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O Milênio Apocalíptico
Autor: José Ildo Swartele de Mello
Introdução
Veremos agora uma interpretação de Apocalipse 20 de acordo com as regras da hermenêutica e àluz do conceito geral das Escrituras a respeito do tema.Primeiramente devemos levar em conta o estilo literário, pois a literatura apocalíptica é repleta defiguras de linguagem que servem como representações simbólicas daquilo que se quer ensinar. Nãoé sábio ignorar a natureza do livro e passar a interpretar tudo de maneira literal. Uma interpretaçãoliteral de Apocalipse levou o fundador das Testemunhas de Jeová a conclusão de que apenas144.000 pessoas seriam salvas e iriam para o céu.A pergunta chave para a hermenêutica do Apocalipse não é: "O que é?", mas, sim, "O quesignifica?". Por exemplo: O que significam as dezenas de referências numéricas, tais como, 7, 24,666, 144.000 e 1.000? Nem mesmo os mais literalistas pré-milenistas interpretam literalmentecoisas como o número da Besta, A Besta do Mar com sete cabeças e dez chifres (Ap 13), OsGafanhotos do Abismo (Ap 9) e cavalos (Ap 9).Outra regra hermenêutica é que as Escrituras interpretam as próprias Escrituras. Um texto clarolança luz sobre um texto mais obscuro. No caso em questão, por se tratar do tema do Reino de Deus,temos uma vasta gama de textos bíblicos que discorrem a respeito do assunto. Aliás, Jesus faloumais sobre o Reino de Deus do que sobre qualquer outro assunto. E é interessante notar também queJesus jamais tenha feito menção a um reinado milenar na Terra após Sua Segunda Vinda. O maisplausível é que a visão registrada no Capítulo 20 de Apocalipse seja um retrato do ensino claro deCristo registrado em todos os Evangelhos e não algo contraditório.É muito importante também levar em consideração o contexto em que o Livro foi escrito. Tudoindica que o Livro de Apocalipse tenha sido escrito por volta do ano 95, época em que a Igrejapadecia uma horrenda perseguição por parte do Imperador Domiciano. O número de mártires semultiplicava a cada dia. O livro foi escrito em um momento de muita dor e sofrimento paraconfortar e animar o coração dos crentes. Há várias menções aos mártires, que são vistos comoestando ao lado de Cristo, sendo consolados por Ele, cantando um cântico de vitória, recebendocoroas e reinando com Cristo. Eles não são uns mortos e derrotados. "Em todas estas coisas eles sãomais do que vencedores!" Eles vivem e reinam com Cristo!Precisamos também notar que o Livro de Apocalipse não é uma narrativa cronológica dos fatos.Antes, trata-se de uma série de visões entrelaçadas ou justapostas, como retratos de uma mesmahistória tirados de diversos ângulos diferentes de maneira a enriquecer a visão como um todo.O livro está dividido em sete seções paralelas e progressivas. O Apóstolo João, autor do Apocalipse,também escreveu o Evangelho de João e lá também fez uso do número sete para destacar certasverdades, no caso, para defender a divindade de Jesus, pois o Evangelho registra sete milagres deCristo e também sete vezes a expressão "Eu Sou". Então, Apocalipse, segue esta mesma linha,possuindo sete seções. Sendo que cada seção compreende o período que vai da primeira à segundavinda. Cada nova seção é mais clara em seu retrato do fim até chegarmos ao clímax! Primeira
 
Seção (1-3) - Os sete candeeiros; Segunda Seção (4-7) - Os sete selos; Terceira Seção (8-11) - Assete trombetas; Quarta Seção (12-14) - A trindade maligna; Quinta Seção (15-16) -As sete taças;Sexta Seção (17-19) - A derrota dos agentes do Dragão; e a Sétima Seção (20-22), que mostra oReinado de Cristo com as almas do santos no céu e não em um milênio na terra depois da segundavinda.Embora o capítulo 19 descreva a Segunda Vinda de Cristo, ele termina com uma descrição viva do juízo final. Os eventos descritos no Capítulo 20 não seguem os do capítulo 19 em ordemcronológica, assim como também a descrição do nascimento de Jesus que encontramos no capítulo12, de maneira alguma segue cronologicamente os eventos do juízo registrados no capítulo 11.Portanto, assim como o capítulo 11 termina com uma descrição do Juízo Final e o capítulo 12recomeça contando a história a partir do nascimento de Cristo, assim também, acontece com oscapítulos 19 e 20. Pois, o capítulo 20 começa descrevendo os eventos que marcaram a primeiravinda. Porque foi por ocasião da Primeira Vinda de Cristo que aconteceu o aprisionamento deSatanás (Mt 12.27-29; Jo 1.5; Mt 16.18; Mt 28.18) e seu lançamento no abismo (Lc 10.18; 2Pe 2.4 eJd 6).Jesus já iniciou o seu reinado ainda que isto não esteja visível para todos conforme bem expressa oautor de Hebreus quando diz: "o coroaste de glória e de honra; tudo sujeitaste debaixo dos seus pés.Ao lhe sujeitar todas as coisas, nada deixou que não lhe estivesse sujeito. Agora, porém, ainda nãovemos que todas as coisas lhe estejam sujeitas." São duas afirmações paradoxais, poisprimeiramente afirma de maneira categórica que todas as coisas estão sob o domínio de Cristo e, aseguir, confessa que não é possível ainda ver isto em termos concretos. Mas, uma coisa não nega aoutra, pois o reinado de Cristo é espiritual e também está em processo de expansão. Ainda que oautor de Hebreus não consiga enxergar todas as coisas sob o domínio de Cristo, ele não nega o fatode que Cristo já reina na era presente como o fazem os pré-milenistas. Isto tem a ver com ocaráter híbrido do Reino de Deus na era presente que é descrito por Jesus em termos de trigomisturado com joio (Mt 13). E também tem a ver com o caráter progressivo e paulatino da expansãodeste Reino como bem descrito na Parábola do Grão de Mostarda (Mt 13) e na revelação do Reinode Cristo registrada em Daniel 2.35.
A Primeira Vinda de Cristo amarrou Satanás
Começaremos, portanto, analisando os primeiros três versículos, que contam que o Dragão, Satanás,foi preso em correntes e lançado no abismo com o propósito de não mais enganar as nações. Jesusmesmo já havia dito que o ato de expulsar demônios pelo Espírito de Deus era um sinal claro de que já era chegado o Reino dos Céus, pois o “valente”, uma clara referência a Satanás, havia sidoprimeiramente amarrado, no sentido de não poder mais impedir que sua casa fosse saqueada (Mt12.22-29).É interessante notar que o mesmo termo utilizado em Mateus 12 para descrever o aprisionamento dohomem valente é utilizado também em Apocalipse 20 para descrever o aprisionamento de Satanás,o termo grego dhshi. Este aprisionamento de Satanás deve ser entendido em termos da restrição deseu poder, no sentido de não poder continuar enganando as nações como vinha fazendo até aprimeira vinda de Cristo (Ap 20.3). Agora, uma vez amarrado, não pode impedir o avançar deCristo e de sua Igreja, de modo, que as portas do inferno não prevaleceram contra a Igreja (Mt16.18; 24.14; 28.18s; Mc 13.10, At 1.8). Sabemos que Jesus veio ao Mundo para desfazer as obras dodiabo (1Jo 3.8).
 
Jesus deixou claro que sua tarefa messiânica incluía mais do que evangelização, por envolvertambém a libertação dos cativos e oprimidos, com restauração da saúde e da justiça: “O Espírito doSenhor está sobre mim, pelo que me ungiu para evangelizar os pobres; enviou-me para proclamarlibertação aos cativos e restauração da vista aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos, eapregoar o ano aceitável do Senhor” (Lc 4.18-19).A Igreja, que é o Corpo de Cristo, segue na mesma missão sem poder ser definitivamente impedidapelas forças do inferno, pois sabemos que “as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mt16.18b) e João disse: “a luz resplandece nas trevas, e as trevas não prevaleceram contra ela” (Jo 1.5).Pois Jesus é o Rei e, como tal, tem todo poder no Céu e na Terra (Mt 28.18).Existe um outro texto que, a semelhança de Mateus 12.28s, também está num contexto de expulsãode demônios, trata-se de Lucas 10.17-24, que descreve a alegria que os discípulos estavamexperimentando por serem capazes de exercer autoridade sobre os demônios. E é interessante notarque aqui também Jesus menciona algo sobre a derrota e a perda de poder de Satanás, mas só que,em vez de dizer que Satanás está preso ou amarrado, ele o descreve como que caindo do céu, umsinal evidente de que seu poderio havia sido tremendamente abalado. E, para confirmar esta idéia,no v. 22, Jesus declara que tudo lhe foi entregue pelo Pai.João 12.31, 32 é outro texto que mostra como a queda e o aprisionamento de Satanás estãodiretamente associados à atividade missionária de Jesus e seus discípulos, pois a expulsão deSatanás está associada com o fato de que não somente judeus, mas também gentios de todas asnações estarem sendo atraídos a Cristo. O texto diz: "Chegou a hora de ser julgado este mundo;agora será expulso o príncipe deste mundo. Mas eu, quando for levantado da terra, atrairei todos amim"! Jesus não disse que tal expulsão de Satanás se daria após a sua Segunda Vinda, pelocontrário, ele é enfático no uso do adverbio "agora", ou seja, por ocasião da sua primeira vinda.A Bíblia diz que Satanás recebeu um golpe mortal com a primeira vinda de Cristo (Gn 3.15 e Cl215). A igreja cumpre sua missão na autoridade daquele que tem todo o poder no céu e na terra (Mt28.18)! Por esta razão é que as portas do inferno não prevalecerão contra ela (Mt 16.18). A igrejaserá bem sucedida no cumprimento de sua missão de testemunhar do Evangelho a todas as naçõesantes do fim (Mc 13), pois nos céus haverá uma multidão incontável de salvos de todos os povos,línguas e nações (Ap 6 e 7), de modo que "a terra se encherá do conhecimento do Senhor, como aságuas cobrem o mar"(Is 11.9).Para reforçar ainda mais esta interpretação, temos textos como 2 Pedro 2.4, que falam dos demônioscomo já tendo sido lançados no abismo: “Ora, se Deus não poupou anjos quando pecaram, antes,precipitando-os no inferno, os entregou a abismos de trevas, reservando-os para juízo” e Judas 6 falados demônios como já tendo sido presos e algemados sob trevas: “e a anjos, os que não guardaram oseu estado original, mas abandonaram o seu próprio domicílio, ele tem guardado sob trevas, emalgemas eternas, para o juízo do grande Dia”. Repare que é a mesma linguagem de Apocalipse 20 etrata da questão como algo passado e não futuro.Notar também que o próprio livro do Apocalipse fala deste abismo em outros capítulos: “Ela abriu opoço do abismo, e subiu fumaça do poço como fumaça de grande fornalha, e, com a fumaceira saídado poço, escureceu-se o sol e o ar” (Ap 9:2)... “e tinham sobre eles, como seu rei, o anjo do abismo,cujo nome em hebraico é Abadom, e em grego, Apoliom” (Ap 9:11)... “Quando tiverem, então,concluído o testemunho que devem dar, a besta que surge do abismo pelejará contra elas, e asvencerá, e matará” (Ap 11:7)... “A besta que viste, era e não é, está para emergir do abismo ecaminha para a destruição. E aqueles que habitam sobre a terra, cujos nomes não foram escritos no

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