER, 2004, p. 249).
A quinta e última categoria de Koller é a equivalência estético-
-formal. Aqui, o tradutor deve recriar elementos artísticos do origi-
nal, o que geralmente não é possível somente com os meios linguís-
ticos disponíveis na língua de chegada. Na tradução literária, por
exemplo, o objetivo do tradutor deve ser atingir um efeito estético
análogo à expressividade individual do texto literário original (cf.
KOLLER, 2004, p. 253), o que, não raro, significa que ele tem
de reinventar por completo a qualidade estética do texto, cunhando
também estruturas linguísticas inovadoras (cf. LIPINSKI, 1989, p.
218 apud KOLLER, 2004, p. 252).

Linguagem e tradução para Koller: Relação contraditória?

Apropriar-nos-emos, nesta seção, da estratégia de Rodrigues


(2000), cuja “[...] análise está encaminhada a fim de argumen-
tar que o conceito [de equivalência] se relaciona a determinadas
concepções de tradução, de linguagem, de texto e de leitura”
(RODRIGUES, 2000, p. 22). Discutiremos aqui a relação entre a
concepção de linguagem adotada por Koller (2004) e a noção de
tradução desenvolvida na mesma obra, no sentido de demonstrar
que a concepção de linguagem do autor foge ao universalismo
geralmente atribuído aos linguistas que teorizaram sobre a tradu-
ção. Nesse caso, cabe questionar se essa concepção de linguagem
é coerente com a própria noção de equivalência, que, na teoria
de tradução, é compreendida como um conceito essencialmen-
te universalista, por pressupor a possibilidade de “transportar”

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 18-33, set-dez, 2018 25


A noção de equivalência de Koller: universalismo relativizado?

conteúdos de uma língua A para uma língua B, como vimos na


primeira seção deste artigo.
De acordo com Kopetzki (1996, p. 9), a história da tradução
foi marcada por dois modos de enxergar a diversidade das línguas
e a sua importância para o pensamento humano: as posições uni-
versalista e a relativista. A primeira se caracteriza pela noção de
que aquilo que é particular a uma determinada língua ou cultura é
apenas um caso de aplicação (Anwendungsfall) de princípios ge-
rais da linguagem humana, comuns a todas as línguas. A posição
relativista, por sua vez, defende que a particularidade é o limite
do geral, ou seja, que cada língua é uma representação da visão
de mundo de uma comunidade linguística específica e todas elas
diferem entre si.
Considerando-se que Koller criou uma tipologia de equivalên-
cia, poderíamos supor que o autor defenda uma concepção de lin-
guagem de caráter universalista, pois, como vimos, a equivalência
é considerada um conceito essencialmente universalista. Entretan-
to, como afirma Cruz (2000, p. 40), o modelo de Kopetzki “[...]
não pode ser camisa-de-força ou fórmula de adivinhação”. Isto
é, não basta conhecer a concepção de linguagem de um teórico
para, automaticamente, deduzir dela a sua concepção de tradução
(e vice-versa).
Como é possível observar na síntese apresentada anteriormente,
o modelo de Koller refuta a ideia de que, na língua de chegada,
haja uma equivalência unívoca para cada palavra, oração ou texto
na língua de partida. A premissa por trás de sua tipologia é o fato
de que “[...] uma dada tradução pode enfatizar um dado aspec-
to (ou dados aspectos) em detrimento de outro(s)” (FUJIHARA.
2009, p. 274 et seq.), premissa esta que, por si só, já exclui a
possibilidade de uma equivalência absoluta.
Observemos também um trecho da Einführung em que Koller
(2004) comenta a relação entre língua e pensamento:

No processo de confrontação com o ‘mundo’ [...], nos ap-


ropriamos dos modos de ver desse ‘mundo’: paradigmas

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 18-33, set-dez, 2018 26


Carolina Ribeiro Minchin

ou modelos da interpretação da realidade. Aprendemos


a observar e a avaliar situações como casamento, sexuali-
dade, morte, trabalho etc., de determinada(s) maneira(s).
A língua tem uma participação importante no desenvolvi-
mento e na fixação desses modos de ver (juntamente com
a confrontação prática, não verbal, com a realidade): com
a língua, nos comunicamos sobre a realidade e sobre as
interpretações da realidade. Da mesma maneira que as in-
terpretações da realidade são condicionadas culturalmente,
ou seja, histórica e socialmente, os modos de falar sobre
essas interpretações da realidade também são condicionados
histórica e socialmente. As interpretações da realidade se
refletem na língua e, ao mesmo tempo, são veiculadas pela
língua. (KOLLER, 2004, p. 162, grifos no original).

Desta citação, destacamos o emprego da palavra “mundo”


(Welt) entre aspas. Com isso, Koller relativiza a existência de
um referente concreto, uma dimensão fisicamente apreensível à
qual nos referimos na comunicação cotidiana. Em vez disso, pre-
fere a expressão “interpretações da realidade” (Wirklichkeitsin-
terpretationen), representações mentais daquilo que apreendemos
como “real”, condicionadas pela dimensão histórico-social de uma
cultura e, consequentemente, de uma língua. Se as interpretações
subjetivas da realidade se refletem na língua ao falarmos sobre
elas, a própria língua está necessariamente sujeita a condicionantes
históricas e sociais. Por conseguinte, a língua para a qual se tra-
duz não refletirá as mesmas interpretações da realidade da língua
de partida, pois elas estão submetidas a condicionantes (às vezes
radicalmente) diferentes.
Koller também retrata a relação língua-pensamento-cultura
como um fenômeno dinâmico, pois falantes de qualquer língua são
dotados de criatividade linguística. Para o autor, é verdade que
nossa língua materna e as visões de mundo condicionadas por ela
impõem limites à nossa compreensão, mas esses limites são refle-
tidos, alterados e ampliados no processo de compreensão, e essas

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 18-33, set-dez, 2018 27


A noção de equivalência de Koller: universalismo relativizado?

mudanças, por sua vez, voltam a se refletir no uso linguístico4 (cf.


KOLLER, 2004, p. 186). Ao afirmar que as línguas condicionam o
pensamento (e vice-versa), Koller rejeita precisamente a concepção
de linguagem universalista, segundo a qual as línguas são apenas
uma roupagem exterior para um significado único e estanque.
Por outro lado, ele define tradução como “[...] processo de
transposição de um texto de uma língua (LP) para outra língua
(LC)5, [...] sendo que o produto dessa transposição, a tradução,
deve satisfazer determinadas exigências de equivalência” (KOL-
LER, 2004, p. 80). Vemo-nos aqui diante de uma contradição:
apesar de aceitar que línguas diferentes pressupõem visões de
mundo diferentes e que, por isso, não há um significado unívoco
a ser buscado pelo tradutor, Koller nos apresenta uma concepção
universalista de tradução, segundo a qual traduzir consiste em
“transportar” conteúdos de uma língua para outra, deixando “o”
significado intacto.
Koller, porém, atribui ao tradutor, enquanto indivíduo, a res-
ponsabilidade de estabelecer uma hierarquia de valores de equiva-
lência (o que ele chama de “moldura de referência”), afinal esses
valores variam para cada tradutor, na medida em que traduzir é
interpretar e a interpretação é subjetiva (cf. KOLLER, 1988, p. 72,
78). Similarmente, o autor relativiza a noção de traduzibilidade:
“Da mesma maneira que o entendimento de um texto nunca pode
ser absoluto, mas sempre relativo e variável, a traduzibilidade de
um texto também é sempre relativa” (KOLLER, 2004, p. 178).
Resta-nos ainda questionar como Koller se posiciona em rela-
ção ao próprio termo “equivalência”. Ao comentar as definições de
tradução de Catford (1965), Nida e Taber (1969), e Snell-Hornby

4
A afirmação de Koller remete à posição relativista de Schleiermacher, que diz:
“Uma pessoa não poderia pensar com total certeza nada o que estivesse fora dos
limites dessa língua [materna]; [...] Mas, por outro lado, toda pessoa que pensa
de uma maneira livre e intelectualmente independente também forma a língua à
sua maneira” (SCHLEIERMACHER, 2001, p. 37).
5
LP: língua de partida; LC: língua de chegada. Em alemão: Ausgangssprache
(AS) e Zielsprache (ZS).

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 18-33, set-dez, 2018 28


Carolina Ribeiro Minchin

e Vannerem (1986), Koller identifica um elemento comum a todas


elas: o caráter normativo. Essa normatividade é expressa por meio
do conceito de equivalência, termo que Koller prefere substituir por
“exigência de equivalência” (Äquivalenzforderung), pois

As definições de tradução não são, de maneira alguma,


puramente descritivas; elas sempre contêm um elemento
normativo. Não é somente dito o que é o ato de traduzir,
mas sempre, simultaneamente, o que este deve ser [...].”
(KOLLER, 2004, p. 94, grifos no original).

Isto é, embora enfoquem diferentes aspectos do texto de partida


(conteúdo, texto, normas, estilo etc.), os diversos modelos aprego-
am que essas características devem, necessariamente, permanecer
inalteradas na passagem do texto original para o texto traduzido.
A partir da crítica feita por Koller, pode-se depreender que a
sua tipologia não foi concebida a fim de impor aos tradutores como
devem traduzir, ou seja, não exige que o tradutor encontre um
equivalente dado de antemão, afinal “Os Estudos da Tradução não
são uma ciência prescritiva” (KOLLER, 2004, p. 13). Com isso,
Koller nega que a tarefa do tradutor seja encontrar, na língua de
chegada, um equivalente unívoco e estanque para uma palavra ou
oração da língua de partida. Pelo contrário, ele argumenta que é ta-
refa do tradutor, enquanto indivíduo, produzir essa equivalência6.
A esse respeito, Pym (1997) ressalta que Koller, já na primeira
edição de seu livro, datada de 1979, diversas vezes se refere:

[...] à tradução como Herstellen (‘produção’ ou talvez


‘fabricação’) de um ou outro tipo de equivalência. Ches-
terman (1991: 101-103) traduz esse Herstellen por ‘obten-

6
Koller compartilha aqui da opinião de Ricœur, que diz que “[...] a equivalência
[...] é mais propriamente produzida pela tradução do que presumida por ela”
(RICŒUR, 2011, p. 66, grifo no original).

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 18-33, set-dez, 2018 29


A noção de equivalência de Koller: universalismo relativizado?

ção’, o que remeteria à tentativa do tradutor de alcançar


um objetivo pré-estabelecido, tornando Koller, em última
instância, um teórico daquilo que Mossop (1983), com
razão, criticou como “a busca da equivalência”, o tipo
de atividade que condena o tradutor a sempre olhar para
trás. Porém, uma teoria que localiza a equivalência no
nível da parole, uma teoria que inclui normas e leitores
da língua-alvo entre os seus parâmetros, seria lida mais
justamente como um conto de como tradutores efetiva-
mente produzem essa especificidade chamada equivalência
(PYM, 1997, p. 4, grifos no original).

Conclusão

A obra de Koller foi publicada em um momento no qual não


parecia ser possível conceber a tradução sem evocar uma noção
universalista de equivalência. Isso mudou à medida que a teoria
de tradução se desenvolveu e outras vertentes (o funcionalismo, a
teoria dos polissistemas, a desconstrução etc.) surgiram e incorpo-
raram diversas condicionantes ao ato tradutório (culturas de partida
e de chegada, o propósito da tradução e a subjetividade do próprio
tradutor, por exemplo), tornando a equivalência um conceito obso-
leto nos Estudos da Tradução.
Embora seja necessário problematizar a definição universalista
de tradução adotada por Koller (2004, p. 80), que, como vimos,
vai de encontro à sua concepção relativista de linguagem, propo-
mos aqui alguns questionamentos: ao teorizar sobre a tradução, é
realmente possível prescindir inteiramente da noção de equivalên-
cia, entendida aqui como a relação entre o texto de partida e o texto
de chegada, estabelecida pelo tradutor enquanto indivíduo, a partir
de sua interpretação subjetiva do texto original? Como o próprio
Koller afirma, a “verdadeira tradução” (eigentliche Übersetzung),
objeto de estudo dos Estudos da Tradução, se caracteriza por “seu
vínculo absolutamente específico com um texto de partida” (KOL-

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 18-33, set-dez, 2018 30


Carolina Ribeiro Minchin

LER, 2004, p. 88). Se perdermos de vista esse vínculo, ainda é


possível falar em tradução?
Por fim, embora não se possa afirmar que Koller nos apresen-
ta uma visão inteiramente relativista de tradução, tampouco que a
noção de equivalência em si possa ser considerada relativista, este
breve exame da obra do autor ilustrou que ele muitas vezes relati-
viza o conceito tradicional de equivalência. Parece-nos, portanto,
ser de grande valia revisitar a noção de equivalência e não descar-
tar a contribuição de pesquisadores como Koller somente com base
no pressuposto de que a matriz linguística da tradução está supera-
da. Esperamos ter demonstrado que, ao ler obras de autores dessa
vertente “com algum grau de caridade” (PYM, 1997, p. 5), como
procuramos fazer neste artigo, é possível identificar nelas traços sur-
preendentes e passíveis de uma análise mais minuciosa, mesmo nos
dias de hoje, quando a equivalência já parece uma ideia ultrapassada.

Referências

CATFORD, J. C.. A linguistic theory of translation: an essay in applied linguistics.


Oxford: Oxford University Press, 1965.

CRUZ, C. D.. A querela de universalistas e relativistas. In: ______. O trabalho do


tradutor: em busca de uma teoria para a prática. São Paulo: FFLCH/USP, 2012,
p. 37-52. Originalmente apresentada como tese de doutorado, Universidade de
São Paulo. Disponível em: <http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8144/
tde-14012013-140329/pt-br.php>. Acesso em: 23 abr. 2017.

FUJIHARA, A. K.. Tipos e graus de equivalência em Koller. In: ______.


Equivalência Tradutória e Significação. Curitiba: Universidade Federal do
Paraná. 2010, p. 38-44. Originalmente apresentada como dissertação de mestrado,
Universidade Federal do Paraná. Disponível em: <http://dspace.c3sl.ufpr.br/

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 18-33, set-dez, 2018 31


A noção de equivalência de Koller: universalismo relativizado?

dspace/bitstream/handle/1884/25348/FUJIHARA;jsessionid=F5B44E843C983B
4320F419739927EE94?sequence=1>. Acesso em: 23 abr. 2017.

FUJIHARA, A. K.. Equivalência tradutória e significação. Estudos Linguísticos.


São Paulo, n. 38, abr. 2009, p. 273-283. Disponível em: <http://www.gel.org.br/
estudoslinguisticos/volumes/38/EL_V38N1_22.pdf>. Acesso em: 21 abr. 2017.

HALLIDAY, M. et al.. Comparação e tradução. In: ______. As ciências


linguísticas e o ensino de línguas. Trad. Myriam Freire Morau. Petrópolis:
Vozes, 1974, p. 136-161.

KOLLER, W.. Einführung in die Übersetzungswissenschaft. 7. ed. Wiebelsheim:


Quelle & Meyer, 2004.

KOPETZKI, A.. Einheit oder Vielfalt. Universalistische und relativistische


Positionen in der Sprachtheorie. In: ______. Beim Wort nehmen. Sprachtheoretische
und ästhetische Probleme der literarischen Übersetzung. Stuttgart: M&P, 1996,
p. 19-43.

KRZESZOWSKI, T.. Equivalence, congruence and deep structure. In: NICKEL,


G. (Org.). Papers in contrastive linguistics. Cambridge: Cambridge University
Press, 1971, p. 37-48.

LIPINSKI, K.. Über die Sonderstellung der literarischen Übersetzung. In:


KATNY, Andrzej (Org.). Studien zur kontrastiven Linguistik und literarischen
Übersetzungen. Frankfurt/Main: Peter Lang, 1989, p. 211-220.

MARTON, W.. Equivalence and congruence in transformational contrastive


studies. Studia Anglica Posnaniensia, [Poznań], v.1, 1968, p. 53-62.

MUNDAY, J.. Equivalence and equivalent effect. In: MUNDAY, Jeremy.


Introducing Translation Studies. Theories and applications. 2. ed. Londres, Nova
Iorque: Routledge, 2008, p. 36-54.

NEWMARK, P.. A Textbook of Translation. Nova Iorque, Londres: Prentice


Hall, 1988.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 18-33, set-dez, 2018 32


Carolina Ribeiro Minchin

NIDA, E. A.. Toward a Science of Translating. Leiden: E. J. Brill, 1964.

NIDA, E. A.; TABER, C. R.. The theory and practice of translation. Leiden:
E.J. Brill, 1969.

PYM, A.. Koller’s Äquivalenz revisited. The Translator. [S.l.], v. 3, n. 1, 1997,


p. 71-79. Disponível em: <http://usuaris.tinet.cat/apym/on-line/reviews/1997_
koller.pdf>. Acesso em: 21 abr. 2017.

RICŒUR, P.. Uma Passagem: Traduzir o intraduzível. In: ______. Sobre a


tradução. Trad. Patrícia Lavelle. Belo Horizonte: UFMG, 2011, p. 59-71.

RODRIGUES, C.. Tradução e diferença. São Paulo: Ed. UNESP, 2000.

SCHLEIERMACHER, F.. Sobre os diferentes métodos de tradução. Trad.


Margarete von Mühlen Poll. In: Heidermann, Werner (Org.). Clássicos da teoria
da tradução (Antologia bilíngue, alemão-português, v. 1). Florianópolis: UFSC,
2001, p. 26-85.

SNELL-HORNBY, M.; VANNEREM, M.. Die Szene hinter dem Text:


scenes-and-frame-semantics in der Übersetzung. In: SNELL-HORNBY, M..
Übersetzungswissenschaft – eine Neuorientierung. Zur Integrierung von Theorie
und Praxis. Tübingen: Uni-Taschenbücher, 1986, p. 184-205.

WILSS, W.. Übersetzen und Dolmetschen im 20. Jahrhundert. 1. Ed. Saarbrücken:


ASKO Europa Stiftung, 1999.

Recebido em: 24/04/2018


Aceito em: 05/07/2018
Publicado em setembro de 2018

Carolina Ribeiro Minchin. E-mail: Ca_Minchin92@hotmail.com


ORCID: https://orcid.org/0000-0002-9146-1392

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 18-33, set-dez, 2018 33


http://dx.doi.org/10.5007/2175-7968.2018v38n3p34

CANONICAL TRANSLATION

Júlio César Neves Monteiro1


1
Universidade de Brasília, Brasília, DF, Brasil

Abstract: The discussion about the status of the translated literary text
and the position of the translator is ever-present in the field of Translation
Studies. Sensitive issues such as authorship, authorship in translation and
the position of the translated text within the receiving literary system
keep theoreticians busy, as well as discussions about canon in literature
and canon in translated literature. A less evident topic is the existence of
canonical translations which are regarded as “definitive” in the receiving
literary system or as a model for subsequent translations. I intend to show
in this paper that the phenomenon I call canonical translation is neither
an isolated phenomenon nor restricts itself to peripheral literary systems.
Keywords: Authorship; Canonical translation; Literature.

TRADUÇÃO CANÔNICA

Resumo: A discussão sobre o status do texto literário traduzido e a


posição do tradutor são uma constante na área dos Estudos da Tradução.
Temas sensíveis como autoria, autoria do texto traduzido e a posição do
texto traduzido no sistema literário de acolhida recebem muita atenção por
parte dos pesquisadores, bem como discussões sobre o cânone literário e o
cânone de literatura traduzida. Um tópico menos evidente é a existência de
traduções canônicas que são consideradas «definitivas» no sistema literário
de acolhida ou como modelo para traduções ulteriores. Neste artigo,
pretendo demonstrar que o fenômeno que denomino tradução canônica
não é um fenômeno isolado e tampouco está restrito a sistemas literários
periféricos.
Palavras-chave: Autoria, Tradução canônica, Literatura.

Esta obra utiliza uma licença Creative Commons CC BY:


https://creativecommons.org/lice
Júlio César Neves Monteiro

Before dealing with translation and empirical translation, it is


important to briefly revisit authorship and related themes such as
the textual author and the empirical author.
One of the points of convergence between textual author and
empirical author is copyright, which aims to protect both authorial
legitimacy (the text itself) and the author’s rights as a historical
subject. The translator, who is dissolved in the authorship
discussion, continues to be so is when it comes to copyright.
The text of the Universal Copyright Convention, signed at
Geneva in 1952, sets out in its introduction the reasons which led
the signatory countries to produce the document:

Les États contractants,

Animés du désir d’assurer dans tous les pays la


protection du droit d’auteur sur les œuvres littéraires,
scientifiques et artistiques,

[...]

Persuadés qu’un tel régime universel de protection


des droits des auteurs rendra plus facile la diffusion
des œuvres de l’esprit et contribuera à une meilleure
compréhension internationale,

Sont convenus de ce qui suit :

[...]

The declared intention of facilitating the diffusion of cultural


and scientific goods imposes limits that today, more than half a
century after the entry into force of the convention and in the face

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 34-49, set-dez, 2018 35


Canonical translation

of changes in the forms and speed of circulation of information


around the world, can be questioned. In the meantime, and in
accordance with the proposal in this article, I shall confine myself
to a brief analysis of the article of the convention dealing with
translation, and more specifically, translation rights. In Article V,
the Convention reads as follows:

1. Le droit d’auteur comprend le droit exclusif de faire, de


publier et d’autoriser à faire et à publier la traduction des
œuvres protégées aux termes de la présente convention.
2. Toutefois, chaque État contractant peut, par sa législation
nationale, restreindre, pour les écrits, le droit de traduction,
mais en se conformant aux dispositions suivantes :

[...] La législation nationale adoptera les mesures


appropriées pour assurer au titulaire du droit de traduction
une rémunération équitable et conforme aux usages
internationaux, ainsi que le paiement et le transfert de cette
rémunération, et pour garantir une traduction correcte de
l’œuvre.
Le titre et le nom de l’auteur de l’œuvre originale doivent
être également imprimés sur tous les exemplaires de la
traduction publiée. [...]

Whoever acquires the rights of translation of a text is obliged,


by virtue of the convention and the national laws that apply, to
produce a “correct translation” of that text. The text of the
convention does not, however, explain what a correct translation
is. Perhaps it is the minimal intervention on the original in order
to guarantee the absolute integrity of the intellectual production of
the author, production in this case understood as solely dependent
on his individuality, as if such a thing were possible. The “correct
translation” advocated by the convention thus seems to reinforce
the excessive subordination of the translated text to the original one,

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 34-49, set-dez, 2018 36


Júlio César Neves Monteiro

depriving the translation of any creative possibility, as Gillespie


(2005) argues.
“Correct translation” becomes even more difficult if we
continue to seek theoretical answers to the role of the translator.
Genette, for example, does not believe in the possibility of correct
translation since it is fundamentally flawed: the translation is not
the original text, nor was it written in the same language of the
original. Thus, the translator has to be satisfied: « [l]e plus sage,
pour le traducteur, serait sans doute d’admettre qu’il ne peut faire
que mal, et de s’efforcer pourtant de faire aussi bien que possible,
ce qui signifie souvent faire autre chose. » (1982, 297).
The author has the legal guarantee that his name will appear in
the published work. As for the translator, no suggestion is made that
his name be made known. In fact, the word “translator” is nowhere
to be found in the convention. There always appears “translation,”
as if it were not the result of the intellectual effort of an individual.
Thus, the translator is denied the legal right of ownership over
his text, and what I consider to be more serious, denies him the
right to have his existence recognized. So if in literary theory and
criticism there is still room for dispute over the author, the letter of
the law seems to have settled any controversy over the translator:
he does not exist. This, of course, has changed over time in some
countries, but the letter of the Convention remains the same.
By law, the translator has little room for maneuver within the
contemporary conception of authorship. He has little or almost no
legal rights to the intellectual property of his text, since the text
resulting from his translation is not “his”, belongs to another, and
his intervention in this text does not, as a rule, characterize the
right to claim authorship over this text.
The social and legal restriction of the authorship and authority
of the translator on the translated text has roots that are deeper
than the one-dimensional speculation on the text translated in the
locutionary level of language, which Lefevere qualifies as only
one of its instances of production. Lefevere argues that literary
translation, as a rewriting of a work originally produced in a given

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 34-49, set-dez, 2018 37


Canonical translation

sociocultural circumstance, has the potential to subvert the receiving


literary system and even the notion of authorship, provided that
authority is negotiated over the translated text.
At this point in the discussion, I think it appropriate to recall
the difference between theoretical considerations about literary
work, which end up involving translation, albeit indirectly, and the
discussion of translation as a social practice, regulated by values
and beliefs, as I have just shown. They are both important for
the discussion of authorship, text and translation, of course, but
it is always worth remembering that the limits of the translator’s
action on the translated text is a historical construct that, like all
human institutions, is subject to change. These changes result from
implicit or explicit negotiation between the actors involved in the
issue of production, distribution and consumption of texts. In this
way, the translator moves forward or backward in his socially
marked role depending on the negotiating margin he obtains from
the other actors; in this case, the copyright holders: author and
publisher. Hence space may emerge for its manifestation as a
creative individual.
The translator can express individuality and creation in the
paratext, which is the place where he can transcend the legal and
culturally accepted limits of authorship and establish his authorship
through the creation of a new text incorporated, albeit in peripheral
form, to the text that he translates. It thus retakes the Western
tradition up to the Middle Ages, of glossing texts, incorporating
elements that complement, criticize or relate to other texts. The
authorship of the translator, it seems, has not yet entered into
modernity. This is not necessarily a bad thing, for the notion of
authorship with which we are accustomed is being challenged by
the worldwide circulation of information at a dizzying pace and by
various means and as a consequence the difficulty in controlling
the origin and authority of information (and of its originality
and authorship). Translation, perhaps, will point the way to the
redefinition of authorship in the 21st century.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 34-49, set-dez, 2018 38


Júlio César Neves Monteiro

One of the socially accepted ways of conferring differentiated


status for a translation and for the translator is precisely what I
call a canonical translation, which temporarily resolves, through
authority (in the sense of acknowledging the translator as an
author), the tension between author and translator as creative
authority of the text that circulates in a given literary system. It is
a phenomenon that, although presenting limitations, happens with
a certain regularity and should receive more attention by scholars.
However, this issue has been largely disregarded in translation
studies, or touched on in a tangential way. Benjamin, in lecturing
on “archetypal” translations, warns of the dangers of translations
that tend to perpetuate themselves as a model, but does not discuss
what is at the origin of these translations that he calls archetypal.
The point is that some literary translations reach a canonical status,
that is, they inhibit later translations or, in certain cases, become
the measure by which the subsequent translations are produced and
evaluated. I now want to outline some of the conditions that allow
a translation to achieve such a status.
I use the expression “canonical translation” and not “classical”
translation or “masterpiece” translation, which has already been
used here and there in literary and translation studies, since the
notion of classical as well as of masterpiece does not necessarily
encompass the model dimension to be followed that the canon
encompasses. While the canonical can be seen as the result of a
dynamic set of inclusions and socially motivated exclusions, the
classic and the masterpiece refer to the supposedly immanent
qualities of the literary work. In the words of Compagnon,

Le classique transcende tous les paradoxes et toutes les


tensions : entre l’individu et l’universel, entre l’actuel et
l’éternel, entre le local et le global, entre la tradition et
l’originalité, entre la forme et le contenu. Cette apologie du
classique est parfaite, trop parfaite pour que ses coutures ne
lâchent pas à l’usage. (1998, 279).

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 34-49, set-dez, 2018 39


Canonical translation

Berman (2007) mentions canonicity in translation, but to


refer to a canonical conception of translation in the West,
the syncretism which, according to him, is the result of the
annexationist translation inherited from the Romans. It does not,
therefore, touch on the question of whether the translation itself
can be canonical, as I do in this paper.
To speak of canonical translation apparently goes against
theoretical approaches that advocate the necessity of periodic
retranslation of the literary work, since translations age and need to
be updated from time to time. The need for periodic retranslation
of the literary work can only be understood if we consider literary
translation and criticism as derivative activities that give rise to a
judgment of value on a particular literary work and that this value
judgment survives for as long as the conditions that generated it
last. Benjamin, considering the intention of the “derivative, last,
ideational” translator (2001, p.205) and translation as the search
for the true language, attaches considerable importance to the
translation and retranslation of the literary work for the sake of the
continuity of the intention of the original itself.
However, there are many examples of translations of literary
works that resist the time and circumstances that made its existence
possible and maintain its prestige unchanged in literary systems
worldwide.
The canonical translation is ever-present in all discussions around
what makes a translated text good. It exists in disguise, under other
names: it may be the translation that “most faithfully” reproduces
the original text or, at the other end of the spectrum, the most
“authoritative” translation. Adorno, for example, in commenting
on Rilke’s translations of Valery’s work and which did not survive
as an ideal model for later translations in German, resorts to
fidelity to explain why the translations were not successful despite
the authority of the translator. Fidelity would then be the guarantee
of a potential canonical value attributed to the translation.
Speaking from a different perspective, we have Jorge Luis Borges
who, as Waisman (2005) points out, thinks about translation from

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 34-49, set-dez, 2018 40


Júlio César Neves Monteiro

the center-periphery perspective and discusses the role of translation


in peripheral cultures. In his texts devoted to translation, Borges
attributes to infidelity the power of literary creation that allows the
work to be the same and to be another, or others, in its new literary
system. The new or different text may become canonical precisely
due to its independent life, or its infidelity towards the original.
The theories of translation generally have as their object the ideal
translation. The deconstructivist conception goes on the opposite
direction, but it does not escape the specter of the authorized
translation. After all, in order to deny the existence of an author
and an original text, it is first necessary to give these concepts
some legitimacy in order to undermine this very same legitimacy.
The conception of deconstruction for translation, like any human
knowledge, does not arise in a vacuum; it is based on the previous
reflections on translation accumulated by literate societies, even if
its purpose is to deny these reflections.
The canonical translation achieves its status by meeting certain
expectations. However, it is not my purpose to present the
canonical translation as a definitive translation, since expectations,
or translation norms as Toury (1995) puts it, change. The fact that
it is a real translation originated from equally real circumstances
does not make it an immutable object, nor is the literary canon or
social structure immutable. I believe that it is not possible to give
up either the concept of ideal translation or the analysis of real
translations, for, as Nietzsche warns, the exaggerated search for
the real (and I would add: by the explanation of the real by the real
itself) “can lead us to the opposite pole of all idealism, that is, the
region of the wax museums “(2007, 51).
The canonical translation represents the search for the
authoritative voice, an echo of the authoritative voice that is
attributed to the original, and this is the purpose of translation
theories: the prescriptive ones intend to teach how to make
“the definitive translation”; the descriptive ones aim to portray
the translation in empirical terms, but pointing out in them the
legitimating traits of its authority, or the lack thereof. The

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 34-49, set-dez, 2018 41


Canonical translation

deconstructive conception of translation, while denying notions as


authorship and having palimpsest as a metaphor for translation,
cannot escape the discussion of orthodox themes such as author,
original, and translated text. Or even canon or canonical translation
in the terms I propose in this paper.
A canonical translation, therefore, satisfies the need for
authority, though not forever. It offers a momentary sense of
finitude, a temporary end to the task of translating and retranslating.
The canonical translation may become, for example, a pedagogical
text, one of the attributes of a canonical work. To emphasize the
pedagogical and authoritative function of canonical translation, I
retrieve here the Greek term kanon both for its original meaning,
reed-stick to establish measures, and therefore to evaluate the
fairness and propriety of what is measured, as well as in its meaning
more current in our day, of model to be followed.
Therefore, to discuss literary canon and its derivative, canonical
literary translation, we must remember that:

“to think about a literary canon is to engage the cultural


authority comprised in the structure of permissions and
challenges that these authors came to represent. Then
there are several interlocking relationships among texts
which take on importance because of the historical role
they play in the development of certain imaginative forms
or in defining certain values. Here a good deal of change
takes place, relative to the questions cultures ask and to the
purposes that might govern certain pedagogical or artistic
practices.” (Altieri 1991, 2)

As for the factors that can be defined for a translation to


become canonical, I believe that the simultaneous occurrence of
two or more of them is perfectly possible, both in hegemonic and
peripheral cultures.
Among the factors that may contribute to making a translation
become canonical is, of course, a matter of chronology; first

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 34-49, set-dez, 2018 42


Júlio César Neves Monteiro

translations tend to be models for later translations. In fact, a


current practice in retranslation is precisely to use an earlier
translation as a guide to avoid what is considered failures and to
keep what are considered virtues. Anyhow, new translations are
always in dialogue with their predecessors in ways that can be more
or less explicit. However, chronological order is not tantamount
to primacy for it is not enough to assure the status of canonical
translation; a later translation may overshadow the pioneer and
become the new standard to be followed.
Besides the chronological question, there is a very powerful
subjective factor that can produce a canonical translation: the
author of the translation. Then we return to canon, to authority.
If the translator is a respected author in his cultural environment,
the translation tends to be seen as his authorial work, that is, it
ceases to bear the stigma of intellectual work of lesser prestige and
becomes a work of literary creation, not only derivative , therefore.
If Bloom’s (1994) strict concept of the literary canon, according to
which the aesthetic power is what allows a work to become canonical,
is taken as reference for the canonical translation argument, only the
creative authority of an author / translator enshrined in his literary
system could cause a translation to become canonical. However,
one must be aware of the fact that this conception of the canon
has little to say in favor of translation as practice, for Bloom’s
aesthetic power is “ constituted primarily of an amalgam: mastery
of figurative language, originality (my emphasis), cognitive power,
knowledge, exuberance of diction” (1994, 29).
The originality defended by Bloom, polemic in literary studies,
is hardly feasible in terms of translation studies. Alternative
conceptions of the canon based on aesthetics, such as that of
Kermode (2004), grant the canon a more dynamic character by
recognizing that aesthetic pleasure alters our perception of what
is worthy of preservation over time. His conception of the canon
seems to be more suited to the analysis of canonical translations,
since the canonicity of a translation, as I have said, has a dynamic
relationship with textual and extra-textual elements.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 34-49, set-dez, 2018 43


Canonical translation

It is necessary to make a distinction among literary canon, a


canon established by translation (which is a subtype of the literary
canon, for what enters the canon in the new literary system is the
literary work, not the translation proper, which is substitutable)
and canonical translation which I propose here. Although each has
distinguishing characteristics, what the three types of canon do
have in common is that they can be established by criteria that lie
outside the text, including their distribution and consumption.
The formation of the canon via translation is at the very basis
of universal literature since this concept emerged in the eighteenth
century. With regard to the influence of translation on the formation
of the English canon in the seventeenth and eighteenth centuries,
Gillespie shows how national literatures benefit from translation
as a source of renewal of the literary making and resizing of the
established canon:

[...] Dryden’s work suggests three respects in which


translations are constitutive of canons. Dryden’s own
translating activity has made him conceive differently from
the literary canon, ancient as well as modern [...]. Second,
because Dryden’s translations, in Fables and elsewhere,
breathe life into earlier poets, they have a similar effect on
other people’s perceptions in turn, potentially leading to
widespread reorientations in views of the poetic canon [...].
And finally, this greatest of English translators, ‘through
his versions of Ovid, Homer, Chaucer, Lucretius, Juvenal,
and Virgil, permanently changed the scope of English
poetry itself’ (Tomlinson 2003, 3). (2005, 13).

The inclusion of works from the most diverse origins into the
Western canon has been made possible by the translation of those
works, which made it possible to broaden the foundations of Western
literature beyond classical literatures, which until then had been
given the priority as far as the incorporation of genres and styles is
concerned. The national literatures of Europe and other continents

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 34-49, set-dez, 2018 44


Júlio César Neves Monteiro

began to contribute to the expansion of the classics. Works by


authors such as Shakespeare, Cervantes, Dante and many others
began to circulate beyond the borders of their countries through
translation and have been granted a position within a supranational
literary canon. The works of these authors have been translated
and retranslated for centuries, retaining their classic status. What
is yet to be seen is the contribution of peripheral translations to
the supranational literary canon, or even if we will still talk about
literature in terms of canon in the near future anyway.
If the works of canonical authors such as those mentioned
above continue to circulate among us in their original language,
the same does not happen with their translations, which have a
limited useful life and are replaced by translations that adapt more
to the translation horizon of subsequent epochs (Berman 2002).
Those works may, however, also have canonical translations in
some literary systems. Regarding retranslation, Ricoeur attributes
the task of retranslating to dissatisfaction with existing translations:

[...] [J]e touche au problème plus général de la retraduction


incessante es grandes oeuvres, des grands classiques de la
culture mondiale, la Bible, Shakespeare, Dante, Cervantès,
Molière. Il faut peut-être même dire que c’est dans la
retraduction qu’on observe le mieux la pulsion de traduction
entretenue par l’insatisfaction à l’égard des traductions
existantes [...] (2004, 15)

Genette, from a perspective that focuses more on textual aspects


and aesthetic issues, gives the literary translation importance as an
element that allows transposition as a hypertextual practice. He says:

La forme de transposition la plus voyante, et à coup sûr la


plus répandue, [...] c’est évidemment la traduction, dont
l’importance littéraire n’est guère contestable, soit parce
qu’il faut bien traduire les chefs-d’oeuvre, soit parce que

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 34-49, set-dez, 2018 45


Canonical translation

certaines traductions sont elles-mêmes des chefs-d’oeuvres :


le Quichotte d’Oudin et Rosset, l’Edgar Poe de Baudelaire,
les Bucoliques de Valéry, les Thomas Mann de Louise
Servicen par exemple et pour ne citer que des traductions
françaises [...] (1982, 294)

The conception of Genette’s “masterpiece” is based on the


same narrower conception of canon, that is, on value judgment.
Although I have said above that translation as a masterpiece is
different from the canonical translation proposal I present here,
when Genette corroborates the existence of translations elevated
to the condition of masterpieces, it reinforces the fact that some
translations, for reasons that vary according to time and to the
critical trend that examine them, reach a differentiated status,
which is what I defend in this paper.
As I noted above, the canon is established by textual and extra-
textual criteria. The canon may even have subdivisions based on
hegemonic or center-periphery issues. Venuti (1998) proposes a
curious subdivision of the American literary canon in these terms
and presents, among other examples, the case of one hundred
years of solitude, by Gabriel García Márquez. This example
deserves a more focused reflection, so that we can observe that the
movements of inclusion or exclusion of translations as canonical
varies according to values which are, after all, local. It’s all a
matter of perspective.
Venuti writes about a supposed parallel canon in the United
States, which would be formed by works of the periphery elevated
to the condition of canonical ones by force of market interests.
The so-called boom of Hispano-American literature would be
embedded in this market movement, and the representative work of
this new parallel canon for him is One Hundred Years of Solitude
in Gregory Rabassa’s translation into English: “Gregory Rabassa’s
1970 version of Garcia Márquez’s novel One Hundred Years of
Solitude was a remarkable success, a bestseller in paperback and
ultimately a textbook adopted in colleges and universities [...]”

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 34-49, set-dez, 2018 46


Júlio César Neves Monteiro

(1998, 169). Rabassa’s translation is still considered the canonical


translation for the work, and there is neither new translation nor
critical studies that challenge its canonical position. In an article for
a Canadian newspaper, Ilan Stavans, a professor of Latino and Latin
American Studies at Amherst College in Massachusetts, goes so far
as to say that the translation is better than the original. Rabassa’s
translation is thus elevated to the status of literary creation and
allows the book to be included in the list of the 50 best books
published in the aforementioned article. Even in articles in which
the translation is commented, the maximum the authors dare to
suggest is a few changes to the text of Rabassa, never the complete
retranslation of the work.
What I intend to show is that the status of canonical translation
is mutable and it varies greatly from literary system to literary
system, from society to society. It is the result of a balance between
textual and extra-textual aspects. The examples above show that
canonical translation does not occur only in peripheral literary
systems; it is also possible to find the presence of translations that
have achieved the status of canonical in firmly established, central
literary systems.
The literary canon is an abstract entity, a convention. It has
no defined boundaries, and it is not possible to compile a list of
all works considered canonical, since, as in any tacit agreement,
there may be differences of interpretation. The canon is what we
want - or accept - it to be. So is the canonical translation: as long
as the conditions that justify its existence last, it remains so. Once
these conditions, or conventions, have changed, it gives way to
other translations.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 34-49, set-dez, 2018 47


Canonical translation

References

Altieri, Charles. Canons and Consequences: Reflections on the Ethical Force of


Imaginative Ideals. Evanston: Northwestern University Press, 1991.

Adorno, Theodor. “O ensaio como forma”. Notas de Literatura I. Tradução de


Jorge M. B. de Almeida. São Paulo: Duas Cidades, 2003.

Benjamin, Walter. “A tarefa-renúncia do tradutor”. Tradução de Susana Kampff


Lages. Clássicos da teoria da tradução, vol. 1: antologia bilíngüe alemão-
português. Florianópolis, (2001): 188-215.

Berman, Antoine. A prova do estrangeiro. Tradução de Maria Emília Pereira


Chanut. Bauru: Edusc, 2002.

______. A tradução e a letra ou o albergue do longínquo. Tradução de Marie-


Hélène Torres, Mauri Furlan, Andréia Guerini. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2007.

Bloom, Harold. The Western Canon. Nova York: Harcourt Brace, 1994.

Borges, Jorge Luis. “Las versiones homéricas”. Obras Completas, volume I.


Barcelona: Emecé, 1999.

Compagnon, Antoine. Le Démon de la théorie: littérature et sens commun. Paris:


Éditions du Seuil, 1998.

Genette, Gérard. Palimpsestes. Paris: Seuil, 1982.

______. « Introduction à l’architexte. » Genette, Gérard et alii. Théorie des


genres. Paris: Seuil, (1986): 89-159.

______. Seuils. Paris: Seuil, 1987.

Gillespie, Stuart. “Translation and Canon-Formation”. Gillespie, Stuart; Hopkins,


David (ed.) The Oxford History of Literary Translation in English. Volume 3:
1660-1790. Oxford: Oxford University Press, 2005.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 34-49, set-dez, 2018 48


Júlio César Neves Monteiro

Hegel, G.W.F. Cursos de estética. Volume I. Tradução de Marco Aurélio Werle.


São Paulo: Edusp, 2001.

Kermode, Frank. Pleasure and Change. The aesthetics of Canon. Oxford: Oxford
University Press, 2004.

Lefevere, André. “Why waste Our Time on Rewrites: The Trouble with
Interpretation and the Role of Rewriting in an Alternative Paradigm”. Weissbort,
Daniel; Eysteinsson, Astradur (eds.). Translation – Theory and Practice. A
Historical Reader. Oxford: Oxford University Press, (2006): 435-442.

Nietzsche, Friedrich. O nascimento da tragédia. Tradução de Jacó Guinsburg.


São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

Ricoeur, Paul. Sur la Traduction. Paris: Bayard, 2004.

Toury, Gideon. Descriptive Translation Studies and beyond. Amsterdam: John


Benjamins, 1995.

Unesco. Convention universelle sur le droit de l’auteur avec Déclaration annexe


relative à l’article XVII et Résolution concernant l’article XI 1952. Disponível em:
http://portal.unesco.org/fr/ev.php-URL_ID=15381&URL_DO=DO_TOPIC&URL_
SECTION=201.html.

Venuti, Lawrence. The Scandals of Translation. Towards an Ethics of Difference.


Londres: Routledge, 1998.

Waisman, Sergio. Borges y la traducción. Tradução de Marcelo Cohen. Buenos


Aires: Adriana Hidalgo Editora, 2005.

Recebido em: 30/04/2018


Aceito em: 31/07/2018
Publicado em setembro de 2018

Júlio César Neves Monteiro. E-mail: cesarj1@gmail.com


ORCID: https://orcid.org/0000-0002-9464-2615

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 34-49, set-dez, 2018 49


http://dx.doi.org/10.5007/2175-7968.2018v38n3p50

TRADUZIR “FALSAS” TRADUÇÕES: O MANUSCRITO


INVENTADO

Silvia La Regina1
1
Universidade Federal do Sul da Bahia
Porto Seguro, Bahia, Brasil.

Resumo: O topos do manuscrito encontrado aparece na antiguidade clás-


sica, passa pela Renascença e floresce até hoje; esta ficção narrativa, pela
qual o texto apresentado seria uma tradução de um imaginário original,
levanta ao tradutor real uma série de instigantes questões. O objetivo des-
ta comunicação é promover uma reflexão, analisando alguns exemplos
concretos, sobre a tradução destes textos. Os resultados do trabalho de-
monstrarão como, na nova tradução / metatradução do texto, num jogo de
espelhos e suas refrações, aparecem vestígios também de seu imaginário
original, formando um palimpsesto das três culturas, uma tripla camada
de texto de onde emergem as vozes dos vários autores.
Palavras-chave: Topos; Manuscrito; Settembrini; Censura.

TRANSLATING “FAKE” TRANSLATIONS: IMAGINARY


MANUSCRIPTS

Abstract: The topos of the rediscovered manuscript appears in classical


antiquity, crosses the Renaissance and flourishes to date; this narrative
fiction, in which the text is presented as a translation of an imaginary
original, raises to the real translator a series of challenging questions. The
purpose of this paper is to promote reflection, analyzing some concrete
examples on translations of these texts; to demonstrate how the new
translation of the text, in a game of mirrors and its refractions, shows also
traces of his imaginary original, forming a palimpsest of three cultures, a
triple text layer from which emerge the voices of several authors.
Keywords: Topos; Manuscript; Settembrini; Censorship.

Esta obra utiliza uma licença Creative Commons CC BY:


https://creativecommons.org/lice
Silvia La Regina

O início desta reflexão é a citação de um texto famoso, as últi-


mas linhas de A morte do autor, de Roland Barthes, do longínquo
1968: “sabemos que, para devolver à escrita o seu devir, é preciso
inverter o seu mito: o nascimento do leitor tem de pagar-se com a
morte do Autor” (BARTHES, 2004, p. 6).
Morte do autor enquanto “passado do próprio livro” (BARTHES,
2004, p. 3), limitação daquelas inúmeras possibilidades tecidas pelas
relações dos textos que se concretizam e vivem na atuação, na figu-
ra, até então inédita e passiva, do leitor.
Autor é entendido, então, como figura a ser destronada, des-
tituída da autoridade quase teológica, detentora do sentido único.
O que é, porém, um autor? Preciso então recorrer a O que é um
autor, de Michel Foucault, de 1969, cuja força, em muitos aspec-
tos, não envelheceu. Mais do que um autor, podemos conceber a
função-autor, que “non rinvia pura e semplicemente a un individuo
reale; può dar luogo simultaneamente a molti ego, a molte posi-
zioni soggetto che classi diverse di individui possono occupare”
(FOUCAULT, 2004, p. 14).
Com isso, chega-se à necessidade de refletir a respeito de um
dos topoi mais antigos das literaturas ocidentais: o do manuscrito
supostamente encontrado, e de fato inventado. Um texto normal-
mente relatado como autógrafo, e por isso, em teoria, comprova-
damente original. Um texto que perdeu seu autor, ou porque des-
conhecido ou porque, mesmo tendo um nome, não tem identidade
definida: e que, de toda forma, entrelaça a função autor com a fun-
ção leitor, que seria desempenhada pelo sujeito que assina o livro,
disfarçado de copista, atualizador, editor, transmissor do texto.
O topos, do qual darei alguns exemplos a seguir, nasce de dois
fatores:
1. o desejo de comprovar a verossimilhança, a veridicidade de
algo que a priori não poderia ser real, por ser romance,
portanto ficcional:

[...] testimonianza, espediente realista nel quale il narratore


si dice protagonista e il testo stampato si dà per manoscritto

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 50-67, set-dez, 2018 51


Traduzir “Falsas” traduções: o manuscrito inventado

ritrovato. [...] Un fondo di sincerità-verità assicura osten-


sibilmente il valore dello scritto, [con] la cauzione del por-
tavoce d’autore” (CALLE-GRUBER, 1999, p. 107).

Estabelece-se assim um pacto narrativo entre autor e leitor, pelo


qual a atestação de veridicidade pelo autor, evidentemente falsa, é
falsamente tomada como verdadeira pelo leitor, numa cumplici-
dade que constitui um dos fundamentos deste gênero de narração.

2. Por outro lado, o artifício pode ser usado havendo necessida-


de real de disfarce do autor ou querendo convencer o leitor
da veridicidade do manuscrito.

O artifício narrativo tornou-se um dos mais praticados no


romance histórico. O manuscrito encontrado em alguma biblioteca
é um topos que já apareceu no romance As incríveis maravilhas
além de Thule, de Antônio Diógenes, escritor grego dos séculos
I-II d.C.; hoje só temos a epítome de Fócio (IX século d.C.),
que resume os 24 livros da narração de viagens fantásticas (cf.
PERROTTA, 1978, p. 467). O próprio Antônio Diógenes teria
admitido que a história era inventada, mas baseada em escritos e
testemunhos:

Or questo Antonio Diogene [...] dice a Faustino di scrivere


le Cose incredibili che erano oltre Tule, e le dedica a sua
sorella Isidora, donna dilettantesi di lettere. Si professa egli
poi poeta della commedia antica; ed aggiunge che, quan-
tunque abbia finto tutte queste cose false e incredibili, di
esse però tiene testimonj antichissimi, degli scritti de’quali
egli le ha con assai fatica raccolte e compilate. Perciò in
ciascheduno di questi suoi libri nomina gli autori che dianzi
le aveano messe in iscritto [...] (FOZIO, 1836, II, p.147)

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 50-67, set-dez, 2018 52


Silvia La Regina

Fócio termina seu resumo apresentando Antônio Diógenes


como primeiro autor de romances e inspirador de Luciano e Apu-
leio (FOZIO, 1836, II, p.148).
Entre tantos outros, o topos aparece em Boiardo: “El libro pri-
mo de Orlando Inamorato, [...] tradutto da la verace cronica de
Turpino, arcivescovo remense, per il magnifico conte Mateo Maria
Boiardo” (BOIARDO, 1984, p.1).
Encontramos o topos em Ariosto, que também se reporta a Tur-
pino e a outros autores, por vezes não nominados: por exemplo,
“Turpin, che tutta questa storia dice / fa qui digresso” (canto 23,
estrofe 38) e “Non si legge in Turpin che n’avvenisse; / ma già un
autor che più ne scrisse. / Scrive l’autore, il cui nome ne taccio […]
(canto 24, estrofes 44-45).
O topos inventou o Cide Hamete Benengeli do Quixote de Cer-
vantes e deu o título a um clássico do romance gótico (Manuscrito
encontrado em Saragoça, escrito por Jan Potocki em 1805); usa-
ram o topos Walpole, em The Castle of Otranto, e Walter Scott em
Ivanhoe. Na Itália do final do século XVIII – início do XIX, entre
iluministas e revolucionários napolitanos, apareceram os romances
de Alessandro Verri (Le avventure di Saffo, poetessa di Mitilene,
de 1782) e Vincenzo Cuoco, em Platone in Italia, publicado em
1806, fictícia tradução de um romance epistolar escrito na antiga
Magna Grécia por Platão e seu discípulo Cleobulo.
Já I Promessi Sposi finge ser adaptação de um manuscrito do
século XVII, e, de alguma forma, com sua enorme e rápida fama,
coloca a pedra tumbal sobre o artifício do manuscrito na Itália; pe-
dra que é levantada novamente pelo incipit de O nome da Rosa, de
Umberto Eco (1980): “Naturalmente, un manoscritto”. Um manu-
scrito em latim do século XIV, traduzido para o francês no século
XIX, “encontrado” por Umberto Eco em 1968:

assai scarse erano le ragioni che potessero inclinarmi a dare


alle stampe la mia versione italiana di un’oscura versio-
ne neogotica francese di una edizione latina secentesca di

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 50-67, set-dez, 2018 53


Traduzir “Falsas” traduções: o manuscrito inventado

un’opera scritta in latino da un monaco tedesco sul finire


del trecento (ECO, 2002, p. 7).

O topos é retomado em Il cimitero di Praga (2010).


Enfim, neste topos temos, portanto, a ficção dos dois (ou mais)
narradores, o autor e o editor, que cria uma duplicidade de visão e
interpretação, com a meta-reflexão do narrador mais recente sobre
o texto que ele relata e cujas pretensas antiguidade e veracidade o
legitimam e validam sua autenticidade: ficção na ficção, invenção
na invenção. A diluição do autor através de um nome inventado, se
considerarmos – retomando Foucault – que

un nome d’autore non è semplicemente un elemento in un


discorso […]. Esso manifesta l’avvenimento di un certo
gruppo di discorsi e si riferisce allo statuto di tale discorso
all’interno di una società e di una cultura. Il nome d’autore
non si situa nello stato civile degli uomini, ma non è ne-
anche situato nella finzione dell’opera; esso è situato nella
rottura che dà vita a un certo tipo di disocrsie al suo modo
particolare di essere. Si potrebbe dire […] che un certo nu-
mero di discorsi sono dotati della funzione ‘autore’ mentre
altri ne sono sprovvisti (FOUCAULT, 2004, p. 8-9).

Mise en abîme, romance como caixinhas chinesas, caixa de


surpresas em dois, três, quatro níveis – lembrando o universo
paradoxal e em camadas cada vez mais fundas do filme Incep-
tion (A origem, 2010) de Christopher Nolan – normalmente o
topos obedece a algumas regras. Em geral encontramos uma
introdução, ou um prefácio, em que o pretenso editor conta as
circunstâncias que o levaram a descobrir o manuscrito. Vimos
pequenos excertos de Boiardo, Ariosto e Eco: consideremos
agora os de Cervantes e Walpole.
Don Quijote de la Mancha (1605): “[...] Pero yo, que, aunque
parezco padre, soy padrasto de don Quijote [...]” (CERVANTES,
2004, p.7). Padrasto porque, como conta mais adiante, o narrador

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 50-67, set-dez, 2018 54


Silvia La Regina

encontrou, comprou e mandou traduzir o texto escrito por Cide


Hamete Berengeli:

Cuando yo oí decir Dulcinea del Toboso, quedé atónito y


suspenso, porque luego se me representó que aquellos car-
tapacios conteían la historia de Don Quijote. [...] volvi-
endo de improviso el arábigo en castellano, dijo que decía:
Historia de Don Quijote de la Mancha, escrita por Cide
Hamete Benengeli, historiador arábigo. Mucha discreción
fue menester para disimular el contento que recibí cuando
llegó a mis oídos el título del libro [...]. Apartéme luego
con el morisco por el claustro de la iglesia mayor, y roguéle
me volviese aquellos cartapacios, todos los que trataban de
Don Quijote, en lengua castellana, sin quitarles ni añadirles
nada, ofreciéndole la paga que él quisiese (CERVANTES,
2004, p. 86).

Para além da posição central do romance de Cervantes na lite-


ratura ocidental, deve-se frisar também como I promessi sposi, do
qual falarei rapidamente mais adiante, deva muito de sua organiza-
ção e de seu uso do famoso topos ao exemplo do Quijote, inclusive
na escolha de uma fonte não confiável por ser árabe, conforme
pensava Cervantes (Cide) ou por ser, como o anônimo, daquele
século XVII caracterizado por “declamazioni ampollose, composte
a forza di solecismi pedestri, e da per tutto quella goffaggine ambi-
ziosa” (MANZONI, 1973, p. 3).
The Castle of Otranto (1765) foi publicado inicialmente como
The Castle of Otranto, A Story. Translated by William Marshal,
Gent. From the Original Italian of Onuphrio Muralto, Canon of the
Church of St. Nicholas at Otranto:

PREFACE TO THE FIRST EDITION. THE following


work was found in the library of an ancient Catholic family
in the north of England. It was printed at Naples, in the
black letter, in the year 1529. How much sooner it was

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 50-67, set-dez, 2018 55


Traduzir “Falsas” traduções: o manuscrito inventado

written does not appear. [...] The style is the purest Italian.
If the story was written near the time when it is supposed to
have happened, it must have been between 1095, the era of
the first Crusade, and 1243, the date of the last, or not long
afterwards. (WALPOLE, 2014, p. 17).

Vemos aqui, portanto, assim como em outros textos (o de Eco,


por exemplo), a ocorrência de uma dupla (fictícia) tradução; na
segunda edição Walpole admitiu ser o autor do texto:

Preface to Second Edition. THE FAVOURABLE manner


in which this little piece has been received by the public,
calls upon the author to explain the grounds on which he
composed it. But, before he opens those motives, it is
fit that he should ask pardon of his readers for having
offered his work to them under the borrowed personage
of a translator. As diffidence of his own abilities and
the novelty of the attempt, were the sole inducements to
assume the disguise, he flatters himself he shall appear
excusable. (WALPOLE, 2014, p. 20).

Pretensa timidez de um escritor aristocrata, mas sobretudo a au-


toridade dada por um falso nome antigo na construção de um texto
que inovava no gênero: Walter Scott, em seu prefácio à edição de
1811 do Castle, observa que Walpole, não sabendo qual teria sido
a acolhida de uma obra tão nova, e, não querendo parecer ridículo
caso fosse um fracasso, publicou seu romance como uma tradução
do italiano, cuja autenticidade à época não pareceu suspeita (cf.
REIM, 1993, p. 10).
Aspecto importante do topos, como visto acima, é que muitos
dos falsos manuscritos são apresentados como traduções: o caso
talvez mais famoso, Don Quijote, seria traduzido de um imaginário
original árabe – e aqui o jogo autor/editor/narrador complica-se,
por ser integrado por pelo menos três individualidades ficcionais
diferentes: Cide Hamete Berengeli, seu tradutor para o espanhol e

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 50-67, set-dez, 2018 56


Silvia La Regina

finalmente o narrador, com os últimos dois interferindo, questio-


nando, sugerindo e corrigindo (CHINI, 2009, p. 3).
I Promessi Sposi, por sua vez, não se apresenta como tradução,
e sim como adaptação: “rifarne la dicitura” seria, literalmente,
uma tradução intralinguistica do falso manuscrito:

‘Ma, quando io avrò durata l’eroica fatica di trascriver questa


storia da questo dilavato e graffiato autografo, e l’avrò data,
come si suol dire, alla luce, si troverà poi chi duri la fatica
di leggerla?’ Questa riflessione dubitativa, nata nel travaglio
del decifrare uno scarabocchio che veniva dopo accidenti,
mi fece sospender la copia, e pensar più seriamente a
quello che convenisse di fare. […] Il buon secentista ha
voluto sul principio mettere in mostra la sua virtù [...];
ma com’è dozzinale! com’è sguaiato! com’è scorretto!
Idiotismi lombardi a iosa, frasi della lingua adoperate a
sproposito, grammatica arbitraria, periodi sgangherati. […]
In vero, non è cosa da presentare a lettori d’oggigiorno
[…]. Nell’atto però di chiudere lo scartafaccio, per riporlo,
mi sapeva male che una storia così bella dovesse rimanersi
tuttavia sconosciuta [...]. ‘Perché non si potrebbe, pensai,
prender la serie de’ fatti da questo manoscritto, e rifarne la
dicitura?’ (MANZONI, 1973, p. 2-3).

É interessante ver como Manzoni, ao utilizar o topos do ma-


nuscrito para dar mais verossimilhança ao seu romance – ainda
que o leitor saiba, evidentemente, que não existe manuscrito al-
gum, e que esteja compartilhando um jogo literário com o autor
(diferentemente, portanto, do caso de Ossian, cujos textos no
início foram considerados verdadeiramente antigos) – se estenda
na apresentação das pesquisas e dos testemunhos encontrados
para confirmar a veracidade dos fatos narrados. E realmente
Manzoni fez muita pesquisa histórica e documental, só que no
sentido inverso: antes estudou e pesquisou e depois escreveu o
romance, enquanto na Introdução o narrador conta que antes

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 50-67, set-dez, 2018 57


Traduzir “Falsas” traduções: o manuscrito inventado

encontrou o manuscrito, depois pesquisou e enfim o reescreveu


em outra dicitura.

Taluni però di que’ fatti, certi costumi descritti dal nostro


autore, c’eran sembrati così nuovi, così strani, per non dir
peggio, che, prima di prestargli fede, abbiam voluto inter-
rogare altri testimoni; e ci siam messi a frugar nelle memo-
rie di quel tempo, per chiarirci se veramente il mondo cam-
minasse allora a quel modo. Una tale indagine dissipò tutti i
nostri dubbi: a ogni passo ci abbattevamo in cose consimili,
e in cose più forti [...]. E, all’occorrenza, citeremo alcuna
di quelle testimonianze, per procacciar fede alle cose, alle
quali, per la loro stranezza, il lettore sarebbe più tentato di
negarla (MANZONI, 1973, p. 4).

Il nome della rosa (1980) apresenta-se como tradução de tradu-


ção: o narrador-editor em 1968 teria encontrado e traduzido para
o italiano um texto francês de 1842, por sua vez tradução de uma
edição impressa do século XVII em latim, por sua vez reprodução
de um manuscrito do século XIV, guardado no mosteiro alemão de
Melk (cf. DE LAURETIS, 1999, p. 47). Quase impossível resumir
as citações e os intertextos do romance, mas um elemento pode ser
citado: sabe-se que o nome Guglielmo di Baskerville remete ao ro-
mance de Arthur Conan Doyle – cujos policiais arquetípicos cons-
tituem um dos eixos principais do patchwork de Eco – The Hound
of the Baskervilles, de 1902. Menos conhecido talvez seja o fato de
o livro de Conan Doyle também conter um manuscrito inventado:

‘I have in my pocket a manuscript,’ said Dr. James


Mortimer.
‘I observed it as you entered the room,’ said Holmes.
‘It is an old manuscript.’
‘Early eighteenth century, unless it is a forgery.’ […]
‘The exact date is 1742.’ Dr. Mortimer drew it from his
breast-pocket. ‘This family paper was committed to my

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 50-67, set-dez, 2018 58


Silvia La Regina

care by Sir Charles Baskerville [...]. (CONAN DOYLE,


2012, p. 23).

O método e as deduções de Guglielmo di Baskerville são di-


retamente inspirados em Sherlock Holmes (cf. DE LAURETIS,
1999, p. 48), e até o nome de Adso, o protagonista-narrador, é
derivado de Watson (cf. CALLE-GRUBER, 1999, p. 109). Mais
relevante, inclusive pela centralidade de muitas de suas reflexões
teóricas no pensamento de Eco, é a figura de Borges, personifi-
cada não só no “vilão” Jorge de Burgos, bibliotecário cego assim
como o foi Borges, e muito mais na estrutura do mosteiro e prin-
cipalmente de sua biblioteca, diretamente inspirada na do conto
“A biblioteca de Babel”, e ainda nos outros temas tão caros ao
escritor argentino: labirinto, história policial, espelho, os textos
e suas repetições, tanto mais diferentes quanto mais idênticos (cf.
STEPHENS, 1999, p. 134).
A ocorrência daquele que chamei segundo tipo do topos, o autor
que se esconde através de um manuscrito antigo porque não pode ou
não quer assumir sua autoria, é muito mais rara. O citado romance
de Walpole inicialmente foi considerado verdadeira tradução de um
original italiano. James Macpherson criou o caso literário de The
Works of Ossian (1760): os textos, supostamente escritos no século
III d.C, dos quais ele teria sido o tradutor, fizeram enorme sucesso,
sendo traduzidos para vários idiomas (cf. KER, 1953, X, p. 227-
231), antes que fosse comprovado que não poderiam ser tão antigos
e que foram uma fraude forjada por Macpherson, que, porém, nunca
admitiu ser seu verdadeiro autor (KER, 1953, X, p. 232).
Um caso menos conhecido é o de uma novela que Ana Maria
Chiarini e eu traduzimos recentemente, I Neoplatonici de Luigi
Settembrini. O texto, publicado em 2016, tem uma introdução nos-
sa e um posfácio de Anne Macedo, e muitas das considerações
a seguir devem ser pensadas, portanto, como fruto de trabalho e
reflexões a seis mãos. Já lembrei Platone in Italia, de Vincenzo
Cuoco: no romance epistolar, fictícia tradução do grego, Cleobolo

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 50-67, set-dez, 2018 59


Traduzir “Falsas” traduções: o manuscrito inventado

visita a Magna Grécia em companhia de seu mestre Platão. O texto


possivelmente tenha sido um exemplo instigante para Settembrini
(1813-1876), que, autor das Ricordanze della mia vita, foi um icô-
nico pai da pátria, heroi do Risorgimento, erudito, tradutor, reitor
da universidade de Nápoles, senador, marido e pai exemplar. Pre-
so pelos Bourbons durante mais de dez anos, aproveitou os anos de
prisão para traduzir Luciano de Samósata, autor grego do II século
d.C. que inspirou, entre outros, as Operette morali de Giacomo
Leopardi. No cárcere de Santo Stefano, onde dividiu a cela com
Silvio Spaventa, tio de Benedetto Croce, Settembrini escreveu tam-
bém uma novela que ficou inédita por mais de 120 anos, esquecida
num manuscrito (este, real) na Biblioteca Nazionale de Nápoles.
O manuscrito traz o título I Neoplatonici per Aristeo di Megara.
Traduzione dal greco di Luigi Settembrini; mas, diferentemente de
Manzoni, que publicou com seu nome I Promessi Sposi e chamou
de “anônimo” o autor do imaginário manuscrito, Settembrini não
publicou a novela, mas deu um nome imaginário ao pretenso autor,
Aristeo de Megara, que nunca existiu. Eis um exemplo do “falso”
manuscrito, ou manuscrito inventado, mais uma vez apresentado
como tradução.
Na nota do tradutor, que, topos no topos, antecede o texto,
lemos:

I Neoplatonici di Aristeo di Megara è una di quelle favole


milesie, di cui i delicatissimi Elleni tanto si dilettavano. È
un racconto osceno sino a la metà, ma è una opera d’arte;
e perché bella opera d’arte è tradotta in italiano. Noi
uomini moderni abbiamo tutti i vizi degli antichi Elleni,
e forse anche più e maggiori, ma li nascondiamo non so
se per pudore o per ipocrisia: quelli non nascondevano
nulla, ed abbellivano con l’arte anche i vizi. Uno dei
caratteri principali dell’Arte greca è che ella non è
ipocrita [...]. I moralisti potranno biasimare questo
racconto, gli artisti se ne compiaceranno certamente, e
diranno che l’arte fa bella ogni cosa. E da questo racconto

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 50-67, set-dez, 2018 60


Silvia La Regina

ancora si vede come sia antica l’opinione di alcuni


discreti uomini, i quali credono che l’amor platonico non
sia amore purissimo e scevro di ogni sensualità, come
alcuni furbi han dato ad intendere per nascondere i loro
amori maschili. E di questo volevo avvertire coloro che
leggeranno (SETTEMBRINI, 2001, p. 11-12).

A Fábula Milésia, de Aristides de Mileto (I séc. a.C), conside-


rada a primeira coletânea de contos gregos, não chegou até nós,
mas deixou marcas e lembranças no Satyricon de Petrônio e em
Ovídio. Histórias “licenciosas”, e da mesma forma a narrativa de
I Neoplatonici sem dúvida é “licenciosa”.
Numa carta à mulher Luigia, em fevereiro de 1854, Settembrini
escreve:

Mi dirai tu: E come ti viene in capo di tradurre scrittore


dove è qualche oscenità? Ecco qui, Gigia mia: le opere
greche son piene di queste oscenità, quale più, quale meno:
era il tempo, era la gente voluttuosa: e le più belle opere
ne sono piene. Anche noi altri italiani patiamo questo.
Le opere del Boccaccio e del Firenzuola sono bellissime,
eppure son lorde della medesima pece. [...] Scrivendo io da
me, mi guarderei bene da queste sozzure: traducendo, non
posso fare altrimenti (apud LUNETTA, 2012, p. 2).

O manuscrito foi encontrado pelo grecista Raffaele Cantarella


em 1937, mas seguiu inédito por mais quarenta anos. Emidio Pier-
marini, que foi bibliotecário na Biblioteca Nazionale de Nápoles e
amigo de Benedetto Croce, numa carta a Cantarella, em 1953 (cem
anos depois da carta de Settembrini à mulher!) escreveu:

L’autografo sboccato ed ellenisticheggiante del Settembrini,


come sapete, io lo lessi tanti anni fa, poco dopo che
l’avevate letto voi: e fummo d’accordo che non era da
pubblicare. L’opera è vivace, a tratti vivacissima, di fresca

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 50-67, set-dez, 2018 61


Traduzir “Falsas” traduções: o manuscrito inventado

grazia, da fare onore ad un artista di alta classe come fu


il Settembrini […] Tuttavia il lavoretto d’abilità magistrale
che il Settembrini dové fare per gareggiare con antichi artisti
della parola, più che compiacersi del lubrico e malsano
argomento, ci parve (ben ricordo) da serbare inedito. [...]
solo per una mia curiosità di letterato e moralista volli
parlarne al Croce e al Torraca, il quale era stato studente
del professor Settembrini. Il Croce, ch’era solo nel suo
studio, mi guardò con un largo sorriso; e con un gesto
d’indulgenza disse soltanto: ‘Essendo stato così a lungo col
greco Luciano…’. [...] Il Torraca [...] non se ne rallegrò;
direi anzi che gli dispiacesse alquanto quell’errore letterario
del venerato Maestro, martire patriottico dei Borboni;
pur consolandosi che fosse opera ingegnosa e viva: e mi
espresse l’opinione che avevo ragione a pensare che doveva
lasciarsi nell’ombra di un armadio di biblioteca, accessibile
a qualche rarissimo studioso. Ma adesso si dà il premio
Nobel ad un Andrea Gide… (apud DE FAZI, 2011).

Cantarella finalmente, quase octogenário, publicou I Neoplato-


nici em 1977. Qual a razão desta centenária censura? A novela tem
poucos personagens e pouca ação, mas muito sexo: os protagonis-
tas, Doro e Callicle, são dois rapazes adolescentes na Atenas anti-
ga, que, criados juntos desde a infância, se apaixonam. As expe-
riências sexuais deles, entre si e com outros parceiros, constituem
o núcleo do romance, e são descritas com delicadas metáforas,
frequentemente botânicas, ainda assim bastante explícitas.

Quando i due giovanetti giacevano insieme abbracciati


[...] mandavano fresco odore di giovinezza, ed erano
sempre tersi per lavacro. Si guardavano l’un l’altro, si
carezzavano, si palpavano in tutte le parti della persona,
si baciavano negli occhi, e nella faccia, e nel petto, e nel
ventre, e nelle cosce, e nei piedi che parevano d’argento:
poi si stringevano forte, e si avviticchiavano e uno metteva
la lingua nella bocca dell’altro, e così suggevano il nettare

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 50-67, set-dez, 2018 62


Silvia La Regina

degli Dei, e stavano lungo tempo a suggere quel nettare


[…]. E non contenti di stringersi così petto a petto, l’uno
abbracciava l’altro a le spalle, e tentava di entrare fra le
belle mele, ma l’altro aveva dolore, e quei si ritraeva per
non dare dolore al suo diletto. [...] In fine Doro si levò
e disse: Un Dio mi suggerisce un espediente. E preso un
vasello di purissimo olio biondo come ambra, soggiunse:
Ungiamo con quest’olio la chiave e la toppa, e tentiamo,
ché forse riusciremo ad aprire. Unsero bene e la chiave e la
toppa, e così Doro senza molta fatica sua e senza molta noia
di Callicle entrò vittorioso: a lo stesso modo entrò Callicle
ed ebbe una simile vittoria; e così furono contenti tutti e due
e goderono il primo frutto del loro amore (SETTEMBRINI,
2001, p. 16-17).

Os dois jovens, numa exaltação solar e pagã da vida e da car-


nalidade, praticam sexo incansavelmente, experimentam ménage
à trois com homem (Cleobolo, erótico filósofo: lembrança dire-
ta de Platone in Italia!) e mulher, vão à guerra, são feridos e,
novamente em pátria e em tempo de paz, casam com mulheres,
segundo a ética familiar grega tradicional. Porém... mesmo depois
de casados, “sino alla vecchiezza di tanto in tanto per qualche oc-
casione trovandosi nel medesimo letto confondevano i piedi e si
abbracciavano come nei primi anni della loro giovinezza”. (SET-
TEMBRINI, 2001, p. 54). Uma espécie de Brokeback Mountain
(cf GARGIULO, 2014) avant la lettre, que sem dúvida não poderia
ter sido publicado nem em 1854 nem, como vimos, em 1953, e que
suscitou muitas polêmicas ainda em 1977: por exemplo Ettore Pa-
ratore, conhecido latinista e neofascista, manifestou seu escândalo
em vários artigos. O Risorgimento era, ainda naqueles anos, um
valor intocável, uma insuportável congérie de virtudes: por isso
Giorgio Manganelli, em seu prefácio à primeira edição da novela,
desejava “un Risorgimento vizioso, irregolare, fantasioso, tragi-
co, sinistro; una classe dirigente di beoni e cocotte, anche qualche
truffatore” (MANGANELLI, 1977, p. 4). Uma sociedade como
a italiana, ainda ontem, em 2016, traumatizada pela aprovação de

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 50-67, set-dez, 2018 63


Traduzir “Falsas” traduções: o manuscrito inventado

uma tímida união civil, teria evidentemente muita dificuldade para


metabolizar um texto como I Neoplatonici, totalmente laico, ale-
gremente carnal, desprovido da noção de culpa e principalmente de
pecado, daquele mórbido, hipócrita, langoroso sentido de pecado
que permeia e tempera a cultura italiana.
Voltando, portanto, ao topos, vemos como neste caso o ma-
nuscrito inventado tenha tido uma função não só literária, não uni-
camente de pacto narrativo entre autor e leitor, não meramente
reinvenção retórica da figura do autor: para Settembrini o topos foi
salvífico, foi vital, foi a possibilidade de criação (cf. MACEDO,
2016, p. 55).
Deve ser ressaltada a relevância, para quem verteu para o por-
tuguês I Neoplatonici – uma tarefa frequentemente complexa, como
toda tradução, mas fonte de diálogos e pesquisas especialmente ins-
tigantes – do empreendimento de uma tradução real de uma falsa
tradução. Tradução ao quadrado, uma metatradução que opera com
três diferentes níveis de texto – grego antigo, italiano do século XIX,
brasileiro do século XXI – que impôs a escolha de determinadas
estratégias visando à manutenção de um pretenso sabor grecizante
debaixo da camada oitocentista, por vezes até superinterpretando o
texto. Por exemplo, usamos os nomes gregos das divindades, ao
invés dos nomes romanos utilizados por Settembrini (por exemplo
Afrodite Citereia no lugar de Santa Venere degli Orti) e emprega-
mos fartamente as segundas pessoas gramaticais e os pronomes en-
clíticos. Ao contrário do mito do tradutor invisível, decidimos, em
suma, deixar visibilíssimas as marcas históricas dos dois textos (o
real e o imaginário), assim como as nossas intervenções. Na nova
tradução/metatradução do texto, como num jogo complexo e múlti-
plo de espelhos e suas refrações, aparecem vestígios também de seu
imaginário original, formando um palimpsesto das três culturas, uma
tripla camada de texto de onde emergem as vozes dos vários autores,
numa obra que, 160 anos depois, ainda é necessária na Itália e no
Brasil em sua reivindicação de um amor sem culpa.
Finalmente, importa reconhecer o estatuto da tradução da (falsa)
tradução como operação intencionalmente anacrônica, que exerce

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 50-67, set-dez, 2018 64


Silvia La Regina

por vezes, arbitraria e necessariamente, escolhas que tentam se in-


serir no entrelugar, extra-lugar, no entretempo imaginário e muito
concreto construído pelo topos, por sua força às vezes irônica e di-
vertida, por vezes desesperada, outras sonhadora – um topos ainda
hoje, talvez mais do que nunca, vivo e criativo.

Referências

ARIOSTO, L. Orlando furioso. http://www.letteraturaitaliana.net/pdf/Volume_4/


t325.pdf.

BARTHES, R. A morte do autor. O Rumor da Língua. Tradução de Mário


Laranjeira. São Paulo: Martins Fontes, 2004.

BOIARDO, M. Orlando innamorato. A cura di Aldo Scaglione. Torino: UTET,


1984.

CALLE-GRUBER, M. I sortilegi della biblioteca, ovvero il racconto dilatorio.


In: GIOVANNOLI, Renato (a cura di). Saggi su Il nome della rosa. Milano:
Bompiani, 1999. p.107-112.

CERVANTES, M de. Don Quijote de la Mancha. Alfaguara, 2004.

CHINI, M. Naturalmente, un manoscritto. Cide Hamete Benengeli e l’anonimo


manzoniano. In: GURRERI, Clizia, JACOPINO, Angela Maria, QUONDAM,
Amedeo (a cura di). Moderno e modernità: la letteratura italiana. Roma: Sapienza
Università di Roma, 2009. 11 p. Disponível em http://www.italianisti.it/upload/
userfiles/files/Chini%20Marta.pdf. Acesso em: 05/07/2016.

CONAN DOYLE, A. The Hound of the Baskervilles. London: Penguin Classics,


2012.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 50-67, set-dez, 2018 65


Traduzir “Falsas” traduções: o manuscrito inventado

DE FAZI, S. I Neoplatonici per Aristeo di Megara. Traduzione dal greco di Luigi


Settembrini. Disponível em: <http://sandrodefazi.blogspot.com.br/2011/03/i-
neoplatonici-per-aristeo-di-megara.html>. Acesso em: 14/08/2017.

DE LAURETIS, T. Il principio Franti. In: GIOVANNOLI, R. (a cura di). Saggi


su Il nome della rosa. Milano: Bompiani, 1999. págs.45-55.

ECO, U. Il nome della rosa. Roma: La Repubblica, 2002.

FOUCAULT, M. Che cos’è un autore. In: ______. Scritti letterari. Trad. Cesare
Milanese. Milano: Feltrinelli, 2004. p.1-21.

FOZIO. Biblioteca di Fozio patriarca di Costantinopoli tradotta in italiano dal


cavaliere Giuseppe Compagnoni e ridotta a più comodo uso degli studiosi. 2 vols.
Milano: Giovanni Silvestri, 1836.

GARGIULO, K. B. I Neoplatonici. Dalla Napoli borbonica, il romanzo omoerotico


di Luigi Settembrini che scandalizzò Benedetto Croce. 13/02/2014. http://www.
famedisud.it/i-neoplatonici-dalla-napoli-borbonica-il-romanzo-omoerotico-di-
luigi-settembrini-che-scandalizzo-benedetto-croce/.

KER, W. P. The literary influence of the Middle Ages. In:______. The Cambridge
History of English Literature. 14 vols. Cambridge: CUP, 1953. X, p. 210-254.

LUNETTA, M. L’eroe del Risorgimento confezionò un bel falso d’autore. 4 p.


<http://www.retididedalus.it/Archivi/2012/novembre/LUOGO_COMUNE/5_
settembrini.htm>.

MACEDO, Anne. Pátria, corpos e partriarcados. In: SETTEMBRINI, Luigi. Os


Neoplatônicos: novela homoerótica. São Paulo: Raffael Copetti Editor. 2016. p.
55-63.

MANGANELLI, G.. Nota. In: SETTEMBRINI, Luigi. I Neoplatonici. A cura di


Raffaele Cantarella. Milano: Rizzoli, 1977. p.3-8.

MANZONI, A.. I promessi sposi. A cura di Vittorio Spinazzola. Milano:


Garzanti, 1973.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 50-67, set-dez, 2018 66


Silvia La Regina

PERROTTA, G. Disegno storico della letteratura greca. Milano: Principato,


1978.

REIM, R. Introduzione. I Grandi romanzi gotici. A cura di Riccardo Reim.


Roma: Newton Compton, 1993. p.7-17.

SETTEMBRINI, L. I Neoplatonici. A cura di Beppe Benvenuto. Palermo:


Sellerio, 2001.

SETTEMBRINI, L. Os Neoplatônicos. Novela homoerótica. Tradução de Silvia


La Regina e Ana Maria Chiarini. Florianópolis: Rafael Copetti Editor, 2016.

STEPHENS, W. Un’eco in fabula. In: GIOVANNOLI, Renato (a cura di). Saggi


su Il nome della rosa. Milano: Bompiani, 1999. p.127-151.

WALPOLE, H. The Castle of Otranto. A Gothic Novel. Oxford: Oxford


University Press, 2014.

Recebido em: 10/04/2018


Aceito em: 29/07/2018
Publicado em setembro de 2018

Silvia La Regina. E-mail: silvialaregina@gmail.com


ORCID: https://orcid.org/0000-0003-1219-8176

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 50-67, set-dez, 2018 67


http://dx.doi.org/10.5007/2175-7968.2018v38n3p68

TRADUÇÃO DA BÍBLIA HEBRAICA EM DEZ


VERSÕES BRASILEIRAS

Osvaldo Luiz Ribeiro1


1
Faculdade Unida de Vitória
Vitória, Espírito Santo, Brasil

Resumo: O objetivo do artigo é, com foco em quatro passagens, analisar


dez diferentes versões brasileiras da Bíblia Hebraica. As quatro passagens
analisadas nas dez versões são 1 Re 22,21 e Sl 53,3.5.7. O exercício
constituiu-se das seguintes etapas: seleção de dez representativas versões
vernaculares da Bíblia Hebraica, escolha das passagens a serem compa-
radas, tradução das passagens da Bíblia Hebraica, análise das passagens
nas versões, da Bíblia Hebraica e da tradução autoral. O resultado reve-
lou que, com apenas uma ou outra variada exceção, as versões cometem
sistematicamente e em conjunto os mesmos tipos de desvios na tradução
do texto hebraico. Uma vez que as passagens escolhidas não apresentam
dificuldades significativas ao tradutor/intérprete, levantam-se hipóteses
indiciárias para a explicação do resultado, como, por exemplo, pressões
de ordem teológica operando no processo de tradução.
Palavras-chave: Tradução; Bíblia Hebraica; Exegese; 1 Re 22,21; Sl
53,3.5.7.

TRANSLATION OF THE HEBREW BIBLE IN TEN


BRAZILIAN VERSIONS

Abstract: The aim of this article is to analyze ten different Brazilian ver-
sions of the Hebrew Bible focusing on four different passages, which are:
1 Re 22.21 and Sl 53.3.5.7. The methodology consisted of the following
steps: selection of ten representative vernacular versions of the Hebrew
Bible, the choosing of passages to be compared, translation of the He-
brew Bible passages, analysis of the passages in the Hebrew Bible, and
the Hebrew Bible translation. The result revealed that, with only a few

Esta obra utiliza uma licença Creative Commons CC BY:


https://creativecommons.org/lice
Osvaldo Luiz Ribeiro

exceptions, the versions systematically and jointly make the same types of
deviations in the translation of the Hebrew text. Since the chosen passages
do not present significant difficulties to the translator/interpreter, there
are hypotheses for the explanation of the result, such as, for example,
theological pressures operating in the translation process.
Keywords: Translation; Hebrew Bible; Exegesis; 1 Re 22:21; Ps 53:3.5.7.

1. Introdução

Nos ambientes especializados em tradução da Bíblia, as rotinas


envolvidas são “exaustivas”1. Metzger fala de múltiplos manus-
critos (“variant readings”) a serem cotejados2, de dificuldades em
determinar o sentido de palavras que ocorrem muito raramente nos
textos bíblicos3, de problemas na grafia secundária e das conse-
quentes implicações semânticas da vocalização do texto massoré-
tico4, sem se esquecer das questões hermenêuticas5 peculiares ao
processo de transferência de sentido da língua original para a lín-
gua do tradutor6. Nem por um momento se pretende desconsiderar
essas dificuldades, que Metzger apenas esboça. Todavia, qualquer
um que se engaje no processo de traduzir a Bíblia Hebraica e, por
isso, vê-se, por força de ofício, obrigado a comparar as diferen-
tes versões vernaculares, defronta-se com um problema que não
parece ter qualquer ligação com as dificuldades de que tratou o
autor mencionado. Considerando-se que “atualmente, no Brasil,
há diversas traduções bíblicas, que seguem diferentes enfoques

1
Referência ao termo empregado por Metzenger, “exhausting”, em seu artigo
sobre as dificuldades encontradas pelos tradutores da Bíblia (cf. METZGER,
1993, p. 273)
2
Por exemplo, TOV, 2012.
3
Por exemplo, COHEN, 1978.
4
Por exemplo, KHAN, 2013.
5
Por exemplo, STEFANINK, e BĂLĂCESCU, 2017, p. 21-52. Para o caso da
tradução da Bíblia especificamente, cf. GALLOIS, 2012, p. 63-82.
6
Por exemplo, SHEAD, 1993, p. 273.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 68-92, set-dez, 2018 69


Tradução da Bíblia Hebraica em dez versões brasileiras

tradutórios na produção do discurso”7, chama atenção, naquelas


versões, problemas de tradução de palavras e expressões de abso-
luta trivialidade sintático-gramatical, que nem de longe lembram os
“textos dificílimos do hebraico” que se diz que Teresa de Baviera
teria visto o imperador D. Pedro II traduzir8.
Em algumas passagens analisadas, o conjunto das versões re-
vela problemas que não se esperariam, uma vez que o texto em
análise não apresenta qualquer dificuldade de tradução. Algumas
das passagens em que tais problemas de tradução se verificam são
tão simples de traduzir que podem mesmo ser utilizadas em exer-
cícios de fixação em classes instrumentais de hebraico bíblico.
Não se trata de variantes complicadas, de termos raros, de pro-
blemas de vocalização ou de especiais propriedades semânticas de
uma das línguas. A palavra a ser traduzida é simples, e, todavia,
a tradução revela problemas que implicariam em má avaliação
naquela referida classe instrumental. Por “problemas”, quer-se
indicar para o que Aulen chamou, por exemplo, de “omissão”9 e
de “erro”10. E, dado que não se trata de um problema de uma ou
outra versão, mas do conjunto, resulta necessário concluir que,
nesse caso, se está diante de um fenômeno e de procedimento não
fortuitos. O que isso significa?
No presente artigo, é apenas desse tipo de “dificuldade” que se
tratará. Nesse exercício, e com o objetivo único de comparar-lhes
as operações de tradução, dez versões vernaculares da Bíblia He-
braica11 foram selecionadas e avaliadas, confrontando-as umas com
as outras, bem como com o próprio texto hebraico que traduzem,

7
NEVES e LOPES, 2016, p. 213.
8
Cf. ROMANELLI, MAFRA e SOUZA, 2002, p. 103-104.
9
“As omissões podem ocorrer por muitos motivos, desde censuras até
[...]” (AUBERT, 1998, p. 105).
10
“Somente os casos evidentes de ‘gato por lebre’ incluem-se nessa modalidade”
(idem, p. 109).
11
A rigor, Antigo Testamento, já que, dentre as citadas, há versões que são tradu-
ções da tradução francesa, como a BJ e a TEB. Logo, não são de fato traduções da
Bíblia Hebraica, mas do Antigo Testamento, por sua vez já traduzido.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 68-92, set-dez, 2018 70


Osvaldo Luiz Ribeiro

além de, naturalmente, com a tradução do autor12. No corpo do ar-


tigo, as versões serão indicadas pelas seguintes e respectivas siglas:
AM (Ave Maria)13, NBP (Nova Bíblia Pastoral)14, CNBB15, BJ (Bí-
blia de Jerusalém)16, BP (Bíblia do Peregrino)17, MD (Mensagem
de Deus)18, TEB (Tradução ecumênica da Bíblia)19, ARA (Almei-
da, revista e atualizada)20, ARE (Almeida, Melhores Textos)21 e
NVI (Nova Versão Internacional)22. Serão analisadas quatro passa-
gens traduzidas: 1 Re 22,21 e Sl 53,3.5.723. O objetivo é verificar
o comportamento geral das versões brasileiras da Bíblia. O espaço
imposto pelos periódicos nacionais impede que uma quantidade
maior de passagens seja avaliada, salvo se se primar por quantida-
de, ao preço de uma avaliação menos detalhada, o que não se pre-
feriu neste caso. Obviamente, trata-se de um retrato, válido (salvo
melhor juízo) para os casos analisados. Outros exercícios deverão
ser feitos, a fim de verificar se as análises abaixo apresentadas em
relação aos quatro casos em tela são fortuitos ou se aplicam tam-
bém a outras passagens, revelando-se um padrão.

12
A tradução se faz a partir do texto publicado pela Sociedade Bíblia da Alemanha:
BIBLIA HEBRAICA STUTTGARTENSIA., 1990. Procurou-se traduzir o mais
literalmente possível o texto hebraico. Para as questões envolvidas, cf. AUBERT,
1998, p. 99-128; GUEDES, RODRIGUES, e MOZZILLO, 2017, p. 80-100.
13
BÍBLIA SAGRADA, 2017.
14
NOVA BÍBLIA PASTORAL, 2014.
15
BÍBLIA SAGRADA, 2001.
16
A BÍBLIA DE JERUSALÉM, 1985.
17
BÍBLIA DO PEREGRINO, 2002.
18
BÍBLIA, 1989.
19
BÍBLIA, 1995.
20
A BÍBLIA SAGRADA, 1993.
21
A BÍBLIA SAGRADA, 2000.
22
BÍBLIA SAGRADA, 2000.
23
Para o procedimento de análise de “termos isolados” de traduções, cf. AU-
BERT, 1998, p. 121-125.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 68-92, set-dez, 2018 71


Tradução da Bíblia Hebraica em dez versões brasileiras

2. ‫( ַחּרָה‬härûªH) em 1 Re 22,21

Nas versões analisadas, as traduções de 1 Re 22,21 são as se-


guintes:

Quadro 1 – 1 Re 22,21 em versões brasileiras da Bíblia


AM “Então, um espírito adiantou-se e apresentou-se diante do Senhor,
dizendo: ‘Eu irei seduzi-lo’”.
NBP “Foi então que um espírito se aproximou, colocou-se diante de
Javé e disse: ‘Eu irei seduzi-lo’”.
CNBB “Veio então um espírito e apresentou-se diante do Senhor,
dizendo: ‘Eu o enganarei’”.
BJ “Então o Espírito se aproximou e colocou-se diante de Iahweh:
‘Sou eu que o enganarei’”.
BP “Foi então que um espírito se aproximou, colocou-se diante de
Javé e disse: ‘Eu irei seduzi-lo’”.
MD “Apresentando-se, então, o Espírito, e inclinando-se perante Javé,
declarou: ‘Eu o induzirei’”.
TEB “Então um espírito adiantou-se, apresentou-se diante do Senhor e
disse: ‘Eu o seduzirei’”.
ARA “Então, saiu um espírito, e se apresentou diante do Senhor, e
disse: Eu o enganarei”.
ARE “Então saiu um espírito, apresentou-se diante do Senhor, e disse:
Eu o induzirei”.
NVI “Até que, finalmente, um espírito colocou-se diante do Senhor e
disse: ‘Eu o enganarei’”.
Fonte: o autor.

Todas as versões analisadas traduzem ‫( ַחּר‬rûªH) como


“espírito”24. Eventual divergência entre as versões não se dá,
portanto, em relação ao sentido que aplicam ao termo hebraico

24
Não se discutirá o sentido do termo hebraico. Quanto a isso, cf. KOEHLER e
BAUMGARTNER, 1996. p. 1197-1201; ALONSO-SCHÖKEL, 1997. p. 609-
610. Ambos os dicionários atestam o sentido de “espírito” para ‫ַחּר‬.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 68-92, set-dez, 2018 72


Osvaldo Luiz Ribeiro

‫ַחּר‬. O que ocorre é que, quando atualizam a expressão hebraica


‫( ַחּרָה‬härûªH) que ocorre em 1 Re 22,21, em suas respectivas tra-
duções, no conjunto, as versões oferecem duas traduções: a majo-
ritária no vernáculo, “um espírito”, com artigo indefinido e inicial
minúscula, e a minoritária, “o Espírito”, com artigo definido e
inicial maiúscula.
Uma rápida avaliação nas traduções do quadro acima revela que
apenas duas das versões traduzem a expressão hebraica ‫ ַחּרָה‬levan-
do em conta a presença do artigo definido. São a BJ (“o Espírito”)
e a MD (“o Espírito”). Todas as demais desconsideram a presença
do artigo definido no texto bíblico que traduzem. Quando traduzem
‫ַחּרָה‬, substituem o artigo definido presente na expressão pelo artigo
indefinido “um”, atualizando-a como “um espírito”.
Em termos de morfologia e sintaxe, deve-se assumir que, no
contexto da frase, uma palavra em hebraico, sem artigo definido,
pode ser traduzida igualmente sem artigo definido, com artigo in-
definido ou até mesmo com artigo definido25. Assim, consideran-
do-se que o sentido seja “espírito”, dependendo do contexto da
frase, ‫ ַחּר‬pode ser traduzido por “espírito”, “um espírito” ou “o
espírito”. Nesse caso, a língua em que se o traduz sobrepõe-se ao
hebraico e determina, sintaticamente falando, qual das três formas
alternativas encaixa-se melhor na tradução26.
Quando, todavia, um termo hebraico vem acompanhado do ar-
tigo definido, sua supressão ou sua transformação em artigo inde-
finido resulta irregular. Também em hebraico, o artigo definido
determina, especifica determinada grandeza, representada nesse
caso pela palavra a que aquele se agrega, na forma de prefixo.
É justamente o caso da expressão hebraica ‫ַחּרָה‬, constituída pela
prefixação do artigo ‫ ָה‬ao termo ‫ַחּר‬. Uma vez que se decide pela
tradução de ‫ ַחּר‬por “espírito”, então resulta imperativo que se tra-
duza ‫ ַחּרָה‬por “o espírito”.

25
Cf. BARR, 1989, p. 307-335.
26
Para as questões técnicas relativas à gramática e à sintaxe do hebraico bíblico,
cf. VAN DER MERWE, NAUDÉ e KROEZE, 1999.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 68-92, set-dez, 2018 73


Tradução da Bíblia Hebraica em dez versões brasileiras

Conclui-se, portanto, que todas as versões que, em 1 Re


22,21, traduzem ‫ ַחּרָה‬como “um espírito” devem, no mínimo,
explicações quanto ao procedimento. Aqui, talvez só se possa
sugerir uma hipótese explicativa: pressões teológicas. Para jus-
tificar a hipótese explicativa, é preciso recuperar, de um lado, a
narrativa em que o verso está inserido, e, de outro, as implicações
teológicas da passagem, quando eventualmente lida no contexto
cristão brasileiro contemporâneo, ambiente em que operam os
tradutores das versões analisadas.
1 Re 22,1-40 narra o episódio tradicional da morte de Acabe,
rei de Israel, que se dá durante uma excursão de ataque à cidade de
Ramote de Gileade (v. 35), acompanhado de seu colega de Judá,
Josafá27. A narrativa é bem detalhada. Durante a visita de Josafá
ao colega israelita (v. 1-3), este o convida para um ataque à cidade
acima referida (v. 3-4). O rei judaíta sugere que se consultem os
profetas (v. 5), que são então reunidos por Acabe, e findam por
endossar o desejo do rei (v. 6.10-12). Provavelmente porque sabia
como funcionam essas questões de “consulta do rei a Yahweh”,
e, no fim das contas, porque os profetas de cá são como os de lá,
Josafá questiona se não há outro profeta que não tenha sido ouvido
(v. 7), e, informando que sim, há um profeta, de nome Micaías,
Acabe manda que seja chamado (v. 8-9). Encontrando-o, o en-
carregado de buscar o oráculo ausente adverte-o de que todos os
demais profetas estão unanimemente declarando que Yahweh dará
a vitória ao rei, e que ele deve fazer a mesma coisa (v. 13). Micaías
diz consentir (v. 14), de sorte que, instado pelo rei, talvez sarcas-
ticamente28, repete o discurso favorável já anunciado pelos colegas
de ofício (v. 15). O monarca adverte-o de que fale a verdade (v.
16), com o que, então, modificando totalmente o que tanto os pro-
fetas quanto ele mesmo haviam dito, Micaías anuncia a derrota e
morte do monarca (v. 17). Diante disso, Acabe se dirige ao colega
do sul, e diz-lhe que não era de se esperar nada diferente, já que

27
Cf. LINVILLE, 1998, p. 185-186.
28
Cf. LAFFEY, 1999, p. 284.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 68-92, set-dez, 2018 74


Osvaldo Luiz Ribeiro

Micaías só profetizava o que fosse de encontro aos seus interesses


de regente (v. 18).
É nesse contexto que se insere a expressão hebraica analisada.
Uma vez que Acabe desdenha de seu anúncio, Micaías passa a
descrever, em chave figurativa, a cena oracular que se desenro-
lava diante de todos: os profetas do rei anunciando sua vitória, e
apenas ele anunciando sua derrota (v. 19-23). Micaías diz que vê
Yahweh sentado em seu trono celeste, ladeado pelos seus oficiais
(v. 19). Yahweh se lhes dirige, inquirindo-os sobre quem dentre
eles haveria de enganar o rei (para que, crendo obter a vitória,
atacasse Ramote de Gileade e, ao fazê-lo, encontrasse a morte)
(v. 20). Dentre eles, ninguém se apresentou (v. 20). Então, como
quer o texto hebraico, ‫ ַחּרָה‬se aproxima de Yahweh e se apre-
senta para a tarefa: “eu o enganarei” (v. 21). “Como?”, quer
saber Yahweh, ao que ‫ ַחּרָה‬responde que “eu serei um espírito
de mentira na boca de todos os profetas dele” (‫ׁ ַחּר יִתיִָהְו‬ֶ ‫יִפְּ רֶק‬
ָּ‫( )ויָיִבְנ־ל‬v. 21). Micaías interpreta a cena oracular diante dele e
do rei como, a serviço do deus, a ação do “espírito de Yahweh”,
fazendo os profetas mentirem ao rei, para, enganando-o, levá-lo
à morte (v. 23). Imediatamente um dos homens do rei esbofeteia
Micaías, e ensaia interditar-lhe a prerrogativa oracular em nome
do ‫“( הָוהְי־ַחּר‬espírito de Yahweh”) (v. 24-25). Acabe ordena que
prendam o profeta até seu retorno (v. 26-27), ao que Micaías
responde que, se o rei voltar, Yahweh então não teria falado por
ele (v. 28). E o rei não voltou...
A narrativa contém elementos que servem de indício para a
plausível hipótese explicativa quanto ao fato de, nas traduções, a
maioria das versões costumeiramente substituírem o artigo defini-
do de ‫ ַחּרָה‬pelo artigo indefinido “um”. Como se disse, tratar-se-ia
de uma questão teológica, que se pode compreender por meio de
alguns passos de raciocínio. Na tradição teológica cristã, ‫ ַחּר‬foi
interpretado como a Terceira Pessoa da Trindade. O tratamento
teológico da passagem constrange-se de ver o assim interpretado
Espírito Santo fazendo profetas mentirem, para que, crendo nas
mentiras, o rei fosse morto. Se, raciocinando ao modo das cate-

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 68-92, set-dez, 2018 75


Tradução da Bíblia Hebraica em dez versões brasileiras

queses, “Deus não é homem para que minta” (Nm 23,19), então
o “Espírito Santo” não pode mentir29. Óbvio que se trata de uma
operação de interpretação totalmente desconectada da seriedade
exegética, mas é nesses termos que, com raríssimas exceções, ope-
ra o conjunto das reflexões teológicas, amiúde as de caráter mais
comercial, caso em que se enquadra o mercado de Bíblias. Logo, já
que, sendo “Deus”, o Espírito Santo não pode mentir, e dado que,
no texto, ‫ ַחּרָה‬faz o papel de “espírito de mentira”30 na boca dos
profetas do rei, então esse não pode ser “o” Espírito Santo. Já que
é um espírito, então tem de ser outro espírito. Todavia, o hebraico
traz ‫“( ַחּרָה‬o espírito”). Entretanto, se, como deve, o tradutor tra-
duz ‫ ַחּרָה‬como “o espírito”, corre-se o risco de o piedoso leitor das
Escrituras sensibilizar-se, das duas uma, ou com o que ele pode in-
terpretar como desrespeito com o “espírito”, escrito com e minús-
culo, ou com o que ele pode experimentar como escândalo, dado o
fato de “o Espírito Santo” mentir e fazer mentir31. Resta, pois, uma
alternativa à maioria dos tradutores da passagem: eliminar o arti-
go definido, traduzir, ainda que equivocadamente, ‫ ַחּרָה‬como “um
espírito” e deixar que os leitores interpretem tratar-se, então, de
um daqueles espíritos costumeiramente presentes nas narrativas do
Novo Testamento, e que constituem não os “exércitos de Deus”,
mas os “exércitos do diabo”32. De qualquer forma, todo esforço

29
Para esse tipo de raciocínio teológico, cf. HARRIS, 2005, p. 79-81.
30
Para uma aproximação à história da pesquisa sobre o “espírito de mentira” em
1 Re 22,22, cf. MAYHUE, 1993, p. 135-163. Adverte-se, todavia, que o final
da pesquisa é a conclusão de que o “espírito de mentira” de que fala a passagem
é Satã” (p. 162).
31
Se a avaliação estiver correta, trata-se de uma preocupação muito específica
com o leitor da versão brasileira, já que há quem assuma que mesmo se traduzindo
“o espírito”, e não “um espírito” ainda assim se trate de um “ser divino [...] como
‫ַּׂה‬
ָ ‫ ןָט‬de Jó 1” (HAMORI, 2002, p. 267).
32
É exatamente o que sugere a seguinte observação, constante em um comentário
ao texto de 1 Reis, que, a despeito de autoria internacional, circula no mercado
nacional: “para garantir que Acab não ouça a profecia de sua morte e se liberte,
Miquéias diz que o Senhor até permitiu um espírito de mentira na boca dos profe-
tas” (LAFFEY, 1999, p. 284).

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 68-92, set-dez, 2018 76


Osvaldo Luiz Ribeiro

deve ser feito para contornar o risco de interpretar-se a passagem


como se referindo ao Espírito Santo.
É possível entrever o raciocínio que se acaba de apresentar,
caso se recorra às próprias versões. Na nota b à 1 Re 22,21, a TEB
informa ao leitor que “alguns compreendem que esse espírito é um
dos membros da corte celeste mencionada no v. 19. Outros veem
nela o espírito de Deus que se manifesta ao profeta. Não é ainda o
Espírito Santo de que fala o NT”. Em termos exegéticos, mas não
necessariamente em termos teológicos, é óbvio que não se trata
do “Espírito Santo de que fala o NT”. Nisso o comentarista está
correto. O que não se explica, todavia, é por que, sabendo disso,
tenha traduzido “um espírito”, já que deveria, necessariamente, ter
traduzido “o espírito”. Seja como for, a nota citada serve de indí-
cio de que a questão da interpretação do “Espírito Santo de que fala
o NT” seja o ponto crucial dessa tradução, que deve explicações.
Seguindo a mesma linha de raciocínio, é possível entrever um
comportamento ainda mais acintoso por parte da NVI. Se colocada
ao lado da MD, então, o comportamento da NVI revela-se carrega-
do de aparente propósito: ocultar do texto qualquer elemento que
possa “induzir” o leitor a entrever referência ao Espírito Santo.
Como se viu, no v. 21 de 1 Re 22, a MD traduz ‫ ַחּרָה‬como “o
Espírito”, ao passo que a NVI, “um espírito”. Mais adiante, no
v. 24, o texto hebraico emprega a expressão ‫“( הָוהְי־ַחּר‬espírito de
Yahweh” ou “o espírito de Yahweh”). A MD, que havia traduzido
‫ ַחּרָה‬como “o Espírito”, traduz ‫ הָוהְי־ַחּר‬como “espírito de Javé”.
Já a NVI, uma vez que traduzira ‫ ַחּרָה‬como “um espírito”, apa-
rentemente, para impossibilitar qualquer referência ao “Espírito
Santo”, traduz ‫ הָוהְי־ַחּר‬como “o espírito da parte do Senhor”. Esse
caso é bastante revelador das operações subreptícias que parecem
envolver tais procedimentos de tradução.
Como se viu, ao lado de outras versões, em 1 Re 22,21, a NVI
descaracteriza a identidade do agente da corte divina, desprezando
o artigo definido e traduzindo ‫ ַחּרָה‬como “um espírito”. Mas é no
v. 24 que, ao manejar a pena, a mão teológica parece se revelar
mais indisfarçadamente. Na passagem, o homem do rei ataca Mi-

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 68-92, set-dez, 2018 77


Tradução da Bíblia Hebraica em dez versões brasileiras

caías, que havia acabado de arrogar a si a inspiração profética, e


o questiona, perguntando como podia pretender que o “espírito de
Yahweh” (‫ )הָוהְי־ַחּר‬falasse nele, Micaías, e não nele, Sedecias. A
tradução da NVI transforma a expressão hebraica ‫ הָוהְי־ַחּר‬em “o
espírito da parte do Senhor”. Inserida no v. 24, uma nota a cons-
trangidamente ressalva: “ou o Espírito do”. O tradutor sabe que
podia/devia ter traduzido ‫ הָוהְי־ַחּר‬como “espírito de Yahweh”.
Mas parece que ele não pode. Está-se ou não diante de uma tra-
dução controlada por motivação teológica, no sentido de evitar
sugerir que, identificado na referência, o “Espírito Santo” esteja
vinculado à mentira? Determinada pelo artigo definido, no v. 24,
a tradução “o espírito da parte de Yahweh” remete àquele assim
tratado como indefinido espírito, do v. 21. Com uma operação de
“tradução”, teologicamente controlada, a NVI oculta a referência
ao “espírito de Javé”. O fato de que, a despeito de, no v. 21,
terem se comportado exatamente como a NVI, nenhuma das ou-
tras versões que aí traduzem “um espírito” atualizam a expressão
‫ הָוהְי־ַחּר‬do v. 24 da mesma forma como a traduz a NVI. O pro-
cedimento que levam a termo no v. 21, não é repetido no v. 24.
Por outro lado, para o caso estudado, as tradução da BJ man-
tém-se mais próxima do texto hebraico: “então o Espírito se apro-
ximou e colocou-se diante de Iahweh: ‘Sou eu que o enganarei’”.
A tradução de ‫ ַחּרָה‬como “o Espírito” é quase que literal. Não
o é, em termos absolutos, por força do uso da maiúscula em
“Espírito”, o que se dá, evidentemente, apenas por questões te-
ológicas. Isso não tira o mérito da tradução. Em todo caso, é na
nota d, de 1 Re 22,21, que a BJ dissipa qualquer dúvida que se
pudesse ter sobre a interpretação que o tradutor ou o comentarista
faz da passagem, quando traduz “o Espírito”: “personificação do
espírito profético, que o desígnio divino transformará em espírito
de mentira”. Nenhum escrúpulo teológico a censurar a literalida-
de da tradução e a abordagem histórico-social da interpretação,
que, quanto a essa passagem, marca a NVI. Aqui estamos em
território propriamente exegético, de sorte que, ao menos nesse
caso, resultados próprios da história dos efeitos da narrativa não

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 68-92, set-dez, 2018 78


Osvaldo Luiz Ribeiro

são operados retroativamente, de sorte a determinar censuras e


ocultamentos no nível narrativo.

3. Três problemas de tradução em Sl 53,3.5.7

Sl 53 é um salmo fascinante. Quem o compôs é mestre poeta,


artífice escritor, mágico retórico, e, não bastasse isso, um analista
político-social invejável. Tenho dificuldades em aceitar que o Sl 53
seja a versão “secundária” do Sl 1433. Trata-se do mesmo salmo,
obviamente, mas quero crer que o Sl 53 seja o original. Ao menos
uma regra da hermenêutica de textos antigos autoriza a declara-
ção: textos “mais difíceis” são, em tese, mais antigos do que suas
versões “mais fáceis” de ler e entender34. Nesse caso, o v. 635 é
quase que completamente diferente nos dois salmos, o que resulta
necessário concluir que o problema que teria gerado a duplicação da
composição original fora justamente esse verso. Pois bem, Sl 53,6
33
Refiro-me à opinião de Alonso-Schökel e Carniti, que consideram o Sl 53
secundário em relação ao Sl 14, e ainda o dão por estado de conservação pior
do que o 14 (ALONSO-SCHÖKEL e CARNITI1996, p. 249-261 e p. 717-718).
Essa é igualmente a posição de Kraus (2009, p. 337-348) e de Weiser (1994,
p. 115-117). Alonso-Schökel e Carniti ainda reservam algumas páginas para o
comentário em separado do Sl 53, mas Kraus e Weiser parecem tão seguros da
condição secundária, logo, “inferior”, do Sl 53, que não apresentam comentários
à parte, fazendo-o apenas para o Sl 14. A despeito da autoridade dos autores
citados, insista-se na regra hermenêutica.
34
Note-se que, considerando o Sl 53 uma segunda transmissão, com variantes, do
Sl 14, o próprio Kraus acrescenta que “a forma do texto no Sl 53 (especialmente
em 53,6) é mais complicada e menos transparente que no Sl 14” (KRAUS, 2008,
p. 341). Quanto à regra mencionada, trata-se do princípio lectio difficilior potior,
segundo o qual, se há duas versões de um mesmo texto, e uma delas impõe ao
leitor uma leitura “mais difícil”, provavelmente esta é a versão original, e a de
leitura “mais fácil”, a variante (TREBOLLE BARRERA, 1999, p. 452). Tanto
Kraus quanto Alonso-Schökel e Carniti não aplicaram a regra ao caso.
35
No hebraico; nas versões evangélicas, o v. 5. Além disso, ao v. 6 do Sl 53,
correspondem os v. 5-6 do Sl 14. Kraus deposita justamente nesse verso a razão
de sua impressão quanto à má preservação do Sl 53 (cf. KRAUS, 2008, p. 341).
A despeito da autoridade do autor, não há razão objetiva para se considerar assim.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 68-92, set-dez, 2018 79


Tradução da Bíblia Hebraica em dez versões brasileiras

não é de difícil tradução, mas, ao mesmo tempo, não é de fácil in-


terpretação. Já quanto à seção correspondente do Sl 14, nesse caso,
Sl 14,5-6, nem a tradução nem a interpretação são particularmente
difíceis, tendo sido substancialmente descaracterizado o conteúdo
político do verso (original) do Sl 5336. Nesse caso, nos termos da re-
gra citada, é mais adequado considerar que o Sl 53 seja o original e,
por conta de problemas que se evidenciam particularmente no v. 6,
talvez justamente problemas políticos, uma versão “corrigida” te-
nha sido elaborada, eventualmente para substituir a anterior, resul-
tando, contudo, que as duas versões37 tenham sobrevivido ao tempo
e tenham findado compondo o mesmo conjunto de textos sagrados.
A despeito de o principal problema de tradução do Sl 53 loca-
lizar-se no v. 6, este não é o único verso em que as traduções dei-
xam a desejar. No presente exercício, serão analisados problemas
específicos apenas dos v. 3, 5 e 738, apresentados sinteticamente no
quadro abaixo:

Quadro 2 – Problemas pontuais de tradução do Sl 53,3.5.7


AM “Filhos dos homens” (v. 3), “eles, que devoram meu povo como
quem come pão” (v. 5) e “Ah, que venha de Sião a Salvação de
Israel” (v. 7).
NBP “Filhos dos homens” (v. 3), “devoram o meu povo como se
estivessem comendo pão” (v. 5) e “Ah, que venha de Sião a
salvação de Israel!” (v. 7).

36
Cf. a nota h do Sl 53,6 na TEB: “diversamente do Sl 14,5-6, este verso se dirige
a um representante da cidade” (BÍBLIA. Tradução ecumênica).
37
Ainda que muito brevemente, Alonso-Schökel e Carniti ensaiam uma tentativa
de explicação tanto do contexto específico do Sl 53, quanto da preservação de
duas variantes. A circunstanciação redacional do Sl 53 em relação ao cerco de Je-
rusalém por Senaqueribe, cerca de 701 a.C., parecem adequadas (cf. ALONSO-
-SCHÖKEL; CARNITI, 1996, p. 718).
38
A tradução do Sl 53,6 das versões analisadas é objeto de artigo específico sub-
metido ao dossiê “Bíblia e Violências” (2018/1) da revista Unitas, do Programa
de Mestrado Profissional em Ciências das Religiões, da Faculdade Unida de Vi-
tória, ainda não publicado.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 68-92, set-dez, 2018 80


Osvaldo Luiz Ribeiro

CNBB “Os homens” (v. 3), “devoram meu povo como se fosse pão” (v. 5)
e “quem mandará de Sião a salvação de Israel?”.
BJ “Os filhos de Adão” (v. 3), “devoram o meu povo como se
comessem pão” (v. 5) e “quem trará de Sião a vitória para Israel?”
(v. 7).
BP “Os filhos de Adão” (v. 2), “devoram meu povo como quem come
pão” (v. 4), “oxalá venha de Sião a salvação de Israel” (v. 7).
MD “Aos filhos dos homens” (v. 3), “que estão a engolir o meu povo?
É o meu povo o pão que comem” (v. 5) e “que de Sião venha logo a
salvação de Israel!” (v. 7)
TEB “Os homens” (v. 3), “que devoram o meu povo ao comer seu pão”
(v. 5), “quem, desde Sião, dá vitórias a Israel?” (v. 7).
ARA “Filhos dos homens” (v. 2), “esses, que devoram meu povo como
quem come pão?” (v. 4) e “quem me dera que de Sião viesse já o
livramento de Israel” (v. 6).
ARE “Filhos dos homens” (. 2), “os quais comem o meu povo como se
comessem pão” (v. 4) e “Oxalá que de Sião viesse a salvação de
Israel!” (v. 6).
NVI “Filhos dos homens” (v. 2), “eles devoram o meu povo como quem
come pão” (v. 4) e “Ah, se de Sião viesse a salvação para Israel!”
(v. 6).
Fonte: o autor.

3.1 Os ְֵּ‫( םָדָ ינ‬Bünê ´ädäm) em Sl 53,3

Sl 53,3 descreve a seguinte cena: como que de alguma amurada


ou sacada39, desde seu templo celeste, Yahweh debruça-se para ob-
servar (ׁ‫)ףק‬40 os ְֵּ‫( םָדָ ינ‬Bünê ´ädäm). As versões traduzem a ex-
pressão ְֵּ‫ םָדָ ינ‬de três formas diferentes “filhos dos homens” (AM,
NBP, MD, ARA, ARE, NVI), “homens” (CNBB, TEB), “filhos de
Adão” (BJ, BP). É possível que a tradução “homens”, da CNBB e
39
“O Senhor assoma do céu, como a um balcão de sua morada sublime”
(ALONSO-SCHÖKEL; CARNITI, 1996, p. 256).
40
Para o uso de ׁ‫ ףק‬para descrever Yahweh observando atentamente desde seu
templo celeste, cf. Dt 26,15; Sl 85,11; 102,20; Lm 3,50. Kraus fala de “mirada
escrutadora de Dios” “mirada perscrutadora de Deus” (KRAUS, 2009, p. 344).

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 68-92, set-dez, 2018 81


Tradução da Bíblia Hebraica em dez versões brasileiras

da TEB, constitua meramente simplicação da expressão que a maio-


ria das versões analisadas usa na tradução: “filhos dos homens”.
“Filhos dos homens” é a forma como Kraus igualmente traduz a ex-
pressão: ‫םָדָ ינְֵּ־לַע‬: “sobre os filhos dos homens”41. Alonso-Schökel
e Carniti tratam-nos como “os descendentes de Adão”42, e Weiser
se refere a eles como os homens da “Terra”43. No conjunto, Kraus,
Weiser e Alonso-Schökel e Carniti endossam as traduções analisa-
das: “filhos dos homens”, “homens” e “filhos de Adão”. No entan-
to, a despeito da unanimidade, há dois problemas de difícil contorno.
Primeiro, o fato de que o tecido da narrativa subsume os ְֵּ‫ םָדָ ינ‬à
cidade, e, segundo, ְֵּ‫ םָדָ ינ‬é um termo técnico da Bíblia Hebraica, e
designa uma categoria muito específica de pessoas.
Quanto ao tecido narrativo, para não dizer impossível, diga-se
que é difícil a defesa de ְֵּ‫ םָדָ ינ‬como “os homens em geral”, da
“Terra”, “os descendentes de Adão”. Resumidamente, o raciocí-
nio é o seguinte. Na narrativa, diz-se que, cotidianamente, os ְֵּ‫ינ‬
ָ‫“ םָד‬comem” o povo de Yahweh” (v. 1-5). Enquanto os ְֵּ‫ םָדָ ינ‬es-
tão envolvidos na atividade de “comer o povo”, em certa ocasião,
sua cidade é sitiada por um exército (v. 6). O texto fala, portanto,
de três grupos diferentes: dentro da cidade, a) os ְֵּ‫ םָדָ ינ‬e b) aque-
les que a divindade trata de “meu povo”, e, fora da cidade, c) o
exército sitiador. O texto não permite que ְֵּ‫ םָדָ ינ‬seja interpretado
como designando o conjunto dos homens em geral, a população
da “Terra”, “os descendentes de Adão”, a “humanidade”. Tratar
assim a identidade dos ְֵּ‫םָדָ ינ‬, no texto, é desconsiderar o próprio
texto. Logo, ְֵּ‫ םָדָ ינ‬tem de referir-se a um grupo social de dentro
da cidade. Mais ainda: se trata de um grupo social, de dentro da
cidade, que “devora” o “povo de Yahweh”, que igualmente se
encontra dentro da cidade.
A questão se resolve, quando se assume que ְֵּ‫ םָדָ ינ‬é um termo
técnico da Bíblia Hebraica44: “a identidade dos Bünê ´ädäm como

41
“Sobre los hijos de los hombres” (KRAUS, 2009, p. 344).
42
ALONSO-SCHÖKEL; CARNITI, 1996, p. 256.
43
Cf. WEISER, 1994, p. 116.
44
Cf. RIBEIRO, 2011, p. 145-161.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 68-92, set-dez, 2018 82


Osvaldo Luiz Ribeiro

corpo governamental pode ser revelada nas seguintes passagens:


Dt 32,8; 2 Sm 7,14; Sl 21,11; 36,8; 45,3; 53,3 = 14,2; 58,2
e 89,4845. Na Bíblia Hebraica, ְֵּ‫ םָדָ ינ‬constitui a designação da
classe social dominante, constituída pelo rei e pelo aparelho de
governo, incluídos todos os operadores governamentais, do rei ao
eunuco da corte. Não é por outra razão que o Sl 53 descreve apenas
dois grupos dentro da cidade: os ְֵּ‫ םָדָ ינ‬e o povo, tratado no salmo
como povo de Yahweh. Os ְֵּ‫ םָדָ ינ‬não são “povo de Yahweh”. São
encarregados de Yahweh para o cuidado do povo. Essa é a razão da
precisa ironia com que são tratados no v. 5: “obreiros da injustiça”.
Nos termos da demagogia real, os ְֵּ‫ םָדָ ינ‬foram colocados no po-
der pela divindade, para protegerem o povo. No entanto, em lugar
de protegê-lo, “devoram-no”. Logo, se, como eles mesmos dizem
ser, são obreiros, são-no então da injustiça, não da justiça. No
salmo, portanto, a divindade não se debruça sobre “os homens”,
sobre a “humanidade”, sobre os habitantes da “Terra”. Debruça-se
sobre a classe dominante, e apenas sobre ela, para ver se, nela, há
alguém que faça o que deve fazer. As versões equivocam-se, quan-
do traduzem a expressão por “filhos dos homens” e “homens”, e
o fato de serem homologadas pelos autores citados não modifica a
situação, porque também sua avaliação precisa ser corrigida.

3.2 “Como (?) quem come pão” – Sl 53,5

A TEB não se saiu bem quanto a Sl 53,3, como se pode ver na


análise da seção anterior. Todavia, é excepcional seu comporta-
mento quanto a Sl 53,5: “devoram o meu povo ao comer seu pão”.
A rigor, não é uma tradução literal das expressões hebraicas que
constituem esse trecho da passagem, mas o sentido é exatamente
esse. Do texto hebraico, consta: ֹ ‫םֶחֶל ּלְכָ יִַּע יֵלְכא‬. Literalmente,
“os comedores do meu povo, eles comem pão”. A TEB interpreta
o conjunto de palavras e produz uma tradução que se poderia clas-

45
Idem, p. 157.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 68-92, set-dez, 2018 83


Tradução da Bíblia Hebraica em dez versões brasileiras

sificar como do tipo equivalência dinâmica46. Mais à frente, volta-


mos ao caso. Convém, antes, comentar o resultado das atualizações
das demais versões analisadas.
Dentre as dez, nove (AM, NBP, CNBB, BJ, BP, ARA, ARE e
NVI) recorrem ao recurso de inserir uma cláusula de comparação
entre as duas primeiras e as duas últimas palavras do conjunto ֹ ‫יֵלְכא‬
‫םֶחֶל ּלְכָ יִַּע‬, produzindo algo mais ou menos como “eles devo-
ram o meu povo como se comessem pão”. Ainda que igualmente
empregue a cláusula comparativa, a CNBB chega a entrever as-
sociação metafórica entre “povo” e “pão”: “devoram meu povo
como se fosse pão”, distanciando-se ainda mais da literalidade da
fórmula hebraica. Não é diferente, pelo contrário, é ainda mais
agudamente distante da tradução palavra por palavra do hebraico,
a tradução da MD: “estão a engolir o meu povo? É o meu povo o
pão que comem”.
No juízo do pesquisador, palavra a palavra, a fórmula hebraica
ֹ ‫ םֶחֶל ּלְכָ יִַּע יֵלְכא‬corresponde à tradução “os comedores do meu
povo, eles comem pão”. O verbo ‫ לכא‬é empregado duas vezes no
verso: “os comedores” e “eles comem”. No primeiro caso, trata-se
de um particípio construto (‫א‬ ֹ ‫)יֵלְכ‬, que, em associação com um subs-
tantivo com sufixo pronominal (‫)יִַּע‬, traduz-se de forma determina-
da: “os comedores do meu povo”. No segundo caso, trata-se de um
completo de Qal (ָ‫)ּלְכ‬, associado a um objeto direto (‫)םֶחֶל‬: “eles
comem pão”. A interpretação da TEB constrói-se com a redução
de infinitivo da relação subordinativa entre as duas orações: “devo-
ram o meu povo ao comer seu pão”. Ou seja, “ao comer pão, eles

46
O portal da Sociedade Bíblica do Brasil refere-se explicitamente ao processo:
“num caso como o de 1Pedro 1.13, traduções dinâmicas expressam o significado
de forma direta, dispensando o processo reflexivo do leitor e garantindo que ele
entenda a mensagem de forma imediata e correta. Uma tradução de equivalência
dinâmica como A Bíblia para Todos (Portugal, 2009) diz, em 1Pe 1.13: “tenham
o espírito preparado para a ação”. A Nova Tradução na Linguagem de Hoje,
entendendo que o espírito ou a mente não age sem a pessoa, diz de forma direta:
‘estejam prontos para agir’” (SOCIEDADE BÍBLICA DO BRASIL. 2018, grifo
nosso).

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 68-92, set-dez, 2018 84


Osvaldo Luiz Ribeiro

devoram o meu povo”, ou “é comendo pão que eles comem o meu


povo”. A TEB está correta, e o que o texto hebraico sugere é que
se trata de uma violência intrínseca ao sistema econômico da cidade.
Se o leitor se reportar à análise feita na seção anterior, recu-
perará a informação de que, na cidade, o salmista identifica dois
grupos na cidade: os Bünê ´ädäm e o povo. Os Bünê ´ädäm são
chamados de “obreiros da injustiça” e de “comedores do meu
povo”. Já o povo é chamado de “o meu povo”, isto é, é tratado
pelo salmista como sendo o povo de Yahweh. Nos termos da
demagogia teológica da coroa, Yahweh coloca os Bünê ´ädäm
no poder, para que cuidem do povo. Em troca, o povo provê o
sustento da coroa. Enquanto produz para si, o povo deve produ-
zir um excedente, com o qual os Bünê ´ädäm são sustentados,
em troca do que garante a segurança e o cuidado “pastoral” da
população47. No salmo, os Bünê ´ädäm são acusados de terem se
corrompido (v. 2), se extraviado (v. 4), de praticarem a injustiça
(v. 2), sendo por isso chamados de “obreiros da injustiça” (v. 5).
Essas designações são, todavia, muito genéricas, porque não se
sabe, por meio das expressões empregadas, qual seja exatamen-
te a injustiça que eles praticam. A sentença ֹ ‫ םֶחֶל ּלְכָ יִַּע יֵלְכא‬é
uma auerbachiana48 fórmula, concisa, portanto, de denúncia da
injustiça específica que, a crer no salmista, os Bünê ´ädäm estão
cometendo: para a manutenção da corte (os Bünê ´ädäm), os ní-
veis de tributos exigidos da população estão (ao juízo do salmista)
insuportáveis, levando à deterioração das condições de vida da
população, do “povo do deus”, de quem os Bünê ´ädäm deviam
cuidar. Para seu sustento, a corte torna cada vez mais insusten-
tável a vida do povo. É comendo seu pão que os Bünê ´ädäm
“comem” o povo. O salmista denuncia o mecanismo “legal” da
cidade, levado às suas condições mais cínicas e deterioradas.
A despeito de não se sair bem nos demais quesitos analisados
do Sl 53, a ideia de que a corte devora o povo, figurativamente

47
Para o modelo econômico pressuposto, cf. REIMER, 2006, p. 7-32.
48
Cf. AUERBACH, 2013, p. 9.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 68-92, set-dez, 2018 85


Tradução da Bíblia Hebraica em dez versões brasileiras

falando, quando impõe sobre ele um jugo tributário além de suas


forças pode ser depreendida perfeitamente da tradução da TEB:
“eles devoram o meu povo ao comer seu pão”.

3.3 Como assim, “salvação”? Sl 53,7

Já havia ganho sozinha a “disputa na seção 2.2, e, de novo, a


TEB vai ganhar, agora, a disputa da seção 2.3. Está em questão a
tradução da palavra ְ ‫ׁי‬ ֻ ‫ תֹע‬no Sl 53,7. ְ ‫ׁי‬
ֻ ‫ תֹע‬é a forma plural de ְ ‫־ּׁי‬
‫הָע‬, e os sentidos aplicados a ela pelas versões não estão em causa.
Tanto “salvação”, quanto “livramento” e, eventualmente, “vitó-
ria”, em termos contextuais, são, todas, potencialmente viáveis.
O problema se dá no número. No hebraico, a palavra se encontra
no plural, não no singular, mas todas as versões analisadas, com a
exceção da TEB, vertem-na no singular. Desde que o leitor com-
preenda que se está tratando exclusivamente do número com que
o substantivo foi traduzido, e não a tradução de toda a sentença, a
TEB é a única que seguiu o código de número com que o substan-
tivo está marcado em hebraico: “quem, desde Sião, dá vitórias a
Israel?”. Vitórias. Teria sido melhor “salvações”, mas o que im-
porta, aqui, é que a TEB traduziu “vitórias”, e não “vitória”. As
demais, todas, “salvação”, “livramento” e “vitória”.
Não se está “coando mosquitos”. Com efeito, há expressões em
hebraico que são plurais, mas podem ser tranquilamente traduzidas
como singular, sem qualquer prejuízo. Céu (ׁ ָ ‫ )םִַמ‬e água (‫)םִַמ‬,
por exemplo. Os termos hebraicos são gramaticalmente duais, mas
podem ser traduzidos, no mesmo contexto, na mesma passagem,
tanto como “céu” e “água”, quanto como “céus” e “águas”, sem
que isso altere o sentido do texto. Não é o caso, todavia, de ְ ‫הָעּׁי‬.
Uma coisa é “salvação”. Outra, “salvações”. O texto não fala de
ְ ‫הָעּׁי‬, fala de ְ ‫ׁי‬
ֻ ‫תֹע‬. O salmista não espera uma salvação, ele espe-
ra “salvações”. Não se trata da referência, por parte do salmista,
de um evento significativo, especial, específico, único, mas isso
que o salmista espera constitui-se de sucessivos elementos de um
processo ininterrupto, constante, repetitivo: “salvações”.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 68-92, set-dez, 2018 86


Osvaldo Luiz Ribeiro

No contexto do salmo, trata-se da esperança de que, ao con-


trário do que tem sido até aquele momento em que o salmista for-
mula sua esperança tão fragilizada (“quem dera” (‫))ןֵּתִ יִמ‬, de Sião
não venham mais as injustiças e as opressões dos Bünê ´ädäm da
mesma Sião, mas passem a vir as salvações. O salmista espera a
“conversão” dos Bünê ´ädäm. Não está tão seguro quanto a isso,
porque, se estivesse, não empregaria uma interjeição tão ambígua
quanto “quem dera”, e talvez ainda fumegue nele uma pequena
fumaça de esperança.
O sentido do v. 7 está diretamente ligado ao sentido do v. 6 (e
como as versões parecem ter tropeçado aqui, tropeçaram também
ali). O salmo está dividido em três seções. Na primeira, v. 1-5, o
salmista denuncia as opressões e as injustiças dos Bünê ´ädäm. São
injustiças cotidianas, contínuas, incessantes. No v. 6, o salmista
conta um episódio apenas aparentemente sem ligação com a his-
tória, mas que é nevrálgico na economia retórica da composição:
os Bünê ´ädäm sofreram um cerco militar, e, dada a sua falta de
confiança do deus da cidade, experimentaram o horror de imagina-
rem-se executados pelos sitiadores. O terror tomou conta de seus
ossos, e essa foi uma experiência profunda. No v. 7, escrito neces-
sariamente quando o salmista não sabe ainda que transformações
o cerco teria operado, ou não, nas entranhas dos Bünê ´ädäm, o
salmista registra sua esperança, sua dúvida, seu desejo: que a ter-
rível experiência do cerco transforme a tal ponto os Bünê ´ädäm,
que, “de Sião venham as salvações de Israel” (‫ׁי ְ ןִִֹּּמ‬
ֻ ‫ִׂ תֹע‬
ְ ‫)לֵאָר‬.
Não passa pela cabeça do salmista um evento miraculoso – “sal-
vação de Israel”. Se um milagre deve ser esperado, é a conversão
dos Bünê ´ädäm, e, quem sabe?, o cerco pode tê-lo operado. Mas
as salvações que o salmista espera são tão triviais quanto trivial é o
modo como os “comedores do meu povo” comem seu pão. O sal-
mista espera que relações de justiça de (re)estabeleçam na cidade.
Apenas isso. Quanto ao que, todavia, não parece muito confiante.
Concluo a seção com uma hipótese explicativa. A suspeita de
que a tradução de ְ ‫ׁי‬
ֻ ‫ תֹע‬como “salvação”, e não “salvações”, deve
estar vinculada ao início do salmo e à interpretação do poema como

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 68-92, set-dez, 2018 87


Tradução da Bíblia Hebraica em dez versões brasileiras

uma referência ao ateísmo não deve ser descartada. Eventualmen-


te, os tradutores operaram sobre um subtexto teológico vinculado
ao contexto da tradução, e não da redação, no qual a superação do
ateísmo se dá por meio daquela “salvação” com que os tradutores
da Bíblia estão acostumados, dado seu exercício religioso profis-
sional. Se essa análise estiver correta, enxergaram ateísmo onde
não há49, humanidade onde não há, e salvação onde não há.

4. Conclusão

O artigo selecionou dez versões brasileiras da Bíblia Hebraica50,


escolheu quatro passagens pontuais (1 Re 22,21 e Sl 53,3.5.7),
as traduziu51, e, em seguida, analisou as traduções reunidas. No
conjunto, as versões distanciam-se substancialmente do texto he-
braico e de seu sentido, seja por razões de pressão teológica, na
forma concreta de operação hermenêutica por meio de subtextos
teológicos, seja por não alcançarem suficientemente o sentido da
passagem. Em duas ocasiões, Sl 53,5.7, a TEB sai-se melhor do
que as demais, traduzindo as expressões hebraicas em perfeita ade-
quação ao sentido da passagem. A BJ se sai melhor na tradução de
1 Re 22,21. Quanto a Sl 53,3, nenhuma das traduções poderia ser
defendida, conquanto, na literalidade da fórmula, a BJ e a BP ao
menos não traem a expressão hebraica que traduzem.
O resultado a que se chega é que, a depender dessas versões,
o leitor não especializado, sem acesso ao texto hebraico, não terá
condições de entender o sentido da passagem conforme gravado na
língua fonte. Grave se dá o quadro, quando se percebe que ainda
que o leitor se municie com as dez versões, em uma das quatro
passagens (Sl 53,3), nenhuma ajuda receberá dos tradutores (com

49
Para a referência a “ateísmo prático” no Sl 53, cf. KRAUS, 2009, p. 344.
50
Por meio de notas, individualmente identificadas na Introdução.
51
O autor reconhece que o mesmo tipo de análise pode ser feita com sua própria
tradução e espera que, nesse quesito, se saia melhor do que as versões que analisou.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 68-92, set-dez, 2018 88


Osvaldo Luiz Ribeiro

exceção, talvez, da BJ e da BP), uma vez receberá ajuda para 1 Re


22,11 (BJ), e, em ambos os casos, da TEB, receberá ajuda para
Sl 53,5.7. A chance, todavia, de um leitor se municiar ao mesmo
tempo das dez versões é remota. No conjunto, com as exceções
muito pontuais indicadas, deve-se trabalhar com o quadro geral de
que, ao menos quanto a essas passagens analisadas, o leitor terá
negado seu acesso ao sentido do texto hebraico.

Referências

ALONSO-SCHÖKEL, Luis. Dicionário bíblico hebraico-português. Tradução de


Ivo Storniolo e José Bortolini. São Paulo: Paulus, 1997.

______. ; CARNITI, Cecília. Salmos I. Tradução de João Rezende Costa. São


Paulo: Paulus, 1996. (Salmos 1-72)

AUBERT, Francis Henrik. Modalidades de tradução: teoria e resultados.


TradTerm, São Paulo, v. 5, n. 1, p. 99-128, 1998.

AUERBACH, Erich. A cicatriz de Ulisses, In: ______. Mimesis. A representação


da realidade da literatura ocidental. 6. ed. Vários tradutores. São Paulo:
Perspectiva, 2013.

BARR, James. “Determination” and the Definite Article in Biblical Hebrew.


Journal of Semitic Studies, Oxford, v. 34, n. 2, p. 307-335, 1989.

COHEN, Harold R. Biblical hapax legomena in the light of Akkadian and Ugarit.
Ann Arbor: Scholars Press, 1978.

GALLOIS, Dominique Tilkin. Traduções e aproximações indígenas à mensagem


cristã. Cadernos de Tradução, Florianópolis, v. 2, n. 30, p. 63-82, 2012.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 68-92, set-dez, 2018 89


Tradução da Bíblia Hebraica em dez versões brasileiras

GUEDES, Clara Peron da Silva; RODRIGUES, Roberta Rego; MOZZILLO,


Isabella. Modalidades de tradução: uma investigação do conto traduzido “Dez de
Dezembro”. Cadernos de Tradução, Florianópolis, v. 37, n. 2, p. 80-100, 2017.

HAMORI, Esther J. The Spirit of Falsehood. The Catholic Biblical Quaterly, n.


72, p. 15-30, 2010.

HARRIS, Gregory H. Does God deceive? “Deluding influence” of Second


Thessalonians 2:11. The Master’s Seminary Journal, Winona Lake, n. 16, v. 1,
p. 73-93, 2005.

KRAUS, Hans-Joachim. Los Salmos. Tradução de Constantino Ruiz-Garrido.


Salamanca: Sígueme, 2009. v. 1. (Salmos 1-59)

KHAN, Geoffrey (Ed). Encyclopedia of Hebrew Language and Linguistics.


Leiden: Brill, 2013. v. 3.

KOEHLER, Ludwig; BAUMGARTNER, Walter. The Hebrew and Aramaic


lexicon of the Old Testament. V. III: ‫ׂ – פ‬. Tradução de M. E. J. Richardson.
Leiden: Brill, 1996.

LAFFEY, Alice L. 1 e 2 Reis. In: BERGANT, Diane; KARRIS, Robert J.


(Orgs.). Comentário Bíblico. I. Introdução. Pentateuco. Profetas Anteriores. 3.
ed. Tradução de Ivo Storniolo. São Paulo: Loyola, 1999. p. 273-292.

LINVILLE, James Richard. Israel in the Book of Kings. The Past as a Project of
Social Identity. Sheffield: Sheffield Academic Press, 1998.

LONG, Jesse C. 1 & 2 Kings. Joplin: College Press, 2002.

MAYHUE, Richard L. False prophets and the deceiving spirit. The Master’s
Seminary Journal, Winona Lake, n. 4, v. 2, p. 135-163, 1993.

METZGER, Bruce M. Persistent problems confronting Bible translators.


Bibliotheca Sacra, Roma, n. 150, p. 273-284, 1993.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 68-92, set-dez, 2018 90


Osvaldo Luiz Ribeiro

NEVES, Maria Helena de Moura; LOPES, Mariú Moreira Madureira. Texto


bíblico e “tradução”: a “voz divina” no plano humano da coenunciação. Cadernos
de Tradução, Florianópolis, v. 36, n. 2, p. 205-236, 2016.

REIMER, Haroldo. Sobre economia do Antigo Israel e no espelho de textos


da Bíblia Hebraica. In: RICHTER REIMER, Ivoni (Ed.). Economia no mundo
bíblico. Enfoques sociais, históricos e teológicos. São Leopoldo: Sinodal; Cebi,
2006. p. 7-32.

RIBEIRO, Osvaldo Luiz. Bünê ´ädäm. Os “filhos de Adão” na Bíblia Hebraica.


Reflexus, Vitória, v. 5, n. 6, p. 145-161, 2011.

ROMANELLI, Sergio; MAFRA, Adriano; SOUZA, Rosane. D. Pedro II


tradutor. Análise do processo criativo. Cadernos de Tradução, Florianópolis, v.
2, n. 30, p. 101-118, 2002.

SHEAD, Stephen L. Radical Frame Semantics and Biblical Hebrew. Exploring


Lexical Semantics. Leiden: Brill, 2012.

SOCIEDADE BÍBLICA DO BRASIL. Princípios de tradução. Disponível em: <


http://www.sbb.org.br/a-biblia-sagrada/principios-de-traducao >. Acesso em:
17 jul. 2018.

STEFANINK, Bernd; BĂLĂCESCU, Ioana. The hermeneutical approach in


translation studies. Cadernos de Tradução, Florianópolis, v. 37, n. 3, p. 21-52,
2017.

TOV, Emanuel. Textual Criticism of the Hebrew Bible. 3. ed. Minneapolis:


Fortress Press, 2012.

TREBOLLE BARRERA, Julio. A Bíblia judaica e a Bíblia cristã. Tradução de


Ramiro Mincato. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 1999.

VAN DER MERWE, Christo H. J.; NAUDÉ, Jackie A.; KROEZE, Jan H. A
biblical Hebrew reference grammar. Sheffield: Sheffield Academic Press, 1999.

WEISER, Artur. Os Salmos. Tradução de Ivo Storniolo. São Paulo: Paulus, 1994.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 68-92, set-dez, 2018 91


Tradução da Bíblia Hebraica em dez versões brasileiras

Bíblias

NOVA BÍBLIA PASTORAL. São Paulo: Paulus, 2014.

BÍBLIA SAGRADA. Tradução da CNBB, com introduções e notas. São Paulo;


Aparecida; Petropólis: Ave Maria, Loyola, Salesiana, Paulus, Paulinas; Santuário;
Vozes, 2001.

A BÍBLIA DE JERUSALÉM. São Paulo: Paulus, 1985.

A BÍBLIA SAGRADA. Traduzida de João Ferreira de Almeida. Revista e


atualizada no Brasil. 2 ed. Barueri: SBB, 1993.

A BÍBLIA SAGRADA. Versão revisada da tradução de João Ferreira de Almeida,


de acordo com os melhores textos em hebraico e grego. São Paulo; Rio de Janeiro:
Candeia; IBB, 2000.

BÍBLIA SAGRADA. Nova Versão Internacional. São Paulo: Sociedade Bíblia


Internacional, 2000.

BÍBLIA DO PEREGRINO. São Paulo: Paulus, 2002.

BIBLIA HEBRAICA STUTTGARTENSIA. Editio quarta ementada. Suttgart:


Deutsche Bibelgesellschaft, 1990

BÍBLIA. Mensagem de Deus. São Paulo: Loyola, 1989.

BÍBLIA. Tradução ecumênica. 2 ed. São Paulo: Loyola, 1995.

Recebido em: 08/05/2018


Aceito em: 29/07/2018
Publicado em setembro de 2018

Osvaldo Luiz Ribeiro. E-mail: osvaldo@faculdadeunida.com.br


ORCID: https://orcid.org/0000-0003-2463-0093

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 68-92, set-dez, 2018 92


http://dx.doi.org/10.5007/2175-7968.2018v38n3p93

NO PRINCÍPIO ERA A PALAVRA, MAS A PALAVRA FOI


TRADUZIDA PARA OS SINAIS

Emerson Cristian Pereira dos Santos1


1
Universidade Federal do Ceará, Fortaleza, Ceará, Brasil

Resumo: Além do que é considerado sacro pelas religiões judaico-cristãs,


a Bíblia também está repleta de poesia, e sua tradução para a Libras pode
nos ajudar a compreender de que maneira se constituem os repertórios de
tradução no polissistema literário da cultura surda brasileira. Neste artigo,
trago reflexões sobre a relação entre ideologia, tradução e literatura na
formação de repertórios literários da cultura surda, a partir da tradução
da Bíblia.
Palavras-chave: Bíblia; Libras; Literatura surda; Repertórios literários.

IN THE BEGINNING WAS THE WORD, BUT THE WORD


WAS TRANSLATED INTO SIGNS

Abstract: In spite of what is considered sacred by the Judeo-Christian


religions, the Bible is also filled with poetry, whose translation to
Brazilian Sign Language (Libras) can help us understand in what ways
the translation repertoires are formed in the literary polysystem of the
Brazilian deaf culture. In this article, I shall reflect upon the relationship
between ideology, translation and literature in that polysystem from the
point of view of the translation of the Bible.
Keywords: Bible; LSB; Deaf literature; Literary repertoire.

Esta obra utiliza uma licença Creative Commons CC BY:


https://creativecommons.org/lice
Emerson Cristian Pereira dos Santos

1. Introdução

Ao tentarmos uma busca da Bíblia em Libras, vamos ter grandes


dificuldades de encontrarmos trabalhos sistemáticos – refiro-me a
traduções que envolvam toda a Bíblia, não exclusivamente algumas
narrativas dela. Até certo ponto essa carência é compreensível,
primeiro porque, dentro do polissistema sociocultural brasileiro,
o polissistema da cultura surda (literatura produzida em Libras,
literatura traduzida para a Libras, contos, histórias, piadas, artes
plásticas, musicalidade em sinais, politizações etc.) é muito jovem
e periférico em relação ao da cultura ouvinte, e, de certa forma,
tem chamado pouca atenção; depois porque estamos diante de um
campo muito novo nos Estudos da Tradução no Brasil, ou seja, o
da tradução de textos sensíveis para a Libras; em terceiro lugar,
em virtude da modalidade espaço-visual da língua de sinais, um
projeto de tradução de toda a Bíblia precisaria contemplar bons
equipamentos de filmagem, edição e armazenamento em grande
escala dos vídeos, espaço de postagem específico para publicação,
manutenção desse espaço e um bom número de tradutores espe-
cializados na área. Em outras palavras, é um trabalho complexo,
provavelmente até mais do que os que envolvem pares de línguas
oral-auditivas. Por último, agregando tudo que foi dito à falta de
patrocinadores, o resultado não poderia ser outro senão a escassez
da Bíblia em Libras.
Acima, aplico o termo “polissistema” como Even-Zohar o usa
em sua Teoria dos Polissistemas (Polysystem Theory), adotada
neste trabalho para dar conta de refletir sobre algumas particu-
laridades tradutórias envolvidas com os binômios cultura surda/
cultura ouvinte e texto sensível/texto literário. Com base em alguns
pressupostos da teoria, meu objetivo principal neste artigo é iniciar
uma discussão sobre a formação e a composição do jovem sistema
literário da cultura surda, a partir da tradução do poético livro bí-
blico Cântico dos Cânticos para a Libras, na tentativa de entender
como o sistema literário surdo influencia na seleção de repertórios
e como os tradutores estão ajudando a criar e a moldar a iden-

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 93-124, set-dez, 2018 94


No princípio era a palavra, mas a palavra foi traduzida para os sinais

tidade do polissistema. A partir de uma perspectiva descritivista


da tradução, minhas duas perguntas iniciais são as seguintes: (1)
Como alguns repertórios (formas, estilos, ideias, ritmo, gêneros
etc.) estão sendo estabelecidos no polissistema literário da cultura
surda brasileira? (2) De que maneira os tradutores e suas traduções
para a Libras estão ajudando a moldar esse polissistema?
Para responder às perguntas acima, utilizo a tradução de Cânti-
co dos Cânticos para a Libras realizada pelo grupo religioso deno-
minado Testemunhas de Jeová (TJ). Essa escolha não foi fortuita,
e deu-se, em primeiro lugar, porque tanto o texto em língua portu-
guesa quanto sua tradução para a Libras possuem fortes caracterís-
ticas líricas, por isso são considerados poéticos. O segundo motivo
está ligado ao fato de a tradução das TJ1 ter sido o único traba-
lho de tradução de Cântico para a Libras que encontrei disponível
gratuitamente on-line para acesso e download. Em terceiro lugar,
porque compreendo que o surgimento, o estabelecimento e o sta-
tus de determinados repertórios de tradução têm muito a ver com
relações filosófico-ideológicas de grupos2 culturais, religiosos, po-
líticos etc. Como é possível presumir, as reflexões que surgirão
no artigo3 partem da conexão entre tradução, texto literário e texto
sensível a partir de Cântico dos Cânticos.
A seção 2 é dedicada a uma discussão sobre repertórios ideo-
lógicos envolvidos com a tradução. Na seção 3, apresento alguns
pontos principais da Teoria dos Polissistemas. Na seção 4, reflito
sobre alguns repertórios do polissistema literário da cultura surda.

1
A propósito, por esta última razão, todos os versículos bíblicos citados neste
artigo foram extraídos da Tradução do Novo Mundo da Bíblia Sagrada, revisão
de 2015.
2
As traduções para mais de 80 línguas de sinais realizadas por tradutores TJ de
vários países evidenciam seguir, basicamente, o mesmo repertório de tradução.
3
Sou muito grato ao professor Dr. Robert de Brose por me oferecer comentários
e importantes contribuições neste trabalho.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 93-124, set-dez, 2018 95


Emerson Cristian Pereira dos Santos

2. A conexão entre texto sensível, tradução e ideologias

Naturalmente, o objetivo dos grupos religiosos com a tradução


da Bíblia é a evangelização dos povos, mas além de gêneros textuais
como epistolares, jurídicos, proféticos, apocalípticos etc., o texto
judaico-cristão também está repleto de poesia. No cânon utilizado
pelos evangélicos, em geral, são poéticos os livros de Cântico dos
Cânticos, Eclesiastes, Lamentações de Jeremias, Provérbios, Salmos
e até mesmo Jó. No cânon dos católicos, além desses que citei, é
possível classificar Eclesiástico e Sabedoria como livros poéticos.
Diferentemente de outros da Bíblia, todos esses utilizam a lingua-
gem para expressar – de modo peculiar e criativo – alegria, amor,
ansiedade, desespero, dor, esperança, felicidade, medo, melanco-
lia, paixão, saudade, enfim, sentimentos e emoções, usando recur-
sos estilísticos diversos para produzir uma linguagem metafórica,
imaginativa e poética. Em resumo, são livros repletos de lirismo e
subjetividade que conduzem seus leitores a ambientes campestres,
pastoris, palacianos, domésticos etc., e ao mundo da imaginação.
No Brasil, o status quo da Bíblia em língua de sinais tem dificul-
tado o surgimento de pesquisas, teorizações e publicações sobre as
possíveis negociações linguístico-culturais promovidas pelo tradu-
tor entre sensibilidade textual e Libras/cultura surda. Mas o grupo
religioso TJ, com congregações (salões) em vários países, possui o
que pode ser hoje a mais sistemática e completa tradução da Bíblia
para a Libras. Aliás, essa comunidade cristã já realizou traduções
de boa parte dos livros bíblicos para mais de 80 línguas de sinais.
Além disso, e apesar de ser uma atividade especificamente diferen-
ciada da tradução, as interpretações para Libras de liturgias católi-
cas e evangélicas realizadas por outros tantos profissionais de gru-
pos religiosos distintos são comuns no Brasil. Por isso já é possível
dizer que os tradutores de línguas oral-auditivas não estão mais so-
zinhos nessa via crucis. Para lhes fazer companhia nas Estações da
Cruz, na Via Dolorosa, surge o tradutor e intérprete de Libras, não
como Simão, o cirineu, uma vez que cada um já possui sua própria
cruz para carregar, mas como alguém que também está com o peso

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 93-124, set-dez, 2018 96


No princípio era a palavra, mas a palavra foi traduzida para os sinais

das ideologias sobre os ombros, enquanto as costas ficam visivel-


mente expostas aos açoites do flagrum dogmático-religioso.
Ao utilizar as metonímias acima, quero dizer que embora a au-
toestima dos tradutores de textos sensíveis, em geral, não sofra
constantes tentativas de provação promovidas pelo estético-poéti-
co, como geralmente ocorre com a dos tradutores literários, ela
pode ser impiedosamente fustigada pelas ideologias, tanto pela do
público-alvo quanto pela do público-fonte. Na tradução da Bíblia,
onde o princípio norteador muito raramente é o mesmo que guiou a
mão de Campos (2004 e 2000) ao traduzir poeticamente “Qohélet4,
o que sabe: poema sapiencial” e “Bere’shith5: a cena da origem”,
os tradutores praticantes de dogmas religiosos correm o risco de
serem acusados de heréticos e falsários, caso violem o princípio
ideológico tacitamente domiciliado no pensamento religioso dos
grupos abrangidos pela tradução. Essa última declaração não é
inédita, nem a afirmação de que o que parece preceder boa parte
das traduções da Bíblia como texto sensível são as ideologias, pelas
quais as denominações judaico-cristãs estabelecem suas doutrinas e
interpretam o mundo à sua volta.
Para trazer exemplos concretos sobre a estreita conexão das
ideologias com as traduções de textos sensíveis e não ficar apenas
em minhas alegações, em 2012, em um dos cursos de formação de
tradutores e intérpretes promovidos pela Associação dos Profissio-
nais Intérpretes e Tradutores de Libras do Ceará (APILCE), foi
possível constatar empiricamente “uma mão oculta6” conduzindo
as mãos daqueles que traduziam para a Libras trechos da Bíblia em
língua portuguesa, por meio de dados colhidos em vídeo em uma
atividade de tradução, em uma disciplina sobre tradução de texto
sensível que ministrei. A atividade solicitava aos cursistas a tradu-
ção dos trechos do quadro abaixo para a Libras. Os que participa-

4
“Qohélet” em hebraico, “Eclesiastes” em português.
5
“Bere’shith” em hebraico, “No princípio” em português.
6
Robinson (2009) utiliza a metáfora da mão invisível em seu artigo The Invisible
Hands that Constrol Translation.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 93-124, set-dez, 2018 97


Emerson Cristian Pereira dos Santos

ram ou eram evangélicos da Igreja Batista Regular ou Testemunhas


de Jeová ou Católicos, por isso, propositalmente, selecionei três
passagens controversas, ou seja, divergentes quanto ao cânon ado-
tado pelos grupos religiosos presentes na sala de aula, como mos-
tram os trechos com os nossos grifos no quadro abaixo.

Quadro 1 – Versículos bíblicos7 em três traduções8 distintas (grifos


meus).9
Versículos Edição Tradução do Edição Pastoral9
Contemporânea7 Novo Mundo 8

(Revisão de 1986)
José, despertando José, acordando do Quando acordou,
do sono, fez como o sono, fez conforme José fez conforme
Mat. 1: anjo do Senhor lhe o anjo de Jeová lhe o Anjo do Senhor
24,25 ordenara, e recebeu a indicara e levou havia mandado:
sua mulher. sua esposa para levou Maria para
Mas não a conheceu casa. Mas não teve casa, e, sem ter
até que ela deu à luz relações com ela até relações com ela,
um filho. E ele lhe ela ter dado à luz Maria deu à luz um
pôs o nome de Jesus. um filho; e deu-lhe filho. E José deu
o nome de Jesus. a ele o nome de
Jesus.
Respondeu-lhe Jesus: E ele lhe disse: Jesus respondeu:
Lucas 23:43 Em verdade te digo “Deveras, eu te Eu lhe garanto:
que hoje estarás digo hoje: Estarás hoje mesmo você
comigo no paraíso. comigo no Paraíso.” estará comigo no
paraíso.
No princípio era o No princípio era a No começo a
João 1:1 Verbo, e o Verbo Palavra, e a Palavra Palavra já existia:
estava com Deus, e o estava com o Deus, a Palavra estava
Verbo era Deus. e a Palavra era [um] voltada para Deus,
deus. e a Palavra era
Deus.
Fonte: Elaborado pelo autor.

7
Adotada por Igrejas Evangélicas, entre elas estão as mais conservadoras, as
pentecostais e as neopentecostais.
8
Adotada pelas Testemunhas de Jeová.
9
Adotada pela Igreja Católica Apostólica Romana.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 93-124, set-dez, 2018 98


No princípio era a palavra, mas a palavra foi traduzida para os sinais

Cada cursista deveria escolher as três passagens bíblicas (Ma-


teus 1: 24,25; Lucas 23: 43; João 1:1) e realizar sua tradução
para a Libras. O principal objetivo era verificar de que forma os
princípios ideológicos (a mão oculta) subjacentes à atividade tra-
dutória conduziriam a tradução do texto sensível, a começar pela
escolha dos trechos, ou seja, como cada passagem acima de cada
Bíblia adotada pelos grupos sugere um entendimento particular,
então cada tradutor elegeu o fragmento que estava em harmonia
com seus preceitos doutrinários, com seus dogmas religiosos. Fa-
zendo assim, os que traduziam não penalizariam sua consciência
por terem adotado uma postura diferente daquela pela qual sua
doutrina religiosa compreende o mundo. Os dados evidenciaram
que, de modo geral, tradutores de Libras praticantes de doutrinas
religiosas não estão meramente preocupados em traduzir os sis-
temas linguísticos envolvidos com o texto sensível, mas também
concentrados em cumprir com a tradição dogmática estabelecida
por seus grupos religiosos a partir da interpretação da Bíblia sob
sua óptica. Dito de outra forma: na tradução de textos sensíveis
realizada por praticantes de dogmas religiosos há leis implícitas
ligadas a ideologias conciliando atividade tradutória a doutrinas.
Isso porque qualquer negociação linguístico-cultural desajustada
das concepções de um determinado grupo tem um grande poten-
cial de ainda ser considerada por seus pares, ou pela consciência,
uma transgressão da Palavra de Deus.
Recupero o clássico exemplo de Sofrônio Eusébio Jerônimo
(345?-419/420), meses após ele ter traduzido a Bíblia do Hebrai-
co e do Grego para o Latim, quando foi acusado de herético em
virtude de suas negociações linguísticas. Em um excerto de uma
de suas muitas correspondências enviadas a Jerônimo, Agostinho
(354-430/431) trata da inquietação que a tradução de Jerônimo
causou nos fieis, quando um bispo a introduziu na igreja sob sua
responsabilidade. À medida que a congregação percebia trechos
no livro do profeta Jonas nada familiares diante do que já estavam
acostumados a ouvir, os protestos vieram em seguida, inclusive os
gregos manifestaram indignação sobre a alegada falsificação das

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 93-124, set-dez, 2018 99


Emerson Cristian Pereira dos Santos

Escrituras, não poupando seu tradutor e dando-lhe o epíteto de


profano. Como a situação não se resolvia, pelo contrário, cada vez
mais se agravava, o bispo resolveu consultar os judeus a fim de
resolver o problema, mas “eles responderam, ou por ignorância ou
por malícia, que os manuscritos Hebreus continham exatamente o
que podia ser encontrado nos manuscritos grego e latino”. Encur-
ralado, e “para escapar do grande perigo” e não perder todos os
fieis, a saída do bispo foi retratar-se e dizer que havia cometido um
erro ao introduzir a tradução de Jerônimo na congregação (LEFE-
VERE, 1992, p. 2-3).
Outro infortúnio que ecoou pelos séculos, e que publicações
sobre tradução de textos sensíveis dificilmente deixam de citar,
ocorreu entre Martinho Lutero (1483-1546) e lideranças religiosas
católicas coetâneas que ainda sofriam as consequências do oca-
so medieval e estavam desnorteadas mesmo algum tempo após o
alvorecer da Renascença, momento de rupturas não só de ordem
artística, mas também científicas, filosóficas, políticas, culturais
e religiosas, onde o pensamento e o empreendimento em ser li-
vres das dominações eram insistentes. Pouco tempo depois de
utilizar a porta da Igreja do Castelo de Wittenberg (Alemanha)
para pendurar suas 95 teses, o ícone principal da Reforma Protes-
tante despertaria mais um incômodo nas autoridades religiosas ao
“acrescentar”, em sua tradução para o Alemão, a palavra “somente
” ao versículo 28 do terceiro capítulo da Epístola de Paulo aos Ro-
manos. O mal-estar diante das acusações de heresia até rendeu uma
Carta Aberta sobre a Tradução em 1530. Nela, Lutero (2010, p.
97) não só se defende como contra-ataca seus algozes “papistas”,
usando desde palavras como “mentirosos”, “embusteiros” e “as-
nos” a expressões como “[...] eles ainda têm orelhas muito longas
e seu zurro é muito fraco para julgar minha tradução”.
Evidentemente, não vou entrar no mérito da discussão se era
uma condição sine qua non acrescentar ou excluir a palavra “so-
mente” do versículo mencionado acima, porque o que julgo mais
essencial para este momento de reflexão no artigo não é entrar
nessa dança das cadeiras, mas demonstrar que aquele embate entre

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 93-124, set-dez, 2018 100


No princípio era a palavra, mas a palavra foi traduzida para os sinais

o fazer permanecer e o retirar a palavra em questão deixa a céu


aberto os interesses ideológicos envolvidos com a tradução: por um
lado, sugerindo uma possível perspectiva da Igreja, se a tradução
propõe que o homem é salvo “somente” pela fé, onde fica a inter-
cessão sacerdotal em favor daqueles que estariam no purgatório?
Por outro, agora sugerindo uma possível óptica do pensamento
reformista, se a tradução “acrescentar” a palavra “somente”, isso
pode ser mais um recurso na tentativa de enfraquecer o poder pri-
vilegiado e a intolerância da Igreja. A propósito, sola fide (somente
pela fé) foi apenas um dos cinco princípios religiosos pelos quais os
reformadores estabeleceram sua teologia contra boa parte do credo
Católico Apostólico Romano. Além dela, as outras quatro expres-
sões latinas que resumem o pensamento teológico reformista são:
sola gratia (somente a graça), sola scriptura (somente a Escritura),
soli Deo glória (glória somente a Deus) e solus Christus (somente
Cristo). O fato é que, se bem observado, o apagamento ou a manu-
tenção da palavra na tradução mexe com ideologias, desembocando
em um dos principais dogmas religiosos: o do purgatório.
Lutero e Jerônimo, por um motivo ou por outro, romperam o
cânone da tradição tradutória, e como a tradição naqueles casos
estava ligada diretamente a ideologias religiosas, os dois traduto-
res inevitavelmente se viram diante de encurralamentos tradutório-
-ideológicos. No entanto, para não quebrar a régua do cânone,
tradutores de textos sensíveis tendem a seguir a ideologia do sis-
tema religioso ao qual pertencem. Neste ponto, trago aqui uma
observação da tradução pelas TJ da Bíblia para a Libras, em João
1:1. O versículo em língua portuguesa diz o seguinte: “No prin-
cípio era a Palavra, e a Palavra estava com Deus, e a Palavra era
um deus”. Observe que o uso de “D” e “d” e a presença do artigo
indefinido “um” sugerem uma relação de hierarquia entre “Deus”
e “um deus/Palavra”. Na tradução para a Libras, essa relação de
hierarquia e de independência entre “Deus” e “um deus” não só é
mantida como é mais evidente ainda, e foi construída da seguinte
maneira: o sinal ligado a “Deus” (configuração de mão em D) é
feito no espaço do lado superior direito, bem à cima do ombro do

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 93-124, set-dez, 2018 101


Emerson Cristian Pereira dos Santos

tradutor, e o sinal que está ligado à expressão “um deus” (também


com configuração de mão em D) é executado do lado esquerdo,
mas nitidamente as posições entre este último e o outro são assi-
métricas, ou seja, o que é ligado a “Deus” está em uma posição
mais acima, e o que se refere a “um deus”, embora do outro lado,
está mais abaixo. Ora, como no texto-fonte esses conceitos são
feitos com iniciais maiúsculas e minúsculas e com o uso do artigo
indefinido “um”, e em Libras essas estratégias não seriam possí-
veis, a tradução explorou outros recursos a fim de seguir a tradição
religiosa e deixar claro que “Deus” e “um deus” são, entre outras
coisas, hierarquicamente diferentes.
Sob outra perspectiva, o grande cuidado em cumprir com a
tradição estimula o tradutor a incluir na língua de chegada signi-
ficados não explícitos na língua de partida. Grosso modo, isso é
conhecido como explicitação, na Teoria da Relevância. Retomando
a tradução para a Libras de João 1:1, ao realizar o sinal Poder, o
tradutor relaciona-o tanto a “Deus” como a “um deus”, mas ao
executar o sinal Poder ligado a “Deus” a expressão facial é muito
mais intensa do que o sinal Poder associado a “um deus”, embora
o tradutor depois realize o sinal Igual. O fato é que não há qualquer
referência ao conceito Poder no versículo do texto-fonte, ou qual-
quer orientação que justifique o motivo do uso da expressão facial
intensificada na tradução para a Libras. Essas informações expli-
citadas principalmente por meio da expressão facial estão ligadas
um conjunto de leis regidas pelo entendimento dogmático a partir
da interpretação de outros versículos bíblicos pelo grupo religioso.
Por exemplo, essas informações podem decorrer de João, 14:28:
“[...] vou para o Pai, pois o Pai é maior do que eu” – um dos prin-
cípios doutrinários para as TJ. Portanto, nesses casos, as explicita-
ções podem ser compreendidas como o resultado de preocupações
em cumprir com a tradição dogmático-religiosa.
Os dados empíricos acima evidenciam que o conjunto de leis
por trás da tradução possui uma forte influência no desenvolvimen-
to de repertórios a serem adotados pelos tradutores, estabelecendo,
tacitamente, uma tradição tradutória a ser seguida por qualquer um

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 93-124, set-dez, 2018 102


No princípio era a palavra, mas a palavra foi traduzida para os sinais

que compartilhe do mesmo entendimento dogmático-religioso. Na


tradução de João 1:1 para a American Sign Language (ASL), a Lín-
gua de Sinais Americana, o mesmo princípio é praticado pelo tra-
dutor americano TJ. Este, assim como o brasileiro, estabelece uma
correspondência de hierarquia entre “God” e “a god”, como no
texto-fonte, mas intensificada pelas expressões faciais. Essa mesma
observação pode ser feita com relação à tradução para a Lengua
de Señas Argentina, realizada por tradutores argentinos TJ. Ob-
viamente, é mais do que possível que os repertórios das primeiras
traduções feitas por um determinado grupo de tradutores TJ, de
uma determinada nacionalidade, tenham servido como modelo para
as traduções que se seguiram. Dito de outra forma, a tradição foi
estabelecida. Mas é possível constatar que, no caso da Bíblia, o
princípio dogmático-ideológico é o regente do cânon, fazendo os
tradutores seguirem um repertório específico, e não outro.
Diante do que foi dito acima, é possível dizer que, em língua
de sinais, um olhar atento do pesquisador para as expressões
faciais, e marcações não manuais de modo geral, pode constatar
que elas carregam mais que aspectos linguístico-gramaticais. Caso
os tradutores de Libras de textos sensíveis estejam profundamente
preocupados em não contrariar as doutrinas estabelecidas a partir
da interpretação da Bíblia sob o ponto de vista de sua religião, as
expressões faciais não estarão ligadas somente a aspectos linguístico-
gramaticais mas também a aspectos ideológicos. Mesmo assim, a
depender do contexto sócio-histórico-político, o sistema ideológico
pode passar por mudanças. Por exemplo, apesar de Jerônimo, em um
primeiro momento, ter sido considerado herege, mais tarde ele foi
canonizado pela Igreja Católica, e sua tradução, antes ad referendum,
a Vulgata, considerada um desserviço, passou a ser indispensável nas
liturgias da Igreja. Mas o que explica essa mudança de concepção? O
que justifica a alteração do epíteto “profano tradutor” para “tradutor
santo”, ou “santo tradutor”? O que trouxe a tradução e o tradutor da
periferia para o centro das atenções?
Uma das maneiras pelas quais podemos reunir respostas é re-
fletir sobre a dinâmica das relações dos “elementos” em um dado

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 93-124, set-dez, 2018 103


Emerson Cristian Pereira dos Santos

polissistema sociocultural, e é exatamente neste ponto do artigo


que algumas ideias do professor israelense Itamar Even-Zohar, a
respeito de polissistemas, vai servir como fundamento teórico para
a compreensão de como o polissistema literário da cultura surda
brasileira está estabelecendo repertórios, incluindo os de tradução.
Para isso, passo a examinar a tradução da Bíblia para a Libras sob
outra perspectiva: a perspectiva poética, i.e., literária. Mas, antes,
é imprescindível apresentar brevemente alguns pressupostos teóri-
cos sobre o entendimento de Polissistema.

3. Breve comentário sobre o entendimento de polissistemas

O entendimento de literatura como sistema, ventilado pelos


formalistas russos, seria fonte da qual Even-Zohar não deixaria
de beber, o que o ajudou a iniciar a resolução de problemas li-
gados tanto à história quanto à tradução da literatura vinculada a
seu país. Com base na concepção de “sistema literário”, advin-
da exatamente do Formalismo Russo, Even-Zohar (1990) elabo-
rou e pavimentou um campo teórico que ficou conhecido como
Teoria dos Polissistemas, nos anos 1970, mas, como o próprio
Even-Zohar (1990, p. 1) destacou, “reformulada posteriormen-
te e desenvolvida em um número de estudos que se seguiram
[...]”. Na base da teoria, o entendimento de que os fenômenos
semióticos são mais bem compreendidos quando concebidos como
sistemas dinamicamente constituídos por elementos inter-relacio-
nados. Em suas próprias palavras:

[polissistema é] um sistema múltiplo, um sistema de


vários sistemas que interagem uns com os outros e se
sobrepõem parcialmente, usando opções simultanea-
mente diferentes, mas ainda funcionando como um
todo estruturado, cujos membros são interdependentes.
(EVEN-ZOHAR, 1990, p.11).

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 93-124, set-dez, 2018 104


No princípio era a palavra, mas a palavra foi traduzida para os sinais

Even-Zohar (1990) alicerçou suas postulações no que denomi-


nou de “funcionalismo dinâmico”. Agora, manifestações semió-
ticas como cultura, língua, pintura, literatura etc. passaram a ser
compreendidas como partes de um todo em constante dinamis-
mo e relação. Com essa linha de raciocínio fecundada, não tinha
como a literatura traduzida não ser vislumbrada como um polis-
sistema repleto de dinamismo em sua composição, um polissis-
tema com modelos próprios. Aliás, sobre esta concepção – o de
a literatura traduzida possuir modelos próprios – Lambert (2011,
p. 200) aponta dois argumentos pelos quais Even-Zohar (1978)
defende essa hipótese:

1) o fato de que uma determinada literatura aplica seus


próprios princípios de seleção, mesmo diante de literaturas
e obras estrangeiras bastante diferentes da sua (toda a Eu-
ropa do século 18 uniu o destino de Ossian ao de Homero);
2) o fato de a literatura de chegada seguir uma certa estraté-
gia em seu método de traduzir, mesmo diante de literaturas
e obras estrangeiras bastante diferentes da sua.

Lambert (2011, pp. 200 e 201) complementa destacando que


um ponto crucial é situar as traduções “dentro e em relação ao
sistema literário, não apenas supor que elas funcionem como uma
organização”. Logo em seguida, realça duas perguntas: [as tradu-
ções] “são tradicionais ou inovadoras, e em que medida? Ocupam
um lugar central ou marginal na vida literária?”.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 93-124, set-dez, 2018 105


Emerson Cristian Pereira dos Santos

4. O polissistema literário da cultura surda e as


contribuições dos repertórios de tradução

4.1. O jovem polissistema literário da cultura e seus


repertórios

Observando pelo mesmo ângulo de Even-Zohar (1990), e le-


vando em consideração as reflexões propostas por Lambert (2011),
podemos agora pensar a literatura surda situada em um amplo po-
lissistema, no qual mantem relação com outros.

Ilustração 1 – Esquema de uma pequena parte do polissistema


sociocultural brasileiro.

Fonte: Elaborada pelo autor.

Com base na ilustração, as relações estão representadas pelas


interseções entre os conjuntos, já os polissistemas literários estão
destacados (em maior grau), quando comparado com os outros, porque
são eles os objetos de estudo deste trabalho, e não significa dizer que
são os mais evidentes dentro do polissistema sociocultural brasileiro.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 93-124, set-dez, 2018 106


No princípio era a palavra, mas a palavra foi traduzida para os sinais

De toda forma, embora ainda não se tenha uma descrição detalhada do


polissistema literário da cultura surda brasileira, nem um mapeamento
de seus poemas, isso não quer dizer que a literatura surda não
exista, porque ela não só existe como já deu importantes passos. Por
isso mesmo iniciar uma análise dos poemas em língua de sinais pode
nos ajudar a compreender como se constituem os modelos de seleção
e como os repertórios, incluindo os de tradução, estão solidificando
a literatura surda. A propósito, algo semelhante aconteceu com o
sistema literário hebraico, porque um pouco antes de formular suas
hipóteses e dar contornos vastos à sua teoria Even-Zohar (1970)
havia se deparado com a difícil tarefa de solucionar o “problema”
da “intricada estrutura histórica” da literatura hebraica.
Também é possível perceber, na ilustração, duas culturas em
destaque: a surda e a ouvinte. Os surdos compartilham da cultura
de seu país, por isso são tidos como biculturais. No entanto, em
virtude de experiências particulares corporais harmonizadas pela
surdez, que aqui é entendida não como patologia, mas como agente
de idiossincrasia e responsável por originar culturas surdas em vá-
rias partes do mundo, os surdos possuem uma teia de significâncias
muito particular. Por meio dela, os surdos dividem entre si um
conjunto de conhecimentos e interesses circunscritos em um códi-
go simbólico, transmitido e interpretado por seus pares. Por essa
razão os percebo como membros de uma cultura própria, a cultura
surda, na qual encontramos uma literatura de igual modo peculiar,
também alicerçada em experiências especiais com o mundo. Esse é
um dos motivos pelos quais este trabalho faz distinção entre “lite-
ratura ouvinte” e “literatura surda”.
É importante destacar que literatura surda e literatura ouvin-
te não estão isoladas no polissistema, i.e., em virtude do contato
especial entre cultura ouvinte e cultura surda e entre Libras e lín-
gua portuguesa, é natural uma especial relação entre as literaturas.
Mas, nessa relação, a literatura surda recebe mais influência de re-
pertórios da literatura ouvinte do que o contrário. Primeiro porque
a ouvinte assume uma posição central no polissistema sociocultural
do Brasil, depois porque os tradutores de Libras constantemente

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 93-124, set-dez, 2018 107


Emerson Cristian Pereira dos Santos

estão traduzindo poemas de poetas ouvintes para a literatura sur-


da, não de poetas surdos para a literatura ouvinte. Aliás, a prática
desta última possibilidade poderia não só contribuir com a difusão
da cultura surda como um todo mas inovar o polissistema literário
ouvinte. Entre os poetas ouvintes nacionais e internacionais mais
traduzidos para a literatura surda estão Carlos Drummond de An-
drade, Castro Alves, Cecília Meireles, Clarice Lispector, Concei-
ção Evaristo, Cora Coralina, Edgar Allan Poe, Elisa Lucinda, Fer-
reira Gullar, Fernando Pessoa, Gonçalves Dias, Mário Quintana,
Octavio Paz, Patativa do Assaré, Ruth Rocha, Vinícius de Moraes
e William Shakespeare.
A partir dessas observações, não há com não compreender o
tradutor de Libras como um dos elementos desse sistema, forne-
cendo importantes contribuições para a formação e consolidação
em várias áreas, especialmente a da literatura. Por isso mesmo,
em suas tomadas de decisões na tradução, (I) ele pode tanto ser
influenciado pelos repertórios já estabelecidos e gerar traduções
tradicionais, quanto (II) quebrar a régua do cânon e oferecer novos
estilos, formas, ritmos, gêneros etc., usando recursos linguísticos e
extralinguísticos diversos. No primeiro caso, a língua-alvo é quem
determina a aplicação dos princípios de seleção, ou seja, são os
repertórios já estabelecidos pelos poemas originados em Libras e
pelas traduções mais tradicionais que acarretam as negociações lin-
guísticas e culturais. No segundo caso, os princípios de seleção
partem de fontes diversas, das quais cito: a língua-fonte, estra-
tégias inovadoras, estratégias já usadas por tradutores de línguas
oral-auditivas e de outras línguas de sinais.
Se traduções inovadoras em Libras serão aceitas pela tradição,
não é possível prever, mas, pelo prisma da Teoria dos Polissiste-
mas, é possível dizer que elas assumirão sim um lugar no sistema
literário. Mas qual lugar? No centro ou na periferia? E qual a
relação delas com o sistema? Na verdade, Even-Zohar (1990) ob-
servou que a literatura traduzida tende a ocupar uma posição mais
periférica no polissistema, enquanto a literatura originada na língua
nacional ou majoritária ocupa a posição mais central. Mas ele tam-

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 93-124, set-dez, 2018 108


No princípio era a palavra, mas a palavra foi traduzida para os sinais

bém notou três casos pelos quais a literatura traduzida pode assu-
mir a posição central: (I) quando o sistema literário ainda é muito
jovem, momento em que a tradução introduz novos repertórios
(estéticas, estilos, formas, gêneros, ideias, linguagens etc.); (II)
quando a literatura é considerada fraca, diante de outra literatura;
e (III) quando uma literatura está em crise e ultrapassada, mas a
tradução desempenha o papel de inová-la.
Das três, a hipótese (I) pode ser decisiva na explicação e na
compreensão de novos repertórios que surgem no sistema literá-
rio da cultura surda. Por exemplo, atualmente, a literatura sur-
da brasileira vem presenciando o surgimento do slam poetry, ou
poesia slam, em seu polissistema literário. O termo slam tem o
significado aproximado de “grande ruído”, “grande barulho” ou
mesmo “forte batida”, e no contexto em que o termo “poesia
slam” é usado, podemos compreendê-lo como “forte barulho de
poesias” ou “batalha de poesias agitadas”. De todo modo, o que
antes pertencia somente à literatura ouvinte, agora passa a fazer
parte da literatura surda. E o mais curioso é que, nas batalhas, a
tradução está situada entre Libras e língua portuguesa, ela ganha
lugar de destaque, dado que a declamação dos poemas é reali-
zada por uma dupla composta por um surdo e por um ouvinte,
que usam a Libras e a língua portuguesa. Esse novo gênero na
literatura surda introduz novos repertórios de sinalização, tais
como expressões faciais muito mais intensificadas, performance
corporal agitada, combinação de língua oral-auditiva com língua
de sinais, mistura de mímicas e gestos com o léxico das línguas
de sinais, liberdade formal e ritmo muito mais acelerado. Em um
contraste, na tradução de Cântico o ritmo é coordenado, lento e
repetitivo, mas na poesia slam em língua de sinais, o mais comum
é que o ritmo seja muito mais intenso, forte e variável.
Observe que a tradução vem desempenhando papel central no
surgimento desse novo gênero no polissistema literário da cultura
surda brasileira. Na verdade, em suas maiores contribuições, além
de imortalizar obras e autores em diversos sistemas literários, as
traduções também podem promover grandes impactos e mudanças

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 93-124, set-dez, 2018 109


Emerson Cristian Pereira dos Santos

na literatura de chagada, importando, inovando e criando repertó-


rios. Um exemplo mais concreto sobre o assunto é destacado em
Bassnett (2014, p. 21-22), quando cita o caso do:

Soneto Renascentista [...], uma forma popularizada na


Itália pelo poeta Petrarca, que se espalhou rapidamente por
uma grande variedade de línguas europeias como resultado
de traduções a partir do original italiano, e atingiu o status
canônico na maioria das literaturas ocidentais.

Em casos como esses, as traduções ocuparam uma posição cen-


tral no cânone literário, e os tradutores exercem papel capital no
processo de reorganização centro-periferia de dos polissistemas.
Assim, novas formas de rimas em Libras podem surgir, novos ele-
mentos extralinguísticos (incluindo sons, dado que a comunidade
surda também é composta por ouvintes), novos jogos de lingua-
gem, novos estilos de sinalização etc.

4.2. Classificadores e morfismos como princípios de seleção


da literatura surda

Na tradução de Cântico para Libras realizado pelas TJ, os prin-


cipais princípios de seleção seguem repertórios já estabelecidos
pela literatura de chegada, i.e., pela literatura surda, principal-
mente no que diz respeito à exploração dos classificadores. Para
citar um exemplo, trago aqui a figura de linguagem mais comum
no poema: a comparação, por ser um dos ambientes linguísticos
mais propícios para a eclosão dos classificadores nas traduções
para Libras, especialmente os descritivos. Nas comparações em
Cântico, o nome é como óleo aromático, a beleza é como panos das
tendas de Salomão e como éguas dos carros do faraó, os olhos são
equiparados aos das pombas, os dentes como rebanhos de ovelhas
recém-tosquiadas, os seios são análogos a filhotes gêmeos de uma
gazela que pastam entre os lírios, as faces são assemelhadas a dois

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 93-124, set-dez, 2018 110


No princípio era a palavra, mas a palavra foi traduzida para os sinais

pedaços de romãs, a língua como leite e mel etc. Mas a tradução


de Cântico 4:1 é especialmente interessante para comentar, porque
possibilitou a emergência de um efeito estético notavelmente po-
ético na tradução para Libras, por meio de classificadores e mor-
fismos. Em resumo, este último fenômeno pode ser compreendido
como a convergência de parâmetros dos sinais realizados subse-
quentemente. Dito de outro modo: morfismo é o ponto onde duas
(ou mais) partes de sinais subsequentes fundem-se.
Ao traduzir o trecho “Seu cabelo é como um rebanho de cabras
Que descem as montanhas de Gileade.” (Ct. 4:1), o tradutor explora
os classificadores e os morfismos de forma muito criativa, peculiar
e poética. Comentando primeiramente os classificadores, a partir de
uma pequena seleção do verso em Libras, temos as seguintes sentenças
: (I) “seus cabelos ondulados descem sobre seus ombros até che-
garem aos seus bustos.” (II) “Que lindo! Iguais às cabras que vão
descendo as montanhas de Gileade” (III) “são seus cabelos ondu-
lados descendo sobre seus ombros até chegarem aos seus bustos.
Que lindo!”.
Acima, há dois classificadores beneficiando a linguagem poé-
tica na tradução: o próprio corpo (figura 1.a) e a configuração de
mãos. A tradução utiliza o corpo do tradutor como analogia entre
“corpo da sulamita” e “montanhas de Gileade”, e a configuração
de mãos como comparação dos “cabelos da sulamita descendo so-
bre o corpo” (figura 1.a) com as “cabras descendo as montanhas
de Gileade” (figura 1.b). O espaço do lado esquerdo do tradutor
(figura 1.b) é usado para descrever as montanhas de Gileade, e o
espaço onde o tradutor está evidencia a presença da personagem
sulamita, descrevendo o corpo dela quando explora o classificador
“cabelos ondulados descendo sobre seus ombros até chegarem aos
seus bustos”. Ao fazer isso, o efeito poético dá ao espectador a im-
pressão de que “corpo da sulamita” e “montanhas de Gileade” são
amalgamados. Observe que, enquanto na figura 1.a são os cabelos
ondulados que vão descendo o corpo da sulamita, na figura 1.b
são as cabras que vão descendo as montanhas de Gileade. Nesse
sentido, os classificadores “corpo da sulamita” e “montanhas de

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 93-124, set-dez, 2018 111


No princípio era a palavra, mas a palavra foi traduzida para os sinais

ções eróticas. Ora, se o eu lírico compara o umbigo de sua amada


a uma taça de vinho, o ventre a um monte de trigo cercado de
lírios, os seios a cachos de uva, uma das inferências do leitor é
aquela que o leva a interpretar que o casal não possui tabus com
relação a utilizar diversas partes de seu corpo para sentir e pro-
porcionar prazer um ao outro.

Seu umbigo é uma taça redonda


Em que nunca falta vinho misturado.
Seu ventre é um monte de trigo,
Cercado de lírios.
Seus seios são como dois filhotes de cervo,
Crias gêmeas de uma gazela
[...]
E seus seios são como cachos de tâmaras.
Eu disse: ‘Subirei na palmeira,
Para pegar os seus frutos.
Sejam os seus seios como cachos de uva;
[...]

No entanto, se no texto-fonte o formato dos seios da persona-


gem feminina fica a critério de quem faz a leitura, no texto-alvo
as dimensões proeminentes e acentuadas pelo classificador realçam
mais ainda os seios, tornando a linguagem da tradução muito mais
sensual aos espectadores. Isso porque, com o uso do classificador,
os seios ganham volume destacado e um vasto contorno.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 93-124, set-dez, 2018 113


No princípio era a palavra, mas a palavra foi traduzida para os sinais

Leve-me com você, e corramos.


O rei me trouxe ao seu aposento reservado!
Alegremo-nos e exultemos juntos.
Celebremos suas expressões de amor, que são melhores do
que o vinho.
É com razão que elas o amam!

Antes de comentar parte da tradução, convém informar que, em


Cântico, alguns veem duas personagens principais: a camponesa
sulamita e o rei Salomão. Por essa óptica, todo o poema é uma
sucessão de monólogos metafóricos sobre o amor entre ambos,
ou seja, a bela camponesa e o rei, por meio de seus discursos,
expressam seus mais profundos sentimentos de amor. Mas há ou-
tros que veem mais uma personagem principal: um jovem pastor
de ovelhas. É o caso das TJ. Para eles, e para tantos outros que
defendem essa tese, as juras de amor não acontecem entre Salomão
e a sulamita, mas entre esta e um jovem pastor de ovelhas. Na
verdade, o rei Salomão, também apaixonado pela jovem, leva-a até
seu palácio e tenta conquistá-la, assediando-a de várias formas. No
entanto, ela não cede aos cortejos do rei e recusa todas as ofertas,
sendo fiel e guardando seus carinhos e seu amor para o pastor de
ovelhas, por quem é apaixonada e de quem é namorada. Com esse
enredo, a interpretação alegórica entende a sulamita como a Igreja,
o pastor de ovelhas como Jesus e o rei Salomão como Satanás.
Em virtude dos versos anteriores, ao iniciar a tradução do tre-
cho acima para a Libras, o tradutor já está assumindo a fala da
jovem sulamita. Para que isso fique claro aos espectadores, ele
deixa seu corpo e seu olhar levemente voltado para seu lado di-
reito enquanto sinaliza. Dessa forma, a sinalização produzida a
partir dessa orientação corresponde ao discurso da sulamita, que
é direcionado a alguma personagem no espaço neutro do lado di-
reito. Ao traduzir a linha dois do trecho acima, o tradutor não só
aponta e olha para o espaço neutro do seu lado esquerdo, fazendo
surgir a terceira personagem (o rei Salomão), mas também utiliza
uma expressão facial que denota descontentamento, sugerindo ao

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 93-124, set-dez, 2018 115


Emerson Cristian Pereira dos Santos

espectador o antagonismo do rei Salomão, o obstáculo que ten-


tando burlar o relacionamento entre ela e o pastor de ovelhas, seu
verdadeiro amor.
A expressão facial acima é responsável pela explicitação. Po-
rém, minha alegação é a de que essa explicitação não é proveniente
do enunciado do texto-fonte em si, mas do conjunto de leis esta-
belecidas pela ideologia dogmático-religiosa. Ou seja, do trecho
em língua portuguesa não é possível extrair o antagonismo do rei
Salomão, aliás, nem mesmo a presença do pastor como terceira
personagem, mas na tradução isso é evidente por meio da expres-
são facial. Ora, sem a presença do rei Salomão como antagonista, a
interpretação alegórica das três personagens desapareceria: a sula-
mita como a Igreja, o pastor de ovelhas como Jesus e o rei Salomão
como Satanás. É, portanto, o cuidado em cumprir com leis implí-
citas o responsável por provocar essa explicitação, gerando reper-
tórios específicos na literatura traduzida de um dado polissistema.
Como dito anteriormente, as explicitações mencionadas nes-
te artigo são provenientes de leis implícitas em um conjunto de
concepções ideológicas que regem as atividades comunicativas e
tradutórias de um determinado grupo, neste caso específico, as TJ.
Ao constatamos essas explicitações, percebemos que até mesmo os
repertórios de tradução de textos sensíveis possuem certa indepen-
dência em relação ao texto-fonte, mas indicam possuir uma depen-
dência forte com as ideologias. Usando uma metáfora: ideologia é
a mão invisível que controla as mãos de boa parte dos tradutores.
Expandindo essa metáfora para o tradutor de Libras, ela controla
não apenas as mãos mas também todo o corpo, incluindo as ex-
pressões faciais, porque em línguas de sinais, há casos em que elas
revelam muito mais que aspectos gramaticais.

4.4. O poema em prosa como um dos repertórios da


literatura surda

Antes de finalizar as reflexões sobre o jovem polissistema lite-


rário da cultura surda neste artigo, é preciso dizer que mesmo exis-

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 93-124, set-dez, 2018 116


Emerson Cristian Pereira dos Santos

tindo uma relação entre literatura ouvinte e literatura surda, esta


última possui seus próprios princípios de seleção. Por exemplo,
quem assiste aos poemas “O voo do Rio a Florianópolis10”, “Five
Senses”11 e “Dew on Spiderweb”12, da poetisa surda brasileira Fer-
nanda Machado, do poeta surdo britânico Paul Scott e da poetisa
surda americana Ella Lentz, respectivamente, logo percebe algu-
mas características muito peculiares: (I) uma exposição bem desen-
volvida a partir do uso de muitos classificadores; (II) a presença
de personagens antropomórficas; (III) morfismos; (IV) contornos
narrativos e (V) brevidade estrutural. Na verdade, no poema Dew
on Spiderweb, embora não se tenha a presença de personagens, ele
apresenta todas as outras quatro características. O fato é que essas
características em conexão com a liberdade formal dos versos e das
estrofes dessas produções geram uma convergência entre poesia
e prosa, fazendo surgir o poema em prosa no sistema literário da
cultura surda – pelo menos sob minha perspectiva.
Paixão (2013, p. 152), um dos mais importantes pesquisado-
res sobre poema em prosa, destaca que, à primeira vista, “não é
fácil compreender a natureza desse gênero, porque ele pode ser
facilmente confundido com outro: a prosa poética”. Para distinguir
um do outro, o pesquisador sublinha uma questão semântica, im-
pulsionada pelas primeiras palavras dos termos “prosa poética” e
“poema em prosa”, ou seja, a ênfase recai nas palavras iniciais.
Embora repleta de lirismo, de metáforas e outros recursos próprios
da poesia, a principal característica da prosa poética é o prolonga-
mento textual, e mesmo usando recursos da poesia, estes, confor-
me observa Paixão (2013, p. 152), estão subordinados aos ritmos
dos discursos mais longos. Para citar exemplos de prosa poética, o
autor menciona as obras Finnegans Wake, de James Joyce; Grande
Sertão Veredas, de João Guimarães Rosa; e Lavoura arcaica, de
Raduan Nassar. Essas três obras não abriram mão do plano exten-

10
Machado (2013)
11
Scott (2013)
12
Lentz (2010)

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 93-124, set-dez, 2018 117


Emerson Cristian Pereira dos Santos

sivo, narrativo, aventureiro, de múltiplas possibilidades finais e, a


cima de tudo, do plano prosaico, mas também não dispensaram a
linguagem poética.
Baseando-se no impulso semântico da primeira palavra (poe-
ma), e nas postulações de Decaunes (1984), Paixão (2013, p. 153)
destaca que o poema em prosa, por sua vez:

desentranha-se da ideia de poema. É a partir do impulso


poético que o seu conteúdo ganha forma e unidade. Seja
composto de cinco linhas ou de duas páginas, cada poema
deve forjar o tema e os recursos de sua proposição. Ao des-
frutar de liberdade formal, defronta-se com um horizonte
de possibilidades mil para a expressão, mas reguladas pelo
desafio da concisão. Pode até mesmo recorrer à descrição
ou à narração de algum fato ou ocorrência diária, mas de
maneira breve e elíptica.

Em Quintana (2012) podemos nos deparar com uma série de po-


emas em prosa, dos quais cito “Paisagem de após-chuva, Só para
si, Feliz, Janela de abril, Viração, Sinais dos tempos, O poema,
A adolescente, Gare, Aventura no parque, Passarinho empalhado”
etc. Dentre estes, quero trazer os dois últimos, começando por
“Passarinho empalhado”:

Quem te empoleira lá no alto do chapéu do contravó, tico-tico


surubico? Tão triste... tão feio... tão só... Meu tico-tiquinho
coberto de pó... E tu que querias fazer o teu ninho na máquina
do Giovanni fotógrafo! (QUINTANA, 2012, [s.p.]).

Neste poema escrito em prosa, o autor transforma uma pequena


e singela cena do dia a dia em uma linguagem poética, deixando
patente o impulso poético de que tanto falam Decaunes (1984) e
Paixão (2013). O mesmo ocorre com “Aventura no parque”:

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 93-124, set-dez, 2018 118


Emerson Cristian Pereira dos Santos

No banco verde do parque, onde eu lia distraidamente o Al-


manaque Bertrand, aquela sentença pegou-me de surpresa:
‘Colhe o momento que passa.’ Colhi-o, atarantado. Era um
não sei que, um flapt, um inquietante animalzinho, todo
asas e todo patas: ardia como uma brasa, trepidava como
um motor, dava uma angustiosa sensação de véspera de de-
sabamento. Não pude mais. Arremessei-o contra as pedras,
onde foi logo esmigalhado pelo vertiginoso velocípede de um
meninozinho vestido à marinheira. ‘Quem monta num tigre
(dizia, à página seguinte, um provérbio chinês), quem monta
num tigre não pode apear’. (QUINTANA, 2012, [s.p.])

Partindo dessas observações, e comparando essas produções


poéticas em língua portuguesa com as produções poéticas em lín-
guas de sinais, citadas aqui, minha principal alegação é a de que
o poema em prosa tem sido um gênero comum no polissistema
literário da cultura surda. Nos poemas “O voo do Rio a Floria-
nópolis”, “Five Senses” e “Dew on Spiderweb”, o princípio de
seleção voltou-se para esse gênero, pelos vestígios narrativos, pela
liberdade formal dos versos e das estrofes na sinalização que dissi-
pa sua obrigatoriedade, pelo impulso poético que surge da ideia de
poema, não da ideia de prosa, e pela concisão.

5. Conclusão

Os surdos não precisam desejar possuir uma literatura, porque


eles já construíram a sua e estão ampliando-a e consolidando-a. No
entanto, ao compararmos o polissistema literário da cultura ouvin-
te com o da cultura surda, sem dúvidas, o primeiro assume lugar
central. Um dos motivos está ligado ao empenho de muitos poetas,
leitores, tradutores, pesquisadores e estudiosos ao longo dos anos.
Por meio deles, o sistema literário da cultura ouvinte ramificou-se
sobremaneira e acumulou vários repertórios, formando bases bem
definidas e um arcabouço poético bastante expressivo. Infelizmente

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 93-124, set-dez, 2018 119


Emerson Cristian Pereira dos Santos

a literatura surda brasileira ainda não possui um acumulado tão


expressivo de poemas, poetas, leitores, tradutores, pesquisadores
e estudiosos, e isso também dificulta as pesquisas e as reflexões
sobre esse jovem sistema literário.
Os poemas em línguas de sinais são registrados, principalmen-
te, em vídeos, e os registros só foram possíveis com o avanço da
tecnologia, sobretudo com a popularização de aparelhos de captura
de vídeos (especialmente smartphones), por isso muita coisa do po-
lissistema da cultura surda foi perdida, embora outras tenham sido
mantidas pela transmissão de material cultural via sinais, legado de
geração a geração pelos surdos. Mas de forma nenhuma isso torna
a literatura surda inexistente ou menos importante, a não ser pelo
tratamento que o sistema literário brasileiro como um todo tem lhe
dado. O que falta mesmo é reconhecimento e valorização, além de
uma descrição detalhada de suas características, em seus vários es-
tágios, seus repertórios de tradução, seus princípios de seleção etc.
Com relação ao que falei sobre encurralamentos tradutórios
e ideologias dogmático-religiosas no artigo, verdade seja dita, a
prerrogativa de desafiar o tradutor ou de tentar condicioná-lo à
submissão de caprichos não é exclusividade dos textos literários,
porque os textos sensíveis não precisam disputar ou reclamar esse
direito, dado que eles também são carregados de especificidades,
e boa parte delas está na ideologia dogmático-religiosa. Por meio
dela, o texto sensível sempre tenta se agigantar e, ao mesmo tem-
po, diminuir a figura do tradutor, tentando transformá-lo em um
mero observador inocente, ou em um ingênuo amador curioso,
caso sua ideologia seja incompatível com a do grupo a espera da
tradução. À vista disso, além de lidar com as nuanças estritamente
textuais, o tradutor bíblico precisa lidar com ideologias, pelas quais
as negociações e as relações entre texto-fonte e texto-alvo precisam
ser condicionadas aos dogmas religiosos.
Na tradução literária, utilizando o conceito de transcriação de
Campos (1992), se traduzir é recriar, então me parece substancial
que o tradutor reivindique no mínimo o seu protagonismo autoral
no texto-alvo, que persistirá mesmo após a caducidade de sua tra-

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 93-124, set-dez, 2018 120


Emerson Cristian Pereira dos Santos

dução. E como o tradutor não pode (nem deve desejar) furtar-se


da crítica literário-tradutória, suas tomadas de decisões e as evi-
dências de que sua atuação também foi poético-artística devem ser
sua melhor militância, respeitando a correspondência entre ambos
os textos. Daí vem o entendimento de poeta-tradutor. A propósito,
seu certificado de poeta-tradutor pode surgir não só de sua auto-
ria na tradução, mas também da notária crítica literário-tradutória.
Perceba, então, que, aqui, temos três pontos importantes fazendo
frente e somando forças com o tradutor: a autoria, a linguagem
artístico-poética na tradução e o alto grau de correspondência entre
texto-fonte e texto-alvo. Dessa forma, percebemos que sozinho o
tradutor pode ser vencido pelos encurralamentos tradutórios, mas
se um cordão de três dobras é mais difícil de arrebentar, imagina,
então, um de quatro dobras.
Já na tradução da Bíblia, a reivindicação autoral do tradutor,
a recriação, pode parecer uma divagação, ou água além da con-
ta para Narciso dar de conta, uma vez que o “Autor-primeiro”
não divide sua glória com ninguém, pelo menos no entendimento
dogmático-religioso.

Referências

BASSNETT, S. Translation: the new critical idiom. Londres; New York:


Routledge, 2014.

BÍBLIA. Bíblia Sagrada Edição Pastoral. São Paulo: Pia Sociedade de São Paulo:
PAULUS, 2002.

BÍBLIA. Libras. Bíblia em American Sign Language. Cesário Lange: Associação


Torre de Vigia de Bíblias e Tratados, 2015. Disponível em: < https://www.
jw.org/ase/>. Acesso em: 10 out. 2017.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 93-124, set-dez, 2018 121


Emerson Cristian Pereira dos Santos

BÍBLIA. Libras. Bíblia em Lengua de Señas Argentina. Cesário Lange:


Associação Torre de Vigia de Bíblias e Tratados, 2015. Disponível em: <https://
www.jw.org/aed/>. Acesso em: 10 out. 2017.

BÍBLIA. Libras. Bíblia em Língua Brasileira de Sinais. Cesário Lange:


Associação Torre de Vigia de Bíblias e Tratados, 2015. Disponível em: <https://
www.jw.org/bzs/>. Acesso em: 10 out. 2017.

BÍBLIA. Português. Bíblia de referências Thompson. Edição Contemporânea.


Tradução de João Ferreira de Almeida. Brasília: Sociedade Bíblica do Brasil, 1995.

BÍBLIA. Tradução do Novo Mundo da Bíblia Sagrada. Cesário Lange: Associação


Torre de Vigia de Bíblias e Tratados, 2015.

CAMPOS, H. Bere’shith: a cena da origem. São Paulo: Perspectiva, 2000.

CAMPOS, H. Metalinguagem e outras metas: ensaios de teoria e crítica literária.


São Paulo: Perspectiva, 1992.

CAMPOS, H. Qohélet: O-que-sabe. 2. ed. São Paulo: Perspectiva, 2004.

DECAUNES, L. Le Poème en prose: anthologie. Paris, Seghers, 1984.

DEW on Spiderweb. Performance de: Ella Mae Lentz. Berkeley, Califórnia,


1’20’’. 2010, vídeo. Disponível em: <https://youtu.be/YaHChvFWegQ>.
Acesso em: 20 nov. 2017.

EVEN-ZOHAR, I. Papers in Historical Poetics. Tel Aviv: Porter Institute, 1978.

______. Polysystem studies. Durham NC: Duke University Press, 1990.

______. The Nature and Functionalization of the Language of the Literature under
Diglossia. Tel Aviv: Hasifrut, 1970.

FIVE Senses. Produção: XI Congresso Internacional da ABRAPT e V Congresso


Internacional de Tradutores. Performance de: Paul Scott. Florianópolis,

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 93-124, set-dez, 2018 122


Emerson Cristian Pereira dos Santos

Santa Catarina. 16’29’’. 2013, vídeo. Disponível em: <https://youtu.be/Ds_


mv8YVkME>. Acesso em: 20 nov. 2017.

GRICE, H.P. Logic and Conversation. In: COLE, P; MORGAN, J. (Eds). Syntax
and Semantics. v. 3. New York: Academic Press, 1975. p. 41-58.

LAMBERT, J. A tradução. Tradução de Marie-Hélène Catherine Torres e Álvaro


Faleiros. In: COSTA, W.; GUERINI, A.; TORRES, M. H. C. (Org.). Literatura
e tradução. Textos selecionados de José Lambert. Rio de Janeiro: 7 letras, 2011.
p. 183-2017.

LEFEVERE, A. Translation/History/Culture: A Sourcebook. London: Routledge,


1992.

LUTERO, M. Carta aberta sobre a tradução. Tradução de Mauri Furlan. In:


HEIDERMANN, W. (Ed.). Clássicos da Teoria da Tradução. Antologia bilíngue
(Alemão-Português). v. 2. Florianópolis: UFSC / Núcleo de Pesquisas em Literatura
e Tradução, 2010. p. 95-115.

O VOO do Rio a Florianópolis. Produção: XI Congresso Internacional da


ABRAPT e V Congresso Internacional de Tradutores. Performance de: Fernanda
Machado. Florianópolis, Santa Catarina. 16’29’’. 2013, vídeo. Disponível em:
<https://youtu.be/Ds_mv8YVkME>. Acesso em: 20 nov. 2017.

PAIXÃO, F. Poema em prosa: problemática (in)definição. Revista Brasileira. Rio de


Janeiro, n. 75, 2013, p. 151-162.

PERLIN, G. O lugar da cultura surda. In: THOMA, A.S.; LOPES, M. C.


(Orgs.). A invenção da surdez: cultura, alteridade, identidade e diferença no
campo da educação. Santa Cruz do Sul: EDUNISC, 2004, p. 73-82.

PERLIN, G. O ser e o estar sendo surdos: alteridade, diferença e identidade.


2003. 78 f. Tese (Doutorado em Educação). Universidade Federal do Rio Grande
do Sul, Porto Alegre, 2003. Disponível em: < http://www.lume.ufrgs.br/
bitstream/handle/10183/5880/000521539.pdf>. Acesso em: 18 nov. 2017.

QUINTANA, M. Canções seguido de Sapato florido e a Rua dos cataventos.


Recurso eletrônico. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 93-124, set-dez, 2018 123


Emerson Cristian Pereira dos Santos

ROBINSON, D. The Invisible Hands that Control Translation. Recurso eletrônico.


Universitat Autònoma de Barcelona, Barcelona, 2009. Disponível em: < http://
pagines.uab.cat/seangolden/en/content/invisible-hands-control-translation>.
Acesso em: 12 de nov. 2017.

STRÖBEL, Karin. As imagens do outro sobre a cultura surda. 3. ed. Florianópolis:


Editora UFSC, 2013.

WILSON, D; SPERBER, D. Outline of relevance theory. Topics in Linguistics.


Links & Letters. Barcelona, v. 1. p. 85-106, 1994. Disponível em: <https://
www.raco.cat/index.php/LinksLetters/article/view/49815/87793>. Acesso em:
19 nov. 2017.

WILSON, D; SPERBER, D. Teoria da relevância. Linguagem em (Dis)


curso. Tubarão, v. 5, n. esp., p. 221-268, 2005. Disponível em: <http://
www.portaldeperiodicos.unisul.br/index.php/Linguagem_Discurso/article/
view/287/301>Acesso em: 19 nov. 2017.

Recebido em: 16/04/2018


Aceito em: 07/07/2018
Publicado em setembro de 2018

Emerson Cristian Pereira dos Santos. E-mail: em.cristian@gmail.com


ORCID: https://orcid.org/0000-0002-1665-9358

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 93-124, set-dez, 2018 124


http://dx.doi.org/10.5007/2175-7968.2018v38n3p125

LUCAS JOSÉ D’ALVARENGA, TRADUTOR DE SAFO

Felipe Coelho de Souza Ladeira1


Gracinéa Imaculada Oliveira1
1
Faculdade de Ciências Sociais Aplicadas de Belo Horizonte
Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil

Resumo: Este artigo analisa a retradução de uma ode de Safo, feita por
Lucas José d’Alvarenga, em 1830. Nesta análise, cotejou-se a retradução
de Alvarenga com o texto-fonte e com cinco traduções diferentes, a partir
dos conceitos de autoria de Venuti e de retradução de Bergman.
Palavras-Chave: Alvarenga; Retradução; Autoria; Safo.

LUCAS JOSÉ D’ALVARENGA, SAPPHO’S TRANSLATOR

Abstract: This paper aims at examining the retranslation of a Sappho’s


ode, made by Lucas José d’Alvarenga in 1830. Taking into account his
own work and five other translations, a comparison was made using the
concept of authorship from Venuti and the retranslation from Berman
Keywords: Alvarenga; Retranslation; Authorship; Sappho.

1. Introdução

Lucas José d’Alvarenga é daqueles escritores que, tendo pro-


duzido em época de transição, apresenta uma obra híbrida, em
que se mesclam elementos de estilos em decadência e traços de
uma nova sensibilidade artística. Nascido em 1768 em Sabará
(MG) e falecido no Rio de Janeiro, em 1831 (OLIVEIRA, 2016),
Alvarenga publicou seus livros no início do século XIX, época

Esta obra utiliza uma licença Creative Commons CC BY:


https://creativecommons.org/lice
Felipe Coelho de Souza Ladeira & Gracinéa Imaculada Oliveira

considerada por Candido (2000) como crucial para a consolidação


da literatura brasileira.
Formado em Leis pela Universidade de Coimbra, retornou ao
Brasil onde exerceu alguns cargos públicos em sua cidade natal.
Entre 1809 e 1810, foi governador de Macau, evento que marcou
suas futuras publicações. Durante sua administração, conseguiu
expulsar os piratas chineses que infestavam a região e fechar um
acordo diplomático com os ingleses, obtendo a retirada de suas
tropas da ilha (ALVARENGA, 1828; 1830). Essas experiências
motivaram seus três livros de memórias.
Além dessas obras memorialísticas, Alvarenga escreveu uma
novela – Statira, e Zorastes (1826), primeira do gênero publica-
da no Brasil e um livro de poesias – Poezias (1830). Neste livro
há cerca de 50 poemas como cantigas, epigramas, vilancetes, etc.
Destacam-se também, pela quantidade, os sonetos e os improvisos,
sendo que estes ilustram a faceta repentista do poeta. Além disso,
Alvarenga traduziu uma ode de Safo e comentou outras traduções
desse poema, assunto desta pesquisa.
Tendo como texto de partida uma versão latina, publicada em
Londres, em 1742, Alvarenga traduziu o fragmento 31 de Safo
e apresentou outras traduções, feitas por Boileau, pelo Abade
Delille, por Francis Fawkes e pelo Desembargador Magalhães.
Ao fazer isso, Alvarenga apresenta uma pequena explanação so-
bre esses textos e sobre o próprio ato de traduzir. Esse material
é muito importante para o campo da Tradução, já que permi-
te vislumbrar seu conceito no início do século XIX e também
confrontar diferentes propostas de tradução de um dos versos
da mais famosa poetisa da Antiguidade, que muita influência
exerce na literatura ocidental até hoje. Levando isso em consi-
deração, propomos: 1- apresentar, brevemente, o caminho pelo
qual o fragmento 31 de Safo foi vertido em latim para a edição
inglesa de 1742, fonte de Alvarenga; 2- analisar sua tradução,
confrontando-a com a versão latina e comparando-a com alguns
aspectos das traduções francesas, inglesa e a do Desembargador
Magalhães. Esse cotejo foi norteado pelos conceitos de autoria

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 125-141, set-dez, 2018 126


Lucas José d’Alvarenga, tradutor de Safo

e de tradução de Venuti (1996) e, também, pela concepção de


retradução, de Berman (1990).

2. Safo, Catulo e a edição latina de 1742

É inegável a influência grega na formação da Literatura Latina.


Por volta de 250 a.C., Lívio Andronico traduziu a Odisseia para o
latim, fundando a poesia épica romana e sendo seguido por vários
outros poetas e autores nas décadas seguintes. Essa troca cultural
repercutiu fortemente no fazer literário romano e produziu diferen-
tes reflexões a respeito do processo de tradução. Públio Terêncio
Afro, quase um século depois de Andronico, foi um dos primeiros
a deixar registrado uma crítica. Rebatendo uma acusação de ‘mau
poeta’ feita por um adversário, Terêncio declara, no prólogo de sua
comédia Eunuco, que seu caluniador “vertendo bem e escrevendo
mal, de boas peças gregas fez comédias ruins1”. Assim, influencia-
dos pela Literatura Grega, os autores latinos se serviram de mode-
los pré-existentes como fonte para traduções mais ou menos livres
ou como inspiração para suas próprias recriações.
Cem anos após Terêncio, Cícero retoma a questão da tradução
numa passagem do De optimo genere oratorum. Ao justificar o
procedimento adotado em suas traduções de oradores gregos, Cíce-
ro afirma que “não traduzi como intérprete, mas como orador [...]
não tive necessidade de traduzir palavra por palavra, mas mantive
o gênero das palavras e sua força2”. Contemporâneo de Cícero,
Catulo escreveu dois poemas que são traduções, ou recriações dos
originais gregos: o poema 51, modelado no fragmento 31 de Safo,
e o poema 66, baseado no fragmento 110 de Calímaco.
O fragmento 31 de Safo descreve a reação de um eu lírico diante
da pessoa amada, não identificada. A estrutura do poema permite
diferentes interpretações. De um lado, pode-se imaginar que o eu

1
Terêncio, Eunuco, v. 7-8. Tradução de Fujihara (2006, p. 57).
2
Cícero, De optimo genere oratorum. Tradução de Mauri Furlan (2001, p. 17).

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 125-141, set-dez, 2018 127


Felipe Coelho de Souza Ladeira & Gracinéa Imaculada Oliveira

lírico observa a interação entre a pessoa amada e um personagem


masculino, identificado apenas como “aquele” (κῆνος) Por outro
lado, esse mesmo pronome masculino pode ser entendido como uma
generalização, criando um sentido próximo de “Feliz aquele, quem
quer que seja, que está próximo de ti”. Essa escolha afeta diretamen-
te a interpretação do sexto verso, pois o ‘estremecimento’ pode ser
provocado pela emoção afetiva (despertada pela proximidade, voz e
sorriso) ou pela angústia de um ciúme (ao vê-la tão próxima e en-
tretida por um homem belo, par dos deuses). A estrutura inicial do
poema, então, permite uma leitura ambígua ou aberta (WILLS, 1967,
p. 170). Dessa forma, a descrição fisiológica, que se inicia no sexto
verso e culmina na terceira estrofe, pode ter diferentes interpretações
possíveis: dor e aflição para alguns, excitação e orgasmo para outros.

Quadro 1 – Fragmento 31 de Safo e tradução.3


φαίνεταί μοι κῆνος ἴσος θέοισιν Ele3 me parece ser par dos deuses,
ἔμμεν’ ὤνηρ, ὄττις ἐνάντιός τοι O homem que se senta perante ti
ἰσδάνει καὶ πλάσιον ἆδυ φωνεί- E se inclina perto pra ouvir tua doce
σας ὐπακούει Voz e teu riso
καὶ γελαίσας ἰμέροεν, τό μ’ ἦ μὰν 5 Pleno de desejo. Ah, isso, sim, 5
καρδίαν ἐν στήθεσιν ἐπτόαισεν· Faz meu coração ‘stremecer no peito.
ὠς γὰρ <ἔς> σ’ ἴδω βρόχε’ ὤς με φώνη- Pois tão logo vejo teu rosto, a voz
σ’ οὐδ’ ἒν ἔτ’ εἴκει, Perco de todo.
ἀλλά καμ μὲν γλῶσσα ἔαγε, λέπτον Parte-se-me a língua. Um fogo leve
δ’ αὔτικα χρῷι πῦρ ὐπαδεδρόμακεν, 10 Me percorre inteira por sob a pele. 10
ὀππάτεσσι δ’ οὐδ’ ἒν ὄρημμ’, ἐπιρρόμ- Com os olhos nada mais vejo. Zumbem
μεισι δ’ ἄκουαι, Alto os ouvidos.
έκαδέ μ’ ἴδρως κακχέεται, τρόμος δὲ Verto-me em suor. Um tremor me toma
παῖσαν ἄγρει, χλωροτέρα δὲ ποίας Por completo. Mais do que a relva
ἔμμι, τεθνάκην δ’ ὀλίγω ‘πιδεύης 15 estou
φαίνομ’ ἔμ’ αὔται. Verde e para a morte não falta muito 15
É o que parece.
ἀλλὰ πᾶν τολματόν, ἐπεὶ καὶ πένητα. Mas tudo se pode suportar, posto que
mesmo a um pobre.
Fonte: ANTUNES, 2009, p. 141.

3
Aqui, o tradutor optou por utilizar “ele” no lugar de “aquele”.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 125-141, set-dez, 2018 128


Lucas José d’Alvarenga, tradutor de Safo

À primeira vista, o poema 51 de Catulo aparenta ser uma tradu-


ção de Safo. Entretanto, podemos destacar duas mudanças signifi-
cativas: o vocativo Lesbia (v. 7) e a última estrofe.

Quadro 2 – Poema 51 de Catulo e tradução.4


Ille mi par esse deo videtur, Ele4 parece-me ser par de um deus,
ille, si fas est, superare divos ele, se é fás dizer, supera os deuses,
qui sedens adversus identidem te esse que todo atento o tempo todo
spectat et audit contempla e ouve-te
dulce ridentem, misero quod omnis 5 doce rir, o que pobre de mim todo 5
eripit sensus mihi: nam simul te, sentido rouba-me, pois uma vez
Lesbia, adspexi, nihil est super mi que te vi, Lésbia, nada em mim sobrou
<vocis in ore> (de voz na boca)
lingua sed torpet, tenuis sub artus mas torpece-me a língua e leve os
flamma demanat, sonitu suopte 10 membros
tintinant aures, gemina teguntur uma chama percorre e de seu som 10
lumina nocte. os ouvidos tintinam, gêmea noite
cega-me os olhos.
Otium, Catulle, tibi molestum est: O ócio, Catulo, te faz tanto mal.
otio exsultas nimiumque gestis: No ócio tu exultas, tu vibras demais.
otium et reges prius et beatas 15 O ócio já reis e já ricas cidades 15
perdidit urbes. antes perdeu.
Fonte: OLIVA NETO, 1996, p. 102.

Como observado por Polt (2007, p. 114), o primeiro verso de


Catulo “Aquele me parece ser par de um deus” (Ille mi par esse
deo uidetur) é o mais próximo possível de uma tradução palavra
por palavra, pois todas as palavras gregas de Safo estão represen-
tadas em Catulo e, salvo duas, seguem a mesma ordem do origi-
nal5. Essa correspondência teria uma importante implicação: gerar
uma expectativa na audiência de uma tradução literal. Contudo, o
segundo verso de Catulo é diferente do de Safo. Assim, logo nos
dois primeiros versos do poema, Catulo constrói e quebra uma
expectativa de tradução, estabelecendo uma intertextualidade com

4
Oliva Neto faz uma escolha idêntica à de Antunes (2009) para o primeiro verso.
5
φαίνεται por uidetur, μοι por mi, κῆνος por ille, ἴσος por par e θέοισιν por deo.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 125-141, set-dez, 2018 129


Felipe Coelho de Souza Ladeira & Gracinéa Imaculada Oliveira

Safo e, ao mesmo tempo, reforçando a originalidade de seu poema,


que culminará na última estrofe.
A partir do terceiro verso, Catulo retoma sua tradução de Safo,
mas incorpora pequenos elementos que reforçam a sua apropria-
ção, como a utilização de Lesbia para identificar a pessoa amada.
Polt (2007, p. 119) ressalta ainda que, ao fazer isso, Catulo forta-
lece a conexão de sua tradução com o restante de seu corpus e ao
mesmo tempo estabelece outra inteligente reafirmação intertextual
da procedência de seu texto. Ao empregar o termo Lesbia, Catulo
produz uma ambiguidade com o nome, podendo se referir tanto a
sua própria amada (ou ‘musa inspiradora’), Clódia6, quanto à mais
famosa poetisa da ilha de Lesbos.
A terceira estrofe de Catulo retoma o poema de Safo e, de
acordo com Polt (2007, p. 126), existem estudos que sugerem
que Catulo tenha incorporado a terceira e a quarta estrofes de
Safo em uma única. Seja qual for o caso, o significado e a função
da quarta estrofe de Catulo são temas de amplo debate. Muitas
vezes encarado apenas como uma tradução de Safo, o poema de
Catulo sofreu, inclusive, “correções” da parte de editores. A edi-
ção da Loeb Classical Library, de 1922, por exemplo, apresenta
a quarta estrofe de Catulo como um fragmento separado do todo,
nomeado poema 51a.
Em 1586, Henri Estienne (Henricus Stephanus) publicou uma
tradução comentada, em latim, das Odes de Píndaro e incluiu, tam-
bém, poemas de outros oito poetas líricos gregos. Na página 28 da
seção correspondente a Safo, Henri apresenta o texto em grego do
fragmento 31 com o título ΠΑΡΑ ΔΙΟΝΥΣΙΩ (junto de Dioníso).
Ao lado, na página seguinte, com o mesmo título traduzido para
o latim, APUD DIONYSIUM, Estienne informa que o texto de
Safo havia sido retirado da obra de Longino, Sobre o Sublime, e
apresenta o poema 51 de Catulo considerando-o uma tradução (in-
terpretatio) de Safo. Em seguida, Estienne esclarece que suprimira

6
Seria esse o verdadeiro nome de Lesbia na poesia de Catulo, se levarmos em
conta a afirmação de Apuleio em Apologia 10.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 125-141, set-dez, 2018 130


Lucas José d’Alvarenga, tradutor de Safo

a última estrofe de Catulo para oferecer uma tradução própria para


a quarta estrofe de Safo:

Quadro 3 – Texto latino presente na edição de 1586 e tradução.


APVD DIONYSIVM
Longinum, in libro de sublimi genere
dicendi.
Catulli interpretatio, postremis qua-
tuor versibus exceptis, qui sunt He-
rici Stephani
[...] [...]
Cypria aspexi, nihil est super mi 7 Cípria, assim que te vi, nada restou
[...] em mim 7
Manat & sudor gelidus, tremórq; [...]
Occupat totam : uelut herba, pallét um frio suor corre, e um
Ora : spirandi neq; compos, orco 15 estremecimento
Proxima credor. me ocupa toda: assim como a
grama, meu
rosto perde a cor: não sou capaz de
respirar, 15
da morte me sinto próxima.
Fonte: ESTIENNE, 1586, p. 29, tradução nossa.

Estienne não menciona, contudo, a substituição do nome Lesbia


por Cyprea7. Como o manuscrito mais antigo dos poemas de Catu-
lo data do século IX, podemos supor que essa alteração tenha sido
intencional. Como em Safo não existe qualquer menção à identida-
de da pessoa amada, Estienne buscaria, com o epíteto da Deusa do
Amor, uma solução mais abrangente para a sua própria tradução de
Safo, modulada pelo poema de Catulo.
Para sua tradução do fragmento 31 de Safo, Lucas José
d’Alvarenga informa que se baseou na “Tradução Latina de Lon-

7
Epíteto de Afrodite. Em um dos mitos sobre sua criação, a deusa, logo que
emergiu do mar, foi transportada para a ilha de Citera e depois até a costa de
Chipre (GRIMAL, 2000, p.10). Dai o termo grego Κυπρια, que resultará em
Cypria para o latim.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 125-141, set-dez, 2018 131


Felipe Coelho de Souza Ladeira & Gracinéa Imaculada Oliveira

dres em 1742”. Esta obra8 compila os poemas completos de Ana-


creonte e os fragmentos de Safo, todos traduzidos e comentados
em latim. Assim como no livro de 1586, a edição latina de 1742
apresenta o fragmento 31 grego na página esquerda, dessa vez sem
título, com sua tradução latina na página seguinte, intitulada In
puellam: ex Catulli interpretatione. Antecedendo a quarta estrofe,
segue a informação Reliqua sunt Henrici Stephani (deixados por
Henri Estienne).

3. A retradução de Alvarenga a partir da edição latina de


1742

Alvarenga, além de informar o texto-fonte de sua tradução, anali-


sa as traduções do fragmento da ode de Safo. Um dos problemas que
ele aponta para a quantidade de traduções que existem desse texto é
o da divergência. Para ele, isso foi ocasionado pela “excessiva liber-
dade, que tomárão, os Traductores de corrigir, ou alterar á seu grado
hum Escrito, do qual não apparecia o Autographo” (ALVARENGA,
1830, p. 107), reproduzindo a opinião de Vossio. Com isso, ele
aponta um fato importante para este campo de estudos: a tradução de
apógrafos, questão que aproxima esse campo da Filologia. Embora
levante o problema, ele não o aprofunda, já que considera que o con-
flito nas variações das traduções advém da excessiva liberdade que
os tradutores se deram, aproveitando-se da ausência do autógrafo.
Entretanto é importante ressaltar que é problemático afirmar que os
tradutores se deram tal liberdade deliberadamente, já que traduziram
apógrafos diferentes, como ele mesmo comenta.
Apesar de não deixar explícito, Alvarenga não considera bem
essas variações, fato que é perceptível pelo título que dá à sua tra-
dução: “Versão litteral do fragmento de huma ode de Sapho” (AL-
VARENGA, 1830, p.103) e, também, por julgar importante que o
leitor tenha pelo menos duas traduções dessa ode que não divirjam:

8
Anacreontis Teii Carmina. Londini: Imprensis S. Birt, 1742.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 125-141, set-dez, 2018 132


Lucas José d’Alvarenga, tradutor de Safo

“Eu liguei-me á Traducção Latina de Londres, principalmente para


que entre tantas Traducções, e todas differentes entre si, houves-
sem ao menos duas, que se ajustassem” (ALVARENGA, 1830,
p. 108). Para ele, essas variações indicam desordem e confusão
de ideias, o que não condiz com a produção poética de Safo. Em
síntese, Alvarenga advoga que as traduções não devem apresentar
discordância (ou apresentar o mínimo possível) e devem estar o
mais próximo possível do texto original, mesmo se tratando de um
texto poético. Isso demonstra que, para ele, a tradução deve ser
“expressão da intenção do autor estrangeiro”, ideia que, segundo
Venuti (1996, p. 99), permeia as culturas francesa e inglesa desde
o século XVII, e da qual Alvarenga comunga.
Embora esse poeta afirme que fez sua tradução devido à beleza
do texto de Safo, há outro motivo que está implícito nessas refle-
xões: a sua insatisfação com as traduções já feitas, sobretudo com
o excesso de liberdade, assim chamado por ele, dos demais tradu-
tores. Isso não significa que ele tenha desmerecido as demais, mas
que quis marcar sua contribuição a partir de uma tradução, baseada
em Catulo, que ele julga mais próxima à do texto grego.
Essa postura converge para a de Berman (2017, p. 262), para
quem “a necessidade da retradução est[á] inscrit[a] na própria es-
trutura do ato de traduzir”. Considerando que a retradução abran-
ge, além das traduções feitas diretamente da língua de partida do
texto original, as feitas a partir de uma língua intermediária, Ber-
man (2017) problematiza essa questão, ao afirmar que toda gran-
de tradução é uma retradução, embora nem toda retradução seja
uma grande tradução. Para isso, introduz dois conceitos-chave: o
de Kairos e o de Insuficiência. Grosso modo, o kairos seria uma
categoria temporal e diria respeito ao momento oportuno em que,
após muitas introduções eruditas, adaptações, “torna-se possível
inscrever a significância de uma obra em nosso espaço linguístico”
(BERMAN, 2017, p. 266-267). Já a insuficiência é condição do
próprio ato de traduzir, já que, para ele, “toda tradução é marcada
pela ‘não-tradução’” (BERMAN, 2017, p. 266).

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 125-141, set-dez, 2018 133


Felipe Coelho de Souza Ladeira & Gracinéa Imaculada Oliveira

Essa insuficiência, ou melhor, a não-tradução, é percebida por


Lucas José d’Alvarenga nas demais propostas de tradução do frag-
mento 31 de Safo:

E eis o motivo porque inseri aqui varias Traducções; e


porque eu mesmo tambem a traduzi [...] Todas porém
differem mais ou menos humas das outras sem que possa
affirmar-se ao certo, qual he a que mais se conforma com o
Original; e dahi procede ignorar-se: 1.º, qual foi o motivo,
ou emoção amorosa, que deo ocazião á ella. 2.º, por quem,
e á quem se deve suppor dirigida. (ALVARENGA, 1830,
p. 104-105)

Quanto ao primeiro ponto acima, Alvarenga supõe que Safo


quis exprimir “os furores, e commoções do amor; e por isso colli-
gio pela maneira mais bela, e sublime de todas as circunstancias, e
accidentes, que acompanhão esta paixão” (ALVARENGA, 1830,
p. 105). Contudo, em seguida, Alvarenga afirma que o “Doutor
Pearce” discorda dessa visão, que Safo, na verdade, desejara des-
crever “os transportes, e angustias do Ciume, e raiva, que a agita-
vão”. Quanto ao segundo ponto mencionado acima, Lucas observa
que não existe um consenso entre as traduções com relação ao eu
lírico: ora é visto como o de um amante dirigindo-se a sua amada,
ora o de uma “Dama” dirigindo-se a Vênus.
Para Lucas, esses pontos serão determinantes para se compre-
ender as diferentes traduções do poema de Safo. Ao mesmo tempo,
são essas insuficiências que permitem “melhor se observarem estas
antinomias, e se admirarem ao mesmo tempo as graças, e bellezas
de cada huma das Traducções desses grandes homens” (ALVA-
RENGA, 1830, p. 106).

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 125-141, set-dez, 2018 134


Lucas José d’Alvarenga, tradutor de Safo

3.1 A retradução de Alvarenga a partir da Edição Latina


de 1742 da Ode de Safo: questões de autoria

Alvarenga discute a questão da “tradução x autoria” em sua


explanação sobre as retraduções da ode de Safo. Mesmo consi-
derando que o objetivo da tradução é manter a intenção do autor
do texto original, ele reconhece que as singularidades das demais
traduções não diminuem a beleza do texto traduzido. Levando
isso em conta, foi feito o cotejo entre a sua retradução e a da
edição latina de 1742.
Alvarenga demonstra conhecer o poema original de Catulo,
pois informa em nota que este dirige sua ode a Lésbia, não a Cí-
pria. Mesmo assim, usou como texto de partida a tradução de Lon-
dres de 1742, mantendo, consequentemente, o vocativo Cípria na
sua retradução, como se percebe no quadro abaixo. Isso pode ser
justificado pelo seu interesse em apresentar duas traduções “que
se ajustassem”, frente as outras “[...] diferentes entre si” (ALVA-
RENGA, 1830, p. 108).

Quadro 4 – A retradução de 1742 e a de Alvarenga.


Traducçaõ Latina de Londres em VERSÃO LITTERAL
1742. DO
FRAGMENTO DE HUMA ODE DE
SAPHO
Conforme a Traducção Latina de
Londres em 1742. (*)
In puellam: ex Catulli interpretatione.
(a)
ODE.
1.
Ille mi par esse Deo videtur, Eu creio igual aos Deozes,
Ille, si faz est, superare Divos, Que excede, (se he possivel)
Qui sedens adversus identidem te Quem quer que unido á ti
Spectat et audit Te vê, te escuta.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 125-141, set-dez, 2018 135


Felipe Coelho de Souza Ladeira & Gracinéa Imaculada Oliveira


Dulce ridentem; miserae quod omnes Teus meigos risos, Cypria,
Eripit sensus mihi. Nam simul te, Me encantão: quando os
Cyprea, aspexi nihil est supèr mi, vejo
Quod Loquar âmens. Perco a voz, os sentidos;
Fico n’hum delirio.

Lingua sed torpet, tenues sub artus Assim de vêa em vêa
Flamma demanat, sonitu suepte Corre flamma electrica;
Tentinant aures ; gemina et teguntur Susurrão-me os ouvidos,
Lumina nocte. Turvão-se-me os olhos.
Reliqua sunt Henrici Stephani.

Manat et sudor gelidus, tremorque Em gelidos suores,
Occupat totam: velut herba pallent Sem alento, languida,
Ora: spirandi neque compos, Orco Fria, pallida, tremula
Proxima credor. Eu morrer me sinto.

(a) Catullo dirige a Ode a Lesbia, e


não a Cypria.

Fonte: ALVARENGA, 1830, p. 103-109.

Alvarenga chama seu texto de uma “versão litteral”, apresen-


tando, inclusive, muitas inversões sintáticas na primeira estrofe,
para tentar se manter fiel ao texto latino. A primeira cena do po-
ema, por exemplo, mostra que, para o eu lírico, qualquer pessoa
que ouça e veja a amada, estando junto dela, é igual e, quiçá, supe-
rior aos deuses, o que reproduz o texto-fonte. Entretanto há marcas
de autoria em sua retradução.
Na primeira estrofe, percebe-se um deslocamento de foco, o
que diferencia a retradução de Alvarenga das demais que ele apre-
senta em seu livro. Essa mudança de perspectiva incide nos sujeitos
da cena, visto que nas traduções de Boileau, de Delille, de Francis
Fawkes e de Magalhães, a focalização9 ocorre no sujeito que está

9
Focalização [é] o ato de [...] pôr em relevo/realce/ evidência um determinado
item do texto, seja (a) com o uso de estratégias propriamente textuais, como

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 125-141, set-dez, 2018 136


Lucas José d’Alvarenga, tradutor de Safo

(ou possa estar) junto à amada: “Heureux, qui pres de toi pour
toi seule soupire [...]” (BOILEAU apud ALVARENGA, 1830,
p. 110); “Heureux celui qui pres de toi soupire [...]” (DELILLE
apud ALVARENGA, 1830, p. 111); “More happy than the Gods
is he […]” (FAWKES apud ALVARENGA, 1830, p. 112); “Se
alguem no mundo existe igual aos Deozes [...]” (MAGALHÃES
apud ALVARENGA, 1830, p. 113).
Na tradução de Catulo, já transcrita anteriormente, o foco tam-
bém é nesse sujeito – “Ille”10, que inicia os dois primeiros versos. Já
na tradução de Alvarenga, o foco é no sujeito lírico – eu – que inicia
o primeiro verso, ocupando uma posição sintática junto “aos deu-
ses”, atraindo o olhar do leitor para si e tornando ainda mais genéri-
co e distante o “aquele” do texto latino. Essa transposição da terceira
para a primeira pessoa é uma mudança muito forte e não ocorre em
nenhuma outra tradução que Alvarenga transcreveu. É, em síntese,
uma das grandes diferenças e originalidade da retradução de Lucas.
Na segunda estrofe, inicialmente, há uma mudança de focali-
zação, incidindo esta nos risos de Cípria, mas nos demais versos
o foco continua no sujeito lírico, especificamente nos efeitos que a
visão da amada provoca nele. Em relação a isso, percebe-se outra
inovação em relação ao texto latino. No texto de Catulo, o primeiro
verso é ambíguo: o doce riso pode estar ligado aos dois últimos ver-
bos da primeira estrofe e ser da pessoa amada, que ri docemente en-
tretida com “Ille” ou do próprio “Ille” que observa e ouve a pessoa
amada sorrindo. Além disso, o foco é na amada. Já na tradução de
Alvarenga, não há essa ambiguidade: os risos da amada encantam
o eu lírico. É importante reiterar que o quarto verso “Quod Loquar
âmens” não existe em Catulo e têm essa ideia de falar (loquar)

a topicalização e a clivagem de sentenças, seja (b) por meio de expedientes


prosódicos, como a Entonação, seja (c) com atuação concomitante dos dois
(GONÇALVES, 1998, p. 32).
10
Van Valin (1999 apud SOUZA, 2004, p. 47) destaca que o russo, o polonês,
o latim e o português são línguas que apresentam uma estrutura sintática menos
rígida e, por isso, a ordenação especial de constituintes aparece como uma das
estratégias mais utilizadas para a marcação de Foco [...].

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 125-141, set-dez, 2018 137


Felipe Coelho de Souza Ladeira & Gracinéa Imaculada Oliveira

louco, demente, fora de si (amens). Daí, conclui-se que Magalhães


e Alvarenga se utilizaram da mesma versão. Em contrapartida, ou-
tros editores preenchem essa lacuna com um verso em latim (vox in
ore – voz na boca) com o sentido de “perco a voz ou a voz some
da boca”, como no Quadro 2. Essa solução está mais próxima do
grego, Quadro 1. Assim, é uma diferença significativa entre as tra-
duções portuguesas e as demais, francesas e inglesa.
Na terceira estrofe, descrevem-se os efeitos que a visão da ama-
da provoca no eu lírico, sendo que, enquanto no texto latino o foco
é no entorpecimento da fala, na tradução de Alvarenga ele incide
nas veias, no sangue, que transportam a flama/fogo da paixão,
provocando a audição de sons que não existem e o escurecimento
da visão do sujeito. A opção por “flamma electrica” é uma escolha
peculiar, já que ele comenta, em sua explanação sobre as tradu-
ções, que Safo era “dotada de uma alma chêa de electricidade [...]”
(ALVARENGA, 1830, p. 107). Levando em consideração que,
nessa época, a eletricidade ainda era considerada “coisa mágica”,
essa escolha liga tanto os efeitos da visão da amada, quanto a poe-
tisa, ao universo do maravilhoso.
Na quarta estrofe, obra de Henri Estienne, continua-se a descre-
ver esses efeitos. O enfoque no texto de Estienne é dado em suar
(ação), já na tradução de Alvarenga é no suor (produto, resultado).
Além disso, ele exclui o símile da relva desbotada, trocando-o por
“pálida”. Talvez porque a ideia do “velut herba pallent” pode, tam-
bém, remeter ao campo semântico do medo e a leitura que Alvaren-
ga adota para sua tradução é a de que todas essas reações no corpo
do sujeito lírico foram provocadas pelo amor, não pelo ciúme ou
medo de perder a pessoa amada, como comentado. Outro aspecto
que marca a apropriação e a releitura de Alvarenga do texto latino
são os dois últimos versos. Enquanto que na versão de 1742, o foco
é na morte “[...] Orco / Proxima credor”, no texto de Lucas, o foco
é novamente no “Eu”: “Eu morrer me sinto”. Em síntese, tanto na
cena inicial, quanto na final, o poema de Alvarenga converge para o
“Eu”, fato que o dota de uma subjetividade que não aparece no texto
latino de 1742, embora o verbo “credor” esteja na primeira pessoa.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 125-141, set-dez, 2018 138


Lucas José d’Alvarenga, tradutor de Safo

E, se, por um lado, esse “eu” do verso final aproxima a tradu-


ção de Alvarenga da do Abade Delille e da de Fawkes; por outro,
a presença dos termos “suor” e “tremor” afastam a brasileira das
duas francesas. Esses dois termos estão presentes no grego (veja
o Quadro 01), o que causa estranhamento ao fato de as traduções
francesas desconsiderarem isso.
Como se vê, diante das ambiguidades presentes no fragmento
da ode de Safo e mantidas na tradução para o latim, Alvarenga
optou por focar no sujeito lírico na primeira cena. Esse sujeito
considera igual ou superior aos deuses a pessoa que ouve ou vê a
amada. Mas o eu lírico não se posiciona como um voyeur, já que
essa consideração fica no plano das ideias, em um plano abstrato.
Em relação ao tipo de sentimento que provoca as sensações no eu
lírico, ele opta pela visão mais corrente: a do amor, o que vai ao
encontro da sua escolha em relação à primeira cena.
Embora adote a visão mais corrente, é possível perceber, na
retradução de Alvarenga, marcas de autoria, mas de uma autoria
“derivada, não inerente” (VENUTI, 1996, p. 121). Um exemplo
disso é a mudança do foco da terceira para a primeira pessoa, que
sintoniza com as questões contemporâneas à sua época, como a
ascensão da subjetividade na literatura provocadas pela onda ro-
mântica que já começava a se desenhar no Brasil.

Considerações finais

Analisou-se a retradução do Fragmento 31 de Safo, feita por


Lucas José d’Alvarenga, em 1830, a partir de uma edição latina
de 1742. Essa retradução reproduz a de Estienne, de 1586 que,
por sua vez, baseou-se em Catulo. Todas apresentam inovações ou
marcas de autoria em relação ao texto de Safo. Embora Alvarenga
defenda que a tradução deva manter-se fiel ao texto original, ele
introduz algumas modificações que marcam seu olhar oitocentista
e que confirmam a posição de Venuti (1996), para quem a tradução
é uma forma de autoria, embora derivada, não inerente.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 125-141, set-dez, 2018 139


Felipe Coelho de Souza Ladeira & Gracinéa Imaculada Oliveira

Referências

ALVARENGA, Lucas José de. Poezias. Rio de Janeiro: Ogier, 1830.

ANACREONTE. Anacreontis Teii Carmina. Londini: Imprensis S. Birt, 1742.


Disponível em: < https://babel.hathitrust.org/cgi/pt?id=nyp.33433089885374;v
iew=1up;seq=1 >. Acesso em: 28 jul. 2017.

ANTUNES, Leonardo. Safo – Fr. 1 e Fr. 31. Nuntius Antiquus, Belo Horizonte,
v. 4, p. 138-146, dez. 2009.

BERMAN, Antoine. A retradução como espaço da tradução. Trad. Clarissa


Prado Marini e Marie-Hélène C. Torres. Cadernos de Tradução, Florianópolis,
v. 37, n. 2, p. 261-268, ago. 2017. Disponível em: <https://periodicos.ufsc.
br/index.php/traducao/article/view/2175-7968.2017v37n2p 261/34078>.
Acesso em: 10 maio 2017.

CANDIDO, Antonio. Formação da literatura brasileira: momentos decisivos. 9.


ed. Belo Horizonte: Itatitaia, 2000. 2 v.

CORNISH, F. W. Catullus, Tibullus and Peruigilium Veneris. London: William


Heinemann, 1922.

ESTIENNE, Henri (Ed., org. e trad.). Pindari Olymphia, Pythia, Nemea,


Isthmia. Genebra: Henri II Estienne, 1586. Disponível em: < http://www.e-rara.
ch/doi/10.3931/e-rara-6563>. Acesso em: 28 jul. 2017.

FUJIHARA, Álvaro. Aspectos tradutórios em Terêncio. 2006. 69 f. Monografia


(Bacharelado em Letras) – Faculdade de Ciências Humanas, Letras e Artes,
Universidade Federal do Paraná, Curitiba, 2006.

FURLAN, Mauri. Brevíssima história da teoria da tradução no Ocidente.


Cadernos de Tradução, Florianópolis, v. 2, n. 8, p. 11-28, 2001.

GONÇALVES, Carlos Alexandre. Foco e topicalização: delimitação e confronto


de estruturas. Revista Estudos da Linguagem, Belo Horizonte, v. 7, n. 1, p.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 125-141, set-dez, 2018 140


Lucas José d’Alvarenga, tradutor de Safo

31-50, 1998. Disponível em: <http://www.periodicos.letras.ufmg.br/index.php/


relin/article/viewFile/2182/2121>. Acesso em: 17 ago. 2017.

GRIMAL, P. Dicionário da Mitologia Grega e Romana. Rio de Janeiro: Bertrand


Brasil, 2000.

OLIVA NETO, João. O Livro de Catulo. São Paulo: Edusp, 1996.

OLIVEIRA, G. I. Edição e estudo da novela Statira, e Zoroastes de Lucas José


d’Alvarenga. 2016. 455p. Tese (Doutorado em Literatura Brasileira). Faculdade
de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2016.

POLT, Christopher Brian. Latin Literary translation in the Late Roman Republic.
2007. 183 f. Thesis (Master of Arts) – Department of Classics in the University
of North Carolina, Chapel Hill, 2007.

SOUZA, Edson Rosa Francisco. Os advérbios focalizadores no português falado


do Brasil: uma abordagem funcionalista. 2004. 176 f. Dissertação (Mestrado
em Estudos Linguísticos) – Instituto de Biocências, Letras e Ciências Exatas da
Universidade Estadual Paulista, São José do Rio Preto, 2004. Disponível em:
<http://citeseerx.ist.psu.edu/viewdoc/download?doi=10.1.1.628.3072&rep
=rep1&type=pdf>. Acesso em: 17 ago. 2017.

VENUTI, Lawrence. O escândalo da tradução. TradTerm, São Paulo, v. 3, p.


99-122, 1996. Disponível em: < https://www.revistas.usp.br/tradterm/article/
view/49897>. Acesso em: 05 set. 2017.

WILLS, Gary. Sappho 31 and Catullus 51. Greek, Roman and Byzantine Studies,
Durham, v. 8, n. 3, p. 167-197, 1967.

Recebido em: 27/04/2018


Aceito em: 09/07/2018
Publicado em setembro de 2018

Felipe Coelho de Souza Ladeira. E-mail: ostrogodos@hotmail.com


ORCID: https://orcid.org/0000-0003-3652-6357
Gracinéa Imaculada Oliveira. E-mail: gracineaoliveira@hotmail.com
ORCID: http://orcid.org/0000-0002-6841-8273

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 125-141, set-dez, 2018 141


http://dx.doi.org/10.5007/2175-7968.2018v38n3p142

MEDIDAS LATINAS EM VERSO PORTUGUÊS

Érico Nogueira1
1
Universidade Federal de São Paulo
São Paulo, São Paulo, Brasil

Resumo: Este artigo discute os principais métodos de adaptação de me-


didas latinas ao verso português, e esclarece os critérios que presidem a
um método novo, exemplificado com tradução comentada da Ode IV 9
de Horácio.
Palavras-Chave: Métrica latina; Versificação portuguesa; Horácio.

LATIN VERSE-LENGTHS IN PORTUGUESE

Abstract: This paper both discusses the principal methods of reproducing


Latin verse-lengths in Portuguese and explains the criteria of a new
method, which it exemplifies by a translation and commentary of Horace’s
Ode IV 9.
Keywords: Latin metrics; Portuguese versification; Horace.

A teoria

A perda de sensibilidade à quantidade silábica1 e as múltiplas pos-


sibilidades de escansão e execução das mais variadas sequências rít-
micas2 – o hexâmetro inclusive3 – caracterizam a versificação latina

1
Cf. SANTO AGOSTINHO, De Musica II, i, 1 ss.
2
Ibidem IV, xiii, 18-19.
3
Ibidem V, v, 9 ss.

Esta obra utiliza uma licença Creative Commons CC BY:


https://creativecommons.org/lice
Érico Nogueira

desde, pelo menos, a Antiguidade tardia, se não dantes4. A relação


entre, de um lado, a longura e a brevidade das sílabas latinas e, do
outro, os tempos marcados ou ictos responsáveis pela feição rítmica
dos versos é problema espinhoso que não recebeu, até hoje, apesar
de bastante discutido5, uma resposta definitiva. Escusando-nos, pois,
de entrar nesse problema, e considerando, nos versos latinos, apenas
e tão-somente a duração das sílabas, o icto ou acento mecânico, e
o acento natural dos vocábulos (que, no entanto, a título de mera
convenção, executaremos como acento expiratório, não melódico),
podemos dizer que esses versos têm duas “pautas” distintas e super-
postas, a primeira das quais constituída por ictos que imprimem um
ritmo determinado a sílabas breves e longas, e uma segunda cujo
ritmo se produz pela incidência de acentos tônicos numa sucessão de
sílabas isócronas. Ou seja, enquanto na primeira o responsável por
marcar o ritmo de determinada sequência de sílabas longas e breves
é o que chamamos de icto, batida ou acento mecânico, na segunda,
por sua vez, é o acento tônico natural das palavras quem dá certa
feição rítmica a sílabas de duração mais ou menos igual.
Dessa maneira, o poeta ou tradutor moderno que se proponha
a reproduzir um metro latino na sua língua deve antes de tudo e
sobretudo escolher que pauta, afinal, se a primeira, a segunda ou
ambas, pretende reproduzir. Vejamo-lo em maior detalhe, valen-
do-nos, para tanto, de um trecho das Geórgicas de Virgílio – que,
sendo poesia hexamétrica, tem pés isócronos mas não isossilábicos
– e de hexâmetros vernáculos de vários autores e de várias épocas,
respectivamente.

(a) Virgílio, Geórgicas IV 1-12.

a) Leitura “reconstituída” ou à alemã6, atenta, quanto possível,


à duração e ao icto das sílabas constantes do verso. Em latim,

4
Cf. NICOLAU, 1934, passim.
5
Cf. ALLEN, 1973, p. 129-199.
6
Cf. KLOPSTOCK, 1989, p. 9-21 e VOSS, 1789, p. iii-xxiv.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 142-158, set-dez, 2018 143


Medidas latinas em verso português

longas em negrito, breves sem marcação, ictos com acento agudo,


elisões sublinhadas e número total de sílabas entre parênteses. Em
português, tradução decassilábica de Leonel da Costa Lusitano (sé-
culo XVII):

Prótinus áerií mellís | caeléstia dóna Logo do mel aéreo os dons celestes
(15) Prosseguirei. Também nesta, ó Mecenas,
éxsequar: hánc etiám, | Maecénas, Parte (como nas mais) emprega os olhos:
ádspice pártem. (15) Dir-te-ei de leves cousas admirandos
Ádmiránda tibí | leviúm spectácula ’Spetáculos e capitães magnânimos
rérum (15) E per ordem os ’stúdios e costumes
mágnanimósque ducés | totiús|que De toda a gente, os povos e batalhas.
órdine géntis (16) Em sujeito mui fraco está o trabalho,
móres ét studia ét | populós et Mas a glória contudo não é fraca,
próelia dícam. (16) Se consentem alguém os não propícios
Ín tenuí labor; át | tenuís | non Deuses, e me ouve o já chamado Apolo.
glória, sí quem (16) Há-se de buscar logo no princípio
númina láeva sinúnt | audítque Às abelhas assento e estância certa,
vocátus Apóllo. (16) Onde nem haja entrada para os ventos
Príncipió sedés | apibús statióque pe (Porque tolhem os ventos às abelhas
ténda, (16) O pasto levem para o seu cortiço),
quó neque sít ventís | aditús | — Nem as ovelhas e os brincões cabritos
nam pábula vénti (15) Andem saltando pelas tenras flores,
férre domúm prohibént |—neque Ou pascendo a novilha pelo campo
ovés haedíque petúlci (17) Sacuda o orvalho e pise as ervas novas.
flóribus ínsultént | aut érrans búcula
cámpo (14)
décutiét rorem ét | surgéntes átterat
hérbas. (15)

b) Leitura tradicional ou à italiana7, respeitando apenas e tão-


-somente o acento natural das palavras. Tônicas em negrito; posi-
ção das sílabas acentuadas e número total de acentos indicados à
direita.

Protinus aerii | mellis caelestia dona (1, 6; 8, 11, 14 = 5)


exsequar: hanc etiam, | Maecenas, adspice partem. (2, 4, 5; 9, 11, 14 = 6)

7
Cf. D’OVIDIO, 1910, p. 323-327.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 142-158, set-dez, 2018 144


Érico Nogueira

Admiranda tibi | levium spectacula rerum (3, 5; 7, 11, 14 = 5)


magnanimosque duces | totiusque ordine gentis (4, 6; 9, 11, 14 = 5)
mores et studia et | populos et proelia dicam. (1, 4; 7, 11, 14 = 5)
In tenui labor; at | tenuis non gloria, si quem (2, 5; 8, 11, 14 = 5)
numina laeva sinunt | auditque vocatus Apollo. (1, 4, 6; 9, 12, 15 = 6)
Principio sedes | apibus statioque petenda, (2, 5; 7, 11, 14 = 5)
quo neque sit ventis | aditus—nam pabula venti (2, 5; 7, 11, 14 = 5)
ferre domum prohibent | —neque oves haedique petulci (1, 3, 6; 10, 13, 16 = 6)
floribus insultent | aut errans bucula campo (1, 5; 8, 10, 13 = 5)
decutiat rorem et | surgentes atterat herbas. (2, 5; 9, 11, 14 = 5)

c) Comparação das leituras: respectivamente a reconstituída e


a tradicional.

Prótinus áerií | mellís | caeléstia Protinus aerii | mellis | caelestia


dóna dona
éxsequar: hánc etiám, | Maecénas, exsequar: hanc etiam, | Maecenas,
ádspice pártem. adspice partem.
Ádmiránda tibí | leviúm spectácula Admiranda tibi | levium spectacula
rérum rerum
mágnanimósque ducés | totiús|que magnanimosque duces | totiusque
órdine géntis ordine gentis
móres ét studia ét | populós et mores et studia et | populos et
próelia dícam. proelia dicam.
Ín tenuí labor; át | tenuís | non In tenui labor; at | tenuis non gloria,
glória, sí quem si quem
númina láeva sinúnt | audítque numina laeva sinunt | auditque
vocátus Apóllo. vocatus Apollo.
Príncipió sedés | apibús statióque Principio sedes | apibus statioque
peténda, petenda,
quó neque sít ventís | aditús | — quo neque sit ventis | aditus—nam
nam pábula vénti pabula venti
férre domúm prohibént |—neque ferre domum prohibent | —neque
ovés haedíque petúlci oves haedique petulci
flóribus ínsultént | aut érrans búcula floribus insultent | aut errans bucula
cámpo campo
décutiét rorem ét | surgéntes átterat decutiat rorem et | surgentes atterat
hérbas. herbas.

Falemos primeiramente do número e posição dos acentos no


interior dos versos. Como se pode perceber, enquanto em a os ic-

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 142-158, set-dez, 2018 145


Medidas latinas em verso português

tos são sempre seis por linha, dispostos em andamento dactílico ou


espondaico, em b as tônicas ficam entre cinco e seis, com sensível
variação em suas posições iniciais e grande regularidade nas finais.
Se, pois, no primeiro hemistíquio o icto ou acento mecânico de a
e o acento natural de b em geral não recaem sobre as mesmas síla-
bas – ou pelo menos nem sempre –, a regra no segundo é que tais
acentos coincidam, e os dois últimos com absoluta regularidade.
Diferentes que sejam o número, a posição e a natureza dos acentos
em a e em b, contudo, a tendência moderna de executar sílabas não
isócronas de maneira isócrona – ou, dito de outro modo, a descon-
sideração ou ao menos a minimização da quantidade silábica na
recitação de poesia antiga, hoje entre nós – tende a tornar as duas
pautas bastante semelhantes entre si. Logo, independentemente do
padrão acentual que se queira seguir (o dos meros ictos sem aten-
ção à duração silábica ou o dos acentos tônicos), a real dificuldade
– e a rara qualidade – de certas adaptações modernas de versos
latinos está em simular, por meio de crases, elisões, sinéreses e
vários expedientes afins, a duração ou quantidade silábica do mo-
delo8. Simulação ou sugestão que Pascoli chama de ritmo reflexo,
e que, segundo ele, é a marca distintiva das melhores reproduções
modernas de metros antigos, enfim9. Mas sigamos o argumento.

(b) Carlos Alberto Nunes, Eneida IV 1-5. Em português e em la-


tim, ictos em negrito.

8
Cf. HOPKINS, 2003, p. 124-128.
9
Cf. PASCOLI, 2002, p. 239: “Os versos de Carducci, embora compostos de
séries e hemistíquios vernáculos, têm a virtude de sugerir ao nosso espírito a lem-
brança dos antigos. Estes outros, tão regulares, nos farão no máximo lembrar de
Ovídio; no máximo; – mas nem sequer Ovídio, porque a sucessão contínua de um
heptassílabo, eneassílabo e pentassílabo, ou a de heptassílabo e outro heptassílabo,
nos contenta assim: como uma estrofe vernácula qualquer. Contenta-nos assim, e
nós ficamos aquém de Ilisso e do mar Egeu, e a estranhas plagas já não navega-
mos. Falta àquelas estrofes o ‘ritmo reflexo’”. Minha tradução.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 142-158, set-dez, 2018 146


Érico Nogueira

Quanto à Rainha, ferida | de cega At regina gravi | iamdudum saucia


paixão desde muito, cura
nutre nas veias a chaga e | no vulnus alit venis | et caeco carpitur
oculto braseiro se fina, igni.
a revolver de contínuo | na mente Multa viri virtus | animo multusque
o valor do guerreiro, recursat
a alta linhagem do herói; | no imo gentis honos; haerent | infixi pectore
peito gravadas conserva vultus
suas palavras, o gesto. | De tantos verbaque nec placidam | membris dat
cuidados não dorme. cura quietem.

Bem: a circunstância de Carlos Alberto Nunes haver se escusa-


do de substituir nenhum dáctilo por espondeu ou ao menos troqueu
e, conseguintemente, haver tomado o hexâmetro holodactílico por
modelo único mostra com suficiente clareza que, privilegiando o
isossilabismo, e não propriamente a isocronia, buscou reproduzir
tão-só os ictos do original – logo, sem atender à duração silábica
– mediante o hábil agenciamento de tônicas e subtônicas portugue-
sas. Outra sensível diferença entre o hexâmetro latino e o seu ver-
náculo está no tratamento da cesura: lá, prevalecem as masculinas;
cá, as femininas. Tudo somado, a recitação de seus versos tende
a ser a ser monótona e monocórdica, a despeito do seu engenho,
pioneirismo e riqueza vocabular10.

(c) Júlio de Castilho, “Hexâmetros”. Em português e em latim,


tônicas em negrito.

A bruma do alto mar | some ao Protinus aerii | mellis | caelestia


longe ao real foragido. dona
Chora-o de pé na torre | a exsequar: hanc etiam, | Maecenas,
constante, a misérrima Dido. adspice partem.
Na tormenta cruel | que lhe agita Admiranda tibi | levium spectacula
as turbadas ideias, rerum
Eneias brilha só: | triste Dido!, o magnanimosque duces | totiusque
teu mundo era Eneias! ordine gentis

10
Cf. OLIVA NETO, 2014.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 142-158, set-dez, 2018 147


Medidas latinas em verso português

E Eneias vai cortando | (ímpia mores et studia et | populos et proelia


sorte!) as undosas campinas; dicam.
superna mão lhe aponta | entre In tenui labor; at | tenuis non gloria, si
névoas as plagas latinas. quem
Nada espera nem vê: | se interroga numina laeva sinunt | auditque vocatus
o cerrado futuro, Apollo.
se inquire o que lá vai, | só vê Principio sedes | apibus statioque
Troia abrasada no escuro. petenda,
O marulho do oceano | os rugidos quo neque sit ventis | aditus, nam
do incêndio arremeda, pabula venti
e os sibilos do vento | o estralar da ferre domum prohibent, | neque oves
fatal labareda. haedique petulci.

Neste poema autoral de Júlio de Castilho, composto, com toda


a probabilidade, para ilustrar a mudança de opinião de seu pai
Antônio Feliciano, que na quarta edição do famoso Tratado de
Metrificação Portuguesa passou a ser favorável à reprodução ver-
nácula de medidas latinas e gregas11, o que se vê é a tentativa
consciente de, admitindo alguma variação no primeiro hemistíquio
mas sendo absolutamente regular no segundo, reproduzir a algo
variável incidência dos acentos tônicos do hexâmetro latino, como
bem exemplifica o mesmo passo das Geórgicas antes analisado.
Resolvendo, pois, a irregularidade rítmica das três tônicas iniciais
em três anapestos finais absolutamente regulares, pode-se dizer que
Castilho procura seguir o encalço dos hexametricistas latinos, Vir-
gílio incluso, que destacavam a chamada “cláusula hexamétrica”
– isto é, os dois últimos pés do verso, em que há invariável coin-
cidência entre o acento mecânico e o gramatical e, pois, o ritmo
é consonante – dos ritmicamente mais variados e algo dissonantes
pés anteriores, em que esses acentos tendem a não coincidir. Se,
pois, por um lado, os hexâmetros de Castilho são mais interes-
santes e variados que os de Nunes, são-lhes, por outro, mais ou
menos equivalentes, já que ambos desconsideram ou minimizam o
efeito poético da quantidade silábica, e, portanto, reproduzem em
português padrões acentuais exclusivamente qualitativos, atinentes

11
Cf. CASTILHO, 1874, p. 29-32.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 142-158, set-dez, 2018 148


Érico Nogueira

à mera tonicidade; padrões ritmicamente distintos, certo, mas nos


dois casos de natureza expiratória.

(d) José Maria da Costa e Silva, “Epístola ao Doutor Vicente Pedro


Nolasco da Cunha”, 19-29. Em português e em latim, tônicas em
negrito.

De jugo livres, | livres d’ accento Protinus aerii | mellis | caelestia


tedioso – dona
ou breve ou tarda | a marcha – exsequar: hanc etiam, | Maecenas,
translado jucundo adspice partem.
d’opostos Estos | d’alma d’Iliso , do Admiranda tibi | levium spectacula
Tibre , rerum
sublimes metros | de seus antigos magnanimosque duces | totiusque
Poetas ordine gentis
mil, que a Modernos | Vates mores et studia et | populos et
faltaram, recursos proelia dicam.
deram; por empeços | brioso o In tenui labor; at | tenuis non gloria,
Gênio rompe; si quem
Klopstock , o primeiro, ousou | com numina laeva sinunt | auditque
planta liberta, vocatus Apollo.
saltando barreira, | correr por ínvia Principio sedes | apibus statioque
senda. petenda,
Germânicas vozes | desposa à Lira quo neque sit ventis | aditus—nam
d’Homero, pabula venti
Homero alcança | ou vence torrente ferre domum prohibent | —neque
profusa oves haedique petulci
dos Alpes despenhada | com hórrida floribus insultent | aut errans bucula
queda. campo [...].

Ainda mais próximos que os de Júlio de Castilho da que chama-


mos segunda pauta acentual dos versos latinos são estes hexâmetros
de José Maria da Costa e Silva, sem dúvida. Com efeito, fazendo
que o número de tônicas por verso oscile entre cinco e seis – dis-
tribuídas, porém, de tal modo que apenas as duas últimas tenham
incidência regular –, Costa e Silva faz versos ritmicamente mais
variados e, numa palavra, mais engenhosos que os de Júlio de Cas-
tilho, que, como vimos, das invariáveis seis tônicas que mete por
linha varia apenas as três primeiras. Logo, no que toca ao número

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 142-158, set-dez, 2018 149


Medidas latinas em verso português

e posição dos acentos de intensidade (e à proximidade com o mo-


delo latino), seus hexâmetros são mais perfeitos que os de Castilho
filho, evidentemente; mas não só: porque, além de bastante próxi-
mos do original, quanto à distribuição dos acentos tônicos, eles são
também ousada (e erudita) experimentação com quantidades silábi-
cas supostamente portuguesas, e, desse modo, somando à segunda
a primeira pauta, buscam, por fim, uma reprodução “integral” do
modelo romano. Vejamo-lo em detalhe.

(e) José Maria da Costa e Silva, “Epístola ao Doutor Vicente Pedro


Nolasco da Cunha”, 19-29. Em português e em latim, longas em
negrito, ictos acentuados e elisões sublinhadas.

Dé jugó livrés, | livrés d’ accénto Prótinus áerií | mellís | caeléstia


tedioso – dóna
óu breve óu tardá a marchá | – éxsequar: hánc etiám, | Maecénas,
transládo jucundo ádspice pártem.
d’ópostós Estós | d’almá d’Ilíso, do Ádmiránda tibí | leviúm spectácula
Tíbre, rérum
súblimés metrós | de séus antígos mágnanimósque ducés | totiús|que
Poétas órdine géntis
míl, que a Módernós | Vatés móres ét studia ét | populós et
faltáram, recúrsos próelia dícam.
déram; pór empeçós | brióso o Ín tenuí labor; át | tenuís | non
Génio rómpe; glória, sí quem
Klópstock, ó priméiro, ousóu | com númina láeva sinúnt | audítque
plánta libérta, vocátus Apóllo.
sáltandó barréira, | corrér por ínvia Príncipió sedés | apibús statióque
sénda. peténda,
Gérmânicás vozés | despósa à Líra quó neque sít ventís | aditús | —
d’Homéro, nam pábula vénti
Hómero álcança óu vencé | torrénte férre domúm prohibént |—neque
profúsa ovés haedíque petúlci
dós Alpés despénhadá | com hórrida flóribus ínsultént | aut érrans búcula
quéda. cámpo [...].

Conquanto os hexâmetros de Costa e Silva não se recitem à


alemã, mas à italiana – isto é, realçando as cinco ou seis tônicas
de cada sequência silábica, não os seis ictos de cada verso –,

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 142-158, set-dez, 2018 150


Érico Nogueira

percebe-se que o seu autor, aplicando ao português as regras de


longura silábica do latim, habilissimamente faz que os três ou
quatro primeiros ictos não coincidam com o acento tônico dos
vocábulos, os dois ou três finais coincidam, criando, assim, um
artefacto novo, cujo molde é latino mas a matéria é portuguesa:
artefacto híbrido, pois, como bem se vê, que depende de não
pouca intimidade com a poesia e a versificação latinas para ser
apreciado como convém. Finalmente, observemos agora lado a
lado as duas pautas que se deixam ler nos versos de Costa e Silva,
e façamos breves considerações finais sobre os métodos de repro-
duzir medidas latinas em português.

(f) José Maria da Costa e Silva, “Epístola ao Doutor Vicente Pedro


Nolasco da Cunha”, 19-29. Pauta italiana [d] e pauta alemã [e],
respectivamente.

De jugo livres, | livres d’ accento Dé jugó livrés, | livrés d’ accénto


tedioso – tedioso –
ou breve ou tarda | a marcha – óu breve óu tardá a marchá | –
translado jucundo transládo jucundo
d’opostos Estos | d’alma d’Iliso , do d’ópostós Estós | d’almá d’Ilíso, do
Tibre , Tíbre,
sublimes metros | de seus antigos súblimés metrós | de séus antígos
Poetas Poétas
mil, que a Modernos | Vates míl, que a Módernós | Vatés
faltaram, recursos faltáram, recúrsos
deram; por empeços | brioso o déram; pór empeçós | brióso o
Gênio rompe; Génio rómpe;
Klopstock , o primeiro, ousou | com Klópstock, ó priméiro, ousóu | com
planta liberta, plánta libérta,
saltando barreira, | correr por ínvia sáltandó barréira, | corrér por ínvia
senda. sénda.
Germânicas vozes | desposa à Lira Gérmânicás vozés | despósa à Líra
d’Homero, d’Homéro,
Homero alcança | ou vence torrente Hómero álcança óu vencé | torrénte
profusa profúsa
dos Alpes despenhada | com hórrida dós Alpés despénhadá | com hórrida
queda. quéda.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 142-158, set-dez, 2018 151


Medidas latinas em verso português

Visando, pois, como sugerimos acima, a uma reprodução “in-


tegral” ou “total” do hexâmetro latino em português, pode-se
conjecturar que Costa e Silva procedeu como seus modelos mais
autorizados, e, portanto, compôs estes versos segundo o método
propriamente latino de os compor – isto é, atendendo à longura e
brevidade silábicas e à incidência dos ictos –, para depois recitá-
-los, contudo, consoante o costume do tempo, realçando suas sí-
labas tônicas. Em outras palavras, a que chamamos pauta alemã é
aqui uma pauta silenciosa12, mais para o olho culto e informado que
para o ouvido desprevenido, a qual, por sua vez, se propriamente
não modifica a recitação e a audição, altera sim, e não altera pou-
co, a impressão – e com ela o juízo – que se tem desses versos.
Assim, deixando, por ora, de lado a legitimíssima possibilidade
de estabelecer outras equivalências entre os versos latinos e os por-
tugueses13, e supondo que ictos, duração silábica e acentos tônicos,
se não tudo, são pelo menos o grosso do que há para reproduzir
em versos latinos de qualquer medida, tem-se, afinal, que, 1) ou se
reproduzem os ictos sem atender à duração silábica (o método de
Carlos Alberto Nunes); 2) ou se replicam os meros acentos tônicos
(o método de Júlio de Castilho); 3) ou se persegue uma reprodução
integral, de acentos tônicos mais ictos com duração silábica, de
versos que se compõem à latina mas se recitam à portuguesa (o
método de Costa e Silva). Isso é tudo – e esgota a combinação dos
elementos que se pretende reproduzir? Parece-nos que não.
De facto, partindo justamente do exemplo de Costa e Silva,
pode-se pensar num método que 4) reproduzisse os ictos do modelo
sem contudo descurar a duração silábica (a qual seria sugerida por
sinéreses, elisões, crases e outros expedientes semelhantes) nem o
efeito de contraste e dissonância causado pelos acentos tônicos, to-
mados aqui como pauta silenciosa, ou contraponto mais ou menos
mudo, como o foram os ictos nos versos de Costa e Silva. Eis aí,
descrito muito sumariamente, nosso método de reprodução verná-

12
Cf. nota 9.
13
Cf., p. ex., THAMOS, 2011.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 142-158, set-dez, 2018 152


Érico Nogueira

cula de Horácio – o qual, porém, apesar do esforço rigoroso, nem


sempre conseguimos realizar, como logo veremos.
Realizado ou não, esperamos dilucidá-lo em detalhe nos breves
comentários técnicos a nossa tradução da Ode IV 9, evidentemente.
Frise-se também que o que aqui dissemos sobre um verso lon-
go como o hexâmetro, complexo como nenhum na poesia latina
e grega, vale também, mutatis mutandis, para a reprodução dos
outros metros de Horácio (e não só os dele), e, se usamos exemplos
hexamétricos, foi apenas e tão-somente por comodidade, graças à
relativa abundância de hexâmetros portugueses, em contraste com
a escassez de outros metros antigos.

A prática

Seguem-se, pois, lado a lado o texto latino da ode IV 9 e a


reprodução vernácula que lhe demos. Note-se que marcamos as
breves e as longas do original latino, assinalando os tempos fortes
em negrito a fim de que se possa apreciar melhor a relação entre
intensidade e longura silábica, essencial para o efeito poético de um
tal texto. Em português, em negrito estão as tônicas, e em itálico,
as subtônicas. Tanto lá como cá, sublinhamos apenas as sinéreses,
crases e elisões mais importantes, e indicamos as principais cesuras
com uma barra vertical.

Ode IV 9

Nē fōrtĕ crēdās | īntĕrĭtūră quaē Não creias, não, que a | voz a calar-se venha
lōngē sŏnāntēm | nātŭs ăd Aūfĭdūm, que eu, nato ao pé lá | do Áuido sonoroso,
nōn āntĕ vōlgātās pĕr ārtēs por artes cá sem precedentes
vērbă lŏquōr sŏcĭāndă chōrdīs: solto das cordas acompanhado:

Nōn, sī prĭōrēs | Maēŏnĭūs tĕnēt 5 se sobe ao posto | mais elevado o meônio


sēdēs Hŏmērūs, | Pīndărĭcaē lătēnt, Homero, nem de | Píndaro desparecem
Cēaēque, ĕt Ālcaēī mĭnācēs, nem as de Ceos e Alceu minazes
Stēsĭchŏrīquĕ grăvēs Cămēnaē, ou de Estesícoro grave as Musas,

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 142-158, set-dez, 2018 153


Medidas latinas em verso português

nēc, sī quĭd ōlīm | lūsĭt Ănācrĕōn, nem o de outrora | jogo de Anacreonte


dēlēvĭt aētās; | spīrăt ădhūc ămōr, 10 deliu a idade | – e arfa inda hoje o amor
vīvūntquĕ cōmmīssī călōrēs e sobrevivem os calores
Aēŏlĭaē fĭdĭbūs pŭēllaē. iados à lira da moça eólia.

Nōn sōlă cōmptōs | ārsĭt ădūltĕrī Não ardeu sozinha | quando do sedutor o
crīnēs ĕt aūrūm | vēstĭbŭs īllĭtūm penteado, os ios | d’oiro naquelas vestes,
mīrātă rēgālēsquĕ cūltūs 15 o aprumo e a comitiva reais
ēt cŏmĭtēs Hĕlĕnē Lăcaēnā, inspecionou a espartana Helena,

prīmūsvĕ Teūcēr | tēlă Cўdōnĭō nem Teucro foi quem | frechas lançou com o arco
dīrēxĭt ārcū, | nōn sĕmĕl Īlĭōs cidônio primeiro, | Ílion não só uma vez
vēxātă, nōn pūgnāvĭt īngēns sitiou-se, não lutou sozinho
Īdŏmĕneūs Sthĕnĕlūsvĕ sōlūs 20 Idomeneu ou o ingente Esténelo

dīcēndă Mūsīs | proēlĭă, nōn fĕrōx batalhas dignas | de musicarem-se ou


Hēctōr vĕl ācēr | Dēĭphŏbūs grăvēs o fero Heitor ou | Deífobo sevo, em honra
ēxcēpĭt īctūs prō pŭdīcīs da proba esposa e ilhos, graves
cōniŭgĭbūs pŭĕrīsquĕ prīmūs. golpes levaram pioneiramente.

Vīxērĕ fōrtēs | ānte Ăgămēmnŏnă 25 Viveram muitos | antes de Agamenão


mūltī; sĕd ōmnēs | īllăcrĭmābĭlēs heróis, mas todos | jazem inconsoláveis,
ūrgēntŭr īgnōtīquĕ lōngā em longa ignotos noite e opressos,
nōctĕ, cărēnt quĭă vātĕ sācrō. porque carecem de um vate sacro.

Paūlūm sĕpūltaē | dīstăt ĭnērtĭaē Difere pouco a | já sepultada inércia


cēlātă vīrtūs. | Nōn ĕgŏ tē mĕīs 30 Da proeza oculta. | Eu nestes meus papéis
chārtīs ĭnōrnātūm sĭlēbō, não vou deixar-te em branco e os teus
tōtvĕ tŭōs pătĭār lăbōrēs tantos trabalhos sofrer quieto

īmpūnĕ, Lōllī, | cārpĕrĕ līvĭdās que impunemente o | lívido oblívio os colha,


ōblīvĭōnēs. | Ēst ănĭmūs tĭbĭ ó Lólio, pois tens | ’spírito nos negócios
rērūmquĕ prūdēns ēt sĕcūndīs 35 prudente e reto em circunstâncias
tēmpŏrĭbūs dŭbĭīsquĕ rēctūs, já favoráveis já dubiíssimas,

vīndēx ăvāraē | fraūdĭs, ĕt ābstĭnēns que vingador é | da ávida fraude e, puro


dūcēntĭs ād sē | cūnctă pĕcūnĭaē, do vil metal que | tudo após si atrai,
cōnsūlquĕ nōn ūnīŭs ānnī, é cônsul não de um ano só, se-
sēd quŏtĭēns bŏnŭs ātquĕ fīdūs 40 -não tantas vezes em que o honesto

iūdēx hŏnēstūm | praētŭlĭt ūtĭlī, prepôs ao útil, | bom e iel juiz, e


rēiēcĭt āltō | dōnă nŏcēntĭūm negou suborno, | cenho fechado, de
vūltū, pĕr ōbstāntēs cătērvās corruptos, e entre imigas hostes
ēxplĭcŭīt sŭă vīctŏr ārmă. vitorioso brandiu as armas.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 142-158, set-dez, 2018 154


Érico Nogueira

Nōn pōssĭdēntēm | mūltă vŏcāvĕrīs 45 Àquele que tem | muito não chamarás
rēctē bĕātūm; | rēctĭŭs ōccŭpāt feliz decerto; | tanto mais certo enverga
nōmēn bĕātī, quī dĕōrūm o nome de feliz quem sabe as
mūnĕrĭbūs săpĭēntĕr ūtī graças dos deuses utilizar

dūrāmquĕ cāllēt | paūpĕrĭēm pătī, com siso e a dura, | sim, escassez ’guentar e
pēiūsquĕ lētō | lāgĭtĭūm tĭmēt: 50 melhor o Lete | julga que a ignomínia:
nōn īllĕ prō cārīs ămīcīs que em prol de seus amigos caros
aūt pătrĭā tĭmĭdūs pĕrīrē. ou bem da pátria morrer não teme.

Comentário

a. Constante de dois hendecassílabos, um eneassílabo e um de-


cassílabo alcaicos, esta estrofe – a mais utilizada por Horá-
cio em suas Odes – não tem ictos justapostos, o que facilita
um pouco, sim, a sua replicação em português.
b. Sem embargo, a circunstância de que a sílaba ocupante da
quinta sede do hendecassílabo – e, logo, imediatamente an-
terior à cesura – é sempre e invariavelmente longa deve ser
levada em consideração, pelo que nos esforçamos, na sede
portuguesa análoga, por colocar sílaba fechada, ditongo
ou até gramaticalmente tônica, dotando-a, pois, do mesmo
“peso” da latina: como, por exemplo, em “tem” (v. 45),
“pouco a” (v. 29) e “é” (v. 37), entre outras.
c. O efeito contrastante de “iudex”, por exemplo, cuja primei-
ra sílaba, gramaticalmente acentuada, está fora do tempo
marcado, foi reproduzido pelo vernáculo “com siso”, em
que “com”, sendo indiferentemente átono ou tônico, pode
sugerir tonicidade.
d. Os eneassílabos e decassílabos, desprovidos de cesura, não
oferecem grandes desafios à sua reprodução vernácula – ao
menos nesse aspecto.
e. Por outro lado, ao facto de que neles predomina a não coin-
cidência entre tempo marcado e acento gramatical (isto é,
abundam os efeitos contrastantes), a qual harmônica e en-
genhosamente se resolve na coincidência da última sílaba

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 142-158, set-dez, 2018 155


Medidas latinas em verso português

da estrofe, não encontramos um equivalente à altura, em


português – a não ser, quem sabe, a pálida tonicidade de “de
um” (v. 39), que faz as vezes de efeito contrastante.
f. Para o estilo, note-se a tentativa de seguir de perto a ordem
latina dos vocábulos, e a longa sentença de quatro estrofes,
do v. 29 ao v. 44, que reproduzimos em português.

À guisa de balanço

Tanto quanto pudemos averiguar, as principais dificuldades e


desafios da reprodução vernácula de medidas horacianas estão,
primeiro, na urdidura e confecção da pauta silenciosa (isto é, a
dos acentos gramaticais que caem fora dos tempos marcados),
segundo, na justaposição de sílabas tônicas, e, terceiro, na re-
produção vernácula do estilo ou elocução originais, cujo traço,
talvez, mais característico é a posição estratégica de cada palavra
no interior dos versos, e a consequente longura e engenhosíssima
articulação das sentenças entre si, com inúmeros parênteses e
subordinações. Eis os três aspectos principais em que nossos bre-
víssimos comentários se concentraram – nos quais nos limitamos
a um único exemplo de cada aspecto, diga-se desde já, que é o
bastante para servir de guia a uma leitura atenta e juízo equânime
dos nossos resultados.
É preciso confessar também que, se, por um lado, nos parece
que vencemos sempre ou quase sempre as duas últimas dificulda-
des, fomos muito mais inconstantes e amargamos bastantes derro-
tas, ao enfrentar a primeira. Donde, nos comentários, nossa ênfase
nos casos de vitória, deixando as muitas e patentes derrotas que
falem por si, com uma ou outra exceção.
Se nossa tradução tem alguma novidade, portanto, ela está pre-
cisamente na tentativa – nem sempre bem lograda, repita-se – de
replicar em português os tempos marcados do original sem esque-
cer o efeito contrastante dos acentos tônicos nem os característicos
mais visuais que auditivos da elocução; o que não significa que não

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 142-158, set-dez, 2018 156


Érico Nogueira

deva, e muito, ao precedente de Guilherme Gontijo Flores14, que


em sua tese de doutoramento traduziu e comentou os três primeiros
livros das Odes de Horácio buscando reproduzir os ictos e até o
número de sílabas do original15.

Referências

ALLEN, W. Sydney. Accent and Rhythm. Cambridge: Cambridge University


Press, 1973.

AURELIO AGOSTINO. De Musica. In: ______. Tutti i Dialoghi. A cura di


Giovanni Catapano. Milano: Bompiani, 2006. p. 1219-1652.

CASTILHO, Antonio Feliciano de. Tratado de Metrificação Portugueza: Seguido


de Considerações sobre a Declamação e a Poetica. 4. ed. revista e aumentada.
Porto: Livraria Moré-Editora, 1874.

COSTA E SILVA, José Maria da. Poesias de Joze Maria da Costa e Silva. Tomo
III. Lisboa: Typ. de Antonio José da Rocha, 1844.

FLORES, Guilherme Gontijo. Uma poesia de mosaicos nas Odes de Horácio:


comentário e tradução poética. 2014. 207 f. Tese (Doutorado em Letras Clássicas)

14
Cf. FLORES, 2014.
15
Com efeito, Flores pretendeu replicar em português o andamento rítmico ou a
incidência de tempos marcados de seu modelo latino, criando versos que, como
os originais, pudessem não só ser recitados mas também cantados com acompa-
nhamento instrumental. Isso significa que certos característicos elocutórios mais
visuais que propriamente auditivos dos versos de Horácio – tais como cesuras,
a posição das palavras e o rebuscamento da sintaxe – não foram metodicamente
reproduzidos em suas traduções, e isso pura e simplesmente porque a sua finalida-
de não está na mera leitura silenciosa ou na só recitação escolar (que ainda assim
admitem, claro), senão, antes, no canto acompanhado de lira, cítara ou violão.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 142-158, set-dez, 2018 157


Medidas latinas em verso português

– Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo,


São Paulo, 2014.

KLINGNER, Friedrich (Ed.) Quintus Horatius Flaccus: Opera. 3. Auflage.


Leipzig: Teubner, 1959.

KLOPSTOCK, Friedrich Gottlieb. Gedanken über die Natur der Poesie.


Frankfurt: Insel, 1989.

NICOLAU, Mathieu. Les Deux Sources de la Versification Latine Accentuelle.


ALMA, v. IX, [S.L], p. 55-87, 1934.

OLIVA NETO, João Angelo. O Hexâmetro Dactílico de Carlos Alberto Nunes:


Teoria e Repercussões. Revista Letras, Curitiba, n. 89, p. 187-204, 2014.

D’OVIDIO, Francesco. Versificazione Italiana e Arte Poetica Medioevale.


Milano: Hoelpi, 1910.

PASCOLI, Giovanni. Regole di Metrica Neoclassica. In: ______. Poesie e Prose


Scelte. Tomo Secondo. Milano: Arnoldo Mondadori Editore, 2002.

THAMOS, Márcio. Do Hexâmetro ao Decassílabo: Equivalência Estilística


Baseada na Materialidade da Expressão. Scientia Traductionis, Florianópolis, v.
10, p. 201-213, 2011.

VIRGÍLIO. Eneida. Tradução de Carlos Alberto Nunes. Organização de João


Angelo Oliva Neto. São Paulo: Editora 34, 2014.

VOSS, Johann Heinrich. Des Publius Virgilius Maro Landbau. Hamburg: C. E.


Bohn, 1789.

Recebido em: 28/04/2018


Aceito em: 18/07/2018
Publicado em setembro de 2018

Érico Nogueira. E-mail: nogueiraerico@gmail.com


ORCID: https://orcid.org/0000-0002-3504-8376

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 142-158, set-dez, 2018 158


http://dx.doi.org/10.5007/2175-7968.2018v38n3p159

UMA REESCRITA BRASILEIRA DE REI LEAR: DE


TRAGÉDIA APOCALÍPTICA A DRAMA FAMILIAR

Liana de Camargo Leão1


1
Universidade Federal do Paraná, Curitiba, Paraná, Brasil

Marcia Amaral Peixoto Martins2


2
Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro,
Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil

Resumo: O foco deste trabalho é uma produção de 2014 do Rei Lear


de Shakespeare, traduzida e adaptada por Geraldo Carneiro, dirigida por
Elias Andreato e protagonizada por Juca de Oliveira, que sozinho no palco
dá vida a seis personagens. O ator assume a voz de um narrador e também
incorpora os diferentes personagens, enunciando suas falas e, muitas ve-
zes, estabelecendo um diálogo entre eles. Serão objeto de análise as prin-
cipais características do texto dessa montagem, a saber: (I) o enxugamento
da ação, com o corte da subtrama envolvendo o duque de Gloucester e
seus dois filhos, Edmund e Edgar, e um final antecipado, que encerra a
peça com o reencontro entre Lear e Cordelia, sem chegar ao desfecho trá-
gico da morte de ambos; (II) o emprego do recurso da narração, situando
Lear, narrador-protagonista, em um momento cronológico à frente dos
fatos que ocorreram; (III) o emprego do recurso do diálogo entre Lear e
os outros cinco personagens da trama, em que o ator vive os diferentes
papéis e “encena” as interações; (IV) o emprego de uma combinação de
prosa, versos brancos e versos rimados nas falas, seguindo o padrão da
poesia dramática shakespeariana; e (V) a presença de interpolações de
fragmentos de outras obras de Shakespeare. Aspectos ligados diretamente
à montagem, tais como cenário e figurino, também serão examinados.
Palavras-chave: Adaptação teatral; William Shakespeare; Rei Lear.

Esta obra utiliza uma licença Creative Commons CC BY:


https://creativecommons.org/lice
Liana de Camargo Leão & Marcia Amaral Peixoto Martins

A BRAZILIAN REWRITING OF KING LEAR: FROM


APOCALYPTIC TRAGEDY TO FAMILY DRAMA

Abstract: The purpose of this article is to analyze a 2014 production


of Shakespeare’s King Lear translated and adapted by Geraldo Carneiro,
directed by Elias Andreato, and starring Juca de Oliveira in a solo
performance in which he plays six roles. The actor performs the role of a
narrator and also incorporates the different characters, speaking their lines
and quite often establishing a dialogue between them. The main features
of the adapted text will be examined, namely: (I) the cuts in the plot,
resulting in the omission of the subplot involving the Duke of Gloucester
and his two sons, Edmund and Edgar, and in an early ending, at the point
when Lear and Cordelia are reunited, without ever reaching the tragic
denouement with both of them dying; (II) the use of narration, placing
Lear, the narrator-protagonist, in a chronological time ahead of the action
he describes; (III) the use of dialogue between Lear and the other five
characters of the play, in which the single actor simultaneously plays
different characters in interaction; (IV) the use of a combination of prose,
blank verse and rhyming verse following the pattern of Shakespeare’s
dramatic poetry; and (V) the presence of interpolated fragments of other
works by Shakespeare. Aspects directly linked to the staging, such as
scenery and costume design, will also be examined.
Keywords: Stage adaptation; William Shakespeare; King Lear.

A proposta deste trabalho é analisar uma produção de 2014 do


Rei Lear de Shakespeare, traduzida e adaptada por Geraldo Car-
neiro, dirigida por Elias Andreato e protagonizada por Juca de
Oliveira, que sozinho no palco dá vida a seis personagens. Por
400 anos, Rei Lear tem sido adaptada e reescrita por dramaturgos,
romancistas e roteiristas de cinema e televisão. A peça, que integra
as chamadas quatro grandes tragédias shakespearianas, ao lado de
Hamlet, Macbeth e Otelo, foi escrita em 1605-1606, já na maturi-
dade do dramaturgo. Seu protagonista é Lear, rei da Bretanha, que
chegando à velhice decide dividir seu reino entre as três filhas, mas
para isso quer saber a extensão do amor que cada uma tem por ele.
Enquanto as duas mais velhas exageram na sua devoção, a mais
moça, Cordelia, declara amar o pai conforme o seu dever, “nem

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 159-182, set-dez, 2018 160


Uma reescrita brasileira de Rei Lear: de tragédia apocalíptica a drama familiar

mais, nem menos”1. Enfurecido e profundamente decepcionado,


Lear deserda Cordelia, até então sua preferida, e divide o reino en-
tre as filhas Goneril e Regan, pretendendo morar com uma e com
outra, alternadamente, junto com um séquito de 100 homens. Logo
as duas começam a desrespeitar o acordo, alegando ser impossível
conviver com os serviçais do pai. Diante do ultimato das filhas –
ou ele se livra do séquito ou elas se recusarão a hospedá-lo – Lear
deixa o castelo do amigo Gloucester em meio a uma tempestade
iminente. Em um descampado, tendo apenas como companhia o
Bobo, o fiel amigo Kent e Edgar, o filho banido de Gloucester,
Lear perde a razão, fato que, contraditoriamente, lhe propicia uma
viagem de autoconhecimento. Na visão de Barbara Heliodora, o
processo do aprendizado de Lear é extraordinariamente doloroso,
no qual o Bobo tem papel fundamental: “mais do que engraçado, a
função do personagem é a de servir de consciência de Lear até este,
depois da crise na tempestade, passar a ter ele mesmo consciência
de seus atos” (2006, p. 757). Complementa Nelson de Sá: “Em
lugar da loucura e depois da infantilização de Lear, seu bobo traz
lucidez e distanciamento, desnudando o autoengano do rei [...]”
(SÁ, 2014, [s.p.]). Nesse meio tempo, Cordelia e o rei da França,
seu marido, que a quis mesmo deserdada, vêm ao seu encontro
com tropas francesas para enfrentar o exército dos genros Albany e
Cornwall. Após a reconciliação entre Lear e a filha mais querida,
os franceses são derrotados; as irmãs Goneril e Regan morrem em
decorrência de uma disputa pelo amor de Edmund, o filho cruel de
Gloucester; e Cordelia é enforcada na prisão e levada até Lear, que
a segura nos braços e morre em seguida.
Barbara Heliodora assim analisa as atitudes de Lear:

Como sempre, em Shakespeare, o mal é ligado a um ato


de transgressão contra a natureza: não há nada de errado
em Lear dividir seu reino entre as filhas, pois há exemplos

1
“I love your majesty//According to my bond, no more, no less” (I.i. 92-93,
SHAKESPEARE, 1988).

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 159-182, set-dez, 2018 161


Liana de Camargo Leão & Marcia Amaral Peixoto Martins

históricos de atos semelhante. Onde ele erra, onde ele trans-


gride a natureza, é na recusa em compreender o justo amor
de Cordelia, preferindo acreditar nas bajulações de Goneril
e Regan, e deserdando a caçula. A par disso, também erra
quando quer se livrar das responsabilidades de rei mas con-
tinuar a gozar dos privilégios do cargo. Para Shakespeare,
direitos e deveres são indissociáveis e, quando Lear afirma
querer se livrar de suas obrigações e “se arrastar sem car-
gas para a morte”, ele não tem ideia de que até que ponto
esse seu suposto desejo será realizado. (2016, p. 756)

A fortuna da peça é bastante extensa, sendo frequentes as adap-


tações e montagens, algumas muito felizes, outras nem tanto. No
teatro, a partir de 1681 ganhou predominância a versão de Nahum
Tate, que eliminou personagens, como o Bobo, e alterou drastica-
mente a trama, a ponto de criar um final feliz com o casamento entre
Cordelia e Edgar, o filho legítimo de Gloucester, que também havia
sido deserdado devido a maquinações do irmão bastardo. Durante
150 anos, “a versão de Tate foi praticamente a única aceita pelas
plateias” (TREWIN, 1994, p. 122)2, embora David Garrick tenha
criado uma um pouco diferente, mantendo o enredo de Tate mas
recuperando os versos originais, que foi apresentada no Drury Lane
durante cerca de 30 anos a partir de 1756 (ibid.). O original elisabe-
tano foi sendo restaurado aos poucos, até que o ator William Charles
Macready encenou, em 1838, uma versão condensada do texto.
No cinema, a trajetória de Lear se inicia ainda na época dos
filmes mudos, com duas produções norte-americanas, a da Vita-
graph (1909) e a da Tranhouser Film Corporation (1916), dirigi-
das, respectivamente, por William V. Ranous e Ernest C. Wade,
e uma italiana, da Film d’Arte Italiana (1910), tendo como diretor
Gerolamo Lo Savio. Já em meados do século, duas recriações da
história se destacaram: House of Strangers (1949), dirigida por

2
Todas as citações extraídas de obras publicadas em língua inglesa são de nossa
autoria.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 159-182, set-dez, 2018 162


Uma reescrita brasileira de Rei Lear: de tragédia apocalíptica a drama familiar

Joseph Mankiewicz, e Broken Lance (1956), dirigida por Edward


Dmytryk, ambas produzidas pela Fox.
Em 1970 é lançado, no congresso da International Shakespeare
Association no Canadá, o filme até hoje considerado como o melhor
Lear do cinema. Dirigido pelo russo Grigori Kozintsev e produzido
pelo Lenfilm Studio, o filme foi praticamente contemporâneo da
versão do célebre diretor shakespeariano Peter Brook, em 1971.
Muitas outras adaptações e reescritas se seguiram, destacando-se a
versão japonesa Ran, dirigida por Akira Kurosawa, em 1985; o po-
lêmico Lear de Jean-Luc Goddard, em 1987; e, mais recentemente,
a produção estrelada e dirigida por Brian Blessed, em 1999.
Na televisão, além das adaptações pela BBC, de 1948, 1982 e
1998, as mais célebres são a versão estrelada por Patrick McGee,
em 1976, e a do então adoentado e prematuramente envelhecido
Laurence Olivier, que data de 1983. Produções teatrais importantes
também foram televisionadas e lançadas em DVD, como a aclama-
da montagem de 2007 dirigida por Trevor Nunn e protagonizada
por Ian Mckellen3.
Também a literatura tem sido alimentada pela história de Lear.
Uma recente e aclamada reescrita é o romance Still Time (2015), de
Jean Hegland, que conta a história de um professor shakespeariano
que começa a sofrer de demência e que, tendo se afastado da filha
ao longo da vida, a reencontra ao final.
Este passeio pela história das montagens, adaptações e reescritas
de Lear tem objetivo de situar o leitor quanto à proposta brasileira.
O texto de Shakespeare foi adaptado para um espetáculo solo; Juca
de Oliveira é o único ator no palco, revezando-se em seis papéis: as
filhas Goneril, Regan e Cordelia, Kent e o Bobo, além do próprio
rei, que narra a ação. Como observa Nelson de Sá em sua crítica,
“Não se trata de um monólogo, mas de um solo em que o ator faz
vários papéis, como nas celebradas versões de Bob Wilson e Ro-
bert Lepage para ‘Hamlet’” (SÁ, 2014, [s.p.]). Tal concepção é,
até onde se sabe, inédita na história de montagens de Lear. O ator

3
O DVD foi lançado em 2008.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 159-182, set-dez, 2018 163


Liana de Camargo Leão & Marcia Amaral Peixoto Martins

assume a voz de um narrador e também incorpora os diferentes


personagens, enunciando suas falas e, muitas vezes, estabelecendo
um diálogo entre eles. Tais escolhas implicam, naturalmente, em
limitações: como recontar uma das obras-primas de Shakespeare,
talvez sua peça mais complexa, que conta com 18 personagens com
falas (além de cavaleiros do séquito do rei, oficiais, mensageiros,
soldados e criados) e uma subtrama, e tem duração média de três
horas, com 3.216 linhas de texto4, em cerca de uma hora? O que
será privilegiado e o que será suprimido?
De modo breve, a montagem reduz uma peça de dimensões
cósmicas e descrita como uma visão do apocalipse a uma crise em
família. Como observa Sá,

[a] adaptação opta pelo núcleo familiar e dramático, sac-


rificando aquele mais político e propriamente trágico dos
outros personagens de importância na peça, como Edgar,
Edmund e Gloucester (2014, [s.p.]).

Ainda assim, a história continua a exercer seu poder sobre as


plateias que testemunham a degradação física e psicológica do pro-
tagonista. Para Peter Ackroyd, em Shakespeare: The Biography,
“[a]ssistir a Rei Lear é se aproximar do reconhecimento de que de
fato a vida não tem sentido e que há limites para a compreensão
humana” (2006, p. 436).
Outro aspecto que caracteriza essa montagem é a ênfase na reden-
ção, por meio do reencontro e reconciliação com Cordelia. No origi-
nal, à reconciliação se segue o final trágico, com a morte de Cordelia e
do próprio Lear, além das de Gloucester, Edmund e das filhas mais ve-
lhas. A culpados e inocentes está reservado o mesmo destino. Para Sá,

É como se ‘Rei Lear’ se fechasse em uma de suas fontes,


aquela dos contos de fadas mais ou menos próximos de Cin-

4
Shakespeare, 1959.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 159-182, set-dez, 2018 164


Uma reescrita brasileira de Rei Lear: de tragédia apocalíptica a drama familiar

derela: as duas filhas malvadas que fingem amar e assim


enganam o pai, enquanto aquela que o ama de verdade,
Cordelia, é perseguida” (2014, [s.p.]).

A montagem brasileira, no entanto, termina com Lear e Corde-


lia vivos, como será abordado mais adiante.
Um dos temas centrais da peça, a relação entre pais e filhos,
é amplificado no original pelo espelhamento entre a trama prin-
cipal e a subtrama. A história de Gloucester e seus filhos repro-
duz e intensifica a de Lear e suas filhas, de modo que Gloucester
se transforma “não apenas em uma figura ‘paralela’ a Lear, mas
no seu duplo” (CAVELL, 1987, p. 52). Irving Ribner considera
Gloucester um Lear menos nobre, pertencente a um estrato social
menos elevado, de modo que é pelo espelhamento dos enredos que
a tragédia ganha validade universal (1960, p. 117). Outros críticos
também destacam o subenredo como fundamental para a constru-
ção do sentido da peça:

o mestre, sendo mestre, não errou na duplicação do enredo;


a situação e experiência vivida pela família de Gloucester
intensificam o efeito produzido pelaa situação e experiên-
cias vividas pela família de Lear; e, novamente, os dois
enredos se encontram na relação entre Lear e Gloucester,
e entre Edmundo e as duas irmãs que o desejam; e, no-
vamente, nessas interrelações residem algumas das ironias
notáveis que, de outro modo, estariam ausentes da peça.
(HEILMAN, 1948, p. 169)

Considerando, portanto, as posturas dos vários críticos acima


elencados, é possível alegar que a peça Rei Lear sem o enredo de
Gloucester torna-se outra peça, com alcance e potencial trágico
bem menor.
Outro acontecimento de relevo eliminado dessa recriação é o
banimento de Kent, por discordar da decisão de Lear em dividir
seu reino. No texto original, mesmo banido, Kent prova a sua

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 159-182, set-dez, 2018 165


Liana de Camargo Leão & Marcia Amaral Peixoto Martins

fidelidade, ao se disfarçar como o criado Caius e, assim, voltar a


servir o Rei que o baniu. Para Coleridge, de todos os personagens
de Shakespeare, Kent é o que mais se aproxima da bondade ab-
soluta (citado em BATE, 1992, p. 389). Na recriação, Carneiro
mantém Kent ao lado de Lear, que se refere três vezes ao súdito
fiel como seu “assessor”, como se pode ver na seguinte passa-
gem: “Passados alguns dias, me dirigi a um serviçal, para que
chamasse Kent, o meu assessor, pois queria que ele levasse uma
carta à minha filha Regan”. 5

A concepção do Rei Lear solo

Tendo estreado em 18 de julho de 2014 no Teatro Eva Herz,


em São Paulo, a adaptação de Geraldo Carneiro foi apresentada em
muitas outras cidades brasileiras, fazendo uma carreira de sucesso.
A semente dessa ideia surgiu por acaso:

Um encontro fortuito resultou em um maravilhoso desa-


fio. Há alguns meses, o ator, diretor e dramaturgo Juca de
Oliveira prestigiou um debate do poeta Geraldo Carneiro.
Na conversa, Juca confessou o desejo de interpretar Fal-
staff ou Lear, dois dos mais notórios personagens criados
por William Shakespeare. Carneiro respondeu com um de-
safio: que tal viver seis personagens de Rei Lear em um
monólogo? O ator topou [...]. (BRASIL, 2014, [s.p.])

Foi uma parceria de mútua colaboração: à ideia de Carneiro de


um espetáculo solo com seis personagens, Juca de Oliveira res-
pondeu com a sugestão de encerrar a peça no momento em que
Cordelia se reencontra com Lear. Não se trata, portanto, de dar um

5
Todas as passagens da encenação citadas foram extraídas de REI Lear, 2014
(vídeo).

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 159-182, set-dez, 2018 166


Uma reescrita brasileira de Rei Lear: de tragédia apocalíptica a drama familiar

“final feliz” à trajetória de Lear, como se comentou à época – e


à semelhança da famosa adaptação de Tate, já mencionada – mas,
sim, de finalizá-la antes do final trágico, ou seja, no momento de
reconciliação entre pai e filha:

CORDELIA
Vossa Alteza gostaria de dar um passeio comigo?

LEAR
Vais ter que ter paciência comigo, Cordelia. Eu estou
velho, e acho que... até meio caduco.

E saímos os dois a passear.6

Em entrevista, o ator apresentou seus motivos para tal proposta:

Quando comecei a trabalhar na ótima tradução e adaptação


do Geraldinho, um dos nossos mais inspirados tradutores de
Shakespeare, apavorado pelo desafio, saí à caça de gravações
de monólogos do Lear, para avaliar as dificuldades que iria
enfrentar. Não havia tal monólogo! Nenhum ator fizera antes
um monólogo do Lear! Os obstáculos eram tantos, o número
de personagens, de cenas, que, a certa altura, apavorado,
cancelei o projeto. Mas, ainda assim, continuei buscando
uma solução. E, de repente, a luz! Goneril e Regan traem e
expulsam o velho pai, tramando sua morte. Cordelia, renega-
da e expulsa por Lear, vem em seu socorro e o salva. É uma
brilhante cena de reconciliação entre pai e filha, a mais bela
e comovente da peça, o renascimento da esperança! Claro,
o monólogo terminaria aí e ao espectador caberia imaginar o

6
Essas falas integram a parte final da cena 7 do Ato IV do Lear shakespeariano,
em que o rei reencontra e pede perdão à filha: CORDELIA (to Lear) Will’t please
your higness walk? LEAR You must bear with me. Pray you now, forget// and
forgive. I am old and foolish. (Exeunt) (IV.vi.75-77, SHAKESPEARE, 1988).

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 159-182, set-dez, 2018 167


Liana de Camargo Leão & Marcia Amaral Peixoto Martins

futuro de ambos. Li a cena desse reencontro para o Gerald-


inho, que aprovou. (BRASIL, 2014, [s.p.])

O texto

As principais características do texto dessa montagem são: (I) o


enxugamento da ação, como já mencionado, com o corte da subtra-
ma envolvendo o duque de Gloucester e seus dois filhos, Edmund e
Edgar, e um final antecipado, que encerra a peça com o reencontro
entre Lear e Cordelia, sem chegar ao desfecho trágico da morte
de ambos; (II) o emprego do recurso da narração, situando Lear
em um momento cronológico à frente dos fatos que ocorreram,
relatando-os e referindo-se a eles no passado; (III) o emprego do
recurso do diálogo entre Lear e os outros cinco personagens da
trama, em que o ator vive os diferentes papéis e “encena” as intera-
ções; (IV) o emprego de uma combinação de prosa, versos brancos
e versos rimados nas falas, seguindo o padrão da poesia dramática
shakespeariana; e (V) a presença de interpolações de fragmentos de
outras obras de Shakespeare.
Em relação ao primeiro aspecto, já foi abordada, aqui, a opção
por enxugar a peça abrindo mão do núcleo de Gloucester. Como
revelou Carneiro (2018a), seu critério para cortes foi reduzir o tex-
to ao ponto de vista de Lear. A ênfase recaiu, portanto, no drama
familiar de Lear e nos riscos inerentes à transferência de dinheiro e
poder dos pais para os filhos. Juca de Oliveira ressalta que, quando
leu Rei Lear pela primeira vez, teve

um insight que permanece até hoje: os pais, enquanto vi-


vos, jamais deveriam transferir seus bens para o nome dos
filhos. Os bens deveriam ser divididos só após a morte,
pelo tabelião. E eu estava desgraçadamente certo, pois to-
dos os dias tomamos conhecimento de uma infinidade de
pais que cometeram esse erro, desaconselhado por Shake-
speare, que sabe tudo sobre o homem. E todos acabaram

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 159-182, set-dez, 2018 168


Uma reescrita brasileira de Rei Lear: de tragédia apocalíptica a drama familiar

na miséria, abandonados pelos filhos, que se apossaram da


herança transferida para seus nomes, na expectativa de afeto
e gratidão. Sobre isso, escrevi no programa do espetáculo:
“Hoje, com a disparada da longevidade, os filhos modernos,
clones de Goneril e Regan (as filhas cruéis), expulsam de
casa os velhos pais e os encarceram em asilos até a morte.
Puro Shakespeare. Puro Rei Lear”. (BRASIL, 2014, [s.p.])

O reencontro de Lear e Cordelia ser o clímax e o final da peça,


como já observado, tem o efeito de reduzir o sofrimento que a
tragédia impõe, concluindo o relato objetivo e condensado da his-
tória do rei com um momento sublime de arrependimento, perdão
e redenção.
A segunda característica que se destaca é a opção pelo modo
narrativo, com Lear como narrador de uma história que já acon-
teceu. Nelson de Sá aponta que “Narração – em lugar de ação
– é algo que se costuma evitar no palco, mas é até necessário, no
caso, devido à adaptação drástica” (2014, s.p.). Como explica o
adaptador, Geraldo Carneiro, “Esta adaptação procura recortar os
momentos centrais da trajetória de Lear. Claro que há reduções e
supressões, mas talvez o personagem tenha ganhado alguma pro-
ximidade de nós. Aqui, Lear é sujeito e narrador de sua história”
(citado em MELLONE, 2014). Podemos então dizer que há dois
Lears, o Lear-Narrador e o Lear-Personagem, sendo a peça anco-
rada no primeiro, que passa a palavra para os personagens, inclu-
sive o próprio Lear.
Esse deslizamento entre Lear-Narrador e Lear-Personagem
ocorrerá ao longo de toda a peça, pois mesmo quando reproduz
diálogos da peça original, Geraldo Carneiro recorre ao narrador
para inserir explicações sobre a identidade das personagens, como
exemplificado no primeiro diálogo entre o rei e a filha mais velha:

LEAR-PERSONAGEM
Chegou a hora de proclamar os diversos dotes de minhas
filhas. Digam-me, minhas filhas – já que agora vou abrir

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 159-182, set-dez, 2018 169


Liana de Camargo Leão & Marcia Amaral Peixoto Martins

mão do governo, da posse das terras e das funções de Es-


tado – qual de vocês podemos dizer que nos tem mais amor?

LEAR-NARRADOR
Goneril, minha filha mais velha, foi a primeira a falar.

GONERIL
Senhor, eu te amo mais do que as palavras possam expres-
sar, mais do que a luz dos olhos, o espaço e a liberdade, e
mais além do que se considere rico e raro. [...]

A dinamicidade da narração é conferida sobretudo pelo terceiro


aspecto a ser ressaltado: os “diálogos” encenados por Lear e seus
“interlocutores”, moderados pelo narrador. Esse recurso pode ser
ilustrado com alguns exemplos: “Depois disso falou minha segun-
da filha, chamada Regan. – Senhor... sou feita do mesmo metal que
minha irmã, ambas de igual valor [...]”; “O nobre Kent, meu ami-
go e conselheiro, ainda tentou protestar: – Conserva o teu governo,
meu senhor, medita, contém esse rompante hediondo!”; “Nisso,
passa pela sala o serviçal canalha de minha filha e eu o chamei: –
Ei, o senhor aí, cavalheiro! Me diga, me diga: Quem sou eu? E
ele me respondeu: – O pai de minha senhora”; “Mas a política de
corte de pessoal das duas ainda não tinha terminado, e Goneril me
interpelou: – Escuta aqui, senhor: para que o senhor necessita de
vinte e cinco, ou dez, ou cinco homens, numa casa em que há o
dobro de criados para servi-lo?”
O narrador, entre outras intervenções, pode esclarecer o enre-
do, como nesta fala que se segue à primeira interlocução com Go-
neril (transcrita acima) e que também introduz o tema da vacuidade
das belas palavras:

LEAR-NARRADOR
Como eram bonitas as palavras de minha filha. Doei a ela e
ao marido a terça parte do meu reino.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 159-182, set-dez, 2018 170


Uma reescrita brasileira de Rei Lear: de tragédia apocalíptica a drama familiar

O quarto aspecto que chama a atenção na reescrita de Geraldo


Carneiro é a manutenção da fórmula prosa/versos brancos/versos
rimados que caracteriza a poesia dramática shakespeariana. Há
muitas falas em versos brancos, com esquema métrico variado,
contemplando desde o decassílabo rigoroso a versos de métrica
frouxa, oscilando de nove a até 13 sílabas. Como exemplo do pri-
meiro caso, podemos citar a maldição que Lear lança sobre Go-
neril, assim que ela reclama de seu séquito, composto de homens
“desordeiros, debochados e atrevidos”, e decide reduzi-lo:

Escuta, cara deusa Natureza!


Suspende tua intenção, se tu querias
Tornar fecunda essa degenerada.
Mete a esterilidade no seu ventre!
Seca seu útero e que de seu corpo
Jamais floresça um filho para honrá-la.
[...]

Também em decassílabos brancos é a resposta de Regan, a se-


gunda filha, quando Lear vai procurá-la e se queixa de Goneril:

Estás fraco, meu pai, não nos escondas.


Se quiseres voltar para minha irmã
E lá ficares até o fim do mês,
Dispensando a metade da tua escolta,
Depois tu poderás ficar comigo.

Um terceiro exemplo do emprego de decassílabos brancos é a


fala de Lear ao se ver colhido pela tempestade:

Sopra, vento, e arrebenta as tuas bochechas!


Despejai cataratas, furacões,

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 159-182, set-dez, 2018 171


Liana de Camargo Leão & Marcia Amaral Peixoto Martins

Até afogar as torres com seus galos!


Relâmpagos de enxofre mais velozes
Que o pensamento, vós, os emissários,
Dos raios que estilhaçam os carvalhos,
Vinde queimar os meus cabelos brancos!
[...]

Por sua vez, a réplica de Lear ao Bobo, já em meio à tempes-


tade, traz versos não rimados de métrica frouxa, predominando o
decassílabo.

Sou, sim: em cada polegada, um rei.


Quando encaro, estremecem os meus súditos.
Concedo a vida a esse homem! Qual o seu crime?
Adultério? Não morrerás. Por adultério, não!
[...]

As falas rimadas são três, duas do Bobo e uma de Cordelia.


Nas falas do primeiro personagem, o tradutor deu prioridade ao
significado e à rima (CARNEIRO, 2018b). A primeira fala rimada
do Bobo é em dísticos heptassilábicos, com esquema rímico aa-
bbcc...:

Larga as putas e a bebida,


Fica em casa toda a vida:
E a cada vinte vinténs
Terás o dobro que tens.
Sacou, tio, como é prática
Essa minha matemática?
Aquele que o aconselhou
A dar suas terras, senhor,
Que venha pro meu lugar
Pra ao seu lado figurar.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 159-182, set-dez, 2018 172


Uma reescrita brasileira de Rei Lear: de tragédia apocalíptica a drama familiar

A outra fala rimada do Bobo é em dísticos, sem maior rigor


métrico, com certo predomínio de hendecassílabos:

Quando o padre fizer o que diz na igreja,


O cervejeiro não botar água na cerveja;
Quando o nobre proteger o alfaiate,
E não pegar doença com a biscate,
Quando a justiça for uma coisa séria,
E não existir cavalheiro na miséria,
Nem escudeiro matando cachorro a grito,
Quando não houver intriga no que é dito,
E quando a prostituta e o vagabundo
Construírem igrejas neste mundo,
Então o reino desta velha Albion
Não vai ser nada bom. Não és o rei?

A terceira fala com rimas da peça é atribuída ao personagem


Cordelia, no momento de seu reencontro com o pai, que se mos-
tra arrependido de tê-la deserdado e acredita ter perdido o seu
amor de filha. Com os olhos cheios de lágrimas (conforme narra
Lear), ela diz:

Oh, não, o amor é o sinal mais constante,


Que enfrenta a tempestade e não balança,
É a estrela-guia dos barcos errantes,
Cujo valor lá no alto não se alcança.
O amor não é o bufão do Tempo, embora
Sua foice vá ceifando a face a fundo.
O amor não muda com o passar das horas,
Mas se sustenta até o final do mundo. 7

7
“O, no, it is an ever-fixèd mark//That looks on tempests and is never shaken;//
It is the star to every wand’ring bark,//Whose worth’s unknown, although his
height be taken.//Love’s not Time’s fool, though rosy lips and cheeks//Within his
bending sickle’s compass come;//Love alters not with his brief hours and weeks,//
But bears it out even to the edge of doom.” (SHAKESPEARE, 1980).

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 159-182, set-dez, 2018 173


Liana de Camargo Leão & Marcia Amaral Peixoto Martins

Essa fala em decassílabos, com esquema de rimas ababcdcd, se


trata, na verdade, de um fragmento (do quinto ao décimo-segundo
verso) do Soneto 116, também de autoria de Shakespeare. Tal in-
terpolação, juntamente com a de uma fala de Hamlet na cena de
abertura deste Lear, será abordada mais adiante.
Complementando esta breve análise do texto, cabe fazer alguns
comentários sobre a linguagem. Pode-se dizer que tende ao formal,
com o emprego de verbos no futuro sintético (caminharei, casarei,
dormirei, aborrecerei), ênclises como prendam-na, Digam-me,
deixar-vos; vocabulário sofisticado, com palavras como dardejai
e expressões como rompante hediondo; aliterações como sua foice
vá ceifando a face a fundo; e os pronomes de tratamento tu e vós.
Por outro lado, há também algumas gírias e vocabulário chu-
lo, como na exclamação “Escravo desnaturado, filho da puta”, de
Lear para um serviçal de Goneril; no comentário de Lear sobre
Cordelia: “O mais curioso é que Cordelia, minha filha mais nova,
tinha dois pretendentes. Um deles, vendo-a sem dote, com uma
mão na frente e a outra atrás, tirou o corpo fora”; e – como se po-
deria esperar – em algumas falas do Bobo, como “Quando rachaste
tua coroa no meio e doaste as duas metades, carregaste o burro nas
costas pra cruzar o brejo; tens tão pouco juízo nessa tua coroa, que
mandaste pras cucuias a tua coroa de ouro!”.
Observa-se, ainda, um trocadilho, feito por Lear falando con-
sigo mesmo:

Honrar a minha idade... Como é que eu vou honrar a


minha idade e minha dignidade diminuindo meu séquito?
Um homem da minha idade, que já não tem nem mais sexo,
precisa de um séquito explícito.

e uma perceptível instabilidade entre tu, vós, você e o senhor. No


início da peça, Lear se dirige a Goneril, Regan, Cordelia, Kent e
o Bobo pela segunda pessoa do singular, e é tratado por eles da
mesma forma. Já quando Lear está se queixando de Goneril para

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 159-182, set-dez, 2018 174


Uma reescrita brasileira de Rei Lear: de tragédia apocalíptica a drama familiar

Regan, esta passa a tratá-lo por vós: “Estais velho, senhor, a natu-
reza em vós já chegou aos seus limites”.
Passam-se três falas de Regan, e esta volta a tratar Lear por
tu, para em seguida retornar a vós. Lear, por sua vez, responde
a esse tratamento empregando você: “E você sabe o que está di-
zendo, Regan?”.
Mais uma vez Regan alterna o tratamento, recorrendo agora a o
senhor, conjugado na terceira pessoa do singular, ao lado de prono-
mes de segunda pessoa: “Por que não, meu senhor? Se algum deles
falhasse em teu serviço, então nós poderíamos controlá-lo. [...]”
Por fim, no final da peça, na última fala, Lear troca o tratamen-
to de segunda pessoa que vinha mantendo com Cordelia e a chama
por você: “Você precisa ter paciência comigo, Cordelia”.
O último aspecto importante a ser observado com relação ao
texto são as interpolações, que ocorrem por duas vezes: na fala
de abertura, por um personagem indefinido, e novamente bem no
final da peça, no que é a penúltima fala de Cordelia, como será
apresentado a seguir.
O espetáculo começa no escuro, aos poucos, ouvimos ao longe
o soar de tambores, mas que cessam quando a luz aumenta e pode-
mos divisar o ator. Juca de Oliveira está sentado em uma cadeira
de madeira. Um foco de luz incide sobre o ator. Em voz baixa e
solene, ele recita um trecho que não pertence a Rei Lear mas a
Hamlet: trata-se do famoso conselho dado pelo príncipe à trupe de
atores que visita o castelo de Elsinore e encenará a peça destinada a
provocar uma possível confissão de culpa por parte do rei Claudio
(Ato III, cena 2).

PERSONAGEM INDEFINIDO
Peço que fales estas falas, como eu te ensinei: com leveza
na língua. Mas se berrares as palavras como tantos atores
fazem, eu vou gostar tanto como se ouvisse um arauto lendo
minhas frases. E não fiques cortando o ar demais com as
mãos. Faz tudo com delicadeza, porque mesmo no meio da
torrente, da tempestade, eu diria que no turbilhão da tua

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 159-182, set-dez, 2018 175


Liana de Camargo Leão & Marcia Amaral Peixoto Martins

paixão, é necessário que concebas e te aposses da modera-


ção, que possa dar a ela suavidade. Como me agride a alma
ver esses trogloditas de peruca rasgando uma emoção em
farrapos, perfurando o tímpano dos infelizes da plateia. Eu
queria ver esse sujeito açoitado. Ele é pior que Herodes.
Por favor, evita isso.

O trecho, deslocado de Hamlet e interpolado por iniciativa do


diretor Elias Andreato (CARNEIRO, 2018a), não contribui direta-
mente para contar a história de Lear. Bastante conhecida nas esco-
las de teatro brasileiras, a passagem trata da arte do ator e de como
este deve enunciar as falas, sem gestos excessivos ou sem exageros
na interpretação. A passagem funciona, por assim dizer, como uma
porta de entrada para um teatro simples, essencial, sem artifícios
e que se sustenta na enunciação do texto e na arte do ator. Juca de
Oliveira se vale de toda a sua habilidade como ator para que, de
modo sutil e sem recorrer a caricaturas, possa interpretar diversos
personagens da trama.
Após o conselho aos atores, proferido por uma voz indetermi-
nada, Lear-narrador se apresenta e, em seguida, cede lugar a Lear-
-personagem. Incorporando Lear no momento em que este abre
mão do trono, Juca de Oliveira enuncia a primeira fala do velho rei
na peça original, expressando o propósito de dividir o reino entre
as filhas:

LEAR-NARRADOR
Meu nome é Lear, rei Lear. Minha história começa com um
gesto de grandeza. Reuni minha corte, minhas três filhas,
duas delas já casadas, e proclamei:

LEAR-PERSONAGEM
Saibam que dividi o meu reino em três, e tenho a intenção
de afastar de minha idade avançada todos os encargos e
negócios, entregando-os a forças mais jovens, enquanto eu
– sem esse fardo – caminharei em direção à morte.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 159-182, set-dez, 2018 176


Uma reescrita brasileira de Rei Lear: de tragédia apocalíptica a drama familiar

Na primeira fala transcrita acima, o adaptador Geraldo Car-


neiro vai além da apresentação da personagem (“Meu nome é
Lear”) e adentra o terreno do comentário crítico. Lear qualifica a
divisão do reino como sendo “um gesto de grandeza”, interpreta-
ção que não constitui ponto pacífico entre os críticos e comenta-
dores. Ao contrário do que o texto da adaptação diz, a divisão do
reino pode ser interpretada como um gesto de egoísmo de Lear,
em que ele procura afirmar sua ascendência sobre as filhas no
momento em que abdica do trono, fazendo-as proclamarem publi-
camente o amor pelo pai; mais ainda, Lear não compreende que,
ao passar o mando do reino às suas filhas e ao mesmo tempo reter
um séquito de cem cavaleiros, ele está dissociando os direitos de
um soberano dos seus deveres.
Já no final da peça conforme recriada por Carneiro ocorre uma
segunda interpolação: quando o pai se reencontra com Cordelia, o
texto incorpora algumas linhas, reproduzidas anteriormente neste
trabalho, do soneto 116, um dos 154 escritos por Shakespeare.
Apenas uma plateia que conheça bem a produção lírica shakespe-
ariana é capaz de reconhecer a citação. Tematicamente, o poema
trata do amor, e esta é uma cena em que Lear reconhece que sua
filha mais jovem é a única que o ama verdadeiramente, enquanto as
mais velhas apenas professavam amor falso, sob o qual se escondia
o interesse financeiro. Do mesmo modo, Lear reconhece que ele
também ama a filha verdadeiramente, uma vez que recobra a razão
de viver graças a esse reencontro.

Cenário, figurino e recursos sonoros

O único ator em cena, Juca de Oliveira, que dá vida ao Lear


narrador e demais personagens, se veste de preto, em roupas con-
fortáveis: camiseta, calça larga, casaco e tênis, sem trocas de roupa
no decorrer do espetáculo. O figurino neutro e contemporâneo de
Fabio Namatame facilita a incorporação e o deslizamento entre
os vários personagens, bem como entre estes e o narrador, sem

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 159-182, set-dez, 2018 177


Liana de Camargo Leão & Marcia Amaral Peixoto Martins

os entraves de vestimentas ou adereços específicos que costumam


auxiliar na caracterização dos atores de acordo com seus papéis.

Fotografia 1 – Juca de Oliveira no palco.

Fonte: Fotografia de Francisco Cepeda (ABILIO, 2014).

O cenário, também concebido por Namatame, é minimalista,


sem objetos cênicos, salvo uma cadeira no centro do palco. Nesse
sentido, a encenação do diretor Elias Andreato revisita as condi-
ções cênicas do teatro elisabetano, de recursos limitados, onde o
poder da palavra e a arte dos atores contavam a história, necessi-
tando da imaginação da plateia para completar a ação.
O jogo de luzes sublinha a intensidade das cenas e, junto com
a sonoplastia, vai criando os diferentes climas e situações da peça.
Em termos de recursos sonoros, no teatro elisabetano predomina-
va o uso da música e das canções. Na montagem de Andreato, os
recursos sonoros empregados são incidentais e precedem as cenas-
-chave, assumindo diferentes funções: criação da atmosfera emo-
cional para as cenas, introdução dos temas, acompanhamento da
ação e espelhamento do estado emocional do protagonista.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 159-182, set-dez, 2018 178


Uma reescrita brasileira de Rei Lear: de tragédia apocalíptica a drama familiar

Considerações finais

Comparada à Nona Sinfonia de Beethoven e à Capela Sistina,


Rei Lear é considerada por muitos críticos como a maior tragédia da
língua inglesa e a obra-prima de Shakespeare, tendo merecido co-
mentários críticos e poemas de figuras da magnitude de John Keats
(1795-1821), Percy Bysshe Shelley (1792-1822) e Samuel Taylor
Coleridge (1772-1834). Enquanto Keats celebra a peça como “a
disputa feroz entre tormentos infernais e barro tornado carne” (ci-
tado em BATE, 1992, p. 198), para Shelley ela é “o exemplo mais
perfeito da arte dramática existente no mundo” (Shelley, 1977,
p. 489), e na visão de Coleridge, “um furacão e um redemoinho,
que absorvem tudo enquanto avançam” (citado em BATE, 1992,
p. 385). A peça é tão admirada por escritores que Charles Lamb
(1775-1834) considerou a personagem e a obra grandes demais
para o palco, servindo melhor à leitura individual que à encenação:

A grandeza de Lear não está em sua dimensão corporal,


mas na intelectual. [...] No palco, não vemos senão as
fraquezas e enfermidades corporais [...]; quando lemos a
peça, não vemos Lear, mas somos Lear – estamos em sua
mente, somos sustentados por uma grandeza que descon-
certa a maldade das filhas e da tempestade; nas aberrações
de sua razão, descobrimos um poder intenso e irregular de
raciocínio”. (BATE, 1992, p. 123)

A simples tentativa de listar seus temas principais confirma a


grandeza da peça: poder, política, autoridade e justiça; reconcilia-
ção, religiosidade e renascimento; a relação entre governantes e
governados, pais e filhos, patrões e empregados; as oposições entre
riqueza e pobreza, loucura e sanidade, visão e cegueira, entre mui-
tos outros. É preciso acrescentar que esses temas se confundem, se
entrelaçam e se sobrepõem, criando sua série de motivos e imagens
que formam o tecido poético da peça. Em poucas palavras, o dra-

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 159-182, set-dez, 2018 179


Liana de Camargo Leão & Marcia Amaral Peixoto Martins

maturgo nos oferece um retrato devastador do sofrimento humano:


velhice, exílio, tortura, guerra, suicídio, caos; o desmantelamento
da mente individual, da família e do Estado. Nas palavras de Ha-
rold Goddard (1951, p. 171), a peça, que “pode ser vista de quase
tantos ângulos como a própria vida”, é “o documento mais som-
brio na poesia suprema do mundo”.
Para os espectadores que não conhecem o original de Shakes-
peare, a história de Lear como apresentada na recriação de Geral-
do Carneiro finda com o reencontro entre pai e filha: Lear pede
perdão a Cordelia e se reconcilia com ela. Nesse sentido, pode-se
dizer que esta recriação abre mão do conteúdo trágico – uma vez
que o protagonista não enlouquece (como narrador, Lear mantém
até o fim o controle da narrativa), nem morre – para se tornar uma
bela história de reencontro e perdão.

Ficha Técnica:
Texto: William Shakespeare
Tradução e Adaptação: Geraldo Carneiro
Elenco: Juca de Oliveira
Direção: Elias Andreato
Assistente de Direção: André Acioli
Figurino e Cenário: Fabio Namatame
Iluminação: Wagner Freire
Preparação Corporal: Melissa Vettore
Trilha Sonora: Daniel Maia
Fotografia: João Caldas
Logo: Elifas Andreato
Programação Visual: Vicka Suarez
Assessoria de Imprensa: Morente Forte
Gestão de Patrocínios: AT Cultural
Administração / Lei Rouanet: Sodila Projetos Culturais
Direção de Produção: Keila Mégda Blascke

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 159-182, set-dez, 2018 180


Uma reescrita brasileira de Rei Lear: de tragédia apocalíptica a drama familiar

Referências

ABILIO, Felipe. Aos 79 anos, Juca de Oliveira estreia monólogo e emociona o


público. iG Gente, São Paulo, 18 jul. 2014. Foto de Francisco Cepeda/AgNews SP.
Disponível em: < http://gente.ig.com.br/2014-07-18/aos-79-anos-juca-de-oliveira-
estreia-monologo -e-emociona-o-publico.html >. Acesso em: 25 mar. 2018.

ACKROYD, Peter. Shakespeare: The Biography. New York: Vintage, 2006.

BATE, Jonathan. The Romantics on Shakespeare. Londres: Penguin, 1992.

BRASIL, Ubiratan. Juca de Oliveira vive seis personagens de Rei Lear. O Estado
de S. Paulo, São Paulo, 15 jul. 2014. Disponível em: < http://cultura.estadao.
com.br/noticias/teatro-danca,juca-de-oliveira-vive-seis-personagens-de-rei-
lear,1528633 >. Acesso em: 15 fev 2018.

CARNEIRO, Geraldo. Consulta sobre o Lear com Juca de Oliveira [mensagem


pessoal]. Mensagem recebida por <marcia.martins31@gmail.com> em 12 mar.
2018a.

______. Consulta sobre o Lear com Juca de Oliveira [mensagem pessoal].


Mensagem recebida por <marcia.martins31@gmail.com> em 13 mar. 2018b.

CAVELL, Stanley. Disowning Knowledge: In: ______. Seven Plays of


Shakespeare. Cambridge: Cambridge University Press, 1987.

GODDARD, Harold. The Meaning of Shakespeare. v. 2. Chicago: University of


Chicago Press, 1951.

HEILMAN, Robert B. This Great Stage: Image and Structure in King Lear. Baton
Rouge: Louisiana State University Press, 1948.

HELIODORA, Barbara. Introdução (a Rei Lear). In: SHAKESPEARE, William.


Teatro Completo – Tragédias e Comédias Sombrias. v. 1. São Paulo: Nova Aguilar,
2016. p. 756-757.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 159-182, set-dez, 2018 181


Liana de Camargo Leão & Marcia Amaral Peixoto Martins

MELLONE, Maurício. Juca de Oliveira brilha como único intérprete da tragédia


Rei Lear. Favo do Mellone, São Paulo, 4 ago. 2014. Disponível em: < http://
favodomellone.com. br/juca-de-oliveira-brilha-como-unico-interprete-da-tragedia
-rei-lear/ >. Acesso em: 15 fev. 2018.

REI LEAR. Direção: Elias Andreato, Direção de Produção: Karen Megda Blascke.
Intérprete: Juca de Oliveira. Curitiba, Paraná. 57’37”. 2014, vídeo. Disponível
em: https://www.youtube.com/watch?v=E-egjTf_U6Y. Acesso em: 05 fev. 2018.

RIBNER, Irving. Patterns in Shakespearian Tragedy. New York: Barnes &


Noble, 1960.

SÁ, Nelson de. Juca de Oliveira guia o público pelo drama de um pai em Rei Lear.
Folha de S. Paulo, São Paulo, Ilustrada, 17 set. 2014. Disponível em: < http://
www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2014/09/1516812-critica-juca-de-oliveira-guia-
o-publico-pelo-drama-de-um-pai-em-rei-lear.shtml >. Acesso em: 15 fev 2018.

SHAKESPEARE, William. King Lear. The Arden Shakespeare. Editado por


Kenneth Muir. Cambridge: Harvard University Press, 1959.

SHAKESPEARE, William. The Poems. Editado por David Bevington. Toronto;


New York: Bantam Books, 1980.

SHAKESPEARE, William. The Complete Works. Editado por Stanley Wellse


Gary Taylor. Oxford: Clarendon Press, 1988. (Compact Edition)

SHELLEY, Percy Bysshe. A Defense of Poetry. In: POWERS, Sharon; REINAM,


Donald (Eds.). Poetry and Prose. New York: Norton, 1977.

TREWIN, J. C. The Pocket Companion to Shakespeare’s Plays. ed. ver. Londres:


Mitchell Beazley, 1994.
Recebido em: 28/03/2018
Aceito em: 27/07/2018
Publicado em setembro de 2018
Liana de Camargo Leão. E-mail: lianaleao@me.com
ORCID: https://orcid.org/0000-0003-2269-0287
Marcia Amaral Peixoto Martins. E-mail: martins@domain.com.br
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-8663-1748

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 159-182, set-dez, 2018 182


http://dx.doi.org/10.5007/2175-7968.2018v38n3p183

UMA APLICAÇÃO DA TEORIA DO GATO DE


SHRÖDINGER PARA ENTENDER O APOCALÍPTICO E
CONTEMPORÂNEO FINNEGANS WAKE?

Janice Inês Nodari1


1
Universidade Federal do Paraná, Curitiba, Paraná, Brasil

E quanto mais a compreensão se complica, tanto mais a mensa-


gem originária (...) em vez de gasta, parece renovada, pronta para
“leituras” mais aprofundadas. (ECO, 2010)

Resumo: O texto a seguir propõe uma aplicação da Teoria do Gato de


Shrödinger, da mecânica quântica, na compreensão e tradução de um
trecho da obra Finnegans Wake de James Joyce. Para que este exercício
pudesse ser feito, encontramos respaldo na noção de obra aberta (ECO,
2010) e na compreensão de que a referida obra de Joyce é um texto
contemporâneo (AGAMBEN, 2009), resultado possível da errância
(OLIVIERI-GODET, 2010) do autor.
Palavras-chave: Finnegans Wake; A Obra Aberta; Obra contemporânea;
errância; Teoria do Gato de Shrödinger.

AN APPLICATION OF THE SHRÖDINGER’S CAT


THEORY TO UNDERSTAND THE APOCALIPTIC AND
CONTEMPORARY FINNEGANS WAKE?

Abstract: The text that follows proposes an application of the Shrödinger’s


Cat Theory from quantum mechanics in the understanding and translation
of a given excerpt of Finnegans Wake by James Joyce. In order to carry
out such exercise, we found support in the notion of open work (ECO,
2010), and in the understanding that the aforementioned book is a con-
temporary text (AGAMBEN, 2009) possibly resulting from the author’s
wander (OLIVIERI-GODET, 2010).
Keywords: Finnegans Wake; The Open Work; Contemporary work;
Wander; Shrödinger’s Cat Theory.

Esta obra utiliza uma licença Creative Commons CC BY:


https://creativecommons.org/lice
Janice Inês Nodari

Introdução

Finnegans Wake tem tirado o sono dos interessados na obra


de Joyce e atropelado teorias das mais variadas que apresentam
uma compreensão possível de sua mensagem, ou mensagens. A
gramática interna, lembrando a estrutura da língua inglesa na maio-
ria dos casos e sendo ‘invadida’ por outros 86 idiomas12, merece
ainda estudos futuros. Ademais, muitas ‘lacunas’ de compreensão
não podem ser preenchidas pelo fato de haver uma estrutura muito
peculiar na redação das frases, que mesmo assim comunicam sen-
tidos, e parecem seguir uma cronologia e uma progressão, ainda
que mais se assemelhem a alguém tentando contar um sonho logo
depois de acordar: só fazem sentido para quem sonhou, quer dizer,
para quem escreveu Wake. Tal intriga parece ser o que tem ins-
tigado alguns estudiosos a analisar a obra, tentando adentrar esse
locus desconhecido, e muitos outros mais a simplesmente abando-
nar a empreitada depois de várias (ou poucas) tentativas frustradas.
Como se a obra fosse hermeticamente fechada. Ou pior, desafia-
doramente aberta.
Por concordar com a segunda proposição, lerei um trecho de
Finnegans Wake primordialmente à luz da noção de obra aberta
proposta por Umberto Eco (2010). Faço isso por concordar que tal
noção e tal obra são frutos da noção de contemporâneo (AGAM-
BEN, 2009), e por considerar que o autor e a referida obra apre-
sentam traços de errância (OLIVIERI-GODET, 2010), uma vez
que James Joyce residiu em vários países durante sua vida (apesar
de colocar a cidade natal, Dublin, na Irlanda, como cenário de seus
romances). Ainda, e considerando que a obra de Joyce é represen-
tativa do modernismo e pode ser lida como um sonho (ou pesade-
lo), mostrarei como um dado episódio, logo no primeiro capítulo
1
Segundo GALINDO (2010, p. 42). O fato de haver múltiplas línguas presentes
na obra mostra que há múltiplos pontos de referência, mesmo identitária. Para
mais informações, veja também: www.fweet.org.
2
Reconheço que outros autores apontaram 65 idiomas (cf AMARANTE, 2002),
mas levo em consideração o esforço de SLEPON (2009) e seu www.fweet.org.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 183-204, set-dez, 2018 184


Uma aplicação da Teoria do Gato de Shrödinger para entender...

e que apresenta um conflito bélico, ilustra o momento histórico


vivido pelo autor - entre as duas grandes guerras do século XX,
num sentido mais internacional - ao propor uma compreensão em
língua portuguesa de como lê-lo.
Todas estas escolhas, bem como as escolhas tradutórias, ilus-
trarão, de forma mais abrangente, uma das possíveis aplicações da
teoria do gato de Shrödinger3, por entender que algo central na lei-
tura de Finnegans Wake como um todo, e em especial em relação
ao trecho lido, é o princípio da incerteza, postulado da mecânica
quântica proposto pelo físico Werner Heisenberg no final da déca-
da de 1927, e no qual o experimento da teoria do gato de Shrödin-
ger se baseia. Entendo que este conceito da física (que impõe res-
trições à acuidade com que podemos efetuar medidas simultâneas
de uma classe de pares observáveis em nível subatômico) ajudaria a
explicar porque mesmo os trechos que mais se assemelham à língua
inglesa na obra de Joyce não podem ser lidos com ‘certeza’ naquela
língua. A sombra da incerteza é tangível para qualquer leitor, ou
estudioso que se atreva a propor traduções da obra ou de excertos
dela. (AMARANTE, 2002)
Ora, é possível argumentar, e adequadamente, que tal teoria da
física quântica não foi proposta para explicar fenômenos da lingua-
gem, apenas “classes de pares observáveis em nível subatômico”.
A teoria, porém, invade a análise se e quando tecemos hipóteses
sobre o que a linguagem comunica, e sobre as intenções do co-
municador, com base no conhecimento do interlocutor, ou leitor.
E, por fim, se não mostrar que a aplicação prática é possível, tal
exercício será no mínimo curioso e mostrará que Finnegans Wake
ainda está por ser entendido; uma obra aberta de várias formas!

3
Esta teoria foi desenvolvida pelo físico austríaco Erwin Shrödinger em 1935, ou
seja, poucos anos antes da publicação de Finnegans Wake (1939, em Londres e em
Nova York). Pressuponho que James Joyce teve conhecimento da teoria e a aplicou
na tessitura de sua obra.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 183-204, set-dez, 2018 185


Janice Inês Nodari

1. O Princípio da Incerteza

O Princípio da Incerteza de (Werner) Heisenberg parte de uma


possibilidade de ‘certeza’. Poucas são as certezas levantadas sobre
Finnegans Wake. E por entender que o exercício realizado por outros
antes de mim deve ser valorizado, vou me apoiar em Anthony Bur-
gess (2008) para apresentar um possível e sucinto resumo do enredo.
De acordo com o autor,

Em Finnegans Wake, Joyce tentou mostrar toda a história


humana como um sonho na mente de um zelador de Dublin
chamado H. C. Earwicker, e aqui o estilo – com o qual
Joyce, que ficara cego, despendeu um enorme trabalho – é
adequado ao sonho, a linguagem se desloca e muda, as pala-
vras se aglutinam, sugerindo a mistura de imagens no sonho
e fazendo com que Joyce seja capaz de apresentar a história
e o mito em uma só imagem, com todos os personagens da
história se transformando em alguns tipos eternos, que afi-
nal são identificados por Earwicker como ele próprio, sua
mulher e três filhos. (BURGESS, 2008, p. 256)

O enredo da obra em questão é ‘recheado’ de episódios não


apenas individuais, mas que podem ser relacionados com a história
da humanidade4, desde os primórdios da criação do universo. Essa
mesma história5 foi ‘recheada’ também por conflitos bélicos de
toda ordem. E é um desses conflitos que será analisado e para o
qual irei propor uma tradução na sequência.
Colocando de forma bem concisa e leiga, no princípio da
incerteza temos operadores observáveis (que no caso de Wake
4
Há que se enfatizar, também, o caráter histórica e socialmente engajado da obra
de Joyce (BOOKER, 1995).
5
Entendo que há diferentes “histórias” e “estórias”, por concordar que há dife-
rentes pontos de vista e por acreditar que a história oficial é contada do ponto de
vista do vitorioso. Essa é a história “oficial” e é com base nela que podemos ler
Finnegans Wake, até porque esta é mais acessível ao grande público, mesmo que
a referida obra não o seja.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 183-204, set-dez, 2018 186


Uma aplicação da Teoria do Gato de Shrödinger para entender...

considero serem as palavras - ou sintagmas) de posição e de mo-


mento. Os diferentes operadores observáveis/palavras dependem
de sua posição em uma dada frase para serem compreendidos,
e dependem do momento (histórico) vivido pelo leitor e de sua
bagagem de conhecimento (de mundo) para serem compreendi-
dos. Ou seja, variando-se a posição de dada palavra, com inter-
ferências da ordem de outras línguas ou de mudanças na grafia
dita oficial em inglês e variando-se o leitor, teremos a incerteza
do significado. Algo como uma mistura de processos top-down e
bottom-up de leitura.6
Não é possível saber o que Joyce queria escrever (ou dizer?),
mas é possível levantar alternativas de leitura que parecem funcio-
nar principalmente do ponto de vista do leitor e de acordo com o
seu conhecimento prévio (de língua(s) (?), de mundo...). Ou seja,
de acordo com o leitor (observador) é possível dizer se o gato está
morto ou vivo. No caso de Finnegans Wake, o leitor pode construir
uma leitura ‘assim assado’ de determinado fragmento. Qualquer
leitura de se o gato está morto ou vivo, porém, depende de a caixa
ser aberta ou fechada (para reflexão), ou melhor, de como Finne-
gans Wake é lido, entendendo que o gato (morto/vivo) é a leitura
do romance, e tomando Joyce como um Shrödinger que conduziu
o experimento; e os leitores, os observadores.

2. O gato de Shrödinger e Finnegans Wake

Descrita usualmente como uma experiência mental, a teoria do


gato de Shrödinger é um experimento que procura mostrar a apli-

6
De acordo com Christine Nuttall (1996), no processo top-down, o leitor faz
previsões sobre o que está lendo (com base em seu conhecimento prévio da língua,
de mundo), enquanto que no bottom-up, o leitor verifica tais previsões. Uma
combinação dos dois é chamada de leitura interativa, e seria uma abordagem bem-
sucedida de leitura. No caso de Finnegans Wake, parece que essa leitura interativa
não é suficiente...

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 183-204, set-dez, 2018 187


Janice Inês Nodari

cação de noções da mecânica quântica, mais especificamente do


princípio da incerteza, em objetos do dia-a-dia. No referido expe-
rimento, há um gato trancado dentro de uma caixa não transparente
juntamente com um frasco de veneno, um contador Geiger, e um
martelo. O contador Geiger será ativado ou não. Se for ativado,
este pode acionar um martelo que pode quebrar o frasco de veneno
que pode matar o gato. Se não for ativado, nada acontece com o
gato. Do ponto de vista do observador, sem que a caixa seja aber-
ta, não é possível afirmar se o gato7 está vivo ou morto, pois não
sabemos se o contador foi acionado ou não, condição que levaria
à conclusão de que está morto e vivo simultaneamente.8 Sabemos
somente que ele está vivo ou morto quando abrimos a caixa para
verificar, o que, para uma quantidade infinita de verificações, nos
leva estatisticamente a aceitar que o gato vive em 50% das vezes e
morre nas outras 50% das vezes.
A experiência de abrir a caixa e observar o gato é similar à
experiência de abrir e ler Finnegans Wake. Para o leitor que leu
uma vez a obra, o gato poderia estar na caixa vivo – ou o narrador
estaria tendo um sonho. Para outro leitor, o gato estaria morto – ou
o narrador (assumindo que há um! E apenas um!) estaria contando
o seu sonho (em fragmentos e de forma estrebuchada, pouco lem-
brando um gato, ou um sonho). Quando se abre a caixa infinitas ve-
zes – ou se lê o livro infinitas vezes – não é possível dizer se o gato
está morto ou vivo – ou se o narrador está sonhando ou acordado.
Diz-se que nesse caso o gato está vivo e morto simultaneamente,
e por similaridade, o narrador está acordado e dormindo, simulta-
neamente. A leitura fica imprecisa, mas paradoxalmente, algumas

7
Shrödinger relacionou o átomo ao gato. Eu relacionei a teoria à forma de ler um
trecho específico de Wake (a teoria poderia ser usada para entender fragmentos
mais longos).
8
Uma explicação um pouco mais longa e aplicada da teoria pode ser encontrada
em: https://www.youtube.com/watch?v=UjaAxUO6-Uw, enquanto que outra,
mais simples, e adicionando pólvora ao experimento (sugestão de Einstein, o que
tornou o experimento mais conhecido do grande público...) pode ser encontrada
em: https://www.youtube.com/watch?v=ndZl7L_ciAQ Acessos em 01/06/2016.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 183-204, set-dez, 2018 188


Uma aplicação da Teoria do Gato de Shrödinger para entender...

‘certezas’ começam a se formar, muito em função da repetição do


número de leituras feitas (da abertura da caixa). Essa imprecisão
interfere na compreensão do que está escrito. Qual é a relevância
disso para uma leitura de Finnegans Wake? Toda. Ou nenhuma.
Ou as duas. Depende do leitor. E é esta a grande contribuição de
Finnegans Wake: deixar para o leitor decidir, dando-lhe uma auto-
ridade que outro escritor não se atreveu a dar ao leitor antes!

3. Finnegans Wake É obra aberta

A possibilidade de ler Finnegans Wake dessa forma encontra


apoio principalmente em Obra Aberta (2010) de Umberto Eco. O
termo “obra aberta” parece ser o mais adequado para interpretar
as necessidades de expressão e comunicação da arte contemporâ-
nea9, terminação que abarca de certo modo, o referido livro. Wake
pode muito bem representar esse gênero, uma vez que ‘habita’
o campo dos prováveis, é “obra indefinida e plurívoca10, aberta”
(ECO, 2010, p. 12). É perfeita dialética “entre “forma” e “aber-
tura”” (ECO, 2010, p. 23, grifos no original), onde pode “lograr
o máximo de ambiguidade e depender da intervenção ativa do con-
sumidor, sem contudo deixar de ser “obra”. (ECO, 2010, p. 23) A
intervenção do consumidor/leitor, no entanto, não se dá na escrita
da obra, mas em sua leitura e compreensão. Ora, devem alguns
achar, toda e qualquer obra é assim. Mas não Finnegans Wake,
uma vez que, sendo escrita em tantos idiomas, e não apresentando,
pois, caminhos singulares, mas múltiplos, a leitura se complica. E
se singulariza para cada leitor, como se para que ela acontecesse,
cada leitor precisasse utilizar seu repertório de leituras anteriores,
que se mostra falho e pequeno, e se beneficiasse de leituras com-

9
Uma possível definição para o termo ‘contemporâneo’, para fins didáticos, será
oferecida mais adiante.
10
As noções de dialogismo e polifonia de Bakhtin cabem para expandir essa com-
preensão de obra aberta, mas não serão referenciadas por restrições de espaço.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 183-204, set-dez, 2018 189


Janice Inês Nodari

partilhadas do romance, como aquelas que podem acontecer em um


grupo de estudos.
Retrato dos tempos (ainda inacabados), ou, como coloca Eco,

[p]oder-se-ia perfeitamente pensar que esta fuga da necessi-


dade segura e sólida e esta tendência ao ambíguo e ao inde-
terminado refletem uma condição de crise do nosso tempo;
ou então, ao contrário, que estas poéticas, em harmonia com
a ciência de hoje, exprimem as possibilidades positivas de
um homem aberto a uma renovação contínua de seus esque-
mas de vida e saber11, produtivamente empenhado num pro-
gresso de suas faculdades e de seus horizontes. (2010, p. 60)

Considero, ainda, que Finnegans Wake é uma obra em mo-


vimento, concordando com a explicação dada por Eco de que o
autor desta “não sabe exatamente de que maneira a obra poderá ser
levada a termo” (2010, p. 62), não considerando aqui a escrita ou
feitura da obra, mas as possibilidades de leitura desta que variam
de momento a momento. Apesar disto, ela será

sempre e apesar de tudo, a sua obra, não outra, e que ao


terminar o diálogo interpretativo ter-se-á concretizado uma
forma que é a sua forma, ainda que organizada por outra
de um modo que não pode prever completamente: pois ele,
substancialmente, havia proposto algumas possibilidades já
racionalmente organizadas, orientadas e dotadas de exigên-
cias orgânicas de desenvolvimento. (ECO, 2010, p. 62)

Umberto Eco afirma que “o modo pelo qual as formas de arte


se estruturam reflete (...) o modo pelo qual a ciência ou, seja como

11
Basta considerar quantas vezes James Joyce mudou de país com sua família
(ELLMANN, 1983).

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 183-204, set-dez, 2018 190


Uma aplicação da Teoria do Gato de Shrödinger para entender...

for, a cultura da época veem a realidade” (2010, p. 55). Ao con-


cordar com essa premissa, entendo que o momento histórico vivido
pelo autor estabeleceu o cenário de produção de uma obra que lem-
bra um sonho e que representa, ainda que de forma imprecisa, a re-
alidade entre duas guerras mundiais, um momento de ‘errância.’12
Um aspecto da vida de Joyce em particular permite uma leitu-
ra algo soturna do livro em questão. Joyce viveu quase que ‘es-
premido’ entre duas Guerras Mundiais. A escrita de Finnegans
Wake - com todos os seus enigmas, e inexatidões - não parece
coincidência! Como detentor de um conhecimento enciclopédi-
co sobre vários assuntos e uma mente brilhante e inquieta, sua
obra não deve ter deixado passar em branco acontecimentos com
consequências tão nefastas, e tão mal resolvidos. Como ‘er-
rante’ que era em diferentes países, Joyce pode acompanhar as
diferentes posturas perante a primeira guerra mundial, e mesmo
perceber o início da segunda. E, entendendo que Joyce era um
expatriado, me apoio no conceito de errância, conforme propos-
to no Dicionário das mobilidades culturais (2010) organizado
por Zilá Bernd para perceber, ainda que de forma superficial, o
contexto de produção da obra e a posição de Joyce como escri-
tor. Considero Finnegans Wake um exemplo de descontinuida-
de, na definição mais abrangente do termo. Como se a errância
pudesse ser condição para a produção de uma obra ‘errante’ na
transmissão de significados.
De acordo com Rita Olivieri-Godet (2010), as figuras da er-
rância, ou migrância, “exploram diferentes aspectos, mas têm em
comum a ideia de deslocamento físico ou mental, voluntário ou
involuntário.” (p. 189) Este aspecto é caro a Wake como um todo,
bem como ao seu autor. Ainda, não é possível saber se a errância
é positiva ou negativa, cabendo a cada um a sua leitura. Ou seja,
intrínseco ao conceito encontra-se a ambiguidade de seu valor. O
conceito de errância está atrelado ao de deslocamento, de mobili-
dades transculturais. Uma possível justificativa para situações de

12
Várias leituras entendem que Finnegans Wake apresenta a história da humanidade.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 183-204, set-dez, 2018 191


Janice Inês Nodari

heterolinguismo presentes tanto na obra de Joyce, e mais especifi-


camente em Finnegans Wake.

Ainda de acordo com a autora, e se referindo a um es-


tudo realizado por um pesquisador francês, a migrância [ou
errância] não diz respeito apenas à travessia física de ter-
ritórios. A esta dimensão exterior da migrância como deslo-
camento físico, sobrepõe-se a dimensão interior, ontológica
e simbólica (...). (OLIVIERI-GODET, 2010, p. 192)

Um dos pontos positivos da errância seria a consciência da plu-


ralidade cultural que os errantes – ou exilados - são levados a ad-
quirir.13 O escritor errante não tem necessariamente que escolher
entre o país que o acolheu e o país que deixou (OLIVIERI-GODET,
2010, passim). Mesmo assim, não é possível apenas romantizar a
errância, e uma experiência e perdas desagradáveis podem ser in-
fligidas. Seria essa uma explicação para Finnegans Wake ter sido
escrito na língua que foi, ou seja, nenhuma unicamente? Seria o
retrato das perdas, inclusive linguísticas, que seu autor sofreu? Ou
seria o retrato das perdas que as línguas e culturas sofrem em con-
tato umas com as outras, porque estão ‘errantes’? Esta é uma com-
preensão possível, ainda que parcial, mesmo porque Joyce levou
17 anos para terminar a obra (iniciada em 1923, quando a Guerra
Civil Irlandesa acaba, e publicada em 1939, quando a Alemanha
invade a Polônia), e após haver residido em vários países antes
disso. No entanto, precisamos entender que se James Joyce não
precisou necessariamente fugir de onde se encontrava no início do
século XX por conta de conflitos bélicos, este é o principal motivo
para os deslocamentos migratórios deste início de século XXI. Os
atuais migrantes, exilados e errantes, são expatriados angustiados,

13
Poderia ser esta uma outra compreensão para os possíveis diálogos que Joyce
estabeleceu em sua obra com alguns de seus predecessores (BOOKER, 1995)?
Sem apontar uma única influência, ele entabula conversa com vários.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 183-204, set-dez, 2018 192


Uma aplicação da Teoria do Gato de Shrödinger para entender...

titubeantes na comunicação, por vezes, e por demais, atingidos em


sua identidade e subjetividade.14
Outra compreensão possível é a de que somos todos migrantes, e
a referida obra seria representação de nossa condição nesse mundo.
Tantos foram os conflitos e invasões, e tantas foram as “misturas”
entre povos, que fica difícil “rastrear” a ascendência de um indiví-
duo e chegar à conclusão de que ele não sofreu “alterações”. Somos
sujeitos culturais híbridos (OLIVIERI-GODET, 2010). Em outra
instância, podemos entender a errância em Finnegans Wake como
metáfora para a escrita literária de Joyce. Cabe a cada leitor ler e
estabelecer um território do possível para compreender o que está es-
crito. E as possibilidades só são viáveis porque Wake é obra aberta.

4. Lendo um dos trechos de Finnegans Wake

O trecho a ser lido e traduzido se encontra à página 04, no pri-


meiro capítulo. Proponho uma leitura deste com implicações per-
turbadoras sinalizando para o momento de incertezas pós-Primeira
Guerra Mundial e que pode explicar o acontecimento da Segunda,
uma vez que a obra é produção artística de uma época de incerte-
zas e experimentações. Uma outra possível leitura da obra, de sua
escrita e das diferentes interpretações que suscita como um todo,
pode colocá-la como representação do apocalipse15, entendendo que
como tal “a linguagem linear da narrativa necessariamente colap-
sa.” (BARROS, 2004, p. 132, tradução minha)16 17 Como resultado
14
Mais informações acerca do tema em SAID, Edward. Reflexões sobre o exílio e
outros ensaios. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.
15
A autora faz referência a estudos de Jacques Derrida (1982), Julia Kristeva
(1989) e Linda Hutcheon (1988) que se debruçam com mais detalhes sobre as
narrativas apocalípticas, em contexto pós-moderno.
16
No original: “The linear language of narrative necessarily collapses.” (BAR-
ROS, 2004, p. 132)
17
Reconheço que a informação fornecida sobre narrativas pós-apocalípticas ori-
ginalmente considerava outras produções (as road narratives de autoras norte-
-americanas, para ser mais exata).

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 183-204, set-dez, 2018 193


Janice Inês Nodari

disso, a literatura precisa se expressar em um novo dialeto, com


palavras e tons fraturados, com a perda da certeza sendo acompa-
nhada da perda de origens, destinos, significados e verdades (BAR-
ROS, 2004, passim), precisamente o caso de Wake e que pode ser
ilustrado no trecho e em sua tradução a seguir.
O trecho é:

What clashes here of will gen wonts, oystrygods gaggin


fishygods! Brékkek Kékkek Kékkek Kékkek! Kóax Kóax
Kóax! Ualu Ualu Ualu! Quaouauh! Where the Baddelaires
partisans are still out to mathmaster Malachus Micgranes
and the Verdons catapelting the camibalistics out of the
Whoyteboyce of Hoodie Head. Assiegates and boomering-
stroms. Sod’s brood, be me fear! Sanglorians, save! Arms
apeal with larms, appaling. Killykilkilly: a toll, a toll. What
chance cuddleys, what cashels aired and ventilated! What
bidimetoloves sinduced by what tegotetab-solvers! What
true feeling for their’s hayair with what strawng voice of
false jiccup! O here here how hoth sprowled met the duskt
the father of fornicationists but, (O my shining stars and
body!) how hath finespanned most high heaven the skysign
of soft advertisement! But was iz? Iseut? Ere were sewers?
The oaks of ald now they lie in peat yet elms leap where
askes lay. Phall if you but will, rise you must: and none so
soon either shall the pharce of the nunce come to a setdown
secular phoenish. (JOYCE, 2012, p. 04)

Realizarei o trabalho de uma analista do discurso18, ao organizar


e reorganizar os diferentes sintagmas para obter uma ideia possível

18
De acordo com Eni Orlandi (2003), a noção de que ao analista do discurso cabe
identificar o real sentido do que está sendo dito, “procurando ouvir, naquilo que o
sujeito diz, aquilo que ele não diz, mas que constitui igualmente o sentido de suas
palavras” (ORLANDI, 2003, p. 39).

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 183-204, set-dez, 2018 194


Uma aplicação da Teoria do Gato de Shrödinger para entender...

do todo.19 Reconheço que apenas apresentarei possibilidades de lei-


tura das referidas unidades. Estarei também realizando a proposta
de tradução de fragmentos, mesmo considerando que a unidade e
sentido podem extrapolá-los, ou não respeitá-los.20Acima de tudo,
considero toda e qualquer possibilidade de leitura e compreensão
ambígua, no sentido proposto por Eco (2010) ao elencar outro as-
pecto da obra aberta, quando afirma que “[t]odo signo que apareça
ligado a outro e dos outros receba sua fisionomia completa signifi-
ca de modo vago. Cada significado, que não possa ser apreendido
senão ligado com outros significados, deve ser percebido como
ambíguo.” (p. 84-85)
Eco acrescenta que,

o fato de uma frase do Finnegans Wake assumir uma infini-


dade de significados não se explica em termos de resultado
estético (...); Joyce visava algo mais e diferente, organizava
esteticamente um aparato de significantes que por si só já
era aberto e ambíguo. E, por outro lado, a ambiguidade dos
signos não pode ser separada de sua organização estética,
muito pelo contrário, os dois valores se sustentam e moti-
vam um ao outro.” (2010, p. 89)

19
Como um artesão a colocar os diferentes tesserae em diferentes posições para
verificar se compõem uma imagem (texto) passível de ser lida, e a descobrir
a cada leitura que há mais possibilidades e diferentes tesselas a cada nova (re)
organização. O texto admite essas (re)organizações, principalmente por ser uma
obra aberta. Ao contrário de Eco, não assumo aqui que as tesselas obedecem “a
rigorosas regras de probabilidade” ou insistem “num determinado contorno, sem
possibilidade de equívoco” (p. 167), até porque estamos tratando de linguagem,
algo muito mais abstrato do que peças de um mosaico de pedras. Mas a metáfora
do mosaico e das tesserae é relevante.
20
Como já apontado por Dirce Amarante, “Em Finnegans Wake, uma só pala-
vra pode concentrar dois ou mais significados, sendo que essa acumulação de
significados se realiza através de associações semânticas, fônicas, gráficas e
morfológicas.’ Esse efeito multiplicador de significados Joyce obteve ao utili-
zar principalmente dois recursos estilísticos: o trocadilho e a palavra-valise.”
(AMARANTE, 2002, p. 95)

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 183-204, set-dez, 2018 195


Janice Inês Nodari

Ao realizar a leitura deste fragmento (e mesmo da obra como um


todo), e após realizar escolhas lexicais que dão conta, ainda que incer-
tamente, da tradução dos termos, o que acontece é que encontramos
uma situação de gato morto/vivo. Vejamos o primeiro fragmento:

What clashes here of will gen wonts, oystrygods gaggin


fishygods!
Que embates aqui de vontades e vetos, ostragodos contra
piscosogodos!21

Após realizar escolhas que dessem conta de “oyster” como “os-


tra” e “fishy” como “piscoso” – gato vivo – ainda assim, ficamos
com a sensação de que o sintagma (se é que podemos chamar as-
sim!) não está resolvido, pois outra leitura se insinua. Tentamos
então “oystrygods” como “ostrogodos” e “fishygods” como “visi-
godos”... E, ainda assim, a leitura não está resolvida – gato morto.
Ficamos, pois com a situação gato morto/vivo: “ostragodos contra
piscosogodos”. Mesmo assim, a situação-problema não se resol-
veu, uma vez que todas as outras possibilidades (e outras leituras a
elas relacionadas) ficam na esteira, como se estivessem a repetir o
experimento do “gato na caixa com veneno” ad eternum. E há que
se considerar que outros elementos para além do léxico como, por
exemplo, a gramática e a fonologia, não foram contemplados nem
resolvidos! A situação gato morto/vivo se apresenta clara ao leitor
que precisa fazer escolhas e que as considera com base no que lê
(a língua, ou o sonho que lhe é contado pelo narrador) e/ou no que
tem de conhecimento de mundo (individual, em constante mudan-
ça): as definições não são posições fixas, são errantes.
Considerando que o papel do tradutor é fazer escolhas, façamos
mais algumas.

21
Mesmo sabendo que mais do que duas possibilidades de leitura e tradução deste
fragmento são possíveis, apresento apenas duas viáveis. E informo que todas as
traduções aqui fornecidas são de minha autoria.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 183-204, set-dez, 2018 196


Uma aplicação da Teoria do Gato de Shrödinger para entender...

O fragmento que vem na sequência é:

Brékkek Kékkek Kékkek Kékkek! Kóax Kóax Kóax! Ualu


Ualu Ualu! Quaouauh!

Por concordar com a maioria das leituras até hoje feitas de que
neste fragmento temos o coaxar de sapos ou rãs (possivelmente
em um brejo próximo ao campo de batalha que tiveram sua rotina
perturbada pelo conflito entre homens, ou deuses, ou ainda “ostra-
godos” e “piscosogodos”), não o traduziremos. São sinal de que
‘a vida continua’.
Na sequência, temos a confirmação de que outro conflito está
acontecendo:

Where the Baddelaires partisans are still out to mathmaster


Malachus Micgranes and the Verdons catapelting the
camibalistics out of the Whoyteboyce of Hoodie Head.
Onde os bandelaires parisenses estão ainda à vista
para mestrematicar Malaquias Granadas e os Verdons
catapeltando os canibalisticos para fora do promontório
dos nacionalistas irlandeses.

Há outros embates, e nomes de batalhas, presentes neste frag-


mento. E temos uma possibilidade de compreensão que reorganiza
os elementos da língua de origem para ‘facilitar’ o trabalho da tra-
dução. Temos, porém, uma espécie de interrupção da linha,

Assiegates and boomeringstroms.


Portões de bundas e pobresdiabosemtempestades.

A cena pode levar o leitor a pensar em muitos corpos abando-


nados no campo de batalha após o término de uma luta, em estados

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 183-204, set-dez, 2018 197


Janice Inês Nodari

lastimáveis e posições nada honrosas. O resultado esperado das


batalhas da humanidade.

Sod’s brood, be me fear! Sanglorians, save!


Ninhada de sodomitas, sejam o meu medo! Sem glória,
salve!

Enquanto alguns perecem, outros continuam a luta. As frases


acima se assemelham a xingamentos e imprecações proferidos
quando soldados estão em guerra.

Arms apeal with larms, appaling.


Braços apelam com armas, apavorante.

Killykillkilly: a toll, a toll.


Matarmatamatança: um dobrado, todos.

What chance cuddleys, what cashels aired and ventilated!


Que abraços fortuitos, que castelos aerados e ventilados!

Não apenas a moral dos soldados é abalada pelo conflito; es-


truturas concretas caem, assim como os soldados, perfurados por
tiros, todos.

What bidimetoloves sinduced by what tegotetab-solvers!


Que champramar pecaduzidos por ego te absolvo!

Uma das possíveis motivações para um soldado participar de


um conflito bélico talvez seja a possibilidade de morrer em comba-
te, e receber o perdão por seus pecados.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 183-204, set-dez, 2018 198


Uma aplicação da Teoria do Gato de Shrödinger para entender...

What true feeling for their’s hayair with what strawng


voice of false jiccup!
Que verdadeiro sentimento por seu bel cabelo com voz
folte de um falso gago!

E enquanto as lembranças (ou visões) de uma dama desejada


parecem trazer certo alento ao soldado em luta, o conflito segue.

O here here how hoth sprowled met the duskt the father
of fornicationists but, (O my shining stars and body!) how
hath finespanned most high heaven the skysign of soft
advertisement!
Ei aqui aqui como o dia nasceu encontrou o pai dos
fornicadores mas, (Ó minhas estrelas brilhantes e corpo!)
como tem bemabrangido os mais altos céus o sinaldocéu
de anúncio suave!

Possivelmente, no raiar do dia alguns soldados seguem para o


além.

But was iz? Iseut? Ere were sewers?


Mas foi é? Isolda. Primeiro houve esgotos?

A errância do soldado que não vê ou não entende o que vê se


confunde com a do leitor que ‘erra’ para fazer sentido de um frag-
mento que pode ter sido escrito com línguas se misturando, ou sim-
plesmente seguindo os moribundos questionamentos de um ébrio.

The oaks of ald now they lie in peat yet elms leap where
askes lay.
Os carvalhos de ontrora já estão lançados onde as cinzas
se deitam.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 183-204, set-dez, 2018 199


Janice Inês Nodari

Claramente, não apenas os homens perecem em conflitos bé-


licos; a natureza também paga o preço. Mas é preciso seguir em
frente, até o fim dos dias:

Phall if you but will, rise you must: and none so soon
either shall the pharce of the nunce come to a setdown
secular phoenish.
Caia se você quiser, levantar-se você precisa: e já estava
na hora de a farsa neste caso chegar ao assentamento
secular do finalizar.

As escolhas feitas não resolvem as ambiguidades e circularida-


des entrevistas e acabam por acrescentar mais um problema na lista
já algo imensa: as escolhas que seguem a sintaxe são reducionistas
e parciais. A sombra das escolhas não feitas continua pairando. E
medir um dos parâmetros nos condena a deixar o outro, a perder a
possibilidade de medir o outro ao mesmo tempo. Ademais, apenas
confirmam a colocação de Eco de que “a vontade de comunicar de
modo ambíguo e aberto influi na organização do discurso, deter-
minando sua fecundidade sonora, sua capacidade de provocação
imaginativa e a organização formal que esse material sofre” (ECO,
2010, p. 91). Se há alguma certeza sobre Finnegans Wake esta é a
incerteza do que é comunicado.
O leitor tem a liberdade de fazer escolhas para sua forma de ler
o trecho; lhe é permitido ‘errar’, mas ao fazer suas escolhas (gato
vivo) ele fica com a impertinência das alternativas que deixou para
trás (gato morto) a assombrá-lo, uma situação de gato morto/vivo.
E o paradoxo se mantém enquanto não houver mediação.
É possível, no entanto, fazer algumas declarações acerca deste
trecho, como as que seguem: a de que representa a história da
humanidade que foi permeada por conflitos, nos quais os seres hu-
manos podem ter chegado ao mais baixo nível de ações para sua so-
brevivência; a de que os homens que se juntam às batalhas, o fazem
pelas razões mais diversas; e que, enquanto os homens brigam, a

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 183-204, set-dez, 2018 200


Uma aplicação da Teoria do Gato de Shrödinger para entender...

natureza acha um jeito de seguir seu curso, com sapos coaxando e


um dia nascendo depois do outro, até o final dos tempos.

5. Breves considerações parciais

Finnegans Wake é acima de tudo uma produção de um autor


contemporâneo, considerando a definição fornecida por Giorgio
Agamben (2009):

Pertence verdadeiramente ao seu tempo, é verdadeiramente


contemporâneo, aquele que não coincide perfeitamente com
este, nem está adequado às suas pretensões e é, portanto,
nesse sentido, inatual; mas, exatamente por isso, exata-
mente através desse deslocamento e desse anacronismo, ele
é capaz, mais do que os outros, de perceber e apreender o
seu tempo. (AGAMBEN, 2009, p. 58)

Eco (2010) ainda complementa afirmando que

a narrativa contemporânea tem-se orientado cada vez mais


rumo a uma dissolução do enredo (...) para construir pseu-
do-histórias baseadas na manifestação de fatos (...) ines-
senciais. (p. 192)

Por mais não essenciais que possam parecer, em uma primeira


leitura, os fatos auxiliam no desenho de ações e apresentam um
discurso sobre o mundo. A natureza desse discurso, que pode ser
entendido de múltiplas formas e possibilitar interpretações diferen-
tes e complementares, é o que pode ser definido como a abertura22

22
Claro que esta não é a única característica possível de uma poética contemporânea
(ECO, 2010, p. 193).

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 183-204, set-dez, 2018 201


Janice Inês Nodari

de uma obra narrativa. E “[a] abertura pressupõe, portanto, a longa


e cuidadosa organização de um campo de possibilidades.” (ECO,
2010, p. 194, grifo do autor). O contemporâneo é aquele que man-
tem fixo “o olhar no seu tempo (...) para nele perceber não as
luzes, mas o escuro” (AGAMBEN, 2009, p. 62).

(...) [N]ão é apenas aquele que, percebendo o escuro do


presente, nele apreende a resoluta luz; é também aquele
que, dividindo e interpolando o tempo, está à altura de
transformá-lo e de colocá-lo em relação com os outros tem-
pos, de nele ler de modo inédito a história, de “citá-la”
segundo uma necessidade que não provém de maneira nen-
huma do seu arbítrio, mas de uma exigência à qual ele não
pode responder.” (AGAMBEN, 2009, p. 72)

Acredito ser isso o que James Joyce viu em seu tempo – o nos-
so tempo ainda – e que lhe tirava o sono e o punha a escrever o
ininteligível: as trevas dos conflitos, a indefinição de um tempo e a
inexistência de uma linguagem para defini-lo.
Este ininteligível justificaria o tom apocalíptico de Finnegans
Wake, onde passado e presente se misturam de forma fraturada,
sugerindo outro atributo da narrativa contemporânea: a de dissipar
sua própria referencialidade (BARROS, 2004), e a ‘errância’ que
se apresenta na escrita e nas possíveis leituras. É a resposta lite-
rária para os questionamentos do momento então presente: há o
caos, e há também a ordem. Ambos simultaneamente. Cabe ao lei-
tor estabelecer certa ordem para seu próprio conforto. Lembrando
sempre que aquela e este não perduram. O gato está morto/vivo...

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 183-204, set-dez, 2018 202


Uma aplicação da Teoria do Gato de Shrödinger para entender...

Referências

AGAMBEN, Giorgio. O que é o contemporâneo? e outros ensaios. Trad. Vinícius


Nicastro Honesko. Chapecó: Argos, 2009.

AMARANTE, Dirce W. do. A tradução da língua de Finnegans Wake. Anuário


de Literatura 1, Florianópolis, 2002, p. 93-107.

BARROS, Deborah P. de. Fast Cars and Bad Girls. New York: Peter Lang,
2004.

BOOKER, M. Keith. Joyce, Bakhtin, and the literary tradition. Ann Arbor: The
University of Michigan Press, 1995.

BURGESS, Anthony. A literatura inglesa. São Paulo, Ática, 2008.

ECO, Umberto. Obra Aberta: forma e indeterminação nas poéticas contemporâneas.


Trad. Giovanni Cutolo. São Paulo: Perspectiva, 2010.

ELLMANN, Richard. James Joyce. Oxford: Oxford University Press, 1983.

GALINDO, Caetano W.. Sobre a possibilidade de que o Finnegans Wake, de


James Joyce, represente uma espécie de síntese literária em moldes bakhtinianos.
BAKHTINIANA, São Paulo, v. 1, n. 4, 2010, p. 38-49.

JOYCE, James. Finnegans Wake. Oxford: Oxford University Press, 2012.

NUTTALL, Christine. Teaching Reading Skills in a Foreign Language. Oxford:


Heinemann, 1996.

OLIVIERI-GODET, Rita. Errância/Migrância/Migração. In: BERND, Zilá.


(org.). Dicionário das mobilidades culturais: percursos americanos. Porto Alegre:
Literalis, 2010, p. 189-210.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 183-204, set-dez, 2018 203


Janice Inês Nodari

ORLANDI, Eni P. Análise de discurso: princípios e procedimentos. 5 ed.


Campinas: Pontes, 2003.

SAID, Edward. Reflexões sobre o exílio e outros ensaios. Trad. Pedro Maia
Soares. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.

SLEPON, Raphael. The Finnegans Wake Extensible Elucidation Treasury


(FWEET) Website.[http://www.fweet.org/]. Last updated: 11 September 2009.
Acesso em 12 December 2017.

Recebido em: 28/03/2018


Aceito em: 16/07/2018
Publicado em setembro de 2018

Janice Inês Nodari. E-mail: Nodari.Janicei@gmail.com


ORCID: https://orcid.org/0000-0001-6989-4813

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 183-204, set-dez, 2018 204


http://dx.doi.org/10.5007/2175-7968.2018v38n3p205

A TRADUÇÃO DE BOUMKŒUR, DE RACHID DJAÏDANI,


PARA O PORTUGUÊS DO BRASIL: UM PANORAMA DOS
PRINCIPAIS DESAFIOS

Letícia Campos de Resende1


1
Universidade Federal de Juiz de Fora, Juiz de Fora, Minas Gerais, Brasil

Resumo: Este artigo se baseia em uma pesquisa intitulada Boumkœur, de


Rachid Djaïdani: estudo e tradução para o português do Brasil (2017),
realizada no quadro do Bacharelado em Francês da Universidade Federal
de Juiz de Fora (UFJF) com o objetivo de empreender uma tradução e
análise do romance em questão. De forma resumida, apresento aqui uma
visão parcial de três propostas de tradução para trechos que, por conte-
rem, respectivamente, marcadores culturais, expressões de um socioleto
popular e amostras de textos poéticos, representam desafios à tradução
para o português do Brasil. Esse projeto tradutório optou por uma prática
de “ética da diferença” (VENUTI, 2002) que busca conciliar os conceitos
de “estrangeirização” e “domesticação” (VENUTI, 2008).
Palavras-chave: Boumkœur; Rachid Djaïdani; Literatura francesa de cité;
Tradução literária; “Ética da diferença”.

TRANSLATING BOUMKŒUR, BY RACHID DJAÏDANI,


INTO BRAZILIAN PORTUGUESE: AN OVERVIEW OF
THE MAIN CHALLANGES

Abstract: This article is based on a research project entitled “Boumkœur,


de Rachid Djaïdani: estudo e tradução para o português do Brasil” (2017)
[“Analyzing and translating Boumkœur, by Rachid Djaïdani, into Brazi-
lian Portuguese”]. For this project, conducted during a degree in Modern
Languages at the Federal University of Juiz de Fora (UFJF), I tried to
offer an analysis and a translation of Djaïdani’s novel. The scope of this
article is however considerably more limited insofar as I present a par-
tial overview of the translation of three excerpts from Boumkœur, which

Esta obra utiliza uma licença Creative Commons CC BY:


https://creativecommons.org/lice
Letícia Campos de Resende

are representative of issues concerning the translation of cultural marks,


specific social dialects and poetic texts. In this analytical and translational
work I opted for the practice of an “ethics of difference” (VENUTI, 2002)
that aims at reconciling the concepts of “foreignization” and “domestica-
tion” (VENUTI, 2008).
Keywords: Boumkœur; Rachid Djaïdani; French Literature; Literary
translation; “Ethics of difference”.

1. Introdução

Este artigo tem o objetivo de propor soluções de tradução para


alguns trechos do romance Boumkœur (DJAÏDANI, 1999) que
põem em jogo questões relacionadas à transposição interlingual –
do francês para o português do Brasil (PB) – de variedades so-
ciolinguísticas, marcadores culturais e poemas. As propostas aqui
apresentadas foram guiadas pela seguinte pergunta: como imprimir
na tradução uma prática que reafirme a “ética da diferença” de
Venuti (2002)? Esse conceito se estabelece como um contraponto
a tendências tradutórias etnocêntricas que mais endossam precon-
ceitos e estereótipos do que contribuem para a construção de uma
relação de alteridade entre culturas de partida e culturas de chega-
da. A princípio, um dos modos mais importantes de assegurar a
presença da alteridade na literatura traduzida consistiria na adoção
de uma postura estrangeirizadora, que se opõe, em teoria, à prática
domesticadora (VENUTI, 2008). Buscando relativizar a concepção
dicotômica atribuída ao par estrangeirização/domesticação, tentei
incorporar essas duas posturas na tradução, mostrando em que me-
dida ambas podem se provar conciliáveis.
A importância de Boumkœur na literatura francesa reside no
fato de o romance ter se consolidado como o primeiro livro de
autoria periférica a ser publicado na França (CELLO, 2017). O
texto de Rachid Djaïdani reivindica não apenas um veículo de ex-
pressão para sujeitos periféricos, mas, desde seu lançamento, tem
contribuído para que outros autores publiquem suas obras. No que
concerne aos Estudos da Tradução, a análise de Boumkœur é digna

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 205-225, set-dez, 2018 206


A tradução de Boumkœur, de Rachid Djaïdani, para o português do Brasil:...

de atenção, uma vez que permite estabelecer relações entre culturas


distintas e mutuamente desconhecidas. Muito se sabe sobre a lite-
ratura francesa no Brasil, mas pouco se conhece sobre a literatura
não canônica produzida desde territórios marginalizados.
O método de análise aqui discutido, precedido por um levanta-
mento de alguns dos principais desafios tradutórios identificados
no romance, consiste em aliar a teoria referente a aspectos tradu-
tórios essenciais, pertinentes à obra em questão, a possibilidades
de aplicação prática no contexto da tradução para o português do
Brasil (PB). As escolhas tradutórias apresentadas são, portanto,
embasadas por análises e reflexões teóricas que, não obstante,
não deixam de incorporar perspectivas pessoais sobre o tratamen-
to de determinados temas. Ao longo do texto, proponho possíveis
soluções para questões tão complexas quanto o uso de verlan, a
adaptação de provérbios e a tradução poética. Como resultado
final, apresento um trabalho experimental que, certamente, não
se quer definitivo.

2. Boumkœur e suas (possíveis) traduções

A representação da cidade, e mais especificamente da banlieue1,


na literatura francesa não é uma novidade do século XXI. Mu-
danças de costumes e o novo cenário constituído por processos de
urbanização e industrialização vêm sendo representados nessa lite-
ratura desde, pelo menos, o século XIX. O que se constitui como
novidade é, isto sim, a mudança de perspectiva na representação
de personagens marginais: quando autores oriundos de meios ou
condições marginais passam a integrar o “polissistema literário”
(EVEN-ZOHAR, 1990), sua produção ocupa, de imediato, uma
posição igualmente marginal em relação ao sistema central, for-
mador do chamado cânone literário. As relações de poder entre os
diferentes componentes de um polissistema pressupõem, contudo,

1
Termo francês usado para designar regiões suburbanas.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 205-225, set-dez, 2018 207


Letícia Campos de Resende

um convívio interativo e dinâmico. É essa interação, precisamente,


que garante a modificação mútua dos sistemas em contato.
Quando lançado em 1999, Boumkœur se consagrou como um
sucesso de crítica e público, apresentando aos leitores a história
de Yaz, um jovem de vinte e um anos, morador de uma cité2,
que no início da história enfrenta um impasse social: abandonado
pelo ensino público e desempregado há pelo menos cinco anos,
sua falta de perspectiva aumenta ainda mais as tensões entre ele e
sua família, que é igualmente atingida pelos problemas estruturais
presentes no cotidiano da banlieue. Esperando se livrar dessas
dificuldades, Yaz decide escrever um livro sobre a realidade de
seu conjunto habitacional, aproveitando-se da demanda midiática
e sensacionalista por histórias da periferia, que, via de regra, são
contadas a partir de um ponto de vista externo. Nessa empreitada,
o protagonista, narrador da história, recorre a seu amigo Grézi,
“olhos e ouvidos dos prédios”, a fim de narrar anedotas sobre as
vidas dos moradores.
São muitos os temas e procedimentos literários que podem ser
levantados a partir da leitura de Boumkœur. De um modo geral, o
romance costuma ser analisado pelo viés da representação do sujei-
to e do espaço periférico ou pelo viés linguístico, que visa a abordar
a presença de traços característicos da variedade sociolinguística
reproduzida na história. Na verdade, a obra tem sido frequente-
mente usada para descrever o FCC, ou Français Contemporain des
Cités [Francês contemporâneo das cités]. A instrumentalização do
romance, no entanto, talvez seja contraproducente, na medida em
que obscurece a interação entre as dimensões ética e estética assu-
midas por Djaïdani. Em Boumkœur, não é possível pensar o estudo
do FCC sem que necessariamente se considerem as implicações e
intenções por trás desse uso linguístico. O autor não se serve da
variedade periférica francesa como mero “efeito de real” (BAR-
THES, 2004). Ao contrário, a adoção de determinada variedade e

2
Nesse contexto, o termo cité faz referência às HLM, ou Habitations à loyer
modéré [Moradias de baixo custo], espécies de conjunto habitacional.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 205-225, set-dez, 2018 208


A tradução de Boumkœur, de Rachid Djaïdani, para o português do Brasil:...

postura linguística, como ressaltada por François (2008), altera a


própria relação entre significante e objeto representado.
Embora nenhuma das obras de Djaïdani tenha sido traduzida
para o português, encontrei diversos trabalhos acadêmicos estran-
geiros que se debruçam sobre temas suscitados por seus três ro-
mances. Dentre os enfoques mais comuns, destacam-se a descrição
e análise dos procedimentos linguísticos empregados pelo autor em
Boumkœur. Em minhas pesquisas, deparei-me com cinco artigos3
que, de algum modo, se servem do romance para refletir sobre
questões linguísticas ligadas à tradução. Não obstante as diferenças
de perspectiva a que se filiam os trabalhos pesquisados, é possível
identificar, ao menos, um ponto comum entre todos eles: a adoção
de uma postura tradutória domesticadora (VENUTI, 2008).
A proposta de tradução aqui apresentada leva em conta discus-
sões anteriores sobre o desafio linguístico/estilístico representado
pelo texto de Djaïdani, ao mesmo tempo em que se coloca como
uma reflexão independente, visando não apenas à descrição de pro-
cedimentos literários empregados pelo autor, mas, acima de tudo,
às implicações do uso de tais procedimentos na interpretação da
obra e, consequentemente, no processo de tradução, que, por si só,
constitui-se como uma leitura interpretativa. Em última análise,
tento responder à pergunta “como ser si mesmo sem fechar-se ao
outro; e como consentir na existência do outro, na existência de
todos os outros, sem renunciar a si mesmo” (GLISSANT, 2005,

3
Bastian (2009) apresenta uma análise de elementos lexicais presentes em
Boumkœur, a fim de descrever o que se convencionou chamar Français
Contemporain des Cités (FCC). Analogamente, Soukalová (2008) e Holcmanová
(2009) apresentam possibilidades de tradução para o tcheco com o objetivo
de, respectivamente, pôr em prática os princípios de Vinay e Darbelnet, e
refletir sobre as dificuldades impostas pelo estilo de Djaïdani. Os únicos dois
trabalhos que, tratando de aspectos tradutológicos, oferecem uma alternativa
à instrumentalização de Boumkœur foram escritos por Podhorná-Polická et al.
(2010) e Vitali (2012). O primeiro, embora encare o romance como um pretexto
para o ensino de tradução, dedica uma seção especial aos aspectos interculturais
envolvidos na tradução. O segundo, talvez o mais interessante, discute de forma
mais aprofundada aspectos sociais e literários envolvidos no romance.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 205-225, set-dez, 2018 209


Letícia Campos de Resende

p. 46). As propostas de tradução que seguem foram, portanto, ela-


boradas com o objetivo de dar a conhecer uma realidade cultural
que, além de diferente da brasileira, é mais ou menos ocultada pelo
senso comum.

3. Desafios da tradução

Procurando compreender em que medida alguns aspectos lin-


guísticos e formais da obra dialogam com o conteúdo e as temá-
ticas suscitadas pela narrativa, foi possível constatar a que ponto
a marcação cultural do ambiente da periferia é importante para a
apresentação de seus moradores. Desse modo, aspectos como a
reprodução de variedades sociolinguísticas e as transgressões sin-
tática, lexical e discursiva contidas no livro devem ser levados em
conta no momento da tradução, a fim de permitir que os leitores
do texto de chegada possam produzir sentido a partir das principais
questões postas em jogo no romance.

3.1. Marcadores culturais

Uma vez que, como afirma Aubert (2006), “toda língua é um fato
cultural” (p. 24), sua variedade de planos – gramatical, discursivo e
referencial –, constitui-se por marcas culturais que assumem formas
linguísticas ou extralinguísticas: ditados populares, regionalismos,
intertextos, menções a instituições e organismos específicos a uma
cultura são algumas das informações culturalmente marcadas que re-
presentam desafios ao processo de tradução. É comum que um mes-
mo marcador cultural, em diferentes contextos, assuma classifica-
ções diversas, devendo, portanto, ser tomado em seu devido contexto
de ocorrência. Ao fim e ao cabo, só são considerados marcadores
culturais os termos ou expressões que comportam em si uma diferen-
ciação que se sobressai em contraste com outros tipos de discurso.
Essa diferença se constitui, segundo Aubert, a partir da observa-
ção do falante e, no caso da análise tradutória, na comparação entre

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 205-225, set-dez, 2018 210


A tradução de Boumkœur, de Rachid Djaïdani, para o português do Brasil:...

texto de partida e texto de chegada. Relações de poder desiguais,


por exemplo, podem informar relações de diferença assimétricas.
A própria pergunta “o que é diferente do quê?” já subentende um
processo de outrificação, no qual o leitor pertencente a uma cultu-
ra hegemônica tende a perceber como diferente (como “outro”) o
texto originário de uma cultura submetida a essa hegemonia. No
caso de Boumkœur, por exemplo, os marcadores culturais não são
evidentes apenas ao leitor não-francófono, mas também – e neste
ponto se estabelece uma hierarquia entre centro e periferia – ao
leitor francês que é exterior à banlieue, seja pelo socioleto empre-
gado, seja pelo idioleto do narrador.
Ao longo da obra, Yaz, protagonista e narrador, se serve de
fraseologismos e provérbios compartilhados por falantes francó-
fonos. Esses usos são, contudo, subvertidos, a fim de provocar
estranhamento nos leitores. No caso de um leitor não-francófono,
por exemplo, a diferenciação se processa em duas vias: em um pri-
meiro momento, manifesta-se na marcação cultural – fraseologis-
mos e provérbios franceses podem diferir no português – e, em um
segundo momento, na manipulação estilística: por mais que recorra
a dicionários, glossários ou corpora de francês, buscando o sentido
de determinada lexia apresentada no livro, o leitor pode ter dificul-
dade em encontrar a resposta certa, dadas as transgressões formais
e semânticas operadas pelo autor. No quadro a seguir, destaco um
exemplo de fraseologismo alterado em francês, cotejando-o com
minha escolha tradutória.

Quadro 1: Exemplo de Fraseologismo alterado em francês


Texto de partida Texto de chegada
“Ils m’avaient vu en train de “Eles tinham me visto
chialer comme une madeleine” choramingando feito madalena
(p. 15). aperreada”.

Fonte: Resende (2017).

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 205-225, set-dez, 2018 211


Letícia Campos de Resende

Em francês, a expressão “chialer comme une madeleine”,


criada pelo autor, é uma modificação da colocação mais comum,
“pleurer comme une madeleine”. Antes de lidar com a tradução da
expressão transgressora/transgredida, busquei soluções para a tra-
dução da forma convencional: em português, a expressão “[chorar
como]4 Madelena”, acrescida do adjetivo “arrependida”, é equi-
valente5 a “pleurer comme une madeleine”. Uma vez que o verbo
“chorar” não é fixo na expressão – que admite a combinação com
outros verbos –, foi possível substituí-lo por “choramingar”, a fim
de ressaltar o tom patético da cena e estabelecer uma relação com
“chialer”, definido no Nouveau Petit Robert de la Langue Françai-
se (2007) como “pleurer; se plaindre sans cesse”.
A modificação da expressão em português foi feita, portan-
to, não no nível do verbo, mas no nível do adjetivo. Pareceu-me
que o estranhamento seria tanto maior quanto mais cristalizado ou
convencional o termo alterado. Por isso, modifiquei a expressão
“Madalena arrependida”, optando pelo adjetivo “aperreada” em
função de sua sonoridade e sentido. Consegui, assim, evocar pela

4
“Chorar como” foi colocado entre colchetes, pois a colocação “Madalena
arrependida” não se combina apenas com esse verbo, em uma estrutura de
comparação. Em consulta ao Corpus do Português, encontrei quatro ocorrências
de “Madalena arrependida” na forma escrita, e sessenta e três na expressão oral.
Dentre as quatro ocorrências escritas, nenhuma se manifesta na forma “[chorar
como] Madalena arrependida”, ainda que uma apresente essa colocação como um
elemento de comparação: “(qual Madalena arrependida) esquivou-se” (disponível
em: < https://www.corpusdoportugues.org/hist-gen/ >. Acesso em: 09 set.
2017). Dentre os sessenta e três usos orais, treze (quase 20% do total) aparecem
na forma “[chorar como] Madalena arrependida” (disponível em: <https://www.
corpusdoportugues.org/web-dial/ >. Acesso em: 09 set. 2017).
5
Recorro à expressão “equivalente” em um sentido similar ao que é atribuído por
Marianne Lederer (2015) em La Traduction aujourd’hui: le modèle interprétatif.
Para a pesquisadora francesa, a equivalência se processa muito mais no nível da
tradução textual, na qual são consideradas questões relativas ao “semantismo do
discurso [associado ao] saber geral e contextual do tradutor” (p. 10, tradução
minha). À noção de equivalência proposta por Lederer se opõe o conceito de
“correspondência”, que, este sim, compreende a tradução palavra por palavra ou
a tradução “dicionarizada”.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 205-225, set-dez, 2018 212


A tradução de Boumkœur, de Rachid Djaïdani, para o português do Brasil:...

aliteração e assonância um dos termos chave da colocação, uma


vez que os sons representados pela segunda e terceira sílabas de
“aperreada” são quase uma inversão dos sons da segunda e terceira
sílabas de “arrependida”.
Em Boumkœur, a transgressão fraseológica parece estar di-
retamente ligada à transgressão narrativa: a escrita de sujeitos
marginalizados, que se encarregam de apresentar suas próprias
realidades em seus textos, põe em foco grupos aos quais foi du-
rante muito tempo negada a inserção em meios de produção le-
trada. Essa mudança espelha, em certa medida, a alteração de
fraseologismos e ditados populares, cuja forma cristalizada é re-
configurada pelo autor. Nesse sentido, meu processo de tradução
buscou retraçar as formas convencionais das lexias e dos pro-
vérbios traduzidos, a fim de adaptá-las ao português e, só então,
subvertê-las na língua de chegada.
Em seu livro A tradução e a letra, Berman (2007 [1985]) ques-
tiona o procedimento de adaptação de ditados ou chavões adota-
do por muitos tradutores. Segundo o teórico francês, a busca por
equivalências em diferentes culturas acarreta a perda do sabor e
da modulação estrangeira que devem estar presentes na tradução.
Com efeito, expressões linguísticas de natureza proverbial são fre-
quentemente reveladoras da visão de mundo de determinado am-
biente sociolinguístico. Todavia, considerando o propósito do uso
de frases feitas no romance de Djaïdani, não convém esquecer que
o estranhamento sentido pelo leitor só se torna possível na medida
em que este reconhece a forma convencional subjacente à trans-
gressão. No caso aqui exposto, o efeito de estranhamento só seria
alcançável se o leitor do PB também fosse capaz de identificar a
convenção e, ainda assim, tropeçar na mudança de forma e sentido.
Nesse caso, a “ética da diferença”, defendida por Venuti (2002) e
presumivelmente exercida pela postura estrangeirizadora da tradu-
ção, não seria atingida pela “manutenção da letra”, como o quer
Berman, mas antes pela compreensão da função desempenhada no
livro pelo procedimento transgressor.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 205-225, set-dez, 2018 213


Letícia Campos de Resende

3.2 Aspectos sociolinguísticos

É preciso lembrar que qualquer tipo de tradução – inter ou intra-


lingual – envolve a transposição de uma variedade de partida para
uma variedade de chegada. Isso significa que mesmo textos perten-
centes a uma variedade padrão passam por processos de “desmon-
tagem/remontagem” (TARALLO, 1991) em outras variedades. No
processo de tradução interlingual, por exemplo, é comum que se
busque uma variedade equivalente – e não correspondente – em
outra língua: um texto escrito na norma culta da língua de partida
será traduzido para a norma culta da língua de chegada. Ao tradu-
tor cabe a tarefa de mediar diferentes culturas, percebendo o que
está em jogo não apenas no nível linguístico, mas também no nível
discursivo e estilístico (CUNHA LACERDA, 2010).
Um texto inventivo, com transgressões sintáticas, lexicais, mor-
fológicas, será presumivelmente traduzido de forma inventiva. O
problema da tradução de variedades, contudo, parece se colocar
de maneira mais evidente quando entram em jogo socioletos ou
dialetos muito característicos de determinado grupo ou região,
presentes, por exemplo, em textos regionalistas ou culturalmente
marcados. Nesse ponto surge uma dupla preocupação: como se
comprometer com os aspectos contextuais e co-textuais da tradução
(TARALLO, 1991), ao mesmo tempo em que se mantém o texto
acessível a leitores estrangeiros? Em outras palavras, como tradu-
zir aspectos gramaticais do texto de partida, que não encontram
correspondentes em outras variedades, mantendo-se consciente das
implicações discursivas desse mesmo texto?
É preciso que o/a tradutor/a esteja atento/a não apenas ao
conteúdo, mas à forma de sua tradução. Diante desse fato, apre-
sento, a seguir, uma solução para a tradução de um dos maiores
desafios sociolinguísticos com que me deparei durante a tradução
de Boumkœur: o uso de verlan, identificado por Jean-Pierre Gou-
daillier (2001) como um procedimento formal de alteração lexical
que consiste na realocação das sílabas de uma palavra, procedi-
mento este que acaba por alterar articulações vocálicas e modificar

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 205-225, set-dez, 2018 214


A tradução de Boumkœur, de Rachid Djaïdani, para o português do Brasil:...

consoantes. Como fenômeno “crypto-ludique” – função atribuída


por Goudaillier ao falar periférico de modo geral –, o verlan exis-
te na língua francesa desde a Idade Média e, ao longo do tempo,
foi usado com o objetivo de codificar e dissimular a linguagem:
no século XVI, poetas libertinos usavam verlan para contornar a
censura; durante a Segunda Guerra, franceses se serviam de verlan
para confundir soldados alemães (AHMED, 2005, p. 121).
Foi a partir da década de 1970, como indica Rania Ahmed
em sua tese de doutorado, que o verlan passou ao domínio dos
jovens de cité, que se apropriaram desse procedimento linguístico
como meio não apenas de expressar seus “dire des maux” (GOU-
DAILLIER, 2001), mas também para marcar uma identidade
cultural que, junto a outros elementos linguísticos e discursivos,
fazem parte do FCC, ou Français Contemporain des Cités. O ver-
lan se constitui, portanto, como um modo de expressão que oculta
e, consequentemente, despe de interdição termos carregados de
tabu. Enquanto transgressão da língua francesa, ele se apresenta
para os jovens moradores da periferia como uma estratégia de
resistência e contestação.

3.2.1 Usos de verlan em Boumkœur

No livro de Djaïdani, o verlan funciona em diferentes contextos


e pode ser analisado a partir de duas principais vias: a primeira,
presente desde o início do livro, compreende as ocorrências lexi-
calizadas de verlan, que não se limitam mais aos usos da periferia
e que, na verdade, aparecem no livro mais para marcar o baixo
monitoramento da modalidade oral do que para legitimar uma iden-
tidade cultural de fala. Em geral, os usos lexicalizados são apresen-
tados em ocorrências de fala isoladas e naturalizadas. Um exem-
plo disso é a seguinte oração: “[...] il part vivre chez des meufs”
(DJAÏDANI, 1999, p. 12, grifos meus). Nesse trecho, o termo
“meuf”, verlan de “femme”, já faz parte de um imaginário comum
a jovens periféricos e não-periféricos, podendo ser empregado com
o sentido de “fille”, “copine”, “fiancée” etc.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 205-225, set-dez, 2018 215


Letícia Campos de Resende

A segunda via se apresenta de forma irônica e crítica, a fim de


confirmar a suposta “guetorização” a que está sujeita, na opinião
do personagem, a cultura de cité. Esse uso vem acompanhado
do que o personagem intitula “decodificação” ou “não decodi-
ficação”, que consistem em processos de tradução intralingual
em que, respectivamente, (I) é introduzida, em francês padrão, a
paráfrase do que foi dito em verlan e (II) é reescrito em verlan o
que foi dito em francês padrão. Nesses casos, períodos inteiros
são escritos e postos em evidência por meio do seguinte procedi-
mento: “– Grézi, ouvre, c’est Yaz... Zi va, virou la teport c’est
Yaz que j’te dis, fais pas le baltringue. Phrase décodée: Grézi
ouvre, c’est moi Yaz, je suis de retour, fais pas l’imbécile, ouvre”
(p. 58, grifos do autor). Uma revelação importante no trecho
transcrito é o fato de nem todos os elementos do período esta-
rem sujeitos à verlanização, o que vai ao encontro do que afirma
Goudaillier: “Nem todas as palavras se prestam à verlanização
[...], mesmo nas cités em que há forte tendência à verlanização
lexical” (2001, p. 24, tradução minha). Com o objetivo de desta-
car algumas das posturas tradutórias adotadas para cada uma das
ocorrências acima, evidencio apenas o segundo tipo de uso, que
se provou mais desafiador à tradução.

3.2.2 Tradução de verlan em Boumkœur

A tradução aqui apresentada refletiu sobre diversas possibili-


dades de desmontagem/remontagem linguística. Desde o início,
dois aspectos pareceram mais evidentes: o primeiro diz respeito
à manutenção do realismo da escrita – o verlan é um proce-
dimento natural e autêntico na língua francesa, o que implica
uma tradução que o transponha de modo igualmente natural e
autêntico para a língua de chegada6; o segundo se relaciona à

6
Considerei brevemente a possibilidade de criação de um “verlan” brasileiro. Para
isso, busquei entender o processo de criação verlanesca descrito em Goudaillier
(2001) e Ahmed (2005), bem como os procedimentos morfológicos observados no

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 205-225, set-dez, 2018 216


A tradução de Boumkœur, de Rachid Djaïdani, para o português do Brasil:...

adoção de uma postura de tradução que permita a manutenção


da autenticidade, sem, contudo, domesticar demasiadamente o
texto e afiliá-lo a uma região brasileira específica. Ao longo
da tradução, pareceu importante não fazer equivaler o falar da
periferia parisiense ao falar de periferias paulistanas, cariocas,
mineiras etc., uma vez que: (a) essas periferias não são monolí-
ticas e comportam falares das mais diferentes naturezas; (b) as
experiências periféricas brasileira e francesa são extremamente
díspares, e confundi-las pode ser arriscado; (c) a apropriação de
uma variedade periférica que o/a tradutor/a não domina pode
soar caricatural e ilegítima, já que o próprio uso da gíria na
escrita de autores periféricos brasileiros e/ou franceses cumpre,
em parte, uma função identitária subversiva.
Levando em conta todos os fatores elencados acima, optei por
uma tradução que recorre a um repertório de gírias mais geral,
passível de ser transformado – e, de alguma forma, “codificado”,
visando à posterior “decodificação” – por um recurso formal inspi-
rado em uma tradução já feita para o inglês. Na versão anglófona,
Roger Célestin, o tradutor, apresenta um trecho da obra francesa
que inclui uma das passagens transcritas acima:

– Grézi! Open the door, it’s Yaz... You-gonna-make-a-crack-


in-that-fence-or-what-don’t-be-a-dickhead. Translation:
Grézi, pretty please open the door, it’s me, Yaz, I’m back,
don’t be an idiot, open up. (2007, p. 195, grifo do autor)

vesre, manifestação socioletal argentina similar ao verlan francês. Considerando


que nem todas as palavras podem estar sujeitas à realocação silábica, e tendo
em mente as diferenças sintáticas entre português e francês, optei por tornar
as palavras o mais transparentes possível, alterando, todavia, sua constituição
silábica. Minhas referências de formação do vesre se basearam, sobretudo, no
artigo “Lunfardo, vesre e outras modalidades do linguajar argentino”, de Maria
Consuelo de Azevedo (1984), em que são detalhadas doze estratégias de formação
de vesre. A artificialidade e inautenticidade decorrentes de um procedimento de
invenção me levaram a preterir a possibilidade de inversão silábica em benefício
da aglutinação das palavras.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 205-225, set-dez, 2018 217


Letícia Campos de Resende

A leitura do texto em inglês mostra que o tradutor se serviu


de gírias típicas de uma variedade informal, ao mesmo tempo
em que buscou transmitir aspectos fonéticos capazes de evocar
a opacidade da fala: nesse caso, o enunciado não é mais incom-
preensível devido à inversão silábica das palavras, que impede a
associação entre letra e sentido, mas à articulação das próprias
palavras, que, faladas de forma rápida e truncada – como suge-
rem os traços separando cada unidade lexical –, tornam-se incom-
preensíveis ao ouvinte.
A tradução de Célestin não reflete, contudo, o que está em
jogo na escrita de Djaïdani: a (in)compreensão do leitor que não
pertence ao universo apresentado no livro. Na tradução abaixo,
pareceu mais adequado modificar o procedimento de Célestin,
a fim de exigir um maior esforço no processo de leitura dos
trechos verlanisados. Por aglutinação, foram juntadas todas as
palavras dos enunciados em verlan, a fim de formar um grande
bloco de leitura que torna necessária a realização da “decofica-
ção” proposta por Yaz:

Quadro 2:
Texto de partida Texto de chegada
“– Grézi, ouvre, c’est Yaz... Zi va, “– Grézi! abre, é o Yaz... Aê, Zi!
virou la teport c’est Yaz que j’te Abressaportaéoyaztassurdoparademba-
dis, fais pas le baltringue. Phrase çar. Frase decodificada: Grézi, abre, sou
décodée: Grézi ouvre, c’est moi Yaz, eu, Yaz, já voltei, deixa de ser imbecil,
je suis de retour, fais pas l’imbécile, abre” (grifos meus).
ouvre” (p. 58, grifos do autor)

Fonte: Resende (2017).

Assim como os demais trabalhos que sugerem opções de tra-


dução para trechos pré-selecionados das obras de Djaïdani, essa
tradução também quis manter o realismo e o ar de transcrição do-
cumental associado às ocorrências do texto em francês, já que Yaz

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 205-225, set-dez, 2018 218


A tradução de Boumkœur, de Rachid Djaïdani, para o português do Brasil:...

não escreve para os demais moradores da cité, nem sequer presu-


me que será lido por eles. Seu trabalho se direciona aos leitores
externos, e é precisamente por essa razão que se faz necessário
preservar o clima de opacidade associado ao texto.

3.3. A tradução de poemas

Tomando emprestado o conceito de “informação estética”,


estabelecido por Max Bense, Haroldo de Campos informa aos
leitores de Da tradução como criação e como crítica (2011) que
um texto literário não pode ser separado de sua forma de enun-
ciação – donde a intraduzibilidade do texto poético. Mas, se, por
um lado, a tradução se revela impossível, por outro, admite-se
um potencial inventivo que permite ao tradutor produzir arte a
partir de um processo de recriação, ao qual se associa a noção de
isomorfismo, que liga os textos de partida e de chegada, a fim
de “[cristalizá-los] dentro de um mesmo sistema” (2011, p. 16).
Assim, servindo-se de procedimentos que visam à reinvenção
da materialidade do texto original, o tradutor não se prende ao
conteúdo, mas antes ao “modo de significar” (p. 24), princípio
essencial do conceito de “transcriação” proposto por Campos,
que define duas etapas do processo de tradução criativa: a pri-
meira, de desconstrução do texto de partida, e a segunda, de
reconstrução na língua de chegada.
Na tradução discutida neste artigo, preocupei-me em empre-
ender uma espécie de transcriação da forma, sem, contudo, per-
der de vista o sentido, que, no caso de obras mais comprometidas
com questões sociais e políticas, é essencial ao próprio estudo do
romance. Por esse motivo, não pareceu adequado ater-me unica-
mente a aspectos formais. Ao contrário, tornou-se necessário que a
forma fosse ancorada pela função e pelo sentido do texto poético,
uma vez que os poemas contidos na obra dialogam, obviamente,
com a totalidade do romance e reforçam temas problematizados
por Djaïdani. No poema abaixo, por exemplo, há uma série de ri-

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 205-225, set-dez, 2018 219


Letícia Campos de Resende

mas, assonâncias e aliterações que complementam temas recorren-


tes no livro. Decidi, portanto, submeter e adaptar a forma ao sen-
tido, com vistas à criação de um texto que, na medida do possível,
tentou reproduzir particularidades sonoras do original, mantendo,
acima de tudo, a rede imagética construída pelo autor:

Quadro 3:
Texto de partida Texto de chegada
“Une fois qu’il enfile son uniforme, “Quando ele enfia o uniforme,
sa frousse se défile, et il te file une o medo foge de vista enquanto ele te
fouille revista,
même sur présentation de tes pièces e com os documentos nos conformes,
d’identité, seus direitos imaginados são no ato
et le gars lit tes droits qu’il imagine violados,
pour toi, atrás das grades, paralelas divisas,
derrière des barreaux parallèles et se forma em qualquer idade
droits, o ódio do rosto moreno de pele lisa
et encore là s’est créée gars si on veut, que sonha com igualdade”.
la haine de la peau lisse de ton visage
basané
qui rêve d’égalité” (p. 84)
Fonte: Resende (2017).

De modo geral, os poemas contidos em Boumkœur, por seu


ritmo, forma e conteúdo, em muito se aproximam do estilo do
slam, que, segundo Dubois (2012), compõe uma tradição poética
oral e se associa diretamente ao movimento hip-hop. Como uma
arte coletiva que parte da necessidade de expressão do enunciador
e acaba por tratar das condições e dos problemas compartilhados
por um público maior, a proximidade com o slam parece reiterar
preocupações expressas acima. Como uma arte performática liga-
da a movimentos de spoken word, o slam conta com o ritmo e a
sonoridade do texto para compor um quadro poético. Ao mesmo
tempo, ao se constituir como tentativa de democratizar a poesia,
permitindo que qualquer pessoa apresente suas criações em bares,

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 205-225, set-dez, 2018 220


A tradução de Boumkœur, de Rachid Djaïdani, para o português do Brasil:...

o slam revela um comprometimento social que deve ser levado em


conta no processo de tradução pela preservação do sentido.

4. Considerações finais

Uma tradução baseada no que Venuti (2002) chama de “éti-


ca da diferença” se contrapõe à ideia de tradução etnocêntrica,
que elimina as diferenças da cultura de partida em nome de uma
suposta fluidez na cultura de chegada. Ao propor o princípio da
“ética da diferença” e os conceitos de “estrangeirização” e “do-
mesticação”, Venuti parte de um contexto muito específico: a
tradução de textos estrangeiros em países de cultura hegemônica,
dentre os quais o mais emblemático é o país de onde fala o pró-
prio teórico, os Estados Unidos.
As propostas de Venuti precisam ser levadas em conta em
um trabalho como o proposto neste artigo. Afinal, em relação à
França, o Brasil não se coloca como uma cultura dominante – ao
contrário, como bem aponta Silviano Santiago (2009), a cultura
letrada brasileira esteve, durante muito tempo, submetida aos sa-
beres franceses. Mas o fato de o Brasil se mostrar mais aberto
à tradução7 consequentemente o dispensa da chamada “ética da
diferença”? Mais importante ainda: essa ética só pode ser alcan-
çada através da estrangeirização do texto de partida? Como a es-
trangeirização pode ser trabalhada na tradução? Quanto à última
pergunta, espero ter mostrado que a estrangeirização pode se fa-
zer presente em diferentes níveis no texto de chegada. É possível,
por exemplo, trazer o leitor para mais perto da obra, como sugere
Schleiermacher (2007), a partir da manutenção de elementos lin-
guísticos e extralinguísticos.

7
Se tomada como referência a teoria dos polissistemas proposta por Even-Zohar
(1990), é possível constatar que o polissistema literário brasileiro, principalmente
no século XIX e nas primeiras décadas do século XX, quando ainda se mostrava
incipiente, tendia a ser mais aberto à recepção de textos traduzidos.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 205-225, set-dez, 2018 221


Letícia Campos de Resende

Ainda que as relações de poder entre diferentes culturas inter-


firam nos tipos de texto traduzidos e nas abordagens de tradução
adotadas, cabe à tradutora ou ao tradutor tornar inteligíveis cultu-
ras e línguas distintas, sem, contudo, eliminar suas diferenças. Um
livro como Boumkœur reconfigura social e politicamente o que se
entende por literatura e nação francesa. Desse modo, proponho
que a “ética da diferença” seja exercida não apenas pela abertura
do texto de chegada para “diferenças linguísticas e culturais” (VE-
NUTI, 2002), mas também pela compreensão da mecânica textual:
como o texto se desenvolve; em que medida sua forma se articula
com seu conteúdo; quais os objetivos e qual o projeto por trás dessa
mecânica? É preciso que nos perguntemos, em suma, como a tra-
dução pode chamar atenção do público de chegada para as princi-
pais questões em jogo no texto, uma vez que estas mesmas questões
também revelam importantes aspectos culturais no texto de partida.

Referências

AHMED, R. A. H. Le français des cités d’après le roman contemporain


“Boumkœur”, de Rachid Djaïdani. 2005. 182 f. Tese. (Doutorado em Língua
Francesa). Universidade de Aïn-Chams, Cairo, 2005.

AUBERT, F. H. Indagações acerca dos marcadores culturais na tradução. Revista


de Estudos Orientais, São Paulo, n. 5, p. 23-36, abr. 2006.

AZEVEDO, M. C. de. Lunfardo, vesre e outras modalidades do linguajar


argentino. Revista de Letras, Fortaleza, v. 7, p. 145-154, jan.-dez. 1984.

BARTHES, Roland. O efeito de real. In: ______. O rumor da língua. Tradução


Mário Laranjeira. São Paulo: Martins Fontes, 2004.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 205-225, set-dez, 2018 222


A tradução de Boumkœur, de Rachid Djaïdani, para o português do Brasil:...

BASTIAN, S. Langue(s) des cités: maux du dire – maux du traduire?, Adolescence,


Paris, n. 70, p. 859-871, 2009.

BERMAN, A. A tradução e a letra: ou o albergue do longínquo. Tradução Marie-


Hélène Catherine Torres et al. Rio de Janeiro: 7 Letras/PGET, 2007.

CAMPOS, H. de. Da transcriação: poética e semiótica da operação tradutora.


Belo Horizonte, UFMG, 2011.

CÉLESTIN, R. Boumkœur: excerpt. Contemporary French and Francophone


Studies, Connecticut, v. 8, n. 2, p. 193-198, ago. 2007.

CELLO, S. Traverser les banlieues littéraires : entre sensationnalisme et banalité


quotidienne. Itinéraires, Paris, n. 3, p. 1-12, 2017.

CUNHA LACERDA, P. F. A. Tradução e Sociolinguística Variacionista: a


língua pode traduzir a sociedade? Revista Tradução e Comunicação, Valinhos, v.
20, p. 127-142, 2010.

DJAÏDANI, R. Boumkœur. Paris: Seuil, 1999.

DUBOIS, C. Travailler l’écrit grâce au slam: une expérience didactique au sein


d’un Pôle d’Insertion. 2012. 130 f. Dissertação. (Mestrado em Francês Língua
Estrangeira). Universidade de Grenoble, Grenoble, 2012.

EVEN-ZOHAR, I. The position of translated literature within the literary


polysystem. In: ______. Papers in Historical Poetics. Tel Aviv: Porter Institute
for Poetics & Semiotics, 1990, p. 192-197.

FRANÇOIS, C. Des littératures de l’immigration à l’écriture de la banlieue :


Pratiques textuelles et enseignement. Synergies Sud-Est européen, n. 1, [S.L], p.
149-157, 2008.

GLISSANT, E. Introdução a uma poética da diversidade. Tradução Enilce do


Carmo Albergaria Rocha. Juiz de Fora: UFJF, 2001.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 205-225, set-dez, 2018 223


Letícia Campos de Resende

GOUDAILLIER, J.-P. Comment tu tchatches !. 3. ed. Paris: Maisonneuve &


Larose, 2001.

HOLCMANOVÁ, Z. Traduction de Boumkœur de Rachid Djaïdani: influence du


milieu sur la richesse du langage familier. 2009. 68 f. Trabalho de conclusão de
curso. (Graduação em Letras). Universidade de Masaryk, Brno, 2009.

LEDERER, M. Interpréter pour traduire. In: ______. La traduction aujourd’hui :


le modele interprétatif. Paris: Lettres Modernes Minard, 2015, p. 9-38.

PODHORNÁ-POLICKÁ, A. et al. Traduire l’argot des jeunes des cités : résultats


d’une compétition interuniversitaire pour la traduction de Boumkœur de Rachid
Djaïdani. In: Praktika-Actes-Proceedings. Thessaloniki: University Studio Press,
2010, p. 448-461.

RESENDE, L. C. de. Boumkœur, de Rachid Djaïdani: estudo e tradução para o


Português do Brasil. 2017. 151 f. Trabalho de conclusão de curso (Bacharelado
em Letras: Tradução – Francês). Universidade Federal de Juiz de Fora, Juiz de
Fora, 2017.

SANTIAGO, S. Presença da língua e da literatura francesa no Brasil: para uma


história dos afetos culturais franco-brasileiros. Letras, Santa Maria, v. 19, n. 2,
p. 11-25, jul.-dez. 2009.

SCHLEIERMACHER, F. Sobre os diferentes métodos de traduzir. Tradução


Celso Braida. Princípios, Natal, v. 14, n. 21, p. 233-265, jan.-jun. 2007.

SOUKALOVÁ, B. Faiza Guène: Du rêve pour les oufs : Traduction et analyse des
traits d’argot commun des jeunes. 2008. 60 f. Trabalho de conclusão de curso.
(Graduação em Letras). Universidade de Masaryk, Brno, 2008.

TARALLO, F. Aspectos Sociolinguísticos da Tradução. In: COULTHARD,


M.; CALDAS-COULTHARD, C. R. (Org.). Tradução: teoria e prática.
Florianópolis : Editora da UFSC, 1991, p. 33-46.

VENUTI, L. The Translator’s Invisibilty: A History of Translation. 2. ed. New


York: Routledge, 2008.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 205-225, set-dez, 2018 224


A tradução de Boumkœur, de Rachid Djaïdani, para o português do Brasil:...

______. Escândalos da Tradução: por uma ética da diferença. Tradução Laureano


Pelegrin et al. São Paulo: EDUSC, 2002.

VITALI, I. Une traduction “puissance trois”: Rachid Djaïdani et la langue des


cités. Traduire, Paris, n. 226, p. 108-119, jan. 2012.

Recebido em: 15/03/2018


Aceito em: 16/07/2018
Publicado em setembro de 2018

Letícia Campos de Resende. E-mail: et-resende@hotmail.com


ORCID: https://orcid.org/0000-0002-3278-6373

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 205-225, set-dez, 2018 225


http://dx.doi.org/10.5007/2175-7968.2018v38n3p226

O TRADUTOR COMO TESTEMUNHA

Anna Basevi1
1
Universidade Estadual do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro
Rio de Janeiro, Brasil

Resumo: A narrativa testemunhal convoca o leitor de maneira peculiar,


pois sua responsabilidade de escuta (Jeanne Marie Gagnebin) o obriga a
se posicionar, através de uma leitura profunda, dentro de uma witness-
community (Lina Insana) que garante a transmissão da narração. E como
o leitor, o tradutor. Levando em conta aspectos narrativos e estilísticos da
literatura testemunhal, é possível traçar uma proposta que visa enriquecer
a ética e a prática de sua tradução identificando no ouvinte/leitor/tradutor
uma testemunha. Ao mesmo tempo, são lançados interrogativos úteis à
tradução em geral, aqui considerada, seguindo Henri Meschonnic, como
relação entre dois textos. A reflexão é conduzida a partir da análise de
problemáticas e cenas de tradução na obra Se questo è un uomo de Primo
Levi, sobrevivente de Auschwitz e hoje considerado um grande escritor
do século XX.
Palavras-chave: Literatura; Primo Levi; Testemunho; Tradução

THE TRANSLATOR AS A WITNESS

Abstract:The testimony literature involves the reader in a peculiar way,


because his responsibility of listening (Jeanne Marie Gagnebin) forces him
to position himself, through a deep reading, within a witness-community
(Lina Insana) that guarantees the transmission of the narration. As the
reader, the translator too. Taking into account narrative and stylistic
aspects of the testimonial literature, it is possible to draw up a proposal that
enriches the ethics and practice of its translation by identifying the listener
/ reader / translator as a witness. At the same time, useful interrogatives
are sent to the translation in general, considered here, following Henri
Meschonnic, as a relation between two texts. The reflection is conducted

Esta obra utiliza uma licença Creative Commons CC BY:


https://creativecommons.org/lice
Anna Basevi

from the analysis of translation problems and representation in Se questo


è un uomo, the first book of Primo Levi, an Auschwitz survivor and great
writer of the twentieth century.
Keywords: Literature; Primo Levi; Testimony; Translation

1. As tarefas da testemunha

Transmitir a experiência do campo de extermínio nazista a


quem não a vivenciou pode se revelar uma empreitada comunica-
tiva complexa, como sempre reiteraram as testemunhas e como o
escritor italiano Primo Levi, sobrevivente de Auschwitz, expressa
com estas linhas: “Pela primeira vez, então, nos damos conta de
que a nossa língua não tem palavras para expressar esta ofensa: a
aniquilação de um homem” (LEVI, 1988, p. 25). Robert Antel-
me, autor de L´espèce humaine, relata que, com a liberação do
campo de Buchenwald, os soldados do exército anglo-americano
depararam-se com prisioneiros impacientes de contar, e alguns, no
começo, mostraram-se receptivos. Todavia,

em seguida os camaradas não param mais: contam, contam,


contam, e logo o soldado não os ouve mais.[...] É que a
ignorância do soldado aparece imensa.[...] Diante do sol-
dado percebe-se já [...] a sensação de estar possuído por
uma espécie de conhecimento infinito, impossível de ser
transmitido. (ANTELME, 2010, p. 317, trad.nossa)

Apesar de as histórias dos deportados serem verdadeiras, Antel-


me conclui: “é preciso muito artifício para conseguir transmitir uma
porção de verdade” (Ibidem). Não se trata apenas do repetido tema
do “indizível”, mas do que Semprun (1994, p. 25) chama de “inviví-
vel” e de como a literatura pode oferecer soluções de representação.
Em Ardous tasks. Primo Levi, translation and the transmission
of holocaust testimony, Lina Insana lembra que diante da intenção

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 226-243, set-dez, 2018 227


O tradutor como testemunha

dos nazistas de destruir as provas de seus crimes, surge o problema


de como garantir a sobrevivência do testemunho, trasformando-
-o de ocultado em dito ou escrito. Tal transmissão pós-catástrofe,
portanto, seria um ato de traslatio, meditado durante o período do
campo, como preparação para o depois. O que seria confirmado
por Levi (1997, I, p. 201) quando lembra a vontade “de sobreviver
com a finalidade precisa de contar as coisas que tínhamos visto
e suportado”1. Neste sentido, para Insana a testemunha é já um
tradutor e a dificuldade de transmissão pode coincidir com a difi-
culdade de tradução, duas árduas tarefas.
A proposta da junção testemunho-tradução (INSANA, 2009,
p. 4) consiste em mostrar o quanto a metáfora da tradução se-
ria particularmente apropriada para o estudo da obra de Levi, não
apenas por causa do trabalho realizado como tradutor, mas pela
atenção dedicada às questões de linguagem, códigos, sistemas de
escrita, e através da própria representação narrativa de cenas de
tradução. Sabemos que em Se questo è un uomo a tradução das
ordens em alemão torna-se logo forma de sobrevivência de grupos
minoritários como os italianos, rodeados pelo alemão, o polonês,
o ídiche. A língua alemã é necessária tanto quanto um complexo
know-how de comunicação e de truques, a fim de saber exatamente
onde ir, a quem pedir, o que dizer, o que não dizer. A percepção
estranhante da Babel é trasmitida ao leitor através das inúmeras ex-
pressões, palavras ou frases estrangeiras (alemão, ídiche, tcheco,
francês, polonês, húngaro) como a sequência para a palavra pão
Brot- Broit-chleb-pain-lechem-kenyér, ou a palavra tijolo Ziegel-
-briques-tegula-cegli-kamenny-tégla. Pois dentro do Lager as dife-
renças linguísticas constituíam o marco divisório principal (MEN-
GALDO, 2007, p. 85).

1
Trad.nossa. Trata-se da “Appendice” a Se questo è un uomo, acrescentada pelo
escritor à edição escolar de 1976.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 226-243, set-dez, 2018 228


Anna Basevi

2. Deslizamentos da tradução

Embora o escritor nos informa que no Lager de Mauthausen,


ainda mais diversificado linguisticamente do que Auschwitz, “o
chicote se chamava der Dolmetscher, o intérprete, aquele que se
fazia compreender por todos” (LEVI, 2004, p. 80), sua represen-
tação do traduzir e do tradutor indica a importância da tarefa como
tarefa humana.
De fato, Levi constrói cenas de tradução em Auschwitz, onde
traduzir se torna sobrevivência, desconcerto, ou até resistência.
Em primeiro lugar, ao chegar ao Campo, os prisioneiros poliglotas
assumem a tarefa de traduzir, para os companheiros desorienta-
dos, as primeiras informações sobre o lugar e as ordens das SS.
No começo do capítulo “No fundo”, os deportados, descem do
caminhão após dias de viagem sem água e são fechados numa sala
gelada, próximos a uma goteira de água não potável que desce de
uma torneira. “Este é o inferno”, deduz o narrador, visualizando
um mundo infernal moderno naquela imagem de sala vazia onde,
obrigados a ficar de pé, exaustos e sedentos, se insere uma nova
consciência de tempo imóvel: “o tempo passa gota a gota” (LEVI,
1988, p. 20). O primeiro evento que irrompe na imobilidade no-
turna é a busca por um tradutor, sem o qual as ordens dos alemães
permaneceriam incompreensíveis:

Não estamos mortos: abre-se a porta, entra, fumando, um


sargento SS. Olha-nos sem pressa; pergunta: - Wer kann
Deutsch ?- Adianta-se um de nós que eu nunca vira, chama-
se Flesch ; será nosso intérprete. O SS fala longa e tranquila-
mente; o intérprete traduz. Devemos formar filas de cinco,
deixando um espaço de dois metros entre um e outro; a se-
guir, despir-nos e fazer uma trouxa com nossas roupas con-
forme critério determinado [...] tirar os sapatos, com cuidado
para que não nos sejam roubados (LEVI, 1988, p. 20).

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 226-243, set-dez, 2018 229


O tradutor como testemunha

Uma série de perguntas forma-se entre os prisioneiros e o tra-


dutor as reproduz, mas às vezes ele mesmo mostra perplexidade
diante da crueldade nazista:

Estamos todos olhando para o intérprete, e o intérprete per-


guntou ao alemão, e o alemão fumava e o atravessou com o
olhar de parte a parte, como se fosse transparente, como se
ninguém tivesse falado.
Eu nunca tinha visto velhos nus. O Sr. Bergmann usava um
cinto herniário, e perguntou ao intérprete se devia tirá-lo
e o intérprete hesitou. O alemão compreendeu, porém, e
falou sério ao intérprete indicando alguém; vimos o intér-
prete engolir seco, e em seguida disse: - O sargento manda
o senhor tirar o cinto e receber o do Sr Coen. Viam-se as
palavras amargas saindo da boca de Flesch, era o jeito do
alemão rir (LEVI, 2012, p. 16, trad. nossa)2.

Sublinhamos o primeiro tempo presente que age em contraste


com os restantes do passado. Para poder analisar esta citação, pre-

2
Trata-se da mesma citação, cujo segundo trecho traduzimos novamente, pois a
tradução da edição brasileira de 1988 tende a arrumar todo o texto, eliminando
conjunções e mudando a pontuação e não segue os tempos verbais originais onde
seria possível, escolhendo cancelar o contraste do início. Cfr. LEVI, 1988, p. 21.
Em italiano: Tutti guardiamo l´interprete, e l´interprete interrogò il tedesco, e il
tedesco fumava e lo guardò da parte a parte come se fosse stato trasparente, come
se nessuno avesse parlato. Non avevo mai visto uomini anziani nudi. Il signor
Bergmann portava il cinto ernario, e chiese all´interprete se doveva posarlo,
e l´interprete esitò. Ma il tedesco comprese, e parlò seriamente all´interprete
indicando qualcuno; abbiamo visto l´interprete trangugiare, e poi ha detto: - Il
maresciallo dice di deporre il cinto, e che le sarà dato quello del signor Coen -.
Si vedevano le parole uscire amare dalla bocca di Flesch, quello era il modo di
ridere del tedesco (Ibid., p. 16, sublinhado nosso). Ainda há o problema de dois
tipos de passados (passato prossimo e passato remoto). O passato remoto (um
passado, como o passé simple francês, utilizado para passados mais longínquos,
em textos de histórias, fábulas, biografias etc.) substitui o presente e em seguida
é atenuado pelo passato prossimo (como o passé composé, um passado mais
próximo, mais usado: “abbiamo visto”, “ha detto”).

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 226-243, set-dez, 2018 230


Anna Basevi

ferimos propor uma tradução que não mude o jogo dos tempos
verbais com a intenção de garantir uma coerência sintática, pois o
próprio escritor escolheu quebrá-la. E concordamos com Domeni-
co Scarpa (1991, p. 236), segundo o qual entre os “milagres” que
o escritor consegue obter, está o desmontar e o montar, sob o olhar
do leitor, os tempos da narração.
Observe-se, então, a mudança de tempo verbal intercorrente
entre o olhar em direção ao tradutor e a pergunta colocada por este
ao SS. Mas o tradutor é transparente para o oficial nazista, porque
pertence aos prisioneiros desumanizados. Não se trata do único
exemplo de mudança de tempo verbal, embora aqui particularmen-
te rápido. Mas o que acontece nesta defasagem gramatical? Como
afirma Pier Vincenzo Mengaldo o presente atualiza a experiência
e convida o leitor a adentrá-la, a sentir sua realidade incancelável,
e por esta razão o tempo “desliza insensivelmente de histórico a
acrônico, ou eterno”3. Ressaltaremos que o deslizamento acontece
na mesma frase, desde o olhar do sujeito plural – o “nós” narrati-
vo – enquanto observa o intérprete (“Estamos todos olhando para
o intérprete”), isto é do presente de um gesto silencioso (o olhar),
à ação do tradutor, na qual o verbo é transformado ou deformado
ao passado (“o intérprete perguntou ao alemão”), alteração que
permanece nas ações a seguir. O tradutor é, nesta frase, o motor
da transformação, com sua fala se passa do presente ao passado,
do mundo dos vivos ao mundo dos mortos, ele transfere os prisio-
neiros, como Caronte de uma margem à outra, e os leva até o olhar
do alemão, que é (in)diferente, como se eles fossem de ar, almas
perdidas sem corpos, pois ele olha “como se fosse transparente,
como se ninguém tivesse falado.”
Ao assumir o passado, o diálogo narrado entre o tradutor e o SS
volta a ser testemunho, recordação. De repente o leitor, que estava
dentro do Lager com o prisioneiro (por meio do presente usado no
trecho anterior), retoma o lugar na plateia como espectador. Esta
aproximação-distanciamento assemelha-se ao exercício de se colo-

3
MENGALDO, 1997, p. 203-204.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 226-243, set-dez, 2018 231


O tradutor como testemunha

car no lugar de quem narra, entrar na narração ao máximo possível


e conseguir ao mesmo tempo permanecer em parte fora, no lugar
de quem deverá preservar sua capacidade analítica após ter vivido
empaticamente o que leu.
Outro aspecto estilístico para a mudança temporal é identificá-
vel na utilização de elementos da narração oral4, observado ainda
por Mengaldo. Domenico Starnone (apud FERRERO, 2007, p.
49) utiliza uma expressão eficaz ao dizer que Levi está entre “os
que escrevem deixando dentro da própria escrita um pouco de voz.
Quem começa a ler, se sente mais ouvinte do que leitor.” A li-
berdade da narração oral permite passagens temporais, enquanto
presente e perfeito “distante” ou “histórico” (o “passato remoto”)
possuem ambos legitimidade para narrar fatos longínquos.
A nosso ver, no leitor pode-se instalar também a sensação de
que o escritor esteja engajado numa tentativa en abîme para encon-
trar o enfoque certo – como o gesto de ajeitar o foco de uma lente
fotográfica – para que, então, seja possível contar a ofensa. Como
encontrar as palavras, pergunta-se Levi, quando o significado de
“humanidade” é ofuscado, desfocado, embaçado, incerto? A trans-
missão é um contínuo reajuste expressivo, um terreno movediço de
negociação entre experiência e narração.
Ainda podemos pensar em uma incoerência sintática, uma con-
fusão gramatical como reflexo do desnorteamento, do estar de re-
pente num mundo sem referências, sem hoje nem amanhã, sem as
leis conhecidas da divisão temporal da vida comum.
O texto de Derrida sobre Blanchot, L´instant de ma mort, relato
de um episódio de condenação a uma fuzilação suspensa no último
instante, ajuda-nos a pensar sobre as mudanças temporais dos verbos

4
Levi (2004, p. 148) comentou que seu primeiro livro “devia ser, mais do que
um livro, um registro de gravador”. Todavia, Belpoliti (2015, p. 601) observa
com razão que sua oralidade é sempre subordinada à escrita, ou pelo menos “não
se trata da tipologia popular do narrador espontâneo, e sim a do narrador culto,
de origem intelectual, um escritor que é antes de tudo um leitor (ou um ouvinte,
como afirma em A chave estrela)”. De resto, é suficiente assistir a entrevistas em
vídeo com Levi (disponíveis na Internet) para perceber o estilo de sua fala.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 226-243, set-dez, 2018 232


Anna Basevi

em Levi. Derrida (1995, p. 51) analisa as expressões temporais e


gramaticais capazes de captar e imobilizar o instante da não-morte
narrado por Blanchot: “Não há um tempo só, e como um instante
não possui nenhuma medida comum ao outro, a partir da causalidade
introduzida pela morte, não é possível medir o tempo nem uma vez
recuperada a percepção do real”5. Refletindo sobre as palavras de
Derrida dedicadas a Blanchot, gostaríamos de sublinhar o quanto a
presença da morte ordena ou desarruma o tempo, alienando o indiví-
duo da dimensão cronológica, que antes era um ponto de referência.
No “buraco negro” de Auschwitz, podemos afirmar com Derrida
(Ibid., p. 52) que o tempo não é mensurável; tanto é que passa “gota
a gota” (LEVI, 1988, p. 20), quase parando, parado, ou é percebido
como imóvel. E, neste sentido, o tempo do Lager apresenta-se como
um extenso “instante” da própria morte. Até a alternância – possível
no francês e no italiano - de tempos do pretérito de diferente quali-
dade (o passato prossimo e o passato remoto) parece estar a serviço
da reviravolta da percepção temporal dentro do Campo e também da
necessidade de transmitir o peso da ofensa.
Na cena seguinte as perguntas deparam-se com uma tradução
impossível.

Abre-se a porta, entra um alemão, é o sargento de antes;


fala brevemente, o intérprete traduz : - O sargento mandou
ficarem calados, isto não é uma escola rabínica. Vê-se que
as palavras, estas palavras maldosas, que não são dele, fa-
zem repuxar a sua boca, como se ele cuspisse um bocado
nojento. Rogamos que pergunte o que estamos esperando,
quanto tempo ainda vamos ficar aqui, que pergunte pelas
nossas mulheres, que pergunte tudo, mas não, ele diz que
não, que não quer fazer perguntas (LEVI, 1988, p. 22).

O tradutor, apesar de ser alemão, vivencia uma notável dificul-


dade, quando, ao usar aquele idioma – daquela forma e naquele
5
Trad.nossa.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 226-243, set-dez, 2018 233


O tradutor como testemunha

lugar –, vê-se obrigado a engolir o Lagerjargon com seus signifi-


cados brutais e paradoxais; em suma, a violentar a linguagem.

Esse Flesch, que contra a sua vontade concorda em traduzir


para o italiano frases alemãs geladas, e que se recusa a
verter para o alemão as nossas perguntas, porque sabe que
não adianta, é um judeu alemão de uns cinquenta anos [...]
É um homem retraído e caladão, pelo qual sinto um espon-
tâneo respeito, porque compreendo que começou a sofrer
antes de nós (Ibid., p. 22-3).

Aqui, o tempo presente acompanha a sequência inteira, mais


subjetiva, onde prevalecem o pensamento do momento e o estado
de ânimo do narrador.
O tradutor Flesch, em seu papel improvisado, mas fundamen-
tal, encontra-se na impossibilidade de reproduzir as perguntas dos
prisioneiros, e o narrador reconhece o drama de sua condição. Per-
cebemos um elo com o conhecido episódio em que Primo arranca
um pedaço de gelo para satisfazer a sede “feroz”, e um Kapò inter-
vém brutalmente: “Warum?” (Por que?) pergunta o prisioneiro, e
a seca resposta é: “Hier ist kein warum” (aqui não existe por quê).
Qualquer ponto de interrogação é abolido em função de frases im-
perativas, exclamativas, unilaterais destinadas a dar ordens sobre
vida e morte. E onde o diálogo desagrega-se, a tradução também
é amputada. O percurso será o inverso no capítulo “O canto de
Ulisses”, quando, a partir de uma tradução falha, mas expressiva,
Levi conseguirá estabelecer uma daquelas frestas por onde passam
a poesia, a comunicação humana, o pensamento vivo.

3. Ética de uma comunidade testemunhal

A atividade tradutória no Campo, portanto, abrange também


as esferas da poesia. Levi, como Jorge Semprún e Ruth Klüger,

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 226-243, set-dez, 2018 234


Anna Basevi

atribui o valor de suporte aos poemas e à potência simbólica da li-


teratura, em contextos extremos. No capítulo “O canto de Ulisses”
o prisioneiro caminha, num breve momento de pausa, ao lado de
um companheiro francês interessado na língua italiana; logo, lhe
vem à mente um trecho da Comédia de Dante, tenta lembrar as
rimas exatas, traduzir os versos, ilustrar interpretações ao amigo,
tomando o cuidado necessário para não serem descobertos. O texto
ausente, mas memorizado na escola, fundador da língua italiana,
permite ressignificar tanto a linguagem poética quanto a língua-
-mãe de Levi, naquele momento língua-pátria ou, melhor, língua-
-mátria. Os versos apresentam-se na memória do prisioneiro como
voz de um antepassado, uma raiz, um guia, enquanto seu amigo
Jean, apelidado (por Levi) de Pikolo, escuta concentrado. Através
da tradução oral para o francês, mesmo se lacunosa, o prisioneiro
reedita clandestinamente o XXVI canto, o canto da viagem de Ulis-
ses em mar aberto além de Gibraltar e da sede humana de conhe-
cimento. A centralidade deste ouvinte leva Robert Gordon (2003,
pp. 216-217) a afirmar que, no episódio, “o verdadeiro herói não
é Dante, não é Ulisses e nem é Levi, mas, sim, Jean Pikolo”,
“um mestre da humana arte de escutar.” O diálogo entre os dois
prisioneiros, no qual Levi concentra todas as energias na tradução
do canto da Comédia, é visto por Gordon, como “a cena primária
da ética da escuta de Levi” e também o antípoda do pesadelo do
sobrevivente de não ser escutado - aquele sonho no qual, ao voltar
à sua casa, ninguém entre os familiares presta atenção à narração
sobre o Campo6.

6
“Aqui está minha irmã, e algum amigo (qual?), e muitas outras pessoas. Todos
me escutam, enquanto conto do apito em três notas, da cama dura [...]. Conto
também a história da nossa fome, e do controle dos piolhos, e do Kapo que me deu
um soco no nariz [...]. É uma felicidade interna, física, inefável, estar em minha
casa, entre pessoas amigas, e ter tanta coisa para contar, mas bem me apercebo
que eles não me escutam. Parecem indiferentes; falam entre si de outras coisas,
como se eu não estivesse. Minha irmã olha para mim, levanta, vai embora em
silêncio. Nasce, então, dentro de mim, uma pena desolada, como certas mágoas
da infância” (LEVI, 1988, p. 60).

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 226-243, set-dez, 2018 235


O tradutor como testemunha

Lina Insana (2009, p. 48) identifica no episódio citado o


início de uma “post-Auschwitz audience”, cujo iniciador seria a
personagem de Pikolo. A afirmação da estudiosa chama a atenção
sobre uma ação em conjunto: “He doesn´t merely teach Jean the
passage; they create a translation of it together, in community”
(Ibidem). Esta comunidade de tradução é metáfora da comunidade
das testemunhas. Podemos acrescentar que Levi (2012, p. 99)
constrói narrativamente seu modelo de testemunha, nas reações
referidas a Pikolo: “muito atento”, “bom” “me pede para repetir”,
“percebeu que lhe concerne” “recebeu a mensagem”, “concerne a
nós dois”. Essas são as atitudes do ouvinte, enquanto o narrador
tentava lembrar, traduzir e explicar os versos de Dante, testemunha
ficcional do testemunho de Ulisses sobre o próprio naufrágio.
Uma cena de A trégua (1963) configura-se como oposta, apre-
sentando uma não tradução, ou uma omissão de tradução: após
a chegada dos soviéticos e já fora do Campo, um advogado se
oferece para traduzir o relato que o ex prisioneiro tenta fazer a um
pequeno público de poloneses. Quando o narrador percebe que não
está sendo traduzido com precisão e que o gentil advogado está
mudando a história evitando a palavra “judeu”, o sentimento de
desamparo, frustração, desilusão pela voz abafada é visto como
realização do pesadelo recorrente contado em Se questo è un uomo,
aquele pesadelo de voltar e não ser ouvido.

Percebi que a onda quente do sentir-se livre, do sentir-se


homem entre os homens, do sentir-se vivo, refluía longe de
mim. Encontrei-me de pronto velho, exangue, cansado além
de toda medida humana: a guerra não terminara, guerra é
sempre. Os meus ouvintes foram-se em pequenos grupos:
deviam ter entendido. Eu sonhara algo semelhante, todos
sonháramos, nas noites de Auschwitz: falar e não sermos
ouvidos, de reencontrar a liberdade e permanecer solitários
(LEVI, 1997, p. 51).

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 226-243, set-dez, 2018 236


Anna Basevi

O que nos interessa é a descrição da decepção diante de uma


tradução desviada, que impede a transmissão da experiência e nega
ao sobrevivente a escuta, amplificando a tentativa de cancelamento
do testemunho e, portanto, a presença ou ausência da citada witness
audience. Se este círculo testemunhal inclui o ouvinte, ele é convo-
cado para que assuma uma responsabilidade no testemunho, como
afirma Jeanne Marie Gagnebin:

Testemunha também seria aquele que não vai embora, que


consegue ouvir a narração insuportável do outro e que
aceita que suas palavras levem adiante, como num reveza-
mento, a história do outro: não por culpabilidade ou por
compaixão, mas porque somente a transmissão simbólica,
assumida apesar e por causa do sofrimento indizível, so-
mente essa retomada reflexiva do passado pode nos ajudar a
não repeti-lo infinitamente, mas a ousar esboçar uma outra
história, a inventar o presente (GAGNEBIN, 2006, p. 57).

Se a escuta faz parte do testemunho, quem escuta também é


uma testemunha e o torna possível. O mesmo acontecerá com o
leitor e, a partir disso, podemos estender a tarefa a quem traduz.
É aqui que surge uma ética tradutória: a literatura de testemunho
nos pede com força a assunção de uma responsabilidade na escuta,
e o tradutor, por ser um leitor-ouvinte profundo, precisa assumir
um posicionamento claro relativamente às questões do testemunho,
pois ele, exatamente como o escritor, encontra-se no embate entre
urgência de testemunhar e a procura da forma pertinente.
Acreditamos que não escutar seja particularmente problemático
no caso da literatura de testemunho, levando em consideração que
escritores como Primo Levi, Germaine Tillion, Robert Antelme,
Elie Wiesel, Robert Antelme, empenharam-se pela transmissibili-
dade da experiência e principalmente pela escuta de sua narrativa
testemunhal desde logo. Muitos sobreviventes preferiram calar e
tentar esquecer, alguns escritores resolveram testemunhar somente
mais tarde (como, por exemplo, Jorge Semprun, Imre Kertész,

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 226-243, set-dez, 2018 237


O tradutor como testemunha

Aharon Appelfeld, Ruth Klüger). De qualquer forma a literatura


tematiza e problematiza com muita frequência a questão do silêncio
versus testemunho/narração e, ao mesmo tempo, desvela o dilema
insolúvel da condição aporética do sobrevivente, sintetizada por
Elie Wiesel na conclusão: “Calar é proibido, falar é difícil, se não
impossível” (Wiesel, 2013, p. 13). A literatura, no entanto, conse-
gue representar um espaço onde incluir possibilidades e impossibi-
lidades da linguagem. Deste espaço faz parte um leitor que, como
vimos, se supõe ouvinte de um testemunho.

4. Marcas de uma relação

E aqui torna-se necessário abordar a aventura das traduções des-


te livro fundamental que é Se questo è un uomo. A atitude de Levi
diante da tradução em alemão nos diz muito sobre a necessidade
da testemunha de se sentir escutada e compreendida e do escritor
de ser lido de maneira profunda. O escritor debateu as sutilezas
do estilo com seu tradutor alemão, dando importância a uma série
de aspectos que em muitas outras traduções são negligenciados: o
jargão do Lager, o plurilinguismo, questões semânticas e intertex-
tuais, jogo dos tempos verbais 7.
Quando, em 1961, Heinz Riedt traduziu Se questo è un uomo
para o alemão, a questão da “acústica” permanecia central com
uma motivação clara:

queria que naquele livro, especialmente em sua versão


alemã, não se perdesse nada das asperezas, das violências
feitas à linguagem que, de resto, me esforçara ao máximo
para reproduzir no original italiano. (LEVI, 2007, p. 142)8

7
Parte das cartas entre Levi e o tradutor Heinz Riedt estão arquivadas como
Letters Primo Levi-Heinz Riedt. Ian Thomson collection, fasc.1406/2/22, Wiener
Library, London.
8
Trad. nossa. Discordamos da tradução brasileira que opta por “violência im-
primida na linguagem” (LEVI, 2004, p.149), diferente de “violências feitas à

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 226-243, set-dez, 2018 238


Anna Basevi

A finalidade era restituir um alemão “que soasse ao ouvido


deles como uma língua estrangeira”, um estranhamento ao ouvir
o jargão do campo, a língua nazificada analisada também pelo
filólogo Victor Klemperer. Traduzir Se questo è un uomo em
alemão significava “devolver a acústica de Auschwitz a seu lugar
de origem” (SCARPA, 2015, p. 65). O leitor alemão havia de
vivenciar a dissonância, o estranhamento sonoro de sua língua
usada para a morte, a ferida aberta da história recente, e esta so-
noridade o lembraria de uma ameaça permanente (Ibidem).
A intuição de Levi, como diz Domenico Scarpa, foi a de colocar
os alemães na frente de um “espelho acústico” (Ibidem) que leva-
ria a perceber a correspondência entre o alemão degradado de Ist
das ein Mensch? e o contexto propício ao ódio antissemita.
Levi atribuía suma importância à tradução alemã em prol da
prioridade de se comunicar com os alemães, primeiros destinatá-
rios do livro, por uma necessidade de compreensão e ressarcimento
moral ao mesmo tempo:

O encontro que eu esperava, e com o qual tão intensamente


sonhava (em alemão) à noite, era um encontro com um da-
queles de lá, que dispuseram de nós, que não nos olharam
nos olhos, como se nós não tivéssemos olhos. (LEVI, 1994,
pp. 214-215)

Durante o trabalho do tradutor alemão, Levi pediu-lhe que não


mudasse sequer uma palavra e que lhe submetesse as páginas, à
medida que eram traduzidas:

eu intimava-o a não cortar ou trocar uma só palavra do


texto, e exigia mandar-me o original da tradução por partes,
capítulo por capítulo, à medida que o trabalho prosseguisse;

linguagem”, enquanto no original lemos: “quelle violenze fatte al linguaggio”


(LEVI, 2007, p.142).

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 226-243, set-dez, 2018 239


O tradutor como testemunha

queria controlar sua fidelidade, não só lexical, mas interna”


(Ibid., p. 145).

Partindo do desejo explícito de ter os alemães como público-


-alvo, podemos deduzir, portanto, um aspecto tradutório de seu
primeiro livro, paradoxal, mas interessante: Levi o escreve como
uma tradução não apenas da experiência, mas da linguagem-atmos-
fera do campo e quer que seja traduzido para o alemão, como se o
alemão fosse um segundo original, seu duplo:

De um certo modo, não se tratava de uma tradução, mas,


antes, de uma restauração: esta versão era, ou eu queria
que fosse, uma restitutio in pristinum, uma retroversão para
a língua na qual as coisas tinham ocorrido e às quais se
referiam” (Ibid., p. 148).

De fato, Levi fala da edição alemã como se fosse a continuação


do mesmo texto: “Como compreenderá, é o único livro que escre-
vi, e agora que acabamos de vertê-lo para o alemão, sinto-me como
um pai cujo filho chegou à maioridade e vai embora, e dele não se
pode mais ocupar” (Ibidem). O verbo italiano trapiantare (traduzi-
do com o menos metafórico “verter”) aponta para um transplante
num outro terreno da mesma criação-criatura, e o fato de que a
tradução alemã seja comparada a um filho mais velho e maior de
idade prova o quanto esta etapa marcaria a ultimação da escrita de
Se questo è un uomo, sua realização plena. Como sugere Henri
Meschonnic (1999, p. 31), quando fala da necessidade de escuta:
“traduire peut continuer le texte”. Em suma, estamos diante de um
texto prolongado, ampliado, que compõe com seu original quase
uma unidade. Não seria assim para todo texto traduzido?
Evitando o conflito entre posições sobre tradução que atri-
buem a primazia absoluta ao texto original ou à criação do tra-
dutor, a concepção de uma nova obra composta tanto do texto
traduzido que de sua tradução nos levaria fora do impasse (como

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 226-243, set-dez, 2018 240


Anna Basevi

muitas edições poéticas de fato concretizam, ao colocar as duas


versões, lado a lado).
Partimos da premissa de que a tradução de um texto de litera-
tura testemunhal requer uma dupla clareza, em relação à tradução
da literatura e em relação à voz-estilo encontrada pela testemunha.
A relação testemunho-tradução ajuda, portanto, a ressaltar um pro-
blema maior, de relações entre um texto e a escuta que o tradutor
aciona. Não poderia o tradutor, de qualquer obra literária, ser con-
siderado a testemunha de algo? De um texto, de um estilo, de uma
tentativa de transmissão, de representação? E aqui valeria a pena
lembrar a proposta de Meschonnic (1999, p. 103): considerar a
tradução como relação entre textos e não entre línguas. E a relação
é um unicum, resultado da alquimia de dois elementos em diálogo.
Ampliando a ideia de Insana da testemunha como tradutor gos-
taríamos de acrescentar a inversão: o tradutor como testemunha.
Testemunha de um acontecimento chamado “texto” ou, melhor, de
uma relação entre textos. A responsabilidade ética que desponta da
tarefa do tradutor de literatura testemunhal pode reforçar caminhos
da tradução de toda literatura.

Referências

ALIGHIERI, Dante. A divina comédia. Inferno. Trad. Ítalo Eugênio Mauro. S.


Paulo: Editora 34, 1999.

ANTELME, Robert. L´espèce humaine. Paris: Gallimard, 2010.

DERRIDA, Jacques. L´istante della mia morte. Aut-aut, [S.L] n. 267-8, 1995.

FERRERO, Ernesto. Primo Levi, la vita, le opere. Torino: Einaudi, 2007.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 226-243, set-dez, 2018 241


O tradutor como testemunha

GAGNEBIN, Jeanne Marie. Lembrar, escrever, esquecer. São Paulo: Editora


34, 2006.

GORDON, Robert S.C. Primo Levi: le virtù dell´uomo normale. Roma: Carocci,
2003.

INSANA, Lina N. Ardous tasks. Primo Levi, translation and the transmission of
holocaust testimony. Toronto: University of Toronto Press Incorporated, 2009.

LEVI, Primo. Se questo è un uomo (Notas de Alberto Cavaglion).Torino: Einaudi,


2012.

______. É isto um homem?.Trad. Luigi Del Re. Rio de Janeiro: Rocco, 1988.

______. A trégua . Trad. Marco Lucchesi. São Paulo: Companhia das Letras,
1997.

______. Tutti i racconti. Torino: Einaudi, 2005.

______. 71 contos de Primo Levi. Trad. Maurício Santana Dias. São Paulo:
Companhia das Letras, 2005.

______. Letters Primo Levi-Heinz Riedt. Ian Thomson collection, fasc.


1406/2/22, Wiener Library, London.

MENGALDO, Pier Vincenzo. Lingua e scrittura in Levi. In: FERRERO, Ernesto


(Org.). Primo Levi: un´antologia della critica. Torino: Einaudi, 1997, pp. 169-242.

______. La vendetta è il racconto. Torino: Bollati Boringhieri, 2007.

MESCHONNIC, Henri. Poétique du traduire. Paris, Verdier, 1999.

SCARPA, Domenico. Leggere in italiano, ricopiare in inglese. In: GOLDSTEIN,


Ann; SCARPA, Domenico. In un´altra lingua. (Lezione Primo Levi). Torino:
Einaudi, 2015.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 226-243, set-dez, 2018 242


Anna Basevi

______. Chiaro/scuro. In: BELPOLITI, Marco (Org). Primo Levi. Riga, n.13.
Milano: Marcos y Marcos, 1991.

SEMPRUN, Jorge. Le grand voyage. Paris: Folio, 1990.

______. L’écriture ou la vie. Paris: Gallimard, 1994.

WIESEL, Elie. Prefáce. In: ______. La nuit. Paris: Les éditions de minuit,
2007.

______. A noite. Tradução de Irene Ernest Dias. Rio de Janeiro: Ediouro, 2001.

Recebido em: 25/03/2018


Aceito em: 27/07/2018
Publicado em setembro de 2018

Anna Basevi. E-mail: annabasevi@hotmail.com


ORCID: https://orcid.org/0000-0002-6635-1239

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 226-243, set-dez, 2018 243


http://dx.doi.org/10.5007/2175-7968.2018v38n3p244

CLARICE LISPECTOR’S RADICALITY TRANSLATED


INTO THE ENGLISH-SPEAKING LITERARY SYSTEM1

Luana Ferreira de Freitas2 2


2
Universidade Federal do Ceará, Fortaleza, Ceará, Brasil

Abstract: This article aims to investigate whether Clarice’s radical use


of language was somehow achieved in translations and especially in the
retranslations of her work into English, or whether this radicality itself made
the Claricean legacy an obstacle to its absorption in the English-speaking
literary system. I will deal with Perto do coração selvagem in Pontiero’s
(1990) and Entrekin’s (2012) translations and the short story “A menor
mulher do mundo” in Pontiero’s (1960) and Dodson’s (2015) translations.
Keywords: Clarice Lispector; English-speaking literary system; Translation.

A RADICALIDADE DE CLARICE LISPECTOR


TRADUZIDA PARA O SISTEMA LITERÁRIO
ANGLÓFONO

Resumo: O artigo tem como objetivo investigar se o uso radical de língua


de Clarice foi, em alguma medida, alcançado nas traduções e especifica-
mente nas retraduções de sua obra para o inglês ou se essa radicalidade
em si fez do legado de Clarice um obstáculo à sua absorção no sistema
literário anglófono. Lido com as traduções de Pontiero (1990) e Entrekin
(2012) do romance Perto do coração selvagem e das traduções de Pon-
tiero (1960) e Dodson (2015) do conto “A menor mulher do mundo”.
Palavras-chave: Clarice Lispector; Sistema literário anglófono; Tradução

1
Paper presented at After Clarice: Lispector’s Legacy International Conference,
at the University of Oxford, on November 18, 2017.
2
CAPES research grant holder (visiting researcher at Vrije Universiteit Brussel).

Esta obra utiliza uma licença Creative Commons CC BY:


https://creativecommons.org/lice
Luana Ferreira de Freitas

“Sim que estava compreendendo as palavras, tudo o que elas


continham. Mas apesar de tudo a sensação de que elas possuíam
uma porta falsa, disfarçada, por onde se ia encontrar
seu verdadeiro sentido”3

Clarice4 in English

Clarice has been translated into English5 since 1960 by the likes
of Gregory Rabassa, Elizabeth Bishop, Giovanni Pontiero, and
Elizabeth Lowe. Clarice’s fictional narrative is well represented in
English with all her novels6 translated now. As to her short stories,
besides the translations of Laços de família, A legião estrangeira
e A via crucis do corpo, Katrina Dodson’s 2015 translation of
Clarice’s stories, The Complete Stories, and its success7 seem to
point to the relative stability of Clarice’s place in the English-
speaking literary system.
The analysis here proposed stems from Benjamin Moser’s
project, that is, his Clarice’s biography, Why This World: A
Biography of Clarice Lispector, the first compilation of all of
Clarice’s short stories, Complete Stories, above mentioned, and the
retranslation of six of the most celebrated novels by Clarice: Perto
do coração selvagem, A hora da estrela, A paixão Segundo G.H.,
Água viva, O lustre, Um sopro de vida. The aim is to analyse how

3
Perto do coração selvagem, part 1, chapter “O banho”, (29).
4
In Brazil we refer to Clarice Lispector as merely Clarice instead of the more
formal Lispector. The same phenomenon is observed with Machado de Assis,
here merely Machado.
5
For further discussion, see “A internacionalização de Clarice Lispector: A histó-
ria clariceana em inglês”, in http://dx.doi.org/10.5007/2175-7968.2017v37n2p40
6
O lustre, The Chandelier, in English, has just been published by New Direc-
tions, translated by Magdalena Edwards and Benjamin Moser.
7
New York Times Editors’ Choice, 100 Notable Books of 2015, 12 Best Book
Covers of 2015; Best of 2015: New York Times, NPR, BBC, Vogue, Vanity Fair,
BuzzFeed, Literary Hub, Flavorwire, Kirkus Reviews, Boston Globe, The Inde-
pendent, National Post, San Francisco Chronicle, Al Día, Entropy, 3:AM Maga-
zine, Hugo House, KQED; Top 5 Literary Stories of the Year, Literary Hub;
Winner of the 2016 PEN Translation Prize among others.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 244-258, set-dez, 2018 245


Clarice Lispector’s radicality translated into the English-speaking...

and if these retranslations considered Clarice’s style, above all the


rhythm of the narrative, unusual collocations, lexical choices and
the combination of form and content in the author’s writings.
The discussion of the translations into English of the novel
Perto do coração selvagem, and the story “A menor mulher do
mundo” by Clarice Lispector, here presented, will deal with the
aesthetic treatment that the writer gave to these two texts and how
her translators reacted to this radicality of her writing. The texts
in exam were chosen mainly because of their translators: Giovanni
Pontiero who translated Perto do coração selvagem, Laços de
Família, A hora da estrela, Legião estrangeira, A descoberta do
mundo and Cidade Sitiada; Alison Entrekin who besides translating
Clarice’s Perto do coração selvagem, translated among others
Cidade de Deus by Paulo Lins, and Budapeste by Chico Buarque;
and Katrina Dodson winner of the 2016 PEN Translation Prize with
Complete Stories.
The analysis proposed will be carried out with two quotations
by Levý in The Art of Translation in mind:

The language of the source and the language of the translation


are not directly commensurable. The verbal means of the two
languages are not ‘equivalent’, so they cannot be converted
mechanically. Meanings and their aesthetic values do not
coincide precisely; consequently, the more significant the
role of language in the artistic structure of the text, the more
difficult translation becomes. (2011, 48)
(..)
By contrast with original authors, whose individual language
continually undergoes innovation, thereby contributing to the
evolution of the domestic language, translators frequently
remain prisoners of the stylistic patterns (2011, 54)

Levý argues that the author of the source text is continuously


in violation of his own language, which, according to him, is an
inescapable characteristic of great works and that the translator,

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 244-258, set-dez, 2018 246


Luana Ferreira de Freitas

in turn, does not seek to innovate the source language along the
lines of the source text, but conforms to established norms of the
aesthetics of the target culture, which contributes to the short life
of translations. The translation, because it tries to adapt to the
local taste when launching a text from another culture, does not
dare to challenge the target language. Radicality, then, is at best
resumed, in part, in a movement that, in addition to subjecting
the author’s creativity to aesthetic values of another culture8,
infantilises the target audience by denying them access to another
aesthetic universe.
Before turning to the texts themselves, it is convenient to talk a
little about this radicality in Clarice here presented. The radicality
in question is translated into the author’s use of language. The
language in Clarice is no mere instrument for a plot: it is a
protagonist in her writings. In Clarice, as in great writers, the
complementarity between form and content is entangled, which
hinders the work of the translator who tends, generally, to deal
with prose and semantic translation.
In Clarice, the sublime is achieved through the trivial; it is in the
routine triviality that the characters experience a certain Spinozan
glimpse of the inevitability of their trajectories9. There is no salvation
in this momentary understanding: the characters return to their daily
lives resigned. As the action in these cases is internalised, this is
reflected in the precariousness of the language in the quest to recreate
the uneasiness generated by the revelation of the character.

8
The case of Machado de Assis is exemplary in this sense. Machado, to justify his
presence abroad, is often compared to Sterne, Shakespeare, Cervantes, Flaubert,
among others. What is observed is the denial of intertextuality as a universal
literary phenomenon. Sterne, for example, was an avid reader of Shakespeare and
Cervantes and borrowed from both procedures and characters.
9
“There is no need to spend time in going on to show that Nature has no fixed
goal and that all final causes are but figments of the human imagination”. (2002,
239) Spinoza. Complete Works. Indianapolis: Hackett, 2002.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 244-258, set-dez, 2018 247


Clarice Lispector’s radicality translated into the English-speaking...

Perto do coração selvagem

Perto do coração selvagem, whose first edition dates from the


end of 1943, by the publisher A Noite, is Clarice’s debut novel.
Near to the Wild Heart is released in 1990 by New Directions
with Pontiero’s translation and postface10. 22 years later, in 2012,
Alison Entrekin’s translation is released, Near to the Wild Heart,
by the same publisher. The latter presents an introduction by
Benjamin Moser.
Pontiero’s and Entrekin’s texts are, in general, clear and readable,
but with quite different translation strategies: Pontiero tends more to
his public, trying to transform Clarice into more a palatable product,
whereas Entrekin tends to be closer to the Claricean text, maintaining
original conciseness and estrangement. Pontiero’s text is wordy as if
he tried to untangle Clarice’s text, clarify it.
A sentence in the chapter “O abrigo no professor” is exemplary
of the different strategies of the translators: “Subitamente precisaria
encontrá-lo, senti-lo firme e frio antes de ir embora.” (1994, 110)
Pontiero’s version is “She had suddenly felt the need to meet him,
to listen to him, unyielding and cold, before going away” (1990,
104), Entrekin opted for:” She had suddenly needed to see him firm
and cold before leaving.” (2012, 103) Pontiero used 7 additional
words if compared to Entrekin’s translation as he chooses to add “to
listen to him” and uses “felt the need” instead of “needed”.
Both translations follow the structure of the narrative proposed
by the source text, that is, two parts, with nine and ten chapters
respectively. In general, both translators are attentive to the rhythm
of the narrative. There are, however, occurrences, more frequent
in Pontiero, of change in punctuation or an attempt to reorganise
the text, which necessarily changes configuration, rhythm, and
effect of some fragments.
In the chapter “O banho”, for example, there is a five-page
paragraph corresponding to Joana’s flow of consciousness.
10
I used my previous analysis of Pontiero’s translation as a starting point in “Perto
do coração selvagem em inglês” in Cerrados, 2007, (279-285).

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 244-258, set-dez, 2018 248


Luana Ferreira de Freitas

Pontiero divides the paragraph in two, breaking the feverish effect


of the scene, without apparently any justification. The translator
maintains the extension of the periods, but not all the dashes and
ellipsis, thus reducing the silences of the narrative. Entrekin, in the
same paragraph, breaks only the first sentence but retains both the
length of the paragraph as dashes and ellipses.
The repetitions are essential for the organisation of the narrative
contributing to its cohesion. The lexical choice is thoughtful, careful
and never gratuitous. In the fragments quoted below, the words
desejo and sede, used as synonyms, are mentioned three times
respectively, having an evident effect in the text when creating a
network of meaning. I quote the passages:

C: “Meu Deus, pelo menos comunicai-me com elas, fazei


realidade meu desejo de beijá-las.” (1994, 66)

P: “Dear God, at least bring me into contact with them,


satisfy my longing to kiss them.” (1990, 61)
E: “Dear God, at least allow me to communicate with them,
satisfy my desire to kiss them.” (2012, 58)

C: “Não sinto loucura no desejo de morder estrelas, mas


ainda existe a terra.” (1994, 67)
P: “I feel no madness in my desire to bite into stars, but the
earth still exists.” (1990, 62)
E: “I don’t feel madness in my wish to bite stars, but the
earth still exists.” (2012, 59)

C “E talvez meu desejo de outra fonte, essa ânsia que me dá


ao rosto um ar de quem caça para se alimentar, talvez essa
ânsia seja uma ideia — e nada mais.” (1994, 69)
P: “And perhaps my craving for another source, which gives
me the expression of someone in search of food, perhaps this
craving is a whim-and nothing more.” (1990, 64)
E: “And maybe my desire for another spring, this keenness

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 244-258, set-dez, 2018 249


Clarice Lispector’s radicality translated into the English-speaking...

that gives my face the look of one who hunts to eat, maybe
this keenness is just an idea – and nothing more.” (2012, 61)

“Por que surgem em mim essas sedes estranhas?” (1994, 66)


P: Why do these strange longings possess me? (1990, 61)
E: Why do these strange thirsts grip me? (2012, 58)

C: “Sempre, sem parar, distraindo minha sede cansada de


pousar num fim.” (1994, 67)
P: “Always without stopping, distracting my weary desire
to reach some final resting-place.” (1990, 62)
E: “Always, unstopping, diverting my weary longing to
reach an end.” (2012, 59)

C: “(...) esses instantes não provam que sou capaz de


satisfazer minha busca e que esta é sede de todo o meu ser
e não apenas uma ideia?” (1994, 70)

P: “(…) surely those moments prove that I am capable of


fulfilling my quest and that this longing which consumes
my whole being is not merely some whim?” (1990, 65)
E: “(…) don’t these instants prove that I am capable of
fulfilling my quest and that this is the longing of my entire
being and not just an idea?” (2012, 62)

Pontiero used three distinct words for “desejo”: longing, desire,


and craving. Entrekin used desire twice and wish. For “sede”,
Pontiero uses longing twice and desire and, Entrekin uses longing
twice and thirst. Despite Entrekin’s satisfying thirst, the cohesion
proposed by the narrative is broken. Pontiero inadvertently
translating both “desejo” and “sede” for longing and desire
interchangeably does not seem to have realised Clarice’s writing
method and does not perceive the connection between occurrences.
One of the aspects that draws attention in the Claricean text is
the abundance of unusual collocations, resulting in estrangement,

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 244-258, set-dez, 2018 250


Luana Ferreira de Freitas

drawing the reader’s attention to the linguistic material itself. Here


are some examples with the respective translations:

C: “(...) um milagre partido em estrelas grossas, sérias e


brilhantes.” (1994, 66)
P: “(…) a miracle splintered into dense, solemn, glittering
stars” (1990, 61)
E: “(…) a miracle split into chunky, serious, twinkling
stars” (2012, 58)

C: “(...) chorar em notas largas, desesperadas e românticas”


(1994, 66)
P: “(…) weeping at length in tones of romantic despair.”
(1990, 61)
E: “(...) crying in broad, desperate, romantic notes.”
(2012, 58)

C: “Respirava opressa o perfume roxo e frio das imagens.”


(1994, 70)
P: “I inhaled the overpowering odour, purple and cold, that
emanated from the holy statues.” (1990, 65)
E: “I was breathing oppressed the cold, purple perfume of
the statues.” (2012, 62-3)

C: “Vagarosamente entristeceu de uma tristeza insuficiente


e por isso duplamente triste.” (1994, 75)
P: “She slowly grew sad from a lack of sadness and was
therefore twice as sad.” (1990, 70)
E: “She slowly saddened with a sadness that was insufficient
and thus doubly sad.” (2012, 69)

In these cases, the collocations are not linguistic phenomena


specific to Brazilian Portuguese. In the examples above, we see the
different positions of the translators as to the translation practice

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 244-258, set-dez, 2018 251


Clarice Lispector’s radicality translated into the English-speaking...

again. In the first three examples, Pontiero consistently seeks


to normalise the text by organising, rearranging, and changing
grammatical class for anglophone eyes and ears. Entrekin, on
the other hand, consciously maintains the estrangement caused to
Brazilian eyes and ears.
In such cases, there is no real obstacle to translation, or in
other words, Clarice’s original collocations pose no challenges at
a linguistic level, nor is this resource, however daring, invented
by the author. So why does Pontiero try to normalise Clarice in
English? I believe that this tendency can be explained by Levy’s
already mentioned contrast between the freedom one takes with the
language itself in the source text, a very welcome disregard when
dealing with creativity and imagination, and a certain tendency
towards acceptability regarding the target audience.
Regarding the last example, Pontiero changed the meaning
proposed in the narrative: it was not that she lacked sadness, but
that it was not enough. Entrekin, on the other hand, kept not only
the sense but also the parallelism established by entristeceu, tristeza
and triste with saddened, sadness and sad.
Regarding both translations of the novel, it is noticeable that
Pontiero prioritises content and his readership by naturalising
Clarice’s singular style. Entrekin, on the other hand, endeavours
to convey not only the plot but the author’s unique use of
language with its instances of estrangement, thus being closer to
Clarice’s radicality.

“A menor mulher do mundo.”

The short story “A menor mulher do mundo” was released in


Laços de família, Lispector’s anthology of short stories. Pontiero
translates Family Ties, the complete collection into English,
published by the University of Texas Press in 1972. In addition to
the translation, Pontiero signs the 13-page introduction. 43 years

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 244-258, set-dez, 2018 252


Luana Ferreira de Freitas

later, in 2015, Clarice Lispector: Complete Stories is published


by New Directions in the US and Penguin Classics in the UK,
translated by Dodson with an introduction by Moser.
Dodson and Pontiero adopt different translation strategies
and present different approaches concerning Lispector’s rhythm.
Pontiero interfered in the rhythm of Lispector’s story, sometimes
merging paragraphs and periods, sometimes dismembering
paragraphs. Dodson maintains the extension of periods and
paragraphs. It should be remembered that Pontiero’s “The Smallest
Woman in the World” is published 18 years before Near to the Wild
Heart, which seems to indicate the consistency of his strategy: the
search for the normalisation of the text.
The excerpts below are exemplary of the discrepancies between
translators’ strategies:
Clarice (2016) Pontiero (1972) Dodson (2015)
Foi, pois, assim que o This, then, was how the It was, therefore, thus, that
explorador descobriu, explorer discovered at his the explorer discovered,
toda em pé e a seus pés, feet the smallest human standing there at his feet,
a coisa humana menor creature that exists. His the smallest human thing
que existe. Seu coração heart pounded, for surely in existence. His heart
bateu porque esmeralda no emerald is so rare. beat because no emerald
nenhuma é tão rara. Nem Not even the teachings of is as rare. Neither are the
os ensinamentos dos the Indian sages are so teachings of the sages of
sábios da Índia são tão rare, and even the richest India as rare. Neither has
raros. Nem o homem man in the world has not the richest man in the
mais rico do mundo já witnessed such strange world ever laid eyes on
pôs olhos sobre tanta charm. There, before so much strange grace.
estranha graça. Ali his eyes, stood a woman Right there was a woman
estava uma mulher que such as the delights of the gluttony of the most
a gulodice do mais fino the most exquisite dream exquisite dream could
sonho jamais pudera had never equaled. It was never have imagined. That
imaginar. Foi então then that the explorer was when the explorer
que o explorador disse, timidly pronounced with declared, shyly and with a
timidamente e com uma a delicacy of feeling of delicacy of feeling of
delicadeza de sentimentos which even his wife would which his wife would
de que sua esposa jamais never have believed him never have judged him
o julgaria capaz: capable, capable:

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 244-258, set-dez, 2018 253


Clarice Lispector’s radicality translated into the English-speaking...

— Você é Pequena Flor. “You are Little Flower.” “You are Little Flower.”
Nesse instante Pequena At that moment, Little At that moment Little
Flor coçou-se onde uma Flower scratched herself Flower scratched herself
pessoa não se coça. O where one never scratches where a person doesn’t
explorador – como se oneself. The explorer – as scratch. The explorer – as
estivesse recebendo o mais if he were receiving the if receiving the highest
alto prêmio de castidade highest prize of chastity prize for chastity to which
a que um homem, sempre to which man, always so a man, who had always
tão idealista, ousa aspirar full of ideals, dare aspire been so idealistic, dared
– o explorador, tão – the explorer who has so aspire – the explorer,
vivido, desviou os olhos. much experience of life, seasoned as he was,
(194-195) turned away his eye. (90) averted his eyes. (166-167)

Table1.

The combined “toda em pé” and “a seus pés” present a double


challenge: the echo of pé in both expressions that together reinforce
the idea of Little Flower’s size. In this case, the combination of
form and content hinders the work of the translator, since the target
language does not have two expressions that combined have the
scope proposed by the source text. Pontiero opts for the omission
of “ toda em pé” and translates only “a seus pés” for “at his
feet”. Dodson keeps closer to the source text and translates both
expressions by “standing there at his feet”. A translation springs
from and produces linguistic material, there are pitfalls everywhere,
and sometimes translators are left with only the resignation of the
best option in the face of the impossibility of re-creation.
The above fragment prepares the objectification of Little
Flower: “a coisa humana menor que existe” which only Dodson
portrays with “the smallest human thing in existence”. Pontiero
opts for “the smallest human creature that exists”, omitting, in
part, the crudeness of the scene.
Next, Pontiero merges the third and fourth sentences: “Not
even the teachings of the Indian sages are so rare, and even the
richest man in the world has not witnessed such strange charm.”
By interfering in the punctuation of the text, the translator changes
the rhythm of the narrative reducing the impact especially of

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 244-258, set-dez, 2018 254


Luana Ferreira de Freitas

the fourth sentence and preventing the parallelism proposed by


the text. Dodson maintains the extension of the sentences and
parallelism with her “Neither are the teachings of the sages of
India as rare. Neither has the richest man in the world ever laid
eyes on so much strange grace.”
The construction “Ali estava uma mulher que a gulodice do mais
fino sonho jamais pudera imaginar” calls attention to the unusual
use of gulodice, which may pose an impasse to the translation.
Dodson remains very close to the source text with “Right there was
a woman the gluttony of the most exquisite dream could never have
imagined”. Pontiero tries to make Clarice more palatable with his
“There, before his eyes, stood a woman like the delights of the most
exquisite dream had never equaled.” The idea of greedy gluttony is
left out and a “before his eyes” is added without apparent reason.
Lispector’s use of gulodice, as strange as it may seem, cannot be
gratuitous: it contributes to the objectification of Pequena Flor and,
on the other hand, adds to the linguistic effect of the narrative.
Pontiero, besides his inclusions, tends to expand the text. In the
last sentence of the above fragment, where there is “o explorador,
tão vivido, desviou os olhos,” Pontiero translates to “the explorer
who has so much experience of life, turned away his eyes.” There
is no mistake, of course, but reading Dodson’s translation, “the
explorer, seasoned as he was, averted his eyes,” the prolixity of the
earlier option becomes clear.
One last fragment for analysis with culturally marked aspects
that may have gone unnoticed by translators.
Clarice (2016) Pontiero (1972) Dodson (2015)
Não tendo boneca Not having any dolls to Having no dolls to play
com que brincar, play with, and maternal with, and maternity
e a maternidade já feelings already stirring already pulsating
pulsando terrível no furiously in their hearts, terribly in the hearts
coração das órfãs, as some deceitful girls of those orphans, the
meninas sabidas haviam in the orphanage had sly little girls had
escondido da freira concealed from the nun concealed another girl’s
a morte de uma das in charge the death of death from the nun.
garotas. one of their companions.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 244-258, set-dez, 2018 255


Clarice Lispector’s radicality translated into the English-speaking...

Guardaram o cadáver They kept her body in They hid the corpse in
num armário até a a cupboard until Sister a wardrobe until the
freira sair, e brincaram went out, and then they nun left, and played
com a menina morta, played with the dead girl, with the dead girl,
deram-lhe banhos e bathing her and feeding giving her baths and
comidinhas, puseram-na her tidbits, and they little snacks, punishing
de castigo somente para punished her only to be her just so they could
depois poder beijá-la, able to kiss and comfort kiss her afterward,
consolando-a” (196) her afterward. (91) consoling her. (168)

Table 2

Sabido and its variations in the Brazilian northeast mean smart,


fast. In the above case, the smart girls hid the toy corpse from the
nun. Although to our ears the story is macabre (and, in fact, it is),
the lexical choice of the source text does not convey a negative tone
that both “deceitful” and “sly” in the English translations do.
In “(...) deram-lhe banhos e comidinhas, puseram-na de castigo
somente para depois poder beijá-la, consolando-a”, comidinha
refers to playing with food, make-believe food, not that the food is
real or that it is in its diminutive form, which renders “tidbits” and
“little snacks” not so appropriate for the context.
Concerning Clarice’s radicality, that is, her unique use of
language, in this case, specifically, rhythm, lexical choice,
parallelism, and repetition, Dodson’s retranslation conveys a
Clarice almost as singular and linguistically rich as our own.

Conclusion

One can say that Clarice has gained new impetus in the
English-speaking literary system and, more than that, that the
English-language reader has gained a new Clarice, a more daring,
aesthetically more radical version of the author. This does not
mean, however, that this development is not to a large extent due
to the translations of Pontiero. A passionate promoter of literatures

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 244-258, set-dez, 2018 256


Luana Ferreira de Freitas

in Portuguese, Pontiero pioneered Clarice’s text in English, paving


the way for bolder approaches.
Entrekin’s and Dodson’s successful translations are part of
Moser’s project. According to Moser, he wanted to present
a different Clarice whose texts would sound as strange and
unexpected as they do in Brazil. The conscious decision of
approaching Clarice’s use of language instead of obliterating or
normalising it was the main reason behind this investigation and
was worth it: the Claricean literary radicality has gained new
nuances in the target literary system, and the author has deserved
the translators’ artistic endeavour.

References

Levy, J. The Art of Translation. Translated by Patrick Corness. Philadelphia:


John Benjamins, 2011.

Lispector, C. Perto do coração selvagem. Rio de Janeiro: Rocco, 1994.

______. Near to the Wild Heart. Translated by Giovanni Pontiero. New York:
New Directions, 1990.

______. Near to the Wild Heart. Translated by Alison Entrekin. London: Penguin
Books, 2014.

______. “A menor mulher do mundo”. Todos os contos. Rio de Janeiro: Roxo,


2016.

______. “The Smallest Woman in the World”. Family Ties. Translated by


Giovanni Pontiero. Austin: University of Texas Press, 1972.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 244-258, set-dez, 2018 257


Clarice Lispector’s radicality translated into the English-speaking...

______. “The Smallest Woman in the World”. Family Ties. Translated by Katrina
Dodson. New York: New Directions, 2015.

Moser, B. “Brazil’s Clarice Lispector Gets a Second Chance in English”. In:


https://publishingperspectives.com/2011/12/brazil-claire-lispector-second-
chance-in-english/. Accessed 02 November 2017.

Recebido em: 18/04/2018


Aceito em: 30/07/2018
Publicado em setembro de 2018

Luana Ferreira de Freitas. E-mail: luanafreitas.luana@gmail.com


ORCID: https://orcid.org/0000-0003-0165-421X

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 244-258, set-dez, 2018 258


http://dx.doi.org/10.5007/2175-7968.2018v38n3p259

TRANSLATION AND SCIENCE IN THE LUSO-


BRAZILIAN ENLIGHTENMENT: INTERTEXTUALITY IN
EPIGRAPHS AND MOTTOES

Alessandra Oliveira Harden1


1
Universidade de Brasília, Brasília, Distrito Federal, Brasil

Abstract: Researchers working with translation history have been


benefiting from information stemming from editorial paratexts, and these
elements have also become an acceptable tool for science historians. For
both groups of researchers, crucial information concerning intellectual
and cultural affiliations can be unveiled by paratexts, taken as evidence
of a written work’s materiality in a given point in time and space, as
well as of the intervention of authors, translators and editors in the way
such work is to be interpreted. The revealing role of paratextual elements
is even more prominent if one is interested in intertextual connections,
which is the case with this paper. Here focus is given to epigraphs and
mottoes, in a discussion based on the content of title pages of translations
produced within the Luso-Brazilian Enlightenment. Published at the turn
of the 18th century in Lisbon and under the supervision of Brazilian-born
Friar José Mariano da Conceição Velloso1, these translation aimed at the
progress of the Portuguese Kingdom through the dissemination of “useful
science.” Their epigraphs and mottoes are relevant material for translation
and science historians alike, as they allow for a deeper understanding of
cultural networks decisive to the dissemination of enlightened ideas in
Portuguese language.
Keywords: Translation history; Science history; Intertextuality; Epigraphs
and mottoes; Luso-Brazilian Enlightenment

1
Various spellings have been given in historiography to the Friar’s surname:
‘Veloso’, ‘Velozo’, ‘Velloso’ and ‘Vellozo’. The form Velloso seems to have
been favoured in bibliographical data, reason why it is adopted here.

Esta obra utiliza uma licença Creative Commons CC BY:


https://creativecommons.org/lice
Alessandra Oliveira Harden

TRADUÇÃO E CIÊNCIA NO ILUMINISMO LUSO-


BRASILEIRO: INTERTEXTUALIDADE EM EPÍGRAFES E
DIVISAS

Resumo: As pesquisas na área de história da tradução há muito têm se


beneficiado com a análise dos paratextos editoriais, material que também
utilizado nas investigações conduzidas por historiadores da ciência. Nes-
sas áreas, o recurso a esses elementos — marcas tanto da materialidade do
texto em determinado contexto temporal e espacial quanto da intervenção
de autores, tradutores e editores na interpretação das obras — pode revelar
características importantes acerca das filiações intelectuais e culturais des-
ses agentes, em particular se for dada atenção à intertextualidade criada.
Nesse sentido, voltado mais especificamente para o exame de epígrafes e
divisas, este trabalho apresenta discussão feita com base em material cons-
tante em páginas de rosto de traduções produzidas no âmbito do Iluminis-
mo luso-brasileiro. Publicadas na virada do século XVIII em Lisboa sob
a coordenação do Frei José Mariano da Conceição Veloso, essas obras
tinham o propósito de trazer o progresso ao Reino Português por meio da
chamada boa e útil ciência. As epígrafes e divisas nelas encontradas são
tema relevante igualmente para a história da tradução e para a história
das ciências, pois seu exame permite compreensão mais aprofundada de
redes culturais determinantes para a disseminação do ideário iluminista
em língua portuguesa
Palavras-chave: História da tradução; História da ciência; Intertextualidade;
Epígrafes e divisas; Iluminismo luso-brasileiro

1. Introduction

With this paper, my aim is to discuss the effect of epigraphs


and mottoes in relation to the building and the promotion of an
intertextual web which connected Luso-Brazilian translators and
scientists and authors of considerable authority. The focus here rests
on a very specific phenomenon: “the scientific translation boom”
at the turn of the 18th century in Portugal, a unique episode in the
history of the Portuguese language and one which was essential for
the scientific and technological development of Portugal and Brazil
(Wyler 73; Oliveira Harden “Brasileiro tradutor”, “Tradução,

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 259-278, set-dez, 2018 260


Translation and science in the Luso-Brazilian enlightenment:...

história e Iluminismo”). From the repertoire of translations


published within this movement, nine selected works were the
source for the epigraphs and mottoes which are the basis of my
considerations in this study.
To address this topic, this paper is hopefully organized in a
way which allows readers to get acquainted with epistemological
and methodological assumptions leading to the conclusions drawn.
Therefore, the second section presents brief considerations on
aspects shared by translation history and science history, as well
as on the key concepts of intertextuality, epigraphs and mottoes.
In the third section, one finds a concise overview of the scientific
translation boom, necessary for contextualizing the translated
works from which were taken the epigraphs and mottoes analysed
in the fourth section. This is followed by my final considerations.

2. Points of contact between translation history and science


history

If no one can be sure of what the process of translating means,


there is little doubt that the relationship between the texts involved
(one that is the original, the source or the inspiration for a second
one, the equivalent, the target or the one which is derivative) is
one based on intertextuality, a “a mosaic of quotations” (Kristeva
37) or a conversation of ideas, concepts, aesthetical or ideological
values which the readership is able to identify or at least to assume
due to information given outside the texts themselves (by editors or
critics, for example).
Even though it is more directly associated with the literary realm,
the concept of intertextuality has also been turned into an object
or a category of analysis in studies linked with scientific texts,
especially in science history. In this field, scholars have profited
by resorting to analyses which combine intertextual connections
with another set of elements also dear to literary studies, that of
paratexts, as described by Gerard Genette.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 259-278, set-dez, 2018 261


Alessandra Oliveira Harden

Indeed, for Science History, a growing concern with notions such


as “text architecture”, “textual segmentation” and “paratexts” and
with how they may influence the reception and the understanding
of a certain scientific account, taking also into consideration the
materiality of books. As explained by Bretelle-Establet and Schmitt
in their introductory chapter to an anthology on “pieces and parts
in scientific texts”,

[t]he metatextual traces left by textual actors, often translating


their intentions, guide the reader in his/her interpretation of
the text (putting, for exemple, chapter titles at the same level
of structuration on the basis of the same layout, the same
indentation or the same font). According to this linguistic
perspective, all these traces left by the writer in his/her text
do more than merely embellish: they are truly functional
devices for the reader and cannot be taken for granted. (9)

At this point, there is an interesting intersection between


Translation History and Science History which should be
mentioned. Researchers in these two fields are working with
methods and tools which question epistemological stances and blur
the lines separating the various areas of knowledge. Certainly,
the work with texts is the major underlying cause for this, not
only because the blank page accepts combinations of concepts and
ideas that do not necessarily obey any division regarding subject
matters, but because texts are historical documents by their own
right, obviously crucial sources for those whose main concern
are books in general, translations and science (both of which are
materialized especially as published written texts).
Texts should be understood not only as an expression of
their authors’ individual beliefs but they should also be seen
as testimonies of a certain set of values which are valid when
they were written. It is this historicity of written material left by
authors, translators and scientists that can help us to understand

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 259-278, set-dez, 2018 262


Translation and science in the Luso-Brazilian enlightenment:...

how cultures influenced one another. As to translation, this has


already been recognized by Portuguese literary scholar Gonçalves
Rodrigues, who put together an amazing chronological account
of all translations published in Portugal from 1495 to 1950.
For him, the study of translations published by and for a given
community would reveal, among other things, “the evolutive
process of forms, genres and tastes”, and the “the immediate or
late penetration of ideas, styles, critical attitudes” (15).
Another significant parallel can be drawn between translation
history and science history if one continues on this path of exploring
what investigations in such fields can unveil. At this point, Peter
Burke’s take on the role of historians fits perfectly:

I […] see historians as the guardians of the skeletons in the


cupboard of the social memory […]. There used to be an
official called the ‘Remembrancer’. The title was actually
a euphemism for debt collector. The official’s job was to
remind people of what they would have liked to forget. One
of the most important functions of the historian is to be a
remembrancer. (110)

Translation and science historians’ raison d’être is to undo the


erasure of foreign sources and cultural influences, which means
reminding us that we are always in debt because nothing is originally
ours. A web of words, knowledges, ideologies, techniques, and
values defines us as individuals and cultures. For this paper, the
purpose is to reveal a tiny part of this debt by exploring the contents
of epigraphs and mottoes in scientific translations published in
Portugal from 1798 to 1806.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 259-278, set-dez, 2018 263


Alessandra Oliveira Harden

3. Translations for the progress and greatness of the


Portuguese empire

At the end of the 18th century, Portugal had already lost its place
among the wealthiest nations of Europe. Even though she still had
her colonies, Portugal was seen as a land lacking in progress and
scientific development. It was this falling behind her rivals in the
Americas and in the South Seas that led the Portuguese government
to adopt an official progressive policy whose purpose was to
promote advancement especially in areas considered strategic,
such as agriculture, manufacture, and the fine arts. In this context,
books, instruction, and translation were taken as essential.
Based on the enlightened notion that the nation’s progress
and happiness depended on instruction and on the acquisition of
knowledge imported especially from France and England, the
Portuguese Crown became the main patron of a system involving
several Lisbon-based publishing houses, and many individual
translators, printers, artists and other professionals in an effort
to make great quantities of foreign books available in Portuguese
(Curto; Oliveira Harden “Brasileiro tradutor”).
One of the main figures of this movement was the Brazilian-
born Friar José Mariano da Conceição Velloso, who was put in
charge of the mission of publishing all material he thought useful
for the improvement of the Portuguese Kingdom, especially its
richer colony, Brazil. This man of letters had the power to decide
which works should be translated, to hire translators, engravers,
and other printing professionals/artists, and to administer a quasi-
official publishing house, the Casa do Arco do Cego, which ran
only for two years (1799-1801) but managed to be involved in
the publication of 84 books (translations and original books).
Velloso was also a prolific translator, and his 10-volume series “O
Fazendeiro do Brazil” is proof of his obsession with presenting his
nation the weapons necessary to win the battle against ignorance.
Velloso was, therefore, behind many of the translations published

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 259-278, set-dez, 2018 264


Translation and science in the Luso-Brazilian enlightenment:...

within this context, either by doing the translation himself or by


compiling and editing translations done by others.
The publications supervised by Velloso were the sources
of the epigraphs and mottoes analysed here. The criteria for
selecting the material involved the following: I) the epigraph or
motto should be placed on the title page; II) it should come from
a translated work done by a Brazilian-born translator. The result
was a small but representative list of nine works, presented with
short titles in Table 1 (detailed bibliographical data is given in the
Works Cited section). They are all in line with Velloso and the
Portuguese government preoccupation with products which had
economic relevance.

Table 1 - Translations published within Luso-Brazilian


Enlightenment and their epigraphs and mottoes.2 3

Title of Book Motto / Epigraph English version


on Title page
1) O Fazendeiro do Hyacinthum, Purpura, (And this [is] the
Brazil, tomo II, parte Coccigera. Ex. Cap. xxv. offering which ye shall
II (Beauvai Raiseau) V. 17. take of them; gold, and
(on dyeing – Indigo silver, and brass,) 4.
tree) And blue, and purple,
and scarlet, and fine
linen, and goats’ [hair]
(King James Bible
Online, Ex. 25, 3-4)

2
I thank Maria Harden, Theo Harden and Julio Monteiro for their translations
from Latin and Dutch into English.
3
For this epigraph, it seems that the source was mistakenly given as verse 1947 of
the work of Gilbert Knowles, Materia medica botanica (1723). The passage quoted as
an epigraph is in verse 1505 and reads as: “meritò hâc unâ satìs arbore felix dicenda
est region; sparsas nam hinc omnibus oris orbis opes trahit as sese” (Knowles 1723).

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 259-278, set-dez, 2018 265


Alessandra Oliveira Harden

2) O Fazendeiro do … merito hac una Satis Due to the existence of


Brazil, tomo III, arbore felix this tree, the region has
parte I (Velloso) (on Dicendo est region; to be called fortunate.
coffee) Sparsas nam hinc omnibus By disseminating it from
oris Orbis opes trahit ad here into other areas,
sese. it will bring wealth to
Knowl. § 19473 those.
3) O Fazendeiro do ... Quis potum Chocolatae (For chocolate at once
Brazil, tomo III, ne selt edutem? is drink and food) Does
parte III (Velloso) Dat vegetum membris strength and vigour to
(on cocoa) habitum, floremque the limbs impart, makes
Venustae fresh the countenance
Purpureum Majestatis, dat and chears the heart, in
dulcia cordi Venus combat strangely
Lumina Laetitiae, nec forte does excite the fainting
potentior alter warriour to renew the
Lenè Ciere viros, Venerem fight. (Abraham Cowley
que accendere succus. 1668, l. 880-885)
(Coul., 200)
4) O Fazendeiro Castilla reges ditat Peruma The Castillian crown
do Brazil, tomo IV, Potosis, is proud of the rich
parte I (Velloso) (on Aurea Soffala fertur orena mountains of Peru,
spices) Tago The Portuguese flatter
Omnibus his venis themselves over the
praferrem Caryophyllum, sands of Sofala;
Quem Liber Domini All men prefer the clove
manere Belga tenet. from the Molucas,
Rumph. Lib. II. Cap. II, Which God, our
10. Creator, gives freely to
the Dutch.
5) O Fazendeiro Ex lanis iugens illa A great deal of these
do Brazil, tomo V, pannorum multitudo cloths is made of woven
parte I (Velloso) (on elaboratur, alque Siadones threads of wool, similar
cordage) texunt, alias viliores, alias to altar cloths. Some of
pretiosissimas. Ex his them are not valuable,
vestes illae Sacerdotibus others are precious.
olim Aegypti gratissimae From the latter type the
parabantur. robes of the Egyptian
priests were made

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 259-278, set-dez, 2018 266


Translation and science in the Luso-Brazilian enlightenment:...

6) Discurso Prático Jubet amor patriæ, natura The fatherland requires


acerca da Cultura juvat, sub namine crescit. it, nature supports it,
(...) do Canamo under your reign it will
(Nuvellone-Pergamo) grow
(on hemp)
7) Alographia Ignari discant, ament Let the unlearned learn,
dos Alkalis Fixos meminisse periti. let the learned love to
(1798) (on alkaline remember
substances) Horat.
8) Memoria sobre Arida tantum. “(rotation lightens the
(...) Adubos (Massac) Ne saturare simo pingui labour) only scorn not
(on manure) pudeat sola, neve to soak the dry soil with
Effaetos cinerem fattening dung, nor to
immundum jactare per scatter grimy ashes over
agros. the exhausted lands”.
Virg. Georg. Liv. I. (Virgil “The Georgics”
291)
9) Tratado sobre o Jubet amor patriæ, natura The fatherland requires
Canamo (Marcandier) juvat, sub namine crescit. it, nature supports it,
(on hemp) under your reign it will
grow.
Source: Oliveira Harden, “Brazilian translators in Portugal” (222-3)

4. Epigraphs and mottoes, authors and books

The quotations found in the title pages are mottoes and epigraphs
in Latin. The use of these elements in Latin was a common feature
of title pages during the 18th century, apparently more so in “works
of ideas [rather] than of poetry” (Genette, 146), which is the case
with the works published under Velloso’s supervision.
Mottoes, as explained by Genette (144), are quotations used for
more than one work, and they establish an intertextual link that
helps to create a specific context of production and reception for
these works, as it is done for publications within a series. With
regard to the elements in Table 1, the sentence “Jubet amor patrie,

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 259-278, set-dez, 2018 267


Alessandra Oliveira Harden

natura juvat, sub nomine crescit”, which appears on items 6 and


9, is an example.
An epigraph, conversely, relates only to the book in which it
appears, serving as a device to grab the readers’ attention and to
facilitate their understanding of the work. It provokes a certain
curiosity in the readers and prepares them for the discursive
strategies and references used by the author/translator throughout
the text. Thus, the quotations in 1, 2, 3, 4, 5, 7, an 8 of Table
1 are epigraphs.4 According to Schmitt, they are of especial
relevance for studies concerning the scientific literature of the
Enlightenment, since they “throw light on the aims and audience
of a given work” and are “invaluable tools in understanding the
aims and status of a given book” (270).
Mottoes and epigraphs create an intertextual net which is
supposedly shared with the readers, and, therefore, establish a
rapport between those responsible for the written work (authors,
publisher, and, in our case here, translators) and readers which
makes the latter more willing to engage with the text. It is a textual
device which invite those having their first contact with the work to
become part of a group with a specific reading history, with certain
values and purposes. Interestingly, they simultaneously have the
illocutionary force of a declaration, because readers are made part of
the selected congregation of those people who understand and accept
the words in mottoes and epigraphs as theirs, and are brought into
the intertextual network created by these paratextual elements.
In this sense, they can be interpreted as rhetorical mechanisms
of captatio benevolentiae, which is aimed at winning the sympathy
of an audience and getting the readership to excuse any possible
failures in the thoughts or concepts within the work. In the case of
translations, it is a technique known to be used as a way of asking
readers to be more forgiving as to any mistake in the resulting text
or disloyalty towards the original one.
4
For this article, only epigraphs and mottoes placed on the title pages were
considered. Please note that, for items 1 and 4 there were epigraphs on other parts
of the books.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 259-278, set-dez, 2018 268


Translation and science in the Luso-Brazilian enlightenment:...

The extracts shown in Table 1 vary in length but not exceeding


four lines. They appear on title pages of translations by Friar
Velloso and of translations accredited to him, with one exception,
which is the one tagged as number 9, Tratado sobre o canamo,
published in 1799, a translation by Martim Francisco Ribeiro de
Andrade5 of Marcandier’s 1758 Traité du Chambre. Although
there is clear reference to Ribeiro de Andrade as the translator, the
long (classic) title also mentions Velloso as publisher and, thus,
responsible for the work. A common trait among the publications
in Table 2 is a fundamental concern with their respective national
economies, especially the role played by agriculture. The idea
is not to promote idle, contemplative or politically revolutionary
knowledge, but to spread information that can be sensibly applied
for the common good and progress of the kingdom.
The second element uniting all textual agents (author,
translator, the Portuguese Prince, editor, and readers) is obviously
the familiarity with Latin. According to Genette, the epigraph is a
sign of culture, or a “password of intellectuality” (160). It is an
indication of whom the author, the publisher and here, the translator,
consider as part of their group. With the epigraph (and certainly
also with mottoes), the author “chooses his peers and thus his place
in the pantheon” (160) of cultural tradition. Here, the choice of
texts in Latin and the authors quoted indicate that the publications
should be perceived as popular enough to reach a broader audience,
but should still be seen as coming from educated men (authors,
translators, publisher, and the prince) whose background included
proficiency in classical languages (Latin and Greek) and familiarity
with classical works of literature and of sciences.
It could be argued that adding mottoes and epigraphs in Latin
to title pages of books aimed at farmers, such as most of the works
5
Martim Francisco Ribeiro de Andrada Machado was one of the Irmãos Andrada
(Andrada brothers), together with Antonio Carlos Ribeiro de Andrada Machado and
José Bonifácio de Andrada e Silva, three very influential political figures in Brazil
at the beginning of the 19th century, the three being involved in the independence
process and in the government of D. Pedro I (first ruler of independent Brazil).

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 259-278, set-dez, 2018 269


Alessandra Oliveira Harden

listed in Table 1, is not an obvious choice. Were these intended


audience familiar enough with Latin as to be able to understand
the quotations? Unfortunately, research on the works published
within the Luso-Brazilian Enlightenment have not focused on their
reception. What can be inferred is that the “farmer” (Fazendeiro)
meant to be reading the works was the typical land owner, who
belonged to the aristocratic elite which would send their sons to
Coimbra for their education. They would therefore most likely be
proficient in Latin and French (Wyler). A second reason for the
use of quotations in Latin can be found in the fact that Latin was
the language of important previous publications in medicine and
botany, for example, and that would vow for the relevance of the
titles presented to the readers of works in Portuguese. Similarly, the
prestige of authors such as Virgil and Horace, as well as Cowley6,
even if quoted in Latin, was such that mentioning their names would
probably be enough to activate social and interpretative networks in
the readers’ minds.
The motto “Jubet amor patriæ, natura juvat, sub numine
crescit” (the love for the fatherland requires it, nature supports it,
under your reign it will grow) was used by Velloso in several of his
publications, appearing either on the title page (more commonly)
or on the following page, before the dedication, as happens with
his compilation Quinografia portuguesa, of 1799, in which his
translations of pseudo-scientific accounts are accompanied by his
own texts about the genus cinchona, broadly known in Portuguese
as Quina and famous for its medicinal uses. The sentence in Latin
encompasses important elements that marked Velloso’s editorial
project, notions such as loyalty for the father land, concern with
nature and knowledge, and religious belief in divine protection.
This perfect fit was not, however, an original idea of the Friar’s.
The same sentence appears in various other publications in the 18th
century, in texts published in the Netherlands and in Germany,
for instance. The Latin quotation appears on the title pages of the

6
Abraham Cowley was a famous British poet of the 17th century.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 259-278, set-dez, 2018 270


Translation and science in the Luso-Brazilian enlightenment:...

Journal de commerce, published in Brussels in 1761, and of the


Allgemeines oeconomisches Forst-Magazin, published in Frankfurt
and Leipzig in 17677, as shown in Table 2.

Table 2 - Title pages of a) Tratado sobre o Canamo (Marcandier


1799), b) Journal de Commerce (1761), and c) Allgemeines
Oeconomisches Forst Magazin (Stahls, 1767). In green, the
quotation “Jubet amor patriæ, natura juvat, sub numine crescit”.
a) b) c)

Source: Oliveira Harden, “Brazilian translators in Portugal” (225)

Among the authors quoted in the epigraphs in Table 1 are God


himself, Horace and Virgil, all sources whose authority was well
established at the time. This is certainly intended to give credibility to
Velloso’s publications, besides also serving to reveal an association
to the Catholic tradition and classical literature. There are also
quotations from respected works in medicine and natural sciences,
such as in O Fazendeiro do Brazil tomo III, parte I (Velloso), in

7
Both these periodicals circulated for several years, and the dates mentioned refer
solely to the issues given as examples.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 259-278, set-dez, 2018 271


Alessandra Oliveira Harden

which Friar Velloso, as the work’s editor and translator, includes


a passage taken from Materia medica botanica, written by British
botanist and poet Gilbert Knowles and published in 1723 with an
epigraph from Virgil’s Aeneid on its title page. The epigraph, right
on top of the indication of who authored the work, reads: “Scire
potestates Herbarum, usumque Medendi Maluit & mutas agitare
inglorious artes” (Vir. Æneid 12. V. 396). In English, this verse
was rendered as “[He] chose rather to know the virtues of herbs
and the practice of healing, and to ply, inglorious, the silent arts”
by Rushton Fairclough, in Virgil (324).
In another example, the title page of O Fazendeiro do Brazil
tomo VI, parte I (Velloso), of which spices are the subject (more
specifically clove and nutmeg), the epigraph comes from a work
included in the publication itself. The source was the gigantic
Herbarium amboinense, published in a bilingual edition (Dutch
and Latin) in 1741 and written by Georg Eberhard Rumphius
and Joannes Burmannus (the editor and translator into Dutch).
Rumphius was a German botanist employed by the Dutch East
Indies Company, and his Herbarium amboinense is a description,
with illustrations and nomenclature, of the plant species native of
Amboina, today’s Indonesia. Rumphius’ was an influential work in
botany in the 18th century, and was certainly seen as a high point in
the collection of texts translated. Three chapters of the Herbarium
were translated and included in Velloso’s edition on spices.
In all cases, more than evoking a certain disposition in the
readers, the epigraphs have the effect of justifying the translation,
the publication and ultimately the interest in the topic. At a time
when European powers warred to keep or expand their dominion
over areas producing cloves and nutmeg, the concern that led to
the translation of over 300 pages was more than understandable.
The epigraph taken from Rumphius’s Herbarium mentions how the
Dutch dominated this very profitable market, comparable to the
riches brought by the Spanish-American gold and the Portuguese
territories in Africa, and given to them by God:

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 259-278, set-dez, 2018 272


Translation and science in the Luso-Brazilian enlightenment:...

Castilla reges ditat Peruma Potosis,


Aurea Soffala fertur orena Tago
Omnibus his venis praferrem Caryophyllum,
Quem Liber Domini manere Belga tenet.

(The Castillian crown is proud of the rich mountains of


Peru,
The Portuguese flatter themselves over the sands of Sofala.
All men prefer the clove from the Molucas,
Which God, our Creator, gives freely to the Dutch.)

God’s word is quoted in the in the publication on dyeing and the


indigo tree, O Fazendeiro do Brazil, tomo II, parte II (Beauvais
Raiseau). The book has a title page with a quotation from the
Exodus: “Hyacinthum, Purpura, Coccigera. Ex. Cap. xxv. V.
17”. Velloso, as the editor and translator, wants to highlight the
preciousness of dye-stuffs by quoting the instructions given in
the Bible regarding the offerings that should be brought to God.
The Vulgate is the source used in Velloso’s epigraph, the Latin
text having maintained the relation between the word ‘hyacinth’
and the colour blue (deep purplish blue), as well as the cochineal
(‘coccigera’) and the colour carmine. Velloso returns to the theme
of the epigraph in his dedication:

The fabrication of dyes of the colours blue, purple and


scarlet are as worthy of the high attention of Y.R.H, and
of your immediate protection as could, and should be gold,
silver &c., for all of them are equally possessions which
come from the Sovereignty that the Almighty conferred
onto Y.R.H. (Velloso “Dedicatória-Prefácio” vi)8

8
In the original Portuguese: O fabrico do azul, o da purpura, o da
cochonilha, são tão dignos da alta contemplação de V. A. R., e da sua
immediata protecção, como podem, e devem ser o ouro, a prata &C.,
pois huns e outros são igualmente pertences da Soberania, que o Todo-
Poderoso conferio na Pessoa de V. A. R.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 259-278, set-dez, 2018 273


Alessandra Oliveira Harden

He goes on to add information on the relationship between the


colour blue and the Bible:
The colour blue is so cherished in the Divine Letters, that in
Exodus alone it is repeated thirty times, under the word Thecheleth,
which the vulgate rendered as hyacinthinum, due to the colour blue
of the Hyacinth. (vii)9
The return in the prefatorial dedication to the theme evoked
with the epigraph on the title page establishes a connection between
the two kinds of paratexts, and gives reason to consider the
epigraph (and the motto) as a shorter and more direct version of
the preface, or the “preface in embryo” (Henige 76), as it prepares
the way not only to the text itself, but also to the author’s (and
here, the translator’s and publisher’s) way of thinking, in terms of
intertextuality and ideological affinities.

Final considerations

I argue in this article that epigraphs and mottoes should be


deemed as valuable sources of information in research projects
in which the aim is to place published works within a certain
intellectual or scientific movement or within a given historical
context. As signs of the mediation exercised by translators, editors,
and publishers on the relationship between text and readers, they
disclose allegiances, forge or flaunt intellectual fellowships,
reminding us these textual agents are first and foremost readers
themselves. As such, they belong to an intertextual web, which,
if recognized by translation and science historians, can shed light
on their editorial choices, for example.
In the case of the publications produced under Velloso’s guidance,
there is a clear alignment to authors and works concerned with the

9
In Portuguese: A côr azul he de tanta estimação nas Divinas Letras, que só no
Exodo se acha repetida trinta vezes, debaixo da palavra Thecheleth que a vulgata
verte hyacinthinum, pela côr azul do Jacintho.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 259-278, set-dez, 2018 274


Translation and science in the Luso-Brazilian enlightenment:...

growing of primary agricultural products of special relevance at the


time, such as spices, hemp, and plants used for dyeing, with the
devotion to the motherland, and with the application of knowledge
on biology and medicine. As such, they helped to place the Luso-
Portuguese translators and scientists within the great intertextual
network of the Enlightenment known as the Republic of Letters.

References

Beauvais Raiseau (Beauvais-Raseau). O Fazendeiro do Brazil: Cultivador. (...).


Tomo II. Tinturaria. Parte II. Cultura da Indigoeira, e Extracção da sua Fecula.
Translated by J. M. da C. Velloso. Lisboa: Off. Simão Thaddeo Ferreira, 1800.

Bretelle-Establet, Florence, and Stéphane Schmitt. “Introduction.” Pieces and


Parts in Scientific Texts, edited by Florernce Bretelle-Establet, and Stéphane
Schmitt. Springer, (2018): 3-17.

Burke, Peter. “History as Social Memory.” Memory, History, Culture and the
Mind, edited by Thomas Butler, Basil Blackwell, (1989): 97-114.

Curto, D. R. (1999) ‘D. Rodrigo de Souza Coutinho e a Casa Literária do Arco


do Cego’. M. F. Campos (org.) A Casa Literária do Arco do Cego: Bicentenário.
Lisboa: Biblioteca Nacional e Imprensa Nacional, Casa da Moeda, (1999): 15-49.

Genette, Gerard. Paratexts: Thresholds of Interpretation. Trans. Jane E. Lewin.


Cambridge - New York: Cambridge University Press, 1997.

Gonçalves Rodrigues, Antônio A. A Tradução em Portugal: Tentativa de Resenha


Cronológica das Traduções Impressas em Língua Portuguesa Excluindo o Brasil
de 1495 a 1950. Lisboa: Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1992.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 259-278, set-dez, 2018 275


Alessandra Oliveira Harden

Henige, David. “Being Fair to the Hounds: The Function and Practice of
Annotation, II”. History in Africa, 29, 2002, 63-88.

Journal de Commerce. Volume 18. Bruxelles: Chez P. de Bast, 1761.

Knowles, Gilbert. Materia Medica Botanica (...). Londini: Guil. Bowyer, 1723.

Kristeva, Julia. “Word, Dialogue and Novel”. The Kristeva Reader, edited by
Toril Moi. New York: Columbia University Press, 1986.

Marcandier, M. Tratado Sobre o Canamo, Composto em Francez por Mr.


Mercandier, (...). Translated by M. F. R. de Andrade. Lisboa: Off. de Simão
Thaddeo Ferreira, 1799.

______. Traité du chanvre. Paris: Chez Nyon, 1758.

Massac, Pierre L.-R. Memoria sobre a Qualidade, e sobre o Emprego dos


Adubos, ou Estrumes. Translated by J. M. da C. Velloso. Lisboa: Typographia
Chalcographica, Typoplastica, e Litteraria do Arco do Cego, 1801.

Nuvellone-Pergamo, Giuseppe. Discurso Prático sobre a Cultura, Maceração e


Preparação do Canamo (...). Translated by J. M. da C. Velloso. Lisboa: Off. de
Simão Thaddeo Ferreira, 1799.

Oliveira Harden, Alessandra R. “Brasileiro tradutor e/ou traidor: Frei José


Mariano da Conceição Veloso”. Cadernos de Tradução , 1.23 (2009): 131-148.

______. Brazilian translators in Portugal 1785-1808: ambivalent men of science.


Vol. I: 401 p., Vol. 2: 211 p. Dublin: University College Dublin. Doctorate
Thesis. Hispanic and Lusophone Studies, School of Languages and Literatures,
University College Dublin, Dublin-Irlanda, 2010.

______. “Tradução, história e o Iluminismo luso-brasileiro: a Casa Tipográfica


Arco do Cego e as línguas do progresso”. Ilustração, cultura escrita e práticas
culturais e educativas. Edited by Antonio Cesar de Almeida Santos, Estúdio
Texto, 2016, 107-129.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 259-278, set-dez, 2018 276


Translation and science in the Luso-Brazilian enlightenment:...

Rumphius, Georg Eberhard. Herbarium amboinense: plurimas conplectens


arbores, frutices, herbas, plantas terrestres & aquaticas (...). Edited and
translated by Joannes Burmannus. Pars secunda. Amstelaedami, 1741.

Schmitt, Stéphane. “Epigraphs as Parts of Text in Natural History Books in the


Eighteenth Century: Between Intertextuality and the Architecture of the Book.”
Pieces and Parts in Scientific Texts, edited by Florernce Bretelle-Establet, and
Stéphane Schmitt. Springer, (2018): 3-17.

Stahls, Johann F. (hrsg.). Allgemeines Oeconomisches Forst-Magazin in welchem


allerhand nuzliche Beobachtungen (etc.). Zehender Band (etc.). Frankfurt –
Leipzig: Mezler und Compagnie, 1767.

The Bible. King James Version Standard Online. www.kingjamesbibleonline.org/


Exodus-Chapter-25/. Accessed 20 June 2018.

______. The Latin Vulgata. www.biblestudytools.com/vul/exodus/25.html.


Accessed 20 June 2018.

Velloso, José M. da C. Quinografia portuguesa ou Collecção de varias Memorias


sobre vinte e duas especies de quinas, (...) por Fr. José Mariano Velloso (...).
Lisboa: Offic. de João Procopio Correa da Silva, 1799.

______. ‘Dedicatória-Prefácio’. Beauvais Raiseau (Beauvais-Raseau). O


Fazendeiro do Brazil: Cultivador (...). Tomo II. Tinturaria. Parte II. Cultura
da Indigoeira, e Extracção da sua Fecula. Translated by J. M. da C. Velloso.
Lisboa: Off. Simão Thaddeo Ferreira, 1800

______. (editor and translator). O Fazendeiro do Brazil: Cultivado. (...) Colligido


de Memorias Estrangeiras (...). Tomo III. Bebidas Alimentosas. Parte I. Lisboa:
Off. Simão Thaddeo Ferreira, 1800.

______. (editor and translator). O Fazendeiro do Brazil: Cultivador. (…) Tomo


III. Bebidas Alimentosas. Cacao. Parte III. Lisboa: Impressam Regia, 1805.

______. (1805b) (editor and translator) O Fazendeiro do Brazil: Cultivador. (…)


Tomo IV. Especierias. Parte I. Lisboa: Impressam Regia, 1805.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 259-278, set-dez, 2018 277


Alessandra Oliveira Harden

______. (editor and translator). O Fazendeiro do Brazil: Cultivador. (…) Tomo V.


Filatura. Parte I. Lisboa: Impressam Regia, 1806.

Virgil. The Georgics of Virgil. Translated by J. W. MacKail. New York: Modern


Library, 1934.

______. Virgil in Two Volumes. Translated and edited by R. Fairclough. (Rev.


ed.) London: William Heinemann; Cambridge (MA): Harvard University Press,
1960.

Wyler, Lia. Línguas, Poetas e Bacharéis: Uma Crônica da Tradução no Brasil.


Rio de Janeiro: Ed. Rocco, 2003.

Recebido em: 15/04/2018


Aceito em: 31/07/2018
Publicado em setembro de 2018

Alessandra O. Harden. E-mail: oliveira.ales@gmail.com


ORCID: https://orcid.org/0000-0003-2473-057X

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 259-278, set-dez, 2018 278


http://dx.doi.org/10.5007/2175-7968.2018v38n3p279

O TRADUTOR (E O) DICIONARISTA

Maria Celeste Consolin Dezotti1


1
Universidade Estadual Paulista, Araraquara, São Paulo, Brasil

Resumo: A tradução faz interagir dois universos linguísticos, a língua


de partida e a língua de chegada. Na tradução de línguas mortas, como
o latim e o grego antigo, o uso de dicionários é imprescindível. Por ou-
tro lado, essa interação muitas vezes beneficia a língua de chegada, que
incorpora novas palavras. Nesta abordagem, que se restringe à tradução
de textos gregos para a língua portuguesa, considera-se o dicionário sob
dois aspectos: (I) sendo ele um guia de uso — e de recepção, sobretudo
para as línguas mortas —, dicionários de grego se enriquecem de termos e
significados à medida que novos textos são encontrados; (II) a riqueza de
sentidos de certas palavras gregas estimula o tradutor a transliterá-las e,
quando se tornam familiares, elas são dicionarizadas. Tudo isso é possível
porque o acervo lexical das línguas é aberto, afirmação válida mesmo para
línguas mortas.
Palavras-chaves: Tradução; Dicionário; Grego antigo; Acervo lexical;
Lexicografia.

THE TRANSLATOR (AND THE) LEXICOGRAPHER

Abstract: Translation makes the interaction between two linguistic worlds,


the source language and the target language. The use of dictionaries is
indispensable for translating dead languages, such as latin and ancien
greek. On the other hand, this interaction often benefits the target language,
which incorporates new words. This approach focuses translations of
greek texts into portuguese language. We consider dictionaries on two
aspects: (I) as it is a guide to speak a language – and to its reception,
especially in relation to dead languages –, in ancient greek dictionaries
words and meanings are added whenever new texts are discovered; (II)
the meanings’ richness of some greek words encourages translators to

Esta obra utiliza uma licença Creative Commons CC BY:


https://creativecommons.org/lice
Maria Celeste Consolin Dezotti

transliterate them, and when they become usual, they can be included in
a dictionary. This is possible because languages’ lexicon is open. This
statement is valid even if for a dead language.
Keywords: Translation; Dictionary; Ancient Greek; Lexicon; Lexicography.

1. Introdução

Este estudo alinhava observações sobre tradução de textos gre-


gos para o português e sua contribuição para a lexicografia do gre-
go antigo e também da língua portuguesa. Dividido em duas partes,
aborda, na primeira, aspectos da variação diastrática, ou seja, dos
registros — informação em geral difusa nos dicionários —, para,
em seguida, tratar do acervo lexical do grego antigo como corpus
aberto e passível, portanto, de inclusão de novas palavras e novas
acepções de palavras conhecidas, à medida que são descobertos
textos e inscrições. A segunda parte considera a contribuição das
traduções para o acervo lexical do português e para a elaboração
de dicionários de língua. Segundo Borba (2003, p. 15-16), tais di-
cionários devem ser “guias de uso” e não “um simples repositório
ou acervo de palavras”.
A tradução faz interagir dois universos linguísticos, a língua
de partida e a de chegada. Na prática da tradução de línguas não
mais usadas por falantes nativos como o latim e o grego antigo,
dicionários são o único recurso disponível para a delimitação de
significados de uma palavra em contexto.

2. Registros

Os dicionários de grego antigo descrevem palavras documenta-


das em corpus escrito que abrange um imenso arco temporal, desde
os textos de Homero, provavelmente do séc. IX-VIII a.C., até os
do século VI d.C. Essa amplitude é um dos desafios enfrentados
pelo helenista, haja vista as transformações que uma língua sofre

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 279-297, set-dez, 2018 280


O tradutor (e o) dicionarista

ao longo do tempo. Ademais, o grego expressa uma cultura antiga,


permanentemente reconstituída graças ao exame dos textos e da
cultura material.
É nesse quadro de investigações que se insere a tradução. Como
traduzir um texto grego se nos falta o “sentimento de língua”,
ou seja, aquele sentimento que os falantes nativos desenvolvem e
que lhes permite apreender intuitivamente o valor das palavras em
contexto? Esse conceito vale para qualquer língua que se aprende
como segunda língua, mas em relação ao grego antigo ele tem peso
maior porque, ao contrário das línguas modernas, que possibilitam
o contato com falantes nativos e a imersão nas culturas que elas
expressam, o estudo do grego apenas disponibiliza, para orientar o
estudioso, as informações constantes dos dicionários. Esclareço o
alcance de tal afirmação com uma experiência pessoal.
A tradução de textos de Luciano de Samósata (séc. II d.C.) me
ensinou a importância de se considerar os registros. Em sua rese-
nha à minha tradução dos Diálogos dos mortos (1966), Luiz Rufato
(1996, p. 6) observa:

A reparar, apenas um excesso de coloquialismo da tradução.


Na introdução, a tradutora avisa que, para manter o tom
que caracteriza Luciano, adotou algumas soluções que ‘fe-
rem as regras da norma culta’. Nada demais. Só que, para
isso, em alguns momentos, parece que há uma ultrapas-
sagem e esbarra-se no mau gosto. Dois exemplos colhidos
ao acaso: “pegadinha” (no sentido de armadilha), na página
51, e “putinha”, na página 179.

Reproduzo as duas passagens citadas para esclarecer o comentá-


rio. A primeira ocorre no Diálogo 1 (§2), em que o filósofo Dióge-
nes conversa, no Hades, com um morto que está prestes a voltar ao
mundo dos vivos, e o incumbe de levar recados para os filósofos:
“Recomende-lhes que parem de uma vez de dizer baboseiras, de
divergir a respeito de tudo, de arranjar chifres uns para os outros,

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 279-297, set-dez, 2018 281


Maria Celeste Consolin Dezotti

de inventar crocodilos e de ensinar a mente a propor semelhantes


pegadinhas” (grifo meu).
“Pegadinhas” traduz o plural neutro apora, com o qual Dió-
genes se refere aos sofismas apreciados pelos filósofos da época,
como este sofisma dos chifres: “O que a gente não perdeu, a gente
tem. Você não perdeu seus chifres. Logo, você os tem”. Ou o
do crocodilo: “Você tem um filho? Pois bem. Suponha que um
crocodilo o encontre perdido nas margens do Nilo e o agarre. A
seguir, ele promete devolvê-lo desde que você adivinhe se ele tem
intenção de devolver a criança ou não. Que alternativa você es-
colheria?” Trata-se de “armadilhas”, popularmente denominadas
“pegadinhas”. Para o resenhista, portanto, a solução, dado o colo-
quialismo, destoava do conjunto.
A outra referência está no Diálogo 27 (§7), em que Diógenes
censura um morto que chega ao hades maldizendo a cortesã res-
ponsável por sua morte: “[...] você, que jamais temeu os inimigos
e lutava intrepidamente à frente dos outros, foi deixar-se agarrar
pela primeira putinha que lhe apareceu com choros e queixumes
fingidos!” (grifo meu).
“Putinha” foi a tradução que dei para paidiskarion, diminutivo
de paidiske, “mocinha”, mas que também significa “prostituta”.
Ao ler a resenha, reconheci de imediato o erro de ter optado por
um vulgarismo, não condizente com a escolha de Luciano.
A partir daí, comecei a atentar na variedade de registros usada
por Luciano. Sua prosa é recheada de palavras poéticas, de arcaís-
mos e de ocorrências únicas (os hápax), particularidades que só po-
demos avaliar recorrendo às abonações trazidas pelos dicionários.
Cito alguns exemplos do Caronte, cuja tradução estou finalizando.
Nesse diálogo, o barqueiro Caronte sobe ao mundo dos vivos bus-
cando entender por que os mortos chegavam em prantos ao hades.
E, para visitar essa terra desconhecida, pede a Hermes que seja seu
guia. De início Hermes se recusa a acompanhá-lo, dizendo:

Não tenho tempo, barqueiro; pois estou de saída para fazer


uma entrega a Zeus lá em cima, da parte dos humanos. Ele

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 279-297, set-dez, 2018 282


O tradutor (e o) dicionarista

é irascível e meu medo é que, se eu me atrasar, ele permita


que eu seja inteirinho vosso, entregando-me à escuridão, ou
então, que ele faça o que fez recentemente a Hefesto: col-
her-me pelo pé e lançar também a mim para fora do divino
umbral, de modo que também eu provoque riso, servindo
vinho a manquitolar. (LUCIANO, 1974, p. 1; tradução e
grifos meus)

Os termos grifados na tradução acima correspondem no origi-


nal a palavras de uso poético. O primeiro traduz tetagon, particípio
aoristo de um verbo conhecido apenas nessa forma e só em duas
ocorrências da Ilíada (1.591; 15.23). Portanto, além de poética, é
forma rara e arcaica. O segundo, divino, traduz o adjetivo thespesios
(divino, maravilhoso), usado quase que exclusivamente em poesia, e
os raros empregos registrados em prosadores constituem sem dúvida
citação, criando o mesmo efeito surpresa verificado em Luciano. O
último, umbral, traduz belos (soleira), que só ocorre uma vez em
Homero, sendo retomada mais tarde por Ésquilo e Quinto de Esmir-
na. Novamente temos aí um arcaísmo poético e raro.
O texto traz também palavras técnicas da medicina: “Então
aquilo é que é o ouro, o brilho que reluz, a palidez (hypokhros)
com vermelhidão?”, pergunta Caronte (§ 11). Hypokhros é termo
do registro médico, com ocorrências em Hipócrates, Dioscórides
e Galeno. Caronte combina-o com erytema (rubor; vermelhidão
patológica, inflamação), que também oscila entre o registro téc-
nico e o não técnico. Para se reproduzir na tradução o efeito
do termo técnico, uma solução seria traduzir o sintagma por “o
amarelado eritema”.
Luciano também cria neologismos que desafiam o tradutor. Um
deles é nekrodokheion (§22), “receptáculo de mortos”, para re-
ferir-se às sepulturas. O português “necrotério” não é apropriado,
pois tem sentido específico. Forjar uma palavra única que dê conta
desses sentidos não é fácil...

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 279-297, set-dez, 2018 283


Maria Celeste Consolin Dezotti

3. Acervo lexical aberto

É comum supor-se que o conjunto de textos gregos constitui um


acervo fechado, por ser composto em uma língua morta. Ressalte-
-se, porém, que novos textos ainda estão sendo descobertos entre
manuscritos armazenados em bibliotecas e coleções pessoais, e
também em escavações arqueológicas. Dessa forma, novas pala-
vras se tornam conhecidas, assim como novas acepções de pala-
vras já dicionarizadas. Exemplo desse progresso no conhecimento
do léxico do grego antigo é o “Supplement” anexado ao Greek-
-English Lexicon de Liddell & Scott & Jones a partir da edição de
1968; ele abriga palavras novas, oriundas de inscrições e papiros,
e também correções e/ou acréscimos decorrentes do manuseio dos
textos por especialistas.
Essa reavaliação de significados de palavras gregas constitui um
processo contínuo. Cito exemplos extraídos da primeira tradução
em português do Romance de Esopo, feita por Adriane da Silva
Duarte (2014), cujo texto grego, a recensão G, provavelmente do
séc. II d.C., foi descoberto em Nova York numa biblioteca parti-
cular, e publicado por B. E. Perry em 19521.
Duarte (2014, p. 197), após informar que no texto predominam
“o registro baixo e a expressão vulgar, com forte presença de ele-
mentos escatológicos e obscenos”, sendo “o léxico caracterizado
por um grande número de palavras ausentes do corpus pregresso”,
faz este relato (p. 197-198):

[...] durante a tradução tive que recorrer, regularmente, ao


suplemento do Liddell-Scott (dicionário grego-inglês) e, em
muitos casos, os verbetes ali anotados traziam como única
ocorrência atestada o RE [Romance de Esopo]. Há casos
de termos que sequer têm acepção no dicionário, como é

1
Até então a versão popularizada entre nós era a do erudito bizantino Máximo
Planudes, graças à tradução francesa de La Fontaine, que manteve a tradição de
apresentá-la como preâmbulo de suas próprias fábulas.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 279-297, set-dez, 2018 284


O tradutor (e o) dicionarista

o caso da palavra mándrax (RE 68), usada para interpe-


lar pejorativamente Esopo, que traduzi como “catabosta”,
por analogia com mándra, estábulo. Outros tradutores, no
entanto, a aproximam de mandrágora, planta com proprie-
dades entorpecentes, supondo uma raiz comum.

Para medir-se o esforço da tradutora, veja-se o referido episó-


dio em que a tal palavra ocorre. Narra-se uma cena de banquete,
em que Xanto se excede na bebida e Esopo, seu escravo, tenta
alertá-lo:

[...] Quando os brindes sucediam-se num tropel e Xanto


já estava meio alto, começaram a propor problemas e
soluções, como é norma entre eruditos. Uma disputa surgiu
na proposição dos problemas e Xanto começou a discutir
com eles, não como se faz no simpósio, mas numa sala
de aula. Ao perceber que acabaria em briga, Esopo disse:
‘Quando Dioniso inventou o vinho, preparou três taças e
mostrou aos homens como deviam fazer uso da bebida. A
primeira taça era a do prazer; a segunda, a da alegria; a
terceira, a do torpor. Por isso, senhor, bebendo a taça do
prazer e a da alegria, deixe a do torpor para os jovens. Você
deu mostras de seu talento nas salas de aula.’ E Xanto,
agora bêbado, disse: ‘Silêncio, catabosta! Você é o consel-
heiro de Hades!’. Esopo: ‘Espere só e chegará ao Hades.’
(DUARTE, 2017, p. 240-241)

A tradutora informa que a palavra mándrax não está dicionari-


zada. De fato, apesar de as Vitae Aesopi editadas por Perry (1952)
constarem da lista de novos textos abrigados no Supplement do
Greek-English Lexicon, aquela palavra não está inserida na lista-
gem, possivelmente devido à dificuldade de se propor um sentido
para ela, visto tratar-se de ocorrência única. Outros tradutores de-
ram soluções diferentes para esse desafio, mas todas insatisfatórias:
Jouanno (2006, p. 108) traduz mándrax por “sous-homme”; Lloyd

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 279-297, set-dez, 2018 285


Maria Celeste Consolin Dezotti

Daly (1961, p. 64) opta por “swineherd” (porcariço), palavra old


segundo o Longman (2005, p. 1681). Vale notar, ainda, que outra
alternativa é desviar-se do problema omitindo a passagem, como
faz Hans Joachim Schädlich (2002, p. 54): “Xanthos, ivre come il
était, incendia Ésope: ‘Mais toi, tu ne te tais pas, misérable con-
seiller de Hadès”.
Esses exemplos mostram que a tradução pode contribuir para o
conhecimento do léxico de uma língua e, consequentemente, para
o aperfeiçoamento dos dicionários. Sem dúvida, a solução de Du-
arte em algum momento deverá ser incorporada em um dicionário
grego-português.
A tradução também contribui para aumentar nosso conhecimen-
to sobre os significados de palavras já dicionarizadas. Cito uma
passagem narrada no §76 do Romance de Esopo. Durante a au-
sência do patrão, Esopo aceita fazer sexo com a esposa dele, sob
a promessa de receber um manto como paga por dez orgasmos se-
guidos; como o décimo foi mal sucedido, a mulher não lhe entrega
o manto. Sentindo-se injustiçado, Esopo decide, assim que Xanto
retorna, submeter o caso ao julgamento do patrão; narra-lhe então
o adultério, mas de forma obscura, cifrando-o em alegoria:

“Senhor, minha dona, durante um passeio comigo, viu uma


ameixeira carregada de frutos. Contemplando um galho
cheio, teve vontade e disse: ‘Se você conseguir dez ameixas
para mim arremessando uma única pedra, dou-lhe o tecido
para um manto!’ Arremessando direto no alvo uma única
pedra, trouxe para ela dez, mas uma elas, por azar, caiu
num monte de estrume e agora ela não quer me dar o teci-
do.” Ela ouviu e disse para o marido: ‘Admito ter recebido
nove, mas não ponho na conta a que foi para o estrume. Que
ele arremesse de novo e faça cair uma ameixa para mim,
e que, assim, receba o manto.’ Esopo disse: ‘O fruto de
minha árvore não é mais abundante.’ [Xanto decidiu que o
tecido fosse dado a Esopo e disse a ele:] ‘Já que eu também
estou exausto, até que chegue a hora da refeição, venha lá
fora comigo e vamos nos mexer um pouco e, você, colher

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 279-297, set-dez, 2018 286


O tradutor (e o) dicionarista

as ameixas restantes e trazê-las para a sua dona, para rece-


ber em troca o manto...’ [E ela disse: ‘Faça isso, senhor, e,
seguindo suas ordens, eu lhe darei o manto.’] (DUARTE,
2017, p. 244-2452)

Esse episódio deixa clara a equivalência entre “ameixeira”


(kokkymelean) e Esopo, entre “galho cheio” (kladon plere ) e mem-
bro viril entumecido, entre “uma única pedra” (eni lithoi) e ato
sexual ininterrupto. Contudo Xanto não percebe tais equivalências.
Seu entendimento falha por não atentar na frase em que o escravo
se identifica com o fruto quando diz “o fruto de minha árvore não
é mais abundante”. Está aí, claramente, o índice conotativo da fala
de Esopo. Embora os dicionários não registrem, a metáfora sexu-
al da ameixa transparece na composição de seu nome em grego,
kokkymelon ou kokkygos melon “maçã do cuco”. Segundo Sousa e
Silva (1989, p. 96-97), Aristófanes em Aves (v. 504) refere-se ao
cuco em contexto conotativo, exortando à prática de sexo. A ideia
de que o canto do cuco era visto como estímulo sexual, pois faria
o “cuco” (= órgão sexual masculino) excitado sair para a planície
(= órgão sexual feminino), está documentada pelo escoliasta de
Aristófanes (DUBNER, 1843). Ademais, a palavra klados (galho)
possivelmente também já tivesse valor metafórico sexual na época.
Aceitando-se que o texto do Romance de Esopo seja do século II
d.C., vale considerar o bilinguismo vigente — e notável, segundo
Jouanno (2006, p. 16), em várias ocorrências de latinismos na obra
— e supor-se que essa palavra grega poderia carrear o valor sexual
do latim “ramus”, uma das metáforas botânicas para o órgão sexu-
al masculino3, segundo J. N. Adams (1982, p. 28 e 77).
Vale deduzir que essas conotações sexuais já circulavam na épo-
ca da composição do romance; do contrário, o relato de Esopo

2
A citação reproduz o uso de aspas duplas e aspas simples usada pela tradutora:
a primeira delimita discursos diretos reproduzidos pelo narrador; a segunda,
discurso direto citado pela personagem Esopo.
3
A conotação sexual de “ramus” permanece em nossa palavra “rameira”.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 279-297, set-dez, 2018 287


Maria Celeste Consolin Dezotti

seria altamente cifrado, com interpretação limitada a ele próprio


e à esposa de Xanto. Se assim fosse, o ridículo a que o filósofo
estaria submetido não faria sentido, visto que se exigiria dele uma
compreensão acima de sua capacidade, devido ao elevado grau de
arbitrariedade do componente alegórico. Faz mais sentido supor-se
que Esopo estaria manipulando registros obscenos conhecidos das
camadas baixas da população. A partir daí, pode-se afirmar que a
ridícula ingenuidade de Xanto advém de seu desconhecimento de
sentidos figurados e obscenos de palavras corriqueiras, fato que se
coaduna com o romance como um todo, que debocha do filósofo
e de sua cultura letrada inútil. A fala da esposa que encerra o epi-
sódio mantém o duplo sentido das palavras, fazendo aumentar a
comicidade da situação, aos olhos do par adúltero e também do lei-
tor. Portanto, essas conotações sexuais de klados e de kokkymelon
merecem registro em dicionários.

4. Empréstimos

Segundo Borba (2003, p. 121), um estrangeirismo está acli-


matado quando veste a roupagem gráfica da língua receptora; no
nosso caso, quando ele é aportuguesado.
Traduções do grego para o português respondem por um signi-
ficativo conjunto de palavras recentemente aclimatadas. Um exem-
plo é , geralmente transliterada hybris, e incorporada na primeira
edição do Houaiss (2001, p. 1554) como “húbris”. Contudo, pare-
ce haver resistência ao uso da forma dicionarizada, conforme su-
gere o texto de Oded Grajew (2017), que preferiu a transliteração:

Na louca corrida sem limites pelo crescimento e enriqueci-


mento, a humanidade comete o crime da desmedida,
chamada de “hybris” pelos gregos. [...] Em nossa hybris
ou desmedida, destruímos o meio ambiente e colocamos em
risco a vida humana no planeta.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 279-297, set-dez, 2018 288


O tradutor (e o) dicionarista

No entanto, também recorrem à transliteração tradutores de


obras modernas, ficcionais ou não, como exemplificam as tradu-
ções para o português de A ilha do tesouro de Stevenson. Na tradu-
ção de A. F. Machado (1973, p. 49) a palavra squire, que descreve
a condição social do Sr. Trelawney, é traduzida por “fidalgo”,
enquanto na tradução de Duda Machado (1997, p. 48), mantém-se
a palavra inglesa em itálico, mas sem nenhuma nota explicativa, o
que limita o entendimento do leitor. Segundo o Longman (2005,
p. 1607), squire designava na Inglaterra o proprietário da maior
parte das terras ao redor de uma cidade. “Fidalgo” não é necessa-
riamente um proprietário de terras. Nota-se que o segundo tradutor
preferiu manter a palavra inglesa transliterada, recusado-se tanto
em adotar a primeira solução (“fidalgo”), por imprecisa, como em
traduzir por “grande proprietário de terras”, solução inviável para
os contextos em que squire ocorre.
Transliterar palavras da língua de origem nas traduções é prá-
tica rotineira, certamente para preservar significados condensa-
dos em palavras de difícil tradução em língua moderna. Pala-
vras transliteradas em geral vêm seguidas de notas explicativas.
E quando adquirem certa frequência de uso, são aclimatadas e,
depois, dicionarizadas.
O jornal é um disseminador importante de novas palavras. Má-
rio Sérgio Conti (2017) comentou na Folha de São Paulo um livro
de Perry Anderson recém-publicado na Inglaterra chamado The H-
-World. Esse H do título é a letra inicial da palavra grega hegemon,
assim transliterada no livro. Conti usa esse conceito grego para
explicar por que o presidente Temer se mantém no poder, apesar
das denúncias que o cercam: “Porque ele é um hegemon (sic; sem
itálico ou aspas), palavra que nem o Aurélio nem o Houaiss regis-
tram” (p. 10) . E depois de informar que o livro citado explora o
significado de hegemon (= líder) e de hegemonia, Conti acrescen-
ta: “Criado por Aristóteles, o conceito cada vez mais se aplica ao
mundo atual” (p. 10). Tem-se aí uma palavra grega com grande
probabilidade de aclimatar-se; se o livro de Anderson for traduzido
para o português, já será meio caminho andado para isso.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 279-297, set-dez, 2018 289


Maria Celeste Consolin Dezotti

Enquanto as palavras transliteradas não são dicionarizadas, os


tradutores da área de estudos clássicos costumam listá-las em glos-
sários oferecidos como apêndices no final dos volumes.
Destaco o glossário anexado à tradução das Bacas de Eurípides,
feita por JAA Torrano (1995, p. 129), no qual aparecem termos do
campo semântico do dionisismo tais como

Baca(s): “cultora(s) de Baco”;


Baqueia: festa e furor báquico;
Baqueuma: festas ou mistérios de Baco;
nébrida: “pele de corça”
tíaso: “confraria celebradora de ritos cultuais de Dioniso”.

Entre eles há alguns já dicionarizados à época pelo Novo Dicio-


nário de Aurélio B. de H. Ferreira, de 1975:

báquico: “o que concerne a Baco” (cf. FERREIRA, p.


183);
evoé: “grito festivo com que se invocava Baco nas orgias”
(cf. FERREIRA, p. 594)
tirso: “bastão entrelaçado com heras e pâmpanos [...].” (cf.
FERREIRA, p. 1382)

Vale notar que às vezes algumas dessas palavras constam do


dicionário, mas com uma definição que não considera o significado
específico delas em dado contexto grego. Veja-se a palavra nébri-
da, que ainda não estava dicionarizada quando Torrano publicou
sua tradução, mas foi acolhida mais tarde pelo Houaiss (2005) na
forma “nébride” e definida erroneamente como “pele de gamo usa-
da como veste pelas sacerdotisas do culto de Baco” [grifo meu]: a
nébride era usada pelas bacantes, sacerdotisas ou não. Essa impre-
cisão acaba por justificar sua presença no glossário.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 279-297, set-dez, 2018 290


O tradutor (e o) dicionarista

Outras palavras que apresentam definições imprecisas nos


dicionários são “mênade” e “bacante”. O Novo Dicionário do
Aurélio de 1975 (p. 910) apresenta “mênade” como sinônimo de
“bacante”, para a qual oferece duas acepções (p. 172): “1. sacer-
dotisa de Baco; mênade; tíade. [grifo meu]; 2. mulher dissoluta,
devassa, libertina”.
Posteriormente, o Houaiss (2005) manterá essas duas acepções
em “bacante” (p. 370), mas acrescentará uma novidade no verbete
“mênade” (p. 1891, grifo meu): “1. ninfa campestre que participa-
va das festas de Baco; bacante.; 2. mulher que se deixa levar por
suas paixões, por seu temperamento, que é arrebatada, impetuosa”.
As imprecisões desses verbetes confundem um desavisado leitor
da tragédia de Eurípides. Na verdade, as mênades, ou bacantes,
não eram nem sacerdotisas, nem ninfas; eram as devotas de Dioni-
so, as seguidoras de seu culto.
O glossário da tradução dos Hinos Homéricos (RIBEIRO JR.,
2010, p. 537ss) apresenta as mesmas qualidades e vícios. Tem-se
uma lista de palavras transliteradas não dicionarizadas como fórminx
(espécie de lira) e mégaron (amplo salão central dos palácios micêni-
cos), ao lado de outras já dicionarizadas a contento, como ambrosia,
moira, musa, néctar. Mas há aquelas insuficientemente definidas;
um bom exemplo é aqueu, para a qual o Houaiss (2005, p. 267)
apresenta duas acepções: “1. relativo aos aqueus, um dos quatro
ramos do povo grego antigo, ou indivíduo dos aqueus; 2. relativo
à Acaia (antiga Grécia), ou o seu natural ou habitante”. Contudo,
nenhuma delas contempla o sentido que ela tem na poesia homérica,
informado pelo glossário: “um dos nomes coletivos utilizados por
Homero para referir-se aos gregos” (RIBEIRO JR, 2010, p. 538).

5. Neologismos e regionalismos

Traduções favorecem os neologismos, que, se bem construídos,


merecem aplausos. Destaco o primeiro neologismo que vi numa
tradução do grego: o verbo hinear, criado por Torrano (1984, p.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 279-297, set-dez, 2018 291


Maria Celeste Consolin Dezotti

129) para traduzir o grego hymneuo, “entoar um hino” (em louvor


de alguém), que ocorre no verso 11 da Teogonia de Hesíodo: “hi-
neando Zeus porta-égide”.
Adotei tal neologismo, economicamente perfeito, na tradução
do primeiro verso do Hino a Hermes (“Hineia a Hermes, Musa”),
para a mencionada coletânea de Hinos Homéricos. O verbo hym-
neuo tem emprego formular nos Hinos Homéricos, aparecendo em
quase todos eles. Contudo, nem todos os tradutores da coletânea
adotaram o referido neologismo; muitos preferiram seguir a tradi-
ção e traduzi-lo por “cantar”, solução empobrecedora, pois dilui
a informação a respeito do gênero poético, o hino, presente na
palavra grega e preservada no neologismo.
Regionalismos também despontam como soluções tradutórias.
Em minha tradução das fábulas de Esopo (2014), a palavra skoleks
da fábula 268 foi traduzida por um regionalismo não dicionarizado.
Skoleks é “verme”, podendo ser “minhoca” e também “larva” de
inseto ou de matéria em decomposição. Como a fábula situa a cena
sob uma figueira, imaginei a situação banal de figos maduros e bi-
chados caídos no chão, e entendi o skoleks personagem da fábula,
que inveja o tamanho de uma cobra que estava ali dormindo, como
um desses bichos dos figos. Acabei traduzindo skoleks por “biga-
to”, palavra corriqueira em minha região interiorana paulista para
designar o verme que se aloja nas frutas e verduras. Embora de
limitada circulação, essa foi a solução mais adequada que encontrei
e decidi documentá-la em texto escrito. A surpresa gratificante veio
mais tarde, no email de um gentil leitor4, do qual transcrevo abaixo
alguns parágrafos:

[...] Suas escolhas lexicais muito me agradaram e, dentre


elas, a palavra bigato. Sei que, ao terminar a leitura, bus-
cando mais informações sobre a publicação, achei um vídeo
promocional da editora, infelizmente fechada, em que a sra.

4
TRIGO, F. J. R. Bigato [mensagem pessoal]. Mensagem recebida por <celeste@
fclar.unesp.br> em 30 jan. 2016.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 279-297, set-dez, 2018 292


O tradutor (e o) dicionarista

a comenta brevemente e o “bigato” aparece em sua fala


[...]. Sobressaltado, corri ao meu Houaiss (o bom, de 2001)
e, realmente, nada de “bigato”.

Desejei, então, fazer-te um relato sobre o meu contato an-


terior com esse tão interessante vocábulo.

Nasci e vivo na cidade de São Paulo há 45 anos. Minha


infância foi de pouquíssimas viagens, assim, as que fiz
ficaram cristalizadas na memória. Em 1980, minha mãe
nos levou pela primeira vez a uma cidadezinha do inte-
rior, onde pudemos passar uma semana num sítio de um
parente de uma amiga dela do trabalho. Nunca tinha visto
aquela vida de perto, experimentei e aprendi um monte de
coisas, dentre elas a palavra bigato que as crianças de lá
me ensinaram quando o conheci dentro das goiabas que
comíamos direto do pé.

[...] Depois de bem maduro, aprendi com minha mulher,


de pais nordestinos, a palavra tapuru, que está no Houaiss,
mas que não é a mesma coisa. Entendo que o bigato é larva
de fruta, “comestível”, diferente do tapuru, larva da carne
podre, muito mais asqueroso.

Assim, cara profa., penso que usaste o termo mais especí-


fico e adequado, pois na fábula havia uma figueira, ele não
era uma larva qualquer. [...]

Desculpe-me por importuná-la em seus afazeres, mas a


emoção provocada pelas coisas que senti tornou irresistível
escrever-te. Em tempo, a “cidadezinha qualquer” de 1980
é Tabatinga, perto de onde leciona.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 279-297, set-dez, 2018 293


Maria Celeste Consolin Dezotti

6. Conclusão

Este estudo ressalta o quanto as traduções contribuem tanto para


o conhecimento da língua de partida, como para a ampliação do
léxico da língua de chegada. O exame cuidadoso das palavras da
língua de partida em contexto pode revelar, sobretudo no tocante às
chamadas línguas mortas, aspectos semânticos até então desaperce-
bidos, ao mesmo tempo que nos possibilita recuperar certa vivaci-
dade do uso entre os falantes nativos. Por outro lado, os tradutores,
na busca de soluções que transportem para a língua de chegada os
efeitos semânticos do original, não hesitam em criar neologismos,
transliterar palavras e usar regionalismos, promovendo dessa for-
ma a ampliação do léxico. Tais resultados devem por certo constar
dos dicionários dessas línguas em interação.
Nas traduções de textos greco-latinos, glossários se justificam
quando esclarecem significados de termos transliterados ou da-
queles que, embora já dicionarizados na língua de chegada, carre-
gam uma acepção não contemplada pelos dicionaristas. Contudo,
quando repetem palavras suficientemente definidas nos dicioná-
rios, prestam um desserviço para a lexicografia. Cabe, portanto,
à moderna lexicografia considerar a existência desses glossários
e formular critérios para definir o que vale a pena ser incluído na
nomenclatura dos dicionários.
Outro aspecto a destacar-se é a necessidade de incluírem-se
traduções nos corpora utilizados na elaboração de dicionários.
Essa prática permitiria documentar a circulação de um acervo
importante de palavras, entre elas neologismos, regionalismos e
mesmo arcaísmos ou palavras em desuso, que as soluções tradu-
tórias vivificam.
Lexicografia e tradução integram, portanto, um movimento cí-
clico: do dicionário para o tradutor e da tradução para o dicionário.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 279-297, set-dez, 2018 294


O tradutor (e o) dicionarista

Referências

ADAMS, J. N. The Latim sexual vocabulary. London: Duckworth, 1982.

ARISTÓFANES. As aves. Tradução e notas de Maria de Fátima Sousa e Silva.


Lisboa: Edições 70, 1989.

BORBA, F. S. Organização de dicionários. Uma introdução à lexicografia. São


Paulo: Ed UNESP, 2003.

CONTI, M. S. Peripécias da hegemonia. Folha de São Paulo, São Paulo, 29 jul.


2017. Folha Ilustrada, Caderno C, p. 10.

DALY, L. Aesop without morals. New York; London: Thomas Yoseloff, 1961.

DEZOTTI, M. C. C. Hino homérico a Hermes. In: RIBEIRO JR., W. A. (Org.)


Hinos Homéricos. São Paulo: EdUnesp, 2010. p. 406-453.

DUARTE, A. S. Romance de Esopo. In: MALTA, A. Esopo. Fábulas, seguidas


do Romance de Esopo. São Paulo: Editora 34, 2017. p. 183-274.

DUBNER, F. Scholia graeca in Aristophanem. Paris: Didot, 1843.

ESOPO. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São


Paulo: Cosac & Naify, 2014.

EURÍPIDES. Bacas. Tradução de JAA Torrano. São Paulo: Hucitec, 1995.

FERREIRA, A. B. H. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. 1. ed. Rio de


Janeiro: Nova Fronteira, 1975.

GRAJEW, O. Neymar, a desmedida. Folha de São Paulo, São Paulo,17 ago.


2017, Caderno A, p. 3.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 279-297, set-dez, 2018 295


Maria Celeste Consolin Dezotti

HESÍODO. Teogonia. Tradução e estudo de JAA Torrano. São Paulo: Roswitha


Kempf, 1984.

HOMERO. Ilíada. Tradução de Haroldo de Campos. 4. ed. São Paulo: Arx,


2003. 2 v. (Edição bilíngue)

HOUAISS, A.; VILLAR, M. S. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. 1.


ed. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.

JOUANNO, C. Vie d’Ésope. Paris: Les Belles Lettres, 2006.

LIDDELL, H.G.; SCOTT, R.; JONES, H.S. Greek-English Lexicon. With a


Supplement. Oxford: Clarendon Press, 1973.

LONGMAN. Dictionary of Contemporary English. 4. ed. Harlow: Longman,


2005.

LUCIANO. Diálogo dos mortos. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti.


São Paulo: Hucitec, 1966.

______. Caron. In: Luciani. Opera, II. by M.D.MacLeod. Oxford: Oxford


Classical Texts, 1974.

PERRY, B. E. Aesopica. Urbana: University of Illinois, 1952.

RIBEIRO JR., W. A. (Org.) Hinos Homéricos. Tradução, notas e estudo de


Edvanda Bonavina da Rosa, Fernando Brandão dos Santos, Flávia Regina
Marquetti, Maria Celeste Consolin Dezotti, Maria Lúcia Gili Massi, Sílvia Maria
Schmuziger de Carvalho e Wilson Alves Ribeiro Jr. São Paulo: Edunesp, 2010.

RUFATO, L. Contra os belos, os robustos e os filósofos. Jornal da Tarde, São


Paulo, 26 out. 1996. Caderno de Sábado, p. 6.

SCHÄDLICH, H. J. Donne-lui la parole. Vie et mort du poéte Esope. Tradução


do alemão por Bernard Kreiss. Nîmes: Jacqueline Chambon, 2002.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 279-297, set-dez, 2018 296


O tradutor (e o) dicionarista

STEVENSON, R. L. A ilha do tesouro. Tradução de Alsácia Fontes Machado.


São Paulo: Círculo do Livro, [1973].

______. A ilha do tesouro. Tradução de Duda Machado. 2. ed. São Paulo: Ática,
1997.

Recebido em: 15/03/2018


Aceito em: 29/06/2018
Publicado em setembro de 2018

Maria Celeste Consolin Dezotti. E-mail: mceleste.cd@gmail.com


ORCID: https://orcid.org/0000-0001-9070-0032

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 279-297, set-dez, 2018 297


http://dx.doi.org/10.5007/2175-7968.2018v38n3p298

OBITUARIES IN TRANSLATION: A CORPUS-BASED


STUDY

Rozane Rodrigues Rebechi1


1
Universidade Federal do Rio Grande do Sul,
Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil

Death can make a good story. (Starck 2006, ix)

Abstract: Sooner or later death will affect everyone, everywhere.


However, this harsh reality is faced differently across cultures. Obituaries
can help unveil some of those differences and their impact on translation.
Using corpus linguistics as methodology, we aim to investigate if – and
to what extent – a comparable American English-Brazilian Portuguese
corpus of obituaries can help with the task of raising students’ awareness
of cultural peculiarities encountered in the same genre written in different
languages and their consequences for equivalence retrieval. In order to
accomplish our task, we selected texts published in Brazilian and North-
American newspapers in 2015 and 2017. Despite addressing an everyday
subject, obituaries are little explored academically. Nevertheless, this
neglect is not proportional across countries, but it results from the
popularity enjoyed by the genre. While obituaries are widely read in the
United States, in Brazil they are rare, almost solely dedicated to famous
deceased. Qualitative and quantitative analyses showed that terminology
lacks in Portuguese due to cultural differences regarding the theme and
that the lack of contact with the genre, in addition to ritual differences
encountered in both countries/cultures, can help explain difficulties faced
by Brazilian undergraduate students of Translation to render North-
American obituaries into Portuguese.
Keywords: Obituary; Corpus linguistics; Death notice; Translator
training.

Esta obra utiliza uma licença Creative Commons CC BY:


https://creativecommons.org/lice
Rozane Rodrigues Rebechi

OBITUÁRIOS NA TRADUÇÃO: UM ESTUDO BASEADO


EM CORPUS

Resumo: Mais cedo ou mais tarde, a morte afetará todas as pessoas,


em todos os lugares. No entanto, essa dura realidade é enfrentada de
formas diferentes em culturas distintas. Os obituários podem ajudar a
revelar algumas dessas diferenças e seu impacto para a tradução (Loock
& Lefebvre-Scodeller, 2014). Usando a Linguística de Corpus como
metodologia (BAKER, 1993; LAVIOSA, 2002; McENERY & HARDIE,
2012; PHILIP, 2009; ZANETTIN, 2012), investigamos se - e até que
ponto - um corpus comparável de obituários em inglês estadunidense e em
português brasileiro pode ajudar na tarefa de conscientizar os aprendizes
sobre as peculiaridades culturais observadas em um mesmo gênero textual
escrito em diferentes idiomas, e suas consequências para a identificação de
equivalentes. Para atingir nossos objetivos, selecionamos textos publicados
em jornais brasileiros e estadunidenses entre 2015 e 2017. Apesar de
abordarem um assunto cotidiano, os obituários são pouco explorados
academicamente. No entanto, essa negligência não é proporcional nos
dois países, e resulta da popularidade do gênero. Enquanto nos Estados
Unidos os obituários são lidos regularmente, no Brasil eles são raros,
quase exclusivamente dedicados a falecidos famosos. Análises qualitativas
e quantitativas mostraram que a ausência de termos em português se deve
a diferenças culturais que permeiam o tema, e que a falta de familiaridade
com o gênero, além das peculiaridades dos rituais praticados nos dois
países/culturas, pode ajudar a explicar as dificuldades enfrentadas pelos
aprendizes brasileiros na tarefa de traduzir obituários estadunidenses para
o português brasileiro.
Palavras-chave: Obituário; Nota de falecimento; Linguística de Corpus;
Formação de tradutores.

1. Introduction

According to Bates et al. (2009, 2), “The way a culture chooses


to commemorate its dead reflects a great deal about the character
and nature of that culture”. If we consider this claim to be true, it
can be concluded that Brazil and the United States are at opposite
sides, culturally speaking, since death, a fact common to all peoples,

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 298-318, set-dez, 2018 299


Obituaries in translation: a corpus-based study

is approached so differently in these countries. And obituaries can


help unveil some of these differences.
After analyzing the essence of contemporary North-American
obituaries, Bates et al. (2009) concluded that obituaries draw
audience to newspapers, corroborating the claim of a former The
Sydney Morning Herald’s editor-in-chief: “In the English-speaking
world, a newspaper of quality hardly seems complete these days
without a regular obituary page” (Starck 2006, x). In Brazil, on
the other hand, the theme is far from popular. Here obituaries are
mostly dedicated to the death of renowned people in the form of
news articles written by journalists and published in newspapers
and magazines. Exceptions are death notices, paid texts which
are usually short and restricted to providing information about the
(bygone) funeral.
Despite its far-reaching qualities in North-American culture,
however, the theme is not free from prejudice, as we can illustrate
with a passage from the movie Closer. When asked about his
profession, Dan Woolf, the character played by Jude Law,
laments: “Well, I had dreams of being a writer, but I had no voice.
What am I saying? I had no talent. So I ended up in obituaries,
which is the Siberia of journalism.” (Nichols et al. 2004). When it
comes to academic research, this theme is also underexploited. Eid
(2002) noticed that when talking about her research – the analysis
of gender across cultures through obituaries –, she was constantly
faced with two antagonistic reactions: some people were shocked
by the choice of such macabre topic of study, while others were
glad to know they shared an interest in the topic. The latter reaction
could perfectly suit those North-American newspaper readers who
check the obituaries on a regular basis, whether for information
or for enjoyment of their literary quality. Most Brazilians, on the
other hand, would probably belong to the ‘shocked’ group, as a
consequence of our limited exposure to the topic. But differences
surely go beyond readers’ interest in the genre.
When comparing two societies such as Brazilian and North-
American, practical issues also help explain the divergence in

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 298-318, set-dez, 2018 300


Rozane Rodrigues Rebechi

approaching the subject. For instance, while North-American


funerals may last several days, since they involve, among other
steps, mourning the deceased, celebrating their life, and offering
support to the family, Brazilians tend to proceed with burial or
cremation in no more than 24 hours after death. A hypothesis
is that the physical presence of the dead person causes such a
grief that the ceremony is usually abbreviated. Scientific studies
corroborate this discrepancy. During a six-month research at the
Children’s National Medical Center of the George Washington
University, Regina Bousso, a Brazilian Professor of Nursing,
concluded that North-American health professionals are inclined
to speak more naturally about death among themselves and to the
patients’ relatives than their Brazilian counterparts (Fioravanti
2016). For comparison purposes, the researcher emphasizes
that Brazilian schools have broken old barriers by including
formerly avoided topics (e.g., sex) in their curricula, but death
and mourning are still taboo in the country. In the United States,
on the other hand, people tend to be more open when it comes to
the end of life. There, 78% of elderly patients discuss with their
family and friends the kind of treatment they expect in case they
are unable to decide for themselves.
Although, as previously mentioned, obituaries are not a popular
research topic, there are some noteworthy research in English on
the subject. Some examples are Eid’s (2002) examination of cross-
cultural differences in Egypt, the United States and Iran; Moses
and Marelli’s (2004) analysis of the construction of life and death
through the language of obituaries; Moore’s (2002) intention to
unveil how much of The Economist’s ideology can be revealed by
the obituary column; Bates et al.’s (2009) attempt to examine the
characteristics of contemporary North-American obituaries; and
possibly the most prolific scholar in the area, Starck (2005, 2006,
2008, 2009) has examined obituaries from different perspectives,
ranging from gender to sexist issues. In Brazil, academic research
on the theme is scarce. Exceptions are Vieira (2014), whose
dissertation thesis analyses North-American obituaries as a specific

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 298-318, set-dez, 2018 301


Obituaries in translation: a corpus-based study

genre which reflects current wishes, and Cimminiello and Tambelli


(2012), who propose the use of obituaries as a genre to be discussed
in the classroom.
Considering that obituaries can unveil important cultural
differences, which also have impact on bilingual terminology, and
as such they constitute an interesting genre to be used in translation
classes, we intend to verify if – and to what extent – a comparable
English-Portuguese corpus of obituaries can help overcome
translation difficulties. In order to accomplish our objective, we
applied corpus-based methods to translation studies (Laviosa 2002,
Zanettin 2012), which we detail further below.

2. Obituary as a theme for translation training

Although generically referred to as ‘obituaries’, reports of


death may vary considerably in length, content, authorship,
and status of the honored. North-American larger newspapers
– such as The New York Times and Chicago Tribune – usually
restrict the session ‘obituaries’ to edited news articles dedicated
to renowned deceased, typically including an account of their
lives. Common people’s passing, on the other hand, is listed
under ‘death notices’, paid advertisements which may range
from short texts with information about the upcoming funeral
to memorial advertisements with biographical details about the
deceased. The latter are usually written by the family members,
with or without help from a funeral home, and are prototypical
texts which may include dates of birth and death, schools attended
and jobs performed, hobbies, names of predeceased and surviving
relatives, donation request, and information about funeral
services. It is advisable that death notices should be published
one or two days prior to the beginning of services.1

1
Information retrieved from http://www.legacy.com/news/advice-and-support/
article/guide-to-writing-an-obituary. Accessed 6 Mar. 2018.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 298-318, set-dez, 2018 302


Rozane Rodrigues Rebechi

By contrast, major Brazilian newspapers rarely dedicate a


specific section to celebrities’ deaths, but usually include news
about their passing under diverse sections, e.g., sports, daily life,
entertainment, depending on the reason for the deceased’s fame.
Most newspapers publish paid death notices under (sub)sections
called anúncios fúnebres (funeral announcements), mortes (deaths),
lista de falecimentos (death list), among others. These texts are
generally restricted to providing information about dates of birth
and death, and the (bygone) funeral, besides the deceased’s name.
According to what has been exposed, we observe that the
theme is addressed differently within both cultures/languages,
considering the availability of publications devoted to it, and the
way they approach death. Furthermore, distinct publications, in
both languages/cultures, may use different terminology to refer to
texts dedicated to the deceased, whether famous or not. In this
article, we use the term ‘obituaries’ as a generalization for texts
written about the dead. However, we differentiate family authored
texts from edited texts in what concerns the corpus compilation, as
we will explain in the Methodology section.
Due to their comprehensiveness, we believe that obituaries may
help with the task of informing about the implications involved in
cross-cultural translation training. Loock and Lefebvre-Scodeller
(2014) applied quantitative methods of analysis to a corpus of
French and North-American obituaries in order to uncover inter-
language differences related to how referring expressions to the
deceased are used in both cultures, and they suggest that these
differences should be considered for the task of translating such
texts. In face of the peculiarities that permeate the theme, we also
considered ‘obituaries’ as an appropriate genre to be practiced with
undergraduate Portuguese-English translation students.

2.1 A translation task

As part of their semester activities, a class of second-year


undergraduate students were requested to read the bilingual graphic

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 298-318, set-dez, 2018 303


Obituaries in translation: a corpus-based study

novel Daytripper (Moon & Ba 2011, 2014), originally written in


English by Brazilian authors and translated into Portuguese by
a professional translator. In the story, Brás, the main character,
is an obituary writer who dies unexpectedly in different ways,
at different ages, at the end of each chapter. As a first activity,
we asked students to analyze the translation strategies involved in
rendering the obituaries into Portuguese by referring, whenever
possible, to Chesterman’s (1997) syntactic strategies (loan, calque,
literal translation, transposition, etc). As an illustration, below we
show three of those obituaries in English (source text), aligned with
their published Brazilian Portuguese translations (target text):

Source text Target text


When the cancer that had spread Quando o câncer que se espalhara
throughout most of his brain finally pelo cérebro finalmente o venceu,
took the best of him, Schlomo Schlomo Lerner tinha, aos 89 anos,
Lerner had, at the age of 89, been se apaixonado 274 vezes. Para
in love 274 times. For each of his cada amante, o famoso artista
lovers the famous painter had made pintara um retrato.
a portrait.
He was 66, and retired from the Ele tinha 66 anos, e despedira-
field for 30 years. It is reported se dos campos há trinta. Diz-se
that his final words to his wife, que suas últimas palavras para a
Adelaide, on the previous night esposa, Adelaide, na noite anterior,
were: “I think I’m going to sleep in foram: “Acho que vou dormir até
late, dear.” tarde, querida.”
For 40 years, Rodrigo Machado Ao longo de quarenta anos,
was the face of the Republic Rodrigo Machado representou a
on foreign soil, working at the República em solo estrangeiro,
Brazilian Embassy in Cuba, France, tendo trabalhado nas embaixadas
Mozambique, China, Japan and, brasileiras de Cuba, França,
most recently, The Congo. Moçambique, China, Japão e, mais
recentemente, do Congo.

From the texts in both versions of the book, students correctly


concluded that the strategy which was mostly used by the translator was

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 298-318, set-dez, 2018 304


Rozane Rodrigues Rebechi

literal translation, which is described as being “[…] maximally close to


the SL form, but nevertheless grammatical” (Chesterman 1997, 94).
Students were then asked to translate authentic North-American death
notices into Portuguese. For this second activity, they were advised to
choose two texts from major North-American newspapers, or search
Obituaries.com2 and Legacy.com3. While correcting their translations,
we could identify recurring problems, which were grouped as: (a)
lack of terminology standardization: for example, ‘visitation’ was
rendered as cerimônia, velório and visitação, while missa, cortejo and
serviço were suggested equivalents for ‘service’; (b) literal translation,
resulting in unconventional phraseologies in the target language: ‘is
survived by’ as é sobrevivido(a) por; ‘is/was preceded (in death) by’
and ‘was predeceased by’ as é/foi precedido (em/na morte) por’; and
(c) incorrect translation, leading to false information: ‘wife of x years’
as esposa de x anos, which corresponds, in Portuguese, to the widow’s
age, not to how long the marriage lasted, as in the source text.
Given the students’ difficulty to produce texts that sounded more
natural in Portuguese, we resorted to using corpus for equivalence
retrieval and awareness of cultural differences. As Franco Aixelá’s
(1996, 53) reminds us, “[e]ach linguistic or national-linguistic
community has at its disposal a series of habits, value judgments,
classification systems, etc. which sometimes are clearly different
and sometimes overlap. This way, cultures create a variability
factor the translator will have to take into account.” For Schäffner
(2000), who writes on translation competence, a sound knowledge
of the linguistic system of L1 and L2 is not enough to produce
adequate translations. From a list of competences presented by the
author, cultural competence, which refers to “general knowledge
about historical, political, economic, cultural, etc. aspects in the
respective countries.” (Schäffner 2000, 146) would be an important
2
This website concentrates obituaries of over 1,000 and 40 newspapers from the
United States and Canada, respectively.
3
This website concentrates online obituaries published by more than 1,500 newspa-
pers and 3,500 funeral homes across the United States, Canada, Australia, New Zea-
land, the United Kingdom, and Europe, and is visited over 40 million times monthly.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 298-318, set-dez, 2018 305


Obituaries in translation: a corpus-based study

competence for translators to possess in order to deal with cultural


aspects underlying more obvious linguistic differences. In this
regard, we found that the corpus helped to unveil these differences.

3. A corpus-based translation study

Both manual comparison of original and translated texts and the


analysis of texts belonging to a certain genre in the target language
have long been part of the routine of professional translators, but
today many of them resort to computer and computational tools,
which enable the search for recurring patterns in place of isolated,
individual choices.
Defined by McEnery and Hardie (2012, 1) as an “[…] area which
focuses upon a set of procedures, or methods, for studying language
[...]”, corpus linguistics involves compiling and processing of sets
of texts – corpora – selected in accordance with well-defined criteria,
established according to the researcher’s aim, and initially examined
by computational tools. Introduced by Baker (1993), corpus-based
translation studies have been embraced as a way of informing and
elucidating the translation process, for terminology retrieval, in the
search for conventionality, among others. Fantinuoli and Zanettin
(2015), Zanettin (2012), Oakes and Ji (2012) and Kübler and Aston
(2010), to name but a few, use original texts and their translations
(parallel corpora) and texts of the same domain in different
languages (comparable corpora) for translation purposes. We chose
corpus linguistics as our methodology to identify patterns, terms and
phraseologies in obituaries, and evaluate to what extent they could
help translation students with their task.
According to Philip (2009), comparable corpora can reveal
the terminology and phraseologies used naturally in the source
language, and also help in the identification of discrepancies
between textual types produced in different languages and
cultures. Therefore, the compilation of a comparable corpus
seemed appropriate to reach our objectives.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 298-318, set-dez, 2018 306


Rozane Rodrigues Rebechi

3.1 The study corpus

Building a comparable Portuguese-English corpus of obituaries


resulted in a challenging task, since this kind of publication is much
more common in the English-speaking society. According to Gomez
(2017), obituaries have circulated in US newspapers since the
early 18th century, and this trend only seems to increase in English
speaking countries. The Economist, for example, started publishing
obituaries in 1995 after nearly 150 years of its existence. The then
editor was surprised by an article on the art of obituary and decided
to include this section in the paper (Wroe 2017). We could not find
trustworthy information about when obituaries started circulating
in Brazilian newspapers.
Given the difficulty of finding texts in Brazilian newspapers,
we concluded the compilation of the Portuguese subcopus when
we reached 100 family authored notices and 100 edited texts from
online newspapers published from 2015 to 2017. By contrast,
given the huge availability of North-American obituaries, the task
of selecting texts for the English subcorpus was much easier, and
we could restrict the number of texts per publication to ten in order
to prevent idiosyncratic uses by individual publication/editor from
being seen as characteristic of the genre. Table 1 summarizes the
data of the corpus built for this research:

Brazilian Portuguese North-American English


subcorpus subcorpus
Nr. of Nr. of tokens Nr. of Nr. of tokens
texts texts
Death 100 18,659 100 25,204
notices
Obituaries 100 35,827 100 70,055
Total 200 54,486 200 95,259
Table 1: The study corpus.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 298-318, set-dez, 2018 307


Obituaries in translation: a corpus-based study

According to what has been stated so far in relation to how


death is approached in both cultures, the difference in the number
of words (tokens) in the subcorpora comes as no surprise. After
all, in what regards death notices, North-American guides advise
writers to seek for details of the deceased’s life, as we can attest
from one of the tips by obituary writing expert Susan Soper:

If you are in a position of writing an obit, try to dig for the


intimate details that will keep the person alive in memory:
quirks, hobbies, favorite passions, oft-heard quotes, travels,
food or unusual pursuits. It doesn’t matter if the person was
a company president, an electrician, a cook or ballerina, ev-
eryone has a story to tell. But that story doesn’t come to-
gether by itself. Ask friends, children, parents, co-workers
and spouses for details they recall and favor. How did the
person look or dress? What was his daily routine? Where did
she find most happiness? Be creative, look outside the box to
find the personality traits and characteristics to recall.4

Such type of directive text was not found in Brazilian Portuguese.


Moreover, information about funeral arrangements are usually
useless in Brazil because burial occurs within 24 hours of death,
not allowing enough time for the publication of this kind of text.
Not surprisingly, the difference between North-American and
Brazilian edited texts is enormous, as North-American obituaries
are almost twice as large as their Brazilian Portuguese counterpart.
Regardless of the culture/country where they are published, edited
obituaries are not supposed to give readers an account of the
celebrity’s funeral arrangements. Instead, they usually concentrate
on why the deceased was famous and the cause of death, besides
providing a source for information about the cause of death (Cf.
Moses, Marelli 2004). Therefore, the difference in terms of text
length may lie elsewhere.
4
Extracted from: http://www.legacy.com/news/advice-and-support/article/guide-
to-writing-an-obituary. Access: March 7th, 2018.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 298-318, set-dez, 2018 308


Rozane Rodrigues Rebechi

Drawing on the anthropologist Edward Hall’s concept of


‘contexting’, Katan (1999, 177) claims that “[…] individuals,
groups, and cultures (and at different times) have differing
priorities with regard to how much information (text) needs to
be made explicit for communication to take place.” The author
designates ‘high context cultures’ those which rely more on prior
knowledge, thus requiring less text to convey information. Low
context cultures, on the other hand, are expected to demand more
explicitness, since common knowledge is usually insufficient to
guarantee communication. In a classificatory cline presented by the
author, Latin American cultures appear as being more high-context
than North-American’s, which may also explain the briefness of
Brazilian obituaries.
Regardless of the difference in size of both subcorpora, our
study corpus is small if compared to multimillion-word corpora,
such as COCA5 and Corpus do Português6, for example. What
matters here is that the seemingly small size of the study corpus
did not prevent us from coming to interesting results in terms of
terminology, phraseology and cultural differences, since the corpus
is representative of a specialized area. Koester (2010) stresses
that more important than the corpus size is its representativeness.
Although not very extensive, specialized corpora may lead to quite
significant results, as long as they have been built under strict criteria,
always considering the purpose of the investigation. Koester (2010)
also points out that small corpora have the advantage of allowing
a closer relationship between the corpus and the contexts in which
their texts were produced. Additionally, as in research with small
corpora the compiler is also the analyst, the degree of familiarity
with the context tends to be higher, allowing quantitative data
revealed by the corpus to be complemented by manual analysis.
Moreover, both paid and edited notices are prototypical texts

5
Corpus of Contemporary American English. Available at: https://corpus.byu.
edu/COCA/.
6
Available at: http://www.corpusdoportugues.org/.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 298-318, set-dez, 2018 309


Obituaries in translation: a corpus-based study

which, despite sharing specific personal information, follow rather


fixed structures (Moses, Marelli 2004).

4. Discussion

In this section we discuss the findings enabled by the quantitative


and qualitative analysis of the study corpus. After analyzing edited
and family authored texts as a whole and separately by using
computational tool, we manually observed the keywords.

4.1 Quantitative analysis

We retrieved simple and compound (combinations of two to five


words) wordlists from both subcorpora using WordSmith Tools 6.0
(Scott 2012). We then compared those words to those of general
language reference corpora in order to retrieve keywords, i.e. words
with occur significantly more often in the study corpus. For this
study, we used a sample of the OANC (Open American National
Corpus)7 as reference for the North-American subcorpus, and a
sample of the LacioRef8 for the Brazilian Portuguese subcorpus.
We considered a frequency cut-off of 10 for the keywords, that is,
to be considered a keyword, a word or combination should recur
at least ten times, and the p-value was established at 0,0001, which
means that there is a one-in-ten-thousand (0,01%) chance of a word
to be wrongly considered key. Considering those settings, the tool
retrieved 427 single and 449 compound keywords from the North-
American subcorpus, and 253 single and 169 compound keywords
from the Brazilian Portuguese subcorpus.

7
Available at: http://www.anc.org/data/oanc/download/. Accessed April 4, 2018.
8
Extracted from: http://www.nilc.icmc.usp.br/nilc/projects/lacio-web.htm. Ac-
cessed 1 Jan. 2014.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 298-318, set-dez, 2018 310


Rozane Rodrigues Rebechi

4.2 Qualitative analysis

The lexical and grammatical characteristics of the two lists


of keywords allowed us to draw a number of conclusions about
terminological and cultural differences which permeate Brazilian
Portuguese and American English obituaries. Function words –
prepositions, pronouns, articles, auxiliary verbs, etc. –, which are
usually neutralized in keyword lists given their repetitiveness in
basically every text, have a high keyness in the English subcorpus.
Since Portuguese verbs display a high degree of inflection, the
repetition of subject personal pronouns may be unnecessary,
differently from English, what explains the high keyness of ‘he’ and
‘she’, but not of their counterparts – ele and ela – in Portuguese.
Possessive adjectives are also underused in Portuguese, if compared
to English. For example, a usual combination of words in English
is ‘x is survived by his wife’, whereas, in Portuguese, we find
recurrence of x deixa a esposa [x leaves the wife].
By retrieving concordance lines with the lexical keywords
– excluding proper names, since our interest lies in terms and
phraseologies which are characteristic of the genre –, we manually
selected recurring terms and phraseologies and semantically
grouped them by adapting the structures proposed by Moses and
Marelli (2004): ‘birth and life’; ‘school, work and hobby’; ‘praise
and achievements’; ‘kin’; ‘cause and circumstance of death’;
‘funeral arrangements’; and ‘requests and wishes’.
In what concerns the keywords of ‘obituaries’ and ‘death notices’
as a whole, we observe that most categories inspired by Moses
and Marelli’s (2004) recur in both languages. Nevertheless, their
content reveals significant differences, except for the three first –
‘birth and life’, ‘school/work/hobby’ and ‘praise and achievements’
–, which, despite showing more variation in English, the content
does not substantially differ, and the higher number of keywords
in English is easily explained by the difference in the number of
words in both subcorpora.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 298-318, set-dez, 2018 311


Obituaries in translation: a corpus-based study

Category ‘kin’ shows that, in the Brazilian Portuguese subcorpus,


only the deceased’s nuclear family – offspring, grandchildren
and spouse (filhos, netos, viúva(o)) – is mentioned, besides the
generic term familiares [relatives]. In English, on the other hand,
the relationships mentioned reaches up extended family, including
even cousins, nephews, etc. Another noteworthy characteristic in
this group is the reference to these family members. Mentioning
family members who had already died, through phraseologies such
as ‘was predeceased by’ and ‘is/was preceded in death by’ is also
exclusive of the American English subcorpus.
Combinations of words in Brazilian Portuguese are formed by
the verb ‘deixar’ [lit. leave], either in the present or past – deixa
and deixou, respectively –, followed by name and kinship, limited
to spouse and offspring, showing that the action is described from
the deceased’s point of view, i.e. the one who ‘left the scene’.
Conversely, equivalent references in English are demonstrated
from the perspective of the ones who experience the action, i.e. the
living ones – hence the use of the passive construction ‘is survived
by’ –, and references are made to whoever is included, and the list
may be very long, especially in death notices.
The circumstances of death also indicate differences in both
languages. In English we observed a recurring tendency of
euphemizing the passing by using the adverb ‘peacefully’ and the
phraseology ‘surrounded by his/her (loving) family’, whereas in
Portuguese it is common to mention where the death occurred –
at home/at the hospital (em casa/no hospital) –, but not how.
Words and phrases related to funeral arrangements also show
many differences in how both cultures deal with the theme. As
previously mentioned, funerals in Brazil last no longer than 24
hours; therefore, when obituaries and death notices are published,
they are usually finished. This explains why Brazilian rituals are
mostly described in the past – foi velado/sepultado, o velório/
sepultamento foi realizado, etc. In contrast, North-American
rituals are reported in the future – ‘mass/visitation/funeral will be
followed by’, ‘burial/inurnment/committal will follow’, ‘Memorial

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 298-318, set-dez, 2018 312


Rozane Rodrigues Rebechi

Service will be held’, ‘interment will be private’, etc. In addition


to this difference in verb tense, the ‘funeral arrangements’ category
shows that while Brazilian death rituals are usually restricted to
velório (lit. ‘wake’) – which hardly lasts for more than one day
– and sepultamento/enterro (burial/interment/entombment), being
the reference to cerimônia (ceremony) basically restricted to Jewish
and cremation rituals. North American rituals, on the other hand,
may comprehend other steps, such as ‘celebration of life’, ‘Mass’,
‘visitation’, ‘graveside service’, ‘memorial service’ and ‘viewing’.
Funeral homes and agências funerárias (lit. funeral agencies)
are in charge of preparing the deceased for the rituals in the United
States and in Brazil, respectively. Nevertheless, we cannot claim
that they are equivalent, though. Not only are North-American
funeral homes responsible for embalming the body in order to
delay decomposition, but they also provide an area where memorial
services take place. In contrast, funerárias in Brazil are usually
responsible solely for placing the body in the coffin and transport
it to the cemetery so that family and friends can pay their respect.
Moreover, reference to corpo (body/corpse) recurs only in the
Brazilian Portuguese subcorpus, used in phraseologies such as o
corpo foi sepultado [the body was buried] and o corpo está sendo
velado [the body is being waken], whereas English phraseologies
do not make reference to the body, but may include the deceased’s
name – ‘A celebration of (x’s life) will be held at/on […]’, ‘A
Memorial Service will be held…’, etc.
Requests for donations are restricted to the North-American
obituaries, being introduced by the phraseology ‘In lieu of flowers’
and finishing with the name of one or more institutions that may
have cared for the deceased. Brazilian obituaries are more religious-
oriented, wishing the deceased a peaceful passing to the afterlife
and condoling with the surviving family.
In what regards North-American texts, we concluded, in
accordance with Moses and Marelli (2004), that family authored
texts greatly differ from edited texts both in terms of structure and
lexical variation, and as such, they could be analysed separately.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 298-318, set-dez, 2018 313


Obituaries in translation: a corpus-based study

Nevertheless, a similar comparison would result unfruitful between


Brazilian Portuguese texts, since, as aforementioned, death notices
are rare and very short.

5. Conclusion

Writing from a postcolonial perspective, Simon (1997, 464)


declares:

[t]he solutions to many of the translator’s dilemmas are not


to be found in dictionaries, but rather in an understanding
of the way language is tied to local realities, to literary
forms, and to changing identities. Translators must con-
stantly make decisions about the cultural meaning which
language carries, and evaluate the degree to which the two
different worlds they inhabit are the same.

Our investigation of simple and compound keywords between


obituaries written in English and in Portuguese revealed differences
that go beyond grammar and lexicon. We observed that the way
North-Americans and Brazilians pay their respect to the dead is
embedded in the language used in these texts. These differences
are, therefore, of a cultural nature and impact on the way one
translates. With the corpus, not only did our students improve on
their choices of terminology and phraseology for their translations,
but they also realized that the previously prevailing choice of
literal translation was not enough to account for these differences,
that they needed to use cultural competence to render elements for
which there are no direct equivalent in Portuguese. In our class
discussions we made students aware that they needed to approach
the corpus with inquisitive minds so that they could duly interpret
what it has to share. As Jakobson ([1959] 2000, 141) points out,
“[l]anguages differ essentially in what they must convey and not

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 298-318, set-dez, 2018 314


Rozane Rodrigues Rebechi

in what they may convey”. Therefore, the lack of equivalence that


the corpus revealed tells us that there are some aspects related
to funeral ritual about which Brazilians are not required to think
because they are not part of their practices. However, when
translating the North-American rituals into Portuguese, translators
need to consider that these aspects do exist in the other culture so
that they can try to find ways (translation strategies) to account
for them in the target text. In this regard, the corpus helped these
students reflect on the fact that in order to render obtuaries and
death notices in a more adequate fashion, they also need to think
beyond the dictionary.

References

Baker, Mona. “Corpus linguistics and translation studies: Implications and


applications”. Text and Technology: In Honour of John Sinclair edited by Mona
Baker; Gill Francis; Elena Tognini-Bonelli , John Benjamins, (1993): 233-250.

Bates, Ashley; Ian Monroe; Ming Zhuang (eds.). The state of the American
obituary. Northwestern University, 2009. https://www.ianmonroe.com/wp-
content/uploads/2009/10/StateOfTheAmericanObituary_Nov2009.pdf. Accessed
5 May 2017.

Chesterman, Andrew. Memes of Translation: The Spread of Ideas in Translation


Theory. Amsterdam-Philadelphia, John Benjamins, 1997.

Cimminiello, Maria C. S. V.; Tambelli, Alba L. R. “Obituário: um gênero em


construção?”. Revista Interfaces, 3 (2012): 27-32.

Closer. Dir. Mike Nichols, performances by Julia Roberts, Jude Law, Natalie
Portman, and Clive Owen. Columbia Pictures, 2004. DVD.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 298-318, set-dez, 2018 315


Obituaries in translation: a corpus-based study

Eid, Mushira. The world of obituaries: gender across cultures and over time.
Detroit, Wayne State University Press, 2002.

Fantinuoli, C.; Zanettin, F. (eds.) New directions in corpus-based translation


studies. Berlin, Language Science Press, 2015.

Fioravanti, Carlos. Diante do silêncio sobre a morte. Revista Pesquisa FAPESP,


São Paulo, edição 242, (2016): 84-87.

Franco Aixelá, Javier. “Culture-specific items in translation”. Translation power


subversion, edited by R Álvarez.; M.C.-Á Vidal ,Clevedon, 8 (1996): 52-78.

Gomez, Hannelore. “A Closer Look into the Life of Ordinary Translators


through Unordinary Sources: The Use of Obituaries as a Microhistory Tool to
Study Translators and Translation in Ohio”. New Voices in Translation Studies,
16 (2017): 55–83.

Jakobson, Roman. (1959). “On linguistic aspects of translation”. The Translation


Studies Reader, edited by Lawrence Venuti, Routledge, (2000): 138-143.

Katan, D. Translating cultures: an introduction for translators, interpreters and


mediators. St. Jerome, Manchester, 1999.

Koester, Almut. “Building small specialised corpora”. The Routledge handbook


of Corpus Linguistics, edited by Anne O’Keeffe; Michael McCarthy, Routledge,
(2010): 66-79.

Kübler, Natalie; Aston, Guy. “Using corpora in translation”. The Routledge


handbook of Corpus Linguistics, edited by Anne O’Keeffe; Michael
McCarthy,Routledge, (2010): 501-515.

Laviosa, Sara. Corpus-based translation studies: theory, findings, applications.


Amsterdam, Rodopi, 2002.

Loock, Rudy; Lefebvre-Scodeller, Cindy. “Writing about the dead: a corpus-


based study on how to refer to the deceased in English vs French obituaries

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 298-318, set-dez, 2018 316


Rozane Rodrigues Rebechi

and its consequences for translation”. Current trends in translation teaching and
learning, edited by Mikel Garant, University of Helsinki, (2014): 15-150.

McEnery, Tony; Hardie, Andrew. Corpus Linguistics: method, theory and


practice. Edinburgh: Cambridge University Press, 2012.

Moon, Fábio; BA, Gabriel. Daytripper. São Paulo, Panini, 2014.

______. Daytripper. Burbank, Vertigo, 2011.

Moore, Stephen H. “Disinterring ideology from a corpus of obituaries: a critical


post mortem”. Discourse & Society, 13.4 (2002): 495-536.

Moses, R. A. & Marelli, G. D., edited by Wai Fong Chiang, Elaine Chun,
Laura Mahalingappa and Siri Mehus “Obituaries and the Discursive Construction
of Dying and Living”. Texas Linguistic Forum 47, Proceedings of the Eleventh
Annual Symposium about Language and Society, Austin, Texas, 2004.

Oakes, Michael; JI, Meng. (eds.) Quantitative methods in corpus-based translation


studies. Amsterdam, John Benjamins, 2012.

Philip, Gill. “Arriving at equivalence: making a case for comparable general


reference corpora in translation studies”. Corpus use and translating, edited by
Allison Beeby; Patricia R. Inés; Pilar Sánchez-Gijón,John Benjamins, (2009):
59-73.

Schäffner, Chirstina. “Running before Walking? Designing a Translation


Programme at Undergraduate Level”. Developing Translation Competence,
edited by Christina Schäffner and Beverly Adab. Benjamins, (2000): 143-156.

Simon, Sherry. “Translation, postcolonialism and cultural studies”. Meta, XLII.


2 (1997): 462-477.

Starck, Nigel. “Sex after death: the obituary as an erratic record of proclivity”.
Mortality, 14.4 (2009): 338-354.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 298-318, set-dez, 2018 317


Obituaries in translation: a corpus-based study

______. “Death can make a difference”. Journalism Studies, 9.6 (2008): 911-
924.

______. Life after death: the art of the obituary. Melbourne, Melbourne University
Press, 2006.

______. “Posthumous Parallel and Parallax: the obituary revival on three


continents”. Journalism Studies, 6.3 (2005): 267-283.

Scott, M. WordSmith Tools 6.0. Oxford, Oxford University Press, 2012.

Vieira, W. O obituário contemporâneo no jornal e nas coletâneas: uma discussão


sobre gênero textual, biografia e sociedade. Dissertação de Mestrado, Escola de
Artes, Ciências e Humanidades, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2014.

Wroe, Ann. “The art of writing an obituary: capturing the essence of a life in
1,000 words or fewer.” The Economist, https://medium.economist.com/the-art-
of-writing-an-obituary-e64a546222f. Accessed 27 Aug. 2017.

Zanettin, Federico. Translation-driven corpus: corpus resources for descriptive


and applied translation studies. Manchester, St. Jerome, 2012.

Recebido em: 11/04/2018


Aceito em: 27/07/2018
Publicado em setembro de 2018

Rozane Rodrigues Rebechi. E-mail: rozanereb@gmail.com


ORCID: http://orcid.org/0000-0002-1878-7548

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 298-318, set-dez, 2018 318


http://dx.doi.org/10.5007/2175-7968.2018v38n3p319

VARIAÇÕES SEMÂNTICAS DE vAlorAção EM


REINSTANCIAÇÕES PORTUGUESAS E BRASILEIRAS
DE THINGS FALL APART E ARROW OF GOD1

Célia Maria Magalhães1


Cliver Gonçalves Dias1
1
Universidade Federal de Minas Gerais
Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil

Resumo: Este artigo expande a investigação realizada em Dias (2018),


sobre variações semânticas de VALORAçãO2 em traduções brasileiras de
dois romances de Chinua Achebe, Things Fall Apart (1994[1959]) e
Arrow of God (1969[1964]), para traduções portuguesas destes textos.
O objetivo deste artigo é identificar variações semânticas da VALORAçãO
nas retraduções e testar a hipótese da retradução que tem origem em
Berman (1990). De acordo com reflexões teóricas neste texto, a tradução
de um texto literário seria um ato “incompleto” que só poderia almejar
sua completude através das retraduções. Trabalhos empíricos sobre a
tradução de textos literários estudam a VALORAçãO, descontextualizada
do seu significado no desenrolar dos textos, usando a metodologia de
análise de corpora. Dias (2018) usa um modelo semântico-discursivo
para estudar a tradução como reinstanciação, considerando o desenrolar
das narrativas literárias. Neste trabalho, foram usados excertos das
reinstanciações portuguesas Tudo se desmorona (2008), de Things fall
apart, e A flecha de Deus (1979), de Arrow of God. O estudo utiliza o
método de análise da VALORAçãO, da semântica-discursiva, para investigar
padrões de configurações valorativas de atitude, comprometimento
e gradação nos textos selecionados. Os resultados, comparados aos
resultados de Dias (2018), sugerem que há variações semânticas entre os

1
Agradecemos ao Conselho Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento (CNPq),
Projeto PQ 302123/2017-2, pelo financiamento desta pesquisa.
2
Assim como em Martin e Rose (2007), adota-se o uso do recurso tipográfico
“versalete” para os nomes dos sistemas como termos técnicos.

Esta obra utiliza uma licença Creative Commons CC BY:


https://creativecommons.org/lice
Célia Maria Magalhães & Cliver Gonçalves Dias

pares de reinstanciações relativas ao modo de ativação, ao acoplamento e


à calibragem, bem como à não reinstanciação de valores ou instanciação
de novos valores. Estes resultados sugerem que as duas reinstanciações
são paráfrases distintas dos texto-fontes, confirmando a hipótese da
retradução.
Palavras-chave: Variações semânticas; VALORAçãO; Reinstanciação;
Retradução; Things Fall Apart; Arrow of God.

SEMANTIC VARIATIONS OF APPRAISAL IN


PORTUGUESE AND BRAZILIAN RE-INSTANTIATIONS
OF THINGS FALL APART AND ARROW OF GOD

Abstract: This article expands the investigation in Dias (2018), on


semantic variations of appraisal in Brazilian translations of two of Chinua
Achebe’s novels, Things Fall Apart (1994[1959]) and Arrow of God
(1969[1964]), to the Portuguese translations of these texts. It aims at
identifying semantic variations of appraisal in the retranslations as well as
testing the retranslation hypothesis originated in Berman (1990). According
to theoretical assumptions in this text, the translation of a literary text
would be an “incomplete” act that could only achieve completion through
retranslations. Previous works on translation of literary texts do not usually
investigate appraisal from a discourse-semantics perspective, disregarding
it in unfolding texts and using a corpus analysis methodology. Dias (2018)
draws on a discourse-semantics model to study Brazilian translations as
re-instantiations. This work focuses on excerpts of the Portuguese re-
instantiations Tudo se desmorona (2008), from Things Fall Apart, and
A flecha de Deus (1979), from Arrow of God. The study uses appraisal
analysis as a method to investigate patterns of evaluative configurations of
attitude, engagement and graduation in the excerpts studied. The findings,
compared to those in Dias (2018), suggest there are semantic variations
between the pairs of re-instantiations regarding the appraisal mode, the
different coupling and commitment of values, and non-re-instantiations
or the instantiation of new values. These results suggest the two re-
instantiations are different types of paraphrases of the source text. They
also confirm the retranslation hypothesis.
Keywords: Semantic variations; Appraisal; Re-instantiation; Retranslation;
Things Fall Apart; Arrow of God.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 319-351, set-dez, 2018 320


Variações semânticas de valoração em reinstanciações portuguesas e brasileiras...

1. Introdução

Estudos empíricos sobre variações semânticas em traduções, ou


reinstanciações, da perspectiva da semântica-discursiva, são recen-
tes. Tais estudos tiveram enfoques ou corpora variados. Alguns
deles investigaram a VALORAçãO, entre outros recursos linguísticos,
em corpora de textos literários, valendo-se da metodologia de cor-
pus (ROSA, 2008; VANDEPITTE et al., 2011; MUNDAY, 2012;
DIAS; MAGALHÃES, 2017).
Outros estudos usam a análise da VALORAçãO em estudos da
tradução com uma nova orientação. Souza (2010, 2013) propõe
um modelo para investigação de reinstanciações, com enfoque na
VALORAçãO, aplicado a textos jornalísticos traduzidos do inglês para
o português. Chang (2017) investiga a reinstanciação usando textos
literários traduzidos do inglês para o chinês. Cristófaro (2018) e
Dias (2018) adaptam o modelo de Souza (2010) para estudar a VA-
LORAçãO em reinstanciações de narrativas literárias.
Esta investigação expande Dias (2018), que estudou as tradu-
ções brasileiras de Things Fall Apart (TFA)3, O mundo se despeda-
ça (2009[1983]) (MD), e de Arrow of God (AG), A flecha de Deus
(2011) (FD_PB). O objetivo é estudar as variações semânticas de
VALORAçãO em traduções portuguesas desses dois romances de Chi-
nua Achebe para relacioná-las à retradução. A primeira tradução,
Tudo se desmorona (TD), de 2008, publicada depois da citada tra-
dução brasileira, é considerada retradução. A segunda, A flecha de
Deus (FD_PE), de 1989, é considerada tradução, pois foi publica-
da antes da referida retradução brasileira. Os contextos sociais dis-
tintos em que foram realizadas e publicadas as traduções justificam
sua escolha para as indagações propostas. Considerando-se a hipó-
tese da retradução, indaga-se se as variações semânticas encontra-

3
São usadas as iniciais dos textos para referir-se a eles ao longo do trabalho.
Como as reinstanciações brasileira e portuguesa têm o mesmo título, A flecha de
Deus, para distingui-las, usam-se as siglas FD_PB para a primeira e FD_PE para
a segunda.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 319-351, set-dez, 2018 321


Célia Maria Magalhães & Cliver Gonçalves Dias

das distinguem os pares de traduções enquanto paráfrase – texto


“incompleto”, ou mais distante – ou citação – texto “completo”,
ou mais próximo – do texto-fonte (TF). Indaga-se, especificamen-
te, se há tendência à inscrição dos valores evocados de atitude e à
contração da heteroglossia do TF nas duas reinstanciações e se há
variação nesses traços nestas últimas entre si. Verifica-se, ainda, se
há construções distintas de valores e de posicionamentos de leitura
nos textos analisados.
As narrativas portuguesas fazem parte do Corpus de traduções
e retraduções –RETRAD, um corpus paralelo de em torno de três
milhões de palavras, compilado no Laboratório Experimental de
Tradução e disponível em www.portalminas.letras.ufmg.br. Inte-
gram este corpus textos originais em inglês e suas (re)traduções
em português brasileiro e europeu. Das referidas narrativas portu-
guesas, foram selecionados os mesmos excertos estudados em Dias
(2018). A metodologia usada baseia-se em Martin e White (2005)
no que se refere à anotação e classificação dos recursos do sistema
de VALORAçãO nos textos. Baseia-se, ainda, em Macken-Horarik
(2003) e Macken-Horarik e Isaac (2014), para a verificação dos pa-
drões valorativos nas narrativas estudadas e para a síntese e explici-
tação da metodologia de pesquisa da VALORAçãO, respectivamente.
Este artigo está organizado em quatro seções, além desta Introdu-
ção e das Considerações Finais. A primeira apresenta a fundamenta-
ção teórica do trabalho, a segunda descreve os procedimentos meto-
dológicos de seleção e de análise das narrativas, a terceira relata os
resultados obtidos e a quarta os discute, levando em conta Dias (2018).

2. Fundamentação teórica

Nesta seção, faz-se uma resenha dos trabalhos teóricos que em-
basam este estudo. Abordam-se estudos que desenvolveram o sis-
tema de VALORAçãO e relatam-se os trabalhos empíricos dos estudos
da tradução que tomam o sistema de VALORAçãO como base para
investigar a tradução como reinstanciação.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 319-351, set-dez, 2018 322


Variações semânticas de valoração em reinstanciações portuguesas e brasileiras...

2.1. O sistema de vAlorAção e a perspectiva de análise de


gênero

O sistema da VALORAçãO, de acordo com Martin e White (2005),


é um sistema da metafunção interpessoal no nível do estrato semân-
tico-discursivo da língua e está relacionado à sintonia, variável de
registro, no âmbito da teoria linguística sistêmico-funcional (LSF).
De acordo em esta teoria, o texto constrói três tipos de significado,
denominados de metafunções. O significado ou metafunção inter-
pessoal está relacionado à encenação das trocas intersubjetivas e
dos posicionamentos de valor entre escritor e leitor. O significado
ou metafunção ideacional refere-se à representação e/ou construção
das experiências relativas aos mundos físico e psíquico do escritor.
O significado ou metafunção textual é responsável por organizar os
demais significados no texto de forma coesiva e coerente.
Martin e White (2005) definem a VALORAçãO através dos seus
três principais domínios: a atitude, o comprometimento e a gra-
dação. A atitude está relacionada com a expressão dos sentimen-
tos, compreendendo reações emocionais pessoais, julgamentos de
comportamentos e avaliação de coisas. O comprometimento está
voltado para a fonte das atitudes e as vozes em jogo no discurso. A
função da gradação é de graduar os valores de atitude, amplifican-
do ou tornando as categorias indistintas.
A atitude inclui três regiões de sentimentos: o afeto, o julga-
mento e a apreciação. A região do afeto abrange os recursos usados
para construir as diferentes reações emocionais dos indivíduos. A
região do julgamento engloba os recursos usados para avaliar o
comportamento das pessoas em relação a princípios normativos.
A região da apreciação, por sua vez, compreende os recursos de
construção da avaliação das coisas, como fenômenos naturais e
semioses, seja como produto ou como processo. Os recursos ati-
tudinais variam de acordo com a carga valorativa, podendo ser
positivos ou negativos. Os recursos de atitude podem, ainda, ser
realizados de modo inscrito (explícito) e de modo evocado (implíci-
to), como é o caso de recursos cujo significado, a princípio, pode-

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 319-351, set-dez, 2018 323


Célia Maria Magalhães & Cliver Gonçalves Dias

ria ser experiencial, mas é colorido no texto por outro significado


valorativo adjacente.
O comprometimento lida com recursos diversos da língua (da
modalidade, entre eles) e o modo como estes recursos posicionam
o falante ou escritor em relação aos valores construídos nos textos
e em relação a respostas de ouvintes/leitores prospectivos àquela
posição valorativa. Martin e White (2005) modelam os textos de
acordo com sua capacidade de construir um grau maior ou menor
de abertura para o diálogo com outras vozes. Assim, o comprome-
timento possibilita duas opções, a monoglossia e a heteroglossia.
A monoglossia compreende as proposições que são afirmativas ca-
tegóricas simples, nas quais o espaço para outras vozes é reduzido
em grau maior. A heteroglossia integra recursos nas orações que
significam uma abertura maior para outras vozes, dissonantes ou
não. Como há diferentes graus dessa abertura, a heteroglossia per-
mite as opções contrair e expandir, realizadas por uma série de
recursos, entre eles, os de negação e da modalidade.
A gradação está relacionada com o potencial que as valorações
têm de serem graduáveis. No caso dos recursos de atitude, ine-
rentemente graduáveis, a gradação lida com o ajuste dos valores
relativos aos sentimentos. Nesse caso, a gradação é de força e
pode aumentar ou diminuir os valores expressos. As categorias
definidas nesta subseção são reapresentadas na seção de metodo-
logia, no Quadro 2.
Martin e White (2005) e Martin e Rose (2007, 2008) trabalham
com os significados construídos em textos, portanto, seu modelo de
língua integra o estrato do gênero. Gêneros, para os autores citados,
são configurações de significados linguísticos ou de outras modali-
dades de linguagem, ou padrões globais recorrentes desses signifi-
cados, os quais constituem os textos. Os gêneros têm um propósito
social a ser atingido, por etapas, ao longo do desenrolar dos textos.
O enfoque deste trabalho é a narrativa. Alguns trabalhos reali-
zados com base na perspectiva semântico-discursiva da linguística
sistêmico-funcional dedicam-se à investigação da narrativa. Ma-
cken-Horarick (2003) estuda narrativas literárias escritas para um

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 319-351, set-dez, 2018 324


Variações semânticas de valoração em reinstanciações portuguesas e brasileiras...

público infanto-juvenil. Seus resultados mostram que os recursos


valorativos podem ter configurações distintas nas narrativas.

2.2. vAlorAção e tradução como reinstanciação

Alguns trabalhos na área dos estudos da tradução examinam


recursos valorativos em corpora de textos literários de tamanhos
variados, usando programas computacionais de análise lexical de
corpus; portanto, descontextualizando sua ocorrência das narrati-
vas (ROSA, 2008; VANDEPITTE et al., 2011; MUNDAY, 2012;
BLAUTH, 2015; DIAS; MAGALHÃES, 2017). Outros estudos
realizam análise discursiva das traduções, baseados na VALORAçãO
e afiliados ou à LSF ou aos estudos da tradução.
White (2016), no âmbito da LSF, enfoca diferentes traduções
do excerto inicial do romance francês L’Étranger, de Camus,
para o inglês. O autor conclui que diferenças entre escolhas de
apenas um recurso valorativo nas traduções podem significar di-
ferença do contexto social construído pelos textos. Conclui, ain-
da, que tal variação pode resultar em textos com carga valorativa
distinta e potencial distinto para posicionar leitores prospectivos
em relação a valores atitudinais. Qian (2012), no âmbito dos es-
tudos da tradução, analisa exemplos, traduzidos do inglês para o
chinês, de uma sessão de perguntas e respostas do discurso profe-
rido pelo Vice-Presidente Cheney na Universidade de Fudan em
2004. Os achados mostram variações do valor de expansão para
o valor de contração nos textos traduzidos (TTs), atribuídas seja
a diferenças entre os dois sistemas linguísticos, seja à função do
TT na cultura chinesa.
Para este estudo, foram de interesse os trabalhos recentes que
investigam a tradução como reinstanciação na perspectiva de gêne-
ro relatada na primeira seção. Reinstanciação, para Martin (2006),
é o processo pelo qual o potencial de significados de um dado texto
é reconstruído em outro texto. O processo implica um movimento
de distanciação, isto é, um movimento que tende a subir na escala
de instanciação em direção a níveis em que significados mais gerais

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 319-351, set-dez, 2018 325


Célia Maria Magalhães & Cliver Gonçalves Dias

ou menos específicos estão disponíveis, e um movimento descen-


dente na escala voltando aos níveis do texto.
Martin (2006) classifica três gêneros da classe de gêneros “histó-
ria”, sobre uma batalha em Papua-Nova Guiné, como citação, pará-
frase e recontagem. Na perspectiva semântico-discursiva de Martin,
a instanciação modela as relações intertextuais em relação a um
potencial de significado que é mais e menos compartilhado, depen-
dendo do tipo de relação entre os textos. Na citação, estabelecem-se
relações diretas de instância a instância no polo da instanciação com
enfoque nas realizações, enquanto na paráfrase e na recontagem
abre-se, em menor ou maior grau, respectivamente, para o poten-
cial de significado generalizado, movendo-se em direção ao polo
do sistema linguístico para reinstanciar o primeiro texto diferen-
temente. Martin (2006) sugere, por exemplo, que dois dos textos
examinados constroem uma perspectiva relativamente objetiva do
evento relatado e um posicionamento de leitura que distancia os
leitores prospectivos. Já o terceiro texto constrói os participantes do
evento como seres afetivos e um posicionamento de envolvimento e
empatia com a história para os leitores prospectivos.
O termo “acoplamento”, usado em relação aos três tipos de
reinstanciações, refere-se a padronizações similares, repetidas em
um texto, de realizações de dois ou mais sistemas. O acoplamen-
to pode acontecer no âmbito das três metafunções ou entre elas,
na instanciação e na reinstanciação dos textos, conforme Martin
(2010). O termo “calibragem” refere-se à quantidade de potencial
de significado que é demandada de qualquer sistema de significa-
do no processo de instanciação (MARTIN, ibid.). Os significados
não são apenas selecionados, mas acoplados (isto é, combinados) e
calibrados (isto é, oferecidos em um determinado nível de especi-
ficidade ideacional ou interpessoal).
Souza (2013) adapta o modelo de Martin (2006, 2010) para a
tradução, mostrando sua produtividade na análise de textos jorna-
lísticos traduzidos. Os resultados encontrados nessa análise mos-
tram que, de modo geral, o perfil das reinstanciações é similar ao
perfil do texto-fonte. Entretanto, variações de acoplamento ou de

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 319-351, set-dez, 2018 326


Variações semânticas de valoração em reinstanciações portuguesas e brasileiras...

calibragem de determinados valores reconstroem o texto-fonte de


uma perspectiva distinta, seja em relação aos valores em si, seja em
relação ao posicionamento de leitura ou ao investimento autoral na
reconstrução desses valores.
Chang (2017) investiga duas traduções e duas adaptações de
Pride and Prejudice, de Jane Austen, para o chinês, da perspectiva
das metafunções ideacional e interpessoal. Seu enfoque foi a cali-
bragem e o modo como o TF foi reinstanciado diferentemente nas
traduções e adaptações. O trabalho mostra que as duas traduções,
enquanto reinstanciações do TF, são mais próximas deste, idea-
cional e interpessoalmente. Já as duas adaptações calibram menos
significados ideacionais e interpessoais que o TF, tendo em vista a
redução de detalhes e projeções.
Cristófaro (2018) investiga padrões valorativos em excertos dos
contos Eveline e The Dead, de James Joyce, e as variações semân-
ticas em duas reinstanciações dos excertos. A autora identificou
síndromes valorativas de afeto, julgamento e apreciação no TF
e variações em acoplamentos de atitude nos TTs que implicaram
variações em síndromes avaliativas nestes textos. Foram também
identificadas síndromes valorativas nas quais houve consistente au-
mento de gradação nas reinstanciações. Adicionalmente, diferentes
acoplamentos e calibragens da gradação foram responsáveis por
grande parte das variações identificadas.
Dias (2018) investiga as traduções brasileiras de TFA e AG,
realizadas pela mesma tradutora. De acordo com os resultados de
Dias (2018), nos textos traduzidos (TTs) investigados, foram iden-
tificadas variações semânticas nos tipos e subtipos de VALORAçãO.
As variações no modo de ativação identificadas em Dias (2018)
mostram, de forma geral, a explicitação de valores de atitude nas
reinstanciações estudadas. Uma tendência desse tipo de variação
foi a explicitação de valores de atitude realizados por metáforas
lexicais, por vezes um traço característico do TF. Na calibragem
das proposições heteroglóssicas, Dias (2018) identificou principal-
mente a contração das proposições dialogicamente expansivas dos
TFs. Ainda no comprometimento, as três únicas ocorrências de

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 319-351, set-dez, 2018 327


Célia Maria Magalhães & Cliver Gonçalves Dias

proposições do tipo proclamar dos TTs analisados foram reins-


tanciadas como proposições do tipo refutar ou como monoglossia.
Nos resultados de Dias (2018), um traço distintivo entre os TTs foi
a não reinstanciação de valores de atitude de um dos TFs e a ins-
tanciação de novos valores no outro TT. Enquanto em MD deter-
minados valores de atitude não foram reinstanciados, em FD_PB,
houve a instanciação de novos valores.
A teorização inicial sobre a retradução é atribuída a Berman
(1990) e outros. De acordo com esta teorização, traduções de um
texto literário, posteriores a uma primeira tradução, tenderiam a
atingir sua completude. A hipótese da retradução, formulada a par-
tir dessas reflexões, postula que a retradução seria mais próxima do
original que a primeira tradução, mais distante. Fazendo um para-
lelo com a teorização de Martin (2006) sobre as relações intertextu-
ais, pode-se dizer que as últimas traduções tenderiam a ser citações
enquanto as primeiras tenderiam a ser paráfrases do texto-fonte4.
Papoloski e Koskinen (2010) e Alvstad e Rosa (2015) oferecem
uma revisão extensiva de trabalhos sobre a retradução e concluem
que há diversas questões envolvidas na retradução (mercado edito-
rial, mudanças das convenções tradutórias, entre outras). Sugerem
que há necessidade de investigação do tema pelo viés linguístico.
Em concordância com essa sugestão, Magalhães e Blauth (2015) e
Pagano (2017) investigam o uso de itálicos ou a projeção de falas,
respectivamente, em retraduções de textos literários. As autoras
obtêm resultados inconclusivos sobre a hipótese que as traduções
mais recentes de um texto literário para uma mesma língua-alvo
seriam mais próximas do TF.
Levando-se em consideração os estudos sobre a VALORAçãO re-
latados, verifica-se neste artigo se as variações nas traduções anali-
sadas fazem o movimento de distanciamento em direção ao poten-
cial generalizado de significados, resultando em paráfrase dos TFs,

4
Enfatiza-se que, na recontagem, fica mais difícil de se identificar as relações
intertextuais, com a possibilidade, em última instância, de ter-se a recontagem
apenas se inspirada no primeiro texto (MARTIN, 2006).

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 319-351, set-dez, 2018 328


Variações semânticas de valoração em reinstanciações portuguesas e brasileiras...

e se as retraduções fazem o movimento em direção a níveis mais


específicos do significado, implicando relações diretas de instância
a instância ou citação dos TFs.

3. Metodologia

Nesta seção, faz-se uma descrição dos procedimentos de sele-


ção dos textos para o estudo e dos procedimentos de análise desses
textos. Esses procedimentos estão apresentados nas subseções 3.1
e 3.2, respectivamente.

3.1. Procedimentos de seleção dos textos

Foram selecionadas as reinstanciações portuguesas de TFA e


AG, de Chinua Achebe, para uma comparação com os resultados
obtidos em Dias (2018) utilizando os mesmos TFs e duas reinstan-
ciações brasileiras. A reinstanciação do primeiro TF, TD, foi tra-
duzida por Eugénia Antunes e Paulo Rêgo e publicada pela Editora
Mercado de Letras Editores em 2008, de Lisboa. A reinstanciação
do segundo TF, FD_PE, foi traduzida por Maria Helena Morbey
e publicada pela Edições 70 em 1979, também de Lisboa. Foram
selecionados, ainda, excertos das reinstanciações portuguesas equi-
valentes àqueles utilizados nas análises de Dias (2018).
Há um hiato temporal de 25 anos entre TD e MD5 e de 32 anos
entre as duas traduções de AG, o que pode indicar mudança nas
convenções tradutórias. O fato de haver essa probabilidade de mu-
dança nas convenções de tradução entre os pares de reinstanciações
e o fato de poderem ser tomadas como (re)traduções6 foram moti-
vações para a comparação, neste caso baseada na VALORAçãO. Nes-

5
MD, entretanto, foi publicada em 2009, tendo passado por um processo de
revisão mínimo, conforme Dias (2018).
6
Ainda que publicadas no Brasil e em Portugal, são consideradas retraduções em
consonância com a literatura sobre o tema.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 319-351, set-dez, 2018 329


Célia Maria Magalhães & Cliver Gonçalves Dias

te estudo, MD é considerada a tradução e TD a retradução de TFA,


bem como FD_PE é a tradução e FD_PB a retradução de AG.
Um resumo de TFA e AG foi apresentado em Dias (2018), bem
como informações sobre MD e FD_PB. Informações sobre TD po-
dem ser encontradas em Souza (2015). Sobre FD_PE, recorreu-se
aos paratextos para informações. Esta publicação oferece aos seus
leitores prospectivos uma biografia resumida do autor de AG e uma
resenha sobre a obra. Além disso, registra em uma lista de nomes e
breve identificação de todos os personagens, além de um glossário
com a tradução das palavras do Ibo usadas no TF.

3.2. Procedimentos de análise

Para a análise da atitude, foram utilizados os procedimentos


conforme descritos em Macken-Horarik e Isaac (2014), que siste-
matizam os procedimentos básicos facilitadores da análise da VALO-
RAçãO abordados por Martin e Rose (2007[2003]) e Martin e White
(2005). Esses procedimentos incluem:

• A identificação das avaliações inscritas, juntamente com a


fonte e o alvo da avaliação, seguida da identificação das ava-
liações evocadas e da ocorrência de recursos de gradação.
• A descrição da carga valorativa, dos níveis de força e dos
contrastes nas escolhas de gradação.
• O mapeamento de síndromes de escolhas em contraste uns
com os outros.
• A codificação dos itens identificados de acordo com as ca-
tegorias específicas do sistema de VALORAçãO (ver a seção 2
deste artigo).
• A comparação das escolhas de VALORAçãO dos diferentes
textos em análise, para verificação de semelhanças e dife-
renças nessas escolhas e sua ocorrência ou não nas narrati-
vas, além de identificação de padrões específicos do gênero
e sua função.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 319-351, set-dez, 2018 330


Variações semânticas de valoração em reinstanciações portuguesas e brasileiras...

Os códigos usados para a anotação foram adaptados daqueles


sugeridos em Martin e White (2005). O Quadro 1 ilustra essa co-
dificação.

Quadro 1 – Códigos de anotação da análise da atitude.

Código Significado Código Significado Código Significado


felic. felicidade tenac. tenacidade força(+) aumentando
satis. satisfação prop. propriedade força(-) diminuindo
segur. segurança verac. veracidade foco(+) enfocando
inclin. inclinação reac. reação foco(-) desfocando
norm. normalidade comp. composição – –
capac. capacidade val. social valor social – –
Fonte: Adaptado de Martin e White (2005, p. 71).

A análise da VALORAçãO foi baseada nas categorias do Quadro


2, a seguir. Cabe ressaltar que essas categorias estão devidamente
definidas na seção 2.

Quadro 2 – Organização da rede de sistemas de VALORAçãO.


Rede de Tipos de Subtipos de Tipos de
sistemas vAlorAção vAlorAção heteroglossia
Afeto –
Atitude Julgamento –
Apreciação –
Monoglossia –
VALORAçãO
Comprometimento Contrair
Heteroglossia
Expandir
Força –
Gradação

Fonte: Adaptado de Martin e White (2005).

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 319-351, set-dez, 2018 331


Célia Maria Magalhães & Cliver Gonçalves Dias

Os procedimentos para a análise incluíram a identificação e


classificação: 1) do tipo de comprometimento de cada proposição
dos textos; 2) de instâncias valorativas, com sua carga valorativa e
modo de ativação; e 3) de recursos de gradação. A identificação e
classificação de cada categoria foi feita em cada par de texto-fonte
e texto traduzido, que foram previamente alinhados por sentenças
(critério grafológico) em planilhas eletrônicas do Google Sheets. A
Figura 1 ilustra o modelo da planilha usada para a análise de atitude
e a Figura 2 a planilha do comprometimento.

Figura 1 – Tela capturada da planilha de atitude.

Fonte: Elaborado pelos autores.

Ressalta-se que, devido à extensão horizontal da planilha, não


foi possível capturar as colunas de todas as categorias da atitude.
Na planilha, há ainda colunas para o modo de ativação, o avaliado
e a gradação.

Figura 2 – Tela capturada da planilha de comprometimento.

Fonte: Elaborado pelos autores.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 319-351, set-dez, 2018 332


Variações semânticas de valoração em reinstanciações portuguesas e brasileiras...

Nesse modelo de análise do comprometimento, as proposições


são distribuídas topologicamente nas colunas de acordo com o tipo
de comprometimento. Sublinha-se que as duas planilhas foram ela-
boradas com base nos modelos manuais apresentados em Martin e
White (2005). Após as classificações das categorias, procedeu-se
à comparação entre as análises de cada par de textos para a identi-
ficação de variações no acoplamento e/ou na calibragem dos tipos
de VALORAçãO.
Examinar as opções de cada um dos tipos de afeto, julgamento e
apreciação não estava previsto como procedimento metodológico.
No entanto, devido à relevância de um dos achados, foi necessário
acrescentar níveis de especificidade de afeto. As opções de afeto
são “felicidade”, “segurança”, “satisfação” e “inclinação”, con-
forme ilustrado no Quadro 3.

Quadro 3: Tipos de afeto

Tipo de atitude Tipos de afeto


Afeto Felicidade
Segurança
Satisfação
Inclinação
Fonte: Adaptado de Martin e White (2005).

A “felicidade” reúne os valores relativos às “coisas do cora-


ção” (MARTIN; WHITE, 2005, p. 49), como “amar” e “odiar”.
A “segurança” lida com os valores de estabilidade e instabilida-
de emocional, como “calmo” e “nervoso”. A “satisfação” está
relacionada à compleição ou não de metas, como “satisfeito” e
“insatisfeito”. Por fim, a “inclinação” engloba as expressões de
medo e desejo em relação a coisas e situações prospectivas, como
“querer” e “recear”.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 319-351, set-dez, 2018 333


Célia Maria Magalhães & Cliver Gonçalves Dias

4. Resultados

Esta seção está organizada em três subseções. Na primeira, são


apresentados exemplos de variações que ocorreram nas reinstan-
ciações brasileiras e portuguesas em uma mesma oração do TF.
Na segunda subseção, apresentam-se exemplos de variações que
ocorreram nas reinstanciações brasileiras e portuguesas, mas em
diferentes orações do TF. Por fim, a terceira subseção é dedicada
ao relato descritivo dos tipos de variações que foram distintivos
entre as reinstanciações portuguesas e brasileiras.

4.1. Variações semânticas nas mesmas orações

A análise contrastiva entre os textos-fonte e suas reinstanciações


portuguesas e brasileiras7 permitiu identificar a ocorrência de va-
riações semânticas nas mesmas orações ou complexos oracionais.
Em alguns dos casos, não somente ocorreram na mesma oração
como também foram relativas aos mesmos valores atitudinais e ao
mesmo tipo de variação semântica.
Os exemplos nos quais as variações semânticas foram identifi-
cadas são apresentados ao longo desta subseção. Usa-se a fonte na
cor vermelha para destacar os itens específicos em que as variações
semânticas ocorreram.
Os Exemplos 1 e 2 apresentam ocorrências de variação no
modo de ativação de valores atitudinais. Trata-se do mesmo tipo de
variação: um valor atitudinal de julgamento implícito foi explicitado
nas reinstanciações.

Exemplo 1:
TFA: As a young man of eighteen he had brought honor to
his village by throwing Amalinze the Cat. Amalinze
was the great wrestler who for seven years was un-
beaten, from Umuofia to Mbaino.
7
Ressalta-se que as análises das reinstanciações brasileiras aqui apresentadas
foram obtidas em Dias (2018).

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 319-351, set-dez, 2018 334


Variações semânticas de valoração em reinstanciações portuguesas e brasileiras...

TD: Aos dezoito anos de idade honrara a sua aldeia ao der-


rotar Amalinze, o Gato. Amalinze era o grande luta-
dor que durante sete anos permanecera invicto, desde
Umuofia a Mbaino.
MD: Aos dezoito anos, trouxera honra à sua aldeia ao venc-
er Amalinze, o Gato, um grande lutador, campeão in-
victo durante sete anos em toda a região de Umuófia a
Mbaino.

Exemplo 2:
AG: It brought down the harmattan as well, and each new
day made the earth harder so that the eventual task
of digging up whatever remained of the harvest grew
daily.
FD_PE: O harmatão deixara também de soprar, e, dia após
dia, a terra tornava-se mais sólida, de forma que a
eventual tarefa de desenterrar o que restasse das col-
heitas se tornava diariamente mais difícil.
FD_PB: Esse temporal trouxe também o harmatã, e a cada dia
a terra se tornava mais dura. Consequentemente, seria
cada vez mais difícil escavá-la para retirar os inhames.

No Exemplo 1, o valor de julgamento sobre a personagem é


realizado por léxico não atitudinal (throwing) e é mais dependente
do contexto para que seu valor atitudinal seja ativado. Em outras
palavras, esse valor de julgamento foi realizado de modo evocado,
implícito. Em TD e MD, as escolhas lexicais (derrotar e vencer)
explicitam o valor de julgamento da personagem, uma vez que
isoladamente já é possível interpretar que se trata de um compor-
tamento humano e que tem carga valorativa positiva. No Exemplo
2, o valor de apreciação negativa da tarefa em AG foi instanciado
no complexo oracional em destaque e também não é realizado por
léxico atitudinal, ou seja, o valor foi realizado implicitamente. Nas
reinstanciações, o uso do atributo “difícil” explicita o valor de
apreciação negativa da tarefa.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 319-351, set-dez, 2018 335


Célia Maria Magalhães & Cliver Gonçalves Dias

O próximo exemplo ilustra variação de acoplamento da gra-


dação. Determinados valores atitudinais que são intensificados no
TF foram reinstanciados sem o acoplamento de gradação. O mo-
vimento inverso também foi identificado: um valor que não acopla
gradação no TF foi reinstanciado com intensificação.

Exemplo 3:
AG: At any other time Ezeulu would have been more than
a match to his grief.
FD_PE Em qualquer outra ocasião, Ezeulu não teria sofrido
tanto.
FD_PB: Em qualquer outra ocasião, Ezeulu teria sido capaz de
suportar sua dor.

No Exemplo 3, foram identificados no TF dois valores atitudi-


nais, um de julgamento (more than a match) e outro de afeto (his
grief). O primeiro valor é intensificado pelo recurso more than e o
segundo sem intensificação. Em FD_PE, além de o valor de julga-
mento não ter sido reinstanciado, o valor de afeto foi intensificado
com o uso do recurso “tanto”. Em FD_PB, os dois valores foram
reinstanciados, mas o valor de julgamento não acopla gradação, ou
seja, não é intensificado.
Nos Exemplos 4 e 5, que seguem, são apresentadas ocorrências
de variação no comprometimento das proposições. Em um dos
exemplos, identificou-se o mesmo tipo de variação nas duas reins-
tanciações do mesmo TF.

Exemplo 4:
TFA: The hole would not let a man through.
TD: O buraco não era suficientemente grande para permitir
a passagem de um homem.
MD: O buraco não era suficientemente grande para dar pas-
sagem a um homem.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 319-351, set-dez, 2018 336


Variações semânticas de valoração em reinstanciações portuguesas e brasileiras...

Exemplo 5:
AG: Of course he had lived to such a great age that his
blindness became like an ornament on him.
FD_PE: Na verdade, o avô atingira uma idade tal que a ceguei-
ra se tornara como que um ornamento.
FD_PB: [Ø] Seu avô vivera até uma idade tão avançada que
sua cegueira tornou-se uma espécie de ornamento.

No Exemplo 4, uma proposição heteroglóssica do tipo expandir


em TFA (uso do modal would) foi reinstanciada como uma propo-
sição do tipo contrair com o uso da negação (não) na oração. Con-
forme a VALORAçãO, os modais constroem o grau de probabilidade
de determinada proposição e estão calcados na intersubjetividade
dos falantes/escritores, portanto, são dialogicamente expansivos.
Nas duas reinstanciações, a proposição foi reinstanciada como pro-
posição negativa, sem o uso de modal.
No Exemplo 5, houve diferentes tipos de variação. A proposição
de TFA, com o uso do recurso Of course, foi instanciada como he-
teroglossia do tipo contrair. Ao usar o referido recurso, o narrador
do TF não somente investe autoralmente nos valores da proposição
como também pressupõe que seu leitor prospectivo provavelmente
compartilha do mesmo posicionamento. Em FD_PE, essa propo-
sição foi reinstaciada com o uso de outro recurso (Na verdade),
que não realiza a mesma função do recurso do TF. Em FD_PB,
a proposição heteroglóssica de TFA foi reinstanciada como uma
proposição monoglóssica. Com isso, o narrador da reinstanciação
brasileira excluiu o provável compartilhamento daqueles valores
pelo leitor prospectivo.
Além dessas variações, ainda nas mesmas orações, foram iden-
tificadas outras ocorrências de variação nas reinstanciações bra-
sileiras. No Exemplo 1, um novo valor de atitude foi instanciado
(campeão) em MD. No Exemplo 3, a reinstanciação de a match
como “capaz” (FD_PE) resultou na explicitação dos valores de
atitude, ambos do tipo julgamento.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 319-351, set-dez, 2018 337


Célia Maria Magalhães & Cliver Gonçalves Dias

4.2. Variações semânticas em diferentes orações

As mesmas siglas e destaques usados para a identificação nos


exemplos da subseção precedente são usados nesta subseção. São
apresentados quatro exemplos das referidas variações semânticas.
Os tipos de variação são distintos e mostram, ao mesmo tempo, es-
colhas linguísticas que resultam em variação semântica e escolhas
que não resultam em variação.

Exemplo 6:
TFA: He was tall and huge, and his bushy eyebrows and
wide nose gave him a very severe look.
TD: Era alto e largo e as suas espessas sobrancelhas e nariz
largo emprestavam-lhe um ar muito severo.
MD: Era um homem alto, grandalhão, a quem as sobrancel-
has espessas e o nariz largo davam um ar extrema-
mente severo.

No Exemplo 8, identifica-se uma variação de calibragem da


gradação. O valor de apreciação de TFA (huge) se encontra em um
ponto mais elevado na escala de intensificação se comparado a big,
que já possui algum grau de intensidade. Em TD, a reinstanciação
de huge como “largo” não calibra o mesmo grau de intensificação,
ou seja, a gradação do valor de apreciação foi reduzida. Em MD,
a escolha por “grandalhão” reinstanciou o valor de apreciação e o
grau de intensidade do referido valor de TFA.

Exemplo 7:
AG: He was now an old man but the fear of the new moon
which he felt as a little boy still hovered round him.
FD_PE: Embora já bastante idoso, o medo da Lua nova ainda
pairava à sua volta, tal como acontecera na sua juven-
tude.
FD_PB: Hoje, ele estava velho, mas o temor da lua nova que
sentira quando menininho não o abandonara.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 319-351, set-dez, 2018 338


Variações semânticas de valoração em reinstanciações portuguesas e brasileiras...

No Exemplo 7, a reinstanciação portuguesa apresenta duas ocor-


rências de variação, uma no acoplamento do comprometimento e a
outra no acoplamento da gradação. Em AG, a primeira oração (He
was now an old man) foi instanciada como uma proposição mono-
glóssica, portanto, sem a abertura do espaço dialógico a vozes dis-
cursivas alternativas. Em FD_PE, a proposição de AG foi reinstan-
ciada como uma proposição heteroglóssica do tipo contrair com o
uso de um recurso de concessão (embora). Com isso, o narrador da
reinstanciação portuguesa, mesmo rejeitando as vozes discursivas
alternativas, abriu o espaço dialógico para incluí-las. Em FD_PB,
a referida proposição do TF foi reinstanciada com o mesmo tipo
de comprometimento. Além disso, em FD_PE, também foi iden-
tificado o acoplamento de gradação a um valor atitudinal (bastante
velho) que não é intensificado em AG.
Passando ao último exemplo desta subseção, pode-se identificar
em TD outra variação no modo de ativação de determinado valor
atitudinal. Trata-se também de um exemplo de explicitação de um
valor de atitude.

Exemplo 8:
TFA: “We cannot bury him. Only strangers can. We shall
pay your men to do it. When he has been buried we
will then do our duty by him. We shall make sacrifices
to cleanse the desecrated land.”
TD: – Não podemos enterrá-lo, apenas os estranhos
o podem fazer. Pagaremos esse trabalho aos teus
homens. Depois do enterro, trataremos do nosso dever
fazendo sacrifícios para purificar a terra profanada.
MD: – Nós não podemos enterrá-lo; só estranhos podem
fazê-lo. Estamos dispostos a pagar a seus homens para
que façam isso. E então, depois que ele tiver sido en-
terrado, cumpriremos nosso dever para com o morto.
Faremos sacrifícios, a fim de limpar a terra profanada.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 319-351, set-dez, 2018 339


Célia Maria Magalhães & Cliver Gonçalves Dias

Em TFA, o valor de julgamento positivo foi realizado por uma


palavra de conteúdo experiencial (cleanse), que provavelmente de-
pende da relação estabelecida com outros valores atitudinais ex-
plícitos (sacrifices e desecrated) para que seu valor atitudinal seja
ativado. Em TD, interpretou-se que a escolha lexical “purificar”
já permite, mesmo isoladamente, a identificação de um comporta-
mento humano positivo. Em MD, o valor de atitude também foi
realizado por conteúdo experiencial, como ocorre em TFA.
Antes de finalizar esta subseção, é importante sublinhar que es-
ses são somente alguns dos exemplos das ocorrências de variação
semântica identificadas nas reinstanciações. Cabe também ressaltar
que, embora nessas orações as variações tenham ocorrido somente
em uma das reinstanciações, são tipos de variações que foram identi-
ficados tanto nas reinstanciações portuguesas quanto nas brasileiras.

4.3. Traços distintivos entre as reinstanciações portuguesas


e brasileiras

Nesta subseção, são apresentados exemplos de tipos de variação


que ocorreram somente nas reinstanciações portuguesas. No Qua-
dro 4, apresenta-se uma síntese dos tipos de variação e indica-se
em qual das reinstanciações cada tipo de variação foi identificado.

Quadro 4 – Tipos de variação de VALORAçãO.

Tipo de variação TD FD_PE


Acoplamento de atitude (julgamento-afeto) -
Acoplamento de atitude (apreciação-julgamento) -
Calibragem de afeto -
Não reinstanciação de afeto -
Não reinstanciação de julgamento -
Fonte: Elaborado pelos autores.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 319-351, set-dez, 2018 340


Variações semânticas de valoração em reinstanciações portuguesas e brasileiras...

De acordo com o disposto no Quadro 4, observa-se que os cinco


tipos de variação semântica distintivos ocorreram na mesma narra-
tiva, FD_PE. Um ponto a ser ressaltado é que todos esses tipos de
variação semântica são relativos ao domínio da atitude. Os exem-
plos são apresentados na sequência de acordo com a ordem em que
os tipos de variação aparecem no Quadro 4.
Em relação ao primeiro tipo de variação semântica disposto no
Quadro 4, foram identificadas duas ocorrências de variação. Apre-
senta-se aqui um dos exemplos.

Exemplo 9:
AG: Whenever they shook hands with him he tensed his
arm and put all his power into the grip, and being
unprepared for it they winced and recoiled with pain.
FD_PE: Sempre que o cumprimentavam com um aperto de
mão, tornava o braço tenso e usava de tal força que os
jovens, não suportando a dor, se retraíam e retiravam
apressadamente a mão.

O Exemplo 9 ilustra uma ocorrência de variação de acopla-


mento da atitude em FD_PE. Um valor de julgamento de AG foi
reinstanciado como valor de afeto. Enquanto em AG constrói-se
um valor acerca do comportamento das pessoas (desprecavidas),
na reinstanciação portuguesa, constrói-se a infelicidade dos avalia-
dores, o sofrimento delas.
O segundo tipo de variação ocorreu no acoplamento de atitude.
Identificou-se que um valor de apreciação do TF foi reinstanciado
como valor de julgamento em FD_PE.

Exemplo 10:
AG: The moon he saw that day was as thin as an orphan
fed grudgingly by a cruel foster-mother.
FD_PE: A Lua que ele viu naquele dia era tão débil como um
órfão mal alimentado por uma cruel mãe adoptiva.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 319-351, set-dez, 2018 341


Célia Maria Magalhães & Cliver Gonçalves Dias

No Exemplo 10, ao usar o atributo thin, o narrador do TF


constrói um valor de apreciação da lua. Na reinstanciação portu-
guesa, considerou-se que o atributo “débil” constrói um valor de
julgamento (debilidade, fraqueza) da lua. Assim interpretado, em
FD_PE, há, ainda que localmente, uma construção da lua como
portadora de um atributo que expressa comportamento humano.
O terceiro tipo de variação se refere à calibragem de afeto. As es-
colhas linguísticas do narrador de FD_PE reconstroem o mesmo va-
lor de atitude (afeto), mas resultam em variação no subtipo de afeto.

Exemplo 11:
TF: Ezeulu did not like to think that his sight was no longer
as good as it used to be and that some day he would
have to rely on someone else’s eyes as his grandfather
had done when his sight failed.
FD_PE: Ezeulu recusava-se a admitir que a sua vista não era
já tão boa como antigamente e que algum dia teria que
confiar aquela missão nos olhos de outrem, à semel-
hança do que acontecera com o seu avô quando a vista
lhe falhara.

No Exemplo 11, o valor de afeto construído no TF é do sub-


tipo felicidade e foi realizado em uma proposição de negação.
Em FD_PE, ao escolher “recusava-se” para reinstanciar o valor
de afeto do TF (did not like), o narrador construiu a desincli-
nação (indisposição) afetiva da personagem Ezelu em lugar da
negação de felicidade. Essa escolha linguística também resultou
em variação no acoplamento do comprometimento, já que uma
proposição heteroglóssica do TF foi reinstanciada como propo-
sição monoglóssica.
Na sequência, apresenta-se um exemplo de não reinstanciação
de um valor de afeto. Além dessa variação, há outra de acopla-
mento do comprometimento.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 319-351, set-dez, 2018 342


Variações semânticas de valoração em reinstanciações portuguesas e brasileiras...

Exemplo 12:
AG2: It lay on the ground in the grip of the joy.
FD_PE: Apesar de tudo permanecia [Ø].

Em AG no Exemplo 12, é possível identificar a ocorrência de


um valor de afeto explícito (the joy). A realização desse valor de
afeto positivo no TF funciona para criar um paradoxo com outro
valor de afeto negativo, realizado pelo pronome It, que presume
o grupo nominal the fear de uma oração anterior. Em FD_PE, o
narrador não reinstancia o valor de afeto positivo e, consequente-
mente, não reconstrói, nessa oração, a relação paradoxal entre os
valores de afeto. Além disso, a proposição de FD_PE foi reinstan-
ciada como proposição do tipo contrair.
Ainda com relação à não reinstanciação de valores de atitude,
em FD_PE, foi identificada uma ocorrência na qual um valor de
julgamento do TF não foi reinstanciado. Essa ocorrência é apresen-
tada no Exemplo 13.

Exemplo 13:
AG: And while it played its game the Chief Priest sat up
every evening waiting.
FD_PE: E, entretanto, [Ø] o Sacerdote Supremo esperava to-
das as noites pacientemente.

No que tange ao Exempo 13, identificou-se que no TF played


its game realiza um valor de julgamento. Trata-se de uma metáfora
lexical que se refere à lua, que, no desenrolar da fase discursiva da
qual o complexo oracional faz parte, é construída como enganosa,
comportamento tipicamente humano. Essa metáfora lexical não é
reinstanciada em FD_PE nem seu referido valor de julgamento.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 319-351, set-dez, 2018 343


Célia Maria Magalhães & Cliver Gonçalves Dias

5. Discussão dos resultados

Nesta seção, busca-se responder às perguntas de pesquisa ante-


cipadas na Introdução deste trabalho, com base nos resultados apre-
sentados na seção precedente. As perguntas específicas referem-se
às variações de VALORAçãO e a pergunta mais global à hipótese da
retradução. Em relação a essa hipótese, os resultados deste estudo
são relativizados, uma vez que as narrativas não foram analisadas
integralmente. Esses resultados também são discutidos em com-
paração com os resultados das pesquisas empíricas resenhadas na
fundamentação teórica deste artigo.
Na primeira pergunta, questiona-se se os valores evocados de
atitude tendem a ser explicitados nas reinstanciações. Além disso,
se os textos considerados como “tradução” e “retradução” têm
comportamentos distintos entre si quanto a esse tipo de variação.
Tanto em TD quanto em FD_PE, foram identificadas ocorrên-
cias de explicitação de valores de atitude. Em TD, as três ocor-
rências de variação no modo de ativação foram de explicitação de
valores evocados do TF (Exemplo 1, 2 e 8), corroborando os re-
sultados de Dias (2018). Em FD_PE, as variações no modo de ati-
vação foram equilibradas, ou seja, em metade das ocorrências, os
valores de atitude foram explicitados e, na outra metade, os valores
foram reinstanciados no modo implícito, corroborando parcialmen-
te os resultados de Dias (2018). Ao comparar os pares de reinstan-
ciação (tradução e retradução), identifica-se que a explicitação de
valores de atitude não é um traço distintivo entre MD e TD.
Quanto à comparação entre FD_PE e FD_PB, nas duas reins-
tanciações, foram identificadas ocorrências tanto de valores ati-
tudinais evocados que foram realizados como inscritos quanto de
valores inscritos que foram evocados. A diferença entre elas é que
em FD_PB, além de haver uma ocorrência a mais de variação, há
mais ocorrências de inscrição (explicitação) do que de evocação
dos valores. Esse poderia ser considerado um traço distintivo entre
FD_PE e FD_PB pelo critério das variações no modo de ativação
dos valores de atitude.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 319-351, set-dez, 2018 344


Variações semânticas de valoração em reinstanciações portuguesas e brasileiras...

A segunda pergunta inquire se as reinstanciações tendem à con-


tração dialógica das proposições do TF e se esse tipo de variação
também permite distinguir a “tradução” da “retradução”. Em TD,
identificou-se uma proposição do tipo expandir de TFA que foi
reinstanciada como uma proposição do tipo contrair (Exemplo 4).
O movimento contrário (proposição do tipo contrair reinstanciada
como proposição do tipo expandir) não foi identificado. Os resul-
tados de TD corroboram, pois, parcialmente os achados de Hong
(2012) e Dias (2018). Em FD_PE, foram identificadas mais ocor-
rências de contração dialógica das proposições (Exemplos 5, 7 e
12) do que em TD. Essas ocorrências podem ser caracterizadas
como tendência da reinstanciação de FD_PE e corroboram os re-
sultados de Hong (2012) e Dias (2018).
No que diz respeito à distinção entre os textos considerados
como “tradução” e “retradução”, as variações no comprometi-
mento não se mostram um traço distintivo. Tanto em MD e TD
quanto em FD_PE e FD_PB, os tipos de variação e os números de
ocorrências foram aproximados entre os pares de reinstanciações.
Algumas das variações no comprometimento foram identificadas
nas mesmas proposições e as escolhas dos tradutores foram iguais
em alguns dos exemplos.
A terceira indagação é se as reinstanciações constroem valores
e/ou posicionamentos de leitura distintos em relação ao TF e entre
si. De acordo com os resultados, na reinstanciação portuguesa de
AG, quatro tendências de variação contribuem para a construção
da narrativa de uma perspectiva mais afetiva tanto em relação ao
TF quanto à reinstanciação brasileira. As tendências são: não reins-
tanciação de valores de julgamento (Exemplos 13 e 3), reinstancia-
ção de valores de julgamento como valores de afeto (Exemplo 9),
redução da intensificação dos valores de julgamento (Exemplo 3) e
intensificação dos valores de afeto (Exemplo 3).
Embora, na reinstanciação brasileira de AG tenham sido iden-
tificadas ocorrências de redução da intensificação de valores de
julgamento, não há ocorrências de não reinstanciação de valores de
julgamento nem variação de atitude em que um valor de julgamento

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 319-351, set-dez, 2018 345


Célia Maria Magalhães & Cliver Gonçalves Dias

tenha sido reinstanciado como valor de afeto. Com isso, considera-


-se que as variações em discussão têm o potencial de construir
um posicionamento de leitura distinto de FD_PE, corroborando os
achados de Martin (2006) e Souza (2013). Além disso, a intensifi-
cação dos valores de afeto e as não reinstanciações de determinados
valores foram traços distintivos entre a “tradução” e “retradução”,
corroborando, respectivamente, os achados de Cristófaro (2018) e
Dias (2018) quanto ao papel desses tipos de variação na distinção
entre as reinstanciações.
No que concerne às reinstanciações de TFA, não foram iden-
tificadas em TD variações semânticas que tenham o potencial de
construir perspectivas distintas nem posicionamentos de leitura dis-
tintos em relação a TFA. Nesse quesito, TD pode ser considerada
mais próxima ao seu TF. Quanto a MD, segundo as análises de
Dias (2018), determinadas variações nos valores de atitude têm o
potencial de construir diferentes perspectivas acerca de algumas
personagens. Além disso, Dias (2018) identificou que variações no
modo de ativação e a instanciação de novos valores de atitude em
MD também atribuíram maior ou menor proeminência aos valores
de julgamento que incidem sobre algumas personagens.
A análise discursiva permitiu identificar qual das reinstanciações
investigadas apresentou maior número de variações semânticas. MD
apresentou, no geral, maior número de variações (15) que TD (13),
concentrando-se o maior número de acoplamentos na atitude (6 para
MD e 2 para TD) e o maior número de acoplamentos na gradação
(5 para TD e 2 para MD). FD_PE teve maior número de variações
semânticas (29) do que FD_PB (23), apresentando o maior número
de acoplamentos de atitude (10 para FD_PE e 6 para FD_PB).
Uma vez que os resultados mostram a ocorrência de variações
semânticas na reinstanciação de determinadas instâncias valorativas
dos TFs, as reinstanciações investigadas podem ser classificadas
como paráfrases das narrativas. No entanto, com base nas diferentes
variações entre cada par de reinstanciação, é possível sugerir que as
duas reinstanciações do mesmo TF se localizam em diferentes pon-
tos de um contínuo entre paráfrase e citação. Nesse contínuo, uma

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 319-351, set-dez, 2018 346


Variações semânticas de valoração em reinstanciações portuguesas e brasileiras...

das reinstanciações de cada um dos TFs se aproxima mais do TF que


a outra. Os resultados mostram, pois, tendo em vista um contínuo,
que ambas são paráfrases e que aquelas que se distanciam mais dos
dois TFs são as traduções. Esses achados corroboram a hipótese de
retradução (BERMAN, 1990), segundo a qual a tradução pode ser
considerada mais “distante” do TF do que a retradução.

6. Considerações finais

Este artigo expandiu a análise de Dias (2018) das reinstancia-


ções brasileiras para uma investigação das reinstanciações portu-
guesas de excertos de dois romances de Chinua Achebe, Things
Fall Apart e Arrow of God. A proposta foi estudar as variações
semânticas de VALORAçãO nessas reinstanciações e examinar tais
variações à luz da hipótese da retradução. Foram elaboradas duas
perguntas gerais de pesquisa, indagou-se se as variações semânti-
cas de VALORAçãO encontradas diferenciavam os pares de traduções
enquanto paráfrase ou citação do texto-fonte e se confirmavam a
hipótese da retradução.
Essas indagações foram motivadas pelos resultados obtidos
no estudo de Dias (2018) em relação às reinstanciações brasilei-
ras. Achados de outros estudos empíricos tais como Souza (2010,
2013), White (2016), Chang (2017) e Cristófaro (2018) consti-
tuíram também pressupostos da pesquisa realizada. Os trabalhos
citados constituíam um avanço em relação a outros como Rosa
(2008), entre outros, de análise mais local, das escolhas lexicais
nas traduções, por apresentar uma análise discursiva das tradu-
ções baseada na perspectiva teórico-metodológica da VALORAçãO de
Martin e White (2005), entre outros.
As perguntas propostas foram respondidas e os objetivos atingi-
dos. A análise discursiva, portanto, restrita a excertos dos romances,
permitiu identificar, com base nesses excertos, qual das reinstancia-
ções investigadas apresentou maior número de variações semânticas.
Foi possível estabelecer um paralelo entre os tipos de reinstanciação

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 319-351, set-dez, 2018 347


Célia Maria Magalhães & Cliver Gonçalves Dias

de Martin (2006) e a hipótese da retradução de Berman (1990). Os


resultados da análise permitiram identificar qual das reinstanciações
de cada narrativa poderia ser categorizada como citação, paráfrase
ou recontagem do TF. As variações encontradas não permitem con-
siderar qualquer uma delas como citação ou recontagem do original,
aproximando-se ou distanciando-se deste, respectivamente, enquanto
instância, em direção ao potencial de significados. Permitem, entre-
tanto, em um contínuo entre citação e paráfrase, considerar as duas
reinstanciações como tipos distintos de paráfrase do TF, apresentan-
do as traduções mais variações do que as retraduções. Assim como
para as reinstanciações de TFA, para as reinstanciações de AG, o
texto considerado como tradução, por constituir-se como paráfrase
em um grau maior, se “distancia” mais do TF do que o texto consi-
derado como retradução, o que corrobora a hipótese de retradução.
Em trabalhos futuros, pode-se integrar mais excertos dos romances
estudados para se testar os resultados aqui encontrados.

Referências

ACHEBE, C. A flecha de Deus. Tradução de Maria Helena Morbey. Lisboa:


Edições 70, 1979.

______. Arrow of God. 2. ed. New York: Anchor Books, 1989.

______. Tudo se desmorona. Tradução de Eugénia Antunes e Paulo Rêgo. Lisboa:


Mercado de Letras Editores, 2008.

______. O mundo se despedaça. Tradução de Vera Queiroz da Costa e Silva. São


Paulo: Companhia das Letras, 1983.

______. Things fall apart. New York: Anchor Books, 1994.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 319-351, set-dez, 2018 348


Variações semânticas de valoração em reinstanciações portuguesas e brasileiras...

______. O mundo se despedaça. 2. ed. Tradução de Vera Queiroz da Costa e


Silva. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

______. A flecha de Deus. Tradução de Vera Queiroz da Costa e Silva. São


Paulo: Companhia das Letras, 2011.

ALVSTAD, C.; ROSA, A. Voice in Retranslation: An Overview and some


Trends. Target, Amsterdam, v. 27, n. 1, p. 3-24, 2015.

BERMAN, A. La retraduction comme espace de la traduction. Palimpsestes,


Paris, v. 4, p. 1-7, 1990.

BLAUTH, T. A paisagem indizível em duas traduções brasileiras de Heart of


Darkness: uma análise de estilo com base em corpus. 2015. 138 f. Dissertação
(Mestrado em Linguística Aplicada) – Faculdade de Letras, Universidade Federal
de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2015.

CHANG, C. Modelling translation as re-instantiation. Perspectives, Londres, v.


25, n. 1, p. 1-14, 2017.

CRISTÓFARO, N. Variações semânticas em duas reinstanciações de Eveline e


The dead para o português: um estudo baseado no sistema da VALORAçãO. 2018.
224 f. Dissertação (Mestrado em Linguística Aplicada) – Faculdade de Letras,
Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2018.

DIAS, C. valoração e Variações Semânticas: um estudo das reinstanciações de


estágios discursivos de Things Fall Apart e Arrow of God. 2018. 150 f. Dissertação
(Mestrado em Linguística Aplicada) – Faculdade de Letras, Universidade Federal
de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2018.

DIAS, C.; MAGALHÃES, C. Intervenção tradutória em textos literários: um


estudo da apresentação da fala e da avaliação. Belas Infiéis, Brasília, v. 6, n. 1,
p. 103-122, 2017.

MACKEN-HORARIK, M. Appraisal and the special instructiveness of narrative.


Text, Adelaide, v. 2, n. 23, p. 285-312, 2003.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 319-351, set-dez, 2018 349


Célia Maria Magalhães & Cliver Gonçalves Dias

MACKEN-HORARIK, M.; ISAAC, A. Appraising Appraisal. In: THOMPSON,


G; ALBA-JUEZ, L. (Ed.). Evaluation in context. Amsterdam; Philadelphia: John
Benjamins Publishing Company, 2014. p. 67-92.

MAGALHÃES. C.; BLAUTH, T. Estilo do tradutor: um estudo do uso do itálico,


palavras estrangeiras e itens culturais específicos por seis tradutores de Heart
of Darkness. In: VIANA, V.; TAGNIN, S. (Org.). Corpora na tradução. São
Paulo: Hub Editorial, 2015. p. 171-209.

MARTIN, J. Genre, ideology and intertextuality: a systemic functional


perspective. LHS, Sheffield, v. 2, n. 2, p. 275-298, 2006.

______. Semantic variation: modelling system, text and affiliation in social


semiosis. In: BEDNAREK, M.; MARTIN, J. R. (Org.). New Discourse on
Language: Functional Perspectives on Multimodality, Identity, and Affiliation.
Londres; New York: Continuum, 2010. p. 1-34.

MARTIN, J.; ROSE, D. Working with discourse: meaning beyond the clause. 2.
ed. London: Continuum, 2007.

______. Genre relations: mapping culture. Londres: Equinox, 2008.

MARTIN, J.; WHITE, P. The Language of Evaluation: Appraisal in English.


New York: Palgrave MacMillan, 2005.

MUNDAY. J. Evaluation in translation: critical points of translator decision-


making. London and New York: Routledge, 2012.

PAGANO, A. A contextual approach to translation equivalence. In: LAVIOSA, S.


et al. Textual and contextual analysis in empirical translation studies. Singapore:
Springer, 2017. p. 73-128.

PAPOLOSKI, O.; KOSKINEN, K. Reprocessing texts: the fine line between


retranslating and revising. Across Languages and Cultures, Budapest, v. 11, n.
1, p. 29–49, 2010.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 319-351, set-dez, 2018 350


Variações semânticas de valoração em reinstanciações portuguesas e brasileiras...

QIAN, H. Investigating translator’s positioning via the Appraisal Theory: a case


study of the Q&A part of a speech delivered by the U.S. Vice President Cheney.
Sino-US English Teaching, New York, v. 2, n 9, p. 1775-1787, 2012.

ROSA, A. Narrator Profile in translation: work-in-progress for a semi-automatic


analysis of narratorial dialogistic and attitudinal positioning in translated fiction.
Linguistica Antverpiensia, Antwerp, n. 7, p. 227-248, 2008.

SOUZA, C. Itens lexicais estrangeiros como traço estilístico em things fall apart:
um estudo em corpus paralelo. Belas Infiéis, Brasília, v. 4, n. 1, p. 39-52, 2015.

SOUZA, L. Interlingual re-instantiation: a model for a new and more


comprehensive systemic functional perspective on translation. 2010. 339 f.
Tese (Doutorado em Língua Inglesa) – Departamento de Língua e Literatura
Estrangeiras, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2010.

______. Interlingual re-instantiation: a new systemic functional perspective on


translation. Text&Talk, Berlin, v. 33, n. 4/5, p. 575-594, 2013.

VANDEPITTE. S; VANDENBUSSCHE, L.; ALGOET, B. Travelling


certainties: Darwin’s doubts and their Dutch translations. The translator, London,
v. 11, n. 2, p. 275-299, 2011.

WHITE, P. Constructing the “Stranger” in Camus’ L’Étranger: registerial and


attitudinal variability under translation. The Journal of Translation Studies, Seoul,
v. 17, n. 4, p. 1-32, 2016.

Recebido em: 11/05/2018


Aceito em: 27/07/2018
Publicado em setembro de 2018

Célia Maria Magalhães. E-mail: celiamag@gmail.com


ORCID: https://orcid.org/0000-0002-8494-6084
Cliver Gonçalves Dias. E-mail: cliver.dias@gmail.com
ORCID: https://orcid.org/0000-0003-4629-8415

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 319-351, set-dez, 2018 351


http://dx.doi.org/10.5007/2175-7968.2018v38n3p352

A TRADUÇÃO DA PARTÍCULA MODAL WOHL PARA O


PORTUGUÊS: UMA INVESTIGAÇÃO DO ESFORÇO DE
PROCESSAMENTO DE PARTICIPANTES
BRASILEIROS E ALEMÃES

Marceli Aquino1
1
Universidade de São Paulo, São Paulo, São Paulo, Brasil

Resumo: Tendo como base a Teoria da Relevância, propomos investigar


o esforço de processamento da partícula modal (doravante PM) wohl no
par linguístico alemão/português em tarefas de pós-edição (doravante PE).
Nesse sentido, foram utilizados três instrumentos de pesquisa: o programa
Translog-II; o rastreador ocular Tobii T60; relatos retrospectivos (livre e
guiado). Dezesseis participantes, entre eles oito brasileiros e oito alemães,
pós-editaram para o português três insumos da máquina em alemão con-
tendo a PM wohl em três diferentes posições na mesma oração. Os resul-
tados corroboram a suposição de GUTT (1998) e os resultados da análise
processual conduzida por ALVES (2007), que revelam que a relação entre
esforço e efeito não acontece com base em uma associação de proporção
direta. Neste sentido, a análise do processamento de dois grupos de parti-
cipantes com relação à da PM wohl demonstra que, em ambientes cogni-
tivos diferenciados, a capacidade de metarrepresentação tem implicações
distintas na busca de determinados efeitos contextuais.
Palavras-chave: Partículas modais alemãs; Abordagem processual em
tradução; Teoria da relevância

Esta obra utiliza uma licença Creative Commons CC BY:


https://creativecommons.org/lice
Marceli Aquino

THE TRANSLATION OF THE MODAL PARTICLE WOHL


INTO PORTUGUESE: AN INVESTIGATION OF THE
PROCESSING EFFORT OF BRAZILIANS AND GERMANS
PARTICIPANTS

Abstract: Using the Relevance Theory as guideline we investigate the


processing effort of the modal particle (MP) wohl in the linguistic pair
german/portuguese in post-editing tasks. As experimental background,
we use three distinct research tools: the program Translog-II; the eye-
tracker Tobii T60; retrospective reports (free and guided). Sixteen
participants, eight Brazilian and eight German, post-edited to Portuguese
three machine translation inputs in German containing the MP wohl in
three different positions related to the same sentence. The results here
presented tend to confirm the hypothesis by GUTT (1998) and the study
on processing analysis performed by ALVES (2007), which show that the
relation between effort and effect does not obey a linear relation among
themselves. Therefore, the analysis of how modal particles are processed
in post-editing tasks tends to show that different cognitive environments
imply distinct allocation of the minimum cognitive effort needed to achieve
a relevant contextual effect.
Keywords: German modal particles; Procedural approach in translation;
Relevance theory

1. Introdução

A partícula modal (doravante PM) wohl tem a função principal


de caracterizar uma incerteza por parte do emissor, que cuidadosa-
mente coloca sua suposição (HELBIG, 1990, p. 115). Assim, ela
tem a intenção de manifestar uma pressuposição ou hipótese, que dá
margens ao desenvolvimento da troca comunicativa. Os resultados
apresentados nas investigações focadas nesta PM (THURMAIR,
1989; ABRAHAM, 1991a, 2012a; ZIMMERMANN, 2004, 2008)
indicam que, com wohl o emissor expressa uma suposição, um tipo
de afirmação especulativa, na qual o emissor não está totalmente
comprometido com a verdade da proposição.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 352-374, set-dez, 2018 353


A tradução da partícula modal wohl para o português: uma investigação...

A PM wohl, assim como as demais PMs, é descrita como um


marcador lexical contextual, com a função principal de relacio-
nar o enunciado à uma informação particular, isto é, considerando
as intenções e expectativas dos interlocutores, e como estas são
acessadas na busca de sentido. Leiss (2012, p. 44) qualifica as
PMs como técnicas para proporcionar uma ligação especial entre o
enunciado, o contexto e o conhecimento mutuamente manifestado
entre o emissor e o receptor. Essa relação é guiada pela troca de
informações relevantes, isto é, a informação que acarrete o maior
acréscimo de conhecimento com o menor custo de processamento
(SPERBER; WILSON, 2005, p. 227).
No sentido de acessar o significado das PMs, se faz necessário
uma investigação contextual profunda, tendo em conta o aspecto in-
terpessoal, isto é, a intenção e expectativa do emissor e do receptor.
Além da análise inferencial dentro do contexto de uso, se faz ne-
cessário refletir sobre as funções nucleares específicas de cada PM1
(AQUINO, 2017, p. 157). Assim, estes elementos lexicais devem
ser descritos levando em consideração a sua função nuclear, o con-
texto, a sua intenção comunicativa e o seu significado com relação
aos outros elementos da oração. Logo, para alcançar uma melhor
compreensão sobre o funcionamento geral das PMs gramatical, se-
manticamente e sua importância como meio comunicativo, é preciso
analisá-las sob os aspectos sintáticos, semânticos e pragmáticos.
Para orientar a análise, como também a tradução das PMs, en-
contra-se na literatura alguns parâmetros que facilitam e delimi-
tam a identificação destes elementos no discurso, como a restrição
de seu status topológico (ABRAHAM 1991b, p. 331). As PMs
podem aparecer apenas em extensões sintáticas determinadas, ou
seja, no Mittelfeld ou campo central2. A divisão por campos (feld)
é uma característica da língua alemã e advém da separação da ora-

1
A PM doch, por exemplo, tem a função de indicar contradição a respeito de
alguma situação ou informação. Já a PM wohl tem a função de sinalizar uma
hipótese ou a falta de comprometimento com alguma informação.
2
Tradução própria para o termo: Mittelfeld.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 352-374, set-dez, 2018 354


Marceli Aquino

ção entre rema e tema. Essa divisão funciona como limites verbais
(sentence brackets). No exemplo abaixo hat e geschenk formam os
limites na oração:

Der Großvater hat seinem Enkel ein Buch geschenk

Estes limites dividem os campos topológicos que são ocupados


por outros constituintes da frase. As diferentes posições são: Vor-
feld, que é o campo para a esquerda do limite; Mittelfeld o campo
situado dentro dos limites da oração; Nachfeld localizado à direita
do limite. Para possuir função modal, as partículas precisam seguir
alguns critérios, incluindo a posição no campo central da oração.
Dependendo da posição, do contexto, e também da intenção do
emissor, o significado das PMs e logo, da oração, pode ser modi-
ficado, submetendo-se, desta forma, à intenção comunicativa dese-
jada (AQUINO, 2016, p. 34).
Dentro de sua restrição topológica, as PMs podem transitar li-
vremente no campo central, e este posicionamento na oração pode
influenciar a interpretação e, consequentemente, a tradução destes
elementos para o português. Assim, o significado expressivo das
PMs é diretamente influenciado pelo contexto, mas as questões
topológicas também devem ser ponderadas (MÖLLERING, 2001).
Em vista disso, apresentamos neste trabalho, os resultados obtidos
por meio de pesquisa processual em tradução, averiguando a inter-
pretação da PM wohl considerando a sua disposição na oração e
no contexto.3 Para tanto, foram aplicadas três tarefas de pós-edição
(doravante PE)4, constituídas de três versões modificadas de um

3
Vale ponderar que não é possível encontrar literatura relevante em tradução sobre
a análise empírica do significado e funções pragmáticas das PMs dependendo do
seu posicionamento em uma mesma sentença. Assim, esta pesquisa trás dados
pioneiros com relação à investigação topológica da PM wohl e sua interpretação
para o português brasileiro.
4
A pós-edição representa a revisão de um texto traduzido por um sistema de
tradução automática.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 352-374, set-dez, 2018 355


A tradução da partícula modal wohl para o português: uma investigação...

mesmo texto, sendo que uma das orações continha a PM wohl em


diferentes posições. Teve-se o intuito de observar o processamento
e escolhas tradutórias de dois grupos de participantes (brasileiros e
alemães) no momento da PE da PM wohl – em um texto em alemão
traduzido automaticamente pelo Google Tradutor para o português
– tendo em vista os posicionamentos deste elemento.
Com base na teoria da relevância (doravante TR) (SPERBER;
WILSON, 1995, p.465) aplicada à tradução (GUTT, 1991), pro-
pomos investigar o esforço de processamento da PM wohl no par
linguístico alemão/português, elucidando questões sobre a tradução
de PMs para o português brasileiro. O princípio da relevância está
baseado na relação de custo-benefício em que a cognição humana
busca alcançar o maior efeito cognitivo através do menor esforço
processual possível (SPERBER; WILSON, 1995, p. 465). Segun-
do GUTT (1991), a TR pode auxiliar a tradução no entendimento
das operações mentais relacionadas ao processo de traduzir uma
informação de uma língua para outra.
Nos termos relevantistas as PMs, se compreendidas e utiliza-
das adequadamente, podem gerar implicaturas fortes na busca de
semelhança interpretativa e, por meio da capacidade metarrepre-
sentativa proporcionam um elo entre os ambientes cognitivos dos
indivíduos. Segundo a perspectiva de GUTT (2005), a metarrepre-
sentação é alcançada via metarreflexão, ou seja, a capacidade que
os seres humanos têm de representar como outra pessoa representa
um estado de coisas. Dessa maneira, a metarrepresentação tem o
intuito de reconstruir tanto os ambientes cognitivos do público-alvo
do texto-fonte quanto os do público-alvo do texto-alvo.
Como as PMs fazem parte do ambiente cognitivo do falante de
alemão, ele ou ela usam informações contextuais disponíveis em seu
ambiente cognitivo para reconhecer imediatamente o significado
pretendido, resultando em uma interpretação que alcance as expec-
tativas de relevância, ou seja, uma relação adequada entre esforço
e efeitos cognitivos (AQUINO, 2017, p. 82-83). Por outro lado, o
processamento desses elementos pode ser mais custoso para o falante
não nativo, pois essas informações contextuais não estão totalmente

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 352-374, set-dez, 2018 356


Marceli Aquino

acessíveis em seus ambientes cognitivos. Não obstante, os resultados


deste trabalho indicam que os participantes brasileiros alcançaram
níveis adequados de efeitos contextuais no texto de chegada.
De qualquer forma, não se pode negar que as PMs representam
elementos complexos da língua alemã, o que resulta em um gran-
de desafio para a tradução, assim como para o ensino de línguas.
Mas, por meio de uma análise focada nos aspectos contextuais e
suas funções comunicativas nucleares, torna-se possível encontrar
interpretações adequadas destes elementos para língua portuguesa.
Portanto, este trabalho tem a intenção de observar, por meio do
processamento de participantes brasileiros e alemães, a busca de
semelhança interpretativa da PM wohl para o português brasileiro.

2. Metodologia

Retrataremos nesta seção os resultados de uma amostra de 16


participantes, 8 brasileiros e 8 alemães, dentre eles 37.5% do
sexo feminino na faixa etária média de 29 anos de idade e, 62.5%
do sexo masculino na média de 35 anos. Os participantes tinham
conhecimento avançado em alemão e português como língua es-
trangeira (doravante LE), classificados como C1 até C25. Entre
os participantes, 75% afirmaram possuir alguma experiência com
tradução e 25% sem nenhuma experiência com tradução. No entan-
to, apenas 25% eram profissionais de tradução. Dente eles, 37.5%
tinham experiência prévia com pós-edição, o restante adquiriu este
conhecimento por meio do workshop oferecido pela pesquisadora.
O experimento foi constituído de três tarefas, contendo três ver-
sões de um mesmo texto jornalístico em alemão retirado do site
Spiegel, traduzido pela máquina em português para então ser reali-
zada a PE. O texto fonte em questão era intitulado Ich habe einen
Menschen getötet contendo 62 palavras. Os participantes pós-edi-
taram, por meio da ferramenta do Translog, o insumo da máquina

5
Classificação de proficiência baseada em certificados de diferentes instituições.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 352-374, set-dez, 2018 357


A tradução da partícula modal wohl para o português: uma investigação...

em português tendo acesso ao texto fonte original em alemão. Os


dados de fixação ocular foram gravados durante a realização de
cada tarefa e também no momento dos comentários nos protocolos
verbais retrospectivos, isto é, após o final da tarefa.
Com o intuito de investigar a influência da posição da PM para a
compreensão e PE destes elementos para o português, foram elabora-
das três modificações no posicionamento de palavras em três orações
no mesmo texto, sendo que tínhamos a intenção de observar especial-
mente o processamento da última frase com a PM wohl. Decidimos
implementar modificações em todo o texto, além da oração com PM
wohl, para não influenciar as decisões tradutórias, já que os partici-
pantes não tinham conhecimento sobre o tema de pesquisa. Mas, os
participantes foram previamente informados que a coleta era refe-
rente a PE de três versões de um mesmo texto, a fim de investigar a
diferença nas escolhas tradutórias, dependendo das posições lexicais.
A seguir, as imagens copiadas do programa Translog, na parte
superior encontra-se o texto em alemão em três diferentes versões,
e na parte inferior, as respectivas versões geradas pela tradução
automática:

Figura 1: Tarefa T1

Fonte: AQUINO (2016)

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 352-374, set-dez, 2018 358


Marceli Aquino

Figura 2: Tarefa T2

Fonte: AQUINO (2016)

Figura 3: Tarefa T3

Fonte: AQUINO (2016)

A análise apresentada neste trabalho foi pautada por dados pro-


cessuais relativos ao número e à duração das fixações gerados pelo
rastreador ocular na área de interesse (doravante AOI), isto é, na

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 352-374, set-dez, 2018 359


A tradução da partícula modal wohl para o português: uma investigação...

oração com PM wohl, na observação das mudanças e correções e


pelos comentários nos protocolos (livre e guiados).

3. Análise e resultado

3.1 As fixações oculares e o esforço de processamento

Para analisar o esforço de processamento despendido nas três


tarefas contendo a PM wohl em diferentes posições, apresentam-
se, na sequência, os gráficos 1, 2 e 3. O gráfico 1 mostra em se-
gundos a média da duração por fixação dos dezesseis participantes
nas três tarefas, para duas AOIs nos textos fonte e alvo (doravante
TF e TA), e também com relação ao restante do texto, que foi
usado como área de controle. Já os gráficos 2 e 3, apresentam os
resultados de fixação na AOI e no restante do texto para os dois
grupos de participantes, isto é, brasileiros e alemães. Estes re-
sultados oferecem pistas sobre o esforço cognitivo despendido no
processamento de orações com PM wohl em diferentes posições em
um mesmo enunciado.
O gráfico 1 apresenta os resultados da duração média das fixa-
ções oculares nas AOI com a PM wohl, referente a todos os parti-
cipantes nas três tarefas.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 352-374, set-dez, 2018 360


Marceli Aquino

Gráfico 1: Distribuição da duração média das fixações nas três


tarefas para todos os participantes na AOI e restante do texto.

Fonte: AQUINO (2016)

Os resultados acima apontam para um maior esforço de pro-


cessamento na AOI do TA em comparação ao TF. Este impac-
to no esforço de processamento advém da necessidade de novas
inferências face ao insumo linguístico do tradutor automático.
A análise estatística indica que tal diferença é estatisticamente
significativa para T2, t(T2) = -2.336, p = 0.013; e T3, t(T3)
= -1.479, p = 0.075, e marginalmente significativa para a T1,
t(T1) = -1.363, p = 0.09. No TF, com exceção da T2, o esfor-
ço de processamento na AOI foi maior ao se comparar com o
restante do texto. Já no TA, apenas em T1 observa-se um maior
esforço de processamento na AOI. A diferença entre a AOI e o
restante do texto não é estatisticamente significativa para todas as
tarefas, indicando apenas uma tendência para um maior esforço
em comparação à área de controle.
O esforço despendido na AOI da tarefa T1, tanto para o TF
(197.97 ms; DP: 51.85 ms), quanto para o TA (225.37 ms; DP:

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 352-374, set-dez, 2018 361


A tradução da partícula modal wohl para o português: uma investigação...

72.05 ms), possui a maior média de duração de fixação havendo


um decaimento com o decorrer das tarefas. Este dado é compatí-
vel com os resultados encontrados na unidade de tradução e nos
comentários retrospectivos. Os participantes sinalizaram ter gasto
menos tempo nas tarefas, pois repetiram em T2 e T3 as edições
realizadas na T1.
Os gráficos 2 e 3 apresentamos em segundos a média de dura-
ção das fixações acerca da AOI e o restante do texto, para os dos
dois grupos de participantes (brasileiros e alemães).

Gráfico 2: Distribuição da duração média das fixações por tarefas


para os participantes brasileiros e alemães para a AOI.

Fonte: AQUINO (2016)

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 352-374, set-dez, 2018 362


Marceli Aquino

Gráfico 3: Distribuição da duração média das fixações por tarefas


para os participantes brasileiros e alemães para o restante do texto.

Fonte: AQUINO (2016)

Com relação à AOI – e também ao restante do texto – o grupo


de alemães têm fixações menos duradoras do que os brasileiros em
todas as tarefas, especialmente no TF. Essa averiguação é corrobo-
rada pela análise estatística que indica que a diferença na duração
média de fixações entre brasileiros e alemães é significativa para o
texto fonte na tarefa T1 (t(T1) = 2.089, p = 0.028) e, marginal-
mente significativa para T2 (t(T2) = 1.467, p = 0.089), enquanto
para a T3 não é estatisticamente significativa (t(T3) = 0.913, p
= n.s.). Este resultado é compatível com as expectativas deste
estudo e com os postulados da TR. Para os alemães a compreensão
do significado e do uso das PMs é quase que imediata, isto é, os
mecanismos mentais destes indivíduos tendem automaticamente a
escolher estímulos potencialmente relevantes, reconhecendo então,
as pistas comunicativas das PMs. Assim, pode-se afirmar que a
identificação e processamento da PM wohl no TF requer um menor
esforço de processamento dos alemães do que dos brasileiros.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 352-374, set-dez, 2018 363


A tradução da partícula modal wohl para o português: uma investigação...

A respeito do texto alvo, a análise estatística revela que, tanto


para a AOI (t(T1) = 0.921, p = n.s.; t(T2) = 0.308, p = n.s.;
t(T3) = 0.814, p = n.s.), quanto para o restante do texto (t(T1)
= 0.321, p = n.s.; t(T2) = -0.019, p = n.s.; t(T3) = 0.481, p
= n.s.), a diferença entre os dois grupos não é estatisticamente
significativa. Deste modo, afigura-se que o esforço de processa-
mento desta partícula, para a língua portuguesa em tarefas de PE,
foi relativamente semelhante entre os dois grupos, apresentando,
entretanto, um menor esforço por parte dos alemães. Neste senti-
do, observamos que o processo de representação mental da oração
com PM exigiu um menor esforço cognitivo dos participantes ale-
mães. Este resultado indica, entretanto, que a busca de semelhança
interpretativa da função da PM wohl para outra língua, dentro de
diferentes posições na frase, depende da metarepresentação6 das
inferências proporcionadas pela PM em posições distintas e assim,
a necessidade de interpretação de suas funções e intenções depen-
dendo do enfoque semântico em cada oração.
A análise das fixações corrobora e completa os dados obtidos
nos protocolos verbais. Nas próximas seções retratamos os comen-
tários dos participantes com relação ao processo de PE da PM wohl
nas três tarefas. Os resultados quantitativos e qualitativos, assim
como as diferentes decisões tradutórias, oferecem pistas sobre a re-
lação de esforço e efeitos contextuais resultantes do processamento
das PMs em diferentes posições.

3.2 Macrounidades de tradução e protocolos verbais


retrospectivos

Após a coleta de dados, os participantes realizaram dois proto-


colos verbais sobre o processo que acabaram de efetuar, com o uso

6
Gutt (2000, 2005) define a tradução como um ato interpretativo interlingual
que envolve a capacidade de metarepresentação, no qual o tradutor representa as
informações do ambiente cognitivo do autor do texto de partida, para o público
alvo do texto de chegada.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 352-374, set-dez, 2018 364


Marceli Aquino

da função replay do Translog, momento em que os tradutores tive-


ram a oportunidade de visualizar todo o processo realizado, para
que então pudessem fazer os seus comentários com base naquilo
que viam na tela. Os protocolos são instrumentos de coleta que
possibilitam a recuperação de informações de natureza inferencial
e processual, permitindo ao pesquisador tentar construir hipóteses
baseadas em dados quantitativos.
No protocolo livre, os pós-editores foram estimulados a verba-
lizar suas reflexões sobre as diferentes etapas do processo de PE,
comentando, entre outros aspectos, sobre a tomada de decisão e os
problemas encontrados. No segundo protocolo, o guiado, respon-
deram-se perguntas específicas sobre a AOI.
A análise das macrounidades permite observar as edições rea-
lizadas nas tarefas de PE. A seguir apresentamos, portanto, um
panorama geral sobre as decisões tradutórias dos dois grupos de
participantes acerca das três tarefas. O quadro a seguir indica as
unidades de tradução dos 16 participantes brasileiros (B) e alemães
(A) a respeito da AOI investigada.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 352-374, set-dez, 2018 365


A tradução da partícula modal wohl para o português: uma investigação...

Quadro 1: Macro UTs produzidas nas T1, T2 e T3.

Fonte: AQUINO (2016)

Os dados demonstram que os participantes mantiveram as edi-


ções curtas, voltadas apenas a questões gramaticais, lexicais e de
ordem da frase. O pouco esforço empreendido neste processo re-
vela uma retextualização, que não recupera os efeitos contextuais
almejados pelo texto de partida. Consequentemente, a maioria das
edições não chega a alcançar efeitos contextuais satisfatórios.
Na tarefa de PE, essa escolha emerge a partir da interação com
o insumo do sistema de TA, a partir da qual os pós-editores são
compelidos a derivar as implicaturas e recriar, no texto de chega-
da, os efeitos cognitivos produzidos no contexto de partida. Desse
modo, a construção da semelhança interpretativa no processo de
PE estaria atrelada à recriação do conceito veiculado na língua de

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 352-374, set-dez, 2018 366


Marceli Aquino

partida e enunciados de origem dupla: texto fonte e texto traduzi-


do automaticamente. Entretanto, neste experimento, a maioria das
edições não apresentou soluções diretas para a compreensão de
wohl no contexto. Mesmo com a diferença entre as três versões da
tarefa, os participantes pareceram ter optado por manter o insumo
da máquina e não interpretar as PMs dentro do contexto específico
em que se encontravam em cada versão.
A homogeneidade na tomada de decisão pode ser explicada
por alguns motivos: falta de atenção às mudanças realizadas na
posição; falta de experiência em interpretar as PMs para outras
línguas; satisfação com o insumo da máquina. Ainda, é possível
questionar se em um processo tradutório este resultado fosse di-
ferente, já que, nos protocolos alguns participantes comentaram
que se a tradução fosse feita inteiramente por eles as decisões
tradutórias seriam outras.
Todavia, no momento dos protocolos verbais, quando os par-
ticipantes tiveram acesso às três versões do texto fonte juntas, e
das edições que haviam feito, foi possível obter dados relevantes
com relação ao processamento e reflexão das tarefas. A realização
dos relatos permitiu comentários focados no significado, na depen-
dência do contexto e da posição para encontrar uma semelhança
interpretativa destes elementos no português.
Os dados dos relatos retrospectivos foram coletados após a
conclusão das tarefas de PE com o recurso da função replay7 do
Translog. O primeiro quadro introduz os principais temas apon-
tados pelos participantes sobre o processamento das AOI com a
PM wohl nas três versões dos textos. O segundo quadro resume,
em porcentagem, a diferença de respostas entre os participantes
alemães e brasileiros.

7
Com esta função os tradutores têm a oportunidade de visualizar todo
o processo que acabaram de realizar, para que pudessem fazer os seus
comentários se baseando naquilo que viam na tela.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 352-374, set-dez, 2018 367


A tradução da partícula modal wohl para o português: uma investigação...

Quadro 2: Temas principais mencionados no protocolo verbal (li-


vre e guiado) nas três tarefas.

Fonte: AQUINO (2016)

Quadro 3: Frequência dos temas principais mencionados no proto-


colo verbal (livre e guiado) nas três tarefas

Fonte: AQUINO (2016)

Durante as verbalizações os participantes fizeram alusão aos


problemas de acessibilidade contextual da informação veiculada
pelas tarefas, oferecendo indicações sobre as decisões tradutórias e
o processamento da PM wohl em diferentes posições. Ainda que os
temas fossem recorrentes em ambos os grupos, o tipo de informa-

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 352-374, set-dez, 2018 368


Marceli Aquino

ção oferecida pelos participantes foi bastante distinto, especialmen-


te acerca das funções comunicativas de wohl, tanto para o TF em
alemão, como para a interpretação para o português.
Abaixo podemos examinar alguns exemplos de relatos com re-
lação ao processamento de wohl:

P01_(B): “O significado de wohl não é claro para mim.


Aceitei a tradução e não alterei a ordem. Eu poderia tra-
duzir o primeiro provavelmente com segunda-feira. Com-
parando as três versões na tela consigo ver a diferença que
deveria ter feito”.

P04_(B): “Nas mudanças depende do que você quer focar


na frase. Dá uma ênfase diferente no tempo ou ação. É bas-
tante flexível e não atrapalha a compreensão”.

P15_(B): “Olha não percebi, mas muda mesmo dependendo


da posição. Usa wohl antes de Montag, dando a sensação
que é um final de semana e ele tem pressa, então vai acusar
na segunda. Para mim significa que ele vai fazer sim, sem
dúvida, vai acusar. Na terceira a atenção passa para o caráter
do crime. Acho que as três versões são diferentes, mas com
uma diferença bem pequena para quem não é nativo”.

Como é possível observar, os participantes brasileiros comenta-


ram sobre a função de wohl dependendo da sua colocação na frase.
Eles refletiram sobre suas decisões tradutórias no processamento
do texto, buscando efeitos contextuais, mesmo que depois da reali-
zação da tarefa. Segundo os dados registrados no protocolo, muitos
alemães não viram a necessidade de processar wohl diferentemente
dependendo da posição na oração, no entanto, não justificaram a
sua interpretação. A explicação mais recorrente foi a impossibi-
lidade de traduzir as PMs para o português, por isso aceitaram o
insumo da máquina ou omitiram wohl da frase:

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 352-374, set-dez, 2018 369


A tradução da partícula modal wohl para o português: uma investigação...

P03_(A): “Para mim a posição de wohl não muda nada em


português, fica igual”.

P09_(A): “A terceira versão é quase igual a primeira, só


me perguntei se provavelmente seria a melhor tradução,
mas não sabia então deixei. Em português eu acho que a
tradução não tem diferença no significado”.

P14_(A): “A tradução como provavelmente me ajudou.


Estando provavelmente não tem diferença na tradução a
ordem”.

Como discutimos anteriormente, estes resultados foram contra


as expectativas iniciais deste trabalho, pois, como a implicatura das
PMs faz parte do ambiente cognitivo dos nativos, esperava-se que
as edições e comentários buscassem aumentar os níveis contextuais
para o texto alvo em português. No entanto, ainda que representan-
do esta informação para si, os alemães não conseguiram acessar o
ambiente cognitivo de leitores do texto de chegada. Mesmo sem a
tendência imediata de identificar a função das PMs, os brasileiros
foram capazes de interpretar a AOI do TF para o TA de maneira
relevante, ou seja, buscando semelhanças interpretativas capazes
de gerar efeitos contextuais.
As verbalizações corroborar os resultados de fixação ocular e
as edições feitas no Translog. Os alemães gastaram menor esforço
cognitivo para processar e compreender as PMs em alemão, não
obstante, apenas o grupo dos brasileiros buscou uma relação de
esforço efeito positivas. Como resultado, os alemães aceitaram a
opção da máquina seja por falta de opção, ou por falta de conheci-
mento prévio a respeito da língua e cultura brasileira.
A investigação deste experimento contribui com informações
relevantes e interessantes quanto ao processo da PM wohl de brasi-
leiros e alemães. Os resultados encontrados provocaram novas re-

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 352-374, set-dez, 2018 370


Marceli Aquino

flexões sobre a diferença entre estes grupos quanto à compreensão


e interpretação das PMs para o português.

3. Conclusão

Esta pesquisa se propôs, com base nos postulados relevantistas,


a investigar o esforço de processamento e decisões tradutórias du-
rante a PE da PM wohl em diferentes posições em uma mesma ora-
ção. Para tal fim, realizou-se um experimento em que a duração e
número de fixações oculares de participantes brasileiros e alemães
na AOI contendo a PM wohl puderam ser medidas.
Os relatos obtidos no protocolo verbal retrospectivo auxiliaram
a análise e compreensão dos dados de fixação ocular e decisões
tradutórias. Segundo os dados de fixação, os participantes alemães
despenderam um menor esforço cognitivo para processar a PM
wohl. No momento da reflexão sobre o seu processo de edição,
estes participantes justificaram apenas a recontextualização do tex-
to, não fazendo alusão aos problemas de acessibilidade contextual
da informação veiculada pelo texto de partida. Já os participantes
brasileiros demonstraram maior capacidade metarepresentativa ao
interpretarem as informações do ambiente cognitivo do texto de
partida contendo a PM, para o texto de chegada em português,
buscando efeitos contextuais adequados à tarefa que realizaram.
Logo, a relação de esforço e efeito apresentou resultados di-
ferenciados entre os dois grupos, o que indica que em ambientes
cognitivos diferenciados, as implicações na atribuição do mínimo
esforço cognitivo necessário, para alcançar um determinado efeito
contextual são distintas. A capacidade de metarepresentação de
cada indivíduo determina a quantidade de esforço a ser despendida
para a recriação da intenção comunicativa. Assim, embora a TR
postule que a compreensão do significado implica uma relação de
equilíbrio entre menor esforço para gerar o máximo possível de
efeitos cognitivos, constatamos que existem, de fato, outras possi-

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 352-374, set-dez, 2018 371


A tradução da partícula modal wohl para o português: uma investigação...

bilidades de interação. Essas possibilidades variam em função do


propósito comunicativo e dos indivíduos envolvidos no processo.
Com relação à investigação das PMs em diferentes posições,
pode-se verificar que, quando processadas adequadamente, além
do contexto, a colocação na oração influencia na busca de signi-
ficado e semelhança interpretativa para o português. De fato, as
modificações de posições da PM wohl ofereciam diferentes ênfases
na oração, influenciando diretamente na tradução para o português.
Não obstante, a função nuclear da partícula permanece, eviden-
ciando que o conhecimento das questões semânticas das PMs pode
solucionar possíveis dificuldades de compreensão, tradução e ensi-
no destes elementos.
Ainda, os resultados obtidos nesta pesquisa indicam que se in-
terpretadas de maneira eficaz, as PMs podem gerar um grande
efeito cognitivo, adquirindo a função de pistas comunicativas ne-
cessárias para a troca entre ambientes cognitivos. Pela complexida-
de do processo inferencial envolvendo as PMs e a importância para
a relação social e comunicativa em língua alemã, a sua análise deve
essencialmente levar em consideração diferentes aspectos, como o
contexto, a função comunicativa núcleo, as intenções e expectati-
vas dos interlocutores (AQUINO, 2017, p. 177).
Por fim, cabe salientar que este trabalho vem contribuir para a
pesquisa na área de estudos da tradução e linguística aplicada, uma
vez que apresenta uma nova perspectiva sobre o processamento e
função comunicativa da PM wohl. Ademais, faz-se premente enfa-
tizar a necessidade de ampliar o número de estudos empíricos com
foco nos processos cognitivos das PMs, especialmente a busca de
amostras de partículas e participantes maiores, além de comparar o
processamento da PE com o da tradução.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 352-374, set-dez, 2018 372


Marceli Aquino

Referências

ABRAHAM, Werner. Introduction. In: ABRAHAM, Werner (Ed.). Discourse


particles. Descriptive and theoretical investigations on the logical, syntactic,
and pragmatic properties of discourse particles in German. Amsterdam: John
Benjamins, 1991a. p. 1-10.

ABRAHAM, Werner. Discourse Particles in German: How does their illocutive


force come about? In: ABRAHAM, Werner (Ed.). Discourse particles. Descriptive
and theoretical investigations on the logical, syntactic, and pragmatic properties
of discourse particles in German. Amsterdam: Benjamins, 1991b. p. 203-252.

ABRAHAM, Werner. Sprecherdeixis und Merkmaldistributionsdifferential


deutscher Modalitätselemente. Deutsche Sprache: Zeitschrift für Theorie, Praxis,
Dokumentation, Berlin, v. 40, n. 1, p. 72-95, 2012.

AQUINO, Marceli. A força comunicativa das partículas modais alemãs no ensino


de línguas. Diálogo das Letras, Pau dos Ferros, v. 1, n. 2, p. 103-115, 2012.

AQUINO, Marceli. O esforço de processamento das partículas modais doch e


wohl em tarefas de pós-edição: uma investigação processual no par linguístico
alemão/português. Tese (Doutorado em Estudos Linguísticos) Faculdade de
Letras, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2016.

AQUINO, Marceli. O processamento das partículas modais alemãs em tarefas de


pós-edição. Pandaemonium Germanicum, São Paulo, v. 20, n. 30, p. 65-85, 2017.

AQUINO, Marceli. O questionário como ferramenta no ensino de partículas


modais alemãs. Pandaemonium Germanicum, São Paulo, v. 20, n. 30, p. 65-85,
2017.

GUTT, Ernst-August. Translation and relevance: cognition and context.


Cambridge: Blackwell, 1991.

GUTT, Ernst-August. Translation and relevance: cognition and context. 2nd ed.
Manchester: St. Jerome, 2000.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 352-374, set-dez, 2018 373


A tradução da partícula modal wohl para o português: uma investigação...

GUTT, Ernst-August. Challenges of metarepresentation to translation competence.


In: FLEISCHMANN, Eberhard; SCHMITT, Peter A.; WOTJAK, Gerd (Ed.).
Tagungsberichte der LICTRA (Leipzig International Conference on Translation
Studies). Tübingen: Stauffenberg, 2005. p. 77-89.

HELBIG, Gerhard. Lexikon deutscher Partikeln. 2. ed. Leipzig: Enzyklopädie,


1990.

LEISS, Elisabeth. Epistemicity, evidentiality, and Theory of Mind (ToM). In:


ABRAHAM, Werner; LEISS, Elisabeth (Ed.). Modality and theory of mind:
elements across languages. Berlin: De Gruyter, 2012. p. 37-66.

MÖLLERING, Martina. Teaching German modal particles: a corpus-based


approach. Language, Learning & Technology, v. 5, n. 3, p. 130-151, 2001.

SPERBER, Dan; WILSON, Deirdre. Relevance: communication and cognition.


2. ed. Oxford (UK): Blackwell, 1995.

SPERBER, Dan; WILSON, Deirdre. Teoria da Relevância. Linguagem em (Dis)


curso, Tubarão, v. 5, número especial, p. 221-268, 2005.

THURMAIR, Maria. Modalpartikeln und ihre Kombinationen. Tübingen:


Niemeyer, 1989. (Linguistische Arbeiten, 223).

ZIMMERMANN, Malte. Zum Wohl: Diskurspartikeln als Satztypmodifikatoren.


Linguistische Berichte 199, p. 253-286, 2004.

ZIMMERMANN, Malte. Contrastive Focus and Emphasis. Acta Linguistica


Hungarica 55, p. 347-360, 2008.

Recebido em: 02/04/2018


Aceito em: 07/07/2018
Publicado em setembro de 2018

Marceli Aquino. E-mail: marceli.c.aquino@gmail.com


ORCID: https://orcid.org/0000-0003-0518-7639

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 352-374, set-dez, 2018 374


http://dx.doi.org/10.5007/2175-7968.2018v38n3p375

EDUCAÇÃO CONTINUADA NO ACERVO TERMISUL:


UM ESTUDO DA LINGUAGEM CIENTÍFICA BASEADO
EM CORPUS E SUA APLICAÇÃO À DISCIPLINA DE
VERSÃO PARA O FRANCÊS

Sandra Dias Loguercio1


1
Universidade Federal do Rio Grande do Sul,
Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil

Resumo: Neste trabalho, descrevemos um projeto de educação continuada


destinado ao acadêmico de Letras, falante de português brasileiro, e sua
aplicação à disciplina de versão (tradução inversa) para o francês. Esse
projeto prevê uma etapa de pesquisa, em que investigamos a linguagem
científica com base no estudo de gêneros discursivos e em procedimentos
da Linguística de Corpus, e uma etapa de didatização do material e das
atividades investigativas para fins de aplicação. A pesquisa, centrada ini-
cialmente no resumo científico, apoia-se em um estudo comparativo nas
línguas que vai da análise textual à análise linguística com ferramenta de
análise automática dos corpora. Cada um desses estudos dá lugar a um
objeto de aprendizagem, organizado em sequências de atividades disponi-
bilizadas online. Tais atividades proporcionam ao estudante uma experi-
ência de aprendizagem pela pesquisa e contribuem, ao mesmo tempo, para
o enriquecimento dos dados da mesma. Quanto aos resultados didáticos,
percebe-se, por um lado, um ganho de autonomia do estudante relativo à
aprendizagem linguística e, por outro, o desenvolvimento de uma visão
crítica sobre a produção de seus próprios textos, duas subcompetências
essenciais para a aquisição da competência tradutória.
Palavras-chave: Ensino de versão (ou tradução inversa); Linguagem
científica; Linguística de corpus.

Esta obra utiliza uma licença Creative Commons CC BY:


https://creativecommons.org/lice
Sandra Dias Loguercio

CONTINUING EDUCATION IN THE TERMISUL


ARQUIVES: A STUDY OF SCIENTIFIC LANGUAGE
BASED ON CORPUS AND ITS APPLICATION TO THE
SUBJECT OF TRANSLATION
(FROM PORTUGUESE TO FRENCH)

Abstract: This paper describes a project of continuing education, open


to Language students, who are Brazilian Portuguese speakers, and their
application to the subject of Translation (from Portuguese to French).
This project comprises a phase of research, in which we investigated
the scientific language based on the study of discursive genres and on
procedures of Corpus Linguistics, and a phase of didactization of material
and of investigative activities aiming at applying. The research, focusing
initially on scientific summary, is based on a contrastive study of the
languages, which covers textual analysis and linguistic analysis with a
tool for automatic analysis of corpora. Each one of these studies enables a
learning object, organized in sequences of activities available online. Such
activities provide for the student a learning experience through researching
and they also contribute to data enrichment and research improvement.
Concerning the didactic results, on one hand, students gain autonomy
when learning linguistics. On the other hand, they develop a critical view
on the production of their own texts. And those are two essential sub-
competencies for acquiring translation competence.
Keywords: Teaching of Translation; Scientific language; Corpus
linguistics.

1. Introdução

Se para aprender a comunicar-se em uma língua, é preciso pas-


sar pela vivência de diferentes situações de comunicação – sendo
seu funcionamento lexicogramatical, assim como todo o compor-
tamento que acompanha a interação verbal, adquirido em contex-
tos de uso precisos, e não desvinculado destes –, para aprender a
traduzir, entre outras coisas, é preciso poder vivenciar, de alguma
forma, as situações de comunicação nas quais se vai traduzir. Isso
não significa dizer que, para traduzir um texto de medicina, o tra-

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 375-398, set-dez, 2018 376


Educação continuada no acervo Termisul: um estudo da linguagem científica...

dutor tenha que se formar médico, ou virar filósofo para traduzir


filosofia. Mas ele terá certamente de passar por experiências que
lhe coloquem em contato com a comunicação que ocorre nesses
contextos, uma vez que a compreensão de sua forma, de suas con-
vencionalidades, passa necessariamente pela compreensão de por
que ela ocorre, quando, onde, entre quem, a partir de que outros
dizeres, etc. É a partir de tal pressuposto que parece se desenvolver
boa parte da pesquisa em Terminologia e do material de referência
destinado a tradutores (ou a profissionais de áreas afins, como re-
datores e revisores), bem como as que se desenvolvem em didática
para fins específicos (ESP, FOS, EFE...).
Em termos práticos, essas experiências podem ocorrer de manei-
ras diferentes: (1) podem ser veiculadas por uma aprendizagem ins-
titucional centrada em um âmbito específico, como vemos em cur-
sos de tradução especializados em uma dada área (tradução voltada
à área médica, tradução jurídica, etc.); (2) podem, diferentemente,
como parece ser mais comum nas formações universitárias de tra-
dução no Brasil, se darem por meio de uma prática pedagógica cen-
trada no processo, ou seja, que desenvolva, em diferentes esferas
de comunicação, competências relacionadas à “pesquisa” (análises
diversas, documentação, uso de corpus, etc.) e à construção de mé-
todos; (3) e podem ocorrer ainda por meio não-institucional, como
bem sabe o tradutor auto-didata. De todo modo, esses percursos
devem poder levar o futuro tradutor a vivenciar – mesmo que por
“trás da cena”, ou seja, como observador – situações de comunica-
ção, isso porque o texto, seu material concreto de trabalho:

é uma materialidade em que só são criados sentidos a par-


tir da discursivização, do uso de textos por sujeitos numa
situação concreta, esta sim a instância plasmadora da trans-
formação de frases em enunciados, sempre no âmbito dos
gêneros (formas típicas de organizar textos a partir de
discursos) e das esferas de atividade (o ambiente sócio-
histórico específico em que cada gênero se faz presente).
(SOBRAL, 2008, p. 58, grifo nosso)

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 375-398, set-dez, 2018 377


Sandra Dias Loguercio

Nosso projeto1 busca, desse modo, familiarizar o estudante de Le-


tras e sobretudo o do Bacharelado, que se formará tradutor, com a
linguagem científica tal como ela se manifesta em diferentes situações
de comunicação entre pares, falantes de línguas diversas, observadas
através do estudo de um gênero discursivo em uma dada esfera de
atividade. Iniciamos esse trabalho com o estudo do resumo de artigo
científico na área das ciências da linguagem de modo comparativo em
português, espanhol e francês, a fim de responder a duas demandas
mais imediatas de nosso estudante a um só tempo: primeira, com-
preender e produzir resumos em português e na língua estrangeira
(LE) estudada de sua área de especialidade, pois embora imerso no
universo acadêmico, o graduando de Letras tem um contato ainda
incipiente com esse tipo de material2, sobretudo em outras línguas;
e segunda, verter do português para a LE resumos científicos, um
dos trabalhos mais solicitados em nosso meio e com os quais muitos
bacharelandos em Letras iniciam sua experiência profissional.
Para a pesquisa do gênero mencionado, de caráter descritivo
e comparativo, partimos do léxico, ou mais precisamente da ob-
servação do aspecto lexicogramatical dos textos, o que engloba
colocações, fraseologias, e todo tipo de combinatória lexical cuja
(relativa) fixidez é verificada pela frequência de uso com base em
procedimentos da Linguística de Corpus (LdC) (BERBER, 2000,
2003). Esse estudo não pode deixar de passar, porém, em nossa
concepção, por uma análise da estrutura interna do texto3 e de suas

1
O projeto mencionado aqui é fruto de um trabalho coletivo realizado por
integrantes da equipe do TERMISUL. Desde 2011, é coordenado por mim e
por minha colega Cleci Regina Bevilacqua, ganhando a parceria, em 2014, das
professoras Anna Maria Becker Maciel, Cristiane Krause Kilian e Denise Regina
de Sales. Além de nossas colegas, contamos com a contribuição de inúmeros
bolsistas (SEAD, PIBIC e voluntários) ao longo desses anos.
2
É preciso lembrar que tanto a aquisição dessa linguagem quanto as competên-
cias de leitura e produção desse tipo de texto, seja em L1 como em L2, próprio
ao ambiente acadêmico e científico, se dão gradualmente e são aperfeiçoadas ao
longo de uma vida, como todo conhecimento que envolve saberes e habilidades.
3
De acordo com Berber (2003), a relação entre o uso do léxico e as divisões in-
ternas de um texto oferecem resultados pouco expressivos, dada a complexidade

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 375-398, set-dez, 2018 378


Educação continuada no acervo Termisul: um estudo da linguagem científica...

unidades funcionais (que são da ordem do conteúdo e da intenção


comunicativa), que agem como uma instrução de leitura. Essa in-
vestigação nos permite identificar padrões de uso da língua em
um dado gênero, produzido em uma determinada área, e interessa
sobremaneira ao estudo contrastivo entre as línguas, cuja manifes-
tação nos textos recorre naturalmente a modos de expressão dis-
tintos, próprios a cada cultura discursiva. A partir dos resultados
obtidos e da metodologia empregada, passamos à etapa de didatiza-
ção do material, isto é, à construção dos objetos de aprendizagem4
(OA), disponibilizados gratuitamente online na página do grupo
TERMISUL, em “Educação Continuada”5.
Esse trabalho será descrito e ilustrado aqui por meio do estudo
dos pares de língua português/francês e sua aplicação à disciplina
de Versão para o Francês II (oferecida no 7° semestre do curso de
Letras – Bacharelado do Instituto de Letras, Universidade Federal
do Rio Grande do Sul), de modo que se vejam mais detalhadamen-
te: os procedimentos metodológicos empregados, os resultados do
levantamento e da análise realizados previamente, a proposta do
OA (são 2, nesse caso) e, por fim, exemplos da aplicação realizada
e seus efeitos para a formação dos futuros tradutores. Antes de pas-

da constituição textual (feita de sobreposições, paralelismos, interrupções, reto-


madas, etc.). No entanto, podemos pensar igualmente que, primeiro, há gêneros
de estrutura mais fixa do que outros (e, nesse sentido, o estabelecimento dessa
relação será produtivo para sua descrição) e, segundo, as unidades funcionais,
relacionadas ao tipo de conteúdo e às intenções de comunicação, podem não se
organizar da mesma maneira em textos de um mesmo gênero e campo discursivo,
mas sua presença também o definem, pois são a expressão de uma prática social.
4
A Secretaria de Educação a Distância da UFRGS, que financia em nossa insti-
tuição, entre outros, a construção de objetos de aprendizagem, os definem como
“recursos digitais voltados ao uso educacional”, produzidos na forma de módulos
e apresentados em vários formatos, como vídeos, hipertextos, animações, simula-
ções, etc. (cf. Edital UFRGS EAD 19, 2014). Para uma definição mais detalhada,
ver Leffa, 2006.
5
Os OAs podem ser acessados pelo endereço eletrônico www.ufrgs.br/termisul.
Disponíveis desde 2012, eles passam atualmente (desde 2017) por uma reformula-
ção, realizada na página do Grupo de Pesquisa. Mas mantêm, de todo modo, suas
principais características e finalidades.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 375-398, set-dez, 2018 379


Sandra Dias Loguercio

sar a essas seções, porém, algumas palavras se fazem necessárias


sobre gêneros e LdC.

2. A noção de gênero discursivo e as contribuições da


Linguistica de Corpus para o estudo do gênero e seu
ensino-aprendizagem

É fácil compreender por que a noção de gênero discursivo,


seja como objeto ou como base para a análise, ganha relevo nos
trabalhos antes mencionados, relativos à descrição da linguagem
especializada ou ao ensino de línguas. Os gêneros do discurso,
definidos por Bakthin (1979/2011, p.262) como “tipos relativa-
mente estáveis de enunciados” (grifo do original) que se tornam
característicos de esferas de uso da língua (espaços e comunida-
des discursivas), são facilmente identificados pelos interlocutores
e imediatamente relacionados a eventos comunicativos, quer di-
zer: um cardápio será sempre associado à escolha de pratos em
um restaurante, um parecer à avaliação de algo emitida por um
especialista para fins de aprovação ou refutação, um editorial ao
posicionamento sobre algum tema a ser destacado por um editor ou
redator-chefe, e assim por diante. Tal como “normas de conduta”
socializadas, que permeiam e organizam as relações sociais, os gê-
neros organizam as interações verbais, permitindo a comunicação
e a intercompreensão, o que é evidenciado tanto pelas expectativas
que criam no interlocutor quanto, ao contrário, pela surpresa que
provocam quando estas não são atendidas. Essa “imagem” que se
tem dos gêneros é apreendida espontaneamente em bloco, ou seja,
os níveis ou unidades de análise aos quais recorremos por questões
metodológicas – textual, lexical, gramatical... – não são, na reali-
dade, separáveis. O que se torna mais evidente quando tratamos de
aquisição e aprendizagem de línguas, pois como explica Bakthin:

As formas da língua e as formas típicas dos enunciados, isto


é, os gêneros do discurso, chegam à nossa experiência e à

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 375-398, set-dez, 2018 380


Educação continuada no acervo Termisul: um estudo da linguagem científica...

nossa consciência em conjunto e estreitamente vinculadas.


Aprender a falar significa aprender a construir enunciados
(porque falamos por enunciados e não por orações isoladas
e, evidentemente, não por palavras isoladas). Os gêneros
do discurso organizam o nosso discurso quase da mesma
forma que o organizam as formas gramaticais (sintáticas).
(BAKHTIN, 1979/2011, p. 283)

Apesar de fazerem parte das representações que mais comu-


mente as pessoas têm das situações de comunicação, sua sistema-
ticidade é, no entanto, relativa. Os gêneros se alteram conforme
a época, a área, e mesmo de um indivíduo para o outro dentro de
uma mesma comunidade discursiva (por isso falamos de estilo).
Assim como suas fronteiras são permeáveis, isto é, um gênero se
utiliza de outro gênero, se mescla com outros em função, grosso
modo, das intenções comunicativas. Daí o interesse, para sua des-
crição, de abordagens variadas e de metodologias comparativas a
fim de distinguir o conjunto de marcas que os caracterizam6, mas
também porque cada trabalho de descrição é norteado por objetivos
específicos, servindo, portanto, a finalidades distintas.
No caso do trabalho que descrevemos aqui, a abordagem por
meio de procedimentos orientados pela LdC7, contribui com o es-
tudo e o ensino-aprendizagem do gênero por três principais razões:
(1) ajuda a revelar a padronização da linguagem de maneira bem
menos intuitiva, fornecendo resultados que podem ser inclusive
comparados com os de análises manuais ou com a percepção que

6
Berber (2003) elenca vários estudos que seguem, principalmente, a linha de
pesquisa estabelecida por Swales (1990) e Bhatia (1993), assim como propostas
de contribuição da LdC para a análise dos gêneros. Vale destacar também os
trabalhos de Rastier e Malrieu (2001) e Malrieu (2004), não citados por Berber,
que unem a investigação dos gêneros com a abordagem da LdC.
7
Lembrando que a LdC se ocupa da “coleta e exploração de corpora, ou con-
juntos de dados linguísticos textuais que foram coletados criteriosamente com o
propósito de servirem para a pesquisa de uma língua ou variedade lingüística”
(Berber, 2000, p. 325)

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 375-398, set-dez, 2018 381


Sandra Dias Loguercio

os falantes têm dos modelos de interação, fazendo valer assim, em


nosso entender, a ideia de que os gêneros, enquanto uma catego-
rização linguística e didática, “permitem passar da comunicação
apreendida independentemente de uma dada língua às formas par-
ticulares que adquire em uma dada língua”8 (BEACCO, 2007,
p. 99, grifo nosso); (2) estimula a autonomia do aprendente, para
quem o estudo e a aprendizagem passam a ocorrer pela pesquisa,
pela investigação de hipóteses e o levantamento de dados, transfor-
mando a pedagogia da leitura e produção textual – e mais especifi-
camente a pedagogia da tradução – em uma “pedagogia científica”
(DOLLE, 2008); (3) a construção e a disponibilização de corpora,
prática corrente da LdC, consultáveis a qualquer momento do pro-
cesso de aprendizagem, favorecem o estabelecimento de relações
mais colaborativas e a circulação das informações entre os partici-
pantes, enriquecendo tanto os dados de pesquisa quanto os proces-
sos de ensino e aprendizagem.

3. Explorando o léxico e a fraseologia do resumo científico

O resumo científico (ou abstract) é um dos primeiros gêneros


acadêmicos com os quais todo estudante universitário, de qualquer
área do conhecimento, tem contato, seja pela leitura de documentos
indicada pelos professores, seja pela necessidade de produzi-lo, o
que ocorre em um volume cada vez maior e mais cedo no contexto
acadêmico brasileiro. Nem por isso, compreendê-lo e sobretudo
produzi-lo são tarefas evidentes.
Ora, trata-se de um tipo de comunicação extremamente nor-
matizado, próprio dos discursos acadêmico e científico (presente
em artigos, teses, dissertações, comunicações, etc.) e particular
ao universo da escrita (ele só existe no registro escrito, normativo
por natureza). Em razão da função que desempenha em meio às

8
Todas as citações escritas originalmente em francês são de responsabilidade da
autora deste artigo.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 375-398, set-dez, 2018 382


Educação continuada no acervo Termisul: um estudo da linguagem científica...

relações sociais e à comunicação entre pesquisadores, esse tipo de


resumo, dito “informativo” pelas normas da ABNT (NBR 6028,
2003), é definido por seu tipo de conteúdo e por seu propósito,
quais sejam: informar “ao leitor finalidades, metodologia, resul-
tados e conclusões do documento, de tal forma que este possa,
inclusive, dispensar a consulta ao original” (ABNT op cit.), ca-
racterísticas que aproximam os resumos produzidos em diferentes
áreas e constituem sua unidade comum ou, em outras palavras, os
constituem como gênero. Isso permite, sem dúvida, a investigação
de um padrão textual, que determina, em graus variados, diferen-
tes aspectos, que vão da estrutura organizacional a um repertório
lexical, passando por sua instauração discursiva (modo como os
sujeitos se apropriam do e se instauram no discurso).
Podemos pensar, desse modo, que há uma léxico-gramática
transdisciplinar, própria desse gênero, uma vez que “não remete
aos objetos científicos das áreas de especialidade, mas ao discurso
sobre os objetos e os procedimentos científicos” (TUTIN, 2007,
p. 6), chamada de “léxico metacientífico”. Assim como, segundo
a mesma autora, há elementos desse léxico (ou léxico-gramática)
que remetem à interação entre os interlocutores (autor e destinatá-
rios) e que dizem respeito ao “léxico metadiscursivo científico”.
Por exemplo, quando lemos este trabalho tem como objetivo ou o
método utilizado foi, somos lançados ao universo da ciência, ou
mais precisamente ao fazer científico; ao passo que, quando lemos
como veremos mais adiante ou conforme a tabela, somos instruídos
pelo autor a como ler seu texto. Mas essa segunda categoria, que
inclui outros tipos de elementos, como os articuladores discursi-
vos, as marcas de avaliação, as tomadas de posição, etc. (TUTIN,
op cit.), confunde-se facilmente com a primeira, tornando muitas
vezes difícil a delimitação de fronteiras. Por isso, preferimos tomá
-las como “indicativas”, definindo sua classificação de acordo com
a ênfase com a qual se trabalha. Diante de uma fraseologia como os
dados da pesquisa sugerem que, podemos, pela referência que ela
evoca, considerá-la como sendo do primeiro tipo, metacientífica;
se comparada, porém, com outras formas cumprindo essa mesma

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 375-398, set-dez, 2018 383


Sandra Dias Loguercio

função, tais como os resultados demonstram que ou os resultados


mostram a necessidade de, podemos analisá-la também da perspec-
tiva do metadiscurso9, isto é, de como o enunciador se posiciona
em relação ao dito e, em última análise, de como ele gostaria que
seu texto fosse lido10.
Por outro lado, como lembrado anteriormente, esse padrão ten-
de a ser relativo, adquirindo feições diferentes em função de diver-
sos fatores, entre eles, do campo de saber. No caso do trabalho que
propomos, e diferentemente de outros estudos na mesma linha11,
pareceu-nos fundamental desde o início separar as diferentes áreas
do conhecimento – resumos de linguística não se assemelham a
resumos de análises literárias –, cada ciência ou fazer acadêmico,
pela natureza de seu objeto e de sua práxis, utiliza-se de meios
de expressão próprios, em conformidade com seus propósitos e
com sua maneira de olhar a(s) realidade(s) que nos cerca(m). Tal
decisão norteou, desse modo, a constituição de nossos corpora,
limitando nosso estudo ao universo das ciências da linguagem e da
linguística aplicada.
Nossas escolhas têm igualmente consequências didáticas para
o ensino da tradução e, particularmente, pelo maior esforço cog-
nitivo que exige do tradutor, da tradução inversa. Em linhas ge-
rais, ao tomarem um texto como um representante de um gênero,
moldado socialmente e com propósitos comunicativos específicos
dentro de uma comunidade discursiva, elas permitem fazer a pas-
sagem da compreensão de seu funcionamento em uma cultura de
origem à produção de um novo texto que, respeitando a função
(ou funções) do texto de partida (no sentido de Nord, 1997/2008),

9
Essa análise também foi realizada pela equipe e inspirou a elaboração de um
terceiro OA, voltado ao estudo da modalização em resumos científicos (ver
LOGUERCIO; CERESER; BEVILACQUA, 2018).
10
Isso ocorre também quando utilizamos uma categorização mais fina, como
aquela proposta por Hyland (2008).
11
Outros trabalhos, tais como os de Coxhead (2000) e Cavalla (2008), consideram
a transdisciplinaridade como critério para o levantamento estatístico, trabalhando
com corpus formado por textos de diversas áreas.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 375-398, set-dez, 2018 384


Educação continuada no acervo Termisul: um estudo da linguagem científica...

responda às expectativas da cultura discursiva de chegada, apro-


ximando-se, em suma, de sua prototipicidade. O que, na prática
da sala de aula, é fundamentado pela investigação linguístico-
textual com base em corpus que coloca as línguas em contraste,
evitando que o aluno se detenha na forma de sua L1 e desenvolva,
de modo mais eficaz, a consciência das formas particulares que
essa comunicação adquire na L2.

3.1 Procedimentos metodológicos

Para um primeiro levantamento do léxico e da fraseologia dos


resumos, estudo mais voltado à identificação de um léxico meta-
científico, seguimos as seguintes etapas:

• constituição de corpora comparáveis de resumos coletados


de periódicos científicos nacionais, no caso do corpus em
português, e internacionais, no caso do corpus em francês
(e em espanhol), atingindo um volume de, respectivamente,
148 resumos (mais de 30 mil palavras) e 199 resumos (mais
de 35 mil palavras);
• leitura e análise da macroestrutura de 12 resumos, tirados
aleatoriamente dos corpora, a fim de observar sua organi-
zação e o tipo de conteúdo predominante, o que resultou
em um outro recorte, o das informações mais recorrentes
nos resumos em ambas as línguas, a saber: objeto de estu-
do, objetivos, metodologia (e/ou material) e resultados (e/
ou conclusão);
• a leitura realizada de alguns exemplares serviu igualmente
para identificarmos o léxico (palavras) que serviria de ín-
dice de busca em um primeiro momento, apontando para
palavras como trabalho, estudo, objetivo, análise/analisar,
tratar, etc., em português, e étude, contribution, objectif,
analyse(r), porter, etc., em francês;
• primeira busca com uso do programa AntConc (ANTHONY,
versão 3.2.4), mais especificamente da ferramenta concor-

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 375-398, set-dez, 2018 385


Sandra Dias Loguercio

danciador (concordance), o que resultou em um primeiro


levantamento das principais combinatórias lexicogramaticais
em cada língua associadas ao tipo de informação identificado
anteriormente;
• identificação das palavras mais recorrentes em cada corpus
através do listador de palavras (wordlist) e nova busca de
combinatórias com o uso do concordanciador e de agrupa-
mentos de palavras (clusters, com 4 elementos);
• associação entre o tipo de informação que organiza os resu-
mos (sua estrutura interna) com as combinatórias identifica-
das – em sua maioria fraseologias que introduzem um tipo
de conteúdo nas respectivas línguas.

3.2 Resultados do estudo

Cada etapa mencionada oferece dados que poderiam ser comen-


tados em razão de sua maior ou menor eficácia para os resultados
do estudo. Vamos nos deter, porém, aqui aos resultados obtidos
nas três últimas etapas por nos parecerem os mais relevantes para
a comparação entre as línguas.
A primeira constatação à qual chegamos a partir dos índices
selecionados em análise prévia de uma pequena amostra de textos
e o uso do AntConc, foi a de que nem sempre a palavra de busca
usada (ou sua classe gramatical) era a mais produtiva para fornecer
o tipo de combinatórias que buscávamos (relativas às informações
essenciais do resumo). Assim, se em português, palavras como es-
tudo e trabalho resultavam em fraseologias associadas à apresenta-
ção do tema ou dos objetivos de pesquisa, em francês substantivos
como étude ou contribution se mostraram de uso mais genérico,
integrando a construção de uma gama maior de fraseologias, com
funções variadas, sendo mais produtivo procurar por verbos, tais
como porter (port*), analyser (analys*), viser (vis*), etc.; do mes-
mo modo, outras estruturas, conjuntivas ou preposionais, também
forneciam uma riqueza maior de dados, dependendo do tipo de
informação, por exemplo: a fim de relacionado aos objetivos e a

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 375-398, set-dez, 2018 386


Educação continuada no acervo Termisul: um estudo da linguagem científica...

partir de à metodologia, em português, e pour cela e à partir de


introduzindo metodologia ou material, em francês. Muitos ajustes
foram feitos então a partir desse primeiro levantamento que resul-
tou, como ilustramos a seguir, em tabelas comparativas, organiza-
das pelo tipo de informação (ou função) dentro do resumo.

Tabela 1. Exemplos de dados extraídos a partir do primeiro levan-


tamento
Português Francês
Objeto/Tema Este trabalho aborda Cet(te) étude/contribution/
Este estudo investigou analyse/article porte sur
Este estudo trata de nous étudions/étudierons/
O presente estudo investiga Pour (pouvoir) étudier
Neste estudo se investiga Cette contribution se
concentre sur
Objetivos O objetivo deste trabalho é Notre contribution/étude/
Este trabalho tem como l’article vise à
objetivo Notre/cette étude a pour
Analisamos [S] a fim de objectif de
Este artigo reúne [S] a fim de L’objectif de cet article est de
Metodologia/ A pesquisa contou com Nous analysons
Material Esta pesquisa serve-se de Il s’appuie pour cela sur
o corpus foi constituído por Nous nous fonderons pour
investigamos [S] a partir de cela sur
Cette réflexion, menée à
partir de
Resultados/ Esse estudo nos leva a Cette/l’analyse permet de
Conclusão concluir que Nous montrons/On montre
As conclusões deste estudo que
sugerem On arrive à la conclusion que
Os resultados desse estudo Nous aboutissons à la
podem contribuir conclusion de
Os resultados deste estudo Nos résultats confirment/
indicam révèlent que
Fonte: a autora.

Essa primeira extração, feita por meio da busca de palavras pre-


viamente selecionadas e o uso do concordanciador, já fornece uma
ideia das diferenças entre o modo de expressão nas duas línguas,

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 375-398, set-dez, 2018 387


Sandra Dias Loguercio

trazendo informações valiosas, ainda que não exaustivas, sobre as


escolhas lexicais e as construções sintáticas preferenciais, além de
propiciar a formulação de hipóteses sobre o aspecto discursivo dos
textos. Em linhas gerais, observamos, por exemplo, a preferência
dos textos em português por formas mais impessoais, marcadas
pelo apagamento de pronomes e a preferência pela nominalização,
tal como vemos em: este trabalho, a pesquisa, os resultados, etc.
Em francês, diferentemente, há o uso bem mais marcado de prono-
mes pessoais, sobretudo da primeira pessoal plural (nous e outras
categorias correspondentes, como notre, nos), sendo o léxico mais
expressivo das funções analisadas marcado por verbos ou outras
categorias gramaticais.
Com os resultados da wordlist, que permitiu uma busca pelas
palavras lexicais mais frequentes em cada corpus e principalmente
o acréscimo de novos itens de busca, essa tabela foi enriquecida.
A impressão obtida, porém, no primeiro levantamento pode ser
confirmada nessa segunda análise apenas com a observação das 15
primeiras palavras lexicais (substantivos em sua maioria), como
vemos nesta segunda tabela.

Tabela 2. Palavras lexicais mais frequentes em português e francês


21 126 língua 41 130 article
28 79 artigo 42 130 nous
29 73 análise 50 118 langue
30 73 ensino 58 90 analyse
31 67 trabalho 66 81 traduction
37 58 pesquisa 67 79 corpus
38 57 resultados 68 73 discours
40 52 estudo 72 69 société
41 51 objetivo 82 57 linguistiques
43 49 processo 83 57 écriture
44 48 aprendizagem 84 57 étude
45 48 línguas 86 56 française
47 46 dados 89 53 recherche
48 45 relação 90 53 travail
49 45 texto 92 52 textes
Fonte: a autora.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 375-398, set-dez, 2018 388


Educação continuada no acervo Termisul: um estudo da linguagem científica...

De um lado, vemos em português uma concentração de itens


que remetem, em princípio, ao léxico metacientífico (palavras des-
tacadas), de outro, em francês, eles aparecem em menor quantida-
de e com frequência mais variável, além da presença do pronome
pessoal nous – mantido na lista por seu interesse em termos compa-
rativos – com a mesma frequência da palavra article, reforçando a
primeira impressão. Vale observar que, em francês, a presença do
pronome é obrigatória para a construção da oração, diferentemente
do português. Todavia, quando observada a lista de palavras em
sua totalidade, poucas marcas verbais desse pronome são encontra-
das nos resumos de nossa língua. Esses dados não são conclusivos,
pois exigem um estudo mais detalhado com ênfase nesse aspecto,
mas trazem pistas para outras considerações acerca da configura-
ção dos resumos.
Além dessas pistas, a comparação por essa tabela mostra que
todas as palavras assinaladas em francês, por seu interesse para o
léxico pesquisado, apresentam uma equivalência em português; em
compensação, o contrário não se verifica (mais precisamente os
itens resultados, objetivo e dados não encontram correspondência
nas formas mais frequentes em língua francesa). O que já leva a
supor que outras formas linguísticas sejam privilegiadas para a ex-
pressão desse tipo de informação em francês.
O interesse maior desse estudo aparece, sem dúvida, quando
olhamos novamente para as combinações com base no levantamen-
to dos agrupamentos (ou clusters), sobretudo quando comparadas.
Assim, partindo das três primeiras palavras mais frequentes em
português e de seus equivalentes em francês, podemos observar as
seguintes preferências composionais:

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 375-398, set-dez, 2018 389


Sandra Dias Loguercio

Tabela 3. Composições em português e francês.

Português Francês
Este artigo tem como L’objectif de cet article est
objetivo (5x) de (4x)
artigo/article
O presente artigo tem como Le but/propos de cet article
objetivo (2x) est de (3x)
A análise dos dados mostr* *une analyse de la … (4x)
(3x)
análise/analyse
A análise dos dados revela/
confirm* (2x)
O objetivo deste trabalho é *les notes de travail (3x)
(4x)
trabalho/travail
Este trabalho tem o objetivo
de (3x)
* Agrupamentos que aparecem de modo bastante variável nos textos e não confi-
guram um padrão de fraseologia relativo ao léxico metacientífico. Fonte: a autora.

Percebemos com essa busca que: (1) em português, essas pa-


lavras integram de fato fraseologias metacientíficas, apontando
ora para os “objetivos” (no caso dos itens artigo e trabalho),
ora para a introdução de “resultados ou conclusões” (no caso de
análise); (2) em francês, o mesmo não ocorre, apenas o primeiro
item, article, integrando fraseologias frequentes relativas a esse
tipo de léxico, mais precisamente para introduzir os “objetivos”;
(3) preferências sintáticas são percebidas quando comparamos as
construções encontradas com as palavras artigo/article, revelan-
do o que é mais idiomático em cada língua; (4) finalmente, o uso
que é feito do léxico em cada língua, a exemplo do que consta-
tamos com a comparação de análise/analyse e trabalho/travail,
é distinto, não configurando-se, na prática, como equivalentes
tradutórios (funcionais) nesse caso.
Além dessas constatações, que apontam para novas buscas e/ou
percursos de pesquisa, outros dados, como preferências colocacio-
nais específicas em cada língua, podem ser explorados. Reunidos,
esses dados formam repertórios lexicais e fraseológicos nas duas
línguas que podem ser equiparados, não por sua forma, mas pela

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 375-398, set-dez, 2018 390


Educação continuada no acervo Termisul: um estudo da linguagem científica...

função que desempenham textualmente, servindo de auxílio no mo-


mento da redação de resumos e sobretudo de sua tradução.

3.3 Objetos de aprendizagem e exemplos de aplicação na


tradução inversa para o francês

Os OAs são fruto do estudo descrito e visam acima de tudo


colocar o estudante de tradução (ou usuário) na posição de “pesqui-
sador”, estimulando a investigação sobre a linguagem do gênero
resumo científico. Eles se organizam em duas unidades (corres-
pondentes aos OA3 e OA4 encontrados no site do TERMISUL, na
seção Educação Continuada) a serem realizadas, preferencialmen-
te, nessa ordem.
No OA3, busca-se familiarizar o usuário com o gênero em foco
a partir da observação de sua macroestrutura (ou estrutura interna),
da relação desta com a situação de comunicação da qual os resumos
resultam e com sua práxis, o que inclui o conhecimento de normas
para sua redação e o cotejo destas com resumos tais como eles se
apresentam de fato nas línguas estudadas. As atividades encami-
nham o usuário, ao final, à realização de uma tarefa de produção
textual, de maneira que possa colocar em prática o que observou e
sobretudo dar continuidade à reflexão acerca da configuração desse
gênero. São propostos assim 3 módulos:

• módulo 1: atividades de leitura e compreensão de resumos


científicos em português em que se solicita, entre outras ta-
refas, a leitura das normas da ABNT, a apreciação de resu-
mos selecionados e a verificação de sua adequação ou não às
normas, o estudo das marcas de sua organização interna e a
sistematização dessas informações;
• módulo 2: a mesma sequência de atividades realizadas no
módulo anterior é proposta para o estudo dos resumos em
L2, com a verificação das respectivas normas que regem sua
produção (as normas francesas no caso de resumos escritos
em francês);

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 375-398, set-dez, 2018 391


Sandra Dias Loguercio

• módulo 3: atividade de comparação entre as línguas quanto


às formulações indicativas das partes do resumo e produção
textual em LE a partir de conteúdos propostos.

Esse OA contribui, de maneira geral, para despertar no estu-


dante a consciência do que representa, em termos acadêmicos, um
resumo adequado às normas sociais vigentes em uma determinada
comunidade, suas implicações para a compreensão do leitor, a va-
lorização da pesquisa descrita e a contribuição para a (maior ou
menor) circulação do trabalho entre os pares, além de familiarizá
-lo com o gênero em análise.
O OA4 aprofunda esse estudo ao propor atividades sobre as
microestruturas (ou unidades funcionais) com o uso de ferramentas
de processamento automático da linguagem. As atividades se orga-
nizam da seguinte maneira:

• módulo 1: atividades visando apresentar a abordagem por


corpus e, mais especificamente, o programa AntConc (de
acesso gratuito), instruindo sobre o uso das principais ferra-
mentas (wordlist e concordance) e introduzindo o usuário à
investigação lexicológica;
• módulo 2: atividades centradas na investigação, por meio
do programa AntConc, de padrões lexicogramaticais na L2
e sua associação com as informações essenciais do resumo
(em que, em classe, cada aluno pode responsabilizar-se por
um aspecto, um tipo de dado, a fim de compartilharem os
resultados e cruzarem as informações obtidas);
• módulo 3: análise de resumos vertidos do português para a
L212 a fim de verificar sua adequação, refletir sobre even-
tuais problemas sobretudo de ordem idiomática e propor

12
Os resumos disponibilizados aqui foram extraídos do corpus em português,
vertidos automaticamente para as línguas (programa Reverso, disponível em
http://www.reverso.net/text_translation.aspx) e editados a fim de corrigir
eventuais problemas gramaticais apenas, mas não relativos à idiomaticidade.

Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº 3, p. 375-398, set-dez, 2018 392


Educação continuada no acervo Termisul: um estudo da linguagem científica...

reformulações fundamentadas nas análises realizadas nas


etapas anteriores;
• módulo 4: produção de um resumo em português com base
em um artigo da área estudada e versão para a LE.

Espera-se, a partir dessas atividades, desenvolver uma leitura


mais apurada em relação à forma que os textos adquirem nas dife-
rentes línguas, ao mesmo tempo em que se trabalham habilidades
de redação dentro de um contexto bem definido, com propósitos
comunicativos precisos. Esse trabalho, pensado para uma aplica-
ção a distância, torna-se sem dúvida mais rico e eficaz quando dis-
cutido em classe, situação em que os participantes são estimulados
a apresentarem os resultados de seu estudo e das tarefas realizadas,
justificando suas escolhas, questionando e opinando sobre o traba-
lho do colega e, desse modo, participando ativamente do processo
de leitura, escrita e reescrita textual que integra finalmente toda
prática tradutória.
Os resultados pedagógicos obtidos são provavelmente difíceis
de mensurar, pois são vistos sobretudo na postura adquirida pelo
estudante e representam antes de tudo o início de um processo de
aprendizagem que é sempre, no final das contas, individual. Al-
guns exemplos de reformulação e