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ILUSTRÍSSIMO(A) SENHOR(A) DOUTOR(A) DELEGADO(A) DE POLÍCIA

TITULAR DA DELEGACIA DE PROTEÇÃO AO IDOSO.

REPRESENTAÇÃO CRIMINAL

EDUARDO ANDRÉ MEDEIROS DE PAULA, brasileiro, solteiro,


advogado, portador da OAB/CE de n.º 18.289 e inscrito no CPF de n.º
527.832.273-04, residente e domiciliado na rua do Japonês, 350, Coité,
Eusébio/CE, vem à presença de Vossa Senhoria, com fundamento no artigo 5º
parágrafo 4.º do Código de Processo Penal, oferecer REPRESENTAÇÃO em
face de Fernando Cláudio Medeiros de Paula e Kamila Moreira Pinheiro,
brasileiros, em união estável, residentes e domiciliados na cidade do
Eusébio/CE, na Rua, Condomínio, casa, bairro, Ele Engenheiro Elétrico,
portador do RG de n.º e ela Advogada, inscrita na OAB/CE sob o n.º, pelos
motivos e fatos a seguir aduzidos, praticados em desfavor da sra. Norma
Elizabete Loureiro Medeiros, genitora do primeiro representado e sogra da
Segunda Representada:

DOS FATOS

A Lei n. 10.741/2003, mais conhecida como Estatuto do Idoso, visa à


garantia dos direitos das pessoas idosas. Além do estatuto, há, ainda, a Lei n.
8.842/1994, que dispõe sobre a Política Nacional do Idoso e a própria
Constituição Federal, que ampara os direitos às pessoas idosas.
Art. 229. Os pais têm o dever de assistir, criar e educar os
filhos menores, e os filhos maiores têm o dever de ajudar
e amparar os pais na velhice, carência ou enfermidade.
Art. 230. A família, a sociedade e o Estado têm o dever de
amparar as pessoas idosas, assegurando sua
participação na comunidade, defendendo sua dignidade e
bem-estar e garantindo-lhes o direito à vida.
§ 1.º Os programas de amparo aos idosos serão
executados preferencialmente em seus lares.
§ 2.º Aos maiores de sessenta e cinco anos é garantida a
gratuidade dos transportes coletivos urbanos.
Conforme o art. 2.º da Lei n. 8.842/1994 (Política Nacional do Idoso)
e o art. 1.º da Lei n. 10.741/2003 (Estatuto do Idoso), idoso seria a pessoa com
60 anos ou mais de idade. “Art. 1.º É instituído o Estatuto do Idoso, destinado a
regular os direitos assegurados às pessoas com idade igual ou superior a 60
(sessenta) anos”.

DA DELATIO CRIMINIS

Conforme estabelece o art. 6.º do Estatuto do Idoso, qualquer


pessoa poderá levar ao conhecimento das autoridades publicas as violações
ao Estatuto. Nesse sentido, como filho da Vítima, conjugando-se o artigo 3.º,
4.º e o 6.º do Estatuto, a mim não é dada outra conduta senão a de trazer ao
conhecimento desta i. Autoridade Policial as condutas típicas praticadas pelos
Autores em desfavor de pessoa idosa, com 71 anos de idade. Assim dispõe:
Art. 3.º É obrigação da família, da comunidade, da
sociedade e do Poder Público assegurar ao idoso, com
absoluta prioridade, a efetivação do direito à vida, à
saúde, à alimentação, à educação, à cultura, ao esporte,
ao lazer, ao trabalho, à cidadania, à liberdade, à
dignidade, ao respeito e à convivência familiar e
comunitária.
Art. 4.º Nenhum idoso será objeto de qualquer tipo de
negligência, discriminação, violência, crueldade ou
opressão, e todo atentado aos seus direitos, por ação
ou omissão será punido na forma da lei.
§ 1.º É dever de todos prevenir a ameaça ou violação aos
direitos do idoso.
§ 2.º As obrigações previstas nesta Lei não excluem da
prevenção outras decorrentes dos princípios por ela
adotados.

Art. 6.º do Estatuto dispõe o instituto da delatio criminis,


segundo o qual qualquer pessoa poderá levar ao
conhecimento das autoridades públicas qualquer forma de
violação ao Estatuto.
DO CONCURSO DE PESSOAS
O Código Penal Brasileiro, em seu artigo 29, não define
especificamente o concurso de pessoas, porém, afirma que “quem, de qualquer
modo, concorre para o crime incide nas penas a este cominadas, na medida de
sua culpabilidade”.
No caso apresentado o Autor Fernando Cláudio Medeiros de Paula
em unidade de desígnios com sua companheira a Advogada Kamila Moreira
Pinheiro, extorquiram e coagiram a Vítima a entregar-lhes R$ 70.000,00
setenta mil reais, sem justo motivo, obtendo estes proveito econômico em
detrimento da ruína de pessoa idosa.

Do Concurso de pessoas
Art. 29 - Quem, de qualquer modo, concorre para o crime
incide nas penas a este cominadas, na medida de sua
culpabilidade.
§ 1º - Se a participação for de menor importância, a pena
pode ser diminuída de um sexto a um terço.
§ 2º - Se algum dos concorrentes quis participar de crime
menos grave, ser-lhe-á aplicada a pena deste; essa pena
será aumentada até metade, na hipótese de ter sido
previsível o resultado mais grave.
Na doutrina, tem-se definido o concurso de agentes como a reunião
de duas ou mais pessoas, de forma consciente e voluntária, concorrendo ou
colaborando para o cometimento de certa infração penal.

DA AÇÃO PENAL
Art. 95. Os crimes definidos nesta Lei são de ação penal pública
incondicionada, não se lhes aplicando os arts. 181 e 182 do Código Penal.
O legislador deixou bem claro que todos os crimes previstos no
Estatuto são de Ação penal pública incondicionada.
No fim do artigo, ficou também excluída a imunidade absoluta (art.
181 do CP) e a relativa (art. 182 do CP), ou seja, qualquer crime praticado
contra o idoso, seja de caráter patrimonial ou não, com ou sem violência ou
grave ameaça, é de ação pública incondicionada.

DOS CRIMES
DA EXPOSIÇÃO A PERIGO A INTEGRIDADE E A SAÚDE PSÍQUICA DA
VÍTIMA CUMULADA COM A APROPRIAÇÃO DE BENS DANDO-LHES
APLICAÇÃO DIVERSA DA SUA FINALIDADE. Art. 99, 102 c/c 107 da LEI
N.º 10.741, DE 1º DE OUTUBRO DE 2003.

Art. 99. Expor a perigo a integridade e a saúde, física ou


psíquica, do idoso, submetendo-o a condições
desumanas ou degradantes ou privando-o de alimentos e
cuidados indispensáveis, quando obrigado a fazê-lo, ou
sujeitando-o a trabalho excessivo ou inadequado:
Pena – detenção de 2 (dois) meses a 1 (um) ano e
multa.
Art. 102. Apropriar-se de ou desviar bens, proventos,
pensão ou qualquer outro rendimento do idoso, dando-
lhes aplicação diversa da de sua finalidade:
Pena – reclusão de 1 (um) a 4 (quatro) anos e multa.
Esse tipo penal nos remete a um outro muito parecido no Código
Penal, que é a apropriação indébita, prevista no art. 168 do CP (“apropriar-se
de coisa alheia móvel, de que tem a posse ou a detenção”).
Apesar do tipo previsto no art. 102 não ser expresso no que se
refere à posse da coisa, não tem como se apropriar de algo sem que antes se
tenha a posse.
Mais uma vez devemos aplicar o princípio da especialidade e, no
caso da conduta de apropriação, devemos aplicar o delito previsto no estatuto.
Ainda com relação ao princípio da especialidade, o STJ considera
que o agente que desvia, de forma fraudulenta, valores da conta de pessoa
idosa, não cometerá o furto, mas sim o delito previsto nesse artigo.

Art. 107. Coagir, de qualquer modo, o idoso a doar,


contratar, testar ou outorgar procuração:
Pena – reclusão de 2 (dois) a 5 (cinco) anos.
O disposto no art. 107 é um crime formal, portanto, ocorrida a
coação sobre pessoa idosa, mesmo que não chegue a contratar ou doar, testar
ou outorgar a procuração, terá existido a consumação do crime.
A conduta dos Autores, em coautoria, se amolda ao tipo penal acima
descrito, uma vez que mediante coação e disseminação de temor levaram ao
Sra. Norma Elizabete Loureiro Medeiros a transferir para suas contas bancárias
valor aproximado de R$ 70.000,00 (setenta mil reais) valor este que é parte do
recebido pela venda do imóvel de propriedade da vítima.
Ressalte-se, ainda, que toda a negociata da venda do imóvel fora
realizada pela Representada Kamila Moreira Pinheiro, tendo esta contratado
corretor, confeccionado contrato e intermediado a comissão pela venda,
havendo fortes indícios de que o valor da comissão recebida pelo Corretor fora
repartido entre esse e os Autores.
Ao se apropriarem dos valores supramencionados causaram danos a
integridade psíquica da vítima, além de impossibilitar que ela adquira outro
imóvel para sua morada.

DA IMPOSSIBILIDADE DA APLICAÇÃO DE MEDIDAS


DESPENALIZADORAS
Veja que a lei afirma que será aplicado somente o rito previsto na Lei
n. 9.099/1995, não haverá a aplicação de nenhuma medida despenalizadora
prevista na lei.
Esse foi um assunto que chegou ao Supremo em uma Ação Direta
de Inconstitucionalidade (ADI n. 3096/DF). O entendimento da Corte foi que
esse dispositivo legal deve ser interpretado em favor do seu específico
destinatário – o próprio idoso – e não em favor de quem viole os direitos.
Com isso, os infratores não poderão ter acesso a benefícios
despenalizadores de direito material, como conciliação, transação penal,
composição civil de danos ou conversão da pena.
Somente se aplicam as normas estritamente processuais para que o
processo termine mais rapidamente, em benefício do idoso.

DO PEDIDO

Diante do exposto, praticaram, em tese, os crimes previstos nos art.


99, 102 e 107 da Lei n.º 10.741/2003 (Estatuto do Idoso), em concurso de
pessoas, art. 29 do Código Peal, sendo a conduta delitiva de ação pública
incondicionada, razão pela qual é oferecida a presente representação, a fim
de que se possa ser instaurado o inquérito policial e posteriormente oferecida a
denúncia pelo Ministério Público, promovendo assim a persecução penal contra
os acusados.

Termos em que
Pede deferimento.

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