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Os verdes anos da República

Comemora-se neste ano de dois mil e dez, o Centenário da Implantação da República, pretexto para as mais variadas iniciativas realizadas um pouco por todo o país. Uma das mais velhas repúblicas europeias e do mundo, Portugal pode orgulhar-se de ao longo deste século atribulado não ter sido afectado no seu território por guerras civis, secessões, invasões ou perdas territoriais, excluindo o inevitável processo de descolonização e apesar dos dois conflitos mundiais. Todavia nem tudo foi paz e progresso. Desde o início, no curto período ao qual se convencionou chamar Primeira República, os dirigentes republicanos confrontaram-se com as imensas carências decorrentes do fraco nível cultural, da pouca riqueza, da exiguidade territorial. Com frequência demasiada a república atravessou momentos de tensão. Cem anos depois de tão decisivos acontecimentos, confrontados com desafios que há muito desejaríamos ultrapassados, as duas épocas apresentam semelhanças que o acaso da história não consegue justificar. Repetem-se queixas, recordam-se factos, desenham-se no futuro, como há cem anos atrás, destinos incertos. Para muitos portugueses de então, o 5 de Outubro de 1910 terá sido a refundação da nacionalidade, acontecimento muito desejado, desde o último quartel do século dezanove. A vitoriosa revolução, tão heroicamente apoiada em fervor popular, concretizava as esperanças de um povo que tardava em enfrentar os importantes desafios de uma modernidade iludida pela tradição caciquista, o fatalismo periférico e a união secular entre o Estado e a Igreja. Vencida a monarquia, urgia encontrar um caminho que premiasse com reformas os desejos de mudança. O atribulado e curto percurso do novo regime político, provou todavia que o homem republicano português não era um modelo de virtudes democráticas mas uma personalidade turbulenta movida por antipatias e invejas, irreparável fervor nacionalista e uma forma violenta mas pragmática de resolver grandes crises e necessidades básicas. O modelo parlamentar da Primeira República condicionou o seu horizonte político e sancionou com um estado permanente de inconsequência reformista a acção dos quarenta e cinco governos que preencheram os dezasseis anos compreendidos entre 5 de Outubro de 1910 e 28 de Maio de 1926. Os políticos do regime, tal como ocorrera nos últimos anos da monarquia, recusaram-se a ver no Congresso a tribuna mais nobre do debate democrático. Em vez disso aprofundaram querelas, recriminaram-se com paixão e preferiram amiúde a ruptura fácil ao trabalhoso consenso. Alguns dados factuais ajudam a entender este penoso

o parlamento foi proscrito e as liberdades individuais suspensas. Na intervenção forçada e tão criticada por muitos sectores militares no primeiro conflito mundial. uma vez mais. falharam aliados e regularizaramse contas políticas que os desmandos do ideário republicano tinham deixado sem resposta. perigosíssima para a República e para a Nação2. em plena guerra mundial. Nos momentos finais da nova República velha. Nem só de conflitos entre personagens e instituições. o panorama partidário não se tinha alterado no essencial merecendo da parte de Bernardino Machado um vivo reparo em jeito de lamento. na actual conjuntura. perseguindo uma quimera: a de um povo que do dia para a noite virasse as costas à religião. a esquerda se encontrava dividida entre as muitas forças que se reclamavam defensoras dos seus direitos. O operariado descontente mas tantas vezes sacrificado aos ideais republicanos. Lamentavelmente. Segundo José Mattoso. padeceu a Primeira República. incontornável caminho da democracia. pouco tempo antes da revolta republicana. Bernardino Machado demitiu-se.mas. em 1910. No violento embate ideológico dos primeiros anos entre adeptos do clericalismo e republicanos afonsistas. numa época em que. acabou finalmente por consentir a incursão salvadora de 28 de Maio. resultando daí o mais delicado gâchis parlamentar de sempre. Os desejos de restauração monárquica persistiram nas intentonas levadas a cabo pela lendária e carismática figura de Paiva Couceiro mas também na aceitação do Integralismo maurrasiano durante o prenunciador consulado Sidonista. … reputo a actual luta dos partidos. quatro anos mais tarde. se nas eleições de Abril de 1908 depois da queda de João Franco nenhum partido teve maioria clara. todos os partidos estavam divididos ou na iminência de se dividirem1. esgotaram-se recursos e reacenderam-se polémicas preparando inadvertidamente o cenário de crise nacional e do redentorismo isolacionista que castigaria o povo português nos cinquenta anos que se seguiram. quem sabe. perderam-se simpatizantes e hostilizaram-se facções. O regime caiu desamparado. Gomes da Costa e os outros militares não terão feito senão aquilo que no espírito de muitos parecia inevitável desde a noite de 19 de Outubro de 1921. . Demasiados obstáculos se interpuseram entre os ideais e a sua concretização.

volume VI. 345. História de Portugal. Lisboa. . Lisboa: Círculo de Leitores. ( 1994). pp. 1978. Bernardino Machado. Bernardino Machado. pp. Oliveira Marques.H. 161. J. Referências bibliográficas: Oliveira Marques A. 1994. (1978). A. Mattoso. Lisboa. Lisboa: Edições Montanha. Edições Montanha.1 2 J. História de Portugal. Mattoso. Círculo de Leitores.H.