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Universidade Federal Fluminense Instituto de Ciências Humanas e Filosofia Departamento de História Trabalho monográfico de conclusão de curso Orientadora: Cecília

da Silva Azevedo Leitor crítico: Norberto Ferreras Aluno: Ricardo Poço Vianna

Fuck The Army:
O movimento de soldados e veteranos contrários à Guerra do Vietnã

UFF
Universidade Federal Fluminense

RICARDO POÇO VIANNA

Fuck The Army: O movimento de soldados e veteranos contrários à Guerra do Vietnã

Monografia Departamento Universidade

apresentada de Federal História

ao da

Fluminense

como requisito para a obtenção do grau de Bacharel em História

______________________________________________ Profª Drª Cecília da Silva Azevedo Orientadora

______________________________________________ Prof. Dr. Norberto Ferreras Leitor crítico

Niterói 2011

Agradecimentos

Não é que a História não me dê prazer na escrita, mas como é bom, depois desses últimos meses, voltar a escrever livremente sem a preocupação com as minúcias que a disciplina exige! E é mais do que justo usar essas primeiras linhas para aqueles que precisaram aturar meus sumiços, minhas preocupações e minhas idéias. Primeiramente, queria agradecer à Professora Cecília Azevedo, que despertou em mim o interesse pela história dos Estados Unidos logo no meu terceiro período, na disciplina sobre o dissenso americano. Devo-lhe muito também por ter topado me ajudar neste projeto ao longo dos últimos seis meses. Suas sugestões, correções e seu apoio não poderiam ser melhores e sou grato por tudo. Agradeço também à minha mãe por sempre estar lá desde que me entendo por gente. Ao meu pai que, mesmo quieto na dele, sei que se preocupa. Ao meu irmão, por me acordar ao falar que fez a monografia dele em três meses e que eu estaria perdendo tempo adiando a minha. Obrigado de verdade por me aturarem nesses últimos meses. À Helena, pelo apoio incondicional e por compreender minhas ausências e sequer reclamar delas, pois compreendia os benefícios que este trabalho me traria. Agradeço aos meus tios por também sempre darem força e mostrarem interesse em como estava o progresso da escrita. E Fernandinha, a próxima da fila é você! Aproveita agora! Aos meus avós, por serem maravilhosos e terem criado toda essa família. Se hoje eu consegui concluir este trabalho, isto se deve diretamente a tudo que vocês fizeram até hoje. Vô, esta monografia é para você.

67 ..............................................................6 A TRADIÇÃO PACIFISTA...................................45 CONSIDERAÇÕES FINAIS...........................1 O IMAGINÁRIO DA GUERRA E AS MEMÓRIAS SILENCIADAS......................................................................................................Sumário INTRODUÇÃO....................................................................................27 O VIETNAM GI.................................61 BIBLIOGRAFIA.......................................................................................................................................................................................................

your bomber is powerful. But it has one defect: It needs a mechanic. But he has one defect: He can think. General. But it has one defect: It needs a driver.General. man is very useful. Bertold Brecht . It flies faster than a storm and carries more than an elephant. He can fly and he can kill. General. your tank is a powerful vehicle It smashes down forests and crushes a hundred men.

no século XIX. Acesso em 3 de abril de 2011. um custo desnecessário de dinheiro e vidas. a Guerra do Iraque se (re)iniciava e. a situação iraquiana após a guerra.html. e não é uma escolha feita facilmente. o cenário não é novo nos Estados Unidos. independente dos limites que impomos. não tardou para que ocorresse uma onda nacional e internacional de reprovações – sobretudo quando descobriu-se que o Iraque não possuía armas de destruição em massa. que vieram a público em 2004 – a morte de civis e de soldados e. todavia. o Presidente Barack Obama autorizou uma “ação militar limitada” na Líbia. tendo em vista a violência de Muammar Kadhafi na repressão a seus opositores no país. Em 2003. De acordo com o presidente vencedor do Nobel da Paz de 2009. apesar do apoio nacionalista inicial que se seguiu após o 11 de setembro. o uso de tortura nos interrogatórios e os abusos cometidos na prisão de Abu Ghraib. 1 Obama autoriza ‘ação militar limitada’ na Líbia. para dizer o mínimo. As contradições e os escândalos envolvendo o Iraque e o Afeganistão em muito se assemelham aos relacionados ao conflito que iria assombrar qualquer outra empreitada posterior dos Estados Unidos em nome da liberdade: a Guerra do Vietnã. Quero que o povo americano saiba que o uso da força não foi nossa primeira escolha.com/obama-no-brasil/noticia/2011/03/obama-autoriza-acao-militar-limitada-na-libia-massem-tropas-em-terra. e marcaram o imaginário americano da guerra. Acompanharam a história americana desde pelo menos a guerra contra o México. São incontáveis os registros contrários a um dos conflitos mais polêmicos do século XX. por fim. Realizar uma intervenção militar em um país que poucos norte-americanos haviam ouvido falar até então e que mal sabiam localizá-lo num mapa parecia. Disponível em http://g1. o desrespeito aos direitos humanos – como os seqüestros e prisões ilegais. inicialmente. não são novidade. os custos exorbitantes. Estas tensões e questionamentos.Introdução No dia 19 de março de 2011. Questionava-se o porquê da invasão unilateral. mas sem tropas em terra. e dividindo opiniões na sociedade. Estou profundamente consciente dos riscos de qualquer ação militar.1 Criticado pelo Congresso – ao qual a Constituição reserva o direito de declarar guerra – por não ter esperado sua aprovação para atacar. 1 .globo. mas não podemos assistir enquanto um tirano diz a seu povo que não haverá piedade.

em 1967 chegavam os primeiros relatos dos combatentes. os elevados gastos. que também se inseriam no movimento antiguerra. associando jornalismo à investigação sociológica. Passou. Protestos pacifistas tomaram conta das ruas. 3 Fundada em 1865. The Nation ficou marcada também pelos célebres nomes que abrigou e pelas causas que promoveu. Embora a imprensa alternativa já criticasse a empreitada. como o Washington Post e o New York Times. Neste contexto. assumido explicitamente pela revista que se denomina “the flaship of the left”. em flagrante contraste com o que declarava publicamente. entre 1968 e 1970. entre outras – que formavam o quadro geral da contracultura da década de 1960. a grande e a pequena imprensa noticiaram dados e relatos das atrocidades. a televisão trouxe o napalm e as explosões aos lares americanos. em 1968.Principalmente após a Ofensiva do Tet. Nos anos 60. quando os primeiros veteranos regressavam do front. o FBI. assumiu uma postura ainda mais radical. ex-funcionário do Departamento de Estado. entre outros temas. busca trazer à luz a memória de soldados que lutaram no Vietnã e que transformaram suas opiniões e experiências no conflito em cartas e artigos publicados pelo jornal Vietnam GI. enquanto os jornais de esquerda. As críticas provinham de praticamente todos os lados. revelando negociações políticas e estratégias militares comprometedoras. não demorou para que as notícias sobre as atrocidades cometidas. como o The Nation3. a cultura de consumo. A chamada imprensa GI underground teve início em meados da década de 1960. as corporações. o respeito aos direitos civis. o altíssimo número de civis e soldados mortos e a duração do conflito colocassem grande parte da sociedade contra o governo e a guerra. O presente trabalho. a universidade gratuita. The Nation é a revista mais antiga dos Estados Unidos. a família suburbana. 2 . a liberalização das drogas. A imprensa de viés mais liberal. sob a direção editorial de Carey McWilliams. como os Papeis do Pentágono2. 2 Os Papéis do Pentágono foram parte de um relatório secreto de 7000 páginas sobre o envolvimento político e militar dos EUA no Vietnã entre 1945 e 1971 e que foram entregues ao New York Times por Daniel Ellsberg. Os Papéis revelavam que o governo expandiu deliberadamente seu papel na guerra. A partir de junho de 1971. o jornal passou a publicar uma série de artigos com trechos do documento. fazia-o junto a outras reivindicações – como o fim do racismo. assim. também surgiam em ritmo acelerado diversos jornais de menor circulação e que não chegaram a ser conhecidos do grande público. Além de seu perfil liberalleft. denunciavam o governo e a postura imperialista de seus representantes. por terem como público alvo soldados. então. os americanos só enviavam “consultores militares” ao Sudeste Asiático – e os convocados deveriam servir por pelo menos dois anos. a música folk e o rock compuseram a trilha sonora da oposição. veteranos vieram a publico contar suas experiências nefastas. passou a revelar informações secretas. aos direitos da mulher. a atacar o complexo industrialmilitar. a CIA. Como os Estados Unidos começaram a levar tropas regulares para o Vietnã em 1965 – até então. saindo da defesa para o ataque. a histeria nuclear e a repressão aos direitos civis.

Reportagens sobre o que acontecia nos Estados Unidos e artigos contrários à invasão completavam o periódico mensal. e passaria a assombrar as experiências militares americanas seguintes. Taxi Driver. seguida de várias cartas de soldados. O Vietnã 3 . em que a metáfora da ferida relacionava-se diretamente à divisão da sociedade após a guerra. contava com a contribuição de soldados e veteranos na sua produção. basta olharmos para a invasão americana no Iraque. enquanto essa memória não fosse elaborada. No meio acadêmico. a chacina de inocentes. A idéia de que o Vietnã era uma ferida na sociedade americana se estabeleceu. se mostra uma fonte riquíssima de memórias ainda inexploradas na historiografia brasileira e relativamente pouco investigadas por historiadores norteamericanos. O resultado negativo no Sudeste Asiático. Nascido em quatro de julho. comumente identificada como o início da desmoralização das operações militares no Vietnã. com dificuldades de se relacionar e encontrar um emprego. Embora os veteranos fossem os mais afetados. a impossibilidade de compreender as razões da guerra. Desconfiança da opinião pública. não foi esquecido. No que se refere aos motivos para a revisitação da Guerra do Vietnã no século XXI. o Vietnam GI. precursor da imprensa opositora à ocupação americana na Indochina. traumatizados pelas experiências passadas. era sustentada pelo argumento da Guerra ao Terror de Bush – à sombra do 11 de setembro –. feito inteiramente por pessoas diretamente envolvidas na Guerra do Vietnã. o que caiu por terra em 1968. conforme descrito acima. muitas vezes impactantes. O jornal era composto basicamente por uma longa entrevista em sua primeira página. o Vietnam GI surgira antes da Ofensiva do Tet. a Guerra do Vietnã tinha como justificava a luta contra o comunismo e pela liberdade. A análise do jornal em questão. Keith Beattie dedicou um importante trabalho ao tema. Dessa forma. junto de fotos. a inutilidade das missões. entre outros. Um índice que comumente explorou esta ferida foram os filmes sobre a Guerra do Vietnã e seus veteranos. desprestígio dos políticos. toda a sociedade estaria adoecida. Enquanto a Guerra do Iraque. para percebermos que o trauma não está de forma alguma superado. desde o processo de escrita até o envio para seus assinantes no front. apesar dos esforços. abusos de civis e de prisioneiros e a visão de uma guerra ilegítima estavam presentes nos dois conflitos citados. num primeiro momento. que representavam diversos pontos de vista sobre tópicos como o abuso dos oficiais.Junto do The Bond. Rambo e O francoatirador são alguns exemplos que mostram ex-combatentes deslocados da sociedade em que voltaram a viver. que tinha Jeff Sharlet como editor.

mesmo com os poucos recursos de seu editor e criador. por sua vez. Estados Unidos: New York University Press. estabeleceu um padrão de excelência para a época. de maneira a produzir uma radiografia do jornal e de seus participantes. Contudo a sombra do Vietnã parece ainda se projetar. uma vez que era direcionada aos soldados. 1998. Além disso. sabemos que o jornal funcionou de janeiro de 1968 a junho de 1970. que não pretendemos analisar no presente trabalho. A asserção do então presidente em tentar transformar a derrota em vitória serviria para não manchar a história de guerras bem-sucedidas dos Estados Unidos. contando com duas edições mensais a partir de agosto do ano de criação. Assim. Vários paralelos negativos foram traçados entre o Vietnã e a recente invasão do Iraque. mas também escrito pelos GIs e veteranos. através da longa seção de cartas dos leitores. o meio social de onde vieram. Um exemplo é a teoria de Ronald Reagan de que os americanos teriam vencido a guerra.teria deixado os Estados Unidos impotentes4. e a mobilização do governo para isso não foi pequena. Keith. trazendo estórias de quem realmente fazia história. Sobre a escolha do Vietnam GI para a análise. Logo. sua escolaridade. Buscaremos traçar o perfil dos soldados – se são brancos ou negros. optamos por fazer uma análise qualitativa das fontes. tinha um viés trotskista que o tornava similar a outros da esquerda dogmática. 4 Ver BEATTIE. The Scar That Binds: American Culture and the Vietnam War. O Vietnam GI. O jornal The Bond. H. Outra inovação do periódico foi o público-alvo – formado por soldados no Vietnã. o jornal não era só lido. apesar de precursor na imprensa GI. a cura desta ferida seria fundamental para a saúde da cultura americana. A circulação do jornal. No que concerne à viabilidade da pesquisa. 6 FRANKLIN. ao mesmo tempo em que facilitaria a entrada em novos confrontos. p. que chegou a um pico de 10 mil leitores no primeiro ano 6. a forma de sua escrita (estilo narrativo. o que leva a crer que existam cerca de 50 publicações. e não por aqueles em solo americano 5. também é expressiva para o gênero. Estados Unidos: University of Massachussets Press. justifica-se primeiramente pela riqueza histórica de seu conteúdo. todavia. uma vez que tiveram sucesso na maioria das batalhas. 106 4 . explorando-as ao máximo. 5 Em agosto de 1968. evidenciando o pessimismo e a existência da ferida até os dias de hoje. 2001. podemos acessar um pequeno número dessas fontes. Vietnam and Other American Fantasies. Pela internet. que já permitem uma profunda análise da estrutura e do conteúdo geral do jornal. Bruce. o periódico crescera tanto em popularidade que uma segunda edição passou a ser veiculada para GIs nos Estados Unidos.

buscamos mostrar a guerra por quem esteve lá. inúmeros filmes sobre o tema foram feitos. poesia e até tatuagens de soldados e veteranos. pelos absurdos retratados pelos soldados. etc. um esquecimento induzido da Guerra do Vietnã – a partir da lembrança e do enaltecimento da Segunda Guerra Mundial. mostrando diferentes pontos de vista sobre a identidade cultural americana e os efeitos da Guerra do Vietnã na sociedade. como os documentários. 5 . Como citado acima. além do conteúdo de seus relatos. Com o objetivo de dar voz a memórias silenciadas. a viabilidade das fontes e a originalidade da pesquisa. As análises deste tipo de fonte foram igualmente amplas. ainda é muito pouco explorada. O posterior processo de cicatrização foi conduzido principalmente pelo governo – para melhorar sua imagem e não ter tantos empecilhos em futuras empreitadas militares – e por parte dos veteranos – a fim de reverter a imagem negativa que os assombrava desde o retorno do front7. tendo em vista a relevância do tema atualmente. o papel da televisão. as impressões que tinham sobre o jornal que veiculava suas experiências. as diferenças afloraram. quanto no Brasil. Assim. rastros e lembranças indesejáveis. de John Carlos Rowe e Rick Berg. poderemos ver os problemas da guerra e seus efeitos psicológicos nos jovens combatentes de então. a música. mitos foram quebrados e a insatisfação se tornou generalizada. Mas não se pode esquecer que cicatrizes. o que poucas fontes tem podido revelar.vocabulário. analisando a vietnamnesia – ou seja. as memórias destes ex-soldados são múltiplas. embora tratemos aqui principalmente da imagem negativa atribuída aos veteranos. como veremos. Gary Gerstle também explora o tema. uma vez que variam de acordo com a experiência específica de cada um e da forma como a elaboraram e a utilizaram depois. segue este caminho. reunindo diversas representações da memória da guerra na cultura americana.). entre outros tópicos. E se estas lembranças remetem ao aspecto negativo dos conflitos militares e podem dificultar intervenções futuras. 7 Vale destacar que. o presente trabalho se mostra historicamente relevante. Consideramos que esse esforço é válido pois trataremos das memórias destes combatentes no contexto da guerra. suas aflições. possui. A obra The Vietnam War and American Culture. Muitos são os trabalhos sobre a memória e o trauma dos Estados Unidos com o Vietnã. apesar do valor que. tanto nos Estados Unidos. seu posicionamento diante da guerra. Mais que isso. é essencial recordá-las. A pesquisa sobre a imprensa GI underground. Com a ferida aberta. O Vietnã deixou marcas indeléveis no imaginário americano da guerra.

13. Contudo. Revista Tempo. optamos por analisar o momento a que se referem. é importante mostrar como a memória da guerra foi trabalhada ao longo das décadas pelos norteamericanos. Ao contrário do que o significado da palavra mito pareça sugerir a priori. a guerra mostrou-se central nas mentes dos americanos que queriam forjar uma nação liberal. O imaginário da guerra Da investida de Theodore Roosevelt à colina de San Juan Hill. uma vez que é preciso interpretá-las de acordo com a época em que foram feitas. seus portavozes. de forma a demonstrar a importância do estudo destas memórias e o lugar do Vietnam GI neste quadro. Justamente por este motivo. Julho. com intenções igualmente plurais. 8 Todos os mitos são historicamente construídos. Eles são passados de geração em geração por um processo não-racional que é análogo ao procedimento de transmissão da linguagem. Na sombra do Vietnã: o nacionalismo liberal e o problema da guerra. por diferentes grupos de pessoas. de modo geral. para evidenciar como o conflito no Sudeste Asiático impactou uma série de mitos que influenciavam a postura da sociedade e dos diferentes governos dos Estados Unidos com relação ao mundo. Em meio a estes tópicos. 38 6 . o resgate de algumas memórias. não podemos incorrer no erro de misturar as memórias de diferentes décadas. em 1898. Porém. 8 GERSTLE. 2008. teceremos comentários relativos ao imaginário da Guerra do Vietnã nos Estados Unidos. cabe reavivarmos as múltiplas memórias do Vietnã. primeiramente. Kennedy. Mais que isso. faremos uma análise do imaginário da guerra. e complementares em outros casos. por vezes conflitivas entre si.O imaginário da guerra e as memórias silenciadas Antes de adentrarmos pela memória escrita dos veteranos no Vietnam GI. nº 25. a intenção de seus relatos e atitudes e o impacto que tiveram na sociedade. p. Gary. Vol. existentes em diversos veículos. escolhemos fazer. até o patriotismo da Guerra Fria de John F. Com isto em vista. passando pela celebração do pelotão multiétinico da II Guerra Mundial. neste capítulo. que nos permitem ver a ampla gama de discursos sobre aquela guerra que dividiu a nação de forma somente vista antes durante a Guerra Civil.

Edward McNall. dado que todos os homens eram irmãos. Tornou-se honroso morrer pelo país. p. 10 BURNS. Muitos dos mitos que compõem o imaginário coletivo serviram para dar legitimidade a esse povo que começou a “construir o seu destino” de forma tardia no do contexto histórico ocidental. transcendentes à história. pois todos os mitos fazem parte desta. Estados Unidos: Rutgers University Press. 1957. The American Idea of Mission: Concepts of National Purpose and Destiny. 259 7 . Edward McNall. ou pelos direitos de alguma classe ou até para disseminar a liberdade pelo mundo. as a chosen nation with a mission to guide and instruct and even to rule “savage and servile” peoples. entretanto.não se deve opor mito à realidade. (…) Americans have conceived of their Republic as the handmaid of Destiny. 2001. como ressalta Edward Burns. to intervene to assist them. Os Estados Unidos foram fundados por mitos que possuem um traço em comum: o enaltecimento da excepcionalidade inerente às experiências desta nação.11 Ana Paula Spini complementa. p. a narrativa de origem deste povo está permeada por uma concepção judaico-cristã de “povo escolhido”9. Quanto aos iluministas. To accomplish such a mission it would be necessary for America to express her sympathy with the victims of repression. puritanos e Quakers opunham-se a qualquer conflito. Embora a dor. 237 11 BURNS. and even to overthrow autocratic and militaristic regimes that stood as obstacles to the spread of liberty and civilization. A situação foi revertida quando a Revolução Francesa e a Revolução Americana estabeleceram ser justo o derramamento de sangue para se atingir certos fins. afirmando que o mito da guerra seria permeado de poesia e religiosidade. Como muitos dos pioneiros que adentraram na América pela primeira vez possuíam uma religião e uma ética a ela associada. Para Burns. portanto. São Paulo: Editora Martin Claret. representando eles “fórmulas” utilizadas no âmbito de uma comunidade imaginária para a organização e entendimento do mundo real pelos membros da mesma. era indigna de homens que afirmavam seguir a natureza humana10. a guerra não era vista como uma empreitada benéfica. Por este mesmo motivo eles acabam soando atemporais. Idem. o sofrimento e a morte façam parte 9 Ver WEBER. em que homens honrados. estes criticavam a guerra por se tratar de algo inumano e irracional e. A ética protestante e o espírito do capitalismo. Max. Até a Revolução Americana. corajosos e competentes se unem em prol da liberdade e da justiça. Por conta de valores morais e religiosos.

desta “cruzada democrática”. 1 13 GERSTLE. Op. a segunda por ampliar a liberdade ao acabar com a escravidão. p. o que ao invés de reduzir seu apelo. tal regulação seria feita através da força. A repressão e a democratização. intensificando a devoção popular aos seus ideais democráticos. em tempos de guerra. p. além de visar sempre o progresso. p. anos em que os Estados Unidos entraram. Gary. não estavam mais iludidos do que a grande maioria de seus cidadãos. 2006. Cit. independente e democrática. os governos estavam fazendo a coisa mais lógica de acordo com seu imaginário: interferir e dar fim à situação insustentável das guerras. Como destaca Burns. sobretudo a Segunda Guerra Mundial. Ana Paula. seria responsável por levá-lo ao mundo. As guerras do século XX viraram ocasiões para se celebrar a grandeza da América. cobre-o de uma aura religiosa12. 38 14 BURNS. o sucesso em todas as guerras que os Estados Unidos participaram até meados do século XX contribuiu para tal crença. As mobilizações. respectivamente. Campinas: VII Encontro Internacional da ANPHLAC. 2006. também liberaram instintos repressivos. Evidentemente. uma autoridade para remediar as desigualdades sociais e econômicas no mundo em nome de um ideal de justiça e segurança. Edward McNall. Em 1917 e 1941. na medida em que os liberais procuravam conter ou eliminar aqueles que rotulavam como ameaças internas. eles são inerentes ao conflito. Op. 257 8 . O uso da força como forma de resolver problemas mais complexos apresentava-se como um dos mitos americanos mais fortes. que estava autorizado a remediar as desigualdades econômicas e sociais em nome da justiça e da segurança. Exemplos desta aura do mito da guerra são os constantes resgates feitos da Revolução de 1776 e da Guerra Civil – a primeira por consolidar a nação liberal. A concepção de um “povo escolhido” sugeria a invencibilidade e de nação que. uniram o nacionalismo liberal ainda mais à dinâmica política da guerra. Cit.14 12 SPINI. Afinal. se Deus escolheu este povo para regular os problemas mundiais. na Primeira e na Segunda Guerra Mundial. Nas palavras de Gary Gerstle. As guerras legitimizaram a idéia de um Estado liberal. In: VII Encontro Internacional da ANPHLAC. juntas. Memória cinematográfica da guerra do Vietnã.13 Daí se depreende que as guerras legitimaram a idéia de um estado liberal e isso acabou consolidando no imaginário norte-americano o sentido de um destino missionário. se os presidentes estavam se iludindo. e abrindo a nação para grupos que tinham sido marginalizados.

68 17 BURKE. por exemplo. mas sim caminhos pelos quais o inimigo poderia chegar aos Estados Unidos. os líderes americanos trataram de convencer a nação de que o ataque preventivo seria a melhor opção15. Um artigo de noticiário. 269 Apud BURKE. Cit. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. no contexto da Guerra Fria. por outro lado. às vezes se torna parte da vida de uma pessoa.A justificativa da Guerra do Vietnã residia nesta premissa de levar a democracia aos países do Terceiro Mundo e. o que negava o tão celebrado caráter missionário e de pureza. Para elucidar mais especificamente esta turbulência no mito da guerra. Ou seja. Além disso. se identificam com os acontecimentos públicos relevantes para o seu grupo16. 70 9 . Cit. Peter. Nas palavras de Peter Burke. no sentido literal da expressão. os indivíduos “lembram muito o que não viveram diretamente. após o 11 de setembro – não serviam mais como proteção ao país. História como memória social In: Variedades de história cultural. são os grupos sociais que determinam o que é “memorável” e as formas pelas quais será lembrado. esta memorização seletiva pode determinar como um evento será interpretado no momento e lembrado no futuro. Peter. A motivação da guerra não era convincente. Edward McNall. Daí. faremos a seguir um resgate de situações relacionadas ao Vietnã em que as memórias evidenciam esta transformação no imaginário da guerra. Uma das motivações iniciais também foi o antigo dogma de que os oceanos – e também os céus. combater o comunismo e implantar o liberalismo. p. Sob a suposta ameaça comunista. Op. Os indivíduos. p. a “estrutura social da memória” seria formada substancialmente pelos indivíduos e pelos grupos sociais. p. notícias sobre absurdos cometidos pelos oficiais. o Vietnã foi um episódio que abalou toda a estrutura mitológica da guerra nos Estados Unidos. A guerra vai aos lares De acordo com o sociólogo francês Maurice Halbwachs. Embora sejam os indivíduos que lembram. 15 16 BURNS. a invencibilidade acabara. Op. 2000. nem clara. bem como a destruição de vilas e assassinato de civis chegavam de forma incessante. pode-se descrever a memória como uma reconstrução do passado”17. a duração do conflito colocava em dúvida o verdadeiro poder de combate das tropas. o número de feridos e mortos ultrapassara qualquer realidade antes vivida pelos americanos. Entretanto.

De acordo com Chester Pach. Rick. mortes e sangue para os lares americanos. de modo a enfrentar os jornalistas que supostamente deturpavam os acontecimentos no Sudeste Asiático. Isto fez com que o Vietnã se tornasse a primeira guerra televisionada. algumas coberturas 18 PACH. Estados Unidos: University Press of Florida. Esta. democratas e republicanos desferiam-lhe críticas ao seu governo e à condução da guerra. em 1965 e 1966. John C. Esta foi uma estratégia adotada pelo governo de Johnson para mostrar que os Estados Unidos estavam. “We Need to Get a Better Story to the American People” In: Selling War in a Media Age: The Presidency and Public Opinion in the American Century. no entanto. mostrando “realmente” o que acontecia19. 1991. 172 19 BERG. & BERG. The Vietnam War and American Culture.18 Ao invés de explicarem os motivos para a guerra com palavras escritas. em parte pela ignorância dos mesmos jornalistas e do povo americano. na verdade. Covering Vietnam in an Age of Technology. Ainda assim. In: ROWE. embora já existisse ao final da Guerra da Coréia. Tal fato influenciava o teor dos programas televisivos sobremaneira. O terreno desta guerra doméstica foi a televisão. por outro lado. só se tornou popular nas casas americanas ao longo da década de 1960. acreditava que as informações divulgadas eram distorcidas e tendenciosas. na década de 60. em parte pela falta de apoio dos repórteres. ao final de 1967. 2010. cumprindo seus objetivos no Vietnã. Como destacou Rick Berg. exibiam documentários e notícias sobre o que acontecia com imagens captadas diretamente do front. A desconfiança dos jornalistas. Rick. os jornalistas não tardaram a questionar a credibilidade de tais informações e pequenos programas questionando a guerra foram feitos. fora construída pelo próprio governo. O problema para o Presidente era que. sendo “mais críveis” na proporção de 2 para 1. 10 . Chester. liberais e conservadores. Cada vez mais. os americanos buscavam nos documentários e matérias da televisão a explicação para uma guerra estranha e complicada. em 1953. p. o jornalismo televisivo. levando cenas de batalha.E foi exatamente isto que Lyndon Johnson tentou fazer com a Campanha para o Progresso entre 1967 e 1968. criava uma “ilusão de realidade”. o que minava o seu já fraco apoio. O governo. em “We Need to Get a Better Story to the American People”. além de terem acesso às informações fornecidas por briefings de Saigon. as televisões ganharam mais espaço que os jornais. O crescimento do poder da televisão foi percebido por Lyndon Johnson. Enquanto em 1965 os repórteres tinham um trato com a administração de não cobrir falhas ou perigos para os soldados em troca de transporte e entrevistas com oficiais. Nova York: Columbia University Press.

p. em meados de 1967. como a demonstração de coragem. cidades e chegou até a Embaixada norte-americana. mas não impediram o sucesso temporário da Campanha para o Progresso. feliz. Op. com a cobertura dos acontecimentos pelos telejornais. Dizia ver uma luz no fim do túnel. Chester. estaria próximo. Chester. Embora pouco expressivos. assim. que a idéia de um beco sem saída era propaganda comunista e que a cobertura da guerra pelas emissoras era parcial e vingativa. LBJ foi ofensivo. obviamente. 188 11 . em janeiro de 1968 ocorreu a Ofensiva do Tet – ataque massivo surpresa dos vietcongues que adveio de vilas remotas. Cit. A solução mais plausível foi o planejamento e aplicação da Campanha para o Progresso – medida que visava “sair do beco” e promover a reeleição de Johnson. os dados mostram que a estratégia teve relativo efeito. a Campanha para o Progresso fora um conjunto de mentiras. visava criar a história oficial do Vietnã. campos de concentração. Entretanto. que o final. A Campanha. 176 PACH. Segundo o então presidente. Op. a guerra televisiva entre o governo e as emissoras passou a minar o pequeno apoio que Johnson tinha. Reportagens sobre os problemas e falhas do Vietnã abundavam com a descrença dos jornalistas. p. Entretanto. vendendo a imagem de que os Estados Unidos estavam vencendo as batalhas. Subitamente. A expressão mais utilizada pelos jornalistas e que deu a tônica do momento vivido por Johnson em relação ao Vietnã era a de um “beco sem saída”. criando. ficou claro que o Vietnã era mais mortal e perigoso do que se noticiava e que. o motivo para que sua política de guerra tivesse se tornado impopular foi o fato de que a Guerra do Vietnã havia sido a primeira a ser 20 21 PACH. O descontentamento com a política de Johnson caíra de 50% no verão de 196720 para uma margem de 38-49% ao final do mesmo ano21. A censura pelo governo não era uma opção. A idéia do beco sem saída voltava a ser a melhor tradução da realidade. O programa de pacificação das vilas e cidades vietnamitas era exibido como um desastre. Os programas contrários a guerra continuavam. já que seria contraditório – por ser uma medida atribuída aos comunistas. motivo mesmo da guerra do Vietnã – e apenas resultaria em mais críticas. Cit. na realidade. de compaixão e da tecnologia militar. A guerra televisiva fora perdida por Johnson.da guerra possuíam elementos caros a Johnson.

Pela sua dimensão. posteriormente. o investimento poético na guerra que é efetuada por uma nação só é possível quando ao final do conflito ela sai vitoriosa e reconhecida pela sociedade como um confronto justo e necessário.televisionada22. as perspectivas de apoio a uma próxima guerra – até então com mais chances de ser vista como positiva ou mesmo 22 23 PACH. Retomemos a afirmativa supracitada de Peter Burke. Isto rompeu para sempre com a forma com que os americanos veriam a guerra e o seu envolvimento nela. 24 Não foi possível essa construção nas circunstancias vividas pelos Estados Unidos após o confronto. principalmente com todas as avaliações negativas das ações do país e de seus representantes no campo de batalha. aliados à má condução do conflito. Com o Exército em baixa frente à opinião pública. as supostas distorções e a ignorância dos jornalistas e do povo pelo fracasso de sua Campanha para o Progresso. em março de 1968. e uma pesquisa de opinião pública à época mostrou que a maioria da população apoiava o perdão. A memória vencedora do massacre condenou o exército norte-americano. o conflito entre os jornalistas e o Presidente teria fim quando um dos dois lados conseguisse “vender” ao público a interpretação considerada mais plausível e condizente à realidade da Guerra do Vietnã. em que soldados americanos promoveram a morte de pelo menos 347 civis desarmados.. 190 No entanto. Ana Paula. segundo Chester Pach. outros foram cometidos. Cit. e a mídia não tardou a publicá-los ou transmiti-los. mas também a do norte-americano. p. Um evento que pode ser pensado como decisivo para esse resultado foi o trágico episódio da aldeia de My Lai. e não era somente a imagem da guerra que precisava ser revista após esse acontecimento. Como ressaltou Spini. Cit. Embora na época a disputa fosse determinante para definir o apoio à reeleição de Johnson e o apoio à guerra. Nixon perdoou o oficial responsável pelo massacre. de quem ele realmente era. Johnson não conseguiu vender a guerra ao público americano. 24 SPINI. Chester. não poderia ser esquecido23. a de que um artigo de noticiário pode vir a se tornar parte da vida de uma pessoa e definir como determinado evento será lembrado pelo indivíduo. Além disso. Op. 1 12 . Muitos dos mitos que estruturavam o seu imaginário foram abatidos. fizeram com que as emissoras se saíssem melhor na consolidação de sua visão e da memória que a sociedade civil americana levaria como lembrança de uma guerra perdida. Em outras palavras. Além deste genocídio. culpou o sensacionalismo. p. um conjunto de fatores e de relatos. Aplicado ao caso apresentado. Op.

Dentre eles. Por ter vivido ao longo de 93 anos. podemos citar o aumento expressivo de bombardeios e da entrada de tropas americanas. analisaremos o filme Sob a névoa da guerra – filme no qual o Secretário de Defesa dos governos Kennedy e Johnson. McNamara. Como membro do governo entre 1961 e 1968. Por fim. que havia traçado uma estratégia na qual o número de vietcongues era reduzido e a contagem dos corpos demonstraria o quão perto os Estados Unidos estavam da vitória. Como exemplo mostrado no documentário. participou ativamente da Guerra do Vietnã. Seriam necessárias quase duas décadas – o período denominado de “síndrome do Vietnã”25 . segundo o documentário. Além disso.e uma amnésia seletiva dos problemas desta guerra para que os Estados Unidos voltassem a atuar em um novo grande conflito: a Guerra do Golfo. e lamento muito que ao tratar de conseguir certas coisas. podemos citar o aumento do número de assessores militares no Vietnã de 900 a 16 mil. o Vietnã. o episódio do Golfo de Tonkin – em que navios norte-vietnamitas foram falsamente acusados de atacar navios americanos – também foi utilizado por McNamara para mostrar ao Congresso e ao público a necessidade de medidas mais ofensivas. A memória culpada “Estou muito orgulhoso de minhas conquistas. A intensificação da guerra estava dentro dos planos de McNamara. McNamara presenciou a maioria dos conflitos em que os Estados Unidos se envolveram no século XX e XXI. chegou a 535 mil homens em junho de 1968. 13 . como medida preventiva ou caso existisse alguma ameaça.. criando estratégias – tornando-se responsável por muito do que acontecia no Sudeste Asiático.vir a ser cultuada – eram muito reduzidas. esta longa reelaboração das memórias será vista mais adiante. Robert McNamara – conhecido como o arquiteto do Vietnã – discursa sobre eventos relacionados à Guerra Fria. 25 “A síndrome do Vietnã” foi uma expressão utilizada por Ronald Reagan para designar o período em que o país optou por uma política externa não-intervencionista após o Vietnã. Porém. Por ora. durante o ofício do Secretário. estruturando ações. No filme Sob a névoa da guerra: onze lições da vida de Robert S. tenha cometido erros”. esta é uma das últimas frases a serem proferidas pelo ex-Secretário de Defesa. que.. Tal fato resultou na autorização do Congresso ao Presidente para atacar livremente.

Eu só senti que estava servindo a um Presidente eleito pelo povo americano. Enquanto o entrevistado declara que errou várias vezes na condução de seu trabalho e – segundo ele – fez o mal para poder atingir o bem. O caminho pensado por McNamara. Alemanha. [Pergunta]: Até que ponto o senhor sentiu que foi o autor das coisas ou apenas o instrumento de forças fora de seu controle? [Resposta]: Eu não senti nenhuma das duas coisas. Dirigido por: Errol Morris. Somos a nação mais poderosa do mundo. O aumento considerável do número de mortos americanos contribuía para a desconfiança.) com os vietnamitas. alguns erros cometidos pela administração são apontados pelo próprio McNamara. De 1h 22min 40s à 1h 23 min 10s. como os franceses e que buscávamos submeter o Vietnã do Sul e do Norte aos nossos interesses coloniais. assim. por sua vez. responsabilidade e culpa são separados. McNamara. Nenhum aliado nos apoiou. Mas nunca devemos aplicar esse poder militar e econômico unilateralmente. Eles achavam que vínhamos para colonizar.26 Ainda assim. Nós. Como se referiu ao ocorrido no Vietnã. De 1h 17min 55s à 1h 18min 26s. McNamara. McNamara deixou o cargo em fevereiro de 1968. Distribuído por Sony Pictures Classics. por outro lado. 2003. Se tivéssemos observado essa regra no Vietnã. Se não podemos convencer as nações com valores parecidos com os nossos. sem que negue seus erros. Inglaterra. sobretudo quando se fala do Vietnã. 14 . não os conhecíamos o suficiente para ter empatia.No entanto. Após enviar uma carta a Johnson comentando sobre a busca de outros meios que não o militar para o desfecho da guerra. ninguém. Durante a entrevista. devemos reavaliar nosso raciocínio. 28 Idem. não teríamos estado lá.27 (. De 1h 20min 48s à 1h 21min 34s. muitas vezes cogitando o que deveria ter sido feito. Erro. o quadro que se formava tornou o Secretário de Defesa cético quanto a se os objetivos estavam ou não sendo cumpridos. mas sem se declarar diretamente culpado.. víamos o Vietnã como um elemento da Guerra Fria. Título original: The Fog of War: Eleven Lessons from the Life of Robert S. França.. Nem o Japão. o exime da culpa. E era minha responsabilidade tratar de ajudá-lo a executar seus deveres como ele achava ser de interesse do nosso povo. a responsabilidade por tais atos caberia ao presidente que. McNamara explica o porquê de certas decisões. 27 Idem. o que era absurdo. E os julgamos totalmente errado.28 26 Sob a névoa da guerra: onze lições da vida de Robert S. Eles se viam numa guerra civil. fora eleito pelo povo.

29 O que seria esta natureza humana a que McNamara se refere? A guerra realmente faria parte do ser de todos os indivíduos? Seria uma necessidade inevitável que de tempos em tempos deveria ser cumprida? Ou. Ou seja. Grifo nosso. Sim. De 1h 40min 16s à 1h 41min 31s. e se ele se sentia responsável e culpado pela guerra. Significa que a guerra é tão complexa que está fora do alcance da mente humana entender todas suas variáveis. 15 . Não sou tão ingênuo para crer que podemos eliminar todas as guerras. são ensinamentos que deveriam servir como orientação para atitudes futuras. O entrevistado. Não é que não sejamos racionais.Porém. mesmo no ano em que o documentário foi produzido. Mas a razão tem limites. somos. [Woodrow] Wilson disse: “Ganhamos a guerra que pôs um fim às guerras”. é “consertado” por McNamara. se nega a responder ambas as questões. Lições. por mais que esse tenha sido fortemente abalado pelo Vietnã. Em outras palavras. as frases do ex-Secretário ganham outro sentido A percepção de que os Estados Unidos não alterariam “sua natureza”. Qualquer resposta “causaria problemas” a si. A recusa de McNamara em respondê-las serviu como meio de preservação de alguém que teve uma participação crucial no conflito. embora silenciada. o mito da guerra. McNamara é questionado sobre o porquê de seu silêncio sobre o Vietnã. só traria “mais controvérsias” à tona. 29 Idem. antes de ser abandonado pelo fracasso no Sudeste Asiático. e cuja culpa. Há uma expressão maravilhosa: “a névoa da guerra”. existia. Segundo o próprio. então. e portanto não cessariam de perseguir sua missão mundial de levar ou preservar a justiça e a democracia se torna mais plausível. nossa compreensão. A racionalidade. será que McNamara quis se referir ao mito norte-americano da guerra? Por este viés. A Guerra do Vietnã era tão complexa que qualquer comentário vindo dele “soaria mal”. A natureza humana não mudará tão cedo. após deixar o governo. por definição. embora exista. em 2002-2003 – próximo ao início da guerra do Iraque – a retomada de questões mais polêmicas sobre o Vietnã ainda poderia trazer problemas. Nosso juízo. ao final do filme. não impede que o ímpeto missionário americano dê a tônica em futuras intervenções. por outro lado. Ao mesmo tempo. E matamos gente sem necessidade. as onze lições aprendidas e passadas por McNamara não derrubaram o mito da guerra. não são adequados.

Assim. Cit. os veteranos não raro eram vistos como promotores da fragmentação. estará machucada. outros como incompetentes perante o desastre e muitos como desajustados – o que. Na metáfora da ferida. 30 31 BEATTIE. a desunião e as diferenças da nação mostram seu estado doentio: “a divisão não é resultado da ferida. Os Estados Unidos pretendiam difundir a idéia de que a derrota no Vietnã. é fundamental para a saúde da cultura americana. aliado com o próprio trauma da guerra nos veteranos. na medida em que chegavam notícias e relatos sobre atrocidades cometidas no Sudeste Asiático. Cit. foi uma derrota definida em casa. uma nação saudável é aquela que é unida. E não tardou para que o governo buscasse reverter esta imagem. p. A cura desta. As diferenças expostas pela guerra teriam deixado os Estados Unidos impotentes. 21 16 . assim. A impotência dos Estados Unidos na guerra.30 Apesar de os veteranos serem os portadores mais óbvios desta chaga. Em outras palavras. 20 BEATTIE. o governo denegria a imagem do movimento antiguerra. a integridade se refere à unidade da cultura que certa ideologia reforça. p. com a intenção de recuperar o prestígio existente pré-Vietnã e o apoio do povo para novas empreitadas. Durante a década de 1970. criou-se uma imagem negativa dos combatentes que retornavam à América. Keith. ela é a ferida”. para o autor. A imagem da “punhalada nas costas” alimenta a tese de que certos grupos domésticos foram responsáveis pela derrota militar dos Estados Unidos no Vietnã. como um todo. a sociedade. Richard Nixon sugere que estes grupos fizeram do país um “gigante compassivo. o governo americano tentou explicar a derrota no Vietnã através da idéia da “punhalada nas costas”. enquanto as diferenças existirem. Neste turbulento contexto.Veteranos e memória As memórias sobre os veteranos da Guerra do Vietnã não escaparam às divisões internas aos Estados Unidos. Em decorrência disso e pelo fracasso na guerra em si. o impacto da Guerra do Vietnã na sociedade americana é descrito por Keith Beattie como uma ferida. entre aqueles que seriam julgados em parte como os responsáveis – os veteranos – e o resto da população. seria resultado dessa traição. Keith. antes de qualquer coisa. Uns eram vistos como criminosos. A ferida cria uma dicotomia na sociedade. desamparado”31. contribuiu para a construção de seu estereótipo. que atravessava por um longo período de crise. Como visto em nossa introdução. Op. Op.

33 Richard Nixon defende que a derrota só veio quando o Congresso ignorou termos específicos dos Acordos de Paz de Paris e recusou enviar ajuda militar a Saigon como aquela enviada pela União Soviética a Hanoi. Stephen Vlastos aponta que há tantas explicações quanto autores. Nixon culpou a imprensa liberal por limitar o apoio das pessoas em guerras “tipo as do Vietnã. a mídia também teria um papel importante na derrota americana. Rick. Para o revisionismo. Op. In: ROWE. Nova York: Columbia University Press. Cit. Norman Podhoretz. minimizando a perda de prestígio. tentou denegrir o movimento antiguerra. conforme visto no item anterior. 68 17 . já que isso ignora a vitória de um pequeno país sobre um gigante e atribui a derrota a falhas próprias. Como já vimos e ainda veremos no próximo capítulo. 32 33 BEATTIE. Por outro lado. para um povo tão identificado com a ilusão da onipotência da nação. John C. A direita acreditava na culpa da mídia. 1991. explicar a derrota em termos de mobilização limitada do poderio militar salvaria o orgulho nacional ferido. America’s “Enemy”: The Absent Presence in Reviosionist Vietnam War History. p. mas lamentou a perda de prestigio que a guerra trouxe para a América. especialmente no papel que a televisão desempenhou. & BERG. explicar o fracasso da guerra a partir dos próprios erros é central. Ao mesmo tempo. também repreendeu a imprensa por “assumir que quase tudo que um porta-voz americano ou qualquer líder ocidental falasse era provavelmente mentira”. A derrota também teria vindo com a sensação de medo e insegurança no Pentágono e na Casa Branca.De acordo com a tese da “punhalada nas costas”. o movimento pacifista e anti-guerra também foi usado como bode-expiatório para justificar o fracasso no Sudeste Asiático. Keith. Para tentar se isentar de culpa. o governo. os autores não conseguem entrar em acordo em relação a isso. tendo sido o primeiro conflito em que o país foi derrotado. para aqueles que se opunham a ela. p. De acordo com Vlastos.32 O que se viu no discurso da historiografia revisionista e de alguns líderes americanos na década de 1970 foi uma tentativa de deslocar a culpa da derrota daqueles que apoiavam a guerra. neste período. Entretanto. Stephen. ou seja. 22 VLASTOS. Autores revisionistas diversos dizem que o erro fatal da administração Johnson no que se refere ao Vietnã foi ter optado pela escalada gradual de ataques aéreos. The Vietnam War and American Culture. teórico americano conservador. em defesa da liberdade de nosso próprio país”. a historiografia revisionista – que surge neste cenário em resposta àqueles autores da Nova Esquerda – permaneceu indiferente diante da morte de milhões de vietnamitas e da destruição do Vietnã.

O processo de cura das feridas deixadas pela guerra teria como parte fundamental o esquecimento cada vez mais rápido de questões políticas, morais e sociais envolvendo a guerra e seu impacto na cultura americana. Tais questões tinham de ser esquecidas, resultando na “perda” da memória, definida por Beattie como Vietnamnésia – isto é, um “esquecimento induzido”.34 O governo era o principal responsável por este apagar das memórias negativas. O presidente Ford, em abril de 1975, declarou “A guerra terminou, até onde diz respeito à América. Esses eventos, por mais trágicos que sejam, não significam nem o fim do mundo, nem a liderança norteamericana sobre ele”. Kissinger toma a mesma direção que o presidente, e instiga as pessoas a deixarem o Vietnã para trás e se concentrarem apenas nos problemas futuros. Em 1989, George Bush também declarou em seu discurso de posse que a América precisava esquecer a memória disruptiva do Vietnã35. Entretanto, é preciso perceber que o esquecimento proposital dessa memória extingue, gradualmente, os efeitos da guerra e pode ser traduzida em uma forma de morte simbólica de todos aqueles que dela participaram. O veterano não só está morto, como também nunca existiu. O simples fato de caracterizar a guerra em termos de uma “tragédia” é parte desta estratégia de esquecimento, pois, a expressão “derrota”, para Walter Benjamin, tem o potencial de mudar uma nação, caso ela esteja disposta a confrontar a idéia da derrota – o que não era a intenção do governo. Desta forma, quando do término da guerra e, principalmente, a partir da década de 1980, os Estados Unidos evitaram falar em derrota, e reescreveram os acontecimentos do Vietnã sob a percepção de uma “tragédia”. Ronald Reagan, contudo, vai mais além. Em 1985, o então Presidente declara que os Estados Unidos, na verdade, venceram a guerra, pois teriam sido superiores em praticamente todos os combates diretos. O que está presente no discurso de Reagan é a mesma noção já conhecida pela historiografia revisionista, a idéia de que o país poderia ter vencido a guerra – se os soldados tivessem atirado um pouco mais naquele dia; se não houvesse limitações quanto ao uso da força, se os pacifistas não tivessem atrapalhado, etc. Essa é uma maneira de ignorar certos resultados da guerra, entre eles – e mais evidente – de que os Estados Unidos foram derrotados. O que também nos interessa compreender aqui é o porquê do incentivo ao esquecimento da derrota da guerra. De acordo com Keith Beattie, o esquecimento é uma
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BEATTIE, Keith. Op. Cit. p. 28 BEATTIE, Keith. Op. Cit. p. 29

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condição imprescindível para a perpetuação de condições e atitudes necessárias para que o país prossiga com outras intervenções militares no futuro. A administração Reagan, à época, estava empreendendo uma política de preparação militar, que envolvia a reformulação da cultura do engajamento pelas instituições militares.36 Com isso, o Presidente objetivava o resgate da unidade nacional, abalada durante a Guerra do Vietnã e também no imediato pós-guerra. Por fim, o “esquecimento induzido” também ignorava os problemas que o Vietnã teve de enfrentar após a guerra, eximindo os Estados Unidos de qualquer responsabilidade de reconstrução do país. Afinal, era quase impossível estimar as conseqüências da guerra e o impacto da destruição perpetrada pelos americanos no Vietnã. Paralelamente ao esforço revisionista do governo, os veteranos também tomaram a iniciativa para reverter o estereótipo criado sobre eles. A temporalidade, entretanto, não se apresenta tão sistemática como se percebe na historiografia sobre o assunto. Esforços podem ser vistos desde a década de 1970, perpassando o impulso revisionista dos anos 80 e a volta do enaltecimento do soldado com o advento da Guerra do Golfo, no início dos anos 90. Em seguida, analisaremos mais detalhadamente tais mudanças na representação da memória dos veteranos do Vietnã. Como destaca Ana Paula Spini, já em fins dos anos 1960 chegavam denúncias de atrocidades cometidas no conflito. Assassinatos contra mulheres e crianças eram relatados pela mídia e por veteranos, cuja imagem de baby killers disseminava-se pela sociedade37. O trauma da guerra e a rejeição pelas pessoas também figuravam no estereótipo dos que voltavam do conflito: deslocados, debilitados, impotentes, insanos e incapazes de se relacionar. Tais características também refletiam o estado da nação, e foram retratadas de maneira recorrente, marcando a memória sobre a época. O cinema foi um dos veículos que ajudaram na propagação da imagem problemática do veterano, bem como dos horrores da guerra. Neste sentido, como já mencionado, Taxi Driver, Nascido em Quatro de Julho e Rambo são exemplos a se destacar, mesmo que tenham diferentes enfoques. Algumas representações, assim, contribuíram para que a imagem do veterano fosse denegrida mais acentuadamente na sociedade, pela retórica utilizada nos filmes e pela credibilidade que gozavam alguns diretores que, por terem participado do conflito,
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SPINI, Ana Paula. Combates de Memórias: detração e resgate dos veteranos do Vietnã. Revista Eletrônica da ANPHLAC, 2008. Disponível em: http://www.anphlac.org/periodicos/revista/revista7/1Combates_de_Memorias.pdf. Acesso em: 12 de junho de 2011. p. 13 37 SPINI, Ana Paula. Idem. p. 3

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tinham suas versões do processo consideradas pelo público como um retrato mais próximo da “verdade”. Entretanto, a legitimidade concedida pela participação na guerra seria utilizada de diferentes formas, com diferentes intenções. O cinema não deixou de ser atravessado por esses conflitos. Algumas produções inseriam-se no revisionismo oficial da Guerra nos anos 1980, sem que atuassem como porta-vozes do Estado, ou compactuassem com a orientação conservadora de modo integral. Enquanto Platoon, de 1986, resgata a guerra para dela tirar lições, além de mostrar o veterano lúcido e íntegro, os três filmes de Rambo, de 1982, 1985 e de 1988 ressaltam o estereótipo do combatente deslocado e violento. Simultaneamente, como disserta John Carlos Rowe, documentários e docudramas foram feitos por ex-soldados, e atravessam toda a década de 1980 tentando defender a imagem e a perspectiva do bom veterano. Em suma, há uma pluralidade de perspectivas que coexistem, o que impede uma sistematização temporal. Há, na realidade, um processo, uma mutação cada vez mais evidente que tende à cura da ferida da sociedade, à atribuição de um novo significado para o fracasso da guerra, bem como à união da nação. Simultânea e gradualmente, o foco sobre o veterano perturbado dá lugar ao papel da guerra em si, e a uma visão humanizada dos combatentes. Um caso bastante exemplar que coroa esta mudança na visão do soldado é o filme O resgate do soldado Ryan, de 1998, dirigido por Steven Spielberg. Gary Gerstle analisou esta transformação e a apresentou de forma sucinta, mas elucidativa.
(...) no caráter do soldado cidadão, esses liberais [cineastas] centraram a construção de um americano emblemático que lutava movido não pelo ódio ou por um ímpeto de dominar, mas por um dever patriótico e um compromisso com os valores republicanos. Um nacionalismo tolerante e decente, eles pareciam argumentar, podia ser alcançado por guerras feitas em nome de objetivos justos e por guerreiros altruístas. Resgatando a figura do soldado cidadão e celebrando suas conquistas, esses liberais chamaram a atenção para um acontecimento crítico embora amplamente ignorado na modalidade de guerra americana que se desenvolveu no pós-Vietnã: o afastamento do soldado cidadão e a adoção, no seu lugar, do guerreiro profissional.38

Desta forma, Rambo, violento, agressivo, viril, que destrói inteiramente uma pequena cidade fugindo para não ser pego, dá lugar ao capitão Miller, líder do pelotão, professor de inglês, que cumpre o dever para o qual seu país o convocou, movido por
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GERSTLE, Gary. Op. Cit. p. 41-42

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tal modelo tem suas variantes. de um esforço em reunir memórias silenciadas e utilizá-las para contar a história de um movimento pouco conhecido. veteranos dão seus depoimentos sobre como perceberam que havia algo errado com aquela guerra específica e de que modo se organizaram para 39 ROWE. em resposta. e realiza uma mudança substancial na forma de tratar o veterano39. Desta forma. Trata-se. tem como subtítulo the suppressed story of the GI movement to end the war in Vietnam. agora visto positivamente. o que é um dos modos de se curar a ferida. Um exemplo recente é o documentário de 2005. Outro viés foi estudado por John Carlos Rowe. assim. A narração do documentário por veteranos. Sir! No Sir!. de fazer a sociedade aceitar novamente os soldados e relembrar os valores tão caros ao imaginário da guerra. America’s “Enemy”: The Absent Presence in Revisionist Vietnam War History. 1992. John Carlos e BERG. no espectador. Os espectadores. Dirigido por David Zeiger. bem como seus depoimentos. p. Evidentemente. 2005. Por fim. segundo Rowe. os diretores buscavam criar. sobre o que realmente teria ocorrido. aliados ao emprego de imagens do conflito em determinada ordem tentam fazer do soldado uma personalidade. In: The Vietnam War and American Culture. dirigido por David Zeiger. acabam por simpatizar com o veterano. um sentimento de identificação com o veterano. New York: Columbia University Press. ao analisar os docudramas criados e narrados por veteranos do Vietnã. a imagem traumática da guerra é abandonada. e dela emerge uma lição. que faz parte do longo processo de transformar memórias negativas em positivas.valores éticos e nacionalistas e se empenha na missão de resgatar um único soldado durante a Segunda Guerra Mundial. convergem. um sujeito. o público aprende com a experiência dos ex-combatentes. Rick (org). Este é mostrado como aquele capaz de falar abertamente sobre as devastações. Através de confissões pessoais e do relato detalhado das experiências nestes documentários. em geral. Sir! No Sir!40 O filme. 21 . 170 40 Sir! No Sir!: The Suppressed Story of the GI Movement to End the War in Vietnam. o qual trata do movimento antiguerra entre os GI’s. Distribuído por Balcony Releasing. Estes seguem a onda revisionista que visava absolver a responsabilidade dos soldados e esquecer os traumas do Vietnã. Ao final. mas os objetivos da retórica e das técnicas cinematográficas empregadas. Há uma mudança substancial na figura do soldado e do veterano.

And I would go off and be a hero. Os primeiros relatos do documentário giram em torno do pensamento dos veteranos quando do início do conflito. Duas falas específicas resumem bem o que se passava na cabeça desses jovens soldados por volta de 1965. and that there’d be a war for me. E Randy Rowland complementa: (…) My grandfather was a career officer and my father was a career officer. Contudo.combatê-la. Bill Short diz: I was certain that every male member of my family had their war. está muito ligado também à guerra do Iraque e o documentário faz parte do Iraq Media Action Project. and fight a good fight for this country. I might have actually been a very good soldier. De geração a geração. ao mesmo tempo em que se tem filmes como O resgate do soldado Ryan para retomar a figura do soldado-cidadão da Segunda Guerra Mundial. tios haviam lutado e voltado como heróis. 2005. em que cada soldado deixava de lado o orgulho de ser um membro do Exército americano para 22 . quando o Vietnã ainda não era um tema tão polêmico. A grande diferença. because there is part of the military life that I really liked. and another war. a guerra era esperada pelos homens como um dever patriótico. serem reconhecidos como heróis. não havia razão para duvidar da legitimidade e da necessidade da Guerra do Vietnã. Ou seja. Podemos ver através destes relatos como o imaginário da guerra se fazia presente na sociedade americana. (…) If it had been another time and place. em seguida. O ano de criação do filme. Tal processo ocorreu de forma variada. Este projeto foi uma iniciativa online criada para promover o uso de documentários informativos para chamar atenção aos problemas da guerra citada. pais. evidentemente. há outros que relembram a mobilização de soldados para se opor a novas guerras. é que um filme possui ampla circulação em todo o mundo. E tal como um rito de passagem da inocência à maturidade. não tardou para que estes veteranos percebessem os problemas da empreitada para a qual foram chamados. enquanto o segundo sequer entra no grande circuito. mais do que um evento isolado e imprevisto. Or anything wrong with America – the beautiful. and I had no reason at all going into the military to think there was anything wrong with the Vietnam War. o soldados precisavam lutar para. Se avôs.

Abrigar-se num santuário – local sagrado – servia como uma forma de pessoas evitarem a prisão. it caused me to think to myself. que a mobilização de GIs alcançou nível nacional. And that’s a free place. quando algumas igrejas americanas passaram a decretar santuário para refugiados da América Central que tentavam escapar das guerras civis em seus países... sobretudo após as duras e longas condenações de seus participantes. onde 27 pessoas realizaram um sit-down41 a fim de manifestar sua insatisfação contra as condições de vida na prisão e contra a morte de um dos presos. We had nothing to lose. and they couldn't even take a poop by themselves. faced with this situation where guys every day were asking me to kill them. Apesar do protesto. sobretudo na década de 1980. O Presidio Mutiny. We’re refusing our orders. that was great. and they couldn't kill themselves. And it was such a horror. A memória de Randy Rowland – um dos participantes do motim – sobre como se tornou avesso ao conflito do Vietnã e foi parar na prisão citada é reveladora: The moment of my epiphany. because they couldn't kill themselves. é uma manifestação pacífica em que seus participantes sentam no chão de um estabelecimento até que suas exigências sejam cumpridas ou ocorra sua retirada pelo uso da força. em janeiro de 1968. in a neurology floor and it was all head and neck injuries. Guys who were so paralyzed that couldn't turn the page of a book. And it was so horrible I had to. como um sit-in.. We joined together in July. working in a military hospital up at Fort Lewis. You don't know what’s gonna happen. como ficou conhecido. foi um dos primeiros protestos a atrair a atenção da nação à oposição dos soldados à Guerra do Vietnã. 1968.. And then there I was. you know. “We’re not going to Vietnam. De acordo com Oliver Hirsch e Keith Mather. The fact that it took them three days to decide how to deal with this tactically. And every day we'd come in as the medics to take care of them and they would beg us every day to kill them. Come and get us”. It’s a really free place. foi a partir da Ofensiva do Tet. seus participantes foram presos e levados para o San Francisco Presidio Stockade. And in fact we’re resigning from the military. at a certain point I just made a vow to myself that I would never put somebody else into the hospital on those circumstances. or the thing that came to me was. you don't know where you’re going. 23 . cause I grew up in a military family. We essentially called the press and said to them. Tal premissa existia desde os tempos medievais e foi recuperada. We took sanctuary in a church and chained ourselves to ministers. And we had no idea what was gonna come. That I wouldn't be the guy who'd squeeze 41 Um protesto sit-down. but you know what you’re doing. Da mesma maneira que o movimento antiguerra civil.passar a questioná-lo.

alguns pacifistas abriram as primeiras coffeehouses. Estas eram construídas nas cidades 24 . and your silence means that you're part of keeping that lie going. de David Cline. Munido de legitimidade pela participação direta. também explica o motivo de ter entrado no movimento antiguerra. When you just went through an experience of that nature. Se o dever cívico dos soldados até a Guerra do Vietnã era lutar uma guerra justa. o veterano havia desmaiado após levar um tiro. o movimento antiguerra dos GI’s ganhou número e força principalmente em 1968. So I became involved in the movement. I wonder if he had a girlfriend and how his mother is going to find out and things like that. levando a civilização e a democracia aos países necessitados. The other thing that bothered me was that those guys who could talk. the ones that would beg you to kill them. a citação mostra uma das formas pelas quais soldados lotados em bases norte-americanas se opunham à guerra. Com o crescimento do número de soldados que se voltavam contra a guerra.the trigger that caused some human being to be in that dreadful situation. por outro serviram como catalisadores da oposição à guerra e conseqüente união entre os soldados. Pelo relato de Cline. a obrigação e responsabilidade dos soldados agora era denunciar às pessoas as mentiras que eram contadas pelo governo americano. O orgulho de voltar como heróis aos Estados Unidos dava lugar à vontade de morrer. por um lado. este começou a pensar. Após um ataque surpresa de vietcongues. I couldn’t stop. tal situação mudou com o conflito na Indochina. os relatos sobre as atrocidades cometidas fomentaram a construção da imagem negativa do soldado do Vietnã pela sociedade. And a single one of them felt like his sacrifice was for a good cause. and you find out that it's all lies and that they're just lying to the American people. Outro testemunho. I felt that I had a responsibility to my friends and to the country in general. O relato de veteranos feridos ou que já haviam cumprido seus turnos trazia em primeira mão a realidade do que acontecia no Vietnã. of being the thugs. Apesar de longa. I couldn’t be silent. Quando a situação se acalmou e um sargento lhe mostrou um vietnamita morto por Cline. a fim de ao mesmo tempo engrandecer a nação americana. none of them felt that they'd made the sacrifice for a good reason. Se. tanto pelos graves ferimentos como pela infelicidade de ter lutado por algo que não valia a pena. and to the Vietnamese. They all told stories of brutalizing the Vietnamese people.

ao regressarem. because they’ve got to get their body count42. Em uma cena gravada em um destes locais.próximas às bases militares norte-americanas. existiam periódicos dedicados exclusivamente a eles. we go out on ambushes and we kill over 50 people in the early hours of the morning and you start looking at bodies. And who’s there? A majority were women and children. a história disseminada após a guerra em que os veteranos. 25 . Considerada como a força vital do movimento GI. O fenômeno não era exclusivo e restrito aos Estados Unidos: onde quer que houvesse soldados americanos. existiam cerca de 300 jornais antiguerra por volta de 1968. consistia em crime sujeito à corte marcial. a contagem de corpos foi instituída por McNamara. por exemplo. Like for a one-month period. Segundo Lembcke. mas sim porque teria sido traída em casa – apunhalada pelas costas. foi condenado a oito anos de prisão sob o pretexto de posse de maconha. e serviam como um ponto de encontro para soldados e veteranos contrários ao conflito. as coffeehouses logo se tornaram uma peça importante no movimento antiguerra. Por fim. They were carrying food to their friends up in the hills. And they go out on ambushes. o que obrigava os editores a conceberem métodos complexos de produção e envio destes jornais aos soldados. os discos mais recentes de folk e rock e contando ainda com diversos jornais da imprensa GI underground. For anyone who thinks that they can duck out of it and hopefully be a clerk typist and not have to see any of that. e era o método utilizado pelos Estados Unidos para mensurar o sucesso na guerra. eram alvo de pacifistas é falsa. é exibida uma cena em que um veterano do Vietnã fala a novos soldados sobre o que acontecia no conflito e sobre o movimento GI. Como relatado no filme. podemos concluir este capítulo com algumas observações feitas no testemunho do veterano do Vietnã e sociólogo Jerry Lembcke. autor de The Spitting Image: Myth. Com bebidas diversas. he’s making a mistake because he’s supporting the war. o editor do periódico Last Harass. enquanto que o objetivo real era atingir suas publicações.. Outro assunto que foi destacado pelo documentário e que nos interessa neste trabalho é o papel da imprensa GI underground no movimento antiguerra. entretanto.. Distribuí-lo. Memory and the Legacy of Vietnam. And what were they doing? What was their crime? They were carrying food. 42 Como referido anteriormente. A explicação para a divulgação deste mito residia na necessidade dos Estados Unidos explicarem por que tinham perdido a guerra: a America não havia sido derrotada por uma nação subdesenvolvida.

deslegitimava a vitória do Vietnã do Norte. a disseminação de algumas notícias forjadas acabou por definir como aqueles combatentes seriam lembrados: não como militantes ativos. O autor. This is stuff that was in living rooms all over America. and giving the Nixon Administration fits. então.” You ask them about any of the major events of the war. So people knew this. Apesar de todas as informações e publicações sobre os soldados e veteranos durante e após a guerra. You mention the war in Vietnam to a lot of people. apagava a memória do soldado ativista e supostamente reduziria o movimento antiguerra em intervenções futuras. “Yeah. has been reconstructed. and they'll say. esforços como o documentário Sir! No Sir! empenham-se em mudar tal perspectiva. mas como vítimas passivas de hordas antipatrióticas. and this is an important piece for talking about. Evidentemente. 1970. They were in the streets. This is gone. how memory about the war has been rewritten. and what happened to those guys when they came home was sure a shame. If you went back and looked at the front pages of newspapers in 1969. They're on the Capitol Mall. era extremamente importante para o governo americano – sobretudo na era Reagan – desvincular a imagem do ativismo da imagem do soldado. and it's like people have no clue. They were political activists. This has been displaced. Apontar a sociedade civil ativista como a culpada eximia o governo da derrota. what you were going to see on the front pages of newspapers was about Vietnam vets.Além disso. 26 . conclui que estas falsas memórias saíram vitoriosas e persistem até hoje. This has been erased.

tamanha a sua diversidade e períodos de atuação diferentes. a paz está sempre presente. por mais que a guerra se mostrasse plausível e necessária para grande parte da sociedade. 27 . na retórica da guerra. visavam o combate direto e antecipado como forma de garantir a segurança. Tal fato explica a derrota da proposta de adesão à Liga das Nações no pós-Primeira Guerra Mundial. como visto anteriormente. Outros defendiam a causa a partir do internacionalismo. encontrou fortes barreiras no país. a pressão de grupos contrários a ele se fez presente. Na verdade. opondo-se ao envolvimento americano em várias guerras por inúmeras razões. o movimento pacifista possuía um apego maior ao significado de “paz”. na chamada Era do Progressivismo. afirmando que a paz viria com a institucionalização de procedimentos e organizações que preveniriam disputas entre as nações43. a guerra é um dos meios pelos quais a nação se afirma e confere unidade à sociedade. algumas experiências bélicas dos Estados Unidos. Onde quer que o conflito armado tenha acontecido. Esta relação conflitiva pode ser explicada pela existência de uma relação dialética no imaginário da guerra e no mito da missão americano. variando desde a não-resistência à autoridade governante. é essencial mostrar a outra face da moeda. Outros ainda se prendiam à ética pacifista. um conflito armado ocorre quando há ou pode haver uma perturbação do estado de paz. muitos se limitaram a atividades antiguerra. considera pelo então presidente como a “guerra que iria acabar com todas as outras guerras”. um dos principais objetivos dela é alcançar a paz. Como ressalta Charles DeBenedetti. com a eventual vitória. tal paz seria ser eterna após a Primeira Guerra Mundial. Esse ímpeto gerencial da ordem internacional. Deste modo. no entanto. Afinal. incentivando a criação de organizações filantrópicas nos Estados Unidos voltadas para prevenir disputas. é possível falar em movimentos pacifistas. uma vez que se temia que os organismos internacionais usurpassem parte da soberania dos Estados. até mesmo as geradas pela doutrina Bush e sua guerra ao terror. Entretanto. sempre esteve longe de ser um consenso entre todos. 43 Este tipo de internacionalismo – de cunho liberal – associado a tal perspectiva multilateralista nasceu na virada do século XIX para o XX. Como sonhou Woodrow Wilson. Em outras palavras. visando à paz mundial.A tradição pacifista Embora tenhamos mostrado no capítulo anterior como o imaginário da guerra está presente na história norte-americana desde sua formação até hoje. Ao mesmo tempo em que. e este é restabelecido após o confronto. Em suma.

p. p. Recusar-se a servir o Exército não era apenas contrariar a lei. Da mesma forma que a trama central de Hair – peça da Broadway de 1968 que faz um retrato da época e da cultura hippie – o dilema moral de Claude. não era raro ver hippies abandonando os compromissos sociais indesejados da sociedade contemporânea – o chamado drop out – e passando a viver uma vida em comunidades alternativas. muito menos em uma guerra tão imoral como a do Vietnã. Recusar o serviço militar era crime inafiançável nos Estados Unidos já que a defesa da pátria era extremamente valorizada pelos setores mais conservadores da sociedade. Em primeiro lugar. Seu significado remete à existência de uma rede política e monetária entre legisladores. os “reformistas da paz”. The peace reform in American history. por outro lado. Para os hippies. a partir de modelos alternativos de 44 De Emma Goldman à Dwight Eisenhower. Havia ainda aqueles que defendiam o antimilitarismo. expressão que até hoje é usada pela esquerda americana. concordar com o alistamento era compactuar com o governo e ir contra seus ideais de paz. XII 47 Carta de convocação militar 28 . à constituição democrática e – por fim – à paz. Charles. Para a contracultura. é essencial na caracterização da mesma. além de buscarem modos de vida em que a paz permanecesse como fruto de uma dinâmica social ativa46. denunciavam a guerra como uma forma de comportamento coletivo que corrompia a ordem social. 1980. partido da premissa que grandes exércitos eram uma ameaça à liberdade individual44. Um exemplo próximo ao tema deste trabalho que ilustra o caso acima é o movimento hippie. atuariam segundo duas linhas principais de ação. as Forças Armadas e o setor industrial. era inconcebível a idéia de matar pessoas. Ao mesmo tempo. Idem. partiriam de tais princípios para estabelecer meios alternativos de resolver os conflitos humanos. perseguindo a harmonia.a resistência não-violenta à injustiça. XI 46 DEBENEDETTI. Ainda segundo DeBenedetti. mas também propunham criar a paz. Capitalistas. Charles. se deve ou não queimar seu draft card47 era a realidade de milhares de jovens por todo o país. o qual dá apoio aos dois primeiros. 45 DEBENEDETTI. entre outros. Embora o pacifismo fosse apenas um dos vários princípios que tal segmento da contracultura pregava. feministas. os movimentos pacifistas americanos não eram apenas opostos à guerra. a ética Cristã e o bem-estar dos homens. como os chama. Em suma. Em segundo lugar. completam o quadro e também defendiam a causa como atividades paralelas às suas lutas45. com valores próprios e que se apresentavam como o ideal para a sociedade em larga escala. anarquistas e socialistas. várias figuras políticas de diferentes matizes alertaram para o que o Presidente-general chamou de “complexo industrial-militar”. Estados Unidos: Indiana University Press.

seus custos e suas perdas. O pacifismo ao longo da história americana De acordo com DeBenedetti48. o movimento pacifista cresceu de forma mais organizada. Com a guerra de 1812 a 1814 contra a Grã-Bretanha. que 48 Este capítulo foi baseado nas obras The Peace Reform in American History. que em muito se relaciona ao Vietnam GI. Charles. Não mais divididos por seitas. a paz tomou a forma de uma “reforma revolucionária”. Cit. p. os pacifistas agora se uniam sob o espírito evangélico e sob a crença na perfectibilidade humana. de Charles Chatfield. a qual se mostrava funcionalmente relacionada ao sucesso da nova nação e de seus ideais como forma de fugir aos conflitos que dominavam o Velho Continente à época e ao controle irresponsável da metrópole49. Além disso.sociedade que poderiam redimir a nação de seus erros. de Charles Benedetti. Fazer a paz tinha agora a conotação de dever humanitário. e em The American Peace Movement. espanholas e inglesas. entretanto. o capítulo gira em torno do dissenso americano que. o conflito foi de larga escala e. e os Estados Unidos sofreram invasões francesas. estas sociedades pacifistas se juntavam a fim de organizar a nação contra o pecado da guerra e em benefício da paz cristã e racional. Após a conquista da independência. mas presentes. Tais grupos eram formados por seitas anabatistas e por quakers. Já no período colonial. Antes de adentrarmos ao movimento pacifista específico da década de 1960. Um dos expoentes deste pacifismo do século XIX foi William Ladd. fundador e presidente da American Peace Society. faremos um breve histórico dos principais momentos vividos pelos Estados Unidos em que o conflito armado suscitou ao mesmo tempo a manifestação daqueles que a ele se opunham. Op. que possuíam a busca da paz como um de seus princípios fundamentais. Com a guerra de independência americana. visto que nesta época já havia tentativas de se conciliar fé e razão. que se opunham às investidas inglesas na colônia. O objetivo é mostrar como é errônea a asserção de que todos os americanos apóiam qualquer empreitada bélica na qual o governo investe. é possível ver focos dispersos. os conflitos continuaram a ocorrer. Dessa forma. Ambos são referências sobre o tema e nos permitem a construção de um quadro geral dos acontecimentos e grupos. inclusive. foi forte o bastante para reduzir sua duração. 49 DEBENEDETTI. a tradição pacífica americana como um projeto reformista acompanhou os principais acontecimentos dos Estados Unidos. XII 29 . se não foi efetivo o suficiente para acabar com a Guerra do Vietnã. após seu fim. em 1776.

Estados Unidos: Twayne Publishers. Emma Goldman foi uma das vítimas da perseguição. Em seu 50 CHATFIELD. os think tanks valorizavam a arbitragem internacional sobre temas polêmicos. os think tanks tinham como propósito advogar pela paz. p. mas a hostilidade e a morte em massa de soldados e civis superaram qualquer protesto. organizações que conduziam pesquisas para defender suas causas em setores específicos. a criação de formas de organização de um mundo cada vez mais interdependente e a pesquisa científica sobre a guerra e suas alternativas. Charles. grupos como o American Society of International Law. Porém. Nesta primeira fase do pacifismo – da mesma forma que o movimento abolicionista – a maioria dos líderes era formada por cristãos evangélicos homens. que fomentara a economia e dera um impulso financeiro a estes grupos sociais. bem como da industrialização do país. No caso estudado. e serve ainda hoje como símbolo da resistência. isto é. os ativistas pacifistas submeteram seu compromisso com a paz à luta da nação pela sobrevivência e pelo abolicionismo. 9 30 . No período em que os Estados Unidos entravam no período que ficou conhecido como a Era do Progressivismo. quando a magnitude do conflito. The American peace movement: ideals and activism. Elihu Burritt foi outro exemplo do pacifismo americano da época. a economia. foi um divisor de águas na reforma pacifista. pregando a reforma prática da paz. Tais agências pretendiam transmitir o conhecimento de seus especialistas pacifistas às massas e promover a integração entre os países. Durante a Guerra Civil americana. e rejeitava até a guerra defensiva50. ocorrida entre 1861 e 1865. As nações mostraram definitivamente como a modernização e os avanços da tecnologia poderiam destruir o homem. Os think tanks teriam uma presença forte até a Primeira Guerra Mundial. enquanto o grosso dos membros das sociedades era composto por mulheres da classe média. o Carnegie Endowment for International Peace e o World Peace Fundation foram criados. a esquerda não cooperou com o esforço de guerra. Sua formação provinha do crescimento dos movimentos pacifistas mundiais. homens de negócios e políticos. Menos apegados a valores religiosos. 1992. superou expectativas. O conflito de 1914 a 1918.propôs uma organização mundial na qual haveria uma corte e leis internacionais para reger os embates entre países. Os ativistas tentaram como puderam evitar a guerra. O que se viu em seguida foi a formação dos primeiros think tanks. assim. e seus membros eram advogados. inédito. o militarismo e a tecnologia. e praticamente toda a liderança do Partido Socialista foi presa por objeção consciente ao conflito. como a política social.

culminando na Segunda Guerra Mundial. na Corte Internacional. poucos Americanos hoje poderiam se considerar patrióticos. o que significa obediência e prontidão para matar pai. p. se opunham a qualquer cumplicidade com a guerra. irmão. moinhos e minas. define patriotismo como o princípio que justifica o treinamento de assassinos. desde 1915.. Goldman critica a atitude do governo em usar o patriotismo como forma de cooptar a população à guerra. porque o lugar dos jogos infantis se transformou em fábricas. havia discordâncias internas. Porém. Novamente. estabelecer uma paz duradoura se tornou um objetivo mais distante da realidade. o grande antipatriota de nossos tempos. Ao mesmo tempo. o lugar das lembranças. esperanças. uma superstição que rouba o auto-respeito e a dignidade e aumenta a arrogância e a vaidade (. mais radicais. 2007. 361 31 . Varia História. iria acalmar os ânimos belicistas. passada a Primeira Guerra Mundial e apesar dos esforços por diferentes vertentes. Contudo. mãe. em organizações internacionais visando o fim da guerra e. Os movimentos anticolonialistas. enquanto outros. Amando de olhos abertos: Emma Goldman e o dissenso político nos EUA. os sucessos de Lênin na Rússia e o surgimento do fascismo criaram uma situação de tensão que se estendeu por toda a década de 1930. p. vale ressaltar que. O que é o patriotismo: o amor ao lugar onde se nasceu. Cecília da Silva.) Patriotismo exige fidelidade à bandeira. Patriotismo (…) é a superstição artificialmente criada e mantida através de uma rede de mentiras e falsidades. pacifistas liberais pregavam o uso da ação não-violenta como forma de defender a justiça. irmã. Enquanto alguns internacionalistas na Liga das Nações advogavam pela proeminência norteamericana na manutenção da paz global. após o conflito. Porém.51 Grupos pacifistas passaram a atuar. após o episódio de Pearl Harbor e as notícias sobre as 51 AZEVEDO. v.discurso “Patriotismo: uma ameaça à sociedade”. O movimento ganhava um cunho ideológico de esquerda e buscava estabelecer a paz imediatamente. 23. O argumento de que o exército e a marinha em prontidão são a melhor forma de garantir a paz é tão absurda quanto a proposição de que os mais pacíficos cidadãos são aqueles que andam com armamento pesado. aliado à reconstrução internacional da economia em momentos de crise. (…) Leon Tolstoi.. 350-367. fizeram-se presentes na Liga das Nações (a despeito da não adesão dos Estados Unidos). os pacifistas questionavam-se e dividiam-se sobre a participação ou afastamento dos Estados Unidos daquela guerra. como quase todos os movimentos sociais. outros defendiam uma postura mais democrática e multilateral que. sonhos e brincadeiras da infância? Se isso fosse patriotismo. em tratados de desarmamento e em tratados de arbitragem.

por volta de 1965. Cit. uma forma de ação militar de baixa intensidade. E assim tinha início um dos movimentos pacifistas de maior magnitude dos Estados Unidos. Falava-se mais de segurança do que de paz neste período. da mesma maneira que problematizaram o uso de armas nucleares. No início da década de 1960. os Estados Unidos voltaram-se para a contenção do comunismo no mundo. Com uma combinação de feministas. a Doutrina Truman. quando a corrida nuclear passou a assombrar o dia-a-dia dos americanos – o que fez os protestos contra tais armas ganharem as ruas. o volume de críticas aumentou consideravelmente. naquele momento. mobilizações sociais – como o movimento pelos direitos civis e os protestos contra as armas nucleares – trouxeram novas organizações e novas oportunidades ao movimento pacifista. Contudo. O movimento pacifista contra a Guerra do Vietnã O movimento pacifista fora reconstituído aos poucos em meados da década de 1950. O início da Guerra Fria havia deixado o movimento pacifista na defensiva. a guerra era mais necessária que a paz. agravado ainda pelo abandono pelo governo de medidas como o desarmamento.atrocidades dos nazistas. tais ativistas optaram por deixar suas preocupações contra a corrida armamentista de lado para engajarem-se no ativismo antiguerra. quase impotente. mas com o saldo de 55 milhões de mortos52 e com o a advento da bomba atômica. Com o desfecho positivo para os Aliados. de maneira que manifestações pela paz poderiam ser vistas como suspeitas. A tensão do período e o medo da ameaça comunista nos Estados Unidos haviam crescido demasiadamente. e a conseqüente disputa entre as duas superpotências da época. a maioria dos pacifistas decidiu que. Os defensores da paz. Cerca de dez anos depois. Assim. XV 32 . com a escalada da Guerra do Vietnã. o qual será analisado mais minuciosamente em seguida. estudantes e intelectuais. buscaram informar e atrair o público à nova 52 DEBENEDETTI. assim. de 1947 representava bem as preocupações do governo americano. com o aumento do esforço militar americano no Vietnã. ou até mesmo subversivas. de forma que se tentava reprimir o poder soviético e inibir movimentos revolucionários de esquerda a partir da contra-insurgência – ou seja. a não-intervenção e a paz. Charles. Com a Guerra Fria. a reforma pacífica mostrava-se necessária mais uma vez. p. Op. o esforço para estabelecer a paz ganhou nova força.

e empenhava-se em estudar as causas da guerra e soluções para a paz permanente. a diversidade de opiniões sobre o que precisava ser mudado e como fazê-lo era imensa. se tais argumentos às vezes eram pontos comuns entre os grupos. Uma terceira crítica girava em torno dos ideais americanos. E. temos o WRL 33 . mas por atitudes individuais. Acadêmicos. já que lutar até o último vietnamita seria imoral. o que faria Ho Chi Minh dependente da China e. os quais estariam sendo violados pelo apoio a um governo repressivo no Vietnã do Sul. Vale ressaltar. que o movimento antecede o agravamento do conflito e. juntos com os pacifistas avessos à corrida nuclear. Segundo Charles Chatfield. Desafiando o governo e em meio às eleições. O movimento antiguerra. como veremos mais a frente. por fim. Formado por mulheres. traria a China para uma possível guerra contra os Estados Unidos. tinha o intuito de impedir a corrida nuclear e cessar os testes com bombas atômicas pelo governo Eisenhower. Pequenos grupos surgiam e desapareciam de acordo com o momento da guerra. não impunha limitações de visões políticas e religiosas. representando os pacifistas tradicionais. quanto nas ruas. todavia.causa. Em segundo lugar. Um desses grupos era o SANE – The Committee for a SANE Nuclear Policy – criado 1957. os Estados Unidos não teriam poder econômico o suficiente para criar um governo representativo e responsável a partir de fora. seriam quatro. estava longe de ser unificado e. por objetivar um interesse americano. Primeiramente. acreditava-se que uma grande guerra de guerrilha seria pior do que um governo comunista. Por outro lado. não tardaram a traçar os argumentos contrários à Guerra do Vietnã que dariam a tônica do movimento antiguerra. a intervenção iria enfraquecer a estabilidade regional. Muitas vezes. correspondentes internacionais e líderes políticos eram os principais agentes liberais da crítica e. Porém. tinha-se o WILPF – Women’s International League for Peace and Freedom – existente desde 1915. principalmente entre 1968 e 1971. entretanto. sendo muitas vezes criados justamente para combater pequenas causas. para finalizar. o movimento antiguerra foi conduzido tanto dentro do sistema político. No que se refere aos pacifistas radicais. Formado principalmente por liberais internacionalistas e com várias celebridades pacifistas em seu meio. a atuação contra a guerra nem era definida por grupos. já havia dissenso sobre a presença americana no Sudeste Asiático. antes de 1963. algumas organizações maiores que tiveram início nos anos 1960 seriam aquelas que comandariam a maior parte das manifestações e as que mobilizavam um maior número de participantes.

pacifistas tradicionais e radicais tinham uma preocupação em comum para tentarem articular suas forças. com pessoas de diferentes origens 34 . indivíduos envolvidos na luta pelos direitos civis e intelectuais voltados à ação se sentissem atraídos pela nova linha da esquerda. Ao mesmo tempo. e o SDS crescendo e realizando movimentações. Todavia. Ainda ao longo de 1964. Wright Mills e Herbert Marcuse. como fizeram os budistas vietnamitas dois anos antes. descentralização institucional sobre consolidação do governo. cada grupo atuava separadamente contra assuntos variados referentes à Guerra Fria e à política interna dos Estados Unidos. liberais. aos poucos as organizações perceberam o aumento do interesse americano no subdesenvolvimento do Terceiro Mundo e suspeitaram da vontade do governo em realizar ações militares contra-revolucionárias. como o Americans for Democratic Action manifestaram-se em frente à Casa Branca pela negociação da paz. Não tardou para que estudantes radicais. Um grupo que merece atenção especial é o SDS – Students for a Democratic Society. no período de escalada da guerra. contra a política externa americana. história e cultura. Esta era composta por autores como C. Criado por indivíduos presos durante a Primeira Guerra Mundial por recusarem o serviço militar. inclusão sobre a divisão. No passar de dois anos. Combinando psicologia. liberais de outros grupos. e representava uma nova visão política dos Estados Unidos. com o SANE clamando pela saída do Vietnã. ao lançar seu manifesto. conhecido como Port Huron Statement. com ações mais extremadas. A partir de então. chamou atenção em 1962 quando. varando a noite com aulas e debates sobre o Vietnã. Impacientes com a retórica da Old Left – pautada quase que ortodoxamente nos ensinamentos de Marx – mas também insatisfeitos com as reformas liberais – as quais julgavam fomentar a injustiça social no país – os autores identificados com a New Left propuseram novos caminhos. múltiplas frentes antiguerra foram criadas. por volta de 1963. definiu suas propostas de reforma para criar uma America melhor. Charles Chatfield destaca ainda que o SDS era a expressão organizada da New Left. Pacifistas radicais fizeram também uma vigília fora da Convenção Nacional do Partido Democrata em Atlantic City. continuou suas atividades nas guerras seguintes. liberais membros de universidades organizaram os primeiros teach-ins. defendiam a ação sobre a teoria. Até 1965. Formado em 1960. Entretanto. uma participante do WILPF colocando fogo em si mesma em protesto. o que se viu foram ações isoladas.– War Resisters League – de 1923. Não tardou para que o Vietnã viesse a confirmar tal suspeita.

Assim. Enquanto os antiimperialistas apoiavam ambos. 173 35 . Os primeiros acreditavam que a guerra se tratava de uma luta revolucionária dos vietnamitas contra o imperialismo americano. Op. por exemplo. Cit. o movimento antiguerra havia assumido uma composição triangular. e os liberais negavam os dois. Assim. o movimento antiguerra conseguiu dialogar por um certo período. eram inaceitáveis para liberais. ao mesmo tempo em que os radicais eram indiferentes. os liberais explicaram a guerra como um erro imprudente de Washington na tentativa de conter a China. Apesar de todos os problemas citados. Para os pacifistas radicais. a guerra também girava em torno de um conflito imperialista. e exigências também variadas. de 1964 a 1965. que incluíam desde senadores a ativistas Quakers. A partir daí. Os movimentos contrários à Guerra do Vietnã estavam apenas no início de uma luta que duraria cerca de dez anos. é possível ver como a variedade de visões dificultava a tomada de ações em conjunto. na manifestação da SDS que reuniu 25 mil pessoas – a maior até então – em abril de 196553. Para agravar o quadro. Charles. p. os liberais tentavam acabar com a guerra através de meios tradicionais de pressão política.e grupos. quem era o inimigo e como acabar com o conflito. O motivo para o sucesso inicial seria a inflexibilidade na condução da guerra pelo governo Lyndon Johnson. O mesmo se passava com a inclusão de comunistas na luta. Charles Chatfield defende que a oposição 53 DEBENEDETTI. Tal conduta teria levado aos dissidentes a ignorarem as diferenças entre seus princípios num primeiro momento. mas acreditavam que o inimigo era a própria guerra. para finalmente se chegar à revolução em casa e nos outros países. Identificando o inimigo como os entusiastas da Guerra Fria. Por fim. seria a classe dominante dos Estados Unidos. Por outro lado. buscaram agir por meios não-violentos a fim de convencer as pessoas a exigirem a retirada imediata das tropas no Vietnã. Através desta análise da visão dos três grupos sobre o que era a guerra. se unindo. os radicais apenas concordavam com o primeiro. os liberais pacifistas. e cabia aos radicais agir de forma a conclamar o povo a ver em seus líderes os reais inimigos da democracia. havia discordâncias também sobre revolução e o uso da violência. seria necessária a imediata retirada do país do conflito. proponentes da não-violência revolucionária. Embora queridos pelos membros da esquerda. O inimigo. então. que definia os problemas de integração dos três diferentes grupos: os antiimperialistas da Velha e da Nova Esquerda. os pacifistas radicais.

criticava a imoralidade e a inflexibilidade política de Johnson. realizado em 50 54 55 DEBENEDETTI. a política e o dia-a-dia dos americanos.. o International Day of Protest. as divisões entre liberais e radicais foram se acentuando. se retirar do Sudeste Asiático. p. 174 36 . após o estabelecimento de um governo democrático no governo no Vietnã do Sul. em outubro de 1965. Os vários grupos que endossavam tal perspectiva se uniram na Assembly of Unrepresented People e exigiram a saída imediata do conflito. seus líderes evitaram ao máximo o envolvimento de pacifistas radicais e de membros da esquerda. manifestações eram constantemente organizadas.55 Os números impressionam. De qualquer forma. Após 1965. Cit. Ao mesmo tempo. Charles. então. o movimento antiguerra se tornou o contraponto à guerra. 173 DEBENEDETTI. levando 4 milhões de pessoas (reunidas em pelo menos 560 organizações) a realizar ações diferentes em lugares diferentes em momentos diferentes com finalidades diferentes. devido às tentativas de ambos grupos em dirigir o movimento antiguerra. Como ressaltou DeBenedetti. p. Milhões tornaram-se conscientes das limitações do poder americano tanto no mundo. como por radicais – e eventualmente por ambos. os liberais pacifistas exigiam o fim do bombardeio e o início das negociações para. De 1965 a 1967. A Assembly of Unrepresented People organizou. Charles. embora os esforços para criar uma grande coalizão antiguerra tenham existido.. Op.) Ainda assim. Com o tempo. os pacifistas radicais e membros da esquerda perceberam uma conexão entre a Guerra do Vietnã e as dificuldades em acabar com a pobreza e a injustiça racial nos Estados Unidos. liderada pelos liberais. em uma manifestação do SANE em maio de 1965 que reuniu 18 mil pessoas54. duas vertentes principais de ataque à guerra. Uma. criado por muitos grupos com muitas atitudes e muitos líderes. a oposição antiguerra claramente proliferou nestes anos [de 1965 a 1967]. Convencidos de que um governo aliado em Saigon não poderia ser construído a partir de bombas e civis mortos. tanto por liberais. sem que fosse possível escolher algum como o representante de todos. De fato.inicial ao conflito no Vietnã fora espontânea e fragmentada. existiam. Destarte. quanto dentro do próprio país. Por outro lado. Cit. O movimento antiguerra era algo sem forma. Op. a mobilização das pessoas contra a guerra cresceu rapidamente em número. diversidade e espontaneidade. tornava-se claro que um movimento pacifista ativo estava surgindo e ganhando as ruas. (.

Op. por motivos religiosos. experiências com drogas e busca pela liberdade sexual. Estes eram indivíduos que. o modo alternativo de vida não agradava a classe média americana. Outra frente do movimento antiguerra era composta pelos conscientious objectors. o número total de pessoas que conseguiram a dispensa na categoria de conscientious objectors foi de 170 mil. como eram chamados. Charles. Op. Não obstante. Cit. p. Como exemplo de uma ação conjunta. a escalada da luta pelos direitos civis levou alguns de seus líderes a apoiarem a saída da guerra. já que se tratava de processos de dispensa individuais impetrados por esses opositores. Simultaneamente. p. promovendo passeatas antiguerra. o número de feridos e mortos no Vietnã aumentava cada vez mais. como Martin Luther King. 127 DEBENEDETTI. O SNCC – Student Nonviolent Coordinating Committee – um dos grupos de maior destaque no movimento dos direitos civis. enquanto mais tropas eram levadas ao front e mais bombas eram lançadas sobre cidades. liberais e pacifistas moderados ignoraram as diferenças e se uniram – 50 mil pessoas em Nova York e outras 150 mil espalhadas pelo país. formado principalmente por negros passara a incentivar a resistência à convocação militar e a criticar ferrenhamente o governo de Johnson. muito embora tenham servido de atração para milhares de jovens que não compactuavam com a militância de jovens radicais. De acordo com James Tollefson. Em 1966. Com seus cabelos longos. As manifestações contaram com a participação maciça de pessoas e também com a queima de draft cards por jovens convocados. morais ou filosóficos. Já o SANE. Radicais. de março de 1966 fora planejado para abranger qualquer pessoa ou grupo que fosse favorável ao mote “Stop the war now”. Além disso. enquanto o número de 56 57 CHATFIELD. os hippies passaram a abraçar a causa pacifista. Da mesma forma. Os COs. não formaram nenhum grupo específico que organizasse os pedidos de dispensa. engrossando a variedade de organizações contrárias à guerra57. organizara uma manifestação que reuniu 25 mil pessoas e que contou com a participação de grupos pacifistas religiosos. obtinham o direito de não precisarem prestar serviço militar. Charles. de orientação liberal. os hippies não demonstravam a dedicação e a disciplina para protestar num longo movimento contrário à guerra. Cit. 176 37 . duas forças do movimento antiguerra contribuíram para a oposição de determinados segmentos da sociedade a ele.cidades e mobilizando 100 mil pessoas56. o segundo International Days of Protest.

entre 30 e 50 mil58. passou a atacar a oposição ao conflito. p.pedidos indeferidos passou de 300 mil Muitos desses. O governo. do imaginário positivo construído em relação a guerras do passado e já comentado em páginas anteriores. p. Em 1970. Cerca de 17 mil jovens que já haviam sido convocados entraram com pedidos de CO59. 7 38 . Idem. inconformados com a decisão. Enquanto esperavam o desenrolar dos processos. julgados por uma banca de militares considerados intransigentes. variou à medida que o conflito no Vietnã avançava. The strength not to fight: an oral history of conscientious objectors of the Vietnam War. foram para o Canadá. James W. os soldados prestavam serviço em bases nos Estados Unidos. por exemplo. Por outro lado. se a Guerra do Vietnã nunca havia sido popular entre os americanos. Evidentemente. trabalhando em hospitais para soldados. nem todas as solicitações provinham de civis. Até 1967. caso o pedido fosse indeferido. e tendo em vista a crescente dificuldade em vender a guerra. como a dos Quakers. como a 58 TOLLEFSON. em que as dispensas eram destinadas apenas àqueles que se opunham à guerra sob a crença em um Ser Supremo. Porém. aceitando como COs qualquer um cujas crenças morais e religiosas os impediam de servir. expandindo-se para aqueles que haviam sido criados em crenças religiosas contrárias a qualquer violência. 1993. a lei sofreu alterações. Nos casos em que o pedido de dispensa era aceito. as chances de transferência para o Vietnã aumentavam substancialmente. A definição legal de conscientious objection. James W. 6 59 TOLLEFSON. contudo. A lei sobre o assunto à época era a de 1966. Entretanto. aproveitando-se disso. onde eram aceitos como imigrantes – sem violar qualquer lei e com a garantia de que estariam a salvos da guerra. a grande maioria dos pedidos de CO vinham de membros de igrejas pacifistas tradicionais. milhares de jovens tentaram utilizar-se deste subterfúgio da lei para evitar a ida ao Vietnã. evidentemente. os COs eram designados a prestar serviço civil ao Exército. A partir de 1967. tributária. Ainda assim. a definição se tornou mais abrangente ainda. Brown and Company. a oposição ao movimento antiguerra já era antiga. milhares de jovens não hesitaram em tentar a sorte para serem legalmente dispensados do destino de outros milhares de soldados que foram ao Vietnã. Com o argumento de que os hippies – buscou-se estereotipar o movimento reduzindo todos do movimento antiguerra a esse grupo – estavam destruindo símbolos nacionais. Estados Unidos: Little.

os Estados Unidos entraram em um período de turbulência interna ao mesmo tempo em que a guerra no Vietnã atingiu seu momento crítico. A proposta de Rubin era convocar todos ao Pentágono para confrontar aqueles que faziam a guerra. as demonstrações não-violentas predominaram. a reação da polícia e da guarda nacional foi agressiva. 181 39 . Por mais que alguns poucos membros do SDS tenham tentado invadir o prédio. os draft cards e os valores mais caros à nação. o que apenas se agravou em 1968. Entre 1967 e 1970. Charles. p. Ainda assim. Contando com 300 mil pessoas em Nova York e em San Francisco. que espancou até mulheres e 60 61 CHATFIELD. Os liberais do SANE dividiam-se sobre a cooperação ou não com os radicais. ocorreu a Spring Mobilization Committee to End the War in Vietnam. Já os moderados condenavam toda e qualquer violência. Charles. Op. Um segundo protesto foi organizado para outubro daquele ano em Washington. 132 DEBENEDETTI. em 15 de abril de 1967. os demais atravessaram a ponte em direção ao Pentágono. Johnson conseguiu o apoio popular por um momento. Nesta atmosfera volátil. e defendiam uma saída gradual do Vietnã. a passeata reuniu 100 mil pessoas61. pacifistas também discutiam sobre a tolerância em relação à violência e sobre a melhor forma de saída dos Estados Unidos da guerra. apenas os grupos mais radicais e os hippies do Flower Power seguiram até “os degraus”. Pacifistas radicais tendiam a concordar com a violência da esquerda e insistiam na retirada imediata do país do conflito. mas a co-organização do mesmo por Jerry Rubin – ativista social radical que mais tarde formaria o Youth International Party – deu traços radicais à mobilização que afastou a participação de liberais. homens e mulheres. Entretanto. hippies e executivos. Cit.bandeira. Enquanto os liberais mais moderados se mantiveram em frente ao Lincoln Memorial. a mobilização reuniu jovens e idosos. Op. Por outro lado. Prometendo levitar o prédio com a ajuda de todos e assim exorcizá-lo de todos os demônios da guerra. Sem que houvesse qualquer problema. em que mostra que as organizações participantes do protesto eram as variadas e que houve uma divisão entre os grupos no momento. O escritor Norman Mailer dedicou a obra Os degraus do Pentágono ao tema. o evento mostrou a imagem de um movimento antiguerra diversificado e crescente. Cit. o movimento antiguerra também encontrou dificuldades em articular ações conjuntas. Os pacifista da esquerda debatiam e fragmentavam-se sobre a eficácia da violência revolucionária. negros e índios. veteranos e conscientious objectors 60. brancos.

o assassinato de Robert Kennedy – candidato preferido dos Democratas para concorrer às eleições daquele ano e contrário ao conflito – mexeu com o movimento antiguerra e minou a plataforma política pacifista. a moratória contou com a participação de cerca de 250 mil pessoas. e traçou duas estratégias de protesto: a moratória e a mobilização. o assassinato de Marin Luther King levou os negros às ruas em revolta. líderes religiosos. as mobilizações assumiram contornos mais ousados. a fim de protestar contra as fraudes da Convenção Nacional Democrata. Embora tivesse prometido uma redução gradual das tropas. aos Estados Unidos.. Charles. ignorando a violência dos representantes do Estado. Com a ofensiva do Tet. após o estabelecimento de um governo sólido no Vietnã do Sul. a situação se agravou. líderes do movimento civil. Cit. uma mistura de liberais moderados. enquanto o governo passava a uma postura mais defensiva. Organizado primordialmente pelos liberais pacifistas. compactuado pela mídia. O novo presidente deu a entender que traria a paz de volta ao Vietnã e. políticos e grupos liberais. Op. a repercussão do evento na mídia foi desfavorável ao movimento antiguerra. frustrando as esperanças de uma saída rápida da guerra. candidato de Johnson passou à dianteira.prendeu manifestantes indiscriminadamente. Nixon assegurou que o fim dos vietnamitas do norte estava próximo. radicais e yippies – hippies politizados que haviam se reunido em torno das figuras de Abbie Hoffman e Jerry Rubin – convergiu para Chicago. Com a coorganização de intelectuais. O princípio da moratória era simples: as pessoas deveriam separar um dia por mês para não pagar contas ou dívidas de maneira que tal ato refletisse de alguma forma na guerra. já que Hubert Humphrey. o que apenas abriu caminho para a eleição do republicano Richard Nixon. 136 40 . 62 CHATFIELD. e defendeu a permanência na guerra até obter uma saída com honra. O resultado foi a ação da polícia contra os manifestantes e a divisão do Partido Democrata. de donas de casa a oficiais militares62. No mesmo ano. A ampla simpatia por membros de todas as camadas da sociedade deu à mobilização um tom patriótico que. grupos católicos radicais juntavam-se na oposição ao conflito. o Vietnam Moratorium Committee marcou o início de suas atividades para 15 de outubro de 1969. conseqüentemente. A partir de então. Mais de 200 manifestações foram feitas nos campi das universidades. Contudo. o movimento antiguerra desenvolveu novas forças. Em 1968.

Apesar do aparente sucesso. como marchas. Esta se tratou de um evento midiático realizado em 1971 que contou com a participação de veteranos que relataram a jornalistas sobre crimes cometidos na guerra. Porém. p. comícios e encenações que transmitiam a mensagem de oposição ao conflito. onde os participantes depositaram as placas em caixões de madeira. reuniu em um final de semana 350 mil pessoas em San Francisco. Nixon promoveu uma campanha contra os dissidentes da guerra e pesquisas mostraram o apoio popular ao presidente. O movimento antiguerra sofria um duro golpe contra seus esforços. Além disso. assim. com comícios. De qualquer modo. 137 41 . o plano de encarregar o Vietnã do Sul de alcançar um desfecho para a guerra e retirar as tropas americanas da Indochina64.aumentou sua magnitude. Contudo. O grupo passou a organizar diversas manifestações. Outro motivo seria a política de vietnamização da guerra por Nixon. o Congresso resistia a votar a matéria sobre a saída dos Estados Unidos do Sudeste Asiático. 185 CHATFIELD. A November Mobilization. Como destacou Chatfield. Simultaneamente. a organização tornou pública a erosão da moral e da efetividade do Exército. Percorrendo toda a cidade de Washington. Além disso. Charles. O fato de veteranos falarem sobre os malefícios e atrocidades cometidas na 63 64 DEBENEDETTI. Cit. shows de rock e discursos. isto não impediu que. Op. buscando mostrar uma relação direta entre os abusos cometidos e a política militar. que durou 38 horas e consistiu na marcha de indivíduos carregando placas com nomes de soldados mortos no Vietnã. a organização Vietnam Veterans Against the War reuniu seus membros para trazer realismo e experiências de primeira mão à nação. uma possível explicação era o cansaço das pessoas em relação à desordem social. Cit. a antipatia da nação deixara os membros do movimento antiguerra frustrados. Talvez um de seus maiores destaques tenha sido a March Against Death. Op. os efeitos da mobilização foram semelhantes ao da moratória: o público não se emocionou. ou seja. O VVAW foi responsável por mostrar à classe média que os traumas da guerra eram capazes de tornar seus filhos uma ameaça muito maior que os estudantes radicais nas universidades. p. Charles. num gesto simbólico que buscava emocionar a nação. 500 mil em Washington63. em novembro de 1969 ocorresse a maior mobilização antiguerra da história. principalmente com a Winter Soldier Investigation. a qual já durava muitos anos. criticou-se também a postura violenta adotada pelo Exército. terminou no Congresso. Em 1970.

a reeleição de Nixon com sua promessa de vietnamização do conflito provou de vez que o público ainda acreditava em seu governo. tendo em vista que as eleições presidenciais seriam no mês seguinte. evidentemente. Por outro lado. após anos de pressão e com um saldo de 59 mil soldados americanos mortos. Embora os pacifistas tenham sacudido a opinião pública. não tardou para que os liberais pacifistas conseguissem passar no Congresso a legislação que proibia a intervenção americana no Laos e no Camboja. fizeram ponderações sobre o que havia se passado. e alguns intelectuais. Junto a isso. Nixon assinou os acordos de paz com o Vietnã do Norte. A estratégia do governo em prometer a paz. quando a guerra oficialmente acabou. o presidente reeleito ainda bombardeou o Vietnã e o Camboja até janeiro de 1973. Sontag afirma ainda que este nunca teve um conteúdo político suficiente. A escolha do período para selar a paz não foi ocasional. O movimento pacifista teria chegado a seu limite e perdido sua função a partir do momento em que a maior parte da população passou a se opor à guerra.guerra concedia-lhes a condição de testemunhas diretas do Vietnã – e assim suas vozes foram escutadas. o processo de vietnamização da guerra caminhava a passos lentos. O livro USA: Después de Vietnam reúne algumas dessas opiniões. para em seguida tomar uma medida político-militar controversa não era nova. Para Susan Sontag. não ficou de fora do debate. a convulsão interna criada pelo conflito se amenizou muito antes da saída americana do Vietnã. Protestos como o “Out Now!” e o “Set the Date Now” eram feitos como forma de antecipar o fim de uma guerra que parecia interminável. esperar os ânimos sociais acalmarem. o movimento antiguerra perdeu a guerra. Porém. quando os Acordos de Paz de Paris foram selados. após o final do conflito na Indochina. O meio acadêmico. Vitória eleitoral conquistada. Já Norman Mailer. os Estados Unidos continuaram a financiar o Vietnã do Sul até 1975. diz que há apenas uma exceção 42 . o que incomodava o movimento antiguerra. dentre as quais selecionamos algumas de forma a ilustrar este balanço do pós-guerra. Dessa forma. sucumbiu por sua própria inocência e inoperância. Em outubro de 1972. ao afirmar que a guerra só produziu efeitos negativos na vida americana e na posição dos Estados Unidos no mundo. com uma maioria de participantes antipolíticos. Apesar disto. a invasão de Nixon do Camboja deu novo gás ao movimento antiguerra. baseando-se apenas nos aspectos morais do problema. Sendo uma coalizão sem dirigentes.

a apresentar o movimento pacifista de maneira mais positiva. p. que a guerra era um erro. no plural – ele não acabou com a guerra. a principal conquista do movimento foi mostrar ao publico americano. como vimos no capítulo anterior. A partir de então. De fato. levaram consigo os espectadores. y exigían la retirada de nuestros soldados. o movimento antiguerra contra o Vietnã ficou 65 66 CHOMSKY. 61 CHATFIELD. 1975. 145 43 . Hacia 1971. Noam. para Charles Chatfield. Sob a perspectiva de que o conflito deveria terminar. que reduziram a vontade do establishment em lançar-se em uma guerra séria. os beneficiários do complexo industrial-militar perceberam que o conflito arruinaria o país moral. Cit. reconhece a importância do movimento antiguerra na mudança da opinião pública. en cierto modo. por mais que este não tenha simpatizado com as mobilizações. USA: Después de Vietnam. dos tercios de la población estadounidense se oponían a la guerra. junto com os jornais. Embora o movimento antiguerra contra o Vietnã tenha contado com milhares de manifestações de diferentes dimensões – com uma variedade impressionante em sua composição que nos permite falar em movimentos. ajudando a reduzir o apoio da maioria da população ao conflito. obviamente. Noam Chomsky – um dos intelectuais radicais que denunciou o caráter criminoso da guerra e as falácias de seus defensores – por sua vez. Com a maior visibilidade dada ao movimento pela mudança de postura da mídia. não teriam decidido isso por simpatizarem com o ativismo de esquerda. o autor conclui que os pacifistas assumiram o papel – no início visto de forma negativa pelo restante da sociedade – de mostrar o Vietnã como um esforço fútil.destacável: a resistência das esquerdas. a mensagem pacifista chegou aos lares. Espanha: Editorial Anagrama. ao se voltarem contra o conflito. Um após o outro. passaram a dar mais espaço aos críticos da guerra e. por considerarla inmoral. mas sim porque os estudantes antiguerra radicais seriam as futuras mentes pensantes do país. No entanto. Charles. assim. Op. Assim. o papel da mídia e principalmente da televisão que. econômica e tecnologicamente. doentio e moralmente errado66. La oposición interna a la guerra impidió la movilización em gran escala y limitó. tal meio de comunicação. que poderiam vir a sabotar o complexo industrialmilitar.65 Não podemos esquecer também. las brutalidades de quienes dirigieron la acción.

Op. Charles. p. reunindo cerca de quatro milhões de pessoas em 560 diferentes organizações67. 174 44 . Cit. 67 DEBENEDETTI.marcado como sendo o de maior magnitude e diversidade da história americana.

o jornal tornou-se. Antes de proceder com a análise direta das fontes. recorriam aos jornais do gênero para tais fins. Os jornais antiguerra. 125 45 . criava-se um sentimento de identificação a partir das histórias semelhantes que uniam soldados e veteranos. O meio e o tempo de circulação. Interessados em informar outros soldados e também em ouvir seus relatos. sobretudo após 1968.O Vietnam GI A história de criação do Vietnam GI é similar a de outros jornais da época contrários à guerra. rapidamente. o periódico foi percebido como um meio confiável de se levar notícias àqueles no Sudeste Asiático. Centrado principalmente na publicação de cartas de soldados. cresceram rapidamente. cuja história está ligada à trajetória de seu editor. 68 OSTERTAG. Com artigos que versavam sobre os acontecimentos nos Estados Unidos. p. Bob. as greves nos quartéis e a injustiça militar. sendo depois transferido para a Europa68. Em troca de três anos de serviço no United States Army Security Agency (ASA) – uma agência de inteligência nas comunicações –. entrando logo em seguida na faculdade. o que nos permite ver como o jornal atuava e qual foi seu resultado. Sharlet aprenderia a língua eslava por um ano. soldados insatisfeitos com a estrutura militar e com a experiência do Vietnã retornavam aos Estados Unidos dispostos a expressar seus testemunhos e ponderações sobre o conflito. tanto de bases em solo norte-americano quanto no Vietnã. convém explicar como o jornal surgiu. Cit. cidade interiorana de Nova York. Jeff Sharlet A história da vida de Jeff Sharlet em parte reflete a transformação na visão da guerra de soldados no Vietnã. Indeciso com seu rumo acadêmico. Com isso. então. Jeff Sharlet. graduou-se em 1960 na Albany Academy – um colégio militar privado. um veículo para relatos e desabafos dos combatentes. Op. bem como o impacto do Vietnam GI em outras mídias também serão abordados. Freqüentemente. Com o Vietnam GI não foi diferente. como a questão racial. Nascido em Glens Falls. logo no primeiro ano de estudos universitários optou por cumprir seu dever militar e se alistou.

como o então Vice-Presidente. onde fora servir como tradutor e intérprete de vietnamita. Disponível em: http://jeffsharlet-and-vietnamgi. dessa vez na véspera do golpe do General Nguyen Khanh contra a junta governante. organizando e co-liderando demonstrações contrárias a visitas de personalidades pró-Vietnã no campus. A seguir. Junto de seus colegas de trabalho.yolasite. Sharlet foi alocado na zona desmilitarizada. Ao retornar à Indiana University em 1964. 46 . enviando dados traduzidos para Washington. de onde relatou à sua família sentir as primeiras desconfianças quanto à missão norte-americana no Sudeste Asiático. com seis horas de aula por dia. Ao final de maio de 1964. onde provia sistemas de comunicação para operações no Vietnã do Norte69. liderado por Ho Chi Minh. Ao final de 1963. Junto a outros estudantes. 70 Como visto no capítulo anterior. Sharlet graduou-se em Ciências Políticas. 1961-64. Sharlet monitorava as comunicações de rádio do Exército do Vietnã do Norte. Sharlet seria enviado pela primeira vez ao Vietnã.com. o especialista em vietnamita voltaria ao Vietnã.. Sharlet foi inscrito no curso de doze meses de língua vietnamita. Sharlet estava desiludido com o envolvimento norte-americano no que ele considerava uma guerra civil vietnamita. Philippines. Três meses depois. geralmente acompanhados de relatos exagerados e mentirosos sobre falsos sucessos. Richard Nixon.php . o SDS era um movimento estudantil ativista que incorporou os preceitos da New Left na década de 1960. em janeiro de 1964. Sharlet foi ativo nos dois anos em que ficou no SDS. o futuro editor já havia visto muita corrupção política e incompetência militar por parte dos Estados Unidos. tendo obtido o prêmio Woodrow 69 Military Service: Army Language School. Sharlet viu o investimento militar norte-americano no Vietnã crescer. como visto no capítulo anterior. o futuro editor do Vietnam GI foi enviado para a Clark Air Base. na Army Language School. Vietnam. Em 1967. Sharlet retornou para as Filipinas. Acesso em 29 de maio de 2011. participando. Em seguida. como explicitado no capítulo dois. quando seu serviço militar chegou ao final.com/military-service. nas Filipinas. o veterano não ficou alheio ao que acontecia e organizou a seção do Students for a Democratic Society70 em sua faculdade.Contudo. no início de 1963. ao mesmo tempo em que protestos estudantis contrários à guerra se espalhavam por todos os campi do país. perto da ocorrência do golpe organizado pelos Estados Unidos e por generais do Vietnã do Sul para derrubada do regime de Ngo Dinh Diem. Após trabalhar em duas bases em solo vietnamita.

we want it to be an all-service paper which reports the experiences and views of Marines. p. So yes. Disponível em http://sirnosir. como consta no editorial da primeira edição do Vietnam GI: We have been asked by servicemen. Its name is mostly a result of the fact that the present group of Vietnam vets associated with the paper is somewhat overloaded with Army guys. Descontente com o movimento estudantil. Sharlet buscou os meios para outro desejo seu. if the name of the paper. too. we definitely want to hear from you guys in the other services. A organização fora criada com o objetivo de promover ações pela paz.com. 73 Jeff Sharlet ainda tinha amigos no Vietnã. Jan Barry Crumb. principalmente os de baixa-patente. 1964-67. Com cerca de 25 mil membros no auge do conflito. Sharlet. no mesmo ano71. Acesso em 29 de maio de 2011 47 . 72 OSTERTAG.php .com/archives_and_resources/library/articles/ vietnamgi_05. Cit. We hope to have a more balanced group in the near future.com/indiana-university. chamados de GIs. Op. Sharlet foi para Nova York trabalhar no Vietnam Veterans Against the War. porém. means that it's a rag for Army guys alone. Acesso em 29 de maio de 2011. Bob. especially sailors. Apesar do título abarcar somente aqueles pertencentes ao Exército norte-americano. o qual julgou como arrogante e de pouca profundidade. Vietnam GI Assim nascia o primeiro jornal antiguerra direcionado aos soldados no Vietnã.html. justiça e pelos direitos de todos os militares americanos. Assim. percebeu que a oposição à guerra crescia cada vez mais e. sabia da insatisfação com o conflito no meio militar. foi uma das organizações antiguerra mais influentes72. No. too. direcionada aos soldados 71 Indiana University: Students for a Democratic Society.yolasite. and Air Force guys. em julho de 1967. 123 73 Editorial. tendo servido no Vietnã. criado por um veterano conhecido seu.Wilson Graduate Fellowship e uma bolsa para PhD na University of Chicago. ao voltar para a University of Chicago. Navy. Durante seus anos de faculdade. e o jornal era inteiramente dedicado a todos que corriam perigo igual. VIETNAM GI. Disponível em http://jeffsharlet-andvietnamgi. ficou apenas um dia – tempo suficiente para receber o dinheiro de sua bolsa e fundar o Vietnam GI em janeiro de 1968. o jornal visava todos os militares. O sucesso do Vietnam GI e seu crescimento logo levariam à criação de uma segunda edição mensal do jornal.

Assim. 126 As coffee houses eram estabelecimentos que serviam bebidas diversas. eram distribuídos por outros soldados. p. gratuitos para os GIs. no caso de um soldado mudar de locação no front. a entrada de capital era bastante restrita. no entanto. o jornal e o editor chamaram a atenção da grande mídia – com matérias na Esquire e no New York Times. Assim. Sharlet também representou o movimento GI contrário à guerra em conferências no Japão e na Suécia. e o custo de produção e envio. Durante seu tempo de publicação. O envio para o Vietnã era parte de um processo um pouco mais complexo. Os grupos locais. Sharlet conseguiu o apoio de Barbara Garson. Como o periódico era gratuito para soldados no campo de batalha. Jeff Sharlet começou a mostrar 74 75 OSTERTAG. Cit. muitos atos políticos. eram constantemente modificados. fosse na distribuição. fosse financeiramente. por sua vez. Em busca de mais apoio e de fundos para manter o Vietnam GI. o público leitor também se expandia nos Estados Unidos. os jornais. mas também eram pontos de encontro de associações de jovens e militares ligados de alguma forma ao movimento antiguerra. tais como o Presbyterian Pen Pal Club. Bob. visitando bases militares e recrutando GIs dispostos a escrever no periódico ou a distribuí-lo. elevado. as edições eram enviadas para comitês de civis e para soldados espalhados pelo país. Também em 1968. tais endereços precisavam ser válidos para. de modo a dificultar ainda mais qualquer descoberta. a partir de agosto de 1968. vários donos de coffee houses75 e líderes de movimento contrários ao alistamento obrigatório ajudaram de diferentes formas. Assim. sobretudo por aqueles que de alguma forma trabalhavam em transportes aéreos74. enviavam o jornal – embrulhado em um papel marrom – colocando como remetente organizações que dificilmente suscitariam suspeitas.alocados em solo americano. Neste contexto. então. Estes endereços. de forma a não chamar a atenção das autoridades. a equipe editorial saber e logo realizar as devidas correções. Jeff Sharlet viajava de costa a costa nos Estados Unidos divulgando seu jornal e sua luta. autora de Macbirth!. este também impressionava. Sharlet viajava constantemente. A edição e produção. manifestações e protestos tinham início em tais locais. o que demonstra a amplitude de sua atuação em prol da causa. Como a postagem para o Vietnã era cara. Porém. Op. o Vietnam GI atingiu um pico de circulação de 10 mil cópias. uma famosa peça antiguerra de 1966. e cobertura na NBC Nightly Television News – dedicadas a eles e à imprensa GI underground como um todo. eram feitas em Chicago por um grupo de 12 voluntários. Uma vez no Vietnã. Além desta. Quanto ao modo de distribuição do jornal. 48 . após um ano de existência.

isto é. como veremos mais à frente. 11 relatam pedidos de assinatura do jornal por soldados que pegaram edições emprestadas com seus companheiros. Outra seção igualmente longa era chamada de GI’s speak-out!. Fontes Mais impressionante que a produção e a distribuição do Vietnam GI era seu conteúdo. Toda edição contava. era também um fórum de discussão entre soldados cujas opiniões eram as mais diversas possíveis. por vezes incluindo até aquelas favoráveis à guerra. O crescimento exponencial do jornal também pode ser percebido nestas cartas. e chegou à sua última edição em junho de 1970. não era mais o mesmo após a morte de seu principal editor. por vezes até sendo distribuídas ao longo de todo o jornal. que consistia nas cartas de soldados recebidas pelos editores. Embora este o tenha levado à morte logo depois. sem qualquer censura. deu entrada em um hospital de veteranos. É possível identificar basicamente três seções no Vietnam GI. por sua vez. os quais serão 76 O agente laranja era uma combinação de herbicidas usados em larga escala pelos norte-americanos no Vietnã a fim de destruir a agricultura do país. por conta de uma purificação inadequada. passando pela aprovação do periódico a casos absurdos testemunhados pelos remetentes no Vietnã. onde foi submetido a uma operação contra um câncer de rim. 49 . Escrito inteiramente por soldados e veteranos. Porém. Os assuntos variavam. Este inclusive era um atrativo a mais do Vietnam GI: ao mesmo tempo em que se colocava como um jornal contrário à guerra por princípio. que levou milhares de pessoas à morte.indícios de cansaço. Durante uma viagem à Florida. A terceira e maior seção era constituída de notícias relacionadas a eventos políticos de alguma forma relacionados à guerra e sobre acontecimentos tanto nos Estados Unidos quando no Vietnã. Por exemplo. amigos e familiares acreditavam que a verdadeira causa fora a exposição ao Agente Laranja durante a guerra76. do ponto de vista daqueles que viviam e viveram no dia-a-dia da guerra. sem obedecer a limitações de formatação ou de páginas. assim. Políticos e militares corruptos. rebeliões e protestos nas bases e o racismo no Exército são alguns dos temas. na edição de junho de 1968. representava a voz do GI preocupado com seus companheiros e que sempre falava da experiência direta. O jornal. aos 27 anos. com uma longa entrevista com um soldado que ou havia voltado recentemente do Vietnã ou havia participado de um ato de resistência. foi produzido com teores elevados de um subproduto cancerígeno. das 21 cartas publicadas.

Do mesmo modo. 78 Editorial. In other words. ou seja. (…) We are bitter about our own experiences there – especially about our friends who didn't make it back from this lousy. tal imprensa veio a se tornar parte essencial do movimento GI antiguerra. therefore. sobretudo por servir como um dos meios pelos quais se relatavam a insatisfação dos soldados no Vietnã e nos Estados Unidos. Third. So we want to give servicemen and Vietnam vets a chance to express their views. conforme extraído do mesmo editorial algumas páginas atrás. 77 Stars & Stripes é um jornal de 1948 existente até hoje. Disponível em http://sirnosir. Government can play world cop. Moreover. it seems like everyone has been heard from on the war except for the main group which has been and still is fighting in it – the enlisted men. sentiam a necessidade de transformar suas opiniões guardadas em mensagens para seus pares. Em seguida. O modo despojado da escrita já pode ser visto no editorial. Como vimos no primeiro capítulo. is an attempt to give stateside GIs the truth about the war.78 A mensagem é clara: o Vietnam GI fora criado principalmente para dar voz a soldados e veteranos que.abordados de maneira aprofundada mais em breve. analisaremos algumas entrevistas. este era formado essencialmente por GIs. No momento. we want to supply some uncensored news. é interessante voltarmos ao primeiro editorial da primeira edição. mas também contava com militares de baixa-patente da Navy – Marinha – e da Air Force – Aeronáutica. publicado por militares e de viés conservador. mas que queriam manter-se informados. as mensagens e os pensamentos dos soldados. Acesso em 29 de maio de 2011 50 . Quanto ao público-alvo. insatisfeitos com a guerra. de modo a conhecer o perfil. o que será visto mais a frente. que na época do Vietnã censurava notícias e atuava em prol da guerra. our basic opinion is that we ought to get the Hell out of there now before more and more GIs die so the U. as every GI in the Nam knows what it's like trying to get any “news” out of STARS & STRIPES77.html. como no sarcasmo sobre a morte de GIs para que os Estados Unidos pudessem brincar de policiais do mundo – humor ácido este que será visto em várias publicações e artigos do jornal. worthless war. Porém. que praticamente só tinham acesso a eles em algumas coffee houses.S.com/archives_and_resources/library/articles/ vietnamgi_05. membros rasos do Exército. VIETNAM GI. a utilização de gírias e de palavras simples tornava o Vietnam GI acessível àqueles que não dispunham do hábito da leitura. era rara a distribuição de jornais underground do gênero para civis. a fim de entender a proposta do jornal.

Just a “wait-and-see” attitude. a afirmação de que com a chegada americana as mulheres tornaram-se prostitutas. isto é. afetados pela experiência da guerra. the kids into thieves and beggars. Not really extremely against us and not really extremely for us. De certa forma.com/archives_and_resources/library/articles/ Vietnam_gi_07.) I never dug beating up women. Isto certamente influenciou em algum grau a mudança de consciência de alguns militares sobre a guerra. not the VC. Acesso em 30 de maio de 2011. de fevereiro de 1968. traziam uma realidade ainda desconhecida por muitos soldados em solo americano. 51 . O jornal. como a tortura de prisioneiros vietnamitas com agressão física e choques elétricos. mas também operava no sentido inverso. the Vietnamese were about 50-50 for and against us. ingressavam em programas. Then people started getting killed indiscriminately by Americans. uma vez que quem escrevia as notícias chocantes eram seus pares. Disponível em http://sirnosir.a) As entrevistas Cada edição contava com pelo menos uma entrevista com um soldado que havia acabado de ser dispensado do serviço ou que estivera recentemente envolvido em um ato de resistência. após relatos como 79 Interview: Vet Eye View. O caso de Pete Martinsen é um exemplo de entrevista com um veterano que relata alguns dos crimes mais absurdos cometidos pelo Exército americano. o conteúdo impressiona por trazer atrocidades cometidas pelo entrevistado que. the men into pimps.79 O relato é da segunda edição do Vietnam GI.. (. We did this. Se já havia poucos ou nenhum motivo para lutar no Vietnã. levando fatos e relatos oculares aos soldados ainda em treinamento80. (…) it was a real victory if we got any information at all. all the girls turned into whores. When we first moved into our area. Como se não bastasse a tortura. I saw it done a lot of times and even did it myself a couple of times. além de chocantes.. os homens cafetões e as crianças pedintes agravava o quadro. grupos ou palestras contrárias ao conflito. Long Khanh Province was more against us when we left than it was when I came in. Grifo nosso. funcionava não só como uma fonte de notícias sobre o que acontecia nos Estados Unidos para manter os soldados do front informados. pode-se concluir que as entrevistas eram feitas com aqueles que eram mais ativos na tentativa de por fim à intervenção americana no Sudeste Asiático. Ao mesmo tempo. considerando-se que parte dos GIs. tais soldados tinham acesso à mesma edição enviada ao Vietnã. uma das primeiras entrevistas a serem feitas pelo jornal.html. 80 Apesar de a edição destinada aos soldados nos Estados Unidos começar a funcionar apenas em agosto de 1968. assim.

como se não bastasse a guerra não fazer muito sentido para muitos soldados. Afinal. 52 . but you could see it. they had television and stereo equipment in the Officers' Club.com/archives_and_resources/library/articles/vietnam_gi_02. passando ainda pela violência contra os civis vietnamitas.esse sobravam razões para permanecer em casa. A entrevista continua. voltou ao colégio para concluir seus estudos e se juntou a uma organização de veteranos. o governo dizia à época que o objetivo era conquistar os “corações e mentes” dos vietnamitas. while they were having barbeques three or four times a week with steaks. Why I Joined the Anti-War Movement. [Pergunta:] Did you see any Black GIs getting knocked down because of race? [Resposta:] Well. desta vez com uma pergunta sobre a questão racial. which they took out of the PX. A realidade do dia-a-dia também é descrita. risking our lives. went out whenever they felt like it. What things that you saw overseas helped to bring that about? [Resposta:] (…) I found that while we were over there. [Pergunta:] You’re against the war now. Vale destacar.81 São incontáveis os relatos que criticam o modo de vida dos oficiais no Vietnã. A couple of officers that I knew had houses that they rented in town. sometimes 20 hours a day. And it was paid for by raising the price of beer in the Enlisted Men's Club. We were eating C-rations most of the time. promovendo programas de assistência às populações civis e de desenvolvimento comunitário. When I first got to Vietnam.html . Ora criticando seu comportamento nas bases. Disponível em: http://www. Grifos nossos. dried eggs and stuff like that. os oficiais fazem parte da maioria dos relatos de seus subordinados. there were about 10 black guys and maybe 20 white guys. in the communications platoon that I was in. seus superiores agiam de uma forma que não condizia com a imagem de um militar – representante oficial do governo americano – muito menos alguém comprometido em supostamente ajudar o povo contra a opressão comunista. Acesso em 30 de maio de 2011. working seven days a week. the officers were doing almost nothing and exploiting us in a lot of ways. they didn't say that black guys were being knocked down because they were black. The town was supposed to be off limits after six o'clock. and they kept their whores there. All the white guys got promoted 81 Interview With Vietnam Vet.sirnosir. como podemos observar a seguir. Outra entrevista interessante é a de um ex-soldado anônimo que. logo ao retornar aos Estados Unidos. For instance. ora a vida de regalias que levavam. que se enquadravam no projeto Nation-Building.

After a while. Cit. the guys who really worked hard and did their job. o que os levava a preferir jornais como o do Black Panther Party. ao afirmar que “não tenho nenhum problema com o vietcongue. Op. Why I Joined the Anti-War Movement. De acordo com Bob Ostertag. 84 Quanto ao movimento pacifista.before any of the black guys did. tiveram um aumento substancial de intensidade.83 Mas um aspecto importante a ser ressaltado sobre o publico do Vietnam GI e de outros jornais da imprensa underground do período do Vietnã é que seus ativistas. p. O boxeador negro Muhammad Ali sintetizou bem o momento quando se negou a servir o Exército. por conta da experiência na guerra. If it wasn't because of race. o conflito pelos direitos civis nos Estados Unidos era uma luta justa e necessária. do que a imprensa GI não produzida segundo critérios raciais. conforme relatado. Op. o tratamento dos oficiais era marcado por clara discriminação racial. They thought that these people were the people who were against them. isto é. as marchas pela paz eram consideradas protestos contra os soldados.” 84 OSTERTAG. Why I Joined the Anti-War Movement. Entretanto. Para os negros. isto se deve ao momento de luta dos negros nos Estados Unidos. por volta de 1968-1969. [Pergunta:] How did you feel about the peace marches and demonstrations that were going on back home? [Resposta:] When I was over there a lot of the guys reacted negatively to it. o veterano conta como foram as reações entre os soldados. logo viram que era 82 83 Interview With Vietnam Vet. Cit. Estes.85 Conforme relatado. A lot of the guys came around to supporting this sort of stuff. they realized that being in Vietnam was what was endangering their lives. Nenhum nunca me chamou de crioulo”. Bob. uma vez que não recebiam o mesmo tratamento que os demais americanos brancos. refere-se ao período em que o soldado esteve em serviço. de junho de 1970. the reason's a big secret to me!82 Vale lembrar que esta entrevista. 53 . enquanto o Vietnã representava uma guerra que não era deles. 146 85 Interview With Vietnam Vet. Op. porém. anos em que a luta pelos direitos civis em geral e dos negros. dirigido exclusivamente aos negros. Cit. “I ain’t got no quarrel with the Vietcong. especificamente. No Vietcong ever called me nigger. colaboradores e leitores eram em sua grande maioria brancos. inicialmente. and some of the black guys were the best guys in the platoon. and that these people who were marching against the war were the only people who wanted to get out of Vietnam.

sem permitir o aprofundamento de certos assuntos. que também se mostra como o mais interessante. Guys just like you and me. mostrando o seu diferencial e porque se tornou o veículo preferido dos soldados para expor seus pensamentos. and how all the lifers are trying to fuck us over. Vietnam GI: Chicago. 2 54 . 87 A1C. a palavra possui uma conotação pejorativa. junho de 1968. What impresses most of the guys is that Vietnam GI is written to us – the first termers and lower rank enlisted men. Porém.87 (A1C. muitos pedidos de assinatura e inúmeras reclamações sobre o que acontecia no Vietnã. When you read a copy you don’t only get a lot of good facts about the fabulous mistakes our government makes (…). bem como veremos os principais alvos apontados. Danang) 86 O termo “lifer” é constantemente utilizado pelos soldados de baixa-patente como gíria para designar os militares de alta-patente do Exército. será feito um levantamento dos principais assuntos abordados. com as entrevistas. explorar determinados assuntos polêmicos sobre a guerra com o propósito de expor os absurdos pelo relato direto. not the lifers86. isto não quer dizer que as cartas eram menos eficazes nos seus relatos. O próprio entrevistado juntou-se a um grupo pacifista. atacando a guerra e tentando unir forças contra sua continuação. Digs Paper In: GI’s speak out!. que o jornal buscava. Como as perguntas eram feitas a soldados e veteranos selecionados. p. como veremos a seguir. b) As cartas A longa seção de cartas contava com diferentes temáticas. era possível destrinchar os temas de uma forma mais ampla do que era feito com as cartas – enviadas uma vez e que contavam raramente com uma resposta do editor. Evidentemente. ater-nos-emos a este último caso. Podemos perceber. além de ressaltar a linguagem empregada por estes soldados. dessa forma. Por termos certas prioridades neste trabalho. podemos ver uma carta que resumia bem o propósito do Vietnam GI. Contudo. pelo tratamento recebido pelos GIs. and that helps a lot – knowing other guys over here think the same and aren’t afraid to stand up for what they believe either. tornando-se em geral favoráveis ao movimento pacifista. but you get to read other GI’s opinions on this mess.a guerra a responsável por colocar suas vidas em risco. o qual representava em palestras contando sua experiência. A seguir. antes.

p. War Story In: GI’s speak out!.O exemplo demonstra a importância da seção para os soldados. O alvo novamente são os oficiais de alta-patente. Era onde podiam falar o que pensavam sem censura e ler relatos de outros com quem passavam a se identificar. We turned to the Sergeant for instructions. We put hand grenades on their belts. quando era aplicada. em que um soldado reproduz uma história contada por outro soldado. ‘Let them have it.’ he said. aos asiáticos. palavrões e da linguagem informal em geral é recorrente. Outro exemplo de carta pode ser visto a seguir. o grupo ainda colocou granadas em seus cintos para criar uma falsa situação de ameaça para justificar as mortes. 400 meters away. divisão militar e o local onde serviam. Vietnam GI: Chicago. é possível perceber alguns elementos estruturais que vão permear quase todas as cartas. Outra prática comum é a assinatura das cartas não pelo nome. Como os artigos eram publicados com uma estrutura semelhante a esta. o uso de gírias. Já neste pequeno trecho. and took the bodies along with us. Não raro. que complicam ainda mais as muitas dificuldades dos soldados. Todavia. riddles with bullets. 8 55 . the other a 60 year old woman. Isto impedia que. Our orders were to leave the site at 1800 because we couldn’t be sure there would be no civilians in the area after that time. bastante representativa dos absurdos cometidos e ordenados pelos oficiais. “We were waiting in place all day for some VC [vietcongues] to come into our ambush. One was a 70 year old man. e pelo fato de o jornal ser um fórum de soldados – a grande maioria jovem – não havia nenhuma exigência ou necessidade do uso de uma linguagem formal.’88 and we went out to examine the catch. embora a palavra tenha origem no início do século XX. ‘It’s getting late. Por exemplo. Robert Wood. como gíria. os GIs ficassem expostos por conta do anonimato em suas críticas. Conforme descrito. eram estes que levavam a responsabilidade por 88 O termo “gook” foi empregado pejorativamente para denominar soldados comunistas no contexto do Vietnã. junho de 1968. but ‘haunting was bad’. alguns soldados fugiam da regra e publicavam seus relatos com nome completo. We found two Vietnamese peasants. 89 Lt. At 1757.”89 Como se não bastasse atirar em um casal de idosos. two people came into view. saber que não estavam sozinhos já amenizava de certa forma o sofrimento dos soldados. At least we had something to show for our body count that day.’ Our machine guns made short work of the ‘gooks. mas pela patente e pela divisão em que o soldado estava. caso o jornal caísse em mãos de pessoas mais poderosas. especially since the grenades proved they were VC.

Hester: I strongly feel that anyone who has studied thoroughly the background and conduct of this war. o militar está afirmando que se recusar a lutar no Vietnã é um ato de lealdade ao povo americano. não cometiam excessos ou crimes. Alguns até chegaram a escrever para o Vietnam GI. On the contrary. e que sofriam com os estereótipos da sociedade ao cumprirem seus serviços e regressarem aos Estados Unidos. 130 56 . mas que também eram opostos à guerra. is not an enemy of our people when he refuses to accept service in Vietnam. havia generais que não só cumpriam o que se esperava deles. sem contar o fato de que se trata de um general reformado promovendo uma resistência ao alistamento. De soldados a generais. and who has reached the conclusion. além de tirar a vida de milhares de soldados. com o objetivo principal de transferir a culpa que recaía sobre eles para a política de violência que regia a instituição militar como um todo. tornando pública sua opinião. os editores por vezes respondiam as mensagens utilizando o mesmo tom de cordialidade ou agressividade das cartas que lhes eram dirigidas. Por outro lado. como o General de Brigada reformado Hugh B. Evidentemente.90 Em suma. já que a intervenção não fazia o menor sentido. p. é a escolha do Vietnam GI para publicar sua opinião. that the war is in violation of the basic interests of the American people. as I have. Por outro lado. em geral de superiores militares que exigiam o fim do Vietnam GI. Um exemplo é esta carta de julho de 1968. opiniões de soldados desesperados que discordassem dos princípios do jornal eram respondidas por Jeff Sharlet respeitosamente. Op.atos como o descrito acima. as I have. Cit. uma vez que a regra era a perseguição e censura aos jornais antiguerra. Porém. de um GI inconformado com o que já havia acontecido. O que mais impressiona. A guerra violava o interesse das pessoas. Bob. he is exercising his loyalty to our people in it finest form. ou seja. No entanto. o relato deste oficial deve ser visto como exceção. de forma a convencer o remetente a ser favorável ao fim da guerra. 90 OSTERTAG. as opiniões geralmente eram publicadas sem restrições de ponto de vista. havia veteranos e organizações – como a Vietnam Veterans Against the War – que fizeram esforços no sentido de contar à nação o que viram e sofreram.

GI’s thoughts. sendo na verdade um conjunto de contribuições escritas. and we don’t forget our own. Jeff Sharlet92 c) Os artigos Conforme dito anteriormente. Acesso em 2 de junho de 2011. em contraste com as 91 92 O termo “Charlie” era usado pelos soldados para designar os vietcongues. I have lost too many friends to see it all wasted. I am thankful that I’m still in one hunk and still can look at both sides. Everytime we lose someone to Charlie91 we want to do something about it. Em outras palavras. de modo a tornar a leitura mais acessível a todos. Fossem notícias sobre o que estava acontecendo nos Estados Unidos ou matérias que traziam à tona as perversões da guerra. eram os responsáveis por tornarem a vida de seus subordinados mais difícil. porém. Quanto aos principais temas explorados pelos artigos. Diferentemente das entrevistas e das cartas. os escritores utilizavam-se de uma linguagem bastante informal com a qual os soldados pudessem se identificar. tanto nos bastidores políticos quanto no campo de batalha.I am for staying and kicking Charlie’s ass. We’re men. Gírias. palavrões e expressões próprias dos militares dão a tônica do discurso. sobretudo. as reportagens visavam. por mais variados que fossem os assuntos. A resposta de Sharlet demonstra o porquê o Vietnam GI continuava a ser o lugar escolhido pelos GIs para publicar seus pensamentos. Os motivos eram inúmeros: a vida luxuosa que os oficiais levavam. Estes. 57 .html .com/archives_and_resources/library/articles/ vietnam_gi_08. fosse em bases americanas ou no Vietnã. There’s a lot of truth and honesty in what you say. novamente tem-se a figura dos grandes oficiais do Exército e seu desrespeito tanto pelos vietnamitas quanto pelos soldados americanos.sirnosir. os artigos eram feitos pelos editores. como visto acima. informar os soldados. mas sim espalhada – era a mais longa do Vietnam GI. por pessoas ligadas à produção do jornal e por soldados em serviço. Disponível em: http://www. But what should we do about he politicians back home who sent us into this stinking war? Are we man enough to settle our score with them? Sincerely. As reportagens não contavam com escritores exclusivos para esta função. Podemos observar em nossas amostras que. a seção de artigos – embora não estivesse concentrada em apenas uma parte do jornal. sempre há espaço para uma relação ou crítica ao chamado “brass” – os oficiais de alta-patente.

58 . Como a luta através do uso violência só traria conseqüências negativas aos insatisfeitos. be cool. entretanto. afinal.” Others at Ft. muitas vezes com sucesso. a sigla FTA era usada como slogan do Exército para cooptar novos soldados e significava Fun. Disponível em: http://www. a recomendação dos editores do Vietnam GI era para os soldados em serviço no Sudeste Asiático suportarem todo o caos que os cercava. In his own words: “I refused to let them take my literature because the First Amendment of the Constitution of the United States guarantees the right of all Americans to free speech. estas deveriam ser organizadas de acordo com as condições de cada base. quanto à condenação do soldado Andy Stapp. greves e atitudes protegidas pela Constituição americana foram organizados. Originalmente.sirnosir. a existência de pequenos ditadores entre os oficiais. as atitudes absurdas pelas quais os soldados viravam bodes expiatórios. and think about how short you are. que dá título a este trabalho. as punições injustas. considerado um socialista revolucionário por suas leituras. Disponível em: http://www. 94 Army Flips. and Sp/5 Paul Gaedtke have publicly agreed with Andy Stapp. Quanto às manifestações em bases localizadas em solo americano. This group seeks to organize soldiers to win demands such as: * Recognition of the right of all soldiers to advocate their political views. such as Pvt. Os GIs. A lista de reclamações é interminável. This guarantee certainly includes the right of revolutionary socialists to organize within the Army against America’s imperialist war of aggression on Vietnam. Travel and Adventure. as well as to read anything they want. * Election of all officers by the troops.sirnosir. Acesso em 5 de junho de 2011. parar a guerra significava parar o Exército. para a grande maioria do movimento dos GIs.carências e problemas dos GIs. in the same way as the People’s Liberation Army of China. But for you guys in the Nam (…) there’s only one thing to do – it is to stay with the program. Nestes termos. dada a desproporção de forças. e sempre serem feitas de forma pacífica. os assassinatos de inocentes. Contudo. Richard Perrin.com/archives_and_resources/library/articles/ vietnam_gi_06. Um exemplo é exibido a seguir.html . * Seats on court-martial boards for enlisted men.94 93 FTA.html . Acesso em 05 de junho de 2011.com/archives_and_resources/library/articles/ vietnam_gi_11. These men and others from several bases have met and formed the American Servicemen’s Union. The Nam isn’t the place to do anything but survive. sit-ins. não tardaram a mudar o significado para Fuck The Army.93 É interessante ver como o jornal – apesar de toda a propaganda antiguerra – pregava o bom comportamento dos soldados. a desobediência civil era enaltecida. Sp/4 Richard Wheaton. Sill.

a igualdade e o julgamento pelos pares são resgatados como argumentos contrários ao sistema. except for the hawk corporations and their politicians. pois a falta de provas e de coerência minou as acusações dos militares. in wars that no one voted for and no one benefits from. o caso logo se tornou favorável aos soldados. On August 23. Hood Strike. O caso se mostra interessante por se tratar de um socialista recorrendo ao arcabouço institucional para justificar suas atitudes.” Apesar da repressão inicial dos oficiais superiores. Tal exemplo de como fazer uma manifestação pacífica e sair vitorioso dela saiu na edição de setembro de 1968. 59 . Ou seja. direitos assegurados pela Constituição. The action of 43 black EMs at FT Hood has set a precedent that may well be followed and improved upon by thousands of GIs in the future. se vale das regras que regem o país e dos mitos de origem para a sua luta ideológica contra a ordem liberal e. Mais especificamente. muitos deles veteranos condecorados do Vietnã. durante a Convenção Democrata de 1968. Outro artigo interessante refere-se aos acontecimentos em Chicago. trata-se da recusa de 43 soldados negros.sirnosir. assim.html . they issued a statement which said: “We won’t go to Chicago or any place in the United States to put down a civil disturbance or riot by our black brothers. na visão dos soldados. assim. No entanto. Parar a guerra significava. O dissenso. o socialista queria permanecer entre os soldados para ajudá-los nas atividades contra a entidade militar. a responsabilidade pela vida sofrível que levavam era dos oficiais de alta-patente e membros das grandes entidades governamentais. os atos não podiam ser demasiadamente radicais. If the trend continues – and thousands of GIs can make it continue – the Brass will be unable to force GIs to fight in countries and cities. 95 Em suma. parar os militares.A liberação do condenado a partir de sua defesa da liberdade de expressão fez com que o Exército quisesse dispensá-lo. Disponível em: http://www.com/archives_and_resources/library/articles/ vietnam_gi_01. no caso. (…) When they decided the time had come to make a stand. como a democracia. the 43 stopped going along with the Brass's game-they refused to be used to put down so-called "civil disturbances" in Chicago during the Democrat Convention. No entanto. Acesso em 5 de junho de 2011. uma vez que certas atitudes eram 95 Ft. militar. em deter as manifestações de outros negros pelos direitos civis naquele evento.

Cabia aos GIs a contribuição de seus relatos e a organização nas bases para suas manifestações.julgadas pela justiça militar. conforme visto acima. 60 . ao noticiar inúmeros eventos de resistência pacífica e de crimes cometidos pelos próprios oficiais de alta-patente. Quanto aos soldados em serviço no Vietnã. A contribuição do Vietnam GI para tal fim segue este rumo. sobreviver a todo o caos era o principal objetivo.

anuncia-se finalmente a decisão de Obama de retirada do Afeganistão. alguns paralelos com a Guerra do Vietnã foram traçados. ao concorrer à presidência dos Estados Unidos. Um dos principais objetivos – combater a Al Qaeda – perdeu seu impacto quando o diretor da CIA. como mostramos na introdução deste trabalho.html . Em 2011. Outro grupo que se mostra inconformado com a guerra. por motivos diferentes.html . que não “comprou” o conflito e está insatisfeita com o número de mortos – 1500 soldados. Leon Panetta. o número de soldados no país chegou a 100 mil. com gastos de 10 bilhões de dólares por mês96. é possível explorar como esta oposição é transmitida na prática. pouco tempo após ser eleito. as perdas americanas e a crescente descrença popular com relação ao conflito são algumas das semelhanças. Um exemplo é o Appeal for Redress. uma pesquisa que se valeu de entrevistas com tropas americanas que serviam no Iraque constatou que 72% dos soldados se opunham à guerra98. tendo em vista a força da insurgência afegã. 98 Soldiers and the Anti-war Movement. Acesso em 27 de junho de 2011. Porém. a duração do conflito. Disponível em http://www. a própria motivação da guerra revelou-se um equívoco. tendo em vista a próxima eleição presidencial. é formado pelos soldados. por conta dos gastos. em uma guerra que desagrada ao Congresso. A partir deste dado revelador. uma petição que exige a 96 Troop morale plummets in a war without purpose. 61 .org/liberationnews/news/07-09-21soldiers-antiwar-movement. os gastos excessivos. até maio de 2011. Republicanos e Democratas no Congresso apóiam a medida. e à opinião pública. Estima-se que 80% dos GI’s e Marines sofram com problemas psicológicos por terem visto um amigo sofrer um grave ferimento ou morrer97. a nova administração anunciou o plano de expandir ainda mais a guerra do Afeganistão. A morte de milhares de civis afegãos.Considerações finais Barack Obama. a possibilidade de vitória parecia mais distante. Em março de 2006. Com isso. Acesso em 27 de junho de 2011. No momento em que encerramos essas páginas. Disponível em http://pslweb. afirmou não existir real presença da organização no Afeganistão. Além disso. da mesma forma que a última guerra do Iraque.answercoalition. Ao mesmo tempo. Outra face menos conhecida dessas similaridades reside no movimento antiguerra de soldados contra a empreitada no Afeganistão e no Iraque. 97 Idem.org/ march-forward/ statements/t. foi apresentado como o candidato antiguerra.

org/march-forward/ brochure/refusing-an-illegal-war. They are the wars of the banks. Formulada em meados de 2006. while the lives of millions of Iraqis and hundreds of thousands of soldiers and their families have literally been destroyed. o grupo engloba militares em atividade. soldiers have refused to fight on moral and ethical grounds.html . sabotaging equipment and refusing to go on missions. As principais demandas da organização giram em torno da saída imediata dos conflitos.answercoalition. Este quadro nos mostra que muitas das “lições do Vietnã” foram ignoradas nas guerras americanas do século XXI. reparações de guerra ao povo iraquiano para que possam ter liberdade na condução do país e auxílios de saúde aos veteranos dos conflitos. as memórias vitoriosas da Guerra do Vietnã foram aquelas “falsas memórias” – propaladas principalmente pelo governo – em que não teria havido um movimento antiguerra entre os soldados. Por outro lado.org/ Refusing an illegal war. Acesso em 27 de junho de 2011.S. as mobilizações contrárias aos conflitos atuais mostram que o ativismo no meio militar existe e que redesenha 99 Iraq Veterans Against the War.saída imediata das tropas americanas do Iraque. e outros que serviram desde o 11 de setembro. Since the colonial invasions of Mexico in the 1840s and the Philippines at the turn of the 20th century – and in every imperial war since – U. Segundo uma matéria do ANSWER Coalition.S. parte dos soldados e veteranos destes mesmos conflitos. corporations. but with the blood of working-class youth. Disponível em http://www. quanto do Afeganistão. sailors and marines should refuse to take part in these wars. Outra organização de destaque é o Iraq Veterans Against the War. Wall Street and U. seguindo os moldes da Vietnam Veterans Against the War. military of refusing to fight the government’s criminal wars. atualmente. No entanto. waged for the rich.S. Disponível em http://www. veteranos tanto do Iraque. There is actually a long and proud history in the U.100 Para Jerry Lembcke. no ano seguinte já contava com mais de duas mil assinaturas de homens que estavam servindo à época. These are not our wars. This number does not include the thousands of soldiers who stayed in the military to organize against the war.S. não hesitaram em resgatar o movimento antiguerra e agir de forma semelhante ao se oporem aos conflitos. All soldiers. Every individual serving in the U. outra organização antiguerra. (…) The wars in Iraq and Afghanistan are making billions of dollars for a wealthy few. The genocidal invasion of Vietnam inspired over 500. por motivações próprias.ivaw. 100 62 .000 soldiers to desert the military. military has the moral right to refuse to participate in crimes against humanity. Com 1800 membros99.

” 63 . que gerou uma crise na identidade norte-americana. optamos por focar principalmente na visão dos veteranos sobre o conflito. O progresso deu espaço à destruição. e havia aqueles que davam o mérito aos soldados vietnamitas.S. os soldados comumente foram vistos como um dos motivos para o esfacelamento do imaginário americano da guerra e. Mais do que uma derrota militar. And the truth has to be told. A sociedade. ferida. Por uma série de fatores.this was the words they used back then – “an isolated instance of aberrant behavior. conforme relatado no documentário Sir. antes alimentado por vitórias que reafirmavam seus mitos intrínsecos. Esta crença americana teve início desde sua formação. tentaram explicar as causas da derrota. mas sem esquecer também da manipulação dessas memórias no pós-guerra. Em poucos anos. entretanto. Neste estudo. That it was a policy. de fato contribuíram para a construção deste estereótipo. Os Estados Unidos. o estabelecimento da liberdade acabou criando um saldo de milhões de mortos. Massacres como o de My Lai. veterano do Vietnã. Enquanto uns culpavam o movimento pacifista. o Vietnã foi uma derrota moral. tinham premissas e mitos historicamente construídos que os firmaram como uma nação responsável pela ordem no mundo. foi um baque em uma história de séculos de sucesso. Dessa forma. desde sua formação. No Sir!. passando por sua expansão para o Oeste – sob a bandeira do Destino Manifesto – pela Guerra Civil. todavia. em março de 1968. governos ditatoriais no Vietnã do Sul. podemos explicar a relevância do tema estudado neste trabalho. ativistas. Military created things like My Lai. a concepção de um “povo escolhido” foi sendo desmantelada. estava manchado. Para Joe Bangert. You can’t lie and put up a smokescreen and say. outros criticavam a política intervencionista americana. Assim. You can’t duck away from the truth. como o Iraq Veterans Against the War fez atualmente com o nome e as propostas do principal grupo militar antiguerra na época do Vietnã. Durante e após a guerra. na verdade. pela derrota. It was both a written and an unwritten policy.características dos protestos e organizações de quase meio século antes. (…) the policies of the U. os Estados Unidos perderam a sua primeira guerra. políticos e veteranos. O conflito no Vietnã. O imaginário da guerra. pelas intervenções na Era Progressista e da Doutrina Monroe e por duas guerras mundiais. obviamente. acadêmicos. apesar da duração oficial da guerra. entre outros. a democracia criou. “Oh” .

assim. A seção de entrevistas tinha como objetivo explorar a experiência de soldados que haviam lutado no Vietnã e que acabavam por ingressar de variadas formas na luta pelo fim da guerra. evento midiático de janeiro de 1971 que intencionava tornar público os crimes de guerra e as atrocidades cometidas pelo Exército norte-americano no Vietnã. O Vietnam GI não tinha uma circulação muito ampla – o que se configura como uma característica geral de jornais similares. à época. como o jornal não era só distribuído no Vietnã. tornavam-no. sobre o movimento antiguerra – de forma a situar o Vietnam GI no tempo e analisá-lo mais aprofundadamente.Esforços de soldados e veteranos para acabar com sua imagem negativa perante a nação se traduziram. não encontra emprego e não tem para onde ir. como destacado no extrato acima. Tendo em vista a predominância de tal memória. junto com outros jornais do gênero. Born in the U. Já as cartas. Vale ressaltar que. o Vietnam GI era um dos meios pelos quais os soldados podiam expressar como se sentiam e serem compreendidos. de 1984. parte importante do movimento antiguerra. combinadas. O objetivo era mostrar a relação direta entre a política militar e os abusos cometidos. Contudo.. A irônica canção de Bruce Springsteen. buscamos com este trabalho mostrar a opinião dos soldados e veteranos sobre a guerra através da imprensa underground. dez anos após o Vietnã. Suas memórias. na organização de eventos. com seu pico de 10 mil cópias. foram resgatadas a partir de uma fonte ainda pouco explorada pela história. já que. entre outras acusações. outros eram considerados viciados e descompromissados em relação à causa. no processo de cura da ferida e no embate de memórias. estas entrevistas funcionaram como testemunhas oculares dos problemas e de episódios chocantes da guerra. precisavam ser distribuídos de forma a não chamar a atenção de oficiais.A. Cada seção do jornal contava com uma função específica que. fui levado a recuperar uma história mais ampla. abundam críticas relacionadas ao alto oficialato do Exército. ao me deparar com uma fonte tão rica. prevaleceu a imagem negativa dos combatentes que retornavam à América. por serem considerados “literatura subversiva”.S. principalmente pelo Vietnam Veterans Against the War. o qual tornava as duras condições de vida 64 . Com isso. mas também em bases americanas. Porém. estas tinham a função de reproduzir a voz dos soldados. Talvez o mais famoso seja a Winter Soldier Investigation. retrata bem esta imagem do veterano que. mas que muito tem a contribuir no estudo de um evento marcante da história americana. Ao mesmo tempo. Enquanto uns foram vistos como assassinos.

então. o imaginário americano da guerra – com todos os seus mitos da excepcionalidade da nação – permeia a sociedade desde a formação do país. entre outros diversos assuntos. Isto vai contra a crença amplamente considerada como verdade de que os americanos são um povo imperialista e egocêntrico. a culpa pela derrota não recairia sobre a instituição militar e futuras intervenções não seriam postas em dúvida pela possível falta de subserviência dos soldados. que concorda com qualquer medida que seus representantes tomem. deste modo. Ao mesmo tempo. em certo grau. Esta. como vimos. o Vietnam GI nos permitiu ver uma das frentes do movimento antiguerra no meio militar. ao mesmo tempo. Dessa forma. O principal motivo para este movimento. a instituição militar era novamente criticada. sempre fora um berço de heróis e motivo de orgulho para os Estados Unidos. documentários como Sir! No. Afinal. sendo reafirmado guerra após guerra. antes do Vietnã. se por um lado o governo americano tratou de. até a xenofobia contra os americanos. os artigos traziam notícias variadas dos Estados Unidos e do Vietnã. evidentemente – o silenciamento destas memórias subversivas – ou seja. silenciar as memórias destes soldados contrários à ordem militar e à guerra.ainda piores e eram os principais acusados de dirigir a política de assassinatos. Este ciclo. Ou seja. Como vimos no capítulo um. Por fim. Sir! tratam de resgatar hoje a voz de soldados e veteranos silenciados na Guerra do Vietnã. Por este mesmo motivo. relembrar as memórias de oposição à guerra – sobretudo por quem está na 65 . Como um todo. pudemos ver neste trabalho como este dissenso ocorreu no meio militar. tão tradicional e antiga quanto os mitos citados está o dissenso. por sua vez. Por este motivo – e combinado com outros. levandose em conta as atitudes do governo americano frente aos atuais conflitos no mundo. Porém. ao mesmo tempo em que se divulgavam meios de manifestações pacíficas. que infelizmente deve se prolongar por um bom tempo. o desconhecimento leva à rejeição. cria estereótipos que apenas aumentam as divergências e. é a atualidade do tema. ao longo das últimas décadas. Não obstante. cria barreiras que dificultam ainda mais a compreensão. o qual. Por meio de uma linguagem informal. no século XXI. Apesar deste esforço. pesquisas como esta se mostram necessárias para reavivar a tradição de dissenso existente nos Estados Unidos. vários trabalhos surgiram questionando este esquecimento induzido de memórias subversivas. ao longo das décadas. com o propósito de informar os soldados lotados em ambos os países. a vietnamésia – mostrou-se a melhor opção para que as Forças Armadas recuperassem seu abalado prestígio.

66 . há aqueles que lutam pela paz.guerra – mantém viva a noção de que. ao invés da luta armada.

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