Você está na página 1de 13

RELAÇÕES RACIAIS

Referências técnicas para a


atuação de psicólogas (os)
Conselho Federal de Psicologia. Conselhos Regionais de
Psicologia. CREPOP. Brasília: CFP (2017).
Psicologia Jurídica - GETUSSP - Janeiro 2022
Profa. Mestra Ludmila Carvalho
profaludmilapsico@gmail.com
Apresentação
Uma das respostas do Sistema Conselhos de Psicologia às
demandas do movimento negro para “a produção de teorias e
que contribuam com a superação do racismo, do preconceito e
das diferentes formas discriminação”.

Ações de reafirmação da Declaração Universal de Direitos


Humanos, do Código de Ética de Psicólogos e Psicólogas e,
especialmente, da Resolução CFP nº 18/2002, que estabelece

“normas de atuação para as(os) psicólogas(os) em relação a


preconceito e discriminação racial.”
Introdução
• Tornar-se negro: as vicissitudes da DEFINIÇÃO DE RACISMO
identidade do negro em ascensão
social (Neusa Santos Souza, 1983), é uma ideologia de abrangência
inaugura o debate contemporâneo e ampla, complexa, sistêmica,
analítico sobre racismo no Brasil, violenta, que penetra e participa da
identidade negra e sofrimento
psíquico.
cultura, da política, da economia, da
ética,..., enfim, da vida subjetiva,
• Psicologia social do racismo: estudos vincular, social e institucional das
sobre branquitude e branqueamento
no Brasil (Iray Carone e Maria pessoas. Trata-se de uma estratégia
Aparecida Silva Bento, org., 2002) - de dominação que estrutura a
virada teórico-epistemológica na nação e cada um de nós e é pautada
compreensão das desigualdades
raciais no Brasil ao colocar em cena o na presunção de que existem raças
branco e a branquitude. superiores e inferiores
Introdução
• À Psicologia cabe contribuir para o desmantelamento
dessa modalidade de dominação.
• Sistema Conselhos, sindicatos, universidades de
Psicologia e psicólogas(os): ajudar a pensá-la, denunciá-
la e a colaborar com o desvelamento de mecanismos
sociais e subjetivos que a legitimam, o que exige a
realização de ações em todos os âmbitos possíveis.
• Práticas a serem realizadas no campo e na cidade, na
rua e nos serviços públicos (jurídico, de saúde, de
educação, de cultura, de trabalho etc.), no consultório
particular, na pesquisa e ao lado do Movimento Negro.
Eixo 1: Dimensão Histórica, conceitual, ideológico-política da
temática racial
Contextualizar quais são os principais Impossível desvincular
processos sócio-históricos, teórico-
culturais, jurídico-políticos que indivíduo e sociedade 
construíram a sociedade brasileira e concepção de que o sujeito
caracterizam suas desigualdades
raciais. é necessariamente social
1.1 Do escravismo ao racismo
• Brasil - Maior país escravista dos tempos modernos, o último a abolir a
escravidão
• Negros e negras arquitetaram formas diversas de resistência e busca de
liberdade
• Elite (incluindo o governo) duas estratégias articuladas:
– a importação e a adaptação de teorias racistas elaboradas na Europa
– a imigração maciça de brancos europeus.
1.2 Teorias Racistas e Racismo

Do ponto de vista científico teorias acerca do racismo foram


elaboradas a partir do século XIX (positivismo, ao evolucionismo social
e ao darwinismo social)  racismo científico.
• Duas linhas de pensamento europeu de cunho racista se
sobressaíram no Brasil e no mundo:
– Monogenista: havia grupos humanos que evoluíram mais do que outros
– Poligenistas, a espécie humana se dividiria em subespécies biologicamente
diferentes, em raças com origens distintas, sendo que haveria aquelas
exclusivamente superiores e outras invariavelmente inferiores.

• No Brasil, Sílvio Romero foi um dos principais defensores da


primeira  purificação racial do país por meio da miscigenação
entre negros e brancos, (notadamente, italianos e alemães)
A Redenção de Cam
Modesto Brocos (1895)
1.3 Branqueamento e mito da democracia racial
• Últimas décadas do escravismo - políticas imigratórias incentivavam a vinda principalmente de
alemães e italianos (mais intensas entre 1880 e 1920);
• População imigrante assumiu os postos de trabalho mais valorizados, referentes à indústria
fabril incipiente e à agricultura cafeeira;
• Imensa população negra liberta num processo de competição desigual com mão de obra
imigrante e branca. Sem nenhuma política pública reparadora, após abolição, os(as)
negros(as) foram incluídos de forma excludente no processo produtivo: de maneira geral,
restaram-lhes os afazeres presentes nas regiões rurais economicamente decadentes, as
atividades urbanas desqualificadas e as tarefas propiciadoras de risco de morte ou a própria
morte

Uma das marcas do racismo: retirar o negro do mercado de


trabalho digno.
Por consequência todas as dimensões da vida relacionadas à
mobilidade social e cultural e às condições de saúde (psíquica e
física) da própria pessoa e da sua descendência são golpeadas.
“efeito dominó.”
A partir da década de 1930, o discurso ideológico do embranquecimento foi, em
maior ou menor grau, rearranjado pelo discurso da democracia racial, cujo principal
mentor intelectual foi Gilberto Freyre

• Desde então - imagem oficial do país como um paraíso racial e recriação de


uma história em que a miscigenação apareceria associada a uma herança
portuguesa e a sua suposta tolerância racial manifesta num modelo
escravocrata mais brando, ocultando a violência que foi o processo de
escravização no Brasil
• A abolição da escravatura no Brasil foi transmitida historicamente não como
fruto da luta pela liberdade travada pelos negros(as), nem mesmo como
resultado da pressão imposta pelo sistema capitalista (sobretudo o inglês) mas,
como um presente por parte do grupo dominante.
• A ideia de democracia racial contribuiu (e ainda contribui) para a produção de
representações sobre uma suposta convivência harmoniosa entre brancas(os)
e negras(os), ambos desfrutando de iguais oportunidades de existência.
Racismo
• é um dos principais organizadores das desigualdades materiais
e simbólicas que há no Brasil.
 por meio de
processos econômicos,
• orienta modos de perceber, agir, interagir e pensar e tem
culturais, políticos e
função social específica: a estratificação racial e a perpetuação
psicológicos, os
do privilégio do grupo racial branco
brancos progridem à • perpetua o(a) negro(a) como pobre, subalterno(a), inferior e
custa da população o(a) branco(a) como ideal
negra • coloca em xeque a noção de mérito: não é simplesmente por
esforço pessoal que a população branca ocupa esse lugar, ela o
tem herdado historicamente.

São pressupostos dessa modalidade de dominação:


I. A crença na existência da raça biológica,
II. A predominância do grupo sobre o sujeito,
III. A hierarquia irreversível superiores e inferiores
• Aqui não se discute racismo e, como
defesa psíquica, as pessoas negras (pretas
Escalonamento dentro ou pardas) não apropriadas da temática
do grupo racial branco racial procuram amenizar o sofrimento
vivido na busca do termo identificador da
Escalonamento dentro identidade racial “menos pior”, se negro,
do grupo racial negro pardo, moreno, moreno claro.
É estratégia do racismo dividir e subdividir o
grupo racial negro e tentar estabelecer quem
sofre mais seria impossível tanto quanto Debater sobre o racismo
violento (sofrimento é sofrimento!). é libertador, desata nós e
Pretos(as) acumulam mais barreiras na equívocos semântico-
mobilidade social, são os mais pobres e políticos
desenvolvem os trabalhos considerados
desqualificados
O mito da democracia racial se estabeleceu como
uma imposição política:
a proibição social de se falar em racismo

“Ao se tentar falar ou agir contra essa definição


pode-se incorrer em custos políticos e sociais
elevados. Um desses custos é a sempre repetida
acusação de se tentar importar um problema que
inexiste na sociedade brasileira”

Você também pode gostar