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COPYRIGHT © 2022 by Brooke Mars.

É proibida a distribuição de toda ou qualquer parte desta história.


Os direitos da autora foram assegurados. Plágio é crime.
Esta é uma obra de ficção recomendada para maiores de dezoito anos.
Nomes, cidade onde a história majoritariamente se passa, personagens e
acontecimentos descritos aqui são frutos da imaginação da autora. Qualquer
semelhança com acontecimentos reais é mera coincidência.
Esta obra segue as regras da Nova Ortografia da Língua Portuguesa.
Capa: Brooke Mars
Diagramação: Brooke Mars
Revisão de texto: Carolina Veiga
Arte: Brooke Mars
Leitura Sensível: Nico Hoisel, Barbara de Oliveira e Mariana Dionísio.
Leitura Crítica: Ana Ferreira.
Ou clique aqui.
Oi, sou a autora.
Misbehave é um grande, grande livro, dividido em dois atos. Por esse
motivo, a contagem de capítulos continua de onde o primeiro ato parou
(ou seja, do capítulo trinta e seis em diante). Se está aqui, você deve ter
lido a primeira parte. Se não leu, você precisa ler o primeiro ato para
compreender o restante da história, ou será como ler um livro do meio
pro final… E ninguém faz isso, certo? Certo — eu espero.
Se você já leu o ato I, bem… Espero que goste de revisitar Brightgate.
Contudo, antes de mais nada, precisamos reiterar sobre algumas coisas.
Primeiro, como autora e como ser humano, é de minha responsabilidade
avisar que esse livro aborda conteúdos delicados e sensíveis, envolve sexo
explícito e é recomendado para maiores de dezoito anos. Garanto que não
haverá quaisquer romantizações de aborto, relação familiar conturbada,
relacionamento abusivo, ansiedade, drogas lícitas e ilícitas e distúrbios
alimentares, apesar desses tópicos serem sim trabalhados aqui. Como
são temas pesados e que podem servir de gatilho para algumas pessoas,
esse livro só foi publicado após uma leitura sensível minuciosa feita por
psicólogue. Além disso, houve leitura sensível para personagens
amarelos e pretos.
Boa parte desse livro discute o aborto, e não quero de modo algum impor
minhas opiniões quanto a isso, apenas gerar alguma reflexão e debate. Tentei
ser a mais imparcial possível, pesquisei e tive auxílio de uma pessoa
formada em psicologia para ter certeza de que tudo foi feito da melhor forma
possível. Mas continua não sendo um assunto tranquilo. Se esse tema te traz
desconforto, esse livro não é para você.
Outro ponto: há um momento desse livro em que alguns adolescentes tem
uma reação que eu altamente desaprovo quanto à ISTs (Infecções
sexualmente transmissíveis), por falta de informação e por imaturidade. É
sempre importante ressaltar como ISTs são pouco discutidas pela sociedade
e portanto tabus envoltos de estigmas, pré-conceitos (e preconceitos) e
desinformação — o que contribui para a formação de uma imagem negativa
daqueles que as possuem e para disseminação das próprias ISTs. Não quero
e nem incentivo esse cenário. Portanto, de modo geral, quero ressaltar aqui
que o tipo de comportamento que meus personagens tiveram na abordagem
desse assunto é parte de um contexto fictício que não deve ser, sob hipótese
alguma, reproduzido. E que eles evoluem e reconhecem o erro ao longo da
história.
Mais um ponto: essa parte do livro traz algumas questões sobre
universidade e ensino que são muito distintas entre Brasil e Austrália, como
processo de admissão e tempo de curso. Por exemplo, os cursos de Música
na Austrália podem durar dois, três ou no máximo uns quatro anos — mas
pode durar dois apenas e apenas isso. O de Moda pode durar três. Aqui no
Brasil, as coisas são bem diferentes. Nossos bacharelados tendem a durar
mais e doutorados tendem a durar menos do que na Austrália. Tenham isso
em mente.
Último aviso: JURO que o ato não é tão grande quanto parece. Os
capítulos extras ao fim do livro são grandes (glória a Deus, CarlsonBale),
então você provavelmente vai ter a impressão de que você está mais longe
do fim do que, de fato, está. Não se assuste.
Dito tudo isso, atente-se ao que estou aqui, humildemente, te repetindo e
pedindo:
Eu poderia dizer que esse livro não é clichê. Mas isso por si só seria
clichê.
Misbehave é um conto de fadas completamente deturpado. Esse é um livro
sobre uma rainha de um reino vazio e um cara que nunca quis ser rei. Talvez
seja como uma forte dose de uísque que faz seu sangue ferver, te fornece
prazer e te entorpece, mas no dia seguinte te deixa com uma baita dor de
cabeça. Difícil de engolir, mas apreciável, eu juro.
CONTUDO, se essa dose for forte demais para você, peço que não
insista na leitura. Se a dose te machucar, priorize a sua mente, depois o
livro. Ele é pesado algumas vezes. Se quiser prosseguir com a leitura,
leia no seu tempo, priorize você.
Por fim, cara pessoa do outro lado da telinha, todo amor do mundo para
você ainda seria pouco.
Ainda assim,
com muito amor,
Brooke
Para todo ser passível de erro e redenção.
E para a única pessoa que estava antes de mim e eu desperdicei a chance
de dizer isso.
Espero que esteja orgulhosa de onde estiver.
PS: pra você que está lendo isso, se pode dizer que ama alguém, diga.
Agora mesmo. A chance de nos declarar é um privilégio que só compreendemos quando
perdemos.
“Depois de mim, está você”
NAOMI CARLSON
DEDICATÓRIA
EPÍGRAFE
FLASHBACK — Naomi
36
37
38
39
40
FLASHBACK — Naomi
41.1
41.2
42
43
FLASHBACK — Damian
44
45
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47
48
49
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EPÍLOGO
EXTRA: Pequeno Dior
EXTRA: CarlsonBale
AGRADECIMENTOS
CONTINUAÇÃO
"Acho que descobri que eu não tenho nada.
Que eu não tenho nada pra mim nesse lugar"
Female Robbery, The Neighbourhood

Quando acordei na maca do hospital, a realidade foi como um soco.


As paredes brancas, a luz do sol da tarde pela janela se somando à luz do
quarto, a televisão ligada... O gosto amargo em minha boca e a claridade me
fizeram apertar os olhos e grunhir.
— Graças a Deus! — Lia praticamente voou até mim e eu pisquei
algumas vezes em direção ao teto. — Como se sente, meu amor?
A cólica não era maior que a cólica menstrual que eu estava acostumada a
sentir, mas eu acreditava que era pelo medicamento que tinham me dado
antes. Era desconfortável, de qualquer modo. Principalmente entre as minhas
pernas. É difícil narrar a dor contida e a sensação estranha que tomava a
minha intimidade e todo o meu canal interno. Uni as sobrancelhas pelo enjôo
leve, o cheiro de éter e material de limpeza.
A voz da minha mãe reverberou no quarto novamente, seus olhos escuros
focados nos meus, seu rosto tampando a minha visão. Ela estava vermelha e
em lágrimas, mas eu não conseguia processar o que dizia.
Na medida em que a sonolência perdia para a consciência, a sensação era
de ter meu coração cada vez mais esmagado. Tanto que eu me perguntava
como ele batia, doendo tanto a cada segundo. Minha visão embaçou
levemente pelas lágrimas quando a palavra começou a se repetir em minha
mente:
Aborto.
Puta que pariu...
Minha consciência pesou contra o travesseiro e eu me perguntei se tinha
feito o certo em ceder ao que o meu pai tinha dito que era o melhor. Me senti
fraca... Me senti suja. Não foi minha escolha. Ao menos não parecia. A
sensação de impotência e fraqueza tornava o nó na minha garganta
insuportável.
Eu tinha cedido? O que eu tinha feito? Céus, o que eu tinha feito?
Um soluço me escapou e isso espantou a minha mãe. E então outro e eu
apertei os olhos, tentando controlar a dor emocional que se tornava maior
que a física. Não, ela se somava à física e fazia cada pedacinho meu parecer
como o inferno. Meu choro irrompeu por todo o quarto.
— Amor...
— Sai daqui — implorei, sem saber se tinha sido compreendida, de tanto
que chorava. Eu soluçava como se estivesse prestes a morrer. Lia me
chamou algumas vezes, mas senti nojo da sua voz, nojo da família que eu
tinha, nojo de ser uma deles. — Por favor, sai daqui...
Talvez eu tivesse escolhido o aborto de qualquer forma. Pessoalmente,
não sou contra. Acho que eu teria feito isso. Mas, talvez, se o direito de
escolha tivesse realmente sido meu, se eu tivesse sentido que era meu...
talvez eu tivesse escolhido diferente. E esses "talvez" ainda me matam.
Essa incerteza é dolorosa. Ter sua decisão roubada de você vem junto
com uma sensação de culpa que, honestamente, é tão difícil de explicar
quanto de entender. Era como um tornado de sentimentos que girava em meu
peito e se distribuía por cada célula, rompendo tudo em caos.
Não sei o que teria feito se a escolha tivesse realmente sido minha. Não
sei se algum dia vou saber.
O engraçado — claro, estou sendo irônica aqui — é que a minha família
sempre foi contra o aborto. Meu pai sempre foi um daqueles tradicionais
fervorosos que colocava a culpa na mulher por engravidar e dizia que todos
tinham que lidar com a consequência... Mas não a sua filha. Não a garota que
tem seu sobrenome. Não uma Carlson.
Uma Carlson grávida aos dezesseis anos era inadmissível!
E minha mãe, um pouco religiosa, sempre acreditou que filhos eram um
presente divino. O aborto era pecado... Mas se Vincent dizia que não, então
foda-se, certo?
Eu não criminalizo o aborto, não culpo a mulher por seu direito de
escolha, mesmo assim me culpo pelo que escolheram por mim. Sei que não
soa racional, mas é a verdade. Porque eu cresci em um ambiente que
demonizava o ato que ele mesmo me fez fazer. Irônico, não é? Não. A
palavra certa não é ironia, é hipocrisia.
Nasci num lar de privilégios, regido por um hipócrita e uma mulher que
tinha perdido a sua voz em algum ponto — por amor ou sei lá ao certo o quê
— e que dispensava seus próprios valores em prol da "família". Nasci numa
casa de tijolos de falsidade e um frágil piso de mentiras, um teto de vidro
que poderia despencar sobre mim a qualquer momento e me cortar sem
piedade.
Eu nasci no inferno. Metade dos meus genes vieram de um demônio que eu
chamava de pai. E o mais absurdo disso tudo é que, por ter o seu sangue, eu
o amava. Eu o odiava mais do que o amava, bem certo, mas eu o amava.
Sabe quão bizarro é amar uma pessoa porque ela te deu a vida? Só por
isso? Você ama por obrigação e não consegue sair disso. Pateticamente, eu
tinha esperanças de que Vincent acordaria para a vida e me veria como filha,
me amaria.
Ele me pegava no colo quando eu era menor. E sorria. Ele sorria. Ele
brincava comigo e me exibia como o seu orgulho. Ele foi bom. Até que
deixou de ser. Sem motivo algum. Ou melhor, eu não sei o motivo. Se é que
existe justificativa, se é que existe um porquê. Talvez antes ele me poupasse
do seu caos porque eu era uma criança pequena e indefesa. Quando deixou
de me ver assim, tudo mudou. Ou talvez eu fosse pequena demais para
perceber os sinais de que ele sempre fora um monstro.
Toda vez que me olhava no espelho, lembrava que eu tinha seus olhos
azuis. Eu tinha traços que vieram dele e eu me pergunto se herdei alguns de
seus demônios, às vezes. Eu me pergunto se, me vendo diariamente, ele não
encontrava algum motivo para me amar de novo, como fazia quando eu era
mais nova. Se ele não amava ao menos a parte dele que estava em mim.
Que porra houve?
O que eu fiz para merecer seu desprezo?
Eu errei de algum modo?
— Naomi... — minha mãe tentou novamente.
— SAI DAQUI! — gritei, me sentando e tentando retirar o que parecia ser
soro do meu braço. Eu pedi para ser sedada porque achei que seria mais
fácil, mas não foi. Minha mãe tentou me segurar e me controlar, mas eu a
afastei. — SAI DAQUI!
Uma Madison, naquela época ainda morena, invadiu o ambiente,
preocupada, se aproximando e tentando me conter. Uma enfermeira a seguiu,
mas foi o meu pai que entrou em passos firmes em minha direção.
— Naomi, se acalme! — Vincent segurou os meus pulsos; ele segurou com
firmeza e eu vi a minha pele perder a cor e isso doeu. Seus olhos estavam
levemente arregalados, em choque. Eu trinquei os dentes, grunhindo. —
Naomi...
Quando vi, meus dedos atingiram a sua face.
Todos ficaram em mais absoluto silêncio.
As respirações podiam ser escutadas, na medida em que Vincent alisava
seu rosto vermelho. Meus pulsos tinham as marcas dos seus dedos e os meus
estavam gravados em sua face. Olho por olho, dente por dente, violência por
violência, injustificável.
— Me deixem sozinha — pedi, entredentes. Vincent trincou os dentes de
volta em resposta e grunhiu baixo, enfurecido, mas segurou a minha mãe, a
puxando para fora. Madison tentou falar algo e eu a cortei. — Madison.
Saia. — Fechei os olhos quando a cólica piorou.
A enfermeira se aproximou, pedindo calma. Eu não a expulsei. Deixei que
ela me ajudasse com seus dedos frios e tratamento meramente profissional.
Isso era o máximo de cuidado que eu receberia.

O medicamento rasgou por minha garganta, mesmo com a água. As cólicas


eram desconfortáveis e a dor entre as minhas pernas incomodava. O repouso
em casa era silencioso, entediante e infernal. Mas eu não chorava mais,
anestesiada.
Meu celular tocou algumas vezes e eu o coloquei no silencioso. Grunhi
com esforço para me levantar, depois de colocar o copo na bancada ao lado
da cama, e fui para o banheiro. Apoiei as mãos na pia e ergui os olhos para
as olheiras, a palidez e o meu corpo. Eu me sentia um pouco acima do meu
peso comum. O enjoo me deixou tonta, a boca se tornou amarga e quando eu
vi, estava debruçada perante a privada, colocando tudo para fora.
Eu sabia dos efeitos colaterais. Sangramento, enjoos, talvez febre... Sabia
de tudo. O que não tornou nada mais fácil.
Dei descarga, lavei a boca, escovei os dentes, molhei o rosto e o sequei,
mecanicamente, evitando me olhar no espelho. Os enjoos eram normais por
um certo período de tempo... O que eu não sabia era que eu tornaria o vômito
um hábito.
Meu celular piscou na minha cama mais uma vez e eu prendi os fios num
rabo de cavalo, me deitando novamente e me cobrindo com o edredom
quente. Tomando coragem, abri a mensagem de Derek.
Derek: Doente? Pensei em te levar chocolates em casa. O que está acontecendo?
Não o respondi. Nem a outra mensagem:
Derek: o que acha? Achei tão fofo...
A foto era de uma pequena camisa da seleção australiana e isso me fez
engolir em seco com força.
Derek era tão instável. Numa semana queria o aborto, na outra não. E
agora eu tinha interrompido a gravidez. Como eu contaria?
Derek: não me responde há dois dias, princesinha. Meus pais não querem me deixar ir aí. O
que houve?
Derek: Naomi?
Uma semana antes do aborto, Meyers tinha se arrependido de tudo, caído
aos meus pés, acariciado a minha barriga, dormido contra ela e eu permiti.
Bem mais por medo do que por amor. Porque ele não parecia bem. Ele
parecia fora de si.
— O que eu fiz? — Estranhei a minha voz ao pensar alto, ansiosa como
nunca.
O vi ficar online e xinguei, tentando escapar antes que ele percebesse que
eu também estava. Mas meu celular tocou. Era ele. Meu coração disparou
como nunca.
Eu precisava resolver isso.
— Alô? — forcei minha voz contra a garganta.
— Graças a Deus! Como está? O que houve? Foi algo com o bebê?
Precisa me responder, princesa. Estou preocupado! Sério, estou 100%
nessa agora, eu juro...
— Derek...
— O quê?
Mordi o lábio inferior com força e fitei o teto. Meus dedos repousavam
sobre um ventre vazio quando eu optei pela verdade nua e crua, de uma vez
só:
— Não tem mais bebê, Meyers.
O silêncio foi sepulcral. Quis checar a minha própria pulsação para saber
se eu estava viva, porque ela parecia ter parado junto com o tempo.
— Como assim? Foi natural? O que houve? — Havia desespero em sua
voz. — O que houve?
— Eu... Eu não... — minha voz vacilou e eu senti. De algum modo, eu
senti o exato momento em que Derek percebeu o que havia acontecido. Algo
mudou. — Meyers?
A ligação caiu e eu fui tomada por pavor. Levei as mãos ao rosto,
deixando o celular sobre a cama e tremendo por cada segundo. Chorei tão
alto que Madison me ouviu e entrou no quarto, se infiltrando debaixo dos
cobertores e me apertando contra si. Elise entrou logo depois e fez o mesmo.
A dor piorou quando ouvi meus pais brigarem no quarto ao lado, por minha
causa.
E eu chorei.
E chorei.
E chorei...
Para cacete.
Passaram-se exatamente cinco horas até que a madrugada chegasse e eu
escutasse um alarme contínuo e insuportável. Toda a casa despertou e eu
corri para a minha janela. Derek tinha se infiltrado no jardim e usava uma
espécie de barra de metal afiada para destruir o Impala preto e antigo,
completamente conservado, do meu pai, edição de colecionador.
Vincent desceu as escadas, gritando e xingando o garoto, depois tentando
controlá-lo. Porém Meyers não parava. Ele parecia fora de si,
completamente bêbado e possivelmente drogado.
— DEREK! — gritei da janela, mas ele não parou. Vesti-me rapidamente
com um roupão, ignorando as dores se intensificando no meu abdômen e
entre as pernas.
Madison me gritou e mamãe também, mas corri rapidamente. Saindo de
casa, parei apenas quando as mãos do meu pai me seguraram e me
impediram de me aproximar de Meyers.
— DEREK, PARA COM ISSO! — implorei, com toda a força dos meus
pulmões. — DEREK, VAMOS CONVERSAR, OK? CHEGA. PARA COM
ISSO!
— VOCÊ FEZ ISSO! — Ele parou e avançou alguns passos em minha
direção, mas meu pai se pôs entre nós dois. — VOCÊ FEZ ISSO! VOCÊ
FEZ ISSO! — A barra fez o metal do carro ranger em um arranhão e eu
fechei os olhos, levando as mãos à cabeça.
Era um pesadelo. Demorou pouco para um carro estacionar na entrada da
nossa casa e Elise permitir a entrada dos Meyers. Alguns vizinhos olhavam
de suas casas, pessoas assistiam o espetáculo de um garoto em surto que
quebrava o vidro do carro e gritava. Gritava coisas que jamais vou
conseguir esquecer. Nunca mesmo.
Elise me abraçou e afundou meu rosto contra seu ombro para esconder a
visão do meu namorado descontrolado. Os pais de Meyers se aproximaram
pedindo por calma e aos poucos ele cedeu. Derek cedeu e se acalmou, mas
eu não consegui encará-lo.
Eu não consegui. Eu apertei os olhos e torci para aquilo ser um pesadelo.
Meyers caiu em choro no chão e gritou por mim como uma criança,
desesperado. Eu me recusava a abrir os olhos, mas imaginava a sua mãe o
abraçando, conforme meu pai gritava com o dele, ordenando para tirarem o
garoto dali. O alarme do carro ainda soava, eu sentia a minha adolescência
morrer naquele segundo.
Quando abri os olhos, Derek realmente chorava nos braços da mãe. Seus
olhos focados nos meus, com tanta dor que eu senti na minha pele.
Meu pai mandou minha mãe me levar para dentro e ela obedeceu. Lembro
de receber um copo de água e um calmante forte demais para uma garota.
Recordo vagamente do alarme se silenciando. E então mais nada.
No dia seguinte, Madison se sentou à minha cama, sem saber como me
contar o que havia acontecido.
Derek teve um surto psicótico. Ele estava numa clínica psiquiátrica. Eu
não quis saber qual.
Sabe, não houve um fim claro para nós dois, um término propriamente
dito. Houve apenas a sua insanidade gritando para mim que não éramos
feitos para ficarmos juntos. Que ele estava além do meu controle. Que meu
amor era doentio, porque me levaria à destruição se eu continuasse
insistindo em salvá-lo.
Eu não era uma clínica de reabilitação para cuidar de Meyers. Torci que
ele tivesse seu tratamento e ficasse bem, porque ainda o amava. Contudo,
percebi, chegando ao fundo do poço, que precisava superá-lo. Ou morreria
soterrada em entulhos, monstros que não eram meus.
Perdida, eu não era capaz de salvar ninguém, principalmente Derek. Então
para mim, era o fim.
O problema é que uma parte de Meyers ficou comigo. Eu tornei seus
demônios meus por tempo demais. Meu corpo estava sobrecarregado com
suas doses tóxicas e sufocantes. Levaria tempo para recuperar o meu corpo,
a minha alma, a minha imagem.
Não houve um término claro entre nós dois. Houve apenas caos e
insanidade. E para mim, isso era um fim. Mas para Meyers...
Existe mais de um conceito para ansiedade, sabe?
A ansiedade pode ser vista como um sentimento normal. Como em
quantidades não esdrúxulas — ou seja, quando de acordo com o que estamos
vivendo. Por exemplo, quando você vai a um primeiro encontro com alguém
que gosta muito, é normal que sinta ansiedade, ou quando você está em uma
situação real de risco e seu corpo produz adrenalina para te manter em
alerta.
Esse conceito de ansiedade a coloca como parte da natureza humana. Algo
que por vezes é necessário para a nossa sobrevivência.
Antes esse fosse o problema. Porque o problema é a sensação monstruosa
que te puxa para debaixo da água mesmo quando você sabe que precisa
alcançar a superfície. E essa não é saudável.
A ansiedade, como transtorno, nada mais é que a sensação iminente de
morte ou de extremo perigo, quando na verdade não estamos nem perto de
correr um alto risco em vida. Pelo menos para mim ela funciona assim.
Usando as palavras da minha doce psicóloga: é como se sentir diante de um
leão esfomeado enquanto você encara uma adorável joaninha.
Quando isso acontece — o que é constante, no caso do transtorno —, a
descarga de adrenalina enorme te impede de agir normalmente e você sente o
seu coração rápido ou dolorido, a sua boca seca, seus dedos trêmulos... Ou
simplesmente se pergunta se está viva, checa seu próprio pulso como se
fosse possível não ter uma pulsação e passa a noite em claro. Você fica em
certo estado que se assemelha ao de uma presa diante de um predador sem a
menor necessidade.
E então precisa se lembrar de que tudo vai ficar bem, você não vai
morrer, precisa respirar. Mas é como eu disse: como estar debaixo da água,
consciente de que precisa chegar até a superfície, e não conseguir.
Acho que todo mundo sabe que respirar debaixo da água é inviável para
humanos, certo?
Pequena curiosidade: sabe o que acontece quando você fica tempo
demais sob a água, consciente de que precisa chegar à superfície, mas
simplesmente não consegue? Seu cérebro, sem oxigênio, demanda que
respire, mesmo na condição em que você se encontra. E você inspira, não
oxigênio, não ar puro... mas água. Daí seus belos e fortes pulmões eclodem.
Digamos que você esteja de frente para seu ex abusivo, que sustenta um
sorriso diabólico e completamente aterrorizante. Ele não vai te matar, ele
não é um leão, mas pode te fazer sentir que ele é um predador e você, uma
mera presa. Apesar de ter motivos para sentir ansiedade, ela te transborda. E
então vem o pânico, a sensação de que seus neurônios estão fritando uns aos
outros e tudo o que eu já disse…
Crise de Ansiedade.
— Naomi? — Damian me chamou, preocupado. Engoli em seco com
força, meus lábios tão secos que pareciam prestes a rachar. — Linda?
Em transe, eu conseguia ver o rosto de Bale como um borrão, mas o
nervosismo me preenchia em cada vaso, célula e órgão e eu não conseguia
responder.
Engoli em seco de novo, mas minhas cordas vocais estavam unidas em um
nó intenso e doloroso que tornava difícil respirar. Eu me sentia queimar por
dentro, completamente paralisada. Mas se o rosto de Damian Bale era um
borrão para mim, nítido como nunca era o passado que me encarava daquela
escadaria, por cima do ombro do meu namorado.
— Carlson! — Damian pôs seu rosto na frente do meu. Meus olhos ardiam
e eu passei a piscar, levando as mãos instintivamente aos seus braços,
passando a finalmente ofegar e reagir. Ele uniu as sobrancelhas ao máximo.
— Sweetheart, o que está havendo? Está pálida!
Aquilo não podia estar acontecendo.
Não, não, não... Não agora.
Derek foderia tudo. Tudo o que construí e reconstruí.
Tudo.
Damian se virou, acompanhando o meu olhar. Então seus olhos finalmente
cravaram-se nele: Meyers, que parecia saber quem Bale era, porque deixou
seu sorriso crescer.
Meu namorado ainda me observava enquanto eu tremia. Bale uniu as
sobrancelhas, confuso.
— Naomi... O que...? — Foi quando compreendeu. Bale olhou para
Derek, que virou o rosto quando Garreth o cumprimentou. Meu namorado
travou a mandíbula, engoliu em seco e voltou os olhos cinzas para mim. — É
ele?
Fechei os olhos, tentando respirar fundo. Contudo, a menção de um
movimento do meu namorado me deixou em pânico e eu apertei o braço de
Damian com força.
— É ele — Bale sussurrou com raiva. — Eu vi fotos desse filho da puta.
Não o reconheci de primeira, mas agora eu estou entendendo tudo. Naomi, é
o Derek, não é?
O "sim" não me escapava e eu apertei o braço dele com mais força, para
que não fizesse besteira. Minhas unhas arranhavam seu uniforme e Damian
buscava o meu olhar por uma resposta, fúria e preocupação expressas na
ruga entre suas sobrancelhas.
— Puta que pariu... — Mike parou ao nosso lado, boquiaberto. Eu
continuei parada, os dedos firmes se tornando brancos contra a pele do meu
namorado, mas meus olhos cravados no garoto da escada. Mike me chamou e
eu senti as lágrimas inundarem ainda mais os meus olhos. A voz de Graham
se tornou distante.
O filme entre mim e Derek passava pela minha cabeça e era de terror
psicológico intenso. Damian se pôs na minha frente e segurou o meu rosto
com as duas mãos, sussurrando que tudo ficaria bem, mas neguei com a
cabeça, lutando para não desabar na frente de todo mundo. Eu sentia os
olhares dos alunos se alternarem entre mim, Damian e Meyers. E fácil assim,
a ansiedade finalmente transbordou pelos meus olhos, como se eu me
afogasse de dentro para fora.
— Isso não pode estar acontecendo. — Recuei um passo e Damian
segurou a minha cintura com leveza. Minha mente formigava e queimava. Eu
não me sentia no controle. — Não pode, Damian, não... Não...
— Calma, sweetheart! — Eu afastei o seu toque, trêmula. Ouvi passos
rápidos atrás de mim e uma mão se pôs em minhas costas, sobre o blazer do
uniforme. Eu reconheci o perfume suave de jasmins.
— Droga... — o timbre assustado de Melissa fez meu coração doer, e eu
sufoquei engolindo os soluços de um choro que com certeza deixaria Meyers
radiante. — Naomi! — Encontrei seus olhos castanhos claros e me vi por
eles. Wayne reprimiu os lábios, provavelmente sem saber o que dizer ou
fazer. Seu polegar secou uma lágrima em minha bochecha, mas eu segurei o
seu pulso. — Carlson, calma, ok? — Meus dentes estavam trincados, a
minha visão cada vez mais embaçada, e eu respirava com dificuldades pelo
nariz, segurando Wayne com força demais.
Pisquei, liberando novamente algumas lágrimas. O gosto salgado em meus
lábios não vencia a sensação amarga em minha língua. Meu olhar caiu sobre
Meyers novamente e eu finalmente recuei.
Damian me chamou, Mel tentou me alcançar quando a afastei, mas dei as
costas e corri para o caminho oposto da escola, cada vez mais rápido. Como
a Naomi Carlson de quinze anos fazia quando Derek Meyers quebrava o seu
coraçãozinho idiota.
Correndo sem nem saber ao certo para onde, buscando por um lugar para
conseguir respirar e não me afogar na minha própria ansiedade.

Deixei a minha mochila cair. Afundei no chão daquele beco vazio, sobre a
calçada cinzenta. Cruzei os braços sobre os joelhos, apoiei a cabeça entre
eles e desabei. Permiti que todo o caos dentro de mim ecoasse para fora,
meus ombros tremendo e meus pulmões doendo a cada soluço que eu
liberava.
Ouvi os passos rápidos atrás de mim o caminho todo até o beco, assim
como escutei eles mais tímidos em minha direção. O perfume doce e
feminino foi a primeira coisa que senti. Em seguida, os dedos delicados em
meus braços, em carícias lentas.
Wayne suspirou, mexendo em meu cabelo agachada à minha frente. Me
confortou por longos e longos minutos.
— Respire fundo, meu amor — Mel sussurrou e eu tentei, eu realmente
tentei. — Preciso que se acalme, ok? Sei que é difícil, parece impossível,
mas eu preciso que me escute. — Tentei me concentrar em sua voz
preocupada, suave e doce. Assenti, ainda sem tirar o rosto dos joelhos. —
Inspire fundo. O máximo que conseguir. — Lutei para obedecer e a ouvi me
acompanhar. Sua mão quente continuava em minhas costas, o toque me
fazendo relaxar minimamente. — Agora expire, Robin... Isso...
Foram alguns longos segundos de inspiração e expiração guiada. Wayne
teve toda a paciência do mundo em me tranquilizar até que eu conseguisse
respirar melhor, sem me sentir queimar a cada molécula de oxigênio que
entrava em mim.
— Mel... — Ergui o rosto. Os olhos castanhos claros de Melissa se
prenderam nos meus com preocupação vívida. Ao redor das írises da cor de
um céu da tarde, havia o tom vermelho de quem segurava o choro. A empatia
que guiava Melissa era sempre tão evidente. Era como se ela tomasse parte
da minha dor para si e eu odiei isso. Voltei a chorar, tentando afastar as
lembranças de Derek sem sucesso algum.
Percebi a presença de quatro garotos próximos, mas a minha melhor amiga
fez um sinal com a cabeça e eles se afastaram. Mel se ajoelhou de vez no
chão e me abraçou, sua cabeça sobre meu ombro enquanto eu soluçava,
perdida.
Ela me envolveu pelo longo tempo em que eu desabei. Eu precisava
chorar, de verdade, precisava colocar tudo aquilo para fora. Melissa sabia
disso. Por vezes eu sentia um ou outro beijo em minha têmpora, como
promessas silenciosas de que eu sempre a teria por perto.
— Damian? — quis saber, baixo, onde ele estava.
— Pedi aos garotos que me deixassem lidar com você sozinha — ela
sussurrou, se afastando. Wayne ergueu meu rosto com as duas mãos e secou
as minhas lágrimas. Havia um pouco de rímel em minhas bochechas e Mel o
limpou. — Brandon, Ollie, Mike, Damian... Eles estão preocupados, acho
que nem entraram na escola.
— Ollie e Brandon?
— Eles apareceram quando você saiu correndo, você nem percebeu. —
Levei as mãos ao rosto, envergonhada. — Shh... Está tudo bem! Foi
completamente justificável, qualquer outra pessoa teria agido do mesmo
jeito ou pior...
— A escola inteira deve achar que eu sou louca — resmunguei e Wayne
negou. — Era ele, Mel, era ele... — Ela assentiu dessa vez. Apoiei minhas
costas numa parede atrás de mim, um tanto quanto enjoada. Minha cabeça
doía e eu estava exausta. — Porra, Wayne... Por quê?
— Bom, não faço ideia. Não sei por que esse... infeliz... voltaria. — Ela
pousou as mãos nos meus joelhos. — Mas ele não vai chegar perto de você,
Robin.
— Você sabe que essa é uma promessa impossível de cumprir.
— Impossível? Você tem um namorado irado, um amigo loiro louco e
super forte, um Oliver Zhang bom de soco, um Mike Graham tão inteligente
quanto doido e uma melhor amiga com unhas bem, bem afiadas! — Eu não
consegui rir, mas pela primeira vez, eu quis. Wayne bufou ao perceber o meu
desânimo e as lágrimas, que passaram a escorrer pelo meu rosto
silenciosamente, enquanto eu me esforçava para parar. Mel sentou ao meu
lado e balançou o ombro algumas vezes. — Vamos, deite a cabeça em mim.
Obedeci. Wayne repousou a sua cabeça na minha e entrelaçou os dedos
aos meus, acariciando-os sem ligar para o quão trêmulos ainda estavam.
— Se quiser ir para casa, Brandon pode te levar — ela sugeriu. E só
então eu processei a sua fala por completo.
— Caramba, estão perdendo aula por minha causa, não estão? — Vendo
minha aflição, ela apertou a minha mão com mais força.
— É um ótimo motivo. Como se sente agora? — Apenas suspirei. Mel
continuou a me acariciar com seu polegar em movimentos preguiçosos.
Umedeci meus lábios secos e Mel levou uma perna minha para cima de si.
— Que porra está fazendo, Wayne? — perguntei, baixo.
— Vamos! Como quando éramos crianças... — Melissa me fez bufar, mas
eu me sentei sobre seu colo.
Quando éramos menores e estávamos tristes, uma se sentava no colo da
outra e ficávamos abraçadas até qualquer dor passar. Então Mel fez isso: ela
me abraçou, como se eu ainda tivesse oito anos de idade.
— Me sinto um bebê — resmunguei.
— Você é o meu bebê!
Rolei os olhos e ela sorriu, porque eu finalmente consegui esboçar um
sorriso, deitando a cabeça em seu ombro, me rendendo ao carinho.
— Espero que não fique brava por isso..., mas pedi para o Brandon ligar
para Lia ou Elise. Você vai precisar de algum apoio em casa, não sei...
Talvez tia Lia venha perguntar para Hawkins como ele permitiu um aluno
como Meyers na escola na última unidade...
— Você ainda coloca fé demais nas capacidades maternais de Lia Carlson
— a interrompi, baixo. Mel reprimiu os lábios e eu sabia que estava triste.
— Não estou brava contigo, eu teria ligado para a sua mãe se você estivesse
mal. Mas o que a minha mãe pode fazer? Conversar com Hawkins não vai
adiantar nada e Lia está preocupada com o papai e outras quinhentas coisas
antes de mim.
— Elise pode ajudar.
— Sim, Elise pode ajudar. Ela com certeza vai. — Sorri com sinceridade.
Elise provavelmente me prepararia bons chocolates quentes e até mesmo
maratonaria qualquer série comigo para me fazer sentir melhor. Madison me
faria dormir na sua cama e me protegeria de qualquer pesadelo. Eu não
ficaria tão sozinha em casa.
— Pode dormir comigo hoje. Ou eu posso dormir no seu quarto. Podemos
estudar para o teste de geografia juntas.
— Isso seria bom. Muito bom. — Agradeci com um sorriso, mas não tão
forte quanto eu gostaria. Voltei a deitar a cabeça no ombro de Wayne e ela
brincou com os meus dedos enquanto eu pensava.
Por que Derek voltaria? Por que naquele momento?
O que ele faria em seguida? Ele contaria para todo mundo sobre o bebê?
Tentaria se aproximar?
Deixei o suspiro entalado em minha garganta escapar, buscando um pouco
da calmaria da Mel, tentando me concentrar na minha própria respiração e
não voltar a surtar. Era isso o que Derek queria, não? Me desconcertar? E eu
gastei tanta energia me mantendo firme, eu não poderia dá-lo o gostinho de
me ver fraquejar tão facilmente. Precisava me acalmar.
Alguns passos ecoaram e eu forcei meu olhar para a saída do beco.
Damian estava ali. Ele sorriu fraco quando o vi. Brandon estava logo atrás, o
celular em seu ouvido. Mike, ao seu lado, digitava alguma mensagem
enquanto conversava com Ollie. Os cabelos lisos e escuros de Zhang
estavam em um pequeno coque alto.
— Ei, amor — cumprimentei meu namorado baixinho, envergonhada. Bale
se aproximou ainda mais, um passo lento de cada vez, até se agachar perante
nós duas. — Desculpa pelo surto... — Ri, sem humor.
Damie uniu os lábios à minha testa e sorriu com leveza, acariciando meu
rosto. O calor em minha pele logo se propagou para o resto do meu corpo e
eu me senti bem melhor. Ter Bale e Mel comigo naquele momento, tão
próximos, era saber que eu ficaria bem. Digo, Ollie e Ramsey também
seriam uma boa ajuda, tanto quanto Mike..., mas Damian e Wayne eram meus
melhores amigos naquele momento. Então, se o meu coração ameaçasse
desmoronar, eles me ajudariam a sustentá-lo.
— Como se sente, linda? — Damian questionou, baixinho. Eu me inclinei
mais sobre o corpo de Mel, que manteve o abraço.
— Com dor de cabeça, possivelmente estou feia para caramba. —
Funguei, imaginando o meu rosto vermelho e inchado. — E bem cansada...
— Fitei Mel, que sorriu sem mostrar os dentes, em encorajamento. — Mas
vou ficar bem. Meyers não é o fim do mundo, certo? — Eles confirmaram.
— E se eu tiver os melhores Green Snakes comigo, tudo vai ficar mais fácil.
Vai ficar tudo bem.
Eu repetia isso mentalmente. Tudo ficaria bem.
— Ele não vai chegar perto de você, sweetheart — Bale prometeu, amor
faiscando por seus olhos cinzentos. O tipo de amor não só de um namorado,
mas principalmente de um amigo que faria de tudo para me manter bem. E eu
sabia que ele dizia cada palavra com sinceridade, mas aquela era uma
promessa difícil de cumprir. Derek não era o fim do mundo, mas sabia muito
bem se esforçar para ser.
— E se chegar... — Mel sussurrou e eu voltei a fitar seus olhos castanhos.
— Se ele tentar te machucar, Naomi, eu prometo que Meyers vai se
arrepender disso. — Ela ergueu o seu mindinho em uma promessa e um
convite. Eu enganchei o meu dedinho a ele. Wayne capturou o meu com
maior força, tentando transferir a sua coragem para mim. — Mas eu preciso
que me prometa de volta que você vai tentar ao máximo se manter forte,
como sempre foi. Como a Naomi que conhecemos. E o que essa Naomi faria,
huh? O que ela faria agora?
Respirei fundo e finalmente pensei.
Se fosse qualquer cara babaca que pudesse me destruir e não Meyers, o
que eu faria?
Eu tomaria uma decisão.
Poderia ir para debaixo dos meus cobertores... Ou poderia enfrentar
Derek.
A segunda opção seria inevitável em algum momento.
A ansiedade cresceu de volta minimamente, mas tentei empurrá-la para
longe. Finquei os dentes no lábio inferior, levei os olhos para o meu
namorado e continuei a buscar a racionalidade, a tranquilidade.
— Quer voltar para casa? — Bale perguntou, preocupado, mas
sustentando um sorriso doce.
— Eu posso te levar... — Brandon disse, ao desligar a chamada,
finalmente. Mike e Ollie o acompanharam em nossa direção.
— E se precisar de qualquer coisa hoje, depois da aula, eu posso levar
para você — Graham prometeu.
— Somos o time anti-Derek e pró-Naomi, estamos aqui por você e tudo o
que quiser será seu — Ollie disse, piscando.
— Faço das palavras deles as minhas — Brandon concluiu, me dando um
sorriso confiante.
O que Ramsey esquecia era que eu o conhecia muito. Pelos seus olhos, era
nítido que o loiro estava tão em choque quanto eu. Derek foi seu melhor
amigo e talvez quisesse acertar algumas contas com ele.
Porra, aquilo era um pesadelo...
Voltei os olhos para Damian e cada pedacinho do seu rosto. Dos olhos
cinzas, aos lábios levemente avermelhados, à mecha que caía em sua testa...
Ele buscava por uma resposta, mas eu sentia que tinha todo o tempo do
mundo para pensar. Porque estava protegida. Porque estava cercada das
pessoas certas.
Wayne estava correta: eu tinha uma família comigo, uma espécie de
fortaleza. Derek não me atingiria tão fácil.
Observando a minha mochila, reprimi os lábios. Bale acompanhou o meu
olhar e me entregou a bolsa. Abrindo-a, encontrei os livros e a pequena
necessaire de maquiagem.
Eu não sabia se Derek planejava uma guerra, mas eu tinha aprendido a ser
uma boa guerreira nos últimos anos. Eu não apareceria na escola com meu
rosto borrado, eu precisava parecer firme. Mostraria que poderia ter caído
por um momento, mas estava de pé novamente, com minha melhor armadura.
— Vou voltar para a escola — decidi, engolindo em seco.
— Tem certeza? — Mel sussurrou e eu confirmei, olhando no fundo dos
seus olhos. Eu a amava tanto e estar perto dela me fazia mais forte. Na
verdade, amava cada um ali à minha volta.
— Preciso da sua ajuda — pedi e Wayne sorriu largamente, movendo uma
mecha em meu rosto para atrás da minha orelha.
— Nem precisava pedir.

Ajeitei o cabelo e funguei mais uma vez, abrindo a câmera frontal do meu
celular. Usei o batom para disfarçar os lábios levemente secos e sem cor.
Damian estava contra o carro de Brandon, ao lado de Mike e Ollie,
conversando no estacionamento vazio. A aula de música estava para acabar,
entraríamos na escola em alguns minutos.
Wayne me abraçou por trás e colocou sua cabeça em meu ombro, nos
observando pela tela do celular. Ela sorriu, mas eu não. Aquele frio
insuportável reinava na barriga. Pura adrenalina.
— Essa é a Naomi que eu conheço.
— A que finge estar bem?
— Não. A que consegue se reerguer e se manter firme, para a inveja
daqueles que a querem para baixo. — Mel piscou para a tela.
Foquei nos cílios cobertos por rímel novamente, na pele aparentemente
perfeita.
— Ele não é mais forte que você. Meyers é um desafio e você ama
superar desafios, Carlson. O cara estava no passado. O desafio é deixá-lo no
passado... Então...
— Vou deixá-lo no passado — murmurei. Mel deixou um beijo estalado
na minha bochecha. Desliguei o celular e me virei para ela.
Por mais que eu amasse todo nosso grupo de amigos, se Melissa Wayne
não existisse... Balancei a cabeça, para não chorar novamente. Se Wayne não
existisse, talvez eu também não.
— Eu amo Damian — comecei, baixo. — Eu infelizmente amo a minha
família... Têm muitas pessoas boas na minha vida, Wayne. Mas, às vezes,
realmente acho que você é a minha alma gêmea.
Ela sorriu largamente. Seus olhos brilharam e eu soube que era recíproco.
— Robin para o meu Batman — ela brincou.
Eu a abracei com força, sentindo nossos corações mais próximos. Wayne
amoleceu em meus braços.
Minha irmã, independentemente de tudo. Antes de tudo.
Ouvimos o sinal da escola e estremecemos. Nos afastamos devagar.
Damian, Ollie, Mike e Brandon se aproximaram e nos lançaram olhares
confiantes. Nossos namorados nos entregaram nossas mochilas e seguraram
as suas, em seus respectivos ombros. Mel e eu fitamos uma a outra e ela me
estendeu sua mão. Entrelacei nossos dedos e subimos as escadas juntas.
Os seguranças na entrada da escola nos observaram conforme eu abria a
porta dupla de entrada do Colégio Brightgate. Alguns passos depois
estávamos no corredor principal. Alunos saíam de suas salas, prontos para
novas aulas. Muitos nos encararam e eu me senti levemente tensa, mas
sufoquei a vontade de engolir em seco, apertando um pouco mais a mão de
Wayne.
Um aluno em especial estava do lado de Garreth Parker, que organizava
seu armário
. Derek lançou seus olhos castanhos para mim, de imediato. Cerrei os
meus, azuis, em sua direção, mas não sustentei o olhar por tempo demais,
porque Damian parou ao meu lado e eu esquadrinhei o seu rosto. Wayne riu
baixinho, em deboche, quando o olhar de Meyers se tornou enfurecido. Com
Bale por perto, ele seria idiota de se aproximar.
Beijei o canto dos lábios de Damian e apertei os dedos de Wayne. Só
depois voltei o meu olhar para Meyers, mais forte.
Não era nada próximo de amor o que eu sentia naquele segundo. Não por
ele. E com toda a adrenalina dentro de mim, não foi mais medo o que eu
senti também. Foi fúria. Uma vontade absurda de não me render àquele filho
da puta. Nunca mais.
Então eu puxei a mão de Mel delicadamente e desviei o olhar de Derek
como se ele nunca tivesse existido, caminhando a passos firmes para a nossa
próxima aula. Só fitei Meyers novamente quando passei por ele... e não lhe
lancei nada além do meu mais frio e cruel desprezo.
@BRIGHTGATEPOISON: Por que diabos Derek Meyers está de volta?

A porta do quarto da Madison se abriu. Elise deixou um chocolate quente


na bancada ao lado da cama e se deitou na beirada. Maddie ainda me
abraçava forte contra si, como se quisesse me proteger de todo o mal do
mundo. Lis só me observou com doçura, acariciando o meu rosto.
— Precisa descansar. Aproveita o friozinho do inverno, bebe um pouco
do meu melhor chocolate e dorme!
— Como sabia que eu estaria acordada?
— Acha que eu não conheço a minha Naomi? — Seus dedos finos e
delicados moveram uma mecha de cabelo para atrás da minha orelha.
Desvencilhei-me do corpo de Madison devagar e Lis me entregou a caneca
fumegante. — Madison anda tão cansada...
— E eu ainda trago mais problemas — comentei, bebericando um pouco
do líquido doce.
— Claro que não! — Elise me fez respirar fundo. — Não ouse dizer isso
novamente, mocinha. Seu passado bater na porta e te machucar não foi algo
que você planejou. Sua irmã está aqui por você e você faria o mesmo,
Naomi. Não se trate como um peso. — Bebi mais um pouco do chocolate,
em silêncio. — Como estão as consultas com a psicóloga?
— Bem, na medida do possível. — Eu começava a conversar aos poucos,
com a psicóloga. — Tenho uma sessão amanhã de tarde.
— Bom. — Ela sorriu do mesmo jeito terno de sempre e depois colou sua
boca à minha testa. — São onze da noite, tem aula logo cedo. Vá dormir
depois da última gota de chocolate, está me ouvindo?
— Sim, senhora — cantarolei e a ouvi rir. Elise caminhou para longe e eu
esperei que a porta batesse, mas isso não aconteceu. Ergui os olhos para a
mulher na entrada do quarto.
— A sua mãe foi na sua escola durante a sua aula, sabe disso? —
Confirmei. Surgiu um leve amargo atrás do doce que tomava a minha língua.
— O diretor disse que Derek não concluiu os estudos, mesmo com todo esse
tempo fora.
Respirei fundo. Só de ouvir o nome do cara, eu ficava em alerta. Eu não
fazia ideia do que Meyers tinha feito fora de Brightgate. Nem queria saber.
— Ele quer se formar onde os amigos estão — Elise prosseguiu. — E
parece que não há nada que Lia possa fazer.
— Ótimo! — Forcei um sorriso com a ironia e Elise inclinou a cabeça,
triste. — Vou ficar bem, Lise! Eu tenho vocês, a Mel, os meus amigos e o
Damian. E principalmente, tenho a mim mesma. Sou mais forte do que
pareço, juro. Sério, vou ficar bem.
— Sei que vai. — Ela fechou a porta levemente, mas ainda não saiu. — E
talvez deva dar uma chance para a sua mãe. Ainda pode haver tempo para
consertar as coisas. Você também a tem, sabe? Vocês são família.
Levei meus olhos para o vapor que saía da minha xícara e depois para a
minha irmã, com os fios loiros tingidos como a minha mãe, seu rosto tão
delicado quanto o de Lia. Madison era linda, parecia um anjo. Um anjo
exausto. Exausto de cuidar da irmã porque a mãe não fazia isso muito bem.
Exausta de colocar Lia na cama quando ela dormia no sofá de tão cansada.
De ajudar um pai que não queria ser ajudado… e de lidar com uma
universidade no meio disso tudo.
Madison era minha família. Elise era a minha família. Mel, Damian, Mike,
Brandon e Ollie..., mas Lia era uma incógnita. Eu não a compreendia. Sentia
seu amor, por vezes, mas não era suficiente. Talvez soe egoísta, mas ela me
amava pouco demais. Lia gastava quase todo seu coração com Vincent.
Maddie e eu ficávamos com as sobras.
— Boa noite, Lis — foi tudo o que consegui dizer.
— Boa noite, querida. — E a porta finalmente se bateu.
Meu olhar foi para a janela do quarto, as luzes dos postes na rua acesas e
a noite quase completamente silenciosa. Me levantei da cama apenas para
fitar o mundo lá fora um pouco. De repente, a lua me encarava de volta, tão
incompleta. Não passava de uma fina curva no céu. Vazia como eu me sentia.
Sabe o que é pior do que esperar por algo ruim e ele vir rapidamente? É
quando você sabe que esse algo ruim vai chegar, mas ele demora. Porque
assim a angústia dura mais tempo e você se fode do mesmo jeito.
Meyers não fez nada nos primeiros dias em Brightgate. Minto, ele fez:
observou cada mísera respiração minha. Isso me deixava irritada, mas eu
sabia que Damian estava ainda mais incomodado com isso.
— Ele não para de olhar para cá! — Bale reclamou pela milésima vez.
Melissa concordou com um suspiro frustrado enquanto comíamos no
refeitório. Mike fitou Meyers ao virar a cabeça, tal qual a garota do
exorcista. Discreto. Só que não.
— Graham! — Bati a mão na nuca dele, que praguejou. O muxoxo de
Mike foi uma tentativa de ataque que eu desviei com um olhar mortal. Mel o
consolou com alguns beijos. Damian engoliu uma batata como se ela fosse
lhe dar energia para matar Derek com a força do pensamento e eu o cutuquei.
— Pare você também!
— O quê?! O maldito pode vigiar a minha garota e eu não posso olhar
para ele de volta? — Bale rosnou as palavras baixinho e eu segurei o seu
rosto, virando-o para mim.
— Pare com isso — repeti. Damian grunhiu e lançou seu olhar irado para
as batatas, devorando-as lentamente. — Amor...
— Não vem com "amor", não vai me deixar menos bravo!
— Damie, se isso for ciúmes, não tem motivo nenhum para isso. Você
sabe. Eu te disse antes mesmo de começarmos a namorar que eu não amo
Derek, não mais. — Ele tentou desviar o olhar e eu segurei o seu queixo. —
Eu amo você. Não me faça começar a discutir o relacionamento na frente dos
nossos amigos — supliquei baixo a última frase.
— Não é ciúmes, sweetheart. É só que o cara ativa meus piores instintos!
— Sabe que eu aprecio sua preocupação, lindo, mas não acho que possa
impedir Derek de fazer o que ele quiser. E eu sou bem grandinha para me
defender. — Damian abriu a boca para retrucar.
— Sobre o que estão conversando? — Riley se aproximou da mesa de
mãos dadas com uma garota, impedindo meu namorado de falar. Os cabelos
lisos e escuros estavam presos num rabo de cavalo baixo. A pele amarela
clara estava bronzeada, como a da garota ao seu lado, e tinha um sorriso
discretamente nervoso brincando nos lábios.
Bale e eu paramos levemente boquiabertos. Mel já sorria como nunca
para o possível novo casal, assim como Mike. Elas eram lindas para cacete.
— Nada demais — respondi. — Então... Essa é a Kiera, certo?! — Abri
um sorriso malicioso e Damian apertou a minha coxa para que eu fosse mais
discreta. A garota ao lado de Riley tinha a pele marrom clara levemente
bronzeada, olhos grandes e alongados, bem escuros, além de feições
extremamente delicadas. Era filipina, uma das novas líderes de torcida, e eu
obviamente a conhecia. Apesar de sua ascendência, sua mãe era a nova
professora de espanhol. Eu tinha escutado algo sobre seu pai ter origem
cubana, mas não tinha certeza.
— Oi, Naomi — ela disse, tímida, e eu segurei um riso, trocando um olhar
com Mel. Eu sabia que pensávamos a mesma coisa: fofa.
— Bom, pessoal, essa é Kiera Díaz. — Riley lhe deu seu olhar mais
brilhante. Eu conhecia ela. Garota das Filipinas, novata na escola e na minha
equipe de líderes. — K, esses são Mike, Melissa, Damian e Naomi.
— É um prazer, Kiera — Mike falou. — Por que não se sentam? — ele
tirou as palavras da minha boca e eu me aproximei ainda mais de Damian, o
que, infelizmente, deu espaço para apenas uma delas e essa foi Riley. Kiera
se sentou do lado de Mel, que logo puxou alguma conversa.
— Cacete, Meyers não desiste? — A voz de Riley me arrepiou. Era tão
óbvio o que Derek fazia, me seguindo com o olhar de uma maneira
enlouquecedora, tentando marcar o nome dele em mim à distância.
— Exatamente o meu ponto — Damian rosnou, baixo.
— Cara, não adianta arranjar briga com o cara agora — Graham disse. —
Espera ele se aproximar e eu mesmo o seguro pra você socá-lo! —
Arregalei os olhos, prestes a pedi-lo para parar de incentivar Damian a
matar Meyers, mas Mike se defendeu: — Ah, qual é?! Brandon quer fazer o
mesmo e Oliver parece a dois segundos de explodir.
Graham acenou para atrás de mim com a cabeça e eu vi meus amigos numa
mesa com alguns jogadores do time de futebol. Brandon apertava uma maçã
com tanta força que os nós dos seus dedos estavam brancos como papel.
Oliver trincava os dentes e eu não me surpreenderia se saísse um rosnado.
— Fique aqui e não faça nenhuma bobeira — supliquei para Damie e me
retirei da mesa, batendo nela com os dedos duas vezes para chamar atenção
de Kiera a tomar o meu lugar, ao lado da sua namorada ou seja lá o que
Riley era para ela. E assim Díaz fez.
Caminhei para a mesa dos dois. Eles ajeitaram suas posturas quando
tampei a visão de Derek. Ninguém queria Meyers por perto.
— Não preciso de cães raivosos. — Os dois uniram as sobrancelhas para
mim. — É sério. Seja lá o que Derek está fazendo me olhando desse jeito,
não retribuam.
— Não estamos fazendo nada, só expondo nosso ódio.
— Não pode nos impedir de odiar o cara — Ollie complementou
Brandon. Ergui uma sobrancelha para ele. — Merda, ele está vindo para cá?
Olhei para trás e ouvi um ranger na mesa em que eu estava. Damian estava
prestes a se levantar quando Melissa o segurou firme pelo pulso. Os passos
despreocupados de Meyers em minha direção me sufocaram. Os burburinhos
começaram a ficar mais altos na mesa de Bale e o refeitório continuava
barulhento, porém, dessa vez os olhares passavam a cair sobre mim. Eu
sabia que me tornava assunto.
Preparei-me para falar com o meu ex pela primeira vez, quando alguém
acelerou e se pôs no meio do caminho, pegando a bebida de uma mesa que
nem era dela. De repente, suco de morango sujava todo o uniforme de
Meyers, que arregalava os olhos e praguejava, fitando a si mesmo.
— Caramba, Derek! Eu nem te vi aí, desculpa! — Riley fingiu tentar
limpar a roupa dele e eu deixei o queixo cair levemente, erguendo as
sobrancelhas. Zhang não foi sutil. Ela claramente arremessou bebida nele.
— Ugh, Oliver, controle a sua irmã! — Meyers fitou o uniforme, ainda
furioso pelo estrago, mas fez menção de vir falar comigo do mesmo jeito.
Riley andou para o lado e impediu sua passagem.
— Acho que precisa limpar logo isso, não? — sua voz se tornou afiada.
— Ou vai ficar manchado. Você não quer ficar ainda mais manchado nessa
escola, quer?
Derek trincou os dentes para o duplo sentido na fala de Zhang e a
enfrentou silenciosamente por alguns segundos. Depois saiu. Riley me fitou
por cima do ombro brevemente, mas não esboçou reação alguma.
— Que porra foi essa? — Oliver perguntou para a irmã, com um sorriso
orgulhoso.
— Não gosto do filho da puta e Carlson fez algo por mim. — Ela deu de
ombros. — Só estou retribuindo. — E saiu, antes que eu conseguisse sequer
agradecer direito.

Os treinos para a peça passaram a acontecer no teatro pequeno a dois


blocos da escola, onde a apresentação de fato se daria. Isso porque
precisávamos ajustar algumas coisas de cenário, verificar a passagem de
som, testar o espaço... Então Wayne estava de frente para o palco,
coordenando tudo.
Eu estava sentada na borda, ansiosa pela situação Meyers e extremamente
frustrada pela TPM. Meus sentimentos estavam confusos e desordenados. Eu
queria chorar o tempo todo, muito mais sensível do que o normal. A ideia de
que Derek poderia aparecer a qualquer momento não me tranquilizava.
O professor disse que se atrasaria, então a maioria das pessoas não estava
passando o texto ou se preparando para seja lá o que deveriam fazer, mas
sim usando o celular ou conversando sobre qualquer coisa. Mel me contava
sobre o pequeno roteiro que escrevia e eu tentava manter meu foco na minha
melhor amiga. Era um curta sobre um romance na escola. Parecia muito com
ela e Mike. Nossa conversa foi interrompida por um beijo estalado de
Graham nela. Eu sabia que em breve retomaríamos aquele assunto, mas,
naquele momento, Mike a envolvia pela cintura, sorrindo como nunca para a
garota em seus braços.
— Ei, você!
— Ei, jovem Jedi — ele devolveu, sorrindo bobo antes de beijá-la. A
fofura me fez sorrir e me perguntar onde estava o meu namorado. Foi quando
eu vi Damian chegar. Ele atravessou o corredor entre as cadeiras e parou à
minha frente, entre as minhas pernas, escondendo algo atrás do corpo. Uni as
sobrancelhas.
— Boa tarde? — arrisquei.
— Boa tarde, sweetheart! — Damian mostrou uma das mãos e me
ofereceu dois pirulitos. Eu os aceitei e ergui uma sobrancelha, deixando um
sorriso escapar, e logo um doce estava em minha boca. — Eu tenho dois
presentes planejados para os nossos... — Damie fitou Mike — rufem os
tambores...
Graham fez uns sons estranhos e eu fingi que eles soavam como uma
bateria.
— … três meses de namoro! — Tirei o doce da boca para sorrir
largamente. Tão fofo!
— Novato, eu nem te comprei nada e é só em uma semana. — Me senti
meio culpada. Eu nem sabia que daríamos presentes depois de três meses.
Digo, geralmente fazem isso em aniversários de relacionamento, certo?
Estávamos longe disso.
— Sim, eu deixaria para a próxima semana, mas pensei em como está...
nesses dias.
— Pode dizer instável — Melissa provocou e eu lhe dei o dedo do meio.
— Estou de TPM, não virei um monstro por isso! — me defendi.
— Monstro não, Robin, você está o próprio diabo. — Mel fez Graham rir
e eu lancei um olhar para Damian, o desafiando a fazer o mesmo. Bale
engoliu em seco.
— Esse é o meu presente. — Bale me mostrou um CD e eu uni as
sobrancelhas.
— Uhhh, tão old-fashioned. CD em época de Spotify — brinquei e
Damian pareceu desapontado. — É brincadeira, lindo, meu Deus, eu sou
mesmo um monstro?
Uni minha boca à dele algumas vezes e o abracei. Bale me entregou o CD
e acariciou o meu rosto antes que eu chorasse por pensar que realmente o
tinha magoado. Mas vi o "músicas que me lembram você" escrito com algum
esmalte e foi tarde demais. Meus olhos estavam marejados.
— Eu roubei um esmalte da Katy. Espera... Odiou?! Por que tá chorando?
— ele perguntou. Bale pediu socorro para Melissa com o olhar, mas ela
estava ocupada tendo uma crise de risos. — Naomi?
O abracei com força. Damian ficou ainda mais perdido, mas quando o
apertei ainda mais forte, ele me abraçou de volta. Estava sensível, destruída,
abalada emocionalmente de mil formas diferentes depois daqueles últimos
dias, e Damie me deu o presente certo no momento certo. Me afastei e ele
secou as lágrimas no meu rosto com os polegares.
— Vou te agradecer a tarde toda — confidenciei próxima à sua boca. —
Talvez tenha algo novo que eu queira tentar na sua cama hoje.
— Choro, depois malícia — Melissa desdenhou alto —, ins-tá-vel.
— Ei, Bale, Carlson! — ouvi Oliver gritar de cima do palco. — Vamos
começar a passar o som, tá legal? Tragam suas bundas para cá! — Rolei os
olhos e Damie também. Pedi para Wayne guardar meu CD na bolsa, enquanto
Damian aplicava força nos braços para subir no palco. Ele me ajudou a me
erguer.
Testamos a acústica uma ou duas vezes e entregaram um violão para
Damian verificar se o som estava bom. Chegamos a ensaiar uma das músicas
e dança, mas então Bale descobriu que alguém tinha levado uma guitarra e
todos passamos a admirar como o meu namorado era extremamente talentoso
com aquele instrumento em mãos. Sexy para cacete, honestamente. Seu
cabelo estava um pouco maior do que no início do ano e lhe caia pela testa,
mas Damie não se importava. Seus dedos longos e ágeis se mexiam pela
haste e pelas cordas e eu mordia o lábio, os imaginando me tocando.
Desci do palco e caminhei até a minha bolsa, em uma das cadeiras da
primeira fileira, ainda o ouvindo tocar. Mel estava do lado das minhas
coisas com a minha garrafa de água nas mãos e eu a fuzilei com o olhar
enquanto ela riu por ser pega no flagra. Metade do líquido já havia sido
consumido e percebi que estava morta de sede quando bebi a outra metade e
ainda quis mais.
— Agora eu vou ter que encher essa droga, muito obrigada, Wayne.
— Não há de quê! — ela ironizou e eu balancei a cabeça em negação. —
Traga mais para o amor da sua vida aqui, sim?
— Por que não traz a sua garrafa?
— Porque meus neurônios esquecem de tudo com facilidade. — Nisso eu
tinha que concordar, Mel tinha memória curta. Mike a chamou, com o roteiro
em mãos e um grupo de alunos do seu lado. Pela cara dele, tinha algum
problema. Wayne suspirou. — O bebedouro fica perto da entrada, no
corredor à direita, perto do banheiro. Sabe onde fica?
— Consigo encontrar. — Mel correu para Graham antes que eu falasse a
última sílaba.
Caminhei para fora do teatro, a guitarra que Damian tocava ficando mais
distante a cada passo.
A grande antessala do lado de fora do auditório do teatro estava vazia e
um pouco escura. Caminhei até a entrada. Direita, Mel disse, mas eu não
sabia exatamente se era a minha direita ou a direita de quem entrava naquele
lugar.
Mordi o canto da bochecha e caminhei para um dos lados, sem encontrar
nada. Depois girei em meus calcanhares e fui para o outro, achando o
bendito bebedouro. Eu estava quase enchendo a garrafa quando a porta do
banheiro masculino se abriu.
E, claro, ali estava o Diabo, por algum motivo.
Derek saiu do banheiro, rindo ao lado de Garreth Parker. Os risos
cessaram quando eles perceberam quem estava na saída. Eles se despediram
baixinho e torci para Meyers não caminhar em minha direção. Obviamente,
Derek ignorou a minha tentativa de fingir que ele não existia.
Continuei a encher a garrafa, porque eu não o daria o gosto de saber que
sua mera existência me incomodava. Senti o seu olhar esquadrinhando o
perfil do meu rosto.
— Está fugindo de mim.
Suprimi a vontade de engolir em seco com sua voz grave ecoando pelo
corredor. Seu perfume era o mesmo e me enjoava, sua voz me deixava em
alerta e eu conseguia senti-lo tão perto que meus pulmões fraquejavam.
— O que faz aqui, Meyers? — perguntei, impaciente.
— Eu fiz algumas provas para garantir que estou apto a continuar
estudando — ele começou e eu ergui a sobrancelha —, então vou aproveitar
as notas do ano que eu... — Derek optou por não falar do seu surto,
pigarreando. — Enfim, o professor de literatura disse que vai fazer uma
prova especial para mim nessa última unidade e vai valer metade da nota,
mas a outra metade eu só vou conseguir se ajudar na peça.
— Hm.
— Por que está fugindo de mim, Naomi?
Sério?! Dá para acreditar nesse cara?
— Não estou fugindo, só não quero saber o que anda fazendo, não quero
bater papo, não quero nada com você. Eu não tenho o que falar com você —
minha voz saiu menos firme do que eu gostaria e o ouvi rir nasalado.
— Namorados e amigos por anos, quase tivemos um filho juntos e você
me diz que não tem o que conversar comigo? Qual é, Naomi?! — Ele sorriu,
debochado. — Princesa...
— Não — pedi, entredentes, pelo seu silêncio. A água finalmente atingia
o topo da garrafa quando olhei para Meyers com toda a raiva do mundo. —
Não fale comigo, Derek, e, principalmente, não me chame assim. Nunca
mais.
Andei para longe.
— Sabe que não vou te deixar em paz tão fácil — ele falou alto. Meus
passos cessaram. Praguejei e virei o corpo. — Então nos poupe tempo,
Naomi: o que preciso dizer para te convencer a me ouvir?
Seus olhos castanhos brilhavam de um jeito que eu não era capaz de
interpretar. Lembrando que já me apaixonei por eles, meu estômago se
apertou com força e eu quis vomitar. Nojento.
— Não quero te ouvir, Derek, já passei do tempo de te dar chances de
falar.
— Eu mudei, tá legal? Naomi, eu me tratei e estou me tratando. Tenho
acompanhamento semanalmente, eu só quero me formar com meus amigos!
— Que amigos, Meyers? Brandon e Oliver não te suportam e, além de
Garreth, todos os seus outros amigos se formaram. — Ele mordeu o lábio
com força. Ri, desconfortável. — Espero que tenha mudado, Meyers,
porque, parando para pensar, estranhamente não desejo seu mal. Só torço
para que uma próxima garota não sofra. Mas eu? Eu não vou cair por suas
palavras nunca mais, sinceras ou não. Não tenho que te ouvir. — Fiz menção
de dar as costas e ele correu até mim, cessando a distância entre nós dois.
Sua mão tocou a minha cintura e eu afastei o seu toque, ultrajada.
Seu pomo de Adão oscilou e desprezei cada segundo da proximidade
entre nós dois.
— Por tudo o que vivemos, Carlson, preciso que me ouça. Não estou
pedindo por uma chance, quero uma oportunidade de pedir desculpas. Pelo
meu bem, pelo meu tratamento, acho que me faria bem, por favor —
suplicou, baixo, e por um segundo eu quase acreditei no que me dizia.
"Pelo meu bem". Era sempre assim, não era? Tudo para que ele estivesse
tranquilo, para que estivesse ok. Mas eu precisava pensar no meu bem.
— Se tem respeito por tudo o que vivemos, Meyers, e por mim... Se
realmente mudou... Então me entende o suficiente para nunca, nunca mais se
aproximar, por mais arrependido que possa estar. — As palavras soaram
mais ríspidas do que eu esperava e ele franziu o cenho levemente para mim,
surpreso. — Então vai se afastar e nunca mais tocar em mim — quase rosnei
as palavras, recuando um passo —, ou da próxima vez, te direi onde enfiar
seu pedido de desculpas.
Pisei firme para longe, apesar dos tremores nos meus dedos e do nó
insuportável na minha garganta. Tentei controlar a ansiedade e o pânico por
cada segundo do caminho de volta ao auditório, nervosa por provavelmente
ter que lidar com Meyers pelo resto da tarde.
O problema era que Meyers não dizia nada à toa. Ele falou que não me
deixaria em paz facilmente. E cada palavra foi honesta.

Meyers não saía da minha cabeça facilmente. Mel queria assistir todos os
filmes de comédia romântica comigo, até mesmo Miley me puxou para uma
maratona de filmes da Disney, Mike tentou me convencer a assistir Star Wars
e Ollie e Brandon me chamavam para sair o tempo todo. Às vezes eu sorria e
aceitava tudo o que eles diziam, às vezes eu dava uma desculpa qualquer. Eu
só não conseguia disfarçar ou fugir tão bem do meu namorado. E,
honestamente? Eu não queria.
Bale entendia o meu passado. Seus demônios e os meus dialogavam bem.
Com ele, era um pouco menos difícil. Damie era uma boa distração, quase
me fazia sentir tranquila. Eu disse quase.
— Eu não quero ir para o treino — Damian confessou. O Corvette estava
cada vez mais quente e eu sorri contra seus lábios, arranhando seu abdômen
por baixo do uniforme dos Green Snakes. Nós infelizmente não
avançaríamos, porque meu útero estava sangrando e, por consequência, eu
também. — Sweetheart...
— Podemos trazer o acordo dos dois gols de volta — sussurrei e ele riu,
sacana. Damian gemeu baixinho quando o beijo se intensificou e eu chupei a
sua língua, arranhando a sua nuca. Ele separou os lábios dos meus.
— Dois gols pelo quê? — Foi a minha vez de rir, porque eu realmente não
sabia o que eu poderia fazer pelos dois gols. Talvez outro boquete no carro?
Seu polegar acariciou meu lábio inferior, inchado. Seu celular vibrou e o
meu também. — Hm... É a minha mãe, ela mandou foto do meu quarto em
Bradford e disse que está com saudade. — Sorri. Senti falta de Meredith
mesmo a conhecendo tão pouco. Sua visita em Brightgate tinha sido tão
breve.
Olhei para o meu celular. A mensagem também era de Meredith.
Desbloqueei o aparelho e abri as mensagens, encontrando uma foto do
Damian criança, chorando, com alguma frase sobre saudades por cima. Bale
rolou os olhos pela minha tentativa falha de prender a risada.
— Péssima ideia você ter trocado números com a minha mãe — ele
reclamou ao sair do carro. Fechei a porta do Corvette, salvando a imagem
que Meredith tinha mandado. O braço de Damian passou em volta do meu
pescoço enquanto caminhávamos escada acima.
— Você era tão lindo criança, meu Deus! — Fiz um bico e Bale riu,
balançando a cabeça em negação. Entramos dentro da escola praticamente
vazia, indo em direção ao pátio externo.
— É injusto ter tantas fotos minhas criança e eu nunca ter visto nada seu.
— Posso te mostrar um dia. — Sorri, divertida. Nem a cólica infernal que
senti conseguiu destruir meu bom humor naquele momento. — Não tenho
nenhuma imagem constrangedora.
— Duvido. — No pátio, Bale me puxou para si pela cintura. — Quer
dizer, vai ser impossível serem mais constrangedoras do que as minhas, já
que você provavelmente era linda para cacete.
— Era? — Ergui uma sobrancelha, fingindo estar brava.
— Ainda é — ele se corrigiu. Preguiçosamente, fiquei na ponta dos pés e
passei os braços ao redor do seu pescoço. — Uma pequena Carlson deve ser
a coisa mais linda do mundo.
— Talvez um dia você descubra, amor — soprei e ele sorriu largamente,
gostando da ideia. Sua boca se uniu à minha e ouvimos alguém pigarrear
atrás de nós dois. Riley estava ali, de braços cruzados, ao lado de Kiera.
Sua garota tinha um sorriso de canto divertido, tentando não rir.
— Arranjem um quarto! — Riley Zhang me fez rolar os olhos e Bale deu a
língua para ela. Virei o rosto do meu namorado para mim, formando um
biquinho adorável em seus lábios.
— Bom treino, lindo. — Ele chocou a sua boca com a minha e eu me
afastei antes que o fizesse se atrasar demais. O treinador Sanders já
assoprava aquele maldito apito com força e Bale corria para o campo de
futebol. Riley riu com a pressa dele, parando ao meu lado.
— Você também está atrasada. — Riley apontou para meu uniforme de
líder de torcida.
— Eu estou menstruada e morrendo de cólica, não vou treinar. Mas você
vai, mocinha! — Apontei para Kiera, que engoliu em seco para mim, sua
capitã. — Aproveite que eu e a treinadora Lane vamos ter uma pequena
conversa antes do ensaio e que estou de ótimo humor hoje e corra para a
concentração, porque vamos coordenar a equipe em cinco minutos.
Kiera assentiu, estremecendo, e disparou para perto das outras garotas.
Riley ergueu uma sobrancelha para mim e eu sorri.
— Sou uma capitã exigente, não vou pegar leve com sua namorada —
esclareci e Zhang riu.
— Certo. Bom treino.
— Para você também. — Ela fez menção de andar para longe. — Espera.
Ei, Riley? — A garota parou. — Obrigada. Pela situação com o Derek.
— Jogar bebida em garoto abusivo? Sempre que precisar!
Riley piscou e se afastou para o campo das líderes. Assim que percebi
que estava sorrindo que nem uma idiota e parada por tempo demais, voltei
para dentro da escola.
Mandei mensagem para a treinadora e ela disse que já estava na sua sala,
como sempre. Caminhei silenciosamente para o meu destino e ouvi passos
atrás de mim. Olhei por cima do ombro e xinguei baixo quando vi Meyers
em seu uniforme. Não era possível.
Fingi que ele não existia e continuei andando, mas ele me alcançou e ficou
bem ao meu lado.
— Boa tarde.
Eu não respondi, mas sabia que ele estava sorrindo. Parei em frente à sala
da treinadora. Meyers parou logo atrás de mim e aproximou a boca do meu
ouvido, me fazendo congelar.
— Eu disse "boa tarde".
— O que está fazendo aqui, Derek?
— Eu estava estudando com Garreth na biblioteca e vim pedir permissão
para o treinador me deixar ver o treino de hoje. — Virei-me para Meyers e
ele apontou para a porta ao lado da sala da minha treinadora.
Seu olhar desceu pelo meu corpo, minhas pernas expostas pela saia curta.
Enojada, engoli o gosto amargo que tomou conta da minha boca. Meu corpo
todo estava em alerta.
Dei as costas e fiz menção de abrir a porta da treinadora, mas ele colocou
uma mão na mesma, impedindo a minha passagem. Franzi o cenho, confusa,
me virando novamente para ele. Derek sorriu largamente e o medo vibrou
pelas minhas veias. Seu perfume me enjoou profundamente.
— Mas foi bom que te encontrei, não acha?
— Não, não acho.
— Fico feliz em discordar.
— O que pensa que está fazendo?
— Andei pensando no modo como me tratou no outro dia, Carlson. —
Derek aproximou a boca da minha e eu levei a mão ao seu peito, tentando
empurrá-lo. Meyers quase nem se mexeu, sorrindo ainda mais. — E ainda
acho que a gente precisa conversar, princesa.
Calma. Calma, Naomi. Calma.
— Eu vou gritar se você não se afastar, Meyers. Eu vou fazer um
escândalo.
— Vai? Oh, só quero conversar, Carlson! Não tem por que ser tão
venenosa — ele soprou a palavra. Meyers riu nasalado, esquadrinhando o
meu rosto, e eu o forcei a ficar o mais impassível possível. — Oh, princesa,
se soubesse como sei ler seu olhar, você nem tentaria disfarçar. Não tem por
que ficar nervosa, Naomi, eu sempre amei a sua letalidade. — Ele acariciou
a minha bochecha. Um arrepio me percorreu e eu senti o pânico crescer,
ainda estática.
— Não sei do que está falando — respondi, entredentes.
— Jura? Acho que sabe... — Sua mão firmou em minha cintura e ele
aplicou pressão na região. Senti dor com seu polegar pressionando o meu
abdômen, por conta da cólica, mas também senti repulsa. Uma repulsa que
percorreu meu sangue como eletricidade, me ordenando para agir. Mas era
como se eu estivesse lutando contra a minha própria mente... até que venci.
— Não ouse me tocar, Meyers. — Segurei seu pulso ao afastá-lo de mim,
mas Derek se desvencilhou do meu toque e me cercou contra a porta
novamente. — Derek, eu juro para você que eu vou...
— Gritar? Não. Não vai gritar, porque tem medo do que eu posso fazer se
gritar. Você me teme, sabe por quê? Porque não me entendeu ainda, Carlson.
— Jura? Não te entendi? Depois de anos vivendo com você, eu não te
entendi?
— Não. Porque está fugindo, achando que quero foder com tudo, mas eu
só quero conversar. Eu preciso conversar com você. Se você me ouvir, vai
me entender e…
— Derek, eu não quero. E você precisa respeitar isso. — Torci para que
minha voz estivesse firme o suficiente e a máscara de estabilidade sobre o
meu rosto fosse minimamente crível.
— Não consigo, Carlson, não posso dormir sabendo que me odeia.
— Não é problema meu.
— Por favor, não me faça fazer isso...
— Isso o quê?
— Te forçar a conversar comigo.
Ali estava. Seu teatro caindo aos pedaços. Ele queria me forçar a fazer
algo.
Cogitei empurrá-lo, mas a loucura em seus olhos me fez travar. Ele tinha
percebido também. Que seu fingimento não fazia sentido. Que se, em algum
momento, ele realmente se tratou, todos seus avanços sumiram quando
colocou os olhos sobre mim.
Meyers disse que havia mudado, mas isso era claramente mentira. E cada
respiração que contei, perto dele, me deixava em alerta, esperando por um
surto. Que veio:
— Como eu disse, Naomi, sempre gostei do seu veneno.
O tom sombrio naquele castanho imersivo era sufocante. Eu ri, apesar do
nervosismo.
— Eu vejo o que está fazendo aqui.
— É?
— Acha que sou a Poison.
— Porque é — ele praticamente grunhiu as palavras, elas mal escaparam
de seus dentes trincados. — Você refez sua imagem com a Poison, cresceu
nesse inferno de escola, é tão, tão óbvio.
— Você está alucinando.
— Eu te conheço, princesinha. — Derek acariciou o meu rosto com o nó
de seus dedos. Apertei seu pulso, exigindo distância. — Sei como escreve,
sei como age... Se não é a Poison e não tem nada a temer, então por que não
faz o que disse? Por que não grita?
— Porque você pode falar do aborto.
Meyers esquadrinhou o meu rosto com a minha resposta. Depois se
afastou minimamente e sorriu de canto. Aproveitei a deixa para respirar
fundo e vi o brilho estranho em seus olhos. Derek parecia ponderar sobre o
que eu tinha dito. Pensei que estava livre das suas desconfianças, até que ele
começou a estalar a língua.
— Não, não, não... você é a Poison.
— Está alucinando — repeti, firme.
— Estou? — Meyers me trouxe para si pela cintura novamente e eu apoiei
as mãos no seu peito, tentando me afastar. — Eu disse que te conheço,
Naomi. Como as linhas na palma da minha mão. Eu conheço o seu jeito... —
Meus olhos se tornaram marejados, porque de repente eu não conseguia mais
me mexer ou respirar direito. Toda vez que eu inspirava e encontrava o seu
perfume, eu desejava sumir. — Sei como você é quando é má, Carlson. Além
do mais… Já provei o seu veneno. Na sua boca..
— Cale-se... — Ele se aproximou ainda mais, me fazendo sentir tão, tão
menor.
— Ou entre as suas pernas...
Realmente não sei como consegui fazer isso. Quando vi, tinha cerrado o
punho contra o seu rosto. O som reverberou por todo o corredor, justamente
quando o treinador saiu da sua sala.
Meyers virou a face, passando a mão pela região da sua pele em que a
vermelhidão perfeita tinha sido causada pelo meu soco. Senti a dor em
minhas articulações e grunhi, vendo-as vermelhas e feridas. Derek, por sua
vez, parecia inabalável mesmo quando cuspiu sangue no chão, limpando o
líquido escarlate da sua boca e mostrando os dentes sujos de vermelho.
Senti minha mão latejando e eu nunca, nunca tinha socado alguém antes. A
adrenalina me deixava elétrica e eu inspirava e expirava com força, como se
a minha vida dependesse disso. Eu me sentia tão bem. E sabia dar um soco
excelente, obrigada.
Meus dedos doíam, queimavam, vermelhos como nunca, mas eu realmente
não me importava. O treinador Sanders perguntou o que estava acontecendo
e eu poderia ter parado, mas eu empurrei Meyers. Com força.
O sangue no chão e no rosto do meu ex-namorado diziam claramente o que
tinha acontecido. E Derek parecia amar isso. Ele riu em deboche quando a
treinadora saiu da sala, me pedindo para ter calma. Mas eu estava
enfurecida, empurrando Meyers e o assistindo cambalear levemente na
minha frente.
— QUE PORRA ESTÁ ACONTECENDO AQUI? — O treinador Sanders
abandonou qualquer noção de onde estava ao gritar e xingar, caminhando
rapidamente até nós dois.
— Não sei, treinador — Meyers se fez de bobo, sangue ainda escapando
da sua boca. Ele passou o dorso da mão nos lábios, deixou um grunhido
forçado escapar. — Ela está descontrolada!
Avancei nele e estapeei o seu peito uma, duas, três vezes, até que ele
segurasse os meus pulsos e o treinador tentasse se colocar entre nós dois.
— Não ouse me chamar de descontrolada, Meyers, porque se eu sou assim
a porra da culpa é SUA! — Apontei para o seu peito com força, furiosa.
Meyers riu.
— Se você gosta da violência, não me culpe, princesa! — Derek parecia
se deliciar com as palavras. Eu via pelo seu olhar o que Meyers sempre
repetia: "você gosta, princesa, gosta da agressividade tanto quanto eu".
E isso me fez avançar contra ele novamente, mas senti as mãos da
treinadora das líderes me segurarem com força pelos braços, antes que eu
arrancasse cada pedacinho da pele de Derek Meyers com as minhas unhas.
Naquele dia, Meyers conquistou alguns minutos num pronto-socorro e eu
uma bela suspensão de três dias. O que finalmente sentenciou a guerra entre
nós dois e me deu a certeza de que não só meu pai gastaria sua pouca energia
para recriar um inferno dentro da minha casa, como Derek me sufocaria
naquele colégio assim que eu voltasse e sempre que possível. Só restaria me
trancar no quarto e chorar até a madrugada.
Tive a sensação de que algo estava fora do lugar quando observei as
líderes de torcida e percebi que o ensaio não estava acontecendo.
Carlson não estava ali, nem a treinadora.
Amarrei os cadarços da chuteira contra a arquibancada. Oliver e Mike
correram em minha direção, após uma conversa breve com o treinador
visivelmente ansioso. Graham quase tropeçou em cima de mim após frear
bruscamente, segurando meus ombros e me fazendo franzir o cenho.
— Cacete, o que houve? Parece que viram um fantasma. — Ri, mas
nenhum dos dois sequer sorriram.
— Certo, Damian, precisamos que você não surte — Oliver pediu e senti
meu coração apertar. Levei meus olhos para as grades da quadra de futebol e
vi que, na outra quadra, as líderes de torcida estavam agitadas. Brandon
conversava com Melissa e ela parecia pura raiva quando o seu olhar
encontrou o meu. Voltei o rosto para Oliver e então Mike, cerrando os
punhos. Minha pulsação acelerou.
― Onde está a Naomi? — praticamente rosnei as palavras e Oliver
segurou o meu braço. ― Algo aconteceu com ela, certo? Derek fez alguma
coisa com ela, não foi? Ele fez?! Eu vou matar esse filho da puta.
― Calma! Calma! — Vi Wayne tentando escapar para longe de Ramsey e
não consegui ficar calmo. Ela estava fora de si. Algo tinha acontecido. —
Aparentemente, eles se envolveram numa briga e a Naomi foi suspensa ―
Ollie contou.
Em poucos momentos me vi tão sedento por sangue quanto naquele
segundo.
― Vou matar esse filho da puta, Zhang! ― Afastei Mike e Ollie de mim e
avancei para longe. Oliver me seguiu, tentando ficar na minha frente. Melissa
também disparava na mesma direção que eu e apontei o dedo contra ela. ―
Nem tente me parar!
― Parar?! ― a sua voz saiu estridente e ela riu, furiosa. ― Eu vou
esmagar Meyers!
― Melissa! ― Mike gritou em repreensão, mas Wayne e eu já tínhamos
invadido o prédio da escola a passos firmes.
― O que ele fez? — perguntei.
― Ele? ― Brandon nos alcançou, rindo. ― Cara, a Naomi socou o
Derek. ― A surpresa me fez erguer as sobrancelhas. Algo grave devia ter
acontecido para Naomi chegar a esse ponto.
Oliver parou à minha frente. Mike alcançou Melissa e tentava, em vão,
acalmá-la. Passei as mãos pelo meu cabelo.
― Na boa, Zhang, não tenta parar a gente, beleza? Seja lá quão forte o
soco de Carlson realmente foi, ele merece mais.
― Então vai todo mundo ser suspenso?! ― Oliver quem perguntou.
― É a minha namorada, Ollie! ― rosnei. ― Se o cara fez alguma coisa
contra a Naomi, eu estou pouco me fodendo para qualquer consequência.
― Mas deveria. Porque você ser suspenso não vai adiantar porra
nenhuma, Bale! ― Tentei me desvencilhar dele, mas Oliver apertou o meu
braço, estreitando os olhos para mim. ― Sua namorada precisa de você
nesse momento, Damian. Agir por impulso, com o sangue quente, não vai
adiantar nada. Lide com o Derek depois! ― O ar saiu pesado pelas minhas
narinas enquanto eu esquadrinhava o rosto dele. Percebendo que eu ainda via
tudo em vermelho, sedento por sangue, Zhang apertou o meu braço ainda
mais. Virei o rosto para Brandon. ― Você não é exatamente o exemplo de
aluno e seus históricos anteriores não são os melhores, certo? Isso vai foder
tudo para você, tanto quanto fodeu para a Naomi. Acha que é isso o que ela
quer?
Perdi meus argumentos por um momento, inspirando e expirando com
pesar. Busquei por apoio em Ramsey, que suspirou.
― Merda ― o loiro disse. ― Ollie está certo.
― Brandon! ― exclamei, sem acreditar.
― Cara, vai por mim, a Naomi é a minha melhor amiga, tá legal? ― ele
disse, se aproximando. ― Acha que eu nunca senti ódio de Meyers?! Que eu
sinto ódio dele agora? Eu quero esmagar o crânio daquele bastardo, Bale.
Mas fazer isso aqui não é uma boa, a Naomi provavelmente está precisando
dos amigos para tranquilizá-la.... e a gente pode bater no Derek fora da
escola. ― Ramsey ergueu uma sobrancelha e me deu seu pior sorriso.
Bufando, encontrei o olhar de Melissa, que não parecia muito mais calma.
Garanti que não faria merda alguma, mas queria ver a minha namorada.
Todos assentiram, mas afirmaram que me seguiriam, como se desconfiassem
do meu autocontrole. Mel suspirou e levou o celular ao ouvido, ligando para
Naomi, mas caía na caixa postal. Presumimos que Carlson estava na sala da
treinadora e seguimos para lá.
Quando nos aproximamos do local, a minha garota saía por uma das
portas sem nenhum resquício de choro, com um saco de gelo sobre os dedos.
Naomi caminhava pelo corredor um tanto quanto perdida. Avancei em sua
direção imediatamente.
A minha namorada parecia anestesiada quando tirei o gelo de seus dedos
avermelhados para ver o estrago. Uma explosão de perguntas carregadas de
preocupação veio dos nossos amigos, principalmente de Melissa, que
alisava as costas da melhor amiga e xingava Meyers na velocidade da luz.
Contudo, Naomi apenas ergueu os orbes azuis em minha direção quando meu
polegar se arrastou levemente por um dos nós machucados. Ela mordeu o
canto do lábio em dor.
― Está doendo muito?
― Sim e não. ― Todos se calaram quando ela me respondeu, sua voz
baixa e rouca. ― Quer dizer, está doendo para cacete, mas menos do que eu
esperava.
― Consegue abrir e fechar os dedos?
― Sim, mas dói, então não quero.
Ela se virou para Wayne e a entregou a mão saudável, entrelaçando-a a
dela. Algo no olhar que Naomi lançou para Melissa a fez se acalmar. Só
então a minha namorada observou os outros amigos.
― Voltem para o treino — ela ordenou e alguns protestos se iniciaram.
Carlson revirou os olhos, dramaticamente.
― Fechou a mão direito durante o soco? ― Brandon se aproximou,
preocupado e ignorando a ordem. Ela sorriu fraco.
― Claro, um amigo me dizia tanto qual era o jeito certo de socar uma
pessoa, que foi instintivo. Nenhum osso quebrado, prometo! ― Naomi
piscou e Ramsey riu. Carlson apertou a mão de Melissa e se virou para ela.
― Sabe que vou te contar tudo mais tarde. Seja a capitã hoje. E voltem para
os treinos.
― Naomi... ― Mel estranhava a firmeza da amiga e eu também. Até
porque a mão machucada de Carlson, sobre a minha, estava levemente
trêmula.
― Olha, sei que odeia bancar a capitã, então tenta só mais essa vez? Juro
que vou ficar bem. Faz isso por mim, agora, por favor? ― minha namorada
pediu e Wayne bufou, cedendo. Elas se abraçaram brevemente e Naomi
deixou um beijo estalado na bochecha da amiga antes de acenar com a
cabeça para ela, mas com seus olhos cravados em Graham. Seja lá o que
isso significou, Mike seguiu Melissa para fora do corredor e arrastou os
meninos consigo.
― Você sabe dar um soco ― forjei orgulho e fingi estar menos tenso.
Naomi não esboçou sorriso algum. ― Quer conversar?
— Não. — Ela desviou o olhar para as marcas em suas articulações. —
Vou para casa.
― Vou com você.
― Não...
― Então me deixe pelo menos fazer um curativo bom nisso aqui. Por que
não foi para a enfermaria?
― Derek está na enfermaria. ― Ela passou o polegar entre as minhas
sobrancelhas antes de tomar o gelo de volta da minha mão e colocá-lo em
seu ferimento. ― Desfaça essa ruga, eu estou bem, a treinadora cuidou de
mim.
― Foi mesmo suspensa?
― Sim, três dias. Hawkins deve ligar para os meus pais em breve.
― Me deixe cuidar disso ― pedi e ela balançou a cabeça. ― Naomi!
― Volte para o treino, novato.
― Não. Vem comigo. ― Carlson cedeu com um suspiro quando viu que eu
não descansaria tão cedo.
Nos guiamos até a enfermaria e eu bati duas vezes na porta. Tive que me
segurar ao pouco autocontrole que eu tinha quando uma pequena brecha se
abriu e o treinador apareceu, me deixando ver Derek Meyers sobre a maca.
Ao menos era bom saber que minha namorada tinha deixado seu rosto
vermelho. Provavelmente Carlson acertou sua mandíbula, perto do seu
queixo, o que forçou Meyers a fechar a boca com o impacto, mordendo o
lábio com força. Isso explicava a quantidade de sangue.
Sim, Naomi sabia dar um soco.
― O que quer, Bale? ― treinador Sanders perguntou e viu a minha
namorada a dois ou três passos de mim.
― Preciso de um kit de primeiros socorros, senhor. Juro que vamos
devolver, não queremos nenhuma confusão. ― O treinador estreitou os
olhos, mas assentiu, fechou a porta e só a abriu novamente quando me
entregou a pequena maleta branca. ― Prometo fazer três gols no próximo
jogo se não tratar os ferimentos dele tão bem assim...
― Saia daqui, Bale! ― Terrance pediu, mas eu jurava que ele queria rir.
Logo, Carlson e eu estávamos no seu carro. Fiz o curativo lentamente e
com muito cuidado. Ter uma mãe enfermeira tem suas vantagens e, no fim, a
mão de Naomi ficou muito bem enfaixada.
― Sei que dói, mas se não quebrou os dedos como disse, preciso que
tente abrir e fechar a mão minimamente, não quero atrapalhar muito sua
mobilidade ― pedi. Carlson obedeceu e um gemido escapou da sua boca.
Sorri fraco, sentindo um pouco da sua dor apenas pelo som e pela visão do
seu lábio levemente retorcido, suas sobrancelhas unidas. ― Não é o tipo de
gemido que gosto de ouvir de você, sweetheart.
Eu esperava um rolar de olhos, um sorriso. Nada veio.
A instruí a colocar gelo por cima das ataduras que cobriam a gaze e a
ligar para minha mãe mais tarde. Implorei para que esperasse pelo fim dos
treinos para ir embora, porque dirigir com a mão machucada não era uma
boa, mas Naomi era teimosa e eu não insistiria numa discussão. Era estranho
o quanto sua feição estava impassível, como se não conseguisse sentir nada,
ou empurrasse os sentimentos para o fundo do peito a todo custo. Ela
segurou o meu braço.
— Me prometa que não vai fazer nada em relação à Derek durante a minha
suspensão — sua voz saiu baixa demais e eu praguejei mentalmente, virando
o rosto em sua direção. Seus dedos estavam gelados sobre mim, por segurar
o gelo por tanto tempo. Não quis prometer e Carlson suspirou. Eu não
esperava por isso. ― Me prometa, Damian. Agora. É sério.
― Naomi...
― Me prometa ― ela suplicou, entredentes, e eu finalmente vi o medo e a
tristeza em sua voz. Quase quebrei ao perceber o quanto Meyers ainda a
feria.
― Eu quero matar esse filho da puta. Por favor, não me peça para
prometer o que não posso cumprir...
― Se me ama, vai fazer isso por mim.
― Não, isso não faz o menor sentido, não pode dizer isso.
― Posso, Bale, é a minha luta, é o meu problema.
― Não precisa fazer isso sozinha.
― Não, eu preciso. ― Carlson engoliu em seco. ― Digo, eu amo ter o
apoio de vocês, eu preciso do apoio de vocês. Mas não assim. Eu não quero
nenhum amigo ou namorado salvador que acha que vai me proteger dando
alguns socos no meu ex-namorado, não. Eu não preciso disso. Não sou uma
mocinha esperando por um herói, Damie. Se Meyers quiser trazer o inferno,
essa guerra será minha e eu estarei na linha de frente.
― Não precisa "ficar na linha de frente" sozinha. — Ela desviou o olhar,
claramente discordando. — Não precisa lutar sozinha, Naomi ― repeti,
pausadamente. Carlson balançou a cabeça em negação.
― Não quero lutar sozinha, mas isso não significa que eu quero você
defendendo a minha honra ou algo do tipo, principalmente se pensar que
precisa agredir fisicamente alguém para isso. Não, Damian. Se quiser me
apoiar de alguma forma, basta ficar do meu lado, como sempre. Só me
prometa que não vai usar da violência como eu usei, amor, não vai bater em
ninguém. ― Seus olhos caíram sobre mim novamente com carinho e
preocupação. ― Damian...
― Naomi, honestamente...
― Eu vou ficar muito, muito preocupada se não me prometer. Vou ficar
profundamente chateada. Sabe que estou pedindo algo razoável, não quero
que você se ferre dentro dessa escola, nem quero que se machuque. ― Amor
gritava através dos seus olhos.
Era algo que eu não queria prometer, mas Carlson me olhava com uma
melancolia tão intensa, suplicando silenciosamente... Acabei assentindo. Ela
forçou um sorriso fraco e apertou seus lábios nos meus delicadamente. Meu
coração estava subitamente pesado e dolorido, tomado pela impotência.
― O que ele te disse? ― sussurrei.
― Nada que valha a pena lembrar ― ela devolveu. Abri a boca para
repetir a pergunta, mas Carlson me beijou de novo. O cara tinha machucado
a minha garota, que nem queria me dizer como. Naomi me deu um último
selinho. ― Amo você. Te ligo quando chegar em casa.
― Promete?
― Prometo.
Murmurei que a amava, saí do carro e fechei a porta, disposto a tentar
cumprir a minha promessa. Naomi, contudo, não cumpriu a sua.
Ela passou dois dias sem responder ninguém.

Ficar sem notícias da minha namorada fez alguns medos ressurgirem. Por
exemplo, fazia muito tempo desde o meu último pesadelo com Megan.
Daquela vez, ele voltou bem pior.
Segui Megan escada acima e fui parar no mesmo banheiro em que ela teve
a overdose, mas quando abri a porta, era Naomi ali. Ela estava chorando ao
chão. Haviam marcas roxas e avermelhadas pelos seus braços, por seu rosto,
ela parecia destruída. Ao lado dela, Derek Meyers alisava a sua pele,
secava as suas lágrimas, com seus dedos machucados.
Não consigo lembrar o que exatamente eu gritei para ele ou o que ele me
disse em retorno, porque me vi completamente tomado por uma sensação de
pânico e impotência — já que desejava destruí-lo com as minhas próprias
mãos e Carlson me fez prometer que eu não faria isso. E ela repetia,
baixinho, algo como "não o machuque". Eu simplesmente não sabia dizer se
Naomi pedia isso para Meyers ou para mim.
Os soluços da morena preenchiam o banheiro e a música no andar debaixo
conseguia ser ouvida, mesmo que levemente distante. Senti nojo quando os
nós vermelhos dos dedos de Meyers alisaram o rosto dela.
— Ela é tão linda... — ele sussurrou, audível mesmo com os soluços da
garota. — E tão minha. Sabe disso, não sabe? Ela é minha e isso está fora do
seu controle, Bale.
Era como se ácido corresse por minhas veias, no lugar do sangue. Como
ter todo o meu interior corroído. Era como fúria, angústia, dor e alguma
melancolia enlouquecedora que sou incapaz de explicar. Como uma droga
que entorpecia a minha mente, transformava-a numa névoa vermelha e de
repente tudo o que eu queria era sangue. Dele. Então me descontrolei.
E quando vi, eu deferia socos e socos contra Derek. Ele só gargalhava,
insano, mais alto toda vez que sua cabeça se chocava contra a parede. E a
cada soco, Naomi gritava e tentava me afastar. Até que eu comecei a sentir
tudo aquilo que todo pesadelo relacionado a Megan Hunter me fazia sentir:
falta de ar, dor no corpo inteiro, coração acelerado...
Consegui me sentar contra a parede do banheiro, no exato momento em
que Meyers se colocou de pé, cambaleando. Ele cuspiu o sangue no chão e o
limpou do rosto, dando as mãos sujas de vermelho para Carlson. E Naomi o
aceitou, me lançando um olhar que clamava por socorro, mas ainda assim,
indo embora com ele sem me dizer uma única palavra.
A falta de ar cresceu e cresceu... Senti um líquido se acumular em minha
boca e quando eu vi, eu espumava. Olhava para a porta na esperança de ter
Carlson de volta, mas não. Uma loira apareceu ali e se ajoelhou à minha
frente. Megan sorriu com doçura e secou as lágrimas nos meus olhos.
— Dói, certo? — ela sussurrou e doeu cada sílaba que ouvi. Depois riu,
se deliciando com o meu sofrimento enquanto eu tossia e buscava por ar. —
E você também não vai salvá-la.
Fiz força para recuperar o fôlego e acordei suando em frio, chorando
silenciosamente. Não entendi nada quando percebi que Ryan segurava meus
braços, sentado à beira da cama, seus olhos cinzas como os meus tão
arregalados.
— Damian, você estava gritando! — Meu pai estava trêmulo e ofegante
como eu. Olhei para a porta do quarto e Katy estava em seu roupão, com uma
ruga de preocupação nítida entre as suas sobrancelhas.
Não sei o que deu em mim e jamais pensaria que faria isso, mas quando
vi, estava desabando. Meu choro preencheu todo o quarto e eu deitei a
cabeça sobre o ombro do meu pai, que aos poucos deixou de perguntar o que
tinha acontecido para me consolar, mesmo sem saber o motivo.
— Não posso perdê-la também, não posso...
— Shhhh... — A mão quente de Ryan alisou as minhas costas. A porta do
quarto se fechou e ficamos ali pelo tempo necessário para que eu me
acalmasse. Não sei ao certo quando o choro consumiu todas as minhas
energias e eu adormeci.
Só acordei quando a cama afundou, assustado, até focar no rosto à minha
frente. Miley levou a mão pequena à minha bochecha.
— O que está fazendo aqui? — sussurrei, prestes a mandá-la ao quarto,
porque estava tarde.
— Você teve um pesadelo e acordou a casa toda, ué. — Uni as
sobrancelhas. — Quando eu tenho um pesadelo, a mamãe me protege a noite
inteira.
— E?
— A tia Meredith não tá aqui. E ela me disse pra cuidar de você. — Abri
a boca e Miley levou o indicador para os meus lábios. — Shhh! Não! Nem
adianta me mandar ir embora! Vou cuidar de você!
A pequena Bale me empurrou sobre a cama e colocou a cabeça no meu
peito, me abraçando. Seu perfume infantil me acalmou e eu resolvi aceitar o
carinho, porque... Quem eu queria enganar? Eu precisava daquilo.
— Nenhum monstro vai te pegar, Damie. Eu prometo.
Me permiti acariciar as suas costas e os seus cabelos até o sono me tomar
novamente. E com um anjo entre os meus braços, nenhum demônio voltou a
me perseguir. Ao menos naquela noite.

— Então, Naomi não te responde? — Mike perguntou enquanto


tentávamos matar mais um zumbi no videogame. Oliver estava no banheiro e
Brandon estava na minha cama, usando o celular.
Apesar da minha cama ser bem confortável, Mike e eu estávamos jogados
nos puffs e o resto do meu quarto era uma bagunça. Os livros de química
estavam abertos no chão, mas nós não estudávamos. Ramsey, Zhang e eu
precisávamos da ajuda de Graham para recuperarmos alguns pontos na
matéria, mas ninguém estava com cabeça para isso.
— Não, ela não dá notícias. Madison me disse que Naomi mal conversa
em casa e a mãe dela não me responde — resmunguei. — Não sei se posso
ir pra casa dela, porque ela não me atenderia e provavelmente pioraria tudo.
Carlson não quer que eu esteja no mesmo ambiente que o pai dela por nada
no mundo. — Meus olhos ardiam, eu precisava dormir. — E eu não aguento
mais olhar para aquele filho da puta. Derek sorri toda vez que eu passo por
perto, só para me provocar. — Eu apertava o controle com cada vez mais
força.
— Talvez ela precise de um tempo para respirar, sabe?
— Eu sei. E entendo. Só que me preocupo! Eu queria receber pelo menos
um "estou bem", "não quero falar agora, mas estou legal". Me sinto tão... —
grunhi, frustrado — impotente. Por que esse cara voltou agora? Por que ele
simplesmente não pode ir para a puta que pariu e deixar a Naomi em paz?!
— Tudo o que preciso é de dois minutos com ele em um lugar fechado —
a fala de Ramsey fez Mike rir.
— A Naomi falou para não fazermos nada — recordei.
— Não, ela disse para você não fazer nada. E você prometeu isso. Eu,
Brandon Ramsey, não prometi nada.
— Mas também não vai fazer merda. Não quer deixar Carlson brava —
Graham lembrou. Olhei por cima do ombro no exato momento em que, ainda
usando seu celular, Brandon ergueu o braço ao máximo e deixou seu dedo
médio responder a Mike. Voltei a atenção ao jogo. — O que ele disse para a
Naomi de tão pesado que ela chegou a bater nele?
— Acho que nunca vamos saber — Oliver lamentou, ao sair do banheiro e
se sentar no chão, encostando as costas à cama. Zhang parecia meio triste
nos últimos dias. Provavelmente porque descobriu que não conseguiria
visitar a avó no feriado de outono chinês, por causa de algumas provas da
escola. Ele não queria falar muito sobre. Ollie pouco falava de si. — Nunca
gostei do Derek, eu já disse isso?
— Infelizmente eu fui melhor amigo daquele filho da puta — Ramsey
falou. — Não sei onde eu estava com a cabeça.
— Nunca percebeu nada de errado com ele? Em relação à Naomi? —
Mike perguntou.
— Cheguei a consolar a Naomi quanto a algumas brigas, mas ela sempre
dizia que era bobagem. Cara, de vez em quando lembro de coisas e penso
"como não percebi antes?”. Eu achava que era só um casal meio errado, não
imaginava que fosse algo tão abusivo. Agora lembro das vezes que Carlson
usava blusas de manga comprida num calor infernal ou dos comentários dele
reclamando da saia curta dela em uma foto ou outra. Eu só fui perceber que
isso passava dos limites quando...
A fala de Brandon morreu. Ollie e Mike buscaram por Ramsey com um
olhar, mas só eu sabia do que o loiro falava. Provavelmente Brandon
acordou para a vida quando Derek soube da gravidez. Percebi que Brandon
sabia sobre o aborto também. Afinal, foi quando Meyers começou a surtar
ainda mais, até chegar ao seu total descontrole.
Deixei um suspiro pesado escapar só de imaginar o que poderia acontecer
se ele magoasse Naomi novamente.
Talvez Derek tivesse sido ainda pior do que eu imaginava, e me deixava
ansioso para caralho cogitar que Carlson poderia retroceder em seus
avanços com a psicóloga, conosco, consigo mesma. Ela estava se libertando
das amarras de Derek, finalmente, mas o filho da puta tinha voltado. Porra...
— Lembro de quando saiu a notícia do surto de Meyers na Poison —
Oliver contou. — Demorou tipo… um dia para a postagem sumir e
praticamente nunca mais falaram nele. Pensei que a família processaria a
conta ou algo assim.
— Eles não gastariam dinheiro processando uma conta controlada por
uma adolescente. — Mike riu ao dizer. — A Poison só se pronunciou
novamente para falar que Meyers foi para o reformatório, o que nem faz
sentido.
— Por quê? — Oliver perguntou, baixo.
— Meyers tinha dezoito anos, cara. Se fez algo ilegal, ele iria para a
prisão, não? — Graham me fez pensar. — De qualquer modo, diziam na
escola que os pais dele gastaram uma grana fodida para que Derek fosse
aceito num reformatório por alguns meses, e não numa prisão. Ou que talvez
ele tivesse ido parar num internato bem longe daqui. Mas são só teorias.
Prisão. Reformatório. Surto. Internato. Meyers só ficava pior na minha
mente. Isso me deixava nervoso, fazia um arrepio gélido percorrer a minha
espinha. Derek poderia ser mais perigoso do que eu imaginava para a
Naomi. E eu queria proteger a minha namorada, o que era difícil quando eu
não fazia ideia de como fazer isso.
Eu tinha pesquisado sobre relacionamento abusivo diversas vezes
naqueles últimos meses. Livros, internet, pesquisas científicas... Até
adormeci pesquisando sobre como ajudar alguém que passou por uma
relação tóxica. Mas eu não sabia se estava fazendo um bom trabalho.
Respirei fundo.
— Sei que a minha namorada é forte para cacete, não estou questionando
isso aqui — comecei, com a voz levemente rouca. Engoli em seco, sabendo
que todos estavam atentos ao que eu dizia. Aquela seria a primeira vez em
que eu desabafaria de verdade com meus amigos da Austrália, com quem eu
me permitiria ser vulnerável. — Mas Meyers me deixa em alerta porque eu
tenho... medo. — Suspirei, cansado.
Mike pausou o jogo e, mesmo sem encará-lo, eu sabia que me analisava.
— Medo do quê? — Brandon questionou, saindo da cama e se sentando
ao lado de Mike. Ramsey abraçou os próprios joelhos e eu mordi o canto da
bochecha. Guiei meu olhar para todos ali, mas o travei em Mike. Sentia que
poderia confiar neles, mas principalmente em Graham.
— Acha que Derek machucaria ela de novo? Tipo... fisicamente? — Mike
quase sussurrou.
— Fisicamente talvez não. Mas a obsessão dele pode machucar a Naomi
mais do que pensamos. E eu... às vezes tenho medo do que ela pode fazer
com isso.
— Acha que ela pode se afundar — Oliver arriscou e eu assenti.
— E eu não quero perder a minha namorada. Ou melhor, não quero que ela
se perca. — Engoli em seco, com força. Meus olhos arderam e eu afastei o
controle do jogo, passando a mão pelo rosto e pelos cabelos por um instante,
um pouco sufocado.
— Damian, cara, tem algo a mais rolando com você ou...? — A
preocupação de Oliver me fez respirar fundo.
— Eu perdi uma namorada uma vez. Ela morreu, por uso de drogas — fui
honesto, engolindo em seco contra o nó na minha garganta, odiando o quanto
me senti pequeno com aquela confissão. Ramsey xingou baixo. — Eu penso
que não prestei atenção o suficiente, não cuidei dela o suficiente... E, não
sei, existem muitos casos de vítimas de abuso que... que não suportam a
pressão psicológica, certo?!
— O quê?! Não! A Naomi não vai se perder, ok? — Ramsey me garantiu e
eu ergui os olhos para ele, ainda sentindo a insegurança apertar o meu peito.
— Carlson é mais forte do que aparenta e já aparenta ser forte pra caralho. E
ela tem a gente! Derek Meyers é só mais um filho da puta. Ele não vai passar
por cima de nós.
— Além do mais, eu e meus punhos não prometemos nada! — Oliver me
deu um sorriso maldoso e eu quase ri. Mike segurou o meu ombro e o
observei, a preocupação por todo o seu rosto.
— Se precisar conversar comigo, sobre sua ex, sobre a Naomi, ou
qualquer coisa... — Graham nem precisava terminar a sua frase.
Às vezes as pessoas ganham importância na sua vida sem que você nem
perceba. De repente, Mike tinha se tornado um irmão para mim. Oliver e
Brandon eram amigos que eu jamais esperava ter. Eu não estava sozinho.
— Sei que posso contar com vocês — garanti, sorrindo. — Mas parem
com essa demonstração de afeto, porque eu namoro, sou fiel e não vou para a
cama com ninguém aqui! — Minha frase mal tinha acabado e Oliver já
jogava uma almofada na minha cara. Ouvi Graham rir.
— Não vai conquistar esse corpinho com facilidade, Bale — Brandon
garantiu, soprando um beijo no ar. E no meio de uma guerra de provocações
que surgiu, pensei em como o Damian Bale de meses atrás riria se soubesse
que estaria no meio daquelas pessoas.
Ramsey era um babaca no início do ano, Graham mal conseguia se impor
na escola e Oliver mal trocou duas palavras comigo até muitas semanas
depois. Enquanto eu... eu não achava que me encaixaria naquele lugar.
É estranho pensar em como, de alguma forma, apesar de tantos erros e
confusões, aqueles meses mudaram cada um de nós. De modo bem mais
profundo do que imaginaríamos.
No início daquele ano, eu teria rido se me dissessem que eu teria alguma
família em Brightgate.
De repente, eu não queria mais me ver em nenhum outro lugar.
Era uma sexta-feira. Eu já estava sentado atrás de Mike na aula de
literatura. Wayne estava ao lado dele e os dois nerds irritantemente
adoráveis estavam de mãos dadas, apesar de ambos concentrados em seus
cadernos. Eu tentava anotar o que o professor dizia, mas meu olhar cismava
em buscar a porta. A única cadeira vazia estava atrás de mim e deveria ser
ocupada por Naomi Carlson em seu primeiro dia de aula após a suspensão.
Convenhamos, pontualidade e Carlson? Não combinam.
Quando a porta finalmente se abriu, quase arrastei a cadeira de Mike para
frente ao ajeitar a minha postura. Graham e Melissa me olharam antes de
perceber quem eu encarava.
Naomi tinha os fios castanhos em um rabo de cavalo alto e segurava um
pirulito entre seus lábios levemente avermelhados. Seus dedos, em torno do
cabo do doce, ainda estavam machucados, o que explicava a curiosidade
vívida nos olhares da sala inteira. Ela entrou em silêncio, seus tênis brancos
pisando firme contra o chão da sala. O professor de literatura parou de
escrever no quadro para aceitar o papel na mão livre da minha namorada,
provavelmente uma autorização para assistir a aula depois do seu atraso.
Eles conversaram brevemente e trocaram sorrisos fracos antes dos olhos
azuis da morena encontrarem o banco atrás de mim.
E ela sorriu. Meu coração vacilou, como sempre, se perdendo em suas
batidas, quando ela se aproximou com seus quadris balançando suavemente
de um lado ao outro, rompendo o enlace entre os dedos de Wayne e Graham
ao passar e se sentar atrás de mim.
Naomi não tinha me respondido nos últimos dias. Parte de mim
questionava se o fato de me importar com isso era egoísta. Ela precisava
pensar, certo, eu entendia. Só que eu queria ao menos ter recebido um "estou
bem". O pesadelo com a Megan não exatamente me deixou mais tranquilo
também.
Seu perfume invadiu meu olfato, sempre tão suave e viciante. Contudo, o
senti se tornar levemente mais intenso quando a presença de Naomi se tornou
ainda mais próxima. Me forcei a observar o quadro, mesmo ciente de que
seu queixo estava sobre o meu ombro, seu corpo completamente debruçado
sobre a mesa.
― Ei, amor. ― Não a respondi, nem quando seus dedos acariciaram a
minha nuca, se infiltraram no meu cabelo. A outra mão sustentava o cabo do
pirulito. ― Bom dia.
Fitei de canto de olho o seu rosto e percebi o momento em que ela uniu as
sobrancelhas. Carlson apoiou a mão no meu ombro.
― Shakespeare é mais interessante do que eu? ― Naomi mordeu o lábio
inferior e se sentou. Inquieto, voltei o olhar para o quadro de giz. Foram
cinco segundos até Naomi se debruçar sobre a mesa novamente. ― Está
chateado comigo?
― Tenho motivo para estar?
As palavras simplesmente deslizaram para fora da minha boca, não
consegui me controlar. Me amaldiçoei por isso no instante seguinte.
― É porque não te respondi nos últimos dias?
― Você acha?
― Vamos ficar nesse jogo de perguntas? ― Naomi suspirou e eu fiz o
mesmo. ― Eu precisava pensar, Damian ― ela sussurrou enquanto
esquadrinhava o perfil do meu rosto. ― Sério, lindo, às vezes pensamos
melhor sozinhos. Às vezes, eu prefiro me isolar um pouco. Pensei que
entenderia isso. Não consegue compreender?
Não a respondi e senti sua frustração quando bufou. Carlson apertou o
meu ombro com certa leveza.
― Sempre que precisa ficar sozinho, eu te deixo pensar.
― Mas se pergunta como estou, ao menos eu respondo. Não levaria mais
do que trinta segundos para enviar um "estou bem". ― Me senti mal pela
discussão, mas não conseguia evitar. Eu estava bravo. Na verdade, desde o
maldito pesadelo, eu me sentia na beira de algum abismo desconhecido.
Como se estivesse a um sopro de cair.
― Uau, você está realmente bravo!
― Considerando que você não tem tempo pra dar sinal de vida pra mim?
É, sim. Estou.
Um silêncio nos tomou e Naomi voltou a se sentar, devolvendo o pirulito à
boca. Ouvi sua mochila se abrir e olhei por cima do ombro. Carlson abriu o
caderno de desenhos e, alguns croquis depois, arrancou uma página e me
entregou. Era um desenho sobre mim. Observei os traçados, como ela ficava
cada vez melhor nisso.
― Tem razão, amor, você nem sequer passou pela minha mente — ela
ralhou. — Eu não tenho tempo para você.
― Não foi isso o que eu disse! ― Ouvimos uma aluna da sala cobrar
silêncio e a ignorei. Deixei o desenho entre as folhas do meu caderno e me
virei sobre a cadeira, analisando seu rosto vermelho e sobrancelhas unidas.
Naomi estava visivelmente brava. ― Custava mesmo ter me respondido?
Sério?
Ela abriu a mochila, pegou outro caderno e seu estojo, começando a
escrever. Irritado, me virei para frente. A sensação de irritação foi aos
poucos se perdendo para alguma melancolia quando percebi que a discussão
não nos faria bem algum. Não consegui anotar mais uma palavra sequer.
Peguei o celular e digitei uma mensagem, ouvindo o celular da mesa atrás de
mim apitar. Não recebi uma resposta e bufei. Tentei mais uma vez.
Eu: Não gosto de brigar com você.
Sem resposta.
Olhei por cima do ombro. Ela bem que tentou não guiar os olhos azuis
para mim, mas eles a traíram e me atingiram brevemente. Acenei com a
minha cabeça para o meu telefone, o balançando. Naomi mexeu os ombros,
segurando seu celular.
Eu: sweetheart. Eu te deixei pintar minhas unhas e colocar máscara de argila no meu rosto,
não vai mesmo me responder?
Naomi: Está mesmo jogando na cara?
Eu: Ahá!
Ouvi um riso nasalar atrás de mim e me virei. Carlson mordeu o sorriso e
revirou os olhos, levando a mão ao meu rosto e me fazendo virar para a
frente.
Eu: Não gosto de brigar com você. A não ser que nos leve a sexo selvagem.
Naomi: Também não gosto de brigar com você, mas vou pensar sobre o sexo selvagem.
Foi a minha vez de rir.
Naomi: Desculpa. Eu poderia ter mandado uma mensagem e confesso que eu não quis.
Estava ansiosa e tenho a mania de me isolar quando isso acontece, de tentar ficar sozinha e me
distrair até que a sensação passe. Pensei que era melhor conversar com você e a Mel
pessoalmente sobre tudo isso quando a suspensão acabasse, sabe? Desabafar frente a frente.
Mas realmente não custava nada ter dito que estava bem. Então desculpa.
Eu: Certo, tudo bem. Desculpa se fui incompreensivo de algum modo, ok? Não quis te
pressionar, brigar é a última coisa que precisamos... Então tudo bem entre a gente?
Mordi o canto da bochecha, esperando por uma resposta. Lábios se
pressionaram contra o meu blazer, no meu ombro. Virei o rosto e Carlson
sorriu para mim, acariciando o fim dos fios na minha nuca. Relaxei sob seu
toque, principalmente quando ela me deu um sorriso tão doce quanto o
pirulito em sua mão.
― Conversamos direito depois? ― ela sussurrou. Assenti e me apoiei
contra a cadeira, arqueando o pescoço ao máximo, vendo seu sorriso de
cabeça para baixo. Carlson uniu a boca à minha e meu celular vibrou alguns
segundos depois. Uni as sobrancelhas ao ajeitar a minha postura,
aproveitando o seu cafuné enquanto o professor continuava a falar sobre
Shakespeare.
Reli minha última mensagem, a que perguntava se estávamos bem, e ri,
sem acreditar na resposta.
Naomi: isso te responde?
Minha namorada anexou uma foto de lingerie. Balancei a cabeça, rindo
baixinho. Ok, estávamos bem. Ao menos por ora.

Carlson usou o tempo do intervalo para conversar comigo, Mel, Brandon,


Mike e Ollie sobre como estava e sobre como se sentia. Passei a conversa
inteira alisando os seus dedos, odiando como eles estavam vermelhos.
Naomi disse que sua mãe ofereceu luvas, mas ela não via razão para
esconder nada. Ela bateu em Derek, mas não exatamente se envergonhava
disso. Apesar de que — em suas palavras — Meyers não valia a pena.
Naomi disse que chegou ao limite porque ele a desrespeitou repetidas
vezes. Não era a errada, não era a vilã da situação e certamente não
precisava omitir nem explicar nada para os alunos curiosos do Colégio
Brightgate, que esperavam por uma publicação da Poison que nunca veio.
Mesmo sem a maior fonte de fofocas da escola, todos sabiam o que tinha
acontecido, então que soubessem que Naomi era tão forte quanto ele. E que
não o temeria, nunca mais.
Apesar disso tudo, todo nosso grupo de amigos sabia que, de certo modo,
Carlson tentava se convencer de que Meyers não seria um problema
novamente. Mas Derek era um trauma. Um que respirava, falava, andava e
existia por perto. Ainda assim, a promessa de não bater nele continuava de
pé. Dessa vez, inclusive, Naomi fez todos na mesa prometerem isso e que
não chegariam sequer perto disso, o que fez Oliver dramatizar que morreria
de desgosto por longos minutos.
O problema era o quão filho da puta Derek conseguia ser. Porque ele não
parou de tentar se aproximar.
Ele chegou a se oferecer para passar uma cena com a Naomi em um dos
ensaios, quando me atrasei. Ele fez uma das líderes de torcida entregar um
colar para Carlson, que aparentemente era um dos favoritos de Naomi
quando os dois namoravam; ela o jogou fora. Outros pequenos presentes
surgiram na bolsa dela e todos também foram para o lixo, mas ainda assim
me frustravam.
Aquilo era uma perseguição fodida do caralho e Naomi temia abrir a boca
sobre a situação, quando Meyers poderia expor o aborto para todo mundo ou
pior — se é que existia coisa pior.
Eu e ele... Não tínhamos trocado uma só palavra, mas Derek sempre a
observava sem parar quando eu estava por perto. Como se quisesse provar
algum ponto ou marcar o nome dele em Carlson mesmo de longe. Ele chegou
a assistir um ou dois dos nossos treinos de futebol, alternando em estudar os
meus passos, torcendo por um erro, e devorar a saia curta da minha
namorada na quadra ao lado. E quando eu percebia os seus olhares sujos,
Meyers olhava para mim e ria nasalado, cheio de deboche.
Mike teve que me lembrar algumas vezes de que eu não poderia agredí-lo.
Se não fosse por Graham, eu teria quebrado minha promessa muito mais
cedo.
A primeira vez que Derek e eu realmente conversamos, contudo, chegou.
E da pior forma possível.
— O que vão fazer agora? — Brandon perguntou, no estacionamento, após
um dos jogos.
— Vou sair com a Mel — Mike respondeu e eu segurei o sorriso
malicioso com muita luta.
Graham e Wayne iriam jantar juntos e ele teve a ideia de transformar a
caçamba da sua caminhonete no lugar perfeito para ver as estrelas, perto da
praia, com alguns bons cobertores... Cara, Mike iria transar.
Acho que Graham estava incerto se isso de fato iria acontecer, mas
Melissa não. Porque Naomi e ela passaram aquela semana mais unidas do
que nunca. E isso quer dizer muito. Também acho que interrompi uma
conversa delas sobre sexo uma vez, no refeitório, porque Mel ficou
vermelha como nunca e eu conhecia bem o sorriso maldoso da minha garota.
Além do mais, Carlson tentou bloquear o celular antes que eu visse, mas meu
olhar capturou as fotos de lingeries na tela.
Sim, Mike iria transar.
— Por favor, dure mais que vinte segundos — o provoquei baixo. Graham
bateu no meu braço. Eu não estava brincando tanto assim, ele era apaixonado
por Wayne desde sempre e ela finalmente estava confiando nele para terem
uma primeira vez. Precisava ser especial para os dois. Seria bom se ele
durasse mais de vinte segundos. Brandon ouviu a provocação e riu, ainda
atento ao celular. — Já assistiu American Pie? Pense em cadeiras.
— Cale a boca! — Graham pediu, rindo. Oliver nos alcançou e enlaçou o
pescoço de Mike com um dos braços. Apesar de corado pelo jogo, não havia
qualquer resquício de cansaço em seus olhos oblíquos e escuros.
— O que vão fazer? — Zhang perguntou com seu olhar faiscando más
intenções. — Meus pais viajaram e acho que minha irmã vai levar a
namorada para casa, queria dar alguma privacidade. Por favor, me levem
para algum lugar.
Carlson e Wayne finalmente nos notaram quando nos aproximamos. Minha
namorada pulou do Corvette e andou em minha direção, até se encaixar entre
meus braços. Ela estava mais vulnerável e sensível nos últimos dias,
buscando mais contato do que o habitual. Eu não me incomodava em ser sua
maior fonte de abraços.
— Todos querem espairecer, então? — Brandon perguntou e sua voz se
tornou distante quando Carlson me parabenizou baixo pela vitória, unindo a
boca à minha. — Gianna nos conseguiu uma festa. Acabei de enviar para o
grupo do time. Vocês topam?
— Sobre o que estão conversando? — Naomi questionou, me enlaçando
pelo pescoço. Apertei a sua cintura, a trazendo mais para perto. Ela estava
na ponta dos pés, esparramada sobre mim de um modo preguiçoso.
— O pessoal do Colégio Blue Heaven também ganhou um jogo hoje. Os
alunos de lá planejaram uma festa, mas queriam gente nova, como os nossos
Green Snakes — o capitão do nosso time estava, de repente, falando com a
capitã das nossas líderes. De algum modo, soava como uma reunião de
negócios.
— Precisamos pagar algo? — Carlson quis saber, erguendo uma
sobrancelha.
— De graça. — A resposta de Ramsey fez Naomi sorrir de canto e guiar
os olhos em uma pergunta silenciosa para mim. Meu plano era assistirmos
alguma série e depois, talvez, ganhar a minha adorável recompensa. Mas
soava muito bom curtir uma boa festa sem pensar em nada, e depois curtir a
minha namorada com uma boa dose de álcool e malícia no sangue.
— Mike e eu temos um encontro — Wayne disse, mordendo o canto da
bochecha. — Eu não sei ele, mas não quero adiar.
— Não quero adiar! — a resposta rápida de Mike fez Naomi prender um
riso. Vi que Brandon e Oliver faziam o mesmo. — Encontramos vocês na
segunda. — Graham se despediu da gente com cumprimentos rápidos e
beijou a testa da minha namorada. Carlson e Wayne trocaram um abraço e
algum segredo sujo.
Vimos o casal sumir pela caminhonete e eu pude sentir a comemoração
distante de Graham quando seu carro funcionou, não na segunda tentativa,
mas na terceira. Rimos da cena e o silêncio nos atingiu logo em seguida.
— Acabei de te enviar o endereço da festa por mensagem — Brandon
falou para Naomi, que se acomodou nos meus braços, mas tirou o celular do
bolso.
— Estou repassando a mensagem para as Green Snakes — ela disse.
Oliver sorriu largamente, feliz. — Vamos mesmo? — Minha namorada
ergueu os olhos para mim e eu dei de ombros. Ela olhou para Zhang. — Nos
encontramos lá, então?
— Nos encontramos lá — Ollie cantarolou, piscando, e nós seguimos para
uma das piores festas do ano.
Estacionamos e Carlson saiu do carro, abriu a porta para mim e ofereceu a
mão. Ela ergueu uma sobrancelha, divertida.
— Que dama — ironizei.
— Eu tento. — Sua reverência me fez rir. Saí do carro e a envolvi pela
cintura antes de seguirmos para dentro.
Encontramos Gianna e Brandon dançando, enquanto Oliver engolia a boca
de alguma líder de torcida de Blue Heaven em um dos cantos da sala. Casais
se pegavam nos sofás, nas cadeiras, nas paredes. A festa era interessante,
mas com um olhar, Carlson e eu parecíamos pensar o mesmo: nossa escola
faria melhor.
Naomi pegou a minha mão conforme buscávamos a cozinha, depois nos
encontrou duas cervejas e abriu as tampas contra a bancada, me lançando um
sorriso orgulhoso quando fingi surpresa pela sua habilidade.
— Achei isso estranhamente sexy — brinquei e ela me entregou uma
cerveja.
— Damian, você me acha sexy até com máscara de argila, touca e um
pijama folgado — ela lembrou e eu a cerquei no mármore branco da ilha,
ignorando a festa e quem pudesse entrar naquela cozinha.
— É que você sempre mexe comigo, linda.
Ela abriu um sorriso fraco. Apesar de sincero, revelava seu cansaço. Uni
meus lábios aos seus, apertando seu queixo.
— Tudo bem?
— Estou com você, então sim, novato.
Ela chocou sua garrafa na minha. Eu choquei o sorriso no dela. Nossos
amigos poderiam ficar pra mais tarde. Duas garrafas e alguns beijos depois,
ela afastava os lábios inchados dos meus e me puxava para dançar.
Seguindo para a sala, minha namorada nos aproximou de Gianna e
Ramsey, que não pegavam tão leve na bebida quanto a gente, visto que o
surfista segurava uma garrafa de vodca. A música era eletrônica, mas ficou
um pouco mais lenta, numa vibe um tanto quanto sexy. E ter Carlson com o
corpo contra o meu, me guiando a cada batida, acariciando o fim da minha
nuca ou rebolando aquela bunda contra o meu pau... Esqueci de tudo. Era o
paraíso.
Em algum momento, Naomi e Gianna dançaram juntas. Ramsey parecia
completamente perdido no corpo de Olsen e eu não conseguia tirar as mãos
da cintura de Carlson, eu precisava tocá-la. Passamos boa parte da festa ali,
nós quatro. Parávamos de dançar apenas quando minha namorada buscava
pela minha boca ou Gianna pela de Brandon, tanto que o tempo passou
rápido para cacete.
— Não tô me sentindo bem, vem comigo? — Gianna falou, contra o som,
para Carlson. Naomi me fitou por cima do ombro por um segundo, depois
tirou o celular do bolso da saia.
— Volto já, ok?
— Ok — respondi e ela me deu um selinho. Olsen tomou sua mão, a
guiando para longe. Brandon devorou a bunda da namorada com o olhar e eu
suspirei, percebendo o meu próprio cansaço.
— Cara, já pensou em como temos sorte? — Ramsey me fez rir. Era
verdade. Nossas garotas eram quentes para cacete, e essa não era nem a
maior qualidade delas. — Quer beber alguma coisa?
Dei de ombros. Passamos por Oliver, que quase fundia uma garota à
parede, depois caminhamos para a cozinha. Assim que chegamos ao cômodo,
Ramsey abriu a geladeira e começou a relembrar os lances do jogo de mais
cedo, empolgado. Isso me deixou um pouco mais animado também.
Brindamos ao nada com duas cervejas e voltamos a discutir sobre as
jogadas, cada uma delas. Falamos também de outros campeonatos, como o
australiano, o inglês e o espanhol, até que um jogador de Blue Heaven entrou
na cozinha e se interessou pela conversa também. Acho que ele se chamava
Carl. Tenho quase certeza disso porque segurei um riso ao ouvir o seu nome,
já que Brandon, mais bêbado que eu, não sabia como chamar o cara. Sua
língua se embolava.
— Aquele lance na partida contra os Red Dragons foi perfeito — Carl nos
elogiou. — O passe que aquele tal Oliver fez... — Ele apontou para mim. —
Seu gol...
— Qual dos? — Sorri, presunçoso. Aquela foi a noite de uma goleada. Fiz
três gols e Brandon também fez um. Por isso, trocamos high fives, antes de
virarmos mais um gole das nossas bebidas. Liguei o celular, tinha enviado
uma mensagem para Naomi avisando que estávamos nos aproveitando das
bebidas da festa na cozinha, mas não recebi resposta. Carlson e Gianna
estavam demorando para nos encontrar e isso me deixou apreensivo.
— Colégio Brightgate — Carl debochou. — Sempre com o ego no topo!
— Porque somos os melhores — Brandon se vangloriou.
— Não ganham o campeonato tem três anos, então posso discordar.
— Bom, não ganhamos, mas ficamos em terceiro e segundo lugar nos
últimos dois anos. Blue Heaven estava em... décimo segundo? Ou pior... —
Brandon continuou. Falhei em prender o riso. Estávamos na festa do time
adversário, falando mal do time adversário. Sem vergonha. — Esse ano
vamos conseguir o campeonato. Estamos em primeiro. E vamos continuar em
primeiro! — Ramsey piscou.
— Vocês não tem o melhor time faz três anos...
— Nisso eu tenho que concordar — Derek disse, entrando na cozinha,
pondo um beck entre seus lábios. Suas pupilas estavam tão grandes que
diferenciar o castanho do preto delas era difícil. Havia um flask em sua mão
e eu duvidava que o teor de álcool naquele frasco fosse baixo. Ademais, eu
apostava que bebidas e maconha não deveriam ser a única coisa que ele
tinha usado. Meu sorriso e o de Ramsey morreram instantaneamente. — Há
três anos, os Green Snakes eram sensacionais para caralho. Com todo o
respeito, Ramsey, mas nenhum time era como aquele. Tinhamos o Dempsey,
o Clarke, Van Der Woodsen... Éramos a equipe!
— Cara, até hoje escuto falar desses jogadores — Carl acrescentou,
concordando com Meyers, que se apoiou contra a parede da cozinha.
— Não sei se eram tão bons assim — falei, atraindo o olhar de Derek. O
ignorei ao virar um gole da minha cerveja. — Afinal, eu não ouvi falar
deles.
— Você é muito mal informado, então — Derek falou comigo diretamente
pela primeira vez. — Deve ter muito de Brightgate que você não sabe.
Senti uma pontada ao ouvir isso. Aquilo tinha sido uma provocação. O
silêncio seria sepulcral se não fosse pela música na sala daquela casa.
— Acho que sei mais do que você pensa — respondi, entredentes. Meyers
riu nasalado. — E de qualquer forma, se ouviram falar dos Green Snakes de
três anos atrás, vão ouvir falar muito mais dos atuais. Somos um bom time.
— “Bom”, não espetacular.
— Está torcendo contra a sua escola, Meyers? — Brandon o provocou.
Meus ombros endureceram quando Derek projetou o queixo para frente,
rindo.
— "Contra" não é a melhor palavra, Brandie. Ficaria feliz se ganhassem,
afinal, fui o atacante da equipe por muito tempo e não terminei o campeonato
no meu último ano. Sou um Green Snake. Só não sei se a nossa equipe é a
melhor!
— Se não sabe que a nossa equipe é a melhor — comecei —, então não é
um Green Snake. Acho que é você quem está muito mal informado.
Meyers cerrou os olhos para mim.
— Acho que sei mais do que você pensa — ele desdenhou. — Afinal, se
eu perguntar para o cara aqui — Derek guardou o flask no bolso do seu
casaco e colocou a mão sobre o ombro de Carl — quem era o melhor
jogador dos Green Snakes há três anos, eu sei que nome vou ouvir.
— Derek Meyers — Carl respondeu, para a minha infelicidade. Sorri de
canto, ignorando a vontade absurda de engolir o desgosto.
— As pessoas esquecem do passado com facilidade. O presente é o que
importa — provoquei. — Se perguntarem para essa festa inteira quem é
Derek Meyers, nem todos vão saber. Mas se perguntarem quem é Damian
Bale, Brandon Ramsey, Oliver Zhang... — deixei a frase morrer e Ramsey
abriu o maior sorriso ao meu lado.
— Nos chamam de trio mortal por um motivo — Ramsey contou, fazendo
o sorriso de Derek vacilar.
— Não ouvi falar tão bem assim — Derek respondeu Brandon, mas seus
olhos estavam presos em mim. — Talvez não sejam isso tudo.
— Há quem discorde — garanti.
— Diria que tem sorte no jogo então?
— Não apenas sorte. É talento. Mas sim, também tenho sorte.
— Então tem azar no amor.
Engoli a raiva, apertando o vidro da garrafa. Derek tragou o beck
novamente, soltando a fumaça em nossa direção.
— Tirou isso da onde? — perguntei. — De uma série adolescente de
péssima qualidade? Ou é o que sua mamãe lê para você antes de dormir? —
Derek quase perdeu o sorriso debochado. Quase. — Acho melhor guardar
suas frases de efeito podres para si, Meyers, porque se tenho sorte ou azar
no amor, definitivamente não é da sua conta — rebati, virando o último gole
da minha garrafa.
Ele riu arrastado, vitorioso. Afinal, Meyers tinha descoberto como me
tirar do sério. Não que precisasse ser um gênio para tanto. Qualquer menção
dele à Naomi me tiraria do sério.
— Sei do que estou falando. Experiência própria — ele assegurou. — Ter
azar no amor com uma garota como a sua ao lado é fácil de acontecer. Se
bem que, se me lembro bem, eu era bom no campo e com ela.
— Você não sabe do que está falando — Ramsey se impôs antes que eu
pudesse retrucar —, porque suas experiências foram sujas, Meyers. A única
coisa da qual pode se vangloriar é ter sido bom em campo, porque fora dele,
você é nada. E para a Naomi, você foi péssimo.
— Não precisam discutir, pessoal... — Carl tentou falar, mas ele tinha se
tornado invisível naquela cozinha.
— Talvez, para vocês eu seja nada — Meyers cantarolou, tragando o
beck uma última vez antes de apagá-lo com o sapato, contra o piso.
— Te garanto que você é nada para todo mundo — assegurei e pisquei,
sorrindo forçosamente. Fiz a minha garrafa trincar contra a bancada da
cozinha e Derek sorriu largamente. — O ataque do nosso time continua o
melhor da temporada sem você e ninguém naquela escola sentiu a sua falta.
Exceto pelo seu cão de guarda, mas Garreth não está aqui para me
contradizer.
— Jura? Sua namorada parece ter sentido a minha falta. — Senti a raiva
se acumular em meu peito. As unhas já feriam as palmas das minhas mãos.
— Vai ficar trazendo a Naomi para isso? Parece que não a superou, certo?
Quer outro soco, talvez?
— Talvez eu não a tenha superado, Damian, mas se você pode falar em
socos agora, é porque Carlson também não me superou. — Ele apoiou o
flask na bancada e deixou as mãos sobre ela. Trinquei os dentes e percebi
que Brandon tinha mudado a sua postura.
Garreth entrou na cozinha. Parker percebeu como Ramsey, Meyers e eu
parecíamos predadores prestes a iniciar um combate. Qualquer um
perceberia.
— O que está havendo? — Garreth sorriu. — A melhor parte da festa está
aqui e eu não sabia?
— Damian, não vale a pena — Brandon falou baixo, aparentemente
mudando de ideia em participar de uma briga. Meu olhar estava cravado em
Meyers e isso era recíproco. — Sério, cara...
— Oh, vamos, Ramsey, qual é? — Derek caçoou e eu soltei o ar com
pesar. — Sempre tão covarde, não? Sempre fugindo das brigas, sempre
pegando o que é dos outros pelas costas...
— Naomi nunca foi sua — praticamente rosnei as palavras.
— Eu discordo.
Meyers se aproximou, sorrindo.
— Me diga, Damian... Ela ainda geme gostoso? Bem, bem devagar?
Rouca... — Cerrei os punhos e não conseguia mais prestar atenção nos
avisos de Brandon. — Ramsey, consegue me responder? Talvez os dois
estejam fodendo aquela boceta ao mesmo tempo. É o meu nome que vocês
escutam? — Ele riu. — Ela ainda geme o meu nome, não é? Alto, devagar e
deliciosamente...
— Retire o que disse, Meyers — ordenei, baixo. Eu não estava brincando.
— Quer que eu reformule? — Meyers gargalhou. — Refresque a minha
memória, Damian... Como é mesmo que a Naomi geme? Ou eu deveria fazê-
la me lembrar que sons ela faz quando goza?
E quando vi, eu tinha atravessado a cozinha. Meu soco acertou a sua
costela, depois seu queixo, mandíbula, bochecha. Derek só gargalhou,
cambaleando para trás enquanto eu avançava.
Brandon tentou separar a briga, mas Garreth o empurrou para longe e
pediu que ele deixasse Meyers ter a sua diversão. O sangue de Derek
pingava contra o piso, mas ele me surpreendeu ao se esquivar, mesmo tonto,
e acertar um soco forte demais no meu rosto. Pego de surpresa, não consegui
me afastar quando ele se transformou num monstro.
Derek me socou uma, duas, três, quatro vezes...
Até eu me transformar num monstro também.
Brandon tentava escapar dos braços de Garreth, porque Meyers e eu nos
destruíamos e Carl gritava para que parássemos. O problema era que eu era
tão alto quanto Meyers, mas definitivamente não tão forte. E seus socos me
atingiam com muita força. O maldito sabia como me deixar vulnerável. Ele
sempre se lembrava de atingir o topo do meu estômago, assim eu não
conseguia respirar. Eventualmente, puxei o ar e não encontrei. Foi quando
Meyers me levou ao chão.
Fui socado mais uma, duas, três vezes... Ouvi a aglomeração na porta da
cozinha para apreciar a confusão, mas um soco veio após o outro e mais
dois... Consegui inverter as posições. Foi a minha vez de revidar, com toda a
energia que me restava.
Cólera me tomava a cada golpe e eu me concentrava nisso, porque mal
conseguia respirar pelo esforço. Infelizmente, naquele exato segundo,
Carlson afastou as pessoas na pequena entrada da cozinha e me viu sobre seu
ex-namorado, irado, mostrando o meu pior lado. Ela gritou por mim, o que
me desconcentrou e fez Meyers inverter as posições uma última vez, me
machucando para valer, fazendo todo mundo ali assistir o que ele era capaz
de fazer.
Todo mundo. Principalmente Naomi.
E quando ela berrou o suficiente para nos afastarem, era tarde demais para
que eu virasse o jogo: eu estava muito pior do que ele.

Carlson tremia e eu percebia isso, mesmo que ainda tonto. O uber não fez
perguntas quando Oliver me colocou no carro e, assim como Brandon, nos
acompanhou. Meu corpo inteiro doía e Naomi pediu para que me levassem
ao hospital, mas implorei para que não fizessem isso. Na verdade, gemi e
grunhi algumas palavras, mas Ollie as compreendeu e traduziu. Ramsey
convenceu Naomi a me levar para casa, disse que não tinha necessidade.
Se eu aparecesse daquele jeito na frente de um médico, talvez
envolvessem a polícia. Talvez tudo fosse pior.
Quando a porta de casa se abriu, eu não esperava encontrar Katy
acordada.
— Puta que pariu, o que aconteceu? — Eu nunca a tinha escutado xingar.
Apoiando os braços nos meus amigos, tentei caminhar. Náusea, calor, tontura
e dor atravessavam todo o meu corpo. Mal conseguia pensar. — Damian!
Naomi! Alguém me responde que porra aconteceu?
— Meu ex, foi o meu ex — Carlson estava claramente em pânico, trêmula.
Era terror em sua voz. — Foi minha culpa.
— Não foi sua culpa — Ramsey disse, me colocando ao sofá. Eu tossi.
— Não deixem o Ryan me ver assim — pedi. Meu pai ficaria uma fera.
Estive fora de problemas por tanto tempo.
— Ele vai te ver assim em algum momento — Ollie lembrou. Carlson
xingou, levando as mãos ao rosto.
— Não precisa ser hoje — Katy respondeu. — Subam. O levem para
cima. Tem um kit de primeiros socorros em cada quarto. Amanhã resolvemos
isso melhor. Houve alguma concussão? Alguém sabe como avaliar se teve
uma concussão? — Naomi estava nervosa demais para responder e Brandon
e Zhang provavelmente nunca saberiam o que era uma concussão. —
Damian?! Você bateu a cabeça?
— Eu tô legal — garanti. Ninguém pareceu concordar. — Eu tô legal...
Acho que repeti isso até ir para a cama. Eu estava tão cansado que perdi a
consciência. Acordei contra a cabeceira, com Naomi ajoelhada à minha
frente, a minha pele queimando toda vez que um algodão manchado de
vermelho e embebido de álcool tocava a minha boca. Gemi de dor e ela
murmurou um pedido de desculpas, mas seu rosto estava impassível. Seus
dedos, contudo, tremiam.
Ajeitei a minha postura, o que a fez se afastar. Minha costela doeu e eu
percebi que estava sem camisa. Havia uma mancha feia em meu abdômen.
Meus dedos também não estavam nada legais.
— Nunca mais faça isso — Carlson ordenou. Preocupação vibrava por
sua voz, mas algo a mais: raiva. Não consegui olhar em seus olhos, mas ela
me forçou a fazer isso. — Está tonto? Quer vomitar? Quer uma água? Precisa
me dizer, porque tenho que continuar...
— Não. — Toquei o seu pulso. — Posso fazer isso sozinho.
— Não, não pode.
— Sweetheart.
— Cala a porra da boca por um segundo — Carlson rosnou, baixo. — Me
deixe ajudar. Já fez besteiras o suficiente por hoje, Bale.
Fiquei em silêncio.
Naomi tratou cada ferimento do meu rosto, devagar, sem dizer uma só
palavra. Carlson tinha colocado uma lixeira ao lado da cama. Os algodões
sujos de sangue se acumulavam nela.
— Brandon?
— Katy pediu para que ele fosse embora. — Ela guardou as coisas do kit
de primeiros socorros. Seus dedos tremiam e ela arfava, como se estivesse
correndo uma maratona. Carlson estava tendo uma crise de ansiedade
perante os meus olhos. — Isso foi minha culpa...
— Naomi... Não foi sua culpa.
— Foi. Foi minha culpa. Porque eu deveria ter me afastado de você
quando esse filho da puta voltou. Porque acreditei que você cumpriria a
porra da sua promessa. Acreditei que você se manteria fora de problemas.
Foi minha culpa porque eu fui burra para cacete de acreditar nisso.
— Espera, está brava comigo?
— Não sei se com você, mas estou PUTA, Damian. — Naomi riu,
elevando a voz. — Eu estou exausta! Exausta de achar que tudo vai ficar bem
e não conseguir encontrar paz em lugar nenhum. Exausta de ver pessoas que
eu amo se machucarem, exausta de me machucar. Pensei que você entenderia
isso, pensei que ficaria fora de problemas, e Derek é problema, Bale. Eu
pensei que cumpriria a porra da sua promessa. Estou cansada dessa porra.
Estou cansada desse inferno!
— Espera, o quê?! Carlson, me escuta, tá legal? — Segurei os seus
pulsos. — Tá deixando sua ansiedade falar, linda. Eu não tive culpa,
sweetheart. Não tive...
— Vai me dizer que não foi você quem bateu nele primeiro? Porque foi o
que eu ouvi. Foi o que eu ouvi naquela porra de festa!
— Eu bati nele primeiro porque ele estava falando coisas sobre você.
— Coisas como...?
— Ele estava falando sobre você como se você fosse um objeto, Naomi!
— elevei a voz. — Derek estava falando sobre você como se você fosse
apenas sexo, como se fosse um objeto sexual dele. Sobre como você goza,
geme, grita. Sobre...
— Então você achou que tinha que me defender com violência?
Justamente o que eu te pedi para não fazer?! — Ela riu, enfurecida.
— O que era pra eu fazer? Deixar ele falar de você?
— Sim! Era exatamente isso que ele queria, Bale!
— Onde você estava, afinal?!
— Gianna tinha bebido demais, ela passou mal, então eu estava segurando
o cabelo dela para ela vomitar, Damian. E depois me assegurando de que ela
estava confortável no carro da mãe dela. Enquanto você estava brincando de
luta com o meu ex-namorado, eu estava ajudando uma garota a voltar para
casa.
Fiquei em silêncio novamente. Carlson respirou fundo.
— Sabe como fiquei preocupada?! — Vi seus olhos se encherem de água.
— Sabe o quanto eu fiquei apavorada em te ver machucado?!
— Sweetheart.
— Eu não terminei de falar, Bale! — Engoli em seco, desviando o olhar.
Percebi que ainda segurava seus pulsos. Naomi olhou para os nós em meus
dedos por longos segundos. Depois ergueu minhas mãos e me fez ver os
ferimentos. — Era isso o que eu queria evitar, Damian! Eu queria evitar que
você se permitisse ser manipulado por Derek, ser violento, ser... Ser isso.
Porque eu não precisava que você espancasse alguém para defender a minha
honra, eu não preciso que seja violento, Damian.
— As coisas que ele falava...
— Você está sequer me ouvindo? — Ela riu, mas quando ergui os meus
olhos para os seus, eu a encontrei quebrada. — Você sequer me ouve? Eu
disse: não preciso que defenda a minha honra, muito menos com violência.
Quantas vezes vou precisar repetir?
— Você não me entende. Eu me senti incapaz de ficar calado enquanto ele
dizia aquelas coisas, Carlson.
— Não, Damian, você foi incapaz de se controlar por um segundo quando
isso era tudo o que você precisava fazer. Você quebrou a porra da sua
promessa por impulsividade. Você deu para Meyers tudo o que ele queria e
isso foi a chance dele de te machucar, de nos atingir!
— Oh, vamos lá, você quer falar de impulsividade?! Você? — Carlson se
afastou da cama. De pé, secou as lágrimas no seu rosto. — Quer falar de
quebrar promessas? Você disse que me ligaria!
— Está comparando o fato de eu ter me isolado, porque eu precisava de
um tempo para mim mesma, com o fato de você ter saído socando alguém?
— Alguém que falava de você!
— NÃO IMPORTA, DAMIAN!
— O INFERNO QUE NÃO IMPORTA, NAOMI, VOCÊ ME IMPORTA!
— gritei de volta.
Minha voz dentro daquele quarto não só a estremeceu, como me
estremeceu de volta. O silêncio não foi completo, porque ouvimos uma porta
da casa se abrir, e porque, ao menos dentro da minha cabeça, os argumentos
se repetiam. Eu respirava como se precisasse colocar o ódio para fora com
cada expiração, mesmo que minhas costelas doessem.
— Você diz que eu não te ouço, mas não está olhando para o meu lado —
falei, baixo.
— Você só pode estar brincando...
— Não, Naomi, você realmente não está olhando para o meu lado. Você
está brigando comigo agora, sério? Eu te defendi, tá legal? Não é hora para
briga.
— Então eu deveria te agradecer por ter se machucado? — sua voz saiu
estrangulada e eu bufei, me arrependendo das minhas próprias palavras.
Vozes se aproximaram do quarto e a porta se abriu. Katy estava logo atrás
do meu pai, tentando segurá-lo pelo braço, para que nos desse privacidade.
A tentativa de fazer Ryan não perceber o meu estado naquela madrugada foi
para o inferno. O olhar dele foi da minha namorada para mim. Ele analisou
cada machucado e Carlson fungou, secando as lágrimas em seu rosto.
— Tem razão, não é hora para brigar. Conversamos depois. — Naomi não
me olhou ao caminhar para a saída, passando por Ryan e ignorando o
chamado de Katy ao pisar firme para longe. A porta da casa bateu com força
e estremeci, sentindo uma agonia irritante no peito.
Carlson era difícil de lidar. O problema é que... honestamente? Eu era
pior.
Quando abri a porta da sala de música, todos estavam posicionados no
semicírculo de cadeiras. A única vazia era longe de Bale, perto da Mel. Ela
ergueu os olhos castanhos para mim, mas eu desviei os meus para os
cinzentos do outro lado.
Damian Bale olhava para mim.
Havia uma marca feia e roxa em sua bochecha esquerda, outro hematoma
na mandíbula direita e uma leve cicatriz em sua boca.
Um nó se formou em minha garganta e eu me vi em um dilema: parte de
mim queria atravessar a sala e tocar o seu rosto, perguntar como estava,
beijar cada pedacinho dele e dizer que tudo ficaria bem (o que faria Bale rir
e me chamar de louca); enquanto a outra parte lembrava de cada soco que
recebeu, do meu desespero, da discussão... O meu orgulho me travava.
Pedi desculpas pelo atraso, mas, na verdade, nem tinha me atrasado tanto
assim. Talvez um minuto ou dois além do inicio das aulas. O professor só
sorriu para mim e eu me sentei ao lado de Mel. A aula foi iniciada
normalmente e eu levei a mão ao colo, implorando para meu coração se
acalmar. Uma crise naquele momento não era o que eu precisava.
Wayne perguntou como eu estava e não consegui responder. Meu olhar
estava cravado em Damian. Os olhos cinzas e frios dele desviaram para
longe de mim, novamente, até seus dedos feridos.
O professor avisou que discutiríamos os números musicais da peça. Bale
e eu, os protagonistas, não conseguíamos sequer olhar para ele. Todos ali
falaram por nós dois. O silêncio nos consumiu junto com o nosso orgulho.
Isso não melhorou no dia seguinte. Nem depois disso. Por uma semana
inteira, parecíamos ter retrocedido por completo. Parecíamos completos
desconhecidos.
— Não vai mesmo falar sobre a festa? — Mel questionou enquanto eu lhe
dava uma carona do último ensaio daquela semana até a sua casa.
— Vai me falar sobre a sua primeira vez? — devolvi, fingindo bom
humor.
— Só quando conversar comigo.
Eu ri nasalado. Tinha conversado com Maddie, Lise e a psicóloga sobre o
que eu sentia. E sabia que poderia confiar em Mel. O problema é que
Melissa me diria exatamente o que eu sabia que precisava fazer, mas não
queria: "converse com Damian, de verdade, frente a frente".
De qualquer modo, cedi e desabafei com Wayne. O que foi bom já que,
por alguns momentos, meus próprios sentimentos soaram tolos. Consegui me
autoanalisar só por falar em voz alta.
— Vocês dois estavam tão bem, não? Se alguma coisa os incomodava,
vocês conversavam. Por que não fazem isso agora?
— Não sei — respondi, bufando. Girei o volante para entrar na próxima
rua. — Acho que... Caramba, Mel, falei tanta merda. Ele estava bêbado e
machucado, eu não estava sóbria e fui insensível. Era a hora errada para
discutirmos. Mas ele me fez sentir... — Mordi a boca. — Porra, Batman, ele
me fez sentir fraca. Como se eu precisasse de alguém para bater num
valentão irritante...
— Eu sei, já ouvi isso tudo. Mas agora você está sóbria — Wayne ergueu
o dedo — e ele está sóbrio. E vocês precisam discutir isso tudo sem álcool
envolvido e de cabeça fria. Porque são namorados, certo?! Ou isso é um
tempo? Estão terminando?
Minha mente deu um nó com a mera ideia de um término.
— O quê?! — Tirei o olhar da rua por um segundo para fitá-la, abismada.
Voltei a atenção ao transito, com o meu coração acelerado e angustiado. —
Não, claro que não. Não. Por quê? Ele te disse algo? Ele disse algo para o
Mike?
— Carlson, respire! — Wayne achou graça. — Foi só uma pergunta.
Enfim, de novo: precisam conversar. E é isso que tenho a dizer.
Encostei as costas no banco, tentando relaxar. Era normal que Bale e eu
discutíssemos, precisássemos de espaço de vez em quando ou tivéssemos
alguma DR. Afinal, um relacionamento não era um mar de rosas sempre.
Ficaríamos bem e, até se infelizmente não ficássemos, eu ficaria bem. Essa
precisava ser a minha prioridade. Uma crise no meu namoro não precisava
ser o fim do mundo, certo? Certo.
Respirando fundo, decidi mudar de assunto antes que eu afundasse contra
a cadeira daquele carro:
— Certo, agora vamos falar sobre mini Mike, mini Mel... Principalmente,
quão mini Mike é exatamente? Quantos centímetros...?
— Naomi!
— Vamos, Wayne... Sou sua melhor amiga aqui. — Ri, porque nem
precisava observar Melissa para saber que ela estava envergonhada. —
Joguei as minhas cartas na mesa, agora é a sua vez.
Um silêncio nos seguiu enquanto Wayne buscava pelas palavras certas e
eu quis sorrir, porque sentia a felicidade invadir o carro.
— Foi... estranho. Foi nossa primeira vez, minha e dele. Então foi um
pouco atrapalhado — Wayne riu. Mas seu riso foi tão diferente que precisei
encará-la. Mel tinha um sorriso bobo nos lábios, um brilho discreto no olhar.
Meu coração se aqueceu instantaneamente. — E doeu no início.
— Ele não parou? — Fiquei preocupada.
— Ele quis parar, mas eu não deixei. Eu pedi para que não parasse.
Ergui as sobrancelhas, surpresa. Wayne riu do meu espanto. Melissa
Wayne pedindo para não parar? Essa era a minha garota.
— Ele foi cuidadoso! Ele me perguntou se eu queria ficar por cima... Me
beijou… lá embaixo… — Wayne pigarreou. O conforto de Melissa para
falar de sexo não era o mesmo que o meu, mas me deixava feliz que
estivesse fazendo isso do mesmo jeito e como podia. Era incomum, então
claramente um avanço. Pode soar bobo, mas para mim, Wayne estava
rompendo algumas barreiras que ela mesma tinha criado. — Eu pedi pra ele
ficar por cima, tentei relaxar... Mike reduziu a velocidade e ficamos rindo de
como éramos inexperientes... Até que ficou bom.
— Bom...?
— A dor ainda estava ali. E me senti meio estranha até segunda-feira,
para ser sincera... Mas senti prazer no sexo também. Ele foi incrível, sério!
E foi bem fofo...
Eu queria explodir de felicidade. Wayne teve a boa primeira vez que eu
não tive. Digo, nem sempre primeiras vezes serão maravilhosas, mas o bom
é quando as duas pessoas tentam fazer com que sejam. Quando as coisas
fluem. Aparentemente isso aconteceu entre ela e Graham.
— Foi bom?
— Foi maravilhoso — ela admitiu e eu fingi uma comemoração, tirando
as mãos do volante e tudo. Melissa gargalhou alto. — Não, Naomi, céus!
Pare com isso! — Eu ri quando ela literalmente colocou minha mão sobre o
volante. — Mas pode ficar melhor, não pode? Digo... As coisas ficam
melhores aos poucos, na medida que conhecemos nosso parceiro, certo? E
eu preciso me conhecer melhor primeiro, honestamente.
— Ugh, você é dez mil vezes mais madura do que metade das pessoas que
eu conheço — reclamei e Wayne gargalhou.
Chegamos à casa dela e eu não queria deixá-la ir. Mel também não
parecia querer sair do carro. Às vezes era como se Wayne fosse parte do
meu coração, literalmente. Parte que eu precisava ter para funcionar por
completo. Longe de Melissa Wayne, Naomi Carlson simplesmente não era
Naomi Carlson.
Não estou falando em uma dependência aqui. Acho que éramos boas o
suficiente separadas, mas melhores juntas. Eu honestamente não conseguia
me imaginar sem ela.
Wayne percebeu algo diferente em meu olhar enquanto eu esquadrinhava o
seu rosto.
— O que foi?
— Sabe quando você sempre diz para uma pessoa que a ama, porque é
sincero, mas em algum momento se torna tão repetitivo que você deixa de
prestar atenção no significado das palavras, na força delas? — Wayne uniu
as sobrancelhas para a minha pergunta. — É como se, depois de tanto
falarmos que amamos alguém, mesmo que de verdade, isso soe como um
"bom dia". Até que olhamos para a pessoa e... sentimos.
— Você foi possuída por Aristóteles ou algo assim?
Grunhi e rolei os olhos.
— Meu ponto é que... eu te amo, Batman.
Mel sorriu largamente. Depois, tirou seu cinto e deixou um beijo estalado
na minha bochecha.
— Eu sei. — Seus olhos brilharam ainda mais. — E eu também te amo,
Robin.
Isso era tudo o que eu precisava ouvir naquele momento.
— Me liga depois, senhora transante, preciso saber de detalhes dessa
primeira vez — cobrei. Mel balançou a cabeça, rindo, mas concordou.
Voltei para casa, exausta. Começou a chover em algum ponto do trajeto. E
assim continuou depois que entrei no quarto, no banheiro e voltei para a
cama. O relaxamento após um bom banho quente num dia chuvoso durou
pouco. Minha mente estava inquieta demais.
Me levantei, saindo do quarto e caminhando pelo corredor. Bati duas
vezes na porta de Madison, que me deixou entrar. Me encostei no batente da
porta e a vi num vestido tubinho vermelho, seus fios loiros caindo por suas
costas em cascatas e uma maquiagem leve pelo seu rosto, o que me fez sorrir
largamente.
— Madison Brie Carlson... Para onde está indo no meio da semana?
— Naomi Rose Carlson — ela imitou meu tom curioso, caçoando da
minha cara. Odiando meu nome do meio, fingi que vomitaria. — É coisa da
universidade! — ela disse, um sorriso contido em sua fala. — Finn vai me
buscar e nós dois vamos explorar um pouco o que a Universidade de
Brightgate tem a oferecer.
— Já estava na hora. — Entrei de vez no quarto, me jogando sobre a sua
cama. — Desde que você voltou, por causa da história do papai, não foi a
uma festa sequer.
— Não é bem uma festa... — Maddie virou-se para a penteadeira,
tentando ajeitar um dos brincos em sua orelha. — Um pessoal sempre se
encontra no bar para beber e Finneas Wayne acha que pode quebrar o meu
gelo com a galera da universidade. Ele disse que estou enferrujada.
— Os Waynes estão sempre certos — cantarolei e ela riu, concordando.
— Inclusive, voltei da casa da Mel agora. Ela não parecia saber que o irmão
sairia contigo.
— É porque nós, mais velhos, não damos satisfação a vocês, pirralhas —
Maddie me provocou e eu ri, me apoiando em meus cotovelos. — Contudo...
Eu adoraria te informar que não tenho hora para voltar.
— O papai e a mamãe sabem disso?
— Não estão aqui — Madison contou. — Houve algum problema na nossa
sede em Sydney. Alguma coisa em cerca de seis ou sete carros que estavam
prestes a ser vendidos. O papai surtou e quis ir resolver. Honestamente,
Naomi, eu não entendo nada de carros antigos, não entendo nada disso e nem
sei como vamos lidar com esse negócio depois que ele...
Morrer. Madison engoliu a palavra.
— Então o papai viajou de última hora? — desconversei, incomodada
com a ideia da morte. — Ele está em condições pra fazer isso?
— Não, e é por isso que mamãe foi com ele. Até porque eles não
conseguiram vôo, então estão indo de carro. Lia está dirigindo e torcendo
para Vincent não vomitar no veículo todo. — Um silêncio nos incomodou. —
Enfim, Lis não está em casa, nossos pais não estão em casa e eu
provavelmente voltarei durante a madrugada, bêbada demais para me
importar com sons peculiares que possam sair da sua boca ou da boca do seu
namorado. Só uma dica.
— Maddie, Damian e eu... — Eu nem sabia explicar o que estava
acontecendo.
— Ainda brigados? — Confirmei, sem jeito. — Aproveite que a casa será
sua e chame-o para conversar! Lembre-se: sexo de reconciliação é sempre
bom.
— Ugh, às vezes eu esqueço de como você é pervertida.
— Olha quem fala. Me poupe. Sério, liga para ele. — O celular da minha
irmã tocou e logo em seguida uma buzina estridente ecoou do lado de fora.
Finneas Wayne e sua paciência.
— VAMOS LOGO, GAROTA! — Maddie e eu rimos do grito de Finn.
Assisti Madison ir embora, correndo com seu guarda-chuva, e depois
voltei para o meu quarto. Conversei com Mel por alguns minutos pelo
telefone, mas me senti uma péssima amiga, porque minha mente estava em
outro lugar. Então, assim que Wayne desligou o celular, travei uma batalha
contra mim mesma, digitando e apagando mensagens para Damian.
Até que eu decidi ligar para ele.
— Alô? — Senti vontade de desligar e engoli em seco.
— Oi.
O silêncio foi imediato. Conseguia ouvir sua respiração tranquila do outro
lado enquanto eu fincava meus dentes no lábio inferior, ansiosa.
— Pode vir aqui? A gente precisa conversar.
Não demorou tanto para Bale estar na porta da minha casa. Estava frio e
ele tinha alguns pingos de chuva marcados em seu casaco.
Haviam marcas roxas em seus dedos, alguns hematomas ainda estavam no
seu rosto e uma cicatriz em sua boca. Ver Derek batendo nele me deixou em
pânico. A mísera ideia de perder Damie me angustiava. A visão dos seus
ferimentos doía no meu peito.
Segurei sua mão, acariciando os nós machucados dos seus dedos e lutei
contra a necessidade de abraçá-lo e cuidar dele enquanto o guiava escada
acima.
— Então... Aqui estou — Damian disse assim que fechei a porta atrás
dele. Mordi o interior da bochecha, nervosa. — Por onde começamos?
— Acho que admitindo que nós dois erramos um com o outro. E tentando
mudar a partir daí? — arrisquei. Confesso que não esperava receber o riso
carregado de escárnio que Damian me deu. — Bale...
— Sério, vai continuar dizendo que eu errei em bater no Derek?
— Porque errou!
— Por causa daquela maldita promessa?
— Por causa da maldita promessa e porque você não parou pra pensar por
um segundo em tudo que eu te disse, Damie! — exclamei. — Porque não
parou pra pensar no que eu te falei, em como me sentia frágil e incapacitada
toda vez que alguém tentava lutar por mim.
— Lembra que eu te disse que não precisava lutar sozinha?
— Não é sobre isso, Bale, é sobre... — grunhi, frustrada. — Sobre eu não
querer que ninguém se machuque por minha causa, sobre me sentir impotente
quando as pessoas que eu amo constantemente esquecem que a principal
pessoa nessa guerra contra Meyers sou eu. Eu, Damian!
— Impotência?! — Ele riu. — Você quer falar sobre impotência? Sério,
Naomi, como acha que eu me sinto sabendo que ele fodeu a sua mente por
completo e ainda fode? — Damian ergueu a voz levemente. — Como acha
que eu me sinto sabendo que minha capacidade de te ajudar é limitada? —
Bale se aproximou. — Acha que é só raiva o que eu sinto? Acha que é
apenas uma vontade bizarra de me vingar pelo que ele fez contigo antes de
nos conhecermos? Não, Naomi, não é! Eu entendo que esses demônios que
Derek trouxe são principalmente seus, mas o que eu posso fazer se tenho
medo toda vez que aquele filho da puta chega PERTO de você, Carlson!
— Sim, Damian, eu quero falar de impotência. Porque eu fico pensando
no que teria acontecido se eu tivesse demorado um pouco mais para chegar
naquela cozinha. O que teria acontecido se Derek tivesse te batido com um
pouco mais de força. Se você estaria aqui. Fico pensando em como eu
explicaria para Meredith que o filho dela, do outro lado do mundo, foi
socado para caralho por minha causa. Não... Espera... — Eu ri. — EU FIZ
ISSO. Eu expliquei para a sua mãe que meu ex-namorado te espancou, sabia
disso?!
Meus olhos se encheram de água e Bale engoliu em seco, respirando com
pesar. Ele não sabia disso. E eu continuei:
— Você quer falar de impotência? Vamos falar sobre o fato de olhar nos
olhos do Ryan e saber que eu deixei o filho dele destroçado em casa! Sobre
Katy ter me dito nos últimos dias como você estava, porque VOCÊ não me
dizia!
— Bom, disso você não pode reclamar.
— Ah não? Quando eu te deixei sem notícias, Damian, foi porque eu fui
espancada numa festa qualquer? — Me aproximei ainda mais e o meu nariz
ficou a centímetros do seu. Damian inspirou fundo e eu fiz o mesmo, soltando
o ar com pesar. Eu segurava a vontade de chorar com tanta força que meus
pulmões pareciam queimar.
— Você poderia ter me ligado e eu teria te dito como eu estava, Carlson.
Mas você é orgulhosa para cacete.
— Oh, e você não poderia ter ligado também? Caramba, você é um anjo,
Bale, perdão por ter esquecido! Dá para voltar para o início dessa conversa,
quando eu disse que NÓS dois erramos e que NÓS dois devíamos nos
desculpar por isso? — Respirei fundo, cansada. — Cacete, Damian, estou
tentando aqui, eu realmente estou tentando aqui. Custa para você admitir que
brigar com Meyers como dois brutamontes não foi nem um pouco
inteligente? Que você errou comigo? Que nós dois somos orgulhosos e
idiotas por evitarmos conversar um com o outro? Porque estou pedindo
perdão aqui, mas não sou a única que precisa fazer isso, tá legal? E sei que
fui grossa, mas estou tentando...
A minha voz falhou e eu não consegui mais falar nada, cansada. Desabei
em lágrimas e me surpreendi quando Bale me abraçou rapidamente,
afundando a boca em meu ombro num beijo suave.
— Não chora, por favor? Desculpa — ele sussurrou, cedendo, por fim.
Me desmanchei com cada beijo que recebia no ombro. — Tenho muito medo
de perder você, Carlson. Derek me disse coisas terríveis. Ele ativou o pior
em mim. E achei que estava fazendo certo em te defender, nunca faria nada
pra te magoar ou te preocupar. Amo você, Carlson. — O alívio que me
percorreu ao ouvir isso me fez suspirar. — E de todas as verdades ditas e
não ditas, essa é a maior e a mais importante: eu amo você.
— Você não vai me perder, não precisa ter medo — garanti, tentando
parar de chorar.
Damian me apertou mais contra si, mas senti que ele ainda temia por nós
dois. A angústia apertou o meu peito, porque não demorei tanto para
entender o que acontecia naquele abraço silencioso.
— Amor, lembra de quando você me disse que você não era o Derek? —
Senti a cabeça de Bale se mexer em uma confirmação e mordi o lábio,
ponderando sobre como falar aquilo. — Não me entenda errado, ok? Mas...
eu não sou a Megan.
Ele tirou uma mecha do meu rosto e a moveu para trás da minha orelha,
sorrindo fraco.
— Eu sei disso. — O modo como me assegurou aquilo me fez sentir que
nosso relacionamento era incomparável e que eu nunca seria como Megan.
A ponta dos seus dedos desceu da curva da minha orelha até desenhar o
caminho do pescoço. Seu polegar voltou a acariciar a minha bochecha e eu
senti que estávamos um pouco mais firmes. Aquele era o casal que eu
gostava que fôssemos. Aquele que transbordava sentimentos em toques e
detalhes tão simples.
— Olha, eu sei que quer me proteger, entendo isso — falei. — Entendo
porque também quero te proteger de qualquer mal do mundo, porque também
te amo — minha voz saiu como um sussurro. — Mas preciso te lembrar que
eu não subestimo sua força, Damian, preciso que não faça isso comigo.
Ele uniu as sobrancelhas ao máximo.
— Nunca, nunca subestimo sua força, sweetheart — garantiu, rindo
nasalado. Bale uniu sua testa a minha, mantendo a mão em meu pescoço,
acariciando o contorno da minha mandíbula. — Não sou louco de fazer isso,
Carlson. Você é a pessoa mais forte que conheço.
Ele encostou seus lábios nos meus. Isso me passou um pouco mais de
confiança.
— Desculpa. Não queria que pensasse isso. Não quero que se sinta
incapaz de se manter firme sozinha, linda, você sempre foi uma guerreira,
muito antes de mim. Isso me orgulha pra caralho. É um dos motivos para eu
ter me apaixonado por você.
Seus olhos brilharam como nunca. Tranquilidade me tomou.
— Fiquei tão preocupada quando te vi ferido. Nunca mais faça isso
novamente, está me ouvindo? — Ele riu e eu não achei graça, segurando seu
queixo com firmeza. Meu polegar contornou a marca levemente arroxeada
que ainda estava em sua bochecha. — É sério, amor. Nunca mais.
— Sei que quebrei a promessa e fui violento com o Derek. Mas não me
peça para não me arriscar por você. É mais forte do que eu.
— Você é tão cabeça dura — gemi frustrada.
Damian achou graça e eu me senti furiosa comigo mesma por não
conseguir mais ficar brava com ele.
— Você também é. Não vou agredir ninguém, prometo. E você é forte,
sweetheart, não duvide disso. Só quero que lembre que pode ser ainda mais
forte ao meu lado.
Senti cócegas em minha pele quando Bale beijou o meu pescoço algumas
vezes, rapidamente, e seu nariz roçou contra a pele sensível.
— Não gosto de brigar com você.
— Oh, tem um lado bom nisso — sussurrei. — Minha irmã estava me
lembrando… que sexo de reconciliação é sempre bom. — A gargalhada que
recebi me fez sorrir de orelha a orelha.
O envolvi pelo pescoço, beijando seu peito. Damian me abraçou por
algum tempo. Apoiei a testa em seu queixo e suspirei, em paz, apreciando
seu calor, seus braços firmes em torno de mim e seu perfume. Eu poderia
morar ali, protegida por ele. Só depois o lembrei que a casa era só nossa e
nós nos sentamos para conversar um pouco.
Ao início, eu ainda senti alguma tensão entre nós dois, mesmo que bem
leve. Contudo, Damian e eu nos deitamos e ficamos juntos por tempo o
suficiente para todas as preocupações desaparecerem um pouco a cada
beijo, a cada cafuné, a cada carinho, a cada segundo. O problema era que
sempre que eu encontrava aquela marca roxa em sua bochecha, meu coração
apertava.
— Odeio ver você machucado — deslizei o polegar pelo machucado.
Bale beijou a minha mão e sorriu fraco.
— Não pense nisso — ele soprou, o que não me deixou menos angustiada.
Preguiçosamente, Bale se posicionou entre as minhas pernas, sorrindo com
tranquilidade. Uma pequena parte de mim se incendiou. Acho que ele
percebeu, porque seu sorriso cresceu para um dos lados e, no segundo
seguinte, suas más intenções o guiaram. — As marcas nas nossas peles não
importam — Damian garantiu. Depois, subiu a mão por minha coxa, a
segurou ao lado do seu quadril e deslizou os dedos até infiltrar a palma em
meu short.
Deixei a boca se entreabrir quando ele apertou a minha bunda com
firmeza. Seus dedos encontraram relevos suaves das estrias que eu sabia que
existiam, mas tentava não dar atenção. Damian nunca me fez pensar nelas
como algo negativo. Eu nem lembrava que existiam ao seu lado. Até aquele
momento, em que seu polegar raspou pela minha pele, sentindo cada
pedacinho dela, e seu olhar foi de pura adoração.
— São as cicatrizes de dentro que importam.
— Elas também me preocupam — confessei. Damian roçou os lábios aos
meus e eu fechei os olhos, me deliciando com a fricção do seu corpo entre as
minhas pernas; as nossas bocas uma contra a outra tornaram minha mente
turva.
— Elas nos tornam o que somos, sweetheart. As suas te tornam forte. —
Ele puxou o lóbulo da minha orelha e eu quase derreti ali mesmo, com o
arrepio profundo que percorreu a minha coluna. — E essa é uma das razões
pelas quais te amo.
Abri os olhos, que se cravaram primeiro em sua boca, porque eu estava
sedenta por ele. Contudo, os forcei para o olhar cinzento que me devorava
antecipadamente.
Damian Bale tinha os tons mais frios do mundo naquelas írises. Por vezes,
eu me esquecia que o gélido também queimava. Damian fazia questão de me
lembrar disso.
— Uma das razões? — perguntei baixo e Damian confirmou. O envolvi
com a outra perna. Minhas unhas arranharam a sua nuca, depois caminharam
por seus ombros, até que segurei o seu rosto. — Quais são as outras?
— Posso te dizer. Depois.
A curva maliciosa na sua boca era perigosa e apaixonante. Damian fez seu
sorriso encontrar o meu lascivamente, me beijando como se quisesse que seu
sangue tivesse o meu gosto. E, por Deus, do modo que nos tornávamos um só
com um simples beijo, eu tinha certeza de que ele conseguiria.
Bale conquistava a minha alma, ele a puxava para si a cada deslizar de
lábios e tocar de línguas. Gemi e afundei os dedos em seu cabelo,
percebendo que rebolava contra o meio das suas pernas. Damian quebrou o
beijo para segurar o meu pescoço e mordiscar meu lábio inferior.
— Mas posso te mostrar algumas razões para te amar tanto.
— É?
Ele murmurou uma confirmação, descendo os beijos pelo meu pescoço. Eu
me perdi naquele segundo.
Saudade. Sério, eu tinha sentido saudade.
E bem certo de que ficamos brigados por tão pouco, mas pareceu uma
eternidade e eu tinha essa eternidade de saudade para matar. Minha
respiração descompassada provava isso.
— Uma razão pela qual te amo, sweetheart... — Damian desfez o nó dos
meus shorts. Ele se afastou o suficiente para fazê-lo deslizar pelas minhas
pernas, beijando todo o caminho de volta por uma delas, até chegar à minha
calcinha, e deixou um beijo sobre o meu centro protegido pelo tecido suave.
Eu já estava molhada. Mordi o lábio para segurar um gemido. — É que você
sempre está queimando tanto quanto eu. — Ele deslizou minha calcinha por
entre minhas pernas. Eu poderia ouvir seu sotaque, naquela cama, a noite
toda.
— O que posso fazer? — cantarolei. — Você fica meio sexy bravo.
A risada arrastada que eu recebi arrepiou o meu corpo por inteiro. E então
o silêncio tomou o quarto. Não queríamos usar palavras para conversar.
Seus dedos foram à barra da minha camisa e ele a tirou, jogando-a em um
canto qualquer. Depois, Bale tirou a sua e eu deslizei as mãos por seu corpo,
contornando o hematoma leve em sua pele com a unha.
— Não importam — ele lembrou.
— Importam. Eu vou te punir por isso — provoquei. Damian ergueu a
sobrancelha.
— Punir?
Inverti as posições, o tomando de surpresa. Eu também queria provar que
o amava. Talvez essa fosse a nossa maior guerra: mostrar quem mais era
louco um pelo outro, do modo mais intenso que conseguíamos. E eu usaria de
toda a minha pele, dedos e boca para isso. Bale apreciou a visão do meu
corpo nu sobre ele e levou as mãos aos meus seios, fazendo os polegares
brincarem com os mamilos. Meu corpo respondia a ele tão, tão rápido...
Seu sorriso sacana fez um igual surgir no meu rosto e eu me inclinei sobre
ele. Aproximei a boca do lóbulo da sua orelha, o sugando e mordendo.
Depois desci a língua pelo contorno do seu pescoço e deixei uma leve
mordida em seu queixo.
— Sou ciumenta, amor. Só gosto das marcas no seu corpo quando eu as
faço. — A minha brincadeira o fez rir. Arranhei o seu peito, abdômen, até
deslizar o seu zíper. Tirei suas calças junto com a cueca, jogando as peças
de roupa em algum canto do quarto.
Damian ainda não estava tão duro quanto eu desejava, mas eu sabia como
resolver isso. Beijei o interior da sua coxa, depois acima... E quando ele
achava que a minha boca o teria onde ele desejava, levei os lábios para a
sua barriga novamente. Deixei uma trilha de mordidas e beijos até a sua
mandíbula.
Minhas unhas arranharam o interior das suas coxas e Damian as abriu
levemente. Umedeci o lábio inferior, sedenta por ele em minha boca. Ele se
inclinou em seus cotovelos. Porra, eu amava como ele gostava de me
assistir.
Minha língua percorreu toda a sua extensão. Damian mordeu o canto do
lábio inferior ao encaixar a mão em minha nuca, seus dedos longos entre
minhas mechas castanhas, seu polegar contornando os meus lábios antes que
sentisse meu beijo no seu topo. Damian deixou o queixo cair levemente e eu
sorri, movendo a mão por seu pau lentamente, antes de sugar a cabeça
levemente para dentro da minha boca.
O beijei novamente, depois o chupei de novo, um pouco mais fundo a cada
vez. Bale tentava segurar os gemidos e, a cada grunhido, eu o provocava
mais.
Seus dedos se prenderam em meu cabelo com força, mas ele jamais me
empurrava. Porque eu gostava do controle e ele sabia. Além do mais, Bale
amava manter o contato com os meus olhos, a cada vez que eu o chupava, o
beijava, lambia, tocava entre meus dedos. Ele amava como eu admirava o
seu rosto carregado de prazer, seu peito subindo e descendo toda vez que o
sentia pulsar contra a minha palma ou a minha língua.
Eu conseguia sentir minha pulsação entre as pernas, cada vez mais
inchada, mais excitada. A cada gemido do meu namorado, meu sangue fervia
mais e mais. Me sentia absurdamente febril. Eu precisava de algum alívio,
então deixei a minha mão livre trilhar o caminho até a minha boceta, meus
dedos explorarem os grandes lábios, pequenos, o clitóris. Levei algum
tempo friccionando o último ponto, devagar, gemendo contra o pau de
Damian e o ouvindo retribuir o som.
Sabia que Bale estava cada vez mais incontrolável, porque ele começava
a se impulsionar contra a minha garganta, devagar.
— Naomi... — ele gemeu meu nome e eu ergui a cabeça, deixando minha
mão fazer o trabalho. Bale se sentou, deixando-me continuar os movimentos
de vai e vem ao encaixar sua palma em minha nuca e levar minha cabeça em
direção a sua, num beijo violento. Eventualmente eu não conseguia manter
qualquer linha de raciocínio sobre o que fazer.
Damian, do contrário, tinha muitas ideias.
Ele inverteu as posições subitamente e me deitou sobre a cama. Seus
beijos se arrastaram por meu pescoço, acompanhados de mordidas e
chupões que me faziam ofegar. E quando sua boca estava em meus seios
novamente, eu já bagunçava o seu cabelo e pedia por ele.
Ele buscou pela calça no chão e eu poderia rir de quão rápido ele
encontrou a camisinha, a abriu e vestiu, se eu não estivesse tão desesperada
quanto ele. Damian abriu as minhas pernas, umedeceu os lábios e sorriu. Seu
olhar para a minha boceta era de fome, como se quisesse se debruçar sobre
ela imediatamente e me provar até que eu estivesse gritando o seu nome para
a cidade inteira ouvir. Mas não foi o que ele fez.
Damian me virou de lado, colando minhas costas ao seu peito. Depois
prendeu meu cabelo em sua mão e deixou a outra livre me guiar a dobrar o
joelho. Seu beijo no meu pescoço me desmontou por completo e ele fez seu
pau deslizar por mim algumas vezes, por fora, massageando o meu clitóris e
me torturando na minha abertura.
— Amor... — supliquei, frustrada.
Bale riu, sacana, contra o meu ouvido.
— Tudo o que eu queria ouvir...
E ele me penetrou, tirando um som arrastado e extremamente sujo da
minha boca.
Fundo, Damian foi fundo, arfando contra o meu pescoço. Minhas
sobrancelhas estavam unidas ao máximo e eu sentia o meu peito em brasa,
tentando me lembrar de respirar. Ele nem tinha feito nenhuma preliminar
comigo e eu já me sentia a beira do precipício. Era uma necessidade.
Veja bem, para mim, sexo é uma das melhores coisas da vida. Mas transar
com a pessoa que você ama e encontrar beleza em cada gesto completamente
carregado de luxúria e paixão, por mais sujo que seja, por mais brutal que,
por vezes, seja... é indescritível. E fazer amor com Damian Bale era
indescritível.
— Eu te amo porque você geme assim... — Ele saiu devagar e estocou
fundo novamente, com força. Seus dedos estavam firmes contra a minha
cintura e eu rebolei instintivamente contra ele, deixando um som rouco
escapar do fundo da minha garganta, extremamente devagar. — E quando se
mexe assim... Porra, isso, sweetheart. Me fode bem assim. — Ele beijou o
meu pescoço e mordeu a minha orelha — Me mostra que você é a mulher
mais gostosa da porra desse planeta. — Ele se mexia tão, tão devagar...
— Damian... — gemi quando ele desceu a mão até o meu centro, me
tocando devagar. Uni as costas ao seu peito, levando a mão a sua nuca e
deixando os sons escaparem. Damian não usava muita pressão nos
movimentos circulares dos seus dedos, me torturando, e eu sentia prazer me
inundar cada vez mais. Ele me abriu com dois dedos, observando por cima
do ombro como entrava dentro de mim, como eu estava cada vez mais e mais
úmida.
— Se toca para mim, linda — sua voz saiu rouca e eu arranhei sua nuca,
levando a mão livre para o meio das minhas pernas. Eu já estava
dolorosamente excitada. — Quero te ver gozar, Naomi. Porque eu amo como
você é linda gozando.
Meu coração disparou. Aumentei a intensidade e velocidade dos
movimentos em meu clitóris. Damian gemia em meu ouvido, me invadindo
cada vez mais rápido. Os lençóis da cama estavam um caos e eu não
conseguia me controlar, rebolando cada vez mais, implorando por mais e por
ele. Até que minha visão se tornou turva, o breu me tomou e o prazer se
tornou tão, tão absurdo, que por um segundo foi como se o meu coração
tivesse parado, apenas para disparar logo em seguida. Os espasmos me
tomaram e eu me agarrei ao lençol da cama e a nuca do meu namorado, que
me beijou com força, falhando em silenciar por completo os meus gemidos.
Forte, fundo, rápido... Eu nunca me cansaria de nós dois.
Amoleci, mas Damian não parou.
Ele continuou.
E continuou...
Eu me mantive ali, entregue a ele, sentindo o prazer crescer novamente…
Até que Bale finalmente gozou; estremeceu contra as minhas costas, parando
o beijo e xingando, pressionando o meu quadril com força, fazendo a minha
pele doer. Eu estava excitada novamente. Ele saiu de dentro de mim após
alguns segundos tentando se recompor e me virou para si, abrindo as minhas
pernas.
E então eu entendi o porquê.
Bale queria terminar o sexo com meu gosto em sua boca.
Já sensível pelo orgasmo anterior e um tanto quanto necessitada por mais,
me deixei levar por sua língua, mordidas, suspiros, gemidos, o observando
me devorar. Ele brincava com todos os meus sentidos, nervos, células…
tudo. Damian me tinha nas mãos. E seu olhar me dizia que sabia disso
quando me chupava ou me penetrava com a sua língua. Quando seu maldito
dedo estava no meu ponto novamente inchado. Ou quando invertia, chupando
o meu clitóris e me fodendo com seus dedos longos.
Rebolei contra os seus lábios, segurando-me aos lençóis da cama e
chamando por ele em alto e bom som.
O desgraçado sabia que me tinha. Ele amava me estudar milimetricamente,
descobrir como me deixar agir do modo mais selvagem possível. E enquanto
tudo isso acontecia, de algum modo, Damian Bale usava dos seus toques
para provar que me amava. A cada segundo.
As cores se tornaram confusas, o breu me tomou novamente e eu ofegava,
queimando em busca de oxigênio. Meu coração explodia em meu peito e
Bale sorria, provando o meu segundo orgasmo em seus lábios. Só depois que
todo o meu torpor lhe pareceu acabar, ele se afastou.
Por um momento, pareceu como morrer e renascer de novo. Pareceu um
outro mundo. Eu não tinha uma palavra sequer para descrever aquilo. E
mesmo se eu tivesse, estava perdida demais para conseguir falar.
Minhas pálpebras estavam pesadas quando o vi limpar o queixo e usar da
língua para limpar os meus resquícios em sua boca. Aparentemente um
inimigo da minha sanidade, Damian chupou o que havia de mim em seus
dedos e transferiu para os meus lábios num beijo tão doce quanto o gosto da
sua língua.
— Outra razão para amar você? Eu amo o seu gosto — ele sussurrou. Eu
ri, extasiada, o envolvendo pelo pescoço. Damie alisou o meu rosto com os
nós dos seus dedos e esquadrinhou cada detalhe, deixando um beijo no meu
pescoço, mandíbula, bochecha e ponta do nariz. Meu coração estava cansado
de tanto esforço e ainda assim o senti acelerar um pouquinho a cada gesto.
— Eu amo o seu sorriso, os seus olhos, as suas bochechas vermelhas depois
do sexo, o seu corpo contra o meu. — Não entendi porque ele falava tanta
coisa, mas eu gostava disso. — Amo seu beijo e como sei que está sorrindo
por ele, amo a sua pele e o seu perfume, amo como você é louca e a sua
loucura completa a minha como um quebra-cabeça complicado para cacete.
— Um sorriso bobo não saía do meu rosto. — E amo que você me irrite
tanto apenas em ficar longe. Eu te amo por tantos motivos que poderia ficar
aqui para sempre... Oh, eu amo o seu sotaque!
— Meu sotaque?! Como assim?
— Você fala do sotaque inglês, Carlson, mas eu odiava o sotaque
australiano até conhecer você. Ou talvez seja a sua voz, linda, porque eu só
amo isso em você.
Meu coração estava prestes a explodir.
— Você me ama bastante, huh?
— Sim. Eu te amo por tudo que falei, que ainda não falei e vou falar, por
tudo que nem sei explicar e por motivos que provavelmente ainda
desconheço. Eu... — Ele deslizou o polegar por uma marca de nascença em
meu quadril, depois guiou a ponta do indicador dali até uma pinta no espaço
entre os meus seios, descendo o dedo até onde o meu coração estava. — Não
sei explicar, só amo você.
— E por que tudo isso?
— Porque me perguntou os motivos para eu te amar tanto. — Gargalhei,
voltando à realidade — Nossa, foda como te faço esquecer do mundo com
sexo, não é mesmo? Eu sou foda na cama assim? Seja honesta!
— Cale a boca... — pedi, rindo, afundando os dedos em seu cabelo e o
trazendo para perto. Uni a boca a sua. Aproveitei cada segundo do contato
entre nossos lábios, o abraçando. Damian conseguia fazer meu coração virar
um tornado na cama e depois deixá-lo estranhamente calmo. — Amo você de
volta. Ainda mais.
Ele riu.
— Nos seus sonhos, sweetheart.
Bale foi descartar a camisinha e eu, preguiçosa, lutei para sair da cama
assim que ele voltou para ela. Quando retornei do banheiro, reparei no seu
cabelo bagunçado e nas marcas das minhas unhas, tão mais bonitas que as
cicatrizes daquela maldita brigas; tive que sorrir. Exausta, me aconcheguei
sobre seu peito. Estava quase adormecendo sobre meu travesseiro humano,
mesmo com seu toque perigoso se aproximando da lateral de um dos meus
seios, devagar.
— Interessante nosso sexo de reconciliação. — Sua voz rouca e carregada
de cansaço me fez sorrir. — Agora dá até para fingir que não tem mundo lá
fora. Não temos problemas, babacas irritantes enchendo nosso saco,
provas...
— Ugh, não me fala de prova — pedi, grunhindo. — Aposto que a de
amanhã vai ser difícil.
— Oh, para mim com certeza. — Analisei o seu rosto. — Até porque eu
não estudei nada de química — ele murmurou baixo, como se fosse
bobagem, e isso forçou a energia para dentro do meu corpo novamente.
— Puta que pariu, Damian! — Sentei-me.
— O quê?
— A prova de química! Você não estudou? — Ele tentou me fazer deitar
de novo, mas o empurrei.
— Estudei a... química... entre... nós dois?
Damian tentou me enrolar. Muito mal.
— Cacete, Bale! Qual foi a sua última nota?
— Sweetheart...
— Damian, a sua nota?
— Eu tirei um D. E antes disso um F.
— Puta que pariu, garoto.
— Agora está meio tarde.
— Tarde?! — Me coloquei de pé, decidida a salvar o meu namorado de
falhar em química. — Ok, Damian Bale, você acaba de ser introduzido à
Madrugada de Estudos de Naomi Carlson. E isso quer dizer que vou te
ensinar uma coisa ou outra, organizaremos algum tipo de cola e vamos torcer
por pelo menos um C. Só vai embora quando souber ao menos o que um
ácido faz.
— Linda...
— Um banho frio. Para despertar. E um café, você vai precisar de um
café.
— Naomi, não precisa disso.
— Você vai tirar um C naquela prova, Damian Bale, isso é uma ordem! —
Ele engoliu em seco. — Não quero ser a culpada por uma recuperação em
inferno.
— Não é culpa su...
— Vem! — Ofereci a minha mão e me mantive firme até que ele aceitasse.
Damian se levantou e obedeceu, rindo. Bati em sua bunda quando passou
por mim e me juntei a ele no banho. O deixei se vestir e liguei o computador,
o colocando sobre a mesa de estudos. Abri os meus resumos e disse que
voltava já, descendo em busca de café, deixando um Damian Bale
extremamente cansado e emburrado sobre a cama.
Quando voltei, com duas xícaras, vi Damian com meu celular na mão.
Meu coração disparou e eu me xinguei de todas as formas possíveis por tê-lo
esquecido. Seu queixo estava caído e suas sobrancelhas unidas.
Coloquei as xícaras sobre a mesa. Bale não dizia uma só palavra.
— Amor?
O silêncio me deixou em pânico. Merda.
— É você.
Abri a boca para tentar falar, mas nada saiu. Várias notificações
explodiam na tela do celular.
— Damian...
Bale ergueu o rosto, atônito, esperando por uma explicação. Fechei os
olhos, me xingando mentalmente.
— Você é a Poison.
E fácil assim meu segredo estava caindo por terra.
"A beleza machuca. Evidenciamos o que temos de pior. A perfeição é a doença da nação.
Evidenciamos o que temos de pior. Tenta reparar algo, mas você não pode reparar o que não
consegue ver... É a alma que precisa de cirurgia"
Pretty Hurts - Beyoncé

Acordei desnorteada pelo remédio que tomei na madrugada. O gosto


amargo que subiu pela minha garganta me fez correr para o banheiro e
colocar tudo para fora. Só depois que a dor no estômago avisou que não
tinha mais nada para ser expelido, consegui me pôr de pé e, cambaleando,
segui ao banho, escovei os dentes e me vesti.
Cada passo meu parecia extremamente mecânico. A madrugada martelava
na minha cabeça. Eu não conseguia esquecer Derek Meyers batendo no carro
do meu pai e gritando que eu era uma assassina. Por ter matado o nosso
bebê.
Em algum canto do poço de insensibilidade que eu havia me tornado
naquela manhã, existia uma faísca de puro desgosto por simplesmente existir.
Essa pequena parte que sentia algo, que ainda permanecia viva e alerta,
repetia que Derek estava certo. Por isso demorei algum tempo para
conseguir me olhar no espelho. Sustentei-me com as mãos na pia, sentindo
meus olhos arderem. Respirei fundo uma, duas ou três vezes.
Céus.. Quando começam a nos empurrar esse conceito insano de que
alguém pode mudar por nós? Vamos ser honestos, essa ideia pode ser bem
fofa nos filmes e nos livros, mas mudamos quando queremos e porque
queremos.
Digo, dizer que você mudou por alguém é uma visão perigosamente
romantizada. Certamente, qualquer pessoa pode te despertar para algumas
realidades, é normal. As pessoas passam por sua vida e deixam marcas. Só
que você reage a elas e muda para o que quiser ser.
Há um filósofo, para o qual eu realmente não dou a mínima, que diz que o
meio determina o ser humano. Eu discordo um pouco. Respondemos ao
ambiente em que nos encontramos? Sem dúvidas. Mas temos algum poder de
escolha.
Durante minha vida eu conversei, convivi e aprendi com pessoas que eu
jamais realmente pensei em ter por perto. Pessoas que me trouxeram novas
visões, pensamentos, argumentos. E tudo isso que recebi foi interpretado de
algum modo pela minha cabecinha. Tudo isso me transformou. Porque eu
permiti. Porque interpretei o mundo à minha volta e me moldei de acordo
com o que eu achava correto. Isso é viver, certo?
Certo, estou viajando aqui e isso não é do meu feitio. Geralmente meus
neurônios trabalham de modo rápido e prático, então vou ser direta: sua
evolução e regressão dependem mais de você do que você imagina. Porque
há um limite de quanto você pode culpar o mundo à sua volta por quem você
é.
Sim, sua família te influência. Sim, seus amigos mexem com você. Existem
inúmeros aspectos que te circundam e que passam a te compor de alguma
forma. Mas isso não te isenta de nada. Você tem que arcar com seus acertos
tanto quanto com seus erros. Você reage ao universo assim como ele reage a
você.
O problema é que, quando percebemos isso, dói bastante. Porque é difícil
tomar responsabilidade pelos nossos atos. Às vezes, é mais fácil culpar e
encontrar justificativa para nossos erros em outras pessoas. Quando
descobrimos que isso não pode, muito menos deve, ser feito sempre? Porra,
tudo muda.
Talvez por isso seja tão doloroso crescer. É bem mais fácil ser criança do
que ser adulto. Porque quando crescemos acumulamos responsabilidades em
nossas costas que... cacete, pesam para caralho. E isso dói.
Acho que em algum momento, Derek Meyers percebeu isso. Que talvez
seus pais não lhe dessem todo o amor em casa. Mas quando ele reproduzia o
seu desprezo em mim, em minha pele, em minha alma? Não era mais culpa
dos seus pais. Era culpa dele. Totalmente. Cada grito, cada machucado físico
ou não... Foi a ira dele falando. Parte dele. Escolha dele. Talvez uma escolha
tão viciante que tenha se tornado inconsciente, de quem estava tão
acomodado ao ódio. Ainda assim, injustificável.
Então ali estava, Naomi Carlson em seus dezesseis anos, com um peso nas
costas muito maior do que uma adolescente deveria ter.
Derek me quebrou. E eu esqueci que poderia me consertar por tanto
tempo.
Veja bem, não estou pedindo desculpas aqui por todas as merdas que já fiz
ou pensei fazer, porque, honestamente, nem sei a quem eu estaria pedindo.
Provavelmente, se eu fosse pedir perdão a cada um que magoei, eu teria que
começar com aquela garota que eu vejo quando olho para o espelho.
Também não estou tentando justificar quaisquer erros que cometi. Como eu
disse: somos mais responsáveis pelas nossas ações do que muitas vezes
deixamos transparecer. Só estou dizendo um fato: eu não sabia o que fazer
com tanta dor.
Quando estamos imersos na dor, muitas vezes, em vez de tratarmos a
causa, buscamos algo que a silencie, por ora. Nos anestesiamos como se isso
bastasse. O que se torna um vício.
Em algum lugar da minha mente, eu sempre soube que precisava de ajuda
psicológica. Eu só não sabia como conseguir isso. Ou onde arranjar
coragem.
E então chegamos ao ponto que me machuca em admitir: no meio de todo
esse caos, eu menosprezei o fato de que precisava de tratamento para
encontrar a minha própria cura. Me anestesiar era tão bom e fácil. Eu fazia
isso escolhendo os piores caminhos possíveis, e criar a máscara que vesti
por tanto tempo foi divertido e viciante. Como todo vício, parecia perfeito.
Até que não mais.
A Poison foi o centro de tudo. Mas ela nem sempre foi minha.

Na manhã após aquela madrugada infernal em que arranhou todo o carro


do meu pai, Derek ainda conseguiu escapar de casa e tentou gritar por mim,
do lado de fora. Eu estava dopada, então... não deu certo. E dessa vez ele foi
direto para o hospital psiquiátrico. Ainda não sabia disso quando saí do
banheiro e me joguei na cama, exausta. Nem sequer havia escutado qualquer
coisa pela manhã.
Fiquei sabendo dessa confusão pela Poison. Como eu disse: nem sempre
ela foi minha.
Bufei contra o travesseiro, sentindo o tornado de pensamentos destruir
tudo o que via pela minha cabeça, sem parar. Meu telefone começou a tocar
e eu o ignorei. Quando o peguei, prestes a colocá-lo no silencioso, o número
absurdo de mensagens me fez praguejar.
Melissa, Brandon, as líderes... Todo mundo me perguntava se o lance de
Meyers era verdade, o que me fez levantar em um pulo. Eu falhava até na
simples tarefa de colocar a senha para desbloquear o celular. De repente, eu
estava lendo mensagens e mais mensagens com fofocas distorcidas sobre o
que havia acontecido entre mim e Derek. Tinha gente dizendo que eu o havia
traído com Brandon — e possivelmente com todos os jogadores do time de
futebol —, então Derek saiu do controle. E, segundo as mensagens,
aparentemente "com razão". Outras pessoas diziam que Meyers só havia
levado um fora e por isso destruído o meu carro e tudo mais.
Naquela época, a Poison era, sim, o único centro de fofocas da escola, e
era um tanto quanto maldosa e venenosa, mas nem todo mundo acreditava no
que ela dizia. Seja lá quem ela tenha sido, a antiga Poison não tinha
exatamente um dom com as palavras. O desespero que me tomou foi porque,
daquela vez, a maldita conquistou o que ela queria: atenção. Afinal, ela
conseguiu uma notícia quente do casal mais popular da escola.
Enviei dezenas de mensagens implorando para que aquela postagem fosse
tirada do ar e fui ignorada. A conta recebia mais visibilidade, por que ela
jogaria isso fora? Entrei em desespero, porque se aquilo chegasse no meu
pai ou nos pais de Meyers, seria a pior desgraça da minha vida.
Quase tropecei para fora da cama, pensando no que eu poderia fazer. Saí
do quarto e desci as escadas, prestes a falar com Madison e pedir ajuda,
quando avistei mamãe à mesa da sala de jantar, sozinha, com as mãos na
cabeça.
— Onde está Maddie? — perguntei de imediato. Minha mãe mordeu o
lábio ao erguer a cabeça e fitar o teto. Lia Carlson era a imagem do cansaço.
— Seu namorado fez outro estrago essa manhã. — Aproximei-me da
mesa, confusa para cacete. — Derek apareceu na frente de casa gritando por
você e os pais dele o levaram para casa. De novo. Só que ele disse que iria
voltar, então, seu pai saiu de casa determinado a fazer algo a respeito. E sua
irmã foi atrás para que ele não fizesse alguma loucura. Mas Madison é só
uma adolescente. — Lia suspirou e eu me vi ainda mais tensa. — Sabe lá o
que Vincent é capaz de fazer.
— Mãe... — a chamei e ela demorou alguns segundos para me olhar. — O
que acha que o papai vai fazer?
— Denuncia por invasão de propriedade, no mínimo? — Suspirei, atônita.
Aquilo seria horrível para Meyers. Comecei a andar de um lado ao outro,
tensa. — Naomi, honestamente, isso é o certo a fazer.
— Não?! Mãe, o Derek...
— O Derek fodeu a sua vida, Naomi! — ela me cortou e eu me vi incapaz
de respirar por um segundo. — Estamos limpando toda a merda que você fez
por causa desse maldito e toda a desgraça que ele causou na sua vida nos
últimos dias! Ele fodeu a sua vida. Você abortou essa semana, filha, tem
ideia do que isso significa?
— Não me faça essa pergunta, mamãe, eu sei o que fiz mais do que
ninguém. O que o papai me fez fazer, o que você permitiu. — Ela se calou.
Meus olhos arderam e eu respirei fundo. — Tem algo que está me
escondendo? Vincent fez algo a mais?
— Acho que ele ligou para alguém antes de sair. Não entendi o conteúdo
da ligação, mas...
Mordi o interior da bochecha. Minha cabeça fervilhava. Até que uma
ideia me surgiu.
— Vou sair — anunciei, já usando do celular para digitar uma mensagem.
— Sair? — Mamãe se levantou e me seguiu escada acima enquanto eu
pisava firme. Usei o celular para pedir um Uber e dei graças a Deus ao
perceber que o tempo estimado para a chegada do carro era curto. — Naomi
Carlson, eu devo te lembrar que você fez um procedimento essa semana?
— Procedimento?! Aborto, mãe! — Me virei. — Você pode falar a
palavra "aborto" aqui em casa. — Lia perdeu as palavras por um instante. —
E não, você não deve me lembrar que eu fiz um aborto essa semana. Tenho
algo importante para resolver e, a não ser que tente controlar ainda mais a
minha vida e me trancar dentro desta casa, eu vou sair.
— O que você tem para resolver? — Não respondi, entrando no quarto e
buscando por um casaco. — Naomi! Você precisa de repouso, o médico
deixou bem claro...
— Não vou descer de tobogã para o inferno, pular de bungee jump ou
transar e engravidar novamente, mamãe, fique tranquila. Vou resolver um
problema que não é da sua conta e já volto. — Abri uma das gavetas no meu
armário, peguei duas meias. Depois corri para o outro armário e retirei um
par de tênis. Me sentei à cama.
— Não é da minha conta?! — Eu estava calçando as meias enquanto Lia
berrava, atônita. — Eu ainda sou sua mãe.
— Lembrou disso só agora ou já sabia disso quando eu estava naquela
maca de hospital? — cuspi as palavras, nervosa. Quanto mais eu bancasse a
filha rebelde e magoada, mais fácil seria ir embora sem ter que dar
satisfações. — Não vou brincar de mãe e filha a essa hora da manhã, pode
dar meia volta.
Terminei de calçar os tênis e passei direto por Lia. Ouvi seus passos logo
atrás de mim, mas não lhe dei tempo de protestar quando saí de casa e corri
para o carro. A chuva leve que caía do lado de fora mal me atingiu e eu já
estava dentro do veículo, confirmando o meu destino.
Vi mamãe do lado de fora de casa, de braços cruzados, atônita. E o carro
acelerou para longe.

Jason me olhou de cima abaixo uma ou duas vezes, com o beck em seus
lábios. Alto, magro para cacete, branquelo, cerca de vinte e cinco anos e
com uma barba rala que mal poderia ser chamada de barba. Arqueei a
sobrancelha, esperando que me deixasse entrar.
Após alguma piada sem graça, o idiota me deu passagem para dentro. Não
demorou muito para que eu explicasse a situação para Jason Crowe e ele me
levasse para o seu quarto.
A casa de Crowe era minúscula e ficava em um dos bairros mais violentos
de Brightgate. Os boatos eram de que a área era governada pelo tráfico. E eu
sabia que Jason usava algumas coisas, o que foi confirmado pelo saco com
dois medicamentos duvidosos e a caixa de papel seda completamente aberta,
acompanhada de erva suficiente para satisfazer toda a minha escola.
Namorar com Derek Meyers me trouxe alguns contatos. Daqueles que
negarei até a morte que já possui em algum ponto da minha vida.
— Quanto? — fui direta.
— Pelo que me explicou, gata? — Ele mordeu o lábio e ponderou. Depois
assinou um valor numa folha de papel e me entregou. Arregalei os olhos.
— Tá brincando, Jason? É o dobro do que pediu para o Derek daquela
vez. E o trabalho era mais difícil. — Ele se jogou na cadeira em frente ao
computador e abriu um sorriso dissimulado.
Um ano antes, Meyers resolveu chapar no meio de uma semana, sem
esperar por uma prova surpresa, e isso resultou em uma nota baixa em física.
Muito baixa. E para ser honesta, com toda a inteligência que Derek possuía,
por algum motivo, física era a sua pior matéria. Ele poderia estudar e
recuperar os pontos perdidos, mas obviamente festas e bebidas eram mais
atraentes, então Meyers pagou Jason para invadir e alterar os registros da
escola. Um ajuste em uma nota e outra e Derek magicamente não tinha
problema algum na escola.
— Meu valor subiu, gata. E você definitivamente não sabe me dizer se
hackear uma conta de Instagram é mais fácil ou difícil do que o sistema da
sua escola, boneca. — Torci o nariz, contrariada. — Pegar ou largar.
Não era como se eu tivesse uma opção. Pedir ajuda para o meu pai não
parecia inteligente.
— Certo, faça isso de uma vez.
Me sentei na cama de Jason e esperei que ele fizesse a sua mágica. Foram
bons minutos esperando-o mexer no computador, mas o maldito realmente
conseguiu. Algum tempo depois e ele tinha trocado a senha da Poison. Logou
a conta no celular para me mostrar seu sucesso e eu fiz a transferência
bancária, mostrando o comprovante.
— Tem como descobrir quem era a dona da conta?
— Bom, a pessoa foi inteligente a ponto de criar um e-mail especialmente
para fazer fofoca. Mas... Por um dinheiro a mais é sempre possível, linda. Eu
consigo o IP da Poison, talvez em algumas horas o endereço e...
— Quanto?
— O triplo do que me pagou?
— Ugh, vai se foder! — ele riu. — De jeito nenhum.
— Ok, se liga: o email dessa conta do Instagram foi trocado para a dona
antiga não conseguir o acesso de volta. Se quiser, eu deleto o Instagram
agora mesmo. Se não, a senha da Poison é a mesma que a do email e já foi
enviada para o seu celular. E aí, qual vai ser?
Eu apagaria a conta naquele mesmo instante, se não fosse por um mero
detalhe: os boatos sobre mim e Derek precisavam ser desmentidos. Apagar a
conta sem tentar reverter a situação poderia não resolver o meu problema.
— Como vou saber que, se eu ficar com a Poison, não vai usar essa
informação contra mim? Para conseguir mais dinheiro, por exemplo, você
faria isso? — O analisei, confusa.
— Gata, para eu conseguir clientes novos, eu preciso que os clientes
antigos estejam felizes com o meu serviço e me indiquem para seus amigos.
Vou te deixar feliz te ameaçando? — Ele ergueu uma sobrancelha e eu
suspirei, resolvendo acreditar em sua palavra. — Me pagou para hackear
essa conta. — O assisti mexer no seu celular e logo depois o vi deslogar da
Poison. Ele me mostrou a tela, sorrindo. — Eu hackeei, é sua. Você faz o que
quiser. Sem pegadinhas.
Jason não me acompanhou até a saída quando agradeci pelo serviço e fiz o
meu caminho para fora. Meus dedos rapidamente digitaram login e senha da
Poison no meu celular e eu quase ri quando percebi que eu estava no
controle. Pedi um Uber e gastei todo o caminho até a minha casa escrevendo
uma nota, desmentindo o post sobre mim e Derek. Apertei enviar antes de
entrar em casa.

Assim que pisei dentro do lar dos Carlsons, meus ombros ficaram ainda
mais tensos. O cansaço no meu corpo triplicou e eu voltei a sentir cólica, o
que me fez lembrar que não tinha tomado o remédio mais cedo.
— Acha que pode sair de casa sem nos dar satisfações? — Me virei para
o dono da voz. Vincent tinha os braços cruzados, sentado sobre a poltrona da
sala. Engoli em seco, guardando o celular no bolso. — Eu fiz uma pergunta,
Naomi.
— Bom, eu acho que estou cansada de responder as suas perguntas. Na
verdade, estou apenas... cansada, pai. Então vou subir. — Indiquei as
escadas com a cabeça e ele riu nasalado. Fiz menção de caminhar, repetindo
mentalmente para manter a calma.
— Você ainda vive sob o meu teto, Naomi. Obedece as minhas regras. —
Meu corpo travou. E então foi a minha vez de rir.
— E se eu não quiser seguir suas regras, papai?
— Então pode ir embora.
Quase ri de novo, sem acreditar.
— Se eu fizesse o aborto, eu não seria expulsa de casa. Daí eu faço o
aborto e agora você ameaça me mandar embora do mesmo jeito.
— Naomi...
— Não, pai. Sinceramente. Se quiser me mandar embora, então mande!
Me expulse, dê outra cena para os vizinhos admirarem e então explique para
a alta sociedade porque fez isso. Mas com certeza os jornais vão amar saber
que o grande Vincent Carlson fez a filha de dezesseis anos abortar e depois a
chutou para fora da sua vida. Talvez eles consigam até uns depoimentos dos
Meyers, o que acha?
— Olha bem como fala comigo, garota! — Ele se pôs de pé, caminhando
com firmeza em minha direção. — Você está precisando de uns bons tapas!
— Pois então faça. — Dei de ombros, mas estava tremendo. Ele
provavelmente percebia. — É o que está faltando fazer, não é, pai? — Meus
olhos se encheram de água e Vincent grunhiu baixinho. Quando sequer
cogitei me afastar, sua mão segurou o meu pulso com firmeza. Ele cerrou os
olhos para mim.
— Veja bem, Naomi. Você fodeu a sua vida uma vez. VOCÊ foi
responsável pelo aborto, você foi estúpida por ter engravidado. Quase nos
arrastou para a lama junto, quase nos afundou... — Tentei me afastar, mas ele
apertou ainda mais o meu braço. — Agora vai me escutar — Vincent
praticamente rosnou as palavras e eu vi mamãe descer as escadas
rapidamente, seguida por Madison.
— Para com isso, pai — Maddie pediu.
— Quer morar debaixo desse teto? — Vincent continuou e eu senti o
desespero fechar a minha garganta. — Pois bem, só não tente foder a nossa
vida novamente. Eu estou desistindo de você, Naomi. Se quiser ser a puta
que foi quando abriu as pernas para aquele moleque maldito, então seja. Se
quiser ser a porra de uma vadia e foder a cidade inteira, então seja. Mas seja
discreta e não foda o meu sobrenome junto, está me ouvindo? — Madison
tentou afastá-lo. — Saia daqui, Madison, pelo amor de Deus — ele disse em
alto e bom tom, ainda mantendo o toque firme contra o meu pulso. E depois
virou a cabeça de volta para mim, me lançando o seu pior olhar de desprezo.
— Faça que porra você quiser. Mas você é uma Carlson. Pelo menos para a
cidade. Então se você manchar o meu nome, se foder o seu futuro novamente
com outro bebê e não cumprir com suas responsabilidades naquela droga de
escola, eu juro, Naomi, eu prometo que você vai se arrepender amargamente
de cada merda que tiver feito. Estou sendo claro?
Não o respondi.
— Estou. Sendo. Claro? — ele repetiu, devagar. Ofeguei ao tentar sufocar
o choro, mas assenti. — Diga!
— Está, está sendo claro. — E ele me soltou. Ouvi a minha mãe me
chamar enquanto corri escada acima, desesperada, como se tivesse acabado
de ver um monstro. Porque eu tinha. Olhei nos fundos dos olhos do meu pai e
vi terror a cada segundo.
Quando bati a porta do meu quarto e a tranquei, a vontade de vomitar me
fez correr para o banheiro e colocar tudo para fora. Ouvi meus pais brigarem
no andar debaixo e Madison bater na porta, gritando para que eu a abrisse.
Me sentei contra a parede do banheiro, desabando por completo. Minha
barriga doía, me lembrando do que eu tinha feito dias antes. Meus pulmões
ardiam porque eu mal conseguia respirar.
Não sei ao certo quanto tempo depois eu parei de chorar. Lembro que
Maddie já tinha parado de me chamar quando me deitei na cama, com o rosto
completamente molhado e o coração destroçado. Era muita coisa para a
minha cabeça. E meu corpo doía, eu não estava nada bem fisicamente, mas
achava que merecia isso.
Adormeci de tanto chorar.
Quando acordei, já pela noite, percebi que havia perdido o almoço. Não
era como se eu sentisse fome também. Abri o celular e a Poison estava ali. A
conta era minha. Eu pensei em apagá-la, realmente considerei isso. Mas
parte de mim, por algum motivo, não queria isso. Então eu a desativei até ter
certeza do que faria. E isso durou... horas.
Porque no dia seguinte eu abri novamente o celular e percebi que Derek e
eu ainda éramos o principal assunto do colégio Brightgate. Desativar a
Poison tinha feito tudo piorar. Além disso, Derek tinha ido para o hospital
psiquiátrico. Talvez porque, para seus pais, era possivelmente melhor ter um
filho internado e declarar que ele possuía problemas psicológicos, do que
fazê-lo enfrentar a denúncia que meu pai tinha feito. Meu ex-namorado
precisava de ajuda. Ou poderia ter surtos piores. Surtos que manchariam o
nome dos Meyers. Eu precisava garantir que os boatos estivessem sob
controle.
Não acho que fiz a escolha certa em manter a Poison "viva" e não vou
justificar isso. Foi o que fiz. Foi o que senti que precisava fazer. Foi um ato
egoísta. E foi o início de uma Naomi Carlson que, honestamente, não me dá o
menor orgulho.
O fato é que eu acordei apaixonada pelo cara que abusou da minha mente
por sabe-se lá quanto tempo; estava vivendo debaixo do mesmo teto que um
pai tóxico, tendo que ver minha irmã sem saber o que fazer para me ajudar,
minha mãe completamente inerte e minha escola inteira usar do meu nome
para alimentar boatos. E essa última parte eu poderia resolver sozinha, não?
Mas tudo tem consequências. Ter o controle da Poison me fez ser viciada
por estar no controle.
Os boatos que passaram a surgir envolvendo Meyers, com o tempo, já não
me envolviam como uma vilã ou uma pobre coitada. E eu tinha acesso a tudo
o que acontecia em Brightgate.
De início, ainda me tratavam como a ex de Derek Meyers. Mas depois de
algumas semanas, graças à Poison, Brightgate passou a me ver como uma
garota forte e indiferente a Derek — mesmo que isso não fosse
necessariamente verdade. Então eu passei de ex-namorada dele para apenas
Naomi Carlson. E isso passou a ter grande significado.
De algum modo, era como se eu tivesse a escola em mãos. Tudo o que a
Poison dizia era fato.
Eu não sei ao certo quando comecei a caminhar por aqueles corredores de
queixo erguido, recebendo todos os olhares, convencendo a todos de que eu
realmente estava bem. Mas é o que dizem: quando repetimos tanto e tanto
uma mentira, ela parece se tornar verdade. Então a farsa que criei estava
dando certo, aquela máscara de que tudo estava perfeitamente normal estava
me caindo super bem.
Ninguém imaginava o que eu vivia.
Ninguém imaginava que eu ainda estava apaixonada e sentindo falta de
Derek.
Ninguém imaginava que eu saía das festas para um lar abusivo.
Ninguém imaginava que eu tinha ficado tão obcecada pela minha imagem e
tão machucada pelo que ouvia meu pai dizer em casa, que eu mal cuidava do
meu corpo. Para ser honesta, só a Mel percebeu quando os distúrbios
alimentares começaram.
Porque todo mundo naquela escola via o meu corpo e o achava
extremamente maravilhoso.
Ninguém percebia que, naquela época, eu estava muito longe de ser
saudável.
Ou melhor, ninguém realmente se importava com o que eu tinha por dentro,
só por fora.
Mas com a Poison? Todo mundo se importava.
— Você é a Poison — Damian repetiu.
Bale piscou algumas vezes, esperando que eu negasse sua afirmação. E eu
não podia.
Para ser honesta, considerei inventar qualquer mentira, mas... Para quê?
Seria mais um retrocesso sem sentido, porque cedo ou tarde eu teria que
contá-lo sobre isso.
Ele esperava por uma resposta, completamente paralisado. E eu, do outro
lado, de mãos vazias e coração carregado de adrenalina, também não sabia
como reagir. Então eu engoli em seco dolorosamente e decidi começar pela
confissão, nua e crua, sem brincadeiras ou tentativas de fuga:
— Eu sou.
Meus olhos ardiam, mas eu não chorava.
Mal acomodada na poltrona no canto do meu quarto, fitando o chão,
busquei coragem para erguer os olhos para Damian, mesmo que ele não
estivesse me olhando. Sentado sobre a minha cama, ele fitava os próprios
pés. Quando consegui, analisei seu rosto de lado, suas mãos entrelaçadas
entre suas pernas, seu silêncio absoluto.
Eu o contei tudo. Absolutamente tudo que tinha para contar. E de repente
não haviam quaisquer segredos entre nós dois, só aquele silêncio. As xícaras
na bancada da minha mesa deixaram o meu quarto com um leve aroma de
café, mas a bebida em ambos os recipientes já deveria estar fria. Ou gélida.
— Bom, acho que a minha nota de química foi por água abaixo — ele
brincou, baixo, mas não havia humor em sua voz. E eu não conseguiria rir.
— Acho que sim — foi o que consegui responder. Um arrepio fraco,
porém horrível, me percorreu. Como um aviso de que eu precisava fazer ou
dizer qualquer coisa ou iria perdê-lo. — Eu sei que a Poison... Que eu fui
escrota com o lance da gonorreia e tudo mais, nunca pedi desculpas e... E a
Poison não é exatamente algo maravilhoso, mas... Por favor, não me odeie.
— Odiar você? Por que eu odiaria? — Damian riu, balançando a cabeça
em negação. — Eu não consigo odiar você, Carlson.
Ficamos em silêncio por mais alguns instantes.
Bale afundou as mãos nos cabelos e depois escondeu seu rosto nelas. Fitei
meus próprios dedos, sentindo o meu coração cada vez mais apertado.
— E-eu não sei nem o que dizer. — Bale finalmente buscou pelo meu
olhar e eu retribuí o gesto. — O que aconteceu depois? Depois que tomou o
controle da Poison?
— Eu me viciei em tudo isso — minha voz falhou e eu limpei a garganta.
— No meio das minhas crises, Damian, manter a minha imagem naquela
escola era a única coisa que eu me sentia boa em fazer, que me mantinha
firme, sabe? Eu só... Sei lá! Eu chegava em casa e...
Engoli em seco, sendo atingida por todas as lembranças. Todo o inferno
que me acompanhava como uma sombra, constantemente. Senti o olhar de
Damian sobre mim e suspirei.
— Você não entenderia — falei, baixo.
— Vamos, Carlson, não sabe disso. Estou aqui, não? Estou te ouvindo. —
Bale se moveu para outro ponto da cama de novo, dessa vez com seu corpo
virado em minha direção. Da poltrona, levei as mãos ao rosto tentando me
acalmar. — O que aconteceu?
— No início, eu chegava em casa e... me olhava no espelho e via apenas a
garota que ganhou peso pela gravidez interrompida, eu... Eu me via de uma
forma distorcida e os comentários do meu pai pela casa... — Suspirei,
tentando me acalmar. — Meu pai falava do meu corpo, do meu peso, da
possibilidade da gravidez se repetir. — Ri sem humor. — Eu tinha medo que
ele surtasse pensando que eu estava grávida novamente e passei a surtar com
cada grama que ganhava... Então veio a bulimia. A visão deturpada do meu
corpo, as autopunições quando eu comia mais do que tinha planejado e...
Quanto mais magra, eu pensava, melhor, porque eu não queria ganhar uma
grama sequer e não me via magra o suficiente.
Mordi o lábio inferior, tentando me acalmar.
— E para não engordar, eu... Eu vomitava ou... — Levei as mãos ao rosto,
praguejando algumas vezes. — Evitava comer demais ou me sentia culpada
quando... quando comia e...
— Então foi quando a bulimia começou. — Confirmei e ele suspirou. —
Como superou?
— Elise percebeu rápido o que acontecia, falou com a minha mãe e eu
consegui alguma ajuda psicológica. Novamente, psicólogos que meu pai
aprovava e tudo mais... Foi difícil seguir com qualquer tratamento porque eu
não confiava em ninguém. Para ser sincera, eu nem sei como... Como fui
resgatada disso. Minhas chances eram pequenas. Talvez, se não fosse pela
Elise e pela Maddie, pela Mel... Eu não estaria aqui. E acabei fugindo da
terapia em algum ponto. Não gostava que meu pai soubesse que eu estava
encontrando uma psicóloga, porque eu sentia que ele surtaria se eu contasse
até mesmo pra ela sobre o aborto. Eu também não gostava de sentir que
precisava de ajuda... Eu desisti das sessões quando achei que estava tudo
bem. Mas, na verdade, na medida em que eu me afastava de um problema, da
bulimia, eu me aproximava de outros. Porque eu descontava tudo na Poison.
Eu me viciava na Poison, nas festas e em manter a pose de inalcançável.
Como um... instinto de sobrevivência, Damian. Porque, se qualquer um me
alcançasse facilmente, eu poderia quebrar. — Engoli o choro, tentando me
manter firme. — Eu não quero quebrar de novo.
Respirei fundo, deitando a cabeça no encosto da poltrona e observando o
teto do meu quarto. Damian ainda me analisava, eu sabia.
— Talvez, Bale, se não fosse pelo meu vício pela Poison... Talvez eu
tivesse me afundado num poço ainda mais fundo. Não era o certo a se fazer,
a Poison é o meu lado mais egoísta... Ao mesmo tempo, foi o que me
manteve firme. E ainda que eu não esteja usando ela agora, significa algo pra
mim. — Abaixei o olhar lentamente até encontrar o seu. — Eu não quero
abrir mão dela até as aulas acabarem.
— Carlson...
Ali estava. O julgamento. E eu o merecia, certo?
— Eu disse que você não entenderia.
— Você não precisa da Poison, Naomi.
Sorri, triste. Porque eu sentia que sim. Mordi o interior da bochecha e
repassei os momentos que tive com Damian. Eu só queria voltar a minutos
antes, em que seus beijos criavam rotas pelo meu corpo, nossas almas se
entrelaçavam e tudo parecia certo.
— Eu sou a Poison, Damian. É parte de mim, me deixa mais segura nessa
cidade. Não quero me desfazer dela enquanto estiver em Brightgate. É como
uma armadura de alto valor sentimental ou algo assim...
— Naomi… — Damian espalmou as mãos contra o ar e repetiu mais uma
vez: — Você não precisa da Poison.
Eu deveria ter escutado Damian... Eu realmente deveria. Teria me
poupado de tanto, tanto caos. Mas fui sincera, não? A Poison era o meu lado
mais egoísta. Um lado que ainda estava vivo.
Sentindo meu coração partir a cada passo, andei até ele. Ergui o seu
queixo, analisei o seu rosto e o acariciei, deixando que meus dedos se
arrastassem pelo seu cabelo, até o fim da sua nuca. E aproveitei cada
segundo do toque, enquanto Damian esquadrinhava o meu rosto.
Tão lindo... Tão verdadeiramente bom. E ele nem percebia.
— Eu amo você — sussurrei. — Mesmo que não me entenda quanto a
isso.
— Estou tentando.
— Eu sei — garanti. Vi seus olhos se tornarem vermelhos. Piorei tudo, eu
realmente piorei tudo com as palavras seguintes: — Preciso que não conte
nada para ninguém, Damian.
O brilho no olhar do meu namorado se perdeu por um instante. Continuei a
acariciar a sua nuca, num pedido silencioso para que fizesse isso por mim.
Damian balançou a cabeça em negação e se pôs de pé, unindo os lábios aos
meus uma última vez.
— Bale...
— Eu não acho que tem mais clima pra estudar — ele sussurrou. — E eu
não vou sair do seu lado, linda, mas minha cabeça está pesada com tanta
revelação. — Meu coração estava quebrando, mas eu trinquei os dentes e
tentei me manter impassível. — Preciso de um tempo para pensar nisso tudo.
Ele beijou minha testa e eu não ousei olhar para trás quando passou por
mim. Nem quando a porta bateu.
Do quarto, parada, ouvi quando Damian arrancou com a moto para longe.
Ele estava certo. Eu não precisava da Poison. É por isso que às vezes
penso... Penso que fui a nossa maior inimiga.
As líderes fizeram uma pausa no ensaio da coreografia da semana. Wayne
estava focada em um resumo de química sobre a arquibancada, a treinadora
falava ao celular e o time de futebol praticava algum exercício de percurso,
obstáculos e velocidade. Eu não sabia o que aquilo era, e assistir Bale
gerava um nó em minha garganta. Meus olhos estavam presos em duas
figuras que escapavam do campo: Derek estava em seu uniforme da escola,
Garreth com a roupa do time. Ambos seguiam pros vestiários. Pareciam
tensos, prestes a fazerem algo errado.
Peguei o celular discretamente caminhando pelas arquibancadas e
fotografei os dois. Procurei pela minha lista de contatos, desbloqueei um
deles e respirei fundo. A Naomi impulsiva estava agindo e aquilo não era
nada bom. Enviei a imagem pro Garreth. Ele parou de andar antes de sumir
pelo corredor dos vestiários.
Eu: Meyers não voltou pro time. Ele não deveria ir aos vestiários.
Os ombros de Garreth se retificaram e Derek parou de caminhar também.
Eu: avise para Meyers que se isso vai parar na Poison, aposto que vão querer saber o que
estão fazendo. E o que estão fazendo? Drogas? Vão foder a vida de alguém aí dentro? Talvez a
escola goste de tentar adivinhar.
Garreth se virou e olhou para mim.
Eu: sério, o que ele vai te dar, Parker? Cocaina? Remédio? Pra onde Meyers vai te levar?
Está disposto a ir ao inferno por ele?
Garreth: não é da sua conta.
Eu: pode não ser. Se entregar o telefone para Meyers. Agora.
Parker bufou, visivelmente irritado, e entregou o telefone para Derek, que
analisou as mensagens. Liguei para o número do ex da Melissa, me afastei
para que não me ouvissem e sinalizei para a treinadora que era uma chamada
importante.
— Sentindo minha falta, princesinha?
Trinquei os dentes, mas forcei um sorriso irônico para ele logo em
seguida.
— Fique tranquilo, Derek. Se você fosse oxigênio, eu preferiria morrer
asfixiada.
Ele perdeu o sorriso debochado em dois segundos. Eu faria aquilo ser
rápido, ou minha ansiedade destruiria cada uma de minhas veias, porque
respirar já era difícil. Porque só ouvir sua voz já era pesadelo suficiente.
Mas eu precisava fazer aquilo acabar. Eu não queria que machucasse
ninguém. Nem eu, nem qualquer pessoa que eu amava. Principalmente
Damie. Eu precisava fazer algo.
— Vou dizer apenas uma vez, Derek — quase rosnei as palavras. — Essa
é a última conversa que vamos ter. E estamos a o quê? Dez metros de
distância? — Meyers uniu as sobrancelhas. Garreth, ao seu lado, parecia
pilhado. Ótimo.
— Naomi... — Meyers falou como uma súplica e eu senti meus olhos
arderem. Odiava o meu nome na sua boca, odiava a sua existência, odiava
que tinha machucado o garoto que eu amava. Eu o odiava tanto que doía.
Mas engoli a repulsa e me mantive firme.
— Essa é a distância mínima para que eu me sinta segura para conversar
com você. — Meyers pareceu ter levado um soco, mas eu não me importei.
— Eu não tenho que ouvir você. Eu não acredito que você tenha mudado. E
mesmo se tivesse, você ativa minhas piores lembranças. Se fosse uma
pessoa boa e saudável, entenderia isso e fingiria que eu não existo. Mas
você não sabe ser bom, não é? Você ama ser um filho da puta. Então pediu
uma última conversa? Aqui está a porra da nossa conversa, Derek. E ela vai
funcionar assim: eu falo, você ouve.
Wayne me alcançou. Ela franziu o cenho para mim ao segurar meu braço,
perguntando o que eu fazia ao perceber que eu encarava Derek, ambos ao
telefone. Melissa tentou tirar o celular da minha mão, eu girei e não permiti.
Ela me chamava, preocupada, mas nem minha Batman me pararia naquele
momento. Nada pararia minha impulsividade. Não quando perdia meu sono
pensando em Damie sendo socado. Não quando me sentia tão impotente.
— Não soa como uma conversa para mim.
— Não soava como uma conversa para mim, quando era você quem
berrava e eu escutava — devolvi. Meyers riu, seus ombros balançando
enquanto segurava a ponte do nariz. — Quando eu desligar essa chamada,
Derek, você nunca, nunca vai quebrar essa distância entre a gente. Nunca.
Sempre vai se manter o mais longe possível. — Analisei o seu rosto, tendo
certeza que ele entendia bem cada palavra. — Não quero conversar com
você depois disso, não quero que me procure, não quero seus joguinhos, mas
principalmente, Meyers... Não quero que toque num fio de cabelo do meu
namorado, e se eu souber que você o provocou minimamente, Derek, eu juro
por Deus, você vai se arrepender de ter nascido.
O filho da puta riu de novo, sem acreditar.
— Uau... Fala como a minha ex ou como a Poison? — Sua tentativa de
me desequilibrar era sempre tão precisa.
— Falo como a garota cansada de ser perseguida pelo mesmo babaca de
sempre. O que vai fazer nesse vestiário? Mexer em algo que não é seu? Usar
algo que a escola não permitiria? — Meu ex ajeitou a postura, percebendo
que eu não era a garota boba do passado. Jamais seria. — Estou te avisando,
Meyers. Não se aproxime de mim, não se aproxime de nenhum dos meus
amigos e, principalmente, não se aproxime do Damian. Porque se eu decidir
que não tenho nada a perder, se eu perceber que vai ferrar minha vida do
mesmo jeito, eu vou contar para todo mundo cada pedacinho podre da nossa
história, e se você acha que o aborto vai me segurar de dizer qualquer coisa,
Meyers, saiba que vai ser um prazer... — as palavras rasgavam pela minha
garganta — um prazer, cair e te arrastar junto. Para o inferno. Estou sendo
clara?
Cerrei os olhos. Meyers não me respondeu.
— Estou sendo clara, Derek?!
Ele mal parecia respirar e eu também não sabia dizer se eu estava
respirando normalmente. Por puro ódio.
— Quando eu voltei, Carlson, eu só queria conversar com você e dar
um fim a isso tudo. Mas então vi você... Com ele... — Derek sorriu. Sorriu
como fazia quando dizia ser apaixonado por mim. E eu senti nojo.
Nojo pelo modo como me culpava por seus problemas, disfarçando os
seus golpes com palavras bonitas e declarações cortantes.
Derek era como um excelente predador, que parece calcular rapidamente
— quase instintivamente — como destroçar a sua vítima. Só que eu estava
cansada, exausta. Eu não seria mais a sua presa.
— Espero ter sido clara, Meyers — falei praticamente entredentes. As
lágrimas se acumularam nos meus olhos, por puro, puro ódio. — Não ligue
pro meu número. Não fale comigo. Mal olhe para mim. E fique ainda mais
longe dos meus amigos. Fique longe do Damian. Do contrário, te vejo no
inferno.
Desliguei a chamada. Bloqueei o número de imediato. Derek puxou Parker
pros vestiários, cada piso firme e carregado de fúria. Wayne deixou o queixo
cair quando a mostrei a chamada.
— Desculpa fazer isso. Eu precisava — minha voz falhou.
Esperei que gritasse. Esperei que xingasse. Mas seus olhos castanhos
claros só esquadrinharam o telefone, sua mandíbula tensionou e no segundo
seguinte seus braços estavam em torno do meu pescoço do modo mais
protetor possível. Melissa me abraçou forte.
— Nunca mais faça isso. Não chegue perto deles — ela pediu, trêmula.
Por um momento eu esqueci do quanto meu passado preocupava as pessoas à
minha volta.
— Não vou.
— Prometa, Naomi. Prometa mesmo.
— Eu prometo. — Beijei seu ombro e a apertei firme, sendo sincera.
Ela suspirou, xingando baixo como quase nunca fazia. Imaginei que odiava
minha impulsividade e me odiei por preocupá-la, mas sentia que realmente
tinha precisado daquela conversa. A uma distância segura, mas olhando nos
olhos daquele filho da puta. E a minha firmeza quase me fez acreditar que
aquilo era um ponto final... Mas Meyers não desistia tão fácil, desistia?

Damian faltou ao primeiro ensaio daquela semana e eu tive que fazer


todas as cenas e números musicais com seu substituto.
Eu fui para a terapia naquela semana, nos dois dias marcados depois da
aula, e no primeiro dia, encarei a psicóloga por algum tempo, em silêncio,
ponderando antes de falar qualquer coisa.
Então eu ignorei suas questões iniciais, só perguntei se poderia desabafar
e nada mais. E eu fiz. O mesmo desabafo que fiz para o Damian sobre a
Poison e tudo mais, quase as mesmas palavras.
Não sei o que deu em mim, honestamente. Só confiei no sigilo da consulta,
coisa que não era acostumada a fazer... e falei em voz alta, para uma pessoa
ainda um tanto quanto distante, um dos meus segredos mais sujos. Não sei o
motivo. Eu só fiz.
Acho que eu queria analisar seu rosto de volta e tentar adivinhar o que ela
pensava de mim. Mas a doutora manteve a feição numa linha tênue entre
neutralidade e compaixão. E então me fez algumas perguntas, me guiando à
reflexão, como sempre. Ao fim, eu não adivinhei nada. Ainda assim, saí um
pouco mais leve do consultório.
Saí refletindo sobre tudo que havia dito, todas as perguntas que me foram
feitas... Voltei para casa, exausta, mas não chorei. Não mesmo. Mesmo que
por dentro eu sentisse vontade, me forcei a repetir que não poderia desabar.
Não de novo.
No dia seguinte, vesti a mesma máscara de sempre, fingindo que estava
bem, indo para a escola, e a conversa com Damian se repetia em minha
mente, aula após aula.
"Você é a Poison".
Ugh, eu deveria ter destruído aquela conta. Porém, Naomi Carlson sempre
fazia as piores escolhas, não? Eu precisava lidar com as consequências.
Como Bale sentado sempre o mais longe possível, isolado, distante não só
de mim, mas de todo mundo.
Doía, eu só fingia que não. Não tão bem. Não mais. Acho que eu estava
cansada demais de mentir estar bem, brincar ser algo que eu não era. Via
cada vez menos sentido nisso.
— Certo, Carlson — Melissa me chamou a atenção assim que se sentou na
cadeira ao meu lado, pouco tempo antes do professor entrar na sala. Tirei um
dos meus fones e ela virou meu celular em sua direção. Meu coração
acelerou minimamente, mesmo coma a tela bloqueada. Tudo o que ela
conseguiu ver foi o nome da música que eu ouvia. — All Too Well? Jura?
Taylor? Ouviu o que antes? Katy? Keys? Só estou calculando o tamanho da
fossa aqui. — Não a respondi.
Mel estava tentando usar do humor para me arrancar alguma coisa, mas
percebeu que não adiantaria. Então foi direta:
— Converse comigo. Me ajuda a entender o que houve, me ajuda a
entender por que está assim. Qual foi o motivo para vocês darem um tempo?
— Wayne parecia extremamente preocupada. — Naomi...
Meu olhar se perdeu em um casal no canto da sala. O garoto convidava a
menina para ir ao baile do fim de ano com ele, ou, como chamávamos, o
Formal. A maldita festa. Do modo mais discreto do mundo, apenas com um
presente, um colar... E eu percebi que era o convite para o baile pelo modo
como ela repetiu várias vezes “sim”.
— Quanto tempo falta para o Formal? — perguntei, virando o rosto para
Melissa.
— Me surpreende que você não saiba.
— O quê?
— O baile é em um mês. Uma semana antes da peça, duas semanas antes
da formatura. — Analisei o rosto de Melissa devagar, absorvendo a sua fala.
O maldito baile.
— O Mike já te chamou?
— Ele chamou... Na... Na nossa primeira vez, digo, logo depois. Foi
romântico, mas bem simples e... — E exatamente do jeito que ela gostava.
Íntimo, discreto, tranquilo. Mel pigarreou, mudando de assunto: —
Damian...?
— Nos perdemos em tanta coisa que nem pensamos nisso — confessei
baixo.
— Sobre o que estão falando? — Brandon me surpreendeu ao surgir por
trás, me fazendo dividir a cadeira com ele. Oliver apareceu logo depois e
beijou minha testa, abrindo seu melhor sorriso. Ele se sentou sobre a mesa
de Wayne.
— Formal — respondi sem muita animação. — Eu tinha esquecido
completamente.
— Mentira que Naomi Carlson esqueceu do baile de fim de ano! —
Oliver quase me fez rir. — Como assim?!
— Alguém pesquisa um daqueles testes na internet "prove que você não é
um robô"? — Brandon brincou. — Pensei que você já teria todo o dia do
baile planejado.
— Não esqueci completamente, tá legal? Eu tenho algumas coisas
planejadas — respondi. — Não planejadas, mas... idealizadas. Eu sonho
com esse dia desde pequena, acho. — Suspirei, cansada. — Escolhi o
vestido na viagem que fiz com a Madison no início do ano. É um Balmain
branco. Vou fazer alguns ajustes, eu redesenhei alguns detalhes, quero que
seja algo meu. Agora que me lembraram da existência da festa, vou começar
os ajustes na próxima semana, espero.
— Um Balmain repaginado por Naomi Carlson? — Wayne ergueu as
sobrancelhas. — Uau, isso eu quero ver!
— Vai desenhar o terno do Damian também? — Ollie perguntou e nós o
encaramos. O sorriso sumiu lentamente dos lábios de Zhang quando ele
lembrou que Bale e eu estávamos com problemas, então pigarreou,
acrescentando: — Ei, Carlson, alguma notícia de uma líder do último ano
extremamente gata e solteira? Não faço ideia de quem chamar para o baile
ainda.
— Oh, eu faço! — Brandon garantiu. E ali estava o sorriso bobo e
apaixonado.
Mel, Oliver e eu cantarolamos ao mesmo tempo, após suspiros longos e
sincronizados:
— Gianna Olsen.
— A própria. — O loiro soou tão orgulhoso que eu tive que sorrir.
— Gianna não é de outra escola? — a pergunta de Oliver foi retórica.
— O diretor Hawkins permitiu que... — Me perdi nas palavras de
Brandon. Assisti Damian e Mike entrarem na sala, os dois rindo de alguma
coisa que viam no celular. E logo todo o nosso grupo também os percebiam.
Apesar de seu namorado (ou quase isso) estar na sala, Wayne preferiu
ficar onde estava. Vi o momento em que Brandon continuou a falar, mas
guiou os olhos de Bale para mim, pesar por todo o seu rosto ao perceber o
que eu fazia: eu analisava Damian, descaradamente. Mas não poderia ir até
ele, estávamos dando espaço um ao outro. Precisávamos disso.
Bale percebeu que eu o observava. Mantive o contato visual, buscando
por qualquer detalhe que me indicasse que ele realmente estava bem. Mas
acabei por desviar o olhar e fitar meus dedos sobre a mesa.
— Carlson! — Brandon me trouxe de volta à Terra e eu estremeci, o
encarando.
— Hmm? Desculpa, o que disse?
— Brandon dizia... — Ollie começou — que Hawkins deixou alguns
alunos trazerem convidados para o baile, se avisarem com antecedência e
justificarem o convite extra. Então Brandon pode chamar Gianna para a festa
e ele até queria a ajuda de vocês...
— Nossa ajuda? — Franzi o cenho.
— Sim... sua e da Mel — Ramsey disse, tocando o pescoço numa timidez
que não lhe era própria. — Eu tive uma ideia para convidar Olsen para o
baile. E preciso de vocês.
Wayne e eu trocamos um olhar. Melissa parecia empolgada, mas eu...
Porra, eu senti inveja.
Não é algo que me orgulho em dizer, porém é a verdade. Os casais para o
baile se formavam e Damian e eu estávamos separados porque não
compreendíamos um ao outro. Isso doía.
No segundo seguinte, contudo, me senti culpada por sentir inveja do meu
melhor amigo. Digo, vamos?! Era Ramsey! Ramsey que me conhecia mais do
que muita gente — bom, muito mais. E ele estava finalmente me superando,
se apaixonando por uma pessoa maravilhosa. O baile seria uma memória que
marcaria Gianna e Brandon para sempre. Seria bom fazer parte disso, de
alguma forma. Da história de um casal que tinha tudo para dar certo.
Eu sabia que havia muita coisa na minha cabeça naquele momento. A
psicóloga, os estudos, os ensaios para a peça, os ensaios das líderes de
torcida... Ao mesmo tempo, eu pegaria qualquer chance de ocupar a minha
mente com coisas positivas e não com meu namorado distante ou minha
família problemática. Então eu dei de ombros e perguntei:
— Do que precisa?
O sorriso que Brandon me deu me fez sentir minimamente melhor. E
quando ele começou a me contar a sua ideia, me permiti sorrir de verdade.
Aquilo poderia ser divertido.
Aquela semana foi intensa.
Os ensaios para a peça foram complicados e aconteceram todos os dias.
Damian faltou a um deles, eu faltei a outro. Infantilidade da nossa parte, mas
evitamos nos ver. E quando interagíamos, pela peça, éramos frios. Era como
se a palavra "término" estivesse na minha mente, em letras de LED,
brilhantes. Uma ameaça constante a um coração cansado demais.
Naquela semana, Brandon, Mel e eu gastávamos todo o tempo possível
montando a surpresa que ele tinha idealizado para Gianna. Arrastamos Mike
e Oliver para essa bagunça. Pedi que Mel chamasse Bale por educação, mas
não me surpreendi quando ele disse que não poderia se dedicar a muitas
coisas naquela semana.
Nos evitávamos, mas nos veríamos naquela noite. Na minha última
apresentação como Green Snake.
Devido às provas do fim de ano e a correria com a apresentação de
literatura, tanto eu quanto Mel, e outras poucas integrantes do último ano,
resolvemos nos afastar do grupo. Apesar disso, eu sabia que as minhas
garotas ganhariam qualquer competição no fim do ano. Poderíamos ir para
os treinos e ajudar a equipe por alguns minutos, de qualquer forma. E eu
planejava fazer isso, porque ser capitã das líderes de torcida foi mais do que
um título para mim, foi uma paixão. Uma daquelas coisas que te fazem
esquecer de qualquer problema no mundo e te tornam completa.
Aquela seria a despedida, e seria da melhor forma possível.
Chegar no campo para uma última apresentação me deu um frio na barriga
diferente e difícil de explicar. Mel parou ao meu lado e eu vi seus olhos
brilharem com emoção. Respirei fundo e a joguei a vontade de chorar para
longe.
As arquibancadas estavam lotadas, ansiosas pelo jogo; as líderes,
preparadas para mais um discurso da treinadora. Entusiasmo pairava no ar.
Dava para sentir uma energia diferente, sabe? Aquela que te atinge no peito,
arrepia o seu corpo inteiro e te deixa atenta a cada pequeno detalhe.
— Vou sentir falta disso — falei, quase para mim mesma. Wayne
entrelaçou os dedos aos meus e eu deitei a cabeça no seu ombro.
— Então é isso. A apresentação das nossas vidas. O fim de um ciclo. —
Wayne estava tão nervosa quanto eu, mas ainda assim acabou por deixar um
sorriso escapar. — Ninguém nunca vai esquecer.
— Oh, não mesmo.
Fomos para a concentração da equipe e me esperaram por um último
discurso. Eu não sabia o que dizer. Só respirei fundo, olhando cada rosto ali.
Mel, a treinadora, a namorada da Riley, as garotas que poderiam tomar o
meu lugar, alguns dos poucos garotos...
— Não esperem por palavras mágicas da minha parte — comecei. — Ou,
ao menos, façam uma festa de despedida e me deixem louca o suficiente para
que eu fique emotiva. — Arranquei risadas e me senti mais firme.
Olhei para cada pessoa ali, estranhando ter que abrir mão de algo que me
manteve mais firme por muito tempo. Ser uma capitã, ser uma Green Snake...
Me fazia sentir insuperável. Ao mesmo tempo, percebi que aquilo não era só
sobre mim. Eu estava me despedindo de todos os momentos ajudando aquele
time a chegar ao topo, das competições de fim de ano, das cantorias nas
pausas dos treinos e de poucas ocasiões em que me permiti ser eu mesma
naquela escola — mesmo sendo um pouco rigorosa com a minha equipe.
Era o início do fim para o primeiro ciclo importante que vivi na escola.
Outros fins viriam.
— Como capitã, eu tenho três ordens finais e não aceito que as
descumpram sobre hipótese alguma — anunciei, alto. Ergui o dedo,
começando a contar: — A primeira é que façam dessa equipe um refúgio e
se entreguem sempre que possível. É muito importante que estejam aqui
porque querem, porque amam isso. Não façam nada na vida por nenhum
outro motivo.
Aquele conselho também deveria valer para mim, mas afastei esse
pensamento. Ergui outro dedo.
— A segunda é que esqueçam quaisquer problemas com qualquer outra
integrante da equipe, tornem cada ensaio o mais leve possível, ninguém sabe
o que outra pessoa aqui pode estar passando. E a última... — Eu sorri
largamente. — Vocês são Green Snakes! No momento em que pisarem em
campo, honrem isso. Não tenham piedade de qualquer equipe, gastem até a
última gota de suor e veneno mostrando porque nós sempre fomos melhores
do que qualquer outro time. E deixem todas as Green Snakes que passaram
por aqui antes de vocês orgulhosas. Eu, principalmente.
Nosso time de futebol saiu do vestiário e o meu olhar encontrou o de
Damian. Perdi a capacidade de falar qualquer coisa enquanto a minha equipe
aplaudia. Bale estava ali. Meus olhos eram seus e era certamente recíproco.
Do outro lado do campo, Damie balançou a cabeça em um aceno, um
desejo silencioso de boa sorte. Meu coração se tornou minimamente mais
leve e eu retribuí o seu gesto. A época das despedidas haviam começado. Eu
não imaginava quão dolorosa ela poderia ser.
— Uma vez Green Snake? — perguntei alto.
— Sempre Green Snake — a equipe respondeu em uníssono e eu desviei
o olhar de Bale, dando meu melhor sorriso orgulhoso.
O gosto de uma boa despedida é sempre, sempre, agridoce. E assim que
minha última apresentação começou, a cada vez que fui lançada ou realizei
algum passo da coreografia da semana, eu senti isso.
Eu sentia o olhar de cada pessoa ali. Eu sentia o olhar de Damian sobre
mim a cada passo. Mas não era o momento de pensar nele. Aquilo era sobre
mim. Quando não cantarolava a letra de Motivation da Normani, eu a repetia
na minha mente, palavra por palavra. Completamente entregue, a cada gota
de suor, a cada respiração.
Wayne e eu nos encaramos vez ou outra durante a apresentação, eu
percebia as lágrimas se acumulando nos seus olhos. Só conseguia pensar que
não havia modo melhor de terminar esse ciclo do que do lado de uma irmã.
Quando a apresentação acabou, eu fechei os olhos por um segundo ou
dois, ao centro do campo. Quando os abri, naquele uniforme, observei as
líderes comemorarem mais uma coreografia bem sucedida. A sensação de
dever cumprido me fez lembrar que muito do que vivi naquela escola foi até
bom.
O jogo contra os Red Dragons foi complicado. O único gol saiu apenas
aos dez últimos minutos da partida, uma assistência de Damian que levou a
um gol de Brandon. Isso nos garantiu a vitória, não só naquela noite, mas no
campeonato. Um título a mais para o Colégio Brightgate, mais um troféu para
os Green Snakes. Senti orgulho de Ollie, Brandon, Riley — que com certeza
tinha ajudado a equipe mais do que muitos imaginavam —, Mike e Bale...
principalmente Bale.
Ele parecia radiante, comemorando com a equipe após o apito final. Mais
feliz do que ele, apenas Ramsey, que tinha se dedicado como nunca nos
últimos anos por um título como aquele. E ele já estava com Gianna em seu
colo, enchendo-a de beijos e chorando como um bebê.
Encontrei Katy e Ryan na arquibancada, distantes. Eles acenaram para
mim e eu acenei de volta, vendo a pequena Bale nos ombros do pai. Miley e
eu sorrimos uma para a outra até Damian subir pela arquibancada e pegá-la
nos braços, a fazendo gargalhar por sua alegria contagiante. Obviamente meu
coração se encheu de amor... até se tornar pesado o suficiente para
doer. Porque eu deveria estar comemorando com eles naquela noite. Mas
não foi o que aconteceu.

Voltei para casa apenas para tomar um banho e trocar de roupa. Havia
mais um lugar para ir naquela noite. Eu estava tão cansada que não usei
nenhuma maquiagem, apenas vesti uma blusa branca e uma saia de cintura
alta, com um par de coturnos. Busquei por uma jaqueta e só percebi que era
a de Damian quando voltei para o carro, mas joguei a informação para algum
canto no fundo da minha mente.
Quando tudo o que você quer fazer é esquecer alguém — mesmo que por
pouco tempo —, parece que esse alguém está por todo o lugar.
Cheguei à pequena lanchonete, a poucas quadras de distância da escola,
estacionando ao lado da caminhonete de Mike. Era onde nosso time
comemoraria a vitória da noite. Assim que saí do meu Corvette, vi Gianna
Olsen do lado de dentro do estabelecimento pelas janelas longas e largas.
Brandon, Mike e Ollie estavam sobre a caçamba do carro de Graham. Já
Wayne estava a alguns passos do carro, segurando o celular. Aparentemente
prestes a me ligar.
— Nervosos? — perguntei em alto e bom tom.
Quase ri alto ao ver Brandon estremecer. Prendi o riso também, pela
roupa que ele vestia em plena noite de inverno. Era um terno azul claro e
folgado sobre uma camisa colorida. Os garotos estavam em roupas mais
comuns, camisetas e calças.
Ramsey gastou dinheiro para parecer brega o suficiente para uma
declaração romântica e divertida. Gianna era uma garota de sorte. E
provavelmente riria a semana toda lembrando disso.
A ideia de Ramsey era se declarar usando o cantor favorito de Olsen:
Bruno Mars.
— Como estou? — Brandon pulou da caçamba e eu ri, me aproximando
dele. Seus olhos brilhavam em antecipação.
— Perfeito, Brandon Mars. — Segurei os seus ombros. — Trouxe a
caixinha de som? — Ele assentiu. — Preparado? — O vi inspirar e expirar.
— P-preparado.
— Não senti firmeza, Ramsey. Pronto? — Melissa perguntou. Arqueei
uma sobrancelha. Brandon confirmou.
— Pronto!
Mel e eu nos entreolhamos. Pisquei para ela e acenei com a cabeça para o
estabelecimento, sendo seguida pela minha melhor amiga.
— Alguma vez pensou que o veria chegar a esse nível por alguém? — ela
sussurrou. — Brandon Ramsey foi completamente fisgado, Carlson!
— Isso vai ser muito bom de assistir — cantarolei.
Segui ao meu alvo, que conversava com a equipe de futebol dos Green
Snakes animadamente. Gianna esperava pelo namorado, sem ter ideia do que
veria. Mel a surpreendeu com um abraço pela cintura e bastou que nos
sentássemos e conversássemos com ela por dois minutos, para que Ramsey
fizesse a porta da lanchonete se abrir com Treasure tocando o mais alto
possível. Gianna estremeceu em nossa mesa, deixando o queixo cair.
Gargalhei alto de imediato, porque Brandon sabia ser teatral e tentava
imitar Bruno Mars a cada passo, mas, principalmente, porque Mike Graham
fazia umas dancinhas realmente — realmente — horríveis. Oliver, por sua
vez, parecia ter um talento nato para balançar os quadris, por mais
vergonhoso que continuasse sendo.
De qualquer modo, Melissa estava tão vermelha quanto Olsen. Já eu? Eu
queria ver Damian assim.
— Eu vou morrer — Gianna disse, rindo de nervoso, completamente
chocada. De repente, Brandon estava apontando para ela e rebolando. Quase
engasguei tentando segurar a risada e falhei quando a lanchonete passou a
bater palmas, incentivando um Ramsey cada vez mais confiante.
Brega.
Era como uma cena extremamente vergonhosa e ainda assim divertida de
um musical. Eu acho que existem níveis de breguice, sabe? Brandon Ramsey
definitivamente estava no topo. Suando, rebolando e fazendo questão de
apontar para a sua garota, seu pequeno tesouro.
Quando Ramsey pegou um recipiente de mostarda de uma mesa qualquer e
fez de microfone, Gianna gargalhou alto. No meio de toda aquela loucura,
parecia que Brandon vivia em um mundo em que apenas ele e Olsen
existiam. E pelo modo como os olhos de Gianna brilhavam, eu soube que era
recíproco.
Algum tempo depois, Ramsey terminou a performance do século, se
ajoelhando perante Olsen. Suor escorria por sua testa e ele não parecia se
importar. Brandon provavelmente dançaria a discografia inteira de Bruno
Mars para fazer a namorada feliz.
— Pelo amor de Deus, o que foi isso? — Gianna perguntou, rindo. E ao
mesmo tempo em que havia um nervosismo naquele riso, a garota tinha
claramente adorado cada segundo. Brandon abriu o seu maior sorriso.
Mel e eu trocamos um olhar. Poderíamos derreter ali mesmo.
— Isso foi seu namorado te fazendo sorrir — Ramsey respondeu,
ofegante. Todos os observavam. Era muita pressão, mas Brandon tinha
coragem o suficiente. — Sabe aquela sua música favorita? A que o Bruno
canta "quando você sorri, o mundo todo para e encara por um tempo"? —
Brandon cantarolou Just the Way You Are do modo mais desafinado possível,
mas sua namorada o admirava como se ele fosse o melhor cantor do mundo.
Havia amor em todos os mínimos detalhes daqueles dois. — Gata, se olhar
ao redor, vai ver que a letra foi feita para você. — Olsen realmente olhou ao
redor. — Todo mundo aqui está te vendo sorrir, Gi, e possivelmente se
apaixonando tanto quanto eu.
— Amor... — a voz de Gianna falhou e ela franziu o cenho,
completamente confusa. — O que está fazendo?
— Estou aqui para te pedir... Pedir não, Gi, para te implorar... Implorar
que aceite ir ao baile da minha escola comigo. E me deixe te acompanhar no
seu depois. E em tudo o que quiser sempre. Absolutamente tudo. Em
qualquer loucura, gata. Por favor... — Ele estava ofegante. — Por toda a
vergonha que aconteceu aqui... — Ele riu de nervoso e eu quis rir junto.
Gianna segurou o rosto do loiro com as duas mãos trêmulas. Mordi o
lábio inferior com força, meu coração acelerando com a sua demora para dar
uma resposta.
É só dizer sim.
É só dizer sim...
— Você é insano, Brandon, insano. — E de perto eu consegui ouvi-la
dizer "sim e sim" repetidas vezes, antes de beijá-lo e levar todo o lugar à
loucura.
Eu me contive para não gritar, mas Mike comemorou como se estivesse
presenciando um gol, Oliver berrou dezenas de xingamentos e Wayne estava
assobiando e aplaudindo como uma louca. Quase me senti completa. Até que
instintivamente busquei por alguém. Mas ele não estava lá.

A noite poderia ter sido mais divertida, mas eu estava exausta e voltei
cedo para casa. Alívio me tomava enquanto eu tirava a jaqueta, andando
escada acima, ansiosa pela minha cama. Cantarolava Treasure baixinho,
sorrindo boba ao lembrar da animação de Ramsey em se declarar para
Gianna. É algo impossível de se esquecer.
Eu não esperava encontrar ninguém no meu quarto quando o abri, mas ali
estava: minha mãe, abrindo um álbum de fotos minhas, de quando eu era bem
pequena, perdida em memórias e mais memórias.
Lia parecia tão concentrada em uma imagem de uma Naomi Carlson de
seis anos, após uma aula qualquer de ballet, tomando sorvete e expondo um
sorriso com um dente faltando logo na frente. Ela vestia um suéter vinho
comprido por cima de calças cinzas de algodão, leves.
Paralisei por completo quando vi que meu caderno de croquis também
estava sobre a cama, aberto em uma pintura de um vestido preto qualquer;
não era um dos melhores. Ao menos as colagens ao redor eram interessantes.
— Quando eu te via dançar, tão pequena... — sua voz me fez engolir em
seco. — Nossa, Naomi, meu mundo parecia parar. Eu quis estar lá por você
hoje, mas acho que estragaria tudo, não?
O nó na minha garganta se formou de imediato e eu fechei a porta atrás de
mim.
— Onde o papai está?
— Dormindo. Madison está estudando. E eu senti sua falta. Quer dizer...
— Lia riu, sem humor. — Sempre sinto. Mesmo quando está perto.
Eu não estava esperando por aquela sinceridade, naquele dia, àquela hora.
Talvez nunca.
— Como foi? A apresentação, digo.
— Foi muito boa.
— Comemorou com os seus amigos? — Lia passou a página do álbum e
eu tomei coragem para me aproximar. A foto era nossa. Eu deveria ter quatro
anos e estava em seus braços, sujando seu rosto com tinta guache azul.
Parecia outra vida.
— Um pouco — respondi, quase em um sussurro. Ela ergueu os olhos aos
meus e eu desejei que não tivesse feito isso, porque me senti vulnerável de
imediato. — Tudo bem, o álbum, tudo bem mexer nele. Mas o meu
caderno...
— Desculpe. Maddie me disse que você começou a trabalhar no seu
vestido da formatura. E fazia tanto tempo desde que eu via algo seu, nem
pensei que... Céus... Isso foi invasivo, não? Me perdoe. Ao mesmo tempo,
ainda bem que fiz isso. Porque... Caramba, filha, você tem tanto talento!
Filha. Uau, a palavra me pareceu tão estranha…
Aproveitei o silêncio por algum tempo, pensando em qual razão eu
conseguia chamá-la de mãe e — ainda assim — estranhar ser chamada de
filha. Só depois perguntei:
— O que faz aqui?
O silêncio nos acompanhou novamente, até que Lia bateu na cama,
sinalizando para que eu me sentasse. E assim fiz.
— Já disse: saudades — ela respondeu. Algo no meu rosto deve ter
denunciado meu estranhamento, porque ela logo acrescentou: — E
necessidade de lutar contra seja lá que inferno está na minha mente e esperar
a minha filha para uma conversa. Para implorar por qualquer chance de
recomeço.
Recomeço?
— Do nada? — a fala me escapou antes que eu me desse conta de quão
insensível ela soava.
— Tenho que começar por algum lugar.
Ela passou mais uma página do álbum. E ali estava: Maddie e eu,
fantasiadas para o Halloween, abraçando Lia pelo pescoço. Éramos
pequenas, tão pequenas. Meus olhos arderam e eu me senti pesada sobre a
cama.
— Me pergunto o que aconteceu para a nossa família se quebrar. Acho
que a culpa foi toda minha.
— Mãe... — tentei interrompê-la, porque não queria ter aquela conversa.
Não naquele dia.
— Seu pai se tornou tão... volátil. Eu não consigo entender! Mas eu
deveria ter defendido vocês, eu deveria cuidar de vocês — era raiva na sua
voz. Raiva de si mesma, a cada página que ela passava.
— É melhor conversarmos amanhã, mãe, eu...
— Por favor, Naomi... Por favor... — Ela fechou os olhos e tocou a minha
mão com seus dedos trêmulos, a apertando com força. Meus ombros pesaram
três vezes mais. — Não sei vou conseguir dormir mais uma noite com o peso
de ser odiada por você...
— Eu não...
— Você me odeia mais do que me ama — ela disse, abrindo os olhos.
Um peso caiu sobre os meus ombros. Porque eu sabia muito bem por que
Lia dizia aquilo. Eu tinha lhe dito. Algumas poucas vezes. E apesar de
sempre me sentir horrível no instante seguinte a essas palavras, eu insistia
em deixá-las escapar vez ou outra.
— Quando você nasceu, meu amor… — Lia umedeceu os lábios,
parecendo buscar pelas palavras certas —, seu pai já tinha começado a
deixar a máscara cair. — Seus dedos ainda tremiam sobre mim. — Mas ele
ainda fingia que pretendia mudar, então... No segundo em que te peguei nos
braços e o vi olhar para você, acreditei de verdade que você poderia ser a
luz que nossa família precisava — ela falava devagar e eu não sabia para
onde aquilo iria. — Madison estava radiante com uma irmãzinha, Vincent
mais calmo e eu completamente apaixonada por cada detalhe seu...
Meus olhos arderam ainda mais e eu engoli em seco. Ela costumava ser
apaixonada por mim. Ela costumava me amar, do jeito certo. Aquilo parecia
outra vida. Parecia tão, tão distante do que vivíamos.
— Sempre houve esse monstro dentro do seu pai. O que me agride com
palavras, me humilha e... Enquanto vocês eram crianças, Vin tentava se
controlar. Em algum momento, ele apenas... — sua fala se perdeu por um
segundo. — Ele assumiu o monstro com orgulho. Cada vez mais rígido,
vendo vocês, as minhas filhas, apenas como Carlsons, como sucessoras...
Ele deixou de sorrir para vocês, de ser pai. Mas eu...
Mamãe inspirou fundo, analisando a minha palma, deixando seu polegar
acariciar a minha pele. E eu permiti isso, mesmo que não tão confortável.
— Ugh... Eu amo Vincent — ela continuou. — Me apaixonei por um cara
que queria que você conhecesse, um diferente. E devo estar doente, porque
me prendo aos resquícios do homem que conheci. Não sei distinguir o lado
ruim dele do bom e... amo os dois. É uma doença. Eu sei que é. E, caramba,
me desesperou quando vi você doente assim por outro garoto. — Eu engoli a
vontade de chorar. Nunca realmente tinha parado pra pensar no que Lia
sentia quando me via perto de Meyers. Nem passou pela minha cabeça que
ela pudesse comparar o meu antigo namoro com seu casamento. — Porém,
ainda assim… O meu casamento… — Lia suspirou. — Nossa, eu sempre dei
a minha alma por qualquer mínima chance que encontrava de recuperá-lo, de
manter nossa família unida, de tentar fazê-lo ser bom para mim e para
vocês...
Eu odiava a parte de mim que a julgava, porque eu não deveria. Eu tinha
passado por algo parecido e sentia que era hipocrisia da minha parte. Ao
mesmo tempo eu estava ali, ouvindo que ela tinha me colocado em segundo
plano o tempo inteiro. Digo, sempre soube, mas ouvir era doloroso para
cacete.
Evitei em guiar meu olhar para o seu rosto a todo curso, fitando a cama e
tentando me concentrar em cada inspiração e expiração minha, para me
manter calma.
— Mesmo quando percebi que Vincent era exatamente o que quebrava a
nossa família, esse amor... Essa doença já não me permitia largar esse
casamento e eu ainda não consigo, meu amor, eu realmente não consigo.
Mesmo me perdendo no processo, perdendo Madison, mas, principalmente,
perdendo você.
Fechei os olhos, tentando respirar fundo. Foi quando as primeiras
lágrimas vieram.
— Eu errei mais com você do que qualquer pessoa no mundo. Meu amor...
Vou viver te implorando por perdão. Eu deveria ter te protegido tantas vezes.
Mas a quebrei. Eu te machuquei, Naomi...
— M-mãe... Olha...
— Mas isso vai ter um basta, meu amor, realmente vai, sim?
O modo como falou, tão doce, me fez estremecer. Era a Lia Carlson que eu
não sentia há anos. Me fez erguer os olhos aos seus e eu quis morrer por
isso. Porque olhar para Lia, para seu rosto vermelho, suas lágrimas e toda a
sua dor... Foi como me olhar no espelho.
— Seu pai... Seu pai não está suportando, Naomi, essa é a verdade. Esse
câncer é uma guerra perdida. — Seus lábios estavam trêmulos e eu senti meu
coração quebrar um pouquinho mais a cada segundo. — Eu prometi amá-lo
até o último segundo da sua vida e eu odeio não conseguir quebrar essa
promessa, ok?
Ela acariciou o meu rosto, seu polegar tentando secar as lágrimas que
corriam por minhas bochechas.
— Mas eu quero que saiba, minha menina, que eu amo você. Sempre amei.
Sinto muito se fiz isso errado.
Ouvir que a minha mãe me amava era agridoce. Por um lado, me aliviava.
Por outro, era uma sensação tão forte e indescritível que parecia capaz de
me corroer.
— Eu tenho orgulho da garota que você é, apesar de me odiar por ter sido
uma das razões para que precisasse construir tantas fortalezas ao redor de si
— ela continuou, com a voz embargada e a fala arrastada e rouca. — Tenho
orgulho e sinto alívio por ter uma filha tão forte. Mas quero que saiba, amor,
principalmente... — Lia apertou minha mão, enquanto as lágrimas
deslizavam pelos nossos rostos. Havia tanto nela que lembrava de mim,
naquele segundo. Não apenas os traços delicados, mas a dor nos seus olhos.
— Quero que saiba que assim que seu pai se for, farei de tudo para que siga
todos os seus sonhos e seja ainda mais firme do que sempre foi.
— Mãe...
Minha cabeça era um caos, de repente. Aquela conversa era nitidamente
um ponto de virada em minha vida, em nosso relacionamento, mas eu não
sabia o que esperar depois daquilo. Eu não sabia o que pensar. Era como se
meus neurônios fossem impossibilitados de funcionar corretamente, um
amarrado ao outro, e todo o mundo fosse processado mais devagar.
Minha mãe me amava. Ela faria de tudo por mim. Aquilo era uma
promessa. Eu poderia mesmo confiar nisso?
— Verdades sejam ditas, Naomi, seu pai é o nosso maior pesadelo... —
Ela pegou o meu caderno de croquis e o deixou sobre o meu colo. — Mas
esse pesadelo vai acabar logo. Talvez muito mais rápido do que esperamos.
Odiei me sentir mal em ouvir isso. Odiei saber que Lia e eu amávamos
alguém tão podre.
— Então você não pode deixar que, mesmo depois que ele tenha partido,
Vincent ainda tenha tanto controle sobre o seu futuro.
Ela respirou fundo, falando com mais firmeza:
— Preciso que busque os seus sonhos. Ao menos isso, meu amor, para que
você tenha a felicidade que te roubamos por tanto tempo. E sua felicidade
não vai estar numa universidade de Economia, trancafiada numa empresa que
nunca quis gerir. Sua felicidade está nos seus amigos, está naquele garoto
que veio aqui e me fez perceber que lutaria por você sempre com unhas e
dentes, está no seu talento...
— Mãe, o que está dizendo...
— Estou dizendo para que deixe, por favor, deixe que o mundo veja o seu
talento. — Ela colocou a minha mão sobre uma das páginas abertas. — Veja
a luz que eu sempre vi em você, mesmo quando todo o resto era escuridão.
Ainda dá tempo... Você sabe que sim. Então sabe o que fazer. — Ela secou
uma lágrima pelo meu rosto mais uma vez e eu estremeci, me permitindo
chorar em silêncio. — Busque as universidades que quiser buscar, procure
os caminhos que quiser traçar, garanta que seu futuro seja seu e não dos
outros.
Quando Lia colou a boca em minha testa, eu me permiti relaxar um pouco.
Tinha esperado tanto tempo por algo assim, ao mesmo tempo me fechado
para qualquer chance de tê-la ao meu lado daquela forma. Ela fez menção de
se levantar e eu segurei sua mão, a mantendo por perto por um segundo.
— Eu nunca — comecei —, nunca, mãe... Nunca vou te odiar mais do que
te amo.
Lia sorriu, mas as lágrimas já se acumulavam nos seus olhos novamente.
Acho que ela sabia que, em algum momento, eu realmente tentei.
— Desculpa por isso — ela apontou para a bagunça na cama — e por
tudo.
Assenti, mas nós duas sabíamos que desculpar ou perdoar seriam
processos lentos demais para mim. Depois a deixei ir.
Fiquei completamente parada até que a porta se fechasse. Quando isso
aconteceu, levei as mãos ao rosto, tentando entender e absorver o que tinha
acabado de acontecer.
O primeiro pensamento que me atingiu foi terrível. Porque me perguntei se
teria me tornado Lia Carlson se tivesse continuado com Derek Meyers. E eu
tive medo, terror da resposta.
Frozen passava na televisão, enquanto Miley cantava Let it Go pela sala e
Ryan, ao meu lado no sofá, morria de tédio. Eu observava o pingente da
corrente, que Naomi havia me dado de aniversário, entre meus dedos. O
número oito marcado num pequeno retângulo, o meu sobrenome logo abaixo.
Eu queria entrar em campo com qualquer coisa que me fizesse sentir
melhor. Quando acordei naquela manhã e vi a corrente ao lado da cama,
decidi usar durante o jogo, sob a camisa, como um amuleto da sorte. E deu
certo. No segundo em que pisei no gramado e vi Carlson, percebi que me
sentia mais seguro porque, mesmo distantes, era como se eu tivesse um
pedacinho dela comigo o jogo inteiro.
Não queria ficar longe da Naomi, ao mesmo tempo precisava de um tempo
para digerir a Poison. O fato de ter usado de boatos para alimentar o seu
status, mas, principalmente, o fato de ela pensar que eu não a
compreenderia... E isso ser verdade.
Eu não compreendia porque Naomi simplesmente não apagava a Poison e
seguia em frente. Mas eu queria compreender, porque a amava. Por
completo. Logo, provavelmente amava até a parte que controlava a conta
mais venenosa de Brightgate.
Eu sabia que havia uma comemoração acontecendo numa lanchonete a
poucos blocos da escola, mas preferi ficar com a minha família.
Principalmente porque Miley estava tão feliz depois do jogo, eu não queria
deixá-la para ver o pessoal, por mais que ele fosse importante.
Nunca pensei que precisaria tanto dos Bale, mas naqueles últimos dias, eu
tinha me aproximado mais deles. Katy, Miley e até mesmo Ryan. Ryan me
pediu por tantas chances e eventualmente acabei me abrindo um pouquinho,
só um pouco, para o lance de pai e filho. Era um começo.
O cheiro de pipoca me chamou a atenção e Katy voltou, em seus pijamas,
deixando o balde sobre a mesa de centro. Ela se sentou ao outro lado de
Ryan, deitando a cabeça no ombro dele. Eles pareciam bem, como se a
discussão da semana anterior — quando Katy tentou me acobertar após a luta
com Derek — nunca tivesse existido.
Afundei a cabeça no encosto do sofá, tentando me concentrar no filme,
mas minha mente realmente não estava na Elsa, na Anna ou no Olaf. Bufei e
isso chamou a atenção do casal ao meu lado. Vi o momento em que Katy
cutucou meu pai, no que parecia ser um silencioso "algo aconteceu, vamos,
pergunte o que houve".
— Foi um jogo e tanto hoje, hmm? — Ryan me perguntou e eu assenti. —
Fez um belo lançamento para o seu amigo.
— E agora é um campeão tanto quanto o papai orgulhoso aqui — Katy
brincou. Virei o rosto para os dois, confuso. Ela alcançou o balde de pipoca
e o levou ao colo. — Seu pai foi um Green Snake, não sabia?
— É sério?!
— Fui um reserva no meu primeiro ano na escola, nós ganhamos o
campeonato. Mas eu era um péssimo jogador — Ryan disse, dando de
ombros, mas seus olhos brilharam, possivelmente pela nostalgia. Ergui as
sobrancelhas, surpreso. — Foi um jogo e tanto, Damie. Te ver erguer aquela
taça... Foi muito bom, de verdade. — Meus lábios se curvaram levemente e
os dele também. Um sentimento bom aqueceu o meu peito e eu mordi o
sorriso. — Naomi também parecia bem feliz...
E o meu sorriso sumiu.
— É... Ela foi muito bem hoje também, não? — falei, lembrando da cada
movimento de Carlson. Eu poderia vê-la dançar para sempre. — O nome
dela vai ficar marcado pela escola enquanto ela existir.
— E Carlson merece — Katy disse, orgulho por cada palavra. — Ela é
incrível!
— Ela é — concordei, sincero, mas minha voz saiu mais fraca do que eu
esperava. Apertei minha corrente entre os dedos.
— Brigaram de novo? — a voz de Katy soou doce e preocupada.
Confirmei silenciosamente. — Oh, querido... Eu sinto muito. Foi por causa
daquele ex-namorado maldito? Ela está bem?
— Vamos ficar bem... Só estamos dando um tempo. É só isso, um tempo.
— Você e a Naomi terminaram? — Miley perguntou, correndo até mim.
Ela pulou no meu colo antes que eu pudesse dizer qualquer coisa. Neguei. —
Mas você disse "tempo" e tempo é o que os adultos dizem quando querem
terminar. É por isso que ela não está aqui com a gente? Eu sinto falta dela.
Amaldiçoei Miley por toda a sua energia e perguntas, mas respirei fundo.
Não adiantava ficar bravo com ela. Ela dizia que Naomi era a sua irmã mais
velha, então sentir saudades era normal. Era só uma criança.
— Naomi e Damian não terminaram, meu amor — Katy disse. — É só
uma má fase, ok?
— Então ela está numa má fase comigo também? — Miley perguntou,
cruzando os braços.
— Claro que não! — respondi. — O meu relacionamento com a Naomi é
entre nós dois. Ela nunca vai te deixar de lado. Carlson é completamente
louca por você. — Os olhos de Miley brilharam como nunca. — Ela pararia
tudo a qualquer momento por sua causa.
Minha irmã sorriu ainda mais e olhou para Katy.
— Então posso falar com ela agora?
— Está tarde — Ryan avisou. — É melhor não...
— Por favor... — Miley murchou os lábios e deu seu famoso olhar de
cachorrinho, fazendo Ryan entregar o celular no segundo seguinte. A dona da
casa, pensei. Miley correu para longe, gritando que sabia o número da minha
namorada antes que eu sequer começasse a dizê-lo. E me surpreendi quando
percebi que ela realmente sabia.
Afundei no sofá, cansado. Meu celular tocou. Era a minha mãe. Vi o
número na tela e considerei falar com ela no dia seguinte, mas Ryan
percebeu de quem se tratava. Seu olhar foi como um pedido para que eu
atendesse e eu bufei, fazendo isso.
— Oi mãe.
— Uau, você atendeu! Que horas são por aí?
— Vinte e duas e alguma coisa. E aí?
— São treze e alguma coisa. Como está?
— Bem, você?
— Bem. Estou ligando para avisar que duas correspondências
chegaram aqui e eu só abri uma. São de universidades que você aplicou.
— Olhei para o lado, torcendo para Ryan não ter escutado nada, e fui para a
cozinha, passando por Miley. Ela ainda falava com a Naomi. — Quer que eu
leia os conteúdos delas?
— Pode me mandar foto amanhã. Eu posso ter recebido algum e-mail
também, vou dar uma olhada depois. — Nervoso, toquei a nuca, respirando
fundo.
— E as universidades daí? Recebeu resposta de alguma?
— Ainda não. Nem de Melbourne, Sydney ou da Universidade de
Brightgate. Com as notas que eu tenho, vou ter sorte se for admitido para
qualquer curso da Inglaterra ou da Austrália.
— Não diga isso, Damie! Suas notas melhoraram esse ano, não? Além
disso, esses cursos de música se preocupam com mais do que nota, eles
buscam talento e isso você tem de sobra! Vai ficar tudo bem. — Houve um
longo momento em que repeti suas palavras mentalmente, tentando confiar
nelas. — Se for admitido por aí e por aqui, já pensou em qual caminho
seguir?
Meu coração pesou por um segundo, porque sim, eu tinha a minha escolha
feita.
— Talvez.
Ela suspirou audivelmente. Meredith sempre sabia o que se passava pela
minha mente sem que eu nem precisasse dizer. Mesmo de tão longe.
— Certo — ela pareceu dizer para si mesma. — Como está por aí? A sua
irmã, a Katy, o Ryan? A Naomi, ela está bem? Para ser honesta, amor, não
liguei pelas correspondências, liguei porque pensei nela.
— Sério?! — Me apoiei na parede da sala, curioso.
— Sim... Tive uma sensação ruim. — E de repente eu estava preocupado.
— Está tudo bem entre vocês? — Hesitei em responder. — Damian?
— Estamos dando um tempo, mãe. Nada demais. Precisamos pensar um
pouco separados.
— Certo. — Mais uma vez, parecia dizer para si mesma. — Vou ligar
para ela amanhã, deve ser só uma sensação. Espero que se resolvam, meu
amor. Naomi é uma boa menina, Damie. E você também é bom. Só
precisam de um pouco mais de calma um com o outro...
— Mãe... Não quero falar sobre isso.
— Certo, certo! Espero que se resolvam — Meredith disse, por fim. —
Amo você. Manda um beijo para todo mundo, ok?
— Ok. Também te amo.
Nos despedimos e eu voltei para a sala. Miley parecia aflita, agora
sentada sobre o colo do meu pai.
— Falou com a Naomi? — perguntei e ela assentiu, balançando as pernas.
— Está tudo bem?
— Eu acho que ela estava triste. — Franzi o cenho, sentindo o meu
coração doer. Triste?
Desbloqueei o celular de imediato, finalmente enviando uma mensagem
para Carlson. Um simples "Tudo bem?". Naomi não me respondeu e eu me
sentei sobre o sofá. Miley engatinhou até o meu colo e virou meu rosto para
si.
— Fica com ela, Damie — minha irmã pediu, baixinho. — Não deixa a
Naomi ir embora. — A tristeza na sua voz quebrou meu coração e eu vi que
seus olhos estavam marejados. Miley me abraçou forte pelo pescoço,
aproximando a boca do meu ouvido. — É a Anna para a minha Elsa. Eu a
amo também.
Foi ali que eu soube que, se as coisas acabassem mal entre mim e Naomi,
nossos corações não seriam os únicos a serem partidos.

Quis conversar com Carlson naquela manhã, mas achei que ela não tinha
ido para escola, porque estava tão cansado que adormeci nos primeiros dez
minutos de aula e não a vi. Dormi a aula de matemática inteira e acordei com
uma mão em minhas costas. A voz de Mike era distante, mas quando abri os
olhos, foi Melissa quem vi.
— Bale, a aula acabou. É intervalo — Mel sussurrou.
— Hmm? — Cocei os olhos, odiando a claridade. Vi Mike de braços
cruzados atrás dela. Eu não poderia me dar ao luxo de dormir na aula, mas
tinha passado a noite inteira compondo. — Valeu por avisar.
— De nada. Mas não foi só por isso que te acordei. — Wayne sorriu. —
Sei que você e a Naomi estão meio chateados um com o outro. Porém, ela
está te esperando na sala de música. É muito importante.
— Sala de música? — Passei a mão no rosto, tentando espantar o sono.
Ainda estávamos dando um tempo, então algo sério deveria ter acontecido
para que me chamasse, certo?
— Só vai, cara — Mike disse, quase em uma ordem.
E eu obedeci.
Quando abri a porta da sala, lá estava ela. Linda como sempre.
Naomi Carlson afinava um ukulele. Suas pernas estavam cruzadas na única
cadeira em meio a um semicírculo de tantas outras. O pequeno violão
havaiano era envolvido pelos dedos delicados e ela olhava para o celular,
apoiado em uma de suas coxas. Com algumas mechas lhe cobrindo o rosto
conforme olhava para baixo, Naomi parecia presa em seu próprio mundo.
Analisei as espirais pretas que seguiam pela madeira clara do ukulele, em
ramos e ramos de flores pintadas à mão. O talento de Naomi Carlson para
arte nunca deixaria de me impressionar. Acho que sua alma era feita disso:
arte. E por isso ela conseguia fazer absolutamente qualquer coisa e
simplesmente alcançar a perfeição.
— É meu, caso esteja se perguntando — ela disse, em alto e bom tom. Ri
nasalado, guardando as mãos nos bolsos do uniforme.
— Imaginei, pelos desenhos. E nunca vi um desses por aqui.
— Pois é... Comprei esse fim de semana. — Ela deslizou os dedos pelas
cordas e sorriu, satisfeita. O som foi doce e calmo. E então ergueu o queixo,
fitando os meus olhos. Porra, todo aquele azul fez o meu coração errar
algumas batidas.
— Então... Aqui estou eu — falei, hesitante em me aproximar.
— Aí está você — ela devolveu. Depois suspirou, tentando relaxar. —
Obrigada por ter vindo, Damian, de verdade. Prometo ser breve. E se não
quiser mais nada comigo... Seja lá qual for a sua decisão depois disso, tudo
bem. Mas obrigada por ter vindo.
Assenti, sentindo um peso sobre os meus ombros. E então ela acenou com
a cabeça para uma das cadeiras. A arrastei até que ficasse à frente da sua e
me sentei, nervoso e curioso.
Sorrindo fraco, Naomi me entregou o celular, me deixando confuso. Agora
a tela estava bloqueada, pela inatividade.
— A senha é o aniversário da Maddie, três dias antes do meu. Por favor,
acerte e não me decepcione. — Sua brincadeira foi uma tentativa de
descontrair. Quase deu certo.
Carlson fazia aniversário em oito de janeiro, então Madison no dia cinco.
Não era algo que eu esqueceria facilmente. Não esqueceria nada de Naomi
Carlson.
— Sem segredos, Bale. Não tenho mais o que esconder.
E ali estava... A confiança. Essa foi a primeira coisa que me ofereceu.
Era a primeira vez que ela me deixava mexer no seu celular. Eu nunca
tentei e jamais tentaria mexer nele sem sua autorização, mas Carlson não me
deixava tirar uma foto, por exemplo, ou ligar para alguém se minha bateria
descarregasse, se ela não estivesse por perto. Colada, ao meu lado, atenta a
cada movimentação. Agora fazia sentido.
Digitei a senha e desbloqueei a tela.
Os aplicativos surgiram e ela me deu a próxima instrução, antes que eu a
perguntasse o que fazer:
— Álbum de fotos. Vai saber onde apertar assim que abrir.
E eu obedeci. Abri o álbum de fotos e vi a pasta mais recente.
"Sweetheart". Um único arquivo de vídeo. Quando dei o play, não saiu som
algum.
— Eu realmente acredito, amor, que sua alma é feita de música e que não
há nada no mundo que você ame mais do que isso. É como oxigênio para
você, certo? Então... Resolvi conversar contigo na sua melhor linguagem —
ela disse baixo. Percebi o nervosismo na sua voz. — Me desculpe se eu
estiver enferrujada, faz muito tempo desde o meu último instrumento. E se o
vídeo acabar, só olhe para mim.
Os primeiros acordes fizeram o meu coração parar por um instante. Die
for You do The Weeknd, na sua voz, me fez querer chorar para cacete, mas
me mantive firme.
Voltei os olhos para a tela com um vídeo nosso, na minha cama. Naomi
tentava gravar o meu rosto enquanto eu usava o celular, fingia que morderia
o meu queixo. Naquele dia, eu estava de mau humor. Só ela me fez sorrir.
E na outra parte, no nosso primeiro encontro, na saída daquele bar, logo
antes do primeiro "eu te amo" que ela me disse. Aguardávamos pelo uber
para voltarmos para casa e Carlson me gravou fingindo que roubaria uma
Harley-Davidson na rua.
Seus dedos se mexiam com delicadeza, sua voz tão suave e calma quanto a
melodia lenta e meiga do seu instrumento. Ergui os olhos para ela, entre uma
foto e outra na tela, admirando como se concentrava, olhando para o ukulele,
não errando uma só nota. Aquela era a nossa música, a primeira que
cantamos juntos, na minha moto. Cacete, se naquela época eu soubesse que
aquela letra nos definiria tanto...
Voltei a ver o vídeo, sorrindo. O dia em que fomos para a praia juntos
pela primeira vez. A invasão ao campo dos adversários. O meu aniversário.
A vez que me fez dançar Shakira com a Miley e eu não conseguia acertar
nem um passo. A primeira foto que tiraram da gente, juntos, minutos depois
do nosso primeiro beijo. Minutos depois que a senti pela primeira vez.
Carlson tinha tudo no seu celular.
Ergui os olhos para ela de coração apertado. Agora Naomi tinha o olhar
cravado no meu rosto, mas não errava uma nota sequer. Era como se a
música fluísse de dentro dela para todo lugar. Sua alma falando a cada sílaba
cantada. Para mim.
Ela pulou a linha seguinte porque sua voz simplesmente falhou. Ela pulou
a frase que dizia que sentia medo de me perder o tempo todo. Carlson queria
chorar. E eu a compreendia, porque eu também sentia o mesmo. Porque a
letra nos resumia. Falava sobre o medo constante de perder alguém e ali
estávamos: tentando nos agarrar a tudo do nosso relacionamento com força,
mas sendo nossos maiores inimigos ao mesmo tempo.
A ardência em meus olhos, a agonia em minha garganta, o nó em meu
peito... Aquela era toda a nossa história em fotos e mais fotos. O modo como
o meu sorriso combinava com o seu e o brilho nos nossos olhares dizia tudo
por nós dois. Cada beijo gravado ou fotografado. Ou os abraços, as selfies,
os vídeos engraçados, os momentos em que eu cochilava em seu colo... O
lado bom. Naomi me mostrava o lado que precisava falar mais alto.
As lágrimas se acumulavam em seus cílios, conforme olhava para as
cordas do ukulele e desabafava da forma mais pura, honesta e linda possível.
Isso significou o mundo. Eu não conseguia tirar os olhos dela. Nem por um
segundo. Não mais.
Seu.
Completamente seu.
Tanto quanto ela era minha.
Não num sentido possessivo, não, longe disso... É que... só não sei
explicar de uma forma diferente o quanto nos pertencíamos.
A cada frase que ela cantou em seguida, a cada acorde, a cada
respiração... A sua coragem em se expor estava ali. A Naomi que foi ferida
tantas vezes e não se importava mais em mostrar as cicatrizes, em falar tudo
o que o coração guardava. A que aprendia a ser honesta consigo mesma e
por si mesma, antes de tudo, e então por mim. Por nós dois. Toda a
maturidade que lhe tomava com delicadeza enquanto cantava que me amava,
que sentia muito.
Porra, eu só queria interrompê-la e dizê-la que tudo era recíproco, mas eu
não ousaria pará-la. Não a impediria de ser a Naomi que eu sabia que ela
era. Não a Poison, não qualquer outra máscara. A minha garota, minha
sweetheart.
Quando ela dedilhou o ukulele pela última vez, um suspiro frágil lhe
escapou dos lábios e eu ofereci seu celular de volta. Carlson o colocou
sobre o colo e secou as lágrimas no rosto com o dorso de uma das mãos,
tomando um segundo para organizar seus pensamentos. Depois, disse:
— Eu compreendi, com o tempo, que existem diferentes tipos de amor no
mundo. O mais importante, por mais egoísta que soe, é o amor próprio.
Naomi me analisou por um momento. Só então continuou:
— Cheguei a pensar que sustentar as minhas mentiras, Damian, que manter
a minha máscara por essa escola ou em casa ou seja lá onde fosse... Que isso
era amor próprio. Mas eu não amava muita coisa sobre mim, coisas que eu
escondia lá no fundo do peito. Só me orgulhava de ser essa pessoa que você
conheceu quando eu estava com um grupo pequeno de pessoas. Como a Mel,
o Brandon, a Elise, a Madison... Mas então veio você. E eu te odiei tanto,
Bale. Acho que era porque você debochava da máscara que eu tinha
demorado tanto para criar. Só que, de repente, amor, você... Você, Damian,
conseguiu fazer parte desse pequeno grupo de pessoas. E a minha máscara
caiu, realmente caiu. Passei a parar de esconder quem sou ao seu lado e,
quando isso aconteceu, eu já não conseguia te odiar. Porque ser eu mesma,
ser a Naomi, é muito mais fácil do seu lado. Então acho que preciso de você.
Engoli em seco, sentindo a ardência nos meus olhos se intensificar. E ela
continuou:
— Veja bem, eu não acho que você seja uma necessidade como oxigênio,
comida, água... Longe disso, Damian, eu prometi a mim mesma que nunca me
permitiria ficar abaixo de ninguém. O que significa que, se você resolver
sair por aquela porta — ela acenou com a cabeça para a saída —, vai doer
para cacete. Eu vou chorar, vou tentar te odiar e possivelmente, amor, não
vou conseguir. Provavelmente vou maratonar minhas series favoritas do
inicio ao fim, assistir todas as comédias românticas do mundo e me isolar
por uma semana ou duas... Mas eu vou te superar, um dia. Esquecer, jamais.
Eu sou totalmente capaz de não precisar de você. Assim como você é
totalmente capaz de não precisar de mim. Mas não é isso o que eu quero,
Damian. Nunca. Bale, eu...
Seus lábios tremeram e Carlson cerrou o punho em frente ao peito. Minha
visão estava muito mais embaçada do que eu gostaria.
— Eu amo você, Bale. — Ela tomou um segundo para que eu absorvesse
as palavras. — Eu te amo. Mesmo. Tanto quanto a Miley gosta de dormir no
meu colo quando assistimos a um filme da Disney. — Quando Carlson riu,
entre lágrimas, eu fiz o mesmo. — Tanto quanto a sua mãe gosta daquele
emoji da lua e usa para absolutamente tudo. Ou quanto o Ryan ama a Katy,
Mike e Mel amam Star Wars, Ollie ama as piadas de pinto, o Brandon ama o
surf e você ama a música. Eu te amo tanto que... Nem sei explicar! Porque
você me fez lembrar que há coisas boas em mim. Me ajudou sem nem
perceber, amor. Me fez lembrar que preciso lutar por mim mesma. Que sou
forte o suficiente para vencer meus próprios demônios e que preciso fazer
isso. E quando acho que não sou forte, Damian, você está ali para me dar um
pouquinho da sua força. Tudo isso me fez querer buscar ajuda e ser apenas
eu, sabe? Porque isso basta. Então o motivo para eu te amar tanto, é que...
Antes de ser meu namorado, Bale, você é o melhor amigo que eu poderia ter.
Meu coração se apertou com tanta força que segurar as lágrimas foi
impossível.
— Você, Damian, você... Você. Completamente oposto a mim e ao mesmo
tempo tão, tão parecido. Meu amigo antes de tudo. Se infiltrou na minha vida
tão devagar, que num segundo eu te odiava e, de repente, do nada, eu
procurava por você quando alguém contava uma piada, porque sabia que
riria comigo. É quem eu procuro quando descubro uma música boa, quando
algo hilário acontece, quando quero um bom travesseiro humano para
abraçar e só ficar por perto. Você me deixa tão confortável para falar o que
penso, ser o que sou... Em algum momento, isso me fez entender melhor o
significado de amor próprio. E hoje eu estou tentando me amar mais do que
qualquer pessoa, Damian, mas do jeito certo. Mas logo depois de mim, está
você.
Ela respirou fundo e sorriu, mesmo chorando. Mais do que amor por
Naomi Carlson, escutando tudo aquilo, sabendo de quão forte ela era... Eu
sentia orgulho. E honra por ser seu.
— Eu preciso de você — ela continuou. — Mas posso muito bem, um dia,
não precisar. Só que não é o que quero. Eu quero você. E todas as suas
manias, seus defeitos, seu mau humor, seu sarcasmo... Eu quero tudo isso. Do
meu amigo, do meu namorado. Eu quero você! E doeu muito, muito ver todos
os convites para o baile acontecendo e não ter você me chamando, até que...
Eu decidi fazer isso, Damian.
Aquela era a maior declaração de todos os tempos. Eu queria gritar para
todo mundo ouvir que era para mim.
— Então isso tudo é um convite para o baile? — finalmente falei, com a
voz falha. Carlson riu.
— Sim, mas não só isso e você sabe. — Seu sorriso fraco me fez sorrir de
volta. — Brandon vai ao baile com a Gianna, Mike com a Mel, a Riley com
a Kie. E o Oliver disse que, se você se negasse, ele iria comigo. Como
amigos. Provavelmente beberíamos juntos e ririamos do Mike tentando
dançar, sabe? Mas eu neguei. Porque vou para a festa, Damian, e vou curtir
cada segundo da despedida dessa escola. Porque sei que mereço isso. Mas,
ou eu irei somente com a pessoa que mais amo no mundo, que nesse caso,
sou eu mesma... Ou eu irei com a melhor coisa que me aconteceu esse ano. E
isso é você. Não há nenhuma outra opção.
Ela parecia esperar por uma resposta. Meu coração começou a bater como
nunca dentro do peito.
Inclinei meu corpo, aproximando o meu rosto do seu.
Carlson ficou em silêncio, enquanto eu esquadrinhava cada detalhe seu.
Meu polegar tracejou o caminho de uma das lágrimas. Senti tanta falta de
tocá-la e saber o que isso provocava nela, que pareceu a primeira vez.
Quando ela fechou os olhos com o meu toque, um arrepio me percorreu.
Acho que me apaixonei mais por Naomi Carlson naquele segundo.
— Eu ia te chamar de qualquer forma — sussurrei. — Mesmo com todo
esse caos, linda, eu te chamaria. Porque amo você. Mais do que amo a
música. Tanto quanto você me ama. Como amiga, antes de tudo... E então
como a minha sweetheart.
— Então isso é um sim? — ela sussurrou e eu confirmei. Carlson
suspirou, aliviada.
— Com toda a certeza do mundo. Eu quero ir ao baile com você. E me
sentar ao seu lado na formatura. Quero aproveitar cada segundo até que você
vá para a universidade de economia, em Sydney. Quero que se vista de Anna
no aniversário da Miley e eu serei o seu Kristoff. Depois, se tudo der certo...
— limpei a garganta, quando a voz falhou. — Eu vou para a universidade de
Brightgate — seus olhos se arregalaram levemente — e pegarei a estrada
quase todo fim de semana para ver a minha melhor amiga e a melhor
namorada de todos os tempos.
— Você aplicou para Brightgate? — Ela era a primeira a saber. Assenti,
movendo uma mecha castanha para trás da sua orelha. — Damian...
— Minha família está aqui, meus amigos estão aqui. Você. A Inglaterra
não me faz o menor sentido há um bom tempo, Carlson. Porque lá eu não vou
poder cantar com você no chuveiro depois do melhor sexo da minha vida! —
Ela gargalhou e eu fiquei feliz por isso. — Nem te ensinar a andar de
bicicleta como prometi. Ou compor a milésima música sobre nós dois e
finalmente ter coragem para cantá-la num palco, olhando para você. Eu ia te
chamar de qualquer forma, Naomi, porque o que eu realmente queria era um
tempo, não um fim. Porque eu também desejo ter seus olhos azuis, seu
sorriso e suas manias chatas pra cacete. Não só numa festa de fim de ano,
mas em todo o meu futuro.
Ela suspirou, aliviada. Depois beijou a minha bochecha, molhada pelas
lágrimas que deixei escapar. Seu nariz roçou a minha pele e eu inspirei o seu
perfume. Naquele segundo, Naomi Carlson era a minha casa.
— Só tem uma correção nesse futuro todo, amor — ela soprou e eu
estremeci com a última palavra. — Vou cursar Moda e não Economia. —
Afastei-me em choque. — Ok! Respira! Eu estava resolvendo tudo semana
passada, por isso andei tão ocupada: estava correndo para montar um
portfólio, juntar meus históricos escolares, entender toda a papelada e
aplicar para cursos de moda. Não sei se vou ser aceita em algum lugar
porque está um pouco em cima da hora, e se não der certo... posso cursar
economia por algum tempo, como um plano B. Mas vou acabar tentando
moda novamente, sabe? É o meu sonho...
— E você vai atrás dele — falei, soando super orgulhoso.
— E eu vou atrás dele.
Seu sorriso aqueceu o meu peito. Essa era a garota forte que eu amava. A
que conquistaria a porra do mundo todo.
— Quanto à Poison, vou apagar a conta. Assim que as aulas acabarem...
Sei que não faz sentido para você, mas ela foi importante para mim. Mesmo
que tenha sido mais uma máscara falsa, uma farsa... Ela foi importante,
Damian. Me ajudou a não cair. Só saber que ela existe, mesmo sem realizar
nenhuma postagem... De algum jeito torto, isso me dá confiança. Inclusive,
falei sobre isso na terapia e...
Uni meus lábios sobre os seus, porque não queria que aquela conversa
estragasse tudo. Discordava de Carlson e de sua decisão. Iria para casa com
uma pequena agonia no peito por esconder a identidade da Poison, mas tudo
bem. Talvez eu pudesse engolir isso por um momento e tudo ficaria bem
depois.
O sinal da escola indicou que o intervalo tinha acabado. Foi quando
afastei a boca da sua, admirando seus olhos e amando cada pedacinho deles
ainda mais.
— Tudo o que eu disse aqui foi tão sincero quanto tudo o que eu ouvi,
sweetheart. Mas é melhor irmos com calma — sussurrei, receoso. — Vamos
continuar a pensar um pouco em tudo que falamos aqui e já vivemos, nos
reaproximando devagar enquanto isso... pode ser?
Carlson percebeu meu pequeno retrocesso e um sorriso triste surgiu nos
seus lábios. Não era o que ela esperava. Eu queria muito prometer que
seríamos Damian e Naomi como antes, e de imediato, mas apenas o tempo
poderia dizer. Ela então me roubou um último e breve beijo, deixando seu
sorriso crescer antes de sussurrar:
— Pode ser.
Os dias até o baile não se arrastaram tanto assim. Foram três semanas
mais leves do que eu esperava.
Na primeira semana, Carlson e eu ensaiávamos juntos, assistíamos às
aulas na mesma sala e estávamos um tanto quanto próximos, mas ainda
parecíamos estranhos. O que foi por água abaixo quando, no último ensaio,
tivemos que realizar um passo importante e acabamos por cair no chão.
Enquanto Wayne e Graham estavam preocupados conosco, Carlson e eu só
sabíamos gargalhar. Parecíamos ainda menos estranhos quando Miley ligou
para ela pelo facetime e a fez me assistir dançando no Just Dance.
Na segunda semana, ficamos um pouco mais próximos. Conversávamos
mais, ríamos mais juntos, trocamos algumas mensagens. Foi a semana em que
realmente conseguimos conversar sobre o futuro dela. Naomi me explicou
que a sua mãe teve uma conversa franca com ela sobre o estado de saúde de
Vincent Carlson e sobre a necessidade de seguir seus sonhos. Isso a fez
tomar coragem para tentar buscar o caminho que sempre quis e para falar
comigo também. Eu contei sobre minhas buscas por cursos de música e
composição, minha vontade de ser produtor musical no futuro.
Tentei questionar Naomi sobre o que ela achava que aconteceria com o
pai dela, se de fato não havia qualquer esperança de recuperação, mas ela
nunca me respondeu muita coisa sobre o assunto. Na verdade, Naomi
preferia fingir — na maior parte do tempo — que ele não existia no mesmo
universo que eu. Tanto que ainda fazia de tudo para que eu nunca o
encontrasse. Carlson ainda tinha medo de que sua família fosse um problema
para nós dois, isso era nítido. Era bom que me mantivesse longe dele, de
qualquer forma. Eu não conseguiria ser educado.
A terceira semana, e última, foi um pouco mais divertida. Ela passou
rápido. De fato, resistir à Naomi era impossível, porque trocamos um beijo
ou outro, nos abraçávamos mais quando nos víamos e checávamos um ao
outro com maior frequência. Sempre trocando carinhos inocentes, breves e
leves. Foi a semana em que fiz os últimos ajustes no terno que Katy havia
conseguido para mim. Eu não enviei fotos para Carlson, porque ela me disse
que seria legal se mantivéssemos a surpresa. Ela só torcia para que eu não
aparecesse com um terno super brega. Pensamos que a maioria das bebidas
do baile estariam batizadas com bebida e que voltaríamos da festa um tanto
quanto bêbados, então pedi que Ryan nos levasse para a festa e garanti que
voltaríamos de uber e em segurança.
— Pronto? — meu pai perguntou, me analisando. Ryan tinha a mão sobre
o volante e um sorriso largo em minha direção. Respirei fundo, nervoso, mas
assenti, tentando fechar um dos botões do terno preto. Uma mecha do meu
cabelo caiu sobre a testa enquanto meus dedos trêmulos lutavam contra o
feche. — Talvez Katy estivesse certa sobre o gel.
— Eu não usaria gel nem fodendo. Desculpa pelo xingamento. — Ele riu.
— Acha que estou feio?
— Está tão bonito quanto eu.
— Devo me preocupar então — brinquei e ele gargalhou mais. — Aqui
vou eu.
Abri a porta do carro e olhei ao redor. Me identifiquei no portão da casa
da Naomi, ouvindo Elise gritar um "Bravinha, pelo amor de Deus" quando
Carlson aparentemente quis ajeitar o cabelo pela milésima vez. Lis me
deixou entrar e logo eu estava de frente para a porta dos Carlson.
A porta se abriu e eu engoli em seco. Antes que eu sequer pudesse falar
qualquer coisa, Lis me garantiu que os pais da Naomi não estavam ali,
porque Vincent estava no hospital fazendo algum procedimento. Ouvi passos
vindos da escada e quase infartei, mas era Madison. Minha cunhada tinha os
cabelos loiros num coque desajeitado e abriu o maior sorriso do mundo.
— Uau! Caramba, nunca pensei que você cairia tão bem num terno!
— Obrigado. — Eu sorri, um pouco desconcertado.
— A Naomi já está descendo, ela só decidiu de última hora que o cabelo
não está bom o suficiente e... NAOMI, PELO AMOR DE DEUS, SEU
NAMORADO ESTÁ ESPERANDO! — Madison quase me deixou surdo. —
Conhece a peça, o nome do meio dela é "Atraso".
— Caramba, Madison — Naomi reclamou, começando a descer as
escadas. Os saltos ecoavam num ritmo frequente e eu vi primeiro as suas
pernas.
Haviam duas fendas no vestido branco, mas, ainda assim, elas não
revelavam tanto. A cada passo de Carlson, a saia do vestido se movimentava
com leveza. Eu subi o olhar por sua cintura, onde a roupa se tornava
extremamente justa, até os seios, o decote ombro a ombro e o único colar
discreto no colo da minha namorada. Os braços eram cobertos por mangas
da mesma cor do vestido, mas um pouco transparentes. O cabelo estava
parcialmente preso, parcialmente solto. Mais simples do que eu esperava e,
mesmo assim, completamente surreal. Acho que perdi a capacidade de
respirar por um segundo.
— Precisa mesmo gritar assim? — Naomi abriu um sorriso duro para a
irmã e demorou em guiar os orbes azulados para mim.
Inspirei fundo uma vez, duas, me forçando a fechar a boca e engolir em
seco.
Como poderia ser tão linda?
Seus brincos pareciam de brilhantes, longos e elegantes. A maquiagem
não era muito pesada. O batom era num tom discreto, quase cor de boca.
Seus olhos estavam pintados num tom marrom claro — bege, talvez — o que
permitia que o lápis de olho (talvez delineador?) se destacasse. Beleza, eu
não sei descrever maquiagem. Meu ponto é: Carlson realmente roubaria a
cena por completo.
A garota parecia algum tipo de divindade quente para cacete,
completamente inexplicável. Com traços tão angelicais que a faziam parecer
o que havia de mais puro; ao mesmo tempo, possuía um olhar felino que a
tornava extremamente fatal.
Sim, fatal é a palavra certa.
Naomi parecia fatal.
Seus olhos brilharam em minha direção. Ela me analisava de volta, como
se eu fosse a única pessoa do mundo. Senti-me o cara mais sortudo do
universo. Fiz um esforço para não xingar e pigarreei, sendo o primeiro a
falar:
— É insano o quanto está... está perfeita, sweetheart. Você é perfeita. —
Ela sorriu.
— Você também não está nada mal, novato.
Sorri de volta.
— Estamos em novembro e ainda me chama de novato? — Caminhei em
sua direção e seus lábios se curvaram ainda mais.
— Sempre vai ser o meu novato, Damian Bale.
Completamente entregue, esqueci de qualquer coisa do mundo que não
fosse o nosso pequeno nós.
Para sempre o seu novato. E ela seria para sempre minha sweetheart.
— Vamos? — perguntei, lhe oferecendo a mão.
Carlson me analisou de cima a baixo mais uma vez. Eu daria o mundo
pelo pensamento que deixou seu olhar ainda mais vivo, mas ela o guardou
para si, deixando a ponta dos seus dedos tocarem minha palma. Entrelacei
nossas mãos, observando a união delas. Parecíamos um só. Foi quando ela
sussurrou:
— Vamos.
E eu admirei a sua letalidade uma última vez, completamente apaixonado
por cada detalhe que eu odiaria, realmente odiaria amar ao fim da noite.
Damian me ajudou a entrar no carro e fez menção de se sentar no banco do
carona, mas Ryan trancou a porta da frente e abaixou a janela.
— Damian Bale, quantos neurônios você tem? Dois? Fique com a sua
namorada nos fundos. — Ryan me fez gargalhar alto. — Está linda, Naomi!
— Obrigada, Ryan. Seu filho também está lindo! Culpa dos seus genes,
certo? — devolvi. Damian riu, possivelmente do sorriso e bochechas
vermelhas do seu pai.
Meu namorado ocupou seu lugar ao meu lado mas, enquanto eu estava ao
extremo lado esquerdo, Bale se sentou ao direito, deixando um espaço entre
nós. Quis que se aproximasse, mas guardei o pensamento.
— Desculpa — sussurrou para mim quando Ryan arrancou com o carro.
— Eu achei que ele preferiria que eu ficasse na frente, porque viemos juntos
e... — O analisei, cada detalhe. Os olhos cinzentos, a mecha de cabelo que
teimou em lhe cair pela testa, o terno escuro... Fodidamente sexy. Bale bufou.
— E eu estou nervoso pra cacete.
Sorri, balançando a cabeça em negação.
— O quê?
— Está nervoso por minha causa? — Minha pergunta o deixou
desconcertado. Damian ficou mais vermelho do que nunca. — Isso é fofo,
lindo.
Bale sorriu tanto quanto eu. Percebemos que Ryan nos assistia pelo
retrovisor e Damian pigarreou. Seu pai fez o mesmo, voltando a focar na
direção.
— Esqueçam que estou aqui, crianças! Hoje é sobre vocês! Não vou
prestar atenção em nada, prometo.
— Aham, sei — Damian murmurou, claramente duvidando. Eu ri.
Tamborilei a bolsa em meu colo, sentindo o olhar do meu namorado sobre
mim. Cerrei os olhos e devolvi a pergunta que ele tinha feito mais cedo:
— O quê?
— Está linda, sweetheart. — Eu poderia derreter ali mesmo. — Sou
sortudo, só isso.
Mordi um sorriso. Vi Ryan guiar os olhos entre mim e o filho repetidas
vezes, incentivando-o a tomar atitude e, graças a Deus, Damian fez isso. Ele
se aproximou e entrelaçou os dedos aos meus. Um arrepio me percorreu, o
tipo de eletricidade da qual tinha sentido falta, que só ele causava.
— Está lindo também. E cheiroso para caramba... — Minha honestidade o
fez rir. — Tenho vontade de afundar o nariz no seu pescoço para sempre.
— Pode fazer isso, sabe?
— Posso? — Ergui uma sobrancelha.
— Podemos fazer qualquer coisa hoje.
Abri e fechei a boca, buscando o que dizer. Meu coração acelerou e ele
achou graça da minha reação, seus olhos brilhando para mim. Apoiei o
queixo no seu ombro, torcendo para a maquiagem me impedir de corar tanto.
— O que mudou? Não está bravo comigo? — sussurrei. Bale franziu o
cenho.
— Bravo?! — Assenti, ainda com o queixo no seu ombro. Alisei o dorso
da sua mão com o polegar. — Não estava bravo... Não exatamente. — Fiquei
confusa. Damie lançou um olhar rápido para Ryan. O som estava ligado e o
seu pai cantava Nirvana baixinho. Percebendo que estávamos seguros, meu
namorado voltou a me encarar. — O lance da... — Ele pigarreou. Falava da
Poison. — Não foi raiva o que eu senti, foi medo.
Quê?
— Medo?
— Uhum...
Abracei o seu braço instintivamente.
— Medo do quê?
Sua garganta oscilou.
— Naomi... Você me disse que não queria se quebrar de novo, que
precisava de você sabe quem, porque ela te dava confiança. Temi te ver mal,
apavorado de nunca compreender esse lance e você me odiar por isso. E
com medo de...
Eu o conhecia. Sabia quando não estava sendo totalmente honesto. Apertei
seu braço, segurei o seu queixo e mantive seu rosto virado em direção ao
meu.
— Damian, seja sincero. — Ele soltou o ar pelo nariz, tenso. Deixei a
primeira hipótese que surgiu na minha mente escapar: — Medo de me
perder? — Ele sabia o que eu queria dizer. Não estava falando de um
término, ia muito além disso. Seu silêncio foi uma confirmação dolorosa. —
Damie...
— Sabe que sim. Como vamos saber o que vai ser depois da escola?
— Corta essa, Bale. — Suspirei. — Você tem medo de me perder como
perdeu a Megan?
Ele desviou o olhar. E, novamente, isso foi resposta o suficiente. Me senti
mal, genuinamente mal. Não queria preocupá-lo.
— Eu te disse que não sou ela. — Ri, me odiando por tê-lo preocupado
assim. — Deve ter pensado "Uau, ela é quebrada desse jeito?".
— Nunca disse que era.
— Eu sei, mas foi nisso que pensou, não foi? Teve medo de me perder. De
me perder mesmo, a sete palmos da terra.
Bale respirou fundo. Ficamos em silêncio por alguns segundos,
observando as ruas passarem. Então lembrei do pesadelo que ele me contou,
certa vez. Aparentemente Derek me levava para longe dele, na mesma casa
em que sua ex tinha morrido. O seu primeiro amor. Um nó tomou a minha
garganta. Deveria ser difícil para ele carregar esse medo.
Aquele deveria ser um dia bom para nós dois. Era uma noite para
comemorar tudo o que tínhamos vivido. Acho que Bale pensou o mesmo.
— Desculpa. Sou um babaca do caralho. — Sua fala me pegou de
surpresa. — Fugi por uma insegurança boba.
— O quê? Não é um babaca e não é insegurança boba, tá legal? Só não
precisa ter esse medo! — O observei e ele me analisou de volta. — Você
poderia ter me dito isso. Não deveria ter partido sem me dizer isso. Só isso.
— Ficou com raiva?
— Depois que me deixou sozinha, um pouco. Mas é como me disse, Bale:
impossível odiar você.
Impossível, eu disse. Mas tudo virou do avesso em uma só noite.
Bale fitou a janela, um pouco mais distante. Fiquei mal, porque isso não
era o que eu queria. Lentamente, envolvi a sua cintura.
— Veja... Escondi a Poison de você — sussurrei. — E você escondeu o
seu medo. Erramos. E tá tudo bem. Vamos aprender com isso e seguir em
frente. Damian e Naomi, lembra? Somos Naomi e Damian hoje, você sabe o
que isso significa.
Um beijo em seu pescoço e Damian mordeu o lábio, relaxando e virando o
rosto para mim. Entrelacei meus dedos aos seus, apertando a sua mão com
força.
— Se somos Naomi e Damian... — ele começou, baixo. — Preciso que
me chame daquele jeito, sabe?
— Qual? — me fiz de desentendida, vendo-o se divertir com isso. —
Amor?
Damie fechou os olhos, levou a mão ao peito e fingiu ser atingido.
Precisei rir e isso o fez sorrir ainda mais. Era tão, tão bom estar com ele
daquele jeito. Fodidamente perfeito.
— Não há modo melhor de te chamar, Damian, do que amor.
Ele me olhou como se eu tivesse lhe oferecido todo o universo.
— Nem novato?
— Nada te define tão bem para mim quanto amor.
Só me dei conta do peso das minhas palavras quando ele colidiu a boca
com a minha, devagar. Levei a mão à sua nuca, aproveitando o beijo breve e
suave, mas intenso, como sempre éramos. Nos afastamos devagar. Quando
olhei nos seus olhos, soube que aquele caos estranhamente bom acelerava
seu coração. Eu simplesmente soube. Nosso amor era recíproco.
O cinza nos seus olhos, como o céu de uma tempestade intensa, me atraiu
como nunca. E eu pensei que não me importaria se essa tempestade me
atingisse.

Assim que meus saltos firmaram contra o asfalto do estacionamento,


segurei o ombro de Bale com a mão livre em busca de estabilidade. A outra
segurava a pequena bolsa. Damie já me envolvia pela cintura, seu rosto
iluminado pelos postes do estacionamento.
— Eu não te deixaria cair, sweetheart, não precisava se preocupar.
Ele sempre sabia o que dizer para me fazer sorrir.
Damian tomou minha mão para si, nos guiando pelo estacionamento até a
escadaria do Colégio Brightgate. A brisa fria e suave da noite não me
incomodava, pois Bale me aquecia com seu olhar. Era um dos melhores
elogios que eu poderia receber.
Ele chegou a colocar o pé sobre o primeiro degrau, quando percebi a sua
gravata torta e o puxei. Bale virou o corpo para mim, confuso.
— O quê?
Segurei sua gravata e ele engoliu em seco, parecendo esquecer de como
respirar por um segundo. Estávamos muito próximos, então eu o
compreendia. Havia um magnetismo inexplicável entre o seu coração e o
meu naquele instante, gritando para que eu me aproximasse mais e mais.
Ajeitei o nó da gravata, depois o seu colarinho, apoiando as mãos no seu
terno.
— Na primeira vez em que realmente conversamos... Conversamos
mesmo... — eu disse, baixo. — Você estava assistindo um tutorial de nó de
gravata e lutando com a sua enquanto caminhava para a escola...
— E você fez para mim.
— E achei que você teria aprendido depois disso. Mas você sempre
chegava com a gravata assim, torta, meio amassada.
— Nunca me disse isso.
Sorri de canto.
— É que esse seu estilo "odeio uniformes, não ligo para essa gravata
maldita, não quero estar aqui" é sexy. — Ele me deu sua gargalhada mais
doce. Uma que eu poderia ouvir para sempre.
Rocei meus lábios contra os seus e mandei a saudade para o inferno em
um delicado deslizar de lábios. Quando sua mão foi ao meu pescoço, firme,
me trazendo para si, eu abri passagem para que a sua língua encontrasse a
minha. Quis sorrir, porque tinha sentido falta disso. Muita.
Ouvimos Brandon gritar por "atentado ao pudor" e Gianna assobiar, então
nos afastamos. O casal ria e nós também, envergonhados. O loiro em um
terno cinza escuro e a morena em um vestido anil. Eles deram as mãos e
seguiram para longe.
O frio me fez me aproximar ainda mais de Bale, que me abraçou pela
cintura, me analisando.
— O que foi isso? — sussurrou.
— Isso... Isso foi Damian e Naomi, amor. — Limpei o resquício de batom
pela sua boca. Bale parecia hipnotizado pelo meu toque e eu estava
igualmente presa em seus lábios, até que um carro parou a nossa frente, na
escola.
Bale virou o rosto primeiro, só fiz isso quando ele apertou os meus dedos
com força.
Derek Meyers saiu do veículo, ajeitando seu smoking escuro, nos
esquadrinhando sem pressa. Me olhando. Apertei a mão de Bale para que me
olhasse, porque Meyers não valia a pena. Mas Derek riu e me devorou com
o olhar, de cima a baixo.
— Boa noite, Naomi — ele provocou, arqueando uma sobrancelha e
demorando em tirar os olhos de uma das fendas no meu vestido. Depois
inclinou cabeça para Damian, deixando um sorriso carregado de deboche
escapar. — Bale.
Damie travou o maxilar e eu colei os lábios aos seus, antes de puxar a
mão do meu namorado e nos fazer dar as costas a Meyers. Bale trincava os
dentes quando beijei a sua bochecha para que se acalmasse.
— Ele não vale a pena, Damie. Ele nunca vai valer a pena.
Isso não o deixou mais calmo.

Eu simplesmente não sabia para onde olhar. Todo o corredor principal


estava coberto por luzes azuladas, tantas fotos tiradas por Melissa Wayne
espalhadas pelos armários. Algumas pessoas as analisavam, outras
caminhavam para o refeitório e a antessala antes dele. Era onde a música
ficaria, as mesas e sofás da festa.
— Eu queria ter participado disso, sabe? — confessei, na medida em que
andávamos. — A organização desse baile. — Nossos olhares se perdiam
pelas imagens nos armários, todas aquelas lembranças. — Não tive tempo.
— É interessante... Não imaginei que ficaria tão bom. — O olhei, confusa.
— A escola não tem um espaço para uma festa desse tipo. Ou pelo menos
pensei assim.
— O refeitório parece menor do que é por causa das mesas e bancadas.
Mas o ponto alto da festa de fim de ano, não é exatamente o espaço do
refeitório.
— Não?
— Não. — Entrelacei o braço ao seu e seus olhos brilharam ainda mais.
Ergui a cabeça para analisar as luzes acima das nossas cabeças. Senti Bale
me admirar a cada segundo. — É o lado de fora. — Acenei com a cabeça
para a nossa frente.
Bale viu o que eu queria dizer quando o puxei para o exterior do prédio.
Alto-falantes espalhados pelas quadras permitiam que o som de dentro
fosse passado para o ambiente externo. Mais e mais fotos espalhadas pelas
grades da quadra de futebol, as arquibancadas repletas de almofadas azuis e
brancas. A iluminação se dava por pisca-piscas, que passavam de um lado
do campo ao outro, pelas grades, permitindo que o emaranhado brilhante
formasse uma espécie de teto para alunos que conversavam, corriam ou
dançavam, aproveitando a noite.
— E se chover? — Damie perguntou e eu ri. — Tudo isso vai por água
abaixo, não?
— Aconteceu ano passado. As luzes são desligadas e há quem prefira
correr para dentro — contei, sorrindo. — Mas há quem prefira aproveitar a
chuva. Até algum professor ou o diretor Hawkins gritar para que se abriguem
lá dentro, pelo menos.
— Você ficaria aqui ou correria para dentro? — questionou, curioso.
Pensei por um momento.
— Eu provavelmente ficaria parecendo um palhaço de algum filme de
terror bizarro por conta da maquiagem. E tem o vestido... — Mordi o
interior da bochecha.
— Tem o cabelo, não estragaria o penteado, não é? Tão lindo...
— Está zombando de mim? — Virei-me para ele, fingindo ficar brava
pelo seu sorriso debochado. — Quer saber, Damian Bale? Eu ficaria do lado
de fora!
— Sério? — duvidou.
— Sim. Eu ficaria do lado de fora. E te puxaria comigo por todo esse
lugar, parece valer a pena.
Damie esquadrinhou o meu rosto, eu sabia que também imaginava a cena.
Parecia bom. Eu conseguia imaginar a sua gargalhada, meus saltos em
minhas mãos, a chuva sobre nós dois... Parecia realmente divertido.
— Ora, ora! — Ouvimos, atrás de nós. E então nos viramos, encontrando
Mike e Melissa de braços entrelaçados. Graham estava vestindo preto por
completo, do paletó até a blusa social, as calças, a gravata e os sapatos. Já
Wayne tinha um vestido azul de alças finas, rendado, com uma única fenda;
suas tranças presas num rabo de cavalo alto e elegante. Os saltos a tornavam
um pouco maior que Mike, talvez um centímetro ou dois. — O artilheiro da
temporada e a Green Snake mais famosa que já passou por essa escola!
— Uau, Mike Graham de terno! — devolvi. — Está quase à altura dessa
mulher, meu Deus, quem é? — Wayne sorriu, envergonhada. — Cacete,
Bale... Eu acho que você acaba de me perder para Melissa Wayne. Não
tenho culpa se ela é uma grande gostosa.
— Bom, se isso for verdade... — Wayne começou, olhando para Mike. —
Desculpa, Storm, mas eu realmente não posso deixar Naomi Carlson passar.
Já viu a bunda dela?
— Você tem um ponto — Bale me fez rir. Lembrei de todas as vezes em
que garantiu que a minha bunda era a oitava maravilha do mundo, se não a
primeira.
— Estamos indo para dentro — Mike disse, sorrindo. — Vão conosco
ou...?
Bale me olhou, deixando que eu escolhesse. Dei de ombros e, quando vi,
seguíamos Wayne e Graham para o refeitório. Meu coração explodiu quando
admiramos o ambiente de dentro: o grande tapete circular ao centro, preto,
em que uma cobra era pintada bem no meio, o nosso mascote. Algumas
mesas e cadeiras estavam ao redor, mas o olhar de Mike foi justamente para
a bancada de comida.
Balões estavam espalhados pelo chão e pelo teto, pisca-piscas como do
lado de fora pela parte externa das janelas, mas as luzes ali dentro variavam
entre um tom de roxo ou azul. Dentro daquele refeitório, que mais parecia um
salão, era como se a festa fosse um pequeno universo.
Antes que eu sequer perguntasse para onde iríamos, o que faríamos, uma
mão tocou o meu ombro. E ali estava Oliver Zhang, completamente sozinho,
mas claramente feliz. A pele amarela clara tinha um discreto tom
avermelhado nas bochechas, resultado de seus fins de semana na praia com
Brandon. O maxilar reto, os olhos escuros e inclinados para baixo, o sorriso
sempre tão sacana quanto encantador... Zhang estava impecável. Seu terno
era azul escuro, mas ele não usava uma gravata sobre a camisa social
branca.
— Prontos para a noite das nossas vidas? — Zhang perguntou, sorridente,
tirando um pequeno flask de dentro do bolso interno do seu paletó.
— Oh, certamente vamos precisar disso — comentei. Bale tentou roubar a
bebida, mas Ollie a afastou.
— Esse é o meu. — Ele acenou com a cabeça para uma mesa onde os
ponches. — O ponche da direita está completamente batizado, mas é bem
ruim. Tyler, do nosso time, é responsável por manter aquela bebida sempre
alcoolizada. Pelo menos é um pouco gelada, sabe? Porque atrás da
arquibancada, lá do lado de fora, perto do placar, escondemos as bebidas
com algumas caixas e faixas de torcida e elas vão estar quentes para o
inferno mais tarde. Mas se tiverem algum copo, qualquer coisa... como
isso... — Ele balançou o flask, escondendo-o dentro do terno novamente, ao
deixar a frase morrer.
— Que tipo de bebida? — Wayne perguntou.
— Vodca — Ollie respondeu.
— Então vamos morrer de cirrose — Mike me fez rir. — Vodka quente é
horrível.
— Tem gelo em algum lugar. E é só misturar com refrigerante ou suco.
Vamos, estão dizendo que não vão beber nada hoje?! — Ollie nos perguntou.
Eu com certeza beberia e imaginava que Bale também, para suportar
vestir um terno a noite inteira. Alguém do time chamou Zhang para conversar
e ele nos deixou. Vimos Brandon e Gianna dançando uma música lenta
juntos, rodeados de outros casais. Mike e Mel iniciaram alguma conversa.
Bale apertou a minha mão.
— O que quer fazer? — perguntou, baixinho. — Quer dançar um pouco?
Virei o rosto para ele, sorrindo.
— Dançar seria ótimo.
Se o baile era o nosso universo, Bale e eu tínhamos um mundo só nosso.
Suas mãos se encontravam ao fim das minhas costas, e as minhas na sua
nuca. Seu rosto estava perigosamente perto do meu. Conversávamos
baixinho enquanto mexíamos de um lado ao outro, música após música. Eu
me pegava inspirando o seu perfume e torcendo para que ele ficasse
impregnado em mim para sempre ou rindo de todas as suas piadas ruins.
Seus lábios tocaram os meus em alguns momentos, com leveza. Aquela
paz entre nós dois me fez esquecer de qualquer problema fora dali. Eu era
sua, ele era meu e isso bastava.
— Hmm... Mandei uma foto do meu vestido para a Miley hoje cedo —
contei, afastando o sorriso do seu.
— Jura? O que ela disse?
— Ela disse que um dia se vestiria como eu e sairíamos juntas, tipo Elsa e
Anna. — Bale riu. — E repetiu que eu estava linda. Algumas vezes.
— Não mentiu.
Minhas bochechas queimaram. Bale colou o rosto ao meu, deixando um
beijo em meu ombro.
— Se quiser parar de dançar... — falei, pensando que poderia estar
cansado.
— Vamos parar quando você quiser, sweetheart. Posso ficar aqui a noite
inteira.
Colei ainda mais o corpo ao seu, unindo a minha testa na sua. Ficamos ali
por um bom tempo, juntos, tão juntos e imersos no nosso pequeno "nós", que
ninguém mais parecia existir.
Bale olhou para algo atrás de mim e eu sabia o que era. Derek estava
perto do ponche e tinha bebido a noite toda. Seu olhar estava preso em nós
dois de um jeito que me arrepiava, não num bom sentido. Porque fiquei
costas para ele, talvez Damian pensasse que eu tinha feito um bom trabalho
em ignorá-lo ou esquecê-lo a noite toda. Mas não.
Damie preferiu não dizer nada, me puxando um pouco mais para si,
apertando a minha cintura. Ergui os olhos para ele e sorri, gostando da
proximidade. Ele se forçou a sorrir de volta, para que eu não percebesse que
estava tentando me proteger. Nos proteger.
E dançamos, ali, juntos. Dançamos até nos cansarmos. Como se, de fato,
estivéssemos a salvo de tudo e de todos. Mas não estávamos.
Bale e eu viramos o ponche ruim ao mesmo tempo e depois nos sentamos
na mesa de Riley e Kiera. Elas tiravam selfies, brigavam por legendas e
trocavam olhares apaixonados — tudo ao mesmo tempo. Mike e Melissa
haviam desaparecido, Brandon e Gianna estavam jogados em um dos sofás
ao canto daquele lugar. Até que Gigi caminhou até mim.
— Emergência de garotas, vem comigo? — Olsen me perguntou. Assenti,
beijando a bochecha do meu namorado e dizendo que voltaria logo. Brandon
acenou com a cabeça para Bale, de longe.
— Vou buscar mais bebidas com Ramsey — Damie me disse antes que eu
me afastasse. — Qualquer coisa me liga, ok?
Ele lançou um olhar para Gianna antes que eu desse as costas. Sua demora
em me seguir me fez pensar que ele tinha dito algo a mais, o que ela me
confirmou logo depois: me manter longe de Meyers. E esse eu realmente nem
sabia mais onde estava.
Perguntei-me onde Melissa estava, porque sentia a sua falta e me sentia
mais segura ao seu lado. Derek sabia que Melissa o mataria com suas
próprias unhas caso se aproximasse de mim. Mas não a vi. Nem Mike.
Olsen praguejou quando entrou em uma das cabines do banheiro e
percebeu que sua menstruação havia chegado. Ao menos seu vestido era
escuro, ela me disse que seu fluxo era baixo e não tinha vazado nada. Eu
sempre estava preparada para coisas assim, então, assim que encontrei um
absorvente na bolsa, passei para Olsen por cima da cabine.
— Desculpa por interromper a sua noite.
— Gi, não é nada. Faria o mesmo por mim — garanti, falando alto.
— Ugh, você é tudo.
Não demorou muito para que ela lavasse as mãos, enquanto eu ajudava a
subir o zíper do seu vestido. Depois retoquei o batom, verifiquei o cabelo,
lavei as mãos e respirei fundo.
Segui Gigi para fora enquanto mandava uma mensagem para Wayne. Ela
não me respondeu. Fazia muito, muito tempo desde que tínhamos nos falado
pela última vez. Olsen parou à minha frente e eu quase me choquei com ela,
prestes a perguntar o que havia acontecido. Entre o corredor de fotos e mais
fotos daquele ano, luzes azuis e alunos tomados pela nostalgia, Derek
Meyers estava parado com os olhos cravados em mim.
Os olhos castanhos que eu conhecia muito bem brilhavam em melancolia.
Era assustador.
— Uau, precisa de guarda-costas para passar por mim? — ele perguntou,
não como uma provocação, mas como um lamento. Olsen não saiu da minha
frente.
— Para ver como você é podre — Gianna o respondeu e ele riu nasalado
sem tirar os olhos de mim. — Meia volta, Meyers.
— Nem sei quem você é. — Apesar de falar com ela, ele não a olhou,
dando de ombros. Derek mantinha o olhar em mim. — Eu sei quem ela é. —
Ele acenou com a cabeça para mim. — Foi por aquela conta que ele rompeu
com você? — Um passo dele, mas Gianna não moveu um músculo sequer. —
Eu não teria rompido com você por isso, princesa, você sabe. Quebrada ou
não, como for, Naomi, eu aceitaria você. Ele é um babaca.
— Derek, vá aproveitar a festa — ordenei. — Longe de mim.
Ele não se mexeu. Até Olsen segurou a minha mão e nos fez passar por
ele, mas Meyers segurou o meu braço com firmeza e me puxou contra o seu
peito. Gianna ordenou que ele me largasse, mas Derek não o fez.
— Ele é um monstro, Naomi — Derek sussurrou. — Não sabe o que eu
descobri, tá legal? Ele é perigoso para você, Damian é perigoso. Ele é um
monstro. — Tentei puxar o meu braço de volta, mas Derek não deixou. —
Você merece melhor, Carlson, merece melhor, princesinha. Precisa me ouvir,
me dê uma chance de falar o que sempre quis te dizer desde que voltei, o que
você nunca deixou.
— Mesmo se Damian fosse um monstro, Derek — praticamente rosnei,
furiosa —, você seria pior.
O empurrei e ele se afastou. Vi Damian nos encarando ao fim do corredor,
caminhando a passos firmes. Mas antes que fizesse qualquer bobagem, corri
até ele, segurei o seu braço e toquei o seu peito, sussurrando que estava tudo
bem. Bale soltou o ar pelo nariz, bravo, mas acabou por relaxar quando o
abracei. Ele me abraçou de volta, com força.
Olsen explicou para Brandon o que tinha acontecido, enquanto Damian
acariciava a minha nuca e repetia o que eu tinha lhe dito: que tudo estava
bem. E Meyers caminhou para longe.
Bale beijou a minha testa, ainda com a mão encaixada em minha nuca,
enquanto algumas pessoas passavam por nós dois. Até que vimos Mike
passar pelo corredor principal pisando firme. Seu rosto estava vermelho e
ele claramente chorava, então fomos atrás dele rapidamente. Mike nos
encontrou e suspirou, porque nos procurava. Ofegava, nervoso, olhando para
o meu namorado, com a gravata completamente torta e um botão da camisa
social aberta.
— Ela terminou comigo — Graham jogou as palavras sobre nós e Olsen
deixou um sonoro "O quê?" escapar. Brandon se aproximou do agora ex da
nossa melhor amiga.
— Não faz sentido, por quê? Estavam bem — Damian falou o que todo
mundo pensava e Mike olhou para mim, como se eu soubesse de algo. Seus
olhos estavam vermelhos, carregador de dor, tristeza e cólera. Aquela era
uma acusação implícita, como um "Por que nunca me disse?", mas eu não
fazia ideia do que tinha acontecido.
Ou talvez...
— Onde está ela? Onde está Melissa? — perguntei. Mike deu de ombros.
Meu coração estava fora de controle. — ONDE está ela, Mike?
— Estávamos lá fora, perto dos vestiários — ele disse, levando as mãos
ao rosto. Bale me olhou, confuso, antes de se aproximar do melhor amigo,
tentando acalmá-lo. Liguei por Wayne uma, duas vezes. — Eu sou idiota pra
caralho! Pra caralho!
E quando mais uma ligação caiu na caixa-postal, eu fui a procura de
Melissa Wayne. Ninguém ousou me parar.

Segui pelos corredores dos vestiários, busquei por qualquer coisa que
indicasse que Melissa tinha passado por ali. Procurei por todos os cantos da
escola. Nada. Recebi uma mensagem de Brandon, que disse que também não
tinha a encontrado. Enviei uma mensagem a Finn, irmão de Wayne, voltando
a procurá-la.
Não fazia sentido, fazia? Não. Não fazia sentido ela terminar com Mike do
nada. Mike estava apaixonado por Melissa, ele a tratava bem, ela parecia
feliz... Os olhos dela brilhavam quando ela falava dele, certo? Não fazia
sentido. Xinguei e xinguei, torcendo para Melissa estar bem. Porém, era
apenas o primeiro par de corações partidos daquela maldita festa.
Meu celular vibrou dentro da bolsa e eu dei graças a Deus, acreditando
que seria Melissa. Mas então ele simplesmente não parou mais.
Brandon: Carlson, que porra é essa? Cadê você?
Brandon: Precisa dar um jeito nisso rápido.
Oliver: ???? Olha o Instagram.
Oliver: Naomi, pelo amor de Deus.
Brandon: Naomi, o Damian está surtando.
As notificações apareciam na tela bloqueada. Digitei a minha senha,
nervosa, caminhando para dentro da escola. Meu coração estava contra a
garganta e eu não conseguia tirar os olhos da tela, meus saltos firmes contra
o piso da escola, os olhares sobre mim conforme eu andava.
Gianna: Naomi, PELO AMOR DE DEUS, cadê você?? A Poison atacou o Bale.
Eu não tinha postado nada.
Eu não tinha feito nada.
Nada.
A ansiedade me atingiu como um soco e meus dedos tremiam enquanto eu
tentava entrar no Instagram. E quando tentei mudar para a conta da Poison, o
aviso na tela me deixou fora de mim.
"A senha foi alterada. Você não pode acessar essa conta".
Não, não, não...
Andei rapidamente, tentando digitar a senha da Poison de maneiras
diferentes e nenhuma era aceita. Quando cheguei no corredor em que tinha
deixado o pessoal, finalmente consegui abrir a minha conta pessoal e ver a
postagem na fonte de fofocas mais suja de Brightgate.
Meus olhos varreram cada palavra daquele post e eu quis morrer. Porque
Damian não merecia aquilo. Aquilo não era verdade.
Ergui os olhos, vendo Ollie e Gianna andando de um lado para o outro. E
logo atrás deles, Damian estava sentado na escada, com as mãos na cabeça
enquanto Brandon e Mike pediam para que ele respirasse...
— Eu não fiz isso, Brandon, eu não fiz... — Damian repetia, nervoso.
Aproximei-me devagar, tremendo a cada passo, apavorada e sem saber como
reagir. Algo tomava conta de toda a minha alma e se espalhava para o meu
corpo, meus ossos, fazendo tudo, tudo doer. — Eu não fiz isso, eu não sou
isso, eu n-não sou...
Damian afrouxou o nó da gravata quando finalmente guiou os olhos
vermelhos para mim, completamente marejados. Jamais o tinha visto tão
machucado e era desesperador, sufocante para caralho. Ele olhou para o
celular na minha mão: a imagem dele com Megan, sorrindo um para o outro,
completamente apaixonados. Eu nunca tinha visto uma foto dela sequer, mas
sabia que era Megan Hunter ali. A legenda não me deixava dúvidas.
O maior pesadelo, a maior perda, a maior dor que tinha passado por
Damian Bale, foi exposta numa mentira para Brightgate inteira.
A acusação implícita nos seus olhos era uma arma mirada em minha
direção.
— Damian... — o chamei baixo prestes a me explicar. Ele deixou um
suspiro entrecortado escapar, entre soluços, suas mãos tremendo sobre os
seus joelhos.
— Eu disse... Eu avisei... Avisei que não gostava da Poison, eu pedi para
que apagasse...
— Damian — repeti, me aproximando. Cada passo pareceu demorar uma
eternidade, até que eu conseguisse colocar o celular e a bolsa ao seu lado,
minhas mãos no seu rosto.
Bale tocou o meu pulso, como se o meu toque o enojasse, me afastando
devagar.
Você sabe... O pior jeito de quebrar o seu coração é causando um outro
coração partido, um que você ama. É esmagador. Traz um nó ao seu peito
que sobe até a sua garganta e fica ali, te sufocando, como o pagamento por te
fazer machucar alguém. Te rasga de dentro para fora. E esse é só o prenúncio
de tudo o que está por vir. Porque piora.
— Você disse... — Bale começou — disse que logo depois de você,
estava eu. — Sua voz tremia por nervosismo, tristeza e fúria. Eu conseguia
sentir a vibração me atingir, me machucar. — Mas depois de você, Naomi,
está ninguém, não é?
Aquela foi a primeira facada. Meus olhos arderam, minha garganta fechou
por completo e eu senti o meu coração quebrar.
Aquele era o início do fim. E o que Damian Bale queria dizer era que a
culpa era toda minha.
Assisti ao enterro de longe.
Jogaram a terra sobre o caixão da Megan e eu fiquei ali, paralisado, em
um terno preto e amassado, tentando assimilar que aquilo estava realmente
acontecendo.
Mas não parecia real.
Era estranho para caramba. Eu chorei, gritei, amaldiçoei o mundo de
inúmeras maneiras e então… Tudo se tornou vazio e bizarro. Como se a
morte da Megan tivesse sido apenas um pesadelo. Mesmo ali, vendo-a seguir
para sete palmos abaixo do chão, ainda não parecia real.
Alguns familiares, alguns colegas da escola que não realmente se
importavam com ela… Seus pais. A mãe de Hunter estava tremendo de tanto
chorar e o pai dela a consolava em silêncio, olhando para a pá que jogava
terra sobre a filha.
Ele ergueu os olhos, olhos que pareciam com os da filha, e me viu.
Foi quando finalmente se tornou real.
A ira. A decepção. O ódio cruel e vívido. A dor no seu formato mais
nítido.
Ele se afastou da esposa, seguindo em minha direção enquanto todo mundo
o assistia. Cada passo. Cada segundo. Até que ele segurou a minha camisa
pela gola.
Eu esperei por um soco.
Esperei mesmo.
Na verdade, quando a dor emocional me atingiu sem piedade, a física me
pareceu mais misericordiosa e eu quis que o senhor Hunter me batesse. Mas
ele só ralhou três palavras: “Cai fora daqui”.
Para eles, eu era o culpado. Para eles, jamais seria culpa da garotinha que
eles tinham criado. Para eles, tinha sido Damian Bale. E para mim, eles
estavam certos.
Então eu não os enfrentei quando falaram de mim para a cidade toda. Eu
me contentei em chorar em segredo quando tinha que ir aos estabelecimentos
com um capuz, torcendo para que não me reconhecessem e me xingassem.
Porque estava pelos noticiários, não? E os pais da Megan amavam me xingar
por todas as redes. E claro que eles conseguiram apoiadores.
Pelas ruas de Bradford, eu não sabia dizer quantos olhares eram comuns e
quantos me olhavam com pena ou ódio. E isso era torturante.
Eu precisava aliviar aqueles sentimentos conflituosos de qualquer outra
forma que não fosse com a minha guitarra e meu caderno de composições,
porque estava me consumindo. A tristeza e o luto se transformavam numa
fúria fervente. Então eu saía pela cidade… Sem rumo. Eu, minha moto e
minhas dores. Madrugada após madrugada.
Em algum momento, comecei a escrever minhas composições onde não
deveria. Becos, casas, prédios abandonados… Carro da polícia. Se eu fosse
pego — e parte de mim queria isso —, punição alguma pareceria suficiente.
E eu fui pego. Uma… Duas… Três vezes… Os meses se passavam e eu só
piorava.
Ninguém compreende como a culpa é consumidora nesses casos. Estou
falando de quando você acha que alguém morreu por sua causa. E, de certa
forma, às vezes, ainda penso isso. Aprendi a viver e seguir em frente de
algum modo, mas se eu não tivesse apresentado alguns amigos para Megan,
se eu mesmo não tivesse experimentado algumas coisas, ela ainda estaria
viva. Na verdade, se eu tivesse apenas admirado aquela garota loira e
sorridente no corredor da escola, de longe, sem qualquer aproximação, ela
poderia estar por aí. Bem.
Pensar nisso constantemente, como eu fazia no passado, me destroçava de
dentro para fora. Principalmente quando quase todo mundo contribuía para
que eu me afogasse em culpa.
Meu pai, de longe, tentava saber como ajudar e eu o mandava se foder
todas as vezes. Minha mãe já não sabia o que fazer quando fui expulso da
escola no último ano por bater demais num filho da puta que me chamou de
assassino no intervalo. E se eu ficasse mais um segundo, apenas um, em
Bradford, eu provavelmente teria me tornado algo ruim. Aquela dor me
arrastaria pro fundo do poço.
Então minha mãe pediu pro meu pai me deixar morar na Austrália. Ele
queria uma nova chance, aceitou num piscar de olhos. Eu fui obrigado, para
ser sincero. Odiei cada segundo da viagem para Brightgate. Mas fui.
Eu senti que aquele era o inferno, mas era a minha salvação, de algum
modo.
De início, era insuportável. Eu ainda pesquisava sobre os Hunters, sobre a
Megan… Sobre tudo aquilo. A mãe dela, inclusive, tentou contatar a minha.
Acho que os pais da minha ex-namorada perceberam que eu não era um
monstro. Tarde demais, já que fizeram a cidade toda crer que sim.
Tarde demais, porque meu lar jamais seria Bradford novamente.
Porque a Austrália me traria o tipo de caos que era estranhamente bom. O
tipo de caos que é diversão pura, porque vem das pessoas certas. Ela me
traria isso em Graham, Ollie, Brandon… Mas principalmente em Carlson.
Ao menos por um tempo.
Ao menos até o inferno voltar a bater à minha porta.
Até aquele maldito baile.
E então eu ruiria. De novo. E de novo.
“@BRIGHTGATEPOISON: novato, Inglesinho... Brightgate tem uma lista de nomes para
você, Damian Bale. Mas me pergunto o que a Inglaterra teria a dizer. Como acha que ela
preferia te chamar? Assassino ou culpado?"

Estar apaixonada... Apaixonada de verdade, eu quero dizer, envolvida,


amando alguém... É um risco constante.
Em um segundo, você pode estar nas nuvens, em um paraíso só seu e da
pessoa que você ama, em um universo em que só há vocês dois. No outro,
você pode estar em queda livre. E nós nunca sabemos de quão alto
despencaremos, quão grande é o abismo que criamos quando nos permitimos
simplesmente amar outra pessoa.
Acho que o amor é o tipo de paradoxo mais belo e inconstante que existe.
Completamente imprevisível, ele consegue ser tudo. Avassalador e calmo,
intenso e suave, doce e amargo...
É algo muito bom de sentir. Até você quebrar a cara.
E uma das piores sensações do mundo é quando vocês desesperadamente
— desesperadamente — precisa implorar ao seu próprio coração para que
pare de amar alguém. Quando você odeia amar alguém. Acho que Damian e
eu experimentamos isso naquela noite.
Desespero me tomava. Não só por medo de perdê-lo, mas por medo de
vê-lo quebrar.
— Cacete, Carlson, a Poison não para — Ollie disse, olhando para o
celular. Me afastei de Bale, cogitando ir até Zhang e descobrir o que mais
era dito sobre o meu namorado.
— Eu quero que leiam — Damian ordenou. Sua voz estava trêmula e dor
ecoava a cada sílaba dita. O encarei, sendo atingida por mais um olhar
carregado de fúria. — Eu quero que você leia. Tudo. Tudo o que foi dito,
Naomi.
O olhar dele... Cacete...
— Damian... Não fui eu, tá legal? Não foi culpa minha — garanti. Ele
pegou o meu celular. E agora que sabia a minha senha, foi fodidamente
rápido em desbloqueá-lo. — Damian... — Ele se afastou, me impedindo de
tomar o meu telefone de volta.
— "Brightgate tem uma lista de nomes para você, Damian Bale" — ele
começou a ler a postagem da Poison, sua voz alta e límpida como nunca.
Estremeci, engolindo contra o nó doloroso em minha garganta. — "Mas me
pergunto..." — A dramaticidade forçada em sua voz era uma provocação. O
sarcasmo era uma arma forte que ele usava contra mim naquele momento. —
"... o que a Inglaterra teria a dizer?"
Bale se pôs de pé. Ele virou o celular para mim e lá estava: sua foto com
Megan. Os dedos de Damian apertavam o meu celular com tanta força que eu
conseguia ver os nós em sua mão completamente brancos. Seu olhar me
cobrava por explicações.
— "Como acha que ela preferiria te chamar?" — a voz dele voltou a
falhar e meus olhos arderam como nunca. O ar não parecia o suficiente por
ali, eu sentia que entraria em colapso. — "Culpado ou assassino?"
O silêncio foi absoluto à nossa volta. Fechei os olhos por um instante, sem
acreditar no que estava acontecendo. Era possível escutar as respirações à
nossa volta, o meu próprio coração bater enlouquecido contra as minhas
costelas. E quando o encarei novamente, Damian ainda segurava o meu
celular com firmeza.
— Não fui eu — repeti, em pânico, implorando para que ele acreditasse.
Bale balançou a cabeça em negação e abriu os stories da Poison.
— "Overdose de adolescente para festa em condomínio de classe média
de Bradford." — Ele mal parecia crer no que lia. O primeiro stories era de
uma noticia da morte da sua ex-namorada. Seu dedo tocou a tela mais uma
vez e ele riu nasalado. — Cacete...
O segundo eram prints de Facebook, Instagram, locais onde alguns
familiares de Megan se uniram para chamar o meu namorado de coisas
pesadas. Como assassino e culpado.
Era a época em que os Hunter estavam em fase de negação e Damian
sabia, ele me disse isso. Precisavam culpar alguém, porque não queriam
culpar Megan por suas próprias escolhas. Então Bale foi o foco. E aquilo era
passado até aquele segundo, em que Bale encontrava fotos e mais fotos,
frases e mais frases de acusações infundadas... Mas pareciam tão reais.
— Pare com isso — pedi. Aproximei-me e tampei a tela com as minhas
mãos, ouvindo Damian suspirar baixinho. Ele me entregou o celular e voltou
a se sentar na escada, as mãos por seu cabelo e depois cobrindo o seu rosto.
Eu não sabia o que fazer, o que dizer. Completamente estática, destruída.
Lancei um olhar para Brandon, Ollie, Mike e Gianna. Eles nos assistiam
em choque. Graham me encarava fixamente, porque entendia muito bem o
que acontecia ali. Ele me ouviu repetir que não tinha sido eu. Pelo olhar de
Mike, era nítido que ele tinha compreendido que eu era a Poison. Ou fora,
antes de tudo aquilo.
Decidi focar o meu olhar em Brandon por um instante. Ele tinha o olhar
perdido sobre Damian, as mãos na cintura, a incapacidade de dizer ou
pensar alguma coisa. Gianna tinha uma das mãos fechadas em frente à boca,
trêmula. Ollie ainda olhava para o celular, em transe.
Aquilo... Tudo aquilo... Tudo o que aconteceu na Poison foi uma
inexplicável e intensa crueldade.
Me aproximei dos quatro.
— Preciso que saiam — minha voz saiu baixa. O olhar de Ollie caiu
sobre mim e eu o senti silenciosamente perguntar se eu tinha certeza. Voltei a
fitar Gianna. — Por favor, saiam. Encontrem a Mel, ela também importa, eu
vou resolver isso.
— Como? — Ramsey perguntou e eu não tive resposta. Ele grunhiu,
balançando a cabeça em negação. Depois apoiou a palma da mão nas costas
da namorada e acenou com a cabeça para Mike e Zhang. — Vamos.
Os três saíram dali, mas Graham continuou parado.
— Então você...? — sua pergunta nem precisava ser concluída. Sim, eu
era a Poison. Assenti com a cabeça e vi a incredulidade tomar os seus olhos.
— Mike... — falei com uma firmeza forçada. Não era hora para explicar
nada. — Vá. — E Graham nos deixou.
Esperei pela certeza de que nossos amigos estavam longe. Então olhei
para Damian. Ali estava ele... De volta à escada, com as mãos na cabeça, os
olhos fechados e os ombros completamente tensionados.
Poucas coisas na vida machucam tanto quanto ver alguém que amamos
sofrer. Ainda mais quando o motivo do sofrimento nos envolve.
A minha cabeça se resumia em caos. Não conseguia manter um só
pensamento. Parecia que meu sangue, ossos, todo o meu corpo era feito de
tormenta. E Bale... Bale estava pior.
Me aproximei dele de novo, ainda mais hesitante. Ele parecia repetir algo
para si mesmo. Olhei ao redor em busca de qualquer olhar curioso. Poucas
pessoas nos assistiam de longe e eu me perguntava o que Damian sentia
sobre isso.
Tirei os saltos com os pés. Deixei o celular de lado sobre a escada e
inspirei fundo. O ar não levou a minha angustia junto quando expirei. Tirei as
mãos do rosto de Damian devagar, ficando entre as suas pernas ao me
ajoelhar. Bale fechou os olhos com força, se recusando a me encarar.
Talvez ele soubesse que, no segundo em que abrisse os olhos, deixaria
escapar todas aquelas palavras dolorosas e afiadas, que me cortariam sem
qualquer piedade. E que eu as devolveria.
Quando eu ouvi o que ele repetia baixo, meu peito doeu. Ele repetia que
não era culpado. Ele repetia que não era um assassino. A morte de Megan
Hunter voltou a assombrar Damian Bele com toda a força naquela noite e eu
não sabia o que fazer ou dizer, mas tentei:
— Amor... — minha voz saiu trêmula e falha, enquanto eu apertava suas
mãos gélidas e molhadas pelas lágrimas. Bale deixou um soluço escapar e eu
acariciei o seu rosto. — Amor, você sabe que isso não é verdade. Você não
teve culpa. — Damian encarou o meio entre as suas pernas, balançando a
cabeça em negação. — Bale...
— Eu lutei contra isso por tanto tempo, tentei me convencer disso. — Ele
inspirou fundo, seu peito trêmulo enquanto isso. — Bradford inteira parecia
acreditar nisso, por onde eu ia... Por onde eu ia, eu me questionava se
sabiam quem eu era. Se concordavam com os pais de Megan. — Bale
ofegava, seu peito subindo e descendo a cada respiração, enquanto chorava e
desabafava. — Fiz questão de ficar longe de casa para não olhar nos olhos
da minha mãe e... cacete... Para não me perguntar se ela também concordava
com a cidade.
— Damie...
— Isso me mudou para pior. Todas essas... Essas vozes... — Ele afundou
os dedos no cabelo, se permitindo chorar novamente. — Esses olhares... Me
faziam querer ser tão frio, me faziam querer qualquer coisa que silenciasse
essa dor do caralho. Eu me afundei dentro do quarto tantas vezes, com
aquela maldita guitarra. Fiz tantas besteiras sozinho pela cidade... E então
vim pra cá, Naomi. E quando finalmente entendi que Brightgate poderia ser
um recomeço...
Ele riu sem humor. Eu queria ajudá-lo, queria que olhasse nos meus olhos,
queria dar um jeito naquilo. Ao mesmo tempo, eu não sabia que caminho
seguir para limpar aquela bagunça.
— Amor... Respira.
— E agora todo mundo aqui vai me ver como Bradford me via — ele
disse. Bale se colocou de pé e eu fiz o mesmo. — Como um assassino.
— Você não é isso.
— E daí, Naomi?! — Ele ergueu os olhos, rindo novamente. As lágrimas
corriam pelo seu rosto. — E daí que não, quando acreditam que sou?
Quando isso vai ser propagado pela cidade inteira?!
— Eu vou dar um jeito nisso. — Nem eu acreditava que conseguiria. — E
você mesmo sempre me dizia para não ligar para o que os outros pensam...
— É diferente, Carlson! — ele ergueu a voz minimamente. — Isso mexe
com a porra da minha cabeça, Naomi, você sabe como é ser acusada de
matar alguém?— Damian se levantou. — De assassinato?
— Você sabe que sim.
Minha fala o deixou calado por um segundo. Ele sabia que Derek tinha me
chamado assim após o aborto. Olhei ao redor, preocupada com os poucos
olhares curiosos sobre nós. Me preparei para dizer que era melhor
conversarmos em outro lugar, mas Bale me impediu:
— É diferente, Naomi. Eu entendo a sua dor, mas é diferente. Porque a
porra do seu segredo não foi jogada para todo mundo ler. Você não foi
exposta. A Poison é sua e criou o problema, mas você não foi exposta.
Pisquei uma, duas, três vezes.
— Damian — o chamei, fazendo uma pausa até ter certeza que seus olhos
estavam conectados aos meus. — Damian, eu não fiz isso.
— De certa forma fez. Porque... Cacete, Carlson, você não me ouviu,
ouviu? E agora sou eu que está pagando por isso. — Bale pôs as mãos na
cintura. Aquilo era injusto. — Você escolheu não apagar a Poison. E agora a
cidade inteira está recebendo a notícia da morte da Megan, que não tinha
porra nenhuma a ver com a sua vida. Eu não tinha porra nenhuma a ver com
isso. E se tivesse apagado...
— Bale, a culpa não é minha! — Ele riu e eu soube que ele discordava.
— Não fiz essa postagem...
— Você acha que me importa, Carlson? — Seu olhar me feria. — Que
porra muda se não foi você quem fez a maldita postagem? Ela só existiu
porque você... Você foi burra o suficiente para achar que manter a Poison era
uma boa ideia, porque cismou que faria algo bom por você.
— Damian...
— Você. Sempre você, Carlson, e essa é a porra do problema — ele jogou
as palavras e passou a mão pelo rosto. Bale desfez o nó de gravata um pouco
mais, nervoso. Eu não sabia como reagir. — Você tem a coragem de dizer
que logo depois de você estou eu, mas nem percebe que a única coisa que
passa pela sua cabeça... é você.
Engoli contra o nó enorme na minha garganta, tentando desesperadamente
não chorar.
— Não, Damian, não está sendo justo.
— JUSTO? — ele praticamente cuspiu a palavra, rindo. — Porra, Naomi!
O quê?! O mais injustiçado nesse caralho de problema sou eu, Carlson,
porque é o MEU nome que está sendo manchado como se eu fosse um
MONSTRO, um criminoso...
— Não, Bale, não está sendo justo — ergui o tom de voz minimamente,
tentando me segurar a algum fio de autocontrole em minha mente. — Porque
está me chamando de egoísta e você sabe muito bem que eu NÃO sou,
Damian. Que me importo com você! E que se não fosse pela Poison, isso
seria divulgado de outro modo...
— E mesmo assim nenhum outro modo teria o mesmo impacto nessa porra
de cidade ou escola do que a maldita conta que VOCÊ insistiu em manter. —
Olhei ao redor. Damian bufou, percebendo. — É com isso que se importa?
Que descubram que a porra da conta é sua?
— O quê?! Está ao menos se ouvindo agora? Damian, PARA com isso! —
Me aproximei ainda mais. — Brigar não é a porra da prioridade agora, tá
legal? Estou dizendo que posso dar um jeito nisso, que podemos dar um jeito
nisso. Juntos. Podemos encontrar uma saída! — Tentei forçar a firmeza em
minha voz, espalmando as mãos contra o ar em um pedido por calma, mas
tudo o que ele fez foi rir.
— "Brigar não é uma prioridade"? ISSO PODE FODER A MINHA
VIDA, NAOMI — ele cuspia as palavras, a veia em seu pescoço mais nítida
do que nunca, o rosto vermelho. — Cacete, Carlson, consegue ver como
essas porras funcionam para você? Acha que não adianta brigar? Acha que
vou sorrir e fingir que está tudo bem quando essa porra toda está
acontecendo?! Acha que vai resolver tudo com um beijo e vamos sair daqui
juntos, firmes e fortes? Acha mesmo?
— E-Eu não...
— SIM, VOCÊ TEM CULPA, CARLSON! — ele devolveu, passando as
mãos pelo cabelo. — Cacete, uma vez na sua vida, consegue admitir que está
fodendo tudo?!
Meus olhos arderam vendo-o andar de um lado ao outro. Fitei o teto e
tentei respirar fundo. Meu corpo todo doeu e eu quis sumir. Abri e fechei as
mãos, na esperança de que isso fizesse aquela sensação de formigamento da
ansiedade cessar. Não funcionou.
— Não fui eu, Bale, por favor, não fique bravo comigo.
Bale me lançou o seu pior olhar, me fuzilando com ele. Não era o que eu
amava. Não. Aquele cara, na minha frente, me olhava como se eu fosse uma
inimiga. Um monstro.
— Não fique bravo comigo.
— Não, não pode me pedir isso. É impossível não ficar puto com você,
Naomi. — Aproximei-me e ele evitou olhar nos meus olhos.
— Bale, me ouve, por favor... Vamos consertar isso. Por favor, amor, não
fique bravo comigo.
Toquei o seu rosto e ele franziu o cenho, como se o meu toque fosse
ultrajante. Bale segurou meus punhos, enquanto eu implorava baixo para que
me ouvisse, para que prestasse atenção no que ele dizia, até que finalmente
explodiu.
— É CLARO que estou bravo! — Suas mãos tremiam, suas veias em sua
testa e pescoço visíveis, seu rosto mais vermelho ainda. — EU TENHO
TODA A PORRA DA RAZÃO PARA ESTAR PUTO COM VOCÊ,
CARLSON!
Eu não queria perdê-lo, mas aquilo não era justo com ele, comigo, com
nós dois. Ele falava como se eu quisesse que aquilo tivesse acontecido, ao
menos essa era a impressão que eu tinha. E isso não era verdade.
Um pouco tonta, procurei a coisa mais próxima para me apoiar e isso foi o
seu peito. Minha testa tocou a sua roupa, segurei o seu terno como se isso
fosse me ajudar a impedí-lo de me deixar, mas Bale se afastou do mesmo
jeito.
— Acha que é isso, huh?! Vai me chamar de amor e vai dizer que... — Ele
riu com escárnio pela milésima vez. Minha visão já estava muito embaçada e
eu lutava para manter as minhas pernas firmes. — Que me ama e que isso
basta, que vamos dar a porra de um jeito e que vai ficar tudo bem?! Acha
que estamos na porra de um filme de romance? Isso me fodeu, Carlson. Eu vi
Megan morrer. Na porra dos meus braços. Eu vi a minha garota tremer e
espumar até a morte e ouvi que fui culpado por isso! — sua voz falhou e eu
quebrei ali mesmo, o observando desabar. — Eu a vi ser levada para a porra
do hospital e me pergunto... se eu tivesse chegado naquele banheiro mais
cedo, eu a teria salvo? Fui eu que fiz a Megan se tornar aquilo? Eu achei que
isso tinha passado, até agora. Porque eu sei que, quando caminhar para fora
desse inferno — ele apontou para a saída —, as pessoas me olharão fazendo
as mesmas perguntas que eu me fazia: eu sou culpado?
— Não...
— ISSO TUDO, Naomi, toda essa DOR, essa ideia de que eu posso ter
contribuído para a morte de alguém... Carlson, eu me sinto torturado. — Ele
mexeu na gravata novamente, como se ela o sufocasse. — Então não, não me
peça para não ficar puto com você, porque nada disso estaria acontecendo se
você, uma vez na vida, simplesmente ME OUVISSE! E eu estou CANSADO!
Eu estou EXAUSTO, Carlson. Eu estou exausto...
Cruzei os braços, desviando o olhar. Meus lábios tremeram. Minha cabeça
parecia prestes a explodir e as lágrimas correram livremente pelo meu rosto,
eu não consegui segurá-las.
Damian foi atingido. E dizia que se sentia surrado, então parecia querer se
defender. Só que ali, de algum modo, jogando a culpa sobre mim... Era como
se quisesse se defender de mim. Como se eu fosse a sua inimiga e ele
quisesse me machucar de volta. E, oh, ele fez exatamente isso:
— Eu estou cansado de você.
A frase reverberou em minha mente e eu franzi o cenho, a absorvendo,
sentindo o gosto amargo e metálico de um coração partido. Só então o
observei.
Cansado de mim.
Aquilo me esmagou. Perdi toda a capacidade de falar, andar ou me mexer.
Por um momento, eu nem sabia se estava conseguindo respirar direito.
Sufocada, ele disse? Pois eu compreendia perfeitamente.
— Você nunca me ouve, Carlson.
Aquilo não era verdade, mas eu não consegui dizer isso. Nem jogaria na
sua cara todas as vezes que o ouvi desabafar, que fiz questão disso. Que eu
venci o meu orgulho — que nunca foi pouco — para iniciar uma conversa e
resolver algo entre a gente. Eu não faria isso.
— Você não me ouve, não me enxerga — ele disse e contou em seus dedos
—, não me deixa te ajudar... Você diz que só estou em segundo lugar por seu
amor próprio, mas não estou em segundo. Você está em primeiro e segundo e
terceiro e quarto em todas as suas prioridades. No fim das contas há apenas
você. Você não me vê. Nunca viu.
Aquilo nunca... Nunca seria verdade.
Eu o via.
— É isso. — Bale riu. A dor em meu peito foi se substituindo por raiva.
Aquilo não era justo. — Você nunca me viu.
Eu o vi. Eu o percebi desde o início.
Aquilo não era justo.
Não era justo que tentasse me ferir em retorno. Que duvidasse de mim,
que duvidasse dos meus sentimentos para se sentir melhor. Por mais que não
estivesse totalmente errado em dizer que, se eu tivesse apagado a Poison
mais cedo, as coisas poderiam ter sido do outro jeito, Damian não poderia
falar todas aquelas inverdades sobre nós. Não quando me declarei em cada
beijo e toque, não quando eu me entreguei de corpo e alma a ele. Meus olhos
estavam inundados de dor por suas palavras, e ele fez questão de cravar a
frase mais profunda na minha alma, me deixando sangrar:
— Talvez você nunca tenha realmente me amado, não é, sweetheart?
E esse foi o meu basta.
O meu sangue ferveu e algo começou a se igualar, lentamente, a toda
aquela dor. Algo que fazia meus ossos tremerem, minhas veias queimarem,
meu peito arder em brasa. Algo que dissolvia o nó em minha garganta.
Eu entendia que Damian estava sofrendo. Mas aquilo não justificava que
duvidasse de mim. De quem sou, do que senti. Do meu caráter.
— Como ousa? — rosnei baixo, entredentes. Bale não se moveu. — Como
ousa? Como ousa dizer tudo isso na minha cara? Duvidar de tudo o que
vivemos? Sério, Damian? — Me aproximei, ele não recuou. — Eu atuei esse
tempo todo, então? Eu te machuquei de propósito, Bale? Me diz, Damian, eu
fui falsa com você? Fui egoísta — contei, em meus dedos, como ele fez com
suas acusações —, falsa, fui um monstro, insensível, manipulei você...? É
isso?
Respirei fundo por sua falta de resposta.
— Entendo que precise gritar e culpar alguém no momento, mas não vou
aceitar que me use de saco de pancadas desse jeito, como se eu fosse a porra
de um monstro que teve prazer em foder a sua vida, porque não sou. Eu
nunca vou ser isso. E eu estou mal com isso tudo, fodida, caso não perceba.
E...
"Damian é um monstro, Naomi"
"Precisa me ouvir, princesinha."
— Derek — sussurrei. — Oh, Deus! — Levei as mãos ao rosto. —
Meyers fez isso...
Bale riu e girou em seus calcanhares. Eu o segui, mais desesperada a cada
passo firme que ele dava. Tentei alcançar o seu braço e ele o puxou. Nunca
tinha o visto tão transtornado. Damian abriu a porta do refeitório, como se
sentisse onde aquele garoto infernal estava. Meyers conversava com Garreth
em um grupo, olhando o celular.
Pessoas dançavam, outras falavam sobre a fofoca do momento ou
bebiam... Damian passou por todas elas, seu olhar preso no meu ex-
namorado. Bale exalava pura fúria. Porque qualquer um saberia do que eles
falavam. Do que todos falavam. Tentei puxá-lo pelo terno, mas foi tarde
demais.
O punho de Damian Bale atingiu o rosto de Derek Meyers antes que ele
dissesse qualquer gracinha, numa velocidade e força impressionantes,
fazendo sangue respingar no chão do Colégio Brightgate e o meu ex
cambalear para trás, não caindo apenas por causa de Garreth Parker. Derek
não revidou. Para ser honesta, eu me surpreendia que ele estivesse acordado
depois daquilo.
Em choque, com todos os olhares sobre nós, eu só consegui levar as mãos
à boca, trêmula. A música foi interrompida imediatamente.
Damian abriu e fechou a mão machucada, suja de sangue. Ele ofegava,
olhando fixamente para Meyers. E então se virou, batendo o ombro contra ao
meu ao sair.
— DAMIAN — o chamei e alcancei o seu braço, o fazendo se virar.
Segurei o seu rosto com as duas mãos. — Por favor... Me ouve...
— Ele ter postado qualquer merda que seja — sua mão machucada
apontou para Meyers — muda porra nenhuma entre a gente.
— Não. Fui. Eu. — Já não sabia o que dizer.
— Vê? Repeti o tempo inteiro que isso não importa, mas você não
consegue pedir desculpas, admitir que está errada — ele rosnou baixinho,
mas eu sabia que algumas pessoas poderiam ter ouvido. — É tudo sobre
você. Sempre.
"Egoísta", seus olhos me diziam. E, porra, doía.
— Tem razão, sabe? — Bale disse, apontando para si e para mim. — Não
adianta discutirmos, Carlson. Estou cansado. — Projetei o queixo para a
frente, segurando a vontade de desabar de uma vez. — Não sei como pensei
que daríamos certo, mas já deu. Para mim, já deu.
Ele recuou um passo ou dois, balançando a cabeça em negação,
respirando fundo. Bale chorava com seus olhos sobre mim. Imóvel, eu não
me ajoelharia por seu perdão, não aceitaria aquelas acusações. Porque,
honestamente, naquele segundo... Eu odiei Damian Bale por cada palavra
dita. Por me fazer me apaixonar perdidamente por todos os seus detalhes e
dizer, ao fim, que fingi por cada segundo.
Eu odiei amá-lo. Por céus, eu me odiei junto.
E lutando contra esse ódio, eu nos dei a última chance de superarmos
aquilo juntos, naquela noite. Porque eu poderia estar ali por ele, se quisesse.
Poderia corrigir toda aquela merda, faria tudo por isso. Nos dei essa última
chance:
— Se der as costas para mim, Damian... — falei alto. — Vai estar
cometendo um erro enorme, e sabe disso. Sabe que sempre senti muito por
Megan. Mas se der as costas, Damian... Eu vou odiar você.
Ele fitou o chão, como se olhar para mim fosse duro demais.
— Ótimo. Porque, honestamente, sweetheart, eu acho que já te odeio. —
Ele forçou um sorriso, apesar das lágrimas. Todo mundo ouviu aquilo. Todo
mundo nos assistiu ruir. Mas Bale não dava a mínima.
Com um último olhar ao nosso redor, Bale me deu as costas. Parada ali, eu
praticamente sussurrei:
— Eu te odeio de volta.
E eu não estava mentindo. Mas ódio não era tudo o que eu sentia por ele.

Depois que Finn Wayne me confirmou que Melissa estava em casa e bem,
eu parei de me importar com aquela festa.
Damian saiu da escola naquela noite sem querer conversar com o diretor
Hawkins, ouvindo-o dizer que ele seria suspenso. Como se Bale ligasse.
Derek foi cuidado por sabe-se lá quem; eu dei as costas a tudo aquilo
assim que vi Damian me deixar. E não, não fui atrás dele. Eu não iria mais.
Fiz uma promessa a mim mesma. Não brinquei quanto a isso.
Meus pés descalços se arrastaram pela grama quando busquei uma garrafa
de vodca sob a arquibancada, voltando para onde as minhas coisas deveriam
estar. Pouco me importei com as chances de ser flagrada com uma grande
garrafa de bebida. Se eu fosse suspensa, foda-se. Se eu levasse uma
advertência, foda-se. Eu precisava daquilo.
Encontrei a escada, os meus saltos e o maldito celular, intactos. Abri a
garrafa e me sentei, a apoiando entre as pernas. Olhei para a tela do telefone,
ignorando todas as mensagens.
Egoísta, Damian sugeriu. Então eu seria, naquela noite. O mundo seria
Naomi Carlson e suas dores e que todo o resto explodisse. Eu não dava a
mínima.
Bebi e bebi e bebi... Virei a garrafa várias vezes, apesar do gosto forte e
amargo do álcool, apoiando os braços no degrau atrás de mim.
Colégio Brightgate... Tão lindo, com aquelas luzes azuis e tantos alunos
bem-vestidos. O futuro da elite. Que belo inferno. Por mim, poderia queimar.
Fechei os olhos, apreciando o álcool em minhas veias. Cacete, eu nem
sabia como voltaria para casa. Damian me levaria de volta. Eu ri nasalado,
pensando que isso certamente não aconteceria. Isso me fez virar outro gole.
Cansado de mim.
Que amável...
Quanto tempo levaria para que eu fosse flagrada ali por algum professor
ou pelo diretor, apoiando os cotovelos nos degraus e observando a maldita
escola como o diabo vistoria o inferno? Que fossem à merda, honestamente,
todos aqueles que julgavam Bale ou pensavam no que deveria ter acontecido
entre nós, todos aqueles que citariam o meu nome pela noite...
Pelo amor de Deus...
Todo mundo tinha o que esconder ali e comigo não era diferente, então por
que diabos se importavam tanto com isso?
"Porque a Poison postou aquilo, Naomi", pensei. E virei outro gole.
Bem, Damian estava certo, não? Minha culpa. Esse pensamento me fez
beber ainda mais. Se eu realmente não dava a mínima, por que todos os meus
pensamentos voltavam para ele?
Damian Bale.
Como definir Damian Bale?
A primeira palavra que pensei foi karma. E depois Meu-Inferno-Pessoal.
Essa foi a minha preferida por alguns segundos.
A tontura me atingiu, um prazer correu pelo meu sangue quente e eu
estiquei as pernas, respirando fundo.
Inglesinho. Novato. Damie. Amor. Grunhi com a última palavra. Não
pretendia dizê-la tão cedo.
— Acho que nós dois não prevíamos isso, huh? — Meyers estava ali, seu
paletó sobre o ombro, a gravata desfeita, um pano com gelo em sua boca.
Estava a minha esquerda, a alguns passos.
O inferno estava cheio de gente, mas aquele demônio queria conversar
comigo.
Filho da puta.
— Naomi Carlson e Derek Meyers, os reis dos corações partidos —
cantarolou, se aproximando.
— Você não tem um coração partido, Derek. — Virei outro gole da
bebida. — Provavelmente nem tem coração.
— Sabe que isso não é verdade, princesinha. — Senti-me
verdadeiramente enjoada. — Meu coração parte em te ver triste.
— Parte mesmo? — minha voz saiu esganiçada e eu ergui uma
sobrancelha, o analisando. — Você fez isso, Derek.
Ele não respondeu por um momento, provavelmente se perguntando se
valeria a pena mentir para mim. Quando demorou tempo demais para
responder, eu precisei rir. De ódio.
— Você é um merda.
— Só peguei o que era meu de volta.
Eu processei suas palavras, pensando que ele falava de mim no primeiro
momento. Até que o mundo parou. Eu senti que não estava respirando
direito. Meus olhos se encheram de lágrimas de incredulidade, mas eu
segurei a vontade de desabar. Não na frente dele. Nunca mais.
Ele era a Poison. Antes de mim. Era o Derek.
— Agora você entende, certo? Você entende que somos iguais, Naomi.
Tanto quanto você, eu roubei a Poison quando foi conveniente. Eu usava ela
para mandar nessa porra de escola, eu fiz a minha imagem ser a melhor
possível, princesinha, eu fiz desse colégio a porra de um reino.
Por isso ele tinha voltado? Pela Poison, por mim, por sua obsessão por
controle, pela falsa sensação de poder que era controlar uma escola?
Minha respiração saía entrecortada e eu sabia que provavelmente ele
percebia que eu estava tremendo.
— Você anunciou seu próprio surto?
— Foi a primeira e única coisa que consegui fazer quando tive acesso ao
meu celular. Depois meus pais confiscaram tudo. Depois eu fui pra aquela
porra de clínica e então eles tentaram me enfiar na porra de um internato no
fim do mundo e, nossa, princesa, eu tentei te odiar. Eu tentei mesmo. Tentei
tanto. Mas então eu consegui acessar a internet de novo, eu vi que a Poison
estava viva, eu reconheci seu sarcasmo, seu modo de digitar… Eu soube que
era você e que não podia te odiar. Porque somos iguais, não somos? Somos,
princesinha, você sabe que somos.
Não. Eu não poderia ser igual a ele. Aquilo não poderia ser verdade. Não
poderia ser real. Eu não suportaria ser igual a ele.
— Você fodeu a minha vida — murmurei e ele negou.
Eu não era igual a Derek Meyers. E, se fosse, eu não queria mais ser. Eu
não queria ser como ele. Não queria magoar as pessoas, não queria ser
incapaz de amar do jeito certo e saudável por ser incapaz de amar a mim
mesma. Eu não queria ser um monstro.
— Você fodeu a minha vida TANTAS vezes, Meyers. Você não se cansa
disso. Você anunciava traição atrás de traição, se vangloriava e faz todo
sentido, não é? Porque queria que eu sentisse que você poderia ter tudo, mas
eu só poderia ter você. Porque eu era a porra do seu troféu, da sua obsessão,
da merda que você precisava ter sob seu domínio para se sentir amado e
conseguir dormir, porque você sabe que ninguém te amaria como o
MONSTRO que você é. A única pessoa que te amaria é alguém que você fez
adoecer. Alguém que você quebrou até se sentir dependente de você…
— Naomi…
— Eu nunca fiz isso com outra pessoa. Eu nunca usei a Poison pra
provocar a dependência de alguém. Eu não usei a Poison nem mesmo pra me
vingar de você…
— Carlson… Princesa, você não está entendendo.
— Você é doente. Não se tratou de verdade, não é? Você só fingiu que
tudo estava bem para voltar e foder com a minha vida — acusei.
— Não. Não, eu tentei ser melhor por você! Não está vendo, princesa?
Estou te protegendo dele, eu mudei e eu fiz o que precisava ser feito. — Ele
parecia tentar se convencer disso.
— Precisava por quê? — ergui o tom de voz, erguendo também a cabeça.
Segurei a vodca com força. — Achava que eu não sabia sobre a Megan?
Achava que eu não estava do lado do meu namorado mesmo assim? De
verdade, foi burro assim? Damian não é como você, Derek. Ele não gosta de
segredos. Ele me disse a verdade.
— Disse mesmo? — Derek se aproximou, rindo. Ele tirou o pano do
rosto, revelando a vermelhidão ao redor da sua boca, o corte no extremo
lado direito. — Como pode ter certeza?
— Porque com ele eu sei que ouço a verdade, não importa o que aconteça.
O que eu tenho com ele é diferente — devolvi de imediato. E então fui
atingida por um pensamento. — Tinha.
Derek sorriu pela correção. Eu quis matá-lo por isso.
— Damian é um monstro. As pessoas diziam isso e elas tinham um
motivo, princesa. Viu os prints? Os pais da garota dizem que foi o Damian
que fez ela se drogar. Ela estaria viva se...
— Pare, Meyers — implorei, num misto de tédio e puro desgosto. — Pelo
amor de Deus, cala a porra da boca por um momento. Só diz merda. Cacete,
não consegue perceber? Se Damian fosse um monstro, tudo o que isso
provaria é que eu tenho uma tendência a me apaixonar por pessoas como
você. Mas ele não é. Ele não matou a Megan. Ela fez as escolhas dela.
Damian não a fez afundar, ele não a levou para festas e lhe apresentou
drogas, ele não a fodeu como nada e depois fodeu o coração dela. Ele não a
engravidaria e a abandonaria, por exemplo. Não a acusaria de ser uma
assassina após um aborto. Ele não é você. Pare de tentar fazer parecer o
contrário. O monstro aqui sempre foi você.
Derek engoliu em seco, parecendo verdadeiramente atingido após muito
tempo. Depois pigarreou, ajeitou a gravata e se aproximou ainda mais.
Meyers deixou o pano e os gelos, quase derretidos, ao meu lado sobre a
escada. Ele se inclinou com o rosto a centímetros do meu. Quis chutá-lo
entre as pernas, principalmente quando tocou o meu joelho. Mas travei. Só
fitei os olhos castanhos que já amei tanto e vi o meu reflexo por eles. Tudo o
que aparecia neles era uma garota cansada, frágil, furiosa e morrendo de
nojo dele.
— Fiz o que precisava ser feito para te ter de volta.
Sim... Pois é... Ele teve a coragem de dizer isso.
— Não. Não vai acontecer! — garanti, forçando um sorriso. A
proximidade realmente me enjoava. Me arrependo agora. Vomitar em Meyers
teria sido épico.
— Um dia, vai ver que sou tudo o que precisa, princesinha. Porque, se sou
um monstro, você é igual. Se você é um veneno, eu posso ser muito pior.
Somos iguais.
— Pare de usar suas frases de efeito insuportáveis — rosnei baixo. —
Pare de me tocar. — Segurei os seus pulsos e o afastei de mim. — Pare de
se aproximar de mim e de inferir que há a menor chance de eu sentir
qualquer coisa por você, senão desgosto. Você me afastar do Damian não
significa que vou correr para os seus braços, Meyers. — Olhei no fundo dos
seus olhos, garantindo-me de que ele entenderia cada sílaba que rasgava
pela minha boca. — Nunca vai acontecer. Porque posso odiar Damian Bale
por ter me deixado, eu posso odiar qualquer pessoa na porra desse planeta,
mas nunca vou odiar ninguém... mais... do que... você.
Fiz questão de falar devagar antes de empurrá-lo. Meyers piscou algumas
vezes, cambaleando para trás.
— Preciso desenhar? — acrescentei. Vi seus olhos se tornarem marejados
rapidamente, Derek se tornar extremamente desconcertado por ter falhado
em reconquistar e eu soube: eu o teria aos meus joelhos se quisesse. Mas o
desprezava tanto que não queria. Porque ele não me amava. Ele era
obcecado por mim. Eu nunca seria como ele porque eu não era obcecada por
destruir cada um à minha volta. E eu queria distância de Meyers. Quis ainda
mais quando ele tentou me conquistar pela última vez naquela noite:
— Eu amo você, princesinha.
Eu ri, virando um gole da vodka quente e amarga.
— Se quiser, te digo onde enfiar esse amor.
Isso bastou para que Derek assentisse e me deixasse por um momento.
Mas assim como eu, Derek quis beber e afogar todas as suas mágoas por ter
recebido um grande e belo fora. E, assim como Damian, Meyers quis me
ferir de volta.
Então minutos depois de ser deixada sozinha, meu celular piscou mais
uma vez. E ali estava o último post da Poison. Ele dizia duas coisas:
Um: Naomi Carlson também era uma assassina. "Ela matou um bebê". É...
Meyers usou essas palavras. Ele era doente desse jeito.
Dois: Naomi Carlson foi a Poison nos últimos anos. O que, honestamente,
me fez rir. Eu deveria esperar por isso. Claro.
Bem, Damian Bale não poderia dizer que só ele tinha se fodido, não é
mesmo? Agora estávamos quites, olha que lindo! Dois idiotas de corações
partidos e fodidos por conta daquela maldita conta e daquele maldito doente.
Xinguei Meyers por isso. E logo depois xinguei Damian, por me chamar de
egoísta, quando eu claramente terminaria a noite me ferrando tanto quanto
ele. Porque era sempre assim.
Olhei o post por longos segundos, parando de rir. Porque aquele era o
fundo do poço.
Analisei todas as postagens da Poison, indo até a primeira em que ele
aparecia.
Inglesinho. Ou novato. Damian Bale... Bem, eu o chamaria de filho da
puta.
Com isso em mente, deixei o celular de lado, murmurando para que o
mundo se fodesse uma última vez, antes de virar o último gole de vodca da
noite. E, por Deus, eu realmente quis dizer isso.
Cheguei em casa exausto. Tirei a gravata assim que pisei na sala. Ryan e
Katy olharam para mim, ambos confusos. Estavam abraçados no sofá e eu
realmente escolhi ignorar o filme que passava na televisão. Era Cinquenta
Tons de Cinza. Se eu estivesse bem, com certeza riria. Deduzi que Miley
deveria estar dormindo, então.
— O que houve? — Ryan perguntou, preocupado. Dei um ou dois passos
antes de vê-lo se colocar de pé. Balancei a cabeça em negação porque não
queria conversar sobre nada daquilo. — Damian?
— Não quero falar sobre. — Tentei soar firme quanto a isso, mas não
funcionou.
— Achei que traria a Naomi — ele comentou e eu ri.
— Não quero falar sobre isso também.
— A deixou em casa? — Katy perguntou como uma mãe preocupada.
Droga. Deixei Carlson sozinha na escola. Me senti péssimo.
Meus olhos se encheram de água assim que lembrei do olhar dela quando
a deixei. Tentei inspirar fundo, porque o oxigênio nos meus pulmões pareceu
insuficiente. Mas não consegui.
Todo mundo sabia sobre Megan.
Carlson me odiava.
Estávamos terminados.
Era a pior noite do ano.
Ryan se aproximou, incerto. Seu olhar carregado de angústia me quebrou
ainda mais. Eu teria que contar aos meus pais que todo mundo na cidade
sabia sobre Megan Hunter.
Meus lábios tremeram. E quando Ryan ergueu o meu rosto para questionar
pela última vez o que estava acontecendo, eu deitei a testa em seu ombro e
desabei por completo, com soluços e tudo, deixando-o em choque. Eu tinha
prendido aquele choro por muito, muito tempo.
Pensei em Megan, sua boca espumando, seus olhos virados em suas
órbitas, a ambulância... E, logo depois, Naomi Carlson e seus olhos tão
lindos e de repente tão sombrios, seu rosto quando falei que a odiava.
Odiar Naomi Carlson era impossível.
Impossível para cacete.
E, porra, aquilo doía. Aquela ideia de que o amor não era para mim e de
que eu estava me fodendo mais uma vez. De que eu sairia daquela casa e
seria visto como o culpado por ter tirado a vida de uma garota. Megan, todo
mundo sabia sobre Megan.
Lembro de Katy me guiando até o sofá. E que cada palavra que eu dizia,
tentando explicar o que havia acontecido para Ryan, me fazia estremecer. A
cidade parecia muito mais fria do que de fato era. Fazia tudo doer.
Ryan tentou conversar com a minha mãe e Meredith, ao telefone, me pediu
para respirar fundo. E cacete, eu não conseguia.
Megan. Culpado. Naomi. Poison. Assassino. Isso se repetia por minha
mente.
A última vez que me senti tão, tão mal, foi quando Megan morreu e seus
pais não me deixaram ir ao seu enterro. Naquela noite, minha mãe chegou até
a me oferecer um calmante. Eu demorei muito para dormir. Me surpreende
que eu tenha conseguido.
Mas então eu estava ali. Damian Bale. No sofá da sala, estremecendo,
com o coração na garganta e o sangue queimando em fúria e angústia...
Completamente fodido.
Tudo piorou quando me deixaram sozinho. Katy foi buscar outro copo de
água na cozinha, Ryan se afastou para perguntar à minha mãe o que fazer. E
nesse meio tempo, meus dedos trêmulos buscaram o meu celular no bolso da
calça. Porém, não foi a postagem sobre a Megan o que eu vi. Era uma foto da
Naomi com o Derek, juntos. As palavras "aborto" e "Poison" me fizeram
travar. Os segredos dela estavam expostos para todo mundo.
Não, não, não...
Eu tinha dito que seus segredos não estavam jogados para todo mundo ver,
mas nunca desejaria que isso acontecesse, e ali estava, acontecendo.
Desespero me tomou de imediato e eu deixei de lado tudo o que havia
acontecido na festa.
Naomi me disse que não queria se quebrar novamente, e em uma noite ela
teve seu coração estraçalhado novamente. Por Derek e por mim.
A história do aborto não deveria ser divulgada. Aquilo era seu para contar
para quem quisesse e quando quisesse. Meyers havia roubado aquele
direito.
Enviei mensagens para Mike. Katy apareceu com um copo de água e
sugeriu que eu deixasse o celular de lado por um segundo, mas eu esperei
Graham responder. Pelas suas mensagens curtas e constantes, eu sabia que
ele estava ocupado.
Mike: voltamos para o baile.
Mike: Brandon não achou Melissa, ligamos para o irmão dela, ela foi para casa.
Mike: Naomi está bêbada.
Mike: Nada bem. Melhor do que eu imaginava, considerando tudo.
Respirei fundo, passando a mão pelo cabelo. Tentei repetir para mim
mesmo que tudo ficaria bem.
Mike: estou sóbrio e com o carro.
Mike: Vou levar Carlson para casa. Ela vai ficar bem.
Eu: Derek postou sobre ela.
Ryan estava prestes a tomar o celular da minha mão quando Graham
finalmente respondeu:
Mike: Ela vai ficar bem. Cuide de si agora, Bale, por favor.
Não lembro de muita coisa depois disso. Lembro que adormeci no sofá.
Quando acordei, havia um cobertor sobre mim. Era da Barbie. Um desenho
estava sobre a mesa. Miley me fez ao lado dela. A letra no papel, contudo,
era da Katy, e dizia que tudo ficaria bem.
Torci para que ficasse.

O diretor comunicou minha suspensão pelo soco em Meyers. Por sorte,


havia apenas duas provas naquela última semana de aulas e elas seriam no
último dia. No dia da peça. Meus pais combinaram, antes mesmo de saberem
sobre a suspensão, que seria bom se eu ficasse um pouco longe da escola.
Isso incluía ficar longe dos ensaios. Para ser honesto, me surpreenderia se
alguém se importasse com eles depois do baile.
Carlson e eu não conversamos. Miley não perguntava sobre ela, mas eu
sabia que queria. Toda vez que parecia cogitar isso, Katy a lançava um olhar
e minha irmã deixava para lá.
Ryan estava puto. Não com a Naomi. Quer dizer, ele estava confuso com o
lance de Poison, mas não chateado. Ele estava puto com o que o Derek havia
feito. Ele reclamava pela casa que queria esganar aquele garoto, talvez agir
judicialmente. Katy o acalmava sempre que eu o ouvia falar um pouco mais
alto.
Voltei a ser o garoto que se trancava no quarto com sua guitarra. Compus
como nunca. Mike e Brandon me enchiam de mensagens, perguntando como
eu estava. Oliver se prontificou para passar um dia me animando, mas eu
sabia que era aniversário da sua avó e ela tinha vindo de Hong Kong depois
de muito tempo sem vê-lo, então não queria atrapalhar. Eu só os respondi
uma vez. E respondi uma mensagem de Melissa Wayne, realmente não
esperava por isso:
Mel: Apenas checando: tudo bem?
Eu: Vou ficar. Você?
Mel: Idem.
Achei que a conversa pararia aí, mas Wayne continuou:
Mel: Meio que estou em choque, agora que ela me disse tudo.
Claro que tinham conversado. Eram Melissa e Naomi. Batman e Robin,
certo?
Mel: No fundo, eu desconfiava sobre a Poison. Só preferia fingir que não. Mesmo que eu
queira quebrar a sua cara por quebrar o coração da minha garota, ninguém pode julgar as
suas dores. Só... Tenta repensar o que você disse. Pode ter pego meio pesado. Naomi te ama, de
verdade, e é recíproco. Eu sei que é.
Mel: E ainda te quero como cunhado.
Mel: É isso.
Mel: Pronto, falei.
Escolhi ignorar a mensagem. Me incomodou ler cada palavra ali. Mas
Wayne ainda mandou outra:
Mel: Por favor, não me bloqueie por isso.
Precisei rir.
Era uma pena que tivesse terminado com Mike, seja lá qual fosse o
motivo. Wayne era uma boa pessoa. Tanto que, depois que a respondi com
"Sem problemas", ela me perguntou se o ex estava bem. Consegui imaginá-la
triste quando respondi que provavelmente não. A conversa morreu ali.
Infelizmente suas palavras me perseguiram, porque eu sabia que ela estava
certa.
Falei coisas que machucaram a Naomi. Descontei tudo o que sentia nela.
Ela errou sim em não admitir que escolher continuar com a conta incluía
riscos e que esses riscos foderam comigo. Mas isso não justifica como gritei
e... Cacete, Carlson não merecia ouvir nada daquilo. Não merecia ouvir que
nunca me amou, que só pensava em si.
Não era verdade.
E eu sabia disso. Tanto que meus olhos se encheram de lágrimas e o nó
insuportável voltou a tomar minha garganta. Mas eu era orgulhoso demais
para fazer algo a respeito tão cedo, então voltei a compor.

— Eu poderia negar e fugir das consequências, mas estou cansada


disso. Meu nome é Naomi Rose Carlson. E, por cerca de dois anos, talvez
mais ou talvez menos, eu não sei ao certo… Eu fui a Poison.
Foi assim que Naomi iniciou seu pronunciamento no Instagram. Sem
maquiagem, com o rosto inchado, pouco se importando com qualquer coisa
além de ser honesta. O vídeo foi gravado com um celular, de frente para a
sua cama, ela parecia estar sentada no chão.
Algumas pessoas nos comentários diziam que ela estava pagando de boa
moça, eu sabia que não. Naomi Carlson preferia qualquer coisa do que fingir
ser perfeita naquele ponto, e fingir ser boazinha nunca esteve nas suas
prioridades.
— Nunca quis machucar ninguém com a Poison, apenas me fortalecer.
Mas sei que ninguém vai entender ou acreditar nisso — Carlson disse no
vídeo em seu Instagram. — Não postei sobre Damian e obviamente não
divulguei meu aborto, e medidas legais serão tomadas contra Derek
Meyers, porque ele expôs traumas que a Poison jamais divulgaria. Eu
jamais machucaria alguém dessa forma.
Suas olheiras eram visíveis, apesar da maquiagem.
— Estou aqui para pedir perdão porque... Por mais que eu sempre tenha
tentado não ultrapassar certos limites, eu sei bem que ultrapassei alguns
com aquela conta. Como o lance da gonorreia, por exemplo, e eu espero
que Bale saiba que eu sinto muito, mas isso é… — Ela respirou fundo. — É
outra história.
Eu tinha visto aquele vídeo milhares de vezes. Doía mais toda vez. Ela
parecia perdida em seus próprios pensamentos. Carlson não parecia bem.
— Agi como uma vaca por muito tempo e usei a Poison para fins
egoístas, passando por cima de pessoas que eu amava ou aprendi a amar
e... Vou dormir de consciência pesada por… anos, talvez. Talvez para
sempre. Ainda estou tentando superar o que me disseram naquele baile.
Tentando superar que talvez, ter mantido a Poison tenha sido o maior erro
da minha vida. Tenha me feito um monstro. Eu espero que não. Espero que
eu consiga me reerguer disso. E espero que Brightgate me permita evoluir
depois de deixar a Poison para trás.
Eu sabia que engolia o choro, que aquela firmeza era fingida.
— Mas não estou aqui para me justificar para quem quer que seja por
ter tirado um bebê. Vocês têm todo o direito de me odiarem pela Poison,
mas nunca vão ter o direito de julgar o que eu sofri e o que fiz com meu
próprio corpo. Não cabe a vocês. Também não cabe a vocês julgar Damian
Bale por algo que ele não fez, ele jamais machucaria alguém. Mas sei que,
no fim do dia, Brightgate vai nos tratar como monstros que não somos.
Então, de novo: estou aqui pedindo perdão porque amadureci esse ano,
através da dor. O pior jeito possível, um que não desejo para ninguém. Um
que ninguém deveria ter que passar para crescer, porque com tantos
caminhos possíveis para evoluir, o sofrimento não é a melhor forma.
Nunca vai ser. Para nenhum ser humano. De qualquer modo, eu sei que
magoei muita gente. Mas espero que saibam que vou pedir perdão a cada
um que machuquei para sempre, mas nunca vou perdoar qualquer pessoa
que me julgue pelo que eu sofri e que concorde com a exposição que meu
ex criou. E espero que saibam que o karma também não perdoa e que isso
não é justo.
Naomi suspirou, as lágrimas finalmente escorrendo pelo seu rosto.
— Não vou tolerar que me chamem de assassina. Não vou abaixar a
cabeça para isso. E se Meyers está vendo essa mensagem, eu quero que se
lembre da minha promessa: torça para me deixarem em paz e resolva essa
porra. Porque se eu for para o inferno, realmente vou te arrastar comigo.
Ela apagou o post, mas era tarde demais. Quando Naomi passou pelo
corredor da escola, no último dia de aula — com um rabo de cavalo alto, seu
uniforme impecável e Wayne logo ao seu lado —, todo mundo já tinha aquele
vídeo no celular. Ele foi repostado por várias contas da cidade.
Mel e Naomi tinham as mãos dadas e os queixos erguidos, mesmo com os
burburinhos que as seguiam. Meu corpo estava contra os armários, enquanto
Mike buscava o seu resumo de inglês. Eu não precisava observá-lo para
saber que sofria. Wayne também mal o olhou.
Oliver checava como eu estava ocasionalmente, mas Brandon não falou
com a gente até a tarde depois da prova. Eu sabia que, entre mim e Carlson,
ele ficaria mais próximo de Carlson. Mas foi bom saber que me apoiaria e
estaria ali por mim de algum jeito.
Fingir que Naomi não existia era exaustivo. Eu não queria fazer aquela
maldita peça, mas era a última coisa que faltava para completar a minha nota
de literatura. Era importante. O problema seria interagir com Naomi, tocá-la
e fingir ser um casal com ela... Porra, aquilo seria um inferno.
— Não tem um substituto? — Ryan questionou do sofá. Miley e Katy
brincavam ao chão, com um quebra-cabeça de princesas. A minha irmã
evitava olhar para mim. Eu sabia em quem ela estava pensando.
— A não ser que haja um atestado médico ou alguém morrendo, o
professor não vai me deixar faltar — respondi.
— Então para que serve o substituto?
— Não sei, esse professor é louco — eu disse e Ryan riu. Afundei as
costas no sofá, nervoso. O meu pai percebeu.
— Se sente melhor? — ele perguntou baixo. Dei de ombros e isso o fez
suspirar. Eu não estava mais transtornado como na noite do baile, mas estava
sofrendo.
Conseguia ver Naomi em todo lugar. Lembrava de quando eu saía do
banho e ela estava jogada na minha cama, no celular, completamente
preguiçosa. Ela gargalhava sempre que eu me jogava sobre ela, a pegando de
surpresa. Eu fazia isso só para pirraçar. Ela retribuía beliscando a minha
bunda.
Senti falta de quando ela insistia em abrir um livro de uma matéria
qualquer e me explicar um assunto. Às vezes eu entendia completamente o
que ela queria dizer, mas Naomi parecia tão linda colocando toda aquela
inteligência para fora, que eu fingia que não compreendia nada, só para
admirá-la.
"Eu odeio você de volta".
Eu ouvi. Foi quase em um sopro doloroso, mas eu ouvi. E me machucou,
mas... mereci isso.
Eu queria sentir raiva. Eu queria lembrar do motivo pelo qual brigamos e
sentir fúria, mas eu sentia dor. Muita. Como se me esmagassem sem piedade.
— O que me disse que falou para ela — Ryan começou. Ele sabia que
aquele era um assunto delicado, um território perigoso. Principalmente
porque não tínhamos uma relação sólida ainda. Mas continuou como se
precisasse dizer isso para dormir tranquilamente: — Deve ter sido bem
difícil de ouvir, Damian. E sei que teve motivos para isso, realmente
entendo, porra... Provavelmente teria feito o mesmo no seu lugar.
— Teria? — perguntei, a voz mal me escapando.
— Com certeza. Só que eu teria pedido desculpas, talvez no dia seguinte.
Porque... — Ryan respirou fundo e se mexeu sobre o sofá, inquieto. Parecia
buscar as palavras certas. Meu pai não costumava ser tão bom em me dar
conselhos. Ele demorou para voltar a ser o meu pai, de fato. Ainda haviam
algumas barreiras entre nós. Mesmo assim eu o deixei falar. — No momento
da raiva, falamos coisas que sentimos, mas não exatamente deveríamos
sentir. Coisas que a fúria nos induz a ter no peito. E quando a fúria se vai,
essas sensações partem e você percebe que descontar a raiva em alguém não
foi o caminho certo. É como sua mãe diz, "fazemos uma..."
— "Tempestade num copo d'água" — completei. Ele assentiu.
— Você ama a Naomi, filho. E... Caramba, aquela garota te olhava e eu
conseguia ver amor brilhando nos olhos dela. Era como olhar diretamente
para o sol. Ela nunca, nunca deixou de se preocupar com você. Sei disso
porque ela enchia a Katy de mensagens quando vocês brigavam. Perguntava
sobre você, sobre a Miley. Até sobre mim, Damian. A sua garota queria que
todos nós estivéssemos bem, porque nós estávamos contigo. O amor que vi
em vocês dois... É o amor que eu e sua mãe falhamos em sustentar. Talvez
porque não éramos tão amigos quanto você e Carlson são. E pode me odiar
por dizer isso — Ryan fez uma pausa, coçando a barba por fazer —, mas é
exatamente porque são amigos antes de namorados que precisa pedir
desculpas. Porque ela errou contigo, mas você também não foi justo.
Machucá-la de volta não era uma boa defesa.
Uau.
Fiz um esforço do cacete para não chorar. Ouvir Ryan dizer aquilo foi
como um soco, porque eu sabia que era verdade. Foi ainda mais doloroso
quando ele acrescentou:
— Você tem um defeito que me preocupa. E isso é: nunca aprendeu a
lidar com a sua raiva. Você tenta, mas às vezes ela te extrapola e o jeito que
encontra de lidar com ela é descontando em outra pessoa. Eu sei bem disso.
E eu mereci, até porque tenho culpa. Sua raiva começou quando...
Ele não terminou a frase. Cacete, eu agradeci por isso. Ryan só suspirou
e deixou para lá. Porque minha raiva, toda aquela fúria, começou quando ele
foi embora. Na minha infância, eu tinha o cara como um herói, até que deixou
de ser presente.
Só que eu não o culparia por isso. Não mais. Porque ele estava tentando
me recompensar pelo tempo perdido e não tinha culpa das decisões que eu
tomei enquanto crescia.
— Não pense muito nisso — pedi. — O passado é passado.
Ryan olhou para mim e piscou algumas vezes. O alarme do meu celular
tocou e eu xinguei. Era hora de me arrumar para a maldita peça.
— Estou indo, pai. Vejo você no teatro.
Toquei o seu joelho e o deixei. Vi um espanto estranho tomar o rosto de
Ryan e só entendi quando cheguei ao andar de cima e ouvi a voz dele, para
Katy, em êxtase:
— Ele me chamou de pai?!
Percebi que era a primeira vez que dizia aquilo sem qualquer ironia,
diretamente para ele. Fiz a nota mental de dizer isso mais vezes.

Naomi chegou na coxia do teatro com Melissa em seu encalço. Carlson


tinha os cabelos soltos bem arrumados em ondas, uma blusa branca e calças
jeans justas. O professor indicou o seu figurino e avisou que estava atrasada.
Claro que estava. Era Naomi Carlson. Ela jogou sua bolsa em qualquer
canto e sumiu para o vestiário.
Tenso, me perguntei se tinha feito certo em faltar aos ensaios da semana.
Não sabia se conseguiria me lembrar das falas e dizê-las olhando para
Naomi.
Carlson voltou com um vestido vermelho que parecia ser de seda, de
alças finas que ia até a altura dos joelhos. Ousado, mas não o suficiente para
que pais quisessem queimar a escola por promiscuidade.
Meu coração vacilou, porque ela estava deslumbrante. Mas não sorria. A
morena estava claramente nervosa e aquele era um dos momentos em que nos
acalmaríamos juntos, se pudéssemos.
A voz de Ryan me atingiu novamente. "Nunca aprendeu a lidar com a sua
raiva" e "O jeito que encontra de lidar com ela é descontando em outra
pessoa". Ali estava a minha última vítima, com os ombros tensos e o olhar
perdido, mesmo após a sua amiga surpreendê-la com um abraço por trás.
Oliver e Brandon chegaram depois, o primeiro trouxe rosas para Carlson.
Me perdi no sorriso de Naomi. Ele não era de felicidade. Me perdi ainda
mais nos olhos brilhantes pela dor., principalmente quando encontraram os
meus.
"Se sair por aquela porta, eu vou chorar...", lembrei do que me disse.
"Mas eu vou superar você."
Eu não queria que isso acontecesse.

— "Você disse que me amava" — recitei a fala, ainda na coxia. O grupo


de roteiro queria garantir que nos lembrávamos desse diálogo, porque o meu
substituto insuportável cismou que eu não estava pronto. — "Eu me pergunto
se…"
Então ali estava, Naomi Carlson vestindo a máscara de Satine
perfeitamente. Lutei para ser o Christian. Porque se fossemos Naomi e
Damian ali, eu cairia.
— "Se foi apenas um ato?" — perguntou, seu queixo erguido com firmeza.
Satine. Ela é a Satine. Esqueça a Naomi. É uma peça.
— "Sim" — quase sussurrei. O professor pigarreou chamando a minha
atenção e sibilou "Mais alto". O ignorei, focado na Naomi.
Ela inspirou fundo, soltou o ar e deu de ombros.
— "Claro" — ela respondeu. Meu coração doeu. Repeti para mim mesmo
que era só uma peça.
— "Parecia real" — minha voz quase vacilou e eu soube que Carlson
tinha percebido, simplesmente soube.
— "Christian, eu sou paga para fazer os homens acreditarem no que
querem crer."
Eu realmente quis não lembrar da minha fala seguinte.
— "Bobagem minha... Pensar que você poderia se apaixonar por alguém
como eu."
Carlson riu nasalado e eu soube que era ela ali. Porque aquilo era,
certamente, muito irônico.
— "Não posso me apaixonar por ninguém" — o sarcasmo lhe transbordou
e eu desviei o olhar, encontrando Melissa Wayne e sua feição preocupada.
Um celular tocou e o professor ralhou em alto e bom tom que não aceitaria
que aquilo acontecesse durante a peça.
— Chega — Mike sussurrou, mas eu continuei:
— "Uma vida sem amor seria terrível".
Naomi pulou algumas falas, praticamente cuspindo uma das linhas:
— "O amor é apenas um jogo". O celular é meu, desculpa! — Ela me deu
as costas e caminhou para uma das bolsas, atendendo a chamada, baixinho.
Levei as mãos ao rosto, pedindo um momento para ir ao banheiro e me
acalmar quando vi Wayne e Brandon andarem até Carlson, perguntando o que
estava havendo.
Quando voltei, busquei por Mike e não o achei. Procurei Naomi e não a
vi. Ollie parou ao meu lado.
— Brandon pediu pro Mike levar a Naomi pro hospital — Zhang disse e
meu coração disparou. — O pai dela foi internado, cara.
Alguns minutos se passaram e eu me senti sufocado, a minha cabeça não
estava ali. Até que percebi o que precisava fazer. Peguei o celular e comecei
a pedir um uber, andando até o professor.
— Não posso fazer essa peça — anunciei.
— Damian Bale... — ele começou.
— Naomi precisa de mim, você tem um substituto. Coloque-o no palco ou
atue você mesmo. — Passei por Melissa e ela soube o que me dizer só pelo
meu olhar.
— Hospital St. Claire — Wayne disse. — Fica no mesmo bairro que ela
mora.
Agradeci sem pensar. Disparei para fora do teatro, odiando cada segundo
que o carro demorou para chegar até mim. Odiando cada segundo que levou
para chegar até a porra do hospital.
A ideia de que Naomi deveria estar ansiosa e assustada me destruía. De
repente, briga alguma era minha preocupação e tudo se resumia a ela: a
garantir que Naomi estivesse bem, que não se sentisse sozinha. Então eu não
pensava em mais nada. Eu não pensava em seguir com qualquer discussão,
eu não pensava no baile, e assim foi quando adentrei o lugar, a passos
firmes, entregando o nome do pai de Carlson na recepção. Até que percebi
que isso nem era preciso. Ela estava no corredor, ali perto.
Mike estava na parede oposta a ela. Foi ele quem me viu primeiro,
ficando imediatamente perplexo. Só depois vi que eu ainda estava com a
blusa social e as calças marrons escuras. Esqueci de deixar o figurino no
teatro. Praguejei. E isso fez Carlson me ver também.
Seu nariz estava vermelho como suas bochechas. Ela estava chorando por
alguém que não a merecia e vê-la assim me fez perceber que... Caralho, ela
precisava de mim. E eu a amava. Essas eram as únicas duas coisas que me
importavam. Eu entregaria tudo para não vê-la daquele jeito.
O lance de "logo depois de mim, está você" era completamente real, mas
eu juro que senti que daria a vida por um fio de felicidade em Naomi
Carlson naquele instante. Eu daria a minha alma por um sorriso seu, alguma
piada sarcástica e um revirar de olhos.
Percebi o tamanho da merda que havia feito. Todas as merdas que tinha
dito. É em momentos assim, não? Em momentos que um desastre acontece —
conosco ou com quem amamos —, que repensamos todas as atitudes das
nossas vidas.
Me aproximei, hesitante. Meu melhor amigo olhou para a minha garota,
mas ela não disse nada.
— Ele teve uma crise cardiorrespiratória — Mike contou. — Não
sabemos se é algo relacionado à leucemia, mas o câncer definitivamente não
ajuda. — Se Mike não sabia sobre a doença de Vincent, Naomi o contou.
A morena olhou para um ponto fixo no teto. Acenei para trás com a cabeça
e Mike entendeu. Era um "por favor, cai fora". Ele nos deixou.
Fiquei parado ao meio do corredor gelado. Ninguém passava por ele, por
nós dois. O silêncio era absurdo. A recepção, onde eu estivera antes, estava
com algumas pessoas esperando para serem atendidas ou por notícias de
entes queridos. Eu não tinha percebido nem um ser ali até aquele segundo,
porque tudo em que pensei, correndo até o hospital, era Naomi Carlson.
Analisei as paredes brancas, as várias portas-duplas cinzas, o elevador do
outro lado.
— Não lhe deixaram entrar?
— Ele está sendo examinado — ela foi rápida em responder. —
Conseguiram fazer a massagem cardíaca a tempo, o entubaram pelo que
entendi... Madison falou muito rápido. Estão aqui no primeiro piso. —
Carlson acenou com a cabeça para uma das portas duplas com uma placa de
"emergência", depois acenou para mim com o celular. — Estou esperando
para saber onde exatamente.
Fiquei em silêncio.
— Não deveria ter vindo — ela disse. O que doeu para caramba.
— Eu não poderia deixar você.
— Deveria. — Isso doeu ainda mais. — Já me deixou naquele baile,
Damian. Aquele foi o ponto final. Não precisava vir.
— Mas eu quis.
— Por quê?
— Naomi... — Seu nome, pela minha boca, foi uma súplica por
misericórdia. Para que ela não fizesse como eu tinha feito naquele baile. A
inversão de papéis me fez perceber como fui idiota. — Eu...
Fechei os olhos por um instante ao me aproximar. Contra a parede,
Carlson não moveu um músculo, nem se desfez da feição extremamente tensa.
— O baile... Não agi como sou, isso não importa agora. — Carlson riu. O
tipo de risada que escapou por um fio, mas transbordava em ironia.
— Não importa? Me chamar de egoísta, inferir que fui falsa e forjei
sentimentos, gritar comigo e me humilhar terminando comigo na frente da
escola inteira... Isso não importa?
— Sweetheart...
— Não. Não venha com "sweetheart" para cima de mim! — Ela apontou
contra o meu peito. Olhei ao redor. Falávamos baixo, mas uma ou duas
pessoas na sala de espera viraram o rosto para nós. — Não venha dizer que
aquilo não foi nada, Bale!
— Ok, fodi tudo, tá legal? Mas eu estava... Estava puto! O lance da
Megan... Você não pedir desculpas...
Carlson se afastou, caminhando pelo corredor. A segui até que se virou,
de braços cruzados.
— Eu estava em choque, Damian. Tudo o que conseguia repetir era "não
fui eu". Te magoou, certo? Que não admiti que estava errada, que calculei
errado as minhas escolhas... Isso te feriu. Então perdão, me desculpe. E sim,
eu errei em não te dizer naquele exato momento. Mas isso não justifica o que
você berrou para mim naquela escola.
Eu não tinha o que dizer. A vi fungar, tentar conter as lágrimas.
— E sei que pedir desculpas por isso não basta — ela continuou —, então
estou repetindo: perdão. Provavelmente isso também não vai bastar, porque
o que aconteceu foi fodido para cacete, não é? Mas pelo menos estou
fazendo isso de coração e você sabe muito bem que eu faria isso mais cedo
ou mais tarde, Damie, eu nunca faria nada para te machucar. Mas por que
estou dizendo isso? Não adianta de nada! Porque você vai achar que estou
fingindo!
Fechei os olhos. Mereci ouvir isso. Ela estava certa. Ela errou comigo,
mas a magoei de volta apenas porque estava ferido. Quebrei o seu coração
quando me implorou tantas vezes para que não fizesse isso.
— Maldito seja o dia em que te vi entrar naquela escola — ela seguiu. E
cacete, eu quis sumir. Minha visão se tornou embaçada e não consegui mais
olhá-la nos olhos. — Maldita a hora que eu olhei nos seus olhos pela
primeira vez. Porque amaria não te ter percebido! Só para que, quando você
tivesse gritado que eu nunca tinha te visto, isso fosse verdade e não doesse.
Mas eu sempre te percebi, Damian. Desde o primeiro segundo. E eu te amei
tanto... Tanto...
O verbo no passado foi como uma facada bem ao centro do peito.
— E ainda te amo — ela confessou. Cometi o erro de erguer os olhos para
ela e ver que ela não chorava, mas claramente lutava contra isso. Fiz questão
de lutar também. — Queria muito odiar você como você me odeia...
— Carlson, não te odeio...
— Mas eu odeio amar você.
Era a sua vez de decretar o fim. Ela me pedia perdão, com toda a sua
alma, deixando claro que se arrependia. Mas não adiantaria se eu fizesse o
mesmo.
Eu estava perdendo Naomi Carlson naquele exato momento. Naquele
hospital cinzento e gélido.
— Não sei se acordou para a vida agora ou antes disso — ela disse. —
Não sei se pensou que, por eu estar fraca e vulnerável, eu precisaria justo de
você. Porque eu não quero mais precisar de você, Damian. Honestamente, te
desejo o melhor, mas para mim basta! Foi lindo enquanto durou, foi muito
bom, mas não vale toda essa dor. Essa... Essa fúria — ela rosnou a palavra.
— Esse ódio que sinto de mim mesma por amar você.
— Sweetheart, você não quer dizer isso... — Eu sabia que era a sua raiva
falando. Mas Naomi apenas riu, como se pensasse numa piada incrível.
— Então talvez eu tenha aprendido a dizer coisas que "não quero" com
você, sweetheart — e após praticamente rosnar a última palavra, ela
acrescentou: — Estou me esforçando para olhar na sua cara. — Eu queria
gritar, gritar para que parasse, implorar que me ouvisse. Mas eu não poderia
fazer aquilo ali. Seu celular apitou e ela leu alguma mensagem. Abri a boca
para dizer qualquer coisa, mas Carlson me lançou um último olhar carregado
de rancor. — Então, por favor, facilite as coisas para nós dois e fique longe
de mim.
Naomi deu as costas e sumiu por uma das portas.
Permaneci ali, naquele corredor frio, estático.
Perdi a luta contra as lágrimas, chorando silenciosamente enquanto as
palavras de Carlson se repetiam em minha mente.
"Fique longe de mim".
Porra...
Naomi Carlson foi a melhor coisa que me aconteceu. Logo depois de mim,
estava ela. Por todo o lugar. Por toda a minha alma, infiltrada no meu
sangue, no meu coração, se espalhando por todo o meu corpo e mente. E eu
pensei que teria que aprender a viver num novo mundo em que ela não
estaria mais em lugar algum.
Era o segundo dia de internação do meu pai. Entreguei o copo de café
para a Madison. Ela estava exausta, com os fios loiros e desgrenhados em
um coque mal feito. Eu não estava muito melhor.
— Não vai entrar para vê-lo hoje? — perguntou. Dei de ombros.
— Se ele quiser... — Nós duas sabíamos que Vincent não iria querer.
Segui minha irmã até que ela se sentasse em uma das cadeiras de uma sala de
espera. Apoiei as costas na parede, bem ao seu lado. — Se tudo der errado e
o papai morrer... Não sei mais se quero ir para Sydney. Mesmo se eu for
aceita pra cursar Design de Moda. A mamãe...
— A mamãe me tem também, irmã. E você pode vir nos fins de semana,
Brightgate fica a o quê? Duas horas de Sydney? Não é tão longe. — Ela
bebericou o café e eu bufei. — Não quero que sabote seu futuro novamente
por nossa família, pensei que tinha passado disso.
— Não estou sabotando. Mas eu poderia ir para a Universidade de
Brightgate. Seria...
— Burrice. Você quer moda e é uma área complicada, uma que exigirá
tudo e um pouco mais. Você precisa do melhor currículo acadêmico e sabe
disso. Se for aceita apenas em Brightgate é uma coisa. Se conseguir algo
melhor, corra atrás do seu sonho. Não me faça chutar a sua bunda no meio
desse hospital, Naomi Carlson.
Suspirei, exausta. Eu queria um banho. E uma boa noite de sono. Em casa,
na cama.
— Pelo menos, se chutar a minha bunda, podem cuidar de mim aqui
dentro.
Madison riu e isso me fez sorrir. Aquela era a sua primeira demonstração
genuína de felicidade do dia.
— Babaca — ela falou, escondendo o sorriso atrás do copinho de café.
Bati os quadris no seu ombro levemente.
— É de família — provoquei. Madison girou o corpo, fingindo que
chutaria os meus joelhos. Me afastei em reflexo, rindo.
Um enfermeiro e uma médica passaram por nós, nos olhando estranho e
pedindo por silêncio. Envergonhadas, engolimos os risos. Não éramos
crianças para recebermos bronca por aquele tipo de comportamento.
Meu celular vibrou no meu bolso e eu praguejei. Avisei para Maddie que
atenderia e me afastei alguns passos.
— Naomi Carlson — atendi, baixo.
— Acho que liguei errado. Estava procurando a Anna da minha Elsa! —
Apoiei-me na parede e colei a cabeça contra ela ao ouvir a voz da pequena
Bale.
— Acho que ligou certo, então. — Sorri. — Como está, meu amor?
— Estou com saudades.
Miley, sempre tão direta.
— Também. Prometo que assim que nos vermos, eu vou te encher de
beijos. Como o pessoal está por aí? — Eu realmente não queria perguntar
sobre Damian, mas... Me pareceu educado.
— Bem — sua voz soou distante e triste. Me angustiou um pouco. —
Quero te ver! Não esqueceu de mim, não é?
— Claro que não! — Suspirei. — É que o meu papai está doente. E a
minha mãe está cuidando dele. Mas isso deixa ela bem triste, sabe? Então
alguém tem que cuidar do coraçãozinho dela. Eu e minha irmã precisamos
ajudá-la a se sentir melhor, por isso estou meio ocupada ultimamente. Você
me entende, não é?
Esperei por algum tempo.
— Eu sei disso, espero que seu papai melhore — ela disse. E, bem, eu
não explicaria para uma criança que Vincent não era exatamente o tipo de
cara que merecia aquela meiguice toda. Até porque, por incrível que pareça,
eu também esperava. — Só que não sou boba. Você e o Damie estão
brigados! Não vai se afastar de mim, vai?
— Miley! — ouvi Katy ao fundo.
— Oooooi, Katy — exagerei na saudação, tentando fingir que estava bem.
Eu deveria imaginar que ela vistoriava Miley e sua língua afiada.
— Ooooi, Naomi — a madrasta de Bale respondeu. Senti saudades das
duas Bales. — Como está o seu pai?
— Ah... Você sabe... — Suspirei e isso foi resposta o suficiente. Ele
estava tão debilitado que... Honestamente, eu não o imaginava saindo dessa.
— Então... Verei vocês na formatura, certo?
Houve um silêncio estranho. Miley bufou do outro lado. Katy sussurrou
para que ela ficasse quieta.
— Vai para a formatura? — a mais velha perguntou.
— Melissa e a mãe dela me convenceram. Na verdade, elas conversaram
com a minha mãe e a minha mãe disse que eu precisava dessa distração.
Estou evitando pensar sobre, sabe? Posso acabar voltando atrás. Mas pelo
menos vou poder ver vocês. E o Ryan! Irão, certo? — perguntei, estranhando
a angústia que senti.
— Sim, claro! Mal posso esperar para ver você.
— Promete?
Katy demorou em responder.
— Prometo.
Mamãe saiu do quarto do meu pai e Maddie se levantou, dizendo que Lia
precisava comer alguma coisa. Era a minha hora de exercer o papel de filha.
— Preciso desligar. Beijos — falei.
— Beijos, amo você — Katy disse. Foi a primeira vez que ouvi aquilo
dela. Meu coração se aqueceu e eu sorri, genuinamente.
— Eu amo mais! — Miley gritou e eu ri. Porra, aquela garotinha era o
meu mundo.
— Amo vocês também.
Desliguei a chamada, me sentindo minimamente mais leve, então toquei a
cintura da minha mãe, me oferecendo para levá-la para comer alguma coisa.

Meu pai tossiu e pediu por água. Eu estava quase dormindo na poltrona do
quarto frio, mas me levantei, andando até a bancada do outro lado do
cômodo. Enchi um copo e levei até ele.
Quatro dias ali, apenas. Ele estava um pouco melhor. Ao menos por ora.
Vincent franziu o cenho ao me identificar e eu ajeitei seu travesseiro atrás
do corpo. Ele estava levemente sentado, então era possível que bebesse
água. Haviam tubos finos e verdes em seu nariz, o que o ajudava a respirar
um pouquinho melhor.
O grande e imponente Vincent Carlson, dono de uma das empresas de
carros mais conhecida da cidade, do estado; famoso pelos clássicos veículos
potentes dos Carlsons, desejo de qualquer um de Brightgate. Um negócio
sempre tão perfeitamente administrado por um pai tão rígido e bondoso,
presente em todas as festas de caridade... Que agora estava ali, fraco. Sem
conseguir beber água sozinho.
O que seus sócios diriam disso? Eles sabiam, certo? Onde estavam eles?
Não eram seus amigos?
— Vá com calma — falei, baixinho, aproximando o copo da sua boca. Ele
ergueu a cabeça levemente e eu cerrei os olhos involuntariamente, porque
tinha medo que se engasgasse ou sei lá. Ele voltou a colar as costas na cama
logo depois.
— Mais — ordenou quase inaudível. Não obedeci. Seus lábios estavam
secos novamente.
— Não sei quanta água pode beber. — Seu olhar pareceu dizer "Está
brincando?". Arqueei uma sobrancelha e continuei firme. Ele bufou,
desistindo de me contestar. Não é como se pudesse. — São dezessete horas,
caso esteja se perguntando. Está escurecendo lá fora. Mamãe e Maddie
foram em casa rapidinho e já voltam. Está preso comigo.
— Ótimo.
— Pois é, quem diria? — ironizei. — Está confortável? — Ele se recusou
a responder. Não insisti em perguntar mais. — Melhorou bastante hoje, está
até falando, sem sedação. Enfim... Vou sentar ali. Se precisar, avisa de algum
modo. Tosse, sei lá. — Meu humor ácido era tudo o que tinha me restado
naquela semana. Voltei a me sentar sobre a poltrona.
— Por que está aqui? — sua pergunta foi arrastada. Ele lutou por cada
palavra.
Por que eu estava ali?
Eu queria dizer que estava ali pela minha mãe e pela minha irmã. Que
jamais seria como ele. Que tinha seu DNA, mas não tinha seu coração e
muito menos sua maldade. Quer dizer, nunca fui um exemplo de ser humano,
mas eu nunca seria horrível como Vincent Carlson.
Eu até desejei dizer que queria que ficasse bem para me ver entrar numa
universidade em Sydney, para Design de Moda, mesmo contra a vontade
dele. Para que eu fosse uma profissional tão, tão boa — a melhor —, que ele
me exibiria como um troféu e eu teria o prazer de dizer que nenhuma
conquista havia sido por causa dele. Que, na verdade, ele nunca me apoiou.
Mas que o provei ser boa da mesma forma.
Mas tudo isso seria uma meia verdade.
Meus olhos arderam. Porque eu não diria a verdade completa. Não
mesmo. Porque, mesmo numa maca, eu temi que ele me destruiria.
Eu não diria que estava ali porque ainda o amava. Eu não poderia dizer
que não desejava a sua morte e que uma grande parte idiota de mim torcia
para que ele magicamente se tornasse um pai de verdade. Eu não poderia
dizer que estava ali porque mamãe e Maddie sofriam pelo estado dele,
mesmo cansadas como eu por amar alguém que não as merecia, e eu as
compreendia e preferia que descansassem desse peso só um pouco. Eu não
podia dizer que estava triste porque ele estava doente, mesmo que a maioria
das pessoas no meu lugar pudessem se sentir aliviadas — e, porra, eu as
compreenderia por isso.
Então apenas dei de ombros e me agarrei ao cobertor que joguei sobre
meu corpo.
Me limitei em dizer uma única frase e Vincent que se contentasse com ela:
— Ótima pergunta.
Se eu soubesse o que viria nos próximos dias, teria dito mais coisas.

Virei um gole do líquido quente. Gin. Me fez grunhir. Mel riu e eu passei a
garrafa para ela sobre a cama. Sua mãe jantava com uma amiga, seu pai
estava viajando e seu irmão nos contrabandeou a bebida para nossa noite das
garotas ficar completa. Com as máscaras de argila em nossos rostos,
assistíamos ao segundo filme de Ryan Gosling na televisão.
— Amanhã diremos adeus ao Colégio Brightgate para sempre — recordei,
me checando em frente ao espelho do seu quarto. A minha língua embolava
um pouco. — Finalmente!
A formatura era no dia seguinte. Eu tinha ido para a psicóloga mais cedo e
depois segui para a casa da Mel, onde ficaria pelos próximos dois dias. Era
o que nossas mães tinham concordado para que eu "me distraísse um pouco
de tantos problemas".
— Ugh, bizarro. Esperamos por isso desde o início do ensino médio e
ainda assim... Parece que não esperávamos que isso, de fato, acontecesse.
Eu quase ri.
— Bem, do jeito que as coisas acontecem por aqui, capaz de cair um
cometa na cidade amanhã e essa formatura não acontecer. Talvez Derek o
arremesse.
— Pelo menos ele não vai ter a conta da Poison para noticiar o cometa —
ela brincou e eu ri. Não sei se foi o advogado da minha família ou as líderes
de torcida que convenceram a escola inteira a denunciar a conta da Poison,
mas o post sobre o aborto e sobre a Megan foram derrubados. E logo depois,
a Poison por inteira. Não tinha voltado.
Damian estava certo, sabe? Eu não precisava daquela maldita conta. Mas
isso era algo que eu evitava pensar, ou seria atingida por um sentimento
sufocante de culpa.
— Mesmo se a Poison ainda existisse, Derek não a usaria para noticiar
um desastre como esse — falei. — Ele amaria ver Brightgate ser pega de
surpresa e queimar. Provavelmente assaria marshmellows nas chamas. E se
eu sobrevivesse, enfiaria os espetos bem no...
— Naomi Carlson! — Melissa explodiu em risadas. — Ugh, pare de fazer
piadas com as nossas desgraças. — Wayne ergueu a cabeça ao máximo e
fechou os olhos, respirando fundo. — Ok, realmente consigo imaginar Mike
rezando para esse cometa cair na minha cabeça... — Ela gemeu, frustrada.
— Seria compreensível. Qual é?! O cara se declara e você diz que é
"melhor parar por ali"? E depois do ato, Wayne! Eu imagino o pau de
Graham retrocedendo de vergonha... — Peguei o controle da televisão sobre
a bancada. Melissa me xingou quando fiz o filme votar algumas cenas,
combinando com o que eu estava narrando. — E o grande Mike se
escondendo dentro da toca.
— Pare com isso! — Ela queria rir, eu sabia. Aproximei-me de Wayne,
pegando a garrafa em sua mão. Ergui o seu queixo com um dedo. — Ele deve
me odiar agora.
Ela se sentia mal, era visível. Segundo Wayne, quando Graham disse as
três palavrinhas, ela sentiu algo extremamente forte e apavorante. Pensou que
tinha inseguranças demais nas costas e Mike merecia mais. Não era o
momento dos dois. Mas talvez pudesse ter esperado o baile acabar, certo?
Melissa se jogou sobre a cama, fechou os olhos e respirou fundo com
força. Relacionamentos são complicados. Mike esteve ali, se entregando
para ela. Wayne terminou tudo. Nem eu entendia por completo, e eu a
conhecia desde sempre. Graham tinha todo o direito de se sentir enganado,
porque... Bem, eles estavam grudados nas últimas semanas. Todo mundo
achava que dariam certo.
— Não quero falar sobre isso — ela disse, finalmente.
Grunhi ao rolar os olhos e deixar a garrafa sobre uma mesa do quarto.
— Então é isso — falei, me jogando sobre a cama de Wayne. — O clube
dos corações partidos! — Fingi uma empolgação. — Duas integrantes.
Ficamos em silêncio por alguns instantes.
— Ou quatro, se parar para pensar — acrescentei. A piada foi pesada,
mas percebi que Mel mordia um sorriso como eu. Acabamos por rir. Xinguei
quando a máscara de argila fez o meu rosto doer. Estava secando. Eu
precisava tirá-la.
— Inferno, Carlson, tem que fazer piada com isso? — Ela secou as
lágrimas, rindo. Eu tentei parar, respirando fundo. Bem, melhor rir do que
chorar.
— Agora seremos Batman e Robin contra o mundo, aparentemente.
Mel olhou para mim e eu a analisei de volta. Seus dedos encontraram os
meus e ela arqueou uma sobrancelha.
— Sempre foi assim, não?
Eu sorri, assentindo. Wayne se aproximou e acomodou a cabeça na curva
do meu pescoço. Acariciei a sua mão, observando o teto, como se ele
subitamente fosse se transformar num céu estrelado ou qualquer coisa
maravilhosa de se assistir.
— Vamos fazer uma promessa, sim? — falei baixo. Melissa me observou
e eu me virei para ela. — Independentemente de quão promissor ou
esmagador o futuro for, isso aqui... — apontei para ela e para mim — isso
aqui precisa ser protegido com unhas e dentes. Sempre. Nada de "eterno
enquanto durar", apenas... eterno. Sem quaisquer chances de fim.
— É uma promessa e tanto.
— Uma que duas irmãs conseguem cumprir — garanti. Mel sorriu. — Eu
não consigo me ver sem você, Melissa Wayne. E você? — Ergui o mindinho.
Mel fingiu pensar por um segundo, batendo o indicador contra o meu dedo.
— Oh... Por Deus, quão entediante seria a minha vida sem Naomi Carlson
para me tirar do sério?
Eu ri. Unimos os mindinhos. A tristeza no meu coração não foi embora, eu
sabia que no seu também não. Éramos duas garotas de corações partidos por
nossas escolhas um tanto quanto duvidosas, mas eu sabia que ficaríamos
bem. Desde que tivéssemos uma a outra.
Batman e Robin contra o mundo.
Apesar de que, naqueles momentos, parecíamos mais as filhas do Shrek.
Morri de rir com esse pensamento, bêbada, e Wayne olhou para mim como
se eu fosse doida, gargalhando pela minha risada.
— Você é louca — ela disse, tentando parar de rir.
— Melhor rir do que chorar, Wayne — comentei, sem ar. — Melhor rir do
que chorar...

Eu dividia a cama com Wayne, que dormia. Minha cabeça estava para o
lado oposto à cabeceira, meus pés sobre ela, meus cabelos corriam da cama
até o chão e eu pensava nele.
Damian.
Não consegui beber até a ultima gota de gin, o que era bom. Eu não
passaria mal como passei após o baile, quando Mike segurou meu cabelo
para que eu colocasse tudo para fora. Contudo, gastei até a última gota de
humor ácido naquela noite. E agora estava bêbada e vazia, novamente.
Liguei meu celular e abri as mensagens que eu tinha com Damian.
Coincidentemente o vi digitar alguma mensagem. E ele digitou, digitou e
digitou...
Aquilo era real. Eu conferi. Várias vezes.
Um desconforto na minha nuca me fez mexer o pescoço, ansiosa. Mordi o
interior da bochecha e comecei a digitar também, desabafando para o
telefone porque senti que ele faria o mesmo. Talvez o real motivo fosse
alguma necessidade de me defender previamente de qualquer palavra que ele
quisesse me mandar, ou apenas o álcool.
"Antes de mais nada, achei que ninguém nunca quebraria meu coração
como Derek", comecei "Mais do que isso, Bale, eu achei que você nunca
faria isso. E você o quebrou. Você o apertou com tanta e tanta força que a
dor ficou gravada na minha memória e — se eu fechar os olhos — consigo
lembrar do gosto amargo de ter sido desmembrada em cacos."
Damian continuava a digitar. Parava vez ou outra, mas continuava.
Considerei apertar o "enter" e desisti. Só continuei, devagar, torcendo para
não errar nenhuma palavra.
"Eu deveria ter escutado a voz no fundo da minha mente que dizia que
nunca daríamos certo. Porque... Olha onde estamos agora? Destroçados
porque insistimos em algo sem a menor chance de futuro."
Um nó tomou a minha garganta. Eu estava sendo honesta com Damian,
torcendo para que lesse cada palavra e me compreendesse. Usando de toda a
coragem líquida que o gin tinha me dado.
"Mas acho que a culpa é minha, Damie. Criei expectativas demais
quando pensei que finalmente tinha encontrado a pessoa que me
entenderia e me amaria como sou. Agora vejo que isso nunca vai existir."
Minha visão se tornou embaçada.
"Só que eu ainda amo você", escrevi. "E provavelmente vou amar por
muito tempo. Mas não sinto só raiva de mim por isso, porque nem só de
arrependimentos nosso relacionamento foi feito. Sinto essa dor porque eu
queria que me perdoasse por tudo o que te fiz, te perdoar de volta e
consertar tudo, mas acho que nós nos quebramos demais, certo?"
Engoli o choro.
"Não há mais chances para nós dois, não é?"
Ele disse que se formaria comigo. Que estaria ao meu lado. Como meu
amigo, antes de tudo. Que seguraria a minha mão. Que me ensinaria a andar
de bicicleta e iria para Sydney toda semana, porque tínhamos um futuro
juntos.
Tudo foi transformado em cinzas. Não havia mais nada.
"Ainda assim, queria deixar claro que realmente não te odeio, Damie.
Você me machucou, mas que sei que também te machuquei de volta e que
sinto muito, realmente sinto. Porque você não é ruim como aquela
postagem disse. Você pode não me compreender, Damian Bale, mas
definitivamente continua sendo uma das melhores pessoas que conheci. E
me arrependo de ter deixado meu coração nas suas mãos, mas me
arrependo ainda mais de não ter cuidado tão bem do seu".
Qualquer chance sólida de um futuro parecia ter se tornado pó.
"Porque tanto quanto eu merecia mais do que sua incompreensão, você
merecia mais do que uma garota quebrada."
Não havia mais nada.
"É uma pena. Estou perdendo um amigo, antes de tudo. Realmente só te
desejo coisas boas. Espero que todas as dores que te causei se curem de
alguma forma. Espero que encontre alguém que te ame de verdade, como
eu amei, mas que dê verdadeiramente certo. E que viva tudo o que
traçamos juntos com uma pessoa tão boa quanto você."
"Independente de qualquer coisa, Damie, será para sempre o meu
novato."
"Espero que me perdoe um dia. Espero te perdoar de volta."
"Da sua sweetheart..."
E então percebi que, seja lá o que Damian havia pensado em me mandar,
ele tinha desistido. O "online" abaixo do seu nome sumiu. Respirei fundo e
percebi a merda que estava prester a fazer.
Apaguei tudo o que escrevi.
Já tínhamos decretado o nosso fim. Duas vezes. Por que fazer isso de
novo?
Deixei o celular sobre a cama, sentindo o mundo girar rápido demais.
Lutei para não chorar, não queria mais chorar por nós dois.
Honestamente, eu não fazia ideia do que Damian queria me escrever.
Achei que nunca saberia. Mas entendi no dia seguinte, e imaginei quais
teriam sido suas palavras, por dias e dias...
— Bom dia, bom dia, bom dia, bom dia! — Finn Wayne desceu as escadas
com uma animação contagiante, se unindo à senhora Wayne, Mel e eu no
café.
Quentin Wayne, pai da Melissa, estava viajando. Já Helena, mãe da Mel,
estava ali, em uma das extremidades da mesa, sempre tão leve e sorridente.
Seus fios eram castanhos, cacheados e longos, como os da Mel eram sem as
tranças. Seus olhos eram âmbar e vivos. A pele negra, um pouco mais clara
do que a da filha. O rosto suavizado por procedimentos estéticos a fazia
parecer mais jovem, mas só um pouco. Helena teve seus filhos aos vinte e
pouco anos, ela não era nem um pouco velha.
Quentin teve uma grande emergência no trabalho e Mel estava
decepcionada, mas sua mãe passara a manhã inteira garantindo que ele veria
tudo por FaceTime.
— Bom dia, mulher da minha vida. — Finn abraçou a mãe por trás, pelo
pescoço.
— Puxa-saco — Melissa acusou, baixo.
— Ciumenta! Sabe que sou o filho preferido — Finn provocou, piscando.
Melissa realmente era ciumenta com os pais, então não me surpreendi pelo
grunhido baixo.
— Crianças... Se comportem — a senhora Wayne pediu, me fazendo rir.
— Naomi, meu amor, está tudo bem? Quer visitar o seu pai hoje, antes da
formatura? Posso te levar ao hospital em uma hora, talvez duas.
— Oh, pelo amor de Deus, não — falei. Mel pigarreou e bateu o joelho no
meu, me fazendo perceber o que tinha dito. Minhas bochechas queimaram. —
Digo, hoje precisa ser um dia leve, não? Formaturas, diplomas... Yay! —
Tentei disfarçar e Mel reprimiu o riso. Finn fez o mesmo.
— Não posso crer que as minhas bebês vão se formar!
— Mãe — Melissa choramingou, envergonhada. Eu ri, me servindo de um
pouco de suco. Eu iria morrer de sede e dor de cabeça pelo maldito gin.
— Parece que foi ontem que a Melissa quebrou a perna porque vocês
cismaram de subir naquela árvore no quintal — Helena disse. Ri de como a
minha melhor amiga estava ficando roxa de vergonha. Virei um gole do suco.
— Ou que a Naomi menstruou pela primeira vez! — Engasguei.
Menstruei pela primeira vez na casa dos Wayne, aos treze anos. Era festa
do pijama e Melissa gritou de susto quando viu o sangue na cama. Enfim, eu
amaria apagar isso da memória. Minha melhor amiga batia nas minhas costas
e Finneas não conseguia parar de gargalhar. Assim que consegui respirar
fundo, pigarreei, me acalmando.
— Tia Ellie? — a chamei pelo apelido. — Pensando bem... Eu... Eu acho
que seria legal visitar o meu pai depois da formatura — confessei, incerta.
— Só para checar se a minha mãe precisa de algo. Prometo não demorar
muito.
Helena sorriu para mim com doçura enquanto Mel acariciou o meu joelho
sob a mesa.
— Claro, meu amor. Podemos te esperar o quanto quiser — a senhora
Wayne respondeu, seus olhos brilhando com compaixão. Sorriu largamente
para mim e para a sua filha e prosseguiu: — Estou tão orgulhosa das minhas
garotas! Se tornaram tão lindas por dentro quanto por fora. Se tornaram
mulheres verdadeiramente boas.
O orgulho na sua voz me fez derreter.
— O discurso está vindo — Finn provocou e a senhora Wayne rolou os
olhos.
Ellie segurou a mão da filha sobre a mesa com força e sorriu para mim.
Nem sei quantas vezes fui parar no quarto de Melissa Wayne após brigar
com os meus pais. Tia Ellie não era idiota. E, pelo seu olhar, eu sabia que
me levaria a ver Vincent por consideração à minha mãe e a mim. Porque,
mesmo extremamente bondosa, nem ela teria visitado Vincent no meu lugar,
se fosse o seu pai.
Wayne iria cursar Cinema. Ela tomou coragem para isso e contou para a
família, que lhe deu toda a força do mundo. Os Waynes também nunca foram
contra Finneas quando ele começou a cursar Dança. E ali eu estava,
pensando no meu pai doente e que ele provavelmente infartaria novamente se
soubesse que eu estava decidida a cursar Design de Moda.
Naquela mesa de café, entre uma família unida e adorável, eu pensei em
como eu ainda não tinha algo assim. Uma família que me fortalecia. Só
experimentei algo parecido com os Waynes e a família do Damian... ou Elise
e Maddie, vez ou outra.
Virei mais um gole do suco, enquanto Ellie de fato começava a lembrar de
cada momento de vida da sua filha, vez ou outra meu também. Fingi prestar
atenção em cada palavra. Mas não senti que eu encaixava ali.
Mel percebeu que eu estava desanimada e colocou Taylor Swift para tocar
no seu quarto quando começamos a nos arrumar. Admirando seu esforço para
me deixar bem, me esforcei para fazer aquele dia ser verdadeiramente bom.
Honestamente, ela era a minha alma gêmea. Ainda é. Creio que há algum
tipo de ponte entre nossas almas, um fio de ligação que nos permite parecer
uma só de vez em quando.
Em algum lugar, pelos seus olhos, eu conseguia perceber que estava triste
por estar longe do seu pai e nervosa por ter que ver o Mike mais tarde. E ela
conseguia me ler com perfeição, então sabia que eu sentia falta do Damian e
que minha mente voltava para a minha mãe e Madison naquele hospital frio,
a cada dois segundos. Mas fortalecíamos uma a outra.
Nos arrumamos juntas e ouvimos toda a sua playlist. Escutamos Finn
gritar uma vez quando cantamos alto demais... Por isso cantamos ainda mais
alto.
Não sabíamos como a vida seria em algumas semanas. Wayne esperava
pela confirmação de Melbourne ou Sydney e eu também. Não diziamos nada,
mas torcíamos para sermos aceitas juntas em Sydney. A pior das hipóteses
seria se Wayne ficasse em Melbourne e eu em Sydney — ou o inverso —,
porque significaria nove horas de distância de carro. Obviamente de avião o
tempo seria bem mais curto, mas a Mel tinha medo de altura e... Sendo
realista, sabíamos que isso não era prático e nos veríamos muito menos se
isso acontecesse. Não era como se qualquer distância pudesse nos separar,
mas saudade é o pior veneno que existe.
Quando nos sentamos juntas, as duas lado a lado em uma das cadeiras da
quadra do Colégio Brightgate, Wayne apertou a minha mão com força.
Esquadrinhei o seu rosto, percebendo o seu olhar marejado voltado para o
palco.
Os pais e amigos dos alunos estavam nas arquibancadas, bem como alguns
professores. As duas turmas de formandos estavam distribuídas em cadeiras
ao longo da quadra, o céu da tarde estava limpo.
Era primavera, não fazia frio, mas também não fazia tanto calor assim.
Todos os alunos vestiam becas pretas, os cintos eram verdes e os chapéus
também. Por baixo da beca, a maioria vestia branco.
Mike estava na fileira à minha frente e eu aproveitei que Brandon, ao lado
de Mel, puxou algum assunto com ela. Chutei a cadeira de Graham e ele
estremeceu, olhando para trás. Eu esperava um sorriso, mas Mike parecia ter
visto um fantasma. Me inclinei até a sua cadeira, ainda segurando a mão de
Wayne. Mike não a lançou um olhar sequer.
— Espero que não caia quando for chamado. — O meu jeito de dar boa
sorte o fez rolar os olhos.
— Naomi Carlson, tão carinhosa! — Ele me fez rir. Vimos Derek Meyers
chegar, do outro lado. O ignorei com muito esforço e Mike bufou, tão furioso
quanto eu. Esperava que Derek não fizesse gracinha alguma naquele dia. Eu
já não tinha nada para perder e poderia muito bem gastar minhas unhas pelo
seu rosto. — Está linda.
— Você não está nada mal. — Tive a impressão de que Wayne terminava a
conversa com Ramsey, então fui rápida em me despedir. — Independente de
qualquer coisa, Graham, adorei te conhecer melhor.
— Igualmente.
Ia me afastar, mas não resisti em perguntar. Não tinha visto Ryan ou Katy
por ali, muito menos Miley. E se Miley tivesse me visto, ela teria me gritado.
— Onde está o Damian?
Mike abriu a boca mas não respondeu. Voltou a me dar o olhar estranho de
segundos antes e se virou para a frente.
Algo estava errado.
Inclinei o corpo por cima de Wayne, ainda segurando a sua mão.
— Brandon — chamei. Meu amigo parou de falar com Oliver por um
instante. Os dois me olharam. — Onde está o Damian?
Ramsey olhou no fundo dos meus olhos e não me respondeu. Movi o olhar
para Oliver e ele xingou baixinho, olhando para a frente.
Algo estava definitivamente errado.
O diretor subiu no palco, os pais bateram palmas, os alunos se tornaram
mais ansiosos e eu só consegui procurar pelos Bales. Miley e Katy
prometeram que iriam, o Damian também estava se formando e aquilo não
fazia o menor sentido.
Inclinei-me até Mike novamente.
— Graham...
— Naomi, é melhor não...
— Graham, aconteceu alguma coisa? Aconteceu, não é? Precisa me dizer.
— Vocês terminaram.
— Ele te pediu para não me dizer algo? — perguntei. Mike suspirou. —
Graham, o que houve?! Onde está ele? Mike, por favor, se não me disser...
Pediram por silêncio à minha volta.
— Naomi... — Melissa me chamou.
— Eles estão me escondendo algo, Mel!
Tentei me conter, realmente tentei me conter. Tentei não pegar o meu
celular e mandar mensagens para Katy e para o próprio Mike na minha
frente. Tentei prestar atenção no discurso do diretor e do aluno que ele
chamou para o palco, tentei, realmente tentei. Mas havia uma cadeira vazia,
no canto esquerdo da primeira fileira.
E todo mundo estava ali, menos uma pessoa.
Chamaram as pessoas com a letra A, depois B, C...
— Mike... — Sussurrei.
Mike segurou a ponte do nariz, respirando fundo. Meus amigos me
escondiam alguma coisa, eu sabia que sim. Eu conseguia sentir.
Letra D. Damian não foi chamado.
O que queria dizer que o diretor sabia que algo havia acontecido, certo?
Os pais do Damian avisariam a escola se ele faltasse à maldita formatura.
— Ele não foi chamado — sussurrei.
Mel apertou a minha mão com força e eu percebi que ela também o
procurava discretamente. Percebi também que Brandon e Oliver não queriam
olhar em minha direção e Mike continuava imóvel.
— Graham... — implorei uma última vez.
Mike balançou a cabeça em negação. Parecia estar em conflito consigo
mesmo e não se virou ao dizer:
— O Damian foi embora, Naomi.
Se Melissa não apertasse a minha mão com força, eu teria a certeza de que
estava despencando, porque não parecia haver cadeira nem chão sobre mim.
— Ele deve estar embarcando para a Inglaterra agora mesmo.
Paralisada, não consegui acreditar. Meu olhar caiu sobre uma única
cadeira vazia.
Ele prometeu que estaria ali. Ele disse que a Austrália era a sua casa. Que
escreveria músicas sobre mim e as cantaria num palco, que viajaria para me
ver enquanto eu cursasse Moda em Sydney, que me ensinaria a andar de
bicicleta e veria todos os filmes da Disney com a Miley… Mas não era só
sobre isso. Damian deveria estar ali. Ele merecia pegar aquele diploma, se
formar com a turma e comemorar que finalmente tinha concluído a escola.
Sua família deveria estar ali assistindo-o se formar como seus amigos
estavam. Mas o lugar de Bale seguia vazio.
Tentei respirar fundo e não consegui, porque tudo doeu. As minhas
palavras no hospital me atingiram com força. O jeito com que o mandei ir
embora, a fúria que falei sentir por amá-lo, o modo como seus olhos cinzas
se encheram de lágrimas e ainda assim eu não me calei por um mísero
segundo.
E então aquela maldita, estúpida mensagem de texto que eu nunca enviei.
A que poderia deixar claro que eu não o odiaria mesmo que tentasse, que
desejava o seu bem e que ainda o amava e sempre amaria. Talvez, se lesse
aquela mensagem, Bale ficasse. Talvez Bale tentasse lutar por nós mais um
pouco, certo? Talvez, se eu não o tivesse mandado ir embora, tudo fosse
diferente. Talvez eu devesse ter lutado mais por ele. Não só pelo meu
namorado, mas pelo meu amigo.
Sabe, quando você faz algo na vida, você abre milhares de possibilidades
pro seu futuro. Mas eu entendi, naquele momento, que quando você deixa de
fazer algo — como enviar uma mera mensagem —, você também cria
trocentos possíveis caminhos para si mesma. Eu não conseguia imaginar
como aprender a gostar de algum deles, se nenhum envolvesse Bale.
Porque eu menti naquele hospital. Eu não queria não ter ele na minha vida.
E, mesmo se assim fosse, eu não queria que ele fosse embora da cidade.
Eu mal percebi o mundo à minha volta quando a chamada de nomes
continuou e as pessoas seguiram até seus diplomas. Quando chamaram o meu
nome, eu nem sei como consegui me levantar.
— Naomi! — Mike tentou me alcançar pelo estacionamento. Mel estava
logo atrás dele, Brandon e Oliver também.
Enviei cinco mensagens perguntando para Katy onde ela estava, em
negação. Não, aquilo não poderia estar acontecendo. Ela disse que iria.
Miley disse que iria. Damian não poderia ter faltado, ele não poderia ter
viajado justo naquele dia.
Foi quando vi o carro da Katy estacionado. Foi quando a vi. Ela digitava
ao celular com uma mão, Miley estava segurando a sua outra. Meu celular
vibrou assim que o olhar da pequena Bale caiu sobre mim. E ela estava
chorando.
— Não... Ele não pode ter sido tão idiota — eu disse, me virando para
Graham. — A porra da vida dele fica aqui, Mike. Ele tem os amigos, a
família! E ok, ok, Meredith é muito importante! A mãe dele é importante!
Mas a Inglaterra não fazia bem para ele e ele sabe disso, a Meredith sabia, o
Damian sabe... — Levei as mãos ao rosto. — Isso não faz sentido!
Graham se aproximou. Seus olhos se tornaram marejados e eu soube que
ele também não achava aquilo certo.
Mike me abraçou com força pela primeira vez.
Algumas pessoas passaram por nós, talvez me julgando por ter sido a
Poison, talvez achando que eu chorava por isso. Eu não me importava.
Cacete, aquilo doía.
O maldito término ficava mais real a cada segundo. gora haveria uma
distância enorme entre mim e Damian. Não havia sentido nisso.
— Foi por minha causa?
— Não, não... Ele precisava de um tempo longe dessa cidade — Mike
sussurrou, mas não consegui crer nele. — Se precisar de mim, em qualquer
momento... Eu vou estar aqui. Não importa o que houve entre vocês dois, eu
sei que tudo ficou confuso nesse final de ano... Mas gosto muito de você, tá?
Assenti. Permiti que Graham me abraçasse por um bom tempo,
completamente perdida.
Quando braços pequenos me envolveram pela cintura, Mike se afastou,
secou as minhas lágrimas com cuidado para não borrar ainda mais a
maquiagem e beijou a minha testa. Depois seguiu até os seus pais, em algum
ponto do estacionamento, e não olhou para Wayne.
Tive que me esforçar para conseguir me agachar e abraçar a Miley direito.
A garota me apertou com força pelo pescoço e eu afundei o rosto em seu
ombro, sentindo o seu perfume doce e leve de criança. Mas eu consegui
sentir algo a mais.
Eu senti o perfume de Damian. Como se ele tivesse a abraçado por muito
e muito tempo antes de ir embora.
— A gente disse que viria — ela choramingou. Senti o seu coração contra
o meu, os dois se partindo.
Olhei para Katy e ela reprimiu os lábios, desviando o olhar cheio de
lágrimas. Não perguntei onde Ryan estava, ele provavelmente não estava
bem. Provavelmente ninguém estava.
Aquilo era loucura. Em uma semana, em cima da hora, Damian conseguiu
uma passagem para o outro lado do mundo. Não fazia sentido. Não fazia o
menor sentido.
— Ele disse que só quer um tempo para pensar, mas... — Katy deixou a
frase morrer. Entendi o que queria dizer: não achava que Damian voltaria, e
Katy era uma das pessoas mais otimistas que eu conhecia.
Bale estava mais perdido do que eu pensava. Provavelmente estava muito
mal se queria ir para longe de Brightgate. Eu deveria tê-lo escutado naquele
hospital. E ele provavelmente era cabeça-dura demais para voltar atrás.
Provavelmente tinha desistido das universidades australianas,
provavelmente ele estava se despedindo na mensagem que apagou... E
provavelmente era tarde demais.
Observei as nuvens pela janela do avião, angustiado para cacete.
O primeiro vôo foi do aeroporto de Brightgate para o de Sydney. Foi
rápido. Depois disso, eu iria de Sydney para Londres num vôo de mais de
um dia, com mais duas paradas. A viagem não acabaria aí, porque minha
mãe estaria lá para nos dirigir para Bradford.
Pensar nisso — em quão longe estava indo e quanto tempo de vôo levaria
—, me fez perceber ainda mais o impacto do que eu estava fazendo.
No início daquele mesmo ano, fiz todo o trajeto inverso — da Inglaterra
para a Austrália — emburrado por ter que conviver com o meu pai em uma
cidade do outro lado do mundo. De repente, eu estava ali, perdido, pensando
em como Brightgate tinha me conquistado mais do que eu esperava e que ir
embora era tão... estranho.
Estalei o pescoço, desconfortável, retirando o celular do bolso do
moletom. Uma garota na outra fileira estava usando um notebook, então já
era seguro usar eletrônicos.
Abri minha playlist e coloquei uma música qualquer de Bring Me The
Horizon, abrindo as mensagens do celular. Brandon mandou algumas fotos e
áudios. Eu sabia que teria alguma festa após a formatura, então imaginei que
as mídias envolvessem ex-alunos bêbados. Obviamente estava certo.
Abri as mensagens do grupo que Ryan tinha criado com Katy e avisei que
estava tudo bem. Depois, ignorei as demais mensagens — incluindo um
"Ainda estou bravo com você" do Mike, por eu ter ido embora no dia da
formatura —, e abri o Instagram.
Ali estavam: Melissa Wayne e sua família; Mike e sua mãe; Brandon e um
print de uma chamada de vídeo com Gianna — em que os dois, em ambientes
distintos, usavam becas e sorriam com seus diplomas –; e Naomi Carlson.
Naomi postou uma foto da formatura, apenas beijando o diploma, sozinha.
Meu coração doeu quando lembrei da promessa que eu havia feito. De que
estaria ao seu lado.
As coisas realmente não foram como o esperado. Eu não via a menor
graça na formatura depois daquele baile, e saber que havia sobrevivido o
ensino médio era "bom" o suficiente. Antes de tudo, eu já pensava em viajar
para a Inglaterra, passar algum tempo com a minha mãe e decidir se ficaria
por Bradford em definitivo ou voltaria para Brightgate. Mas depois que
Carlson me pediu — ou melhor, ordenou — para ficar longe, eu
simplesmente senti uma necessidade absurda de adiantar a viagem.
Então eu comprei, sozinho, minha passagem só de ida. Muito, muito cara.
Ryan ficou tão decepcionado quando soube. Miley se trancou no quarto por
um dia inteiro. Katy fingiu sorrisos e sorrisos, mas eu sabia que estava
infeliz também. O que me surpreendeu, principalmente, foi a reação da minha
mãe: Meredith deixou claro que não achava que eu estava fazendo certo.
Foi um ato impulsivo, mas necessário, quando paro para pensar. Bradford
não parecia a minha casa, mas Brightgate também não parecia mais o lar que
deveria ser. Com os meus segredos jogados ao ventilador e a garota que eu
amava tão machucada e tendo me machucado de volta, eu precisava desse
tempo.
Abri um dos stories. Brandon e Gianna estavam juntos em alguma balada.
No outro, Oliver postou Mike e uma taça de alguma bebida colorida. Depois
havia uma foto da Melissa no espelho com Carlson e Olsen. As três
pareciam tão felizes quanto bêbadas num primeiro olhar. Mas o sorriso da
Naomi era o mais frágil. Praguejei baixinho.
Havia um vídeo de Carlson cantando um remix de Back to Black a plenos
pulmões, como algum desabafo, porém dançando com Melissa. Em outro,
ela, Ollie e Brandon estavam loucos, num palco, berrando Locked Out of
Heaven. O pensamento de que eu deveria estar naquele palco, transformando
o meu sangue em álcool e cantando junto com os meus amigos... Essa ideia
me machucou.
Saudade.
E eu mal tinha saído da Austrália. O que provava que Brightgate ainda
era o meu lar, mesmo quebrado. A cidade havia se tornado parte de mim,
portanto, talvez não adiantasse tentar escapar.
Quando desembarquei no aeroporto de Londres, exausto, minha mãe
estava ali. Meredith DeLuca perguntou, em um sussurro, se eu estava bem, e
eu menti que sim, recebendo um abraço apertado. Aproveitei cada segundo
dele, como um pequeno garoto precisando desesperadamente de colo.
Porque, naquele momento, ela era tudo o que eu tinha por perto. Odiei a
sensação de que isso não bastava.
Quando tateei o teto do segundo andar e puxei a escada de acesso para o
meu quarto — que ficava no nosso antigo sótão —, senti o cheiro de
produtos de limpeza e algum perfume doce e suave. Troquei um sorriso fraco
com a minha mãe ao subir, a ouvindo reclamar veementemente das malas
pesadas enquanto tentava me entregar, uma por uma. Ri da sua irritação,
tinha sentido falta das suas falas rápidas e afiadas.
Quando a terceira e última mala estava no sótão, Meredith me disse que
tomaria um banho e prepararia o jantar. Agradeci e me pus de pé, respirando
fundo. Ali estava, o meu quarto.
Os mesmos pôsteres de filmes antigos e bandas indies, a minha antiga
guitarra e o violão de madeira clara, os porta-retratos, a mesinha de estudos,
o tapete azul... Tudo estava ali, do jeito que eu havia deixado. Um pouco
mais arrumado, graças à minha mãe.
Dei um passo, me sentindo estranho no lugar que costumava ser o meu
mundo. A sensação de não pertencimento me fez buscar por qualquer detalhe
que me aquecesse o peito minimamente. Não havia Miley ou Katy pelas fotos
daquela casa. Havia uma única foto do Ryan comigo, na qual eu tinha apenas
três anos.
Tirei o celular do bolso e liguei para a Austrália. Assim que o meu pai
atendeu, avisei que tinha chegado em Bradford. Recebi uma voz distante e
cansada. Perguntei onde Miley e Katy estavam e a minha madrasta estava
trabalhando, enquanto ouvi minha irmã responder, de longe, que não queria
falar comigo. O que doeu. Senti que deveria tê-la abraçado mais forte antes
de ir embora, beijado cada uma de suas lágrimas e cantado cada música da
Disney que eu conseguisse lembrar... Talvez por isso tenha me apressado em
desligar a chamada.
Me joguei sobre a cama, fitando o teto de madeira, tentando respirar fundo
e colocar os pensamentos em ordem. Parecia cedo demais para conseguir
fazer isso.
Minha moto ainda estava em Brightgate. O que sobrou na garagem da casa
da minha mãe foi a minha bicicleta antiga, e foi o que eu usei para dar uma
volta pelo bairro.
Meredith ainda dormia quando deixei um post-it na geladeira explicando o
que eu faria, acrescentando que voltaria logo e não iria longe. Isso porque
era o fim da madrugada. Eu ainda estava tendo dificuldades para me
acostumar com o fuso horário completamente diferente.
Era inverno na Inglaterra, o que explicava o moletom grosso sobre um
suéter e as calças igualmente espessas. Mesmo assim eu congelaria.
Pedalei de cinco da manhã até às seis, parando em uma praça perto da
minha casa. Fiquei ali, sentado, observando o nada, com Arctic Monkeys
tocando no máximo pelos meus fones de ouvido.
Eu precisava ficar sozinho, completamente sozinho. Só eu e alguma
música num ambiente vazio, tentando controlar o caos em minha mente.
Eu costumava ir com Megan até ali. Nós só andávamos pela região,
dividindo fones de ouvido e rindo de qualquer merda que falávamos. E foi
naquela praça também que aprendi a andar de bicicleta; minha mãe me
ensinou.
Quando eu tinha cinco anos, meu pai passou o ano inteiro prometendo que,
quando o verão inglês chegasse, ele me ensinaria a pedalar. Foi uma das
primeiras fortes decepções que tive com Ryan quando ele não apareceu.
Afastei esse pensamento.
Ryan era diferente. Pessoas mudavam quando queriam. Eu o tinha
perdoado pelo passado.
Sei lá... Eu não sou bom com metáforas. Não sou nenhum intelectual e
minhas redações na escola provariam a qualquer um que eu era péssimo em
organizar as minhas ideias. Ainda sou. Eu sou confuso para cacete. Mas meu
ponto é: vivemos a vida inteira com a mesma essência, mas ainda assim
mudamos. O que parece confuso e de certo bem paradoxal, mas é a verdade.
Sou o mesmo Damian Bale de quando nasci e, ainda assim, sou diferente.
Tenho a mesma alma daquele garoto de Bradford que amava aquela praça,
aquele bairro, aquela cidade. Mesmo assim estou completamente distante
dele.
Nós mudamos porque a vida muda. Ela não é constante. E sentado,
naquele banco, naquela praça, eu só conseguia pensar que mudei muito em
Brightgate. E, apesar de tudo, eu tinha deixado boa parte de mim por lá. Uma
parte boa.
É quando perdemos algo, parte da nossa alma, que percebemos o quanto o
amamos. Como diria a minha mãe, "é perdendo que se valoriza". E foi
sentindo o amargo gosto da saudade de Brightgate, absorvendo-o com calma
e — de certa forma — aproveitando cada segundo de dor, que eu
compreendi o real significado de casa.
A minha casa não era Bradford. Não mais. Nunca mais seria.

Eu estava jogado no sofá após assistir Star Wars na nossa TV um pouco


antiga. Lembrei de Mike por cada segundo do primeiro filme, mas acabei me
distraindo no início do segundo da saga e comecei a usar o celular.
Fazia pouco mais de uma semana desde a viagem. Meus pensamentos
estavam um pouco mais tranquilos, mas continuavam angustiantes e
incessantes. Me sentia como uma peça mal encaixada. Passava a maior parte
do dia exausto sem ter feito absolutamente nada. Não enxergava nada bom o
suficiente para se fazer em Bradford.
Alguns "amigos" de lá haviam me chamado para sair, porém, desde que
tinha voltado da Austrália, eu não conseguia parar de ver razão no que minha
mãe dizia: eles não eram amigos. Era apenas um pessoal do bairro e da
minha antiga escola que amava causar caos por aí, mas nunca estaria ali por
mim se eu precisasse. Não eram como uma família para mim.
Não, eu não queria sair com eles. O que me fazia ter duas opções: sair
sozinho ou ficar dentro de casa, fazendo absolutamente nada, esperando
pelas notícias da Universidade em que tinha aplicado e decidindo se, de
fato, iria para a Austrália ou ficaria na Inglaterra.
De qualquer modo, ali eu estava, com todos esses pensamentos rolando e
usando o celular para conversar com o pessoal de Brightgate. Brandon,
Oliver, Mike e eu tínhamos um grupo. Quando os dois primeiros contaram a
novidade, quase surtei: eles tinham sido encontrados por dois olheiros de um
time de Brightgate. Um time profissional de futebol. O que é insano, porque
eles eram considerados velhos demais para serem chamados para testes, mas
ainda assim conseguiram e se deram bem.Soube que perguntaram por mim
também, mas eu jamais aceitaria uma proposta dessas. Ser jogador não era o
meu sonho.
A família do Oliver estava nervosa, porque ele decidiu pular de cabeça
nessa chance. Ele estava falando sobre viagens, fama e garotas. Era algo
bem a cara de Ollie, de fato, e eu não conseguia parar de rir das suas
mensagens carregadas de empolgação e piadas e mais piadas sobre o futuro.
Já Brandon ainda não sabia ao certo. Meu amigo sempre amou esse
universo do futebol e tudo o que isso o oferecia, mas tinha medo, sabe? Ele
queria ser jogador e também queria ter um plano B, cursar algo numa
universidade. Era compreensível, mas eu queria berrar com Ramsey, porque
bom atacante como ele era e com uma chance daquelas em mãos? Cara, ele
tinha muita probabilidade de se dar bem para caralho.
Ri quando Mike disse que se contentaria em ser jogador do time da
Universidade, "obrigado". Mas não era como se Graham não estivesse
radiante também. Ele tinha sido aprovado em Sydney, Melbourne e até
mesmo na própria Brightgate para Química. Meu querido nerd estava nas
nuvens, porque isso sim sempre fora o que ele queria. Ele preferiria ir para
Sydney, o que era bom, porque Melissa iria para Melbourne, pelo que eu
sabia. O futuro teve outros planos para Graham, contudo. Mas isso não é
algo que gosto de contar.
Eu não conseguia não perguntar sobre Carlson. Brandon me disse que ela
estava com a vaga de Economia em Sydney garantida, mas sem resposta para
as aplicações sobre os cursos de Moda. Eu estava torcendo por ela.
— Mal tocou no jantar hoje — minha mãe disse, contra a porta da sala,
me pegando de surpresa. Ergui o olhar para ela, cerrando os olhos para o
vestido vinho até a altura dos seus joelhos sob um sobretudo grosso. Era
inverno, ela morreria de frio. Meredith entendeu meu olhar de imediato e
explicou: — Vou sair. Comentei com você ontem, mas parecia em outro
lugar.
— Não tive muito apetite hoje. E esqueci que sairia. Para onde vai? —
Ela se aproximou, os olhos chocolates esquadrinhando todo o meu rosto, e
me deu um de seus suspiros estranhamente dramáticos.
— Tenho um encontro. Vai ficar bem?
— Encontro é? Com quem?
— Não lembro de ter permitido uma inversão de papéis, mocinho. Virou o
meu pai? — O peteleco na minha testa me fez rir. — Um cara do meu
trabalho. Você não conhece. Ainda. Ele deve me buscar daqui a... — Ela
olhou para um relógio no pulso. — Huh, cinco minutos. Se chama Andrew.
— Voltou os olhos para mim. — Por favor, Damian Bale, sem gracinhas, seja
educado.
— Eu? Fazer gracinhas? — minha voz saiu melodiosa e ela jogou uma
almofada em mim. Gargalhei e joguei de volta. — Está gata para cacete,
aproveite a noite. Por favor, não me dê outro irmãozinho, use camisinha.
— Damian Bale! Ugh, que ódio eu tenho de você, garoto — ela disse, mas
sua frase não parecia ter sentido, já que ela disse cada sílaba rindo. — Ei,
uma coisa, falando em amigos do trabalho e tal...
— Hmm... — Voltei o olhar para o celular, o que a fez chutar levemente a
minha perna. Não tirei os olhos da tela. — Estou ouvindo, mãe.
— Hoje cedo, Alicia me ligou. Lembra quem é Alicia?
— Aquela médica, amiga sua...
— Sim, isso mesmo. A própria. Lembra de onde ela mora? — Meus
ombros se tensionaram e eu menti, negando. — Mesmo? Enfim... Ela disse
que estava indo trabalhar hoje cedo e encontrou você na rua. Não falou
contigo, porque estava no carro. E então eu lembrei... A Alicia mora no
bairro dos pais da Megan...
— Mora, é?
— Damian... — seu tom preocupado me fez bufar, e então eu ri nasalado,
rolando os olhos.
— Seu jeito de começar uma conversa séria, de mudar de assunto... Tão
natural, huh? — ironizei e minha mãe cruzou os braços. Estava errado por
erguer todas as minhas barreiras contra ela, mas não pediria desculpas. Não
ainda. — Não sei o que aconteceu, tá legal? Pedalei como toda manhã,
ouvindo música, tentando me distrair... Quando eu vi...
— Estava lá.
— Sim, quando eu vi, estava lá, olhando em direção ao quarto da Megan,
me perguntando quanto os pais dela ainda me odeiam... — Suspirei. —
Depois voltei para casa. Não foi nada demais, sério.
— Damian, esse lance da Megan nunca é pouco doloroso para você, nunca
vai ser. Você precisa cuidar disso e eu já perdi a conta de quantas vezes te
disse isso. — Não consegui responder. — Seu pai e eu pagamos a terapia
por algum tempo e você faltou a todas as sessões, não pensa em se
comprometer com isso dessa vez? — Continuei calado. Meredith bufou. —
Caramba, eu me preocupo com você!
— Não foi nada demais.
— Não minta para a sua mãe! — Apesar da clara bronca, não havia raiva
em sua voz, apenas preocupação e melancolia. Minha mãe se agachou,
tocando os meus joelhos. — Querido, olhe para mim. — Ela tocou o meu
celular, me obrigando a deixá-lo de lado. — Damian, voltar para cá, com
todas essas memórias dos Hunters... Longe das pessoas que você deixou na
Austrália... Isso vai ser um processo complicado, sabe? E eu me preocupo
que...
— Por que fala como se fosse algo ruim eu estar aqui? — a interrompi. —
Por que fala como se fosse um erro eu ter vindo?
— Filho, não sou sua inimiga. Não precisa ficar na defensiva. — Ela
suspirou. — Está vendo? Esse é o meu ponto. Esse é o tipo de
comportamento que você aprendeu a deixar de lado nos últimos meses, não?
Mas agora está retrocedendo! Porque está machucado com as coisas que
aconteceram em Brightgate e acredite, amor, eu entendo. — Ela alisou a
minha mão, sorrindo fraco. — Não é fácil ter todas as suas dores expostas
para todo mundo ver. Mas tudo o que eu estou dizendo é que, por mais que a
Austrália tenha te machucado nos últimos dias, ela fez muito mais bem do
que mal, no geral. E vir para cá, onde tudo parece tão cinza para você, é uma
mudança enorme. Requer adaptação, cuidado... Você precisa cuidar disso. —
Ela tocou o meu peito, espalmando-o bem ao centro. — E disso. — Depois
levou o indicador à própria tempora, indicando a mente. — Só quero o seu
bem, pense sobre isso.
— Eu sei. Eu sei que quer o meu bem, eu só... — Suspirei, levando as
mãos à cabeça. — Eu não quero ninguém me questionando o tempo todo
como estou, não gosto de me sentir assim... Vulnerável. Não quero conversar
sobre isso também, eu só...
— Mas vai precisar conversar em algum momento, ou isso vai te destruir,
querido. — Ela respirou fundo. — Damian, eu amo você, e estou te vendo
definhar há uma semana. Não tem o mesmo sorriso que tinha quando fui
visitar você na Austrália há alguns meses. Não tem a mesma leveza. Está
atormentado e eu compreendo. Mas eu preciso ser honesta e te dizer que a
cura para os seus problemas não mora aqui, eu não acho que more aqui. Sua
casa é onde seu coração está. Eu sei que me ama, eu te amo milhões de vezes
mais, mas eu não sou a sua casa. Eu não sou o seu lar, Bradford não é. Sinto
que perde tempo aqui.
— E o que seria a minha casa, mãe? — Ri, em deboche.
— Sei que você perdeu a Naomi, ok? É isso em que está pensando? Ela é
apenas a ponta do iceberg. Talvez esse tenha sido o fim para vocês dois,
talvez não tenha mais volta, eu não sei dizer. Não prevejo o futuro, Damian.
Mas a Naomi, como sua amiga e sua namorada, era apenas parte de todo o
universo que te fez tão bem. Tem seus amigos, o Ryan, a Katy, a Miley, os
planos que voltou a fazer apenas quando encontrou paz por lá... Seu coração
está na Austrália. Não adianta forçá-lo a vir para cá, ser infeliz e repetir que
é melhor ficar aqui apenas por teimosia.
— Mãe...
— Não terminei, Damian Bale. E todo o lance da... Como se chama
mesmo? Poison? Enfim... Todo esse caos, por mais destruidor que tenha
sido, é só parte de tudo o que aconteceu nos últimos tempos. Concordo que
fez bem em vir para cá para pensar um pouco, mas ficar aqui? Morar aqui
para sempre? Estará fugindo. Fugindo da sua felicidade.
Olhei no fundo dos seus olhos e soube que não era fácil para a minha mãe
dizer que eu — a pessoa que ela mais amava na vida — não estava em casa
perto dela. Doeu de volta não conseguir negar isso. Também não saberia
disfarçar meus olhos irritados, o quão fodidamente fraco eu me sentia.
— E cacete, Damian — ela disse, rindo nasalado. — Eu fiz um esforço
monstruoso para não te dizer isso no segundo em que me abraçou naquele
aeroporto. Porque amo te ter por perto, mas não assim! Então é isso. — Ela
se levantou. — Penso que seria bom frequentar a terapia, finalmente, por
esse tempo que estiver aqui ou se voltar para a Austrália. Não pode fugir dos
seus demônios para sempre! E precisa escutar o seu coração em vez de
silenciá-lo.
A campainha tocou e eu suspirei, agradecendo mentalmente por isso. Não
queria conversar com minha mãe sobre a Austrália. Eu não queria muito
conversar, na verdade. A lembrança do maldito baile, dos olhares que
recebi, da postagem da Poison... Do olhar da Naomi quando me mandou
embora dias depois... Porra. Doía tanto, tanto, que parecia me machucar
fisicamente.
Quando me dei conta, minha mãe estava abrindo a porta de casa e dando
boas vindas ao tal Andrew. Esperei que ele entrasse na sala para me pôr de
pé, estender a mão e cumprimentá-lo. Sua pele era negra, seus olhos
levemente alongados ficavam menores quando ele sorria daquele jeito, de
orelha a orelha. Além de alto, Andrew era magro e parecia simpático.
— Damian. Bale — falei. Ele sorriu.
— Andrew Dawson — ele se apresentou. Percebi que a minha mãe estava
nervosa, logo atrás dele. Pelo sorriso que Andrew deu para ela, contudo, eu
percebi também que ele estava totalmente na dela. Sério, não poderia culpá-
lo. A mulher era inteligente, charmosa, gata para cacete e engraçada. —
Prazer te conhecer. — Ele voltou o olhar para mim ao dizer. — Mery fala
muito de você.
Mery?! Uau...
— Ugh, que medo — brinquei, o fazendo rir. Minha mãe, contudo,
pigarreou em repreensão. — O prazer é todo meu, Sr. Dawson.
— Andrew — ele me corrigiu, sorrindo.
— Andrew! Certo! — Guardei as mãos nos bolsos da calça. — Bom,
espero que tenham um bom encontro. Cuida bem dela, beleza, Andrew?
Nada de voltar muito tarde...
— Damian! — minha mãe se intrometeu. — Tenha modos! — Eu ri e
Andrew falhou em prender o riso também. Meredith diria algo a mais, mas
seu celular tocou e ele não estava por perto. — Oh, droga, esqueci da bolsa.
— Meredith DeLuca, senhora e senhores — caçoei e ela rolou os olhos.
Dawson riu, contudo, concordando comigo.
Decidi que o cara era legal só por rir das minhas piadas. A minha mãe
pressionou o braço dele por um segundo, murmurando que voltaria logo.
Depois sumiu escada acima, o salto das suas botas curtas ecoando.
— Ei, Andrew, gosta de Star Wars? — perguntei, tentando quebrar o gelo.
Ele sorriu largamente e assentiu. — Vou continuar a ver o filme. — Apontei
para a televisão. — Um dia a minha mãe encontra a bolsa dela. Pode se
sentar aí, a casa é sua. — Me joguei sobre o sofá e ele preferiu ficar de pé,
guardando as mãos no sobretudo que vestia.
— Como assim, Katy? — Ouvimos a minha mãe dizer, descendo as
escadas. Parecia tensa. — Não, não, vou avisar, sim. Pode deixar. — Virei a
cabeça por cima do ombro, vendo-a chegar na sala. Havia uma ruga entre as
suas sobrancelhas, ela não parecia muito feliz. — Manda um beijo para a
Naomi. Por favor. E o abraço mais forte que conseguir dar.
— Naomi? — perguntei e ela espalmou a mão contra o ar num pedido por
um segundo. Ela tocou o pescoço, tensa, lançando um olhar para Andrew que
não parecia nada bom.
— Amo vocês também — minha mãe disse ao telefone para a minha
madrasta. — De novo, manda um beijo para Miley, Ryan, todo mundo...
Principalmente para a Naomi. Por favor, dê notícias.
Ela desligou a chamada e se aproximou devagar, apoiando as mãos no
sofá.
— Mãe?
— Andrew, eu sinto muito — ela disse para o cara ao lado. Mal parecia
capaz de pensar antes de falar, começando a atropelá-lo com as palavras. —
Não tenho clima para sair hoje. Se quiser, podemos pedir alguma coisa e
jantarmos aqui, mas... Não vou conseguir sair. Podemos remarcar, não sei...
Não sei. — Depois virou o rosto para mim, parecendo preocupada. — Você,
querido. Precisa ligar para a Naomi, Damian.
Continuei estático sobre o sofá, absorvendo as palavras que lhe
escaparam.
— O pai dela faleceu — explicou, fazendo o mundo parar de girar por um
instante. — Ela precisa de apoio. Katy me pediu para conversar contigo
porque... A Naomi pode precisar de você. Ela precisa de você.
Meu coração doeu por preocupação.
"Ela precisa de você."
Peguei o celular no instante seguinte.
Inspire. Expire.
Era o que eu repetia para mim mesma.
"O senhor Carlson teve uma parada cardiorrespiratória pior do que a
primeira", o médico disse. "Fizemos o nosso melhor, mas ele não resistiu". E
desse segundo em diante, eu passei a agir mecanicamente. Porque Madison
estava completamente paralisada e a minha mãe desabava em pleno
corredor.
Eu precisava estar firme. Por elas.
Nunca — repito, nunca — vi a minha mãe desabar tanto assim. Nem
mesmo quando contei que estava grávida, nem mesmo quando invadiu o meu
quarto de noite me pedindo desculpas por ter falhado algumas vezes em me
proteger. Lia Carlson era uma mulher que sustentava a máscara da força e da
elegância sob qualquer circunstância. Mesmo quando era compreensível que
fizesse uma cena, ela não fazia. E ali estava ela, em ruínas para o hospital
inteiro ver.
É duro para cacete para uma filha quando os papéis se invertem. Quando
percebemos que precisamos cuidar da nossa mãe mais do que ela de nós.
Meu coração estava preso na garganta quando me agachei perante o seu
corpo, para tirá-la dali.
— Mãe — chamei baixo. Lia tinha as mãos no rosto, exausta contra a
parede branca e fria do hospital. — Mãe, precisa se levantar.
Ela balançou a cabeça. Mamãe chorava e tentava respirar ao mesmo
tempo, mas pareciam tarefas impossíveis de serem realizadas juntas.
— Mãe... Precisa se levantar.
Lia desabou de tanto chorar, as mãos no rosto vermelho, os joelhos
dobrados.
— Precisa se levantar, mãe — minha voz falhou e eu estava quase
suplicando. — P-precisa se levantar.
Quando Lia tirou as mãos do seu rosto e levou os dedos molhados aos
meus, eu entendi o que se passava por seus olhos. Não era só luto. Toda vez
que eu dizia que ela precisava se levantar, era como se eu nos lembrasse que
estávamos livres de amar alguém que só nos destruía. A liberdade de matar
um amor que não deveria ter existido.
Estávamos livres.
Estávamos livres porque Vincent não existia mais. Só que tantos anos
estando em queda nos fazem desaprender a lutar para ficarmos firmes e de
pé. Então mamãe estava livre, tendo sua nova chance de recomeço, mas
estava perdida. E, se ela sentia o mesmo que eu, havia alguma culpa pelo
alívio. O que soa contraditório, certo? E é. É uma dualidade difícil de
explicar.
Amar Vincent por ser apenas o meu pai foi como amar a faca que me
rasgava o peito. Não parecia racional. Me quebrei ao tentar imaginar o que
Lia sentia, tendo o amado por mais de vinte anos. Me quebrei de verdade.

Honestamente, eu me perguntava o que deveria sentir. Confuso, não? Mas


é a verdade. Eu me perguntava o que deveria sentir. Tristeza? Raiva? Dor?
Alívio?
O pequeno mar de pessoas vestidas de preto se guiou para fora da capela,
realizou todo um trajeto para onde o enterro de fato aconteceria.
Em algum momento dessa caminhada, um braço se enroscou ao meu. Olhei
a figura ao meu lado, encontrando um sorriso fraco e encorajador de
Brandon Ramsey. Gianna estava do lado dele, de mãos dadas. Quis chorar
por isso, e mais ainda quando Wayne espalmou as minhas costas, me
alcançando.
Meu coração se encheu quando olhei para Mel. Seu olhar me trazia um
recado silencioso: Wayne sabia que eu não estava firme, mas seria a força da
natureza que eu sabia que ela poderia sempre ser quando qualquer um que
ela amava precisasse.
Oliver alcançou Melissa, ficando logo ao nosso lado. Ele não me olhou
por muito tempo quando sussurrou que eu sentia muito. Zhang nunca fora de
demonstrar muito sentimentos ruins. Saber que ele estava ali por mim era
suficiente. Riley, do seu lado, era alguém que eu realmente não esperava ver.
Muito menos Mike Graham, que não se importou com Melissa Wayne ao meu
lado quando tocou as minhas costas, desajeitado como sempre e quase
tropeçando em seus pés. Me pergunto em que momento Graham se tornou
importante para mim, mas percebi que eu também estaria ali por ele se
precisasse.
Pensei em Damian quando vi Graham, foi inevitável. Mas eu sabia que ele
também estaria ali por mim, se não estivesse do outro lado do mundo. Por
mais rompidos que estivéssemos, eu sabia que Bale não me deixaria na mão
se estivesse por perto. A prova disso era a mensagem no meu celular, que eu
tinha medo de ler, já que provavelmente desabaria de chorar porque sentia a
sua falta.
A realidade só me atingiu quando o caixão sumiu pela cova. Ainda assim,
segurando a mão da minha melhor amiga, observando a terra ser jogada
sobre a madeira avermelhada... Eu não chorei. Não. Nem uma lágrima
sequer, por mais que o nó em minha garganta fosse insuportável. Eu tinha
uma vontade absurda de chorar e, ao mesmo tempo, simplesmente não
conseguia.
Pensei que eu precisava ter um momento sozinha, então murmurei que
necessitava de ar e ninguém disse nada quando caminhei para longe,
consciente dos olhares curiosos.
Caminhei por entre lápides e mais lápides, sob o sol quente. Parecia um
dia perfeito de verão. E eu estava num enterro. Do meu pai.
Finalmente encontrei um banco e me sentei nele. Cruzei os pés e os
braços, olhando para um ponto qualquer do vestido que eu usava.
Vincent estava morto.
Mordi o canto do lábio inferior com força, me sentindo patética.
Honestamente, eu não tinha inventado o câncer, não tive culpa por seu
adoecimento e ainda assim eu me senti culpada. Porque eu queria ter me
despedido. Queria ter sussurrado que o perdoava, mesmo que ele jamais
tivesse pedido pelo meu perdão.
Nunca quis que ele morresse.
Tudo o que eu sempre quis foi um pai. Um pai de verdade.
Um como Mel tinha. O senhor Wayne faria tudo pelo sorriso de Melissa.
Ele se dedicava mais do que Helena para montar as festas de aniversário da
filha. Acredite, isso quer dizer muito. E o pai do Brandon o ensinou a surfar.
O do Mike ensinava ele a andar de bicicleta lá na rua e eu assistia pela
janela. Não me orgulho de dizer que eu tinha inveja disso tudo.
Perdi o meu pai muito antes dele morrer.
As lágrimas finalmente escaparam. Correram pelo meu rosto, quentes,
lentamente. Deixei-as escorrer.
Vi um trio de longe. Katy e Ryan tinham olhares em minha direção,
sorrisos tristes nos lábios, pareciam querer se despedir. Me senti mal por
nem tê-los notados ali, mas mal tive tempo para processar quando Miley
correu em minha direção. Quando seus braços envolveram o meu pescoço, a
apertei com toda a força que eu possuía. Ela se sentou no meu colo e eu senti
que não precisava de mais ninguém, apenas dela.
— Ei, pequena Bale — murmurei, meus lábios mais trêmulos do que eu
gostaria.
Ela não me disse mais nada e eu continuei ali, abraçando-a com força.
Minhas lágrimas molharam o seu ombro, mas Miley não me soltou. Katy se
aproximou primeiro que o marido. Ela se sentou ao meu lado e colocou o
meu cabelo para trás da orelha, não interrompendo o abraço de urso que sua
filha me dava.
— Vim te dizer que não importa o que aconteça ou tenha acontecido — a
loira começou, doce como sempre — , você vai ser sempre parte da família.
Prometo, Naomi. E Meredith me pediu para te dizer o mesmo. Você é parte
da família Bale-deLuca. — Ergui os olhos para ela, minha bochecha ainda
amassada pelo ombro de Miley. Ela sorriu fraco e secou uma das minhas
lágrimas. — Não importa o que aconteça.
Miley se afastou minimamente quando Ryan parou à minha frente. O
amaldiçoei pelos olhos cinzentos, por parecer tanto com o seu filho. Mas ele
se agachou à minha frente, como nunca havia feito, e segurou a minha mão.
— Garotas, podem me deixar sozinho com a Naomi?
As duas Bale assentiram. Miley murmurou que me amava e eu devolvi,
baixinho, a deixando ir com pesar. Ryan se sentou ao meu lado assim que
elas se afastaram, respirando fundo.
— Perdi o meu pai — ele contou, olhando para o nada. — Nunca tive a
melhor relação com ele, piorou depois que o Damian nasceu. Ele era
horrível, mas doeu para cacete. E eu descobri que seu pai não era lá essas
coisas, apesar de não saber exatamente tudo o que aconteceu, o que ele pode
ter feito. Mas só quero te dizer que te entendo de alguma forma — Ryan
disse, virando o rosto para mim. — É o tipo de perda que machuca e te faz
questionar a sua existência, não é? O tipo de ponto de virada que te deixa
sem imaginar o dia de amanhã, mesmo que a pessoa que partiu não mereça
toda essa sua dor. É caótico. E te marca, Naomi. A morte faz parte da vida e
ainda assim nunca estamos preparados para ela. Todo mundo vai te dizer que
isso passa, mas eu não. Vou te dizer que é possível viver com isso. É
necessário. Você precisa viver. E todos que te amam vão estar aqui para te
ajudar a ser a garota forte que sempre foi, principalmente a minha família.
Por mais que nunca tenhamos sido exatamente muito próximos... eu sempre
vou estar aqui.
As lágrimas voltaram a escapar e eu as sequei, xingando. Ryan apertou a
minha mão e sussurrou que chorar fazia bem.
— Foi muito bom ser uma Bale — confessei, minha voz mais trêmula do
que eu gostaria. Engoli em seco e olhei no fundo dos seus olhos. — Foi
muito bom ter uma família com vocês. E nunca vou agradecer o suficiente
por tudo o que fizeram por mim, Ryan, eu juro.
— Não precisa agradecer, Naomi. Sempre será parte da nossa família.
Nos momentos bons e ruins. Porque você fez muito bem ao meu filho. Pode
ser que tudo não tenha terminado como gostariam, mas, às vezes, o grande
amor que passa pela sua vida não está ali para ficar, mas para te ensinar e te
tornar melhor. Você foi isso para o meu filho. E ele foi isso para você.
Assenti. Ryan beijou o topo da minha cabeça.
— E ainda poderiam ser — ele sussurrou. Não consegui respondê-lo. —
Mas isso não está nas minhas mãos. — Ryan se levantou. — De novo: conte
comigo para tudo. — Ele apontou para o celular no meu colo. — E pense em
respondê-lo.
Murmurei um agradecimento e o assisti se afastar, passo após passo. Katy
se aproximou para se despedir, mas Miley correu novamente e me fez
gargalhar com a força que me abraçou.
— Caramba, pequena Bale, como vou conseguir respirar desse jeito?
— Damie me pediu para dizer que amo você, Naomi. Mas nem precisava
pedir! — Ela sorriu, com a sinceridade de criança que sempre me deixava
sem palavras. — A Anna da minha Elsa, lembra?
Meu coração se tornou mais leve perto do seu e eu sorri de canto,
segurando seu rosto em minhas mãos. Eu nunca tiraria os Bales do meu
coração. Nunca.
— Sempre, Miley. A Anna da sua Elsa. Sempre.

Elise abriu a porta para a minha mãe e Madison, consolando-as de


imediato. Lis não tinha ido para o enterro porque "gostava de manter a
lembrança da pessoa em vida". E eu, que cresci com seus abraços e
consolos, preferi passar direto por aquilo tudo e subir para o meu quarto.
Queria tomar um banho demorado e dormir.
Contudo, assim que minha bota tocou o primeiro degrau, Lis me chamou.
Girei em meus calcanhares.
— Chegaram as cartas. Uma de Sydney, duas de Melbourne... E uma de
Brightgate.
— Posso ver depois...
— Precisa de um motivo para ser feliz nessa semana. Vamos, querida,
venha — ela pediu, me oferecendo a mão.
Não consegui recusar. Bufei, porque eu não tinha a sua positividade. Ela
me entregou a primeira carta, a mais importante.
O emblema da Universidade de Sydney estava ali, me encarando em um
dos meus piores dias, me desafiando a enfrentá-la. Considerei se deveria
pensar naquilo justo num dia como aquele. Contudo, já tinha passado por
coisas piores do que uma reprovação.
Então a abri.
"Senhorita Naomi Carlson, após uma análise minuciosa do portfólio
que nos foi entregue, nos encontramos...", travei, respirando fundo "mais
do que gratos com a admissão de última hora que recebemos. Mesmo se as
cartas de recomendação não tivessem sido perfeitas como foram, seu
talento não é algo que podemos desperdiçar". Me perdi em tantas letras, até
encontrar o que eu procurava.
— Meu Deus, Elise, Meu Deus! — Levei a mão à boca, em choque. Ela
riu baixinho, como se já soubesse. Tentei falar baixo, o clima dentro de casa
não era exatamente para comemoração. Mas aquilo... Aquilo era esperança.
— "Nós da Universidade de Sydney gostaríamos de informar que está
aprovada para o curso de Design de Moda...", Lis, Lis!
Ela me puxou para um abraço apertado e me permiti apertá-la de volta
com toda a força do mundo, sem conseguir acreditar.
A vida, às vezes, é uma grande loucura. Digo, Vincent estava morto. E no
mesmo dia que havíamos o enterrado, a Universidade de Sydney tinha
confirmado a minha vaga. Ainda que no meio de todo aquele caos, aquela
vaga era a primeira grande boa notícia da minha vida em um bom tempo.
Uma que meu pai jamais comemoraria comigo se estivesse vivo. Ele nunca
me veria ser a estilista que eu sonhava em ser e ganhar o mundo com o que
eu amava fazer. Ele não me veria agarrar aquela oportunidade com unhas e
dentes e se tornar a melhor profissional que eu poderia ser, que o mundo
poderia ver. Mas eu faria tudo aquilo.
Era um conjunto de sentimentos que pareciam opostos: felicidade pela
admissão e tristeza pelo luto, empolgação por uma nova etapa e incerteza se
deveria comemorar tanto em um momento como aquele.
Acho que parte de mim ainda queria que Vincent pudesse participar
daquilo, mesmo que não comemorasse. A verdade é que a realidade à minha
volta ainda não me fazia tão feliz quanto eu merecia. Contudo, aquele mero
papelzinho me lembrava que talvez eu conseguisse ser, algum dia. Porque eu
finalmente tinha a chance de ter meu sonho em mãos. Aquela carta poderia
ser um recomeço. O meu recomeço. E eu lutaria por ele com cada pedacinho
de mim.

Dois dias desde o enterro e eu ainda não tinha contado sobre a vaga em
Sydney. Não parecia ter clima para isso.
Optamos por nos isolar, as três Carlsons. Quis que Lis ainda estivesse lá,
mas não estava. Minha mãe preferiu que ficássemos a sós por aquela
semana, longe dos noticiários e mensagens que nos chegavam, tentando nos
unir como família.
Por todas as paredes daquela casa estavam memórias e mais memórias de
Vincent. A maioria não era boa. Ainda assim, parte minha preferia tê-lo ali,
do que morto.
Era algo que eu precisava discutir nas sessões com a psicóloga. Eu sabia
que tinha de superar aquele processo de luto e aprender a lidar com o fato de
que passei boa parte da minha vida amando alguém que não me amou de
volta, e não amaria — porque essa pessoa tinha partido.
Tudo sobre aquele luto ainda era estranho, bagunçava a minha mente e me
machucava.
Não era apenas sobre amar um monstro. Era a morte também da esperança
de vê-lo mudar. Era a percepção da dolorosa realidade: muitas pessoas não
querem e nem conseguem mudar para melhor. Me corroía saber que não
consegui ter uma boa relação com o meu pai enquanto ele esteve vivo. Eu
ainda sofria por Vincent. A diferença é que, daquela vez, eu estava
começando a entender que aquilo não poderia me machucar para sempre. Eu
não tentaria ignorar meus sentimentos nunca mais. Aquilo doía, mas eu
trataria meus problemas, enfrentaria cada um deles e faria de tudo para parar
de doer.
De todo modo, acho que, no fundo, nós três Carlsons sentíamos o mesmo.
Não estávamos na fase de raiva do luto, muito menos na barganha. Eu nem
sei, de fato, qual fase era aquela. Apenas tentávamos entender onde colocar
aquela perda na nossa vida, o que aquela dor significava e que a morte de
Vincent precisava ser um recomeço de inúmeras formas.
Minha mãe continuava desolada, mas não queria ficar parada e sofrendo.
Lia voltou a cozinhar, o que ela não fazia há muito, muito tempo. Maddie e
eu ajudamos. Vez ou outra chegávamos a rir com a nossa bagunça na cozinha.
Pouco a pouco o luto permitia alguma felicidade doce e breve.
Minha avó, quando viva — a paterna, acredite se quiser —, costumava me
pegar no colo e dizer: "Naomi, algumas vezes a esperança vai parecer
impossível de ser conquistada, mas pense em uma flor surgindo de um
espaço qualquer do asfalto. Parece irracional, mas é possível de acontecer.
É a natureza lutando contra o que lhe foi imposto e vencendo de toda forma".
Meu pai sempre dizia que vovó Maeve era um pouco louca. Talvez fosse.
Mas quando eu encontrava uma flor ou uma mísera folha crescendo do
asfalto, eu pensava nisso e ficava mais leve. Perdi esse costume em algum
momento.
Me peguei lembrando dela naquele dia. Talvez porque fui invadida por
uma onda de nostalgia enorme, vendo fotos e mais fotos da minha infância.
Me perguntei se teria orgulho de mim. Acho que sim, assim como a minha
avó materna. Se estivesse viva, vovó Charlotte me aplaudiria por ir contra
os desejos do meu pai e conquistar uma vaga no curso de Moda. Ela o
detestava.
Uma flor surgindo no asfalto.
Pensar nisso me fez sorrir. Me deu forças para finalmente contar sobre
Sydney após o jantar. Toda a tensão se esvaiu por um momento, quando
Madison ergueu as sobrancelhas e disse que aquilo era uma notícia
maravilhosa. Mamãe deixou os talheres sobre o prato para me abraçar; seu
olhar não era opaco e triste como na maior parte daqueles dois dias, não.
Era vivo, carregado de esperança. Lembramos ali que a tristeza não vence
sempre.
De qualquer forma, não esperava que o fim do jantar fosse se tornar
aquilo. E por "aquilo", eu quero dizer que Maddie buscou uma garrafa de
vinho tinto e colocou ao centro da mesa, junto com três taças. No meio da
dor, brindamos um único sucesso. E quando víamos, transformávamos o luto
em álcool.
— Tenho uma filha sendo a melhor da turma de Direito e a outra prestes a
ser a melhor estilista da Austrália, o que mais posso querer? — Lia disse e
Maddie olhou para mim. Talvez fosse o álcool, mas o brilho nos seus olhos
me deixou emotiva. Minha irmã estendeu a mão para mim e eu a apertei.
— Garotas Carlson conquistando o mundo — Madison cantarolou,
virando o rosto para a nossa mãe. — Você está inclusa nisso.
— Oh, querida, talvez esteja tarde demais para tanto.
— De jeito algum — retruquei. — Não pense assim, mãe. Por favor! —
Ela bufou, virando mais um gole de vinho. — Vai ficar bem se eu for para
Sydney?
— Nem ouse — Lia começou. — Nem ouse desistir de seu sonho por
minha causa.
— Fui aprovada em Brightgate também, posso ficar...
— O curso de Moda de Brightgate não é renomado. O melhor do melhor
quer você, Naomi, e você merece isso — Lia respondeu. Deixei um sorriso
genuíno surgir, porque era incrivelmente bom receber aquele tipo de bronca
dela. Parecia uma mãe de verdade. A minha mãe.
— Estarei aqui todo fim de semana! — decidi.
— Não pare sua vida por mim — ela pediu.
— Não! Não é negociável — garanti. — Visitarei toda semana até que
tenha certeza de que você está tão bem quanto precisa estar. Não vou
abandonar a minha família quando estamos nos reerguendo! — Olhei para a
minha irmã. — E, pensando por um lado, posso manter minhas sessões com a
psicóloga daqui dessa forma. Ela atende aos sábados. E você... — olhei para
a mamãe — pode vir comigo.
Lia sorriu fraco.
— É um bom primeiro passo — respondeu, para a minha surpresa. —
Mas vai me garantir que se isso te atrapalhar nos estudos...
— Oh, cale a boca — falei, revirando os olhos. Lia deixou o queixo cair,
fingindo ultraje. Ri e nós olhamos para Maddie ao mesmo tempo. Havia um
sorriso bobo nos lábios da minha irmã. Lágrimas se acumulavam nos seus
olhos.
— Se soubessem como é bom ver vocês duas assim... Ugh, caramba, eu
amo tanto vocês! — ela choramingou, secando as lágrimas.
— Chorona — cantarolei e recebi um dedo do meio em resposta. Amável.
Minha mãe murmurou por modos e eu amei isso. Era como ser criança de
novo. Quando tudo era perfeito.
Um silêncio nos seguiu e eu virei outro gole do meu vinho.
— Eu amo vocês também — sussurrei. Mas elas ouviram. Eu sabia que
sim. O cansaço me atingiu, me fazendo me espreguiçar, mas meu único
neurônio sobrevivente e não alcoolizado resolveu funcionar: — O que
faremos com a empresa?
— Papai me passou alguns ensinamentos — Maddie disse. E as reuniões
secretas estavam explicadas. — O testamento vai ser lido em alguns dias,
mas basicamente: Vincent passou as ações da empresa para nós três.
Principalmente para a mamãe.
— Ele me pediu para te ensinar tudo, se quisesse — Lia disse. — Eu sei
um pouco de negócios, sabe? Participei da empresa nos últimos anos.
Vincent sempre fez questão disso, tentando se preparar para o caso de algo
acontecer, e Maddie fez algumas aulas de Administração na universidade,
ele não quis te deixar de fora.
— Estou bem, gente — respondi. — Não entendo nada de negócios ainda,
mas estou disposta a aprender. Vou precisar disso no futuro. — Minha
resposta as tranquilizou. — Enfim, a empresa não importa agora! O que...
O celular de Maddie tocou e ela bufou, me interrompendo.
— Finn. Wayne não vai me deixar em paz se eu não disser que estou bem,
já volto — ela disse e saiu.
Fiz uma nota mental para ligar para Melissa mais tarde. Estava sem
conversar com ela desde o enterro. Ela deveria estar preocupada.
— Então... Vi os pais do Damian no velório — minha mãe puxou assunto
da pior forma possível e eu torci o nariz.
— Não são os pais. A Katy é madrasta dele. Mas sim, os Bales estavam
lá. — "Não todos", quase adicionei. Respirei fundo, girando a minha taça.
— Eles sempre estiveram aqui por mim — pensei em voz alta.
— Hmm...
A analisei. Ela trocou o que iria falar por um gole de vinho.
— "Hmm" o quê? — perguntei, curiosa. Ela deu de ombros. — O quê?
— Pensando em outra pessoa que também sempre esteve aqui por você.
Ri, porque minha mãe realmente era péssima tentando tocar em um
assunto. Ela riu junto.
— Desculpa, estou tentando mostrar que pode desabafar comigo se quiser.
Principalmente sobre seu coraçãozinho partido.
— Eu sei. E um dia eu vou desabafar com você sobre tudo isso. Quero
muito fazer isso. Só não sei se hoje, quando estou ignorando Bale, sem saber
o que fazer com as mensagens no meu celular. — O vinho me fazia falar mais
do que eu pretendia sem nem perceber.
— Por que o ignora? — Não a respondi por um instante. Depois me
lembrei que ela estava tentando, do seu jeito torto, se aproximar.
— Porque não sei se vou ser capaz de respondê-lo — fui honesta. —
Porque...
— Sente falta dele — minha mãe observou e eu franzi o nariz, me
inclinando sobre a mesa para me servir de um pouco mais de vinho. —
Ainda o ama, não ama?
Quem diria que eu comemoraria algo bebendo com Lia Carlson?
Correção: quem diria que eu beberia com a minha mãe, como duas amigas?
— Amor nem sempre é suficiente — respondi. Voltei a me largar sobre a
cadeira, a observando se servir também. Madison ainda estava no celular na
outra sala. Mordi o lábio ao perceber que havia dito aquilo para alguém que
sabia disso muito bem. — E Damian está longe, de qualquer modo.
— Bom... Está — ela concordou. — Mas se eu pagasse uma passagem
para a Inglaterra agora mesmo e você tivesse certeza absoluta de que ele
estaria lá te esperando para ser trazido de volta...
— Isso não aconteceria, mãe.
— Estou falando hipoteticamente.
Finquei os dentes no lábio inferior, tentando prender a verdade em minha
boca. Lia riu. Ela tinha a sua resposta.
— Estamos reiniciando nossa relação, como mãe e filha? — perguntou.
— Acho que sim.
— Então vou te dar um conselho que você não quer ouvir, mas precisa —
Lia disse. — Leia as palavras de conforto que ele te enviou. Bale te fez bem,
certo? Aposto que agora não vai ser diferente. — Ela olhou no fundo dos
meus olhos. — E se adiar para sempre essa conversa, vai deixar algo
inacabado que vai ser desgastante para ambos por muito tempo.
— Tenho medo de ler...
— Oh, vamos, uma mulher tão forte como você, já passou por tanto... —
Ela se inclinou sobre a mesa, apoiando a cabeça sobre a mão. — Tem medo
de uma mensagem?
Suspirei, refletindo sobre
— Leia do meu lado, se quiser — Lia sugeriu. — Não vou sair do seu
lado. Nunca mais.
Hesitante, busquei o celular no bolso da minha calça e o desbloqueei.
Meu coração pulou algumas batidas enquanto eu tentava abrir a caixa de
mensagens, mas ali estava:
"Eu sinto muito", a primeira coisa que Damian me escreveu. Precisei de
um segundo antes de prosseguir. Minha mãe sussurrou que eu conseguia fazer
isso, então continuei:
Damian: Antes de mais nada, eu sei que fui idiota de partir sem me
despedir. Ao mesmo tempo, dizer "adeus" parecia doloroso demais e eu
não queria te machucar e me machucar, sweetheart. Eu não conseguiria
lidar com o seu rostinho vermelho e inchado, suas lágrimas... Eu não
conseguiria te ver sofrer novamente.
"Eu sinto muito. Por uma série de razões, mas principalmente por não
termos dado certo. Cheguei a escrever todo um texto de despedida que fui
covarde demais para enviar. Talvez por medo de te ter na minha porta,
puxando a minha orelha. Talvez por medo de simplesmente não ver isso
acontecendo. Honestamente, Naomi, não sei o que me assustava mais.
Porque na primeira ideia você me pediria para ficar, quando eu não sabia
se conseguiria. Já a segunda, linda, seria como ser silenciosamente
mandado para longe da sua vida."
Senti o peso de cada palavra. Eu conseguia imaginá-lo escrevendo, uma
por uma.
"Eu deveria ter me despedido. Perdão por isso. Mas esse não é o meu
ponto, não agora. O meu ponto é que amo você. Eu amo mesmo. E isso não
vai mudar, Carlson. Porque, mais do que seu namorado, linda, eu era seu
amigo. Eu era seu. E ainda quero ser seu amigo, principalmente agora,
que pode precisar de mim. Um ombro a mais para chorar nunca é ruim."
"Sinto muito pela dor que está sentindo e odeio que sofra, Naomi, eu
odeio muito. Transferiria cada maldita dor sua para o meu coração agora
mesmo, se eu pudesse. Te daria a minha alma, sweetheart, enquanto a sua
estiver se curando. E se houver qualquer coisa que eu possa fazer, mesmo
de longe, por favor me deixe saber."
"Desculpa por ter sido covarde em não dizer adeus. Desculpa por cada
palavra que falei naquele maldito baile. Perdão, linda, de verdade. Fui
escroto e menti feio, porque te odiar é impossível. E se sentir que ninguém
vai te entender, sweetheart, quero que tente acreditar que ainda posso ser
a pessoa a compreender cada palavrinha que quiser colocar para fora.
Mesmo de longe. Estou aqui por você, Naomi, não importa o que
aconteça."
"Porque Damian e Naomi significava mais do que um casal, mais do que
posso colocar em palavras. Não consigo dormir direito sabendo que está
mal. É minha amiga, sweetheart. Mesmo que não pense o mesmo, sempre
vou te ter assim. Pelo menos assim."
"Enfim, linda, fica bem. Se precisar me liga. Em qualquer momento do
dia, mesmo com todo esses fusos horários entre a gente, não importa.
Ainda quero consertar as coisas, de algum modo. Estou aqui por você."
"Espero que pense com carinho."
"Damie".
Fechei os olhos, lembrando de cada beijo, cada sorriso... Mas,
principalmente, cada abraço, gargalhada e lágrimas que secamos um do
outro.
Apoiei as costas na cadeira, respirando fundo, o mais fundo que eu
conseguia.
— E então? — Lia quis saber.
— Eu ainda preciso dele. Pelo menos por uma última vez.
Senti um beijo doce ser depositado em minha testa quando Lia se
levantou, dando o tipo de conselho que apenas uma pessoa bêbada daria
para outra:
— Aproveite a coragem líquida e o responda logo.
Parecia uma péssima ideia. Mas fiz exatamente isso.
— Diga algo, Wayne — pedi em frente à ela. Mel estava cabisbaixa sobre
a minha cama.
— Não sei o que dizer. Sempre nos planejamos para estudarmos juntas.
"Naomi e Mel contra o mundo".
— Sempre vai ser Naomi e Melissa contra o mundo — contra-argumentei.
Ela ergueu os olhos para mim e eu odiei ver tristeza por eles. — Não fico
feliz pelas nove horas de distância entre a gente, Mel. Mas... Vamos! Você
vai conseguir estudar Cinema em Melbourne, eu vou para Sydney realizar o
meu sonho. Vamos para duas das cidades mais importantes da Austrália, para
universidades realmente boas, fazer o que sempre quisemos. Isso é insano,
não? Nossa amizade sobreviveu anos e anos de tanta coisa, o que são horas
de distância?!
Ela suspirou, ainda triste.
— Você está certa. Mas só de pensar em arrumar as malas, me despedir de
todo mundo aqui, incluindo você... Você é a minha irmã, Carlson!
Apoiei as mãos nos seus ombros.
— E você é a minha. Nada vai mudar isso. Nunca. Vamos conversar
sempre que pudermos, todo dia de preferência. E quando nos encontrarmos
pessoalmente, faremos cada segundo ser insano. Batman e Robin.
— Batman e Robin — ela repetiu, tentando se convencer disso. Mel me
abraçou pela cintura e eu acariciei as suas costas.
Banquei a madura, o que era seu papel, geralmente. Estava fingindo. Eu
queria gritar até que o mundo se reorganizasse e pudéssemos ir juntas para
uma mesma cidade, virá-la do avesso. Mas isso não aconteceria.
Fui aceita apenas em Sydney e Brightgate, ela apenas em Melbourne e
Brightgate, e sabíamos que ficar na nossa cidade natal não era a melhor
escolha.
Queria muito levá-la comigo, sabia que Mel também. Não queria que se
culpasse por não ter sido aprovada en Sydney, assim como ela não queria
que eu me sentisse mal por não ter sido aceita em Melbourne. Isso doía. Às
vezes, eu precisava me lembrar que tínhamos dois corações diferentes e não
o mesmo, tamanho era o nosso vínculo.
— Novamente, sobre Damian... — ela começou. — Pronta para isso?
Damian disse que estava muito feliz por eu ter pedido para conversar com
ele. Tipo, cinco minutos depois que enviei uma mensagem completamente
bêbada, dizendo "ok, quero conversar com você".
Eu sei que não foi uma frase complexa, nem doce ou precisa, apenas um
"quero conversar com você", mas antes isso do que nada.
— Não sei — confessei, me sentando ao seu lado. — Imaginei que se
tivéssemos uma conversa, seria cara a cara e pessoalmente. Não por uma
tela. — Bufei. — Por que ele tinha que ir para o outro lado do mundo,
Wayne? Eu entendo que ele precisava de um tempo pra si, mas do outro lado
do mundo?
— Vai poder perguntar isso para ele mais tarde.
Era um bom ponto.
Nos largamos sobre a cama ao mesmo tempo. Deitei minha cabeça em seu
ombro, tentando controlar o turbilhão de pensamentos que não cessava.
Wayne suspirou e entrelaçou os dedos aos meus.
— Eu tenho muito orgulho de você — ela sussurrou. — Digo isso menos
do que deveria.
Esquadrinhei o seu rosto. A pele negra, as feições delicadas, os olhos
alongados e doces...
Cresci ao lado de Melissa Wayne. A vi chorar, sorrir, gritar e gargalhar
milhares de vezes. Contamos uma para outra todas as nossas primeiras
vezes: primeiro coração partido, beijo, transa... E agora iniciaríamos uma
nova fase. Em outras cidades. Distantes uma da outra.
Melissa estava dando um grande passo, o curso de Cinema não era fácil.
Eu não sabia o que o futuro guardava para ela, mas naquele segundo, eu a
analisava e pensava em como me surpreendia vê-la se arriscando tanto.
Orgulho era uma palavra rasa demais para o que eu sentia.
Linda por dentro e por fora, dona de uma bondade realmente
impressionante e fiel às amigas como poucas pessoas são hoje em dia. Não
menti quando respondi:
— E você é uma das minhas maiores inspirações, Wayne.
Mel balançou a cabeça, discordando. Eu a abracei com força, para que
sentisse aquela verdade do meu coração batendo o mais perto possível do
dela.

Melissa me fez rir milhares de vezes conforme me ajudava a decidir a


roupa que eu usaria para uma chamada de vídeo. "Nem arrumada demais,
nem despojada demais", ela definiu. Estava animada para caramba, porque
dizia que Damian e eu éramos o seu "conto de fadas favorito". Corrigi para
"conto de fodas" para não cardíacos.
Ela estava ao meu lado quando enviei uma mensagem para Damie,
perguntando se ele poderia fazer a chamada de vídeo às sete da noite de
Brightgate, o que seria oito da manhã de Bradford. Ele respondeu que sim.
Quando Mel foi para sua casa, contei para a minha mãe e a minha irmã o
que aconteceria mais tarde. Elas decidiram me distrair um pouco, porque eu
estava muito pilhada. Cozinhamos juntas mais uma vez e assistimos algum
filme do Travolta.
A distração, contudo, não ajudou muito. Não quando Damian estava preso
em cada pedacinho meu, cada célula.
Não sabia o que esperar da conversa. Contei cada mísero segundo e juro
que o tempo se arrastou como nunca.
Por volta das cinco da tarde, eu já estava tomando um banho demorado,
verificando a roupa que tinha escolhido, se o meu cabelo estava legal...
Como se eu estivesse indo para um encontro e não para uma conversa tensa
por computador.
Eu queria tanto, tanto vê-lo. Mais do que tudo. Ao mesmo tempo, eu tinha
medo do que poderia acontecer num simples diálogo nosso. Era um sonho e
um pesadelo, ao mesmo tempo.
Às seis e trinta, eu estava de frente para o computador. Muito, muito
nervosa. Ansiosa, mordiscando tanto o lábio inferior que ele provavelmente
estava vermelho e inchado. Tentei tocar algumas melodias no ukulele, me
distrair, mas contei cada minuto até a hora marcada.
Damian me enviou uma mensagem às seis e cinquenta e cinco. Um simples
"bom dia". Respondi com "boa noite", o que o fez rir.
Aquilo era estranho. A distância, a ideia da videochamada, os fusos
horários... E desconfortável.
De qualquer modo, às sete em ponto, eu assisti ao carregamento da
imagem na tela por longos segundos, até que ele finalmente estava ali.
Prendi a respiração por um instante, porque aquilo estava acontecendo.
Damian estava olhando para mim, também sem saber o que dizer.
Xinguei mentalmente.
Analisei cada detalhe de Damian Bale. O cabelo levemente bagunçado, a
camisa quadriculada sobre uma camiseta de banda qualquer, os olhos
cinzentos, a cara de sono, o nervosismo nítido...
— Oi — eu disse primeiro. Meus batimentos estavam acelerados, a minha
boca absurdamente seca e eu me perguntei se tinha falado baixo demais.
Mas então ele sorriu.
— Oi, sweetheart.
Parecia uma eternidade desde que eu tinha visto aquele sorriso pela última
vez. E mais tempo ainda desde que o tinha desmontado com meus lábios. O
que eu não poderia fazer naquele momento.
O silêncio entre nós dois era carregado de significados. Por um segundo,
foi como se estivéssemos realmente frente a frente. Mal percebi que
devolvia o sorriso. Levei a mão ao colo instintivamente, ao ver o colar que
eu o tinha dado de presente em seu pescoço.
— Oh... Achei que seria legal usar hoje — ele disse, fechando o punho
contra o pingente. — Talvez assim eu pudesse te sentir mais perto do que
está.
— Poético — ironizei, agradecendo por ele rir em seguida. Poético?!
Pelo amor de Deus?! Eu não tinha mesmo o controle sobre a minha língua.
— Como está por aí?
— Bem, na medida do possível. Estou tomando o tempo para pensar
bastante na vida, sabe? Hmm... Inclusive... Mãe?! Estou falando com a
Naomi!
— EI, NAOMI! AMO VOCÊ. — Ouvi e gargalhei.
— Grita que eu a amo de volta.
— ELA AMA VOCÊ, MÃE — Bale berrou.
— EU SEI!
Ri ainda mais. Só então percebi que ele estava em algum escritório
pequeno e bem simples. Havia uma estante logo atrás dele.
— E essa é a minha mãe — Damian disse, sem jeito.
— Sim. Essa é a sua mãe — respondi.
Reprimimos nossos sorrisos ao mesmo tempo.
Desviei o olhar, porque aquilo era muito estranho. Meu rosto estava
queimando.
— Não sei por onde começar — confessei.
— Não quer desabafar sobre o seu pai ou algo assim?
Pensei por um instante.
— Não... Para ser honesta, não. Por mais que a morte dele provavelmente
tenha te feito me mandar uma mensagem, por mais que eu ainda esteja em
alguma fase bizarra do luto... — Respirei fundo. — Quero conversar com
você sobre muita coisa, mas não ele. Não ainda.
A minha sinceridade provocou outro silêncio entre nós dois. Mais
ansiosa, esperei que ele soubesse o que dizer.
— Vamos começar assim: — Bale começou, se inclinando sobre a mesa.
Seu rosto ficou um pouco mais perto da câmera, ele parecia mais leve. —
Por que quis me ligar?
Eu sorri.
— Por que você quis que eu te ligasse? — devolvi.
— Porque poderia precisar de mim — disse, honesto. Meu coração
apertou. — Porque queria que lembrasse que poderia contar comigo.
Precisava de uma chance para te falar o que não disse quando parti.
Meu sorriso morreu. Damian era fodidamente direto quando queria. Uma
bala rápida e certeira, de encontro à sua vítima.
— Bom, a honestidade é um ótimo modo de começarmos — falei. Sem
jeito, Bale se afastou de seu computador. — Não ironizei, juro! Omissões e
mentiras nunca nos fizeram bem. E somos importantes um para o outro,
apesar de tudo o que aconteceu, então essa conversa precisa ser carregada
de sinceridade, certo? Sem enrolações.
Bale assentiu e umedeceu o lábio inferior.
— Então... Ainda sou importante para você? — ele retomou o que eu
havia dito. Meus ombros pesaram um pouco e eu assenti. — Bom. Isso é
bom.
— É?
— Sim. Porque ainda é importante para caralho para mim. — Meu
coração errou algumas batidas e eu sorri de canto. — Sinto tanto,
sweetheart, sinto mesmo. Por tudo o que houve entre a gente, se eu pudesse
voltar no tempo e fazer tudo diferente...
— Mas não podemos. Não podemos voltar no tempo, Damie.
Honestidade, eu disse. Assim estava sendo. Assim seria. Mesmo que
doesse.
— Cacete... Realmente fodi tudo, não fodi? — ele perguntou. Eu poderia
negar, mas... Sim. Ele tinha fodido tudo naquele baile. Apesar disso, não fui
nenhum anjo ao afastá-lo quando me procurou. A culpa estava de ambos os
lados.
— Lembro de como estava fora de si, sabe? De como acusava com tanta
vontade, me acusava de ter ferrado com tudo. E havia razão em algumas
coisas que dizia, mas outras... — Um gosto amargo tomou a minha boca e eu
o engoli. — Outras eram tão absurdas, Bale! Mesmo que eu olhasse nos seus
olhos e soubesse que era você ali, preso em dor... aquele não foi o Damian
por quem me apaixonei.
Estávamos na mesma página. Sofrendo do mesmo modo. Conseguia sentir
isso.
— Sinto muito — ele disse. E eu podia sentir o sofrimento, a angústia em
sua voz. — Naomi, eu sinto demais. Poderia passar a vida inteira te pedindo
perdão e não seria o suficiente. O modo como duvidei de você...
Lembrar do baile me fez encolher o corpo. Esmagou o meu coração com
força.
— Se tivesse um jeito de consertar as coisas, Carlson, de fazer essa dor
passar... — Olhei para o seu rosto, gravei cada detalhe. — Se eu pudesse
apagar aquela noite, porra, Naomi... Você nem imagina! Como me sinto
culpado! — Eu via isso nos seus olhos. — Você se fodeu tanto por causa
daquele maldito. Eu deveria ter imaginado que tinha sido Derek e pensado,
Carlson, que você estava tão em choque quanto eu. Eu só... Só queria
apagar tudo isso, sweetheart. Fico com ódio de mim mesmo ao lembrar que
quebrei você. Justo eu, que só queria te proteger! Amar cada pedacinho seu
para sempre. Eu fodi tudo, não foi?
Damian suspirou. O analisei, calada.
"Depois de você, ninguém".
Usou as minhas próprias palavras contra mim e foi além. Me deixou
possessa. Me fez duvidar de mim mesma por um instante. Parei por um
segundo, quando senti alguma raiva junto com a dor.
Não.
Não, eu não queria ter raiva de Damian.
Nem associá-lo a sofrimento.
Então tentei empurrar os sentimentos ruins para o lado. Não funcionou
muito bem.
— Não podemos apagar aquela noite, Damie. E tudo bem, sabe? Erramos
um com o outro. É bom que consigamos reconhecer isso, não? Tudo o que
podemos fazer é... — Respirei fundo. — Pedir desculpas. Desculpas, não,
Damian, perdão. Também falei coisas que não deveria ter dito, te feri.
Mantive a Poison por egoísmo, mas só fez mal para nós dois. — Fitei a tela,
percebendo como estava atento a mim, cada palavra dita. — Para mim. Mas
principalmente para você.
Um silêncio nos seguiu. Damian bufou.
— Bale — o chamei. Tentei organizar todos os sentimentos no peito. —
Você disse que me queria como amiga, apesar de tudo. Então vou deixar um
pouquinho de cada beijo, cada toque, cada momento que vivemos como
casal de lado e focar na amizade que criamos. Por mais difícil que seja.
Confidenciávamos nossas dores e segredos um ao outro antes das coisas
desandarem. Pediu isso de volta na mensagem, certo? Posso começar?
Ele se ajeitou na cadeira. Tomei isso como um sim.
— Perdi meu namorado há umas semanas — confessei, como se não fosse
sobre ele. Damian mordeu o canto da boca, desviando o olhar. O assisti por
cada segundo. — Pensei que jamais amaria novamente porque o cara
anterior era fodidamente desprezível, Damian. Mas esse meu último
namorado... — Engoli a dor. — Ele era diferente. Ele era verdadeiramente
bom. E eu o machuquei, sabe? Com tanta força que... Ele olhou nos meus
olhos como se eu fosse... Um monstro.
— Naomi...
— Porém entendi, dias depois, que naquele momento ele não estava bem.
Ele só estava preso em uma dor que eu ajudei a provocar. Só que, quando
ele percebeu o que tinha feito, eu fui tão escrota, Bale. — Minha voz falhou.
— Por mais que ele tenha me magoado, eu também passei dos limites e... eu
queria saber como pedir desculpas. Como fazer com que ele me perdoe?
Como fazer com que ele se sinta melhor?
— Não precisa me pedir perdão.
— Preciso, Damie. É esse o meu ponto! — respondi, me inclinando sobre
a mesa. — Erramos um com o outro. Os dois! Eu disse que te odiava,
Damian, por Deus!
— E eu disse de volta — ele respondeu, voltando a me encarar. — E
disse primeiro! — Eu conseguia sentir o quanto estava irritado consigo
mesmo. — Você merecia mais. E se eu tivesse parado para pensar um pouco
mais, naquele momento... As coisas teriam sido tão diferentes.
Meus olhos arderam. Eu quis sumir, de verdade. A dor era absurda.
— Se eu tivesse apagado a Poison, as coisas também teriam sido
diferentes. Sempre fomos teimosos para caramba... A mesma intensidade que
nos tornava tão... — Minha voz falhou e meus olhos se encheram de
lágrimas. — A mesma intensidade que nos tornava tão lindos nos destruiu
sem piedade. E eu sinto tanto... Nunca quis te machucar, Bale...
— Também nunca quis te machucar. Mas essas coisas acontecem, certo?
Às vezes erramos com quem amamos. — Seus olhos estavam vermelhos. Eu
odiava aquela maldita tela e a distância entre nós. Eu queria abraçá-lo,
apesar de tudo. — O nosso maior erro, contudo, foi desistirmos cedo
demais, não?
— Não, Damie. O nosso erro foi que... em algum momento nos destruímos
por nossas próprias concepções e deixamos de ouvir a verdade um do outro.
Principalmente quando Meyers chegou. — Parei para pensar por um
segundo. — Quando o passado bateu na nossa porta, fodemos todo o nosso
futuro.
Ele passou a mão pelo rosto.
— Cacete, Carlson... Eu estava tão transtornado... — Sua voz estava
trêmula, eu odiava vê-lo vulnerável. — Porra, não tinha o direito de duvidar
dos seus sentimentos quando me fez tão bem!
— Eu não fiquei muito atrás, Bale, eu falei coisas que te machucaram. —
Mordi o lábio, tentando não chorar. — E eu me sinto mal, porque... fiz de
propósito. — Confessar isso, olhando para como ele estava, doeu muito. —
Ergui todas as minhas barreiras novamente e quando apareceu naquele
hospital, joguei cada maldito tijolo que usei para reconstruí-las em você.
Tanto para me defender, quanto porque eu não conseguia esquecer do que foi
dito. Damian, eu fui tão baixa quanto.
Suspirei, tentando manter a calma. Mas as lágrimas me escaparam de
qualquer jeito, correndo pelo meu rosto.
— E agora estou recebendo o que mereço! — continuei. — Lembrando
das máscaras de argila, das músicas que cantávamos debaixo do chuveiro...
— Eu ri, entre lágrimas. Ele riu junto. — Sentindo falta dos tapas que eu
dava na sua bunda ou das vezes que se jogava em cima de mim, apenas para
me provocar. Sentindo falta das maratonas da Disney com a Miley, dos
planos que fazíamos e...
Parei para respirar, porque pareceu impossível por um momento. E então
desabei. Ele desabou junto.
— Talvez as coisas também pudessem ter sido diferentes — falei. — Mas
eu te machuquei de volta. E você foi embora. — Damian Bale estava
chorando. Eu não estava melhor. — E eu tive certeza de que me odiava.
— Eu fui embora. Sem te dizer que te amava mais do que tudo. Que nunca
te odiaria, Carlson. — Ele bufou, vermelho de tanto chorar. — Porque te
odiar é impossível, Naomi Carlson.
Eu ri baixo, pela primeira vez odiando ouvir isso. Ele riu junto. Porque
antes, Bale amava dizer isso.
Era injusto. Parecia que merecíamos mais do que tudo aquilo.
Secamos as lágrimas ao mesmo tempo. Não adiantou muito, porque
continuamos a chorar silenciosamente. Praguejei, olhando para o teto.
— Ugh, te odiar também é impossível, Damian Bale. Porque tentar odiar
você é tão sufocante quanto odiar a mim mesma.
Tomei um segundo para fitá-lo. Queria poder abraçá-lo e consolá-lo,
porque eu sabia que aquela saudade absurda doía nele também.
— Porque te amar está na minha essência. É tão natural quanto respirar,
Damie. Talvez nosso amor mude, sabe? Não seja mais a paixão que temos ou
sei lá como podemos definir. Talvez se torne algo mais suave, que guardarei
bem, bem no fundo do peito, mas vai estar lá. Porque você mudou a minha
vida. Isso não é algo que pode ser apagado. Te odiar é impossível, Damian
Bale. Estou cansada de tentar.
Eu não conseguia tirar a angústia de dentro de mim. Algo estava errado,
não poderíamos acabar assim.
— Te amo — repeti, precisando piscar para deixar as lágrimas escaparem
e olhar para o computador, para ele. Bale estava com as mãos sob o queixo,
completamente vermelho. — Mas, mesmo assim, acho que preciso te
superar. Isso faz sentido?
— Não muito — ele respondeu.
Desviei o olhar, porque nem eu mesma sabia se via sentido no que tinha
dito.
— Eu pararia esse mundo e o viraria do avesso para que nada te
magoasse, Naomi. Então imagina como é saber que eu te machuquei? — Vê-
lo chorar, vê-lo perdido era terrível.
Eu já não sabia o que dizer. Nada aliviaria o seu sofrimento, o nosso
desespero por decretar um fim. Ele parecia assombrado por aquele baile.
Tanto quanto eu. E eu estava muito mal.
Era um coração partido, eu já tinha passado por isso antes. Achei que não
amaria alguém de novo, mas amei. Sabia que aquele não seria o fim do
mundo. O problema é que... Um coração partido sempre parece o fim dos
tempos.
Eu amava Damian Bale mais do que palavras expressariam. E sabia que
ele que me amava. Mesmo do outro lado do mundo, eu ainda o sentia. Todo
seu delicioso caos sob a minha pele. O seu coração como se fosse o meu. Eu
não queria decretar um fim. Ao mesmo tempo, ele tinha partido. Então que
futuro tínhamos?
— Esse "superar" que tanto repete, Carlson — ele disse, sua voz trêmula
e fraca. — É isso mesmo o que quer?
Mordi o lábio, olhando para a tela. Era tão impessoal ter uma conversa
como aquela por computador. Pelo amor de Deus, era Damian Bale ali. E eu
queria mentir e dizer que sim, mas honestidade precisava existir entre nós
dois, depois de tantos problemas por omissões e mentiras, principalmente da
minha parte. Então fui honesta, mas não dei a resposta que ele queria:
— Você está na Inglaterra, de qualquer modo, Damian, então... Se eu
disser "não", do que adianta?
Bale xingou, balançando a cabeça em negação. Eu queria abraçá-lo com
força. Eu o queria. Perto.
— Estou olhando para você agora, Naomi, e parece que te amo ainda mais
— Damie confessou. Quis tanto que não fizesse isso, porque era tortura. —
E se disser que não quer me superar, posso te dizer que também não quero te
superar. Não sei ao certo o que isso significaria para nós, mas talvez
significasse mais do que um fim, sweetheart. Então talvez adiante dizer que
não quer me superar, Naomi, talvez...
Ergui meus joelhos e os abracei, apoiando o queixo sobre eles. Eu queria
dizer qualquer coisa que consertasse as coisas. Parecia impossível.
— Eu não te quero fora da minha vida — ele declarou, seus lábios
trêmulos. — Eu não quero isso.
— Nunca vai estar fora da minha vida, Damian. Eu também nunca vou
estar fora da sua. Não com a história que tivemos! E me quer como amiga,
não disse? Ao menos como isso. Posso prometer que sempre vou estender a
mão quando precisar.
— Cacete, sweetheart... — Suas mãos foram ao seu rosto.
— Eu queria poder te abraçar agora.
— Eu queria o seu abraço agora, Carlson.
Ficamos em silêncio por um tempo, imersos naquela dor.
— Porra, se eu voltasse para a Austrália, sweetheart, amanhã mesmo... —
Havia um tom de pergunta.
— Não me peça isso — pedi. Ou melhor, implorei. — Não me faça essa
pergunta, Damian. Precisa pensar se o que havia na Austrália... Que era mais
do que eu e você sabe disso... Se isso merece ser deixado para trás. Não é
só sobre mim. E não posso te dar garantias de que teremos um futuro se
voltar... Eu...
— Eu ainda poderia te ensinar a andar de bicicleta — ele me interrompeu.
— E cantar todas as músicas que compus para você...
— Damian...
— Isso não é justo.
Sorri triste, consciente disso.
— Preciso que tente me perdoar por toda a dor que te causei — pedi.
— Já perdoei.
— De verdade, Damie. Se ainda dói, então não me perdoou, por mais que
queira. — Ele ergueu os olhos para mim.
— E você? Vai me perdoar?
Cruzei as pernas e me inclinei sobre a escrivaninha, meu indicador
contornando o seu rosto pela tela.
— Preciso de tempo e paciência, mas acho que sim — prometi. E era
sincero. — Porque, no fundo, meu coração entende que muito do que
dissemos um pro outro, no baile, era mentira. Nunca vamos nos odiar. E
olhando para você, agora, eu tenho certeza disso, amor.
Ficamos em silêncio por algum tempo. Processei a palavra que tinha dito
e torci para que ele tivesse a deixado passar, mas sabia que não. E então
Bale se largou sobre a cadeira e xingou bem alto, o que me fez rir.
Oh, estávamos fodidos! Muito fodidos. Tão trágico que chegava a ser
cômico.
Damie girou a cadeira do escritório em que estava, fingindo drama a cada
xingamento, bem devagar. Droga, eu sentia falta daquele filho da puta.
Esperei que sua cena acabasse e ele tombou a cabeça para o lado,
sorrindo para mim.
— Talvez possamos ser amigos, então — ele sugeriu, rolando os olhos.
Eu ri de novo. — Preciso de alguém para me irritar de vez em quando.
— Babaca — acusei, secando minhas lágrimas. Elas não voltaram a
surgir. Bale sorriu ainda mais e eu apoiei o rosto na mão, o analisando.
Se terminássemos ali, nossa história teria sido linda mesmo assim. Com
todo o nosso caos e nossas boas doses de mau comportamento.
Lembrei de algo bom. Algo que meu amigo deveria saber. Então engoli a
vontade de chorar, abri meu maior sorriso e fingi que estava um pouco mais
feliz. Eu não queria terminar a nossa conversa com sofrimento.
— Então, como sua amiga — cantarolei —, tenho algumas novidades.
— Jura? — ele perguntou, limpando as lágrimas. Bale forçou um sorriso
de volta.
Porra, eu o amava...
— Adivinha quem vai cursar Moda em Sydney?
Damian deixou o queixo cair.
— Mentira!
Gargalhei da sua animação quando fingiu comemorar como um de seus
gols, como se não tivéssemos chorado nos minutos anteriores. Meu coração
esquentou.
— Quer saber? Que se foda os bebês chorões que somos! — Ele bateu na
mesa, me fazendo rir ainda mais. Não dava mesmo para odiá-lo. — Me
conte tudo, porra, como descobriu?! Quando vai partir daí?!
E eu obedeci. Céus, eu contei tudo. E muito mais. Ele ouviu cada palavra,
fazendo suas piadas e falando da sua vida logo depois.
Aquilo não era um fim justo para nós dois. Aquilo não era um fim.
Damian e Naomi estavam ali.
Uma pequena chama, suficiente para crescer e ainda incendiar tudo o que
encontrava. Só não percebíamos isso. Mas estávamos ali. Tão capazes de
ressurgir das cinzas...
A prova disso foi que o mundo se tornou mais frio quando desligamos a
chamada.
Tanto que eu quis ligar para ele de novo no segundo seguinte.
Amar uma garota que está do outro lado do mundo e decepcionada com
você é o tipo de experiência que não quero ter novamente.
Sei bem que mereci isso.
Se eu pudesse socar o Damian daquele baile, eu socaria com força. Sem
piedade. Porque Carlson não merecia ter ouvido tudo aquilo. E nós não
merecíamos aquela briga.
Impulsivo, idiota, estupido, babaca...
Doeu para um caralho ouvir que ela "tentaria" me perdoar e que
"acreditava" que conseguiria. A incerteza estava ali, implícita. Era como
ouvir um "quero muito te perdoar, espero que eu consiga, acho que consigo,
mas não tenho absoluta certeza". Totalmente compreensível e ainda assim
doloroso. E pior do que isso foi ouvir: "preciso te superar".
Superar.
Só eu sei o esforço que fiz para me conter, para ouvir mais do que falar e
respeitar o seu espaço. O esforço que fiz para não repetir milhares de vezes
que a amava para caralho. Que ela foi a mulher da minha vida. E perceba
que não tenho medo algum de dizer isso. Nem dúvidas.
Eu poderia amar alguém depois de Naomi Carlson e ainda assim
conseguiria reconhecer facilmente que depois dela não haveria ninguém.
Ninguém que me fizesse pintar o rosto com uma máscara dura e verde; ou
pintar uma unha de cada cor e ir para casa tentando remover o esmalte; ou
maratonar filmes românticos de qualidade duvidosa.
Carlson foi um ponto de virada na minha vida. Essa garota me inspirou
sem que eu nem me desse conta. Passei a ver o mundo de uma forma
totalmente diferente depois dela. Nosso relacionamento me ensinou para
cacete. Cresci tanto ao seu lado quanto em meus vinte anos de vida até ali. E
joguei tudo isso fora para ser um filho da puta grosso, estúpido e sem noção.
— Certo, Damian Bale — ela disse, do outro lado da tela, sorrindo como
nunca. Admirei seus olhos azuis e o modo como combinavam com o suéter
de mesma cor que ela usava. — Preciso desligar agora, Madison está me
chamando para o jantar.
Me larguei sobre a cadeira, verdadeiramente destruído por uma frase tão
comum. Ela precisaria desligar.
— Que bizarro. Você sendo chamada para jantar e eu serei chamado para
o almoço em algumas horas — brinquei. Ela sorriu fraco. Não parecia
querer desligar também. — Faz um favor para mim, sweetheart? —
Aproximei-me do computador. — Sorri só mais uma vez?
Ela sorriu, mas parecia confusa.
— Por quê?
Tentei printar a tela sem que percebesse. Talvez fosse melhor não olhar
aquele sorriso pelos próximos dias, não me ajudaria a superá-la. Mas eu
queria isso. Queria lembrar daquela conversa, torcendo para que se
repetisse logo.
— Tirou foto da tela?!
— Não!
— Apareceu aqui, Damian, printou a tela. Apague agora mesmo! — ela
pediu e eu ri, negando. Lembrei da nossa primeira foto juntos, na festa do
inesquecível bodyshot. Nossos rostos cobertos por falsas cabeças de
animais, nosso falso ódio um pelo outro e como Naomi pareceu infeliz em
publicar aquilo. — Cacete, eu devo estar horrível.
Eu ri. Horrível?
— Impossível, sweetheart.
Ela rolou os olhos.
— Então tire outra, ok?! — ela disse, mandona como sempre. — Uma que
mostre como eu sou realmente incrível. Preciso estar preparada para isso. —
Ela ajeitou o cabelo, o jogando para trás. O assisti cair em cascatas por seus
ombros, seus lábios rosados se abrirem em um sorriso e ali estava Naomi
Carlson transformando uma ligação do Skype em um photoshoot.
Seu nariz estava um pouco vermelho pelo choro de minutos antes, mas
nada que uma edição não resolvesse.
Sorri para ela e não para a câmera. Esqueci completamente que estava
sendo gravado, apreciando a beleza insuperável daquela mulher. E então
tirei a foto que pediu, me apaixonando ainda mais quando ela fez uma careta
e colocou a língua para fora.
Seus olhos. Seu sorriso. Seu jeito. Tudo o que era seu me tornava... seu.
Mesmo de longe.
— Não pode dormir sem jantar, Naomi! — Ouvi o que parecia ser a sua
mãe do outro lado e ela rolou os olhos. Ri do seu descontentamento. Carlson
se inclinou, os braços cruzados sobre a mesa, mordendo a boca.
Linda. Para cacete.
— Preciso ir, novato. Me manda a foto depois. Quero ter comigo.
Novato. Sempre seu novato.
Meus olhos arderam, mas disfarcei a tristeza com um sorriso de canto,
assentindo.
— Vou mandar agora mesmo, sweetheart — prometi e minha voz escapou
um pouco rouca.
Nos olhamos por longos e longos segundos. Eu não queria desligar.
— Estou orgulhoso, Naomi. Muito orgulhoso de você. Não que isso
signifique muito...
— Significa — ela garantiu. Suspirei, grato por isso.
— Estou muito orgulhoso de você. Por estar firme, por continuar sempre
firme e por conseguir a vaga em Sidney. Você merece pra caralho. O mundo
é pouco pra você.
Suas bochechas ficaram vermelhas, seu sorriso mais tímido do que o de
praxe.
— Digo o mesmo, Damie. Se preferir as universidades daí ou daqui, se
preferir se jogar de cabeça em uma carreira, seja lá qual for o seu plano...
Sigo torcendo muito por você. — Ouvir isso foi agridoce. — Tenho orgulho
do cara que você é. — Quase ri, pensando em como poderia ter orgulho de
mim. Naomi pareceu entender isso, porque adicionou: — E espero que um
dia você tenha também.
Naomi Carlson... Linda como sempre, com o mesmo brilho apaixonante e
carregado de vida nos olhos. O brilho de quem lutou arduamente por
felicidade e alguma cor quando tudo parecia tão cinzento. Ela era incrível,
para caralho.
— Até mais, sweetheart. Me ligue quando quiser.
Ela sorriu de canto.
— Até mais, inglesinho.
Desliguei a chamada à contragosto. A imaginei em sua casa, fechando o
notebook, tentando pensar em qual seria a sua reação. Não consegui. Mas a
minha foi me largar sobre a cadeira, fitar o teto, respirar o mais fundo que
conseguia... E desabar, silenciosamente.

Eu tinha acabado de postar a foto que Naomi e eu tínhamos tirado juntos,


na chamada de vídeo. Não sei porque fiz isso. Talvez por brincadeira.
Talvez porque sabia que ela queria fazer isso e seria uma provocação
interessante. Carlson me pediu para mandar a foto, eu disse "não", ela
respondeu com um "por isso terminamos" e eu fiz questão de provocá-la e ir
almoçar como se nada tivesse acontecido.
Até que meu celular apitou.
Naomi: Me manda.
Eu sorri, levando uma garfada de carne à boca enquanto segurava o
celular. Me fiz de desentendido:
Eu: O quê?
Naomi: A foto! Me manda.
Eu engoli a comida, me largando sobre a cadeira. Naomi Carlson estava
trocando mensagens comigo novamente?
Naomi: Disse que me mandaria e não fez isso, Bale, ainda postou antes de mim?! Isso é
traição. Me manda!
Eu: é uma desculpa para falar comigo novamente, não é? Confesse.
Eu conseguia visualizar perfeitamente Carlson revirando os olhos e
sorrindo, o que fez um dos cantos da minha boca se erguer minimamente.
Naomi: sim, porque o mundo gira em torno do seu pinto.
Precisei rir baixinho.
Naomi: Eu queria ter postado primeiro. Me manda.
Enviei a imagem.
Eu: Está aí, vossa majestade.
Ouvi alguém pigarrear. Só então me lembrei que estava ali, em Bradford,
de frente para a minha mãe. Ela lançou um olhar para a comida, tentando ser
firme e silenciosamente me mandar comer e usar o celular depois. Mas
Meredith sorria porque sabia com quem eu estava conversando.
Tentei desfazer o sorriso completamente bobo nos meus lábios, voltar a
comer, mas meu celular vibrou sobre a mesa e eu olhei para a tela.
Naomi: obrigada, pobre plebeu.
Não consegui parar de sorrir.

Mike me fez afastar o telefone do ouvido ao berrar por informações sobre


a chamada com a Naomi. Brandon e Oliver estavam enchendo o grupo de
mensagens por causa da postagem e eu contei tudo que rolou para eles.
Oliver me mandou "voltar para a Austrália e reconquistar a garota".
Brandon disse "cara, vocês vão voltar".
E Mike fez todo um monólogo sobre como a Austrália era mais para mim
do que a Naomi; como Miley, Ryan e Katy me esperavam; como ele sentia a
minha falta e os dois outros idiotas também; apenas para acabar dizendo "e
sim, você e a Naomi são muito fofos, reconquiste a sua garota".
Sorri para as mensagens, mas não exatamente por felicidade. Foi mais por
achar aquilo improvável. Voltar para a Austrália não me faria ter a Naomi de
volta de imediato. Ainda assim, eu precisava pensar.
Tinha conseguido uma chance para conhecer duas universidades inglesas.
Uma a cem quilômetros de Bradford e outra em Doncaster. Ambas paras
cursos relacionados à música. Ao mesmo tempo, dois emails me esperavam
na caixa de entrada: um dizia que infelizmente eu não havia sido aceito em
uma das universidades de Melbourne — e provavelmente indicava que as
universidades de Sydney também me diriam não. Mas o outro... O outro dizia
que minha vaga em Brightgate aguardava por mim.
Eu precisava tomar uma decisão logo. Na verdade, Ryan e eu entramos em
uma certa "briga", porque ele queria simplesmente pagar a minha admissão
de qualquer jeito. Queria "garantir" a minha vaga, mesmo se eu a recusasse
depois. Eu achei absurdo que gastasse dinheiro comigo daquela forma, por
uma incerteza, mas meu pai disse que era seu dever e muito pouco perto de
tanto que precisava e poderia fazer por mim.
Quase briguei com a minha mãe também, porque ela concordou com ele, e
isso não era de praxe. Meredith não gostava que Ryan extrapolasse em seus
gastos comigo, porque ela não tinha a mesma conta bancária que ele. Mas
acho que sabíamos que Ryan se sentia um pouco desesperado para fazer tudo
o que podia por mim e recuperar o tempo perdido. Ao mesmo tempo em que
Meredith DeLuca acreditava que eu me arrependeria de deixar aquela
oportunidade passar.
Minha mãe tinha certeza de que eu voltaria para Brightgate. Ela queria que
eu tivesse onde estudar quando isso acontecesse e não ficasse parado por lá.
Fui vencido pelo cansaço. Contudo, garanti para Ryan que, caso eu
recusasse a vaga em Brightgate, arranjaria um jeito de lhe pagar cada mísero
centavo e que isso poderia sim acontecer. Meus pais não acreditaram
muito.

— E eu comprei um monte de canetinhas coloridas! — Miley contou,


mostrando-as para o celular. Eu ergui as sobrancelhas, fingindo que aquilo
era incrível. — Desenhei um monte de coisa! Desenhei você!
— Me desenhou?
— Sim! — Ela olhou ao redor, caminhando pelo quarto e fazendo o
celular de Katy gravar tudo menos o seu rosto por algum tempo. — Mas eu
não sei onde deixei o papel.
Estava feliz para cacete que ela finalmente queria me ver de algum modo.
Depois de me esmagar no aeroporto, tive certeza que ela não iria querer me
olhar por muito tempo. Sabia que tinha ficado magoada. Me perguntou dez
mil vezes se eu estava a deixando porque "não a amava". Como se isso fosse
possível.
Miley conquistava qualquer um. Ela derreteu o meu coração de gelo com
facilidade. Quando vi, eu estava sendo o pior tipo de irmão babão.
— Tudo bem! Não precisa me mostrar o desenho. Só me conta mais sobre
a sua semana, que tal? — pedi e ela voltou a mostrar o rosto.
— Hmm... Eu joguei futebol com o papai no quintal ontem!
— Jura?!
— Juro! — Ela ergueu o queixo ao dizer isso, animada. Foi fofo para
cacete. — Eu fiz um gol!
— Mas nem tem gol aí em casa — falei. A assisti se jogar sobre a cama
dela, preguiçosa. Era manhã em Bradford, mas deveria estar perto da hora
de dormir para Miley.
— A gente improvisou com as minhas bonecas. — Segurei a vontade de
rir ao pensar em duas barbies largadas na grama ou algo assim. — Daí eu fiz
um gol! E parecia com aquele que você fez no seu último jogo. Eu queria
ter gravado para você ver, Damie, você ficaria... — Ela deixou o queixo
cair, interpretando a minha reação. Eu ri.
— Eu queria ter visto isso!
— E eu queria que você tivesse visto — ela disse. E seu tom de voz se
tornou um pouco mais melancólico.
Senti muita saudade da minha irmã. Até das brigas que tínhamos no início,
quando eu era um babaca e ela pegava muito no meu pé. Ou das vezes que eu
tinha que lhe ensinar a lição de casa ou jogar Just Dance com ela, mesmo que
Carlson estivesse nos gravando o tempo todo — e isso me frustrasse para
caramba. Sentia falta de ver a Naomi enchendo a minha irmã de beijos e de
como tudo parecia certo quando estávamos juntos. De quando éramos apenas
nós três assistindo musicais da Disney; eu secretamente gostava das músicas
de High School Musical 3 — segredo que só a Miley conhecia. Carlson fez
de tudo para nos unir e conseguiu. Só de pensar que tinha me conectado tanto
com a pequena Bale e mesmo assim parti, me fez sentir horrível.
— Um dia, vamos estar juntinhos — prometi. — E eu vou te ensinar a
fazer umas jogadas insanas. Talvez goste ainda mais de futebol. Tanto que
vai preferir ser jogadora que líder de torcida!
— Duvido! — ela me provocou.
— Pois pode apostar!
Ela riu e se espreguiçou na cama, sonolenta, deixando um bocejo escapar.
Ouvi um barulho, como uma porta se abrindo, e a voz da Katy entrou no
quarto, dizendo que precisava do celular de volta. Minha irmã bufou, como
se não estivesse exausta e insistindo na chamada apenas por mim.
— Damie — ela disse —, preciso ir dormir. Boa noite!
— Boa noite, Miley. Durma bem, tá legal? Amo você.
Ela sorriu de orelha a orelha sem mostrar os dentes.
— Amo você mais.
Depois passou o telefone para Katy, que se despediu brevemente e
encerrou a ligação.
Parei por um segundo, me sentando sobre a minha cama, pensativo. A
sensação de que boa parte da minha alma ainda estava em Brightgate voltou
com força total. E talvez essa parte estivesse com Miley, sendo agarrada
com todas as forças, como um de seus ursinhos de pelúcia.

Aparentemente, Carlson tinha pouco menos de um mês em Brightgate antes


de partir para Sydney, então decidiu aproveitar cada segundo por lá.
Soube disso por Brandon, que soube por Melissa. Eu ainda procurava
maneiras de puxar assunto com Carlson e não sabia como. Éramos amigos e
eu sabia disso. Ao mesmo tempo, éramos ex-namorados e eu pensei que
seria bom lhe dar algum espaço para que "me superasse". Ugh, essa ideia me
causava dor, urticária, repulso.
De qualquer modo, acabei por puxar assunto em um dia que vi um post do
irmão de Wayne em uma academia de dança. Eu estava sentado contra a
janela do meu quarto, no ponto mais alto da casa, fumando. Fazia algum
tempo desde que havia colocado um cigarro entre os lábios. Costumava fazer
isso quando estava frustrado, precisando relaxar. Como naquele momento.
Enquanto a nicotina lutava contra a sensação de vazio que eu sentia, naquele
início de tarde, eu usava o celular em busca de qualquer distração no meio
de todo aquele tédio.
No post do irmão de Melissa, ele dançava com alguém. Não era a sua
irmã. Era Naomi. Conseguia ver a melhor amiga da minha ex gravando ao
fundo, por causa do espelho da sala de dança, mas meus olhos se prenderam
rapidamente nela e somente nela:
Naomi Carlson.
Porra, eu não conseguia tirar os olhos da tela.
O modo como o corpo da Naomi se movia com leveza, ao lado de
Finneas... Era surreal. O irmão de Melissa Wayne parecia ser conduzido por
Carlson e não o contrário. Talvez porque Naomi fosse uma força da natureza.
E como tanto, não me parecia possível de ser controlada.
Ela fugiu das mãos dele, dançando com uma liberdade angustiante,
girando com velocidade. Finneas a pegou de volta, por trás, segurando a sua
cintura com leveza, a mantendo perto. Ele a tirou do chão por um breve
segundo e então a colocou de volta, apenas para girá-la le fazê-la chocar o
corpo ao seu. Um arrepio me percorreu, porque Naomi Carlson era perfeita
dançando. Ela conseguiria criar química com qualquer pessoa. Fácil assim,
aquele vídeo se tornou o meu favorito.
Procurei a música que eles dançavam, curioso pela letra. Era alguma do
James Arthur, Train Wreck ou algo assim. Usei isso para puxar assunto.
Naomi: Gostou da música, jura?
Franzi o cenho para a mensagem.
Eu: Por que tenho a sensação que está surpresa ou algo assim?
Naomi: James Arthur não é o seu estilo.
Eu: Mentira! Eu gosto daquela que você ouvia toda hora. "Naked", eu acho.
Naomi: Isso porque você levava a música ao pé da letra e jurava que o cara estava "de pé,
nu" e não, tipo, de pé, vulnerável.
Eu ri. Bem, era verdade.
Eu: Vamos, o cara diz "estou aqui pelado" e quer que isso soe poético. Acho bem mais
divertida a ideia de que ele está se declarando peladão.
Naomi: sempre romântico, Damian Bale.
Eu: Aposto que está rindo por todo o meu romance.
Ela me respondeu com uma selfie, totalmente séria. Inferno. Naomi estava
sem maquiagem alguma, de olhos semicerrados e vestindo algum moletom
cinza que reconheci como sendo meu. Completamente natural. Mais linda
do que nunca.
Eu: devolva o meu moletom!!!!
Naomi: Se quiser, venha pegar!
Naomi: Ele é meu agora, novato, é o meu pagamento por ter te aturado por meses.
Eu ri. Mas depois pensei rápido, não queria que a conversa morresse.
Eu: Gostei da música desse cara. Conhece outras nesse estilo?
Naomi: Está a fim de sofrer, hm?
Eu: terminei um namoro recentemente, preciso de músicas de fossa.
Ela mandou uma risada.
Naomi: Precisa parar de fazer piadas com o nosso término.
Eu: Você começou! E são os melhores tipos de piada.
Era verdade, ela tinha começado. Dias antes, quando fizera uma
brincadeira sobre o nosso fim na nossa última foto juntos, no meu Instagram.
Era nosso tipo de humor. O mais ácido possível. O melhor tipo de humor.
Naomi: Better, do Zayn. Muito nosso estilo.
Eu: Tipo de música que gostamos ou música que nos define?
Naomi: os dois. Ouve.
Eu fiz isso imediatamente. Estava quase no segundo verso quando ela me
mandou outra mensagem:
Naomi: antes que eu me esqueça. Ouvi o último álbum do The Neighbourhood e lembrei de
você.
Naomi: Mas só gostei de duas músicas. Fiquei decepcionada.
Eu: lembrou de mim? Odiou e lembrou de mim?
Naomi: Para de drama. Não odiei. Só esperava mais! Mas Middle of Somewhere é legal.
Eu: É uma das minhas favoritas.
Eu: Não acredito que não gostou do resto.
Naomi: Se chama bom gosto.
Prendi o cigarro entre os lábios. Enviei uma foto do meu adorável dedo
do meio para ela. Soube que estava rindo. Zayn cantou algo sobre parar de
brigar e tentar mais uma vez. A música parecia algo sobre um
relacionamento que dava errado e se consertava aos poucos. Uma pontinha
de esperança surgiu no meu peito por meio segundo. Meio segundo.
Naomi: está ouvindo a música que te indiquei, não é?
Eu: Como sabe?
Ela tirou foto do computador e mostrou o meu nome no Spotify. "Better —
ZAYN", logo embaixo.
Eu: Stalker.
Ela mandou uma risada e algum emoji que não consigo lembrar agora.
Digitou e digitou algumas vezes, mas apagou as mensagens. Mandou uma
playlist cinco minutos depois. "novato" era o nome. Perguntei o que era
aquilo e Naomi disse que eram músicas que tinha descoberto naquela semana
e que achava que eu poderia gostar. Aquilo aqueceu o meu peito.
Eu: Acaba de montar uma playlist para mim, sweetheart?
Naomi: Nada demais. Coisas que amigos fazem, não? Já fez um CD para mim.
Eu: Não éramos amigos, éramos mais. Está sentindo a minha falta, confesse!
Eu: Aposto que a lista está cheia de músicas de término. Eu sou tão difícil de >superar<.
Naomi: Ouve a música, Bale. Vou dormir antes que te diga onde enfiar o seu ego enorme.
Agressiva. Senti saudades.
Eu: Durma bem, sweetheart. Sonhe comigo.
Naomi: Me desejando pesadelos?
Precisei rir.
Naomi: durma bem também.
Eu: é início de tarde por aqui.
Naomi: Oh, verdade.
Naomi: Bom filme da tarde, lanche, exercício de punho, sei lá o que vai fazer.
Deixei o queixo cair.
O quê?!
Eu: exercício de punho????
Naomi: Oh, você sabe... Eu também sou difícil de superar.
Precisei de um tempo para processar. E então gargalhei alto, entendendo o
que ela queria dizer. Maldita. Sempre tinha algo surpreendente, sujo e
sarcástico na ponta da língua. Me levantei da janela, prestes a me desfazer
do cigarro, tomar um banho, considerando sobre a punheta. Fazia algum
tempo, não era uma má ideia...
Meu celular vibrou de novo. Sorri, já sabendo de quem se tratava.
Naomi: Me diga o que achou da playlist depois.
Eu com certeza diria.
Estava na cama, quase dormindo quando recebi um link em minha
conversa com Bale. Era uma playlist.
Damian: Ok, nota para a sua playlist: 4.5 de 5. Escuta essa.
Deixei o queixo cair, indignada.
Eu: Por que perdi cinco décimos?
Damian: Porque me recuso a acreditar que pensa em mim quando ouve esse tal Jack Johnson.
Muito chato.
Eu: é goodvibes e fofo!
Damian: ...
Olhei para as reticências e parei para pensar. Good Vibes. Damian era
mais para dramático e emburrado.
Eu: Ok, entendo seu ponto. Vou ouvir a sua.
Eu: Bom dia, novato.
Damian: Boa noite, sweetheart. Durma com os anjos enquanto seu demônio favorito está
longe.
Praguejei assim que ouvi a primeira música da playlist "sweetheart": Die
For You do The Weeknd.
Desse jeito, seria impossível dar menos que cinco estrelas para Damian
Bale.

Desci as escadas de casa, coçando os olhos, completamente sonolenta.


Recebi braços ao redor da minha cintura. Reconheci o perfume de imediato e
me virei para Lis, a abraçando pelo pescoço com força.
— Bom dia, amor da minha vida — desejei.
— Quase boa tarde, futura estilista. O café da manhã está na cozinha, se
achar que ainda tem tempo para isso. Já estava indo te acordar! — Elise se
afastou, seguindo escada acima. — Vá para o escritório depois.
— Hã, escritório?! — Eu não entrava no escritório do meu pai há pelo
menos seis anos.
— Sua mãe e sua irmã estão com o advogado da família lá dentro.
Esperando por você.
Fiquei parada por algum tempo, processando a informação. Peguei apenas
uma maçã na cozinha e olhei para a roupa que eu vestia. Era uma calça de
moletom e uma camisa grande. Digo, eu não costumava ter encontros com
advogados dentro de casa, mas... Pois é, Naomi Carlson não sabia o que
vestir. Entrei no escritório assim mesmo, comendo uma maçã. Todos os
olhares foram para mim.
— Bom dia — a minha mãe desejou, sentada na cadeira que costumava
ser do meu pai. Fiquei aliviada por vê-la com uma camiseta comum e
qualquer. Madison estava com uma regata e uma calça de lavagem clara, de
pé, logo ao seu lado. Bem, o advogado estava de terno. Mas eu não estava
tão mal vestida assim. Estava?
— Mandou me chamar? — perguntei, mordendo a maçã. Me posicionei a
uns três ou quatro passos do homem de pele marrom, esguio, em seu terno
cinzento. Parecia caro. Chutaria Yves Saint Laurent ou Armani.
— August trabalhou com seu pai por anos. Eram amigos. — Sorri para
August, mas eu nunca o tinha visto. Nunca. — Ele vai nos ajudar a resolver
algumas coisas nesses primeiros anos sem Vincent, algumas burocracias.
Mas pedi que também nos ajudasse com algumas pendências em relação à
sua ida para Sydney.
Engoli o pedaço da maçã e disse a primeira coisa que meu único neurônio
acordado conseguiu pensar:
— Hã?
August abriu um sorriso simpático. De pé, logo ao meu lado, apoiou a mão
em uma papelada sobre a mesa.
— Primeiro, seu novo lar — o advogado disse. — Terá que viver em um
dos alojamentos do campus enquanto nos organizamos, mas, como arquiteta,
sua mãe tem grandes contatos pela Austrália e está procurando um bom
apartamento para você por Sydney.
— Barato — falei. Lia riu e eu fiz cara feia. — Mãe! Não quero gastar
muito o nosso dinheiro por aí!
— É o seu futuro e a sua segurança! — ela argumentou. — Quero do bom
e do melhor para a minha menina. — Escondi a sombra de um sorriso atrás
da maçã quando a mordi. O bom do lance de recomeçar uma relação com a
minha mãe? Ser mimada.
— E falando em segurança... — Madison cantarolou. Ela empurrou outro
documento sobre a mesa em minha direção. Engoli a comida e olhei para o
advogado.
— O que seria isso?
— Isso seria uma medida de segurança — ele me respondeu.
— Contra quem? — quase sussurrei. Tomei o papel em mãos e li o
primeiro nome em letras de forma e negrito. — Oh...
— Isso é uma ordem de restrição contra o senhor Derek Meyers. Ele não
poderá se aproximar da senhorita — August explicou. — Precisamos que
assine.
Por sorte, eu não tinha visto Meyers desde o baile. De modo algum. Derek
estava bloqueado de todas as formas possíveis. Mas no fundo eu ainda tinha
medo. As consequências do que ele fez com a Poison me perseguiriam por
semanas, meses, talvez para sempre. Julgar uma garota por um aborto era
muito fácil para a sociedade. Até mesmo no âmbito profissional, se aquilo
fosse propagado por muito tempo, me veriam da pior forma possível. E eu
me perguntava se Derek faria alguma merda pior. Meyers era instável e
precisava de ajuda. Uma ajuda que não cabia a mim para dar.
Sentei-me na cadeira à frente da mesa, tomando o papel para mim. A maçã
em minha outra mão ficou em segundo plano.
— Sabe que é o melhor a fazer — Maddie disse, baixo. — Não sabe?
Sim. Mas chegar ao ponto de pedir uma ordem de restrição... Mostrava
quão longe Derek foi.
— Se precisar de um tempo para pensar... — August começou e eu neguei.
Derek fez questão de me apresentar o inferno. Repetidas vezes. Aquilo era
necessário.
Inspirei e expirei fundo mais uma vez, tomando uma decisão que não
agradaria ninguém naquela sala:
— Quero contar para ele sobre isso antes de todo mundo.
O clima naquele escritório mudou. Cada molécula de ar provavelmente
pesava três vezes mais, eu estava tensa e sabia que todos ali também
estavam.
— De jeito nenhum — Lia disse, entredentes.
— É loucura, Naomi — Madison alertou. Eu olhei para o advogado.
— Quero me encontrar com Meyers em um lugar público com uma cópia
desse documento. Quero contá-lo o que estou fazendo.
— Por quê? — Madison praticamente rosnou e eu analisei a confusão no
seu rosto.
— Porque essa é uma história que eu preciso decretar o fim. Não a justiça,
não um advogado, não terceiros. Eu preciso disso.
— Naomi... — minha mãe chamou e eu mordi a maçã, trocando os papéis
por uma caneta. Girei-a entre meus dedos.
— Isso ou nada, mãe.
Era um blefe, eu assinaria de qualquer modo. Mas Lia manteve o contato
visual comigo por um bom tempo, suas sobrancelhas unidas em um protesto
misturado a uma preocupação gritante. Me esforcei para me manter firme.
— Assine os papéis — ela cedeu, à contragosto. — Vamos estabelecer
segurança nesse encontro...
Rubriquei as folhas e me pus de pé, ignorando o arrepio ao lembrar de
cada merda que Meyers me fez engolir. Aquele era um ciclo que eu
precisava fechar.
— Mais alguma coisa?
Me preparei para sair da sala e Madison riu.
— O testamento, Naomi — ela disse —, vamos ler o testamento.
— Oh. — Me sentei de volta. — Eu ia fazer uma saída decidida e triunfal,
mas pode ficar para mais tarde. — Dei de ombros e me larguei sobre a
cadeira. Minha mãe riu baixinho. Me surpreendi quando August riu também.
Passei o resto da manhã ouvindo falar de documentos e contas bancárias,
fingindo que entendia tudo e deixando minha saída nada triunfal para depois.
Lia Carlson tinha óculos escuros no rosto e um sobretudo sobre suas
vestes pretas, em pleno verão. Tinha um jornal em mãos e me olhava por
cima das folhas, de longe. Era fácil demais vê-la. E ainda assim ela fingia
que não. Talvez a minha mãe achasse que estava num filme de 007.
Madison estava logo à frente dela, agindo normalmente. Mas eu sabia que
estava nervosa.
Na mesa do outro lado do estabelecimento, em um dos cantos, Brandon
Ramsey estava com Mike Graham e Oliver Zhang. Gianna não estava ali,
porque não sabia sobre o que eu faria. Se soubesse, teria contado para
Wayne e eu não quis preocupar Melissa. Escolhi ouvir seus gritos depois. E
sim, ela gritou. Muito. Quase me deixou surda e com razão.
Eu estava numa mesa, sozinha, esperando por Derek Meyers. E bem certo
que estava em um ambiente público, em segurança. Mas aquilo era bem mais
do que aquele cara merecia. Eu não tinha obrigação alguma de ter uma
conversa com ele, Mel diria. Ela estaria certa.
Porém, se Meyers fizesse merda, todo mundo veria o que eu tinha passado
por tanto tempo. Talvez ele fodesse seu nome pela cidade. Mais ainda.
Meu celular vibrou.
Damian: Nota da minha playlist?
Eu: 5 estrelas. Parabéns. Feliz?
Damian: Demais.
Sorri, sem saber o que responder. Damian enviou um link. Apertei nele e
encontrei uma música.
Damian: escuta essa. Mas precisa ouvir hoje.
Eu: "Punchin Bag". Ama Cage The Elephant, não é?
Eu: Por que hoje?
Ele demorou um bom tempo digitando.
Damian: porque essa música te define. E porque sei o que está fazendo, Carlson.
Eu mordi a bochecha. Não sabia se responderia.
Damian: Brandon me contou.
Eu: Fofoqueiro.
Damian: Demais.
Damian: dê um desconto pro cara, ele queria que eu te convencesse a não falar com Derek.
Olhei para Ramsey. Ele estava no celular, tenso. Tentei respirar fundo. Fez
errado em contar para Damian, ao mesmo tempo parecia preocupado.
Brandon fez de tudo para que eu mudasse de ideia.
Eu: E não vai me convencer?
Damian: não.
Tentei controlar os meus impulsos, mas meus dedos digitaram os meus
pensamentos.
Eu: Por que não?
Damian: A princípio achei desnecessário e depois percebi que, no seu lugar, teria feito o
mesmo.
Damian: Eu odeio Derek Meyers. Odeio demais. Pelo que fez comigo, mas principalmente
pelo que fez com você. Porém, acredito que sabe o que está fazendo. Se precisa declarar um fim,
olhando para ele, e esfregar na cara dele que nunca mais vai chegar perto de você, então vá em
frente.
Damian: mostre para ele que não vai mais ser um saco de pancadas de ninguém. E xingue
esse filho da puta por mim.
Eu sorri, apesar da ardência nos olhos. Damian estava ali por mim.
Aquilo era tão, tão bom.
Pensei em uma resposta e abri as minhas playlists. Enviei Thank You do
MKTO.
Eu: Vai odiar essa. Não tem nada a ver com nossa conversa. Mas é um trocadilho. Tipo, se
chama "obrigada", entendeu?
Damian: nossa, Carlson, acabou de explicar uma piada. Grande erro.
Eu ri baixinho.
Decidi deixar o celular de lado, mas ele vibrou de novo dois minutos
depois.
Damian: tem razão, odiei essa música.
Babaca.
Damian: Dou uma estrela de cinco por sua causa, sweetheart.
O sino do estabelecimento indicou a chegada de Meyers e eliminou o meu
sorriso. Ergui os olhos e vi Derek sob uma jaqueta jeans, seus cabelos
castanhos e ondulados bem arrumados, seus olhos chocolates focados
exclusivamente em mim e a sombra de um sorriso que me enjoava. Talvez
metade das garotas ali — sem saber quão destrutivo ele era — suspiravam e
se arrepiavam com tanta, tanta beleza. Era estonteante.
Eu esperava que isso não facilitasse a queda da sua próxima vítima. Torci
para que não houvesse outra.
Ele se aproximou e eu segurei a vontade de engolir em seco, passo a
passo. Não precisava olhar para meus amigos ou minha família para saber
que eles estavam tensos. Meyers parou logo ao lado da minha mesa, sorrindo
com uma doçura inexplicável. Talvez esperasse que eu me levantasse, o
abraçasse e fingisse que tudo estava bem.
Não.
Não aconteceria.
Ele percebeu isso e se sentou, sem parar de sorrir.
Olhando para Meyers ali, eu senti puro ódio. E pena. Imagina ser tão
fodido emocionalmente falando que você precisa tornar todo mundo a sua
volta quebrado? Imagina querer todo mundo abaixo de você, apenas para
satisfazer as suas vontades, porque você é vazio?
Não era o tipo de pena que me faria perdoá-lo ou me ajoelhar aos seus
pés. Era uma pena fria, gélida. Misturada a puro desgosto.
Ele me fodeu emocionalmente de tantas formas... Me tornou sua posse,
quando nunca pensei que me submeteria a isso. Me apresentou um tipo de
amor que adoecia. E então voltou, cismado que me queria de volta. Fodeu a
minha vida de novo. Destruiu meu relacionamento. Ferrou com o Damian
ao expor sobre a Megan. Divulgou o meu aborto.
De certo, Meyers precisava de ajuda. Mas não seria minha. Eu não
precisava crer que ele poderia ser melhor. Não precisava perdoá-lo. Eu não
devia nada a ele.
— Bom dia — ele disse. Balancei a cabeça silenciosamente. — Confesso
que me surpreendi em receber uma mensagem justo de Ramsey. E por sua
causa!
— Alguns ciclos precisam ser fechados, Meyers. — Algo em meu tom de
voz fez seu maldito sorriso vacilar. Alcancei a bolsa numa cadeira entre nós.
Retirei o documento e um pen-drive. Ele me olhou estranho. — Dessa vez,
vai me ouvir, mesmo contra a sua vontade.
Ele se inclinou sobre a mesa, em minha direção.
— E o que quer dizer, princesinha?
Engoli o "vai se foder" com muito esforço.
— Quero dizer que tem que ficar grato por eu estar aqui, para me
despedir. Porque nunca mais vai chegar perto de mim, Derek. Nunca. — Foi
um grande autocontrole para falar tranquilamente e não rosnar as palavras.
Acho que ele percebeu. — E porque não tenho a menor obrigação de estar
aqui.
— Nem eu.
— Não, você tem — rebati. — Tem a obrigação de ouvir cada palavra
que eu quero dizer, se tiver a menor pretensão de ser um ser humano decente.
Meyers, fodeu a minha vida repetidas vezes, só porque eu era uma obsessão
que você não conseguia largar.
Ele engoliu em seco, mas não se moveu.
— Eu realmente amei você. E odeio as vezes em que penso se também não
fui tóxica contigo. Porque a verdade, Meyers, é que todas as vezes que fiz
isso foi para me proteger. Como um instinto de sobrevivência. — Olhei no
fundo dos seus olhos. Era tão bom não sentir aquele amor doentio, aquela
vontade de proteger quem não me protegia de volta. — Tanto que, se você
reparar bem em tudo à sua volta — me inclinei sobre a mesa de volta —, vai
ver que minha mãe e minha irmã estão num canto. — Acenei com a cabeça
para elas e ele acompanhou com o olhar. — Brandon e Mike estão bem ali.
— Acenei para o outro lado. — E Oliver acaba de se levantar e ir para outra
mesa, apenas para ter um outro olhar sobre nós e garantir que você não vai
me tocar. Nunca mais.
Era verdade. Zhang estava sentado à nossa esquerda, duas ou três mesas
de distância.
Derek se largou sobre a cadeira. O brilho em seus olhos sumiu. Ele sabia
quem era a vítima da história.
— Você causou um impacto tão negativo na minha vida, Derek, que as
pessoas à minha volta sentem que precisam me proteger emocional e
fisicamente de você. — Ele piscou algumas vezes, absorvendo as minhas
palavras. E eu repeti, para que entendesse o meu ponto. — Fisicamente,
Meyers.
Girei o pen-drive sobre a mesa. Seus olhos se focaram nele.
— Cansei de me perguntar se você me amava de volta ou era apenas
obsessão. Não preciso mais dessa resposta. Na verdade, nunca precisei. Só
percebi isso agora. O meu ponto, Derek, é que tentei milhares de vezes te
chutar para fora da minha vida e você se agarrou a mim com todas as forças,
querendo me arrastar para o fundo do poço. E conseguiu, parabéns! Mas foi
a última vez.
Ele desviou o olhar. Vi a veia em seu pescoço se tornar mais nítida
quando engoliu em seco e travou o maxilar.
— Eu sinto muito pelo baile.
— Deve sentir — ironizei. — Sempre faz as coisas e finge que se
arrepende!
Respirei fundo, tentando controlar a minha raiva.
— Aqui tem todas as fotos dos machucados que já me causou. Tem as
fotos nossas em que meu sorriso é forçado e você consegue ver a dor nos
meus olhos. Mas, principalmente, tem todos os desenhos que fiz para
desabafar porque você me feriu. — Arrastei o pen-drive em sua direção. —
Porque alguém me lembrou que, quando não sabemos o que dizer, a arte diz
por nós. E apaguei tudo isso de qualquer dispositivo que tenho, porque
carregar isso não é para mim. É para você. Não vou mais gastar meu tempo
contigo.
Derek hesitou um pouco, mas pegou o pen-drive, analisando-o por longos
instantes.
— "Primeira coisa"... Tem uma segunda? — perguntou. E então eu arrastei
o documento.
— Pode rasgar se quiser, é uma cópia — falei. E foi muito, muito bom
dizer isso. Meyers tomou o documento em mãos e franziu o cenho ao ler as
primeiras palavras. — Ordem de restrição. Não poderá se aproximar de
mim. Nem citar o meu nome. Nunca mais, Meyers.
Ele analisou a papelada.
— Como conseguiu isso?
— Pode ligar para o meu advogado e perguntar, mas aposto que não foi
difícil comprovar a sua instabilidade. — Esquadrinhei cada detalhe do seu
rosto, me perguntando como pude amar aquele cara. Aquele era o fim frio e
firme que nós finalmente teríamos. Bastava. — É isso, Derek, espero que
seja feliz, apesar de tudo.
Me pus de pé e peguei a minha bolsa, mas ele agarrou o meu pulso.
Oliver, Mike e Brandon se colocaram de pé de imediato. Olhei de soslaio e
vi que Lia e Madison também.
— Te magoei tanto a ponto de precisar disso?
Neguei.
— Me machucou o suficiente para que isso seja pouco, Derek.
Enojada pelo seu toque, me afastei o mais rápido possível. Antes de sair
do estabelecimento, contudo, vi Mike, Oliver e Brandon garantirem para
Meyers que ele deveria ficar longe.
Por incrível que pareça, dessa vez, Meyers finalmente entendeu o quão
cansada eu estava. Porque, se não se afastasse, ele se resolveria com a
justiça, não comigo. Nunca mais comigo.

A pequena caixa com todas aquelas memórias dolorosas era a última


coisa da qual eu precisava me desfazer. O último pedaço de Derek Meyers
em minha vida. Eu a abri pela última vez, só mais uma vez, e doeu como
sempre doía. Mas doeu menos do que eu esperava.
Esperei pelo momento em que desabaria. Esperei por uma crise de choro.
Esperei pela ansiedade crescendo nas minhas veias. Contudo, tinha uma dor
chata no meu peito, inquietante, e apenas isso.
Duas batidas na porta do meu quarto me fizeram olhar para ela. Maddie
infiltrou a cabeça para dentro.
— Posso entrar?
— Sim. Por favor.
Ela sorriu, sem jeito, e se sentou à minha frente.
Madison pegou os sapatinhos de bebê da caixa, depois a pequena página
de um diário que eu tentei começar quando fiquei grávida e não durou nem
mesmo um dia. Ela sabia o que aquilo significava para mim.
— Como se sentiu? Naquela mesa?
Sua pergunta me fez bufar, sem uma resposta. Como eu me senti diante de
Meyers pela última vez?
Eu senti muita coisa.
Não era exatamente alívio, não era exatamente felicidade, muito menos
melancolia. Era diferente. Eu coloquei um ponto final em algo que me
traumatizou por muito tempo, meu ex-namorado, algo que precisava ser feito
há muito tempo. Mas definir o que eu sentia? Era como se eu sentisse tudo ao
mesmo tempo.
Meyers divulgou meu aborto para todos. Parte de mim se perguntava se eu
o deixei chegar àquele ponto e eu tentava empurrá-la para o fundo da minha
mente, porque a culpa não era minha pelas ações dele.
Fechei os olhos ao lembrar que a cidade inteira sabia sobre o aborto. Isso
me perseguiria para sempre. Eu aprenderia a lidar com isso, mas os
julgamentos não iriam embora, iriam?
Maldito fosse Derek Meyers.
— Eu quero queimar isso — confessei, com a voz trêmula. Abri os olhos,
encarando o meu passado naquela caixa. Eu não poderia mudar o que tinha
acontecido, mas eu não queria nada por perto que alimentasse o poder
daquelas memórias dolorosas sobre mim.
Madison me observou por algum tempo.
— Tem certeza? — ela perguntou. Confirmei, secando uma única lágrima
que me escapou. — Ok. Vem comigo.
Ela organizou as coisas dentro da caixa e me entregou a mão. Seguimos
para fora do quarto, para a sala de estar. Tinha uma lareira que mal
usávamos. Madison me pediu por um momento e eu fiquei ali, em frente à
lareira, percebendo que… Nossa, eu realmente estava fazendo aquilo.
Minha irmã parou ao meu lado, me entregou uma caixa de fósforos grande
e um frasco de álcool.
— No seu tempo.
Eu suspirei. Então me agachei em frente à lareira e… parei.
— Ele perguntou se…— Minhas mãos tremeram quando abri a caixa de
fósforo. Suspirei de novo. — Madison, ele me perguntou se tinha me
machucado o suficiente para aquilo.
Maddie não disse nada por um tempo. Meus olhos se encheram de
lágrimas e eu nem soube explicar o porquê. Projetei o queixo para frente e
tentei não rir, porque Meyers soava como uma piada ácida, suja e podre.
— Eu briguei com o papai na noite antes da morte dele — Madison disse.
Eu não a encarei, a sentindo atrás de mim, mas percebi as emoções na sua
voz. Cólera, dor, arrependimento… Tudo junto. Escolhi absorver suas
palavras em silêncio. Maddie sempre aguentou ouvir meus desabafos e o
mínimo que eu poderia fazer era ouvi-la de volta.
— Ele teve uma pequena melhora e soube que você tinha aplicado para
Moda, começou a reclamar sobre seu futuro e eu explodi porque… — Ela
limpou a garganta. — Porque eu assisti a mamãe se quebrar tantas vezes sem
conseguir fazer nada. Eu te assisti ruir completamente impotente. Eu fugi
para Sydney ao invés de ficar aqui porque era fraca e insuficiente para
proteger vocês dele, e isso não faz o menor sentido. Explodi porque
precisava de um basta.
— Maddie…
— Eu deveria ter feito mais. Eu não fiz o suficiente para proteger duas
pessoas que eu amava e ainda fiquei torcendo por um filho da puta que nunca
percebeu que nos machucava, ou simplesmente não se importava. Sabe por
que, Naomi? Porque ele achava que era a coisa certa. Ele achava que fazia a
coisa certa. Ele me disse que lutava pela nossa família e que um dia nós o
agradeceríamos, e as últimas três palavras que eu falei para Vincent Carlson
foi “Vai se foder”.
Fechei os olhos. Eu me sentia culpada por não ter me despedido do
monstro que me deu a vida. Maddie deveria se sentir pior. Nada sobre
aquela situação parecia minimamente racional e ainda assim ela existia.
— Abusadores não assumem que são abusadores — ela disse. — Eles
culpam a vítima porque assumir a culpa é uma vulnerabilidade que eles não
querem possuir. Assumir erros é ser vulnerável e eles entendem isso como
fraqueza. Até quando pedem desculpas, não são confiáveis por isso. — Sua
voz falhava, quando se aproximou de mim e se ajoelhou ao meu lado. —
Derek pode nunca perceber como te machucou, e literalmente a única coisa
que provavelmente te separa dele é a porra de uma ordem judicial, mas eu
vou dar minha alma para que ele cumpra isso ou eu juro por Deus… — A
cólera na sua voz me fez parar de respirar por um segundo.
E então desabou.
Atônita e confusa, eu olhei para a mulher loira com as mãos no rosto,
estremecendo. Madison chorava como nunca vi antes. E eu a conhecia a vida
toda.
— Maddie?
— Eu queria ter uma caixa para queimar e dizer que deixo Vincent para
trás. Eu queria mesmo.
— Maddie…
Eu a abracei e ela deitou a cabeça no meu ombro, estremecendo entre seus
soluços.
Minha garota forte, guerreira e quase imbatível estava desabando. Eu
odiei Vincent por isso. Odiei mesmo. Madison era boa demais para ser uma
Carlson.
— Não foi culpa sua. Ninguém te culpa pela mamãe ter sofrido, por eu ter
sofrido, Maddie. — Ela ainda desabava. — Vai ficar tudo bem, ok? Você
não precisa mais me proteger dele. — Minhas lágrimas molhavam sua
camisa tanto quanto as suas encharcavam a minha. — Eu vou te proteger de
volta agora, pode ser? Isso vai passar, ok?
Ela me apertou um pouco mais forte.
Ela se afastou e eu beijei sua bochecha, secando suas lágrimas.
— Você conseguiu me proteger sem quebrar, mas pode desabar — falei,
apertando sua mão. — Estou aqui para recolher os cacos do seu coração e te
ajudar a consertar ele quando quiser. Vai ficar tudo bem, ok? Não precisa
seguir com os negócios de Vincent se não quiser, não precisa viver nas
sombras dele. Ninguém aqui precisa. Ninguém aqui precisa viver na sombra
de ninguém. — Apontei com o queixo para a caixa.
Madison secou as lágrimas e assentiu.
— Eu quero manter o negócio da família, porque eu sei que consigo — ela
disse. — E se Vincent quiser assistir isso do inferno, que seja.
— Não acho que o capeta vá ser tão bonzinho.
Ela riu e xingou entre as lágrimas.
— Odeio seu sarcasmo me tirando do eixo toda vez — ela disse, ainda
rindo.
— E eu amo você.
Ela sorriu, mesmo com o rosto vermelho e encharcado.
— Até as estrelas e de volta?
— Para além delas — prometi. Unimos nossos mindinhos e eu olhei para
a caixa.
Abusadores não assumem que são abusadores. E vencedores também não
assumem que são vencedores na frequência que deveriam. Eu não venci
Meyers por completo. Ele divulgou o aborto, ferrou minha adolescência e
muito mais. O papai fez da minha vida e da vida da minha irmã, um inferno.
Mas nós os vencemos seguindo firmes e continuaríamos os vencendo toda
vez que seguíssemos em frente.
— Você risca o fósforo — propus —, eu jogo na caixa.
Maddie me olhou.
— Posso fingir que é ele? — ela quis saber, rindo.
Eu não sabia se falava de Meyers ou Vincent.
— Pode fingir qualquer coisa — prometi.
Eu joguei a caixa na lareira, molhando-a com o álcool. Maddie riscou o
fósforo e o entregou para mim. Olhei fixamente para a caixa por um momento
e fechei os olhos, como se fosse meu aniversário e eu tivesse um único
pedido. Pedi que o universo cuidasse melhor da minha família daquele dia
em diante. E então a queimei.
Afastei-me do fogo e Maddie deitou a cabeça no meu ombro. Assistimos
as chamas crescendo e crescendo, contidas na pequena lareira. Papel virava
cinzas, o sapatinho por baixo se tornava irreconhecível. Madison apertou
minha mão sem desviar os olhos as chamas.
Ouvi passos à minha direita e estendi a mão, sem saber se era Lis ou Lia.
Os anéis gelados contra a minha palma e o perfume caro me deram essa
resposta. Eu não sabia se mamãe tinha escutado e visto tudo, mas ela não
disse nada quando se sentou. Deixei que as duas apoiassem as cabeças em
mim. E, tal como Maddie, eu fingi. Fingi que aquele fogo era o inferno que
eu deixava para trás e agora queimava quem tanto tinha me machucado.
Prometi a mim mesma que ninguém nunca mais me feriria ou machucaria a
minha família da mesma forma.

Madison insistia que queria seguir com o negócio da família por si mesma
e nenhum outro motivo, então mamãe e eu paramos de questionar. Maddie
continuava firme, um pouco reclusa, e eu sabia que seria um caminho difícil
admitir que precisava de ajuda, mas um dia ela faria isso e eu estava ali por
ela. Nenhuma das três comentou sobre a noite da lareira por um bom tempo.
Foi um grande passo para mim. Ainda mais importante foi ter as duas do
meu lado naquele momento. Acho que precisávamos de tempo para
processar aquilo e muita coisa. Faríamos isso juntas.
Além do mais, eu tinha mais do que minha família biológica para pensar.
Minha família de Green Snakes estava evoluindo. Foram duas semanas
agridoces para nosso grupo, mas acho que sol, energia positiva e água
salgada eram o que a gente precisava. Era o que marcava a nossa amizade,
de certo modo. Eu sentiria falta dos fins de semana de frente para o mar,
ouvindo música e tomando sol com Wayne, vendo Ramsey surfar, Ollie jogar
bola... Mas as semanas acabaram. E chegamos à primeira despedida.
— Vai me ligar assim que chegar lá — pedi. Mel revirou os olhos pela
minha preocupação, caminhando pelo aeroporto de Brightgate. Eu envolvi o
seu braço, sabendo que estava tensa porque teria que ficar milhares de
metros acima do chão. Brandon e Ollie estavam do outro lado e os Waynes
logo atrás de nós.
— Vou te ligar, como prometi mil vezes — ela disse e paramos em frente
à fila da sala de embarque. Meus olhos arderam e eu vi os seus se tornarem
mais brilhantes. Wayne apontou para mim. — Não ouse chorar!
— Chorar por quê? Porque minha bebê está indo estudar a nove horas de
distância de mim? — choraminguei. Brandon riu.
— Sensíveis — Oliver acusou. Wayne o ignorou, me abraçando com
força.
Tentei memorizar a sensação dos seus braços ao redor do meu pescoço,
seu cheiro. Não sabia ao certo quando nos veríamos de novo pessoalmente e
precisava aproveitar cada segundo.
— Batman e Robin — ela sussurrou, uma promessa só nossa.
— Para sempre — devolvi. Nos afastamos apenas para fazermos uma
promessa de mindinho. — Me faça mais uma promessa, sim? — Enganchei
ainda mais o meu dedo ao seu. — Sei que se prende bastante a algumas
coisas, eu compreendo. Mas vai aproveitar de verdade a vida em
Melbourne, Wayne.
— E você vai curtir Sydney.
— Oh, amor, aquela cidade vai ter overdose de Naomi Carlson — garanti,
a puxando para outro abraço. Beijei o seu ombro algumas vezes, com o
coração destruído.
— Eu queria ter overdose de Naomi Carlson — ela lamentou.
— Chega de drama, ok? — Me afastei, lutando para não chorar. — Temos
uma vida inteira juntas, Wayne, são só nove horas de distância! — Mel riu e
eu sequei suas lágrimas. — Se liberarem o uso do celular no avião e você
estiver com medo, me liga ou manda mensagem. Te amo mesmo, ok?
Ela devolveu a declaração. Depois se virou e repetiu a despedida
demorada com Oliver e Brandon, que estava claramente bem perto de
chorar. Logo depois, Wayne estava falando com seus pais. Quentin e Helena
fizeram milhares de perguntas e a encheram de abraços. Finn estava
chorando e tentando se fingir de durão ao mesmo tempo, era engraçado.
E então chamaram o seu vôo. Mel se virou para nós e tinha um brilho
diferente no olhar dessa vez. A esperança de finalmente trilhar o seu
caminho.
— Eu amo vocês — ela disse. Deitei a cabeça no ombro de Brandon e
Wayne fez questão de dar o nosso último abraço em grupo.
— Agora vá, ok? Vai perder seu vôo — Ollie lembrou.
Foi doloroso para cacete ver Mel andar para longe. Sem dúvida alguma,
Melissa Wayne é a minha alma gêmea. Precisaríamos aprender a lidar com a
distância.
Brandon passou o braço ao redor do meu ombro enquanto assistíamos
Melissa caminhar até a fila de embarque.
— EU AMO VOCÊ! — gritei e a vi se virar, arrastando os carrinhos com
as malas, vermelha de tanta vergonha.
— NOSSO ORGULHO! — Ollie berrou.
— NOSSO DOCINHO! — Ramsey adicionou, me fazendo rir contra o
ombro dele. Wayne deu as costas e ergueu a mão, até expor lindamente seu
dedo médio.
Ouvi Helena pedir por modos. O pai de Melissa só sabia rir, Ollie
assobiou e Finn estava passando mal de tanto gargalhar. Brandon me puxou
para um abraço, rindo e chorando ao mesmo tempo.
Aquele dedo do meio era a prova de que Melissa Wayne definitivamente
tinha passado muito tempo comigo.

Eu fechei minha última mala e fiquei de pé, de braços cruzados, olhando


para ela como se fosse uma miragem.
Naomi Carlson aprovada para Design de Moda na Universidade de
Sydney.
— Parece que as coisas estão finalmente caminhando — murmurei.
— Falando sozinha?
Estremeci e xinguei alto, fazendo Elise gargalhar na porta do meu quarto.
Com a mão no colo, a lancei um olhar de incredulidade antes de me sentar na
cama, rindo.
— É com essa boca que me beija, mocinha? — ela reclamou do
xingamento, colocando as mãos na cintura.
— Você me dá um susto e espera o quê? — retruquei e Lis riu, se sentando
ao meu lado. — A mamãe ainda está no quarto?
— Ela precisa de um momento para chorar só um pouquinho.
Assenti. Era meu último dia antes da viagem e Lia Carlson passou o dia
todo segurando as lágrimas pela casa. Eu sabia que era difícil para ela ter
uma filha indo para longe num momento como aquele e não tinha muito o que
ser dito. Não era como se eu estivesse a abandonando também. Agora que
tínhamos uma chance de aproximação, eu não a soltaria jamais.
— Você riscou toda essa parede quando tinha cinco anos — Elise disse,
rindo, apontando para a parede à nossa frente. — Desenhou vestidos ou
jurou que era isso! Maddie te flagrou e, ao invés de dedurar você para mim e
me deixar limpar isso de uma vez, ela se sentou ao seu lado e pintou a
parede junto. Eu fiquei paralisada quando vi.
— Eu desenhei um vestido para você, pelo menos — brinquei, chocando o
ombro contra o de Lis, que balançou a cabeça. — E agora vou desenhar
muitos outros, de verdade. Um para a formatura do seu filho, outro para caso
queira se casar novamente, um para a minha formatura. Oh, tem a de
Maddie! E o casamento da mamãe.
— Casamento da sua mãe?
— Quando ela estiver pronta, eu vou ajudá-la a usar o tinder — brinquei e
Elise gargalhou alto. — É sério!
— Você não tem jeito, Naomi Carlson.
Ela disse isso como se fosse algo bom. Eu sorri dez vezes mais.
Elise me chamava de bravinha, dizia que eu era encrenca e tantas outras
coisas, mas nunca como algo ruim. Ela tentou me educar, claro, quando meus
pais não fizeram esse trabalho. Ela foi minha mãe por muito tempo e sempre
seria. Mas ela nunca tentou mudar quem eu era.
Meus olhos arderam e ela me encarou, sustentando um brilho no olhar que
eu sabia, de algum modo, que era igual ao que eu carregava no meu.
Não sabia o que dizer. Meu medo era abrir a boca e começar a chorar que
nem um bebê. Só consegui soprar uma única palavra:
— Obrigada.
Seus ombros caíram e Lis levou a mão ao peito, fechando os olhos.
— Deus, eu que te agradeço — ela disse, abrindo os olhos e segurando
meu rosto. — Eu te agradeço por estar viva todo dia. Tanta gente teria
desistido no seu lugar, Naomi, mas você está aqui, gigante como sempre.
— Se me fizer chorar — ameacei —, não vou desenhar porra nenhuma!
— Olha essa língua!
Eu ri, fazendo as lágrimas escaparem e forcei um grunhido de
descontentamento que a fez rir junto.
— Me prometa uma coisa — ela pediu. — Quando começar a conquistar
o mundo, não esqueça de mim.
Eu sorri, porque aquela era a coisa mais estúpida do mundo.
— Lis, eu nem estaria aqui para conquistar o mundo se não fosse por
você. Eu quero que você me prometa que vai conquistar o mundo.
— Como governanta?
— Como o que quiser ser. O que quer ser?
Ela sorriu. Lis costumava me contar quando eu era pequena que queria ter
um restaurante. Nada grande ou sofisticado, ela gostava da simplicidade. Eu
a ouvia por horas, sonhar e sonhar… Eventualmente, ela parou de me contar
seus sonhos para lutar para que eu pudesse fazer isso para ela. E por muito
tempo eu falhei, jogando fora meus desejos com meus croquis no lixo do
quarto. Mas não mais. E não mais para ela também. Ela precisava correr
atrás do que queria.
— Eu sei que não quer deixar a mamãe aqui e agradeço por cuidar tão
bem dela — confessei. — Mas sei também que só aturou o papai por Lia,
Maddie e eu. Principalmente por Madison e eu.
— Vocês eram crianças.
— E não somos mais.
— Sua mãe precisa de mim.
— Sempre vamos precisar de você, Elise. E eu não vou mentir, ok? Me
deixa mais tranquila partir sabendo que está aqui com a mamãe. Só estou
dizendo que, se algum dia, quiser e se sentir pronta para sair dessa casa e
descobrir o mundo, você deve fazer isso. Me ensinou a viver por mim e mais
ninguém e não é justo que não faça o mesmo. Me prometa isso.
Ela sorriu e eu sequei uma lágrima que escorreu pelo seu rosto.
— Eu prometo.
Sorri. Sorri e a abracei forte para caramba.
— Minha garota está crescendo! — ela lamentou e eu gargalhei entre seus
braços.
— Obrigada mesmo. — Me afastei e beijei sua bochecha, apertando sua
mão bem firme. — Você é uma mãe para mim. Você sempre vai ser. Eu sinto
que tenho duas mães agora. Sou sortuda para caramba por isso, certo?
Ela sorriu como se aquilo fosse o mundo.
— Certo.
Lis parecia carregar as estrelas nos seus olhos e eu amei aquela mulher
mais ainda por isso.
— Prometa que sempre vai ser minha filha então — ela disse e eu ri.
— Prometo.
Nós duas nos encaramos e então as malas pelo quarto. Meu coração doeu
e Lis apertou minha mão mais forte. Eu olhei para ela, sentindo um pouco de
ansiedade pelo que viria pela frente.
— Conquiste o mundo, Naomi Carlson — ela foi firme como sempre.
E meu medo sumiu no instante em que nossos sorrisos cresceram. Com Lis
do meu lado, eu sempre conquistaria.

"Pode conversar comigo sempre que quiser", foi o que Damian prometeu.
E ele cumpriu.
Tínhamos começado um jogo após aquele dia em que conversei com
Derek. Sempre puxávamos assunto com títulos ou trechos de música. Nem
sempre dava certo, o que era engraçado. Uma vez ele me mandou Suck it and
see do Arctic Monkeys. Por mais que o título signifique "prove para ver",
numa visão mais literal seria como "chupe e veja". E nossa — falta de —
maturidade gerou uma crise de risos.
No dia antes da minha viagem para Sydney, eu tinha me despedido de
Gianna, Ollie, Brandon e Mike em um jantar. Alguns drinks depois, liguei
para Damian e ele ficou rindo das coisas sem sentido que eu dizia bêbada.
No dia seguinte, a claridade me dizia que eu teria que usar óculos escuros.
Bale me mandou piadas sobre ressaca. Eu enviei uma música chamada Fuck
You do Cee Lo Green. Damian respondeu o meu "vai se foder" com um
coração. Pouco tempo depois, atendi uma chamada de vídeo dele.
O vi sem camisa, o que me deixou confusa. Não mostrava muito do seu
corpo, só um pouco abaixo do pescoço. Havia uma corrente nele e eu me
perguntei se era a que eu tinha lhe dado. Estava escuro por lá.
— Oi, oi! — falei e ele sorriu.
— Só queria te desejar boa viagem, dizer para que dirija com segurança e
tudo isso.
Meu sorriso continuou bem ali, firme e forte. Analisei seu semblante de
sono, seu cabelo bagunçado. Damian se jogou sobre a cama e eu percebi que
deveria estar quase indo dormir na Inglaterra.
— Só isso? Tem algo a mais que queira me falar? — questionei. Ele
mordeu a curva nos lábios.
— Estou orgulhoso pra cacete de você.
Meu coração derreteu e eu amaldiçoei cada arrepio. Ouvir isso significou
o mundo.
— Obrigada, Damie. De verdade. — Seu sorriso não vacilou. — Uhh,
antes que eu esqueça! Descobri essa banda nova ontem, esqueci o nome. Vou
te mandar assim que chegar em Sydney.
— Ok, mal posso esperar! — Percebi que estava bêbado de sono. Era
fofo que estivesse acordado, mesmo cansado, só para me desejar uma boa
viagem.
— Durma bem, novato.
— Dirija com segurança, sweetheart.
E meu coração doeu mais uma vez ao desligar.
O resto da manhã passou rapidamente. A ansiedade era grande para todo
mundo lá em casa. Em pouco tempo, verificava se todos os meus documentos
estavam na minha bolsa, buscava a chave do carro, colocava os óculos
escuros sobre a cabeça e me olhava no espelho, animada, sorrindo para a
figura de calças jeans e top ombro a ombro branco. Elise, Maddie e Lia me
acompanharam para fora de casa.
Abri a porta do carona, colocando a minha bolsa sobre ele. A claridade
me fez franzir o nariz; a ressaca ainda estava ali, mesmo que leve. Virei o
corpo para Elise e ela desfez a ruguinha em meu nariz com o polegar. A
abracei com força.
— Ligo assim que chegar! Não se preocupe — prometi, recuando. Devia
muito de quem tinha me tornado a ela, e vê-la chorar me partiu o coração. —
Lis, estarei aqui no próximo fim de semana!
— Eu sei! — Ela me puxou para outro abraço e eu gargalhei.
Maddie foi a próxima, perguntando se eu não preferia que ela fosse junto,
em cima da hora. Ri e neguei. Levei as mãos ao seu rosto, comprimindo suas
bochechas ao prometer que ficaria bem. Ela não chorou, mas eu sabia que
queria.
Respirei fundo ao olhar para Lia. Ela ainda estava usando um roupão
sobre o seu pijama. Seu nariz estava completamente vermelho, porque já
chorava.
— Estou orgulhosa de você — Lia sussurrou, parando logo à minha frente.
Nem soube o que responder. Não era a primeira vez que ouvia isso, mas
significava muito. Mamãe pigarreou, seus olhos vermelhos e marejados, os
braços cruzados... Não sabia o que fazer também. Perceber isso me fez
morder um sorriso. Era fofo.
— Estou orgulhosa de você também, mãe — respondi. Ela tombou a
cabeça para o lado, unindo as sobrancelhas, como se buscasse um motivo
para isso. — Você é mais forte do que imagina — expliquei. Lia riu,
discordando.
E então a surpreendi ao me aproximar devagar. Passei meus braços ao
redor do seu pescoço, inspirando o seu perfume e tentando gravá-lo ao
máximo.
Eu voltaria em uma semana, não era uma despedida, mas parecia uma.
Talvez porque era estranho partir quando finalmente havíamos decidido
recomeçar nossa relação de mãe e filha.
Lia me envolveu pela cintura. O abraço ficou mais confortável a cada
segundo. Eu poderia criar uma casa entre seus braços um dia.
Definitivamente. Sim, isso aconteceria.
— Sydney vai ser pequena para você, Naomi — ela disse baixo, mas
firme. Senti sua mão em minha cabeça, me mantendo por perto. — O mundo
pode ser seu, se quiser. Sua força conquista tudo.
— Acho que puxei de você — brinquei. Ela não riu. — Vai ficar bem? —
Me afastei e ela segurou o meu rosto com as duas mãos.
— Vou sim. E logo terei você debaixo das minhas asas de novo, certo?
Não vai voar para tão longe.
— Mãe...
Lia abriu um sorriso ao me ouvir chamá-la assim. Um sorriso fraco, mas
carregado de significados. Ela apertou a minha mão. Meus olhos se
encheram de água e eu sorri de volta. Me afastei devagar, minha mão
soltando a sua aos poucos.
— Amo você, ok? — falei e ela assentiu, fungando e secando as suas
lágrimas.
— Te amo mais. — Desci os óculos escuros sobre a cabeça até a ponta do
meu nariz, estalando a língua, como se isso fosse impossível.
— Se cuidem, volto em sete dias. — Voltei o olhar para Madison,
apontando para Lia e Elise. — Cuida bem dessas duas. Não faça muitas
loucuras sem mim.
— Também te amo, insuportável — a loira respondeu e eu dei a língua,
sorrindo para as três depois.
Entrei no Corvette e coloquei as duas mãos sobre o volante. Respirei
fundo, olhei para as três mulheres pelo retrovisor e absorvi o que estava
prestes a fazer.
— Para Sydney — murmurei. E então liguei o rádio, ouvindo Locked Out
Of Heaven tocar. Quase ri. Parecia que Damian Bale estava comigo.
Liguei o carro, cantarolei um trecho qualquer e tracei a primeira rota para
o recomeço da minha vida.
Enquanto eu dirigia, com o sol forte iluminando o caminho e os carros
passando ao meu lado, pensei em como finalmente estava feliz, apesar de
todas as mudanças que haviam acontecido nos últimos dias.
Genuinamente feliz.
— Então ela esteve aí? — perguntei para Ryan, o telefone em meu ombro
enquanto ajudava minha mãe na cozinha. Meredith cuidava da carne e eu
cortava tomates para a salada.
— Sim — Ryan disse. — Naomi veio aqui uns dois dias antes de viajar.
Conversou comigo e com a Katy, brincou com a Miley por meia hora e,
quando voltamos, Miley estava chorando nos braços de Carlson. Mas Naomi
parecia... em paz.
— Em paz?
— Sim! Talvez porque não seja realmente uma despedida.
Brandon disse o mesmo. Disse que Carlson foi para a casa dele numa
tarde e conversou com ele, Ollie e Gianna por uma hora ou duas. Que não
pareceu como uma despedida.
— Ela agradeceu por tudo que fizemos por ela, fez algumas piadas e
depois teve um daqueles debates sobre moda com a Katy — Ryan contou. —
Foi como... Como se voltasse no dia seguinte. Não sei explicar.
Carlson não estava saindo de sua cidade natal em definitivo. Voltaria
sempre por sua família, mas todo mundo à sua volta agia como se ela
estivesse partindo, se despedindo... Talvez porque era fodidamente fácil
sentir falta dela.
Ao menos, o pessoal da Austrália teve a chance de dizer um "até logo",
enquanto eu tinha partido em segredo. Mas isso era culpa minha.
— Tomou uma decisão quanto à Brightgate? — meu pai perguntou e eu
parei de cortar os tomates, respirando fundo.
Nenhum dos meus amigos da Austrália sabiam da minha aprovação em
Brightgate, porque eu não sabia como contar. Não queria criar esperanças
sobre voltar sem ter certeza disso.
— Ainda não — respondi. Ouvi o meu pai suspirar do outro lado. Olhei
para a minha mãe, entretida em dourar a carne nas panelas. Pensei em quanto
a amava, e pensei em quanto aprendi a amar Ryan quase tanto quanto.
Percebi que amava estar perto de Meredith, mas odiava estar longe de
Ryan.
— Sinto sua falta — meu pai confessou.
— É, pai, também sinto a sua.

Naomi: sabe, Damie, eu estava andando pela rua quando vi, de canto de olho, uma coisinha
linda se aproximando.
Sobre a cama, parei de tocar a minha guitarra.
Eu: "ela disse: nunca vi um homem tão sozinho, quer companhia?"
Naomi: drooooooga.
Eu ri. Dias antes, zoei Carlson usando uma das músicas da sua playlist.
Era alguma do Lauv. Joguei as letras na conversa e ela perguntou "Damian,
precisa de ajuda?", claramente preocupada. Depois que percebeu que era
uma música, Carlson passou a tentar me zoar de volta dia após dia, jogando
letras de música na nossa conversa. Não funcionou.
Eu: achou mesmo que eu não reconheceria Cage The Elephant? E justo essa música?
Naomi: tive que tentar. Gostei dessa, inclusive. Meio viciante.
“Meio viciante". Ain't No Rest For The Wicked é uma obra de arte. Ainda
assim, sorri de canto, deixando a guitarra de lado e me sentando sobre a
cama. Era a mesma que ela tinha me dado. Sua letra ainda estava por todo o
instrumento.
Eu: Como foi a primeira semana em Sydney?
Naomi: Muita coisa rolou. Quer mesmo saber?
Eu: Claro que sim?
Ela me ligou no instante seguinte. Carlson me contou que ainda não tinha
conseguido um apartamento apenas para si, então estava vivendo em um no
campus, com duas outras garotas. Uma delas, Eve, estudaria Moda também,
junto com ela. A outra, Olivia, já estudava Economia há um ano.
Assim foram os primeiros dias da Naomi em Sydney. Cara, eu falava tanto
com Carlson quanto com Mike. Ou mais. E Graham era meu melhor amigo.
Minha mãe já não conseguia guardar as piadinhas quando Naomi e eu nos
falávamos. Lia também não, porque em um dos fins de semana da Naomi em
Brightgate, ouvi sua mãe dizer "Damian de novo?".
Não estávamos conseguindo nos afastar, mesmo em países diferentes. Pelo
amor de Deus, nem ao menos parecíamos ex-namorados! E eu odiava pensar
que eventualmente ela poderia beijar outros caras e eu outras garotas. Tanto
que não demorou muito para o ciúmes bater na minha porta.
Por exemplo, teve esse dia em que eu estava mexendo no feed do
Instagram e apareceu a porra de um cara forte e bonito para caralho, socando
um saco de areia. Christopher Cooper ou algo assim. Naomi tinha curtido as
últimas fotos dele. Era algum lutador escocês, sei lá. E, porra, parei para
pensar em alguma vez que Carlson havia me dito que gostava de luta livre e
não achei umavez sequer, porque... Ela não gostava! A garota estava
claramente apreciando os braços do cara ou talvez o abdômen claramente
trincado que ele deveria ter debaixo daquela camisa.
Posso ou não ter me checado no espelho algumas vezes. E feito alguns
abdominais. Posso ou não. E, beleza, eu não era forte como ele, mas... Por
favor?! Eu era muito mais bonito!
Pelo menos ele estava mais longe dela do que eu. Ou não. Não entendo
realmente de geografia.
Mas o pior começou em um dia em que acordei achando tudo tão vazio e
sem graça. O que me fazia pensar demais, me sentir sozinho ou fora do lugar.
Geralmente quando isso acontecia, eu chamava o Ollie, o Mike ou o
Brandon. Mas naquele dia os garotos não me responderam.
Odiava a ideia de conversar com Carlson sobre minhas dúvidas quanto à
Inglaterra ou algo assim. Então pensei em só perguntar como ela estava,
puxar algum assunto ou sei lá.
Eu estava na cozinha, após assaltar a geladeira pela milésima vez, quando
perguntei se poderia conversar.
Naomi: mw aremandi mas pose
Eu: ???????
Naomi me ligou. Era uma chamada de vídeo. Aceitei e quase dei para trás
quando vi Naomi Carlson com um vestido ombro a ombro azul, florido, justo
ao corpo. Os cabelos estavam em ondas largas que caíam por seus ombros.
Carlson estava passando rímel — eu acho que era rímel — em seus cílios.
Deveria ter um espelho ao lado do celular, porque ela não olhava para ele.
Seus lábios estavam pintados de uma cor que parecia tom de boca, mas um
pouco mais escuro. O resto da maquiagem era leve.
Era noite por Sydney, manhã em Bradford.
— O que aquela mensagem quis dizer? — perguntei e ela se deu conta de
que eu tinha aceito a ligação, rindo.
— "Estou me arrumando, mas pode". Quis dizer que poderia me ligar.
— Ela se afastou um passo e piscou algumas vezes. Mordi o lábio,
apreciando a visão. Estava estonteante. Como se isso fosse novidade.
Ouvi uma voz masculina ao fundo da ligação e franzi o cenho, confuso.
Carlson, contudo, não disse nada. Só começou a passar o rímel no outro
olho. Achei que tivesse sido impressão minha.
— Sobre o que quer falar? — ela perguntou.
— Ah, sei lá... Só entediado.
Ela se afastou mais uma vez, olhando-se no espelho. E então fechou o
rímel e olhou para mim.
— Certeza? Só isso? — perguntou, parecendo preocupada. Me preparei
para responder, quando reparei no cenário atrás dela. Era uma sala de estar
bem simples, minúscula. Havia um sofá azul e uma mesa de centro... e um
cara sem camisa passando logo atrás.
Engoli em seco. O quê?!
— Aham... Só isso — respondi e apertei os olhos levemente, tentando ver
melhor. Naomi passou as mãos pelo raiz do cabelo, até as pontas, fazendo as
ondas se tornarem um pouco mais naturais. Dessa vez estava fazendo o
celular de espelho. — Vai sair é?
— Vou jantar com um pessoal que conheci. Tem um restaurante
mexicano pequeno aqui perto.
Hmm...
— Pessoal é? As suas amigas de alojamento?
— Uma delas vai comigo, a Eve. A outra não quer sair, vai pegar
estrada amanhã cedo. — Era sexta. No dia seguinte, Naomi também viajaria
para Brightgate. Contive esse pensamento, contudo. — E você? Saindo por
aí nesses últimos dias?
— Tô saindo sozinho. Mas não para jantar ou beber... Pensando em fazer
isso. — respondi. A voz masculina ecoou na chamada, distante, algo
incompreensível. Vi Naomi morder um sorriso e deixar um riso nasalado
escapar, desatenta a mim.
Que ótimo...
— Estou atrapalhando, sweetheart?
— Hmm?! Não! De jeito al... — O cara sem camisa caminhou para frente
do celular e deu um beijo extremamente estalado na bochecha de Carlson.
Ela gargalhou da demonstração de afeto exagerado. — Oh, oi, Leo! Tudo
bom com você? — Parecia ironia.
Esqueça o maldito Cooper. A beleza desse cara me deixava
preocupado. Parecia a porra de um modelo da Calvin Klein.
O tal Leo tinha a pele branca levemente bronzeada. Seus cabelos eram
escuros e bem curtos. Uma pessoa que socasse seu abdômen provavelmente
perderia os dedos. Naomi não tinha me falado dele.
Porra, quis rir de nervoso. Muito. Rir muito.
Eles trocaram um olhar e falaram algo baixo. Quase colei meu ouvido no
telefone para ouvir. Sentia meu sangue ferver pela interrupção do Senhor
Músculos, tentado a desligar a chamada. Quem era ele?
— Não sei, não vi a sua camisa — Carlson disse e eu engoli com mais
força o riso de nervoso. — Mas a sua jaqueta tá no meu quarto, não
esquece de buscar lá depois.
Ele deu outro beijo. Outro. Para quê?!
Pigarreei, mas o maldito não me percebeu e entrou no que parecia ser o
quarto dela. Por que a jaqueta dele estaria no quarto dela? Por que ele estava
sem camisa? E por que ela deveria saber onde a camisa dele estava?
— Quem é ele? — perguntei, foi mais forte do que eu.
Naomi deixou o queixo cair por um segundo e sorriu.
— É um amigo! Leo. Ele é da Espanha, acredita?! — Carlson respondeu,
sorridente. Senti meu coração queimar como brasa no peito. Não gostava de
me sentir assim.
— Não sabia que permitiam garotos nos dormitórios femininos.
— Ah, não permitem! Mas quem se importa com isso, sabe? — ela disse,
rindo e dando de ombros. Oh, eu me importei. A vi pegar o celular,
praticamente me guiando pela casa, mesmo de longe. — Garotos entram nos
quartos das garotas e vice-versa. O tempo todo.
O tempo todo!
Forcei um sorriso por um mísero segundo, desviando o olhar da tela para
fitar meus próprios pés.
— Tudo bem? — A ouvi perguntar.
— Tudo sim, Naomi. Eu só... Vou ligar mais tarde. Sei lá. Curta a sua
noite, tá legal? Me liga qualquer coisa e...
— Espera, está tudo bem mesmo? — Ela uniu as sobrancelhas, confusa.
— Sim, sim... Não quero atrapalhar. Até mais, sweetheart — concluí
quando a ouvi se despedir e desliguei a chamada.
Havia uma tristeza irritante no meu peito, mas ela começou a perder a
batalha para uma raiva absurda, pouco a pouco. Vi as mensagens de Naomi
chegarem, uma a uma. Tentei ignorar todas, voltando para o meu quarto.
O grande espelho estava logo na parede oposta à cama e eu parei na frente
dele. Me senti ridículo quando ergui a camisa, flexionei os braços... Até que
me dei conta do que estava fazendo. O pior era ter a consciência de que,
mesmo se aquele maldito cara fosse feio para caralho, eu estaria da mesma
forma. Porra, eu estava morrendo de ciúmes de Naomi Carlson. Morrendo.
Percebi que a ideia da minha sweetheart seguindo em frente com outro
cara era corrosiva. Eu não estava preparado para isso.
Olhei para o celular quando me joguei sobre a cama, me sentindo na
merda. "Difícil de superar", ela me disse que era. Parecia impossível.

O maldito Leo curtia todas as fotos de Carlson. E ela comentava nas dele.
Estavam juntos o tempo todo. Não que Naomi postasse isso... O cara
postava.
É... Olhei um pouquinho a vida do rapaz, só para saber se ele namorava
ou algo assim. Mas não. Aparentemente solteiro. Estava sempre postando
stories com a minha ex ou com as colegas de quarto dela, Eve e Olivia. Me
perguntei se ele não teria algo melhor para fazer, tipo conhecer outras
pessoas.
Ciúmes, sim. Eu estava ardendo de ciúmes. O que começou a ficar difícil
de esconder sempre que eu e Naomi conversávamos.
Enfim, o Natal se aproximava e Carlson queria comprar um presente para
a minha irmã; eu também planejava fazer o mesmo. Não sabíamos o que dar
para Miley, contudo. Passamos um dia fazendo uma lista de ideias, até que
recebi uma ligação, em uma sexta-feira.
Atendi a chamada, sonolento, já deitado na cama. Era meia-noite para
mim.
— Damian Bale — falei.
— Oi, novato — Carlson disse e eu sorri de canto. — Se liga, estou
passando em um shopping de Sydney pela primeira vez e encontrei
algumas coisas para dar para a Miley. Olha as fotos. — Coloquei o celular
no viva-voz e abri as mensagens.
Havia vários tipos de fotos de brinquedos, mas a pelúcia do Olaf parecia
a melhor opção.
— Acho o Olaf legal.
— Jura? — ela perguntou e sua voz se tornou mais distante: — Ele disse
que acha a pelúcia do Olaf legal.
— Ahá! Eu falei! — Ouvi, ainda mais longe. Carlson riu.
— Quem está aí? — perguntei, incomodado.
— Oh, Leo veio comigo para o shopping. Vamos encontrar a Eve mais
tarde. Ela quer comprar uns biquinis. Planejamos passar a tarde inteira
aqui.
— A tarde inteira, huh? Uau, Leo está sempre por perto... — deixei
escapar. Respirei fundo em seguida, tentando me controlar.
— Alguém precisa proteger essa garota numa cidade tão desconhecida!
— Ouvi Leo responder por Carlson e ela gargalhou, o xingando baixo.
Pareciam próximos. Bem próximos para quem pouco se conhecia.
— Enfim... — Naomi disse e parecia rir por cada sílaba. — Vou comprar
o Olaf e uma Elsa de pelúcia. Daí digo que um presente foi seu, o outro
meu.
— Te transfiro o dinheiro.
— Não precisa, novato. Sério — ela respondeu e eu rolei os olhos.
Transferiria do mesmo jeito. — Ok, preciso desligar, o Leo encontrou uma
sunga e parece ter gostado.
— Espera, uma o quê?!
— Acha que ficaria legal em mim? — o maldito disse, ao fundo.
— Veste e a gente vê — Naomi respondeu e eu deixei o queixo cair. Ele
vestiria uma sunga para ela ver?! — Beijos, Damie, até mais.
E antes que eu pudesse responder, ouvi Carlson dizer que a sunga era
muito pequena e me levantei da cama, perdendo completamente o sono. Ela
passaria a tarde vendo o maldito Leo de sunga. Ele e aquele corpo esculpido
por um perfeccionista filho da puta.
Imaginei Naomi Carlson. Naomi Carlson sentada em uma poltrona, dando
notas para um desfile de moda praia masculina.
Eu precisava de um cigarro.

— Precisa se controlar, cara — Mike disse. Ouvi Brandon rir ao fundo.


Graham disse que estava em sua última semana em Brightgate ou algo assim.
Pelo menos esse era seu plano. Ele iria para Sydney depois, mesma
universidade da Naomi. — Quando eu chegar no campus, vou rondar esse
cara. Mas não acho que ele seja o tipo da Naomi.
— Por que não? — perguntei. Eu estava me preparando para sair. Era
noite na Inglaterra e eu decidi ir para um bar, mesmo sozinho. Precisava
curtir um pouco. Os meninos iriam para a praia em Brightgate.
— O tipo da Naomi não é super sarados — Ollie falou em algum canto
do quarto de Mike. A ligação estava em viva-voz. — Ou eu seria a opção
dela.
— Vai se foder — cantarolei. Eles riram. De fato, de nós quatro, Zhang
era o mais em forma. — Cara, o maldito está em todo lugar que ela vai.
Parece uma sombra!
— Eles não estão juntos — Brandon garantiu. — Vamos, a Naomi não
me disse nada! Melissa também não. E as duas se falam todo dia.
— Você perguntou sobre ele? — questionei.
— Não. Não queria ser muito óbvio. Só perguntei sobre a vida por lá e
ela disse que estava saindo muito com a tal Eve e esse Leo. Só isso.
— Hmm...
— Hmm... — os três babacas me imitaram do outro lado e eu grunhi.
— Parem com isso!
— Está com ciúmes! Confesse! — Oliver zombou e eu grunhi. Era
verdade. — Cara, pelo menos vai sair agora! Talvez encontre alguém que
ocupe a sua mente. Entende o que eu quero dizer? Talvez encontre uma
garota bem gostosa e esqueça de Carlson por um segundo.
— Improvável — Mike desdenhou. — Damian ainda está muito ligado
na... Aí, Brandon, porra, por que me chutou, filho da puta? — Eu gargalhei,
imaginando Ramsey agredindo Graham. Droga, sentia falta daqueles
malditos.
— Não estou saindo para transar com alguém, tá legal? Só beber um
pouco, tentar conhecer pessoas novas...
— Duvido que não tente flertar com alguém — Brandon provocou e eu
mudei de assunto.
Mas Brandon estava certo. Eu queria tentar dar em cima de alguém. Ter a
sensação de que não somente Naomi, mas eu também estava seguindo em
frente. E quando cheguei ao bar, duas ou três garotas tentaram conversar
comigo. Tentei entrar no jogo delas de volta, porém, quando uma delas se
inclinou em minha direção, depois de bons drinks e algumas boas risadas, eu
me afastei.
Sabe... Eu estava solteiro. Poderia beijar a garota e levá-la para algum
lugar, como o Damian de algum tempo atrás faria. Ela estava a fim,
claramente a fim. E eu não teria o menor problema de fodê-la naquela noite,
se Naomi Carlson não estivesse em cada pedacinho da minha mente. Me
viciei em Naomi e agora estava em abstinência.
Dei um fora na menina, que claramente se decepcionou. Parecia brava por
ter gastado o seu tempo. Ela saiu de perto de mim e eu bebi. E bebi. E bebi.
Até que cansei.
Pedi um uber e fui para casa. Assim que entrei, segurando uma garrafa de
cerveja, ouvi a voz do Andrew, cara que minha mãe estava vendo, no quarto
dela. Torci o nariz ao pensar no que poderia estar acontecendo. Caminhei
para a cozinha quando virei o meu último gole, buscando por mais uma
garrafa.
Eu não tinha tido tempo para beber as dores do meu coração partido.
Demorei muito para isso. Então escolhi aquela noite. Me sentei na bancada
da cozinha, bebendo e bebendo... Até que desbloqueei o celular, puto por
ceder às minhas inseguranças, abrir o Instagram e stalkear o filho da puta que
não saía de perto da minha ex-namorada.
E ele tinha postado uma foto com ela. Há menos de duas horas. Ela estava
vestindo apenas um biquíni e ele uma bermuda azul clara. Os dois posavam
para a foto com caretas, abraçados, o mar no fundo. "Dia insano com uma
das minhas primeiras grande surpresas de Sydney", era a legenda do maldito.
Surpresa de quê?! O que aquilo significava?
Eu: E aí, cvrtindi i dai?
Dois minutos até que eu recebesse uma resposta.
Naomi: ?
Me concentrei na tarefa árdua de digitar bêbado.
Eu: e aí? Curtindo o dia?
Naomi: Sim. E você?
Eu: Também.
Naomi: Legal.
Ela estava estranha.
Eu: Algo rolou?
Naomi: Não sei, rolou?
Eu: Prguntei prmeiro
Ela digitou e digitou. Depois parou. E então recebi:
Naomi: está bêbado, não está?
Não a respondi.
Naomi: postou um stories num bar, então claramente está.
Stories?! Abri o Instagram e dei de cara com uma foto da minha garrafa de
cerveja batendo contra outra. Eu nem lembrava disso. Dava para ver
perfeitamente a mão feminina que segurava a outra garrafa. Meu coração
aqueceu. Carlson estava com ciúmes?
Eu: fui curtir um piuco
Eu: *piuco
Eu: *pouco, caralho
Eu: E você? Curtindo muito com o Damian novo?
Naomi: Damian novo?
E então percebi a merda que tinha feito. Carlson enviou algumas
interrogações e eu xinguei alto, sentindo o mundo girar pelo menos duas
vezes mais rápido.
Naomi: Não tem nenhum outro Damian na minha vida.
Naomi: o que quis dizer?
Parei para analisar a mensagem. E então senti que ela estava me
escondendo algo, que provavelmente estava ficando com o maldito Leo e
fingindo que não sabia do que eu falando. A mistura explosiva de bebida,
ciúmes e burrice de Damian Bale.
Eu: Não precsa esconder seu rlacionamento com o gRaNdE LeO
Ela mandou uma risada. Mas eu sentia que estava puta. De algum modo, eu
conseguia imaginar Naomi Carlson repetindo um "não acredito" e, mesmo de
longe, temi pela minha vida.
Naomi: Leo é um "amigo".
Naomi: Perceba as aspas, porque eu ainda mal o conheço. Ele é legal e divertido, um doce de
pessoa, estou andando muito com ele, mas não o conheço tanto assim.
Respirei fundo, ainda incomodado.
Damian: A jaqueta dele no seu quarto diz o contrário.
O que eu estava fazendo? Também não sei.
Naomi: ??? Jura? Lembra disso?
Naomi: Ele me emprestou uma jaqueta porque saímos em grupo essa semana e eu estava com
frio.
— Hmm... Emprestou a jaqueta... — desdenhei, falando comigo mesmo.
Babaca.
Naomi: E o Leo está ficando com a Eve.
— Oh — murmurei. Aquilo explicava muita coisa.
Então eles não tinham nada.
Fácil assim, me senti um completo idiota. Pensei em não respondê-la, em
fingir que nada tinha acontecido, mas Carlson adicionou.
Naomi: está bêbado, podemos conversar depois. Mas isso foi desconfortável, Bale.
Resolvi responder, com medo de foder tudo de novo. Fui honesto,
completamente honesto:
Eu: desculpa.
Carlson digitou por um bom tempo, mas mandou apenas um: "tudo bem". E
eu não sei o que deu em mim quando acrescentei:
Eu: ainda não te superei.
Carlson digitou. E digitou mais algumas vezes. Mas não me respondeu.
Não naquela noite.
No dia seguinte — início da madrugada para Naomi —, eu ainda estava
um tanto quanto frustrado pelo lance com o tal Leo, assistindo a um filme
qualquer na TV. Meu celular vibrou. Eu não esperava por aquilo, realmente
não esperava.
Naomi: ainda não te superei também.
Me ajeitei sobre o sofá. Meu coração explodiu no peito e pareceu querer
fazer todo o caminho até a minha boca. Ela deveria estar bêbada ou em
algum surto de sinceridade. Eu não sabia dizer.
Pensei em enviar alguma resposta. Contudo, Naomi apagou a mensagem,
provavelmente pensando que eu não tinha lido. Garantiu que havia sido um
engano. Eu sabia que não. E amaldiçoei o sorriso que surgiu nos meus lábios
logo em seguida.
Depois da minha crise de ciúmes, Carlson e eu nos afastamos um pouco, o
que contribuiu para que eu não conseguisse falar para ela sobre a aprovação
em Brightgate, nem que Ryan já estava resolvendo toda a papelada para que
a vaga no curso de Música fosse minha — mesmo não tendo certeza de que
eu voltaria.
Fui em uma sessão com uma psicóloga dois dias após receber o resultado.
Não pela aprovação. Minha mãe tinha marcado antes disso, porque prometi
que tentaria ir a algumas sessões.
A consulta durou uma hora. Ela só me perguntou algumas coisas básicas,
querendo saber mais sobre mim. Tive que fazer uma escala de coisas que
tinha medo. Só consegui dizer três coisas.
A primeira, abaixo de todas: animais venenosos — culpa da Austrália.
Australianos são estranhos para cacete por conseguirem lidar com isso.
A segunda era fracassar no que meu futuro esperava de mim. Nem sei
como consegui dizer em voz alta.
É que crescendo, na escola, sempre ouvi demais sobre profissões mais
"tradicionais" como engenharia, odontologia, direito ou medicina; e tendo
um pai com uma empresa de construção e uma mãe enfermeira... Damian
Bale ainda queria música. Mas a carreira musical sempre me pareceu um
caminho tortuoso e carregado de neblinas. Às vezes me fazia sentir um peixe
fora d'água.
A última era perder ou deixar para trás as pessoas que eu amo. Pois é...
Exatamente o que eu estava fazendo.

Era véspera de Natal. Decorações estavam por todo o lugar. Neve cobria
levemente o asfalto e alguns telhados. Eu pedalava, bem agasalhado, mas
ainda morria de frio.
As ruas estavam um pouco vazias naquela manhã. O fim de semana havia
chegado e eu estava ansioso pela ceia e um pouco de chocolate quente. Era a
única parte do feriado que me animava: comer. Minha única família na
Inglaterra era a minha mãe e eu não estava exatamente bem humorado
naqueles dias. Ao contrário de mim, Meredith DeLuca estava enfeitando toda
a casa, pesquisando todo tipo de tradição possível, cantando músicas
natalinas e colando fotos de um Damian Bale de cinco anos vestido de Papai
Noel pela casa. Aquele Damian amava o Natal. Esse, que estava em
Bradford pedalando pelas ruas vazias, com a cabeça a mil? Nem tanto.
Eu pegaria meu violão, sorriria para Meredith e cantaria o que quisesse
em frente à lareira se isso a fizesse sorrir. Ela merecia isso por tentar me
animar nos últimos dias, com as sessões de filmes, maratonas de Breaking
Bad e nossas refeições descontraídas na bancada da cozinha. Mas o clima
natalino estava longe de mim.
Para piorar, Naomi e eu ainda estávamos um tanto distantes depois dos
meus ciúmes. Havia passado uma semana e não tínhamos trocado uma
mensagem sequer. Claro que isso me incomodava. Provavelmente a
incomodava de volta. Mas, por algum motivo, deixamos desse jeito.
Aquele Leo poderia ter amigos e apresentá-los a ela. Carlson com certeza
aproveitaria Sydney ao máximo e estaria certa em fazer isso. Uma mulher
como ela conseguiria outra pessoa facilmente, se quisesse. Eventualmente,
pensei, ela iria querer isso. Bem como eu também deveria querer. Isso doía.
Então ali estava eu, pedalando pela rua o mais rápido possível, como se a
endorfina fosse impedir os pensamentos de me atormentarem.
Era desconfortável conversar com a minha mãe, porque ela ainda tentava
falar sobre minha aprovação em Brightgate, sutilmente me convencer a
voltar. Eu recusava as ligações de Ryan, porque sua voz me fazia lembrar
que ele simplesmente pagara todo um período para garantir minha vaga.
Dinheiro para cacete. Não senti que merecia isso.
Meu celular tocou, interrompendo alguma música do Arctic Monkeys.
Parei de pedalar, observando o nome na tela.
Mike Graham.
Atendi com um sorriso, prestes a fazer qualquer piada, mas desisti assim
que o ouvi.
— Cara, pode conversar? — ele perguntou, soluçando. Meu coração
parou, pesado de preocupação.
— O que houve, Mike?
— Hmm... — Ele riu baixo e eu senti o seu desespero mesmo de longe.
Era desespero puro. — O meu pai... Cacete... Ele tá... Tá doente.
Doeu para caralho ouvir isso. Mike nunca tinha conversado muito sobre o
pai dele. Tudo o que eu sabia era que, enquanto sua mãe era urologista, o Sr.
Graham era sócio de alguma empresa farmacêutica e significava o mundo
para ele.
— Acho que não posso mais ir para Sydney, sabe? O tratamento
provavelmente vai ser caro e... Minha mãe vai precisar de ajuda. Porra,
Damian, eu ia viajar amanhã e ele passou mal e agora teve essa porra de
diagnóstico! Eu não sei o que pensar! E minha mãe precisa de mim, ele
precisa de mim...
— Calma, ok? Respira, Mike!
Meus ombros se tornaram tensos e eu fiz a única pergunta que passou pela
minha cabeça:
— O que ele tem?
— Esclerose.
Cacete. Isso não era bom.
Respirei fundo, olhando ao redor. Precisava voltar para casa e conversar
com ele melhor.
— Se liga, Graham, tô fora de casa agora. Onde está?
— Estou sozinho em casa, minha mãe tá no hospital — sua voz continuava
trêmula, carregada de nervosismo.
— Vou mandar alguém para ficar contigo.
— Não...
— Não pode ficar sozinho. Dez minutos e eu te ligo, beleza? — perguntei
e desliguei apenas quando ele confirmou.
Mandei mensagem para Brandon e Oliver, mas eles estavam em alguma
festa, vi pelos stories do Instagram. Era noite na Austrália. Não me
atenderam de imediato. Tentei ligar para Riley. Ela atendeu, mas quando
perguntei se poderia ir pessoalmente até Mike, ela disse que estava numa
viagem com a namorada.
Então liguei para Naomi. Era fim de semana, ela deveria estar em
Brightgate e sua mãe era vizinha dele. Carlson atendeu de imediato.
— Naomi Carlson falando — ela soava sonolenta.
— Está bem? Pode falar?
— Damie? Posso sim. — Voltei a pedalar, guardando o celular no bolso
do casaco e deixando-a na chamada. — O que houve?
— Preciso que faça um favor para mim. Algo rolou com Mike e ele vai
precisar de apoio. Emocional. Urgente.
— O que houve?
— O pai dele tá meio doente. — Aquilo era eufemismo. — Mike parece
desesperado e eu tô preocupado. Está em Brightgate?
— Sim.
— Pode passar na casa dele tipo... agora?
— Damian... O que houve?
— Graham te explica se quiser — respondi, fazendo uma curva em uma
esquina. — Só não deixa ele sozinho. Vou ligar para lá em dez minutos, por
favor, faz isso por mim?
— Ok. Pode ficar tranquilo.
Desliguei a chamada. Fiz todo o caminho de volta para casa na velocidade
da luz. Subi as escadas tão rápido que minha mãe mal conseguiu dizer duas
palavras direito. E quando liguei para Graham, Carlson atendeu.
— Consegui fazê-lo respirar um pouco e ele foi pro banho. Vou fazer um
chá ou algo assim — ela disse. — Vou passar a noite aqui também.
Cacete, Bale... Nunca vi o Mike assim!
— É, eu sei.
Um silêncio nos seguiu. A ouvi suspirar.
— Você é um ótimo amigo, sabe? Apoiando quem ama, mesmo de longe.
— É o mínimo — respondi. E então um clima estranho se pôs entre nós
dois. Respirei fundo. — Desculpa por ocupar o seu tempo e obrigada por
isso.
— É o mínimo — ela devolveu. Eu conseguia ouvir a sua respiração,
saber que ainda estava ali. — Te ligo mais tarde, pode ser?
— Pode... Claro... Ei, sweetheart... Tudo bem?
— Tudo sim, novato. — Houve uma pausa. — E contigo?
— Tudo ótimo — respondi, incerto. Eu não queria desligar a chamada e
aquilo me parecia egoísta. Ela precisava ajudar Mike, mas ali estava,
Damian Bale, se agarrando a uma chance de conversar com Naomi Carlson.
— Está chateada comigo?
— Pelo quê? — seu tom de voz mudou. Parecia um pouco tensa.
— Pelo lance do Leo. As mensagens que mandei bêbado...
— Não. Não fiquei chateada. Só não soube como reagir.
Ficamos em silêncio por algum tempo.
— Sinto sua falta...
Ela suspirou.
— Também sinto sua falta.
Porra...
— Ei, Carlson — quebrei o silêncio, tentando afastar qualquer clima
tenso entre a gente. — Escuta aquela quando puder. Thank You, do MKTO.
— Odeia essa música — ela disse, rindo. Eu ri junto.
— Estou tentando agradecer aqui.
— Ohhhh, entendi. Porque significa "obrigado".
— Está explicando a piada. De novo.
Rimos juntos novamente.
— Sempre que precisar, Damian Bale — ela prometeu.
— Sempre que precisar, Naomi Carlson — devolvi. — Peça para Mike
me ligar quando sair do banho, ok? — Ela confirmou e encerramos a
ligação.
Me sentei sobre a cama, cansado. Respirei fundo, todos aqueles
pensamentos voltando à minha cabeça com força.
Surreal como a vida se inverte em questão de segundos. Estamos bem e,
de repente, longe disso. Eu tentava me reencontrar, mas outra pessoa que eu
amava estava tendo um encontro doloroso com o caos e eu não sabia ficar
em paz com isso. Deveria estar lá pessoalmente por Mike, mas não estava.
Eu estava sozinho do outro lado do mundo, sentindo falta das pessoas que
me fizeram viver meus melhores momentos, me ajudaram a redescobrir quem
eu sou e me tornaram infinitamente melhor.
Eu estava isolado, sem conseguir abraçar meu melhor amigo quando ele
precisava, sem poder abraçar a minha irmã, sem ver meus Green Snakes
favoritos e longe da garota que eu gostava.
Estava triste e vazio, num quarto, numa cidade que não mais me
representava e finalmente me perguntando que porra eu estava fazendo.

Era a primeira vez que eu procurava uma psicóloga e não era levado até
uma.
Não era o dia em que havia marcado minha próxima sessão, mas pedi por
uma consulta, o próximo horário que ela tivesse.
Então ali eu estava.
Sentado, de frente para a doutora de pele negra, cabelos cacheados e
escuros, sorriso doce e olhos cor de mel.
Minha preocupação com Mike tomou a semana subsequente ao Natal. Mal
consegui aproveitar o feriado com a minha mãe ou conversar direito com
Katy, Ryan e Miley. Brandon e Oliver estavam lá por Graham e me mantendo
informado. O que eu sabia era que Graham tinha realmente desistido de
Sydney por Brightgate. E que estava na merda.
Conversávamos sempre e Mike era monossilábico. Carlson me disse que
ele ficou apático na manhã seguinte, quando ela dormiu na casa dele. Naomi
teve que deixá-lo porque viajaria para Sydney, mas assim que saiu da casa
de Graham, Oliver estava na porta.
Naomi percebeu que eu estava preocupado e me enviou uma playlist para
me deixar mais leve, o que funcionou. Pouco, mas funcionou. Essa foi a
única coisa boa daqueles dias, sabe? Naomi e eu nos aproximamos
minimamente. Até mesmo nos mandamos mensagens de "Feliz Ano novo",
apesar de que eu não conseguiria conversar muito com ela nem se tentasse.
Minha mãe estava tentando regular meu tempo no celular e ameaçou jogar
ele na minha testa se eu não bebesse vinho com ela esperando pela virada.
A única coisa que eu ainda conseguia fazer era compor. Eu precisava fazer
isso para me manter firme e são. Escrevia sobre o que sentia em relação à
Brightgate, Carlson, Bradford e tudo mais. Inventava uma melodia atrás da
outra, deixando meu caderninho cada vez mais preenchido e o aplicativo de
gravações do meu celular cada vez mais lotado.
Enfim... Meu corpo estava na Inglaterra, mas meu coração e mente em
Brightgate. Era insuportável. Eu precisava me entender logo ou explodiria.
— Quando quiser começar, senhor Bale — a psicóloga disse.
— É que não sei por onde começar. Da última vez, me perguntou o que
tinha me trazido, me fez algumas perguntas... Não pode fazer isso de novo?
Ajudou bastante.
Tive a impressão de que a psicóloga já tinha feito isso, mas ela não
comentou sobre.
— Certo, querido — ela disse, tranquilamente. — O que te trouxe aqui
hoje?
Eu não sabia por onde começar. Respirei fundo, tentando não tamborilar a
poltrona, não bater demais o pé no chão.
— Hmm... Tô meio ansioso essa semana. Queria conversar, sei lá. Da
última vez não falei muito, certo? Mas agora quero conversar. Porque ajuda,
né? — Ela assentiu, a sombra de um sorriso compreensivo por seus lábios.
— Esse aqui é um espaço para que fale o que quiser. O que sentir que
precisa. — Não me senti mais tranquilo e acho que ela percebeu. A
psicóloga sorriu e deixou o bloco de anotações de lado, cruzando as pernas.
— Veja, Damian... Posso te chamar de Damian?
— Pode.
— Ok. Pode me chamar de Cheryl, se quiser. — Assenti. — Veja, não
quero que pense em mim como alguém superior ou alguém que vai te julgar
de alguma forma. Estou aqui, a princípio, para te ouvir e te ajudar a refletir.
Por que não começamos assim: que tal repetir o que me contou sobre você
na nossa última consulta e acrescentar o que achar necessário? Depois você
me fala sobre a sua semana, o que te trouxe aqui. Sem pressa, conte apenas o
que quiser contar.
Respirei fundo. E então comecei.
Falei um pouco sobre a história dos meus pais, sobre ter nascido ali. Ela
fez uma pergunta ou outra enquanto eu falava da minha infância. Me senti
tenso quando comecei a falar sobre a Megan. Muito tenso. Esperei ser
julgado de alguma forma, mas isso não aconteceu.
— Nunca passou por uma psicóloga antes, certo? — ela perguntou e eu
neguei. Já tinha dito isso na última consulta. — Costumava desabafar sobre a
Megan com alguém?
Mordi o lábio, me ajeitando sobre a poltrona.
— Com a minha mãe. No início, sabe? Mas era bem pouco. E então com a
minha namorada. Ex-namorada. A Naomi. Em Brightgate.
— Na Austrália. Onde passou os últimos meses, certo?
— Isso. Conversei sobre o lance da Megan com uns amigos também.
Depois de um tempo. Falei que minha ex tinha morrido de overdose e eles
me apoiaram, sabe? Mas não contei muito para eles. Só para Naomi.
— O que contou para eles?
— Só sobre como ela morreu — respondi. Respirei fundo, tentando
relaxar. — Não contei sobre como me sentia de verdade. Sobre... A culpa.
— Culpa... — ela repetiu. Assenti, silenciosamente. — Sabe me dizer a
razão para essa culpa que você sente, Damian? — questionou.
Dizer apenas o que eu me sentia confortável em dizer, ela pediu. Eu
conseguia fazer isso.
— Sinto que arrastei a Megan para isso. Que ela caiu no mundo das
drogas depois de mim — confessei. E então mordi o lábio inferior, deixando
escapar um pouquinho mais: — Visitei a casa dela essa semana. De longe.
A psicóloga não disse nada e eu tomei como incentivo para continuar.
Algo comprimia o meu peito. Não o suficiente para doer, apenas para
incomodar. Ao mesmo tempo, a sensação parecia reduzir um pouco a cada
segundo.
— Foi meio involuntário. Quando vi, eu estava na frente da casa dela. A
minha mãe ficou preocupada com isso. Eu entendo, é... bizarro. Ela acha que
não superei a Megan.
— E o que você acha?
Era uma pergunta forte. Uma que eu nunca tinha pensado em responder, até
ali. Que se fodesse o mundo, pensei. Desabafei:
— Acho que o problema é que... Megan convulsionou na minha frente —
contei, pigarreando em seguida para conter a falha na minha voz. — Eu
penso se poderia ter feito mais, não sei... A assisti definhar nos meus braços.
Não consegui impedir...
— Acha que teria conseguido?
Meus olhos se encheram de lágrimas. Afundei um pouco na cadeira,
quando confessei pela primeira vez que não. Balancei a cabeça em negação,
silenciosamente.
Salvar Megan estava fora do meu alcance. Lembro de quando percebi
isso. De quando joguei as malditas drogas na sua privada e a vi implorar
para que eu fingisse que nada tinha acontecido. Quando me ofereceu suas
drogas.
E mesmo assim tentei.
Eu tentei. Tentei salvá-la.
— Não — confessei após uma pequena luta interna. — Não é por isso que
estou aqui... Caramba...
— Leve o tempo que quiser, Damian. Não se prenda apenas ao que veio
me dizer. O que lembrar, sentir, pensar... Pode colocar para fora. E se quiser
terminar a sessão, a qualquer momento, faça isso. No seu tempo.
Era uma sensação conflituosa de angústia por lembrar de tudo e alívio por
colocar para fora. Como acessar a dor e odiá-la, mas ser o único modo de
colocá-la longe da minha alma, de pouco em pouco.
— O que sente quando pensa na Megan, além da culpa?
Ponderei por algum tempo.
— Raiva. Muita.
— Dela?
— Não. De mim mesmo.
— Relacionada à culpa? — ela perguntou. Confirmei. E então decidi que
não falaria sobre mais, ficando em silêncio. A psicóloga escreveu algo em
seu caderno. — Novamente: diga o que quiser, quanto e quando quiser.
Apoiei o rosto na mão, a analisando. Parecia calma, inabalável, apesar de
passar alguma solidariedade por seu semblante.
— Estou me sentindo ansioso nos últimos dias. Porque sinto que preciso
tomar uma decisão sobre onde ficar. Sinto falta do pessoal da Austrália e
que eles precisam de mim. Enquanto que aqui...
Megan. Além da minha mãe, a Inglaterra me fazia pensar apenas em
Megan. Como se ela estivesse comigo. Talvez porque eu não tivesse mais
ninguém em Bradford além daquelas lembranças e... Bem, Meredith.
— Aqui você lembra da Megan — a psicóloga afirmou, mas havia algum
tom de pergunta. Confirmei e ela sorriu fraco. — Veja, Damian... Não sei se
lembra do que eu te disse na nossa primeira consulta, mas estou aqui para te
ajudar a lidar com algumas questões. Talvez algumas delas sejam facilmente
resolvidas. E outras ficarão... mais suaves, entende? Por exemplo, o luto.
Perder alguém importante é algo que te marca. O que pode mudar é o quanto
isso te afeta. E, na maioria dos casos, precisa mudar. Para que siga em
frente.
Absorvi suas palavras por um longo momento.
— Sente que as memórias da Megan ficam mais dolorosas quando está
aqui? — Cheryl perguntou um pouco mais direta. Confirmei, não mais tão
sem jeito. — E na Austrália, como era?
A Austrália. O sol, a praia, o futebol, as merdas que eu fazia por lá...
Merdas que eu fazia com as pessoas certas.
Mike e suas falas rápidas, seu humor peculiar.
Brandon e sua mania de colocar a palavra "maconha" em toda frase
possível ou quase isso. Ok... Estou exagerando.
Oliver e suas piadas fora de hora.
Riley e seus sermões passivo-agressivos...
Miley. Miley e os filmes da Disney. Como me irritava quando roubava a
pipoca que a Katy fazia e o Ryan não me defendia, só ria das nossas "brigas"
e dava de ombros, como se as julgasse divertidas.
E, então, todas as vezes que Naomi esteve ali por perto, me pedindo para
pegar leve com a minha irmã, antes de cantar Let It Go a plenos pulmões ou
me obrigar a dançar Shakira no meio da sala.
Naomi. Naomi e seus conselhos, sua capacidade de me ouvir, de me fazer
sorrir...
— Na Austrália era um pouco mais fácil. Ainda pensava em Megan e
doía. Ainda tinha... alguns problemas de mau comportamento. Mas eu tinha
pessoas que conseguiam me distrair. Eu tinha... Uma família.
— Tinha?
— Ainda tenho — respondi de imediato. Mordi um sorriso, sentindo meus
olhos arderem. — Talvez eu sempre tenha.
Cheryl anotou algo. Me senti mais leve. Falar das coisas boas na Austrália
era incrivelmente fácil.
— E como se sente, voltando à Bradford? Por que voltou?
— Não quero falar sobre por que voltei — confessei e ela assentiu,
compreensiva. Não queria falar sobre o baile ainda. Me sentia envergonhado
e doía muito. — Não sei mais como me sinto em relação à Bradford. Porque
antes, voltar parecia o certo a se fazer, para que eu pudesse pensar...
— E agora?
— Agora sinto que já pensei demais. Estou cansado disso, eu só... Quero
tomar uma decisão, sabe? Quero... Quero saber o que fazer! Não quero ficar
aqui pensando na Megan, não quero ficar parado enquanto o tempo passa...
Pensei em Mike, em quanto precisava de mim. Pensei em Brandon e
Oliver e como daria tudo para vê-los jogando profissionalmente. Em como
sentia falta de conversar com Riley, saber dos seus planos. Na minha irmã
mais nova, minha madrasta, meu pai... E Naomi. Porra, eu pensei na Naomi.
— Então... Tentando pensar um pouco nos prós e os contras de estar aqui
e começando pelos prós... O que você tem?
— A minha mãe e...
Minha frase morreu.
— A minha mãe — concluí. Apenas Meredith estava ali por mim.
— Na Austrália, como era a sua relação com a sua mãe?
Eu ri ao parar para pensar.
— Talvez até melhor. Voltamos a zoar um ao outro, a conversar mais...
Mesmo que por telefone.
— Então, você diria que isso seria algo bom, algo que a experiência na
Austrália te trouxe?
Meu peito doeu. Doeu porque eu me senti mais perto de confessar o que
eu realmente já sentia. Que minha mãe estava certa. Que eu a amava para
caralho, mas meu coração não morava com ela. Não mais.
A psicóloga me deixou com o meu silêncio por algum tempo, talvez
esperando que eu respondesse ou só que pensasse sozinho.
Me senti bobo.
Sabe quando faz algo com toda a certeza de que não poderia estar mais
certo e então todo o sentido nisso some?
— Quais são os prós da Austrália, Damian? Por que voltaria?
— Porque me fez muito bem... Porque... Caramba. — Levei as mãos ao
rosto. — Me fez crescer para caralho. Merda, desculpa por isso. — Ela riu
baixinho do meu xingamento, como se fosse bobagem.
Eu estava basicamente dizendo em voz alta tudo o que todo mundo já tinha
me dito. Mas era diferente. Era diferente ser a pessoa a falar tudo em voz
alta.
— E acha que sente falta da Austrália pelas pessoas que deixou lá... As
pessoas que ama... Ou...
— Ou?
— Ou por você mesmo?
Uau... Aquela era uma pergunta forte. Para caralho. Difícil de responder
no primeiro instante, mas então... Então eu lembrei da adrenalina das
partidas como um Green Snake. Da sensação de correr com a moto pelas
ruas de Brightgate. De tocar violão para a minha irmã e me sentir finalmente
grato por ter ela por perto. Ou como foi incrivelmente fácil criar amizades
por lá, como pude respirar, não ser constantemente consumido pela raiva.
Como eu conseguia compor mais, me divertir mais e simplesmente viver por
lá.
Eu tinha saído da Austrália porque algo ruim tinha acontecido, de fato.
Porém, algo de ruim também tinha acontecido na Inglaterra. Algo ruim, muito
ruim, poderia acontecer em qualquer lugar. Mas, ao menos na Austrália, eu
tinha uma casa. Um lar.
O Damian que fui por Brightgate era o Damian que eu queria continuar a
ser. O cara que Bradford fez questão de aprisionar bem, bem no fundo do
meu peito, para colocar algo pior no lugar. Algo que eu não queria voltar a
ser.
Eu voltaria por mim ou pelas pessoas que eu amo?
— Por mim — respondi. Quando a frase que passou pela minha cabeça
me pareceu extremamente irônica, eu ri. — Mas logo depois de mim, elas.
Brightgate foi mais do que um lugar que me permitiu respirar de novo. Foi
um ensinamento. Um que não tinha acabado. Uma casa. E enquanto assim
fosse, eu não poderia deixar isso de lado.
Fugi da Austrália porque precisava pensar. Foi bom pensar. Mas eu não
poderia continuar fugindo.
Quanto à Megan... Conversar minimamente sobre ela foi incômodo. Mas
no momento depois, eu me senti mais... leve. Enfrentar o passado, no meu
próprio tempo, foi interessante. Era algo que eu precisava fazer. Mas não
ali.
— Logo depois de mim, elas — repeti, ao pensar em voz alta, baixinho.
E então sorri. Porque minha decisão já estava tomada.

Quando contei para Meredith a minha escolha, esperei que ficasse mais
triste. Recebi um sorriso de orelha a orelha acompanhado de lágrimas,
enquanto ela segurava meu rosto e garantia que estava orgulhosa por me ver
agir com maturidade e escolher meu futuro. Um que era melhor para mim.
Mesmo que isso significasse que estivessemos em continentes distintos.
Não sabia como dizer tudo o que sentia na nossa despedida e como
sentiria sua falta para caralho, então deixei um pen-drive com músicas
antigas para ela, escondido, para que achasse apenas depois que eu
embarcasse. Havia uma pequena carta, dizendo que a amava, e que a
Austrália ser melhor para mim nunca mudaria isso. Ela sabia disso, mas era
bom repetir.
Tentei comprar a passagem o mais rápido possível, para voltar antes do
aniversário da Naomi. Mas era oito de Janeiro, no mesmo dia em que eu
entrava no maldito avião. Logo, ela já estava fazendo dezenove anos, se
minhas contas de fuso horário estivessem certas. Deveria ser manhã para
Carlson quando enviei uma mensagem. Cogitei fazer uma chamada de vídeo,
mas estragaria a surpresa.
Damian: espero que tenha recebido as minhas flores.
Surgiu apenas uma foto dela segurando as flores rosas, sorrindo como
nunca.
Naomi: São lindas, sério! Obrigada por isso.
Damian: Não achei girassóis a tempo.
Naomi: Não precisava. São perfeitas! Obrigada, Damian. Sério mesmo! Nem sei o que dizer.
Sorri para a tela e nem mesmo liguei quando a aeromoça me disse para
guardar o celular, má humorada. Porque aquelas flores eram nada. Eu
entregaria o verdadeiro presente pessoalmente. Assim que possível.
Agradeci para caralho por Ryan ter adiado enviar minha moto de volta
para Bradford, porque consegui viajar nela para Sydney, pouco tempo
depois de devolver tudo para o meu quarto em Brightgate.
Mike, Oliver, Riley e Brandon ficaram em choque quando mandei uma
foto para eles diretamente do aeroporto da cidade. Pedi para que não
contassem nada para Naomi e tomei um susto quando eles apareceram na
minha casa na manhã seguinte, me enchendo de perguntas.
Abracei Mike por uns cinco minutos. Não só por sentir sua falta, mas
porque senti que ele precisava. Eu faria questão de virar a cidade do avesso
para fazê-lo sorrir.
Eu estava de volta. E era incrível!
Aproveitei cada segundo daquela viagem de duas horas de moto sem
reclamar, respirando melhor com o vento se chocando no meu corpo, a
adrenalina me lembrando de como era bom estar vivo.
Ryan achou loucura que eu viajasse de moto. Katy disse que era
romântico. Miley estava muito ocupada me abraçando com força pelo
pescoço para opinar.
O vento contra o meu rosto, o céu azul e limpo, o sol da manhã me
lembrando que eu estava livre do maldito inverno europeu, o solo
australiano... Aquilo era casa. Pareceu menos casa quando finalmente
cheguei em Sydney e me perdi, perguntando para todo mundo onde ficava a
maldita Universidade da Naomi. Mas finalmente cheguei.
Brandon tinha me passado o endereço dela para que eu mandasse as flores
e eu gravei o número do alojamento. O procurei por alguns minutos, nervoso
para cacete.
E então travei a moto, porque vi Naomi Carlson sair de um dos prédios,
com fones de ouvido, meio dia. Ela estava ali. Em suas calças jeans claras;
seu cabelo solto e liso; sua camisa branca, de mangas compridas e justa ao
corpo; e seus coturnos.
Nada mais importava.
Não enquanto eu analisava a garota que descia as escadas do pequeno
prédio de tijolos marrons.
Meu coração disparou, eu apertava a moto com força, sem conseguir me
mexer.
— EI — gritei, ignorando quando algumas pessoas me olharam estranho.
— SWEETHEART!
Ela parou por completo.
Naomi ergueu os olhos para mim.
Aqueles olhos.
Os mais lindos que já vi.
O olhar de Naomi Carlson é aquele tipo de olhar, sabe? Azul vivo e
intenso, como o céu num dia limpo. Te faz sentir que está nas nuvens e é o
motivo perfeito para cair. E eu cairia por aquela garota milhares de vezes.
Me senti na porra do paraíso. Eu literalmente ri de felicidade. Era a
maior loucura que eu já tinha feito. Duas horas de viagem apenas para vê-la
o mais rápido possível. Mas valeu muito a pena.
Tirei o capacete com as minhas mãos trêmulas. Naomi ergueu as
sobrancelhas, estática. Seus passos foram cautelosos e lentos, atravessando a
rua vazia. Parecia não crer no que via e eu a entendia, mesmo.
Dispensei o capacete sobre a moto e caminhei até a morena. Naomi parou
a um ou dois passos de mim.
Seu olhar esquadrinhou todo o meu rosto, descendo à minha camiseta do
Queen, a blusa quadriculada por cima, as calças jeans e os tênis... Até que
finalmente algo naqueles universos azuis mudou. Ela percebeu que era eu
mesmo ali. Damian Bale.
Seu.
Seu inglesinho.
Seu novato.
Completamente seu.
Senti que meu coração explodiria quando deu um último passo em minha
direção, ainda segurando o celular, como se fosse tudo o que a provava que
aquilo acontecia. Seu olhar tão perto do meu, sua boca levemente
entreaberta... Porra, seu perfume. Percebi que aquilo era real quando senti
seu perfume. Tão perto.
Eu poderia chorar de alívio. Porque parecia uma eternidade desde que a
tinha visto tão próxima de mim.
E tudo o que consegui dizer foi:
— Oi, sweetheart.
Paralisada.
Era como eu me encontrava.
Completamente paralisada.
Estática.
Petrificada.
"Oi, sweetheart".
Meu coração parou por completo. Depois disparou com força contra as
minhas costelas. Meu sangue corria por minhas veias tal como um tornado
avassala uma cidade. Por aquele garoto.
Damian. Damian Bale. Na minha frente.
Sorrindo para mim, com os olhos cinzentos brilhando mais do que nunca
e... Meu Deus, Damian Bale.
Vestido tal como quando o vi pela primeira vez. A camiseta do Queen sob
uma camisa quadriculada, as calças jeans, os tênis gastos...
Ele se aproximou ainda mais, colocando uma mecha para trás da minha
orelha. Um gesto simples e delicado, mas... por Deus, senti cada mísero
átomo do seu dedo roçando contra cada pedacinho da minha bochecha
quando ele a alisou.
Real.
Muito real.
— Estava... Estava na Inglaterra. — Franzi o cenho. Segurei o seu pulso,
subindo a mão até a sua, ainda contra o meu rosto.
Real.
— E agora estou aqui, sweetheart — ele soprou. Meus olhos não
conseguiam crer no que viam, meu coração continuava mais insano do que
nunca. — Estou aqui, linda. — Ele apertou a minha mão e eu admirei cada
mísero detalhe seu.
Um arrepio percorreu o meu corpo. Eletricidade traçando um caminho
pela minha coluna, como fogo consumindo pólvora. Subitamente, fui tomada
por algum tipo de impulso surreal.
Nem sequer pensei. Não havia racionalidade. Eu simplesmente o abracei
com toda a força que eu possuía. Passei meus braços ao redor do seu
pescoço, fechando os olhos e me aproveitando do contato, do seu cheiro, da
sua pele. Damian me puxou para si pela cintura, rindo baixinho perto do meu
ouvido.
Seu perfume, seu calor, seu corpo... Ele e apenas ele, me envolvendo. Meu
coração batia com força perto do dele. Aquela conexão entre os dois se
forjando cada vez mais forte, para impedi-lo de sumir novamente.
— Também senti sua falta, Naomi. Para caralho. — Ele beijou o meu
ombro, me mantendo perto de si. Segurando a vontade de chorar, nem
consegui respondê-lo.
Damian tirou meus pés do chão, rindo, e eu só o abracei. O abracei até ter
certeza de que aquilo era real. E era.

Destranquei o apartamento, odiando que Damian estivesse vendo a minha


mão trêmula falhar em fazer algo tão simples.
Nervosa. Eu estava muito, muito nervosa.
Quando fechei o apartamento, estranhei o silêncio entre nós dois. A sós.
Completamente a sós.
A ausência de fala me fez tomar consciência da música nos meus fones e
eu a interrompi, jogando o celular sobre o sofá. Era como se eu precisasse
me forçar a perceber o mundo à minha volta, atordoada.
— Estamos sozinhos? — Bale perguntou, olhando ao redor.
Havia um sofá azul sobre um tapete branco e uma pequena mesa de centro
no canto da sala, ligada a uma cozinha simples. Um corredor bem ao lado do
sofá permitia acesso a três quatros minúsculos. Cada um com basicamente
uma cama, um armário e uma escrivaninha. Havia também, claro, o acesso
ao único banheiro. Era simples. E pequeno. Mas tudo bem organizado, limpo
e decorado. Um lugar legal para viver.
Eu me mudaria do alojamento em um mês quando as aulas de fato
começassem. Por ora, estava ali apenas para me adaptar: resolver algumas
coisas, conhecer o campus e a maior quantidade de pessoas que conseguisse.
Provavelmente passaria as duas próximas semanas em Brightgate, inclusive.
Ou seja, se esperasse um pouco mais, Bale teria me encontrado por lá.
Mas claro que ele queria fazer sua volta triunfal, viajando duas horas para
me ver o mais rápido possível. Teatral, intenso, dramático enquanto finge
não ser: Damian Bale.
— Sozinhos — respondi, quando lembrei da pergunta. Abracei meu
corpo, observando Damian, que tinha as mãos nos bolsos das calças
enquanto analisava tudo. Minha boca estava incrivelmente seca. — Espera...
Quer água? E tem café, eu acho.
— Não. Estou bem. — Sua fala não me impediu de ir para a cozinha,
porque eu realmente precisava de água. Deixei as chaves sobre a ilha e o
senti atrás de mim, passo após passo. Abri a geladeira, joguei água sobre um
copo e amaldiçoei cada segundo do olhar de Damian sobre mim.
— O quê?!
Virei um gole, evitando contato visual.
— Não precisa ficar nervosa. Sou só eu, sweetheart — ele disse. Como se
não soubesse o que representava para mim. Virei o copo inteiro. — Como é
morar aqui? — Damian soou tão... casual.
— Estranho nesse início. Mas legal. — E então respirei fundo.
Sonhei com isso algumas vezes. Eu só não o diria. Não diria como invadia
os meus sonhos e como eu acordava, frustrada por estar sozinha. Que ainda
chorava sem ele. Não o contaria que sonhei com aquilo acontecendo e agora
não fazia ideia de como agir.
Eu poderia dizer que todos os meus sentimentos por Damian tinham
adormecido até aquele momento, mas seria mentira. Ficaram mais vivos do
que nunca, por cada segundo em que ficamos afastados. A distância deveria
nos destruir, o tempo deveria fazer a saudade diminuir... Mas não.
Aparentemente, Damian e Naomi seriam sempre uma exceção ao comum.
Eu estava tomando coragem de olhá-lo nos olhos, porque todo o universo
sob a minha pele gritava por ele. Poucas coisas me desconcertam com
facilidade. Damian Bale estava entre elas.
— Voltou em definitivo? — questionei, me virando para deixar o copo na
pia.
— Sim. Não vou a lugar algum, sweetheart. A Austrália é a minha casa
agora.
Mordi a bochecha antes de me girar em meus calcanhares e voltar para a
sala. Parei em frente a ele, finalmente olhando em seus olhos. Cinzentos
como uma tempestade fria e, ainda assim, me aqueciam como o sol num dia
limpo.
Damian tinha um olhar intenso. E eu não soube se conseguiria quebrar o
contato visual mais.
— Tem certeza? — perguntei, baixo e rouco demais.
— Absoluta. Tenho um futuro aqui. Fui aceito para cursar Música na
Universidade de Brightgate. — Senti orgulho, no meio de tantos sentimentos
confusos de serem explicados. — Mike também vai para lá, então não vou
ficar sozinho.
— Céus, Mike... Não falo com ele tem uns dias. Está tudo bem?
— Na medida do possível. — Damian se aproximou. — E Melissa?
Contou para ela sobre tudo? — Confirmei, lutando para não engolir em seco.
E ali estava ele, perto demais. — O que ela disse?
Wayne disse que tentaria falar com Mike. Mas eu não consegui sequer
manter Melissa no meu pensamento por mais que dois segundos.
— O que está fazendo aqui, Damian? — perguntei.
— Estou onde pertenço, Carlson. A Austrália. Voltei para fazer as coisas
darem certo na minha vida como não dariam na Inglaterra. Estou aqui para
me desculpar com meus amigos por ter partido sem uma despedida e garantir
que vou ficar aqui para sempre. Estou aqui porque quero ver Miley crescer...
— Suas mãos brincaram com meu cabelo atrás da orelha. Seus dedos
raspando contra a minha pele foram o suficiente para que arrepios fracos
corressem por minha espinha. — Porque não quero me afastar do Ryan. Mas,
principalmente, porque imagino todo o meu futuro aqui, esse país me
prendeu mais do que eu imaginava. Parece que a minha alma pertence à esse
lugar. Sempre pertenceu.
— Então por que partiu? — deixei escapar, baixo. Damian não se afastou
e eu não o afastaria. Lutei contra a tentação de me aproximar ainda mais, na
verdade. De colar meu corpo ao seu de novo e não sair dali.
— Porque precisava pensar. Porque às vezes precisamos perder algo para
o valorizarmos. Mas cansei disso. Quero enfrentar cada um dos meus
demônios. Quero caçar cada um dos meus sonhos. Como uma garota me
inspirou a fazer, certa vez.
Engoli em seco. Meu olhar continuava preso ao seu, seu nariz tão perto do
meu, nossas respirações fodidamente audíveis, se misturando.
— Eu voltei, Naomi. E não vou a lugar algum. Porque só consigo imaginar
o meu futuro aqui. Porque quero reconquistar tudo que quase perdi. Inclusive
você.
Meu coração errou algumas batidas, minhas pernas se enfraqueceram e
minhas pálpebras pesaram. Suas palavras me acertaram em cheio.
Damian. Damian Bale e seus malditos efeitos sobre mim.
— Viajei duas horas de moto porque precisava te ver, mais do que nunca.
Não me importei com o quão cansativo seria, eu viajaria muito mais do que
isso. Porque há esperança para nós dois, Naomi. Temos potencial para
sermos o que quisermos juntos. Ainda somos Damian e Naomi. Somos
Damian e Naomi, sweetheart. E logo depois de mim, está você. Você.
— Damian...
— Se me disser que há mesmo essa esperança que eu sinto, essa mesma
esperança no seu peito... Que ainda me ama como amo você... E sweetheart,
eu amo você para caralho... Se me disser tudo isso, eu vou lutar por você. E
te provar que vale a pena lutar por mim de volta.
Me afastei levemente com algum esforço. Abracei meu próprio corpo,
tentando entender o que eu sentia. Tentando respirar fundo. Os sentimentos
avassaladores estavam ali, o nosso perfeito caos, o nosso pequeno e intenso
"nós".
Mas nada era perfeito. E eu precisava lembrar dos motivos que nos
levaram a terminar. Das conversas que evitamos e como isso nos afastou. Do
maldito baile.
Não era fácil ser racional. Nem era segredo para ninguém que meu
coração e o de Damian conversavam por uma linguagem própria e se
pertenciam fodidamente. Eu o amava.
Mas crescendo percebemos que o amor é só a ponta do iceberg.
Amor é uma força da natureza, essencial tal como oxigênio. Mas em um
relacionamento, é só a ponta do iceberg.
— Eu sei bem que pegar um avião e vir para cá de moto é um gesto, mas
não uma solução — ele garantiu. Meus olhos arderam, um nó se formou em
minha garganta. — Mas eu quero me consertar, sabe? Você não tem como
fazer isso e eu sei disso, Naomi, eu... quero me compreender e vou fazer
isso. Mas eu também quero consertar nós dois. E você sabe que isso é
possível.
— Você me perdoou? — perguntei baixo. — Por não ter te escutado
quando me aconselhou sobre a Poison, por ter escondido ou por seja lá que
motivo tenha tido para se magoar? Me perdoou por ter te magoado?
— Sim. Até porque errei muito mais com você, não?
— Não estou comparando erros, Damie, estou perguntando se me
perdoou. Quero que pense em tudo que aconteceu e me dê uma resposta. —
Me surpreendi com quão firme soei. — Não é porque estamos frente a frente
e nos amamos que tudo vai ficar bem. Não podemos agir assim, Damian, não
mais. Essa intensidade só tem sentido se soubermos cuidar dela. Ela nos
torna tão lindos, mas foi o que nos destruiu. Então precisa me dizer: me
perdoou?
— Você me perdoou? — ele rebateu. Vi o desespero nos seus olhos, de
perto. Me senti da mesma forma. Levei a minha mão ao meu pescoço, meu
punho fechado ali, perto do peito. Queria destruir o nó em minha garganta.
Percebi que Damian não tinha a sua resposta. Mas eu tinha. Meus olhos
arderam e eu mordi o lábio inferior, desviando o olhar. Caminhei pelo
apartamento, um ou dois passos, buscando por ar.
Não era como se o odiasse por tudo que tinha dito no baile, eu o entendia.
Estava transtornado, tal como eu. Mas lembrar das palavras que ouvi doía.
Não tanto quanto antes, mas ainda doía.
— Acho que não — confessei baixo. Damian sorriu, triste. Levei as mãos
ao rosto. Damian Bale estava ali, dizendo que me amava, e eu não conseguia
agir como nos meus sonhos. Porque aquilo era a vida real. E eu não me
sentia segura.
— Mas pode perdoar?
— Eu quero perdoar. Eu posso perdoar e eu sei que vou. Mas não sei
quando.
— Eu posso esperar.
— Damian — eu disse, num riso estrangulado.
— O que sentimos é mais forte do que as dores que causamos, não? — ele
perguntou, se aproximando. Confirmei. — Então esse não pode ser o nosso
fim, Naomi. Eu sei que sente isso. E se perdão é uma batalha, você sabe que
ainda conseguimos lutar. Nós conseguimos vencer isso, sweetheart. Você
sabe disso.
Eu não queria deixar Damian ir. Mas não queria quebrá-lo de novo, olhar
nos seus olhos e vê-lo destroçado, me sentir culpada.
— O que sente, Naomi? O que sente quando estou na sua frente? O que
quer?
Levei as mãos ao rosto.
— O que sente em relação a mim, sweetheart? O que quer agora?
— Você sabe o que eu sinto, Bale.
— Então diga.
— Eu sou fodidamente e completamente apaixonada por você — falei. E
ele sorriu, fraco, tombando a cabeça para o lado. Como se isso fosse a
resposta para tudo. — Eu amo você.
— E eu amo você — ele rebateu.
— Não é tão simples.
— Eu sei que não! Mas o meu ponto é, Carlson, eu ainda posso te ensinar
a andar de bicicleta. Ainda posso te compor centenas de música. Posso até
ser modelo para que enfie alfinetes em mim e crie peças de roupa, sei lá! —
Eu precisei rir por um segundo. — Eu posso te comprar todos os pirulitos do
mundo. Posso usar máscaras de argila todo dia. Assim como você não se
importaria em me ensinar a dirigir um carro ou, sei lá, ouvir cada desabafo
meu, me acompanhar em cada música que eu quiser cantar... Até as que você
odeia. Meu ponto é que eu estou aqui e isso é meio caminho andado. Você
está aqui, na minha frente. E nada vai ser simples na vida, Naomi. Mas...
Porra?! Não acha que vale a pena lutar por toda a nossa complexidade? Por
tudo que vivemos? Uma última vez, sweetheart.
Meu coração transbordou com tudo o que apenas Damian me fazia sentir.
— O que quer, Naomi? O que quer de mim?
— Damian...
— Me diga que não consegue visualizar um futuro para nós dois. E tudo
bem, esse será o fim. Olhe nos meus olhos e diga isso.
Eu olhei no fundo dos seus olhos. E não consegui.
Damian era o amor da minha vida. Eu conseguia imaginá-lo idoso, usando
uma máscara de argila do meu lado. Ou chorando por segurar nossa primeira
filha. Conseguia imaginar todos os prêmios que ganharia como cantor e que
eu estaria na plateia, o aplaudindo. Ele estaria em cada desfile meu. Eu
conseguia traçar um futuro para nós dois. E isso era completamente
involuntário.
— Você imagina — ele acusou, baixo. — Você imagina tanto quanto eu,
Naomi.
De repente, me perguntei porque criava tanta resistência a ele. Talvez
pudéssemos tentar mais uma vez. Damian e Naomi. Poderíamos nos
fortalecer depois de tudo?
— Mais um motivo, Bale. Para crer que podemos tentar de novo. Mais um
motivo.
Ele sorriu. Porra, Damian sorriu. Um dos cantos da sua boca se ergueu
num sorriso minimamente malicioso, como se dissesse "Fez a pergunta
perfeita, sweetheart". Como se tivesse conquistado o que queria. E seus
olhos — vermelhos, pelo choro que provavelmente segurava há algum tempo
— brilharam. Por Deus, naquele segundo, Damian Bale não precisava dizer
nada.
Seu olhar dizia absolutamente tudo.
Gritava todos aqueles sentimentos entre nós dois, transbordava amor e me
atingia em cheio, causando arrepios por toda a minha pele. Havia uma
ligação entre nossos corações, nossas almas. E ela estava firme, sólida, forte
como nunca, enquanto eu me apaixonava novamente pelo meu novato.
— Depois de mim, está você — ele disse, simplesmente. E logo depois
acrescentou: — E isso não vai mudar. Não conheço nada mais forte do que o
que sentimos. Se isso não for suficiente, então nada é. Nada nunca vai ser.
Pernas frágeis, coração acelerado e sangue fervendo como lava por
minhas veias... Eu era sua.
Sua.
Fodidamente sua.
E ele era meu.
Aquilo tinha que bastar. Conseguiria bastar?
— Eu sei que fui impulsivo em vir até aqui — ele disse. Damian se
aproximou um, dois passos. — Fui impulsivo para caralho, sweetheart. —
Outro. — Mas eu precisava tentar mais uma vez, mesmo que fosse a última.
— Outro maldito passo. — E se me disser que é para eu sair por aquela
porta...
E ele alcançou minha cintura com uma mão, a outra apontando para a
saída.
Observei seus dedos longos e firmes em torno do meu corpo, senti o seu
perfume, o seu calor, a proximidade... Instintivamente toquei o seu peito e lá
estava, a batida forte contra a minha palma.
Meu.
Meu, fodidamente meu.
— Se me disser para ir embora, vou superar você — ele repetiu, o que
eu o disse outra vez. — Mas isso vai demorar uma eternidade, nós vamos
sofrer e em vão, porque somos o que somos e nos amamos desse jeito, sujo e
torto, com todos os defeitos que possuímos. Nada é forte o suficiente para
nos romper, não pode ser. Sinto que estamos desistindo fácil demais do que
sentimos. E te superar, Naomi Carlson, não é o que eu quero. Porque você é
a minha sweetheart, não haverá outra.
Olhei no fundo dos seus olhos. Bale sabia que eu não o afastaria
facilmente. Ele me prendia em si. E saber que eu o prendia de volta era
muito bom.
Mas ainda haviam amarras em torno do meu coração. Amarras que
estavam de volta. A cada palavra que me disse, elas se afrouxaram. Mas não
o suficiente.
— Tenho medo — confessei, baixo. — Porque nem sempre amor é
suficiente.
Vi perfeitamente as lágrimas se acumularem nos seus olhos. Em pouco
tempo, minha visão estava completamente embaçada. Quando as lágrimas
quentes deslizaram pelo meu rosto, Bale as secou. Como sempre fazia.
— Eu sei. Mas temos mais do que amor — garantiu, roçando o nariz
contra o meu em uma súplica silenciosa; por uma chance, por perdão. —
Sweetheart, eu sei que há um limite para quebra e reconstrução, a partir da
onde casais passam a se enfraquecer e que isso não é legal. Mas não é o
nosso caso. Ainda podemos tentar. Quero isso mais do que tudo. — Sua mão
tocou a minha, sobre o seu peito, mantendo meu toque perto do seu coração.
— Se você quiser também... Então sei que vamos conseguir tudo o que
sonhamos, juntos. Podemos aprender a nos perdoar. E esse medo de se
machucar vai passar, sweetheart. Lutarei dia após dia por isso, se você lutar
também, eu prometo.
Meus dedos formigaram contra a sua camisa. Até que vi um cordão de
ouro abaixo do tecido de algodão. O passei para frente da sua camiseta.
Bale observou o meu indicador e dedo médio deslizarem pelo fio
brilhante até o pequeno quadrado dourado. O toque leve, suave, fez meu
coração se acalmar. "Bale". E logo abaixo o número oito.
— Eu te levei comigo para todo lugar — ele sussurrou. — Eu amo você
assim, desse jeito.
O meu coração poderia explodir naquele momento.
— O que me lembra... — Ele levou a mão ao bolso e tirou um colar
parecido com o que usava. Xingou baixinho quando percebeu que estava
embolado e travou uma pequena batalha contra um nó, antes de mostrá-lo
para mim. Segurei o pingente em mãos, observando-o. — Implorei para que
Katy conseguisse fazer para mim. Se parar para pensar, o oito tem o mesmo
desenho que...
— O símbolo do infinito — soprei baixo. Damie assentiu. E logo acima
do infinito, estava o meu sobrenome. Carlson. Era lindo e certamente clichê,
mas perfeito.
— Feliz aniversário, linda. De novo — ele sussurrou. E então fechou a
minha mão contra o pingente. — É uma parte de mim com você. Pode ser a
única. Ou pode me ter por completo.
Absorvi as suas palavras, sentindo o metal contra a minha palma.
Esquadrinhei cada pedacinho do rosto de Damian mais uma vez. Não
consegui mais pensar em um motivo sequer para deixá-lo ir.
Talvez perdão fosse uma batalha que pudéssemos travar. Talvez meu
futuro e o seu pudessem se entrelaçar em um só. Mas enquanto eu pensava
em uma série de "talvez", a minha falta de resposta, o meu corpo paralisado
e o meu olhar perdido sobre o seu lhe passaram a mensagem errada. E Bale
se afastou.
— Não precisa me dar uma resposta agora — ele andou para trás, uma ou
duas vezes. — Quando voltar para Brightgate, sabe onde me encontrar. E tem
o meu número. Então... — Ele estava se despedindo.
O meu coração gritou dentro do peito, perguntando que porra eu estava
fazendo o deixando escapar.
Não. Não. Não mesmo.
Damian estava se afastando.
Não parecia certo.
Não era certo.
Não mais.
Meu coração dizia que não era. Gritava, berrava, implorava para que eu
simplesmente não resistisse.
Então andei rapidamente até segurar o rosto de Bale e desesperadamente
colidir a boca na sua.
Meu.
Damian Bale era meu.
E eu era sua.
Sempre sua.
Ele arfou, surpreso, mas me manteve perto de si e caçou a minha boca de
volta. Caçou meus lábios com precisão, tal como sempre fazíamos. Amando
ser minha presa e meu predador, me tornando o mesmo para ele. E meu
coração... Céus... Ele se aquecia a cada movimento suave — e ainda assim
intenso — dos nossos lábios.
Eu estava beijando Damian Bale.
Parecia a primeira vez. Parecia um recomeço. E parecia certo para
cacete.
Seus dedos pressionavam a minha cintura e quadril com força, me
mantendo perto, como se tivesse medo de me soltar novamente. E eu não
queria que me soltasse. Não mesmo.
Já minhas unhas se arrastavam por sua nuca até que se perdessem em suas
mechas castanhas e macias. Eu sentia o seu cheiro e, juro por Deus, Damian
Bale era a minha casa.
Passei meus braços ao redor do seu pescoço e ele me abraçou de volta,
pela cintura. Foi como estar em casa. Seu calor era como estar em casa. Seu
corpo era o envoltório perfeito para os meus músculos e ossos, sua língua a
parceira ideal para a minha e nossa química estava mais viva do que nunca.
Eu poderia facilmente morar em seus lábios, criar um lar entre seus
braços.
Nós estávamos vivos. Mais vivos juntos. Damian e Naomi. Sweetheart e
novato. Apenas isso importava, naquele apartamento, naquele beijo.
Seus lábios atraíam os meus, magnéticos. Tanto que doeu quebrar a
interação entre eles.
Colei minha testa na sua e deixei um suspiro escapar, finalmente
percebendo o que eu tinha feito. Que aquilo era uma resposta. Que eu não
queria mais deixá-lo partir. Não conseguiria. Não de novo.
Meu coração pulsava por todo o corpo, sob toda a minha pele. Ali estava
o meu novato, com seu nariz roçando contra o meu, despencando em toda a
nossa intensidade, enquanto eu aproveitava cada mísero segundo daquele
abraço.
— Naomi... — Meu coração estava contra a garganta e eu fechei os olhos,
meu polegar contornando o seu rosto. Sem sonhos daquela vez. Aquilo era
real. — Carlson, e-eu...
— Shh...
Meus lábios roçaram contra os seus e eu aproveitei todo o torpor que ele
me provocava apenas em estar por perto. E o beijei de novo.
E de novo.
E então de novo.
Até que estivéssemos incapazes de fazer isso, tão tomados por sorrisos
bobos e idiotas.
— Talvez... A gente possa ir devagar — sussurrei, tentando ser racional.
Ele sorriu.
— Caralho, sweetheart, eu estava infartando — ele brincou e eu ri.
Damian uniu os lábios aos meus mais uma vez. O encaixe fodidamente
perfeito durou pouco, porque me obriguei a nos trazer de volta a realidade
ao lembrar:
— Se vamos fazer isso dar certo — Damian estava atento aos meus lábios
quando ergui o seu queixo e o obriguei a olhar nos meus olhos — ,
precisamos conversar mais, precisamos nos entender como um casal de
novo.
— De novo.
— Sim. E isso requer calma.
Ele sorriu.
— Calma... Posso ter isso — garantiu, aproximando a boca da minha, mas
eu o afastei, erguendo uma sobrancelha. Sua fala era uma coisa, sua atitude
outra. Senti que me jogaria contra a parede no segundo seguinte, me beijaria
contra ela até perder o fôlego. Ergui ainda mais a sobrancelha, se é que isso
era possível. — Precisamos ir com calma — ele repetiu, concordando. —
Devagar...
— Isso.
— Devagar, consigo fazer isso.
Eu ri. Parecia estar se convencendo disso. Passei meus braços ao redor do
seu pescoço.
Bale suspirou aliviado. Sua cabeça tombou de encontro a minha e eu
respirei fundo, o abraçando pela cintura. Aquela era a nossa chance de
consertar essas coisas. Eu estava me permitindo confiar em nós mais uma
vez. E ele estava disposto a aproveitar isso.
— Vamos nos perdoar e nos reconstruir, Carlson, isso é uma promessa.
Assenti.
— Não vou te perdoar de uma noite para a outra — sussurrei. — Assim
como sei que não vai me perdoar num piscar de olhos, porque te machuquei
bastante e sinto muito. Mas tempo é o remédio para quem quer fazer algo dar
certo, né? — Eu estava me convencendo disso. — Podemos tentar, vamos
dar certo.
— Nós vamos dar certo, sweetheart — ele garantiu. Seus lábios
alcançaram a minha testa, suas mãos espalmando o meu pescoço, os
polegares acariciando as minhas bochechas. — Nem que eu tenha que tornar
o mundo do avesso, tornar esse universo nosso e recriar cada maldita regra
que o compõe... Nós vamos dar certo.
— Nós vamos dar certo.
E ele me beijou. E me beijou de novo, e de novo, repetindo que daríamos
certo. Até que acreditei que sim. Até que senti que tínhamos mais que amor.
Porque tínhamos.
Muito mais.
Continuávamos de pé e abraçados no apartamento, trocando beijos leves e
breves em absoluto silêncio.
Eu não queria soltá-lo. Nunca.
Bale sorriu para mim. Deitei a cabeça no seu peito, ouvindo o seu coração
bater mais calmo. Eu quis chorar de tanto que senti falta disso. Seus dedos
alisaram a minha nuca preguiçosamente.
— Se for embora de novo... — comecei, em tom de sermão.
— Jamais — ele prometeu, beijando o topo da minha cabeça. — Vou ficar
com você, linda. Bem aqui.
Eu sorri. Se Bale soubesse o quanto eu o amava, provavelmente se
surpreenderia.
Damie colocou o colar que tinha me dado em meu pescoço e eu o fiz se
sentar ao sofá. Ele me explicou melhor tudo o que tinha acontecido nos
últimos dias. Contou sobre a terapia e que continuaria ela por Brightgate;
sobre a carta de aprovação que recebera por e-mail; e que estava animado
em começar a universidade, mas planejava se arriscar um pouco mais na
música, buscando pequenos eventos para cantar ou tentando lucrar com suas
composições.
Eu estava com o corpo contra o seu, parcialmente contra seu peito, seus
dedos acariciando a minha cintura. Falei que seria bom ir devagar, mas isso
não significava que eu resistiria a ficar colada com ele, a pior e melhor das
tentações.
— Poderia começar com um canal do Youtube ou algo assim, postar
covers — sugeri. Ele pensou um pouco sobre. — Sei que não gosta tanto de
aparecer, mas isso vai precisar acontecer um pouco, não?
— Sim... Está certa. E não é como se eu fosse crescer de uma hora para
outra, como se isso fosse sair muito do meu controle, certo? Eu poderia me
acostumar. Isso me ajudaria a criar um portfólio.
— Talvez cresça rápido! Talvez saia do seu controle! — Damian deitou a
cabeça no encosto do sofá, torcendo a boca. — Talvez logo chovam garotas
loucas e apaixonadas por Damian Bale e sua habilidade musical —
provoquei e Bale sorriu, presunçoso.
— Talvez sim — me provocou de volta. — Taaaantas garotas...
— Muitas delas.
— Todas aos meus pés.
— Porque o mundo gira em torno do seu magnífico pinto.
— Você gira em torno do meu pinto? — ele rebateu. — Porque meu
mundo é você.
Revirei os olhos e Damian me fez deitar sobre seu colo. Logo infiltrou
seus dedos longos em meu cabelo, pelas mechas castanhas, num carinho
lento.
— Damian Bale e suas cantadas ruins. Confesso que senti falta.
— Só uso minhas cantadas maravilhosas com você, sweetheart. Podem
chover garotas e eu ainda vou querer só você.
— Jura? Mesmo enquanto você estiver em Brightgate e eu em Sydney?
Ele refletiu sobre. E então paramos para pensar que precisaríamos ficar
um pouco longe um do outro. Fisicamente falando. Nos veríamos aos fins de
semana, em feriados ou quando a saudade se tornasse insuportável demais.
Mas não moraríamos a minutos de distância.
— Mesmo assim. Não precisa ter ciúmes. Vou viajar para ver você,
apenas você.
— E? Outras pessoas podem viajar para te ver também.
— Está mesmo com ciúmes ou brincando?
— Brincando — respondi, me sentando. — O ciumento aqui é você.
"Grande Leo", "Damian novo"... — Ele riu e eu tive certeza que era de
nervoso. — O que foi aquilo, Bale?!
Ele aproximou a boca da minha, sorrindo de canto. Esperei por uma
piada, mas Damian foi sincero:
— Achei que estava te perdendo para outro cara. Fiquei inseguro.
Mordi um sorriso, achando um pouco fofo.
— Sabe que não sou muito ciumento — ele protestou e eu ri. — Não sou!
Eu não tinha crises de ciúmes quando estávamos juntos. Todas as vezes que
tive ciúmes de você, estávamos rompidos ou simplesmente nem éramos algo
ainda e eu achava que estava... Sei lá, sendo deixado de lado. Eu só tinha
motivos para me sentir inseguro quando achei que não te teria, que te
perderia. Não tenho motivos para ter ciúmes estando contigo, porque confio
em você.
— Confio em você também — confessei, baixo. — Ao menos nisso —
acrescentei e ele deixou o queixo cair, me fazendo gargalhar ao me puxar
para cima de si. Damian me abraçou com força.
— Só nisso?
— Bom, sim — brinquei e ele se fez de ofendido. O beijei uma, duas
vezes. Porra, como eu sentia falta de estar assim com ele. E eu disse para
irmos devagar, queria isso, mas era bom demais estar ali, em seus braços. —
Bom saber que não vai me encher de chifres ou algo assim.
— Não, não... só quero te encher de filhos e preocupações.
— Idiota — praguejei e ele riu. — Eu falei em irmos devagar e aqui está
você falando em filhos.
— Como se você não imaginasse um monte de pequenos Damians
correndo pela casa, fazendo os vasos e decorações de gols ou batendo
guitarras de brinquedo por todo o lugar. — Não conseguiria segurar o
sorriso. Jamais. — Ahá! Está vendo?
Dezenove anos de idade, apenas. Eu tinha dezenove anos. E precisei
mandar meu útero se comportar diante daquela fala.
— Veremos se chegaremos lá — sussurrei.
Damian sorriu. E então me beijou uma, duas, três vezes... Como uma
promessa silenciosa de que chegaríamos sim. Sua boca contra a minha, sua
língua, seu gosto... Me perguntei como tinha ficado sem aquilo. Eu não fazia
ideia.

— Eu sou a maior fã desse casal que existe — Melissa anunciou em


meus fones. — Mas estou brava! Deveria ter me contado no segundo
seguinte ao primeiro beijo.
— Dramática — acusei, correndo pela orla. Segurava meu celular e uma
garrafa de água, nada mais.
Não seria mais uma líder de torcida por Sydney. Ainda que eu pudesse
ser, não me interessava mais. Fui uma Green Snake e isso bastava. Mas
agora precisava definitivamente procurar outro exercício físico, então
esperava conseguir manter o ritmo com as corridas matinais.
— Foi só um beijo ou... Transaram?
Eu ri.
— Céus, Wayne... Não, não transamos. Mas foram vários beijos. —
Casais e famílias andavam bem ao meu lado. Já tinha corrido bastante e
considerei voltar para o meu carro. — Vamos devagar dessa vez.
— Damian e Naomi indo devagar? Naomi Carlson, você significa
velocidade e intensidade.
— Eu sei! Mas preciso disso, precisamos disso. De nada adianta sermos
apressados agora — argumentei e a ouvi rir do outro lado. Estava calor para
cacete aquela manhã. — O quê?!
— Isso faz total sentido, mas caramba... Quem diria que vocês fariam
isso? Quer dizer, ir devagar é tão surpreendente quanto Damian Bale
voltando para a Austrália e aparecendo na sua porta dizendo "Oi,
sweetheart".
Gargalhei com sua imitação de uma voz grossa, o que fez algumas pessoas
na rua me olharem estranho. Como se eu me importasse.
— Ainda não consigo crer nisso tudo.
— Por quê? — ela perguntou, rindo. — Robin, você e Damian são
completamente perdidos um pelo outro.
Se Wayne pudesse ver meu sorriso bobo, ela riria ainda mais.
— Nós somos — confessei e ouvi Melissa comemorar do outro lado. —
Enfim, já te contei sobre a minha vida. Me fale sobre a sua.
Parei de correr por um segundo, girando em meus calcanhares e
caminhando enquanto bebia água. Wayne contou sobre a visita à
universidade e como estava vivendo, por ora, na casa de uma prima.
Contudo, seu pai tinha algum apartamento por Melbourne e Wayne estava
decorando-o do seu jeito. O que explicava porque tinha viajado mais cedo
do que eu.
Além disso, Melissa queria ir embora de Brightgate logo. Tinha sede de
recomeço. Finalmente percebeu que precisava viver e decidiu tentar se
encontrar por aí. O que me fez pensar...
— Vai voltar para Brightgate nos próximos dias? — a interrompi. O
silêncio me incomodou. — Mel...
Mike. O assunto era Mike. Ela sabia disso.
— Vou. Mas não sei se ele vai querer me ver, Robin.
— Vamos, Batman! O Senhor Graham já está em casa. Se quiser, te deixo
na frente da casa do Mike e espero que conversem.
— Naomi...
— Eram amigos, Wayne. Se algo do tipo acontecesse com Damian, eu
estaria lá. E vice-versa. Como aconteceu, certo? Damian foi atrás de mim
quando meu pai adoeceu.
— E você o mandou embora. — Respirei fundo, ainda caminhando.
Aquilo era verdade. Ainda assim, eu achava que Melissa deveria ao menos
tentar conversar. — Vou para Brightgate próxima semana, vou ver minha
família, é aniversário do meu pai. E quero te ver, claro. Obviamente vou
tentar uma conversa com Mike, mas... não sei se vai dar em algo bom, sabe?
— Ao menos vai tentar — respondi, em encorajamento. Ouvi Mel suspirar
e decidi que ligaria de novo mais tarde, ela precisava pensar. — Nos
falamos de noite, ok? Amo você, Melissa Wayne.
— Amo você, Naomi Bale — ela rebateu e eu deixei o queixo cair,
prestes a retrucar, mas Melissa desligou na minha cara, gargalhando.
Maldita.

Assim que cheguei em Brightgate, quase pelo horário do almoço,


encontrei Mike saindo da sua caminhonete do outro lado da rua. Assobiei,
ainda dentro do Corvette, e ele olhou para mim sorrindo. Graham se
aproximou e eu ergui meus óculos escuros.
— Esse é o tipo de sorriso que quero ver! Como está?
— Indo — ele respondeu, dando de ombros. Mike apoiou o braço no meu
carro. — Devo perguntar como está para você ou pro Bale?
— Notícias correm rápido, huh? — respondi rindo. O brilho em seus
olhos era muito mais fraco do que costumava ser, mas estava bem. — Pensei
em juntar todo mundo que está aqui em Brightgate e curtir alguma coisa mais
tarde. Topa?
— Vai levar a cidade toda contigo?
— Engraçadinho. Sabe o que quis dizer! Topa ou não? Podemos fazer algo
por volta das dezesseis horas. É quando volto da psicóloga com a minha
mãe.
— Agradeço pelo convite, mas... Não tô no clima. Meu pai está meio
triste com o diagnóstico... Sei lá, quero fazer algo para animar ele.
Fácil assim meu coração foi esmagado.
— Entendo. Se quiser ajuda ou conversar com alguém, Naomi Carlson
está ao seu dispor, Grams.
Mike sorriu de verdade, gratidão por todo seu rosto.
— Nunca imaginei que me aproximaria de alguém como o Damian. Muito
menos de você. Bizarro pensar que moramos frente a frente por anos e
raramente conversávamos direito. Agora me sinto grato por te ter na minha
vida.
— Uhhh... Que fofo! Espero que não seja uma piada — brinquei e ele
rolou os olhos. — Se eu soubesse que você era esse cara engraçado para
cacete antes, Graham, eu teria sido sua melhor amiga desde o início. Isso
teria me poupado de muita coisa. — Ele concordou com um balançar de
cabeça. — Enfim... Não vai se livrar de mim nunca mais! Mas chega dessa
melosidade, por Deus...
Ele gargalhou, balançando a cabeça em negação. Fazer Graham sorrir me
fazia sorrir. Eu realmente não era tão próxima dele quanto de Brandon ou
Mel, ou até mesmo Ollie; mas secretamente o amava. Era meu amigo. Assim
seria, independente do que havia (ou não) entre ele e Wayne.
— Preciso ir. Te vejo por aí — falei, prestes a estacionar o carro. Mike
recuou, quase girando em seus calcanhares e indo para dentro de casa, mas
parou por um segundo.
— Ei, Carlson... Sobre ter dormido lá em casa, sobre ter me escutado
desabafar... Muito, muito obrigado.
Eu sorri, girando o volante.
— Você segurou meu cabelo enquanto eu vomitava depois do baile —
lembrei. Pouca gente sabia, mas ele fez isso. Mike me levou para casa e me
ajudou em milhares de sentidos, mesmo destruído por dentro. — Não tem
muito o que eu não faça por você depois disso, Graham.
— Sempre que precisar, Carlson — ele garantiu, piscando. Pisquei de
volta.
— Sempre que precisar, Graham.
Assisti Mike entrar em sua casa e estacionei o corvette. Tirei a minha
pequena mala do fundo do carro, enviando uma mensagem para Wayne sobre
a “situação Graham”. Era como eu chamava todas as trocas de mensagem
que terminavam em pedidos para que ela conversasse logo com Mike, ou
suas milhares de perguntas sobre como ele estava.
Tranquei o veículo, levando a mala para dentro de casa. O cheiro do
almoço fez minha barriga roncar e eu deixei as coisas em frente à escada,
seguindo para a cozinha. Esperei me deparar com Elise, mas era Lia ali, com
um livro de receitas aberto enquanto preparava a comida. Pequeno segredo?
Eu estava começando a amar vê-la cozinhar.
— Onde está Maddie? — perguntei e Lia estremeceu, se assustando.
— Você veio!
— É sábado. Eu venho aos sábados — respondi, achando graça da sua
fala. Me aproximei, incerta, analisando o molho branco na panela.
— Maddie saiu com alguns amigos. Foi ordem minha. Ela precisava disso
antes de cair de cabeça naquela empresa. — A mamãe ainda parecia
insegura quanto à escolha de Madison de assumir a Carlson’s. Bem, eu
também. Eu nem sabia onde ela encaixaria o curso de Direito naquilo tudo,
se é que encaixaria.
— Onde está Lis?
— Férias. Ela viaja com a família para Melbourne amanhã. Elise estava
precisando, eu insisti. — Ergui as sobrancelhas, meio surpresa.
— Fico feliz por ela, mas... Fico preocupada... Sabe, Mads ainda vive
aqui e tudo mais, mas Elise sempre foi uma boa companhia para você e eu
fico preocupada...
— Comigo? — Lia perguntou, abaixando o fogo e olhando para mim. —
Eu vou ficar bem, meu amor.
Olhando nos seus olhos, eu sabia que “ficar bem” ainda era um caminho
distante.
— Além do mais... Eu sempre imaginei que Elise pediria para ir embora
depois que você fosse para a universidade. Ela não pediu isso ainda, talvez
não peça tão cedo por causa dos últimos acontecimentos... E eu realmente
preciso dela. Mas como amiga — Lia confessou, abrindo outra panela onde
o arroz estava. — A Lis foi a única pessoa que lutou para me entender nos
últimos anos. Eu devo muito a ela. Mas sei que ela pode encontrar outras
famílias para quem trabalhar, sonhos para conquistar... Sabia que ela sonha
em abrir um restaurante em Brisbane?
— Ouvi dizer. Há muito tempo. — A ideia de Lis viver em outro lugar,
longe de mim, doía. Mas se isso significasse sua felicidade, eu ficaria feliz
por ela. — E você está cozinhando de novo por quê...?
Porque ela gostava e eu sabia, mas queria ouvi-la dizer.
— Porque percebi que sinto falta disso. Estou enferrujada, mas quando
você era bem, bem pequena... Eu colocava você na sua cadeira rosa favorita
e Maddie subia na bancada para me ajudar no que ela chamava de...
— “Furacão da cozinha” — lembrei, rindo. Lia me observou, surpresa.
Meu coração se aqueceu de um jeito bom. Era uma época que meu pai não
parecia um monstro. Por outro lado, ele nunca estava com a gente naqueles
momentos. Sempre viajando.
Um silêncio estranho preencheu a cozinha. Eu me afastei devagar, mas
então voltei. Analisei Lia, que olhava para o fogão, perdida em seus
pensamentos. Possivelmente memórias, como eu. Suspirei e a abracei por
trás. Seu corpo, tenso, não parecia acostumado ao meu ainda. E eu também
não me sentia confortável como deveria.
— O que está fazendo?
— Abraçando a minha mãe.
— Oh...
Ficamos em silêncio por algum tempo.
Seu perfume ainda me lembrava flores e algo mais forte e cítrico. O
mesmo que preenchia a casa quando eu era pequena. Por algum motivo, senti
vontade de chorar e apoiei o queixo em seu ombro. Lia respirou fundo e
relaxou um pouco contra mim.
Nós duas, aos poucos, percebíamos que estávamos finalmente amando do
jeito certo, que aquilo era saudável e recíproco. Aquelas demonstrações de
afeto ainda eram raras. Por isso, às vezes, pareciam forçadas ou estranhas.
Um dia deixariam de ser.
— Fico feliz de te ver fazendo algo que ama, mesmo sendo algo tão
simples — confessei, sobre o almoço. — Mal posso esperar para te ver
criando milhares de projetos para toda a cidade. Ouvi dizer que os
Hemsworths precisam de outra casa. — Ela gargalhou baixinho e eu ri junto,
me perguntando há quanto tempo não ouvia alguma felicidade saindo de sua
boca. — Vou subir com as malas e volto para te ajudar...
— Não! — ela pediu e manteve meus braços em torno da sua cintura. —
Não. Só... Fica mais um pouco.
Hesitei, mas obedeci. Ainda era um abraço meio estranho. No minuto
seguinte, não pareceu mais tão estranho. No outro, não pareceu nem um
pouco. Em algum momento, pareceu... quase certo. Toda vez era assim. Eu
me perguntava quando seria apenas certo, do início ao fim.
Eventualmente, lavei as mãos e nós criamos nosso pequeno furacão na
cozinha. Depois conseguimos rir um pouco no almoço. E quando chegou a
hora de nos arrumarmos para a psicóloga, juntas, Lia não parecia tão tensa.
Estávamos reconstruindo nossa relação e eu sabia que tínhamos um longo
caminho pela frente, mas o brilho nos seus olhos me dizia que eu poderia
finalmente ter uma mãe e contar com ela. Possivelmente para sempre.

Damian: O que está fazendo?


Analisei a mensagem, "vestindo" uma toalha e um colar com o símbolo do
infinito, ao sair do banheiro. As borboletas na barriga estavam incansáveis.
Esse clima de "recomeço" entre mim e Damian carregava uma tensão boa.
Uma adrenalina suave e constante.
Eu: Acabei de sair do banho. Tenho psicóloga mais tarde, a mamãe também.
Damian digitou, digitou... E digitou. Esperei, curiosa. Até que finalmente
recebi algo:
Damian: Você é má.
Franzi o cenho.
Eu: Por quê?
Damian: Está dizendo que está nua, sweetheart. E agora não consigo parar de pensar nisso.
Falhei em prender um sorriso maldoso entre meus dentes. Eu não quis
provocar, mas parando para pensar, aquele era o tipo de maldade que eu
gostava de usar contra ele.
Naomi: E isso é ruim?
Damian: Não exatamente. Te imaginar nua é um dos meus passatempos favoritos.
Damian: Não te ter nua aqui do meu lado é ruim.
Rolei os olhos, mas continuei sorrindo. Damian Bale sendo cafajeste, que
novidade! Não era como se eu não gostasse, de qualquer modo. Ou como se
eu não fosse pior.
Naomi: Eu ia provar as lingeries novas que comprei antes de sair. Precisava de opinião, mas
não quero piorar sua situação...
Sorri ainda mais antes mesmo de receber a resposta:
Damian: Por Deus, Naomi Carlson, eu quero que a minha situação piore. Preciso de algo
para exercitar meus punhos.
Gargalhei.
Eu: Pervertido.
Damian: Você é pior.
Eu: Não sou não.
Damian: Confesse que gosta disso. Está com tesão, confesse.
Eu estava. Fazia um bom tempo que estava sem sexo e provocar o meu
namorado era dolorosamente bom.
Damian: Sentindo falta da sua bunda gostosa. Na minha cara.
Ri mais. Alto. Bem alto.
Eu: Lembra? Devagar, Bale.
Damian: Ótimo! Exatamente por isso que mandei mensagem! O que especificamente quis dizer
com ir devagar?
Franzi o cenho. Precisava me vestir e digitar não ajudava. Liguei para ele
e coloquei no viva-voz. Tirei a toalha e caminhei até a roupa que tinha
separado na cama.
— Sweetheart?
— Bale. Estou me vestindo, fale — ordenei, começando a me vestir, de
fato.
— Está falando comigo pelada?
— Sim.
Vesti as roupas íntimas. Meu celular vibrou. "Damian Bale quer mudar
para chamada de video".
— Damian! — Coloquei as calças.
— Droga. Enfim, "ir devagar", o que quer dizer?
— Como assim? Ué! Um passo de cada vez. Alguns encontros, alguns
amassos... Um dia você conhece melhor a minha família. E um dia... —
deixei a frase morrer, as más intenções claras pela minha frase.
— Não estou falando de sexo agora, acredite. Posso viver sem isso se
não estiver a fim. Só quero saber se posso te ver hoje ou seria apressado
demais. Estou com saudades.
Achei tão fofo que parte de mim quis gritar como uma garotinha que se
apaixonava pela primeira vez.
— Claro que não é apressado, Damian, eu também queria te ver hoje.
Quero. É meu namorado.
— Sou? Não estamos indo devagar?
— Sim. Mas devagar e com um rótulo. Namorados. Deixando bem claro.
— Repete.
Droga, sorri tanto que minhas bochechas doeram.
— Namorado.
— Cacete, isso é tão bom. — Eu estava derretendo, prestes a implorar
para que não fosse tão fofo. — Passo aí depois ou prefere vir?
Pensei um pouco, vestindo a camisa. Sentia falta de Miley, Katy e Ryan.
Seria legal vê-los novamente. E eu achava que levar Damian para a minha
casa seria apressar demais as coisas. Minha mãe ainda estava se
recuperando da morte de Vincent e a última lembrança que Damian tinha dela
provavelmente era um jantar um pouco desagradável.
— Eu vou. Posso jantar com vocês hoje — respondi.
— Ótimo! Ansioso para ver você e sua bunda maravilhosa novamente.
Mesmo que longe da minha cara.
Damian não tomava jeito. Mas eu também não.
— Ansiosa para ver você e sua bunda minúscula — devolvi. O som da
sua gargalhada saiu do celular e reverberou por todo o meu quarto.
Segurei Miley, com suas pernas ao redor da minha cintura por uns cinco
minutos. Tive que dar um selinho em Damian, que segurava a porta, com ela
presa em mim como um coala. Quando ela finalmente se desprendeu e eu me
aproximei do sofá da sala, fui derrubada por Katy Bale e sua crise súbita de
beijos. Ryan estava rindo e esperando que a esposa parasse de comemorar
exageradamente que eu estava ali — como namorada do Damian —, para
que pudesse me abraçar com força.
O jantar foi breve, mas divertido. A famosa receita de macarronada da
Meredith estava presente e eu lembrei que — tirando suas mensagens como
"MEU DEUS, MINHA NORA ESTÁ DE VOLTA" ou letras aleatórias
expressando o seu surto — não tínhamos realmente conversado. Ligaria para
ela no dia seguinte. Sentia saudade.
— Eu disse que o levaria para Sydney, mas Damian é teimoso como uma
porta — Ryan reclamou enquanto recolhíamos os pratos da mesa.
— Foi romântico — Katy protestou, cotovelando o marido. Eu sorri.
Damian estava vermelho.
— Romântico, mas perigoso — Ryan observou. — Viajar de moto é
perigoso. — Alcancei o prato da Miley, que tinha subido para buscar o Olaf
que eu tinha lhe dado, no Natal.
— É algo que não quero que aconteça de novo — confessei e Damian
bufou, me seguindo. Ele me ajudou a colocar os pratos na pia, mas Katy nos
afastou dali, querendo lavar tudo sozinha. Nos apoiamos contra a bancada.
— Não é porque adorei te ter na minha porta, gritando que me ama, que
concordo que corra perigo por minha causa.
— Meu Deus, gente, foi uma viagem de moto. Não pulei de um precipício!
— Damie exclamou.
— Mas é perigoso! — argumentei. Bale revirou os olhos e segurei o seu
rosto, forçando-o a olhar para mim. — Nos preocupamos, tá legal?
— E se eu quiser te ver em Sydney?
— Então ficarei mais do que feliz em dividir os custos de uma viagem de
avião ou ônibus, sei lá. Motos e estradas parecem uma combinação perigosa.
Katy e Ryan pararam de prestar atenção em nós dois, porque ela começou
a lavar as louças e ele a secar. Abracei Damian pela cintura, suas costas
contra a bancada.
— Posso te ensinar a dirigir — propus e ele ergueu as sobrancelhas,
subitamente mais interessado. — Você mesmo disse isso, em Sydney.
— Eu disse?
— Sim. E que me ensinaria a andar de bicicleta em troca. Podemos fazer
esse acordo. Parece divertido.
— Confiaria seu Corvette a mim?
— Bom ponto. Podemos pedir a caminhonete do Mike, ela mal anda
mesmo — brinquei e Damian riu, me puxando mais para perto pela cintura.
— Sério, vai ser um prazer te ajudar nisso. Assim passamos algum tempo
juntos e você se sente mais confiante para tirar a carteira.
— Pode ser — aceitou, colando os lábios nos meus.
Estar na casa dos Bales era estar em casa. Estar com Damian era certo.
Sempre seria.
— Aqui! — Miley nos encontrou e nos mostrou o Olaf. Por Deus, ela tinha
colocado um tutu de ballet no bicho de pelúcia. — Agora ele pode jogar Just
Dance com a gente!
— Sem dança por agora, mocinha — Katy acabou com sua diversão e a
loirinha cruzou os braços, esmagando o Olaf no processo. Ryan cerrou os
olhos para ela.
— Podemos assistir um filme antes de eu ir embora, o que acha? —
sugeri, tentando contornar a situação. A pequena Bale olhou para mim. —
Estou sentindo falta de Descendentes.
— Ai, não... — Damian resmungou. Quando a irmã comemorou, Bale
afundou a cabeça no meu ombro, percebendo que nossas maratonas de filme
da Disney estavam de volta.

Um filme, eu disse. Mas estava assistindo ao segundo. High School


Musical, para ser específica. O primeiro foi Descendentes.
Miley estava no chão, tratando o Olaf como se fosse um filho e
monopolizando o balde de pipoca. Damian tinha o braço ao redor do meu
corpo. Conseguia sentir seu tédio, sua preguiça a cada beijo que tentava
roubar, querendo a atenção para si.
Eu estava com sono. E seu corpo era tão confortável. Esqueci que deveria
voltar para casa.
Bale murmurou alguma pergunta e eu franzi o cenho. Estava quase
dormindo.
— Você queimou a caixa, huh?
— Hmm?
— A caixa lá. Você queimou. — Eu franzi o cenho e então lembrei que
tinha contado sobre a caixa e o fogo e tudo mais. Fazia muito tempo que eu
tinha pensado naquela noite, comentei com Bale naquele jantar como se não
fosse nada, mas ele sabia que era algo.
— Sim.
— E o Derek não entrou em contato?
— Meu lado fofoqueira recebeu a notícia de que ele provocou caos
suficiente aqui para a família mandar ele para Camberra.
— Capital?
— Ora, ora, Damian Bale sabe geografia. — Bale rolou os olhos com a
piada. — Sim. Ele vai terminar os estudos por lá, porque passou esse ano
fodendo minha vida o suficiente e estudando pouco.
— Derek Meyers com vinte e um anos, fazendo ensino médio.
— Ele deveria fazer isso direto da prisão — murmurei e Bale me
encarou, preocupado. — O quê?
— Como se sente em relação a ele ter ido para longe?
— Sinto que o ar ficou mais puro.
Bale riu baixinho. Eu também. Miley pediu por silêncio. Dei um sorriso
de desculpas e me aconcheguei no ombro do meu namorado, cansada. Me
senti terrivelmente aliviada com a notícia de que Meyers estava longe. Isso
significava que não tentaria quebrar a ordem judicial. Eu estava livre.
Finalmente.
Ergui o rosto para Bale, o observando. Ele desviou o olhar, mas eu sabia
que algo o afligia.
— O quê?
— Nada.
Bufei uma risada, sabendo que mentia, mas voltei a olhar para a televisão.
Contei até três, conhecendo meu namorado. Ele mudou de ideia em dois
segundos:
— Me perdoou? — sussurrou, hesitante.
Uni as sobrancelhas e ergui o rosto para ele. Fazia pouco tempo desde
Sydney e tudo aquilo.
— Você me perdoou? — rebati.
— Não dói tanto quanto lembro do lance da Poison. E você?
Procurei por qualquer vacilo no seu olhar. Damian estava convicto de
suas palavras. Mas o "tanto", me fazia perceber que ainda tínhamos que
reconquistar um pouco da confiança um do outro.
— A pior consequência do baile é que, às vezes, ainda acho que todo
olhar na cidade diz “olha a garota que abortou”, o que é podre e sujo, mas…
Não é da conta de ninguém. — Eu sabia bem que teria que me acostumar
com isso. A cidade demoraria para esquecer, se é que esqueceria. E quando
eu chegasse nos lugares que queria chegar em minha carreira (porque, porra,
isso aconteceria), alguém poderia usar isso contra mim. É o que o mundo
tenta fazer com mulheres o tempo todo, não? Derrubá-las. Me deixava
ansiosa lembrar disso, me machucava muito ainda, mas eu não caí até ali e
não cairia tão fácil nem fodendo.— De resto, pensar no baile ou na nossa
briga não dói tanto — lembrei de responder o que Bale tanto queria saber e
usei quase as mesmas palavras que ele. — Porém, não penso nisso ao seu
lado, a não ser que faça esse tipo de pergunta.
— Devo parar de fazer?
— Não — respondi, unindo os lábios ao dele para que se tranquilizasse.
— É bom conversarmos sobre isso. Uma hora, toda aquela briga vai parecer
idiota e ficar no passado.
— Eu sei. — Ele esticou as pernas, preguiçoso. — Acho que vou falar
sobre isso na terapia. — Ergui as sobrancelhas. Bale realmente estava
seguindo com aquilo. — Encontrei uma psicóloga. Começo em alguns dias.
— Isso é bom. É bom mesmo. — O abracei pela cintura. Damian sorriu
bobo para mim e beijou minha têmpora. — Estando aqui com você agora...
Aquele baile parece um surto, sabe? Fruto da minha imaginação.
— Isso é ótimo, sweetheart. Espero que continue assim. Que o baile
pareça uma piada e você se lembre que estou nas suas mãos.
— E eu nas suas.
— Vou lembrar disso no próximo exercício de punho.
Eu ri. Miley fez um muxoxo, pedindo silêncio. Pedi desculpas, mas
Damian falou dois segundos depois:
— Quando volta para Sydney?
— Duas semanas.
— E depois disso, virá toda semana?
— Sempre que possível — assegurei. Assentiu, desviando o olhar para a
televisão. Parecia triste. — Ei, a saudade faz bem para o relacionamento. Às
vezes.
— Faz, é? — Ele olhou para Troy e Gabriella na televisão. Eles estavam
prestes a cantar Breaking Free.
— Sim. Ou esqueceu do que sou capaz de fazer quando estou com
saudades? — Minha pergunta o fez sorrir de canto. — Caramba. Incrível
como você é convencido pela cabeça de baixo.
— Não fale assim, isso a entristece. — Afundei a cabeça no seu ombro,
rindo.
— Na boa, consegue ficar mais que dois segundos sem pensar nisso?
— Consigo. Mas não do seu lado.
— A culpa é minha agora?
— Sweetheart, eu namoro uma grande mulher gostosa e safada,
obviamente isso ativa os meus piores pensamentos — ele provocou,
baixinho.
— Vai explodir com isso de ir devagar, não vai?
— Quer saber, Naomi Carlson? Acho que quem vai explodir com isso de
ir devagar é você. Deve sentir muita falta do Super Damie.
Ugh, maldito! Eu sentia.
— Aposto tranquilamente que você vai implorar pela Mini Naomi antes
que eu cogite pedir pelo Super Damie. — Desejo gritou pelos seus olhos e
Bale me desafiou com o olhar.
Nossas apostas e brincadeiras bobas, sem sentido para qualquer um
menos nós dois. Tinha sentido falta disso.
— Então está apostado — ele sussurrou baixo. Olhei de soslaio para a sua
calça, rindo.
— Oi, Super Damie — cantarolei e ele tampou o pinto com uma almofada,
xingando baixo. Damian foi salvo de uma surra de piadas quando Miley se
levantou e se jogou sobre mim.
— Parem de conversar e cantem comigo — ela reclamou, implorando por
atenção. Eu obedeci e nós olhamos para Damian, que mantinha uma cara de
tédio insuportável.
Miley e eu o estressaríamos até que cantasse e ele sabia disso. Gritamos
cada verso em sua cara. Então ele cedeu ao cantar a plenos pulmões a
música que tínhamos infiltrado em sua cabeça, mas se jogou sobre nós duas,
nos fazendo gargalhar com seu peso e suas cócegas.
Tinha esquecido de ir para casa, eu disse. Porque aquilo parecia como
casa.

Acordei sob um cobertor, dolorida. Minhas pernas estavam dobradas


sobre o sofá e havia um Olaf com tutu de ballet entre mim e a pequena Bale,
que me abraçava com força. Não sei como não caí dali, honestamente, eu
estava na ponta do estofado macio. Miley era espaçosa.
A claridade da manhã me fez praguejar. Prometi para a minha mãe que não
demoraria a chegar em casa.
Uma caneca de café foi deixada bem em frente à mesa de centro e eu ergui
os olhos para um Damian Bale sem camisa. Obviamente demorei demais em
seu abdômen, seu peito, seus ombros largos... Inferno.
Ele abriu um sorriso maldoso. Cheirava ao mesmo perfume de sempre,
com os cabelos um pouco molhados e exalando todo um delicioso frescor
logo cedo.
— Descobri que ainda tem duas mudas de roupas suas no meu armário,
mas aquela camiseta minha do Arctic Monkeys cai melhor em você — ele
começou. — Tomei a liberdade de enviar uma mensagem para Madison
quando tentei acordar você e Miley e as duas resmungaram ao mesmo tempo.
Sua mãe foi avisada que dormiu aqui e que vai chegar um pouco mais tarde
em casa hoje.
— Vou? — perguntei, levemente rouca. Estava com sono e o abraço de
Miley me deixava ainda mais preguiçosa.
— Vai. Porque vai beber ao menos esse café, subir, tomar um delicioso
banho, e eu vou acordar a minha irmã favorita...
— Sua única irmã — disse.
— Para nossa primeira aula, nós três — ele continuou, apesar da minha
interrupção. Uni as sobrancelhas.
Aula?
Damian acenou com a cabeça para a poltrona da sala. Havia um capacete
e equipamentos de proteção como joelheiras e cotoveleiras. Aquilo era
exagerado. Onde tinha conseguido aquilo?
— Hã? — foi tudo que consegui dizer, voltando o olhar para ele. Damian
abriu um sorriso e seu sorriso cresceu ainda mais quando a compreensão
atingiu o meu rosto. — Aula de bicicleta? Já hoje? Sério?
— Sim, sweetheart — ele disse e então aproximou a boca da minha. Ali
estava, seus lábios, seu perfume, seu frescor, seu hálito de hortelã, seu calor,
a corrente que eu o tinha dado caindo perto do meu rosto e aquele maldito
corpo parcialmente exposto. Tudo isso. Perto de mim. Senti algo protestar
entre as minhas pernas. — Prefere tomar banho sozinha ou comigo?
Deixei o queixo cair. A irmã dele estava ali, poderia ouvir. Mas Damian
não parecia pensar nisso.
— Sozinha — respondi, me levantando e cuidadosamente desfazendo-me
dos pequenos braços que me envolviam, para não incomodar Miley. E então
me levantei, o empurrando no processo. — Mas pode assistir se quiser.
Poderíamos tentar ir devagar, porque parecia necessário. Mas se iríamos
nos torturar dessa forma, faríamos isso do modo mais delicioso possível.
Peguei a caneca. Me guiei às escadas silenciosamente. Eu sentia o olhar
de Damian Bale no movimento dos meus quadris.
— Diabólica — ele acusou.
— Você gosta — devolvi, de imediato, ouvindo a sua gargalhada como
resposta.
Sim, definitivamente... Nossos jogos estavam de volta.
Coloquei meu capacete em Carlson. Ela estava de calças jeans e eu
duvidava que isso fosse confortável.
— Isso é ridículo, Damian!
— Já me convenceu a não colocar cotoveleira e joelheira em você, Naomi
Carlson, não vai me convencer mais do que isso
Era nossa segunda aula de bicicleta. Por conta da nossa semana cheia,
Naomi e eu mal nos vimos.
Eu estava concentrando boa parte das minhas energias em Mike. Não
gostava de como Graham estava lidando com as coisas. Ele estava
transformando tudo em raiva, pouco a pouco. Já não me ouvia quando eu
dizia para procurar alguma ajuda e ninguém sabia quanto poderia insistir.
Quando não estava trancado em casa, ajudando os pais, estava com Brandon,
Oliver e eu, nos fazendo rir ou rindo como nunca. Mas parecia forçado. Não
que algum de nós dissesse isso.
Eu não sabia muito como ajudar. Tinha conversado com a mãe dele,
porque ela também parecia preocupada. Mas Olivia — mãe do Mike —
parecia tão aérea que mal conseguia lidar com aquilo. Só prometi que
faríamos o melhor para levantar o astral do seu filho e gosto de pensar que
ajudamos.
Queria que as aulas começassem logo. Por mais que isso me afastasse um
pouco de Naomi, ocuparia a mente de Mike. E uma fase nova me deixava
empolgado. Meu melhor amigo e eu numa universidade, mesmo que em
cursos distintos... Aquilo poderia melhorar muito as coisas para Graham.
Enfim, por conta disso tudo, dei menos atenção para minha garota. Até
aquele dia.
— Estou aprendendo a andar de bicicleta, não prestes a pilotar num globo
da morte! Pelo amor de Deus! — Ela protestou, dentro do capacete. Sorri
forçosamente. — Vou tirar isso...
— Nem fodendo, sweetheart, pare! Aposto que em dois segundos vai se
arrepender e colocar o resto dos equipamentos de proteção.
— A sua irmã não usa nada disso! — Ela apontou para Miley do seu lado.
A criança sorriu, sem qualquer equipamento, com uma bicicleta pequena e
sem rodinhas acessórias. Uma rodinha que deveria ser dela estava com a
minha namorada.
Porque até Miley sabia pedalar e Naomi não.
— Eu não preciso de rodinhas, tá legal?
— Tá, tá, pedale por cinco minutos e depois eu tiro a rodinha. E vou ficar
te segurando.
— Que nem uma criança?
Eu estava fazendo muito esforço para não rir de Naomi Carlson de
capacete de moto em cima de uma bicicleta comum.
— É assim que se aprende, aos poucos — respondi.
Naomi tirou o capacete e o jogou no chão. Bufei, frustrado com a sua
teimosia.
Eu queria ensiná-la no dia seguinte também, mas nós dois tínhamos
compromissos. Carlson iria buscar Wayne no aeroporto, ela passaria a
semana na cidade. Eu não falava muito da Mel porque estava meio bravo
com ela por dois motivos:
O segundo — sim, estou começando pelo segundo — é porque ela estava
monopolizando a minha namorada. E isso era compreensível, mas eu queria
muito um tempo com Carlson antes que ela voltasse para Sydney.
O primeiro era o Mike.
— Pronta? — perguntei. Segurei a bicicleta para ela. Lancei um último
olhar para o capacete e demais equipamentos, mas ela franziu o nariz, ainda
brava pelo "capacete filho da puta". Beijei a ponta do seu nariz, quase
desfazendo sua careta. — Confie em mim — sussurrei.
Naomi pigarreou, desconcertada.
— Vou te soltar apenas quando sentir que é capaz de se equilibrar sozinha,
e você é. Tem uma rodinha acessória apenas, Carlson. Não se apresse em
conseguir se livrar dela hoje. — Beijei a sua têmpora. — Temos todo o
tempo do mundo.
Ela me olhou de soslaio. Meu coração acelerou e eu simplesmente sabia
que o seu estava no mesmo ritmo. E então começamos.
Não demorou muito para que ela percebesse que... Bem, eu menti. Soltava
Naomi sem que ela percebesse ou pedisse. Porque fui ensinado assim.
O problema era que, quando percebia que eu a tinha deixado sozinha,
Naomi travava a bicicleta. Até perceber que eu a tinha soltado, Naomi até
que se mantinha equilibrada, pedalando com uma ruga engraçada entre suas
sobrancelhas, superconcentrada. Mas então acontecia o fenômeno "onde está
Damian?" e a falha vinha.
— Vamos, linda. Tenta aproveitar a sensação de pedalar, esqueça que eu
existo um pouco — aconselhei, me aproximando dela novamente.
— Não consigo esquecer que você existe, amor.
Droga. Senti um frio conhecido na barriga, minhas bochechas
esquentaram. Pigarreei, tentando me manter firme e segurei a bicicleta.
— Vou ficar logo atrás, segurando com leveza — prometi. — Uma hora
vou te soltar. Mas quero que pense em qualquer coisa, como... Que tal focar
na Miley? — Acenei para a minha irmã em um canto do quintal, ainda
pedalando, em círculos. — Tente alcançá-la. Não se pergunte se ainda estou
te segurando, porque sabemos que sabe fazer qualquer coisa sozinha,
sweetheart.
Naomi assentiu, um pouco tensa.
Ela pedalou.
Eu a soltei.
Ela não percebeu.
E, porra, parecia o retrato da liberdade. Se a liberdade fosse a garota
numa bicicleta com uma rodinha acessória, mas ainda assim.
Naomi ganhou velocidade. Seu coque se desfez, o vento soprou um pouco
os fios e ela continuou focada, indo atrás de Miley, que gritou que Carlson
estava pedalando.
A morena gargalhou de pura felicidade. Sabe aquele som? Aquele que tem
tanta, tanta alegria nele, que te faz sorrir de imediato?
Bom, foi esse som que eu ouvi antes que ela caísse.
— Cacete! — xinguei, correndo para minha namorada. Miley saiu da
bicicleta dela. — Pede os kits de primeiros socorros para Katy — pedi,
preocupado. Minha irmã correu para dentro. — Acha que torceu algo?
— Não... Acho que machuquei os joelhos. E as mãos — Naomi as
mostrou. Os nós dos dedos estavam avermelhados. Ela gemeu. — Ugh, meus
joelhos estão ardendo!
— Consegue se levantar?
— Estão ardendo muito, amor... — ela disse, como se fosse impossível.
Eu deveria ter percebido o seu drama.
Peguei Naomi nos meus braços, porque ela fingiu que mal conseguia andar
sem mancar. Subimos as escadas com dificuldade, eu a deixei na minha cama
e peguei o kit das mãos de Miley, fechando a porta do quarto.
A sós com a minha namorada, tirei as calças de Naomi, que suspirou,
como se o ferimento fosse letal. Então analisei seus joelhos e fiz menção de
fitar seus olhos, mas precisei parar o olhar entre suas pernas. Carlson estava
com uma calcinha de renda branca. Pequena. As mãos estavam sobre a minha
cama e ela tinha os dentes sobre o lábio inferior, me fitando com uma falsa
inocência.
Eu observei como seu tronco subia devagar e descia, seu olhar felino
testando os meus limites. Os seus joelhos não estavam intactos, mas os
ferimentos eram leves. Arranhões leves. Não precisava daquilo tudo.
— Fez de propósito — afirmei.
— Não caí de propósito! — ela rebateu, ultrajada.
— Mas imaginou que cairia e veio de calças, porque se viesse de shorts
eu não precisaria te despir.
Naomi uniu as sobrancelhas, estalando a língua algumas vezes.
— Me machuquei... amor — ela provocou. Carlson se inclinou em direção
a cama, apoiando-se em seus cotovelos, seus pés sobre os meus ombros,
seus cabelos caindo para trás de suas costas. Os malditos polegares se
infiltraram nas laterais da calcinha. O inferno morava naquele sorriso. —
Mas não é um remédio comum que vai fazer a dor passar...
Engoli em seco.
Estávamos indo devagar.
Indo devagar.
Ela não se renderia. Ela propôs ir devagar.
Não. Naomi queria que eu implorasse. Por ela.
Primeiro.
Ela queria que eu implorasse primeiro.
Queria que eu perdesse a aposta.
— Não vai rolar — decidi, rouco. Me pus de pé, um tanto quanto tonto.
Carlson deixou o queixo cair, uniu as sobrancelhas. — Vamos, a aula não
acabou.
Dei as costas. Senti um travesseiro contra meu ombro e não parei, nem
quando a ouvi grunhir de ódio.
— DAMIAN BALE! — Naomi protestou. Eu tentei pensar em qualquer
coisa menos em Naomi Carlson e sua maldita calcinha, enquanto ajeitava as
calças e descia as escadas.

Naomi girou a chave do carro e o ligou.


Era cinco da manhã. Ela queria a rua o mais vazia possível. Eu estava
com sono, mas Carlson era energia pura.
— Eu vou te ensinar o básico e dirigir te dizendo tudo que estou fazendo e
o porquê. Depois, se der tempo e a rua ainda estiver vazia, você vai dirigir e
nós seguimos até tipo... o fim da sua rua. Direto, sem curvas, sem manobras,
apenas direto.
— Certo.
Ela respirou fundo, abrindo levemente as pernas. Carlson estava com um
short jeans e minha camiseta do Red Hot Chilli Peppers. Ela apontou pros
seus tênis brancos.
— Ok, os pedais aqui, consegue ver? — Me inclinei em sua direção e
confirmei. — Então, aquela ali? A embreagem. — Naomi apontou e eu
assenti. — Freio... Acelerador. Repete. Da esquerda para a direita.
Obedeci. Mas percebi que poderia me divertir com isso.
— Espera, esqueci... Aquela é a embreagem? — perguntei, apoiando a
mão em sua coxa e erguendo o indicador na direção de um dos pedais.
Naomi assentiu.
Apertei sua pele levemente, unindo as sobrancelhas e fingindo pensar,
gastando meu tempo acariciando a sua coxa. Toquei um pouco mais perto
dos limites dos seus shorts jeans. Ela pigarreou.
— E aí? Qual o freio? — perguntou, disfarçando muito mal o nervosismo.
Apoiei a mão no banco, bem entre suas pernas. Jurei que ela tinha prendido a
respiração.
— Aquele ali é o freio?
— Não — sussurrou. Virei o rosto em sua direção, minha boca perto
demais da sua. Os olhos azuis desceram lentamente aos meus lábios. —
Tente de novo — ela disse.
— Aquele é o freio — falei, voltando a minha atenção para os pedais
novamente. Minha mão espalmou sua coxa novamente e ali ficou, firme.
Exceto pelos dedos na parte interior, nada bobos. — Embreagem e
acelerador... — Apontei.
Me sentei, sorrindo satisfeito. Ela respirou fundo.
Era muito fácil para Naomi me desestabilizar. Minha namorada só
esquecia que também era muito fácil mexer com ela.
— Certo — ela disse, tentando pensar no passo seguinte. — Damian,
conheça o câmbio. — Ela apontou para o lance logo em frente ao freio de
mão. Onde as marchas ficavam. Eu sabia disso. Mas Carlson me explicou
ainda assim: — Ele tem marchas e...
— Ok, professora, vamos logo com isso — pedi. Ela riu nasalado.
Colocamos os cintos e Carlson explicou que precisaria colocar o pé na
embreagem para fazer o carro andar. Percebi que acelerava e mantinha o pé
na embreagem, a soltando devagar na mesma medida em que acelerava.
— Sempre devagar — ela começou. — Não solte o pé da embreagem
muito rápido, pelo amor de Deus. Nem acelere demais. Sempre atento a tudo
à sua volta. — Naomi parecia extremamente relaxada e ainda assim focada
enquanto dirigia. — Os espelhos ajudam nisso. Atento às placas de trânsito
também.
— Porra, Naomi, eu sei disso!
— Eu sei que sabe, quero apenas garantir que não vou precisar buscar o
meu namorado na delegacia por correr acima da velocidade. — Ela me
lançou um olhar sério. Aquilo era realmente bem a minha cara.
Carlson continuou a dirigir, tirando minhas dúvidas e explicando o que
fazia. Demos algumas voltas pelo meu bairro por uns trinta minutos. Depois
ela parou o carro em frente à minha casa.
— Sua vez.
— O quê? — perguntei, confuso.
— Até o fim da rua, Damian. Sua vez. — Naomi não me deixou refutar
quando saiu do carro e bateu a porta. Ela passou em frente do carro e abriu a
minha porta. — Velocidade baixa, você consegue.
Bufei quando ela ergueu as sobrancelhas em um silencioso "vai logo". Saí
do carro apenas para entrar nele de novo, pelo banco do motorista.
Colocamos os cintos. Naomi me observou.
— Você é mais alto que eu, consegue mexer as pernas direito, ver os
pedais...? — Neguei e Carlson tirou o cinto. Se inclinou por cima de mim e
tocou em algum canto do meu lado esquerdo do banco.
Naomi estava de quatro, sobre mim, a mão entre as minhas pernas,
enquanto ajeitava a minha cadeira. Porra...
— Tecnologia Carlson em um Corvette antigo — ela disse. Meu banco se
moveu levemente para trás. — Os botões são touchscreen, sabia?
— Rica. — Tentei ignorar quão perto estava.
— Culpada — ela disse, rindo. — Meu pai realmente era bom nisso. Nos
carros, eu digo. — Naomi se sentou de novo e colocou o cinto. — Os de
nossa propriedade sempre tinham uma tecnologia acima, sabe? O melhor do
melhor. Um clássico antigo por fora e por dentro um transformer.
Precisei rir. Naomi sorriu fraco para mim e me perguntei se aquela tinha
sido sua intenção: me tranquilizar.
— Quando quiser, amor. Estou bem aqui — garantiu.
Tentei acelerar e o carro não saiu do lugar. Ela me lembrou da embreagem
e eu me senti estúpido. E então estávamos nos movendo.
— Certo, Damian... Lembre-se, acelera devagar... mantenha o pé na
embrea... Damian, devagar!
— Estou indo devagar.
— Está com a porra do pé afundando o acelerador todo. — Eu franzi o
cenho. Não estava não. Aquela era a embreagem, não? "Embreagem,
acelerador, freio...". Voltei o olhar para a rua. Aquilo era uma cobra?
Tinha uma cobra na rua.
Eu travei, olhando para a cobra. Nem sei se sabia frear a porra do carro.
Onde era o freio mesmo?
Quase gritei quando o carro ganhou velocidade ao invés de perder e soltei
um dos pedais de vez.
— DAMIAN!
Carlson me olhou como se eu tivesse cometido o maior erro da minha vida
e eu perdi o controle do carro. Como não queria passar por cima da maldita
cobra, virei o volante. O Corvette só morreu quando bateu em um hidrante.
Boquiaberto, agarrei o volante com força pelo solavanco que sofremos.
Naomi me encarou, atônita.
Pois é... Eu bati o Corvette clássico, caro e tecnológico da minha
namorada.
Esse sou eu.

— Não consigo acreditar que bateu o Corvette — Gianna falou, rindo.


Carlson afundou a cabeça no meu ombro tentando não rir, sentada no meu
colo, na espreguiçadeira em frente à piscina da casa do Oliver.
Ela estava cansada. Passara o dia inteiro se dedicando à mãe, que
aparentemente estava triste, ainda por causa de Vincent. Levou Lia e
Madison para a praia, para almoçar fora e depois para o cinema. Qualquer
coisa que tirasse a cabeça delas do luto, que vez ou outra batia à porta.
E então agradeceu quando Brandon mandou uma mensagem para nós dois,
perguntando se toparíamos beber uma última vez com ele e Zhang, já que os
dias de farra deles estavam contados e seriam escassos. Seriam jogadores
profissionais. Tinham até um amistoso marcado para o início do mês
seguinte. Seria a chance de conquistarem o lugar no time titular do Brightgate
Futebol Clube.
— Vou deixar você bem longe do meu carro novo — Riley me provocou,
se sentando na espreguiçadeira em que Gianna estava.
Sua pele amarela estava levemente bronzeada, suas bochechas rosadas.
Tinha ficado os últimos dias na praia com a namorada, que ainda tinha um
ano pela frente no Colégio Brightgate. Agora estava ali, sozinha com o irmão
em casa, porque seus pais tinham ido visitar a avó materna dela, na China.
Era o Ano Novo Chinês. Ollie disse que estava triste por não ver a avó, mas
seu novo trabalho como jogador começaria em breve e ele não poderia
viajar tão cedo.
— Imagino os gritos que Naomi deve ter dado dentro do carro — Mel
disse, se aproximando com duas cervejas. Entregou uma garrafa para Naomi,
que agradeceu. Depois se sentou ao colo de Gianna.
Vi o exato momento em que Riley torceu o nariz. Ela estava odiando
Melissa. Por Mike. Riley já tinha ido visitar Graham depois do lance do pai
dele. Todo mundo ali já tinha feito isso. Menos Melissa, aparentemente.
— Não gritei tanto — Naomi resmungou, virando um gole da bebida. Eu
conseguia sentir sua exaustão e isso me preocupava.
Naomi deveria ir para casa e dormir, mas queria aproveitar que quase
todos estavam ali, reunidos, pois Mel iria embora no dia seguinte; ela
voltaria para Sydney e Brandon e Oliver nunca mais poderiam beber tanto
tão cedo. Falando em Zhang, ele se aproximou do grupo com um sorriso
sarcástico. Os olhos oblíquos e alongados brilhavam com perversidade e eu
me preparei mentalmente para ser zoado.
— Damian bateu o carro? O que aconteceu? Estava dirigindo com o
pinto?
Todos riram. Grunhi.
— Consegue fazer uma piada que não envolva o meu pinto? — reclamei.
Ollie deu de ombros.
— Se seu pinto é motivo de piada, o problema não é meu — ele devolveu.
— Naomi está dormindo?
— Nãaaaaao — ela respondeu, mas claramente sonolenta. Ela virou outro
gole da cerveja e eu acariciei a sua cintura. Não reclamaria se dormisse
sobre mim.
— Que lindos os band-aids de princesa — Brandon provocou, apontando
para os joelhos da minha namorada. Um era da Cinderella e o outro da
Rapunzel. Naomi levantou o dedo do meio.
— São band-aids da Miley — ela explicou.
Brandon se sentou ao chão do deck, em frente à Gianna e Melissa. Wayne
enfiou os dedos nos cabelos loiros e sedosos do garoto, o que pareceu
agradá-lo bastante. Oliver se sentou na mesma espreguiçadeira que Carlson
e eu, quase em cima dos meus pés.
— Está levando isso de bicicleta a sério, huh? — Riley perguntou.
— Ele prometeu que me ensinaria, então sim — Naomi disse. — E vou
tirar a rodinha no próximo fim de semana! — Ela olhou para mim, esperando
por uma confirmação. Sorri, orgulhoso.
Wayne fez um bico.
— Ainda bem que voltaram, são o casal mais fofo que conheço — Mel
disse. Gianna soltou um grunhido de descontentamento, enciumada. Naomi e
eu rimos. — Empatados com Gigi e Brandie, claro!
— Nah, somos melhores — Brandon disse, abrindo um sorriso que
mostrava que estava mais chapado do que eu pensava.
Naomi beijou o meu pescoço, se recusando a entrar naquela discussão,
mas sussurrou:
— Não são, não.
— Não mesmo — sussurrei de volta e ela escondeu o sorriso atrás da
garrafa de cerveja.
Quando nossas bebidas acabaram e Oliver reclamou de falta de música,
ele seguiu com Gigi e Brandon para casa de dois andares em busca de uma
caixa de som e alguma bebida.
Melissa se afastou de Riley, que usava o celular e sorria para a tela,
conversando com Kiera. Aquilo era um sorriso bobo de garota apaixonada.
Wayne se ajoelhou em frente à nossa espreguiçadeira, para conversar com
Carlson.
— Não quero viajar amanhã... — ela resmungou. — Quero aproveitar
mais os dias com todo mundo.
— Nem me fala — Naomi devolveu, deitando a cabeça no meu peito. O
silêncio constrangedor nos lembrou que eu não tinha trocado mais do que
três palavras com Melissa naquela noite. — Damian...
— O quê? — Me fiz de desentendido e Wayne sorriu, triste.
— Tá tudo bem, Naomi. Juro — Wayne garantiu. — É sobre um amigo
dele, é compreensível.
— Não estou bravo porque terminou com Mike — falei, sabendo que ela
pensava isso. — Estou bravo porque passei os últimos dias tentando animar
meu melhor amigo sempre que o via. E você conseguiria fazer isso, talvez
melhor do que eu. Não ligo se não são mais um casal. Seria algo legal de
fazer.
— Damian... — Naomi sussurrou, chateada.
Wayne mordeu o lábio inferior, parecendo abalada. Depois assentiu, se
afastando e murmurando algo baixo e incompreensível. Presumi que avisou
que iria para a casa, porque se retirou…
— Cacete, Bale...
— Eu disse a verdade.
— Alguém tinha que dizer — Riley falou, alto. Depois se levantou. — Vou
dormir na casa da minha namorada, lidem com o drama da Wayne.
— Vocês precisam parar com isso — Carlson defendeu a amiga. — Sério
mesmo. Ela teve os motivos dela pra terminar. E concordo que talvez
Melissa esteja errada em não falar com Mike, mas não sabem que porra a
garota pode estar sentido. Nem sabem direito o que aconteceu entre eles.
Ninguém sabe.
— Porque ela não fala e eu não sou obrigada a ter essa conversa, então,
quer saber, Carlson? Demoramos muito para conquistarmos o respeito uma
da outra e eu vou embora antes que percamos isso. Fui, casal — Riley disse,
mandando um beijo e saindo antes que pudéssemos nos despedir.
Naomi se afastou de mim ao se sentar. Ela bebeu sem olhar nos meus
olhos, visivelmente tensa.
— Ei... Fale comigo — pedi. Ela praguejou contra a garrafa. — Vamos!
Você mesma disse que acha que Mel está errada. — perguntei.
— Sim. Mas também a entendo. E acho que algo mais aconteceu essa
semana ou entre eles que Wayne não quer me dizer. Então me perdoe se não
gosto que seja rude com a minha melhor amiga, Damian, mas espero que isso
não se repita. Nunca mais. Assim como jamais vou falar assim com o Mike.
O relacionamento é deles. Ou foi, sei lá. Por favor, tente pensar nisso quando
ela voltar para cá.
Assenti.
— Vem cá — pedi. Puxei Carlson para mim novamente e deixei sua
garrafa no chão, ao nosso lado. A abracei. — Desculpa se sou um babaca às
vezes. Mas sou seu babaca.
— O único possível — ela sussurrou após algum tempo. Sorri, feliz por
ela não conseguir sustentar sua birra.
Era bom estar assim. Muito bom. Pensando que ela voltaria para Sydney
em breve... pedi, baixinho:
— Dorme lá em casa hoje? — Ela uniu as sobrancelhas. — Não estou
com segundas intenções. Tenho uma coisa para te mostrar. E sinto falta de
dormir com você.
Naomi abriu um sorriso bobo. Eu o contornei inferiormente com o
polegar, admirando como ela era linda para cacete.
— O que tem para me mostrar?
— É uma surpresa — garanti, puxando-a pela nuca. Em um selinho, eu
apreciei a maciez da sua boca, o leve gosto de cerveja, o seu perfume. —
Não envolve carros batendo ou bicicletas caindo.
— Ufa. — Ri quando levou a mão ao colo, fingindo alívio.
Nossos amigos retornaram, com música eletrônica estupidamente alta e
garrafas e mais garrafas de vodka e tequila.
Carlson e eu resolvemos não beber aquilo. Mas roubamos a tequila ao
sair.

Katy e Ryan fizeram comentários sobre termos juízo quando nos viram
subir as escadas. Não estávamos bêbados, mas parecíamos. Carlson
segurava a garrafa de tequila, gargalhando alto quando a peguei nos meus
braços, dentro do quarto, e a joguei sobre a cama. Tranquei a porta.
— Qual a sua surpresa?
Por mais que soubesse da sua expectativa quanto à tequila que havíamos
trazido, eu a peguei das suas mãos e deixei sobre a bancada, ao lado da
cama.
— Da próxima vez que vier aqui — prometi, olhando nos seus olhos —,
vamos beber dessa tequila. E sabe como.
Carlson ergueu uma das sobrancelhas, sorrindo.
— Pensei que seria hoje — ela disse.
Tirei a camisa, porque estava calor. Me virei e senti seu olhar em minhas
costas. Amei isso.
— Quero que implore — lembrei.
Joguei a roupa para trás, para Naomi, que riu assobiando. Caminhei para
um caderno na minha bancada. Naomi ainda sorria para mim.
Me pus entre suas pernas, balançando o caderno. Ela se sentou. Fiz um
esforço absurdo para não beijá-la contra a cama e jogar a calma na puta que
pariu. Mas eu ainda pensava na aposta.
— Quero que leve com você pra Sydney. Isso é seu — falei e a entreguei
o caderno. — E é praticamente a minha alma, então cuide bem dela. —
Naomi franziu o cenho.
— Como assim? — Ela abriu o caderno, o folheando. Admirei a sua
confusão, até que sua boca se entreabriu levemente.
Carlson começou a passar cada página devagar, seus dedos tocando os
papéis como se absorvesse o impacto de cada folha.
— Quantas? — Sua voz falhou.
— Hm?
— Quantas páginas, Damie? — ela perguntou. E porra, meu coração
parou. Porque Naomi Carlson, em minha cama, daquele jeito, era o retrato
fiel do amor que sentia por mim. Suas lágrimas acumuladas nos olhos, suas
pupilas dilatadas, seus lábios trêmulos. Era o quanto me amava. Consegui
sentir isso com força.
— Duzentas.
— Duzentas músicas?
— Não! Enlouqueceu? Menos! Muito menos! Tem melodias, textos
grandes, algumas coisas que escrevo quando não consigo compor, outras que
anoto antes de compor, antes de organizar tudo em versos. E nem tudo é
sobre você, mas... Enfim, sempre quis ler tudo isso, certo? Está aí!
— Sua alma — ela repetiu e voltou a olhar o caderno, sorrindo
genuinamente. — E quanto da "sua alma" é minha?
Me agachei entre as suas pernas, apoiando as mãos em sua cintura. Naomi
estava encantada pelo que lia, completamente entretida.
— Leia e descubra — sussurrei. Ela riu. Seja lá o que pensou, guardou
para si. — Está vendo as cifras? Pode tocar no seu ukulele. Ele está em
Sydney? — Ela negou.
— Dei o meu para a minha mãe, sugeri que aprendesse a tocar para se
distrair — contou. — Caramba, amor, isso é surreal...
— E seu. Quero que fique com isso. Leia tudo. Me devolva apenas quando
eu te perguntar se me perdoou, quando me perguntar se te perdoei, e as duas
respostas forem sim. Quando formos Damian e Naomi, por completo.
Ela deixou o caderno de lado para me envolver pelo pescoço e eu a
abracei pela cintura. Teria que aprender a implorar para que não voltasse
para Sydney. A ideia de tê-la longe doía.
— Sabe — ela começou, apoiando a testa na minha —, o que os últimos
meses me fizeram lembrar... é que nada é perfeito, nunca vai ser.
Principalmente nós, Damian. Nós dois não somos nada perfeitos. Mas nossas
imperfeições combinam. Isso é o que nos torna insuperáveis.
Esquadrinhei seu rosto em silêncio.
Era um daqueles momentos em que mergulhava no mar azul dos seus olhos
e aproveitava cada onda de sentimentos que me atingia. Todo oceano
invejaria aquela cor, aquela vivacidade e rebeldia. Só Naomi Carlson
carregaria tanta, tanta beleza.
Era como se apaixonar — pela milésima vez — pela mesma pessoa. Um
sentimento tão fodidamente bom, que precisei respirar fundo e tentar afastá-
lo por um segundo, porque me fazia querer chorar. De felicidade.
Pois é, Naomi Carlson me tornou um bebê chorão.
É bom quando uma pessoa importante na sua vida te faz sentir tanto,
refletir tanto... Isso te incentiva a buscar o melhor de si mesmo. Brightgate
significou aprendizado para mim. Porque estava repleta de pessoas que me
faziam querer ser melhor a cada dia. Como ela.
E jamais pensei que Naomi Carlson e todo seu mau comportamento me
ensinariam tanto. Que a minha sweetheart me permitiria aprender com ela.
Gosto de pensar que também a ensinei uma coisa ou outra, sempre que
admiro um sorriso seu.
Devagar, levei a mão a sua nuca e uni os lábios aos seus. Naquele
momento, prometi a mim mesmo que, em alguns anos, me ajoelharia daquele
mesmo jeito, entregando a minha alma para ela com um anel e tudo. Nós
daríamos certo.
Porque ela estava certa, sabe? A vida é imperfeita. E eu sou grato pela
minha vida imperfeita. Pela minha namorada imperfeita. Serei sortudo para
cacete se passar todos os dias imperfeitos restantes ao seu lado. Por favor,
que isso aconteça.
—"É incrível que eu seja tão péssimo com as palavras, mas consiga
organizá-las tão perfeitamente em poesia quando penso em você." — Naomi
leu e eu afundei a cabeça em seu peito, praguejando.
Meu rosto esquentava de vergonha, meu corpo estava arrepiado por
completo. Ela só continuou, afundando os dedos em meus cabelos, em um
carinho lento:
— "Talvez porque você seja a arte em pessoa, tão surreal e inalcançável
quanto verdadeira e relacionável". Caramba... Eu sou a arte em pessoa?!
— Sweetheart! — minha voz saiu abafada e ela riu, descendo os carinhos
por minha nuca, depois costas nuas, devagar. Seus dedos faziam círculos por
minha pele, me deixando ainda mais preguiçoso e confortável naquela cama.
Lutei para não dormir antes que ela terminasse de ler.
— "Dos seus traçados saem os desenhos mais deslumbrantes, do seu
corpo os movimentos mais cativantes, da sua garganta as obras-primas mais
incríveis." — ela continuou. E então pigarreou, desconcertada. — "Viajo
incansavelmente por cada relevo, depressão, paraíso que te compõe;
deixando-a me transformar em arte também". Eu sou gostosa desse jeito,
huh?
Gostosa daquele jeito? Não. Ela era mais.
— Por favor, pare, isso está horrível.
— Horrível?! Estou amando — Naomi garantiu e eu ergui os olhos para
ela. Carlson ainda segurava o caderno com uma mão, os olhos brilhantes
vidrados em cada letra. Vestia apenas uma camiseta minha, os fios em um
coque alto e mal feito. — "O instrumento que mais quero tocar é você,
apreciando seus melhores sons, cada mísera melodia..."
Consegui ver o momento em que engoliu em seco e dobrou uma das
pernas, inquieta. Precisei sorrir. Aquela era uma reação interessante.
— "Até que meus dedos não consigam mais dedilhar e meu canto não
possa mais ser escutado."
— Dramático, não?
— Demais. Combina com você — ela provocou e eu grunhi, a abraçando
pela cintura. — "Contudo, ultimamente, sweetheart, estou tendo dificuldade
para escrever músicas felizes. Estou organizando as palavras e a poesia que
se forma é saudade. Estou cansado de criar melodias que te pertencem e não
poder te fazer ouvi-las". Amor... — Naomi choramingou, me deixando ainda
mais envergonhado. — Eu me senti mal desse jeito sem você, juro!
— Sentiu?
— Sim. Não sei escrever nem compor, mas se eu pudesse desenhar o que
eu senti sem você, seria uma chuva de cacos do meu coração partido, por
todo o lugar. — Acomodei meu rosto na curva do seu pescoço e Carlson me
envolveu com suas pernas, me mantendo colado a si como um coala. —
"Preciso de inspiração novamente. Preciso da boa dose de mau
comportamento que só você pode me dar. Então comporte-se mal comigo."
— "Fora dos meus sonhos." — falei, ao mesmo tempo que ela.
Rocei o nariz em sua garganta. A morena mordeu o lábio inferior. Passei
meus dedos por baixo da camisa, roçando na pele que protegia as suas
costelas, logo abaixo do seu sutiã. O toque, contudo, não tinha nada de
pecaminoso. E poderia dormir assim, cada vez mais preguiçoso.
Vagarosamente, a minha namorada levou os olhos aos meus.
— Escrevi em Bradford.
— Imaginei — ela sussurrou.
E então passou outra página, para o meu desespero. Era uma letra de
música inspirada no texto que ela tinha acabado de ler.
— "Misbehave". Parece legal.
Eu sorri. E então beijei o seu maxilar, bochecha, canto dos seus lábios,
retomando a sua atenção. Por fim, capturei a sua boca brevemente. Não
queria que lesse mais uma página, me deixava envergonhado.
— Combina com a gente — falei baixinho. E Carlson deixou o caderno de
lado, segurando o meu queixo e unindo os lábios aos meus.
— Não sabia que eu poderia ser inspiração para alguém assim..
— Está brincando? — perguntei, sonolento. — Você é incrível. Não mais
que eu, mas ainda assim. — Ela beliscou as minhas costas em resposta e eu
ri. — Sério, você é incrível. Tem algo a mais, não sei explicar. — Minhas
pálpebras pesaram quando os dedos de Carlson subiram e desceram pela
minha nuca. Tão bom. — Tanto que eu escrevi sobre você antes mesmo de
namorarmos. Bem antes.
Ela ficou em silêncio. Senti seus olhos sobre mim e não consegui parar a
minha língua.
— Escrevi sobre você tantas vezes, até perceber que estava apaixonado.
Antes eu pensava que não saía da minha cabeça por ser tão gostosa, mas não.
— Damie! — ela disse, achando graça.
— Você me inspira. — Bocejei. — Você me desafia a ser melhor. Você é
o melhor desafio que já conheci.
Um silêncio nos seguiu e eu não consegui mais lutar contra as pálpebras
pesadas. Minhas frases se arrastaram para fora:
— Como ousa se perguntar como pode ser inspiração para alguém? Poetas
se matariam por uma inspiração como você. Cabeças rolariam e toda essa
porra.
Ouvi um risinho baixo.
— Está delirando, amor. Durma — ela sussurrou, acariciando as minhas
costas. Eu não estava mentindo, era a verdade. — Obrigada por me mostrar
uma parte da sua alma, Damian Bale.
— Obrigado por ter conquistado cada pedacinho dela, sweetheart —
devolvi, como um segredo sujo. Eu conseguia imaginar seu sorriso.
— Eu amo você, novato — ela sussurrou, roçando os lábios contra a
minha orelha. — Você também me inspira... Se quer saber. — Senti um beijo
em minha têmpora. E essa foi a última coisa que lembro de ter ouvido antes
de dormir.

Naomi: bom primeiro dia de aula, novato.


Ela mandou uma selfie no carro da colega, Eve. Leo estava no banco dos
fundos, dormindo e babando. Como pude ter ciúmes daquele cara?
Tirei uma foto dentro da caminhonete do Mike, que capturou Graham
dirigindo, empolgado pela primeira vez em muito tempo.
Eu: bom primeiro dia de aula, sweetheart.
Mike e eu passamos pela entrada do campus de Brightgate. O letreiro
enorme que indicava a Universidade fez a minha barriga congelar. Eu estava
nervoso para caramba. Graham estacionou a caminhonete em uma vaga
qualquer e saímos do carro. Encontramos Gianna sendo deixada por
Brandon, que colocou a cabeça para fora do carro e abaixou os óculos
escuros, assobiando para Mike e eu.
— Bom primeiro dia de aula, cobrinhas — ele disse, piscando. Mike
girou uma manivela invisível ao lado do punho cerrado e ergueu o dedo do
meio vagarosamente. Gianna bateu o ombro contra o dele, rolando os olhos.
— Protejam a minha garota!
— Vai logo, idiota — Gianna ordenou. E então se arrependeu, correndo
para o carro do namorado e o beijando rapidamente. — Bom primeiro
treino, artilheiro.
Ramsey estava treinando para o Clube de Brightgate, finalmente. Parecia
meio puto dias antes porque fora deixado de fora do primeiro amistoso, ele e
Oliver. E também porque ouvira que o time profissional encarava os dois
como se fossem "crianças estupidas". Bom, aquelas crianças estúpidas eram
as únicas duas novas contratações de um clube que estava quase caindo para
a segunda divisão do campeonato australiano. Contratações necessárias para
tentar melhorar uma equipe que não estava indo bem. Então eles deveriam
ter cuidado com o que diziam. Quis dizer isso para o maldito time. Quis
mandar cada um ir para a merda.
Mas não fiz isso. Estava tentando ser calmo. Fazendo terapia e toda essa
porra.
— Boa aula, gatinha — Ramsey desejou à namorada. Troquei um olhar
com Mike, que reprimiu os lábios. Tentei não rir. Gatinha?
Gianna deu as costas quando Brandon arrancou e nós seguimos atrás dela.
Cidade universitária, Katy disse. Ela tinha feito um curso de Jornalismo e
outro de Moda, tal como a minha namorada, por Brightgate. Minha madrasta
tinha me explicado como o Campus funcionava, mas eu fiquei realmente
impressionado.
O lugar era enorme e nos limites ao sul da cidade. Fiquei perdido para
cacete, analisando a grade de horários no meu celular, até que descobri para
onde ir. Assim que entrei na sala, segurando a alça da minha mochila, fui
atingido por uma onda de nostalgia. Lembrei de quando entrei no Colégio
Brightgate, vendo Naomi Carlson com os olhos presos em mim. A primeira
pessoa que vi.
Seus olhos, seu pirulito, seus cabelos — na época mais escuros —, e
aquele algo a mais que eu não sabia explicar. Era como se carregasse
eletricidade nos olhos.
Meu celular vibrou por sua causa, por coincidência. Meu coração doeu
para caralho de tanta saudade. Ainda parecia que dilaceravam meu peito
toda vez que ela ia para Sydney e me deixava em Brightgate. Sempre nos
abraçávamos por vários e vários minutos, nenhum dos dois querendo se
separar de forma alguma. Ter um relacionamento à distância era difícil
quando a minha garota era incrível e linda daquele jeito.
Ainda assim, sorri para a tela, vendo o sorriso de uma namorada super
empolgada por estar na Universidade. Eu não poderia ficar mais orgulhoso
de Naomi Carlson começando a conquistar seus sonhos. Coloquei aquela
foto de tela de bloqueio. Era como olhar diretamente para a felicidade.

Eu estava em uma aula introdutória, a última do dia. O professor só se


apresentava, dizia que nos ajudaria a aprimorar composições, a resgatar
nossa criatividade ou algo assim. Foi isso que respondi quando Carlson me
perguntou como a aula havia sido.
Naomi: resgatar a criatividade? Você é o cara mais criativo que eu conheço. Suas músicas
são as melhores.
Eu: Podem ficar ainda melhor.
Naomi: De fato. Até sei como te ajudar nisso. Ainda sou sua inspiração?
Eu: A maior.
Finquei os dentes no lábio inferior, curioso. E então veio a primeira foto.
E a segunda. A terceira. A quarta... Carlson em lingeries diferentes, em
frente ao espelho.
Naomi: O que acha?
O ar escapou com pesar. Eu nunca tinha visto Carlson de cinta-liga antes.
Foi torturante. Quis rasgar cada maldita lingerie.
Eu: Todas são perfeitas.
Naomi: O Leo também achou...
Ri nasalado.
Eu: Gostou é?
Naomi: Estou brincando. Comprei por você.
Naomi: Em parte.
Naomi: Primeiro por mim, porque fico gostosa nelas. Depois por você.
Sorri. Comprou por mim... Interessante.
Eu: Não poste a última, por favor. Deixe essa ser só minha.
Naomi: Vou pensar...
Carlson era má. Me fez imaginar quantos homens não babariam em seu
corpo. Mas era seu corpo. Ao menos foi o que tentei repetir. Tentei bancar o
namorado desconstruído, mesmo um tanto quanto mordido.
Eu: Estou muito atrás no nosso jogo de provocações, não acha?
Naomi: Pior que sim, lindo. Acho que acabo de te dar inspiração para as próximas duzentas
músicas e não recebi nada em troca.
Ergui os olhos, tentando me concentrar por dois segundos no que o
professor dizia. Mas era impossível.
Eu: Teremos nosso próximo encontro em breve.
Naomi: para onde vai me levar?
Eu: Não faço ideia. Mas vou descobrir. E vou te fazer desistir disso de "ir devagar".
Naomi: Damian Bale, não decidiu para onde vamos?
Ignorei sua mensagem.
Eu: Espero que vá de saia.
Eu estava digitando novamente quando recebi a mensagem:
Naomi: primeiro dia de aula acabou mais cedo, se quer saber. Estou na cama. Porta
trancada.
Senti meu pau mais duro e pesado e pensei em como iria embora dali
daquele jeito.
Naomi: continue, Damian, o que vai fazer?
Puta que pariu.
Eu: vou começar brincando com suas coxas, sweetheart. Você ama essas torturas leves, não
ama? Meus dedos passeando por sua pele, tão inocentes...
Ela não respondeu. Mas visualizou a mensagem. Puta que pariu.
Eu: Vou afastar a sua calcinha discretamente, você vai estar molhada... Eu te excito bem
rápido, certo?
Nenhuma resposta. A visualização estava ali.
Eu: vou começar devagar. Bem devagar.
Eu conseguia me imaginar ao lado de Naomi, correndo perigo de ser
flagrado, e Carlson não se importaria. Suas bochechas estariam levemente
vermelhas, ela estaria prendendo os gemidos com dificuldade. Eu a foderia
com os meus dedos. Até que me implorasse para pagarmos a conta e cairmos
fora. Expliquei exatamente isso. Detalhadamente. E depois como a foderia
em casa. E foda-se sobre ir devagar. Eu a daria velocidade.
— Foi muito bom encontrar vocês hoje — o professor disse, batendo uma
longa régua na mesa. Estremeci.
No mesmo instante, Naomi Carlson simplesmente me avisou que tinha
chegado lá. E eu deixei um gemido baixo escapar. Eu deixei a porra de um
gemido baixo e fraco escapar. Na aula.
Tossi logo em seguida, fazendo algumas pessoas me encararem. Continuei
a tossir, nervoso, ouvindo alguns colegas me desejarem saúde. E esperei que
todos fossem embora para andar para fora dali o mais rapido possível.
Liguei para Naomi de imediato, pisando firme na saída do prédio da
universidade. Ela estava ofegante.
— Está brincando que se masturbou no telefone comigo? — sussurrei,
nervoso. Ela riu vagarosamente.
— Feliz exercício de punho, Damie — ela realmente estava ofegante. —
Espero que cumpra com a nossa palavra no próximo encontro. — E a
ligação foi encerrada.
Encontrei Mike em frente a sua caminhonete. Me arrependi de ter aceito ir
e voltar com ele no primeiro dia de aula.
— Cara, você tá duro?
Grunhi e abri a porta do carro. Precisava chegar em casa o mais rápido
possível.
— Sem perguntas, Graham, só dirige.
Ele obedeceu. E eu realmente precisei exercitar o punho em casa.

Na mesa, durante o almoço, eu estava entre revisar as anotações da aula


que um colega tinha mandado por mensagem e responder as milhares de
mensagens da minha mãe sobre a universidade.
Estudar música era empolgante. A primeira semana realmente superou
minhas expectativas. Digo, a gente já começou com muita coisa para
aprender e eu entrei no curso meio preso no mundo do colegial, achando que
seria diferente e mais fácil; mas eu não odiei estudar nem um pouco. O que
me fez pensar que tanto Carlson quanto minha psicóloga estavam certas
quando me asseguraram que cada um aprende de um modo, e que fazer o que
amamos ajuda a conquistar o aprendizado.
Definitivamente era o curso certo para mim. Eu mal poderia esperar para
produzir minhas músicas ou até mesmo de outros artistas. Mal poderia
esperar para aprender tudo o que eu poderia aprender sobre aquele mundo.
Nasci para fazer arte, estudá-la e crescer com ela. Isso alimenta a minha
alma para caralho.
Era esse discurso que eu repetia pela milésima vez para a minha mãe. E
que Meredith DeLuca era o tipo de mãe enxerida e babona que iria querer
cada mísero detalhe eu já sabia. Eu só esperava que o interrogatório fosse
ser mais curto. Ela me mandou algumas fotos provando que seus olhos
estavam marejados porque seu garotinho se tornaria músico, enquanto eu
implorava para que me tratasse como o adulto que eu era. Isso piorou tudo,
porque a fez chorar e mandar mensagens como “ai, meu Deus, você é um
adulto”, “meu SuperDamie está grandinho” e coisas ainda mais
vergonhosas.
Pelo menos, Meredith estava bem. Era um alívio que estivesse,
sinceramente. Tive medo de que se sentisse deixada de lado por minha volta
para a Austrália, mesmo que tivesse me garantido que isso jamais
aconteceria; mas ela estava excelente. Tão excelente, inclusive, que estava
— atenção — namorando. Isso fez o interrogatório se inverter. Suas
gracinhas acabaram assim que a série de perguntas sobre o tal Andrew
começaram. O cara parecia gente boa, mas eu não hesitaria em pegar um
avião para a Inglaterra e fazê-lo se arrepender de ter nascido se quebrasse o
coração da minha mãe.
Estava quase deixando o celular de lado quando ele vibrou. Achei que era
Meredith novamente, mas não era.
Naomi: SOS. Minha mãe quer conhecer você esse fim de semana.
Engasguei em pleno almoço. Era nosso sábado. Ryan bateu em minhas
costas. Miley estava rindo e Katy me olhava como se eu fosse um alienígena.
Eu: Já conheço a sua mãe.
Respondi, com meus olhos lacrimejando. Virei um gole de água,
esperando que o incômodo na garganta passasse.
Naomi: Aquele jantar foi horrível, ele não conta. Palavras dela.
— Sem celular na mesa — Miley cantarolou e eu bufei, deixando o
telefone de lado. Katy riu baixinho.
— Algo ruim aconteceu para ficar tão nervoso assim? — Ryan quis saber.
— N-nervoso?
— Querido, está tão branco quanto o prato — Katy disse. — E engasgou.
Mas não pense que precise contar tudo pro seu pai enxerido.
— O Damian estava falando com a Naomi — Miley provocou, sorrindo.
— Ele tava fazendo aquela cara.
— Que cara? — eu perguntei. Miley suspirou e bateu os cílios, tombando
a cabeça para o lado e abrindo um sorriso extremamente bobo. — Eu não
faço essa cara! Pare com isso! — Dei a língua e ela retribuiu. Katy riu
baixinho. — Mas sim, era a Naomi. A mãe dela quer me ver ou algo assim.
— Pode chamar a família da Naomi para a noite de filmes desse sábado.
— Ryan disse, animado. Eu o olhei, sério, pensando que era brincadeira.
Mas ele estava sorrindo, realmente empolgado.
— N-não — respondi.
— Por que não? — meu pai perguntou.
Porque eu queria transar. Eu realmente não me importava de desistir
daquela competição com Naomi primeiro. Eu sentia falta da minha
namorada. De amar seu corpo a noite toda e de manhã, se tivéssemos
energia. Ou de dormir com ela, corpo com corpo, sem roupas, exausto.
Meu celular vibrou sobre a mesa.
Naomi: Isso não é ir devagar, mas a minha mãe está irredutível. SOS.
Droga.
Eu teria que lidar com um jantar com a minha sogra mais uma vez. Talvez
fosse mais seguro não ter esse jantar sozinho.
— Quer saber? — forcei a felicidade em minha voz, sorrindo tanto que
deveria parecer o coringa. — Vou amar um jantar em família! Nossa! Mal
posso esperar!
Rezei para um meteoro cair bem na minha cabeça.
A campainha tocou no fim da tarde e eu abri a porta, dando de cara com
Naomi, Madison e Lia. Naomi estava pálida, mas sorriu largamente, fingindo
— muito mal — que estava superfeliz.
— Sweetheart! Que surpresa agradável! Não deveriam vir mais tarde? —
A envolvi em um abraço. — Duas horas mais tarde — sussurrei.
— Katy ligou dizendo que queria que viéssemos mais cedo e minha mãe
ouviu tudo — ela sussurrou de volta. — Por que não me atendeu? — Naomi
se afastou, visivelmente nervosa.
— Fui para a casa do Mike e depois fui direto para o banho, não vi o
celular e... — Madison pigarreou e eu olhei para as duas loiras atrás da
minha namorada. — Oh, entrem! Desculpa a falta de educação. — Abri
caminho.
Naomi entrou primeiro e parou bem ao meu lado. Madison me abraçou
brevemente. Lia abriu um sorriso para mim e sua filha, sem saber como
reagir. Naomi olhou para o chão e discretamente beliscou a minha cintura.
— Por favor, fale alguma coisa — ela implorou. Senti uma dor no braço e
me perguntei se poderia ser um infarto.
Lia sorriu com uma doçura que me causou estranheza e eu abri e fechei a
boca. Minha namorada xingou baixinho.
— Bom, vamos recomeçar — minha sogra decidiu. — Lia Carlson. Creio
que namora a minha filha — ela disse, estendendo a mão.
Naomi me beliscou novamente e eu estremeci, estendendo a mão para
Lia.
— Damian Bale. Creio que namoro a sua filha — tentei brincar e ela riu,
suas bochechas assumindo um rubor leve.
— Viu?! Bem melhor do que aquele último encontro! Eu não mordo!
— Mãe! — Naomi a repreendeu. Só continuei sorrindo.
— Chegaram! — Katy disse, animada, descendo as escadas.
Miley correu até Naomi, como sempre. Minha namorada se agachou para
apertar sua pequena cunhada com força. Ryan franziu o cenho ao me ver,
provavelmente porque eu estava pálido.
Enquanto o pessoal se apresentava, eu discretamente bati a perna em
Carlson. Ela estremeceu, mas fingiu que não tinha sentido.
— Então! Vieram mais cedo! — Katy disse, se afastando das Carlsons. —
Pensei em nos reunirmos primeiro na cozinha e prepararmos a macarronada
da família da mãe do Damian, ou uma lasanha. Fazemos isso de vez em
quando.
Quê?! Nunca tínhamos feito aquilo!
— Parece divertido! — Madison falou. Naomi finalmente se pôs de pé e
todos olharam para nós dois. Abrimos sorrisos falsos ao mesmo tempo.
E eu me preparei para uma longa sessão de tortura.

Não foi uma sessão de tortura. Não tanto.


Katy e Naomi entraram numa discussão animada sobre Louboutins depois
que a minha madrasta percebeu que Lia usava um par. Eu me perguntei o que
Louboutin era. Hoje eu sei que são sapatos.
As mulheres cuidavam da lasanha, bebiam vinho e riam bastante. Menos
Madison, que fora arrastada por Miley para a sala. Descobri que minha
cunhada era louca por crianças e demorou apenas dez minutos para que a
pequena Bale a convencesse a jogar Just Dance.
Enquanto isso, eu e meu pai preparávamos a macarronada, tentando
entender a receita que minha mãe tinha enviado.
Vez ou outra, as gargalhadas das mulheres na cozinha chamavam a minha
atenção. Era quando o olhar de Naomi encontrava o meu e ela sorria.
— Sem tortura — sussurrei na última vez, de longe. Ela deu de ombros e
escondeu o sorriso atrás da taça de vinho.
— Precisa falar com sua sogra, sabe? — Ryan disse baixo, cortando os
tomates. Eu me fiz de desentendido, unindo as sobrancelhas. — Damian,
trocou duas palavras com ela. Está bizarro isso.
— Acho que ela me odeia.
— Claro que não — meu pai devolveu, baixo. — Ela olha para você
quando Naomi está sorrindo em sua direção. E sorri também. Lia gosta de
como você faz a filha dela bem. Está aqui para te conhecer melhor.
— O que eu faço?
— Vai lá e pergunta se precisam de algo!
Hesitei e Ryan cerrou os olhos, o que foi suficiente para que eu
caminhasse para o outro lado da cozinha.
— Precisam de algo? — perguntei baixo.
— Querido, sim — Katy disse. — Precisamos de vinho. Esse estava pela
metade e já acabamos.
— Não beberam demais? Naomi não vai dirigir?
— Ah, não, não deixaria Naomi beber e dirigir nunca! Maddie está
dirigindo. — Lia me respondeu. Um pouco tenso, assenti.
O silêncio nos atingiu por um bom tempo. Não sabia para onde olhar, o
que fazer...
— Quer saber? Vou buscar o vinho — minha madrasta falou e nos deixou,
seguindo até nossa pequena adega.
Lia e eu nos observamos.
Silêncio... Silêncio... E mais silêncio.
Naomi suspirou e murmurou um "Lá vamos nós". Ela passou o braço ao
redor da minha cintura.
— Mãe, o Damian compôs duzentas músicas para mim, sabia? — ela
contou, absolutamente do nada. Lia ergueu as sobrancelhas, impressionada.
— Duzentas?!
— Mentira! Foram menos. Escrevi, tipo, bem menos que cinquenta
músicas sobre ela. Só duas prestam, eu juro — respondi, nervoso.
— Aposto que todas prestam! — Lia disse. — É muito bom saber que a
minha filha é inspiração para alguém além de mim. — Naomi corou quando
olhamos para ela, e deitou a cabeça no meu peito. Poucas coisas deixavam a
minha garota envergonhada, mas sua mãe conseguiu isso. — Mal posso
esperar para ouvir alguma, um dia.
Pensei rápido em uma resposta e não sei como não gaguejei:
— Um dia eu vou cantar para a sua filha, em um show enorme. Todo
mundo vai ouvir — garanti, respondendo Lia, mas olhando para Naomi.
Carlson ergueu as sobrancelhas, surpresa. Mandei bem.
— Ambicioso! Isso é muito bom — Lia elogiou. E me surpreendi, porque
seus olhos realmente brilhavam para nós dois.
— Tenho um segundo plano, sabe? — garanti, preocupado. Queria que
conseguisse me ver tendo um bom futuro, um genro respeitável. — Se tudo
der errado na música, vou fazer Administração e ajudar meu pai com a
empresa e...
— Ei, não vai dar errado! — Lia me interrompeu em tom de sermão. —
Estou diante de uma estilista e de um grande cantor de sucesso, o mundo só
não sabe disso ainda!
Olhei para Naomi novamente. Carlson me entregou a taça e beijou a minha
bochecha, me abraçando de lado. Ela avisou que sua mãe estava fazendo de
tudo para se provar uma boa pessoa, mas eu não tinha acreditado tanto. Até
aquele segundo.
Um pouco mais seguro, olhei para a minha sogra.
— Espero que esteja no show quando eu cantar para a sua filha. Posso até
fazer uma música para a senhora.
— Oh, querido, não gasto tanto dinheiro com cremes e procedimentos
para me chamar de senhora! Por favor, me chame de Lia — ela implorou e
eu tive que rir. Naomi repreendeu a mãe baixinho. Pensei que, talvez, pouco
a pouco, eu pudesse confiar mais em Lia Carlson, ter uma boa relação de
genro e sogra.
— Certo! Vai ser um prazer te ter em um show meu algum dia, Lia —
assegurei. E ela sorriu de volta, largamente.
— Estarei na primeira fila.

Estávamos quase todos — exceto por Madison e Miley — um pouco


bêbados. Naomi, no meu colo, ficou feliz quando meu pai e sua mãe
contaram que já tinham se visto algumas vezes. Na verdade, Lia recordou ter
trabalhado com ele dez anos antes. Meu pai tem uma empresa de construção,
ela era arquiteta. Ele confessou que era um admirador do seu trabalho,
apesar de que a minha sogra passara os últimos anos com menos projetos do
que deveria.
Naomi sorria para a mãe com admiração toda vez que ela gargalhava.
Madison fazia o mesmo. Eu percebi que aquela não era a Lia que eu tinha
conhecido meses antes. E se minha namorada estava feliz, eu estava feliz.
O vergonhoso de verdade não foi o vinho que quase derrubei sobre a mesa
ou quando engasguei com a bebida, mas quando Miley nos convenceu a jogar
Just Dance. Minha sogra me viu dançar Shakira e eu ainda perdi contra a
Madison. Miley me provocou o resto da noite, imitando como eu rebolava
mal.
Ok: foi divertido. Não foi uma tortura. Naomi viajou para Sydney no dia
seguinte, então perdemos nosso encontro sozinhos, mas até que valeu a pena.
Infelizmente, na outra semana, Carlson me mandou uma mensagem
contando que estava se mudando para um apartamento fora do seu campus.
Não iria para Brightgate. Eu pensei em ir para Sydney, mas então lembrei
que estávamos "indo devagar" e talvez algum espaço fosse legal. Me
surpreendi quando a minha namorada me ligou, mais tarde, para fazer uma
chamada de vídeo, me mostrando seu novo lar. Ela estava com uma máscara
e não era de argila. Era dourada e engraçada. Quis estar lá com ela,
conhecer cada cômodo. Talvez sem roupa.
A saudade tornou aquela semana um pouco desgastante. Eu estava me
preparando para duas provas difíceis para cacete e não teria a minha
sweetheart para me ajudar a estudar com seus métodos infalíveis. Apesar de
estar indo para minha psicóloga e de gostar de estudar música, meu
acompanhamento psicológico mal tinha começado; eu ainda estava nervoso e
com medo de falhar nas matérias do meu curso. Era um dos problemas que
mais trabalhávamos juntos, depois da Megan. Minha maior insegurança
sempre foi relacionada à minha inteligência. Eu sempre julguei meu QI como
baixo para caralho. Ainda assim, a psicóloga me ajudou a perceber que eu
precisava relaxar, aliviar o estresse. Ela estava certa. Se não fosse pelas
idas à praia com Brandie e Ollie ou a noite de vídeo game com Graham, eu
provavelmente teria explodido de ansiedade e cansaço.
Quando outra semana passou e Carlson e eu finalmente nos encontramos,
eu dei graças a Deus por isso. Minhas notas nas provas não tinham sido tão
ruins assim, eu tinha a minha garota comigo e poderia apreciá-la sem me
preocupar com porra nenhuma por um fim de semana só nosso.
Assim que a vi sair do seu carro, correndo em minha direção, abri o maior
sorriso. Porra, Naomi Carlson ficava mais gata a cada segundo.
Ela pulou sobre mim, suas pernas me envolveram pela cintura e eu senti
que poderia apertá-la para sempre.
— Pronta para hoje à noite? — sussurrei. Ela confirmou, sorrindo.
— Tenho muita coisa para te contar — ela confidenciou, segurando o meu
rosto. — Como foi a sua semana?
Só coloquei Naomi no chão quando entramos em casa. Contei sobre as
minhas aulas e as minhas notas. Ela me encheu de beijos, super orgulhosa.
Depois me contou sobre a sua universidade. Katy e Ryan tinham levado
Miley para algum aniversário, a casa estava vazia. Nós subimos as escadas e
eu a abracei por trás assim que chegamos no quarto. Carlson estava animada
e não parava de falar sobre o que ela julgava ser nosso “segundo primeiro
encontro importante”.
Eu tinha acabado de tomar banho, só troquei a camisa por uma dos Green
Snakes e vi que tinha outra sobrando. Joguei-a para Carlson, que estava
sentada sobre a cama, no celular. Ela olhou para mim e ergueu a
sobrancelha. No segundo seguinte, estava tirando a camisa e colocando o
uniforme. Grande nela, chegava até o meio de suas coxas, cobertas pelas
calças jeans.
Admirei como ela ficava linda para cacete com aquela camiseta verde.
Deixei que andasse na minha frente, joguei seus cabelos por cima de um
ombro e beijei seu pescoço. Queria só ver o meu nome nas suas costas, o
número oito tal como o infinito que ela carregava no colar.
Optamos pelo seu carro e ela me fez ouvir One Direction e cantou a
plenos pulmões. Admirei como ficava linda dirigindo e cantarolando, tão
perfeita.
Segurei a sua mão assim que saímos do seu Corvette e eu chequei
rapidamente a frente do carro. Mal parecia que eu tinha amassado a lataria.
As vantagens de ser herdeira de uma empresa que cuida de carros, acredito
eu. O conserto foi surpreendentemente rápido.
— Então... Disse que queria o nosso "Segundo primeiro encontro"? —
perguntei, enquanto caminhávamos por todas aquelas pessoas. Eu tinha os
ingressos em mãos e Carlson estava empolgada para caramba. — O que quis
dizer?
— O primeiro desde o recomeço.
— Oh, sim... Isso me faz pensar. Temos uns oito meses de namoro ou
apenas quase dois meses? — Entramos na pequena fila. Tudo era bem
organizado, não era um jogo grande.
— Oito meses? Jura? Tem certeza? — Ela cerrou os olhos. Eu não sabia
dizer. — Está certo, estou brincando, respire! Começamos a namorar dia 13
de junho, lindo. Fizemos oito meses tipo semana passada.
— Voltamos 13 de janeiro... Certo? — Entreguei nossos ingressos para um
segurança e entramos no estádio. Naomi tirou um segundo para olhar ao
redor. Parecia descobrir o mundo pela primeira vez. Ela nunca tinha ido num
jogo grande.
— Acho que sim. Não sei.
— Então temos dois meses ou oito?
Ela uniu as sobrancelhas, mordeu o canto da boca, pensativa. Passei a
guiá-la até nossos assentos.
— Oito. Mas podemos ter dois aniversários de namoro! — Aquilo era
perfeito. Comemorar nosso namoro duas vezes por ano ainda parecia pouco.
Nos sentamos. Carlson deitou a cabeça no meu colo e riu quando fomos
surpreendidos por um garotinho que disse que ela era muito bonita. Ele
deveria ter quatro anos. Naomi agradeceu. A mãe dele pediu desculpas,
como se fosse algum incômodo. A tranquilizamos e ele se afastou.
— Tão fofo — Naomi disse, batendo o ombro no meu.
— E tão pequeno! Me lembra que minha mãe odeia crianças em estádios...
— A minha namorada estava atenta a tudo que eu dizia. — Mas
definitivamente quero que meu filho vá a jogos, desde cedo. Pelo menos aos
dos Green Snakes.
— Eu deixaria — ela comentou. — Digo, se eu fosse mãe, eu deixaria. —
Sorri e aproximei a boca do seu ouvido.
— A pequena Naomi ou o pequeno Damian vão para os jogos desde cedo
então — sussurrei. Carlson gargalhou.
— Damie! Nem fiz vinte anos, sabe? Precisa parar de fazer o meu útero
surtar!
— Não vamos ter filhos agora. Daqui a dez anos. Ou quinze. O que acha?
Sabe que vamos estar juntos, não sabe? — Estalei a língua. — É óbvio!
Sua boca se entreabriu um pouco, seus olhos brilharam. Esquadrinhei seu
rosto, tendo certeza de que ela era a pessoa mais linda naquele estádio.
— Se tivermos uma garota — ela começou e meu estômago se revirou —,
vai trazê-la também?
— Vai permitir?
— Sim. Mas estarei junto. Posso pintar as bochechas dela como fazia com
a Miley.
— Combinado.
Carlson riu nasalado e cerrou os olhos.
— Está brincando, certo?
— De jeito nenhum, sweetheart — garanti. — Você me fisgou de jeito,
Naomi Carlson. Quero meu futuro ao lado do seu. Quero tudo que temos
direito! Cachorro ou gatos, filhos, uma casa grande, viagens... Merecemos
isso.
Naomi aproximou a boca da minha.
— Quer saber?! Merecemos para caralho, Damian Bale — ela soprou.
Beijei a sua bochecha, apertei a sua mão.
— E para selar isso, vai me beijar assim que Brandon ou Oliver fizerem
um gol.
— Acha que eles vão fazer um gol?
— Um? Quer saber? Não. Dois!
— Dois gols. — Ela riu.
— Dois gols — repeti, lembrando do quanto isso significava para a gente.
— Então te beijarei duas vezes. — Naomi apoiou o queixo no meu
ombro.
Xingaria Ramsey e Zhang se perdesse dois beijos de Naomi Carlson. Por
mais que eu pudesse beijá-la após o jogo, quantas vezes quisesse, aqueles
dois beijos foram algo que cismei que precisava. E não foi um jogo fácil.
Xingamos, torcemos e berramos como dois loucos. Mas Brandon fez dois
gols, com a assistência de Oliver.
E eu recebi meus dois beijos.
Estava sozinha no meu novo apartamento em Sydney, descalça e vestindo
apenas uma camiseta longa.
Me inclinei sobre a bancada da cozinha. Meu computador estava aberto
num resumo sobre modelagem, completamente grifado e rabiscado. O
expresso quente na xícara com o símbolo dos Green Snakes emanava aquele
cheiro delicioso por todo o ambiente. Era uma típica manhã de estudante de
Design de Moda, apesar de ser um sábado — dia em que eu geralmente não
estudava. Só acordei com vontade de fazer aquilo.
Eu tinha conversado bastante com a minha mãe sobre isso, mas o curso era
diferente do que eu esperava — e falo isso num bom sentido. Superou
minhas expectativas e ampliou minha visão de mundo. O que eu sabia sobre
moda como arte, como força propulsora da sociedade ou reflexo de nossa
cultura, pareceu raso no segundo em que realmente comecei a estudar. Moda
se tornou como ciência para mim, com tantas variáveis envolvidas em
formar um produto que seja acessível ou sustentável, cativante da forma mais
esdrúxula possível ou capaz de fazer olhos brilharem de maneira simples; ou
quem sabe até isso tudo junto, juro que é possível
É uma profissão desvalorizada, porque não reconhecem que nosso
trabalho é difícil para caramba. A Naomi sonhadora que rabiscava croquis
pela adolescência e sabia o básico sobre costura e modelagem pensava que
tinha total consciência disso. A Naomi daquele apartamento descobria que
teria que ralar o triplo do que idealizara em um universo ainda mais
profundo do que eu tinha imaginado. Analisar padrões, estudar a história da
moda, calcular medidas, conhecer técnicas, entender a modelagem, entender
o mundo fashion, compreender como minha profissão encaixava na realidade
à minha volta... Era um desafio e uma aventura. E não havia nada que Naomi
Carlson amasse mais do que um bom desafio, certo?
Contudo, apesar da minha estranha empolgação para estudar num sábado
de manhã, havia algo roubando meu foco por completo naquela bancada.
Algo que me fazia morder a boca, tamborilar a mesa e repetir mentalmente
que eu poderia ler com calma e não devorar palavra por palavra.
Eu sempre perdia essa batalha.
O caderno que Damian tinha me dado estava logo na minha frente e meus
olhos percorreram, pela milésima vez, cada palavra de uma nova página.
Curiosidade pura, eu percebi que poderia ler tudo naquele dia e que queria
isso mais do que qualquer coisa. Não seria nenhum esforço, para ser sincera.
Damian disse que aquele caderno era a sua alma e eu percebi que sim. E sua
alma era interessante para cacete.
Parei os olhos em uma frase.
"Entre o ódio e amor, existe um abismo; o lugar perfeito para cair."
Tirei uma foto e enviei para Damian.
Eu: O que quis dizer?
Damian: Não posso te explicar tudo que escrevi, linda. A graça é que descubra.
Eu: legal, o que quis dizer?
Damian: o que acha que eu quis dizer?
Pensei.
Eu: Começamos do ódio. Caímos até o amor.
Damian: Interessante...
Eu sorri tanto que minhas bochechas doeram. De todas as músicas que
Damian tinha escrito, aquele verso se tornou o meu favorito. Aquela música
era a minha favorita. Eu lia trechos e trechos do caderno e sempre voltava
para aquela página. Olhei para outra folha.
"Minto que o meu coração é feito de gelo. Quando tentarem destruí-lo, o
aproximarão do fogo. Mas ele é feito de chamas. Quanto mais queimo,
mais me elevo".
Li o título logo depois e sorri de orelha a orelha. Ele deu meu nome ao
poema. Inacreditável. Peguei o caderno, andando para o quarto e tentando
não ler tanto, porque eu tinha uma viagem a fazer. Brightgate me aguardava e
eu precisava correr, ou perderia a nova tradição de almoço das Carlsons,
cozinhando sempre juntas; e ainda atrasaria a mamãe para sua sessão com a
psicóloga. Mas também porque cada segundo em Sydney era um segundo a
mais longe do meu compositor favorito.
E eu precisava vê-lo. Afinal, era o dia do nosso segundo primeiro
encontro e eu não perderia isso por nada.

Vestia apenas um vestido preto de cetim, de alças finas e que ia até o meio
das coxas. Além da minha bolsa, eu não segurava nada. Prendi o cabelo num
rabo de cavalo alto, após dez mil anos tentando decidir o que faria com ele.
Pelos saltos finos, eu precisaria de ajuda do Damian para sair da moto,
porque nervosa como eu estava, provavelmente cairia de cara no asfalto se
fizesse isso sozinha.
Meu celular vibrou.
— Damian chegou — avisei, descendo as escadas
— Ai, ai... Damian chegou! — Madison cantarolou, correndo para apertar
a minha bunda.
— Louca! — provoquei.
— Gostosa!
Minha mãe provavelmente imaginava onde tinha errado com nós duas,
quando perguntou:
— Volta para casa?
— Não hoje — respondi alto. Madison gritou algo sobre camisinha e eu
saí pela porta.
Perdi o ar quando vi Damian Bale contra a moto.
Tinha um blazer escuro sobre uma camisa social. Caía bem em seu corpo.
Ele vestia calças jeans, sapatos escuros e tinha um sorriso incrível mirado
em minha direção. Se eu pegasse uma câmera, aquilo poderia virar um
photoshoot.
— O que é você e o que fez com meu namorado? — perguntei ao me
aproximar.
— Preciso estar à altura da minha garota hoje — Damian respondeu,
erguendo o queixo. Uma mão alcançou a minha cintura. — Está linda. Acho
que nunca te vi mais linda. — A outra mão envolveu a minha nuca.
— Sempre diz isso.
— Porque sempre é a verdade — ele soprou e sua boca tocou a minha. —
Pronta para a melhor aventura da sua vida?
— Com você? — O envolvi pelo pescoço. — Sempre.
Bale me beijou antes de me ajudar a sentar sobre a moto. Ele lançou um
olhar preocupado pelo vestido e eu percebi que, de fato, não era a melhor
opção para aquele tipo de transporte. Sorri torto e ele riu baixo, balançando
a cabeça. Ele se sentou à minha frente, eu o envolvi pela cintura.
— Nada como nós dois e adrenalina, huh? — ele brincou e meu estômago
revirou.
Quando Bale deu partida e olhou para mim por cima do meu ombro, meu
sorriso o respondia. Não havia nada como nós dois e a adrenalina só tornava
tudo melhor.
A corrida não foi tão longa assim e não conversamos muito durante o
percurso, preferindo aproveitar nossa proximidade e aquele momento em
silêncio. Até porque, bem, todas minhas tentativas de tentar descobrir para
onde estávamos realmente indo foram para o ralo. Bale cismou que aquilo
seria uma surpresa até o último instante, me deixando mais curiosa do que
nunca. Então eu engoli o nervosismo e contei cada segundo até chegarmos no
nosso destino.
Paramos em um dos restaurantes mais caros da cidade, o Wavewood.
Ficava no litoral, permitia a vista perfeita do mar. Tinha dois andares, uma
aparência um tanto quanto rústica e ainda assim elegante. Parte das mesas
ficavam do lado externo, sem cobertura. A não ser, claro, pelas pequenas
lâmpadas presas em cordas.
Conseguia ouvir os sons das risadas, as taças de vinho se tocando, as
conversas... Não estava fazendo muito frio naquela noite, a brisa era leve e
agradável. Era perfeito.
— Damian Bale, sabe quanto custa uma refeição aqui?
— Meu rim esquerdo por um salmão, o direito por uma lagosta. Meu
fígado pagaria facilmente por qualquer prato envolvendo carne.
— Bale... Não tem graça!
— Não se preocupe, eu não daria o meu coração por nenhuma comida
aqui, apenas por você. — Ele apertou o meu queixo.
— Vamos dividir a conta, você sabe — avisei.
— Não. Me deixe pagar dessa vez. Prometo que dividiremos a próxima,
pode ser? — Tombei a cabeça para o lado. Damian imitou o gesto. —
Sweetheart, quero te dar a noite perfeita.
— Também quero te dar a noite perfeita.
— Qualquer noite é perfeita ao seu lado.
— Oh, sem cantadas por um segundo, Damian, eu... — Ele me beijou e eu
relaxei os ombros, inconformada comigo mesma por ser calada tão
facilmente.
— Não foi uma cantada, fui sincero — Damian sussurrou, me envolvendo
pela cintura. — Agora, temos uma reserva, senhorita Carlson. — Ele me
ofereceu o braço, enlaçando-o ao meu.
O maitre disse que havíamos chegado exatamente na hora. Pontualidade
britânica, pensei. Primeira vez que eu não me atrasava, possivelmente. Nos
sentamos em uma das melhores mesas e eu mordi o lábio inferior, porque
Bale realmente tinha pensado em tudo.
Demoramos em escolher nossos pedidos. Bale fez um muxoxo assim que o
garçom se retirou e tirou algo do bolso interno do blazer.
— Comprei para você. — Ele me entregou um pirulito oval e achatado,
vermelho. Ergui as sobrancelhas. — Nunca mais te vi com um.
— Uau, quem diria que Damian Bale é o mais romântico da cidade?
— Você diria. Eu até me vesti super bem hoje.
— Doeu?
— Arrancou o meu coração — ele exagerou.
— Lembre que você só o daria para mim — rebati, me inclinando sobre a
mesa. Damian abriu um sorriso de orelha a orelha.
— Só para você. — Ele se largou sobre a cadeira, esquadrinhando meu
rosto. Admirei o seu olhar, um pouco mais escuro naquela noite, mesmo
refletindo as luzes do restaurante.
Bale estendeu a mão. Deixei meu indicador contornar as linhas da sua
palma e desenhar abstratamente por ela. Só depois entrelacei meus dedos
aos seus.
— Sinto sua falta sempre — ele disse. — Quem mais vai explodir um
béquer comigo ou me pagar um boquete no vestiário?
— Damian Bale, senhoras e senhores — cantarolei para ninguém, só para
ele. Damian riu nasalado. — Ninguém. Ninguém vai colocar a boca em você,
só eu. E não tem béquer em uma universidade de Música! Não estuda
Química.
— Se tivesse, não explodiria com ninguém. Em respeito à nossa história.
— Ele levou a mão ao peito, fingindo uma dor física. Eu ri. Bale riu junto,
me deliciando com o som da sua risada arrastada e rouca.
Sentia que ele ria tão pouco e para poucas pessoas. Por mais honrada que
me sentisse em ser privilegiada e em ouvi-lo gargalhar, pensei que aquele
som poderia fazer os dias de muitas pessoas serem melhores. Seu riso era
tão gostoso quanto sua voz, entoando qualquer canção.
— Brincadeiras à parte? Primeira semana de aula do meu curso — ele
começou a contar —, olhei para as cadeiras, sentindo falta de uma única
garota. Morena, sabe? Em um uniforme pequeno, azul escuro e branco.
Obviamente com um pirulito na boca. Não desse tipo, ela prefere aqueles de
bolinha, redondos. Enfim, foi uma onda de nostalgia do caralho.
— Eu entendo. Acredite.
Se ele soubesse como doía ficar longe dele... Damian era meu amigo,
antes de tudo. Às vezes, eu só queria poder deitar a cabeça em seu peito em
um dia ruim. Sinto falta o tempo todo de tentar ouvir seu coração, mesmo
com músculos e ossos no caminho. E como se conseguisse sentir tudo o que
eu havia pensado — ou melhor, sentido —, Damian puxou a cadeira para a
lateral da mesa, ficando ao meu lado.
Precisávamos aproveitar cada segundo juntos, o mais perto possível.
— Sabe — ele sussurrou —, pedi para a Katy me ajudar a encontrar
algum lugar perto da praia, porque você ama isso. E porque percebi que
nunca tinha parado para procurar a beleza na praia durante a noite; me
perguntei se havia alguma graça em ficar perto do oceano, sob as estrelas, no
escuro.
— E qual é a sua conclusão? — Acariciei o seu rosto, valorizando tê-lo
perto, poder tocá-lo.
— A minha conclusão é que precisarei voltar aqui em outra noite,
sweetheart. Sem você. Porque mal consigo pensar no mar ou olhar para ele.
— Seus olhos acinzentados se arrastaram por cada pedacinho da minha face,
parando em minha boca. — Só vejo você.
Meu coração poderia explodir ali mesmo. Eu apertei a sua mão, deixando
um beijo sobre o dorso.
— Poético, até! Isso daria uma boa música — sugeri. Damian riu. A
risada mais melodiosa e incrível de todos os tempos.
— Você está certa, linda. Isso daria a melhor música.
Me perguntei se algum dia eu conseguiria explicitar o quanto o amava. O
quanto o amo. Provavelmente nunca.

A noite realmente havia sido perfeita. Incrível. Inexplicável. Conversamos


por tempo demais, gargalhamos tanto que demoramos em terminar a nossa
torta. O restaurante estava quase vazio quando pagamos a conta. A rua tão
deserta quanto.
— Te disse que valeria a pena lutar por nós, confiar em mim — ele
lembrou, baixo. Trocamos sorrisos e agradecimentos breves para os
funcionários ao sair. — Sentiu isso essa noite?
Damian sempre seria direto. Aprendi a gostar disso.
— Senti — fui sincera. Bale passou o braço ao redor do meu pescoço.
Estávamos a alguns passos de sua moto.
— Então tenho um desafio. — Ele me virou para si. — Para fechar a noite
com chave de ouro e saber se é a mesma Naomi louca que confiava em mim
de olhos fechados.
— Desafio? — Ergui uma sobrancelha, curiosa.
Damian sorriu e me puxou para si. Meu corpo se chocou com o seu e eu
quase ofeguei em susto. Seu sorriso estava muito perto dos meus lábios.
— Vamos voltar para casa de moto...
— Eu sei, viemos de moto — falei o óbvio, o vendo rolar os olhos por
isso.
— Oh, sweetheart, me deixe terminar. — Ele segurou os meus quadris e
me fez recuar até a moto. — Você vai sentar à minha frente.
Franzi o cenho. Damian sorriu ainda mais.
— Bale, eu não sei andar de moto. Eu nem sei andar de bicicleta.
— Estou trabalhando para mudar isso um dia, mas não é isso o que eu
quero. Você vai sentar assim... — Ele segurou a minha cintura com firmeza e
me pôs em cima da moto, de lado. — Agora vai se virar... — Me preparei
para me virar para a roda dianteira da moto e ele negou. — Para o outro
lado.
Travei. O quê?
— Quer que eu fique de costas?
— Sim. Mas vai estar abraçada ao que te deixa segura. Vai estar agarrada
à mim. — Não fiz perguntas quando desfez meu rabo de cavalo, passando as
mãos pelo meu cabelo e fazendo as mechas caírem pelos meus ombros. —
Selvagem. Do jeito que você gosta.
Não consegui segurar o sorriso. Aquilo era loucura, mas era o nosso tipo
de loucura.
— Podemos ser presos, você sabe?
— E? É o tipo de história perfeita para contarmos aos nossos filhos.
Ordenei ao meu cérebro estupido para que não me fizesse sorrir ainda
mais, mas Damian Bale e suas palavras eram sempre irresistíveis.
— Não teremos filhos se morrermos — respondi à provocação.
— Por isso não morreremos. Não posso perder a oportunidade de fazer
nossos bebês. E tê-los. Os cinco.
— Só se você parir.
Ele riu. Contudo, seu riso se transformou num sorriso discreto quando eu
me sentei de costas para a roda dianteira. Poderíamos realmente ser presos.
Aquilo era loucura. E me vi nervosa para cacete, mas isso sumiu um pouco
quando Damian se sentou à minha frente.
Ele passou minhas pernas ao redor do seu corpo e eu percebi que
realmente iria me aproveitar disso.
— Se segura firme, sweetheart. Pode me apertar à vontade.
Meu estômago se revirou e eu me senti queimar, por cada pedacinho do
corpo.
— Pode ter certeza que vou.
Ele arrancou e eu gritei, ouvindo-o gargalhar. Quando as ruas passaram
por nós com velocidade, eu lembrei que nada — nada — era melhor do que
Damian Bale e adrenalina.
Pressionei as suas costas com mais força, minhas unhas firmes contra o
seu blazer. O vento fazia meus cabelos voarem e Damian permanecia focado
na rua, com a sombra de um sorriso por seus lábios.
Aquilo era liberdade do modo mais selvagem possível. Era loucura no
nível Damian e Naomi. Era a perfeição em sua forma mais pura.
— Consigo sentir seu coração contra a minha pele, sweetheart.
Ele tinha escolhido o caminho perto do mar, me fazendo aproveitar ao
máximo o som das ondas. Gargalhei quando aumentou a velocidade, junto
com ele. Afundei a cabeça no seu ombro, o apertando com firmeza. Damian
estava adorando aquilo, ainda mais do que eu. E isso é dizer muito.
— E então, confia em mim?
— Talvez — brinquei.
Ele fez uma curva e eu não prendi a respiração, nem gritei, nem o apertei
mais contra mim, só olhei para o único carro atrás de nós, que buzinou e
gritou que éramos loucos. Estávamos bem perto da sua casa.
Damian beijou a minha testa, rindo, seus olhos brilhando com uma
felicidade quase infantil, porque ele tinha a sua resposta: eu confiaria a
minha vida a ele.

Tudo estava silencioso e escuro quando chegamos na propriedade dos


Bales. Torci para que todo mundo estivesse dormindo.
— Você demorou na sobremesa — Damie acusou.
— Estava me fazendo rir a cada dois segundos!
— É o meu trabalho como namorado — se defendeu, me guiando pela
escada.
Subimos rapidamente e Damian abriu a porta para mim. Assim que passei
por ela, ouvi o quarto ser trancado e meu coração disparou. As luzes foram
acesas e eu me virei para o meu namorado. Seus olhos caíram de imediato
em minha boca, fazendo meu sangue queimar, meus pulmões pararem por um
momento.
— Então... — falei baixo. Damian segurou a minha cintura com
possessividade. A outra mão foi ao meu pescoço, o polegar contornou a
minha mandíbula vagarosamente. — Eu não implorei — lembrei da nossa
pequena aposta e ele riu. — Mas estou quase.
— Eu também — confessou, baixo e rouco demais para a minha sanidade.
— Temos a vida inteira para competirmos. Podemos declarar um empate
dessa vez.
Meu coração errou algumas batidas. Espalmei as mãos em seu peito,
tocando-o sobre a camisa. Damian inspirou fundo.
— Também tenho um desafio — minha voz saiu rouca. Identifiquei
malícia por cada detalhe do seu rosto. Seu maxilar tensionado, pupilas
dilatando, olhar transbordando luxúria e expiração levemente pesada pelo
nariz, em um claro sinal de busca por autocontrole. Eu amava isso. —
Verdade ou consequência?
Ele riu baixo e umedeceu o lábio inferior.
— Consequência.
— Vai me deixar despir você — falei e analisei seu rosto, esperando por
uma reação. Segundos depois, Bale ergueu uma sobrancelha e abriu os
braços em um convite.
Passei as mãos por baixo do seu blazer, moldando o seu corpo. O toquei
sem pressa, ouvindo nossas respirações se misturarem, sentindo o calor da
sua pele. E deixei a peça cair ao chão.
— Olhe para as minhas mãos enquanto faço isso, sim? — sussurrei,
tentando me manter firme.
Bale obedeceu. Abri botão por botão da sua camisa e a deixei com o
blazer. Minhas mãos percorreram seus braços, ombros, peito... Tão lindo.
Perfeito.
Prendi os dedos no cós da sua calça e o puxei em minha direção.
— Sua vez — soprei. Ele manteve o olhar em minhas mãos em seus jeans.
Eu sabia que queria que o despisse por completo, mas não, ainda não.
— Tire a roupa para mim — mandou, se afastando.
Senti meus pulmões queimarem, o ar simplesmente não parecia suficiente.
Era doloroso o quanto eu o queria. E saber que ele me assistia daquela
forma selvagem me excitava ainda mais.
Fiz as alças do vestido caírem, devagar. Damian levou o polegar ao seu
lábio inferior, o contornando enquanto me apreciava. Até que o vestido
deslizou ao chão e ele percebeu que eu estava sem sutiã, vestindo apenas
uma calcinha de renda, preta.
Poderia sentir seu olhar contornando os meus seios, os mamilos e
descendo... Quase como um toque faminto, provocando arrepios suaves e
ainda assim eletrizantes.
— Verdade ou consequência? — perguntei.
— Verdade. — Maldito. Eu queria tocá-lo. Ele sabia disso. Engoli em
seco quando se aproximou, agarrando a minha cintura. — Sem palavras,
sweetheart?
— Quanto me quer? — perguntei.
— Mais do que me quer — garantiu, e ele sabia quanto eu o desejava.
Damian uniu a testa à minha, espalmando a mão em minhas costas, tão perto
que meus mamilos roçavam seu peito nu. Eu estava perdendo a paciência. —
Verdade ou consequência?
— Consequência — pedi, entredentes.
— Então deita para mim, sweetheart — ele ordenou.
Imóvel por alguns segundos, olhei nos seus olhos. Nada me impedia de
puxá-lo para um beijo. Mas se comecei o jogo, não poderia ceder tão fácil.
Por isso recuei, me deitando sobre a cama.
Bale deu as costas e desligou a luz do quarto. Depois ligou um abajur ao
lado do colchão. Admirei as suas costas largas quando caminhou até uma
garrafa sobre a mesa. Ele voltou para mim, a luz iluminando parcialmente o
seu rosto. O líquido alaranjado da tequila parecia ainda mais atrativo à meia
luz.
Me apoiei em meus cotovelos. Precisava assistir aquilo.
Bale abriu a garrafa e derramou um pouco da bebida no espaço entre os
meus seios. O líquido escorregou pela minha pele, devagar.
Senti primeiro a respiração de Bale contra a tequila. Aquilo era tortura.
Depois, minhas pálpebras pesaram porque Damian a recolheu com a língua,
por todo o caminho. E, por Deus, ele tinha o paraíso nos lábios, beijando e
chupando o meu colo, me provando sem pressa, sua respiração quente e
falha batendo em mim. A mistura de nostalgia e puro desejo fez meu coração
disparar contra as minhas costelas.
Bale derramou um pouco mais de bebida em minha barriga e se desfez da
garrafa, a deixando ao lado da cama.
Minha respiração estava pesada, intensa. A cada inspiração e expiração
eu repetia mentalmente para ter calma e aproveitar, para não perder o
controle rápido demais. Mas era Damian ali. E, porra, Damian Bale me
tocando...
Deixei meus lábios se entreabrirem, lutando para conter um gemido. Seus
dedos estavam firmes em meus quadris e eu pulsava contra seu toque. Ele
recolhia a tequila pelo meu corpo, provavelmente sentindo meu coração
contra a sua boca.
Damian Bale... Não era só o meu corpo o que ele reivindicava quando
provava a minha pele, se entorpecia com ela... Não. A pele era algo raso
demais para Bale. Ele gostava de profundidade, volúpia e adrenalina. Ele
reivindicava a minha alma.
Quando ele tirou os lábios da minha pele por um segundo, me libertando
de todo o torpor que me provocava, eu olhei no fundo dos seus olhos e algo
simplesmente mudou.
Não sei explicar exatamente o que eu senti. Foi mais do que amor.
Transcendia tudo.
Levei as mãos ao seu pescoço, meus polegares acariciando o contorno da
sua mandíbula devagar. Consciente de cada inspiração e expiração dele,
meus seios pesaram de tanto desejo, a pulsação entre minhas pernas mais
forte e implorando por ele. Como se eu fosse morrer se não o tivesse no
segundo seguinte. Mas ainda assim, precisei pedir, quase entredentes:
— Me pergunte.
Damian aproximou o rosto do meu, as sobrancelhas unidas, o maxilar
tenso. Meu polegar contornou seu lábio inferior e eu senti a sua respiração
contra a minha pele.
— Me pergunte, Damian, o que sempre quer perguntar.
Bale uniu a testa à minha e engoliu em seco. Sua corrente de ouro, gélida,
caiu sobre o vale dos meus seios, tocou o símbolo do meu colar; nossos
infinitos se tocando.
— É sua vez — ele ofegou. Como se eu me importasse com aquele
maldito jogo naquela altura do campeonato. — Sua vez de perguntar.
— Verdade ou consequência?
— Verdade. — Seus lábios tremeram, Damian apoiou os punhos cerrados
na cama.
Passei as mãos por seu cabelo, libertando seu rosto das mechas que
insistiam em cair por sua testa, para vê-lo melhor.
— Você me perdoou? — sussurrei, tentando controlar a voz para que não
saísse trêmula demais.
Quase completamente exposta sob ele, tendo-o entre as minhas pernas,
disposta a queimar por ele por toda a noite... Eu precisava daquela resposta,
antes de qualquer coisa.
— Há muito tempo — confessou, rouco. — Quando penso no baile, dói
porque ainda não me perdoei. Não me perdoei por ter te machucado.
Percebi que eu precisava dele. Mas antes, precisava que soubesse que o
meu coração estava livre para ser dele. Não havia nada senão amor por ele.
— Por favor, deixe isso para trás, não precisa se perdoar — pedi. Fiz
questão de olhar no fundo dos seus olhos, me ver por eles, admirar aquela
intimidade que possuíamos. Meu melhor amigo, meu novato... Meu Damian.
— Aquela noite... Não fomos quem sempre fomos. E eu já te perdoei, amor.
Dizem que os olhos são as janelas da alma e eu entendi completamente. Eu
amava o que via. Amava quão linda, mágica e verdadeiramente incrível era
a alma de Damian Bale.
Eu quase ri, mais leve, porque eu realmente quis dizer aquilo. De coração.
Era a verdade. E eu precisava que Bale me amasse consciente de que o baile
era passado. Que eu conseguia sim me lembrar da tristeza, da raiva... Mas
não eram sentimentos que me enchiam o peito quando estava com ele. Não
mais. Nunca mais.
Damian se ajoelhou sobre mim, cada perna ao redor do meu corpo,
atordoado. Eu conseguia ver nitidamente a sua respiração, seu peito se
movendo para cima e para baixo, e eu soube que ele queria chorar. Então me
sentei, tocando onde seu coração deveria estar. Sentindo-o. Sabia que ele
processava as minhas palavras. Mas eu não queria que pensasse, eu queria
que as sentisse.
Então o beijei.
Foi diferente. Como se nunca tivéssemos encaixado tanto quanto naquele
instante. Era o renascimento que nosso pequeno "nós" precisava.
Me desmanchei, me rendi por completo nos seus lábios, encontrando casa
no céu da sua boca. E Damian me deitou novamente. Ele pressionou seus
lábios sobre os meus com uma doçura ilusória e agarrou a minha cintura. O
toque tão primitivo e firme provocou um arrepio por minha coluna, me fez
arfar contra sua boca.
Gemi baixinho quando Damian chupou a minha língua, seu gosto se
derramando em minha boca devagar, seu corpo cobrindo o meu. Afundei os
dedos em seu cabelo, aproveitando a colisão suave das línguas, a sintonia, o
fogo que criávamos. Arranhei sua nuca, enlacei seu corpo com as pernas...
Eu necessitava tocá-lo. Tal como precisava respirar.
— Eu amo você — ele sussurrou. — Porra, eu amo tanto...
— Eu amo mais. — Bale me beijou, por dois segundos. — Espera!
Verdade ou consequência?
— Porra, Naomi, verdade! — Ele estava impaciente.
Torci o nariz, fazendo um som como uma buzina que avisa para um
competidor que sua resposta estava bem errada.
— Consequência — Damian trocou a resposta. Eu sorri, feliz.
— Tire a sua roupa... — Levei o dedo ao zíper das suas calças. — Tire a
minha única peça de roupa. E me torne sua. Forte... Fundo... — Bale parecia
hipnotizado pela minha boca. — E rápido.
Eu nem precisava pedir. Mas queria.
Ele abriu um sorriso carregado de más intenções, quase predatório. Seu
autocontrole se dissipou no segundo seguinte.
Bale recuou, olhando no fundo dos meus olhos com o maxilar tensionado...
Se pôs de pé... Livrou-se dos seus sapatos com os pés, dos meus saltos...
Tirou as calças, me fazendo morder o lábio ao admirar como era
fodidamente lindo terminando de se despir... Se aproximou, umedecendo o
lábio inferior, se ajoelhando sobre a cama... Vagarosamente deslizou a
calcinha por minhas pernas... E, a cada segundo, meu coração batia mais
forte. Mais alto. Até que estava nua perante seus olhos.
Bale contemplou o meu rosto, seios, barriga e então o meio das minhas
pernas. Ele devorou a minha boceta com o olhar, sorrindo de canto. Eu sabia
o porquê. Eu sabia que meu corpo implorava por ele. Eu estava molhada e
isso era nítido.
Então o maldito fez questão de se aproximar, roçar os lábios contra a
minha barriga e descê-los em uma tortura lenta até que envolvessem o meu
clitóris. Gemi. Bale chupou, mordiscou e então desceu a boca por minha
extensão, admirando de perto quão fodidamente molhada eu já estava.
Ele passou a língua por toda a minha boceta, devagar — me fazendo
respirar fundo —, depois por seus lábios molhados com o meu gosto.
Primeiro o inferior e então o superior. Aquela foi a cena mais sexy que eu já
tinha visto. Na vida.
— Fica por cima — ordenou, aproximando a boca da minha. — Primeiro.
— E passou a mão grande e firme atrás das minhas costas, invertendo as
posições.
Ofeguei em cima dele. Apoiei as mãos em seu peito e juro que pensei
sentir os batimentos contra as minhas palmas. Eu as desci. As desci,
observando o caminho que faziam por seu corpo, até que tirei a sua boxer,
lentamente, minha boca salivando ao ver seu pau pronto para mim. Damian
alcançou a camisinha na cabeceira da cama e a deixou bem ao meu lado.
Me senti febril, conforme guiei meus lábios por seu abdômen, beijando,
chupando, provando a sua pele, matando a saudade aos poucos do seu
corpo.
Minhas unhas se arrastaram por sua pele. Eu queria me marcar nele.
Damian mordeu o lábio inferior, me observando atentamente enquanto
meus dedos envolviam a sua extensão. Senti tanta falta de tocá-lo, do poder
que eu tinha sobre ele, de como seu olhar cinza e nublado parecia queimar
em minha pele.
Movi a mão para cima e para baixo em torno do seu pau, passei os dedos
livres pela parte interna da sua coxa. Eu ignorei — com muito esforço — a
ânsia absurda de consumir o que sentíamos de uma vez e tê-lo dentro de
mim.
Acariciei a sua glande e Bale fincou os dentes no lábio inferior. Então
minha língua se arrastou da base até o topo, rodeando vagarosamente aquela
região tão sensível. Bale segurou o meu cabelo quando a cabeça do seu pau
sumiu em minha boca e eu a suguei sem pressa.
Sua respiração se tornou um pouco mais densa. Ele me analisava como um
predador sedento e esfomeado, mais faminto do que nunca. E eu aguentei o
quanto pude, chupando e provando e mostrando o quanto eu o valorizava, até
que realmente não consegui mais esperar.
A pulsação entre as pernas era dolorosa, o calor e o desejo insuportáveis
se concentrando entre elas, a necessidade de um alívio que Bale precisava
me dar. Poderíamos nos apreciar depois, com calma. Mas agora eu queria
velocidade. Ele. Eu estava enlouquecendo por isso.
Me aproximei da sua boca, engatinhando devagar. Segurei o seu membro e
aproximei a boca da sua, roçando uma contra a outra.
Bale segurou a minha cintura com firmeza enquanto eu o masturbava
lentamente. A outra palma pressionou o meu clitóris, seus dedos se
estendendo por toda minha boceta, e eu gemi colando a boca a sua.
Ele sorriu. Damian sorriu porque amava o quanto nosso amor era sujo,
intenso e surreal. Amava cada um dos seus efeitos sobre mim. Amava saber
que eu estava encharcada e sem nem tê-lo dentro de mim. Ainda.
Seu anelar e dedo médio acariciaram meu clitóris e então seguiram pela
extensão da minha boceta. Quando dois dos seus dedos deslizaram com uma
facilidade impressionante para dentro de mim, gememos juntos, boca contra
boca. Seu som reverberou por todo o meu corpo.
— Eu vivo por momentos como esse — ele sussurrou. Lentamente, fez
seus dedos saírem e entrarem uma, duas, três vezes... Até que parei de
pensar. — Você me deixa vivo para caralho.
Seu polegar encontrou meu clitóris e perdi o controle dos quadris quando
me rendi ao que sentia, fodendo seus dedos com vontade.
— Tão linda, mexendo assim...
Xinguei baixo. Não podia gemer alto. Não estávamos sozinhos naquela
casa.
— Quer tanto gozar nos meus dedos, não quer?
— Damian...
— Sonhei tanto com isso, sweetheart. Em te ver assim, na minha mão,
louca para que eu te fodesse com força. É isso o que quer, certo? Me quer
por todos os lugares. Quer meu pau no lugar desses dedos, não quer?
Eu poderia facilmente chegar ao orgasmo ali mesmo. Estava quase lá.
— Amor... — gemi, implorando. Damian se sentou e abocanhou o meu
seio, mordiscou o mamilo levemente.
— Não. Sua consequência... — ele sussurrou, tão rouco. — É só gozar
quando eu estiver dentro de você de verdade.
Desesperada, tentei segurar a força incontrolável que corrompia o
universo sob a minha pele. Eu não costumava chegar lá rápido demais, mas
Damian... Céus, eu estava há tanto tempo sem transar, principalmente sem
transar com ele. Esperei muito por aquilo. Me segurar era insuportável.
— Só vai gozar quando eu disser que pode — Bale avisou e sua língua
rodeou o outro mamilo, antes que ele sumisse para dentro da boca. Fechei os
olhos, completamente entregue. — Senta em mim, linda.
Obedeci, mas decidi torturá-lo de volta. Só deslizei por sua extensão, sem
deixar que me penetrasse. Bale gemeu contra o meu peito, levando uma mão
ao meu cabelo e o prendendo entre seus dedos, me trazendo para perto com
agressividade. Eu levei sua mão para a minha bunda e ele entendeu o recado,
apertando e me dando um tapa que me fez ofegar por ele. Mas não aumentei a
velocidade. Continuei a esfregar a boceta no seu pau, me arrastando devagar
e gemendo baixinho.
Até que ele mordiscou o meu queixo e eu chamei por ele, baixo, perdendo
o controle. A fricção ficou cada vez mais rápida. Minhas pálpebras pesaram
e eu deitei a cabeça sobre a sua, quando guiou os lábios e a língua para o
outro seio, chupando, mordiscando, lambendo e me explorando como bem
entendia.
— Não vai gozar ainda — sussurrou a ordem, segurando o meu rosto.
Gemi baixo. — Não vai gozar sem meu pau dentro de você, Naomi. Me fode.
Agora.
Tombei a cabeça para trás e mordi o lábio inferior com força quando não
suportei mais. Antes que a primeira grande onda de prazer me tomasse sem
sequer tê-lo dentro de mim, eu o obedeci e peguei a camisinha sobre a cama.
Rasguei a embalagem e cobri o seu membro. Depois ergui o rosto,
percebendo como sua beleza parecia sobrenatural quando tombava a cabeça
para trás, para me admirar.
— Sabe como eu gosto, sweetheart — ele disse, a sombra de um sorriso
cafajeste por seus lábios entreabertos; apoiando as mãos atrás de si, na
cama, aquilo era um convite que parecia um desafio. — Rebola essa boceta
em mim, sim?
E como sua melhor oponente, com saudade das guerras que levávamos
para a cama, eu aceitei o desafio de levá-lo a loucura. Passei um braço por
cima do seu ombro e assisti conforme meus dedos o guiavam para dentro de
mim. Fechei os olhos e envolvi Damian pelo pescoço, xingando baixo
enquanto me invadia, centímetro por centímetro. Fazia tempo que eu não
transava. Eu senti falta dele mais do que tudo e ele sabia disso. Tanto que o
ouvi rir com maldade antes de beijar minha têmpora, unindo a testa à minha e
acariciando a minha cintura.
Eu ofegava contra a sua boca.
Minha sanidade estava por um fio.
— Respire. Temos a noite toda — ele sussurrou. Aquilo foi uma
promessa. De uma alma para a outra.
— Vai me foder a noite inteira — falei em tom de ordem, para que
entendesse que eu não aceitaria menos que aquilo.
— Não. — Bale ergueu o meu queixo. — A vida toda — garantiu.
E eu acreditei. Acreditei que seria o único dali para frente. Bale selou a
promessa quando me beijou e segurou meus quadris com firmeza, me
incentivando a me mover. Eu fiz isso.
Nossos corpos se compreendiam. Nossos desejos entregavam ordens a
corações que dialogavam muito bem entre si. Combinávamos mais do que
qualquer coisa no universo. Nossos corpos se chocavam devagar, nossos
lábios e línguas se consumiam em uma harmonia lenta e torturante.
Damian agarrou levemente os meus cabelos, me puxando ainda mais para
si. Arfei contra a sua boca e ele puxou o meu lábio inferior entre os dentes.
Nunca estive tão excitada assim antes. Nunca havia sentido tanto desejo. E
isso é dizer muito, porque sempre desejei Damian com toda a minha alma.
Conseguia deslizar para cima e para baixo de Damian com facilidade, a
pressão se acumulando entre as minhas pernas, o prazer correndo pelo meu
sangue, o coração em disparada...
O beijo se tornou agressivo. Me movi mais rápido e Bale apertou a minha
cintura com vontade. Suando, gemendo, ouvindo nossas respirações pelo
quarto e os sons dos corpos se chocando; disputávamos para ver quem
queria mais o outro, não poupávamos esforços naquela competição.
Bale subitamente inverteu as posições, ansioso pelo controle que parecia
ter perdido. Foi quando me fodeu de verdade.
Por cima de mim, Damian se movimentava como se o mundo fosse nosso,
mexendo os quadris com perfeição, me assistindo gemer e chocar o corpo
contra o dele, sedenta por mais e mais. Ele se movimentava como se porra
alguma existisse fora daquele quarto. E porra nenhuma importava fora do
quarto quando me fodia assim.
Bale grunhiu, cravando as unhas nas minhas coxas. Eu conseguia ver as
veias em seu pescoço e em sua testa nítidas. Ele também precisava de alívio.
Desci as mãos pelo meu corpo, cogitando me masturbar, mas não. Damian
não permitiu e as segurou acima da minha cabeça.
— Vai gozar hoje por minha causa, apenas. — Ele não parou de se mexer.
Mordiscou meu ponto de pulsação no pescoço. — Não vai se tocar. Nem
quando eu te chupar devagar... — Ele fazia um esforço absurdo para
conseguir falar. — Nem quando eu te foder forte, fundo, rápido e o sol
estiver nascendo...
Eu estava tão perto.
— Damian...
Tão perto.
— Vou mostrar quanto eu te amo.
— Amor...
— Isso. Repete.
— Amor...
Ele entrou mais forte e eu gemi, fechando os olhos. E de novo. E de novo.
Bale poderia me foder a noite toda e ainda seria insuficiente para matar toda
a saudade que eu tinha sentido.
Chamei seu nome. Implorei por mais. Repeti que o amava tantas vezes.
Até que a lucidez escapou do meu corpo.
Um gemido alto me escapou e Damian me beijou antes que eu acordasse a
casa inteira. Mordi o dorso da mão quando ele se afastou, arqueando o corpo
em sua direção, girando os quadris, buscando por mais e mais... Ele me deu
tudo o que eu precisava.
Minha visão escureceu, meus batimentos dispararam, meu sangue se
tornou lava sob a minha pele e eu realmente machuquei a mão com a mordida
que dei para não gritar. O orgasmo avassalou cada pedacinho do meu corpo,
me mostrou que o paraíso existia e era nós dois, nus, fodendo como animais.
Bale gozou ao mesmo tempo, seus músculos se enrijecendo conforme
xingava, segurando a cama com força para que seu peso não caisse sobre o
meu corpo. Mas seus braços cederam e eu empurrei o seu peito, gemendo,
sensível, ainda sentindo-o dentro de mim. Bale deitou a cabeça no meu
ombro e eu respirei fundo, olhando para o teto, deixando os meus sentidos
retornarem aos poucos.
— Verdade ou consequência? — Damian perguntou.
Eu gargalhei e ele também, estremecendo contra o meu corpo.
Definitivamente não éramos comuns.
— Verdade — falei, ainda rindo. — Pelo amor de Deus, me dê um tempo
para me recompor.
Ele se ergueu levemente, com um sorriso infantil. Mas foi ele quem me
disse a sua verdade:
— Eu amo você, sweetheart.
Afundei a cabeça no travesseiro, preguiçosa, envolvendo Damian pelo
pescoço; amando com força a sorte que tínhamos de termos encontrado um
ao outro.
— Eu amo você, novato.

— Seus ciúmes do Leo foi engraçado — provoquei, sonolenta. O sol


estava nascendo e o quarto assumia um tom alaranjado. Damian contornou a
tatuagem em minha cintura, deitado ao meu lado.
— Engraçado porque não foi você que sentiu. Mas agora não tenho por
que ter ciúmes. — Mordeu o lóbulo da minha orelha, puxando-me para si. —
Tenho a minha mulher de volta. E eu não quero ouvir o nome de outro homem
na minha cama.
— É? — questionei, o provocando. — Ainda diz que não é ciumento.
— E não sou!
Cerrei os olhos. Damian abriu um sorriso travesso.
— Se eu falar de outra garota aqui na cama...
— Não ouse!
— Está vendo?! — ele provou o seu ponto. Ainda assim, o contrariei uma
última vez:
— Não precisava ter medo do Leo, porque ele não tinha isso... — Apertei
a sua bunda. Nossa, tinha sentido falta disso! Assim que ele levantasse
daquela cama, eu a acertaria em cheio.
— Ele não tinha bunda? Coitado...
— Ele tinha bunda demais. E esse é o problema, amor... Eu gosto da sua
bunda minúscula. — O beijei brevemente. — Só dela.
— Ugh, você elogia a minha bunda minúscula e é o meu pau que fica feliz,
acredita? — Ri e ele encheu o meu pescoço de beijos. — Mas eu te entendo.
— Espalmou a minha bunda, a trazendo ainda mais para perto. — Ficar sem
você e essa preciosidade não faz sentido.
Sorri, meu indicador contornando a sua clavícula, até chegar no pingente
de ouro da sua corrente. O número oito estava ali. O contorno como o
infinito no meu colar.
Era um momento tão simples e ainda assim tão íntimo, tão nosso... Sua
pele e minha pele formavam a nossa casa. Damian e eu, nus na cama,
conversando com uma leveza impressionante, depois de passarmos a
madrugada nos amando. E, ainda assim, por mais comum que parecesse
aquela cena, ela me impactou de verdade.
Percebi que o amaria mais a cada respiração. A cada suspiro que
roubasse, gemido sujo, beijo, toque... Eu o amaria do modo mais impuro
possível. E no dia seguinte, amaria seu rosto amassado contra o travesseiro,
sua preguiça e mau humor. Eu amaria cada nota que tocasse em sua guitarra,
cada verso que declarasse para mim. Suas manias, seus sorrisos, até mesmo
suas lágrimas e, principalmente, seus defeitos. Dia após dia, sem medo.
Cairia por ele. Meu abismo favorito.
— Eu amo você — ele sussurrou. Olhou fundo dos meus olhos e roçou o
nariz contra o meu, então nossos lábios. — Todas as músicas que já escrevi
e que vou escrever, serão suas. Todo tipo de poesia que meus dois únicos
neurônios conseguirem criar será inspirada por você. Porque ser amado de
volta com tanta força pela mulher mais foda que já conheci... Eu sou a porra
do cara mais sortudo do mundo.
Tão lindo. Tão naturalmente lindo. E meu.
— Eu amo você, Damian Bale. Amo você e sua bundinha linda, e estou
ansiosa para ouvir todo tipo de poesia que estiver por trás disso aqui —
assegurei, arranhando o centro do seu peito, onde seu coração devia estar. —
Eu amo você. Eu amo você...
O beijei. E ele me fez gargalhar junto ao me jogar sobre os lençóis,
distribuindo beijos rápidos por todo o meu colo e pescoço.
— Amo você demais — garanti, o abraçando. — E estou com saudade
para matar, sabia? Porque... adivinha?! Eu amo você.
Ele apertou a minha bunda com vontade.
— Jura? Então prove.
Fácil assim, meu sono desapareceu. Eu o provei. E Damian Bale provou
que me amava de volta. Da melhor forma que sabíamos, tornando aquele
quarto o nosso universo, comandado por todas as mais belas leis de caos e
nosso desejo por mau comportamento.
Todos os motivos para darmos errado haviam evaporado. Enquanto
nossas mágoas e receios tinham encontrado um amargo e merecido fim, para
Damian e eu, aquele definitivamente era apenas nosso doce e impuro
começo.
Há caixas e mais caixas por todo o piso de madeira do cômodo vazio, o
cheiro de tinta é forte e eu realmente mal posso esperar para terminar a
nossa primeira casa.
Naomi está em cima de uma escada, usando uma calça jeans de lavagem
clara e cintura alta. A camisa vermelha quadriculada por cima de seu top
branco e sem alças é minha. Sua mão pequena e delicada empunha um pincel
grosso de tinta, que se arrasta pela parede do nosso apartamento. Estou
fazendo o mesmo, bem ao seu lado, tentando pintar dentro das linhas que ela
mesma desenhou. Colocamos uma música na caixa de som atrás de nós e o
prédio todo está ouvindo Locked Out Of Heaven no momento.
Espero que nossos vizinhos não nos odeiem. Somos o tipo de casal
irritantemente barulhento.
Consegui me formar há dois meses e antes disso já nos preparávamos para
o que estamos fazendo agora: a mudança. Foram dois anos, apenas, até que
eu conseguisse meu bacharelado de música. E agora estou decidindo se faço
mais algum curso complementar ou continuo me jogando no que já está
dando certo: a carreira como músico e, principalmente, compositor.
Há um ano, um dos meus covers finalmente viralizou. Era um em que eu
cantava Suck It And See, do Arctic Monkeys. Dava para me ver sorrindo
bobo para uma garota que entrara no quarto sem querer, e essa era
obviamente Naomi Carlson. É um dos meus vídeos favoritos.
Fato é que depois desse, os outros vídeos ganharam mais e mais
visibilidade. Então decidi postar mais gravações minhas, mas com minhas
composições. Carlson teve a ideia de gravar um video caseiro para uma
música minha, que viralizou mais do que qualquer coisa que já fiz. Melissa
gravou alguns momentos entre mim e Naomi num fim de semana e isso virou
um videoclipe. Me fez ganhar uma boa grana.
Tipo, boa mesmo.
Os números foram absurdos e eu cheguei a ficar um pouquinho conhecido,
principalmente em países que falam inglês, como Austrália e Inglaterra, mas
também alguns outros. Quer dizer, não sou nenhum Shawn Mendes, Bieber ou
The Weeknd da vida. Não tenho essa fama toda. Sou só mais um artista de
rock indie que deu alguma sorte. Não é como se eu fosse ficar milionário e
ganhar o mundo, mas tenho uma quantidade legal de streams e estou
recebendo o suficiente para investir no meu futuro, tentar ir mais longe.
E já fui bem longe, eu acho. Passei meus últimos meses ganhando bem em
pequenos shows em festivais, abrindo algumas apresentações importantes
por aqui; inclusive consegui abrir um show do The Neighbourhood. Foi
insano. Um sonho. Todos os meus amigos estavam lá. Mike e uma quase-
namorada, Melissa e o cara com quem ela estava saindo, Brandon e Gigi,
Oliver e Riley... A minha família também — e isso agora inclui Lia e
Madison, que estavam na primeira fila, tentando controlar uma Naomi
Carlson que berrava como nunca.
Foi muito importante ter as Carlsons comigo naquele momento. Eu nunca
esperei me tornar o tipo de cara que babava ovo da minha sogra para se dar
bem com a namorada, mas… Bem, aconteceu. E não é todo mundo que
consegue fazer uma arquiteta bem sucedida parar sua agenda lotada para usar
uma camisa “Fã do Damian Bale” no seu show. Lia estava bem, saudável
(física e psicologicamente falando) e acabou se tornando uma pessoa
importante para minha família. E Madison não era tão próxima dos Bales
quanto a mãe, porque estava sempre com sua agenda lotada como advogada
criminal. Ela vendeu boa parte das ações da Carlson’s, bem como a Naomi.
Ainda tinham uma porcentagem e algumas regalias, mas Maddie ouviu a
família e seguiu atrás dos seus sonhos, de cuidar de si mesma. Vincent não
conseguiu destruir aquela família no final de contas.
A única pessoa que não estava no show foi Elise, mas ela acabou indo em
alguns ensaios meus aqui em Sydney. Assim que Lis e Maddie se mostraram
fortes o suficiente, Elise veio morar nessa cidade e não em Brisbane. Ela
tem um restaurante a dois blocos daqui e mora num bairro bem próximo. A
visitamos quando podemos — para a felicidade da minha garota e do meu
estômago, porque ninguém na porra do mundo cozinha como aquela mulher.
Inclusive, a última vez que Lis e Naomi tiveram contato, ontem a noite, foi
para contar a fofoca de que Derek Meyers tinha sido preso em Camberra.
Havia cocaína no carro dele. De novo. Aparentemente não para consumo e
sim para venda. Dá para crer nesse cara? Ele deve disputar com o capeta
pelo posto de filho da puta. De qualquer modo, a família dele cansou de
passar pano e ele deve ficar preso. Pensar nisso me faz querer sorrir, e
espero que isso não me torne uma má pessoa. Digo, eu deveria querer que as
pessoas evoluíssem, mas se Meyers puder queimar no inferno, eu não
reclamaria e Naomi também não.
Enfim… Chorei como um bebê quando saí do palco do The
Neighbourhood, Carlson não parava de rir. Esse show me fez ter contato com
algumas bandas de indie rock e, por consequência, estou ganhando
consideravelmente bem com o que componho, porque é bem a vibe desse
pessoal.
Consigo sonhar com a possibilidade de ser um compositor importante. Ou
talvez um bom produtor pela Austrália. Sim... Obviamente quero continuar
tocando e me apresentando sempre que possivel. Tocar e cantar é parte de
mim. Mas percebi que sonho mais em ser um produtor musical no futuro,
consigo me imaginar perfeitamente nisso.
Às vezes penso que estou sonhando alto demais. E então Naomi me
garante que não, me fazendo ver o quanto é fodidamente surreal tudo o que
eu conquistei até aqui. E que, se eu quiser, "meus sonhos podem ser
objetivos e todos os objetivos existem para serem alcançados". Palavras
dela.
A minha namorada é genial, eu sei.
Seu curso acabará no próximo ano e ela está ponderando se aceita a
proposta da Katy para trabalhar com ela, como redatora em uma revista de
Moda. Katy está pensando em tomar um passo grande, comprar ações na
revista em que trabalha, e adoraria ter uma representante em Sydney. Sendo
sua própria chefe, ela teria mais tempo para cuidar da Miley ou viajar um
pouco mais, principalmente com o meu pai, ter um tempo pro casamento.
Mas apesar da proposta da minha madrasta ser uma posição interessante
para uma carreira iniciante, minha namorada conseguiu um estágio na Vogue
australiana há alguns meses e está considerando se manter nesse caminho
enquanto pode, ao mesmo tempo em que investe no seu único negócio atual:
a pequena loja que está formando com Eve, sua colega de curso. Elas
vendem as peças de roupa que desenham. São estilosas, casuais e não tão
caras. Nos fez descobrir que Carlson tem um grande talento para
empreendedorismo.
Obviamente. Além de gostosa, linda e deliciosamente má, a morena tem
um cérebro enorme. Inteligente para cacete.
Finalmente estamos firmes, sabe? O relacionamento à distância foi difícil
para caralho, mas nos amamos e superamos a saudade. Nós crescemos juntos
e individualmente como nunca nos últimos anos. Eu segui com a terapia,
tentando deixar a Megan para trás e… Bem, não é uma perda insignificante e
nunca vai ser, mas não é algo que me assombra mais. Do mesmo modo,
Carlson não sofre tanto quando alguém faz algum comentário maldoso sobre
seu passado online, o que, infelizmente, ainda acontece; e ainda visita a
psicóloga sempre que pode. Nem Vincent nem Derek a perseguem mais. O
sorriso na minha garota é genuíno na maior parte do tempo e eu sinto orgulho
para caralho dela por isso.
Olho para Naomi e a vejo morder a ponta da língua levemente,
extremamente concentrada em criar a arte do nosso pequeno estúdio. O
apartamento tem dois quartos pequenos, um banheiro, uma cozinha ligada à
sala e um escritório. Foi meio que presente dos nossos pais. A mãe da
Naomi se juntou com a construtora do meu pai e projetaram o prédio. Eles
fazem alguns projetos em conjunto há algum tempo, até mesmo fora de
Brightgate; e quando terminaram essa construção em Sydney, nos ofereceram
um dos apartamentos. Nós aceitamos, mas decidimos pagar mesmo assim,
aos poucos. Obviamente parcelas pequenas, porque não queremos começar
nossa vida juntos como um casal falido.
Estamos transformando o escritório em um estúdio para nós dois. Metade
dele será o lugar perfeito para a minha namorada criar o que quiser criar; a
outra metade será o lar das minhas guitarras e violões, meu espaço para
compor. Carlson desenhou na parede inteira. São notas musicais, guitarras,
desenhos de fitas... como um grande grafite em tons de preto e cinza.
A analiso, ainda tão concentrada na pintura. Até que ela percebe que ainda
estou encarando.
— Por que parou de pintar? — Naomi me pergunta em tom de cobrança.
Uma sobrancelha está erguida, tem uma pequena mancha de tinta branca do
lado da sua sobrancelha.
— Você faz essa cara engraçada pintando. É fofo! Roubou a minha
atenção, sweetheart. Não tenho culpa! Você é uma obra de arte, essa pintura
não chega aos seus pés.
— Minha pintura é feia?
— Não! Esplêndida. Mas você? — Forço um suspiro, me abanando.
Naomi ri de cima da escada e finge que vai me chutar. Me afasto. — Acha
que vamos terminar hoje?
Ela analisa a parede. Apenas metade está pintada. Acabei de perceber que
ela pintou dois olhares e parecem com os nossos. Um arrepio me percorre,
porque, apesar de cartunesco, o desenho é intenso e impressionante.
— Não... Amanhã talvez. Pelo menos esse é o único quarto que falta —
ela diz e eu me sinto verdadeiramente empolgado. Carlson cruza os braços
sobre o topo da escada. — Estamos morando juntos, novato, consegue
acreditar?! Temos um quarto nosso, uma cozinha nossa, uma sala...
— Temos um futuro juntos.
— Temos um futuro juntos — ela repete a minha fala, virando o rosto em
minha direção, amassando o sorriso contra os braços cruzados. — Posso te
dar uma dose de sinceridade completamente aleatória?
— Deve — respondo, fingindo que vou sujar a sua cintura.
— Hoje é um dos dias mais felizes que já vivi.
A sensação que toma o meu peito é tão incrível e intensa que eu tenho
vontade de gritar. Gritar para que todo mundo saiba que faço parte de um dos
dias mais felizes da minha sweetheart. Mas só sorrio, sentindo amor fazer o
meu coração aquecer para caralho.
— Está tudo dando certo — ela diz. — Digo, estou cansada, exausta...
Mas feliz. Você em Sydney, nós dois conseguindo construir carreiras que
podem não nos trazer uma chuva de dinheiro, mas é o que sonhamos.
Estamos dividindo nossos sonhos juntos... E, cacete, Damian, nossa casa,
lindo! Quem diria?!
Consigo sentir a empolgação na sua voz e um frio na barriga me toma.
Parece como mais um recomeço para nós dois. Um novo ciclo. Uma vida só
nossa. Olho para os seus olhos brilhantes. Ela infelizmente os desvia para a
parede, orgulhosa do próprio trabalho.
— Esse é só o começo — aviso. Naomi sorri e assente. — Vamos ter que
nos mudar quando nos casarmos, sabe?
— Jura?
— Com certeza, sweetheart. Quero uma casa, uma casa grande para os
nossos filhos. Com um jardim para a gente ensinar cada um a andar de
bicicleta.
O sorriso da minha garota cresce, ela não consegue me responder. Sinto
seu cansaço. Acho que já chega de pintura por hoje.
Passamos a manhã inteira fazendo isso e temos um show pela noite. Me
agacho e deixo meu pincel deitado sobre uma lata de tinta. Depois me
levanto novamente, fitando minhas mãos extremamente sujas de tinta.
— Senhorita Carlson, chega de arte — digo e Naomi se prepara para
descer as escadas, mas antes disso, posiciono as mãos sujas em sua cintura.
— Puta que pariu! Damian! — Ela me faz rir com sua irritação e eu a
abraço. Carlson grita de surpresa quando a tiro da escada à força. A giro e
deixo seus pés encostarem o chão, mordiscando o lóbulo da sua orelha. —
Filho da puta, que susto, eu... — Roubo um beijo e ela xinga contra a minha
boca. — Maldito! — E então seu pincel suja o meu pescoço.
Deixo o queixo cair.
— Não! Você não fez isso! — A solto e ela se afasta, virando-se para mim
e rindo. Uno as sobrancelhas numa promessa silenciosa e volto para o meu
pincel. — Então ainda quer pintar, é?
— Amor... Calma... — Ela recua sobre os jornais espalhados pelo piso,
rindo.
— Oh, sweetheart... Você pediu por isso.
E quando eu avanço em sua direção, Naomi recua, apontando o pincel
como uma espada. Ela suja meu pescoço de novo, sem querer, e eu sujo o
seu colo. Carlson pinta o meu rosto de modo vingativo e eu xingo. Antes que
eu retribua o favor, minha namorada corre para longe, saindo do cômodo.
Ela grita pelo corredor e pede para que eu pare antes mesmo que eu a
alcance e a suje novamente. Eu a abraço pela cintura com força, a tirando do
chão mais uma vez.
A guio até nossa sala parcialmente decorada. Algumas caixas estão
espalhadas pelo sofá e varanda.
— Vou me vingar, fique sabendo — aviso, a apertando ainda mais. Naomi
gargalha quando mordo seu ombro protegido pela minha camisa
quadriculada. Depois a coloco no chão e ela se vira para mim.
Seu sorriso brincalhão me hipnotiza e eu sinto meu coração acelerado por
toda a correria. E por ela. Carlson se aproveita do meu transe e pinta o meu
nariz lentamente. Fecho os olhos, xingando, escutando o seu riso arrastado.
— Se quer se vingar, pode se vingar amanhã — ela sugere. Abro os olhos
ao sentir seus braços ao redor do meu pescoço. — Porque acho que nos
sujamos o suficiente — ela sussurra. — Precisamos de um banho, sabe?
Tirar toda essa tinta...
Capto suas más intenções. Finjo refletir por um segundo e então passo as
mãos sob seu corpo, a fazendo gritar de surpresa ao pegá-la em meus braços.
— Adorei essa ideia!
— Jura? — ela pergunta, rindo.
— Juro.
E seus lábios alcançam os meus porque, olhando em seus olhos, não
consigo mais pensar em qualquer provocação. E eles me alcançam de novo.
E de novo. Até que levamos nossa bagunça ao banheiro. Até que ela me
beije, me toque, me torne ainda mais sujo e seu.
Naomi Carlson... Como definir Naomi Carlson?
Você poderia chamá-la de Poison, mas seria antiquado.
Poderia chamá-la de linda, mas isso seria raso.
Eu prefiro chamá-la de sweetheart. Hoje e sempre. Por todos os dias das
nossas vidas.
Farei isso. E isso é uma promessa.
“Eu já te amo há três verões, querido,
mas eu quero todos eles
Posso ir aonde você vai?
Podemos ser próximos assim para todo o sempre?”
Lover, Taylor Swift

Pedalando o mais rápido possível, escuto Bale gritar um palavrão que faz
algumas pessoas da rua nos olharem estranho. Gargalho, feliz por ultrapassá-
lo e desviando de outro ciclista na orla. Segurando o guidão com força, eu
ergo só um pouco o corpo, respirando ar puro sob o sol da costa australiana,
cada energia que ele emana dourando a minha pele coberta apenas pelo
biquíni e shorts. Sorrindo para cacete.
A sensação é de liberdade.
Eu sei, eu sei… Liberdade com algo tão simples quanto andar de
bicicleta, certo? Mas é o que é: eu me sinto livre. Sorrindo como uma
criança, consciente de que meus olhos provavelmente brilham mais do que o
sol apenas por poder pedalar.
Às vezes, só percebemos a beleza nas coisas simples quando nos
privamos delas por tanto tempo.
Eu demorei quase vinte anos para aprender a andar de bicicleta. Assisti
pais ensinando filhos a fazerem isso, tentei sozinha e perdi pro meu próprio
medo, acabei por desistir; mas o inglesinho — esse lutando para me
alcançar — conseguiu o improvável. Ele me ensinou isso. E eu descobri que
há algo tão gratificante depois de tantas quedas, corpo ralado, suor e
lágrimas: o vento soprando meus cabelos, a vontade de rir enquanto as
pessoas se tornam borrões pela velocidade, perceber que eu fui capaz de
aprender isso e sou capaz de fazer isso sozinha. Sem ninguém para me
segurar, sem temer.
Parece um pouco com a minha vida. A luta, a dor e a recompensa. Nessa
ordem.
Ok, Naomi, pare de viajar pensando em bicicletas e metáforas!
Talvez todos aqueles livros que Melissa Wayne me indica estejam
mexendo com meus neurônios mais do que deveriam.
Bale me alcança — porque eu permito — e reduzo a velocidade, ficando
ao seu lado. Exibido, ele vê um skate abandonado na rua e não desvia.
Admiro suas costas nuas quando me ultrapassa, o suor brilhando pela sua
pele, tornando a visão quase indecente. Damian pula o obstáculo com a
bicicleta antes de virarmos para acompanharmos a rua do litoral de
Brightgate.
Damie abre o tipo de sorriso de orelha a orelha que faz as borboletas na
minha barriga derreterem. Meu coração se enche de felicidade e eu mordo a
curva na minha boca. Ainda pareço a mesma garota apaixonada de pouco
mais de dois anos atrás.
Estacionamos as bicicletas no píer e as prendemos com as demais. Tiro a
minha bolsa de praia do guidão e Bale me envolve por trás. Ele beija o meu
pescoço quando pisamos na areia quente e fofa. É nosso último dia em
Brightgate. Viemos para cá depois do nosso primeiro Natal morando juntos,
para uma ceia com nossas famílias. Foi a oportunidade perfeita para
Meredith apresentar melhor o seu noivo, Andrew, e para ver Damian Bale
dançando Shakira na frente de todo mundo. Agora estamos aproveitando as
nossas últimas vinte e quatro horas na minha cidade natal antes de voltarmos
para Sydney. Aproveitando como podemos.
Admiro o mar quando escolhemos um lugar na praia relativamente cheia.
Eu gosto das praias de Sydney, mas nada chega perto desse lugar. É
paradisíaco. O mar azul-esverdeado é claro, a água cristalina. A cada
segundo que as ondas tocam a areia, eu me sinto em casa. Acho que posso
sair de Brightgate, mas Brightgate nunca sairá de mim.
— Está cada vez melhor — Bale me tira do transe com um elogio,
jogando minha toalha de praia no chão. Tombo a cabeça pro lado e dou meu
melhor sorriso, o que geralmente o faz corar e perder a pose de falso bad
boy. — Pensei que explodiria meus pulmões tentando te passar.
— Não explodiu? — debocho, murchando os lábios. Bale rola os olhos e
se joga na toalha antes de mim. Eu me sento ao seu lado, ajeitando a
tornozeleira que ele me deu no Natal do ano passado, ainda pensando no
presente que não recebi esse ano, e então tiro os shorts. Sim, amor, sinto
muito bem seu olhar devorando minhas pernas, obrigada. — Agora que sei
andar de bicicleta, você sempre vai ter que lutar para me alcançar, novato.
— Adoro uma boa competição, sweetheart. — Ele pisca. —
Principalmente se for com você.
Não consigo resistir e seguro seu rosto, as bochechas amassadas contra
meu polegar e indicador e o bico em seus lábios rosados me propiciando um
selinho doce e outro e outro… Damian Bale é meu. E eu me permito ser
melosa por um segundo ou dois, porque sou sortuda para caralho por ter ele.
Ele me faz sentir que isso — nós — é para sempre. Porque… Quer saber?
É para sempre. Foda-se se somos novos e muitos nos dirão que não sabemos
porra nenhuma sobre a vida. Damian Bale e Naomi Carlson tem todo um
caminho para seguirem juntos até a linha final e para trás dela. Porque se
houver outras vidas, outras realidades, outras chance de sermos sweetheart e
novato; nós seremos eternos em cada oportunidade. Juntos.
Só ele me faz ter esses pensamentos. Super melosos e dignos dos filmes
que minha Batman assiste ou os livros que ela me faz engolir. Só Bale me faz
sentir que ensinarei nossos filhos (e netos, se eu for do tipo de velhinha
conservada, plastificada e cheia de energia) a andarem de bicicleta.
Damian Bale me faz sonhar com uma família feliz nossa e apenas nossa.
— Protetor! — aviso e ele se senta imediatamente.
Sorrio, porque Bale não reclama mais depois de todas as insolações e
vezes que eu tive que colocar cremes, água gelada ou soprar sua pele
branquela, sensível e vermelha como fogo (tão quente quanto). Damian sabe
muito bem que não se bronzeia como eu e, nada secretamente, ama quando
cuido dele e minhas mãos tocam seu corpo.
Depois de proteger suas costas, ombros, braços, peito e o tanquinho que
me faz sorrir com maldade, me ajoelho com as pernas ao lado do seu corpo e
aplico o creme em seu rosto. As bochechas já estão um pouco rosadas e eu
acho ridiculamente fofo como apoia as mãos na toalha e tomba a cabeça para
trás, me admirando em uma tarefa tão simples.
— O quê? — pergunto, tentando soar indiferente. Seu sorriso só cresce.
— Seus olhos são da cor do mar no momento. Só estou decidindo em qual
eu prefiro mergulhar.
— Uhhhh… Dá uma letra perfeita, clichê e sensacional! Deveria anotar
isso. — Espalho o creme em sua testa. — Para não esquecer.
— Não vou esquecer enquanto me olhar desse jeito. — Borboletas
explodindo. Na minha barriga. Parece que Bale as cria e as derrete como
açúcar no mesmo segundo. Constantemente.
— Não precisa me cantar, lindo. Já namoro você. — Torço para não estar
corando muito.
— Te cantar é o que eu faço de melhor, linda.
— Você e suas cantadas baratas.
— Você e seu sorriso bobo para todas elas! — Bale segura meus pulsos e
os passa por cima dos seus ombros, para suas costas. Eu cruzo meus
calcanhares atrás do seu corpo, confortável demais contra ele.
É sua vez de passar protetor e bronzeador em mim, mas ele adia um pouco
isso ao roçar o nariz no meu e acariciar a minha cintura. Movo uma mecha
de cabelo para trás da sua orelha, o admirando melhor. Ele tomba a cabeça
para o lado, ridiculamente fofo e sexy ao mesmo tempo.
— Me diga algo real — me pede e eu franzo o cenho, confusa. Bale toca
o símbolo do infinito no meu colar, o desenho como o oito no seu. Seu dedo
roça perigosamente no vale entre meus seios e então ergue o meu queixo. —
Ou me diga sua melhor cantada barata. Me diga qualquer coisa, Naomi
Carlson!
Meu coração dispara e eu cerro os olhos, me perguntando onde ele quer ir
com isso.
— É que você no meu colo parece uma obra de arte que preciso pintar em
palavras e cantar pro mundo — ele explica. — Mas quero algo que tenha
saído de você para isso.
— Sou sua co-compositora agora? — entro em sua brincadeira,
acariciando o cabelo no fim da sua nuca e ele ri, confirmando. Me sento
mais próxima de seu torso, o abraçando pelo pescoço. — Eu não sou boa
com palavras, Damie. Gastei tudo o que eu tinha com aquele “depois de
mim, está você” — cantarolo, rindo, mas ele não acha graça. Seus olhos
carregam uma intensidade impressionante e eu perco a respiração por um
momento.
— Então diga.
O modo como seus olhos parecem uma tempestade, mas não me assusta…
O tom cinzento tão discretamente azulado que é quase imperceptível, mas tão
vivo e gostoso de analisar. As bordas levemente mais escuras, as pupilas
dilatadas porque ama me ver, o brilho que qualquer estrela invejaria… Os
olhos de Damian Bale são uma obra de arte.
— Depois de mim, está você.
Ele me beija. Seus lábios alcançam os meus com uma delicadeza e doçura
que só nossas almas conhecem. Uma mistura leve que veio de um casal que
viveu o inferno para construir um paraíso imperfeito e único, junto.
— Depois de você, ninguém — acrescento, porque não consigo me ver me
apaixonando por qualquer outra pessoa. Porque Bale parece a linha de
chegada para o meu coração cansado. E talvez sentindo isso, ele me beija só
mais uma vez, brevemente.
— Minha, huh?
— Oh, sim! Naomi Carlson é sua, Damian Bale.
Damie sorri contra a minha boca. Seu riso reverbera contra os meus
lábios, felicidade genuína ecoando, tornando os sons das ondas não tão bons
como eu sempre pensei que fossem.
— E ainda me fala que não sabe o que dizer. Mentirosa!
— Talvez você me inspire também.
— Talvez?
— Um pouquinho — confesso e franzo o nariz, provocando. — Só um
pouco!
Ele me joga na toalha e eu gargalho, pelo movimento e seus beijos e
cócegas. Por toda a alegria que finalmente conquistamos.
Esse é nosso paraíso imperfeito. Real. Nosso. E ainda parece apenas o
começo.

Bale rola os olhos e desce os óculos escuros para a base do nariz


enquanto dirigimos para Sydney.
— Baby, you got lucky cause you’re rockin with the best and I’m greedy
— eu canto, alto, dirigindo com uma mão enquanto o indicador da outra
balança com a batida da música. Damie está claramente tentando não rir,
vento chocando contra nós dois pelo teto aberto do Corvette. — So greedy…
Agora, agora! A melhor parte — eu provoco, porque ele definitivamente não
queria ouvir Ariana Grande na volta para casa. Giro o indicador, como se
ele controlasse o ritmo da música. — Greedy, I’m greedy, I’m greedy for
love...
— Exibida — ele cantarola, antes da parte que eu mais amo. Eu danço
dirigindo, voltando a cantar o refrão sem errar uma nota sequer. Nenhuma
nota longa, alta, baixa, o que for. Nem a high note exagerada. — Exibida
para caralho.
— Posso te dar umas aulas de canto se quiser.
Ele estapeia minha coxa e eu grito, ofego e quase gemo ao mesmo tempo.
Belisco sua coxa e ele afasta a perna, gargalhando. Eu amo isso. Sua
gargalhada, nossa implicância e como isso não se desgasta nem um pouco.
Assim que estacionando o carro na garagem do prédio em Sydney, ligo
para a minha mãe para avisar que chegamos e Bale tira as malas do fundo do
carro. Roubo seus óculos escuros e os levo para cima da cabeça, apenas
para irritá-lo, mas Damie não esboça nenhuma reação senão um meio
sorriso. Ainda estou na chamada quando chegamos em casa e as decorações
de Natal ainda estão por toda a sala. O que me faz parar e olhar para Bale.
Ele me disse que o presente de Natal chegaria depois da nossa viagem. Eu
o dei um disco autografado do Arctic Monkeys. Tudo que recebi foi um
beijo. E garanti que não precisava receber nada em troca e que entendia se
tivesse esquecido, mas Bale me garantiu de volta que não esquecera. Até
agora, entretanto, nada. Tem um presente, certo?
— Vou tomar banho. Vai comigo? — ele diz, como se não percebesse a
interrogação gigante que deve pairar na minha cara.
— Hmm? Sim. Sim. Vai lá que eu já te sigo. — Ele beija minha testa,
fecha a porta do apartamento e eu cerro os olhos.
Será que ele escondeu o presente em algum lugar?
Olho ao redor, tirando as sandálias. Coloco os óculos escuros, antes sobre
a cabeça, no sofá. Escuto a água do chuveiro caindo e assobio uma música
qualquer até a cozinha, abrindo os armários. Nada. Olho nas gavetas da sala,
mas nada. Então me aproximo da árvore de Natal. Me ajoelho e depois deito
no chão, tentando ver sob ela. Forço a visão e quase espirro. Inferno, o
apartamento definitivamente precisa de uma faxina e…
Escuto alguém pigarrear atrás de mim.
— Sweetheart?!
Levanto a cabeça e ela se bate contra a árvore, que quase despenca contra
a parede. Esfrego a testa e sorrio de orelha a orelha, fingindo que não fazia
nada.
— Oi, amor!
Bale cerra os olhos para mim, coloca as mãos na cintura e me analisa por
longos, quase infinitos segundos.
— Eu disse que seria depois do Natal.
Não consigo negar o que estava fazendo e bufo exasperadamente, frustrada
para cacete.
— Eu sei, eu sei… Mas quanto tempo depois?!
— Não agora!
— Mas estamos quase no ano novo!
— Naomi…
— Esqueceu do meu presente, não foi?
Bale ri baixinho, como se fosse uma piada muito boa. Mas eu não acho
graça e desvio o olhar, me dando conta de que… Nossa, ok, estou um
pouquinho decepcionada.
Amo Natal. Sou obcecada por ele, na verdade. Lutei para conseguir o
disco autografado do Arctic Monkeys. Eu faço de tudo por todo presente de
fim de ano, para qualquer um que eu amo. Eu queria que Bale fizesse o
mesmo comigo e… Isso soa bobo. Não vou cobrar por um presente. Damie
me ama, um presente é algo pequeno perto do que ele me dá todos os dias
e…
Um beijo na minha testa e os pensamentos se dissipam. Bale se agacha e
acaricia meu rosto. Seus polegares contornam minha mandíbula com
suavidade e eu ergo os olhos para os seus, vendo amor em cada pedacinho
de suas írises acinzentadas.
— Confie em mim, linda. Nunca esqueci nenhuma data. Nunca vou
esquecer nada sobre você. Confia nisso?
Murmuro uma confirmação e seu sorriso se torna travesso, doce e sutil ao
mesmo tempo. Me acalma num piscar de olhos, me derrete em instantes.
Consigo ouvir seus pensamentos: “você é fofa para caralho, sweetheart”.
Me faz querer revirar os olhos. Me faz querer beijá-lo para sempre.
— Mais uma semana, Naomi — Damian promete, baixo. — E vou te dar
algo que sempre quis e vai tornar essa casa a melhor coisa do mundo. Vou te
dar algo para tornar a casa Carlson-Bale a melhor de todos os tempos.
Nossa pequena família.
Eu mordo o cantinho da boca.
— Ok. Uma semana.
Uma semana. O que ele pode me dar em uma semana?

Estou trabalhando na loja. A MBH está agitada nesse início de ano e


minha sócia, Eve, ainda está de férias. Então eu estou sozinha administrando
as funcionárias, subindo ocasionalmente para nossa sala de criação e
rabiscando os croquis, analisando os tecidos, anotando sobre pedidos e
alterando nosso planejamento. Daria tudo para poder me debruçar nos
manequins, máquina de costura e construir algo meu hoje, mas o andar de
baixo me chama. Ou é apenas Adrianna, uma das vendedoras, berrando meu
nome.
Meu celular vibra enquanto corro escada abaixo, e eu atendo no meio do
caminho.
— Naomi Carlson falando.
— Damian Bale ao seu dispor, sweetheart — ele força uma voz baixa e
rouca que me faz sorrir como o gato de Cheshire. — Só checando, que horas
sai do trabalho hoje?
— Em meia hora. Logo depois do almoço. A loja fecha mais cedo na
primeira semana do ano. Por quê?
— Tive um imprevisto com seu presente de Natal super mega atrasado,
mas vai entender quando vê-lo. Espero que goste porque… — Ele ri e eu me
vejo ainda mais curiosa, parando atrás do caixa e prendendo o celular entre
o ombro e a orelha ao analisar uma das peças que minha funcionária me
entrega. Ela sinaliza algo sobre pedirem um tamanho maior. — Porque eu
meio que já o amo.
— Ama o meu presente?! Comprou ele para mim ou para você? —
respondo meu namorado, ouvindo-o dar sua risada mais gostosa e pegando o
vestido preto sobre a bancada para procurar outro tamanho na sala escada
acima.
— Não comprei. E é para nós dois. Mas mais para você! Toque a
campainha quando chegar em casa, não abra a porta. É uma surpresa.
Meu estômago se contorce em ansiedade e eu esqueço do trabalho por um
momento. Ugh, Damian Bale… Ele ainda vai me matar um dia.
Desligo a chamada, dizendo que preciso trabalhar, mas logo outra ligação
surge. Equilibrando o celular entre o ombro e a cabeça, eu converso com
Elise enquanto busco pela maldita peça de roupa para a cliente. Bale e eu
tínhamos prometido que a visitaríamos no seu restaurante essa semana. Ela
mora aqui agora, com o filho e o novo namorado. Eu confirmo e garanto que
trarei a mamãe e Maddie também. Digo, a minha mãe vai ter que remarcar
sua sessão com a psicóloga, mas ela me disse que tudo bem. Maddie
desmarcou uma reunião da empresa no fim de semana, então nós três estamos
livres. Soa como uma boa viagem para as Carlsons e Bale vai parar de me
encher o saco sobre a lasanha da Lis.
Quando finalmente resolvo o pedido da cliente e de outras dez, é hora de
voltar para casa e descobrir o que Damian Bale está aprontando.
Toco a campainha, nervosa. Muito nervosa.
Ele disse que eu não posso abrir o apartamento e eu tenho medo que
Damie tenha o destruído de alguma forma.
Minha vizinha para logo atrás de mim e franze o cenho, provavelmente se
perguntando se eu esqueci a chave. Mas algo metálico chacoalha entre meus
dedos e eu percebo que a chave está em minha mão e ela vê isso. Então deve
achar que eu sou louca. Eu rio, nervosa, porque se Damian Bale não abrir
essa porta… Bom, eu ficarei bem doida.
Mas ele abre a porta. Com um gorro de Natal fora de época e um sorriso
enorme que deixa minha mente nublada até eu olhar para baixo. Derrubo a
chave no chão.
Meu coração se contorce, comprime, expande, explode e para ao mesmo
tempo. São várias sensações em um só segundo e meus ombros caem com a
cena ridiculamente fofa, eu me derreto em um piscar de olhos. Nunca vou
apagar isso da mente: um pequeno felino esfregando a cabeça no peito do
meu namorado, tentando se livrar do pequeno gorro de natal e arranhando o
suéter vermelho de Bale.
O gato é cinza escuro e o que me chama atenção, de imediato, são seus
olhos. Um deles é azul como o meu. Vivo, intenso, como o mar. O outro é
cinza. Opaco. Ele é claramente cego de um olho.
Quem fez isso com um bichinho tão fofo?
Eu me aproximo, incerta, roçando o dedo em seu rosto e o animal para,
olha para mim e me assiste com curiosidade. Eu o seguro sem pensar duas
vezes e ele se agita, me fazendo perceber meu erro.
— Ei, ei, calma! — sussurro, porque mia assustado e quase arranha o meu
rosto. Meu coração dói com a ideia de que pode estar com medo de ser
machucado, porque sinto que já fizeram isso com ele antes. Bale se
aproxima, preocupado, mas eu ergo as sobrancelhas e olho fixamente para o
gato, paciente, ninando-o como um bebê. E funciona. — Isso. Calma! Sem
medo. Sem medo. Isso! Pronto, vê? Não vou te machucar, lindo.
Eu não quero largar esse animal nunca. Não até ele se sentir seguro.
— Feliz Natal! — Bale diz, mas eu nem consigo olhar para ele. Estou
obcecada com o gato que me observa de volta. Vidrada. Talvez obcecada
demais. Ele é lindo. — Eu ia adotar outro, estava esperando que os filhotes
de um cara que trabalha comigo no estúdio nascessem. A esposa dele tem um
abrigo, mas… O filhote que seria nosso morreu e eu não queria não te dar
um de presente, porque você sempre quis um animalzinho, e quando eu
coloquei os olhos nesse, eu…
Eu o entendo. Porque, honestamente, não tenho palavras. O modo como
gato me olha, é como se me reconhecesse. Como se tivesse nascido para ser
nosso.
— Ele tem seis meses — Bale conta, se aproximando para acariciar o
novo membro da nossa família. Meu coração ainda está em disparada, eu
não consigo crer no que seguro. Tão pequeno, tão precioso… Tão incrível!
— Qual o nome dele?
— Essa é uma pergunta pra você, sweetheart. — Observo Bale e acaricio
a cabeça do gato, finalmente me dando conta de que preciso entrar em casa.
Damie recolhe a chave que deixei cair e fecha a porta do apartamento. Eu
me sento sobre o tapete e trago o felino para perto de mim, consciente de que
ele pode arranhar todo o meu rosto. Mas ele não faz isso. Ele esfrega o
focinho no meu ombro e… se acalma.
— Chamavam ele de Drew, mas o gato nunca respondeu muito bem e…
— O que fizeram com ele? — Ergo os olhos para Damie, com medo de
ouvir a resposta, mas precisando saber. Damie sorri fraco e se ajoelha à
minha frente. — Ele não nasceu assim, nasceu?
— O encontraram nas ruas. Espancado. O abrigo o recolheu com o corpo
ferido. O olho direito estava muito machucado e não conseguiram salvar a
visão… — Meu coração aperta imediatamente. Meus olhos ardem,
lacrimejam, e eu odeio o mundo por um momento por ser tão cruel, tão
perverso. — Mas ele está seguro com a gente, certo?
Minha resposta é olhar pro felino, que esfrega a cabeça no meu peito e
toca a corrente do infinito no vale entre os meus seios. Como se sentisse meu
coração aflito. Como se o acalmasse. E mesmo que suas unhas arranhem um
pouco, eu não ligo.
Ele é um guerreiro como o papai dele. Como eu fui. Ele é nosso. Nosso
pequeno filho. Em segundos eu senti isso.
— É… Ele está seguro com a gente — garanto, baixinho. O gato ergue o
olhar para mim e eu beijo sua testa. — Eu sou a Naomi e o babaca aqui perto
é o Damie. Você está seguro com a gente.
Troco um olhar com Bale e seus olhos estão brilhando como nunca.
Gargalhamos juntos, ao mesmo tempo, mas sinto que ambos queremos
chorar. Porque ele tem razão, esse é o melhor presente! É o início da nossa
família. Nosso pequeno e primeiro bebê.
— Dior — chamo baixo. — Você vai se chamar Dior. Pode ser?
O gato lambe meu rosto. Minhas bochechas doem de tanto que eu sorrio.
Acho que ele gostou. Dior. Dior será.

Como nas últimas semanas, Dior mia a noite toda.


Bale bufa, cansado, mas não reclama mais. Eu me levanto da cama,
sonolenta, ligando pelo menos o abajur do quarto dessa vez. Dior para de
miar imediatamente e eu já entendi que, seja lá quem o machucava,
provavelmente fazia isso no escuro.
Eu me agacho em frente à cama perto de onde ele está e beijo sua testa,
sussurrando o mais baixo possível:
— Os covardes se escondem para ferir nas sombras. Eles não vão mais te
machucar. — Entrego meu dedo e Dior o mordisca. — Não tem espaço para
covardes na nossa família, Dior. Você é forte. É nosso pequeno guerreirinho.
E está seguro conosco.
Os lençóis farfalham e eu vejo Bale se sentando, sem camisa, com o
cabelo bagunçado e apoiando as mãos atrás de si, na cama.
— Você me faz pensar que gatos falam a língua humana, porque o filho da
puta te entende.
— Está me chamando de…? — pergunto, ultrajada, e forço os olhos,
olhando para o Dior. — Ouviu o seu pai? Ele me chamou de p-u-t-a. Nunca
repita isso, Dior!
— Agora está exagerando pedindo para um gato nunca falar — Bale diz,
rindo. E estou mesmo. Estou levando isso de mamãe e papai bem longe. Mas
é como me sinto. Cuidando do Dior, ele é nosso bebê agora.
Volto para a cama e Bale me envolve pela cintura. Dior se acomoda entre
nós dois.
— Acha que somos mesmo os papais dele? — Damie pergunta.
Acaricio a cintura do meu namorado, o trazendo para perto e beijando sua
mandíbula. A aspereza me diz que sua barba rala está quase nascendo. Bale
sempre a faz. Ele prefere a pele lisa. Eu gosto como for. Não é como se não
amasse inspirar seu perfume misturado ao cheiro da loção pós-barba.
— Somos o que quisermos ser, Damian Bale.
Juro escutá-lo sorrir perto do meu ouvido e um arrepio suave percorre a
minha nuca em reação. Damian me beija. Devagar, me provocando com
leveza, me fazendo amolecer em seus braços. Eu o envolvo, mais
confortável, me sentindo mais em casa do que nunca.
— Papais do Dior então — ele sopra e eu rio baixo, unindo a boca à sua
até que um rabo atinge nossos rostos e nós tossimos ao mesmo tempo. —
Bola de pelo! — Bale ralha limpando a boca e eu gargalho alto. — Gato
maldito!
— Damie! — reclamo. — Não fala assim!
— Desculpa. Mas, por Deus, ele precisa se acostumar a ficar fora da
cama porque, um: não quero engolir pelo de gato; dois: vou querer transar e
dar irmãos para ele em algum momento da vida. — Eu bato no seu peito, mas
Damian ri e me leva mais para si, mesmo com Dior entre nós dois.
Quando nos abraçamos, com o nosso pequeno gato se espreguiçando,
confortável entre a gente, tudo parece certo. Tudo parece mais completo.
— A gente pode pedalar com o Dior? — Meu pensamento aleatório faz
Bale rir alto.
— A gente pode tentar…? — Sua afirmação tem um quê de pergunta.
— Ok! — Fecho os olhos, tentando me acostumar a dormir de luzes
acesas. Só um pouco. Só até o Dior se acostumar.
— Boa noite, sweetheart. — Consigo ouvir o sorriso na voz de Bale.
— Boa noite, novato.
Dior mia e nós rimos ao mesmo tempo.
— Boa noite, Dior — Bale e eu dizemos em uníssono.
Sorrindo, percebo que é isso. Essa é a nossa família. Nós três. E nada,
nada nunca vai ser melhor do que ela.
“É como respirar, falar
Quando nos tocamos, como uma força da natureza”
Natural, ZAYN

Eu os assisto de longe, sem querer interromper a conexão entre eles.


Naomi parece feliz enquanto Dior mordisca seu dedo, segurando-o com as
duas patas dianteiras. Não consigo prender um sorriso, ainda impactado
pela beleza de uma cena tão simples.
Faz mais ou menos dois anos que Dior entrou na nossa vida. Alguém o
maltratou feio e o nosso bebê teve sorte de ter sido encontrado por pessoas
realmente boas, por ter recebido a assistência necessária. Ainda lembro de
seu olhar assombrado quando me viu pela primeira vez e das marcas de suas
garras pelos meus braços, me forçando a usar um suéter grosso por toda
nossa primeira semana juntos. Eu o segurava com cuidado, ele ainda assim
tremia. Até ir para os braços da mãe.
Quando Carlson segurou Dior pela primeira vez, tudo mudou. Parecia
tão... certo. Estar com ele é certo.
Dior tinha seis meses, apenas, quando nos conhecemos. E já era o nosso
guerreiro favorito.
Ele rola no tapete da sala, cansado de brincar com o dedo dela, apenas
para escalar seu colo e ficar sobre ele, como se Naomi fosse uma cama e
não uma humana.
— É, cara, você realmente roubou a minha garota — brinco, finalmente os
interrompendo. Carlson ergue os olhos azuis para mim, o delineado neles me
prendendo mais do que o habitual. O cheiro do seu perfume extremamente
gostoso faz com que inspirar seja mil vezes melhor. Eu me aproximo dos
dois com um sorriso maior do que a minha cara.
— O melhor presente que eu já recebi — minha namorada repete pela
milésima vez. Com a cara entre as suas mãos, Dior mia e me faz sorrir.
— Já fechei todo o apartamento — aviso. Meu coração aperta em deixar
Dior sozinho. Ele ainda estremece quando voltamos para casa, como se ficar
sem nós dois fosse um pesadelo. Vai demorar para que se acostume, eu acho.
— Vamos?
Dior mia e Naomi faz um biquinho.
— Sweetheart — cobro, apontando pro relógio no meu pulso. Ela bufa e
coloca Dior no chão, se pondo de pé. Os saltos dos seus coturnos ecoam
contra o tapete e eu a envolvo pela cintura, a admirando de cima a baixo. —
Cacete, Naomi Carlson...
Ela sorri com maldade. Nunca vou me cansar do calor gostoso na barriga
que ela me faz sentir sempre que me olha desse jeito, reagindo às minhas
palavras.
Naomi veste uma saia cintura alta e quadriculada sobre o suéter de
mangas compridas, branco. Ela me diria que é uma roupa comum, mas,
porra, Naomi Carlson desenhou o que ela veste, sabe? E fica gostosa para
caralho assim. Eu só não rasgaria esses tecidos e a foderia aqui mesmo
porque arruinaria seu trabalho e porque… Bem, estamos atrasados.
— O quê? — ela pergunta inocentemente. Duvido que não saiba que estou
babando por ela. Para caralho. Mas deixo claro:
— Linda, incrível, estilosa, gostosa. — Me aproximo, roçando o nariz em
seu pescoço. — Cheirosa para cacete... Está perfeita. É perfeita, sabia? Você
só melhora.
Ela passa os braços ao redor do meu pescoço.
— Uau! Por que essa chuva de elogios? — Naomi ergue uma sobrancelha.
A abraço mais firme, suspirando ao esquadrinhar todo o seu rosto. Ela
espalma minha camisa branca sob a jaqueta jeans.
— Porque te amo, sweetheart, e hoje é um dia especial — sussurro,
acariciando seu rosto. Seu sorriso dobra de tamanho, doce como poucas
pessoas já viram. — Me faz pensar em como tenho sorte de ter você.
Ela amolece em meus braços. Minha. E seus olhos dizem que me amam
antes que ela sussurre isso e una os lábios aos meus.
Hoje é o dia em que eu vou fazer meu primeiro ensaio para minha própria
turnê. Vai ser pequena, pela Austrália, mas é minha e apenas minha. Nada de
abrir shows para outras pessoas. Isso é sobre mim. Um passo importante na
minha carreira. Eu quero Naomi lá, assistindo. E ela sempre está comigo.
Hoje e sempre.
— Ugh… O meu coração explode só de pensar em como o meu novato vai
esmagar os palcos. Eu sei que vai! — Sua confiança me anima. Ela tomba a
cabeça pro lado, acaricia minha nuca devagar, depois orelha e rosto. Beijo
sua palma, sem tirar os olhos do seu rosto. — Também tenho sorte de ter
você, inglesinho. — Dior mia alto e eu franzo o nariz, apontando para o gato
que se espreguiça no tapete. — E em ter o Dior, claro!
— Ele é meio ciumento — sussurro como um segredo sujo e conquisto
uma gargalhada deliciosa.
— Puxou ao pai — ela responde no mesmo tom, dando de ombros. E eu a
beijo, a puxando para longe do apartamento, antes que o ciúmes do nosso
bichinho de estimação nos convença a esmagá-lo de abraços pelo resto da
noite e não sair de casa.

Com o pirulito no canto da boca, ela prende os fios num coque, jogada
sobre o sofá do grande estúdio, enquanto Danny, meu agente, conversa algo
com a banda e eu testo alguns acordes na guitarra.
Minha concentração some um pouquinho quando minha pele queima e eu
ergo os olhos para as írises azuis carregadas de luxúria, percorrendo os
dedos que se movem na minha guitarra. E então os braços, por onde as
mangas estão arregaçadas… Até mirarem no meu rosto sem piedade. Eu
sorrio, porque gosto de ser admirado assim. E porque há uma pontinha de
orgulho nessa malícia toda que me deixa em êxtase.
Ainda com o doce na boca, Carlson curva os lábios levemente pro lado
quando canto Misbehave, consciente de cada um de seus pensamentos
maldosos e sabendo exatamente onde imagina esses dedos. Ela sorri. Porque
esse é meu efeito sobre ela. Paro pra rir baixinho, desconcertado. Porque
esse é seu efeito sobre mim.
Acabamos por jantar tarde demais. Isso porque o ensaio se tornou mais
intenso e divertido, com a banda e eu convencendo minha garota a cantar
alguns covers ou minhas imitações de Jake Bugg entre músicas.
Não reclamo do quanto Carlson me faz pagar essa noite. Ela realmente
estava com fome. Eu não estava muito atrás. Como sempre, ela tentou pela
milésima fazer com que eu me entendesse com os hashis, mas eles ainda são
meus inimigos! Acabei por comer com talheres ou quando ela levantava a
comida para ele. Como um bebê, Naomi disse. E como um bebê, eu fingi
estar emburrado. Secretamente? Eu amo quando ela cuida de mim.
Foi um jantar tranquilo e comum. Conversamos muito sobre trabalho, por
conta do ensaio. Ela quis saber melhor sobre os meus planos e o que tinha
conversado com Danny Travis, meu agente, mais cedo. Mudei o assunto para
seus croquis e a nova coleção da sua loja, a MBH; porque amo ouvi-la falar
como a empresária que é. Ela me mostrou seus novos desenhos no celular e
eu ainda não entendo tanto sobre cortes ou estilos, mas fiquei impressionado.
Devo ter a elogiado mil vezes na mesa, até que rolasse os olhos e deixasse
aquele sorriso envergonhado escapar.
Fomos os últimos a sair do restaurante. Ela deixou bem claro que só
pensava em ir para casa, manter nosso gato longe do quarto e aproveitar um
bom vinho na cama. Até que roupas estivessem fora de cena. Mas propus
algo diferente.
Então aqui estamos, na praia. Seu corpo está entre minhas pernas, estamos
sentados sobre minha jaqueta e eu a protejo contra o leve frio da noite. Não
há ninguém à nossa volta e podemos aproveitar o cheiro do mar, as estrelas,
a lua e um ao outro. Seu perfume, seu calor, seu abraço... É quase como um
pedaço do paraíso me mantendo firme e completo. Vou morrer de saudades
disso quando a turnê começar.
— Sabe por que eu quis te trazer aqui? — questiono e ela nega, buscando
pelo meu rosto. As sombras da noite predominam no ambiente, mas consigo
ver alguns detalhes dela por conta da lua e dos poucos postes pela orla. Os
olhos azuis refletem muitas das estrelas de hoje. — Eu precisava disso. De
um momento de calmaria só nosso.
Vejo um pouco de melancolia em seu sorriso de canto. A ideia de uma
turnê e de nos mantermos longe às vezes incomoda. Beijo sua testa em
consolo. Ela se acomoda mais entre meus braços, os acariciando em torno da
sua cintura.
— E também senti essa necessidade absurda de te trazer para a praia. Te
sinto cansada às vezes, precisa desacelerar.
Outro dia a busquei no trabalho, porque sua funcionária achava que ela
estava cansada demais para dirigir. Era verdade. Porque Carlson dormiu no
elevador do nosso prédio, antes que chegássemos ao apartamento.
— Você realmente me conhece — confessou em um sussurro. Ela está
sempre virando noites com a sócia, Eve. A vejo esfregando as têmporas,
frustrada com o acúmulo de esboços de roupas nas lixeiras de casa ou com
os prazos para confeccionarem peças sob encomenda.
Ela me diz “Damie, a moda só é super fabulosa para quem assiste as
passarelas, sabe? Por trás dos panos, há muito trabalho duro e pesquisa”. Eu
vejo isso. Morro de orgulho da mulher trabalhadora e apaixonada que ela é.
Mas às vezes precisa de um puxão de orelha para reduzir a velocidade, não
exagerar.
— Sei como ama a areia, o mar... Até mesmo de noite. Senti que precisava
disso. É tipo um presente meu para você, esse momento.
Ela sorri e me beija. E de novo. E de novo.
— Você é o meu presente, Damian — garante. E então franze o nariz,
grunhindo. — Ugh... Você me transformou num clichê ambulante.
Uno meus lábios ao seus, a abraçando firme para que lembre que é seguro
e nada vergonhoso ser esse clichê comigo. Depois distribuo beijos rápidos
pelo seu ombro, pescoço, bochecha. Apoio o queixo na sua cabeça e ela
brinca com os nós dos meus dedos em torno do seu corpo. Quando seu
polegar roça no meu anelar, um pensamento me escapa com um sorriso:
— Vai ter um dia — começo, abaixando o rosto até sua boca roçar contra
o lóbulo da minha orelha —, muito em breve... Que o meu presente vai ser
um anel.
Ela retesa em meus braços e eu aperto delicadamente seu pulso, sentindo
o sangue fluindo em disparada por suas veias. Seu olhar se prende no meu,
sua respiração um pouco mais fora de controle. Ergo seu rosto lindo,
convicto de minhas palavras.
— Talvez da próxima vez, Naomi Carlson, meu presente vai ser me
entregar para você. Por completo.
— Não brinque com isso.
— Da próxima vez, Naomi, eu vou te fazer a minha mulher.
— Damian.
— Vou ficar de joelhos e te pedir para ser minha esposa.
Seus lábios se entreabrem em choque.
Sim, sweetheart, estou falando bem sério.
— Você é a mulher da minha vida. Logo depois de mim, está você.
Ninguém me apoia mais do que você, eu não me vejo lutando tanto por
nenhuma outra pessoa. E vai ser assim pra sempre, linda.
Seus olhos lacrimejam, seus lábios tremem e eu sinto seu amor por mim
sem que diga nada. Eu consigo imaginar seus pensamentos “ugh, te amo tanto
que me irrita”, “você é impossível, Damian Bale”. Ela apenas me beija.
Ofega contra minha boca, atordoada pelo que ouviu.
— Vai ter que ser um anel incrível — resmunga. Minha resposta é uma
risada alta ecoando por toda a praia.

Realmente tenho certeza de que essa é a mulher da minha vida.


É sério.
Acho que quando a beijei pela primeira vez, eu simplesmente soube.
Éramos algo mais. Algo inexplicável. E, para mim, pensando sobre nosso
pequeno "nós" hoje, acho que somos algo infinito. Somos algo que vale a
pena. Vale a pena criar uma guerra por nós dois, valeu a pena toda a luta até
estarmos juntos hoje.
Eu quero casar com essa mulher. Eu vou casar com ela. Só precisamos de
mais tempo, para ganhar mais dinheiro, porque eu quero a festa do século
para Naomi. Eu quero tudo o que ela tem direito. Absolutamente tudo.
— Lembra que você me disse que me ensinaria a pilotar sua moto? —
Naomi pergunta, espalmando as minhas costas conforme andamos.
— Lembro de muitas coisas que te disse sobre a minha moto — respondo,
malicioso, me virando para ela. A rua está silenciosa, eu deixei a
motocicleta bem ao lado do píer, em um estacionamento vazio.
— Acha que eu bateria ela como você bateu o meu carro? — Ela arqueia
uma sobrancelha e eu faço uma careta, fingindo estar emburrado. Carlson ri e
me puxa para si. — É sério, Damie! Eu conseguiria aprender!
— Hmm... Acho que poderia tentar te ensinar. Devagar. — Entramos no
estacionamento vazio e eu a giro, apenas para abraçá-la por trás, contra o
frio. — Não tem nada que você não possa aprender.
— Dirigir uma moto parece divertido. — Naomi se solta, somente para
caminhar até a minha motocicleta e passar as pernas ao redor dela. Cruzo os
braços. Carlson finge dirigir. — Parece divertido nos filmes de ação.
Rio baixinho. Ela é impossível.
— Sabe? Aqueles filmes em que uma agente secreta super incrível,
badass e sexy dirige entre carros e mata todo mundo.
— Você quer matar todo mundo?
— Talvez eu largue tudo para ser uma agente secreta. — Ela tira as mãos
da moto e eu me aproximo. Carlson dá de ombros. — Vai saber?!
Rio baixinho, a analisando de perto. Cacete, eu realmente tenho sorte de
ter Naomi Carlson em minha vida. Mesmo. De poder contar as sardas leves
por baixo da maquiagem, apreciar como os diversos tons de azul formam os
seus olhos...
— Eu amo você — sua boca forma as palavras, sem som. Era exatamente
o que eu ia dizer. Meu coração se enche, se torna mais forte e firme,
acelerado contra o meu peito.
— Eu sei — respondo em um sopro. — Amo você também. — Carlson
sorri de orelha a orelha. — E você já é incrível, badass e sexy! Só de pensar
nisso eu já fico caidinho. Sério, juro.
— Amor!
— Tem alguma parte do filme dessa agente secreta em que um cara se
apaixona pela mulher da moto?! Não? Tipo, eles podem transar sobre a moto
na última cena. Enquanto o mundo pega fogo no fundo.
— Impossível.
— Claro que não?! Tudo é possível quando duas pessoas querem.
Carlson ri e eu quase faço o mesmo. Mas meu sorriso some quando eu
realmente considero a hipótese. Não tem ninguém aqui, tem? Nenhum som
exceto por nossas respirações e as ondas se chocando contra a areia.
Mordo o lábio por um momento.
Tudo é possível quando duas pessoas querem...
— Posso te ensinar uma coisa ou duas, sabe? — sugiro finalmente, me
aproximando. Carlson não se move quando me sento atrás dela,
posicionando meus braços ao lado dos seus, guiando as suas mãos até o
guidão da moto. — Bom, se segurar você sabe.
Ela ri baixinho e eu colo o rosto ao seu. Naomi deixa suas mãos onde
estão e eu deslizo as minhas até sua cintura. Meu toque é firme e eu sei bem
como ela gosta dele. Eu sinto.
— Os pés, precisa posicioná-los ali. — Ela me obedece silenciosamente.
Deslizo seu cabelo para o lado, expondo a sua nuca. Deixo um beijo na pele
desnuda e Carlson enrijece minimamente, se arrepiando por completo.
Saber o quanto eu mexo com ela? Isso já é capaz de me enlouquecer.
— Sabe me dizer qual a embreagem...? — Aperto a sua cintura um pouco
mais, olhando para baixo. Os mamilos de Naomi estão marcando a camisa.
A ideia da minha boca sobre eles me faz segurar com força o meu
autocontrole ao continuar: — Não fica nos pedais, linda. Fica aqui...
Pressiono minha palma em cima da sua mão esquerda. Carlson se vira
para me olhar melhor. Esquadrinho o seu rosto, me perdendo um pouco por
sua boca. O paraíso mora nesses lábios. E eu o quero.
Aproveitando que está desatenta, deixo um dedo circular por sua coxa
direita devagar, abstratamente, por cima da sua saia. Eu amo essa pele. Eu a
amo por completo.
— Posso te ensinar tudo, sweetheart — sussurro, baixo e rouco. — Posso
te ensinar tudo o que fazer em cima de uma moto.
Ela não me responde. Naomi dificilmente fica sem palavras, mas eu
consegui isso. Carlson mal se move, com suas pupilas dilatadas e írises cada
vez mais escuras. Os universos azuis carregados de desejo varrem todo o
meu rosto lentamente.
— Não acho uma boa começar a te ensinar a dirigir tão tarde da noite...
Mas há outras coisas, você sabe... — Minha mão sobe um pouco mais por
sua coxa.
— Bale... — Ela me chama, mas não me para. Naomi cerra os olhos.
Levanto o seu queixo com o indicador esquerdo, depois acaricio o seu
pescoço com o polegar, minha palma perto demais da sua pele. O desafio
continua no seu olhar, o questionamento: "quão longe pretende ir?".
— Sim? — pergunto baixo. — O que está pensando, sweetheart? — Suas
bochechas ficam um pouco mais vermelhas, aquele brilho malicioso que eu
conheço muito, muito bem, toma os seus olhos. Meu polegar roça com o
tecido da sua calcinha, nos quadris, Carlson deixa a boca se entreabrir
levemente. Tão, tão fodidamente sexy... — Vou te dizer o que estou
pensando. Estou pensando... que já te falei algumas vezes, Naomi, sobre
como queria te foder de todas as maneiras que conseguíssemos encontrar,
exatamente como estamos, onde estamos... Não falei?
Sua respiração muda e eu seguro o seu pescoço com delicadeza,
aproximando a boca do seu ouvido.
— Não falei? — repito. Seu perfume parece a porra de uma droga. Essa
mulher...
Um suspiro escapa por seus lábios rosados e cheios. Carlson inclina a
cabeça, expondo o pescoço para mim, quando mordisco o lóbulo da sua
orelha, quando o sugo e guio os beijos por sua mandíbula, sem pressa.
— Você é louco, Damian Bale — ela sussurra, quase rindo.
— Você é pior — devolvo. — Só preciso que me diga que quer isso,
Naomi... Diga para mim, linda, eu posso te foder até aqui, não posso? Posso
te foder nessa moto, porque você quer isso. Posso te foder com meus dedos,
minha boca... Como eu quiser, sweetheart? Posso te ensinar o que sou capaz
de fazer contigo bem aqui?
Carlson fecha os olhos, suas costas pousando sobre o meu peito. Infiltro
meu polegar sob a lateral da sua calcinha, a puxando levemente. Eu estou
prestes a soltar...
— Sim, por favor — ela pede.
Eu perco o controle.
Isso é... excitante. Completamente novo. Até para nós dois.
Exploro sua boca com um pouco mais de avidez, fazendo o céu dela
queimar como o inferno. Meu polegar continua roçando contra a sua pele,
perto demais da sua boceta, quando a trago para mim pelo pescoço, a
mantendo firme. Brinco com o elástico, a deixando ansiosa para cacete pelo
meu toque, pelo modo como parece lutar para não foder a seco essa moto.
Sua boca solta a minha apenas para me oferecer seu pescoço. Beijo e chupo
sua pele, mordisco seu ponto de pulsação. Espalmo sua barriga, lutando
contra a ansiedade para tocá-la de verdade. Mas demoro, a palma finalmente
sob sua saia, descendo e descendo, até a agarrar pela boceta.
Inspiramos fundo simultaneamente, suas costas no meu peito.
— Damian... — Eu a torturo, sem masturbá-la ainda. Ainda exploro seu
pescoço quando minha mão livre se infiltra sob sua camisa, cobrindo o seu
seio nu. Porra. Grunho apertando-o, apreciando como enche minha mão,
prendendo o seu mamilo entre meu anelar e dedo médio. Minha boca se
enche de água pensando em colocá-ló na boca. Em chupar esses peitos até
que esteja gritando para a cidade toda ouvir.
— Eu te foderia em qualquer lugar, Naomi. Você faz isso comigo. Mas
sabe disso, não sabe?
Oh, ela sabe...
Carlson morde o lábio inferior com força, fechando os olhos. O que é uma
péssima ideia, porque vou me aproveitar de como seus outros sentidos vão
crescer. Agarro sua boceta com maior firmeza e ela deixa o ar rasgar por sua
garganta. Quero que rebole, que implore para que eu a masturbe. Mas amo
que ainda resista, porque gosto dessa guerra entre nós. Nunca me canso.
Quero que perca seus limites tentando me fazer perder os meus. E é
deliciosamente recíproco.
Sua calcinha está encharcada para caralho. Ela está tão, tão desesperada.
Estalo a língua, fingindo repreensão por seu autocontrole e exploro sua
extensão sem pressa, lambuzando meus dedos com sua excitação até parar no
ponto sensível mais ao topo. Naomi espera que eu a toque, que circule o
clitóris devagar, mas com firmeza. Que a faça gemer o meu nome.
— Damian… — choraminga.
— Não. — Rio baixinho. — Eu preciso ver você. Vira para mim —
ordeno, tentando me manter tão são quanto ela está tentando. Naomi me
obedece.
Ela se senta de frente para mim e nós dividimos o banco pequeno. Analiso
seus mamilos despontando contra a camisa, suas pernas levemente abertas
em oferta e me vejo esfomeado. Ela me agarra pela camisa, me trazendo para
perto. Entendendo sua ordem silenciosa, a beijo devagar, mas com força,
fazendo-a se deitar sobre a moto.
É um pouco desconfortável. Estranho. Mas isso desaparece quando ela
guia suas pernas ao redor do meu corpo, seus coturnos pousando por cima da
roda traseira.
Eu não vou esquecer disso tão cedo.
Avisei que a foderia em qualquer lugar. Ela vai entender isso agora.
Me afasto minimamente, ofegante, contornando o seu lábio inferior
inchado com o polegar. Eu o mordo levemente. O sorriso que surge nos seus
lábios é selvagem. Como nunca. Como o meu.
— Você é linda para caralho. E o pior é que sabe disso, não sabe? Você
sabe, Naomi. Por isso que é má. Por isso é minha. Por isso eu sou seu.
— Meu.
Sorrindo, ela infiltra as mãos sob minha camisa, arranhando o meu
abdômen. A toco sob a saia, a fazendo erguer os quadris minimamente para
descer a sua calcinha. Meus dedos deslizam por sua boceta novamente.
Sorrio de novo em aprovação para o quanto já está excitada, esperando por
mim. Por tudo o que vou lhe oferecer.
— Tire isso — ela manda e eu me surpreendo com a firmeza na sua voz.
Mas é Naomi quem tira a jaqueta da minha cintura e a joga no chão. Ela
admira o contorno dos meus braços sob a camiseta branca, meu torso ainda
coberto. Sei que quer me ver um pouco mais, mas volto a beijá-la com
ferocidade antes que consiga protestar. Ainda assim, ela geme e afasta a
boca, me incentivando a caça-la. — Vou te ensinar algo aqui também,
Damian.
Seguro seus quadris e a puxo para mim, enquanto ela enlaça suas pernas
em minhas costas mais forte. Seus dedos se infiltram em meu cabelo, seus
quadris se movem contra mim e ela busca pelo zíper da minha calça, o
abaixando.
— Vai?
— Sim. Vou te ensinar a nunca mais me subestimar, principalmente depois
de tanto tempo juntos.
Sorrio, a desafiando a tentar me vencer nesse jogo de prazer só nosso.
Quando meus dedos afundam na sua boceta, a sentindo quente e úmida, tão
entregue, um gemido me escapa. Seus dedos me libertam da cueca, agarram o
meu pau com essa falsa delicadeza, e eu trinco os meus dentes com força.
Ela não estava brincando.
Colo a boca na sua e Naomi desliza a mão lentamente, me bombeando sem
pressa. Seu polegar rodeia a minha glande, toca bem ao topo, me fazendo
arfar contra os seus lábios, empurrar os quadris levemente.
Naomi para o beijo e olha para baixo.
Seu dedo toca o pré-gozo, ela deixa o queixo cair, os lábios se repuxarem
para cima em pura e maldosa satisfação. Eu estou assim, duro para caralho
por ela, é o poder que tem sobre o meu corpo. Ela me sente quente e
pulsando contra a sua palma logo depois, naquele movimento torturante.
Bombeio meus dedos para dentro e para fora da sua boceta, admirando como
ela os encharca cada vez mais. Levanto sua saia para observar melhor e
Carlson me assiste tocá-la, venerá-la com gosto.
Ela aumenta a pressão dos seus dedos e eu mordo o lábio com força, me
sentindo ainda mais duro. Dolorosamente excitado. E ela sabe. Ela sempre
sabe.
— Mais tarde — começo a minha promessa, rouco —, eu vou te foder
com mais força, sweetheart. — Ela geme baixo e eu prendo a vontade de
fazer o mesmo, ofegando. — Como você gosta. Rápido, forte e duro. Mas só
vou te deixar gozar na minha boca. — Carlson geme de novo, me
masturbando mais rápido. Deixo meu anelar e dedo médio foderem sua
boceta mais depressa, o polegar circulando o clitóris já inchado. Porra, está
molhada para cacete. Tão linda. — Agora, vai precisar ser um pouco
diferente — aviso. — Vamos precisar ir devagar, linda.
Aproximo a boca da sua, mordiscando-a devagar.
— Mais tarde — ela cobra. É uma ordem.
— E quantas vezes quiser.
Os quadris de Naomi se erguem levemente, se chocam contra a minha
mão. Minha mente se torna nublada e, antes que eu diga qualquer coisa,
Carlson me solta e eu tiro meus dedos da sua boceta. Ela não resmunga pelo
vazio, porque logo está em cima de mim e meu pau está dentro dela por
completo.
Todas as provocações somem quando gememos juntos, como animais. É
nesse momento em que encontramos prazer de verdade, um no outro. Nesse
momento em que tudo parece se alinhar e fazer sentido.
Ela me enlaça pela cintura com suas pernas, pelo pescoço com os seus
braços. Mais fundo, eu xingo com a testa contra a sua e a escuto grunhir algo
desconexo. Porra, ela está tão, tão molhada, me envolvendo desse jeito,
aqui... Isso é perfeito.
Seguro seus quadris com vontade e ela está segura, por cima de mim. Eu
agradeço aos céus por essa moto estar firme contra o chão.
— Me mostre o que quer mostrar — ela ordena. — Tudo.
E eu obedeço. Segurando sua bunda, a guio para que se movimente.
Carlson rebola contra mim lentamente e eu seguro seus quadris contra mim.
Seguro a sua nuca, agarrando o seu cabelo, apenas para afastá-la o suficiente
para ter acesso ao seu pescoço. Provo a sua pele, mordiscando, lambendo,
tentando não gemer demais contra o seu corpo quando ela desliza, molhada
para caralho, me cavalgando sem parar.
Mais. Mais. Mais... Eu sempre vou querer mais dela. Corpo, alma, tudo.
Dos sons que escapam à sua garganta, ao amor escondido na luxúria em seus
olhos. Vou querer que me entregue tudo de si enquanto goza. Vou querer
provocar cada um dos seus arrepios.
É por isso que essa é a mulher da minha vida. Ela e apenas ela. Porque,
por mais brutal que nosso sexo possa ser, sempre é mais que sexo. É amor.
Sujo, pecaminoso e incrível. Surrealmente lindo. De qualquer forma que
seja: onde for, como for, quando for.
Não demora muito para nossos gemidos saírem do controle. Me inclino
sobre ela, trazendo seu corpo para mim. Naomi arqueia a coluna, desliza as
unhas para as minhas costas, sob a camisa, com força. A dor, contudo, é
prazerosa. Gosto que me marque assim.
Naomi me chama baixinho, pede por mais enquanto eu exploro seu
pescoço. Ofegando, olho para baixo enquanto ela me segura pelos ombros.
Consigo ver sua boceta se chocando contra mim, seu clitóris raspando contra
o meu corpo, implorando por atenção. Então eu dou o que sua pele clama, o
que seu corpo implora. A masturbo, tocando seu ponto sensível e inchado,
devagar e com pressão, circularmente...
Seu gemido rouco faz um arrepio percorrer pela minha coluna, o prazer se
concentrando como fogo, como uma agonia crescente que eu gosto de sentir.
Ela geme de novo, ofegante, cravando as unhas nos meus braços. Meu nome
em sua boca é como combustível para que eu incendeie cada vez mais. Seu
perfume, sua excitação molhando completamente o meu pau...
— Porra, Damian... — Naomi está machucando os meus braços, mas eu
não me importo. — Porra, eu amo você, amor... — O jeito como me chama,
a luxúria por trás da declaração... Isso me torna selvagem, tira a minha
racionalidade por completo. Busco por sua boca com ferocidade e ela geme
contra os meus lábios, surpresa.
Faço Carlson se deitar sobre a moto, me abraçando pelo pescoço para se
manter firme. Seguro seus quadris e ela me envolve com as pernas, o que me
faz ir mais fundo e xingar contra a sua boca. Ela deixa o queixo cair e o som
que escapa da sua garganta é alto e arrastado, se tornando mais constante
quando eu puxo seus quadris em minha direção, a incentivando a rebolar
com vontade enquanto eu estoco o mais fundo que a posição permite,
devagar... Até que não consigo ir tão devagar e imploro mentalmente para a
moto resistir.
Nossas respirações descompassadas estão mais aceleradas, misturadas.
Perco a noção de onde nossas mãos estão, parece que estão por todo o lugar.
Meu pau implora por alívio, o prazer crescendo e crescendo... Só consigo
pensar que quero mais. Preciso de mais. Quero tudo o que Naomi Carlson
tem a oferecer.
Ela me beija para conter seus gemidos. Eu engulo os pequenos sons que
ela libera, sentindo-os rasgar por meu corpo, a eletricidade irrompendo todo
o meu ser, até as minhas bolas. Está insuportável me segurar. Estou quase lá,
me segurando firme aos quadris de Carlson, lutando para não gozar
primeiro... Mas essa mulher é impossível. Ela é como um poço de luxúria em
que eu quero ir cada vez mais fundo, tomar tudo que posso e deixar tudo o
que possuo.
— Não se segure — ela pede, me conhecendo bem para caralho. Outro
gemido seu e eu quase estremeço, tentando reduzir a velocidade dos meus
movimentos. — Damian...
— Naomi, eu...
Xingamos ao mesmo tempo e eu percebo que atingi um ponto bom dentro
dela quando ela morde o lábio com força, gemendo alto demais. Carlson
pede por mais, mostra e diz que está gostando e eu me perco, afundando a
cabeça em seu pescoço e mandando a razão para o inferno ao aumentar a
velocidade. Me sento, me afastando do seu corpo, segurando seus seios sob
a camisa, metendo o mais fundo que posso enquanto ela agarra minha
camiseta, arqueia o corpo, a cabeça contra o painel da moto e os gemidos
cada vez mais constantes.
Sinto sua boceta se contrair, me apertando de um jeito tão bom quando
Naomi goza, estremecendo, gemendo e pingando por mim. Seu orgasmo é
como uma ordem, seus gritos são como orações e seu corpo é como a minha
religião. Só me resta venerar cada pedaço do que vivemos e me entregar de
vez, parando de me segurar, unindo o corpo ao seu e a abraçando pela
cintura com força enquanto estremeço e gozo, sentindo um arrepio
fodidamente absurdo cruzar a minha coluna e o prazer explodir junto com a
minha pulsação, fora do controle.
Meu gemido ecoa alto, rouco e chega irreconhecível até mesmo aos meus
ouvidos. Como se eu não fosse um homem, apenas um animal louco por essa
mulher. E eu enrijeço, me libertando dentro dela, encontrando alívio nela e
apenas nela.
É como se isso, nosso amor insano e sujo, fosse a nossa salvação.
Como se nossas respirações ofegantes, corpos suados e quentes, sexos
conectados e almas unidas... Como se tudo isso fosse tudo o que precisamos
por um momento.
Quando a onda do orgasmo cessa, me permito relaxar, amolecendo dentro
dela, respirando fundo em busca de calma.
Naomi não diz nada, mantendo os olhos fechados enquanto inspira e
expira audivelmente. Admiro o seu rosto corado, a boca inchada e
entreaberta, o cabelo bagunçado...
— Isso foi...
— Insano — ela responde e eu assinto, ainda dentro dela. Naomi engole
em seco. — Tá aí — sua voz está frágil e baixa —, temos outro segredo
sujo para manter. Aquele dia no campo adversário... Agora isso... Numa
moto. — Eu rio e meu corpo estremece, a fazendo gemer.
Percebo que estou dentro dela e que ela ainda está muito sensível. Meu
pau endurece um pouco e eu o afasto da sua boceta, antes que percamos a
noção novamente e nos tornemos esses dois animais selvagens que fodem em
qualquer lugar. Até em uma moto.
Me recomponho e ajudo Carlson a fazer o mesmo. Ainda tonto em meus
sentidos, rio quando ela percebe que minha jaqueta está no chão e se esforça
para sair de cima da moto, ainda zonza. Parecendo chapada pelo sexo que
tivemos, seguro a sua mão para garantir que não vai cair quando ela
finalmente pisa no chão. Ela se agacha e pega a jaqueta, ainda ofegante.
Percebo que ela pegou algo a mais e ela choraminga, me mostrando o seu
celular. Ele caiu e a tela está completamente rachada. Eu não faço a menor
ideia de quando isso aconteceu.
— Você me deve outro — ela diz com sua melhor voz de drama.
— Você também estava fodendo comigo, sabe, foi recíproco — recordo e
ela faz uma careta para o celular, preocupada. A trago para perto e seus
quadris se chocam contra a moto. Preciso de um segundo para me recompor
antes de nos dirigir para casa, porque parece que acabei de correr uma
maratona.
— Ele estava no seu bolso — ela recorda.
Toco o meu — agora único — bolso cheio e encontro o meu celular em
perfeitas condições. Deixo um riso escapar por minha sorte e ela bate no
meu braço.
— Vai se foder!
— Mais tarde, sweetheart — eu digo, nos lembrando da minha promessa.
— Com você assistindo. — Juro que Naomi estremece visivelmente, seus
olhos brilhando como se ela estivesse despertando novamente. Aceno com a
cabeça para trás, para que me abrace e possamos voltar para casa. — Com
sua boca em mim, o mais rápido possível se você sentar aqui.
Carlson sorri, rolando os olhos e obedecendo, me enlaçando por trás.
— Maldito.
— Seu maldito.
Olho por cima do ombro e vejo seu sorriso maldoso se aproximar do meu
ouvido. Naomi mordisca o lóbulo da minha orelha e o arrasta, rindo com
uma vilania que faz meus ossos vibrarem.
— Meu maldito.
Faço a moto roncar quando dou partida e ela gargalha alto quando eu
acelero para longe dali. O mais rápido possível.
Dior se aninha na minha barriga, esmagando sua orelha contra ela algumas
vezes, pedindo por carinho. É como se ele soubesse.
Respirando fundo, dou ao gato o que ele quer, acariciando sua pequena
cabeça enquanto ele relaxa.
Faz cinco semanas desde o maldito sexo na moto. Minha menstruação não
veio e eu estou em pânico. Eu estou em pânico. Porque eu não costumo
vacilar assim ou permitir que Damian vacile. Ele também não costuma
esquecer da camisinha. Damian e eu sempre tivemos pavor, extremo pavor
de sermos pais cedo demais. Ainda assim fomos irresponsáveis.
E agora ele está do meu lado na cama, tentando puxar algum assunto
enquanto eu mal o respondo. Foi assim toda a semana e Damian finalmente
explode:
— Não, sério, Naomi, que porra aconteceu?! Estou falando sozinho aqui?
Meus lábios tremem e eu tento manter a calma, acariciando Dior e fazendo
um esforço enorme para conseguir olhar nos olhos cinzentos do meu
namorado.
— Damian...
— Eu fiz algo essa semana? Eu te magoei? Falei alguma merda? Esqueci
alguma data importante?
— Não, Bale, eu...
— Sério, que porra...?
— Damian, eu acho que estou grávida.
Pronto, está dito.
E seus olhos se arregalam, seu queixo caí e nenhum dos dois consegue
mais dizer palavra alguma por muito, muito tempo.
Maldita moto.
Calma, espera, espera, não me xingue pelo fim do capítulo extra. Sério.
Não me xingue. Porque sim, Misbehave acaba aqui… mas não, Carlson-Bale
não acaba aqui. Em setembro ou outubro de 2022, teremos o lindo
lançamento de Misconduct, o livro da Mel e do Mike, e veremos os novos
papais do ano. MAS, obviamente, eu não sou má de deixar vocês sem
nenhum mimo de Damian e Naomi nessa fase tão especial. Portanto, tenho
muito prazer de anunciar o conto Carlson-Bale para julho de 2022.
Eu sei que algumas leitoras da época do wattpad me perguntavam sobre o
bebê Carlson-Bale e eu sempre disse que todos os extras relacionados a isso
seriam lançados ao fim da série, mas isso acabou perdendo o sentido pra
mim. Vou mostrar a reação do casal à gravidez, como eles lidam
emocionalmente com isso e um pouco da reação da família deles também.
Então sim, teremos extras do casal ao fim da série. Mas teremos antes de
Misconduct também. O título não oficial é Brightgate 1.5, assim que eu tiver
um título e uma data, eu informo pra vocês, mas sigam _brookemars no
Instagram para acompanharem tudo de pertinho, ok?
Estou escrevendo esses agradecimentos aos quarenta e cinco minutos do
segundo tempo. Meus Green Snakes estariam me olhando com reprovação -
menos Bale, porque esse sabe muito bem o que é fazer um gol importante no
fim de jogo. Eu escolhi esperar até o último segundo pra colocar tudo o que
sinto vendo esse primeiro livro concluído assim.
Misbehave é meu recomeço. Não apaga meu passado, não me torna uma
pessoa nova absolutamente do nada, mas é a prova de que eu consigo sim
lutar, recomeçar, provar que ainda tenho talento e que vale a pena ouvir o
que meus personagens sussurram para minha mente e coração quando penso
em desistir.
Eu acho que precisava escrever MB para ser uma pessoa melhor. De
verdade. Existe nitidamente uma Brooke antes e uma Brooke depois de
Naomi e Damian. Para mim, Misbehave é a prova de que uma obra muda o
autor tanto quanto o autor muda a obra. Foi uma transformação em conjunto,
sabe? Naomi, Damie, Mel, Mike, Brandon, Ollie, Gigi… Quando todos eles
crescem, eu cresço junto. Tanto que, pra mim, é raro demais chorar enquanto
escrevo; mas esses personagens tem um espaço tão grande no meu coração
que parecem reais, parecem meus amigos, parecem uma força propulsora
para não desistir dos meus sonhos e por eles eu choro. E não é fácil. Dói,
sangra, cansa. frustra… Escrever não é um mar de rosas. Requer estudo,
cuidado, noites perdidas, ideias acumuladas em tudo quanto é lugar,
capítulos inteiros apagados, ter que parar de vez em quando porque a
inspiração é demais para deixar passar… É uma verdadeira montanha-russa.
E por Brightgate vale a pena.
Então eu quero começar esses agradecimentos, respirando fundo pra não
desabar de chorar e dizendo obrigada a cada um desses personagens,
principalmente a Naomi. Foi um caminho árduo para ela e para mim também,
mas a gente não cai fácil, não é? A gente já se fodeu demais pra chegar até
aqui. Desistir não é uma opção. Se eu pudesse me ajoelhar para esses Green
Snakes e agradecer, eu agradeceria. É sério. A Naomi pela resiliência, o
Damian por não desistir de quem ama, a Mel pela doçura, o Mike pela
leveza, Brandon pelo enemies-to-lovers entre ele e as leitoras e o Ollie por
se manter alegre por si e pelos outros mesmo quando tudo é tão caótico.
Contar a história desses seis vem sendo um privilégio. E eu serei
eternamente grata por isso.
Antes que eu escreva um livro inteiro sobre como eles me fazem sentir, eu
queria agradecer à pessoa que fez seis anos de partida no mês em que lanço
meu segundo-primeiro livro (Naomi pegou essa referência). Tal como a
Naomi teve uma Elise, eu tive uma também. A diferença é que minha Elise
tinha o meu sangue também, só não era a minha mãe (biológica). É meio
engraçado, porque, eu juro, ela era menor do que eu. A criatura tinha um
metro e cinquenta, sabe? Eu a via como uma irmã, por ser tão baixinha. Mas
a primeira coisa que me disseram quando ela se foi, é que ela dizia todos os
dias que eu era a sua filha. Faz mais sentido mesmo, sabe? Porque foi ela
quem segurou minha mão, dormiu do meu lado desde a infância e me dizia
“vá estudar, se levante, esse é um novo dia, você consegue”. E às vezes ela
nem precisava verbalizar nada, a gente se comunicava por olhares. Enfim, à
minha pequena mamãe postiça, espero que saiba o quanto eu te amo, mesmo
que eu nunca tenha dito. Vou ensinar pra todo mundo que ler meus livros ou
cruzar meu caminho, que dizer essas três palavrinhas enquanto podemos é o
maior privilégio que temos. Esse livro é seu, porque se você não tivesse
ajudado a construir a pessoa que sou nos meus primeiros dezesseis anos
difíceis pra cacete, eu não estaria aqui. Obrigada por ser o exemplo que
você foi. Você nunca vai ler esse livro (ainda bem, nossa, me poupa de uns
seis banhos de água benta), mas acho que se orgulharia de ter uma filha
escritora. Você reclamaria horrores da Naomi, mas também se apaixonaria
por ela. E, de certa forma, você foi a minha Mel. Então obrigada por ser o
Batman para o meu Robin também.
Para Vivi e Barb, por me acompanharem desde a primeira vírgula, eu não
tenho nem palavras. Vocês sabem das noites de ansiedade tremendo pra abrir
um arquivo daquele livro lá, porque ele me aterrorizava. Vocês sabem das
crises de choro, dos ciclos encerrados e iniciados, do que li e ouvi de gente
que me amava ou me odiava, das mensagens dizendo que eu tinha que
desistir… E ainda aqui estou eu. Eu não teria conseguido sem vocês. Acho
que a coisa mais especial que a escrita pode fazer, é aproximar pessoas. E
eu não seria nada sem minha Viviagra e minha Barb** (você sabe concluir
essa palavra, Bárbara). Amo vocês. Como Batman, Robin e nosso terceiro
elemento secreto.
Para as meninas da Universidade Marsters, nosso pequeno grupinho da
central e agregadas, minha pequena família de Brightgaters e melhores
amigas que alguém pode ter… Eu amo vocês mais do que digo. Cada
pequena provocação, foto de cachorro dizendo que é a Bianca, titktok de rato
dizendo que é a Jade, piada com os conhecimentos geográficos da Sami,
piadas com a conta bancária rica da Lívia, sumiço da Rafa, gosto literário da
Naju… Tudo isso é meu jeito de declarar amor. Eu amo vocês. Sem vocês,
Brightgate não existiria mais. Vocês são minhas Green Snakes favoritas.
Para Mari, por ser o melhor presente que Melissa Wayne me
proporcionou, obrigada por tanto. Seu carinho, sua amizade e sua
positividade são coisas que eu não esperava. Tenho orgulho da escritora que
você é e ser sua amiga é uma honra. Te amo por tanto.
Além da Mary e da Barb, que me ajudaram na LS desse livro, obrigada
Nico pelo cuidado impecável com a leitura sensível. E para além da LS,
pelas outras observações e conversas que me fizeram crescer ainda mais
como autora, eu te desejo sucesso infinito. E obrigada Ana pela leitura
crítica incrível e pelos surtos com Carlson-Bale, obrigada pela dedicação e
carinho. De verdade, cada mensagem sua dizendo que amou esses
personagens me deixava com um sorriso bobo e enorme no rosto. Sem seu
trabalho, esse livro seria bem meia-boca. Ainda bem que te conheci.
Obrigada por tanto.
Obrigada Enna, Lua, Rafa, Nana…Para cada pessoa que leu meu livro e
continua me apoiando, principalmente desde a época do wattpad; obrigada
por não desistirem de mim. Eu sei que isso soa repetitivo, porque eu
agradeço quase toda hora, certo? Mas obrigada. Eu não sabia que amaria
tanto ser autora e isso transformou a minha vida. Mas saber que uma
palavrinha minha pode ter tocado o coração de vocês é algo impagável,
inexplicável e a parte mais apaixonante desse trabalho.
Olhando em retrospectiva, não lancei nenhuma das partes desse livro
esperando por sucesso e ainda não espero. Acho que ser uma grande autora
renomada é algo muito distante do que o Destino provavelmente guarda para
mim. Mas seja lá o que o universo quer para a minha vida, lançar esse livro
foi, antes de tudo, para provar a mim mesma que eu conseguiria. E eu
consegui. Logo, por último mas não menos importante, obrigada à sensação
forte, chata e insistente no meu coraçãozinho idiota que nunca me permitiu
desistir.
É por tudo isso que concluo da melhor forma possível. É a única. E vocês
sabem que é:
Depois de mim, estão vocês.
Que Naomi e Damian nunca saiam de seus corações (soou como uma
oração, né? amém).
Com amor, Brooke.
Olá, olá! Brooke aqui, de novo, para lembrar que Misbehave é o primeiro
livro de uma série chamada Brightgate. Teremos um conto pequeno antes do
segundo volume da série, mas eu quero falar com vocês sobre ele, pode ser?
O segundo volume acompanha Melissa Wayne e Mike Graham em um
“enemies to lovers” entre ex-namorados. O terceiro casal ainda é um
segredo. Se quiser conhecer mais o próximo casal e ver um pouquinho de
CarlsonBale no futuro, me segue no Instagram (_brookemars) e fica de olho
nas novidades do próximo livro. Enquanto isso, passa a página pra conferir
sinopse e prévia de Misconduct.
Melissa Wayne está cansada. Cansada não, exausta.
Atropelada por uma crise familiar e uma desilusão profissional, a sua
única saída é traçar um futuro completamente diferente. O problema é que o
único lugar que a oferece um recomeço é justamente a sua cidade natal,
Brightgate. Lar da maioria dos seus problemas e de todo o seu passado, uma
parte dele não queria muito tê-la de volta: Mike Graham.
Após o ensino médio, Graham também encontrou imprevistos dolorosos,
mas conseguiu se reconstruir. E se, no passado, Melissa pulou de cabeça em
algo que não deu certo, Mike também. Isso foi justamente ela.
Para Wayne, ele é completamente diferente do cara doce, nerd e
atrapalhado que ela conhecera. Para Graham, ela é exatamente a mesma
garota que quebrou seu coração anos atrás. Por isso, ambos querem ficar o
mais longe possível um do outro.
Fato é que os dois podem estar mais errados do que pensam. Porque nada
separa o passado do presente, nem um ponto final e muito menos uma mera
vírgula. E quando menos esperar, Melissa Wayne encontrará em Mike
Graham o seu mais perfeito desvio de conduta.
O Mike Graham de um passado tão, tão distante sonhava com o dia em que
teria Melissa Wayne à sua porta, se declarando de volta para ele.
Sonhava com aqueles olhos cor de âmbar, doces e alongados; aquela boca
incrível que ficava tão linda sorrindo; aquele perfume de essência de flores,
tão fresco e paradoxalmente intenso e suave... Sonhava em ter aquela garota
por perto, sabe?
Aquele Mike sonhava com o dia em que Melissa Wayne se apaixonaria
por ele.
Mas aquele Mike era um nerd e Melissa era uma líder de torcida que
namorava o goleiro do time de futebol da escola.
Ela era inalcançável. Até que deixou de ser.
Certo dia, ela terminou o namoro. No outro, por alguma magia, colocou
seus olhos sobre um pobre nerd. O enxergou de verdade. Ou ambos
pensaram que sim. As coisas se desenrolaram de uma maneira tão
absurdamente veloz que de repente estavam namorando: uma garota incrível
recém saída de um relacionamento ruim e um geek invisível e apaixonado.
Quais eram as chances disso ir para frente? Aquele "era uma vez" não tinha
cara de "felizes para sempre".
Deveríamos ter previsto isso.
Tanto que não acho que nosso primeiro fim seja culpa apenas de Wayne.
No fundo, ambos sabiam que aquele relacionamento era como estar sofrendo
uma goleada imensurável perto dos quarenta e cinco minutos do segundo
tempo. Era um namoro no último ano do colegial, entre duas pessoas em
páginas distintas, afinal. E eu — tendo uma queda enorme pela mesma garota
desde pequeno — simplesmente escolhi fechar os olhos para todos os sinais
e cair de verdade por quem ainda precisava de um tempo para si.
Meus amigos me avisaram. A própria Melissa me avisou que queria ir
devagar. Mas eu não conseguia. Não queria. Estava silenciosamente
implorando por mais do que ela era capaz de me dar e Melissa demorou
demais em perceber isso. Então, quando falei aquelas três palavrinhas
perigosas cedo demais, Wayne se assustou e decretou o fim.
Do modo como eu vejo, éramos imaturos demais para um relacionamento.
Acho que tudo tem um tempo certo para acontecer e aquele não era o nosso.
Portanto, o que me fez odiar Melissa Wayne não foi o nosso término. Não.
Isso doeu para caralho, me fez chorar e querer tirar o coração do peito, mas
era algo que eu poderia superar. Afinal, o primeiro coração partido nos
marca, mas não nos impede de viver. Entendi isso.
O que me fez odiar Melissa Wayne foi que viramos amigos antes de
virarmos namorados. E quando eu mais precisei, Wayne não esteve lá por
mim.
Ou eu achava que não. (…)
Teremos conto CarlsonBale em dose tripla
Até Julho.
Com amor, Brooke.