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Conceição Nogueira

Interseccionalidade
e
Psicologia Feminista

Conceição Nogueira

Interseccionalidade
e
Psicologia Feminista

2017, Conceição Nogueira


Qualquer parte dessa obra pode ser reproduzida, desde que citada a fonte. Direitos para essa edição cedidos à Editora Devires.

Editor
Gilmaro Nogueira
Revisão Textual
Clarissa Macedo

Capa
Taz Mota
Diagramação
Vivian Hernandez Alamo
Índice para catálogo sistemático:
1. Feminismo: 301.412
2. Identidade de gênero: 306.76
3. Estudos do gênero: 305(81)

Editora Devires
Av. Ruy Barbosa, 239, sala 104, Centro – Simões Filho – BA
www.editoradevivres.com.br

Sumário
Introdução
Os feminismos: ondas e epistemologias
As ondas no movimento feminista
Posicionamentos epistemológicos feministas
Uma Psicologia Feminista?
O impacto da(s) onda(s) Feminista(s) na Psicologia Social
A psicologia (das mulheres) na primeira onda
O gênero na segunda onda
O Gênero na crise da segunda onda
Uma Psicologia feminista (construcionista social) crítica
O feminismo negro
O gênero e a diversidade na terceira onda
A teoria da interseccionalidade
Questões de metodologia. Como "captar" a complexidade da interseccionalidade?
Interseccionalidade e Pesquisa em Psicologia
Questões críticas à teoria da interseccionalidade
Conclusão
Referências
Nota biográfica

João Manuel de Oliveira

Ser radical simplesmente significa entender as coisas na sua raiz


Angela Davis

Tomar o pulso da teoria feminista e da sua extensão à psicologia não dispensa, no mundo que fala português, a
consulta da obra de Conceição Nogueira. Foi o seu trabalho pioneiro que deu origem à perspectiva feminista crítica
na psicologia social em Portugal, ligada ao construcionismo social e às perspectivas feministas da terceira onda. O
seu trabalho também é muito referenciado no Brasil nesse âmbito. A sua proposta assenta numa crítica às
perspectivas individualizantes e apolíticas da psicologia, mas igualmente às visões mais essencialistas de alguns
feminismos e um inevitável compromisso ético-político que a psicologia sempre se recusou fazer. Pelo contrário, a
perspectiva de Conceição Nogueira é toda ela de compromisso inequívoco com as populações relegadas da
democracia e até da definição de humano. Ora, a sua voz e a sua reflexão juntam-se ao coro de descontentes com a
continuidade entre o projeto feminista e projetos neoliberais, bélicos e de opressão.
Nesta obra, Conceição Nogueira enumera as múltiplas vertentes dos feminismos, mostrando como a
importância das várias ondas feministas e o modo como vão impactar a produção dos estudos de gênero e como
interferem inclusivamente na psicologia. Este texto propõe traçar a história do conceito e da teoria da
interseccionalidade, trazendo para o contexto lusófono uma visão panorâmica sobre esta perspectiva, que é
originária do enegrecimento do feminismo, nas palavras de Sueli Carneiro (2003), uma das feministas que
denunciou a branquitude do movimento (Marcinik e Mattos, 2017). Este trabalho inscreve a perspectiva
interseccional nas lutas da 3ª onda do feminismo, em que se começa a questionar o sujeito do feminismo e a sua
unidade conceitual. É precisamente o feminismo negro que permite marcar esta inquietação crítica. bell hooks[1]
(1981) conta a história do como Betty Friedan (2013/1963) esqueceu das mulheres negras quando denunciava o
“problema sem nome” de síndrome tipo depressivo das jovens de classe médica com formação superior que se
ocupavam das tarefas domésticas quando casavam. Mas nunca olhou para as muitas negras que garantiam os
trabalhos domésticos de limpeza ou de cozinha e muitos outros. Trata-se, como afirma bell hooks, do problema do
feminismo branco. Cegueira face ao racismo.
No Brasil, o movimento feminista negro, como conta Sueli Carneiro (2003), depara-se com muitos problemas
similares, como noutros países. Em Portugal, a perspectiva feminista negra começa agora a despontar o que é vital,
com iniciativas como 1º Encontro de Feministas Negras em 2016 e a criação de coletivos como as Femafro. No
Brasil, há muitos mais grupos e movimentos e uma perspectiva feminista negra que não só floresce, mas que
influencia o feminismo como um todo. Este livro posiciona-se quase como um manual que ajuda a perceber as
origens da teoria da interseccionalidade, os seus usos na investigação engajada com o feminismo negro, as suas
aplicações na crítica às ciências androcêntricas e brancas e o modo como podemos contar esta história a partir da
localização estadunidense.
Trata-se de um livro localizado, mas que mostra como mesmo no Norte há epistemologias do Sul, como é a da
interseccionalidade, de um Sul que não é geográfico, mas que é resistente. Pensar o gênero com ‘raça’, classe,
sexualidades, entre outras matrizes é a nossa luta. Não deixar que o gênero seja universalizado, mas, ao estudá-lo,
pensá-lo a partir da sua articulação com outras formas de opressão. Esta proposta implica repensar o feminismo de
forma radical. E radical implica ir à raiz – a velha questão de Marx trazida por Angela Davis, uma das grandes desta
luta, e implica entender as viagens que os conceitos e as teorias realizam. Conceição Nogueira oferece-nos um mapa
dessas viagens de conceitos que dialogam e que são pensados de uma determinada maneira com um determinado
objetivo. Assim, trata-se de um texto que visa entender como a interseccionalidade se tornou um eixo vital do
pensamento contemporâneo, para todos os feminismos que não acreditem na visão única do que é ser mulher, mas
que, antes, entendam que eixos são chamados para construir a visão que temos do gênero. Como tal, é um texto que
se ocupa a analisar a visão do feminismo anglo-saxônico, até por ser ele que tem marcado a Psicologia Feminista.
Não menciona as múltiplas apropriações e encarnações destes feminismos através do globo e dos movimentos
globais e locais que usam a interseccionalidade como teoria e método, precisamente por querer traçar com cuidado
essa localização que aqui não é tomada como universal, mas como um ponto de produção destes saberes. Saber de
onde veio e como veio.
Um outro livro seria o que se fez com a interseccionalidade e como ela é reconstruída nos saberes decoloniais
dos movimentos feministas do Sul. Mas para esse exercício e para essa reflexão precisamos de primeiros passos
como estes, que nos ajudem a seguir as perspectivas da interseccionalidade e a inscrevê-las nas histórias da
libertação e das lutas que temos pela frente. Igualmente, esta obra pretende uma problematização da
interseccionalidade como uma ferramenta crucial de entendimento das profundas interconexões do gênero nas
múltiplas matrizes de privilégio e de opressão.
Trata-se de uma obra útil e importante no panorama lusófono, e que articula e apresenta este pensamento num
diálogo, trazendo este pensamento e práxis para o debate do feminismo contemporâneo. Resultado das suas provas
de agregação (livre-docência) em Portugal, é um trabalho que inscreve a importante teoria da interseccionalidade,
explica as suas metodologias e localiza-a nos feminismos contemporâneos. É um trabalho crítico e reflexivo que
toma como ponto de partida a complexidade das questões feministas na atualidade e oferece às leitoras e leitores
uma visão das promessas da interseccionalidade para a pesquisa em Psicologia Feminista, estudos de gênero e
estudos críticos das sexualidades.

Referências
Carneiro, Sueli. (2003). Mulheres em movimento. Estudos Avançados, 17(49), 117-132.
hooks, bell (1981). Ain't I a Woman?: Black women and feminism. Londres: Pluto Press.
Friedan, Betty (2013). The Feminine Mistique. Nova Iorque: WW Norton (data original de publicação: 1963)
Marcinik, Georgia G. e Matos, Amana R. (in press). Branquitude e racialização do feminismo: um debate sobre privilégios. In João M. Oliveira e
Lígia Amâncio (orgs.). Géneros e Sexualidades: Interseções e Tangentes. Lisboa: ISCTE-IUL (ebook) (p. 159-173).
Introdução
Neste texto[2] pretendo mostrar como as teorias e as epistemologias feministas influenciaram os estudos de
gênero/feministas e quais as influências que marcaram a psicologia Feminista crítica que advogo. Uma das
influências recentes foi a já tão popular, e a cada dia que passa mais disseminada, Teoria da Interseccionalidade.
Pretendo fazer uma breve história deste conceito – Interseccionalidade. Contudo, para que este possa ser
compreendido e claramente usado, é fundamental conhecer o contexto para a sua “produção” e posterior
disseminação, sem nunca esquecer que as referências usadas ao longo de todo este trabalho serão as do contexto da
teoria feminista anglo-saxônica com repercussões específicas na Psicologia social.
Assim, este trabalho terá três partes fundamentais. Numa primeira parte farei uma breve caracterização das
ondas feministas assim como das epistemologias, pela sua importância para o posicionamento científico adotado por
diferentes psicólogas/os nos seus programas de pesquisa e teorias desenvolvidas. E porque estas referências são
importantes para o posicionamento feminista crítico que adoto, e que apresento na segunda parte, desenvolvo ainda,
neste ponto, uma breve caracterização da Psicologia feminista conforme ela será referida neste texto, mas
considerando apenas as suas diversas assunções, independentemente dos diferentes posicionamentos possíveis.
Numa segunda parte, apresento o impacto das diferentes ondas do feminismo na psicologia feminista
(essencialmente aquela proveniente da psicologia social). Nos dois primeiros pontos, apresento as diferentes teorias
e posicionamentos epistemológicos que se fizeram sentir durante a primeira e segunda ondas do feminismo. No
ponto seguinte, apresento as teorias precursoras da crise da segunda onda dos feminismos e os desafios que foram
colocados à teorização feminista e, por consequência, aos estudos de gênero e/ou feministas na Psicologia. Dou
especial atenção aos pontos que são fundamentais para a compreensão da minha inserção pessoal no domínio. Faço,
por isso, uma apresentação mais detalhada do gênero numa perspectiva construcionista social e crítica. Por fim, no
último ponto desta parte, será apresentada a terceira onda, mostrando como ela iniciou os debates que são centrais
nesta fase do feminismo contemporâneo.
Situando-nos atualmente na terceira onda do feminismo, faço a apresentação da terceira parte, central neste
texto, da teoria da interseccionalidade. Esta teoria/perspectiva é apresentada como exemplo de uma alternativa
possível e, quem sabe, uma "oportunidade" para o desenvolvimento do domínio e da investigação da psicologia
feminista num tempo de grandes conflitos e paradoxos, de desfragmentação e de crise de identidade, mas também de
chamadas de atenção contínuas para a materialidade das desigualdades persistentes.
Os feminismos[3]: ondas e epistemologias
Os feminismos estão integrados de forma crescente no discurso social e político. Agora, como no passado,
existem diferentes abordagens, apesar de, tanto nos discursos cotidianos, como mesmo nas salas de aula, surgirem
frequentemente como sendo uma simples entidade relacionada com igualdade (Beasley, 1999). De qualquer modo,
as diferentes teorias são difíceis de definir e de demarcar, mas é necessário usá-las para se clarificar e organizar o
conhecimento produzido. Assim, neste texto, por facilidade de análise, assumirei algumas dessas classificações,
especialmente a de ondas feministas, assim como as diferentes teorias e epistemologias feministas.

As ondas no movimento feminista


A perspectiva dos feminismos por ondas não é consensual (Mann & Huffman, 2005) e existem alguns
problemas nesta conceitualização por duas ordens de razões. Por um lado, pensar em ondas pode dar origem a uma
tendência reducionista simplificadora da diversidade de perspectivas e posicionamentos salientando uma ou duas
ideias, de regra as mais consensuais; e, por outro lado, pode dar a ideia de que as abordagens, discussões e teorias de
cada uma dessas ondas foram sucessivamente "ultrapassadas" pelas ondas seguintes. Assim, o problema de
conceitualizar os movimentos feministas em ondas pode servir para obscurecer certas agendas políticas e certas
histórias. E pode ser reducionista, desde logo porque a primeira onda é pensada essencialmente como sinônimo de
sufrágio, e desta forma os feminismos iniciais são reduzidos apenas a um tema – o direito ao voto.
Contudo, é importante frisar que a história feminista e o debate acadêmico em torno da mesma são muito mais
complexos que estes posicionamentos redutores.
Sempre existiram conflitos na teorização feminista, mas estes serviram maioritariamente para complexificar as
teorias e os debates. Na terceira onda, no entanto, existem conflitos que são de ordem distinta e que apresentam
potencial de divisão (Dean, 2009; McRobbie, 2009), como veremos adiante.
Apesar de clarificadas as possíveis dificuldades com o uso desta divisão, neste texto falarei de ondas,
assumindo que esta classificação possibilita que se percebam as diferentes e diversas posições que foram sendo
trabalhadas ao longo do tempo (e que coexistem) e que, em determinados períodos, por razões de ordem distinta, se
encontraram mais facilmente e se traduziram em movimentos de pessoas, teorias e ativismos. Não se pretende, nem
esquecer perspectivas minoritárias que coexistiam nestes mesmos períodos, nem tampouco que as perspectivas que
se apresentam como sendo características da segunda onda (por exemplo) já não são consideradas "ultrapassadas "ou
"desatualizadas" em termos científicos. A concepção das ondas serve apenas para dar uma ideia de fluxo de massas,
pessoas, grupos e de movimento com um certo grau de coerência em termos temporais.
Assim, é possível identificar a existência de três ondas no movimento feminista (Dean, 2009; Dietz, 2003;
Mann & Huffman, 2005): a primeira, que se situa no meio do século XIX e vai até cerca dos anos 60; a segunda até
cerca dos anos 80; e a terceira onda, a atual, que alguns/mas designam por pós-feminismo (uma posição que assume
esta época como aquela onde o feminismo já não seria necessário). Esta designação induz à ideia de fim do
feminismo, perspectiva da qual discordo. Pelo contrário, considero esta terceira onda uma época que inaugura um
grande "local" de debate e de conflito, que caracteriza o feminismo atual, uma época "perturbadora", crítica e por
isso crucial. Alguns dos debates acerca desta onda serão adiante apresentados aquando da ligação entre as ondas
feministas e a psicologia.
Na primeira onda, as preocupações centrais da história do feminismo dizem essencialmente respeito à
emancipação das mulheres de um estatuto civil dependente e subordinado, e à reivindicação pela sua incorporação
no estado moderno, industrializado, como cidadãs de pleno direito tal como os homens (Evans, 1994). As principais
reivindicações desta onda foram essencialmente pelos direitos civis e políticos, pelo acesso ao estatuto de ‘sujeito
jurídico’, pelo direito ao voto, pelo qual o movimento sufragista se caracterizou, e pela melhoria das condições
materiais de vida das mulheres, pelos direitos sociais e no trabalho[4].
Quando se fala de segunda onda refere-se à época que se situa por volta dos anos 60 e que se prolonga mais ou
menos até meados dos anos 80 (Kaplan, 1992), apesar de se assumir que o livro O segundo sexo, de Simone de
Beauvoir, datado de 1949, inicia de algum modo esta onda.
Este período histórico de mais ou menos duas décadas, representou uma época de grande atividade e inovação.
As mulheres foram chamadas a participar no mercado de trabalho[5], um convite substancialmente distinto daquele
feito durante a segunda guerra mundial, já que naquela altura apenas lhes era pedido um esforço de trabalho
circunstancial e provisório de substituição dos homens.
Central em todas as expressões parecia ser a ideia da opressão feminina em diversos âmbitos: no trabalho, mas
também, e essencialmente, no seio da família nuclear[6]. Da preocupação típica da primeira onda com os direitos
civis (leis, direitos e cidadania), passa-se agora para aquilo que algumas autoras referem ser a política do
interpessoal, daí a frase célebre dos movimentos feministas “o pessoal é político” (Hanish, 1970). O fato das
mulheres continuarem em desvantagem não só na esfera pública como também na esfera privada, orientou a maior
parte das reivindicações da época.
As políticas da reprodução e da identidade, a contracepção e o aborto, a sexualidade (o prazer e o questionar da
heterossexualidade “compulsória”, a violência sexual e doméstica, os abusos, o questionar dos efeitos dos
estereótipos, do tratamento do corpo feminino como objeto na arte, na publicidade e na pornografia são temas
centrais neste período assim como o são para algumas teorias (movimentos e ações) feministas. Diferentes teorias
feministas, no entanto, acabaram por dar mais atenção a uns domínios do que outros, daí falar-se adiante em
diferenciação a nível das diferentes teorias feministas[7].
Nesta segunda onda eclodiram e tornaram-se bem conhecidas um conjunto de teorias feministas (Beasley, 1999;
Stainton-Rogers & Stainton-Rogers, 2001) que são atualmente ainda reconhecidas, e referidas. Podemos mencionar
de forma muito sucinta as mais analisadas e reconhecidas e citar as suas diferenças fundamentais[8].
As várias teorias têm como vetores de diferenciação o que consideram ser a causa da opressão das mulheres e
as ações necessárias a levar a cabo para anular as desigualdades.
Podemos começar por referir[9] o feminismo liberal, que se centra na emancipação e mudança societal, mas
considerando a alteração educativa, legal e de políticas sociais como o cerne das suas reivindicações. Estas
feministas acreditam que mudando as leis, e havendo programas de mudanças de atitudes, será possível alcançar a
mudança social e a emancipação das mulheres.
O Feminismo marxista (muitas vezes referido como sendo feminismo socialista), centra-se no capitalismo como
causa central da opressão das mulheres. Mantém a ideia de que as mulheres garantem força de trabalho servindo os
homens e renovando-a através da reprodução e dos cuidados maternos. A mudança possível só poderá ser instituída
com a abolição do capitalismo.
Por seu lado, o feminismo radical centra a sua atenção essencialmente nas micropolíticas do poder, nas relações
de sexualidade e em todas as relações com os homens e com o patriarcado (termo que inauguram). A ideia principal
de não "dormir com o inimigo", explica de forma metafórica o foco da opressão, proveniente das relações com os
homens e, especialmente, a nível das relações íntimas e sexuais. Focam-se em ações coletivistas de grupos de
mulheres, do tipo consciousness raising, e muitas delas vieram, posteriormente, a estar associadas a alguns
movimentos lésbicos "separatistas" por razões de ordem política.
O Feminismo cultural que muitas outras autoras designam como sendo o feminismo da diferença, defende a
existência de diferenças entre homens e mulheres, mas assume que as características femininas são de valor
(inclusive valor societal) superior. O foco central pode implicar, por exemplo, capacitar as mulheres para o exercício
da liderança e do poder considerando que nessas circunstâncias o poder seria mais humano, de melhor qualidade, e
que o planeta estaria melhor salvaguardado[10].
Ainda durante a segunda onda começa a emergir o Feminismo negro (Hooks, 1984), do qual falarei adiante, que
vem precisamente questionar os alicerces epistemológicos da teorização feminista, ao assumir que a maioria das
análises e das reivindicações eram baseadas nas experiências e necessidades de mulheres brancas, ocidentais e da
classe média.
Pode-se afirmar que durante a segunda onda do feminismo, e decorrente destas diferentes teorias, assistiu-se à
discussão de algumas questões fundamentais: a análise do poder, a análise da diferença e, por fim, já em meados dos
anos 80, com as novas teorizações, como o construcionismo social (Gergen, 1982, 1994), o pós-modernismo
(Flax,1990; Nogueira, 2001a; Stainton-Rogers & Stainton-Rogers, 2001) e o feminismo negro (Hooks, 1984), a
questão da diversidade e do anti-essencialismo.
Durante esta segunda onda, a emergência do feminismo como força política parece ter anunciado, e talvez
realizado, significativas redefinições dos alinhamentos políticos e dos acordos institucionais tradicionais.
A terceira onda na teoria feminista teve origem nos fins dos anos 80, ao mesmo tempo em que eclodiam as
críticas pós-estruturalistas e pós-modernas às concepções de gênero e de subjetividade do feminismo hegemônico da
época (Dietz, 2003; Mann & Huffman, 2005), que coincidiram e se sobrepuseram às críticas provenientes do
feminismo negro. Estas correntes críticas tinham em comum o compromisso com a abertura, a diversidade (Araújo,
2007) e a pluralidade que pareciam faltar ao feminismo da segunda onda (Dean, 2009).
No entanto, a terceira onda não é consensual nas suas características. É um significante essencialmente
contestável que pode ser incorporado e utilizado por acadêmicas e ativistas feministas numa pluralidade de maneiras
diferentes (Dean, 2009; Mann & Huffman, 2005, Wekker, 2004).
Conforme refere Jonathan Dean (2009), poucos conceitos e debates dentro da teoria e da prática feministas têm
causado tanto desconforto quanto a caracterização da história feminista Euro-Americana pós-1900 como uma série
de três "ondas" distintas. E esta perturbação tem sido aumentada pelo conflito que resulta da definição e clarificação
acerca da terceira onda (Mann & Huffman, 2005).
Esta onda tem sido identificada como sendo de backlash (Faludi, 2001), como pós-feminismo (Macedo, 2006),
assim como das abordagens feministas pós-modernas e pós-estruturalistas, mais ou menos radicais, mas ainda assim
feministas. Frequentemente esta indefinição está também associada ao que diferentes autoras denominam como
sendo a "agenda das jovens feministas" (Mann & Huffman, 2005; McRobbie, 2009). Quem associa a terceira onda a
uma época de backlash[11] anti-feminista (Kaplan, 1992; Macedo, 2006; Wekker, 2004) assume que as mulheres já
não se identificam com as lutas feministas, e, em alguns casos, podem até pretender retrocessos em termos de
direitos (por exemplo, alguns grupos argumentam pelas vantagens do retorno das mulheres a casa). O pós-
feminismo tem sido muito difícil de caracterizar, e há também diferentes possibilidades de percepção (Macedo,
2006). De qualquer modo, parece haver acordo quanto à ideia que representa assumir e aceitar o feminismo, mas
enquanto projeto que se cumpriu. Associar a terceira onda feminista a uma geração, a um feminismo cuja agenda
política é a das mulheres feministas, jovens nascidas depois dos anos 70/80, que não se identificam e por isso se
distanciam claramente das feministas de segunda onda, tem sido talvez a definição de terceira onda que mais
conflitos tem gerado (Dean, 2009; McRobbie, 2009)[12]. Este conflito advém do fato de tendencialmente associarem
as ondas feministas a noções exclusivas de temporalidade, de situarem o movimento num espaço essencialmente
anglo-americano, ignorando os diferentes movimentos e ativismos no mundo (Dean, 2009; McRobbie, 2009) e de
considerarem a segunda onda redundante, necessitando ser substituída por um modo distinto de feminismo. Segundo
Jonathan Dean (2009), este posicionamento pode fazer esquecer que há ainda muitos temas/problemas colocados na
segunda onda que estão por resolver (de forma diferenciada em distintos locais do mundo), pode fechar o debate e a
discussão e, consequentemente, as possibilidades para as políticas feministas plurais e multiculturais, acabando por
perpetuar as distinções entre grupos de feministas e, no limite, levar à fragmentação dos movimentos (McRobbie,
2009)[13].
Assumo neste texto que o feminismo não deve abandonar o uso da metáfora das ondas. Pelo contrário, advogo
um debate mais aberto acerca do seu potencial (em oposição a uma visão simplista) que reflita um grau de abertura,
de diversidade e de internacionalismo aos projetos feministas (Dean, 2009; Dietz, 2003; Mann & Huffman, 2005;
Wekker, 2004). Esta última perspectiva na qual me situo, assume a terceira onda como sendo a das feministas pós-
modernas e pós-estruturalistas que criticamente questionam a noção de identidade coerente, estável e resistem à
categorização e ao essencialismo (Dietz, 2003). Assim, mais do que um corte constituído por um grupo geracional, a
terceira onda é usada para referir uma posição teórica específica que enfatiza a problematização de concepções
femininas/feministas essencialistas e monolíticas de subjetividade (Dean, 2009).
Neste contexto, é possível conceber nesta onda, críticas às perspectivas epistemológicas tradicionais da segunda
onda (particularmente ao essencialismo) e apresentar a desconstrução, a diversidade e a fragmentação identitária
como posições (possíveis) na atualidade. Concordo com Gloria Wekker (2004) que o feminismo do "novo milênio"
pode e deve ser transnacional (de forma a ter em conta as assimetrias do processo de globalização assim como as
assimetrias de cultura e de capital), ser interdisciplinar (de forma a desestabilizar, criticar e desafiar as práticas
metodológicas rígidas dos limites das disciplinas) e ser interseccional (onde o gênero não pode ser isolado de outros
eixos de significação).
A terceira onda pode ser uma época onde é possível ter um posicionamento feminista crítico que não abdique
de uma materialidade (ainda que instável e flexível) e, por isso, não abdique de possibilidades de intervenção quer a
nível da investigação na psicologia, quer a nível dos movimentos sociais e da política.

Posicionamentos epistemológicos feministas


A crítica feminista da ciência surgiu em meados dos anos 70 (Nogueira, 2001e; Keller, 1991). Na ciência em
geral, assim como nas ciências sociais e mais tarde na psicologia, as reivindicações feministas e as críticas à família,
à opressão feminina e ao estatuto de subalternização das mulheres tiveram repercussões importantes quer ao nível da
pesquisa, quer ao nível das diferentes teorias. Até essa altura, as feministas que trabalhavam na área científica eram
poucas.
A segunda onda do feminismo começou muito lentamente a analisar e a contestar a ciência, a ver as conexões
entre essa entidade moderna denominada "ciência" e os problemas centrais do movimento feminista. Nessa altura, as
preocupações diziam respeito, por um lado, às reivindicações de algo que era negado às mulheres e, por outro lado, à
necessidade de visibilidade e de uma existência social e política (Rose, 1986).
As feministas começaram a denunciar essencialmente as lacunas e mesmo as falsificações e generalizações
abusivas de um saber que identifica a masculinidade com o universal (Amâncio, 1994; Amâncio & Oliveira, 2006;
Neves & Nogueira, 2005; Nogueira, 2001a) e a exclusão ou a subordinação das mulheres, seja como objeto seja
como sujeito (Kamuf, 1990, Neves & Nogueira, 2005). Por isso, as críticas à ciência são unânimes no que diz
respeito ao forte enviesamento androcêntrico, assim como à escolha de desenhos e interpretações das próprias
experiências que raramente tinham em conta quer o sexo/gênero feminino, quer a experiência feminina.
No entanto, o acordo relativo ao desafio que se devia encetar face ao conhecimento (Keller, 1991) não tem
paralelo no que diz respeito às soluções para o substituir (Collin, 1991; Harding, 1990;). Segundo Keller (1991), as
críticas feministas à ciência variam entre posições mais “brandas” e outras mais “radicais”. As posições ditas
“brandas” ou liberais, embora admitindo que a maioria dos cientistas são homens, não colocam em causa a
concepção tradicional de ciência e por isso estão de acordo com os pressupostos da ciência moderna. Neste caso, as
feministas estudam dentro da academia, nos moldes tradicionais de pesquisa, analisando essencialmente questões
que dizem mais respeito às mulheres. As posições mais radicais (frequentemente provenientes da teoria crítica),
questionam a objetividade e a racionalidade como bases da metodologia científica, e sugerem que a ciência está
imbricada na política e na ideologia (Ibanez & Íñiguez-Rueda, 1997).
Para Sandra Harding[14] (1986), as críticas feministas à ciência moderna tomaram três formas: o empiricismo
feminista, as teorias de standpoint[15] feminista e mais recentemente (depois dos anos 80) o feminismo pós-
modernista. O feminismo empiricista identifica o sexismo e o androcentrismo como sendo enviesamentos sociais
que podem ser corrigidos pela estrita adesão às normas da pesquisa científica. Acreditam que as distorções
verificadas são devidas a influências sociais, passíveis de serem removidas. Na segunda categoria, cuja
epistemologia é mais relativista, encontram-se as teorias de standpoint feminista (Harding, 2004), onde a perspectiva
é diferenciada e específica de gênero: a mulher ou as mulheres são encaradas como a base primordial de toda a
pesquisa. Pensam que um conhecimento verdadeiramente feminista, centrado nas experiências únicas das mulheres,
pode produzir melhores facetas da realidade (Rose, 1986).
As perspectivas empiricista e de standpoint feminista partilham um conhecimento universal e generalizável, já
que pressupõem que o conhecimento deve ser universal para o grupo "mulher". Desta forma, assumem a existência
de identidades essencializadoras (Harding, 1986).
O feminismo pós-moderno vai mais longe no que diz respeito ao desafio dirigido aos pressupostos do
empiricismo feminista e das teorias de standpoint feminista (Harding, 1986). Recusa a possibilidade de qualquer
discurso universalizante, mas argumenta que nós devemos focalizar em conhecimentos feministas confiáveis e
localizados (Rose, 1986). Em vez de se optar pelo caráter do conhecimento como um resultado final e uma lei
universal (seguindo os pressupostos positivistas), sem ser possível descortinar o processo nem a sua localização no
mundo, os conhecimentos situados são uma proposta epistemológica de localização e de consideração da
contextualidade do conhecimento, no quadro da sua própria produção (Haraway, 1988; Oliveira & Amâncio, 2006;
Oliveira, 2010).
Os conflitos que estas diferentes posições feministas críticas acarretam, podem ser considerados como
benefícios libertadores para a própria ciência, porque possibilitam o diálogo, a produção complexa de teorias e a
possibilidade de posições teóricas negociáveis (Mann & Huffman, 2005). Por exemplo, a pluralidade preconizada
pelo pós-modernismo aliada a um posicionamento realista crítico poderá ser uma solução a valorizar. No entanto,
mesmo esta classificação (da epistemologia pós-moderna) é colocada em questão dentro da teorização da terceira
onda. A própria ideia de classificar e de criar taxonomias de epistemologias é desafiada e considerada como uma
perspectiva característica, precisamente, das ideias da segunda onda (Tuin, 2009).
Considero, no entanto, que apesar da apresentação dos debates que estão no momento a ser levados a cabo
serem necessários, por razões pedagógicas, é particularmente importante dar uma ideia de classificação de forma a
organizar o conhecimento. Esta classificação pode ajudar a clarificar e a discutir caminhos.
Pode ajudar a construir o futuro... Um futuro em construção poderá apontar outras alternativas...
Concordo com Elizabeth Cole, quando no seu artigo de 2009 Intersectionality and Research in Psychology, na
revista American Psychologist, refere um dos caminhos para o futuro: a inserção de uma perspectiva interdisciplinar
na busca de argumentos e teorias que possam iluminar de forma mais informada os estudos que se pretendem
realizar. Assim penso que deveremos caminhar... interdisciplinarmente ou, no limite, transdisciplinarmente.
Mas este texto fala do passado e do presente, inseridos nas discussões atuais da teoria feminista e nas suas
repercussões para uma psicologia feminista crítica.

Uma Psicologia Feminista[16]?


Desde os primórdios, a psicologia rapidamente estabeleceu o seu território como o de uma ciência objetiva,
quantitativa, empírica e livre de valores. O pesquisador[17] é tomado como sendo um observador não enviesado que
conduz experimentos laboratoriais cuidadosamente controlados e que se mantém distanciado dos sujeitos em estudo.
Apesar de muitos estudos iniciais terem sido conduzidos com animais, os objetivos da pesquisa foram geralmente
concebidos no sentido de compreender e prever o comportamento humano. Os resultados eram concebidos como
verdades universais ou leis que se poderiam aplicar a um largo leque de indivíduos em diferentes situações e tempo.
Face a este panorama, é compreensível imaginar como a luta por uma psicologia feminista, discordante dos
pressupostos da psicologia tradicional, pode ser difícil de conceber.
Apesar de toda a “impossibilidade” imaginada, pode-se assumir que a psicologia feminista foi alimentada no
solo do amplo movimento feminista. No entanto, a influência imediata deste movimento não se fez sentir logo na
ciência nem no seio da psicologia (Amâncio, 2001)[18]. As mulheres tiveram que lutar para se tornarem visíveis
enquanto profissionais na ciência; à medida que se tornavam um grupo maior, foram progressivamente lutando por
transformações no seio da própria ciência.

“A ciência que se fazia na altura, sobretudo experimental e de orientação


comportamentalista, mantinha-se alheada das questões suscitadas pelos novos
movimentos sociais e ignorava as mulheres enquanto sujeitos e objetos de
pesquisa”. (...) A necessidade de criar um espaço de visibilidade e reconhecimento
para o trabalho desta nova geração de investigadoras conduziu a emergência da
psychology of women, que se institucionalizou com a criação da Divisão 35
(Psychology of Women Division) no seio da APA, em 1974 e se afirmou, no seio
da comunidade científica, com a fundação das revistas Sex-roles, em 1975 e
Psychology of Women Quarterly, em 1977” (Amâncio, 2001, pp. 11,12).

Desde essa época, e num breve período de tempo, as psicólogas feministas tornaram a sua presença conhecida
através de múltiplos esforços de rever e de reconstruir a disciplina[19].
No início dos anos 70, as psicólogas feministas questionaram o enviesamento androcêntrico do conhecimento
psicológico, o qual acreditavam refletir um modelo masculino da realidade. Apontaram que muitos pesquisadores,
assim como os sujeitos que estes estudavam, eram essencialmente homens; os tópicos que estudavam, como por
exemplo a assertividade e a agressão, eram preocupações masculinas, e que os resultados das pesquisas baseadas em
amostras masculinas eram assumidos como se se aplicassem também às mulheres (Crawford & Marecek, 1989)[20].
Estes estudos iniciais providenciaram o ímpeto para a semente de um campo de pesquisa sobre as mulheres e sobre
os múltiplos significados do gênero.
Nos anos subsequentes, as psicólogas feministas contribuíram com abordagens inovadoras no desenvolvimento
de teoria, de medidas e de abordagens em diferentes áreas, apesar da sua influência em termos de pesquisa, no geral,
ser diminuta. Para além disso, em muitas áreas houve, e ainda há, resistência à mudança[21]. As barreiras mantêm-se
quando o termo “feminismo” define a compreensão ou o processo de pesquisa[22].
A psicologia tradicional tende a funcionar dentro da designada “torre de marfim”, isto é, a pesquisa conduzida é
valorizada pelo seu valor intrínseco como informação básica acerca do comportamento humano e da condição
humana. Pelo contrário, as psicólogas feministas promoveram o princípio do ativismo social, da implicação com
causas para os grupos sub-representados. Nesta perspectiva, a pesquisa que é socialmente relevante para a vida das
mulheres e das famílias é altamente valorizada, em parte porque é mais provável que se traduza em políticas que
beneficiem as mulheres (e os homens) e que remedeiem as injustiças sociais.
A pesquisa psicológica socialmente relevante tem sido eficaz no advogar de causas como o direito ao aborto
(Oliveira, 2009), a luta contra a violência de gênero (Azambuja & Nogueira, 2008a; Azambuja, & Nogueira, 2008b;
Azambuja & Nogueira 2007; Neves & Nogueira 2004; Neves, 2008), aos direitos de pessoas lésbicas, gays,
bissexuais e transgênero (Nogueira & Oliveira, 2010; Oliveira, Pena & Nogueira,2010), às iniciativas para apoio à
saúde das mulheres (Azambuja & Nogueira, 2010 ; Strey, Nogueira & Azambuja, 2010), as questões da sexualidade
feminina (Costa, Nogueira, & Lopez, 2009; Saavedra, Nogueira & Magalhães, 2010), as questões associadas às
masculinidades (Ribeiro, Paul & Nogueira, 2007; Neto, & Nogueira, 2009) e muitas outras questões que afetam o
bem-estar das mulheres e dos homens e que são de importância fulcral.
Neste papel de defensora de causas, atuando como ativismo científico (Hankivsky et al., 2010), a psicologia
feminista tem sido influente no deslocar da psicologia tradicional face a uma posição mais ativista, no sentido da
transformação social.
Apesar da hostilidade ou ambivalência da "disciplina-mãe", a psicologia feminista teve, e foi influente em
algumas esferas. Entre elas podem-se salientar os seguintes aspectos (Worell, 2000): 1) a criação de novas áreas de
pesquisa, novos assuntos e (re)nomear de problemas, sendo o melhor exemplo a questão da violência contra as
mulheres, e a violência de gênero; 2) o questionar de métodos de pesquisa e de prioridades, por exemplo, a inclusão
de métodos qualitativos e preocupação com investigação associada às desigualdades e às discriminações; 3) novas
abordagens à prática clínica e terapêutica, onde se pode atualmente situar o campo das terapias feministas[23]; e
finalmente, 4) a integração da problemática da diversidade chamando a atenção para as diferenças entre as mulheres.
Apesar de existirem um conjunto de pressupostos que caracterizam a psicologia feminista, apresentados
anteriormente, este domínio não está isento de conflitos ideológicos e desacordos internos. Dentro da psicologia
feminista, pelo menos três áreas promovem o diálogo/debate contínuo, mas também divergências[24]. São elas: a) a
escolha da designação de psicologia feminista versus psicologia de mulheres; b) o assumir do essencialismo versus
construcionismo social; e c) assumir o gênero versus diversidade na opressão das mulheres.
Face a estas posições ou divergências, neste texto apenas um dos polos das divergências será assumido. A
designação de psicologia feminista (e não psicologia das mulheres) com um posicionamento construcionista social
(não essencialista) é claramente a base fundacional teórica e epistemológica deste trabalho. A questão da diversidade
será alvo de discussão porque inicia o debate sobre a teoria da interseccionalidade, ponto central deste texto.
Se se assumir que a Psicologia feminista foi tendo diferentes posicionamentos em diferentes épocas, aliás como
veremos no ponto adiante relativos ao sexo/gênero nas diferentes ondas do feminismo, não deixa de ser importante
referir, como salientam Stewart e Dottolo (2006), que a maioria dos trabalhos da nova geração de psicólogas
feministas são em temas como corpo, sexualidade, estudos transgêneros, intersexo, tópicos que são familiares aos
estudos interdisciplinares dos Women's Studies e muito ligados aos trabalhos de orientação pós-moderna. Muitos
destes trabalhos, alguns deles publicados nas revistas mais mainstream da psicologia, derivam de teorias e de
discursos particularmente não familiares aos psicólogos/as e à Psicologia, como é exemplo o trabalho de Michel
Foucault, agora muito citado (Stewart & Dottolo, 2006). Em contraste com a geração anterior, principalmente da
segunda onda, as/os jovens pesquisadoras usam métodos que são familiares na psicologia de forma muito flexível,
às vezes de forma muito pouco ortodoxa. Estas/es pesquisadoras/es parecem estar envolvidas em algumas tarefas
importantes: conduzem uma investigação que de algum modo se baseia em trabalho de feministas que as/os
precederam, encontram argumentos para justificar métodos e pesquisa mistos ou mesmo alternativos, e apelam à
interdisciplinaridade. Esta nova geração parece criar novas fusões e integrações que acabam por ser diferentes do
trabalho gerado na geração anterior[25].
Pode-se afirmar que apesar da existência de conflitos internos, e de debates contínuos, a psicologia feminista
continua a crescer e a mostrar-se frutífera no levantar de problemas e soluções alternativas construtivas assim como
abordagens inovadoras. As/os psicólogas/os feministas aspiram à promoção de uma disciplina aberta à mudança,
que valorize e promova a igualdade e a justiça social entre grupos e indivíduos e que seja ativa na insistência para o
bem-estar quer de homens quer de mulheres de todos os grupos.
Concluindo, pode-se dizer que a psicologia, como o feminismo, não é unitária, mas representa uma variedade
de pontos de vista, métodos e áreas de estudo (Phoenix, 1990). A pesquisa conduzida pelas feministas tem muito a
dar à disciplina da psicologia, muito embora não exista uma metodologia feminista que todas as feministas
subscrevam (Domício & Nogueira, 2009; Neves, & Nogueira, 2004; Neves, & Nogueira, 2005; Nogueira, Saavedra,
& Neves, 2006).
Esta diversidade de perspectivas influencia a pesquisa que elas escolhem fazer e os métodos que usam,
existindo, no entanto, grandes temas com os quais as/os feministas parecem concordar (Phoenix 1990; Wilkinson
1986) e que normalmente implicam uma avaliação crítica do processo de pesquisa em si mesmo.
Penso como Kitzinger (1990), que ser feminista significa ser responsável face a outras feministas pela
psicologia que se faz, e como psicóloga, ser responsável face à psicologia pelo feminismo. Apesar da etiqueta de
psicologia feminista poder ser considerada uma contradição nos termos (no sentido de uma ciência positivista, logo
neutra e objetiva), assumo esse posicionamento e essa responsabilidade. Adiante, no ponto relativo à relação do
gênero com as posições da crise da segunda onda, assumirei claramente as bases teórico-epistemológicas e políticas
desta posição: uma psicologia feminista crítica.
O impacto da(s) onda(s) Feminista(s) na Psicologia Social
A psicologia (das mulheres) na primeira onda
A psicologia nasce como ciência ao mesmo tempo que se inicia a primeira onda do feminismo. Por isso não se
fazia sentir o efeito nem a presença do feminismo e só em alguns casos muito particulares se assistiu a referências
individuais que se poderiam denominar de feministas (Saavedra & Nogueira, 2006).
No início do século XX, nos Estados Unidos da América, a nova geração de mulheres estava pressionada pela
independência econômica e os direitos políticos e os homens envolvidos numa "nova" masculinidade, com reflexos
óbvios na psicologia americana (Minton, 2000). Com homens a dominar a disciplina, a psicologia científica que
estava a nascer e a consolidar-se, projetou os valores desse "novo" homem. Minton refere os nomes de psicólogos
proeminentes como G. Stanley Hall, James Cattell e William James como exemplos dessa psicologia androcêntrica.
Poucas mulheres desafiaram o viés androcêntrico, já que para serem aceites, a maioria escolheu imitar as abordagens
da psicologia que foram defendidas por seus pares masculinos. Algumas, no entanto, foram sensíveis à experiência
das mulheres, sendo que as mais notadas foram Maria Whiton Calkins, Helen Thompson Woolley e Leta Stetter
Hollingworth[26].
Por volta dos anos 20, a inconsistência dos resultados encontrados sobre as diferenças entre os sexos, pesquisa
dominante até à altura, fez com que este domínio da psicologia fosse um pouco “posto de lado". Contudo, alguns
persistiram neste domínio de investigação, sendo os mais bem-sucedidos Lewis Terman e Catherine Cox Miles
(Morawski, 1990). O trabalho desenvolvido por este autor e autora, a partir de 1936, tinha como principal objetivo
identificar e medir atributos psicológicos de homens e mulheres a fim de revelar incongruências entre o sexo
biológico e o sexo psicológico. Este tipo de investigação obteve grande popularidade e veio a dar origem a um
conjunto de estudos em que foram determinadas as características típicas de homens e mulheres, mudando-se, assim,
o centro da atenção das diferenças intelectuais para as diferenças de personalidade entre os sexos. Mais tarde, em
1955, Parsons e Bales, provenientes da sociologia, mas com grande influência na psicologia social, baseando-se na
orientação de papéis na família, associaram a figura masculina à instrumentalidade e a feminina à expressividade. O
bom desempenho dos papéis (de expressividade para as mulheres e de instrumentalidade para os homens) orientaria
a personalidade individual (Lorenzi-Cioldi, 1994). É através do processo de socialização dos papéis sexuais
(socialização feita essencialmente no seio da família) que determinados papéis sociais seriam associados a cada um
dos sexos, definindo-se deste modo as diferenças no perfil de personalidade de homens e mulheres (Amâncio, 1994).
A partir destes trabalhos, ficaram criadas as condições não só para o aparecimento imediato dos temperamentos
masculinos e femininos, como também para o início de um vasto programa de pesquisa sobre as diferenças sexuais,
baseado na simplicidade da dualidade de papéis, e assistindo-se à redução dos temperamentos masculinos e
femininos à posse de traços de personalidade (Hare-Mustin & Marecek, 1994; Lorenzi-Cioldi, 1994). Assumem-se
disposições individuais consistentes e estáveis, os traços, sendo as personalidades femininas e masculinas tomadas a
priori para justificar, por exemplo, a desigualdade no acesso a posições de chefia, supostamente requerendo traços
instrumentais, logo masculinos.
A imagem de uma mulher que difere do homem pela sua emocionalidade mais rica e variada, que condiciona o
seu comportamento quotidiano, sendo igualmente tímida, dócil, vaidosa e sem espírito de aventura, torna-se uma
espécie de protótipo de temperamento que vem assim a constituir-se como uma norma, para um grupo.
A nível dos programas de pesquisa na psicologia passou-se, assim, do estudo das diferenças entre os sexos com
explicações biológicas para, depois dos anos 30, se assumir a assunção da diferença de personalidade entre homens e
mulheres. Diferenças consideradas estáveis e universais e de cariz intrapsíquico (Saavedra & Nogueira, 2006). Deste
modo, a psicologia continuou a reforçar as diferenças, acentuando a inferioridade das mulheres, remetendo-as ao lar
e à família, onde as suas características seriam bem adaptadas.
Apesar de muitas investigadoras terem realizado um trabalho importante para refutar as teorias biológicas
acerca das diferenças sexuais e os papéis de gênero (Bohan, 1992), este trabalho não foi institucionalizado como
importante para a psicologia e acabou por desaparecer das memórias da investigação em psicologia com o advento
da segunda onda do feminismo (Unger, 2010).
O gênero na segunda onda
Teria de se esperar pelo impacto da segunda onda do feminismo na década de 60 para que o viés androcêntrico
da psicologia fosse seriamente desafiado (Minton, 2000) e novos programas de pesquisa, agora claramente
feministas, ou informados pelas teorias feministas, pudessem surgir.
No entanto, esta influência não foi imediata (Amâncio, 2001). As mulheres tiveram que lutar para se tornarem
visíveis enquanto profissionais na ciência e as críticas feministas à ciência psicológica foram sempre difíceis de
aceitar, possivelmente devido à ênfase positivista que dominava a disciplina, e que se fundamentava na neutralidade
e na objetividade (Hare-Mustin & Marecek, 1988; 1990). A procura do conhecimento científico supõe-se ser neutra,
objetiva, desapaixonada e desinteressada (pelo menos em termos da perspectiva da ciência moderna), procurando
proteger os resultados da pesquisa dos valores sociais dos pesquisadores e das suas culturas. Se ser feminista,
implica uma clara defesa dos interesses de um grupo, assumir o feminismo na ciência psicológica seria assumir
como que a sua não-neutralidade (Harding, 1994; Kitzinger, 1991; Nogueira, 2001a).
Uma onda de interesse face a uma nova psicologia do gênero (ou das mulheres) começou a consolidar-se
essencialmente devido ao estabelecimento de organizações feministas e de revistas científicas do domínio.
Como refere Lígia Amâncio:

"Nascido no intenso debate que o feminismo da segunda onda gerou, o


conceito de gênero difundiu-se rapidamente nas ciências sociais, se considerarmos
a cronologia de alguns textos de referência, como o de Ann Oakley (1972) para a
sociologia, o de Rhoda Unger (1979) para a psicologia social e o de Joan Scott
(1988a) para a história" (2003, p. 687).

No entanto, apesar da criação do conceito de gênero que distinguia o sexo biológico inscrito no corpo, do
gênero, cujos atributos ou características tinham origem social e cultural, quando surgiu a necessidade de criar um
espaço de visibilidade e reconhecimento para o trabalho desta nova geração de investigadoras surge a divisão da
Psychology of Women[27], e não uma de Psicologia Feminista.
As incongruências observadas e salientadas pelas críticas feministas e pelas epistemologias empiricistas (e de
standpoint) para além da investigação em prol da desmistificação do programa de pesquisa sobre diferenças sexuais
vão estar na origem de algumas teorias muito reconhecidas e difundidas. São elas essencialmente a teoria da
androginia formulada inicialmente por Sandra Bem (Bem, 1981; 1974; 1993), a teoria do papel social de Alice
Eagly (1987) e a teoria de desenvolvimento moral de Carol Gilligan[28], três das grandes contribuições feministas
(americanas) efetuadas no decorrer da segunda onda do feminismo, apesar de estas se posicionarem de forma
diferente entre si quanto às teorias feministas subjacentes[29].
A teoria da androginia, que surge no início dos anos 70, da investigadora Sandra Bem, pretende desafiar a
perspectiva dualista acerca dos sexos que se mantinha na psicologia social desde os trabalhos de Terman e Miles e
de Parsons e Bales (Morawski, 1990). A androginia sugere a combinação de atributos femininos e masculinos,
eliminando a suposição do dualismo de gênero. Não assume nenhuma ligação entre sexo biológico e gênero
psicológico (Morawski, 1990) e pretende essencialmente que as mulheres se libertem das orientações
comportamentais consideradas adequadas ao seu sexo (Amâncio, 1994). Como refere Amâncio (1994), a hipótese
central do modelo de Bem sugeria que os indivíduos andróginos (que alteram comportamentos femininos e
masculinos em função das situações) possuíam uma autoestima mais elevada assim como bem-estar superior. No
entanto, esta noção revelou-se, de forma algo paradoxal, inconveniente e desapropriada para as perspectivas
feministas (Amâncio, 1994; Morawski, 1990). A questão principal residia no facto de o modelo da androginia
continuar a reconhecer os conceitos convencionais de feminilidade e masculinidade, retendo o dualismo clássico e a
afirmação de algumas diferenças de gênero “reais”, isto é, a existência de entidades reais e internas do ponto de vista
psicológico (Morawski, 1990). Definindo certos traços de personalidade estereotipados para homens e para
mulheres, acaba-se por perpetuar o mito de que os dois sexos são realmente e “essencialmente” (Nogueira, 2001c)
diferentes um do outro.
Alice Eagly (1987) elaborou a sua teoria de papel social, sendo a sua tese central a ideia de que as diferenças
sexuais são um produto dos papéis sociais que regulam o comportamento na vida adulta (em oposição a muitas
teorias das diferenças sexuais baseadas quer em fatores biológicos, quer na socialização infantil precoce).
Considerando que as explicações baseadas nos papéis sociais que controlam a vida adulta não tinham sido ainda
alvo de qualquer tentativa unificadora, no sentido da organização de uma teoria distintiva do comportamento sexual
tipificado, decidiu interpretar as diferenças sexuais no comportamento social em termos de uma única perspectiva
social-normativa. Os papéis de gênero são definidos como aquelas expectativas partilhadas acerca das qualidades e
comportamentos apropriados dos indivíduos, em função do seu gênero socialmente definido. Estes papéis de gênero
induzem quer direta quer indiretamente as diferenças sexuais estereotipadas. Na medida em que homens e mulheres
não estão proporcionalmente representados em papéis sociais específicos, acabam por adquirir diferentes
competências e crenças que, por sua vez, afetam o seu comportamento social. Algumas críticas a esta teoria incidem
quer na concepção de papel de gênero, como uma causa e não um efeito (Amâncio, 1994) quer sobre algumas
questões que deixa por colocar (Hare-Mustin & Marecek, 1994), tais como: quais as origens dos papéis de gênero?
Como se explica a dominância do homem e a subordinação da mulher? Será a dominância masculina o resultado de
uma fraca aprendizagem de competências por parte das mulheres?
Apesar da ênfase na socialização, defendida por Eagly, ter implicado uma desfocagem do aspecto biológico, a
favor de uma ênfase no condicionamento cultural (Amâncio, 1992), o sistema social das relações de gênero
continuou a não ser questionado.
Concluindo, se, até os anos 60, durante a primeira onda do feminismo, a psicologia assumiu como dado
adquirido que as mulheres e os homens eram diferentes, sendo a ausência de diferenças encontradas
sistematicamente ignoradas (Maccoby & Jacklin, 1974; Hare-Mustin & Marecek, 1990), nos vinte anos que se
seguem o grande debate passa a ser analisar em que medida as mulheres são iguais ou diferentes dos homens e o que
suporta essa igualdade ou diferença. Nesses anos os pressupostos teóricos e as investigações vão dividir-se entre: 1)
argumentação para justificar a igualdade de características entre os gêneros (exemplo: a teoria de Sandra Bem da
Androginia); 2) argumentações para justificar as diferenças entre os gêneros (exemplo: teoria da Alice Eagly dos
papéis sexuais); 3) valorização das diferenças entre os gêneros (exemplo: teoria do desenvolvimento moral de Carol
Gilligan).
Na psicologia, as feministas insistiram no reconhecimento e na afirmação do sexismo, quer no desenvolvimento
de hipóteses quer nos procedimentos adoptados para as validar, na reivindicação de expansão da área de pesquisa de
forma a incluir um enfoque na experiência das mulheres, e na necessidade de se estudar as consequências da
dominação masculina para o desenvolvimento pessoal e para a interação social.
A perspectiva feminista na psicologia originou o levantamento de novas questões, a introdução de novos
conceitos, modelos e problemas, uma ênfase no significado do gênero em termos do seu valor como estímulo, como
prescrição de papel e relação de poder. Pode dizer-se que hoje o seu trabalho (quer teórico quer empírico) é
reconhecido e apreciado.
Como já se referiu, na psicologia desta época as psicólogas feministas foram essencialmente de epistemologia
empiricista e o seu programa incidiu sobretudo na remoção dos enviesamentos sexistas e androcêntricos da pesquisa,
mas permitiu ainda assim, que muito ficasse por questionar. A psicologia empiricista feminista não desafiou as
crenças acerca dos sujeitos das pesquisas e dos observadores, os fundamentos do método científico, da observação,
da análise, da predição e da generalização. O fato de ter entrado numa lógica empiricista, não eliminou a
marginalidade das mulheres (afinal um objetivo primordial deste feminismo), e não promoveu o pensamento
reflexivo autocrítico necessário para compreender o sexismo e promover novas ideias e novos sistemas (Burman,
1990; Wilkinson, 1986). Pelo contrário, a ciência feminista empiricista continuou a tomar o homem como a
perspectiva geral, sendo a mulher o “outro” problematizado (Morawski, 1990). Por isso, por volta dos anos 80
surgem perspectivas críticas provenientes de epistemologias pós-modernas (Harding, 1986) e, particularmente na
psicologia, a perspectiva do construcionismo social[30], perspectivas essas que vieram posteriormente a inaugurar o
que hoje se situa nas teorias da terceira onda.
Era necessário um projeto psicológico feminista que rejeitasse o dualismo e o essencialismo (Harding, 1986), a
grande armadilha dos debates em volta da igualdade e da diferença.
Por isso, e ainda durante o período considerado de segunda onda, surgiram várias perspectivas críticas que
foram fundamentais para o advento da terceira onda do feminismo e consequentes implicações para o estudo do
gênero na psicologia.
Por ser um período de transição entre ondas feministas é importante fazer um ponto específico para este
período, situação que não é usual. Frequentemente fala-se deste período como sendo a época da crise da segunda
onda (anos 80) ou o início da terceira onda.
O Gênero na crise da segunda onda
Pode-se assumir que a epistemologia pós-moderna, decorrente da propagação dos ideais do pós-modernismo
nas ciências em geral, a teoria construcionista social na psicologia e as críticas provenientes do feminismo negro
(enfatizando a diversidade entre as mulheres) foram as perspectivas precursoras, que tendo-se iniciado ainda durante
a segunda onda, começaram naquele período, a anunciar a crise e a futura entrada na terceira onda do feminismo
(Mann & Huffman, 2005).
Talvez a ideia mais importante das perspectivas pós-modernas seja a negação da procura da verdade universal e
absoluta (Flax, 1990; Harding, 1990; Rosenau, 1992). Esta verdade, característica do feminismo empiricista,
reconhecia a existência de um “indivíduo conhecedor” estável e autônomo, a possibilidade de conhecimento
objetivo e desinteressado, a existência de lógica, de racionalidade, de razão (independentemente de qualquer sistema
social) e a crença na validade da linguagem para descrever a realidade (Benhabib, 1990; Freud, 1994; Soper, 1994).
O feminismo pós-modernista fornecia algumas propostas para concepções alternativas à “verdade” no sentido
do progresso, assim como à produção do conhecimento (Flax, 1990; Fraser & Nicholson, 1990). Entre estas
possibilidades para uma nova metateoria, pode-se encontrar o reconhecimento da identidade como fragmentada,
plural, em conflito e o reconhecimento de que os modelos de conhecimento e verdade dependem das relações sociais
estabelecidas num determinado contexto histórico e dependendo dos interesses individuais (Burr, 1995).
Nos trabalhos das feministas pós-modernistas, a linguagem e as relações sociais tornam-se centrais para a
produção do conhecimento, e para a representação da experiência (Wilkinson & Kitzinger, 1995). O conhecimento é
reconhecido como necessariamente pragmático e parcial, e o papel do conhecedor/a como inerentemente social e
político (Flax, 1990).
Pode-se considerar a perspectiva construcionista social um núcleo do pós-modernismo que se propagou para a
Psicologia (Freud, 1994). O construcionismo social é uma alternativa que pode permitir dirigir a energia feminista
para novas e mais válidas formas de pesquisa. Requer uma abordagem autorreflexiva, e uma análise crítica das
categorias estabelecidas do discurso psicológico (Hare-Mustin & Marecek, 1990). Nesta nova perspectiva, a
literatura psicológica sobre as diferenças entre homens e mulheres não representa um registro cumulativo de
conhecimento acerca da “verdade”, de como são “realmente” esses indivíduos. As categorias do conhecimento são
descrições ou propostas de experiência, modeladas de acordo com os padrões culturais. Para um construcionismo
social feminista a literatura psicológica das diferenças entre homens e mulheres é, portanto, um produto cultural e
relacional (Hare-Mustin & Marecek, 1994).

Uma Psicologia feminista (construcionista social) crítica


Segundo Lígia Amâncio (1999), “apesar da já longa existência do conceito de gênero, as ciências sociais têm
tido dificuldade em construir um modelo de análise teórico e consistente das relações entre os sexos que corresponda
a uma verdadeira descentração epistemológica do dualismo associado ao sexo biológico “(p. 2).
Na minha perspectiva, só uma psicologia feminista (construcionista social) crítica[31] permite essa dissociação
de forma fundamental.
O construcionismo social (análise do discurso ou mesmo psicologia crítica em função de diferentes nuances
dentro de uma postura epistemológica “próxima”) na psicologia, protagoniza o que Sandra Harding designa como
epistemologia pós-moderna e que se constitui de forma distinta das duas outras abordagens epistemológicas, a
empiricista e a de standpoint feminista.
Segundo Bohan (1997) e Howard e Hollander (1997), as duas perspectivas (empiricista e de standpoint) são
principalmente essencialistas, isto é, conceitualizam o gênero como característica permanente e estável nos
indivíduos. O essencialismo não implica necessariamente determinismo biológico ou uma ênfase do biológico para a
explicação das especificidades do gênero (embora historicamente o determinismo biológico tenha sido uma forma
de essencialismo referente ao gênero). É o fato de se assumir a existência de qualidades ou características de e nos
indivíduos, e não as suas origens (biológicas ou sociais) que define o essencialismo (Crawford, 1995). Os modelos
essencialistas assumem o gênero em termos de atributos internos e persistentes, mas separados das experiências de
interação que se vão sucedendo nos contextos diários, sociopolíticos da vida. Como refere Hare-Mustin e Marecek
(1990), a reafirmação de qualidades essenciais negligencia a complexidade e o dinamismo do comportamento
genderizado que se estabelece durante as relações sociais, reificando um jogo de diferenças que estão sempre em
mudança, em dualismos estáticos exagerados (idem, 1990).
A distinção entre os termos "sexo" e "gênero", sugerida e desenvolvida durante a segunda onda do feminismo,
foi uma tentativa (significativa) de separar o sexo biológico do social – o gênero (Amâncio, 1994) e deste modo
possibilitar a crítica social (Crawford, 1995). No entanto, a força cultural do essencialismo acabou por manter a
distinção, dando lugar à confusão, inconsistência e problemas de terminologia. Novas diferenças sexuais,
virtualmente idênticas às publicadas décadas atrás, começaram e são etiquetadas como diferenças de gênero.
Estas novas diferenças são iguais às antigas, mas "vestidas" de outro modo, isto é, continuam a situar-se dentro
dos indivíduos, descontextualizadas socialmente e rapidamente biologizadas. Ironicamente, uma pretensão feminista
que visava teorizar a construção social da masculinidade e da feminilidade, é agora a mesma estratégia que a
obscurece.
A própria noção de "psicologia da mulher" é essencialista porque sugere que as mulheres (como grupo unitário)
partilham uma psicologia (um conjunto de qualidades, traços e capacidades, inatas ou adquiridas) que,
presumivelmente, lhes condiciona o comportamento (Hare-Mustin & Marecek, 1990). Outra consequência
importante é que quando os traços estão localizados nos indivíduos a responsabilidade da mudança fica colocada nas
pessoas e não na sociedade (Bohan, 1997).
Em contraste com uma perspectiva essencialista, o construcionismo social assume o gênero como uma
construção social, um sistema de significados que se constrói e se organiza nas interações, e que governa o acesso ao
poder e aos recursos (Crawford, 1995; Denzin, 1995). Não é por isso um atributo individual, mas uma forma de dar
sentido às transações: ele não existe nas pessoas, mas sim nas relações sociais.
Os processos relacionados com o gênero influenciam o comportamento, os pensamentos e os sentimentos dos
indivíduos, afetam as interações sociais e ajudam a determinar a estrutura das instituições sociais (Crawford, 1995).
Como o gênero é uma ideologia dentro da qual as diferentes narrativas são criadas, as distinções de gênero ocorrem
de forma disseminada na sociedade. O discurso do gênero envolve a construção da masculinidade e da feminilidade
como polos opostos e a essencialização das diferenças daí resultantes.
O construcionismo social (Gergen, 1982, 1994), assim como a filosofia de tendência pós-modernista (Flax,
1990) reconhecem a contradição como parte fundamental da realidade social, e isso é consistente com a
argumentação de que categorias importantes como o sexo e o gênero podem funcionar com definições distintas e em
simultâneo numa situação particular. Diferentes participantes, ou mesmo e apenas um só indivíduo, podem, no
decorrer de uma interação social, afirmar diferentes perspectivas de gênero, dependendo dos aspectos salientes das
categorias no momento (Hare-Mustin & Marecek, 1990).
Nesta perspectiva as pessoas desenvolvem o seu sentido de self, nos e através dos discursos disponíveis à sua
volta (Burr, 1995; Shotter & Gergen, 1989), como acontece com o discurso do gênero. Sendo o conhecimento aquilo
que concordamos ser considerado verdade num determinado contexto de relações sociais, é precisamente nesse
processo de acordo que é criada a realidade de determinado fenômeno. O gênero não é um fenômeno que existe
dentro dos indivíduos, pronto a ser descoberto e medido pelos cientistas sociais. Pelo contrário, o gênero é um
acordo que existe nas interações sociais: é precisamente aquilo que concordamos que seja (Hare-Mustin & Marecek,
1990; Unger, 1990). Em maior ou menor grau, tanto homens como mulheres, acabam por aceitar as distinções de
gênero visíveis a nível estrutural e que se estabelecem ao nível interpessoal, tornando-se tipificados do ponto de
vista do gênero, ao assumirem para si próprias os traços de comportamento e papéis normativos para as pessoas do
seu sexo, na sua cultura (Crawford, 1995). Para além desta internalização de traços, comportamentos e papéis, as
mulheres internalizam também a sua desvalorização e subordinação.
O gênero é, deste modo, uma invenção das sociedades humanas, uma "peça de imaginação" com facetas
múltiplas: construir adultos (homens e mulheres desde a infância), construir os "arranjos sociais" que sustêm as
diferenças nas consciências de homens e mulheres (divisão das esferas da vida privada/pública, por exemplo) e a
criação de significado, em resumo, criar as estruturas linguísticas que modelam e disciplinam a nossa imaginação
(Hare-Mustin & Marecek, 1990; 1994).
Como referem Howard e Hollander:

“Através da interação, negociamos interpretações particulares; isto é,


criamos significados. Através da linguagem, através da participação nos rituais da
interação social, através do nosso envolvimento activo com os símbolos e as
realidades materiais da vida de todos os dias, nós literalmente criamos aquilo que
reconhecemos como real.” (1997, p. 35).

Conforme as autoras referem o gênero é ‘performativo’, podendo dizer-se: ‘fazer’ o gênero (Nogueira, 2004).
Assumindo esta perspectiva, pode-se questionar como certas interações são consideradas femininas ou
masculinas. Segundo Lott (1990) a resposta encontra-se nos contextos diferenciais das experiências. A exposição
seletiva de homens e mulheres a contextos generificados origina comportamentos onde o sexo é compatível com o
gênero, reforçando desse modo a percepção que o gênero é sexualmente diferenciado e sexualmente definido.
Assim, o processo contínuo de fazer gênero, recria a construção desse mesmo gênero. As mulheres são
diferentes, por virtude de serem mulheres, mas paradoxalmente, isso não é porque sejam mulheres. As exigências
dos contextos sociais constituem os primeiros determinantes do comportamento de forma genderizada (Nogueira,
Neves & Barbosa, 2005), sendo que este processo torna-se tão familiar que acaba por ser experienciado como uma
parte da maneira de ser: as pessoas percebem-se como intrinsecamente genderizadas porque o gênero "inunda"
completamente as experiências.
As abordagens construcionistas sociais enfrentaram (e ainda enfrentam) no momento, o debate acerca da
assunção de posições mais próximas do realismo ou, pelo contrário, relativistas e suas implicações para políticas
ativistas feministas (Nogueira, 2001e). Assumir a inexistência de categorias universais impossibilita a defesa da
igualdade entre ‘mulheres’ e ‘homens’? Como defender o feminismo face a uma pluralidade de identidades?
Tentando refletir sobre esta problemática relativamente ao gênero, Gill (1995) oferece a alternativa da
reflexividade, que nos parece ser, de momento, bastante útil aos propósitos de uma psicologia que não se quer
convencional e de um feminismo que se pretende emancipatório. Uma posição relativista radical é extremamente
problemática para as feministas e para todos aqueles/as interessados na transformação social, principalmente porque
nega os compromissos políticos na pesquisa. No entanto, a solução não passa por renegar o relativismo e abraçar
novamente o realismo, acreditando que é possível obter conhecimento “correto” acerca do mundo social; deve-se
evitar que as escolhas recaiam numa polarização entre relativismo e realismo.
É possível levar a cabo uma pesquisa “não neutra” que represente uma espécie de princípio fundador das
perspectivas construcionistas e discursivas, uma espécie de relativismo "sem vergonha de ser político", através do
qual as feministas possam fazer das transformações sociais as preocupações explícitas do seu trabalho (Nogueira,
2001a). Para isso será necessário reinventar um novo vocabulário de valores, crítico (DeFrancisco & Palczewski,
2007; Neves & Nogueira, 2005; Prilleltensky & Nelson, 2006) com o qual se possam fazer intervenções políticas e
sem as quais as/os feministas ficarão teórica e politicamente paralisadas perante as desigualdades, a injustiça e a
opressão.
Defendo que para o estabelecimento de uma posição de princípio que represente um novo vocabulário de
valores, é necessário por um lado, uma articulação entre as ideias pós-estruturalistas e pós-modernistas,
especialmente construcionistas sociais na psicologia e um projeto político emancipatório, que envolva construir uma
posição, negociar uma coligação ou assumir categorias, mesmo que de forma provisória em situações de alianças
necessárias para lutas específicas.
Em síntese, o que é necessário é uma espécie de relativismo ou ceticismo epistemológico que não evite ou faça
desaparecer a questão dos valores. Os valores devem ser explicitados e colocados numa arena onde possam ser
discutidos (Ibáñez & Íñiguez, 1997; Prilleltensky & Nelson, 2006). As perspectivas construcionistas sociais e
discursivas devem adotar uma reflexividade que enfatize a necessidade do(a) analista reconhecer os seus próprios
compromissos e de refletir criticamente sobre eles. Assim, uma política de articulação feminista implica traçar ou
delinear as dinâmicas do poder de diferentes discursos de feminilidade, de investigar as maneiras como a
comunidade das mulheres ou homens tem sido construída em diferentes contextos, de questionar abertamente a
formulação de discursos dominantes sobre as mulheres, e evidenciar as alternativas até aí subordinadas (Wetherell,
1995).
"Assumir uma psicologia feminista, que reconheça que a produção do
conhecimento é um processo discursivo e político, que não pretenda “descobrir” as
razões para os fenômenos, antes intervir na sua alteração, implica assumir um
posicionamento reflexivo, crítico, e de comprometimento, isto é, a necessidade de
um novo vocabulário de valores" (Nogueira, 2001a, p. 247).

Situo a psicologia feminista crítica nesta articulação entre as posições construcionistas sociais e os pressupostos
da teoria crítica, porque assumir valores e compromissos com a justiça social implica necessariamente um
posicionamento que se quer político e transformador, uma posição que seria considerada de psicologia feminista
(social) crítica e radical seguindo as distinções pospostas por Lupicinio Íñiguez-Rueda (2003):
"La Psicología social crítica es sobre todo el resultado del continuo
cuestionamiento de las prácticas de producción de conocimiento. Puede ser radical
o no, en el sentido de que puede permanecer al margen de cualquier pretensión de
emancipación social o sentirse plenamente implicada en ella" (p. 234).

O feminismo negro
Ao moverem-se para além das questões simplistas acerca das diferenças sexuais, o domínio começou a
interessar-se e a tentar conhecer e explorar a diversidade de experiências entre as próprias mulheres (Greene &
Sanchez-Hucles 1997; Nogueira, in press). Para muitas das psicólogas feministas, outros regimes de poder como a
"raça"[32], a etnicidade, a orientação sexual, ou a classe social acabam por interagir, muitas vezes suplantando ou
tomando procedência sobre as desigualdades criadas pelo gênero. Neste ponto falo da questão de se assumir o
gênero como categoria estável e una versus diversidade na opressão das mulheres; questionar se a fonte da
subordinação e opressão das mulheres é essencialmente o gênero ou se outras localizações das identidades pessoais
(outras categorias de pertença identitária), podem intervir no sentido da total desfragmentação identitária, o que, no
limite, inviabilizaria qualquer projeto coletivo de luta.
A psicologia feminista foi originalmente desenvolvida por psicólogas brancas da classe média. Ao assumir a
ética da "sororidade" universal, as primeiras feministas ignoraram as diferentes experiências de vida de mulheres de
diferentes contextos étnicos, raciais, nacionais e multiculturais (Comas-Diaz & Greene 1994). Por isso, algumas
facções dentro do feminismo, acreditam que ela (psicologia feminista) poderá corresponder apenas à perspectiva da
maioria privilegiada, onde apenas a categoria gênero funciona como o maior local/sistema de relações de poder
desiguais (Davis, 1981; Knapp, 2005). A posição feminista das mulheres negras (feminismo negro) tem sido
particularmente influente ao trazer à luz a diversidade entre as mulheres. A insistência do feminismo multicultural
na diversidade das experiências das mulheres despoletou novas áreas de estudo e de investigação relativas à
pluralidade das identidades sociais e pessoais das mulheres. Esquecer a influência de outros sistemas de poder (por
exemplo o racismo), implica negar a sua influência na construção das identidades femininas.
Como algumas autoras feministas referem (Bordo, 1993; Hooks, 1984), o discurso da emancipação de gênero
promovido pela segunda onda do feminismo esteve sempre centrado nas experiências das mulheres brancas de
classe média alta e marginalizou as experiências de mulheres africanas, hispânicas, indianas e das mulheres pobres.
Por isso, nesta segunda onda do feminismo, principalmente nos EUA (palco de grande parte das teorizações e
movimentações), as relações de poder opressivas duplas (gênero, "raça") ou triplas (gênero/"raça"/classe) que
enfrentavam muitas mulheres americanas naquela altura, não foram tomadas em consideração e foram ignoradas
(Azzarito & Solomon, 2005). O movimento levado a cabo pelas mulheres negras reclamava que não se poderia falar
da homogeneidade da categoria de mulheres como se elas partilhassem as mesmas experiências de vida. O
feminismo negro criticou assim a agenda política e certas lutas do feminismo da época que excluíam por completo
as experiências das mulheres negras (Hooks, 1984).
O gênero e a diversidade na terceira onda
O novo discurso da terceira onda do feminismo abraçou um feminismo mais diversificado e "polifônico"
(Araújo, 2007) que apelou para aquelas/es que se sentiram marginalizados ou restringidos pela teorização da
segunda onda.
Construído sobre a diferença, este novo discurso desconstrói e descentra as ideias da segunda onda, produzindo
novas formas de compreender e enquadrar as relações de gênero. Como refere João Oliveira, "inclino-me a
considerar que a teoria feminista habita neste espaço de interstícios (…), uma forma híbrida de saberes,
particularmente útil para compreender e ler um mundo onde se perdeu a ilusão da estabilidade identitária e onde a
diversidade precisa de lentes mais afinadas e sofisticadas para ser percebida” (2010, p. 26).
No entanto, a terceira onda não é uma perspectiva uniforme, como se viu no ponto de apresentação (breve) das
ondas no feminismo. Inclui uma série de abordagens diversificadas e analiticamente distintas para o(s)
feminismo(s). Pode-se dizer, no entanto, que existem pontos comuns: o foco sobre a diferença, a desconstrução e
descentralização (Mann & Huffman, 2005) que vão dar origem a diferentes posições dentro desta onda, algumas de
compromisso estratégico possível e outras com potencial mais duvidoso.
Até o momento, quatro grandes perspectivas resultaram e têm contribuído mais para esse novo discurso da
terceira onda do feminismo: a teoria da interseccionalidade, desenvolvida inicialmente por mulheres negras
associadas aos movimentos feministas críticos da "raça"; abordagens feministas pós-modernistas e pós-
estruturalistas, a teoria pós-colonial feminista, muitas vezes referida como o feminismo global e a "agenda da nova
geração de jovens feministas"(Mann & Huffman, 2005).
Os desafios iniciais à segunda onda do feminismo compartilham o foco na diferença, mas resultaram em dois
campos políticos opostos: um que abraçou uma política de identidade como a chave para a libertação e um segundo
que assume a liberdade na resistência à identidade. O primeiro é melhor ilustrado pelas feministas negras dos anos
80, cuja identidade política e teoria da interseccionalidade da época criticavam a segunda onda pelo seu alegado
essencialismo, "solipsismo" branco, e por não tratarem adequadamente as opressões simultâneas e múltiplas. O
último campo é exemplificado pelas feministas pós-modernas e pós-estruturalistas mais radicais que criticamente
questionam a noção de identidade coerente e assumem a liberdade como a resistência à classificação ou identidade.
Foram as críticas provenientes das teóricas feministas críticas da "raça", as primeiras a inaugurar esta terceira
onda. O cerne desta nova direção no feminismo partiu da crítica da mulher essencialista da segunda onda, que
ignorava ou minimizava as diferenças entre as mulheres, assim como da ausência em compreender e teorizar sobre
as opressões múltiplas e simultâneas experienciadas principalmente pelas mulheres negras nos Estados Unidos[33].
Como consequência destas críticas e dos seus novos posicionamentos, a sua teorização foi inicialmente muito
cunhada com as políticas de identidade, como uma política enraizada na identidade do grupo social, da sua
localização na estrutura social e, por isso, na necessidade de políticas especiais[34]. No entanto, uma vez que as
identidades eram exclusivas, encarnavam em si mesmas o mesmo potencial essencialista, que é problemático em
termos políticos. Enquanto as designações de feminismo liberal ou socialista, marxista, por exemplo, uniam as
feministas num projeto societal, o feminismo negro, assumia apenas a pertença a um grupo social como a base para
uma política, esquecendo diferentes possibilidades de posicionamento ideológico e societal entre essas mesmas
mulheres. E foi precisamente perante este criticismo que posteriormente, durante a década de 90, e como resultado
principal do trabalho de Patricia Hill Collins a assunção das pertenças múltiplas e simultâneas passaram a ser
pensadas enquanto "matriz de dominação" (Collins, 1998; 2000) e se começou a falar da teoria da
interseccionalidade (Collins, 1998) numa perspectiva construcionista social. Uma designação que permitia que os
seus pressupostos teóricos e políticos prevalecessem sobre um ponto de vista exclusivo de identidade essencialista.
As contribuições das feministas pós-modernas e pós-estruturalistas, ao desconstruírem todas as categorias do
grupo assumindo-as como essencialistas, centram-se na diferença e tendem a rejeitar uma visão estrutural da
opressão. Podem revelar-se um terreno escorregadio, já que de uma política na identidade se pode passar, agora,
para a sua negação (Mann & Huffman, 2005). Um número de teóricas feministas adotaram essas ideias que estão
hoje mais próximas dos trabalhos de Judith Butler (1992, 1993), de Teresa de Lauretis (1987) e da teoria queer[35],
que não serão alvo de discussão neste texto[36].
A teoria da interseccionalidade perspectivada como Patrícia Collins o fez nos anos 90, tem em comum com o
pós-modernismo e pós-estruturalismo, não só no uso da diferença para desconstruir o essencialismo e o descentrar
de discursos dominantes. Ambas adotam a visão de que o conhecimento é socialmente construído, que todo o
conhecimento é parcial ou limitado histórica ou politicamente. No lugar das meta-narrativas assume-se a uma
pluralidade e diversidade de posições, e narrativas mini-localizadas, para dar voz às múltiplas realidades que surgem
a partir das experiências vividas.
Assim, no início da terceira onda (cerca dos anos 80) a teoria da interseccionalidade e uma posição mais
relativista desconstrutiva foram os elementos constitutivos da teorização feminista. Posteriormente, cerca dos anos
90, surgiram a teoria pós-colonial e a "agenda das jovens feministas" (Mann & Huffman, 2005), esta última mais
problemática para o feminismo contemporâneo (Dean, 2009, Mann & Huffman, 2005; McRobbie, 2009).
O desenvolvimento da perspectiva pós-colonial não vem colocar problemas à teoria da interseccionalidade e à
sua possibilidade de relação com uma perspectiva pós-moderna crítica. Esta perspectiva assume as críticas pós-
modernas sem colocar em causa as análises de opressão. Pelo contrário, ela é bastante explícita ao assumir que toda
a colonização invariavelmente implica uma relação de dominação estrutural. São por isso mantidas as análises da
opressão macroestruturais assim como o uso de categorias coletivas historicamente situadas, para destacar a ação
política.
Mas, nos últimos quinze anos, parece ter-se testemunhado uma mudança gradual de uma perspectiva pós-
estruturalista/pós-colonial acerca da terceira onda, para uma forte ideia de uma visão essencialmente de paradigma
geracional. Esta ideia está bem presente no texto Manifesta: Young Women, Feminism and the Future

"For anyone born after the early 1960s, the presence of feminism in our
lives is taken for granted. For our generation, feminism is like fluoride. We
scarcely notice that we have it – it’s simply in the water" (Baumgardner and
Richards 2000, pp. 17-18).

A "agenda da nova geração de jovens feministas"[37] implica um foco muito maior na micro-política, bem como
uma maior resistência às categorias coletivas[38], introduzindo formas de conceitualizar o feminismo que provocam
polêmica (Mann e Huffman, 2005), assim como críticas hostis (McRobbie, 2009). Angela McRobbie, no seu livro
de 2009 The aftermath of feminism: gender culture an social change, acusa-as de divisão geracional.
E porque esta nova geração abraça o foco na diferença e no multiculturalismo, elas representam (concordância
ideológica), enquanto paradigma geracional (Dean, 2009), as que melhor levam por diante o desenvolvimento das
ideias pós-modernas mais radicais (Mann & Huffman, 2005). A preferência pelas "narrativas pessoais" que
representam contradições, incertezas e dilemas que enfrentam no seu quotidiano, usando a experiência pessoal[39]
como uma ponte para explorações políticas e teóricas da terceira onda (Dicker e Piepmeier, 2003) parece ser algo
que caracteriza este movimento. Como se o slogan da segunda onda do "pessoal é político" fosse agora invertido
para o slogan do "político é pessoal: uma forma superficial e voluntarista de resistência que tende a ignorar as bases
materiais da opressão (Collins, 1998). Segundo as autoras mais críticas, parece haver entre essas vozes jovens uma
visão simplista da resistência que pressupõe uma capacidade quase infinita de transformar a vida, implicando por
isso uma política individualista, centrada mais na ação individual.
Como foi referido no ponto referente às ondas feministas, assumo a metáfora das ondas e concebo a terceira
onda integrando elementos do pós-modernismo, num discurso construcionista crítico, logo comprometido com a
emancipação humana e com o reconhecimento da agência humana na história. Por isso, ao contrário de alguns
feminismos pós-modernistas e pós-estruturalistas, assim como algumas porta-vozes desta nova geração de
feministas, não perspectivo a ação e a agência humanas como sinônimo de voluntarismo ou de luta pessoal. Assume-
se que existem constrangimentos estruturais quando se pretende transformar o mundo e que as desigualdades
estruturais permitem a umas pessoas, mais do que a outras, moldar a realidade social com mais facilidade.
Reconhecer a simultaneidade e a multiplicidade de opressões não representa assumir acriticamente que todas as
formas de opressão são igualmente importantes em qualquer momento e lugar na história. E ser antipositivista, não
representa ser essencialmente antiempírico e mover-se para o terreno mais idealista e relativista de múltiplas
realidades subjetivas dependentes do discurso e impossíveis de conhecer na sua complexidade. Um posicionamento
radical e fundamentalista pós-estruturalista acabaria por impossibilitar a formulação de uma análise das opressões
estruturais vividas e uma impossibilidade de ação política (Benhabib, 1990). Para Nancy Fraser e Linda Nicholson
(1990) o pós-modernismo não necessita de abandonar toda a teoria para evitar a totalização e o essencialismo. Estas
duas autoras pensam que será possível combinar uma incredibilidade face às meta-narrativas com o poder social
crítico do feminismo, concebendo uma versão de criticismo que seja suficientemente robusta para analisar o sexismo
assim como outros sistemas de opressão. Referem, por isso, que a teorização deve ser explicitamente histórica,
atenta às especificidades culturais das diferentes sociedades e períodos, e aos grupos dentro dessas mesmas
sociedades e períodos, isto é, que localize e situe as categorias dentro de campos históricos, e evite o perigo de
generalizações falsas. A grande vantagem deste tipo de teoria reside na sua utilidade para a prática política feminista
contemporânea, já que, nesta perspectiva, esta é cada vez mais uma questão de alianças, e não uma unidade à volta
da universalidade partilhada de interesses ou identidade. Reconhecer a diversidade das necessidades e experiências
das mulheres e dos homens significa não aceitar soluções únicas e universais.
Concluindo, apesar de haver muito quem pense nesta onda como um paradigma essencialmente geracional, a
noção de terceira onda indicando uma posição teórica que abre um espaço de relativização do feminismo branco
Euro-Americano é também atrativa para uma diversidade de feministas, que veem nesta perceptiva uma abertura
para um espaço mais amplo de diálogo transnacional entre movimentos feministas (Wekker, 2004; Dean, 2009). A
terceira onda pode injetar novo vigor e vitalidade crítica num projeto feminista.

A teoria da interseccionalidade que será apresentada na terceira parte, é uma das consequências teóricas desta
terceira onda e será assumida na psicologia com a complexidade e o posicionamento teórico e político que foi
assumido. Isto é, uma visão crítica do gênero (Nogueira, 2001c), que implica sair da obsessão cultural do binarismo
das diferenças de sexo ou das diferenças de gênero (Nogueira, Neves, & Barbosa, 2005), reafirmar a complexidade
da intersecção múltipla de pertenças (Nogueira, in press) e afirmar a necessidade de adoção de um novo vocabulário
crítico (Nogueira, 2001a; DeFrancisco & Palczewsky, 2007). Assume-se, por isso, um feminismo construcionista,
que sendo crítico, pode comprometer-se com a política e, consequentemente, com possibilidades reais de mudança e
com os compromissos (teórico/epistemológicos) que isso possa acarretar (Neves & Nogueira, 2004; Nogueira,
2001b).
A teoria da interseccionalidade
"One could even say that intersectionality is the most important theoretical
contribution that women´s studies, in conjunction with related fields, has
made so far."
(Leslie McCall, 2005)

O conhecimento popular usa as metáforas de guerra dos sexos, o sexo oposto para enfatizar o binarismo da
categoria social sexo/gênero. Só há dois sexos – homens e mulheres, e eles são opostos. Só há dois gêneros,
feminino e masculino, e os homens são masculinos e as mulheres femininas e quanto mais se é de um tipo, menos se
é de outro. E completamente associada a este binarismo sexo/gênero encontra-se a heteronormatividade (Nogueira &
Oliveira, 2010). Todos se presumem serem heterossexuais: se alguém viola este pressuposto começam as dúvidas
sobre o seu gênero, se se violam regras de gênero começam as dúvidas quanto à orientação sexual.
Mas o gênero não é um componente isolado da identidade pessoal. A identidade é interseccional. Como se faz o
gênero (Nogueira, 2004) está completamente associado à "raça", à classe, à orientação sexual, à capacidade física, à
nacionalidade, ao estatuto migratório, à religião e a tantos ingredientes identitários que constroem quem as pessoas
são (Cole, 2009; Diamond & Butterworth, 2008; Dottolo & Stewart, 2008; Gill, 2009; Ludvig, 2006; Mahalingam &
Leu, 2005).
Por isso, pode-se questionar: se em algumas sociedades e países, parece haver maior igualdade entre sexos em
termos materiais, com a taxa de empregabilidade a aumentar nas mulheres, será que esta situação se adequa a todas
as mulheres? Mesmo sem falar das desigualdades a nível mundial entre o Norte e o Sul, dentro de um mesmo país,
desenvolvido ou menos desenvolvido, a matriz de subordinação/privilégio, atua, de forma diferenciada de modo a
permitir benefícios e dificuldades quer a homens quer a mulheres? Que outras diferenças, resultantes de pertenças
grupais distintas, se intersectam para resultar num padrão de desigualdade mais complexo e por isso, mais ou menos
otimista, quanto aos dados que frequentemente são apresentados nos relatórios de organismos oficiais nacionais e
internacionais? Será que ainda é possível falar só, e apenas, de gênero? Será que é ainda lícito, quando se fala de
gênero, não referir sempre, outras pertenças identitárias?
A estas questões pode-se responder com teorização, mas também com questões de estratégia política. Nem
sempre as respostas a estas duas grandes matérias são coincidentes do ponto de vista das questões epistemológicas
subjacentes e, por isso, poderemos ter de jogar o jogo da ambiguidade, muitas vezes da contradição, sendo que na
prática, apenas se faz atualização de um pragmatismo político. A política de alianças, considerando categorias
negociáveis e provisórias, pode ser a resposta política, e a teoria da interseccionalidade uma resposta teórica.
A oposição binária, homem versus mulher, deixou de ser o único ponto de interesse a partir dos anos 80
(Stewart & McDermott, 2004), e a pesquisa volta-se da dicotomia de gênero para a reconsideração das diferenças e
das desigualdades entre as próprias mulheres. Esta abordagem designada por abordagem da “diversidade” (Ludvig,
2006) ou perspectiva tradicional de interseccionalidade (Samuels & Ross-Sheriff, 2008) evitava por isso a
essencialização e surgiu depois da abordagem da igualdade e da abordagem da diferença, já que ambas se
focalizavam na dualidade de gênero: a igualdade exigindo tratamento igual e direitos iguais enquanto a abordagem
da diferença rejeitava a ordem social masculina dominante e exigia direitos especiais para as mulheres (Mann &
Huffman, 2005) reclamando políticas de identidade[40].
A teoria da interseccionalidade tem sido a resposta teórica que tem surgido nos últimos anos dentro dos
feminismos como resposta a estas questões da diversidade dentro do grupo das mulheres (e também de homens
dependendo da perspectiva mais ou menos abrangente que se tenha da interseccionalidade).
Leslie McCall (2005) uma das principais teóricas da interseccionalidade refere que a introdução da teoria da
interseccionalidade, foi vital para as ciências sociais em geral, já que antes do seu desenvolvimento havia pouca
pesquisa que colocasse a questão específica das experiências das pessoas que estão sujeitas a múltiplas formas de
subordinação dentro da sociedade. Esta contribuição teórica tornou-se na abordagem multidisciplinar mais
importante da teorização feminista e antirracista no que diz respeito a questões de identidade e de opressão (Nash,
2008; Shields, 2008). Pretende examinar como as várias categorias (social e culturalmente construídas) interagem a
múltiplos níveis para se manifestarem em termos de desigualdade social. Acredita-se que os modelos clássicos de
compreensão dos fenômenos de opressão dentro da sociedade, como os mais comuns baseados no sexo/gênero, na
"raça"/etnicidade, na classe, na religião, na nacionalidade, na orientação sexual ou na deficiência (as designadas
categorias master) não agem de forma independente uns dos outros; pelo contrário, essas formas de opressão inter-
relacionam-se criando um sistema de opressão que reflete a interseção de múltiplas formas de discriminação
(Azzarito & Solomon, 2005; Browne & Misra, 2003; DeFrancisco & Palczewski, 2007; McCall, 2005; Nash, 2008;
Staunaes, 2005).
E se na psicologia feminista um novo vocabulário crítico, representa assumir a questão da interseccionalidade,
as hierarquias de poder e as estruturas sociais de opressão/privilégio como centrais, pode-se perguntar, como estudar
o gênero na psicologia nesta terceira onda do feminismo? Num período por alguns considerado de backlash, pós-
feminista ou de teorizações conflituantes e desconstrutivas? Poderá a teoria da interseccionalidade ser uma
possibilidade ou até uma oportunidade para a psicologia feminista da terceira onda? Será que esta teoria permitirá
que mais pesquisadores considerem "urgente" (Cole, 2009) ter estas ideias em mente e se aventurem por estes
domínios?
Contudo, para melhor se compreender a teoria da interseccionalidade e tentar responder a estas questões,
implica começar por traçar uma breve história.
As críticas das mulheres negras ao essencialismo do feminismo convencional permitiram instalar a crítica e
enfatizar que as feministas que pretendem falar por todas as mulheres não tomam em atenção a classe, a "raça", a
orientação sexual etc. (Hooks, 1984; Collins, 2000; Mahalingam, Balan & Haritatos, 2008). O feminismo negro
criticou assim a agenda do feminismo liberal da época (protagonizado por exemplo por Betty Friedman) por não se
sentirem representadas. A agenda política e certas lutas do feminismo da época excluíam por completo as
experiências das mulheres negras. Contudo, é importante esclarecer que muitas feministas desestabilizaram a noção
universal de “mulher” sem expressamente mobilizarem o termo interseccionalidade, argumentando que o ser
“mulher” em si mesmo é um terreno contestado e fraturado e que a experiência resultante de "ser mulher" é sempre
constituída por sujeitos com interesses diferentes (Nogueira, 2001a). No fundo, a interseccionalidade deu um nome a
um compromisso teórico e político previamente existente (Nash, 2008), e dá mais ênfase a uma matriz de
opressão/privilégio.
A interseccionalidade tem, assim, uma longa história, mas foi popularizada pelo trabalho de Crenshaw (1989;
1991) e é hoje reconhecida como um paradigma de pesquisa (Hancock, 2007) que tem por base uma série de
importantes premissas relacionadas com a simultaneidade das múltiplas categorias de pertença a vários níveis
(Hankivsky et al. 2010).
Kimberlé Crenshaw (1989; 1991), uma advogada e acadêmica da área do direito foi a primeira a usar o termo
interseccionalidade nos anos 80 (Berger & Guidroz, 2009; Bowleg, 2008; Brone & Misra, 2003; Cole, 2009; Purdie-
Vaughns & Eibach, 2008; Samuels & Ross-Sheriff, 2008; Stewart & McDermot, 2004; Taylor, 2009; Valentine,
2007, Warner, 2008). Como ela referia, a experiência interseccional é maior do que a soma do racismo e sexismo e
qualquer análise que não tome a interseccionalidade em conta não consegue de forma correta ter em consideração as
formas particulares de subordinação de muitas mulheres, particularmente as mulheres negras, que eram o alvo das
suas preocupações. Enfatiza por isso a "multidimensionalidade" das experiências vividas dos sujeitos
marginalizados, referindo que quem acredita que a identidade existe em camadas removíveis e separadas acaba em
generalizações abusivas.
A teoria da interseccionalidade é também explicada pela acadêmica feminista crítica da "raça" Adrien Wing,
como sendo a noção de que a identidade é multiplicativa e não aditiva (DeFrancisco & Palczewski, 2007). Em vez
de se perceber a identidade como acúmulo de pertenças "mulher+branca+heterossexual", é necessário analisar a
identidade como sendo conceitualizada do tipo "mulher x branca x heterossexual", por exemplo. Todas a facetas da
identidade são partes integrais inter-relacionadas de um todo complexo, sinergético e infundido que torna tudo
completamente diferente quando as partes são ignoradas, esquecidas ou não nomeadas. A metáfora dos ingredientes
parece ser considerada útil para explicar a interseccionalidade. O resultado final de uma receita contém todos os
ingredientes, mas nenhum é reconhecível nas suas formas separadas. Os ingredientes ficam de tal forma fundidos
que não podem ser separados outra vez. Uma abordagem interseccional permite fugir à generalização abusiva do
determinismo biológico, do essencialismo (a pressuposição de que todos os membros de uma determinada categoria
são iguais porque possuem uma única qualidade em comum) assim como aos estereótipos (DeFrancisco &
Palczewsky, 2007).
A teoria da interseccionalidade que agora surge como sendo dos trunfos mais importantes no feminismo
contemporâneo (McCall, 2005) parece poder permitir expandir o pensamento acerca do gênero e dos feminismos ao
reafirmar a natureza "multiplicativa interseccional" e o impacto do contexto, chamando a atenção para o entrecruzar
de opressões e privilégios (Bowleg, 2008; Brone & Misra, 2003; Cole, 2009; Stewart & McDermot, 2004; Taylor,
2009; Warner, 2008).
Há quem considere que a sua aplicabilidade é cada vez maior não só porque permite a teorização sobre grupos
com opressões múltiplas e simultâneas[41] ou mesmo para todas as pessoas (homens e mulheres, privilegiados ou
oprimidos em diferentes dimensões) na prática, fazendo parte integrante de uma teoria da identidade (Staunaes,
2005).
Uma análise interseccional resiste à essencialização de todas as categorias (tratando todos os membros de um
único grupo social como o mesmo e supondo que compartilham as mesmas experiências) e está atenta às
especificidades da data, do local, das histórias e das localizações. Como refere Yuval-Davis (2006), "as divisões
sociais são construídas pela interligação em condições históricas específicas" (p. 200). Não pretende apenas somar
categorias umas às outras (Bowleg, 2008). Pelo contrário, aspira a compreender o que é criado e experienciado na
intersecção de dois ou mais eixos de opressão, numa lógica de "matriz de opressão" (Collins, 2000), que reconhece a
natureza multidimensional e relacional das localizações sociais e dos lugares das experiências vividas, das forças
sociais e dos sistemas de discriminação e subordinação que se intersectam.
Por estas razões, uma análise interseccional captura diferentes níveis de diferença, revelando, por exemplo,
como formas de discriminação e opressão interseccionais criam oportunidades, benefícios sociais e materiais para
aqueles/as que gozam de estatutos normativos ou não marginalizados, sendo o exemplo típico o de homens brancos,
heterossexuais ou de classe alta (Steinbugler, Press & Dias, 2006).
A recusa da essencialização, a inter-relação entre opressão e privilégio e o contexto são elementos fundamentais
para se compreender a teoria da interseccionalidade. É necessário estar atenta e teorizar privilégios e opressões, não
como estatutos fixos, mas sim como estatutos fluidos e dinâmicos, permeáveis à mudança quer nas opressões quer
nos privilégios quer nos contextos. Deve-se também atender às fraturas que persistem entre as mulheres (Browne &
Misra, 2003; Samuels & Ross-Sheriff, 2008), às noções opressivas de feminilidade e de essencialização que são
internalizadas e reificadas por aquelas que se identificam como mulheres. Mulheres oprimem mulheres, alguns
grupos de mulheres escravizaram mulheres, algumas mulheres foram e são empregadas de limpeza de outros grupos
de mulheres e outras mulheres tomaram conta de crianças de outras mulheres. Reclamar uma experiência coletiva à
volta do ser mulher, é hoje cada vez mais difícil e pouco aceitável do ponto de vista teórico (Samuels, 2008).
É geralmente assumido que as teóricas e investigadores que se juntam na pesquisa interseccional ou políticas
interseccionais estão comprometidos com a justiça social e procuram mudanças significativas nas relações de poder
(Hankivsky et al., 2010). "Os modelos interseccionais assumem uma conexão entre a opressão e a resistência, entre
ganhar conhecimento dos sistemas opressivos e comprometer-se com o ativismo social para os desafiar" (Weber e
Parra-Medina, 2003, p. 188). Para este ativismo reconhece-se a necessidade de trabalhar com uma variedade de
parceiros (políticos, ativistas, grupos comunitários incluindo comunidades oprimidas de forma múltipla) de forma a
levar a cabo pesquisa e políticas e trabalhar para a justiça social (Hankivsky et al., 2010).
Penso que esta teoria da interseccionalidade constituirá o próximo desafio para quem, na psicologia, pretenda
continuar a estudar as questões de sexo /gênero/ feministas, que nunca poderão a partir de agora deixar de ser
pensadas em interseccionalidade.
O desafio é imenso, principalmente em termos de pesquisa, se pensarmos na multiplicidade de problemas que
se colocam quando se pretende ter várias configurações identitárias em ação.
Por essa razão o ponto seguinte tratará a complexa questão da "complexidade" interseccional.

Questões de metodologia. Como "captar" a complexidade da interseccionalidade?


Como refere McCall (2005), apesar da emergência da interseccionalidade como um dos maiores paradigmas na
teorização feminista (e antirracista), tem havido pouca discussão sobre como estudar a interseccionalidade, isto é,
sobre metodologia.
Os primeiros estudos informados pela teoria da interseccionalidade, apesar de não ser intencional, acabaram por
limitar o leque de abordagens metodológicas para estudá-la. Para se expandir as análises de modo a incluir múltiplas
dimensões da vida social e categorias de análise, implica aumentar a complexidade associada à pesquisa. Por isso,
muitas pesquisadoras e pesquisadores feministas acabaram por favorecer metodologias que valorizam e possibilitam
mais espontaneamente o estudo da complexidade e rejeitar outras por serem consideradas muito simplistas ou
reducionistas. Esta opção pode estar a restringir as possibilidades do conhecimento que pode ser produzido sobre
interseccionalidade, se se assumir que diferentes metodologias produzem diferentes tipos de conhecimento (McCall,
2005).
De forma a alargar essas possibilidades, Leslie McCall, no seu texto The Complexity of Intersectionality,
publicado na Signs em 2005,[42] apresenta uma perspectiva metodológica inclusiva assumindo e propondo a
existência de três abordagens, que sendo diferentes (e duas delas até opostas), em conjunto, podem contribuir para
uma melhor compreensão da complexidade da interseccionalidade.
A sua intenção é delinear um leque de abordagens metodológicas para o estudo das relações sociais múltiplas e
complexas, tentando discutir o compromisso entre as diferentes abordagens.
Essas três perspectivas são definidas primariamente pela maneira como usam categorias analíticas para explorar
a complexidade da vida social. À autora interessam-lhe também as pressuposições filosóficas e epistemológicas
subjacentes à adoção de cada uma das abordagens, considerando que é possível produzir conhecimento diferente,
mas sempre útil consoante a abordagem adotada. Do ponto de vista da perspectiva das metodologias feministas
(Neves & Nogueira, 2005) é possível que qualquer abordagem (seja ela quantitativa ou qualitativa) permita
aumentar o conhecimento que beneficie grupos oprimidos e, nessa perspectiva, ser emancipadora. Leslie McCall
pensa que é possível produzir conhecimento nesta perspectiva e que estas abordagens podendo ser utilizadas com
uma lógica de interdisciplinaridade poderão responder de forma mais capaz ao desafio da complexidade
interseccional.
As três abordagens são apresentadas num contínuo e podem designar-se como sendo a abordagem
anticategorial, a intracategorial e a intercategorial. A abordagem intracategorial é considerada a abordagem que
inaugurou o estudo da interseccionalidade (McCall, 2005), pelo fato das primeiras pesquisadoras durante o período
de crise das perspectivas da segunda onda, estarem preocupadas com a diversidade intragrupo e ainda não haver
uma teorização complexa da interseccionalidade como ela é hoje apresentada.
A abordagem anticategorial está baseada na total desconstrução e descrença das divisões categoriais. Nasceu
das críticas pós-modernas e pós-estruturalistas por um lado, assim como das teorizações antirracistas críticas dos
anos 80. A desconstrução das grandes categorias "master" como o são o sexo/gênero, a "raça", a orientação sexual,
a classe, é compreendida como parte integrante da desconstrução da própria desigualdade. Isto é, já que a violência
simbólica e as desigualdades materiais são enraizadas em relações que são definidas pela pertença a essas categorias,
o projeto de desconstrução das assunções normativas categoriais contribui para a possibilidade de uma mudança
social. A primeira consequência filosófica é tornar o uso de categorias suspeito por não ter fundamento na realidade:
a linguagem (num sentido discursivo) cria a realidade categorial e não o contrário. A consequência metodológica é
tornar suspeitos os processos de categorização em si mesmos. Qualquer pesquisa que se baseia na categorização leva
à demarcação; esta conduz à exclusão e por consequência à desigualdade. O potencial para experiências de
subordinação e de poder, múltiplas e conflitantes, implica um terreno mais complexo de análise, cuja assunção das
categorias torna inconsistente.
Nesta perspectiva, as categorias sociais são uma construção da história e da linguagem que são arbitrárias e que
pouco contribuem para a compreensão das formas nas e pelas quais as pessoas experienciam a sociedade. Além
disso, esta abordagem refere que como as desigualdades estão enraizadas nas relações que são definidas pela "raça",
pela classe, pela sexualidade, pelo gênero a única maneira de eliminar a opressão na sociedade seria eliminar as
categorias usadas para selecionar as pessoas em diferentes grupos. Esta análise reclama que a sociedade é demasiado
complexa para ser reduzida em categorias finitas e por isso reconhece a necessidade para uma abordagem holística
na compreensão da interseccionalidade.
Nesta abordagem, os métodos mais usados são as biografias, histórias de vida, narrativas de um único sujeito ou
estudo de caso. São estas as abordagens protótipo, que permitem conhecer as experiências de vida concretas de
sujeitos em contextos. Estas experiências encontram-se profundamente enraizadas no tecido histórico, social e
político mais vasto que transcende as vidas individuais, mas que também estão moldadas por relações e situações
decorrentes de contextos concretos. Narrativas que tomam como sujeito um indivíduo ou uma experiência individual
e que permitem extrapolar para uma localização social mais ampla onde o indivíduo está imbuído.
Assim, pode-se dizer que a abordagem anticategorial rejeita em absoluto a categorização e qualquer análise ou
metodologia que as assuma, critica a definição de fronteiras categoriais e o significado a elas associado e centra-se
na desconstrução das divisões categoriais.
A abordagem intracategorial reconhece os limites das categorias sociais existentes e questiona a maneira como
estas definem as suas fronteiras. No entanto, não rejeita por completo a importância das categorias, como a
abordagem anticategorial; pelo contrário, reconhece a relevância das categorias sociais para a compreensão da
experiência social. As categorias tradicionais são usadas inicialmente para nomear grupos até aí não estudados em
vários pontos de intersecção, mas o/a pesquisador/a está igualmente interessada/o em revelar – e não pode evitar – o
leque de diversidade dentro do grupo.
As categorias têm aqui um estatuto ambivalente. São consideradas construções sociais com estatuto localizado,
instável e fluido, mas podendo ser assumidas (como estáveis) num momento particular ou num contexto particular
para produzir conhecimento útil numa determinada perspectiva. A importância quer material quer discursiva das
categorias não é completamente negada; a focalização no processo pelo qual elas são construídas, produzidas,
experienciadas, reproduzidas e resistidas na vida quotidiana é o ponto central. Assim as/os adeptos desta abordagem,
não rejeitando em absoluto a existência das categorias identitárias e a realidade social que produzem, também não
celebram uma política de identidade que tenha uma aceitação acrítica das categorias identitárias.
As duas abordagens anteriores formam as duas mais importantes abordagens metodológicas que constituem os
estudos da interseccionalidade. Leslie McCall, contudo, propõe uma terceira abordagem que diz ser de
complexidade intercategorial (ou categorial) e que pode também produzir conhecimento importante, apesar de ser
proveniente das epistemologias e metodologias mais clássicas e tradicionais.
A abordagem intercategorial ou categorial toma em consideração as relações estáveis e duráveis que as
categorias sociais representam num dado momento (mesmo que mantendo uma posição crítica dessas mesmas
categorias). Começa por considerar que a desigualdade existe na sociedade e usa essa ideia como base das
discussões sobre interseccionalidade. A preocupação maior é com a natureza das relações entre os grupos sociais e a
forma importante como elas estão a mudar. Os proponentes desta metodologia usam as distinções categoriais
existentes para documentar a desigualdade ao longo de múltiplas dimensões e tentam medir a mudança ao longo do
tempo. A única questão é se uma abordagem deste tipo pode acabar por legitimar as próprias categorias, e cair na
assunção da homogeneização e simplismo. Poderá a abordagem categorial respeitar a exigência da complexidade?
Esta abordagem focaliza-se na complexidade das relações entre múltiplos grupos sociais dentro e ao longo de
categorias analíticas e não nas complexidades dentro de um único grupo, única categoria ou ambos. É sempre uma
análise multigrupal e o método é sistemicamente comparativo. O espaço categorial pode tornar-se muito complicado
com adição de qualquer categoria analítica à analise porque requer uma investigação de quais os múltiplos grupos
que constituem a categoria. Por exemplo, a incorporação do gênero como uma categoria analítica nesta análise
assume que dois grupos serão sistemicamente comparados, homens e mulheres. E fala-se apenas numa única
categoria em análise, o que não será a situação típica de estudos interseccionais.
Esta abordagem implica estudos grandiosos que em estatística usam efeitos de interação, multinível e
hierárquicos que introduzem mais complexidade na interpretação dos resultados.
Concluindo, segundo McCall (2005), parece ser possível abraçar uma abordagem de complexidade de
interseccionalidade inclusiva. A teoria da interseccionalidade implica um grau tão elevado de complexidade que
poderia anular qualquer possibilidade de pesquisa e com isso a possibilidade de intervenção social, se não se
adotasse uma postura plural e inclusiva. Esta abordagem inclusiva, assumindo diferentes posicionamentos
metodológicos, que têm obviamente, subjacentes diferentes posicionamentos epistemológicos, pode viabilizar
conhecimentos e pistas de intervenção importantes, mesmo do ponto de vista político. No entanto, pode haver
ocasiões, temas ou projetos em que a assunção simples da categoria gênero possa ser útil e necessária. Sendo claros
quais os objetivos sociais ou políticos que motivam esse tipo de pesquisa, pode-se compreender as decisões
metodológicas mais simplistas ou reducionistas (do ponto de vista teórico) que tais análises poderão apresentar. E a
interpretação dos dados ou resultados será sempre uma tarefa mais complexa para quem estiver teoricamente
informada pela teoria da interseccionalidade.
Considera-se que as diferentes pesquisas (com diferentes metodologias) feministas deverão poder permitir a
(des)ocultação e (des)construção das categorias opressivas, a demonstração da forma como elas operam em termos
de matrizes de subordinação e de privilégio, para no seu conjunto se “construir” conhecimento válido e útil que
permita alcançar e potenciar experiências de vida com qualidade e sem vivências de desigualdade.
Contudo, os métodos para desenvolver estudos e pesquisas numa perspectiva interseccional ainda estão nas
margens da pesquisa na saúde (Vinz & Dören, 2007; Vissandjee, et al 2007) e na política, assim como na Psicologia
(Bowleg, 2008; Hankivsky et al. 2010). O desenvolvimento de metodologia interseccional traz a promessa de abrir
novos espaços intelectuais para o conhecimento e para a produção e tem potencial para conduzir a inovação quer
teórica quer metodológica.
Para isso será necessário o desenvolvimento e clareza quanto aos métodos de pesquisa (Hankivsky &
Christoffersen, 2008). Mesmo as pesquisadoras que se identificam claramente com a teoria interseccional têm
dificuldades em operacionalizar categorias interseccionais quando estão a iniciar e a desenvolver projetos de
pesquisa.
Por um número de razões, traduzir a teoria interseccional na prática metodológica não é fácil (Hankivsky et al.
2010). Em primeiro lugar, existe desconexão entre a interseccionalidade e a conceptualização de questões de
pesquisa e de designs (Bowleg, 2008). Em segundo lugar, existe falta de segurança em como, quando e onde a
perspectiva interseccional deve ser aplicada (Cole, 2009; Warner, 2009). Em terceiro lugar, a dificuldade em aplicar
a interseccionalidade a estudos empíricos, especialmente nas áreas dominadas pela pesquisa quantitativa também é
importante ser referido (Warner, 2009). Em quarto lugar, pouco trabalho tem sido feito para determinar se todas as
possíveis intersecções podem ser relevantes a todo o momento ou se, e quando, algumas são mais salientes (Yuval-
Davis, 2006). Em quinto lugar, a interseccionalidade requer informação pertinente que frequentemente não existe
(Hankivsky et al. 2010)[43].
O que é importante e necessário é um debate e uma vontade de levar esta perspectiva por diante e ter atenção
explícita a como a interseccionalidade pode informar os designs de pesquisa, a produção e o conhecimento (Verloo,
2006).

Interseccionalidade e Pesquisa em Psicologia


Segundo Warner (2009) há algumas questões que são fundamentais e centrais para quem pretende fazer
pesquisa em interseccionalidade em psicologia e para as quais pode haver algumas possibilidades de orientação.
Uma delas diz respeito à decisão relativa a qual o número de identidades (categorias de pertença identitárias) que
podem ser estudadas num determinado estudo empírico. Uma outra relaciona-se com a decisão relativa a estudar
categorias "master" ou categorias "emergentes"[44]. Tratar da identidade como um processo situado dentro dos
contextos sociais e estruturais e finalmente ter em atenção o tipo de métodos a usar (qualitativos ou quantitativos),
representam as outras questões/temas que devem ser tomados em consideração.
No entanto, antes de se apresentar estas questões é importante referir que na psicologia acontece o mesmo que
outras pesquisadoras noutras áreas têm referido quanto à pesquisa em interseccionalidade. Pesquisadoras feministas
de diferentes disciplinas tais como geografia (Valentine 2007), sociologia (Risman 2004), política (Weldon 2005) e
educação (Ringrose, 2007) têm apontado dificuldades na condução de pesquisas principalmente nos domínios onde
a tradição quantitativa é forte. Pesquisar interseccionalidade em psicologia tem esta dificuldade, mas também pode
ser considerado um desafio.
No que diz respeito ao número de identidades possíveis de ser estudadas num estudo empírico, a primeira
questão apresentada, é necessário ter presente a dificuldade que representa incorporar múltiplas dimensões de
identidade social e ainda assim conseguir lidar com a complexidade analítica. Considerar todas as componentes da
identidade pode gerar um infinito regresso ao "uno", uma situação que dissolve grupos em indivíduos únicos e
isolados. Por isso pode ser importante analisar diferentes dimensões de pertença. São necessárias decisões que vão
depender do interesse e do tema em causa assim como dos resultados que se pretendem atingir ou dos dados que se
pretende mostrar. A decisão pode ser meramente pragmática com intenções de desocultação para fins políticos
(Nogueira, 2001e) ou de qualquer outro tipo. Não será expectável que se inclua sempre e em todas as circunstâncias
todas as identidades potenciais. Quando se utilizam estudos de caso pode ser possível ter essa situação em
consideração, mas se se pretender usar projetos mais amplos são necessárias escolhas e ter consciência clara de quais
se escolhe e o porquê de as escolher (Stewart & McDermott, 2004). Algumas categorias podem ser particularmente
importantes em determinados momentos específicos da história, num contexto particular ou de um problema em
particular, outras podem ser quase sempre relevantes e significativas para a maioria das pessoas a maior parte do
tempo (Yuval-Davis, 2006).
Outro problema dentro da mesma questão diz respeito ao fato de ter de se refletir antes de qualquer tomada de
decisão, devido à existência daquilo que a autora Valerie Purdie-Vaughns e Richard Eibach referem ser o conceito
de invisibilidade interseccional (Purdie-Vaughns & Eibach, 2008). A existência de pessoas que pelo fato de
ocuparem localizações subordinadas em múltiplas categorias identitárias e não terem poder na maioria dos
contextos, tornam-se sujeitos "inexistentes". A maior parte da pesquisa é feita com sujeitos protótipos dentro de
determinada categoria[45]. Quando as pessoas são "não-prototípicas" em múltiplos grupos sociais podem tornar-se
invisíveis e esta invisibilidade torna-se exclusão, com consequente não representação e marginalização. Não
havendo conhecimento difundido acerca das suas experiências, elas são imperceptíveis e estão misturadas
frequentemente nas percepções que as pessoas têm sobre os grupos protótipo. Uma forma de obviar este problema,
tem sido a ênfase da maior parte dos estudos da interseccionalidade tenderem, e serem essencialmente realizados
com grupos marginalizados, uma forma de ativismo científico que parece caracterizar as pessoas aderentes desta
perspectiva (Havskinsky et al. 2010). Decorrente desta ênfase nos grupos marginalizados também pode acontecer
um efeito (negativo) contrário: não se estudarem grupos dominantes. Esta situação acaba por enfatizar a sua
normatividade.
Ser explícito quanto aos processos de tomada de decisão acerca de quais identidades estudar parece ser a
resolução mais importante para esta questão (Phoenix, 2006). Warner (2009) faz duas sugestões para responder a
esta questão: tornar o processo de tomada de decisão explícito quanto ao que se vai estudar e ter em atenção fontes
de literatura e documentais interdisciplinares para determinar identidades particulares face a uma questão de
pesquisa específica. O mesmo autor encoraja quem se quer dedicar à abordagem interseccional que tome atenção e
seja crítico não apenas das questões que coloca, mas também das questões que não se colocam e dos fenômenos que
não se testam. Quem se torna visível através da pesquisa ou quem a pesquisa invisibiliza, são pontos críticos nestas
abordagens (Bowleg 2008; Stewart e McDermott 2004).
No que diz respeito à segunda questão relativa à quando se deve focalizar em algumas categorias "master[46]",
ou pelo contrário em categorias "emergentes", podem existir diferentes posições, mas também diferentes situações
que impliquem uma ou outra opção. A opinião maioritária diz que sendo de valorizar as categorias emergentes
(resultado de múltipla interseccionalidade) a categoria master pode ainda ter significado. Cada categoria master é
originada de localizações histórica e culturais distintas e mantém-se de certa maneira de forma autônoma (Yuval-
Davis, 2006). Bowleg (2008), assim como Risman (2004), argumenta para a utilização de uma estratégia conjunta;
isto é, o/a pesquisador/a reconhece as distintas categorias master ao mesmo tempo em que considera os efeitos
emergentes que ocorrem quando essas categorias se intersectam. A categoria master pode, em muitas circunstâncias,
representar uma multitude de experiências. Por exemplo, pode haver situações em que mulheres de diferentes meios
e proveniências e com diferentes localizações sejam estereotipadas ou percebidas como simplesmente e
absolutamente "mulheres". De qualquer modo, antes que a pesquisa se oriente para o estudo de categorias master é
necessário que haja evidência empírica de que esse estudo se justifica ou então que se decida investigar
hipoteticamente dessa existência. Goff, Thomas e Jackson (2008) mostraram como a categoria “Black” reflete
maioritariamente as representações acerca dos homens negros e não das mulheres negras.
É fundamental tratar a identidade como um processo situado dentro dos contextos sociais estruturais.
Representa assumir que ter uma visão construcionista social facilita o processo de pesquisa nesta perspectiva da
interseccionalidade. Mais do que ser uma coleção de traços de personalidade ou de experiências individuais, a
identidade é informada/moldada/construída por estruturas institucionais, políticas e societais. Por isso é tão
importante compreender como as identidades estudadas se relacionam com os sistemas estruturais que as mantêm
(Collins 1990, 1998; Stewart and McDermott 2004).
Numa perspectiva construcionista social, a "raça", o gênero e a classe por exemplo, não são categorias estáticas
ou estáveis; pelo contrário, são construções que se vão traçando de diferentes maneiras nas interações sociais
(Valentine, 2007). Perceber a identidade como um "alvo em mudança", constantemente mutável e sendo negociada
através das experiências pessoais (Diamond & Butterworth, 2008) implica um cuidado na forma de orientar a
pesquisa em muitas fases e principalmente quando se pretende fazer análise de resultados ou interpretações de
estudos de caso ou narrativas.
Por fim é importante referir as decisões relativas aos tipos de metodologias a utilizar: essencialmente
qualitativas ou quantitativas. Nem todas as metodologias se adequam de forma equivalente aos objetivos que se
enunciaram relativamente à teoria da interseccionalidade. Alguns pesquisadores argumentam que os métodos
qualitativos em geral tendem a ser melhores para avaliar a interseccionalidade que os métodos quantitativos, já que
permitem aceder às complexidades da experiência múltipla (Bowleg 2008; Stewart and McDermott 2004).
Os métodos qualitativos são absolutamente necessários por várias razões. Permitem informar acerca da natureza
emergente, particular ou parcial do significado, prestam atenção à experiência subjetiva e de como esta está
dependente da localização social. Por exemplo, os focus group são métodos particularmente eficazes para se
perceber como as pessoas criam, reforçam os significados e elaboram as identidades através da interação (Hurtado &
Sinha, 2008). Por seu lado, os estudos de caso que Valentine (2007) refere, podem ser particularmente úteis já que
podem perceber o movimento constante que os indivíduos experienciam entre diferentes posições de sujeito em
diferentes contextos. Alguns métodos qualitativos são boas opções para examinar as categorias master versus
emergentes. O fato de se receber informações dos/as próprios/as entrevistados/as, permite resultados não esperados
que são produzidos pelos próprios sujeitos e grupos. Isto é particularmente importante quando se pretende estudar
um grupo que sofra por exemplo de invisibilidade interseccional (Purdie-Vaughns & Eibach, 2008).
As abordagens longitudinais por exemplo, podem ser fundamentais (Vespa, 2009). O estudo relativo à
identidade sexual utilizando esta metodologia permitiu perceber como as experiências de gênero e de identidade
sexual de um grande conjunto de mulheres acabou por assumir uma fluidez da sexualidade feminina, uma identidade
oscilante e dependente dos contextos e das localizações específicas, assumindo que a identidade sexual é afetada
pelos contextos interpessoais mais do que algo estável (Diamond & Butterworth, 2008).

Questões críticas à teoria da interseccionalidade


Como já foi atrás referido, muitas investigadoras feministas têm desestabilizado a noção de uma "mulher"
universal sem explicitamente mobilizar o termo "interseccionalidade", alegando que "mulher" em si mesma é um
terreno contestado e fraturado, e que a experiência de ser "mulher" é sempre constituída por e vivida por pessoas
com diferentes interesses e localizações (Nogueira, 2001d).
Na realidade, a teoria da interseccionalidade deu um nome a um compromisso teórico e político preexistente
que se veio a tornar a partir dos anos 90 (principalmente) num grande chavão acadêmico (Nash, 2008). A mesma
autora refere que apesar da dominância teórica da interseccionalidade como uma forma de conceitualizar a
identidade, um número de paradoxos, inseridos na sua literatura, mantêm-se por interrogar pelas feministas e pelas
acadêmicas antirracistas. Estes conflitos por resolver permeiam a teoria feminista e antirracista, a prática e a política,
confundindo as concepções de identidade e de opressão e obscurecendo os objetivos normativos do seu trabalho.
Mas é precisamente porque a interseccionalidade é um paradigma feminista líder com um alcance interdisciplinar
extensivo, que pode ser o momento ideal para ver as suas contradições, ausências e pontos mais obscuros (Zack,
2005) não para a destruir (a teoria da interseccionalidade), mas pelo contrário, para aumentar o seu potencial,
possibilitando a elaboração de uma forma mais complexa de teorizar a identidade e a opressão.
A autora Jennifer Nash no seu artigo Re-thinking intersectionality, publicado na revista Feminist Review de
2008, critica as bases nas quais esta teoria se sustenta enumerando algumas críticas ou problemas que segundo ela
necessitam ser clarificados e debatidos. São eles (essencialmente) a falta de uma metodologia interseccional, o uso
das mulheres negras como sujeitos "puros" interseccionais e a ambiguidade na descrição do que é a
interseccionalidade (ou do que pode ser!). A autora não pretende "desmantelar" a interseccionalidade. Como ela
própria afirma, o seu trabalho sugere questões e desafios que podem ajudar a expor as premissas que sustentam a
interseccionalidade, de modo que ambas as teorizações feministas e antirracistas, possam continuar a trabalhar para
desconstruir o essencialismo, possam construir e criar teorias mais complexas de identidade e de opressão, e de lidar
com a dificuldade da subjetividade. Tudo isto permitiria evitar os perigos da fragmentação e discórdia, ou, pelo
contrário, da teorização inclusiva que perde complexidade. Sugere manter o interesse da Interseccionalidade pela
diferença, mas ao mesmo tempo mobilizar estrategicamente uma linguagem de comunalidade (ainda que provisória)
ao serviço da construção de uma agenda teórica e política emancipadora. Neste contexto, seria possível pensar em
coligações temporárias que façam sentido e sejam necessárias num momento particular, permitindo a organização
comunal para além, e através, da assunção da diferença.
No que diz respeito aos problemas com que a teoria da interseccionalidade tem de se confrontar, parece que o
fato de haver ainda pouca clareza metodológica é uma das piores dificuldades. Seriam necessárias ferramentas
metodológicas que fossem suficientemente flexíveis para atender às inúmeras intersecções possíveis. A
complexidade resultante desta interseccionalidade tem sido difícil de analisar, como a autora Leslie McCall (2005)
refere aprofundadamente no seu trabalho[47].
Um segundo problema prende-se com o fato das experiências das mulheres negras terem sido usadas como
emblema teórico destinado a demonstrar as deficiências das teorizações feministas mais convencionais da segunda
onda. Aliás, foi no ambiente feminista negro que se originou a própria teoria da interseccionalidade. No entanto, é
perigoso continuar a utilizar a categoria emergente de "mulheres negras" como uma entidade unitária e monolítica. É
necessário pensar nas múltiplas diferenças que podem existir entre elas, por exemplo em termos de classe social ou
de sexualidade.
A questão da definição acerca do que é a interseccionalidade diz respeito à dúvida acerca do quê e de quem se
pode falar como sendo sujeito interseccional; isto é, saber se todas as identidades são interseccionais e assim devem
ser estudadas ou se esta teoria se aplica apenas aos indivíduos pertencentes a categorias marginalizadas e nestes,
prioritariamente a quem sofre de múltiplas pertenças identitárias subordinadas. A pesquisa em interseccionalidade
tem investido essencialmente nestes grupos de pessoas marginalizadas (subordinação múltipla) já que tem como
prioridade estudar e adquirir conhecimento de modo a provocar mudanças nas vidas das pessoas (Kwan, 1996,
citado em Nash, 2008). Contudo, a maioria da teorização considera que a interseccionalidade se refere a todas as
pessoas. Ao assumir esta última possibilidade, então estar-se-á a falar de uma teoria da interseccionalidade que seria
uma teoria generalizada da identidade ao reconhecer as maneiras pelas quais as posições de dominação e
subordinação interagem de modo complexo e cruzado para constituir as experiências dos sujeitos "pessoas" situadas
em matrizes de subordinação (Collins, 2000), mas também de privilégios.
Por fim, é importante referir uma questão que continua sem ser explorada pelos teóricos da interseccionalidade
e que diz respeito à maneira como o privilégio e a opressão podem ser co-constituídos a nível da subjetividade. Ou
seja, enquanto a interseccionalidade continuar a descrever essencialmente algumas marginalizações (o espectro da
mulher marginalizada negra e pobre) por oposição a alguns privilégios (o homem branco heterossexual) deixa de
descrever as formas como se cruzam privilégio e opressão, informando as experiências de cada sujeito.
Ao conceber o privilégio e a opressão como complexos, múltiplos e simultâneos, a interseccionalidade poderia
oferecer uma concepção mais robusta tanto da identidade como da opressão.
Concluindo, agora que a interseccionalidade se tornou um projeto intelectual/acadêmico institucionalizado
como ferramenta dominante para se conhecer as vozes marginalizadas, cabe aos investigadores e teóricos desta
perspectiva interrogar criticamente os seus objetivos para melhor delinear o futuro teórico, essencialmente o seu
poder explicativo assim como o movimento político.
Conclusão
“A não ser que tenhamos consciência de que não se pode evitar tomar
posição, tomamos posição sem darmos conta”[48]

No contexto conceitual e de pesquisa metodológica construcionista crítica interseccional na psicologia,


questionam-se os fatos apresentados pela disciplina como dados adquiridos e evidentes, assumindo-os como
construídos dentro de narrativas especificamente culturais, regimes de verdade, padrões de poder ou formas de
ideologia (Nogueira, 2001a).
As diferenças não existem num vacum político. Pelo contrário, a força da diferença, os tipos de diferença, os
valores atribuídos a diferentes formas e a dominância de determinadas formas, tudo é modelado pelo contexto
(DeFrancisco & Palczewsky, 2007). No entanto, apesar das complexidades e da fluidez da identidade, muitas
instituições continuam estruturadas à volta de categorias identitárias como se elas fossem fixas, facilmente
identificáveis e facilmente distinguíveis. E é por esta razão que apesar do gênero ser complexificado pelos outros
ingredientes identitários continua a ser útil como categoria de análise, quando se pretende estudar ou analisar as
desigualdades persistentes. O objetivo é tornar claro que não se consegue compreender o gênero a não ser que se
compreenda a complexidade de cada identidade pessoal, as influências das instituições sobre o gênero e a forma
como as questões de poder se inter-relacionam (DeFrancisco & Palczewsky, 2007).
Como refere Sloop (2005), “um projeto de gênero/sexualidade que evite questões de classe ou ‘raça’ não só
reforça as formas materiais e económicas nas quais e pelas quais as fronteiras são reforçadas e delimitadas,
permitindo apenas uma crítica das questões de gênero/sexo que têm pouco poder explicativo” (p. 326). A ênfase
numa abordagem das diferenças ignora as questões de poder e limita a compreensão sobre a violência (DeFrancisco
& Palczewsky, 2007). A interseccionalidade pode tentar explicar a complexidade das identidades e das experiências
vividas. E qualquer análise das desigualdades sociais relacionadas com o gênero tem de tomar este conceito em
consideração senão será incompleta.
Uma abordagem crítica e interseccional do gênero implica um grau elevado de complexidade em termos de
pesquisa (McCall, 2005). O sexo e o gênero não são simples variáveis que se incorporam nas equações, são fatores
complexos que requerem uma atenção cuidada.
É importante falar de momentos de emancipação e de libertação assim como de momentos de contradição e
acomodação. Apesar das estruturas institucionais e do poder social criarem desigualdades, essas desigualdades não
persistem sem mudança eternamente. Mesmo diante da opressão e da subordinação, algumas pessoas encontram
maneiras criativas de se poderem expressar. Não obstante as constantes ameaças de violência, as pessoas resistem.
Em muitos casos os atos de resistência usam as mesmas estruturas de gênero que servem à subordinação. Para
muitas pessoas os atos de resistência são fundamentais, mesmo que muitas vezes tenham consequências. Para muitas
outras a acomodação parece ser o padrão que escolhem para melhor levarem as suas vidas por diante (DeFrancisco
& Palczewsky, 2007).
Reconhecer a diversidade de gênero não implica negar diferenças entre homens e mulheres, nem que o gênero
habita os indivíduos de forma imutável. Como diz Preciado (2004), “não há diferença sexual, apenas uma multitude
de diferenças, uma transversalidade das relações de poder, uma diversidade de experiências de vida” (p. 25). E se há
diferentes posicionamentos para enfrentar esta complexidade, por que não usá-los para em conjunto se produzir um
saber sempre questionado, sempre crítico, sempre alerta das possibilidades de reificação, seja de categorias ou
assunções que são temporárias ou provisórias e usadas apenas estrategicamente?
Este período de globalização que tem afetado de forma muito rápida as relações de poder e tem criado
mudanças e clivagens no poder econômico e cultural não pode ser comparado a qualquer outro período histórico
(Nogueira, 2001b). Há cada vez mais questões para colocar e o nosso conhecimento está cada vez mais incompleto
e em rápida mudança. Temos de questionar continuamente onde estão as localizações da dominação. Temos de
perguntar onde estão atos de resistência a ocorrer. É necessário mais do que nunca usar a reflexividade (Nogueira,
2001a). Ela permite que se esteja atento a valorizar, a criticar e analisar subjetivamente. Implica perceber o que se
estuda e como se estuda (DeFrancisco & Palczewsky, 2007). O que se faz ao pesquisar, quem se beneficia e quem
se prejudica (Prilleltenski & Fox, 1997; Prilleltensky & Nelson, 2002; Neves & Nogueira, 2005), o que se reifica, o
que se permite que aconteça.
Escrutinar a interseccionalidade pode permitir quer às feministas quer às teóricas antirracistas, melhor
avaliarem as potencialidades e os perigos deste tipo de teorização “inclusiva”. Ambos os projetos têm de ter em
atenção as questões da diferença na interseccionalidade ao mesmo tempo em que estrategicamente mobilizam uma
linguagem de comunalidade (mesmo que provisória ou temporária) ao serviço da construção de uma agenda política
e teórica coerente (Nash, 2008).
Reconsiderar a interseccionalidade permite às ativistas questionar em que condições se devem organizar em
movimentos políticos unitários mais amplos, como mulheres ou mulheres negras por exemplo, em que condição ou
contexto faz sentido fazer coligações temporárias e como se organizar para além das diferenças.
Faço minhas as palavras de Ibañez (1996), que refere ser da nossa responsabilidade enquanto psicólogas(os)
eleger o conhecimento que queremos produzir: um conhecimento de tipo autoritário, alienante, normalizador que
passe a fazer parte dos múltiplos dispositivos de dominação ou pelo contrário um conhecimento de tipo libertador,
emancipador que traga para a arena as lutas das pessoas contra a dominação. Deve-se promover uma mudança
radical. Mas, para fazer da psicologia uma prática libertadora, é necessário começar a construí-la em oposição aos
pressupostos que fazem dela uma arma de dominação (como mostramos em Oliveira, Neves & Nogueira, 2009). E
porque sou adepta da psicologia enquanto projeto emancipador posso assumir uma psicologia social crítica, mas
também radical (Íñiguez-Rueda (2003).
"La Psicología social crítica es sobre todo el resultado del continuo
cuestionamiento de las prácticas de producción de conocimiento. Puede ser radical
o no, en el sentido de que puede permanecer al margen de cualquier pretensión de
emancipación social o sentirse plenamente implicada en ella" (Lupicinio Íñiguez-
Rueda, p. 234).

Para a psicologia feminista crítica é urgente considerar a interseccionalidade. Sendo um desafio de grandes
dimensões será também uma oportunidade para aumentar o conhecimento sobre as experiências vividas de todas as
pessoas, enfatizando as normalmente esquecidas, invisíveis ou totalmente complexas na sua interseccionalidade.
Produzir um conhecimento válido, numa época marcada por profundas assimetrias de formas de vida e profundas e
crescentes desigualdades, é um objetivo emancipador que vale a pena procurar atingir.
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Nota biográfica
Conceição Nogueira. Professora Associada com Agregação na Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto. Doutora
em Psicologia Social pela Universidade do Minho. Autora de diversos livros em português (Portugal e Brasil) e diversas publicações internacionais –
revistas, livros, capítulos de livros e trabalhos em conferências sobre Estudos de Gênero, Feminismos e Sexualidades. Experiência de coordenação de
vários projetos de investigação financiados e apoiados pela FCT nos seus domínios de especialização.

[1]
bell hooks é o pseudónimo de Gloria Watkins e é sempre grafado em minúsculas.
[2]
Partes deste texto foram anteriormente publicadas em Nogueira, Conceição (2013). A teoria da interseccionalidade nos estudos de gênero e
sexualidades: condições de produção de "novas possibilidades" no projeto de uma psicologia feminista crítica in Andrea Vieira Zanella, Ana Lídia Campos
Brizola, Marivete Gesser, Práticas sociais, políticas públicas e direitos humanos, Editora ABRAPSO, pp. 227-248, e Nogueira, Conceição (2012). Género e
feminismos. Dois caminhos entrecruzados. Em Francisco Portugal & Ana Maria Jacó-Vilela (org.) Clio-Psyché – Género, Psicologia, História. Rio de
Janeiro: Nau Editora/Faperj, pp-43-68.

[3] De frisar que será sempre feita uma entrada essencialmente nos feminismos norte-americanos.
[4]
Para um conhecimento mais pormenorizado sobre esta época e suas/seus protagonistas, ver o livro de Isabel do Carmo e Lígia Amâncio, de 2004, Vozes
Insubmissas: a história das mulheres e dos homens que lutaram pela igualdade dos sexos quando era crime fazê-lo.
[5]
As da classe média ou média superior, já que as mulheres das classes desfavorecidas sempre trabalharam ou nos campos ou nas fábricas e muito antes
desta época.
[6]
Como refere Segal (1995), o “estridente” ressurgir do feminismo como movimento de libertação das mulheres do Ocidente, no fim dos anos 60 tomou a
forma de uma crítica fundamental à família. O que preocupava as feministas de então, era a percepção das mulheres como dependentes, subvalorizadas e
frequentemente isoladas, essencialmente aquelas que se dedicavam à família a tempo inteiro.
[7]
O próprio conceito de feminismo tem sido sempre muito controverso, dando origem a diferentes posturas, que ainda coexistem e que inclusive, por não
serem bem difundidas e conhecidas, confundem a população acerca do objetivo central (Nogueira, 2001b) e reduzem a complexidade feminista a um
reduzido leque de estereótipos e ideias de senso comum.
[8]
O posicionamento de diferentes psicólogas feministas e dos seus programas de pesquisa na Psicologia dependem também da sua adesão a uma ou outra
destas teorizações feministas mais reconhecidas e difundidas da época.
[9]
Assumidamente de uma forma muito simplista e que pode até ser considerada redutora dada a existência de posicionamentos distintos, com nuances, que
sempre existiram em cada um destes movimentos e teorias.
[10]
Esta perspectiva sobre o planeta está agora muito em voga devido às questões do eco-feminismo ou do feminismo pacifista, da ética do cuidado, que
vêem beber as suas origens neste primeiro feminismo da segunda onda.
[11]
Que se refere essencialmente à ideia de um retrocesso.
[12]
Esta perspectiva, muito popular essencialmente na Inglaterra, associa o feminismo contemporâneo a um lugar de conflito essencialmente
intergeracional, com consequências para a teorização e para o ativismo Feminista.
[13]
Como refere Jonathan Dean (2009), a vinculação com uma subjetividade de terceira onda, nesta última perspectiva, arrisca-se a minar as dimensões de
desafio, de ameaça e de radicalismo do feminismo, assumindo um conflito entre mulheres, o que, de forma perversa, acaba por valorizar a agenda anti-
feminista.
[14]
A filósofa feminista mais reconhecida e citada no âmbito das epistemologias feministas. A sua classificação, publicada em 1986, surge continuamente
nos textos feministas, apesar de se considerar que está relativamente simplificada para dar conta das diferentes possibilidades do debate feminista atual.
[15]
Adotarei a palavra inglesa, dada a sua tradução (ponto de vista, ponto de partida ou base) não ser muito esclarecedora em termos teóricos.
[16] Serão feitas referências específicas aos trabalhos realizados em contexto acadêmico português.
[17]
Essencialmente do sexo masculino.
[18]
A Psicologia tem sido, dentro das Ciências Sociais, a disciplina mais resistente à teorização feminista (Cole, 2009).
[19]
Os estudos feministas permearam áreas substantivas da pesquisa psicológica e do conhecimento. O ativismo feminista deu origem e promoveu novas
estruturas dentro das associações da psicologia, um substantivo aumento do número de mulheres no poder e na liderança. Na Associação Americana de
Psicologia, que tem cerca de 160,000 membros, a divisão intitulada “Sociedade para a psicologia das Mulheres” é atualmente a quinta maior em termos de
membros, num conjunto de 55 divisões (Worell, 2000). Os grupos de mulheres dentro da APA fizeram lobby para obtenção de recursos de pesquisa,
promoveram agendas e políticas cujo foco era, por exemplo, a saúde das mulheres ou o bem-estar. No entanto, é importante referir que muitas das
psicólogas feministas que foram referências fundamentais na sua época acabaram por passar algum tempo das suas carreiras em departamentos de estudos
sobre as mulheres, onde a interdisciplinaridade é fundamental, e isso de certo modo foi importante para as suas teorias. Falo por exemplo de Sandra Bem,
que depois de lhe ter sido recusada a tenure em Stanford, foi dirigir o Departamento de Women's Studies de Cornell por vários anos (de 1978 a 1985)
(Stewart & Dottolo, 2006).
[20]
Quando as mulheres eram objeto de estudo eram avaliadas de acordo com os standards masculinos de forma que a personalidade assim como o
comportamento das mulheres eram vistos como desviantes ou deficientes, porque em comparação. Por exemplo, nas pesquisas iniciais que se focalizavam
sobre as diferenças sexuais, assumia-se que em comparação com os homens as mulheres eram menos motivadas para a realização, menos assertivas e
menos competentes em ciência e em matemática. Estas presumíveis deficiências eram vistas como estereótipos para todas as mulheres e eram usados para
negar às mulheres a entrada, assim como a progressão, em contextos e domínios de emprego tradicionalmente masculinos.
[21]
Entre as mais resistentes, Worell (2000) refere a psicologia forense, a psicologia social tradicional, a psicologia da personalidade assim como a
psicologia do desenvolvimento.
[22]
Apesar de, pela mesma época, certos artigos começarem a ser publicados em revistas científicas não específicas do domínio, esta situação não foi regra
(ainda não o é) e continuam a ser as revistas ligadas à temática, o meio mais influente de passagem de comunicação. Torna-se claro que o conhecimento
psicológico se mantém cauteloso sobre as questões feministas e que estas continuam nas margens.
[23]
As terapeutas feministas tipicamente e frequentemente, assumem que os sintomas das mulheres como as suas tentativas de “coping” com situações
patológicas, mais do que refletindo patologias dentro das próprias mulheres, resultam de fontes externas associadas a um sistema assimétrico de poder. Esta
perspectiva posiciona a patologia das mulheres num contexto social e político.
[24]
As controvérsias mais fundamentais com as quais a psicologia feminista tem de se confrontar no presente, apesar de específicas, não são distintas (do
ponto de vista do seu caráter epistemológico) daquelas que se equacionam no seio do próprio feminismo de uma forma geral.
[25]
Serão estas jovens psicólogas/os feministas adeptos da "agenda feminista geracional" já referida trás? Segundo as informações que as autoras Stewart e
Dolloto (2006) referem, estas cientistas parecem admitir elementos que as distanciam dessa vertente geracional mais radical. No entanto, será importante
seguir estes desenvolvimentos e ir questionando as suas consequências teóricas, mas também políticas.
[26]
Para uma revisão mais pormenorizada dos trabalhos destas autoras sugere-se a leitura de (Minton, 2000) e (Saavedra & Nogueira, 2006).
[27]
Que se institucionalizou com a criação da Divisão 35 (Psychology of Women Division) no seio da APA.
[28]
E porque Carol Gilligan se situa no domínio da Psicologia do Desenvolvimento, não será aqui referida. Recomenda-se a leitura do seu livro In a
different voice, de 1982. Em síntese, a autora contrapõe às conclusões de Lawrence Kohlberg de que as mulheres não atingem os últimos níveis ou estádios
de desenvolvimento moral, com investigação só com mulheres, onde ela conclui que as mulheres possuem valores morais distintos ligados à esfera
emocional e do cuidado, logo, a teoria de Kohlberg estaria desadequada para a avaliação das mulheres. Deste trabalho inicial surge todo um programa e
pesquisa e teorias feministas que ainda hoje se mantêm associadas ao feminismo da diferença, ecologista ou pacifista. A postura de Gilligan é
essencialmente de epistemologia de standpoint feminista, centrada nas mulheres e também por isso essencialista.
[29]
Dado o ponto central deste texto incidir particularmente sobre o gênero na crise da segunda onda e inícios da terceira, farei apenas uma breve
apresentação de três das figuras mais reconhecidas internacionalmente da segunda onda, americanas, apesar de reconhecer a existência de todo um trabalho
de origem anglo-saxônica e, também, europeia fundamental nesta época.
[30]
Para um estudo detalhado do construcionismo social na psicologia recomenda-se a leitura de Burr (1995; 1998), Gergen (1973; 1982; 2001), Gergen
(2001), Gergen e Davis (1997), Nogueira, (2001a, 2001c, 2001d) e Nogueira, Neves e Barbosa (2005).
[31]
Nesta parte cita-se extensamente um trabalho pessoal publicado em 2001 na revista Psicologia. Nessa altura, representou a apresentação desta
perspectiva num número especial organizado por Lígia Amâncio sobre Gênero, aliás, o primeiro número especial organizado em Portugal numa Revista de
Psicologia.
[32]
Neste texto sempre que se utilizar o termo "raça" estarei a referir-me a uma construção social usada para identificar e rotular grupos e consecutivamente
pessoas pertencentes a esses grupos. E porque existe racismo, a "raça" continua a ser uma categoria de análise importante.

[33]
É importante ter em atenção que a maior parte das questões e teorizações apresentadas neste ponto do texto provêm de perspectivas baseadas
essencialmente na experiência da teorização feminista dos Estados Unidos, em Inglaterra e mais recentemente a nível da Europa em geral.
[34]
Esta posição das políticas de identidade que inicialmente estava associada às críticas do feminismo negro, é agora discutida de forma muito menos
essencialista (de grupo), incorporando elementos desconstrutivos e de análise crítica.
[35]
As perspectivas queer recusam "a fixidez identitária, denunciam a ordem de gênero heterossexual e criticam os processos naives de constituição de
sujeitos que encontramos na psicologia, psicologia social e sociologia, por não tomarem em conta as relações de poder e as normas a partir das quais nos
tornamos sujeitos" (Oliveira & Nogueira, 2009, p. 9).
[36]
Para um aprofundamento da teoria queer recomenda-se a leitura do texto de Oliveira, Pinto, Pena e Costa de 2009, Feminismos Queer: disjunções,
articulações e ressignificações no dossiê temático de Oliveira e Nogueira (2009) Fazer o género: performatividade e perspectivas queer. Ex-Aequo, 20.
[37]
Tem sido assim referida, mas é importante salientar que é difícil perceber de quem se fala; penso que é uma perspectiva muito localizada,
essencialmente em Inglaterra, onde grupos de ativistas e acadêmicas feministas se "confrontam". É difícil traduzir para Portugal esta posição.
[38]
A ideia de que se alguém é atraente, divertido e popular, não pode ser feminista, aparece como sendo a consequência do afastamento de muitas jovens
feministas desta onda que consideram ser a posição típica das feministas de segunda onda. Esta perspectiva tornou-se dominante no contexto
contemporâneo britânico, como uma importação acrítica de ideias provenientes dos Estados Unidos, e em menor escala em outros lugares, Dean (2009).
[39]
As feministas jovens também são mais propensas a adotar a política pós-moderna da teoria queer, especialmente em questões relacionadas com a
sexualidade. Como consequência, elas promovem um feminismo que é mais abrangente de uma profusão de temas como lésbicas butch, femmes,
transexuais e transgêneros.
[40]
Vimos no ponto anterior como estas políticas de identidade foram posteriormente colocadas em questão e são agora consideradas de uma forma mais
crítica e menos essencialista
[41]
Há quem considere ser essa apenas a sua aplicação.
[42]
Este texto é possivelmente o texto mais citado na literatura sobre interseccionalidade, independentemente das pesquisadoras concordarem ou não com a
sua perspectiva metodológica inclusiva.
[43]
Frequentemente faltam dados relativos a diferentes grupos em matérias de saúde, que podiam evitar muitas situações de risco e de mortalidade e
morbilidade.
[44]
Categorias de pertença identitárias que são já resultado de intersecções. Por exemplo as lésbicas, ou mulheres negras podem ser consideradas este tipo
de categorias que ultrapassam a categoria master de sexo/gênero.
[45]
Por exemplo, os homens negros são mais prototípicos que as mulheres negras e os gays brancos mais que os gays negros.
[46]
Referimo-nos às categorias que são mais comumente usadas e pesquisadas em termos de identidade social: o sexo/gênero, a orientação sexual, a "raça",
a classe social.
[47]
É precisamente para colmatar esta dificuldade que ela apresentou a sua abordagem inclusiva das três abordagens à interseccionalidade.
[48]
“Unless one is aware that one cannot avoid taking a stand, unwitting stands get taken” (Spivak, 1988). Epígrafe retirada da conclusão da minha tese de
doutoramento realizada em 1997.

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