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CURSO DE

MEDICINA DE FAMÍLIA E
COMUNIDADE
da Sociedade Brasileira de Medicina de Família e
Comunidade

Consultas terapêuticas,
linguagem, narrativa e resiliência:
fortalecendo a prática clínica do
médico de família e comunidade

Maria Inez Padula Anderson


Sintetizando nossos objetivos

1. Refletir sobre:
• os fatores envolvidos com o processo de saúde –
adoecimento das pessoas e como aumentar a
capacidade de percebê-los no cotidiano do trabalho.

2. Revisitar eixos estruturantes da prática clínica da MFC.

3. Abordar ferramentas clínicas no contexto Paradigma


da Integralidade Biopsicossocial, especialmente a
linguagem, a narrativa e a resiliência.
Paradigma da Integralidade Biopsicossocial e a Prática
Clínica da Medicina de Família e Comunidade e da Atenção
Primária
POR QUE É IMPORTANTE FALAR DISTO?
• Temas relativamente recentes (cerca de 40 anos)
• Desconhecidos até bem pouco tempo
• Causavam (e ainda causam) estranheza

E, muitas pessoas perguntam e se perguntam:


• Interessante, mas o que isto tem a ver com a parte clínica?
• Qual seria a “clínica” deste paradigma da complexidade
biopsicossocial?
• Existe? É cientifica? É factível? E os métodos?
• Como podemos fazer?
Problema “Genético” na Concepção do
Paradigma Biomédico

A lógica cartesiana:

• Conceber a mente como processo


cerebral separado ou independente do
corpo.

• Suposição de que seria possível


compreender a biologia do ser humano,
através do estudo das suas partes.

• Separadas das suas emoções, da sua


psique.
MAS HÁ UMA PROBLEMA “GENÉTICO” NA CONCEPÇÃO
DO PARADIGMA BIOMÉDICO

1596 - 1650
Medicina da doença e Medicina da Pessoa -
contrastes
Quais as necessidades e problemas de saúde
vivenciados na prática diária do MFC?
Quais as necessidades e problemas de saúde
vivenciados na prática diária do MFC?
Quais as necessidades e problemas de saúde na
prática diária do MFC?
Quais as necessidades e problemas de saúde
vivenciados na prática diária do MFC?
Fonte: modificado de Integralidade e Complexidade na Medicina de Família e Comunidade e na Atenção Primária à Saúde – Aspectos teóricos. Rodrigues RD e
Anderson MIP. In Tratado de Medicina de Família e Comunidade – organizadores Gustavo Gusso e José Mauro Ceratti Lopes. Ed Artmed, 2012
Sociedade - Nação

Cultura - Subcultura

Comunidade

Família

Duas pessoas

PESSOA
(EXPERIÊNCIA E COMPORTAMENTO)

Sistema nervoso

Órgãos /Sistema Orgânico

Tecidos

Células

Organelas

Moléculas

Átomos

Partículas Subatômicas
Engel G. The need for a new medical model: a
challenge for biomedicine. Science. 1977;196:129–136.
Câncer
Hipertensão Arterial Diabetes
Depressão
Obesidade
Alcoolismo Tabagismo Sedentarismo

Maus hábitos alimentares

RESPOSTA DISFUNCIONAL AO ESTRESSE


Ansiedade
Baixa autoestima Menosvalia
Mágoas
Exploração Desafetos Desesperança
Lutos
Traições
Falta de perspectiva Falta de afeto
Violência
Abusos
Desemprego Perdas
Competividade
Maus Tratos Problemas Familiares

Poluição Falta de Lazer Não pertencimento

Destruição meio ambiente Falta de Cultura Valores Sociais


A resposta disfuncional ao estresse crônico e o
adoecimento
• Pelo menos 60% das consultas médicas estão relacionadas aos
eventos estressantes da vida.
Rakel D, Shapiro D. Mind and body medicine. In: Rakel RE, Rakel DP. Text- book of family medicine. 6th ed. Philadelphia:
Saunders; 2002.

• O estresse crônico leva a um estágio permanente de utilização das


reservas energéticas, passando a exigir, para manter o equilíbrio
orgânico, mecanismos adaptativos disfuncionais.

• Esse ciclo permanece até que uma intervenção que possa


(re)significar ou modificar o estímulo/agente agressor seja
efetivada.
O Estresse e a Resiliência

• O estresse (entendido como desafio) e resiliência


(entendida como superação) modularam e modulam os
mecanismos adaptativos

As pessoas, famílias, comunidades que, em última análise,


permitem:
• o viver e o sobreviver;
• o estar mais saudável ou mais adoecido;
• o lidar com as dificuldades; e
• dar continuidade ao processo de desenvolvimento da vida.
Psiconeuroimunoendocrinologia – Base para compreensão do
Paradigma da Integralidade na Medicina
Meio Ambiente

Órgãos dos Sentidos

Córtex cerebral

Sistema Nervoso

Sistema Imune Sistema Endócrino

Respostas
O que fazer, então?

“O corpo como máquina” é substituído por uma nova


metáfora – a mente corporificada – e nossa nova
linguagem fala da mente-corpo, ou biomente, não o corpo
e a mente.

"Organismos vivos possuem características que máquinas


não possuem: crescimento, regeneração, cura, aprendizado,
auto-organização e autotranscendência.”

A medicina atinge seus maiores sucessos estimulando


estes processos naturais.
Ian Mcwhinney
The importance of being different: Transcending the mind-body fault line, Canadian Family Physician Le Medecin de
Famille Canadien, Vol 43: March- Mars 1997, pp 405 e 406
Mas, o que fazer?

• “O que faço com as informações dos aspectos


psicossociais obtidas a partir de uma consulta centrada
na pessoa?”

• “Consigo colher os dados, mas não sei o que fazer com


eles... ”

• “De que vai adiantar abordar os aspectos psicossociais


se a pessoa já tem uma doença orgânica instalada?”
Biológicos

Psicoafetivos Espirituais

Ambientais Socioculturais
Como fazer, então?

1. Não é a doença que deve ser explorada e abordada, e


sim o processo de adoecimento e seu modelo
explicativo
– Adoecimento é fenômeno complexo e intimamente ligados à
própria vida da pessoa, e suas inter-relações – da pessoa com ela
mesma, de sua vida familiar e sua dinâmica social.

2. Conhecer e utilizar ferramentas e métodos coerentes


com o paradigma biopsicossocioespiritual
– Caminho estratégico para abordar com mais eficácia e eficiência
as necessidades de saúde das pessoas, famílias e comunidades,
no âmbito dos cuidados primários).
MUDAR O CONTEÚDO DA CAIXA DE FERRAMENTAS

Há que aprender novas


formas de lidar com o
adoecimento humano.

E novas ferramentas para


propiciar uma abordagem
integral.

SAIR DA LÓGICA DE COMBATE PARA UMA OUTRA DE


(RE)CONSTRUÇÃO
Técnicas e Ferramentas para as consultas
terapêuticas no paradigma sistêmico
• Controle e Suporte Social • Fomentar a resiliência
• Empoderamento • Escuta ativa
• Propósito de viver • Narrativas e Metáforas
• Visão Geral da Vida • Desvelar eventos
• Perspectiva do Ciclo de estressores da vida
Vida • Formular Perguntas de
• Meditação Forma Adequada
• Exercícios • Registros da vida e
• Desenhos Imagering
• Relaxamento • Perdão
• Espiritualidade
• Círculo familiar
Adaptado de: Capítulo 8 do Tratado de Medicina de Familia e Comunidade, SBMFC/Artmed Ed. 2012
e/ou o Capítulo 10 da Ed. 2019
Competências para a Prática da Medicina
Biopsicossocial

• Diferentemente da prática da medicina cartesiana, a prática da


Medicina Biopsicossocial exige que o MFC desenvolva
competências no campo da abordagem psicoterapêutica.

• Vale dizer, todo médico, ainda que não se dê conta, ao


consultar pessoas estará necessariamente praticando certa
abordagem psicoterápica, tantas vezes realizada de maneira
aleatória e empírica, para não dizer, iatrogênica.
Competências no campo da abordagem
psicoterapêutica
“....por meio do que diz e do que não diz, do que faz e do
que não faz, do que expressa ou não expressa em sua
fisionomia, o médico está fazendo psicoterapia, boa ou
má, mas a estará praticando.”

Perestrello D. A medicina da pessoa. 5. ed. Rio de Janeiro: Atheneu; 2006.


Consultas Terapêuticas: Papel do Médico de
Família e Comunidade

• "O fármaco mais usado e o


menos conhecido no âmbito
da clínica é o próprio médico;
é urgente e fundamental
estudarmos as propriedades
e a farmacologia desse
medicamento. "

Balint M. O médico, seu paciente e a doença


RELAÇÃO MÉDICO-PESSOA

◆ Processo de interação,
indispensável para a
elaboração do diagnóstico
clínico – é em si mesmo
uma relação terapêutica.
Ricardo Donato
Base Comunicacional das Consultas
Terapêuticas – A linguagem
“O poder mágico das
palavras é que podem dar
vida ao que estava
enterrado no corpo”.
Rubem Alves

A linguagem é um processo mental de


manifestação do pensamento...

O fluxo e a articulação da
linguagem provém de estratos mais
profundos, não conscientes, como
o subconsciente e o inconsciente.
Bases das Consultas Terapêuticas
Escuta Ativa e Empática

A escuta ativa é mais que um ato.


É uma atitude que deve ser
assumida com o objetivo de
permitir e facilitar a expressão
verbal e não verbal.

Deve estar baseada no interesse


genuíno no outro, na empatia e no
acolhimento real do que se diz e do
que se expressa.

É assim, uma atitude primordial,


preliminar, terapêutica de per se.
Medicina Narrativa
Diálogo

As ideias não vivem na consciência


individual do homem. Mantendo-se
apenas nesta consciência, as ideias
degeneram e morrem.

Somente quando o indivíduo estabelece


relações dialógicas essenciais com as
ideias dos outros é que a ideias
começam a ter vida ...

para renovar suas expressões verbais,


para gerar novas idéias. (Bakthin)

Apud Bakhtin: Conceitos-chave Beth Brait (org.)


Base das Consultas Terapêuticas
Saber Fazer Boas Perguntas
PERGUNTAR
• Técnica de comunicação que objetiva obter e clarificar dados e
informações.

• As perguntas abertas (quem, o que, onde, quando, como), se


usam para GERAR INFORMAÇÕES.

• AS FECHADAS (às que somente cabe responder SIM ou NÃO),


servem para ajustar e clarificar afirmações e corroborar o
compromisso com algo.
Mas, para isso, temos que desenvolver a
competência de fazer boas perguntas

• Perguntas reflexivas são aquelas que têm a intenção de

facilitar a autoterapêutica no indivíduo.

• Estimulam a reflexão entre significados do

adoecimento e um sistema de crenças já

estabelecidos.
Resiliência: uma forma saudável de responder
aos eventos estressantes da vida
• Resistência face às adversidades;
• Capacidade de manter-se inteiro quando
submetido a grandes exigências e
pressões;
• Capacidade de aprender com as derrotas e
reconstituir-se, criativamente, ao
transformar os aspectos negativos em
novas oportunidades e em vantagens.

“... todos os sistemas complexos


adaptativos, em qualquer nível, são
sistemas resilientes.”

Boff L. - Resiliência e drama ecológico junho, 2007


A aliança terapêutica

“ O médico como o companheiro itinerante”


Victor Von Waisaker

Adaptado de Fernando Coppolilo – apresentação n


Congresso Brasileiro de Medicina de Familia
Comunidade, 201
Referências Bibliográficas
(além das citadas nos slides)

• Integralidade e modelo biopsicossocial na prática do médico de família e comunidade e na


Atenção Primária à Saúde. Anderson MIP e Rodrigues RD. In Tratado de Medicina de
Família e Comunidade – organizadores Gustavo Gusso e José Mauro Ceratti Lopes. Ed
Artmed, 2012
• Integralidade e Complexidade na Medicina de Família e Comunidade e na Atenção
Primária à Saúde – Aspectos teórico. Rodrigues RD e Anderson MIP. In Tratado de
Medicina de Família e Comunidade – organizadores Gustavo Gusso e José Mauro Ceratti
Lopes. Ed Artmed, 2012
• Integralidade e modelo biopsicossocial na prática do médico de família e comunidade e na
Atenção Primária à Saúde. Rodrigues RD e Anderson MIP. Promef. Ciclo 6, V3.
• Resiliência: descobrindo as próprias fortalezas. Melillo A, Suárez Ojeda EM e
colaboradores. Artmed, 2005
• Resiliência: Enfatizando a proteção dos adolescentes. Simone G. de Assis; Renata P.
Pesce; Joviana Q. Avanci. Ed Artmed, 2006
• A prática de psicoterapia em Medicina de Família e Comunidade - Fernandes CLC e
Falceto OG. Promef. Ciclo7, V4.
Grata

Maria Inez Padula Anderson

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