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Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios

PJe - Processo Judicial Eletrônico

15/09/2022

Número: 0714641-57.2022.8.07.0018
Classe: AÇÃO CIVIL PÚBLICA CÍVEL
Órgão julgador: Vara de Meio Ambiente, Desenvolvimento Urbano e Fundiário do DF
Última distribuição : 14/09/2022
Valor da causa: R$ 300.000,00
Assuntos: Crimes contra a Fauna
Nível de Sigilo: 0 (Público)
Justiça gratuita? SIM
Pedido de liminar ou antecipação de tutela? SIM
Partes Advogados
ASSOCIACAO PROTETORA DOS ANIMAIS DO DISTRITO
FEDERAL (AUTOR)
ANA PAULA DE VASCONCELOS (ADVOGADO)
PROJETO ADOCAO SAO FRANCISCO - PASF (AUTOR)
ANA PAULA DE VASCONCELOS (ADVOGADO)
PARQUE GRANJA DO TORTO - PGT (REU)
INSTITUTO DO MEIO AMBIENTE E DOS RECURSOS
HIDRICOS DO DISTRITO FEDERAL - IBRAM (REU)
SECRETARIA DE ESTADO DA AGRICULTURA,
ABASTECIMENTO E DESENVOLVIMENTO RURAL DO
DISTRITO FEDERAL (REU)
TOP 7 MIDIA EIRELI (REU)
DISTRITO FEDERAL (REU)

Documentos
Id. Data da Documento Tipo
Assinatura
136855954 15/09/2022 Decisão Decisão
12:06
Poder Judiciário da União
TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO DISTRITO FEDERAL E DOS TERRITÓRIOS

Vara de Meio Ambiente, Desenvolvimento Urbano e Fundiário do DF


SAM, sala 03, térreo, Setores Complementares, BRASÍLIA - DF - CEP: 70620-020
Horário de atendimento: 12:00 às 19:00

Número do processo: 0714641-57.2022.8.07.0018

Classe judicial: AÇÃO CIVIL PÚBLICA CÍVEL (65)

Assunto: Crimes contra a Fauna (3619)

Requerente: ASSOCIACAO PROTETORA DOS ANIMAIS DO DISTRITO FEDERAL e outros

Requerido: TOP 7 MIDIA EIRELI e outros

DECISÃO INTERLOCUTÓRIA

Trata-se de Ação Civil Pública com pedido de liminar ajuizada por ASSOCIAÇÃO PROTETORA DOS
ANIMAIS DO DISTRITO FEDERAL e PROJETO ADOCAO SÃO FRANCISCO requerendo a concessão
de tutela de urgência a fim de que não seja realizado rodeio na 30ª Edição da EXPOABRA na Granja do
Torto, mantidas as demais atividades do evento, sendo instados os requeridos Distrito Federal, IBRAM/DF e
SEAGRI a fiscalizarem o evento para garantir o cumprimento da tutela ou, alternativamente, que as provas
sejam acompanhadas por fiscais do IBAMA.

É O RELATO DO NECESSÁRIO. DECIDO.

Diante da urgência do pedido, uma vez que o rodeio tem início agendado para a presente data, conheço do
pedido liminar sem recebimento integral da inicial, a qual comporta emendas. Entendimento diverso levaria
ao perecimento do direito pretendido e redundaria afronta aos artigos 5º, XXXV, da Constituição da
República, e 3º do Código de Processo Civil.

Assim, inicialmente, limito-me ao pedido liminar, notadamente sendo dispensadas as autoras de recolherem
custas iniciais (art. 18 LACP) e sendo obrigação do juízo facultar a emenda da inicial (art. 321 do CPC).

Esclareço que a providência do artigo 2º da Lei nº 8.437/92 mostra-se inaplicável no presente caso, sob pena
de fulminar o próprio direito material. Tendo em vista que a mencionada vaquejada se inicia na presente
data, não há como realizar audiência prévia com o Distrito Federal em setenta e duas horas. Tal providência
é respaldada pelo entendimento jurisprudencial vigente, o qual admite a mitigação da regra quando presentes
os requisitos para concessão da medida liminar em ação civil pública.

Dito isso, observo que o tema envolvido no presente pedido é conflituoso. Isso porque a Carta Magna
elencou a tutela do meio ambiente ecologicamente equilibrado e a proteção da fauna e flora a dever do
Poder Público, a quem cabe assegurar que não ocorram práticas que submetam os animais a crueldade, na
forma da lei (art. 225, §1º, VII). Ainda, o parágrafo sétimo do artigo 225 da Lei Maior indica que “Para fins
do disposto na parte final do inciso VII do § 1º deste artigo, não se consideram cruéis as práticas
desportivas que utilizem animais, desde que sejam manifestações culturais, conforme o § 1º do art. 215
desta Constituição Federal, registradas como bem de natureza imaterial integrante do patrimônio cultural
brasileiro, devendo ser regulamentadas por lei específica que assegure o bem-estar dos animais envolvidos.

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Número do documento: 22091512062506700000126503813
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Assinado eletronicamente por: CAMILLE GONCALVES JAVARINE FERREIRA - 15/09/2022 12:06:25
Num. 136855954 - Pág. 1
De outro lado, a Lei n. 13.364/2016 reconhece o rodeio, a vaquejada e o laço como manifestação cultural
nacional. Assim, é mister ponderar sobre as previsões do regramento em questão, em confronto com a
programação do evento questionado, notadamente considerando-se que, no julgamento do RE 1096851/DF,
que trata da Lei Distrital n. 5.579/2015, tal norma foi considerada inconstitucional em relação ao parâmetro
constitucional existente quando de sua promulgação, anterior à Emenda Constitucional 96/2017. Não há
como ser o mesmo entendimento aqui aplicado, tratando de fatos posteriores à inovação legislativa. Não há
como o Poder Judiciário substituir a atuação do Legislativo.

Pois bem. Os documentos de id 136812141, p. 19-20, indicam que haverá no evento “rodeios” e “provas do
laço”. A partir de então, discorre a parte autora sobre “algumas das modalidades que pretendem realizar na
competição em questão”. Em id 136812141, consta a informação de que ocorrerão “Rodeios e provas
equestres - Os maiores shows da Atualidade, Rodeio PBR ,Provas Team Penning, Prova Laço Cabeça e
Laço pé, Ranch Shorting, Provas rédeas, Tean Roping Cronômetro, Três Tambores, Laço Individual técnico,
Laço Individual Cronometro e Breakaway”.

Constato que as modalidades Rodeio PBR (inciso I), Team Penning (inciso VI), Provas de Laço (inciso II),
Provas de Rédeas (inciso V) e Três Tambores (inciso VI) contam com expressa previsão no art. 3º da Lei
13.364/16. A atividade de Ranch Sorting, não relatada nos pareceres apresentados pela parte autora, consiste
em separação de gado, não havendo indicação de maus-tratos caso cumprida a Lei n. 10.519/2002. Por sua
vez, a atividade de Breakaway consiste em atividade de laço individual feminino.

Não há como se presumir que as atividades se darão em descumprimento da Lei n. 10.519/2002. Diante
disso, em se tratando de atividade a qual, embora questionável, encontra amparo na legislação em vigor, não
há como se obstar sua realização.

Contudo, a atividade de Team Roping não conta com expressa previsão legal, consistindo em disputa entre
dois competidores em que o animal é tracionado em direções opostas, com extrema força. Evidente o caráter
cruel da atividade o qual, não sendo expressamente amparado pela norma legal, que não especifica a
possibilidade, tenho como inconstitucional.

De outro lado, considerando-se a imprescindível necessidade de que as demais atividades sejam praticadas
em cumprimento às normas em vigor, e sendo inafastável a necessidade de se preservar os seres vivos
envolvidos no evento, é mister que o Poder Público cumpra com a determinação constitucional de assegurar
que não ocorra a prática de maus tratos. Quanto a isso, reconheço a plausibilidade do direito, havendo fumus
boni iuris dada a vedação constitucional à prática de crueldade. Ainda, evidente o perigo na demora, por ser
o evento previsto para ocorrer a partir do dia de hoje, 20 horas.

Nada obstante, não cabe a este juízo promover qualquer determinação ao IBAMA, por incompetência
absoluta para tanto (Constituição Federal, art. 109, I). Por tal razão, e em aplicação à parte final do art. 301
do CPC, determino ao IBRAM, preferencialmente por intermédio da DIFIS-IV, que fiscalize o evento a fim
de coibir eventuais maus-tratos de animais, devendo o GDF fornecer o apoio que se mostrar necessário para
tanto.

Assim, defiro parcialmente a tutela antecipada para suspender a prática de Team Roping ou Laçada
Dupla na 30ª Edição da EXPOABRA, sob pena de multa no valor de R$ 200.000,00 por atividade,
bem como determinar que o IBRAM, com apoio do GDF, fiscalize a prática de rodeios e provas do
laço na 30ª Edição da EXPOABRA, de 15 a 18 de setembro, a fim de coibir eventuais maus-tratos de
animais. Eventual embaraço da atividade de fiscalização pelos requeridos TOP7
ENTRETENIMENTO E MIDIA EIRELI (CNPJ nº 28.841.342/0001-53, com sede à Q QS 01, RUA 210,
Lote 40, Torre A, Taguatinga Shopping S/N, sala 607, CEP 71.950-904, Taguatinga-DF, representada por
seu sócio Gustavo Vinicius Nonato Souza Gomes) E PGT – PARQUE DE EXPOSIÇÕES GRANJA DO
TORTO (CNPJ nº 33.141.852/0001-58, com endereço na Granja do Torto, Pavilhão Central, Lago Norte,
Brasília-DF, CEP 70636-100) resultará em multa de R$ 200.000,00 por incidente.

Concedo à presente força de mandado.

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Num. 136855954 - Pág. 2
Quanto à petição inicial, apresentem os autores emenda a fim de que excluam pedidos envolvendo o
IBAMA, os quais fogem à competência deste juízo. Ainda, regularizem a representação processual, haja
vista que a procuração de ASSOCIAÇÃO PROTETORA DOS ANIMAIS DO DISTRITO FEDERAL foi
subscrita por Conselheira Fiscal, sem poderes para representação, e a de PROJETO ADOÇÃO SÃO
FRANCISCO não permite a análise de poderes do subscritor, não identificado. Prazo de 15 dias úteis, sob
pena de revogação da liminar, aplicação do art. 302 do CPC e indeferimento da inicial.

Intimem-se com urgência. Após, ao Ministério Público por força do artigo 5º, §1º, da Lei nº 7.347/85.

BRASÍLIA-DF, Quinta-feira, 15 de Setembro de 2022 12:05:07.

CAMILLE GONÇALVES JAVARINE FERREIRA

Juíza de Direito Substituta

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Número do documento: 22091512062506700000126503813
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Assinado eletronicamente por: CAMILLE GONCALVES JAVARINE FERREIRA - 15/09/2022 12:06:25
Num. 136855954 - Pág. 3

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