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Ciência e

resistência
dos materiais
Ciência e resistência
dos materiais

Éder Cícero Adão Simêncio


Vagner Luis Copeinski
Wilian de Araújo Rosa
© 2016 por Editora e Distribuidora Educacional S.A.
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Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

Simêncio, Éder Cícero Adão


S589c Ciência e resistência dos materiais / Éder Cícero Adão
Simêncio., Vagner Luis Copeinski, Wilian de Araújo Rosa. –
Londrina : Editora e Distribuidora Educacional S.A., 2016.
152 p.

ISBN 978-85-8482-457-1

1. Resistência dos materiais. I. Copeinski, Vagner Luis.


II. Rosa, Wilian de Araújo. III. Título.
CDD 620.112

2016
Editora e Distribuidora Educacional S.A.
Avenida Paris, 675 – Parque Residencial João Piza
CEP: 86041-100 — Londrina — PR
e-mail: editora.educacional@kroton.com.br
Homepage: http://www.kroton.com.br/
Sumário

Unidade 1 | Estrutura atômica e ligações interatômicas 79

Seção 1 - Introdução à ciência dos materiais 11


1.1 | Aspectos históricos 11
1.2 | Classificação dos materiais 17
1.3 | Materiais avançados 22

Seção 2 - Estrutura atômica 27


2.1 | Conceitos fundamentais 27
2.2 | Ligações interatômicas primárias 40
2.3 | Ligações secundárias ou ligações de Van der Waals 44
2.4 | Moléculas 46
2.5 | Forças e energia de ligação 46

Unidade 2 | Estrutura e imperfeições nos sólidos

Seção 1 - Estruturas dos sólidos 53


1.1 | Conceitos essenciais 57
1.2 | Célula unitária 60
1.3 | Estruturas cristalinas dos metais 60
1.4 | Polimorfismo 69
1.5 | Sistemas cristalinos 69

Seção 2 - Imperfeições nos sólidos 75


2.1 | Defeitos pontuais 76
2.2 | Defeitos lineares 79
2.3 | Defeitos interfaciais 81
2.4 | Defeitos volumétricos 83
2.5 | Tamanho de grão 83

Unidade 3 | Tensão e deformação

Seção 1 - Estruturas e carregamentos 93


1.1 | Classificação das estruturas e tipos de carregamentos 93
1.2 | Tipos de carregamento 95
1.3 | Esforços externos 95
1.4 | Esforços internos 96
1.5 | Carregamento distribuído 97
1.6 | Carregamento uniformemente variável 98
1.7 | Apoio fixo 100
1.8 | Apoio móvel 100
1.9 | Engastamento fixo 101
1.10 | Engastamento móvel 101

Seção 2 - Tensão e deformação 103


2.1 | Tensão normal e tensão de cisalhamento 103
2.2 | Tensão normal média 105
2.3 | Tensão normal máxima 106
2.4 | Tensão admissível 107
2.5 | Tensão de cisalhamento 107
2.6 | Deformação 108
2.7 | Deformação normal 109
2.8 | Deformação normal máxima 110
2.9 | Deformação lateral: coeficiente de Poisson 110
2.10 | Deformação por cisalhamento 112

Unidade 4 | Propriedades mecânicas dos materiais

Seção 1 - Propriedades em tração 123


1.1 | Propriedades mecânicas e o ensaio de tração 123
1.2 | O diagrama tensão-deformação 129
1.3 | Ductilidade e fragilidade 132
1.4 | Resiliência e tenacidade 133
1.5 | O diagrama tensão-deformação de cisalhamento 136

Seção 2 - Ensaios de dureza 137


2.1 | Dureza 137
2.2 | Ensaios de dureza Mohs 137
2.3 | Ensaio de dureza Brinell 138
2.4 | Ensaios de dureza Rockwell 139
2.5 | Ensaio de dureza superficial Rockwell 140
2.6 | Ensaios de microdureza Vickers e Knoop 141
Apresentação

Seja bem-vindo aos estudos da disciplina Ciência e Resistência dos Materiais.


Neste livro, você aprenderá que esta ciência nasceu da necessidade do homem
em ter materiais disponíveis para aplicar em determinados projetos, o que
consequentemente permitiu o desenvolvimento tecnológico e social. O objetivo
principal deste estudo é ajudá-lo a compreender as importantes relações entre as
estruturas químicas, os processamentos, as propriedades e o desempenho de um
material. A partir da compreensão dessas relações, você será capaz de selecionar
materiais adequados para uma determinada aplicação, de modo a atender às
características de desempenho esperadas, tanto no que se refere às características
de serviço quanto às de processamento.

O livro está estruturado em quatro unidades:

UNIDADE 1 – Nesta unidade estudaremos os aspectos históricos e o


desenvolvimento da humanidade e, também, os aspectos relacionados à
composição dos materiais, ou seja, a importância do estudo da química para a
compreensão dos princípios fundamentais da ciência dos materiais que lhe
permitirão classificá-los em quatro grandes grupos. Na UNIDADE 2 vamos aprender
sobre as propriedades dos materiais da estrutura e do arranjo atômico e saberemos
responder por que alguns materiais são transparentes e outros são opacos. Por que
alguns metais são mais maleáveis do que outros? Vamos entender que existem
sólidos cristalinos e amorfos e qual a principal diferença entre eles. Posteriormente,
estudaremos as células unitárias presentes nos materiais metálicos, tornando mais
fácil a compreensão do conceito de polimorfismo. Nesta unidade também vamos
conhecer as principais estruturas cristalinas dos diferentes tipos de materiais e seus
sistemas cristalinos, assim como os tipos de imperfeições ou defeitos estruturais
que são importantes na difusão no estado sólido.

Na UNIDADE 3, você vai ficar por dentro de um dos principais fundamentos


da Resistência dos Materiais. Você sabe que as nossas edificações sofrem com
carregamentos externos? Os carregamentos externos podem modificar a
geometria inicial das estruturas a ponto de levar à sua ruína. Isso pode afetar a
segurança ou a possibilidade de socorro às pessoas. Evitar o colapso dos materiais
das estruturas passa pelo conhecimento que você deve adquirir no estudo desta
unidade, como os conceitos de deformação normal longitudinal causada por
tensão normal, deformação angular transversal causada por tensão de cisalhamento
e deformação lateral mostrada por Poisson. Conceitos que são importantes
para a aplicação segura de materiais como aço, concreto e madeira. Já na
UNIDADE 4 vamos conhecer as principais propriedades dos materiais obtidas pelo
diagrama tensão-deformação e serão estudados os principais ensaios de dureza.

Aluno, desejo-lhe que faça um bom uso deste material, pois ele apresenta
algumas características que irão acelerar a sua aprendizagem como: linguagem
dialogada, links interativos, material atualizado e interdisciplinar. Bons estudos e
um ótimo semestre.

Éder Cícero Adão Simêncio


Unidade 1

ESTRUTURA ATÔMICA E
LIGAÇÕES INTERATÔMICAS

Éder Cícero Adão Simêncio

Objetivos de aprendizagem:

• Conhecer a importância histórica da ciência e resistência dos materiais.

•.Compreender a inter-relação entre composição, propriedade,


processamento e desempenho.

• Compreender a importância da estrutura atômica e dos diferentes tipos de


ligações interatômicas para as propriedades dos materiais.

Seção 1 | Introdução à ciência dos materiais


Apresenta os aspectos históricos e os pilares fundamentais da ciência dos
materiais e nos ajuda a entender que o progresso da ciência dos materiais
acompanha o desenvolvimento da sociedade.

Seção 2 | Estrutura atômica


Aponta a importância da estrutura do átomo e das ligações interatômicas para as
diversas propriedades exibidas por elementos e materiais.
U1

8 Estrutura atômica e ligações interatômicas


U1

Introdução à unidade

Aluno, seja bem-vindo aos estudos da ciência e resistência dos materiais.


Nesta unidade de ensino abordaremos alguns aspectos históricos relacionados ao
desenvolvimento de novos materiais e vamos compreender a importância dos estudos
da química e física para entender os princípios fundamentais da ciência dos materiais.
Neste exato momento, olhe a sua volta e observe que todos os objetos que você
está vendo, a cadeira em que você está sentado, por exemplo, são fabricados a partir
de diferentes materiais. E quais materiais você consegue identificar? São materiais
que possuem as mesmas aplicações e as mesmas propriedades? São igualmente
resistentes? É fácil observarmos que vivemos rodeados de diferentes materiais que
nos proporcionam uma vida cheia de confortos. Se escolhêssemos um cômodo
da nossa casa, por exemplo, a sala, temos os plásticos e metais (semicondutores)
que são utilizados nas televisões, temos a madeira (compósito natural) usada na
fabricação de vários móveis, também encontramos os metais nas portas e janelas,
e ainda temos os vidros que são materiais cerâmicos. Só de observarmos já
conseguimos ver que existem diferentes tipos de materiais: os metais, os polímeros
(plásticos), os cerâmicos e os compósitos. E esses materiais muitas vezes apresentam
características e aplicações bem diferentes. Mas como podemos identificar ou
avaliar as características dos diferentes materiais e saber se são adequados para
um determinado projeto? A resposta para todos esses questionamentos está no
estudo da ciência e resistência dos materiais. Na primeira unidade vamos estudar a
estrutura atômica, as ligações interatômicas, as moléculas e as forças e energias de
ligações. Assim, vamos compreender as diferentes propriedades exibidas por cada
material. Já na Unidade 2 serão definidos o conceito de célula unitária, os sistemas
cristalinos e os tipos de defeitos. Na Unidade 3 vamos aprofundar os conceitos de
tensão e deformação e, finalmente, na Unidade 4 vamos compreender as diversas
propriedades a partir do ensaio de tração, flexão e dureza.

No final dos estudos da ciência e resistência dos materiais, você estará apto para
selecionar um material, estudar sua composição e o melhor processamento para
obter as propriedades desejadas.

Preparado para embarcar na viagem desse ônibus espacial rumo à galáxia dos
materiais? Desejo a você bons estudos e um excelente semestre.

9 Estrutura atômica e ligações interatômicas


U1

10 Estrutura atômica e ligações interatômicas


U1

Seção 1

Introdução à ciência dos materiais


Bem, vamos iniciar nossos estudos conhecendo um pouco sobre a história das
civilizações e entender que o progresso da ciência dos materiais acompanha o
desenvolvimento da sociedade e, por fim, veremos que os materiais são classificados
em quatro grandes grupos.

Objetivos de Aprendizagem

• Compreender os aspectos históricos da ciência dos materiais.

• Identificar os diferentes tipos de materiais.

• Compreender a inter-relação entre os pilares da ciência dos materiais.

• Reconhecer as diferentes classes de materiais e suas propriedades.

1.1 Aspectos históricos


A utilização dos materiais é conhecida desde o início da existência humana,
é possível imaginarmos como era difícil sobreviver na pré-história sem todos os
recursos que hoje temos disponíveis. As primeiras civilizações conheciam um número
limitado de materiais e que estavam disponíveis na natureza como madeira, couro,
pedras e rochas. Assim, a história da ciência dos materiais está relacionada com o
próprio avanço da humanidade, tanto que nos estudos antropológicos veremos que
os períodos em que viveram as mais antigas civilizações foram nomeados segundo
os tipos de materiais que eram utilizados nas fabricações de utensílios domésticos,
armas e ferramentas. Entre alguns destes períodos destacam-se a Idade da Pedra,
Idade do Cobre ou Período Calcolítico, Idade do Bronze e Idade do Ferro. No entanto,
estes termos não foram criados apenas para retratar essas civilizações pelo tipo de
material utilizado e, sim, como diagnóstico cronológico para os estudos sobre a
organização social, fontes de alimentos explorados, adaptação ao clima, adoção
da agricultura, religião, entre outros aspectos dessas sociedades. A Idade da Pedra,
por exemplo, foi um período que durou cerca de 3,4 milhões de anos e terminou
entre 6000 a.C. e 2000 a.C. com o surgimento dos metais. Uma curiosidade é que a
própria Idade da Pedra é subdividida em diferentes períodos e dentre eles destacam-

11 Estrutura atômica e ligações interatômicas


U1

se o Período Paleolítico ou Idade da Pedra Lascada e o Período Neolítico ou Idade


da Pedra Polida. A Idade da Pedra Lascada é o período pré-histórico que se distingue
pelo desenvolvimento das ferramentas de pedra. A Figura 1.1 apresenta algumas
armas datadas deste período.

Figura 1.1 | Armas da Idade da Pedra Lascada fabricadas com madeira, ossos e pedras.

Fonte: <https://en.wikipedia.org/wiki/Middle_Paleolithic#/media/File:BBC-artefacts.jpg>. Acesso em:


25 fev. 2016.

Já na Idade da Pedra ou Período Neolítico a característica mais marcante é o


uso de ferramentas de pedra polida ou triturada, em contraste com as ferramentas
utilizadas na Idade da Pedra Lascada. É neste período que ocorre o desmatamento
em larga escala com a utilização do machado de pedra polida, o que permitiu ao
homem explorar suas terras recém-conquistadas. A Figura 1.2 mostra alguns artefatos
neolíticos como pulseiras, cabeças de machado e ferramentas de polimento.

Figura 1.2 | Artefatos neolíticos

Fonte: <https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/6/6b/N%C3%A9olithique_0001.jpg>. Acesso em: 25 fev.


2016.

12 Estrutura atômica e ligações interatômicas


U1

A Idade do Cobre ou Período Calcolítico (pedra + cobre) data de 9000 a.C e


é neste período que se encontra os primeiros traços da utilização deste metal em
utensílios domésticos e armas. A Figura 1.3 apresenta algumas armas que eram
utilizadas neste período da civilização. Já nas Idades do Bronze e do Ferro nossos
ancestrais descobriram em como produzir suas armas e ferramentas com qualidade
superior àquelas que eram produzidas com madeiras, ossos e pedras. Embora não
tenhamos a Idade da Cerâmica, a presença de vasos e jarros de barro queimado
utilizados como utensílios domésticos são conhecidos desde 3000 a.C.

Figura 1.3 | Armas do Período Calcolítico

Fonte: <https://en.wikipedia.org/wiki/Old_Copper_Complex>. Acesso em: 25 fev. 2016.

Quer conhecer mais um pouco da história das civilizações e do


desenvolvimento dos materiais? Leia o artigo de NAVARRO, R. F. A
evolução dos materiais. Parte 1: da pré-história ao início da era moderna.
Revista Eletrônica de Materiais e Processos, v. 1, n. 1, p. 1-11, 2006.
Disponível em: <https://aplicweb.feevale.br/site/files/documentos/
pdf/32246.pdf>. Acesso em: 25 fev. 2016.

A descoberta e o desenvolvimento de novas técnicas de fabricação e de novos


materiais acompanharam a evolução da sociedade. Dessa forma, vamos direto para
o século XIX, um período marcado por importantes pesquisas e várias descobertas
nas áreas de química, física, matemática e engenharias. Foram estas pesquisas que
nos deram base para os diversos avanços tecnológicos que vimos no século XX e

13 Estrutura atômica e ligações interatômicas


U1

que hoje usufruímos em pleno século XXI. Quer um exemplo? Se não tivéssemos
os pneus, como faríamos para ir ao trabalho, à faculdade ou simplesmente voltar
para casa? Certamente não seria tão cômodo e rápido como é hoje, e devemos
essa facilidade aos exaustivos estudos do americano Charles Goodyear, que após
anos de pesquisa um dia deixou cair acidentalmente uma mistura de borracha e
enxofre em cima de uma chapa quente e observou que a borracha, mesmo em
contato com a chapa com elevada temperatura, não derreteu. Dessa forma, ele
concluiu que a adição de enxofre e calor tornavam a borracha mais resistente e
assim estudou a relação entre quantidade de enxofre, temperatura e tempo de
aquecimento para obter uma borracha com melhor qualidade, ou seja, a borracha
impermeável. Após essa descoberta outros estudos foram realizados e todo o
processo que hoje conhecemos como vulcanização foi aprimorado e patenteado. A
consequência direta desta pesquisa foi a fabricação dos pneus utilizados em nossos
carros, motocicletas, entre outros meios de transporte. Enfim, os materiais tornam
a vida moderna possível a partir de polímeros e de metais utilizados na fabricação
do computador que você está usando, do concreto utilizado na construção da sua
casa e do carro que você dirige. Todos estes componentes são consequências dos
estudos da ciência dos materiais, que resumidamente é definida como o estudo
da relação entre as estruturas e propriedades dos materiais. Os cientistas desta área
são responsáveis por desenvolver ou sintetizar novos materiais, enquanto o papel
do engenheiro é criar novos produtos e procedimentos de fabricação utilizando
materiais inovadores ou já conhecidos com propriedades predeterminadas que é
um desafio e tanto! (CALLISTER; RETHWISCH, 2013). Atualmente são conhecidos
mais de 50.000 tipos de materiais que estão à nossa disposição para serem aplicados
nos mais diversos projetos que vão desde o uso na medicina à engenharia civil
(ASHBY; JONES, 2007). Porém, para melhor compreensão da definição de ciência
dos materiais, primeiramente vamos entender melhor o que é estrutura. De maneira
concisa, estrutura de um material está relacionada ao arranjo dos seus componentes
internos, desde o nível atômico e organização dos átomos até a escala micro e
macroscópica (CALLISTER; RETHWISCH, 2013). Já a propriedade de um material, de
forma geral, é uma característica do material em termos da magnitude da resposta
a um determinado estímulo que lhe é imposto como, por exemplo, a luz refletida
por uma superfície metálica polida (CALLISTER; RETHWISCH, 2013). As propriedades
dos materiais são divididas em diferentes grupos: propriedades mecânicas, elétricas,
ópticas, térmicas e magnéticas.

Futuramente algumas dessas propriedades serão abordadas e você estará apto


para analisar as inter-relações entre as diferentes respostas dos materiais e suas
respectivas propriedades.

O desenvolvimento e a pesquisa de novos materiais nos asseguram uma vida


mais confortável em termos de qualidade de vida. Você seria capaz de viver em um
mundo ausente de internet, tecnologias e sem o conforto da sua casa? Certamente

14 Estrutura atômica e ligações interatômicas


U1

teríamos muita dificuldade, mas o fato é que diversos avanços tecnológicos nos
proporcionaram uma expectativa de vida maior e melhor. Graças a materiais
inovadores conseguimos captar a energia solar e converter em energia elétrica,
produzimos meios de transportes cada vez mais velozes e seguros, e é claro que
eu não poderia me esquecer dos meios de comunicação e nosso indispensável
smartphone. Mas essa tecnologia não é restrita apenas a essas linhas de estudos, na
área da saúde, por exemplo, é evidente a importância dos materiais para os projetos
de próteses ortopédicas que antes eram produzidas com metais, madeira e plásticos
e agora substituídos por fibra de carbono. Muitas vezes quando lemos algumas
notícias temos a impressão de que estamos em um filme de ficção científica, mas
a realidade é que já temos impressoras 3D de células-tronco, de vasos sanguíneos,
pele, cartilagens, ossos e, no futuro próximo, a impressão de órgãos. A Figura 1.4
mostra uma impressora 3D fazendo a impressão de uma prototipagem biológica,
enquanto a Figura 1.5 apresenta uma amostra de tecido de válvula cardíaca também
impresso utilizando essa mesma tecnologia.

Figura 1.4 | Impressora 3D de prototipagem Figura 1.5 | Tecido de válvula cardíaca


biológica produzido por uma impressora 3D

Fonte: <https://healthinformatics.wikispaces. com/3D Fonte:. <https://en.wikipedia.org/wiki/Tissue_ engineering>.


+Printing>. Acesso em: 25 fev. 2016. Acesso em: 25 fev. 2016.

Neste momento espero que você esteja se questionando: como é possível


descobrir novos materiais ou então inovar os que já conhecemos? E como é
possível fabricar componentes, peças e produtos que atendam às necessidades de
uma aplicação específica? Se interpretarmos as informações que já temos é lícito
concluirmos que a procura de um determinado material surge da necessidade do
homem, posteriormente, é necessário compreender a estrutura e as propriedades
para que possamos estudar outros dois componentes muito importantes: o
processamento e o desempenho destes materiais. A Figura 1.6 apresenta os princípios
fundamentais da ciência dos materiais, também conhecidos como o tetraedro da
ciência dos materiais.

15 Estrutura atômica e ligações interatômicas


U1

Figura 1.6 | Tetraedro da ciência dos materiais

Fonte: <https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/e/ea/Tetraeder-materiaalkundige-
kennis.svg>. Acesso em: 25 fev. 2016.

É possível observarmos as inter-relações que devemos considerar em um


projeto entre desempenho/custo, síntese/processamento, estrutura/composição
e propriedades. Vamos ver um exemplo na prática de como essas relações são
importantes? O diamante e a grafita são materiais compostos exclusivamente
por átomos de hidrogênio e carbono, sendo diferentes apenas em relação ao
tipo de ligação intermolecular e ao arranjo espacial, ou seja, à estrutura. Isso faz
toda a diferença! Os diamantes são formados nas profundezas da Terra sob altas
temperaturas e pressões extremas e algumas de suas propriedades são: elevada
resistência e rigidez, excelente condutividade térmica e baixa condutividade elétrica.
Já a grafita é relativamente macia,
Figura 1.7 | Diamante, grafita e seus respectivos
apresenta baixa condutividade arranjos atômicos
térmica e elevada condutividade
elétrica. A Figura 1.7 apresenta
o diamante e a grafita com suas
respectivas estruturas atômicas. Se
observarmos a figura atentamente
veremos que a maneira que
os átomos de carbono estão
dispostos no espaço é diferente
para os dois materiais, tornando-
as formas alotrópicas de carbono,
ou seja, a propriedade de alguns
elementos químicos de existir em
duas ou mais formas diferentes e
no mesmo estado físico.

Fonte:..<https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/f/f9/
Diamond_and_graphite.jpg>. Acesso em: 25 fev. 2016.

16 Estrutura atômica e ligações interatômicas


U1

No diamante, os átomos de carbono estão dispostos tetraedricamente e


possuem uma estrutura tridimensional forte e rígida que resulta em uma rede infinita
de átomos, o que explica a dureza do diamante e a densidade mais elevada do que
a grafita.

1.2 Classificação dos materiais


Existem milhares de materiais disponíveis para uso nas mais variadas aplicações,
seja na área das engenharias, da saúde e do nosso cotidiano. A maioria dos materiais
que conhecemos são classificados em três grandes classes que têm por base a
composição química e as forças interatômicas de um determinado material. Estas
três classificações são materiais metálicos, cerâmicos e poliméricos. No entanto,
temos alguns materiais que são a combinação entre dois ou mais materiais
diferentes e resultam no que chamamos de compósitos. A Figura 1.8 apresenta,
respectivamente, um exemplo de cada tipo de material: a) metálico; b) cerâmico; c)
polimérico e d) compósito.

Figura 1.8 | Exemplos de materiais

Fonte:.<https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/7/76/Wood_plastic_composite_2. jpg/1024px-
Wood_plastic_composite_2.jpg>. Acesso em: 28 fev. 016.

Metais
Os materiais metálicos representam cerca de dois terços de todos os elementos
da tabela periódica e aproximadamente 24% da massa do planeta. Os materiais
metálicos são substâncias que podem ser compostas por um único elemento
(ferro, zinco, cobre, prata e ouro), por mais elementos metálicos como no caso do
bronze que é uma liga metálica de cobre e estanho, e ainda, conter elementos não
metálicos como carbono, nitrogênio e oxigênio. Os metais e suas ligas apresentam
muitas propriedades que nos sãos úteis como a resistência mecânica, ductilidade,
condutividade térmica e elétrica, entre várias outras, e essas propriedades
estão relacionadas com a composição, estrutura química e processamento
(SHACKELFORD, 2008). Você já se perguntou por que os metais são tão bons
condutores elétricos? É nesse momento que você compreenderá a importância de
estudarmos sobre a estrutura atômica e as ligações entre os átomos. Os metais
são bons condutores elétricos, pois possuem muitos elétrons livres, ou seja, os
elétrons podem se movimentar livremente de um átomo para o outro. A facilidade
no movimento desses elétrons livres também faz os metais serem bons condutores

17 Estrutura atômica e ligações interatômicas


U1

de calor. O cobre é um metal macio, maleável e dúctil com elevada condutividade


térmica e elétrica. Apesar da concorrência de outros materiais, o cobre continua
sendo o condutor elétrico preferido em quase todas as categorias de fiação elétrica.
Os fios de cobre são utilizados na geração, transmissão e distribuição de energia, em
telecomunicações, circuitos eletrônicos e outros inúmeros tipos de equipamentos
elétricos. A fiação elétrica é o mercado mais importante para a indústria de cobre.
A Pode-se ver na Figura 1.9 o cobre da forma que é encontrado na natureza e já
processado como fios.

Figura 1.9 | Tetraedro da ciência dos materiais

Fonte: <https://en.wikipedia.org/wiki/Copper_wire_and_cable>. Acesso em: 28 fev. 2016.

Cerâmicas
As cerâmicas, tradicionalmente, são definidas como um material sólido inorgânico
formado entre elementos metálicos e não metálicos. Em sua maioria são: óxidos,
como o óxido de alumínio, mais conhecido como alumina (Al2O3); nitretos, como
o nitreto de silício (Si3N4) e carbetos, como o carbeto de silício (SiC). O cimento e
o vidro são exemplos de materiais cerâmicos tradicionais e são formados a partir
de minerais argilosos e processos de fabricação relativamente simples. Em relação
às propriedades, os materiais cerâmicos comumente exibem baixa condutividade
elétrica, elevada dureza, resistência e fragilidade. No entanto, já existem estudos
com estes materiais que melhoram significativamente a resistência à fratura.
Adicionalmente, dependendo do processamento, a cerâmica pode ser densa ou
leve, transparente, translúcida ou opaca (ASKELAND; WRIGHT, 2014). Quando
comparados aos metais e polímeros, os materiais cerâmicos são mais resistentes a
altas temperaturas e a ambientes severos de trabalho. Então, vamos ver um exemplo
de aplicação destes materiais nestas condições extremas: a utilização na construção
de ônibus espaciais e aeronaves. Estas aplicações incluem sistemas térmicos
de proteção em cones de exaustão do foguete, telhas de isolamento do ônibus
espacial, componentes de motor e revestimentos cerâmicos embutidos no vidro
do para-brisa de muitos aviões. Estes revestimentos são transparentes e conduzem

18 Estrutura atômica e ligações interatômicas


U1

a eletricidade para manter o vidro transparente em condições de nevoeiro e gelo.


Fibras cerâmicas são utilizadas como isolantes térmicos e escudos de calor contra
incêndios em aeronaves e ônibus espaciais. A Figura 1.10 apresenta o ônibus espacial
Discovery que foi lançado pela primeira vez em 1984 e sua última missão foi em 2011,
assim como o sistema de proteção térmica que utilizava sílica e outros materiais.

O artigo "Materiais cerâmicos para células a combustível" apresenta de


maneira sucinta alguns tipos de materiais cerâmicos que são utilizados
na fabricação de dispositivos que geram energia elétrica. Disponível em:
<http://www.scielo.br/pdf/ce/v50n316/a0250316.pdf>. Acesso em: 28
fev. 2016.

Figura 1.10 | Ônibus espacial Discovery

Fonte: <https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/d/d6/STS120LaunchHiRes-edit1.jpg>. Acesso em: 28 fev. 2016.

O sistema de proteção térmica da Discovery protegia os passageiros de um


frio de -121°C no espaço e de uma temperatura de reentrada na órbita terrestre de
1649°C. Este é mais um dos exemplos que temos da importância do
desenvolvimento de novos materiais.

Polímeros
Os materiais poliméricos, também conhecidos popularmente como plásticos,
são mais recentes quando comparados aos metais e cerâmicas. Neste grupo
também fazem parte os elastômeros (borrachas). Os polímeros podem ser definidos
como um material que possui várias partes quimicamente ligadas, já que a própria
palavra polímero significa “muitas partes”. Mas, uma definição mais científica diz que

19 Estrutura atômica e ligações interatômicas


U1

polímeros são compostos orgânicos de elevada massa molecular formados por


unidades que se repetem denominadas monômeros, formando cadeias de longa
extensão (CANEVAROLO, 2006). Normalmente, os polímeros são divididos em
classes a partir das suas propriedades mecânicas, estrutura e ligações interatômicas
em termoplásticos (polietileno), termorrígidos ou termofixos (resina epóxi) e
elastômeros (neopreno). Esses materiais podem ser de ocorrência natural, como
é o caso da borracha, ou sintéticos, como o cloreto de polivinila (PVC). Uma das
características importantes dos materiais poliméricos é a baixa densidade, assim a
relação entre a sua massa específica e sua rigidez são comparadas aos materiais
metálicos e cerâmicos. Os polímeros apresentam propriedades que variam
consideravelmente, ou seja, podemos ter um polímero duro e frágil e outro dúctil
e flexível. A baquelite, por exemplo, é um polímero duro, frágil, isolante térmico
e devido a essas propriedades é utilizada na produção de cabos de panelas,
interruptores, entre outras. Já o polietileno de baixa densidade (PEBD) é um polímero
flexível e dúctil e muito utilizado na fabricação de frascos e mangueiras. Assim como
os demais materiais, os polímeros são muito importantes para diversas aplicações
tecnológicas e são muito atrativos para determinadas aplicações. No entanto, o
consumo desenfreado desses materiais resultou em um grave problema ambiental.
Muitos plásticos não são recicláveis e diversos outros são descartados de forma
incorreta o que gera um acúmulo de lixo em ruas, rios, florestas e oceanos. Uma
simples sacola plástica, em média, leva 400 anos para se decompor na natureza.
Podemos ver a quantidade de plásticos e outros lixos que chegam às praias (Figura
1.11).

Figura 1.11 | Poluição oceânica

Fonte: <https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/6/69/Sinai_Red_sea_ecological_disaster.jpg>. Acesso em: 28


fev. 2016.

20 Estrutura atômica e ligações interatômicas


U1

Além do problema sobre o impacto ambiental, outra desvantagem dos materiais


poliméricos é a decomposição em temperaturas relativamente baixas.

A poluição ambiental é problema mundial. Mas quem são os


culpados? Assista a "HOMEM" – Este vídeo não vai te deixar
indiferente. Disponível em: <https://www.youtube.com/
watch?v=E1rZFQqzTRc>. Acesso em: 28 fev. 2016.

Compósitos
Um material compósito geralmente é definido como a combinação de dois ou
mais materiais distintos, cada um com suas propriedades específicas que juntos
criam um novo material com combinações de propriedades que não são observadas
em um material isolado. O objetivo de desenvolvermos um material compósito é
obter um novo material que combine as melhores características dos materiais que
os compõem. Estes materiais são possíveis através da combinação entre metais,
cerâmicas e polímeros. Em sua maioria consiste de um material de reforço que
apresenta boa resistência mecânica e baixa densidade, envolto por uma matriz de
resina colante, geralmente dúctil ou dura, como a resina epóxi.

A fibra de vidro é um dos exemplos clássicos de materiais compósitos, mas o


concreto e os pneus também fazem parte deste tipo de materiais. A fibra de vidro é
feita com pequenas fibras de vidros que são envolvidas por uma resina polimérica, este
tipo de material é conhecido como compósito reforçado com fibras. O concreto é
um compósito formado pela mistura
de cimento (matriz), areia e brita Figura 1.12 | Compósito estrutural laminado
(particulados). Esse tipo de material carbono-epóxi.
é denominado compósito reforçado
com partículas. Já o carbono/epóxi
é conhecido como um compósito
estrutural, neste tipo de compósito,
além das propriedades dos materiais,
o projeto geométrico dos elementos
estruturais são extremamente
importantes. A Figura 1.12 apresenta
um laminado carbono/epóxi utilizado
na indústria aeronáutica produzido
a partir de camadas sobrepostas de Fonte: O autor.

21 Estrutura atômica e ligações interatômicas


U1

mantas de fibra de carbono envolvidas em resina epóxi. Nesta indústria, os laminados


compósitos são importantes na substituição de ligas metálicas e exibem excelentes
características como rigidez e resistência mecânica, além de suportar em condições
de serviço elevadas temperaturas (CALLISTER; RETHWISH, 2013).

1.3 Materiais avançados


A busca por novos materiais é incessante dentro da ciência dos materiais, tanto
que materiais que são utilizados em aplicações de alta tecnologia são denominados
materiais avançados. Normalmente, esses materiais nascem da melhoria de algumas
propriedades de materiais já existentes e de novos materiais que apresentam alto
desempenho. Os materiais avançados podem ser divididos em semicondutores,
biomateriais, materiais inteligentes e nanomateriais.

Semicondutores
Os materiais semicondutores não são tão eficazes como os metais, como ouro,
prata e cobre. No entanto, eles têm mobilidades superiores à temperatura ambiente
e a temperaturas mais elevadas, isto significa que uma corrente elétrica pode viajar
através deles muito mais rápido do que nos meios “tradicionais”. A alta mobilidade
desses materiais melhora as propriedades dos materiais básicos que são utilizados
em eletrônica avançada e comunicações. Os semicondutores são utilizados na
fabricação de chips para todos os dispositivos eletrônicos, incluindo computadores,
telefones celulares e smartphones. Cada chip pode conter um milhão de dispositivos
que executam diferentes funções. Os semicondutores também apresentam outras
propriedades muito interessantes como as propriedades ópticas, e são empregados
na fabricação de lasers e dos diodos emissores de luz (LEDs), isto porque
quando possuem algum tipo de impureza, também chamadas de dopantes, os
semicondutores emitem uma luz de cor específica quando uma voltagem é aplicada
a eles. Outros semicondutores absorvem a luz solar e geram corrente elétrica e são
utilizados na fabricação de células fotovoltaicas. Atualmente, o silício (Si) é um dos
principias semicondutores empregados nos mais diversos dispositivos. Os materiais
semicondutores exibem propriedades intermediárias entre os materiais condutores
elétricos e isolantes, como a condutividade elétrica. Esses materiais foram essências
para a revolução da indústria de produtos eletrônicos e que impactaram diretamente
nossas vidas. Na Figura 1.13 vemos exemplos de circuitos integrados fabricados a
partir de materiais semicondutores.

22 Estrutura atômica e ligações interatômicas


U1

Figura 1.13 | Componentes eletrônicos à base de materiais semicondutores

Fonte:.<https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/8/8d/Semiconductor-1.jpg>. Acesso
em: 19 jan. 2016.

Biomateriais
Os chamados biomateriais são materiais geralmente feitos a partir de muitos
componentes e que podem ser de ocorrência natural ou sintética (tal como um
metal ou polímero). Os biomateriais frequentemente são utilizados em aplicações
médicas para aumentar, melhorar ou substituir uma função natural. Duas importantes
características destes materiais são: atoxicidade e compatibilidade com os tecidos do
corpo. Os biomateriais são utilizados em substituição de articulações, placas ósseas,
cimento ósseo, ligamentos e tendões artificiais, implantes dentários para fixação do
dente, válvulas do coração, dispositivos de reparação da pele, lentes de contato etc.
A Figura 1.14 mostra diferentes tipos de válvulas cardíacas artificiais.

Figura 1.14 | Diferentes tipos de válvulas cardíacas artificiais

Fonte: <https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/3/33/Mechanical_heart_valves.jpg>. Acesso em: 26 fev.


2016.fev. 2016.

23 Estrutura atômica e ligações interatômicas


U1

Materiais inteligentes
Os materiais inteligentes são materiais revolucionários e projetados para alterar
suas propriedades de forma significativa, a partir de controles externos tais como
temperatura, umidade, pH ou campos magnéticos. Basicamente um material
inteligente requer um sensor que será responsável pela detecção do sinal de entrada
e um atuador que executará uma determinada função de resposta e adequação. As
ligas com memória da forma, as cerâmicas piezelétricas e os materiais magneto-
constritivos são alguns exemplos de materiais utilizados com atuadores.

O desenvolvimento de novos materiais nos possibilita cada vez mais


conforto e praticidade. Pensando nisso e nos problemas recorrentes da
nossa população brasileira, dispositivos inteligentes foram desenvolvidos
para controlarmos e reduzirmos o consumo de energia elétrica. Leia a
reportagem indicada. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.
br/seminariosfolha/2015/09/1687798-redes-inteligentes-permitem-
controlar-e-reduzir-de-energia-eletrica.shtml>. Acesso em: 27 fev. 2016.

Nanomateriais
Os nanomateriais são materiais que podem ser metálicos, cerâmicos,
poliméricos ou compósitos que possuem estruturas na ordem do nanômetro
(10-9 m) e atualmente são
Figura 1.15 | Nanoestrelas de óxido de vanádio IV
estudados em aplicações na
área da saúde, de eletrônicos,
cosméticos, têxteis e tecnologia
da informação. As nanopartículas
são de grande interesse
científico. Na escala macro
e microscópica um material
deve ter propriedades físicas
constantes, independentemente
do seu tamanho, mas à escala
nano propriedades dependentes
de tamanho são frequentemente
observadas. Assim, as
propriedades de materiais podem
mudar à medida que se aproxima Fonte:.Disponível em: <https://en.wikipedia.org/wiki/Nanoparticle#/
media/File:Nanostars-it1302.jpg>. Acesso em: 26 fev. 2016.

24 Estrutura atômica e ligações interatômicas


U1

da nanoescala. Dessa forma, as propriedades interessantes e inesperadas, por


vezes, de nanopartículas existem, por conseguinte, na maior parte devido à grande
área de superfície do material. A Figura 1.15 apresenta uma microscopia eletrônica
de varredura de nanoestrelas de óxido de vanádio IV.

1. Os chamados biomateriais são materiais geralmente feitos a


partir de muitos componentes e que podem ser de ocorrência
natural ou sintética (tal como um metal ou polímero). Quais
são as principais características que estes materiais devem
possuir para sua utilização?

a) Atoxicidade e compatibilidade com os tecidos do corpo.


b) Rigidez e baixa densidade.
c) Atoxicidade e fibras sintéticas.
d) Toxicidade e baixa densidade.
e) Anticorpos e compatibilidade com os tecidos do corpo.

2. Os nanomateriais são materiais que podem ser materiais


metálicos, cerâmicos, poliméricos ou compósitos que
possuem estruturas na ordem do nanômetro. Na escala
macro e microscópica um material deve ter propriedades
físicas constantes, independentemente do seu tamanho,
mas as escalas nanopropriedades dependentes de tamanho
são frequentemente observadas. É correto afirmar que as
propriedades dos nanomateriais é resultado:

a) das propriedades químicas do material.


b) da independência do tamanho das partículas.
c) da grande eletronegatividade do material.
d) da grande área de superfície do material.
e) do pequeno volume do material.

25 Estrutura atômica e ligações interatômicas


U1

26 Estrutura atômica e ligações interatômicas


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Seção 2

Estrutura atômica
Vamos iniciar nossos estudos sobre as estruturas atômicas e compreender como
os átomos e as ligações interatômicas influenciam diretamente na propriedades dos
materiais.

Objetivos de Aprendizagem

• Compreender a estrutura atômica;

• Identificar as principais ligações interatômicas;

• Entender as propriedades dos elementos;

• Reconhecer a importância da magnitude das forças e energias de ligação.

2.1 Conceitos fundamentais


Um átomo é composto por um núcleo muito pequeno no qual elétrons em
movimento orbitam a sua volta. O núcleo é formado por partículas subatômicas
denominadas nêutrons e prótons. Os nêutrons, como o próprio nome sugere,
são partículas eletricamente neutras, enquanto os prótons e elétrons transportam,
respectivamente, cargas elétricas positivas e negativas. A carga elétrica transportada
por cada elétron e próton é igual a 1,60 × 10-19 coulomb (C). Neste momento é fácil
compreendermos que os elétrons se mantêm ao redor do núcleo devido à atração
eletrostática, ou seja, prótons e elétrons apresentam cargas elétricas opostas que
se atraem. Os prótons e nêutrons apresentam massas extremamente pequenas na
ordem de 1,67 × 10-27 kg, enquanto os elétrons apresentam uma massa menor ainda
de 9,11 × 10-31 kg.

A quantidade de números de prótons no núcleo é chamada de número atômico


(Z). Por exemplo, um átomo de zinco possui 30 prótons no seu núcleo, assim
seu número atômico é igual a 30. Vale ressaltar que quando temos um átomo
eletricamente neutro a quantidade de prótons é igual à quantidade de elétrons, ou
seja, a quantidade de cargas positivas é igual à quantidade de cargas negativas e o
átomo permanece neutro. A Figura 1.16 traz uma representação esquemática da
composição de um átomo.

27 Estrutura atômica e ligações interatômicas


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Figura 1.16 | Representação esquemática de um átomo

Fonte: <http://www.chemistryo.com/wp-content/uploads/2014/08/atomic-structure.jpg>. Acesso em: 4 fev. 2016.

Outro conceito importante que certamente você já ouviu nos seus estudos em
química geral é o de massa atômica (A). A massa atômica é a massa total de
prótons e nêutrons que estão no núcleo do átomo. No entanto, na natureza é
possível encontrarmos elementos que, embora possuam o mesmo número de
prótons, apresentam número de nêutrons diferentes (ATKINS; JONES, 2006). Na
Figura 1.17 é possível observarmos que os três átomos possuem em comum o
mesmo número de prótons (p), ou seja, o mesmo número atômico (Z). Assim, trata-
se de três átomos do elemento químico hidrogênio. Os átomos de hidrogênio
podem ser encontrados com números diferentes de nêutrons e que resultarão em
massas atômicas distintas. Esses átomos são chamados de isótopos. A Figura
1.17a apresenta o átomo de hidrogênio chamado de prótio com apenas um
próton no núcleo e a ausência total de nêutron. Na Figura 1.17b, temos o
hidrogênio deutério que possui um próton e um nêutron no núcleo. E, por fim, a
Figura 1.17c mostra o átomo de hidrogênio trítio com um próton e dois nêutrons
no núcleo.

Figura 1.17 | Representação esquemática dos átomos de hidrogênio: a) prótio, b) deutério e c) trítio

Fonte: <https://it.wikipedia.org/wiki/Isotopi_dell%27idrogeno>. Acesso em: 4 fev. 2016.

28 Estrutura atômica e ligações interatômicas


U1

Após compreendermos os conceitos de número atômico e massa atômica fica


mais claro assimilarmos o conceito de peso atômico. Segundo Callister e Rethwisch
(2013), o peso atômico é definido como a média ponderada das massas dos isótopos
de um átomo que ocorrem naturalmente. A unidade de massa atômica (uma) é
definida a partir do isótopo mais comum do átomo de carbono, o carbono 12 (C12)
equivale a 1/12 de sua massa atômica. A Equação 1.1 apresenta a relação entre massa
atômica (A), número atômico (Z) e nêutrons (N).

Equação 1.1

A≅Z+N
Já o peso atômico pode ser expresso pela razão entre uma e átomo ou
molécula, no entanto, é frequentemente especificado em termos de massa (em
gramas) por mol de matéria. Assim temos a equivalência:

1 uma/átomo = 1 g/mol
O número de átomos ou moléculas em um mol é igual a 6,023 × 1023 e é
chamado de número de Avogadro. Este número é importante para calcularmos a
quantidade de átomos em uma determinada amostra de um elemento químico.
Por exemplo, em um mol de prata (Ag) de número atômico igual a 47, temos
6,023 × 1023 átomos e 107,87 g ou 107,87 uma. Os cálculos de massa atômica
e número de Avogadro são importantes para compreendermos um pouco mais
sobre as estruturas e as propriedades dos materiais. Vamos resolver um exercício
em que aplicamos o número de Avogadro.

1. Será que é possível calcularmos a quantidade de átomos


em uma amostra de 100 g de cobre? Para chegar à resolução
deste problema basta montarmos uma regra de três simples.
Utilizando a tabela periódica encontramos o valor de massa
atômica do cobre igual a 63,55 g em 6,023 × 1023 átomos,
calcule a quantidade de átomos em uma amostra de 100 g de
cobre.

29 Estrutura atômica e ligações interatômicas


U1

Agora que já entendemos a composição atômica, veremos a importância


de alguns modelos atômicos para a compreensão da ciência dos materiais. O
modelo atômico mudou ao longo do tempo, por séculos diversos cientistas se
engajaram no estudo do átomo e propuseram diferentes modelos que, de alguma
maneira, contribuíram para chegarmos ao modelo atual. Para compreendermos
as propriedades dos materiais partiremos direto para o modelo atômico proposto
pelo físico dinamarquês Niels Henrik David Bohr, responsável por contribuições
fundamentais para o entendimento da estrutura atômica e um dos precursores da
teoria quântica. No modelo atômico de Bohr os elétrons se movimentam ao redor
do núcleo em orbitais distintos e bem definidos como apresentado na Figura 1.18.

Figura 1.18 | Representação esquemática do modelo atômico de Bohr para o átomo de


alumínio (AL)

Fonte: <https://pixabay.com/pt/diagrama-n%C3%BAcleo-at%C3%B4mica-modelo-38647/>. Acesso em: 5 fev. 2016.

Neste modelo é possível quantizar valores específicos de energia para os elétrons.


No modelo de Bohr, o elétron pode absorver energia e realizar um salto
quântico para um nível (órbita) permitido de maior energia, assim como através da
emissão de energia saltar para um nível permitido de menor energia. Este modelo
atômico foi a primeira tentativa em descrever o comportamento dos elétrons nos
átomos em relação a sua posição e energia. Naturalmente, o modelo de Bohr foi
substituído por não explicar vários outros comportamentos relacionados aos
elétrons. Mais tarde, Louis de Broglie sugeriu o Princípio da Dualidade que diz
que todo elétron possui tanto características de partículas quanto de ondas.
Neste modelo, o elétron não se movimenta mais em um orbital distinto como
uma partícula, o movimento do elétron está associado a um determinado
comprimento de onda. Posteriormente Heisenberg enunciou o Princípio da
Incerteza que sucintamente diz que não é possível determinar a posição e a
velocidade do elétron simultaneamente. Finalmente em 1926, Erwin Schrödinger
propôs a famosa Equação de Schrödinger na qual é possível calcular a máxima
distribuição de probabilidades de se encontrar a posição de um elétron (ATKINS;
JONES, 2006).

30 Estrutura atômica e ligações interatômicas


U1

Quer saber mais sobre a Equação de Schrödinger, leia o artigo


“Quatro alternativas para resolver a Equação de Schrödinger para o
átomo de hidrogênio”. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.
php?script=sci_arttext&pid=S0100-40422002000100025>. Acesso em:
5 fev. 2016.

Além da equação que nos permite calcular a probabilidade de determinar a


posição de um elétron, Schrödinger propôs que cada elétron é especificado por um
conjunto de quatro parâmetros denominados números quânticos. Estes números
descrevem o estado de um elétron, sua distância a partir do núcleo, orientação
espacial e o tipo de orbital em que é provável encontrá-lo. São quatro os números
quânticos: número quântico principal (n) indica a distância mais provável do elétron
em relação ao núcleo, ou seja, o nível de energia e pode assumir valores iguais a
n = 1, 2, 3, 4, 5, 6 e 7. Quanto maior o valor de n, mais distante o elétron estará
do núcleo, maior será o tamanho do átomo e do orbital. Este é o único número
quântico que está vinculado ao modelo atômico de Bohr. O segundo número
quântico ou número quântico do momento angular do orbital (l) determina a
forma do orbital, no qual cada valor de l indica um subnível de energia específico
s, p, d e f que está limitado ao valor do número quântico principal (n-1). O terceiro
número quântico ou número quântico magnético (ml) indica o número de orbitais
e a da orientação dentro dos subníveis. Dado um valor de l, ml será um intervalo
entre –l a +l. Os estados energéticos (orbitais) são representados graficamente por
⎕. Nos subníveis de energia s, p, d e f existem, respectivamente, um, três, cinco
e sete estados energéticos. Ao contrário do terceiro número quântico, o número
quântico magnético de spin (ms) ou quarto número quântico não depende dos
outros números quânticos. Ele designa a orientação de spin de cada elétron que
pode ter uma rotação de +1/2, representado por ↑, ou -1/2, representado por ↓. Ao
preenchermos os orbitais é importante adotarmos a Regra de Hund que enuncia:
Todos os elétrons com rotação +1/2 devem ser, primeiramente, distribuídos.
Posteriormente, os elétrons com rotação -1/2 são emparelhados dentro do orbital.
Para compreendermos a maneira de preencher os diferentes estados eletrônicos
com os elétrons, é necessário utilizarmos outro conceito quântico conhecido como
o Princípio da Exclusão de Pauli, segundo este princípio cada estado eletrônico
comporta no máximo dois elétrons com spins opostos. Dessa maneira os subníveis
de energia s, p, d e f comportam, respectivamente, dois, seis, dez e quatorze elétrons.
A Tabela 1.1 apresenta os subníveis de energia, l, ml, número de orbitais, elétrons por
subnível e representação gráfica dos orbitais.

31 Estrutura atômica e ligações interatômicas


U1

Tabela 1.1 | Subníveis de energia e números quânticos do momento angular do orbital (l)
e número quântico magnético (ml)

Repre-
Subnível Número Elétrons por sentação
l ml
de energia de orbitais subnível gráfica dos
orbitais
s 0 0 1 2 ⎕
p 1 -1, 0, +1 3 6 ⎕⎕⎕
d 2 -2, -1, 0, +1, +2 5 10 ⎕⎕⎕⎕⎕

-3,-2,-
f 3 7 14 ⎕⎕⎕⎕⎕⎕⎕
1,0,+1,+2,+3
Fonte: O autor.

A representação do modo que os elétrons estão distribuídos em níveis e


subníveis de energia é conhecida como configuração eletrônica. Geralmente, a
configuração eletrônica é utilizada para descrever os orbitais de um átomo no seu
estado fundamental, ou seja, quando os elétrons ocupam os níveis de menores
energias possíveis. Muitas propriedades físicas e químicas dos elementos estão
correlacionadas com suas respectivas configurações eletrônicas. Os elétrons de
valência, por exemplo, são os elétrons na camada (nível de energia) mais externa e
são o fator determinante de cada elemento químico ser único. A ordem crescente
dos níveis de energia preenchidos pelos elétrons é igual a: 1s, 2s, 2p, 3s, 3p, 4s, 3d,
4p, 5s, 4d, 5p, 6s, 4f, 5d, 6p, 7s, 5f, 6d e 7p.

A configuração eletrônica de um átomo mostra o número de elétrons em


cada subnível, de cada camada de energia do átomo no estado fundamental. Para
determinar a configuração eletrônica de um átomo, iniciamos a adição de elétrons a
partir dos subníveis de energia das camadas mais próximas do núcleo até a quantidade
de elétrons ser igual ao número de prótons. Cada elétron adicionado é atribuído ao
subnível de menor energia disponível. O subnível s da camada 1 ou camada K de
energia (1s) é o primeiro a ser preenchido, posteriormente, é preenchido o subnível
s da camada 2 (L) seguido dos subníveis 2p, a 3s, 3p, 4s, 3d, e assim por diante. Esta
ordem é difícil de lembrar e muitas vezes também difícil de determinar a partir de
diagramas de nível de energia.

Uma maneira mais conveniente de lembrar essa ordem é utilizar o diagrama


apresentado na Figura 1.19. Os principais níveis de energia (1 a 7) estão listados em
colunas, a começar à esquerda com o nível de 1s. Para utilizar esta figura, deve-se ler
ao longo das linhas diagonais na direção da seta. A ordem é resumida no diagrama
de Pauling como na Figura 1.19.

32 Estrutura atômica e ligações interatômicas


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Figura 1.19 | Diagrama de Pauling

Fonte: <https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/1/11/Electron_orbitals.
svg/2000pxElectron_orbitals.svg.png>. Acesso em: 28 fev. 2016.

Um átomo de hidrogênio (número atômico 1) tem um próton e um elétron. O


único elétron é atribuído ao subnível 1s, o subnível de menor energia no nível mais
baixo consumo de energia. Portanto, a configuração de elétrons do hidrogênio é
igual a: 1s1. Já o elemento hélio (número atômico 2) possui dois elétrons e tem
configuração igual a 1s2. Para o hélio dois elétrons preenchem completamente o
primeiro nível de energia. Uma vez que o núcleo do hélio é diferente do núcleo do
hidrogênio, nenhum dos elétrons do hélio terá exatamente a mesma energia que
o único elétron do átomo de hidrogênio, ainda que todos estejam no subnível 1s.
Outro exemplo é o átomo de boro (número atômico 5) que possui cinco elétrons.
Quatro elétrons preenchem os subníveis 1s e 2s. O quinto elétron é adicionado no
próximo subnível de maior energia, neste caso o subnível 2p, e tem a configuração
eletrônica igual a 1s2s2s22p1. A Figura 1.20 apresenta as configurações eletrônicas
para os elementos hidrogênio, hélio e boro.

Figura 1.20 | Configurações eletrônicas para os elementos hidrogênio, hélio e boro

Fonte: O autor.

33 Estrutura atômica e ligações interatômicas


U1

A configuração eletrônica de cada elemento químico é única para cada posição


da tabela periódica. Nela, o nível de energia é designado pelo período, enquanto o
número de elétrons é dado pelo número atômico. Na Figura 1.21 podemos observar
uma representação da tabela periódica em função do último subnível de energia
preenchido de cada elemento químico.

Figura 1.21 | Tabela periódica em função das configurações eletrônicas dos elementos químicos

Fonte: <https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/e/e5/Periodic_Table_structure. svg/801px-


Periodic_Table_structure.svg.png>. Acesso em: 28 fev. 2016.

A tabela periódica (Figura 1.22) é uma ferramenta incrivelmente útil em que


os elementos químicos estão ordenados pelo número atômico, configuração
eletrônica e propriedades químicas. Esta ordenação mostra a tendência periódica.
Os elementos de uma mesma coluna, por exemplo, exibem comportamentos e
propriedades semelhantes. A tabela periódica é a referência química mais importante
que existe.
Figura 1.22 | Tabela periódica atual

Grupo
Período

Lantanídeos
Actinideos

Fonte: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Tabela_peri%C3%B3dica>. Acesso em: 28 fev. 2016.

34 Estrutura atômica e ligações interatômicas


U1

A tabela periódica pode ser utilizada para se obter relações entre as propriedades
dos elementos e prever as propriedades de novos elementos que ainda não foram
descobertos ou sintetizados, ou seja, as tendências periódicas que são padrões
específicos que mostram diferentes aspectos de um determinado elemento, incluindo
sua dimensão e suas propriedades eletrônicas. As propriedades periódicas são
ferramentas valiosas que nos ajudam a prever rapidamente as propriedades de um
elemento químico. Estas tendências existem devido à estrutura atômica semelhante dos
elementos nas suas respectivas famílias, grupos ou períodos. As principais tendências
periódicas incluem: eletronegatividade, energia de ionização, afinidade eletrônica, raio
atômico, ponto de fusão e caráter metálico. A eletronegatividade é uma propriedade
química qualitativa que descreve a capacidade de um átomo em atrair e ligar-se aos
elétrons. A escala mais comum para quantificar a eletronegatividade é a escala de
Pauling, em homenagem ao químico Linus Pauling. Os números atribuídos pela escala
de Pauling são adimensionais devido à natureza qualitativa da eletronegatividade.
Os valores de eletronegatividade para cada elemento podem ser encontrados em
algumas tabelas periódicas como a tabela apresentada na Figura 1.23.

Seria possível uma nova organização dos elementos químicos


diferente da atual tabela periódica?

Figura 1.23 | Tabela periódica dos valores de eletronegatividade

Fonte:.<https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/2/26/Periodic_table_Pauling_
electronegatvity.jpg>. Acesso em: 28 fev. 2016.

35 Estrutura atômica e ligações interatômicas


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A eletronegatividade é uma propriedade que está diretamente relacionada à


configuração eletrônica. A maioria dos átomos “obedece” à regra do octeto, ou seja,
completando o nível de energia mais externo com 8 elétrons. Assim, a eletronegatividade
é uma propriedade química que descreve a tendência de um átomo ou um grupo
funcional atrair elétrons (ou densidade eletrônica) para si. Essa propriedade é afetada
tanto pelo número atômico quanto pela distância em que seu elétron de valência está
do núcleo carregado, ou seja, ao raio atômico. Quanto maior o número associado
à eletronegatividade, mais um elemento atrai elétrons em relação a ele. Utilizando
os períodos da tabela periódica como referência, a eletronegatividade aumenta da
esquerda para a direita e diminui de cima para baixo nos grupos. Isso ocorre porque o
número atômico em um grupo aumenta para baixo e, portanto, há um aumento da
distância entre os elétrons de valência do núcleo, ou seja, um maior raio atómico. O
flúor (F) é o elemento mais eletronegativo da tabela periódica. A Figura 1.24 mostra a
tendência de aumento da eletronegatividade.

Figura 1.24 | Aumento da eletronegatividade

Fonte:.<https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/2/26/Periodic_table_Pauling_
electronegatvity.jpg>. Acesso em: 28 fev. 2016.

A energia de ionização é a energia necessária para remover um elétron de um


átomo neutro em fase gasosa. Conceitualmente, energia de ionização é o oposto de
eletronegatividade. Quanto menor é essa energia, mais prontamente o átomo torna-
se um cátion, ou seja, perde elétron. Portanto, quanto maior for essa energia mais
prontamente o átomo se tornará um ânion, ou seja, ganha elétrons. De um modo
geral, os elementos do lado direito da tabela periódica tem uma energia de ionização
mais elevada, porque a sua camada de valência está quase completa. Elementos no

36 Estrutura atômica e ligações interatômicas


U1

lado esquerdo da tabela periódica têm energias de ionização baixas por causa de sua
tendência para perder elétrons. Assim, a energia de ionização aumenta da esquerda
para a direita na tabela periódica e de baixo para cima como mostra a Figura 1.25.

Figura 1.25 | Energia de ionização

Fonte: <https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/7/79/14LaAc_periodic_table_IIb.jpg>. Acesso em: 29 fev. 2016.

Outro fator que afeta a energia de ionização é a blindagem eletrônica. A


blindagem descreve a capacidade dos elétrons internos de um átomo em
proteger o núcleo positivamente carregado de seus elétrons de valência. Ao
mover-se à direita de um período, o número de elétrons aumenta e a força da
blindagem aumenta. Como resultado, é mais fácil os elétrons de valência se
ionizarem, dessa forma a energia de ionização diminui abaixo de um grupo. A
energia de ionização dos elementos dentro de um período aumenta a partir da
esquerda para a direita devido à estabilidade da camada de valência. Os gases
nobres possuem energias de ionização muito elevadas por causa das suas camadas
de valência completas. O hélio possui a maior energia de ionização de todos os
elementos químicos. Outra propriedade que podemos estudar na tabela
periódica é a afinidade eletrônica. Tal como o nome sugere, a afinidade
eletrônica é a capacidade de um átomo “aceitar” um elétron. Ao contrário da
eletronegatividade, a afinidade eletrônica é uma medida quantitativa da mudança
de energia que ocorre quando um elétron é adicionado a um átomo de gás neutro.
Quanto mais negativo o valor de afinidade eletrônica, maior a afinidade atômica
pelos elétrons. A Figura 1.26 apresenta a tendência da afinidade eletrônica na tabela
periódica. A afinidade eletrônica aumenta da esquerda para a direita dentro de um
período e aumenta de cima para baixo dentro de um grupo e essas características são
causadas pela redução no raio atômico. Em relação aos grupos a afinidade eletrônica
diminui em comparação ao átomo que está no grupo acima, uma vez que os átomos

37 Estrutura atômica e ligações interatômicas


U1

abaixo são maiores. Isto significa que um elétron é adicionado mais distante do núcleo
atômico em comparação com a sua posição em um átomo menor. Com uma
distância maior entre o elétron de carga negativa e o núcleo carregado positivamente,
a força de atração é relativamente mais fraca. Por conseguinte, a afinidade eletrônica
diminui. Movendo-se da direita para a esquerda em um período, os átomos tornam-se
menores e consequentemente as forças de atração se tornar mais fortes. Isso faz com
que o elétron se aproxime do núcleo, aumentando assim a afinidade eletrônica da
esquerda para a direita em um período.

Figura 1.26 | Afinidade eletrônica

Fonte: <https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/7/79/14LaAc_periodic_table_IIb.jpg>. Acesso em: 29 fev. 2016.

Outra propriedade dos elementos químicos é o raio atômico dado pela metade
da distância entre os núcleos de dois átomos (tal como um raio é a metade do
diâmetro de um círculo). No entanto, esta propriedade deve ser estudada com
cautela já que nem todos os átomos são ligados entre si da mesma maneira.
Alguns estão ligados por ligações covalentes em moléculas, alguns são atraídos
um pelo outro em cristais iônicos, e outros são mantidos em cristais metálicos. No
entanto, é possível para a maioria de elementos formar moléculas covalentes em
que dois átomos são mantidos juntos por uma ligação covalente simples. Os raios
covalentes destas moléculas são muitas vezes referidos como raios atômicos e
essa distância é medida em picômetros.

O tamanho do raio atômico em um período diminui gradualmente a partir da


esquerda para a direita. Isto porque dentro de um período ou família de elementos

38 Estrutura atômica e ligações interatômicas


U1

todos os elétrons são adicionados ao mesmo nível de energia. No entanto, ao


mesmo tempo, prótons são adicionados ao núcleo, o que o torna mais carregado
positivamente. O efeito de aumento do número de prótons é maior do que o
aumento do número de elétrons, assim, ocorre uma maior atração nuclear o que
significa que o núcleo atrai os elétrons mais fortemente, atraindo a camada atômica
mais próxima do núcleo. Os elétrons de valência são mantidos mais próximos em
direção ao núcleo do átomo e, como resultado, o raio atómico diminui. A Figura
1.27 apresenta a ordem de crescimento de raio atômico, em um grupo o raio
atômico aumenta de cima para baixo e dentro de um período o crescimento é
observado da direita para a esquerda.

Figura 1.27 | Raio atômico

Fonte: <https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/7/79/14LaAc_periodic_table_IIb.jpg>. Acesso em: 29 fev. 2016.

Os pontos de fusão é a quantidade de energia necessária para quebrar uma


ligação, ou seja, mudar uma substância que está na fase sólida para o estado líquido.
Geralmente, quanto mais forte a ligação entre os átomos de um elemento, mais
energia será necessária para quebrar uma ligação. Uma vez que a temperatura é
diretamente proporcional à energia, uma elevada energia de dissociação
correlaciona-se a uma temperatura elevada. Os pontos de fusão são variados e
geralmente não formam uma tendência que podemos observar através da tabela
periódica. No entanto, algumas conclusões podem ser tiradas a partir do gráfico da
Figura 1.28.

39 Estrutura atômica e ligações interatômicas


U1

Figura 1.28 | Ponto de fusão para vários elementos

Fonte: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Melting_points.png>. Acesso em: 29 fev. 2016.

Os metais geralmente possuem pontos de fusão elevados, enquanto a maioria dos


não metais possuem valores de pontos de fusão baixos. O carbono possui o ponto
de fusão mais elevado entre todos os elementos da tabela periódica seguido do boro.

2.2. Ligações interatômicas primárias


Todos os materiais existentes são compostos de átomos. Esses átomos são
mantidos e unidos por forças denominadas ligações interatômicas ou ligações
químicas que funcionam como molas ligando cada átomo ao seu vizinho. O tipo
dessas ligações interatômicas é o que dá origem às diferentes propriedades dos
materiais, um exemplo clássico: a grafita e o carbono, ambos compostos por
carbono, no entanto, devido à natureza da ligação química exibem diferentes
características. Nos materiais, sabemos que os átomos estão dispostos de
diferentes maneiras, o que faz outros aspectos serem importantes como o número,
comprimento e ângulo dessas ligações.

As ligações químicas são classificadas em primárias e secundárias. As ligações


primárias envolvem a doação ou o compartilhamento de elétrons para formar
uma configuração eletrônica mais estável já que, exceto os gases nobres, todos os
átomos dos elementos da tabela periódica possuem uma camada por completar.
Por exemplo, a Figura 1.29 apresenta um átomo de sódio (Na) e um átomo de
cloro (Cl). O átomo de sódio tem um núcleo contendo 11 prótons e, orbitando
suas camadas de energia, 11 elétrons. Observa-se que na camada mais externa o
sódio tem apenas um elétron de valência. Já o átomo de cloro possui 17 prótons
no núcleo e 17 elétrons em sua órbita, no entanto, na última camada de energia o
átomo de cloro apresenta 7 elétrons.

40 Estrutura atômica e ligações interatômicas


U1

Figura 1.29 | Átomos de sódio (Na) e cloro (Cl)

Na CI

Fonte: <https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Atom-sodium.png>. Acesso em: 18 fev. 2016.

A ligação primária irá ocorrer quando o átomo de sódio doar seu elétron de valência
e consequentemente ficar com sua camada mais externa preenchida (8 elétrons),
ao mesmo tempo que o átomo de cloro, que tem apenas sete elétrons na última
camada, recebe o elétron vindo do sódio completando sua camada mais externa com
oito elétrons (Figura 1.30).

Figura 1.30 | Configuração estável dos átomos de sódio (Na) e cloro (Cl)

Na CI Na CI

Fonte: O autor.

A regra do octeto se refere à tendência de o átomo “preferir” ter oito


elétrons na última camada de valência, ou seja, a tendência atômica de
ganhar ou perder elétrons para atingir a configuração eletrônica do gás
nobre mais próximo, formando compostos mais estáveis.

As ligações primárias são de três tipos: iônica, covalente e metálica. As ligações


iônicas são ligações fortes e podem acontecer entre dois elementos quando um deles
possui um número pequeno de elétrons na camada de valência (ex.: metal) e o outro

41 Estrutura atômica e ligações interatômicas


U1

apresenta uma camada de valência quase preenchida (ex.: não metal). O sódio doa seu
elétron de valência para completar a última
Figura 1.31 | Representação esquemática
camada do átomo de cloro. Assim, o átomo do cristal de cloreto de sódio
de cloro que atrai esse elétron se torna um (NaCl)
íon carregado negativamente (Cl-), enquanto
o átomo de sódio, que doa o elétron, se torna
um íon positivo (Na+). A atração entre esses
íons de cargas opostas é que forma as ligações
primárias iônicas. Esse tipo de ligação é não
direcional, ou seja, a magnitude da ligação é
igual em todos os sentidos ao redor dos íons
(CALLISTER; RETHWISH, 2013), o que permite
a liberdade no empacotamento atômico.
É importante ressaltar que os íons de sinais
opostos devem se cercar mutuamente para Fonte:.<https://commons.wikimedia. org/wiki/
File:Atom-sodium.png>. Acesso em: 18 fev. 2016.
manter as ligações entre os átomos (Figura
1.31).

Como resultado de todas essas características, os materiais que possuem


predominantemente ligações iônicas são materiais duros, frágeis, apresentam elevada
temperatura de fusão e são bons isolantes térmicos e elétricos. As ligações iônicas
é o principal tipo de ligação encontrada nos materiais cerâmicos. Outro tipo de
ligação primária são as ligações covalentes.
Figura 1.32 | Representação esquemática
Nas ligações covalentes uma configuração da molécula de metano (CH4)
estável é obtida pelo compartilhamento
de elétrons entre átomos vizinhos. Dois
átomos que estão ligados covalentemente
irão compartilhar pelo menos um elétron
a partir de cada átomo, o que faz esse tipo
de ligação ser direcional. Vemos na Figura
1.32 uma molécula do gás metano (CH4) na
qual os átomos de carbono fazem ligações
covalentes com os átomos de hidrogênio
completando oito elétrons em sua última
camada de valência. O compartilhamento de
elétrons é observado na Figura 1.32 destacado Fonte: O autor.
pelos círculos pontilhados.

Assim como as ligações iônicas, as ligações covalentes podem ser muito fortes,
como as encontradas no diamante que resultam em materiais com elevado ponto de
fusão, elevado módulo de elasticidade, elevada dureza e baixa condutividade térmica.
Esse tipo de ligação é encontrado em materiais cerâmicos à base de silicatos, vidros

42 Estrutura atômica e ligações interatômicas


U1

e nos materiais poliméricos. É muito interessante notar que um material tão duro,
como o diamante, e um material relativamente macio, como um polímero, contêm
ligações covalentes. Essas diferenças são o resultado não apenas das ligações dentro
das moléculas, mas, também, das ligações que mantêm as moléculas unidas. Outro
ponto relevante é que podemos ter ligações interatômicas que são parcialmente
iónicas e parcialmente covalentes.

1. Para se calcular o percentual do caráter iônico de uma


ligação, podemos utilizar a Equação abaixo:

% ={ 1 − exp[ − (0,25)(XA − XB)2]} x 100 (1.1)

Em que XA e XB correspondem aos valores de eletronegatividade


de cada elemento. Dessa forma calcule o caráter iônico
do cloreto de magnésio (MgCl2) sabendo que os valores de
eletronegatividade são, respectivamente, 1, 2 e 3,0 para os
átomos de magnésio e cloro.

Na verdade, muito poucos compostos apresentam puramente ligação iônica ou


covalente, ou seja, quanto maior a separação dos elementos na tabela periódica,
maior caráter iônico terá a ligação. O aumento da tendência para se ter uma ligação
iônica é resultado do aumento da eletronegatividade entre elementos. Quanto mais
próximos esses valores, mais covalente é a natureza da ligação. Por fim, o último tipo
de ligação primária é a ligação metálica. Nestas ligações os elétrons de valência são
doados e formam um mar comum de elétrons e, assim, são compartilhados por
todos os átomos do metal, ou seja, os elétrons encontram-se praticamente livres para
se movimentarem ao longo de todos os átomos do metal formando um “mar de
elétrons”. Quando os átomos doam seus elétrons de valência, formam íons que se
mantêm unidos pela nuvem de elétrons em torno deles como podemos observar
na Figura 1.33. Também é possível ver que esses elétrons de valência se deslocam ao
redor de todos os átomos completando suas camadas mais externas com oito elétrons
e adquirindo uma configuração eletrônica estável. É justamente esse movimento dos
elétrons de valência que faz com que os materiais metálicos sejam bons condutores
de eletricidade mesmo em temperaturas relativamente baixas. Nas ligações metálicas
as ligações são não direcionais, da mesma forma que as ligações covalentes. Devido a
essa característica os metais apresentam boa ductilidade que é a habilidade do metal
se deformar antes ou até a sua ruptura.

43 Estrutura atômica e ligações interatômicas


U1

Figura 1.33 | Representação do movimento dos elétrons em um metal

Fonte: <https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Miri6.jpg>. Acesso em: 18 fev. 2016.

No geral, os materiais metálicos apresentam pontos de fusão e módulo de


elasticidade relativamente elevados, boa condutividade elétrica e brilho metálico.

2.3 Ligações secundárias ou ligações de Van der Waals


Além das ligações primárias existem outras ligações mais fracas denominadas
ligações secundárias. Este tipo de ligação é encontrado na maioria dos materiais,
mas os seus efeitos são muitas vezes ofuscados pela força das ligações primárias.
Nas ligações secundárias não ocorre a formação de ligações a partir da doação
ou do compartilhamento dos elétrons de valência. Essas ligações são geralmente
formadas quando ocorre uma distribuição de cargas desigual, criando o que é
conhecido como um dipolo em que a carga total é zero, mas uma das extremidades
do átomo possui, ligeiramente, carga positiva ou negativa em relação à outra
extremidade. Esses dipolos podem ser produzidos por uma flutuação aleatória
dos elétrons em torno do que é normalmente um campo elétrico simétrico no
átomo. Uma vez que um dipolo aleatório é formado em um átomo, um dipolo
induzido é formado no átomo adjacente. Este é o tipo de ligação presente nas
moléculas do gás nitrogênio (N2) e é conhecida como ligação de Van der Waals
(Figura 1.34).

44 Estrutura atômica e ligações interatômicas


U1

Figura 1.34 | Ilustração esquemática da ligação de Van der Waals

Fonte: O autor.

A ligação secundária também pode existir quando temos um dipolo


permanente numa molécula, devido a uma disposição assimétrica das regiões
positivas e negativas. As moléculas com um dipolo permanente podem induzir
um dipolo eletricamente simétrico nas moléculas adjacentes e, assim, formar
uma ligação fraca ou, então, podem formar ligações com outras moléculas de
dipolo permanente. Os materiais que apresentam predominantemente este tipo
de ligação apresentam baixas temperaturas de fusão e ebulição. Existem três tipos
de ligações de Van der Waals, no entanto, a mais importante é a denominada
forças de London. Nestas ligações ocorrem interações entre dipolos induzidos
em átomos ou moléculas, um exemplo é o tetracloreto de carbono (CCl4).
Outro tipo de ligação secundária é a ligação de hidrogênio também conhecida
como ligações de dipolos permanentes. Esse tipo de ligação é a forma mais
forte de ligação secundária e é formada a partir da natureza polar de moléculas
que contenham átomos de hidrogênio. A Figura 1.35 mostra a representação
esquemática da ligação de hidrogênio entre as moléculas de água (H2O). O único
elétron dos átomos de hidrogênio é compartilhado com o átomo de oxigênio,
dessa forma a extremidade da ligação que contém o hidrogênio se torna carregada
positivamente e assim exerce uma intensa força de atração na molécula adjacente
que possui a extremidade carregada positivamente.

Figura 1.35 | Representação esquemática da ligação de hidrogênio entre as moléculas de


água

Fonte: <https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Miri9.jpg>. Acesso em: 19 fev. 2016.

45 Estrutura atômica e ligações interatômicas


U1

Os pontos de fusão e ebulição de materiais que contenham ligações de


hidrogênio são anormalmente elevados para os seus pesos atômicos, uma
consequência deste tipo de ligação.

O artigo intitulado “Materiais cerâmicos catalíticos à base de hexa-


aluminato de metais alcalino terrosos (Ba e Ca): síntese e análise estrutural”
traz o estudo dos materiais cerâmicos e mostra a importância do tipo de
ligação presente nestes materiais. Disponível em: <http://www.scielo.
br/scielo.php?pid=S0366-69132015000300350&script=sci_arttext>.
Acesso em: 19 fev. 2016.

2.4 Moléculas
Moléculas podem ser definidas como o agrupamento de átomos, que pode
ser de átomos iguais como o gás hidrogênio (H2) no qual há dois átomos de
hidrogênio, ou átomos diferentes como a molécula da água (H2O), a qual é
formada por dois átomos de hidrogênio e um átomo de oxigênio. Uma importante
característica das moléculas é identificá-las como moléculas polar quando a
diferença de eletronegatividade dos átomos provoca um deslocamento de carga
ou moléculas apolares quando não existe diferença de eletronegatividade entre
os átomos.

2.5 Forças e energia de ligação


Adicionalmente aos tipos de ligações é importante compreender as forças e
energias de ligação já que as propriedades físicas estão relacionadas com essas
naturezas. Quando os átomos estão muito próximos, cada átomo exerce, no
outro, uma força repulsiva (FR) ou atrativa (FA) na qual a magnitude de cada uma
dependerá da distância de separação atômica (r). Essas forças estão relacionadas
com a energia de cada átomo (E) e pode ser obtida, matematicamente, através da
relação (Equação 1.2):

FA OU FR = dE (1.2)
dr

46 Estrutura atômica e ligações interatômicas


U1

Em que E = energia de ligação e r = distância de separação atômica.

Já a força resultante (F) será a somatória das forças atrativas e repulsivas


(Equação 1.3), enquanto o equilíbrio atômico será obtido quando a soma destas
forças for igual a zero (Equação 1.4):

F = FA + FR (1.3)

FA + FR = 0 (1.4)

Por vezes é mais conveniente trabalhar com energias potenciais entre dois
átomos, em vez das forças de atração e repulsão.

1. O desenvolvimento da ciência dos materiais está relacionado


com o próprio desenvolvimento das civilizações. O homem
primitivo tinha acesso a poucos materiais que estavam
disponíveis na natureza. Assinale a alternativa que apresenta
somente materiais naturais:
a) Lã, ouro, madeira.
b) Ferro, vidro, couro.
c) Nylon, celulose, lã.
d) Borracha, silicone, algodão.
e) Madeira, polietileno, ferro.

2. A ciência dos materiais é definida como o estudo da relação


entre as estruturas e propriedades dos materiais. Assim é
correto o que afirma-se em:

a) A composição de um material, de forma geral, é uma


característica do material em termos da magnitude da resposta
a um determinado estímulo.
b) A estrutura de um material está relacionada ao arranjo
dos seus componentes internos, desde o nível atômico e
organização dos átomos até a escala micro e macroscópica.
c) Os cientistas desta área são responsáveis por criar novos produtos
e procedimentos de fabricação utilizando materiais inovadores.

47 Estrutura atômica e ligações interatômicas


U1

d) A ciência dos materiais está estruturada na inter-relação


entre composição e processamento.
e) As propriedades dos materiais dependem apenas do tipo de
processamento do material.

3. Os materiais semicondutores não são tão eficazes como


os metais. No entanto, eles têm mobilidades superiores à
temperatura ambiente e a temperaturas mais elevadas, isto
significa que uma corrente elétrica pode viajar através deles
muito mais rápido do que nos metais. Entre os materiais
semicondutores destaca-se a utilização de:
a) Ferro.
b) Cobre.
c) Silício.
d) Silicone.
e) Sódio metálico.

4.Os diferentes modelos atômicos contribuíram para os


estudos das estruturas atômicas. Um desses modelos diz que
é possível quantizar valores específicos de energia para os
elétrons. O elétron pode absorver energia e realizar um salto
quântico para um nível (órbita) permitido de maior energia,
assim como através da emissão de energia saltar para um nível
permitido de menor energia. A afirmação acima refere-se ao
modelo atômico:
a) Rutherford.
b) Thomson.
c) Broglie.
d) Dalton.
e) Bohr.

5.Preencha as lacunas: As ligações _______ são ligações


fortes e podem acontecer entre dois elementos quando um
deles possui um número __________ de elétrons na camada
de valência (ex. metal) e o outro apresenta uma camada de
valência ________ preenchida (ex.: não metal).
a) Covalentes, igual, totalmente.
b) Iônicas, pequeno, quase.
c) Metálicas, pequeno, completamente.
d) Iônicas, igual, completamente.
e) Covalentes, pequeno, quase.

48 Estrutura atômica e ligações interatômicas


U1

Nesta unidade abordamos aspectos importantes da ciência e


resistência dos materiais como:
• Aspectos históricos da civilização que coincidem com os
estudos desta ciência;
• Classificação dos materiais em metais, cerâmicas, polímeros,
compósitos, semicondutores, biomateriais, materiais inteligentes
e nanomateriais;
• A estrutura atômica e as partículas subatômicas;
• Ligações interatômicas primárias;
• Ligações interatômicas secundárias;
• Estudo da tabela periódica e das propriedades dos elementos
químicos;
• Moléculas;
• Força e energia de ligação.

Caro aluno, concluímos nossos estudos desta primeira unidade.


Os exercícios propostos o ajudaram a fixar os conceitos abordados.
Agora você já é capaz de aprofundar seus estudos utilizando um
dos livros que constam nas referências bibliográficas. Desafie-se
e resolva outros exercícios para um melhor aprendizado. Bons
estudos!

49 Estrutura atômica e ligações interatômicas


U1

50 Estrutura atômica e ligações interatômicas


U1

Referências

ASHBY, M.; JONES, D. Engenharia de materiais: uma introdução a propriedades,


aplicações e projetos – Volume 1. 3. ed. São Paulo: Campus, 2007. 356 p.
ASKELAND; D. R.; WRIGHT, W. J. Ciência dos materiais. São Paulo: Cengage
Learning, 2014. 672 p.
ATKINS; P., JONES, L. Princípios de química: questionando a vida moderna. 3. ed.
Porto Alegre: Bookman, 2006. 968 p.
CALLISTER, W.; RETHWISH, D. G. Ciência e engenharia de materiais: uma introdução.
8. ed. São Paulo: LTC, 2012. 840 p.
CANEVAROLO, S. Ciência dos polímeros. 2. ed. São Paulo: Artliber, 2006. 280 p.
SHACKELFORD, J. F. Ciência dos materiais. 6. ed. São Paulo: Pearson Education do
Brasil, 2008. 576 p.

51 Estrutura atômica e ligações interatômicas


Unidade 2

ESTRUTURAS E IMPERFEIÇÕES
NOS SÓLIDOS

Éder Cícero Adão Simêncio

Objetivos de aprendizagem:

• Compreender a diferença estrutural entre sólidos cristalinos e amorfos.


• Reconhecer as diferenças entre as células unitárias do sistema cúbico.
• Aplicar o cálculo de densidade em materiais metálicos.
• Entender o conceito de polimorfismo.
• Descrever os diferentes sistemas cristalinos.
• Distinguir os principais tipos de defeitos pontuais e interfaciais.
• Compreender a relação entre determinação do tamanho de grão e as
propriedades de um material policristalino.

Seção 1 | Estruturas dos sólidos


Apresenta os principais conceitos para compreensão das estruturas
dos sólidos e introduz o conceito de células unitárias.

Seção 2 | Imperfeições nos sólidos


Compreende a importância de como os tipos de defeitos influenciam
as diversas propriedades dos materiais.
U2

54 Estruturas e imperfeições nos sólidos


U2

Introdução à unidade

Aluno, novamente seja bem-vindo aos estudos da ciência e resistência


dos materiais. Nesta unidade de ensino vamos estudar mais um pouco sobre
um dos alicerces desta ciência que é a ESTRUTURA dos materiais. Na primeira
unidade compreendemos que as ligações interatômicas influenciam diretamente
nas propriedades dos materiais. Já nesta unidade vamos aprender que estas
propriedades também dependem da estrutura e do arranjo atômico. Por exemplo,
você já se perguntou por que alguns materiais são transparentes e outros são
opacos? Por que alguns metais são mais maleáveis do que outros? Por que alguns
plásticos são duros e outros são moles? Por que as cerâmicas suportam elevadas
temperaturas? O caminho para as respostas para estes questionamentos está no
estudo dos arranjos e das estruturas atômicas. Mas uma outra característica que tem
influência nas propriedades dos materiais é a presença de defeitos ou imperfeições.
E neste momento você deve estar pensando: materiais que apresentam defeitos
na estrutura cristalina certamente são materiais ruins e impróprios para a utilização.

Será isso mesmo? Um material que apresenta defeitos nas suas estruturas
cristalinas é um material ruim e que deve ser descartado?

Ao final do estudo desta unidade você estará apto para responder a esta
pergunta com muita convicção.

Bons estudos.

55 Estruturas e imperfeições nos sólidos


U2

56 Estruturas e imperfeições nos sólidos


U2

Seção 1

Estruturas dos sólidos


Nesta seção estudaremos os principais conceitos para a compreensão das
estruturas dos sólidos, vamos entender que existem sólidos cristalinos e amorfos e
qual a principal diferença entre eles. Posteriormente, aprenderemos sobre as células
unitárias presentes nos materiais metálicos, o que tornará mais fácil a compreensão
do conceito de polimorfismo. Por fim, vamos conhecer os diferentes sistemas
cristalinos e encerraremos o estudo desta seção com a difração de raios X.

Objetivos de Aprendizagem

• Compreender a diferença estrutural entre sólidos cristalinos e amorfos.


• Reconhecer as diferenças entre as células unitárias do sistema cúbico.
• Aplicar o cálculo de densidade em materiais metálicos.
• Entender o conceito de polimorfismo.
• Descrever os diferentes sistemas cristalinos.
• Compreender os arranjos atômicos a partir da difração de raios X.

1.1 Conceitos essenciais


Nos materiais sólidos, a maneira como os átomos ou moléculas se arranjam
contribui para a aparência e as propriedades dos materiais. Os átomos podem ser
reunidos conforme um agregado por meio de inúmeros processos diferentes como
a condensação, pressurização, as reações químicas, a eletrodeposição e a fusão. O
processo geralmente determina, pelo menos inicialmente, se o conjunto de átomos
vai formar um gás, um líquido ou um sólido. O estado normalmente muda à medida
que a sua temperatura ou pressão é alterada. A fusão é o processo mais utilizado
para formar um agregado de átomos, quando a temperatura de uma massa fundida
é reduzida até um certo ponto, o líquido irá formar um sólido cristalino ou um sólido
amorfo.

57 Estruturas e imperfeições nos sólidos


U2

Um sólido amorfo possui seus átomos unidos em uma cadeia atômica sem
periodicidade de longo alcance, ou seja, os átomos estão afastados uns dos outros
a distâncias variáveis denominadas espaçamento de equilíbrio. O vidro e alguns tipos
de plásticos são exemplos de sólidos amorfos e muitas vezes são descritos como
líquidos super-resfriados por suas moléculas estarem dispostas de maneira aleatória
como nos líquidos. Por exemplo, o vidro é normalmente feito a partir de dióxido de
silício (amorfo) ou areia de quartzo, que possui uma estrutura cristalina. Quando a
areia é derretida e o líquido é resfriado em uma velocidade suficiente para evitar a
cristalização, o sólido amorfo formado é chamado de vidro. A Figura 2.1 apresenta
o dióxido de silício (SiO2) e a representação de sua estrutura atômica, sólido amorfo
utilizado na fabricação de vidros e cimentos. A mistura de dióxido de silício com
óxido de boro produz um vidro altamente resistente a elevadas temperaturas e a
choques térmicos o qual conhecemos pelo nome comercial pirex.

Figura 2.1 | Dióxido de silício (amorfo) e sua representação atômica

Fonte: <https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/0/07/Silicon_dioxide_-_Rice_NW_Museum.JPG>. Acesso em: 15


mar. 2016.

Os sólidos amorfos não apresentam Figura 2.2 | Curva de


mudança de fase do estado sólido para resfriamento
o de um sólido amorfo
estado líquido no ponto de fusão definido,
eles amolecem gradativamente quando são
aquecidos (Figura 2.2).

Na curva de resfriamento de temperatura


× tempo de um sólido amorfo mostrado na
Figura 2.2, é possível observar a ausência
de pontos ou temperaturas definidas para a
ocorrência das transformações de estado de
fases. No entanto, além do sólido amorfo, o
Fonte: O autor.
resfriamento de uma massa fundida também
poderá formar um sólido cristalino.

58 Estruturas e imperfeições nos sólidos


U2

Mais de 90% dos sólidos de ocorrência natural ou preparados artificialmente


são sólidos cristalinos, ou seja, ocorre o crescimento de cristais. Minerais, areia,
argila, calcário, metais, carbono (diamante e grafita), sais (NaCl, KCl etc.), todos
apresentam estruturas cristalinas. Um cristal é um arranjo regular de átomos ou
moléculas que são repetidos em longas extensões. A maioria dos sólidos, incluindo
todos os metais, adotam um arranjo cristalino porque o nível de estabilização
alcançado pela ancoragem das interações entre partículas vizinhas é mais elevado
quando as partículas adotam um arranjo regular (em vez de disposições aleatórias).
No arranjo cristalino, o empacotamento eficiente das partículas minimiza a
energia intermolecular total. O padrão regular de repetição em que os átomos se
organizam é chamado de rede cristalina. Na Figura 2.3 podemos observar a rede
cristalina para o dióxido de silício, no entanto, como sólido cristalino, também
conhecido como quartzo.

Figura 2.3 | Dióxido de silício (sólido cristalino) e sua representação atômica

Fonte: <http://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=4104930>. Acesso em: 15 mar. 2016.

Agora que já conhecemos o dióxido de silício amorfo e


cristalino, será que eles possuem as mesmas propriedades e
aplicações?

59 Estruturas e imperfeições nos sólidos


U2

1.2 Célula unitária


As estruturas cristalinas podem ser Figura 2.4 | Célula unitária
convenientemente determinadas a partir do
estudo de um pequeno arranjo representativo
de átomos ou moléculas no sólido chamado
de "célula unitária". A Figura 2.4 evidencia
uma célula unitária dentro de uma estrutura
cristalina.

Ao multiplicar as células unitárias idênticas


em três direções, a localização de todas as
partículas no cristal é determinada. A célula
unitária é simplesmente uma caixa com um
átomo em cada canto.
Fonte: O autor.

Na natureza, catorze tipos diferentes de


estruturas de cristais ou reticulados são encontrados. As células unitárias cristalinas
mais simples são as do sistema cúbico encontradas nos materiais metálicos.

1.3 Estruturas cristalinas dos metais


Os materiais metálicos podem se solidificar em estruturas cristalinas cúbicas e são
de quatro tipos de células unitárias: a cúbica simples (CS), cúbica de corpo centrado
(CCC), cúbica de face centrada (CFC) e hexagonal compacta (HC).

A célula unitária mais simples é a cúbica simples, nela os átomos são alinhados
tridimensionalmente em um quadrado. Cristais cúbicos simples são relativamente
raros, principalmente porque eles tendem a distorcer facilmente.

Na célula unitária cúbica simples (CS) cada átomo possui seis átomos vizinhos
mais próximos (Figura 2.5) e estão localizados nos oito vértices do cubo (Figura 2.6).
Figura 2.5 | Célula unitária cúbica Figura 2.6 | Célula unitária cúbica simples
simples (CS) (CS) com oito átomos nos vértices

Fonte: <https://commons.wikimedia.org/wiki/
Fonte: O autor. File:Cubic_Crystal_Shape.svg>. Acesso em: 15 mar. 2016.

60 Estruturas e imperfeições nos sólidos


U2

Apenas um oitavo da massa de cada átomo que se encontra nos vértices está
dentro da célula unitária em um arranjo octaédrico. Dessa maneira, há somente um
átomo no interior da célula unitária CS, razão pela qual os metais não se cristalizam
nesta estrutura devido ao ineficiente empacotamento atômico, já que somente 52%
do seu volume total é preenchido (Figura 2.7).

Em uma célula unitária a quantidade de átomos vizinhos é denominada número


de coordenação, dessa forma a célula unitária cúbica simples possui número de
coordenação igual a seis. Entre todos os elementos da tabela periódica somente o
polônio se cristaliza neste tipo de célula unitária.

Figura 2.7 | CS em que 1/8 da massa de cada átomo está no interior da célula

Fonte: O autor.

Acesse o link <https://www.youtube.com/watch?v=0arPpHbKuys> e


assista a uma animação sobre a célula unitária CS. Acesso em: 15 mar.
2016.

No entanto, a maioria dos cristais formados apresentam estruturas cristalinas


cúbicas de corpo centrado (CCC) ou cúbicas de face centrada (CFC), que são
estruturas que apresentam um átomo adicional centrado no cubo ou centrado em
cada face do cubo. A maioria dos metais formam estruturas cristalinas de células
unitárias hexagonal compacta (HC), CCC e CFC. No entanto, a estrutura cristalina dos
metais pode mudar dependendo da temperatura. A estrutura cristalina é importante
porque contribui para as propriedades dos materiais. As estruturas de rede cúbica
permitem que o deslizamento entre planos atômicos ocorra mais facilmente, isto
porque sua simetria permite o empacotamento atômico em várias direções. Os

61 Estruturas e imperfeições nos sólidos


U2

metais com estrutura cristalina cúbica de face centrada são mais dúcteis (deformam
mais facilmente sob carga antes da fratura) do que um metal com estrutura cúbica
de corpo centrado. O ferro gama, a prata, o ouro e o chumbo são exemplos de
metais com estruturas CFC. Os metais como o cobalto e o zinco têm estruturas
CFC. A célula unitária cúbica de corpo centrado tem átomos em cada um dos oito
cantos de um cubo (como a célula unitária cúbica simples), mais um átomo no
centro do cubo (Figura 2.8).

Figura 2.8 | Cúbica de Corpo Centrado (CCC)

Fonte: O autor.

Acesse o link <https://www.youtube.com/watch?v=0z8COn9K66c> e


assista a uma animação sobre a célula unitária CCC e observe a disposição
atômica tridimensional. Acesso em: 15 mar. 2016.

Cada um dos átomos localizados nos vértices do cubo é compartilhado entre


oito células unitárias, assim a CCC tem número de coordenação igual a 8. A célula
unitária CCC é composta por um total de dois átomos sendo um no centro do cubo
e o outro calculamos da seguinte maneira: ,
isto é, um oitavo de cada átomo que está localizado em oito vértices do cubo (Figura
2.9).

62 Estruturas e imperfeições nos sólidos


U2

Figura 2.9 | Cúbica de corpo centrado (CCC)

Fonte: O autor.

O arranjo CCC não permite o empacotamento atômico encontrado nas


estruturas CFC e HC. A estrutura CCC é frequentemente formada em metais a
elevadas temperaturas. O volume ocupado pelos átomos em uma célula unitária é
chamado de fator de empacotamento atômico. Na célula cúbica de corpo centrado
o fator de empacotamento é igual a 0,68. O lítio, o sódio, o potássio, o crômio, o
bário, o vanádio, o ferro alfa e o tungstênio são exemplos de materiais que cristalizam
em estruturas CCC. Os metais que possuem a estrutura CCC são geralmente mais
duros e menos maleáveis do que os metais com estrutura cristalina igual ao ouro.
Já a célula unitária cúbica de face centrada (CFC) possui os átomos localizados em
cada vértice e no centro de todas as faces do cubo (Figura 2.10).

Figura 2.10 | Cúbica de Face Centrada (CFC)

Fonte: O autor.

Acesse o link <https://www.youtube.com/watch?v=RoyzZUJfo-Y> e


assista a uma animação sobre a célula unitária CFC. Acesso em: 15 mar.
2016.

63 Estruturas e imperfeições nos sólidos


U2

Cada um dos átomos nos vértices do cubo está ao mesmo tempo localizado
no vértice de outro cubo, assim estes átomos são compartilhados entre oito células
unitárias. Adicionalmente, cada um dos átomos centrados nas seis faces do cubo é
compartilhado com outra célula adjacente. Uma vez que 12 dos seus átomos são
compartilhados, a célula CFC tem um número de coordenação igual a 12. A célula
CFC é ocupada por um total de quatro átomos, sendo um oitavo de cada átomo
localizado no vértice do cubo e metade de um átomo localizado em seis faces do
cubo como mostra o cálculo abaixo:

A Figura 2.11 destaca uma célula unitária CFC com suas frações atômicas.

Figura 2.11 | Frações atômicas em uma célula CFC

Fonte: O autor.

Na estrutura CFC os átomos se arranjam mais próximos uns dos outros do


que na estrutura CCC. O fator de empacotamento atômico em uma CFC é igual
a 0,74. Alguns dos metais que possuem estrutura CFC incluem o alumínio, cobre,
ouro, irídio, chumbo, níquel, platina e prata. Outra estrutura que possui fator de
empacotamento igual a 0,74 é a estrutura Hexagonal Compacta (HC). A estrutura
hexagonal compacta é formada por camadas alternadas que são deslocadas para
que seus átomos estejam alinhados com as lacunas da camada anterior. Os átomos
de uma camada se organizam entre si no espaço vazio entre os átomos da camada
adjacente. No entanto, em vez de ser uma estrutura cúbica, o padrão é hexagonal
(Figura 2.12).

64 Estruturas e imperfeições nos sólidos


U2

Figura 2.12 | Estrutura hexagonal compacta (HC)

Fonte: O autor.

A estrutura HC tem três camadas de átomos. Em cada camada da parte superior


e inferior, há seis átomos que se organizam na forma de um hexágono e um sétimo
átomo que fica no meio do hexágono. Na HC existem seis átomos, em que cada
um dos 12 átomos nos vértices da camada superior e inferior contribui com 1/6
para a célula unitária, os dois átomos no centro do hexágono de ambas as camadas
superior e inferior contribuem cada um com 1/2 e cada um dos três átomos no meio
da camada contribui com 1 átomo (Figura 2.13).

Figura 2.13 | Frações atômicas em uma célula HC

Fonte: O autor.

Acesse o link <https://www.youtube.com/watch?v=xyjW59-CYqk> e


assista a uma animação sobre a célula unitária HC. Acesso em: 15 mar.
2016.

65 Estruturas e imperfeições nos sólidos


U2

O número de coordenação dos átomos nesta estrutura é igual a 12. Há seis vizinhos
mais próximos na mesma camada, ou seja, três na camada acima e três na camada
abaixo. A estrutura HC é muito comum para metais elementares como o berílio,
cádmio, magnésio, titânio, zinco e zircônio. As estruturas HC e CFC apresentam
algumas similaridades como o mesmo fato de empacotamento comentado
anteriormente e possuem o mesmo número de coordenação. A diferença entre a
CFC e HC é a sequência de empilhamento dos átomos. Os ciclos de camadas na
CFC e HC são observados na Figura 2.14.

Figura 2.14 | Empilhamentos atômicos nas estruturas CFC e HC

Fonte: <https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Empilement_compact.svg>. Acesso em: 15 mar. 2016.

A estrutura HC contém apenas dois tipos de camadas com disposição alternada


ABA. Os átomos do terceiro plano ocupam exatamente a mesma posição que os
átomos do primeiro plano. Já a estrutura CFC contém três tipos de camadas com
arranjo ABC, os átomos na camada A e C não ocupam as mesmas posições. A
disposição dos planos atômicos faz com que os metais que possuem estrutura CFC
sejam mais dúcteis do que os metais com estrutura hexagonal compacta. A Tabela
2.1 mostra as estruturas cristalinas estáveis a temperatura ambiente para alguns
metais elementares.

Tabela 2.1 | Estruturas cristalinas para alguns metais

Metal Estrutura cristalina


Alumínio CFC
Cobalto HC
Cobre CFC

66 Estruturas e imperfeições nos sólidos


U2

Ouro CFC
Ferro alfa CCC
Prata CFC
Níquel CFC
Zinco HC
Fonte: O autor.

Além do número de coordenação característico para cada célula unitária, outra


característica muito importante das estruturas cristalinas é o fator de empacotamento
atômico (FEA) que é a soma dos volumes das esferas de todos os átomos internos de
uma célula unitária dividida pelo volume da célula unitária (CALLISTER; RETHWISCH,
2013), como apresentada na Equação 2.1:

(2.1)

No entanto, anteriormente ao cálculo do FEA das estruturas cristalinas é


necessário calcular VE e Vc para cada célula unitária. O volume dos átomos em uma
célula unitária (VE) é dado pela Equação 2.2:

(2.2)

Em que: n é o número de átomos no interior da célula unitária e 4/3 πR3 é o


volume de uma esfera.

Já para o cálculo de Vc utilizam-se a relação entre o comprimento da célula


unitária (a) e o raio atômico (R) para determinar o volume do cubo, isto é, o volume
total da célula unitária apresentada na Equação 2.3:

(2.3)

Para cada tipo de célula unitária existe uma relação distinta de a e R, conforme
Tabela 2.2:

67 Estruturas e imperfeições nos sólidos


U2

Tabela 2.2 | Tipos, comprimentos e volumes das células unitárias

Célula unitária Comprimento de a x R Volume (VC)


CS 2R 8R3

CCC 4R 64R3
√3 3√3
CFC 2R √2 16R √2
3

2R*
HC 24R3 √2
c ≅ 1,633a*
Fonte: Adaptado de Askland e Wright (2016).

O conhecimento do tipo de célula unitária e da estrutura cristalina de um sólido


possibilita o cálculo da sua massa específica teórica p através da Equação 2.4:

(2.4)

Em que n = número de átomos associado a cada célula unitária, A = peso atômico,


Vc = volume da célula unitária e NA = 6,023 x 1023 átomos/mol (Número de Avogadro).

Por exemplo, o ródio possui raio atômico 0,134 nm, estrutura cristalina CFC e
peso atômico de 102,91 g/mol. Dessa forma é possível determinarmos a sua massa
específica. São dados: estrutura CFC possui n = 4, VC = 16R3 √2 = e o Rh massa
atômica A = 102,91 g/mol e o número de Avogadro. Sabendo que a massa específica
é dada em g/cm3, primeiramente vamos transformar a unidade de raio atômico:

R = 0,134nm = 1,34 x 10–8cm. Assim temos:

68 Estruturas e imperfeições nos sólidos


U2

1.4 Polimorfismo
O polimorfismo é um fenômeno conhecido quando um material sólido existe
em mais de uma forma ou estrutura cristalina. O polimorfismo é muito semelhante
à alotropia, no entanto, a alotropia é usada para descrever sólidos elementares,
enquanto o polimorfismo é utilizado para compostos. Em geral, para qualquer
material cristalino é utilizado o termo polimorfismo. Por exemplo, as formas
alotrópicas do carbono incluem diamante (em que os átomos de carbono estão
ligados em um arranjo de estrutura tetraédrica), a grafita (em que os átomos de
carbono estão ligados em conjunto de camadas em uma rede hexagonal), o grafeno
(camadas soltas de grafite), e fulerenos (em que os átomos de carbono estão ligados
em um conjunto esférico, tubular ou em formações elipsoidais. Na transformação
alotrópica todos os alótropos do carbono apresentam a mesma composição, são de
carbono puro, porém os materiais apresentam propriedades drasticamente distintas
devido aos diferentes arranjos atômicos em cada alótropo, ou seja, aos diferentes
sistemas cristalinos.

1.5 Sistemas cristalinos


As estruturas de todos os cristais podem ser classificadas de acordo com a
simetria das células unitárias. Há um total de sete tipos fundamentalmente distintos
de células unitárias que diferem nos comprimentos relativos das arestas e dos ângulos
formados entre elas (Figura 2.15). Cada célula unitária tem seis lados, e cada lado é
um paralelogramo. Os setes sistemas cristalinos são: cúbico, hexagonal, tetragonal,
romboédrico (trigonal), ortorrômbico, monoclínico e triclínico. Os comprimentos a,
b e c e os três ângulos α, β e γ são muitas vezes denominados parâmetros de rede
cristalina.
Figura 2.15 | Sistemas cristalinos

Fonte: <https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/9/9c/Sistemas_cristalinos.jpg>. Acesso em: 21 mar. 2016.

69 Estruturas e imperfeições nos sólidos


U2

Entre os sistemas cristalinos o sistema cúbico é o que apresenta maior grau de


simetria, enquanto o sistema triclínico apresenta a menor simetria. Embora existam
apenas sete sistemas de cristais ou formas, existem catorze redes cristalinas distintas,
chamadas de Rede de Bravais, em que temos: 3 tipos cúbicos, 2 tipos tetragonais, 4
tipos ortorrômbicos, 2 tipos monoclínicos, 1 tipo romboédrico, 1 tipo hexagonal e 1
tipo triclínico (Figura 2.16).

Figura 2.16 | Rede de Bravais

Fonte: O autor.

Na prática todos os cristais possuem um destes tipos de sistemas cristalinos, no


entanto, alguns compostos cristalinos que possuem o mesmo sistema apresentam
diferentes parâmetros de redes, fatores que
Figura 2.17 | Átomos e planos de
dependem da fórmula química e dos tamanhos rede na estrutura cristalina
dos átomos na célula unitária. Normalmente
é necessário especificar um ponto, uma
direção ou um plano cristalográfico dos
átomos (CALLISTER; RETHWISCH, 2013). A
posição de qualquer ponto dentro da célula
unitária pode ser especificada em termos
de suas coordenadas na forma de múltiplos
fracionários dos comprimentos das arestas
da célula unitária. A Figura 2.17 traz uma
representação de uma estrutura cristalina
utilizando bolinhas de vidro em que são
destacados o arranjo atômico e os planos de Fonte:.<https://en.wikipedia.org/wiki/
File:Dislocation_edge_b.jpg>. Acesso em: 16
rede. mar. 2016.

70 Estruturas e imperfeições nos sólidos


U2

Algumas propriedades como a deformação sob carga, condutividade elétrica e


térmica e o módulo de elasticidade podem variar de acordo com a orientação do
cristal, assim como as propriedades do ferro. A Figura 2.18 apresenta uma célula
unitária com as respectivas coordenadas dos átomos localizados nos vértices do
cubo e os parâmetros de rede, assumindo uma unidade de aresta igual a 1.

Figura 2.18 | Célula unitária com as coordenadas atômicas dos vértices e parâmetros de rede

Fonte: O autor.

Algumas “regras” gerais são utilizadas para determinação de um ponto, uma


direção ou um plano cristalográfico:

• Os índices de Miller (notações para definir famílias de planos na Rede de Bravais)


são utilizados para expressar planos de rede e direções; x, y, z são os eixos;

• a, b, c são os parâmetros de rede (comprimento da célula unitária ao longo de


um lado);

• h, k, l são os índices de Miller para planos e direções que são expressos como
planos (hkl) e direções [hkl].

• Não existem vírgulas entre os índices;

• Números negativos são representados com uma barra acima do número.


Exemplo: - 2 é representado como .

Os índices de Miller são determinados a partir de alguns procedimentos:

• Se o plano passar pela origem, selecione um plano equivalente ou mova a


origem;

• Determine a intersecção do plano com os eixos em função de a, b e c;

71 Estruturas e imperfeições nos sólidos


U2

• Um plano que é paralelo a um eixo pode ser considerado como tendo uma
intersecção no infinito ;

• .Converter os valores para o menor número inteiro e representar entre


parênteses.

A Figura 2.19 apresenta os índices de Miller para os diferentes planos cristalográficos.


As setas apontam as origens utilizadas para a determinação dos índices de Miller.

Figura 2.19 | Planos cristalográficos

Fonte: O autor.

1. Os átomos podem ser reunidos como um agregado por


meio de inúmeros processos diferentes como a condensação,
pressurização, as reações químicas, a eletrodeposição e a fusão.
O processo geralmente determina, pelo menos inicialmente,
se o conjunto de átomos vai formar um gás, um líquido ou um
sólido. É correto afirmar que um sólido amorfo é aquele:

a) que possui seus átomos unidos em uma cadeia atômica sem


periodicidade de longo alcance.
b) que possui seus átomos unidos em uma cadeia atômica com
periodicidade de longo alcance.
c) cujas moléculas estão dispostas de maneira regular ao longo
da cadeia atômica.
d) que apresenta mudança de fase do estado sólido para o
estado líquido no ponto de fusão definido.
e) cujo empacotamento eficiente das partículas minimiza a
energia intermolecular total.

72 Estruturas e imperfeições nos sólidos


U2

2. A figura abaixo apresenta um tipo de célula unitária:

Com base na figura assinale a alternativa correta:

a) trata-se de uma célula HC que possui 8 átomos no seu


interior.
b) trata-se de uma célula CFC que possui 12 átomos no seu
interior.
c) trata-se de uma célula CFC que possui 14 átomos no seu
interior.
d) trata-se de uma célula CFC que possui 4 átomos no seu
interior.
e) trata-se de uma célula HC que possui 14 átomos no seu
interior.

73 Estruturas e imperfeições nos sólidos


U2

74 Estruturas e imperfeições nos sólidos


U2

Seção 2

Imperfeições nos sólidos


As estruturas cristalinas que foram descritas na Seção 1 apresentam uma
estrutura idealizada e simplificada, de maneira que possam ser utilizadas para
compreendermos muitos princípios importantes que regem o comportamento de
sólidos. Em contraste, os cristais reais contêm um grande número de defeitos que
variam desde a quantidade de impurezas à falta de átomos ou íons. Estes defeitos
ocorrem por três razões principais:
1. É impossível obter uma substância 100% pura. Algumas impurezas sempre
estarão presentes.
2. Mesmo se fosse formada uma substância 100% pura, a formação de um
cristal perfeito exige um resfriamento da fase líquida infinitamente para permitir
que todos os átomos, íons e moléculas se arranjem em suas posições corretas.
Os resfriamentos a taxas reais geralmente resultam em um ou mais componentes
presos em posições “erradas”.
3. Aplicando uma tensão externa em um cristal, tal como um golpe de martelo,
podemos observar movimentos microscópicos das estruturas, resultando em um
alinhamento imperfeito.
Os defeitos ou imperfeições contribuem para as propriedades dos materiais. É
verdade que a palavra "defeito" nos remete a algo ruim ou indesejável, contudo, nos
estudos sobre materiais os defeitos são intencionalmente utilizados para manipular
as propriedades de um material. Por exemplo, a adição de elementos de liga em um
metal é um modo de introduzir um defeito no cristal. Há alguns tipos básicos de
defeitos em um sólido cristalino:
.Defeitos pontuais;
 Defeitos lineares;
 Defeitos interfaciais;
 Defeitos volumétricos.
Nesta seção vamos compreender como esses tipos de defeitos influenciam as
diversas propriedades dos materiais.

75 Estruturas e imperfeições nos sólidos


U2

Objetivos de Aprendizagem
 Compreender a origem e a natureza dos cristais.
 Compreender a diferença entre defeitos pontuais, interfaciais e volumétricos.
 Aplicar o cálculo de números de lacunas em um material.
 Reconhecer os diferentes tipos de defeitos.
 Determinar o tamanho de grão em uma estrutura.

2.1 Defeitos pontuais


Os defeitos pontuais são regiões nas quais existe a ausência de um átomo
ou o átomo encontra-se em uma região irregular na estrutura cristalina. Entre os
defeitos pontuais incluem-se: lacunas, autointersticial, impurezas substitucionais
e intersticiais. A lacuna é o defeito mais simples e como o próprio nome sugere
observa-se a ausência de um átomo na rede cristalina (Figura 2.20).

Figura 2.20 | Representação bidimensional de uma lacuna

Fonte: <http://www.matter.org.uk/glossary/images/vacancy.gif>. Acesso em: 17 mar. 2016

O link <https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Vacancy_diffusion.
gif> apresenta um gif em que se pode observar o movimento de lacunas
na rede cristalina. Acesso em: 17 mar. 2016.

76 Estruturas e imperfeições nos sólidos


U2

As lacunas são defeitos comuns, especialmente em altas temperaturas, quando os


átomos estão frequentemente em movimento e mudam de posição aleatoriamente,
deixando para trás sítios da rede vazios. A maioria dos casos de difusão (transporte
de massa por movimento atômico) só ocorrem devido à presença de lacunas. É
possível determinar o número de lacunas em uma rede cristalina utilizando-se a
Equação 2.5:

(2.5)

Em que N é o número total de sítios atômicos, Ql é a energia necessária para a


formação de uma lacuna, T é a temperatura absoluta em Kelvin e k é a constante
de Boltzmann (8,62 x 10-5 eV/átomo.K ou 1,38 x 10-23 J/átomo.K). O número total de
sítios atômicos é calculado a partir da Equação 2.6:

(2.6)

Nessa expressão NA é o número de Avogadro, ρ é a massa específica e A o peso


atômico.

Assim observa-se que a quantidade de lacunas aumenta exponencialmente


em função da temperatura. Vamos determinar o número de lacunas no ferro em
900 oC e 1500 oC, sabendo que a massa específica do ferro é igual a 7,65 g/cm3,
o peso atômico é igual a 55,85 g/mol, o número de Avogadro igual a 6,023 x 1023
átomos/mol e a energia de formação de uma lacuna é 1,08 eV/átomo.

77 Estruturas e imperfeições nos sólidos


U2

O número de lacunas é comumente representado das seguintes maneiras:

Em função de centímetros cúbicos 1,9 x 1018 lacunas/cm3 ou 1,9 x 1018 cm-3; ou


metros cúbicos 1,9 x 1024 lacunas/m3 ou 1,9 x 1024m-3.

Para o ferro em 1500 oC o número de lacunas em cm3 é igual a:

A comparação entre os números de lacunas no ferro a 900 oC e a 1500 oC evidencia


o aumento exponencial. Outro defeito pontual é o defeito autointersticial, ou seja,
um átomo da rede cristalina se desloca e fica comprimido em um sítio intersticial
que é uma região que sob condições normais não estaria ocupada. As impurezas
também são consideradas defeitos pontuais e são do tipo impureza substitucional,
em que um átomo diferente dos átomos que formam a rede cristalina substituiu um
átomo da estrutura e geralmente apresentam diferenças de no máximo 15% do raio
do átomo da estrutura original. Um exemplo de átomos de impureza substitucional
são os átomos de zinco no latão. Os átomos de zinco têm raio igual a 0,133 nm e
substituem alguns átomos do cobre que tem raio 0,128 nm. Já átomos de impurezas
intersticiais são muito menores do que os átomos da rede cristalina. Estes tipos de
átomos de impurezas intersticiais encaixam-se no espaço vazio entre os átomos
da estrutura cristalina. Um
exemplo de átomos de Figura 2.21 | Defeitos pontuais
impureza intersticiais são
os átomos de carbono os
quais são adicionados ao
ferro para produzir aço. Os
átomos de carbono, com
um raio de 0,071 nm, se
encaixam perfeitamente
nos espaços abertos entre
os átomos de ferro que
possuem raio atômico de
0,124 nm. A Figura 2.21
apresenta os diferentes Fonte: Disponível em: <https://sites.google.com/site/danamaterials/
tipos de defeitos pontuais. imperfections/Fracture_Eng003.jpg>. Acesso em: 17 mar. 2016

78 Estruturas e imperfeições nos sólidos


U2

É importante destacar que a adição de impurezas também pode resultar na


formação de uma solução sólida que se forma quando a adição de soluto (elemento
em menor quantidade) ao material hospedeiro (solvente – material em maior
quantidade) não provoca nenhuma mudança na estrutura cristalina.

2.2 Defeitos lineares


As discordâncias são outro tipo de defeito nos cristais em que alguns átomos
se encontram fora da sua posição na estrutura cristalina. A principal função das
discordâncias na microestrutura é controlar a resistência ao escoamento e a
subsequente deformação plástica dos sólidos cristalinos a temperaturas normais. As
discordâncias também participam do crescimento dos cristais e das estruturas de
interfaces entre os cristais e são geradas e movidas quando uma tensão é aplicada.
Existem dois tipos básicos de discordâncias, a discordância aresta e a discordância
espiral. Na verdade, a maioria das discordâncias são, provavelmente, um híbrido
das formas de aresta e espiral. A discordância aresta pode ser facilmente visualizada
como um semiplano extra de átomos em uma estrutura cristalina. Muitas vezes
esses semiplanos são chamados de linhas da discordância devido aos átomos
estarem alinhados ao longo de uma linha (Figura 2.22). Na discordância em aresta as
ligações interatômicas são significativamente distorcidas nas imediações da linha de
discordância. Compreender o movimento de uma discordância é fundamental para
entender a deformação plástica nos materiais. A deformação ocorre quando um
deslocamento se move através de um cristal.

Figura 2.22 | Discordância aresta

Fonte: <https://sites.google.com/site/danamaterials/imperfections/Fracture_Eng003.jpg>. Acesso em: 17 mar.


2016.

79 Estruturas e imperfeições nos sólidos


U2

Na verdade, o movimento das discordâncias é análogo ao movimento de uma


lagarta. A lagarta tem que exercer uma grande força para mover todo o seu corpo ao
mesmo tempo. Em vez disso, move a porção traseira do seu corpo para a frente, uma
pequena quantidade, e cria uma protuberância. Essa protuberância então se move
para a frente e ocorre o movimento de uma pequena porção do corpo para a frente.
Na Figura 2.23 se observa o movimento de uma discordância quando o cristal é sujeito
a uma tensão de cisalhamento, formando uma unidade de distância interatômica.

Figura 2.23 | Movimento de discordância

Fonte: <http://www.studfiles.ru/html/2706/277/html_H5Qyji8WRS.W1Wg/htmlconvd-rXFaYF41x1.jpg>. Acesso em: 18


mar. 2016.

Como mostrado na Figura 2.23, a discordância se move de forma semelhante,


ou seja, uma pequena quantidade de cada vez. A discordância na metade superior
do cristal está deslizando plano por plano, da esquerda para a direita, iniciando na
posição A passando por B até formar uma unidade de distância interatômica à direita
do cristal. Assim, uma pequena fração das ligações interatômicas são quebradas
durante o movimento da discordância. A magnitude e a direção da distorção da
rede associada a uma discordância são expressas em termos de um vetor de Burgers
representado por como mostra a Figura 2.24 (CALLISTER; RETHWISCH, 2013).

Figura 2.24 | Vetor de Burgers

Fonte: <https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/d/dd/Burgers_vektor.svg>. Acesso em: 18 mar. 2016.

80 Estruturas e imperfeições nos sólidos


U2

Você compreendeu como ocorre o movimento de uma


discordância? E que é muito similar a uma ola mexicana?
O vídeo disponível em: <https://www.youtube.com/
watch?v=3VHKGGoyZQk>. Acesso em: 20 mar. 2016.
Apresenta o movimento de uma discordância em um material
cristalino

Já a discordância do tipo espiral é um pouco mais difícil de visualizar. A natureza


de uma discordância é definida pelas orientações relativas da linha da discordância e
do vetor de Burgers. Em uma discordância aresta elas são perpendiculares, enquanto
em uma discordância espiral elas são paralelas (CALLISTER; RETHWISCH, 2013). A
Figura 2.25 mostra a representação do movimento de uma discordância espiral.

Figura 2.25 | Movimento de uma discordância espiral

Fonte: <https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Dislocation_vis_et_deformation_3d.svg>. Acesso em: 18 mar. 2016.

2.3 Defeitos interfaciais


Os defeitos interfaciais são defeitos bidimensionais que aparecem em cristais
em que normalmente o material apresenta estruturas cristalinas ou orientações
cristalográficas diferentes. Esses defeitos podem ser divididos em: superfícies
externas, contornos de grão, contornos de fase e contornos de macla. Nos
defeitos de superfície externa cada átomo na superfície já não apresenta o
número de coordenação adequado e as ligações atômicas já se encontram
rompidas e assim os átomos encontram-se em estado de maior energia. Outro tipo
de defeito interfacial é o contorno de grão. Contorno de grão é o limite onde
termina um grão e começa outro, os sólidos são geralmente constituídos por um
número de grãos que pode

81 Estruturas e imperfeições nos sólidos


U2

variar em comprimento e na transição de suas orientações cristalinas em relação a


um grão adjacente. Quando a diferença entre as orientações cristalinas dos grãos
é pequena utiliza-se o termo contorno de grão baixo ângulo, enquanto utiliza-se o
termo contorno de grão de alto ângulo quando esse desajuste de orientação é grande
(Figura 2.26). Já a Figura 2.27 apresenta a micrografia de um metal policristalino com
os limites de grão evidenciados por ataque ácido

.
Figura 2.26 | Esquemático mostrando os contornos de grão baixo e alto e as posições
atômicas

Fonte: <http://ymsc.tsinghua.edu.cn:8090/lunwen/2015/9.pdf>. Acesso em: 18 mar. 2016.

Figura 2.27 | Micrografia eletrônica de transmissão de um metal policristalino

Fonte: <https://en.wikipedia.org/wiki/Grain_boundary>. Acesso em: 19 mar. 2016.

82 Estruturas e imperfeições nos sólidos


U2

O tamanho dos grãos pode ser controlado pela taxa de resfriamento quando um
material é fundido ou tratado termicamente. Geralmente, um resfriamento rápido
produz grãos menores, enquanto um resfriamento lento produz grãos maiores.

2.4 Defeitos volumétricos


Outros tipos de defeitos encontrados nos materiais sólidos são os defeitos
volumétricos. É comum dividi-los em quatro classes que se baseiam na combinação
do tamanho e efeito da partícula:

Precipitados – são pequenas partículas introduzidas na matriz de uma reação no


estado sólido. A finalidade mais comum dos precipitados é aumentar a resistência
das ligas estruturais, agindo como obstáculos ao movimento das discordâncias. Essa
habilidade depende do tamanho e das propriedades internas dos precipitados que
têm como papel modificar o comportamento da matriz e não atuar como uma nova
fase.

Dispersantes – são partículas maiores que se comportam como uma segunda


fase e adicionalmente influenciam o comportamento da fase primária. Podem
ser grandes precipitados, grãos ou polipartículas granulares distribuídos através da
microestrutura. Quando uma microestrutura contém dispersantes propriedades
tais como a resistência mecânica e a condutibilidade elétrica são propriedades
características tanto da fase dispersa quanto da matriz.

Inclusões – são partículas estranhas ou grandes partículas de precipitado. As


inclusões são geralmente constituintes indesejáveis na microestrutura. Por exemplo,
as inclusões prejudicam a resistência das ligas estruturais, uma vez que são sítios
preferenciais para falha.

Vazios (ou poros) – são causadas por gases que estão presos durante a
solidificação ou por condensação vaga no estado sólido. Eles são quase sempre
defeitos indesejáveis. Seu efeito principal é diminuir a resistência mecânica e
promover a fratura quando o material é sujeito a pequenas cargas.

2.5 Tamanho de grão


O tamanho de grão é frequentemente determinado quando as propriedades
de um material policristalino estão sendo consideradas. Existem diversos métodos,
porém o método mais utilizado foi desenvolvido pela Sociedade Americana para
Testes e Materiais (ASTM – American Society of Testing and Materials). Neste método
são utilizados vários quadros comparativos com números atribuídos de 1 a 10 que
são chamados número do tamanho do grão. Para utilizar este método uma amostra
deve ser preparada adequadamente e fotografada com uma ampliação de 100,
assim o tamanho de grão é determinado cujos grãos mais se assemelham aos grãos

83 Estruturas e imperfeições nos sólidos


U2

das micrografias dos quadros comparativos do método da ASTM. A comparação dos


quadros para determinação do tamanho de grão está relacionada ao número médio
de grãos por polegada quadrada sob ampliação de 100. Esses parâmetros estão
relacionados pela Equação 2.7:

(2.7)

Em que n representa o número do tamanho de grão

1. Um sólido amorfo possui seus átomos unidos em uma


cadeia atômica sem periodicidade de longo alcance, ou seja,
os átomos estão afastados uns dos outros a distâncias variáveis
denominadas espaçamento de equilíbrio. Assinale a alternativa
que apresenta um exemplo de sólido amorfo:

a) Dióxido de silício.
b) Bronze
c) Cobre.
d) Ferro.
e) Zircônio.

2. A célula unitária mais simples é a cúbica simples, nela os


átomos são alinhados tridimensionalmente em um quadrado.
Cristais cúbicos simples são relativamente raros, principalmente
porque eles tendem a distorcer facilmente. Na CS é correto
afirmar que:

a) Cada átomo possui quatro átomos vizinhos mais próximos.


b) Cada átomo possui seis átomos vizinhos mais próximos.
c) Cada átomo possui doze átomos vizinhos mais próximos.
d) A CS é ocupada pelo volume de dois átomos.
e) A CS é ocupada pelo volume de quatro átomos.

3. Dada a figura abaixo é correto afirmar que as coordenadas


do plano destacado são iguais:

84 Estruturas e imperfeições nos sólidos


U2

a) (212)
b) (111)
c) (201)
d) (211)
e) (001)

4. Analise a sentença abaixo:


“A principal função deste tipo de defeito na microestrutura
é controlar a resistência ao escoamento e a subsequente
deformação plástica dos sólidos cristalinos a temperaturas
normais”. O trecho acima trata de um tipo de defeito encontrado
nas estruturas cristalinas. Esse defeito é denominado:

a) Superfícies externas.
b) Discordância.
c) Vazios.
d) Contorno de grão.
e) Inclusões.

5. Assinale a alternativa que preenche corretamente as lacunas:


Os defeitos __________ são defeitos __________ que
aparecem em cristais em que normalmente o material apresenta
orientações cristalográficas ____________ e são divididos em
alguns tipos, como o ____________.

a) Interfaciais, tridimensionais, diferentes, contorno de macla.


b) Volumétricos, bidimensionais, iguais, contorno de grão.
c) Volumétricos, bidimensionais, iguais, contorno de macla.
d) Interfaciais, tridimensionais, iguais, contorno de grão.
e) Interfaciais, bidimensionais, diferentes, contorno de macla.

85 Estruturas e imperfeições nos sólidos


U2

Nesta unidade estudamos temas importantes para a compreensão


da ciência e resistência dos materiais como:
• Os conceitos de sólidos cristalinos e amorfos.
• As diferenças entre as células unitárias do sistema cúbico.
• O cálculo de densidade em materiais metálicos.
• A diferença entre polimorfismo e alotropia.
• Os sete sistemas cristalinos e a rede de Bravais.
• Os principais tipos de defeitos e como determinar o tamanho
de grão.

Caro aluno, finalizamos nossos estudos desta segunda unidade


de Ciência e Resistência dos Materiais. Não deixe de consultar
outros materiais como as referências utilizadas nesta unidade,
todos os livros trazem exercícios com diversos graus de
complexibilidade que o ajudarão a fixar os tópicos abordados.
Não desista no primeiro obstáculo, na primeira equação, seja
persistente. Bons estudos!

86 Estruturas e imperfeições nos sólidos


U2

Referências

ASKELAND; D. R.; WRIGHT, W. J. Ciência dos materiais. São Paulo: Cengage


Learning, 2014. 672 p.
ATKINS; P., JONES, L. Princípios de química: questionando a vida moderna. 3. ed.
Porto Alegre: Bookman, 2006. 968 p.
CALLISTER, W.; RETHWISH, D. G. Ciência e engenharia de materiais: uma introdução.
8. ed. São Paulo: LTC, 2012. 840 p.
CANEVAROLO, S. Ciência dos polímeros. 2. ed. São Paulo: Artliber, 2006. 280 p.
SHACKELFORD, J. F. Ciência dos materiais. 6. ed. São Paulo: Pearson Education do
Brasil, 2008. 576 p.

87 Estruturas e imperfeições nos sólidos


Unidade 3

TENSÃO E DEFORMAÇÃO

Éder Cícero Adão Simêncio


Vagner Luis Copeinski
Wilian de Araújo Rosa

Objetivos de aprendizagem:

 Compreender o equilíbrio dos corpos deformáveis.


 Conhecer os conceitos de tensão e tensão normal média em uma barra
com carga axial.
 Compreender os conceitos de tensão de cisalhamento média e tensão
admissível.
 Entender o conceito de deformação.

Seção 1 | Estruturas e carregamentos


Estuda o equilíbrio de um corpo deformável e o conceito de tensão.

Seção 2 | Tensão e deformação


Apresenta os principais fundamentos da Resistência dos Materiais, os
conceitos de deformação normal longitudinal causada por tensão normal,
deformação angular transversal causada por tensão de cisalhamento e
deformação lateral mostrada por Poisson.
U3

Introdução à unidade

Alunos, sejam bem-vindos aos estudos da ciência e resistência dos materiais.


Nesta unidade estudaremos os princípios fundamentais da resistência dos materiais,
ciência que estuda o comportamento de objetos sólidos sujeitos a tensões e
deformações. Vamos aprender sobre como os princípios da estática são utilizados
para analisar e determinar os esforços internos resultantes em um corpo. No projeto
de qualquer estrutura ou máquina, em primeiro lugar, é necessário usarmos estes
princípios para determinar as forças que agem sobre os vários elementos, bem
como no seu interior. O tamanho dos elementos, juntamente com sua deflexão
e estabilidade, depende não só das cargas internas, mas, também, do tipo de
material de que são feitos. Justamente por essa necessidade é que estudamos
nas duas primeiras unidades aspectos relacionados aos materiais. No entanto,
a determinação precisa e a compreensão fundamental do comportamento do
material são vitais para o desenvolvimento de equações necessárias usadas na
resistência dos materiais e que utilizamos na prática para obtermos a distribuição
da carga interna. A resistência de um material é a sua capacidade para suportar
uma carga aplicada, sem falha ou deformação plástica. Ao longo desta unidade
serão introduzidos os conceitos de tensão, tensão normal média e tensão de
cisalhamento. Ainda discutiremos a tensão admissível e as aplicações específicas
da análise e do projeto de elementos submetidos à carga axial ou a cisalhamento.

91 Tensão e deformação
U3

92 Tensão e deformação
U3

Seção 1

Estruturas e carregamentos
Nesta seção vamos estudar o equilíbrio de um corpo deformável e o conceito
de tensão.

Objetivos de Aprendizagem

• Conhecer os tipos de estruturas e carregamentos.

• Identificar os diferentes tipos de tensão.

• Calcular as forças e tensões a que um corpo está sujeito.

1.1 Classificação das estruturas e tipos de carregamentos

O objetivo é estudar/determinar os esforços/solicitações que podem agir nas


peças estruturais (lajes, vigas, pilares e blocos), bem como suas deformações dentro
dos padrões estabelecidos e permitidos pela norma brasileira. Podemos entender
como esforços/solicitações os agentes externos aplicados na estrutura: cargas
verticais, variações térmicas, recalques, cargas horizontais (vento). Nas engenharias,
buscamos estruturas estáveis. Assim, podemos dizer que a estrutura é um conjunto
de peças interligadas entre si, que podem sofrer ações externas e absorver estas
solicitações dentro de coeficientes de segurança satisfatórios, desde que se
mantenha um equilíbrio estático. As estruturas podem ser classificadas por seus
componentes e quanto à forma geométrica (linear, superfície e volumétrica).

Em relação à classificação das estruturas por sua forma geométrica possuímos


basicamente três tipos de estrutura: linear, superfície e volumétrica.

A estrutura linear, de maneira clara e objetiva, pode ser definida como uma peça
que possui duas dimensões próximas L1 ≅ L2 e uma terceira dimensão L3 muito
maior que as duas primeiras. Em geral, esta última dimensão é de ordem dez vezes
maior.

Assim, são ditas as estruturas lineares em concreto armado ou protendido os


pilares, as vigas, conforme Figuras 3.1 e 3.2:

93 Tensão e deformação
U3

Figura 3.1 | Viga biapoiada

SEÇÃO TRANVERSAL

VIGA BIAPOIADA h

b
L3

PILAR PILAR
Fonte: O autor

Figura 3.2 – Pilar

VIGA

SEÇÃO TRANSVERSAL

L2 L1
L2
L3

PILAR
CENTRAL

VIGA

Fonte: O autor.

São também estruturas lineares, entre Figura 3.3 | Lajes, radier, vigas parede
outras, as treliças, os cabos de sustentação VIGA
de uma ponte estaiada etc. As estruturas P1 P2
ditas de superfície apresentam uma figura
geométrica tipo lamelar/placas, ou seja,
VIGA

VIGA

LAJE
Lx

duas dimensões da mesma ordem de


grandeza, e maiores que a ordem de P3 VIGA P4
grandeza da terceira dimensão. Assim
Ly
teremos as peças conhecidas por lajes.
As dimensões destas placas/lajes são SEÇÃO TRANSVERSAL
h

LAJE
normalmente chamadas de lx, ly e h, em
que a dimensão lx será sempre menor ou VIGA
igual à dimensão ly e ambas muito maiores
PILAR PILAR
que h. Assim temos: lajes, radier, vigas
Fonte: O autor.
parede, conforme Figura 3.3:

94 Tensão e deformação
U3

As estruturas conhecidas como volumétricas são peças que apresentam suas


dimensões da mesma ordem de grandeza. Em geral são conhecidas como blocos.
Assim temos: bloco de coroamento de estacas, bloco de concreto, conforme
Figura 3.4.

Figura 3.4 | Bloco de coroamento de estacas, bloco de concreto


L1

L3
L2

E1 LASTRO DE CONCRETO MAGRO

ESTACA

SEÇÃO TRANSVERSAL
Fonte: O autor.

1.2 Tipos de carregamento

Como dito anteriormente, buscaremos uma estrutura estável e que possa


suportar os esforços/carregamentos nela aplicados; estes esforços/carregamentos
podem ser divididos em: esforços externos e esforços internos.

O artigo "Resistência mecânica às forças de tração e flexão: proposta


de novo desenho para os pinos de Schanz dos fixadores externos
monolaterais" determina a resistência mecânica à tração e à flexão para
três modelos de pinos Schanz. Disponível em: <http://www.scielo.br/
pdf/rbort/v43n6/06.pdf>. Acesso em: 1 abr. 2016.

1.3 Esforços externos

Os esforços externos são oriundos de carregamentos aplicados na estrutura.


São solicitações, cargas aplicadas. Já os esforços internos são decorrentes dos
carregamentos/solicitações externos.

Os esforços externos são divididos entre esforço de ação e esforço de reação.


Assim, quando uma viga sofrer ação de uma força e se ela não estiver sustentada por
dois apoios (pilares), ela se deslocará infinitamente até encontrar um plano de apoio
no sentido de aplicação do carregamento, conforme Figura 3.5.

95 Tensão e deformação
U3

Figura 3.5 | Viga apoiada em pilares

Fonte: O autor.

O que faz a estrutura estar em equilíbrio estático são as forças de reações R1 e


R2. Para cada ação/solicitações/carregamentos surgem novas reações até um dado
limite que não faça a estrutura entrar em colapso.

1.4 Esforços internos

Tomando como exemplo a viga biapoiada, sendo solicitada por uma força P.
Se aumentarmos a força P, teremos um aumento nas reações R1 e R2, no entanto,
se continuarmos aumentando P iremos provocar um dano na parte interna da
viga (fissura, trincas) ou, ainda, um esmagamento da cabeça dos pilares (P1 ou P2).
Podemos concluir que: os esforços solicitantes não estão sendo suportados pela
estrutura interna da viga. Os máximos valores que os esforços solicitantes podem
ter sem que ocorra algum dano à estrutura são ditos esforços internos resistentes.

As solicitações/carregamentos que podem vir a atuar nas estruturas (lajes, vigas,


pilares, blocos de fundação)
são classificadas em forças e Figura 3.6 | Carga concentrada (F) atuando sobre
uma viga biapoiada
momentos.
Os carregamentos, ditos
forças, podem ser do tipo
concentrado ou distribuído.
Diz-se que uma força é
concentrada quando ela é
aplicada em um único ponto
da estrutura. Esta força/
carregamento tem direção e
sentido, como pode ser visto Fonte: O autor.

na Figura 3.6:

96 Tensão e deformação
U3

1.5 Carregamento distribuído

Uma força/carregamento é dita distribuída quando sua aplicação ocorre em


mais de um único ponto. A força distribuída pode ser entendida como uma força
distribuída linearmente (carregamento). Supor a seguinte distribuição linear de uma
carga qualquer (q (x)) em função do comprimento, conforme Figura 3.7.

Figura 3.7 | Distribuição linear de uma carga

Fonte: O autor.

Desta forma, quando tomarmos a integral da função q(x) ao longo do comprimento


da peça a qual está sendo solicitada variando de 0 a L, teremos a força solicitante
correspondente, de acordo com a Equação 3.1.

Eq. 3.1

O local geométrico da representação desta força, ou seja, onde será lançada esta
força que irá representar numericamente o carregamento distribuído, é o centro de
gravidade da distribuição.

Se pensarmos fisicamente no gráfico do carregamento em função do


comprimento L, a integral representa a área determinada pela distribuição.

Para melhor entendimento, tomaremos um carregamento linear e uniforme em


um dado comprimento L. Como q(x) é constante, no comprimento L, deveremos
resolver apenas a integral definida entre 0 e 1 da Equação 3.1, que nos levará à
Equação 3.2:

Eq. 3.2

O ponto de aplicação desta resultante se confunde com o centro de gravidade


da figura geométrica. Podemos ter outros tipos de carregamentos, como veremos.

97 Tensão e deformação
U3

1.6 Carregamento uniformemente variável

Esta hipótese de carregamento uniformemente variável é apresentada na Figura


3.8:

Figura 3.8 | Carregamento uniformemente variável

Fonte: O autor.

Neste tipo de carregamento a força equivalente corresponde à área da figura


geométrica (triângulo), e é dada pela Equação 3.3:

Eq. 3.3

A posição correspondente à aplicação da carga se encontra no centro de


gravidade do triângulo, ou seja, a um terço da sua altura, de acordo com a Figura 3.9:

Figura 3.9 | Indicação do centro de gravidade

Fonte: O autor.

Vamos supor que a carga inicial do carregamento distribuído é diferente de zero


e a carga final é maior que a carga inicial. Assim, teremos uma figura de um trapézio,
conforme Figura 3.10:

98 Tensão e deformação
U3

Figura 3.10 | Trapézio

Fonte: O autor.

Para determinação da força F, transformaremos o trapézio em duas figuras


conhecidas, facilitando a localização do ponto de aplicação do carregamento.
Devem surgir duas forças em pontos de aplicação distintos, conforme Figura 3.11.

Figura 3.11 | Forças em pontos de aplicação

Fonte: O autor.

Em qualquer dos casos, distribuição uniforme ou distribuição variável, a carga


será sempre em unidade de força por unidade de comprimento e a força resultante
será sempre em unidade de força. Outro tipo de solicitação que podemos ter em
nossa estrutura, seja por efeitos externos, seja por problemas construtivos, são os
momentos. O momento irá representar a tendência de rotação do conjunto. Para
o momento, precisamos convencionar o sentido do momento. Quando tivermos
a tendência da rotação no sentido horário, dizemos que o momento será positivo.

99 Tensão e deformação
U3

Quando tivermos a tendência de rotação no sentido anti-horário, dizemos que o


momento será negativo. Para que nossa estrutura esteja em equilíbrio, as forças
devem ser suportadas por reações. Normalmente estas reações acontecem nos
apoios das nossas peças. Os esforços de reação dependem do tipo de apoio. O
apoio oferece reação na direção contrária ao possível deslocamento. Nas estruturas
os apoios podem ser: fixo; móvel; engastamento fixo e engastamento móvel.

Ao projetar um equipamento ou um prédio devemos


considerar coeficientes de segurança? Por quê?

1.7 Apoio fixo

Neste tipo de apoio, teremos dois tipos de reações e sempre uma perpendicular
à outra. Ambas em sentido contrário à solicitação, conforme Figura 3.12:

Figura 3.12 | Apoio fixo

Fonte: O autor.

1.8 Apoio móvel


Neste tipo de apoio teremos apenas um tipo de reação, sempre em sentido
contrário à solicitação, de acordo com a Figura 3.13:
Figura 3.13 – Apoio móvel

Fonte: O autor

100 Tensão e deformação


U3

1.9 Engastamento fixo


Neste tipo de apoio, quando uma estrutura em balanço é solicitada por um
carregamento externo, ou mesmo, seu peso próprio, aparecem três reações no
ponto de apoio. Uma perpendicular à outra e um momento, conforme Figura 3.14.

Figura 3.14 | Engastamento fixo

Fonte: O autor.

1.10 Engastamento móvel


Neste tipo de apoio, quando uma estrutura em balanço é solicitada por um
carregamento externo, ou mesmo, por seu peso próprio, aparecem duas reações no
ponto de apoio. Uma reação perpendicular ao esforço e um momento, conforme
Figura 3.15.

Figura 3.15 | Engastamento móvel

Fonte: O autor.

1. Assinale a alternativa correta que apresenta os principais


tipos de solicitações a que uma estrutura está sujeita.
a) Esforços externos, como as cargas concentradas, cargas
distribuídas e momentos.
b) São os esforços internos, oriundos das solicitações externas.

101 Tensão e deformação


U3

c) São apenas os efeitos do vento em edificações com mais de


oito andares.
d) Apenas os itens a e b estão corretos.
e) Todas estão incorretas.

2. Assinale a alternativa que preenche as lacunas corretamente:


“___________é um conjunto de peças interligadas entre si, que
estão sujeitas a _____________ e absorvem estas solicitações
dentro de ___________ satisfatórios, desde que se mantenha
um _____________”.
a) resistência, ações externas, coeficientes de segurança,
equilíbrio estático.
b) resistência, ações internas, coeficientes de segurança,
equilíbrio dinâmico.
c) estrutura, ações internas, coeficientes de segurança,
equilíbrio estático.
d) estrutura, ações externas, coeficientes de segurança,
equilíbrio estático.
e) resistência, ações internas, coeficientes de segurança,
equilíbrio dinâmico.

102 Tensão e deformação


U3

Seção 2

Tensão e deformação
Neste tema, você vai ficar por dentro de um dos principais fundamentos
da Resistência dos Materiais, os conceitos de deformação normal longitudinal
causada por tensão normal, deformação angular transversal causada por tensão
de cisalhamento e deformação lateral mostrada por Poisson. Conceitos que são
importantes para a aplicação segura de materiais como aço, concreto e madeira.
Quer um exemplo? Você sabe que as nossas edificações sofrem com carregamentos
externos, como forças permanentes, acidentais e excepcionais? Os carregamentos
externos podem modificar a geometria inicial das estruturas o ponto de levar à sua
ruína. Isso pode afetar a segurança ou a possibilidade de socorro às pessoas. Evitar
o colapso dos materiais das estruturas passa pelo conhecimento que você deve ter
sobre as mudanças dos comprimentos e ângulos nas formas dos elementos e a
resposta que os materiais empregados oferecem.

Objetivos de Aprendizagem

• Conhecer o conceito de tensão normal média.

• Definir claramente os esforços de tração e compressão.

• Mostrar a importância das unidades de medida de tensão.

• Entender a importância das tensões admissíveis para o engenheiro.

• Conhecer o conceito de tensão de cisalhamento média.

2.1 Tensão normal e tensão de cisalhamento

Resistência dos materiais é uma parte da física que estuda o comportamento dos
materiais sólidos quando estão sujeitos a diversos tipos de carregamentos e é também
conhecida como Mecânica dos Sólidos e Mecânica dos Corpos Deformáveis. Como
materiais sólidos iremos considerar barras carregadas no seu eixo como as barras
de uma treliça plana ou quadro plano (Figura 3.16). O material da barra prismática
será suposto contínuo, homogêneo e isótropo. Um material isotrópico é aquele que
apresenta as mesmas propriedades físicas independentes da direção.

103 Tensão e deformação


U3

A Ponte de Tacoma Narrows foi uma ponte localizada em


Washington nos Estados Unidos que se rompeu. Utilizando a
resistência dos materiais, como isso poderia ter sido evitado?
O link <https://www.youtube.com/watch?v=0Iwwdi17FTM>
mostra a ponte em ressonância e posterior ruptura, é
impressionante!

Figura 3.16 | Treliça plana e quadro plano

Fonte: O autor.

A força e o momento que agem em um ponto específico da área selecionada


de um corpo representam os efeitos resultantes da distribuição de forças que
agem sobre uma área. Obter essa distribuição de forças internas (chamamos de
esforços internos ou simplesmente esforços) é de suma importância na resistência
dos materiais. Considerando a ação de um vetor força conhecido em uma área
conhecida, definimos que tensão é a razão entre força e área.

104 Tensão e deformação


U3

2.2 Tensão normal média


Tensão normal média ou simplesmente tensão normal (σ) é a razão entre a
intensidade da força normal, P, que age perpendicularmente à uma área, A, como
mostra a Equação 3.4.

Eq. 3.4

A Figura 3.17 apresenta um plano cinza que secciona a barra formando uma área
que é constante ao longo do eixo longitudinal, eixo no qual está aplicada a força P
normal (ou perpendicular) à área A. O sentido das forças P indica se o comprimento
longitudinal será alongado ou encurtado. Se a força P alongar o comprimento
longitudinal, denominamos força de tração. Se a força P reduzir o comprimento
longitudinal a chamamos de força de compressão. A Figura 3.17 mostra uma barra
tracionada. Se a força for de compressão com origem do contato com outro
elemento, dizemos que a tensão é de contato (ou esmagamento).

Figura 3.17 | Barra tracionada

Fonte: O autor.

A unidade de medida da tensão normal é Pascal (N/m2), no entanto, as cargas P


usuais na engenharia são elevadas, enquanto as áreas A são relativamente pequenas.
Assim, é frequente utilizar os múltiplos do Pascal: kPa, MPa e GPa (quilo Pascal, mega
Pascal e giga Pascal). Note que 1 MPa (um mega Pascal) = 1 x 106 N/m2 = 1 milhão
de N/m2. Outros múltiplos estão na Tabela 3.1:

105 Tensão e deformação


U3

Tabela 3.1 | Múltiplos


Nome Símbolo Fator pelo qual a unidade é multiplicada
exa E 1018 = 1 000 000 000 000 000 000
peta P 1015 = 1 000 000 000 000 000
tera T 1012 = 1 000 000 000 000
giga G 109 = 1 000 000 000
mega M 106 = 1 000 000
quilo k 103 = 1 000
Fonte: O autor.

Eq. 3.6

2.3 Tensão normal máxima


Os materiais de engenharia têm resistência limite à tensão normal média, ou seja,
você pode afirmar que cada material tem uma tensão normal máxima de ruptura,
σmax. Na Tabela 3.2 temos alguns exemplos que caracterizam o material pela sua
tensão máxima de ruptura.

Tabela 3.2 | Tensão normal máxima de alguns materiais


Material Tensão Máxima de Ruptura (MPa)
Aço CA50 500
Alumínio 210
Cobre 250
Concreto 30
Madeira angelim 50
Fonte: O autor.

Outras unidades também são utilizadas para medir tensão (ou pressão), Tabela
3.3. Cada área de engenharia tem a sua preferência. Por exemplo, em hidráulica
é comum se usar o metro coluna d’água para se medir a pressão na tubulação
de água fria. Observe que algumas unidades estão em desacordo com o Sistema
Internacional (SI) e, assim, estão em desuso no Brasil.

106 Tensão e deformação


U3

Tabela 3.3 | Outras unidades de tensão normal além do Pascal


Nome da Unidade Valor em Unidades SI
Atmosfera atm 101325 Pa
Bar bar 105 Pa
Milímetro de mercúrio mmHg 133,322 Pa
Libra-força por polegada
psi 6895 Pa
quadrada
Metro coluna d´água m.c.a. 104 Pa
Fonte: O autor.

Eq. 3.7

2.4 Tensão admissível


Você vai ser o engenheiro responsável por evitar a ruptura dos materiais aplicados
nas estruturas. Agora que já conhece como se calculam as tensões e que os materiais
têm resistência limite ao excesso de tensões, chegou a hora de garantir que essas
tensões máximas não sejam atingidas, evitando-se, assim, o colapso da estrutura.
Para trabalhar com uma tensão menor que a máxima (limite), você deve utilizar um
fator de segurança, F.S., conforme a Equação 3.8, aqui, um número maior ou igual
a 1,0. Esse fator depende da confiabilidade que o material oferece quanto a sua
composição e como a ruptura acontece. Geralmente, os engenheiros seguem as
recomendações de normas técnicas.

σlim
σadm = Eq. 3.8
F.S.

2.5 Tensão de cisalhamento


Tensão de cisalhamento é a razão entre a intensidade da força cortante, V, que
age tangente à uma área, A, dada pela Equação 3.9.

τ= v Eq. 3.9
A
Em que V é força cortante e A é a área.

Note na Figura 3.18 que cada parafuso está sendo cortado (ou cisalhado) em duas
áreas, A. A força que está causando este cisalhamento duplo, V, é a força P, tangente
(ou paralela) às áreas circulares de diâmetro d, portanto a tensão de cisalhamento (
) é dada pela Equação 3.10:

107 Tensão e deformação


U3

V = P
τ= = P
A (2Acírculo) × 3 parafusos 6 πd2 Eq. 3.10
4

Figura 3.18 | Parafuso sob cisalhamento duplo

P P

Parafusos Vista em planta Parafusos

P P
2 áreas cisalhadas
para cada parafuso
Vista lateral

Fonte: O autor.

A unidade de medida de tensão de cisalhamento também é Pascal (N/m2).

2.6 Deformação
As estruturas da construção civil têm uma geometria definida pela sua segurança,
economia, funcionalidade e beleza. Toda vez que o material dessa estrutura recebe
a ação de uma força, ela tende a alterar sua forma e, consequentemente, seus
comprimentos e ângulos iniciais, conforme Figura 3.19. Observa-se que os materiais
reagem a essas mudanças de geometria de maneiras distintas.

Figura 3.19 | Treliça plana e quadro plano

Fonte: O autor.

108 Tensão e deformação


U3

Alguns com mudanças de forma tão grandes, que chegam a ser visíveis como
a treliça plana e o quadro plano da Figura 3.19. As linhas grossas representam a
geometria inicial da estrutura. Já as linhas finas representam a geometria final,
ou seja, após o carregamento externo. As linhas finas são chamadas de estrutura
deformada. Claro que o tipo de carregamento afeta diretamente as alterações de
forma e tamanho dos elementos estruturais. Considerando a geometria final, com
carregamento, e inicial, sem carregamento, definimos deformação como sendo a
razão entre diferença das medidas final e inicial e a medida inicial.

2.7 Deformação normal


Deformação normal média longitudinal ou deformação unitária ou deformação
específica longitudinal ou simplesmente deformação normal é a razão entre a
diferença entre os comprimentos final e inicial e o comprimento inicial de uma barra.
Ou melhor, deformação normal é a razão entre o alongamento (ou encurtamento)
e o comprimento inicial. Como mostra a Equação 3.11. A Figura 3.20 apresenta uma
barra que está alongada, ou seja, o comprimento final é maior que o inicial. A força é
de tração e a translação da extremidade livre é positiva, como mostra a Equação 3.11:

Eq. 3.11

Figura 3.20 | Barra alongada

Fonte: O autor.

Em que:

ε = deformação normal;
δ = alongamento ou encurtamento do comprimento longitudinal;
Lf = comprimento longitudinal final;
Li = comprimento longitudinal inicial.

109 Tensão e deformação


U3

A unidade de medida de deformação normal é adimensional (m/m). Como


os alongamentos (ou encurtamentos) são comprimentos bem pequenos e os
comprimentos longitudinais das barras são grandes, a deformação tem valor bem
pequeno para as estruturas usuais da engenharia. Assim, as unidades mm/m, cm/m
(%) ou por mil são frequentes na literatura. As normas brasileiras utilizam por mil (0/00).

Já na Figura 3.21 a barra está comprimida. O deslocamento da extremidade livre é


negativo, pois o comprimento final é menor que o inicial.

Figura 3.21 | Barra encurtada

Fonte: O autor

2.8 Deformação normal máxima


Uma aplicação imediata da definição de deformação normal é que os materiais
têm resistência limite ao excesso dessa grandeza mecânica, ou seja, você pode afirmar
que cada material tem uma deformação normal máxima de colapso, εmax. A Tabela 3.4
apresenta alguns exemplos que caracterizam o material pela sua deformação máxima.

Tabela 3.4 | Deformação máxima em % de alguns materiais

Material Deformação Máxima (0/00)


Aço sob tração 10
Concreto sob compressão 2
Concreto sob flexão 3,5
Fonte: O autor

2.9 Deformação lateral: coeficiente de Poisson


Quando uma barra está sujeita a uma deformação normal causada por uma
força de tração, o seu eixo tem o seu comprimento alongado, mas as dimensões
laterais são contraídas (ou encurtadas). Note na Figura 3.22 que temos as dimensões
laterais diminuídas após a aplicação de uma força de tração, ou seja, a deformação
normal longitudinal é acompanhada por deformação transversal. O matemático e
físico francês Siméon Denis Poisson notou que se o material estivesse num regime
de carregamento bem baixo então a razão entre essas deformações seria constante,
como mostra a Equação 3.12:

110 Tensão e deformação


U3

εlat
ν= Eq. 3.12
εlong

Em que:

ν = coeficiente de Poisson; εlat = deformação transversal; εlong = deformação


longitudinal.

Figura 3.22 | Coeficiente de Poisson

Li
Vista transversal Vista longitudinal

Lf

Vista transversal Vista longitudinal

Fonte: O autor

Dessa observação de comportamento dos materiais surgiu o coeficiente de


Poisson que é outra propriedade mecânica que caracteriza os materiais. Pela
definição, coeficiente de Poisson é adimensional. A Tabela 3.5 apresenta os valores
dos coeficientes de Poisson para diferentes materiais:

Tabela 3.5 | Valores de coeficiente de Poisson ( ν) de alguns materiais

Material Coeficiente de Poisson (ν)


Aço 0,32
Concreto 0,15
Madeira 0,29
Fonte: O autor

A interpretação que se faz do coeficiente de Poisson dado na tabela acima é a


seguinte: para o aço a deformação lateral é 32% da deformação longitudinal.

111 Tensão e deformação


U3

2.10 Deformação por cisalhamento


Ao contrário do alongamento que é obtido pela diferença entre os comprimentos
final e inicial, a deformação por cisalhamento é a diferença angular entre dois segmentos
de retas que inicialmente estavam perpendiculares um ao outro (π/2 radianos = 90°)
e sofreram uma mudança angular para θ, ou seja, sofreram uma rotação, conforme a
Figura 3.23 e também como mostra a Equação 3.13. Essa mudança na geometria de
um corpo deformável é decorrente das tensões de cisalhamento.

γ= π θ Eq. 3.13
2

Figura 3.23 | Deformação por cisalhamento

Fonte: O autor

A unidade de medida de deformação por cisalhamento é adimensional, já que a


medida angular é adimensional (radianos). A relação entre radianos e graus é mostrada
nas Equações 3.14 e 3.15:

π rad =90°
Eq. 3.14
2

π
1° = rad Eq. 3.15
180

O artigo “Efeito da temperatura e taxa de cisalhamento nas propriedades de


escoamento da polpa de cupuaçu integral” apresenta o comportamento
reológico da polpa em diferentes temperaturas de trabalho.
Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/rbf/v30n2/a20v30n2.pdf>.
Acesso em: 2 abr. 2016.

112 Tensão e deformação


U3

1. Analise a figura abaixo:


Parafuso sob cisalhamento duplo

Fonte: O autor

Sabendo-se que a tensão admissível ao cisalhamento do aço


é τadm= 69 MPa. A máxima carga P (em kN) que a conexão de
parafusos de aço de 3/8 pol. de diâmetro, representada na
figura abaixo, é:
a) igual a 294 N.
b) maior que 29,4 kN.
c) menor que 29,4 kN.
d) igual a 20,5 kN.
e) menor que 15,9 N.

2. Uma barra prismática com seção retangular e comprimento


L = 3,6 m está sujeita a uma força de tração que causou um
alongamento longitudinal de 18 mm. É correto afirmar que a
deformação normal dessa barra é igual:
a) 5
b) 0,5
c) 15
d) 0,05
e) 15

113 Tensão e deformação


U3

3. Uma chapa ABCD se deformou indo até a forma representada


pelas linhas tracejadas. Após a deformação, as retas horizontais
AB e CD permaneceram horizontais e não mudaram seus
comprimentos iniciais. A deformação por cisalhamento média
da chapa ABCD em relação ao ponto A é igual a:

Fonte: O autor

a) 0,0168 rad.
b) 0,0137 rad.
c) 1,37 rad.
d) 2,1 rad.
e) 0,024 rad.

4. Três blocos de uma fibra de plástico de alta resistência


são dispostos como mostra a figura abaixo. Todos têm as
mesmas seções transversais e são conectados por três pinos
de diâmetro 8 mm cada. A tensão de cisalhamento admissível
do material do pino é 78 MPa. Considerando o cisalhamento
como a primeira ruptura, ou seja, o plástico não irá se romper.
A primeira carga P (em kN inteiros) que cisalhará os pinos será:

Fonte: O autor

114 Tensão e deformação


U3

a) 23 kN.
b) 24 kN.
c) 11 kN.
d) 12 kN.
e) 47 kN.

5. A barra rígida (indeformável) AB gira de θ = 1,5o em torno


do ponto A. Assim, a deformação normal média da barra
deformável BC em decorrência da rotação ε é igual:

Fonte: O autor.

a) 3,49 mm/m
b) 3,49%
c) 34,9%
d) 1,96 mm/m
e) 1,96%

Nesta unidade estudamos temas importantes para a compreensão


da Ciência e Resistência dos Materiais como:
 O equilíbrio dos corpos deformáveis.
 Os conceitos de tensão e tensão normal média em uma barra
com carga axial.
 Os conceitos de tensão de cisalhamento média e tensão
admissível.
 O conceito de deformação.

115 Tensão e deformação


U3

Caro aluno, finalizamos nossos estudos desta terceira unidade


de Ciência e Resistência dos Materiais. Não deixe de consultar
as referências no final desta unidade, os livros trazem diversos
exercícios que serão úteis para a compreensão e aprendizagem
dos conteúdos. Bons estudos!

116 Tensão e deformação


U3

Referências

BEER, F. P.; DEWOLF, J. T.; JOHNSTON JR., E. R. Resistência dos materiais. 4. ed. São
Paulo: Mcgraw-Hill Interamericana, 2006.
HIBBELER, R. C. Resistência dos materiais. 7. ed. São Paulo: Pearson Prentice Hall,
2010.
RILEY, W. F.; STURGES, L. D.; MORRIS, D. H. Mecânica dos materiais. Rio de Janeiro:
LTC, 2003.

117 Tensão e deformação


Unidade 4

PROPRIEDADES MECÂNICAS
DOS MATERIAIS

Éder Cícero Adão Simêncio

Objetivos de aprendizagem:
 Compreender as definições de tensão e deformação de engenharia.
 Reconhecer as condições em que a Lei de Hooke é válida.
 A partir de um diagrama de tensão-deformação determinar os valores de
algumas propriedades mecânicas como módulo de elasticidade, resiliência e
tenacidade.
 Compreender as mudanças de um corpo de prova submetido a um
ensaio de tração.
 Conhecer as principais técnicas de ensaio de dureza.

Seção 1 | Propriedades em tração


Estuda o diagrama de tensão-deformação obtido a partir de um ensaio
de tração e as principais propriedades mecânicas dos materiais.

Seção 2 | Ensaios de dureza


Estuda os diferentes ensaios de dureza que fornecem a resistência do
material à deformação plástica.
U4

120 Propriedades mecânicas dos materiais


U4

Introdução à unidade

Alunos, sejam bem-vindos à última unidade da disciplina de Ciência e Resistência


dos Materiais. Nesta unidade vamos conhecer como obter propriedades importantes
dos materiais a partir de um diagrama tensão-deformação. Na unidade 3, nossos
estudos foram voltados para a construção civil, porém a ciência e a resistência dos
materiais para cada área possuem as suas peculiaridades, dessa forma, os temas
aqui estudados terão uma abordagem voltada para as engenharias mecânica,
de produção e de produção-mecânica. Veremos quão é importante aprender
sobre o comportamento dos materiais quando sujeitos a forças ou cargas para
que possamos projetar um determinado componente de maneira que qualquer
deformação resultante não seja excessiva e não cause fratura. As propriedades
dos materiais são verificadas através da realização de ensaios padronizados por
sociedades profissionais, dentre elas destaca-se a atuação da Sociedade Americana
para Ensaios e Materiais (ASTM – American Society for Testing and Materials), que
periodicamente atualiza seu Anuário de Padrões da ASTM o qual compreende
numerosos volumes. O estudo das propriedades dos materiais é fundamental para
qualquer profissional de engenharia, cada um sobre sua especificidade, já que com
frequência os materiais são selecionados para aplicações estruturais que requerem
de propriedades mecânicas desejáveis.

121 Propriedades mecânicas dos materiais


U4

122 Propriedades mecânicas dos materiais


U4

Seção 1

Propriedades em tração
Nesta seção vamos estudar as propriedades mecânicas e o diagrama de tensão-
deformação obtido a partir de um ensaio de tração.

Objetivo de Aprendizagem

• Interpretar e determinar as propriedades mecânicas a partir do diagrama tensão-


deformação.

1.1 Propriedades mecânicas e o ensaio de tração


As propriedades mecânicas de um material são aquelas propriedades que
envolvem uma reação a uma carga aplicada. As propriedades mecânicas dos metais,
por exemplo, determinam a gama de utilidade e estabelecem a vida útil esperada
de um material. As propriedades mecânicas também são utilizadas para ajudar a
identificar e classificar o material. As propriedades consideradas mais comuns
são resistência, ductilidade, dureza, resistência ao impacto e resistência à fratura.
A maioria dos materiais estruturais são anisotrópicos, o que significa que as suas
propriedades variam com a orientação. A variação nas propriedades ocorre, por
exemplo, devido à direcionalidade da microestrutura (textura) formada durante a
conformação mecânica ou em operações de trabalho a frio, entre outras causas. As
propriedades mecânicas são geralmente específicas para a forma do produto, tais
como placas, chapas, extrusão, moldagem, forjamento etc. Além disso, é comum
observar-se propriedades mecânicas devido à direção da estrutura dos grãos. Em
produtos como chapas e placas, a direção de rolamento é chamada de direção
longitudinal, enquanto a largura do produto é chamada de direção transversal e a
espessura é chamada de direção transversal curta. As orientações dos grãos em
produtos metálicos de acordo com diferentes processamentos são apresentadas na
Figura 4.1.

As propriedades mecânicas de um material não são constantes e muitas vezes


mudam em função de temperatura, da taxa de carregamento e de outras condições.
Por exemplo, temperaturas inferiores à temperatura ambiente geralmente causam um
aumento das propriedades de resistência das ligas metálicas, enquanto a ductilidade,

123 Propriedades mecânicas dos materiais


U4

resistência à ruptura e alongamento, normalmente, diminuem. Temperaturas acima


da temperatura ambiente geralmente causam uma diminuição nas propriedades de
resistência das ligas metálicas. Deve-se também notar que muitas vezes há uma
variação significativa nos valores obtidos na medição das propriedades mecânicas.

Figura 4.1 | Orientações dos grãos em produtos metálicos


Tubos extrudidos
Placas e chapas ou estirados
o
od
e l de ent al
ina ção stiram udin
eçã o ina
l ud e
Dir inaçã ud git r
Di ou e ngit
lam git Transversal Lon ão Lo
Lo n curta rus
Ext
Transversal Transversal curta
curta
Direção transversal Direção transversal Direção transversal
Laminados & barra extrudida, formas finas
e ão Transversal
o d xtrus l curta
eçã e din
a al
Dir o ou al u al in
çã din git ud
na itu Lon udin git
lam
i
Lo n g
git Lon
Lon

Transversal curta
Transversal Direção transversal
Transversal curta Transversal curta

Formas finas extrudadas & formas complexas


e
o d xtru são
eçã e
Dir o ou
çã
ni a
lam

Áreas hachuradas são transversais e as demais áreas de acordo com a indicação acima
Fonte: http://www.pdhcenter.com/courses/m415/m415content.pdf. Acesso em: 9 abr. 2016.

Aparentemente corpos de provas idênticos a partir do mesmo lote de material,


muitas vezes, produzem resultados consideravelmente diferentes. Portanto, vários
testes são comumente realizados para determinar as propriedades mecânicas e os
valores indicados podem ser um valor médio ou um valor mínimo estatisticamente
calculado. Além disso, uma faixa de valores, por vezes, é relatada a fim de mostrar a
variabilidade dessas medidas. A aplicação de uma força a um objeto é conhecida como
carregamento. Os materiais podem ser submetidos a muitos cenários diferentes de
carga e o desempenho de um material é dependente das condições de carga. Há
cinco condições de cargas fundamentais; tensão, compressão, flexão, cisalhamento
e torção. A tensão é um tipo de carregamento no qual as duas secções de material
em cada lado de um plano tendem a ser separadas ou alongadas. A compressão é o
inverso da carga de tração e envolve a prensagem do material. O carregamento por
flexão envolve a aplicação de uma carga de modo que cause uma curva no material
e resulte na compressão de um dos lados do material e no estiramento do outro
lado. O cisalhamento envolve a aplicação de uma carga paralela a um plano que faz

124 Propriedades mecânicas dos materiais


U4

com que um plano do material deslize sobre o outro. A torção é a aplicação de uma
força que causa uma “torção” no material. A Figura 4.2 apresenta as forças das cinco
condições de cargas fundamentais, na qual a linha pontilhada representa a metade
do comprimento do corpo de prova.

Figura 4.2 | Forças de carregamentos fundamentais

Fonte: O autor

Se um material é submetido a uma força constante, é denominado carregamento


estático, já se o carregamento do material não é constante e varia é denominado
carregamento dinâmico ou cíclico. A forma como um material é carregado afeta
diretamente suas propriedades mecânicas e determina em grande parte como, ou
se, um componente irá falhar; e se ele irá mostrar sinais de alerta antes da falha
realmente ocorrer. O termo tensão é utilizado para expressar a carga em termos
de força aplicada a uma determinada área de secção transversal de um objeto. Do
ponto de vista de carregamento, a tensão é a força aplicada ou um sistema de forças
que tendem a deformar um corpo. Do ponto de vista do que está acontecendo
dentro do material, a tensão é a força interna distribuída dentro de um corpo em
equilíbrio que reage às cargas aplicadas a ele. A distribuição de tensões pode ou
não ser uniforme, dependendo da natureza do estado da carga. Por exemplo, uma
barra carregada em tensão pura irá essencialmente ter uma distribuição uniforme
das tensões de tração. No entanto, uma barra carregada em flexão terá uma variação
da distribuição de tensões de acordo com a distância perpendicular ao eixo normal.
Muitas vezes a tensão é representada como uma grandeza vetorial, para simplificar
os diversos cálculos de engenharia e para a determinação da propriedade material.

125 Propriedades mecânicas dos materiais


U4

A palavra "vetor" refere-se tipicamente a uma quantidade que tem uma "magnitude"
e uma "direção". Por exemplo, a tensão (σ) de uma barra axialmente carregada é
simplesmente igual à força aplicada (F) dividida pela área (A0) da seção transversal da
barra (Figura 4.3)

.
Figura 4.3 | Barra axialmente carregada sob tração (tensão)

Fonte: O autor

A deformação representa a resposta de um sistema a uma tensão aplicada. Quando


um material é sujeito a uma força, produz-se uma tensão no material que causa uma
deformação. A deformação é definida como a quantidade de deformação na direção
da força aplicada dividida pelo comprimento inicial do material, resultando em um
número adimensional, ou seja, sem unidade, embora seja muitas vezes deixado na
forma não simplificada, tal como polegadas por polegada ou metros por metro. Por
exemplo, a deformação de uma barra que está submetida a uma tensão de tração
é a quantidade de alongamento ou mudança no comprimento dividido pelo seu
comprimento original. Tal como no caso da tensão, a distribuição da deformação
pode ou não ser uniforme em um elemento estrutural e complexo, isto dependerá
da natureza do estado de carga.

Figura 4.4 | Barra axialmente carregada sob tração (deformação)

Fonte: O autor

Se a magnitude da tensão é pequena, é alongada apenas uma pequena porção


do material que irá retornar ao comprimento original após a liberação da tensão.
Isso é chamado de deformação elástica, assim como o elástico retorna ao seu

126 Propriedades mecânicas dos materiais


U4

estado natural quando não é aplicada uma tensão (esticamos). A deformação


elástica só ocorre quando as tensões são inferiores à denominada tensão limite
de escoamento. Se o material é sujeito a tensões além do limite de elasticidade,
o material permanecerá na condição deformada após a carga ser removida. Isto é
chamado de deformação plástica. No entanto, a discussão acima é focada na tensão
e deformação de engenharia, em que é utilizado o valor da área da seção transversal
sem a deformação para os cálculos. Já as medidas da tensão e deformação
verdadeiras são calculadas utilizando-se as alterações na área de secção transversal
através dos valores instantâneos para a área. A curva de tensão-deformação de
engenharia não dá uma verdadeira indicação das características de deformação de
um metal, porque se baseia inteiramente nas dimensões originais da amostra, e essas
dimensões mudam continuamente durante o teste utilizado para gerar os dados.
A tensão e deformação de engenharia são normalmente utilizadas porque é mais
fácil gerar os dados e as propriedades de tração são adequadas para os cálculos de
engenharia. Ao considerar as curvas de tensão-deformação deve ser entendido que
os metais e outros materiais apresentam valores crescentes de tensão se fraturarem.
Adicionalmente, a deformação axial é sempre acompanhada por deformações
laterais de sinais opostos nas duas direções mutuamente perpendiculares à tensão
axial. As deformações que resultam no aumento do comprimento são designadas
como positivas (+), enquanto as que resultam na diminuição do comprimento são
designadas como negativas (-). Assim, o coeficiente de Poisson é definido como a
razão negativa entre a deformação lateral e a deformação axial para um estado de
tensão uniaxial (Equação 4.1).

εlateral
ν= Eq. 4.1
εaxial

O coeficiente de Poisson é, por vezes, também definido como a razão entre os


valores absolutos de deformação lateral e axial. Esta relação, assim a deformação,
é adimensional desde que ambas as deformações não apresentem unidades. Para
tensões dentro da faixa elástica o coeficiente de Poisson é aproximadamente
constante. Para um material elástico, perfeitamente isotrópico, o coeficiente
de Poisson é igual a 0,25, mas para a maioria dos materiais o valor situa-se entre
0,28 e 0,33. Geralmente, para os aços, o coeficiente de Poisson terá um valor de
aproximadamente 0,3. Isto significa que se houver uma polegada por polegada
de deformação na direção em que é aplicada a tensão, haverá 0,3 polegada por
polegada de deformação perpendicular à direção em que a força é aplicada.
Apenas duas das constantes elásticas são independentes, mas se duas constantes é
conhecida, a terceira pode ser calculada a partir da Equação 4.2:

E =2(1 + n)G Eq. 4.2

127 Propriedades mecânicas dos materiais


U4

em que: E = módulo de elasticidade (módulo de Young)

n = coeficiente de Poisson

G = módulo de rigidez (módulo de cisalhamento)

Propriedades compressivas

Os materiais de engenharia devem ser capazes de suportar forças ou cargas


externas de maneira que qualquer deformação resultante não seja excessiva e leve
à fratura do componente projetado ou do material, como dito anteriormente. As
características e propriedades mecânicas de cada material podem ser determinadas
por diferentes experimentos, em especial por ensaios de tração e compressão em
uma máquina universal como mostra a Figura 4.5.

Figura 4.5 | Máquina universal de ensaios: a) compressão, b) tração e c) cisalhamento

Fonte: Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/Tensile_testing. Acesso em: 9 abr. 2016.`

Normalmente, entre os ensaios mecânicos de tensão-deformação o mais comum


é o ensaio de tração devido à possibilidade de caracterização de diversas propriedades
dos materiais. No ensaio de tração uma amostra do material denominada corpo
de prova é deformada até sua fratura por uma carga uniaxial ao longo do eixo do
corpo de prova padrão. A Figura 4.6 traz a representação e as respectivas dimensões
de um corpo de prova padrão de seção transversal circular, no entanto, também
são utilizados corpos de prova com seção retangular. O corpo de prova é preso
pelas suas extremidades nas garras de fixação em uma taxa constante, ao mesmo
tempo que mede contínua e simultaneamente carga instantânea que é aplicada e os
alongamentos resultantes (CALLISTER; RETHWISCH, 2013).

128 Propriedades mecânicas dos materiais


U4

Figura 4.6 | Representação de um corpo de provas-padrão de tração com seção


transversal circular

Fonte: O autor

O ensaio de tração é tipicamente um ensaio destrutivo, ou seja, a amostra é


testada e deformada permanentemente até a fratura (Figura 4.7).

Figura 4.7 | Corpo de prova-padrão de tração com seção transversal circular após
teste de tração

Fonte: Disponível em: <https://en.wikipedia.org/wiki/Ultimate_tensile_strength#/media/File:Al_tensile_test.jpg.>


Acesso em: 9 abr. 2016.

1.2 O diagrama tensão-deformação


Os dados de força e alongamento obtidos através de um ensaio de tração
possibilitam o cálculo das tensões e deformações em qualquer momento do ensaio.
A partir destes cálculos é possível traçar o diagrama tensão-deformação. As principais
regiões do diagrama tensão-deformação, destacadas na Figura 4.8, são:

129 Propriedades mecânicas dos materiais


U4

Deformação elástica – as tensões são proporcionais às deformações segundo a


relação conhecida por Lei de Hooke (Equação 4.3):

σ =E ∈ Eq. 4.3

em que σ = tensão, E = constante de proporcionalidade que é o módulo de


elasticidade ou módulo de Young dado em giga Pascal (GPa) e ∈ = deformação.

Em escala atômica, a deformação elástica é caracterizada por pequenas


alterações no espaçamento interatômico e no estiramento das ligações químicas
(CALLISTER; RETHWISCH, 2013). A partir do ponto em que a Lei de Hooke não é mais
proporcional, ocorre uma deformação permanente e não recuperável denominada
deformação plástica.

Tensão de escoamento ou limite de escoamento – a tensão parece constante


para uma deformação ainda crescente. Para alguns materiais o diagrama tensão-
deformação não exibe o limite de escoamento bem definido. Assim, por convenção
é construída uma linha reta paralela à porção elástica da curva tensão-deformação
especificada a uma pré-deformação de 0,002. O ponto de intersecção é adotado
como o limite ou a tensão de escoamento que tem como unidade de medida mega
Pascal (Mpa) ou psi (ASKELAND; WRIGHT, 2014).

Figura 4.8 | Diagrama esquemático tensão-deformação

Endurecimento por Estricção


Deformação
Tensão

Limite de
resistência à tração Fratura

Tensão de
escoamento

Coeficiente angular.
Módulo de
elasticidade

Deformação Deformação plástica


elástica
Fonte: O autor

Endurecimento por deformação – esta região é caracterizada pelo aumento


crescente dos valores da tensão e deformação até atingir o limite de resistência

130 Propriedades mecânicas dos materiais


U4

à tração (LRT) que é a tensão no ponto máximo da curva tensão-deformação e


corresponde à tensão máxima suportada por uma estrutura sob tração. No corpo
de prova circular a seção transversal tem a área reduzida ao longo do comprimento
da barra tracionada.

Estricção ou empescoçamento – apenas uma seção transversal tem área mais


reduzida que as outras seções ao longo do comprimento da barra tracionada.

A Figura 4.9 apresenta o comportamento típico de um corpo de prova circular


quando submetido ao ensaio de tração até a fratura nos diferentes momentos do
ensaio. Analisando a curva tensão-deformação da Figura 4.9, inicialmente o corpo
de prova com dimensões originais (A) é submetido à carga uniaxial ao longo do seu
eixo e observam-se o alongamento e a consequente redução de área da seção
transversal (B). A linha tracejada aponta o LRT, ou seja, o valor da tensão máxima
suportada pelo material.

Figura 4.9 | Comportamento típico de um corpo de prova submetido à tração

Redução de área da
seção transversal
LRT Inicio da estricção

Limite de ruptura
Tensão

B C

Deformação
Fonte: Callister e Rethwisch (2013)

A tensão máxima é mantida constante e distribuída uniformemente pela região


transversal reduzida, porém, a partir do LRT, inicia-se a formação da estricção ou
empescoçamento e toda deformação posterior é confinada neste ponto, como
consequência, ocorre a diminuição dos valores da tensão até a fratura do corpo de
prova.

131 Propriedades mecânicas dos materiais


U4

O artigo “Caracterização mecânica de polipropileno reciclado para a


indústria automotiva” apresenta análises a partir de ensaios de tração
de materiais poliméricos reciclados em diferentes percentuais para
reutilização na indústria automotiva. Disponível em: http://www.scielo.
br/pdf/po/v17n2/a05v17n2.pdf. Acesso em: 10 abr. 2016.

1.3 Ductilidade e fragilidade


Um material dúctil é definido como um material que ao ser submetido a determinados
valores de tensão apresenta graus de deformação plástica até a fratura. No cotidiano,
os engenheiros optam por materiais dúcteis para absorção de choques ou energia para
evitar a fratura da estrutura ou do material. Em contrapartida, um material que sofre
uma deformação plástica muito pequena ou não apresenta deformação plástica até
a fratura é conhecido como material frágil. A Figura 4.10 apresenta o comportamento
tensão-deformação para materiais dúcteis e frágeis (SHACKELFORD, 2008).

A tensão de escoamento para materiais frágeis não é observada, visto que o


surgimento de trincas em um elemento estrutural é bastante aleatório. O concreto,
por exemplo, é classificado como um material frágil e apresenta baixa capacidade de
resistência à tração. A maioria dos materiais exibem comportamentos dúcteis e frágeis.
Por exemplo, o aço tem comportamento frágil quando o teor de carbono é alto e,
dúctil, quando o teor de carbono é reduzido.

Figura 4.10 | Comportamento típico de metais dúcteis e frágeis

Fonte: Disponível em: https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/0/00/Brittle_v_ductile_stress-strain_behaviour.png.


Acesso em 9 abr. 2016.

132 Propriedades mecânicas dos materiais


U4

A ductilidade pode ser expressa quantitativamente de duas maneiras:

Como alongamento percentual (%AL), isto é, a porcentagem de deformação


plástica na fratura expressa pela Equação 4.4:

Eq. 4.4

em que lf é o comprimento final e lo é o comprimento útil inicial (original).

Como redução percentual na área (%RA), isto é, independem dos valores dos
comprimentos e é dada pela Equação 4.5:

Eq. 4.5

em que A0 é a área da seção transversal inicial (original) e Af é a área da seção


transversal no ponto de fratura.

A ductilidade é uma propriedade importante uma vez que indica o grau ao qual
uma estrutura irá se deformar plasticamente antes da ruptura.

1.4 Resiliência e tenacidade


O conceito de resiliência de um material é muito semelhante ao conceito de
tenacidade, em ambas as propriedades temos a capacidade de absorver energia. No
entanto, a resiliência de um material é a capacidade de um material absorver energia
durante a deformação elástica. Assumindo uma região elástica linear, o módulo de
resiliência é calculado pela Equação 4.6

Eq. 4.6

A unidade da resiliência no Sistema Internacional (SI) é joule por metro cúbico


(J/m3, que é equivalente a Pa). A tenacidade de um material pode ser definida como
uma propriedade que indica a resistência de um material quando uma trinca está
presente (CALLISTER; RETHWISCH, 2013) ou a habilidade que um material tem de
absorver energia e se deformar plasticamente até a fratura.

Os materiais quando estão sob a ação externa de uma força se deformam e


tendem a armazenar energia e essa energia é chamada de energia de deformação pois
está relacionada com o trabalho executado pelas ações externas e as consequentes

133 Propriedades mecânicas dos materiais


U4

deformações. O módulo de resiliência também pode ser calculado a partir da


densidade de energia quando a tensão σ atinge a tensão limite proporcional:

Eq. 4.7

O módulo de resiliência, ur, também pode ser obtido pelo cálculo da área triangular
sob o diagrama tensão-deformação, visto na Figura 4.11.

Figura 4.11 | Módulo de resiliência

Fonte: O autor

Em termos físicos, a resiliência de um material representa sua capacidade de


absorver energia de deformação sem sofrer quaisquer danos permanentes.

Outra importante propriedade de um material é o módulo de tenacidade, ut, Figura


4.12. Essa quantidade representa a área inteira sob o diagrama tensão-deformação,
portanto indica a densidade de energia de deformação do material antes da ruptura.

Figura 4.12 | Módulo de tenacidade

TENACIDADE
RESILIÊNCIA

ε
Fonte: O autor

134 Propriedades mecânicas dos materiais


U4

A área sob a curva tensão-deformação pode ser calculada a partir do cálculo das
figuras geométricas formadas como, por exemplo, triângulos, trapézios e retângulos.
Assim, os valores ou a soma destas regiões correspondem ao módulo de resiliência
(calculado pela área do primeiro triângulo) e o módulo de tenacidade obtido a partir
do cálculo das figuras geométricas de toda a área abaixo da curva.

Em teoria, o teste de compressão é simplesmente o oposto do teste de tensão em


relação à direção de carregamento. Na compressão a amostra testada é comprimida,
enquanto a carga e o deslocamento são registrados. Ensaios de compressão resultam
em propriedades mecânicas, que incluem a tensão de compressão de rendimento,
tensão de ruptura à compressão, módulo de compressão e de elasticidade. O limite
de elasticidade à compressão é medido de forma idêntica ao que foi feito no ensaio
de tração. Ao testar os metais, é definido como o limite de elasticidade à tensão que
corresponde a 0,002 de deformação plástica. Para plásticos, o limite de elasticidade
à compressão é medido no ponto de rendimento permanente na curva de tensão-
deformação.

O limite de resistência à compressão final é a tensão necessária para romper uma


amostra. Este valor é muito mais difícil de determinar para um teste de compressão
do que para um ensaio de tração, uma vez que muitos materiais não apresentam
uma fratura rápida em compressão. Materiais, como a maioria dos plásticos que
não rompem, podem ter os seus resultados de limite de resistência à compressão
apresentados a uma deformação específica, tais como 1%, 5%, ou 10% da altura
original da amostra. Para alguns materiais, como o concreto, o limite de resistência
à compressão é a propriedade mais importante do material que os engenheiros
utilizam na concepção e construção de uma estrutura. A resistência à compressão é
também utilizada para determinar se uma mistura de concreto satisfaz os requisitos
das especificações de trabalho.

No cisalhamento, uma tensão de corte atua paralelamente ao plano de tensão,


enquanto uma tensão de tração e compressão atua normal ao plano de tensão.
As propriedades de cisalhamento são usadas principalmente na concepção de
componentes de fixação mecânica e outros componentes sujeitos a cargas opostas
e paralelas. Essas propriedades são dependentes do tipo de ensaio de cisalhamento,
incluindo o teste de cisalhamento simples, ensaio duplo-cisalhamento, teste de
supressão-cisalhamento, de torção-teste de cisalhamento e outros. O módulo de
elasticidade de cisalhamento é uma propriedade básica de corte de base, enquanto
outras propriedades, tais como a tensão limite proporcional e a tensão máxima de
cisalhamento, não podem ser tratadas desta maneira devido aos efeitos do fator de
forma.

135 Propriedades mecânicas dos materiais


U4

1.5 O diagrama tensão-deformação de cisalhamento


Assim como observado no ensaio de tração, a maioria dos materiais de engenharia
quando submetidos a cisalhamento exibe comportamento linear elástico e possui um
limite de proporcionalidade definido τlp, dessa forma a lei de Hooke para o cisalhamento
é expressa pela Equação 4.8:

Eq. 4.8

em que: G é denominado módulo de elasticidade ao cisalhamento.

1. Assinale a alternativa correta que apresenta exemplos de


propriedades obtidos a partir do diagrama tensão-deformação:
a) tenacidade, condutividade térmica e ductilidade.
b) ductilidade, resiliência, fragilidade.
c) condutividade elétrica, fragilidade e resiliência.
d) condutividade térmica, tenacidade e resiliência.
e) condutividade elétrica, dureza e tenacidade.

2. Assinale a alternativa que preenche as lacunas corretamente:


“A _________ é a capacidade de um material ___________
energia durante a deformação ______________”.
a) tenacidade, absorver, elástica.
b) resiliência, absorver, plástica.
c) dureza, emitir, elástica.
d) resiliência, absorver, elástica.
e) tenacidade, emitir, plástica.

136 Propriedades mecânicas dos materiais


U4

Seção 2

Ensaios de dureza
Nesta seção vamos estudar os diferentes ensaios de dureza que fornecem a
resistência do material à deformação plástica.

Objetivo de Aprendizagem

• Reconhecer os diferentes ensaios de dureza e compreender os valores de dureza.

2.1 Dureza
A dureza é uma medida da resistência de um material à deformação plástica
localizada. O termo pode ser aplicado à deformação de recuo, riscar, cortar ou
dobrar. Nos metais, cerâmicas e para a maioria dos polímeros, a dureza é considerada
a deformação plástica da superfície. Para os elastômeros e alguns polímeros, a
dureza é definida como a resistência à deformação elástica da superfície. A falta
de uma definição fundamental indica que a dureza não é uma propriedade básica
de um material, mas, sim, um composto de outros fatores como deformação,
tensão, encruamento, entre outros. As medidas de dureza, por sua praticidade, são
amplamente utilizadas para o controle de qualidade dos materiais e são consideradas
um teste não destrutivo quando as marcas ou entalhes produzidas pelo teste estão
em áreas de baixa tensão. Há uma grande variedade de métodos utilizados para a
determinação da dureza de um material.

2.2 Ensaios de dureza Mohs


Uma das mais antigas formas de medir dureza foi concebida pelo mineralogista
alemão Friedrich Mohs em 1812. O teste de dureza de Mohs envolve a observação se
a superfície de um material é ou não riscada por outro material de dureza conhecida
ou definida. Para dar valores numéricos para esta propriedade física, os minerais
são classificados ao longo da escala de Mohs, que é composta de dez minerais aos
quais foram dados valores de dureza arbitrárias (Figura 4.13). Os ensaios de dureza
Mohs facilitam a identificação de minerais no campo, porém não são adequados
para medirem com precisão a dureza dos materiais industriais, tais como o aço ou
a cerâmica.

137 Propriedades mecânicas dos materiais


U4

Para os materiais de engenharia, vários instrumentos foram desenvolvidos ao


longo dos anos para fornecer uma medida precisa de dureza.

O mesmo ensaio de dureza pode ser aplicado em todos os


tipos de materiais?

Figura 4.13 | Escala de Mohs

Fonte: Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Escala_de_Mohs. Acesso em: 9 abr. 2016.

2.3 Ensaio de dureza Brinell


No teste de dureza Brinell utiliza-se um penetrador esférico e duro que é
forcado contra a superfície do material a uma determinada carga. A dureza Brinell,
ou simplesmente o número de Brinell, é obtida dividindo a carga utilizada, em
quilogramas, pela área da impressão na superfície, em milímetros quadrados. O
teste Brinell é frequentemente utilizado para determinar a dureza de peças de metal
forjadas ou fundidas que possuem uma estrutura composta por grandes tamanhos
de grãos. Assim, este teste fornece uma medida sobre uma área bastante grande
e que é menos afetada pela estrutura do curso de grãos. A Figura 4.14 apresenta o
diagrama de força em um teste de dureza Brinell.

138 Propriedades mecânicas dos materiais


U4

Figura 4.14 | Diagrama de força no teste de dureza Brinell

Fonte: Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/Brinell_scale. Acesso em: 10 abr. 2016.

em que F = força aplicada, D = diâmetro do penetrador e d = diâmetro de


impressão.

A impressão de identação ou o número de Brinell pode ser obtida através da


Equação 4.9:

Eq. 4.9

em que P = a carga aplicada em kg; D, d = diâmetros em mm.

As condições de ensaio devem ser registradas, juntamente com o número de


dureza Brinell. Um valor relatado como "60 10/1500/30 HB" significa que uma dureza
Brinell de 60 foi obtida com uma esfera de 10 mm de diâmetro com uma carga de
1500 kg aplicada durante 30 segundos.

2.4 Ensaios de dureza Rockwell


No teste de dureza Rockwell também se utiliza uma máquina para aplicar uma
carga específica e, em seguida, é aferida a profundidade da impressão resultante.
O penetrador pode ser tanto uma esfera de aço com diâmetro conhecido ou um
cone de ponta de diamante com ângulo de 120° e 0,2 mm de raio de ponta. Uma
carga menor a 10 kg é aplicada pela primeira vez, o que provoca uma pequena
penetração inicial para encaixar o penetrador e remover os efeitos de quaisquer

139 Propriedades mecânicas dos materiais


U4

irregularidades da superfície. Em seguida, com o botão posicionado na posição zero


a carga principal é aplicada. Os números da dureza podem ser lidos diretamente a
partir da escala. O tipo de penetrador e a carga utilizada determinam a escala de
dureza que é usada (A, B, C etc.). Para materiais moles, como ligas de cobre, aço
macio e ligas de alumínio

E utilizada como identador a esfera de aço com diâmetro de 1/16" com uma
carga de 100 kg e a dureza é lida na "escala de B". Ao testar materiais mais duros
como o ferro fundido duro e muitas ligas de aço, é utilizado um cone de diamante
com uma carga de até 150 kg e a dureza é lida na escala "C". Existem várias escalas
Rockwell diferente de "B" e "C" (que são chamadas de escalas comuns). Um valor
Rockwell representado adequadamente terá o número de dureza seguido por "HR"
(dureza de Rockwell) e a letra da escala. Por exemplo, a expressão 50 HRB indica que
o material tem uma leitura de dureza de 50 na escala B.

2.5 Ensaio de dureza superficial Rockwell


A dureza superficial Rockwell é utilizada para testar materiais finos, superfícies
de aço levemente carburado, ou peças que possam torcer ou esmagar sob as
condições do teste regular. Neste ensaio utiliza-se o mesmo penetrador (identador)
utilizado no ensaio Rockwell padrão, mas a magnitudes das cargas são reduzidas.
A menor carga usada é de 3 kg e a maior carga é de 15 ou 45 kg, dependendo do
penetrador utilizado. Quando empregado o identador esférico de aço com diâmetro
igual a 1/16" um "T" é adicionado (ou seja, testes de folha fina) para a designação
dureza superficial. Um exemplo de uma dureza Rockwell superficial é de 23 HR15T,
o que indica a dureza superficial de 23, com uma carga de 15 kg, usando a esfera de
aço. A Figura 4.15 apresenta o diagrama de forças em um ensaio de dureza Rockwell.

Figura 4.15 | Diagrama de força no teste de dureza Rockwell

Fonte: Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Escala_de_Mohs. Acesso em: 9 abr. 2016.

140 Propriedades mecânicas dos materiais


U4

2.6 Ensaios de microdureza Vickers e Knoop


Os ensaios de dureza Vickers e Knoop são uma modificação do ensaio de
Brinell e são aplicados para medir a dureza dos revestimentos de película fina ou a
dureza da superfície de peças cementadas. Nestes testes, uma pequena pirâmide de
diamante é pressionada contra a amostra que é submetida a cargas muito menores
do que as utilizadas no teste de Brinell. A diferença entre os ensaios Vickers e Knoop
é simplesmente a forma do penetrador denominado pirâmide de diamante. O
ensaio Vickers utiliza um penetrador pirâmide de diamante de base quadrada que é
propenso a quebrar materiais frágeis. Por conseguinte, o teste de Knoop utiliza um
método penetrador piramidal (razão diagonal 7,114: 1) (Figura 4.16). Nestes ensaios
são utilizadas cargas que variam de 1 a 1000 g. Esta baixa quantidade de carga cria
um pequeno travessão que deve ser medido sob um microscópio. As medições para
revestimentos duros devem ser tomadas a uma ampliação elevada, ou seja, 1000X).
A superfície normalmente precisa ser polida. As diagonais da impressão são medidas
e estes valores são utilizados para obter um número da dureza. Os números de
dureza Knoop e Vickers são designados, respectivamente, por HK e HV.

Figura 4.16 | Diagrama de força no teste de dureza de Vickers

Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Escala_de_Mohs. Acesso em: 9 abr. 2016.

141 Propriedades mecânicas dos materiais


U4

1. Analise o trecho a seguir: “por sua praticidade, estes ensaios


são amplamente utilizados para o controle de qualidade dos
materiais e são considerados testes não destrutivos quando as
marcas produzidas estão em áreas de baixa tensão”. Assinale a
alternativa correta sobre o tipo de ensaio referido pelo trecho:
a) Dureza.
b) Tração.
c) Compressão.
d) Charpy.
e) Termografia

2. Sobre os ensaios de dureza Mohs é correto o que se afirma


em:
a) envolvem a observação se a microestrutura do material é ou
não riscada por outro material de dureza conhecida.
b) são frequentemente utilizados para determinar a dureza de
peças de metal forjadas.
c) é utilizada uma pré-carga de baixa intensidade antes do
penetrador.
d) são utilizados para testar materiais finos, superfícies de aço
levemente carburado, ou peças que possam torcer ou esmagar
sob as condições do teste regular.
e) envolvem a observação se a superfície de um material é ou
não riscada por outro material de dureza conhecida ou definida.

3. Observe a figura abaixo:

142 Propriedades mecânicas dos materiais


U4

A figura mostra o diagrama de forças de um ensaio de dureza:


a) Mohs.
b) Brinell.
c) Vickers.
d) Knoop.
e) Rockwell.

4. Dado o diagrama tensão-deformação para os materiais A, B


e C:

Fonte: O autor

Assinale a alternativa correta:

a) O material A é mais dúctil que o material C.


b) O material B é mais dúctil que o material C.
c) O material C suporta maiores valores de tensão.
d) O material A exibe comportamento de um material frágil.
e) O material B exibe comportamento de um material frágil.

5. A dureza é a medida da resistência de um material à


deformação plástica. Portanto, é correto afirmar que:
a) Um material com elevada dureza apresenta elevada
tenacidade.
b) Um material com elevada dureza apresenta elevada
resiliência.
c) Um material com dureza excessiva torna-se frágil.
d) Um material com dureza excessiva torna-se dúctil.
e) A tensão de escoamento é definida pela dureza do material.

143 Propriedades mecânicas dos materiais


U4

Nesta unidade abordamos aspectos importantes sobre as


propriedades mecânicas dos materiais e o diagrama tensão-
deformação como:
• As principais regiões do diagrama tensão-deformação;
• Deformação elástica e deformação plástica;
• Lei de Hooke;
• Tensão de escoamento;
• Conceitos de ductilidade e fragilidade;
• Diagrama tensão-deformação de cisalhamento;
• Ensaios de dureza.

Caro aluno, concluímos nossos estudos sobre ciência e


resistência dos materiais. Resolva os exercícios propostos e, para
aprofundar seus estudos, utilize um dos livros que constam nas
referências bibliográficas. Dedique-se e se desafie, sucesso e
bons estudos.

144 Propriedades mecânicas dos materiais


U4

Referências

ASKELAND; D. R.; WRIGHT, W. J. Ciência dos materiais. São Paulo: Cengage


Learning, 2014. 672 p.
CALLISTER, W.; RETHWISH, D. G. Ciência e engenharia de materiais: uma introdução.
8. ed. São Paulo: LTC, 2012. 840 p.
SHACKELFORD, J. F. Ciência dos materiais. 6. ed. São Paulo: Pearson Education do
Brasil, 2008. 576 p.

145 Propriedades mecânicas dos materiais

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