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Descriminação racial

Segundo o Artigo 1º do Estatuto da Igualdade Racial, a discriminação racial é toda distinção,


exclusão, restrição ou preferência baseada em raça, cor, descendência ou origem nacional ou
étnica. O Estatuto ainda afirma que essa exclusão fere os direitos humanos e liberdades
fundamentais nos campos político, econômico, social e cultural.

O conceito de estrutura social informa os modos como as sociedades são organizadas a partir
das relações estabelecidas entre os indivíduos e os grupos sociais.

As classes sociais em Moçambique encontram divididas em três grupos:

As classes baixas apresentam dificuldades em manter as necessidades básicas do ser humano,


como a alimentação, por exemplo. Além disso, dificilmente têm acesso a opções de
entretenimento cultural.

As classes médias são as mais comuns na maioria dos países. Neste grupo, os indivíduos já
conseguem manter um equilíbrio econômico, garantindo todas as necessidades básicas. Na
classe média as pessoas tendem a ter um nível de escolaridade mais elevado, como o ensino
superior completo, por exemplo.

Já as classes altas são os ricos, que geralmente nasceram em famílias abastadas e são
detentores de grandes heranças e fortunas.

Descriminação racial nas estruturas sociais em Moçambique

15As avaliações de senso comum elaboradas pela população autóctone moçambicana das
áreas suburbanas e periurbanas das cidades de Maputo e Matola conferem funções
reguladoras no tecido social moçambicano da atualidade (por contraposição a funções
disruptivas ou disfuncionais) à minoria branca de origem europeia (Moscovici 2000; Vala e
Castro 2013). A tese sustenta-se no facto de os argumentos que conferem conteúdo às
avaliações de senso comum em causa remeterem para três domínios relevantes da vida social
que, em geral, assumem uma carga favorável quando associados à minoria racial em causa
(Chaiken e Eagly 1993; Lima e Correia 2013).

16Em primeiro lugar, os argumentos tendem a associar a minoria branca de origem europeia
ao atributo da criação de empregos formais e informais que beneficiam os autóctones
moçambicanos, constante que se mantém entre as representações sociais da época colonial e
da atualidade. Está em causa um país de rápida urbanização com uma população fortemente
marcada por dificuldades de acesso ao trabalho assalariado, fator que explica as difíceis
condições de subsistência. Em segundo lugar, é comum o argumento segundo o qual os
indivíduos pertencentes à minoria branca de origem europeia não manifestam obstáculos em
se casarem ou viverem maritalmente com indivíduos pertencentes à maioria negra. Em
terceiro e último lugar, é de sublinhar a tendência de a minoria branca revelar-se tanto mais
omissa quanto mais os discursos de senso comum se focam em atitudes e comportamentos
disruptivos e respetivos agentes, como a criminalidade, a corrupção ou a violência.
17ª tese da carga favorável atribuída à minoria branca de origem europeia fica melhor
sustentada se conjugarmos os três núcleos relevantes da vida social considerados entre si
(mercado de trabalho, relações maritais e comportamentos sociais) com as avaliações
comparativas que diferenciam a minoria em causa das outras minorias raciais que integram o
tecido social moçambicano (mestiços, indianos ou chineses) (cf. Ribeiro 2012ª). A comparação
entre a minoria branca de origem europeia e as elites autóctones negras também concorre no
mesmo sentido (ver adiante).

5 Na terminologia de Freud um sintoma é a formação substitutiva da ideia recalcada (Freud


2009ª, p.30 (…)

18Todavia, a análise das representações sociais em causa implicam considerar a sua natureza
ambivalente, bem como o seu funcionamento entre o manifesto e o latente (Freud 2009 e
2001). Esse pressuposto permite inferir que a vantagem social atribuída pelos moçambicanos
comuns à minoria branca de origem europeia está dependente de referentes éticos que
refundaram, no período pós-colonial, a relação entre os autóctones e esses outros alienígenas.
Um dos referentes éticos, já indiciado, tem a ver com a função social construtiva atribuída a
essa minoria (face ao mercado de trabalho ou a demarcação em relação a atitudes e
comportamentos disruptivos). Um outro referente ético, bem mais significativo se tivermos em
conta a herança histórica, tem latente a censura social da segregação racial ou étnica. Neste
último caso, o sintoma5 através do qual este referente ético se manifesta no senso comum
tem a ver com a tese referida sobre as relações maritais ou casamentos inter-raciais
mutuamente legitimadas entre a minoria alienígena branca e a maioria autóctone negra. Para
além do manifesto, o que fica latente é a valorização social da partilha inter-racial de
dimensões íntimas da vida individual e coletiva entre negros e brancos. Daqui resulta uma
representação social da atualidade que funciona como alter-ego das características atribuídas
à identidade branca na época colonial em que a intimidade inter-racial era socialmente
deslegitimada ou mesmo censurada (Penvenne 1995; cf. Ribeiro 2013).

19Por seu lado e em termos comparativos, as avaliações dos grupos sociais moçambicanos
dominados sobre as suas elites autóctones organizam-se numa lógica distinta em relação ao
que foi referido para a minoria branca. As elites negras tendem a ser favoravelmente avaliadas
no campo das garantias de direitos cívicos e políticos, essencialmente por serem
representadas como protetoras dos moçambicanos comuns face a eventuais abusos por parte
das minorias raciais (de origem europeia, asiática ou mestiça), funcionando de certo modo
como escudos contra hipotéticos regressos aos abusos da época colonial. Contudo, essas
mesmas elites autóctones negras com maior facilidade ganham atributos desfavoráveis no
plano das atitudes socioeconómicas, dado que a riqueza que lhes é atribuída não é em geral
representada como socialmente construtiva, antes como bens para usufruto deles próprios,
quando comparados com a função social construtiva atribuída à riqueza da minoria branca, a
que cria empregos.
20Daí que, em termos de categorização dos objetos de atitude em apreço, nos discursos da
rua para a minoria branca é saliente o epíteto de patrão ou boss (consoante a frente pessoal se
identifique com o tipo português ou sul-africano) e para a elite negra pós-colonial são salientes
epítetos do campo político: estruturas (isto é, pessoas importantes ligadas ao partido no
poder, a Frelimo), os nossos dirigentes ou os nossos governantes. Não se trata de
categorizações mutuamente exclusivas, mas apenas de tendências dos discursos da rua que,
no entanto, permitem identificar características do pensamento social.

21Todavia, do tratamento do material empírico recolhido em Moçambique entre 2010 e 2011


é de extrema importância registar uma outra interpretação. Se o pensamento social não é
estático nas avaliações do objeto de atitude minoria branca ao longo do tempo (as atitudes
dessa minoria racial da atualidade são tidas como marcadamente distintas das da época
colonial), as avaliações também não são homogéneas no interior do tecido social
moçambicano. Sobre este último aspeto, quando estão em causa muito em particular os
portugueses (o segmento dominante entre a minoria branca), tende a verificar-se uma
inversão de atitudes favoráveis para atitudes desfavoráveis à medida que se caminha das
avaliações dos grupos autóctones dominados (a maioria) para o topo das elites autóctones
moçambicanas (a minoria). Recorrendo a um referente-tipo dos discursos de senso comum,
passa-se de expectativas positivas alimentadas pelo estereótipo do branco-empresário criador
de empregos, atitude saliente nos discursos dos grupos negros dominados, para expectativas
negativas alimentadas pelo estereótipo do branco-empregado que vem ocupar um posto de
trabalho de um moçambicano, ganhando mais do que o nacional, atitude saliente nos grupos
negros dominantes.

A exemplo trago um trecho comprovante a teoria da descriminação.

“É pena seres mulato!”

Frase dita a um escritor e académico moçambicano por um admirador negro numa recepção
oficial. Numa (…)

Dada a sensibilidade do tema e as características da sociedade em causa na qual o poder do


Estado o

3 O tratamento do conjunto das recolhas (entrevistas, registos de conversais informais, de


situações (…)

1º texto constitui uma peça de uma investigação empírica mais ampla ainda em curso,
essencialmente assente em discursos de senso comum sobre relações raciais em Moçambique.
Não é viável, neste contexto, desenvolver o enquadramento teórico e metodológico da
investigação que, na essência, remete para o domínio do pensamento social e, neste âmbito,
centra-se na teoria e conceito de representações sociais na perspectiva de Serge Moscovici
(Moscovici, 2000; Ribeiro, 2008). O estudo é suportado por uma metodologia de recolha e
tratamento de dados eminentemente qualitativa: entrevistas semi-directivas (80 realizadas nas
cidades de Maputo e Matola)2, observação participante, registos escritos diversificados3. O
trabalho de campo decorreu entre abril e agosto de 2010 e janeiro e abril de 2011.
2As mestiçagens constituem um dos factores estruturantes do tecido social moçambicano. O
fenómeno remete tanto para a longa duração, quanto para o envolvimento de parcelas
significativas da população. Destaco as miscigenações inter-étnicas espoletadas pelos estados
e impérios africanos anteriores à ocupação colonial efectiva; o impacto da presença
multissecular de migrações do Índico (árabes e indianos, entre outros) que se foram fixando na
extensa zona costeira de Moçambique, legando a marca islâmica que foi avançando do litoral
para o interior, em particular na região norte; a presença de europeus cuja dominação colonial
efectiva, iniciada em finais do século XIX, acelerou continuamente as tendências de
miscigenação anteriores, reforçando a componente cristã; são ainda de ter em conta os
sistemas de reprodução socioeconómicos tradicionais que subsistem e pautam a diversidade
social moçambicana.

Movimento associativo e literário em Moçambique

O movimento associativo africano na Colónia de Moçambique desempenhou um papel


significante e activo na transformação de um proto-nacionalismo numa consciência
nacionalista interventiva. Pela sua importância, eis o título da presente tese: “O movimento
associativo africano em Moçambique”. As fontes orais, escritas e iconográficas recolhidas,
interpretadas e analisadas criticamente permitem-nos demonstrar a tese da existência de uma
ponte entre as primeiras iniciativas da sociedade civil, no dealbar do século XX e os
movimentos independentistas, no início da década de sessenta, pelo que foram definidas
como balizas cronológicas, 1926 a 1962, espaço temporal em que a causa africana se
transformou em causa nacional. Em primeiro lugar, contextualizou-se a Colónia de
Moçambique no quadro do império colonial português, analisando a estrutura económica,
social e política para numa segunda parte, se caracterizar as associações africanas, pela sua
actuação, a sua voz reprimida e silenciada na imprensa e na sociedade e se verificar que
cresceram, como uma onda de contestação que se agigantou até atingirem o ponto mais alto,
com a unidade de acção contra o regime colonial. O subtítulo da tese: “Tradição e luta”
implicou conhecer as Mulheres e os Homens, os actores sociais que animaram esse
movimento, demonstrando a sua pertença à elite defensora da “causa africana”, motivação
que ainda hoje inspira cientistas, escritores e estudiosos dos Povos que constroem
Moçambique e aspiram a um mundo melhor.

Movimento literário em Moçambique

Literatura Moçambicana

Literatura moçambicana – periodização

A poesia moçambicana contemporânea

Sonhos, paisagens e memórias na poesia moçambicana contemporânea

José Craveirinha

Rui Knopfli

Mia Couto

Eduardo White
Literatura moçambicana – periodização

1.º Período, que vai das origens da permanência dos portugueses naquela região índica até
1924, ano que precede o da publicação de O livro da dor, de João Albasini. É um período de
Incipiência, um quase deserto secular, que se modifica com a introdução do prelo, no ano de
1854, mas sem os resultados literários verificados em Angola.

Está hoje perfeitamente assente que, ao contrário de Angola, não houve uma actividade
literária consistente e continuada, em Moçambique, até aos anos 20 do século XX. Nesse
panorama desértico, tão habitual no oitocentismo, em África, sobressai, nos anos 60, 70 e 80,
a publicação dispersa dos textos de Campos Oliveira (nasceu na Ilha de Moçambique, em 1847;
morreu em 1911), num total de 31, rastreados por Manuel Ferreira. Foi estudante de Direito
em Coimbra e morou na Índia, autor de um Almanaque Popular em Margão, em meados dos
anos 60. Vejam-se duas estrofes de «O pescador de Moçambique»:

— Eu nasci em Moçambique,

De pais humildes provim,

A cor negra que eles tinham

É a cor que tenho em mim:

Sou pescador desde a infância,

E no mar sempre vaguei;

A pesca me dá sustento,

Nunca outro mister busquei.


[…]

Vou da cabaceira às praias,

Atravesso Mussuril,

Traje embora o céu d’escuro,

Ou todo seja d’anil

De Lumbo visito as águas

E assim vou até Sancul,

Chego depois ao mar-alto

Sopre o norte ou ruja o sul.

[…]

O 2.° Período, de Prelúdio vai da publicação de O livro da dor até ao fim da II Guerra Mundial,
incluindo, além do livro do jornalista João Albasini, os poemas dispersos, nos anos 1930, de Rui
de Noronha, depois publicados em livro, numa recolha duvidosa, incompleta e censoriamente
truncada, com o título de Sonetos (1946), por ser o género mais cultivado por ele.

Rui de Noronha (nasceu em 28 de Outubro de 1905; morreu em 25 de Dezembro de 1943, em


Lourenço Marques) publicou boa parte dos seus poemas entre 1932 e 1936, no jornal O Brado
Africano. A recolha póstuma de Sonetos (1946) não faz juz à real obra do poeta.

Tributário da poesia da terceira geração romântica portuguesa, coincidente esta com o


impulso renovador do Realismo que se aproximava, vemos nesses sonetos, até pela sua forma,
a atinência estrita à tradição ocidental, que o latim retomado do soneto de Antero e, mais
longe, da divulgação bíblica (a figura do Lázaro ressuscitado), denuncia claramente:

Surge et ambula

Dormes! E o mundo marcha, ó pátria do mistério.

Dormes! E o mundo rola, o mundo vai seguindo…

O progresso caminha ao alto de um hemisfério

E tu dormes no outro o sono teu infindo…

A selva faz de ti sinistro ermitério,

Onde sozinha à noite, a fera anda rugindo…

Lança-te o Tempo ao rosto estranho vitupério

E tu, ao Tempo alheia, ó África, dormindo…

Desperta. Já no alto adejam negros corvos

Ansiosos de cair e de beber aos sorvos

Teu sangue ainda quente, em carne de sonâmbula…


Desperta. O teu dormir já foi mais do que terreno…

A voz do Progresso. Este outro Nazareno

Que a mão te estende e diz: — África surge et ambula!

Não se esgota nesse cumprir da herança portuguesa ocidental e cristã a poesia de Rui de
Noronha, que também se plasmou em formas mais libertas de constrangimentos e versou
temas relacionados com tradições nativas de Moçambique, como no caso do celebrado poema
«Quenguelequêzê» (modernamente também se escreve «Quenguele que ze»). Mas uma
revisão crítica, como a que encetou Fátima Mendonça, obriga a realçar a inversão de certa
mitologia propagandística da história colonial que Rui de Noronha operou poeticamente,
desfazendo a versão de um Mouzinho de Albuquerque como herói destemido e de um
Ngungunhane (ou Gungunhana), imperador (ou régulo, segundo a terminologia mais antiga)
derrotado, dominado e humilhado:

Pós da história

Caiu serenamente o bravo Quêto

Os lábios a sorrir, direito o busto

Manhude que o seguiu mostrou ser preto

Morrendo como Quêto a rir sem custo.

Fez-se silêncio lúgubre, completo,


No craal do vátua célebre e vetusto.

E o Gungunhana, em pé, sereno o aspecto,

Fitava os dois, o olhar heróico, augusto.

Então Impincazamo, a mãe do vátua,

Triunfando da altivez humana e fátua,

Aos pés do vencedor caiu chorando.

Oh dor de mãe sublime que se humilha!

Que o crime se não esquece à luz que brilha

Ó mães, nas vossas lágrimas gritando?

Noronha é, pois, herdeiro do terceiro romantismo português, como se disse, da sua oscilação
entre a consciência do sujeito e a ânsia de absoluto (que haveria de liquidar física e
psiquicamente um Antero, ora sombrio, ora ático), que a história tratava de reconduzir à
realidade (isto é, ao quotidiano e seu jogo de forças materiais, sociais). Mas o poeta ultrapassa
os restos desse terceiro romantismo, ao apropriar-se de temas e imagens segundo uma
estratégia textual e ideológica que assumia os primeiros contornos de uma moçambicanidade
baseada na História e no manancial étnico (o ritual, ainda que estereotipado, da Lua Nova).

Uma nova época foi inaugurada, portanto, a seguir à II Guerra Mundial. Durante cerca de 20
anos (até 1963), a literatura moçambicana alcançará a autonomia definitiva no seio da língua
portuguesa. […]

Noémia de Sousa, no seguimento dos textos soltos de Campos Oliveira (século XIX), do
jornalismo dos irmãos Albasini e de O livro da dor (1925), de João Albasini, e, depois, de Rui de
Noronha, além de outros, também não muitos, nem prolíficos, é a primeira escritora de
inequívoca radicação (e radicalização) africana, mas sem que se possa considerar que a
literatura moçambicana comece com ela, que escreve os seus poemas entre 1948 e 1951,
antes de embarcar para a Europa. Sem demasiadas preocupações cronologistas, podemos,
para facilitar a perspectiva temporal e ancorar os textos marcantes a um quadro algo
referencial, estabelecer, todavia, os anos do pós-guerra, de 1945-52, como decisivos para uma
nova literatura moçambicana.[…]

Fonseca Amaral publicou, em 1945, os primeiros textos poéticos; Orlando Mendes, as «Cinco
poesias do Mar Índico», na Seara Nova (1947); acrescentamos-lhes o tal poema de Noémia de
Sousa, «Canção fraterna» (1948); João Dias morreu em 1949, deixando inéditos vários contos,
publicados em livro pela CEI, em 1952; saiu o número único do jornal Msaho (1952), com
colaboração de Noémia de Sousa, Virgílio de Lemos e Rui Guerra (o conhecido realizador do
Cinema Novo brasileiro); Luís Polanah, Orlando de Albuquerque e Vítor Evaristo organizaram
para a CEI uma antologia de Poesia em Moçambique (1951), no culminar de uma actividade
mais ampla que vinha sendo desenvolvida, em Lisboa e Coimbra, desde meados da década de
1940. […]

O 3.° Período, que vai de 1945/48 a 1963, caracteriza-se pela intensiva Formação da literatura
moçambicana. Pela primeira vez, uma consciência grupal instala-se no seio dos (candidatos a)
escritores, tocados pelo Neo-realismo e, a partir dos primeiros anos de 1950, pela Négritude.

Noémia de Sousa escreve todos os seus poemas (conhecidos até hoje) entre 1948 e 51, ainda
sem conhecer a Negritude francófona, mas estando a par dos negrismos americanos (Black
Renaissance, Indigenismo haitiano e Negrismo cubano, entre outros), visto que dominava o
inglês e o francês. Em 1951, circulará o seu livro policopiado Sangue negro, formado por 43
poemas (mais um do que noutra versão posterior). Em 1951, partiu para Portugal e, ao passar
por Luanda, deixou uma cópia, que seria frutuosa para os intelectuais angolanos ligados à
Mensagem (1951-52) e todos os escritores das duas décadas subsequentes. […]

O jornal cultural Msaho (1952, n.° único), proibido pela censura, destinava-se, como o título
indicia, ao compromisso investigatório e solidário com a cultura ancestral e popular, na linha
da Mensagem angolana ou dos congéneres movimentos de pesquisa e radicação nacionalista,
desde o romantismo europeu à América Latina (negros ou não). Neles colaborou Noémia de
Sousa.

A década de 50, sendo a de movimentos grupais, viu surgir, desde logo, a publicação de textos,
exclusivamente poéticos, em selecções e antologias. Poesia em Moçambique (1951),
organizada por Luís Polanah, com um prólogo de Orlando de Albuquerque e Vítor Evaristo,
saída em Lisboa, na CEI, tem um critério muito largo e promíscuo (jovens autores sem futuro,
portugueses, etc.), mas já inclui futuros poetas importantes do país.
José Craveirinha sobressai, nesta década, de uma plêiade que congrega, além de Noémia de
Sousa, Rui Nogar, Rui Knopfli, Virgílio de Lemos, Rui Guerra, Fonseca Amaral, Orlando Mendes,
entre outros.

O 4.° Período prolonga-se desde 1964 até 1975, ou seja, entre o início da luta armada de
libertação nacional e a independência do país (a publicação de livros fundamentais coincide
com estas datas políticas). É o período de Desenvolvimento da literatura, que se caracteriza
pela coexistência de uma intensa actividade cultural e literária no hinterland, no ghetto,
apresentando textos de cariz não explícita e marcadamente político (em que pontificavam
intelectuais, escritores e artistas como Eugénio Lisboa, Rui Knopfli, o português António
Quadros, entre outros) com, no outro lado, na guerrilha, inequívocos poemas anti-colonialistas
que teciam loas à revolução e tematizavam a luta armada.

Em 1964, Luís Bernardo Honwana publica Nós matámos o cão-tinhoso, um conjunto de contos
que finalmente emancipa a narrativa em relação à preponderância da poesia. Nesse mesmo
ano, sai, em Lisboa, o pequeno livro Chigubo, de José Craveirinha, editado pela CEI. Depois, até
à independência, aparece aquele que tem sido apresentado como o primeiro romance
moçambicano, Portagem (1966), de Orlando Mendes, os três números da revista Caliban, de
índole universalista e cosmopolita, em 1971, justamente quando a FRELIMO editava um
primeiro volume de Poesia de combate, para, já em 1974, surgir, então, o Karingana ua
karingana, de José Craveirinha, uma recolha de poemas escritos a partir de 1945.

Nos anos 1960 e 1970, em Moçambique, vão estar em cena bastantes escritores que
abandonarão o país na independência (pouco antes ou pouco depois, sobretudo brancos, mas
também um que outro mulato). Intensifica-se assim uma tendência própria da colónia, qual
seja a de criar muitos intelectuais, escritores e artistas com uma identidade nacional
indefinida, vacilante ou dupla, escritores que passam a sentir-se moçambicanos e/ou
portugueses: Rui Knopfli, Glória de Sant’Anna, Guilherme de Melo, Jorge Viegas, Sebastião
Alba, Lourenço de Carvalho, Eduardo Pitta, João Pedro Grabato Dias (ou Mutimati Barnabé
João ou António Quadros), Eugénio Lisboa, Ascêncio de Freitas, etc. Outros, como Mia Couto,
Heliodoro Baptista, Leite de Vasconcelos, ficarão no Índico, assumindo sem reservas a
cidadania moçambicana. Recordemos que a tradição de escritores brancos, nascidos ou
criados em Moçambique, mas que, muito cedo ou em idade madura, activa ou passivamente,
demandaram ou foram incluídos noutras pátrias, inclusive culturais, já era desproporcionada
em relação à real extensão e valia da sua literatura: Alberto de Lacerda, Helder Macedo,
Reinaldo Ferreira, Orlando de Albuquerque, etc.

Ao 5.° Período, entre 1975 e 1992, chamaremos de Consolidação, por finalmente passar a não
haver dúvidas quanto à autonomia e extensão da literatura moçambicana, contra todas as
reticências, provindas de alguns sectores dos estudos literários, e, diga-se também, contra
todas as evidências. Após a independência, durante algum tempo (1975-1982), assistiu-se
sobretudo à divulgação de textos que tinham ficado nas gavetas ou se encontravam dispersos.
O livro típico, até pelo título sugestivo, foi Silêncio escancarado (1982), de Rui Nogar (1935-
1993), aliás o primeiro e único que publicou em vida. Outro tipo de textos é o de exaltação
patriótica, do culto dos heróis da luta de libertação nacional e de temas marcadamente
doutrinários, militantes ou empenhados, no tempo da independência.

Tal como nos outros países neófitos, o Estado (e a FRELIMO) detinha o monopólio das
publicações e o consequente controle. Todavia, segundo um conceito de instituição literária
que não passa obrigatoriamente por publicar em Moçambique, como acontecia, aliás, na
época colonial, temos de considerar a actividade poética de um Rui Knopfli fora de África como
cooptada para o património literário moçambicano. A publicação dos poemas de Raiz de
orvalho, de Mia Couto (em 1983) e sobretudo da revista Charrua (a partir de 1984, com oito
números), da responsabilidade de uma nova geração de novíssimos (Ungulani Ba Ka Khosa,
Hélder Muteia, Pedro Chissano, Juvenal Bucuane e outros), abriu novas perspectivas fora da
literatura empenhada, permitindo-lhes caminhos até aí impensáveis, de que o culminar foi o
livro de contos Vozes anoitecidas (1986), de Mia Couto, considerado como fautor de uma
mutação literária em Moçambique, provocando polémica e discussão acesas. A partir daí,
estava instaurada uma aceitabilidade para a livre criatividade da palavra, a abordagem de
temas tabus, como o da convivência de raças e mistura de culturas, por vezes parecendo
antagónicas e carregadas de disputas (indianos vs. Negros ou brancos).

A publicação de Terra sonâmbula (1992), de Mia Couto, o seu primeiro romance, coincidente
com a abertura política do regime, pode considerar-se provisoriamente o final deste período
de pós-independência.

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