Você está na página 1de 5

UNIVERSIDADE DO ESTADO DE MINAS GERAIS

CURSO DE PEDAGOGIA
ALFABETIZAÇÃO E LETRAMENTO
PROFª DRª DEDILENE ALVES DE JESUS

AQUISIÇÃO DA LINGUAGEM: TEORIAS PSICOLINGUÍSTICAS

I. O percurso dos estudos sobre aquisição da linguagem

1 ) Visão empirista (behaviorismo, conexionismo) - o conhecimento é derivado da experiência; o


que é inata é a capacidade de formar associações entre estímulos.

Principais vertentes:

a) Empirismo behaviorista (Skinner, 1957) - é possível predizer e controlar o comportamento


verbal: esquema ESTÍMULO > RESPOSTA > REFORÇO (criança + mamadeira + papá + reforço
= 'aprendizagem')

Problemas nessa vertente: nomeação vista somente sob a perspectiva da denotação, sendo
descartadas as noções não-referenciais / a produção e compreensão de sentenças nunca ouvidas
/ a rapidez do aprendizado e as generalizações (cabeu, fazi, fazeu)

O processo de aquisição não se resume a variáveis externas

b) Empirismo conexionista - o aprendizado ocorre de forma ad hoc (de acordo com cada fato),
podendo haver analogias e generalizações. Por não negar a existência da mente, tenta explicar o
que acontece entre os dados de entrada (input) e de saída (output) na mente; assume que há um
algoritmo de aprendizagem na interação entre organismo (rede neural) e ambiente. Esse algoritmo
permite o aprendizado a partir de experiências.

Problemas nessa vertente: por ser um modelo baseado no processamento da informação no


cérebro, pode abrir margem para uma visão mecanizada da aquisição da linguagem, com
aspectos muito mais fisiológicos do que cognitivistas.

2) Visão racionalista (inatismo, construtivismo cognitivista e construtivismo interacionista) - existe


nos processos de aquisição e desenvolvimento da linguagem uma capacidade inata (por causa da
relação entre linguagem e mente).

Principais vertentes:

a) Inatismo (Chomsky, 1965) - o aprendizado da linguagem é independente da cognição e de


outras formas de aprendizagem. Existe uma gramática universal (GU), inata no ser humano,
composta por princípios (que determinam a estrutura comum a todas as línguas e limitam as
variações entre elas) e por parâmetros (variações possíveis que as línguas podem ter). Nessa
perspectiva, a criança teria um dispositivo de aquisição da linguagem (DAL) inato que é ativado e
trabalha a partir de sentenças (input), gerando a gramática da língua à qual a criança está
exposta.
b) Construtivismo - o mecanismo responsável pela aquisição da linguagem também é
responsável por outras capacidades cognitivas (percepção, categorização,
reconhecimento/identificação, etc). O construtivismo tem o viés cognitivista e o interacionista:

- Construtivismo cognitivista (Piaget): a linguagem é vinculada à cognição e a fonte do


conhecimento está na ação sobre o ambiente.

Estágios de desenvolvimento:

 Sensório-motor (0 a 18 meses): exercícios reflexos, primeiros hábitos, coordenação entre


vis ão e apreensão, busca de objetos desaparecidos
 Pré-operatório (2 a 7 anos): função simbólica, organizações representativas
 Operações concretas (7 a 12 anos): reorganização do pensamento, realização de
operações mentais, distinção entre o real e a fantasia, maior concentração na execução de
tarefas
 Operações formais (12 a 15 anos): esboço de pensamento abstrato, lógico e formal;
produção de raciocínio hipotético-dedutivo; definição de conceitos e valores e
desenvolvimento da própria identidade

Problema: a passagem pelas fases não é uniforme

- Construtivismo interacionista (Vygotsky): o desenvolvimento da fala segue os mesmos


princípios do desenvolvimento de outras operações mentais; há uma função social na fala, de
forma que o somatório LÍNGUA + PENSAMENTO + SOCIEDADE seja considerado fundamental
para o desenvolvimento da linguagem.

Estágios de desenvolvimento:

 Natural ou primitivo
 Psicologia ingênua: a criança experimenta as propriedades físicas do seu corpo e dos
objetos, aplicando essa experiência ao uso de instrumentos
 Signos exteriores: as operações externas são usadas para auxiliar as operações internas
 Crescimento interior (interiorização)

Funções psicológicas superiores (mecanismos intencionais, mas não inatos): capacidade de


planejamento, imaginação, simbolização complexa e memória voluntária.

 A linguagem como um signo de mediação entre os homens.

II. A visão do Sociocognitivismo: COMO AS CRIANÇAS APRENDEM PALAVRAS?

Contrariando duas perspectivas teóricas muito difundidas – a do inatismo gerativista


(Chomsky, 1960), que defende a gramática universal como base para o processo de aquisição e a
baseada nos princípios de associação e indução (Skinner, 1957), Tomasello (2003) acredita que a
criança tem à sua disposição mecanismos de aprendizagem mais poderosos do que a associação
e a indução, além de afirmar que a competência linguística não pode ser vista com um nível
central e outro periférico, uma vez que ela deve ser baseada no uso e não em princípios somente.

Ainda sobre a competência linguística, o antropólogo/linguista mostra-nos que, na teoria


baseada no uso, ela consiste no conhecimento profundo de itens e estruturas (parte mais
complexa e diversificada das representações linguísticas); a dimensão gramatical da linguagem
seria um produto de processos históricos e ontogenéticos criados na coletividade
(gramaticalização). Assim, fica evidente que não há ‘níveis’ linguísticos, mas eixos que funcionam
colaborativamente para o desenvolvimento da linguagem.
Também importa salientar que o autor enfatiza os elementos prévios para a aquisição plena
da linguagem. Os comportamentos de leitura intencional listados pelo autor, ocorridos entre os 9 e
12 meses de idade da criança, são bases para a definição da dimensão simbólica/funcional da
comunicação linguística:

a) habilidade para chamar atenção de outras pessoas para objetos e eventos de mútuo
interesse;
b) habilidade para dar atenção e gesticular para outras pessoas em relação a objetos e
eventos distantes da interação imediata;
c) habilidade para dirigir ativamente a atenção para outros objetos distantes, apontando,
mostrando e usando gestos não-linguísticos;
d) habilidade para, culturalmente (por imitação), aprender ações intencionais de outros,
incluindo seus atos comunicativos.

A leitura intencional não capacita exatamente para a comunicação linguística, mas permite
uma variedade de habilidades e práticas culturais, que emergem cedo no desenvolvimento
humano, sendo pré-linguísticas:

a) habilidade para formar categorias conceptuais de objetos e eventos similares;


b) habilidade para formar esquemas sensório-motores a partir de padrões recorrentes de
percepção e ação;
c) habilidade para realizar análises distribucionais baseadas em vários tipos de sequências
perceptuais e comportamentais;
d) habilidade para criar analogias através de duas ou mais totalidades complexas, baseada
nos papéis funcionais similares de alguns elementos dentro dessas totalidades.

Essas últimas habilidades são necessárias para a criança encontrar padrões no modo
como os adultos utilizam os símbolos linguísticos, e construir as dimensões gramaticais
(abstratas) da competência linguística.

Tomasello defende que não existe uma ‘ordem’ de aprendizagem a ser seguida, no sentido
de que a criança pode aprender tanto construções baseadas no item quanto construções mais
abstratas, pois o processo de aquisição deve ser visto holisticamente. Tal asserção é justificada
pelo fato de que as habilidades cognitivas e sociais de aprendizagem que são subjacentes à
aquisição da linguagem são muito mais poderosas do que se previa e o que se considerava o
‘ponto máximo adulto’ da aquisição não passa de um inventário estruturado de construções
linguísticas mais ou menos familiares à criança.

É certo que a criança começa a adquirir a linguagem quando começa a desenvolver


habilidades mais fundamentais de atenção conjunta, leitura intencional e aprendizagem cultural
(emergidas no fim do primeiro ano de vida). Mas na fase pré-linguística não existe ainda a noção
de ‘dizer algo’, não há a compreensão do símbolo linguístico e do seu funcionamento.

Símbolos linguísticos são distintos dos signos comunicativos primatas pelos seguintes
aspectos: a) são aprendidos socialmente (por imitação); b) porque são aprendidos assim, ocorre
intersubjetividade (um aprende com o outro); c) são utilizados em expressões referenciais (relação
triádica); d) são utilizados declarativamente; e) são fundamentalmente perspectivais.

A partir dos 9-12 meses, a criança aprende comportamentos triádicos, isto é, interage com
o adulto e o objeto da cena conjunta. Essa relação é formadora do frame de atenção conjunta,
uma das três manifestações importantes para a aquisição da linguagem – as outras duas são a
compreensão de intenções comunicativas e a aprendizagem cultural na imitação por inversão de
papéis.

As primeiras expressões linguísticas da criança são aprendidas e usadas no contexto de


prioridade comunicativa, geralmente de forma declarativa e imperativa; quer dizer, a criança faz
uso de ritualizações (estender os braços para pedir colo, por exemplo), gestos dêiticos (apontar
um passarinho para mostrar ao adulto) e gestos simbólicos (abrir os braços imitando um avião). A
partir daí, holofrases começam a fazer parte do vocabulário infantil; são expressões que contêm
uma intenção comunicativa não diferenciada, como um todo, podendo ser mais convencionais e
estáveis.

As holofrases cumprem o papel comunicativo de atos de fala básicos em cenas salientes


da experiência da criança, em que a função primordial será requerer, indicar, descrever, localizar
objetos, eventos (dinâmicos ou não) e ações de pessoas, além de atribuir propriedades e usar
performativos para marcar situações e eventos sociais específicos.

Nos primeiros anos, a criança aprende a se comunicar simbolicamente a partir de


expressões linguísticas convencionais ligadas a cenas importantes de sua vida. Mais tarde, suas
expressões refletem componentes salientes de outras mais complexas, usadas por adultos
nessas cenas; o que se percebe é que, a partir das relações triádicas, da leitura intencional e da
aprendizagem cultural, a criança especializa sua linguagem.

As habilidades de categorização e aprendizagem estatística são utilizadas para o


desenvolvimento gramatical. Nesse processo, a criança realiza dois feitos simultâneos: a) extrai
das construções palavras, morfemas e outros itens para identificar o trabalho comunicativo que
esses elementos estão realizando na construção como um todo; b) observa padrões por trás das
construções, ou parte delas, com estrutura e função similares, que a permitem criar construções e
categorias mais ou menos abstratas.

As primeiras palavras que a criança aprende e utiliza inclui a maioria das palavras da
linguagem adulta: nomes próprios, nomes comuns, pronomes, verbos, adjetivos, advérbios,
preposições; as exceções são partes menores de palavras que são menos salientes fonológica e
semanticamente, como artigos, conjunções e verbos auxiliares.

Em suma, a aprendizagem de palavras envolve a cooperação de diferentes processos


sócio-cognitivos: a) processos de pré-requisito (fala segmentada, referentes conceptualizados); b)
processos de base/fundacionais (atenção conjunta, leitura intencional, aprendizagem cultural); c)
processos facilitativos (contraste lexical, contexto linguístico).

Quanto às construções sintáticas, o autor afirma que “a criança pode aprender a usar
construções complexas de forma produtiva e apropriada somente observando eventos no mundo
e se atentando para discernir a intenção comunicativa do falante diante desses eventos com um
determinado padrão de símbolos linguísticos” (p. 94). O conceito de construção utilizado por
Tomasello diz respeito à uma unidade da linguagem que compreende múltiplos elementos
linguísticos usados conjuntamente para uma função comunicativa.

Segundo o autor, a criança aprende o que escuta; uma criança ouve diferentemente de
outra e também em quantidades diferentes. Por isso, não se pode afirmar que a aquisição da
linguagem é desenvolvida pelo ambiente linguístico, mas é o ambiente linguístico que provê a
‘matéria-prima’ para cada criança construir seu inventário linguístico.

Outro processo interessante no desenvolvimento da linguagem da criança diz respeito aos


esquemas de articulação. Esse processo é descrito assim: por volta dos 18 meses, a criança
combina duas palavras ou holofrases em situações nas quais seu uso é relevante (ambas as
palavras possuem o mesmo status semântico). No mesmo período, as produções com mais
palavras apresentam um padrão mais sistemático, formando o primeiro tipo de abstração
linguística – uma palavra ou frase que estrutura a construção, determinando a função do ato de
fala como um todo (apoio no contorno entonacional). A partir daí, muitas construções do tipo
‘palavra-evento’ são usadas com rótulos variados de objetos (mais leite, mais suco...) ou com
pronomes e outra expressão genérica.

Resumidamente, a natureza das representações linguísticas subjacentes ao ‘domínio’ de


construções sintáticas envolve os estágios citados acima; são altamente concretas e relacionadas
a frases e palavras individuais em padrões apreendidos através da fala adulta. Mas ainda não há
maturação suficiente na criança pequena para fazer generalizações graduais; o que ela faz é
esquematizar uma construção linguística que gire em torno de partes concretas da linguagem.
III. Quadro sinótico das principais teorias

TEORIA AUTOR/ES PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS

Behaviorismo Skinner  Treino

 Estímulo / resposta: a aprendizagem vem


do meio

 Hábito

 Erro: inaceitável

 Processo mecânico

 Imitação

Inatismo Chomsky  “Aprendizagem” nata

 Primeiro a aceitar o erro

Sociointeracionismo Vygotsky  Interação

 Relação recíproca com o meio

 Eixos colaborativos para o


desenvolvimento da linguagem
Sociocognitivismo Tomasello
 Cenas de atenção conjunta

 Ambiente linguístico como matéria-prima


para o inventário de palavras

Referências:

GOMES, D.M. Teorias de aquisição da linguagem (Introdução à Linguística). Instituto de Letras,


Universidade de Brasília.

KUPSKE, F.F. A aquisição da linguagem à luz de um paradigma teórico de cognição. Revista


Littera Online, Número 04 - 2011. Departamento de Letras (Universidade Federal do Maranhão).

TOMASELLO, M. Constructing a language. London: Harvard University Press, 2003.

Você também pode gostar