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Nematologia Brasileira, 2005, Vol.

29(1):105-107

Comunicação Científica

Ocorrência de Meloidogyne mayaguensis em Goiabeira no Estado do Ceará
GUSTAVO RUBENS DE CASTRO TORRES1*, RUI SALES JÚNIOR2**, VITORINA NERIVÂNIA. COVELLO REHN1**, ELVIRA MARIA RÉGIS PEDROSA1**& ROMERO MARINHO DE MOURA1**
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Departamento de Agronomia, Universidade Federal Rural de Pernambuco, Rua D. Manoel de Medeiros, s/n, Dois Irmãos, CEP 52171900, Recife-PE, fax: (081) 3302-1205, E-mail: epedrosa@ufrpe.br 2 Laboratório de Agricultura Irrigada, Departamento de Fitossanidade, Escola Superior de Agricultura de Mossoró, BR 110 – km 47, Bairro Pres. Costa e Silva, CEP.: 59625-900, Mossoró – RN, fax.: (084) 315-0599, E-mail: ruisales@esam.br Recebido para publicação em 01/09/2004. Aceito em 30/05/2005.

Resumo - Torres, G.R.C., R. Sales Júnior, V.N.C. Rehn, E.M.R. Pedrosa & R.M. Moura. 2005. Ocorrência de Meloidogyne mayaguensis em goiabeira no Estado do Ceará. O presente trabalho teve por objetivo fazer o primeiro registro de Meloidogyne mayaguensis no Ceará parasitando goiabeira (Psidium guajava) cv. ‘Paluma’. O nematóide foi caracterizado e identificado pelo fenótipo de esterase M2 (Rm: 0,7, 0,9). Palavras-chave: nematóide de galhas, goiabeira, fenótipo de esterase. Summary – Torres, G.R.C., R. Sales Júnior, V.N.C. Rehn, E.M.R. Pedrosa & R.M. Moura. 2005. Occurrence of Meloidogyne mayaguensis on guava in the State of Ceará. This paper reports the first occurrence of Meloidogyne mayaguensis on guava (Psidium guajava) cv. ‘Paluma’ in the State of Ceará, Brazil. The nematode was characterised and identified using the esterase phenotype M2 (Rm: 0.7, 0.9). Keywords: root-knot nematode, guava, esterase fenotype.

Conteúdo
Embora fenômenos naturais, como enxurradas e ventos, possam contribuir para dispersão e disseminação dos fitonematóides, estes processos são realizados principalmente por meio das atividades humanas, uma vez que, pelos próprios meios, os nematóides deslocam-se pouco. Recente exemplo de uma rápida dispersão e disseminação de nematóide fitopatogênico no Brasil refere-se a Heterodera glycines Ichinohe. A presença do fitonematóide no país foi registrada em fevereiro de 1992 e atualmente, esse nematóide de cisto é um dos principais problemas fitossanitários da soja (Glycine max L.) nos estados produtores. O parasito já ocorre em mais de três milhões de hectares, em 103 municípios dos

Estados do Rio Grande do Sul, Paraná, São Paulo, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Goiás, Mato Grosso, Bahia e Tocantins. Dada a velocidade de disseminação observada em um curto espaço de tempo, em breve, provavelmente, todas as regiões produtoras de soja deverão ser atingidas (Silva et al., 2003). Essa previsão deve-se ao fato de que as áreas cultivadas com essa leguminosa estarem sendo infestadas continuamente pela intensa movimentação de máquinas, implementos agrícolas e veículos, que transportam solo contaminado, como também por meio de sementes mal beneficiadas, contendo partículas de solo (Almeida et al., 1997). Tal como está ocorrendo com a cultura da soja e H. glycines, a expansão das fronteiras agrícolas do país, como no caso da 105

segundo Jenkins (1964). ‘Santa Cruz Kada Gigante’. ‘IPA-9’ e caupi (Vigna unguiculata (L. citado por Carneiro (2003). propiciam M. ‘Paluma’. mayaguensis tornar-se problema fitossanitário de difícil controle na região do presente assinalamento. Na referida pesquisa o tomateiro cv. Em 1988.) cv. respectivamente. Após 45 dias das inoculações. Embora existam vários trabalhos sobre M. foram extraídas fêmeas para estudo do fenótipo enzimático de alfa esterase. (2003) em que foi testado o parasitismo de M. típico de M. tendo alguns padrões muita semelhança a M. Curaçá e Maniçoba (BA) causando danos severos em plantios comerciais de goiabeira (Psidium guajava L. de outras culturas. como demonstrado em estudo realizado por Guimarães et al. No Nordeste.) Walp. utilizando-se técnica descrita por Carneiro & 106 Almeida (2001) e realizado estudo morfológico complementar. incognita. mayaguensis no exterior. comuns na região do assinalamento. Dado o alto grau de polifagismo. com fatores de reprodução acima de 20 e 25. A configuração perineal considerada isoladamente não permitiu um diagnóstico conclusivo sobre a identidade da espécie responsável pelas perdas. Condições edafoclimáticas favoráveis somadas à ampla gama de hospedeiras do fitoparasito. ou atípicos. o que pode resultar em perdas elevadas e até impossibilidade de exploração comercial de determinadas culturas. também. caso medidas de exclusão não sejam imediatamente adotadas. revelou alta concentração de fêmeas adultas pertencentes ao gênero Meloidogyne. (2001). Em abril de 2004. foram enviadas para diagnóstico no Laboratório de Fitonematologia da Universidade Federal Rural de Pernambuco. feijoeiro comum (Phaseolus vulgaris L. que confere resistência à meloidoginose. foram detectadas no Rio de Janeiro.) e a melancia (Citrullus lanatus Thunb. amostras de solo de rizosfera de goiabeira cv. Alíquotas de solo com 300 cm3 foram processadas por flotação-centrífuga. foi possível a identificação específica por meio do perfil enzimático de alfa esterase (Est M2. Meloidogyne mayaguensis Rammah & Hirschmann foi assinalada pela primeira vez no Brasil em Petrolina (PE). (2003).). 0. mayaguensis não representa apenas um risco à exploração comercial de goiabeira mas. Tais resultados corroboraram à afirmação de Carneiro (2003) segundo a qual o exame da região perineal de fêmeas de M. mayaguensis no município de Touros-RN em goiabeira cv.7. mayaguensis no Estado do Ceará. mayaguensis. incognita (Kofoid & White) Chitwood. que inclui algumas das mais importantes para a agricultura mundial (Dropkin. Levantamento preliminar de hospedeiros alternativos deste Nematologia Brasileira . quando se tratam de espécies polífagas como no caso daquelas pertencentes ao gênero Meloidogyne Goeldi. mayaguensis em diferentes espécies botânicas. Com efeito. No momento da diagnose. Aos 6 anos de idade. pouco se sabe sobre o manejo de áreas infestadas (Carneiro. evidenciada pela presença de massas de ovos. com dois anos de idade. hospedeiras potenciais que garantirão sua sobrevivência e aumento populacional. M.Ocorrência de Meloidogyne mayaguensis em goiabeira no Estado do Ceará fruticultura. com 20 dias de idade. O presente trabalho teve por objetivo fazer o primeiro registro de M. o meloeiro (Cucumis melo L. o avanço desse nematóide está provavelmente acompanhando o trânsito de mudas de goiabeira infestadas e a erradicação dos pomares nem sempre é efetuada com os rigores necessários. está sendo acompanhada do risco iminente de introdução e rápida disseminação de novas espécies de fitonematóides. Nas amostras de solo. Danos severos têm sido reportados em pomares comerciais de goiabeira em Petrolina. foram detectadas 147 juvenis de segundo estádio por 300 cm3. parecendo ser característico da espécie. ‘IPA-206’ comportaram-se suscetíveis. Infestações de M. Esses resultados mostraram uma ameaça que esse nematóide representa para as referidas culturas. uma vez que na maioria dos casos apresentavam-se próximos aos padrões de M. ‘Paluma’. Ainda segundo o referido autor. mayaguensis. O exame dos tecidos afetados. com área de 3 hectares e composto por 800 plantas.9). parasitando goiabeira e novo alerta quanto ao perigo de novos assinalamentos. conforme demonstrado por Carneiro et al. 1989). foi formado a partir de mudas provenientes do município de Petrolina. O problema torna-se maior. No entanto. situado no município de Limoeiro do Norte– CE. Este foi o primeiro registro dessa espécie no Estado do Ceará. ‘Santa Cruz’ e ‘Viradouro’.) cv ‘Crimson Sweet’ comportaram-se como bons hospedeiros de M. mayaguensis em goiabeira cv. culminando em morte. o nematóide está provavelmente sendo disseminado por mudas provenientes de viveiros contaminados. com elevados prejuízos econômicos.) cv. (2004) fizeram o primeiro registro de M. de acordo com os estudos de Medeiros et al. uma vez que poderá encontrar dentre as plantas daninhas. De acordo com o proprietário o pomar. 250 plantas começaram a expressar sintomas de amarelecimento e declínio. este portador do gene Mi. Rm: 0. 2003). caso medidas de exclusão e erradicação não sejam postas em prática. ‘Paluma’ e de sistemas radiculares provenientes de pomar comercial. ao microscópio estereoscópico. em fase reprodutiva. posteriormente utilizados como inóculo para infestação de solo previamente esterilizado e acondicionado em vasos para onde foram transplantadas mudas de tomateiro (Lycopersicon esculentum Mill) cv. por meio da análise da configuração perineal. mayaguensis mostra acentuada variabilidade. os sistemas radiculares encontravam-se fortemente necrosados e dotados de poucas raízes finas. Recentemente Torres et al.

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