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SBS - XII Congresso Brasileiro de Sociologia GT 22: Sociologia da Criança e Juventude MATERNIDADE E PATERNIDADE JUVENIS Vânia Teresa Moura Reis1 . É freqüente ouvirem-se críticas e considerações as mais diversas acerca do que comumente é chamado de irresponsabilidade dos jovens, no que respeita ao exercício da sexualidade. As reflexões que pretendo desenvolver não partem da postura de mera crítica aos atuais comportamentos dos jovens frente à sexualidade e à parentalidade, principalmente porque o objetivo deste trabalho não é contestá-los, mas compreendê-los e explicá-los. Ser pai e mãe tem vários sentidos na vida de jovens homens e mulheres. Por que se deixam levar pelo que chamam de “destino”, quando muitos deles e delas possuem condições de conduzir sua própria vida? Podem tomar decisões, pensava. Mas fui percebendo que as decisões pressupõem opções, colocam-se sempre em um certo campo de possibilidades. Que opções eles e elas têm? Que possibilidades se lhes mostra a vida ou eles e elas conseguem perceber? Fui buscar em meio às falas e aos modos de viver de jovens pais e mães algumas possíveis explicações, consciente dos limites desta busca, em meio a fenômenos tão complexos, tão dinâmicos, tão plenos de vida. Os jovens desta pesquisa são moradores de um bairro da periferia urbana de Teresina, chamado Satélite, situado na zona Leste da cidade, que é a zona de maiores contrastes sociais e de mais altos e crescentes índices de maternidade juvenil. Em 1998 e 1999, os índices de maternidade na faixa de 10 a 19 anos nesta zona foram de 23%. Em 2000, ano em que se iniciou o trabalho de campo da pesquisa, o índice havia subido para 25%.2 Os percentuais de Teresina foram de 25%, para esta faixa de idade, de 1998 a 2000. 1 2 Professora Adjunto da UFPI, doutora em Serviço Social. Esta análise foi feita com base nos dados fornecidos pela Fundação Municipal de Saúde (FMS), Núcleo de Informação em Serviço de Saúde (NUINSA). Os índices foram atualizados, para efeito de análise, até o ano de 2002, e foi constatado que as tendências de aumento da zona Leste se mantêm. Os dados referentes a períodos 2 Parti do seguinte questionamento: como os jovens do Satélite experienciam a maternidade e a paternidade? Esta interrogação trazia consigo uma intencionalidade, que era desenvolver uma investigação que permitisse contextualizar nos modos de viver juvenis as experiências de maternidade e paternidade naquele bairro. A partir da parentalidade juvenil, busquei compreender valores, sentimentos, desejos, práticas que levavam os jovens à condição de pai e mãe. Ou seja, construí um olhar retrospectivo: partindo das diversas maneiras das juventudes do bairro viverem a maternidade e a paternidade para os contextos em que se geravam desejos, necessidades, de ser pai e mãe. O objetivo geral desta pesquisa, portanto, foi compreender os contextos em que emergem e se desenvolvem as experiências de maternidade e paternidade juvenis no bairro Satélite. A perspectiva adotada não buscou fazer generalizações, mas compreender a experiência dos jovens à luz de suas narrativas e das teorias existentes, tendo como condutor o significado que eles mesmos atribuíram aos valores e costumes, observando como aparecem nos seus relatos e nas suas práticas, pois que, de certa forma, estas reminiscências “nós as compomos ou construímos utilizando as linguagens e os significados conhecidos de nossa cultura”.3 A concepção de juventude presente no texto incorpora a fase da adolescência, entendida esta como etapa inicial da juventude, que explicita o fim da infância. Optei por compreender como a juventude, como fase de vida, se define no bairro. Ou seja, não parti de referências apriorísticas; busquei construí-las com base nos modos de viver dos jovens do bairro, e cheguei a um amplo intervalo que segue dos 12 aos 29 anos, aproximadamente.4 Com base no conceito de gênero, foi possível compreender as diferenciações e hierarquias que se estabelecem na construção da maternidade e da paternidade de jovens de camadas populares. Ao mesmo tempo, a parentalidade juvenil foi trabalhada na pesquisa como “experiência social”, o que implicou elucidar as pressões sociais que se lhes apresentam e as respostas que conseguem construir, as quais, em qualquer circunstância, atravessam a constituição de papéis sociais diferentes e hierarquizados. A experiência social, com base em anteriores não se encontram armazenados no mesmo sistema e, por esta razão, são de mais difícil acesso, não podendo ser incluídos até o final da pesquisa, que se deu em 2004. 3 Alistair Thomson, Recompondo a memória: questões sobre a relação entre história oral e as memórias, Projeto História, São Paulo, Educ, n. 15, 1997, p. 56. 4 Neste artigo não serão apresentadas as reflexões e análises em torno do conceito de juventude. 3 Thompson,5 é processo histórico, consciência incorporada, espaço de luta dos sujeitos sociais, espaço de construção dos sujeitos, com seus sentimentos, idéias, valores, significados, desejos, costumes, normas, tradições, inovações, vivências e outros. Combinando conhecimentos e orientações da história oral e da etnografia, o processo da pesquisa se desenvolveu a partir de um diálogo contínuo e permanente entre explicações teóricas e experiências vivenciadas pelos jovens sujeitos da pesquisa, conhecidas por meio de suas narrativas e de observações sistemáticas. Foram entrevistados 24 sujeitos, dentre jovens homens e mulheres, jovens pais e mães, pais, mães e avós dos jovens e professores de escolas públicas do bairro. 1. Os modos de vida afetivo-sexual dos jovens: algumas pontuações Falar sobre amor, paixão, sexualidade, entre os jovens é falar de processos muito intensos, regidos por muitas lógicas e incoerências, por ambivalências e ambigüidades, mas sobretudo, é falar de processos cheios de movimento e vida, pois que plenos de alegrias, prazeres, decepções, mágoas, sonhos, frustrações, esperanças e outros tantos sentimentos e emoções que se lhes atravessam. Antecipam-se cada vez mais os momentos em que o jovem e a jovem iniciam a vida afetivo-sexual. No Satélite, é por volta dos 12 anos que elas começam a se interessar pelos brotos6. Logo em seguida, o interesse por namoro implicará no interesse pela vida sexual. Para muitas, segundo depoimentos de professoras, de mães e delas próprias, a vida sexual se inicia entre 13 e 17 anos de idade. Entre os jovens homens também, o ingresso na vida afetivo-sexual se antecipa cada vez mais. Por volta dos 14, 15 anos eles são cobrados, pelos pares, das experiências com mulheres, incluindo-se aí experiências sexuais, que significam a afirmação da masculinidade. Desta forma, em geral, nesta faixa de idade eles já estão envolvidos, se não afetivamente, mas sexualmente com alguma garota. Dentre várias formas de envolvimento, a mais comum é o ficar, em seus diferentes matizes, em seus diferentes graus de intimidade e duração. 5 E. P. Thompson, A miséria da teoria, Rio de Janeiro, Zahar, 1981; A formação da classe operária inglesa, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1987; Costumes em comum, São Paulo, Companhia das Letras, 1998. 6 Os jovens do Satélite recebem várias denominações: broto, brota, malandro, maluco, mina, gato, gata, moça, rapaz, as quais, neste artigo, não serão explicitadas em seus vários sentidos. 4 O ficar é um “código de relacionamento”,7 construído e modificado no desenvolvimento das experiências. As regras (descompromisso, rotatividade) servem para todos, mas nem todos ou todas se adequam a elas. Os que não se adequam, nada podem contestar. O prazer na juventude é, costumeiramente, abordado como fruto de inconseqüências, descompromissos, irresponsabilidades, mas nem sempre é assim, embora estas sejam características muito presentes. O ficar é um jogo e um exercício público de sentimento e sexualidade. É sempre um risco a ser assumido, pois pode resultar em compromisso (namoro), em uma boa lembrança, e pode resultar em decepção ou frustração de um desejo ou de um sentimento. São muitas nuances e possibilidades, tornando inviável e incorreto enclausurar a multiplicidade de sentidos em uma mesma mirada, uma mesma lógica ou uma única explicação. Muitas das jovens do Satélite, por exemplo, ao tempo em que vivenciam estas descobertas e experimentações, utilizam o ficar como estratégia para o estabelecimento de compromissos, ainda que se frustrem e se compliquem. Compreender o ficar como exercício, no sentido de vivência, de experimentação, não significa atribuir-lhe o sentido de “sistema de ensaio/erro”,8 posto que o ficar não se limita a jogos de sedução que almejem o parceiro/a ideal. Embora haja buscas, está muito presente no ficar o prazer momentâneo, cujo sentido se esgota naquele instante; foi produzido para um descobrir-se, para vivenciar e experimentar enquanto de sua duração. Um momento pode se seguir a outro, mas sem seqüências previamente estabelecidas. Todavia, quanto a este aspecto, a maior ênfase na realidade das juventudes do Satélite é, para as mulheres, o ficar como busca e, para os homens, o ficar como experiência do momento. Observando essas realidades juvenis, poderíamos pensar que é mais risco que destino (enquanto caminho previamente traçado, à revelia do ser) o que a realidade impõe para os jovens, como bem afirma Machado Pais, ao analisar jovens portugueses em suas trajetórias de vida, pois “passou-se de um destino que nos era dado metasocialmente - por uma qualquer 7 Definição usada por Flávia Rieth, Ficar e namorar, in Cristina Bruschini e Heloísa Buarque de Hollanda (Org.) Horizontes plurais: novos estudos de gênero no Brasil, São Paulo, Fundação Carlos Chagas/Editora 34, 1998, p. 111-133. Considero o ficar como “código de relacionamento” de que se utilizam jovens e adultos, não sendo, assim, exclusividade dos jovens. Ocorre que entre os jovens há um código mais abrangente, complexo, explícito, construído em práticas mais intensas, rotineiras e públicas, à diferença de muitas experiências dos adultos, sejam homens ou mulheres, solteiros ou casados, que guardam consigo algumas peculiaridades. Entre os homossexuais, o ficar abriga práticas antigas, as quais, obviamente, guardam as particularidades do meio social em que se desenvolvem. Em quaisquer casos, as características básicas se mantêm: a falta de compromisso, um devir em aberto, a liberdade de se relacionar com outros/as. Porém, o ficar entre adultos, que, inclusive, já estão a usar o mesmo termo, não é objeto deste estudo, assim como também não o é o ficar entre os homossexuais. 8 Centre Jove d‟Anticoncepció i Sexualitat. Las diferencias de género en la vivencia de la sexualidad adolescente: un análisis de género de los talleres de educación afectiva-sexual, Barcelona, 2001, mimeo. 5 „exterioridade‟ que se imporia sobre as nossas maneiras de ser, de pensar e de sentir [...], para um destino que é produzido quotidianamente, num campo de oportunidades, reivindicações, utopias”.9 Todavia, à diferença dos portugueses, no caso das jovens mulheres do Satélite, as oportunidades e reivindicações são bastante reduzidas, e, certamente, o risco e a noção de destino “dado metasocialmente” se entrecruzam em determinados momentos, pois quando utilizam a ficada completa como estratégia na construção do seu “destino”, as jovens fazem uso do risco para assegurar seu suposto “destino”: ser mãe, mulher e dona de casa. A ficada completa, responsável por tantas gravidezes, é, por vezes, fruto de uma intimidade que exprime a comunhão de felicidade de dois amantes, comunhão essa que consiste no fato de para ambos a felicidade residir exatamente nas mesmas ações. Tal só é possível quando se desativa o tempo, quando cada um se orienta por aquilo que cada momento lhe oferece. Qualquer tentativa de recorrer ao saber e à realização paralisa a vivência.10 Estas são reflexões de Stendhal, citadas por Luhmann, que nos ajudam a pensar na intensidade de certos momentos que homens e mulheres constroem e com os quais, em muitas vezes, pouco sabem lidar. Imaginem-se os jovens nesta situação, para quem estes momentos, geralmente, são de descoberta e de busca por viver o que sentem, principalmente quando o que está em jogo não é só o poder de sedução, nem uma experiência qualquer, mas um sentimento, acompanhado de um impulso que vai ao encontro da convicção de que a vida é o aqui e o agora. Talvez o tempo não seja “desativado”, mas potencializado em um momento, a ser vivido com toda plenitude e inteireza. Ao lado de alegrias, diversões, sonhos proporcionados pelo amor, os jovens sofrem intensamente por amor. Mas homens e mulheres sofrem distintamente, tanto na forma como sentem o sofrimento, como nas maneiras de manifestar sua dor e nas razões que os levam a sofrer. Há pressões que os fazem sofrer, pressões estas que se realizam por meio de valores, de comportamentos, de desejos. Pontuemos algumas delas. Os jovens homens não podem ser veementes na expressão dos seus sentimentos, visto que o exercício da masculinidade pressupõe uma postura de distanciamento para com a pessoa amada, principalmente no que respeita a manifestações verbais de afetos. Esta forma de se comportar é um sentimento, tal como conceitua Williams quando trata da “estrutura de 9 José Machado Pais, Ganchos, tachos e biscates: jovens, trabalho e futuro, Porto, Ambar, 2001, p. 67. (grifado no original) 10 Stendhal, De l’Amour, p. 36 e 97 apud Niklas Luhmann, O amor como paixão: para a codificação da intimidade, Lisboa, DIFEL, 1991, p. 185. 6 sentimento”,11 comportamento regido por significados e valores, interiorizados, sentidos, vividos. Aos jovens não é dado o direito de viver e expressar abertamente seus sentimentos; isto não é considerado “coisa de homem”, mas “coisa de mulher”. Ser romântico, declarar intensamente seu amor, manifestar seu afeto, são atitudes muito comprometedoras da virilidade. Nos seus códigos de masculinidade, manifestar os sentimentos é sinal de fraqueza, é dar permissão para ser dominado pela mulher. O homem “macho” é o homem “durão”, o que não manifesta seus sentimentos, não se rende às solicitações da companheira e faz só o que lhe convém. “Macho” ou “machão” é também, na ótica dos malandros ou malucos e de muitas jovens, aquele que tem várias mulheres e tem filhos com muitas delas. Diz um jovem: É o “quebrador”, aquele cara que briga mais. Aquele maluco que as gatas ainda acham que o cara ser viril é o cara ser valente, ficar batendo no camarada de outra “quebrada”, ser o cara mais “considerado” [...]. O machão ainda é a figura predominante dentro da “quebrada” [...]. Esse cara é que é o bom. É que as gatas se iludem muito com esse tipo de maluco. No bairro Satélite, o mesmo comportamento de virilidade pode se expressar com diferentes intensidades, conforme o espaço social. Quando inseridos em certos contextos como o do tráfico de drogas, dos grupos de jovens que roubam e furtam, por exemplo, os códigos de virilidade se acentuam, e dada a maior necessidade de proteção associada ao imaginário de valentia que se forma acerca da masculinidade, as jovens realmente se iludem com jovens “valentes” (entenda-se, violentos) que possam protegê-las nos ambientes mais violentos, como os bailes de reggae.12 Os malucos expressam menos ainda seus sentimentos que os outros jovens, os brotos, pois vivem em ambientes mais hostis, onde valentia, coragem e “macheza” do homem são testadas a cada instante e nas diferentes dimensões de sua vida. Ou seja, são diferentes estilos de masculinidade, que não existem na sua forma pura, como padrões passíveis de tipificações, mas como mesclas, características em movimento, conforme o contexto mais próximo e imediato em que se criam, recriam e desenvolvem determinadas práticas. É oportuno esclarecer que, embora reconhecendo que os processos de socialização evidenciam a predominância de certas formas de masculinidade, prefiro não utilizar o 11 12 Raymond Williams. Marxismo e literatura, Rio de Janeiro, Zahar, 1979. As conexões aqui estabelecidas entre os bailes de reggae e a violência, as gangues, resultam das histórias contadas e das concepções e afirmações dos próprios jovens e demais moradores do Satélite e de bairros circunvizinhos. 7 conceito de “masculinidade hegemônica”,13 o qual pressupõe masculinidades subordinadas ou masculinidades alternativas, por duas razões. Para facilitar a percepção da masculinidade como um processo em permanente construção, sem que me deixe prender pelas armadilhas de cristalizações, entendendo que, mesmo em seus traços mais arraigados, as formas de viver a masculinidade trazem consigo uma dinâmica em que a inovação está sempre presente. E para evitar enclausurar e unidirecionar processos de vida tão múltiplos e intensos, plenos de inovações. As formas de viver a masculinidade se alteram concomitantemente às mudanças das relações de gênero. Há diferenças quanto às formas de expressão dos sentimentos entre jovens homens e mulheres. Em algumas conversas com grupos de jovens, foi-me enfatizado que os homens “têm medo de gostar, de amar” e pensam que “se falar pra mulher que ele ama ela, ela vai deixar ele, vai fazer ele sofrer”, ao que alguns homens concordaram, e um deles acrescentou: “É um medo mesmo da gente chegar assim... falar e elas dizerem logo: „Não!‟ E aí a cara, vai pra onde?” Comporta aqui um parêntese, para aproveitar a acurada observação de Fonseca, para quem as pesquisas sempre descrevem as mulheres a partir de “imagens normativas”, de “santa” e de “piranha”. No caso das jovens do Satélite, a dicotomia poderia se situar entre a “santa”, entendida como “boa moça”, prendada, recatada, obediente aos pais, e a “cunhã”, que pode ter o sentido daquela que “não se dá o respeito”, que “é atirada”, ou até mesmo tida como “vagabunda”, não necessariamente sendo uma prostituta. Muitas jovens mulheres que conheci e sobre quem ouvi histórias, não são nem uma coisa nem outra. São mulheres que lutam no seu cotidiano, com as armas que podem dispor, para ter um companheiro, para manter seu companheiro ao seu lado ou para criar seus filhos. Criam suas estratégias ou “armadilhas”, como chamam alguns jovens homens, e vão levando a vida. São diversas e confusas pressões. O jovem homem tem que ser mais carinhoso e amoroso nos relacionamentos ou então manter um distanciamento e fingir pouco envolvimento afetivo nas relações e ainda, em qualquer circunstância, manter a posição de independência e soberania. Confuso e acuado, o jovem costuma se apoiar e se conduzir, sobremaneira, pelas orientações, conselhos e críticas dos colegas dos grupos aos quais pertence, que são sua principal referência de valores, de comportamento, e que, por isto, 13 Ver, a respeito, Miguel Vale de Almeida, Senhores de si: uma interpretação antropológica da masculinidade, Lisboa, Fim de Século, 2000, p. 149-155 e Pedro Guedes do Nascimento, Ser Homem ou Nada: diversidade de experiências e estratégias de atualização do modelo hegemônico da masculinidade em Camaragibe/PE, Recife, UFPE, 1999, Dissertação (Mestrado em Antropologia Cultural), passim. 8 conforme Elias e Scotson, contribuem definitivamente para sua auto-imagem e auto-estima, as quais resultam do que os grupos pensam dele.14 Para a grande maioria das jovens mulheres, o amor é a grande busca na vida, mas não é dado a todas o direito de encontrar “o verdadeiro amor”. Assim, elas têm que se contentar com as perspectivas reais que se lhes apresentam. Sentir-se amada, desejada, é extremamente necessário e importante para sua auto-estima e para o relacionamento com amigas e amigos. Mesmo em tempos em que as mulheres manifestam mais direta e abertamente seus desejos e opções, por vezes elas mesmas se dirigindo ao homem que desejam, ser cortejada ainda é o vetor mais valioso e predominante do ritual da conquista. Elas sonham muito com um verdadeiro amor, geralmente relacionando-o àquele que possibilitará a libertação de problemas familiares e do controle familiar, especialmente este. Elas acreditam que devem buscar seu “verdadeiro amor”, lutar por ele, e quando estão amando sentem-se dominadas por uma “força superior” chamada “destino”, que lhes impede de mover-se em outras direções que não os braços do seu amado. Guiadas pelo sentimento, as adversidades dele decorrentes são “culpa do sentimento” e a conclusão a que chegam, freqüentemente, é que: amar é igual a sofrer. Sem perceber, elas passam a se alimentar da própria dor, como que cumprindo seu “destino”, vivendo a vida que lhes fora reservada. Sofrendo, esperam um novo amor, com a certeza de que dele resultará uma nova dor, possivelmente uma nova etapa do seu destino produzido “metasocialmente”, sobre o qual não há controle. Não se trata de mera conformação ou resignação ao transcurso da vida. Elas não são acomodadas, lutam para melhorar, mas o sentimento de que a vida é assim, as faz movimentarem-se dentro deste patamar de compreensão e, portanto, dentro de horizontes muito limitados. Quando engravidam e têm que assumir o filho sem o parceiro, ou quando a tentativa de vida a dois se frustra e deixa um filho como resultado mais concreto e irreversível, ficam profundamente marcadas e feridas pela experiência amorosa. Mas sofrer por amor é um sinal inconteste de estar no “mundo adulto”, de ser “mulher”. O amor, para elas, é entrega, é confiança e, quando são ludibriadas por seus parceiros ou quando a relação se esvai, sentemse “morrer por amor”, o que significa que não se “entregaram” para um homem qualquer, que não foram levianas, nem irresponsáveis, pois se “entregaram” pelo mais nobre dos 14 Cf. Norbert Elias e John L. Scotson, Os estabelecidos e os outsiders: sociologia das relações de poder a partir de uma pequena comunidade, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2000, p. 40. 9 sentimentos, o amor, e isto transforma o amor em um álibi para suas atitudes, porque capaz de justificar tudo, inclusive uma gravidez. Os relatos de jovens que viveram esta situação ou que conhecem mulheres que enfrentaram esta situação são inúmeros e bastante enfáticos. Elas chegam a dizer que a mulher quando se apaixona fica “indefesa”; quando é abandonada, fica “até doente”, e isto é sinal de que o sentimento é muito intenso e verdadeiro. Ao analisar o mito de Tristão, Rougemont explica que o mito age sobretudo onde a paixão é sonhada como um ideal [...]. Vive da própria vida daqueles que acreditam que o amor é um destino [...] que desaba sobre o homem, impotente e maravilhado, para o consumir num fogo puro; e que é mais forte e mais verdadeiro do que a felicidade, a sociedade e a moral,15 e esta explicação traduz o sentimento de muitas jovens do Satélite, principalmente das que hoje são mães, vivendo ou não com seus companheiros, mas que se sentem traídas pelo destino. Amor também é sinônimo de filho, pois ao implicar em entrega e confiança, impõe, para as jovens, a situação em que provar que ama é fazer sexo, principalmente se forem virgens, e devem fazê-lo sem preservativo, na maioria dos casos. Esta atitude ainda é considerada uma grande prova de amor, é um ato de amor, expresso pela entrega total, sem restrições. “Amor” daquele momento, entrega naquele momento, que pode vir ou não acompanhado por planos ou expectativas de futuro, e se constitui forte pressão social. Coibir a relação é, pelo exato contrário, prova de falta de sentimento. O hímen, transformado em valor - virgindade -, permanece nas teias das relações sociais, embora esteja se diversificando seu papel e importância. As jovens já sabem que “perder a virgindade” ou ficar grávida não resulta em casamento, mas elas, por inúmeras vezes, arriscam. Pode-se dizer que o sexo para elas é utilizado como prova de amor em dois momentos: quando da primeira relação sexual e quando fazem sexo sem preservativo. Neste segundo momento, tanto as ficantes, quanto as namoradas e as companheiras enfrentam a mesma situação, pois os riscos de engravidar são prova de levar a sério aquele sentimento, de mostrar que deixou-se enfim ser dominada por aquele sentimento e por aquele parceiro, a ponto de permitir-se marcar por algo irreversível. Se a jovem já tem filhos de parceiros anteriores, independente da quantidade e das dificuldades que possa estar enfrentando, um novo filho é prova inconteste de não estar namorando ou não se ter casado somente para ter um homem 15 Denis de Rougemont, O amor e o ocidente, Lisboa, Vega, 1999, p. 20. 10 que possa dela cuidar; é sinal de querer, com aquele novo parceiro, um compromisso sério, inclusive, mais uma vez, assumindo a função social primordial da mulher, ser mãe. Mas isto não é peculiar do imaginário feminino, pois se trata de um valor social. Para os homens, fazer sexo sem preservativo denota que a mulher confia neles e, portanto, os ama de verdade. Significa para as mulheres que se não provarem o seu amor perderão o amado e também, para algumas delas, que o homem a está amando verdadeiramente, a ponto de querer enfrentar aquele risco “junto”. É como se fosse um jogo em que o desejo deles fazerem sexo sem preservativo sinaliza para elas uma certa autorização, de que não estarão desamparadas, de que há um sentimento envolvendo a relação, de que se sintam seguras com o parceiro. São sinais muito fortes, pois, para elas, fazer amor com preservativo significa que o namorado não está levando muito a sério a relação. Por outro lado, e ao mesmo tempo, quando uma gravidez é constatada, eles afirmam categoricamente que foram elas que permitiram o sexo sem preservativo, atribuindo-lhes a responsabilidade e desautorizando-as de qualquer interpretação do seu comportamento. É um jogo muito pesado, no qual elas se põem em situação bastante desvantajosa, principalmente por serem mais inexperientes do que eles, em grande parte das vezes. No entanto, esta não é uma situação plena de ingenuidades. Para as mulheres, sexo é mais amor e para os homens é mais poder, poderíamos pensar assim. Mas é mais que isto, pois para as mulheres jovens o sexo começa a ser poder também, poder sobre o próprio corpo, seu único bem, o que as faz sentirem-se independentes; e poder sobre os homens, quando despertam neles o desejo sexual. Esta é uma estratégia forte de conquista que muitas delas utilizam, por vezes muito cedo, tão logo percebam as mudanças sofridas por seu corpo e se sintam “mulheres”. Em que pesem os avanços nas experiências sexuais de homens e mulheres, ainda é verdadeira a análise de Giddens, para quem a perda da virgindade para os homens é um ganho e para as mulheres, é uma entrega.16 No jogo de sedução e de poder, a eles cabe a decisão, a ser tornada pública, de “namorar sério”. Elas ficam aguardando ansiosamente a resolução deles. É um jogo muito difícil, pois elas têm que demonstrar seu amor e eles não devem fazê-lo, mas elas têm que acreditar nas suas poucas e sutis manifestações. Elas lutam todo o tempo: lutam para serem assumidas como namorada “fixa”, lutam para serem assumidas como companheira, lutam 16 Anthony Giddens, A transformação da intimidade: sexualidade, amor e erotismo nas sociedades modernas, São Paulo, UNESP, 1993, p. 61. 11 para serem reconhecidas como mãe de seu filho, quando engravidam; mas fazem desta seqüência o itinerário normal da vida. Este é o papel da mulher, segundo sua ótica. O que a realidade mostra é que o uso de anticoncepcionais é muito limitado entre as jovens, e não só por sua formação moral ou pela precariedade de informações. Há outros elementos: elas não têm condições financeiras para comprá-los; quando os usam, é o namorado que lhes dá, o que não é muito freqüente, não só pelo pouco compromisso deles, como também pela falta de dinheiro para adquiri-los. Há também a dificuldade de obter orientação médica adequada de maneira sigilosa, pois sua família saberia de um consulta feita num hospital. Assim, os preservativos são a principal alternativa para evitar a gravidez. A despeito de sua importância, o uso do preservativo ainda é muito restrito por razões diversas: (a) apesar da distribuição gratuita feita no hospital do Satélite, dificilmente uma jovem que não seja casada, separada ou mãe, se expõe para recebê-los. Mas se elas têm um acesso mais fácil aos preservativos, carregá-los consigo significa disponibilidade ao sexo e oferecimento do seu corpo aos homens; então, evitam tê-los quando não estão com um namorado fixo, para que não sejam mal interpretadas.17 Os jovens homens, por sua vez, nem sempre se dispõem a tê-los, porque não são muito favoráveis ao seu uso, o que nos leva à razão seguinte. (b) Os jovens reclamam que o preservativo diminui o prazer, pela redução da sensibilidade e por cortar um momento de clímax por vezes irrecuperável. Reclamam que “fica mais áspero e mais quente”. E dizem que é “careta” e que “é bobagem usar”. (c) Transar sem preservativo, para muitos homens, é prova de confiança e amor da parceira, assim como, para as mulheres, o fato de o parceiro transar sem preservativo significa compromisso assumido, pois que saíram da condição de ficantes para a de namorados, pressuposto de um casamento vindouro. Esta é uma teia de relações e valores sociais extremamente complexa, que se agrava nas populações de baixa renda, visto que o acesso aos preservativos expõe bastante as jovens, e suas condições financeiras não lhes permitem comprar nem preservativos, nem contraceptivos. Querer que jovens de 13, 14 anos ou mesmo as de 16, 17 anos tornem pública sua atividade sexual, ao se exporem em filas, e querer que enfrentem os resultados desta exibição junto a amigos, vizinhos e, particularmente, à família, é esperar que tenham maturidade, independência, estrutura emocional, vontade e determinação para romper com os padrões de moralidade vigentes. É necessário ter presente, nas análises ou julgamentos 17 Temos que convir que este preconceito ainda é muito presente na moral sexual da sociedade em suas diferentes classes sociais. 12 cotidianos, que “a liberdade sexual acompanha o poder e é uma expressão de poder”, 18 como analisa Giddens, e isto, as jovens do Satélite não têm. Em meio a comportamentos os mais diversificados, têm-se também os namoros dos jovens. O namoro é um compromisso e significa que há um sentimento entre aquelas pessoas, seja amor ou paixão. Traz consigo a idéia de casamento, porque faz parte de um rito que antecede a união definitiva do casal. Geralmente, elas namoram às escondidas, pois quando os pais descobrem, reforçam a vigilância e controlam mais as saídas, especialmente a mãe. Conquanto namorem em sigilo para com sua família, elas gostam de se fazer conhecer pela família do namorado, sendo muito comum elas freqüentarem a sua casa; e esta atitude é bastante compreensível. Na casa do namorado, o controle e a vigilância são mais fluidos; afinal, do ponto de vista moral, é a mulher quem tem que se preservar e não o homem. Ainda que ocorra, não raramente, de as mulheres levarem seus namorados para sua casa, esta atitude só se torna mais viável quando elas têm vida sexual ativa. Neste caso, é interesse dos pais que elas encontrem um companheiro; então a vigilância se reduz. Embora haja situações em que os pais não tomam conhecimento dos relacionamentos dos filhos, há outras circunstâncias em que os pais são obrigados a dar total cobertura para suas experiências afetivo-sexuais, sejam homens ou mulheres. Acontece também de eles e elas levarem seus namorados/as para dentro de casa e, inclusive, dormirem juntos, como namorados, não como casados, nem como experiência pré-conjugal (ainda). Conversando com uma mãe de 3 filhos, ela explicou que se não permitir que eles namorem e transem em casa, sob a proteção dela, vão fazê-lo na rua, correndo o risco de se envolver com os malandros, e será pior. Essa situação está se tornando comum , principalmente entre os homens, que estão se acostumando a levar suas namoradas para casa dos seus pais por um final de semana ou uma noite (via de regra, são namoradas e não ficantes). A vida sexual dos jovens é, sob determinado prisma, bastante pública, porque alvo de muitas atenções e comentários. É comentada por todos, adultos e jovens, que se colocam atentos para os comportamentos e, principalmente, para os “deslizes”. Para os homens isto é bom, pois é a saída definitiva da condição de criança, e todos começam a notar o novo “garanhão” em potencial que surge no bairro, na “quebrada”. Mas para as mulheres, é indício 18 Anthony Giddens, A transformação da intimidade: sexualidade, amor e erotismo nas sociedades modernas, São Paulo, UNESP, 1993, p. 49. 13 de desmoralização, muito embora, ao mesmo tempo, indique sua condição física e disponibilidade para assumir a condição de mulher e mãe. 2. A maternidade e a paternidade de jovens Passado o momento de maior impacto junto às suas famílias, aos amigos, vizinhos, causado por uma gravidez19, muitas vezes, “inesperada”, agora o jovem e a jovem enfrentarão a vida de pai e mãe, assumindo ou não suas responsabilidades. Os jovens homens ficam orgulhosos e felizes. Sem saber sequer como segurar o seu filho, costumam apenas ficar olhando, por vezes envergonhados de já serem pais. É o momento de arquitetar muitos planos para a vida familiar, para os quais conseguir emprego é o ponto de partida. As extremadas dificuldades que enfrentam na busca de emprego ou de bicos20 se constituem barreiras difíceis de transpor, às quais se somam as cobranças da parceira e dos familiares e as demais exigências da realidade para que se viabilize a vida familiar. Após um rico momento de planos para o futuro em que a vida ganha um novo sentido, o enfrentamento da realidade cruel do desemprego é um forte desalento. Elas, a seu turno, também costumam vivenciar os momentos iniciais da maternidade sob intensas emoções e sentimentos. O papel de mãe, para o qual precisam, inclusive, usar o próprio corpo, se torna um misto de prazer e felicidade associado a medo e vergonha da nova condição. A isto se somam os sonhos de que logo seus parceiros consigam emprego e as tirem daquela condição de dependência familiar; de que possam assumir suas próprias casas e sentir os prazeres tão almejados de serem mães e esposas. Assim como acontecera no momento da descoberta da gravidez, o nascimento do(a) filho(a) traz para o jovem pai e a jovem mãe uma densa realidade de alegrias, de felicidade, de orgulho, de vaidade, mas também de preocupações, de cobranças, de descoberta de limites. A maternidade e a paternidade assumem várias formas de expressão, conduzindo homens e mulheres jovens a diversos percursos de vida. Para efeito de sistematização, as experiências podem ser divididas em duas grandes situações. Na primeira se encontram as 19 Não serão abordadas nesse artigo as diversas situações com que os jovens e as jovens se defrontam no momento em que é constatada a gravidez, embora a investigação tenha incorporado também esse momento em suas vidas. 20 Bico ou biscate é a principal fonte de renda de jovens e adultos do bairro. A história do bairro explica os sentidos que o trabalho enquanto emprego ou enquanto bico assume para os moradores. 14 experiências desenvolvidas no contexto do casamento e na segunda, aquelas em que jovens pais e mães assumirão ou não a maternidade e paternidade fora do contexto do casamento.21 De todas as circunstâncias prováveis em que a maternidade e a paternidade podem ocorrer, estando pai e mãe juntos ou separados, a mais freqüente é a mulher assumir o filho sem uma ajuda efetiva do parceiro, nem quanto aos cuidados, nem quanto ao sustento. Se ela vive com a família de origem, geralmente esta lhe dá o apoio necessário, principalmente se for o primeiro filho. Não é uma situação tranqüila, geralmente vem acompanhada de decepções, contrariedades e aflições dos pais da jovem, associadas aos medos que a jovem pode estar sentindo. Entretanto, após um período inicial de adaptação a uma nova rotina, as relações familiares parecem se restabelecer. Muitas vezes, embora não assumindo o sustento, o pai pode reconhecer o filho. Pode acontecer de o casal manter sua relação de namoro ou de “certa união consensual”, permanecendo cada qual em sua casa. Nestes casos, nem mesmo eles sabem definir muito bem o que vivenciam, pois a palavra de um e de outro não lhes garante o compromisso. Também não se casam legalmente. Então fica tudo um pouco confuso, principalmente se o jovem não contribuir com o sustento do filho. Se ele não contribui, dificilmente ele e a parceira e sua família conseguem estabelecer uma relação amigável que lhe permita, inclusive, visitar o filho com tranqüilidade e direito assegurado. É comum nestas situações que a mãe da criança o impeça de vê-la; é uma das maneiras mais conhecidas de revidar o abandono a que seu parceiro a submeteu. Pode acontecer também de o pai sequer reconhecer a paternidade. Em certas circunstâncias, os jovens alegam dúvidas sobre a paternidade. Todavia, no Satélite, ao que os depoimentos apontam, na grande maioria das vezes, as jovens sabem com convicção quem é o pai de seu filho. Ocorre que, amparados por uma falsa dúvida, eles podem se eximir de suas responsabilidades, e o fazem. Nesses momentos, a semelhança física entre pai e filho(a) pode ser a única forma de provar a paternidade; é o recurso mais freqüentemente usado, ainda que tal parecença só aflore tempos depois. Quando a semelhança é irrefutável, geralmente os pais reconhecem a paternidade, o que não significa, necessariamente, contribuir com a sustentação da criança. Há casos, no entanto, em que o pai muda de posição e passa a colaborar com as despesas. 21 Consideramos casamento, em geral, toda forma de união entre os jovens, seja legal ou consensual. 15 A participação do pai, em qualquer destas situações é quase sempre muito precária, pois ele não tem noção das despesas com uma criança e se prende à idéia fixa, por vezes mera desculpa, de não dar dinheiro para ser gasto ou “desfrutado” pela mãe do seu filho. Afora o fato de que ganha efetivamente muito pouco com seu trabalho. Quando ele tem outra parceira, principalmente se vive com ela, dificilmente dá alguma contribuição para as despesas com os filhos. As mulheres costumam ser contrárias a que seu companheiro participe dos gastos com os filhos de uniões anteriores e isto reforça a atitude que os homens geralmente adotam. Ao que as histórias relatadas demonstram, são pouco comuns os casos em que o casamento acontece antes da gravidez. Mais incomum ainda é ser realizado a partir de planos dos próprios jovens. O que se observa com maior freqüência no bairro é que o casamento, quando acontece, ocorre após a constatação da gravidez. Neste caso, o mais ordinário é que, pelo menos nos primeiros meses ou anos, o jovem casal more em casa da família de um deles. Pode acontecer também de o parceiro da jovem construir uma pequena casa, geralmente distante, em alguma invasão fora do Satélite, em um bairro mais afastado. Uma casa bastante simples, sem nenhum conforto e sem nenhum equipamento doméstico, então elas preferem permanecer na casa em que estão. Dificilmente elas se agradam das precárias condições da nova casa e se animam para nela morar. Para elas é difícil deixar o mínimo de que dispõem na casa dos seus pais ou dos sogros e se lançar nessa experiência praticamente sozinhas, pois eles não ajudam no trabalho doméstico, o qual, nestas condições, se torna mais pesado ainda. O isolamento é outra dificuldade, porque elas ficam presas em casa, sem ter com quem deixar os filhos, e eles vão para a rua. Ainda que sua casa tenha todos estes e outros problemas, eles esperam que elas reconheçam a felicidade que têm em poder oferecerlhes, pelo menos, isto. E relatam com dor e lamento o contraste entre sua alegria por construir sua própria casa e a decepção sofrida por elas não a aceitarem. Esta postura se transforma em ponto de discórdia para o casal, podendo se constituir motivo de separação. A conversa com este jovem pai explica este aspecto: Quando tu soubeste que ias ser pai, tu pensaste em quê? Em morar junto. Só, só isso mesmo. Agora eu nunca pensava assim de arrumar uma casa pra mim e arrumei. Eu não pensava não. Arrumei a casa não, só o terreno mesmo. Foi eu que fiz. Tu que suspendeste a casa? [acenou positivamente com a cabeça] Carregava madeira mesmo nas costas... como daqui naquele outro trailer [cerca de 300 metros]. Carregava todo dia, carregava, carregava todo dia. Aí no final quando eu fui terminar, saí de noite de lá mas deixei tudo alumiado, de energia, liguei tudo. Aí quando passou uma semana eu passei um cimento, mas não ficou bom não. Aí eu fiz só arrumar as coisas, a carroça ali... levei as coisas e pronto. Aí vocês ficaram lá quanto tempo, 16 tu te lembras? Dois anos mais ou menos. Passou bem um ano a casa abandonada lá. E esses 2 anos foram bons? Foram. Tinha alguns probleminhas, mas... porque aquela mulher é muito briguenta... [refere-se à companheira] Os “probleminhas” a que ele faz alusão são, segundo sua companheira, a falta de equipamentos como geladeira, fogão, televisão, e de utensílios domésticos. Ela não agüentou viver muito tempo nesta situação e voltou para a casa da mãe. Quando eles vivem junto com a família de origem de um deles e o jovem pai trabalha, o relacionamento com a família tende a ser menos atritado que o de costume. Mas se eles não trabalham, nem se interessam em trabalhar, a relação com a parceira e com sua família fica muito difícil. Assumir a paternidade, dentro do seu modo de viver é, principalmente, reconhecer e sustentar o filho. Se eles não estão trabalhando, se não estão sustentando ou ajudando a sustentar mulher e filhos, então, a interpretação dada no bairro é de que não estão assumindo a vida conjugal, nem a paternidade. Interessante que, quando são adultos nesta situação há maior tolerância quanto a este aspecto, mesmo que a mulher trabalhe fora de casa e sustente sozinha a família, como ocorre em muitos casos. Com os jovens homens, a pressão parece ser maior. Talvez porque deles seja esperado que logo assumam a responsabilidade dos seus atos, como o de ter um filho. O depoimento de alguns pais jovens é desesperador no momento em que relatam as dificuldades decorrentes do fato de não proverem sua própria família. Aqui enfrentam abalos estruturais no exercício de sua suposta, pretensa ou efetiva autoridade de chefe de família. O passar do tempo pode levar esta situação à humilhação de terem até mesmo sua masculinidade questionada, não no exercício de sua sexualidade, mas no que respeita à capacidade de cumprir as responsabilidades e papéis concernentes à masculinidade, segundo os quais, o homem tem que ter autoridade, autonomia, ser heterossexual, valente e provedor do lar. Sofrem com os desrespeitos da família de sua mulher, por estarem desempregados, sentem-se humilhados e são efetivamente humilhados pela companheira e sua família. Se a situação de desemprego perdura, começam a ser chamados de “vagabundos”, “preguiçosos”, “irresponsáveis”. Submeter-se à dinâmica da casa da sogra e do sogro é uma forte e difícil pressão, ainda mais sem ser respeitado. As situações não são iguais, e sob estas circunstâncias se encontram também aqueles que realmente não se interessam por assumir seu papel de pai e companheiro, ficando, 17 comodamente, na dependência do sustento da família, como afirmam algumas mães de jovens que sustentam um casal. Se estiverem morando com a mãe dele, é a situação da jovem mulher que fica delicada, posto que fica sentindo e enfrentando as necessidades por que ela e seu filho passam e não pode cobrar, nem criticar muito o parceiro em casa de sua sogra. São freqüentes as desavenças com a sogra e algumas outras mulheres da família (que são as que por mais tempo dividem e vivem o espaço doméstico, com suas dificuldades e tensões). As sogras as criticam bastante, nos cuidados com o filho e nos demais afazeres domésticos, aproveitando-se de sua inexperiência. Há situações, no entanto, em que são as noras que abusam da hospitalidade dos sogros. São, na realidade, convergências de fatores que se seguem por decepções, sentimentos de injustiça, expectativas de difícil realização, e outros. Nos últimos anos, tem acontecido uma outra forma de viver a maternidade e a paternidade. Os filhos levam sua companheira para a casa dos seus pais, mesmo contra a vontade destes, e lá se instalam, sem contribuir com as despesas domésticas. Os bicos que fazem são para seus gastos pessoais, incluindo-se aí suas diversões com a companheira. Quando um filho nasce, cria-se uma situação em que os seus pais são obrigados a sustentar o neto também. Para os pais, principalmente os homens, é muito difícil, pois eles já enfrentam as exigências do seu sustento com muito custo. Não é incomum uma jovem levar seu companheiro para morar em casa de seus pais. Neste caso, geralmente, há uma certa aceitação, ainda que seja muito pequena, dos pais. O parceiro tem seus bicos e consegue contribuir com as despesas domésticas. É mais freqüente que isto aconteça em famílias chefiadas por mulheres, pois os sogros não costumam ter uma boa relação com seus genros, notadamente quando a união resultou de uma gravidez. É em meio a muitas brigas familiares que o filho se mantém com seu núcleo familiar em casa dos pais. Tais situações chegam a levar pai e filho a lutas físicas, que se agravam quando um dos dois se encontra alcoolizado. Por vezes, os resultados das brigas são muito sérios e há pais que são hospitalizados depois destas brigas. Ao afrontar os pais, os filhos não parecem estar disputando poder na família ou no lar, mas desmontando o poder instituído, desautorizando aquele ou aquela que pode se sobrepor e se contrapor às suas atitudes, e impondo o atendimento de suas necessidades e desejos. Para evitar que a situação se agrave ainda mais, o pai sai de casa, geralmente sozinho, sem sua mulher, que não se dispõe a acompanhá-lo. Pode acontecer de o casal de jovens ir 18 morar em sua própria residência e então o pai de família volta para sua casa. Com muita paciência e sutileza, as mães vão ajudando os filhos casados a saírem de sua casa, incentivando-os a construir uma residência em uma invasão, a conseguir empregos ou bicos que ajudem a alugar um imóvel, usando de diversas estratégias de convencimento. Tem se tornado comum, entretanto, que o pai, ao sair de casa sozinho, alugue uma casa em outro bairro e passe a morar com outra mulher. Esta atitude é tomada quando a decisão de sair de casa é irreversível e sua mulher não o acompanha. Nestas circunstâncias, sua ex-mulher e o(s) filho(s) que permaneceram em casa têm que assumir seu próprio sustento. A conversa com um antigo morador, que tratou revoltado desse assunto, esclarece alguns aspectos. Quando ele falou que os pais estavam sendo expulsos de casa pelos próprios filhos, lhe perguntei: “Expulsos” como? Expulsos. Os filhos botam pra fora de casa. Os filho casa ou se junta com uma mulher e leva pra dentro de casa. “Vou ficar aqui, porque papai tá me dando tudo e se não der eu ponho ele pra fora”. A lei ampara o filho [refere-se ao ECA] e ele não pode nem brigar com ele. Aí ele vai embora. E a mulher dele, também vai? Vai nada [diz com tom de crítica]. Ela fica com os filho. Prefere ficar com os filho de que acompanhar o marido. Outro dia mesmo jogaram as roupas de um cumpade meu no meio da rua. Fizeram uma trouxa e jogaram pela janela. Ele teve que ir embora. A mulher ficou, porque disse que não ia abandonar os filho daquele jeito. Aí ele foi lá pro Itararé [outro bairro]. Com o dinheiro da aposentadoria dele, alugou uma casinha e arranjou outra mulher e tá lá. “Na certa uma mulher bem novinha, né cumpade?”, perguntei pra ele uma vez. E ele disse: “Que novinha nada, e eu lá quero mulher novinha. Mulher novinha é só pra dar filho, chifre e mais confusão. Eu quero é alguém que tome conta de mim, da minha velhice. Tô lá com ela. Arrumei um cantinho e tamo lá vivendo sossegado”. E a outra mulher, com quem ele vivia? Tá aí, com os filho. Eles não pode expulsar os filho de casa, porque a lei ampara (...) Eu lhe digo que conheço pelo menos 150 casos aqui por perto [disse exagerando] de pais que foram expulso de casa pelos filho. E os pai não pode fazer nada, senão vai preso. Olha aqui um que teve que sair de casa por causa de filho. [disse apontando para um senhor sentado no banco, encabulado, cabisbaixo, com quem conversei posteriormente] Tô lhe dizendo. Taí um que não me deixa mentir. Filho tem direito, mulher tem direito, só o marido que não tem direito nenhum. Filho então, tem todos os direito. [falou agitadamente] A situação se reveste de tamanha gravidade que, quando a mãe consegue que o filho saia de casa e que seu companheiro volte, eles derrubam parte da casa, para que não comporte mais ninguém, além dos que nela se encontram. Com esta atitude, derrubam também o que fora resultado de muito esforço e trabalho e o que lhes fora sonho um dia, ter uma casa maior. Podemos identificar, sintetizando, vários contextos, bastante conhecidos, em que a maternidade e a paternidade podem se realizar, quando pai e mãe estão juntos. Sem a necessidade de discorrer sobre cada um em particular, o elenco abaixo pode fornecer uma configuração ampla de muitas destas circunstâncias: 19 - pai e mãe jovens podem viver em sua própria casa, os dois trabalhando ou disponíveis para o emprego, apenas ele trabalhando, apenas ela trabalhando, ou os dois sem emprego, com os seus pais ajudando-os, sustentando-os. - podem viver em casa dos pais de um deles e ajudar nas despesas, com os dois trabalhando, ou com apenas um dos dois trabalhando. Ou, pode acontecer de nenhum dos dois estar trabalhando e neste caso podem estar se dispondo ou não a trabalhar e a ajudar no orçamento doméstico. - podem viver em casa dos pais, ter posto o pai para fora e viver com a ajuda que o pai dá para a mãe e com alguns bicos, buscados eventualmente; ou mesmo podem trabalhar para se sustentar (com bicos ou emprego). De todas as situações citadas, esta é a menos comum, embora esteja ocorrendo com freqüência cada vez maior, e por esta razão se encontra aqui relacionada. Algumas dessas circunstâncias são muito críticas. Viver sustentado pelos pais é expressão, sobretudo, do agravamento das condições sócio-econômicas dos moradores do bairro. Muitas casas são sustentadas apenas com a aposentadoria do pai ou com o trabalho do pai e da mãe em idade avançada. De toda forma, a escassez de oferta de empregos e bicos repercute de maneira avassaladora nos seus modos de viver. Se os jovens forem aguardar um momento de maior estabilidade financeira para assumir uma família, quando poderão fazê-lo? Esta questão não os exime, e nem pretende eximi-los, das responsabilidades sobre a construção de suas vidas fora do esteio familiar; tampouco justifica certas atitudes e comportamentos que estes começam a adotar para viabilizar seus anseios de vida a dois, mas nos obriga a observar com atenção e incluir na análise as diferentes situações a que, muitas vezes, as suas próprias condições de vida os conduz. A tendência é diminuir gradativamente a quantidade de pessoas aposentadas, haja vista a redução do número de trabalhadores com emprego fixo ou daqueles que se aposentam na condição de trabalhador rural, como acontece com uma parcela significativa. Os jovens não terão acesso a estas possibilidades. Assim, em um futuro próximo, como e de que estarão vivendo os moradores do bairro se a oferta de empregos e bicos não aumentar? Voltando à união dos jovens, tem-se que, por vezes, seu relacionamento não parece um casamento, mas um namoro tumultuado, e as muitas separações, embora desgastem bastante suas relações, se transformam em rotina e se incorporam ao seu cotidiano, tendendo, 20 inclusive, a se naturalizar, a ponto de alguns jovens considerarem ser esta a dinâmica de uma vida a dois. Outros, mais atentos às próprias insatisfações, nem se sentem casados, sentem-se namorados que vivem juntos e que têm filhos. Há também aqueles que têm clareza de que estas não são maneiras saudáveis de vida conjugal e, descontentes, percebem-se em uma vida conjugal provisória, com perspectivas de rompimento e de construção de uma nova experiência com outro(a) parceiro(a). Quando a jovem mãe assume o filho sem o apoio ou presença de seu parceiro, é comum a avó assumir a maternidade do neto e a jovem passar a se comportar ou ser considerada irmã do seu filho. Ocorre muitas vezes também de a jovem enfrentar tudo isso com muito afinco e compromisso, independente da tenra idade, sendo mais comum que aconteça em um contexto familiar que a apóie desde o período da gestação, pois quando as jovens se sentem amparadas, tendem a assumir melhor seu papel de mãe. Este é mais um forte indício de que o apoio da família é, muitas vezes, fundamental para o desempenho da maternidade, principalmente na juventude. Assim o era no tempo de suas mães e avós, que, a seu turno, contaram com o apoio de suas mães e avós no aprendizado da maternidade e dos afazeres domésticos. Nas camadas populares, as mães e avós sempre tiveram um papel muito importante no cuidado com as crianças. As creches amenizaram um pouco o peso de sua participação, mas, no caso do Satélite, há somente uma, com número de vagas inferior às demandas existentes. Portanto, as mães e avós continuam no seu papel de ajudar, mas com um agravante: muitas delas, quando foram mães e receberam ajuda de suas mães, estas, em sua maior parte, não trabalhavam fora, pois seus companheiros assumiam inteiramente o orçamento doméstico e o mercado de trabalho era mais favorável. Hoje, a situação é outra, e as mães, quando ajudam suas filhas, absorvem uma grande sobrecarga de trabalho, porque, em geral, elas estão trabalhando fora, têm que cuidar de sua casa, dos demais filhos e de seu companheiro e, além de tudo isto, cuidar ou ajudar a cuidar dos netos. Quando são elas mesmas, as jovens, que assumem os cuidados com os filhos, passando o dia com eles, às vezes pouco ouvem os conselhos da mãe ou avó, principalmente no primeiro filho. São ambigüidades, pois ao tempo em que necessitam e reivindicam o apoio e os ensinamentos delas, pode acontecer de pouco atenderem suas orientações. Há jovens mais responsáveis, que seguem as orientações e vivem, com empolgação, o papel de mãe. No começo, isto não é muito comum, pois elas estão ainda atravessando drásticas mudanças em sua vida, as quais se iniciaram desde a gravidez, mas que a elas ainda não terão se adaptado 21 em poucos meses de maternidade. Sentem saudades de sair, de passear, de festas, do colégio, dos amigos. Não era este o seu sonho, ser mãe solteira e ficar presa em casa cuidando de um filho. Quando elas estão vivendo com o seu companheiro, estes momentos iniciais são menos difíceis, mas, ao mesmo tempo, uma outra realidade começa a despontar, para a qual elas não estão preparadas. Quando o filho nasce, elas começam a perceber, conforme seus costumes, que, sem emprego ou sem bicos, o seu parceiro será de pouca ajuda e a vida familiar tenderá a ser conflituosa, pois que na dependência de outros. Diante de tantas dificuldades que as jovens enfrentam, casadas “com um desempregado” (como dizem), o envolvimento afetivo com jovens ligados ao tráfico de drogas desponta, para algumas delas, como uma alternativa viável. A vida da mulher de traficante é mais confortável materialmente, embora seja uma vida de riscos com um companheiro que nem sempre lhe dará respeito, pois se envolve publicamente com outras mulheres, assumindo-as como companheiras, e controla, amiúde, o comportamento de todas as suas mulheres. Se desconfiar de um olhar sequer, bate-lhes brutalmente. Ainda assim, dá status ser mulher de traficante, como explica este jovem: O traficante sempre é o cara mais bem visto, né? É o cara que dá ascensão pra qualquer mina. [baixa o tom de voz e diz:] Mulher de traficante tem respeito na quebrada. As mina muito cedo se ilude, não querem trabalhar de... (...) [Mulher de traficante] é respeitada na quebrada. (...) Ninguém mexe com essas. São as gatas que têm mais respeito. É a “madame da quebra”. [pausa] Fica um pouco restrita, porque ela não sai, às vezes ela apanha se olhar pra outro cara. Se o cara pensar que ela tá olhando pra outro cara, aí ela apanha também. As mulheres de traficantes não enfrentam muitos problemas de ordem material. Os moradores comentam que elas têm casas bem equipadas e bem mobiliadas, considerando-se os padrões do bairro. Neste sentido, a criação dos filhos não parece se realizar em meio a dificuldades financeiras. Entretanto, dado a vida que levam, algumas inclusive participando no comércio das drogas, o processo de criação dos filhos não envolve amplas redes de solidariedade como acontece com as demais mulheres, principalmente porque os moradores, de modo geral, preferem manter-se distantes dos traficantes e de suas várias famílias. Então elas enfrentam os cuidados com seus filhos de maneira mais solitária, embora contando com alguns apoios e certo conforto. Quanto aos jovens que se envolvem com o tráfico de drogas e/ou com roubos e furtos, eles costumam pensar que, assim que alcancem uma “renda fixa”, para usar seus próprios termos, já têm condições de constituir uma família. Explica um jovem: 22 A ascensão social também é muito grande através das armas. Você pegou uma arma, fez um assalto, levou o dinheiro pra sua comunidade, agora você já pode ter uma casa e botar uma mina dentro. Nem que você tenha mais mil outras mulheres. Aí você tem sua “renda fixa”. Aí rouba um motor à noite, que é a coisa mais fácil, mete os cano em alguém e volta. Isso é bem comum. Diante dessas condições, há jovens que se sentem encorajados, desde muito cedo, a assumir o sustento de um lar, e assim o fazem, mesmo com sua pouca idade, que é uma das características dos membros das gangues. À diferença dessas jovens, as que não estão envolvidas com traficantes vivem realidades em que, quando as crianças já podem ficar longe da mãe ou esta encontra com quem deixá-las, são elas que enfrentam o mercado de trabalho, se empregam e passam a sustentar a família. É mais comum isto acontecer com jovens com idade superior a 23, 25 anos. Geralmente elas se empregam como domésticas, o que torna ainda mais difícil encontrar alguém que fique com seus filhos, pois implica passar o dia inteiro fora, desde muito cedo até o final da tarde ou início da noite. Diante da separação conjugal, as reações das jovens são diversas. Algumas se animam para procurar um novo companheiro, o qual, segundo elas, tem que estar empregado, gostar do(s) seu(s) filho(s) e efetivamente assumir o sustento da família, como esta jovem mãe, desencantada com seu atual parceiro, revelou: Eu tinha vontade era de conhecer outra pessoa, que gostasse de mim, que quisesse me assumir mesmo, ter responsabilidade, eu queria. [...] Eu queria conhecer outra pessoa, gostar de outra pessoa, que gostasse das minhas filha, que trabalhasse, que me sustentasse... Se tu conhecesses essa pessoa, que te sustentasse e tudo, aí tu trabalharias fora também? Eu trabalhava. Botava minhas filha numa creche. Tenho vontade de botar na creche, o negócio é que eu não consegui, pra poder ajudar também. Não gosto de ficar muito tempo parada não. E tu achas que é legal mulher trabalhar fora? Acho bom... pra ajudar o marido. Porque tem marido que não ganha muito bem, aí não tem condição de dar o que a filha quer, aí a menina fica só na vontade, aí a mulher trabalhando já ajuda também. Já ajuda... Esses pensamentos, no entanto, parecem verdadeiros sonhos, pois, ao mesmo tempo, elas têm medo de novos relacionamentos. Para elas, significa “começar tudo de novo, conhecer outro homem, engravidar de novo, ficar nesse mesmo sofrimento”, como explica uma jovem. E acrescenta: “Gostar é fácil, difícil é esquecer”. Um novo relacionamento é sinônimo de filho, que, por sua vez, pode ser sinônimo de muito sofrimento para elas, que já conhecem o trabalho da maternidade. Após a separação, a idéia de recomeçar sua vida, para elas, geralmente implica pensar na presença de um companheiro. Nem mesmo para o imediato de suas vidas pós-casamento elas retiram a necessidade de um companheiro. É um dilema, pois, paralelamente, não 23 acreditam em uma nova relação em que consigam viver a sexualidade e se prevenir da gravidez. Por conseguinte, amar é igual a ter filhos, concluem as jovens. É após a maternidade que as jovens aprendem efetivamente a usar os métodos contraceptivos. Antes, elas tinham as informações, mas não sabiam como ter acesso discreto a preservativos e medicamentos. Quando elas mesmas afirmaram que só compreenderam bem como usar o anticoncepcional depois do primeiro filho, percebi que esta afirmação trazia consigo dois indícios. Um é que só depois do primeiro filho elas passaram a ter um interesse mais real sobre os métodos contraceptivos. O outro indício, articulado em suas próprias falas, é que, uma vez assumida publicamente sua condição de mulher com vida sexual ativa, tornouse mais fácil perguntar, tirar dúvidas, receber maior atenção de sua mãe para tratar deste assunto e receber orientação médica segura, que dificilmente recebem quando estão apenas namorando, pois não vão ao médico com este pretexto; afinal, não é fácil assumir a vida sexual, principalmente para uma jovem principiante, sem recursos financeiros, com poucas informações e sem ter internalizado um comportamento preventivo. Contudo, algumas jovens têm outras atitudes, como esta que, explicando o uso do anticoncepcional, disse: “Tinha noite que eu tomava, tinha noite que eu não tomava. (...) Você só pega filho quando Deus quer mesmo...” Para finalizar, é oportuno reafirmar que, enquanto o papel da mulher na sociedade, notadamente nos setores populares, estiver restrito à função de ter e criar filhos, o casamento continuará sendo, para muitas, um destino previamente traçado; para outras, espaço onde a maternidade deve ser exercida; e para terceiras, estratégia de libertação da tutela dos pais. Ao tempo em que para os homens, continuará se afirmando a paternidade descomprometida. Muitas das questões que se colocam na juventude e para a juventude concernem e expressam os modos de viver de cada sociedade. A instabilidade do emprego, a escassez de bicos, a liberalização de costumes são aspectos da realidade, dentre tantos outros, que conduzem, jovens e adultos, homens e mulheres, a dificuldades e enfrentamentos que assumem caráter de desafios. O devir em aberto, indiferente a planos de longo prazo, não é uma peculiaridade das juventudes, é um traço e um grande desafio das sociedades contemporâneas, que se torna menos difícil de ser enfrentado quando em condições de vida minimamente favoráveis. 24 Referências bibliográficas ALVITO, Marcos. As cores de Acari: uma favela carioca. Rio de Janeiro, FGV, 2001. ARIÈS, Philippe. História social da criança e da família. Trad. Dora Flaksman. 2. ed. Rio de Janeiro, LTC, 1981. BANDEIRA, Lourdes. Relações de gênero, corpo e sexualidade. In: GALVÃO, Loren e DÍAZ, Juan (Org.). Saúde sexual e reprodutiva no Brasil: dilemas e desafios. São Paulo, Hucitec; Population Council, 1999, p. 180-197. BAZTÁN, Aguirre A. (Ed.). Etnografía: metodología cualitativa en la investigación sociocultural. Barcelona, Editorial Boixareu/Marcombo, 1995. BERTAUX, Daniel. Les récits de vie: perspective ethnosociologique. Paris, Nathan, 1997. BRASIL. Ministério da Saúde. DATASUS. Disponível em: . 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