Você está na página 1de 20

DESENVOLVIMENTO CIENTÍFICO E TECNOLÓGICO:

UNIDADE I
João Luís Tavares da Silva
SUMÁRIO
Esta é uma obra coletiva organizada por iniciativa e direção do CENTRO SU-
PERIOR DE TECNOLOGIA TECBRASIL LTDA – Faculdades Ftec que, na for-
COMPETÊNCIA EM CONHECIMENTO 3
ma do art. 5º, VIII, h, da Lei nº 9.610/98, a publica sob sua marca e detém os
NATUREZA DO CONHECIMENTO 7
direitos de exploração comercial e todos os demais previstos em contrato. É
O QUE É CIÊNCIA? 12 proibida a reprodução parcial ou integral sem autorização expressa e escrita.

FINALIDADES PRÁTICAS 15

SINOPSE DA UNIDADE 16 CENTRO UNIVERSITÁRIO UNIFTEC


Rua Gustavo Ramos Sehbe n.º 107. Caxias do Sul/ RS

REITOR
Claudino José Meneguzzi Júnior
PRÓ-REITORA ACADÊMICA
Débora Frizzo
PRÓ-REITOR ADMINISTRATIVO
Altair Ruzzarin
DIRETOR DE ENSINO A DISTÂNCIA (EAD)
Rafael Giovanella

Desenvolvido pela equipe de Criações para o Ensino a Distância (CREAD)


Coordenadora e Designer Instrucional
Sabrina Maciel
Diagramação, Ilustração e Alteração de Imagem
Thaís Munhoz
Revisora
Luana dos Reis
COMPETÊNCIA EM
CONHECIMENTO
Conhecer é planejar o futuro e observar o presente, relacionando suas
características. É preciso utilizar os métodos específicos para cada tipo de
conhecimento.

3
SUMÁRIO

“A trajetória de um fóton
que percorre um labirinto de
placas de vidro e espelhos
é sempre ambígua. Em
essência, ele toma todo
caminho possível que
estiver à sua disposição. Esta
ambiguidade permanece
até que a observação,
realizada por um observador
consciente, force a partícula
a decidir que caminho
havia tomado. A incerteza é
resolvida – retroativamente
– e é como se o caminho
selecionado tivesse sido
tomado o tempo todo” (RAY
KURZWEIL, 2007).

DESENVOLVIMENTO CIENTÍFICO E TECNOLÓGICO:


UNIDADE I 4
SUMÁRIO

Assim como esta realidade “quântica” nos envolve nos dias atuais, a observação torna Dado é um conjunto de fatos distintos e objetivos, relativos aos eventos (DAVENPORT

o ser humano a única espécie capaz de, movida por um sentimento estranho e inexplicável e PRUSAK, 1998). Uma sequência de letras e números, figuras, palavras sem contexto (WIIG,

de observações exógenas sobre sua própria natureza, ser deslocada na direção de novas ob- 1993). Valores obtidos de sensores (SIEMIENIUCH et al., 1999). Resumindo, um conjunto de

servações que, parafraseando Kurzweil, é como se elas estivessem sido feitas o tempo todo. elementos brutos, sem significado, desvinculado da realidade, de interpretação e contexto.

Este sentimento de observações exteriores é o efeito da curiosidade científica.

Diz a lenda que o vocábulo curiositas é um neologismo latino atribuído a Cícero, primei-

ramente usado em suas “Cartas a Atticus” (Silva et al., 2018), que se origina da raiz latina

“cur” que significa “por quê”. Logo, a curiosidade tem um viés positivo, pois curioso é aquele

que procura saber o “porquê” das coisas. Isto é uma das essências da pesquisa científica.

Saber o porquê das coisas, leva a curiosidade científica a, primeiramente, observar o

conhecimento científico sobre o funcionamento da vida e do universo, objetos intrínsecos

às Ciências, como as conhecemos e foram concebidas nos últimos séculos.

Porém, este conhecimento científico não necessariamente diz respeito a qualquer co-

nhecimento, o conhecimento pode ser informal ou vulgar, advindo de observações não pla-

nejadas e exaustivas interações com algum domínio, como um agricultor que conhece o

momento certo da semeadura, a época da colheita, a utilização de adubos, a manipulação

de pragas e o tipo de solo adequado para as diferentes culturas, mesmo não tendo formação

acadêmica ou profissional alguma para isto, mas obteve este conhecimento de suas inúme-

ras tentativas e erros ou mesmo a partir de informações de outras pessoas. Tampouco po-

demos confundir conhecimento com informação, ou ainda dados.

DESENVOLVIMENTO CIENTÍFICO E TECNOLÓGICO:


UNIDADE I 5
SUMÁRIO

A informação é um elemento cuja existência independe de ativida-

des interpretativas, de entidades subjetivas (DRETSKE, 1981). São dados

com significado, relevância e propósito (DRUCKER, 1999) ou contextu-

alizados para fornecer uma solução em situações de decisão. Também

se definem como dados aos quais foi atribuído um contexto (WIIG,1993;

SIEMIENIUCH et al.,1999).

O conhecimento inclui, mas não está limitado, às descrições, hi-

póteses, conceitos, teorias, princípios e procedimentos que são úteis ou

verdadeiros. O conhecimento distingue-se da mera informação porque

está associado a uma intencionalidade. Consiste em verdades e crenças,

perspectivas e conceitos, julgamentos e expectativas, metodologias e

know-how. O conhecimento é acumulado, organizado, integrado e ar-

mazenado para aplicações específicas (WIIG, 1993).

Se estendermos a noção contextual do próprio conhecimento, atin-

ge-se um estado da mente humana caracterizada por uma profunda com-

preensão e insight. A “sabedoria” é, frequentemente, mas não necessa-

riamente, acompanhada por um extensivo conhecimento formal.

A Tabela 1 apresenta um exemplo de representação de conteúdos

distribuídos em relação aos conceitos de dados, informação, conheci-

mento e sabedoria.

DESENVOLVIMENTO CIENTÍFICO E TECNOLÓGICO:


UNIDADE I 6
SUMÁRIO

1.1.1 CONHECIMENTO POPULAR OU EMPÍRICO


Tabela 1 - Pirâmide da hierarquia de representação

O conhecimento empírico resume-se a um tipo de conhecimento aprendido à

luz das experiências e observações imediatas do mundo ao nosso redor. É uma forma

de conhecimento que permanece no nível das crenças vividas, segundo uma inter-

pretação previamente estabelecida e adotada pelo grupo social. Surge de uma forma

assistemática, sensitiva e subjetiva, sem rigor e método como qualificações de for-

mação do conhecimento.

Segundo alguns estudiosos da área, conhecimento do senso comum é algo que

vem da experiência do dia a dia, os conhecimentos que se desenvolvem a partir do

cotidiano ou da necessidade, oriundo da prática, da experiência, muito vinculado aos

saberes populares (GALLIANO,1986; CERVO e BERVIAN, 2002; LAKATOS e MARCO-

NI, 2003; FACHIN, 2003; WERNECK, 2006).

Fonte: Autor Entretanto, é importante notar que conhecimento do senso comum pode produ-

zir conhecimento científico, pois ditos populares podem gerar questões que, às vezes,
NATUREZA DO CONHECIMENTO
levam à pesquisa e à investigação científica, ou seja, aquilo a que o senso comum não

responde, a ciência pode responder.


Alguma vez, você já se questionou sobre a diversidade dos tipos de conhecimento existentes?

Para Ander-Egg (1978, APUD Lakatos e Marconi, 2003), ainda, o conhecimento


Dependendo da forma como o conhecimento nos alcança, pode-se classificá-lo como conhe-
popular pode ser predominantemente:
cimento popular ou empírico, teológico, filosófico e científico (FONSECA, 2002; TRUJILLO, 1974).

DESENVOLVIMENTO CIENTÍFICO E TECNOLÓGICO:


UNIDADE I 7
SUMÁRIO

• Superficial, quando se conforma com a aparência, com aquilo que se pode comprovar simplesmente es- Assim, o conhecimento religioso ou teológico parte do princí-

tando junto das coisas: expressa-se por frases como “porque o vi”, “porque o senti”, “porque o disse- pio de que as “verdades” tratadas são infalíveis e indiscutíveis, por

ram”, “porque todo mundo o diz”. consistirem em “revelações” da divindade (sobrenatural).

• Sensitivo, quando está relacionado a vivências ou estados de ânimo e emoções do cotidiano dos indivíduos. CONHECIMENTO FILOSÓFICO

• Subjetivo, se é o próprio sujeito que organiza suas experiências e conhecimentos, através de sua própria O conhecimento filosófico é definido a partir da realidade, em seu

experiência e os recolhidos “por ouvi dizer”. contexto universal, sem soluções definitivas para as questões univer-

sais. Entretanto, objetiva a necessidade de embasar uma justificativa e

• Assistemático, se não foi organizado a partir de um método ou uma sistematização de idéias, nem quanto uma interpretação a respeito do homem e de sua existência concreta,

a forma de adquiri-las ou na tentativa de validá-las. resumindo-se principalmente na tarefa de reflexão. Por exemplo, sem

embasamento científico inicial propõe reflexões sobre problemas ge-

• Acrítico, pois, verdadeiros ou não, a pretensão de que esses conhecimentos o sejam não se manifesta rais, como por exemplo: “– As máquinas substituirão a força de traba-

sempre de uma forma crítica. lho humana?”; “– As conquistas espaciais comprovam o poder ilimita-

do do homem?”, etc.

CONHECIMENTO TEOLÓGICO
Conforme Trujillo (1974), o conhecimento filosófico é não veri-

O conhecimento teológico é o conhecimento religioso vinculado às crenças, à fé e à própria religião de ficável, já que os enunciados das hipóteses filosóficas, ao contrário do

cada indivíduo. É uma forma de conhecimento em que as suas origens ou consequências não estão em dis- que ocorre no campo da ciência, não podem ser confirmados nem re-

cussão, envolvendo a formação moral e espiritual de cada indivíduo, conforme Gerhardt e Silveira (2009). futados. Ainda, conforme Lakatos e Marconi (2003), o conhecimento

Esse conhecimento está, pois, intimamente relacionado a uma Divindade, um ser invisível, ou qualquer en- filosófico é caracterizado pelo esforço da razão pura para questionar os

tidade entendida como ser supremo, dependendo da cultura de cada povo, com quem o ser humano se rela- problemas humanos e poder discernir entre o certo e o errado, unica-

ciona por intermédio da fé religiosa. mente recorrendo às luzes da própria razão humana.

DESENVOLVIMENTO CIENTÍFICO E TECNOLÓGICO:


UNIDADE I 8
SUMÁRIO

CONHECIMENTO CIENTÍFICO CONHECIMENTO SISTEMATIZADO

Constitui o nosso objeto fundamental de estudo. Constitui o conhecimento O cientista é um tipo de sujeito cognoscente, ou seja, quem realiza o ato do conhecimento, que, no

real e sistemático, próximo ao exato, que ultrapassa o fenômeno em si, as cau- processo de apreensão da realidade do objeto, pode penetrar as diversas áreas do conhecimento, apesar

sas e leis. Por meio da classificação, comparação, aplicação dos métodos, análi- da divisão “metodológica” entre conhecimento popular, filosófico, religioso ou científico. Por exemplo,

se e síntese, o pesquisador extrai do contexto social, ou do universo, princípios ao estudar o homem, pode concluir uma série de conjecturas sobre sua atuação na sociedade, baseado no

e leis que estruturam um conhecimento rigorosamente válido e universal. Neste, senso comum ou no conhecimento empírico, enquanto pode-se analisá-lo como um ser biológico, veri-

são feitos questionamentos e enunciadas explicações sobre os fatos, através de ficando, através de investigação experimental, as relações existentes entre determinados órgãos e suas

procedimentos que possam levar ao resultado com comprovação. Não é considera- funções. No nível filosófico, pode questionar-se quanto a sua origem e destino e quanto a sua liberdade.

do algo pronto, acabado e definitivo, busca constantemente explicações, soluções, E, do ponto de vista teológico, pode observá-lo como ser criado pela divindade, à sua imagem e seme-

revisões e reavaliações de seus resultados, pois, segundo Cervo e Bervian (2002), a lhança, e meditar sobre o que dele dizem os textos sagrados (LAKATOS e MARCONI, 2003).

ciência é um processo em construção.

Muitas vezes, todos estes tipos de conhecimento podem coexistir no mesmo cientista, quando, por

Via de regra, o conhecimento científico é real já que está baseado em ocor- exemplo, dedica-se ao estudo da física, sendo crente praticante de alguma religião e, ainda, atrelado a

rências ou fatos, que se manifestam de algum modo no mundo (TRUJILLO, 1974). um sistema filosófico. Nada o impede, entretanto, em muitos aspectos de sua vida cotidiana, de agir se-

Caracteriza-se por apresentar proposições ou hipóteses cuja veracidade ou falsi- gundo conhecimentos populares baseados no senso comum (LAKATOS e MARCONI, 2003).

dade são atestadas através da experiência e não apenas pela razão, como no caso do

conhecimento filosófico. O conhecimento científico é sistemático, pois lida com um É por este motivo que Trujillo (1974) também sistematiza as características dos quatro tipos de co-

saber ordenado logicamente, formando um sistema de ideias (teoria) e não conheci- nhecimento através dos seguintes atributos:

mentos dispersos e desconexos. É verificável, pois as afirmações (hipóteses) que não

podem ser comprovadas não pertencem ao âmbito da ciência. Pode ser falível, pois • Valorativo: os conhecimentos popular, filosófico e religioso são definidos por valores subjeti-

não é definitivo, absoluto ou final. Novas proposições e o desenvolvimento de téc- vos, ideológicos, crenças, etc., a partir de posições sagradas (Religioso) ou hipóteses de difícil

nicas podem reformular o acervo de teoria existente (LAKATOS e MARCONI, 2003). comprovação (filosófico).

DESENVOLVIMENTO CIENTÍFICO E TECNOLÓGICO:


UNIDADE I 9
SUMÁRIO

• Real: o conhecimento científico é real, pois lida com fatos ou evidências que se ma-

nifestam no mundo real.

• Reflexivo: o conhecimento popular é reflexivo quando se limita à familiaridade com

o objeto, sem uma formulação geral ou formal.

• Contingente: o conhecimento científico é contingente, pois suas proposições ou

hipóteses têm sua veracidade ou falsidade conhecida através da experiência.

• Racional: característica do conhecimento filosófico já que é baseado em um con-

junto de enunciados logicamente correlacionados.

• Inspiracional: o conhecimento religioso é formado por proposições reveladas de

forma sobrenatural.

• Falível: os conhecimentos popular e científico são falíveis quando são conforma-

dos com a aparência da observação e não são definitivos, absolutos, já que novas

proposições e observações podem reformular a teoria.

• Infalível: os conhecimentos religioso e filosófico são considerados infalíveis ou

por terem sido reveladas de forma sobrenatural ou por serem capaz de apreen-

der a realidade, através de postulados e hipóteses, que não são submetidos ao

teste da experimentação.

DESENVOLVIMENTO CIENTÍFICO E TECNOLÓGICO:


UNIDADE I 10
SUMÁRIO

• Sistemático: os conhecimentos científico, filosófico e religioso são definidos como sis- O Quadro 1 sintetiza a distribuição das caracterizações de Trujillo (1974), para os qua-

temáticos quando lidam com um saber ordenado logicamente, formando um sistema tro tipos de conhecimento.

de ideias (teoria) e suas hipóteses e enunciados visam a uma representação coerente da


Quadro 1. Características das formas de conhecimento
realidade estudada.
conhecimento conhecimento conhecimento conhecimento
popular científico filosófico religioso
• Assistemático: quando as proposições se baseiam apenas na forma como o sujeito or-

ganiza duas observações de uma maneira muito particular no conhecimento popular. Valorativo Real (factual) Valorativo Valorativo

Reflexivo Contingente Racional Inspiracional


• Verificável: conhecimento popular e científico são verificáveis se está limitado ao co-

tidiano observável do sujeito, quando as hipóteses e proposições são validadas através Falível Falível Infalível Infalível

de teoria e experimentação.
Assistemático Sistemático Sistemático Sistemático

• Não-verificável: conhecimento filosófico e religioso não são verificáveis quando o co- Verificável Verificável Não-verificável Não-verificável
nhecimento emerge da experiência e não da experimentação ou se as evidências estão

implícitas por uma atitude de fé perante um conhecimento revelado. Inexato Exato Exato Exato

Fonte: Adaptado de Trujillo (1974).

• Exato: conhecimentos científico, filosófico e religioso são exatos quando podem ser re-

petidos por experimentação, são racionalizados pelo discernimento entre o certo e

errado ou simplesmente por serem indiscutíveis posições de fé.

• Inexato: o conhecimento popular, quando não permite a formulação de hipóteses so-

bre a existência de fenômenos situados além das percepções objetivas, é inexato.

DESENVOLVIMENTO CIENTÍFICO E TECNOLÓGICO:


UNIDADE I 11
SUMÁRIO

O QUE É CIÊNCIA? b. função: uma expressão de aperfeiçoamento da relação do homem com o seu mun-

do, através do acúmulo crescente de conhecimentos.

Voltando a nossa premissa inicial de que o curioso é aquele que procura saber o “porquê”
c. Objeto: constitui o foco de observação da ciência, pode ser:
das coisas, é dessa forma que surge a ciência (LAKATOS e MARCONI, 2003).

I. material, aquilo que se pretende estudar, analisar, interpretar ou verificar, de


A Ciência para Cervo e Bervian (2002) é um modo de “compreender e analisar o mundo em-
modo geral;
pírico, envolvendo o conjunto de procedimentos e a busca do conhecimento científico através

do uso da consciência crítica que levará o pesquisador a distinguir o essencial do superficial e o II. formal, o enfoque especial, em face das diversas ciências que possuem o mesmo

principal do secundário.” Nesta premissa, ciência significa fornecer respostas dignas de confian- objeto material.

ça sujeitas a críticas, como uma forma de entender e compreender os fenômenos que ocorrem. A

observação sistemática dos fatos é uma atividade importante para a ciência, pois, por intermédio A ciência é objetiva pois baseia-se no conhecimento científico, mesmo que existam

da análise e da experimentação, os resultados podem ser avaliados universalmente. áreas do conhecimento que não são objetivas, mas racionais, sistemáticas e verificáveis,

como por exemplo, a lógica formal e a própria matemática. Também existem disciplinas

Para Oliveira (2002), a ciência trata do estudo, com critérios metodológicos, das relações que lidam com os fatos, objetos e materiais, de modo empírico. Essa dicotomia entre as

existentes entre causa e efeito de um fenômeno qualquer no qual o estudioso se propõe a de- diferentes áreas do conhecimento classifica as ciências em ciências formais e ciências

monstrar a verdade dos fatos e suas aplicações práticas. Neste ponto, é predominantemente sis- fáticas (Köche, 1997), sintetizaremos melhor estas ideias na próxima seção.

temático a respeito de fenômenos da natureza, da sociedade, os biológicos, matemáticos, físicos

e químicos, etc., para se atingir a um conjunto de conclusões verdadeiras.

Segundo Lakatos e Marconi (2003), as ciências possuem:

a. objetivo ou finalidade: a capacidade e a necessidade em distinguir a característica comum ou

as leis gerais que regem determinados eventos ou fenômenos observados;

DESENVOLVIMENTO CIENTÍFICO E TECNOLÓGICO:


UNIDADE I 12
SUMÁRIO

CLASSIFICAÇÃO E DIVISÃO DA CIÊNCIA Nérici (1978) considera, além da complexidade crescente de Comte, também o

conteúdo da ciência e propõe uma classificação mais abrangente, segundo o Quadro 2.

Como evidenciado na seção anterior, o objetivo, a função e o objeto das Ciências denotam uma

grande complexidade de temas e áreas que precisam de observação e formulações. A diversidade de


Quadro 2. Classificação, segundo Augusto Comte
fenômenos que ocorre no universo, denota a necessidade do homem estudá-los para a necessária
Aritmética, Geometria,
compreensão e explicações do funcionamento deste universo, entretanto, diversificam em grande Teórica
Álgebra
número de áreas de domínio, interesse e conteúdo. Portanto, muitos pesquisadores propuseram CIÊNCIAS MATEMÁTICA
Mecânica Racional,
Aplicada
tentativas de classificação e divisão das ciências, de acordo com sua ordem de complexidade, ou Astronomia

com seu conteúdo, seu objeto ou temas, sua diferença de enunciados e metodologias empregadas. Física, Química, Mineralogia, Geologia
FÍSICO-
QUÍMICAS
Geografia, Física
Retornando a Köche (1997), em termos bem mais gerais, as ciências formais se ocuparão

com coisas abstratas e símbolos só existentes na mente humana, no plano conceitual, como os nú- BIOLÓGICAS Botânica, Zoologia, Antropologia

meros, por exemplo. São também chamadas de ciências formais e não empíricas, pois comprovam Psicologia, Lógica,
Psicológicas
suas proposições sem necessidade de experimentos. As ciências fáticas são exclusivamente “ma- Estética, Moral

História, Geografia
teriais, seu método é a observação e a experimentação, e seu critério de verdade é a verificação.” MORAIS Históricas
humana, Arqueologia
(ASTI VERA, 1974). Também tratadas como ciências empíricas, por se dedicarem à comprovação
Sociais e Sociologia, Direito,
e verificação dos fatos e acontecimentos do mundo. Por este motivo utilizam símbolos interpre- Políticas Economia, Política

tados. As ciências fáticas podem ser divididas em ciências naturais (Física, Química e Biologia) e Cosmologia Racional, Psicologia Racional,
METAFÍSICAS
Teologia Racional
ciências sociais (Sociologia, Ciência Política, Direito, Economia, História e Administração).
Fonte: Adaptado de Lakatos e Marconi (1985).

Uma das primeiras classificações, de Augusto Comte (1798-1857), se apresenta segundo


Lakatos propõe uma classificação baseada em Bunge e Comte, levando em con-
sua ordem crescente de complexidade e lista: Matemática, Astronomia, Física, Química, Bio-
sideração a falta de consenso entre alguns autores que não consideram a diferença
logia, Sociologia e Moral.
entre ciências e ramos de estudo, conforme o Quadro 3.

DESENVOLVIMENTO CIENTÍFICO E TECNOLÓGICO:


UNIDADE I 13
SUMÁRIO

Quadro 3. Classificação, segundo Lakatos e Marconi


REFLEXÕES PURAS x APLICAÇÕES
Lógica
REFLEXIVAS
FORMAIS
Matemática

A dicotomia entre Ciência Pura e Aplicada já


Física
encontrava eco em Aristóteles (384-322 a.C.),
NATURAIS Química
por exemplo, a epistéme constitui a última
Biologia
etapa do conhecimento real de conceitos e
CIÊNCIAS
princípios das leis da natureza ou do cosmo.
Antropologia Cultural
FACTUAIS
Sociologia
Para Aristóteles, a Ciência Pura era superior à
Economia
SOCIAIS técnica por causa da junção do saber teórico
Política
e contemplativo, com a generalidade, e
Psicologia Social
deveria ser desvinculada da prática.
Direito

Fonte: Adaptado de Lakatos e Marconi (1985).


Apenas no início do período moderno é que
Estas classificações apresentam-se sob o ponto de vista do con- as ciências puras e aplicadas começaram
teúdo, pois também é possível classificá-la quanto à finalidade em Ci- a interagir uma com a outra, sendo a
ência Pura e Ciência Aplicada. A Ciência Pura busca o conhecimento própria técnica uma aplicação prática do
puro por meio de enunciados, com uma finalidade puramente cogni- conhecimento científico, graças a pensadores
tiva. A Ciência Aplicada tem caráter pragmático e busca um sistema de como Francis Bacon e Galileu Galilei
ação operatório, produzindo novas construções ou aplicações científi- (SAMPRONHA et al., 2012).
cas (BÊRNI e FERNANDES, 2012).

DESENVOLVIMENTO CIENTÍFICO E TECNOLÓGICO:


UNIDADE I 14
SUMÁRIO

FINALIDADES PRÁTICAS Neste contexto, o conhecimento com-

preende conceitos, metodologias, fatos, cren-


Platão admite a existência de dois mundos sobre os
ças, verdades e leis, além de julgamentos e
quais agem a inteligência e a sensibilidade humanas: o
expectativas, insights, significado e senso co-
mundo das Formas ou Ideias, apreendido através do uso
mum. E, neste sentido, encontraremos uma
da inteligência; e, o mundo Sensível, percebido através
noção mais “prática” do conhecimento em
dos sentidos. Esta “Teoria dos Dois Mundos” admite que,
Teorias de Gestão do Conhecimento (Sveiby,
no mundo das Formas, só é possível utilizar o conhe-
2001, Wiig, 1993; Nonaka e Takeuchi, 1997),
cimento verdadeiro, ou Ciência. As formas, em Platão,
pois, segundo (Wiig, 1993), o conhecimento
são eternas e imutáveis e, do mundo Sensível, somen-
também é definido a partir de sua capacida-
te é possível se utilizar da crença ou opinião, por causa
de em ser acumulado, organizado, integrado e
de sua característica de mutabilidade, corruptibilidade e
armazenado para aplicações específicas.
variabilidade (FINE, 2003).

Em “Ética a Nicómaco”, Aristóteles re-


Por este motivo, a ideia clássica de conhecimento, Já em Sveiby (2001), encontraremos uma ideia mais prática, rela-
laciona o conhecimento técnico (“techne”),
originada em Platão, diz que ele consiste em crença ver- cionando o conhecimento à capacidade para agir, caracterizado por ser:
como sendo o Know-how; o conhecimento
dadeira e justificada. As verdades definidas pela observa-
• dinâmico: criado nas interações sociais entre indivíduos e or- científico (“epistéme”), como o Know-why,
ção do mundo das Formas através de rigorosa observação
ganizações; fornecendo uma explicação causal de um dado
e mensuração definida através de uma ciência, são con-
estado das coisas; o conhecimento prático
trapostas as crenças adquiridas pelos sentidos no mun-
• contextual: sem contexto, é simplesmente informação; parti-
(“phronesis”), definindo como o Know-how
do Sensível, portanto, quando há uma justificativa das
cular tempo e espaço;
e Know-why devem ser usados em resposta a
verdades em relação às crenças (sempre formalizadas
mudanças reais (MENEZES e SILVA, 2013).
através de hipóteses), podemos reconhecer seu resultado • humanístico: está relacionado essencialmente a ações huma-

como Conhecimento, conforme ilustrado na Figura: nas e está enraizado na mente das pessoas.

DESENVOLVIMENTO CIENTÍFICO E TECNOLÓGICO:


UNIDADE I 15
SUMÁRIO

Do ponto de vista prático, Nonaka e Takeuchi (1997), apresentam o conhecimento SINOPSE DA UNIDADE
explícito e o conhecimento tácito.

Nesta primeira unidade, verificamos o porquê e o como do funcionamento do universo


• Conhecimento explícito é conhecimento formal, frequentemente codificado em
e da vida é o motor da curiosidade científica. A habilidade em representar a observação dos
fórmulas matemáticas, regras, especificações, etc. É um conhecimento que pode ser
objetos no mundo real em símbolos e signos “manipuláveis” pela mente, passa pelas várias
expresso formalmente com a utilização de um sistema de símbolos, baseando-se em
características da existência e competência em se manipular este conhecimento.
objetos e regras, podendo ser facilmente comunicado ou difundido.

Como o conhecimento constitui o objeto primordial do cientista, esta unidade breve-


• Conhecimento tácito é a capacidade de realizar ações, de natureza físico-moto-
mente listou alguns conceitos e definições introdutórias sobre conhecimento, informação,
ra ou cognitiva, cuja correta execução não é possível “ensinar” ou transmitir. É,
dados e sabedoria. Categorizando o conhecimento conforme suas fontes e formas de trata-
portanto, adquirido pela prática, associado às habilidades e aptidões pessoais, não
mento, verificamos que tipos de conhecimento existem e quais suas características, para que
sendo passível de transmissão por meio de manuais e descrições, mas via socia-
o cientista tenha noção de qual área está sendo estudada e que ferramentas específicas para
lização segundo modelo “mestre-aprendiz”. Por exemplo, reconhecer um rosto,
cada tipo de conhecimento devem ser usadas.
andar de bicicleta, etc.

Também enumeramos as principais classificações ou taxonomias de conhecimento


Do ponto de vista prático, veremos que a metodologia da pesquisa científica tam-
em relação as suas áreas de abrangência, já que as metodologias científicas podem usar
bém admite uma forma de transformação de conhecimento tácito em explícito, através de
métodos mais apropriados de acordo com as características do conhecimento e da área de
métodos de levantamento de hipóteses, validações através de experimentos e observações
domínio a ser estudada.
para a construção de teorias formais que conduzem a explicação dos fenômenos observa-

dos. Existe, por parte da pesquisa científica, uma espécie de dimensão técnica que refere-
Finalmente, concluiu-se com uma breve ideia sobre conhecimento prático, já que este
-se ao conhecimento prático de saber executar uma tarefa e observar um fenômeno, e uma
é o principal objeto de estudo do cientista que se utiliza de inúmeras ferramentas formais e
dimensão cognitiva, capaz de elaborar esquemas, modelos mentais, crenças e percepções
científicas para compreender o conhecimento existente e criar conhecimentos.
que refletem nossa imagem de realidade (o que é) e nossa visão do futuro (o que deve ser).

DESENVOLVIMENTO CIENTÍFICO E TECNOLÓGICO:


UNIDADE I 16
EXERCÍCIOS SUMÁRIO

1. Após a leitura desta unidade, reflita sobre as seguintes questões:

a. O que a Ciência possui de diferente em relação as outras modalidades de saber?

b. Por que motivo o conhecimento científico depende de investigação metódica?

c. Por que o conhecimento científico se esforça para ser exato e claro? Isso tem a ver com a busca da verdade?

2. Correlacione as afirmações a seguir sobre os tipos de conhecimento com as situações apresentadas para eles.

a. Empírico

b. Científico

c. Filosófico

d. Religioso

( ) Gelatina diet (sem adição de açucar), contendo três vitaminas e dois sais minerais, é indicada para quem
necessita fazer tratamento de ingestão controlada de açúcar.

( ) O homem poderá ser produzido em série, em tubos de ensaio.

( ) O ato de benzer pode curar dor de cabeça, mas apenas se for feito antes do pôr do Sol.

( ) Jesus Cristo morreu na cruz para nos salvar dos pecados.

DESENVOLVIMENTO CIENTÍFICO E TECNOLÓGICO:


UNIDADE I 17
REFERÊNCIAS SUMÁRIO

Asti Vera, A.. Metodologia da pesquisa científica. PortoAlegre: Globo, 1974.

Bêrni, D. A.; Fernandes, B. P. M. (Org.). Métodos e técnicas de pesquisa: modelando as ciências empresariais. São Paulo: Saraiva, 2012.

Cervo, A.L.; Bervian, P.A. Metodologia científica. 5. ed. São Paulo: Prentice Hall, 2002. 242 p.

Davenport, T.H., Prusak, L. Working Knowledge: How Organizations Manage What They Know. Boston, Mass: Harvard Business School

Press, 1998.

Dretske, F. I. Knowledge and the flow of information. Cambridge, MA: MIT, 1981.

Drucker, P. Desafios Gerenciais para o Século XXI. São Paulo: Pioneira, 1999.

Fachin, O. Fundamentos de metodologia. 4. ed. São Paulo: Saraiva, 2003. 195 p.

Fine, G. Plato on Knowledge and Forms: selected essays, Clarendon Press: Oxford University Press, Oxford, 2003.

Fonseca, J. J. S. Metodologia da pesquisa científica. Fortaleza: UEC, 2002. Apostila.

Galliano, A.G. O método científico: teoria e prática. São Paulo: Harbra, 1986. 200 p.

Gerhardt, T.E., Silveira, D.T. Métodos de Pesquisa. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2009.

Kurzweil, R. A Era das Máquinas Espirituais, ISBN 8576570335, São Paulo, SP: Editora Aleph. 2007.

Köche, J. C. Fundamentos de metodologia científica: teoria e prática da pesquisa. Petrópolis: Vozes, 1997.

Lakatos, E.M.; Marconi, M.A. Fundamentos de metodologia científica. 5. ed. São Paulo: Atlas, 2003. 311 p.

Menezes e Silva, C.M. A dimensão cognitiva da paixão em Aristóteles. EID&A - Revista Eletrônica de Estudos Integrados em Discurso e

Argumentação, Ilhéus, n.4, p. 13-23, jun. 2013.

DESENVOLVIMENTO CIENTÍFICO E TECNOLÓGICO:


UNIDADE I 18
REFERÊNCIAS SUMÁRIO

Nonaka, I.; Takeuchi, H. Criação do Conhecimento na Empresa: como as empresas geram a dinâmica da inovação. Rio de Janeiro: Cam-

pus,1997.

Nérici, I.G. Introdução à Lógica. 5. ed. São Paulo: Nobel, 1978. Parte II, Capítulo 10.

Oliveira, S.L. Tratado de metodologia científica: projetos de pesquisa, TGI, TCC, monografias, dissertações e teses. São Paulo: Pioneira

Thomson Learning, 2002. 320 p.

Sampronha, S.; Gibran, F.Z; Santos, C.M.D. Ciência pura e ciência aplicada: a dicotomia entre pesquisa básica e pesquisa aplicada no ce-

nário do desenvolvimento científico, tecnológico e econômico. Biosferas. ED. ESPECIAL 2012: A Biologia como Ciência e a Biologia como

Profissão, Rio Claro, p. 22-24, 16 maio 2012.

Siemieniuch, C. E., Sinclair, M. A., & Loughborough U of Technology, HUSAT Research Inst. (1999). Organization aspects of knowledge

lifecycle management in manufacturing. International Journal of Human-Computer Studies, 51(3), 517-547.

Silva, P.B., Cavalcante, P.S., Menezes, M.G., Ferreira, A.G., Souza, F.N. O Valor Pedagógico da Curiosidade Científica dos Estudantes. Quí-

mica Nova na Escola. Vol. 40, N° 4, p. 241-248, Nov. 2018. (http://dx.doi.org/10.21577/0104-8899.20160130)

Sveiby, K.E. What is knowledge management? Brisbane: Sveiby Knowledge Associates. 2001. Available at: https://www.sveiby.com/files/

pdf/whatisknowledgemanagement.pdf

Trujillo, F.A. Metodologia da ciência. 3. ed. Rio de Janeiro: Kennedy, 1974.

Werneck, V.R. Sobre o processo de construção do conhecimento: O papel do ensino e da pesquisa. Ensaio: avaliação de políticas púbicas

na Educação. Rio de Janeiro, v.14, n.51, p. 173-196, abr./jun. 2006.

Wiig, K. M. Knowledge management foundations : thinking about thinking : how people and organizations create, represent, and use

knowledge. Arlington (Tex.): Schema press. 1993.

DESENVOLVIMENTO CIENTÍFICO E TECNOLÓGICO:


UNIDADE I 19

Você também pode gostar