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CURSO INTRODUTÓRIO AO

PROJETO CIENTÍFICO DE VIGOTSKI

Módulo I
Indícios da história do trabalho
social de Vigotski
[ Primeira parte ]

Pelo Coletivo Eras e Dias


Brasil, 17 de janeiro de 2017
[ 2a versão revisada ]

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Conteúdos

Primeira parte: por uma orientação crítica à abordagem histórica do


trabalho social de Vigotski ......................................................................................... 03

1 Exploração incompleta de fontes secundárias e primárias de indícios da


história do trabalho de Vigotski .................................................................................... 05
1.1 Fontes secundárias diversas.................................................................................. 05
1.1.1 Estudiosos “não marxistas” em história da psicologia, com acesso a fontes
primárias em russo .......................................................................................................... 05
1.1.2 Editores marxistas soviéticos das “Obras Escolhidas” de Vigotski .............. 09
1.1.3 Estudioso “marxista” com grande acesso a fontes documentais e orais em
russo .................................................................................................................................. 10
1.1.4 Estudiosa “marxista” em psicologia e “personalista”(?) em história ............ 11
1.1.5 Historiadora “não marxista” em coautoria com psicóloga “não marxista” . 11
1.1.6 Outras: Alguém cita exemplos de outras fontes desse gênero? ..................... 12
1.2 Traduções de fontes primárias ............................................................................ 12
1.2.1 Todas as traduções de obras Vigotski a que temos acesso, em português ... 12
1.2.2 Todas as traduções de obras de Vigotski a que temos acesso, em outras
línguas: inglês, espanhol, francês, etc. .......................................................................... 13
1.2.3 Tradução de cartas de Vigotski a colegas e alunos........................................... 14
1.2.4 Tradução de documento oficial da URSS ......................................................... 15
1.2.5 Outras: Alguém cita exemplos de outras fontes desse gênero? ..................... 15
1.3 Fontes primárias de acesso público ................................................................... 15
1.3.1 As próprias obras de Vigotski, em russo ........................................................... 15
1.3.2 Cartas de Vigotski a colegas e alunos, em russo ............................................... 16
1.3.3 Documento oficial da URSS................................................................................ 16
1.3.4 Outras: Alguém cita exemplos de outras fontes desse gênero? ..................... 16
1.4 Fontes primárias de acesso restrito .................................................................... 16
Tudo que há apenas nos arquivos da família de Vigotski......................................... 16

2 Algumas dificuldades enfrentadas pelo pesquisador diante das fontes


históricas disponíveis ......................................................................................................... 19

3 Ensaio para crítica de dispositivos semânticos ideológicos do gênero


“mítico” em visões conservadoras de história e historiografia ........................... 23
3.1 Mito da história oriunda de uma “fundação”................................................. 27
Exemplos paradigmáticos e contrapontos marxistas ................................................ 27
Em que isso perpassa narrativas sobre o trabalho de Vigotski? .............................. 28
3.1.1 “Vigotski teria fundado a concepção de que a gênese do psiquismo humano é
social” ............................................................................................................................... 28
3.1.2 “Vigotski é marxista sem influências de outras fontes, exceto em período

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juvenil depois superado” ............................................................................................... 29
3.1.3 “Sob comando de Vigotski uma troika indissolúvel desenvolve a concepção
fundada” ........................................................................................................................... 33
3.1.4 “A ‘troika vigotskiana’ funda a ‘teoria histórico-cultural’, donde a
denominação ‘Psicologia histórico-cultural’” ............................................................. 35
3.2 Mito da história feita por “grandes homens” ................................................. 37
Exemplos paradigmáticos e contrapontos marxistas ................................................ 37
Em que isso perpassa narrativas sobre o trabalho de Vigotski? .............................. 38
3.3 O mito da história como “discurso neutro/ciência exata”........................ 42
Exemplos paradigmáticos e contrapontos marxistas ................................................ 42
Em que isso perpassa narrativas sobre o trabalho de Vigotski? .............................. 48

4 Considerações para a continuidade dos estudos......................................... 54


5 Referências...................................................................................................................... 56

Segunda parte: Esboço de uma periodização dinâmica da história do


trabalho de Vigotski.
Será tratada em formato para web: www.ced-br.net/period_lsv/index.html

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PRIMEIRA PARTE

Por uma orientação crítica à nossa abordagem à


história do trabalho social de Vigotski

No dia 09 de novembro de 2016, quarta-feira, iniciou-se trabalho


sobre a parte “1” do Módulo I de nosso curso introdutório,
quando ainda havia apenas uma turma. Nesta ocasião, foram
expostos critérios, que nomeamos “críticos” ou “metodológicos”,
para nossa abordagem aos indícios, que temos à disposição, da
história do trabalho social do autor por estudar. Por falta de tempo
dos participantes para leituras anteriores e por grande demanda de
tempo do Coletivo Eras e Dias caso se fosse redigir textos
personalizados para cada encontro, optamos por iniciar com
exposição oral do professor responsável. A qual partiu de estrutura
pré-definida com três tópicos da mesma temática, que foram
apresentados em idas e vindas, com vários exemplos.

Fizemos o que alguns chamariam de aula “expositivo-dialogada”.


Porém, talvez pela complexidade ou ineditismo do tema para
alguns e tempo exíguo para perguntas e esclarecimentos, houve
incompreensões importantes. As quais precisamos desfazer para ir
adiante. Por esta razão, a aula foi toda refeita neste material escrito.
Para que não fique por dito algo que não pensamos, ou pensamos
exatamente ao contrário. Não por o que pensamos estar isento a
críticas ou livre de erros. Mas por ser necessário estabelecer se a
crítica é ao nosso entendimento ou ao que se imaginou ser nosso
entendimento. Alguém discorda de que assim fica melhor? Desta
vez, dividiremos a tarefa em três subitens da mesma “primeira
parte”. Vejamos na próxima página:

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1 Exploração incompleta de fontes secundárias e primárias para
coleta de indícios da história1 do trabalho de Vigotski.
2 Algumas dificuldades enfrentadas pelo pesquisador diante das fontes
históricas disponíveis.
3 Ensaio para crítica de dispositivos semânticos ideológicos do gênero
“mítico” em visões conservadoras de história e historiografia2.

Essas questões são aparentemente simples e poderiam ser pauta


vencida desde a primeira exposição no tempo de um encontro.
Mas se não estiverem bem posicionadas entre nós, poderão
dificultar inclusive o estabelecimento de divergências internas
saudáveis, claras e legítimas, em busca de superação coletiva. Que
permitam o desenvolvimento de todos, tanto dos participantes
quanto do professor responsável. É o nosso intento com este
breve material, que aqui submetemos à vossa crítica. Aguardando
sugestões de correção e solicitações de esclarecimento pertinentes
ao nosso objeto neste curso.

Coletivo Eras e Dias.


Brasil, 06 de janeiro de 2017.

1 História: entendida como processo material efetivo, contraditório e multideterminado,


o qual não pode ser reproduzido descritivamente pelo historiador em sua totalidade. Mas
reconstituído conceitualmente através de documentação presente no acervo cultural da
humanidade à qual tenhamos acesso. O que demanda não só apresentação de inventários
de fontes empiricamente descritíveis ou mensuráveis, como método interpretativo que
permita a maior criticidade possível. Evidentemente, a história do ponto de vista de um
historiador marxista, e.g. Eric Hobsbawm (1994/1995) será compreendida e explicada
mediante método distinto que o de um historiador estruturalista, e.g. Michel Foucault
(1966/2000).
2 Historiografia: entendida como tarefa social do historiador.

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1 Exploração incompleta de fontes secundárias e primárias de
indícios da história do trabalho de Vigotski

Exceto por sugestões que nos sejam dadas pelos participantes,


digamos que os indícios que nos permitem uma reconstituição da
história do trabalho social de Vigotski podem provir de fontes
documentais de diferentes gêneros: (1.1) fontes secundárias
diversas; (1.2) traduções de fontes primárias; (1.3) fontes primárias
de acesso público; (1.4) fontes primárias de acesso restrito. Para
cada gênero desses, serão elencados alguns “subgêneros” com
respectivos exemplos, logo em seguida. Não foi feito nenhum
“levantamento” para esse tópico. Trata-se, salvo duas sugestões de
colegas, só daquilo conhecido pelo Coletivo Eras e Dias, por
leitura, completa ou parcial, já feita dos materiais, ao longo dos
anos. “Levantamentos bibliográficos” de títulos sobre o assunto,
sabendo apenas índice, ou resumo dos mesmos, fica à necessidade
de cada participante, caso seu objeto seja história da psicologia.

1.1 Fontes secundárias diversas:

1.1.1 Estudiosos “não marxistas” em história da psicologia, com


acesso a fontes primárias em russo3
Exemplos:
1980: KARL LEVITIN (nacionalidade não identificada): “One is not born

3Trata-se de fontes históricas que não constam dentre as obras psicológicas originais,
nem em documentos originais contendo informações demográficas, decretos, registros
sobre instituições pré e pós-revolucionárias, etc. Citaremos autores secundários que
escreveram as obras mais volumosas e mais densas sobre o percurso do pensamento de
Vigotski (que consideramos “autor primário”), das quais temos conhecimento.

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a personality: a biographical history of soviet psychology” (cf. Levitin,
19804)
– Faz estudo biográfico de vários autores: Vigotski, Leontiev, Luria e
Messhtieriákov, recorrendo, principalmente no caso de Vigotski a
várias entrevistas sobre sua importância para a psicologia, inclusive a
Semion Dobkin, seu amigo próximo desde a adolescência. Como este
curso introdutório é sobre o projeto científico de Vigotski, e nosso
trabalho se direciona a ele há décadas, não podemos nos detalhar
outras perspectivas e projetos inacabados soviéticos como os de
Rubinshtein, Elkonin, Galperin, Bojóvitch, Zaporójets, Basov, etc.

1984: ALEX KOZULIN (russo): “Psychology in utopia: toward a social


history of soviet psychology” (cf. Kozulin, 1984)
– Inclui: Vigotski, Pavlov, Bassin e outros.

1984: ANGEL RIVIÈRE (espanhol?) La psicología de Vygotski: sobre


la larga proyección de una corta biografía. (cf. Rivière, 1984).
– Material sugerido por pessoa em contato com o curso. Solicitamos
seus comentários, mas não recebemos. Pelo índice, há uma mescla de
discussão histórica com conceitos tradicionais, mais conhecidos, de
Vigotski. Citamos o que explicitamente se refere à história: (a) notas
biográficas: o período de formação; (b) a psicologia soviética nos anos
vinte; (c) a União Soviética nos primeiros anos trinta e algumas críticas
a Vigotski; (d) as críticas a Vigotski no período de largo silêncio na
psicologia soviética. Se os títulos são confiáveis as partes “c” e “d” nos
são de maior interesse: que críticas seriam essas?

1985: JAMES V. WERTSCH (americano): “Vygotsky and the Social


formation of mind” (cf. Wertsch, 1985)
– Primeiro capítulo com muitos dados biográficos até então pouco
conhecidos, e os demais com boa sistematização teórica que também
remete ao contexto histórico em que se produziu. Destaca-se sua
compreensão da originalidade do legado de Vigotski em ser uma

4 A referência bibliográfica completa para cada exemplo dado será registrada na seção
referências, ao final do presente volume.

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síntese original entra a psicologia e os estudos da linguagem de seu
tempo e a metodologia marxista.

1988: JAAN VALSINER (estoniano): “Developmental psychology in


Soviet Union” (cf. Valsiner, 1988)
– Inclui Vigotski, Basov, Estonianos, Letonianos, Georgianos e
outros. É um livro interessante, porque mostra o caráter social da
busca por uma visão genética (desenvolvimentista) dos processos
psíquicos propriamente humanos, não só por Vigotski, mas em outros
psicólogos na Rússia e também em outras repúblicas socialistas
soviéticas.

1990: ALEX KOZULIN (russo): “Vygotsky: a biography of ideas”


(cf. Kozulin, 1990)
– É formado por capítulos dedicados a obras marcantes de Vigotski,
desde aquela sobre tragédia de Hamlet até a coletânea “Pensamento e
linguagem”, passando pela discussão sobre a “Crise da psicologia”. Um
capítulo especial chamado “Mind in trouble” não trata de obra
específica, mas aborda temas de defectologia e psicopatologia (bastante
útil para iniciantes ao tema, ligando a teoria geral às deficiências e
psicopatias).

1991: JAAN VALSINER (estoniano) e RENÉ van der VEER


(holandês): “Understanding Vygotsky: a quest for synthesis”5 (cf.
Valsiner and van der Veer, 1991)
– Não é, exatamente, um livro “a quatro mãos”. Introdução, capítulos
2, 6, 8, 12 e epílogo (6 partes), foram escritos por Valsiner. Capítulos

5 Destacamos que a mudança do título em português, para fins comerciais, gerou certa
antipatia. Pois em português “Vygotsky: uma síntese”, pode soar como pretensão de
esgotar toda obra de Vigotski. Porém, como mostra a introdução, quem tem vida e obra
definidas como “busca por síntese” é Vigotski. Ou seja, buscava uma síntese dialética
superadora para as grandes correntes em choque na “crise da psicologia”. Síntese que
projetou e não realizou, em psicologia unificada que teria como ciência geral
(metodologia da ciência) a dialética. Sendo a dialética do humano seu objeto. É abaixo
da crítica avaliar livros com base só em títulos, ou nomes de autores. Pior ainda é rejeitá-
los e censurá-los sem nunca os termos lido”. Mas pode haver propagandas de editoras
que ao academicista gerem aversão. Facilitando sua rotulação a quem, talvez, não se dê
ao trabalho de passar da capa, para saber o título original ou ler uma apresentação.

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1, 3, 4, 5, 7, 9, 10, 11, 13, 14, 15 e 16 (12 partes) foram escritos por van
der Veer. Embora tenha havido interferências mútuas no resultado
final, cada autor difere quanto ao estilo e ao método de análise. O
trabalho segue ordem cronológica, mas foca temáticas, não obras
específicas, como Kozulin (1990). Entendemos que sua contribuição
está na descrição detalhada do que Vigotski diz sobre vários temas, por
vezes citando obras raras. As interpretações que dão sobre isto deixam
a desejar, mas ocupam espaço reduzido em cada capítulo.

1999: VERESOV (russo): “Undiscovered Vygotsky: etudes on the


prehistory of cultural-historical psychology” (cf. Veresov, 1999)
– Trabalho de bastante profundidade sobre o período do trabalho de
Vigotski anterior à chamada “teoria histórico-cultural”. Isso inclui
desde suas influências na infância e adolescência até a produção do
longo manuscrito depois publicado como “O sentido histórico da crise
da psicologia”, o qual Veresov considera um trabalho de transição
entre o antigo modelo reflexológico e a “teoria histórico-cultural”. A
proposta do autor, não temos certeza se atingida, seria mostrar as
motivações de Vigotski para se voltar aos temas que abordava em cada
momento histórico. Seguindo a orientação do mesmo de que só se
pode entender um enunciado se conhecemos seus motivos. Nesse
sentido é o trabalho mais qualificado dentre os que lemos até o
momento. Porém circunscreve-se ao período anterior a 1928.

2007: RENÉ van der VEER (holandês): “Lev Vygotsky” (cf. Veer,
2007)
– Material sugerido por pessoa em contato com o curso. Solicitamos
comentários, mas não recebemos. Pelo índice, os títulos das três partes
(para 7 capítulos) são autoexplicativos: “Parte 1 – Biografia intelectual”
(p. 11-31); “Parte 2 – Exposição crítica do trabalho de Vigotski” (p.
33-110); “Parte 3 – A recepção, influência e relevância do trabalho de
Vigotski hoje” (p. 111-141). Não está na pauta do CED ler este
material. Não nos foi informado se traz algo novo para o objeto deste
módulo: a história do trabalho social de Vigotski. Sobre isso há apenas
20 páginas. Fica a sugestão de que, quem tenha interesse e tempo,
confronte-o com as fontes já apresentadas. Para a crítica de Vigotski,
preferimos ler o próprio, sob critérios internos à sua obra – dialético-

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materialistas. Mas, para quem tem tempo e interesse, fica o registro de
que existe.

1.1.2 Editores marxistas soviéticos6 das “Obras Escolhidas” de


Vigotski
Exemplos:
1982-1984: Artigo de apresentação geral às “Obras” e posfácios a cada
um dos seis tomos (cf. Vigotski, 1982a, 1982b, 1983a, 1982b, 1983a,
1983b).
– Tomo I: A. N. Leontiev (artigo de apresentação); M. G. Iaroshevski
e G. S. Gurguenidze (posfácio).
– Tomo II: A. R. Luria (posfácio).
– Tomo III: A. M. Matiushkin (posfácio).
– Tomo IV: D. B. Elkonin (posfácio).
– Tomo V: E. S. Bein; P. E. Vlasova, R. E. Levina, N. G. Morozova,
J. I. Shif (posfácio).
– Tomo VI: M. G. Iaroshevski (posfácio).

1982-1984: Múltiplas notas explicativas a cada um dos seis tomos (Cf.


Vigotski, 1982a, 1982b, 1983a, 1982b, 1983a, 1983b)
– Estas notas não têm seus autores identificados. Deduzimos que
sejam de autoria de vários estudiosos, lembrando que temos A. V.
Zaporójets como editor principal das obras, e Guita Vigodskaia no
corpo editorial, entre outros.

6 É quase redundância dizer “marxistas soviéticos”, não havia psicologia na URSS que
não se declarasse “marxista”. Fosse por desejo de criar uma ciência nova ou por temor
de perseguição política. Tanto que em manuscrito de 1926-27, só publicado em 1981,
intitulado “Sentido histórico da crise da psicologia”, Vigotski já advertia para que o termo
“marxismo” era muito importante para ser usado de qualquer maneira. E dizer, naquele
momento, “psicologia marxista” não era suficiente. Mas, manteremos “marxistas”, pois
seriam, até onde sabemos, pesquisadores soviéticos quiçá mais próximos de dar algum
conteúdo científico à palavra. Ou mais próximos de Vigotski, de algum modo.

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1.1.3 Estudioso “marxista”7 com grande acesso a fontes
documentais e orais em russo:
Exemplo:
1984: GUILLERMO BLANK (argentino): “Vida y obra de Vigotski” (cf.
Blank, 1984a).
– Longo texto biográfico sobre Vigotski muito parecido com o
publicado por Wertsch (1985), no primeiro capítulo de seu livro
mencionado anteriormente. Não podemos imputar plágio, pois não
nos interessou fazer análise comparativa “forense” dos dois materiais.
Contudo, Wertsch faz agradecimento explícito a Blank em seu livro, e
do movimento recíproco não nos recordamos. Seja como for, entenda-
se que que houve cooperação científica entre ambos e, possivelmente,
partilha de materiais documentais.

2001: GUILLERMO BLANK (argentino): “Prefácio: para ler a psicologia


pedagógica de Vigotski” (cf. Blank, 2001/2003) e “notas” ao mesmo
livro.
– Prefácio e um total de 310 notas explicativas distribuídas em todo
livro “Psicologia Pedagógica” ao final do prólogo escrito por Vigotski
e de cada um dos 19 capítulos do livro. No Brasil, a edição argentina,
contendo o material, foi traduzida pela Artmed (Vigotski, 1924/2003).
Tais notas estão repletas de informações históricas bastante incomuns,
algumas de caráter mais objetivo sobre instituições, obras e autores
pouco conhecidos, outras narrando acontecimentos idiossincráticos da
biografia de Vigotski pelo acesso pessoal de Blank a Guita L’vovna
Vigodskaia (1925-2010), ainda viva quando de sua pesquisa.

7 “Marxista”, entre aspas, porque é difícil sermos categóricos sobre o envolvimento


politico e epistemológico do autor com o marxismo. Sem contar que o termo designa
pensadores de orientações não só diversas como até antagônicas. Mas em publicação
bem anterior (Blank, 1984b), ele já divulgava textos de Vigotski em seu país, além de
artigos de estudiosos discutindo questões epistemológicas do campo marxista. Outros
psicólogos argentinos como Mario Golder e Marta Shuare também contribuíram. Só para
mencionar os que sabemos terem aprendido russo e estado na União Soviética, para
estudos formais ou missões científicas eventuais. É evidente que não são “antimarxistas”
como outros que estudaram Vigotski em língua original. Embora, em profundidade e
abrangência historiográfica, seus trabalhos, que pudemos ler, deixam a desejar frente
àqueles. Sempre sugerimos ler a todos parar avaliar com conhecimento de causa.

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1.1.4 Estudiosa “marxista” em psicologia e “personalista”(?)8
em história:
Exemplo:
1990:9 MARTA SHUARE (argentina): “La psicología soviética tal
como yo la veo” (cf. Shuare, 1990)
– Com bom acesso a fontes primárias, i.e., em língua russa, a autora
recupera o percurso histórico da elaboração dos principais conceitos
da psicologia soviética, sobretudo relacionados a autores como
Vigotski, Luria e Leontiev. Além disso, talvez o mais rico no livro,
temos mais de 100 páginas de entrevistas concedidas à autora por
psicólogos soviéticos em atividade no final dos anos oitenta. A leitura
das mesmas aponta problemas inacessíveis nas fontes comuns no
mercado editorial brasileiro, e mesmo noutras citadas aqui. Para nós, o
mais notável é que a principal crítica de vários deles à psicologia
soviética é que sempre foi muito acadêmica, ou melhor, forte no
campo teórico, mas quase sem expressão na prática social. Cita-se, por
exemplo, que iniciativas mais próximas da prática como a pedologia e
a psicotécnica foram descartadas ou postas em segundo plano.

1.1.5 Historiadora “não marxista” em coautoria com psicóloga


“não marxista”
Exemplo:
1996:10 GUITA VIGODSKAIA (psicóloga russa, filha de Vigotski) e

8 É paradoxal que uma autora que destaca princípios metodológicos marxistas na


psicologia soviética nomeie sua própria tarefa como historiadora de modo tão “pessoal”.
Dizendo tratar do seu objeto “como ela o vê”. Entendemos ser atitude honesta, uma vez
que sempre há um recorte por parte do autor e um só nunca vê o todo. Mas isso marcado
já no título dá também impressão de revindicar certa “isenção”: “é assim que vejo, sem
confronto com como outros veem”.
9A publicação do trabalho data de 1990, mas as entrevistas realizadas são de alguns anos
antes, já no período Gorbatchiov, próximo à dissolução da URSS.
10O ano da primeira edição deste livro, como se vê, já conta cinco anos após a dissolução
da União Soviética – 1991. Ou seja, tal publicação já ocorre num cenário em que não há
mais socialismo na Rússia.

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TAMARA LIFANOVA (historiadora russa): “Lev Semionovich
Vigotski: jizn, deiatelnost’, chtrikhi k portretu”11 (cf. Vigodskaia e
Lifanova, 1996)
– Contém muitas informações objetivas sobre formação e trabalho de
Vigotski, relatos de pessoas que o conheceram, os da própria filha,
entre outros materiais, como cartas de Vigotski a seu amigo biólogo A.
V. Vagner. Além de prefácio abertamente anticomunista de V. P.
Zíntchenko. O trabalho está organizado do seguinte modo: Parte 1 –
vida e trabalhos; Parte 2 – Através dos olhos de outros; Parte 3 –
Através dos olhos da filha; Epílogo; Apêndice – História de uma
correspondência.12

1.1.6 Outras: Alguém cita exemplos de outras fontes desse gênero?

1.2 Traduções13 de fontes primárias

1.2.1 Todas as traduções de obras Vigotski a que temos acesso,


em português
Exemplo:
1984-2010: Nesse período 31 títulos de Vigotski foram publicados em

11 Tradução nossa: “L. S. Vigotski: vida, atividade, esboços para um retrato”.


12Uma versão em inglês deste livro foi publicada particionada em quatro volumes da
revista de traduções de textos russos “Journal of Russian and East European
Psychology”. Tal periódico e “substituto” atual da antiga “Soviet Psychology”. No Brasil,
temos coleções dos volumes físicos das edições sob os dois títulos. Tanto na UnB,
quanto na USP de Ribeirão Preto (cf. Vygodskaia e Lifanova, 1996/1999a; 1996/ 1999b;
1996/1999c; 1996/1999d).
13 Não consideramos “traduções” exatamente “fontes primárias”, por sua redação
sempre envolver questões de interpretação. E até dificuldades do tradutor com a
linguagem científica pela qual a língua de destino trata os termos, entre outros problemas.
Um tradutor pode saber muito bem língua russa e traduzir mal Vigotski por não ter
qualquer domínio de conceitos psicológicos ou de história da psicologia. Outro pode ter
profundidade na língua de origem, mas focar sua interpretação por um viés de sua
própria teorização em outra área como a pedagogia. E assim por diante. Digamos que
traduções sejam gênero discursivo intermediário entre fontes secundárias e primárias.

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português, distribuídos em 18 volumes diferentes14 (cf. CED, 2016)
– São obras traduzidas à nossa língua, partindo do inglês, do espanhol e,
apenas a partir de 1999, do russo.

1.2.2 Todas as traduções de obras de Vigotski a que temos


acesso, em outras línguas: inglês, espanhol, francês, etc.
Vários anos: Pelo menos desde os anos 30 do século passado se tinha
publicações de Vigotski em inglês, como o seu trabalho sobre “O
pensamento na esquizofrenia” (cf. Vygotsky, 1931/1995)
– Não listaremos todos os títulos a que tivemos acesso. Apenas notamos
que, além do russo, a língua em que nosso coletivo mais encontrou
publicações de Vigotski é o inglês, seguida pelo espanhol. Temos tradução
ao italiano de texto que até o momento não encontramos senão em russo
“Instrução e do desenvolvimento na idade pré-escolar” (Vygotskij,
1935/1993). Há ainda texto apresentado em francês na “VI Conferencia
Internacional de Psicotecnia” na cidade de Barcelona, em 1930, intitulado
“O problema das funções intelectuais superiores no sistema de pesquisas
psicotécnicas” (Vigotski, 1930/1985), até onde sabemos também só
existente em russo além do francês. Não foi nossa prioridade montar
acervo de traduções para além daquelas para o inglês e o espanhol, exceto
não havendo nessas línguas nem em português. Posto que análises
comparativas entre inglês e alemão, espanhol e francês, português e
italiano, etc., seriam trabalho extenuante e inócuo. De todo modo, a lista
de títulos traduzidos nesse caso conteria bem mais que os 31 títulos em
português de 1984 a 2010. Até porque contemplaria, dentre os presentes
nas “Obras escolhidas”, vários nunca publicados no Brasil. Exceto
traduções para fins didáticos, como feitas por psicólogos do Paraná, as
quais não contam oficialmente como publicações.

14 Alguém pode nos ajudar citando o que mais houve depois, que nunca tenha sido
publicado logo em seguida, além de um artigo de 6 páginas traduzido do russo pelo grupo
de Marta Khol de Oliveira? Algo que não seja reimpressão? Zoia Prestes divulgou em
2012 que publicaria algumas traduções de textos que já temos em português, mas que
traduzidas por ela ficariam melhores, talvez. Mas não acompanhamos isso, pois nos
detivemos em acervo coletivo já acumulado, em português, espanhol, inglês, francês e
russo - sendo que muitos textos se repetem.

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1.2.3 Traduções de cartas de Vigotski a colegas e alunos
Exemplos:
1926-1933: VIGOTSKI “Cartas para alunos e colegas” (cf.
Vygotsky, 1926-33/2007)
– Para L. S. Sakharov. Khimki, 15 de fevereiro de 1926.
– Para A. R. Luria. Sanatório Zakhar`ino, 5 de março de 1926.
– Para A. R. Luria. Estação Perlovka, 26 de julho de 1927.
– Para G. I. Sakharova. 17 de junho de 1928.
– Para a Piatiorka (os cinco15). Tashkent, 15 de abril de 1929.
– Para A. N. Leontiev. Tashkent, 15 de abril de 1929.
– Para A. R. Luria. Tashkent, 14-18 de (?) de 1929.
– Para A. R. Luria. Antes de 5 de maio de 1929.
– Para A. N. Leontiev. Moscou, 2 de julho de 1929.
– Para A. N. Leontiev. Moscou, 23 de julho de 1929.
– Para N. G. Morozova. 7 de abril de 1930
– Para N. G. Morozova. Zoológico Izmailovo, 29 de julho de 1930.
– Para A. N. Leontiev. Zoológico Izmailovo, 31 de julho de 1930.
– Para N. G. Morozova. 19 de agosto de 1930.
– Para A. R. Luria. Moscou, 1 de junho de 1931.
– Para A. R. Luria. Moscou, 12 de junho de 1931.
– Para R. E. Levina. 16 de junho de 1931.
– Para A. R. Luria. 20 de junho de 1931.
– Para A. R. Luria. 11 de julho de 1931.
– Para A. R. Luria. Estação Iartsevo, 1 de agosto de 1931.
– Para A. N. Leontiev. Estação Iartsevo, 1 de agosto de 1931.
– Para A. R. Luria. 26 de junho de 1932.
– Para A. R. Luria. Iartsevo, 13 de julho de 1932.
– Para A. R. Luria. Iartsevo, 17 de agosto de 1932.
– Para A. R. Luria. 29 de março de 1933.
– Para A. N. Leontiev. Taininskaia, 2 de agosto de 1933.
– Para A. R. Luria. Moscou, 21 de novembro de 1933.
– Para A. N. Leontiev. 10 de maio de 1934.

1928-1935: Cartas cartões postais de Vigotski e depois de Roza S.


Vigotskaia, para o biólogo V. A. Vagner e sua esposa Mariia A.
Vagner (cf. Vigodskaia e Lifanova, 1996/1999d)
– São 37 documentos, 34 tendo Vigotski como remetente. Os três últimos

15Lidiia Il’initchna Bojóvitch (1908-1981), Roza Evgen’evna Levina (1909-1989),


Nataliia Grigor’evna Morozova (1906-1989), Liia Solomonovna Slavina (1906-1986), e
Aleksandr Vladimirovitch Zaporojets (1905-1981).

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são duas cartas com Roza S. Vigotskaia como remente para V. A. Vagner e
sua esposa M. A. Vagner; e uma única carta de Vagner para Vigotski, sem
data.

1.2.4 Tradução de documento oficial da URSS


O decreto de 1936 do Narkompros16 contra os erros pedológicos
– Encontram-se duas versões em português: uma traduzida do espanhol
(cf. Teixeira, 2005); outra traduzida do russo (cf. Prestes, 2010)

1.2.5 Outras: Alguém cita exemplos de outras fontes desse gênero?

1.3 Fontes primárias de acesso público

1.3.1 As próprias obras de Vigotski em russo


Exemplos:
1917-1934: VIGOTSKI. 178 obras originais de Vigotski em russo17
– Disponíveis em http://www.ced-br.net

16 “Narodnii komissariat prosveshtcheniia” - Comissariado do Povo para Educação


[Ilustração]. A palavra “educação”, se entendida no sentido de “escolarização” não
abrange o significado russo do termo “prosveshtchenie” (просвещение), uma vez que
também pode ser traduzido como “ilustração” ou “esclarecimento”, entre outras. O
interessante de se destacar é que estavam sob as atribuições de tal comissariado tanto as
políticas para escolarização e desenvolvimento da ciência, quanto a responsabilidade por
museus, bibliotecas, seus acervos, teatros, cinemas e editoras.
17 Tomamos as obras publicadas de Vigotski por “primárias” com a “licença jurídica” de
que “todos são inocentes até que se prove o contrário”. Mas “primárias” mesmo, no sentido mais
rigoroso do termo, seriam apenas os próprios manuscritos. Supondo que um perito em
grafologia pudesse comprovar que todos são com caligrafia de demais documentos
atribuídos a alguém chamado Vigotski, etc., etc. Pois como saber o que depende do
editor ou não, sem análises textuais comparativas? Pese-se ainda que vários textos foram
editados a partir de atas taquigráficas de palestras de Vigotski e publicados após sua
morte. Alguns já em 1935 mesmo, antes do decreto contra a pedologia que pôs Vigotski
“no gelo” por 20 anos, de 1936 a 1956 – veja-se o problema do “mito da história como ciência
exata” (p. 42 deste material).

15 de 60
1.3.2 Cartas de Vigotski a colegas e alunos, em russo

Exemplo:
1926-1933: VIGOTSKI. Pis’ma k utchenikam i soratnikam. (cf.
Vigotski, 1926-33/2004)
– São as 28 cartas de Vigotski, em russo, a alunos e colegas, em 2007
publicadas em inglês, como exposto anteriormente. Nós as separaremos
por destinatário e ficarão públicas no site do coletivo, junto aos demais
materiais originais deste autor, livres de direitos autorais.

1.3.3 Documento oficial da URSS.


Exemplo:
– 1936: Resolução CC do PCR (b) [Comitê Central do Partido Comunista
da Rússia (bolchevique)], de 4 de junho de 1936. Sobre as deturpações
pedológicas no sistema do Narkompros. Disponível na Wikipédia em
língua russa.

1.3.4 Outras: Alguém cita exemplos de outras fontes desse gênero?

1.4 Fontes primárias de acesso restrito18

Tudo que há apenas nos arquivos da família de Vigotski.


Exemplos:
1913: Um manuscrito mais longo, da adolescência, sobre o “Livro do
Eclesiastes” (Antigo Testamento).
1926-27: Todas as partes do manuscrito “Sentido histórico da crise da
psicologia” que não foram publicadas nem mesmo no Tomo I das
“Obras”.

18Exceto para o casal Elena E. Kravtsova e Guennadii Grigor’evitch Kravtsov (filha e


genro de Guita Vigodskaia) e Ekaterina Zavershneva, pesquisadora russa que trabalhou
na sistematização e decifração do material. Temos correspondência e relação cordial com
Zavershneva, mas ela não pode transmitir muitas informações sobre as publicações, não
só por sigilo, mas porque realmente não tem previsões precisas, e não deseja gerar falsas
expectativas.

16 de 60
-– Há artigos de Zavershneva (2009/2012) e Zavershneva e Ossipov
(2010/2012), em inglês, sobre as possíveis diferenças entre o que foi
publicado e o que deixou de ser publicado, mas não há publicação do
trabalho na íntegra.
1931 (aprox.): Todo o manuscrito de “História do Desenvolvimento das
Funções Psíquicas superiores”.
-– Não sabemos dizer quanto ficou de fora do tomo III, que deu a
público 15 capítulos, pois não tivemos acesso a esta informação.
S.data: Anotações a todo livro “Ética” de Espinosa.
Data indefinida: “Cadernos de conversações clínicas com pacientes
na Clínica de Don”.
-– É raríssimo Vigotski citar algo, mesmo muito abreviado, dos casos
reais com os quais trabalhou em clínica pedológica, por exemplo –
podemos lembrar duas narrativas curtas que localizamos: “três crianças
com mãe alcoolista”; “o menino epileptoide”. E um estudo de caso
mais detalhado: “dois pacientes com doença de Pick”.
S.data: Múltiplos manuscritos, fichas, anotações esquemáticas e
abreviadas.
-– Havia grande escassez de papel na URSS no período. Quanto mais
o tempo passava, Vigotski escrevia de modo mais “codificado”.
Abreviando palavras inteiras com apenas uma letra, por exemplo. Pode
supor-se a pressa por consciência da iminência do agravamento fatal
de sua doença. Por outro lado, como poderia imaginar que, de forma
tão condensada, outra pessoa entenderia, além dele, caso vivesse mais
tempo? É um problema não passível de avaliação objetiva, nem talvez
seja relevante para a análise científica do legado. O fato é que há muito
material, digamos, de períodos avançados da trajetória do autor que
demandam cuidadoso trabalho exegético para sua “decodificação”. E
que, sendo tão abreviados, podem conter bastante conteúdo em pouco
volume. Exemplo não tão extremo disso são as anotações publicadas
em 1986 na URSS como “Psicologia concreta do homem” (Vigotski,
1929/1986; 1929/2000) sob edição de Andrei Puzirei.

São os temas que nos chamaram mais atenção quanto à possível


publicação russa das “Obras Completas”, em 15 tomos (ou mais),
divulgada por internet entre 2008 e 2009. Mas que não teve
nenhum tomo lançado na Rússia até hoje, que saibamos. Cogita-

17 de 60
se que talvez se publique primeiro em inglês começando em 2017,
pela editora Springer (informação oficiosa).

18 de 60
2 Algumas dificuldades enfrentadas pelo pesquisador diante
as fontes históricas disponíveis.

Na seção anterior, citamos possíveis fontes de “indícios” para o


estudo da história do trabalho social de Vigotski na produção
inacabada de seu projeto de “psicologia científica”, ou seja,
“marxista”. Mas, diante desse incompleto quadro descritivo, cabe
tecermos comentários adicionais. Em primeiro lugar, as fontes
primárias mais próximas de garantir “fidelidade” documental
sobre como “realmente” Vigotski trabalhou, são inacessíveis para
nós. Isso mesmo se soubéssemos russo tão bem quanto português.
Exceto registros de congressos do PC-URSS e documentos
oficiais de seu Comitê Central e dos Comissariados do Povo para
diferentes áreas de ação do Estado Soviético, preservados e
acessíveis a qualquer pessoa. E tudo sobre a URSS mantido em
arquivos históricos russos de acesso livre ao público estrangeiro.
Materiais que já pudessem ser vistos antes do fim da KGB 19 e
implantação do FSB20, ou só abertos desde então.21

Sigla para “Komitet Gosudarstvennoi Bezopasnosti” – Comitê Estatal de Segurança.


19
Na prática, foi uma agência de inteligência com campo de ação internacional.
20 Sigla abreviada para “Federal'naia Slujba Bezopasnosti (Rossiiskoi Federatsii)” –
Serviço Federal de Segurança (da Federação Russa). Em tese, suas atividades seriam
restritas a “assuntos internos”. Ainda não nos informamos sobre a existência de agência
de inteligência russa que se incumba de assuntos internacionais.
21No Brasil, um tempo após o fim do regime militar, divulgou-se na grande imprensa, a
abertura de arquivos da ditatura para o público. Mas é impossível saber quanto foi a
público, e quanto permaneceu em níveis “reservado”, “sigiloso”, “confidencial”,
“secreto” e “ultrassecreto”. Sobretudo quanto à ação de corporações militares e seus
serviços de inteligência. É difícil avaliar quanto foi destruído na iminência de ser
mostrado a qualquer cidadão brasileiro. Seria ingênuo pensar que na transição da URSS
para a conjuntura atual, tudo que era restrito se tornou de acesso público internacional.
Mas algo deve haver em arquivos e museus que se possa investigar, que não seja
propriedade privada de uma família, com a dos descendentes de Vigotski.

19 de 60
Porém, qualquer material em russo que possa ser visto e/ou
fotografado por estrangeiros, só seria alcançado com verbas para
projeto internacional – havendo quadros dispostos e agências de
fomento favoráveis. Enquanto arquivos de materiais do punho de
Vigotski, não acessamos sequer por digitalização sob pagamento22.
Estes são propriedade da “família de Vigotski”, representada pela
psicóloga Elena Kravtsova – filha de Guita Vigodskaia. Quer nos
agrade ou não, o sobrenome “Vigotski” tornou-se fenômeno de
marketing internacional. Mas, passados mais de 75 anos de sua
morte, a família não pode mais receber “direitos autorais” pelos
originais. Digamos que toda manutenção e edição dos arquivos
para publicação, talvez só obteria “retorno” das vendas da primeira
publicação de cada tomo, caso uma editora russa o fizesse. Uma
vez adquirido, cada tomo poderia ser digitalizado, ter material
editorial23 suprimido, e distribuídos gratuitamente pela internet24.
O que talvez fosse um entrave a novas edições ou reimpressões.25

22Como é possível solicitar, por exemplo, digitalizações de periódicos do final da década


de 20 do século passado à Biblioteca Nacional Russa em São Petersburgo.
23Sobre notas, prefácios, posfácios, glossários, etc., incidem direitos autorais, por serem
produzidos pelos organizadores. Por isso geralmente, e-books piratas das obras de
Vigotski retiram esse material. O que não deixa de ser uma perda para a leitora e o leitor,
pois, no caso das “Obras” em 6 tomos, são muito bem feitos e ajudam bastante a ter
uma visão de conjunto.
24 Trabalho muitíssimo desgastante ao qual nosso coletivo, por orientação tática, não se
prestaria. Até porque nem mesmo as poucas publicações brasileiras existentes foram
lidas na totalidade ainda pela grande maioria dos interessados nas contribuições do autor.
Realizar tamanho esforço seria devolver aos russos para que possam ler gratuitamente.
Nos seria mais aprazível, e nos pouparia tempo precioso para outros trabalhos mais
importantes, obter oficialmente cada exemplar que viesse a ser publicado. Mas não há,
em russo, tal possibilidade, ainda. Talvez pelos motivos que estamos expondo.
25As obras em seis tomos em russo e em cinco tomos em espanhol já existem assim, em
formatos amadores de e-book em diferentes sites na internet. Em russo se disponibiliza
inclusive os materiais editoriais, em forma de cópias símiles completas das obras
originalmente publicadas entre 1982 e 1984. São fotocópias digitalizadas com suporte de
OCR (reconhecimento óptico de caracteres). Do ponto de vista de quem é “proprietário”

20 de 60
Além da dificuldade de acesso às fontes primárias para uma história
do trabalho social de Vigotski, temos reservas teóricas quanto às
fontes secundárias mais qualificadas que conhecemos. Visto não
serem cientificamente numa orientação marxista em psicologia ou
historiografia. Nem todas consideramos “antimarxistas”. Wertsch,
por exemplo, assume o marxismo como eixo teórico estruturante
no trabalho de Vigotski, assim como os estudos da linguagem e a
psicologia de seu tempo. Já van der Veer, não esconde antipatia à
experiência soviética, enfatizando fatos lamentáveis e omitindo
avanços sociais que existiram. Mas mesmo neste caso, entendemos
que tais fontes possuem valor técnico. Por reportarem dados
objetivos pouco conhecidos e trechos de obras jamais publicadas,
sequer em inglês. Para estudos de mais fôlego, é necessário nos
apropriarmos da documentação, mesmo que alguns autores sejam
infelizes ao interpreta-la. Embora não pleiteemos monopólio da
“correta interpretação” de Vigotski, mas avaliar seus conceitos
pelo o critério da prática social. Na linha de Marx ao destacar que
“os filósofos”, e não somente eles, “se limitaram a interpretar o
mundo diferentemente; cabe transformá-lo” (Marx, 1845/1978, p.
53).

Por fim, também cabe cautela com fontes em português que relatam a
história da psicologia soviética, mesmo que numa orientação
teórica marxista26 . Isto é, mesmo com aquelas que atinam com

e visa lucro, isso pode dificultar a publicação do acervo. Caso se transformasse em e-


books amadores as “Obras nunca antes publicadas”, isso sequer seria “crime contra
direitos autorais”, a rigor. Exceto quanto ao material editorial.
26 Mais uma vez cabe alertar para a ausência de homogeneidade para o campo dos teóricos
que hoje podemos nomear como “marxistas”. Uma vez que existem não só diferenças
entre o “Diamat” soviético e o chamado “Marxismo Ocidental”, como também entre os
diferentes autores nesses dois grandes “ramos” da árvore genealógica de teóricos hoje
denominados pelo mesmo termo. De nossa parte, estamos entre aqueles que

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princípios científicos e políticos nos quais temos buscado nos
pautar. Por mais rigor que nós, pesquisadores brasileiros,
tenhamos, enfrentaremos limites: (a) lemos apenas traduções de
textos de Vigotski: “do russo ao espanhol”; “do russo ao inglês”;
“do espanhol ao português”; “do inglês ao português”; e, só desde
1999, “do russo ao português”. (b) lemos apenas traduções de
documentos oficiais do Estado Soviético, ou da historiografia em
russo sobre as décadas iniciais da URSS. Desse modo, a ingrata
lida com fontes históricas, das quais extrair indícios do trabalho de
Vigotski, torna-se tarefa que exige um rigor dobrado: frente as
fragilidades nossas quanto ao acesso ao russo; e frente as
fragilidades de outros quanto ao domínio de categorias da dialética
materialista.

Está claro que, para participantes deste curso ou para os membros


do Coletivo Eras e Dias, tomar a história do trabalho social de
Vigotski como objeto de estudo pode estar longe de nossas
prioridades. Porém, vale alertar para a falta de cientificidade dos
trabalhos que assumem a tarefa sem despender maior esforço.
Tratando-a de modo simplista e formalista, como nos setores
acadêmicos mais conservadores. Melhor serviço se presta à classe
trabalhadora não adentrando esse campo do que o fazendo de
modo leviano.

compreendem que o pensamento de Vigotski veio a se tornar cada vez mais radicalmente
dialético e materialista. E não com os que consideram as leituras de Marx, Engels,
Pekhanov, Trotski, Lenin, entre outros, como algo acidental ou utilizado por mera
conveniência da parte de Vigotski. Porém, sendo nós brasileiros, temos um limite com a
língua original que autores não tão convencidos disso não possuem. Disso a necessidade
de permanente autocrítica, na análise histórica, para não tentarmos forjar narrativas sobre
fatos inexistentes apenas para que confirmem retoricamente nossa avaliação filosófica e
política anterior ao conhecimento da história e da obra.

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3 Ensaio para crítica de dispositivos semânticos ideológicos do
gênero “mítico” em visões conservadoras de história e
historiografia

Tomamos como já explicitado, nas seções anteriores, que o estudo


da história do trabalho social de Vigotski é uma situação
desconfortável e, ao mesmo tempo, desafiadora. Entendemos que
nossa leitura das mais diferentes fontes necessita tomá-las sempre
como algo não tranquilo, mas problemático: não totalmente fiel,
nem totalmente distorcido. Mas, como os próprios conceitos
teóricos que desejamos aprender e/ou aprofundar, elas demandam
alguns critérios para que as possamos assumir como válidas ou não
para o debate científico. Será importante, por exemplo, não nos
deixarmos arrebatar pelo tônica afetiva dos autores que estudam
tal objeto. Seja quando as narrativas carregam tom amargurado-
moralista, enfurecido-iconoclasta, ou quando se apresentam
entusiasmadas-efusivas, ufanistas-panfletárias. Valendo-se de
modos de articular afeto-cognição que ajudam a produzir e
sustentar o que aqui nomearemos “mitos”, na falta de termo mais
preciso. E que poderíamos conceituar mais tecnicamente como
forma peculiar de “enunciado ideológico”27. Nós nos propomos a
tarefa política, científica e educativa de tratar aqui de três
enunciados desta modalidade: (3.1) Mito da história originada de
uma “fundação”; (3.2) Mito da história feita por “grandes
homens”; e (3.3) Mito da história como “discurso neutro/ciência
exata”.

27Tomando “ideologia” no sentido “marxiano” (falseamento da realidade; verdade


parcial apresentada e/ou imposta como universal) e não “gramsciano” (visão de mundo).

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Aos três enunciados tipificados a serem comentados aqui, caberá
igualmente contrapor dois princípios que, na acepção mais geral
do termo, chamaremos de “metodológicos”28. Primeiro: a ênfase no
caráter dinâmico porque contraditório, da realidade histórica. Em oposição
a uma visão romântica da história, como conjunção equilibrada de
forças, cuja harmonia natural só é quebrada por algum tipo de erro,
desordem, ou descumprimento da lei, a serem corrigidos,
contidos, punidos. Segundo: a ênfase no caráter “revolucionário” da
história. Em oposição ao modo positivista de conceber a história,
exclusivamente como “evolução”, “avanço”, ou “progresso”,
buscamos assumi-la como processo que envolve evolução e
involução. Tanto quanto saltos de qualidade revolucionários,
mediante os quais o superado não deixa de coexistir com aquilo
que o supera, mesmo que assumindo outra forma e função. Para
nós, tais princípios nomeiam aspectos da realidade indissociáveis
para uma concepção dialética materialista de história. Pois a
contradição é fundamental, tanto no conflito inerente a cada
momento histórico sincrônico, num “recorte” temporal
específico, quanto no devir de longas eras históricas. Pois o que as
pode objetivamente definir carrega em si toda história humana
anterior, a incorpora por negação, mas não pode aniquilá-la para
que tudo seja “totalmente novo”. Isto abrange a história da
humanidade de modo geral, e nela o que diz respeito à história da
psicologia e do trabalho de Vigotski em particular.

Mesmo que não sejamos historiadores por opção profissional ou

28Talvez lhes pareça pretensioso chamá-los assim. De todo modo, como diz Vigotski,
método se refere aos “caminhos da cognição”. E se tais caminhos são obliterados por
formas mitificadas de pensar, um passo metodológico explicitar riscos que corremos se
não afastamos tais obstáculos ao entendimento crítico (ou seja aquele que toma o objeto
por sua gênese, seu devir contraditório). O que também é meta muito ambiciosa. Mas,
se formos “vigostkianos”, buscaremos fazer com que nossos estudos nos impulsionem
para além de nosso desenvolvimento anterior ao ato de estudar. Não estamos de acordo?

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científica, é nosso propósito que tais critérios para nosso “caminho
de cognição” nos desafiem e municiem no enfrentamento àqueles
“mitos” presentes tanto no senso comum como em setores mais
conservadores em instituições de ensino superior com as quais
tivemos a oportunidade de conviver. Entendemos que a forma de
pensar/sentir que articula tais “enunciados ideológicos” advenha
de, pelo menos, dois modos de enaltecer classes que expropriam
frente as expropriadas. Um sobrevive como resquício de arcaica
ideologia “imperial-aristocrática” – como a de que um império ou
reino surge por ato de “fundação”, “criação”, “unção de um deus”,
etc. O outro tem grande vitalidade desde o advento da moderna
ideologia “nacional-burguesa” – como apologia do sucesso pessoal
de “grande empreendedor” ou “líder carismático”. Mesmo quando
esta é adornada de “multiculturalismo”, mantém o culto ao
indivíduo do liberalismo. E mesmo entre militantes de esquerda
não deixa de ser um vício burguês difícil de abandonarmos, como
quando exaltamos individualmente o que pensamos terem sido
“heróis revolucionários” sem os quais nenhuma transformação
aconteceria.

Tema para uma psicologia das massas, que pode ser tratado, a
qualquer tempo, por quem se disponha, focando, por exemplo, a
formação social da personalidade no seio da luta de classes no
capitalismo contemporâneo. Porém, nosso coletivo não tem ainda
acúmulo para tanto, nem é nosso objeto de discussão neste curso
introdutório. Ora, “como se formam socialmente os modos de
pensar e sentir a realidade humana que nos levam a avaliar de
forma confusa e distorcida quem somos nós mesmos e podemos
vir a ser?” não seria pergunta menor. Mas não é pauta exequível
nesse momento, dadas nossas necessidades de formar uma
compreensão inicial do “projeto de ciência psicológica” que
permita ir a fundo em temas dessa natureza. Os quais aqui

25 de 60
aparecerão apenas em forma mais restrita e abreviada. Por isso,
nossos exemplos limitam-se à história do trabalho de Vigotski,
sem atingirmos toda a raiz da questão sequer quanto à luta de
classes na Rússia e URSS, e de seu embate com o imperialismo
durante décadas de “Guerra Fria”29.

29 Consideramos o termo “Guerra Fria” como um eufemismo por si mesmo contestável.


Mesmo sem embate bélico direto entre URSS e EUA, desde o fim da II Guerra Mundial
até 1991, muitas guerras sangrentas se travaram sob auspícios e para benefício ora de
uma das potências ou de outra. Além dos numerosíssimos de mortos em conflitos
internos durante ditaduras instauradas, por estes dois países e seus aliados ou
subordinados, em vários lugares do mundo.

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3.1 Mito da história oriunda de uma “fundação”

“Mito da fundação”; “fobia para com ‘influências externas’”; “delírio


da ausência de ancestrais estrangeiros”; “apologia da ‘pureza da raça’ ou
‘estirpe’”; “fidelidade à ortodoxia da ‘escola’”; etc.

Exemplos paradigmáticos:

– Mito da fundação de Roma


“Fundadores de Roma não têm ancestrais”
Os “fundadores”, Rômulo e Remo, desconhecem seus pais, são
criados por uma loba.

– Mito da origem helenista de todo saber ocidental


“Tudo começou na Grécia”
Matemática, História e Filosofia, não teriam influências
externas.

– Mito nazista da potência da ‘raça pura’ ariana


“A mistura racial levaria a Alemanha à ruína”
Se apenas os arianos dominassem tudo seria perfeito e seria
“fundada” uma “nova era”, o chamado “terceiro reich”.

Contrapontos marxistas:
– Rubinshtein: Milênios de experiência prática, na lida do homem
com a natureza, precedem o início da filosofia antiga e da ciência
moderna. (Princípios de psicologia geral, vol. 1)

– Brecht: “Quem construiu a Tebas das sete portas? Nos livros


constam os nomes dos reis. Os reis arrastaram os blocos de
pedra?” (Perguntas de um operário que lê)

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Em que isso perpassa narrativas sobre o trabalho de Vigotski?

3.1.1 “Vigotski teria fundado a concepção de que a gênese do psiquismo


humano é social”

A seguir por tal caminho, Vigotski seria um marxista de “raça


pura” que, dominando desde cedo a obra de Marx, a “aplicou” à
psicologia, ciência burguesa por definição e função social.
Transpondo a sexta tese de Marx contra Feuerbach30 para a origem
do psiquismo, teria fundado algo totalmente novo. Porém, há
registros de que discussões sobre a origem social da mente
humana, estavam presentes em diferentes países do ocidente,
naquele momento histórico. Tanto entre “não marxistas”, como
entre “marxistas”. Realizadas por vários autores estudados por
Vigotski e que o influenciaram. No campo não inserido na tradição
marxista houve contribuições de: Pierre Janet (1859-1947) – e.g.
tema da “internalização”; James Mark Baldwin (1861-1964) – e.g.
tema da “imitação”; George Herbert Mead (1863-1931) – e.g. tema
da “linguagem”; entre outros.

No campo claramente marxista, Vigotski se apropriou de obras de


autores russos/soviéticos como Pavel Blonski (1884-1941) e
Mikhail Basov (1892-1931). Tanto quanto de autores
“estrangeiros” como Georges Politzer (1903-1942), e Henry
Wallon (1879-1962), entre outros. Politzer já tratava antes de
Vigotski de temas que este tomou como essenciais, como: “a crise

30 Da qual destacamos o seguinte trecho “a essência humana não é o abstrato residindo


no indivíduo único. Em sua efetividade é o conjunto das relações sociais” (Marx, 1978,
p. 52). De fato, Vigotski, por volta de 1929, em anotações publicadas depois sob título
“Psicologia Concreta do Homem” (Vigotski, 1929/1986; 1929/2000) faz uma paráfrase
impactante a esta tese Marx. Apenas evidenciamos o caráter caricato de uma relação
causal direta, sem mediações, entre o marxismo e o trabalho do autor em psicologia.
Pois, por exemplo, em 1929, o psicólogo já completaria 33 anos de idade e a revolução
bolchevique já faria seu 12o aniversário.

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da psicologia”; “a nova psicologia”; “a psicotécnica”; e “o drama”
– situação social de decisão, cuja composição tensa e conflitiva
permitiria compreender a estrutura da personalidade. Trabalhos
iniciais de Wallon são incorporados por Vigotski em seus textos
pedológicos publicados no Tomo IV de suas “Obras”. Por
exemplo, ao tratar de temas como: a “motricidade de tipo afetivo”
(Vygotski, 1932/2006, p. 286); ou a “investigação sobre o
desenvolvimento na criança das ideias sobre seu próprio corpo”
(Vygotski, 1932/2006, p. 306).

3.1.2 “Vigotski é marxista sem influências de outras fontes, exceto em período


juvenil depois superado”

Nosso coletivo não encontrou, até o momento, obras de Vigotski,


publicadas antes de 192431, em que ele se valha conceitualmente32
do pensamento marxiano ou marxista. Só constatamos isto, numa
das apresentações entre as três feitas ao “II Congresso Pan Russo

31 Sempre que nos referirmos a “publicada em tal ano”, saiba-se que isso não significa
que sua produção já não estivesse em andamento nos anos imediatamente anteriores. O
mais plausível é que sim, apenas não podemos datar com precisão. As datas de
finalização, envio para publicação ou publicação propriamente dita são apenas uma
referência não uma prova ou recorte absoluto no tempo.
32 O que pudemos encontrar mais ligado à temática da Revolução são os seguintes
materiais: “Teatro e revolução” (Vigotski, 1919); “Outubro em poesia” (Vigotski, 1922);
e resenha literária do livro de John Reed “Dez dias que abalaram o mundo” (Vigotski,
1923). Entretanto, mesmo sendo evidente que os temas sejam inseridos no contexto da
Revolução Socialista, não se apresenta para tratar deles uma clara teorização marxista dos
mesmos. Em “Teatro e revolução” critica que o teatro engajado deixou a desejar frente
à revolução, por sua forma óbvia, conservadora. Sem o componente de “mistério”
necessário à verdadeira obra de arte. Em “Dez dias que abalaram o mundo” mostra sua
particular simpatia às narrativas que exaltam a força dos revolucionários anônimos com
sentimento de dever acima da adulação de grandes líderes, como em episódio com
Trotski em apuros para entrar numa reunião sem levar a credencial obrigatória, entre
outros. Embora o tom seja crítico, tanto do ponto de vista estético quanto politico, não
notamos, ainda, uma abordagem dialética materialista aos temas.

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de Neuropsicologia” em janeiro de 1924 em Petrogrado 33
(Vygotski, 1924/1991), em “Psicologia Pedagógica” (Vygotski,
1924/2003), em “Psicologia da Arte” (Vigotski, 1925/1999), em
“Consciência como problema para a psicologia do
comportamento”, ou no prefácio junto com Luria à edição russa
de “Para além do princípio do prazer” de Freud (Vigotski e Luria,
1925/1994). Isso não significa que o “processo de produção”
destes textos não estivesse em curso antes de 1924, sobretudo pelo
envolvimento do autor com a psicologia e a educação em Gomel
(cf. Vigodskaia e Lifanova, 1996/1999a).

Além disso, há relatos de que no tempo de faculdade Vigotski


estudasse Hegel (professor de Marx em sua juventude). Mais
precoce na sua vida é seu interesse pela obra de Espinosa. O
próprio Hegel teria dito “que a modernidade filosófica começa
com Espinosa e que sem ele nenhuma filosofia é possível” (cf.
Chauí, 1995, p. 9). Ademais, o autor da “Ética” é posto pelo
filósofo soviético Evald Ilienkov (1974/1977) entre os precursores
da lógica dialética. Algo também feito, de passagem, por Leandro
Konder (1981/1998, p. 15) no Brasil. Indícios de que a
radicalidade do pensamento dialético de Marx seria fundamental
para Vigotski aprofundar seu percurso intelectual já em
andamento, não apenas para evitar perseguições políticas, como
para muitos camaleões de então.

Porém, fosse Vigotski arrebatado pelo marxismo e o comunismo


desde a adolescência e vida universitária, por que não há registros
de envolver-se com os bolcheviques, nem de que tenha lutado na

33No início de janeiro a cidade ainda era chamada “Petrogrado”, será só após a morte
de V. I. Lenin (em 21 de janeiro de 1924) que passará a ser chamada “Leningrado” em
homenagem ao líder revolucionário. Após o fim da URSS, em 1991, voltou a chamar-se
“São Petersburgo” – nome anterior a “Petrogrado”.

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Revolução de Outubro? Como passou anos em Moscou, não
poderia estar isolado, sem saber do que se conspirava contra o
regime tzarista. Isto pode ser pesquisado caso se tome como
essencial. Mas a própria biografia de Vigotski, em diferentes fontes
às quais tivemos acesso, sugere que sua inclinação tenha sido bem
maior para duelos teóricos que para combates armados Não que
tal falta de engajamento direto torne condenável seu pensamento,
mas não há como afirmar categoricamente pureza política e/ou
científica de Vigotski como “marxista de origem”. Caso assim se
proclamasse seria uma asserção peremptória. Uma forma de evitar
análises mais profundas sobre esta afiliação gradual e driblar o fato
de que Vigotski não pode ter “nascido marxista”, é dizer que depois
de seu período pré-marxista, reviu seus erros e os “superou” pelo
esclarecimento que o marxismo lhe teria trazido. Como que por
uma espécie de “conversão”.

Esta forma recorrente de pensar a biografia de teóricos na história


do marxismo, embora laica no conteúdo, traz uma forma textual
similar à narrativa sobre Saulo de Tarso, judeu que persegue
cristãos, para quem Jesus aparece em luz brilhante, confrontando
seus conceitos errôneos, dos quais se arrepende, mudando de vida.
Não se aplica ao que sabemos de Vigotski, pois sua “iniciação” ao
“marxismo” mostra ter sido gradual, sem iluminação e mudança
brusca de rumo. Contudo, para descartar obras de Vigotski “não
marxistas”, como sua monografia sobre Hamlet (1915-
1916/1999), não é incomum que se a conceba como um “erro
idealista do passado”. Porque após se “converter” rejeitará velhos
e falsos valores e assumirá os novos e verdadeiros. Nesta linha
ideológica inquisitória de “queima de textos profanos”, também
dirá alguém que “Psicologia Pedagógica” (Vygotski, 1924/2003)
não traz conceitos comunistas de educação, mas liberais. Porque
defende a liberdade, o direito de tomada de decisões pelos

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estudantes em seus coletivos. Mas esse “erro grave” de defender
que alunos decidam sobre processos que lhes dizem respeito,
depois teria sido “corrigido”. Pois Vigotski, talvez como Saulo,
“superaria” seus erros do tempo em que estava imerso na
ignorância do verdadeiro caminho da “pedagogia marxista”.

Entretanto, temos que em “Psicologia Pedagógica”, Vigotski, após


longa discussão contra a hipocrisia da moral burguesa, afirma que
“educar significa organizar a vida” (1924/2003, p. 220), não apenas
dizer como ela “deve ser” enquanto se vive o contrário. Em
prefácio a livro de Thorndike se considera que o professor tenha
um papel de “organizador do meio social educativo, o regulador e
controlador da interação deste meio com cada aluno” (Vygotski,
1926/1991, p. 159). Algo que é combatido como redução do papel
do professor a uma atuação menor que a de “mediador” pelos
talvez defensores de uma “conversão” futura do autor.
Sustentariam, quem sabe, que Vigotski, conhecedor do marxismo,
pelo menos desde 1924, só se “converteria” em 1934 ao afirmar
que “o bom ensino se adianta ao desenvolvimento”34, (Vigotski,
1934/1935). Mas em que isso desdiz que a indicação de que caiba
a um professor a tarefa de “organizar o meio social educativo”? É
inconcebível que um meio social organizado intencionalmente

34 Trata-se de enunciado que se tornou quase “palavra de ordem” para educadores


“vigostkianos” no Brasil, talvez nunca posta radicalmente em prática. Sendo uns dos
motivos disso a enorme dificuldade de definir empiricamente a qual “desenvolvimento
mais próximo” o ensino deve conduzir o aluno. Pois se adiantar em demasia não gera
avanço, como “tentar ensinar gramática normativa a uma criança que acaba de aprender
a falar, ou álgebra para aquela que acaba de aprender a contar”. Até porque o
desenvolvimento mais próximo a ser atingido difere para cada criança. E é pouco razoável que
todo professor vá conhecer primeiro os níveis de desenvolvimento real e potencial de
cada criança, estabelecer todas as suas “zonas do desenvolvimento mais próximo”, para
só então efetivar ensino que transforme o potencial em real. É simples e correto dizer
que o professor deve ensinar além do que já é óbvio para os alunos. Mas avaliar o
desenvolvimento já atingido por cada um deles para diferenciar o que já sabem do que
lhes desafia a ir além, não nos parece tão simples.

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gere relação de ensino-aprendizagem que se “adiante ao
desenvolvimento”? Preconceitos podem travar uma compreensão
crítica de história. Pois quem deles não abdica é forçado a dizer
que “a história está errada” para que suas premissas sigam
inquestionáveis e a realidade social imutável.

3.1.3 “Sob comando de Vigotski uma troika indissolúvel desenvolve a


concepção fundada”

Existe um romantismo na narrativa de formação da “troika


vigotskiana”, sem maior base no que encontramos nos próprios
textos de cada autor (Vigotski, Luria e Leontiev), nos anos
seguintes ao seu “amor à primeira vista” no início de 1924 e mais
nitidamente após 1931. Além da genérica aceitação da tarefa
histórica de produzir de uma psicologia científica, isto é, marxista,
já definida em 1923 por Kornilov, basta ler seus textos para notar
que tomam rumos diferentes na explicação do psiquismo.
Sobretudo comparando Vigotski e Leontiev. Luria fica mais
próximo de Vigotski durante o tempo em que este esteve vivo,
mas não leva adiante todas as suas contribuições mais radicais. As
quais ficaram praticamente abandonadas não só durante a
proibição de todas as suas obras até 1956, como mesmo depois de
1982-1984 com a publicação das Obras Escolhidas. De cuja edição
Leontiev e Luria participaram, mas não viveram para verem
impressas, pois Luria morreu em 1977 e Leontiev em 1979.

No nosso entendimento, o fato de o grupo ter divergências não é


demérito nem sinal de fraqueza, mas uma postura própria de que
qualquer coletivo científico. Pois a produção científica exige
debate e autonomia para divergir por parte dos pesquisadores
envolvidos. Aqui incide o “mito da fundação” porque fica a
ideologia da filiação incondicional à origem supostamente comum,

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sem desvios: “Quem não descende dos amamentados pela loba
não são puros representantes do Império Romano”; “Quem não
descende da raça ariana pura não pode ter lugar legítimo no
Terceiro Reich”. O comunismo nunca foi próximo ao nazismo,
mas sempre seu antagonista categórico. Não é totalitário por
essência, nem por programa ou proposta. Se tomou, em dado
momento, essa forma na Rússia cujas tradições imperiais são
milenares, nunca foi porque o marxismo exigisse isso.
Divergências entre autores da psicologia soviética não seriam
motivo de escândalo, se o mito da pureza das teses originais da
“psicologia marxista” não fosse ativado no/pelo discurso de certas
pessoas e instituições soviéticas ou estrangeiras. Em nosso país,
talvez isso ocorra, em parte, por insegurança dos líderes de grupos
de pesquisa frente ao conjunto vasto, porém fragmentário, de
sistemas conceituais que chega até nós, pelas letras daqueles
autores.

Está claro que houve trabalhos de base psicológica comum entre


os três, como a do “método da dupla estimulação”. Vejam os
estudos sobre memória de Leontiev. Enquanto Luria nos estudos
na Ásia Central, também vai se valer, com procedimentos de
investigação diferenciados, da noção de “instrumentos
psicológicos”. Porém naquela forma primária de pensar a
significação, pelo modelo S-X-R, posteriormente revista. Seja
como for, não será perpetuado nem o trio, nem o modelo. Entre
acordos e divergências sua proximidade maior irá só até 1931,
quando K. N. Kornílov, líder do Instituto de Psicologia de
Moscou, é deposto, sob novas regras do Estado Soviético para
educação e ciência. Vigotski passará a se dedicar mais
intensamente à pedologia, Leontiev e Luria vão seguir seus
caminhos independentes. Vigotski chegou a tomar o projeto de
edificação de uma “psicologia científica (i.e. marxista) unificada”

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como “causa”, a qual chegou a lamentar não ter sido levada adiante
do mesmo modo por todos. Mas havia divergência quanto aos
rumos da “causa”. Alguns relatos mencionam uma “sonhada”
reunião, para “resolver” tal divergência, que nunca foi feita, pois
Vigotski morreu antes. Mas seria romântico ver na casualidade do
“encontro inviável” a definitiva explicação para tudo que não foi
realizado nas décadas seguintes e até os nossos dias. Muito
simplório.

3.1.4 “A ‘troika vigotskiana’ funda a ‘teoria histórico-cultural’, donde a


denominação ‘Psicologia histórico-cultural’”

O momento do trabalho de Vigotski e Luria, pejorativamente


chamado de “teoria do desenvolvimento histórico-cultural”, por detratores
de seus estudos35, abrange, o período por volta de 1928 a 1931.
Antes de 1928 não haviam ainda sido nitidamente sistematizados
os conceitos principais de Vigotski que foram criticados como
“teoria histórico-cultural”. Por exemplo: “a contradição dialética
entre duas linhas de desenvolvimento a biológica e a cultural”; “o
método da dupla estimulação”; a noção de “signo como
instrumento psicológico”, etc. De 1931 em diante foram deixando
de ser essenciais, dando lugar a elaborações mais radicais sobre o
desenvolvimento. Por exemplo: “sistemas psicológicos”; “relações
interfuncionais”; “análise por unidades”, “significado como o que
define o signo como tal”; “produção social do significado como
ato que se desenvolve”; entre outras. Mas não notamos
“conversão” e rejeição do “passado de erros”. Avanços do período

35 Keiler esclarece, mais precisamente que “Teoria histórico-cultural” é uma


reformulação a posteriori do termo “Teoria do desenvolvimento histórico-cultural”
utilizado em meados dos anos trinta na URSS, por opositores de Vigotski e seu grupo.
Oposições contra suas próprias teses sobre o “desenvolvimento cultural” tanto quanto
por uma suposta fusão disso com relação a teorias diferentes sob o rótulo de
“Kulturpsychologie”, “Psicologia cultural”, ou “Etnopsicologia” (Keiller, 2012, p. 7).

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da teoria histórico-cultural são mantidos e renovados, outras ideias
deixam de ser mencionadas. Se só podemos explicar o
desenvolvimento de alguém por suas mudanças qualitativas, por
que o mesmo não valeria para a história do trabalho de um
pesquisador? Se nunca mudasse, estaria tudo dado de início? Por
“herança” ou “revelação”? A noção de imutabilidade do que “era
no princípio”, tem algo do que chamamos de “mito”...

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3.2 O mito da história feita por “grandes homens”

Culto à “personalidade” e/ou “genialidade” individual; desprezo pelas


pessoas “simples”; recurso argumentativo à autoridade de “libertadores”,
“desbravadores”, “fundadores”, etc. – looping ao mito da “fundação”.

Exemplos paradigmáticos:

– “Alexandre dominou a Grécia...”


– “Colombo descobriu a América...”
– “Hitler invadiu a Europa...”
– “Lenin tomou o Palácio de Inverno...”
– “Stálin expulsou Hitler da URSS...”
– “Castro libertou Cuba do imperialismo...”
– E praticamente tudo que o ensino tradicional de história
nas escolas regulares incute como marcas mnemônicas para
repetirmos de modo categórico e obediente em “provas”.

Contrapontos marxistas:

– Marx: “A essência humana não é o abstrato residindo no


indivíduo único. Em sua efetividade é o conjunto das relações
sociais” (1845/1978, p. 52).
– Vigotski: “Parafraseando Marx: a natureza psicológica do homem
é a totalidade das relações sociais transpostas para a esfera interior,
tendo-se tornado funções da personalidade e formas de sua
estrutura. Marx: o homem como gênero (i.e. a essência da espécie
humana); aqui: o indivíduo” (1929/1989, p. 59)

Em todos os casos citados como “exemplos paradigmáticos”


notamos uma enganosa metonímia do individual pelo coletivo. Revestida

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ainda de um componente de hipérbole, figuras de linguagem para
fins “didáticos” que se tomadas de modo literal conduzem a uma
catastrófica distorção ideológica da realidade histórica. Como a
fantasia de que sem as ordens de alguém “fora do comum”,
milhões de pessoas “comuns” nada teriam feito. Ideia fantasmática
porque abstraída de sua antítese dialética de que o suposto ser
humano “incomum” também nada faria se suas ações e propostas
não traduzissem verdadeiramente aquilo que milhões estivessem
dispostos e aptos a fazer36.

Em que isso perpassa narrativas sobre o trabalho de Vigotski?


Não nos estenderemos tanto sobre esse ponto, neste momento.
Porque o mito da história feita por grandes homens e grandes
mulheres é uma decorrência lógico-formal do mito da fundação.
Se houve ato de “fundar” o antes inexistente, sem influências
estrangeiras, alheias à estirpe gerada com a fundação, cabe
completar a narrativa, forjando o sujeito do ato: aquela ou aquele
que “faz a história”. Enquanto toda coletividade que possibilitou
sua formação, lutou ao seu lado e/ou sob seu comando, ajudou a
corrigir seus erros, fica como massa de meros “coadjuvantes”. Para
a psicologia que busca ser científica, a personalidade é o humano
concreto como “síntese de múltiplas determinações”. Para a
explicação mítica, a personalidade é o humano abstrato, que por
suas características inatas ou recebidas de deuses, não é
determinado pela totalidade das suas relações. Mas enaltecido
como se determinasse a si mesmo. Mais que isso, como se fosse

36Até porque é plausível avaliarmos que nem sempre quem está apto a fazer algo tem
disposição para tal. E nem sempre quem tenha uma disposição apenas ideal está
materialmente apto a fazer. Discussão para o problema da luta insurgente e a formação
social da personalidade dos quadros que se disponham e estejam aptos a realizá-la.

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capaz de determinar, pela força de sua vontade e inteligência
excepcionais, o destino de um império, uma nação, uma
coletividade. É triste que seja necessário, em pleno século XXI,
destacar a inconsistência de darmos valor exagerado a
personalidades no curso da história da humanidade de modo geral,
assim como para a história de ciência tão pueril quanto a psicologia
em particular. Mas, dada situação atual, é necessário relembrar.

Se houve algo especial “criado” por um ser vivo que imaginamos


ter se chamado Lev Semionovitch Vigotski, certamente isso não
foi feito apenas por ele. Não porque “monstros sagrados” como
Luria e Leontiev foram coautores. Mas por relações sociais mais
amplas que constituem sua formação: origens de sua família e as
condições sociais dos judeus na história do império russo; a
erudição de sua mãe e a influência política de seu pai no local em
que viviam; sua peculiaridade de ter tutor particular altamente
qualificado antes de frequentar escola; sua sorte inversa de só
passar por escola obrigatória na adolescência; seu privilégio de
classe em frequentar duas faculdades ao mesmo tempo, na capital
do império, enquanto a esmagadora maioria dos filhos de
trabalhadores com sua idade jamais fora sequer alfabetizada. Por
fim, e importância crucial, o fato de ter presenciado/vivenciado
um período revolucionário na história da Rússia 37 . No qual a

37 Se Vigotski nasceu em 1896, já era um pré-adolescente consciente de si e de algo que


ocorria ao seu redor ao longo de decisivos os acontecimentos político-sociais marcantes
na história da Rússia no início do século XX. Como o levante liberal-democrata de 1905,
suprimido pelas forças do tzar – teria cerca de 9 anos nesta ocasião. A participação do
país na I Guerra Mundial de 1914 a 1917 – teria entre 18 e 21 anos, teria idade para servir
o exército imperial (seria algo proibido a um judeu?). Todo processo revolucionário de
1917, de fevereiro a outubro, com o triunfo dos bolcheviques e a retirada da Rússia da
Guerra – estaria com 21 anos, poderia ter lutado com os bolcheviques. A sangrenta e
demorada guerra civil entre brancos e vermelhos que a isto se seguiu de 1918 a 1921 –
teria entre 22 e 25 anos – só sabemos que estava em Gomel, cuidando da saúde de
familiares, iniciando seu trabalho como professor e mantendo seu interesse por estética

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ebulição política e cultural foi sem precedentes, num período de
sua vida para o qual não temos registros de que ele fora nada
similar a um “arrebatado marxista, comunista revolucionário”.
Ebulição cosmopolita que, antes de progressivo esfriamento
xenofóbico (enraizado em tradições milenares, alheias à proposta
socialista), permitiu-lhe acesso a vasto acervo de contribuições
científicas oriundas de diversos países – em biologia, psicologia,
filosofia, linguística, sociologia, pedagogia, entre outras.

As quais jamais produziria sozinho, e povoam seus textos o tempo


todo, muitas vezes sem sequer serem citados os autores “originais”
das ideais com as quais concorda e davam sustentação às suas
elaborações. Estas, quase sempre, inconclusivas, lacunares,
instigando leitora e leitor a tomar para si a tarefa de solucionar os
enigmas deixados. Se alguns conceitos adotados por Vigotski
estavam certos, ele mesmo hoje seria um dos primeiros a afirmar
que não foi sua personalidade individual a força motriz dos
processos de tomada de consciência que veio a ter sobre a gênese
do psiquismo propriamente humano. Pelo contrário os diversos,
entrelaçados e conflituosos processos históricos aqui apenas
indicados, sem maior espaço para análise, não podem deixar de ser
considerados a verdadeira e riquíssima força motriz da formação
de sua personalidade e sua obra fragmentada a nós legada. Força
gerada por milhões de pessoas. E que criou uma possibilidade
ímpar para novos ingressantes no campo da incipiente e vacilante
“psicologia soviética”. Permitindo-lhes ter tempo de trabalho
remunerado para iniciar uma tarefa que jamais cumpriram: a

literária. A “fundação” da URSS em 30 de dezembro de 1922, e seu curso histórico a um


só tempo grandioso e acidentado, nas décadas seguintes – desde então Vigotski vivera
dos seus 26 a 37 anos. O que destacamos nem é tanto seu papel coadjuvante nesses
grandes processos, pois não se trata de algo que coubesse só a grandes homens
condecorados ou heróis mortos anônimos. Destacamos, sobretudo, o fato de que não
poderia ter realizado seu trabalho apartado desses processos, “começando do zero”.

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edificação consistente de uma internacional e unificada “psicologia
científica”, ou seja, “marxista”.

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3.3 O mito da história como “discurso neutro/ciência
exata”

Ilusão de obter uma investigação “forense”, para julgar, proferir sentenças


unidimensionais de “inocente” ou “culpado”, mandar os escritos destes para a
“fogueira”, desautorizar a priori, etc.

Exemplos paradigmáticos:

– “A história provou que hominídeos anteriores ao homo


sapiens já faziam uso de ferramentas”
– “A história provou que Homero não escreveu a Ilíada ou a
Odisseia”
– “A história provou que o Sócrates descrito por obras de seu
período nunca existiu”
– “A história provou que Stálin nunca escreveu seus textos”
– “A história prova que Leontiev não escreveu a maioria dos
textos sob sua assinatura”
– “A história prova que Vigotski foi um gênio que escreveu
cerca de 300 obras em menos de 20 anos”

Contrapontos marxistas:

– Engels: “A história tem sido, desde de o fim da horda primitiva,


história da luta de classes” (em prefácio ao Manifesto do Partido
Comunista).
– Bakhtin [Voloshínov]: “Um signo se torna uma arena onde se
desenvolve a luta de classes” (1929/1992, p. 46)

Falas tão categóricas como as que acabamos de utilizar acima,


como exemplo caricaturado pelo exagero, não são, evidentemente,

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encontradas nos historiadores sérios. Mas, não é raro ouvir
estruturas verbais desse tipo na voz de certos acadêmicos que
sentem necessidade de se impor sobre nós, meros mortais, como
donos da “verdadeira verdade”. Uma vez, que bem ou mal,
aprendemos versões contrárias nos próprios livros de história que
somos obrigados a ler na escola fundamental e a repetir em
vestibulares para entrar nas escolas superiores – essas instituições
nobres que nos oferecem o “patrimônio cultural da humanidade”.
Tais “revelações chocantes” de “verdades absolutas” que só agora
vieram derrubar “mentiras absurdas”, também são comuns em
programas de televisão como “National Geographic”, “Discovery
Chanel”, etc. Nos quais a simplificação do discurso “científico”
para jornalismo e entretenimento, de modo sensacionalista, tenta
forjar, com máscara de “ciência”, um “novo senso comum”.
Desde sobre a origem do universo, à das religiões, ou de qualquer
tema inconclusivo, desde que polêmico o suficiente para atrair
audiência e vender livros dos maiores especialistas do mundo no
assunto. Por certo, nunca se viu um programa desses explicar qual
a origem da miséria, ou das guerras imperialistas.

Porém o expectador crítico percebe que isso nunca é conclusivo,


porque se afirma com base em alguma concatenação causal frouxa
de uma série incompleta de indícios. A qual nem é conceitualmente
incontestável, nem nunca poderá ter provas definitivas. No fundo
não passam de opiniões, mas dadas por “autoridades”. Mas
“opiniões”, como sabemos, cada um de nós pode ter sobre
qualquer tema, pois não demandam prova da práxis. Via de regra,
tratam-se de hipóteses criadas pela imaginação humana, com base
em parcos indícios que nos chegam de passado muito remoto, que
nunca mais poderemos viver novamente. Claro está que quanto
mais se recua no tempo, mais frágeis são essas elucubrações com
base em mínimos indícios sempre sobrevalorizados como

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“descobertas que vão mudar tudo que sabíamos até então”. Só não
as nossas vidas. Funcionam mais por verossimilhança que por
estabelecimento de verdades. É “verossímil”, ou seja, podemos
considerar plausível que “pudesse ter acontecido”. Não há nada de
absurdo em pensar que “pudesse ter sido assim”... Mas estabelecer
que “é impossível que tenha acontecido de outro modo que não o
que estamos apresentando” já seria falta de espírito científico, uma
impostura intelectual. Porque nada do que se fala pode ser
submetido à prova definitiva da práxis hoje, logo, como poderia
ser considerado “verdade”, dentro dos parâmetros do conceito de
verdade de Marx, por exemplo38.

Mas, não desejamos ficar acima dos que se iludem estar acima de
nós. Apenas nos cabe destacar, para o momento, que não nos cai
bem o espírito positivista de que a verdade sobre as coisas evolui
por um “progresso” da ciência, ao mostrar cada vez mais erros de
cientistas anteriores. Diferente disso, entendemos que preexiste
sempre uma luta acirrada se travando no interior das versões
contrárias do que venha a ser o mais “plausível” em historiografia.
Aquelas versões estabelecidas pela tradição, não por serem
tradicionais eram as mais verdadeiras. Todos sabemos, desde
adolescentes, que a história das guerras tem sido contada
predominantemente pelos vencedores das mesmas. E que versões
e evidências das atrocidades que cometeram os vencedores são
ocultadas, omitidas ou destruídas para sempre 39 . E quando

38“A questão se cabe ao pensamento humano uma verdade objetiva não é teórica, mas
prática. É na práxis que o homem deve demonstrar a verdade, a saber, a efetividade e o
poder, a citerioridade do pensamento. A disputa sobre a efetividade ou não-efetividade
do pensamento isolado da práxis – é uma questão meramente escolástica” (Marx,
1845/1978, p. 51, itálicos na fonte).
39No Brasil na última década do século passado, todos pudemos assistir no cinema o
documentário “Guerra do Brasil” de Silvio Back (cf. https://youtu.be/gGcMuGxTf_A)

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assumimos que a história toda tem sido a da luta de classes, a classe
que produz valor a ser expropriado também tem sua versão das
batalhas perdidas bastante censuradas pelos vencedores, as classes
que expropriam o valor produzido pelas primeiras. Nisso
redizemos a origem fundamental dos dois “mitos” de que tratamos
anteriormente: o de que tudo surge de “fundações”, e o correlato
de que tudo advém da ação isolada de “grandes homens”. Aqui,
igualmente, a luta por quem tem a versão mais verdadeira da
história também é inerente à luta mais profunda e estruturante de
toda a vida social – que é a luta de classes.

Evidentemente, tentar desbancar uma visão de que, em tempos


arcaicos, repletos de limitações técnicas, obras de enorme volume
como a Ilíada e a Odisseia tenham sido trabalho de um só homem,
chamado “Homero” (sec. VIII a.n.e.) nos trás inquietação salutar.
Pois ajuda a contestar o culto aristocrático/burguês aos “grandes
gênios”. Pelo enorme tempo de trabalho que seria necessário para
selecionar e compilar (quiçá em tabletes de barro?) numerosos
relatos orais se avolumavam em diversas versões míticas sobre
eventos ainda mais remotos. Dos quais, por sua vez, sequer temos
exatos detalhes sobre como teriam acontecido, como a lendária
“guerra de Tróia”. Com seus grandes personagens ainda menos
prováveis como Helena, a mais bela entre todas, Aquiles, o melhor
guerreiro de todos, ou Ulisses, o melhor diplomata e estrategista
entre todos, etc. Mas, fixar a inexistência de qualquer ser humano
chamado “Homero” que participasse na organização dos relatos
tradicionais em conjuntos de poemas épicos que hoje chamamos

Sendo este uma versão diferente e oposta à relatada para nós em bancos escolares como
sendo a “Guerra do Paraguai”, com o “grande” Duque de Caxias liderando a vitória
sobre o inimigo. O filme, em tom de denúncia póstuma, tenta desmontar uma série de
visões romantizadas sobre o que teria sido, mais precisamente, uma ação militar de
interesse do imperialismo internacional, sobretudo inglês. A qual se valeu de práticas
militares das mais covardes, convocação compulsória de escravos para combater, etc.

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de “livros”, também não traz avanço. Porque não muda o
conteúdo poético, mítico-literário das obras que se atribui ao
suposto “Homero”. Só cria discussão periférica à riqueza das obras
que estão vivas até hoje. Periférica, porque o autor, sendo um ou
vários, com tal nome ou outro, não pode ser recriado de modo
concreto, nas múltiplas determinações de sua existência social.
Gera-se debates sobre “o sexo dos anjos”, que podem render teses
imponentes, ou livros de grande tiragem, mas não transformam
qualquer realidade, além da carreira do autor (sendo “ele” ou “ela”
quem escreve, sejam seus estagiários).

Com datação cerca de quatro séculos mais recente que a de


Homero, temos a biografia de Sócrates (469-399 a.n.e.). Cuja
existência como “ser humano real” já é posta em dúvida, pelo
menos, desde o século passado. Até porque sempre se diz que
“nunca deixou nada por escrito”, e os “diálogos socráticos” como
gênero literário (cf. Bakhtin, 1963/1997) foram escritos por
diversos autores, apenas computando os que chegaram até nós.
Outro problema que se coloca é o de que, mesmo que tenha
existido um “Sócrates histórico”, tudo que se escreveu pondo
palavras em sua boca, pode ter sido apenas confirmação da
filosofia dos próprios autores das obras sobre ele. Seria o que
notadamente acontece com diálogos de Platão. Segundo Bakhtin,
isso se dá mais para os textos posteriores em que se perde o
conceito de verdade dialógica próprio de Sócrates, e este se torna
uma marionete literária de Platão. Sempre ganhando os debates no
final, apenas confirmando aquilo em que Platão acreditava desde
o início em sua cosmovisão idealista. Para o estudioso russo isso
tira o caráter dialógico aberto da cosmovisão popular carnavalesca
presente no “Sócrates das ruas”, “da praça pública”, para tomar
um tom “catequético”. O diálogo se torna apenas a forma externa
para a apresentação doutrinária, dogmática de uma verdade

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acabada, inquestionável (cf. Bakhtin, idem). Certamente alguém
poderá talvez no futuro, se é que já não o fez, questionar se existiu
algum Platão, ou tudo foi inventado bem depois por quem, dentro
de algum mosteiro, veio a dar a forma de seus textos que
conhecemos hoje. Para nós é irrelevante.

Entretanto, uma discussão mais frutífera parece ser a de resgatar


por qual metodologia Bakhtin pode ter diferenciado esse “Sócrates
das ruas”, e o “Sócrates marionete de Platão”. Até que ponto a
análise comparada de diferentes obras que nos chegam permite
visualizar tal distinção em conteúdo e método de pensamento.
Sem nos atermos ao problema da pessoa empírica existente ou não
que é um problema insolúvel, já que tudo com que se conta são
registros, e os registros tanto podem ter sido originalmente
distorcidos, quanto refeitos posteriormente... Só algum tipo de
ciência forense dos documentos do passado conseguiria
determinar o que é verdadeiro ou falsificado. E até mesmo o que
está sob caligrafia “comprovada” de alguém que “realmente”
existiu, pode ter sido escrito em condições em que não refletisse o
que desejaria dizer, sob pressão, ameaça ou suborno. Tudo isso
nos escapa. Seria trabalho imenso e desnecessário. Mais científico
seria nos perguntarmos se o que está escrito consegue explicar a
nossa realidade a ponto de nos permitir transformá-la. No nosso
ponto de vista, essa deve ser a orientação quanto a obras de
pessoas que teriam vivido em tempo mais recentes como alguém
que tenha se chamado “Lev Semionovitch Vigotski”, por exemplo.
Do ser humano físico, temos vários indícios que existiu. Se foi ele
mesmo quem fez tudo o que nos é dito ter feito, é um problema
forense que não tomaremos por missão no nosso curso. Deixemos
esse requintado trabalho de investigação policial a quem possua
equipamento para averiguar isso – detectores de alterações

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emocionais por escrito, análise de DNA nos vestígios de células
sobre os documentos, etc.

Em que isso perpassa narrativas sobre o trabalho de Vigotski?

Logo acima, nos detivemos longamente na falácia positivista,


bastante difundida em setores conservadores das universidades, de
tomar a história como “prova forense” da existência ou
inexistência de determinados “fatos” quando nada conclusivo
pode ser, honestamente, dito. Pesquisadores sérios tomam o
cuidado de explicitar o caráter hipotético de suas afirmações com
base em indícios. Mas há os que proclamem suas “descobertas” de
que “tudo sabido até então era falso” de modo peremptório e
arrogante. Às vezes, como forma de diminuir e desqualificar quem
se pautava nas versões até há pouco ensinadas em qualquer escola
“respeitável” e escritas por historiadores que também diziam ter o
mais fiel retrato dos fatos. Ato político ideológico (no sentido
marxiano), também realizado de acordo com interesses de quem
ganha ou perde guerras, a milênios. Tanto quanto na guerra entre
classes sociais, desde o fim da horda primitiva 40 . Isto foi
comentado. Mas, nesse momento, há ainda algumas posições
específicas a tomar sobre como o tema do trabalho historiográfico
irredutível à ascética dissecação em laboratório forense, impacta
sobre estudos de vida e obra de autor como Vigotski. No interior
e para além de seu tempo de vida, da sua produção escrita em ato
e suas apresentações orais taquigrafadas e posteriormente
transcritas e publicadas...

40Basta alguém tentar comparar algumas das mais diferentes biografias de Ernesto
Guevara, por exemplo, para notar claramente, que nem todas falam, exatamente, sobre
“a mesma pessoa”.

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A necessidade de evitar o mito da história como “ciência exata” de
cunho “forense”, que forja a “última palavra sobre os fatos”, com
finalidade de julgar e proferir sentenças, é urgente no campo da
história da psicologia soviética. No qual se inscreve a história do
trabalho social de Vigotski. Porque muitas narrativas podem se
avolumar em torno de tentar validar ou desqualificar conceitos
teóricos de determinados autores, procurando antes apresentar
traços pessoais deles, ora de modo demasiado heroico ora
demasiado covarde ou sórdido. Forçando a pesquisa histórica a
criar bases para se argumentar “ad hominem” (desqualificar a
pessoa, para proclamar que seus conceitos estão errados; enaltecê-
la para proclamar que seus conceitos são corretos). Por exemplo:

― Este autor era genial.


― A obra que aqui está é de autoria deste autor.
― Logo: esta é uma obra genial.

― Este autor fazia afirmações de ocasião para fugir à censura.


― A obra que aqui está é de autoria deste autor.
― Logo: é uma obra que falta com a verdade.

Tomar tais parâmetros hipotéticos, de “genialidade” e


“oportunismo” (que nem são excludentes), para avaliar a verdade
do que diz um autor, mostrará que a mais meticulosa investigação
historiográfica para provar se tinha ou não tais traços, levará a
nada. Vigotski, por exemplo, é tomado com “gênio”, em
muitíssimas narrativas de quem com ele conviveu ou leu apenas
um de seus livros. Algo proclamatório e acrítico, sem nenhuma
discussão sobre a gênese de tal “genialidade”. Nem por isso, pelo
que documentos nos mostram, tal “grande gênio” deixou de
escrever enunciados convenientes frente ao marxismo oficial, em

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pleno regime estalinista. Inclusive, sendo genial, nada o impediria
de saber dizer o que os editores gostariam de ouvir, em dada parte
do texto publicado, e noutros momentos do mesmo texto,
desenvolver conceitos convergentes com sua própria concepção
marxista de ciência. Habilidades retóricas desenvolvidas no curso
de Direito e em juris simulados sobre personagens literários com
os amigos 41 , atestariam tal capacidade, aliás não restrita aos
“gênios”.

É o caso do texto “A ciência da psicologia” publicado em


coletânea editada por Volguin, Gordon e Luppol, em 1928. No
qual o gênio diz que “em 1924 42 , em Leningrado, Kornilov
formulou os princípios fundamentais da psicologia marxista.
Sobre a base de tais princípios, o desenvolvimento teórico e
experimental dos problemas psicológicos particulares teve início”
(Vygotsky, 1928/2012, p. 98 – negrito nosso). A forma “ter início”
(no passado) dá a entender que o autor assume a existência de uma
“psicologia marxista” já em ação desde o ano de 1924. Mas
encontramos algo um tanto distinto, quanto a isso, em
manuscritos dos quais esta publicação teria se originado e nunca
vieram a público até 1982, no Tomo I de suas “Obras”, como
“Sentido histórico da crise da psicologia: uma investigação
metodológica”. Neste material, publicado noutro contexto

41Semion Dobkin (1982/2009) relata que seu amigo Vigotski, nas férias de 1915 ou 1916,
participou de um “júri simulado”, no qual se julgou personagem de Vsevolod M. Garshin
(1855-1888). Quando lhe perguntaram se preferia representar o papel de advogado ou
de promotor, teria dito não se importar, pois estava preparado para defender os dois
pontos de vista. Teria “adquirido esta abordagem à análise dos casos como estudante de
Direito” (Dobkin, 1982/2009, p.21)

42Vigodskaia e Livanova (1996/1999a) referem-se a que o discurso de Kornílov no


Congresso de 1924 repetia o feito em 1923, o qual contribuiu para a queda de
Tchelpánov e para a sua própria ascensão ao cargo de diretor do Instituto de Psicologia
de Moscou, o qual já ocupava em 1924. Talvez Vigotski se revira à primeira vez que o
ouviu diretamente de seu futuro líder científico.

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político, bem após Kornílov ter caído em desgraça, lemos
claramente: “a psicologia marxista ainda não existe, há que
compreendê-la como uma tarefa histórica, não como algo dado”
(Vygotski, 1927-27/1991, p. 402). Ora, para quem argumenta “ad
hominem”, isso suspenderia sua capacidade de discernir entre o
correto e o incorreto. Pois poderia ser este autor “oportunista” e
“genial”, que diz coisas de maneiras bem diferentes conforme a
ocasião lhe convém. Logo: não se pode confiar do que diz, não se
sabe qual é seu “verdadeiro pensamento” sobre o ponto.

Algum outro historiador, desejoso de salvar a moral deste autor


“ambivalente” que não pode ser “manchada”, por ser
publicamente entusiasta de sua “genialidade”, poderia usar tática
retórica também “oportunista”, mas dissimulada. Diria, talvez, que
aquilo que estava “certo” foi o que se publicou, pois a “honra” do
autor genial não permitiria dizer o contrário do verdadeiro ao
público43. O guardado em manuscrito seria, portanto, algo inútil
e/ou ultrapassado. Quem o redigiu teria vergonha de o por a

43 É com semelhante causalidade linear e psicologismo, que opera, e.g., Anton Yasnitsky:
“a mais inesperada, proeminente e sensacional descoberta feita neste estudo [o dele
mesmo - CED] é a conclusão de que [...] trabalhos de Vigotski como ‘A história do
desenvolvimento das funções mentais superiores’ e ‘Instrumento e signo no
desenvolvimento da criança’, de fato, não foram considerados como trabalhos seminais
pelo seu autor, que nem os incluiu em suas bibliografias de trabalhos publicados e
manuscritos não publicados (cf.: Murchison, 1932; Vygodskaya, 1996) nem tampouco
tentou publicá-los” (Yasnitsky, 2011, p. 62 – grifos nossos) A ausência de “tentativa de
publicar” seria atribuída à inexistência, nos documentos restantes de quando Vigotski era
vivo, de papeletas de envio de tais materiais a editoras soviéticas. Nessa lógica, em pleno
estalinismo, tudo que Vigotski considerava importante enviava para qualquer editora sem
nada temer. Tudo que não “tentou publicar” seria menos importante. Que “máquina do
tempo” o dono da “sensacional descoberta” usa para retornar aos anos 1930, interrogar
Vigotski e saber seus reais desejos? Ninguém diz. Mas, como argumenta ad hominem,
uma mente ingênua pode acatar a falácia: “Não vimos qualquer papeleta de envio disso
a editoras, logo: Vigotski não deu valor”. Ou pior: “Vigotski não quis publicar, logo: não
precisamos ler”. Parece inconcebível que tal ranço de pensamento escolástico permaneça
entre nós tanto tempo após o fim da Idade Média. Mas permanece vivo, e alguns acatam
sustentando mitos, criados justo por quem se arroga derrubá-los (os que lhe convém).

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público por esta razão, por motivo misterioso não o teria
simplesmente destruído. Seria um apelo máximo à suposta lei da
honra como critério de verdade científica. Mas quem pode arbitrar
quanto a não ser mais honrado guardar justamente o mais crítico,
para esperar o momento político mais propício para dá-lo a
público? Já que editores burocratas talvez não alcançassem a
totalidade da elaboração teórica que leva a negar a existência de
“psicologia marxista”, até aquele momento.

Notamos, assim, que atributos como inteligência e/ou honradez


de um homem não podem ser critérios para avaliar se suas obras
devem ser lidas ou não. Não para quem tenha como atividade
principal a sistematização conceitual científica e não alguma
função publicitária no mercado editorial internacional. Fica difícil
sustentar como critério científico uma história insondável de, por
exemplo: “por quais motivos teria Vigotski posto a público algo
contrário do que escrevera em privado, mesmo que apenas
referente a certo tópico politicamente delicado frente a seu chefe”?
Nosso ponto de vista, e podemos desenvolver nos próximos
módulos, é o de que, sob o critério da práxis, a psicologia marxista
como a ciência psicológica unificada não existiu e continuou não
existindo na URSS. Nem existe, até o presente momento, em
qualquer lugar do mundo. Sendo, para nós, quanto a este ponto, mais
nitidamente crítico o que só foi publicado em 1982, do que o
publicado na era de Stálin.

Não detalharemos agora, mas fica claro não é relevante tratar de


assuntos morais para discutir o tema como tal. Mas sim confrontar
as duas proposições com a realidade social da psicologia russa e
internacional antes e depois da queda da URSS. Assim evitamos a
busca por traços idiossincráticos de autores para tentar derrubar
conceitos com base em supostas falhas morais de quem os

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formulou e exaltar outros com base supostas virtudes talvez da
mesma pessoa. Entendemos que é a realidade humana, histórica e
social que deve cobrar verdade dos conceitos científicos,
independente de quem os tenha sistematizado. Os predicados dos
diferentes autores, em diferentes momentos de suas vidas,
deixamos para algum tipo psicologia da personalidade dos que já
não estão aqui para contestar ou atestar rótulos que lhes tenham
sido dados por quem com eles conviveu, ou porque quem nasceu
bem depois de sua morte. O que também não passaria de uma
forma de psicologismo, em nosso entendimento.

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4 Considerações para a continuidade dos estudos

Vale reiterarmos, se não ganha muita ênfase nas páginas anteriores,


um traço comum aos três “mitos” contestados. Trata-se da
recorrência em seu interior de uma abstração, desconsideração, ou
distorção, do fato de que “a história tem sido, desde de o fim da horda
primitiva, história da luta de classes” – parafraseando Engels44. Nossa
busca, mesmo que rudimentar, de confrontar tais operadores
semânticos ideológicos comuns nas visões conservadoras da
história da humanidade, tem um crivo classista, desde o ponto de
partida ao de chegada, confrontando visões aristocráticas e
burguesas. Ela aspira a que venhamos juntos a perceber a
objetividade da realidade histórica apartadas as brumas do
sincretismo afetivo-cognitivo de caráter ideológico elitista e
xenofóbico que tais mitos carregam e ajudam a sustentar. Mas
somos limitados para analisar a luta de classes no império russo,
no período revolucionário e na URSS, para ver em seguida a
história do trabalho de Vigotski.

São limites nossos e do “curso introdutório” proposto. Pois para


nos aprofundarmos em história tão rica, sob o rigoroso e profundo
método de Marx e Engels, precisaríamos de tempo do qual não
dispomos. E para socializar, em forma de aulas, o que
sistematizássemos, o tempo exigido dos participantes em diálogo
com o professor seria bem maior. O que adiaria o início da
discussão sobre os sistemas conceituais teóricos em psicologia,
propriamente ditos. Para a qual já temos mais de cem páginas de
material sistematizado, em fase avançada de edição e revisão. Sua
a única finalidade é incentivar o estudo mais meticuloso das

44 Em prefácio a uma das edições ao “Manifesto do Partido Comunista”.

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próprias obras de Vigotski e daqueles que fizeram avançar
aspectos de seu projeto por ele mesmo nunca desenvolvidos.
Ficando assim, para nós um desafio de retomarmos, talvez em
curso “intermediário” ou “avançado”, problemas que aqui foram
apenas postos em pauta. Na melhor das hipóteses.

Pelo Coletivo Eras e Dias.

Primeira versão: Brasil, 06 de janeiro de 2017.


Segunda versão revisada: Brasil, 17 de janeiro de 2017.

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