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ANTONIO r1;êruo

Racismo de negros contra


brancos ganha força com
identitarismo
Sob discurso antirracista, o racisn10 negro se manifesta por
organizações supremacistas

Antonio llisério
Poetz, romancista e antropólogo, é autor de "Aucop1z Drasileira e os Mcvimentos Negros",
"Sobre o Rclac,-isiro f'Ós 1/,odcrno e o Fantasia Fascista da E~qucrda Identitária" e "'Is Sinhis
f'rctas da Bahia"

(RESUMO] Ataques de negros conu·a asiáticos, brancos e judeus


invalida1n a tese de que não existe racis1no negro en1 razão da opressão
a que estão sub111etidos. Sob a capa do disctu·so antirracista, esquerda
e n1ovunento negro reproduze1n projeto supre111acista, tornando o
neorracismo identitário 1nais nonna que exceção.

*
Todo o n1undo sabe que existe racis1110 branco anripreto. Quanto ao
raeis1no preto antibranco, qu ase ningué111 quer saber. Poré111, quen1
quer que observe a cena racial do inundo vê. que o racisn10 negro é uni
fato.

A 1111 ivf'rsi<larl<': r a rn í<lb nortf'-il l11f'l'iranas insistf'n1 no rliscurso rl;i


inf'xist/'>nri;i clr q11al(]Hf'r tipo clf' 'hh1,k racism '. C.;isos clrssf' r;rcisn10 sr
Sll('f'nf'm, lllilS il orcl<"tn -11nirl;i iclf'ológira n1an<l;i finzir (]llf'. nacla
il ('011 tf'Cf'.11.

l.ustnçào - PogoLlnd

O dog1na reza que, con10 pretos são oprimidos, não dispõc1n de poder
cconônúco ou político _para ins~itucionalizar sua hostilidade
antibranca. É urna tolice. Ninguém precisa ter poder para ser racista. e
pretos já conta□1. sin1, com instrumentos de poder pa ra
insritueionalizar o seu racisn10.

A llisLúria eusina: yueJ11 lioje Hgura JLa posii,:ão de upriruido pode Ler
sid•J opre~sor J iO passadu e vollar a ~er 110 fuLuro. Mu\;uliua.ttu~
escravi:i;araiu e u1ctLai·a1u ruu!Lidüe.s de µrt::Lus tluraule séculos de
tráfico negreiro na Áfr tca.

No entanto, a visõo atuahnenre donlinante, n1arcada por ignorância e


fraudes históricas , quando não pode negar o racis1no negro, argumenta
que o racisn10 branco do passado desculpa o racis1no preto do
presente. J\1as o racisn10 é inaceitável e111 qualquer circunstância. A
unjversidade e a elite 1nidiática, porén1, negaceian1.

En1 "Coloring th e News", \Villia1n l\1cGowanle111bra tuna série de


ataques racist as de pretos contra b rancos no 1netrô de \Vashu1gton. E1n
u1u deles, un1 gru po de adolescentes negros g ritava: "Va1nos n1atr,r
todos os b ran cos!". O Washu1gton Post. contudo, não tratott o conflito
con10 conduta racial crilllÍl1osa e sin1 co1110 'confronto de duas
culttu-as".

McGowan sublinha que a recusa e1n reconhecer a realidade do raeisn10


antibranco é parttculannente evidente na cobertura 1nidiática de
crilnes de pretos contra br:11:cos.

De nad a aruanta a n1otivação racial ser ostensiva, co1no no caso de


ataques a idosos brancos no Brooklyn, quando un1 n1e1n bro da gangue
preta declarou: "Fizen1os un1 acordo entre nós de não roubar rnulheres
pretas, Só pegaríamos tnulheres brancas. Foi um pacto que todos
fize1nos. Só gente branca·.

O ' dcralhc' não toi n1cncionado nas repor tagens do jornal Thc ~cw
York Tunes, e a postura foi a 1nestna quando três adolescentes brancos
fo rain atacados por wna gangue de jovens pretos no ]1,{ícJligan. Os
rapazes pretos curra rain a moça branca e fuzilaran1 u1n jovetn branco.

o New York Titnes 11'10 indigitou o caráter racial do crime e o relegou a


u111a n1areriazinha de um só dia. se os papéis fosse1n it1verridos, tuna
gangue de jovens brancos currando u1na 1noci.n ha preta e assassit1ando
U.111 jove1n negro, o assunto seria explorando a n1pla.1nente - e en1 n1ais
de wna reportagem. Lá, como aqui, o "double standard" tnidiáttco é um
fato.

Merece destaque o racis1110 preto antijudaico, que não é de h oje. E111


Crown Heights, no verão de 1991. os pretos pron1overan1 um
fo rnlidável quebra quebra q ue se estendeu por quatro dias, durante o
qual gritavan1 "Heil Hitler" e1n frente a casas de judeus .

Mas a elite núdiática, do New York Tunes à ABC, contornou


siste1naticarnente o racisn10, descacando que séculos de opressão
explicava111 tudo.

Ve1nos o r3cisn10 negro tan1bétn contra asiáticos. Na lústó ria racial de


Nova York, negros aparecen1 tanto co1no vítt1nas quanto con10
agressores crÍlllinosos. fudeus e asiáticos, ao cont rário, quase que só se
dão 1naL

Em uni boicote pre,o a run armazétn do Brooklyn, cujos proprie tários


f'ram corf'_;;nos. os prf'tos for;nn inq11 f'sti0n;iv<" ln1rntf' r;icist;i;;_ T)i7.i;i111
;ins 1nor,1clnrrs elo h;ii rrn (]llf' não ron1pr;issrm rcds;i<; <lf' "pf:s.<oas (]llf'
nflo Sf' pi!rf',-rtn cnn1 nós" f" , h;1111;iva111 os cnrf'ilnos rlr. "111,1ca,ns
a l11 i1 l'f"] O<;".

C.11rio,;;amf'ntf', por n1;iis Of' ~r~.< tnf'sf's, it gr;inrlr n1ícli;i n;io rlr11 a
1nf:nor ;itf'nç;io ;10 hoicotf'. lltn jorn;i li,;;t;i cl o Nf'W York Post Of 1111 nriou:
"Sf' fos.~r hnicotr. rl;i Kll Klux Kliln ;i 11111 itrma7im clf' 11n1 11f'zro, logo Sf'
torn;ir ia as.-s1111to n;ici on;il. Por í)llf' ;is ri>zras siio 01 ih·as ,111anrlo as
víti111as são rorf'illlils?".

N:.'to s:.'to poucos, de resto, os conierciantes coreanos que perdermn a


vida e1n enfrenta1nentos co1n "consu1nidores" negros, Há casos de
nillirantes pretos extorquindo an1arelos. Extorsão e violência racistas, é
claro.

Sob a capa do discurso antirracista, o racisn10 negro se n1alliÍesta por


n1eio de orgailizaçõcs poderosas con10 a Na~ão do Islã, suprc1nacista
negra, antissenlita e ho1nofóbica.

Dbdpula, de r't'.slo, de l\1arcus Garvey - athuiratlur de Hiller (seu


aJ1 ÜsseHlilisu1u chegou a lev,í-lo a proctu-ar tuna parceri.i
desco1Lcerla11Le cu111 a Ku r<l ux Klar1) e de Iv! w,soli,u - , tJlle virou guru
de Buli Mai·ley e do reggae j auiaicaJLu, fiéb d u cullo ao diladur Hailé
St::las~ié, u Rás Tafar i, suposlu herdeiro do Rei Salo1uau e da Raiulrn de
Sal>á.

A propósito, a .Frence -'legra Brasileira, na década de l'J3U, nno só fez o


elogio aberto de Hitler, inclusive tratando zu1nbi co1110 uni "J:'ührer de
ébano", cotno apoiou o Estado Novo de <JettWo Vargas, versão
tristetropical do fascisn10 italian o e o próprio AbdJ.as do Nascitnento,
guru de nossos atuais 1novilnentos negros. foi nillitante integralista.

O lídf:r rla N;:içiin rln Tslii, T,oui~ F;i rrakl1m1, Sf'mprf' f'xib iu t;1111hf111 11 111
fr;inco r nstf'nsivo r;id~1110 an t ijud;iko. Hojr., o Rlark T.ivf'.<, l\1;ittf'r prdf'
a 111ortr. dos judf'us en1 111,iniff:~t;içõr.s p1íhl icas.

Em uni ar tigo recente no jornal Le Monde ("Biden, au coeur du con1bat


idendtaire"), Michel Guerrin sublitlhou que o "antisse1nitis1110 está
betn presente no poderoso 111ovilnenro Black Lives Marrer" .

A tunna discursa contra o "genocídio" pale.stino, "orga1úza


manifestações onde pode1nos o uvir ·111atem os judeus', é próxin1a do
líd er da Nação do Islã, Louis Farrakhan, que fez o elogio de Hitler, e
te1n como cofundadora da sua seç.ão ein Toronto, Cai1adá, Yusra
Khogali, que pratican1ente chegou a pedir o assassinato de brancos".

o racis1no antijudaico de pretos pobres dos guetos pode contar con1


algu1na pequena 1notivação cotidiana, 1nas o q ue pesa n1es1no é o
ancisse1nirisn10 generalizado nas lideranças da esquerda multiculrural-
idendtária.

Tudo bem criticar o governo de Israel. Os próprios israelenses


costun1a111fazê-lo, vivendo cm um regin1e dc1nocrático, ave raríssima
no Oriente Médio. Outr a coisa é pregar o dcsaparcctn1cnto de Israel.
co1uo qucrcn1 o Irã e aiguns 1novuncntos de esquerda. Aqw, o
antissc1nitisn10. O ódio 1nultieultu.ral-identitário a Israel parece não ter
linlites.

Toruo Yusra Kl1ogali - juveu11uttlata sudauesa tJue não di:t tuua palavra
sol.ire as alrocidatles tle uegrus l'UJLU·a uegrus ein seu p aís 11atal,
vivendo ailles uo Canad,t, oude se cu 1upra'L eiu xu1gar a o pressão
hr,u1ca- coru o tu n caso exaceruaLlo d isso Ludo.

Hla nEto só confessou que ten1 ilnpecos de assassin ar todos os brancos.


Hxpôs tan1bén1 runa fantasia "acadénúca" que be1n pode ser
classificada co1no a prin1eira ilnbecilidade produzida por tun
"11eorracis1no cientlfico".

Vejarn a p reciosidade pseudo biológica de 111ada1ne Khogali: os br micos


não passa111 de um defeico genético dos pretos. "/\ brangultude n:io é
hUJna.na. De fato. a pele branca é sub -hu1nana". Por que a br::mcura é
un1 defeito genético recessivo. "lsto é fato", afinua solenen1ente.

Di7. ()11<': as pe;;<;oa., hr;:inr.a., poss11f'11111n1;1 'alta <'nnrf'ntr;;çiio <lr


ínihi<lorf'.<; <l<': f"nzitn;i (]llf' supriinrm it pm<lllçiin clr rnf'lilnina" f'. <)ll f' it
1nf:lani11,1 f- inclispf'ns;ívrl it uma f'srn itur;; óssr;i ~ól irl;i, à intf'ligfnrin, à
visão f't,.

EtúiJn, apareceu a 1nulata racisca pai·a invercer o "racisn10 cientifico"


branco do século 19 - e dizer q ue os brancos, sitn, é gue são wna raça
itlferior. Mas Yusra é apenas u1n exen1plo, entre 1nuitos, e ela teve a
quen1 puxar.

O tato é q ue não dá para sustentar o clichê de que não existe racis1no


negro porque a "comunidade negra" não tcn1 poder _para exercê-lo
u 1scitucionaln1entc. JVlcs1uo que a tese fosse corre ta, o que está longe
de ser o caso, cxistc1n já rncios para o exercício do racisrno negro.

Er1g,u1a-se, 1ues111u cuu1 rda~·ãu ao Brasil, t1ue11 1 rtftu y uer ver rads1uo.
separaüs1110 e 1uc:s111u projelo supre1uacista eut 1uu vü11enLos negros. O
returno~ luucw·a supreiuadsla aparece, agora, t:UJJLU discurso de
esc1uc:rda.

~e quisere111 n1anter a con1placência, podern falar disso con10 de


realidades a penas en1brionárias, n1as a verdade e betn outra. Militantes
_pretos, con10 _pastores evangelicos, q ueren1 o poder.

N:.'to deven10s fazer vistas grossas ao racis1110 negro, ao 1nesmo ten1po


que esquadr inhainos o racis1110 branco con1 1nicroscópios iJn placáveis.
o n1esn10 microscópio deve enquadrar todo e qualquer racismo, venha
de onde vier.

Co1no e111 tu11 rexto do escritor negro LeRoi fones: "Nossos innãos
estão se 111ovilnentando por toda parte, estnagando as frágeis faces
brancas. Nós te111os que fazer o nosso próprio 111w1do, cara, e não
podcinos fazê-lo a 111cnos que o hotne1n branco esteja 1uorto'.

Resla, e11lâu, a pergullla fundarne11L al. O 11eorTads1uo ideulil,i.rio é


exce<;ãu o u uurn 1a? I11feli:tn1e11le. penso y ue é nonua. Decorre de
prentissas ftu1darue11Lais da pr6prL1 pe!·specliva itleuliLâria , tj uaudu
pass,uuus d.i pulilica da busca d.i igualdade para a polílica da
affr1ua<;ãu tia diiereuc;a.

Ao afinnar wna identidade , não pode111os deixar de distinguir, dividir,


separar. Não existe identitaris1no q ue não traga e1n si algtun grou e
algu1na espécie de funda111entalls1no.

Nf:SS<': f11n11;in1r11t111isn10. sr o (]llf' conta f. it ilfirn1;:rç.io clf' 11m


r.ssf'n, hlismn r;irial, rf'il8inrlo ressfntirlo ;r estigma rizaçõf's pas.'sa<l;is,
cl ifkiln1f't1tf' os s in;iis suprftnacist;is niio Sf'rf10 inverrirlns. l\s
irnplir;içõr.s disso 1nr. pitrf'cern 6bvi;is.

***
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