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não conheço ninguém

que não seja artista

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não conheço ninguém
que não seja artista

poemas de Ana Guadalupe


fotografias de Camila Svenson

CONFEITARIA
apresentação

Existe algo além do que se lê em um bom poema. Existe algo além


do que se vê em uma boa fotografia. Palavras e imagens servem
como ponte para uma experiência que as extrapola, embora ape-
nas possível através delas.

Neste livro, o segundo da Confeitaria, convidamos a poeta Ana


Guadalupe e a fotógrafa Camila Svenson para a seguinte proposta:
Ana escreveria dez poemas e Camila faria dez fotografias, ambos
inéditos. Em seguida, as autoras trocariam o material. A partir
daí, Ana criaria outros dez poemas que dialogassem com as fotos
entregues por Camila, e Camila faria o percurso inverso com os
poemas de Ana.

O resultado é uma coletânea de vinte poesias e vinte fotografias


que se complementam e acrescentam camadas de sentido umas às
outras, com pontos de partida alternados: ora poesia, ora imagem.
A ideia é estabelecer uma relação entre palavra e imagem, uma
conversa para além do que se vê e do que se lê.

Embora as autoras tenham enfoques bastante particulares, há


uma singeleza em ambas que garante a sintonia do conjunto. Os
poemas com temas improváveis da Ana. As fotografias com temas
familiares da Camila. Universos que se misturam e fundem.

Espero que os leitores deste livro se envolvam por essa estranheza


familiar do mesmo modo como eu me deixei ao editá-lo.

Fabiane Secches
Editora
não conheço ninguém
que não seja artista
dicas & conselhos

com os conselhos espontâneos


que venho colecionando há trinta anos
construo um monumento
ou melhor
construo bela lápide decorada
espere um momento
alguém acaba de recomendar
a confecção de um pôster com frases de amor e gentileza

é preciso se acostumar a receber palpites e dicas


é evidente que o outro sempre fala muito mais de si
do que de você
é normal não se lembrar da última vez
que alguém apareceu oferecendo de graça
uma cadeira
caneta ou
calça jeans

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amigos demais nas redes sociais

a pessoa que cultiva amigos demais


amgs d+
inspira inevitável desconfiança
é provável que marque encontros com setenta
deles na lanchonete ao mesmo tempo
para tornar o processo mais rápido
os olhos esbugalhados nas fotos

amigos demais nas redes sociais II

amizade na infância é útil


há tempo de sobra e a casa
do amigo talvez tenha mais brinquedos
pais mais equilibrados biscoito recheado

anos depois manter um amigo


pode determinar uma agenda difícil
aborrecimento com seus novos discursos
fotos em exagero de frente pro mar

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aproveitar a vida

sem saber o que vai acontecer


daqui a duas ou três semanas
fica difícil aproveitar a vida

ir ao café com amigos


olhar o cardápio sem medo
rir comendo bolo

esquecer centenas de doenças


tragédias das mais terríveis
cenários perigosos pra qualquer hora

a enorme lista de opções oferecidas


pelo mistério ou pelo acaso
é mais imaginativa no que pode
dar errado

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por amor recuso sua herança

percebo que talvez seja amor como dizem


do tipo mais sincero que até evitaria
quando a hipótese da sua morte me atinge

o vislumbre da tempestade carregando seu corpo rua abaixo


as cenas fortes da UTI móvel chegando tarde por um segundo
na volta do trabalho o SMS derradeiro

antes festejei a imagem do acidente de outros


a herança silenciosa em acessórios, livros, toalhas de banho
um computador confesso bastante interessante

hoje todo espólio parece pequeno e fútil


hoje espero o contrário:
que meu amor sugue minha longevidade
e se necessário use com um novo alguém
os meus objetos

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todo dia podia ser férias

as pequenas férias dentro dos dias


consolam e acalmam nos intervalos
mas são as férias inteiras que desejamos
o verdadeiro imenso descanso intenso
o longo descanso tão lento
a não confundir apenas com a morte
que por enquanto não queremos

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o esquecimento

o esquecimento
que conceito
uma bênção
um gênio
que traça enorme e trabalhadora desintegrando as coisas

a essa altura os mais doces traumas já não dá pra manter


as primeiras paixões dolorosas são pares de óculos escuros
estilo surfista
os desejos de corpinho frágil naturalmente levados
as afetações quase gírias que já não se usa

que bom
que amor
um advento
a invenção de todos os séculos
o esquecimento

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acordar cedo

quando o dia começa muito cedo


as memórias se comportam
como objetos diabólicos
que não esperam o dono
chegar cansado do emprego
e voam pela sala perigosos
e se quebram só em trechos difíceis de notar
e giram em perfeito espacate
e fazem música naturalmente macabra
antes de voltarem ao lugar

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estratégias para gostar

não é possível gostar


das mesmas pessoas todos os dias
por isso é recomendável ter armas
e métodos de ternura
ou perdão
como preferir

alguém cuja redenção possível é o medo


de práticas esportivas ou mariposas
às vezes o caminho é resgatar
uma aptidão ou habilidade
demonstrada antes
e adequada só agora

como aquele dia em que você fez uma imitação


do silvio santos ou do chaves ou seu personagem preferido
ou quando consegui te impressionar com argumentos

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seção “sobre mim”

entre meus medos e receios


está um futuro de visitas a lan houses
com um caderno de capa colorida nas mãos
provavelmente recheado de poesia e listas de compras
a caligrafia trêmula em trechos melados de comida

constam também incertezas diante do corpo humano


o valor do aluguel e a generosidade entre amigos
a transformação de todos nós em pessoas melhores
a possibilidade de manter por décadas os mesmos conflitos
só então percebo a mesa chacoalhando

noto que não deixei minha companhia falar o bastante


que inclusive cortei 80% de suas frases
até mesmo uma confissão sobre nosso relacionamento
peço que agora fale sobre sua vida e prometo silêncio
para que assim eu possa sentir certo alívio

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quem é você na web

a internet é tema perigoso e delicado


quero descrevê-la na folha
mostrar que domino seus ícones
jogar emojis na tela
para impressionar o leitor
dialogar com o novo
é tudo o que posso fazer nesta idade e momento

retratar o ciberespaço
os links
os tweets
os gifs
os menes
os dollynhos
os e-mails
os bits
os bytes
os pop-ups
os atalhos
os dingbats
os cd-roms
enquanto me atrevo a fazer isso
envelheço 44 anos num segundo
os símbolos se autodestroem
deletando minha autoironia coerente
apenas com o ano de 2014
o que resta é uma senhora cardíaca
tentando pintar de roxo e aumentar a fonte

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azar tecnológico

o azar tecnológico
se manifesta quando todo aparelho
se desmancha ao toque

com apitos e pequenas sirenes


o aparato mostra que já não tem força
mas hoje não se usa a palavra tilt

quem sofre de azar tecnológico


não encontra alívio
nem mesmo na internet

até o rádio-relógio engana


e de repente é muito tarde
pra reaver a sorte
pra fazer qualquer coisa

a não ser as preferidas dos nossos antepassados

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quem lê viaja

viajar pra quê


se tem na internet
se já tiraram foto pra você
se é impossível guardar na memória
por mais de 3 anos

se o lugar não volta nas malas


se haverá gastos e cansaço
se me causará despeito

se 80% das pessoas


descreverão todos os países
em poucas palavras
e você poderá usá-las
sem esforço
no conforto de casa

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saudade mínima

às vezes sinto sua falta


mas a impressão passa
antes que de fato falte qualquer coisa
por exemplo uma faca sobre a mesa

às vezes sinto um pouco de saudade sua


uma peça pequena de saudade, é verdade
mas o despertador toca na mesma hora
chego antes no ponto de táxi

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masterchef

no sonho o fim do mundo


chegava como passeio obrigatório de tobogã
e o final era a morte por afogamento

no primeiro episódio morri


você também
tudo bem

no segundo já conhecia o enredo


dessa vez decidi partir nos braços
do participante mais bonito

de um reality show culinário

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no hospital

esperando o pronto atendimento


somos cinquenta pacientes no salão
somos mais amistosos que a média
mas onde estarão as enfermeiras a esta hora
a senhora ao meu lado espera há cinco
alguém respira pesado
de repente saio daqui também com gripe
não sei se é o jeito mais generoso de pensar
me perdoem de antemão
me pergunto se todos ficarão bem
se também estão aqui só pelo antibiótico
se pudessem evitariam essas pessoas
o médico afirmou que vou morrer de infecção urinária
que preciso mudar meus hábitos com urgência
meu estilo de vida
não sei a que hábitos ele se referia
ser uma mulher jovem com infecções urinárias
ter vagina uretra beber pouca água
usar calça apertada gostar de poesia
pagar um plano de saúde mais em conta
cujo nome carrega a palavra bronze
nem ouro nem prata

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sonhando junto

quando duas pessoas dormem juntas


uma se mexendo pode parecer um terremoto pra outra
a outra sonhando pode ser aventura pra primeira
o conteúdo do que falamos toda noite se renova

pode envolver legumes, frutas, frangos


laços afetivos trocados só pra confundir
manifestos herméticos
protestos variados
mensagens do diabo

quando uma pessoa dorme a outra acompanha


porque é gentil demais ou porque sofre reação química
o ronco meio sopro
o espasmo de cachorro
o que significa

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caminhão baú

mudar de cidade ainda


é o caminho mais eficiente
pra fingir ou ser uma pessoa melhor
arrumar o currículo e a postura
sem ninguém por perto pra revelar
que antes você nem sempre
se sentia tão bem

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porto seguro

se eu tivesse
um parente
com dois imóveis na cidade
estaria morando
com alguma culpa mas tranquilamente
nesses imóveis
estaria dormindo alto
nesses imóveis
e não tentando pagar cinco mil reais por ano
para uma empresa que finja
sentir o carinho do parente
que não tenho

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não conheço ninguém que não seja artista

a arte produzida por quem não conhecemos


guarda especial mistério
mas a arte produzida por você mesmo
em segredo provavelmente é a sua preferida

(sinta-se à vontade para customizar esta página


caso haja urgência de produzir sua arte
antes do término da leitura)

o objeto de arte criado por um amigo,


irmão ou vizinho é o pior de todos:
próximo demais para consumir tempo
distante o bastante pra causar desconforto
diante do enorme mundinho pessoal desse amigo
como é que eu não tinha notado isso
em nossos encontros

no entanto quem não produz arte


não cola lantejoulas em folha nenhuma
nunca acorda com inquietações criativas
e sabe conversar muito bem

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leito de morte

cada vez que uma pessoa


mostra a outra um constrangimento
a sensação se multiplica como doença
por exemplo juca, marquinhos, carol e talita
contagiados guardam meus constrangimentos mais graves
isso talvez não faça diferença em suas vidas
mas na minha sim um pouco

na terceira idade
planejo olhar pra trás e fazer as contas
narrar aos netos entediados
quantas foram as memórias envolvidas

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sobre as autoras

Ana Guadalupe nasceu em 1985, em Londrina, estudou


letras na Universidade Estadual de Maringá e hoje mora
em São Paulo. Seus poemas já foram publicados no Brasil,
Espanha, Chile, México e Estados Unidos, em antologias
como “Otra Línea de Fuego”, “101 Poetas Paranaenses” e
“Cityscapes”. Em 2011, publicou “Relógio de Pulso”, pela
7Letras.

Camila Svenson nasceu em 1989, em Campinas, estudou


audiovisual no SENAC e fotografia na Escola Panameri-
cana de Artes e Design. Hoje mora em Nova York, onde é
aluna do programa de Fotojornalismo e Fotografia Docu-
mental do International Center of Photography. Seu traba-
lho, voltado para a fotografia documental, explora a relação
entre memória, espaços e as histórias que todos temos para
contar.

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sumário

dicas & conselhos 10


amigos demais nas redes sociais 12
aproveitar a vida 14
por amor recuso sua herança 16
todo dia podia ser férias 18
o esquecimento 20
acordar cedo 22
estratégias para gostar 24
seção “sobre mim” 26
quem é você na web 28
azar tecnológico 30
quem lê viaja 32
saudade mínima 34
masterchef 36
no hospital 38
sonhando junto 40
caminhão baú 42
porto seguro 44
não conheço ninguém que não seja artista 46
leito de morte 48

sobre as autoras 51
© 2015 Editora Confeitaria
© 2015 Ana Guadalupe
© 2015 Camila Svenson

Coordenação Editorial
Fabiane Secches

Revisão
Juliana Cunha
Thiago Blumenthal

Projeto Gráfico
Thiago Thomé

2015 | Editora Confeitaria


falecom@confeitariamag.com

1ª edição

Índice para Catálogo Sistemático

1. Poemas : Literatura Independente :


Literatura Brasileira : Fotografia : Arte

Impressão Vida e Consciência


Tiragem 300

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