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Eichengreen Cap. 4 O sistema Bretton-Woods

Introdução do capítulo

Mesmo após 30 anos de sua extinção, o sistema monetário internacional baseado no acordo de Bretton-woods permanece um enigma: Para alguns, Bretton-Woods foi essencial para a idade de ouro do crescimento no pós- guerra, já que proporcionou estabilidade cambial, se comparado a períodos anteriores. Também acabou com problemas de pagamentos, permitindo a expansão no comércio e nos investimentos internacionais que fomentaram esse crescimento. No entanto, outras opiniões sobre Bretton-Woods são menos positivas: A facilidade dos ajustes foi uma conseqüência e não a causa do crescimento acelerado e a estabilidade cambial com a abertura dos mercados fora apenas ilusória: a maioria dos países restringiu a movimentação de capital internacional durante todos os anos em que vigorou o acordo. Os investimentos estrangeiros no pós-guerra aconteceram apesar, e não por causa, de Bretton-Woods.

Três fatores que diferenciam o sistema Bretton-woods do padrão ouro- dividas: 1 - O câmbio tornou-se ajustável, sujeito a condições específicas (“desequilíbrio fundamental”). 2 - Aceitavam-se controles para limitar o fluxo de capital internacional. 3 Uma nova instituição, o FMI, foi criada para monitorar as políticas econômicas nacionais e oferecer financiamentos para equilibrar as balanças de pagamentos em situações de risco. Essas inovações foram criadas graças para solucionar problemas que os gestores tinham herdado das décadas de 20 e 30: O câmbio ajustável era um instrumento para eliminar déficits na balança de pagamentos uma alternativa coerente aos aumentos deflacionários das taxas de redesconto. O controle de capital, por sua vez, tinha a função de controlar capitais mais voláteis do tipo que desestabilizaram nas duas décadas antes da guerra. O FMI, dispondo de recursos financeiros, poderes de monitoração e uma cláusula de escassez de divisas, tinha condições de “policiar” políticas econômicas nacionais que desestabilizassem o sistema internacional, além de oferecer recompensações aos países prejudicados.

No entanto, na prática, tais elementos não funcionavam de forma harmoniosa:

O sistema de câmbio ajustável revelou-se uma contradição em termos, pois mudanças de paridade, especialmente por parte dos países industrializados situados no centro do sistema. A monitoração do FMI mostrou-se um “leão desdentado”, uma vez que os recursos do fundo tornaram-se muito pequenos frente às necessidades de pagamentos no pós-guerra e a cláusula de escassez de liquidez, concebida para punir países cujas políticas fossem desestabilizadoras, nunca fora aplicada.

Os controles de capitais constituíram-se o único elemento que funcionou mais ou menos como o planejado. Na conjuntura nos 25 anos após a segunda guerra, onde os governos fizeram amplas intervenções em suas economias e em seus sistemas financeiros. Havia limites às taxas de juros; foram impostas restrições aos tipos de ativos nos quais os bancos poderiam investir; os governos regulavam os mercados financeiros para canalizar créditos para setores estratégicos. A necessidade de conseguir licenças de importação complicava os esforços para canalizar transações de capital através das contas correntes. Os controles foram capazes de conter a enxurrada, porque não eram somente um obstáculo na turbulenta corredeira, pelo contrário: os controles eram parte de uma série de instrumentos e mecanismos com a ajuda das quais foram domadas “águas turbulentas”.

A eficiência do controle de capitais, no entanto, não deve ser superestimada:

eles foram eficazes mais nas décadas de 40 e 50 do que posteriormente. Com o relaxamento da regulação doméstica e as restrições impostas às contas correntes, em 1959, tornou-se mais fácil sub ou superfaturar importações e exportações e recorrer a outras formas de canalizar transações de capital através das contas correntes. Mesmo assim, é incoerente refutar a importância dos controles de capitais no pós-guerra: as necessidades de reconstrução nessa época eram imensas, levando os governos a testar permanentemente seus limites. O contrato social do pós-guerra, que tinha o compromisso da manutenção do pleno emprego e crescimento dificultava a utilização de instrumentos convencionais, como a redução de gastos, no caso de países deficitários em balança condição esta que se mostrou rotineira em diversos países. Dado este cenário, o único fortalecer a balança comercial seria com a grande ajuda do controle de capitais. Também graças às pressões sociais, mecanismos como elevação da taxa de juros para restabelecer a balança comercial como acontecia na época do padrão-ouro- também não eram mais politicamente aceitáveis. O FMI não tinha poder o suficiente para influenciar as políticas econômicas nacionais e não tinha reservas o suficiente para financiar os desequilíbrios nas balanças de pagamentos. Permitir que os países promovessem mudanças nas taxas cambiais apenas em casos de desequilíbrio fundamental impediu tais países de adotar políticas de compensação de gastos para antecipar os problemas. Isto é: o câmbio só poderia ser modificado em casos de crise; e, para evitar novas crises, tais permissões não eram sequer consideradas. Os controles de câmbio preencheram a lacuna dos mecanismos de ajuste, estrangulando a demanda por produtos importados quando a restrição externa começava a se fazer sentir. Mas, a partir de 1959, com a restauração da conversibilidade das contas correntes, esse instrumento já não estava mais disponível. Os controles sobre transações na conta de capital permaneceram, mas a aplicação dos mesmos não assegurou a possibilidade de

ajustamento, ela apenas adiou o fim do acordo. Com a existência de um mecanismo de ajuste, o colapso do acordo de Bretton-Woods e do sistema financeiro nele baseado tornou-se inevitável.

O planejamento durante a Guerra e suas conseqüências

O planejamento da ordem monetária no pós-guerra inicia-se em 1940 no Reino Unido e de 1941 nos EUA. Nos termos da Carta do Atlântico de agosto de 1941 e do Acordo de Ajuda Mútua, de fevereiro de 1942, os britânicos assumiram o compromisso de restaurar a conversibilidade da libra em conta corrente e aceitaram o princípio de não-discriminação comercial em troca da ajuda norte- americana de oferecer ajuda financeira em termos favoráveis e de respeitar a prioridade que os britânicos atribuíram ao pleno emprego. Tais acordos tiveram o empenho de John Maynard Keynes e Harry Dexter White, economista do tesouro americano. Embora com planos que divergissem entre si, foram, ao longo do tempo, alinhando seus objetivos. As versões finais, publicadas em 1943, formaram a base da Declaração Conjunta dos especialistas americanos e britânicos e dos Artigos de Acordo do Fundo Monetário Internacional.

As diferenças entre os planos de White e Keynes estavam nas obrigações que eles impunham aos países credores na flexibilidade das taxas de câmbio e na mobilidade de capitais por eles admitidas.

- O plano Keynes teria permitido aos países modificar as taxas de câmbio e

adotar restrições cambiais e comerciais conforme necessário para compatibilizar o pleno emprego com o equilíbrio da balança de pagamentos.

- O plano White, em contraste, previa um mundo livre de controles e de

paridades fixas sob a supervisão de uma instituição internacional com poder de veto sobre mudanças nessas paridades. Para impedir que políticas deflacionárias estrangeiras obrigassem países a importar desempregos, a Clearing Union de Keynes previa um grande volume de recursos para financiamento da balança de pagamentos (sujeito a crescentes taxas de juros, como forma de punição) e substancial flexibilidade cambial. Isso obrigaria os EUA a, devido aos persistentes superávits, financiar a

totalidade de direitos de saques de outros países. Previsivelmente, os EUA declinaram a proposta, argumentando que tal proposta “envolveria obrigações ilimitadas para credores em potencial”. O congresso recusou-se a assinar o que chamada de “cheque em branco”. Por esta razão, o Plano White limitou os direitos totais de saque a um teto muito baixo, de US$ 5 bi, e a obrigação norte-americana a US$ 2 bi. Os Artigos de Acordo, em sua versão final, fecharam os valores em US$8,8 bi(mais próximo aos 5 bi de White que aos 26 bi de Keynes) e as obrigações norte-americanas em 2,75 bi(também mais próximo aos 2 bi de White do que aos 23 bi propostos por Keynes). Quanto

menos generoso o acordo, maior a necessidade pela flexibilização de câmbio, descartando as propostas americanas pela paridade fixa foram descartadas. O compromisso entre a insistência norte-americana em que as paridades permanecessem fixas e a pressão britânica para que elas fossem ajustáveis foi, previsivelmente, o “câmbio ajustável”. O acordo exigia que que os países fixassem valores ao par entre suas moedas expressos em ouro ou em uma moeda conversível(o que, na prática, significava o dólar) e mantivessem suas taxas de câmbio dentro de uma banda de 1% em torno daqueles patamares. Os valores de paridade poderiam ser alterados em até 10% para corrigir um eventual “desequilíbrio fundamental” após consultas com o Fundo, embora sem sua aprovação prévia, e em margens mais amplas com aprovação de ¾ dos países pertencentes ao Fundo com direito a voto. Além disso, os acordos permitiam a manutenção de controles sobre os movimentos de capital internacional o contrário do que White defendia o que representou uma resposta à insistência norte-americana na limitação do volume de financiamentos, descritos anteriormente. Por último, os britânicos obtiveram a aprovação da cláusula da escassez de divisas que autorizando o controle sobre importações de países que registrassem persistentes superávits em suas balanças de pagamentos e cujas moedas se tornassem escassas no âmbito do Fundo. Isso aconteceria se, por exemplo, os superávits acumulados dos EUA chegassem a US$ 2 bi e sua contribuição para os recursos do fundo fosse totalmente utilizada para financiar os déficits em dólar dos outros países. O FMI acompanharia estes controles através de um relatório de avaliação destes, orientando-os em suas políticas para facilitar a eliminação desses controles. Caso um país não apresentasse progresso suficiente, seria solicitado que deixasse o FMI.

A crença de que este sistema poderia funcionar se demonstrou ingênua: As reduzidas cotas e direitos de saque referidos nos Artigos de Acordo tornaram- se pequeníssimas diante da escassez de dólares registradas antes de o FMI começar a funcionar, 1947. A Europa do pós-guerra tinha imensas demandas de produtos alimentícios, bens de capital e mercadorias produzidas no EUA frente a uma capacidade limitada para exportar. Isso provocou uma deterioração da balança comercial européia, Através do Plano Marshall, os EUA proporcionaram cerca de US$ 13 bi em ajuda intergovernamental para financiar déficits europeus, montante este superior ao previsto no acordo. No entanto, a idéia de se manter paridade cambial revelou-se inviável. Em setembro de 1949, as moedas européias sofreram desvalorização de 30%, em média e, ainda sim, revelou-se impossível eliminar os controles sobre as importações.

Claramente, houve um erro de avaliação por parte dos norte-americanos quanto a situação econômica européia e japonesa e aos custos de reconstrução do mundo devastado pelos conflitos. O governo dos EUA acreditava que o comércio internacional seria capaz de recuperar a economia destes países. Amplos acordos fariam crescer a interdependência das economias alemã e francesa, evitando conflitos políticos e diplomáticos, prevenindo que estes países voltassem a guerrear entre si. O comércio seria o combustível para a recuperação econômica e fonte de receitas em moeda forte necessárias para importação de bens de capital e matérias-prima. Recuperada, a Europa poderia voltar a exportar e, conseqüentemente, recuperar sua balança comercial e o estoque de reservas voltaria ao equilíbrio, permitindo a manutenção do sistema de conversibilidade de moeda.

A defesa do livre-comércio pelo governo dos Estados Unidos tinha o apoio da indústria norte-americana, que considerava os mercados externos vitais para a prosperidade do pós-guerra e enxergava no sistema britânico de preferência imperial um obstáculo ao acesso norte-americano aos mercados. Havia mais entusiasmo pelo impulso do livre-comércio resultante do acordo Bretton Woods do que pela provisão monetária deste. Talvez seja tal impulso que tenha feito com que o congresso norte-americano ratificasse o acordo. A insistência americana na adoção de um sistema de paridades fixas, cujas taxas só poderiam ser substancialmente apenas sob aprovação do FMI, pretendia evitar o tipo de instabilidade monetária internacional que prejudicasse a reconstrução de seu comércio. O próprio acordo possuía artigos que obstruíram a atuação dos bancos centrais dos países, como limitar pagamentos de conta corrente sem a aprovação do fundo, assim como também instruíam os países a eliminarem restrições monetárias significativas ao comércio.

No entanto, tais medidas não foram adotadas pelos países europeus. Em vez de eliminar tais barreiras, a Europa ocidental conservou as barreiras durante a guerra e, em alguns casos, adotou novas restrições. Na Europa oriental, os controles cambiais para eliminar as brechas que teriam prejudicado o comércio entre as nações. Os países da América Latina valeram-se de diferentes taxas de câmbio para promover sua industrialização à base da substituição de importações. Embora alguns países registrassem um lento progresso na remoção de obstáculos monetários ao comércio e outros chegassem até a recuar neste processo, de modo geral, registrou-se um movimento no sentido de uma liberalização, mas o prazo estabelecido pelo FMI mais que dobrou para que isso acontecesse.

Há diversas explicações para o motivo desta liberalização não ter acontecido mais rapidamente:

A implementação de um sistema mais liberal teria forçado os países europeus a

aumentarem suas exportações, implicando numa sensível desvalorização do câmbio, para tornar seus produtos mais competitivos no cenário. Os governos resistiriam à liberalização, argumentando que esta provocaria uma deterioração nos termos de troca e queda no padrão de vida, o que provocaria uma ameaça à recuperação da economia. O FMI aceitou tal argumento. Os europeus acreditavam que o investimento era o motor chefe da recuperação econômica, os americanos, por sua vez, acreditavam que era o comércio. Um

corte nos investimentos seria visto pelos trabalhadores europeus como uma quebra no compromisso pelo pleno emprego, além de retardar a recuperação e crescimento econômico. Acima de tudo, os esforços pela liberalização do comércio defrontaram-se com um problema de coordenação:

a necessidade de os países europeus agirem simultaneamente.

A crise da libra esterlina e o realinhamento das moedas européias.

Embora a inflação não tenha avançado tão rapidamente na Grã-Bretanha como nos demais países europeus, e não havia evidências de que a libra esterlina estivesse com um câmbio supervalorizado em termos de paridade de poder de compra. Além disso, a destruição da infra-estrutura e da capacidade industrial do país pela guerra não fora tão grande quanto em outros países da Europa. No entanto, enquanto outros países da Europa mantivessem tarifas elevadas e restrições quantitativas, a margem para exportações era limitada: o país descobriu-se incapaz de penetrar suficientemente em outros mercados europeus para gerar receitas necessárias para dar sustentação a uma moeda conversível.

A tentativa britânica em restaurar a conversibilidade resultou ainda mais

negativamente na já delicada situação financeira do país. O país sofria com um excesso de moeda em circulação (devido aos esforços de guerra) que não acompanhara o crescimento nominal do PIB, refletindo a utilização de mecanismos de controle de preço para conter a inflação. Os estoques de ouro e de dólar em poder do governo haviam caído pela metade, os ativos externos

haviam sido requisitados e os controles sobre investimentos externos impediram que os britânicos os substituíssem. Para evitar medidas mais radicais, o governo britânico procurou limitar a conversibilidade de dólares às libras obtidas em transações correntes, bloqueando os saldos existentes através de inúmeros acordos bilaterais.

A decisão irresponsável de restabelecer a conversibilidade, na verdade, não foi britânica, mas americana: em 1946, os EUA concederam à Grã-Bretanha um

empréstimo na ordem de US$3,75 bi sob a condição de que esta concordasse em restabelecer a conversibilidade de sua conta corrente após um ano da aprovação do empréstimo, cinco anos antes do que previa o acordo de Bretton Woods. As seis semanas que se seguiram foram um desastre: as quedas nas reservas foram enormes; o governo, vendo suas reservas aproximarem do esgotamento, suspendeu a conversibilidade com o consentimento norte- americano. O empréstimo, que deveria durar até o fim da década, durou algumas semanas. A insistência americana deveu-se à chamada preferência imperial e tinha como propósito impor condições competitivas aos britânicos, além de um avanço na criação de um sistema aberto de comércio multilateral. Depois do ocorrido na Grã-Bretanha, os EUA aceitaram as políticas européias, surgindo, logo em seguida, com o Plano Marshall.

Embora a transferência de valores substanciais prometida pelo plano tenha ocorrido, a situação européia continuou frágil. A fuga de capitais afetava toda a Europa, assim como a situação política nestes. A França, por exemplo, desvalorizou sua moeda frente ao dólar, visando um aumento nas exportações, produziu ineficiências e desvantagens para outros países, além de ser exatamente o que o acordo de Breton Woods condenava. O FMI, como punição, anunciou que a França não teria direito a utilizar os recursos do fundo, obrigando os franceses a recuarem de sua posição. Por fim, o socorro prestado pelo Plano Marshall aliviou as dificuldades enfrentadas pelos beneficiários da ajuda.

A recessão norte-americana em 1949, no entanto, gerou uma desvalorização do dólar, afetando os níveis de exportação e importação, levando novamente a uma fuga de reservas na Grã-Bretanha, que voltou a ter problemas, além de desvalorizar sua moeda. Como num efeito cascata, 23 outros países desvalorizaram uma semana após a Grã-Bretanha tomar a medida. A maioria destes países já havia sofrido problemas com a balança de pagamento e uma desvalorização da libra só mostrava que as coisas iriam se agravar. O movimento deu resultado e produziu os efeitos desejados, levando vários países europeus, incluindo a Grã-Bretanha, a estancarem a fuga de suas reservas e, algum tempo depois, mais que dobrarem-nas. Dada a escassez de dólar, embora moderada, mostrou aos países que seria difícil cumprir o prazo adotado pelo FMI. Os países envolvidos chegaram ao consenso de que esse problema exigia medidas monetárias internacionais extraordinárias.

A união européia de pagamentos

Tais medidas extraordinárias envolviam a criação de uma entidade complementar ao FMI A União Européia de Pagamentos (UEP) cuja função seria enfrentar os problemas europeus nas esferas do comércio e de contas externas. Inicialmente, fora idealizada para funcionar por dois anos, começando em 1950, mas, no entanto, se estendeu até 1958. Em determinado nível, a instituição fora resultado direto do modelo do concebido por Bretton- Woods: Seus membros (Europa ocidental e suas colônias) reafirmaram a intenção de caminhar simultaneamente rumo a conversibilidade de contas correntes, estabelecendo uma série de códigos que impunham a eliminação de restrições à conversão entre as moedas a fim de transações em conta corrente, como redução de barreiras etc. Os países que apresentavam déficit com a UEP teriam acesso a créditos, embora devessem fazer compensação em ouro ou dólares com seus parceiros, uma vez esgotadas as cotas, assim como previa os artigos do acordo entre EUA-GBR(“Artigos de Acordo”).

Em outro nível, a UEP se afastou do acordo de Bretton Woods e se contrapôs às instituições por ele estabelecidas: ao aceitar os códigos acordados pelos europeus, os EUA admitiram o irrealismo no cronograma estabelecido por Bretton Woods prevendo o restabelecimento da conversibilidade nas contas correntes.Ao contribuir para assegurar créditos adicionais para cobertura dos balanços de pagamento, os EUA reconheceram as inadequações das cotas previstas pelos acordos EUA-GBR(“Artigos de Acordo”). Ao permitir que os países da UEP reduzissem barreiras ao comércio entre elas mais rapidamente do que as barreiras às importações norte-americanas, estes aceitavam a prática de uma discriminação comercial. Admitiam, assim, que a escassez de dólares no pós-guerra era o problema monetário central do período. Da mesma forma, os europeus, ao aceitarem uma instituição que defendia políticas discriminatórias, admitiam o que o acordo de Bretton Woods não havia dito explicitamente: que o regime monetário internacional do pós-guerra era um sistema assimétrico no qual os EUA e o dólar desempenhavam papéis excepcionais.

A confirmação do fato de que a UEP divergia de Bretton Woods fora admitida de diversas maneiras: As compensações internacionais seriam feitas pelo Banco para Compensações Internacionais e não pelo FMI. A diretoria executiva da UEP ficava em Basiléia (Suíça) e não em Washington, os códigos acordados entre os europeus como o Código de Liberalização em vez de ser um anexo dos Artigos de Acordo, foi uma criação da OCEE(Organização de Cooperação Econômica Européia). Na prática, a supervisão da restauração do comércio e da conversibilidade em contas correntes fora retirada das instituições estabelecidas por Bretton Woods, enfraquecendo sua autoridade.

Se um fator pode explicar o desvio do caminho aberto por Bretton Woods, foram as crises de 1947 e 1949, que impossibilitaram para os EUA a negação dos problemas nos ajustes do pós-guerra.O surgimento da guerra fria cristalizou a mudança neste sentimento. Os soviéticos ainda não tinham estabelecido na Europa oriental a sua esfera de influência nem emergido como ameaça à estabilidade política do ocidente. Em 1950, no entanto, a guerra fria já era uma realidade e a URSS tinha se recusado a assumir suas obrigações como membro do FMI, forçando os EUA a aceitar políticas discriminatórias por parte da Europa ocidental, facilitando sua recuperação e minando uma possível ação por parte de partidos alinhados com a URSS e suas ideologias.

A autoridade das instituições de Bretton Woods foi enfraquecida não só pela natimorta OIC como também pela decisão do FMI e do Banco Mundial de se afastarem dos problemas de pagamento na Europa pós-guerra. Isto, no entanto, não significa que tais instituições ignoraram os problemas europeus, mas as ajudas dadas ao continente não fora suficiente para resolver os problemas, demonstrando lentidão em agir, com problemas de pagamentos cada vez mais freqüentem. O FMI aceitou as exigências norte-americanas de se abster de ajudar países que estivessem recebendo ajuda do Plano Marshall, não ampliando seus fundos, mesmo com um facilitamento ao seu acesso, graças a acordos assinados a partir de 1953, enfraquecendo a posição do Fundo em ajudar os países com desequilíbrio no pós-guerra.

Problemas de pagamentos e controles seletivos

Grã Bretanha, França e Alemanha estavam havia muito tempo no centro das questões monetária européias. Isso nunca foi mais verdadeiro do que na década de 50, embora estas potências e suas moedas tivessem ficado para trás frente aos EUA e o dólar. Em todos estes três países, a segunda guerra mundial, assim como a primeira, fortaleceu a posição dos trabalhadores, fazendo com que partidos de esquerda de base operária conquistassem respeito no cenário político. Assim como depois da primeira guerra, os trabalhadores pressionavam por maiores salários, impostos sobre ricos e expansão de programas sociais. A essa lista, acrescenta-se após a II guerra exigências sobre controles da taxa de juros, os fluxos de capitais, preços, aluguéis e expansão das atuações governamentais. Uma acomodação com os partidos era vital para que não ocorressem greves e crises políticas, atrapalhando sua recuperação e crescimento. Do ponto de vista do ajuste dos balanços de pagamentos, o compromisso em relação ao crescimento e o pleno emprego eram fundamentais. À época do padrão-ouro, o instrumento utilizado para acabar com os déficits em contas correntes era a taxa de juros, o que tinha como reflexos o desestímulo a formação de capital e investimentos negativo para o

crescimento econômico e para o pleno emprego. Logo, após a guerra, tal instrumento fora inutilizado. O único recurso, então, era o controle de câmbio. Como essas medidas eram tomadas em conjunto com a UEP, tornou-se aceitável para seus parceiros de comércio.

Devido a algumas crises na balança de pagamentos, como a da Alemanha, em 1950(devido à guerra da Coréia), esta economia entrou em acordo com a UEP e adotou os controles de câmbio (e limitando as importações) recebendo também um aporte de U$120 milhões, dando em troca a garantia de aumentar impostos para limitar o consumo. A Alemanha, já em 1951, se recuperou de crise e pode pagar o empréstimo da UEP.

A Grã-bretanha e seus esforços para enfrentar as dificuldades podem ser escritas de forma semelhante. Depois do crescimento explosivo do preço das commodities devido à Guerra da Coreia, os preços voltaram ao normal e com a queda da nas receitas na área da libra, houve um problema na balança de pagamentos. No fim de 1951, os ministros das finanças dos países do Commowealth assinaram um acordo tornando mais rígido o controle sobre importações provenientes da área do dólar e afastando-se do compromisso de liberalização prevista na OCEE. A libra, então, recuperou-se e em breve foi possível relaxar os controles cambiais.

A França, diferente da Alemanha que passou somente por uma crise na década passou por inúmeras dificuldades. O fator comum dessas crises fora o déficit público francês, que aumentaram diversos aos programas sociais, gastos militares na guerra da Indochina e políticas habitacionais subsidiadas, já que a força do partido comunista francês era forte (1/3 dos votos) e a pressão pela modernização do governo aumentou os gastos. A conseqüência disso veio na balança de pagamentos, com déficits que consumiam as reservas do fundo de estabilização francês e obrigou o país a pedir empréstimos à UEP. Em resposta, assim como os demais casos anteriores, o país adotou uma série de medidas contra importações e aumentando a exportações através de incentivos fiscais. Além disso, o país suspendeu seus compromissos com a UEP, contando com a ajuda financeira dos EUA, superou a crise. No entanto, a França novamente passaria por crises, como dito, graças aos persistentes déficits fiscais, principalmente ocasionados por governos de esquerda, que se recusavam e tinham dificuldades em cortar gastos, o que levou o país a adotar inúmeras medidas(desvalorização cambial etc) para superar a crise, sempre em contraste com o compromisso adotado frente a UEP.