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CIÊNCIA POLITICA E DIREITO CONSTITUCIONAL I (1ºSEMESTRE) RESUMOS 2016/17

Preliminares
1. O fenómeno político e o estado
⦁ O fenómeno político, como qualquer outra manifestação de socialidade humana, apresenta uma dupla
face: a de facto (que acontece na vida das pessoas em relação ou como aspeto desta) e a de realidade
(impregnada de valores);
⦁ Até há algumas décadas, este fenómeno referia-se ao Estado, societas perfecta com diferenciação de
governantes e governados. Hoje, tende a situar-se também, de diferentes maneiras, frente a diversas
instâncias – as da comunidade internacional crescentemente institucionalizado, através das Nações
Unidas e das organizações especializadas e as de formações de integração (supra ou transnacionais);
⦁ Apesar de se falar, com ou sem razão, em crise do Estado, ainda continua a ser este que se encontra
no centro de toda a problemática política, porque continua a ser a sua autoridade a que se exerce
diretamente sobre as pessoas, assim como é só nele que as pessoas têm alcançado plenos direitos de
participação política; e porque, apesar da dinâmica que têm adquirido as organizações internacionais e a
EU, as grandes decisões assentam na conjugação das vontades dos Estados-Membros.

2. Sujeição do Estado e das demais instituições públicas do Direito


⦁ O Estado e as demais instituições que exercem autoridade pública devem obediência ao Direito
(incluindo ao Direito que criam). O Estado não pode ser compreendido sem Direito;
⦁ Os governantes têm o direito de mandar e os governados o dever de obedecer. Não há uma ideia de
poder sem uma ideia de Direito e a autoridade dos governantes tem de ser uma autoridade constituída
por um conjunto de normas fundamentais, pela Constituição;
⦁ O Estado e as demais entidades públicas têm de se mover segundo regras jurídicas;
⦁ Em todos os regimes e sistemas políticos, passados ou atuais, encontram-se valores e princípios
jurídicos a defini-los, legitimá-los, conformá-los e orientá-los;
⦁ A sujeição do Estado ao Direito, inclusive ao seu próprio Direito positivo – eis a base do Direito público
e do Direito constitucional.

3. O Direito constitucional
⦁ O Direito constitucional é a parcela da ordem jurídica que rege o próprio Estado enquanto
comunidade e enquanto poder. É o conjunto de normas (regras e princípios) que recortam o contexto
jurídico correspondente à comunidade política como um todo e que, ao mesmo tempo, definem a
titularidade do poder, os modos de formação e manifestação da vontade política, os órgãos de que esta
carece e os atos em que se concretiza;
⦁ Chama-se também Direito Político, por essas serem normas que se reportam direta e indiretamente ao
Estado;
⦁ Falando em Direito Constitucional, pensa-se mais na regulamentação jurídica, no estatuto, na forma de
Direito que é a Constituição. Falando em Direito político pensa-se mais no objeto da regulamentação;
⦁ As revoluções dos séculos XVIII e XIX puseram termo ao Estado absoluto e abriram caminho a um novo
modelo de organização política, o Estado constitucional, representativo ou de Direito;
⦁ O Direito constitucional provém do constitucionalismo moderno, e, mesmo quando se distancia
muitíssimo das linhas ideológicas iniciais deste, está associado a noções de Constituição material, formal
e instrumental;
⦁ A Constituição é tanto Constituição poíitica como Constituição social; não se cinge à ordenação da vida
estatal. As constituições atuais contemplam larguíssimos aspetos e áreas da dinâmica económica, social
e cultural em interação com o Estado;
⦁ Constituição é ato fundacional de ordenamento jurídico e pressupõe um poder originário, o poder
constituinte.

4. O Direito constitucional e a ordem jurídica do Estado


⦁ O Direito constitucional deve ser percebido como o tronco da ordem jurídica estatal;
⦁ A atual constituição portuguesa está longe de se esgotar no tratamento dos órgãos do poder. Aí se
divisam, com não menor importância, princípios de Direito penal, processual penal, da família, do
trabalho, tributário, financeiro, judiciário, administrativo (…). São princípios constitucionais substantivos
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ou matérias, devido à sua relevância no plano dos valores da comunidade política que se ancoram na
Constituição; participam de pleno da Constituição material;
⦁ São frequentes hoje estudos de Direito Constitucional Penal, de Direito constitucional do trabalho, de
Direito constitucional do ambiente, da economia, financeiro (…). Por esse motivo, alguns autores falam
em constitucionalização do Direito, a que outros respondem, também com algum exagero, invocando a
primariedade do Direito Civil ou a do Direito Penal. A posição de equilíbrio consiste em, por um lado,
reconhecer a primariedade logica de Constituição dentro da ordem jurídica de cada Estado e em, por
outro lado, respeitar a autonomia de cada ramo de Direito, tudo na reciprocidade de contributos e na
afirmação da unidade da Ciência Jurídica.

5. Os grandes capítulos do Direito constitucional


⦁ Na linha do que se dá com a própria distribuição da ordem jurídica e do que ocorre noutros sectores,
podem no Direito constitucional ser demarcados capítulos algo diferentes, tendo em conta as matérias
que recobrem;
⦁ Todos estes grandes capítulos, ramos ou partes especiais do Direito constitucional são preenchidos,
primeiro, por normas formalmente tidas por constitucionais e assentes no documento ou texto
chamado Constituição e, depois, por normas de outras categorias que àquelas dão imediato
complemento e delas se tornam indissociáveis.

6. A ciência do Direito constitucional


⦁ Ao Direito constitucional em sentido objetivo (conjunto de normas jurídicas) corresponde o Direito
constitucional em sentido subjetivo (conhecimento do Direito constitucional). Ao Direito constitucional
corresponde a ciência do Direito constitucional;
⦁ A ciência do Direito Constitucional não é, portanto, senão a ciência jurídica ou jurisprudência aplicada
ao Direito constitucional. Por outras palavras, a ciência do Direito constitucional é a ciência jurídica do
Estado, aquela disciplina que tem por objeto o Estado, mas o Estado mediatizado pela Constituição;

7. Ciência do Direito constitucional, Teoria Geral do Direito público e Teoria Geral do Estado
⦁ Estas três disciplinas distinguem-se bem da ciência do Direito constitucional, pois não intentam
reconstruir sistematicamente nenhum Direito constitucional positivo, nem perscrutar o sentido das suas
normas para a aplicação aos casos concretos ou para que delas tomarem consciência os destinatários.

8. Direito constitucional, História do Direito constitucional e Direito constitucional comparado


⦁ A ciência do Direito constitucional é completada ou auxiliada pela História do Direito constitucional e
pelo Direito constitucional comparado;
⦁ A História do Direito situa-se no cruzamento de duas disciplinas – a História e a Ciência Jurídica;
⦁ O Direito constitucional comparado assenta em sistemas jurídicos positivos, mas não necessariamente
vigentes. Desenvolve-se em micro e macro comparação; e, ora se trata de sistemas que coexistem em
determinada época – comparação simultânea – ou de sistemas que pertenceram a momentos
diferentes em um ou mais de um país – comparação sucessiva.

9. Ciência Direito constitucional e ciências sociais não normativas


⦁ Além da Ciência do Direito constitucional, outras disciplinas têm por objeto material o fenómeno
político;
⦁ A ciência do Direito constitucional considera a sociedade (politica) através das normas que se lhe
dirigem. Debruça-se sobre a ordem da sociedade, e não sobre a sociedade enquanto tal; desvenda a
imagem do Estado dada pelas normas, e não a que dá a sua prática. As outras disciplinas voltam-se para
os factos, no seu desenrolar empírico e funcional; apresentam-se como disciplinas sociais não
normativas;
⦁ Assim, enquanto a Ciência do Direito constitucional configura o Estado na veste de instituição jurídica,
a Ciência Política toma-o como sistema de relações, forças e comportamentos, tendo como fundo o
poder ou a interferência no poder ou a interferência no poder. Enquanto a ciência do Direito
Constitucional se ocupa da regularidade/validade da ação do poder, a Ciência Política ocupa-se da sua
efetividade.
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Parte I
Estado e constitucionalismo
Título I – Do Estado antigo ao constitucionalismo moderno

Capitulo I → O Estado, Realidade Histórica p.29-48

10. O Estado, espécie de sociedade política


⦁ O Estado que conhecemos hoje, comummente definido através de três elementos ou condições de
existência – povo, territórios e poder político – é apenas um dos tipos possíveis de Estado: o Estado
nacional soberano que, nascido na Europa, se espalhou sucessivamente por todo o mundo.

11. O aparecimento histórico do Estado


⦁ Necessidade de uma organização política; necessidade de situar no tempo e no espaço, o Estado entre
as organizações políticas historicamente conhecidas; constante transformação das organizações
políticas em geral e das formas ou tipos de Estado em particular; correspondência entre formas de
organização política, formas de civilização e formas jurídicas.

12. Sociedades políticas pré-estatais


⦁ Sociedades historicamente antecedentes da formação do Estado, sã, entre outras, a família patriarcal,
o clã e a tribo, a gens romana, a fratria grega, a gentilidade ibérica, o senhorio feudal;
⦁ Quanto mais uma sociedade global é heterogénea mais o seu sistema político tende a organizar-se em
funções diferenciadas, especializadas, ligadas umas às outras por uma rede complicada de relações
hierárquicas;
⦁ Cabe, depois, contrapor as sociedades pré-estatais às infra e supraestatais. Sociedades infraestatais
vêm a ser as regiões ou províncias autónomas. Sociedades supraestatais são as confederações, outros
agrupamentos de Estados, a própria comunidade ou sociedade internacional.

13. Processos de formação do Estado


⦁ Conhecem-se formas pacíficas e violentas; formação de acordo com as leis vigentes no Estado ou na
sociedade a que a nova comunidade até então pertence e formação contra essas leis; formação de
harmonia com o Direito internacional ou à sua margem; formação por desenvolvimento interno e por
influência externa.

14. Características gerais do Estado


⦁ Complexidade de organização e atuação; institucionalização; coercibilidade; autonomização do
poder político e sedentariedade
⦁ Estas características têm de ser vistas em conjunto e não isoladamente;
⦁ A complexidade de organização e atuação consiste em centralização do poder, multiplicação e
articulação de funções, diferenciação de órgãos e serviços, enquadramento dos indivíduos e dos grupos,
diversidade de faculdades, prestações e imposições. A institucionalização do poder significa dissociação
entre a chefia, a autoridade política, o poder, e a pessoa que em cada momento tem o seu exercício;
fundamentação do poder no Direito que o investe como tal; permanência do poder para além da
mudança de titulares; e a sua subordinação à realização do bem comum. A institucionalização ainda é a
criação de instrumentos jurídicos de mediação e de formação da vontade coletiva. A coercibilidade não
é uma característica geral do Direito, mas é uma característica da organização política estatal. Ao Estado
cabe a administração da justiça entre as pessoas e os grupos. Este (o Estado) promove a integração, a
direção e a defesa da sociedade e a própria sobrevivência como um fim em si. Mesmo sem ser absoluto
ou totalitário, o Estado possui a sua mística de poder e justifica as suas ações em nome de objetivos
próprios; as instituições políticas, instituições especializadas, adquirem a autonomia. O Estado requer
continuidade não só no tempo mas também no espaço, no duplo sentido de ligação do poder e da
comunidade a um território e de necessária fixação nesse território (sedentariedade).
⦁ O Estado é a resultante da existência de uma sociedade complexa e, por sua vez, um dos fatores de
criação de uma sociedade cada vez mais complexa.

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15. A inserção territorial do Estado


⦁ O território revela-se indispensável para o Estado como referência da comunidade, como sede
material do poder, como domínio de ação indiscutida, como a área de segurança dos indivíduos e das
sociedades menores e como instrumento ao serviço dos fins do poder;
⦁ Chegam a dar nome ao Estado.
16. O desenvolvimento histórico do Estado
⦁ O Estado deve ser encarado como processo histórico a par de outros. O Estado não se cristaliza nunca
numa fórmula acabada; está em contínua mutação, através de várias fases de desenvolvimento
progressivo;
⦁ Em consequência da geografia e das vicissitudes dos povos e das culturas, esse desenvolvimento pode
ser isolado, oposto ou interdependente. Desenvolvimento isolado é o dos Estados e civilizações do
Extremo Oriente, da América pré-colombiana, da África subsaariana, Não isolado aparece no cortejo da
Antiguidade oriental e Antiguidade Clássica, e, mais tarde, no da Europa Cristã e do Islão.
Desenvolvimento interdependente é o que se dá na Europa desde o Império Romano e no resto do
mundo desde a colonização e a descolonização.

17. Redução das formas históricas de Estados a tipos


⦁ Há dois prismas de encarar os tipos: como equivalentes no plano da história jurídico-política
comparada às civilizações e como momentos de um processo histórico mais ou menos linear;
⦁ A Jellinek se deve a consideração dos “tipos fundamentais de Estado”, apontando-os como tipos de
Estado com relação histórica com o Estado atual. E tais são o Estado oriental, o grego, o romano, o
medieval e o moderno.

18. O Estado oriental


⦁ Traços mais marcantes: Identificação do poder político e do poder religioso e podendo chegar-se à
divinização do monarca; Forma monárquica combinada com Teocracia, porque o monarca é adorado
como um Deus ; Ordem desigualitária, hierárquica e hierática da sociedade; Reduzidas garantias
jurídicas dos indivíduos; Larga extensão territorial e aspiração a construir um império universal.

19. Estado Grego


⦁ Traços essenciais da polis, do Estado na Grécia: prevalência do fator pessoal (o Estado é a comunidade
de cidadãos, embora não sejam estes os seus únicos habitantes); Fundamento da comunidade dos
cidadãos (a comunidade religiosa); Relativa pouca importância do fator territorial, o que está a par da
pequena extensão do território; Deficiência ou inexistência da liberdade fora do Estado; Realce da
isonomia (igualdade perante a lei e perante a atividade política); Diversidade de formas de governo;
⦁ A primeira democracia devidamente estruturada que se conhece. Apenas tinham direitos políticos os
cidadãos de certo estrato da população, e apenas os homens, por eles os exercerem em governo direto;
A isonomia só dizia respeito aos cidadãos.

20. O Estado Romano


⦁ Não são poucas nem menores as semelhanças de Roma com as cidades da Grécia. Roma constituiu-se
pelo agrupamento das famílias e das gentes; e continua a ser um Estado de base municipal, ainda
quando organiza um vastíssimo império em 3 continentes;
⦁ Peculiaridades do Estado Romano: desenvolvimento da noção do poder político; Consciência da
separação entre o poder público (do Estado) e o poder privado (do pater famílias) e a distinção entre o
Direito público e privado; Progressiva atribuição de direitos aos estrangeiros e a formação do ius
gentium; Expansão da cidadania num largo espaço territorial;
⦁ Durante o domínio romano da Palestina surgiu o Cristianismo que viria a abalar as principais conceções
sociais romanas ao reconhecer à pessoa uma nova posição dentro da comunidade política e ao
contestar o caráter sagrado do Imperador. A pessoa torna-se agora um valor de si, todos os homens são
pessoas com igual dignidade.

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21. O pretenso Estado Medieval


⦁ A Idade Média europeia divide-se em duas grandes fases: a das invasões e a da reconstrução;
⦁ Com o feudalismo desfaz-se a ideia de Estado. A ordem hierárquica da sociedade traduz-se numa
hierarquia de titularidade e exercício do poder político, numa cadeia de soberanos e vassalos ligados por
vínculos contratuais;
⦁ O poder privativa-se. Em vez do conceito de imperium vem o de dominium. E, mais que em “forma
Estado” patrimonial deve falar-se em ordenamento jurídica sob regime patrimonial;
⦁ As estruturas urbanas autónomas desenvolvem-se à margem de qualquer estrutura administrativa
centralizada. É nesses corpos sociais que o indivíduo se situa e desenvolve a sua vida. E porque não há
uma relação geral e imediata entre o poder do Rei e os súbditos, os direitos são a estes conferidos não
enquanto tais, individualmente considerados, mas sim enquanto membros dos grupos em que se
integram;
⦁ O papel da Igreja Católica aumenta nesta época. Era a Igreja, e não o Estado que se contrapunha à
sociedade e com ela mantinha relações, e o menor valor do Estado comparado com o da Igreja era um
dos princípios fundamentais da conceção medieval do mundo.

22. O Estado moderno ou Europeu


⦁ Depois da organização política medieval vai ressurgir a ideia de Estado, na plena aceção do termo. Pois
o poder centraliza-se e concentra-se no Rei e toda a autoridade pública passa a provir dele; ele atinge
todos os indivíduos. Essa concentração acompanha-se de uma crescente institucionalização. E com o
constitucionalismo todo o Estado ficará envolvido por regras e processos jurídicos estritos;
⦁ O Estado moderno de tipo europeu apresenta características muito próprias: Estado nacional (o
Estado tende a corresponder a uma nação ou comunidade histórica de cultura); Secularização ou
laicidade; Soberania (dando ao Estado não só a capacidade de vencer as resistências internas à sua ação
como para afirmar a sua independência em relação aos outros Estados);
⦁ Como te sido observado, no mundo antigo os Estados dividiam-se em duas categorias: os impérios e as
Cidades-Estados. Os Estados europeus combinariam as vantagens dos impérios e das Cidades-Estados,
conseguiriam envolver no processo político uma boa parte dos seus habitantes e criar um certo
sentimento de identidade comum.

23. O nome de Estado


⦁ A evolução da terminologia para designar a sociedade política reflete a evolução dos seus tipos e dos
respetivos conceitos;
⦁ Em primeiro era designada de polis, na Grécia; na Idade Média era rognum; mais tarde corona; depois
terra; e civita. Só o aparecimento do moderno Estado europeu se impõe uma nova denominação;
⦁ Na Itália renascentista consagra-se uma designação genérica, neutra e, sobretudo, mais abstrata: o
vocábulo Estado. Do italiano a palavra passa para as restantes línguas europeias nos séculos XVI e
seguintes. Os nomes dos Estados em concreto adquirem valor jurídico e simbólico.

Capitulo II → O Direito Público moderno e o Estado Europeu p.49-76

24. O sistema político medieval e a sua substituição


⦁ A organização política da Idade Média europeia tem de se compreender na perspetiva mais ampla do
Ocidente cristão; A ausência de Estado neste período deve-se à força dos vínculos feudais e à força dos
vínculos de subordinação;
⦁ O ocidente aparece como uma unidade – de civilização e de fé, e também política e social: é a
chamada Respublica Christiana. Tal unidade remonta à recordação do Império Romano e fica reforçada,
objetiva e subjetivamente, pela ameaça do Islão a sul e a leste da Europa; Não eram pequenas as
fraquezas deste sistema: o localismo da vida social; a precariedade das estruturas económicas ; a
grosseira tutela dos direitos dos indivíduos; ou a deficiência interna resultante da contraposição entre
o Papa e o Imperador, Sacerdotium e o Imperium, poder espiritual e poder temporal, levando a
frequentes lutas que não deixam de debilitar ainda mais um e outro;

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⦁ A Teoria canónica manteve a ideia de um império universal, mas a Cúria agiu sempre de modo a
contrariar as ambições do Imperador;
⦁ Desde os séculos 13 e 14 ocorre a crise do sistema; Dois factos com papel importantíssimo: despontar
das nações europeia e a receção do Direito Romano; As nações, comunidades de laços novos e
especiais, assentes em afinidades de espirito e interesses e num sentimento comum, transformam a
geografia da Europa; O Direito Romano, estudado e divulgado pelos legistas preparados nas
Universidades, irá pôr em causa as conceções jurídico-políticas de origem germânica;
⦁ As nações vão-se formando durante séculos; O primeiro sinal da tomada de consciência de uma
comunidade de si mesma é dar-se um nome. Os nomes dos países são agora nomes de povos, e não de
terras;
⦁ O renascimento do Direito romano, a partir de fins do século 11 e sobretudo do século 13, é um dos
mais importantes eventos da história cultural europeia porque as categorias jurídicas romanas vão
largamente enformar as novas construções políticas.

25. A soberania e a organização do Estado


⦁ A moderna ideia de Estado tem o seu expoente na ideia de soberania. Esta implica uma imediatividade
ou ligação direta entre o Estado e o indivíduo, ao contrário do que se sucedia no sistema feudal.

26. Variedade dos momentos de aparecimento do Estado


⦁ Não é fácil divisar, com rigor, quando surge o Estado, quando se passa da organização política
medieval para a nova forma de organização política. O que se pode afirmar é que ele surge em
momentos diversos nas diferentes partes da Europa;
⦁ O Estado encontra-se relativamente cedo na Península Ibérica. Ainda mais cedo e em moldes mais
modernizados, aparece na Inglaterra e na Sicília. Já na França emerge lentamente ao longo dos séculos
14 e 15. Nos países nórdicos, define-se nos séculos 16 e 17, e, quase ao mesmo tempo, na Rússia,
Polónia e Hungria. Diferente se depara a situação transitória da Alemanha e da Itália;
⦁ O processo de criação dos Estados europeus culmina nos tratados de Vestefália (1648), que põem
termo à guerra dos Trinta anos. À Respublica Christiana sucede, assim, um sistema de Estados
soberanos e iguais.

27. Condições gerais de desenvolvimento do Estado Europeu


⦁ O Estado europeu move-se, do século 16 aos nossos dias, num mundo em transformação e ele próprio
é um poderoso agente de transformação do mundo. Sofre o influxo das condições espirituais,
socioeconómicas e internacionais, mas também vai tentar pô-las ao seu serviço.
⦁ Condições espirituais: o Renascimento, a Reforma e a contrarreforma; o espirito cientifico e a rebeldia
contra o espirito religioso; o progresso técnico e o aproveitamento da natureza; a difusão e passagem
da cultura de Corte de claustros à cultura de massas.
⦁ Condições socioeconómicas: a decadência da nobreza e da aristocracia rural e a ascensão da
burguesia; o desenvolvimento do capitalismo sob várias formas económicas e jurídicas; a revolução
industrial;
⦁ Há dois fins públicos que se vão propor – o de cultura e o de progresso material;
⦁ No plano exterior sobressaem os descobrimentos marítimos e a expansão colonial, por um lado, e o
sistema de Estados, por outro, Estes fatores afetam profundamente a estrutura dos Estados europeus. A
expansão marítima e colonial há de conduzir à planetarização das conceções e das formas jurídico-
políticas. O sistema de Estados vive num processo dialético de solidariedade e antagonismo, de
isolamento e associação, de neutralidade e coligação, de luta pela hegemonia pelo equilíbrio.

28. Períodos de evolução


⦁ São diferentes as perspetivas por que pode ser tomada a evolução do moderno Estado Europeu;
⦁ Uma primeira perspetiva, de natureza natural, toma o Estado em cada época como expressão da
civilização europeia dessa época;
⦁ Uma segunda perspetiva, de natureza mais estritamente política e jurídico-positiva, reconduz o Estado

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a um processo político e jurídico de agir;


⦁ Uma terceira perspetiva, muito complexa, liga Direito, política, economia, e vê o Estado na intersecção
desses elementos fundamentais.

29. O Estado estamental


⦁ O Estado estamental ou monarquia limitada pelas ordens é forma política de transição, e, traz consigo
algumas sequelas da era feudal;
⦁ A ideia básica que nele se encontra é a dualidade política rei-estamentos, sucessora do dualismo rei-
reino medieval;
⦁ A principal forma de participação de estamentos encontra-se nas assembleias estamentais
(Parlamentos, Estados Gerais, Dietas, Cortes);
⦁ Como se trata de um momento de equilíbrio, o Estado estamental não dura senão até o Rei ganhar
força para levar a unificação do poder às suas últimas consequências. A monarquia vai converter-se em
absoluta;
⦁ Só na Inglaterra os estamentos, mais evoluídos que no Continente, sobrevivem como grupos políticos
e não como meros estratos sociais.

30. O Estado absoluto. O Estado de polícia


⦁ Rigorosamente, não pode falar-se em “Estado absoluto”. Nenhum Estado existe à margem do Direito e
nenhum governante deixa de estar vinculado às normas jurídicas que o vinculam como tal;
⦁ Se na conceção patrimonial ainda dominante se declara absoluto o poder do Rei (tal como a
propriedade é um direito absoluto), isso tão-pouco significa ilimitação, já que a propriedade se
enquadra sempre na lei;
⦁ O sentido próprio só pode ser o de Estado absoluto como aquele em que se opera a máxima
concentração do poder do no rei e em que, portanto: a vontade do rei é lei; as regras jurídicas
definidoras do poder são diminutas, vagas, parcelares e quase todas não reduzidas a escrito.
⦁ É usual distinguir dois subperíodos na evolução do absolutismo: Num primeiro, a monarquia afirma-se
de “direito divino”; O Rei pretende-se escolhido por Deus, governa pela graça de Deus. Numa uma fase
subsequente vai procurar-se atribuir ao poder uma fundamentação racionalista dentro do ambiente de
iluminismo dominante. É o “Estado de polícia”;
⦁ O critério principal de ação política torna-se a razão de Estado, a conveniência, o bem público, e não a
justiça ou a legalidade;
⦁ A função histórica do Estado absoluto consiste em reconstruir a unidade do Estado e da sociedade, em
passar de uma situação de divisão com privilégios das ordens para uma situação de coesão nacional,
com relativa igualdade de vínculos ao poder;
⦁ No séc. 18 a lei prevalece sobre o costume como fonte de Direito;
⦁ Incrementa-se, entretanto, o capitalismo, e a burguesia revela-se o sector mais dinâmico da sociedade.
O contraste crescente entre o poder económico da burguesia e a sua falta de poder político hão de lavá-
la depois a fazer ou a apoiar a revolução.

31. O Constitucionalismo moderno


⦁ As correntes filosóficas do contratualismo, do individualismo e do iluminismo e importantíssimos
movimentos económicos, sociais e políticos conduzem ao constitucionalismo moderno sob veste de
Estado constitucional, representativo ou de Direito;
⦁ No sentido que assim se recorta, a Constituição traduz algo de diverso e original. Traz consigo uma
nova fundação e uma nova limitação e envolve todo um modo de ser concebido o poder. Na
Constituição se plasma um determinado sistema de valores da vida pública, dos quais é depois
indissociável. Um conjunto de princípios filosóficos-jurídicos e filosóficos-políticos vêm-na justificar e
vêm-na criar;
⦁ Os mais significativos textos desta nova conceção são americanos e franceses;
⦁ Numa primeira noção, Estado constitucional significa Estado assente numa constituição;
⦁ Governo representativo significa a forma de governo em que se opera uma dissociação entre a
titularidade e o exercício do poder;

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⦁ Estado de Direito é o Estado em que, para garantia dos direitos dos cidadãos, se estabelece
juridicamente a divisão do poder e em que o respeito pela legalidade se eleva a critério de ação dos
governantes.

32. O Estado constitucional no século XX como Estado liberal burguês


⦁ O Estado constitucional, representativo ou de Direito surge como Estado liberal, assente na ideia de
liberdade e, em nome dela, empenhado em limitar o poder político internamente como externamente;
⦁ Exibe-se também como Estado burguês, imbricado ou identificado com os valores e interesses da
burguesia, que então conquista, no todo ou em grande parte, o poder político e económico;
⦁ As transformações registadas não se confinam ao campo da política, não nascem e também não se
esgotam todas nesse domínio. As revoluções liberais são ainda de cunho social;
⦁ Uma organização do poder arrasta e é arrastada por uma nova organização da sociedade;
⦁ As constituições da época refletem isso mesmo é também a evolução que irá decorrendo segundo
esses parâmetros;
⦁ Os regimes liberais vão-se implantar ao longo da primeira metade do século XIX;
⦁ Num primeiro momento, os grandes conflitos políticos e sociais opõem liberais e conservadores. Num
segundo momento, opõem liberais e radicais;
⦁ O liberalismo vai enfrentar críticas doutrinais provenientes de vários quadrantes: do pensamento
reacionário, do pensamento católico e do pensamento socialista.

33. A situação do Estado no século XX


⦁ Século marcado por convulsões bélicas, crises econômicas, mudanças sociais e culturais e progresso
técnico sem precedentes. Desembocam nele todas as grandes correntes filosóficas e acelera-se o ritmo
das mudanças políticas e sociais;
⦁ É um século em que o Direito público sofre poderosíssimos embates e em que à fase liberal do Estado
constitucional vai seguir-se uma fase social;
⦁ São 6 as linhas de força dominantes, na sequência imediata das duas guerras mundiais:
→ A passagem do mero governo representativo à democracia representativa;
→ As transformações do Estado num sentido intervencionista e social, bem contraposto ao laissez-faire
liberal;
→ O acesso das mulheres à igualdade - igualdade de direitos na família, no trabalho, na participação
política;
→ O aparecimento de regimes totalitários de diversas inspirações;
→ A emancipação dos povos coloniais, com a distribuição agora de toda a Humanidade por Estados;
→ A institucionalização da comunidade internacional, através de organizações a nível mundial ou só
continental ou regional;
→ A proteção internacional dos direitos do homem.
⦁ Surgem no século XX diversos regimes chamados "totalitários", produto da "rebelião das massas", do
impacto sobre estas de determinadas ideologias e de ocorrências políticas internas ou externas de
maior vulto. Tal como no Estado absoluto, há neles uma concentração do poder político, mas muito
mais do que isso: o Estado absoluto não intervinha na vida privada das pessoas, não pretendia absorver
a sociedade civil, ao passo que o Estado totalitário assume todo o poder na sociedade e identifica a
liberdade humana com a prossecução dos seus fins;
⦁ Ao mesmo tempo que o Estado atinge a sua máxima expansão, desenvolve-se a estruturação da
comunidade internacional, através de agrupamentos de Estados com funções específicas que adquirem
autonomia relativamente a eles - as organizações internacionais;
⦁ A carta das Nações Unidas não só estabelece o princípio da solução pacífica de conflitos internacionais
e apenas admite a legítima defesa como se impõe mesmo a Estados não membros;
⦁ Ligada à organização da comunidade internacional nasce a proteção internacional dos direitos do
homem, ou seja, a promoção, por meios jurídico-internacionais, da garantia dos direitos fundamentais
relativamente ao próprio Estado de que cada um é cidadão.

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34. A diversidade político-constitucional


⦁ Estado que tivesse constituição qualificava-se de Estado constitucional.
⦁ Ao contrário do período monárquico absoluto, agora todos os Estados se preocupam com dotar-se de
Constituições em perfeito sentido formal. E, ao contrário do período liberal, nessa forma solene única
inserem-se matérias e institutos divergentes. Por outras palavras, devemos supor vários, e não um, tipos
constitucionais. Ao mesmo tipo histórico de Estado vão corresponder diferentes tipos constitucionais de
Estado, regimes políticos bem demarcados.
⦁ O primeiro desses tipos vem a ser o Estado social de Direito que sucede ao Estado liberal. O Estado
social de Direito não é senão uma segunda fase do Estado constitucional, representativo de Direito.
Trata-se de articular direitos, liberdades e garantias com direitos sociais; de articular igualdade jurídica
e segurança jurídica com segurança social; e ainda de estabelecer a recíproca implicação entre
liberalismo político e democracia, retirando-se do princípio da soberania nacional todos os seus
corolários.
⦁ No século XX à emergência de dois outros modelos constitucionais, o soviético ou marxista-leninista e
o fascista. O Estado soviético recebe esse nome por assentar e se insiram nas ideias da Revolução
Russa; O Estado fascista tem esse nome por causa do regime instaurado na Itália pelo partido fascista;
⦁ O constitucionalismo de matriz marxista-leninista tem como differentia specifica o domínio de todo o
poder pelo partido comunista. O partido comunista apresenta-se essencialmente como um partido
ideológico apto a enquadrar as massas. É nele que está a realidade do poder, e não nos órgãos formais
do Estado. Segundo a Doutrina marxista-leninista, cada regime económico tem a sua constituição;
⦁ Apesar da sua viva contestação do Estado constitucional representativo, o Estado soviético em
concreto nunca surgiu em rutura com este, mas em rutura com regimes de outro tipo. Em rotura com o
Estado constitucional liberal surgiu, ao invés, o Estado fascista;
⦁ Não houve um único fascismo, antes diferentes fascismos.

35. Os problemas no início do século XX


⦁ Neste início de século e de milênio, o panorama político-constitucional é, de novo, de grandes
transformações e instabilidade;
⦁ Já não existem quase todos os regimes totalitários e autoritários e o constitucionalismo de matriz
ocidental identificado agora com a democracia representativa e pluralista e com o Estado de Direito dir-
se-ia agora prevalecer;
⦁ Observam-se no Estado (sobretudo na Europa) fundos sintomas de crise, derivada de causas
financeiras, administrativas e comerciais; - E não menos importante do que todas estas vicissitudes e
estes problemas, deparam-se, à escala de toda a humanidade, a degradação da natureza e do ambiente,
as desigualdades económicas entre países industrializados e não-industrializados, os movimentos de
migração do Sul para o Norte, as situações de exclusão social, a manipulação comunicacional, a cultura
consumista de massas, a erosão de valores éticos familiares e políticos, as tensões étnicas e religiosas,
enfim, os surtos de terrorismo maciço;
⦁ É, mesmo nos países mais avançados, as pessoas defrontam-se com aquilo que se vem denominando
sociedade de risco.

Título II – O Constitucionalismo Português

Capitulo I → A Sucessão De Constituições p.76-86

36. Características do constitucionalismo português:


⦁ O constitucionalismo surge entre nós por via revolucionária. O que sucede em Portugal exemplifica a
asserção de que as Constituições trazem algo de diverso e original em face das anteriores “Leis
Fundamentais”;
⦁ As seis Constituições são o produto do circunstancialismo histórico do país e o reflexo de
determinados elementos políticos, económicos, sociais e culturais. Fruto dos nossos atribulados dois
últimos séculos, elas traduzem os seus problemas e apresentam-se como veículos de certas ideias,
tentativas de reorganização da vida coletiva;

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⦁ As Constituições têm por fontes Constituições estrangeiras. A história constitucional portuguesa é feita
de ruturas. As Constituições emergem em rutura com as anteriores, sofrem alterações nem sempre em
harmonia com as formas que prescrevem e acabam com novas ruturas ou revoluções.

37. A histórica política e constitucional portuguesa:


⦁ Existe uma relação constante entre história política e história constitucional portuguesa. São os
factos decisivos da história política que, direta ou indiretamente, provocam o aparecimento das
Constituições, a sua modificação ou a sua queda. As Constituições vêm a ser elas próprias geradoras de
novos factos políticos;
⦁ Três grandes períodos da história política e da história constitucional são: o período das
Constituições liberais, o da Constituição de 1933 e o da Constituição de 1976;
⦁ A época liberal vai de 1820 a 1926. Durante ela sucedem-se quatro Constituições – 1822, 1826, 1838,
1911. As principais diferenças entre elas são bem menores do que aquilo que as une;
⦁ Entre 1926 e 1974 existe a quase obnubilação do Estado constitucional e a pretensão de se erguer
um constitucionalismo diferente, um Estado Novo. Eis o período da Constituição de 1933;
⦁ Com a revolução de 1974, entra-se na época atual, o país encaminha-se para um regime democrático
pluralista. A Constituição de 1976 significa o termo daquele interregno e a abertura para horizontes e
aspirações de Estado de Direito democrático. E só nesta altura pode falar-se em constitucionalismo
democrático, porque só agora está consignado o sufrágio universal.
⦁ O constitucionalismo liberal abrange quatro subperíodos:
a) A instituição de liberalismo (1820-1851)
b) Regeneração (1851-1890)
c) crise da monarquia constitucional (1890-1910)
d) primeira república (1910-1926)
⦁ Fases que se deparam na evolução política do regime autoritário:
a) Fase do governo militar direto
b) Início e apogeu do consulado de Salazar
c) Fase de decadência
d) Fase final, dominada pelas guerras ultramarinas
⦁ Após a revolução de 1974, três fases:
a) De 15 de abril a 11 de março de 1975
b) De 11 de março a 25 de novembro de 1975
c) De 25 de novembro de 1975 em diante
⦁ Deste rapidíssimo relance extraem-se os seguintes dados:
a) É bastante variável a duração das Constituições
b) Não há vigência contínua de todas as Constituições

Capitulo II → A Constituição de 1976 p.86-98


∾ A formação da Constituição

40. A ideia de Direito da revolução de 1974 e a Constituição


⦁ O processo que havia de conduzir à Constituição de 1976 partiu da ideia de Direito invocada pela
revolução de 25 de Abril de 1947;
⦁ Essa deia de Direito revelou-se nas proclamações e nos primeiros atos concretos do movimento
revolucionário, o Movimento as Armadas, e veio a ter formal consagração num documento sem
precedentes no Direito público português: no Programa divulgado na madrugada seguinte;
⦁ Este Programa não foi, portanto, um mero texto político: foi também, desde o início, um texto
carregado de sentido jurídico, transformou-se de ato interno do Movimento em ato constitucional do
Estado. Ele compreendia as “medidas imediatas” correspondentes às grandes linhas da política do país
até à feitura da nova Constituição. A sua função não era outra senão uma função constituinte, de
criação ou de recriação do ordenamento, de pré-constituição. Mas a legitimidade revolucionária teve
igualmente como ponto de referência a Declaração Universal dos Direitos do Homem;

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41. Carácter geral e sistema de constituição


⦁ A constituição de 1976 é a mais vasta e a mais complexa de todas as constituições portuguesas;
⦁ Tem como grandes fundamentos a democracia representativa e a liberdade política;
⦁ É uma constituição-garantia e, simultaneamente, uma Constituição prospetiva. É uma Constituição
muito preocupada com os direitos fundamentais dos cidadãos e dos trabalhadores e com a divisão do
poder;
⦁ Constituição pós-revolucionária, a Constituição de 76 é também uma Constituição compromissória.
Traduz um compromisso histórico;
⦁ Apresenta-se com um texto longo - com preâmbulo e 312 artigos repartidos em 4 partes: Direitos e
deveres fundamentais; Organização económica; Organização do poder político; Garantia e revisão da
Constituição e Disposições finais e transitórias;
⦁ O carácter compromissório da Constituição está patente em cada uma das suas partes;
⦁ A comparação permite descobrir não só a influência de diversas correntes ideológicas como as
afinidades com constituições diversas de países estrangeiros. São as constituições italiana e alemã,
ambas do pós-guerra e do pós-fascismo, que mais se aproximam da nossa enumeração dos direitos,
liberdades e garantias. Em alguns dos direitos económicos, sociais e culturais torna-se mais palpável
certa parecença com Constituições marxistas-leninistas. A nacionalização de empresas nos sectores
básicos da economia está revestida de uma acentuação anticapitalista aí desconhecida. A
institucionalização dos partidos tem paralelo nas Constituições italiana, alemã federal e francesa, entre
outras;
⦁ Não são poucos os traços das constituições anteriores que perduram na constituição de 76. Esta
restaura a legalidade democrática, reafirma a democracia política, reabre o Parlamento, mas não repõe
a ordem liberal individualista; o seu intervencionismo social e económico só pode cortejar-se com o da
constituição de 1933; não faltam os institutos que ou vindos de longe ou de 33 são recebidos ou
consagrados.
⦁ Da constituição de 1933 vem a competência legislativa. O dualismo de Chefe de Estado e de Chefe de
Governo remonta à Constituição de 1834 e a fiscalização judicial difusa à constituição de 1911;
⦁ A constituição de 1976 ostenta algumas marcas de originalidade, entre elas: dualismo complexo das
liberdades e garantias, de direitos económicos, sociais e culturais; constitucionalizarão de novos direitos
e vinculação das entidades privadas pelos direitos, liberdades e garantias; receção formal da Declaração
Universal dos Direitos do Homem; apelo à participação dos cidadãos nos procedimentos legislativos e
administrativos; subjetivação da tutela do meio ambiente; tratamento sistemático prestado às eleições,
partidos, grupos parlamentares e direito de oposição; coexistência de semipresidencialismo a nível de
Estado; fiscalização concreta da constitucionalidade por omissão, entre outros.

42. As revisões constitucionais


⦁ A primeiro revisão constitucional decorreu em 1981 a 1982 e traduziu-se em:
→ Redução das marcas ou expressões ideológico-conjunturais vindas de 1975 e supressão de referências
ao socialismo em todos os artigos, salvo no 2º.
→ Aperfeiçoamento dos direitos fundamentais e clarificação da constituição económica numa linha
pluralista;
→ Conexão com a extinção do Concelho da Revolução, o repensar das relações com o Presidente da
República, a Assembleia da República e o Governo, com reflexos no sistema político, e a criação de um
Tribunal Constitucional;
→ Aperfeiçoamento da sistematização do texto.

⦁ A segunda revisão constitucional decorreu em 1987 a 1989:


→ Pouco mais fez do que flexibilizar a Constituição Económica. Assim, as nacionalizações deixaram de
ser irreversíveis, diminuiu-se a obrigação do Estado em intervir na Economia e retirou-se da Constituição
a “Reforma Agrária”;
→ No plano político esta revisão previu, pela primeira vez, os referendos nacionais e promoveu a
diminuição do número de deputados.

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⦁ A terceira revisão constitucional deu-se em 1922:


→ A terceira revisão constitucional, ocorrida em 1992, foi extraordinária e pretendeu essencialmente
“acomodar” a CRP às exigências do Tratado de Maastricht (que criou a União Europeia).

⦁ A quarta revisão efetuou-se em 1997:


→ A quarta revisão constitucional, ocorrida em 1997, promoveu poucas alterações, destacando-se a
respeitante ao referendo nacional, cuja previsão constitucional, iniciada em 1989, foi concluída porque
finalmente exequível.

⦁ A quinta revisão deu-se entre 2001:


→ Foi desencadeada por um tratado, o Tratado constitutivo do Tribunal Penal Internacional. Pouco ou
nada trouxe de novo e significativo no plano jurídico-constitucional.

⦁ A sexta revisão deu-se entre 2003 e 2004:


→ Deu-se por questões referentes à integração europeia e às regiões autónoma; É uma revisão
constitucional ordinária. Pouco ou nada trouxe de novo e significativo no plano jurídico-constitucional.
→ De salientar, no entanto, nova alteração realizada ao artº 8º, a qual passou a possibilitar a aprovação
ou ratificação de uma Constituição europeia, face à atual redação do nº 4, do aludido artº 8º.

⦁ A sétima revisão deu-se entre 2005:


→ Deu-se por haver dúvidas sobre a realização de referendo nacional a respeito da União Europeia, fez-
se em 2005 uma sétima revisão constitucional, extraordinária.

43. O essencial da Constituição


⦁ A constituição continua sendo, após 7 revisões, após a entrada de Portugal para as Comunidades e
para a União Europeia e após tantas transformações registadas no país e no mundo, a mesma
constituição que em 1976 foi decretada pela Assembleia Constituinte;
⦁ Portugal é uma República soberana, baseada na dignidade da pessoa humana e na vontade popular e
empenhada na construção de uma sociedade livre, justa e solidárias;
⦁ A República Portuguesa é um Estado de Direito democrático;
⦁ São tarefas fundamentais do Estado defender a democracia política, incentivar a participação dos
cidadãos na resolução de problemas e promover o bem-estar e qualidade de vida, tal como a igualdade
real entre os portugueses;
⦁ O desenvolvimento constitucional apenas traz a reorientação ou aprofundamento do sentido da
Constituição vigente;
⦁ Foi um fenómeno de desenvolvimento constitucional, e não de rutura, aquele que atravessou a
Constituição de 1976 ao longo dos anos.

Título III – O Constitucionalismo no brasil e nos outros Estados de Língua Portuguesa

Capitulo I → O Constitucionalismo Brasileiro p.98-102

44. Visão geral sobre o constitucionalismo brasileiro


⦁ O constitucionalismo nasceu em Portugal e no Brasil ao mesmo tempo. Nasceu com a revolução de
1820;
⦁ A Constituição de 1822 seria votada por portugueses e brasileiros;
⦁ Mas, embora não tivesse chegado a vigorar no Brasil ela viria a influenciar fortemente o projeto de
Constituição de 1823;
⦁ A seguir, a Carta Constitucional de 1826 seria decalcada da Constituição brasileira de 1824. As duas
constituições vigorariam conjuntamente durante cerca de meio século;

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⦁ Se o movimento republicano brasileiro viria a exercer largo impacto em Portugal, não menor viria a ser
a influência da primeira Constituição republicana brasileira sobre a primeira Constituição republicana
portuguesa;
⦁ As tendências autoritárias imperantes em Portugal tiveram paralelo no Brasil por duas vezes. Não
admira que a nossa Constituição de 1933 tenha inspirado, na Constituição brasileira de 1937, a criação
de um Conselho de Economia Nacional.

45. A Constituição de 1988


⦁ Abre com um preâmbulo e com “princípios fundamentais”;
⦁ Ocupa-se dos direitos fundamentais com prioridades em relação às demais matérias e declara as
normas definidoras de direitos e garantias de aplicação imediata;
⦁ Além dos direitos e garantias, há também uma larga enumeração de direitos sociais, mas é sobretudo
no título de ordem social que eles têm tratamento completo;
⦁ A Constituição económica apresenta-se moderadamente nacionalista;
⦁ A organização do poder político federal mantém-se fiel à divisão clássica dos três poderes e ao sistema
presidencial, este algo controlado ou fiscalizado;
⦁Até agora a Constituição sofreu dezenas de emendas, mais ou menos significativas;
⦁ É uma instabilidade provocada tanto pela pormenorização excessiva de muitas das normas quanto
pelas transformações que o Brasil vem atravessando.

Capitulo II → O Constitucionalismo Nos Países Africanos De Língua Portuguesa E Em Timor


p.102-104

46. As primeiras Constituições dos países africanos de língua portuguesa


⦁ As primeiras Constituições dos 5 países foram:
→ 1973 (e depois substituída pela de 1984): Guiné-Bissau
→ 1975: Moçambique, São Tomé e Príncipe e Angola
→ 1975 provisória (depois substituída pela de 1980): Cabo verde
⦁ O que tiveram em comum as primeiras constituições?
→ Conceção monista do poder e institucionalização de partido único;
→ Abundância de fórmulas ideológico-proclamatórias e de apelo às massas populares;
→ Empenhamento na construção do Estado – de um Estado diretor de toda a sociedade;
→ Compreensão acentuada das liberdades públicas, em moldes autoritários e até, em alguns casos,
totalitários;
→ Organização económica do tipo coletivizante;
→ Recusa da separação de poderes a nível da organização política e primado formal da assembleia
popular nacional.
⦁ O poder fora conquistado por movimentos de libertação vindos de duras lutas, que exigiam um
comando centralizado. Por outro lado, a despeito da diferença de condições, na África dos anos 70 e 80
do século passado também era o modelo de partido único que prevalecia por toda a parte.

47. As transições constitucionais democráticas


⦁ A partir da segunda metade dos anos 80 os regimes instaurados começaram a revelar nítidos sinais de
esvaziamento, de incapacidade para resolver os problemas, falta de consenso ou de legitimidade –
sobretudo Angola e Moçambique com dramáticas guerras civis;
⦁ A partir de 1990 abrir-se-iam, então, nos 5 países, processos constituintes em resposta a tal situação:
→ Cabo verde, São Tomé e Príncipe e Guiné Bissau: processos de transição verdadeira e própria, por
iniciativa dos próprios regimes no poder – processo de revisão constitucional em Cabo verde e na
Guiné e aprovação de uma nova constituição formal em São Tomé e Príncipe;
→ Em Moçambique e Angola, processos de transição ligados aos processos de paz e conduzindo a
novas Constituições;
⦁ Atuais constituições:
→ 1984 Guiné-Bissau (revisões em 1993, 1995, 1996);

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→ 1990 São Tomé e Príncipe


→ 1992 (revista em 2003) Cabo Verde e São Tomé
→ 2004 Moçambique
→ 2010 Angola
⦁ Fortes pontos de semelhança:
→ Reforço dos direitos e liberdades fundamentais;
→ Previsão de mecanismos de economia de mercado, bem como do pluralismo de sectores de
propriedade, e, em geral, a desideologização da Constituição económica;
→ Inserção de regras básicas de democracia representativa; e o reconhecimento do papel dos partidos
políticos:
→ Sistemas de governo com acentuação parlamentarizante em Cabo Verde, presidencialista em
Moçambique e Angola e semipresidencializante em Guiné Bissau e em São Tomé e Príncipe;
→ A preocupação com a garantia da constitucionalidade e da legalidade.

48. A Constituição de Timor


⦁ Após mais de 20 anos de ocupação indonésia, Timor adquiriu a sua independência em 20 de maio de
2002. Nesse dia entrou em vigor a Constituição aprovada pela sua Assembleia Constituinte em 22 de
março. É uma constituição que reflete, em muitos aspetos, a de 1976. O sistema de governo configura-
se como semipresidencial.

Parte II
Constituição
Título I – A Constituição como fenómeno jurídico

Capitulo I → Sentido Da Constituição p.105-129

49. Da Constituição antiga à Constituição moderna


⦁ Em qualquer Estado, em qualquer época e lugar encontra-se sempre um conjunto de normas
fundamentais correspondentes à sua estrutura, à sua organização e à sua atividade. Encontra-se
sempre uma Constituição como expressão jurídica do enlace entre o poder e comunidade política ou
entre governantes e governados.
⦁ As “Leis Fundamentais” não regulavam senão muito esparsamente as atividades dos governantes e
não traçavam com rigor as suas relações com os governados; eram difusas e vagas; apareciam como
uma ordem suscetível de ser moldada à medida da evolução das sociedades.
⦁ Perante o fenómeno constitucional, a observação mostra uma atitude cognoscitiva ora uma atitude
voluntarista.
⦁A atitude cognoscitiva é a adotada pelos juristas no tempo das Leis Fundamentais do Estado
estamental e do Estado absoluto.
⦁ A atitude voluntarista emerge com a Revolução francesa e está presente em correntes filosófico-
jurídicas e ideológicas bem contraditórias.
⦁ Vontade implica poder. Vontade de fazer ou refazer a Constituição implica poder constituinte. A
Constituição, como ato de vontade, é também ato de poder.
⦁ Todavia, a Constituição moderna aspira a ser também produto da razão e serviço da razão. A
Constituição vai procurar mais do que a institucionalização, a racionalização das relações políticas. Esta
marca vai atravessar todos ou quase todos os regimes políticos e tipos constitucionais até aos nossos
dias.
⦁ Esta Constituição teria sempre de revestir a forma de lei, de lei constitucional. Lei significa emanação
do Direito por obra da autoridade, lei constitucional emanação do Direito por obra da autoridade
constituinte.
⦁ Elementos caracterizadores do constitucionalismo: a Constituição como fundação ou refundação do
ordenamento estatal; a Constituição como sistematização racionalizadora das normas estatutárias do
poder e da comunidade; a Constituição como lei, como conjunto de normas de fonte legal.
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⦁ A estes elementos importa acrescentar a supremacia que a Constituição obtém em face de todos os
atos e de todas as normas que surjam nesse ordenamento. Disso tem-se logo consciência aquando das
Revoluções americana e francesa.
⦁ Verifica-se, porém, uma diferença sensível entre a conceção e a experiência norte-americana e as
francesas. Nos Estados Unidos, a Constituição é o pacto constitutivo da União. Na França, é a Nação que,
assumindo o poder constituinte, cria a Constituição.
50. Da Constituição liberal às Constituições atuais
⦁ O constitucionalismo moderno desponta, como se sabe, estreitamente ligado a certa ideia de Direito.
⦁ O Estado só é Estado constitucional, só é Estado racionalmente constituído, para os doutrinários e
políticos do constitucionalismo liberal, desde que os indivíduos usufruam de liberdade, segurança e
propriedade e desde que o poder esteja distribuído por diversos órgãos.
⦁ Em vez de os indivíduos estarem à mercê do soberano, eles agora possuem direitos contra ele,
imprescindíveis e invioláveis. Em vez de um órgão único, o Rei, passa a haver outros órgãos, tais como
Assembleia ou Parlamento, Ministros e Tribunais. Daí a necessidade duma Constituição desenvolvida e
complexa.
⦁ A ideia de Constituição é de uma garantia e, ainda mais, de uma direção da garantia. Para o
constitucionalismo, o fim está na proteção que se conquista em favor dos indivíduos, dos homens e
cidadãos, e a Constituição não passa de um meio para o atingir.
⦁ O constitucionalismo liberal tem ainda de buscar uma legitimidade que se contraponha à antiga
monárquica; e ela só pode ser democrática. A Constituição é então a auto-organização de um povo, o
ato pelo qual um povo se obriga e obriga os seus representantes, o ato mais elevado de exercício da
soberania.
⦁ No séc. XX o fenómeno constitucional iria sofrer duas vicissitudes decisivas: generalizar-se-ia,
universalizar-se-ia; e, simultaneamente perderia a sua referência a um conteúdo liberal.
⦁ Por outro lado, todos os regimes adotam uma Constituição. E, do mesmo modo, todos os Estados que
vão acedendo à comunidade internacional se dotam de Constituições como verdadeiros símbolos de
soberania.
⦁ O contraste de projetos e de conteúdos, sobretudo ideológicos das Constituições, permite, e
recomenda mesmo, algumas classificações.
⦁ Seguindo este critério, há Constituições normativas, nominais e semânticas. A normativas limitam
efetivamente o poder político, as nominais, embora não o limitem, ainda têm essa finalidade e as
semânticas apenas servem para estabilizar e eternizar a intervenção dos dominadores de facto na
comunidade.
⦁ Dicotomia muito corrente e que visa abarcar um ciclo longo ou diversos ciclos de conteúdos
constitucionais é a contraposição Constituições estatuárias-Constituições doutrinais.
⦁ Constituições estatuárias dizem-se as que se ocupam do estatuto do poder, dos seus órgãos e da
participação política dos cidadãos. Constituições doutrinais, são aos que, mais do que da organização
política, cuidam da vida económica social e cultural.
⦁ Próxima desta distinção é a que contrapõe conceções meramente processuais da Constituição e
conceções substantivas.
⦁ Classificação ainda relativa ao conteúdo é a das Constituições em simples e complexas ou
compromissórias.
⦁ Em inteiro rigor, todavia, nenhuma Constituição é absolutamente simples. O caráter simples ou
compromissório de uma Constituição depende de circunstancialismo da sua formação, da sua aplicação
e das duas vicissitudes.
⦁ Nenhuma Constituição compromissória consiste num aglomerado de princípios sem virtualidade de
harmonização prática. As Constituições compromissórias permitem a coexistência de ideias e correntes
antagónicas.
51. Da Constituição em sentido material à pluralidade de Constituições materiais
⦁ De tudo quanto acaba de se expor resulta que o conteúdo da Constituição se relativiza e acusa
variações consoante os regimes políticos. E a cada regime vai corresponder um determinado
entendimento da Constituição em sentido material.
⦁ Não é só a respeito do regime político que esta pluralidade de Constituições se apresenta. É também
no tocante à forma de Estado e no tocante à forma de governo, ao sistema de governo e à forma
institucional.

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⦁ À Constituição em sentido material pode corresponder historicamente um só sentido ou pode


corresponder uma pluralidade de conteúdos. E esse conteúdo em cada Estado e em cada tempo
plasma-se em princípios jurídicos específicos, explícita ou implicitamente.
⦁ Uma Constituição não se reduz a esses princípios. Ela surge como um somatório de preceitos. Porém,
são esses princípios que lhe conferem unidade, identidade e durabilidade.
⦁ Constituição material é, pois, o acervo de princípios fundamentais, estruturante se caracterizantes
de cada Constituição em sentido material positivo; aquilo que lhe confere substância e identidade.
52. Constituição em sentido formal
⦁ Onde se encontra Constituição em sentido material moderno emerge, pois, Constituição em sentido
formal.
⦁ Três notas que assinalam a Constituição em sentido formal: procedimento específico de formação;
lugar específico no ordenamento e consideração sistemática.
⦁ As normas formalmente constitucionais gozam de um estatuto ou de um regime imposto por tais
características e pela função material, genética ou conformadora que servem.
⦁ Da Constituição em sentido formal cabe distinguir a Constituição em sentido instrumental.
53. Os tempos e os lugares das normas constitucionais
⦁ Na grande maioria dos casos, a Constituição formal resulta de um só ato constituinte.
⦁ Em algumas ocasiões não acontece assim. Em vez de uma Constituição formal unitária, emanavam-se
várias leis constitucionais. A Constituição formal decompõe-se então em complexos normativos
dispersos por mais de um texto ou documento, todos com a mesma ligação ao poder constituinte e a
mesma força jurídica.
⦁ Outros eventos, igualmente explicáveis por circunstancialismos históricos localizados, afiguram-se não
menos interessantes. São os que se reconduzem às hipóteses de Constituição formal primária e de
normais constitucionais complementares.
⦁ Trata-se, sobretudo, daqueles casos em que uma Constituição, ao ser aprovada, mantém em vigor
normas constitucionais anteriores.
⦁ Esse nexo entre a Constituição e certas normas que, por virtude dela, adquirem categoria de normas
formalmente constitucionais designa-se uma relação de receção.
⦁ A receção tanto poder ser formal como material. A formal prossupõe a conservação da identidade
dos princípios ou preceitos, prossupõe que os princípios ou preceitos valham com a qualidade que
tinham. A material resume-se a expediente de preenchimento de zonas de regulamentação jurídica.
As normas recebidas são incorporadas como normas do sistema e a sua vigência, a sua interpretação e
a sua integração ficam em tudo dependentes de outras normas do novo sistema a que ficam
pertencendo.
54. A Declaração Universal dos Direitos do Homem como parte da Constituição formal portuguesa
⦁ O art.º 16º, nº2, da Constituição estabelece que “os preceitos constitucionais e legais relativos aos
direitos fundamentais deveriam ser interpretados e integrados de harmonia com a Declaração Universal
dos Direitos do Homem”. E não se trata de uma receção matérial, mas sim de uma receção formal. Ele
não sujeita os artigos da Declaração Universal aos quadros da Constituição; conjuga, sim, a Constituição
com a Declaração Universal no domínio dos direitos fundamentais, fazendo-a participar e depender do
seu espírito numa necessária harmonia valorativa.
⦁ Além dos princípios constantes da Declaração Universal, há outros princípios de Direito internacional
geral ou comum a que a Constituição se reporta são princípios por que Portugal se rege nas relações
internacionais e os princípios que, nos limites da lei interna, prevejam a punição criminal de ações e
omissões.
55. Os princípios cooperativos e a Constituição
⦁ A Constituição dedica um particular favor ao cooperativismo, consagrando o direito de criação de
cooperativas como um direito fundamental, incumbindo o Estado de estimular e apoiar em geral as
cooperativas.

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Capitulo II → Formação Da Constituição p.129-153

57. Poder constituinte material e poder constituinte formal


⦁ Distinguimos a par da dupla perspetiva - material e formal sobre a constituição - um poder
constituinte material e um poder constituinte formal; distinguimos entre um poder de
autoconformação do Estado segundo certa ideia de Direito e um poder de decretação de normas com a
forma e a força jurídica próprias das normas constitucionais;
⦁ São duas faces da mesma realidade. Ou dois momentos que se sucedem e completam, o primeiro em
que o poder constituinte é só material, o segundo em que é, simultaneamente, material e formal;
⦁ O poder constituinte material precede o poder constituinte formal. Precede-o logicamente, porque a
ideia de Direito precede a regra de Direito, o valor comanda a norma, a opção política fundamental a
forma que elege para agir sobre os factos, a legitimidade a legalidade. E precede-o historicamente;
⦁ Em segundo lugar, o poder constituinte material envolve o poder constituinte formal, porque este é
não menos um poder criador de conteúdo valorável a essa luz. Não somente o poder constituinte formal
completa a específica ideia de Direito como é através dele que se declara e firma a legitimidade quem
que agora se assenta a ordem constitucional;
⦁ O poder constituinte confere estabilidade e garantia de permanência e de supremacia hierárquica ou
sistemática ao princípio normativo inerente à Constituição material. Confere estabilidade, visto que a
certeza do Direito exige o estatuto da regra. Confere garantia, visto que só a continuação formal coloca
o poder constituinte material ao abrigo das vicissitudes da legislação e da prática quotidiana do Estado e
das forças políticas.

59. Constituição e soberania do Estado


⦁ Quando um estado surge de novo, ou é restaurado, ou sofre uma transformação radical da sua
estrutura, aparece dotado de uma Constituição — e uma Constituição material é que seguirá uma
Constituição formal ou de uma Constituição material já acompanhada de uma Constituição formal;
⦁ Essa Constituição material exprime, direta e imediatamente, a soberania que estado assume ou
reassume nesse momento, mas no segundo caso a constituição formal pode corresponder a uma três
hipóteses:
→ Constituição decretada pelos novos órgãos estatais, seja como Constituição definitiva ou como
Constituição provisória;
→ Constituição coincidente com Constituição ou estatuto jurídico da comunidade política preexistente
(colónia autónoma, território sob mandato ou sob tutela, comunidade em situação internacional sui
generis);
→ Constituição dimanada de entidade externa e destinada a entrar em vigor com acesso a soberania (ou
independência) do novo Estado.

60. A revolução como fenómeno constituinte


⦁ Nada se afigura, na verdade, mais gerador de Direito do que uma revolução, nada há talvez de mais
eminentemente jurídico do que o facto ou ato revolucionário;
⦁ A revolução não é o Triunfo da violência; é o Triunfo de um Direito diferente ou de diverso
fundamento de validade do sistema jurídico positivo do Estado. Não é antijurídica; é apenas
anticonstitucional por oposição à anterior Constituição - não em face da constituição in fieri que, com
ela, vai irromper;
⦁ A quebra do ordenamento em vigor só se torna possível pela presença de valores, princípios e critérios
que, afetando os até então reinante, vêm do mesmo passo, carregar de legitimidade o facto ou ato
revolucionário e desencadear efeitos normativos múltiplos, extensos e suscetíveis de adquirirem uma
dinâmica própria. Tais valores podem não ser suficientemente valiosos no plano do Direito natural e a
legitimidade que inspiram pode revelar-se precária; no entanto, são eles, e só eles, que justificam a
viragem política institucional e que imprimem um cunho próprio à Constituição a redigir de seguida.

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61. A transição constitucional


⦁ Na Revolução há uma necessária sucessão de Constituições — materiais e formais. A rotura com o
regime precedente termina logo nascimento de uma nova Constituição material, a que segue, a curto,
médio ou a longo prazo, a adequada formalização;
⦁ O processo de transição é, na maior parte das vezes, insuscetível de configuração a priori, dependente
das circunstâncias históricas. Outras vezes adota-se o processo de revisão constitucional;
⦁ Em última análise, uma transição constitucional produz-se, porque a velha legitimidade se encontra
em crise, e justifica-se porque emerge uma nova legitimidade. É a nova legitimidade ou ideia Direito que
obsta à imputação de qualquer vício no processo e que, doravante, vai não só impor-se como
fundamento de legalidade mas ainda obter efetividade.

62. Do poder constituinte material ao poder constituinte formal


⦁ Estabelecida uma nova ideia direito, exercido o poder constitucional material, segue-se a formalização
que se traduz ou culmina no ato de decretação da Constituição formal ou ato constituinte stricto sensu;
⦁É raro a Constituição formal surgir imediatamente, conexa com a Constituição material;
⦁ Chama-se pré-Constituição, Constituição provisória ou Constituição revolucionária ao conjunto de
normas com a dupla finalidade de definição do regime de elaboração e aprovação da Constituição
formal e de estruturação do poder político no interregno constitucional, a que se acrescenta a função de
eliminação de resquícios do antigo regime. Contrapõe-se à Constituição definitiva ou de duração
indefinida para o futuro com pretende ser a Constituição produto final do processo constituinte.

63. Os tipos de atos constituintes stricto sensu


⦁A feitura da Constituição formal definitiva pode dar-se de diferentes modos, em razão de
circunstancialismo históricos inelutáveis e de fatores jurídico-políticos dependentes da forma de Estado,
a legitimidade do poder e da participação da comunidade política;
⦁ A decisão básica cabe ao poder constituinte material;
⦁ O ato constituinte pode, de outra perspetiva, competir a um único órgão ou sujeito. Pode ser a soma
ou o resultado dos atos parcelares provenientes de dois ou mais órgãos da mesma entidade titular do
poder constituinte. E pode consistir no acordo de vontades entre dois ou mais sujeitos ou entidades;
⦁ Três tipos fundamentais de Ato Constituinte: ato constituinte unilateral singular, ato constituinte
unilateral plural e ato constituinte bilateral;
⦁ Incluem-se nas formas de atos constituintes unilaterais singulares: A outorga da Constituição pelo; o
decreto do presidente da República ou de outro órgão do poder executivo; o ato de autoridade
revolucionária ou de autoridade constitutiva do Estado; aprovação por Assembleia representativa
ordinária ou comum dotada de poder para o efeito; aprovação por Assembleia formada especificamente
para isso, chamada Assembleia Constituinte ou convenção; aprovação por Assembleia eleita
simultaneamente como Assembleia Constituinte e como Assembleia ordinária.
⦁ Formas de atos unilaterais plurais compreendem: aprovação por referendo de um ou vários grandes
princípios ou opções constitucionais e, a seguir, elaboração da Constituição de acordo com o sentido da
votação; definição por Assembleia representativa ordinária dos grandes princípios, a elaboração do
projeto de Constituição pelo governo e a aprovação final por referendo; elaboração por Assembleia
Constituinte, seguida de referendo; elaboração por órgão provindo da Constituição anterior, com
subsequente aprovação popular; elaboração por autoridade revolucionária ou órgão vitimado pela
revolução, seguida de referendo.
⦁ Atos constituinte bilaterais ou plurilaterais vêm a ser: elaboração e aprovação da Constituição por
Assembleia representativa, com sujeição a sanção do monarca; aprovação da Constituição por
assembleia representativa, seguida de ratificação dos estados componente da União.
⦁ As constituições nessas condições aprovadas são as constituições pactícias: implicam um pacto entre a
assembleia (ou o povo) e o Rei, no primeiro caso; E entre o órgão federal (ou poder) e os Estados-
membros da União no segundo caso. E são de admitir ainda outras modalidades de contrato
constitucional.

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64. Forma, legitimidade e conteúdo da Constituição


⦁ Uma coisa é a forma jurídica, outra realidade constitucional; uma coisa legitimidade, outra a
autenticidade do exercício do poder constituinte;
⦁ Do prisma político, as constituições são também de origem democrática ou autocrática. O que
interessa é a genuinidade da vontade política do povo nela expressa;
⦁ Pode afirmar-se que uma Constituição elaborada em Assembleia Constituinte, é de origem
democrática;
⦁ Uma coisa é o título de legitimidade ou forma de produção da Constituição, outra é o seu conteúdo ou
o regime, a forma e o sistema de governo que consigna, embora não sejam coisas sem relação.
⦁ Uma constituição de base democrática nos tempos modernos naturalmente da corpo a uma
democracia, embora possa ir mais ou menos longe na consagração consequente do princípio
democrático. Mas já a outorga de uma carta constitucional envolve por si só a destruição da monarquia
integral absoluta: como se trata de Constituição com separação de poderes e reconhecimento de
direitos individuais, a autolimitação do poder do rei dela resultante conduz a uma forma diferente, a
monarquia constitucional (limitada ou não).

65.AS formas e as regras dos atos constituintes


⦁ "O poder constituinte haveria de se exercer de qualquer forma". Assim é no sentido de poder
constituinte originário, o qual compreenda devolução. Já não seria de aceitar a afirmação, se com ela se
pretendesse inculcar que a pluralidade de formas de exercício do poder constituinte material significaria
alheamento do Direito. Ou que o poder constituinte formal não careceria de uma predeterminação de
formas e processos vinda do poder constituinte material;
⦁ "Que o órgão constituinte formal possa modificar as regras preexistentes e estabelecer outras, esse é
problema diferente". Nada impede que eu faça, nos limites da ideia de Direito ou do princípio da
legitimidade que o habilita.

66. Os limites materiais do poder constituinte


⦁ O poder constituinte é logicamente anterior e superior aos poderes de constituídos — na tricotomia
clássica, legislativo, o executivo e o judicial;
⦁ Há que distinguir três categorias de limites materiais de poder constituinte: limites transcendentes,
imanentes e heterónomos;
⦁ Os primeiros dirigem-se ao poder constituinte material e, por virtude deste, ao poder constituinte
formal; os segundos são específicos do poder constituinte formal; os últimos a adstringem tanto um
como outro;
⦁ Entre eles avultam os que se prendem com os direitos fundamentais imediatamente conexos com a
dignidade da pessoa humana. Seria inválido ilegítimo do que estar normas constitucionais gravemente
os ofendessem.

Capitulo III → Modificação E Subsistência Da Constituição p.154-187


∾ As modificações constitucionais

67. Modificabilidade e modificações da Constituição


⦁ Nenhum Constituição que vigore por um período mais ou menos longo deixa de sofrer modificações.
⦁ A modificação das Constituições é um fenómeno inelutável da vida jurídica. Mais do que modificáveis
as Constituições são modificadas. As Constituições podem suceder-se e cada tempo tem a sua
Constituição, mas o tempo tem sempre de ser constitucionalizado.

68. Modificações da Constituição e vicissitudes constitucionais


⦁ Para se situarem as modificações constitucionais, importa, porém, partir de um conceito mais lato, o
conceito de vicissitudes constitucionais, ou sejam, quaisquer eventos que se projetam sobre a
subsistência da Constituição ou de algumas das suas normas.
⦁ Tais vicissitudes são de uma gama variadíssima, com diferentes natureza e manifestação, e podem
recortar-se segundo cinco grandes critérios: quanto ao modo, quanto ao objeto, quanto ao alcance,

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quanto às consequências sobre a ordem constitucional, quanto à duração dos efeitos.


⦁ Quanto ao modo podem ser expressas e tácitas. Nas expressas o evento constitucional produz-se
como resultado de ato a ele especificamente dirigido, nas tácitas o evento é um resultado indireto. Nas
expressas fica, ou pode ficar alterado o texto; nas tácitas, permanecendo o texto modifica-se o
conteúdo da norma.
⦁ Quanto ao objeto as vicissitudes podem ser totais e parciais. As primeiras atingem a Constituição
como um todo, as segundas atingem apenas a parte da Constituição e nunca os princípios definidores da
ideia de Direito que a caracteriza.
⦁ Quanto ao alcance podem ser de alcance geral e abstrato e de alcance concreto ou excecional.
⦁ Quanto às consequências sobre a ordem constitucional, distinguem-se as vicissitudes que não
colidem com a sua integridade e continuidade e que correspondem a uma evolução constitucional e
as vicissitudes que equivalem a um corte, a uma solução de continuidade, a uma rutura.
⦁ Quanto à duração dos efeitos, distinguem-se vicissitudes de efeitos temporários e vicissitudes de
efeitos definitivos.
⦁ As vicissitudes constitucionais expressas constituem a grande maioria das vicissitudes, afirmam-se
como atos jurídicos, tanto podem ser totais como parciais, e entre elas contam-se a revisão
constitucional, a derrogação constitucional, certas formas de transição constitucional e de rutura não
revolucionária. Já as vicissitudes tácitas são necessariamente parciais, ainda que de alcance geral e
abstrato, e englobam o costume constitucional, a caducidade, a interpretação evolutiva e a revisão
indireta.
⦁ Apenas as vicissitudes parciais implicam rigorosamente modificações constitucionais. As vicissitudes
totais correspondem à emergência de nova Constituição.
⦁ As vicissitudes sem quebra de continuidade são quase todas parciais, determinam meras modificações;
as vicissitudes com rutura perfilam-se quase todas como totais. Mas pode haver vicissitudes parciais na
descontinuidade.
⦁ A suspensão total da Constituição redunda sempre em revolução. A suspensão parcial sem
observância das regras constitucionais em ruturas não revolucionárias.

69. As diversas espécies de vicissitudes constitucionais


⦁ Temos, pois, como espécies de vicissitudes constitucionais a revisão constitucional, a derrogação
constitucional, o costume constitucional, a interpretação evolutiva da Constituição, a revisão indireta, a
revolução, a rutura não revolucionária e a suspensão da Constituição.
⦁ A revisão constitucional é a modificação da Constituição expressa. É a modificação da Constituição
com uma finalidade de autorregeneração e autoconservação, quer dizer, de eliminação das suas
normas já não justificadas política, social ou juridicamente, de adição de elementos novos que a
revitalizem. É a modificação da Constituição nos termos nela própria previstos.
⦁ A derrogação da Constituição aproxima-se da revisão constitucional na medida que se opera através
de um processo em tudo idêntico ao da revisão. Diverge pelo resultado: a edição, não de uma norma
geral e abstrata, mas de uma normal geral e concreta. A derrogação é a violação, a título excecional, de
uma prescrição legal.
⦁ As modificações tácitas da Constituição compreendem, antes de mais, as que são trazidas por
costume constitucional e, depois, as que resultam da interpretação evolutiva da Constituição e da
revisão indireta.
⦁ Diferente é a caducidade. Na caducidade, há também uma mutação que se traduz na cessação de
vigência de certa norma, seja pelo decurso do tempo seja pelo contexto do ordenamento. No desuso, a
norma, se fosse cumprida, ainda desempenharia a função para que fora criada. Na caducidade, a norma
já não pode desempenhar nenhuma função.
⦁ A interpretação jurídica deve ser não só objetivista como evolutiva, por razões evidentes: pela
necessidade de congregar as normas interpretadas com as restantes norma jurídicas, pela necessidade
de atender aos destinatários, pela necessidade de reconhecer um papel ativo ao intérprete, ele próprio
situado no ordenamento em transformação. E também a interpretação constitucional deve ser
evolutiva.
⦁ A revisão indireta não é senão uma forma particular de interpretação sistemática.

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⦁ Revolução é uma rutura da ordem constitucional, a rutura não revolucionária uma rutura na ordem
constitucional.
⦁ Quanto à rutura parcial ou rutura não revolucionária, esta não põe em causa a validade em geral da
Constituição, somente a sua validade circunstancial. Continua a reconhecer o princípio da legitimidade
no qual assenta a Constituição; apenas lhe introduz um limite ou aplica de novo, por forma originária.
⦁ A transição constitucional é a passagem de uma Constituição material a outra com observância das
formas constitucionais, sem rutura. Muda a Constituição material, mas permanece a Constituição
instrumental e, eventualmente, a Constituição formal.
⦁ Da transição deve aproximar-se o desenvolvimento constitucional, fenómeno complexo que envolve
interpretação evolutiva da Constituição, revisão constitucional e costume.
⦁A suspensão da Constituição em sentido próprio é somente a não vigência durante um certo tempo,
decretada por causa de certas circunstâncias, de algumas normas constitucionais.
⦁O princípio é de proibição da suspensão. Só excecionalmente em caso de necessidade ela é consentida.

∾ O costume constitucional

70. O problema do costume em Constituição formal


⦁ O problema do costume em sistema de Constituição formal não tem, pois, nada que ver com a criação
ou formulação originária das normas constitucionais por via de costume.
⦁ O que está em causa é o costume referente a normas formalmente constitucionais, não o que se
refere a normas materialmente constitucionais colocadas fora da Constituição formal.
⦁ Aceites ou prossupostos o valor do costume em geral e a efetividade como fator de juridicidade,
reconhecida ainda a interpenetração da norma e realidade constitucional, não pode banir-se o costume
do Direito constitucional, não pode recusar-se-lhe qualquer virtualidade de ação. O seu lugar haverá
de ser o que resulta da sua capacidade para conformar situações de vida.
⦁ O costume possui um relevo bem secundário no domínio do Direito constitucional.
⦁ Três tipos de costume habitualmente distinguidos em face da lei: costume secundum legem, praeter
legem e contra legem.
⦁ A importância do costume praeter legem é muito grande em sistemas constitucionais longevos ou
quase cristalizados, como modo progressivo de formação do Direito.
⦁ O costume constitucional contra legem equivale à preterição da constitucionalidade.

71. O costume no Direito constitucional português


⦁ Na experiência constitucional portuguesa podem inventariar-se casos de costume constitucional,
uns de costume secundum e praeter legem, outros, inclusivamente, de costume constitucional contra
legem.
⦁ Verdadeiro costume constitucional secundum constitutionem pode considera-se a completa separação
entre as funções de Presidente da República e as do Governo.
⦁ Manifestações do costume praeter constitutionem: a invalidade das leis de trabalho sem a
participação das organizações de trabalhadores; a incompatibilidade dos cargos de Presidente da
República e de membro do Governo com qualquer função pública ou privada; a reserva de competência
legislativa da Assembleia da República sobre alguns dos direitos, liberdades e garantias dos
trabalhadores; os governos de gestão; a votação final global das leis de revisão constitucional.
⦁ Manifestações de costume contra constitutionem: a prevalência do setor privado sobre o setor
público de propriedade de meios de produção; desvalorização dos planos; a desnecessidade de
deliberação para que os projetos e as propostas de leis sejam votados na especialidade em comissão; a
categoria de Ministro de Estado com precedência sobre os demais ministros; o aparecimento, como
órgão do município autónomo e como proeminência sobre a câmara, do presidente da câmara.

∾ A revisão constitucional

72. Rigidez e flexibilidade constitucionais


⦁ Diz-se rígida a Constituição que, para ser revista, exige a observância de uma forma particular

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distinta da forma seguida para a elaboração das leis ordinárias. Diz-se flexível aquela em que a forma
é a mesma para a lei ordinária e para a lei de revisão constitucional.
⦁ As Constituições dos regimes marxistas-leninistas são todas ou quase todas rígidas, as das democracias
pluralistas são rígidas ou flexíveis.
⦁ Uma Constituição legal tanto pode ser rígida como flexível. Todas as Constituições portuguesas e as da
grande maioria dos países são rígidas.
⦁ A rigidez constitucional revela-se um corolário natural, histórica decorrente da adoção de uma
Constituição em sentido formal. A rigidez nunca deverá ser tal que impossibilite a adaptação a novas
exigências políticas e sociais.

73. A diversidade de formas da revisão constitucional


⦁ Nenhuma Constituição deixa de regular a sua revisão, expressa ou tacitamente.
⦁ Em geral, regula-a expressamente ora em moldes de rigidez ora em moldes de flexibilidade. E tem
então de se encontrar uma forma de revisão coerente com os princípios estruturais do sistema
constitucional.
⦁ É diversa a revisão constitucional em Estado simples e em Estado composto. Em Estado composto, a
revisão implica uma colaboração entre os seus órgãos próprios e os dos Estados componentes.
⦁ Expressão de determinada legitimidade, uma Constituição deve consignar uma forma de revisão de
harmonia com essa legitimidade.
⦁ O processo de revisão pode ser ou não idêntico ao primitivo processo de criação da Constituição.
⦁ O modo de revisão reproduz o sistema político. Por quase toda a parte, uma constante é a intervenção
dos parlamentos ou para decretar a revisão ou para desencadear o respetivo processo ou para a propor
a outro órgão. A intervenção do chefe do Estado é mais intensa, naturalmente, em monarquia do que
em república.
⦁ Porque democracia moderna é essencialmente representativa, a revisão é quase sempre obra de um
órgão representativo, de uma assembleia política representativa.
⦁ Por natureza, a revisão ocorre no interior do Estado cuja Constituição se visa modificar.
⦁ A revisão pode realizar-se a todo o tempo verificados certos requisitos ou apenas em certo tempo. Na
grande maioria dos países pode dar-se a todo o tempo, mas há Constituições que só admitem a sua
alteração de tantos em tantos anos.
⦁ Problema conexo vem a ser o dos limites circunstanciais da revisão: o da impossibilidade de atos de
revisão em situações de necessidade, correspondentes ou não a declaração de estado de sítio ou de
emergência, ou noutras circunstâncias excecionais.
⦁ A iniciativa cabe ao órgão de competência para fazer a lei de revisão ou a qualquer ou quaisquer dos
seus membros. Mas não se confundem a iniciativa do processo de revisão e a iniciativa do processo de
revisão e a iniciativa de modificações constitucionais; e pode, em certos casos, a primeira partir de
órgão diferente daquele dentro do qual há-de surgir a segunda.
⦁ A revisão, por regra, está sujeita a forma imperativa, tem de se enquadrar em certa e determinada
tramitação fixa.
⦁ Sistemas de revisão constitucional: revisão pela assembleia ordinária, pelo mesmo processo de feitura
das leis ordinárias; revisão pela assembleia ordinária, sem maioria diferente da requerida para as leis
ordinárias, mas com especialidades de outra ordem; revisão pela assembleia ordinária, com maioria
qualificada; revisão pela assembleia ordinária, renovada após eleições gerais subsequentes a uma
deliberação ou decisão de abertura do processo de revisão, e com ou sem maioria qualificada; revisão
por assembleia eleita especificamente e só para fazer revisão; revisão por assembleia ordinária
suscetível de sujeição a referendo; revisão por referendo que incide sobre projeto elaborado pela
assembleia ordinária ou sobre lei de revisão carecida de sanção popular; revisão peculiar das
Constituições federais, em que acresce à deliberação pelos órgãos do Estado federal a participação dos
Estados federados.
⦁ A cada Constituição corresponde um sistema de revisão. Com alguma frequência, porém, a mesma
Constituição pode estabelecer mais de um sistema em razão do objeto.

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74. A revisão constitucional do Direito português


⦁ Como características gerais, registam-se fundamentalmente duas. Em primeiro lugar é sempre o
Parlamento que decreta a revisão. Em segundo, o Rei ou Presidente da República intervém no
processo para promulgar ou para sancionar a lei ou o ato de revisão, tenha ou não poder de não
sancionar ou poder de veto.
⦁ Na Constituição de 1976, o sistema entra no terceiro tipo – revisão por maioria de dois terços dos
deputados presentes, desde que superior à maioria absoluta dos deputados em efetividade de
funções, e por maioria de dois terços dos deputados em efetividade de funções. E é agravado por uma
consideração temporal: primeira revisão apenas na segunda legislatura e revisões subsequentes nunca
entre menos de cinco anos.
⦁ A partir de 1922, o prazo de cinco anos passou a referir-se à última revisão ordinária, e não já a
qualquer revisão feita por assunção de poderes por maioria de quatro quintos.
⦁ O procedimento de revisão constitucional vigente compreende: reserva absoluta de iniciativa dos
deputados; condensação temporal; aprovação de qualquer alteração por maioria de dois terços dos
deputados em efetividade nas funções; reunião de todas as alterações numa única lei de revisão;
promulgação obrigatória pelo Presidente da República; as alterações da Constituição são inseridas no
lugar próprio; a Constituição, no seu novo texto, é publicada juntamente com a lei de revisão.
⦁ Nenhum ato de revisão constitucional pode ser praticado na vigência do estado de sítio ou do estado
de emergência.
⦁ Não pode haver referendo sobre alterações à Constituição.

75. A formulação de limites materiais da revisão


⦁ Há Constituições que prescrevem limites materiais da revisão constitucional.
⦁ Em Portugal, em 1821, aquando da feitura da Constituição, houve quem falasse em “primeiros
princípios constitucionais e universais” que nunca deveriam ser alterados ou modificados.
⦁ Nos séculos XX e XXI, multiplicam-se as referências a princípios ou limites que, em revisão
constitucional, devem ser observados ou são considerados intangíveis e que, por isso, também se
designam por “cláusulas pétreas”.

76. Polémica doutrinal sobre os limites materiais


⦁ O sentido a conferir aos limites materiais da revisão constitucional há mais de cem anos divide os
cultores do Direito Constitucional.
⦁ Três teses principais, com cambiantes vários, se defrontam: a dos que os tomam como imprescindíveis
e insuperáveis; a daqueles que, impugnam a sua legitimidade; e a daqueles que, admitindo-os, os
tornam apenas como relativos.

77. Posição adotada


⦁ Temos defendido, de há muitos, a tese da necessidade jurídica dos limites materiais da revisão; mas,
sim simultaneamente, temos acenado, embora com certas oscilações, para a relevância menos das
cláusulas de limites expressos.

Título II – Normas constitucionais

Capitulo I → Estrutura Das Normas Constituintes p.187-206

78. Os princípios e a sua função ordenadora


⦁ O direito não é mero somatório de regras avulsas, produto de atos de vontade, ou mera concatenação
de formas verbais articuladas entre si. O direito é ordenamento; implica coerência, talvez mais
rigorosamente, consistência; projeta sistema; é unidade de sentido, é valor incorporado em norma. É
esse ordenamento, esse conjunto, essa unidade, esse valor projeta-se ou traduz-se em princípio,
logicamente anteriores aos preceitos;
⦁ O sistema jurídico tem a sua unidade na solidariedade dialética com que nós, vivemos a nossa

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axiológico-social realização;
⦁ Não se pode ficar pelas "decisões de conflitos" e de valores singulares, antes se deve avançar até aos
valores fundamentais mais profundos, portanto até aos princípios gerais de uma ordem jurídica;
⦁ Os princípios não se colocam além ou acima do Direito, também eles fazem parte do complexo
ornamental. Não se contrapõem às normas, contrapõem-se tão-somente às regras; as normas jurídicas
é que se dividem normas-princípios e normas-regras;
⦁ Se assim se afigura em geral, muito mais tem de ser no âmbito do Direito Constitucional, tronco de
ordem jurídica estatal, todo ele envolvido e penetrado pelos valores jurídicos fundamentais dominantes
na comunidade; sobretudo, tem de ser assim na consideração da Constituição material como núcleo de
princípios e não me regras, preceitos ou disposições;
⦁ As regras são aplicáveis no estilo de tudo ou nada dos fatos que preveem; os princípios, ao invés, não
comportam consequências jurídicas que decorre automaticamente; um princípio não indica tanto a
necessidade de uma determinada decisão quanto uma razão para ir num certo sentido;
⦁ Os princípios são normas que ordenam que algo seja realizado na maior medida possível, dentro das
possibilidades jurídicas e reais existentes; são mandados de otimização que podem ser cumpridos em
diferentes graus. As regras são normas que só podem ser cumpridas ou não. Se uma regra é válida,
então tem de fazer-se exatamente o que ela exige. As regras contêm determinações no âmbito fáctico e
juridicamente possível. A diferença entre princípios e regras é qualitativa, e não de grau.
⦁ A função ordenadora dos princípios revela-se particularmente significativa e forte em momentos
revolucionário.

79. Classificação de princípios constitucionais


⦁ Os princípios constitucionais não homogéneos, podem revestir diferente natureza e configuração.
⦁ Classificação de princípios:
1. Castanheira Neves discrimina os princípios axiológicos jurídicos transcendentes ao estado e os
princípios diretamente constitutivos da particular forma de estado instituída;
2. Gomes de Canotilho distingue "princípios jurídicos fundamentais e princípios políticos
constitucionalmente conformadores", princípios constitucionais impositivos e princípios garantia;
3. Miguel Teixeira de Sousa distingue princípios programáticos, princípios formais e princípios
materiais;
4. Carlos Blanco de Morais enuncia, por um lado, princípio reitores do Estado e princípios de ordem
política;
5. Pela nossa parte distinguimos ainda: princípios constitucionais substantivos (princípios válidos em si
mesmos e que espelham os valores básicos a que adere a Constituição material) e princípios
constitucionais adjetivo ou instrumentais (princípios, sobretudo de alcance técnico, complementares
dos primeiros e que enquadram e dinamizam as posições no seu conjunto). A seguir, subdistinguimos
os princípios constitucionais substantivos em princípio axiológicos fundamentais e princípios político-
constitucionais. - temos, pois, três grandes categorias:
1) Princípios axiológicos fundamentais — correspondente aos limites transcendentes do poder
constituinte. Passagem do direito natural para o direito positivo.
2) Princípios política constitucionais — correspondentes aos limites imanentes do poder constituinte,
aos limites específicos da revisão constitucional, próprios e impróprios, e aos princípios conexos ou
derivados de uns e de outros, os quais refletem, como nome indica, as grandes marcas e direções
caracterizadoras de cada Constituição material diante das demais.
3) Princípios constitucionais instrumentais — correspondente a estrutura do sistema constitucional, e
modos de racionalidade e de operacionalidade.

80. Classificação de princípios constitucionais


⦁ Um preâmbulo não é componente necessário de qualquer Constituição. É tão-somente um elemento
natural de constituições feitas em momentos de rotura histórica ou de grande transformação política e
social. O seu carácter depende dessa circunstância e dessas intenções, bem como da ideologia a que
apela o legislador constituinte.
⦁ Também a sua forma e a sua extensão aparece extremamente variáveis.

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⦁ O alcance político e literário do preâmbulo evidente em qualquer Constituição. Ele reflete a opinião
pública ou o projeto de que a constituição retira a sua força.
⦁ O preâmbulo é parte integrante da Constituição, com todas as suas consequências. Distingue-se
apenas pela sua eficácia ou pelo papel que desempenha.
⦁ O preâmbulo dimana do órgão constituinte, tal como as disposições ou preceitos; É aprovado nas
mesmas condições e o ato de aprovação possui a mesma estrutura e mesmo sentido jurídico. Tudo
quando resulte do exercício do poder constituinte e conste da Constituição em sentido instrumental,
tudo é constituição em sentido formal.
⦁ Os preâmbulos não podem assimilar-se às declarações de direitos. - Ele não incorpora preceitos, mas
sim princípios.

81. Classificações de normas-regras


⦁ Entre as classificações gerais de normas-regras – oferecem interesse relevante para o Direito
Constitucional as seguintes: normas permissivas, prescritivas e proibitivas; normas gerais e normas
especiais, dispõem para a generalidade dos casos ou para situações especiais neles contidas; normas de
direito comum e normas de direito particular, destinam à generalidade das pessoas ou a certas
categorias de pessoas em particular; normas gerias e normas excecionais, correspondem a princípios
gerais ou a exceções a esses princípios; normas substantivas e normas adjetivas, regulam situações,
relações ou instituições sujeitas ao ordenamento jurídico.
⦁ Como classificações com especialidades no Direito constitucional ou dele específicas, apontem-se:
normas constitucionais materiais ou de fundo, orgânicas ou organizativas e procedimentais ou de
forma; normas constitucionais precetivas e normas constitucionais programáticas ou diretivas; normas
constitucionais exequíveis e não exequíveis por si mesmas; normas constitucionais a se e normas sobre
normas constitucionais.

82. Normas precetivas e normas programáticas


⦁ Entre normas precetivas e normas programáticas não há uma diferença de natureza ou de valor. Só
existem diferenças de estrutura e de projeção no ordenamento. São, normas, uma se outras, jurídicas
integrantes de uma mesma e única ordem constitucional
⦁ Segundo diferentes orientações doutrinais, as normas programáticas definem-se: por serem de
aplicação diferira, e não de aplicação ou execução imediata; por prescreverem obrigações de resultado,
não obrigações de meios; por conferirem “elasticidade” ao ordenamento constitucional; por terem
como destinatário primacial o legislador; por terem um conteúdo que depende das opções próprias do
legislador ordinário.

83. Normas exequíveis e não exequíveis por si mesmas


⦁ Entre as normas exequíveis e as não exequíveis o critério distintivo está nas próprias normas e vem a
ser a completude ou incompletude destas.
⦁ As normas não exequíveis por si mesmas as que nos estamos referindo são normas prescritivas ou,
doutro ângulo, imposições legiferantes.
⦁ Mas existem a par delas normas não exequíveis por si mesmas em que não se verifica tal necessidade.

84. Normas precetivas exequíveis, normas precetivas não exequíveis e normas programáticas
⦁ Todas as normas exequíveis por si mesmas podem considerar-se precetivas, mas nem todas as normas
precetivas são exequíveis por si mesmas. Em contrapartida, as normas programáticas são todas normas
não exequíveis por si mesmas.

85. A aplicabilidade das normas constitucionais


⦁ As normas constitucionais devem, tanto quanto possível, ser tomadas como aplicáveis imediatamente.
⦁ Aplicáveis: às situações da vida das pessoas como particulares; às relações das pessoas com o Estado;
aos órgãos do Estado, das regiões autónomas e das autarquias locais; às situações dos titulares desses
órgãos.
⦁ Quanto às normas não exequíveis por si mesmas em especial, também elas têm aplicação direta:
enquanto proíbem a emissão de normas legais contrárias e proíbem a prática de comportamentos que

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tendam a impedir a produção de atos por ela impostos e enquanto, depois de concretizadas através de
normas legais, estas não podem ser pura e simplesmente revogadas, retornando-se ao vazio ou à
completa inexequibilidade.

Capitulo II → Interpretação, Integração E Aplicação p.206-228


∾ Interpretação E Integração Das Normas Constitucionais

86. A problemática da interpretação constitucional


⦁ Há sempre que interpretar a Constituição como há sempre que interpretar a lei. Só através da
interpretação se encontra a norma e o sentido da norma. Não é possível aplicação sem interpretação.
⦁ A interpretação constitucional não é de natureza diferente da que se opera noutras áreas. Como toda
a interpretação jurídica está estritamente conexa com a aplicação do Direito; não se destina à
enunciação abstrata de conceitos, destina-se à conformação da vida pela norma.
⦁ A interpretação constitucional tem de ter em conta condicionalismos e fins políticos inelutáveis e
irredutíveis, mas não pode visar outra coisa que não sejam as normas jurídicas que lhes correspondem.
Tem de olhar para a realidade constitucional, mas tem de a saber tomar como sujeita ao influxo das
normas e não como mera realidade de facto. Tem de estar atenta aos valores sem dissolver a lei
constitucional no subjetivismo ou na emoção política.

88. As lacunas da Constituição e a sua integração


⦁ A lei constitucional não regula tudo quanto dela deve ser objeto.
⦁ Não há uma plenitude ou completude da ordem constitucional como não há uma plenitude ou
completude da ordem jurídica em geral. Há lacunas e há mesmo situações extrajurídicas por vezes
chamadas “lacunas absolutas”. Não serão sempre as mesmas, poderão reduzir-se ou ser transitórias e
depender de circunstâncias em evolução, mas parecem inevitáveis.
⦁ As lacunas constitucionais não se confundem com as omissões legislativas, cujo não preenchimento
determina inconstitucionalidade por omissão.
⦁ As lacunas são situações constitucionalmente relevantes não previstas. As omissões legislativas
reportam-se a situações previstas. As lacunas são detetadas pelo intérprete e pelos órgãos de
aplicação do Direito.
⦁ O preenchimento de lacunas significa a determinação da regra para aplicação ao caso concreto e é
tarefa do intérprete e do órgão de aplicação.
⦁ A ausência do prazo para o Presidente da República promulgar as leis de revisão constitucional é um
exemplo paradigmático da lacuna na Constituição.

∾ A aplicação de normas constitucionais no tempo

89. A superveniência das normas constitucionais


⦁ Trate-se de Constituição nova ou de revisão constitucional, todas as novas normas constitucionais
entram em vigor na mesma data.
⦁ Os fenómenos jurídicos decorrentes da superveniência de normas constitucionais podem sintetizar-se
do seguinte modo: ação da Constituição nova sobre a anterior; ação de normas constitucionais novas
sobre normas constitucionais anteriores; ação de Constituição nova sobre normas ordinárias anteriores
não desconformes com ela; ação de normas constitucionais novas sobre normas ordinárias anteriores
desconformes.
⦁ Pode ainda ocorrer: subsistência de normas constitucionais anteriores; subsistência de normas
ordinárias contrárias às novas normas constitucionais; subsistência de normas constitucionais
anteriores, com a força de normas de direito ordinário.
⦁ Obviamente, as normas constitucionais, como quaisquer normas jurídicas, destinam-se a valer para
o futuro.

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90. Direito constitucional novo e Direito constitucional anterior


⦁ Uma Constituição nova revoga a Constituição anterior. Por definição, não pode haver senão uma
Constituição.
⦁ Esta revogação é uma revogação global ou de sistema.
⦁ Em algumas circunstâncias, normas constitucionais anteriores à nova Constituição podem continuar
em vigor nessa qualidade, se bem que a título secundário. É o fenómeno da receção material.
⦁ Tendo havido receção material se a constituição que a ópera vem a ser substituída por outra, as
normas constitucionais recebidas cessam necessariamente de vigorar também. Cessam de vigorar não
por revogação verdadeira e própria, mas por caducidade ou por revogação consequente.
⦁ Certas normas constitucionais anteriores podem não deixar de vigorar com a entrada em vigor da nova
Constituição, podem passar de categoria de normas constitucionais a normas de direito ordinário.

91. Direito constitucional novo e Direito ordinário anterior


⦁ Uma Constituição nova nunca faz tábua rasa do Direito ordinário anterior. Há sempre fatores de
continuidade que sobrelevam os de descontinuidade.
⦁ O que a superveniência de uma Constituição provoca é novação do Direito ordinário interno anterior.
Como todas e cada uma das normas retiram a sua validade, direta ou indiretamente, da Constituição, a
mudança de Constituição acarreta mudança de fundamento de validade.
⦁ Há assim uma nítida diferença entre a situação do Direito constitucional anterior – o qual cessa com
a entrada em vigor da nova Constituição – e a do Direito ordinário anterior – o qual continua, co novo
fundamento da validade.

92. A subsistência do Direito ordinário não contrário à Constituição


⦁ A subsistência de quaisquer normas ordinárias anteriores à nova Constituição depende de um único
requisito: que não sejam desconformes com ela.
⦁ Não importa que as leis fossem inconstitucionais material, orgânica ou formalmente antes da entrada
em vigor da Constituição. Importa apenas que não disponham contra esta.

∾ A aplicação das normas constitucionais no espaço

95. Constituição e território do Estado


⦁ O postulado geral é a aplicação da Constituição material e formal em todo o território do Estado, seja
qual for a forma que o Estado revista. A cada Estado a sua Constituição.
⦁ Já fora do território do Estado, mas em território que com o Estado conserve algum vínculo jurídico
específico a situação se apresenta diversa. O modo de encarar a possível aplicação da Constituição há de
depender aqui da natureza bastante variável desse vínculo e das especialidades a atender.

96. A aplicação das normas constitucionais no estrangeiro


⦁ A territorialidade da ordem jurídica de cada Estado diz respeito apenas à execução. Não implica que o
Direito de cada Estado regule apenas atos e factos ocorridos no seu território – pois pode regular atos e
factos ocorridos e situações constituídas no estrangeiro.
⦁ Segundo o art.º 14º da Constituição, os cidadãos portugueses que se encontrem ou residam no
estrangeiro gozam dos direitos e estão sujeitos aos deveres que não sejam incomparáveis com a
ausência do país.
⦁ A regra de proteção reporta-se, antes de mais, ao instituto de proteção diplomática dos cidadãos de
qualquer Estado no estrangeiro tal como, tradicionalmente, decorre do Direito das Gentes.
⦁ A par de permanência do direitos fundamentais dos portugueses fora do território português, a
Constituição estabelece o princípio da extensão desses direitos aos estrangeiros em Portugal, se bem
que com restrições.
⦁ No concernente aos titulares de órgãos do Estado, se se encontrarem fora do território nacional,
manterão, em princípio, as situações funcionais contempladas na Constituição, entendidas, porém, nos
termos do Direito internacional.

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⦁ No que toca aos funcionários e agentes do Estado, não deixam eles de, no estrangeiro, estar adstritos
aos seus deveres e responsabilidades constitucionais. É o caso em especial dos agentes diplomáticos e
dos militares.

Parte III
Direitos fundamentais
Título I – A problemática dos direitos fundamentais

Capitulo I → Sentidos Dos Direitos Fundamentais p.229-238


98. Direitos fundamentais e direitos do homem
⦁ Por direitos fundamentais entendemos os direitos ou as posições jurídicas ativas das pessoas
enquanto tais, individual ou institucionalmente consideradas, assentes na Constituição.
⦁ Esta noção implica três pressupostos ou condições firmes:
→ Em primeiro lugar, não há direitos fundamentais sem reconhecimento de uma esfera própria de
autonomia das pessoas frente ao poder político, não absorvendo este a sociedade em que eles se
movem.
→ Em segundo lugar, não há verdadeiros direitos fundamentais sem que as pessoas estejam em relação
imediata com o poder político, beneficiando de um estatuto comum e não separadas em razão dos
grupos ou das instituições a que pertençam; não há direitos fundamentais sem Estado ou, pelo menos,
sem comunidade política integrada; não há direitos fundamentais sem Estado que os respeite ou que os
proteja.
→ Em terceiro lugar, não há direitos fundamentais sem Constituição.

99. Os direitos fundamentais na história


⦁ São bem conhecidas quatro grandes diferenciações de compreensão e extensão dos direitos das
pessoas, as quais revertem em sucessivos períodos de formação.
⦁ A primeira consiste na distinção entre liberdade dos antigos e liberdade dos modernos, a maneira de
encarar a pessoa na Antiguidade e a maneira de a encarar a partir do Cristianismo. Para os antigos, a
liberdade é, antes de mais, participação na vida da Cidade; para os modernos, antes de mais,
realização da vida pessoal.
⦁ A segunda refere-se à tutela dos direitos própria da Idade Média e do Estado estamental e à tutela
dos direitos própria do Estado moderno.
⦁ A terceira contraposição dá-se entre direitos, liberdades e garantias e direitos sociais.
⦁ A quarta e última distinção prende-se com a proteção interna e a proteção internacional dos direitos
do homem.
⦁ Em rigor, a primeira e a segunda fase são de pré-história e apenas as seguintes de história dos direitos
fundamentais.

100. Direitos e valores


⦁ A Constituição portuguesa não ignora valores fundamentais: a dignidade da pessoa humana e a
dignidade social; a solidariedade; a inviolabilidade da vida humana, da dignidade moral e física das
pessoas e da liberdade de consciência, religião e culto; o desenvolvimento e a realização pessoal; “a
maternidade e a paternidade constituem valores sociais eminentes”; a autonomia pessoal e a
tolerância, a compreensão mútua e a responsabilidade.

Capitulo II → Conceitos Afins E Categorias De Direitos Fundamentais p.238-258

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Título II – O atual sistema português dos direitos fundamentais

Capitulo I → A Constituição E Os Direitos Fundamentais p.259-284

112. A Constituição e os direitos fundamentais


⦁ A Constituição divide os direitos fundamentais em direito, liberdades e garantias e em direitos
económicos, sociais e culturais.
⦁ A designação complexa direitos, liberdades e garantias não é corrente no estrangeiro. Ela traduz bem
direitos que envolvem direitos de liberdades, garantias, direitos políticos e outros direitos, num
evidente esforço de alargamento. Quanto à designação, direitos económicos, sociais e culturais, ela
corresponde às categorias genéricas dos direitos sociais.
⦁ Seja como for, a bifurcação assim aberta dos direitos fundamentais encontra-se em quase todas as
Constituições feitas após a primeira guerra mundial ou, pelo menos, na legislação ordinária de quase
todos os países.

113. A abertura a novos direitos fundamentais


⦁ Não se depara no texto constitucional um elenco taxativo de direitos fundamentais. Pelo contrário, a
enumeração é uma enumeração aberta, sempre pronta a ser preenchida ou completada.
⦁ Porque vivemos, não em Estado liberal, mas sim em Estado social de Direito, os direitos económicos,
sociais e culturais podem e devem ser dilatados ou acrescentados para além dos que se encontrem
declarados.

114. Os deveres da Constituição


⦁ À larga cópia dos direitos da Constituição de 1976 corresponde uma extensão de deveres sem paralelo
noutras Constituições europeias.
⦁ Na parte I encontram-se os seguintes deveres: o dever de obediência às leis e às ordens das
autoridades públicas que não ofendam os direitos, liberdades e garantias (art. 21.º, 1ª parte), os deveres
dos cônjuges (art. 36.º, nº3), o dever dos pais de educação e manutenção dos filhos (art. 36.º, nº5 e 6), o
dever de escolaridade básica (art. 74.º nº2, alínea A), o dever de preservar, defender e valorizar o
património cultural (art. 78.º, nº1).
Na parte II: o dever de pagamento de impostos (art. 103.º).
Na parte III: o dever de recenseamento eleitoral (art. 113.º, nº2), o dever de colaboração com a
administração eleitoral (art. 113.º, nº4), o dever de serviço militar ou cívico (art. 276.º, nº2 a 5).
⦁ Dos deveres distinguem-se outras figuras constantes da Constituição: as restrições, os limites e os
condicionamentos, as proibições, as vedações de atividades, as medidas compulsivas.
⦁ Os deveres existem em si mesmo, com maior ou menor autonomia. As restrições, os limites e os
condicionamentos situam-se no regime dos direitos – as restrições afetam o seu conteúdo; os limites e
os condicionamentos afetam o seu exercício.
⦁ As proibições revestem natureza objetiva. Embora tenham por destinatários também os cidadãos,
não se inserem na sua esfera jurídica. Simplesmente, de fora impedem-nos de agir ou de adotar este ou
aquele comportamento.
⦁ A imposição de deveres não tem como única contrapartida uma situação ativa ou de vantagem da
parte do Estado ou de outra entidade pública. Tem ou pode ter também uma face passiva ou de
obrigação. Tanto existem incumbências do Estado de organização ou de procedimento por causa de
direitos como por causa de deveres dos cidadãos.
⦁ De natureza de todo em todo diferente da do dever geral de respeito dos cidadãos uns para com os
outros é a tarefa do Estado de proteção e efetivação dos direitos fundamentais com concretizações
específicas em incumbências variadas quer no domínio dos direitos sociais.
⦁ Verdadeiros deveres do Estado: são os de indemnização por ações ou omissões praticadas no
exercício das suas funções e por causa desse exercício e que resulte violação dos direitos, liberdades e
garantias ou prejuízo para outrem, por privação de liberdade contra o disposto na Constituição e na lei e

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pelos danos sofridos por condenação criminal injusta; e o dever de esclarecer objetivamente os
cidadãos sobre os atos do Estado e das demais entidades públicas.

117. Estado de Direito


⦁ Não basta enumerar, definir, explicitar, assegurar só por si direitos fundamentais; é necessário que a
organização do poder político e toda a organização constitucional estejam orientados para a sua
garantia e a sua promoção.
⦁ É necessário que se não verifique incompatibilidade entre o elemento subjetivo e o elemento
objetivo da Constituição; que os direitos fundamentais tenham um quadro institucional de
desenvolvimento; que se faça através da divisão do poder.
⦁ Estado de Direito não equivale a Estado sujeito ao Direito, porque não há Estado sem sujeição ao
Direito no duplo sentido de Estado que age segundo processos jurídicos e que realiza uma ideia de
Direito, seja ela qual for. Estado de Direito só existe quando esses processos se encontram diferenciados
por diversos órgãos, de harmonia com um princípio de divisão do poder, e quando o Estado aceita a sua
subordinação a critérios materiais que o transcendem; só existe quando se dá limitação material do
poder político; e esta equivale a salvaguarda dos direitos fundamentais da pessoa humana.
⦁ Estado de Direito democrático traduz a confluência de Estado de Direito e democracia.

Capitulo II → O Regime Dos Direitos Fundamentais p.284-323


118. Os grandes princípios constitucionais
⦁ O regime dos direitos fundamentais consistes num conjunto de princípios complementados por
algumas regras, e deve ser analisado em 3 níveis: regime comum a todos os direitos fundamentais;
regime específico dos direitos, liberdades e garantias e regime específico dos direitos económicos,
sociais e culturais.
⦁ Princípios comuns a todos os direitos são: o princípio da universalidade, da igualdade, da
proporcionalidade, da proteção da confiança, da eficácia jurídica dos direitos fundamentais, da tutela
jurídica e da responsabilidade civil.
⦁ Princípios específicos do regime dos direitos, liberdades e garantias: princípio da reserva de lei, do
caráter restritivo das restrições, do caráter excecional da suspensão, da afetação individual apenas
verificados os pressupostos e as garantias da Constituição e da lei, da autotutela através do direito de
resistência e da responsabilidade criminal.
⦁ Princípios específicos do regime dos direitos económicos, sociais e culturais: princípio da exigência de
efetivação pública, da iniciativa social, da democracia participativa, da dependência da realidade
constitucional e da relativa relevância das condições económicas dos titulares.

119. Princípios da universalidade


⦁ O primeiro princípio comum aos direitos fundamentais e também aos demais direitos existentes na
ordem jurídica portuguesa é o da universalidade; todos quantos fazem parte da comunidade política
fazem parte da comunidade jurídica, são titulares dos direitos e deveres aí consagrados, os direitos
fundamentais têm ou podem ter por sujeitos todas as pessoas integradas na comunidade política, no
povo.
⦁ Todos têm todos os direitos e deveres – princípio da universalidade; todos têm os mesmos direitos e
deveres – princípio da igualdade. O princípio da universalidade diz respeito aos destinatários das
normas, o princípio da igualdade ao seu conteúdo. O princípio da universalidade apresenta-se
essencialmente quantitativo, o da igualdade essencialmente qualitativo.

121. O princípio da igualdade no Direito positivo português


⦁ O princípio da igualdade aparecia em todas as Constituições portuguesas anteriores, em moldes,
porém, nem sempre idênticos.
⦁ A Constituição, no texto inicial, não continha a explicação da igualdade de direitos de homens e
mulheres por tal se entender desnecessário.

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122. Sentido da igualdade


⦁ A análise dos princípios da igualdade tem de assentar em 3 pontos firmes: que a igualdade não é
identidade e igualdade jurídica não é igualdade natural ou naturalística; que a igualdade significa
intenção de racionalidade e, em último, termo, intenção de justiça e que a igualdade não é uma “ilha”,
encontra-se conexa com os outros princípios, tem de ser entendida no plano global dos valores, critérios
e opções da Constituição material.
⦁ Privilégios são situações de vantagem não fundadas e discriminações situações de desvantagem.
⦁ Não se trata apenas de proibir discriminações, trata-se também de proteger as pessoas contra
discriminações.

124. Princípio da proporcionalidade


⦁ A ideia de proporcionalidade é conatural às relações entre as pessoas: a reação deve ser proporcional
à ação e a distribuição das coisas deve fazer-se com justiça.
⦁ O apelo à proporcionalidade surge quando há dois ou mais bens jurídicos carecidos de realização e
sobre os quais, ocorra ou não conflito, tenha de procurar-se o equilíbrio, a harmonização, a ponderação,
a concordância prática.

128. A aplicação imediata dos direitos fundamentais


⦁ Nem todas as normas sobre direitos, liberdades e garantias são imediatamente executáveis. Não o
são, por exemplo, as relativas às garantias contra a utilização abusiva de informações de pessoas, à
objeção de consciência e até ao próprio direito de sufrágio.
⦁O princípio da aplicação imediata não envolve apenas o dever de respeito.

131. A limitação recíproca dos direitos


⦁ Porque as pessoas convivem na mesma comunidade e ainda porque os direitos pertencem ao mesmo
sistema, os direitos de cada pessoa têm por limites os direitos das demais pessoas e o conteúdo de cada
direito tem por fronteiras o conteúdo de outros direitos.
⦁ O dever de respeito entre as pessoas não impede colisões de direitos e também elas surgem no
domínio dos direitos fundamentais.
⦁ São conflitos de direitos diferentes de pessoas diferentes. Mas, a seu lado, pode haver conflitos entre
direitos iguais de diferentes pessoas. Assim como pode haver conflitos de direitos da mesma pessoa. E
ainda conflitos entre direitos e interesses difusos.
⦁ Não se encontra na Constituição nenhuma diretriz de solução. Mas as diretrizes provenientes do
Código Civil de 1867 e do Código Civil de 1966 podem ser úteis.

132. A tutela jurídica e acesso ao direito


⦁ A primeira forma de defesa dos direitos é a que consiste no seu conhecimento. Só quem tem
consciência dos seus direitos consegue usufruir os bens a que eles correspondem e sabe avaliar as
desvantagens e os prejuízos que sofre quando não os pode exercer ou efetivar ou quando eles são
violados ou restringidos.
⦁ O art. 20.º da Constituição de 1976 assegura a todos “o acesso ao direito”.

133. A tutela jurisdicional dos direitos fundamentais


⦁ O eficaz funcionamento e o constante aperfeiçoamento da tutela jurisdicional dos direitos das
pessoas são sinais de civilização jurídica.
⦁ No plano objetivo, o princípio das tutelas jurisdicional envolve: o princípio do contraditório; o princípio
do juiz natural e legal; o princípio da independência dos tribunais e dos juízes; o princípio da
fundamentação das decisões que não sejam de mero expediente; o respeito pelo caso julgado.
⦁ E também envolve: a adequada proteção do segredo de justiça e a publicidade das audiências dos
tribunais.
⦁ Os direitos sociais são também suscetíveis de tutela através dos tribunais, embora em moldes mais
circunscritos do que os dos direitos liberdades e garantias.
⦁ Manifestações especiais de tutela jurisdicional são: o procedimento judiciário com prioridade e
celeridade para defesa dos direitos, liberdades e garantias pessoais; a revisão de sentenças criminais

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injustas; a tutela jurisdicional de interesses difusos.


⦁ Tutela jurisdicional não significa o mesmo que tutela judicial.

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