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Aula 3 – Formação Econômica do Brasil – Villela – 10/02/2014

A ideia de um “projeto colonizador” de implantar uma indústria açucareira aqui nas


américas pra gerar excedente em benefício da burguesia metropolitana não se
sustenta. Vieram pessoas aqui pra implantar a econ açucareira? Sim, parte da
burguesia que conseguiu arrecadar recursos implantou engenhos de açúcar no litoral,
o que era custoso, mas isso não esgota ou resume a natureza da presença portuguesa
aqui no brasil, essa era uma atividade importante, a mais importante
economicamente, mas do ponto de vista demográfico não era o que ocupava a amior
parte dos indivíduos aqui na colônia, que não faziam parte de um “projeto de
colonização”, até mesmo os senhores de engenho, eram simplesmente pessoas que
perceberam uma forma de lucratividade ou de melhoria de vida e por isso pra cá
vieram, mas não por um super plano de colonização.

Dos 100 mil em 1600 e 300 mil em 1700, lembrando, os brancos eram grande maioria.
Pode-se falar de um proposito colonizante, mais bem pensado e tal, a partir do sec
XVIII com o ciclo do ouro. O controle da coroa portuguesa não é ausente nesses
primeiros duzentos anos, ele existe, é reforçado durante a união ibérica, mas mesmo
assim o resultado prático disso é escasso e a presença de europeus nesse início é
pequena.

Obs: tripé constituinte = latifúndio, monocultura exportadora e escravidão, que não


caracteriza unicamente o período colonial.

O que caio prado jr chama de “desocupados” e seres fora do organismo social da


colônia e que classifica como “poucos”, a historiografia atual concorda que eram
indivíduos sim dentro da economia colonial, desempenhando papeis importantes, não
eram tão poucos e, dependendo do periodo ou do local, poderiam até ser maioria e
que aquela pirâmide social colonial, com um cume muito pequeno de brancos, um
meio “desprezível” de “desclassificados” e uma enorme base de escravos negros já é
mais do que considerada, pelos fatos, errada. A sociedade colonial era muito mais
complexa de organizar do que isso, a realidade de um engenho, talvez semelhante a
essa tal pirâmide em muitos casos, não era nem de perto o reflexo de toda a sociedade
colonial.

Voltando ao tripé, lembramos que é a própria definição de plantation, uma ideia que
foi gestada aqui nas américas, foi o primeiro caso histórico mais sistemático de
plantation.

Uma questão: por que da escravidão aqui na américa portuguesa? Uma questão de
incentivo: se fosse pra sair da metrópole e ir pra um lugar totalmente incerto, que
fosse pra ser patrão, não assalariado, tudo isso diante de uma fronteira aberta, ou
seja, seria inviável atrair todo um contingente pra ajudar a povoar as américas se não
fosse a promessa de terra fácil e trabalho barato.

Quando se fala de escravidão, ainda, se pensa no escravo negro africano, porém ao


longo do sec XVI, na primeira fase de expansão da cultura açucareira, a MDO escrava
era indígena, os ditos “negros da terra”. Forma utilizados largamente na produção de
açúcar até mais ou menos o final do XVI, muito em função tb de uma epidemia de
cólera que acometeu as população ameríndias, acentuando o processo de mudança
pra mdo negra. Essa mudança foi possível graças a uma pré existência de um mercado
transatlântico de escravos africanos, do qual os portugueses já faziam parte naquelas
feitorias africanas. Lembrando que esse comercio não era só de africanos negros, mas
também brancos do norte e até europeus, tudo isso desde a antiguidade. Havia um
primeiro grande fluxo de escravos que vinham da parte tropical da africa, em
caravanas, e iam na direção do norte da africa, e o outro grande fluxo é daqueles que
iam em direção ao indico, lá embarcados pro oriente médio e restante da ásia. Se
tinha, portanto, um vigoroso comercio de captura de escravos africanos, pra alimentar
as duas rotas, que eram controladas por árabes, mas se tinha na própria sociedade
africana tropical o uso de escravos, utilizados nas mais diversas atividades. Uma
importante distinção, todavia, é a de que essas sociedades africanas, por mais que
fizessem uso de escravos, não eram sociedades escravistas, ou seja, constituídas com
base na MDO escrava, como foram as américas, onde se criou toda uma atividade
econômica baseada na MDO escrava.

Números gerais: 12 milhoes de escravos trazidos pras américas no todo. 4 milhoes só


pro brasil.

A questão da escravidão: passa-se a impressão, pelas aquarelas de Debret, por


exemplo, errada de que a relação do escravo com o seu senhor era sempre de muita
crueldade contra os escravos e passividade por parte deles. A literatura mais atual
sugere é a de que o escravo, antes de escravo e propriedade de alguém,
desindividualizado, era um indivíduo, e que existiam as formas das mais diversas dessa
relação dono-escravo ou mesmo de como o individuo se tornou escravo. Tenta-se
quebrar essa imagem reducionista e errada do escravo sendo mera vitima passiva de
um dono, mas que, sim, havia formas super variadas de lutar contra sua condição de
escravo. Fuga, rebelião, assassinato, etc, eram formas de afirmar sua individualidade e
contestação. Temos que ter em mente que essa historia tradicionalmente contada que
enfatiza grandes processos, como o de colonização, com sentidos pré-estabelecidos
pela metrópole ou que tava acontecendo em termos da europa na passagem do
feudalismo pro capitalismo, ou igualmente o papel de escravos dentro dessa grande
engrenagem como sendo mero objetos que eram comprados visando maximizar o
excedente colonial que seria usado pra ajudar a acumulação primitiva da europa e
quem sabe até a revol ind é um tipo de visão da historia que hj em dia é muito pouco
aceita. O Escravo não era uma simples peça dentro de uma grande maquina, a
escravidão era sim uma instituição importate dentro da econ açucareira e de outras
atividades, mas isso não elimina a condição de agentes dos escravos. Pode ser um
agente muito mais limitado nas suas escolhas, mas não quer dizer que não houvesse
escolhas: podiam fugir, matar um senhor, se rebelar, constituir família (esse que podia
ser considerado uma forma de resistência, o espaço familiar que é intrinsicamente
particular e vai muito além dessa ideia de escravo passivo-objeto, e que se tornou
comum com o tempo), etc.

Do ponto de vista cronológico: implantação da ind açucareira em pontos do litoral, em


particular no em torno do recôncavo baiano, região de recife e de Olinda, no final do
XVI e inicio do XVII alguma coisa no RJ e Guanabara. Era a principal atividade econ mas
não era a única. Mas quais outras? Tabaco, agricultura de “subsistência” (aqui vale um
obs de que talvez houvesse sim excedentes dessa agricultura de baixa produtividade,
mas em havendo, pra ser comercializado, teria que haver tecnologia de transporte e
etc que tornasse essa atividade rentável, mas, pelo interior, o “sertão”, o transporte
era muito caro e ineficiente, então só coisas MUITO valiosas se justificavam pra serem
transportadas internamente: gente, escravos, índios, que era a atividade das
bandeiras) – villela se perdeu no parênteses*

Em termos de mobilização de capital, os traficantes de escravos, COLONIAIS, estavam


acima dos senhores de engenho, ou seja, a atividade que mais mobilizava dinheiro era
o tráfico de escravos, não a produção açucareira, valendo ressaltar que por ser uma
atividade de altíssimos custos, apresentava também altíssima rotatividade, e somente
para os melhores senhores de engenho a vida era realmente nadar em dinheiro. Tudo
isso, de novo, entra em conflito com as ideias originais de Caio Prado Jr e Roberto
Freire da sociedade colonial em forma de pirâmide. Além disso também se tinha a
agricultura voltada pro mercado interno, de MDO escravistas, mas com modelo
totalmente diferente da produção açucareira.

OBS: escravo tinha acesso a justiça, e a historia mostra diversos casos de escravos que
ganharam e até compraram sua alforria. Era, portanto, uma atividade regularizada, o
individuo tinha certos direitos e tal. Outra questão também importante é a ideia de
“exploração de potencias europeias” sobre os pobres escravos africanos: sem sentido.
Eram indivíduos, muitas vezes até coloniais como vimos aqui, querendo comprar
escravos e indivíduos querendo vender. Europeu não podia nem entrar no território
africano pra brincar de achar escravo, eram locais que tratavam de todo o processo até
chegar num porto ou feitoria pra europeu, americano e etc., comprar.

Então, voltando, que outras atividades eram feitas aqui? Tabaco, grãos, mandioca,
captura de escravos, mas é valido enfatizar que do ponto de vista econômico, social e
mesmo espacial, a atividade econ da colônia mesmo nos primeiros 200 anos não ficava
restrita ao litoral e no litoral restrita ao açúcar, porque se tinha uma serie de outras
regiões nas quais o açúcar não vingava, como o semi arido nordestino, região
amazônica, planalto paulista, etc. Essas regiões seriam mais periféricas em relação ao
núcleo mais rico e dinâmico aqui do litoral (relativamente, pq em geral era uma
pobreza danada). Em SP se tinha captura de índios, alguma produção de alimentos,
amazonia seria um SP tardio, os dois com grande miscigenação por haver uma minoria
de brancos cercados por um numero enorme de índios. Amazônia é tardia pq só
começa com a fundação de Belém, durante a união ibérica em 1600 e pouco, e que
nem em SP se tinha a minoria branca cercada de índios, mas de forma mais latente se
tinha extração de drogas do sertão, ambas as regiões muito pobres, mas SP
melhorzinho por causa do trafico de escravos. Se tinha também a região mais ligada a
atividade açucareira, nordestina, onde se tinha a pecuária. Ao contrario do que se
imaginava era uma atividade compatível com a escravidão, pq o cara que tocava a
atividade era um escravo, mas tinha sua casa, quase tao pobre quanto o dono do
negocio, tinha direito ao terço, um terço do rebanho, de forma que podia até abrir seu
próprio negocio, e era uma atividade que fornecia couro, carne pro litoral, tração pra
engenho e pra carro de boi, atividade que fazia uso de MDO escrava, assim como o
plantio de tabaco, ou seja, tinha o uso de escravo mas não necessariamente de
grandes quantidades, isso, inclusivo, era raro, principalmente nesses primeiros 200
anos. Essas são as chamadas atividades periféricas, são complementadas com o plantio
de alimentos, muita disputa pelas melhores terras na região costeira (o que gerava
varias mudanças de legislação pra tentar organizar essa disputa), etc. A economia
colonial era muito mais do que o engenho, o tripé do caio prado, do que a pirâmide, e
tal.

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