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UNIDADE 1

SEÇÃO 1

PENSAMENTO CIENTÍFICO
Douglas Rodrigues Aguiar de Oliveira
Amanda Soares de Melo

CONHECENDO A DISCIPLINA

A disciplina de Pensamento Científico tem como objetivo proporcionar


maior facilidade de compreensão da importância do conhecimento no
mundo real, tanto na solução de problemas teóricos como práticos,
favorecendo a identificação dos diversos tipos de conhecimentos,
distinguindo suas principais particularidades e, principalmente,
identificando seus limites para a solução de problemas cotidianos.

Ao longo da disciplina, com base em exemplos objetivos, exploraremos as


distinções entre o conhecimento vulgar e o científico, desconstruindo mitos
popularmente aceitos sobre suas aplicabilidades e enfatizando seus desafios
no mundo globalizado.

Examinaremos também os diversos tipos de conhecimentos filosóficos


existentes frequentemente associados com o científico, destacando seus
aspectos valiosos e suas dificuldades que se refletem no estabelecimento de
uma aceitação universal por parte de pesquisadores acadêmicos no campo
da ciência e da filosofia.

Finalmente, avaliaremos a relação entre o conhecimento filosófico e o


religioso, com o objetivo de proporcionar clareza e entendimento profundo
das consequências da aplicabilidade desses conhecimentos na realidade.

O estudo desta disciplina favorecerá a fomentação de uma cultura


intelectual mais sofisticada, contribuindo para melhores tomadas de decisão
frente aos desafios globais, sobretudo na problemática da mudança
climática e da saúde pública, e ajudando na resolução dos problemas
pertinentes à vida cotidiana.
NÃO PODE FALTAR
QUAL A DIFERENÇA ENTRE O
SENSO COMUM E O
CONHECIMENTO CIENTÍFICO?
Douglas Rodrigues Aguiar de Oliveira

Fonte: Shutterstock.

CONVITE AO ESTUDO

Caro aluno,

Observe o quanto o mundo real é baseado em dois principais pilares:


ciência e tecnologia. Hoje, mais do que em outras épocas, a relação desses
dois campos proporcionou inovação global e facilidade de acesso à
informação.

A inovação contribuiu para o rápido progresso tecnológico da sociedade,


principalmente com a automatização provocada pelo uso de Inteligência
Artificial, e o acesso à informação aumentou com a ascensão da Internet.
Os mecanismos de buscas das grandes empresas, como o Google e o Bing,
unificaram esses dois elementos e, com base em algoritmos cada vez mais
refinados, proporcionaram a emergência de anúncios e resultados de buscas
cada vez mais personalizados de acordo com os dados de acessos dos
usuários. No entanto, o rápido progresso tecnológico não preparou
cognitivamente a população para a avaliação crítica das informações
recebidas nos meios digitais com acesso à Internet.
Atualmente, em todo o mundo, enfrentamos o problema da fake news, que
é um conceito em inglês para designar notícia falsa. A fake news atinge
todos os setores da atividade humana, trazendo sempre algum dano real,
como a consequência dos boatos do movimento antivacina, que
contribuíram para que doenças até então erradicas no Brasil, como a febre
amarela, voltassem à tona.

A fake news se aproveita da falta de entendimento do grande público sobre


o que é conhecimento e como avaliá-lo. Dessa forma, o indivíduo-alvo
acaba não tendo o fundamento e as ferramentas necessárias para identificar
o quão real é a informação recebida.

Ao decorrer do livro, você será capaz não apenas de entender os diversos


tipos de conhecimentos, mas também de identificar um tipo peculiar de
crença psicológica que finge ser científica, geralmente sustentando
narrativas fantasiosas ou sensacionalistas.

O resultado será a compreensão da atividade científica, da importância de


sua aplicação na vida cotidiana e do impacto que o falso conhecimento,
elemento de estrutura das fake news, provoca na sociedade contemporânea.

PRATICAR PARA APRENDER

Você já precisou procurar alguma informação para a realização de um


trabalho? É muito provável que sim. Qual o principal meio de busca para
encontrar a resposta que você precisa? Provavelmente, você responderá
Google, Bing ou algum outro site de pesquisas online. Diferentemente, nas
gerações anteriores ao surgimento e popularização da Internet, as buscas
eram realizadas através de bibliotecas, livros, sumarizações e
enciclopédias.

A Era da Informação trouxe uma enorme facilidade, no sentido de


praticidade, do encontro de informações. No entanto, com o excesso de
informações, é possível que não tenhamos acesso a algo verídico. Portanto,
será necessário questionar: “As primeiras respostas do Google realmente
são o conhecimento mais coerente frente à realidade?”

Com o advento do mundo contemporâneo, o indivíduo que tem um


conhecimento sólido em sua prática profissional é muito valorizado,
mesmo sendo preciso que ele esteja disponível para aprender e atualizar sua
formação profissional, exigindo cada vez mais uma busca por
conhecimentos mais avançados em sua área de atuação.
Pensar cientificamente é uma ótima maneira para garantir uma progressão
de aprendizado, autocorreção e adaptação conforme a necessidade. Sendo
assim, o profissional cientificamente orientado pensará nos meios de
maximizar sua produtividade, levando em conta os impactos que o trabalho
excessivo poderia causar em seu estado de saúde e, ao mesmo tempo,
proporcionando maior capacidade de gestão na organização de tarefas em
equipe.

Em uma sala de aula, quatro estudantes são desafiados pelo professor de


Filosofia a responderem a três questões, que são recorrentes ao longo da
história da humanidade.

1. De onde viemos?
2. Para onde vamos após a morte?
3. Por que estamos aqui?

Cada aluno, em seu modus operandi, adota uma postura diferente em


relação às respostas. Um vê o mundo a partir do (A) conhecimento
científico; outro, do (B) religioso; o seguinte, do (C) filosófico e, por fim, o
último, através do (D) senso comum. Diante dessa situação, a resposta de
cada um é:

Aluno A: Tudo se iniciou no Big Bang, e através de um processo de


evolução por meio da seleção natural. Após a morte, nossa consciência não
mais existe. Não há nenhum propósito especial, com base no que
conhecemos através da ciência.

Aluno B: Deus criou o Céu e a Terra tal qual está escrito na Bíblia. Para o
paraíso ou inferno. Para atender aos desígnios de Deus.

Aluno C: Qual é a origem do Universo? Qual é a melhor teoria científica?


Podemos advogar pela defesa do Big Bang? É necessário submeter ao
escrutínio da filosofia analítica a análise semântica das teorias científicas.
Do mesmo modo, é necessário clarificar o conceito de morte, olhando pelas
implicações do conhecimento científico. Essa pergunta traz problemas de
ordem metafísica, portanto, é necessário analisar o significado do conceito
de propósito.

Aluno D: Depende do contexto. Um indiano, provavelmente, responderia


com base em suas crenças culturais regionais, manifestando explicações de
caráter hinduísta. Se fosse um japonês, provavelmente advogaria pelo zen
budismo. Um brasileiro responderia conforme as crenças compartilhadas de
sua região, por exemplo, existem regiões no Brasil onde há prevalência de
mitos da origem da vida e do universo que têm uma relação intrínseca com
crenças religiosas africanas, enquanto outras são fortemente influenciadas
pelo catolicismo europeu. Nesse sentido, como foi explicado no texto, o
conhecimento popular absorve sempre aspectos de outros conhecimentos
quando incorporados fortemente pela cultura.

Nessa interação, percebemos que cada aluno apresenta sua perspectiva


pessoal frente às três grandes questões. Assim, recomenda-se instigá-los
sobre as possíveis consequências das adoções de certos tipos de
conhecimento e crenças para os desafios de sua vida diária e do mundo
contemporâneo, tratando de fazê-los responder qual o melhor tipo de
conhecimento para uma situação específica e como conciliá-lo com outros.
Por exemplo, como a adoção de uma crença oriunda do conhecimento
religioso poderia impactar em questões de saúde individual e coletiva?
Qual consequência o conhecimento vulgar, aquele de senso comum, traria
para a sociedade ao enriquecer mais rapidamente do conhecimento
científico? A absorção do conhecimento científico, tanto no âmbito
individual como coletivo, nos tornaria melhores tomadores de decisão?
Essas questões, consequentemente, reforçariam a existência de diferentes
tipos de conhecimentos no âmbito da vida cotidiana e fomentariam o
pensamento crítico dos alunos.

Saber muito não lhe torna inteligente. A inteligência se traduz na forma que
você recolhe, julga, maneja e, sobretudo, onde e como aplica esta
informação.

Carl Sagan, trecho do documentário Cosmos (1980).

CONCEITO-CHAVE

DOXA, O CONHECIMENTO VULGAR DA SOCIEDADE


Desde Aristóteles, o conceito de conhecimento tem sido central no debate
filosófico. Inicialmente, conhecimento era tratado como um tipo de crença
racional, verdadeira e justificada. Crença, porque faria relação com um
estado psicológico do sujeito; racional, porque envolveria o exercício de
nossas faculdades cognitivas; verdadeira, porque faria alusão a objetos ou
fenômenos da realidade; e, principalmente, justificada, porque requereria
um conjunto de enunciados estruturados logicamente. Essa definição,
porém, não dá conta dos diversos tipos de conhecimentos existentes, alguns
dos quais serão tratados ao longo do livro.

Para começar nossa jornada, vamos entender um pouco o conceito de


conhecimento vulgar, também chamado senso comum ou saber popular.
Etimologicamente, refere-se ao conceito aristotélico de doxa, ou
simplesmente opinião.

O conhecimento vulgar trata-se de um conhecimento que não quer nenhum


tipo de exercício crítico, também não envolve nenhum tipo de verificação
experimental. Geralmente, ele é transmitido culturalmente, de gerações a
gerações, muitas vezes preservando mitos que eram aceitos em
determinada época. Por exemplo, o mito de que o chinelo virado com a sola
para cima traz azar, ou a ideia de que um trevo de quatro folhas traz sorte.
No entanto, também é verdade que alguns ensinamentos transmitidos pelo
conhecimento vulgar possam ser verdadeiros, como a ideia de não colocar
a mão no fogo para não se queimar, ou mesmo não entrar em uma lagoa se
não souber nadar, porque é possível se afogar.

O conhecimento vulgar também pode se enriquecer do conhecimento


científico, especialmente quando este último se torna bastante popularizado
ao ponto de seu entendimento se tornar familiar por quase toda população.
Por exemplo, a ideia de que certos alimentos, como carnes, são mais bem
preservados quando congelados, evitando sua contaminação e exposição a
microrganismos no ambiente aberto.

Apesar de estabelecer uma pequena relação com o conhecimento científico,


o conhecimento vulgar não é suficiente para explicar a realidade,
exatamente por preservar em seu núcleo ensinamentos que podem ser
falsos ou simplesmente mitos.

CONHECIMENTO RELIGIOSO
O conhecimento religioso pode se enriquecer do conhecimento vulgar,
especialmente das tradições culturais e religiosas cultivadas ao longo do
tempo. Por exemplo, na preservação dos mitos gregos de que os deuses
reinavam nos céus, apropriada pelas religiões politeístas.

Esse tipo de conhecimento requer um elemento-chave para alcançá-lo, ao


menos da forma como defenderam diversos pensadores da Idade Média,
que é a iluminação religiosa como método para conhecer a verdade ou a
Deus.

Essa iluminação religiosa seria como um sentimento de vislumbre por uma


paisagem maravilhosa, como relatou o cientista Francis Collins
(apud SHERMER, 2012) em sua experiência pessoal. É como um
sentimento de inspiração e encantamento com algo notoriamente belo,
diante do qual uma pessoa não encontra palavras para expressar tal
sensação. No entanto, essas experiências religiosas podem ser despertadas
mediante o uso de substâncias psicoativas, como alucinógenos ou
antidepressivos, ou podem ser vivenciadas igualmente por qualquer pessoa
que tenha apreço pela natureza, de modo que seu principal método não
caracteriza uma forma autêntica e racionalmente justificada para conhecer a
realidade. Por conta da subjetividade envolvida durante a iluminação
religiosa, não é possível demonstrar que a observação pessoal produziu
cenas reais no cérebro dessas pessoas.

Outro método comumente cultivado na construção do conhecimento


religioso é a hermenêutica. A hermenêutica é um tipo de filosofia
subjetivista, como defendeu o cientista e filósofo argentino Mario Bunge,
porque ela dependeria simplesmente da interpretação do autor para trazer à
luz dos escritos bíblicos a extração de um suposto fato vivenciado em
tempos remotos.

A hermenêutica é uma abordagem problemática, pois ela não exige a


investigação empírica da realidade, como a recolha de dados para
contrastar fatos históricos bem documentados com a interpretação pessoal
do hermeneuta ou teólogo.

O hermeneuta e o teólogo são os responsáveis por construir esse tipo


conhecimento, embora o primeiro contemple uma atividade mais geral,
podendo abarcar o uso da hermenêutica para textos literários ou filosóficos.
No entanto, como foi apontado anteriormente, o simples fato de invocar a
subjetividade do interpretador, ao invés de fatos objetivos, lança um
desafio na validade desse tipo de conhecimento.

O CONHECIMENTO FILOSÓFICO: EMPÍRICO E RACIONALISTA


O conhecimento filosófico é amplo, abarcando diversos posicionamentos
ao longo da história da filosofia, especialmente o empírico e o racionalista.
Esse tipo de conhecimento também pode incluir o religioso, uma vez que a
base de todo conhecimento são os pressupostos filosóficos. Noções de
verdade, intuição, dedução, cognoscibilidade, crença, realidade, fenômeno,
utilidade e outras são conceitos filosóficos indispensáveis em qualquer tipo
de conhecimento. O conhecimento empírico pressupõe a cognoscibilidade
dos fenômenos com base nas experiências sensíveis do sujeito, enquanto o
racional pressupõe que o conhecimento já é derivado da mente do sujeito,
independentemente de qualquer experiência empírica.

David Hume e John Locke eram filósofos empiristas e, portanto, defendiam


que a fonte de conhecimento derivava dos dados sensíveis. René Descartes,
por outro lado, acreditava que o conhecimento eterno ou matemático
poderia ser alcançado pelo simples uso da razão, sem a necessidade de
qualquer experiência empírica. Embora seja verdade também que ele tenha
defendido que uma junção de mais fatores era condição necessária para
alcançar verdades absolutas ou irrefutáveis, por via de seu método
cartesiano, que estabelecia, no mínimo, quatro condições, como evidência,
análise, ordem e enumeração, ele deduzia que todos esses princípios eram
alcançados mediante o uso da razão.

Embora Descartes tivesse defendido o papel da razão como principal


responsável pelo conhecimento absoluto, ele fez investigações empíricas
durante toda sua vida, especialmente nos campos da anatomia e da
fisiologia, contribuindo para uma descrição de partes do cérebro humano,
como a glândula pineal, e especulando sobre sua real função no organismo.

Houve também pensadores de grande importância da filosofia que tentaram


unir os dois tipos de conhecimentos, sendo o mais famoso o filósofo
Immanuel Kant, que lançou as bases de seu método racioempirista. Esse
método consistia em tomar elementos que ele considerava verdadeiros do
empirismo e do racionalismo. Kant apropriou-se do fenomenismo dos
empiristas, em que a fonte de conhecimento se dá através dos fenômenos, e
não da realidade em si. Kant acreditava que não poderíamos conhecer nada
além das aparências, de modo que todo o mundo estaria subordinado a
impressões ou dados sensíveis, tal como acredita Hume. Mais ainda, Kant
buscou resgatar o apriorismo do racionalismo, argumentando sobre a
plausibilidade de verdades independentes da experiência, que, segundo ele,
estariam ali, prontas na mente.

O racioempirismo kantiano levou a discussões calorosas no campo da


filosofia e, junto com outros pensadores, inspirou posições bem diferentes
entre si na filosofia – especialmente, a fenomenologia e o positivismo
lógico.

O incômodo com a posição de Kant é que ele havia se apropriado de


elementos problemáticos de ambos os conhecimentos empírico e
racionalista, não levando em consideração a própria ciência da época na
elaboração de sua filosofia. Os astrônomos Galileu Galilei e Johannes
Kepler, por exemplo, já investigavam a realidade além dos fenômenos
limitados a dados sensíveis. Galileu estendeu sua percepção com um
telescópio que ele havia aprimorado e descobriu três satélites de Júpiter,
enquanto Kepler havia calculado a trajetória das elipses planetárias usando
ferramentas matemáticas, hipóteses auxiliares e instrumentação de
medidas. Isaac Newton, um dos maiores nomes da revolução científica,
estabeleceu leis científicas que poderiam se aplicar a quaisquer objetos não
diretamente observáveis, mas com velocidades menores do que a da luz.
Isso, porém, não foi suficiente para ruir a possibilidade de unificação entre
empirismo e racionalismo.

No século XX, o cientista e filósofo Mario Bunge procurou unificar o


empirismo com o racionalismo, resgatando o conceito de racioempirismo,
mas se desvinculando das posições kantianas notoriamente emblemáticas.
Bunge uniu a experiência empírica com a condição de exercê-la mediante
uso crítico da razão como forma de investigar a realidade. Mais ainda, ele
estabeleceu que seria necessária a unificação do realismo com o
cientificismo proclamado dos filósofos da ala radical do iluminismo
francês, sobretudo com Condorcet, para formular verdades mais profundas
sobre o mundo.

O realismo é a filosofia que advoga a existência de um mundo


independente do sujeito (realismo ontológico) e que ele pode ser conhecido
(realismo epistemológico), mesmo que indireta e parcialmente, enquanto o
cientificismo é a posição segundo a qual a ciência pode produzir o
conhecimento mais profundo e verdadeiro da realidade, em comparação
com outras formas de conhecimentos, como o religioso proveniente da
iluminação religiosa ou mesmo do interpretacionismo hermenêutico.
Porém, diferente da concepção caricata difundida sobre o conceito de
cientificismo, ele não é uma posição preconceituosa e nem autorrefutável,
mas uma atitude esperada de qualquer pesquisador interessado em
investigar a realidade e que acredita que o progresso científico é possível e
desejável. Mais ainda, o cientificismo é um tipo de filosofia que enriquece
a ciência, favorecendo a investigação científica, em vez de focar a atenção
exclusiva na contemplação excessiva de leituras sagradas ou de ideias do
próprio indivíduo, como faziam os filósofos irracionalistas e teólogos, que
negligenciaram séculos de progressos científicos. O cientificismo, hoje,
está entrelaçado com o realismo, dando origem à posição conhecida como
realismo científico.

O realismo científico é a filosofia que admite que podemos tratar teorias


científicas como descrições ou representações verdadeiras do mundo,
mesmo que sejam, por vezes, incompletas. É a posição mais defendida
dentro da filosofia da ciência, em comparação com sua concorrente
antirrealista. O antirrealismo, por sua vez, evita fazer uso de afirmações ou
teorias que não correspondam diretamente à observação pura da realidade,
desconsiderando o progresso contínuo provocado pela física de partículas
ao estudar acontecimentos ou elementos que são imperceptíveis
diretamente à nossa experiência sensível ou mesmo a teorização ou
modelagem matemática de fenômenos macrossociais que escapam da
observação individual do pesquisador sociológico.

Em resumo, o conhecimento filosófico é amplo, contemplando posições


muitas vezes compatíveis ou relacionáveis com a ciência, enquanto outras
vezes apresentando um tipo de conhecimento totalmente oposto ao
científico. Sua característica mais fundamental é o exercício de análise
lógica dos enunciados e das teorias científicas, geralmente realizadas por
filósofos analíticos ou filósofos da ciência. Seu mérito reside no fato de que
ele alimenta tacitamente a ciência em um processo de feedback positivo,
proporcionando um vocabulário mais refinado para a ciência e, ao mesmo
tempo, alimentando seu repertório de problemas com os novos dados da
investigação científica.

ASSIMILE

1. No mínimo, existem quatro tipos de conhecimentos, cada qual com


sua utilidade e aplicação no mundo real.
2. O conhecimento filosófico também tem uma relação de absorção
com outros tipos de conhecimentos, principalmente com o
científico, contribuindo para o fornecimento de um tratamento
conceitual adequado e o levantamento de problemas sobre a
realidade.
3. Apenas o conhecimento científico possui um mecanismo de
autocorreção com o qual ajuda a ciência a se ajustar cada vez mais à
realidade.

O CONHECIMENTO CIENTÍFICO
O conhecimento científico é um tipo de conhecimento sui generis, ou seja,
uma classe de conhecimento único em sua forma. Esse tipo de
conhecimento levou séculos para que fosse desenvolvido e teve a
participação de diversos filósofos ao longo da história, especialmente o
egípcio Ibn al-Haytham e o filósofo inglês Robert Grosseteste, além de
figuras notoriamente conhecidas como Francis Bacon, Galileu Galilei e
David Hume.

Haytham é considerado o primeiro cientista, porque aplicou métodos


empíricos de investigação para estudar a óptica, sobretudo os efeitos da luz.
Grosseteste, por outro lado, é uma figura comumente negligenciada em
livros históricos, mesmo tendo importância central no desenvolvimento das
bases do método científico. Por outro lado, a literatura vigente considera
apenas as contribuições de Bacon, Galileu, Hume e Descartes.

Bacon advogava pela noção de conhecimento intuitivo, ou seja, a ideia de


que, com base em observações particulares, era possível realizar
generalizações. Galileu, por outro lado, é conhecido por realmente ter
aplicado um método científico para a investigação de objetos celestes, indo
além do que os empiristas defendiam, ao usar o raciocínio abstrato, a
imaginação e a instrumentalização adequada para ultrapassar suas
experiências sensíveis. Hume, porém, limitava-se a propor um método
atrelado à percepção, de modo que se fôssemos levar ao pé da letra sua
posição, não seria possível algo como biologia molecular, cosmologia e
principalmente mecânica quântica, já que essas disciplinas transcendem a
pura percepção do investigador científico.

Descartes, no entanto, conciliou um aspecto importante que Hume também


defendia, o chamado ceticismo metodológico. O ceticismo metodológico é
a posição que nos permite duvidar de certas conjecturas ou hipóteses que
não foram submetidas à prova. Essa posição é basicamente uma dúvida
razoável, nunca absoluta, na falta de boas evidências. Em resumo, essa é a
posição que norteia toda a atividade científica ainda hoje.

Com base numa compreensão mais profunda da realidade, os filósofos do


século XX tentaram caracterizar de forma objetiva o conhecimento
científico, buscando delimitá-lo de outras formas de conhecimentos, sendo
a figura mais importante dessa atitude o filósofo austríaco Karl Popper.

REFLITA

1. O que torna o conhecimento científico confiável?


2. Como o conhecimento filosófico pode contribuir com o
conhecimento científico?
3. De forma satisfatória, é possível estabelecer um critério de
demarcação entre ciência e pseudociência, indo além das
concepções propostas no século XX?

Karl Popper (2013) tentou propor um critério de demarcação entre ciência e


não ciência (onde se incluem artes, filosofia e pseudociência), com o
objetivo também de responder ao problema de Hume. Sua ideia era de que
nenhuma observação é suficiente para confirmar uma teoria, que bastaria
um contraexemplo para demonstrar sua falsidade. Analogamente ao
exemplo mais tipicamente usado, o fato de observar cisnes brancos em uma
região não permite fazer uma generalização apressada de que todos os
cisnes são brancos, pois a observação de um cisne negro refutaria a teoria.
Então, Popper lançou a condição de que toda teoria, para ser científica,
deveria ser passível de falseabilidade ou falseacionismo, ainda mais porque
contribuiria para seu refinamento. A falseabilidade é a condição de que
teorias devem ter a capacidade de serem provadas falsas em alguma
circunstância.

Popper argumentava que a confirmação trivial não assegurava uma boa


teoria, utilizando a psicanálise como exemplo de caso para mostrar que a
observação do analista geraria uma confirmação excessiva, embora não
suficiente para avaliar seu grau de verdade. Mais ainda, ele argumentou que
a falta de condições de refutação da teoria psicanalítica seria um elemento
vital para sua fossilização, como o caso do inconsciente freudiano, que
admite a existência de três instâncias psíquicas ou entidades desencarnadas
(id, ego e superego), mas que nunca é clarificado se são conceitos
meramente simbólicos ou objetos tão reais quanto axônios, neurônios,
sinapses e partículas.

Com seu critério de demarcação, Popper foi duramente criticado pelos


filósofos irracionalistas, sobretudo Thomas Kuhn e Paul Feyerabend. Kuhn
(2017) defendeu que existiam, no mínimo, duas ciências: a normal e a
extraordinária. A normal é a ciência acerca da qual existe minimamente um
consenso estabelecido entre a comunidade científica. Em seguida, dentro da
ciência normal, segundo Kuhn, ocorre uma crise sem precedentes,
ocasionada por uma nova descoberta, passando a existir a dificuldade de
estabelecimento de um consenso. Quando essa nova descoberta se
consolida, ocorre uma revolução científica, dando início à etapa de uma
nova e extraordinária ciência, rompendo com velhas concepções de mundo.
Pense, por exemplo, na revolução científica ocasionada pela emergência da
teoria da relatividade geral, que, embora seja sempre lembrada como fruto
do trabalho de Albert Einstein, também teve a contribuição de outros
grandes nomes da física, como Henri Poincaré. A relatividade provocou
uma reação de incerteza na comunidade científica por conta de sua
aceitação total ao longo de anos e das limitações físicas agora evidentes das
teorias newtonianas para o estudo de objetos de grande massa. Isso, porém,
não significa que a relatividade geral demoliu a física de Newton. Isso
também não sustenta a defesa de Kuhn de que não existe algo como
progresso científico. A teoria da relatividade e o uso da mecânica de
Newton têm permanecido de pé ainda hoje, sendo a última responsável pela
possibilidade de envio de foguetes ao Espaço.

Feyerabend (2011), por outro lado, foi ainda mais radical e sentenciou que
não existe algo como método científico e que, na ciência, “tudo vale”, de
modo que não existiriam regras para serem seguidas, a ponto de, segundo
ele, os cientistas diversos romperem com os protocolos de investigação
para formularem suas ideias. Feyerabend foi seduzido por essa visão por
conta de sua descrença na medicina científica e a suposta experiência de
cura por uma curandeira, o que o levou a relativizar o status epistemológico
da medicina em seus trabalhos. Sua posição ficou conhecida como
anarquismo epistemológico. Embora essa seja a visão que mais prevalece
na academia, ela é falsa, porque ignora que não existe ciência sem método
científico (ou seja, sem regras minimamente estabelecidas e/ou
procedimentos experimentais de investigação, principalmente de acordo
com os princípios da pesquisa bioética) e, principalmente, sem ethos (ou
código de conduta) tacitamente aceito pela comunidade científica. Uma
ciência sem método não seria capaz de investigar a realidade em todos os
seus níveis, também não seria capaz de progredir ao longo dos anos e, mais
importante, sem ethos tanto a verdade como a mentira teriam pesos
igualmente válidos dentro da comunidade científica.

O ethos da ciência foi primeiramente clarificado pelo sociólogo da ciência


Robert K. Merton (1968). Ao investigar a comunidade científica, ele
identificou alguns princípios que norteavam a pesquisa científica, sendo
eles: comunismo epistêmico, universalismo, desinteresse, ceticismo
coletivo e originalidade.

O comunismo epistêmico enfatiza que o conhecimento científico é


propriedade de todos, portanto, ele deve ser sempre acessível; o
universalismo advoga que todos os cientistas, independente de sua etnia ou
localização geográfica, podem contribuir com a ciência; o desinteresse
destaca que os cientistas devem agir conforme a comunidade, de acordo
com os interesses coletivos, sempre acima dos interesses pessoais; o
ceticismo coletivo determina que as reivindicações científicas devem ser
submetidas à análise crítica da comunidade; e, finalmente, a originalidade
diz respeito à ideia de que as demandas científicas devem contribuir com a
novidade, seja na formulação de novos problemas, dados ou teorias. A
suspensão do ethos leva ao florescimento da pseudociência.

O conceito de pseudociência, de antemão, exige uma compreensão do que é


a ciência. No entanto, nenhum filósofo havia sido capaz de conceituar a
ciência de forma adequada, deixando sempre espaço para que
reivindicações não científicas se passassem como ciência. O filósofo Mario
Bunge (2010) mostrou que a concepção popperiana de ciência deixava
espaço para que reivindicações parapsicológicas fossem tratadas como
ciência, simplesmente porque satisfaziam o critério de falseabilidade.
Porém, como Bunge enfatizou, o que torna um campo científico não é sua
condição de falseabilidade, mas uma série de princípios, entre os quais
estão incluídos um fundo de conhecimento, uma base formal, uma
epistemologia realista, uma ontologia materialista, um ambiente livre de
pesquisa e, principalmente, a prática de um ethos entre membros da
comunidade científica. Nesse sentido, Bunge (2014) define a ciência como
um sistema de ideias caracterizados como um conhecimento sistemático,
racional, exato, verificável e, portanto, falível, sendo uma representação
conceitual do mundo. Além disso, quando um campo falha em satisfazer a
maior parte dos princípios de cientificidade, ele pode ser considerado
pseudocientífico.

A pseudociência, consequentemente, pode ser conceituada de forma oposta


à ciência, como sendo um sistema de crenças subjetivas, irracionalistas ou
puramente intuicionistas, inexata, inverificável e, portanto, dogmática, pois
ela não submete à prova suas crenças, não exige uma linguagem clara,
precisa e objetiva, nem um vocabulário articulado de ideias inter-
relacionadas, e, quando se mostra falha, como na hipótese da existência do
inconsciente freudiano da psicanálise ou das ondas psi da parapsicologia,
ela permanece estagnada no tempo, não atualizando suas crenças à luz de
novas evidências.

Em resumo, o conhecimento científico é um tipo especial de conhecimento,


que possui em seu aspecto central a revisão constante de hipóteses e teorias
científicas, sempre submetendo à prova conjecturas e, mais ainda,
proporcionando a melhor representação da realidade em todos os seus
níveis (físico, químico, biológico, psicológico, social, artificial, etc.). Por
ser um tipo de conhecimento antidogmático por princípio, ele não deve ser
confundido com a pseudociência, em que, em sua característica mais
essencial, o livre debate de ideias é substituído pelo culto à autoridade e
pela salvação contínua de crenças falsas, por conta do sentimento de
incerteza provocado pelo mal entendimento da ciência.

EXEMPLIFICANDO

1. O conhecimento vulgar (ou senso comum) absorve todos os tipos


de conhecimentos ao longo dos anos. No entanto, ele pode
conservar em seu núcleo crenças falsas sobre a realidade. Por sua
vez, o conhecimento religioso possui, ao menos, duas abordagens
principais, como a que é baseada na iluminação religiosa e a
interpretacionista, advogada por teólogos ou hermeneutas. De
forma semelhante ao conhecimento vulgar, esse tipo de
conhecimento pode manter ideias falsas em seu núcleo, sobretudo
por focar sua abordagem mais no indivíduo subjetivo do que na
investigação da realidade externa.
2. O conhecimento filosófico é amplo em sua forma, sendo difícil
delimitá-lo. Por essa razão, ele pode ser desenvolvido em uma
relação de dependência do conhecimento científico, como também
é possível fazê-lo de forma independente. No entanto, sua
característica mais fundamental tem sido a clarificação dos
conceitos utilizados em diversos tipos de conhecimentos. Além
disso, ele é um tipo de conhecimento que permite fazer certas
generalizações sobre a realidade. Por exemplo: todos os objetos
existentes são materiais; todos os objetos reais possuem
propriedades físicas, como energia; a realidade é um grande
sistema emergente e material; as leis da natureza revelam a
impossibilidade da existência de entidades desencarnadas, como
almas, espíritos, inconsciente freudiano ou cérebros dualísticos.
3. O conhecimento científico é único em sua forma. É o tipo de
conhecimento que produz o entendimento mais profundo e
verdadeiro sobre a realidade, indo além das percepções empiristas,
a partir do momento que destaca o importante papel da teorização
e modelagem para representar a realidade com base nas
evidências. Sua característica mais fundamental é o mecanismo de
autocorreção, que permite corrigir imprecisões e, então, refinar
cada vez mais as explicações sobre o mundo. Por sua natureza
particular, é um conhecimento antidogmático por princípio.

No decorrer do livro, foram exemplificados os diversos tipos de


conhecimentos existentes, bem como os desafios que cada um deles
enfrenta. Também foi explicado como diferentes tipos de conhecimentos
podem ser relacionados com outros, como na relação recíproca entre o
conhecimento filosófico e o científico, em que um enriquece o outro,
proporcionando um aumento gradual do conhecimento na esfera da
atividade humana. Dessa forma, espera-se que, com base nessa introdução,
você tenha a capacidade de distinguir os diversos tipos de conhecimentos,
bem como de procurar aprofundar seu conhecimento ao longo dos anos.

FAÇA VALER A PENA

Questão 1

A falseabilidade é o princípio filosófico no qual uma teoria, para ser


considerada científica, deve ser capaz de realizar predições que sejam
possíveis de serem provadas falsas em alguma circunstância. Um exemplo
bastante difundido para expressar a ideia é a observação de um grupo de
cisnes brancos não ser suficiente para afirmar que todos os cisnes são
brancos, já que a observação de um cisne negro refutaria a afirmação.

Qual o primeiro filósofo a propor a falseabilidade como um critério de


demarcação para a ciência?

A. David Hume.

B. Karl Popper.

C. Francis Bacon.

D. René Descartes.

E. Robert Grosseteste.

Questão 2

O ethos da ciência é o conjunto de princípios éticos coletivos que norteia a


comunidade científica. Esses princípios foram percebidos, pela primeira
vez, pelo sociólogo da ciência Robert K. Merton, que destacou seus
aspectos principais.

Quais princípios formam o ethos da ciência?

A. Autoritarismo - universalismo - niilismo - desinteresse - originalidade.

B. Comunismo - universalismo - ceticismo - desinteresse - originalidade.

C. Socialismo - relativismo - ceticismo - interesse - familiaridade.

D. Dogmatismo - irracionalismo - individualismo - interesse - falsidade.

E. Comunismo - absolutismo - ceticismo - desinteresse - originalidade.


Questão 3

A pseudociência é conhecida por conta de sua marginalidade frente ao


conhecimento científico do momento, de modo que ela não segue nenhum
critério objetivo de investigação e nem sequer cultiva uma comunidade
crítica para a análise de suas ideias.

Quais são as características fundamentais da pseudociência?

A. Originalidade, ceticismo, racionalismo e claridade conceitual.

B. Falsidade, dogmatismo, relativismo e claridade conceitual.

C. Originalidade, ceticismo, racionalismo e obscurantismo.

D. Falsidade, subjetivismo, dogmatismo e obscurantismo.

E. Falsidade, obscurantismo, ceticismo e claridade conceitual.

REFERÊNCIAS

BUNGE, M. Caçando a Realidade: a luta pelo realismo. Tradução de Gita


K. Guinsburg. [S.l.]: Editora Perspectiva, 2010.

BUNGE, M. La Ciencia, su Método y su Filosofía. [S.l.]: Editora


Sudamericana, 2014.

BUNGE, M. Las pseudociencias ¡vaya timo! 2. ed. [S.l.]: Editora Laetoli,


2014.

BUNGE, M. In Defense of Realism and Scientism. Annals of Theoretical


Psychology, Boston, v. 4, p. 23-26, 1986. Springer US. Disponível
em: https://bit.ly/3b59Qg3. Acesso em: 24 nov. 2020.

BUNGE, M.; SCHLÖTTER, P.; RAYNAUD, D.; ROMERO, G. E.;


MOLINA, E.; PIEVANI, T.; LARRINAGA, V. J. S.; ELÍAS, C.; CAMPO,
A. C.; FISAC, M. Á. Q. Elogio del Cientificismo. Tradução de Gabriel
Andrade. [S.l.]: Editora Laetoli, 2017.
DESCARTES, R. Discurso Sobre o Método. [S.l.]: Editora Vozes de
Bolso, 2018.

FEYERABEND, P. Contra o Método. 2. ed. [S.l.]: Editora Unesp, 2011.

KUHN, T. S. A Estrutura das Revoluções Científicas. [S.l.]: Editora


Perspectiva, 2017.

MARCONDES, D. Textos Básicos de Filosofia e História das Ciências:


a revolução científica. [S.l.]: Editora Zahar, 2016.

MERTON, R. K. Sociologia: teoria e estrutura. [S.l.]: Editora Mestre Jou,


1968.

POPPER, K. A Lógica da Pesquisa Científica. 2. ed. [S.l.]: Editora


Cultrix, 2013.

SAGAN, C. O Mundo Assombrado Pelos Demônios: a ciência vista


como uma vela no escuro. [S.l.]: Editora Companhia das Letras, 2006.

FOCO NO MERCADO DE TRABALHO


QUAL A DIFERENÇA ENTRE O
SENSO COMUM E O
CONHECIMENTO CIENTÍFICO?
Douglas Rodrigues Aguiar de Oliveira

Fonte: Shutterstock.
SEM MEDO DE ERRAR

Para resolver o problema, é necessário entender o contexto histórico e


filosófico por trás da origem de cada tipo de conhecimento, destacando os
aspectos fundamentais que levaram à sua aceitação ou rejeição, fazendo
analogias ou experimentos mentais (ou seja, imaginando circunstâncias nas
quais certos tipos de conhecimentos poderiam ser aplicados, levando em
consideração seus possíveis impactos na esfera da vida cotidiana) para
reforçar a aprendizagem.

Um caminho para levar à resolução da situação-problema consiste na


utilização da analogia do conhecimento científico com a atividade política,
entendendo suas principais diferenças, mas destacando seus aspectos de
interdependência. Por exemplo, embora a ciência dependa da política para
uma série de condições, sobretudo no direcionamento de recursos para suas
atividades, ela não é decidida de modo semelhante, de modo que a ciência
não advoga pela democracia para chegar a um consenso, mas opera com
base nos estudos e na qualidade da evidência resultante da investigação da
realidade, confrontando muitas vezes uma visão dominante dentro da
ciência, ou mesmo crenças políticas e religiosas individuais dos próprios
cientistas, até a aceitação plena de teorias mais bem confirmadas, como
ocorreu historicamente no processo de aceitação da teoria da evolução de
Charles Darwin e sua implicação filosófica e política no contraste com o
criacionismo bíblico, e na emergência da mecânica quântica, da qual alguns
físicos, como Albert Einstein, resistiram-se a aceitar a natureza
indeterminística da realidade.

Isso significa que muitas vezes seremos confrontados com visões que
entram em desacordo com nossas preferências políticas, ideologias e
crenças religiosas, mas isso não é um sinal de que devemos abrir mão do
conhecimento científico. Na verdade, devemos trabalhar criticamente para
absorvê-lo da melhor forma possível, especialmente para ajustar nossas
crenças e visões de mundo à realidade. Pense, por exemplo, no caso das
Testemunhas de Jeová e o embate notório em questões de ordem filosófica,
sobretudo ética, e de saúde pública, que norteiam as ciências da saúde, no
que se refere à rejeição de práticas e cuidados médicos relacionados ao uso
da técnica de transfusão de sangue por seus seguidores. A rejeição do
conhecimento científico levaria essas pessoas a permanecerem em
sofrimento, a adoecerem progressivamente, simplesmente porque não
conseguiram conciliar suas crenças e visões de mundo com o conhecimento
científico.

O conhecimento vulgar também está enraizado em diversas concepções


equivocadas do mundo, principalmente nas que trazem algum dano não
apenas à humanidade, mas à natureza e aos animais. Por exemplo, a crença
social compartilhada de que gatos pretos trazem azar, o que instiga o
comportamento de maus-tratos contra animais, simplesmente porque a
população não teve acesso ao conhecimento científico para entender a
origem e a consequência dos mitos ao longo da história. Apenas o
conhecimento científico pode elucidar essas questões, mostrar seus
impactos no mundo real e avaliar o quão realistas são as crenças culturais
ou religiosas mais bem difundidas. Em outras palavras, o conhecimento
científico enriquece a cultura e alimenta a sociedade, contribuindo para que
o senso comum se afaste cada vez de concepções equivocadas do mundo.

Um elemento-chave que contribui para a absorção do conhecimento


científico pelo senso comum é entender que a formulação desse tipo de
conhecimento que se dá através da construção das teorias científicas não
surge espontaneamente do nada, nem de forma isolada com a pura
observação de um fenômeno, mas se baseando em um problema e um
fundo de conhecimento anterior. Contrastar a ciência e a pseudociência
também ajuda a entender os aspectos que influenciam os grupos humanos.
Evidenciar o princípio de abertura às novas ideias que o conhecimento
científico proporciona e sua característica de testar ideias que não nos
parecem razoáveis à primeira observação, como quando estamos pensando
em comprar um carro usado e fazemos perguntas sobre a condição atual do
automóvel, contribui para ajustar nossa visão de mundo a uma posição
mais crítica e realista. Mais ainda, a consequência fundamental do senso
comum absorver a ciência é, a curto prazo, a formação de melhores
tomadores de decisões.

AVANÇANDO NA PRÁTICA

A CIÊNCIA E A SAÚDE MENTAL


Uma pessoa cientificamente orientada, responsável pela análise da gestão
da equipe de uma empresa, poderia identificar que a saúde e a qualidade de
vida no trabalho (QvT) estão prejudicadas no setor em que trabalha, o que
refletiria diretamente na queda dos índices de rendimento e produtividade
da equipe. Como o conhecimento científico poderia auxiliar na resolução
desse problema?

RESOLUÇÃO

A própria pessoa com competências científicas, sobretudo em psicometria


aplicada às organizações, poderia pôr em prática seu conhecimento para
verificar a possível solução do problema, ou mesmo indicar a contratação
de um consultor científico mais especializado. Em um exemplo específico,
pode ser que um colega ou chefe seja responsável por boa parte dessa
queda da QvT. Então, o consultor poderia desenvolver estratégias eficazes,
baseadas no conhecimento científico, para aumentar o nível da QvT.

SEÇÃO 2
NÃO PODE FALTAR
QUAIS SÃO AS CARACTERÍSTICAS
DO CONHECIMENTO CIENTÍFICO?
Douglas Rodrigues Aguiar de Oliveira

Fonte: Shutterstock.

PRATICAR PARA APRENDER

Provavelmente, você já se perguntou o que torna o conhecimento científico


diferenciado em comparação com outras formas de conhecimento, razão
pela qual diversas grandes potências reservam uma parcela de seu PIB para
investir em ciência e tecnologia, mas não encontrou nenhuma explicação
dentro de um contexto histórico apropriado que detalhasse as principais
características do conhecimento científico.

Sem um contexto adequado é impossível discutir o que é conhecimento


científico, bem como explicar quais seriam suas características e o porquê
desse tipo de conhecimento ser único em sua espécie. Por causa dessa
dificuldade de entendimento da ciência, você, em alguma parte de sua vida,
perguntou: “Por que os cientistas estudam planetas distantes em vez de
concentrarem seus esforços em problemas sociais vigentes, como a
desigualdade social, a extrema pobreza e a desnutrição?” ou “Por que
investir milhões de dólares em pesquisas básicas?”

Com um pouco de tratamento filosófico e história da ciência, seria possível


responder que diversos esforços coletivos promovidos dentro do contexto
da história da Era Espacial contribuíram direta e indiretamente para o
surgimento de tecnologias usadas no dia a dia, como travesseiros, painéis
solares, satélites artificiais, detectores de fumaça e muitos outros. Poderia
também ser respondido que uma compreensão profunda da genética levou
ao desenvolvimento de alimentos transgênicos, que são ricos em proteínas,
contribuem para a redução do uso de agrotóxicos e auxiliam diretamente no
combate à desnutrição em países do continente africano.

Explicar a origem de todo esse processo de construção de conhecimento


enriquece a cultura à medida que revela como as características do
conhecimento científico auxiliam no progresso tecnológico, principalmente
na produção de vacinas em contextos de pandemias, como a da Gripe
Espanhola e do novo coronavírus (SARS-CoV-2).

Em uma sala de aula, um professor de Filosofia da Ciência escolhe três


alunos com o objetivo de atribuir a cada escolhido uma disciplina que
alegue o status de ciência: a primeira disciplina é a Astronomia (atribuída
ao aluno A), a segunda disciplina é a Sociologia (atribuída ao aluno B) e a
terceira disciplina é a Psicanálise (atribuída ao aluno C).

Em seguida, os alunos são convidados a aplicar o ceticismo científico na


disciplina atribuída a eles para avaliar suas hipóteses e teorias, bem como
questionar suas bases analisando a possível compatibilidade com os
resultados da ciência.

Supondo que os alunos tiveram êxito no trabalho proposto, considere o


resultado a que cada aluno chegou:

a. A astronomia é uma ciência porque suas teorias são compatíveis


com os dados disponíveis das melhores agências espaciais.
b. A sociologia é uma ciência porque suas teorias são baseadas em
evidências. Além disso, a sociologia consegue, com base no uso de
modelagem computacional, realizar predições sobre fenômenos
sociais com alto nível de acurácia.
c. A psicanálise não parece ser uma ciência, ou talvez seja uma
pseudociência, porque suas principais hipóteses não constituem
uma teoria científica. Mais ainda, algumas alegações sobre possíveis
entidades ou objetos não podem ser testadas ou demonstradas
empiricamente. Ela também tem outro ponto falho, que consiste na
ausência de uma formalização lógica adequada da qual seja possível
a extração objetiva do significado de um conceito central no campo.

Normalmente, o próprio aluno C poderia indagar sobre o motivo pelo qual


a psicanálise ainda mantém um local prestigiado em universidades públicas
e particulares, sendo que ela falha em cumprir os requisitos mínimos
esperados de um campo que alega produzir conhecimento científico.

Quais seriam os possíveis indicadores que revelariam o porquê de certas


pseudociências, como a psicanálise, ainda manterem algum prestígio na
academia, mesmo não cumprindo requisitos esperados de uma atividade
que preza pela verdade?

A ciência é mais que um corpo de conhecimento, é uma forma de pensar,


uma forma cética de interrogar o universo, com pleno conhecimento da
falibilidade humana. Se não estamos aptos a fazer perguntas céticas para
interrogar aqueles que nos afirmam que algo é verdade, e sermos céticos
com aqueles que são autoridade, então estamos à mercê do próximo
charlatão político ou religioso que aparecer.

Carl Sagan, entrevista de 1996.

CONCEITO-CHAVE

CONHECIMENTO CIENTÍFICO: SISTEMATICIDADE, FALIBILIDADE E


QUESTIONABILIDADE
Algumas características essenciais do conhecimento científico mostram
como ele é um conhecimento único em sua espécie, trazendo maior nível
de confiabilidade em comparação com outros tipos de saberes no mundo
contemporâneo. Um aspecto central é seu princípio de sistematização, que
é basicamente a forma como seus enunciados são estruturados logicamente,
evitando confusões da linguagem ordinária, como contradições lógicas e
polissemia.

A sistematização do conhecimento científico permite que seus enunciados


não entrem em contradição ao longo de uma explicação a respeito de algum
fenômeno da realidade, evitando a utilização de jargões desnecessários e,
por vezes, incompreensíveis, como sentenças que fazem parte de muitos
sistemas filosóficos dos chamados filósofos do irracionalismo, como
Friedrich Hegel e Martin Heidegger.
A adoção de uma estrutura lógica dentro de enunciados científicos permitiu
que qualquer discurso ou método dialéticos fosse extirpado do
conhecimento científico, contrariando a crença popular de que a dialética é
um elemento indispensável na atividade científica. Isso ocorre desde o
surgimento da ciência moderna, admitindo tacitamente o Princípio da Não
Contradição de Aristóteles, que assegura que afirmações contraditórias não
podem ser verdadeiras ao mesmo tempo. Portanto, a ciência evita o uso de
proposições contraditórias, como “esse círculo é quadrado”, “toda verdade
é uma mentira” e “tudo é relativo”.

A dialética é um conceito problemático desde Heráclito, significando em


seus primórdios a ideia de que existe um Princípio da Unidade dos
Contrários, ou seja, a ideia de que todas as coisas que existem possuem
uma contraparte ou uma entidade oposta (por exemplo, partículas e
antipartículas). Muitos séculos depois, o filósofo Hegel buscou desenvolver
a dialética dentro de seu sistema filosófico, admitindo alguns pressupostos
da tese original, como a ideia de que existe uma unidade dos opostos e a
noção segundo a qual todas as coisas mudam. No entanto, Hegel foi muito
pouco claro sobre o que ele queria dizer com “dialética”, de modo que até
hoje não existe um consenso entre filósofos sobre o que ela é: uma lógica
não clássica, que romperia com o Princípio da Não Contradição da ciência
moderna; uma ontologia das coisas; ou simplesmente ambas. Apesar do
extenso debate filosófico sobre a dialética, ela não conseguiu ganhar espaço
em nenhuma ciência natural, social ou biossocial – nem mesmo na ciência
formal, com a lógica e a matemática.

Outro aspecto central do conhecimento científico é a falibilidade, que


significa que todo discurso científico é passível de correção, evitando assim
qualquer tipo de dogmatismo, como a estagnação de uma hipótese
científica e o culto à autoridade. Esse conceito está presente na tese do
filósofo da ciência Karl Popper (2013), que estipulou que a falseabilidade
ou refutabilidade é a condição para refinar cada vez mais hipóteses e
teorias científicas.

Esse princípio de falseabilidade é importante para a estruturação de


hipóteses iniciais ou primitivas, por polir afirmações destituídas de
evidências científicas, mas não é um critério de demarcação satisfatório
para produzir conhecimento científico. Na verdade, mesmo que alguns
cientistas considerem que a ciência siga o modelo popperiano, nenhum
filósofo da ciência considera-o como um critério satisfatório –
especialmente porque a pseudociência também mantém um nível de
conciliação com o respectivo critério de demarcação.
A falibilidade permite que a ciência progrida com novos dados e
evidências, fazendo também com que as teorias sejam cada vez mais
(re)ajustadas à realidade, produzindo um conhecimento diferenciado em
comparação com os outros, sendo então mais profundo e verdadeiro. Essa
posição também é admitida por filósofos científicos – ou seja, filósofos que
estão em dia com os resultados da ciência e tecnologia –, que assumem que
a ciência produz um tipo de conhecimento mais profundo e verdadeiro.

A ciência também mantém em seu núcleo um aspecto


de questionabilidade ou ceticismo, que significa dúvida metodológica e
consiste na adoção do ceticismo científico, que é o princípio segundo o
qual todas as hipóteses e teorias devem ser questionadas de forma
metódica, responsável e cientificamente orientada. Isso significa que a
ciência não adota um tipo de ceticismo conhecido como radical, em que
tudo deve ser questionado, que advoga por um questionamento absoluto,
irresponsável, descontrolado e, portanto, dogmático. A questionabilidade
promovida na ciência é a que submete alegações e hipóteses destituídas de
evidências razoáveis à crítica de outros cientistas, promovendo um diálogo
construtivo, sadio e útil para o desenvolvimento da ciência.

O ceticismo científico não deve ser confundido com o negacionismo da


ciência, que é a posição que defende a rejeição completa ou parcial do
conhecimento científico. O negacionismo da ciência está atrelado a
posições ideológicas de seus praticantes, entrando em cena quando a
ciência revela um fato em relação ao qual a pessoa está em desacordo por
alguma razão política, religiosa ou cultural. Alguns exemplos de
negacionismo da ciência incluem a negação de efetividade das vacinas, a
rejeição da circunferência da Terra, a depreciação das consequências das
mudanças climáticas e a resistência em aceitar a evolução biológica das
espécies através do processo de seleção natural.

OBJETIVIDADE, POSITIVIDADE, RACIONALIDADE E EXPLICABILIDADE


No contexto do conhecimento científico, o conceito de objetividade não
deve ser confundido com objetivismo, que é doutrina ideológica e
pseudofilosófica de Ayn Rand. A objetividade se refere à pretensão clara e
objetiva na formulação de enunciados científicos, evitando o subjetivismo
interpretativo, que é a noção segundo a qual é possível a extração de
diversas interpretações e múltiplos significados de um determinado texto.
Por conta de a linguagem científica ser diferente da linguagem ordinária,
principalmente pela sua construção lógica e sistematização, o subjetivismo
não faz parte das proposições científicas.
A objetividade é atrelada a uma concepção positiva de ciência, cujo papel
é o acúmulo gradual de conhecimento por meio da confirmação empírica,
em vez de uma estrutura desordenada que desmorona a cada nova
revolução científica, como defendeu de forma irresponsável o filósofo e
historiador da ciência Thomas Kuhn. Segundo Kuhn (2017), a ciência
muda como a moda, de modo que o objetivo da ciência não seria mais a
verdade. No entanto, essa concepção ignora que todas as revoluções
científicas são sempre parciais, que elas nunca rompem totalmente com o
conhecimento anterior, como é o caso da mecânica clássica de Newton,
que, mesmo após o surgimento da teoria da relatividade geral e da
mecânica quântica, ainda permanece válida para calcular a trajetória de
objetos terrestres e continua sendo usada para enviar foguetes ao espaço.

A teoria da evolução de Charles Darwin também é outro exemplo dessa


característica positiva da ciência, pois ela foi atualizada com os dados da
genética e da biologia molecular, revelando um panorama ainda mais
abrangente sobre a evolução das espécies, explicando até a origem de
certos traços comportamentais nos seres humanos modernos. No entanto, a
ciência não progride apenas com base em experimentos, ela precisa de
racionalidade.

A racionalidade presente no conhecimento científico pode ser explicada


de duas formas, pelo menos: a ideia de que todo discurso científico é
debatível de forma organizada (com o exercício do uso da razão) ou a ideia
de que o raciocínio formal é um alicerce na construção do conhecimento
científico. A primeira ideia pressupõe tacitamente características
anteriormente explicadas, como as noções de sistematização e de
objetividade, de modo que apenas com uma linguagem compreensível,
logicamente e objetivamente coerente, é possível discutir racionalmente
conhecimentos e problemas científicos, enquanto a segunda exprime a ideia
de que a construção de conceitos lógicos e formais serve para representar
objetos que possuem existência concreta, material e real na realidade, como
campos, partículas e cérebros.

De acordo com a última definição, sem o raciocínio formal, o qual consiste


na ciência formal da lógica e da matemática, nenhum conhecimento seria
possível, pois são necessários sempre símbolos e expressões matemáticas
não apenas para representar objetos, mas também para quantificar os dados
oriundos da investigação científica. Até mesmo a filosofia contemporânea,
como a filosofia analítica e a filosofia científica, trata o raciocínio lógico-
matemático como essencial para a produção de conhecimento filosófico.
No entanto, o conhecimento científico busca trabalhar com o raciocínio
formal visando fornecer uma explicação mais adequada com base nos
dados e nas evidências da investigação científica, de modo que não é um
mero exercício lógico destituído de valor empírico.

A pretensão de elaborar cada vez mais proposições e teorias ajustadas à


realidade revela o aspecto de explicabilidade da ciência. Sem a pretensão
de explicar a realidade, ou algum de seus níveis em particular (físico,
químico, biológico, psicológico, social, artificial, etc.), os cientistas não
teriam qualquer motivo para investigar o mundo e produzir conhecimento
científico. A explicabilidade, portanto, refere-se simplesmente ao papel da
ciência em investigar o mundo e prover conhecimentos cada vez mais
profundos sobre as coisas.

ASSIMILE

1. O conhecimento científico advoga pelo princípio de racionalidade,


de modo que seu discurso é universalmente compreensível.
2. O aspecto corretivo do conhecimento científico é sempre guiado
pelas evidências da realidade.
3. Toda a atividade científica cultiva o questionamento cético
moderado ou razoável, que é orientado pela evidência.

REVISIBILIDADADE, AUTONOMIA, ACUMULABILIDADE E


VERIFICABILIDADE
O conhecimento científico é justamente difícil de definir por conta de suas
diversas características. Em comparação com o conhecimento religioso, por
exemplo, apenas o conhecimento científico tem como preocupação
a revisibilidade de seus conceitos e teorias mediante a investigação
científica. Enquanto o conhecimento religioso admite múltiplas
interpretações de um texto como igualmente válidas, o que importa no
conhecimento científico é a compatibilidade de seu corpo de conhecimento
com as evidências, independente do que um cientista pensa a respeito. Pelo
mesmo motivo, a ciência não deve ser comparada com a política, pois seu
conhecimento não é decidido como verdadeiro mediante uma votação por
decreto ou escolha da população. O conhecimento científico é tratado como
verdadeiro quando os resultados de uma investigação apontam numa
determinada direção.

Já a autonomia existente na ciência pode se referir ao âmbito individual e


coletivo, como quando um cientista tem liberdade para investigar -
seguindo os protocolos éticos da pesquisa científica - e quando a ciência
tem liberdade para investigar problemas que contradizem anseios políticos.
Por exemplo, quando os cientistas sociais podem estudar livremente os
impactos das desigualdades sociais nas populações de baixa renda, ou
quando o objeto de estudo são os efeitos sistêmicos das mudanças
climáticas, que, normalmente, contradizem interesses privados de empresas
ou políticos. Contraexemplo: quando os cientistas são impedidos de
investigar por conta de sua nacionalidade ou etnia, como ocorreu com os
físicos judeus durante a emergência do nazismo na Alemanha, ou quando
os pesquisadores são perseguidos pelo governo com a desculpa de serem
infiltrados de uma potência mundial rival ou advogarem por uma suposta
ideologia contrária à aceita pelo Estado, como aconteceu no caso dos
geneticistas de plantas na antiga União das Repúblicas Socialistas
Soviéticas (URSS).

Mesmo com todas as dificuldades que a história da ciência revela sobre o


processo de construção do conhecimento científico ao longo dos séculos,
toda a experiência passada é traduzida em conhecimento sociológico,
revelando que a ciência e a política, embora sejam atividades
completamente distintas, dependem de uma relação amigável para
prosperarem, seja para promover a investigação científica fornecendo
recursos financeiros do Estado, seja para usar os resultados científicos na
elaboração de políticas públicas mais justas.

A acumulabilidade do conhecimento científico é o que justifica seu


aspecto de progresso, justamente porque exemplos de experimentos
malsucedidos são considerados, não apenas para refletir sobre os desafios
metodológicos e epistemológicos da ciência, mas também para aumentar o
rigor necessário durante a avaliação dos trabalhos que são submetidos para
revistas científicas. Mais ainda, os resultados negativos na ciência, com
base no olhar sociológico, podem revelar aspectos que foram
negligenciados sistemicamente durante a época de aceitação ou
implementação de uma ideia. Por exemplo, a aplicação política de ideias
pseudocientíficas, que já não eram muito bem aceitas, no início do século
XX, como a eugenia e o darwinismo social, levou ao extermínio de judeus,
negros, pobres e pessoas com deficiência, sob o pretexto de “busca pela
pureza genética”.

A elucidação da pseudociência só foi possível graças ao princípio


de verificabilidade da ciência, que é a ideia segundo a qual um enunciado,
uma hipótese ou uma teoria deve ser passível de ser colocada à prova. No
entanto, o conceito de verificabilidade requer um contexto adequado por
conta de sua polissemia.

A noção mais forte de verificabilidade foi apresentada pelo lógico Rudolph


Carnap, durante a emergência do positivismo lógico do Círculo de Viena.
Esse círculo era formado por um grupo de cientistas e filósofos
interessados nos problemas filosóficos, históricos e sociológicos da ciência.
A despeito dos mitos que circulam sobre o círculo, eles defendiam teses
bastantes heterogêneas, tinham preocupações políticas e sociais sobre a
atividade científica, não eram ingênuos e nem reducionistas (não reduziam
todo o conhecimento às ciências naturais) e buscavam uma linguagem
universal para a ciência. No entanto, a tese de Carnap ficou imensamente
conhecida ao ponto de ser tratada equivocadamente como representativa de
todo o círculo.

A tese verificacionista de Carnap postulava que uma proposição tem


sentido se, e somente se, existir alguma circunstância que permita sua
verificação. Se não existisse alguma possibilidade de verificação, a
proposição seria considerada como destituída de sentido e significado e,
portanto, ela não faria outra coisa a não ser trazer pseudoproblemas. Essa
tese foi duramente golpeada, justamente por outro filósofo que era
simpatizante do círculo, mas que não fazia parte dele: Karl Popper.

Karl Popper enfatizou que a tese não era suficiente como um critério para
proposições, além de diversos outros problemas enumerados em sua obra A
Lógica da Pesquisa Científica (2013), argumentando que a condição de
verificabilidade não é suficiente para que uma proposição ou teoria seja
considerada científica, mas simplesmente a condição de sua possível
refutação. Para Popper, uma teoria é científica se, e somente se, existir
alguma circunstância que permita sua refutação. Se não existir nenhuma
circunstância passível de refutação, a teoria não é considerada científica.
Com isso, Popper lançou as bases de sua hoje conhecida tese: o
falseacionismo.

REFLITA

1. Dado o sucesso do conhecimento científico na explicação de


diversos fenômenos da realidade, o que torna a ciência um campo
confiável?
2. Dado o contexto de negacionismo anticientífico na sociedade
contemporânea, por que é importante adotar o ceticismo
científico?
3. Por que a lógica é um elemento indispensável dentro do
conhecimento científico?
FACTUALIDADE, ANALITICIDADE E COMUNICABILIDADE
A ciência não se resume a uma atividade puramente empírica. Ela também
contempla disciplinas que lidam com aspectos formais do método
científico, que usam seu aspecto de racionalidade para investigar problemas
matemáticos, lógicos e semânticos. Para clarificar essa abrangência, é
necessária uma distinção rápida sobre esses dois tipos de ciências: a ciência
fática (ou factual) e a ciência formal.

Como explica o filósofo Mario Bunge em seu livro La Ciencia, su Método


y su Filosofía (2014), a ciência fática lida com entes concretos ou
materiais (como campos, partículas, animais, pessoas), adequa-se aos fatos
e possui consistência empírica (como a física, a química, a biologia, a
psicologia, a sociologia), enquanto a ciência formal lida com entes ideais
(como números, conceitos, axiomas), adequa-se a um conjunto de regras e
possui consistência racional (como a lógica e matemática). No entanto,
tanto a ciência fática como a ciência formal normalmente se cruzam em um
processo de enriquecimento contínuo.

A ciência formal fornece à fática a analiticidade essencial para sua


sistematização, formalização e objetividade. Com esse tratamento analítico,
o conhecimento científico se torna mais exato, porque evita-se a
ambiguidade e a armadilha da linguagem ordinária. Desse modo, justifica-
se a definição de Bunge (2014) da ciência como um tipo de conhecimento
sistemático, racional, exato, verificável e, portanto, falível, sendo a melhor
reconstrução conceitual do mundo do qual fazemos uso.

Finalmente, a ciência preza pela comunicabilidade, ou seja, os resultados


científicos são passíveis de serem comunicáveis de forma objetiva para
quaisquer pesquisadores ao redor do mundo. Mais ainda, os resultados
podem ser traduzidos na linguagem ordinária com o objetivo de visar à
popularização da ciência e ao enriquecimento cultural através da atividade
de divulgação científica.

EXEMPLIFICANDO

1. O conhecimento científico tem uma estrutura lógica ordenada, a


qual permite a extração de proposições objetivas.
2. O conhecimento científico visa explicar a realidade em sua
totalidade, adequando sua metodologia científica para o estudo de
cada nível (físico, químico, biológico, psicológico, social e artificial).
3. O conhecimento científico progride ao longo do tempo, ajustando
suas teorias às evidências, corrigindo imprecisões e mantendo seu
aspecto questionador frente a uma gama de hipóteses sobre o
mundo.

Devido à natureza peculiar do conhecimento científico, suas diversas


características revelam o porquê de ele poder ser considerado como um tipo
de conhecimento mais profundo, verdadeiro e confiável. Embora muitos
argumentem que o aspecto autocorretivo seja uma sentença de risco, o que
levaria a duvidarmos cada vez mais do nível de verdade e profundidade
desse tipo de conhecimento, ignora-se que a requerida compatibilidade das
teorias com as evidências é o que aproxima a ciência da descrição mais
precisa o possível da realidade.

FAÇA VALER A PENA

Questão 1

O ceticismo científico é uma das características fundamentais da ciência e


de toda a atividade intelectual. O astrônomo e divulgador científico Carl
Sagan escreveu uma obra chamada O Mundo Assombrado Pelos
Demônios (2006), em que ele descreve exemplos de aplicação do ceticismo
científico na vida cotidiana. O ceticismo, argumenta Sagan, é uma
ferramenta indispensável para não deixar enganar a nós mesmos.

Qual é a definição de ceticismo científico?

A. Uma abordagem filosófica que adota a suspensão de juízo pela


impossibilidade de provar algum fenômeno.

B. Uma abordagem niilista que considera a ciência isenta de valores.

C. A negação absoluta do conhecimento científico.

D. Uma abordagem que consiste na dúvida metódica ou razoável aplicada


a situações e afirmações destituídas de boas evidências.

E. A crença religiosa no poder da ciência.

Questão 2
A verificabilidade é a noção que advoga a preocupação com o teste
experimental. No entanto, essa posição não pode ser confundida com o
verificacionismo do Círculo de Viena e nem com o falseacionismo do
filósofo da ciência Karl Popper.

O que significa verificacionismo?

A. Um critério de demarcação entre ciência e pseudociência.

B. Um critério para verificar através da observação se certos enunciados


são significativos.

C. Um critério ético para a ciência.

D. Um axioma matemático.

E. Uma lógica não clássica.

Questão 3

A lógica é uma ciência formal, embora possa ser aplicada na ciência fática
com o objetivo de proporcionar melhor clareza e objetividade para os
enunciados científicos. Seu uso evita a ambiguidade da linguagem
ordinária, facilita o entendimento conceitual e impede a contradição no
conhecimento científico. A dialética, por outro lado, tolera contradições e
ambiguidades da linguagem ordinária. No entanto, ela ainda é considerada
por muitos como uma ferramenta essencial para a ciência, os quais acabam
ignorando suas implicações com o Princípio da Não Contradição de
Aristóteles e defendendo que ela serve como uma técnica de
comparabilidade entre ideias aparentemente distintas, a partir da qual, de
alguma forma, seria possível a extração de uma nova ideia ou hipótese.

Historicamente, qual pensador é considerado o pai da dialética?

A. Friedrich Hegel.

B. Friedrich Nietzsche.
C. Martin Heidegger.

D. Aristóteles.

E. Heráclito.

REFERÊNCIAS

BUNGE, M. La Ciencia, su Método y su Filosofía. [S.l.]: Editora


Sudamericana, 2014.

CARNAP, R. The Logical Structure of the World and Pseudoproblems


in Philosophy. [S.l.]: Editora Open Court, 2003.

MARCONDES, D. Textos Básicos de Filosofia e História das Ciências:


a revolução científica. [S.l.]: Editora Zahar, 2016.

POPPER, K. A Lógica da Pesquisa Científica. 2. ed. [S.l.]: Editora


Cultrix, 2013.

SAGAN, C. O Mundo Assombrado Pelos Demônios: a ciência vista


como uma vela no escuro. [S.l.]: Editora Companhia de Bolso, 2006.

FOCO NO MERCADO DE TRABALHO


QUAIS SÃO AS CARACTERÍSTICAS
DO CONHECIMENTO CIENTÍFICO?
Douglas Rodrigues Aguiar de Oliveira
Fonte: Shutterstock.

SEM MEDO DE ERRAR

Para resolver o problema, é necessário pensar nas circunstâncias sociais


que moldam a administração e gestão universitária.

Desse modo, pode-se concluir que a pseudociência mantém algum nível de


prestígio e lugar na universidade, não por razões teóricas ou níveis de
verdade, mas simplesmente pela pressão social exercida pelos próprios
praticantes da disciplina, de modo que a simples existência de grupos
fechados, onde apenas profissionais certificados da área sejam tolerados,
contribui para o impedimento da livre circulação de ideias sobre os
problemas que o campo enfrenta.

Ao impedir que profissionais de outros campos relacionados tenham direito


ao debate, como psicólogos experimentais, neurocientistas cognitivos e
biólogos evolutivos, revela-se o indicador de dogmatismo, que está
presente em qualquer pseudociência e visa impedir o fomento da crítica
científica responsável com o objetivo não apenas de análise dos problemas
de um campo, mas também de procurar ajustar suas hipóteses aos melhores
dados disponíveis da investigação comportamental.

Revelados seus aspectos opostos ao do conhecimento científico, justifica-se


que um campo ou disciplina não se constitui de um saber científico
autêntico. Então, é necessário também procurar saber as motivações que os
envolvidos na prática teriam apenas para manter o ensino de psicanálise em
instituições de educação, como a questão da remuneração excessiva
envolvida e a reputação da qual gozam em certos setores universitários e da
grande mídia.

AVANÇANDO NA PRÁTICA

ANÁLISE DA SUPOSTA REIVINDICAÇÃO CIENTÍFICA POR COACHES


O mundo empresarial está repleto de “choaches profissionais”, que são
sujeitos que alegam dedicar-se ao desenvolvimento cognitivo,
comportamental e organizacional da classe trabalhadora por meio de
técnicas que devem ser aplicadas diariamente para maximizar a capacidade
de trabalho. O coaching, porém, não é uma profissão regulamentada e,
constantemente, choca-se com o mesmo tipo de problema que é tratado por
profissionais certificados, como psicólogos, psiquiatras, técnicos de
administração e de gestão de empresas. Os coaches, de forma rotineira,
fazem uso do jargão científico, alguns reivindicam até que suas ideias são
compatíveis com a física quântica, com o objetivo de enfatizarem que suas
técnicas possuem respaldo da ciência. Com base no que você aprendeu ao
longo do livro, como alguém poderia saber se as reivindicações dos
coaches são realmente baseadas em evidência?

RESOLUÇÃO

O primeiro indicativo de que o coaching não é baseado em evidência é a


falta de regulamentação profissional para um campo que reivindica técnicas
para a saúde mental, a segurança e a gestão no trabalho.

O segundo indicativo é o excesso de autodenominados coaches que alegam


possuir técnicas próprias e/ou originais baseadas em ciência, porque uma
técnica testada não é um produto “original”. Uma técnica baseada em
ciência geralmente é aperfeiçoada ao longo do tempo, por mais de uma
pessoa, de modo que sua originalidade individual é extirpada pelo
enriquecimento da contribuição coletiva da ciência. No entanto, os coaches
não alegam que sua técnica foi produto de estudo colaborativo da ciência,
embora reivindiquem o status de cientificidade.

O terceiro indicativo é a busca por papers, ou seja, artigos científicos que


são publicados em revistas acadêmicas especializadas. Esses papers passam
por um processo de revisão por pares, que é basicamente um processo de
crítica responsável feita por pesquisadores independentes para avaliar a
consistência dos dados com a hipótese proposta e procurar possíveis
indicações de fraudes e/ou falhas metodológicas ao longo da estrutura do
trabalho submetido. Se o coaching, por exemplo, não tem trabalhos
publicados em revistas especializadas com alto fator de impacto,
confirmando assim suas principais hipóteses, então o campo é qualquer
coisa, exceto ciência e técnica baseada em evidência.

O quarto indicativo é o apelo à física quântica, uma falácia lógica


contemporânea, que consiste em reivindicar a autoridade da teoria quântica
para supostamente embasar alguma afirmação extraordinária. Pelo fato de a
física quântica possuir uma matemática complexa, ela geralmente acaba
sendo mal compreendida pelo público leigo, de modo que hoje coaches e
outros pseudocientistas a invocam para explicar qualquer coisa sobre o
mundo. A física quântica, no entanto, não lida diretamente com aspectos
comportamentais dos seres humanos e nem endossa qualquer alegação de
autoajuda individual e empresarial. Ela também não diz nada sobre o
pensamento alterar a realidade. Normalmente, a física quântica lida com o
estudo de objetos pequenos, como campos e partículas elementares, bem
como algumas de suas aplicações para estudar fenômenos biológicos (como
a bússola magnética dos pássaros) e químicos. Essas concepções
equivocadas da teoria quântica surgem de uma confusão envolvendo o
conceito de observador (uma noção propagada pelo documentário
pseudocientífico Quem Somos Nós, de 2004), que, contrariamente à crença
popular e ao significado da linguagem ordinária, não significa consciência,
pensamento ou seres humanos, mas, sim, instrumento de medida – ou seja,
o aparato técnico que faz a medição da partícula. Então, quando um
suposto profissional diz que a física quântica explica o comportamento, a
sociedade, a mente, ou que ela alega que o pensamento pode mudar
realidade, significa que essa pessoa não entende de física quântica ou está
sendo bem mal-intencionada para vender alguma receita milagrosa e,
consequentemente, falsa.

Por conta desses indicativos, é razoável supor, com um grande nível de


certeza, que a disciplina reivindicada, como o coaching (autoajuda
empresarial), constitui um exemplo de campo não baseado em evidência.
Mais ainda, em razão de o campo apelar à ciência para justificar suas
alegações que carecem de evidências (ou simplesmente são falsas), é
seguro sentenciar que o coaching constitui um exemplo de pseudociência.

SEÇÃO 3
NÃO PODE FALTAR
COMO AGIR COM ÉTICA NA
PESQUISA CIENTÍFICA?
Douglas Rodrigues Aguiar de Oliveira

Fonte: Shutterstock.

PRATICAR PARA APRENDER

Provavelmente, em algum momento de sua vida, você já pensou sobre as


possíveis consequências éticas do uso de animais na pesquisa científica, ou
mesmo sobre os experimentos nazistas com humanos. Com base nesses
exemplos, é possível que você tenha considerado que a ciência poderia
estar isenta de princípios éticos, ao menos é o que algumas pessoas
defendem.

No entanto, será que a ciência é um “tudo vale”, em que reflexões sobre a


ética e a saúde dos indivíduos ou animais de laboratórios não são
consideradas? Será que a ética representa um empecilho para o
desenvolvimento pleno da ciência? Até que ponto devemos estar cientes da
importância dos postulados éticos que norteiam a pesquisa científica?

Na corrida não apenas por um entendimento profundo sobre doenças


emergentes, mas também pelo desenvolvimento de medicamentos e
vacinas, certos protocolos éticos desempenham sua importância na
investigação científica. Além disso, a ética, enquanto campo de
investigação, tem conseguido acompanhar a ciência com o objetivo de
enriquecê-la ao estudar seus potenciais problemas éticos.

Com base no estudo recíproco entre ciência e ética, alternativas cada vez
mais humanísticas para o estudo em laboratório têm sido apresentadas, com
o objetivo de evitar o uso e o teste desenfreados com animais. Mesmo o
campo da tecnologia, que mantém uma relação bilateral com a ciência,
também tem levado em consideração o raciocínio ético, principalmente ao
pensar nas possíveis consequências sobre o desenvolvimento de armas e
robôs automatizados em um contexto de guerra.

Aqui, convido você a concentrar-se nos fundamentos éticos da pesquisa


científica, analisando seus possíveis impactos e benefícios no
desenvolvimento da ciência.

Um grupo de cientistas quer investigar o cérebro humano e, para isso, eles


lançam uma ficha de inscrição solicitando voluntários para sua pesquisa. A
pesquisa é apresentada como tendo grande potencial para a área da saúde,
com o objetivo de testar um futuro medicamento para a doença de
Alzheimer. No entanto, a ficha de inscrição não diz nada sobre os possíveis
riscos aos voluntários ao serem submetidos ao teste experimental. Em
resumo, não há avaliação dos riscos sendo apresentada para os voluntários.

Mesmo na ausência de protocolos de riscos, diversos voluntários assinam a


ficha de inscrição com o objetivo de contribuírem para a ciência. Então, o
grupo de cientistas inicia sua pesquisa neurocientífica.

No experimento, os cientistas dividem seus voluntários em dois grupos: o


grupo A e o grupo B. O grupo A recebe uma droga com potencial de
reparar danos nas células cerebrais e maximizar a memória, enquanto o
grupo B recebe placebo. Quem está incumbida de ministrar os
comprimidos é uma enfermeira voluntária.

No decorrer do experimento, o grupo A começa a relatar cefaleia, náuseas,


vômitos, diarreias e perda de apetite. O grupo B, no entanto, relata apenas
uma sensação de relaxamento. Então, após os cientistas decidirem dosar
uma segunda leva de comprimidos, ocorre a morte de um voluntário no
grupo A.

O grupo de cientistas, então, decide que o experimento deve ser encerrado,


por conta da morte e dos efeitos graves provocados pela ingestão da
substância.

acordo com a situação-problema, quais foram as violações éticas que o


grupo de cientistas cometeu e que contribuíram para o fracasso do
experimento científico?

O progresso científico, guiado pelos princípios morais delineados nos


demais mandamentos, é a condição indispensável do progresso humano e
das liberdades individuais e por isso ele não será jamais obstado por
qualquer princípio religioso, por relativismos culturais ou particularismos
sociais que possam existir."

Richard Dawkins.

CONCEITO-CHAVE

A ÉTICA NA PESQUISA CIENTÍFICA: A QUESTÃO DOS VOLUNTÁRIOS


A ética é um campo de conhecimento filosófico que estuda os princípios
éticos. No entanto, existe também uma ética científica, que é o enfoque
multidisciplinar que, em conjunto com a ciência, busca avaliar a
plausibilidade da adoção de certos princípios éticos e normas sociais. No
geral, esse campo pode ser visto como o estudo do comportamento moral
com base na antropologia, na psicologia, na sociologia e na história,
tratando de abordar o surgimento, a manutenção, a reforma e o declínio das
normas sociais, enquanto a ética filosófica analisa conceitos éticos, como
altruísmo, bondade e cooperação, bem como filosofias éticas ou
simplesmente preceitos morais, ou seja, ações justificadas por princípios
éticos filosóficos que podem ser benéficas ou nocivas para outras pessoas.

A ética também estuda a ciência – especialmente, as normas éticas que


vigoram na comunidade científica. Ela estuda ainda o impacto ético de
certos estudos que são feitos com animais e humanos. Além disso, a ética
está interessada no comportamento inadequado durante o desenvolvimento
de uma pesquisa – principalmente, na motivação do cientista em fraudar
resultados. De fato, a ética é uma disciplina abrangente por conta de sua
ampla gama de problemas estudáveis, sobretudo da ciência.

Entre os diversos problemas éticos que advém da atividade científica, três


merecem atenção: a questão do consentimento dos voluntários para o
desenvolvimento de uma pesquisa, o problema da preservação de
identidade e integridade e, por último, a relação entre voluntários e
pesquisadores no decorrer da investigação científica.

O primeiro problema ético, que envolve a questão do consentimento dos


voluntários, refere-se à autorização prévia de uso de certos dados dos
participantes na pesquisa científica. De outro modo, uma pesquisa que
utiliza de forma indevida dados de seus voluntários sem o consentimento
necessário está violando princípios éticos e, consequentemente,
prejudicando a qualidade da pesquisa.
O segundo problema ético, referente à preservação de identidade e
integridade, refere-se à proteção de informações sensíveis dos participantes
de um estudo experimental. Também se refere ao princípio de que os
participantes devem estar cientes dos riscos envolvidos no teste
experimental do qual serão voluntários – nesse caso, é importante deixar
claros os possíveis riscos trazidos aos voluntários ao se submeterem ao
experimento.

O terceiro problema ético envolve a relação entre voluntários e


pesquisadores. Nesse sentido, o problema mais evidente é a possível
manipulação do comportamento dos voluntários de acordo com a intenção
do cientista de obter um resultado específico em um estudo clínico. Por
exemplo, um voluntário poderia agir de acordo com as expectativas do
pesquisador ao ser submetido a um teste clínico para investigar a eficácia
de algum fármaco – o que, consequentemente, enviesaria os resultados,
prejudicando a qualidade da evidência. O voluntário poderia dizer que, ao
ingerir o fármaco testado, ele conseguiu obter os melhores benefícios à
saúde, mesmo que o relato, de fato, não proceda. Portanto, durante a
condução de testes clínicos, principalmente no âmbito da saúde, é
necessário que os voluntários sejam selecionados de forma aleatória
(randomizados), que exista uma amostragem significativa para ser
representativa e, mais ainda, que existam grupos de controle de placebo –
especialmente para identificar a possibilidade de o resultado obtido sobre a
eficácia do fármaco ser estatisticamente significativo quando comparado ao
grupo que tomou placebo (por exemplo, uma pílula de farinha que
visivelmente parece ser o fármaco real, mas sem suas propriedades
farmacológicas).

ÉTICA COM OS DADOS DA PESQUISA


A ética também está relacionada à forma como o trabalho científico é
produzido e apresentado na hora da avaliação pelos pares, de modo que
plágios, manipulações de dados estatísticos e falsificações não são
tolerados quando descobertos pelos revisores. Na pseudociência, acontece
o contrário: a manipulação e falsificação de dados é sempre tolerada em
nome do convencimento público em favor de uma hipótese. Por exemplo, o
caso envolvendo o hoteleiro Erich von Däniken, autor do livro Eram os
Deuses Astronautas? (2018), que falsificou dados para apoiar a sua
reivindicação de que os alienígenas teriam visitado a Terra no passado e
ajudado as civilizações antigas a construírem artefatos megalíticos; e o caso
relatado pelo crítico literário Frederick Crews, em seu livro Freud: The
Making of an Illusion (2017), que expõe diversas fraudes cometidas pelo
médico e neurologista Sigmund Freud no decorrer da história da
psicanálise – especialmente, quando Freud mentiu sobre os benefícios da
cocaína em pacientes viciados em morfina, ou quando se apropriou dos
escritos de outros autores que já haviam produzido trabalhos sobre o
inconsciente e quando reforçou, sem qualquer evidência, a histeria como
um comportamento estereotipado do sexo feminino.

A parapsicologia é um excelente exemplo histórico que mostra como a


ética pode ser vital para a questão da validade de um campo de
investigação, pois é uma disciplina que nasceu no século XIX como sendo
um exemplo de ciência, mas que caiu no esquecimento após um
enriquecimento de seus protocolos éticos de pesquisa. Basicamente, a
parapsicologia nasceu com o objetivo de estudar o suposto fenômeno
paranormal, que era tratado como real pelos parapsicólogos. No entanto,
com o auxílio de mágicos e ilusionistas entre o final do século XIX e início
do século XX, como o famoso cético Harry Houdini, o fenômeno
paranormal começou a ser identificado como meros truques de ilusão,
sendo apenas produtos de fraude intencional, nos quais os cientistas
acreditavam porque não estavam instruídos sobre seus pontos cegos. Com a
orientação de Houdini e, muito mais tarde, de outros mágicos que surgiram
em meados dos anos 1980, como James Randi, os protocolos de pesquisa
científica de pesquisa parapsicológica começaram a ser projetados por
ilusionistas e céticos interessados nesse tipo de investigação. Após a
implementação desses protocolos, seguida pela constante revisão de
estudos do campo da parapsicologia, absolutamente nenhuma evidência foi
encontrada a favor do suposto fenômeno paranormal. Desde então, estudos
do campo da ética sobre a pesquisa científica têm utilizado a parapsicologia
como um expressivo exemplo de como fraudes e manipulação de dados
levam à degradação de um campo de investigação e à consequente
classificação de pseudociência, pois ainda que a hipótese do fenômeno
paranormal nunca fosse confirmada experimentalmente, os parapsicólogos,
caso estivessem orientados pela ética em sua pesquisa, poderiam realizar
estudos investigando os fatores sociais que levariam as pessoas a
acreditarem em crenças paranormais ou espirituais, sem precisarem
pressupor que elas são reais.

Na comunidade científica, esses exemplos de comportamentos antiéticos


não são tolerados sob nenhuma forma – por isso, nenhum astrônomo ou
astrobiólogo responsável considera como plausível a noção de que
extraterrestres já visitaram a Terra; nenhum filósofo científico, psicólogo
experimental ou neurocientista cognitivo considera a psicanálise como um
campo válido do conhecimento científico; e, claro, nenhum físico ou
psicólogo experimental considera a parapsicologia uma ciência.
Um trabalho científico orientado eticamente é original, com dados
normalmente refletindo as consequências reais do estudo. De fato, podem
ocorrer casos em que os revisores independentes encontram falhas, mas um
cientista que preza pela ética buscará corrigir o trabalho que apresentar
problemas. Também é possível a violação dessas condutas éticas durante a
investigação científica, mas quando isso acontece, os pesquisadores são
punidos, em vez de recompensados – por exemplo, na pseudociência, como
nos casos de Däniken e de Freud, eles são considerados revolucionários,
em vez de charlatões, pelo grande público.

ASSIMILE

1. A ética é um campo de investigação filosófico que pode usar os


dados da ciência para avaliar princípios éticos ou normas sociais.
2. A ética também é um princípio filosófico que norteia a pesquisa
científica, de modo que não é possível a existência da ciência sem
princípios éticos ou normas sociais (como o ethos da ciência
clarificado pelo sociólogo da ciência Robert K. Merton).
3. Apenas a pseudociência negligencia os princípios éticos, de modo
que a trapaça é considerada válida para moldar a crença ou opinião
de algum indivíduo.

ÉTICA COM O RIGOR CIENTÍFICO


A atitude ética na investigação científica representa o cuidado que os
pesquisadores devem ter ao elaborarem seus projetos de pesquisa, pois
existem órgãos reguladores que avaliam as consequências sobre certos
tipos de estudos que usam animais e humanos – por exemplo, estudos com
impactos nocivos à saúde dos indivíduos geralmente não são aprovados,
especialmente por conta de experiências relatadas anteriormente em
investigações psicológicas, como o famoso experimento de aprisionamento
de Stanford, cujo objetivo era analisar o comportamento humano numa
sociedade na qual os indivíduos eram apenas definidos pelo grupo. Esse
experimento teve que ser interrompido bem antes de sua conclusão porque
os voluntários começaram a usar formas de tratamento abusivas com outros
participantes, como violência física e verbal.

A orientação ética na pesquisa científica destaca que o cientista também


deve ter cuidado durante a coleta de dados, de modo a evitar possíveis
contaminações e/ou enviesamento cognitivo, pois poderiam prejudicar a
qualidade do trabalho. Resultados obtidos de forma duvidosa levam ao
desperdício de recursos essenciais – às vezes, dinheiro público –, que
poderiam ser usados em pesquisas mais bem projetadas. Por essa mesma
razão, a replicação de estudos é vista como uma tarefa fundamental para
identificar o risco de contaminação e enviesamento nos resultados de um
estudo individual.

Um cientista deve ser orientado pelos riscos que uma pesquisa malfeita
pode trazer a longo prazo, principalmente em uma sociedade com recursos
escassos que esteja passando pelo enfrentamento de crises econômicas ou
pandemias. A ética revela o nível de responsabilidade do cientista com sua
produção intelectual, de modo que negligenciá-la só contribuirá para a
justificação ideológica de corte orçamentário da pesquisa científica – pelo
menos, é o pretexto mais frequentemente utilizado por governos
anticientíficos, pois não enxergam a ciência como um investimento vital
para o progresso social, mas como um gasto desnecessário, sob a desculpa
do suposto excesso de fraudes, vieses cognitivos e erros ao longo da
história da ciência.

REFLITA

1. Qual lição podemos aprender ao adotarmos princípios éticos na


elaboração das pesquisas científicas?
2. Como a ciência pode contribuir com a ética?
3. Por que a rejeição dos princípios éticos leva ao florescimento da
pseudociência?

INSTÂNCIAS ÉTICAS
Quando um cientista é denunciado por fraude, uma comissão de ética pode
ser convocada para analisar o caso, podendo ocorrer até a perda da titulação
acadêmica do pesquisador. Em outras situações, dependendo do nível da
ocorrência, a retratação pública do próprio cientista pode ser vista como
suficiente em um caso não intencional de erro na elaboração de sua
pesquisa.

Órgãos regulatórios também contribuem para analisar de que forma os


animais usados em experimentos estão sendo tratados, de modo que a
violência e o sofrimento não são toleráveis no ato da pesquisa científica. A
violação das normas éticas de proteção animal pode levar ao encerramento
imediato da investigação científica e o autor poderá responder a processo
por conta dessa violação – além, é claro, do possível impedimento no
exercício de futuras pesquisas experimentais.
Finalmente, os cientistas adotam tacitamente um conjunto de princípios
éticos em comunidade, também chamados de ethos da ciência –
primeiramente percebido e estudado pelo sociólogo da ciência Robert K.
Merton –, que consistem em universalidade, desinteresse, ceticismo
coletivo, comunismo epistêmico e originalidade. A universalidade se refere
à ciência poder ser praticada por qualquer pessoa, independentemente de
sua etnia ou localização geográfica. O desinteresse se refere à necessidade
de os anseios coletivos estarem acima dos interesses individuais/privados.
O ceticismo coletivo (ou ceticismo científico) se refere à dúvida metódica,
em que hipóteses e teorias são sujeitas à crítica responsável pela
comunidade científica. O comunismo epistêmico, que não tem nenhuma
relação com o conceito de comunismo político, refere-se à noção de que a
ciência é uma propriedade de todos, acessível a todos, independente da
situação socioeconômica. Por último, mas não menos importante, a
originalidade se refere ao estimulo à produção de novas pesquisas e
teorias.

EXEMPLIFICANDO

1. A ética orienta os cientistas na produção de pesquisas mais


sofisticadas, proporcionando o conhecimento dos impactos que
afetariam sua qualidade.
2. A ética é um incentivo na busca pela verdade, porque contribui para
a rejeição de atitudes que possam levar ao comportamento
fraudulento.
3. Existem órgãos e comissões de ética responsáveis por avaliar um
projeto de pesquisa, tendo a cautela de olhar para a questão do
cuidado animal e humano na investigação científica.

A ética é o princípio norteador da investigação científica, contribuindo não


apenas para a elaboração de pesquisas mais bem executadas, mas também
para que os cientistas mantenham um elevado nível de responsabilidade
com seus projetos experimentais. Sem ética, a ciência não seria possível,
pois a preocupação coletiva com a saúde dos indivíduos, sobretudo dos
voluntários de pesquisa, seria substituída pelo interesse individual. O
princípio ético humanista, cultivado nas ciências da saúde e na prática da
medicina, seria substituído pelo comercialismo. A preocupação com a
verdade daria cada vez mais espaço para a necessidade de ganho financeiro
elevado. Portanto, uma disciplina ausente de princípios éticos,
principalmente em nível de comunidade, não pode ser considerada uma
ciência, mas uma pseudociência em sua mais pura essência.
FAÇA VALER A PENA

Questão 1

A ética é um campo de investigação filosófico e, ao mesmo tempo, o


princípio que norteia a atividade científica. Ela contribui de diversas formas
para o conhecimento científico e tecnológico e tem servido como indicador
em inúmeros trabalhos de filosofia da ciência para detectar produções de
qualidade altamente duvidosa e disciplinas com tendências
pseudocientíficas. Inclusive, a ética já foi usada em conjunto com
procedimentos experimentais para avaliar os experimentos conduzidos por
um campo que nasceu como ciência, mas se tornou pseudociência.

Qual é o campo que nasceu como ciência e se tornou pseudociência com a


aplicação de princípios éticos na avaliação dos trabalhos experimentais?

A. Astronomia.

B. Psicologia.

C. Psicanálise.

D. Ufologia.

E. Parapsicologia.

Questão 2

O ethos da ciência é o conjunto de princípios éticos ou normas sociais que


norteia toda a comunidade científica. Esses princípios são conhecidos como
Normas de Merton. No entanto, existem também as chamadas
contranormas, que são atitudes as quais não se esperam de uma
comunidade científica. Algumas dessas normas opostas às da ciência são
facilmente identificáveis em exemplos de pseudociência.

Quais são as contranormas identificadas pelo sociólogo da ciência Robert


K. Merton?

A. Ceticismo, comunismo, desinteresse e originalidade.


B. Dogmatismo, isolamento, particularismo e desinteresse.

C. Dogmatismo, isolamento, particularismo e interesse.

D. Ceticismo, socialismo, comunismo e desinteresse.

E. Dogmatismo, comunismo, ceticismo, individualismo.

Questão 3

Os princípios éticos norteiam não apenas a prática da atividade científica,


mas também a atividade médica, pois levam aos médicos e pesquisadores a
reflexão sobre a importância de todos os envolvidos numa pesquisa médica.
O princípio ético humanista, por exemplo, enfatiza que a prática médica
deve ser vista como destituída de motivações financeiras, de modo que seu
foco é centrado no bem-estar, e não no lucro comercial.

Por que os princípios éticos são essenciais para a elaboração de


experimentos nas ciências da saúde?

A. Os princípios éticos levantam preocupações legítimas sobre os


potenciais riscos envolvidos no quadro de saúde dos voluntários e auxiliam
na informação prévia para consentimento das pessoas que participarão dos
experimentos como voluntárias.

B. Os princípios éticos servem para alertar os voluntários de que a ciência


não é confiável.

C. A ciência funciona de forma isenta de valores e princípios éticos.

D. Os princípios éticos são adotados durante a investigação


pseudocientífica.

E. Os princípios éticos não desempenham nenhuma tarefa na ciência, pois


são considerados exemplos que freiam o progresso científico.
REFERÊNCIAS

BUNGE, M. Ética, ciencia y técnica. [S.l.]: Editora Sudamericana, 1996.

BUNGE, M. La Ciencia, su Método y su Filosofía. [S.l.]: Editora


Sudamericana, 2014.

MERTON, R. K. Sociologia: teoria e estrutura. [S.l.]: Editora Mestre Jou,


1968.

SAGAN, C. O Mundo Assombrado Pelos Demônios: a ciência vista


como uma vela no escuro. [S.l.]: Editora Companhia de Bolso, 2006.

FOCO NO MERCADO DE TRABALHO


COMO AGIR COM ÉTICA NA
PESQUISA CIENTÍFICA?
Douglas Rodrigues Aguiar de Oliveira

Fonte: Shutterstock.

SEM MEDO DE ERRAR

Ocorreram diversas violações éticas no desenvolvimento do projeto de


pesquisa e na forma como foi apresentada a ficha de inscrição para os
voluntários.

Primeiro: os cientistas desconsideraram potenciais riscos na ingestão da


substância prometida para contribuir para a melhora cognitiva. Em uma
pesquisa científica, os cientistas devem avaliar as condições de risco,
incluindo possíveis sintomas e a possibilidade de morte de voluntários.
Segundo: o grupo não deixou totalmente claros os eventuais riscos aos
quais os voluntários estariam expostos ao participar da pesquisa científica.
Na investigação científica, os riscos devem ser claros para os voluntários
que decidirem participar, até mesmo para se avaliar a compatibilidade do
grupo-alvo com o objetivo da pesquisa e salientar possíveis problemas de
saúde dos participantes, já que integrar a pesquisa poderia contribuir para
seu agravamento clínico.

Terceiro: o experimento não deveria seguir sem a aprovação de uma


comissão regulatória de ética. Normalmente, os cientistas interessados em
testar a eficácia de alguma substância devem submeter seus protocolos com
o “desenho” de pesquisa (projeto experimental), destacando os objetivos e
os possíveis riscos à saúde dos voluntários. Além disso, o projeto deve
passar por uma banca para avaliação e, consequentemente, aprovação,
rejeição ou melhor adequação com os protocolos éticos de pesquisa
biomédica.

Um experimento bem projetado informaria os participantes com os dados


necessários sobre os possíveis riscos de participação causados pelos
experimentos, utilizando uma linguagem clara e solicitando consentimento
para uso e extração de dados relevantes para o desenvolvimento do estudo.
Além disso, o grupo de cientistas submeteria o projeto de pesquisa a uma
comissão de avaliação para averiguar a adequação aos protocolos éticos de
investigação científica. Dessa forma, punições por não cumprimento de
normas da pesquisa científica seriam evitadas.

AVANÇANDO NA PRÁTICA

A EMPRESA QUE BUSCOU ESTUDAR O COMPORTAMENTO DE SEUS


FUNCIONÁRIOS
Uma empresa estava interessada em estudar o comportamento de seus
funcionários durante o horário de trabalho, na intenção de usar os
resultados para estabelecer políticas mais efetivas que ajudassem a
maximizar a produtividade de cada setor. Então, a empresa decidiu: (A)
monitorar o acesso, (B) filmar as expressões faciais com a webcam dos
computadores, (C) instalar escutas em cada computador e (D) monitorar à
distância a tela dos celulares. A empresa conseguiu: (A) registrar dados de
login dos usuários, com base no monitoramento de acesso; (B) detectar
expressões faciais de insatisfação após receberem a ordem de um chefe; (C)
ouvir a insatisfação dos funcionários com o trabalho, o chefe e as políticas
da empresa, bem como registrar conversas de natureza altamente íntima; e
(D) capturar mensagens privadas de funcionários, trocadas com suas
famílias e amigos.

Em seguida, a empresa, com base nos dados recolhidos, decidiu demitir os


funcionários insatisfeitos por justa causa, fortificou as políticas de
monitoramento e começou a oferecer recompensas financeiras para quem
conseguisse ser mais produtivo durante o mês.

Com base no que foi visto no texto, a empresa agiu de forma ética?
Justifique sua resposta.

RESOLUÇÃO

A empresa não agiu de forma responsável, porque violou diversos


protocolos éticos e a privacidade de seus funcionários ao capturar dados
particulares sem qualquer consentimento, incluindo informações sobre a
vida privada e dados de acesso de contas não correspondentes aos serviços
da empresa. A empresa também agiu de má-fé ao decidir demitir os
funcionários insatisfeitos, ao invés de ter sido mais clara e aberta sobre seus
objetivos profissionais e estratégicos para aumentar a produtividade

A empresa poderia, por exemplo, criar uma enquete em que os funcionários


pudessem opinar sobre o que contribuiria para elevar seus níveis de
produtividade no trabalho. Com base nos resultados, ela poderia propor
políticas mais eficazes, sem a necessidade de violar a privacidade e a
conduta ética de seus funcionários – evitando, inclusive, a recolha de dados
que sequer seriam úteis para a proposta inicial do estudo da empresa.

UNIDADE 2
SEÇÃO 1
NÃO PODE FALTAR
QUAIS OS PRINCIPAIS TIPOS DE
PESQUISA?
Douglas Rodrigues Aguiar de Oliveira
Fonte: Shutterstock.

CONVITE AO ESTUDO

Caro aluno,

Veja como a ciência está em todos os lugares. Hoje, ela é um dos


elementos mais básicos em todos os aparatos tecnológicos, como no
celular, na televisão, no computador e, principalmente, nos dispositivos de
GPS.

No entanto, todos esses aparatos tecnológicos não surgiram do nada. Essas


tecnologias são produtos de investigações científicas mais elementares,
principalmente com base no estudo com partículas elementares, estudo
exige a adoção de um método para avaliar o nível de verdade das hipóteses
e das teorias.

Esse é o método científico. Embora muito pouco compreendido, ele


também nos auxilia na hora de avaliarmos afirmações que nos parecem
duvidosas, como quando vamos avaliar a existência de evidência para
alguma substância ou terapias que nossos amigos e familiares nos
recomendaram para um problema específico.

Devido ao fato desse momento único na história ser altamente dependente


da ciência e tecnologia, é necessário entendermos como o conhecimento
científico é produzido, quais passos nos levam cada vez mais próximos à
verdade e, principalmente, quais os limites desse tipo único de
conhecimento – é isso que veremos ao longo desta unidade.

PRATICAR PARA APRENDER


Você sabe o que é o método científico? Talvez você já deve ter pensado
que é uma fórmula secreta para produzir conhecimento científico. Uma
sugestão para essa resposta é geralmente apresentada em diagramas e
infográficos, que reduzem a concepção de método científico a algo análogo
a uma receita de bolo, porém, isso não é uma representação fidedigna do
método científico nem representa o grau mais elementar da pesquisa
científica.

O método científico, que será apresentado ao longo do livro, deve ser visto
como um conjunto de procedimentos teóricos, experimentais e,
principalmente, éticos, que podem ser usados não apenas na ciência, mas
na filosofia, tecnologia e até mesmo na vida cotidiana para a resolução de
problemas.

Um exemplo de aplicação do método científico na vida cotidiana para


avaliação de um problema é na hora de averiguar a plausibilidade da
reivindicação de um farmacêutico que tenha como objetivo vender um
produto homeopático ou qualquer tipo de medicina alternativa. Para isso,
seria necessário apenas um celular com acesso à internet para consultar –
especialmente, na base de dados de um periódico de medicina baseada em
evidências – estudos de revisão de literatura científica, com o objetivo de
extrair da conclusão a resposta mais adequada para contrastar com a
reivindicação do farmacêutico. Suponha-se, para fins didáticos, que o
farmacêutico tenha afirmado que a homeopatia é recomendada para a gripe,
sobretudo, para melhorar o sistema imunológico, enquanto que o estudo de
revisão aponta que, com base na avaliação de 500 estudos randomizados e
com controle de placebo, a homeopatia não tenha apresentado nenhum
efeito clínico significativamente estatístico. A partir dessa informação,
você pode desconsiderar a afirmação do farmacêutico e, consequentemente,
evitar que seu dinheiro seja desperdiçado com homeopatia e outros tipos de
pseudomedicinas.

Porém, existem diversas outras formas de avaliar certas reivindicações,


principalmente com base na realização de pesquisas experimentais. Devido
à abrangência dos diferentes tipos de técnicas e metodologias científicas,
bem como de sua importância na vida cotidiana, convido-lhe a mergulhar
no processo de construção do conhecimento, analisando suas diferentes
abordagens na solução de problemas.

Um grupo de cientistas quer investigar os possíveis efeitos da homeopatia


no organismo de pessoas com gripe. Para isso, o grupo decidiu fazer uma
pesquisa exploratória - especialmente um ensaio observacional.
Os cientistas selecionaram cerca de 20 voluntários gripados para ingerir
doses de comprimidos homeopáticos. Cerca de 4 horas após a ingestão de
substâncias homeopáticas, os pesquisadores perguntam aos voluntários o
que eles sentem. Todos eles, sem exceção, relataram algum nível de
melhoria em sua condição de saúde.

Então, os pesquisadores encerram o experimento e escrevem suas


descobertas em trabalho formalizado e, consequentemente, submetem para
uma revista científica.

Tendo como base a descrição desse tipo de experimento, é seguro afirmar


que ele foi bem conduzido?

O método científico é comprovado e verdadeiro. Não é perfeito, é apenas o


melhor que temos. Abandoná-lo, junto com seus protocolos céticos, é o
caminho para uma idade das trevas."

Carl Sagan

CONCEITO-CHAVE

TIPOS DE PESQUISAS CIENTÍFICAS


Há diversos tipos de pesquisas científicas, cada qual com seus objetivos,
particularidades e, principalmente, objetos de estudos. A diversidade da
pesquisa científica permite estudar diversos problemas, da origem do
Universo ao comportamento humano, também permite estudar um mesmo
problema sob diferentes perspectivas metodológicas, com o objetivo de
enriquecer o conhecimento científico, proporcionando uma visão de mundo
mais ampla e consistente com as evidências científicas.

Por causa dessa ampla variedade metodológica de pesquisas, uma


consequência inevitável é o investimento diversificado para cada tipo de
pesquisa, de modo que um físico experimental, por conta da necessidade de
instrumentação adequada e a necessidade de exportar ainda mais
ferramentas para empreender sua pesquisa, acaba recebendo mais verba
para sua pesquisa do que um filósofo ou sociólogo literário, que desenvolve
pesquisas de cunho teórico, geralmente revisando a literatura acadêmica
vigente para desenvolver seu trabalho.

Isso, no entanto, contribui para uma visão valorativa incorreta da ciência -


especialmente pela crença de que maior investimento em uma ciência é um
critério que define sua qualidade metodológica ou seu nível de importância.
Um exemplo didático que refuta essa concepção equivocada da ciência é
dado por cientistas e filósofos, que desenvolveram pesquisas bibliográficas
que tinham como objetivo analisar a metodologia de estudos da psicologia
evolutiva sobre a questão da divisão do trabalho, diferenças de gêneros e,
sobretudo, desigualdades sociais.

Esse tipo de estudo da psicologia evolutiva tem tido ampla repercussão e


tem sido considerado útil em decisões políticas que envolvem a
possibilidade de rejeitar a implementação de políticas públicas. Uma ideia
constantemente propagada para reforçar a posição contrária às políticas
sociais é de que a pobreza e a desigualdade social estão nos genes, de que
políticas sociais são inúteis e que o quociente de inteligência (Q.I.) é
determinado pela genética. No entanto, diversos cientistas e filósofos têm
argumentado amplamente contra a metodologia desses estudos dizendo que
“são apenas histórias”, ou seja, que não possuem qualquer tipo de
correspondência empírica entre a hipótese e a afirmação do qual os
proponentes do campo defendem. Por causa dos críticos da psicologia
evolutiva que enfatizaram sobre o possível impacto da implementação de
ideias “evolutivas” no âmbito político, os cientistas e filósofos
contribuíram para reforçar a importância das ciências sociais – mesmo com
o campo recebendo pouca verba para a pesquisa e sendo constantemente
ameaçado por ideólogos e pseudocientistas.

Os tipos diversificados de pesquisas científicas incluem a pesquisa


bibliográfica, a pesquisa documental, a pesquisa de campo, a pesquisa
de laboratório, a pesquisa qualitativa, a pesquisa quantitativa,
a pesquisa exploratória, a pesquisa descritiva e a pesquisa explicativa.
Cada tipo de pesquisa tem sua importância dentro da ciência, mas elas
também podem ser conduzidas em outros campos de conhecimento, como
na filosofia, no jornalismo e, principalmente, na tecnologia - especialmente
nas tecnologias sociais, como a administração, o direito e a pedagogia.

A pesquisa bibliográfica, utilizada amplamente em estudos de revisões de


literatura científica, refere-se a um tipo de estudo que busca consultar
amplas bases de dados, sobretudo indexadores de artigos científicos e
livros-textos com o objetivo de procurar saber o quanto um problema já foi
estudado e o quão significativo é a sua evidência. Um exemplo prático
desse tipo de estudo é quando o objetivo do pesquisador é identificar a
reivindicação de eficácia de alguma terapia ou técnica médica para algum
problema de saúde. O pesquisador, dessa maneira, consulta a base de
dados, filtra os resultados de buscas, escolhe os estudos, analisa suas
discrepâncias metodológicas, emprega uma técnica estatística adequada e
extraí a porcentagem de evidência resultante da revisão dos estudos
selecionados. Digamos, por exemplo, que o cálculo estatístico, após a
análise dos estudos selecionados, revelou que a acupuntura não produziu
nenhum efeito clínico estatístico significativo para o tratamento da dor
lombar. Então, o autor adiciona sua metodologia, procedimento e
conclusão em sua pesquisa bibliográfica.

A pesquisa documental é amplamente utilizada na história, porque ela


envolve a investigação primária de algum fenômeno ou ocorrência do
passado com base na coleta de documentos, livros, testamentos, gravações,
fotografias, cartas, artefatos e mais outras coisas das quais seriam úteis na
condução da investigação. Ela também tem aplicação no âmbito da
investigação forense, contribuindo para a solução de crimes com base na
sua metodologia de extração de dados com o objetivo de fornecer a melhor
evidência para o julgamento criminal.

A pesquisa de campo é importante para estudar fenômenos naturais e


climáticos, como a atividade vulcânica em uma área geologicamente ativa,
coletando rochas vulcânicas na área de ocorrência do evento com o
objetivo de estudar sua estrutura, composição e sua possível utilidade para
prever a ocorrências de novas erupções vulcânicas. Esse tipo de pesquisa
também tem utilidade na solução de acidentes tecnológicos, contribuindo,
por exemplo, para decifrar a causa de acidentes aéreos ao analisar o local
da queda.

A pesquisa de laboratório é uma forma de estudar problemas de forma


direta, com o objetivo de produzir ou reproduzir pequenas condições em
seu objeto de estudo e avaliar suas possíveis implicações, como para testar
a efetividade de uma vacina em camundongos ou mesmo para reproduzir as
circunstâncias ambientais da Terra primitiva com o objetivo de estudar a
origem da vida. Esse tipo de pesquisa também é empregado no campo da
tecnologia, com o objetivo de produzir e testar a segurança dos organismos
geneticamente modificados.

A pesquisa quantitativa visa a implementação de ferramentas estatísticas


para quantificar os dados e resultados alcançados após a investigação de
um fenômeno ou problema da realidade. Nesse tipo de estudo, também
utilizado em ciência social, os pesquisadores podem utilizar estatística
inferencial e deduzida, bem como modelagem computacional para prever a
ocorrência de um fenômeno em termos quantificáveis, como crises
econômicas, desigualdades sociais e o impacto da implementação de uma
política pública.

A pesquisa qualitativa é aplicada que não há necessidade de empregar


ferramentas estatísticas. Ela pode ser aplicada em psicologia através de
questionários para entender o comportamento de uma dada população, por
exemplo, analisando a atitude das pessoas ao decorrer da pandemia de
coronavírus.

A pesquisa exploratória é uma abordagem inicial para o estudo de um


problema ou fenômeno da realidade. Esse tipo de pesquisa não tem como
objetivo proporcionar um conhecimento aprofundado sobre qualquer coisa.
Na sua aplicação na área da saúde, por exemplo, os pesquisadores utilizam
poucos voluntários, uma amostragem pouco ou nada representativa da
população, para testar algum novo medicamento ou terapia. Essa pesquisa
serve de base para outras mais aprofundadas e pode ser facilmente
conduzida por alunos de iniciação científica ou estagiários de laboratórios.

A pesquisa descritiva tem como objetivo interpretar e mapear a ocorrência


de um fenômeno com base em técnicas de observação e análise de dados.
Ela pode ser empregada no estudo de eventos astronômicos, como
supernovas, com o objetivo de estabelecer as condições iniciais do
fenômeno e relacionar variáveis para chegar à melhor interpretação dos
dados.

A pesquisa explicativa busca estabelecer um conhecimento avançado


sobre um fenômeno natural ou social procurando explicar sua origem,
evolução e impacto na realidade. Nesse tipo de pesquisa, o pesquisador
busca analisar a compatibilidade de uma ideia com o conhecimento do
momento, emprega pesquisas empíricas e tenta explicar as causas de um
evento. No caso das ciências naturais, por exemplo, esse evento pode ser a
evolução das espécies, com pesquisadores engajados em fornecer a melhor
explicação dos mecanismos envolvidos na transmissão de genes entre
parentescos e sua implicação no comportamento humano. No caso das
ciências sociais, por exemplo, um típico evento estudado são as crises
econômicas, com cientistas tentando identificar as variáveis importantes do
sistema político-econômico do momento a fim de prever quais razões
poderiam levar um país ao colapso financeiro.

Cada tipo de pesquisa tem sua importância e utilidade, de modo que elas
não podem ser vistas com base numa visão hierárquica. Todos esses tipos
de pesquisa auxiliam a ciência, ajustando as teorias à realidade e, até
mesmo, proporcionando um amplo conhecimento sobre problemas que
ainda não foram explorados.
ASSIMILE

1. Existem diversos tipos de pesquisas científicas, cada uma com um


objetivo específico, que são igualmente importantes para a
construção de conhecimento científico.
2. Existem diversos modelos de métodos científicos. Entre eles, se
destacam o método hipotético-dedutivo, a falseabilidade
popperiana e a concepção bungeana.
3. O anarquismo epistemológico, cuja a posição é exposta na máxima
“tudo vale” ou “qualquer coisa serve”, é incompatível com a
investigação científica.

MÉTODOS CIENTÍFICOS
O “método científico” é um conceito difícil de definir, embora seja
constantemente tratado de forma incorreta e, às vezes, pejorativa. Na
literatura filosófica do século XX, por exemplo, o método científico chegou
a ser considerado como um mito, como um elemento não existente na
investigação científica, de modo que essa visão inspirou a ideia de que a
ciência é um campo onde “tudo vale” ou “qualquer coisa serve”, tratando a
ciência como um terreno baldio e equivalente a crenças religiosas,
superstições e pseudociências. Essa foi uma visão inspirada no filósofo
austríaco Paul Feyerabend que foi considerada como razoável em
determinados setores das humanidades, bem como no campo da filosofia da
ciência, mas incorreta sobre a ciência e o método científico.

Outras visões de método científico, embora incorretas, também ganharam


uma ampla aceitação nos setores mais atrasados da ciência básica; em
particular, duas visões tiveram uma ampla aceitação: a visão de que a
ciência funciona mediante a aplicação do método indutivo.

Karl Popper foi um dos filósofos mais críticos desse pensamento que
buscava comprovar teorias mediante a observação ou coleta de dados
particulares. Isto é, digamos que um pesquisador tenha observado um
grupo de ursos pretos numa floresta e, então, tenha deduzido uma regra
geral de que todos os ursos são pretos. Uma observação de um urso polar
no continente antártico, portanto, falsearia a proposição de que “todos os
ursos são pretos”, o que levaria a um problema epistemológico, conhecido
como problema da indução. Popper, então, estabeleceu que o que determina
as condições de cientificidade não é a observação particular da suposta
regularidade de um evento, mas a falseabilidade de uma hipótese ou teoria
científica, ou seja, a hipótese ou teoria científica deveria ter consequências
das quais fossem possíveis de extrair sua refutação.

O exemplo que corrobora com o modelo de Popper é fornecido pelo


próprio naturalista inglês Charles Darwin, em seu livro A Origem das
Espécies, que descreve que sua teoria da evolução poderia ser falseada,
caso alguém conseguisse demonstrar que algum órgão complexo existiu e
que não poderia ter sido formado por leves modificações numerosas e
sucessivas ao longo do tempo.

Popper propõe o método hipotético-dedutivo que, em síntese, passa pelas


seguintes etapas:

a. Elaboração do problema (decorrente, muitas vezes, de conflitos de


teorias existentes).
b. Construção de um modelo teórico (em que há a formulação das
hipóteses centrais).
c. Tentativa de falseamento das hipóteses por meio da observação e
da experimentação.

Caso a hipótese não seja verificada por meio dos testes, ela estará falseada,
exigindo uma nova reformulação da hipótese ou do problema. Caso ela se
supere os testes rigorosos, então ela estará parcialmente confirmada,
mesmo que provisoriamente.

Embora o critério de Popper estivesse alinhado a algumas características


das teorias científicas, como no caso da própria teoria da evolução, ele era
insuficiente para demarcar a ciência de qualquer atividade não científica, na
qual inclui não apenas a filosofia, mas também a pseudociência. Um
exemplo é fornecido pelo filósofo Mario Bunge, em sua
obra Pseudociência e Ideologia, que argumenta que levar em consideração
a falseabilidade, enquanto critério de demarcação, exigiria considerar todas
as teorias falsas como científicas, e também exigiria descartar teorias
científicas de alto nível que não são falseáveis, como a Teoria Geral dos
Campos e a Teoria Geral da Informação, que, sendo tão gerais, só podem
ser testadas indiretamente por meio de sua especificação.

Em resposta às propostas simplistas de cientificidade, Bunge desenvolveu


sua própria tese, distinguindo o critério de demarcação do modelo de
método científico. Para Bunge, o que demarca a ciência de outros campos
cognitivos, como a filosofia e a pseudociência, é a presença de uma
comunidade de pesquisadores, uma sociedade tolerante à atividade
científica, o domínio sobre entidades reais, uma base filosófica
(envolvendo a pressuposição de que [a] o mundo é composto de coisas
concretas que mudam, segundo leis, [b] uma epistemologia realista, [c] um
sistema de valores que enaltece a claridade, a exatidão, a profundidade, a
coerência e a verdade, [d] e o ethos da busca livre da verdade), uma base
formal (coleção de teorias lógicas ou matemáticas do momento), uma base
específica (coleção de dados, hipóteses e teorias do momento), uma
problemática (problemas cognitivos relativos à natureza dos objetos
concretos), um fundo de conhecimento (específico e acumulado), objetivos
racionais (descobrir ou utilizar leis, sistematizar hipóteses e refinar
métodos), uma metódica bem delineada (procedimentos verificáveis e
justificáveis) e um campo cognitivo sendo componente de um campo de
conhecimento mais abrangente.

Bunge considerou o método científico como sendo um conjunto de


procedimentos gerais mutáveis, ajustados para cada problema e objeto
estudado, constando com (a) a identificação de um problema envolvendo o
reconhecimento de um fato, a descoberta de um problema e, em seguida, a
formulação do problema; (b) a construção de um modelo teórico
envolvendo a seleção de fatores pertinentes do problema, a invenção de
hipóteses centrais e suposições auxiliares e, principalmente, tradução
matemática; (c) a dedução de características particulares envolvendo a
busca por suportes racionais e empíricos, (d) a demonstração da prova ou
evidência da hipótese envolvendo a representação e execução da prova ou
evidência, a elaboração de dados e a inferência da conclusão; (e) a
introdução das consequências na teoria envolvendo a comparação das
conclusões com as predições e o reajuste de modelo; e (f), finalmente, a
sugestão referente ao trabalho anterior.

Essas características apresentadas por Bunge também rompem com


concepções que levavam em consideração a unidade do método científico
como sendo algo imutável, ou mesmo semelhante a uma receita de bolo
para produzir conhecimento. Para Bunge, o método científico, mesmo
sendo único e universal, deve ser visto como um conjunto de
procedimentos amplos que mudam conforme o tempo e se ajustam a cada
ciência em particular, de modo que a forma como os biólogos investigam
microrganismos não envolve o emprego das mesmas técnicas de
investigação utilizadas pelos sociólogos para estudar comportamentos
sociais ou crises econômicas. De fato, há algumas exceções, como o uso de
ferramentas matemáticas e lógicas semelhantes, bem como a atitude de
busca pela verdade e admissão de cognoscibilidade da realidade, mas não é
como advogam os naturalistas metodológicos, que defendem que o método
das ciências naturais deve ser o mesmo das ciências sociais. Essa proposta
também rompe com o anarquismo epistemológico de Feyerabend, a ideia
segundo a qual não existiria um método científico e universal, pois Bunge
reconhece que ele existe e pode ser – e está sendo – aplicado para estudar
problemas cognitivos, bem como todos os objetos existentes da realidade,
como partículas, elementos químicos, moléculas, planetas, estrelas,
supernovas, microrganismos, cérebros, consciência, comportamento,
sociedade, ética, experiência estética, artes, cultura, política, linguagem,
economia, filosofia e muitas outras coisas, como a própria ciência
(sociologia da ciência ou ciência da ciência), diferente da crença falsa
compartilhada em diversos campos das humanidades.

REFLITA

1. O que torna o método científico uma abordagem confiável?


2. Qual a importância das revisões sistemáticas no contexto das
investigações científicas na área da saúde?
3. Quais elementos contribuem para a objetividade científica?

PESQUISA COM PESQUISA: METANÁLISES E REVISÕES


Nenhuma pesquisa individual é suficiente para conduzir ou representar uma
verdade no mundo, pois ela pode estar sujeita a falhas metodológicas,
vieses cognitivos e fraudes intencionais. Também pode ser o caso de um
estudo individual ser conduzido sem um grupo de controle adequado para
avaliar de forma rigorosa a efetividade um medicamento ou terapia. Talvez
um estudo individual não tenha uma amostragem suficientemente
representativa para a população, ou pode ser que os animais utilizados para
um determinado experimento tenham predisposição a alguma doença, de
modo que um teste experimental poderia não representar fielmente as
possíveis consequências da ingestão de uma determinada substância. Nesse
contexto, entra a importância de conduzir mais experimentos com o
objetivo de tentar reproduzir os mesmos resultados – a tal chamada
“reprodutibilidade”.

Na reprodutibilidade, ocasionalmente, ocorre de os cientistas chegarem a


resultados discrepantes do estudo original. Na verdade, tem-se
argumentado que a ciência está enfrentando uma crise de reprodutibilidade
por conta das divergências nos resultados experimentais alcançados por
pesquisadores independentes ao tentarem replicar experimentos anteriores.
Por causa dessas diferenças nos resultados experimentais e, principalmente,
nas potenciais falhas metodológicas dos diversos estudos científicos
desenvolvidos ao longo dos anos, tornou-se necessária a utilização de
estudos de revisão sistemática para avaliar a qualidade da evidência
produzida ao longo da análise de dezenas, centenas ou mais de artigos
científicos.

Esses estudos de revisão sistemática são extremamente importantes no


campo da medicina, porque, com base neles, é possível identificar
potenciais falhas, vieses e limitações nos estudos realizados até o momento,
contribuindo para fornecer uma visão sobre o estado atual das coisas, como
para identificar a qualidade e o nível da evidência produzida até o
momento. Em resumo, a revisão sistemática é um tipo de pesquisa
secundária com o objetivo de reunir estudos semelhantes, publicados ou
não, a fim de avaliá-los criticamente e, quando possível, reuni-los numa
ampla análise estatística, chamada metanálise.

A metanálise é uma técnica estatística utilizada para combinar resultados


oriundos de diferentes estudos, geralmente aplicada na revisão sistemática.
A metanálise ajuda a extrair resultados estatísticos com base na análise
geral dos estudos. No entanto, a revisão sistemática pode ser feita de forma
independente das técnicas estatísticas, pois não é sempre possível e nem
mesmo adequado aplicá-las em todos os casos.

Existem diversos estudos com medicina alternativa indexados no


repositório do PubMed, revelando possíveis efeitos benéficos à saúde
humana, mas isso não significa que esses estudos tenham sido bem
conduzidos. Na verdade, existir um estudo não significa que ele seja bom
nem que seja “científico”, pois a pseudociência também produz estudos,
embora de baixa qualidade, sem o controle adequado, mergulhado em
vieses cognitivos e, às vezes, até com indícios de falsificações. Esse é o
caso das medicinas alternativas, como acupuntura, homeopatia,
quiropraxia, naturopatia, ozonoterapia, antroposofia, reiki, cura quântica,
hidroterapia de cólon e, principalmente, psicanálise, que são exemplos
típicos de pseudociências, pseudoterapias ou pseudotecnologias, que
negligenciam os resultados extraídos das revisões sistemáticas, que
normalmente revelam que elas não produzem nenhum efeito
estatisticamente significativo, exceto efeitos placebos – que não são
causados pela suposta eficácia da medicina alternativa, mas simplesmente
por conta do estado psicológico do paciente, bem como de sua relação de
confiança com seu médico. Efeitos placebos também não curam
absolutamente nada, ao contrário da crença equivocada amplamente
divulgada pelos “médicos alternativos”, o efeito placebo está relacionado
simplesmente ao alívio de sintomas subjetivos, como dor, por exemplo.

As revisões sistemáticas, com ou sem abordagem metanalítica, são


necessárias até mesmo na elaboração de políticas públicas baseadas em
evidências, pois, com base nelas, podemos guiar o financiamento para
técnicas e terapias realmente eficazes, evitando o desperdício de dinheiro
público com medicina alternativa e oferecendo o melhor tratamento
disponível à população. Em resumo, as revisões sistemáticas produzem o
tipo mais confiável de evidência científica e podem ser guias úteis em
nossas escolhas da vida cotidiana, principalmente quando estamos
procurando cuidados médicos.

ESTRUTURA E ELEMENTOS
O método científico é a estrutura geral da ciência moderna, de modo que
não é possível conceber uma ciência sem método. No entanto, ainda
existem mais algumas particularidades, por exemplo, a estrutura do
método científico é ordenada logicamente, o que significa que é permitido
contradição. Consequentemente, a dialética, por violar o princípio da não
contradição, não faz parte da ciência nem do método científico.

Essa estrutura permite que o método científico, enquanto um conjunto de


procedimentos teóricos, experimentais e éticos, seja aplicado na ciência
com o objetivo de fornecer a melhor explicação da realidade. Uma
consequência inevitável é que a estrutura do método requer um nível de
compatibilidade das hipóteses com as teorias mais bem confirmadas do
momento, o que significa que uma hipótese deve estar em concordância
com as leis que regem o mundo, portanto, hipóteses sobre a existência de
almas, espíritos ou instâncias psíquicas psicanalíticas, por conflitarem com
o princípio de conservação de energia das leis da termodinâmica, não são
científicas, mas pseudocientíficas.

O método científico também faz uso de elementos ou símbolos formais,


de modo que é possível aplicar ferramentas da lógica e da matemática para
extrair das proposições a melhor precisão e objetividade possível, evitando,
dessa forma, a ambiguidade da linguagem ordinária e, principalmente, a
armadilha da polissemia com certos conceitos. Além disso, adoção de
certos elementos ou símbolos formais refuta a crença de que não existe
objetividade na ciência.

Mesmo na construção de hipóteses científicas, esses elementos são


adicionados ou incrementados com o objetivo de analisar logicamente a
compatibilidade das proposições com a conclusão. Mas isso não é uma
coisa exclusiva da ciência, pois, atualmente, a filosofia científica é
desenvolvida com essas mesmas ferramentas formais e aplica o método
científico para avaliar hipóteses filosóficas pela compatibilidade com o
conhecimento científico do momento.
O entendimento claro, preciso e profundo do conhecimento científico, bem
como a capacidade de comunicar descobertas científicas em diversos países
e línguas, é o que revela o aspecto de objetividade da ciência, que não é
apenas possível, mas desejável para evitar a confusão e o autoengano. O
que não devemos fazer é cair no erro de pensar que objetividade é sinônimo
de neutralidade, pois a ciência advoga por princípios éticos de busca pela
verdade, racionalidade, humanismo e comprometimento com a
investigação da realidade mediante contribuição da comunidade científica.
Além disso, os cientistas podem ser inspirados por posições pessoais, bem
como políticas, ideológicas e religiosas, de modo que essas posições
possam contribuir com alguma nova ideia para resolver um problema.
Então, a ciência não é neutra, mas isso não significa que as ideologias
pessoais dos cientistas determinem o que é verdade, pois a ciência,
enquanto comunidade, advoga por princípios éticos que neutralizam as
preferências individuais dos pesquisadores. Daí a importância das revisões
sistemáticas e da reprodutibilidade na ciência, pois são formas de
identificar exceções das quais as intenções pessoais sobrepuseram à
vontade coletiva da comunidade científica pela verdade.

EXEMPLIFICANDO

1. O método científico não é uma receita de bolo para produzir


conhecimento, mas um conjunto de procedimentos teóricos,
experimentais e éticos que auxiliam na investigação de um
problema.
2. O método científico pode ser aplicado não apenas na ciência, mas
também na filosofia e na vida cotidiana.
3. As ferramentas formais da matemática e da lógica contribuem para
que a ciência mantenha sua objetividade e exatidão, evitando as
armadilhas da linguagem ordinária e a subjetividade interpretativa.

Como foi apresentado, existem diversos tipos de pesquisas científicas que


norteiam a ciência, cada qual com sua importância e aplicação para o
estudo de um problema específico. A pluralidade de investigação permite a
extração de um conhecimento mais amplo sobre a realidade mediante uso
de método científico. No entanto, o conceito de método científico é pouco
claro, de modo que diversas tentativas de modelos foram apresentadas ao
longo da história da ciência e da filosofia com o objetivo de classificá-lo,
sendo os mais conhecidos o Método Hipotético-Dedutivo (inspirado na
indutivismo do filósofo Francis Bacon), a Falseabilidade do filósofo da
ciência Karl Popper e a Concepção Sistêmica da Ciência, do físico e
filósofo científico Mario Bunge. Embora a ciência leve em consideração
um conjunto de procedimentos teóricos, experimentais e éticos ao longo de
sua investigação e construção de conhecimento, existem diversas
ferramentas formais que contribuem para sua melhor objetividade, evitando
as armadilhas da linguagem ordinária e a subjetividade interpretativa.

FAÇA VALER A PENA

Questão 1

O campo de conhecimento responsável em estudar a ciência, incluindo seus


limites e o próprio método científico. Também busca analisar as distinções
entre ciência e pseudociência com o objetivo de resolver o problema da
demarcação.

Qual o nome da disciplina responsável pela tarefa descrita no enunciado?

A. Linguística da ciência.

B. Sociologia da ciência.

C. Psicologia da ciência.

D. História da ciência.

E. Filosofia da ciência.

Questão 2

Pesquisa conduzida por cientistas e tecnólogos, geralmente em ambiente


controlado, que tem a intenção de estudar microrganismos, camundongos
ou simplesmente o próprio ambiente da Terra primitiva.

Assinale o tipo de pesquisa descrita no enunciado.

A. Metanálise.

B. Pesquisa laboratorial.

C. Pesquisa exploratória.

D. Pesquisa bibliográfica.

E. Revisão sistemática.

Questão 3
Um tipo de pesquisa que visa extrair diversos estudos semelhantes para
avaliar o nível de evidência de uma intervenção específica que pode usar
uma técnica estatística de metanálise para quantificar os dados, sendo
essencial para avaliar reivindicações no campo da saúde.

Assinale o nome desse tipo de pesquisa.

A. Pesquisa exploratória.

B. Hipotético-dedutivo.

C. Pesquisa bibliográfica.

D. Revisão sistemática.

E. Pesquisa laboratorial.

REFERÊNCIAS

BUNGE, M. La Ciencia, su Método y su Filosofía. [S.L.]: Editora


Sudamericana, 2014.

BUNGE, M. Las pseudociencias ¡vaya timo! 2. ed. [S.L.]: Editora


Laetoli, 2014.

BUNGE, M. Seudociencia e ideología. [S.L.]: Editora Alianza, 1986.

FEYERABEND, P. Contra o Método. 2. ed. [S.L.]: Editora Unesp, 2011.

POPPER, K. A Lógica da Pesquisa Científica. 2. ed. [S.L.]: Editora


Cultrix, 2013.

FOCO NO MERCADO DE TRABALHO


QUAIS OS PRINCIPAIS TIPOS DE
PESQUISA?
Douglas Rodrigues Aguiar de Oliveira
Fonte: Shutterstock.

SEM MEDO DE ERRAR

O experimento não foi bem delineado, porque um estudo mais rigoroso


deveria considerar um número de amostragem maior para ser
representativo. Também seria necessário um estudo randomizado e
controlado por placebo com o objetivo de reduzir a possibilidade de vieses
e possibilitar uma comparação estatística entre a substância homeopática e
o efeito placebo.

Também seria importante avaliar a condição de saúde dos indivíduos e não


apenas colher seus relatos subjetivos de suposta melhora para avaliar de
forma mais significativa os possíveis efeitos na saúde dos pacientes.

O tempo da condução do experimento também deveria ser maior a fim de


avaliar possíveis implicações na saúde dos pacientes ao longo do dia,
mesmo com a possibilidade sendo extremamente baixa. Portanto, também
seria necessário deixar os voluntários cientes dos riscos envolvidos antes de
conduzir o experimento.

Depois de um experimento bem delineado, os cientistas poderiam submeter


suas descobertas relatadas no trabalho à revisão por pares em uma revista
científica conceituada.

AVANÇANDO NA PRÁTICA
A IMPORTÂNCIA DA PESQUISA NA EMPRESA
Uma empresa está interessada em avaliar o nível de felicidade de seus
funcionários. Para realizar esse feito, ela aplicou um questionário padrão a
todos seus colaboradores. No questionário, por exemplo, havia itens como
nível de estresse, grau de satisfação com o trabalho e com o chefe.

O objetivo da empresa, após obter os resultados sobre os níveis de


felicidade de seus funcionários, era melhorar a relação entre os diversos
cargos e setores responsáveis pelos ativos da empresa, melhorando, dessa
forma, a produtividade de seus funcionários e promovendo a cooperação.

Qual tipo de pesquisa foi implementado pela empresa para avaliar o nível
de felicidade de seus funcionários?

RESOLUÇÃO

A empresa aplicou uma pesquisa qualitativa, pois tinha como pretensão


apenas descrever os níveis de felicidades de seus funcionários, bem como
alguns aspectos de seus comportamentos, sem a necessidade de quantificar
estatisticamente os resultados.

SEÇÃO 2
NÃO PODE FALTAR
QUAIS MÉTRICAS SÃO UTILIZADAS
NA PESQUISA?
Amanda Soares de Melo

Fonte: Shutterstock.
PRATICAR PARA APRENDER

Caro estudante,

O conhecimento científico desfruta de grande prestígio na sociedade em


virtude da alta confiabilidade do conhecimento científico. Com a
democratização do fazer científico, a construção de universidades, agências
e centros de pesquisa, a literatura científica expandiu enormemente,
tornando a comunicação científica um nicho de mercado altamente
rentável. A pressão por publicações decorrente da concorrência do campo
científico produziu um efeito negativo sobre a qualidade das publicações.

A fim de organizar esse volume de publicações, filtrando as boas e más


produções científicas, surgiram os indicadores e indexadores, por meio dos
quais conseguimos ter uma base dos periódicos e pesquisadores mais
relevantes em determinado campo de conhecimento. Como você sabe,
conhecer a literatura científica estabelecida de uma área é importante no
início de qualquer pesquisa, tanto para fundamentá-la, quanto para extrair
as questões que merecem uma investigação mais profunda.

Conhecendo indicadores e indexadores, você estará mais próximo de


encontrar as produções científicas mais relevantes para sua área de estudo.
Geralmente, as boas pesquisas também possuem boas fundamentações
teóricas. Tais plataformas também dispõem de redes e mídias sociais de
colaboração que podem auxiliar no processo de comunicação entre você e
pesquisadores de todo o mundo.

Um parecerista contratado por uma agência de fomento à pesquisa é


responsável pela análise técnica de dois projetos de pesquisa que buscam
financiamento. O parecerista deve analisar não apenas os objetivos e a
relevância de cada pesquisa, mas também o currículo acadêmico desses
pesquisadores.

As tabelas a seguir apresentam respectivamente a produção de cada


pesquisador.

Pesquisador A

Artigos Nº de Citações

Artigo 1 30

Artigo 2 28
Pesquisador A

Artigo 3 20

Artigo 4 10

Artigo 5 4

Pesquisador B

Artigos Nº de Citações

Artigo 1 59

Artigo 2 45

Artigo 3 39

Artigo 4 2

Artigo 5 1

Considerando os dados apresentados, indique qual é o índice H de cada


pesquisador e qual deveria ser o pesquisador contemplado com o
financiamento da pesquisa.

Não há ensino sem pesquisa e pesquisa sem ensino.

Paulo Freire

CONCEITO-CHAVE

INDICADORES E MÉTRICAS NA PESQUISA CIENTÍFICA


Depois de desenvolver a pesquisa, entramos no campo da comunicação
científica. É o dever de todo pesquisador divulgar os resultados de sua
pesquisa a fim de contribuir com o avanço daquela área de conhecimento.
Além disso, as publicações servem como um indicador de produtividade
científica do pesquisador, o que pode se transformar tanto em
oportunidades e reconhecimento acadêmico, quanto em obtenção de maior
apoio financeiro para as pesquisas da área.
A forma de comunicação mais usual dos resultados de uma pesquisa é
através da publicação de artigos científicos, que são publicados em
periódicos ou anais de eventos científicos e acadêmicos.

Os primeiros periódicos (revistas) foram criados em 1665 e, com o passar


do tempo, o número de periódicos só cresceu. Atualmente, há um grande
número de periódicos, o que desencadeou grandes volumes de artigos de
baixa qualidade. Por essa razão, foram desenvolvidos métricas e
indicadores capazes de auxiliar na avaliação da qualidade de um periódico
ou de um pesquisador, de forma a separar o joio do trigo.

É importante que os pesquisadores analisem cuidadosamente o periódico


que pretendem publicar, e os indicadores de qualidade podem ajudar nesse
processo. A avaliação da qualidade do trabalho de um pesquisador ou
periódico usualmente se dá com o auxílio de uma análise bibliométrica
realizada por indicadores. Adicionalmente, existem ferramentas analíticas
de produção científica, como InCites, SciVal, VantagePoint e Google
Scholar Metrics.

De acordo com a Agência USP de Gestão da Informação Acadêmica


(AGUIA), os principais indicadores de qualidade da pesquisa científica
são:

a. Produção científica (scholary outputs): esse indicador mede volume


e produtividade, mostrando o número total de itens publicados em
um dado período, por exemplo.
b. Contagem de citações (citation count): esse indicador mede o total
de citações que um autor, uma instituição ou um país acumulou
durante um período, e têm como uma das vantagens a comparação
dos pesquisadores entre si.
c. Citações por publicação (citation per publication): esse indicador
mostra o número de citações de um artigo ou trabalho. Indica
também uma média do impacto das citações.
d. Índice H (h-index): esse indicador é um dos mais utilizados
atualmente, ele mede o equilíbrio entre a produtividade e o
impacto das citações. O índice pode ser calculado manualmente,
ordenando as publicações com o número de suas citações de forma
decrescente. O índice é o ponto de encontro entre a quantidade de
publicação com o número de citações. Exemplo, o Índice-H 8
significa que um autor tem, no mínimo, 8 artigos publicados e estes
receberam pelo menos 8 citações cada um.
e. Impacto de citação (citation impact): esse indicador mostra o
número médio de citações que um artigo recebeu em um período,
ele é calculado pela divisão do número total de citações pelo
número total de publicações.
f. Impacto de citação ponderado por área de conhecimento (field-
weighted citation impact): esse indicador tem a vantagem de
comparar publicações similares em termos de citação, por exemplo,
se a publicação se sobressai ou não em relação à média das citações
das publicações nesse campo.
g. Fator de impacto do periódico (journal impact factor): esse
indicador mostra quantas vezes o artigo foi citado em relação ao
total de trabalhos já publicados pelo periódico em determinado
período de tempo.
h. Fator de impacto do periódico sem autocitações (journal impact
factor without self cites): esse indicador adiciona uma exceção ao
anterior – as citações que provém de outros trabalhos do
pesquisador são excluídas do cálculo.
i. Fator de impacto do periódico em 5 anos (five year journal impact
factor): esse indicador mostra o número de vezes que os trabalhos
de um periódico têm sido citados no ano, de acordo com o JCR
(Journal Citation Reports).
j. Produção no top percentis (outputs in the top percentiles): esse
indicador mostra o grau em que as publicações estão presentes em
termos percentis no universo de dados analisado. Ele mostra, por
exemplo, quantas publicações de um grupo, instituição ou país
estão no topo de 1%, 10% ou 25% dos trabalhos mais citados. Esse
indicador também serve para comparar pesquisadores que
possuem índices semelhantes pelos fatores anteriores.
k. Colaboração (collaboration): esse indicador mostra o número de
publicações de uma instituição, pesquisador ou grupo que são
produzidas com coautoria. Autorias únicas podem ser
contabilizadas.
l. Impacto das colaborações (collaboration impact): esse indicador
mostra o impacto da citação de uma publicação em colaboração,
por exemplo, quantas citações recebeu em nível nacional,
internacional etc.

Além dos indicadores, temos ferramentas analíticas digitais que podem ser
úteis para mensurar a qualidade das pesquisas. O Incites é uma plataforma
on-line de avaliação de citações e tem como base de dados o Web of
Science. O SciVal também é uma ferramenta de análise que tem como base
o Scopus e o Science Direct. O VantagePoint é uma ferramenta de
mineração e análise de dados que realiza análises bibliométricas bastando
que se tenha a base de dados. O Publish ou Perish é um software gratuito
que analisa os dados do Google Scholar obtendo várias estatísticas sobre o
impacto das pesquisas. Por fim, o Google Scholar Metrics é uma das
ferramentas mais conhecidas e fácil de utilizar para avaliar rapidamente a
visibilidade e a influência de produções na ciência.

ASSIMILE
O uso de indicadores de produção científica tem sido muito utilizado na
avaliação da qualidade de pesquisadores e produções acadêmicas. As
análises bibliométricas realizadas por meio de indicadores são utilizadas
também para fomento de recursos às pesquisas científicas.

ALTMETRIAS NA CIÊNCIA
Há formas de bibliometrias não tradicionais que surgem como alternativas
ou complementos às métricas tradicionais. Chamadas de altmetrias
(altmetrics), não são baseadas em contagens de citações, mas sim no
impacto acadêmico medido com base nas pesquisas on-line, mídias sociais,
mídias on-line etc.

O surgimento da altmetria pode ser explicado por fatores como: a


insatisfação com os medidores tradicionais de impacto das pesquisas
científicas; a ampliação das ferramentas de rede e das formas de
comunicação como um todo; a carência de filtros para a seleção de
informações relevantes; o movimento open access, que visa democratizar o
acesso aos resultados das pesquisas científicas.

Tais ferramentas analisam a quantidade de compartilhamentos em redes


sociais, como Facebook, Twitter, Blogs etc., citações, menções,
comentários, curtidas, downloads, tagueamento, visualizações, notícias etc.
A altmetria se preocupa com o debate e a repercussão das publicações
científicas em toda a sociedade; nesse sentido é importante compreender
como os resultados das pesquisas têm sido vistos e utilizados. São algumas
delas:

a. Altmetric: é uma empresa que rastreia onde as pesquisas publicadas


são mencionadas, fornecendo formas de monitorar as publicações
no meio digital.
b. Impactstory: é uma ferramenta de código aberto que ajuda os
pesquisadores a medir o impacto dos resultados de pesquisa em
periódicos, blogs, base de dados etc.
c. Plum Analytics: é uma empresa de altimetria, pertencente à
Elsevier, que realiza a mensuração de artigos e trabalhos
acadêmicos considerando uma ampla base de dados.

Como acontece com os outros indicadores, cabe lembrar que a altmetria


não mede de maneira automática a qualidade de um artigo científico, mas
auxilia no processo de avaliação do impacto deste. Artigos bem citados e
publicados em periódicos relevantes têm uma grande chance de serem
bons. Todavia, é possível existir casos de artigos citados repetidamente
pelo fato de terem cometidos grandes erros, o que mostra que uma análise
da qualidade dos artigos apenas por indicadores de citações nem sempre é
confiável. Sendo assim, para medir de fato a qualidade de um artigo é
indispensável uma análise rigorosa sobre o seu conteúdo, metodologia e
resultados.

REFLITA
A expressão “publish or perish” (publique ou pereça) é uma expressão
comum utilizada para exemplificar a pressão por publicações no meio
científico. Em sua visão, quais são as principais vantagens e desvantagens
de um ambiente competitivo na produção de conhecimento científico?

MARKETING CIENTÍFICO DIGITAL


Com as redes de internet, as formas de comunicação passaram por grandes
transformações. Devido à grande presença de pessoas on-line, cresceu a
necessidade de que a comunicação científica chegue nesses espaços. Dada
essas novas necessidades, novas práticas de publicação das pesquisas e de
mensuração de relevância têm sido adotadas no mundo todo, levando à
criação da ciência 2.0.

A ciência 2.0 é pensada a partir da aplicação das tecnologias de redes


sociais nos processos de produção do conhecimento científico, em especial,
no processo de comunicação científica.

Com o objetivo de melhorar a comunicação científica nesses espaços e seu


engajamento, surgiram iniciativas como o marketing científico digital. O
marketing científico digital é uma modalidade de marketing que está sendo
utilizada para auxiliar no processo de consumo do conhecimento científico.
Dessa maneira, ele é utilizado para alavancar uma boa imagem da ciência e
de seus resultados (produtos), tendo como um dos fins a ampliação da
confiança e do investimento nas pesquisas científicas.

Segundo Araújo (2015), o marketing científico busca uma adesão ampla


pelo público do discurso científico, a promoção e divulgação dos trabalhos
visando o reconhecimento das pesquisas em diversos âmbitos e a projeção
de autores a fim de conquistarem o prestígio e a visibilidade.

As estratégias de marketing científico digital são definidas com base no


tipo de imagem que se quer transmitir para o público-alvo. De acordo com
Araújo (2015), os pesquisadores, os editores e as instituições que buscam o
marketing científico precisam observar três fatores indispensáveis:

a. A presença on-line: é importante que os interessados visem o


alcance de um público amplo. Criar blogs ou perfis em mídias sociais
são ações que auxiliam nesse objetivo.
b. Oferecimento de um conteúdo adequado ao ambiente: o conteúdo
a ser transmitido nas redes deve ser criativo e a linguagem
adequada à mídia social em questão.
c. Atuação responsiva: é necessário que se atente à interação com os
usuários consumidores do conteúdo para que se tenha um bom
desempenho no ambiente digital. Sugere-se a criação de espaços de
participação e colaboração pelos usuários.

VISIBILIDADE CIENTÍFICA
Dada a importância das redes de internet no mundo atual, a visibilidade
nestas redes tem sido cada vez mais almejada pelo impacto social que gera
tanto na ampliação do debate acadêmico quanto na popularização da
ciência. Todavia no âmbito da comunicação científica digital cabe
diferenciar as diferentes expressões e modalidades de divulgação.

Por comunicação científica, entende-se a produção e circulação de dados


sobre a ciência, tecnologia e inovação. Em geral, a comunicação científica
se destina a um público especializado, de modo que ela se dirige aos
periódicos, eventos acadêmicos etc., e geralmente possui a linguagem
formal utilizada nas pesquisas.

Por divulgação científica, entende-se um processo de difusão de


informação científica ao público mais amplo, especializada em um público
leigo. Dessa maneira, o discurso e a linguagem científica são adequados
para atender esse público, pois há a necessidade de tradução de termos
científicos para termos de entendimento mais popular; o objetivo é fazer
com a audiência entenda o assunto.

Por jornalismo científico, entende-se uma publicação que é produzida e


tratada por profissionais de jornalismos que têm acesso a dados das
pesquisas científicas. O objetivo muitas vezes é comunicar em meios de
comunicação de massa a informação científica de interesse público,
todavia, há casos em que as pesquisas são tratadas com sensacionalismos e
distorcidas, visando apenas uma maior audiência e engajamento do público.
Por meio desses canais, os cientistas podem buscar a visibilidade de suas
pesquisas. Além disso, um fator que tem contribuído para o aumento da
visibilidade são as redes de colaboração entre os cientistas.

Atualmente, há uma tendência crescente do processo de internacionalização


da ciência que é percebida como uma forma de melhoria na qualidade de
conhecimento produzido e de democratização da produção científica. Essa
internacionalização tem sido expressa a partir da participação de autores de
outros países nas publicações regionais (coautoria), da difusão dos
resultados das pesquisas em outros idiomas e periódicos internacionais e,
também, na mensuração dos impactos das publicações internacionais que
mostram a influência das pesquisas em outros países. Uma expressão de
suas vantagens está na contestação realizada por estudos de que o número
de citações das publicações que envolvam pesquisadores de diferentes
países é superior quando comparado ao número de citações das publicações
estritamente nacionais (GHENO, 2020).

EXEMPLIFICANDO
O indicador impacto da citação é calculado dividindo o número total de
citações obtidas pelo número total de publicações. O IC mostra o número
médio de citações que uma publicação recebeu em determinado período de
tempo. Entretanto, o indicador ignora o volume total da produção e isso
pode causar distorções. Exemplo, o pesquisador X publica um artigo que
obtém 50 citações. Por sua vez, o pesquisador Y publica 10 artigos com
receberam 200 citações. No cálculo do impacto de citação, o pesquisador X
tem um maior número que o pesquisador Y, mesmo que ele tenha
publicado mais.

Esse caso ilustra que é preciso ter cuidado na interpretação e no uso dos
indicadores.

Assegurar a qualidade da produção científica é parte constitutiva de sua


credibilidade. Tão fundamental quanto conhecer as etapas da produção
científica é saber encontrar produções de qualidade. Os indicadores e as
ferramentas digitais altimétricas estão disponíveis para nos auxiliar com
essa tarefa.

FAÇA A VALER A PENA

Questão 1

Os indicadores de produção científica surgiram da necessidade cada vez


mais crescente de avaliar a qualidade de pesquisadores e produções
acadêmicas para fins de reconhecimento e mérito acadêmico, bem como
avaliação comparativa para fomento de recursos às pesquisas científicas.

Assinale a alternativa que contém um indicador de produção científica.

A. Scholary count.

B. Citation per count.

C. Scholary impact.

D. Citation impact.

E. Ten year scholary impact.

Questão 2

As redes de internet provocaram enormes transformações na comunicação


humana e afetaram também a forma como se dá o reconhecimento da
produção científica, isso porque a insatisfação com os medidores
tradicionais de impacto de pesquisas levou a um movimento que buscava
incluir as redes de internet como formas legítimas de mensuração de
impacto das produções científicas.

Assinale a alternativa que nomeia a forma alternativa de bibliometria que o


texto se refere:

A. Scholar metrics.

B. Altmetrics.

C. Open access.

D. Scientific analytics.
E. Paywall.

Questão 3

A comunicação on-line se consagrou como uma das formas de


comunicação mais importantes do nosso século. A comunidade científica
percebeu a necessidade de ocupar esse espaço, ampliando as formas de
divulgação científica para as redes sociais. O marketing científico digital
surge para aumentar a visibilidade da ciência e dos pesquisadores nas redes
de internet.

Assinale a alternativa que contém três fatores a serem observados,


considerando uma estratégia de marketing científico digital:

A. Presença on-line, oferecimento de conteúdo inadequado ao ambiente e


atuação responsiva.

B. Presença off-line, oferecimento de conteúdo adequado ao ambiente e


atuação interativa.

C. Presença on-line, oferecimento de conteúdo inadequado ao ambiente e


atuação prescritiva.

D. Presença off-line, oferecimento de conteúdo adequado ao ambiente e


atuação interativa.

E. Presença on-line, oferecimento de conteúdo adequado ao ambiente e


atuação responsiva.

REFERÊNCIAS

Agência USP de Gestão da Informação Acadêmica (AGUIA). Indicadores


e Métricas. Publicado em novembro, 2016. Disponível
em: http://bit.ly/3qcOtO1. Acesso em: 10 dez. 2020.

ARAÚJO, R. F. Marketing científico digital e métricas alternativas para


periódicos: da visibilidade ao engajamento. Perspectivas em Ciência da
Informação, v. 20, n. 3, p. 67-84, 2015.

GHENO, E. M. et al. Impacto da internacionalização na visibilidade da


produção científica do Programa de Pós-Graduação em Ciências
Biológicas: BIOQUÍMICA/UFRGS (2007-2016). Encontros Bibli: revista
eletrônica de biblioteconomia e ciência da informação, v. 25, p. 01-25, 2020.
FOCO NO MERCADO DE TRABALHO
QUAIS MÉTRICAS SÃO UTILIZADAS
NA PESQUISA?
Amanda Soares de Melo

Fonte: Shutterstock.

SEM MEDO DE ERRAR

A situação apresenta um parecerista que deve analisar dois projetos de


pesquisa que buscam financiamento. O parecerista faz análise do currículo
acadêmico dos pesquisadores. Pela análise da tabela anteriormente
apresentada, o estudante deve perceber que o pesquisador A tem um índice
H maior que o pesquisador B e, portanto, deve ser escolhido em uma
análise que segue esse critério.

O pesquisador A tem o índice H = 4, porque o índice H é calculado


verificando a quantidade dos artigos e a quantidade de citações que eles
tiveram. Sendo assim, o pesquisador A tem pelo menos 4 artigos com pelo
menos 4 citações.

No caso do pesquisador B, ele possui um índice H = 3, porque ele tem pelo


menos 3 artigos com pelo menos 3 citações.

AVANÇANDO NA PRÁTICA
BUSCANDO O MARKETING CIENTÍFICO DIGITAL
O editor chefe de uma revista científica recém-lançada contrata uma
agência de marketing com o objetivo de aumentar a visibilidade de suas
publicações. A agência traz a estratégia do marketing científico digital que
busca ampliar a comunicação científica ao público mais leigo por meio das
mídias sociais.

Para que essa revista ganhe visibilidade nas redes de internet, quais os três
fatores indispensáveis a serem observados por seus editores, considerando
uma estratégia de marketing científico digital?

RESOLUÇÃO

A situação apresenta o editor chefe de uma revista científica que procura


uma agência de marketing para alavancar a visibilidade nas redes sociais. O
estudante deveria relembrar que, de acordo com Araújo (2015), os
pesquisadores, os editores e as instituições que buscam o marketing
científico precisam observar três fatores indispensáveis: 1. a presença on-
line em mídias como Facebook, 2. o oferecimento de um conteúdo
adequado ao ambiente (com uma linguagem adequada à internet e 3. uma
atuação responsiva, procurando ter uma relação interativa com os usuários
consumidores do conteúdo.

SEÇÃO 3
NÃO PODE FALTAR
É POSSÍVEL CONFIAR EM UMA
PESQUISA CIENTÍFICA?
Amanda Soares de Melo

Fonte: Shutterstock.
PRATICAR PARA APRENDER

Caro estudante,

Você já deve ter ouvido falar em Fake News. As Fake News são notícias
fabricadas que propagam mentiras a respeito de um assunto em particular
ou sobre uma pessoa, em geral, pública. Elas são extremamente danosas à
sociedade e muitas vezes causam danos irreversíveis, como a queda brusca
nas taxas de vacinação de uma população.

As Fake News devem ser combatidas com informação e conhecimento de


qualidade e nós sabemos que o conhecimento científico pode ser muito útil
nessa tarefa. Devemos criar o hábito de sempre checar as informações antes
de compartilhá-las. De preferência, devemos nos informar por meios
confiáveis, incluindo publicações científicas de periódicos de qualidade.

Atualmente, o processo de avaliação dos manuscritos científicos inclui a


utilização de indicadores e métricas que auxiliam na garantia da
confiabilidade e segurança das informações publicadas. Nesta seção, você
aprenderá como identificar as Fake News e as formas de combatê-la. É
importante saber diferenciar as informações de forma genuína, portanto,
você também aprenderá sobre as ferramentas e os processos envolvidos na
análise da qualidade de publicações e pesquisadores, incluindo o controle
dos interesses que podem interferir negativamente na produção do
conhecimento científico.

Um parecerista contratado por uma agência de fomento à pesquisa é


responsável pela análise técnica de dois projetos de pesquisa que buscam
financiamento. Os recursos são limitados, portanto, de acordo com a
avaliação do parecerista, o melhor projeto receberá todos os recursos.

Nos projetos não constam os nomes dos pesquisadores participantes a fim


de evitar conflito de interesses, todavia, o parecerista percebe que um dos
projetos envolve a pesquisa no laboratório Finz, em que é colaborador. A
decisão do parecerista é favorável ao financiamento desse projeto.

Explique se há indícios de conflito de interesses nessa avaliação e quais


providências deveriam ter sido tomadas.

Nossas preferências não determinam o que é verdade.

Carl Sagan
CONCEITO-CHAVE

QUALIDADE DAS PUBLICAÇÕES


Como se sabe, a produção de conhecimento científico envolve algumas
etapas, dentre elas duas são essenciais: a produção de conhecimento – dada
pela condução da investigação – e a divulgação dos resultados – feita pelas
publicações e comunicações em meios especializados. Ao submeter um
artigo a uma revista, o manuscrito é geralmente submetido à revisão por
pares e sua aprovação se dá quando os critérios e as condições que regem
uma boa pesquisa são seguidos pelos cientistas.

O número de artigos submetidos para publicação cresce vertiginosamente.


Por conta desse crescimento, os sistemas de avaliação passaram por
mudanças como a criação de métricas e indicadores que facilitassem na
avaliação da qualidade dos trabalhos publicados. Um dos indicadores mais
utilizados se chama Fator de Impacto (FI). O FI mostra quanto um
periódico contribuiu para o avanço de uma área a partir do número de
citações dos artigos publicados por ele. Esse indicador é utilizado para
avaliar as revistas científicas do mundo todo, se utiliza do International
Scientific Indexing (ISI), um banco de dados com periódicos selecionados.

Com a popularização do FI, muitas revistas também passaram a utilizá-lo


na avaliação dos pesquisadores, abrindo uma tendência que hoje é
denominada de “produtivismo acadêmico” e também muito criticada por
exigir que o pesquisador publique cada vez mais, acarretando, muitas
vezes, que ele não dê a importância devida para a qualidade do que é
publicado.

O FI é calculado levando em conta um ano como período, trata-se de ver a


soma de todas as citações que a revista recebeu nos dois anos anteriores e
fazer a divisão pelo total de artigos publicados dentro desse período.
Surgiram também variações desse índice, como o Índice de Imediatez, que
faz o mesmo cálculo, mas não leva em conta o período de dois anos,
favorecendo a análise das revistas criadas a pouco tempo.

Apesar da relevância do FI para a bibliometria na ciência, pondera-se que o


FI pode apresentar distorções, afinal, artigos com erros grosseiros podem
ser citados como uma forma de exemplificar o que não deve ser feito.
Nesse sentido, há a necessidade de uma análise global que leve em conta
outros fatores a fim de garantir a qualidade do periódico e dos artigos
publicados.

Na esteira da busca por métricas de avaliação de periódicos, surgiu o


processo de indexação. A indexação se tornou um reflexo da qualidade dos
periódicos, uma vez que as revistas indexadas são consideradas de maior
qualidade científica. Um periódico indexado nada mais é do que uma
revista que faz parte de uma base de dados reconhecida como Scopus, Web
of Science, Scielo etc.

Considera-se que as revistas indexadas possuem um trabalho metodológico


rigoroso na avaliação dos artigos submetidos. Os editores almejam que suas
revistas sejam indexadas de modo a atestar o patamar de qualidade de suas
publicações. Um dos indexadores mais conhecidos é Scopus, uma base
multidisciplinar relevante na área médica, assim como o PubMed. Temos
também a SciELO, que abrange uma coleção de periódicos brasileiros,
considerada a maior base de acesso aberto da América Latina.

Há outras bases de dados indexadoras como a Directory Open Access


Journals (DOAJ), que é um diretório on-line de acesso aberto e
independente; seu financiamento se dá por doações. Temos a Redalyc, uma
base de revistas em acesso aberto ibero-américas. Além dessas, uma das
mais conhecidas e relevantes indexadoras é a Web of Science, baseada em
assinatura e permite uma exploração profunda dos campos e subcampos de
uma área de pesquisa.

Tanto o Scopus quanto o Web of Science são consultados somente


mediante o pagamento de um plano de assinatura. Todavia, é prática
comum as universidades públicas possuírem acesso, como acontece aqui no
Brasil.

Por fim, no campo da educação, temos como mais conhecidas as bases


Educ@ e Edubase. Há ainda outras bases indexadoras, caberá o
pesquisador buscar conhecer quais são as mais relevantes na sua área de
estudos.

ASSIMILE
O Fator de Impacto (Impact Factor) é uma das métricas mais utilizadas na
avaliação de revistas científicas atualmente. Ele contabiliza as citações
recebidas, sendo utilizado no Brasil até por comissões que compõem a
Qualis Periódicos. O cálculo é feito somando todas as citações que a revista
recebeu no prazo de dois anos e dividindo pelo número total de publicações
desse mesmo período. O fator de impacto é criticado principalmente por
não distinguir as revistas mais recentes das revistas tradicionais, além de
não distinguir áreas que podem possuir características de produção
diferentes.
QUALIDADE DOS PESQUISADORES
Os pesquisadores fazem da ciência um processo contínuo de investigação,
são eles que desenvolvem as pesquisas e publicam os resultados, que,
muitas vezes, configuram-se como o ponto de partida da investigação. São
os pesquisadores também que avaliam seus pares, recompensam os méritos
ou aplicam punições quando se infringe as regras e os valores da ética
científica. A organização da ciência se dá com base em uma troca de
informações visando reconhecimento social. Segundo Bourdieu (1994), o
campo científico é um campo de disputas em que os cientistas concorrem
entre si pelo alcance da autoridade científica e do poder social que isso traz.
Por essas razões, o campo científico é permeado de diversos interesses.

É um mito comum achar que os cientistas são desinteressados em suas


investigações. Na verdade, como todos os seres humanos possuem
motivações para realizar determinadas tarefas, os pesquisadores possuem
motivações para realizar suas pesquisas. Eles podem se importar com o
avanço da ciência, mas também com o ganho da autoridade científica ou
ainda com a vontade de aprenderem e crescerem intelectualmente. O
pesquisador compartilha de anseios que são da própria natureza científica,
como a vontade de trazer algum avanço na sua área de pesquisa, bem como
anseios pessoais, como o desejo de sucesso profissional.

Tais motivações acabam afetando a prática científica no sentido de que,


muitas vezes, os pesquisadores vão se interessar pelas questões mais
relevantes de uma área pelo desejo de que os outros percebam da mesma
maneira a relevância de sua pesquisa. Os anseios pessoais, segundo
Bourdieu (1994), não só podem influenciar na escolha dos objetos da
pesquisa, como também nos métodos empregados na pesquisa, isto é, o
cientista que se preocupa com o reconhecimento social buscará métodos
que são aceitos e reconhecidos pelos seus pares.

Dessa maneira, a contribuição que o pesquisador faz à sociedade é um dos


aspectos relevantes que contam para seu reconhecimento no meio
científico. Como os outros pesquisadores também possuem a vontade de
serem reconhecidos, eles competem entre si, de forma que a análise de seus
pares se torna extremamente rigorosa.

Para Merton (1985), dado esse contexto, além de buscar a aceitação por
seus pares, o objetivo do pesquisador é afirmar sua autoridade científica.
Para isso, os pesquisadores precisam saber escolher problemas que sejam
relevantes para toda a comunidade e não só para eles próprios, na intenção
de propor uma solução adequada a ele.
A reputação junto com seus pares também pesa no alcance desse
reconhecimento. Bolsas de pesquisa e prêmios obtidos pelos pesquisadores
são formas de obter seu reconhecimento. Pesquisadores que cometem
fraudes podem tornar sua imagem negativa na comunidade científica de
uma forma irreversível.

Como a ciência é um campo em disputa, de acordo com Bourdieu (1994),


os pesquisadores mais antigos e que ocupam as posições de prestígios terão
resistências quanto a novas teorias ou corroborações que questionem seus
trabalhos e ameacem seu status de autoridade no assunto. Essas novas
teorias que provocam rupturas com os conhecimentos estabelecidos
enfrentam muita dificuldade e críticas, todavia, caso o cientista consiga
superá-las, ele ganhará grande destaque profissional. É por essa razão que,
atualmente, quanto mais impacto uma publicação científica tem, maior
qualidade se atribui a ela.

Com o intuito de avaliar a excelência acadêmica de um cientista utiliza-se


indicadores que traçam análises sobre a quantidade de pesquisas
publicadas, o número de citações em determinada área etc. Um dos
indicadores mais utilizados é o Índice H (h-index), que mede o equilíbrio
entre a produtividade e o impacto das citações. Por exemplo, um índice h
de 10 indica que 10 artigos foram citados pelo menos 10 vezes cada.
Todavia, hoje se sabe que essas avaliações devem contemplar a qualidade
do conteúdo dessas publicações.

A busca por reconhecimento pessoal, incentivos financeiros, questões


sociais e geopolíticas, conflitos de interesses, são fatores que influenciam
na produção científica e, consequentemente, ditam a qualidade dos artigos
e a qualidade dos pesquisadores. É necessário analisar a ciência como
atividade humana em construção que tem como característica seu caráter
colaborativo. O modo como o campo científico se configurou inibe
quaisquer romantismos e idealismos em relação à produção de
conhecimento científico. Assim, não se trata de impedir que os
pesquisadores tenham seus próprios interesses, trata-se de colaborar para
que a vontade de contribuir com o avanço da ciência e da sociedade
prevaleça em relação às demais.

REFLITA
É comum dizer que as crianças são cientistas natos, todavia, nem todo
mundo segue a carreira de cientista na fase adulta. Em sua visão, o que
motiva um cientista a fazer seu trabalho? Quais fatores podem inibir essa
motivação?
CONFLITO DE INTERESSES
Como dito anteriormente, os cientistas são responsáveis pela produção de
conhecimento científico em diversos âmbitos e, como seres humanos, os
cientistas possuem motivações e interesses tanto compartilhados quanto
pessoais. A fim de que a motivação principal seja sempre a contribuição
genuína com a área de estudo, os pesquisadores desenvolvem mecanismos
para inibir os conflitos de interesse que porventura surgem durante as
investigações. Conflitos de interesse podem interferir negativamente na
credibilidade da produção científica.
cientificamente válidos.

Tais conflitos se referem tanto a problemas com financiamentos de


pesquisas e patrocinadores, por exemplo, como também se somam aos
interesses relacionados ao prestígio acadêmico, aos poderes sociais e ao
reconhecimento almejados pelos cientistas. Em situações em que há
conflito de interesses, o julgamento do pesquisador é potencialmente
afetado, isto é, o cientista pode manipular os resultados de uma pesquisa a
fim de que corroborem com os resultados esperados pela empresa que
patrocina o estudo. Se não há um controle rigoroso sobre esse processo e se
o conflito de interesse não for identificado, a credibilidade da pesquisa
pode ser minada.

Para melhor ilustrar uma situação de conflito de interesses, suponhamos um


caso comum do meio médico. Antes de um medicamento ser colocado à
venda, ele precisará passar por testes para que sua eficácia e segurança
sejam comprovadas. Todavia, muitas vezes as pesquisas são financiadas
pelas empresas que possuem interesse na venda desse medicamente, além
disso, os pesquisadores são, geralmente, funcionários dessas empresas e,
por consequência, também estão interessados na manutenção dos seus
empregos e no sucesso comercial da empresa.

Pode ser que tais interesses, ainda que existam e que devem ser
reconhecidos, não atrapalhem a boa condução da pesquisa, porque os
pesquisadores seguiram a metodologia científica com o máximo de rigor e
possuem o interesse ético em contribuir positivamente com a sociedade,
reduzindo ao máximo os riscos de efeitos colaterais no uso desse
medicamento. Todavia, pode ser também que tais interesses conflitem e o
interesse da empresa de colocar o medicamento para ser vendido prevaleça
frente à questão da segurança do mesmo.

A responsabilidade por observar esses conflitos de interesse é de todos os


atores envolvidos na produção de conhecimento científico: pesquisadores,
orientadores, editores, universidades, patrocinadores etc. Todos eles podem
se encontrar em meio a situações de conflito de interesses pelas mais
variadas motivações e devem identificar prontamente a natureza desse
conflito. Em geral, sugere-se que a identificação desse conflito também
seja inserida no artigo, na seção de discussão, por exemplo.

A revisão por pares, a qual os artigos são submetidos antes de serem


publicados, geralmente ocorre em uma abordagem duplo cego para inibir
conflito de interesses. Os avaliadores dos manuscritos não podem ter
ciência dos autores dos artigos, a fim de preservar o julgamento
estritamente profissional, eliminando qualquer interferência de questões
pessoais, como relações pessoais ou profissionais favoráveis ou
desfavoráveis entre o avaliador e o avaliado, decorrentes da competição
acadêmica, por exemplo.

Diversos conflitos de interesses podem aparecer durante a condução de


uma pesquisa e é tarefa do pesquisador reconhecê-los. Além disso, deverá
demonstrar quais medidas foram tomadas para controlar tais influências
com o propósito de não comprometer a credibilidade dos resultados. Cada
caso pode exigir uma estratégia diferente, o que dificulta a explanação de
fórmulas prontas de resolução desses conflitos.

Ainda assim, dois princípios podem ser observados: o princípio da plena


informação e o princípio da verificabilidade. O primeiro atesta que toda a
sociedade deve ser informada sobre os potenciais conflitos de interesse de
uma pesquisa. O segundo preza pelo tratamento crítico dos resultados de
pesquisas antes de serem considerados cientificamente válidos.

EXEMPLIFICANDO
Suponha que um pai seja o árbitro no jogo de futebol do seu filho. Apesar
do pai ser uma pessoa absolutamente íntegra, temos aqui um exemplo de
conflito de interesses: a vontade de que seu filho tenha um bom
desempenho conflita com a necessidade de conduzir a partida com
imparcialidade. Muitas decisões que o árbitro toma envolvem sua
percepção e, portanto, sua subjetividade. Nessas circunstâncias, nem todas
as decisões parciais podem ser controladas ou evitadas. A regra geral para
evitar o conflito de interesses é afastar todos aqueles que serão
potencialmente beneficiários da função de juízes e avaliadores. Entretanto,
pode haver situações mais complexas que fogem da aplicação dessa regra
de forma integral e requerem uma avaliação minuciosa caso por caso.
CIÊNCIA VERSUS FAKE NEWS
Nos dias de hoje, o termo Fake News tem sido adotado como referência às
notícias que divulgam informações falsas ou manipuladas e que têm
dominado as mídias digitais em escala global. A ciência, embora preserve
sua integridade pelo rigor na aplicação do método científico, não está
imune de seus efeitos.

As Fake News também podem se perpetuar utilizando de bases


supostamente científicas a fim de convencer o maior número de pessoas.
Sua atuação pode ser vista tanto em reportagens sensacionalistas sobre
assuntos científicos na mídia em geral, que podem ser mal-intencionadas
ou não, quanto por notícias falsas deliberadamente fabricadas.

Falsificações que se pretendem científicas podem exercer efeitos


extremamente negativos em uma sociedade, como exemplificado por Peter
Schulz por meio do caso “O Projeto Huemul”, desenvolvido de 1948 a
1952, na Argentina, sob o comando do presidente Juan Perón.

Perón foi profundamente influenciado por um autoproclamado cientista


alemão chamado Ronald Richter, que migrou para a Argentina depois da
derrota do nazismo, a desenvolver esse projeto. Segundo Richter, seria
possível, através de um projeto de controle de fusão nuclear, produzir
energia barata e sem lixo radioativo, o que elevaria a Argentina ao título de
primeira potência mundial. Perón investiu enorme esforço governamental e
muito dinheiro público para que esse projeto fosse desenvolvido e os
experimentos de Richter não resultaram em nada. A fraude foi
desmascarada por José Antônio Balseiro, um cientista de verdade.

Além disso, as Fake News podem provocar sequelas permanentes em


pessoas quando divulgam supostos efeitos negativos das vacinas, por
exemplo. Alegações totalmente falsas como “vacina contra meningite vai
dar meningite” são comuns nas redes, mas carecem totalmente de
comprovação científica e se contrapõem ao conhecimento já seguramente
estabelecido sobre as vacinas. As Fake News já levaram a uma queda
expressiva na vacinação em diversos lugares do mundo.

A melhor forma de combater as Fake News é pela informação, mas não


basta afirmar a autoridade científica, é preciso contribuir no sentido de
fazer as pessoas entenderem o porquê tais afirmações são falsas. É
necessário levar o conhecimento básico científico até as pessoas, além
disso, é preciso incentivar o pensamento científico para que se desenvolva
o pensamento crítico.
Há alguns passos básicos para identificar se uma notícia é falsa. O primeiro
deles é verificar a fonte da informação, o site em que está sendo divulgado
e o autor do conteúdo. Todavia, muitos sites possuem nomes semelhantes a
sites confiáveis, sendo necessário estar atento à autenticidade daquele
endereço.

O segundo passo é verificar a estrutura do texto, pois as Fake


News frequentemente apresentam erros de português que mostram que o
texto não foi revisado. Também apresentam um teor sensacionalista e
muitas afirmações, com explicações rasas e simplórias dos assuntos.

O terceiro passo é verificar a data de publicação. Muitas vezes notícias


antigas são divulgadas como sendo novas. Além disso, é necessário ir além
do título e do subtítulo. Frequentemente, o conteúdo contradiz o que se está
dizendo no título.

O quarto passo é checar as afirmações feitas em outros sites, utilizando


mecanismos de pesquisa como Google, Bing etc., também é importante
acessar os indexadores de artigos e revistas de referência, como PubMed
para a área médica, que divulga informações especializadas sobre o assunto
e tais informações são publicadas apenas quando já se deu a revisão por
pares. Há também diversos blogs e sites que se preocupam em desmentir as
notícias falsas que estão circulando na web, além de agências de checagem
que fazem esse trabalho de monitoramento e correção.

Por fim, cabe frisar que, se tratando de assuntos complexos, não existem
respostas absolutas. É prudente sempre adotar uma postura questionadora,
compatível com o pensamento científico, a fim de evitar consumir
conteúdos de pessoas que parecem donos da verdade e que pregam
conspirações ou pseudociências. Além disso, o não compartilhamento
dessas notícias, mesmo que para criticá-las, é importante, porque o
compartilhamento em si traz engajamento ao conteúdo e, com frequência,
ajuda a disseminá-las.

FAÇA A VALER A PENA

Questão 1

Os indicadores de produção científica surgiram como reação ao grande


volume de publicações científicas a partir dos anos 1960. A necessidade de
avaliar as boas e más produções se alinhou à constatação de que os recursos
para pesquisa são limitados e devem ser dados àquelas que trazem
contribuições positivas à sociedade.

Assinale a alternativa que contém um indicador de produção científica:

A. Fator de citação.

B. Fator de publicação.

C. Fator de relevância.

D. Fator de impacto.

E. Fator de Confiança.

Questão 2

É importante ter muito cuidado ao navegar na internet. Em uma pesquisa


rápida, encontramos milhões de sites e portais de notícias que nem sempre
constituem fontes seguras de informação. Em verdade, atualmente, alguns
deles foram criados para enganar e manipular a opinião pública, dando
origem à explosão de notícias falsas que conhecemos atualmente.

Assinale a alternativa que contém o termo utilizado para nomear o


fenômeno que o texto se refere:

A. Fake fact.

B. Fake view.

C. Fake news.

D. Fake idea.

E. Fake count.

Questão 3

Os ___________ são comuns na avaliação da ___________. Como os


___________, em geral, também são pesquisadores, eles podem conhecer
os ___________ do projeto avaliado ou ainda estar ligado às ___________
em que tais projetos são desenvolvidos. Entretanto, o conflito de interesse
deve ser imediatamente controlado, a fim de garantir a ___________ da
avaliação.
Assinale a alternativa que preencha correta e respectivamente as lacunas:

A. Conflitos de interesse; pesquisa acadêmica; avaliadores; participantes;


habitações; parcialidade.

B. Conflitos de interesse; pesquisa científica; avaliadores;


desenvolvedores; instituições; integridade.

C. Conflitos de interesse; pesquisa acadêmica; redatores; participantes;


habitações; maleabilidade.

D. Conflitos de interesse; pesquisa científica; redatores; participantes;


instituições; parcialidade.

E. Conflitos de interesse; pesquisa acadêmica; avaliadores;


desenvolvedores; habitações; comunicabilidade.

REFERÊNCIAS

BOURDIEU, P. O campo científico. In: ORTIZ, Renato (org.). Pierre


Bourdieu: Sociologia. Trad. de Paula Montero e Alícia Auzmendi. São
Paulo: Ática, 1983 b, p.122- 155.

DELMAZO, C.; VALENTE, J. C.L. Fake news nas redes sociais online:
propagação e reações à desinformação em busca de cliques. Media &
Jornalismo, v. 18, n. 32, p. 155-169, 2018.

DROESCHER, F. D.; SILVA, E. L. da. O pesquisador e a produção


científica. Perspectivas em ciência da informação, v. 19, n. 1, p. 170-189,
2014.

GREGOLIN, J. A. R. et al. Capítulo 5-Análise de Indicadores de Produção


Científica. 2004.

MERTON, R. K. La sociología de la ciencia. Madri, Alianza Editorial, 2


vol., 1985.

REGO, S.; PALÁCIOS, M. Conflitos de interesses e a produção


científica. Revista Brasileira de Educação Médica, v. 32, n. 3, p. 281-
282, 2008.
SANTOS, G. C.; XAVIER, I. D. C. M. Fontes de indexação importantes
para a pesquisa. Blog PPEC, Campinas, v.2, n.2, fev. 2018. ISSN 2526-
9429. Disponível em: https://bit.ly/3sOHs7U. Acesso em: 20 jan. 2021.

SANTOS, L. H. L. dos; PEREZ, J. F. Conflito de interesses: um desafio


inevitável. Revista Pesquisa FAPESP, n. 62, p. 12, 2001.

FOCO NO MERCADO DE TRABALHO


É POSSÍVEL CONFIAR EM UMA
PESQUISA CIENTÍFICA?
Amanda Soares de Melo

Fonte: Shutterstock.

SEM MEDO DE ERRAR

A situação-problema envolve um parecerista que é responsável pela


avaliação de dois projetos de pesquisa que buscam financiamento. O
projeto de pesquisa escolhido pelo avaliador é o projeto que se
desenvolverá em um laboratório no qual o parecerista é colaborador. Nesse
caso, está claro a presença de um conflito de interesses: o parecerista
procurará escolher o projeto em questão porque os recursos disponíveis
irão para o laboratório onde é colaborador.

Ao invés de tomar uma decisão, o parecerista deveria notificar o conflito de


interesse para a agência de fomento, a fim de que eles troquem de
especialista na avaliação dessa demanda. Não sendo possível a troca do
parecerista, ele deve deixar claro que é parte interessada e caberá uma
revisão da administração ao dar a decisão final.
AVANÇANDO NA PRÁTICA

COMBATENDO FAKE NEWS


Como pesquisador científico, você é convidado por um jornal de grande
circulação para falar dos efeitos nocivos que as Fake News podem causar à
sociedade como um todo. O jornal pede que você formule um roteiro com
os principais meios para reconhecer a falsidade de uma notícia. Elenque
cinco passos a serem seguidos pelos leitores que os auxiliarão nessa tarefa.

RESOLUÇÃO

Alguns passos básicos para identificar fake news:

1. Ir além do título. Muitas vezes os títulos contradizem ou distorcem


o conteúdo publicado.
2. Verificar a fonte da informação. Existem sites confiáveis em que a
notícia foi publicada?
3. Verificar a gramática e estrutura lógica do texto. As notícias falsas
frequentemente possuem erros de português ou mesmo
contradições.
4. Verificar a data da publicação. Muitas vezes notícias antigas são
republicadas a fim de modificarem alguma circunstância atual. É
comum o uso delas durante as eleições.
5. Verificar as informações por meio de pesquisas sobre o tema e em
sites que fazem sistematicamente a verificação de notícias falsas,
como agências de checagem de fatos.

UNIDADE 3
SEÇÃO 1
NÃO PODE FALTAR

QUAL É SUA PERGUNTA E COMO


RESPONDÊ-LA?
Amanda Soares de Melo
Fonte: Shutterstock.

CONVITE AO ESTUDO

Caro estudante,

Você já deve ter feito perguntas como “Por quê?” e “Como?” muitas vezes
na vida. Essa é uma facilidade especialmente das crianças. Nós nascemos
curiosos para saber a origem das coisas e a causas dos fenômenos que
observamos. A curiosidade é uma das características elementares do ser
humano.

O ser humano encontrou muitas formas de sanar suas dúvidas. Uma dessas
formas, considerada a mais confiável, é o método científico. Ao longo das
tentativas da humanidade de desenvolver um conhecimento seguro, foram
desenvolvidas regras e procedimentos básicos que colocavam o ser humano
mais próximo do conhecimento verdadeiro. Tais regras formam o método
científico, que tem como etapa inicial a elaboração de um problema ou uma
questão a ser investigada pelo pesquisador.

Na pesquisa científica, as perguntas ganham uma forma específica,


seguindo certas regras e princípios, com a finalidade de tornar possível a
condução de uma pesquisa com metodologia e rigor científico. Por essa
razão, as perguntas científicas geralmente são menos vagas e mais claras
dos que as que fazemos no nosso dia.

Fazer perguntas em ciência é uma prática constante que não termina com a
elaboração do projeto de pesquisa. Na verdade, a todo o momento da
pesquisa, o cientista pode se sentir motivado a fazer perguntas,
especialmente quando suas hipóteses não são corroboradas pela
experiência, isso deve fazer o cientista se perguntar como e por quê a
experiência é diferente do que se pensava. Dessa forma, fazer ciência
implica em saber fazer as perguntas da maneira correta.

Convido-lhe a exercitar a sua curiosidade a partir da abordagem da ciência


que envolve, entre outras coisas, investigar as causas, elaborar hipóteses,
resolver problemas, criar soluções.

Caro estudante,

Você já deve ter visto como a ciência e a tecnologia estão presentes em


nossa vida cotidiana em diversos segmentos. Por trás de toda construção
desses artefatos ou conhecimentos estão as perguntas, elas são muito
importantes porque configuram a motivação do cientista para iniciar uma
investigação. Toda pesquisa deve conter um problema a ser tratado ou uma
pergunta como fio condutor. Tais problemas ou perguntas possuem fontes
diversas, que podem surgir a partir de conversa com familiares, de uma
reflexão individual, de uma conversa com colegas de faculdade ou
trabalho. Mas há uma série de adaptações a serem feitas para que essa
curiosidade inicial se torne uma pergunta científica que possibilite o
desenvolvimento de uma pesquisa.

No desenvolvimento da pesquisa, há a formulação inicial do problema, a


elaboração do projeto de pesquisa (que consiste em um planejamento
rigoroso de cada etapa da pesquisa), a criação de um modelo de análise (as
hipóteses a serem testadas), que é a forma do pesquisador quantitativo de
testar a resposta que acha mais plausível para sua pergunta, a coleta e
análise de dados e a comunicação dos resultados.

Saber conduzir uma boa pesquisa é essencial tanto a produção de


conhecimento básico, quanto para a produção de conhecimento aplicado,
financiados por empresas ou governos.

O conhecimento dessas etapas e desses procedimentos que envolvem todo


o método científico não só possibilitará o desenvolvimento de uma boa
pesquisa, mas também exercitará o seu pensamento crítico. A partir do
conhecimento de como uma pesquisa deve ser conduzida, você se tornará
mais capaz de julgar quando uma pesquisa é rigorosa ou não com seus
resultados. Por sua vez, ficará mais difícil de acreditar em notícias
sensacionalistas, pseudociências e fórmulas mágicas de resolução de
problemas que não são verificadas ou que ainda não foram replicadas por
uma comissão independente.

Imagine que você trabalha em uma empresa química em que o


departamento de marketing quer verificar o efeito da propaganda na venda
de álcool em gel. Com as informações dos faturamentos anteriores desse
produto, a empresa começa a fazer grandes campanhas publicitárias e o
faturamento desse produto no mês seguinte, fevereiro, é significativamente
maior.

O departamento de marketing imediatamente comemora os resultados e


supõe que a propaganda provocou um efeito positivo nas vendas do
produto. Para comprovar essa hipótese, você é convocado enquanto
pesquisador a realizar o teste da hipótese. Você elabora os seguintes
enunciados:

Observação 1: As vendas do álcool em gel aumentaram no mês de


fevereiro.

Hipótese básica: Elas aumentaram em decorrência do investimento em


propaganda pela empresa.

Hipótese alternativa: Há algum outro fator externo, como preocupação com


a saúde, que elevou o faturamento do produto.

Quais seriam os possíveis procedimentos a serem realizados a fim de


confirmar ou refutar as hipóteses?

“A ciência é muito mais do que um corpo de conhecimento. É uma maneira


de pensar.”

Carl Sagan

CONCEITO-CHAVE

COMO FAZER PESQUISA CIENTÍFICA: ELABORANDO


PERGUNTAS

Um dos primeiros passos ao desenvolver uma pesquisa científica passa por


elaborar a pergunta de pesquisa, isso porque, ao desenvolver uma pesquisa,
o pesquisador tem em si alguma inquietação, dúvida ou problema que
almeja sanar. A pergunta da pesquisa é justamente essa incerteza que o
pesquisador possui sobre determinado assunto e que o encoraja a
desenvolver uma investigação, mas, se engana quem pensa que o produto
final de toda investigação é a solução dessa pergunta. Na verdade, mesmo
quando é possível produzir respostas satisfatórias a uma dada pergunta (e
nem sempre é possível), outras questões surgem decorrentes da
investigação, além da existência própria daquelas que tangenciam a
pesquisa e sequer foram tratadas.

Há ainda as questões-problemas que surgem a partir de um avanço na


ciência. As novas tecnologias e os novos instrumentos utilizados pela
ciência geraram uma série de perguntas sobre questões já conhecidas que
originaram novos paradigmas de pesquisa. Essa capacidade de gerar novas
perguntas é uma marca do pensamento científico. Dessa maneira, não
faltam incertezas a serem trabalhadas em projetos de pesquisa. O desafio
que se coloca ao pesquisador é conseguir elaborar uma questão que possa
ser transformada em um “plano de estudo factível e válido” (HULLEY,
2008, p. 36).

São muitas as origens dos problemas de pesquisa. Um pesquisador mais


experiente geralmente toma como questão de pesquisa os problemas
encontrados em seus estudos anteriores. Um pesquisador iniciante pode e
deve revisar a literatura sobre determinado tema, a fim de encontrar
questões abertas. Ele deve procurar ter um certo domínio sobre a literatura
do campo de estudo que almeja começar uma investigação. Os livros, as
revisões sistemáticas e os eventos de comunicação de pesquisa são bons
pontos de partida tanto para quem sabe ou não se sabe qual questão estudar.
Os eventos de comunicação científica são grandes oportunidades de
conhecimento para o pesquisador iniciante porque ele terá contato com
pesquisas mais recentes da sua área, poderá conversar com pesquisadores
experientes que já passaram pela fase que ele está, poderá sanar dúvidas
sobre as referências bibliográficas mais relevantes, além de formar
parcerias de pesquisa. Não se esqueça: a ciência é uma construção coletiva
e não individual!

Para elaborar um projeto de pesquisa, aconselha-se que o pesquisador


procure um orientador que pode ser tanto um professor quanto um
profissional especialista na área. Ele ou ela saberá avaliar se, à luz do
campo estudado, a questão elaborada pelo pesquisador é adequada visando
os métodos e as ferramentas da área disponíveis, isso porque algumas
questões são interdisciplinares ou muito abrangentes e precisam ser
delimitadas para garantir a boa condução do estudo. Há também pesquisas
que contam com mais de um mentor. De maneira geral, uma boa pergunta
de pesquisa tem como característica ser: factível, interessante, nova, ética e
relevante (FINER).

Factível: diversos estudos não alcançam seus objetivos porque não


conseguem delimitar o tamanho da sua amostra. É preciso planejar o
número de pessoas participantes que serão suficientes para a coleta de
dados e isso implica em uma análise de adequação de estratégia, tempo e
critérios de inclusão ou exclusão de participantes. Além disso, o
pesquisador deverá ter acesso às técnicas que precisa para o
desenvolvimento da pesquisa, isso inclui equipamentos e habilidades como:
fazer a delimitação do estudo, recrutar os participantes quando for o caso,
conhecer os métodos de coleta e análise de dados e variáveis, etc. Também
há que se ver quanto tempo o estudo irá durar e quanto irá custar, pois
dependendo da pesquisa, os custos são altos. O pesquisador deve ter o
planejamento de tempo por etapa e de insumos antes de iniciar a pesquisa,
incluindo imprevistos. Uma situação que pode acontecer sem o
planejamento adequado é o encerramento da pesquisa ainda na fase de
desenvolvimento por falta de recursos. Nem sempre, é claro, isso é uma
responsabilidade dos pesquisadores. As agências que financiam pesquisas
com bolsas e recursos para o desenvolvimento dos testes são, em sua
maioria, financiadas pelo governo. Um corte significativo de gastos poderá
comprometer muitas pesquisas em andamento. Por fim, o pesquisador deve
ter um escopo bem definido, caso contrário poderá se perder tentando
responder mais questões do que lhe seriam pertinentes. Mesmo que
problemas secundários sejam interessantes, é importante focar em uma
questão específica a fim de conseguir se dedicar a ela e entregar resultados
relevantes. Já dizia o ditado: “mais vale um pássaro na mão do que dois
voando”.

Interessante: a questão precisa ser interessante para a ciência, porque não


basta que ela seja interessante apenas para o pesquisador que a faz. Para
conseguir aporte financeiro, muitas vezes, é preciso que outros
pesquisadores da área reconheçam a pertinência da questão. Os
especialistas e orientadores são essenciais nesse momento pois poderão dar
o feedback necessário para saber se o projeto de pesquisa é pertinente à luz
dos seus objetivos.

Nova: Nem sempre é preciso inovar em ciência, mas com uma questão bem
delimitada, é possível e desejável a produção de novas informações a partir
da pesquisa. Além disso, um avaliador do projeto de pesquisa pode achar
que um estudo que não produz nada novo não vale os recursos
reivindicados pelo pesquisador. A questão não precisa ser completamente
original, mas novas informações sobre o assunto constituem um resultado
esperado de boas pesquisas.

Ética: a pergunta de pesquisa deve ser ética, de modo que não cause risco
de vida para os participantes, nem uma completa invasão de suas
privacidades. Geralmente, os projetos de pesquisa que envolvem testes em
humanos ou animais não humanos passam por uma comissão de ética para
serem aprovados e as pesquisas devem seguir suas normatizações com
extremo rigor. Uma pesquisa que incorra em infrações éticas também não
consegue produzir resultados relevantes em ciência.

Relevante: A relevância tem um papel central na busca por uma boa


pergunta de pesquisa. Uma forma de pensar a relevância da pergunta é
imaginar as conclusões que a pesquisa poderá chegar e pensar quais
contribuições e avanços essa conclusão pode trazer à sociedade; vale aqui
também discutir com os orientadores e especialistas da área a relevância da
pergunta, bem como do projeto de pesquisa como um todo.

Desenvolver uma boa pergunta de pesquisa, embora pareça uma tarefa


individual, é, antes, uma elaboração coletiva que envolve a participação de
especialistas, professores, amigos, colaboradores e certo domínio da
literatura. São alguns exemplos de perguntas de pesquisa: A redução da
gordura alimentar pode reduzir a câncer de mama? Qual a origem dos
índios americanos? Qual a composição da atmosfera de Marte? Qual a
relação entre subdesenvolvimento e dependência econômica? “A
criatividade, a persistência e a capacidade de julgamento são qualidades
necessárias a serem exercitadas nessa tarefa” (HULLEY, 2008, p. 43).

ASSIMILE

1. A pergunta de pesquisa é o ponto de partida de todos os estudos


científicos. Ela expressa a dúvida, inquietação e incerteza do
pesquisador frente a uma parte do campo de estudo de uma
disciplina.
2. Para elaborar uma boa pergunta de pesquisa, é necessário ter um
certo domínio da literatura da área de estudos. Também é
recomendável que o pesquisador discuta sobre ela com os seus
pares.
3. Uma boa pergunta de pesquisa tem cinco características, sob o
acrônimo FINER. Ela é: factível, interessante, nova, ética e
relevante.

A CONSTRUÇÃO DE HIPÓTESES

Uma vez elaborada a questão de pesquisa pode ser necessária a elaboração


de hipóteses a serem testadas que darão uma resposta quanto ao problema
colocado pelo pesquisador. As hipóteses são uma espécie de diretrizes da
pesquisa; elas indicam o que os pesquisadores estão buscando ou o que eles
estão tentando comprovar, sendo tentativas prévias de explicação do
fenômeno analisado e devem ser formuladas de forma clara e concisa. A
hipótese não deve ser confundida com pressuposto teórico, uma vez que no
decorrer da pesquisa, ela pode ser descartada e avaliada. A hipótese é
sempre provisória e provável.

Nem todas as pesquisas formulam hipóteses. A formulação de hipóteses é


dada apenas em estudos correlacionais ou explicativos, isto é, que preveem
um dado acerca do fenômeno analisado. Em geral, pesquisas apenas
exploratórias não formulam hipóteses. As pesquisas que formulam
hipóteses se utilizam do método hipotético-dedutivo que consiste na
construção de conjecturas, isto é, premissas altamente prováveis baseadas
em hipóteses que, se confirmadas, confirmam também sua veracidade. Um
estudo que busque medir o índice de delitos de uma cidade pode ter como
hipótese que o índice para determinado semestre será menor que o semestre
anterior baseado em determinados fatores. Mais exemplos de hipóteses:
quanto maior variedade houver no trabalho, maior será a motivação do
trabalhador; o índice de câncer pulmonar é maior entre fumantes que não
fumantes; a psicoterapia aumenta gradativamente a expressão do paciente
sobre o futuro e diminui a expressão sobre os fatos passados.

Uma hipótese é diferente de uma afirmação, pois o pesquisador não tem


plena certeza de sua comprovação. As fontes comuns para formulação de
hipóteses são as teorias, generalizações empíricas sobre o problema de
pesquisa e estudos revisados, mas elas também podem surgir em campos de
estudo pouco explorados. Nesse caso, quanto menor o fundamento
empírico da hipótese, maior o cuidado que o pesquisador deve ter quanto a
sua aceitação ou rejeição. Um erro grave ao elaborar hipóteses se faz
quando o pesquisador não revê a literatura do campo de estudo e formula
hipóteses que já foram significativamente aceitas ou descartadas por outros
estudos.

Lakatos e Marconi (1991) listaram onze características que uma boa


hipótese deve conter:

 Consistência Lógica: o enunciado da hipótese não deve ser


contraditório, além disso, deve ser compatível com o conhecimento
científico já existente.
 Verificabilidade: a hipótese deve ser passível de verificação.
 Simplicidade: a hipótese deve ser simples, evitando enunciados
obscuros ou complexos demais.
 Relevância: a hipótese deve poder explicar ou prever algum dado
significativo para a pesquisa.
 Apoio teórico: a hipótese precisa ser baseada em uma teoria já
estabelecida, a fim de que haja uma probabilidade maior de
produção de conhecimento relevante.
 Especificidade: a hipótese deve indicar as operações de sua
verificabilidade.
 Plausibilidade e clareza: a hipótese deve ser provável e seu
enunciado claro.
 Profundidade, fertilidade e originalidade: a hipótese deve indicar os
mecanismos que podem levar o conhecimento a um nível de maior
complexidade do problema. Deve facilitar que mais deduções sejam
feitas e expressar uma resolução inédita para a questão.

Ainda segundo Lakatos e Marconi (1991), as hipóteses se dividem em duas


categorias: hipóteses básicas e hipóteses secundárias. As hipóteses básicas
são aquelas escolhidas pelo pesquisador e que respondem o problema
diretamente, por sua vez, as hipóteses secundárias indicam respostas
complementares ou outras possibilidades de resposta para o problema em
questão. Além dessa classificação, há outras maneiras de classificar
hipóteses mais gerais que variam de acordo com o objetivo da pesquisa
como: hipóteses de pesquisa, hipóteses nulas, hipóteses alternativas e
hipóteses estatísticas. As hipóteses de pesquisa podem ser entendidas como
proposições acerca das possíveis relações entre duas ou mais variáveis.
Comumente se representa essas variáveis como H11, H2, H3, etc. E há ainda
uma classificação para os tipos de hipóteses de pesquisa, sendo:

 Descritivas: as hipóteses desse tipo são utilizadas em estudos


descritivos, por exemplo, “a expectativa de salário dos
trabalhadores da empresa x oscila entre 800 e 1.000 reais”.
 Correlacionais: as hipóteses desse tipo explicam as relações entre
variáveis, por exemplo, “quanto maior a autoestima, menor o medo
da rejeição”.
 Da diferença entre grupos: as hipóteses desse tipo têm a finalidade
de comparar grupos, exemplo, “o efeito persuasivo para deixar de
fumar será maior em adolescentes que adultos”.
 Causalidade: as hipóteses desse tipo estabelecem relações bem
mais fortes entre duas variáveis, em que uma variável estabelece
com a outra uma relação de dependência, por exemplo, “a ausência
da figura paterna contribui para uma maior probabilidade de
conduta antissocial”.

Além das hipóteses de pesquisa, temos as hipóteses nulas. Elas são os


opostos das hipóteses de pesquisa, pois as refutam. Retomando os
exemplos anteriores, uma hipótese nula seria “a expectativa de salário dos
trabalhadores da empresa x varia entre 800 e 1.000 reais”. Ou ainda, “não
há relação entre autoestima e o medo de sucesso”.

Há ainda, as hipóteses alternativas e as hipóteses estatísticas. A primeira


são as possibilidades de respostas alternativas ao problema de pesquisa.
Assim, poderíamos dizer, como no exemplo anterior, que “a expectativa de
salário dos trabalhadores da empresa x oscila entre 1.200 e 1.500 reais”. As
hipóteses estatísticas, por sua vez, são exclusivas das pesquisas
quantitativas e representam as hipóteses (pesquisa, nula e alternativa) em
símbolos estatísticos.

REFLITA

1. Além do valor das hipóteses para a obtenção de resultados, no que


as hipóteses podem contribuir para a pesquisa científica?
2. O que pode ser feito quando a hipótese básica é rejeitada?
3. Qual relação entre a pergunta de pesquisa e a elaboração da
hipótese?

A CONDUÇÃO DA PESQUISA

Para que a pesquisa científica seja conduzida da forma correta, é necessário


que o pesquisador observe uma série de regras e princípios. De acordo com
Academia Brasileira de Ciências (ABC, 2013), os princípios gerais que
todo pesquisador deve seguir são: honestidade na apresentação e descrição
dos procedimentos da pesquisa; confiabilidade na execução e comunicação
da pesquisa; objetividade na coleta e no tratamento de informações;
imparcialidade na execução da pesquisa; cuidado na coleta, no
armazenamento e no tratamento de dados; respeito pelos voluntários e
animais que participarem de testagens; veracidade na atribuição dos
créditos aos outros; e, por fim, responsabilidade com a formação e
supervisão de novos cientistas.

Além disso, a ABC recomenda uma série de boas práticas que garantem a
boa condução da pesquisa. Em resumo, no que concerne ao planejamento
da pesquisa, o pesquisador deve observar:

a. Os recursos e materiais necessários à execução do projeto.


b. A averiguação da capacidade científica do pesquisador em dar
procedimento à pesquisa.
c. A documentação de dados e informações prévias relevantes para a
pesquisa.
d. Reconhecimento dos possíveis conflitos de interesse que possam
atrapalhar a pesquisa.
e. A análise sobre propriedade intelectual quando for pertinente à
pesquisa.

No que concerne ao manuseio de dados, o pesquisador ou a equipe


responsável deve:

f. Registrar os dados coletos de forma fidedigna.


g. Guardar os dados da melhor forma.
h. Arquivar os dados da pesquisa por prazo razoável.
i. Colocar os dados à disposição para que outros pesquisadores
possam replicar o estudo.

No que concerne a execução do projeto, o pesquisador ou a equipe


responsável devem:

j. Conduzir a pesquisa visando a prevenção de falhas e desperdício de


recursos.
k. Tratar todos os objetos de pesquisa com respeito, incluindo
artefatos culturais.
l. Ter compromisso com a saúde dos participantes da pesquisa.
m. Garantir a confiabilidade dos dados e resultados.
n. Dar crédito aos financiadores dos seus projetos.

A integridade da pesquisa é um valor absoluto. Tais regras gerais valem


para todo tipo de pesquisa, embora haja regras mais pertinentes a algumas
pesquisas que outras. Isso porque há, ao menos, duas abordagens em
pesquisa: as pesquisas qualitativas e as pesquisas quantitativas. As
pesquisas quantitativas se debruçam sobre dados que podem ser
quantificados, usualmente recorre à linguagem matemática, especialmente
à estatística, a fim de mostrar as causas e relações de determinado
fenômeno. A pesquisa qualitativa, por sua vez, não se preocupa com a
representação matemática dos fenômenos e sim com a compreensão mais
geral deles. Os seus objetos não são quantificáveis, centrando-se na
compreensão e explicação de dinâmicas sociais.

De acordo com as características de cada projeto de pesquisa, são


escolhidas diferentes formas de pesquisa, sendo que não há uma melhor
que a outra, mas a que mais se adequa aos seus objetivos. É possível,
inclusive, aliar a pesquisa qualitativa com a quantitativa.
As pesquisas diferem-se também quanto a sua natureza: a pesquisa básica
enfoca em construir conhecimentos novos sem aplicação prática prevista,
enquanto a pesquisa aplicada visa os resultados práticos desse novo
conhecimento, dessa maneira, como as pesquisas visam objetivos
diferentes, é possível classificá-las de maneira mais específica. De maneira
geral, as pesquisas exploratórias têm como objetivo tornar o problema mais
explícito ou elaborar hipóteses, isso envolve levantamento bibliográfico,
entrevistas (pesquisa semiestruturada) e análise de exemplos do problema.
A pesquisa descritiva visa descrever os fatos e fenômenos de determinada
realidade, sendo exemplos: estudos de caso, análise documental e
pesquisa ex-post-facto. A pesquisa explicativa visa determinar os fatores
responsáveis pela ocorrência de determinados fenômenos.

Os procedimentos de pesquisa também variam. As pesquisas experimentais


seguem um planejamento extenso e rigoroso. Usualmente tais pesquisas
definem o objeto, suas variáveis e a elaboração de instrumentos para a
coleta de dados, podendo ser desenvolvidas em laboratório ou no campo. Já
a pesquisa bibliográfica é feita a partir da obtenção de referências teóricas
como livros e artigo científicos, com o objetivo de recolher neles
informações que ajudem a solucionar o problema inicial. A pesquisa
documental segue caminho semelhante, mas também pode recorrer a fontes
mais diversificadas como cartas, filmes, fotografias, pinturas, jornais etc.

Há ainda pesquisas de campo, etnográficas, de levantamentos (censos) e


estudos de caso. Cada pesquisa tem sua particularidade, mas em termos
gerais, as pesquisas científicas seguem as seguintes etapas: reconhecimento
e formulação do problema, exploração do problema na bibliografia ou
coleta de dados exploratória, planejamento da pesquisa e elaboração da
problemática, elaboração de um modelo de análise (hipóteses), coleta de
dados, análise dos dados e comunicação dos resultados.

ACEITAÇÃO E REJEIÇÃO DE HIPÓTESES

Em algumas pesquisas, principalmente se correlacionais ou explicativas, se


faz necessário a elaboração de hipóteses, a fim de que possa se obter
informações que ajudam a responder o problema de pesquisa. Cada
pesquisa é diferente, portanto, algumas podem ter mais de uma hipótese
analisada, principalmente quando o problema de pesquisa é complexo.
Uma etapa central da pesquisa é avaliar se a hipótese foi aceita ou rejeitada
no confronto com os dados empíricos. À rigor, um estudo não é capaz de
aceitar ou rejeitar uma hipótese de maneira definitiva, o estudo apenas
indica evidências a favor ou contra. Lembre-se que na ciência não há
certezas absolutas ou indiscutíveis.

Há vários métodos para testar as hipóteses. Um deles é o Método


Hipotético-Dedutivo, elaborado pelo filósofo da ciência Karl Popper na
obra Conjecturas e Refutações: o desenvolvimento do conhecimento
científico (2003). Segundo Popper, quando os conhecimentos acerca de
determinado tema são insuficientes, surgem os problemas. Visando
explicar o problema, as hipóteses são formuladas. São elas que ditam as
consequências que terão de ser testadas ou falseadas. A partir dessa etapa,
procura-se evidências empíricas que contradizem a hipótese. Quando não
se consegue derrubá-la, então a hipótese é corroborada. Assim temos o
esquema: PROBLEMA – HIPÓTESE – PREVISÃO – TENTATIVA DE
FALSEAR – CORROBORAÇÃO.

Há também o método hipotético-indutivo quando se constrói as hipóteses a


partir da observação da experiência. Quando se tem alguma informação que
dá à hipótese um certo nível de probabilidade, é mais comum o uso do
método hipotético-dedutivo. Todavia, na prática, os dois métodos se
articulam, pois os modelos elaborados na ciência geralmente atendem tanto
um quanto o outro.

Os resultados encontrados na tentativa de falsear a hipótese devem ser


comparados com os resultados esperados para que se possa tirar
conclusões. Se houver divergência entre eles, é necessário fazer uma
análise que contemple saber: qual a causa dessa divergência, no que a
experiência é diferente do que se presumia na hipótese e, a partir de uma
nova análise de dados disponíveis, agora é possível elaborar novas
hipóteses e examinar em que medida elas respondem melhor o problema
colocado. Nem sempre as hipóteses são aceitas nas pesquisas, mas isso não
significa que a pesquisa não tenha utilidade. O simples fato de eliminar
uma das hipóteses, ainda que provisoriamente, faz com que os cientistas
fiquem mais próximos da resposta do problema de suas pesquisas.

EXEMPLIFICANDO
Veja o exemplo prático de formulação hipótese em uma pesquisa sobre as
cobras corais.

Observação 1: As cobras corais são coloridas.

Pergunta: Por que essa espécie tem esse tipo de coloração?

Hipótese básica: As cores fortes servem para afastar possíveis predadores.


Hipótese secundária ou alternativa: Na natureza, as cores fortes servem de
camuflagem.

Previsão: se colocarmos cobras de borracha uma com cores e uma marrom


em fundos brancos com a presença de pássaros, os pássaros tentaram atacar
a de borracha, em vez da colorida (H1), ou atacaram as duas igualmente
(H2).

Coleta de dados: Nos testes efetuados, os pássaros atacaram


significativamente mais as cobras marrons.

Interpretação dos resultados: A hipótese básica é mais provável e foi


corroborada.

A elaboração de boas perguntas, a construção de hipóteses significativas e


a testagem delas de forma adequada são fundamentais em uma pesquisa
quantitativa. Além disso, o pesquisador deve estar sempre atento aos
princípios e valores éticos tais como honestidade, respeito, imparcialidade,
responsabilidade, entre outros, a fim de garantir uma condução adequada
da pesquisa. Uma boa pesquisa, mesmo sem a corroboração de hipótese,
colabora com o avanço da ciência.

FAÇA A VALER A PENA

Questão 1

A pesquisa científica exige uma série de regras e boas condutas para


garantir a obtenção de bons resultados. Sem o cumprimento dessas regras e
práticas, teríamos uma menor confiabilidade dos resultados científicos, um
atraso no avanço da ciência e, por consequência, um desperdício de
recursos.

Segundo a Academia Brasileira de Ciências, qual dos princípios a seguir


são esperados na condução de uma pesquisa científica?

A. Subjetividade.

B. Responsabilidade.

C. Desonestidade.

D. Passividade.
E. Cordialidade.

Questão 2

A pesquisa começa por uma pergunta. Essa pergunta pode surgir a partir de
uma curiosidade, dúvida, incerteza ou problema que o pesquisador
identifica em uma determinada área de estudo. Ela expressa a motivação do
pesquisador para fazer uma investigação. Sem a capacidade humana de
fazer perguntas, o surgimento das ciências ficaria comprometido.

Qual acrônimo expressa as características que uma boa pergunta de


pesquisa deve conter?

A. FIVER.

B. FOPER

C. FAER.

D. FERA.

E. FINER.

Questão 3

Depois da elaboração e exploração do problema de pesquisa, os


pesquisadores desenvolvem as hipóteses explicativas do fenômeno
estudado. As hipóteses, quando elaboradas, devem seguir certas
características para garantir que sejam compatíveis com o método
científico.

Segundo Lakatos e Marconi (1991), quais são as características que uma


hipótese de pesquisa deve possuir?

A. Consistência Lógica, Simplicidade, Destreza, Apoio Teórico,


Especificidade, Plausibilidade, Clareza, Profundidade, Verificabilidade e
Cognoscibilidade.

B. Consistência Lógica, Complexidade, Significância, Apoio Teórico,


Especificidade, Plausibilidade, Clareza, Profundidade, Verificabilidade e
Eticidade.

C. Consistência Lógica, Simplicidade, Relevância, Apoio Teórico,


Especificidade, Plausibilidade, Clareza, Profundidade, Fertilidade e
Originalidade.
D. Consistência Lógica, Complexidade, Relevância, Apoio Teórico,
Especificidade, Marcabilidade, Clareza, Profundidade, Fertilidade e
Eticidade.

E. Consistência Lógica, Simplicidade, Significância, Apoio Teórico,


Especificidade, Plausibilidade, Clareza, Profundidade, Verificabilidade e
Cognoscibilidade.

REFERÊNCIAS

ABC. Rigor e integridade na condução da pesquisa científica. 2013.

HULLEY, S. B. et al. Delineando a pesquisa clínica. 4 ed. Artmed


Editora, 2015.

LAKATOS, E. M.; MARCONI, M. A. Fundamentos de Metodologia


Científica. São Paulo: Atlas, 1991.

POPPER, K.; BETTENCOURT, B.; ESPADA, J. C. Conjecturas e


refutações: o desenvolvimento do conhecimento científico. 2003.

FOCO NO MERCADO DE TRABALHO


QUAL É SUA PERGUNTA E COMO
RESPONDÊ-LA?
Amanda Soares de Melo

Fonte: Shutterstock.
SEM MEDO DE ERRAR
Um dos procedimentos possíveis a serem feitos pelo pesquisador são:

1. Pesquisa semiestruturada: realizar uma pesquisa com os novos


clientes a fim de entenderem a motivação da compra do produto e
o meio publicitário no qual elas encontraram o produto.
2. Pesquisa exploratória: verificar se há outros fatores atualmente
relevantes que poderiam causar esse aumento como: surtos de
doenças altamente transmissíveis pelo contato, grandes eventos
previstos para o mês de fevereiro, etc.

Na pesquisa com os novos clientes, a amostra indicou que 30% deles


compraram o produto por preocupação com a saúde; 50% pelos benefícios
do produto em relação aos concorrentes e os outros 20% por motivos
diversos. Além disso, na pesquisa exploratória, foram rejeitadas as
hipóteses de surto por doenças ou de grandes eventos.

O pesquisador, analisando os dados, observou que há mais evidências a


favor dos efeitos positivos da pesquisa publicitária do que de efeitos
externos, apontando então que poderia existir de fato uma correlação entre
o investimento em publicidade.

AVANÇANDO NA PRÁTICA

AVALIANDO A BOA CONDUÇÃO DA PESQUISA


Você é o supervisor do departamento científico nessa empresa química.
Após a realização do teste de hipóteses, a fim de verificar o efeito positivo
nas vendas do álcool em gel, você recebeu o relatório da pesquisa e deve
fazer uma análise sobre a condução da pesquisa.

Você observa que o pesquisador responsável não considerou a sazonalidade


de compras do álcool em gel como fator externo a ser descartado na
hipótese alternativa. Além disso, o pesquisador cometeu diversas falhas
éticas como plágio e manipulação de dados na elaboração da pesquisa.

Dada a situação apresentada, qual seria a recomendação do supervisor ao


pesquisador responsável pelo experimento?

RESOLUÇÃO
O supervisor recomendou ao pesquisador responsável que refizesse desde o
início sua pesquisa, pois o resultado poderia ser totalmente diferente do que
o que foi constatado. Além disso, o supervisor orientou sobre as falhas
éticas graves cometidas pelo pesquisador na condução do experimento,
como plágio e manipulação de dados dos entrevistados. O supervisor
proibiu que o estudo fosse publicado até a sua correção completa.

SEÇÃO 2

NÃO PODE FALTAR


COMO COLETAR DADOS E
ANÁLISÁ-LOS?
Amanda Soares de Melo

Fonte: Shutterstock.

PRATICAR PARA APRENDER


Caro estudante,

Você já deve ter percebido como o conhecimento científico é cercado de


prestígio e autoridade. Até os dias de hoje, há uma crença de que a ciência
é, de algum modo, superior aos outros conhecimentos. Produtos e técnicas
produzidos por pesquisa científicas são quase imediatamente aceitos pela
sociedade. Na verdade, o selo “comprovado cientificamente” é um fator
relevante para muitas pessoas na hora de decidir comprar ou não
determinado produto. Além disso, diversos conhecimentos procuram se
passar por científicos buscando, de alguma forma, alcançar sua
credibilidade. Esse prestígio da ciência deve muito aos seus resultados
práticos nos diversos segmentos da sociedade. Tais resultados,
considerados confiáveis e bem-sucedidos, só foram alcançados por meio de
um método especial que, quando seguido rigorosamente, produz
conhecimento confiável e verdadeiro. Assim, o método científico tem uma
série de regras e procedimentos a serem conduzidos e que não podem ser
negligenciados. Uma das etapas mais importantes, o núcleo da
confiabilidade científica, é a etapa de análise e coleta de dados. Convido-
lhe ao estudo das fontes, técnicas e formas de coletar e analisar dados
brutos ou secundários, tão essenciais à integridade da pesquisa.

Em uma indústria química, o departamento de marketing quer verificar o


efeito da propaganda na venda de álcool em gel. Com as informações dos
faturamentos anteriores desse produto, a empresa começa a fazer grandes
campanhas publicitárias e o faturamento desse produto no mês seguinte,
fevereiro, é significativamente maior. O departamento de marketing
imediatamente comemora os resultados e supõe que a propaganda
provocou um efeito positivo nas vendas do produto. Para comprovar essa
hipótese, a empresa financia uma pesquisa científica.

Na etapa de coleta de dados, o pesquisador responsável define “estado


civil” como uma das variáveis do estudo. Isto é, na amostra de 1.050
pessoas entrevistadas, 1.000 disseram ser solteiras. A atribuição de “estado
civil” como variável nesta etapa a pesquisa está correta? Justifique.

“O conhecimento científico é independente dos conhecimentos da fé que


são imutáveis, a fé nos faz dizer creio, e a ciência, sei”

Blaise Pascal

CONCEITO-CHAVE

COMO COLETAR DADOS: FONTE DE DADOS


A pesquisa científica geralmente tem pelo menos cinco fases: a elaboração
e exploração do problema, o estabelecimento de um modelo de análise
(hipóteses), a verificação e coleta de dados, a análise de dados e os
resultados. A coleta de dados é uma etapa essencial a qualquer pesquisa
científica, todavia, os métodos e procedimentos de coleta serão diferentes
para cada tipo de pesquisa. Por exemplo, temos ao menos dois tipos gerais
de pesquisa: a pesquisa experimental, que envolve a coleta de dados em
campo ou laboratório, podendo ser tanto qualitativa quanto quantitativa, e a
pesquisa bibliográfica, que envolve a procura na literatura existente de uma
resposta para o problema tratado. Ela também é essencial para a
fundamentação teórica de qualquer pesquisa.

Como se pode observar, ambas abordagens são complementares e


geralmente trabalham juntas. Na pesquisa experimental, as fontes dos
dados mais comuns são: experimentos laboratoriais, estudos de campo,
entrevistas, estudos de caso, observações empíricas, experimentos
computacionais, etc. Na pesquisa bibliográfica, as fontes são documentos,
registros, atas, cartas, livros, teses, artigos científicos, relatórios, periódicos
técnicos, estudos gerais, metanálises, bancos de dados digitais etc. Cada
fonte exige um tratamento específico da informação.

Há pesquisas que contam com fontes secundárias e fontes primárias de


informação. As fontes secundárias são geralmente dados que já foram
coletados por outros estudos e estão disponíveis por meio de alguma
listagem de informação. As fontes primárias seriam os dados brutos a
serem coletados na pesquisa, como os dados obtidos de um questionário
elaborado pelo pesquisador.

Na pesquisa quantitativa, com relação a suas fontes primárias, em geral elas


podem vir da observação ou da utilização de instrumentos como
levantamentos ou survey, que são formas de descobrir o que existe e como
existe no ambiente social analisado; em geral, são descritivos e visam
determinar as características, opiniões de populações, a partir de
amostragens representativas. Têm como vantagem a aplicação simples,
fácil decodificação e análise dos dados. Como desvantagem, há o problema
de confiabilidade, pois uma vez que se faz perguntas às pessoas, elas
podem se recusar a prestar informações verídicas, por isso é necessário
muito cuidado na análise dos dados coletados.

Devido ao grande volume de informações disponíveis nas pesquisas


bibliográficas, que ocorrem tanto para fundamentar teoricamente a pesquisa
quanto para dar respostas ao problema tratado, deve-se ter muito cuidado
com a confiabilidade e autenticidade das informações coletadas. Em geral,
as fontes de pesquisa e bancos de dados são a base para verificar o que já
existe publicado e o que está em pauta na comunidade científica. Ao longo
do tempo, muitas teorias foram consagradas e conhecê-las é tarefa
indispensável de um pesquisador iniciante.

Procurar conhecer fontes seguras sobre o assunto tratado é fundamental. As


informações servem à tomada de decisão nas pesquisas. Dessa maneira, o
pesquisador precisa ter a capacidade de saber filtrar, verificar consistência,
validade e pertinência das informações que encontra. Com informações
mais consistentes, chegamos a decisões mais corretas e, por consequência,
a resultados melhores.

Na pesquisa bibliográfica, recomenda-se o fichamento de artigos, teses ou


demais materiais. São perguntas essenciais a serem feitas quando se ficha o
artigo: como se procedeu a pesquisa? Quais foram os caminhos para
alcançar o objetivo proposto? Qual foi o tipo de pesquisa? Como foi
utilizada a amostragem? Quais instrumentos utilizados para a coleta de
dados? Quais foram os resultados? (BARLETA et al., 2018, p. 8).

A maioria das bases de dados confiáveis estão vinculadas ao trabalho


realizado em universidades. Essas são algumas bases de dados de acesso
gratuito: BV – Biblioteca Virtual, Periódicos CAPES, SIB, Livres, BDTD,
Biblioteca digital de Produção Intelectual, Portal de Livros Abertos USP,
SciELO, ERIC, Educ@, WebQualis, Dedalus, Biblioteca digital de teses,
entre outros. Há também fontes seguras para a pesquisa bibliográfica que
são pagas ou por convênio, algumas delas: Scopus, Web of Science,
JSTOR, LISA, Academic Search Premier, Project Muse, ANPAD, entre
outras. Outras fontes de busca possíveis: Google Scholar, Books, Open
Library, Bioline International, Arca, Directory of Open Acess Journal,
SpringerLink, Scirus, Inomics, BPubs, EconLit, American History Online,
Ethnologue, Political Information, WikiArt, WorldWideScience,
MathGuide, Academic Index, Lexis, entre outros.

ASSIMILE

1. Há dois tipos gerais de pesquisa: experimental e bibliográfica. A


pesquisa experimental envolve a coleta de dados brutos, sendo
possível mesclar com a bibliográfica. A pesquisa bibliográfica
envolve a coleta de dados produzidos anteriormente por outros
estudos.
2. As fontes de pesquisa devem ser confiáveis. É necessário checar a
consistência lógica, validade e pertinência das informações antes de
adotá-las.
3. Na pesquisa bibliográfica, recomenda-se o fichamento dos artigos,
teses, livros, estruturando e elencando os objetivos, a metodologia
e os resultados do estudo analisado.

TÉCNICAS DE COLETA DE DADOS


Há diversas técnicas de coletas de dados. Cada pesquisa utilizará uma
técnica que esteja mais adequada aos seus objetivos. Nas pesquisas
quantitativas, as fontes dos dados podem vir da observação, levantamentos
ou survey. Comecemos pela observação, que pode ser classificada em seis
tipos:

a. Estruturada: em que é especificado o que deve ser observado e


como deve ser sua coleta.
b. Não estruturada: o problema ainda não foi formulado, apenas se
orienta a observação.
c. Natural: no ambiente em que a situação ocorre.
d. Planejada: em um ambiente artificial.
e. Disfarçada: entrevistados não sabem que estão sob observação.
f. Não disfarçada: entrevistados sabem que estão sob observação.

A observação é muito importante na pesquisa científica e, em relação a


outros métodos, ela traz a vantagem de que os dados são apreendidos
diretamente, sem intermediação. Contudo, uma possível desvantagem é que
o próprio pesquisador pode provocar alterações nos fenômenos observados,
podendo dar uma interpretação deslocada do objeto, produzindo resultados
pouco confiáveis. Por essa razão, o pesquisador observador deve estar
atento para não contaminar sua observação com suas crenças, pensamentos
e opiniões.

Os levantamentos, por sua vez, examinam amostras de uma população ou


grupo por meio de documentos, questionários, entrevistas e formulários. A
entrevista é a técnica em que o pesquisador formula perguntas ao sujeito
observado. As questões devem ser elaboradas pensando nas mais relevantes
ao estudo, além de estarem baseadas em uma bibliografia atualizada do
assunto. Todos os dados coletados devem ser verificados em termos da sua
credibilidade.

Como vantagem, a entrevista: é eficiente na obtenção de dados com


profundidade, os dados são suscetíveis à classificação e quantificação,
permite a avaliação de informações não previstas anteriormente, etc. As
desvantagens seriam: fornecimento de respostas inverídicas, influência
exercida pelo entrevistador no entrevistado, etc. A entrevista ainda pode ser
classificada como sendo: estruturada (roteiro previamente estabelecido),
não estruturada (sem direcionamento do processo pelo pesquisador) e
semiestruturada (roteiro básico flexível).

O questionário é uma série de perguntas que devem ser respondidas pelo


público pertinente à pesquisa. Ele deve ser objetivo e com uma extensão
limitada, estando acompanhado de instruções que esclareçam o propósito e
facilite o preenchimento pelo público-alvo. As vantagens dos questionários
são: menor curso, anonimato das respostas, menor influência dos
entrevistadores, etc. As desvantagens podem ser: baixo índice de retorno,
limitado a quem saiba ler e escrever, etc. É preciso que o número de
questões não seja extenso. Os tipos de questões podem ser classificados em
abertas (em que o informante pode responder livremente), fechadas
(escolha entre duas opções disponíveis de resposta) e múltipla escolha
(dispõe uma série de respostas possíveis).

Os formulários, por sua vez, são coleção de questões anotadas pelo


entrevistador na presença do público-alvo que pode ser configurado como
um meio termo entre entrevista e questionário. Suas vantagens são: a
presença do pesquisador. que pode elucidar os objetivos da pesquisa, e ser
amplamente utilizado e flexível. Como desvantagens possíveis do
formulário temos: menor liberdade de respostas dada a presença do
pesquisador, tempo de resposta mais demorado e risco de distorções pela
presença do pesquisador entrevistador.

Na elaboração do projeto e no planejamento de pesquisa, caberá ao


pesquisador indicar qual método de coleta de dados mais se adequa a sua
pesquisa e aos seus objetivos. Também é possível que o pesquisador insira
outros métodos quando os dados obtidos não parecerem atender
suficientemente à demanda da pesquisa.

REFLITA
Em sua opinião, como o pesquisador pode fazer para diminuir as chances
de interferência da sua própria subjetividade no objeto observado?

METODOLOGIAS E PROCEDIMENTOS
As metodologias e os procedimentos em pesquisa devem responder as
perguntas “como” e “onde”, porque são elas que ditam o trajeto a ser
seguido para o alcance dos objetos de pesquisa. Assim, o primeiro passo
para coleta de dados é determinar qual o método de análise adequado à
pesquisa. Além disso, deve-se determinar qual a natureza da pesquisa:
qualitativa ou quantitativa.

Deve estar claro o tipo de pesquisa que será trabalhada: bibliográfica,


documental ou de campo. A pesquisa bibliográfica é obtida a partir de
material já existente presente em teses, livros e artigos. A pesquisa
documental é similar, a diferença é a natureza das fontes, pois as
informações dos documentos não necessariamente foram anteriormente
tratadas e analisadas. Já a pesquisa de campo consiste na produção dos
dados no ambiente observado.

Também é preciso indicar as modalidades da pesquisa, isto é, o papel do


pesquisador e dos participantes na pesquisa.

a. Pesquisa participante: trata-se do envolvimento do pesquisador


com o objeto observado, o pesquisador interage com os
participantes em todas as situações acompanhando-os bem de
perto.
b. Pesquisa ação: o pesquisador não só acompanha o ambiente, como
também intervém para modificá-lo. Existe um objetivo de alterar a
situação dos participantes.
c. Estudo de caso: o pesquisador traça um estudo profundo sobre um
objeto particular que pode ser representativo dos demais.
d. História oral: os participantes são protagonistas nos registros dos
fatos; é um método que se utiliza de entrevistas e retratos
autobiográficos.

Vale lembrar que tais métodos não são excludentes entre si, eles podem ser
utilizados em conjunto na pesquisa. Os pesquisadores devem ter ciência do
tipo de universo e amostragem da pesquisa, bem como das técnicas que
podem ser utilizadas, como observação, questionários, formulários,
entrevistas.

O universo trata do conjunto da população a ser estudada e a amostragem é


a base lógica do estudo que serve de referencial do todo. A amostragem
para ser representativa precisa oferecer a melhor descrição da população.
Ela é exclusiva da pesquisa quantitativa, na qual temos: amostragem
probabilísticas e não probabilísticas. A primeira busca uma maior
imparcialidade, pode ser aleatória, sistemática, estratificada ou de
conglomerados. É o único método que permite a representação do todo. A
segunda consiste em uma escolha dos elementos que irão compor a
amostra, embora exija uma análise imparcial, podendo ser dos tipos:
conveniência, intencional ou cotas.

A coleta de dados também pode ser classificada em termos de contínuas,


periódicas ou ocasionais. A primeira ocorre quando as informações dos
eventos que acontecem são coletadas à medida que eles ocorrem. A
segunda acontece em ciclos, como os levantamentos (censos). Por fim, a
terceira ocorre sem preocupação de continuidade ou periodicidade. Nas
pesquisas em que são realizadas coletas de dados contínuas ou periódicas, o
objetivo é a enumeração total. A estatística participa desse processo dando
organização e delineamento aos dados a fim de permitir inferências a partir
das informações coletadas.

ANÁLISE DE DADOS
Depois de feita a coleta, os dados estão desorganizados e pouco claros,
então, a primeira coisa a fazer é tratá-los. A apresentação dos dados pode se
dar por meio de tabelas, quadros e gráficos que permitam ao pesquisador
fazer inferências e chegar a conclusões. Para a elaboração desses, há
inúmeros recursos digitais que auxiliam a apresentação dos dados, como o
Excel.

As tabelas são formas não discursivas, representadas por números e


códigos, dispostos em ordem, segundo as variáveis analisadas do
fenômeno. As tabelas, preferencialmente, devem ser completas para que
dispense a consulta ao texto, contenha os dados necessários, tenha uma
estrutura simples, objetiva e certa consistência lógica.

Os quadros podem ser entendidos como arranjos de palavras dispostas em


colunas e linhas, com ou sem números. Eles possuem um teor esquemático
e descritivo, não estatístico como as tabelas, mas suas formas de
apresentação são bastante semelhantes.

Por sua vez, os gráficos representam a forma dinâmica dos dados, sendo
mais eficientes na visualização de tendências. Não se deve utilizar tabela e
gráfico para uma mesma informação.

O gráfico pode ser particularmente útil para traduzir dados de difícil


compreensão em uma linguagem simples.

As escalas dividem-se em duas: nominais e de ordem. As nominais


consistem na atribuição de nomes a eventos ou objetos: gênero, local de
nascimento. As ordinais são atribuição de ordem, hierarquia a dados
qualitativos como: classe social (A, B, C), estado geral do paciente (ruim,
regular, bom).

Na análise de dados, também é importante o procedimento de


operacionalização dos dados, que consiste em transformar os dados em
variáveis para que depois sejam expressos em tabelas, gráficos e quadros.

Uma variável é simplesmente alguma coisa que muda, ou seja, as variáveis


devem assumir valores diferentes ou categorias diferentes. Exemplo, as
variáveis de valor podem ser as idades: 17, 18, 20, 32, 45. As variáveis de
categoria podem ser os gêneros: feminino, masculino, não binário etc.

As variáveis são muito importantes porque, através delas, observamos as


variações dos fenômenos analisados na pesquisa. Elas podem ser de dois
tipos: qualitativas e quantitativas. As variáveis qualitativas são os dados de
atributos ou qualidades, por exemplo, sobre o assunto que você mais lê:
Literatura. Já as variáveis quantitativas são números em certa escala, por
exemplo, quantos livros você lê ao ano: 12.

As variáveis também se dividem por tipos:

a. Independentes: são explicativas das variáveis dependentes,


consistem em fatores determinantes, causas, de certo resultado.
Exemplo: testagem da temperatura como fator modificador da taxa
de crescimento de determinado organismo. A variável
independente é a temperatura, enquanto a dependente é a taxa de
crescimento.
b. Dependentes: são afetadas pelas variáveis independentes,
constituem o resultado ou a resposta de algo que foi estimulado.
c. Moderadoras: também pode ser condição, causa, estímulo,
contudo, são menos importantes que as independentes. Por
exemplo, o desempenho do aluno pode variar dependendo do
número de horas de estudo (variável independente) e da
iluminação do ambiente (variável moderada).
d. Intervenientes: são as variáveis que estão entre as independentes e
dependentes. Elas afetam o fenômeno observado, mas não podem
ser mensuradas devido ao seu caráter puramente hipotético.
Exemplo: menor nº de dias trabalhados -> satisfação no trabalho ->
produtividade.
e. De controle: as variáveis de controle são neutralizadas ou anuladas
de propósito para não interferirem na análise da relação entre
variável independente e dependente. Por exemplo, sexo e idade. A
hipótese colocada: as variáveis “sexo” e “idade” influenciam a
relação entre asma e alergia. Assim, o pesquisador saberá que
variações próximas dessas hipóteses não são significativas, porque a
hipótese não é verdadeira.

As variáveis também expressam relações: lineares, curvilíneas ou


exponenciais. Isso significa analisar se, por exemplo, caso X mude, há
mudanças em Y? Caso aumente Y, X também aumenta? Se Y diminui, X
aumenta? etc.
EXEMPLIFICANDO
Na realização de pesquisas com questionários, cada questão se torna uma
variável. Cada variável deve ser codificada em uma coluna de uma planilha
e cada questionário ocupa uma linha da planilha.

Você deve ter notado que os procedimentos metodológicos podem variar


de acordo com o escopo, o objetivo e a natureza da pesquisa. Por essa
razão, o planejamento deve ser feito levando em conta as características do
objeto de estudo, dos objetivos da pesquisa e do problema que se propõe
resolver.

FAÇA A VALER A PENA


Questão 1

A circulação de notícias falsas tem levado a um crescente ceticismo quanto


à veracidade e confiabilidade das informações disponíveis na internet.
Todavia, atualmente, a internet é um lugar imprescindível para a
divulgação da pesquisa científica. Dessa maneira, sabendo filtrar, é
possível chegar a informações certas e seguras.

Quando se pesquisa na internet, qual é o procedimento que deve ser


realizado acerca das informações?

A. É necessário checar a inteligibilidade, a validade e relevância das


informações, antes de adotá-las.

B. É necessário checar a gramática, invalidade e utilidade das informações,


antes de adotá-las.

C. É necessário checar a consistência, invalidade e relevância das


informações, antes de adotá-las.

D. É necessário checar a consistência lógica, validade e pertinência das


informações, antes de adotá-las.

E. É necessário checar a inteligibilidade, validade e utilidade das


informações, antes de adotá-las.

Questão 2

A entrevista é uma técnica de coleta de dados em que o pesquisador tem


um contato direto com a pessoa ou grupo observado a fim de coletar suas
impressões acerca de um assunto. Esse método não dispensa um
planejamento adequado de seus objetivos, desenvolvimento e aplicação.
Caso contrário, a entrevista pode não gerar dados confiáveis.

Assinale a alternativa que completa correta e respectivamente:

As _________ da entrevista devem ser elaboradas pensando nas mais


________ ao estudo e devem estar baseadas em uma _____________ do
assunto. Todos os dados coletados devem ser _________ em termos da sua
___________.

A. teorias, irrelevantes, bibliografia atualizada, clonados, plausabilidade.

B. hipóteses, relevantes, bibliografia desatualizada, verificados,


credibilidade.

C. questões, irrelevantes, bibliografia atualizada, apagados, razoabilidade.

D. teorias, relevantes, bibliografia desatualizada, direcionados,


confiabilidade.

E. questões, relevantes, bibliografia atualizada, verificados, credibilidade.

Questão 3

Na pesquisa quantitativa, após a coleta dos dados brutos, é necessário


organizá-los em termos de variáveis ou constantes e em termos de
apresentação que podem ser por gráficos, quadros e tabelas. Esse
procedimento garante que as informações estejam claras e organizadas para
a visualização das causas, efeitos e tendências do fenômeno observado.

Em relação às variáveis dependentes e independentes, assinale a alternativa


correta:

A. A primeira é explicada pela segunda, a segunda é determinante da


primeira.

B. A primeira é determinante pela segunda, a segunda é explicada pela


primeira.

C. A primeira é causada pela segunda, a segunda é determinante da


primeira.

D. A primeira é explicada pela segunda, a segunda é causada pela


primeira.
E. A primeira é causada pela segunda, a segunda é explicada pela
primeira.

REFERÊNCIAS
DA SILVA, D.; LOPES, E. L.; JUNIOR, S. S. B. Pesquisa quantitativa:
elementos, paradigmas e definições. Revista de Gestão e Secretariado, v.
5, n. 1, p. 01-18, 2014.

BARLETA, M. et al. Fontes de pesquisa e bases de dados


especializadas, PUC, 2018.

LAKATOS, E. M.; MARCONI, M. A. Fundamentos de Metodologia


Científica. São Paulo: Atlas, 1991.

SEVERINO, A. Metodologia do Trabalho Científico. Cortez, 2002.

FOCO NO MERCADO DE TRABALHO


COMO COLETAR DADOS E
ANÁLISÁ-LOS?
Amanda Soares de Melo

Fonte: Shutterstock.

SEM MEDO DE ERRAR


Em uma indústria química, o departamento de marketing quer verificar o
efeito da propaganda na venda de álcool em gel. A empresa passa a fazer
grandes campanhas publicitárias e o faturamento desse produto no mês
seguinte, fevereiro, é significativamente maior. O departamento de
marketing imediatamente comemora os resultados e supõe que a
propaganda provocou um efeito positivo nas vendas do produto. Para
comprovar essa hipótese, a empresa financia uma pesquisa científica. O
pesquisador responsável, na etapa de coleta de dados, define “estado civil”
como uma das variáveis do estudo. Isto é, na amostra de 1.050 pessoas
entrevistadas, 1.000 disseram ser solteiras.

Todavia, para a pesquisa em questão, a variável “estado civil” deve ser


descartada.
A variável deve servir como medida de variação da amostra. Como 90% da
população analisada é solteira, então não houve variação significativa e,
por consequência, essa variável não ajuda a explicar as diferenças com
relação às outras variáveis (ela não pode ser uma variável independente,
por exemplo, porque não ajuda a explicar nenhuma outra).

AVANÇANDO NA PRÁTICA

DIFERENCIANDO TIPOS DE VARIÁVEIS


Em uma indústria química, o departamento de marketing quer verificar o
efeito da propaganda na venda de álcool em gel. A empresa passa a fazer
grandes campanhas publicitárias e o faturamento desse produto no mês
seguinte, fevereiro, é significativamente maior. O departamento de
marketing imediatamente comemora os resultados e supõe que a
propaganda provocou um efeito positivo nas vendas do produto. Para
comprovar essa hipótese, a empresa financia uma pesquisa científica

O pesquisador responsável pelo teste de hipótese, a fim de verificar a


relação entre o aumento de vendas e a propaganda, atribuiu ao “estado
civil” a característica de variável. No entanto, a variável em questão não
teve variação significativa que explicasse alguma dimensão do fenômeno
analisado, sendo descartada da pesquisa. A variável em questão poderia ser
transformada em uma variável de controle? Justifique.

RESOLUÇÃO
Variáveis de controle precisam ter uma variação significativa. Como a
variável “estado civil” não teve variação significativa na amostra em
questão, então ela não pode ser transformada em variável de controle.
As variáveis de controle também são causas, condições ou estímulos de
determinado efeito no fenômeno observado, no entanto, ela é considerada
secundária porque seus efeitos são, na prática, zero, geralmente porque na
literatura já foi comprovado que a variável de controle não tem relação com
outras variáveis. Todavia, isso não significa que a quantificação do seu
efeito de variação não deve ser significativa, isto é, não pode ser como no
caso da variável “estado civil”.

Os efeitos das variáveis de controle são, então, desprezíveis. Na prática se


sabe que é próximo a zero. As variáveis de controle existem para que se
possa comparar com as outras variáveis, a fim de notar efeitos
significativos das variáveis relevantes para o estudo.

SEÇÃO 3

NÃO PODE FALTAR


ESCREVER E PUBLICAR: COMO
LEVAR A CIÊNCIA PARA AS
PESSOAS?
Amanda Soares de Melo

Fonte: Shutterstock.
PRATICAR PARA APRENDER

Caro estudante,

Atualmente, a informação científica é um recurso valioso para o


desenvolvimento da sociedade em seus diversos setores: acadêmico,
industrial, governamental, empresarial, etc. Esse tipo de informação é
gerido por uma grande indústria de editores de revistas e livros a nível
mundial. Conhecer o contexto de transformação desse processo, os meios
de publicação científica, a estrutura e os formatos dos textos científicos são
fundamentais para que se possa produzir ciência. Também é necessário
conhecer as tecnologias que trouxeram muitas ferramentas positivas para o
desenvolvimento das pesquisas científicas e comunicação dos resultados.
Há ferramentas digitais que auxiliam na pesquisa de fontes bibliográficas,
na análise de dados, na revisão de textos e no gerenciamento das
referências bibliográficas.

Convido-lhe a refletir sobre a dimensão da produção de conhecimento


científico e tecnológico em nossos tempos.

Em uma indústria química, o departamento de marketing quer verificar o


efeito da propaganda na venda de álcool em gel. Com as informações dos
faturamentos anteriores desse produto, a empresa começa a fazer grandes
campanhas publicitárias e o faturamento desse produto no mês seguinte,
fevereiro, é significativamente maior. O departamento de marketing
imediatamente comemora os resultados e supõe que a propaganda
provocou um efeito positivo nas vendas do produto. Para comprovar essa
hipótese, a empresa financia uma pesquisa científica.

Após a conclusão da pesquisa, o pesquisador inicia o processo de


publicação dos resultados. Para isso, ele resolve fazer uma busca nas
revistas científicas mais relevantes disponíveis na internet sobre a temática
do estudo. Qual o principal critério que o pesquisador deve observar na
hora de escolher uma revista a fim de alcançar esse objetivo?

“A nossa geração tem que escolher o que ela valoriza mais: lucros de curto
prazo ou habitabilidade de longo prazo no nosso lar planetário?”

Carl Sagan

CONCEITO-CHAVE
FORMATOS E NORMAS DE PUBLICAÇÃO CIENTÍFICA
A publicação científica ocorre quando os pesquisadores buscam tornar
acessíveis a outros os resultados de suas investigações. A divulgação dos
resultados da investigação pode ser expressada por diversas formas de
publicação. A publicação científica faz parte de um ramo mais amplo
denominado de Comunicação Científica, que envolve diferentes formas de
comunicação dos resultados (formais, informais, escritas, verbais) e que,
por sua vez, se insere no contexto mais amplo da Investigação Científica. A
preocupação com a difusão do conhecimento existiu quase sempre, no
entanto, ao longo do tempo ocorreram transformações na sociedade que
afetaram a comunicação científica. São exemplos:

a. O surgimento das tecnologias de informação afetou enormemente


os sistemas de produção e divulgação da ciência. Como exemplo,
temos a migração do papel para os meios digitais.
b. O crescimento do número de revistas científicas e também o
aumento na formação de pesquisadores.
c. A parte editorial da publicação científica deixou de ser acadêmica e
passou a ser comercial.

A comunicação científica acaba envolvendo diversos atores da sociedade


como acadêmicos (responsáveis pela investigação), universidades
(instituições que possuem os recursos e ambiente necessário para a
investigação), financiadores (órgãos do governo ou agências que financiam
bolsas e materiais da pesquisa), editores (gerem o controle de qualidade,
produção e distribuição do conhecimento), bibliotecários (fazem a gestão
da informação e sua preservação) e a população geral (todos nós que somos
indiretamente e diretamente beneficiados com a pesquisa).

Os formatos mais comuns de publicação são: artigo científico, artigo de


revisão, comunicações, cartas ao editor, working papers. O artigo científico
é o formato mais comum, em geral, eles comunicam os resultados da
pesquisa científica. Sua estrutura é normalizada, isto é, segue uma série de
padrões e regras. Os artigos são estruturados em: Introdução, Método,
Resultados e Discussão. Esse tipo de artigo passa por um processo
chamado de Peer-Review ou revisão por pares (especialistas na área) antes
de ser publicado.

O artigo de revisão traça uma avaliação crítica sobre diversos artigos com o
assunto de interesse da pesquisa, apresentando uma visão comparativa
entre eles. São bons para ter uma visão geral do assunto. Metanálises ou
revisões sistemáticas fazem parte desse nicho e também passam por Peer-
Review.

As comunicações são apresentações resumidas da pesquisa a fim de


divulgá-las, que compõem uma síntese geral da pesquisa e podem ser feitas
enquanto a pesquisa está em desenvolvimento. Em geral, tais
comunicações, apesar de passarem por Peer-Review, são publicadas em um
curto espaço de tempo. Essa é uma de suas vantagens.

As cartas ao editor são expressões de opinião sobre um artigo publicado na


revista que constitui um tema em discussão na comunidade científica. Esse
formato não apresenta resultados, apenas opiniões do autor. Não passa
por Peer-Review.

Working papers são artigos em fase de elaboração disponíveis,


normalmente, em programas de pós-graduação das universidades. Costuma
conter informações bastante atualizadas sobre diversos temas.

Independente do tipo de publicação que o pesquisador irá escolher,


recomenda-se que o autor consulte a seção “Diretrizes para publicação” da
revista que ele está interessado em publicar. Isso porque os artigos
científicos têm uma estrutura bastante definida e padronizada. O autor
precisa adequar sua pesquisa ao tipo de normalização que a revista em
questão adota.

A normalização refere-se ao processo de aplicação de normas previstas


para a publicação científica. Ela fixa regras para o tratamento das
publicações referenciadas no trabalho científico, isto é, elas padronizam e
uniformizam as referências bibliográficas da pesquisa. Esse processo traz
vantagens como:

a. Garante a veracidade e segurança das informações.


b. Protege os direitos autorais dos estudos citados.
c. Facilita a comunicação das informações, sejam elas primárias ou
secundárias.
d. Evita duplicidade de fontes.

As regras da normalização técnica são feitas por órgãos especializados. No


Brasil, a normalização se dá pela entidade privada e sem fins lucrativos
ABNT – Associação Brasileira de Normas Técnicas, fundada em 1940.
Cada país tem seu órgão responsável pela padronização de informações.
Nos Estados Unidos, por exemplo, é a APA - American Psychological
Association.
Atualmente, a norma brasileira de padronização de Referências
Bibliográficas é a NBR 6023/agosto 2002. Ela fixa as condições a serem
seguidas na padronização das referências de um trabalho. Tais normas
podem ser acessadas através de manuais simplificados que faculdades e
universidades, em geral, disponibilizam na internet, a fim de orientar
estudantes, docentes e pesquisadores.

ASSIMILE
A normalização acadêmica consiste no processo de organização dos
conteúdos da pesquisa visando a prevenção de problemas, cooperação entre
os pares e economicidade. Elas existem para facilitar e organizar o acesso
ao conteúdo científico produzido. Possui, ao menos, quatro vantagens:
garante a veracidade e segurança das informações, protege os direitos
autorais, facilita a comunicação das informações e evita a duplicidade de
fontes.

FERRAMENTAS DIGITAIS
Um dos maiores desafios em uma pesquisa científica é capturar, organizar,
consultar e utilizar as informações obtidas durante todo o processo da
pesquisa. Atualmente, há inúmeras ferramentas digitais que auxiliam na
organização das informações e referências bibliográficas, como Mendeley,
Zotero, Endnote e fastformat.co.

O Mendeley, fundado em 2008, é um gerenciador de referências


bibliográficas e também uma rede social. Por meio dele é possível
organizar as bibliografias automaticamente, colaborar com outros
pesquisadores, importar com facilidade artigos, encontrar informações
relevantes no artigo que está lendo, além de acessar e ler seus e outros
artigos de qualquer lugar. Com esse software é possível gerar estatísticas de
número de artigos, regiões geográficas e identificação de leitores por área
do conhecimento, entre outros recursos.

O Zotero, fundado em 2006, também é um gerenciador de bibliografia, em


que é possível registrar dados bibliográficos de livros, artigos, páginas web,
etc. Um dos seus diferenciais é o fato de ser gratuito e de Código Aberto.
Com esse software é possível gerar citações e referências de acordo com as
normalizações, como ABNT, APA, Chicago, etc.

O EndNote, fundado em 1988, também é um gerenciador de referências


bibliográficas. Ele dispõe de recursos que permitem a busca, o
armazenamento e a organização das referências recolhidas em bases de
dados credenciadas. O software é integrado a diversas bases de dados
confiáveis. Enquanto o Mendeley e o Zotero são gratuitos, o EndNote é
pago.

O fastformat.co, por sua vez, é uma ferramenta gratuita de formatação de


texto que deixa suas informações totalmente de acordo com as regras
ABNT, entre outras. A ferramenta formata todo o texto da forma correta,
com caixas para que você escreva dentro, permitindo visualizar o arquivo
durante esse processo. É muito útil, principalmente, para dissertações, teses
e monografias.

REFLITA
Como os conflitos de interesse econômicos na ciência podem afetar os
princípios e valores que regem a pesquisa científica como objetividade,
positividade, racionalidade e explicabilidade?

PUBLICAÇÃO DOS RESULTADOS: ACESSO ABERTO E


ACESSO PAGO
Antigamente, os principais financiadores das pesquisas científicas eram
pessoas ricas que utilizavam seus recursos para apoiar o avanço da ciência.
Com o passar do tempo, a ciência foi aumentando em importância na
sociedade e os investimentos no avanço científico foram
institucionalizados, tornando-se um foco de questões políticas, sociais e
empresariais. A motivação para tal é que a ciência se tornou um diferencial
competitivo na sociedade capitalista. Atualmente, os países com as maiores
economias do mundo investem milhões de dólares em ciência e tecnologia.

As inovações são dadas pela ciência e ter acesso à informação científica é


crucial no desenvolvimento de novos conhecimentos e tecnologias. Desse
modo, os canais de comunicação científica e publicação do conhecimento
ganham cada vez mais relevância. No entanto, a cobrança de assinaturas
com preços muito elevados, pelos editores comerciais das revistas
científicas, tem impedido que informações novas a partir de estudos
realizados sejam acessadas por grande parte da comunidade científica que
não dispõe de recursos para tal. O paywall ou acesso pago na ciência tem
provocado inúmeros problemas: o orçamento de bibliotecas tem ficado
quase totalmente comprometido, o acesso pago impede que diversos
cientistas altamente qualificados tenham acesso a informações relevantes
para suas próprias pesquisas em andamento, além de contribuir para a
exclusão de pessoas da atividade científica.
Nesse contexto, surgiram iniciativas de plataformas de compartilhamento e
colaboração gratuitas, visando a comunicação científica em sua forma mais
ampla e inclusiva. O open acess ou ciência aberta é um meio de fazer o
conhecimento voltar a circular entre os cientistas. A internet amplificou e
fortaleceu esse movimento pois forneceu novas formas de publicação e
compartilhamento das pesquisas. Esse movimento incentiva a transparência
na ciência, promove esclarecimento na gestão dos dados científicos, que
passam a estar acessíveis a toda sociedade e, por consequência, amplia a
participação e o conhecimento de outros grupos sobre a ciência que está
sendo desenvolvida.

Nesses bancos de dados gratuitos é possível encontrar artigos publicados


com revisão por pares, pré-prints, deixando que a pessoa leia, distribua,
imprima, copie e use em sua pesquisa. As únicas restrições são dos direitos
autorais, em que o autor precisa ser reconhecido e citado. Além disso, há
modelos de comunicação científica em que a pesquisa é compartilhada
desde o início. Conclui-se que o modelo de ciência aberta contribui
enormemente com a transparência, aprendizado, colaboração, reutilização e
inclusão social no meio científico.

DIVULGANDO A PESQUISA
A publicação de um artigo científico passa por diversas etapas, em geral,
segue a seguinte ordem: seleção da revista, submissão do artigo, avaliação
inicial do editor (aceitação do artigo, peer-review (revisão por pares),
atualização do artigo (propostas pelos pares), submissão do artigo revisado
e publicação. O processo de publicação é frequentemente demorado e
raramente decorre em menos de seis meses entre a submissão e a aceitação
para publicação. Em muitos casos, as revistas mencionam a data de
submissão e a de aceitação quando o artigo é publicado. Além disso, é cada
vez mais comum a disponibilização digital do artigo, ao invés da
publicação impressa.

Existem três modelos principais de publicação:

 Publicação Tradicional: este modelo se baseia na venda de artigos


por subscrição, isto é, os autores publicam seus artigos que só são
acessados mediante pagamento de assinatura.
 Acesso Aberto: neste modelo, os autores submetem seus artigos,
podendo ou não pagar uma taxa de submissão, porém os
utilizadores têm acesso livre ao artigo, contribuindo para a
eliminação de barreiras no acesso ao conhecimento científico.
 Modelo Híbrido: o modelo híbrido é uma opção que mescla os dois
anteriores, em que se mantém o pagamento de acesso, mas existe a
opção de publicação em acesso aberto. São exemplos: Elsevier,
Taylor & Francis ou Springer.

A publicação Acesso Aberto aplica-se tanto a artigos como a dados


científicos resultantes das pesquisas que não foram utilizados. Há duas vias
de publicação:

 Via Dourada: o acesso aos artigos é gratuito através do site da


revista, mas cobra-se o pagamento de taxas de publicação. Nessa
via, o acesso é imediato após a publicação, que passa pela
análise Peer-Review.
 Via Verde: o acesso aos artigos também é gratuito através do
depósito dos artigos em repositórios de acesso aberto
(institucionais ou temáticos). Os artigos também se submetem
ao peer-review e podem ficar retidos por um período.

Alguns desses repositórios são: DOAJ (Directory of Open Access


Journals), OpenDOAR (The Directory of Open Access Repositories),
ROAR (Registry of Open Access Repositories), ROARMAP (The Registry
of Open Access Repository Mandates and Policies), Sherpa / Juliet
(Research Funders' Open Access Policies), SPARC (Scholarly Publishing
and Academic Resources Coalition).

O processo de peer-review pode identificar más posturas na pesquisa


científica. A pressão para a publicação tem ficado cada vez maior. É
necessário que autor pense na qualidade do seu trabalho, pois isso pode
afetar sua reputação acadêmica. Fraudes, plágios, conflitos de interesse não
divulgados, manipulação de dados, submissões simultâneas de um mesmo
artigo em duas revistas, duplicação de artigos, pode marcar de forma
negativa a imagem dos pesquisadores.

O plágio destaca-se por ser considerado uma das piores posturas no âmbito
da publicação científica. É preciso que o artigo a ser publicado seja
original. Caso você queira sanar sua dúvida em relação ao plágio, muitos
autores recorrem a softwares detectores de plágio. Um dos mais utilizados
pelos editores é o Thenticate, no entanto, existem também outros gratuitos
como o Plagiarism Tools.

Se o artigo for aceito ou publicado, é importante conhecer, de preferência


antes da submissão, o fator de impacto das revistas. O fator de impacto é
um meio de avaliar a qualidade e relevância das revistas. Esse impacto da
publicação pode ser avaliado por meio de indicadores bibliométricos, para
avaliação dos autores, que se baseiam no número de citações do artigo.
Esses indicadores bibliométricos permitem saber, por exemplo, quais são
os autores mais citados em uma área científica específica e quais revistas
têm o maior impacto em uma determinada área. É imprescindível conhecer
e se manter atento a esses indicadores tanto para a publicação quanto para o
almejado reconhecimento profissional de um pesquisador.

EXEMPLIFICANDO
De maneira geral, o processo de peer-review se dá pelas seguintes etapas:
o recebimento do manuscrito; a verificação se o manuscrito atende os pré-
requisitos, por exemplo, o número de palavras, padronização de
referências, etc.; avaliação da qualidade e relevância do manuscrito pela
revista; escolha de um a três revisores especialistas na área para conferirem
um parecer. A partir daí, com base no parecer dos revisores, o editor da
revista toma a decisão de aceitação ou rejeição do manuscrito. Se aceito, o
manuscrito entra no processo de publicação.

A ciência como atividade humana é profundamente afetada pelas demandas


e relações de uma época. A publicação científica deve ser vista como parte
do processo de desenvolvimento da pesquisa. Como a ciência nos beneficia
coletivamente, não se pode esconder os resultados de uma pesquisa, é
necessário divulgá-los para que, assim, eles tragam inúmeros retornos
práticos à sociedade como um todo.

FAÇA A VALER A PENA


Questão 1

A normalização acadêmica consiste no processo de organização dos


conteúdos da pesquisa visando a prevenção de problemas, cooperação entre
os pares e economicidade. Elas existem para facilitar e organizar o acesso
ao conteúdo científico produzido.

Assinale a alternativa que contém a sigla do órgão responsável pela


normalização dos trabalhos técnicos no Brasil.

A. APAC.

B. CMS.

C. APA.
D. ANPOF.

E. ABNT.

Questão 2

O modelo mais atual de divulgação do conhecimento é o que dá acesso à


pesquisa disponível gratuitamente, sem restrições de uso. Essa ideia se
baseia na visão de que as informações científicas devem estar disponíveis a
todos e se põe àqueles que obriga a assinatura de revistas para ter acesso
aos conteúdos publicados.

Considerando o contexto apresentado, assinale a alternativa a que ele se


refere:

A. Acesso livre.

B. Acesso pago.

C. Acesso restrito.

D. Acesso hibrido.

E. Acesso aberto.

Questão 3

Atualmente, a pesquisa científica ganhou tanta credibilidade quanto o


interesse de vários setores da sociedade nas informações produzidas por
ela. Isso acarretou em uma transformação significativa da maneira como se
dá a produção e divulgação do conhecimento científico.

Assinale a alternativa que mostra algumas das transformações sociais que


afetaram a forma de produzir e publicar conhecimento científico.

A. Surgimento das tecnologias analógicas, aumento no número de


pesquisadores e revistas científicas e ênfase na dimensão qualitativa da
ciência.

B. Surgimento das tecnologias digitais, diminuição do número de


pesquisadores e revistas científicas e a ênfase na dimensão quantitativa da
ciência.
C. Surgimento das tecnologias digitais, aumento no número de
pesquisadores e revistas científicas e a ênfase na dimensão comercial da
ciência.

D. Surgimento das tecnologias analógicas, diminuição no número de


pesquisadores e revistas científicos e a ênfase na dimensão quantitativa da
ciência.

E. Surgimento das tecnologias digitais, aumento no número de


pesquisadores e revistas científicas e a ênfase na dimensão qualitativa da
ciência.

REFERÊNCIAS
CASARIN, H. C. S.; CASARIN, S. J. C. Pesquisa Científica: da teoria à
prática. Curitiba: Ibpex, 2011.

ÖCHSNER, A. Introduction to scientific publishing: Backgrounds,


concepts, strategies. Heidelberg: Springer, 2013

YAMAKAWA, E. K. et al. Comparativo dos softwares de gerenciamento


de referências bibliográficas: Mendeley, EndNote e
Zotero. Transinformação, v. 26, n. 2, p. 167-176, 2014.

FOCO NO MERCADO DE TRABALHO


ESCREVER E PUBLICAR: COMO
LEVAR A CIÊNCIA PARA AS
PESSOAS?
Amanda Soares de Melo
Fonte: Shutterstock.

SEM MEDO DE ERRAR


Após a conclusão da pesquisa, o pesquisador iniciou o processo de
publicação dos seus resultados. Ele resolve buscar na internet as revistas
mais relevantes no tema do artigo em questão. O principal critério para
avaliar a relevância de uma revista é o fator de impacto. Em geral, esse
fator de impacto é um índice gerado a partir da avaliação dos autores já
publicados e a quantidade de citações dos artigos publicados. Além disso,
há critérios, como a submissão dos artigos à revisão por pares, que devem
ser observados na hora de escolher uma revista que preze pela qualidade do
conteúdo publicado.

AVANÇANDO NA PRÁTICA

UTILIZANDO AS FERRAMENTAS DIGITAIS DISPONÍVEIS


Você submete um artigo a uma revista especializada na sua área de estudos.
No processo de revisão por pares, o parecerista retorna com a posição de
que o artigo deve ser publicado após alguns ajustes. O parecerista comenta
que algumas referências bibliográficas não se encontram no padrão ABNT
necessário para a publicação. Um exemplo de referência errada encontrada
no texto: “Principles of Marketing. J. Rowe. F. Clark. 1927. Economica”

Quais ferramentas digitais você poderia utilizar para resolver esse


problema?

RESOLUÇÃO
Visando normalizar a pesquisa, você poderia ter utilizado os softwares
Mendeley, Zotero, EndNote ou fastformat.co que são, além de outras
coisas, gerenciadores de referências bibliográficas. Eles dispõem de
recursos em que as referências podem ser automaticamente padronizadas,
de acordo com as regras das normas ABNT, por exemplo. Utilizaremos o
Mendelely como ilustração.

Com o Mendeley instalado e configurado, vá na aba “View” e clique em


“Citation Style”. Procure por ABNT, clique em “Install”. Não se esqueça
de instalar também o plugin para o Word.

Feito isso, vá em “Literature Search” no Mendeley, procure o título do


artigo e clique em “Save Reference”.

Agora, abra o Word e clique na guia Referências e na aba do Mendeley,


clique em “Insert Citation”, busque pelo título do texto e adicione a citação
(no lugar em que ela deve aparecer no texto). Depois de inserida a citação,
vá em “Insert Bibliography” para inserir a referência de acordo com
ABNT. Procure pela referência e clique em ok.

Resultado da referência no padrão ABNT:

UNIDADE 4
SEÇÃO 1

NÃO PODE FALTAR


COMO ANALISAR UM TRABALHO
CIENTÍFICO?
Amanda Soares de Melo
Fonte: Shutterstock.

CONVITE AO ESTUDO

Caro estudante,

Ao final de um curso ou disciplina, muitas vezes você é encorajado a


escrever uma monografia sobre o assunto que estudou. Os trabalhos de
final de curso ou monografias te preparam para a redação científica, em que
quase sempre é necessário seguir uma estrutura que conta com etapas de
introdução, desenvolvimento, conclusão, etc. A escrita científica é parte da
metodologia a ser seguida no desenvolvimento das pesquisas, por isso é
importante conhecê-la. Dada a enorme quantidade de artigos e pesquisas
publicados atualmente, se faz necessário distinguir as pesquisas que
seguem o maior rigor e excelência científica.

Nesta unidade, você aprenderá como analisar e redigir um artigo científico,


a modalidade mais comum de divulgação científica. É importante conhecer
o que se espera de cada seção do artigo, com particular atenção à seção de
metodologia e resultados que contempla, dentre outras coisas, a coleta e o
tratamento dos dados da amostra. Não obstante, a partir da experiência com
a redação científica de artigo, você conseguirá alinhar o conteúdo da sua
pesquisa com os outros diversos formatos de comunicação científica já
conhecidos por você, sejam eles, resumos, comunicações, revisões, entre
outros.

PRATICAR PARA APRENDER


Caro estudante,
A essa altura, você já deve saber que a informação mais qualificada da
atualidade é a informação científica. A credibilidade da ciência foi
construída por meio da aplicação de metodologias rigorosas do início ao
fim da pesquisa, capazes de produzir resultados efetivamente confiáveis.
Você já deve saber também que a comunicação científica é indispensável
nesse processo, pois é por ela que os cientistas e toda a sociedade ficam
cientes do surgimento de novos problemas, bem como de soluções para os
problemas.

Assim, dado seu papel crucial, a produção de artigos científicos também


deve seguir uma metodologia rigorosa que permita a explanação clara dos
resultados e a plena comunicação com seus pares. Os artigos possuem uma
estrutura que comumente consiste em introdução, desenvolvimento,
metodologia e resultados, mas que pode variar dependendo do campo de
pesquisa. Saber como redigir artigos científicos, bem como saber
interpretá-los, é parte essencial na busca por informações qualificadas nos
dias atuais e pode contribuir em muito com o aprimoramento e a
atualização da prática profissional em qualquer área de atuação.

Você construiu sua carreira como pesquisador e foi contratado por uma
empresa automobilística para desenvolver um estudo sobre a eficiência
energética de dois tipos de ar-condicionado para automóveis. A ideia
apresentada pela equipe é encontrar o aparelho com maior eficiência
energética para ser instalado em um novo modelo de carro.

Sendo assim, você deve elaborar a metodologia que deve ser empregada na
condução do estudo, indicando o método de coleta de dados, os possíveis
cálculos efetuados para mensuração da eficiência energética e qual seria a
melhor ferramenta estatística para a apresentação dos dados coletados.

Quando se é alfabetizado cientificamente, o mundo parece diferente à sua


vista, e essa compreensão dá-lhe poder. – Neil de Grasse Tyson

CONCEITO-CHAVE

ENTENDIMENTO DA METODOLOGIA
Saber redigir e analisar artigos científicos é uma habilidade essencial a ser
adquirida pelo pesquisador. Antes de tudo, é necessário compreender a
estrutura de um artigo que geralmente passa por introdução, metodologia,
resultados e discussão. Cada etapa da pesquisa possui uma série de critérios
e procedimentos a serem seguidos, os quais podem variar conforme o tipo
de pesquisa. Todavia, em geral, construímos uma análise fundamentada de
um artigo observando se ele cumpre adequadamente os seguintes aspectos
(CASARIN, 2012; PEREIRA, 2018):

a. Tema: inicialmente, deve-se ficar claro o tema do trabalho


analisado. Esse tema deve ser relevante na área de conhecimento
ao qual se enquadra, pois assim se justifica o emprego dos recursos.
b. Título: o título do artigo deve ser elucidativo, preciso e curto. Os
leitores que buscam o artigo devem conseguir saber pelo título se o
artigo atende suas necessidades de pesquisa. Para isso, é
aconselhável que tenha entre 10 a 12 palavras.
c. Autores: são aqueles que efetivamente contribuíram no
desenvolvimento da pesquisa e deve-se observar suas instituições
de origem ou qualificação de cada um deles. Também recomenda-
se incluir formas de contato.
d. Resumo: tem a finalidade de síntese da pesquisa, dando uma ideia
de quais foram os objetivos e os caminhos encontrados. Inclui-se
aqui os métodos utilizados. Geralmente, também se coloca uma
versão do resumo em outro idioma.
As palavras-chave identificam o tema do artigo por meio da
catalogação.
e. Introdução: é a parte do trabalho em que é apresentado o
problema da investigação, as justificativas da pesquisa, a
fundamentação teórica da pesquisa, bem como os objetivos do
trabalho, as hipóteses e variáveis utilizadas. A fundamentação
teórica se baseia, em geral, nas últimas pesquisas da área de
estudo.
f. Justificativas da pesquisa: o relatório da pesquisa deve incluir uma
consideração sobre a relevância do tema ou problema a ser
investigado, o que e onde se pode contribuir com a realização da
pesquisa.
g. Objetivos gerais e específicos: o artigo deve ser claro quanto aos
seus propósitos, os objetivos devem ser bem definidos e coerentes,
além de compatíveis com os métodos e o corpo de conhecimento
estabelecido da área.
h. Hipóteses e variáveis: as variáveis são os parâmetros que irão variar,
os atributos que se pretende investigar. Elas devem estar bem
definidas e explícitas no artigo. Além disso, deve haver uma
previsão do comportamento destas (hipótese) que é apoiada na
literatura da área.
i. Metodologia: o artigo deve informar claramente quais são os
procedimentos e métodos utilizados a fim de testar as hipóteses. O
nível de detalhamento deve ser alto para permitir que outro
pesquisador replique o experimento. Inclui saber qual o tipo de
pesquisa, a abordagem, o lócus da pesquisa, a população, a
amostra, os instrumentos utilizados, os cuidados técnicos, as
medidas éticas e a forma de análise de dados.
j. Amostra: o artigo deve detalhar muito bem a população do estudo
para que outras pesquisas possam ter parâmetros de comparação.
A análise desse conteúdo deve ser meticulosa porque podem
esconder falhas que comprometem os resultados da investigação.
k. Instrumento de coleta de dados: o artigo deve ser explícito quanto
aos procedimentos utilizados na coleta de dados, aos meios e
instrumentos utilizados, às variáveis de estudo e escalas de
variação. A utilização de um instrumento não confiável pode
comprometer totalmente o resultado obtido. Além disso, deve-se
dizer quem coletou, qual período da coleta, os cuidados tomados
durante, etc.
l. Validade interna e externa: consiste em uma das etapas mais
importantes nas análises dos artigos. Aqui é necessário observar
criticamente se, por exemplo, não há situações intervenientes que
convergem com a variável independente e podem afetar a variável
dependente; se a forma de seleção da amostra é adequada quando
não é aleatória, se não há enviesamento na amostragem, etc.
Em suma, é necessário verificar se não há possibilidades de
interferência dos resultados que não tenham sido levadas em conta.
Há que se verificar também a validade externa, o quanto os
resultados conseguem gerar generalizações em outros ambientes
ou com outras amostragens. A avaliação também inclui uma análise
da confiabilidade e validade dos instrumentos utilizados na coleta
de dados.
m. Dimensão Ética: o artigo deve respeitar os princípios e as diretrizes
éticas determinados pelo Comitê de Ética da instituição a que ele
está vinculado, principalmente durante a experimentação com
humanos e animais não humanos. Sem esse controle, os resultados
da pesquisa são severamente comprometidos.
n. Resultados, discussão e conclusão: o artigo deve apontar
claramente quais foram os resultados, de forma lógica, objetiva e
ordenada, podendo utilizar para isso tabelas, gráficos, como
material complementar. O artigo deve ser capaz de responder
diretamente e objetivamente a questão-problema colocada na
introdução. Após essa etapa, os resultados devem ser discutidos à
luz do conhecimento da literatura, comparando-os com outros
estudos, a fim de reforçar a validade de sua resposta ou solução.

Parece óbvio, mas um dos aspectos importantes de análise é a coerência


geral do artigo desde a introdução até a discussão final. Ele não deve conter
contradições, mas sim uma harmonia lógica entre as ideias. A falta de
coerência pode ser uma das fontes de erros e falhas da pesquisa científica.
Não menos importante, o artigo deve indicar adequadamente todas as
referências utilizadas para sua composição. É muito comum que as
referências sejam normalizadas para facilitar a comunicação com os outros
pesquisadores. Uma boa pesquisa, em geral, conta com um número
razoável de referências, indicando que se conhece bem a literatura
disponível sobre o tema.

ASSIMILE
Conforme explica Casarin (2012), os trabalhos científicos são
frequentemente estruturados em ordem cronológica: Introdução,
Metodologia, Resultados e Discussão, Conclusão e Referenciais
Bibliográficos.

a. A seção “Introdução” contém as razões que motivaram a


investigação e mostra para os leitores como o artigo está
estruturado.
b. A seção “Metodologia” fornece detalhes suficientes para outros
cientistas reproduzirem os experimentos descritos no artigo.
c. As seções “Resultados” e “Discussão” apresentam e discutem os
resultados da pesquisa, respectivamente. Essas duas seções
frequentemente são combinadas para que os leitores entendam o
que os resultados significam.
d. A seção “Conclusão” apresenta o resultado do trabalho
interpretando os achados em um nível de abstração mais alto do
que a Discussão e relacionando esses achados ao problema de
pesquisa declarado na Introdução.

LEITURA DOS RESULTADOS


Dada sua importância, abordaremos mais profundamente a análise dos
resultados de um artigo científico. A seção dos resultados indica o que foi
encontrado na pesquisa, isto é, mostra os dados relevantes obtidos pelo
pesquisador. Segundo Pereira (2013), é importante que se apresente as
características “demográficas, socioeconômicas, clínicas ou de outra
natureza” do objeto estudado. Tais dados podem ser alocados em tabelas
para uma melhor visualização. Essa parte serve como indicativo das
condições a serem observadas para o estudo poder ser replicado. Também
deve-se indicar os critérios de exclusão dos participantes na amostra.

Após a explicitação da amostragem, os resultados devem ser elencados em


uma ordenação. Primeiro, os mais relevantes, aqueles que respondem
diretamente à questão do artigo. O pesquisador, na sequência, poderá expor
os resultados secundários, aqueles achados que não eram esperados, mas
que são relevantes. Há algumas dicas que podem ser seguidas para facilitar
a elaboração da seção de resultados, são elas:

a. Apresentar os resultados de forma ordenada e lógica.


b. Dar ênfase somente a informações imprescindíveis.
c. Não emitir opiniões ou julgamentos sobre o que foi encontrado,
pois a parte interpretativa cabe à seção de discussão.
d. Não replicar no texto os resultados que estão nas ilustrações.
e. Indicar a significância estatística dos resultados.

Assim, espera-se que na seção de resultados se encontre as informações


mais relevantes que a pesquisa obteve. A seção de resultados deve ter um
texto curto, simples, objetivo, que preze pela clareza e pela ordenação
lógica, seguindo sempre as regras da comunicação científica. Muitas vezes,
se faz necessário redigir o texto mais de uma vez, até alcançar a clareza
pretendida.

REFLITA
Na hora de interpretar os dados e expor os resultados, o pesquisador deve
ter muito cuidado para não enviesar e comprometer esses dados com sua
análise. Na sua visão, quais práticas podem ser feitas durante a pesquisa a
fim de minimizar uma análise tendenciosa dos dados coletados?

ANÁLISE DE TABELAS, QUADROS E GRÁFICOS


Na etapa da análise de dados, é comum o uso de estatística descritiva que
auxilia na forma de obter informações a partir dos dados coletados. São
utilizadas para essa tarefa, resumos, gráficos e tabelas. Muitas vezes, a
simples visualização dos dados coletados não consegue expressar todas as
informações contidas neles, pois existem informações escondidas que só
podem ser visualizadas com aplicações de técnicas e métodos estatísticos.
Antes de resumir em gráficos, tabelas e quadros, precisamos saber sobre o
que iremos falar, isto é, qual o tipo de variável que estamos interessados.
Segundo Da Silva (2011), elas podem ser:

a. Qualitativas: as variáveis desse tipo medem a qualidade, podendo


ser ordinais, como o índice de aprovação de um político (péssimo,
ruim, regular, bom ou ótimo), ou podem ser nominais, como o sexo
de uma pessoa, feminino ou masculino.
b. Quantitativas: as variáveis desse tipo medem a quantidade, podem
ser discretas (os valores são contáveis) ou contínuas (os valores
dentro de um intervalo), por exemplo, a altura de uma pessoa.

Existem também métodos específicos quando queremos descrever duas ou


mais variáveis e como se relacionam entre si. As ferramentas descritivas e
analíticas de dados são inúmeras e devem ser utilizadas conforme os
objetivos da pesquisa, são algumas delas:

a. Tabela de frequência: indica a frequência observada de um


fenômeno. Essa frequência pode ser classificada em absoluta ou
relativa – absoluta como o número de eventos e relativa como o
percentual. Podemos utilizá-la, por exemplo, quando queremos
observar a variável “torcedor de time” em uma turma com 20
alunos em São Paulo, conforme a Tabela 4.1.

Tabela 4.1 | Exemplo de tabela de frequência

Frequência Frequência
Categoria Absoluta Relativa

Corinthians 10 0,50

Palmeiras 7 0,35

São Paulo 2 0,10

Santos 1 0,05

Total 20 1,00

Fonte: Elaborada pela autora.


b. Gráfico de barras: o gráfico de barras apresenta a frequência
absoluta ou relativa de uma observação ou fração de observações.
A altura das barras representa o que mais foi observado. Um
exemplo desse tipo de gráfico ilustra a nota de cada aluno em uma
turma (Figura 4.1).

Figura 4.1 | Exemplo de gráfico de barras

Fonte: Elaborada pela autora.

c. Gráfico de setores (pizza): esse gráfico apresenta uma frequência


relativa de uma observação. Eles não são bons para comparações
temporais. A Figura 4.2 traz um exemplo desse tipo aplicado às
notas dos alunos.

Figura 4.2 | Exemplo de gráfico de setores (pizza)

Fonte: Elaborada pela autora.

d. Histograma: se parece com o gráfico de barras, mas possui


diferenças. O histograma mede um grupo de dados e não uma certa
informação como o gráfico de barras. Note que, em relação ao
gráfico de barras, no histograma não é possível identificar a nota de
cada aluno.

Figura 4.3 | Exemplo de histograma

Fonte: Elaborada pela autora.

e. Tabulação cruzada: quando queremos descobrir se há alguma


relação entre duas variáveis diferentes, podemos utilizar a
tabulação cruzada. Por exemplo, podemos fazer uma tabulação
cruzada com duas variáveis: preço da refeição (R$ 10 a R$ 40) e
avaliação da qualidade (ruim, bom, ótimo, excelente) pelos
entrevistados. Note que a tabela a seguir indica que conforme
aumenta o preço, a satisfação com a qualidade aumenta.

Tabela 4.2 | Exemplo de tabulação cruzada

Preço da Refeição

Qualidade R$ 10-20 R$ 20-40

Bom 15 1

Muito Bom 10 10

Excelente 1 37

Total 26 48

Fonte: Elaborada pela autora.


f. Diagramas de dispersão: mostra a relação de duas variáveis
quantitativas. Cada par observado de duas variáveis (x, y) é marcado
como um ponto a partir das coordenadas. O diagrama é usado para
verificar a existência de uma relação de causa e efeito entre duas
variáveis quantitativas. A Figura 4.4 traz um exemplo de gráfico
comparativo entre idade da mulher e do marido. Como se observa,
à medida que a idade da mulher aumenta, a idade do marido
também aumenta.

Figura 4.4 | Exemplo de diagrama de dispersão

Fonte: Martins (2014, s/p)

g. Gráfico temporal ou sequencial: esse tipo de gráfico mostra a


evolução de uma variável ao longo do tempo. É semelhante ao de
dispersão, mas neste caso, pode-se unir os pontos consecutivos
(Figura 4.5).

Figura 4.5 | Exemplo de gráfico sequencial


Fonte: Elaborada pela autora.

Cabe lembrar que não basta apresentar os dados em formas de gráficos ou


tabelas sem ter uma teoria estabelecida que ajude a interpretá-los
corretamente e fundamente a leitura. Caso contrário, pode-se incorrer nas
chamadas relações espúrias. As relações espúrias são correlações
estatísticas entre variáveis que não possuem significado teórico, isto é, não
existe nenhuma relação de causa e efeito entre elas. Elas podem acontecer
por pura coincidência ou por uma terceira variável. Um caso muito
conhecido desse tipo é a relação estatística existente entre um aumento nos
números de afogamentos e os lançamentos de filmes com o ator Nicolas
Cage.

Figura 4.6 | Exemplo de correlação espúria

Fonte: Brenner (2019, s/p).

CENÁRIO DA PESQUISA
O cenário da pesquisa consiste na descrição do lugar onde o pesquisador
estudará o fenômeno observado, da população ou tamanho da amostra a ser
utilizada e dos eventos a serem observados naquele ambiente. Por exemplo,
o cenário de uma pesquisa sobre o trabalho rural pode ser as próprias
propriedades rurais, como fazendas, e os sujeitos entrevistados podem ser
posseiros.

O lócus da pesquisa irá variar de acordo com o tipo de pesquisa. As


pesquisas de campo podem ser classificadas em três tipos, de acordo com
os objetos de estudo e metodologias: pesquisas exploratórias, quantitativas-
descritivas e experimentais.

As pesquisas exploratórias objetivam uma compreensão mais ampla do


tema estudado, as quantitativas uma compreensão mais detalhada do objeto
em dados quantitativos e as experimentais se objetiva o conhecimento das
variáveis que produzem o efeito analisado no objeto estudado.
Apesar das particularidades de cada pesquisa, em geral, sugere-se que uma
descrição detalhada do lócus da pesquisa inclua uma definição adequada da
população, o método a ser utilizado na coleta de dados, o tipo de
abordagem da pesquisa, quais fenômenos serão estudados e quais eventos
serão observados, os métodos de mensuração utilizados e a fundamentação
teórica do problema investigado.

EXEMPLIFICANDO
O cenário da pesquisa consiste em uma descrição detalhada de todo o
ambiente onde a pesquisa será desenvolvida, os atores envolvidos, as
características relevantes do lugar para a pesquisa. É extremamente
importante escolher corretamente o cenário da pesquisa. Por exemplo, para
verificar uma mudança nos padrões de competitividade da indústria de
automóveis, pode ser feita uma pesquisa dentro de empresas de automóveis
do Grande ABC, em São Paulo. A escolha desse lugar não é arbitrária, uma
vez que a região abriga e já abrigou inúmeras empresas de automóveis,
tornando-se um polo relevante desse setor.

Escrever um artigo científico pode exigir muito tempo e esforço, mas os


seus resultados contribuem para o avanço do conhecimento científico, o
que torna o processo gratificante. Com as ferramentas adequadas e a
metodologia correta, a escrita científica pode ser facilitada. A prática
constante da redação científica é a garantia para um aprimoramento
contínuo da comunicação científica pelo pesquisador.

FAÇA A VALER A PENA


Questão 1

Nesta seção, foi apresentado o problema da investigação, as justificativas


da pesquisa, a fundamentação teórica da pesquisa, bem como os objetivos
do trabalho, as hipóteses e variáveis utilizadas.

Assinale a alternativa que representa corretamente a seção descrita.

A. Introdução.

B. Resumo.

C. Resultados e discussão.

D. Conclusão.
E. Metodologia.

Questão 2

Os artigos científicos são frequentemente estruturados em ordem


cronológica: Introdução, Metodologia, Resultados e Discussão e
Conclusão, Referenciais Bibliográficos.

Além da estrutura formal, um artigo científico deve conter:

A. O projeto de pesquisa.

B. Dados originais.

C. Consistência lógica.

D. Agradecimentos.

E. O salário dos pesquisadores.

Questão 3

Consiste na descrição do lugar onde o pesquisador estudará o fenômeno


observado, da população ou tamanho da amostra a ser utilizada e dos
eventos a serem observados naquele ambiente.

Assinale a alternativa que apresenta corretamente a ideia referida no texto.

A. Cenário da Universidade.

B. Lócus dos Dados.

C. Cenário de Pesquisa.

D. Lócus da Habitação.

E. Cenário da Investigação.

REFERÊNCIAS
BRENNER, W. Por que toda vez que o Nicolas Cage aparece em um
filme, várias pessoas morrem afogadas? Up date or die, 2019. Disponível
em: https://bit.ly/38btNj5. Acesso em: 20 dez. 2020.
CASARIN, H. C. S; CASARIN, S. J. Pesquisa científica: da teoria à
prática. Curitiba: InterSaberes, 2012.

DA SILVA, T. R. Avaliação da Disciplina de Tratamento e Análise de


Dados/Informações. São Paulo: JupiterWeb, 2011.

FIRMINO, C. Aprenda como reduzir o custo de produção na sua


indústria de alimentos. MF Consultoria, 2017. Disponível
em: https://bit.ly/3eakOTm. Acesso em: 20 dez. 2020.

GREENHALGH, T. Como ler artigos científicos. 5. ed. Porto Alegre:


Artmed, 2015.

KOLLER, S. H.; DE PAULA COUTO, M. C. P.; VON HOHENDORFF,


J. Manual de produção científica. Porto Alegre: Penso Editora, 2014.

MARTINS, E. G. M. Diagrama ou gráfico de dispersão, Rev. Ciência


Elem., V2(3), 2014.

PEREIRA, M. G. A seção de resultados de um artigo


científico. Epidemiologia e Serviços de Saúde, v. 22, n. 2, p. 353-354,
2013.

PEREIRA, M. G. Artigos científicos: como redigir, publicar e avaliar.


Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2018.

FOCO NO MERCADO DE TRABALHO


COMO ANALISAR UM TRABALHO CIENTÍFICO?

Amanda Soares de Melo


Fonte: Shutterstock.

SEM MEDO DE ERRAR


Você foi contratado por uma empresa automobilística para desenvolver
uma pesquisa sobre eficiência energética de ar-condicionado para
automóveis. Ao elaborar a metodologia, você definiu que mensuraria o
consumo de energia dos equipamentos em diferentes intervalos de tempo e
em temperaturas variadas, a fim de avaliar qual deles apresentaria uma
melhor eficiência energética.

Assim, em um intervalo definido de tempo, como a cada duas horas, por


exemplo, com intervalos de temperatura graduais, sob condições
controladas em laboratório, é possível mensurar qual dos aparelhos
consome mais energia. Em uma conta simples, a eficiência energética pode
ser mensurada por meio da quantidade de energia gasta dividida pelo total
oferecido pela rede elétrica durante a atividade. O ar-condicionado que tem
maior eficiência energética será o que dá o resultado mais próximo de 1.

Para exposição dos dados coletados, o gráfico sequencial é o mais indicado,


pois esse tipo de gráfico mostra a evolução de uma variável ao longo do
tempo. A variável em questão é a temperatura.

AVANÇANDO NA PRÁTICA

AVALIANDO UM MANUSCRITO CIENTÍFICO


Um parecerista é contratado para avaliar a aceitação de um manuscrito
submetido a uma revista científica de alto impacto na literatura. Contudo,
ao ler o manuscrito, o parecerista se depara com o seguinte trecho na seção
de “Introdução”:

Os testes foram aplicados em jovens de 15 a 19 anos. Os jovens, a


princípio, respondiam a perguntas de aquecimento sobre o tema de
pesquisa. Em seguida, os jovens respondiam a perguntas sobre
comportamentos-alvo. Os resultados mostraram que 45,4% dos jovens
responderam...

(KOLLER, 2014, p. 133)


Considerando o contexto apresentado, escreva a indicação do parecerista
com os erros cometidos pelo autor na redação deste trecho e indique de que
maneira tais erros podem ser corrigidos.

RESOLUÇÃO
Em primeiro lugar, a introdução é a seção em que se apresentam as
motivações da pesquisa, os problemas a serem investigados e uma breve
revisão literária. Portanto, a disposição dos resultados não poderia estar na
seção de Introdução. Em segundo lugar, a redação do texto mostra que o
manuscrito não foi submetido à revisão antes do envio para a revista. Uma
má escrito do texto compromete o objetivo da comunicação científica. O
trecho em questão pode ser corrigido e reescrito da seguinte forma:

Os testes foram aplicados em jovens de 15 a 19 aos. A princípio, os


participantes respondiam a perguntas de aquecimento sobre o tema da
pesquisa. Em seguida, eram questionados sobre os comportamentos-alvo.
Os resultados mostraram que 45,4% dos entrevistados indicaram...”.

(KOLLER, 2014, p. 134)

SEÇÃO 2
NÃO PODE FALTAR
QUAIS FATORES PODEM
INTERFERIR EM UMA ANÁLISE
Amanda Soares de Melo

Fonte: Shutterstock.
PRATICAR PARA APRENDER
Caro estudante,

Você já deve ter notado que muitas vezes tratamos dados como sinônimo
de informação e informação como sinônimo de conhecimento, mas essas
são associações enganosas. Os dados necessitam da interpretação e,
portanto, da informação para que tenham significado. A informação, por
sua vez, é construída por um arranjo de dados visando um objetivo
específico. Não há realmente informação desinteressada, desconectada de
um sujeito que realiza a organização dos dados. Por essa razão, como os
dados precisam ser interpretados e analisados, é bem possível – na verdade,
muito provável – que sejam interpretados incorretamente, em algum
momento.

No desenvolvimento de uma pesquisa científica, é crucial que o


pesquisador tenha noção de seus próprios vieses cognitivos a fim de
minimizar a interpretação incorreta dos dados. Muitas vezes, nós ficamos
cegos dos nossos próprios vieses e apenas um observador externo consegue
nos indicar esses problemas. Nesta seção, convido você a compreender a
dimensão de responsabilidade e cuidado exigidas no tratamento de
qualquer tipo de dados. Reconhecer o papel do sujeito na interpretação e no
tratamento de dados é fundamental ao desenvolvimento de um pensamento
mais criterioso na busca pela informação e pelo conhecimento.

Uma indústria automobilística está preocupada com os defeitos que um de


seus produtos vem apresentando. A fim de sanar o problema na escala de
produção, a empresa contrata você, pesquisador da área, para a composição
de um levantamento detalhado da produção desse item. Ao iniciar a
investigação, você elabora uma tabela com os tipos de problemas
encontrados e a frequência com que eles têm ocorrido após cada item
produzido ser analisado.

Tabela | Problemas e frequência na produção

Problemas Frequência Problemas Frequência

A 10

B 15

C 25
A. Defeito na tampa plástica.
B. Defeito na placa de processamento.
C. Soldas soltas.

Considerando o contexto apresentado, indique se os dados apresentados


com a variável “Problemas” são nominais, ordinais, contínuos ou discretos.
Além disso, justifique sua resposta.

Os números não falam por si próprios. Nós falamos por eles. Nós os
imbuímos de significado. – Nate Silver.

CONCEITO-CHAVE
INFORMAÇÕES, DADOS E CONHECIMENTO
Nos dias atuais, temos um grande volume de informação disponível a nós
apenas por um clique. Antigamente, reis e rainhas eram privilegiados por
possuírem uma, duas ou três centenas de livros. Atualmente, qualquer
pessoa pode ter facilmente essa quantidade de livros, principalmente em
formatos digitais. Com tanta informação disponível, é comum nós
assimilarmos inteligência com quantidade de informação, mas essa
conexão pode ser bastante enganosa.

Tratar a informação e o conhecimento como sinônimos é uma crença


bastante comum nos nossos tempos. Nós lidamos com dados, informações
e conhecimento diariamente, todavia muitas vezes os tomamos como
sinônimos e cabe saber diferenciá-los.

Dados podem ser definidos como a matéria-prima da informação, eles


representam significados que isoladamente não transmite nenhuma
mensagem ou conhecimento. Em uma pesquisa de opinião sobre a
qualidade de um produto, por exemplo, a coleta da opinião de cada pessoa
só poderá produzir alguma informação significativa sobre a satisfação com
o produto depois de ser tratada e agregada às demais.

As informações, por sua vez, são os dados tratados. A informação é


resultado do processamento dos dados coletados que interessam ao
pesquisador. Como elas possuem significado, auxiliam no processo de
tomadas de decisão.

No exemplo anterior, a informação expressaria os níveis de satisfação das


pessoas entrevistadas com o produto, revelando se a imagem que elas
possuem é positiva ou negativa. Frequentemente, se utiliza ferramentas
estatísticas como indicadores para tratar os dados e obter alguma
informação que antes não poderia ser vista.

O conhecimento está além da informação porque tem tanto significado


como aplicação. O conhecimento envolve nossa faculdade de abstração, em
que se é capaz de produzir novas ideias a partir das informações que temos
em dado momento. Ele exige que um sujeito seja capaz de processar as
informações identificando o que ali é importante e as direcione para algum
fim. Nesse sentido, a informação é como se fosse a matéria-prima do
conhecimento.

ASSIMILE
Os dados são observações simples sobre do mundo, facilmente
estruturados e que podem ser obtidos por meio de maquinários. São
quantificáveis e transferíveis.

As informações são dados tratados em termos de relevância e propósito.


Necessariamente, exige a intervenção humana, pois também exige um
consenso acerca de seu significado.

O conhecimento é a informação tratada em termos de reflexão, síntese e


contexto. Sua estruturação é difícil, também não é fácil de ser construído
por máquinas e frequentemente é difícil de ser transferível.

Há ainda uma quarta diferenciação possível: a diferença entre sabedoria e


conhecimento. Segundo Ackoff (1999), sabedoria é um processo
extrapolativo e não determinístico que invoca os outros níveis de
conhecimento, informação, dados e também princípios valorativos como
códigos morais, éticos, etc. Ao contrário dos níveis anteriores, a sabedoria é
essencialmente filosófica, pois coloca perguntas para as quais não há uma
resposta fácil, em alguns casos, pode não haver uma resposta. Sabedoria
envolve um processo pelo qual discernimos o que é o certo e o errado, o
bom e o mau. Por ser um estado exclusivamente humano, os computadores
ainda não têm (e talvez nunca tenham) a capacidade de possuir a sabedoria.

Para que você consiga compreender plenamente, o Quadro 4.1 demonstra


com exemplos as diferenças que podemos encontrar entre os assuntos
trabalhados anteriormente.

Quadro 4.1 | Diferenças entre dados, informação, conhecimento e


sabedoria
Dados Os dados representam um fato ou uma declaração de evento
sem relação com outras coisas.

Exemplo: Está chovendo.


Informação A informação incorpora a compreensão de uma relação de
algum tipo, possivelmente causa e efeito.

Exemplo: A temperatura caiu 15 graus e começou a chover.


Conhecimento O conhecimento representa um padrão que conecta e
geralmente fornece um alto nível de previsibilidade, como o
que é descrito ou o que vai acontecer a seguir.

Exemplo: Se a umidade for muito alta e a temperatura cair


substancialmente, é improvável que a atmosfera seja capaz
de reter a umidade, então chove.
Sabedoria A sabedoria incorpora mais uma compreensão dos
princípios fundamentais incorporados no conhecimento que
são essencialmente a base para o conhecimento ser o que é.
A sabedoria é essencialmente sistêmica.

Exemplo: O fenômeno chuva ocorre porque engloba uma


compreensão de todas as interações que acontecem entre
chuva, evaporação, correntes de ar, mudanças de
temperatura, etc.
Fonte: Elaborado pela autora.

DADOS ISOLADOS
Os dados, como vimos, constituem a matéria-prima da informação. Dados
isolados são dados que não têm nenhum significado ou nenhum sentido
objetivo. Por exemplo, queremos saber se uma empresa está sendo bem
sucedida em determinado ramo. Sabe-se que a empresa teve um
faturamento no 2° semestre do ano passado de meio milhão de reais. O que
isso significa? O que se diz da empresa a partir disso? É possível dizer que
é uma empresa de sucesso ou não? Provavelmente você acha que não,
porque não podemos aferir essa informação apenas com esse dado isolado.
Para fazer avaliações como essas é necessário cruzar, organizar e alinhar
dados isolados. Esse tratamento pode ser feito por meio de ferramentas
estatísticas, gráficos, tabelas, figuras. Quando fazemos isso, nós
transformamos os dados em informações que serão úteis para qualquer
análise que se almeje fazer.
Quando temos um histórico de faturamento crescente no semestre,
informação que obtemos a partir do alinhamento dos dados isolados de
faturamento de cada mês, podemos afirmar o que está ocorrendo com a
empresa, por exemplo. Somente por meio do processamento desses dados,
obtemos respostas para a nossa investigação. Os dados podem ser
classificados em duas grandes categorias:

 Dados qualitativos: esses dados são considerados não numéricos,


por exemplo, a cor dos olhos, a cor da pele, a textura do cabelo etc.
 Dados quantitativos: esses dados são especificamente numéricos e
através dos números são apresentados. Tais dados estão ligados a
perguntas como “quanto?”, “qual valor de?”, etc.

Há, ainda, uma classificação mais específica. Os dados qualitativos


apresentam sempre uma característica de atributo ou qualidade do objeto de
pesquisa. Tais dados podem ser divididos em dois tipos gerais: nominal e
ordinal. O dado nominal é o dado que não exige nenhuma ordenação para a
interpretação de seus resultados. Exemplos podem ser: tipo sanguíneo, sexo
etc. Já o dado ordinal, ao contrário, exige uma ordem para a interpretação
de seus resultados, como de pequeno a grande, bom a mau etc. Exemplos
podem ser: grau de instrução (fundamental, médio, superior), ordem de
chegada (primeiro, segundo, terceiro).

Os dados quantitativos, por sua vez, podem ser divididos em contínuos e


discretos. Dados contínuos são medidos e não contados, são dados em que
todos os valores são possíveis. Por exemplo, a medição da altura de uma
pessoa é um dado contínuo e pode ser dada em metros, centímetros,
milímetros etc. Assim como a definição da idade de uma pessoa em anos,
meses ou dias. Já os dados discretos são utilizados com números que
contam e não medem. São utilizados números inteiros apenas. Por
exemplo, a quantidade de alunos em uma sala sempre será um número
inteiro.

INFORMAÇÕES CONTEXTUALIZADAS
A informação é uma espécie de conjunto de dados contextualizados. Isto é,
os dados brutos ou isolados só ganham significado ou se transformam em
informações a partir da experiência do pesquisador e do que ele almeja
obter nesse processo. Sendo assim, a partir dos objetivos da pesquisa
definidos pelo pesquisador, os dados são organizados de forma a
constituírem informações.
A informação, por exemplo, é fabricada a partir da experiência dos
indivíduos e de acordo com suas preferências. Muitas vezes ela aparece
atrelada a um contexto de aplicação. Nesse sentido, o olhar do pesquisador
sobre os dados definirá a aplicabilidade das informações. Por exemplo,
pode ser que em uma pesquisa sobre a obesidade, a coleta de dados sobre a
cor dos olhos do público analisado não seja relevante, assim, para essa
pesquisa o dado “cor dos olhos” não terá nenhuma significação e será
descartado. Por outro lado, os dados sobre as idades ou gênero do público
podem ser úteis quando cruzados com outras informações.

Já o conhecimento provém de uma sábia utilização das informações. Essa


tarefa também é influenciada da experiência e perspectiva do pesquisador,
muitas vezes pessoas diferentes produzem conhecimentos diferentes. Dado,
informação e conhecimento são muito valiosos para nossa compreensão de
mundo.

REFLITA
Você já se deparou com a percepção de que quanto mais nos aprofundamos
em um assunto, muitas vezes as coisas se tornam cada vez mais abstratas e
deslocadas da realidade? Ao refletirmos sobre o papel do pesquisador e as
metodologias científicas, vemos, entretanto, que por mais abstrata que a
pesquisa possa parecer, ela tem a função de interpretar a realidade que
vivemos a partir de nossas necessidades. Além disso, a todo momento o
pesquisador é convocado a tomar decisões que refletem sua experiência e
bagagem profissional. Em sua visão, a investigação científica pode ser
considerada uma prática social de conhecimento?

INDICADORES PONDERADOS
Frequentemente, os dados coletados de pesquisas não são exatamente
representativos da população-alvo. A ponderação é uma técnica estatística
que pode ser usada para corrigir quaisquer desequilíbrios nos perfis de
amostra após a coleta de dados. Imagine que temos uma população-alvo
dividida igualmente por gênero. Se entrevistarmos uma amostra de 400
pessoas nessa população, dos quais 300 são homens e 100 mulheres,
saberemos que nossa amostra representa mais homens. Ponderar os dados
resultantes pode nos ajudar a corrigir esse desequilíbrio.

As proporções desejadas para homens e mulheres são 50%. A proporção de


homens, portanto, precisaria ser “reduzida” de 75% (300 em 400
entrevistas) para 50%, enquanto a proporção de mulheres precisaria ser
“ponderada” de 25% para 50%. Nesse caso, a ponderação multiplicaria as
entrevistas com as mulheres por 2, de modo que a resposta feminina fosse
ampliada nos dados. Por exemplo, na questão de gênero, temos 100 pessoas
respondendo do sexo feminino, mas após a ponderação, isso se torna 200,
pois os dados "feminino" são contados duas vezes.

As entrevistas com homens precisam ser correspondentemente reduzidas.


Nesse caso, precisamos obter 300 respostas para contar efetivamente como
200, portanto, multiplicamos as respostas masculinas por dois terços. Antes
de ponderar, tínhamos 300 homens codificados na questão de gênero. A
multiplicação por dois terços nos dá 200 homens, igualando o número de
respostas femininas após a ponderação.

Os números usados para multiplicar as respostas de cada proporção da


amostra são chamados de fatores de ponderação. Normalmente, a
ponderação é usada para combinar o perfil da população em mais de uma
variável para obter uma amostra mais representativa possível. Por exemplo,
para obter uma amostra representativa da população de um país, podemos
ponderar uma série de variáveis demográficas, como sexo, idade, região e
nível social.

A ponderação pode alterar a estrutura de seus dados de maneira negativa,


portanto, é necessário cautela ao aplicá-la. Não é aconselhável, por
exemplo, aumentar o peso de pequenos grupos de entrevistados para que
representem uma proporção significativa da amostra total, pois isso
significa que os resultados da pesquisa são desproporcionalmente afetados
por uma pequena minoria de entrevistados.

Há inúmeros recursos estatísticos de ponderação. A média ponderada é um


dos indicadores de ponderação. Nos cálculos em que se utiliza a média
aritmética simples, todos os valores têm o mesmo peso ou importância.
Ponderar significa pesar, então, na média ponderada, multiplicamos cada
valor por um peso que expressa sua importância relativa. Em geral, calcula-
se a média aritmética ponderada da seguinte maneira: soma-se os produtos
dos valores pelos seus pesos (p1,  p2,  p3, ..., pn) e depois divide-se esse
resultado pela soma dos pesos.

x¯p=p1⋅x1+p2⋅x2+p3⋅x3+....+pn⋅xnp1+p2+p3+....+pn

EXEMPLIFICANDO
Suponha que você tenha prestado um concurso em que as disciplinas da
prova detinham pesos diferentes. As disciplinas eram Português,
Matemática, Informática e Direito Administrativo, cada disciplina tinha o
respectivo peso 3, 3, 2 e 2. Ao olhar o resultado preliminar, você constata
que acertou 8 em Português, 7 em Matemática, 5 em Informática e 4 em
Direito Administrativo.

Dessa maneira, o cálculo da sua nota é a média ponderada desses valores.


Sendo assim, no numerador temos: . No denominador temos os pesos: 3 + 3
+ 2 + 2 = 10. Assim, a divisão de 63/10 dá 6,3 como sua média ponderada e
nota final.

Nesta seção, você aprendeu a diferenciar informação, dados e


conhecimento. Aprendeu também as diferentes classificações dos dados e
soube da importância de saber aplicá-los à sua pesquisa. O tratamento dos
dados é uma das partes mais importantes na apresentação dos resultados da
pesquisa, pois ainda que sua pesquisa possa trazer avanços significativos,
um tratamento deficiente dos dados pode colocar tudo a perder.

FAÇA A VALER A PENA


Questão 1

Existe uma diferença entre dados e informações. Dados são os fatos ou


detalhes dos quais as informações são derivadas. Dados individuais
raramente são úteis sozinhos.

Para que os dados se mostrem úteis, eles precisam passar pelo processo de:

A. Contextualização.

B. Pressurização.

C. Experimentação.

D. Apropriação.

E. Automatização.

Questão 2

Dados são fatos brutos e desorganizados que precisam ser processados. Os


dados podem ser algo simples, aparentemente aleatório e inútil até que
sejam organizados.
Os dados podem ser classificados de diferentes maneiras. Assinale a
alternativa que apresenta uma forma correta de classificação de dados
qualitativos.

A. Contínuo.

B. Discreto

C. Nominal.

D. Organizacional.

E. Cardinal.

Questão 3

Esses dados assumem valores em um intervalo constante de números. Em


geral, este tipo de dado é proveniente de medições de uma característica da
qualidade de uma peça ou produto. Os possíveis valores incluem "todos" os
números do intervalo de variação da característica medida.

Assinale a alternativa que apresenta o tipo correto de dado que o texto se


refere.

A. Dados contínuos.

B. Dados discretos.

C. Dados nominais.

D. Dados ordinais.

E. Dados intercalares.

REFERÊNCIAS

ACKOFF, R. L. Ackoff’s Best. John Wiley & Sons, New York, 1999, p.
170-172.

BURCH, S. Sociedade da informação/sociedade do conhecimento. In:


AMBROSI, A.; PEUGEOT, V.; PIMENTA, D. Desafios das palavras.
Paris: C&F Editions, 2005. Disponível em: https://bit.ly/3kJgJXr. Acesso
em: 28 jan. 2021.
BUSSAB, W. O.; MORETIN, P. A. Estatística básica. 4. ed. São Paulo:
Atual Editora, 1987.. Acesso em: 28 jan. 2021.

MAGALHÃES, M. N.; LIMA, C. P. Noções de probabilidade e


estatística. 3. ed. São Paulo: EDUSP, 2001.

FOCO NO MERCADO DE TRABALHO


QUAIS FATORES PODEM
INTERFERIR EM UMA ANÁLISE?
Amanda Soares de Melo

Fonte: Shutterstock.

SEM MEDO DE ERRAR


Você é contratado por uma indústria automobilística para sanar os
problemas de um dos produtos de sua linha de produção. Ao analisar o
caso, você mapeia três tipos de problema e a frequência com que eles
aparecem, tal como indica a Tabela.

Para a elaboração da tabela, os dados apresentados na variável “A” devem


ser qualitativos nominais, pois para cada item do produto você verificou
um defeito A, B ou C. Todos os defeitos possuem o mesmo grau de
severidade, afinal, qualquer um deles afeta a qualidade de produção. Sendo
assim, não há uma ordem entre eles e, portanto, tais dados podem ser
considerados qualitativos nominais.
AVANÇANDO NA PRÁTICA

SUBTÍTULO DE CONTEÚDO
Imagine que você trabalha em um grande hospital como pesquisador e a
sua equipe médica está conduzindo uma pesquisa sobre fatores de
internação e está interessada em saber quantas pessoas internadas naquele
estabelecimento têm diabetes. Sua equipe faz um levantamento com 7
grupos de 50 pessoas cada. A Tabela a seguir representa um resumo dos
dados coletados.

Tabela | Resumo do número de pessoas com diabetes.

Nº de Pessoas com Diabetes Grupos

5 1

6 2

7 3

8 4

9 5

10 6

11 7

Considerando o contexto apresentado, avalie se os dados da variável “nº de


pessoas com diabetes” são nominais, ordinais, contínuos ou discretos.
Além disso, justifique sua resposta.

RESOLUÇÃO

No hospital que você trabalha, sua equipe médica conduziu uma pesquisa
sobre fatores que levam à internação, mapeando quantas pessoas internadas
naquele estabelecimento possuem diabetes. Ao avaliar a tabela apresentada
por seus colegas, você deve ter identificado que a variável “nº de pessoas
com diabetes” traz valores quantitativos discretos, porque a quantidade de
pessoas com diabetes é contada e, portanto, assume valores inteiros,
configurando um caso de dado quantitativo discreto.
SEÇÃO 3

NÃO PODE FALTAR


COMO TRADUZIR PESQUISAS PARA
A PRÁTICA PROFISSIONAL?
Amanda Soares de Melo

Fonte: Shutterstock.

PRATICAR PARA APRENDER


Caro estudante,

Veja como a ciência está na vida cotidiana. Alimentos, celulares,


refrigeradores, GPS, computadores, televisores, medicamentos,
vestimentas, políticas públicas – a ciência está por trás de todos eles. A
cada dia surge um novo produto ou conhecimento a partir das pesquisas
científicas e de seu aprimoramento. Pela importância que a ciência detém
na nossa sociedade, ela passou a ser considerada um bem público.

Seja para o nosso consumo ou para nossa prática profissional, o


conhecimento científico é muito valioso. É possível aplicar o método
científico para contextos amplos, como em negócios e empresas. A
mentalidade científica aplicada ao ambiente profissional contribui para a
inovação, criatividade e resolução de problemas.

Com a velocidade de produção do conhecimento científico cada vez maior,


também é importante ficar atento aos novos métodos, procedimentos e
conhecimentos na sua área profissional. Assim, ser um bom profissional
hoje em dia, em qualquer área, exige estar atualizado quanto ao que de
novo é produzido.

Convido você a conhecer as modalidades da formação continuada que


auxiliam nessa atualização profissional.

Você é contratado por uma empresa automobilística para a elaboração de


um projeto de melhoria de uma peça metálica defeituosa. A equipe de
profissionais aplica o método científico do início ao fim dos estudos. A
análise inicial aponta que:

I. A peça metálica possui um grande risco em um dos seus


componentes.
II. Foi constatado que a máquina responsável pela manufatura estava
suja durante a produção do componente.
III. A hipótese básica elaborada pelos pesquisadores é que o risco pode
ter sido proveniente da sujeira da máquina.

Considerando o contexto apresentado, esboce as próximas etapas do estudo


utilizando o método científico, incluindo a predição da hipótese,
experimentação e possíveis resultados.

Os benefícios da ciência não são apenas para os cientistas, mas para toda a
humanidade. – Louis Pasteur.

CONCEITO-CHAVE

PESQUISA TRAZENDO AVANÇOS NA PRÁTICA


Além de sanar a curiosidade humana, a ciência é importantíssima para
achar soluções aos problemas que a humanidade enfrenta. A ciência,
tecnologia e inovação se consagraram como fundamentais para o
desenvolvimento da sociedade em muitos aspectos, como educação,
crescimento econômico, geração de emprego e renda. Por essa razão,
investir em ciência se tornou uma necessidade pelo seu diferencial
competitivo. No mundo todo, a pesquisa científica possibilitou enormes
avanços na saúde, alimentação, produção de energia, entre outros setores.
Isso porque uma das suas características é a capacidade de produzir
inovações, de especial interesse no contexto empresarial, ambiental ou
econômico.

A inovação pode agregar valor em produtos de uma empresa,


diferenciando-os, promovendo vantagens competitivas, mesmo que
momentaneamente. Em mercados competitivos como de commodities, ela
é ainda mais fundamental. Aqueles que conseguem inovar neste contexto
ficam em posição de vantagem em relação aos demais, alavancando suas
vendas e seus lucros, permitindo o acesso a novos mercados ou até mesmo
novos modelos de negócio.

Atualmente, pela importância que desempenha na sociedade, a pesquisa


científica é vista como um bem público. No Brasil, a Constituição Federal
de 1988 reserva os artigos 218 e 219 para a promoção da pesquisa e da
capacidade tecnológica (BRASIL, 1988). O desenvolvimento de qualquer
país está diretamente ligado à aplicação de investimentos nesse setor. As
pesquisas científicas não só produzem produtos e inovação, mas também
auxiliam na busca por soluções definitivas para problemas relacionados a
políticas públicas de Estado, como o combate à pobreza, educação
desigual, melhora da educação, melhora da saúde etc.

Os investimentos em ciência podem ser feitos em duas dimensões


complementares: a ciência básica e a ciência aplicada. A ciência básica
produz conhecimento que alimenta os processos de inovação, como carros,
máquinas de raios-X, computadores, vacinas, etc. Ela é feita a longo prazo,
de modo que não se esperam retornos financeiros de forma imediata. Já a
ciência aplicada estuda formas de aplicação do conhecimento científico em
benefício da sociedade, buscando a solução de problemas práticos, visando
uma utilidade econômica e o desenvolvimento tecnológico.

Assim, enquanto a ciência básica produz conhecimentos novos, a ciência


aplicada reinterpreta esses conhecimentos com uma finalidade pragmática.
Ambas são complementares e muito importantes para o avanço científico.
Todavia, a pesquisa básica é muitas vezes negligência pela demora de
trazer resultados. Não há como esperar inovação sem o investimento em
pesquisa básica.

As pesquisas trazem implicações para questões que enfrentamos, das mais


básicas às mais complexas. O simples ato de lavar as mãos é um hábito
fruto do avanço do conhecimento científico. Há 150 anos, não era um ritual
comum, inclusive pelos médicos, mas a partir da teoria microbiana
desenvolvida pelos biólogos, se constatou que a lavagem das mãos evitava
infecções e sua propagação.

Uma pessoa nascida no final do século 18, morreria sem completar os 40


anos de idade. Todavia, alguém que nasce hoje provavelmente poderá viver
até os 70 anos, no mínimo. Diversos fatores decorrentes dos avanços
científicos são responsáveis por isso, como o avanço na prevenção e no
combate das doenças, o desenvolvimento da produção de alimentos, a
melhora nas condições de trabalho e redução da carga horária de trabalho,
etc. Tudo isso foi construído durante os séculos através de pesquisas
científicas.

Uma visão científica de mundo ainda pode proporcionar outros benefícios


que podem ser utilizados no dia a dia. Utilizar o raciocínio científico,
buscar evidências, elaborar soluções da mesma forma que o cientista, pode
ajudá-lo a resolver problemas cotidianos, inclusive na prática profissional,
como a melhoria de processos administrativos ou de engenharia, por
exemplo.

ASSIMILE
Commodities são produtos que funcionam como matéria-prima e
indiferenciados, que não há diferença em função do produtor, produzidos
em larga escala. São exemplos de commodities: soja, milho, minérios,
petróleo, café.

FORMAÇÃO CONTÍNUA
A formação é o motor de evolução da carreira profissional de qualquer
pessoa. Atualmente, a formação contínua ganhou força, dada a rapidez que
o conhecimento científico se desenvolve.

A formação contínua envolve um processo de constante aprimoramento e


um esforço contínuo de atualização dos saberes necessários à área de
atuação profissional. Para ser um bom profissional é necessário estar atento
à atualização do conhecimento aprendido. Cursos de atualização e
especialização complementam a formação obtida no ensino superior,
ampliando ideias já adquiridas, modificando-as e propondo novos
conceitos.

À medida que as teorias de uma área de estudo vão sendo testadas, novas
linhas de pesquisa e conclusões surgem, abrindo novos caminhos e formas
de aplicar esses conhecimentos, com técnicas aprimoradas, mais eficientes,
etc. A pós-graduação é a modalidade de ensino que abarca as
especializações ministradas presencialmente ou a distância, ela serve para
alavancar a carreira, proporcionando muitas vezes melhores salários e
cargos de liderança no mercado de trabalho.

Existem diversos tipos de pós-graduação, são alguns deles:

1. Especialização: é um tipo que enfoca no nível técnico profissional,


fornecendo o título de especialista no campo de estudo e objetiva o
aprofundamento dos conhecimentos da sua área de formação,
fazendo o direcionando da graduação. Para obter o título de
especialista, é necessário a entrega de uma monografia.
2. Aperfeiçoamento: são similares às especializações, com a diferença
que dispensam os requisitos gerais das especializações, não
exigindo a entrega de monografia.
3. MBA: o significado da sigla é Mestre em Administração de Negócios
e é voltado para a atuação profissional, com foco na área de
negócios e administração. Compreendido muitas vezes como uma
especialização do ramo corporativo. O trabalho final é sempre feito
com ênfase na prática, na realidade das corporações.
4. Mestrado acadêmico – Stricto Sensu: esse tipo de pós-graduação
tem o período fixo de dois anos e é voltado para a pesquisa
cientifica. O seu objetivo é aprofundar e direcionar os
conhecimentos obtidos na graduação e formar pesquisadores e
professores de ensino superior. Ele conta com a supervisão de um
orientador e exige defesa de uma dissertação para a obtenção do
título de mestre.
5. Mestrado profissional: possui as mesmas exigências que o
acadêmico, todavia têm como foco o desenvolvimento de técnicas e
estudos voltados ao mercado de trabalho.
6. Doutorado: objetiva um aprofundamento maior que o mestrado e
também é voltado para a pesquisa científica. Esse tipo de formação
leva quatro anos e exige a elaboração de uma tese sobre uma área
a ser defendida como requisito para obtenção do título. Essa tese, em
geral, deve possuir um conteúdo original que contribuía com o avanço do campo de
estudos.

REFLITA
Dada a rapidez como o conhecimento é produzido hoje em dia, em sua
visão, por que ser um profissional atualizado no mercado de trabalho?
Quais os diferenciais competitivos que esse profissional ganha com a
formação continuada?

CIÊNCIA DO COTIDIANO
Os avanços da ciência trouxeram muitas mudanças na vida cotidiana, são
inúmeros os exemplos: meios de comunicação rápida, computadores,
celulares, eletricidade, máquinas, carros, vacinas, tratamentos, cirurgias,
medicamentos, entretenimento, internet, etc. Imagine como era o mundo
sem muitas dessas invenções. Tais avanços mudaram completamente
nossos hábitos, aumentou a velocidade da vida, ampliou nossas ocupações,
os limites de nossas curiosidades, as formas de lazer e o conforto que
jamais foram sonhados por nossos antepassados.

Nossa alimentação, vestimenta, higiene devem muito ao conhecimento


científico acumulado durante séculos. Esse conhecimento ajudou a
humanidade de diversas formas, contribuindo inclusive para manutenção da
espécie, ao diminuir e até mesmo erradicar doenças consideradas graves
que já mataram muitas pessoas, colaborando para a duplicação da
expectativa de vida em diversos países.

Desde os tempos da revolução industrial, no século XVIII, houve enormes


esforços para baratear uma série de matérias-primas como aço, vidro,
cobre, que seriam utilizadas em novos processos de fabricação e de geração
de energia. A partir desse contexto, o aumento crescente das indústrias, a
expansão das telecomunicações e o avanço da medicina trouxeram para a
ciência uma dimensão global (MACHADO, [s.d]).

Atualmente, estamos no desenvolvimento de uma quarta revolução, a da


informação (SCHWAB, 2016). Muitos artefatos, recursos, processos de
organização estão migrando para o ambiente virtual. Desde a comunicação
até moedas virtuais, tudo a partir do avanço das áreas de biotecnologia,
computação, nanotecnologia, robótica, quântica, etc. Nesse processo,
surgem novas necessidades e ferramentas que auxiliam em nossas
atividades diárias. Se hoje a sociedade desfruta diariamente de todos os
benefícios dessas inovações é em decorrência do investimento de recursos
públicos e privados no financiamento das pesquisas científicas.

Sendo assim, a ciência deixou de ser um empreendimento de poucos para


ser parte integrante do nosso dia a dia. Matemática, Biologia, Química não
são disciplinas meramente abstratas, são conhecimentos que ancoram
nossas principais ferramentas, utensílios, conhecimento e recursos diários.
A mesa em que estuda, o papel em que lê, a casa, o avião, praticamente
tudo está ancorado direta ou indiretamente em conhecimento científico.

EXEMPLIFICANDO
Pode parecer estranho nos dias de hoje, mas um século atrás a notícia de
que você ou um familiar seu tinha diabetes era praticamente uma sentença
de morte. Foi graças à descoberta da insulina, em 1921, por Frederick
Banting e Charles Best que possibilitou a criação de um tratamento,
permitindo que os diabéticos tivessem uma vida normal (PIRES e
CHACRA, 2008). Graças à ciência, uma pessoa com diabetes, nos dias de
hoje, tem a expectativa de vida equiparável a de uma pessoa saudável.
APLICANDO NOVOS CONHECIMENTOS NA ATUAÇÃO
PROFISSIONAL
Atualmente é crescente a preocupação para se adotar uma mentalidade
científica na prática profissional. Toda profissão requer uma ampla e
diversificada gama de habilidades. Os cientistas têm habilidades e maneiras
de trabalhar que são relevantes e transferíveis para problemas fora da
ciência.

Você se lembra como funciona o método científico. Iniciamos com um


problema de pesquisa que pode ser tanto uma lacuna no conhecimento
quanto um problema real que precisa ser solucionado. Na prática
profissional, muitas vezes encontramos problemas que precisam ser
explicados e solucionados, seja um processo que não funciona como
deveria, um produto defeituoso, uma logística ou gestão ineficiente.

Começamos sempre elaborando uma hipótese. A hipótese deve indicar e


explicar a causa do problema trabalhado. Além disso, é muito importante
que da hipótese derive-se predições. Tais predições são maneiras de
solucionar o problema que serão testadas, a fim de verificar qual traz a
melhor solução. É importante que, sendo pesquisador ou não, você
explicite qual hipótese é, em sua visão, a mais explicativa. Além disso,
também é essencial ter mais de uma hipótese para qual você irá recorrer
caso a sua hipótese básica seja descartada.

Vamos dar um exemplo prático. Uma empresa preocupada com a baixa


produtividade dos funcionários busca meios de alcançar uma melhoria
nesse aspecto. A hipótese inicial é a de que a baixa produtividade está
relacionada a uma motivação deficiente por parte dos funcionários. A
empresa pode, a fim de testar sua hipótese, implementar uma política de
incentivos salariais e progressão salarial por produtividade. Durante um
período de tempo, pode-se observar se a motivação dos funcionários
aumentou ou não através de levantamentos e entrevistas. A partir disso,
busca-se encontrar uma correlação entre maior motivação e produtividade.
Em caso de negativa, a hipótese deve ser reformulada.

Vemos então que podemos incorporar uma mentalidade científica à nossa


prática profissional por meio da aplicação do raciocínio científico. Temos
pelo menos três atitudes que contribuem para o pensamento científico e
podem ser aplicadas a contextos mais amplos.

1. Questionar sempre: os cientistas precisam ser céticos. Como seus


colegas de negócios e da indústria, eles também devem inovar. À
medida que questionam o estabelecido, os cientistas inovam,
surgem novos produtos, designers, áreas. Inovação e
questionamento andam juntos. Na prática, pense se determinado
processo é o mais adequado, se existiria outra forma de aumentar
sua eficiência. A atitude de curiosidade e ceticismo diante da vida
são fundamentais para a inovação.
2. Competitividade colaborativa: os melhores cientistas competem e
colaboram prontamente uns com os outros. Alguém em um campo
ou organização diferente pode ter a chave para desvendar o
problema no qual está trabalhando. Quando os problemas ficam
difíceis, os cientistas querem formar a melhor equipe, mesmo que o
parceiro seja um competidor feroz. Observe que muitos problemas
não podem ser resolvidos isoladamente. Em muitos casos, a
elaboração de uma equipe ou a colaboração de outras pessoas é
necessária para desenvolver a solução de um problema complexo.
Colabore como um cientista.
3. Não ter medo de problemas: o negócio do cientista é o
desconhecido. Muitas vezes é necessário encarar o
desconhecimento, o difícil e o incerto. Para o cientista, o
desconhecido é uma oportunidade a ser perseguida e não evitada.
Nesse sentido, quando surgem problemas, deve-se racionalizar:
divida o problema em hipóteses menores a serem testadas. Avalie
as probabilidades e a inter-relação entre os fatores que afetam a
causa do problema. É importante construir uma equipe que saiba
lidar com a incerteza e volatilidade do conhecimento.

Incorporar um pensamento científico sólido às decisões do dia a dia na


prática profissional pode ajudar a inovação, ao estimular o pensamento
ousado e criativo. Uma mentalidade científica apreende o mundo de uma
forma sistemática: comece com alguma pergunta geral baseada em sua
experiência; formule uma hipótese que resolveria o quebra-cabeça e que
também gere uma previsão testável; reúna dados para testar sua previsão; e,
finalmente, avalie sua hipótese em relação às hipóteses concorrentes.

No entanto, muitas vezes, precisamos agir em estado de ignorância parcial,


com pouco ou nenhum conhecimento acumulado sobre o assunto. Nesses
casos em que não podemos testar nossas hipóteses, o método científico nos
ensina a não inferir muito de qualquer resultado. Às vezes, a única resposta
verdadeira é que simplesmente não sabemos.

O método científico é instrutivo, não para extrair respostas, mas para


destacar os limites do que pode ser conhecido. Uma mente científica deve
sempre permanecer cética sobre o que sabe. Seja cético em relação aos
dados por todos os meios, mas também seja cético em relação a explicações
plausíveis, sabedoria convencional, ideologias inspiradoras, anedotas
convincentes e, acima de tudo, sua própria intuição. O resultado não deve
ser uma paralisia total, nem uma adesão servil aos dados, muito menos
excluir a criatividade ou a imaginação. Em vez disso, deve nos levar a um
mundo mais racional e baseado em evidências.

Nesta seção você refletiu sobre a presença e a importância da ciência na


vida cotidiana, o modo como a produção científica revolucionou as
relações sociais, os hábitos e as necessidades de grande parte da
humanidade. A ciência se destaca não só por seus feitos, mas por ser uma
maneira de pensar. O pensamento científico, ao induzir a criatividade e
inovação, se mostra importante até mesmo para os negócios.

FAÇA VALER A PENA

Questão 1

A ciência e seus frutos são muito úteis para a sociedade de forma em geral,
mas ela não é reduzida ao trabalho em laboratórios. Na verdade, o
pensamento científico pode ser aplicado a contextos mais amplos.

Assinale a alternativa que contém um exemplo de contexto em que é


possível aplicar o método científico.

A. Relacionamentos.

B. Administração de negócios.

C. Crítica de cinema.

D. Avaliação artística.

E. Tratado filosófico.

Questão 2

É uma modalidade de formação continuada que visa o aprofundamento na


área de formação, exige a entrega de uma dissertação e tem o período de 2
anos.

Assinale a alternativa que apresenta a modalidade que o texto se refere.


A. Especialização.

B. Aperfeiçoamento.

C. Mestrado.

D. Doutorado.

E. Pós-doutorado.

Questão 3

Hoje em dia, dada a velocidade em que o conhecimento é produzido,


mesmo as pessoas recém-formadas necessitam de atualização profissional.
Essa atualização pode ser obtida com programas de formação continuada.

Assinale a alternativa que contém um dos principais benefícios da


formação continuada:

A. Garantia de empregabilidade.

B. Diferencial competitivo.

C. Mudança de escolaridade.

D. Publicação de uma tese.

Contato com pesquisadores de outras áreas.

REFERÊNCIAS

BRASIL. Constituição Federal. Presidência da República, v. 1, 1988.

MACHADO, F.. Revolução Industrial - Evolução tecnológica transforma


as relações sociais. Pedagogia & Comunicação. UOL Educação. [s.d].
Disponível em: https://bit.ly/2PzGZrL. Acesso em: 5 fev. 2021.

PASTERNAK, N.; ORSI, C. Ciência no cotidiano: Viva a razão. Abaixo a


ignorância! São Paulo: Editora Contexto, 2020.

PIRES, A. C.; CHACRA, A. R. A evolução da insulinoterapia no diabetes


melito tipo 1. Arquivos Brasileiros de Endocrinologia & Metabologia,
v. 52, n. 2, p. 268-278, 2008.
FOCO NO MERCADO DE TRABALHO
COMO TRADUZIR PESQUISAS PARA
A PRÁTICA PROFISSIONAL?
Amanda Soares de Melo

Fonte: Shutterstock.

SEM MEDO DE ERRAR


Você foi contratado por uma empresa a fim de promover melhorias na
produção de uma peça metálica. Aplicando o método científico do início ao
fim dos estudos, você tira algumas conclusões e elabora um teste de
hipótese baseado em duas observações: I. A peça metálica possui um
grande risco em um dos seus componentes. II. Foi constatado que a
máquina responsável pela manufatura estava suja durante a produção do
componente. Sua hipótese básica pode ser a de que o risco foi ocasionado
pela sujeira da máquina. Com base nessa hipótese, temos de elaborar um
teste para que ela seja corroborada ou falseada.

Intuitivamente, a predição é que após a máquina ser limpa, não irá ocorrer
mais riscos. Assim, a experimentação será feita em um ambiente
controlado com a utilização de uma máquina em condições semelhantes
àquela inicial que passe por uma limpeza padronizada. Após esse
procedimento, deve-se verificar em uma certa amostragem, como em uma
amostragem de 1.000 peças, se há algum risco semelhante ao reportado
inicialmente.

Após a realização dos testes, inicia-se a análise dos dados e resultados.


Alguns dos resultados possíveis podem ser:
A. O risco sumiu em todas as peças e ao final da produção a máquina
estava limpa.
B. O risco não sumiu em todas as peças e ao final da produção a
máquina estava suja.
C. O risco não sumiu em todas as peças e ao final da produção a
máquina estava limpa.

A análise aponta que se o resultado for A, então provavelmente a hipótese


pode ser corroborada.

Caso o resultado seja B, então a máquina está se sujando durante a


produção e produzindo o risco em algumas peças. Se C for verdadeiro,
então a sujeira pode não ser a causa dos riscos, ainda que possa ser um
efeito secundária da causa.

Caso B seja verdadeira, precisamos reformular as hipóteses. A nova


hipótese para B, pode ser: a máquina está se sujando durante o processo e a
sujeira é responsável pelo defeito.

Assim, o novo teste de predição poderia ser a elaboração de um novo


procedimento que limpe a máquina durante o seu funcionamento.

Caso C seja verdadeira, também precisamos reformular as hipóteses. A


nova hipótese para C depende do levantamento de outras possíveis causas
para o defeito da máquina, uma vez que a sujeira é, nesse caso, descartada
como agente causador do risco. Ela pode ser um efeito secundário do mal
funcionamento ou estar relacionada com a manutenção de outro
componente que foi corrigido durante a limpeza.

AVANÇANDO NA PRÁTICA

PENSAMENTO CIENTÍFICO APLICADO AOS NEGÓCIOS


O diretor do RH de uma empresa elabora um novo treinamento para os
funcionários com uma metodologia de ensino que se baseia no pensamento
científico. O objetivo desse treinamento é promover entre os funcionários a
criatividade, a inovação, o espírito colaborativo e uma maneira mais
produtiva de lidar com os desafios. Para auxiliá-lo, você deve indicar quais
possíveis fundamentos e pilares que esse treinamento deve ter, visando o
alcance dos objetivos definidos pelo diretor.

RESOLUÇÃO
Para a situação problema em questão, a partir da aplicação do pensamento
científico à esfera profissional, temos pelo menos três posturas que podem
ser incentivadas no treinamento a serem adotadas pelos funcionários da
empresa. São elas:

1. Questionar sempre: os cientistas precisam ser céticos. Como seus


colegas de negócios e da indústria, eles também devem inovar. À
medida que questionam o estabelecido, os cientistas inovam, surgem
novos produtos, designers, áreas. Inovação e questionamento andam
juntos.
2. Competitividade colaborativa: os melhores cientistas competem e
colaboram prontamente uns com os outros. Em muitos casos, a
elaboração de uma equipe ou a colaboração de outras pessoas é
necessária para desenvolver a solução de um problema complexo.
3. Não ter medo de problemas: para o cientista, o desconhecido é uma
oportunidade a ser perseguida e não evitada. Nesse sentido, quando
surgem problemas, deve-se racionalizar: dividir o problema em
hipóteses menores a serem testadas, avaliar racionalmente as
probabilidades e a inter-relação entre os fatores causadores do
problema.

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