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Qual é o fim último do Homem segundo São Tomás de Aquino.

Francisco Alves Neto 2

O tema escolhido faz parte de uma afeição e aproximação aos pensamentos


filosóficos e teológicos do grande Santo da Igreja Católica, São Tomás de Aquino,
que dentre todos os seus temas e discussões filosófica, se encontra o respectivo
título.
O Homem ao longo da história fez grandes questionamentos sobre ele
mesmo e um destes questionamentos, São Tomás, responderá. Qual é o fim
último do Homem?
Para compreender sua resposta se faz extremamente necessário ter
conhecimento das cinco vias que o próprio santo falará. A primeira via será a do
motor imóvel, que em síntese concluirá que tudo que é movido é movido por outro
e não poderá proceder até ao infinito, sendo assim, necessariamente terá que existir
a causa causante, o primeiro a mover o movido, que é o motor imóvel, move sem
ser movido e cria sem ter sido criado, ou seja, Deus. A segunda via é a causa
eficiente, que tem por definição produzir outro algo, ou seja, todas as coisas
possuem sua causa eficiente e nada pode ser a causa eficiente de si, não é possível
proceder até o infinito nas causas eficientes. Com isso, necessariamente deverá
existir uma causa eficiente primeira, que é o próprio Deus. A terceira, é a via do
contingente que afirmará a existência de um Ser necessário na qual todos os seres
contingentes dependam, no mundo existem coisas contingentes que existem mas
poderiam não existir, porém é preciso que algo seja necessário entre a elas, sem
que proceda ao infinito. O primeiro necessário antes de tudo é Deus. A quarta via é
dos graus de perfeição que diz que deve existir um Ser que contém todos os
atributos e coisas possíveis em seus graus de perfeição máximo e que seria gerador
de todas coisas em grau de perfeição menor e esse Ser é o Criador de tudo, Deus.
Por fim, a quinta via da finalidade do ser ou governo das coisas que é provada pela

Trabalho de filosofia medieval, da Professora e Mestra Raphaela Cândido, na Faculdade Católica de


Fortaleza.
2
Aluno do 2° semestre de filosofia da Faculdade Católica de Fortaleza.
a ordem do universo, ou seja, se considerarmos a ordem do universo, desde dos
seus componentes microscópicos até os gigantescos astros: a harmonia entre
eles,suas atividades e relações podemos concluir que existiu alguma inteligência
que pensou, criou e ordenou tudo. Diante destes pressupostos seria uma lástima
afirmar que tudo é um mero fruto do acaso. como vai nos dizer ​Garrigou-Lagrange.3

Os animais conhecem sensivelmente o objeto que constitui seu fim,


mas nesse objeto não percebem a razão formal do fim. Por
conseguinte, se não houvesse uma inteligência ordenadora, que
governasse o mundo, a ordem e a inteligibilidade que há no universo
e que as ciências descobrem, proviria da inteligibilidade, e ainda
mais, nossas próprias inteligências proviriam de uma causa cega e
ininteligível; uma vez mais, o mais sairia do menos, o que é absurdo.
4

Como já vimos de maneira breve São tomás de Aquino se utiliza da cinco


vias, como forma racional para provar a existência de Deus.
Partindo destes pressupostos poderemos caminhar de uma maneira mais
esclarecedora para a resposta de qual é o fim último do Homem. Pois é inviável
buscar compreender suas conclusões sem que tenhamos o conhecimento da prova
da existência de Deus.
O fim último para Tomás, reside primeiramente em um ato do intelecto, o
qual é seguido pela vontade. Este intelecto se divide em duas partes: especulativa e
prático, porém, para compreendermos a beatitude perfeita, se faz necessário que
nos estacionemos na especulativa, como consiste em um ato racional.
Tendo esta noção, buscaremos distinguir a beatitude imperfeita e perfeita. A
beatitude imperfeita será aquela que consiste na contemplação dos objetos da
ciência especulativa e a perfeita na contemplação da essência divina, na união com
Deus. Sendo perfeita, ela será algo sobrenatural e não irá de contra a natureza e
até mesmo a beatitude imperfeita, que será uma participação sua e um meio para

3
P​adre Réginald Garrigou-Lagrande foi um dos mais eminentes teólogos católicos do século XX.
Lecionou no Angelicum de Roma - Pontifícia Universidade Santo Tomás de Aquino - entre 1909 e
1960, formando diversas gerações de jovens teólogos. Teve entre seus alunos o Santo Padre Bento
XVI e o Beato João Paulo II.
4
Disponivel em:
https://formacao.cancaonova.com/igreja/doutrina/aprenda-com-santo-tomas-de-aquino-as-evidencias
-da-existencia-de-deus/. Acessado em: 15/11/2019
que o Homem possa alcançar a felicidade ainda neste mundo, mesmo sendo
incompleta e estando em um caminho rumo à plenitude da perfeição.
Todas as coisas buscam de alguma forma representar a Deus que é a causa
primeira e fim de tudo. Cada coisa possui sua essência específica, como o ato está
para potência, assim, o agir está para o Ser, ou seja, de acordo com o ser existirá
um modo para realizar o fim comum, que será uma representação de Deus. Sendo
assim, o Homem realizará o seu fim último, na medida em que ele assemelhar-se a
Deus, se dispondo a conhecê-lo a partir da sua razão, ou seja, do seu intelecto. O
Homem por ser um ser dotado de inteligência sempre agirá em vista de um fim que
previamente conhece. Ele busca viver sempre além.
Entrando no princípio da causalidade, em uma causa eficiente, que é
essencial, sempre o fim será a causa de outro. Portanto, não tem como regredir ao
infinito este princípio permanecendo em uma lógica somente racional e humana. Na
lógica do primeiro motor, que é a causa de todos movimentos existentes, se não
existisse nada faria sentido, nem teria lógica os segundos motores, que existem em
influxo do primeiro. Portanto, se não existisse o fim último para o Homem, não
existiria nem mesmo os seus apetites, que criam e inclinam-se a medida que se
ordenam para um fim último. Como são Tomás de Aquino nos dirá.

É evidente, pois, que as causas segundas motoras não movem


a não ser quando são movidas pelo primeiro motor.
Conseqüentemente, as coisas desejadas em segundo lugar não
movem o apetite, senão em ordem ao primeiro desejado, que é o fim
último.5

Destaco aqui a importância da vontade e do apetite que trabalham com a


razão, pois se o Homem tem um fim e esse fim o realiza plenamente, ele deve se
esforçar para buscá-lo assiduamente. Entrando no contexto tomista. A vontade e o
apetite que trabalham com a razão, não negam mas fortalecem a fé, pois se as bem
aventuranças são aderidas pela a ciência especulativa, que se traduz, no intelecto,
o Homem poderá entrar em um caminho de perfeição, se ele for capaz de querer
desejar e almejar. Posso dizer que a razão fortalece diretamente a fé, por isso, a fé

5
TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. Trad. Aimom - Marie Roguet et al. São Paulo: Loyola, 2001.
I-II, 1, 6, C
dos mártires são inabalaveis. Sem a razão o Homem jamais poderá exercer a sua
fé, pois ela é capaz de tornar tudo “concreto”Para ainda analisarmos porque Deus,
que é a própria e perfeita felicidade, é o fim do Homem temos que compreender a
relação alma e corpo. Para o Homem chegar ao seu fim último ele têm que desejar
e querer, por mais que os bens terrenos e materiais não sejam essenciais para para
sua união plena e definitiva com Deus, que é o bem supremo. Sendo deste modo
como o corpo depende da alma, e a potência depende do ato é necessário que
todos os bens materiais ou corpóreos se ordenem com os da alma porque as bem
aventuranças residirá na alma intelectiva. Diante disso, pode-se existir o
questionamento: será que o fim último do Homem só se conquista através dos bens
da alma? como vai nos dizer o Prof. Dr. Marcos Roberto Nunes Costa6 em um
artigo.

A beatitude ou felicidade é mais uma questão de ordem espiritual


que de ordem material. A felicidade não pode consistir em um bem
corruptível, mas em algo que se volta prioritariamente para a
eternidade.7

Ora, a alma humana é pura potência e suas virtudes precisam ser adquiridas,
pois tudo que está em potência se tornará ou é para se tornar um ato. A alma não
se apresenta deste modo como um bem supremo. Ela como potência existe para
um ato, para outra coisa. Por isso, ela mesma não é o seu próprio fim último, que
precisa ser um bem perfeito que satisfaça totalmente os apetites humanos. Somente
o bem universal pode satisfazer e preencher por inteiro a alma Humana, pois todas
as coisas que são criadas já são ato de uma potência e de nenhum modo pode
aquietar o apetite do Homem. Em síntese, a primeira e última razão e finalidade do
Homem é Deus, que é a causa primeira e o fim último de todas as coisas, ou seja, o
fim último de todos os Homem é o próprio Deus, o bem-aventurado, a pura
essência.

6
Professor/coordenador da Graduação em Filosofia da UFPE. Professor do Programa de
Pós-graduação (mestrado e doutorado integrado) em Filosofia da UFPE/UFPB/UFRN.
7
Disponível em: file:///C:/Users/Shalom/Downloads/152-427-1-PB%20(1).pdf. Acessado em:
15/11/2019
A bem-aventurança é um bem perfeito, que totalmente aquieta o
desejo, pois não seria o último fim, se ficasse algo para desejar. O
objeto da vontade, que é o apetite humano, é o bem universal, como
o objeto do intelecto é a verdade universal. Disto fica claro que
nenhuma coisa pode aquietar a vontade do homem, senão o bem
universal. Mas tal não se encontra em bem criado algum, a não ser
só em Deus, porque toda criatura tem bondade participada. Por isso,
só Deus pode satisfazer plenamente a vontade humana [...].
Conseqüentemente, só em Deus consiste a bem-aventurança do
homem.8

Toda a aquisição do intelecto é feito por apreensões que apreende a essências das
coisas, neste sentido, o grau máximo desta será a apreensão da essência Divina. Por isso,
para aderir a bem-aventurança, mesmo sendo imperfeita, é necessário o uso do intelecto,
ou melhor, da ciência especulativa. Mais o que seria a bem-aventurança imperfeita e
perfeita ?
A bem-aventurança imperfeita é aquela que não apreende a essência divina, porém,
busca sempre aderir as coisas emanam dela, ou seja, no caminho do Homem, do nascer ao
morrer em busca do seu fim último e da sua união definitiva com Deus, ele pode e deve
pela contemplação buscá- lo encarnando tudo que o possa levar para Deus, como um
caminho de santidade. A Perfeita será justamente, como já citamos no respectivo texto, a
união máxima com Deus. Após ter trilhado um caminho de configuração a vontade Divina
pela bem-aventurança imperfeita, o Homem chegará, isto é, se tiveres se permitido a entrar
neste caminho, a perfeição, a união com Deus, a apreensão da essência Divina. Nesta
ótica, o intelecto, ou até mesmo, as ciências especulativas levará o Homem sempre além
das experiência sensitivas, por mais que as coisas sensíveis o levem e o lembre do Divino
não nos podem dar a conhecer a sua essência. Logo, a plena felicidade do Homem não se
encontrar em nenhum bem sensível, que passa, se transforma ou até mesmo que deixa de
existir .
O homem pode ser somente aperfeiçoado por aquilo que lhe é superior. Neste
contexto, o supra superior, que move sem se mover, que criar sem ter sido criado, que se
transforma sem ter sido transformado é que será o grande responsável por aperfeiçoar e
guiar o Homem para o perfeição.

8
TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. Trad. Aimom - Marie Roguet et al. São Paulo: Loyola,
2001.. I-II, 2, 8, C
Desta forma, para entendermos melhor, o Homem enquanto desejar, sentir e almejar
não poderá ser plenamente feliz, pois “Deus não se encontra imerso na matéria, mais é o
próprio ser subsistente”9.
Concluindo, o Homem pode ser plenamente feliz e realizado a partir do seu fim
último que é o próprio Deus. E essa plenitude é construída a partir de um caminho de
bem-aventuranças na qual o Homem busca e configura-se a vontade Divina. “O homem o
alcança o seu fim através de um ato do intelecto especulativo. Tal ato consiste na
contemplação da própria essência divina.”10

9
​ Disponível em:http://filosofante.org/filosofante/not_arquivos/pdf/Fim_Ultimo.pdf. Acesso
em: 15/11/2019.

​ Disponível em:http://filosofante.org/filosofante/not_arquivos/pdf/Fim_Ultimo.pdf. Acesso


10

em: 15/11/2019.
BIBLIOGRAFIA

_____. ​Suma Teológica​. Trad. Aimom- Marie Roguet et al. São Paulo: Loyola, 2001.

_____Laet de Barros Campos,Sávio.​O fim último do homem segundo Tomás de


Aquino​,Universidade. Federal de Mato Grosso. Disponível em:
http://filosofante.org/filosofante/not_arquivos/pdf/Fim_Ultimo.pdf Acesso em: 15/11/2019.

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