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Joaci gostava de passear sozinho pela floresta.

Costumava sair de manhãzinha e só voltar no fim da tarde.


Sua maior diversão era se perder na mata,
por que não havia alegria maior do que, depois,
encontrar o caminho de volta.
Sempre levava consigo o arco e flecha,
pois pensava que com ele jamais correria riscos.
Mas não era bem assim.
Um dia, depois de caminhar por horas e horas,
Joaci parou para tomar água na beira de um rio.
Era um rio pequeno, bem no meio da mata, desconhecido para Joaci.
De repente, ele ouviu uma voz lhe dizer:
– Você não devia beber dessa água.
Joaci parou imediata mente de beber, levantou a cabeça e olhou para os lados.
Não viu ninguém. Só um sapo-cururu que, sentado numa vitória-régia, encarava Joaci, coaxando.
“Vai ver ninguém falou nada”, pensou Joaci.
Talvez tivesse sido algum barulho na floresta que ele imaginou ser uma voz.
Sua mãe sempre dizia que ele tinha ouvido de onça: escutava qual quer ruído.
Joaci, então, voltou a beber água.
E a voz falou outra vez:
– Você não devia beber desse rio. É aí que a onça bebe água.
Joaci parou novamente de beber, levantou a cabeça e olhou para os lados.
Ele estava certo de que tinha ouvido uma voz. Mas não havia ninguém por perto.
Só o sapo- cururu, que continuava a encarar Joaci e a coaxar.
– Foi você, não foi? – perguntou Joaci para o sapo-cururu.
O sapo-cururu piscou os olhinhos duas vezes antes de coaxar em resposta.
Joaci começou a ficar desconfiado. Ele foi então se abaixando bem devagarinho para beber um pouco mais.
Enquanto se abaixava, não tirava os olhos do sapo-cururu, que o encarava, agora sem nem coaxar.
Quando seus lábios tocaram a água, a voz falou: – Você não devia beber desse rio. É aí que a onça bebe água.
Joaci se irritou. Para ele, o sapo-cururu estava passando dos limites.
– Qual é a sua, sapo? – Perguntou indignado. O sapo-cururu coaxou em resposta. E a voz falou mais uma vez:
– Você irá sonhar com a onça. Joaci viu que não era o sapo-cururu que falava. A voz vinha de outro lugar.
Mas de onde? Joaci se pôs de pé, colocou a mão na cintura e olhou para o céu, como se a voz pudesse ver de lá:
– E daí que é aqui que a onça bebe água? E daí que eu vou sonhar com a onça?
A voz replicou: – Lembre – se: se a onça falar com você, não responda. Não responda, ouviu? Depois não diga que não avisei.
Joaci olhou para o sapo-cururu, que olhou para Joaci.
Joaci deu deombros e se abaixou para continuar a beber água. Afinal, ele ainda estava com sede.
Enquanto Joaci tomava água, o sapo-cururu coaxou alto, uma única vez.
– Até você, sapo? – exclamou Joaci, desistindo de beber água no rio.
Joaci se levantou e caminhou até uma árvore frondosa. Sentou-se no chão e recostou-se no tronco grosso.
Ao seu lado, acomodou o arco e flecha. Fechou os olhos e dormiu.
Sonhou que voltava para a aldeia. Mas a aldeia estava vazia. Ele corria até a oca de sua família e não encontrava ninguém.
Chamava pelo pai, pela mãe, pelo irmão. Mas ninguém respondia.
A aldeia parecia ter sido abandonada às pressas. Joaci estava ficando nervoso.
Já tinha ouvido falar de aldeias abandonadas.
Aldeias que haviam sido atacadas e agora eram povoadas por espíritos. E ele não queria conversar com espíritos.
Conhecia histórias de gente que conversava com espíritos e acabava virando espírito.
Por isso, ele continuava a chamar pelo pai, pela mãe e pelo irmão. Mas não tinha resposta.

Quando estava quase ficando sem voz, viu a rede do seu irmão balançar.
Sorrindo, correu até lá, chamando por Ubirajara.
Quando chegou perto, percebeu que havia mesmo alguém na rede.
Mas esse alguém era grande demais para ser seu irmão.
Cauteloso, Joaci se deteve. Na rede de Ubirajara, alguém roncava alto.
Joaci foi se aproximando aos poucos. O ronco só aumentava.
Quando estava a dois passos da rede, viu um inconfundível rabo malhado caindo para fora dela.
Uma onça dormia a sono solto na rede de seu irmão.
Estendeu a mão às costas para pegar o arco e flecha. Não o encontrou.
Joaci recuou e, sem querer, pisou num galho seco. A onça se virou na rede, mas não abriu os olhos.
Joaci pegou o galho do chão e se aproximou um pouco mais. Encostou de leve o galho na pata da onça.
Ela mexeu a pata, como se espantasse um mosquito. Joaci encostou de novo. E a onça, é claro, acordou.
Ao abrir os olhos, a onça deu de cara com Joaci. Ela escancarou a boca enorme e bocejou.
Joaci sentiu seu bafo de onça.
A onça o olhou nos olhos e caminhou até ele.
Quando chegou à sua frente, se ergueu nas patas traseiras e abriu bem as patas dianteiras.
Joaci ficou apavorado. Pelo visto, ele não sabia que nunca se deve cutucar onça com vara curta.
Pensou em fugir, mas não conseguia se mexer. De medo.
Uma onça podia ser bem mais assustadora do que um espírito!
Mas a onça abriu um largo sorriso e abraçou Joaci bem forte, dizendo:
– Que bom que você chegou! Estava esperando por você!
Joaci parecia em estado de choque. Não se mexia. Não dizia nada.
A onça passou um braço sobre o ombro dele e o levou até o terreiro atrás da oca.
Lá, no chão, hávia duas esteiras, uma de frente à outra. Entre elas, duas cestas, duas cuias e uma vasilhá de barro.
A onça indicou uma das esteiras e convidou Joaci a se sentar.
Joaci permaneceu em pé, parado, sem dizer uma palavra. “Oque essa onça quer de mim?”, pensou.
– Sente- se, por favor. Hoje, você é meu convidado.
Joaci continuava estático, sem reação.
A onça insistiu:– Vamos, sente–se. O que houve com você? Uma onça comeu a sua língua? – perguntou ela, rindo.
Mesmo desconfiado, Joaci se sentou na esteira.
A onça então se sentou na outra esteira, em frente a Joaci.
Ela mergulhou as duas cuias na vasilhá e as encheu.
Entregou uma delas a Joaci.
– Tome, você vai gostar. É cauim, bebida de mandioca fermentada.
Joaci aceitou a cuia e perguntou à onça:
– Onde está meu irmão? Onde estão meus pais?
A onça bateu palmas e sorriu:
– Oh! Ele fala! Que lindo!
Depois acrescentou com voz doce, apontando para a cuia que Joaci tinha nas mãos:
– Beba, vai, beba um pouquinho. Você vai gostar.
Joaci tomou um gole e cuspiu tudo fora.
– Mas isso aqui é sangue! Não é cauim! – disse ele.
– Claro que é cauim! Por que eu iria lhe oferecer sangue? - retrucou a onça.
Joaci cuspiu mais um pouco da bebida e limpou a boca com as costas da mão.
Cruzou os braços e olhou para a onça com cara feia, quieto.
A onça então pegou uma das cestas e a estendeu a Joaci.
– Já que você não gostou do cauim...
– Não era cauim – interrompeu Joaci –, era sangue.
A onça suspirou, revirou os olhos e continuou:
– Já que você não gostou da bebida, prove uma dessas frutinhas.
Joaci descruzou os braços, mas ficou encarando a onça. De lado. Com o rabo do olho.
A onça sacudiu a cesta de leve. Encorajava Joaci a pegar uma das frutinhas. Ele esticou o braço direito e pegou uma. Quando a
aproximou da boca, sentiu um cheiro horrível e jogou a frutinha longe.
– Isso não é frutinha! É cocô! – exclamou ele, limpando a mão em seu quadril. – Você fez cocô no cesto e depois me deu para comer!
Que nojo! Que nojo!
– Claro que não é cocô! – respondeu a onça, ultrajada. –Você está louco? Por que eu iria lhe oferecer cocô? Você acha que eu sou o
quê? Uma selvagem?
A onça e Joaci ficaram novamente em silêncio.
Joaci não estava mais com medo da onça. Estava com raiva. “Quem ela acha que é?”, perguntava-se.
A onça então pegou a outra cesta.
– Aqui tem milho cozido – disse ela para Joaci, apontando o interior do cesto.
– Quer um?
Joaci fingiu que não ouviu. A onça insistiu:
– Vai, pegue. Está bem gostoso.
Joaci decidiu dar mais uma chance para a onça e esticou o braço direito para pegar um milho. Mas, quando ele tirou o braço de
dentro do cesto, não era um milho que ele tinha na mão. Era uma cobra venenosa.
Joaci se levantou de um pulo, jogando a cobra longe.
– Não quero mais papo com você – disse ele, furioso, para a onça.
Joaci se virou e se sentou de costas para a onça.
Estava de mal com ela. Cruzou os braços e ficou quieto, pensativo
A onça não estava entendendo nada. Nem Joaci.
Será que, para a onça, o sangue era mesmo cauim? Para Joaci, o cauim da onça era sangue.
Será que, para a onça, o cocô era frutinha? Para Joaci, a frutinha era cocô.
E será que a cobra era mesmo milho cozido para a onça?
Se fosse assim, eles viam as coisas de maneiras diferentes.
Joaci ficou ainda mais preocupado. Como será que a onça o enxergava?
Como Joaci? Ou como alguma outra coisa? E será que, para a onça, onça era onça ou outra coisa?
Joaci recordou que o pajé um dia lhe contou que, antigamente, os animais também eram homens.
Só depois eles se tornaram animais. Mas no fundo, dizia o pajé, eles continuaram homens.
Quando estão em casa, sozinhos, falava ainda o pajé, eles tiram suas roupas de animais e agem como nós.
Aquela onça agia como gente. Ela falava, andava sobre duas patas, bebia em cuia. Daí, Joaci desconfiou:
se a onça servia como gente, talvez ela o visse como bicho! Talvez ele não fosse um
convidado, mas o prato principal daquele banquete!
Foi então que Joaci se virou de frente para a onça e perguntou:
– O que você vê quando me vê?
– Um porco-do-mato, ora – respondeu a onça, sem pestanejar.
– Um porco-do-mato assado, ainda quentinho com cheirinho de brasa – disse ela, salivando.
– Mas eu não sou um porco-do-mato! – replicou Joaci. – Eu sou um índio.
– E esse focinho redondo com dois buraquinhos perfeitos? – indagou a onça, triunfante. – É de índio?
– Eu não tenho focinho! Eu tenho nariz! – respondeu Joaci. – Ó, é nariz – falou ele, apertando a ponta do próprio nariz.
A onça tinha se levantado da esteira
“Ai, se eu te pego...”, pensou a onça, lambendo os beiços. “Delícia...”
A onça botou uma das patas no ombro de Joaci e abriu a boca.
– Assim você me mata! – exclamou Joaci, tentando se desvencilhar das garras da onça.
A onça avançou ainda mais. Sua saliva já caía sobre a cabeça de Joaci. Foi quando ele viu um zíper no pescoço da onça. Mesmo
achando aquilo muito estranho, Joaci puxou o zíper para baixo e a onça se abriu.
Debaixo dela, estava seu irmão Ubirajara.
Com o susto, Joaci acordou.
O sapo-cururu não estava mais sobre a vitória-régia, mas em cima da cabeça de Joaci, lambendo sua testa. Ao ver Joaci acordar, ele
coaxou.
Joaci riu. Levantou-se, sem tirar o sapo-cururu da cabeça. E foi até a beira do rio.
Joaci tinha sede. Quando se abaixou para beber, viu refletida na água uma cara de onça com um sapo em cima.

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