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Educação em direitos humanos: passo fundamental para a construção de uma nova sociedade Recentemente, a discussão acerca dos direitos

humanos no Brasil, adquiriu novos elementos e uma roupagem mais compatível com a realidade, sobretudo capaz de responder às demandas sociais historicamente reprimidas da população. Pensar os direitos humanos em suas múltiplas dimensões e desdobramentos, pressupõe uma tomada de consciência em relação as reais condições sócio-existenciais de alguns segmentos da sociedade. Além disso, faz-se necessário que miremos na dignidade da pessoa humana, isto é, o que garante a dignidade e como ela se estrutura no cotidiano? Quais são os seus elementos constitutivos? Assim, antes de adentrarmos por demais em nossa reflexão, cabe uma conceituação preliminar. Os direitos humanos são entendidos como os direitos de todo o ser humano, sem distinção de raça, nacionalidade, etnia, gênero, classe social, cultura, religião, orientação sexual, opção política, ou qualquer outra forma de discriminação. São os direitos decorrentes da dignidade do ser humano, abrangendo, dentre outros: os direitos à vida com qualidade, à saúde, à educação, à moradia, ao lazer, ao meio ambiente saudável, ao saneamento básico, à segurança, ao trabalho e à diversidade cultural. Nesse sentido, a educação é tanto um direito humano em si mesmo, como um meio indispensável para realizar outros direitos, constituindo-se em um processo mais amplo que ocorre na sociedade. Expressão recorrente no tradicional vocábulo político, a educação, embora tão propalada, ainda fica presa em entendimentos divergentes e concepções dissonantes. Nosso país sofre penosamente com uma desigualdade social, provocada, principalmente, pela enorme concentração de riquezas. Emergimos de um processo histórico que possibilitou um nocivo acumulo de privilégios, formando uma elite econômica, avessa aos principais dramas do povo. Nesse contexto, a educação tem que ser encarada com um olhar mais aguçado, ou seja, existem diferenciações qualitativas entre o ensino para as classes abastadas e o ensino para as classes mais pobres e marginalizadas. Ora, essa é a lógica vigente e retencionária do sistema capitalista. No entanto, contrariando essa lógica concentradora e de exploração avassaladora que, produz a desigualdade social e promove a injustiça, no período recente, para ser mais preciso, desde o inicio do governo Lula, estamos acumulando importantes avanços no sentido de uma educação pública de qualidade e para todos. Se, contudo, pensarmos a construção de uma sociedade mais justa, tendo na garantia dos direitos humanos uma premissa irrevogável, podemos considerar a

transformar os princípios e diretrizes contidos na LDB em realidade. por exemplo que. ou o preparo do individuo para o . Ele dizia. bem como pensar a pratica educativa sob o prisma do educando. será a sala de aula o único espaço promotor da educação? Podemos considerar que não. entre educador e educando. da inserção do individuo na cultura da sociedade. com a finalidade do pleno desenvolvimento do educando. Desconstruindo. crenças e atitudes em favor dos direitos humanos. no processo educativo. as quais devemos recorrer para refletirmos sobre a educação e os múltiplos saberes acumulados. Não por ela ser a salvação da humanidade. Eis. há que se beber um pouco na fonte de Paulo Freire. “ninguém educa ninguém. mais uma vez. Sabemos que a prática educativa se prende em vários problemas de ordem estrutural. São coisas que se relacionam mutuamente. na medida que é incorreto atrelar completamente educação e escola ou escolarização. mediatizadas pelo mundo”. dos outros seres vivos e da justiça social. Por isso. Destarte. um meio para a formação da consciência cidadã. ou seja. que é a formação da consciência cidadã. as pessoas se educam entre si. Sem duvidas. tomando o conceito de educação por uma acepção mais ampla. 1996) em seu artigo II. Maneira que. estabelecendo uma relação de igualdade e de justeza. seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho”. Sabemos.educação como pedra angular desse edifício. portanto. como bem acentua a LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação. assim como a elevação da auto-estima dos grupos socialmente excluídos. bem como seu preparo para o exercício da cidadania”. Compreende-se. também. verificase: “educar em direitos humanos é fomentar uma prática educativa inspirada nos princípios de liberdade e nas ideias de solidariedade humana. na defesa do meio ambiente. dessa forma. Conquanto. seguindo o texto mais a frente. mas por tratar do processo de formação do sujeito. pensar a educação em direitos humanos é considerar as inúmeras possibilidades. de endoculturação. canalizando-as para uma mesma finalidade. A educação acontece em vários espaços e de maneiras diversas. é de nosso saber que a educação ocupa centralidade em um projeto de transformação social. a saber: “A educação é dever da família e do Estado e tem por finalidade o pleno desenvolvimento do educando. no desenvolvimento de valores. a ideia que o educador é o único detentor da verdade e do conhecimento absoluto. como banaliza algumas pessoas. Paulo Freire nos deixou lições preciosas. de modo a efetivar a cidadania plena para a construção de conhecimentos. para tanto. que solucionar tais problemas exige muito do Estado e da sociedade. Ela ganha maior importância quando direcionada ao pleno desenvolvimento humano e às suas potencialidades. um grande desafio. porém distintas uma da outra.

exercício da cidadania plena.704 alunos das instituições PUC Minas. na prática a sala de aula de uma escola tradicional é lugar de reprodução das contradições socais.4% apontaram como dever o direito . Como sabemos.2% não souberam citar um dever importante e 32. através do Comitê Nacional de Educação em Direitos Humanos. e de conflitos intermitentes entre os alunos e eles mesmos. entre 1998 e 2001. Fundamental e Médio).4% não citaram sequer um direito que considerassem importante. A democracia. visando a construção da cidadania. ao ser entendida como regime alicerçado na soberania popular e no respeito aos direitos humanos. Educação e Mídia. portanto. em 19 de maio de 2002. e na universalidade. será que temos uma educação que cumpre o papel de educar para a cidadania? Refletir sobre essa questão requer. cujo objetivo era saber o que os alunos da capital mineira pensavam sobre seus direitos e deveres e sobre a aplicação dos direitos humanos para as minorias. Agora. atualmente a concepção de direitos humanos incorpora a compreensão da cidadania democrática. A saber. Por meio desse Plano. infelizmente. A educação tem. o papel de desenvolver a formação integral do sujeito para a cidadania. UNI-Bh. e nos vários níveis de ensino. Nesse sentido. Aqui. indivisibilidade e interdependência dos direitos. Educação Não-Formal. UEMG. foi divulgado o estudo Não é característica apenas da educação básica como parece. o Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos (PNEDH) de 2005. uma vez que. Newton Paiva. é fundamental para o reconhecimento. nos vários espaços realizadores da educação. entre os alunos e a estrutura da escola. a ampliação e a concretização dos direitos. O problema da falta de qualidade educacional está presente em várias instituições. “direitos e direitos humanos: o que pensam os universitários?”. Foram entrevistados 1. propõe a incorporação da temática dos direitos humanos na perspectiva da transversalidade. a Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da Republica. estrutura-se nos seguintes eixos: Educação Básica (Ensino Infantil. embasadas nos princípios da liberdade. cidadania ativa e cidadania planetária. Fumec e Isabela Hendrix. coordenado pelo professor Geraldo Magela Carozzi de Miranda. não somente nas publicas. abordar o ensino em todos os níveis. Ciências Médicas. Educação dos Profissionais dos Sistemas de Justiça e Segurança. 28. Destes. em parceria com o Ministério da Educação e outros. UFMG. primeiramente. O referido estudo trata de uma pesquisa realizada nas universidades de Belo Horizonte. esbarramos noutra perigosa trincheira conceitual. entre os alunos e os professores (as). 15. da diversidade. Uma tarefa nada fácil. do Unicentro Newton Paiva. da igualdade. Ensino Superior.

expõem sem pudores o grande problema que vai além da ignorância e da incompreensão quanto aos direitos humanos. E. 9. Por fim. com a proposta de fechamento do congresso e 40. Os resultados são surpreendentes e.5% concordavam com o linchamento de criminosos e 64. Sem educação. ainda. de fato. 45. Presumivelmente. A bomba atômica foi construída por cientistas de refinado gosto estético e vasta erudição. o prazer mórbido de humilhar o semelhante e vê-lo sofrer. tendo em vista a dificultosa construção da cidadania. o humano se reflui e a mão feita para acarinhar se transforma em arma de agressão. Há pessoas cultas que não são educadas embora mal saibam ler. Fica explicito que a educação tem no resgate da ética seu mais forte apelo e dela depende o desenvolvimento da consciência cidadã.1% eram da opinião de que os direitos humanos deveriam valer somente para os honestos. Papas medievais enviaram cruzados para massacrar os 'hereges' muçulmanos e abençoaram a prática da tortura nos tribunais da inquisição. 44. por não portar carteira de identidade.5% deles concordavam. Hitler apreciava a musica de Wagner e conhecia os gênios da pintura. esta dimensão emerge com toda a força. diante do despertar da fera. à elucidativa reflexão de Frei Betto: “O que torna uma pessoa humana? Não é a cultura. É ela que nos resgata das mãos da fera que acorda dentre de nós cada vez que temos um de nossos direitos feridos. apontando para a missão emancipatória do educar.2% disseram não concordar. intitulado 'direitos humanos')” . a pesquisa confirmou que boa parcela dos universitários era favorável ou condescendente com práticas ilegais e inaceitáveis em um Estado Democrático de Direito.de votar. pois. parcial ou totalmente. uma vez que revela uma crise no papel das instituições de ensino na educação em direitos humanos para a cidadania. Além da ignorância sobre direitos e deveres. O que nos faz mais humanos é a educação (não confundir com escolaridade). como demostram os pais da psicanálise. é o que domestica o animal que nos habita. Voltemo-nos. As esperanças depositadas na educação encontram suas bases alicerçantes na concretização dos princípios e consecução dos valores relativos aos direitos humanos. Em nossos tempos.5% consideraram a tortura justificável em alguns casos. mas compreender a revolta de quem linchava. Nem é a religião que nos faz mais humanos. É preciso que lutemos incansavelmente por uma educação publica. (Trecho do artigo publicado em 9/12/04. convém algumas interpelações. as palavras jorram em impropérios. 20 % dos entrevistados afirmaram que uma pessoa poderia ser legalmente presa. Os avanços obtidos pelo . os sentimentos naufragam num redemoinho que obscurece a razão e faz emergir a vingança. A educação. universal e de qualidade.

a fraternidade e a igualdade social. balizada pelo respeito às diferenças e pela cultura da paz. incorporando na prática das instituições de ensino a temática dos direitos humanos. assim como explorando a potencialidade de outros espaços educativos. se tivermos na educação em direitos. #Bruno Roger Ribeiro Coordenador de Direitos Humanos da Prefeitura Municipal de Contagem. Como afirma Hannah Arendt. e sim um construído”.Governo Lula nessa área são inegáveis. precisamos alçar passos mais firmes e decisivos. a fim de edificarmos a justiça. é tarefa inadiável atuarmos como operários nessa construção. contanto. “os direitos humanos não são um dado. . somente será possível. Doravante. Uma nova sociedade. o nosso passo fundamental.