TRABALHO ESCRAVO DE CRIANÇAS INDÍGENAS: UMA REALIDADE DO SÉCULO XIX

Maria Hilda Baqueiro Paraíso
Universidade Federal da Bahia

RESSOCIALIZANDO CRIANÇAS INDÍGENAS: UMA TRADIÇÃO NA AMÉRICA PORTUGUESA
A partir de 1548, quando a Coroa portuguesa resolveu ordenar as relações interétnicas na sua colônia americana e assim superar os conflitos entre os vários grupos indígenas do litoral e os colonos, a solidificação da conquista centrou-se na criação de aldeamentos e na ressocialização dos povos indígenas. Essa tarefa foi entregue aos missionários que se tornaram responsáveis pela criação e administração dos aldeamentos, espaços privilegiados de para essa atividade. Pretendia-se adequar os novos súditos às exigências do projeto colonial, resgatando-os do estado de barbárie e do domínio do demônio, o que os inacianos acreditavam ser possível, apesar de considerá-los como pertencentes a raças inferiores. Por possuírem alma, entendimento, memória e vontade, poderiam ser convertidos caso fossem submetidos a uma polícia adequada e à obediência. Os esforços de ressocialização centraram-se na imposição de valores, crenças e comportamentos cristãos, destacando o respeito à hierarquia e à autoridade, elemento considerado fundamental à construção da nova ordem social e à expansão da sociedade européia no Novo Mundo. Para atingir essa meta, os missionários criaram escolas, missões, seminários e colégios após o fracasso, após constarem o fracasso das missões volantes e os parcos resultados obtidos com a educação ministrada nos aldeamentos. Os inacianos que atuavam nos colégios concentraram suas ações na educação dos curumins na esperança de promover, simultaneamente, a conversão e a civilização em caráter irreversível, retirando-os do domínio da natureza e trazendo-os para o da cultura européia. Sua ação foi facilitada pela desagregação vivida pelas sociedades indígenas naquele momento, o que fez com que os indígenas vissem com uma das opções possíveis para garantir a sobrevivência dos filhos entregá-los à escravidão ou aos missionários. Também os colonos retiravam os curumins da convivência dos seus familiares e de suas aldeias. Mesmo quando o apresamento e o comércio de indígenas se transformaram numa atividade econômica secundária, os descimentos persistiram e as mulheres e crianças eram de
4-Essa questão provocou séria discordância entre Quirino Caxa e Manoel da Nóbrega acerca da moralidade do ato de venda de familiares ou de si mesmo por extrema necessidade.
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grande

interesse,

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apresados

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predominantemente Macro-Jê e as revoltas dos indígenas aldeados convenceram os colonos da dificuldade de ressocialização de adultos e dos grupos não Tupi.

Esse projeto de ressocialização foi mantido pelo Marques de Pombal que, após a expulsão dos jesuítas em 1756, entregou o controle da educação dos curumins aos particulares e aos Diretores de Aldeias, encarregando-os de transformar os aborígines em obedientes vassalos cristãos, pagadores de tributos, agricultores e/ou comerciantes, sedentários e urbanos.

A DECRETAÇÃO DA GUERRA JUSTA AOS BOTOCUDOS E UM NOVO MODELO DE CONTROLE SOCIAL.
A crise vivida pela economia portuguesa na segunda metade do século XVIII, agravada pelo declínio da produção de ouro a partir de 1760, exigiu a adoção de medidas capazes de promover o melhor aproveitamento dos produtos coloniais e de incentivar a exploração de outros que pudessem ser inseridos na pauta de exportações, o que pressupunha a conquista de novos espaços e sua incorporação ás rotas de comércio. No caso da América Portuguesa, vários projetos foram pensados, inclusive, para a área até então proibida aos colonos como tentativa de evitar o acesso indiscriminado às zonas de mineração - os sertões de Ilhéus, Porto Seguro, Espírito Santo e do leste de Minas Gerais. Os vários projetos encaminhados a D. Maria I e posteriormente ao Príncipe Regente, D. João, apresentavam alguns traços em comum: a necessidade de buscar novas alternativas econômicas, a superação dos graves prejuízos e o ressurgimento da vida nos sertões e arraiais, sendo a atividade comercial o carro chefe desse programa. Para tanto, era essencial abrir novos caminhos, destinados a encurtar a distância para o mar, e conquistar espaços a serem explorados economicamente. Essa seria, também, a melhor forma de promover o afastamento dos índios daquelas paragens transformadas em refúgio pelos grupos conhecidos por Kamakã-Mongoió, Maxakali e seus vários subgrupos e dos Gren ou Botocudos.
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Visão expressa nas determinações do Governador Alexandre de Souza Freire, em 04/03/1669, quando decretou Guerra Justa aos índios das Capitanias de Ilhéus e Porto Seguro. Baseado no Termo de Assento tomado na Casa de Relação da Bahia, o Governador alegava a ineficácia de contemporizar com os índios por ser sua “natureza pérfida e inconstante”. Propunha, portanto, a destruição total de suas aldeias e a morte dos homens adultos. (SOUZA FREIRE, Alexandre de. Assento Tomado na Relação da Bahia sobre a guerra dos índios selvagens extraído do Livro 4º de Ordens Régias ao Governador e Capitão General do Brasil no ano de 1694 - 1695. RIHGEBr. 2. ed. Rio de Janeiro. Tip. João Inácio da Silva. V. 7, (ano de 1845); 1866. P. 391 - 98 3 Os grupos que compunham essa pan-tribo e se localizavam entre os rios de Contas e Doce, mas, particularmente, entre o Jequitinhonha e o Doce, eram os: Pataxó/ Patacho; Monoxó/ Manaxó/ Mapoxó/ Momaxó/ Maxakan/ Makaxó Kumanoxó/ Cumanachó/ Comanaxó; Kutatoi; Maxakali/ Machacalizes/ Machacaris/ Macachacalizes/ Malakaxi/ Malakaxeta; Malali/ Malalizes; Makoni/ Maconés/ Macunins/ Makuinins/ Maquaris/ Bakoani/ Maconcugi; Kopoxó/ Copoxó/ Gotochós e Panhame/ Bonito /Bonito (vide PARAISO, M H. B. Amixokori, Pataxó, Monoxó, Kumanaxó,

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Informação enviada ao Ouvidor Francisco Dantas Barbosa sobre os índios. 137-49. espaços até então mantidos. BARBOSA. Manuel. povos indígenas diferenciados ou subgrupos de uma mesma nação? Uma proposta de reflexão. Desembargador e Ouvidor da Comarca de Ilhéus. São Paulo. Baltazar da Silva. FARIA. 4. que se deslocavam entre as três capitanias na tentativa de o confronto com os colonos. 4 O Estado. 4/7/1815. o governo metropolitano criou vários estímulos para particulares realizarem a conquista de territórios indígenas: privilégios comerciais.duas reivindicações eram apresentadas de forma reiterada: a necessidade de reduzir as inúmeras nações indígenas que ali viviam e da adoção de uma política indigenista agressiva calcada nos antigos moldes de conquista das fronteiras internas. 16 de outubro de 1803. Governador Geral da Bahia. R. In: Inventário dos Documentos Relativos ao Brasil existentes no Arquivo de Marinha e Ultramar de Lisboa . as características físicas da região. Francisco Dantas. Maxakali. visando acelerar a conquista. 20 de dezembro de 1803. sob o controle da população nativa. 5 Kutaxó. 37: 17980. Anais da Bib.. Fundo Capitania da Bahia. ativar o comércio e apoiar os esforços dos colonos para promover a colonização. por razões estratégicas e interesses econômicos da metrópole. João do et ali. F. v. ms. isenção de impostos. n. Cairú. 4 CAMBRAIA. 1994). 173 – 187. APEB. criou políticas visando solucionar os problemas nas três capitanias. instalação de postos militares e portos. Rio de Janeiro. Ofício enviado ao Governador da Bahia sobre os índios de sua Comarca. A Colonização dos Sertões do Leste mineiro: políticas de ocupação territorial num regime escravista (1780 . F.Rev. Ouvidor da Comarca de Porto Seguro. denominados genericamente de Botocudos. do Departamento de História. Apesar das inúmeras dificuldades .1836). 1988 5 LISBOA. Maço 230.Para superar as inúmeras dificuldades na realização deste projeto. In: Inventário dos . de B. o aumento da extensão e qualidade das culturas. p.Bahia. Moradores do Prado. Prado. abundante de riquezas naturais e onde era possível o acesso gratuito a mão-de-obra indígena. Kutatoi. Não há como desconsiderar na explicação desse avanço das fronteiras internas a fantasiosa crença desses locais eram o locus da realização do rápido enriquecimento individual por ser a terra seria um bem ilimitado. Para tanto. coberta por densas florestas e com rios de difícil navegação . v. Oficio enviado ao conde dos Arcos. Secção Colonial e Provincial. p. Escravismo . Códice 14. João S. acessível a todos. 6. o que permitiria a aceleração da acumulação de capital. MENDES. Nacional. Série Diversas. Cartas ao Governador. ESPÍRITO SANTO. dever-se-ia reduzir os conflitos entre os índios. Belo Horizonte. Malali e Makoni.a ausência de caminhos e estradas. Bahia. Esses grupos em conflito constante entre si e com os colonos eram vistos simultaneamente como uma ameaça ao sucesso do empreendimento e como solução para a carência de trabalhadores e de recursos para adquirir escravos de origem africana. GONÇALVES. reduzir os conflitos e garantir os investimentos particulares e estatais ameaçados pelas reações dos silvícolas à invasão de seus territórios e ao engajamento como trabalhadores nas atividades produtivas de interesse dos colonizadores. As primeiras deliberações determinavam o estabelecimento de rotas de comunicação. RMAE da USP. doação de terras e concessão de perdão a criminosos que se instalassem nessas áreas de fronteira. jul. FAFICH/UFMG. 1945.

8 GUERREANDO E EDUCANDO As três Cartas Régias. Pedro Mª Xavier de. 1945. guerreá-los e. Governador da Bahia. identificadas como da nação Botocudo.A maior dinâmica do processo de conquista em Minas Gerais explica a ação de seus governantes de propor a retomada da Guerra Justa pela Coroa Portuguesa. 37. v. governador da Capitania da Bahia. João Gonçalves da Costa. Governador e Capitão-General da Capitania de Minas Gerais e outros. Os pequenos indígenas. Espírito Santo e Bahia. 180. garantia de acesso á força de trabalho escrava necessária ao sucesso do Documentos Relativos ao Brasil existentes no Arquivo de Marinha e Ultramar de Lisboa . 6 ATAÍDE E MELO. Ofício enviado ao Conde de Anadia sobre a exploração das margens do Rio Pardo pelo Cap. Anais da Bib. 11. medida proposta e encampada pelo Conde de Linhares. p. de. Sobre os Botocudos. determinação do deslocamento dos vadios e vagabundos que circulavam pelos arraiais sem ocupação definida e do estabelecimento de uma política de cunho militar para submeter os “ferozes” Botocudos. como se observa no desrespeito á decisão do Conde da Ponte. 1898. Proposta enviada ao Príncipe Regente. Anais da Bib. v. Rio de Janeiro. se vistas conjuntamente. construção de postos avançados de defesa. p. P.Bahia. João Gonçalves da Costa. In: Inventário dos Documentos Relativos ao Brasil existentes no Arquivo de Marinha e Ultramar de Lisboa. 743-8. 300-1. Rio de Janeiro. após serem vacinadas. RAPM. . Nacional. por considerar difícil mudar os hábitos de homens já feitos e encanecidos. 3. modificaram radicalmente a política indigenista e viabilizaram a colonização dos sertões com o aval governamental aos empreendimentos dos colonos e com o atendimento às suas exigências: “desinfecção” dos sertões e promoção do alargamento de espaços transitáveis e que pudessem ser apropriáveis por eles. já usual em áreas onde a fiscalização governamental não cumpria seu papel de garantir a liberdade dos povos indígenas. portanto. M. Bahia. X.” 7 6 e pelo insucesso das tentativas anteriores em atrair os Botocudos para o grêmio da civilização. 31/05/ 1807. foram entregues a pessoas ditas cuidadosas e responsáveis e sua morte foi atribuída a sua natureza ou á mudança da dieta alimentar. sugeria-se o apresamento das crianças e sua distribuição entre os que se encarregassem de educá-las. A proposta incluía estímulos à colonização. Belo Horizontes. Carta ao Príncipe Regente em 1807. RAPM. 8 CONDE DA PONTE. Ouro Preto. justificada pela necessidade de eliminar a reação dos indígenas e os conflitos que estabeleciam com os colonos. 37. datadas de 1808 nas quais declarava-se Guerra Justa aos Botocudos das províncias de Minas Gerais. Bahia. 1906. p. de devolver a suas aldeias as crianças que lhe haviam sido encaminhadas pelo CapitãoMor da Conquista da Ressaca. 7 ATAÍDE E MELLO. criação da infra-estrutura necessária. Belo Horizonte. p. Nacional. 455. v. descritos na documentação oficial como “ataques e hostilidades do gentio. Proposta consubstanciada na decretação de Guerra Justa aos Botocudos em 1808. 1945. aliás. v. A política adotada era. em 1807. 01 de fevereiro de 1806. Prática.

8-16. permitindo o avanço da conquista. deveriam ser entregues a fazendeiros que assumiriam o compromisso de sustentá-los. S. portanto. op. garantia. a ampliação da área distribuída aos colonos em forma de sesmarias e. conseqüentemente. Era a retomada da velha política dualista que determinava o combate e extinção dos índios que opunham resistência à conquista. p. da necessidade de mão-de-obra escrava e dos incentivos aos que se predispunham a educar os bravos selvagens. dando ao empreendimento um caráter particular supervisionado e incentivado pelo Governo. assim. prepará-los para o exercício de atividades úteis. Para os grupos definidos com dóceis. 37. vesti-los. Já as crianças capturadas. Para tanto.empreendimento. 259-61 11 LOUREIRO. p: 115-22 RUBIM. deveriam tornar-se prisioneiros de guerra e os adultos serem destinados por dez anos ao serviço que conviesse aos milicianos e moradores. trabalho remunerado. Ante a ampliação dos conflitos. p. Sebastião da S. cit. Já a administração capixaba decidiu recrutar civis para comporem as tropas de combate aos índios. NOVAES. educá-los e cristianizá-los em troca de seu trabalho por doze ou vinte anos. a expropriação das terras tribais e a escravidão. Minas Gerais ampliou a estrutura militar pré-existente e ofereceu cargos militares nas Divisões Militares e nos Corpos de Pedestres aos particulares que já combatiam os indígenas. A retomada da escravidão era vista. José Teixeira de. OLIVEIRA. É nesse contexto que as crianças indígenas voltam a ser vistas como a possibilidade mais viável de promoção da civilização dos Botocudos. O governo da Bahia. Op. DEMONER. 11 Município hoje pertencente ao estado do Espírito Santo. M. ante o desinteresse pelas Comarcas do Sul e por não dispor de uma infra-estrutura militar na região. p. fazê-los aceitarem a sujeição às leis e. cit. cit. o modelo militarista mineiro terminou por ser adotado na Bahia 10 9 e no Espírito Santo. respeito às terras e transformação em ocupantes e colonizadores desses territórios. Op. o recuo ou aldeamento dos grupos indígenas. em tese. Para solidificar a atração dos índios ao chamado convívio social e superar as várias formas de resistência. sugeria-se a imposição das diretrizes da Escola Severa para que esquecessem “sua natural rudeza” e se tornassem civilizados. Op. pelo ângulo do seu suposto caráter pedagógico: o de fazer com que perdessem sua atrocidade e rudeza naturais. M. entregou o comando das ações de combate aos índios aos vários Capitães-Mores que residiam nas Comarcas do Sul . cit.ª Stella. Francisco Alberto. elevá-los à condição de humanos. Cada Capitania cumpriu as determinações das Cartas Régias de acordo com suas possibilidades e suas prioridades. sua preservação física. Memória sobre a Civilização dos Índios e distribuição das Matas oferecida à 10 9 . provocando insatisfação e obrigando o Conde de Linhares a intervir.

vistos Sagrada Pessoa del Rei. Itinerário da Viagem que fez por terra da Bahia ao Rio de Janeiro. Instado a entregar a criança. Os relatos dos naturalistas estrangeiros atendiam diversos interesses políticos. econômicos e editoriais e eram associados a Gabinetes de Curiosidades. v. Luís Tomás.28. na Bahia.N. 18/5/1816. Rio de Janeiro. Minas Gerais e Espírito Santo. indica sua preocupação em evitar a captura de suas crianças. I. que vamos compreender as práticas de aprisionamento. Rio de Janeiro. experiência já vivida em Caravelas. onde as autoridades poderiam comprovar a viabilidade de os Botocudos serem educados e civilizados. 40.. identificada como sendo da tribo dos Botocudos. 31. Faculdades de Medicina e Museus Naturais da Europa. 2. há claras referências a sua existência antes dessa data. 14 NAVARRO. Porém. p. temos os registro de Luís Tomás de Navarro 14 13 12 em 1808. Belo Horizonte. e o fato de só terem aceitado se aproximar do vilarejo com todos os filhos em 1809. apesar de sua proibição em 1831. os administradores. RAPM. tornam-se mais explícitos com relação à questão e. 433-68. venda e doação de kurukas nessa região. p. B. A partir dessa data. entre os anos de 1799 e 1804. associado ás estratégias militares e à dificuldade de acesso a mão-de-obra escrava de origem africana em áreas não capitalizadas. o juiz recusou-se. machados e facas. a partir da década de 40. o maior volume de informações acerca desta prática é encontrado nos trabalhos dos viajantes naturalistas estrangeiros que se referem de forma explícitas ao comércio de kurukas entre 1815 e 1820. Notícias e Observações sobre os Índios Botocudos que freqüentam as margens do rio Jequitinhonha e se chamam Âmbares ou Aimorés. Navarro denunciou um dos Juizes Ordinários da vila do Prado por criar uma menina de seis anos de idade e não batizada. bem instruída na religião católica e hábil costureira. 1897. José Pereira Freire de. Coleção Martins. em Lorena dos Tocoiós . Também neste caso não obteve sucesso ao sugerir que fosse enviada à Corte. particularmente no vale do rio Mucuri. Na Bahia.O APRISIONAMENTO DE KURUKAS: UMA ESTRATÉGIA ECONÔMICA E MILITAR É no bojo desse projeto de ressocialização de indígenas. Secção de Manuscritos. v. RIHGBr. encarregado de estabelecer a rota de correio entre a Bahia e o Rio de Janeiro. Nosso Senhor. instituições com grande interesse em compreender os Botocudos. 28-31. oficiais das Divisões Militares e Diretores de Aldeias. Igual denúncia apresentou contra o vigário de São Mateus que detinha uma kuruka. são os missionários capuchinhos que denunciam a permanência do tráfico de crianças indígenas. Os cuidados demonstrados pelos Maxakali quando encontraram regente José Pereira Freire de Moura . Embora essas práticas se tornassem mais comuns após 1808 no sul da Bahia. 7. atualmente conhecida por Araçuaí. quando lhes foi prometido a doação de anzóis. 13 Localidade na bacia do rio Jequitinhonha. de onde haviam fugido do aldeamento que lhes fora imposto. . 1866. 12 MOURA. alegando estar doente e purgada.

fazendo com que Saint-Hilaire afirmasse que eram extremamente susceptíveis à perda dos filhos. Hartt e Ehrenreich. inclusive o de aprisionarem adultos e crianças e sua incorporação como trabalhadores. o que nos permite afirmar que todos os grupos da região foram envolvidos no tráfico de crianças e que o equívoco era intencional. o Príncipe Maximiliano von Wied-Neuwied. Sellow. Ao atribuírem essa denominação a todos os grupos que opunham resistência ao avanço da conquista. uma das modalidades possíveis de estabelecimento de alianças com os colonos. 16 15 Convém destacar que os viajantes. que variava conforme a idade e o sexo. Belo Horizonte: Itatiaia. dentre outros. 15 . 276 20 POHL.como o elo perdido entre a animalidade e a humanidade. ampliavam-se os conflitos interétnicos e intergrupais. São Paulo: Edusp. p. eram as táticas mais eficientes de conquista de terras e sem que se disparasse um tiro. os administradores ampliavam o interesse na captura e estimulavam os grupos aldeados a se transformarem em pombeiros. Saint-Hilaire atesta que esses conflitos. à extrema desconfiança dos Kamakã-Mongoió do rio Pardo em se apresentarem com suas famílias. assim como as autoridades e os colonos. Spix e Martius e Johann Emanuel Pohl 17 WIED-NEUWIED. p. foram duramente atingidos por essa prática. o que se constata nos seus relatos e correspondências com os Comandantes das Divisões Militares. Explica-se. por exemplo. Viagem ao Brasil. eramlhes retiradas as crianças. assim. sempre que possível. de forma genérica a denominação Botocudo. 1989. em atenção aos interesses econômicos dos colonos e para acirrar-lhes os ânimos contra os invasores de seus territórios tradicionais e com os quais viviam em constante conflito. 273. Belo Horizonte: Itatiaia. particularmente os que viviam no rio Doce. 19 SAINT-HILAIRE. conduzir indígenas vivos. pois seus crânios eram vistos como preciosidades. os colonos garantiam as benesses previstas pelas Cartas Régias de 1808. M. 353. e. Wied-Neuwied 20 21 22 19 18 e Saint-Hilaire atribuindo ao comércio de kurukas as acusações Contam-se. A. Da mesma forma. São Paulo: Edusp. alimentados pelos conquistadores. São Paulo: Edusp. como atestaram Pohl . 429-38 18 SAINT-HILAIRE. ibidem. Spix e Martius. Dessa forma. Tschudi. 16 Levaram índios para a Europa . A. Após terem sido aldeados compulsoriamente e engajados nas tropas de combate aos Botocudos. Johann E. entre eles. sinal indicativo da existência de comércio de kurukas na região em que habitavam. Wied-Neuwied 17 refere-se. Viagem no interior do Brasil. Viagem pelas Províncias do Rio de Janeiro e Minas Gerais. Freyress. Eschwege. Itatiaia. 1976. 1975. tática usada predominantemente pelos Maxakali. Belo Horizonte: Ed. usavam. sua ânsia em levar esqueletos indígenas para a Europa . p. transformando o comércio de kurukas em poderosa ferramenta de dominação por acirrar os conflitos e oposições e tornar inviável qualquer aliança interétnica. os vários grupos Maxakali. p. Saint-Hilaire. Wied-Neuwied. fossem estes crianças ou adultos. Ao estabelecerem o preço das crianças capturadas. também conhecidos por Naknenuk.

não havia poupado as crianças da mais tenra idade. Essas infelizes crianças eram levadas para fora de sua pátria por seus bárbaros compradores e vendidos nas diversas povoações da região por 15 a 20 mil réis. também. Finalmente. após terem matado a maioria dos homens. SAINT-HILAIRE. ao descrever os constantes combates aos Botocudos. no Brasil o que sucede na Costa da África: tentados pelos preços porque os portugueses pagavam às crianças. segundo os viajantes. entretanto. atendendo a determinações dos governantes. o que terminou por determinar seu afastamento do comando. a falta de perspectivas quanto ao futuro. No entanto. decidiam aos pais a separar-se dos filhos.. 1975.. ibidem.] por um machado. 23 Essa atitude nos remete ao século XVI. A op. destacava que os soldados ao atacarem uma aldeia. 26 SAINT-HILAIRE. quando essa prática parece ter sido tão comum que motivou o debate entre Manoel da Nóbrega e Quirino Caxa sobre o assunto. às vezes. cit. 154. A. Vários outros relatos de conflitos intertribais no Vale do Jequitinhonha comprovam essa afirmativa e reforçam as acusações ao Comandante da 7ª Divisão Militar. Apesar de alguns negarem seu envolvimento direto. o desejo de obter artigos que não produziam e a ação dos colonos explicam essa realidade: [. M. nas proximidades de Viana . comandante do Quartel de Linhares e da 1ª Divisão Militar do Espírito Santo. cabe registrar a atuação de autoridades na entrega de crianças. 232-8. os Capitães Botocudos guerreavam-se para ter crianças 24 a vender. em 1817. A Viagem pelo distrito dos diamantes e litoral do Brasil. Repetia-se. O estado de pobreza. 111-2. acontecer como decorrência dos aprisionamentos realizados durante os combates. ao impor punição aos índios que haviam destruído o Quartel de Coutins. 22 21 . 24 SAINT-HILAIRE. p. 250. p. por açúcar. p. Julião Fernandes Leão de ser um estimulador dessa situação. ibidem. WiedNeuwied informa que o Alferes Cardoso da Rosa. aprisionavam as mulheres e sempre as crianças. Saint–Hilaire. que a entrega dessas crianças também era feita por familiares ou membros do seu grupo tribal. por um pouco de cachaça. Este era é o caso do já referido Comandante da 7ª Divisão Militar do Jequitinhonha. então. que. 23 A retirada das crianças de suas aldeias podia. 25 No Espírito Santo. p. 27 WIED-NEUWIED. e prometiam trazê-los de volta instruídos na nossa religião e sabendo trabalhar. 267-77. Não se pode ignorar.mútuas entre os principais líderes indígenas do vale do Jequitinhonha. pois seriam seres traiçoeiros e futuros antropófagos. apesar de alardear sua contrariedade e esforços para extinguir tal comércio. Belo Horizonte: Itatiaia. cit. Op. M. possuía crianças indígenas em sua propriedade particular e era o principal fornecedor de kurukas aos naturalistas 27 25 26 WIED-NEUWIED. como ocorrera num ataque a uma aldeia dos Puri. há referências claras a essa atividade. 1974. p. São Paulo: Edusp.

354-5. eles temiam a morte de seus guerreiros ou a captura de suas mulheres e crianças. 35 O destino dos kurukas variava. 267. sofreu tantas pressões que terminou devolvendo o menino a seus familiares. 1975. 267. O mesmo ocorreu com Pohl. São Paulo: Edusp. Johann E. indicando a construção de alianças e obtenção de benesses através desses brindes. também. Atual cidade de Suaçuí. 32 O aldeamento é a atual cidade de Guaranilândia. cit. provocaram a reação de alguns grupos aldeados. p. 276. os que eram 28 28 SAINT-HILAIRE. onde as mulheres e crianças estariam a salvo do assédio dos soldados. afluente da margem direita do Doce. Kumanaxó e Monoxó e os chamados Botocudos entre os moradores da localidade para que fossem “civilizadas”. que depois de acusar um kuruka. experiência já vivenciada anteriormente. p. cit. 1976. havia. A. por estar tão gordo. afluente da margem direita do Jequitinhonha. após conseguí-lo com o Comandante Leão. 30 Cacique no Vale do Jequitinhonha 31 Localizada no ribeirão homônimo. como Saint-Hilaire e Pohl. . 141-2. A op. 364. cit. na região de Peçanha. p.interessados em levar um “espécime” para a Europa. 29 Quartel de Santo Antônio do Descoberto do Peçanha ou do Ramalhete localizava-se no córrego do Ramalhete. POHL. O mesmo sentimento é referido entre os índios Maxakali. O próprio Saint-Hilaire 34 33 31 32 30 29 28 enfrentou essa resistência à entrega das crianças quando tentou obter um rapaz da tribo de Janoé para levar para a Europa e. p. precisavam dos filhos para cultivar a terra e perguntou se os brancos não possuíam bastantes mulheres que lhes dessem os filhos que desejavam. Panhames. teria dificuldade de locomoção”. Alguns eram vendidos pelos mateiros ou autoridades aos interessados. 1975. afluente da margem esquerda do rio Jequitinhonha. obtido em São Miguel e chamá-lo de “pequeno monstro cevado e a excrescência de sua raça e que. Op. cit. Op. . ibidem p. Op. 34 SAINT-HILAIRE. na foz do ribeirão dos Prates. Johann E. Os argumentos usados pelos que se recusavam a entregar seus filhos podem ser resumidos pelos apresentados por Joaíma a Saint-Hilaire: os portugueses haviam levado quase todas as crianças e nunca mais as haviam visto. A grande dimensão do comércio de kurukas e a perda de controle sobre a ação de pombeiros indígenas. POHL. Johann E. 33 SAINT-HILAIRE. outros eram doados como brindes aos amigos e autoridades. 35 POHL. optou por deixá-lo fugir com outros índios. p. Belo Horizonte: Itatiaia. A. ou não. que afirmava sempre ter usado como grande tática de combate matar todos os prisioneiros do sexo masculino e distribuir mulheres e crianças das tribos Kopoxó. que justificavam sua decisão de não permanecerem em São Miguel e procurarem local mais afastado. afluente do rio Peçanha que deságua no Suaçuí Grande. presente e futuro de sua tribo. Viagem no interior do Brasil. aldeados na Ilha do Pão e no Farrancho . Segundo Saint-Hilaire e Pohl . Igual acusação era feita ao Comandante Januário Vieira Braga do Quartel de Santo Antônio ou do Ramalhete .

Tal atitude pode ser explicada pela possível: a perda dos sentimentos de pertinência e de solidariedade para com seu grupo de origem. afluente do Suaçuí Grande. não reagirem á imposição de um regime de trabalho excessivo. cit. onde haviam se refugiado os índios Maxakali de Tocoiós. 44 43 a qual alertava constantemente para as atitudes hostis de um grupo Botocudo que visitava a roça da família. 44 Nas proximidades de Santa Cruz. antigo inspetor das Divisões Militares. Atual cidade de Francisco Badaró. 204. A. Op. 39 Localizava-se no rio Sucuriú. Aos proprietários não causava espécie que os meninos capturados terminassem por se entregar á apatia e logo morressem. Ali viviam índios Maxakali e não Botocudos.ou como trabalhadores rurais . afluente da margem direita do Jequitinhonha. 42 SAINT-HILAIRE. 41 Localizado num afluente da margem esquerda do Jequitinhonha. p. Setubal 41 39 40 37 38 36 e Boa Vista.destinados aos viajantes naturalistas para serem observados na Europa e os encaminhados para o Paço Imperial. não se pode ignorar que as denúncias de possíveis reações indígenas também poderiam ser uma tática para que as represálias recaíssem sobre outros grupos indígenas que não o seu. 293. p. cit. 42 A longa convivência e o processo intensivo de ressocialização terminaram por transformar alguns desses kurukas em agentes transculturais solidários com os colonos em oposição aos grupos indígenas. onde também viviam os confederados Maxakali. Op. Ficou conhecida por Boa Vista do Jequitinhonha e é hoje a cidade de Coronel Murta. na foz do ribeirão São João. Op. 38 SAINT-HILAIRE. afluente da margem direita do rio Araçuaí. Porém. 242-5. Apesar dos projetos encaminhados por vários políticos de influência junto ao Imperador. M. 40 Localizado no rio Setúbal. 37 Atual cidade de Itaobim. afluente do Fanado. trazidos de vários aldeamentos. na Bahia. atendendo a solicitações do Imperador. como afirmava o Capitão José Caetano de Melo. Localizava-se no rio Fanadinho. 1975. como pensava o autor. as Cartas Régias de 1808 não Atual município de Minas Novas. Ninguém o levou a sério e quase todos foram mortos num ataque. 1975. A. Os colonos diziam-se satisfeitos por possuí-los por serem dóceis e inteligentes. Porém. como se deduz da narrativa de Wied-Neuwied sobre um kuruka criado por uma família no rio Santo Antônio. cit. 36 . 43 WIED-NEUWIED. inclusive de Sucuriú . a grande maioria era usada como trabalhadores domésticos . afluente da margem direita do rio Araçuaí. que vivia no arraial de São João. onde Saint-Hilaire encontrou alguns com sete ou oito anos de idade. OS KURUKAS NO PRIMEIRO IMPÉRIO A questão indígena e a apropriação de kurukas não se alteraram com a declaração de independência do país. como José Bonifácio de Andrada e Silva. p.no Quartel do Estreito de São João . que deságua na margem esquerda do rio Doce.kurukas Makoni com idade entre três e sete anos no Quartel do Alto dos Bois da 5ª Divisão .

Parcos investimentos. vista como a única via possível para transformar os índios em cidadãos e trabalhadores a serem incorporados ao esforço de construção econômica e política da nova nação.10. p. A manutenção da política de conquista e da vigência das Cartas Régias de 1808 fazia com que a apropriação de kurukas continuasse a ser uma arma de dominação bastante eficaz e passou a ser cogitada a possibilidade dessas crianças serem entregues a missionários numa revalorização da atuação dos jesuítas tão duramente criticados na administração pombalina. ferreiros. pedreiros. o uso das crianças pelo Estado desagradava os sesmeiros. 45 Porém. como conseqüência. Cel. 39. 46 VASCONCELOS. Os representantes das Juntas de Conquista e Colonização das Províncias. alfaiates e soldados. Entretanto. v. 11. v. no entanto. 1904. T. notícias de fugas. telheiros. sendo constantes acusações de administradores imporem maus-tratos aos índios aldeados. Quartel da Onça Pequena em 14/12/1824 RAPM. G. o que explicava as freqüentes 45 MARLIÈRE. O envio de intérpretes para zonas de conflito era comum sob o argumento de que eram mais hábeis para atrair os selvagens e fazê-los cessar as desordens. Presidente da Província Ofício enviado ao Governador das Armas Antônio José Dias Coelho Ouro Preto em 09/07/1824. . ao definir os segmentos sociais e étnicos que comporiam o quadro de cidadãos. novos responsáveis por essa missão. José T. acreditavam que a ressocialização seria mais eficiente e com retorno garantido caso fosse dada prioridade à re-educação das crianças indígenas. p. 524-5. 1906. Comandante das Divisões. Ofício enviado ao Comandante da 5ª Divisão João José do Nascimento. particularmente de carpinteiros. o confisco de kurukas. RAPM. 46 interessados em tê-los trabalhando em suas lavouras e casas.foram revogadas e a Constituição de 1824. Ten. possuir um kuruka continuava a ser um sinal de prestígio social e de garantia de aproveitamento de um trabalhador dócil e formado de acordo com os padrões de obediência desejados. atraso dos salários e as constantes deserções tornavam mais atrativo o uso de índios aldeados como combatentes e intérpretes geralmente antigos kurukas usados nos trabalhos de convencimento desses aldeados em aceitarem as novas atividades que lhes eram atribuídas. No entanto. Belo Horizonte. ampliava os conflitos com os indígenas resistentes e o número de grupos contatados e. tática considerada mais eficaz para a formação de trabalhadores nacionais. sapateiros. de. A política imperial de interiorização da conquista. alguns políticos e administradores passaram a critica essa postura alegando que a Guerra Justa e o comércio de kurukas impediam o estabelecimento de relações pacíficas com as populações indígenas.. Outro fator de valorização da política de ressocialização decorria da dificuldade em manter soldados pagos nos quartéis. Belo Horizonte. reforçou a importância atribuída a ressocialização dos povos indígenas.

50 Lisboa. Comandante das Divisões. Um dos mais atuantes no confisco de kurukas foi o Diretor Geral dos Índios do Espírito Santo. determinou que o Comandante da 6ª Divisão escolhesse quatro meninos BARÃO DE S. Belo Horizonte. 553-4. as “fêmeas. Lisboa justificava-se dizendo serem insistentes os pedidos de crianças pelos moradores. APES. Alegou que a distância que teriam que percorrer era muito grande. p.Série Accioly . Ofício enviado ao Presidente da Província. o que facilitava ainda mais a atuação dos pombeiros e dos Diretores de Aldeias e dos Diretores Gerais. Grupo Documental Governadoria “G” . 187. haviam morrido. Os “machos” a que se referia. 51 MARLIÈRE. o Tenente Lisboa. já haviam sido casadas”. G. Grupo Documental Governadoria “G” . APES. 49 Lisboa. Ofício enviado ao Presidente da Província. Porém. A . no âmbito dos aldeamentos. A.Série Accioly 67. conhecido por assediar os índios que aceitavam se aldear para que lhes cedesse os filhos. Também instruía seus subordinados a tentarem formar pares de “machos e fêmeas” antes de enviá-los para serem distribuídos. Ofício a Idelfonso Joaquim Barbosa de Oliveira. LEOPOLDO. Reflexões sobre os índios da Província de Minas Gerais enviadas ao Presidente da Província.ALDEAMENTO COMPULSÓRIO E DESAGREGAÇÃO SOCIAL A desagregação social intensificou-se a partir de 1808. Secretaria dos Negócios do Império. Lisboa informava a Batista de Oliveira sobre o estado dos Boticudinhos de que dispunha para ver se eram de seu agrado ou se preferiria esperar pelo aparecimento de outros de “melhor figura e saúde”. Ao ser solicitado o envio de quatro Botocudos do rio Jequitinhonha. 1904. J. J. Rio de Janeiro em 14/10/1826. tendo sido essa a tática que usara para obter a maioria que distribuíra para serem civilizados. Linhares em 01/04/1829 . uma estava com três anos e era sarnosa e opilada e as outras duas. . com alguns agrados e dádivas. p. e relatava que os dois que levara para Guidowal. sugeriu o envio de outros do rio Doce. v. ás guerras e à venda de esposas e filhas. Belo Horizonte. Lisboa escolhia o momento que considerava adequado retirar as crianças – quando o grupo. mas que ele não as distribuía sem antes o Chefe da Junta da Fazenda Real informar se era seu desejo ter as crianças para si ou para presentear a amigos na capital. pois os parentes. 10. p. Quartel da Onça Pequena em 18/01/1825. RAPM. 49 50 48 47 Noutra correspondência . estavam entre onze e doze anos e eram aprendizes de alfaiate. em 1821. 48 Talvez fosse esta a razão da recusa constante dos índios que se apresentavam em Linhares em se estabelecerem nas proximidades da vila. 11.Tenente e Diretor Interino dos Índios Botocudos.. RAPM. apesar de criticar as constantes solicitações de envio de kurukas à Corte. Cel. Inácio Acioli de Vasconcelos. com pouco mais de doze anos. terminava por atendê-las. T. apesar de terem sido tratados com todo o mimo. p. já havia se aceitado permanecer aldeado. na sua visão. 812. Linhares em 12/01/1830. 150. Ten. ao alcoolismo. 47 51 Assim. Dizia que era mais fácil obter kurukas órfãos de pai e mãe. Coronel Marlière. Comandante das Divisões Militares de Minas Gerais.67. v. Tenente e Diretor Interino dos Índios Botocudos. 1906. os cediam. levando.

Quartel da Onça Pequena em 07/02/1825. 11. 1906. Coronel Miguel Teotônio de Toledo Ribas. Os conflitos que se seguiram ante a nova investida logo se manifestaram no que tangia ao uso e controle da mão-de-obra indígena. para se educarem num colégio na Corte. 53 Preocupou-se. Ofício enviado ao Diretor Geral dos Índios e Comandante das Divisões. 53 MARLIÈRE. T. doc. 52 55 56 57 MARLIÈRE. v. G. Belo Horizonte. G. p. 593-6. alferes Joaquim Rodrigues de Vasconcelos. várias revoltas indígenas eclodiram no vale do Jequitinhonha . Rio de Janeiro. se isso ocorresse. em recomendar que os indiozinhos não fossem separados para que não esquecessem sua língua materna enquanto aprendiam o português. Alferes Comandante da Sétima Divisão. Cel. João Evangelista. . era exatamente a de que a administração indígena retornasse ao controle e domínio dos particulares. Comandante das Divisões. Belo Horizonte. 1906). n° 05. 52 Os cinco kurukas foram escolhidos no Cuieté: dois meninos estavam sob os cuidados de soldados. Antônio José de Souza Guimarães. A proposta de Marlière foi aceita pelo Imperador. em 1831 . G. RAPM. p. 10. 57 CARVALHO. Chapada em 12/03/1831. APM SP PP1/4. SP PP1/4. Cel. condicionando que os kurukas fossem da tribo dos Botocudos (D. caixa 18. caixa 1. Caso os escolhidos estivessem em poder de soldados ou moradores. Cel.. Ten. v. Juiz de Paz Ofício enviado ao Comandante das Divisões e Diretor Geral dos Índios. dois foram dados por cabos e um pelo Comandante da 6ª Divisão O fato de os doadores virem a ser recompensados pelo Imperador. deveriam cedê-los. 29-30. Ten. beneficiando-os em suas atividades econômicas. Coronel Toledo Ribas . em 19/03/1825. Ofício enviado ao Comandante da 6ª Divisão. 11. Quartel da Onça Pequena em 06/04/1825. Cel.. Belo Horizonte. A. Ponte Nova em 08/06/1830. 55 GUIMARÃES. N. Juiz de Paz. atribui à doação o caráter simbólico de venda. Ten. Ofício enviado a MARLIÈRE. n. expressa pelo Juiz de Paz de Ponte Nova ao novo Comandante das Divisões. 56 GUIMARÃES. (Ten. p. conforme ordem do Imperador. G. fazendo com que sesmarias voltassem a ser abandonadas. T. Quartel Central do Retiro em 28/06/1825. T. o domínio sem controle do trabalho dos seus habitantes e calando a voz mais influente contra o comércio de kurukas. apenas. 54 MARLIÈRE.espertos e com menos de doze anos para serem enviados. 561. 1904. RAPM. Ofício enviado ao Presidente da Província. Coronel Miguel Teotônio de Toledo Ribas. Miguel Teotônio Toledo Ribas. Ofício enviado ao Comandante das Divisões e Diretor Geral dos Índios. pois. que era fazer com que retornassem a suas aldeias para catequizar seus compatriotas. 1904. Ponte Nova em 01/01/1831. Comandante das Divisões. reforçando a prática do comércio de crianças que Marlière alegava pretender extinguir. APM. reavaliou o projeto que enviara no ano anterior e afirmou que os encarregados de administrar os índios haviam se transformado em grandes e únicos beneficiários do trabalho desses indígenas. 10. 54 Com a destituição de Guido Marlière no ano de 1829. doc. T. p. Como conseqüência. Comandante das Divisões. garantindo-lhes recompensas. não se conseguiria atingir o objetivo. Ofício enviado ao Governador das Armas. SP PP1/15 doc. Antônio José de Souza. RAPM. abriu-se o caminho para a invasão das terras indígenas. A nova postura administrativa. PEDRO I. 09. v. n° 05. Comandante das Divisões.. 28-9. caixa 1. O próprio Juiz Guimarães. RAPM. v. Belo Horizonte.

Legislação indigenista no século XIX. Rio de Janeiro em 06/07/1832 In CUNHA. Pela Lei de 27/10/1831 . Um novo/velho modelo também foi adotado: a criação de colégios para índios em 1832 61 em local a ser indicado pelo Presidente da Província. A admissão de adultos só se daria quando considerados capazes de receber instrução. a nova política não alterou a visão educativa da política indigenista. ferrenho defensor da necessidade de ressocializar os índios de forma a torna-los na “população útil de que esta Província tanto precisa”. persistia na sua política de batizar “boticudinhos” e distribuí-los entre pessoas de 62 LIMA E SILVA. APES.. matemática e gramática às crianças dos dois sexos selecionadas pelo Diretor de índios deveriam ter entre cinco e doze anos e ali permanecer até seu grau de instrução ser considerado conveniente. In: CUNHA. cit. Mª M. 59 PERDIGÃO MALHEIROS. João A. 62 LISBOA. cit.. Rio de Janeiro em 27/10/1831. CARVALHO. . C. p. Capitão Lisboa. da Op. 137. decretou-se a liberdade dos indígenas que estivessem ainda em cativeiro. 1992. até que pudessem ser colocados no mercado de trabalho. Não era descarta a ação militar nessas localidades. Lei Revogando as Cartas Régias que mandaram fazer guerra e por em servidão os índios. como se constata no rio Pardo.67.A REGÊNCIA E A REVOGAÇÃO DA GUERRA JUSTA Dentre as várias medidas adotadas pelos governos regenciais. 279 58 . M. Neles dever-se-ia ensinar religião. cada vez mais. 60 Lei n° 63 . da C. 59 58 Essa preocupação – a qualificação da mão-de-obra indígena . definindo-os como órfãos a serem cuidados pelos respectivos juízes aos quais eram garantidos recursos para sustentá-los. O Diretor de Índios do Espírito Santo. C. p. destacaremos a revogação da Guerra Justa aos índios definidos como bravios e irredutíveis numa tentativa de eliminar as orientações legais contraditórias do Primeiro Império. em 25/04/1837. São Paulo: Edusp/CPISP. Op. C. Ma. MUNIZ.Série Accioly . Grupo Documental Governadoria “G” .Cria na Província de Minas Gerais um colégio de educação destinado à instrução da mocidade indiana de um e outro sexo. Ofício enviado ao Presidente da Província. In CUNHA. da. a ressocialização das crianças continuava a ser uma meta a ser alcançada e uma justificativa para a apropriação de kurukas por particulares e para o retorno dos missionários catequistas nas áreas de conflito. Logo. ofícios mecânicos. Ma. J. p. Salvador. primeiras letras. Podemos até afirmar que. educação civil e moral. Linhares em 03/02/1834. na Bahia em 1836 60 e na decisão do governo mineiro de manter em atividade as tropas das Divisões Militares por considerá-las fundamentais para o sossego dos moradores e por não haver reclamações quanto à sua atuação. F. Capitão e Diretor Interino dos Índios Botocudos. J. da Op. B. p.. Manoel José Pires da Silva Pontes. 153-5. M. 171-2 61 Decreto .pode ser compreendida se considerarmos que no mesmo período já se previa a abolição da escravatura africana como exigia o acordo estabelecido com a Inglaterra em 1826. cit.Autorizando o Governo da Província a manter Destacamentos de Infantaria para proteger os habitantes contra os assaltos das tribos selvagens.

Grupo Documental Governadoria “G” . Capitão e Diretor Interino dos Índios Botocudos. Grupo Documental Governadoria “G” . como os membros da família Calmon representada por três dos seus membros. p. Linhares em 30/04/1834. indicando a clara preferência por kurukas do sexo masculino. professores.foram um dos membros da família Calmon e outra pessoa que aparece na listagem sem qualquer outra referência além do seu nome. Joaquim José de Oliveira. e mãos de guerreiros de outro grupo aos quais acusava de haver atacado colonos mineiros. quarenta e duas eram meninos e trinta meninas. 291-3. 376. o governo capixaba questionou o diretor em 1835.prestígio. Linhares em 01/08/1836.. talvez por razões econômicas ou por dificuldade de obter meninas entre os Botocudos. Ante seus insucessos na política indigenista. em que informava o envio de vinte e cinco crianças batizadas e de setenta e duas entregues a interessados.. Administrador de Diversas Rendas. APES. 63 . 326-7. p.67. 65 64 LISBOA.Série Accioly . Ofício enviado ao Presidente da Província. p. Das crianças 63 entregues. Capitão e Diretor Interino dos Índios Botocudos. Vice-Presidente. APES. Ofício enviado ao Presidente da Província. que Lisboa sequer sabia seu sobrenome. ou tão desconhecidos como um do Distrito de São Mateus. particularmente na solução de conflitos e na atração. João A.67. Manoel José Pires da Silva Pontes. Inspetor da Catequese. como se observa em correspondência de 30/04/1834 . O único critério que parecia nortear a distribuição de kurukas pelo Diretor era o interesse dos requerentes e seu prestígio junto a ele.67. trazendo. párocos. que provavelmente foram entregues a Lisboa como elemento de negociação. João A. A atitude do Capitão dos Cuietés foi explicada por ter sido criado por um civilizado. médicos. numa escala de variação entre um e seis. 64 LISBOA.Série Accioly .89. 65 LISBOA. E relatou a chegada de um grupo a Porto do Souza. APES.. identificado como de Cuietés.seis crianças . como sinal de sua intenção de estabelecer relações de aliança com os soldados. Ofício enviado ao Presidente da Província.Série Accioly . oficiais de vários níveis da Companhia de Pedestres e da Primeira Linha e fazendeiros importantes. três crianças órfãs. o que reafirmava a crença na política de distribuição de kurukas e na eficiência da administração indígena através do controle do capitão do grupo e da atuação de línguas. Lisboa destacou que os únicos índios civilizados eram aqueles que haviam sido entregues a “pessoas fidedignas”. A média de crianças distribuídas por pessoa era de 1. Capitão e Diretor Interino dos Índios Botocudos. João A. Manoel José Pires da Silva Pontes. Os que receberam o maior número . Chefe da Junta da Fazenda. Grupo Documental Governadoria “G” . Linhares em 05/03/1835. Ao se justificar. sem maiores preocupações em saber qual a destinação a ser dada aos “boticudinhos”. Os agraciados com esses mimos pertenciam a várias categorias sociais: Presidente da Província em exercício e afastado. pois haviam deixado de conviver com seus pais. Juizes de Direito e de Paz.

da S.142-55. após dezoito anos. Decreto número 479 .um estudo dos valores ideológicos do império do comércio livre. Ma.Shouthey. quando da promulgação do Decreto nº 426 que instituía as formas de atuação desses missionários e recebeu Decreto número 370 . Ma. retomar as rédeas da administração indígena.Elevando a seiscentos e quarenta réis o vencimento dos remadores dos escaleres do Ministro da Repartição. M. In: CUNHA.o europeu -. A mestiçagem e a regeneração dos selvagens. In: CUNHA. Ibidemt. Para viabilizar a primeira proposta. historiador do Brasil . preferindo. O fardo do homem branco .A RETOMADA DO PROJETO MISSIONÁRIO: OS CAPUCHINHOS ITALIANOS E AS CRIANÇAS INDÍGENAS A dificuldade no suprimento regular de escravos de origem africana e a conquista e incorporação de novos espaços nas áreas de fronteira exigiam reformulações na política de formação de trabalhadores. p. M. portanto. os índios para este serviço. da. após alguns anos. seriam indenizadas das despesas feitas com a “obra meritória de contribuir para evitar a aniquilação e desaparecimento total dessa raça infeliz” e de reconquistarlhes a confiança. Ibidem p. p. que se encarregassem de sua educação. 67 DIAS. P. C. e ordenando que se lhes abonem rações e vestuário como se pratica com os praças de bordo. 173. pela aplicação de trabalho disciplinado e ordenado segundo os padrões ditos civilizados. defensores da importância do trabalhador indígena e da responsabilidade do Estado na formação desse contingente de mãode-obra. ainda que se tivesse de instituir uma tutela autoritária. 118. 123. da. Postura apoiada pelos membros do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. M. Rio de Janeiro em 14/08/1837. Rio de Janeiro em 31/07/1837. São Paulo: Cia. Decreto número 400 . C.Dando providência para que no Arsenal da Marinha da Corte se estabeleça uma acomodação para os índios empregados no mesmo. Tais pessoas. M. Op. Ed. As soluções pensadas na década de 40 oscilavam entre duas prioridades: preparar os índios para substituir os africanos e/ou estimular a imigração estrangeira. havia duas posições não excludentes: a entrega da administração das crianças indígenas aos missionários capuchinhos italianos ou distribuí-las entre pessoas estabelecidas e de notória probidade. da. A atuação dos missionários capuchinhos italianos 68 67 66 efetivada em 1845.Circular aos Presidentes de Província para evitar despesas com o transporte de recrutas e índios para esta Corte. Rio de Janeiro em 18/09/1837. o que se expressa num conjunto de decretos editados a partir de 1837 voltados para a retomada do projeto de educar e usar os trabalhadores indígenas e reduzir os constantes conflitos com particulares sequiosos desse controle. Nacional. 66 . após negociações entre o Governo brasileiro e a Santa Sé. cit. essencial à subordinação das populações nativas e sua inserção nos projetos de promoção da conquista e domesticação da natureza. 1974. . que sejam eles depositados a bordo de algum navio da Armada ali estacionada até que se ofereça condição de os enviar para aqui. 172. Ma. em igualdade de circunstâncias. C. O. 174. da Inspeção do Arsenal e do Quartel General. In: CUNHA. passaram a ser assumidas como essenciais para a construção da nacionalidade segundo o modelo pensado . Essa atitude deixa clara a intenção do Governo Central em. 68 68 A retomada do projeto catequético iniciou-se em 1841 .

Atual cidade de Mucuri. 69 . B. RIHGB. 8. quando o vigário batizou um filho de outro capitão.401. Ofício enviado a Marco Antônio Galvão. Como os moradores do local. Maço 4611. a razão do conflito fora outra: d’Almeida. São José de Porto Alegre em 08/8/1844. como denunciava o pároco de São José de Porto Alegre . v. Série Agricultura. o assédio aos kurukas por particulares persistia. 1867. 24/5/1845 . ao retornarem à região. a outros habitantes do local. Fundo Ij 1 . Secretário de Estado dos Negócios da Justiça. APEB. Série Justiça . massacraram a família Viola. Rio de Janeiro. Ma. ao informar que um grupo Giporok apareceu em maio de 1844 “com intenção amigável” e seu líder teria deixado. da. os índios optaram por retornar aos sertões.Gabinete do Ministro. In: CUNHA. o que o motivara a enviar um Destacamento para o local.o nome de Regulamento das Missões . Os índios. ao subdelegado. matando três pessoas. priorizou a atuação nos aldeamentos e a criação de colégios para as crianças indígenas. Secretário de Estado dos Negócios da Justiça. feridas outras três. L. em poder de um morador e se retirado para as matas. Francisco José de Souza.. Francisco José de Souza.. Ofício enviado a Marco Antônio Galvão. particularmente em Minas Gerais. 70 AZEVEDO. A. que acompanhou o missionário e o Juiz de Paz em seus deslocamentos para localizar o grupo de Giporok. Rio de Janeiro em 24/07/1845. 71 ANDRÉA.. M. Série Justiça . Série Justiça . passaram a assediá-los e a usar de violência para obter crianças . Francisco José de Souza. A. N. uma filha de aproximadamente dezesseis anos. doc. O Presidente da Província determinou o deslocamento do Destacamento do Prado para o Mucuri para que. 10/6/1845 . Secretário de Estado dos Negócios da Justiça. C. Bahia. sob o comando das autoridades locais. cit. 72 71 70 69 O Presidente Andréa relatou ao Secretário de Estado dos Negócios da Justiça o conflito ocorrido na propriedade da família dos Viola. p. regressaram. Porto Alegre do Mucury e os rios Mucury e Peruhipe. 69. Diretoria Geral dos Índios. Vigário de São José de Porto Alegre. N.Gabinete do Ministro. As relações entre os índios e os moradores agravaram-se em curto espaço de tempo devido à persistência dos moradores em reter os kurukas. Presidente da Província. No fim do mesmo mês. Op.401. A. 72 ANDRÉA. Presidente da Província. Fundo Ij 1 . que atendiam as pressões dos moradores de Viçosa para o restabelecimento do comércio de kurukas -. 74 d’ ALMEIDA.sob a justificativa de presenteá-las ao Presidente da Província. N. 191-9. nas margens do Mucuri responsabilizando os índios por haverem iniciado a violência. Ofício enviado a Marco Antônio Galvão. 425-53. aponta para o fato de a Decreto de número 426. p. As Vilas de Caravelas. Bahia. Bahia. contivessem os deslocamentos dos indígenas e os aldeassem. A. além de estarem desaparecidos dois filhos do fazendeiro e um escravo. Presidente da Província.401. Contém o Regulamento acerca das Missões de Catequese e Civilização dos índios. o grupo apareceu com mais treze crianças. Viçosa. correspondência enviada ao Presidente da Província da Bahia. espontaneamente. Em julho. O pároco colocou como condição mínima para aldear os grupos que lhe fosse dada autoridade para resgatar as crianças e devolvê-las aos pais. 73 ANDRÉA. Fundo presidência da Província. Antônio Miguel de. 24/5/1845 . Apesar da nova orientação. Fundo Ij 1 .. inclusive o próprio vigário.Gabinete do Ministro. 73 74 Na verdade.

Ofício enviado ao Presidente da Província. p. 6-46. Cel. Comandante da Colônia Militar do Morro das Araras. Pedro Vítor Renault.família Viola reter duas meninas indígenas e sua recusa em devolvê-las ao capitão Jiporok. APEB. APEB. calcado numa ótica empresarial que associava a presença de colonos de origem estrangeira a de índios aldeados. Ofício enviado ao Presidente da Província. Tip. o Capitão atacou o sítio e se refugiou no trecho mineiro daquele rio.Colônias e Colonos. Ten. Maço 4604 (1846 -1876 ). Maço 4604 (1846 . OTTONI. atribuindo sua atitude ao lastimável comércio que chamava de “tráfico infame” e condenava o abuso sexual praticado pelos soldados do Quartel de Santa Cruz 77 QUINTILIANO. APEB. Fundo da Presidência da Província. Rio de Janeiro em 22/09/1847. Maço 4604 (1846 . onde permaneceu escondido até aceitar o contato com Teófilo Ottoni. p. Francisco Gonçalves Martins. da. Ofício enviado ao Presidente da Província. Antônio Inácio de Azevedo. Antônio Inácio de Azevedo. que deveriam se tornar futuros pequenos produtores . Antônio Inácio de Azevedo. Série . Ofício com instruções enviadas ao Coronel Honório Esteves Ottoni. 77 COELHO. 35-41 77 BRANCO. RIHGB. Por um lado. B. APEB. Comandante da Colônia Militar do Morro das Araras. São José de Porto Alegre em 23/7/1848. Leon. Maço 4604 (1846 . T. responsável pelo ataque ao sítio dos Viola. Fundo da Presidência da Província. Comandante da Colônia Militar do Morro das Araras. Villeneuve e Cia. José de Porto Alegre. Secção Colonial e Provincial. APEB. ibidem p. 1847. Secção Colonial e Provincial. APEB. 1847.. São José de Porto Alegre em 21/11/1848. Série . Ofício enviado ao Presidente da Província. 77 PAIVA. 76 75 Teófilo Ottoni.. Rio de Janeiro. Série . Fundo da Presidência da Província. Secção Colonial e Provincial. Quintiliano J. ao analisar o comércio das crianças. adotava uma postura dúbia... OTTONI. Antônio Ribeiro de. 77 OTTONI. T. In: OTTONI. 1903.Agricultura . de . Ten. 77 SILVA. Villeneuve e Cia.1876 ). Comandante da Colônia Militar. Manoel Alves.. B. In: OTTONI. p. quando da criação da Companhia do Vale do Mucuri. Comandante da Colônia Militar do Morro das Araras. E. muito pouco alterou esse quadro na região. Série . Fundo da Presidência da Província. Caderno 04. São José de Porto Alegre em 08/05/1848. Condições para a Incorporação de uma Cia de Comércio e Navegação do Rio Mucuri. Ten. Rio de Janeiro: Tip. Azevedo Coutinho. 45-51. Secção Colonial e Provincial. de J. Antônio da Costa. T.Agricultura . Antônio da Costa. Cel. OTTONI. Série . Caderno 04. 75 . Mesmo o projeto dos Ottoni. mais uma vez. Honório B. 77 COELHO. 76 Um dos líderes indígenas mais resistentes ao contacto era exatamente o Capitão Jiporok. as tentativas de aldear novos grupos indígenas fracassou devido à desconfiança dos índios quanto à atitude dos colonos para com seus kurukas. Carlos A. 7. 77 PAIVA. T. Antônio I. Ten. Secção Colonial e Provincial. Cel. Antônio Ribeiro de. São José de Porto Alegre em 25/7/1848. Exploração dos rios Mucuri e Todos os Santos e afluentes por ordem do governo pelo engenheiro Dr. Cel.Colônias e Colonos. Honório B. Ofício enviado ao Presidente da Câmara Municipal de S. Caderno 04. Honório B. Caderno 04. Termo de Contrato para a Organização de uma Companhia de Navegação e Comércio sobre o rio Mucuri. de J. B. Ten.. Série . Comandante da Colônia Militar do Morro das Araras.1876 ). Ten. Condições para incorporação de uma Cia Nacional de Navegação e Comércio que terá por objeto franquear a navegação do rio Mucuri desde sua foz na Província da Bahia até o ponto em que for ou puder tornar-se praticável a navegação do mesmo rio. Antônio da Costa. Ouro Preto em 18/5/1846 In RENAULT.Colônias e Colonos. Fundo da Presidência da Província.Agricultura. Condições para a Incorporação de uma Cia de Comércio e Navegação do Rio Mucuri. Secção Colonial e Provincial. Cel. Caravelas em 18/07/1848.Colônias e Colonos. Gama. Para reavê-las. Maço 4604 (1846 -1876 ). Antônio Inácio de Azevedo. Cel. Palácio do Governo de Minas Gerais em 19/08/1847.1876).. Antônio Inácio de Azevedo. 77 COELHO. José da.Agricultura . Fundo da Presidência da Província. Rio de Janeiro: J. Caderno 04. Rio de Janeiro em 31/05/1847 In: OTTONI. defendia o capitão Jiporok. Antônio Ribeiro de. Ofício enviado ao Presidente da Província. B.Colônias e Colonos. 77 PAIVA. São José de Porto Alegre em 18/10/1848.Agricultura . v. 41-5.Agricultura . Ofício enviado ao Presidente da Província.

Ottoni estava. Nas áreas ocupadas por grupos arredios. Ante a reação dos indígenas. a criação de aldeamentos centrais e colégios. no caso. havendo casos em que os administradores solicitavam que fossem remunerados. Também essas novas medidas não evitaram a continuidade da escravidão das crianças Ao que tudo indica. Casemiro de S. o processo de interiorização sem ampliou. Martins. preocupadas com a carência 80 de índios-trabalhadores para seus munícipes. 78 . A Lei de Terras de 1850 feriu direitos indígenas no tocante à preservação de suas terras e mesmo dos lotes que lhes haviam sido destinados na constituição dos aldeamentos.. Os conflitos e a lentidão de obterem resultados práticos no tocante ao controle dos aldeados e a sua inserção na economia de mercado eram atribuídos à carência de missionários. Diretoria Geral dos Índios. que sofria ameaça judicial de perder suas propriedades em decorrência das relações de exploração impostas aos índios daquele aldeamento e do conflito com o missionário. Esta postura contradizia sua afirmativa de que “todos os moradores dos lugares adjacentes ao Mucuri especulam horrivelmente com a desgraça dos selvagens”. Mas. Ottoni afirmou ser impossível qualquer família prosperar na área do Mucuri sem o concurso desses pequenos trabalhadores e dos índios adultos. E definiu o acusado como um homem empreendedor e que deveria ter seus direitos resguardados. liberando as terras para a colonização e seus ocupantes das ameaças representadas pelos conflitos”. Série Agricultura. 79 MADUREIRA. os conquistadores voltaram a organizar bandeiras particulares. maço 4611. em contrapartida. Diretoria Geral dos Índios. Vila do Prado em 16/10/1856. Ilhéus em 22/03/1851: APEB. assim como os conflitos e o número de aldeamentos. intensificava os esforços para aldeá-los em locais distantes dos focos de tensão ou onde pudessem vir a ser úteis depois de “amansados’.em 1849 contras as meninas indígenas ali aldeadas. defendendo a família Rego/Pego do Sorobi. Ofício enviado ao Presidente da Província. os kurukas línguas eram considerados como elementos essenciais. quando a família de Antônio Gomes Leal. apesar de legalmente proibidas. Série Agricultura. Fundo Presidência da Província. Ofício enviado a Casemiro de Sena Madureira. sabedores da fome enfrentada pelos índios que circulavam pela região e do medo de atacar as fazendas para obter alimentos. Fundo Presidência da Província. 81 Para povoar esses aldeamentos. Diretor Geral dos Índios. foi acusada de reter kurukas e explorar de forma abusiva o trabalho dos aldeados. Bernardino do Lago Negro. maço 4611. Ofício enviado ao Presidente da Província. Porém. Domingos Jorge. apesar da vigência da Lei de Terras que previa o confisco das terras de proprietários que usassem trabalho escravo indígena. Francisco G. implicitamente. 80 CÂMARA DA VILA DE ILHÉUS. APEB. maço 4611. o Estado. Diretoria Geral dos Índios. 81 CORRÊA. pois. João Maurício Wanderley. além de combatê-los. Destacam-se. 79 78 visando atender as solicitações das Câmaras Municipais. recém-instalado no Mucuri. o que exigiu a adoção de medidas para solucionar a questão. aproveitavamse da situação para explorá-los. Salvador em 03/11/1852: APEB. Diretor Geral dos Índios. Fundo Presidência da Província. Série Agricultura.

Subdelegado de Polícia.indígenas. São várias as denúncias na segunda metade do século XIX. 1860. Luís Antônio de Souza Lisboa.Carta dirigida ao Sr.1864). Joaquim Manoel de Macedo. Ottoni também informava ser prática comum entre os Maxakali vindos do Jequitinhonha e refugiados no Mucuri. dois machados e uma panela. chegara a deixar alguns kurukas de presente para Gipakeiu Ottoni. 1858. 87 Inimigo na língua Borum 88 CAMPOS. cada vez mais. AN. em casos de fome extrema. 85 Atual cidade de Mucuri. Fundo: 82 . P 236-44. v. receoso de ataques futuros. Vila de Olivença. Leandro de Oliveira. Teófilo B. Notícia sobre os Selvagens do Mucuri .Presidente da Província. p. O comprador devolveu a índia e não fez o pagamento. que rendia cem mil réis por criança. o trabalhador 88 87 86 SILVA. que os devolveu. embora ele não tivesse obtido sucesso na sua tentativa de obter uma criança. Belo Horizonte: Itatiaia. no estado da Bahia 86 AVE-LALEMANT.. 173-215. Tal decisão teria sido revertida e o soldado desapareceu e a índia só foi aceita no grupo após levar uma surra por não ter tido habilidade para impor a viabilização do negócio. entretanto. 83 OTTONI. Referiu-se especificamente a Jukirana ter trocado recentemente uma índia jovem por duas vacas. Dos cinco. Fundo da Presidência da Província. no Mucuri. Pernambuco. RIHGBr. para sinalizar que não era sua intenção obter crianças através das relações que estabelecia. embora a maioria dos conflitos intertribais decorrerem da tentativa de defender a liberdade dos filhos e a “pudicícia de suas mulheres”. Viagens pelas Províncias da Bahia. 85 82 83 84 Já os Poruhum/Porotum-Batata adquiriam kurukas entre os Bakuên e trocavam-nos em São Mateus por espingardas e o grupo do Capitão Potik. Rio de Janeiro. R. o que determinou a decisão do líder de considerá-los kiporoka e condená-los à morte. Alagoas e Sergipe. na Bahia em 1853. APEB. Tip. um o acompanhou ao Rio de Janeiro e outro ficou com o comandante do navio Santa Clara numa clara indicação da contradição entre o discurso e a prática. Ouro Preto. São Paulo: Edusp. venderem as esposas e filhas. de terem presenteado o Comandante de um brigue de guerra com um casal de índios pequenos da aldeia de Olivença. Numa delas há a denúncia do dinamarquês Martinho Sellman e seu sócio. do Provincial. Secção Colonial e Provincial. por ele estar envolvido na mesma atividade. Também o viajante Robert Avé-Lallemant denunciou o tráfico de kurukas no Mucuri. maço 4612. Nessa nova era que se iniciava. A partir de 1860 fortaleceu-se a opção pela imigração de colonos estrangeiros e aumentaram os questionamentos acerca da validade dos esforços e investimentos na catequese indígena e nas tentativas de transformar os índios brasileiros em trabalhadores capazes de substituir os escravos africanos. tão comum entre homens públicos. Série Agricultura Comissão de Medição dos Aldeamentos dos Índios (1856 . 22. Ofício enviado ao Delegado de Polícia de Ilhéus. Manoel Teixeira de Souza no ano de 1860. 18/3/1853. Carlos Carneiro de. 1980. Ottoni em 1858 justificava a presença dos Jiporok no vale do Mucuri devia-se ao seu ataque á família dos Viola e confirmando o comércio de kurukas e a morte do Presidente da Câmara de Porto Alegre. Relatório Apresentado na passagem da Administração ao 2º Vice .

N. a situação vivida pelos índios naquela região agravou-se. 89 No caso do vale do Mucuri com o fracasso da Companhia de Ottoni. N. Manuel Joaquim de. Fundo: Relatórios dos Presidentes de Província. Sucederam-se os massacres e os poucos sobreviventes.. livro n°. Secção IA 71 (1861-1866 ).79. as referências à entrega de crianças indígenas tornam-se mais escassas. A. N. Antônio Dias. Esse quadro precipitou a criação dos Aldeamentos Centrais voltados para a educação compulsória das crianças. Vitória em 09/10/1871. os grandes aldeamentos. 91 SOUZA E MELO. p. João Crispiano. Sugeria que. 1863. 90 MUSQUEIRA. como exemplo os “muitos índios mansos” do rio São Mateus e outros lugares da Província. Fala Dirigida à Assembléia Legislativa Provincial de Minas Gerais na Sessão Ordinária do Ano de 1863. 89 SOARES. que viviam “em casa com docilidade e de boa vontade trabalham”. por isso que é feito por instrumentos que suprem a força do braço e exigem menor esforço do trabalhador”. Ouro Preto.. Acreditamos que o comércio de kurukas persistisse naquelas regiões. sendo os adultos vendidos como escravos no Jequitinhonha ou no próprio Mucuri.2. . Agostinho José Pereira Bretas . Relatório apresentado quando da passagem da administração provincial ao 1º Vice – Presidente. como se observa na fala datada de 1871 do Presidente da Província do Espírito Santo ao avaliar as regiões do rio Doce e do São Mateus. 93 SOARES. SP PP1/4. A. Presidente da Província. a entrega das crianças a pessoas confiáveis sob a inspeção e vigilância das autoridades. 03. no entanto se referia ao 95 Exposições. Ofício enviado ao Presidente da Província. Dioniso Álvaro Resende. Antônio Luís de Magalhães. Social . Restavam. 94 PAES LEME. Série Agricultura.79. p. Marques de Caxias. Microfilme 004. José da Costa Machado de Souza. Microfilme 003. Falas. 95 Ferreira Correa.2. o que não significa o desprezo pelo concurso da mão-de-obra indígena por particulares. 94 93 91 92 90 decisão mais avançada se a compararmos com a visão do Vice-Presidente do Espírito Santo. Arquivo Nacional. Manuel Felizardo. A partir dessa data.1. Diretor Geral dos Índios. livro 04. APM SG ¼. E citava. Ouro Preto. como últimos refúgios. eram distribuídas entre os fazendeiros locais.indígena foi sendo descartado e os interesses das elites rurais voltavam-se para a tomada das terras dos aldeamentos pelas vias legais ou pela força. microfilme 004. N. Rio de Janeiro em 22/01/1862. pregava a necessidade de submeter os indígenas a trabalho assalariado por conta do governo em obras públicas ou por contrato com particulares. ainda que não denunciado pelo missionário. João Crispiano.79. Relatório de passagem da Administração Provincial. Mensagens e Relatórios Provinciais / Estaduais. 92 LEMOS. Vitória no ano de 1870. Ouro Preto. que. Microfilme 004.3. A. Social . Microfilme 003.1.. Ouro Preto: Typ. 52 .. Ofício enviado ao Presidente da Província. dever-se-ia “fazê-los servir nas escolas práticas onde o trabalho é mais suave e menos penoso. Ofício enviado ao Ministro da Guerra.57v. 1863. Typ./04/1868. particularmente as crianças. 16–7. A.79. Fundo Ministério da Agricultura. concentradores dos vários grupos indígenas aldeados. sendo vistas como meramente uma obra filantrópica.79. . Diretor Geral dos Índios. 20/07/1870. Fala Dirigida à Assembléia Legislativa Provincial de Minas Gerais na Sessão Ordinária do Ano de 1863 pelo Presidente da Província. ao invés de serem transferidos para aldeamentos. Ministério da Agricultura. Fundo Relatórios dos Presidentes de Província.

APEES Livro 67 da Secção Histórica e Administrativa . 1871. AN. mas limítrofe do Mucuri. de J. Ofício enviado ao Presidente da Província. do Doce e do Mucuri. que o interesse dos fazendeiros em obter kurukas persistia e que os desentendimentos entre os proprietários de terras e os missionários ampliava-se tendo como pano 96 BUBBIO. F. Diretor Geral dos Índios. Mensagens e Relatórios Provinciais / Estaduais. . Serafim de. determinavam a adoção de soluções imediatas. Tip. que suas tentativas de interromper esse comércio encontrara resistência. Ouro Preto em 1871 In BELÉM. N. foram criado Aldeamentos Centrais e Colônias Indígenas. de Paula Castro. Guandu em 22/4/1872. portanto. Francisco Leite da Costa. de Paula Castro. 99 GORIZIA. Fundo: Exposições. Mensagens e Relatórios Provinciais / Estaduais. 98 MUSQUEIRA. J. Tip. Ouro Preto em 23/07/1872. missionário de Itambacuri em 1874. acusando os fazendeiros do Mucuri de incitarem os índios a pilharem as aldeias inimigas para obterem crianças. Ao condenar tal prática. Relatório enviado ao Presidente da Província.79. afirmou que o aldeamento deveria criar um espaço especial para abrigar essas “infelizes” crianças. inclusive. teve uma longa vida. Constata-se. 99 98 97 Segundo o missionário. apenas o de Nossa Senhora dos Anjos de Itambacuri. afastando-as dos péssimos hábitos de seus pais.79. 1875 . Antônio Luís Magalhães. ao analisar a importância do aldeamento de Itambacuri voltou a denunciar a escravidão de kurukas. A. Porém. no vale do rio Doce. APM. os conflitos no vale dos rios Jequitinhonha. Por pressão do Diretor Musqueira. quando pretendia encaminhá-las para serem educadas nos colégios dos aldeamentos. Afirmava.3. p. facilitar a administração e controlar e agilizar o treinamento dos indígenas para sua inserção no mercado como trabalhadores ou pequenos produtores. Ofício enviado ao Diretor Geral dos Índios. Ouro Preto. onde o número era reduzido porque os índios eram cada vez mais atraídos pelas promessas dos fazendeiros. Frei Bento.Fundo Índios. Musqueira estabeleceu qualquer conexão entre o comércio de kurukas e a insatisfação dos índios. Ouro Preto. Microfilme 004. as revoltas indígenas imbricavam-se com comércio de crianças. Itambacuri em 25/07/1874. que se tornaram mais insistentes com as crises sazonais na produção agrícola e com o início do processo de regularização fundiária das áreas ocupadas pelos colonos nacionais e estrangeiros. . devendo os missionários investir na regeneração das crianças indígenas.G. Antônio Luís de Magalhães Musqueira. Relatório Apresentado na Abertura da Sessão Ordinária da Assembléia Legislativa Provincial no ano de 1871. Ângelo de. Microfilme 004.Livro nº 4. 96 Já em Minas Gerais. Falas. (frei). In: AZEVEDO. Dos três aldeamentos criados. Pedro Vicente de. 97 MUSQUEIRA. 84 v-8. mantido devido ao interesse dos colonos em tê-los como mão-de-obra gratuita. O Diretor Musqueira em 1872 . Diretor Geral dos Índios. Antônio Luís de Magalhães.6. Fundo: Exposições. relação claramente estabelecida por frei Serafim de Gorizia. F. Fundo Secretaria de Governo S. medida voltada para reduzir custos. SASSOFERRATO. Relatório encaminhado ao Presidente da Província. Falas. (frei). que vendiam por bagatelas. Relatório Apresentado na Abertura da Sessão Ordinária da Assembléia Legislativa Provincial em 09/09/1875. ¼ .seqüestro das mulheres dos aldeados. em nenhum momento. onde se concentrava a maioria dos grupos indígenas arredios daquela Província.

Relatório Apresentado na Abertura da 1ª Sessão Ordinária da 24ª Legislatura da Assembléia Legislativa Provincial em 01/08/1882. sob a alegação da precária situação econômica vivida pela província. preparando-os para serem chamarizes dos demais. Relatório Apresentado na Abertura da 3ª Sessão Ordinária da 26ª Legislatura da Assembléia Legislativa Provincial em 04/06/1889. Mensagens e Relatórios Provinciais / Estaduais. como se constata em Minas Gerais. 102 Outro exemplo de reação dos indígenas é a conhecida revolta dos aldeados de Itambacuri. de J. v.79.. 1882. 12-20. AN. O Massacre dos Botocudos. 1881.10. 103 100 VASCONCELOS. A epidemia de sarampo provocada pelos fazendeiros ao doarem roupas contaminadas matou a quase totalidade dos kurukas que estudavam no Aldeamento Central. AN.7. de Paula Castro. quando teriam morrido dois índios e os demais se refugiado num bananal. de Carlos Andrade. Fundo: Exposições. Mensagens e Relatórios Provinciais / Estaduais. Rogério. comandados por Quirino Grande. 1978. 100 Um novo projeto – a criação de Presídios Nacionais . 101 OTTONI. fev. Tip. A opção pela vinda de imigrantes estrangeiros. F. vistos agora como a grande alternativa para os problemas de pobreza das regiões. Ouro Preto. 102 MEDEIROS.8. 22. O aldeamento havia se tornado em 1888 num núcleo com grande presença de moradores definidos como mestiços. tudo nos leva a crer que sua apropriação continuou a existir. Falas. Em termos da nossa análise. 1889. p. particularmente se considerarmos que a partir da década de 80 o Estado brasileiro passou a se omitir com relação à administração dos indígenas. Tip. Falas. Relatório Apresentado na Abertura da 2ª Sessão Ordinária da 23ª Legislatura da Assembléia Legislativa Provincial em 07/08/1881. aldeado havia mais de vinte anos. Foram mortos mais de trezentos índios em combate e na prisão de Quirino Grande e Manuel Pequeno e outros dezesseis índios morreram no cárcere anos depois.era pensado embora o objetivo fosse o mesmo: instruir os indígenas. Citamos como exemplo a morte de oito línguas enviados pelos missionários para atrair os Pojixá do vale do Mucuri para uma cilada. Vice-Presidente da Província. Porém. Ouro Preto. Fundo: Exposições. 103 SOUZA MAGALHÃES. A revolta dos setecentos indígenas. Até mesmo as chamadas escolas de primeiras letras existentes nos aldeamentos foram abandonadas. determinou as decisões de extinção dos aldeamentos e o abandono dos indígenas à própria sorte. Microfilme 004. da Actualidade. Microfilme 004. Fundo: Exposições. categoria de classificação oposta à dos índios. . resultou na destruição parcial do aldeamento e da escola e em violenta repressão a que os atingiu. o que lhes garantiu a vida. entregando esse papel a particulares.79. Mensagens e Relatórios Provinciais / Estaduais. João Florentino Meira de. Ouro Preto. deixam de ser produzidas informações acerca do destino das crianças indígenas. Teófilo B. Falas. 101 A reação dos indígenas a esses “chamarizes” se fazia presente em determinados momentos e situações.79. Microfilme 004. Agora. apesar de terem se refugiado nas matas.de fundo a disputa entre dois projetos de ressocialização e inserção dos indígenas no sistema produtivo nas áreas de fronteira ainda descapitalizadas. priorizando o ensino de técnicas agrícolas elementares de forma prática aos adultos e noções de moral e religião para as crianças nas escolas. AN. Tip.

Num contexto em que o Estado-Nação é concebido como uma unidade territorial. os ocupantes de terras retornariam a suas propriedades e voltariam a produzir. Chegavam a afirmar que. a despesa é bem pequena em relação aos benefícios que nos traz”. Editorial do Jornal O Norte de Minas. Fundo: AP. Informações sobre fazendas abandonadas no Norte de Minas entre 1879 e 1884. Após a morte de Hin. Teófilo Ottoni. onde viviam cinqüenta guerreiros. OS ÍNDIOS E SEU LUGAR Ao observarmos a questão da ressocialização das crianças indígenas.N. descrita como a única atitude capaz de acelerar a civilização dos silvícolas.hé num acidente.Até mesmo os Pojixá que haviam se retirado antes do ataque e se refugiado nas matas do São Mateus. . ano 1. procuraram Lúcio em Itambacuri e ali se instalaram. a questão da mão-deobra indígena no Mucuri ainda era relevante e. Seu cálculo se baseava na hipótese de que. Já o grupo de Vakman. se o Governo se dispusesse a investir dezesseis contos de réis durante cinco ou seis anos. em língua Borum. após várias tentativas dos missionários de atraí-los para Itambacuri usando com atração o filho do cacique Paulo Pojixá. não se precisaria manter a Tropa de Linha no Mucuri. que trucidou todo o grupo. foram atacados pelos fazendeiros do Mucuri. o valor das terras se elevaria e aumentarse-iam a produção e as rendas do Estado. veria que a “despesa é uma economia bem entendida”. nº 2.2. 105 104 No editorial clamavam pela adoção de uma solução definitiva para a presença indígena na região e criticavam “a pouca energia dos comandantes”. muitas mulheres e crianças. visto como um projeto oficial de consolidação da conquista. louvavam a autorização dada pelo Governo Provincial para os kuruka serem confiscados aos pais e educados por representantes da sociedade nacional. que viviam sob sua liderança. na qual 104 REDATORES. cujo nome. defensores da catequese e não do extermínio. Doc. era Hin-hé. assim. . A. o acesso a esses trabalhadores seria garantido.37. Para esses fazendeiros. . 49. que permaneceu no São Mateus. entretanto. deixou de se preocupar com manter as defesas de suas aldeias. 105 Atual cidade de Teófilo Ottoni.14 ( Arquivo Afonso Pena) Mapoteca 8g. como se observa em editorial do jornal O Norte de Minas. quando ainda predominava o argumento da necessidade de os kurukas serem confiscados. inclusive mulheres e crianças contrariando a postura adotada dez anos antes pelos fazendeiros daquela região. publicado em Filadélfia. Ali terminaram por ser atacados por um grupo armado pelos moradores de Teófilo Ottoni. confiando na paz estabelecida com Lúcio. constata-se a perplexidade do Estado português e brasileiro ao lidar com esses povos. E concluía: “e. através do confisco de kurukas e do que eles chamam de “catequese leiga”.

portanto. só é possível pensar o conjunto das relações interétnicas pela ótica da dominação . As desarticulações sociais vividas por esses povos esfacelavam sua organização social e reduziam sua capacidade de resistência ante o poder avassalador da sociedade nacional. Os conflitos internos acentuavam-se ante as novas e tantas perspectivas possíveis de enfrentamento. Tanto o Estado português como o brasileiro buscaram a solução dessa contradição seja através da instituição de uma legislação flexível o suficiente para atender aos múltiplos interesses das elites nacionais. para as quais o seu universo de referências não possuía resposta. isto é. seja através de uma atitude de omissão e silêncio em relação às as práticas desrespeitosas dos direitos afirmados pela legislação. e a negação da razão de ser do Estado – a unificação do território sob efetivo controle estatal e a legitimação desse possuir. É na busca de solução para estas contradições que as crianças indígenas são vistas como a grande possibilidade de efetivar a política de constituição de um Estado-Nação moderno no qual as diferenças sociais e culturais seriam eliminadas e se efetivaria o domínio pleno do território. visto aqui como o grande articulador.sua população compartilha uma cultura e uma tradição comuns . para determinados segmentos nacionais. devendo ser criados. tal reconhecimento implicava. quando adotadas por particulares na solução de questões indígenas localizadas. a mão-de-obra era vital. No entanto. um outro problema ou conflito. a unicidade territorial e a homogeneização étnica do seu povo. proposto ao Estado-Nação com relação aos povos indígenas. fazendo com que os . pois essa atitude seria a negação do projeto de afirmar os princípios básicos da constituição do Estado-Nação. quanto à expansão do processo de conquista e exploração das terras. Já em áreas de economia mais capitalizada. ocupantes de áreas economicamente periféricas. mecanismos preservadores de sua existência e integração. em nome da criação da unidade nacional. o índio era encarado como um obstáculo que deveria ser eliminado em nome do progresso e da expansão econômica e da civilização. a questão do lugar a ser ocupado por essas populações sempre foi um problema de difícil solução. a garantia do seu direito ao território que ocupavam e a contrariedade dos interesses das elites econômicas e da população em geral. era e é o fato de que. Finalmente. à sua autonomia política e à preservação de suas peculiaridades socioculturais. para o Estado. essa flexibilidade nunca contemplou o reconhecimento do direito à propriedade das terras ocupadas pelos grupos indígenas. no tocante ao destino das populações indígenas. como contrapartida.voltada para a destruição de todas e de quaisquer formas de diversidade sociocultural. Embora as reconhecesse como os primitivos proprietários do país. Na verdade.processo resultante de uma atuação violenta de conquista de espaço e de mecanismos de opressão quanto à eliminação da diversidade étnica -. seja pela ação ou omissão.

um dos objetivos centrais deste texto . particularmente. É. até mesmo. destruindo a idéia e a organização comunitária. superar a visão restrita da análise histórica que reduz esses temas e os direitos apenas aos escravos de origem africana e seus descendentes. Os vários modelos e tentativas adotadas demonstram a dificuldade em definir o método mais efetivo para atingir tais objetivos. mas a leitura desses projetos aponta para a persistência da crença nos efeitos positivos da aplicação dos princípios da escola severa e na separação das crianças de suas famílias. Repensar a questão da escravidão indígena e revelar a freqüência do tráfico de crianças indígenas é. a grande instância de articulação política e de oposição ante o processo de incorporação ao EstadoNação. pelos indivíduos.posicionamentos ante a nova realidade passassem a ser definidos de forma distinta pelas várias facções ou. também reavaliar a história deste país e o papel que foi reservado a estes segmentos na construção econômica do país. portanto. nas áreas de fronteira.

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