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ARTIGO
________________________________________________________
Análise das dificuldades de cadeirantes para a prática do basquetebol
em cadeira de rodas.

Camila Ferreira Leoni


Graduada em Educação Física - Unip

Carlos Aparecido Zamai


Docente do Curso de Educação Física - Unip

Resumo

Ainda hoje, pouco se conhece a respeito da integração e inserção das pessoas


com deficiências e das grandes dificuldades sociais e econômicas enfrentadas
por elas, é notória nos vários segmentos da sociedade brasileira, bem como
das organizações mundiais que cuidam do interesse desta população. As
barreiras encontradas pela maioria destas pessoas iniciam-se nas próprias
residências e se estendem nas vias públicas, áreas educacionais, práticas
esportivas entre outras. Quanto à prática do basquetebol em cadeira de rodas
tem crescido bastante nas últimas décadas, prova disto são as inúmeras
pesquisas científicas que têm surgido nesta área. O objetivo deste trabalho foi
identificar e analisar as principais dificuldades encontradas pela equipe
GADECAMP de basquetebol sobre rodas de Campinas nas suas práticas
esportivas e sociais, abrangendo ambientes residenciais, públicos e local de
treinamento. Para o desenvolvimento deste trabalho foi elaborado um
protocolo específico contendo perguntas abertas e fechadas, o qual foi
ministrado aos participantes da pesquisa (cadeirantes) por um período de 15
dias, sendo os dados apresentados nos gráficos de 01 a 08. Ainda foram
registradas imagens fotográficas das dificuldades e das atividades esportivas
durante o jogo-treino, para melhor compreensão das dificuldades. Dos
resultados encontrados, verificou-se que 100% dos sujeitos apontaram como
dificuldades encontradas: a) Aceitação/discriminação; b) Acesso aos lugares;
c) Transporte coletivo e d) Locais de treinamento. Diante do exposto conclui-
se que os participantes enfrentam e vivenciam muitas dificuldades para
desenvolverem suas atividades físicas, mas mesmo diante destas os sujeitos
declaram que vale a pena, pois sabem que estão melhorando sua qualidade
de vida e que estas práticas contribuem para melhoria da saúde.

Palavras-chave: Dificuldades. Cadeirante. Basquete. Qualidade de vida.


Saúde.

Abstract

Nowadays, little is known about the integration and interaction of the people
with any kind of disability and the difficulties faced by them. It is well known,
in some segments of the Brazilian society, as well as the worldwide
organizations that take care of the interest of this population. The barriers

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found by the majority of these people are initiated in their own residences and
are extended in the public places, educational areas, sporting practices,
among others. As regards the practice of the basketball in wheelchair has
grown in the last decades, an evidence of this is the scientific researches that
have appeared in the area. The objective of this work was to identify and to
analyze the main difficulties found by the wheelchair basketball team
GADECAMP of Campinas in its social and sporting practices, covering
residential surroundings and public place of training. For the development of
this work, a specific protocol was elaborated containing open and closed
questions, which was given to the participants of the research (wheelchair
people) for a period of 15 days. The data are presented in the graphs from 01
to 08. Photographic images had been registered to show the difficulties and
the sporting activities during the game-trainings. Results: It was verified that
a 100% of the subjects had pointed the difficulties such as: a)
Acceptance/discrimination; b) access to the places; c) collective transport and
d) local of training. Facing that we concluded that the participants face and
live many difficulties in order to develop its daily physical activities, but even
facing all these troubles they declare that even with all these problems its still
worth because they know they are improving their quality of life and that
these practices contribute for their health improvement.

Key Words: Wheel chair practitioners. Health. Quality of life.

Introdução

O basquetebol em cadeira de rodas

A partir das duas Guerras Mundiais, a necessidade das modernas


sociedades em aumentar o rendimento com a diminuição do investimento, e sustentar
elementos não produtivos, houve uma preocupação nas descobertas de métodos que
visassem uma reintegração social do deficiente e, na medida do possível, torna-lo um
fator de produção para a sociedade.
Surgiu então a atividade física, que tem demonstrado sua eficiência como um
dos métodos a serem utilizados no arsenal terapêutico desta recuperação. Com o
avanço científico moderno, o progresso dos conhecimentos o terreno da fisiologia do
exercício, da psicologia, dos fatores biomecânicos, dos métodos de avaliação, da
sociobiologia vieram despertar, ainda mais, tais atividades. (ROSADAS, 1991).
Para Araújo (1998) o desporto adaptado se propunha a minimizar as seqüelas
nos soldados acometidos pelos traumatismos, em decorrência das guerras, mais
especificamente em relação à Segunda Guerra Mundial, na década de 40. O objetivo
da reabilitação dos soldados feridos em decorrência da guerra, naquele momento, era
prioridade do governo dos países envolvidos no conflito e também da classe científica,
pois a expectativa e a qualidade de vida chamavam a atenção para a necessidade de

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estudos. Por outro lado, estes governos sentiam-se na obrigação de dar uma resposta
à sociedade, no sentido de estar fazendo alguma coisa pra minimizar as adversidades
causadas pela guerra.
Os primeiros passos, neste sentido, ocorreram em fevereiro de 1944, quando o
médico alemão, de origem judaica, exilado na Inglaterra, Sir Ludwig Guttmann,
neurologista e neurocirurgião, foram convidado pelo governo britânico para fundar o
centro de reabilitação para tratamento dos soldados lesionados medulares, no
Hospital de Stoke Mandeville, próximo à cidade de Aylesburg. Dr. Guttmann dedicou-
se a esta atividade de 1943 a 1980.
O primeiro programa de esporte em cadeira de rodas foi iniciado no Hospital de
Stoke Mandeville em 1945, com o objetivo de trabalhar o tronco e os membros
superiores e diminuir o tédio da vida hospitalar e prepará-los para o trabalho.
Em 1960, o Dr. Guttmann concretizou seu sonho, idealizado em 1948, de
realizar um evento que tivesse o mesmo impacto de uma olimpíada. Realizado em
Roma, o IX Jogos de Stoke Mandiville, teve a presença de 400 participantes de 23
países, com apoio do Comitê Olímpico Italiano (COI), sendo a primeira dama italiana,
dona Carla Gronchi, a madrinha dos jogos, que passaram a se chamar “Paraolympics”
(Olimpíadas para paraplégicos).
A introdução do esporte adaptado no Brasil se deu por meio de Del Grande com
um grupo que veio fazer jogos de exibições nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro.
Um dos elementos que se chamava Jean Quellog sugeriu que Del Grande fundasse um
clube dos paraplégicos no Brasil. Ele despachou uma cadeira esportiva dos Estados
Unidos e Balmer (um antigo fabricante de cadeira de rodas) fez as outras.
Em 1957, se formava a primeira equipe de basquete em cadeira de rodas no
Brasil e em fevereiro de 1958, iniciou-se os treinamentos de basquetebol no Hospital
das Clínicas em São Paulo. (ARAÚJO, 1998).
O Basquetebol em Cadeira de Rodas surgiu como prática após a 2ª Guerra
Mundial, quando as autoridades deviam uma reposta para a sociedade, pelos esforços
e incapacidades que sofreram seus soldados. (IWBF, 2002).
O basquetebol em cadeira de rodas é praticado por indivíduos portadores de
lesões medulares, amputações, seqüelas de poliomielite e outras disfunções que o
impeçam de correr, saltar e pular como um indivíduo sem lesões. As regras são
praticamente as mesmas do Basquetebol convencional, com algumas modificações ou
acréscimo em comparação com as regras da Federação Internacional de Stoke
Mondeville e o sistema de classificação funcional para assegurar a competição justa e
oportunizar a participação de indivíduos com diferentes seqüelas (IWBF, 2002).

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De acordo com Strohkendl (1996) o sistema de classificação funcional foi


introduzido para produzir uma competição justa entre os atletas.
Atualmente, são cinco classes funcionais, variando de 1,0 (um) ponto até 4,5
(quatro pontos e meio) pontos. Cada equipe é composta de cinco jogadores e poderá
somar no máximo, um total de 14 (quatorze) pontos. (IWBF, 2002).
De acordo com Ramos e Barros (2004), o basquetebol em cadeira de rodas tem
crescido bastante nas últimas décadas, prova disto são as inúmeras pesquisas
científicas que têm surgido nesta área.
Os autores salientam que muitas pesquisas ainda podem ser realizadas e que
os resultados das já divulgadas estão sendo colocados em prática por treinadores,
técnicos e classificadores funcionais. Com isto, pode-se dizer que o esforço de muitos
começa a ser verdadeiramente reconhecido.
O basquetebol em cadeira de rodas, por ser um esporte coletivo, facilita a
integração dessas pessoas com outras em iguais condições. Por serem pessoas com
deficiência, essas passam por várias dificuldades, por conta de uma sociedade ainda
despreparada para recebê-los, e o basquete tenta amenizar, ajudando essas pessoas
vencerem o preconceito e se relacionarem novamente com outras pessoas e
adaptação à cadeira de rodas para melhor se locomover sozinhos, ou seja, através do
esporte a pessoa com deficiência fica mais independente e autoconfiante.
Mesmo no século XXI pouco se conhece a respeito da integração e inserção de
pessoas com deficiência e das grandes dificuldades sociais e econômicas enfrentadas
por elas, as quais são notórias nos vários segmentos da sociedade brasileira, bem
como nas organizações mundiais que cuidam do interesse desta população.
As dificuldades enfrentadas pelo portador de deficiência física se iniciam,
muitas vezes, com o total despreparo dos pais para receberem um filho nestas
condições. O relacionamento com os pais não chega ser o único obstáculo vivido pelas
pessoas portadoras de deficiências físicas. A convivência social é outra barreira
bastante grande. Quantas pessoas se sentem tranqüilas para manter uma conversa,
sem constrangimentos, com uma pessoa paraplégica?
Por mais que nos sintamos amadurecidos para enfrentar esta situação, a
pessoa deficiente notará certa ansiedade e algum desconforto nesse relacionamento,
no mínimo por falta de naturalidade. Isto se deve à circunstância de que a integração
dos indivíduos portadores de deficiência não é excedida pela sociedade como um todo.
(ARAÚJO, 1998).
Preconiza-se que todo ser humano tem direito à educação, à saúde, ao lazer e
ao trabalho. Afirma-se que a educação possibilita que a pessoa alcance o

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conhecimento necessário enquanto homem e profissional, entretanto, o deficiente


físico acaba não tendo acesso aos recursos disponíveis seja por não conhecerem, ou
por não saberem de seus direitos legalmente constituídos.
Muitas vezes observa-se que apesar de se desenvolver programas de
atendimento e recuperação, o governo e a sociedade em geral esquecem de facilitar o
acesso dessas pessoas às situações comuns da vida. (MATTOS, 1994).
Somente a reabilitação clínica não garante a integração social do portador de
deficiência. É necessário que a educação integrada, a reabilitação, a profissionalização
e o ambiente de trabalho garantam a integração profissional dos deficientes físicos.
Conhecendo as necessidades específicas deste grupo na população, vê-se a
importância de projetos que possibilitem o bem estar deles nas situações de trabalho
e em outras.
Admitindo-se que todas as pessoas são diferentes em dimensões, capacidade
física, mental ou sensorial, e a arquitetura têm por função principal oferecer um
abrigo confortável, seguro e funcional a todas as pessoas, assim o ambiente deve ser,
prevendo o uso por pessoas limitadas fisicamente, oferecendo facilidades, seja no
lazer, no estudo, no trabalho e em locais destinados à prática de atividades físicas que
contribuem para a melhora da qualidade de vida e do bem estar dos mesmos.
Estas facilidades baseiam-se na capacidade e características destas pessoas,
que necessitam de adaptações especiais para o uso de equipamentos e na realização
das suas atividades diárias.
Embora o assunto seja de grande relevância, os estudos sobre as
necessidades do deficiente físico voltam-se muito mais aos aspectos clínicos, e menos
para a sua relação com os produtos e ambientes que deverá utilizar.
Constata-se uma carência de informações relacionadas ao deficiente físico no
que diz respeito à sua relação com os produtos que utiliza e os ambientes que
freqüenta. Estas informações seriam importantes à concepção de dispositivos,
mobiliários e ambientes de trabalho e de treinamentos mais adequados a estes.
Pra mudar esse quadro, deveríamos dar mais informações às pessoas e inserir
o deficiente na sociedade, principalmente na escola, que é à base de informações
sobre o mundo onde vivemos. Assim, num futuro próximo, a pessoa com deficiência
não será mais vista como anormal.
Neste contexto, inicia-se aqui uma discussão sobre o Basquetebol em Cadeira
de Rodas, o qual surgiu como prática após a segunda Guerra Mundial, quando as
autoridades deviam uma reposta para a sociedade, pelos esforços e incapacidades que
sofreram seus soldados. (International Whellchair Basketball Federation-IWBF, 2002).

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Nas duas últimas décadas, houve um crescimento impressionante destes


atletas, chamando a atenção de pesquisadores para esta área do esporte. (GORGATTI
e BOHME, 2002).
Martinez (2000) diz que o Basquetebol em Cadeira de Rodas tem
experimentado uma metamorfose nos últimos quarenta anos. Isto tem sido
demonstrado com relação à sofisticação tecnológica e a um aumento da aceitação
popular em considerá-lo um esporte que gera esforço atlético e não como uma
atividade reabilitadora.
Com isto, benefícios e melhorias na qualidade de vida de pessoas portadoras
de deficiência física quando submetidas a treinamento físico regular foram
comprovados por Lopez e Melo (2002); Freitas (1997), os quais relataram melhora na
condição cardiovascular, na flexibilidade e em fatores psicossociais de cada um.
Por outro lado, ainda existem indivíduos que não têm consciência dos
inúmeros benefícios que a atividade física e/ou esportiva pode oferecer
qualitativamente às suas vidas. Essas atividades são pouco divulgadas e muitos dos
portadores de deficiência física não acreditam que sejam capazes de executá-las.
(GORGATTI e BOHME, 2002).
O Basquetebol em Cadeira de Rodas é praticado por indivíduos portadores de
lesões medulares, amputações, seqüelas de poliomielite e outras disfunções que os
impeçam de correr, saltar e pular como um indivíduo sem lesões. As regras são
praticamente as mesmas do Basquetebol convencional, com algumas modificações ou
acréscimo em comparação com as regras da Federação Internacional de “Stoke
Mondeville” e o sistema de classificação funcional para assegurar a competição justa e
oportunizar a participação de indivíduos com diferentes seqüelas (IWBF, 2002).
A proposta deste trabalho foi identificar e analisar as principais dificuldades
encontradas pela equipe GADECAMP de basquetebol sobre rodas de Campinas nas
suas práticas esportivas e sociais, abrangendo ambientes residenciais, públicos e local
de treinamento (clubes). Espera-se com este trabalho mostrar à sociedade a realidade
dessa população para que num futuro próximo sejam solucionados estes problemas e
para que os profissionais de Educação Física tenham um público de trabalho com
consciência para melhorar a qualidade de vida.

Objetivo geraL

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O objetivo deste trabalho foi identificar e analisar as principais dificuldades


encontradas pelos cadeirantes na prática do basquetebol e nas práticas sociais,
abrangendo ambientes residenciais, públicos e de treinamentos (clubes).

Metodologia

Caracterização da pesquisa

A pesquisa pode ser considerada um procedimento formal com método de


pensamento reflexivo que requer um tratamento científico e se constitui no caminho
para se conhecer a realidade ou para descobrir verdades parciais. Significa muito mais
do que apenas procurar a verdade: é encontrar respostas para questões propostas,
utilizando métodos científicos. Especificamente é “um procedimento reflexivo
sistemático, controlado e crítico, que permite descobrir novos fatos ou dados, relações
ou leis, em qualquer campo de conhecimento”. (MARCONI e LAKATOS, 2001).
Para o desenvolvimento deste trabalho foi elaborado um protocolo específico
contendo perguntas abertas e fechadas, o qual foi ministrado aos participantes da
pesquisa (cadeirantes) por um período de 15 dias, sendo os dados tabulados e
apresentados nos gráficos de 01 a 08 e falas dos cadeirantes na íntegra. Além disso,
os cadeirantes foram acompanhados durante o seu trajeto residência-clubes, onde
foram observados sendo registradas através de fotos as principais dificuldades
vivenciadas pelos mesmos. Também foram registradas imagens fotográficas das
atividades esportivas durante um jogo-treino, para melhor compreensão das
dificuldades.

Sujeitos

Para o desenvolvimento do estudo foram avaliados 08 sujeitos cadeirantes do


sexo masculino, faixa etária entre 17 a 40 anos, praticantes da modalidade esportiva
basquete em cadeira de rodas da equipe Grupo de Amigos Deficientes Esportistas de
Campinas (GADECAMP), no Ginásio do Centro Esportivo Rogê Ferreira - Campinas-SP.
Os participantes residem em diversos bairros da cidade e a maioria usa seu veículo
adaptado, bem como ônibus às vezes.

Os encontros para as práticas esportivas (basquetebol) acontecem duas vezes


por semana (terças e quintas-feiras), das 17h às 20h no Ginásio do Centro Esportivo

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Rogê Ferreira, localizado no bairro São Bernardo em Campinas-SP ou em outro


Ginásio à disposição, conforme agendamento.

Resultados e discussão

Para uma melhor compreensão os resultados encontrados após aplicação


da entrevista aos cadeirantes encontram-se distribuídos os gráficos de 01 a 08.

Gráfico 1. Tempo de treinamento (anos).

62,5
80
60 2 anos
25 3 anos
40
12,5 Mais de 3 anos
20
0

Quanto ao tempo de treinamento dos cadeirantes o gráfico 01 mostra que


62,5% já praticam basquete em cadeiras de rodas lá mais de três anos. Benefícios e
melhorias na qualidade de vida de pessoas portadoras de deficiência física quando
submetidas a treinamento físico regular foram comprovados pelos autores Lopez e
Melo (2002), os quais relataram melhora na condição cardiovascular, na flexibilidade e
em fatores psicossociais de cada um.

Gráfico 2. Quem o orientou na procura do


basquetebol?

75
100
Família/Amigos
25
50 Vontade própria

O gráfico 02 apontou que as famílias e os amigos são os maiores


incentivadores (75%) quanto à procura da prática do basquetebol. A família apóia e

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busca melhorias para as pessoas com deficiência na tentativa de torná-las


independentes e consequentemente mais felizes. Os amigos também com deficiências
já praticam o esporte e indicam os locais adequados. Cabe ressaltar a falta de
divulgação do esporte adaptado pela da mídia e dos profissionais de Educação Física
que atuam nesta área.

Gráfico 3. Porque você escolheu praticar o


basquetebol?

75
80
Por gostar
60
Indicação médica
40
12,5 12,5 Melhorar saúde,
20
qualidade de vida
0
Com
relação ao
interesse dos entrevistados buscarem a prática do basquetebol em cadeira de rodas
(gráfico 03), 75% disseram que foi por gostar da prática do basquete; 12,5% por
indicação médica e 12,5% disseram que praticam porque sabem que melhora a saúde
e a qualidade de vida.

Gráfico 4. Apoio da família.

100

100
80
Apoiam
60
Não apoiam
40
0
20
0

Ficam sempre dúvidas quanto ao apoio recebido por parte da família das
pessoas com deficiências, pois muitas vezes estas superprotegem seus membros
achando num primeiro momento que o esporte irá causar outro dano e que o mesmo
não será capaz de se virar sozinho. Notou-se nesta pesquisa que o apoio recebido foi
(100%), confirmando-se que é extremante importante para a melhora da qualidade
de vida e ganho de independência quando existe o apoio e confiança das pessoas

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mais próximas.

Gráfico 5. Quais os meios de transporte mais utilizados?

87,5
100
Ônibus comum
50 12,5 Carro próprio

Com relação aos meios de transporte utilizados pelos cadeirantes, o gráfico 5


mostra que 87,5% utilizam carro próprio, não encontrando dificuldade,s e 12,5%
fazem uso do transporte coletivo.

Gráfico 6. Os condutores de transporte comum


demonstram respeito ao deficiente?

75
80
60 As vezes
Sim
40 12,5 12,5
Não
20
0

Embora seja pequeno o número de deficientes que utilizam o transporte


coletivo, daqueles que o fazem (75%) relatam que às vezes os condutores deste
transporte demonstram respeito; (12,5%) afirmam que há respeito sempre e (12,5%)
disseram não haver respeito durante o embarque e desembarque, o que dificulta o
deslocamento residência-clube-residência, bem como a prática social por meio de
passeios e compras.

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Gráfico 7. Dificuldades enfrentadas nas ruas de Campinas.


37,5 37,5

40
12,5 12,5
20

Calçadas mal conservadas, banheiros e ônibus


Calçadas, falta de rampas e guias rebaixadas
Calçadas mal conservadas
Falta de rampas, guias rebaixadas e identificação nas ruas

Com relação às dificuldades encontradas pelos cadeirantes nas ruas de


Campinas, o gráfico 7 mostra que 75% comentam que as calçadas são mal
conservadas, quando existem, e salientam a falta de rampas, guias rebaixadas e
identificação nas ruas, o que impede muitas vezes seus deslocamentos para as
práticas sociais e do basquete no clube.

Figura 8. Com mais acessos, o que você faria para melhorar


sua qualidade de vida?

50
60 Estudar/Trabalhar
50
Passear em outros
40 25 25 locais
30 Praticaria outros
20 esportes
10
0

No gráfico 8 verifica-se na opinião dos entrevistados que 50% deles


gostariam de realizar mais passeios em outros locais da cidade onde residem, 25%
gostariam de estudar/ trabalhar; e ainda 25% praticariam outros esportes.
Percebe-se que há muito trabalho a ser executado no sentido de contribuir
para a melhoria da qualidade de vida desta população, o que certamente reúne os
esforços da prefeitura, ONGs, famílias, enfim todos nós, e, fica claro que estes
sujeitos querem são melhorias das condições de locomoção, aceitação na sociedade,
mudanças na infraestrutura da cidade, pequenas obras, adequação dos meios de
transporte, campanhas de conscientização da população, para que esta tenha cada

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vez mais consciência, carinho e uma convivência saudável sem discriminação. Assim,
acredita-se que os seres humanos como um todo possa construir mais e melhor,
numa luta contínua para todos.

Considerações finais

Pode-se perceber que os cadeirantes são conscientes quanto à importância da


prática de atividades físicas para a melhora da qualidade de vida, bem estar e da
saúde e, independente das dificuldades encontradas e da discreta discriminação por
parte da sociedade, eles tem buscado através da prática do basquetebol em cadeiras
de rodas melhorarem cada vez mais suas relações sociais e da saúde, mostrando que
não deve existir empecilho quando se quer melhorar e mudar as condições de vida.
Eles também mostraram que “deficientes” são aqueles que não se dispõem à
realização de atividades que contribuem para uma vida mais saudável, morrendo nos
sofás, computadores, frente aos aparelhos de TV, andando para cima e para baixo em
carros luxuosos que sequer precisam descer para abrir os portões de suas casas e
apartamentos, pois estes são comandados por dedos em corpos sedentários, obesos e
repletos muitas vezes de Doenças Crônicas Não Transmissíveis – DCNT’s, as quais
levam milhares de pessoas “normais” aos hospitais e que em muitos casos ficam
internados e chegam ao óbito e, além disso, oneram os cofres públicos em milhões de
reais. Pessoas estas que perdem anos de suas preciosas vidas bebendo, fumando, se
alimentando inadequadamente, os quais estão susceptíveis os mais variados fatores e
riscos e doenças (DCNT’s), pois a literatura nacional e internacional tem relatado altos
índices de mortalidade por estes fatores e doenças na faixa etária de 15 a 60 anos de
idade. (ZAMAI, 2000); (ZAMAI, 2004).
O desenvolvimento deste trabalho monográfico deixou claro que o profissional
de educação física tem muito a contribuir com a população, seja ela de pessoas não
deficientes quanto pessoas com deficiências. Mas para que isto aconteça é preciso ter
consciência de valores, conhecimentos teórico/práticos, competência, ética
profissional, e ainda, é preciso querer fazer, ter ousadia, amor e bondade no coração,
pois estes serão extremamente importantes na vida profissional, porque outros corpos
estão precisando da contribuição pessoal e profissional do nosso corpo e da nossa
competência que só será alcançada com muito esforço, dedicação e olhar carinhoso e
bondoso em direção ao outro ser.
É preciso sair da sala de aula, conhecer outros ambientes de convivência
social, seja no âmbito da graduação ou da pós-graduação com a certeza de que todos

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nós somos capazes de aprender, fazer, viver bem juntos e sermos profissionais
competentes para ensinar, mas é necessário estudar, enriquecer os conhecimentos
gerais e específicos para se trabalhar com outros Homens. É preciso ter conhecimento
para ouvir, entender e contribuir com o outro no seu mundo, oferecendo-lhe
oportunidades sociais condizentes ao seu projeto de vida, independente da sua
classificação social.

Palavras finais – Relato dos sujeitos

Neste instante apresenta-se uma síntese das falas dos cadeirantes da equipe
GADECAMP participantes da pesquisa sobre principais dificuldades enfrentadas em
suas residências, nas ruas, locais de treinamento e no ambiente social para a prática
do basquetebol.

Relato das principais dificuldades encontradas em relação a deficiência desde


sua residência até ao local do treinamento.

ƒ “Transportes inadequados (ruas). Locais de treino sem adaptações: rampas e


banheiros adaptados (treino)”. AC
ƒ “Falta de banheiros e ônibus adaptados, calçadas mal conservadas (ruas).
Banheiros adaptados, rampas e locais de treinos distantes de casa (treino)”. EAD
ƒ “Degraus (casa), calçadas mal conservadas, falta de transportes adaptados (ruas).
Falta de rampas e banheiros adaptados (treino)”. LBD
ƒ “Calçadas não adaptadas, ruas esburacadas, obstáculos nas calçadas (rua). Locais
de treinos não acessíveis (treino)”. CV

ƒ “Falta de banheiros adaptados, ruas e treino”. AAC


ƒ “O estado de má conservação das ruas”. AJSD
ƒ “A grande distância dos locais de treino”. MMF
ƒ “Falta de calçadas conservadas e rampas (rua). Falta de banheiros adaptados
(treino)”. PRS

O que você acha que deve ser feito para melhorar o acesso dJos cadeirantes
na cidade de Campinas?

ƒ "Ônibus e banheiros adaptados, rampas, elevadores e educação das pessoas ao se


dirigirem a uma pessoa com deficiência". A.C.

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ƒ "Deveria haver mais rampas e banheiros adaptados". E.A.D.


ƒ "Deveria haver mais rampas, calçadas adequadas e elevadores adaptados”. L.B.D.
ƒ "Deveriam aumentar o número de ônibus adaptado e respeitarem os locais
reservados para deficientes em locais públicos”. C.V.
ƒ "Ter mais rampas, calçadas em bom estado e banheiros adaptados”A.A.C.
ƒ "Mais apoio aos cadeirantes, porque não temos nem ginásio para os treinos”.
A.J.S.D
ƒ "Mais guias rebaixadas e melhorar o estado das calçadas”. M.M.F.
ƒ Mais rampas, banheiros e ônibus adaptados”. P.R.F.

Qual o significado da atividade física (basquete) na sua vida?

ƒ "Auto-estima, superação de limites e melhora do condicionamento físico”. A.C.


ƒ "Pra mim atividade física é tudo, me sinto muito bem jogando basquete”. E.A.D.
ƒ “Pra mim o basquete é tudo, depois que comecei a praticá-lo minha vida melhorou
muito”. L.B.D.
ƒ "Fiquei mais independente e aumentou a sociabilização”. C.V.
ƒ "É um lazer, me proporciona bem estar e me faz estar reunido com outras
pessoas”. A.A.C.
ƒ “É muito importante para a melhora da parte física, porque me dá mais disposição
e assim não levo uma vida sedentária"A.J.S.D.
ƒ "É muito importante para a melhora da qualidade de vida”. M.M.F.
ƒ "Melhora física”. P.R.S.

Você acha que existem pessoas desinformadas ou preconceituosas na nossa


sociedade? E o que poderia ser faito pra mudar essa realidade?

ƒ "Acho que existem os dois tipos de pessoas e acho que deveriam ter mais
informações sobre portadores de necessidades especias e vivências com estas
pessoas”. A.C.
ƒ “Acho que existem os dois tipos de pessoas e acho que deveríamos divulgar mais o
basquetebol adaptado”. E.A.D.
ƒ "Acho que existem os dois tipos de pessoas e acho que deveriam ter mais
informações sobre o que somos capazes de fazer. Quando as pessoas assistem aos
jogos, acham emocionante o que fazemos em quadra”. L.B.D.

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ƒ "Acho que existem os dois tipos de pessoas e acho que o governo deveria dar mais
informações sobre os deficientes físicos e suas potencialidades”. C.V.
ƒ "Acho que existem os dois tipos de pessoas e acho que deveriam dar mais
informações, como palestras para conscientização das pessoas”. A.A.C.
ƒ "Acho que existem os dois tipos de pessoas e acho que deveria haver mais
recursos para ajudar os cadeirantes”. A.J.S.D.
ƒ "Acho que existem os dois tipos de pessoas e acho que deveríamos contar com o
apoio dos órgãos públicos”. M.M.F.
ƒ "Acho que existem os dois tipos de pessoas e acho que deveria haver mais
divulgação sobre o deficiente físico”. P.R.S.

Quais as situações de preconceitos ou discriminações que você já enfrentou?

ƒ "Ir a um local acompanhado (barzinho), e o garçom perguntar para meu (minha)


acompanhante o que eu gostaria de comer ou beber”. A.C.
ƒ “Trabalho no farol e tem gente que fecha os vidros do carro ou finge estar falando
no telefone celular pra não me dar atenção”. E.A.D.
ƒ "Os motoristas dos ônibus costumam passar direto no ponto onde tem um
deficiente só porque não pagam passagem”. L.B.D.
ƒ "Desrespeito aos locais reservados para deficientes físicos”. C.V.
ƒ "Fico muito bravo quando as pessoas desviam de mim nas ruas ou me chamam de
coitadinho”. A.A.C.
ƒ “As mais freqüentes são em bancos”. A.J.S.D.
ƒ "Estacionamento de bancos”. M.M.F.
ƒ "Ainda não sofri nenhum preconceito ou discriminação”. P.R.S.

Aponte algumas sugestões para melhorar as condições de deslocamento e


treinamento para os cadeirantes na cidade de Campinas e o que a prefeitura
poderia inserir no seu projeto de governo?

ƒ “Gostaria que houvesse um local definido para os treinos, materiais adequados,


transportes e academias adaptados, bolsa atleta e incentivos de empresas". A.C.
ƒ "Gostaria que houvesse apoio de outros profissionais, como fisioterapeutas e um
lugar fixo para os treinos”. E.A.D.
ƒ “Gostaria que houvesse um lugar adaptado e fixo para os treinos". L.B.D.
ƒ "Gostaria que houvesse um lugar adaptado e fixo para os treinos". C.V.

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ƒ "Gostaria que houvesse um lugar adaptado e fixo para os treinos”. A.A.C.


ƒ "Gostaria que houvesse mais incentivo e respeito ao esporte muito praticado por
alguns, mas desconhecido por muitos”. A.J.S.D.
ƒ "Gostaria que a prefeitura apoiasse o esporte adaptado fornecendo um lugar fixo e
transporte para os treinos”. M.M.F.
ƒ "Gostaria de treinar num local fixo e acessível para deficiente físico”. P.R.S.

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Endereço para correspondência:


Prof. Carlos Aparecido Zamai
Rua Laércio Monzani, 343
CEP: 13060-533 – Campinas/SP
E-mail cazamai@fef.unicam.br

Data de recebimento: 04/03/06


Data de aceite: 26/04/06

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